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A p a j x o n a d o p e l a d a n ·a e p Ja p o i b i l i u d e t:>xpressiva do m o v i m e n t o , o b a i l a r i n o , o r e q g r a f o e ] J r o f e s o r K J a u . s V i a n n a a p r e s e n t a n e t e 1' . r o o 1·e u J t a d o d e u m t r a b a l h o d e ob e r v a ç ã o , J e r i - m e n t a ç ã.o, e s t u d o e r e f l e x ã o s o b r e o c o r p o h h l a n o P u a i m p li c a ç õ e s a n a t ô m · · a , f u n c i o n a i s }J ·ico l ' - o·i · a · a f e t i v a s e e s p i r i t u a i . . · f i n a d o com a f i l o of1a d o · g r a n d e ·· r • n o v a - dol'e::; d a d a n ç a c o n t e m p o r â n e a ( P i n a B a ch e K a z u o O h n o ) , e n i n a q u e a n t e d e e x p r i m i T 1 a ma- t é r i a a u a e x p e r i ê n c i a e x i t e n c i a l , o h o m e n i a t r a - d u z com a a j u d a d o . e u p r ó p r i o · o r p o : lm ca do a u t o · o n h e i m e n t o , t o d o , ::;em b a i la r i n o s d a v i d a . ... . C h a m . 9 2 7 . 9 2 8 V61 7 d utor : Vianna , Klaus !.. ítuJo : A dança . 111111 1111 1111111 0 0 0 6 1 8 4 3 S U B I M G - E m p 111~ o de Carvalh o A D A N Ç A K L A U S S V I A N N A !!ID c o l a b o r a ç ã o com M a r c o A n t o n i o de C a r v a l h o D a d o s d e C a t a l o g a ç ã o n a P u b l i c a ç ã o ( C I P ) I n t e r n a c i o n a l ( C â m a r a B r a s i l e i r a d o L i v r o , SP, B r a s i l ) V i a n n a , Klauss. A d a n ç a I Klauss V i a n n a e M a r c o A n t o n i o d e C a r v a l h o . - São P a u l o : S i c i l i a n o , 1990. 1. A u t o p e r c e p ç ã o 2. B a l é ( D a n ç a ) 3. E s p í r i t o e c o r p o 4. Klauss, V i a n n a I . C a r v a l h o , M a r c o A n t o n i o d e , 1 9 5 0 - 11. T í t u l o . C D D - 9 2 7 . 9 2 8 0 9 8 1 - 1 2 8 - 1 5 2 9 0 - 1 3 0 7 - 7 9 2 . 8 2 í n d i c e s p a r a c a t á l o g o s i s t e m á t i c o : 1. B a i l a r i n o s b r a s i l e i r o s : B i o g r a f i a 9 2 7 . 9 2 8 0 9 8 1 2. B a l é : D a n ç a 7 9 2 . 8 2 3. B a l é : D a n ç a : T é c n i c a 7 9 2 . 8 2 4. B r a s i l : B a i l a r i n o s : B i o g r a f i a 9 2 7 . 9 2 8 0 9 8 1 5. C o r p o e e s p í r i t o : M e t a f í s i c a : F i l o s o f i a 1 2 8 6. P e r c e p ç ã o c o r p o r a l : P s i c o l o g i a f i s i o l ó g i c a 1 5 2 © 1 9 9 0 b y Klauss V i a n n a e M a r c o A n t o n i o d e C a r v a l h o D i r e i t o s e x c l u s i v o s p a r a a l í n g u a p o r t u g u e s a c e d i d o s à A g ê n c i a S i c i l i a n o d e L i v r o s , J o r n a i s e R e v i s t a s L t d a . AI. D i n o B u e n o , 4 9 2 - C E P 0 1 2 1 7 - S ã o P a u l o - B r a s i l C a p a : P i n k W a i n e r E d i ç õ e s S i c i l i a n o , 1 9 9 0 I S B N : 8 5 - 2 6 7 - 0 3 0 0 - 5 . P ' r a vocês: A n g e l , R a i n e r , N e i d e e T a i n á . A g r a d e c i m e n t o s : F u n d a ç ã o V i t a e C o n t e ú d o A n t e s de m a i s n a d a . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9 I n t r o d u ç ã o 11 A V I D A I. B e l o H o r i z o n t e , a n o s 3 0 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17 l i . I I I . I V . v. V I . V I I . B a l é c l á s s i c o : u m a v i s ã o m i n e i r a . . . . . . . . . . . . . . . O c o m p a s s o b a i a n o . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . As p e q u e n a s m o r t e s . . . . . . . . . . . . . . . . . . O e t e r n o r e c o m e ç o . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . E s t a r n o m u n d o . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . P e l a c r i a ç ã o d e u m b a l é n a c i o n a l A T É C N I C A 2 2 2 8 35 4 2 5 4 6 8 I . A h a r m ô n i c a i n c o e r ê n c i a . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77 I l . A o r i t m o d o U n i v e r s o . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 2 I I I . F u n ç ã o e f o r m a . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 9 I V . A p r e n d i z a d o e e n e r g i a - n o ç õ e s . . . . . . . . . . . . . . 9 7 V. P e r c e p ç ã o c o r p o r a l a p a r t i r de m o v i m e n t o s b á s i c o s . 1 0 8 V I . N a s a l a de a u l a . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 2 0 V I I . M a g i a e t é c n i c a . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 3 2 A V I S Ã O D O O U T R O K l a u s s : e d u c a n d o os s e n t i d o s . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 139 7 E s s e t e x t o foi c n a d o a p a r t i r de e n t r e v i s t a s de A n a F r a n - c i s c a P o n z i o , Luis P e l l e g r i n i e M a r c o A n t o n i o de C a r v a l h o com K l a u s s V i a n n a . A n t e s d e ma1s n a d a Q u a n d o me a p a i x o n e i pela d a n ç a e p e l a s p o s s i b i l i d a d e s e x p r e s s i v a s do m o v i m e n t o , eu e r a quase um a d o l e s c e n t e . Ao longo dessa l i g a ç ã o , que j á d u r a mais de q u a r e n t a a n o s , p r o - c u r e i p e r c e b e r e q u e s t i o n a r os gestos e m o v i m e n t o s h u m a n o s em s u a p r o f u n d i d a d e - sempre o r i e n t a d o p o r m i n h a s i n q u i e - t a ç õ e s , em p a r t e p r o v o c a d a s pelas i n ú m e r a s l a c u n a s que um b a i l a r i n o b r a s i l e i r o e n f r e n t a em sua f o r m a ç ã o . Mas n ã o q u e r o a q u i d e m o n s t r a r um m é t o d o p r o n t o e a c a b a d o . S e m e l h a n t e à s i n f i n i t a s d e s c o b e r t a s q u e a vida nos p r o p o r c i o n a , um p r o c e s s o d i d á t i c o e c r i a t i v o é inesgotáveL P o r isso, em vez de c o n d u z i r a d a p t a ç õ e s a m a n e i r a s de d a n ç a r ou se m o v i m e n t a r que me a g r a d a m ou com as q u a i s me i d e n t i f i c o , p r e f i r o a p r e s e n t a r in- f o r m a ç õ e s e e s t i m u l a r as c o n t r i b u i ç õ e s i n d i v i d u a i s . É o q u e p r e - t e n d o a p a r t i r das reflexões - e d ú v i d a s - c o n t i d a s n e s t e livro. Q u e , e s p e r o , n ã o b u s q u e nem e s t a b e l e ç a c e r t e z a s , mas d e s p e r t e o d e s e j o p e r m a n e n t e de i n v e s t i g a ç ã o p e r a n t e a d a n ç a e a a r t e - que, p a r a mim, se c o n f u n d e m c o m a vida. K l a u s s V i a n n a I n t r o d u ç ã o E s t e é um livro de V i d a , e n ã o a p e n a s de d a n ç a . É p r o - d u t o a c a b a d o de um t r a b a l h o de o b s e r v a ç ã o , e x p e r i m e n t a ç ã o , e s t u d o e r e f l e x ã o s o b r e o c o r p o h u m a n o e s u a s i m p l i c a ç õ e s a n a - t ô m i c a s , f u n c i o n a i s , e m o c i o n a i s , p s i c o l ó g i c a s , a f e t i v a s e e s p i r i - t u a i s . T o d a essa m a s s a de c o n h e c i m e n t o c u s t o u a o a u t o r , K l a u s s V i a n n a , n ã o a p e n a s as m u i t a s h o r a s p a s s a d a s n a s s a l a s de a u l a , c o m o a l u n o e como p r o f e s s o r , eo t e m p o e m p r e g a d o n o s seus e s t u d o s t e ó r i c o s : o m a t e r i a l aqui c o n t i d o , a l é m d e t u d o isso, re- flete a p r ó p r i a e x p e r i ê n c i a e x i s t e n c i a l de K l a u s s , d e s d e os p r i - m e i r o s a n o s de vida, a t é os t e m p o s d a s u a m a t u r i d a d e c o n s o - l i d a d a . A o b r a d i v i d e - s e em d u a s p a r t e s p r i n c i p a i s . A p r i m e i r a , de c u n h o p r e d o m i n a n t e m e n t e a u t o b i o g r á f i c o , p o d e s e r l i d a c o m o um r e l a t o , uma r e p o r t a g e m , e, em a l g u m a s p a s s a g e n s , a t é m e s m o c o m o r o m a n c e . R e t r a t a a t r a j e t ó r i a e x e m p l a r de u m a i n a t a vo- c a ç ã o p a r a a d a n ç a , s u r g i d a no B r a s i l dos a n o s 3 0 , e q u e se e s t e n d e u , sem ~nterrupção, a t é o p r e s e n t e m o m e n t o , c o n f u n d i n - do-se com a p r ó p r i a h i s t ó r i a da d a n ç a n o B r a s i l no p e r í o d o . O r e l a t o é de g r a n d e u t i l i d a d e n ã o a p e n a s p a r a os p r o f i s - s i o n a i s da d a n ç a , m a s t a m b é m p a r a t o d o s a q u e l e s q u e p r e t e n d e m d e s e m p e n h a r , n a vida, a l g u m a a t i v i d a d e c r i a t i v a , s e j a n a á r e a d a s a r t e s , c o m o na da c i ê n c i a , da f i l o s o f i a , o u da r e l i g i ã o . A o r e - l a t a r o seu c a m i n h o pessoal no m u n d o , K l a u s s V i a n n a p a s s a u m a lição f u n d a m e n t a l : a c r i a ç ã o h u m a n a , n ã o i m p o r t a q u a l s e j a ela, n ã o p o d e p r e s c i n d i r da v i v ê n c i a a t e n t a , h o n e s t a e p a c i e n t e d a r e a l i - 11 d a d e . E a r e a l i d a d e c o m e ç a n o c o t i d i a n o , n a s c o i s a s m a i s sim- ples e a p a r e n t e m e n t e sem i m p o r t â n c i a c o m o , p o r e x e m p l o , e p a r a c i t a r e p i s ó d i o s do l i v r o , o s a b o r dos t o m a t e s frescos, o c o n t a t o com os seios da avó, o b a l é d a s n u v e n s no céu, os m o v i m e n t o s m u s c u l a r e s do j a r d i n e i r o no d e s e m p e n h o de suas f u n ç õ e s . É n a o b s e r v a ç ã o dos p r o c e s s o s da n a t u r e z a , m a n i f e s t a d a d e n t r o e f o r a de si mesmo, que se a c u m u l a o a c e r v o das coisas que, d e p o i s , c o n s t i t u i r ã o a m a t é r i a - p r i m a da o b r a pessoal. A s e g u n d a p a r t e d o livro é o r e s u l t a d o c o n c r e t o d a p r i m e i r a . A p r e s e n t a d o s sob o t í t u l o de " A t é c n i c a e a v i d a " , estes c a p í - t u l o s g a n h a m d i m e n s õ e s s u r p r e e n d e n t e s . O que K l a u s s V i a n n a c h a m a de " t é c n i c a " t r a n s c e n d e com l a r g u e z a os l i m i t e s d o signi- f i c a d o m a i s c o r r e n t e e t r a d i c i o n a l a t r i b u í d o ao t e r m o . E x i s t e uma " t é c n i c a K l a u s s V i a n n a " , mas ela p o u c o o u n a d a t e m a ver c o m os s i s t e m a s de r e g r a s , códigos e p r i n c í p i o s o r d e n a d o s n a c o n c e p ç ã o c o m u m da d a n ç a clássica e m o d e r n a , e n e m t a m p o u c o com os m é t o d o s de t r a b a l h o c o r p o r a l das h o j e t ã o e m m o d a t e r a p i a s d o c o r p o e similares. K l a u s s a c e i t a esses s i s t e m a s , e os r e s p e i t a e n q u a n t o b a s e h i s t ó r i c a e f o r m a l c a p a z de f o r n e c e r e l e - m e n t o s n a d a desprezíveis. Mas sua visão vai m u i t o m a i s além. P a r t i d á r i o a p a i x o n a d o d a l i b e r d a d e i n d i v i d u a l em t o d a s as s u a s f o r m a s , ele r e j e i t a o a s p e c t o de " c a m i s a de f o r ç a " em q u e esses s i s t e m a s se t r a n s f o r m a m q u a n d o a p l i c a d o s de m a n e i r a m a s s i f i c a d a , ou q u a n d o s ã o e n t e n d i d o s c o m o escalas de r e g r a s fixas e i m u - táveis. Nesse c o n t e x t o de l i b e r d a d e - q u e n ã o s i g n i f i c a c a o s n e m d e s o r d e m i n d i s c r i m i n a d a - a d a n ç a p a r a Klauss d e i x a de s e r uma p r o f i s s ã o , uma d i v e r s ã o , u m a g i n á s t i c a , d e i x a a t é d e s e r u m a a r t e no s e n t i d o mais r e s t r i t o d o t e r m o , p a r a s e r e n t e n d i d a e vi- v i d a c o m o um c a m i n h o de a u t o c o n h e c i m e n t o , de c o m u n h ã o c o m o m u n d o e de e x p r e s s ã o do m u n d o . Ao l a n ç a r - s e em vôos t ã o a m p l o s , p a r a os q u a i s usa a s a s de g r a n d e e n v e r g a d u r a , o a u t o r r e t o m a a visão d o s a n t i g o s , se- 12 g u n d o a q u a l o h o m e m é um m i c r o c o s m o que s i n t e t i z a em si o m a c r o c o s m o , o u n i v e r s o . N e s s a visão, as leis q u e r e g e m a g ê n e s e e a e v o l u ç ã o do u n i v e r s o s ã o e x a t a m e n t e as m e s m a s leis q u e regem a e x i s t ê n c i a h u m a n a . E t o d o esse s i s t e m a u n i v e r s a l de leis n ã o c o n h e c e , em s u a m a n i f e s t a ç ã o , a p e r m a n ê n c i a e s t á t i c a : t u d o a c o n t e c e em t e r m o s de uma p e r e n e d i n â m i c a c a r a c t e r i z a d a p e l o m o v i m e n t o . A vida, o m u n d o e o h o m e m m a n i f e s t a m - s e a t r a v é s d o m o - - v i m e n t o . D a n ç a r é m o v e r - s e com r i t m o , m e l o d i a e h a r m o n i a . P o r t a l r a z ã o , n a s m e t a f í s i c a s o r i e n t a i s , os d e u s e s r e s p o n s á v e i s p e l a c r i a ç ã o d o m u n d o s ã o g e r a l m e n t e a p r e s e n t a d o s c o m o os " S e n h o r e s d a D a n ç a " . E s t e é, p o r e x e m p l o , o c a s o de S h i v a N a - t a r a j a , o " S e n h o r d a D a n ç a ' ' , deus i n d i a n o d a c r i a ç ã o . N o m i t o d a c r i a ç ã o d o m u n d o p o r S h i v a N a t a r a j a , no p r i n - · c í p i o o u n i v e r s o e r a c o n s t i t u í d o de s u b s t â n c i a i n e r t e . C a n s a d o de s u a i m o b i l i d a d e , B r a m a , o A b s o l u t o , e m a n a de si m e s m o o d e u s S h i v a N a t a r a j a , que j á s u r g e d a n ç a n d o . D o c o r p o de S h i v a em m o v i m e n t o e m a n a m o n d a s s o n o r a s , v i b r a ç õ e s e e n e r g i a s que vi- vificam a m a t é r i a i n e r t e . Assim s ã o c r i a d a s as i n f i n i t a s f o r m a s d o m u n d o m a n i f e s t a d o . C a d a u m a dessas f o r m a s , p o r s u a vez, p a s s a a d a n ç a r e a v i b r a r d e n t r o d o s m e s m o s p a d r õ e s de r i t m o s , m e l o d i a s e h a r m o n i a s d a d a n ç a o r i g i n a l de Shiva. E , p o r t a n t o , e m si m e s m a s d e p o s i t á r i a s essenciais de Shiva, t o d a s as f o r m a s d a c r i a ç ã o n a t u r a l s ã o t a m b é m , p e l o m e n o s em p o t e n c i a l , c r i a d o - ras. N i s s o i n c l u i - s e o h o m e m , c r i a ç ã o n a t u r a l e c r i a d o r p o t e n c i a l . E s t a mesma i d é i a d o h o m e m e d o m u n d o s u r g i n d o e evo- l u i n d o n o e t e rn o c o n t e x t o de u m a d a n ç a c ó s m i c a q u e n ã o t e m c o m e ç o e nem fim t a l v e z s e j a a c h a v e ú l t i m a p a r a a c o m p r e e n s ã o d a p r o p o s t a d e K l a u s s V i a n n a . P a r a o b a i l a r i n o , e s t e seu l i v r o e n s i n a que a d a n ç a , a m a i s a n t i g a de t o d a s as f o r m a s de a r t e , é· u m a o p ç ã o t o t a l d e v i d a . E n s i n a q u e a n t e s de e x p r i m i r n a m a t é r i a a s u a e x p e r i ê n c i a e x i s t e n c i a l , o h o m e m a t r a d u z c o m a a j u d a d o seu p r ó p r i o c o r p o . A l e g r i a , d o r , a m o r , t e r r o r , n a s c i - m e n t o , m o r t e , t u d o , p a r a o v e r d a d e i r o b a i l a r i n o , é m o t i v o e o c a - · 13 sião de d a n ç a r . A t r a v é s dos m o v i m e n t o s da d a n ç a a p r o f u n d a - s e c a d a e x p e r i ê n c i a e realiza-se o milagre da c o m u n i c a ç ã o . P a r a os n ã o profissionais, Klauss r e s e r v a u m a r e v e l a ç ã o s u b s t a n c i a l : a de que todos somos, sem exceção, b a i l a r i n o s da vida. T o d o s nos m o v e n d o p a r a um ú n i c o e f u n d a m e n t a l o b j e t i v o : o a u t o c o n h e c i m e n t o . P e l a d a n ç a o homem m a n i f e s t a os movimentos d o seu m u n d o i n t e r i o r , t o r n a n d o - o s mais conscientes p a r a si mesmo e p a r a o e s p e c t a d o r ; pela d a n ç a ele reage ao m u n d o e x t e r i o r e t e n t a a p r e e n d e r os fenômenos do universo. Nessa t e n t a t i v a , ele se a p r o x i m a c a d a vez m a i s de seu Ser m a i s p r o f u n d o . Ou, f a z e n d o de Klauss V i a n n a as p a l a v r a s de M a r i a - G a b r i e l e Wosien em seu livro A dança sagrada, " d a mesma f o r m a que a c r i a ç ã o e s c o n d e o C r i a d o r , o i n v ó l u c r o fí,sico do homem e s c o n d e a sua e s p i r i t u a l i d a d e . D a n ç a n d o , o homem t r a n s c e n d e a f r a g m e n t a ç ã o , esse espelho p a r t i d o cujos p e d a ç o s · r e p r e s e n t a m as p a r t e s d i s p e r - sas d o t o d o . E n q u a n t o d a n ç a , ele p e r c e b e n o v a m e n t e q u e é u n o com . s e u p r ó p r i o E u e com o m u n d o exterior. Q u a n d o a t i n g e tal nível de e x p e r i ê n c i a p r o f u n d a , o homem d e s c o b r e o s e n t i d o da t o t a l i d a d e da v i d a " . Luis P e l l e g r i n i 1 4 A vida I Belo Horizonte, anos 30 Não me enquadro em nada que foi escrito a respeito do corpo. Meu trabalho também é assim: não se enquadra em ró- tulos. Desde o princípio. Eu sempre fui mais intuitivo do que estudioso. A distância e a observação foram os pontos básicos de toda a minha vida. Desde pequeno. Observava a família, como se não pertencesse àquela comunidade. Observei a morte do meu pai e de minha mãe. Não as vivenc1e1, porque nunca cheguei perto deles. Nem eles de mim. Eu era muito só, o pa- tinho feio, aquele que faz tudo errado. E esse ficar só me deu um conhecimento muito grande das pessoas, eu me afastava para me aproximar. Vivia num mundo que só existia na minha ca- beça: queria mais observar do que participar. A brincadeira de ficar horas com os olhos fechados. A comunicação com minha avó, que também observava. Alemã, minha avó era a única pessoa da casa em quem sentia força, que me conhecia, sabia de mim. Nela, o primeiro corpo de mulher. O corpo: castigado desde o princípio. Massacrado na escola. O corpo negado em tudo. Só o reino da fantasia, do faz-de-conta. Horas no galinheiro, brin- cando com as aves. Sabia o nome de todas. Também com os cachorros do pai, caçador. Com os humanos, não: distanciamento, medo. Observações. Horas observando os pés. Os meus e os dos outros. As marcas que deixavam na areia ou no cimento, quando saíam da piscina. O joelho foi o mais difícil: quase sem- 17 pre o lado escondido das pessoas. As costas, comprimento dos braços, o jeito da cabeça. A expressão, olhos, boca, nariz. As mãos. Abrir a mão para apanhar. Lembrança da dor. A casa: não só grande. Enorme. Sempre fechada. Duas crianças, eu e meu irmão. E quatro irmãs mais velhas, lindíssimas, do primeiro casamento do meu pai. Meu pai era médico: um dos quartos da casa era o laboratório, com um esqueleto e um coração de ma- deira, que eu adorava abrir e fechar. A casa: dividida como as pessoas que a habitavam. Quartos dos pais, das irmãs. Eu co- nhecia cada pedaço do assoalho, cada canto das salas e quartos. As camas, engraçadas: conversava com cada uma. Menos a grande, de casal. A piscina, cheia, me amedrontava. Mas o quin- tal era todo meu. A árvore preferida, onde escrevi meu nome, pequeno e escondido, para ninguém roubar. O gosto dos tomates na horta, os verdes e os vermelhos. Em meio a tudo isso, a descoberta do nu. O, jardineiro que trabalhava na casa. Às vezes ele tirava a camisa. Só no quintal, no meu mundo. Levei muito tempo só olhando. Um dia cheguei perto e perguntei. A desco- berta dos pêlos do corpo: pedi para passar as mãos. Deixou que tocasse. Agora, além das árvores, tinha o corpo do jardi- neiro para explorar. Pedia para que girasse os braços, levantasse as pernas. Achava engraçado o movimento dos músculos. Me excitava e dava euforia ao mesmo tempo. Mandava ele correr, pular, fechar os olhos e me procur~r. Era o meu primeiro e mais interessante brinquedo. Até o dia em que a empregada viu, contou para os meus pais e meu primeiro aluno foi posto na rua. Antes, outro brinquedo: um ônibus vermelho, cheio de bonecos, colados ao banco com goma arábica e vestidos pelo tricô da avó. Tirava a roupa deles quando estava só. Procurava saber o que havia por baixo. Só a mim não olhava: tomava banho de olhos fe- chados. Dizia que por causa do sabão. E me cobria com uma toalha cada vez que fazia xixi ou cocô. Se me perguntavam o que seria quando crescesse respondia: "vou ser papa". Nada de engenheiro, médico, advogado. Papa: era uma coisa que pairava 18 acima, uma posição etérea. Com um espaço todo seu. No corpo da avó, com quem dormia, só havia os seios: caídos, feios. Prim-eiro corpo de mulher. Um dia, ao entrar de repente no quarto, ela:.trocava as calças de baixo: achei engraçado e quis pegar nos pêlos. Tapa na mão. O primeiro. O segundo na escola: aos sete anos, procurava retribuir uma brincadeira que uma co- lega fazia com os dedos na minha coxa. De novo o castigo, o afastamento: era um monstro. Ficar no fundo da sala, sozinho, sem conversar com ninguém. Pela primeira vez, o perigo do corpo. Não tinha corpo: vivia o corpo dos outros. Os gestos do meu pai, da mi:p.ha mãe, o jeito de andar, de pisar, o movimento das mãos. E me fascinavam os ossos do esqueleto, os encaixes. E um fato inesquecível: meu corpo se tomou ausente. Só olhava nos olhos quando me ·dirigiam a palavra. Sem isso, olhar para baixo. Conheci todo o chão de minha casa. E, com muitadifi- culdade, meu corpo começou a reaparecer: do chão, da base, dos pés. Durante anos, foi a única consciência que eu tive de mim. Na escola, só fazia o que queria: me fechava em mim. Comecei a ler o que caísse na minha mão. Octávio de Faria, Lúcio Cardoso, as poesias de Vanessa Neto, a musa de Belo Horizonte naquela época. Ganhande sempre os prêmios de dis- ciplina. Eu me sentia muito próximo a tudo isso: buscava a relação entre os livros e a minha vida. Na Tragédia burguesa, de Octávio;·. na Crônica da casa assassinada, de Lúcio. Comecei a me interessar . por teatro, a dança nunca foi meu interesse: queria o teatro.Primeiro papel nas peças de escola, sempre: apesar de tudo, não era uma criança tímida. Desde pequeno escrevia textos para teatro, inventava cenários com as cadeiras: os meninos me evitavam, não queriam brincar comigo. Fui ver o espetáculo do balé da Juventude, fiquei encantado era tudo o que eu queria na vida: dança, música, teatro. Foi o primeiro espetáculo de dança: direção de Igor Schwezoff. Primeira com- panhia a dançar pelo Brasil. E importante porque foi quem veio de fora . para dar importância à dança no Brasil. Ele formou seu 19 g r u p o de d a n ç a , com B e r t a R o s a n o v a , T a m a r a K a p e l l e r , e s a í r a m d a n ç a n d o pelo país a f o r a . Mas o p r i m e i r o b a i l a r i n o d a c o m p a - n h i a , C a r l o s Leite, resolve ficar em Belo H o r i z o n t e , c o n v i d a d o p e l o D C E . F u i lá me m a t r i c u l a r : o p r i m e i r o . E me d e c e p c i o n e i : o. q u e eu t i n h a visto no p a l c o n ã o e r a o que havia n a s a l a de aula. N a m i n h a c a b e ç a n ã o e n t r a v a muito bem a q u i l o . Mas e s t u d a v a , lia, t i n h a m u i t a c u r i o s i d a d e . N ã o t i n h a livros d e d a n ç a , a b i b l i o g r a f i a sempre muito p e q u e n a : n ã o t i n h a d i n h e i r o , r o u - b a v a os livros que e n c o n t r a v a . E duvidava: " N ã o , esse b r a ç o n ã o é assim. é assim". E u q u e r i a m o v i m e n t o s q u e n ã o fossem t ã o doloridos. P a r e i t u d o p a r a fazer dança: d e p o i s de u m a n o j á d a v a a u l a e era assistente do C a r l o s Leite. Mas n ã o e s t a v a satisfeito: p r o c u r a v a ligar os p o n t o s obscuros. Assisti a filmes de d a n ç a . D e s c o b r i que t i n h a u m a deficiência t é c n i c a m u i t o g r a n d e : uma p e r n a mais c o m p r i d a que a o u t r a . Mas n i n g u é m s a b i a disso. As aulas: o p r o f e s s o r m o s t r a v a o m o v i m e n t o e p e d i a p a r a os a l u n o s r e p e t i r e m . Se t o d o s conseguem l e v a n t a r a p e r n a e você n ã o , você está a z a r a d o . E ninguém me explicava o p o r q u ê da- quilo. Ninguém p 8 r a e x p l i c a r p o r que t i n h a que l e v a n t a r a p e r n a assim. Explicações do tipo p o r q u e t e m . N u n c a aceitei as coisas ditas dessa forma. E sofri m u i t o com isso. Mas vivia t u d o i n t e r i o r - mente: n ã o falava. P r a a p r e n d e r um d e b o u l é foram a n o s : m a s um d i a ele resolveu que eu t i n h a q u e s a i r d a l i s a b e n d o fazer. A c a b o u m i n h a s a p a t i l h a e eu Já. A s o l a do pé a c a b o u e eu lá. S o f r i a , e n j o a v a , mas n ã o desistia. Tive u m a p n e u m o n i a p a r a a p r e n d e r um passo. N ã o s a b i a p a r a que servia a q u i l o . A o mesmo tempo. a e d u c a ç ã o alemã: t i n h a q u e a c e i t a r as coisas. E o m u n d o , lá fora: j á convivia com a r t i s t a s como G u i g n a r d , q u e m o r a v a p e r t o da m i n h a casa. E r a f a s c i n a d o p o r ele, p e l a m o - d e r n i d a d e , Pelo s e r h u m a n o q u e ele era. E A m í l c a r de C a s t r o , e CeschiattL Convivia com essas pessoa-: Os desenhos: p o s a v a p a r a G u i g n a r d . A c a d a dia i n v e n t a v a uma historinha: " H o j e vou s e r o o r g u l h o s o " . E observava q u e músculo a t u a v a : a r e a ç ã o mus- c u l a r a p a r t i r de uma idéia. A i n t e n ç ã o a n t e r i o r a o m o v i m e n t o . E J o t a Dângelo, J o ã o E t i e n n e Filho. F u i l e v a n d o t u d o isso p a r a 2 0 a d a n ç a . N ã o de u m a f o r m a consciente: c a o t i c a m e n t e . M a s essa e r a a m i n h a ú n i c a forma de descobrir. E M e r c i e r , em O u r o P r e t o : a r e l a ç ã o com as a r t e s p l á s t i c a s foi m u i t o forte. Mas n ã o me revoltei: p l a c i d a m e n t e b u s q u e i meu e s p a ç o , como seguir em frente. O r e s u l t a d o é q u e n ã o existo. O q u e existe é o m e u t r a b a l h o . E m i n h a s a u l a s n ã o são p a r a meus alunos: são p a r a mim. Sempre tive m u i t o m e d o de mim, da m i n h a i m a g i n a ç ã o , das idéias. Mas t e n h o u m a o b r i g a ç ã o , um c a r m a : p a s s a r esse t r a b a l h o a d i a n t e . 21 li Balé clássico: uma visão mineira No final dos anos 40 comecei a criar minhas primeiras coreografias, dançadas por mim e por minha amiga Angel, mais tarde companheira e mãe do meu filho. Esses trabalhos eram mostrados no interior mineiro, no Circuito das Águas, em hotéis e cassinos onde o jogo corria livre e havia sempre espaço para espetâculos artísticos. Como qualquer jovem bailarino, jâ me considerava o melhor do mundo - um dos melhores, pelo menos - e essa foi a forma que encontrei para me expor e ao mesmo tempo buscar uma linguagem própria. Claro que eram coisas simples, quase infantis, mas foi através desses trabalhos que comecei a descobrir meu espaço. Essas turnês duraram alguns anos, até que um dia entendi que Minas não tinha mais nada a oferecer: era tempo de seguir adiante. E, na dança clássica brasileira, só existia uma forma de buscar mais conhecimento: ir até a fonte, a russa Maria Olenewa, que vivia em São Paulo. Carlos Leite - ele próprio ex-aluno de Olenewa - jâ havia me dado o respeito pela dança, um alto nível de exigência comigo mesmo e a lição· de paciência: "Com três anos de dança você não sabe nem varrer o palco", advertia. Apesar disso, as aulas dele não eram exatamente um primor de respeito humano ou artístico: ~am brutais, com ensinamentos 22 que chegavam aos alunos através de xingamentos e varadas. E qualquer questionamento mais insistente tinha apenas uma res- posta: "Isso é segredo profissional". Em São Paulo, fiz aulas com Olenewa durante dois anos, entre 1948 e 1950, conhecendo o lado prático da dança, espe- cialmente o repertório clássico e a relação entre a arte e o mundo. Desde essa época descobri que a técnica clássica é algo muito real e que nada tem de etéreo: o misticismo do balé, se existe, está na sua corporificação. Olenewa me trouxe não apenas a técnica, mas também a necessidade de sobrevivência - não tive qualquer apoio da fa- mília ao optar pela dança - e de reflexão, uma reflexão que tem acompanhado a minha vida artística desde sempre. Foi essa observação que me levou a descobrir que aprendia mais sobre a dança com as artes plásticas. Passei a visitar museus e a observar a articulação, os músculos, o apoio dos corpos. Descobri Rafael, Da' Vinci, Modigliani e, lentamente, comecei a vislumbrar minha própria técnica. Observei, de início, a posição do dedo anular nas pinturas renascentistas e fiquei fascinado com a relação entre esses de- senhos e a postura exigida para as mãos no balé: em ambos os casos, a certeza de que o movimento parte de dentro e não pode, jamais, ser apenas forma. Vejamos: quando você aperta o dedo anular para dentro sente todo o braço reagir e é por isso que a mão tem essa postura no balé clássico. O problema é que professores e baila- rinos repetem apenas a forma e isso não leva a nada. O processo deveria ser o oposto: a forma surgir como conseqüência do trabalho. A ~erdade é que as pessoas no Brasil têm a mania de dizer que o clássico é uma técnica antianatômica, e não é assim: é a coisa mais anatômica que já foi criada na arte ocidental, é a rotação da musculatura no sentido máximo que ela pode atingir. 23 Desdee n t ã o d e s c o b r i t a m b é m que a p r e o c u p a ç ã o excessiva com a t é c n i c a é p r e j u d i c i a l , t ã o p r e j u d i c i a l q u a n t o . t e r u m a r e - l a ç ã o a f e t i v a com uma p e s s o a e n ã o l a r g á - l a n u n c a , n ã o d a r e s p a ç o , t e l e f o n a r d i a r i a m e n t e , p r o c u r a r sempre, d e p e n d e r demais: com isso, afogamos a pessoa e m a t a m o s a relação. H o j e b r i n c o dizendo que a l u n o n o t a dez é um caso s e n o , a t é sete é ótimo, é o limite. N o t a dez n ã o f u n c i o n a : é u m obsessivo, q u e r seguir as r e g r a s em d e t a l h e s e p a s s a a t e r u m a r e l a ç ã o n e u r ó t i c a com a d a n ç a . N ã o d e s c a n s a e n q u a n t o n ã o a p r e n d e um d e t e r m i n a d o p a s s o e n ã o e n t e n d e que, b u s c a n d o o u t r o s movimentos, fazendo o u t r a s coisas - na sala de a u l a o u n a rua - , o passo n a t u r a l m e n t e vai surgir, no seu t e m p o , p o r - que t u d o e s t á i n t e r l i g a d o . Sempre d i s c o r d e i da forma pela q u a l a t é c n i c a clássica chega aos b a i l a r i n o s , no Brasil. N ã o discuto a beleza e a e f i c i ê n c i a do clássico - a o c o n t r á r i o , a m o o clássico - , mas h á a l g u m a coisa que se p e r d e u na r e l a ç ã o e n t r e p r o f e s s o r e a l u n o e q u e faz d a sala de a u l a um e s p a ç o pouco saudável. A q u e s t ã o é essa: o p r o f e s s o r de balé é l i m i t a d o , e m g e r a l f r u s t r a d o p o r s e r o b r i g a d o a p a r a r de d a n ç a r cedo e assim i n c a p a z de d a r a m o r , a t e n ç ã o e i n c e n t i v o aos alunos. O p r o f e s s o r d e v e r i a s e r s e m p r e um a r t i s t a mais velho, mais sábio, com mais vivência, e que tivesse condições de c r i a r um clima de c o m p r e e n s ã o n a s a l a de a u l a . U m a s a l a de a u l a n ã o p o d e ser isso que vemos, o n d e a dis- c i p l i n a tem algo de m i l i t a r , o n d e n ã o se p e r g u n t a , n ã o se ques- t i o n a , n ã o se discute, n ã o se conversa. C o m isso, a t r a d i ç ã o d o b a l é se p e r d e em r e p e t i ç õ e s de formas, o n d e t o d o t r a b a l h o é feito a l e a t o r i a m e n t e . A c o m e ç a r pela p i a n i s t a , que t o c a sem a t e n - ç ã o , f u m a n d o um c i g a r r o e n q u a n t o folheia u m a revista o u se p r e o c u p a com q u e s t õ e s domésticas. E s s a d e s a t e n ç ã o passa p a r a o a l u n o , que, ao invés de e s t a r p r e s e n t e e o u v i r a música, inicia u m processo de a u t o - h i p n o s e 2 4 e, em p o u c o t e m p o , n ã o e s t á mais n a s a l a de aula: e s t á n a s nuvens, no espelho, n a s n o t a s d o p i a n o , m a s n ã o consigo mesmo. A s a l a de a u l a , dessa f o r m a , se t o r n a a p e n a s u m a a r e n a p a r a a c o m p e t i ç ã o de egos, o n d e ninguém se i n t e r e s s a p o r n i n g u é m a n ã o s e r como p a r â m e t r o p a r a a c o m p a r a ç ã o . Mas a c o m p a r a ç ã o é p e r d a de tempo: a filha de F u l a n o é e n g r a ç a d i n h a , d a n ç a c o m g r a ç a , t o c a p i a n i n h o , e n q u a n t o a filha de S i c r a n o é t í m i d a , d e s a j e i t a d a , vive c a i n d o . Crescemos t o d o s com essas i n f o r m a ç õ e s e, depois, d e s c o b r i m o s que a filha de f u l a n o se t r a n s f o r m o u n u m a m e d i o c r i d a d e e n q u a n t o a o u t r a se t o r n o u e q u i l i b r a d a e h a r m ô n i c a . Mas p a r a d e s c o b r i r isso é n e c e s s á r i a t o d a u m a vida. A sala de a u l a m a s s i f i c a d a t i r a a i n d i v i d u a l i d a d e do a l u n o e, se as pessoas n ã o se conhecem nem possuem i n d i v i d u a l i d a d e , n ã o h á como p a r t i c i p a r do coletivo: o c o r p o de b a i l e tem que ser c o n s t i t u í d o p o r pessoas c o m p l e t a m e n t e diferentes, p a r a que os gestos s a i a m semelhantes: a i n t e n ç ã o é o que i m p o r t a . A d a n ç a se faz n ã o a p e n a s d a n ç a n d o , mas t a m b é m p e n - s a n d o e sentindo: d a n ç a r é e s t a r i n t e i r o . N ã o posso i g n o r a r mi- nhas emoções em u m a s a l a de a u l a , r e p r i m i r essas coisas t o d a s que t r a g o d e n t r o de mim. Mas, infelizmente, é o q u e acontece: os a l u n o s se a n e s t e s i a m a o e n t r a r em u m a s a l a de a u l a . E s e r i a difícil fugir desse sono: p a r a c o m e ç a r , ficam s e m p r e nos mesmos lugares, ouvem sempre a mesma m ú s i c a , o mesmo som d i á r i o d a voz do professor, que c o r r i g e d i a r i a m e n t e as mesmas coisas nas mesmíssimas pessoas. P r o n t o : c o m c i n c o mi- n u t o s de a u l a todo m u n d o está em t r a n s e , n i n g u é m mais se e n - c o n t r a ali. Se um e l e f a n t e p a s s a r pelo meio da s a l a n i n g u é m n o t a . Mas a v e r d a d e é que a r t i s t a n a s c e a r t i s t a ; u m p r o f e s s o r p o d e no m á x i m o l e v a r esse a r t i s t a a t é um c e r t o p o n t o . O p r o - fessor t i r a de d e n t r o d o a l u n o o q u e ele t e m p a r a dar. F i c o s e m p r e i m p r e s s i o n a d o c o m a s a b e d o r i a p o p u l a r , que e x p l i c a bem m e l h o r t u d o isso: o q u e é bom j á n a s c e feito. 25 Isso sempre achei bonito: ninguém é igual a ninguém, não existe receita para se fazer arte ou dança. O professor deve apenas aviar a receita - como se fazia antigamente -, mas essa receita é pessoal, não serve para todo mundo. Em uma sala de aula é a mesma coisa: o desnivelamento existe, e cada caso é um caso. O ritmo é sempre o mesmo, mas a aptidão é de cada um. Por isso é que posso assistir vinte vezes ao Lago dos cisnes e as vinte montagens serão completamente diferentes, apesar da mesma coreografia. Um coreógrafo, por exemplo, pode usar os gestos sensuais dos personagens, outro a frieza de Odete, ou a desatenção dela, ou sua maldade. E tudo isso modifica a mus- culatura, a interpretação dos bailarinos - se eles tiverem uma individualidade. Nós, profissionais de dança, somos um pequeno exemplo de que acontece lá fora. As leis da vida são as mesmas leis da dança, não temos como fugir disso. A inconsciência é que gera a mediocridade. O bailarino tem os mesmos problemas de um sapateiro. O resultado da inconsciência é visível nos espetáculos e na formação da mentalidade do bailarino brasileiro: ele não discute, não se interessa pelo sindicato, não luta pela classe, é desunido e alienado. E isso é ensinado a ele desde o princípio: não existe o indivíduo que faz dança entre nós, o que existe é essa entidade vaga chamada bailarino. Mas a técnica clássica não é isso, não exige isso. Através do clássico é possível organizar fisicamente as emoções e co- nhecer o corpo. É uma forma de exprimir harmonicamente essas emoções. Para isso, porém, tenho que estar com os sentidos alerta. Senão minha dança se torna pura ginástica. O gesto no balé não deve ser apenas um gesto do balé: é um gesto trabalhado por um ser humano, especialista, e que envolve não apenas a memória daquele corpo mas o corpo de 26 todos os homens. É claro que tudo isso exige uma técnica e somente o aperfeiçoamento dessa técnica vai permitir ao baila- rino chegar a essa memóriae a essa emoção comum a todos os seres humanos. É milagroso o que o corpo é capaz de fazer quando o deixamos livre - após o aprendizado técnico. Infelizmente, mais uma vez, lembremos que a realidade é outra: a técnica clássica tem buscado, antes de tudo, o ego do bailarino, do professor, do coreógrafo. E da mãe da bailarina, claro. É preciso desarmar tudo isso, para que cada um possa encontrar seu próprio movimento, sua forma pessoal. A forma, repito, é conseqüência: são os espaços internos que devem criar o movimento de cada um. Por outro lado - e contra mim mesmo -, admito que exista algo de sadomasoquista no clássico: essa busca de limite, de tentar vencer as dores físicas, tentar ir sempre além. Talvez apenas as pessoas que de alguma forma se identificam com esse sadomasoquismo tenham condições de praticar a dança clássica. E eu tenho esse componente em excesso. Entra aí uma questão cultural: o homem não é treinado para ser submisso, como nossa sociedade impõe às mulheres. Por isso reage, não se sujeita a ser xingado, humilhado, dimi- nuído numa sala de aula ou num ensaio. O homem não aceita essa situação, o que talvez explique a quantidade muito maior de mulheres no balé. 27 111 O c o m p a s s o b a i a n o E m 1 9 5 9 , eu e Angel criamos o Balé Klauss V i a n n a , em Belo H o r i z o n t e , e t r ê s anos depois o g r u p o p a r t i c i p o u d o I E n c o n - t r o de E s c o l a s de D a n ç a d o Brasil, em C u r i t i b a . Levei u m a c o r e o g r a f i a onde uma b a i l a r i n a atravessava o p a l c o v e s t i d a de s a n t a b a r r o c a . E r a u m a p r o p o s t a b e m diferente: n o festival só t i n h a cisne, e r a m o r t e de cisne, solo de cisne, vôo de cisne. C e r t a m a n h ã meu c e n ó g r a f o p e r d e u a p a c i ê n c i a : " O p r i m e i r o cisne q u e eu p e g a r t o r ç o o pescoço". Esse foi meu p r i m e i r o t r a b a l h o c o r e o g r á f i c o a d u l t o , A face lívida. Usei u m a m o d i n h a i m p e r i a l c a n t a d a p e l a M a r i a L ú c i a G o d o y e nele eu buscava a síntese de uma visão m i n e i r a da d a n ç a . A n t e s de m o n t a r o t r a b a l h o fomos t o d o s a O u r o P r e t o , a n d a m o s p e l a s ruas, pisamos descalços nas p e d r a s , e n t r a m o s nos casarões. O r e s u l t a d o foi um e s p e t á c u l o com m u i t a gente v a i a n d o , g r i t a n d o - e uns p o u c o s a p l a u d i n d o . Mas o R o l f Gelewsky viu esse t r a b a l h o e ele e L i a R o b a t t o me c o n v i d a r a m p a r a d a r a u l a s na B a h i a , n a E s c o l a de D a n ç a da U n i v e r s i d a d e F e d e r a l , em S a l v a d o r . R o l f a c h a v a que m e u t r a - b a l h o t i n h a m u i t a a f i n i d a d e com o que eles b u s c a v a m lá. R o l f e r a a l e m ã o , mal falava o p o r t u g u ê s , mas t i n h a u m a visão do q u e r e a l m e n t e interessava: a busca de um g e s t u a l , u m a d a n ç a b r a s i l e i r a . E n t ã o , aceitei: R o l f p a s s o u a s e r meu vizinho de q u a r t o n a p e n s ã o e comecei a s e r v i r de i n t é r p r e t e p a r a ele. 28 Mas logo senti a B a h i a em mim e me p e r g u n t a v a : como é q u e n ã o temos a u l a de c a p o e i r a a q u i , n a E s c o l a de D a n ç a , com t o d a a q u a l i d a d e de m o v i m e n t o que tem a c a p o e i r a ? E n t ã o , fui p r o c u r a r um p r o f e s s o r de c a p o e i r a p a r a a Escola. Sugeri ao R o l f que a c a p o e i r a fosse m a t é r i a c u r r i c u l a r , p o r q u e t i n h a s e n t i d o q u e na c a p o e i r a existia uma s e q ü ê n c i a de movimen- tos igual à técnica clássica - ou às a r t e s m a r c i a i s - , p o r q u e o c o r p o h u m a n o tem uma coerência m u i t o g r a n d e de movimentos em q u a l q u e r c u l t u r a : o a q u e c i m e n t o na c a p o e i r a t a m b é m começa pelos pés, sobe pelas p e r n a s , t r o n c o , braços, até c h e g a r aos olhos. Os olhos são i m p o r t a n t í s s i m o s p a r a um c a p o e i r i s t a . Meu t r a b a l h o s e r i a c r i a r o s e t o r de d a n ç a clássica n a univer- s i d a d e , mas isso n ã o me bastava. E u j á dava a u l a descalço, e c o n h e c i t r a b a l h o s m a r a v i l h o s o s de c a p o e i r a , c o n h e c i o mestre G a t o e foi a t r a v é s dele que a p r e n d i essa técnica. A p e s a r disso, ele n ã o podia d a r a u l a s na Escola, era p e d r e i r o , m o r a v a longe, n ã o t i n h a nem o curso p r i m á r i o - mas t i n h a d o u t o r a d o em c a p o e i r a . L e n t a m e n t e , senti q u e tudo a q u i l o p o d e r i a t e r i n f l u ê n c i a no meu t r a b a l h o e passei a u s a r os movimentos de t r o n c o , o som, a música ao vivo, o pé descalço que eu j á usava, c o n h e c e r os ossos - n ã o o nome do osso, que não leva a n a d a - , como se move c a d a osso e músculo. F u i p r o c u r a r um p r o f e s s o r de o d o n t o l o g i a , A n t o n i o B r o c h a - do, que e r a c o n s i d e r a d o o m a i o r a n a t o m i s t a da B a h i a . E l e t i n h a u m a série de esqueletos n o consultório, pelos quais n u t r i a um a m o r p r o f u n d o . T r a t a v a c a d a um p o r um nome d i f e r e n t e . Ele a c e i t o u meu convite e foi d a r a u l a de a n a t o m i a n a E s c o l a de D a n ç a . Ao mesmo t e m p o , B r o c h a d o e r a do c a n d o m b l é e um dia me levou até o t e r r e i r o da Mãe Stella. Tive m u i t a d i f i c u l d a d e p a r a e n t e n d e r , e n t r a r n a q u e l a s coisas. M a s j á c o n h e c i a C a r y b é , G e n a r o , Jorge A m a d o , t o d o s b r a n c o s e p a i s de s a n t o do c a n d o m - blé, e n t ã o t i n h a uma n o ç ã o mínima s o b r e a q u i l o tudo. 2 9 Um dia convidaram a mim e a Angel para ver as moças que iam receber o santo: é uma coisa impressionante, porque elas ficam em camarinhas, pequenos quartos trancados durante seis meses, a cabeça raspada, sem conversar ou ver ninguém, sem ter relação sexual nenhuma, comendo só aquilo que deixam no quarto. Com isso essas meninas acabam conhecendo profundamente o próprio corpo, as reações do corpo, a pessoa mais idiota acaba se conhecendo numa situação dessas. Então, era uma beleza quan- do abriam a porta e vinha aquela pessoa, era uma coisa iluminada, uma musa, linda. Durava uma noite inteira - e o caminho, o movimento, o ritmo, tudo aquilo me impressionou demais. Esse era um momento político de muita efervescência no Brasil e a Universidade entrou em greve. Eu e Rolf, sem nada para fazer, se111 aula para dar, resolvemos trabalhar, montar algu- ma coisa, e fomos para uma sala de aula. Um dia estávamos ali, ensaiando, quando as moças da Escola de Dança arrombaram a porta a pontapés e disseram que não pode~íamos ficar ali, que a Universidade estava fechada e que a coisa era para valer. Levei um susto: elas nos proibiram, simplesmente. No começo fiquei chocado, irritado, puto. Eu me dizia: "Mas esperem um pouco, sou um bailarino, um artista, não tenho nada a ver com política". Não entendia como é que aquele pessoal, aquelas meni- nas que faziam aula de dança, podiam agir daquela forma. Resolvi começar a freqüentar os encontros para entender como é que era a cabeça desses alunos, como é que atuavam nesse processo político, e logo descobri que eram pessoas muito inteligentes e interessantes, fui notando queentre elas, havia urna harmonia ali, que não existia na sala de aula. Ali existia o amor por uma causa, exatamente o que faltava em relação à dança. Minha noção de arte e de dança mudou muito a partir daí: não é só dançar, é preciso toda uma relação com o mundo à nossa volta. Não adianta se isolar em uma sala de aula, isso leva 30 a um completo distanciamento da vida, de tudo o que acontece no mundo. O ser humano que existe no bailarino tem que estar atento e receber tudo lá fora, nas ruas. É impossível dissociar vida de sala de aula. Quis fazer uma coreografia que traduzisse essas descobertas todas. Mas não queria nada folclórico, nada dessa coisa de ca- poeira e candomblé baiano visto por um mineiro: queria a música de alguém de lá mesmo, mas não conhecido, e traduzir tudo isso em movimentos meus, a partir da minha vivência. · Um dia me levaram um garoto, um compositor jovem e des- conhecido que cantou uma série de canções lindíssimas para mim, onde ele criticava toda a sociedade baiana. Senti que a música dele tinha esse lado social e político, era uma coisa natural nele. Era o Caetano. Depois de um tempo ele disse: "Olha, eu tenho uma irmã que canta" e levou a Maria Bethânia até minha casa. Quando ouvi aquela mulher cantar, num apartamento de frente para o mar, quase caí duro. Descobri que eles faziam música e Bethânia cantava da mesma forma que a gente aprende a andar, como os animais se alimentam, do jeito que a gente aprende a defecar: naturalmente. Bethânia cantava porque precisava cantar, porque era um passarinho, se não cantasse morria. Mas a dança é diferente - e só então descobri isso -, a dança é um outro processo: eles gostavam muito de mim, me mostravam suas músicas, mas isso não era suficiente para que abandonassem a liberdade que o baiano tem, nem tinham como encarar a disciplina que a dança exige. Levei um longo tempo para entender que não repudiavam a mim, mas ao processo técnico da dança, a essa forma distante, a essa didática mal-resolvida. Aí a riqueza dessa vivência: a Bahia me abriu as portas para o exterior, porque até então eu vivia apenas o meu interior. 31 F i q u e i p o r l á d o i s a n o s , a t é 1 9 6 4 , q u a n d o c h e g o u a h o r a de p a r t i r m a i s u m a vez: a U n i v e r s i d a d e n ã o t i n h a v e r b a , o p a í s e s t a v a u m c a o s , eu n ã o t i n h a m a i s c a b e ç a p a r a c r i a r n a d a . A o m e s m o t e m p o , s a b i a q u e n ã o h a v i a m a i s c o m o v o l t a r p a r a M i n a s , o q u e m e fez ir p a r a o R i o , s e m e m p r e g o e s e m c a s a o n d e m o r a r . L á c o n s e g u i s o b r e v i v e r d a n d o a u l a s de d a n ç a c l á s s i c a e m e s c o l a s d e b a i r r o - de c e r t a f o r m a , u m a v o l t a à v i d a m i n e i r a - e só a n o s d e p o i s . e m 6 8 , foi q u e s u r g i u a o p o r t u n i d a d e p a r a m e a p r o x i m a r d o t e a t r o . A ú n i c a p e s s o a q u e f a z i a c o r e o g r a f i a s p a r a t e a t r o , n o R i o - n a v e r d a d e e r a m d a n c i n h a s , os a t o r e s n ã o t i n h a m a m e n o r n o ç ã o de d a n ç a . n a q u e l a é p o c a - e r a a S a n d r a D i c k e n s . U m d i a e l a m e p e r g u n t o u se eu n ã o g o s t a r i a d e f a z e r u m a c o r e o g r a f i a n o l u g a r d e l a e m u m e s p e t á c u l o de t e a t r o , p o r q u e e s t a v a d e v i a g e m m a r - c a d a p a r a a A l e m a n h a . A c e i t e i , e isso m u d o u a m i n h a v i d a : o e s p e t á c u l o e r a A ó p e r a d o s três v i n t é n s , de B e r t h o l t B r e c h t e K u r t Weill, c o m d i r e ç ã o de J_osé R e n a t o e a t o r e s c o m o D u l c i n a , M a r í l i a P e r a e O s w a l d o L o u r e i r o e a t é u m a t o r e m c o m e ç o d e c a r r e i r a , J o s é W i l k e r . E s s e t r a b a l h o i n a u g u r o u a S a l a C e c í l i a M e i r e l l e s , n o R i o , e m 6 8 . E r a m u i t o c o m u m a c o n t e c e r e m c o i s a s a s s i m , u m d i r e t o r de t e a t r o i m a g i n a r u m a m o v i m e n t a ç ã o e m u m e s p e t á c u l o e c h a m a r a l g u é m liga_do à d a n ç a p a r a c r i a r a l g u m a coisa_ M a s e r a s e m p r e e s s a danc~nha e foi nesse s e n t i d o q u e a c e i t e i o t r a b a l h o . M a s n ã o f i q u e i n i s s o e. o u t r a vez, q u i s i r m a i s l o n g e . É c l a r o q u e os a t o r e s n ã o t i n h a m a l i n g u a g e m d a d a n ç a ; p o r isso fiz a l g u m a s m a r c a ç õ e s e o r e s u l t a d o foi t ã o d i f e r e n t e d o c o m u m q u e , p e l a p r i m e i r a vez, um c r í t i c o de t e a t r o - Y a n M i c h a l s k y , n o J o r n a l d o B r a s i l - c h a m o u a a t e n ç ã o d o p ú b l i c o p a r a a e x i s t ê n c i a de u m t r a b a l h o c o r p o r a l em um e s p e t á c u l o de t e a t r o . O r e s u l t a d o foi q u e , no a n o s e g u i n t e , J o s é C e l s o M a r t i n e z C o r r e a e F l á v i o I m p é r i o m e c h a m a r a m p a r a f a z e r R o d a V i v a , d e C h i c o B u a r q u e de H o l l a n d a . P a r t i c i p e i d o e s p e t á c u l o d e s d e o s 3 2 p r i m e i r o s t e s t e s - t u d o i s s o e n q u a n t o s o b r e v i v i a d a n d o a u l a s e m e s c o l a s e c l u b e s - e a c a d a vez o u v i n d o o J o s é C e l s o : " V a i , e x p e r i m e n t a m a i s , faz m a i s , b o t a m a i s d a n ç a " . E a c a d a e n s a i o p r o p u n h a m a i s m o v i m e n t a ç ã o p a r a os a t o r e s . E s s a foi u m a é p o c a d e e n v o l v i m e n t o t o t a l c o m o t e a t r o e os a t o r e s , t a n t o q u e m e u t r a b a l h o s e g u i n t e foi a p r i m e i r a m o n t a g e m d e N a v a l h a na c a r n e , d e P l í n i o M a r c o s , c o m d i r e ç ã o d e F a u z i A r a p , c o m T ô n i a C a r r e r o , N e l s o n X a v i e r e E m i l i a n o Q u e i r o z , t a m b é m e m 1 9 6 9 , o n d e d i r i g i o q u e c o m e ç a v a m a c h a m a r d e e x p r e s s ã o c o r p o r a l . T u d o i s s o e r a d e u m a r i q u e z a e n o r m e , p o r q u e m e u t r a b a l h o c o m os a t o r e s m o d i f i c a v a m i n h a s a u l a s c o m os b a i l a r i n o s n o d i a s e g u i n t e . A o m e s m o t e m p o , e s s a s a u l a s i n f l u e n c i a v a m a c o r e o g r a f i a q u e f a r i a p a r a o t e a t r o , m a i s t a r d e . O t e a t r o , à noite,_ m o d i f i c a v a a d a n ç a , d e d i a . E t u d o s e j u n t a v a n u m a c o i s a só. D e s d e e n t ã o o l h o p a r a a a r t e S!!m p r e c o n c e i t o s , a c h o u m a i g n o r â n c i a a t r o z o p r e c o n c e i t o c o n t r a f o r m a s a r t í s t i c a s e i n f e l i z - m e n t e a i g n o r â n c i a n ã o t e m s o l u ç ã o . É r i d í c u l o p e n s a r q u e a d a n ç a s ó s e f a z a p a r t i r d e c i n c o p o s i ç õ e s o u q u e só é v á l i d a a d a n ç a q u e n a s c e u · n a E u r o p a . E , n o - e n t a n t o , é o q u e a g e n t e vê a t é h o j e : c o r e ó g r a f o s q u e v ê m d a E u r o p a m o n t a r c o r e o g r a f i a s e s t r a n h a s a o n o s s o b a i l a r i n o , t r a b al h o s q u e c u l t u r a l m e n t e n ã o t ê m n a d a a v e r c o m a f o r m a ç ã o a r t í s t i c a e t é c n i c a d e s s e b a i l a r i n o . E n t ã o o q u e · a c o n t e c e ? O s b a i l a r i n o s n ã o s a b e m e n ã o p o d e m i n t e r p r e t a r b e m ' a q u e l e s m o v i - m e n t o s e a c a b a m f a z e n d o a p e n a s a f o r m a , s e m n a d a d e i n t e r i o r . E i s s o n ã o é d a n ç a : é g i n á s t i c a . P o r isso i n s i s t o q u e n ã o m e i m p o r t a , h o j e - e t u d o n o m e u t r a b a l h o p a r t e d a m i n h a v i v ê n c i a - q u a l a i d a d e , o t i p o d e m u s c u l a t u r a , a l t u r a o u p e s o d o b a i l a r i n o : o q u e m e i m p o r t a é a cabeça. N ã o t e n h o q u a l q u e r i d e a l i z a ç ã o a n í v e l f í s i c o s o b r e o b a i l a r i n o o u a b a i l a r i n a c o m q u e m q u e r o t r a b a l h a r . Q u e r o s ó q u e t e n h a u m a b o a c a b e ç a . P o r q u e , a i n d a q u e d i f í c i l , é p o s s í v e l 3 3 modificar um corpo. Mas mudar a mentalidade de um adulto é um trabalho quase impossível. Desde essa época, no Rio, descobri que sou um professor - filósofo da dança, como digo sempre, brincando --.:..., nem mais nem menos do que isso. Mas nunca me coloquei na 'posição de um professor distante, superior. O professor é um partéiro, ele tira do aluno o que este tem para dar. Se o aluno não tem nada, não sai nada. Mas é preciso sempre ter cuidado: é claro que o aborto existe. Muitos professores matarp o artista na sala de aula. 34 IV As pequenas mortes Em um desses clubes onde eu dava aula, no Rio, havia uma pianista que também tocava na Escola Municipal de Bailados. Ela me perguntou se eu queria dar aulas lá, mas eu tinha um certo medo, me assustava essa coisa de trabalhar em uma escola oficial. Aceitei, mas pedi para dar aula só para crianças. Então, em 68, comecei a trabalhar na escola e logo descobri uma realidade nova: os professores não conversavam entre si, não discutiam nada sobre a dança. Conversavam sobre qualquer coisa, menos sobre a dança e os problemas de uma sala de aula. Faltava uma filosofia de trabalho, uma unidade. Ao mesmo tempo, notava a arquitetura do prédio da escola: era uma coisa antiga, com uma escadaria enorme, escura. Para mim havia toda uma relação entre aquela arquitetura e a menta- lidade que vivia lá dentro. É preciso sempre notar isso, a relação entre a dança e o espaço onde se faz essa dança. E descobri as mães: mãe de bailarina é uma instituição na dança. Sempre na portaria, esperando as filhas, típicas na maneira de vestir, de sorrir, de cumprimentar os professores. Vestem-se sempre com as melhores roupas, como se fossem sair dali para o palco. Peguei exatamente a turma infantil - os professores não gostavam muito dessa aula - e, aos poucos, o trabalho foi dando 35 origem a uma relação profunda entre mim e as crianças. Bastava dar um estímulo e pronto, elas reagiam, criavam, brincavam, riam. Uma vez por mês eu propunha que os pais viessem ver e fazer as aulas com os filhos, para que vissem a espontaneidade das crianças. Mas logo descobri -que aquele convite era contra- producente: as crianças se tornavam inibidas e ficava claro que aquela relação afetuosa e companheira da sala de aula não existia em casa. Dessa forma, em pouco tempo desisti dos convites aos pais. Mas não desisti das aulas: fiquei com um mesmo grupo de meninas dos oito aos treze, quatorze anos, e a proposta foi sempre uma aula lúdica. Falava do corpo, das funções dos ossos, brincá- vamos de roda, pedia para que elas dançassem o que gostavam de dançar nas festas, lia histórias. Acreditava, nessa época, que é assim que se estimula um ser criativo. Não adianta colocar uma criança de sete anos em um Royal Ballet: este é um método desenvolvido para menininha inglesa, que tem perna comprida e bunda fina, enquanto a brasi- leira tem perna curta e bunda grande. Essas meninas, coitadas, têm que se adaptar a um método que não serve para elas. O pior é que tudo vira moda no Brasil, um pouco tempo: dá status ter um diploma do Royal Ballet. Como ter pingüim em cima da geladeira. Naquela mesma época comecei a fazer teatro profissional- mente, como coreógrafo e, mais tarde, ator - em Hoje é dia de rock, de José Vicente - e rião deixava nunca de levar essas experiências teatrais para minhas pequenas alunas, na Escola de Bailados. Aquele • era um momento de grande repressão e medo. Qual- quer grupo de três pessoas que entrasse na escola fazia a gente ficar horrorizado: era o tempo da perseguição ao teatro, aos atores, ao pensamento. Mais do que nunca entendi a diferença entre dança e teatro, a diferença entre ator e bailarino. 36 Nunca houve qualquer censura ao balé no Brasil '- a não ser no caso ridículo da transmissão pela tevê do espetáculo do Bolshói. Era como se a dança brasileira não fosse feita aqui: era uma coisa estranha, não fazia parte do país. Essa foi a fase em que acreditei não ter mais nada a ver com a dança, em não voltar mais a trabalhar com bailarinos. Minha vida passou a ser só isso: dança de manhã e à tarde, teatro à noite. E muito cigarro e uísque. Em 1972, ganhei o Moliere de Teatro e me dei um enfarte. Era como se não aceitasse o prêmio, como se me dissesse: ninguém tem o direito de me premiar. Depois disso passei a conviver com esse problema cardíaco, mas em pouco tempo estava de volta à rotina. Dois anos depois, minha turma de alunas da Escola de Bailados se formou e me chamou para ser o paraninfo. Sempre pensei que algumas coisas eu jamais faria em minha vida, e uma delas era ser paraninfo. Ainda assim, aceitei e descobri uma lenda oriental que tem tudo a ver com minha proposta técnica de dança e de postura diante da arte. Não fiz, então, um discurso de paraninfo. Apenas contei a lenda: "O imperador amarelo viajou para o Norte, além do lago Vermelho, e na montanha do país do inverno ele olhou para o sul. Ao voltar da viagem perdeu sua pérola mágica. Então o imperador enviou Clara-visão para encontrar a pérola. Mas ela não achou. Enviou Força-pensamento, mas ele também não achou. Finalmente, enviou Sem-intenção. Este encontrou. Procurar a pé- rola sem-intenção é' a chave do mistério". Com minha turma formada, em 74, me afastei da Escola de Bailados. Yan Michalsky me propôs fazer críticas de dança para o Jornal do Brasil e eu aceitei. Como introdução ao trabalho, republiquei trechos de um artigo que havia escrito anos antes, o primeiro ensaio sobre dança publicado na imprensa brasileira. 37 Escrever sobre dança, em princípio, não é um grande pro- blema: tenho um certo instinto crítico, negativista, destrutivo mesmo, e sempre senti muito mais força nesse lado do que em uma tendência criativa. Tenho umas loucuras do gênero pôr fogo em museu ou matar pessoas em pensamento e essas fantasias eram mais fortes do que as idéias de montar um espetáculo, abrir um centro cultural. Um dia fui assistir a um grupo do Rio de Janeiro, dirigido pela Dalal Achcar. Era uma montagem da Suíte quebra-nozes. Esta suíte é apresentada no mundo inteiro durante o inverno, com frio, mas o espetáculo foi montado na praça Tiradentes, no Rio, no verão, com as menininhas todas vestidas de veludo. Logicamente, não podia ser grande coisa. E escrevi o que pensava na minha crítica. Mas parece que a mãe da Dalal - sempre as mães das bailarinas - era uma pessoa muito influente no Rio. Só sei que perdi meu emprego no jornal. Coisa que não me fez mais triste. Nem mais alegre. Nessamesma época outra lição serviu para o desenvt~lvi mento do meu trabalho: Rudolf Nureyev e Margot Fonteyn vieram ao Brasil pela primeira vez e fui assistir à aula deles, no Muni- cipal do Rio. Eles começaram lentamente, tiraram o sapato e deslizaram os pés no chão, sentindo o contato com o solo, sentindo a relação com o solo, com aquele espaço onde iam dançar. Era quase uma cerimônia, lenta e cuidadosa. Só depois colocaram as sapatilhas e iniciaram um pliê bem lento. O corpo de baile, enquanto isso, já estava saltitante e pronto para entrar em cena. Confirmou-se, para mim, a importância da relação com o tempo, o tempo interior, um tempo que só artistas como Margot e Nureyev têm. ou atrizes como Fernanda Montenegro e Marília Pera. Confirmou-se também que as aulas de clássico são rápidas 38 demais, superficiais demais, e professores e bailarinos querem resultados em pouco tempo. O problema é que não se pode dar saltos em arte. Existe o dia, a noité; a semana, o mês, o ano, você não· tem como suprimir 0 tempo, não posso pular uma noite, não posso ir contra a natu- reza, a natureza do meu corpo. Não posso lutar contra algo que é muito maior do que eu. O aprendizado exige um tempo e esse te~po. ~reci~a ser consciente. É claro, no entanto, que existem as md1v1duahdades _ e 0 professor existe para reconhecer essas individualidades -, e esse tempo varia em cada um. A conclusão é a seguinte: o que você aprende rápido vai embora rápido. O que temos aos montes no Brasil é gente que faz 58 pirue- tas, ou 32 fuetés, mas faltam aqueles que dançam, que ouvem a música, que colocam intenções nos gestos, que têm um tempo e uma emoção internos. Deixei a Escola de Bailados do Municipal e parti para outra pesquisa, mais próxima dos meus interesses no teatro e na danç~: o gestual do homem carioca, patrocinado pela Funarte. Quena estudar as características desses gestos, como é que a população do Rio se move. Descobri um dado interessante: a divisão entre norte e sul no Rio não é só uma questão de túnel, de ter ou não ter praia. As crianças da zona Sul têm as pernas mais longas, as da zona Norte têm o tronco mais desenvolvido. As mulheres das· favelas ainda tinham o pescoço mais longo, a cabeça mais ereta - talvez por levarem a lata d'água na cabeça. Essa pesquisa durou todo o ano de 1975, mas nunca me preocupei em publicar nada: incor- porei, consciente ou inconscientemente, tudo o que descobri du- rante esse trabalho. Nesse mesmo ano passei a dirigir a Martins Pena, escola oficial de, teatro do Rio de Janeiro. Essa foi uma experiência 39 riqUlsstma, , p o r q u e p u d e c o l o c a r em p r á t i c a t u d o a q u i l o que estava s o n h a n d o , t o d a uma a b o r d a g e m d i d á t i c a das a r t e s cênicas. M i n h a p r i m e i r a p r o v i d ê n c i a foi a b o l i r o v e s t i b u l a r , u m teste t ã o c o m p l i c a d o e exigente que, segundo m i n h a visão, o a l u n o que conseguisse p a s s a r n ã o p r e c i s a v a mais e s t u d a r : e r a u m a t o r com- p l e t o , e s t a v a f o r m a d o em t e a t r o . Pelo m e n o s no t e a t r o a c a d ê m i c o . M i n h a p r o p o s t a e r a um c u i s o livre, onde os i n t e r e s s a d o s t e r i a m as p r i m e i r a s r e s p o s t a s p a r a suas indagações a r e s p e i t o d o t e a t r o , a nível físico, s o b r e o espaço, a h i s t ó r i a , a a c ú s t i c a , a i n t e r p r e t a ç ã o . P a r t i a , assim, do mesmo p r i n c í p i o q u e me e n c a m i - n h o u n a d a n ç a : a a r t e é antes de t u d o u m gesto de vida. N a M a r t i n s P e n a e n f r e n t e i t a m b é m a q u e s t ã o do t a l e n t o , dessa coisa vaga que c h a m a m o s t a l e n t o e que n ã o sei bem e x p l i c a r o que é. T a l e n t o t a l v e z s e j a u m a c a p a c i d a d e n a t a , u m e s t a r a b e r t o para, e n a d a mais que isso. H o j e a c r e d i t o que é m e l h o r t r a b a l h a r com gente t a l e n t o s a e t e n t a r d e s e s t r u t u r a r inclusive esses t a l e n t o s o s p o r q u e eles, mais d o que ninguém, têm t o d o um c o n c e i t o do t r a b a l h o a que se p r o p õ e m . P e r d i m u i t o t e m p o com gente sem t a l e n t o , mas h o j e me é impos- sível t r a b a l h a r com essas pessoas. P r e c i s o de pessoas que e s t e j a m a b e r t a s , j á n u m d e t e r m i n a d o p o n t o do seu a u t o c o n h e c i m e n t o artístico: assim elas o u v e m a q u i l o que você p r o p õ e e isso faz com q u e se movam. De q u a l q u e r f o r m a , n u n c a me assustei com os a r t i s t a s talentosos. T a n t o que t r a b a l h e i com alguns dos m e l h o r e s a t o r e s , atrizes, b a i l a r i n o s e b a i l a r i n a s do país. F i q u e i n a M a r t i n s P e n a a t é 78 e lQgo passei p a r a o I n e a r t e , I n s t i t u t o E s t a d u a l das Escolas de A r t e do R i o de J a n e i r o , o n d e t a m b é m fiquei p o r dois anos, a t é a m u d a n ç a de governo. A l i á s , a a r t e no B r a s i l e s t á ' sempre t e n d o seu c a m i n h o i n t e r r o m p i d o pelas m u d a n ç a s políticas. E m 1 9 7 7 , dirigi i n t e i r a m e n t e meu p r i m e i r o e s p e t á c u l o de t e a t r o : O e x e r c í c i o , de Lewis J o h n C a r l i n o , com M a r í l i a P e r a e 4 0 G r a c i n d o J ú n i o r , no R i o , com o q u a l g a n h e i o P r ê m i o Mam- b e m b e (dessa vez n ã o me deu u m e n f a r t e ) . M a r í l i a levou t o d o s os prêmios como atriz. Mas essa m i n h a r e l a ç ã o com o t e a t r o t a m b é m é complexa: fiz vários e s p e t á c u l o s mas só dirigi dois, s e n d o q u e e n t r e 1977 e 1989 só p a r t i c i p e i deste E x e r c í c i o e de M ã o na l u v a , a m b o s c o m m u i t o sucesso de c r í t i c a e de público. N ã o que eu n ã o quisesse t r a b a l h a r c o m t e a t r o o u q u e tivesse a b a n d o n a d o o palco: eu é que fui a b a n d o n a d o . Ou m e l h o r : é quase u m a p o s t u r a m i n h a , u m a p r e m i s s a que c o l o q u e i p a r a mim. N ã o busco n a d a , n ã o b a t o na p o r t a de d i r e t o r o u p r o d u t o r n e n h u m . S e n ã o me c h a m a r e m a c a b o n ã o fazendo n a d a . Mas é c l a r o que, no fundo, q u e r o t r a b a l h a r c o m espetáculos. P a r a mim ficou c l a r o que, n o t e a t r o , n a m o n t a g e m de um t r a b a l h o , as coisas s ã o b e m mais objetivas, sei m e l h o r o q u e quero. N a a u l a de d a n ç a s o u mais um mágico, u m p r e s t i d i g i t a d o r , e t e n h o u m c a m i n h o p r ó p r i o . T a n t o que n u n c a fui assistente de c o r e ó g r a f o , n u n c a p a r t i c i p e i da m o n t a g e m de u m a c o r e o g r a f i a . M e u processo n a d a n ç a é muito p a r t i c u l a r , a p a r t i r d a s m i n h a s vivências. No final dos a n o s 7 0 descubro q u e e s t a v a mais u m a vez insatisfeito: e r a um a d m i n i s t r a d o r no I n e a r t e , n ã o h a v i a t e m p o p a r a c r i a r n a d a . E nessa h o r a me d á um d e s â n i m o t o t a l , começo a fugir das pessoas e dos compromissos, b e b o demais. E n t ã o de r e p e n t e fugi de tudo: do R i o , d o c a s a m e n t o , do e m p r e g o , das r e s p o n s a b i l i d a d e s . F i z t o d o s os r o m p i m e n t o s que a c h a v a necessários n aq u e l a h o r a . F u g i p a r a São P a u l o , sem q u a l - q u e r p e r s p e c t i v a de t r a b a l h o , sem p r o j e t o s , sem c a s a , sem n a d a . 4 1 v O e t e r n o · r e c o m e ç o A m u d a n ç a p a r a São P a u l o t i n h a um f a t o r p r o f i s s i o n a l , p o r q u e eu j á d e r a um c u r s o n a a c a d e m i a do I v a l d o B e r t a z z o e sentia c e r t a a f i n i d a d e com a cidade. A o mesmo t e m p o , estava sem m u i t a s a í d a n o R i o , a d a n ç a p r a t i c a m e n t e n ã o existia mais. J u n t a n d o t u d o isso com as c i r c u n s t â n c i a s pessoais e afetivas, m i n h a i d a p a r a S ã o P a u l o foi um p o u c o de fuga e de b u s c a - c o m o p a r e c e s e r em t o d o s os casos .. O i n í c i o , como s e m p r e , foi c o m p l i c a d o em t e r m o s de s o b r e - vivência, m a s a L a i a D o h e i n z e l i n me p r o p ô s d a r aulas n a a c a d e m i a dela e aos p o u c o s fui me e n t e n d e n d o com a cidade. D e s c o b r i , p o r exemplo, q u e São P a u l o é mais solta do que o R i o , o R i o tem u m a coisa de superfície, de a p a r ê n c i a , de beleza e x t e r n a q u e d á p o u c o espaço p a r a relações mais p r o f u n d a s . A o mesmo t e m p o , eu j á e r a mais ou menos c o n h e c i d o n o m u n d o da d a n ç a e do t e a t r o em São P a u l o , h a v i a ganho o p r ê m i o de m e l h o r c o r e ó g r a f o p e l a m o n t a g e m c a r i o c a de O a r q u i t e t o e o i m p e r a d o r da A s s í r i a , em 1 9 6 8 ; p r ê m i o c o n c e d i d o pela A P C A , A s s o c i a ç ã o P a u l i s t a de C r í t i c o s de A r t e . N i n g u é m me avisou, aliás, s o b r e esse prêmio: eu só s o u b e dele doze anos depois, q u a n d o m u d e i p a r a São P a u l o . E m 1 9 8 1 , L a i a e seu g r u p o m o n t a r a m Clara C r o c o d i l o a p a r t i r das músicas de A r r i g o B a r n a b é e desde e n t ã o surge u m a 4 2 r e l a ç ã o m u i t o a f e t u o s a e n t r e nós. S e m p r e n o s c o m p r o m e t e m o s a c r i a r um espetáculo j u n t o s , mas esse t r a b a l h o n ã o sai. E talvez n ã o s a i a nunca. N a q u e l e mesmo a n o , M á r i o C h a m i e - e n t ã o s e c r e t á r i o de C u l t u r a d a cidade de São P a u l o - me c h a m o u p a r a d i r i g i r a E s c o l a s de Bailados do Municipal. Mais uma vez lá ia eu t r a b a l h a r com o E s t a d o . Dessa vez s u b s t i t u i n d o A d d y A d d o r , que b r i g a r a com professores, mães e p a i s p o r c a u s a de i n t e r f e r ê n c i a s de t o d o g ê n e r o em seu t r a b a l h o . É c u r i o s o n o t a r que sou s e m p r e l e m b r a d o nessas h o r a s , q u a n d o a b o m b a j á e x p l o d i u , q u a n d o os p r o b l e m a s j á c h e g a r a m a um p o n t o m u i t o a v a n ç a d o . Aí o Klauss é l e m b r a d o , p a r a colo- c a r um p o u c o de o r d e m . E n t r e i e logo n a p r i m e i r a r e u n i ã o senti o que iria e n f r e n t a r : a escola p a u l i s t a n ã o e r a nem p a r e c i d a com a c a r i o c a . E r a pior, m u i t o pior. P o r mais que a E s c o l a de B a i l a d o s do R i o tivesse seus ranços (os professores davam aulas p a r a o g r u p o profissional), havia · u m a ligação m í n i m a e n t r e os dois g r u p o s - a E s c o l a e o C o r p o de Baile - , coisa que não existia em a b s o l u t o em São P a u l o . P a r a c o m e ç a r , o p r é d i o da E s c o l a de B a i l a d o s p a u l i s t a n a ficava s e p a r a d o dos o u t r o s grupos, e m um local h o r r í v e l , d e b a i x o do v i a d u t o do Chá. Os professores, p o r o u t r o lado, n ã o m o s t r a v a m interesse em m o d i f i c a r n a d a , em a p r e n d e r n a d a . Mais do que n u n c a , ali senti que os cursos oficiais de balé n ã o levam a n a d a , as E s c o l a s de B a i l a d o s p o d e m e devem fechar p o r q u e é imposs:vel a p r e n d e r a l g u m a coisa s o b r e d a n ç a em suas aulas. Esses cursos g e r a l m e n t e são e n t r e g u e s a pessoas q u e a t é têm um c e r t o t a l e n t o , mas que n ã o conseguem fazer n a d a de c r i a t i v o devido ao c u r r í c u l o , aos p r o g r a m a s que n ã o p o d e m s e r a l t e r a d o s . Os p r o f e s s o r e s são todos formados p o r u m a t é c n i c a e u m a visão antigas da a r t e e estão lá e s p e r a n d o a a p o s e n t a d o r i a . U m a a p o s e n t a d o r i a , como se sabe, ridícula. 4 3 P o r t u d o isso, não há q u a l q u e r interesse p o r p a r t e dos pro- fessores em m o d i f i c a r seja o que for, e não falo a q u i especifica- mente da E s c o l a de Bailados de São P a u l o ou da do R i o , que conheci bem. A c r e d i t o que esse seja um fenômeno de t o d a escola oficial de d a n ç a , n o Brasil. · R e a f i r m o que essas escolas são inúteis p o r q u e seus q u a d r o s são f o r m a d o s p o r professores que têm uma m e n t a l i d a d e antiga, u l t r a p a s s a d a , uma visão c o n s e r v a d o r a d a árte. E são e x a t a m e n t e essas pessoas que formam crianças e jovens, que saem dessas escolas j á i n t e i r a m e n t e m a l f o r m a d a s e d e s i n f o r m a d a s em r e l a ç ã o à dança. A o invés de escolas oficiais de dança, deveriam ser c r i a d o s centros de reciclagem p a r a quem quisesse ser professor, p a r a que estes pudessem a c o m p a n h a r m e l h o r o que existe de mais m o d e r n o n a d i d á t i c a ou n a técnica da d a n ç a . Basta l e m b r a r que t o d o a l u n o de E s c o l a de Bailados, se tiver d i n h e i r o , e s t u d a t a m b é m em escolas p a r t i c u l a r e s , p o r q u e só 0 ensin<:J da escola oficial não basta. E m São P a u l o , p o r exemplo, e r a a mesma a u l a o ano i n t e i r o , a a u l a que o p r o f e s s o r d á :ao p r i m e i r o d i a é e x a t a m e n t e a mesma no último dia Não são mais a r t i s t a s , p o r t a n t o : são funcionários públicos da dança. As dificuldades são a b s u r d a s . Os professores ou e s t ã o prestes a se a p o s e n t a r , e n c e r r a r a c a r r e i r a , ou não se a p o s e n t a m p o r q u e n ã o têm mais n a d a a fazer. A o mesmo tempo, estão a c o s t u m a d o s com as m u d a n ç a s de d i r e ç ã o n a s escolas, diretores que e n t r a m cheios de p r o j e t o s n u n c a realizados. Assim, você p r o p õ e idéias e p l a n o s d u r a n t e as reuniões e a p a r e n t e m e n t e eles até aceitam, sequer discutem suas p r o p o s t a s . Mas, ao s a i r dali, simplesmente ignoram o que você disse e t u d o c o n t i n u a n a mesma. Uma escola nesses moldes mata a criatividade, a individuali- d a d e de q u a l q u e r a r t i s t a ou b a i l a r i n o . N a Escola de Bailados de São P a u l o , o a l u n o só ia p a r a o· palco depois de oito a n o s de aulas - e a d a n ç a só se a p r e n d e no palco. 4 4 E r a m 1 2 0 0 alunas, a p a r t i r dos sete anos, t o d a s elas meni- n i n h a s a c o s t u m a d a s a s o n h a r com a d a n ç a , com a M á r c i a , com a M a r g o t , com a A n a B o t a f o g o , e de r e p e n t e e n t r a m n u m a sala de a u l a e as o b r i g a m a a g a r r a r um p e d a ç o de p a u , a b r ir as p e r n i n h a s e ficar lá, h o r a s e horas, anos e anos, r e p e t i n d o exer- cícios em silêncio, sem q u a l q u e r explicação sobre a r e l a ç ã o e n t r e t u d o isso e a d a n ç a que elas sonham. E u quis m o d i f i c a r essas aulas e p r o p u s q u e as c r i a n ç a s tivessem apenas duas a u l a s de clássico p o r s e m a n a e u m a a u l a de d a n ç a c r i a t i v a - brincadeiraS, d a n ç a não-clássica, jogos - semanal, e isso seria o suficiente. Q u e r i a antes de t u d o m o s t r a r que a d a n ç a n ã o é só o clássico e que essas c r i a n ç a s deviam t e r espaço p a r a se descobrir. T e n t a n d o m o d i f i c a r a m e n t a l i d a d e vigente, levei p e s s o a s p a r a c o n v e r s a r com os p r o f e s s o r e s e p e d i s e m p r e p a r a q u e n ã o dei- xassem as c r i a n ç a s sem r e s p o s t a em seus q u e s t i o n a m e n t o s s o b r e a d a n ç a . É p r e c i s o e x p l i c a r a u m a c r i a n ç a p o r q u e se i n i c i a u m a a u l a n a b a r r a , q u a l a f u n ç ã o disso. E u l e m b r a v a que a c r i a n ç a é c u r i o s a e p r e c i s a s a b e r q u a l é a m o t i v a ç ã o q u e e s t á p o r t r á s d e c a d a gesto e m o v i m e n t o d e u m a aula. Se o p r o f e s s o r c o r t a , p r o í b e e s s a c u r i o s i d a d e , f e c h a ao mesmo t e m p o u m a série de músculos i n t e r n o s q u e fazem p a r t e d o s e r infantil. E esses músculos f i c a r ã o a d o r m e c i d o s a p a r t i r d a í . E n t ã o , p o r que c o m e ç a r u m a a u l a s e g u r a n d o u m a b a r r a ? P o r q u e q u a n d o começo a a n d a r e u seguro a mão d a m i n h a m ã e , d o meu pai. P o r que os pés abertos? P o r q u e c o m os pés a b e r t o s e n c o n t r o m e l h o r o m e u equilíbrio. É p r e c i s o r e s p o n d e r a essas c u r i o s i d a d e s , a essas a n s i e d a d e s , a esses q u e s t i o n a m e n t o s , p o r q u e as r e s p o s t a s v ã o a m p l i a n d o a c u r i o s i d a d e e é essa c u r i o s i d a d e q u e move o m u n d o , q u e m o v e o a r t i s t a , que move a c r i a n ç a . Se você n ã o t e m mais d ú v i d a s . ' e n t ã o só tem u m a s a í d a : p a r a r . E o mais t r á g i c o é d e s c o b r i r q u e 4 5 os professores não dão espaço para essas perguntas dos alunos por dois motivos: autoritarismo e ignorância. Eles também não sabem as respostas. Eu insistia que não queria programas de cursos - todo mundo sempre tem programas a propor -, mas sim que as crianças não ficassem sem respostas, tivessem consciência do que faziam. Levei Ruth Rachou e Célia Gouveia para dar aulas de dança moderna porque até aquele momento nunca havia sido dada uma só aula de moderno na Escola de Bailado; quase oito décadas depois do seu surgimento a dança moderna ainda não tinha conseguido entrar ali. Era como se não existisse: os pro- fessores e as direções anteriores eram contra. Para eles, o que não é clássico não serve. Propus que os alunos passassem a fazer espetáculos a partir do terceiro ano de aulas e as reações também foram contrárias: os professores não queriam coreografar, não tinha teatro, diziam que não ia ter público, não tinha iluminador. ~ntão, milagrosamente, os próprios alunos tomaram aquele trabalho nas maos e montaram tudo: coreografavam, convidavam alguém que soubesse coisas primárias sobre iluminação, os que tinham talento para a coisa criavam a cenografia. Consegui os teatros da Prefeitura durante o dia e as salas lotavam. Está certo que só com as mães e a família, mas durante algum tempo esses espetáculos foram realizados em São Paulo. Até minha saída da Escola de Bailados, em 1982,. Antes disso, abri a escola para a comunidade, para aqueles que não tinham condições de fazer aulas durante o dia. No curso noturno me vi diante de uma novidade: duzentos rapazes procu- raram a entidade. Tive que dar aula eu mesmo - os professores não queriam . trabalhar fora do horário nem eram obrigados a isso, é claro - e chamei o João de Bruçó, percussionista, que dava a esse grupo 46 um pouco mais de sensibilidade para a música e mostrava a rela- ção entre os movimentos e os sons. Foi esse curso noturno, aliás, que gerou a maior agressão que já sofri: quando_ o prefeito Jânio Quadros proibiu a entrada de homossexuais na escola, em 1987, dei uma entrevista dizendo que aquilo era autoritário. A noite, ao voltar para casa, fui agre- dido violentamente e mais uma vez acabei no hospital. Mas pouco se falou sobre isso. O Brasil está acostumado com sua própria intolerância. Perseguir minorias, aqui, faz parte da regra do jogo. Saí da Escola de Bailados para subir a rampa: fui para o Teatro Municipal dirigir o balé. Era, mais uma vez, o mesmo problema. Luís Arrieta, o diretor do grupo, estava brigado e re- solveu sair. Então o Chamie voltou a me chamar para tentar apaziguar os ânimos. Esse ia ser um novo desafio, - eu nunca dirigira um grupo de dança oficial, mas pensei que prqvavelmente não teria outra chance de passar por uma experiência dessas. E fui. No primeiro dia, entro na sala e encontro dezenas de bailarinos sentados no chão, me olhando, como se dissessem "o que é que você está fazendo aqui, se não gosta do clássico?" Sentei no chão também e disse o que pensava da dança, do clássico, da arte, o que pretendia fazer e pedi a eles um tempo, um mês, para ver se começávamos a nos gostar. Porque podia ser, disse, que eu também não gostasse deles. Nessa época o Balé do Municipal de São Paulo já tinha mudado todo o repertório, já dançava trabalhos modernos e belos, mas a mentalidade dos bailarinos ainda era a mesma. Tinham personalidade, mas não a nível pessoal. :e claro que os trabalhos de palco modificam um pouco a postura pessoal, mas ainda exis- tia todo um ranço antigo, de profissionais que não discutiam, não expunham suas opiniões. 47 P a r a c o m e ç a r , o d i r e t o r a r t í s t i c o d a c o m p a n h i a n ã o c o n v e r - s a v a com os b a i l a r i n o s : existia uma tabela, um p e d a ç o de p a p e l c o l a d o n a p a r e d e , e ali os p r o f i s s i o n a i s ficavam s a b e n d o d a s d e - cisões d i a r i a m e n t e . Os b a i l a r i n o s a p e n a s liam e o b e d e c i a m 0 q u e h a v i a s i d o e s t i p u l a d o . A p r i m e i r a c o i s a que fiz foi a b a n d o n a r a t a l t a b e l a . E p r o - p u s q u e b r i n c á s s e m o s um p o u c o , t e n t e i t i r a r a q u e l e c o n c e i t o d e q u e a d a n ç a tem q u e ser s é r i a e o d i r e t o r , u m a p e s s o a r a n z i n z a . Aos p o u c o s implantei no g r u p o essa l i b e r a l i z a ç ã o , p r o p u s um c o m p a n h e i r i s m o m a i o r e n t r e eles. Só depois é q u e s u g e r i a u m a a u l a d e p o n t a . Pedi a J o a n a L o p e s p a r a q u e desse aulas de t e a t r o , de in- t e r p r e t a ç ã o , e os b a i l a r i n o s c o m e ç a r a m a p e r c e b e r q u e a d a n ç a n ã o é só e s s a c o i s a artificial e i m p o s t a d a q u e f o r a m e n s i n a d o s a a c r e d i t a r . A d a n ç a - t o d a a r t e - tem e1ementos i n t e r n o s , subjetivos, pessoais. <;hamei J . C . V i o l l a p a r a m o n t a r u m e s p e t á c u l o , V a l s a das v i n t e veias. Q u e r i a i n i c i a r a g e s t ã o c o m um t r a b a l h o n o v o com , 'um cor~ografo q u e n u n c a h a v i a t r a b a l h a d o com eles e u m t i p o de m o v i m e n t o que n u n c a h a v i a m feito. V i o l l a t r o u x e N a u m Alves de S o u z a e P a t r í c i o Bisso e a c o n v i v ê n c i a com esses a r t i s t a s foi n a t u r a l m e n t e m o d i f i c a n d o a m e n t a l i d a d e dos b a i l a r i n o s . Mas havia coisas que se repetiam, a p e s a r de u l t r a p a s s a d a s : o a s s i s t e n t e de c o r e ó g r a f o , p o r exemplo, ficava n a p l a t é i a d u r a n t e os ensaios e a n o t a v a q u a n d o alguém l e v a n t a v a as p e r n a s assim o u assado, q u a n d o e s t a v a c o m o b r a ç o e r r a d o . E e u d i s s e : " N ã o . - ' Isso n a o me interessa. Q u e r o q u e e x i s t a emoção e i n t e n ç ã o n o s gestos. N ã o me i m p o r t a a f o r m a " . M o s t r e i a eles que o O s c a r Arais t i n h a m o n t a d o u m a c o r e o - g r a f i a l i n d í s s i m a t e m p o s antes, e r a um t r a b a l h o q u e c o m e ç a v a com o t o r n o z e l o g i r a n d o , p a s s a v a p a r a o joelho, p a r a o q u a d r i l , 48 p a r a o t r o n c o e t e r m i n a v a e m um x a l e q u e fazia u m a s é r i e d e m o v i m e n t o s r e d o n d o s q u e , no fim, g e r a v a m n o v o s m o v i m e n t o s . .E o q u e foi q u e a c o n t e c e u ? E l e s se p r e o c u p a v a m e m s a b e r se o q u a d r i l a t r a s o u , se o b r a ç o l e v a n t o u n a a l t u r a c e r t a , e em t r ê s s e m a n a s a c o r e o g r a f i a n ã o t i n h a mais n a d a a v e r c o m o q u e o A r a i s t i n h a p r o p o s t o : t u d o se t r a n s f o r m o u e m p u r a f o r m a . T e n t e i m o s t r a r q u e q u a n d o l e v a n t o o b r a ç o f o r a d a h o r a n ã o é p o r q u e e s t o u e r r a d o n a c o n t a g e m : é m i n h a e m o ç ã o q u e e s t á mal c o l o c a d a , é m i n h a i n t e n ç ã o q u e e s t á t r a v a d a . P o s s o f a z e r c o n t a g e n s d i á r i a s d a m ú s i c a n a c o r e o g r a f i a , mas isso n ã o vai f a z e r de mim u m b o m b a i l a r i n o . N ã o a d i a n t a i n s i s t i r nesse c a m i n h o : q u a n t o mais você insiste, mais p e r d e s u a e s p o n t a n e i - d a d e , s u a i n d i v i d u a l i d a d e , e um a r t i s t a é, antes d e t u d o , um i n d i v í d u o . U m macaco, q u a n d o p e g a u m a b a n a n a , p o r mais p r i m á r i o e simples q u e s e j a o gesto, h á nele u m a f o r m a d i t a d a p e l o desejo, p e l a vontade, p e l a n e c e s s i d a d e : ele sabe, digamos assim, p o r q u e está fazendo aquilo, p a r a que está se m o v e n d o em d i r e ç ã o à b a n a n a . E n t ã o , o u e u consigo f a z e r u m a r e l a ç ã o e n t r e a m i n h a téc- n i c a de d a n ç a e a v i d a c o t i d i a n a o u a l g u m a c o i s a e s t á m u i t o e r r a d a com essa técnica. Aí, n ã o h á como d u v i d a r : n ã o é a v i d a q u e e s t á e n g a n a d a . Eu tinha visto um e s p e t á c u l o d a M a r a B o r b a - C e r t a s m u l h e r e s , com Sônia M o t a , S u z a n a Y a m a u c h i e a p r ó p r i a M a r a - e ! p r o p u s q u e o t r a b a l h o fosse r e m o n t a d o . P e l a p r i m e i r a vez u m a ~ailarina d a n ç o u com os seios n u s n o B a l é d o M u n i c i p a l e isso c~sou t o d o t i p o de b r i g a . M a s esses e r a m e l e m e n t o s n o v o s q u e se incorpo~~am ao grupo e ao t r a b a l h o . A i n d a assim, e r a p o u c o : p e d i ao g r u p o q u e lesse os j o r n a i s d i á r i o s , pedi q u e a S e c r e t a r i a da C u l t u r a m a n d a s s e l i v r o s s o b r e 49 h i s t ó r i a d a a r t e p a r a os b a i l a r i n o s . A g e n t e d i s c u t i a s e m p r e e s s a t e n d ê n c i a q u e o b a i l a r i n o t e m de v i v e r e m u m a r e d o m a d e v i d r o . E u f a z i a q u e s t ã o , n e s s a p r i m e i r a fase, q u e eles f o s s e m s e r e s h u m a - n o s , e n ã o a p e n a s b a i l a r i n o s . Q u a n d o a c o i s a c o m e ç o u a t o m a r u m c e r t o r u m o , v i q u e s e r i a b o m c o l o c a r s a n g u e n o v o n o g r u p o . E u e r a t o t a l m e n t e fa- v o r á v e l à q u e l a g e n t e t o d a q u e fazia d a n ç a f o r a d o M u n i c i p a l , f o r a de u m g r u p o oficial, g e n t e c o m o S ô n i a M o t a , D e n i l t o G o - mes, S u z a n a Y a m a u c h i , M a r a B o r b a , I s m a e l Ivo! J o ã o M a u r í c i o , M a z é C r e s c e n t i , g e n t e t a l e n t o s a q u e t r a b a l h a v a s o z i n h a e s e m e s p a ç o p a r a e n s a i a r . E me p e r g u n t a v a : o q u e i r i a a c o n t e c e r c o m e s s a g e n t e t o d a l á n o M u n i c i p a l ? M i n h a i d é i a e r a d a r a eles a p o s s i b i l i d a d e d e e s p a ç o e m a t e r i a l p a r a q u e c r i a s s e m e m o s t r a s s e m s e u t a l e n t o . D e s s a f o r m a , c r i e i o G r u p o E x p e r i m e n t a l , p r i m e i r o d o g ê n e r o e m t o d a a h i s t ó r i a d e g r u p o s o f i c i a i s n o p a í s . _Montamos o B o l e r o , d e R a v e l , c o m E m i l i e . C h a r n i e o r g a n i - z a n d o t u d o e L i a R o b a t t o c o r e o g r a f a n d o . O u m e l h o r : e r a m o s b a i l a r i n o s q u e p r o p u n h a m os m o v i m e n t o s e a L i a d i z i a " i s s o s e r - ve, i s s o n ã o s e r v e " . E l a a n a l i s a v a c a d a m o v i m e n t o e f a z i a a s l i g a ç õ e s . P e l a p r i m e i r a vez a q u e l e g r u p o t i n h a l i b e r d a d e p a r a im- p r o v i s a r , p a r a e r r a r , p a r a e x p e r i m e n t a r . O r e s u l t a d o foi u m e s p e - t á c u l o b e l í s s i m o , u m s u c e s s o t o t a l . A c a b e i g a n h a n d o m a i s u m p r ê m i o d a A P C A , c o m o d i r e t o r a r t í s t i c o d o m e l h o r e s p e t á c u l o d e d a n ç a d o a n o . D e p o i s veio A dama das camélias, ú l t i m o t r a b a l h o s o b a g e s t ã o de C h a m i e n a S e c r e t a r i a . A i d é i a d o J o s é P o s s i N e t o e r a m a r a v i l h o s a , a l e i t u r a e r a l i n d a , mas a e x e c u ç ã o foi u m h o r r o r . O m o t i v o p r i n c i p a l e r a a f a l t a de u m c o r e ó g r a f o c e n t r a l , q u e r e u n i s s e o t r a b a l h o d e c a d a i n t e g r a n t e . F i c o u u m a c o i s a s e m n e x o , sem l i g a ç ã o , d e s c o s t u r a d a . U m d e s a s t r e t o t a l . 5 0 A í h o u v e a m u d a n ç a d e g o v e r n o , e o c r í t i c o F á b i o M a g a - l h ã e s p a s s o u a ser o r e s p o n s á v e l p e l o B a l é d o T e a t r o M u n i c i p a l . R e c e b i r e c a d o s d a n d o c o n t a de q u e e l e g o s t a r i a q u e e u c o n t i - n u a s s e d i r i g i n d o o g r u p o , m a s q u e d e v i a m o d i f i c a r a l i n h a d o s t r a b a l h o s , q u e o s e s p e t á c u l o s e s t a v a m e x p e r i m e n t a i s d e m a i s e q u e 0 g r u p o d e v i a d a n ç a r c o m o o b a l é d o M u n i c i p a l d o R i o . C l a r o , fui at é ele e disse q u e o t r a b a l h o q u e s e f a z i a n o R i o é u m t i p o de d a n ç a q u e n ã o sei f a z e r , n ã o g o s t o d e f a z e r e n ã o i r i a fazer. A s o l u ç ã o , s i m p l e s , e r a a m i n h a s a í d a d a d i r e ç ã o d o g r u p o . A í , n o e n t a n t o , a c o n t e c e u u m a c o i s a e x t r a o r d i n á r i a : o s b a i l a r i n o s se r e v o l t a r a m , f o r a m aos j o r n a i s , p u b l i c a r a m m a n i f e s - tos e x i g i n d o m i n h a p e r m a n ê n c i a . C o m o b o m s a r g e n t o , o c r í t i c o d e a r t e - e r e p r e s e n t a n t e d e u m g o v e r n o q u e se d i z i a l i b e r a l - F á b i o M a g a l h ã e s r e s p o n d e u d i z e n d o q u e q u e m d e c i d i a a q u e l e a s s u n t o e r a a S e c r e t a r i a , q u e os b a i l a r i n o s e s t a v a m s e n d o i n s u b o r d i n a d o s e q u e n ã o d e v i a m d a r e n t r e v i s t a s s e m s e u c o n s e n t i m e n t o . A c o i s a c o m e ç o u a s e a r r a s t a r e m d i s c u s s õ e s i n t e r m i n á v e i s e vi q u e m i n h a p r e s e n ç a p a s s o u a a t r a p a l h a r o t r a b a l h o d o g r u p o . P e d i d e m i s s ã o . A n t e s , n o e n t a n t o , p u b l i q u e i u m c o m u n i c a d o a o p ú b l i c o , e x p l i c a n d o o q u e e s t a v a o c o r r e n d o . P a r t e s d e s s e c o m u - n i c a d o e s t ã o a q u i : " E s t a m o s n u m m o m e n t o d e crise. M a s o q u e é u m a c r i s e e o q u e isso t e m a v e r c o m o p r o j e t o q u e e s t a m o s p r o p o n d o ? S o m o s b a i l a r i n o s e, p o r t a n t o , n a d a m e l h o r p a r a e x p r e s s a r n o s s o p o n t o d e vista d o q u e o m o v i m e n t o . " E m t o d o p r o c e s s o de m u d a n ç a , d e e v o l u ç ã o , e x i s t e u m m o - m e n t o c r í t i c o e i n s t á v e l , c o m o n o c a m i n h a r : n o m o m e n t o e m q u e e s t a m o s d a n d o u m p a s s o à f r e n t e e n o s e n c o n t r a m o s c o m u m p é n o c h ã o e o u t r o n o a r c o r r e m o s o risco d e d e s e q u i h b r i o e d a q u e d a . É a c r i s e - mas é t a m b é m s o m e n t e a t r a v é s d e s s e r i s c o q u e p o d e m o s a l c a n ç a r n o s s o o b j e t i v o . S l "E qual é a transformação que está ocorrendo? Mudanças políticas, democracia, abertura, integração. A nós, artistas, cabe captar esse momento histórico e expressá-lo dentro de nossa lin- guagem, com isso contribuindo na expansão desses ideais. "O Balé da Cidade de São Paulo não foge à regra, seu tra- balho foi sempre precursor de novas tendências. São Paulo é o pólo cultural ~o país e esta polaridade vem justamente do fato de ser o estado que, por razões políticas. e econômicas, mais se transforma e, portanto, gera e propõe o novo. A companhia ofi- cial de dança tem o compromisso de catalisar e representar o espírito dessa cidade. "O momento é de democracia, de poder optar e opinar. O momento é de abertura, de poder ampliar o campo de atuação dos bailarinos, de abrir nossas portas para a comunidade que nos sustenta e ir até ela, levando a dança para espaços que ainda não foram utilizados, para os bairros, escolas, praças, para o interior. O momento é de abertura de novas idéias e linguagens." Saí e fui para o Centro Cultural. Haviam aberto uma sala para oficinas de pesquisas e fui trabalhar com Fauzi Arap em um trabalho sobre musicais. Mas também isso durou pouco: 0 governo logo mudou - e cada governo, no Brasil, toma posse da cultura e impõe novos projetos e pessoas - e eu tive que sair. Foi ótimo: aprendi que não dá para trabalhar com arte oficial e jurei que nunca mais entro nessa. ' Voltei ao teatro em 1984, depois de sete anos, participando da montagem de Mão na luva, de Oduvaldo Vianna Filho, co~ Marco Nanini e Juliana Carneiro da Cunha e direção de Aderbal Júnior. Aderbal é uma pessoa muito aberta e, quando viu minha aula, resolveu montar o espetáculo como se fosse um pas-de-dex, como uma coreografia com palavras. Anos depois, em 1987, montei enfim um trabalho de dança depois de décadas como professor e pesquisador: Dadá, um espe~ 52 táculo com apenas três bailarinos - meus alunos há anos -, um percussionista-ator, um pianista, um grupo de percussão e um coral. O espetáculo buscava um pouco da minha visão agora pau- listana do que sejà o ser humano, essa visão a partir da megaló- pole, desse monstro que é São Paulo - um monstro onde, talvez exatamente por isso, as relações entre as pessoas é mais pro- funda, mais sincera. Dadá buscava isso: a dança, para mim, não é apenas espe- táculo. Ali coloquei minhas ansiedades e questionamentos, depois de 40 anos de reflexão e de trabalho. Mas a pretensão também não era pouca: quis colocar em um espetáculo uma forma de expressão viva e singular, que pudesse transcender a sala de aula e ganhar os palcos, as ruas, a vida. 53 V I E s t a r n o m u n d o M o v i d o p o r m i n h a s c u r i o s i d a d e s e i n s a t i s f a ç õ e s , p r o c u r e i r e f e r ê n c i a s e i n f o r m a ç õ e s e m t u d o o q u e , p a r a m i m , s e c a r a c t e - r i z a s s e c o m o u m a p e s q u i s a s é r i a e h o n e s t a e m r e l a ç ã o à d a n ç a , a o t e a t r o , a o c o r p o . L ó g i c o q u e , n e s s a b u s c a , c e r t a s i n f l u ê n c i a s v i e r a m d e t u d o o q u e me s e n s i b i l i z o u p r o f u n d a m e n t e . M a s n u n c a m e a f a s t e i d a s m i n h a s i n t u i ç õ e s . p s s a b u s c a n ã o a c a b o u , n o e n t a n t o . C o n t i n u a viva, à m e - d i d a q u e s i n t o n e c e s s i d a d e d e n o v a s r e s p o s t a s . A s s i m c o m o m e d e t i v e em d e t a l h e s do n o s s o c o r p o , d e n o s s a c a p a c i d a d e e x p r e s - siva, assim c o m o m e u a p r e n d i z a d o v e m o c o r r e n d o c o m o u m j o g o d e e n c a i x e s - c 9 m a i n c e s s a n t e u n i ã o d e u m a n o v a p e ç a a o t o d o i n f i n i t o - , a c r e d i t o , q u e o c o n t e ú d o d e s t e l i v r o t a m b é m s u r g i r á c o m o um a m o n t o a d o d e i d é i a s e q u e s t õ e s q u e t ê m , n o f u n d o , u m a e s s ê n c i a c o m u m . P o r t u d o isso, sei q u e e s t e t r a b a l h o n ã o e s t á p r o n t o n e m f i c a r á p r o n t o n u n c a : s ã o o b s e r v a ç õ e s , r e f l e x õ e s , s e n s a ç õ e s q u e se m o d i f i c a m e se a m p l i a m n o d i a - a - d i a , n a s a l a d e a u l a , n o m e u e n c o n t r o c o m i g o mesmo. À s vezes m e p e r g u n t a m c o m o é q u e se c h a m a e s s a t é c n i c a e c o n f e s s o q u e n ã o sei. E u . a p e n a s q u e r o l a n ç a r a s e m e n t e . U m a vez s o l t a s em t e r r a g e n e r o s a , essas s e m e n t e s p r o v o c a r ã o r e a ç õ e s . A l g u m a s d e s s a s s e m e n t e s e s t ã o n a s p r ó x i m a s p á g i n a s . 5 4 Q u e r o e s c l a r e c e r q u e , a o c o n t r á r i o d o q u e m u i t a g e n t e p e n s a , m e u t r a b a l h o n ã o é u m a t e r a p i a n e m s e r v e p a r a t a l . :E:. c e r t o q u e s ã o m a i o r e s as p o s s i b i l i d a d e s d e r e s o l v e r m o s n o s s o s p r o b l e m a s à m e d i d a q u e c o n s e g u i m o s fo r m u l á - l o s . C o n t u d o , e s s e p r o c e s s o , q u a n d o a p l i c a d o s o m e n t e a o c o r p o , é i n s u f i c i e n t e . O t r a b a l h o c o r p o r a l t e m u m a d i m e n s ã o t e r a p ê u t i c a n a m e d i d a e m q u e t o m a o c o r p o c o m o • '"~~"'ncia d i r e t a d e n o s s a e x i s t ê n c i a m a i s p r o - f u n d a . P o r é m , m e u t r a b a l h o n ã o t e m o p o d e r n e m a p r e t e n s ã o d e r e s o l v e r t e n s õ e s c r ô n i c a s q u e n o s a c o m p a n h a m v i d a a f o r a . :E:. difícil v i v e n c i a r c o m i n t e n s i d a d e n o s s a s e m o ç õ e s e s e n t i - m e n t o s m a i s p r o f u n d o s . P o r vezes, esse e n f r e n t a m e n t o a s s u m e a c o n o t a ç ã o d e u m r i s c o , q u e n e m t o d o s e s t a m o s d i s p o s t o s a e n - f r e n t a r . A c o s t u m a d o s a i n t r o j e t a r a o r d e m à n o s s a v o l t a , h a b i - t u a m o - n o s a n ã o o l h a r , n ã o o u v i r , n ã o s e n t i r i n t e n s a m e n t e e d e s - p r e z a r a i m p o r t â n c i a d o s f a t o s e a c o n t e c i m e n t o s m e n o r e s , q u a s e i m p e r c e p t í v e i s - e m b o r a f u n d a m e n t a i s . Q u a n d o t r a b a l h a m o s o c o r p o é q u e p o d e m o s p e r c e b e r m e l h o r e s s e s p e q u e n o s e s p a ç o s i n t e r n o s , q u e p a s s a m a s e m a n i f e s t a r a t r a v é s d a d i l a t a ç ã o . Só e n t ã o esses e s p a ç o s r e s p i r a m . O s e s p a ç o s c o r r e s p o n d e m às d i v e r s a s a r t i c u l a ç õ e s d o c o r p o , o n d e é p o s s í v e l l o c a l i z a r i m p o r t a n t e s f l u x o s e n e r g é t i c o s e o n d e se i n s e r e m o s v á r i o s g r u p o s m u s c u l a r e s . N o s e u s e n t i d o m a i s a m p l o , a i d é i a d e e s p a ç o c o r p o r a l e s t á i n t i m a m e n t e l i g a d a à i d é i a d e r e s p i r a ç ã o - q u e , a o c o n t r á r i o d o q u e p e n s a m o s , n ã o se r e s u m e à e n t r a d a e à s a í d a do a r p e l o n a r i z . N a v e r d a d e , o c o r p o n ã o r e s p i r a a p e n a s a t r a v é s d o s p u l m õ e s . E m l i n g u a g e m c o r p o r a l , f e c h a r , c a l c i f i c a r e e n d u r e c e r s ã o c;inônimos d e a s f i x i a , d e g e n e r a ç ã o , e s t e r i l i d a d e . R e s p i r a r , a o c o n t r á r i o , s i g n i f i c a a b r i r , d a r e s p a ç o . P o r t a n t o , s u b t r a i r os e s p a ç o s c o r p o r a i s é o m e s m o _gue i m p e d i r a r e s p i r a ç ã o , b l o q u e a n d o o r i t m o l i v r e e n a t u r a l d o s m o v i m e n t o s . I m a g e m m u i t o f o r t e d e n o s s a e m o ç ã o , a r e s p i r a ç ã o 55 r e p r e s e n t a n o s s a t r o c a c o m o m u n d o . H á dias em que e s t a m o s mais e m o c i o n a d o s , mais tristes, o u alegres, o u ansiosos, o u eufó- ricos e t o d a n o s s a r e s p i r a ç ã o se m o d ü i c a . A r e s p i r a ç ã o a b r e espaço p a r a p e r c e b e r m o s m u s c u l a t u r a s mais p r o f u n d a s que, sim- · b o l i c a m e n t e , c h a m a r e m o s de m u s c u l a t u r a s d a emoção. O p r i m e i - ro p a s s o em d i r e ç ã o a u m a m a i o r h a r m o n i a i n t e r n a é d e i x a r o a r p e n e t r a r fundo em nosso c o r p o . Q u a n d o um a t o r o u b a i l a r i n o se e x p r e s s a mal, mais d o q u e uma limitação técnica o que f a l t a a esses i n t é r p r e t e s é r i t m o uni- versal. B l o q u e a r o u n ã o s a b e r l i d a r com a r e s p i r a ç ã o , c o m a e x p a n s ã o e o r e c o l h i m e n t o que c o n d u z e m o r i t m o i n t e r n o só c o n - tribui p a r a c r i a r c o u r a ç a s no corpo. Pessoas de c o r p o inexpres- sivo e s t ã o p r i v a d a s de oxigenação. A p a r t i r d o m o m e n t o em que b l o q u e a m o s o u dificultamos n o s s a r e s p i r a ç ã o i n t e r n a , c o m e ç a m o s a m a t a r n o s s a sensibilidade, a i n t u i ç ã o , t o d o o c o r p o . Q u a n d o p o d a m o s a expressividade de nosso c o r p o , i m p e d i n d o q u e res- p i r e , e s t a m o s c o r t a n d o nosso c o r d ã o umbilical com o m u n d o . Q u a n d o o som p e n e t r a em nossos ouvidos - falo d o som h a r m ô n i c o , musical, do som i d e a l p a r a J i m a s a l a de a u l a - surge u m a r e a ç ã o i n t e r n a : esse som t e m u m a v i b r a ç ã o e, ao c a p t á - l o , nosso c o r p o g e r a movimento. É um p r i n c í p i o i n g o v e r n á v e l q u e p o d e m o s a p r e n d e r a d o m e s t i c a r . I s a d o r a D u n c a n t r a b a l h o u os cinco s e n t i d o s : u s a v a a emo- ção q u e existe n o fato d e o l h a r o m a r , c a m i n h a r descalço, o u v i r os sons d o c o t i d i a n o . E l a n ã o e r a i n d i f e r e n t e ao m u n d o em que vivia. E x i s t e u m a m u s c u l a t u r a d a e m o ç ã o e os b a i l a r i n o s , o s a t o - res e t o d o s os seres h u m a n o s p r e c i s a m se c o n s c i e n t i z a r d e l a . P o r que os animais n a floresta não precisam de ginástica? Pegue um b i c h o desses e c o l o q u e e n t r e q u a t r o p a r e d e s : em três meses e s t a r á gordo, flácido, p e r d e n d o pêlos e d o e n t e . O mesmo a c o n t e c e co- 56 nosco se p e r d e m o s nossos impulsos, se d e i x a m o s nossos s e n t i d o s amortecidos, i g n o r a n d o o m u n d o que nos cerca. Sempre digo em m i n h a s aulas que é p r e c i s o d a r e s p a ç o , um e s p a ç o novo em mim p a r a que s u r j a m coisas novas. U m a l e n d a c o n t a que um s á b i o o c i d e n t a l foi fazer u m a visita a u m mestre o r i e n t a l e quis s a b e r o que t e r i a a a p r e n d e r , ainda. O o r i e n t a l , e n t ã o , p a g o u u m a x í c a r a d e . chá e C<?meçou a e n c h e r , e n c h e r , encher. E disse: " V o c ê j á chegou com a x í c a r a cheia. Q u e mais p o s s o o f e r e c e r ? " É isso: p r e c i s a m o s esvaziar a x í c a r a . A o b s e r v a ç ã o e o q u e s t i o n a m e n t o s ã o i m p o r t a n t e s em t o d o lugar, em t o d a a v i d a - inclusive em u m a s a l a de a u l a d e d a n ç a . É p r e c i s o o b s e r v a r a p e s s o a que está a s e u l a d o n a sala, desco- b r i r p o r q u e · e l a é s i m p á t i c a o u a n t i p á t i c a e n o t a r quais as mus- c u l a t u r a s que· regem d i a n t e dessa s i m p a t i a o u a n t i p a t i a . P o r isso, p e ç o sempr~ que os a l u n o s t r a b a l h e m c a d a d i a p e r t o d e u m a p e s s o a diferente, p a r a s e n t i r que existe essa c o i s a que n ã o sabe- mos e x a t a m e n t e o q u e é e q u e v a g a m e n t e c h a m a m o s energia. O p r i m e i r o a p o i o , o a p o i o b á s i c o q u e t o d o s t e m o s é o solo. Mas mesmo em u m a s a l a d e a u l a d e d a n ç a a r e l a ç ã o c o m esse a p o i o é mínima. As vezes as pessoas e s t ã o d e i t a d a s n o c h ã o e p a r e c e m l e v i t a r : é m u i t o difícil o c o n t a t o , a e n t r e g a , a c o n f i a n ç a . Algumas p a r t e s do c o r p o se e n t r e g a m às pessoas e aos o b j e t o s , mas o u t r a s n ã o . Q u a nd o u m a t é c n i c a a r t í s t i c a n ã o t e m um s e n t i d o u t i l i t á r i o , se n ã o me a m a d u r e c e nem me faz crescer, se n ã o me l i v r a d e t o d o s os falsos conceitos que me são j o g a d o s desde a i n f â n c i a , se n ã o facilita meu c a m i n h o em direção a o a u t o c o n h e c i m e n t o - e n t ã o n ã o faço arte, m a s a p e n a s u m a r r e m e d o d e arte. N ã o sou um b a i l a r i n o , mas u m mímico, o p i o r g ê n e r o de mímico. C o n h e - 5 7 ço a p e n a s a f o r m a , q u e é fria, e s t á t i c a e r e p e t i t i v a e n u n c a m e a v e n t u r o n a g r a n d e v i a g e m d o m o v i m e n t o , q u e é v i d a e s e m p r e t e n t a n o s t i r a r d o ciclo n e u r ó t i c o d a r e p e t i ç ã o . Se a d a n ç a s e t o r n a a d u l t a em mim, se l e v a n t a r o b r a ç o é u m p r o c e s s o q u e c o n h e ç o i n t i m a m e n t e , q u e c o n h e ç o c o m o m e u , p o s s o e n t ã o c r i a r um gesto m a d u r o , i n d i v i d u a l . À m e d i d a q u e t r a b a l h a m o s , é p r e c i s o b u s c a r a o r i g e m , a e s s ê n c i a , a h i s t ó r i a d o s g e s t o s - f u g i n d o d a r e p e t i ç ã o m e c â n i c a d e f o r m a s v a z i a s e p r é - f a b r i c a d a s . Só assim o t r a b a l h o r e s u l t a r á e m u m a c r i a ç ã o o r i g i - n a l , e m u m a t é c n i c a q u e é m e i o e n ã o fim, p o i s a t é c n i c a só t e m u t i l i d a d e q u a n d o se t r a n s f o r m a em u m a s e g u n d a n a t u r e z a d o a r t i s t a . Se o b a i l a r i n o n ã o se t r a b a l h a c o m o s e r h u m a n o , c o m o p e s - s o a , se n ã o t e m a m a d u r e c i m e n t o p a r a e n f r e n t a r s i t u a ç õ e s m a i s difíceis, s u a a r t e s e r á d e f i c i t á r i a . É assim t a m b é m n a a u l a : é p r e - ciso q u e e u v i v e n c i e m u i t a s e m u i t a s vezes u m m o v i m e n t o . N ã o a d i a n t a e n t e n d ê - l o , r a c i o n a l i z a r c a d a g e s t o - é p r e c i s o r e p e t i r e r e p e t i r , p o r q u e é n e s s a r e p e t i ç ã o , c o n s c i e n t e e s e n s í v e l , q u e o gesto a m a d u r e c e e p a s s a a s e r meu. A p a r t i r d a í t e m o s a c a p a c i - d a d e d e c r i a r m o v i m e n t o s p r ó p r i o s e c h e i o s d e i n d i v i d u a l i d a d e e b e l e z a . A d a n ç a m o d e r n a p r o p õ e e m p r i m e i r o l u g a r o c o n h e c i m e n t o d e si e o a u t o d o m í n i o . M i n h a p r o p o s t a é e s s a : a t r a v é s d o c o n h e - c i m e n t o e d o a u t o d o m í n i o c h e g o à f o r m a , à m i n h a f o r m a - e n ã o o c o n t r á r i o . É u m a i n v e r s ã o q u e m u d a t o d a a e s t é t i c a , t o d a a r a z ã o d o m o v i m e n t o . A t é c n i c a n a d a n ç a t e m a p e n a s u m a f i n a l i d a d e : p r e p a r a r o c o r p o p a r a r e s p o n d e r à e x i g ê n c i a d o e s p í - r i t o a r t í s t i c o . Dizem q u e vivemos n a e r a do c o r p o , d a p r e o c u p a ç ã o c o m a c h a m a d a e x p r e s s ã o c o r p o r a l , mas a f i r m o q u e n u n c a v i v e m o s 5 8 u m a a u s ê n c i a t ã o g r a n d e d o c o r p o : a p r e o c u p a ç ã o c o m o físico se t o r n o u o u t r a d r o g a , o u t r a f o r m a d e f u g a e a l i e n a ç ã o - e m vez d e á l c o o l , m a c o n h a o u c o c a í n a as p e s s o a s s e d r o g a m n a s a u l a s . Q u a n d o d i r i g i o B a l é d o T e a t r o M u n i c i p a l d e S ã o P a u l o m a n d e i c o l o c a r u m a c o r t i n a s o b r e o e s p e l h o d a s a l a d e a u l a . E m alguns d i a s t r a b a l h á v a m o s e m f r e n t e a o e s p e l h o , e m o u t r o s f i c á v a m o s sem ele. A p r o p o s t a e r a m u d a r a d i r e ç ã o d a p o s i ç ã o d e c a d a b a i l a r i n o n a s a l a . I s s o t o r n a a a u l a v i v a e, assim, e n t r a m em a ç ã o m u s c u l a t u r a s d i f e r e n t e s d o c o r p o . A o b r i g a t o r i e d a d e d a o b s e r v a ç ã o m e faz m a i s vivo, me faz o u v i r m a i s , m e f a z o l h a r c o m a t e n ç ã o , faz c o m q u e r e f l i t a e t e n h a i n f o r m a ç õ e s d i f e r e n t e s s o b r e m e u c o r p o . T o d o g e s t o t e m t r ê s fases: s u s t e n t a ç ã o , r e s i s t ê n c i a e p r o j e - ç ã o . Q u a l q u e r g e s t o d e s t i t u í d o d e u m a d e s s a s fases p e r d e s u a i n t e n ç ã o . Q u a n d o d i z e m o s q u e F u l a n o t e m u m m o v i m e n t o c l a r o é p o r q u e F u l a n o t e m u m t r a b a l h o b e m - f e i t o e m s e u s g e s t o s , s u a m u s c u l a t u r a t r a z o s e n t i d o c o m u m a e s s a s t r ê s fases. P o r e x e m - p l o : p r i m e i r o você p e n s a e m v i a j a r , s u s t e n t a e s s a i d é i a , d e p o i s r e s i s t e - a i n d a q u e t e m p o r a r i a m e n t e - e só e n t ã o a e x e c u t a . É u m a c a r a c t e r í s t i c a e x c l u s i v a m e n t e h u m a n a e s s a n e c e s s i d a d e d e t e m p o . N a d a n ç a é a m e s m a coisa. M a s é l ó g i c o q u e a p e s s o a n ã o p r e c i s a d e c o m p o r d e s s a f o r m a c a d a g e s t o n o p a l c o . É p r e c i s o m u i t a f l e x i b i l i d a d e m e n t a l p a r a d a n ç a r . A c h o q u e se n ã o se c o m e ç a r o t r e i n a m e n t o d o b a i l a r i n o p e l a c a b e ç a n u n c a se c h e g a r á a l u g a r a l g u m . P i n a B a u s c h d i z q u e e s c o l h e as p e s s o a s c o m q u e m v a i t r a b a l h a r n ã o p e l a t é c n i c a q u e e x i b e m , m a s p e l o q u e p e n s a m . E l a c o n v i v e c o m as p e s s o a s dois, t r ê s d i a s , e só e n t ã o as e s c o l h e - o u n ã o . A t é c n i c a , h o j e em d i a , t o d o m u n d o a p r e n d e . M a s a t é c n i c a n ã o é n a d a s e m as i d é i a s , a p e r s o n a l i d a d e d o b a i l a r i n o . 5 9 Toda a deformação da dança, no Brasil, começa no ensino. Quando eu estava na Escola de Bailados, em São Paulo, expli- quei aos professores que a criança é um ser muito sensível, um ser humano em formação, que é preciso incentivar a curiosidade, as perguntas, o interesse pelas aulas, responder às dúvidas, ter cuidado com o tom de voz, explicar, explicar sempre. Ainda assim, vi professoras massacrando as alunas, repetindo palavras de ordem como "relaxa, relaxa, relaxa" e dizendo que foi o dire- tor quem mandou. Na Bahia eu dizia aos professores que a nota dada aos alunos destinava-se no fundo a eles próprios, profes- sores. Se a pessoa foi até ali para aprender, se quer descobrir a técnica da dança e o professor não tem competência para se comunicar, o problema não é do aluno: é o professor quem pre- cisa se resolver. A nota que todo professor dá a um aluno é um reflexo de si mesmo. Todas as ansiedades, questionamentos e dúvidas têm origem e resposta em mim e isso determina minha postura frente ao mundo exterior. Aplicada a uma aula de dança, essa verdade toma vulto e as mesmas relações que existem no dia-a-dia aflo- ram. Por isso não concordo com os que dizem que, ao entrarnuma sala de aula, é preciso deixar os problemas lá fora. Im- possível, pois minhas angústias e tensões estão presentes em meu corpo, em meus gestos. Durante a aula é impossível camuflar, esconder o que sinto, o que trago do cotidiano. Em vez de repri- mir esses sentimentos é possível trabalhá-los, dimensionando-os de forma mais equilibrada. ·É fundamental trabalhar com essa consciência. A repetição dos movimentos em uma sala de aula leva - ou deveria levar - à observação de nossas dificuldades. Nossas articulações funcionam como alavancas que conduzem nossos mo- vimentos. Se faço um movimento e coloco a tensão em um ponto que não é o ideal, meu corpo faz uma compensação de forças. 60 Somente a consciência do gesto me fará levar essa tensão para o ponto certo. • O que é uma técnica? Para mim, além de estética, a técnica tem que ter um sentido utilitário, claro e objetivo. De que me adianta saber fazer movimentos belos e complexos se isso não me amadurece nem me faz crescer? Se não me faz abandonar os falsos conceitos competitivos da dança e da arte, de que me adianta essa técnica? Um dos requisitos básicos de um movi- mento é que ele seja claro e objetivo - a beleza surge daí. Toda verdade é forte e bela. A arte não é gratuita: se não aprendo com ela, se não cresço com ela, então é a mesma coisa que não fazer nada. Como bailarino, preciso colocar minha personalidade a serviço da dança e de cada personagem que faço. :E: ridículo ouvir pessoas dizendo, no final de um espetáculo, "puxa, como ela levanta alto a perna!" ou "como ele salta, que beleza!" O próprio público é conservador e busca o que existe de mais fácil na arte. Mas eu não diria que o papel do artista e o do bailarino é realçar esse lado conservador do público. A dança deve ser abordada a partir da sensibilidade, da verdade de cada um. O mesmo processo deve dirigir a construção dos personagens clássicos, para que se tornem clássicos e não acadêmicos. A chama de criatividade que leva à individualidade de cada artista, seu questionamento próprio - que é a mola propulsora da vida, da arte e de todo o conhecimento - é que devem dar o contorno desses personagens. O coreógrafo que chega com uma música qualquer e começa contando um, dois, três, quatro, o coreógrafo que não tem um trabalho de composição; que nunca estudou nem ouviu música ' que não sabe o que está por trás daquela música, que não sabe o que é ritmo, o que é desenho de composição, o que é direção no espaço, que usa a música de uma forma arbitrária - Chopin, 61 V i l l a - L o b o s ou S t r a v i n s k i de u m a mesma m a n e i r a , c o m o se fos- sem c o m p o s i t o r e s de u m a m e s m a é p o c a e de u m a ú n i c a visão e s t é t i c a - esse c o r e ó g r a f o n a d a a c r e s c e n t a ao c o n h e c i m e n t o e ao v o c a b u l á r i o a r t í s t i c o do b a i l a r i n o . E m g e r a l , m a n t e m o s o c o r p o a d o r m e c i d o . Somos c r i a d o s d e n t r o d e c e r t o s p a d r õ e s e ficamos a c o m o d a d o s n a q u i l o . P o r isso digo q u e é p r e c i s o d e s e s t r u t u r a r o c o r p o ; sem essa d e s e s t r u t u r a - ç ã o n ã o s u r g e n a d a de novo. D e s e s t r u t u r a r significa, p o r e x e m p l o , p e g a r um e x e c u t i v o ou uma g r ã - f i n a , desses q u e b u s c a m as a c a - d e m i a s de d a n ç a e, c o l o c a n d o - o s descalços n a s a l a de a u l a , f a z e r com q u e dêem c a m b a l h o t a s . E s s e é o c a m i n h o p a r a a d e s e s t r u - t u r a ç ã o física, q u e d á e s p a ç o p a r a q u e o c o r p o a c o r d e e s u r j a o n o v o . N o fundo, é u m a m u d a n ç a de r i t m o : se v o u t o d o s os dias p e l o m e s m o c a m i n h o , n ã o olho p a r a mais n a d a , n ã o p r e s t o a t e n ç ã o em mim o u n o a m b i e n t e . Mas se p e n e t r o n u m a r u a des- c o n h e c i d a , c o m e ç o a p e r c e b e r as j a n e l a s , os b u r a c o s n o c h ã o , despe~tando p a r a as pessoas que passam, os odores, os sons. Se o c o r p o n ã o e s t i v e r a c o r d a d o é impossível a p r e n d e r s e j a o q u e for. A p r i m e i r a coisa q u e um p r o f e s s o r p r e c i s a fazer é d a r u m c o r p o ao a l u n o . Mas como é possível d a r u m c o r p o a alguém? T o d o s s a b e m o s q u e o c o r p o existe, m a s s a b e m o s i n t e l e c t u a l m e n t e . Só n o s l e m b r a m o s dele q u a n d o surge algum p r o b l e m a , a l g u m a d o r , u m a febre. P a r a a c o r d a r esse c o r p o é preciso d e s e s t r u t u r a r , fazer com que a p e s s o a s i n t a e d e s c u b r a a e x i s t ê n c i a desse c o r p o . S o m e n t e aí é possível c r i a r um código pessoal, n ã o mais a q u e l e c ó d i g o q u e me d e r a m q u a n d o nasci e q u e v e n h o r e p e t i n d o d e s d e e n t ã o . O que p r o p o n h o é d e v o l v e r o c o r p o às pessoas. P a r a isso p e ç o que elas t r a b a l h e m c a d a a r t i c u l a ç ã o , m o s t r a n d o q u e c a d a u m a tem u m a f u n ç ã o e essa f u n ç ã o p r e c i s a de e s p a ç o p a r a t r a - b a l h a r . D a m e s m a f o r m a , t a m b é m a m u s c u l a t u r a p r e c i s a d e es- p a ç o : e l a se r e l a c i o n a aos ossos, existe u m a t r o c a c o n s t a n t e e n t r e e s s a m u s c u l a t u r a e o§' ossos. T u d o no c o r p o , n a vida, n a a r t e , é u m a t r o c a . O que p o s s o d a r às p e s s o a s são i n f o r m a ç õ e s p a r a q u e c r i e m s u a s d a n ç a s h o n e s t a m e n t e , c o m t é c n i c a s q u e s e j a m c o n v i n c e n t e s p a r a elas mesmas. I s s o faz s u r g i r u m e s t i l o p e s s o a l , p o r m a i s s e m e l h a n t e s q u e essas pessoas s e j a m e n t r e si. I s s o é o q u e e n - t e n d o p o r c o n t e m p o r â n e o , m o d e r n o em d a n ç a . O q u e b u s c o é d a r e s p a ç o p a r a as i n d i v i d u a l i d a d e s : p o s s o t e r u m e s t i l o m e u e isso n ã o s e r á p r e j u d i c a d o q u a n d o e s t i v e r d a n ç a n d o em grupo. N a d a n ç a e em t o d a a r t e vivemos em f u n ç ã o d a f o r m a , d a a p a r ê n c i a , d a n e g a ç ã o d a essência. V i v e m o s o i m p é r i o d a f o r m a . A d a n ç a é u m a a r t e q u e exige m u i t o , é p r e c i s o t e r u m a c u l t u r a pelo m e n o s m e d i a n a , c o n h e c e r um p o u c o d a h i s t ó r i a d a d a n ç a , d a s a r t e s p l á s t i c a s , p a r a p o d e r s a b e r o d e s e n r o l a r d a s c o i - sas d u r a n t e esses séculos. Se você o l h a p a r a a capoeira,_ d e s c o b r e u m a s e q ü ê n c i a s e m e l h a n t e à do b a l é p o r q u e e m a m b o s e x i s t e u m a c a d ê n c i a n a t u r a l de m o v i m e n t o s : a o m o v i m e n t o t a l c o r r e s - p o n d e u m o u t r o . E u n ã o p o s s o q u e b r a r esse r i t m o , e s s a l i n h a ; o fluxo e o desenho dos gestos existem n a t u r a l m e n t e . N ã o posso i r c o n t r a essa s e q ü ê n c i a , a n ã o s e r p r o p o s i t a l m e n t e - m a s mes- mo p a r a isso p r e c i s o c o n h e c e r a d a n ç a , a h i s t ó r i a d a d a n ç a : n ã o p o s s o m o d i f i c a r a l í n g u a inglesa sem c o n h e c e r p r o f u n d a m e n t e essa língua. E x i s t em r e g r a s n a a r t e e n ã o p o s s o i r c o n t r a e l a s sem q u e as c o n h e ç a . A e n e r g i a do c o s m o é uma e s p i r a l e essa e n e r g i a se r e p e t e n o c o r p o h u m a n o . Q u a n d o é i n t e r r o m p i d a , o u q u a n d o n ã o t e m o s c o n s c i ê n c i a de s u a e x i s t ê n c i a , os m o v i m e n t o s t o r n a m - s e a l e a t ó - rios e p e r d e m p s n o s s a i n d i v i d u a l i d a d e . E n t ã o , q u a n d o u m a técni- 6 3 c a faz c o m q u e as p e s s o a s p r e n d a m o j o e l h o , a p e r t e m a b u n d à e e s t u f e m o p e i t o , sem s a b e r o motivo p a r a isso, sem r e s p e i t a r a i n d i v i d u a l i d a d e de c a d a iun, o c o r p o d e i x a d e se r e l a c i o n a r c o m o a m b i e n t e , c o m o u n i v e r s o , c o m s u a p r ó p r i a n a t u r e z a . N ã o p o s s o i n v e n t a r , f a b r i c a r m o v i m e n t o s a p a r t i r d o n a d a p o r q u e t u d o tem um s e n t i d o m u i t o p r o f u n d o , t u d o tem u m a r a z ã o m a i o r . N ã o p o d e m o s ficar longe desse c i r c u i t o e n e r g é t i c o q u e é a r e l a - ç ã o e n t r e m i c r o c o s m o e m a c r o c o s m o . Um b a i l a r i n o se t o r n a c o r e ó g r a f o , n o B r a s i l , p o r o b r a e g r a ç a do D i v i n o E s p í r i t o S a n t o . N ã o existe q u e m ensine, n ã o existe a u l a de c o m p o s i ç ã o ; enfim, essas coisas p r i m á r i a s q u e u m a c o r e o g r a f i a exige, q u e são a n ã o - v i o l e n t a ç ã o d a música, d o e s p a - ço, d o s p l a n o s . T o d o esse p r o c e s s o t e m r e g r a s e limites. P o r isso a d i f i c u l d a d e p a r a e n c o n t r a r b o n s c o r e ó g r a f o s : em geral, eles c h e - gam à c o r e o g r a f i a sem v i v e n c i a r a d a n ç a , sem c o n h e c e r d e t a l h e s básicos. E , n o e n t a n t o , se p r o p õ e m a c o m e ç a r c o r e o g r a f a n d o t r a - balhos u l t r a m o d e r n o s . Mas que n ã o são u l t r a m o d e r n o s coisa a l g u m a : t ê m f o r m a s q u e se p r e t e n d e m m o d e r n a s , m a s u m a c o n - c e p ç ã o u l t r a p a s s a d a e antiga. Q. e s p a ç o é u m a c o i s a l i m i t a d a e, p a r a d o x a l m e n t e , s e m limi- tes. C o m o t u d o n a vida. A o d a n ç a r n ã o p o d e m o s p e r d e r d e v i s t a e s t a n o ç ã o : somos o c e n t r o do e s p a ç o q u e n o s c e r c a e n e l e existimos c o m o i n d i v í d u o s , c o m o pessoas, c o m o seres h u m a n o s , e s t a b e l e c e n d o n o s s a r e l a ç ã o c o m o m u n d o . O r i t m o do Universo é c o m p o s t o de e x p a n s ã o e r e c o l h i - m e n t o . Somos t a m b é m e x p a n s ã o e r e c o l h i m e n t o , c a d a c é l u l a é e x p a n s ã o e r e c o l h i m e n t o . T e m o s t o d o s u m r i t m o c o m u m e uni- versal e c a d a a r t i s t a , a t o r o u b a i l a r i n o p r e c i s a a t u a r r e s p e i t a n d o esse ritmo. P o r isso n o s s e n t i m o s t ã o mal q u a n d o assistimos a um e s p e t á c u l o o n d e u m a r t i s t a t r a b a l h a f o r a desse r i t m o . E s s a e x p a n s ã o e esse r e c o l h i m e n t o têm h a r m o n i a e s ã o c a p a z e s d e 64 c r i a r u m m o v i m e n t o - r e s p o s t a d e n t r o de mim. N ã o p o s s o l u t a r c o n t r a isso, p o r q u e s e n ã o e s t a r e i i n d o c o n t r a a n a t u r e z a , q u e tem de s e r e n t e n d i d a e r e s p e i t a d a . O único m o m e n t o em q u e sinto que h o u v e m o d i f i c a ç õ e s em mim e no meu t r a b a l h o é n a sala de aula, p o r q u e t u d o o que a c o n t e c e comigo m o d i f i c a a m i n h a aula, a m i n h a m a n e i r a de e n - c a r a r u m exercício. S ã o e l e m e n t o s que e n c o n t r o n a s r u a s , n a v i d a e q u e in~onscientemente levo p a r a a s a l a de aula. P o r isso meus t e r a p e u t a s dizem s e m p r e que e u n ã o t e r i a c o m o v i v e r se n ã o fossem m i n h a s aulas. :É lá que me limpo, me e x p o n h o , me d e s c u b r o . São m i n h a s p r ó p r i a s dificuldades que c o l o c o n a s a l a de a u l a . N u m p r o c e s s o de a p r e n d i z a d o é n e c e s s á r i o r e c o n h e c e r e lo- c a l i z a r a m u s c u l a t u r a , s e n t i r como ela t r a b a l h a , quais os movi- m e n t o s q u e p o d e g e r a r , as diversas i n t e n ç õ e s q u e p o d e t r a n s - m i t i r , seu e n c u r t a m e n t o , seu a l o n g a m e n t o . F i c o s e m a n a s a t e n t o a isso em meu c o r p o . P a r a mim, esse q u e s t i o n a m e n t o é uma necessidade pessoal. N ã o consigo e s t i p u l a r coisas d o gênero " h o j e vou d a r a u l a s o b r e a p e r n a e s q u e r d a " , " a m a n h ã s o b r e a i m p o r - t â n c i a dos o l h o s " . Sem s e g u i r um p r o g r a m a convencion:::J d e a u l a s , m a s me g u i a n d o p e l a m i n h a n e c e s s i d a d e de r e s p o s t a s , a c h o q u e consigo r e v e l a r c a m i n h o s aos alunos, p a r a que c a d a u m b u s - q u e as p r ó p r i a s v e r d a d e s de seu c o r p o . A d a n ç a é u m a t o de p r a z e r , d e vida, e só d e i x a d e s e r p r a z e r o s a e viva n o m o m e n t o em q u e p a s s a a s e r g i n á s t i c a , exer- cício, c o m p e t i ç ã o de f o r ç a e d e ego. U m a a u l a n ã o p o d e e x c l u i r a e m o ç ã o : é p r e c i s o i n c o r p o r á - l a à aula. E n t ã o s o u eu, com m i n h a p e r c e p ç ã o , meus c o n h e c i m e n t o s , vivências e e m o ç õ e s q u e m vai e s c o l h e r o l u g a r n a s a l a , q u e m vai l e v a n t a r o b r a ç o , q u e m vai r o d o p i a r - n ã o é m i n h a p e r n a q u e vai s u b i r p o r q u e o p r o f e s s o r m a n d o u . 65 Os movimentos surgem a partir das emoções particulares de cada um e se transformam em arte quando encontram uma lin- guagem universal, já que o ser humano tem uma essência comum. A energia brinca no meu corpo e quando faço um movi- mento que joga essa energia para fora há um retomo que vem em forma de espiral: é a pirueta, o giro, tão presentes nas co- reografias clássicas. A dança não é um ato aleatório, que você cria de qualquer forma, a partir do nada: a dança tem conceitos rígidos - mesmo lsadora Duncan tinha conceitos estabelecidos, por mais livres que fossem suas propostas. Ela não fez o que bem entendeu; quis ser coerente com a natureza e com o corpo humano. Para dominar uma técnica é preciso incorporá-la inteira- mente: só assim o movimento flui com naturalidade e o bailarino dança como respira. Então já não há mais preocupação em se- guir uma técnica. Por isso, costumo dizer a meus alunos: eu não danço; eu sou a dança. É o que gostaria que todo bailarino sentisse. É preciso jogar com os opostos também em nosso corpo. Para conhecer o exato grau de relaxamento de um músculo é preciso antes ter experimentado a tensão. Para conhecer a im- portância do espaço entre as articulações é preciso ter sofrido com a falta de espaço. Só depois de nos sentirmos presos sabo- reamos o exato sabor da liberdade. Temos que criar espaço para as alternâncias. Uma idéia de elevação não é transmitida somente, por exemplo, pela elevação contínua dos braços. Essa idéiapode conter um jogo de opostos - posso conduzir meus braços (assim como as pernas, o tronco) também para baixo, sem deixar de transmitir a idéia de elevação 66 (porque a queda também faz parte da elevação, uma não existe sem a outra). Na ida de um gesto está contida também a vinda: é o que chamo de intenção e contra-intenção muscular. Proponho a meus alunos que cada um encontre sua própria forma de dançar, que cada um incorpore meus ensinamentos e os expresse como quiser, como puder. Cada um deve usar sua musculatura dentro de um processo próprio, seguindo uma estru- tura de movimentos proposta por mim, mas cuja utilização é pessoal. O balé clássico nunca esteve desligado do mundo em volta: nasceu em uma sociedade decadente, sustentou a corte francesa durante um tempo porque se fazia dança para que os nobres se esquecessem dos problemas políticos. Hoje é impossível estabele- cer uma única técnica contemporânea; impossível porque não existe mais uma única visão do mundo. Por que o clássico, o moderno, o jazz, o neoclássico? Porque temos necessidade de várias respostas, várias saídas. Não podemos aceitar técnicas prontas, porque na verdade as técnicas de dança nunca estão prontas: têm uma forma, mas no seu interior há espaço para o movimento único, para as contribuições individuais, que mudam com o tempo. Essas técnicas continuarão existindo enquanto exis- tir a dança, enquanto existirem bailarinos. Taglioni e Pavlova não reconheceriam o balé clássico que se dança hoje em dia - que, na essência, é o mesmo balé clássico de outros tempos. O balé clássico não é dessa ou daquela forma: o balé clássico está em movimento e continuará existindo enquanto fizer parte do mundo em que vivemos. A evolução está em todo lugar e a dança não escapa dessa lei. 67 V I I P e l a c r i a ç ã o d e u m b a l é n a c i o n a l ( E m 1 9 5 6 , pela p r i m e i r a v e z n o p a í s , p u b l i q u e i u m a r t i g o na i m p r e n s a n o q u a l fiz u m a a n á l i s e da s i t u a ç ã o da dança brasileira. M a i s de três d é c a d a s d e p o i s , o s p r o b l e m a s e a m e n t a l i d a d e q u e d e n u n c i e i c o n t i n u a m p r a t i c a m e n t e os m e s m o s . E s t e artigo foi p u - b l i c a d o o r i g i n a l m e n t e e m O G l o b o , e m B e l o H o r i z o n t e , e a l g u n s t r e c h o s f o r a m r e p u b l i c a d o s n o J o r n a l d o B r a s i l e m 1 9 7 5 ). Um g r a n d e m o v i m e n t o r e n o v a d o r tem-se r e a l i z a d o u l t i m a - m e n t e d e n t r o d o t e a t r o b r a s i l e i r o , a b r a n g e n d o t o d o s os s e t o r e s : d i r e ç ã o , i n t e r p r e t a ç ã o , e s c o l h a de a r g u m e n t o s , d e c o r a ç ã o . G r u p o s de a m a d o r e s e de u n i v e r s i t á r i o s e m p r e e n d e m r e a l i z a ç õ e s t ã o a r r o j a d a s q u e h á p o u c o s a n o s d i r - s e - i a impossível a s u a r e a l i z a ç ã o . H á p l a t é i a c o m p e n s a d o r a p a r a t o d o s esses e m p r e e n d i m e n t o s e os l u c r o s c o l h i d o s a t e s t a m a s e g u r a n ç a d a i n i c i a t i v a . N ã o p o d e m o s c o n s i d e r a r a e x i s t ê n c i a de u m t e a t r o b r a s i l e i r o p r o p r i a m e n t e d i t o , mas é de se e s p e r a r que d e n t r o de p o u c o t e m p o v e n h a m o s a tê-lo: as n o v a s a g r e m i a ç õ e s p r o f i s s i o n a i s o u de a m a d o r e s q u e se m u l t i p l i c a m , as escolas que se f u n d a m , o a p a r e c i m e n t o r e c e n t e de u m a c r í t i c a n a c i o n a l e s c l a r e c i d a e as p e ç a s de v a l o r q u e alguns de nossos a u t o r e s t ê m p r o d u z i d o , t u d o isso v i r á c e r t a m e n t e t e r c o m o fim o a p a r e c i m e n t o d o t e a t r o b r a s i - l e i r o , c o m c a r a c t e r í s t i c a s p r ó p r i a s . 68 E n t r e t a n t o , se a t e n t a r m o s p a r a um o u t r o s e t o r d a a r t e c ê n i c a , o b a l é , n o t a r e m o s q u e a s i t u a ç ã o é d i f e r e n t e : a í i m p e r a u m a d e s o r g a n i z a ç ã o q u a s e c o m p l e t a e a d e s a g r e g a ç ã o d o t r a b a l h o c o n s e g u i d o . H á f a l t a d e p l a t é i a p a r a o b a l é ? N ã o . A l g u m a s i n i c i a - t i v a s , c o m o a d o b a l é d a J u v e n t u d e , de I g o r Schwezoff, d e m o n s - t r a r a m c a b a l m e n t e a e x i s t ê n c i a de um g r a n d e · p ú b l i c o p a r a esta a r t e , o u seja, a m e s m a p l a t é i a d o n o s s o t e a t r o c h a m a d o de elite. P a r e c e mais s e g u r o , pois, q u e . esta d e f i c i ê n c i a t e n h a o r i g e m n o n o s s o p r ó p r i o b a l é , ou s e j a , n a f a l t a de o r i g i n a l i d a d e e de q u a l i d a d e í n t i m a . E s t a s i t u a ç ã o c o n t r a s t a , e n t r e t a n t o , c h o c a n t e - m e n t e , com a das e s c o l a s de d a n ç a . M e s t r e s de v a l o r c o m o Schwezoff, V e l t c h e k , O l e n e w a e, a t u a l m e n t e , C a r l o s L e i t e e M a d e - leine R o s a y , p o s s u e m escolas r e p l e t a s de a l u n o s de a m b o s os sexos, a n i m a d o s p o r u m i d e a l e a m b i ç ã o p r o f i s s i o n a l . E n t r e t a n t o , se alguns c o r e ó g r a f o s de r e n o m e i n t e r n a c i o n a l l o g r a r a m f o r m a r e n t r e nós u m a g e r a ç ã o de b a i l a r i n o s - alguns d e l e s d o t a d o s de u m t a l e n t o e x c e p c i o n a l - e s t a m e s m a g e r a ç ã o se r e s s e n t e d a f a l t a de u m c u n h o de o r i g i n a l i d a d e e isso p o r q u e p r o c u r a s e g u i r , p a s s o a p a s s o , os m o d e l o s r u s s o s o u f r a n c e s e s , p o d e n d o - s e d i z e r o m e s m o dos c o r e ó g r a f o s n a c i o n a i s . O que p r e t e n d e m , assim? M o t i v o s e u r o p e u s , d é c o r s f r a n c e s e s e c o r e o g r a f i a s r u s s a s e t e r n a m e n t e p a r a a p l a t é i a n a c i o n a l ? Se assim é, p o d e - s e a l e g a r q u e as c o m p a n h i a s e s t r a n g e i r a s que n o s t ê m v i s i t a d o p o d e m d e s e n c u m b i r - s e dessa t a r e f a c o m m a i s eficiên- cia. P o r o u t r o l a d o , esses jovens a r t i s t a s b r a s i l e i r o s t e r m i n a m p o r a b a n d o n a r a c a r r e i r a d e v i d o à d i f i c u l d a d e de v e n c e r n o seu p r ó p r i o a m b i e n t e ou p a r a se e n g a j a r e m em c o m p a n h i a s e s t r a n - geiras. A l g u n s p o u c o s d e d i c a m - s e e n t ã o a o e n s i n o de u m a g e r a ç ã o mais j o v e m , t r a n s m i t i n d o e x a t a m e n t e a q u i l o q u e r e c e b e r a m dos seus m e s t r e s e s t r a n g e i r o s , e é de se p r e v e r que essa g e r a ç ã o mais j o v e m e s t e j a d e n t r o em p o u c o na m e s m a s i t u a ç ã o d a que a p r e c e d e u . E a t é q u a n d o isso? A t é p e r c e b e r e m q u e j á é t e m p o de o r i e n - t a r e m seus e s f o r ç o s n a c r i a ç ã o de um b a i l a d o b r a s i l e i r o . A g r a n - 6 9 deza do balé russo deve-se à assimilação do caráter regional russo. É realmente um balé russo baseado na técnica acadêmica, assim como o balé italiano é italiano e o francês é realmente francês, enquanto o nosso balé não será russo e muitomenos brasileiro. O bailado dramático no Brasil está, pois, fadado ao desapa- recimento completo ou à subsistência medíocre, a não ser que uma volta brusca no leme que o dirige leve-o para as águas regionais. Na verdade, não se pode negar que já foram realizados números de balé com elementos brasileiros, tais como Yara ou Uirapuru. Entretanto, não tiveram a repercussão desejada e não parecem frutos de uma tendência, de uma idéia que tenda a generalizar-se, a fundar escolas, a traçar novos rumos. Apresentam-se mais como incidentes sem repercussão. Quanto à dança estilizada brasileira, tal como vem sendo apresentada por alguns bailarinos especializados, não oferece recursos dramá- ticos ou de expressão. Sua técnica mostra-se muito pobre e, para supr,ir essa deficiência, são empregados recursos antiartísticos - e portanto nocivos - que impedem a esse gênero alcançar um desenvolvimento formal refinado e artístico propriamente dito, relegando-o, ao contrário, ao campo da subarte. O balé brasileiro, para alcançar o seu grau de expressão máxima, deve ser baseado na técnica acadêmica. E aqui convém que seja desfeito um mal-entendido usual entre nós. Errado é o conceito assaz generalizado de que o bailado clássico esteja subjugado a uma técnica antiquada e já sobrepujada hoje em dia pelas experiências de Isadora Duncan, Ida Rubinstein, Maria Wigman, Harold Kreutsberg, Martha Graham e Kurt Jooss. A técnica que serve à dança clássica vem-se desenvolvendo desde o final do século XV, data da criação do bailado acadê- mico italiano, até os nossos dias. Pode-se mesmo dizer que quase todas as possibilidades dançantes do corpo humano foram leva- das em conta por seus mestres e estudadas detalhadamente, du- 70 rante todo esse longo período. As cinco posições fundamentais do balé clássico e todas as suas inumeráveis derivadas formaram o meio técnico mais longamente pesquisado, um verdadeiro alfabeto de linguagem dançante. Erradamente considera-se 'clássica' toda dança baseada na técnica acadêmica. Esta forma de julgar é resultado de uma superestimação de valores, pois advém de se tomar como meio de identificação exclusivamente o elemento técnico e não o conteúdo subjetivo de um balé. Um Bacanal ou um Colóquio sentimental, já apresentados entre nós, são tão modernos em suas caracterís- ticas e na sua essência como a Mesa verde. de Kurt Jooss. ou O penitente. de Martha Graham. Assim como na pintura: os pincéis, a paleta, a tinta, as cores e sua combinação são os meios usados de Da Vinci a Picasso para a fixação da obra de arte pictórica. Assim também no bailado artístico as cinco posições e suas derivadas são os instrumentos mais aperfeiçoados até hoje para a sua fixação. Qualquer reforma no bailado necessita partir do próprio bailado, levando-se em consideração seu desenvolvimento até então. Em sua revolta, Isadora Duncan desprezou o elemento técni- co do bailado clássico, mas seu movimento não visava a modi- ficá-lo e sim a ignorá-lo totalmente, eliminá-lo, e o resultado dessa atitude foi que sua técnica improvisada e pobre não pode perdurar como meio altamente elevado de expressão. Hoje, a crítica especializada. representada por altos valores como Herald Haskell, André Levison ou Sérgio Lipar, é acorde no pronunciamento de que o sucesso de lsadora Duncan não passou de um êxito pessoal, embora lhe seja irrestritamente reco- nhecido o valor da iniciativa como agente modificador da diretriz espiritual do bailado dito clássico. . O movimento Duncan, embora pretensamente baseado na dança grega, não se ligava realmente à tradição do bailado e, portanto, foi reduzido a um movimento marginal do ponto de vista 71 da contribuição técnica. Foi "externo" quando, para ser dura- douro, deverià ter partido de dentro para outra direção qualquer. Este fato deixou bem claro que qualquer reforma técnica do balé só poderá ser baseada no ecletismo e não na ignorância total dos princípios acadêmicos. Mostrou-nos também que cinco séculos de pesquisas não podem ser desprezados nem substituídos por uma improvisação que. embora geniaL após o calor da repercussão como novidade virá mostrar fatalmente uma extrema indigência. É claro que essa consideração não pode ser estendida ao movimento 'idéia', à inovação do que há de subjetivo no balé, pois há aí uma unidade absoluta e toda a iniciativa revolucionária pode vir a mostrar-se como força capaz de conseguir seu objetivo. Foi o que aconteceu com a influência salutar que sofreu o balé clássico, tocado pela diretriz expressionista do movimento Duncan. Entretanto - e deve ser sublinhado novamente - para servir no terreno das idéias é necessária a modificação técnica do balé, faz-se mister executar uma verdadeira modificação, ou seja, a reforma técnica partindo dessa mesma técnica, levando-a em con- side~ação. Assim tem acontecido durante toda a história da pintura e é de presumir que ocorra em todo terreno artístico. Para a criação do bailado artístico de caráter brasileiro seria necessário o estabe- lecimento de bases na técnica acadêmica, ou seja, aquela que se encontra hoje elevada ao grau mais avançado. Pode-se deduzir, pois, que a única tradição russa do bailado era - a exemplo do que ocorre no Brasil - a dança popular, sem a qual a forma técnica poderia no máximo ter-se desenvol- vido paralelamente à francesa ou à italiana, isentando-a do caráter marcante que a distingue. A contribuição da cultura regional está hoje positivada como fator imprescindível na criação da obra de arte original de um povo. É o único elemento que lhe pode empres- tar realmente um caráter próprio, que a fará distinguir-se aos olhos do mundo por uma estranha beleza e poesia, reveladas com grande força e originalidade. Para ser entendida universalmente, é 72 necessário que a obra de arte seja sincera e tal sinceridade somente é conseguida quando surge de todos os elementos culturais que contribuíram para a formação do artista. Ora, além dos valores culturais estrangeiros assimilados pélo artista, assim mesmo sob a refração regional, existem outros fato- res puramente regionais - de ordem psicológica ou de ordem ambiente - que são os participantes mais profundos dessa for- mação. Isto é sabido e é por essa razão que o artista, embora possa sentir a seu modo a obra de arte estrangeira, não poderá enqua- drar a sua própria criação dentro dos moldes espirituais que originaram aquela. Quando assim pretende fazer não consegue senão enfraquec'er o seu ímpeto inicial, pela distorção que se verifica, empobrecendo a obra e tornando-a um meio termo sem originalidade e sem expressão. Tanto isso é verdade e já amplamente aceita que mesmo na nossa literatura ou nas nossas artes os únicos valores universais são aqueles que não se afastaram da inspiração regional; antes aceitaram-na como elemento participante da sua própria persona- lidade e, por meio dela, obtiveram uma forma de expressão mais aperfeiçoada e mais bela, como no caso de Machado de Assis, Euclides da Cunha, Portinari, Villa-Lobos ou Mignone. Levando isso em consideração no terreno da dança, apresen- ta-se-nos, em primeiro lugar, a natureza mesma do povo brasi- leiro, extremamente inclinada a ela. E em seguida a força latente para a sua execução com que nos dotaram as heranças africana, ibérica e indígena, principalmente as duas primeiras. Podemos até afirmar que na herança afro-ibérica a tradição dançante é uma das mais fortes. senão a mais forte no terreno artístico. O não-aproveitamento dessa riquíssima fonte, assim como o da literatura folclórica, da pintura c da música brasileira - que já principiam a tomar um rumo tão definido - aparecem como elementos extremamente propícios paraum desenvolvimento de 73 um b a l é n a c i o n a l q u e possa vir a ser a p r e s e n t a d o c o m c a r a c t e r í s - t i c a s p r ó p r i a s e m a r c a n t e s . A e x e m p l o d o q u e foi f e i t o n a R ú s s i a , a i n t r o d u ç ã o de novos p a s s o s r e g i o n a i s n a t é c n i c a a c a d ê m i c a e o a p r o v e i t a m e n t o dos e l e m e n t o s a r t í s t i c o s p u r a m e n t e n a c i o n a i s vi- r i a m e n r i q u e c e r e x t r e m a m e n t e o b a l é m u n d i a l , r e v e l a n d o n a d a n ç a o m u n d o d a beleza e d a p o e s i a b r a s i l e i r a s . S e r á esse u m s o n h o vão? N ã o me parece. 7 4 A t é c n i c a I A h a r m ô n i c a i n c o e r ê n c i a T o d a essa i n t r o d u ç ã o n ã o a p e n a s j u s t i f i c a mas t a m b é m explica c o m o começou esse t r a b a l h o . E r a s e m p r e um c o n f l i t o e com o c o n f l i t o surge o m o v i m e n t o . No c o r p o , n a c a s a , n a vida. Mas o q u e g e r a esses c o n f l i t o s ? Só mais t a r d e d e s c o b r i que o e s p a ç o e x i s t e n t e e n t r e as o p o s i - ções g e r a v a os c o n f l i t o s , assim c o m o a m a n e i r a de expressá-los. F o i e n t ã o q u e n'Jtci a i m p o r t â n c i a do meio, o u seja, a vivência e n t r e o p r i n c í p i o e o fim, o espaço i n t e r m e d i á r i o . Assim, a c o n f i g u r a ç ã o do e s p a ç o g e r a d o p o r um m o v i m e n t o é mais i m p o r t a n t e do q u e o movimento em si: é nesse i n t e r v a l o q u e se p a s s a m a e m o ç ã o , as projeções. A vida em m o v i m e n t o e s t á nesse espaço. É a s a b e d o r i a de viver nem t a n t o l á nem t a n t o cá. É e s t a r p r e s e n t e a c a d a m o m e n t o , assim c o m o n ã o d e i x a r e s c a p a r a i n t e n ç ã o de um m o v i m e n t o e n q u a n t o ele se realiza n e m a n t e c i p a r m e n t a l m e n t e s e u fim. Mas o c o n f l i t o p r e c i s a de e s p a ç o , g r a n d e o s u f i c i e n t e p a r a d e m o n s t r a r com a p r e s e n ç a dos o p o s t o s a v e r d a d e i r a i n t e n ç ã o dos gestos. Só com a c o n s c i ê n c i a d a existência de o u t r a s possibi- l i d a d e s p a r a a r e s o l u ç ã o de um p r o b l e m a é q u e se é c a p a z de c o n - d e n s a r essas p o s s i b i l i d a d e s em um gesto único, q u e c o n t e n h a todos os a n t a g o n i s m o s . Se t e n h o a p e n a s uma p o s s i b i l i d a d e p a r a a r e s o l u ç ã o de um p r o b l e m a e d a i n t e n ç ã o de um gesto, n ã o 77 existe a f l e x i b i l i d a d e q u e u m a e x p e r i ê n c i a com v á r i a s p o s s i b i l i - d a d e s o f e r e c e . C o m o n a vida, q u a n d o se q u e s t i o n a só um l a d o d o c o n f l i t o , ele n ã o t e r á s o l u ç õ e s e c o n t i n u a r á s e m p r e um p r o b l e m a . O mesmo se a p l i c a a o gesto. Q u a n d o é d i r e c i o n a d o , sem as o p o s i ç õ e s n a t u - r a i s e sem o c o n h e c i m e n t o d o seu c ó d i g o n o e s p a ç o , n u n c a t e r á uma i n t e n ç ã o : é um gesto a l e a t ó r i o , f o r m a l . T o d o r e s u l t a d o de um gesto, o u de uma a ç ã o , p r o v é m d o e s p a ç o e x i s t e n t e e n t r e a o p o s i ç ã o de d o i s c o n c e i t o s . Seu g e r a d o r é s e m p r e p a r , a i n d a q u e essa l i g a ç ã o se f a ç a a t r a v é s d e u m a p a r e n t e d i s t a n c i a m e n t o . É a lei d a h a r m ô n i c a i n c o e r ê n c i a d a vida: t o d o t r a b a l h o c o r p o r a l , se a n a l i s a d o sob u m só â n g u l o , é i n c o e r e n t e . Mas u n i d o a o t o d o surge a h a r m o n i a . D u a s F o r ç a s O p o s t a s g e r a m um C o n f l i t o , que g e r a o Movi- m e n t o . E s t e , ao s u r g i r , se s u s t e n t a , reflete e p r o j e t a s u a i n t e n ç ã o p a r a o e x t e r i o r , n o espaço. N o c o r p o este f e n ô m e n o se i n i c i a n o m o m e n t o em que d e s c u b r o a i m p o r t â n c i a d o solo e a ele me e n t r e g o e r e s p e i t o . E s t a é a p r i m e i r a fase, a d a g e r m i n a ç ã o , a d a e n t r e g a . Só q u a n d o d e s c u b r o a g r a v i d a d e , o c h ã o , a b r e - s e e s p a ç o p a r a q u e o m o v i m e n t o crie raízes, seja mais p r o f u n d o , c o m o u m a p l a n t a q u e só cresce a p a r t i r d o c o n t a t o í n t i m o c o m o solo. Só dessa forma surge a o p o s i ç ã o , a r e s i s t ê n c i a q u e vai a b r i n d o e s p a ç o e n t r e os ossos, s e g u i n d o s u a d i r e ç ã o nas a r t i c u l a ç õ e s . À m e d i d a que vou s e n t i n d o o solo, e m p u r r a n d o o c h ã o , a b r o e s p a ç o p a r a m i n h a s p r o j e ç õ e s i n t e r n a s , i n d i v i d u a i s , q u e , à me- d i d a que se e x p a n d e m , me o b r i g a m a uma p r o j e ç ã o p a r a o e x t e r i o r . A o i n i c i a r q u a l q u e r coisa - uma a m i z a d e , uma r e l a ç ã o a m o - rosa, um c u r s o q u a l q u e r - , a p r i m e i r a fase é de p u r o e n c a n t a - m e n t o . T u d o é belo e novo. S o m e n t e d e p o i s i n i c i a - s e a a d o l e s - c ê n c i a d o p r o c e s s o , o n d e a r e v o l t a , a c r í t i c a e a busca de novas f ó r m u l a s é uma c o n s t a n t e . 78 Mas é preciso r e c o n h e c e r o local d o c o r p o o n d e surge a o p o s i ç ã o à f o r ç a que vem d o solo: g e r a l m e n t e se s i t u a em p o n t o s em q u e nossa t e n s ã o é m a i s f r e q ü e n t e . O m b r o s , l í n g u a , mão, b o c a , c o l u n a c e r v i c a l , d i a f r a g m a . É nesse p o n t o de t e n s ã o que c o l o c a m o s nosso e q u i l í b r i o - quase n u n c a nos pés. P á r a - r a i o s de e n e r g i a a c u m u l a d a , os pés f a c i l i t a m a d i s t r i - b u i ç ã o dessa e n e r g i a pelas d i v e r s a s p a r t e s do c o r p o , q u a n d o bem utilizados. N o e n t a n t o , a n d a m o s em c i m a dos o m b r o s , c o r r e m o s c o m a língua: a f o r ç a e s t á s e m p r e c o n c e n t r a d a n a s p a r t e s e r r a d a s . Um exemplo: q u a n d o se p e d e u m g r a n d - j e t e a u m a b a i l a r i n a é c o m u m d e s c o b r i r que e l a s c o s t u m a m c o l o c a r a t e n s ã o n o pes- c o ç o . N ã o p e r c e b e m q u e , c o m o p é bem c o l o c a d o , s e n t i n d o o c h ã o , essa e n e r g i a se d i s t r i b u i . O p é t a m b é m d e n u n c i a n o s s a r e l a ç ã o com a v i d a , ao p i s a r m o s b r i g a n d o com o s o l o , i g n o r a n d o , d e s l i z a n d o , a é r e o s ou i n d i f e r e n t e s . A o d i v i d i r m o s os e s p a ç o s nos l o c a l i z a m o s d e n t r o deles. E s t a - b e l e c e m o s seus limites, c o i s a t ã o i m p o r t a n t e p a r a o s u r g i m e n t o de u m a v e r d a d e i r a a ç ã o . Mas essa a ç ã o d e p e n d e d o s limites em que a t u a m o s : o g e s t o , o som d a voz, a i n t e n ç ã o s e r ã o l i m i t a d o s p e l a s p a r e d e s , pelo t e t o e p e l o c h ã o o n d e essa a ç ã o se passa. É isso q u e faz com q u e as p e s s o a s se p e r c a m a o a t u a r a o a r livre, sem os l i m i t e s n o r m a i s de u m a sala. Sóq u a n d o t e n h o c l a r a m e n t e m e u s l i m i t e s i n t e r n o s p o s s o d a r f r o n t e i r a s às m i n h a s a ç õ e s , s e j a n u m a s a l a d e a u l a , n u m p a l c o ou a o a r livre. C a s o c o n t r á r i o , essas i n t e n ç õ e s s e d i s p e r s a m e p e r d e m s u a f o r ç a . Assim, é i m p o r t a n t e q u e antes de c o m e ç a r q u a l q u e r t r a b a l h o c o r p o r a l eu i n c o r p o r e o e s p a ç o q u e v o u u s a r . O uso c o n t í n u o dos o b j e t o s e dos limites n a n o s s a v i d a c o t i d i a n a i m p e d e m q u a l q u e r o b s e r v a ç ã o e q u a l q u e r t r a b a l h o m u s c u l a r , que se t o r n a m e c â n i c o e i n c o n s c i e n t e . A o c a m i n h a r p o r um e s p a ç o f e c h a d o , a o t e r c o n s c t e n c i a dele, l i m i t o meus e s p a ç o s i n t e r n o s p a r a que m i n h a e n e r g i a s e j a c o n d u z i d a e u t i l i z a d a só n a e x t e n s ã o d a s u a n e c e s s i d a d e : o gesto 7 9 n ã o p r e c i s a s e r n e c e s s a r i a m e n t e g r a n d e n e m o d e s g a s t e m a i o r q u e o necessário. E x i s t e m m u s c u l a t u r a s em nosso c o r p o que c o n s t i t u e m e f o r m a m a sua i n d i v i d u a l i d a d e : q u a n d o a c o r d a m o s e n o s e n c a m i - n h a m o s p a r a a feira, i n d e p e n d e n t e m e n t e de nosso h u m o r o u c a n s a ç o , existe uma m u s c u l a t u r a q u e c o m p õ e a nossa c o u r a ç a - e que s e r á d i f e r e n t e d a m u s c u l a t u r a que e s t a r á a t u a n d o no m o - m e n t o de v i s i t a r um amigo o u ir a o cinema. A p e r c e p ç ã o e a u t i l i z a ç ã o d e s s a m u s c u l a t u r a são i m p o r t a n t e s p a r a a s a ú d e e a i n d i v i d u a l i d a d e d o meu c o r p o . Assim, a a u l a d e d a n ç a c o m e ç a p e l a m a n h ã , q u a n d o a b r i m o s os o l h o s n a c a m a . O a q u e c i m e n t o i n t e r n o se d a r á no i n t e r v a l o e n t r e esses dois e s p a - ç o s , a s a l a de á u l a e a m i n h a c a m a , n a rua, no c h u v e i r o , no t r â n s i t o - n a vida. M u d a r d e local de r e f e i ç ã o e de d o r m i r d e n t r o d a p r ó p r i a c a s a s ã o e s t í m u l o s q u e g e r a m c o n f l i t o s e novas m u s c u l a t u r a s d e n - t r o d o nosso c o t i d i a n o : e s p a ç o s novos, m u s c u l a t u r a n o v a , visão n o v a . M e s m o n a s a l a de a u l a o e s p a ç o q u e r e s e r v a m o s p a r a n o s s a c r i a t i v i d a d e fica s e m p r e r e s t r i t o ao mesmo e s p a ç o físico q u e o c u p o d i a r i a m e n t e - e que aos p o u c o s t e r m i n a s e n d o um e s p a ç o a u s e n t e p e l a n ã o - p e r c e p ç ã o d a sua u t i l i z a ç ã o . Só p o s s o v e r o e s p a ç o à m i n h a volta q u a n d o me a f a s t o , e o mesmo se d á com m i n h a e m o ç ã o : ela e m b a r g a , a t r o f i a , freia q u a l - q u e r m o v i m e n t o que p a r t a de mim. N ã o posso s e n t i r e ao m e s m o t e m p o d i z e r o u a n a l i s a r o q u e se p a s s a comigo. Solução: s i n t o e a p ó s o a t o reflexivo n a r r o o que s i n t o . Só e n t ã o m i n h a e m o ç ã o c h e g a a o i n t e r l o c u t o r ou à p l a t é i a . É p r e c i s o q u e h a j a s e m p r e um d i s t a n c i a m e n t o físico e c r í t i c o d o que faço e d o que digo. A e m o ç ã o deve s e r d i s t a n c i a d a : e l a é p r o v e n i e n t e d e u m a t é c n i c a , é i n e r e n t e a o s músculos, a o e s p a ç o , a o s ossos, ao c o r p o . T u d o isso, a o g e r a r um m o v i m e n t o l i m p o e c l a r o , e s t a r á d a n d o e s p a ç o p a r a que a e m o ç ã o se t o r n e viva. 8 0 À m e d i d a que t e c n i c a m e n t e vou m u d a n d o meus e s p a ç o s , meu eixo, m i n h a f l e x i b i l i d a d e e e q u i l í b r i o , t r a b a l h o t a m b é m m i n h a visão de m u n d o , m i n h a ó t i c a s o b r e as coisas e as pessoas. A p r e n d e r a q u e s t i o n a r o b j e t i v a m e n t e e a o b s e r v a r a si mesmo s ã o as m e l h o r e s f o r m a s de a p r e n d i z a d o . O a t o de q u e s t i o n a r é o r e s u l t a d o de uma o b s e r v a ç ã o q u e p r o v é m de um d i s t a n c i a m e n t o e de u m a c o n c l u s ã o , a i n d a q u e p a s s a g e i r a e n u n c a d e f i n i t i v a . As m u s c u l a t u r a s u s a d a s p a r a isso s ã o c a d e i a s p r o f u n d a s q u e a j u d a m a c o n s t r u i r n o s s a imagem: s o m o s os únicos r e s p o n s á v e i s pelo c o r p o e pelo r o s t o q u e temos, e s o m e n t e nós p o d e r e m o s m o d i f i c a r esse c o r p o e esse r o s t o . 81 l i A o r i t m o d o U n i v e r s o . A c r e d i t o q u e m e u m é t o d o d e t r a b a l h o t e n h a c o m e ç a d o a s~rgir. n o m o m e n t o e m q u e vi meu f i l h o n a s c e r . A c h e i t ã o d u r o t a o v i o l e n t o v ê - l o n a s c e n d o e logo e m ' d , - segUI a s e r a f a s t a d o d a m a e . . . D e a l g u m a f o r m a p e r c e b i q u e a l i c o m e ç a v a a se i n t e r - r o m p e r o f l u x o n a t u r a l d a s c o i s a s , m a s , p o r p a r a d o x a l q u e o s s a p a r e c e r , e r a i m p o s s í v e l c o n c e b e r a v i d a e o , . p p r o p n o n a s c i m e n t o s e m q u a l q u e r v i o l ê n c i a . . N e s s e m o m e n t o , t o r n o u - s e c l a r o q u e o m e s m o o c o r r i p r o c e s s o a e m n o s s o c o r p o , d a s u p e r f í c i e d a p e l e a t é n o s s o s i s t e m a n e r v o s o , n u m m o v i m e n t o c o n t í n u o o n d e n a s c i m e n t o v i d m o r t e se c o n f u n d i a m c o m o u m j o g o d e f , a e t o r ç a s a o m e s m o t e m p o o p o s os e c o m p l e m e n t a r e s . A í d~veria r e s i d i r a e s s ê n c i a d e I q u e r t r a b a l h o q u e p r o q u a -pus~sse r e c u p e r a r a p e r c e p ç ã o d a t o t a l i d a d e d o c o r p o e t o r n a r c o n s c i e n t e g e s t o s a t é enta-o m e . d , . . . c a m z a os e m n o s s a p r a t i c a c o t i d i a n a . Isso p o d e s e r m a i s 1 c a r a m e n t e e n t e n d i d o a t r a v é s d e u m s~~ples e x e m p l o : q u a n d o t r a b a l h a m o s os p é s a t r a v é s d e CICIOS d ' b ' l ' ' e x e r -e s e n s i I I z a ç ã o e t o q u e c o m e ç a m o s 1 , ' r e a m e n t e a s a b e r q u e _temos pes. E l e s g a n h a m vida e a m p l i t u d e a t r a v é s d a c e p ç a o d o s m o v i m e n t o s . p e r - . D a - m e s m a . f o r m a , q u a n d o t r a b a l h a m o s u m a d e t e r m i n a d a a r t J c u l a ç a o , a m p l i a m o s s u a m o b i l i d a d e e o e s f o r ç o I' d r e a IZa o r e - 82 p e r c u t e s o b r e t o d o o c o r p o , u m a v e z q u e e s s a a r t i c u l a ç ã o é p a r t e d e u m t o d o . A o t r a b a l h a r i s o l a d a m e n t e u m a a r t i c u l a ç ã o , a o d i s - s o c i a r as p a r t e s d o c o r p o , p o u c o a p o u c o r e c u p e r o a p e r c e p ç ã o d a t o t a l i d a d e - a d i s s o c i a ç ã o t or n a - s e ú t i l à a s s o c i a ç ã o . A o a c o r d a r , a o s e n s i b i l i z a r u m a d a d a a r t i c u l a ç ã o , a d q u i r o m a i s u m p o n t o d e e q u i l í b r i o em m e u c o r p o e i s s o a c a b a a g i n d o s o b r e t o d o o r e s t o , i n c l u s i v e s o b r e c o i s a s q u e a p a r e n t e m e n t e n a d a t ê m a v e r c o m m ú s c u l o s e a r t i c u l a ç õ e s , c o m o a a t i v i d a d e i n t e l e c t u a l . E s t a m o s s e m p r e e v o l u i n d o e h á u m m o m e n t o n e s s a e v o - l u ç ã o q u e se r e v e l a e m n o s s o c o r p o e n o s a s s u s t a . D e p o i s d i s s o o c o r r e u m a v e r d a d e i r a r e n o v a ç ã o e j á n ã o t e m o s m a i s m e d o d a q u i l o q u e se a p r e s e n t a d i a n t e d e n ó s c o m o n o v o . E s s e p r o - c e s s o é m a r c a d o p o r c o n t r a d i ç õ e s , a v a n ç o s e r e c u o s , p o r i d a s e v i n d a s q u e t o r n a m i n t e n s a m e n t e r i c a a n o s s a a ç ã o e a b r e m e s - p a ç o p a r a p r o f u n d a s t r a n s f o r m a ç õ e s . M a s , se p e r d e m o s e s s a c a - p a c i d a d e d e r e n o v a ç ã o , se f u g i m o s às d i f i c u l d a d e s q u e s u r g e m , e n c e r r a m o s a p r ó p r i a v i d a . N e s s e s e n t i d o , a i m a g e m d o p a r t o é e x e m p l a r . O q u e é o p a r t o ? É o f i n a l d a g r a v i d e z , d e u m l o n g o p r o - c e s s o q u e se i n i c i a n o e n c o n t r o d e d u a s f o r ç a s - m a s c u l i n a e f e m i n i n a - , d u a s n a t u r e z a s a o m e s m o t e m p o i g u a i s e o p o s t a s . H á e n t ã o u m m o m e n t o d e f e r t U i z a ç ã o , u m t e m p o d e i n c u b a ç ã o e u m l o n g o p e r í o d o d e g e s t a ç ã o e m q u e u m o u t r o c o r p o e s t á s e f o r m a n d o n o c o r p o d a m u l h e r . M a s t a m b é m e s s e p r o c e s s o d e v e c h e g a r a u m t e r m o . H á u m a lei n a t u r a l q u e c o n d i c i o n a o d e s f e c h o d o p r o c e s s o a u m a s i t u a ç ã o d e c r i s e p r o f u n d a , q u e é e x a t a m e n t e o i n s t a n t e d o p a r t o . É i m p o s s í v e l c o n c e b e r u m p a r t o n a t u r a l s e m d o r , s e m c o n t r a ç õ e s , s e m s a n g u e . M a s , d e p o i s d a c r i s e , o q u e t e m o s d i a n t e d e n ó s é u m a n o v a v i d a . O m e s m o o c o r r e c o m n o s s o c o r p o : q u a n d o i n i c i a m o s u m t r a b a l h o c o r p o r a l , h á t o d o u m p r o c e s s o q u e v a i d a f e r t i l i z a ç ã o 83 ao n a s c i m e n t o . Q u a n d o i n i c i a m o s u m t r a b a l h o c o m as a r t i c u l a - ções, existe um m o m e n t o que c o r r e s p o n d e ao i n s t a n t e d a f e r t i - l i z a ç ã o , existe um l o n g o p r o c e s s o de g e s t a ç ã o e, f i n a l m e n t e , o p a r t o - q u a n d o as a r t i c u l a ç õ e s se d e s p r e n d e m , g a n h a m m o b i l i - d a d e e m a i o r f l e x i b i l i d a d e . C o m o t o d a e s p e r a , vivemos e n t ã o s e n s a ç õ e s c o n t r a d i t ó r i a s , d a m e s m a f o r m a c o m o uma m u l h e r g r á v i d a p a r e c e v i v e r , a o m e s m o t e m p o , uma força a m o r o s a e um s e n t i m e n t o de r e j e i ç ã o , pois algo cresce d e n t r o d e l a e t r a n s f o r m a c o m p l e t a m e n t e s e u c o r p o . T o d o p r o c e s s o c r i a t i v o é quase s e m p r e m a r c a d o p o r c o n - t r a d i ç õ e s e a n t a g o n i s m o s c o n s t a n t e s , em que n a s c i m e n t o , vida e m o r t e , a l e g r i a , p r a z e r e d o r c o n s t i t u e m m o m e n t o s d i s t i n t o s , q u e se c o n f u n d e m e d ã o s e n t i d o a uma n o v a e x i s t ê n c i a . I n s i s t o que mais i m p o r t a n t e do que o d e s f e c h o d o p r o c e s s o é o. p r o c e s s o em si, pois n o r m a l m e n t e somos l e v a d o s a o b j e t i v a r n o s s a s a ç õ e s a p o n t o de fixarmos m e t a s e f i n a l i d a d e s q u e a c a - bam' i m p e d i n d o a vivência d o p r ó p r i o p r o c e s s o , d o r i c o c a m i n h o a s e r p e r c o r r i d o . N o t r a b a l h o c o r p o r a l , q u a n d o d e f i n i m o s o b j e t i v o s e x t e r i o r e s a nós, a c a b a m o s p o r c o n v e r t e r o p r o c e s s o num meio de a l c a n ç a r a p e n a s d e t e r m i n a d o s fins e, c o m jsso, p e r d e m o s de vista o p r ó - p r i o c o r p o , t o r n a d o assim m e r o i n s t r u m e n t o d a s nossas v o n t a d e s e i d e a l i z a ç õ e s . Um e x e m p l o : q u a n d o alguém d e c i d e fazer d a n ç a o u hal- teres, de c e r t a m a n e i r a j á tem uma imagem p r e c o n c e b i d a do b a i l a r i n o ou do h a l t e r o f i l i s t a que a c r e d i t a s e r o ideal. E x i s t e , p o r t a n t o , um ideal a a t i n g i r e isso faz com que as p e s s o a s às vezes se s u b m e t a m a um v e r d a d e i r o massacre_ físico e p s i c o l ó g i c o p a r a a l c a n ç a r a f o r m a s o n h a d a . Mas n ã o posso m o l d a r u m c o r p o q u a n d o a i n d a n ã o t e n h o um c o r p o : a n t e s de q u a l q u e r c o i s a . devo p a r t i r d o c o r p o que t e n h o , e isso r e q u e r d i s c i p l i n a e o r g a n i z a ç ã o . 8 4 Q u a n d o falo em d i s c i p l i n a e o r g a n i z a ç ã o n ã o me refiro a a t i t u d e s d i t a d a s d o e x t e r i o r , mas ao a t o de se d a r o r g a n i z a ç ã o , de e s t a b e l e c e r uma d i s c i p l i n a i n t e r n a . P e n s o q u e é m u i t o difícil a l g u é m se s u j e i t a r a q u a l q u e r t i p o de c o n d i c i o n a m e n t o e x t e r i o r sem que e s t e j a de a l g u m a forma p r o p e n s o i n t e r n a m e n t e a acei- t á - l o . P a r a q u e se c o n s i g a t o r n a r fluente o m o v i m e n t o é indis- pensável t r a b a l h a r de m a n e i r a d i s c i p l i n a d a e o r g a n i z a d a . P o r e x e m p l o : p a r a l i b e r a r uma d a d a a r t i c u l a ç ã o p r i m e i r o é neces- s á r i o p r e n d ê - l a , d e s c o b r i r a d i f e r e n ç a e n t r e o que é p r e n d e r e s o l t a r . Só q u a n d o se o b t é m um r e l a t i v o d o m í n i o s o b r e a a r t i - c u l a ç ã o e s u a s p o s s i b i l i d a d e s de m o v i m e n t o é q u e se t o r n a pos- sível s o l t a r , e n c a i x a r e d e s e n c a i x a r à v o n t a d e , e m p r e g a n d o t o d a a p o t e n c i a l i d a d e em f o r ç a r ou l i b e r a r a a r t i c u l a ç ã o . Mas, c o m o em q u a l q u e r o u t r o p r o c e s s o de t r a b a l h o , n ã o a d i a n t a a p e n a s s a b e r que o c o r p o age d e s s a o u d a q u e l a m a n e i r a . É p r e c i s o e d u c a r e t o r n a r fluente a n a t u r a l i d a d e do gesto, a t é o m o m e n t o em qu:: o a p r e n d i z a d o se c o n v e r t e n u m h á b i t o , c o m o p a r t e de u m a d i n â m i c a c o r p o r a l que assimila e ao mesmo t e m p o t r a n s c e n d e os limites d o p r ó p r i o a p r e n d i z a d o . R e s u m i d o em c o m p r e s s ã o ee x p a n s ã o , o m o v i m e n t o hu- m a n o t a n t o é r e f l e x o d o i n t e r i o r do h o m e m q u a n t o t r a d u ç ã o d o m u n d o e x t e r i o r . T u d o o que a c o n t e c e n o U n i v e r s o a c o n t e c e c o - migo e com c a d a célula do meu c o r p o . A e s p i r a l c r e s c e n t e , o U n i v e r s o , tem um p o n t o de p a r t i d a em c a d a um de nós e é d o nosso i n t e r i o r , da nossa c o n c e p ç ã o de t e m p o e e s p a ç o , que e s t a b e l e c e m o s uma t r o c a com o e x t e r i o r . uma r e l a ç ã o com a vida. Se você chega ao p o n t o de se i n t e g r a r ao r i t m o d o U n i v e r s o , seu m u n d o e seus limites t a m b é m vão se a l a r g a n d o e sua mus- c u l a t u r a se a l o n g a n d o , ao c o n t r á r i o do que a c o n t e c e no c o t i - d i a n o c o m u m , o n d e as pessoas, pela r e p e t i ç ã o d o d i a - a - d i a , re- d u z e m g r a d a t i v a m e n t e s u a s vidas, a t r o f i a n d o os músculos. 85 O s e r h u m a n o v e m p e r d e n d o o d o m í n i o d e seus s e n t i d o s a o r e p r e s e n t a r o g e s t o , e n q u a n t o a s o u t r a s e s p é c i e s a n i m a i s p r o - c u r a m p r e s e r v a r esse gesto. U m a n i m a l s e l v a g e m é p e r f e i t o e m s u a i n t e g r i d a d e , é flexível e a d o t a , i n s t i n t i v a m e n t e , a e s p i r a l c o m o l i n g u a g e m c o r p o r a l . A r a z ã o i m p õ e a r e t a c o m o c a m i n h o m a i s c u r t o e n t r e d o i s p o n t o s , m a s e s q u e c e m o s q u e e l a é t e n s a e d i f i c i l m e n t e s e r á h a r - m ô n i c a , n o c a s o da m u s c u l a t u r a h u m a n a . Q u a n d o o h o m e m es- c o l h e os m o v i m e n t o s r e t i l í n e o s e c o n d u z seus m ú s c u l o s a um o b j e t i v o p r e d e t e r m i n a d o , a n u l a a i n t u i ç ã o , s o b r e p õ e a r a c i o n a - l i d a d e a o i n s t i n t o . I s s o n ã o a c o n t e c e r i a se fizesse a o p ç ã o p e l a c u r v a o u e s p i r a l , o n d e e n c o n t r a r i a m a i o r p r a z e r e m c a d a e t a p a d o a p r e n d i z a d o , com g r a d u a l a p r o f u n d a m e n t o e e x p a n s ã o d a c o n s c i ê n c i a . A v i d a é a s í n t e s e d o c o r p o e o c o r p o é a s í n t e s e d a v i d a . N ã o h á q u a l q u e r n o v i d a d e n e s s a a f i r m a ç ã o : d e s d e I s a d o r a D u n c a n - q u e p e r m a n e c e m a i s m o d e r n a d o q u e m u i t a c o i s a q u e se faz em d a n ç a - d e s c o b r i u - s e , p e l a s e n s i b i l i d a d e , a r e - l a ç ã o d a m u s c u l a t u r a h u m a n a c o m o s e l e m e n t o s d a n a t u r e z a . Se t e n h o c o n s c i ê n c i a de q u e as f o l h a s , q u a n d o se m o v e m c o m o v e n t o , t ê m u m a r e l a ç ã o com m i n h a m u s c u l a t u r a e m i n h a r e s p i r a ç ã o , c o n d u z o c a d a m o v i m e n t o p a r a m i n h a m e m ó r i a m u s - c u l a r m a i s p r o f u n d a , q u e , p o r s u a vez, vai me a j u d a r a g e r a r g e s t o s m a i s p u r o s , n a s c i d o s d a s u a l i g a ç ã o c o m a m i n h a e m o ç ã o . I s a d o r a o u v i a o s e l e m e n t o s , s e n t i a - o s e c o n s e g u i a c o d i f i c á - l o s e m a n t ê - l o s p r e s e n t e s em seu g e s t u a l e em s e u c o r p o . C e r t a vez, p e d i a a l g u n s a l u n o s q u e p e g a s s e m p e d r i n h a s e a s j o g a s s e m no m a r . P a r a d e m o n s t r a r c r i a t i v i d a d e , o s a l u n o s r o l a r a m n a a r e i a , o l h a r a m p a r a o céu, c h u t a r a m a á g u a e, d e p o i s , i n t e l e c t u a l m e n t e , j u s t i f i c a r a m t u d o f a l a n d o e m " d i n â m i c a m a i o r " e "múscl.Jlos e s p e c í f i c o s " . M a s n i n g u é m j o g o u a p e d r a n a á g u a . A d a n ç a e a m o v i m e n t a ç ã o c o t i d i a n a n ã o se p r e n d e m a o p a s s a d o o u a o f u t u r o , n e m a u m p r o f e s s o r . O q u e i n t e r e s s a é o 86 a g o r a . N i n g u é m m e l h o r d o que você p o d e q u e s t i o n a r sua pos- t u r a , s u a s a ç õ e s . N ã o s ã o as s e q ü ê n c i a s de p o s t u r a d a d a s p o r u m a p e s s o a à s u a f r e n t e q u e v ã o f a z e r de você um b a i l a r i n o ou uma pessoa de m o v i m e n t a ç ã o h a r m ô n i c a . A d a n ç a c o m e ç a no c o n h e c i m e n t o dos proccs~os i n t e r n o s . V o c ê é e s t i m u l a d o a a d q u i - r i r a c o m p r e e n s ã o de c a d a m u s c u l o c do q u e a c o n t e c e q u a n d o você se m o v i m e n t a . Às vezes, p o r p r o c e s s o s p r a z e r o s o s ou d o l o r o s o s , as p a r t e s v ã o se l i g a n d o c você a c a b a e n t e n d e n d o o t o d o , t e n d o u m a p e r c e p ç ã o mais i n t e g r a d a d o c o r p o . N o r m a l m e n t e , no e n t a n t o , n ã o é o q u e a c o n t e c e : você t r a b a l h a t é c n i c a s e s p e c í f i c a s e s ã o e s s a s m e s m a s t é c n i c a s que o l e v a m a a d q u i r i r c o u r a ç a s que im- p e d e m seu r e c o n h e c i m e n t o i n t e r i o r . Se existe uma d a n ç a mais n a t u r a l , ela está ma1s no â m b i t o d a e x p r e s s ã o p o p u l a r , o n d e é e x e r c i d a sem s o f i s t i c a ç ã o . Q u a n d o um p a i - d e - s a n t o b e n z e a l g u é m , e s t á p r o c e d e n d o a um r i t u a l ins- t i n t i v o , p r o m o v e n d o u m a a r t i c u l a ç ã o b á s i c a q u e e s t á s e m p r e nas m a n i f e s t a ç õ e s p o p u l a r e s a u t ê n t i c a s . E nesse g e s t o i n s t i n t i v o ele c r u z a e n e r g i a , r e d i s t r i b u i a v i b r a ç ã o d o c o r p o , p r o m o v e um re- l a x a m e n t o d o s m ú s c u l o s . Assim c o m o o b e n z i m e n t o em x r e s p e i t a as l i n h a s d o s nossos m ú s c u l o s , t a m b é m n a s d a n ç a s f o l c l ó r i c a s e o u t r a s m a n i f e s t a ç õ e s g e s t u a i s d o p o v o e x i s t e m p o n t o s - c h a v e d a i d e n t i d a d e m a i s p r o - f u n d a . P o r isso m e s m o , s e m p r e d e s c o b r i m o s n a s d a n ç a s p o p u - l a r e s uma i n f i n i d a d e de s e m e l h a n ç a s c o m a d a n ç a c o n s i d e r a d a a r t í s t i c a . D e s s a f o r m a , d e v e m o s b u s c a r c o m p r e e n d e r e a s s i m i l a r n o s s a i n t e r d e p e n d ê n c i a c o m o e s p a ç o . e s q u e c e n d o a f o r m a q u e . q u a n d o p r e c o n c e b i d a , é m o r t a , e s t á t i c a , a c o m o d a d a e i m p e d e o a p r e n - d i z a d o , o a p e r f e i ç o a m e n t o e a c r i a ç ã o de n o v o s gestos. Se t r a b a l h o e n r i q u e c e n d o m i n h a s p o s s i b i l i d a d e s m u s c u l a r e s , eu sou o m o v i m e n t o c não a p e n a s me movo. E. se me movo i n t e g r a l m e n t e . t e n h o em mim t o d a s as f o r ç a s que regem o U n i - 87 verso. Q u a n d o d a n ç o , p o r t a n t o , está d e n t r o de mim a e n g r e n a - gem q u e faz o m o v i m e n t o d o m u n d o . O que vemos, no e n t a n t o , é que o d o m í n i o d a a r t e d a d a n ç a , em nossos dias, o b e d e c e ac e r t a s r e g r a s e c o n v e n ç õ e s em f u n ç ã o de um ideal e s t é t i c o a n t e c i p a d a m e n t e s u p o s t o e p r o p o s t o . Mas é possível p e n s a r a d a n ç a p a r a além desses limites, c o m o uma das r a r a s a t i v i d a d e s em que o ser h u m a n o se e n g a j a ple- n a m e n t e de c o r p o , e s p í r i t o e e m o ç ã o . M a i s do q u e u m a m a n e i r a de e x p r i m i r - s e a t r a v é s do m o v i m e n t o , a d a n ç a é u m m o d o de e x i s t i r - e é t a m b é m a r e a l i z a ç ã o d a c o m u n h ã o e n t r e os h o m e n s . O c o r p o h u m a n o p e r m i t e uma v a r i e d a d e i n f i n i t a de m o v i - m e n t o s , q u e b r o t a m de i m p u l s o s i n t e r i o r e s e se e x t e r i o r i z a m a t r a - vés do gesto, c o m p o n d o uma r e l a ç ã o í n t i m a com o r i t m o , o e s p a ç o , o d e s e n h o das e m o ç õ e s , dos s e n t i m e n t o s e das i n t e n ç õ e s . Mas, se a d a n ç a é um m o d o de existir, c a d a u m de nós possui a s u a d a n ç a e o seu m o v i m e n t o , o r i g i n a l , s i n g u l a r e di- f e r e n c i a d o , e é a p a r t i r d a í que essa d a n ç a e esse m o v i m e n t o e v o l u e m p a r a u m a f o r m a de e x p r e s s ã o em que a b u s c a d a i n d i - v i d u a l i d a d e possa ser e n t e n d i d a pela c o l e t i v i d a d e h u m a n a . 8 8 I I I F u n ç ã o e f o r n 1 a S e n t a m o s e a n d a m o s c o m o p e n s a m o s . O l h a n d o q u a l q u e r s e r h u m a n o a n d a n d o n a s r u a s pode-se d e t e r m i n a r s u a f o r m a de vida. C o m a p r á t i c a , um a p u r a d o d i s c e r n i m e n t o nos p e r m i t i r á l o c a - lizá-lo s o c i a l e e c o n o m i c a m e n t e , t e r u m a i d é i a de s u a s i t u a ç ã o n a vida. P o d e m o s c o n h e c e r nosso s e m e l h a n t e p e l o s m o v i m e n t o s que ele e x e c u t a . O c o r p o i n t e i r o t r a n s m i t e um s i g n i f i c a d o e c o n t a u m a his- t ó r i a a o c a m i n h a r , ao f i c a r em p é o u ao s e n t a r , ao e s t a r , a c o r - d a d o ou a d o r m e c i d o . N o i n t e l e c t u a l , a v i d a é t r a n s m i t i d a p e l o r o s t o ; n o b a i l a r i n o , o s i g n i f i c a d o e s t á nas p e r n a s . A m e m ó r i a g o s t a de r e l e m b r a r o c o r p o i n t e i r o : n ã o é d o r o s t o dos nossos p a i s que nos l e m b r a m o s , m a s de seus c o r p o s e a t i t u d e s n a s s u a s c a d e i r a s p r e d i l e t a s , c o m e n d o , c o z i n h a n d o , f u m a n d o , em t o d a s as p e q u e n a s a ç õ e s do c o t i d i a n o . N ó s n o s l e m b r a m o s d a s p e s s o a s c o m o c o r p o s em m o v i m e n t o e n ã o r o s t o s e s t á t i c o s . O c o m p o r t a m e n t o p o u c a s vezes é r a c i o n a l : h a b i t u a l m e n t e é e m o c i o n a l . P o d e m o s d i z e r p a l a v r a s s e n s a t a s c o m o r e s u l t a d o de um r a c i o c í n i o , mas o s e r i n t e i r o reage às s e n s a ç õ e s . P a r a c a d a p e n s a m e n t o que surge a p a r t i r de uma s e n s a ç ã o , um m ú s c u l o se move. A t r a v é s desses m ú s c u l o s , h e r a n ç a b i o l ó g i c a d o h o m e m , o c o r p o i n t e i r o r e g i s t r a a e m o ç ã o . 8 9 As posturas da tradição dramática cristalizam a teoria dos atores e através do desenho de seus corpos é possível estudar as qualidades épicas em movimento. Culpa, astúcia, fantasia, mesquinhez, êxtase e atração transparecem em alguns movimen- tos dos braços e das mãos. A vivência de cada um transparece em seus movimentos e na postura. A personalidade entra na estrutura - mais uma vez pela negação ou pela afirmação pessoal. Na expressão de cada um existe um equipamento mental e emocional, temperamento, experiências e. preconceitos pessoais, influenciando e controlando a relação de cada parte do corpo com o todo. Este equipamento inclui o trabalho conjunto do movimento, a ação neuromuscular sobre os ossos. Os ossos representam papel importante no sentido de con- trole e na posição de cada homem no mundo. Através deles cada um de nós determina seu grau de segurança. buscando con- tinuamente o ritmo do movimento. Mecânica, fisiológica e psi- cologicamente o corpo humano é compelido a lutar por equi- líbrio. O enfoque fisiológico para o estudo da dinâmica do corpo é baseado no fato de o sistema neuromuscular ser a unidade que determina o movimento organizado. Mecanicamente, unidades se- paradas - os ossos - se movem através do espaço numa dis- posição de tempo definida. A unidade neuromuscular é a força motora. Fisiologicamente, vários estímulos preparam os músculos para suas respostas. Esse~ estímulos, sendo a um só tempo exter- nos e internos, devem ser correlatos. Isso envolve fatores psico- lógicos que afetam as respostas. Para cada estímulo há uma resposta motora. O número de partes envolvidas nessa resposta está condicionado pelas reações e comportamentos sociais da pessoa, assim como por seu estado 90 físico. O indivíduo é uma totalidade e não pode ser dividido em fatores intelectuais, sociais e motores. Eles estão todos inter- ligados. A correlação entre os estímulos visceral, psíquico e perifé- rico, a resposta muscular fundamental, envolve o todo de um homem. O corpo inteiro, animado como é pela memória mus- cular, torna-se um instrumento sensitivo que responde com sa- bedoria, excedendo ao raciocínio do homem ou ao controle cons- ciente. A neuromusculatura do esqueleto e as vísceras agem reci- procamente, sempre condicionados por aquilo que já receberam e' que ainda estão recebendo através de computações emocionais e mentais incessantes. Compreendemos agora que na economia física do indivíduo os vários sistemas podem estar trabalhando em uníssono. Com- preendemos que a função precedeu a estrutura, o pensamento precedeu a idéia, o verbo precedeu o substantivo, o fazer foi experimentado antes da coisa feita. Tudo se move, e no padrão do movimento a vida é objetivada. A ciência aumentou nosso conhecimento, ajudando-nos a compreender melhor estes valores. Através dos estudos dos cons- tituintes químicos das células humanas, do equilíbrio e do con- teúdo químico dos alimentos, do efeito de temperatura e pressão, do estudo de vestuário, moradia, repouso e atividade, pode-se chegar a um equilíbrio mais perfeito do esqueleto humano. Paralelamente ao novo conhecimento dos fatos está o novo conhecimento do inconsciente. O inconsciente é o tesouro e o cerne da criatividade e uma das chaves para a fisiologia. A base que nos deve orientar para novas investigações fisiológicas. Mesmo no melhor cérebro, somente 15% da energia total são avaliáveis pelas determinações conscientes; 85% são usados no processo vegetativo, no funcionamento dÓ coração e assim 91 p o r d i a n t e . I s s o nos d e i x a a p e n a s 1 5 % p a r a o t r a b a l h o n o m u n d o c o n s c i e n t e . Q u a l q u e r e n f r a q u e c i m e n t o do p r o c e s s o v e g e t a t i v o o u i n c o n s - c i e n t e e x i g i r á novas e n e r g i a s e os 1 5 % s ã o a ú n i c a f o n t e p a r a esse r e f o r ç o , q u e deve n o e n t a n t o s e r c o n s e r v a d o p a r a o uso d a s a t i v i d a d e s c o n s c i e n t e s . C o m p o s t o de h á b i t o s biológicos, r a c i a i s e i n d iv i d u a i s , o d e - s e n h o d o m e c a n i s m o h u m a n o tem s o f r i d o m u d a n ç a s i m p o r t a n t e s e c o n s i d e r á v e i s d u r a n t e seu longo p r o c e s s o de d e s e n v o l v i m e n t o . S u a s c a r a c t e r í s t i c a s g e r a i s s ã o d e f i n i d a s , mas as d i v e r s a s v a r i a - ç õ e s i n d i v i d u a i s a i n d a p o d e m s o f r e r m o d i f i c a ç õ e s , p e l o h á b i t o e p e l o t r e i n o . Disposições d e f e i t u o s a s das p a r t e s desse d e s e n h o , a t r a v é s de h á b i t o s a r t i f i c i a i s , p o d e m s e r c o r r i g i d a s . O que a n t e s foi b o a d i s p o s i ç ã o p o d e se t o r n a r d e f e i t u o s a p e l o m a u h á b i t o a d q u i r i d o . O c o r p o h u m a n o , assim como t u d o o que f o r p a r t e d a v i d a , e n c o n t r a os mesmos p r o b l e m a s e s t r u t u r a i s de f o r ç a s a g i n d o re- c i p r o c a m e n t e . Os o!>sos n ã o o f e r e c e m a p e n a s p r o t e ç ã o p a r a n o s s o o r g a n i s m o , mas t a m b é m u m a e s t r u t u r a de a p o i o p a r a o peso d o c o r p o . A t r a v é s de uma f o r ç a de a l a v a n c a o r g a n i z a d a , os ossos di- rigem e d e t e r m i n a m o m o v i m e n t o . N o s s o s c o r p o s t ê m u m a his- t ó r i a que u l t r a p a s s a em m i l h õ e s de a n o s a h i s t ó r i a d a i n t e l i - g ê n c i a h u m a n a e este f a t o i n f l u e n c i a de d i v e r s a s m a n e i r a s a a t i t u d e h u m a n a p e r a n t e a v i d a . M e s m o que as d e s c o b e r t a s c i e n t í f i c a s s e j a m n e g a d a s p o r a l g u n s , deve-se a d m i t i r que o c o r p o d o b e b ê j á se f o r m a v a a n t e s q u e ele c o m e ç a s s e a p e n s a r , f a l a r e d a r e v i d ê n c i a s d a i n t e l i - g ê n c i a h u m a n a . Mas q u a n d o , na c r i a n ç a p e q u e n a , r a c i o c í n i o s p o d e r o s o s g r a d u a l m e n t e se d e s e n v o l v e m , s u a a t e n ç ã o c o m e ç a a se d i r i g i r n ã o mais p a r a o c o r p o e sim p a r a o a m b i e n t e e m q u e vive. Assim. i n i c i a - s e um p r o c e s s o de d i s t a n c i a m e n t o i n t e l e c t u a l d o p r ó p r i o c o r p o . 9 2 M u i t o s de nós a i n d a s e n t e m c e r t a r e p u g n â n c i a q u a n d o ossos e mús~.:ulos s ã o m e n c i o n a d o s . I g n o r a n d o o que se p a s s a sob a pele, e x e c u t a m o s t a r e f a s d i á r i a s i n t e i r a m e n t e d e p e n d e n t e s de nosso m e c a n i s m o i n t e r n o . N o s s o c o r p o nos c h a m a a a t e n ç ã o a p e n a s e m c i r c u n s t â n c i a s d e s a g r a d á v e i s - q u a n d o e s t a m o s d o e n t e s o u f e r i d o s , e devemos n o s d e s p i r p a r a m o s t r a r uma f e r i d a , q u e i m a d u r a ou f r a t u r a . F i - c a m o s e n v e r g o n h a d o s e c o n f u s o s q u a n d o n o s s a pele é m a c h u - c a d a e o s a n g u e e s c o r r e d e l a , d e i x a n d o u m a a s s u s t a d o r a e o f e n - siva m a n c h a . M a s os ossos e x i s t e m e a n a t u r e z a agiu s a b i a m e n t e ao n o s p r o v e r deles. O osso t e m v á r i o s a t r i b u t o s : é f o r t e , r í g i d o , tem e l a s t i c i d a d e - as m e s m a s q u a l i d a d e s q u e fazem d o a ç o o m a - t e r i a ! e s c o l h i d o pelos e n g e n h e i r o s p a r a suas c o n s t r u ç õ e s . O s e r h u m a n o c o n s c i e n t e de seu c o r p o s a b e que d e n t r o dele existe um e s q u e l e t o vivo, com m e c a n i s m o s a t u a n t e s e m ú s c u l o s p r o n t o s p a r a r e s p o n d e r a q u a l q u e r e s t í m u l o . Nesse s e n t i d o , o o u s a d o a n a t o m i s t a e r a m o d e r n o h á q u a t r o c e n t o s anos: V e s a l i u s , q u e m o r r e u e m 1 6 1 6 , a n o em que S h a k e s p e a r e n a s c e u . V e s a l i u s d e s e n h o u um e s q u e l e t o que p o d e r i a ser u m H a m l e t : e m pé, ao l a d o de uma mesa de b i b l i o t e c a , a p o i a d o em u m a d a s p e r n a s , c o t o v e l o e s q u e r d o n a mesa, um p o u c o i n c l i n a d o p a r a a f r e n t e , a m ã o n o r o s t o . A p e d r a , os a r b u s t o s e as folhas n o s pés s u g e r e m o d e s a - b r o c h a r d a c i ê n c i a d a n a t u r e z a , a pose d o e s t u d a n t e o l h a n d o em d i r e ç ã o ao u n i v e r s o invisível da filosofia. O e s q u e l e t o vive, existe: d e n t r o em p o u c o i r á se v i r a r , a n d a r , m o v e r o c o r p o e a c a b e ç a . É impossível d e i x a r de s e n t i r que esse e s q u e l e t o é u m a pessoa. O b a t e r do c o r a ç ã o e o j o r r a r d o s a n g u e s i g n i f i c a m vida. M a s p o r t r á s desse fluxo de s a n g u e o q u e s u s t e n t a a v i t a l i d a d e é o osso. O osso f a b r i c a s a n g u e , a n t e c e d e ao sangue. A r e n o - v a ç ã o e a r e p o s i ç ã o de c é l u l a s c o n t i n u a n o t u t a n o dos ossos: os ossos vivem. 9 3 D e v e m o s s e n t i r os o s s o s v i v o s , se q u i s e r m o s e n t e n d e r s u a i n t e r d e p e n d ê n c i a c o m os t e c i d o s f l e x í v e i s a d j u n t o s . P o d e m o s e n - ~ão . a p r e c i a r a. i m p o r t â n c i a d e s u a f u n ç ã o e m r e l a ç ã o a o c o r p o mte1ro. E l e s a J u d a m t o d o s os o u t r o s t e c i d o s c o m a p r o t e ç ã o d e s u a s c a v i d a d e s , c o m o a p o i o do p e s o e a f a b r i c a ç ã o d e célula~ vermel~as. O o s s o t e m e m c o m u m c o m t o d o o t e c i d o d o c o r p o a q u a l i d a d e d a r e c u p e r a ç ã o , p r o p r i e d a d e d e t o d o p r o t o p l a s m a vivo. O o s s o , e m b o r a f o r n e c e n d o p r o t e ç ã o e a p o i o , f o r n e c e t a m - b é m p o n t o s d e f o r ç a d e a l a v a n c a p a r a as m á q u i n a s d o m o v i - m e n t o : os m ú s c u l o s . O o s s o se m o v e e m r e s p o s t a à u n i d a d e neuro~uscular. O h o m e m c o n t r o l a c o n s c i e n t e m e n t e o e s q u e l e t o , m a s n a o c o n t r o l a c o n s c i e n t e m e n t e a u n i d a d e n e u r o m u s c u l a r . Q u a n d o d i r i g i m o s o m o v i m e n t o do b r a ç o o u d a p e r n a , e s - t a b e l e c e m o s c o n d i ç õ e s p a r a o m o v i m e n t o d e v á r i a s a l a v a n c a s ó s s e a s , n u m a a ç ã o o r g a n i z a d a . A s a b e d o r i a n ã o r e p o u s a n o c o - m a n d o c e r e b r a l ou c o n s c i e n t e , m a s n o s v á r i o s s i s t e m a s q u e c o o p e r a m c o m o m e c a n i s m o n e u r o m u s c u l a r p a r a e s t a b e l e c e r c o n - d i ç õ e s a p r o p r i a d a s . Q u a n d o um s e r h u m a n o r e s o l v e d a n ç a r , t o d a u m a c a d e i a d e r e f l e x o s e n t r a em p r o c e s s o de s i n c r o n i z a ç ã o . E s s e s r e f l e x o s e s t ã o s e n d o p r e p a r a d o s n o m o m e n t o em q u e o b a i l a r i n o d e c i d e , q u a n d o t o m a p o s i ç ã o , a j u s t a o m b r o e c o s t a s , p r o j e t a os o l h o s . R e s p o s t a s i n t e r n a s s ã o a c r e sc e n t a d a s a esses m o v i m e n t o s ' c o m o as q u e m u d a m o r i t m o da r e s p i r a ç ã o . I n s t a n t a n e a m e n t e o s refl.exos c o n d i c i o n a d o s a g e m de a c o r d o c o m os p r i n c í p i o s do~ m e c a m s m o s e d o f u n c i o n a m e n t o o r g â n i c o . A s s i m , é p r e c i s o m a n t e r os o l h o s n a d i s t â n c i a c o r r e t a , a c a b e ç a e q u i l i b r a d a p a r a m a n t e r a p o s i ç ã o e o b r a ç o f i r m e , a b s o r - v e r a r e s i s t ê n c i a d o c o r p o n a e s p i n h a d o r s a l e n a s p e r n a s . M a s t o d a s as r e s p o s t a s s ã o a u t o m á t i c a s : a h a b i l i d a d e n o m o v i m e n t o d e p e n d e d a s i n c r o n i z a ç ã o d e c o n d i ç õ e s q u í m i c a s , m e c â n i c a s e o r g â n i c a s . 9 4 A t é m e s m o o m o m e n t o em q u e d e c i d i m o s i n i c i a r o m o v i - m e n t o é p a r c i a l m e n t e d e t e r m i n a d o p o r s e u s e n t i d o c i n e s t é s i c o , q u e p o d e r í a m o s c h a m a r d e s e n s a ç ã o - d e - q u e - t u d o - e s t á - c o r r e t o . A l i b e r d a d e d e r e s p o s t a t a m b é m é i n f l u e n c i a d a p e l o o t i m i s m o . Se o c o r p o e s t á d e v i d a m e n t e c o n d i c i o n a d o , l i v r e d e d ú v i d a s e me- d o s , o m o v i m e n t o s u r g e e a d a n ç a e x p l o d e . N a s c o n d i ç õ e s a d e q u a d a s , a m o v i m e n t a ç ã o s u r g e - e x a t a - m e n t e c o m o n e v a , c h o v e , f a z sol. O m o v i m e n t o é r e s u l t a d o de c o n d i ç õ e s e s t a b e l e c i d a s d e a c o r d o c o m p r i n c í p i o s b á s i c o s q u e d i r i g e m um m e c a n i s m o d i n â m i c o . E n t e n d e r esses p r i n c í p i o s b á - s i c o s é f u n d a m e n t a l p a r a e n t e n d e r o m e c a n i s m o d o s m o v i m e n t o s . M a s n e n h u m a d e s s a s r e s p o s t a s s e r i a p o s s í v e l se n ã o f o s s e p e l a f o r m a e p e l a e x t e n s ã o d i v e r s i f i c a d a d a s a l a v a n c a s ó s s e a s , a t r a v é s d a s q u a i s o o r g a n i s m o r e a l i z a a d i r e ç ã o d o m o v i m e n t o . O e s q u e l e t o é f a b r i c a d o d e m a n e i r a a r e a l i z a r c e r t a s c o i s a s , m a s a l g u m a s d e l a s s ã o c o m p l i c a d a s . O c r e s c i m e n t o , o d e s e n v o l v i m e n t o e a f u n ç ã o s ã o i n t e r d e p e n d e n t e s . O s o s s o s t ê m q u a t r o f u n ç õ e s : a o r g â n i c a , q u e f a b r i c a c é - l u l a s v e r m e l h a s (os o s s o s e s t ã o v i v o s ) ; a p r o t e t o r a , q u e a l o j a o c é r e b r o , a m e d u l a e o c o r a ç ã o , os p u l m õ e s e as v í s c e r a s (os o s s o s s ã o c o m p a r t i m e n t o s f e c h a d o s ) ; a d e a p o i o , q u e s u p o r t a o p e s o d o c o r p o e s u s t e n t a o s ó r g ã o s d o m o v i m e n t o , o s m ú s c u l o s (os o s s o s s ã o f o r m a ) . P o r fim, d u r a n t e a e v o l u ç ã o , a s n e c e s s i - d a d e s f u n c i o n a i s d e c i d e m a f o r m a (os o s s o s s ã o e s t r u t u r a ) . O e s q u e l e t o é u m t r i u n f o m e c â n i c o d a n a t u r e z a : a s l i n h a s d e f o r ç a a t r a v e s s a m o s o s s o s c a s e n s a ç ã o de m o v i m e n t o s e s t á n e l e s . A m á q u i n a v i v a a n d a . O s e r h u m a n o , a s s i m , é u m c o m p o s t o d e f o r ç a s e q u i l i b r a - d a s . M a n t e r o a p o i o e s t r u t u r a l c o m o m e n o r e s f o r ç o p o s s í v e l n a s d i v e r s a s p a r t e s é u m p r o b l e m a d e a j u s t a m e n t o c o r p o r a l às f o r ç a s e x t e r n a s , p r i n c i p a l m e n t e a m e c â n i c a . A t r a v é s d o e q u i l í b r i o o h o m e m c o n s e r v a a e n e r g i a n e r v o s a e d e s s a f o r m a b e n e f i c i a d i r e t a m e n t e t o d a a s u a a t i v i d a d e , t a n t o 9 5 a m e n t a l q u a n t o a física. N e s t a fase d o p r o c e s s o e v o l u t i v o , e m q u e o h o m e m a s s u m i u a p o s t u r a v e r t i c a l , a s s e g u r o u a o m e s m o t e m p o l i b e r d a d e de m o v i m e n t o s e m a i o r c o n t r o l e s o b r e o m e i o a m b i e n t e . E x i s t e m , c o n t u d o , d e s v a n t a g e n s m e c a m c a s e p o n t o s f r a c o s n a d i s p o s i ç ã o e s t r u t u r a l q u e a m e a ç a m a e s t a b i l i d a d e e a p r o - t e ç ã o d o p r o c e s s o v i t a l . P a r a c o m p e n s a r e s t a f r a q u e z a , é i m - p e r a t i v o r e c o n h e c e r e u t i l i z a r a p r o p r i a d a m e n t e os princ1p10s m e - c â n i c o s q u a n d o a p l i c a d o s n a s p r i n c i p a i s u n i d a d e s e s t r u t u r a i s , n a p o s i ç ã o v e r t i c a l . 9 6 I V A p r e n d i z a d o e e n e r g i a : n o ç õ e s C o m o v i m o s , a o d e s e q u i l í b r i o e m o c i o n a l c o r r e s p o n d e um d e s e q u i l í b r i o p o s t u r a ! , p r o v o c a d o p o r t e n s õ e s d e t o d a o r d e m . N o e n t a n t o , a t e n s ã o e m si n ã o c o n s t i t u i u m p r o b l e m a , p o i s s e m e l a n ã o c o n s e g u i r í a m o s n o s m a n t e r e m p é o u s u p o r t a r o p e s o d e n o s s a e s t r u t u r a , c e d e n d o à f o r ç a d a g r a v i d a d e , q u e c o n s t a n t e - m e n t e n o s i m p e l e à q u e d a . N a v e r d a d e , o p r o b l e m a e s t á n o a c ú m u l o de t e n s õ e s , n a s t e n s õ e s l o c a l i z a d a s q u e r e s t r i n g e m a c a p a c i d a d e d e m o v i m e n t o d a s a r t i c u l a ç õ e s e d o s g r u p o s m u s c u l a - r e s , o b s t r u i n d o o f l u x o e n e r g é t i c o q u e a t r a v e s s a n o s s o c o r p o . A o o b s e r v a r as p o s t u r a s q u e n o r m a l m e n t e a d o t a m o s , é p o s - s í v e l p e r c e b e r de o n d e p r o v é m a m a i o r p a r t e d a s t e n s õ e s . U m a t e n s ã o l o c a l i z a d a n o j o e l h o o u n o s c o t o v e l o s p o d e l i m i t a r n o s s a c a p a c i d a d e d e a n d a r o u d e m o v i m e n t a r l i v r e m e n t e o s b r a ç o s , m a s esse p r o b l e m a p o d e s e r e v i t a d o a t r a v é s d o r e l a x a m e n t o d a a r t i c u l a ç ã o c o r r e s p o n d e n t e . T e o r i c a m e n t e , e s s a e s t r u t u r a ó s s e a d e v e e s t a r s e m p r e a b e r t a e, p a r a isso, c o s t u m a m o s e m p r e g a r v á r i o s e x e r c í c i o s d e a l o n g a - m e n t o m u s c u l a r e d e c o n s e r v a ç ã o d o s e s p a ç o s i n t e r n o s . P o r e x e m p l o : se p r e s e r v a r m o s u m m a i o r e s p a ç o p a r a os p u l m õ e s , a r e s p i r a ç ã o g a n h a m a i s a m p l i t u d e e h á u m a m e l h o r o x i g e n a ç ã o d e t o d o o o r g a n i s m o , u m v e r d a d e i r o i n c r e m e n t o d e e n e r g i a v i t a l . I s s o p o d e p r o p o r c i o n a r p r a z e r , r e l a x a m e n t o e a l í v i o d a t e n s ã o m u s c u l a r . 9 7 • N o i n í c i o d o t r a b al h o c o r p o r a l é m u i t o difícil l o c a l i z a r as tensões m u s c u l a r e s . E l a s e s t ã o e s t r i t a m e n t e l i g a d a s às t e n s õ e s de f u n d o e m o c i o n a l e m e n t a l e em g e r a l s u r g i r a m h á t a n t o t e m p o q u e n a m a i o r i a das vezes j á c o n s t i t u e m u m h á b i t o o u u m a s e g u n d a n a t u r e z a . C o m o j á foi d i t o , uma d a s t é c n i c a s q u e c o s t u m o e m p r e - g a r p a r a a o b s e r v a ç ã o das tensões é a s e q ü ê n c i a dos m o v i m e n t o s básicos de a g a c h a r , s e n t a r , d e i t a r e l e v a n t a r . D u r a n t e essa s e q ü ê n - c i a é possível p e r c e b e r q u a n t o n o s s a linguagem c o r p o r a l é p o b r e e c o m o r e p e t i m o s os mesmos gestos m e c a n i c a m e n t e , em conse- q ü ê n c i a de tensões q u e i n i b e m n o s s o " v o c a b u l á r i o " g e s t u a l . E m n o s s a civilização, c a r a c t e r i z a d a pe1o estresse, o i n d i v í d u o t e n d e a m a n t e r com o p r ó p r i o c o r p o u m a r e l a ç ã o c a d a d i a p i o r . O a c ú m u l o de tensões é uma c o n s t a n t e no c o t i d i a n o . P a r a j u s t i - ficá-lo, as pessoas c o s t u m a m dizer que a velhice e s t á c h e g a n d o , q u e e s t ã o com r e u m a t i s m o , p r o b l e m a de c o l u n a ou q u a l q u e r o u t r a mazela. Q u a s e s e m p r e , p o r é m , n a d a disso é m u i t o v e r d a d e i r o , pois o q u e se p r o c u r a é a p e n a s u m a d e s c u l p a d i a n t e de t e n s õ e s q u e a c a b a m c o m p r o m e t e n d o s e r i a m e n t e os m o v i m e n t o s mais sim- ples e i n i b i n d o a s e n s i b i l i d a d e e a p e r c e p ç ã o c o r p o r a l . No c o r p o h u m a n o existem v á r i o s p o n t o s suscetíveis de t e n s ã o . A l é m dos anéis a m p l a m e n t e e s t u d a d o s p o r R e i c h , a l í n g u a , o c o t o v e l o , o j o e l h o e o d e d ã o do pé s ã o t a m b é m g r a n d e s focos de tensão. A l í n g u a m e r e c e um e s t u d o à p a r t e - e n t r e o u t r a s coisas, ela e s t á em e s t r e i t a r e l a ç ã o com a r e s p i r a ç ã o . A l í n g u a a c o m p a n h a , com m o v i m e n t o s m u s c u l a r e s i m p e r c e p t í v e i s , t o d o o p r o c e s s o de i n s p i r a ç ã o e e x p i r a ç ã o . Nesse s e n t i d o , tensões l o c a l i z a d a s na l í n g u a p r e j u d i c a m o d e s e m p e n h o d a s funções r e s p i r a t ó r i a s . P o r o u t r o l a d o , p o r e s t a r em e s t r e i t a r e l a ç ã o com a m u s c u l a t u r a d o pescoço, t e n s õ e s ali l o c a l i z a d a s p o d e m p r o v o c a r t e n s ã o em t o d o o t r o n c o . Desde a i n f â n c i a t o d o s nós t r a z e m o s l e m b r a n ç a s f o r t e m e n t e g r a v a d a s de o d o r e s d e f r u t a s , de c o m i d a s , de pessoas, de lugares e até mesmo de o b j e t o s , o d o r e s q u e de alguma forma já e s t ã o · ·d m nossa m e m ó r i a e m o c i o n a l e q u e são p a r t e indissolúvel m c u t l os e de nossa p e r s o n a l i d a d e . N e c e s s i t a m o s dessas l e m b r a n ç a s bem vivas se quise~mos sen- tir 0 m u n d o com i n t e n s i d a d e e se q u i s e r m o s nos m a m f e s t a r _no m u n d o com i n t e i r e z a . E uma d a s p o r t a s de e n t r a d a e de s m d a dessas e m o ç õ e s é j u s t a m e n t e a língua. T a m b é m se conh~c:. a i m p o r t â n c i a vital do ó r g ã o no p r o c e s s o de _ver~alizaç~o d a s ~deias - além de l i g a d a à a l i m e n t a ç ã o , à r e s p i r a ç a o e a e m o ç a o , a l í n g u a e s t á d i r e t a m e n t e r e l a c i o n a d a ao exercício d a fala. o ânus c o m o o u t r a p o r t a d a s emoções, a l é m de c u m p r i r a f u n ç ã o espe~ífica de a p a r e l h o e x c r e t o r re~e~a a i n d a e s t a d o s em~ c i o n a i s _ os d e s a r r a n j o s i n t e s t i n a i s , a p n s a o de v e n t r : e ~ p r o - p r i a e x c r e ç ã o estão a s s o c i a d o s a p r o c e s s o s físico-~mocwnms ~~e a t u a m s o b r e t o d o 0 c o r p o e, m u i t a s vezes, se l o c a l i z a m n a reg1ao d o e s f í n c t e r anal. o mesmo o c o r r e em r e l a ç ã o aos d e m a i s ó r g ã o s d o s e n t i d o , e m m e n o r escala. O a p a r e l h o a u d i t i v o , p o r e x e m p l o , t a m -mas · d ' bém p o d e s e r um f o c o d e t e n s ã o que age ~e : o r m a ~~~s ! r e t a s o b r e a c a b e ç a . C e r t a s d i f i c u l d a d e s de a s s o c m ç a o de t~eJas ~ d~ a r t i c u l a ç ã o d o p e n s a m e n t o p r o v ê m desse t i p o d e . t~~sao. N a o e à t o a que as pessoas s u r d a s desenvolvem uma sens1b1hd~de ~o:po ral d i f e r e n t e , assim c o m o os cegos, que e n c o n t r a m m m t a dificul- d a d e em p e r c e b e r s e u s c o r p o s , em t e r u m a imagem c o r p o r a l de si mesmos. Além disso, existem diversos p o n t o s em nosso c o r p o q u : são v e r d a d e i r o s c e n t r o s n e r v o s o s i r r a d i a d o r e s de e n e r g i a , assocm~os às emoções: 0 q u e i x o , a região d a t r a q u é i a , o e s t e r n o , a c n s t a d o i l í a c o , a região d o p ú b i s , a c o x o f e m o r a l . Esses p o n t o s , q u a n d o b l o q u e a d o s , a c u m u l a m t e n s ã o e e m t o r n o deles vai se f o r m a n d o u m a v e r d a d e i r a coura~a. musc~lar. o ~quilíbrio dessas t e n s õ e s - e n t e n d i d o .c~m.o a tomc1da~e Ideal dos m ú s c u l o s _ p e r m i t e t a m b é m o e q m h b n o das e m o ç o e s q u e d e r i v a m de c a d a u m desses p o n t o s . 99 H á u m a d i f e r e n ç a m u i t o g r a n d e , p o r e x e m p l o , e n t r e a e m o ç ã o e x p r e s s a a t r a v é s d o e s t e r n o - q u e a t u a m a i s n o s e n t i d o d a p r o - j e ç ã o - e a e m o ç ã o q u e flui d a r e g i ã o d o s q u a d r i s . E s s e s p o n t o s o u a r t i c u l a ç õ e s n ã o a t u a m a p e n a s c o m o d o b r a d i ç a s d o c o r p o , m a s t a m b é m c o m o m a r c o s d i v i s o r e s d a s m a i s d i f e r e n t e s e m o ç õ e s . De c e r t a f o r m a , a c a d a g r u p o m u s c u l a r e a r t i c u l a r c o r r e s p o n d e d e t e r - m i n a d a e m o ç ã o e, d e p e n d e n d o d a e m o ç ã o q u e se q u e i r a t r a n s - m i t i r , d e v e - s e p r i v i l e g i a r o t r a b a l h o c o m esse o u a q u e l e g r u p o m u s c u l a r , essa o u a q u e l a a r t i c u l a ç ã o . Se e s t a m o s c o n s t r u i n d o u m p e r s o n a g e m c u j a c a r a c t e r í s t i c a p r i n c i p a l s e j a o m e d o , p o r e x e m p l o , o c e n t r o é a p a r t e m a i s l i g a d a a essa e m o ç ã o . A l g u é m c o m a s e n s a ç ã o d e m e d o t e n d e a se f e c h a r , a r q u e a n d o os o m b r o s e a p o i a n d o - s e n a s c o s t a s . Q u a n d o os e s p a ç o s a r t i c u l a r e s s ã o s a t i s f a t o r i a m e n t e p r e s e r v a d o s , o j o g o d e e m o ç õ e s a s s o c i a d a s a esses p o n t o s p o d e s e r p l e n a m e n t e s e n t i d o . ·,., Q u a n d o i n i c i a m o s u m t r a b a l h o c o r p o r a l d a m a n e i r a c o m o p r o p o n h o , e s t e j a ele v o l t a d o p a r a a d a nç a , o t e a t r o o u q u a l q u e r o u t r a a t i v i d a d e , a p r i m e i r a n e c e s s i d a d e q u e se i m p õ e é a d e r r u b a d a d a p a r e d e q u e s e p a r a a s a l a de a u l a , o n d e e x e r c i t a m o s n o s s o s c o r p o s , d o m u n d o e x t e r i o r , o n d e v i v e m o s n o s s a v i d a c o t i d i a n a . N ã o p o d e m o s e s q u e c e r q u e o c o r p o q u e q u e r e m o s e x e r c i t a r é o m e s m o c o m o q u a l n o s a c o s t u m a m o s a c o r r e r , b r i n c a r , a m a r o u s o f r e r . Q u a n t o m a i s l e v a r m o s em c o n t a e s s a d i m e n s ã o e x i s t e n c i a l r e v e l a d a a t r a v é s d o n o s s o c o r p o , q u a n t o m a i s c o n s i d e r a r m o s a s d ú v i d a s e q u e s t i o n a m e n t o s q u e n a s c e m n a r e l a ç ã o c o m o m u n d o e x t e r i o r , m a i s p r o v e i t o s o p o d e r á v i r a s e r o t r a b a l h o r e a l i z a d o e t a n t o m a i s r i c o o r e s u l t a d o o b t i d o . P o r o u t r o l a d o , a r e l a ç ã o p r o f e s s o r - a l u n o n ã o d e v e s e r m u i t o d i f e r e n t e d a s r e l a ç õ e s q u e m a n t e m o s c o m as p e s s o a s e m n o s s a v i d a d i á r i a . É m u i t o c o m u m , p e l o m e n o s nos e s t á g i o s i n i c i a i s , a t e n d ê n c i a d o a l u n o a p r o j e t a r n o p r o f e s s o r s u a n e c e s s i d a d e d e u m p o n t o d e r e f e r ê n c i a e x t e r n o , u m a f i g u r a d e s t i n a d a a a b s o r v e r t o d o g ê n e r o d e c a r ê n c i a s . 1 0 0 M a s , q u a n d o e s s a t r a n s f e r ê n c i a o c o r r e e é d e t e c t a d a p e l o r o f e s s o r , e s t e d e v e r á e n c o n t r a r u m m e i o c a p a z d e p e r m i t i r q u e ~ a l u n o se d ê c o n t a d o f a t o , p o i s a s s i m p o d e r á a j u s t a r - s e a o t r a b a l h o e a si m e s m o . A r e l a ç ã o d o t i p o p r o f e s s o r - g u r u - o n i p o - t e n t e e a l u n o - f i e l - s u b s e r v i e n t e p o d e s e r m u i t o p r e j u d i c i a l a o t r a - b a l h o q u e se e s t á d e s e n v o l v e n d o , a s s i m c o m o à p r ó p r i a v i d a . A o l o n g o d e s s e p r o c e s s o é f u n d a m e n t a l c o n s i d e r a r a r e l a ç ã o m u n d o - e u , v e r d a d e i r a o r i g e m e m o t o r d o m o v i m e n t o e d a p r ó p r i a d a n ç a , p o i s d a d i n â m i c a d e s s e r e l a c i o n a m e n t o é q u e e m e r g e a s i n g u l a r i d a d e q u e faz d e c a d a p e s s o a u m s e r ú n i c o e d i f e r e n c i a d o . A t r a v é s d a v i v ê n c i a d a r e l a ç ã o m u n d o - e u , o e u i n t e r n o d e s a - b r o c h a a p a r t i r d o a m a d u r e c i m e n t o d o eu s o c i a l , q u e n a d a m a i s é d o q u e a n o s s a f o r m a d e r e l a ç ã o c o m o m u n d o e x t e r i o r . A d e s c o b e r t a d o eu i n t e r n o , de u m s e r ú n i c o , i n d i v i d u a l e c r i a t i v o , é i n d i s p e n s á v e l a o e x e r c í c i o d a d a n ç a , se q u i s e r m o s q u e e l a se t o r n e u m a f o r m a de e x p r e s s ã o d a c o m u n i d a d e h u m a n a . D e s d e o n a s c i m e n t o s o m o s s u b m e t i d o s a u m a s é r i e d e c o n d i c i o n a - m e n t o s s o c i a i s , a n t e s m e s m o de v i v e r m o s os p r o c e s s o s d e e d u c a - ç ã o f o r m a l , o q u e a c a b a r e s u l t a n d o e m p r o c e d i m e n t o s m e c â n i c o s e r e p e t i t i v o s , d o s q u a i s n ã o t e m o s p e r c e p ç ã o o u c o n s c i ê n c i a . Se isso, de u m l a d o , f a c i l i t a a n o s s a e x i s t ê n c i a c o t i d i a n a , p o r o u t r o a f a s t a e d i f i c u l t a o p r o c e s s o d e a u t o c o n h e c i m e n t o . E m o u t r a s p a l a v r a s , a m e m ó r i a r o b o t i z a d a p o d e p r o d u z i r f o r m a s j á c a t a l o g a d a s e c o n h e c i d a s , m a s d i f i c i l m e n t e c r i a r m o v i m e n t o s n o v o s e r i c o s e m e x p r e s s ã o . E a d a n ç a n ã o s i g n i f i c a r e p r o d u z i r a p e n a s f o r m a s . A f o r m a p u r a é f r i a , e s t á t i c a , r e p e t i t i v a . D a n ç a r é m u i t o m a i s a v e n t u r a r - s e n a g r a n d e v i a g e m d o m o v i m e n t o q u e é a v i d a . N e s s e s e n t i d o , a f o r m a p o d e se c o m p a r a r à m o r t e e o m o v i m e n t o à v i d a . O s m o v i m e n t o s c i r c u l a r e s s ã o os m a i s r e l a x a n t e s p a r a o c o r p o . D e c e r t a f o r m a , eles l i b e r a m as a r t i c u l a ç õ e s e os g r u p o s m u s c u l a - res, p e r m i t i n d o o e q u i l í b r i o ó s s e o e m u s c u l a r , a o c o n t r á r i o d a l i n h a r e t a , q u e às v e z e s b l o q u e i a e i m p e d e a e x p l o r a ç ã o d a s m a i s d i v e r s a s p o s s i b i l i d a d e s d e m o v i m e n t o . 101 Essa l i n h a c u r v a , o u r e d o n d a , vai g~::rando a n é i s m u s c u l a r e s p o r t o d o o c o r p o . Estes, p o r sua vez, se n ã o e v o l u í r e m p a r a u m a e s p i r a l , i r ã o p r o v o c a r a t e n s ã o . Assim, o m o v i m e n t o c i r c u l a r d e v e r á p r o c u r a r s e m p r e o c a m i n h o da e s p i r a l , de u m a c u r v a a b e r t a , pois do c o n t r á r i o g i r a r e m o s mas s e r e m o s i n c a p a z e s de s a i r do l u g a r . De q u a l q u e r forma, t é c n i c a n ã o é estética. A p e s a r de p o s s u i r um s e n t i d o u t i l i t á r i o na d a n ç a , a essência da t é c n i c a c o n s t i t u i a p e n a s u m a f o r m a de o r g a n i z a r e d i f u n d i r um d e t e r m i n a d o c o n h e - c i m e n t o a r e s p e i t o do p r ó p r i o c o r p o e das p o s s i b i l i d a d e s de m o v i m e n t o . E s s a t é c n i c a , p o r t a n t o , deve ser c r i s t a l i n a , t r a n s p a r e n t e , pois d o que a d i a n t a fazermos uma série de m o v i m e n t o s f o r m a l m e n t e c o n s i d e r a d o s b o n i t o s se isso n ã o t r a d u z ou e x p r e s s a n a d a , se n ã o há o b j e t i v o ou i n t e n ç ã o n a q u i l o que faço e se, a c i m a de t u d o , n ã o c o n t r i b u i p a r a meu a u t o c o n h e c i m e n t o ? H á uma m e n t a l i d a d e p r e d o m i n a n t e que c o n c e b e a t é c n i c a corpo um fim em si, q u a n d o na v e r d a d e ela deve s e r mais um m e i o eficaz e em plena s i n t o n i a com os fins que p r o p o n h o a t i n g i r . E a t é c n i c a eficaz talvez seja a q u e l a que t o r n a possível e x t r a p o l a r t o d o s os falsos e r e p e t i t i v o s c o n c e i t o s de beleza, que p e r m i t e c r i a r ou r e v e l a r a i d e n t i d a d e e n t r e a d a n ç a e o d a n ç a r i n o , e n t r e q u e m d a n ç a e o que está s e n d o d a n ç a d o . P o d e m o s d i z e r que o que faz a b e l e z a de um m o v i m e n t o é a c l a r e z a , a o b j e t i v i d a d e . Q u a n d o o m o v i m e n t o é limpo, c o n s e g u e e x p r e s s a r a q u i l o que busca e x p r e s s a r e, c o m o c o n s e q ü ê n c i a n a t u r a l de s u a v e r d a d e , g a n h a em beleza e em o ç ã o . P r e c i s a m e n t e a í reside seu v a l o r estético. É m u i t o difícil m a n i f e s t a r um s e n t i m e n t o , uma e m o ç ã o , uma i n t e n ç ã o , se me o r i e n t o mais por f o r m a s c o n d i c i o n a d a s e c o n - c e i t o s p r e e s t a b e l e c i d o s do q u e pela v e r d a d e do meu gesto. O que c o n f e r e a u t e n t i c i d a d e e e x p r e s s ã o a u m d a d o m o v i m e n t o c o r e o - g r á f i c o é p r e c i s a m e n t e o p o d e r q u e ele tem de t r a d u z i r c e r t a s 1 0 2 e m o ç õ e s , s e n t i m e n t o s o u s e n s a ç õ e s , de t a l f o r m a que s e r i a impos- sível t r a d u z i - l o s de o u t r a f o r m a ou a t r a v é s d o r e c u r s o de o u t r a l i n g u a g e m . O u seja: o q u e é d a n ç a d o é d a n ç a d o p o r a l g u é m que vive i n t e n s a m e n t e a q u e l e m o v i m e n t o , a q u e l e gesto, e p o r isso c o n s e g u e e x p r e s s á - l o p l e n a m e n t e . Q u a n d o s o l t a m o s nosso c o r p o - o que n ã o significa des- p e n c a r - , o m o v i m e n t o que e x e c u t a m o s flui l i v r e m e n t e , o b e d e - c e n d o a uma f o r m a de o r g a n i z a ç ã o n a t u r a l , a uma linguagem g e s t u a l que, de a l g u m m o d o , já c o n s t i t u i p a r t e de nossa d i n â m i c a e e s t á em h a r m o n i a com nossa c a p a c i d a d e a n a t ô m i c a e f u n c i o n a l , com n o s s a c a p a c i d a d e de m o v i m e n t o . P o r o u t r o l a d o , as s i t u a ç õ e s s o c i a i s e c u l t u r a i s i n f l u e n c i a m m u i t o o c o m p o r t a m e n t o g e s t u a l e p o s t u r a ! q u e a d o t a m o s . P o r e x e m p l o , as s o c i e d a d e s p o l i n é s i a , h a v a i a n a e t a i t i a n a , c é l e b r e s p e l a l i b e r d a d e de c o s t u m e s , p r o d u z e m n a q u e l e s p o v o s p o s t u r a s e m o v i m e n t o s flexíveis e r e d o n d o s , d e n o t a n d o o g r a u de l i b e r d a d e q u e a q u e l a s p e s s o a s d e s f r u t a m . J á u m a s o c i e d a d e g u e r r e i r a , de c a ç a d o r e s , c o m o a de c e r t a s t r i b o s a f r i c a n a s , p r o d u z p o s t u r a s e m o v i m e n t o s fortes, i n t e n s o s , de g r a n d e c o n c e n t r a ç ã o e c o n t e ú d o r í t m i c o . As t é c n i c a s e x c e s s i v a m e n t e f o r m a i s q u e d e s c o n s i d e r a m esses fatos q u a s e s e m p r e c a e m n o vazio, n o l i m i t e d o s gestos a r t i f i c i a i s e d e s p r o v i d o s de e m o ç ã o . Nesse caso, os m o v i m e n t o s s ã o c o n f u s o s e p o u c o o b j e t i v o s e o q u e se a p r e s e n t a c o m o e m o ç ã o s ã o a p e n a s m á s c a r a s , a r t i f í c i o s t e c n i c a m e n t e p r o d u z i d o s , sem q u a l q u e r r e l a ç ã o com um i m p u l s o v i t a l . O que essas t é c n i c a s i g n o r a m é a p r ó p r i a v i t a l i d a d e do m o v i m e n t o . O b v i a m e n t e . nosso c o r p o n e c e s s i t a de c e r t o s c ó d i g o s p a r a q u e p o s s a se e x p r i m i r . E n t r e t a n t o , esses c ó d i g o s d e v e m b r o t a r d o m o v i m e n t o que e x e c u t a m o s a p a r t i r de nossa p r ó p r i a linguagem g e s t u a l , d a q u e l a l i n g u a g e m que e m p r e g a m o s n o d i a - a - d i a . T e n d o c o n s c i ê n c i a dessa l i n g u a g e m posso me c o m u n i c a r a t r a v é s d e l a , p o s s o d a n ç a r com ela. 1 0 3 Se n ã o c o n s e g u i m o s e s t a b e l e c e r um c o n t a t o c o n s c i e n t e c o m o n o s s o eu i n t e r i o r , c o n t a t o q u e n o r m a l m e n t e se p e r d e d e s d e a i n f â n c i a , p e r m a n e c e m o s i m p o t e n t e s e i n c a p a z e s de c r i a r um v e r d a - d e i r o d i á l o g o , s e j a ele q u a l for. E m l i n g u a g e m c o r p o r a l , isso i r á t r a d u z i r - s e em g e s t o s , p o s t u r a s e a t i t u d e s m e d r o s o s , l i m i t a d o s , i n s e g u r o s , r e v e l a n d o a m a n e i r a c o m o nos p r o j e t a m o s n o m u n d o . O f a t o de c a d a p e s s o a s e r , e m s í n t e s e , o p r ó p r i o m u n d o , um m i c r o c o s m o , p e r m i t e q u e ela e n c o n t r e r e s p o s t a s p a r a s u a s d ú v i d a s , p a i x õ e s e a n s i e d a d e s q u a n d o m e r g u l h a c o m c o r a g e m e t é c n i c a em seu u n i v e r s o i n t e r i o r . T a l v e z s e j a isso q u e faz c o m q u e g r a n d e s a t o r e s r e p r e s e n t e m um m e s m o p e r s o n a g e m c e n t e n a s de vezes, s e m p r e de m a n e i r a s d i s t i n t a s . O u seja: b u s c a n d o e m si a v e r d a d e d a q u e l e p e r s o n a g e m , o a t o r p o d e c o n s e g u i r a c a d a n o v a a p r e s e n t a ç ã o e x p l o r a r a s p e c t o s novos e i n é d i t o s do ser f i c t í c i o - m a s a o m e s m o t e m p o real - que e n c a r n a . O m e s m o p r o c e s s o se a p l i c a à c o n s t r u ç ã o dos t i p o s o u p e r s o - n a g e n s d o balé clássico: q u a n d o essa t é c n i c a é d e v i d a m e n t e a p l i - c a d a , as G i s e l l e s , O d e t e s e C o p é l i a s d e i x a m de s e r p e r s o n a g e n s a c a d ê m i c o s p a r a se t o r n a r v e r d a d e i r o s clássicos, d e i x a m d e s e r e s t e r e ó t i p o s de p e r s o n a l i d a d e s h u m a n a s p a r a a t i n g i r a d i m e n s ã o de a u t ê n t i c o s a r q u é t i p o s d a h u m a n i d a d e . N o t e a t r o ou na d a n ç a , o a t o r e o b a i l a r i n o d e s e n c a d e i a m a p a r t i r de s u a s i n d i v i d u a l i d a d e s um r i c o p r o c e s s o c r i a t i v o , a t r a v é s do q u a l os e l e m e n t o s t é c n i c o s ad.quiridos p o d e m s e r c o d i f i c a d o s e, em s e g u i d a , r e p r e s e n t a d o s . A t é c n i c a c u m p r e a q u i a t a r e f a de d a r c o r p o e a l m a a c a d a t i p o o u p e r s o n a g e m q u e se q u e i r a r e p r e s e n t a r . E s t e , p a r a mim, deve s e r o p r o c e s s o de c r i a ç ã o c a p a z de p r o d u z i r o b r a s e m a n i f e s t a ç õ e s v e r d a d e i r a m e n t e a r t í s t i c a s . N o t e r r e n o d a a r t e , a o b r a só t o m a c o r p o na r e l a ç ã o q u e o a r t i s t a m a n t é m c o m a r e a l i d a d e que o c e r c a , m e s m o que essa r e l a - ç ã o seja a t r a v e s s a d a p e l a s m e d i a ç õ e s mais sutis. O a r t i s t a , c o m o c r i a d o r , m a i s do que n i n g u é m n e c e s s i t a a g u ç a r s u a p e r c e p ç ã o d o r e a l , e o m o m e n t o d a c r i a ç ã o p r e s s u p õ e e a o m e s m o t e m p o e n c e r r a o p r o c e s s o de a u t o c o n h e c i m e n t o . 1 0 4 O c o r p o h u m a n o é uma s í n t e s e d o U n i v e r s o . N ã o s o u eu q u e m diz, nem tal c o i s a foi d i t a a p e n a s neste s é c u l o . Mas s a b e m o s q u e no c o r p o t o d a s as r e l a ç õ e s . t o d a s as p r o p o r ç õ e s u n i v e r s a i s e s t ã o de a l g u m a f o r m a c o n t i d a s e é p r e c i s a m e n t e essa i n f i n i d a d e de a t r i b u t o s , f u n ç õ e s e p o ss i b i l i d a d e s que faz do c o r p o um v e r d a - d e i r o m i s t é r i o . A p e s a r de t o d o c o n h e c i m e n t o a c u m u l a d o a seu r e s p e i t o , o c o r p o h u m a n o a i n d a n ã o foi c o m p l e t a m e n t e e x p l o r a d o e t a l v e z n u n c a c h e g u e m o s a c o n c l u s õ e s d e f i n i t i v a s s o b r e s u a s p o t e n c i a l i - d a d e s . De q u a l q u e r f o r m a , sua e x i s t ê n c i a revela a p r e s e n ç a de algo c u j a d i m e n s ã o t r a n s c e n d e a sua p r ó p r i a m a t e r i a l i d a d e : a q u i l o q u e c o m u m e n t e c h a m a m o s de e n e r g i a vital. A t u a l m e n t e , em d i v e r s o s p a í s e s do m u n d o , d e s e n v o l v e - s e um a m p l o t r a b a l h o no c a m p o da b i o e n e r g é t i c a , que p e r m i t e s u s t e n t a r a i d é i a de que a e n e r g i a é a base da p r ó p r i a vida. C o m o p o t e n - c i a l i z a r e c a n a l i z a r essa e n e r g i a em um s e n t i d o c r i a t i v o é o q u e nos i n t e r e s s a mais de p e r t o , t a n t o no d o m í n i o d a a r t e q u a n t o d a p r ó p r i a vida. M e s m o r e l a t i v i z a n d o a o n i p o t ê n c i a q u e se c o s t u m a a t r i b u i r a o h o m e m e n q u a n t o s e r r a c i o n a l , n ã o há c o m o n e g a r sua c a p a c i d a d e c o n s c i e n t e de l a n ç a r m ã o dessa e n e r g i a , m o d i f i c a n d o - s e ou i n t e r - v i n d o s o b r e p r o c e s s o s n a t u r a i s . A p r ó p r i a a t i v i d a d e b i o l ó g i c a , c a r a c t e r i z a d a p o r um c o n t í n u o m o v i m e n t o , é a u s i n a que p r o d u z essa e n e r g i a vital e g e r a um fluxo e n e r g é t i c o q u e se p r o c e s s a p o r t o d a s as á r e a s do c o r p o h u m a n o . E m a l g u m a s d e s s a s á r e a s , esse fluxo é bem mais visível, c o m o p o r e x e m p l o nas m ã o s e nos pés, regiões que se c o m u n i c a m com o m u n d o e x t e r n o de f o r m a m u i t o mais i n t e n s a . A l é m dessas regiões, o p l e x o s o l a r , o e s t e r n o , a g a r g a n t a . a v i r i l h a , s ã o g r a n d e s c e n t r o s n e r v o s o s o n d e t a m b é m se r e a l i z a um i n t e n s o fluxo e n e r - gético. A t r a v é s d a e n e r g i a v i t a l p r o d u z i d a p o r m i n h a p r ó p r i a ativi- d a d e b i o l ó g i c a r e l a c i o n o - m e com o m u n d o , c o m i g o m e s m o e com 1 0 5 t u d o o q u e me c e r c a . M i n h a e n e r g i a v i t a l c r e s c e n a m e s m a m e d i d a q u e o m e u t r a b a l h o c o r p o r a l se t o m a c o n s c i e n t e . Q u a n t o mais p r e s e n t e em mim m e s m o eu ~stiver, q u a n t o mais a t e n t o a c a d a g e s t o ou d e s l o c a m e n t o , m a i o r p o d e r á s e r a m i n h a p r o d u ç ã o e c o n c e n t r a ç ã o de e n e r g i a vital. M o v i d o p o r essa n e c e s s i d a d e f u n d a m e n t a l - a c o n s c i ê n c i a de mim - é q u e p r o c u r o , a t r a v é s d o meu t r a b a l h o , p r o p o r c i o n a r à s p e s s o a s u m a c o n s c i ê n c i a c o r p o r a l a p a r t i r d a p e r c e p ç ã o d o s e s p a ç o s i n t e r n o s d o p r ó p r i o c o r p o . Nesses e s p a ç o s , que em geral c o r r e s p o n d e m às d i v e r s a s a r t i c u l a ç õ e s , se l o c a l i z a m fluxos e n e r g é - t i c o s e se i n s e r e m os v á r i o s g r u p o s m u s c u l a r e s . A i n d a é b o m r e s s a l t a r q u e a p r e s e r v a ç ã o do e s p a ç o c o r p o r a l a t u a no s e n t i d o de g a r a n t i r u m a b o a r e l a ç ã o de e q u i l í b r i o , p o i s q u a n d o se s u b t r a i o e s p a ç o c o r p o r a l s u r g e a t e n d ê n c i a à d i m i - n u i ç ã o d a c a p a c i d a d e de e q u i l í b r i o e q u a n d o se c o n s e g u e p r e - s e r v a r e a m p l i a r esse e s p a ç o o e q u i l í b r i o a l c a n ç a um p o n t o s a t i s f a t ó r i o . P a r a e n t e n d e r essa r e l a ç ã o , m e s m o s a b e n d o q u e o c o r p o c o n s t i t u i u m a t o t a l i d a d e i n d i v i s í v e l , p o d e m o s e x e m p l i f i c a r d i z e n d o q u e e x i s t e m d o i s t i p o s d e e q u i l í b r i o (ou d e s e q u i l í b r i o ) q u e se i n f l u e n c i a m m u t u a m e n t e : o i n t e r n o e o e x t e r n o . Um d a d o e q u i - l í b r i o (ou d e s e q u i l í b r i o ) e x t e r n o g e r a um d a d o e q u i l í b r i o (ou d e s e - q u i l í b r i o ) e x t e r n o . E v i c e - v e r s a . D o m e s m o m o d o , existe um e s p a ç o i n t e r i o r , e m o c i o n a l , m e n - t a l , p s i c o l ó g i c o , e um e s p a ç o e x t e r i o r , q u e é o n d e se m a n i f e s t a a d i n â m i c a d o c o r p o . A s e n s a ç ã o de e q u i l í b r i o c o r r e s p o n d e a o m o m e n t o o u a o s m o m e n t o s em q u e d e s c o b r i m o s u m a m a n e i r a h a r m ô n i c a de u t i l i z a ç ã o d o e s p a ç o , e m q u e e q u i l í b r i o i n t e r i o r e e x t e r i o r j á n ã o se d i f e r e n c i a m mais. O h o m e m se i n s e r e no U n i v e r s o e a t u a c o m o s í n t e s e d e s s e U n i v e r s o de t a l m a n e i r a que, a o me c o n h e c e r e c o n h e c e r a h u m a - n i d a d e , e s t o u d e s v e n d a n d o o p r ó p r i o U n i v e r s o . E s s a r e l a ç ã o p o d e s e r e s m i u ç a d a a t é o nível c e l u l a r , c o m o p a r t e d e um p r o c e s s o 1 0 6 b a s e a d o na d i a l é t i c a d a p r ó p r i a n a t u r e z a , q u e c o n f o r m a e d i s p õ e a s c o i s a s e os h o m e n s i n d e p e n d e n t e m e n t e de q u a l q u e r v o n t a d e . C o m o h o m e n s e s e r e s n a t u r a i s , d e v e r í a m o s c o n s i d e r a r e p r o - c u r a r r e s p e i t a r as leis d a n a t u r e z a t a m b é m i n e r e n t e s a n ó s . O f a t o de s e r m o s i n d i v í d u o s c u l t u r a i s n ã o e l i m i n a e s s a v e r d a d e , a p e s a r de nos a f a s t a r c a d a vez mais d e l a . O q u e p r o p o n h o é a r e t o m a d a d a s leis n a t u r a i s que regem t o d a e x i s t ê n c i a , e x a t a m e n t e a t r a v é s d o t r a b a l h o c o n s c i e n t e . 107 v Percepção corporal a partir de movimentos básicos No dia-a-dia realizamos uma infinidade de movimentos que acabam revelando a relação que costumamos manter com nosso corpo e com tudo mais que nos cerca. Se observarmos, por exem- plo, o ato de andar, veremos como é possível identificar caracte- rísticas muito distintas de comportamento. . Dependendo da relação que normalmente estabelecem os pés com o chão. podemos expressar agressividade, dor, alegria ou até mesmo ausência. Existem pessoas que agridem o chão ao andar, algumas que acariciam e outras ainda que simplesmente estão distantes do chão, às vezes deixando transparecer uma rela- ção de completo abandono. Mas o simples ato da observação já interfere na minha ma- neira de andar, pois tudo aquilo que é observado - o contato dos pés com o chão, a posição dos joelhos e quadris, a coloca- ção do tronco em relação às pernas, a posição da cabeça em relação ao tronco - acaba sofrendo uma interferência. Movi- mentos que hámuito tempo estão incorporados à nossa dinâmica são, a partir de então. evidenciados e se tornam perceptíveis. Observando atentamente o meu andar. percebo a relação de apoio que tenho com o chão e como meu corpo atua em movi- 108 mento. A minha maior ou menor liberdade de movimento ao andar vai, assim, tornando mais clara a relação de equilíbrio que costumo manter com o solo, o espaço, a gravidade e meu pró- prio corpo. Da mesma maneira que o andar, os movimentos de agachar, sentar, deitar, levantar, também possibilitam observar o desem- penho das articulações nas ati(udes de postura mais comuns, ou ainda as dificuldades na passagem de um movimento para outro. É muito importante executar e perceber esses movimentos, pois eles acontecem a todo momento, quando sentamos numa cadeira, deitamos numa cama ou caminhamos pela rua. E para mim, mais do que numa aula, é no cotidiano que essa experiência de obser- vação e questionamento deve ser vivenciada, permitindo que ges- tos comuns se convertam em atitudes mais ou menos conscientes. Sem que haja consciência desses movimentos e da maneira como costumamos fazê-los é muito difícil avançar em direção a movimentos mais elaborados, que já exigem um certo conheci- mento e domínio de si mesmo. Se não levarmos em conta essa realidade, qualquer tentativa nesse sentido tende a fracassar ou a se converter em pura ginástica. Um exemplo: certa vez dei um curso para um grupo de senhoras que pareciam se interessar apenas pela vida doméstica, pelas coisas que de uma forma ou de outra estavam relacionadas ao dia-a-dia. Então. pedi a elas que levassem para as aulas espa- nadores, panos de chão, vassouras, e que repetissem os movi- mentos que costumavam fazer ao limpar suas casas, procurando observar a maneira como se moviam. A partir daí sugeri que procurassem tornar os movimentos o mais agradável possível, mais conscientes, mais simples. Só mesmo através desse tipo de exercício essas senhoras passaram a perceber como se relacionavam mal consigo mesmas e de que forma poderiam melhorar essa relação do dia-a-dia. Não propus 109 e x e r c í c i o s s o f i s t i c a d o s : se o fizesse elas talvez rei u t a s s e m em t e n - t a r o u , q u e m s a b e , n ã o e n t e n d e r i a m n a d a d o q u e e s t a v a s e n d o p r o p o s t o . Isso serve p a r a i l u s t r a r um p r i n c í p i o b á s i c o d o m e u t r a b a - lho: a t r a v é s da o b s e r v a ç ã o e da p e r c e p ç ã o dos m o v i m e n t o s mais e l e m e n t a r e s c r i a m o s um c ó d i g o com n o s s o c o r p o , c o m e ç a m o s a s e n s i b i l i z a r as p a r t e s m o r t a s e a l i b e r a r as a r t i c u l a ç õ e s . N o s s o c o r p o vai r e a g i n d o aos mais d i f e r e n t e s e s t í m u l o s , d o m e s m o m o d o q u e um s a c o p l á s t i c o c h e i o de a r r e a g e a u m a d e t e r m i n a d a p r e s s ã o , d e s l o c a n d o - s e , i n f l a n d o em o u t r o p o n t o q u a l q u e r , com- p e n s a n d o em o u t r a p a r t e a p r e s s ã o e x e r c i d a s o b r e ele. D i t o de o u t r a f o r m a , se e x e r c i t a m o s os pés p r o c u r a n d o a b r i r os e s p a ç o s e n t r e os d e d o s , m a s s a g e a n d o - o s , o c o r p o i n t e i r o r e s - p o n d e a esse e s t í m u l o e o r e s u l t a d o p o d e s e r s e n t i d o a t é o á p i c e d a c a b e ç a , a t r a v é s d e u m a s e n s a ç ã o de c a l o r , de u m a e n e r g i a q u e flui d e b a i x o p a r a cima. E s s e c ó d i g o p o d e s e r e s t a b e l e c i d o de d i v e r s a s f o r m a s , mas n o início d o t r a b a l h o interes>a rn;:1::; a q u a n t i d a d e d o q u e a q u a l i d a d e dos m o v i m e n t o s e x e c u t a d o s . É i m p o r t a n t e t a m b é m m a n t e r - s e a t e n t o a c a d a gesto, a cada d e s l o c a m e n t o , à m a n e i r a c o m o as v á r i a s a r t i c u l a ç õ e s e g r u p o s m u s c u l a r e s reagem a o s m a i s d i f e r e n t e s e s t í m u l o s - q u a n d o , p o r e x e m p l o , e x p e r i m e n t o os m o v i m e n t o s de b a l a n ç a r , s a c u d i r , v i b r a r o u f l u t u a r . N o v a m e n t e o e x e r c í c i o d e a n d a r p a r e c e s e r v i r c o m o m e l h o r e x e m p l o : p r i m e i r o a n d o e a p e n a s o b s e r v o o meu a n d a r , se e s t o u à f r e n t e o u a t r á s das p e r n a s , se meu t r o n c o e s t á s o b r e os q u a d r i s o u m i n h a s c o s t a s me p u x a m p a r a t r á s , se m i n h a c a b e ç a p e n d e p a r a a d i r e i t a , p a r a a e s q u e r d a , p a r a a f r e n t e o u p a r a t r á s , se u m b r a ç o b a l a n ç a mai~ d o q u e o o u t r o , se caio p a r a a e s q u e r d a ou p a r a a d i r e i t a . D e p o i s disso p r o c u r o d e c o m p o r meu a n d a r e r e p r o d u z i r l e n - L ' m e n t e meus movimentos, o b s e r v a n d o a passagem de uma a r t i - 1 1 0 c u l a ç ã o p a r a o u t r a , de um a p o i o p a r a o u t r o , t e n t a n d o p e r c e b e r que a r t i c u l a ç ã o ou m u s c u l a t u r a e n t r a em a ç ã o nesse ou n a q u e l e m o v i m e n t o , n a t r a n s f e r ê n c i a de u m m o v i m e n t o p a r a o u t r o . A p a r t i r d a í v o l t o a a n d a r n o r m a l m e n t e e a o b s e r v a r se h o u v e alguma m u d a n ç a na m i n h a r e l a ç ã o c o m o c h ã o , n a m i n h a p o s t u r a , n a m i n h a s e n s a ç ã o do p e s o d o c o r p o . F i n a l m e n t e , t r a t o de r e o r g a n i z a r meu m o v i m e n t o de a c o r d o c o m essa p e r c e p ç ã o , b u s c a n d o e s i a b e l e c e r u m a r e l a ç ã o de e q u i l í b r i o : o peso do c o r p o s o b r e o m e t a t a r s o ; m a l é o l o s , j o e l h o s e q u a d r i s l e v e m e n t e g i r a n d o p a r a f o r a , o s q u a d r i s s o b r e as p e r n a s e o t r o n c o s o b r e os q u a - d r i s ; a c a b e ç a n u m a p o s i ç ã o de a p r o x i m a d a m e n t e 9 0 ° em rela- ç ã o a o p e s c o ç o e o c o r p o t o d o v o l t a d o p a r a a f r e n t e , e n f a t i z a n d o o t r a b a l h o d a m u s c u l a t u r a a n t e r i o r e p r o c u r a n d o a n u l a r a f o r ç a d a m u s c u l a t u r a p o s t e r i o r que, n o r m a l m e n t e , a t u a c o m o f r e i o d o m o v i m e n t o e nos p u x a p a r a t r á s . C a b e r e s s a l t a r q u e e s s a r e l a ç ã o d e e q u i l í b r i o só se t o r n a s a t i s f a t ó r i a q u a n d o a c o n t e c e c o m o r e s u l t a d o d a o b s e r v a ç ã o a t e n - t a e d a p e r c e p ç ã o c o n s c i e n t e de c a d a m o v i m e n t o r e a l i z a d o . P o r isso mesmo, n ã o d e v e s e r vista c o m o f ó r m u l a i d e a l , c a p a z d e s o l u c i o n a r q u a l q u e r d e s v i o o u vício de p o s t u r a . O u t r o p o n t o i m p o r t a n t e ~ p e r m i t i r q u e o m o v i m e n t o sim- p l e s m e n t e s u r í a , sem o b s e s s ã o o u i n t e l e c t u a l i z a ç ã o . E m l u g a r d e a f e r r a r - s e a u m a d a d a p o s t u r a , a u m a r e c e i t a d o q u e d e v e s e r o e q u i l í b r i o p o s t u r a ] , i n t e r e s s a m u i t o mais d e s p i r a p e s s o a d e s u a i m a g e m h a b i t u a l , d a p o s t u r a com aq u a l se a c o s t u m o u a e n c a r a r o m u n d o . E s s a p o s t u r a revela a t r i b u t o s e d e f e i t o s q u e l h e f o r a m s e n d o i m p r e s s o s e q u e , n a m a i o r i a d a s vezes, n u n c a c h e g a r a m a s e r s e r i a m e n t e q u e s t i o n a d o s . P o r isso mesmo, d u r a n t e a p r i m e i r a fase d o t r a b a l h o em- p r e g o e x e r c í c i o s l ú d i c o s q u e , c o m o v e r e m o s m a i s à f r e n t e , p õ e m em x e q u e e s s a i m a g e m c o n s t r u í d a n a r e l a ç ã o c o m o m u n d o ex- t e r i o r . B r i n c a r , s a l t a r , p u l a r , c o r r e r l i v r e m e n t e v ã o r e v e l a n d o 111 e m o ç õ e s , s e n t i m e n t o s e u m a r i q u e z a d e gestos q u e p a r e c i a m p e r - d i d o s d e s d e a i n f â n c i a . N ã o é à t o a que c e r t a s pessoas s ã o t o m a d a s de u m a g r a n d e a n s i e d a d e o u a c a b a m a b a n d o n a n d o as a u l a s q u a n d o se vêem d i a n t e de u m a imagem que n ã o c o r r e s p o n d e m a i s a o q u e e l a s s ã o , d i a n t e de novas p o s s i b i l i d a d e s e p o t e n c i a l i d a d e s a t é e n t ã o c o m p l e t a m e n t e d e s c o n h e c i d a s o u e s q u e c i d a s . M a s , a p e s a r d e s e r c o m p r e e n s í v e l o f a t o d e as p e s s o a s n ã o q u e r e r e m se d e s f a z e r d e u m a i m a g e m j á c r i s t a l i z a d a e i n c o r p o - r a d a à p r ó p r i a p e r s o n a l i d a d e , esse p a r e c e s e r o c a m i n h o c a p a z d e t r a n s f o r m a r gestos m e c â n i c o s e r e p e t i t i v o s e m m o v i m e n t o s c o n s c i e n t e s e, p o r isso m e s m o , v e r d a d e i r o s . P e l o m e n o s é o q u e t e m d e m o n s t r a d o o t r a b a l h o até h o j e r e a l i z a d o c o m p e s s o a s d e i d a d e s , p r o f i s s õ e s e t r a j e t ó r i a s m u i t o d i s t i n t a s . P o r t a n t o , a n t e s d o e n s i n o de u m a t é c n i c a c o r p o r a l e s p e c í - f i c a é n e c e s s á r i o q u e se f a ç a um t r a b a l h o d e c o n s c i e n t i z a ç ã o c o r - p o r a l , sem o q u a l o a p r e n d i z a d o p o d e r á s e r d e f i c i e n t e , p o i s o c o r p o vai a d q u i r i n d o u m a f o r m a , c r i a n d o u m a a r m a d u r a e c o n - s o l i d a n d o a i n d a mais as t e n s õ e s m u s c u l a r e s p r o f u n d a s . P a r a isso, no e n t a n t o , é i n d i s p e n s á v e l q u e a p e s s o a s e s i n t a p r e d i s p o s t a a r e a l i z a r esse t i p o d e t r a b a l h o . N ã o é p o r a c a s o q u e m u i t o s b a i l a r i n o s p r o f i s s i o n a i s e n c o n t r a m s é r i a s d i f i c u l d a d e s d i a n t e d o t r a b a l h o q u e p r o p o n h o . I s s o n ã o q u e r d i z e r q u e u m b a i l a r i n o n ã o p o s s a , a t r a v é s d e t é c n i c a s c o n v e n c i o n a i s , l e v a n t a r a p e r n a , g i r a r , d a r mil p i r u e t a s - m a s isso s e r á a p e n a s a c r o b a c i a c a s o l i m i t e - s e a u m a a ç ã o p u r a m e n t e t é c n i c a . O q u e n ã o p o d e m o s e s q u e c e r é q u e as p e r n a s c o m as q u a i s d a n ç o s ã o as m e s m a s c o m q u e a n d o , c o r r o , c a i o o u b r i n c o , d e s d e c r i a n ç a . N e s s e s e n t i d o , a e x p e r i ê n c i a d e u m a v i d a p o d e s e r t r a - d u z i d a , p o r e x e m p l o , no s i m p l e s g e s t o d e e r g u e r um b r a ç o o u u m a p e r n a . 1 1 2 M a s u m a c o i s a é l e v a n t a r a p e r n a às c u s t a s d e u m a e n o r m e t e n s ã o , o que, em l u g a r d e e x p r i m i r u m a a ç ã o o u s e n s a ç ã o , r e - vela a p e n a s o e s f o r ç o e m p r e g a d o p a r a e r g u ê - l a c a d a vez m a i s a l t o em u m a m e r a e x i b i ç ã o de f l e x i b i l i d a d e e p e r í c i a t é c n i c a . O u t r a c o i s a é f a z e r d e s s e m o v i m e n t o a e x p r e s s ã o e x a t a d a q u i l o q u e se b u s c a a t i n g i r , s e j a um s e n t i m e n t o , u m a e m o ç ã o o u a t é m e s m o u m g e s t o a b s t r a t o . I s s o n ã o s i g n i f i c a q u e me o p o n h o a q u a l q u e r a p e r f e i ç o a - m e n t o t é c n i c o , m a s q u e c o l o c o em e v i d ê n c i a o l i m i t e d e t o d a e q u a l q u e r t é c n i c a . P o r e x e m p l o : q u a n d o t r a b a l h o as p e r n a s , n ã o h á n e c e s s i d a d e d e e r g u ê - l a além d e 9 0 ° em r e l a ç ã o a o t r o n c o . T r a b a l h a n d o c o r r e t a e r e g u l a r m e n t e n e s s e l i m i t e , é p o s s í v e l o b t e r n ã o só o r e l a x a m e n t o d a s a r t i c u l a ç õ e s c o m o t a m b é m a a ç ã o p l e n a d o s m ú s c u l o s r e s p o n s á v e i s p e l a p r e s e r v a ç ã o d o s e s p a ç o s a r t i c u l a r e s . E n t ã o , q u a n d o e s t i v e r d a n ç a n d o , p o s s o e r g u e r a p e r n a a o m á x i m o , d e i x a n d o f l u i r a t r a v é s d o m o v i m e n t o t o d a m i n h a e m o ç ã o , e s t a b e l e c e n d o assim u m a c o m u n i c a ç ã o v i v a e r e a l c o m o p ú b l i c o . A e s s ê n c i a d o t r a b a l h o c o r p o r a l q u e p r o p o n h o é a b u s c a d a s i n t o n i a e d a h a r m o n i a c o m n o s s o p r ó p r i o c o r p o , o q u e p o s - s i b i l i t a c h e g a r à e l a b o r a ç ã o d e u m a d a n ç a s i n g u l a r , o r i g i n a l , d i f e - r e n c i a d a , e p o r isso m e s m o r i c a e m m o v i m e n t o e e x p r e s s ã o . P a r a s e r i n t é r p r e t e d e m i n h a s e m o ç õ e s t e n h o n e c e s s a r i a m e n t e q u e m e d e s p o j a r d e u m a i m a g e m q u e m e foi d e a l g u m a f o r m a i m p o s t a p a r a a d o t a r a p o s t u r a q u e c o r r e s p o n d e à m i n h a t r a j e t ó r i a p e s s o a l e à m i n h a e x i s t ê n c i a c o t i d i a n a . f : o m e s m o q u e a p a g a r u m q u a - d r o c h e i o d e f r a s e s v a z i a s q u e m e f o r a m d i t a d a s p a r a d a r i n í c i o a o a p r e n d i z a d o d e u m n o v o a l f a b e t o , d e u m a l i n g u a g e m c a p a z d e t r a d u z i r a q u i l o q u e v e r d a d e i r a m e n t e s i n t o e q u e r o e x p r e s s a r . R e a f i r m o q u e u m c o r p o i n t e l i g e n t e é u m c o r p o q u e c o n s e g u e s e a d a p t a r a o s mais d i v e r s o s e s t í m u l o s e n e c e s s i d a d e s , a o m e s m o t e m p o q u e n ã o se p r e n d e a n e n h u m a r e c e i t a o u f ó r m u l a p r e e s t a - 1 1 3 b e l e c i d a , o r i e n t a n d o - s e p e l a s mais d i f e r e n t e s e m o ç õ e s e p e l a p e r - c e p ç ã o c o n s c i e n t e d e s s a s s e n s a ç õ e s . N o e n t a n t o , é m u i t o c o m u m a t e n d ê n c i a à a s s i m i l a ç ã o d e p o s t u r a s q u e n ã o r e v e l a m o n o s s o m o d o d e s e r , m a s q u e t ê m c o m o r e f e r ê n c i a m o d e l o s e x t e r i o r e s a nós m e s m o s c o m o , p o r e x e m p l o , os n o s s o s p a i s . E a u m a d e t e r m i n a d a p o s t u r a c o r r e s - p o n d e u m a f or m a d e a g i r e p e n s a r . E n t ã o , se n ã o é r e a l m e n t e n o s s a p o s t u r a q u e p r o c u r a m o s o s t e n t a r , c o m o p o d e m o s d e s e n v o l - v e r a ç õ e s e i d é i a s p r ó p r i a s ? N o t r a b a l h o c o r p o r a l - m a s n ã o só n e l e - é m u i t o i m p o r t a n t e p e r c e b e r n o s s a imagem a p a r t i r d a s r e f e r ê n c i a s m a i s í n t i m a s e i n t e r i o r e s . O b v i a m e n t e , a t o d o i n s t a n t e s o m o s s u b m e t i d o s a u m a s é r i e d e c o n d i c i o n a m e n t o s s o c i a i s e c u l t u r a i s . D e a c o r d o c o m a l ó g i c a e a d i s c i p l i n a de u m m u n d o o r i e n t a d o p a r a o t r a b a l h o , s o m o s l e v a d o s à mais c o m p l e t a i m o b i l i d a d e e a d e s e m p e n h a r u m a f o r m a m e c â n i c a de gestos. O u n i v e r s o da p r o d u ç ã o é h o j e um u n i v e r s o d e t r a b a l h o a l i e n a d o , o n d e t a m b é m os c o r p o s s ã o s u b m e t i d o s a u m c o n j u n t o de p r á t i c a s de d o m e s t i c a ç ã o social. E s s a o r d e m c o m e ç a a s o f r e r u m revés, n o e n t a n t o , n o m o - m e n t o em q u e nos r e c u s a m o s a d e s e m p e n h a r c e r t o s p a p é i s se- g u n d o f ó r m u l a s p r e e s t a b e l e c i d a s . N e s s e s e n t i d o , u m c o r p o l i v r e d e c o n d i c i o n a m e n t o s e d o n o d e s u a s e x p r e s s õ e s e m a l g u m a me- d i d a se r e v e l a um i n c ô m o d o à o r d e m s o c i a l e x i s t e n t e , u m a vez q u e b u s c a r e c u p e r a r a p e r c e p ç ã o d a t o t a l i d a d e d e n t r o de u m a s o c i e d a d e f u n d a d a e x a t a m e n t e na f r a g m e n t a ç ã o . E s s a s o b s e r v a ç õ e s s ã o a i n d a m u i t o s u p e r f i c i a i s d i a n t e d o u n i v e r s o q u e é o p r ó p r i o c o r p o h u m a n o . C e r t a m e n t e , h á m u i t a c o i s a q u e até hoje n ã o foi p o s s í v e l c o m p r e e n d e r e q u e t a l v e z t r a n s c e n d a q u a l q u e r p l a n o de e n t e n d i m e n t o . A i n d a assim, os p r o - b l e m a s e o b s t á c u l o s q u e se a p r e s e n t a m d i a n t e d e n ó s n o c o t i - d i a n o o b r i g a m ao e n c a d e a m e n t o de a ç õ e s e à b u s c a d e s o l u ç õ e s 114 q u e p o d e m vir a s e r m a i s ou m e n o s s a t i s f a t ó r i o s , m a t a n d o o u v i v i f i c a n d o o c o r p o . U m a b o a r e l a ç ã o p o s t u r a ! p o d e s e r c o n s e g u i d a a p a r t i r d o e q u i l í b r i o e n t r e as d i v e r s a s p a r t e s do c o r p o . N e s s e p r o c e s s o , o mais i m p o r t a n t e é a r e l a ç ã o de e q u i l í b r i o e n t r e a p a r t e a n t e r i o r d o t r o n c o e a p a r t e p o s t e r i o r d a s p e r n a s , em o p o s i ç ã o à f o r ç a e x e r c i d a p e l a m u s c u l a t u r a a n t e r i o r das p e r n a s . A m u s c u l a t u r a c o r r e s p o n d e n t e à p a r t e p o s t e r i o r do c o r p o é a q u e l a q u e n o s m a n t é m e m pé e t a m b é m a q u e mais c e d o n o s d e r r u b a . A f a l t a de e x e r c í c i o s a p r o p r i a d o s o u e x e c u t a d o s de ma- n e i r a e q u i v o c a d a faz c o m q u e essa m u s c u l a t u r a se t o r n e m a i s f o r t e e mais t e n s a a i n d a , p r e j u d i c a n d o a a ç ã o d a m u s c u l a t u r a a n t e r i o r , q u e nos d i r e c i o n a . Assim, se a f o r ç a p o s t e r i o r p e r m i t e u m c e r t o e q u i l í b r i o , a f o r ç a m u s c u l a r a n t e r i o r o r i e n t a esse e q u i l í b r i o n o e s p a ç o . P o d e - mos, e n t ã o , d i z e r q u e as n o s s a s c o s t a s s ã o a b a s e de s u s t e n t a ç ã o de n o s s a f o r m a e a n o s s a f r e n t e o p o n t o de p a r t i d a d e n o s s o m o v i m e n t o . Q u a n t o às p a r t e s s u p e r i o r e i n f e r i o r d o c o r p o , p o d e m o s dizer q u e a d i f e r e n ç a b á s i c a r e s i d e n o e s f o r ç o m u s c u l a r q u e s e v o l t a p a r a b a i x o , n a p a r t e i n f e r i o r , e p a r a cima, n a p a r t e s u p e r i o r . N o s d o i s casos, o d e s e n h o m u s c u l a r d e s c r e v e u m a d i a g o n a l e s p i r a l a d a q u e p a r t e s e m p r e d o c e n t r o d o c o r p o em d i r e ç ã o às e x t r e m i d a d e s . Se você o b s e r v a r s e u c o r p o e t o c á - l o c u i d a d o s a m e n t e , e n - c o n t r a r á d i f e r e n ç a s e n o r m e s q u a n t o à f l e x i b i l i d a d e , p e r c e p ç ã o e s e n s i b i l i d a d e e n t r e as p a r t e s a n t e r i o r e p o s t e r i o r , i n f e r i o r e s u p e - r i o r , d i r e i t a e e s q u e r d a . P e r c e b e r á r e g i õ e s m a i s t e n s a s o u m a i s sensíveis d o q u e o u t r a s , p o n t o s do c o r p o o n d e a p e l e é mais m a c i a ou o n d e os m ú s c u l o s são mais flexíveis. D e v i d o a i n c o r r e ç õ e s , vícios de p o s t u r a o u p r o b l e m a s físico- e m o c i o n a i s , a m u s c u l a t u r a p o s t e r i o r d a s p e r n a s e a m u s c u l a t u r a 1 1 5 anterior do tronco tendem a se atrofiar, o que é comum à maio- ria das pessoas e se torna ainda mais evidente ao longo dos anos, com o acúmulo de tensões de toda ordem. A esse encurtamento dos grupos musculares que, teorica- mente, seriam responsáveis pelo trabalho de abertura, corresponde uma sobrecarga da parte posterior do tronco e da parte anterior das pernas, que passam a atuar no sentido de buscar uma com- pensação. Obviamente, não se trata de uma regra geral, mas de uma tendência comum à maioria das pessoas. Por isso, me per- mito sugerir como realizar um trabalho corporal no sentido de conseguir uma boa relação postura!. Normalmente, os exercícios feitos para o fortalecimento das pernas são mal orientados e acabam fortificando ainda mais o quadríceps, criando as chamadas "pernas de jogador". Tais exer- cícios, executados sem o encaixe correto das articulações e com extrema violência, acabam causando uma grande desproporção muscular entre as partes posterior e anterior das pernas. Uma maneira fácil de verificar o encurtamento da muscula- tura posterior é abaixar e tentar tocar o chão com as mãos, pro- curando ao mesmo tempo manter as pernas alongadas ao máximo. Teoricamente, nesse movimento os abdutores devem estar todos .. em ação, preservando os espaços de articulação para um melhor trabalho muscular. Para compensar o encurtamento, porém, o corpo deve cair ligeiramente para a frente e os joelhos devem estar levemente girados para fora, no sentido do alongamento máximo possível. Além disso, é importante preservar os espaços articulares, tanto no movimento de abaixar quanto no de levantar. As articulações atuam, então, como verdadeiras dobradiças, desde a cabeça, passando pelo pescoço, o esterno, a crista ilíaca, a coxofemoral, o joelho, o tornozelo e o metatarso. É interes- 116 sante notar que esse tipo de movimento corporal só existe entre os povos ocidentais e, mesmo assim, entre os adultos: as crianças e os chamados povos primitivos não executam esse movimento instintivamente. Quando se abaixam, sentam ou levantam, per- correm um caminho sinuoso e espiralado.Outro fato interessante é observar o momento em que uma pessoa desmaia: o corpo nunca cai para a frente, mas em diagonal, passando pelas articu- lações laterais. Ao considerar nosso desequilíbrio postura! não é possível reconhecer um procedimento que se aplique a todos os seres humanos indiscriminadamente. No caso das pessoas gordas, por exemplo, a flacidez aparente reflete a rigidez provocada por ten- sões profundas. Há uma forte couraça muscular que ainda é mascarada pela flacidez, por uma pseudoflexibilidade. Essa pseu- doflexibilidade aparece também no caso das pessoas que conse- guem abrir as pernas ao máximo, mas a custo de muita tensão e esforço. Mais uma vez. no caso específico da dança, me parece que só é possível obter resultados satisfatórios a partir do momento em que, aliado a um trabalho consciente de alongamento, conse- gue-se um mínimo de equilíbrio físico-emocional e, portanto, postural. Daí a necessidade de todo o trabalho de preparação e conscientização de que falei em toda a primeira parte do livro, e que costuma revelar a dificuldade que as pessoas têm de en- frentar esse processo de reestruturação, preferindo, muitas vezes, desistir já no início do trabalho e se conformar com o que está convencionado e reconhecido socialmente por todos. Existe um medo muito grande do autoconhecimento e a maioria das pessoas não resiste ao processo inicial, que sem dúvida requer uma gran- de dose de vontade e despojamento. Mas, quando a pessoa vence esse tipo de bloqueio e passa a experimentar um certo equilíbrio postura!, também a sua pos- 117 t u r a i n t e l e c t u a l e e m o c i o n a l s o f r e s i g n i f i c a t i v a s a l t e r a ç õ e s . O f a t o é q u e o t r a b a l h o c o r p o r a l e n c e r r a u m a d i m e n s ã o t e r a p ê u t i c a , n a m e d i d a em q u e t o m a o c o r p o c o m o r e f e r ê n c i a d i r e t a d e n o s s a e x i s t ê n c i a mais p r o f u n d a . D a mesma f o r m a c o m o é m u i t o difícil o b t e r u m e q u i l í b r i o p o s t u r a ! e s t a n d o e m o c i o n a l m e n t e d e s e q u i l i b r a d o , é t a m b é m m u i t o difícil m a n t e r um e q u i l í b r i o i n t e l e c t u a l e e m o c i o n a l sem e s t a r n u m a b o a r e l a ç ã o de e q u i l í b r i o p o s t u r a ! . S a b e m o s q u e o c o r p o e s t á s u j e i t o a l i m i t a ç õ e s n a t u r a i s c o r - r e s p o n d e n t e s a e s t r u t u r a , p e s o , r e l a ç ã o c o m o e s p a ç o e o u t r a s mais, m a s isso n a d a t e m a v e r com as l i m i t a ç õ e s e c o n d i c i o n a - m e n t o s d e c o r r e n t e s d e b l o q u e i o s e t e n s õ e s a c u m u l a d o s ao l o n g o d e t o d a uma vida. O c o r p o h u m a n o é n o r m a l m e n t e a t r a v e s s a d o p o r um fluxo e n e r g é t i c o q u e , se n ã o for i n t e r r o m p i d o p o r esses b l o q u e i o s e t e n s õ e s , p e r m i t e que o m o v i m e n t o flua l i v r e m e n t e . O e s t e r n o e os q u a d r i s s ã o as d u a s u s i n a s d o c o r p o e p r e - c i s a m o s c o n h e c e r e r e s p e i t a r esse p a p e l . O e s t e m o é l a n ç a d o p a r a c i m a , n a d i r e ç ã o d o céu, e n q u a n t o os q u a d r i s s e v o l t a m p a r a b a i x o , na d i r e ç ã o d a t e r r a . P e l a s p e r n a s e pés m a n t e n h o m i n h a o r i g e m t e l ú r i c a , a n i m a l . Pelo t ó r a x e c a b e ç a a v a n ç o n o d o m í n i o d a e m o ç ã o e d a r a z ã o . D e s s e e q u i l í b r i o d e f o r ç a s o p o s t a s e c o m p l e m e n t a r e s n a s c e m i n h a d a n ç a . Mas se b u s c o d e m a i s o c h ã o , a c e n t u o m e u p e s o em r e l a ç ã o à g r a v i d a d e , o s o l o me p u x a p a r a b a i x o . D o m e s m o m o d o , se u l t r a p a s s o meu p o n t o d e e l e v a ç ã o , p e r c o o e q u i l í b r i o e m i n h a base d e s u s t e n t a ç ã o . C o m o l e m b r a o d i t a d o , n e m t a n t o a o céu, nem t a n t o à t e r r a . A p o s t u r a , p o r t a n t o . n ã o é u m a c o i s a fixa. f : t ã o flexível q u a n t o o g a l h o de b a m b u e p r o f u n d o c o m o s u a s r a í z e s , o q u e p e r m i t e q u e m e u eixo o s c i l e p a r a a f r e n t e e p a r a t r á s , d e a c o r d o 118 c o m m e u e s t a d o f í s i c o - e m o c i o n a l . P o r é m , à g r a n d e f l e x i b i l i d a d e deve c o r r e s p o n d e r u m a e n o r m e f o r ç a e r e s i s t ê n c i a . Assim c o m o o b a m b u , o c o r p o h u m a n o tem a p r o p r i e d a d e d e se d o b r a r sem se q u e b r a r - q u a n d o r e s p e i t a m o s s u a n a t u r e z a e c o l o c a m o s em p r á t i c a s u a s p o t e n c i a l i d a d e s . l l l ) V I N a s a l a d e a u l a A n t e s de t u d o , t e n h o q u e c o l o c a r os a l u n o s n a s a l a de a u l a . E l e s p r e c i s a m d e s c o b r i r que se e n c o n t r a m e n t r e q u a t r o p a r e d e s , c o n s c i e n t i z a r - s e de que n ã o e s t ã o n a r u a , o u em c a s a , ou n o t r a b a l h o . É p r e c i s o c o m e ç a r p o r aí, p o r q u e s e n ã o a t e n d ê n c i a é as p e s s o a s p e r m a n e c e r e m d i s t a n t e s , sem t o m a r c o n s c i ê n c i a d o c o r p o e d o a m b i e n t e . C o m e ç o e n t ã o p r o p o n d o q u e f a ç a m u m c í r c u l o e s e n t e m - s e n o c h ã o - o n d e eu t a m b é m me s e n t o - e falem d o q u e q u i s e r e m , d a v i d a , de p o r que e s t ã o ali, o q u e b u s c a m e m u m a · s a l a de a u l a . F a l a r é u m a d a s f o r m a s pelas q u a i s um s e r h u m a n o se s i t u a n o m u n d o , uma m a n e i r a de o c o r p o t r a d u z i r o q u e e s t á s e n t i n d o . Esse p r e â m b u l o serve p a r a que o g r u p o se c o n h e ç a , se s i t u e , d e s c u b r a q u e e s t á mesmo e m u m a s a l a , a i n d a q u e n e m t o d o s t e n h a m a m e s m a d i s p o n i b i l i d a d e p a r a falar. M u i t a s vezes, é c l a r o , dizem b o b a g e n s , c o i s a s sem i n t e r e s s e , mas t u d o isso é e s p e - r a d o e n a t u r a l . N ã o t e n h o p r e s s a nem u m t e m p o d e t e r m i n a d o p a r a essa i n t r o d u ç ã o : a d u r a ç ã o d e p e n d e de c a d a t u r m a , d a r e a ç ã o de c a d a um e d a r e a ç ã o de uns c o m os o u t r o s , d a m i n h a i n t u i ç ã o e d i s p o - n i b i l i d a d e . Um d i a se c o n v e r s a mais, o u t r o d i a m e n o s . A d e s e s t r u t u r a ç ã o q u e b u s c o c o m e ç a a í p o r q u e o s a l u n o s em g e r a l n ã o e s p e r a m p o r isso, n ã o p e n s a m em u m a p o s s i b i l i d a d e 120 dessas, talvez nem q u i s e s s e m p a s s a r p o r u m a e x p e r i ê n c i a assim. Mas é e x a t a m e n t e o q u e q u e r o , isto é, c h e g a r a t é eles, 1mctar u m a r e l a ç ã o de c u m p l i c i d a d e , de c o n f i a n ç a , de t r o c a , p o r q u e n ã o c r e i o que s e j a possível d a r uma b o a a u l a p a r a p e s s o a s que você n u n c a viu e n ã o s a b e nem o n o m e . U m a a u l a dessas é i n ú t i l . O q u e p r e t e n d o é d e r r u b a r a divisão e n t r e a s a l a de a u l a e o m u n d o l á f o r a , a c a b a r c o m as p a r ed e s , as b a r r e i r a s , m o s t r a n d o a o m e s m o t e m p o q u e em t o d a s a l a de a u l a existe t a m b é m u m a o r d e m i n t e r n a que deve s e r consciente. N ã o b u s c o e s t a b e l e c e r q u a l q u e r r e l a ç ã o c o m os a l u n o s a p a r t i r d a possível t é c n i c a o u facilidades que c a d a u m me a p r e s e n t a e sim u m a r e l a ç ã o e n t r e seres h u m a n o s que c o n v i v e m em u m m e s m o g r u p o . N o r m a l m e n t e , me i n t e r e s s o m a i s p o r a q u e l e s que t ê m m a i s d i f i c u l d a d e s de e x p r e s s ã o , de se e x p o r , de f a l a r . E m p o u c o t e m p o t o d o s d e s c o b r e m que o p r o f e s s o r n ã o é o d o n o d a v e r d a d e , n ã o s a b e t u d o , e x i s t e m c o i s a s que n ã o sei res- p o n d e r . É a í que a r e l a ç ã o c o m e ç a a s u r g i r , é a p a r t i r d a í q u e d e s c o b r e m q'ue s o u um s e r h u m a n o c o m o q u a l q u e r o u t r o e e n t ã o s e n t e m c o n d i ç õ e s de se a b r i r e f a l a r u m p o u c o deles mesmos. O que fica c l a r o é q u e as d i f i c u l d a d e s - t o d a s , v e r b a i s o u físicas - s ã o r e s i s t ê n c i a s p o r q u e n a v e r d a d e t o d o s n ó s nos mo- vemos, t o d o m u n d o p o d e d a n ç a r e se um l e v a n t a r a p e r n a mais a l t o d o que o u t r o isso n ã o q u e r d i z e r q u e s e j a m e l h o r b a i l a r i n o o u t e n h a m a i o r f a c i l i d a d e de e x p r e s s ã o . E x i s t e a q u e s t ã o do r i t m o de c a d a um em uma s a l a de a u l a e essa r e a l i d a d e tem q u e s e r r e s p e i t a d a . N ã o q u e r o de f o r m a algu- ma q u e t o d o s t e n h a m o mesmo r i t m o e sirh q u e c a d a u m se d e s e n v o l v a de a c o r d o com sua c a p a c i d a d e . A p e n a s f a ç o p r o p o s t a s e e s p e r o que c a d a a l u n o r e a j a c o m o q u i s e r e p u d e r . É t a m b é m nesse i n í c i o d a a u l a que s u r g e a q u e s t ã o d a timidez, d a d i s p o n i b i l i d a d e de t r o c a r , se e x p o r , f a l a r em g r u p o . T a m b é m n ã o i n t e r f i r o nisso, e s p e r o que c a d a um d e s c u b r a seus limites. A c r e d i t o que as pessoas têm que c h e g a r a um c e r t o nível de 121 e n t e n d i m e n t o de si m e s m a s p a r a que possam d e p o i s t r o c a r . Insisto: as a u l a s n ã o p r e t e n d e m s e r t e r a p i a s , a i n d a que p a r a c a d a um dos a l u n o s eu possa a t é s e r v i r c o m o t e r a p e u t a . P a r a o u t r o s , no e n t a n t o , sou amigo, o u p r o f e s s o r , ou m é d i c o . Ou b r u x o . C a d a um q u e o l h e c o m o q u i s e r . O q u e p r e t e n d o nesse i n í c i o é m o s t r a r a n e c e s s i d a d e de r e l a - x a r , sem q u e esse r e l a x a m e n t o leve a o d e s p e n c a r . isto é, à d e s a t e n - ç ã o , a o d e s m o n t a r d o s músculos. O c o m u m , q u a n d o o p r o f e s s o r p e d e p a r a q u e as p e s s o a s r e l a x e m , é q u e elas se s o l t e m t o t a l - m e n t e , p e r d e n d o a n o ç ã o d o p r ó p r i o c o r p o e d o e s p a ç o . O q u e p r o p o n h o , a o c o n t r á r i o , é que n ã o p e r c a m e s s a n o ç ã o , q u e r e l a x e m , deixem a m u s c u l a t u r a à v o n t a d e , q u e b u s q u e m d e s d e o p r i n c í p i o d a a u l a o g r a u m í n i m o dé a t e n ç ã o n e c e s s á r i o p a r a m a n t e r o e q u i l í b r i o . Ou seja: r e l a x a r n ã o s i g n i f i c a s a i r d a a u l a , se a f a s t a r d a s a l a , d i s t r a i r - s e , fugir de si, a u s e n t a r - s e . É possível r e l a x a r e p e r m a n e c e r p r e s e n t e . A n t e s de t u d o , p o r t a n t o , p r e c i s o m o s t r a r que t e m o s um c o r p o , c o n v e n c e r a c a d a um d a e x i s t ê n c i a desse c o r p o , d o q u a l só nos l e m b r a m o s q u a n d o s e n t i m o s d o r , i n d i s p o s i ç ã o , c a n s a ç o o u exci- t a ç ã o física. P o r isso, p r o p o n h o que o i n í c i o do t r a b a l h o s e j a feito a t r a v é s de c o n v e r s a s i n f o r m a i s , c o m o j á disse. T a m b é m p e ç o p a r a q u e , e n q u a n t o f a l a m , eles t o q u e m em a l g u m a p a r t e d o p r ó p r i o c o r p o , l e v e m e n t e , m a s s a g e a n d o e b u s c a n d o r e c o n h e c e r os ossos. Dessa f o r m a , meus a l u n o s c o m e ç a m a d e s c o b r i r q u e h á u m a r e l a ç ã o e n t r e a v e r b a l i z a ç ã o e a d e s c o b e r t a c o r p o r a l . O r i t m o e a m u s c u l a t u r a i n t e r n a se t r a n s f o r m a m , t o r n a m - s e mais p r e s e n t e s q u a n d o u n i m o s a c o n s c i e n t i z a ç ã o física a o p r o c e s s o v e r b a l . E s t e é um e x e r c í c i o q u e deve s e r r e p e t i d o s e m p r e , p o r q u e é d i f í c i l t e r m o s c o n s c i ê n c i a d a e x i s t ê n c i a física, e s t a r m o s p r e s e n t e s : v i v e m o s m u i t o em r e l a ç ã o a o p a s s a d o , ou nos s o n h o s e m r e l a ç ã o a o f u t u r o , mas s o m o s i n c a p a z e s de viver o m o m e n t o p r e s e n t e a nível físico. A p r o p o s t a , e n t ã o , é m a n t e r viva uma p a r t e d o c o r p o - g e r a l m e n t e os pés, p o r o n d e c o m e ç o as a u l a s - e n q u a n t o a c o n v e r s a se dll'senrola. 122 P a r a mim o p o n t o mais i m p o r t a n t e do c o r p o s ã o os pés. P o r isso p r o p o n h o q u e c o m e c e m o t r a b a l h o c o m u m a m a s s a g e m , p a r a s e n t i r os pés, a f o r m a , a s e n s a ç ã o t á t i l , as d i f e r e n t e s p o s s i b i - l i d a d e s de m o v i m e n t a ç ã o dos pés, c o m o t r a n s f o r m á - l o s em algo e x p r e s s i v o , vivo, s e n s u a l . N ã o t e n h o , p o r é m , q u a l q u e r p r e o c u p a ç ã o e s p e c í f i c a com a n a t o m i a . A q u e s t ã o é d e s c o b r i r os ossos. Ou mais d o q u e isso: é v e r i f i c a r os e s p a ç o s q u e existem e n t r e eles, p o r q u e é a í q u e e s t ã o b a s e a d a s as a l a v a n c a s do c o r p o . E me i n t e r e s s a p a r t i c u l a r - m e n t e o e n t r e d e d o s , p o r q u e é ali que as p e s s o a s c o m e ç a m a se t r a v a r . • No t r a b a l h o i s o l a d o e inicial com os pés - r e a l i z a d o e n q u a n t o se c o n v e r s a s o b r e q u a l q u e r coisa - os a l u n o s c o m e ç a m a r e c u p e - r a r e a p e r c e b e r a t o t a l i d a d e e a l i g a ç ã o e n t r e as v á r i a s p a r t e s do c o r p o . Passam t a m b é m a t o r n a r c o n s c i e n t e s gestos até e n t ã o m e c a - n i z a d o s pela p r á t i c a c o t i d i a n a . Assim. a u m e n t a m - s e a q u a n t i d a d e e a q u a l i d a d e dos movi- m e n t o s dos pés, a m p l i a n d o sua m o b i l i d a d e e d e s c o b r i n d o novos p o n t o s de a p o i o . Esse e s f o r ç o r e p e r c u t e p o r t o d o o c o r p o , uma vez q u e c a d a a r t i c u l a ç ã o i n t e g r a um t o d o o r g â n i c o . A o t r a b a l h a r i s o l a d a m e n t e uma a r t i c u l a ç ã o , a o d i s s o c i a r p a r t e s do c o r p o ,p o u c o a p o u c o se t o r n a possível r e c u p e r a r a p e r c e p ç ã o d a t o t a l i d a d e . A d i s s o c i a ç ã o t o r n a - s e útil à a s s o c i a ç ã o . M o s t r o aos a l u n o s q u e é possível d e s c o b r i r o pé m o v i m e n - t a n d o - o de a c o r d o c o m as d o b r a d i ç a s ( t a r s o , m e t a t a r s o , d e d o s ) , e x p e r i m e n t a n d o os m o v i m e n t o s de flexão, i n v e r s ã o , e v e r s ã o , dis- t e n s ã o e r o t a ç ã o (este ú l t i m o s e n d o a l i g a ç ã o e n t r e t o d o s os a n t e r i o r e s ) . Em meio às t r a p a l h a d a s e b r i n c a d e i r a s i n i c i a i s , p a s s a m o s a d e s c o b r i r m u s c u l a t u r a s mais p r o f u n d a s q u a n d o nos d e t e m o s na c u r v a do pé, i m p r i m i n d o p o r e x e m p l o um m o v i m e n t o q u e l e m b r a o b o c e j a r , o e s p r e g u i ç a r , o c a n s a ç o . 123 Aos poucos, todos podem perceber que a expressão nãc está necessariamente relacionada às formas que estamos habituados a ver e reproduzir. Ao contrário: a origem do movimento expres- sivo está nas musculaturas mais sutis c profundas que, uma vez captadas e compreendidas, não devem ser esquecidas ou perdidas. São essas musculaturas que dão expressão vital ao corpo. A criatividade exige espaço. Sem espaço interior não é pos- sível exteriorizar nossa riqueza expressiva nem criar novos códigos de comunicação artística ou cotidiana. É por isso que procuro desestruturar meus alunos desde o início da aula. Depois da conversa. peço que se deitem no chão e se obser- vem: a intensidade da respiração, a temperatura, o que estão sentindo, o que não estão sentindo, o que é agradável, o que não é agradável. Peço ainda que imaginem um giz traçando o desenho do corpo no chão, como um mapa deles mesmos, onde as várias regiões se diferenciam: traços mais fortes onde o contato é mais pesado ou profundo, mais delicados onde o contato .é menor, ausência de linhas nas regiões onde o corpo não toca o chão. Outro exercício inicial já revela quanto é mecânico e limitado nosso repertório ie gestos. Procurar várias maneiras de deitar, sentar, agachar e ficar em pé geralmente resulta em repetição a partir da terceira tentativa. Depois de demonstrações conven- cionais, as pessoas se recolhem ou passam a imitar os compa- nheiros. São poucos os que se permitem maiores ousadias. No entanto, essa pequena movimentação já possibilita uma mudança de ritmo, certa descontração e o início de um aqueci- mento. Peço então que voltem a deitar, para que percebam as transformações que ocorreram em relação às referências ante- riores, quando se tentou traçar os contornos do corpo com -o giz imaginário. Uma das etapas seguintes refere-se à importância dos olhos, à percepção da muscuiatura que reage ao olhar. E aqui cabe um lembrete: quase não usamos a visão até a linha do horizonte. 124 O estado de alerta traz a sensação de uma maior amplitude de movimentos. Postura comum nos animais, os seres humanos - principalmente em meio ao caos urbano - tendem a perder essa qualidade da visão. Para atores e bailarinos, no entanto, o domínio desse atributo é fundamental. Nesse processo de descoberta do próprio corpo, incentivo meus alunos a observarem o espaço onde transcorre a aula, a tentar sentir o clima da sala, sentir a relação com colegas e pro- fessor, como são essas pessoas, reparando sempre que o experimen- tar novos lugares no ambiente leva também a novas sensações e referências físicas. A princípio, é claro que todos agem como se obedecessem apenas às minhas orientações. A proposta, porém, é superar pos- síveis constrangimentos e atingir a naturalidade. Como mencionei, não existem regras fixas de pesquisa ou aprendizado. O importante é permitir que os movimentos surjam, sem obsessão ou intelectua- lização. O corpo tem suas leis, como a natureza. É preciso atenção e cuidado para não agredi-lo. Desde o início da aula minha tendência é prestar maior atenção àqueles que se mostram menos, que têm mais dificuldades, e não àqueles que querem aparecer ou chamar a atenção do professor. Não que eu prefira uns a outros, mas sei que os que tentam chamar a atenção do professor estão apenas começando o processo e que, naturalmente, irão voltar-se para si mesmos com o passar do tempo. Ou, o que também acontece, vão abandonar as aulas. Não que tudo aconteça sempre da mesma forma. Várias vezes vi alunos desistirem no primeiro dia, normalmente gente que costuma perguntar: "Tudo isso é muito bom, muito interes- sante, mas quando é que vamos dançar?" Outros alunos se opõem sistematicamente ao trabalho. Se começo a aula pela cabeça, eles começam pelos pés. Não largam as aulas, me acompanham durante anos, mas se recusam a fazer o que proponho. Claro, 125 é uma forma de dizer que existem, que têm uma individualidade, ainda que seja pela negação. Já nesse início de aula é possível mostrar a importância e a existência do tônus: a medida certa, a quantidade exata de tensão que se pode colocar em cada osso. É daí que surgem todas as coisas, a forma ideal a usar, que não deve massacrar nem soltar inteiramente ossos e músculos. O que importa, sempre, é levar a consciência corporal até os alunos porque penso que bem mais importante do que conhecer o espírito é saber que o corpo existe, está aqui comigo e dependo dele para viver. Cada um começa a descobrir o próprio corpo, seu ritmo, e somente aí esse corpo pode começar a dançar, interpretar, se expressar. Nisso não há nada de esotérico, divino ou coisa assim: quero apenas recuperar o lado lúdico do movimento. É claro que cada um tem seu limite de percepção e, como professor, tenho que respeitar esses limites. A cada dia, porém, eles entendem uma informação corporal diferente e vão juntando os dados. Procuro sempre chamar a atenção de cada um para si mesmo, a fim de que se percebam, se olhem, se conheçam, notem o peso de seus corpos. Peço para que observem os cinc<. sentidos e como o corpo reage por inteiro. Passamos então a observar um ponto específico do corpo - os pés, por exemplo - e, ao final da aula, voltamos a olhar para o corpo como uma totalidade. A musculatura é tão complexa e articulada que é possível partir de qualquer parte do corpo e mexer com a totalidade: se mexo um dedo da mão mexo também com todos os ossos do corpo. As articulações estão interligadas e qualquer movimento em um determinado osso ou músculo leva informações para o resto do corpo. Tanto que às vezes dou aulas apenas sobre as mãos e, ainda assim, é possível descobrir como todo o corpo reage. Volto, então, à questão do tônus: entre cada articulação existem cápsulas e essas cápsulas contêm um líquido que, con- 126 forme o aquecimento, começam a dar elasticidade à musculatura. Daí o valor de um aquecimento bem-feito, profundo e detalhado. Um exemplo para que o aluno descubra o que chamo de tônus: se você tensiona fortemente a mão e depois, aos poucos, vai relaxando a pressão dos dedos, existe um ponto em que passa a não perceber mais a mão. É esse o ponto do tônus - o ponto exato onde se deve deixar a tensão muscular ao iniciar um trabalho que envolta os músculos. O tônus, dessa forma, é uma tensão contínua - mas não incômoda - e é impossível fazer um bom trabalho físico sem a consciência desse fato, ou repetir um determinado movimento sem saber que músculo se está usando, por que trabalhar uma muscula- tura ou para que ela existe. O tônus faz com que meu corpo e os pontos de tensão fiquem mais presentes, e é dessa forma que quero que meus alunos percebam seus corpos. A partir desse processode conscientização do papel dos músculos e ossos é possível começar a transformar uma ginástica fria em movimentação expressiva. O processo· inicial, portanto, é esse: uma conversa informal, ao mesmo tempo que os alunos massageiam os pés ou, às vezes, o joelho. Falo sobre buscar o tônus, proponho que se levantem e corram pela sala o mais rápido e mais lento que puderem, para que tentem descobrir como é que seus corpos reagem a essas dife- rentes velocidades. É também através do olhar que mostro a necessidade da relação com o espaço. O espaço é limitante e é necessário conviver com ele, aprender a olhar os limites da sala e além da sala. Essas diferentes intenções geram diferentes reações musculares e é isso que me interessa mostrar. Quero então saber como se sentem em relação a esse espaço onde trabalhamos, se há alguma modificação na percepção, se sentem tudo da mesma forma. E a melhor forma de saber se há alguma diferença, eu mostro, é a partir da respiração, retrato da 127 e m o ç ã o . A r e s p i r a ç ã o é u m p r o c e s s o d e t r o c a c o m o m u n d o , e u me a l i m e n t o a t r a v é s d e l a . E x a t a m e n t e p o r isso fico s e m r e s p o s t a q u a n d o p r e n d o a r e s p i r a ç ã o , q u a n d o d e i x ó d e me r e l a c i o n a r e t r o c a r c o m o m u n d o . T u d o isso vai d a n d o e s p a ç o p a r a c a d a p e s s o a , c a d a a l u n o , e d a r e s p a ç o é c r i a r a p o s s i b i l i d a d e d e v i v e n c i a r coisas n o v a s . P o r isso i n s i s t o s e m p r e em q u e a f o r m a n ã o i m p o r t a e q u e essa f o r m a só p o d e p a s s a r a s e r i n t e r e s s a n t e n o m o m e n t o em q u e p a s s a a s e r c o n s e q ü ê n c i a de t o d o um p r o c e s s o : a e m o ç ã o n ã o é f o r m a , a e m o ç ã o é m o v i m e n t o . S o m e n t e q u a n d o t e n h o d i s t a n c i a m e n t o dessa e m o ç ã o é q u e p o s s o c o m e ç a r a t r a n s f o r m á - l a em f o r m a , posso e n t ã o f a l a r s o b r e e l a , p r o c u r a r e s c l a r e c ê - l a . S o b o e f e i t o d a e m o ç ã o é i m p o s s í v e l f a l a r , nessa h o r a a e m o ç ã o é d i s f o r m e . O c h o r o n ã o t e m h o r a c e r t a n e m f o r m a e x a t a . M u i t a s vezes um ou o u t r o a l u n o se e m o c i o n a e c h o r a n a s m i n h a s a u l a s , mas n ã o levo essa r e a ç ã o m u i t o a s é r i o : o c h o r o c o s t u m a s e r u m a c o i s a fácil e não s i g n i f i c a g r a n d e c o i s a . R e p i t o s e m p r e q u e n ã o estou f a z e n d o t e r a p i a em n i n g u é m - a p e n a s em mim, talvez - e sei q u e as l á g r i m a s são u m a n e c e s s i d a d e n a t u r a l de a t e n ç ã o , n ã o têm - n à à t ! de t ã o p r o f u n d o . T u d o isso r e p r e s e n t a o início d e uma d e s c o n s t r u ç ã o e a o s p o u c o s as pessoas c o m e ç a m a p e r c e b e r q u e a t r a v é s d e s s a s a ç õ e s as c a d e i a s m u s c u l a r e s se d e s f a z e m , se a b r e m , a i n d a q u e n u n c a t ã o r a p i d a m e n t e c o m o s e r i a o ideal. D a n d o e s p a ç o p a r a os mús- c u l o s , t o d a a h i s t ó r i a de v i d a das pessoas c o m e ç a a s u r g i r , as a l e g r i a s e t r i s t e z a s , d e s g r a ç a s e f e l i c i d a d e s , a fome e a v o n t a d e , as f r u s t r a ç õ e s e f a n t a s i a s . C o m isso, os m o v i m e n t o s t o r n a m - s e mais s o l t o s e c o m e ç a a s u r g i r uma c o r e o g r a f i a n a t u r a l a p a r t i r de p e q u e n o s e s t í m u l o s . Só e n t ã o a música s u r g e , de p r e f e r ê n c i a t o c a d a p o r m ú s i c o s sensíveis, c r i a t i v o s e i n t e l i g e n t e s c o m o J o ã o de B r u ç ó - q u e t r a b a l h o u 12H c o m i g o d u r a n t e a n o s - , que p r o d u z i a sons t r a n s f o r m a d o s em m o v i m e n t o s e s p o n t â n e o s pelos a l u n o s . O m o v i m e n t o , e n t ã o , e a d a n ç a p o s t e r i o r , s ã o a u m a o e n t r e esses gestos q u e b u s c a m a n a t u r a l i d a d e d e c a d a um. É esse e s t í m u l o i n i c i a l q u e vai g e r a r a m o v i m e n t a ç ã o , t í m i d a de i n í c i o , ma~ que t o m a c o n t a do c o r p o e c r i a um d e s e n h o no e s p a ç o . Meu p a p e l , c o m o p r o f e s s o r , é r e s p e i t a r a i n d i v i d u a l i d a d e desses m o v i m e n t o s e m o s t r a r a c a d a a l u n o o q u e existe de u n i v e r s a l em seu m o v i m e n t o . M o s t r o e n t ã o q u e em t o d a s as c a d e i a s m u s c u l a r e s existe o p r i n c í p i o do e n c u r t a m e n t o e d o a l o n g a m e n t o e q u e , c o m a t e n ç ã o , é possível d e s c o b r i r a h i s t ó r i a de c a d a c o r p o . Ao m e x e r esses p o n t o s , a o c o n h e c ê - l o s m e l h o r , a e m o ç ã o dessas m e m ó r i a s vem à t o n a e é a p a r t i r d e e n t ã o que c o m e ç a a s u r g i r um c ó d i g o q u e r e t r a t e essas l e m b r a n ç a s . C h a m o a a t e n ç ã o d o s a l u n o s t a m b é m p a r a o p o n t o q u e fica q u a t r o d e d o s a b a i x o d o umbigo, q u e c o r r e s p o n d e a nosso c e n t r o físico e e m o c i o n a l . P o p u l a r m e n t e d i z e m o s q u e s e n t i m o s " u m frio na b a r r i g a " p o r q u e a e m o ç ã o e s t á a l i , t u d o vem d a l i , o p o r t - d e - b r a s d o balé, a p o s t u r a inicial d o yoga, t o d o s n a s c e m o s d a l i . A p o s t u r a ideal, p o r t a n t o , p a r t e d e s s e p o n t o e significa a b u s c a d o e q u i l í b r i o e n t r e d u a s forças, a r a z ã o e a e m o ç ã o , o sim e o n ã o , os o p o s t o s q u e nos a c o m p a n h a m t o d a a v i d a . O q u e q u e r o é i n c o r p o r a r essas d i f e r e n t e s s e n s a ç õ e s n a s a l a de a u l a c n ã o v i o l e n t a r c a d a c o r p o , r e s p e i t a n d o - o , f a z e n d o c o m que c a d a um possa se c o n h e c e r e se a p r o x i m a r . Se t o d o m o v i m e n t o p a r t e de um p o n t o e s p e c í f i c o , m o s t r o q u e a p a r t i r desse p o n t o posso t r a n s m i t i r i n f o r m a ç õ e s p a r a t o d o o c o r p o . M o s t r o q u e se u m a p e s s o a t e m o que c h a m o de c e n t r o d e f o r ç a nos o m b r o s ela p o d e g e r a r m o v i m e n t o s a p a r t i r d a í p a r a t o d o o c o r p o e a i n d a assim esses m o v i m e n t o s s e m p r e t e r ã o al- g u m a r e l a ç ã o com o c e n t r o i r r a d i a d o r inicial. Esse c e n t r o de força é o p o n t o de t e n s ã o de c a d a um; não é o mesmo p a r a t o d o s nós. O que p r o p o n h o é q u e c a d a a l u n o 12Y b u s q u e s e u c e n t r o de f o r ç a e q u e e s p a l h e p o r t o d o o c o r p o essa t e n s ã o , q u e leva à c o n s c i e n t i z a ç ã o física, m u s c u l a r e ó s s e a . É c u r i o s o t r a d u z i r m i n h a s a u l a s dessa f o r m a p o r q u e n a v e r d a d e n u n c a me p r e o c u p e i em a n a l i s a r c a d a s e q ü ê n c i a o u d e s - c o b r i r seu p a p e l na s a l a de a u l a . C o m o cheguei a t é esse t r a b a l h o a t r a v é s de e x p e r i m e n t a ç õ e s , a o l o n g o de q u a r e n t a a n o s, a c h o difícil t r a d u z i r t u d o isso o u , mais a i n d a , d a r u m a r e c e i t a : esse n ã o deve s e r um livro c u l i n á r i o . S i n t o q u e é a i n d a mais difícil s i n t e t i z a r m i n h a a u l a p o r q u e , ao c o n t r á r i o de M a r t h a G r a h a m e o u t r o s p e s q u i s a d o r e s d a d a n ç a e d o m o v i m e n t o , n ã o t e n h o f ó r m u l a s específicas, p o s i ç õ e s i n i - c i a i s , s í m b o l o s ideais. G r a h a m , p o r e x e m p l o , i n s t i t u i u u m a s e n e de e x e r c í c i o s básicos que d e v e m s e r r e p e t i d o s na sala de a u l a p o r t o d o s que p r e t e n d e m s e g u i r seus e n s i n a m e n t o s . E u , ao c o n t r á r i o , n ã o p r o p o n h o f ó r m u l a s n e m p o s t ç o e s b á - sicas, s e q ü ê n c i a s de p o s t u r a s ou q u a l q u e r o r g a n o g r a m a desses p o r q u e a c r e d i t o que i d é i a s c o r p o r a i s p r é - f a b r i c a d a s f o r ç a m e d e - t u r p a m a i n d i v i d u a l i d a d e do a l u n o . Além do m a i s , em geral as t é c n i c a s m o s t r a m o n d e o m o v i m e n t o c o m e ç a , mas o q u e me in- t e r e s s a é o fim desse m o v i m e n t o p o r q u e é isso que vai d a r e s p a ç o p a r a a u n i ã o com o m o v i m e n t o seguinte. Ao mesmo t e m p o , n ã o me p r e o c u p o com o f a t o de q u e o u t r o s p o d e r ã o c o p i a r m i n h a s aulas. N ã o t e n h o q u a l q u e r c i ú m e em r e l a ç ã o a isso p o r q u e no f u n d o n i n g u é m c o p i a n i n g u é m : uma a u l a de G r a h a m é i n t e i r a m e n t e d i f e r e n t e da a u l a de u m a assis- t e n t e dela. P i n a Bausch tem um m o d o de e n s i n a r d i s t i n t o d a - q u e l a s pessoas que fizeram c u r s o s c o m ela na A l e m a n h a . Ou seja: n i n g u é m p o d e usar o m é t o d o Klauss V i a n n a a n ã o s e r eu mesmo, p o r q u e t o d o esse m é t o d o tem r e l a ç ã o c o m a mi- nha p r ó p r i a vida. t a l e n t o s e d i f i c u l d a d e s . A c ó p i a n ã o existe: e x i s t e m idéias e s e q ü ê n c i a s q u e p o d e m s e r u t i l i z a d a s p o r o u t r o s i n t e r e s s a d o s . O que q u e r o é fazer c o m que a q u e l e s q u e p a r t i - c i p a m d a s m i n h a s a u l a s se s i n t a m bem com seus c o r p o s e em 1 3 0 q u a l q u e r s a l a de a u l a , seja ela de t é c n i c a clássica, s e n e g a l e s c a , G r a h a m , b u t ô , t a i - c h i ou n u m baile de d e b u t a n t e s . O e x e r c í c i o n ã o i m p o r t a : i m p o r t a é c o m o você o e x e c u t a . P o r t u d o isso, p o r s e r um g ê n e r o de a u l a q u e n ã o t e m se- q ü ê n c i a r í g i d a e d e p e n d e m u i t o d a r e l a ç ã o e n t r e p r o f e s s o r e a l u n o s , n ã o e s c o n d o n a d a na sala: às vezes fico com p r e g u i ç a , ou m a l - h u m o r a d o , ou c a n s a d o . Mas n ã o e s c o n d o essas s e n s a ç õ e s e digo á eles " o l h a , h o j e n ã o e s t o u bem, a a u l a talvez n ã o seja g r a n d e c o i s a " . M o s t r o a s i t u a ç ã o e c o m e ç o a a u l a m e s m o assim. Às vezes, em a l g u n s m i n u t o s eles m o d i f i c a m meu h u m o r ; em o u t r a s o c a - siões p e r m a n e ç o m a l - h u m o r a d o . O u s i m p l e s m e n t e d e s i s t o e sus- p e n d o a a u l a , p r o p o n d o - a p a r a o d i a s e g u i n t e . N ã o s ã o s e n s a - ções q u e eu goste q u e o c o r r a m , mas n ã o t e n t o e s c o n d ê - l a s e sim d e c i d i r c o m os a l u n o s , r e s p e i t a n d o m i n h a s e n s a ç ã o m o m e n t â n e a . M a s n ã o p o s s o e s q u e c e r q u e e s t o u t r a b a l h a n d o c o m s e r e s h u m a n o s , -não com b a i l a r i n o s , o u e s p o r t i s t a s o u p r o f e s s o r e s , o u d o n a s de casa. São s e r e s h u m a n o s que b u s c a r a m a m i n h a a u l a p o r q u e a c r e d i t a v a m q u e e u lhes p o d e r i a a p o n t a r c a m i n h 9 s . O que b u s c o , e n t ã o , é d a r u m c o r p o a essas p e s s o a s , porqq~ elas t ê m c o i s a s a d i z e r c o m seus c o r p o s . P o r isso n ã o f a ç o q u a l q u e r p r o p o s t a d e m o v i m e n t o s q u e n ã o t e n h a m a p l i c a ç ã o n a v i d a d i á - ria. Q u e r o q u e o t r a b a l h o seja simples e n a t u r a l . T a l v e z p o r t u d o isso m i n h a a u l a n ã o s e j a c o p i á v e l : a p e s a r de d u r a r d u a s h o r a s , ela n ã o a c a b a . Assim c o m o essa m i n h a p e s q u i s a , que d u r a d é c a d a s e n ã o t e m a i n d a u m a r e s p o s t a de- finitiva. N e m nome e s p e c í f i c o . O que i m p o r t a é l a n ç a r as se- m e n t e s no c o r p o d e c a d a um, a b r i r e s p a ç o n a m e n t e e n o s músculos. E e s p e r a r q u e a s r e s p o s t a s s u r j a m . O u n ã o . 131 VII Magia e técnica Todo esse trabalho tem qualquer coisa de paradoxal: falo sobre coisas que devem ser sentidas e não pensadas. Mas, para aqueles que conhecem um trabalho · desse gênero, qualquer que seja o nome que lhe é dado, esse livro poderá ser uma confir- mação ou o esclarecimento de alguma observação anterior. Aos outros, que têm uma aspiração ainda que. vaga de conhecimento, a leitura destas páginas pode ser o início de uma busca através de meios práticos. Existe entretanto, entre esse livro e a realidade, toda a dife- rença que separa um croqui topográfico do país verdadeiro que este croqui representa. É difícil e às vezes desnecessário teorizar: a prática é fundamental, sempre. Sabemos que as idéias aqui apresentadas estão ligadas por uma coesão profunda e interna que é a experiência vivida por mim mesmo. Como disse um mestre zen, para saber se a água de um balde .está quente ou fria deve-se meter a mão no balde. De nada servirá a discussão, por mais brilhante que possa ser. Assim, partiremos sempre do princípio de que existem di- versos caminhos para alcançar determinada meta. No nosso caso a meta é interior, o que torna as coisas um pouco mais com- plicadas. Mas o resultado desse trabalho surge também no exte- rior, no corpo. Existe um processo de alquimia interior que 132 acompanha cada ser humano e é com essa alquimia que cada um deve se exprimir, buscando não se trair, até chegar à inte- gração de seus recursos físicos e psíquicos. O resultado, para quem souber ver, será o mesmo para o artista, o carpinteiro, o pensador, a dona de casa, o professor: encontraremos neles a mesma realidade dinâmica do ser humano realizado através de um longo corpo-a-corpo entre a matéria e suas limitações. Mas essa transformação é um processo que exige tempo, mesmo quando se dá por etapas. E o tempo será inútil se cada humano não tiver por método um trabalho profundo e correto, centrado na conscientização e na continuidade, que são ainda mais importantes do que a força e a quantidade. Com isso, exi- ge-se um mínimo de perseverança e coragem. O resultado será forçosamente essa totalidade, conseguida através do alto preço pago ao corpo e ao espírito. Observemos que a desarmonia não está, em nenhuma parte, mais evidente do que no emprego que todos fazemos do corpo e dos movimentos, em ações simples como estar em pé, correr, caminhar ou na relação com os objetos docotidiano. Até mesmo o simples falar é realizado com uma total falta de harmonia c eficácia. Se quisermos aprofundar mais essa observação, encontrare- mos claramente um dos fatores dessa desarmonia na debilidade da coordenação. É como se as diferentes partes do aparelho motor perdessem a ligação que fazem do corpo uma unidade. O outro elemento que chama a atenção é o emprego defeituoso da força, que passa da crispação ao relaxamento. A impressão final é a de uma máquina mal regulada, sem o fluxo de um ser vivo. Estranhamente, as imagens que nos vêm a mente não são as de um doente incurável ou aleijado, mas sim dos homens ditos 133 n o r m a i s , q u e e n c o n t r a m o s d i a r i a m e n t e na v i d a c o n t e m p o r â n e a , em e s p e c i a l n a s g r a n d e s c i d a d e s . Se t i v e r m o s c h a n c e de e n c o n t r a r um ser h u m a n o q u e c o n - s e r v o u a o m e n o s p a r c i a l m e n t e o u r e e n c o n t r o u a t r a v é s d e um t r a b a l h o a s u a h a r m o n i a m o t o r a , f i c a r e m o s s u r p r e s o s c o m a u n i d a d e de seu c o r p o , i n c o r p o r a d o em gestos, e e n c o n t r a r e m o s nele a e c o n o m i a e a s i m p l i c i d a d e dos m o v i m e n t o s . E se é a t r a v é s d o c o r p o q u e p e r c e b e m o s essa d e s a r m o n i a , s a b e m o s a g o r a q u e a e x p r e s s ã o c o r p o r a l r e f l e t e t u d o o q u e sou: m i n h a h i s t ó r i a , o q u e p e n s o , c o m o s i n t o . V i d a i n t e r i o r e e x p r e s - s ã o c o r p o r a l s ã o c o i s a s i n s e p a r á v e i s . A i d é i a de c o n c e b e r o h o m e m c o m o u n i d a d e s e p a r á v e l é r e l a t i v a m e n t e r e c e n t e , e a c e i t a na c u l t u r a o c i d e n t a l d e s d e a Re- n a s c e n ç a . A m e d i c i n a de H i p ó c r a t e s . a o c o n t r á r i o , e d e s d e a a n t i g a G r é c i a , b a s e i a - s e n o p r i n c í p i o d a u n i d a d e d o c o r p o . Os c h i n e s e s d e s e n v o l v e r a m , em t o d a a sua h i s t ó r i a , u m a f i s i o l o g i a e n e r g é t i c a r i c a e c o m p l e x a ; as a r t e s e os e s p o r t e s t r a d i c i o n a i s d e t o d o o E x t r e m o O r i e n t e s ã o b a s e a d o s na l i g a ç ã o e n t r e e s p í r i t o e m a t é r i a , u n i d o s p o r essa e n e r g i a d a q u a l a c i r c u l a ç ã o é a c a - r a c t e r í s t i c a b á s i c a d o s s e r e s vivos. N e g l i g e n c i a d a d e p o i s d a é p o c a de D e s c a r t e s , essa c o n c e p ç ã o u n i f i c a d a da n a t u r e z a h u m a n a r e a p a r e c e em nossos d i a s c o m f o r ç a c r e s c e n t e . A j o v e m m e d i c i n a p s i c o s s o m á t i c a d e s c o b r i u al- g u m a s l i g a ç õ e s e n t r e v i d a p s í q u i c a e o r g â n i c a , e a p a l a v r a p a s s a h o j e a s e r um dos i n g r e d i e n t e s mais i m p o r t a n t e s d a e x p r e s s ã o física. E s s a e x p r e s s ã o c o r p o r a l é c o m u m a t o d o s e p e r m i t e d i s t i n - g u i r , n ã o i m p o r t a em q u a l p a r t e á o m u n d o , a v o n t a d e d e c a d a s e r h u m a n o . O h o m e m é u n o em s u a e x p r e s s ã o : n ã o é o e s p í r i t o q u e se i n q u i e t a nem o c o r p o que se c o n t r a i - é a p e s s o a i n t e i r a q u e se e x p r i m e . Meu t r a b a l h o , p o r t a n t o . b u s c a d a r e s p a ç o p a r a a m a n i f e s - t a ç ã o d o c o r p o c o m o um t o d o , c o m os c o n t e ú d o s d a v i d a psí- 1 3 4 q u i c a , das e x p r e s s õ e s d o s s e n t i d o s , d a v i d a a f e t i v a . N ã o é pos- sível n e g l i g e n c i a r ou e s q u e c e r t a i s c o i s a s n e m f a z e r c o m q u e c c o r p o p e r m a n e ç a m u d o e n ã o t r a n s m i t a n a d a : as i n f o r m a ç õ e s que ele d á s ã o i n c o n t r o l á v e i s . T e m o s é q u e c o n h e c e r esses p r o c e s s o s i n t e r n o s p o d e r o s o s e d a r e s p a ç o p a r a que eles se m a n i f e s t e m . c r i a n d o assim a c o r e o g r a f i a . a d a n ç a de c a d a um. 135 A v i s ã o do o u t r o K l a u s s : e d u c a n d o o s s e n t i d o s C o n h e c i K l a u s s V i a n n a e m 1 9 8 2 , é p o c a em q u e , r e c é m - f i - x a d o em S ã o P a u l o , ele c h a m a v a a t e n ç ã o t a n t o p e l a r e n o v a ç ã o q u e i m p r i m i a n o a n t i g o C o r p o de B a i l e M u n i c i p a l (o n o m e B a l é d a C i d a d e de S ã o P a u l o s u r g i u a p a r t i r de s u a g e s t ã o ) , c o m o p e l a s a u l a s que d a v a em a l g u n s e s t ú d i o s d e d a n ç a d a c i d a d e . N e s t e a n o , f r e q ü e n t a n d o um de seus c u r s o s , d e s c o b r i o r e v e r s o d e t u d o q u e se e n s i n a v a n a s e s c o l a s de b a l é . E r a m a u l a s s e m a n a i s , t o d a s as s e x t a s - f e i r a s . n u m s a l ã o e n - c r a v a d o em p l e n a R u a A u g u s t a . Os a l u n o s - em vez d a s t u r m a s q u e f i c a v a m b r i g a n d o c o m o p r ó p r i o c o r p o , e m d i s p u t a p e l a p e r n a m a i s a l t a ou p e l o m a i o r n ú m e r o de g i r o s n u m a p i r u e t a - f o r m a v a m um g r u p o s u p e r - h e t e r o g ê n e o . G e n t e d e t o d a s a s i d a d e s e p r o f i s s õ e s , com o u sem t é c n i c a de d a n ç a . H a v i a b a i l a - r i n o s sim - mas q u e , ali, p a r e c i a m e s t a r de v o l t a a o c o m e ç o , r e f o r m u l a n d o t u d o q u e s a b i a m . Se, de início, as a u l a s de K l a u s s p r o v o c a v a m e s t r a n h a - m e n t a , com o t e m p o c r i a v a m um g r a n d e e n v o l v i m e n t o : o d i a de a u l a p a s s a v a a s e r e s p e r a d o c o m o um d o s m o m e n t o s a g r a - d á v e i s d a s e m a n a - e r a a o p o r t u n i d a d e de se l i v r a r d a s c o u - r a ç a s d o d i a - a - d i a e de lá s a i r mais leve e d e s c o n t r a í d a , m a i s e m h a r m o n i a c o m o m u n d o e c o m i g o m e s m a ( s e n s a ç ã o q u e t o d o s p a r e c i a m p a r t i l h a r ) . N o s s o c o n t a t o com a a u l a c o m e ç a v a p o r um e x e r c í c i o d e " c h e g a d a " - a n t e s de q u a l q u e r coisa, e r a p r e c i s o se s e n t i r p r e - 1 3 9 s e n t e , d e s v e n c i l h a n d o - s e , a o s p o u c o s , d o q u e o d i a h a v i a d e i - x a d o p a r a t r á s . T r a b a l h a n d o o c o r p o e m d e t a l h e s , s e n t í a m o s as e x t e n s õ e s e l i m i t a ç õ e s d e n o s s a m u s c u l a t u r a , d e n o s s o s m o v i - m e n t o s n o s s a r e l a ç ã o c o m o c h ã o ( o u c o m a " g r a v i d a d e " , c o m o ele d i z ) ; o p e s o d o c o r p o . N o j o g o d e p e r c e p ç õ e s e m p r e e n d i d o p o r K l a u s s , d á v a m o s a t e n ç ã o a t é a o e s p a ç o e x i s t e n t e e n t r e os d e d o s d o s pés - t o c a n d o e s e n t i n d o essa r e g i ã o p e r c e b í a m o s o q u a n t o a b a n d o n a m o s e e s q u e c e m o s c e r t a s p a r t e s d o c o r p o , a p a r e n t e - m e n t e i r r e l e v a n t e s (assim c o m o f a z e m o s c o m a v i d a - e l e n o s f az i a p e r c e b e r ) . E x p l o r a n d o o l ú d i c o d e t o d o s n ó s , K l a u s s r e v e s t i a d e b r i n - c a d e i r a c e r t o s e x e r c í c i o s . P e r c o r r e n d o e d e s c o b r i n d o e s p a ç o s n a s a l a , s u g e r i a q u e a n d á s s e m o s a g a c h a d o s ou e x p e r i m e n t a n d o os d i f e r e n t e s · a p o i o s d o s pés ( s e m p r e s e n t i n d o o t r a b a l h o m u s c u l a r d e s s e s m o v i m e n t o s ) . H a v i a t a m b é m o j o g o d e o l h a r e s : o l h a r d i f e r e n t e s p o n t o s o u um p a r a os o u t r o s l e v a v a a p e q u e n a s d e s - c o b e r t a s . A s s i m c o m o a a l t e r n â n c i a em se m o v i m e n t a r a o s o m d a m ú s i c a ou a o som d o s i l ê n c i o . A fim de c e r t a s s e q ü ê n c i a s , d e i t á v a m o s no c h ã o : o l h o s fe- c h a d o s c a n a l i z á v a m o s n o s s o s o u v i d o s p a r a os r u í d o s m a i s p r ó - x i m o s , d e p o i s p a r a os s o n s m a i s d i s t a n t e s . m a i s l o n g í n q u o s . . . De r e p e n t e , me d a v a c o n t a d e que e s t á v a m o s r e d e s c o b r i n d o o ó b v i o - o u a n o s s a g r a n d e i n c a p a c i d a d e de, n o d i a - a - d i a , n o s f e c h a r m o s p a r a as s u t i l e z a s ( o u p o e s i a ) d a v i d a . E t e r n o p e s q u i s a d o r , K l a u s s t r a b a l h a n o s t e r r e n o s d o e x p e - r i m e n t a l - este c a m p o de a c e r t o s e d e s a c e r t o s , d e b u s c a c o n - t í n u a d e r e v e l a ç õ e s . c u j o r i s c o i n t i m i d a a t r a j e t ó r i a d e t a n t o s p r e t e n s o s a r t i s t a s I n t u i t i v o p o r n a t u r e z a , K l a u s s t e n t a a p r e e n d e r a e s s ê n c i a e os m i s t é r i o s de s u a a r t e , f a z e n d o d a p e r e n e i n s a t i s - f a ç ã o s u a m o l a m e s t r a . E m b o r a r e s t r i t o a o s l i m i t e s de f o r m a ç ã o e i n f o r m a ç ã o de seu p a í s c o n s e g u i u , a t r a v é s d o s r e q u i n t e s d e s u a p e r c e p ç ã o , e s t a b e l e c e r um m é t o d o d e t r a b a l h o e e n s i n o p r ó p r i o , a f i n a d o c o m a f i l o s o f i a d o s g r a n d e s a r t i s t a s d a d a n ç a c o n t e m p o - r â n e a ( c o m o P i n a B a u s c h e K a z u o O h n o ) . 1 4 0 M a i s d o q u e b a i l a r i n o o u c o r e ó g r a f o , K l a u s s se d i s t i n g u e c o m o p r o f e s s o r - p a p e l q u e ele vem d e s e m p e n h a n d o à s e m e - l h a n ç a d o p e r s o n a g e m J o h n K e a t i n g , d o filme " S o c i e d a d e d o s P o e t a s M o r t o s " ( D e a d P o e t s S o c i e t y , de P e t e r W e i r ) . A s s i m c o m o K e a t i n g , e l e i n c i t a seus a l u n o s a d e s c o b r i r e m - s e a si m e s - m o s , q u e s t i o n a n d o o q u e p e n s a m q u e s a b e m e e s t a b e l e c e n d o u m a p o s t u r a d i a l é t i c a c o m o q u e f a z e m . N ã o à t o a , os b a i l a r i n o s e c o r e ó g r a f o s q u e a b s o r v e r a m s u a i n f l u ê n c i a s t e n d e m a se e x - p r e s s a r d e f o r m a m a i s a r r o j a d a ( A n t o n i o N ó b r e g a é u m d o s e x e m p l o s ) T r a n s f o r m a n d o s u a s a u l a s n u m l a b o r a t ó r i o d e i d é i a s , d e s a f i a n d o s e u s a l u n o s . p r o m o v e n d o o i n t e r c â m b i o d a d a n ç a c o m c o m o u t r a s l i n g u a g e n s , K l a u s s a b r i u c a m i n h o p a r a os a v a n ç o s p r e t e n d i d o s p e l a d a n ç a b r a s i l e i r a . O g e r m e da i n q u i e t a ç ã o e d a c r i a t i v i d a d e d i f u n d i d o p o r K l a u s s e s t á , p o r t a n t o , p r e s e n t e . R e s t a , c o n t u d o . l a m e n t a r a f a l t a d e c o n d i ç õ e s de t r a b a l h o q u e um p r o f i s s i o n a l de s u a c a t e g o r i a e n c o n t r a n o B r a s i l . A n a F r a n c i s c a P o n z i o 141 Klauss V i a n n a conseguiu ao longo dos anos u m m é t o d o p r ó - p r i o de t r a b a l h o e ensino. E s t á no mesmo nível dos g r a n d e s a r t i s - tas da d a n ç a c o n t e m p o r â n e a - como P i n a B a u s c h e K a z u o O h n o e i n f l u e n c i o u v á r i a s gerações de bailarinos. Capanull Conteúdonull