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Silvia (tese) completa

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e minha pesquisa se 
orienta por este conhecimento. Se nunca vi um anel, as pessoas explicarão que é 
uma espécie de aro, que ouro é um metal amarelo ou avermelhado e eu terei 
 
12 Participo de um grupo de estudos (desde 1991) coordenado pelo Prof. Dr. Luís Cláudio 
Figueiredo, que vem se dedicando a leitura de Ser e Tempo [1927] e outras obras de Heidegger. 
13 À pesquisa do sentido do ser Heidegger denomina ontologia fundamental 
14 “Tratando-se de uma e até da questão fundamental, seu questionamento necessita, portanto, de 
uma transparência conveniente.”(HEIDEGGER, S&T §2 p30) 
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alguma noção do que é aro, metal, cor, etc., dando-me um conhecimento pré-
reflexivo sobre aquele anel, o que será fundamental para a minha busca. 
Se o homem vem, há séculos, se perguntando “quem sou eu?” é porque tem 
algumas idéias sobre si e parte do princípio de que ele (que faz a pergunta) existe e 
está em algum lugar. Na verdade, o homem, tem alguma compreensão do que é, 
mas não é capaz de explicá-lo intelectualmente, tenta de diversas maneiras, mas 
está sempre insatisfeito, porque sente que alguma coisa lhe escapa. Talvez as 
pessoas possam dizer o que não são ou escrever poesias ou músicas ou fazer 
representações artísticas sobre o que é o ser humano, mas não conseguem 
escrever ou falar explicitamente sobre o que é ser, “... de tudo isto se podendo 
concluir que os homens são incapazes de dizer quem são se não puderem alegar 
que são outra coisa...” (SARAMAGO, 1989, p42). Tudo que temos é uma 
“compreensão vaga e mediana” (HEIDEGGER, S&T §2 p31) do sentido do ser. 
A investigação da questão fundamental (qual o sentido do ser?) é orientada 
pela noção prévia do que é ser em geral, tornando circular o estudo desta questão. 
Este estudo, que Heidegger chama de analítica existencial, propõe-se a explicitar e 
descrever o fenômeno que é o ser humano. O método de investigação é o da 
hermenêutica15 fenomenológica: “trata-se de interpretar de forma a trazer à luz o que 
está presente mas dissimulado e oculto nas experiências” (FIGUEIREDO, 1994a 
p51). 
Deste modo, um dos caminhos em direção ao ser se dá procurando conhecer 
quem é que faz a pergunta, ou seja, quem é este ente que nós mesmos somos (ente 
ontológico)16 a quem Heidegger chama de dasein, em português ser-aí ou pre-
sença17. 
 
15 “Ora bem, posto que o ser das coisas e do próprio Dasein é tal, antes de mais [nada] na 
linguagem como, por outro lado, a existência é constitutivamente relação com o ser, hermenêutica, 
isto é, interpretação, encontro com a linguagem, é a própria existência na sua dimensão mais 
autêntica” (VATTIMO, 1971 p29). O circulo hermenêutico se dá quando após compreender algo, se 
interpreta esta compreensão; se fala sobre ela. 
16 Aos outros entes, que não a pre-sença, Heidegger chama de entes simplesmente dados (entes 
intramundanos) que podem ser apreendidos através do pensamentos categorial. 
17 Adoto aqui o termo pre-sença por ser a tradução de Dasein escolhida por Márcia de Sá 
Cavalcante na edição de Ser e Tempo (1988) que utilizo. Em nota explicativa a tradutora diz que se 
decidiu por este termo: 1) para não ficar aprisionada “às implicações do binômio metafísico essência-
existência; 2) para superar o imobilismo de uma localização estática que o “ser-aí” poderia 
sugerir.(...); 3) para evitar um desvio de interpretação que o `ex’ de existência’ suscitaria (...)”. Explica 
ainda que: “pre-sença não é sinônimo nem de homem, nem de ser humano, nem de humanidade 
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Assim como a etologia estuda os animais no seu habitat natural, a melhor 
maneira para conhecer a pre-sença é estudá-la como ela se mostra no dia a dia “em 
sua cotidianidade mediana, tal como ela é antes de tudo e na maioria das vezes”. 
(HEIDEGGER, S &T §5 p44). É fazer a “fenomenologia do cotidiano” (FIGUEIREDO, 
1994a p51), descrever como a pre-sença se mostra, não apenas no que é “ visível 
mas desentranhar o sentido do ser dos fenômenos que se dão espontaneamente a 
ver”18 (idem, p51). Quais são os modos de ser, de existir, da pre-sença? Quais são, 
portanto, seus existenciais? É através desta análise que poderemos nos aproximar 
e intuir ou entrever o ser da pre-sença mas não apreendê-lo, por que o ser “não se 
deixa capturar, não sendo portanto expressável ” (Figueiredo, 1994a p60) na 
linguagem corriqueira. 
Assim a pre-sença: 
 é existindo na sua facticidade (ser-aí), pois foi lançada no mundo e aí 
está; é um “ter-que-ser sem razão suficiente e circunscrito pelo horizonte finito do 
tempo originário” (Loparic, 1994 p15)19; 
 é no mundo (ser-em), está sempre interagindo com o mundo; só é na sua 
relação com o mundo que é o aberto da abertura, portanto uma dimensão da pre-
sença; 
 é em contato com os outros (ser-com), o mundo da pre-sença é sempre 
o mundo da co-presença; é um mundo já compartilhado e antes de tudo e na maior 
parte das vezes20, compartilhado com o outro de existência plural: o impessoal (“os 
outros”, “a gente”, “nós”, “todo mundo”) no modo da “de-cadência”21; 
 é um poder-ser (ser-para-a-morte), a possibilidade mais própria da pre-
sença é a sua morte. Ao ser lançada no mundo a pre-sença é jogada na mortalidade 
que não é algo exterior a ela mas faz parte dela própria; está no seu ser. É o seu 
pré, (seu futuro, o que vai inevitavelmente acontecer), a sua abertura para o vazio. 
 
embora conserve uma relação estrutural. Evoca o processo de constituição ontológica de homem, ser 
humano e humanidade” (p 309) 
18 Grifo do autor 
19 Grifo do autor 
 
 
20 Expressão freqüentemente utilizada por Heidegger no decorrer de sua obra Ser e Tempo (1927). 
21 Para Heidegger “este termo não exprime qualquer avaliação negativa não tem sentido pejorativo. 
Pretende apenas indicar que, em primeira aproximação e na maior parte das vezes, a pre-sença está 
junto e no ‘mundo’ das ocupações”. (S&T §38 p236), ou seja, no mundo do cotidiano, do impessoal, 
do falatório, da curiosidade, onde todos vivemos mergulhados. 
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 A pre-sença se dá existindo no mundo e o termo existência (ek-sistere), em 
Heidegger, aponta para o estar-fora, estar ex-posto ao inesperado ao 
acontecimento, ao encontro. A noção de ek-stase “... refere-se ao estar fora, ao 
estar-no-fora, ao existir da pre-sença (do homem) como abertura e possibilidade. 
Antes de ser um sujeito minimamente limitado e delimitado de seus objetos, o 
homem é o seu fora, o seu aí.” 22 (Figueiredo, 1993c p9). A este modo de ser da 
pre-sença, que sempre tem possibilidades abertas e não realizadas e que, portanto, 
é um ser sempre pendente em direção às suas possibilidades, Heidegger chama de 
cura. 
São tantas e tão variadas as possibilidades do ser humano que ele não 
poderá realizá-las todas. Tal como nos jogos interativos, sempre que faz uma 
escolha segue por um caminho e perde a oportunidade de trilhar os que não 
escolheu. 
A única possibilidade que, seguramente, se irá concretizar é a da morte e, 
quando o ser humano se defronta com esta certeza ao ser dominado pela 
convicção de que poderá “não mais estar pre-sente”(S&T, §50 p32) mergulha na 
angústia, assustado ante a possibilidade do nada. Estes momentos de angústia são 
radicalmente de ordem diferente daqueles momentos em que se está pensando na 
própria morte, ou na dos outros, planejando seu funeral, ou imaginando a vida 
eterna. 
Faço uma digressão para relatar que, enquanto escrevia sobre este tema 
estava também lendo “Paula”, de Izabel Allende (1996). Frente à expectativa da 
morte