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A p a j x o n a d o p e l a d a n ·a e p Ja p o i b i l i u d e 
t:>xpressiva do m o v i m e n t o , o b a i l a r i n o , o r e q g r a f o 
e ] J r o f e s o r K J a u . s V i a n n a a p r e s e n t a n e t e 1' . r o o 
1·e u J t a d o d e u m t r a b a l h o d e ob e r v a ç ã o , J e r i -
m e n t a ç ã.o, e s t u d o e r e f l e x ã o s o b r e o c o r p o h h l a n o 
P u a i m p li c a ç õ e s a n a t ô m · · a , f u n c i o n a i s }J ·ico l ' -
o·i · a · a f e t i v a s e e s p i r i t u a i . . 
· f i n a d o com a f i l o of1a d o · g r a n d e ·· r • n o v a -
dol'e::; d a d a n ç a c o n t e m p o r â n e a ( P i n a B a ch e 
K a z u o O h n o ) , e n i n a q u e a n t e d e e x p r i m i T 1 a ma-
t é r i a a u a e x p e r i ê n c i a e x i t e n c i a l , o h o m e n i a t r a -
d u z com a a j u d a d o . e u p r ó p r i o · o r p o : lm ca 
do a u t o · o n h e i m e n t o , t o d o , ::;em 
b a i la r i n o s d a v i d a . 
... 
. C h a m . 9 2 7 . 9 2 8 V61 7 d 
utor : Vianna , Klaus !.. 
ítuJo : A dança . 
111111 1111 1111111 
0 0 0 6 1 8 4 3 
S U B I M G - E m p 
111~ o de Carvalh o 
A D A N Ç A 
K L A U S S V I A N N A 
!!ID c o l a b o r a ç ã o com 
M a r c o A n t o n i o de C a r v a l h o 
D a d o s d e C a t a l o g a ç ã o n a P u b l i c a ç ã o ( C I P ) I n t e r n a c i o n a l 
( C â m a r a B r a s i l e i r a d o L i v r o , SP, B r a s i l ) 
V i a n n a , Klauss. 
A d a n ç a I Klauss V i a n n a e M a r c o A n t o n i o d e C a r v a l h o . 
- São P a u l o : S i c i l i a n o , 1990. 
1. A u t o p e r c e p ç ã o 2. B a l é ( D a n ç a ) 3. E s p í r i t o e c o r p o 
4. Klauss, V i a n n a I . C a r v a l h o , M a r c o A n t o n i o d e , 1
9 5 0 -
11. T í t u l o . C D D - 9 2 7 . 9 2 8 0 9 8 1 
- 1 2 8 
- 1 5 2 
9 0 - 1 3 0 7 - 7 9 2 . 8 2 
í n d i c e s p a r a c a t á l o g o s i s t e m á t i c o : 
1. B a i l a r i n o s b r a s i l e i r o s : B i o g r a f i a 9 2 7 . 9 2 8 0 9 8 1 
2. B a l é : D a n ç a 7 9 2 . 8 2 
3. B a l é : D a n ç a : T é c n i c a 7 9 2 . 8 2 
4. B r a s i l : B a i l a r i n o s : B i o g r a f i a 9 2 7 . 9 2 8 0 9 8 1 
5. C o r p o e e s p í r i t o : M e t a f í s i c a : F i l o s o f i a 1 2 8 
6. P e r c e p ç ã o c o r p o r a l : P s i c o l o g i a f i s i o l ó g i c a 1 5 2 
© 1 9 9 0 b y Klauss V i a n n a e M a r c o A n t o n i o d e C a r v a l h o 
D i r e i t o s e x c l u s i v o s p a r a a l í n g u a p o r t u g u e s a c e d i d o s à 
A g ê n c i a S i c i l i a n o d e L i v r o s , J o r n a i s e R e v i s t a s L t d a . 
AI. D i n o B u e n o , 4 9 2 - C E P 0 1 2 1 7 - S ã o P a u l o - B
r a s i l 
C a p a : P i n k W a i n e r 
E d i ç õ e s S i c i l i a n o , 1 9 9 0 
I S B N : 8 5 - 2 6 7 - 0 3 0 0 - 5 . 
P ' r a vocês: A n g e l , R a i n e r , N e i d e e T a i n á . 
A g r a d e c i m e n t o s : F u n d a ç ã o V i t a e 
C o n t e ú d o 
A n t e s de m a i s n a d a . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 
. . . . . . .
 . . . . 
9 
I n t r o d u ç ã o 
11 
A V I D A 
I. B e l o H o r i z o n t e , a n o s 3 0 . . . . . . . . . . . . . 
. . . . . . .
 . 17 
l i . 
I I I . 
I V . 
v. 
V I . 
V I I . 
B a l é c l á s s i c o : u m a v i s ã o m i n e i r a . . . . . . . . . . .
. . . . 
O c o m p a s s o b a i a n o . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . 
As p e q u e n a s m o r t e s . . . . . . . . . . . . . . . . . .
 
O e t e r n o r e c o m e ç o . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . 
E s t a r n o m u n d o . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . 
P e l a c r i a ç ã o d e u m b a l é n a c i o n a l 
A T É C N I C A 
2 2 
2 8 
35 
4 2 
5 4 
6 8 
I . A h a r m ô n i c a i n c o e r ê n c i a . . . . . . . . . . . . .
 . . . . . . 
. . 77 
I l . A o r i t m o d o U n i v e r s o . . . . . . . . . . . . . . .
 . . . . . . 
. . 8 2 
I I I . F u n ç ã o e f o r m a . . . . . . . . . . . . . . . . . . 
. . . . . . .
 . . . 
8 9 
I V . A p r e n d i z a d o e e n e r g i a - n o ç õ e s . . . . .
 . . . . . . 
. . . 9 7 
V. P e r c e p ç ã o c o r p o r a l a p a r t i r de m o v i m e n t o
s b á s i c o s . 1 0 8 
V I . N a s a l a de a u l a . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
 . . . . . . 
. . . 1 2 0 
V I I . M a g i a e t é c n i c a . . . . . . . . . . . . . . . . . .
 . . . . . . 
. . . . 1 3 2 
A V I S Ã O D O O U T R O 
K l a u s s : e d u c a n d o os s e n t i d o s . . . . . . . . . . . .
 . . . . . . 
. . . . 139 
7 
E s s e t e x t o foi c n a d o a p a r t i r de e n t r e v i s t a s de A n a F r a n -
c i s c a P o n z i o , Luis P e l l e g r i n i e M a r c o A n t o n i o de C a r v a l h o com 
K l a u s s V i a n n a . 
A n t e s d e ma1s n a d a 
Q u a n d o me a p a i x o n e i pela d a n ç a e p e l a s p o s s i b i l i d a d e s 
e x p r e s s i v a s do m o v i m e n t o , eu e r a quase um a d o l e s c e n t e . Ao 
longo dessa l i g a ç ã o , que j á d u r a mais de q u a r e n t a a n o s , p r o -
c u r e i p e r c e b e r e q u e s t i o n a r os gestos e m o v i m e n t o s h u m a n o s 
em s u a p r o f u n d i d a d e - sempre o r i e n t a d o p o r m i n h a s i n q u i e -
t a ç õ e s , em p a r t e p r o v o c a d a s pelas i n ú m e r a s l a c u n a s que um 
b a i l a r i n o b r a s i l e i r o e n f r e n t a em sua f o r m a ç ã o . Mas n ã o q u e r o 
a q u i d e m o n s t r a r um m é t o d o p r o n t o e a c a b a d o . S e m e l h a n t e à s 
i n f i n i t a s d e s c o b e r t a s q u e a vida nos p r o p o r c i o n a , um p r o c e s s o 
d i d á t i c o e c r i a t i v o é inesgotáveL P o r isso, em vez de c o n d u z i r 
a d a p t a ç õ e s a m a n e i r a s de d a n ç a r ou se m o v i m e n t a r que me 
a g r a d a m ou com as q u a i s me i d e n t i f i c o , p r e f i r o a p r e s e n t a r in-
f o r m a ç õ e s e e s t i m u l a r as c o n t r i b u i ç õ e s i n d i v i d u a i s . É o q u e p r e -
t e n d o a p a r t i r das reflexões - e d ú v i d a s - c o n t i d a s n e s t e livro. 
Q u e , e s p e r o , n ã o b u s q u e nem e s t a b e l e ç a c e r t e z a s , mas d e s p e r t e 
o d e s e j o p e r m a n e n t e de i n v e s t i g a ç ã o p e r a n t e a d a n ç a e a a r t e 
- que, p a r a mim, se c o n f u n d e m c o m a vida. 
K l a u s s V i a n n a 
I n t r o d u ç ã o 
E s t e é um livro de V i d a , e n ã o a p e n a s de d a n ç a . É p r o -
d u t o a c a b a d o de um t r a b a l h o de o b s e r v a ç ã o , e x p e r i m e n t a ç ã o , 
e s t u d o e r e f l e x ã o s o b r e o c o r p o h u m a n o e s u a s i m p l i c a ç õ e s a n a -
t ô m i c a s , f u n c i o n a i s , e m o c i o n a i s , p s i c o l ó g i c a s , a f e t i v a s e e s p i r i -
t u a i s . T o d a essa m a s s a de c o n h e c i m e n t o c u s t o u a o a u t o r , K l a u s s 
V i a n n a , n ã o a p e n a s as m u i t a s h o r a s p a s s a d a s n a s s a l a s de a u l a , 
c o m o a l u n o e como p r o f e s s o r , eo t e m p o e m p r e g a d o n o s seus 
e s t u d o s t e ó r i c o s : o m a t e r i a l aqui c o n t i d o , a l é m d e t u d o isso, re-
flete a p r ó p r i a e x p e r i ê n c i a e x i s t e n c i a l de K l a u s s , d e s d e os p r i -
m e i r o s a n o s de vida, a t é os t e m p o s d a s u a m a t u r i d a d e c o n s o -
l i d a d a . 
A o b r a d i v i d e - s e em d u a s p a r t e s p r i n c i p a i s . A p r i m e i r a , de 
c u n h o p r e d o m i n a n t e m e n t e a u t o b i o g r á f i c o , p o d e s e r l i d a c o m o um 
r e l a t o , uma r e p o r t a g e m , e, em a l g u m a s p a s s a g e n s , a t é m e s m o 
c o m o r o m a n c e . R e t r a t a a t r a j e t ó r i a e x e m p l a r de u m a i n a t a vo-
c a ç ã o p a r a a d a n ç a , s u r g i d a no B r a s i l dos a n o s 3 0 , e q u e se 
e s t e n d e u , sem ~nterrupção, a t é o p r e s e n t e m o m e n t o , c o n f u n d i n -
do-se com a p r ó p r i a h i s t ó r i a da d a n ç a n o B r a s i l no p e r í o d o . 
O r e l a t o é de g r a n d e u t i l i d a d e n ã o a p e n a s p a r a os p r o f i s -
s i o n a i s da d a n ç a , m a s t a m b é m p a r a t o d o s a q u e l e s q u e p r e t e n d e m 
d e s e m p e n h a r , n a vida, a l g u m a a t i v i d a d e c r i a t i v a , s e j a n a á r e a d a s 
a r t e s , c o m o na da c i ê n c i a , da f i l o s o f i a , o u da r e l i g i ã o . A o r e -
l a t a r o seu c a m i n h o pessoal no m u n d o , K l a u s s V i a n n a p a s s a u m a 
lição f u n d a m e n t a l : a c r i a ç ã o h u m a n a , n ã o i m p o r t a q u a l s e j a ela, n ã o 
p o d e p r e s c i n d i r da v i v ê n c i a a t e n t a , h o n e s t a e p a c i e n t e d a r e a l i -
11 
d a d e . E a r e a l i d a d e c o m e ç a n o c o t i d i a n o , n a s c o i s a s m a i s sim-
ples e a p a r e n t e m e n t e sem i m p o r t â n c i a c o m o , p o r e x e m p l o , e p a r a 
c i t a r e p i s ó d i o s do l i v r o , o s a b o r dos t o m a t e s frescos, o c o n t a t o 
com os seios da avó, o b a l é d a s n u v e n s no céu, os m o v i m e n t o s 
m u s c u l a r e s do j a r d i n e i r o no d e s e m p e n h o de suas f u n ç õ e s . É n a 
o b s e r v a ç ã o dos p r o c e s s o s da n a t u r e z a , m a n i f e s t a d a d e n t r o e f o r a 
de si mesmo, que se a c u m u l a o a c e r v o das coisas que, d e p o i s , 
c o n s t i t u i r ã o a m a t é r i a - p r i m a da o b r a pessoal. 
A s e g u n d a p a r t e d o livro é o r e s u l t a d o c o n c r e t o d a p r i m e i r a . 
A p r e s e n t a d o s sob o t í t u l o de " A t é c n i c a e a v i d a " , estes c a p í -
t u l o s g a n h a m d i m e n s õ e s s u r p r e e n d e n t e s . O que K l a u s s V i a n n a 
c h a m a de " t é c n i c a " t r a n s c e n d e com l a r g u e z a os l i m i t e s d o signi-
f i c a d o m a i s c o r r e n t e e t r a d i c i o n a l a t r i b u í d o ao t e r m o . E x i s t e 
uma " t é c n i c a K l a u s s V i a n n a " , mas ela p o u c o o u n a d a t e m a 
ver c o m os s i s t e m a s de r e g r a s , códigos e p r i n c í p i o s o r d e n a d o s n a 
c o n c e p ç ã o c o m u m da d a n ç a clássica e m o d e r n a , e n e m t a m p o u c o 
com os m é t o d o s de t r a b a l h o c o r p o r a l das h o j e t ã o e m m o d a 
t e r a p i a s d o c o r p o e similares. K l a u s s a c e i t a esses s i s t e m a s , e os 
r e s p e i t a e n q u a n t o b a s e h i s t ó r i c a e f o r m a l c a p a z de f o r n e c e r e l e -
m e n t o s n a d a desprezíveis. Mas sua visão vai m u i t o m a i s além. 
P a r t i d á r i o a p a i x o n a d o d a l i b e r d a d e i n d i v i d u a l em t o d a s as s u a s 
f o r m a s , ele r e j e i t a o a s p e c t o de " c a m i s a de f o r ç a " em q u e esses 
s i s t e m a s se t r a n s f o r m a m q u a n d o a p l i c a d o s de m a n e i r a m a s s i f i c a d a , 
ou q u a n d o s ã o e n t e n d i d o s c o m o escalas de r e g r a s fixas e i m u -
táveis. 
Nesse c o n t e x t o de l i b e r d a d e - q u e n ã o s i g n i f i c a c a o s n e m 
d e s o r d e m i n d i s c r i m i n a d a - a d a n ç a p a r a Klauss d e i x a de s e r 
uma p r o f i s s ã o , uma d i v e r s ã o , u m a g i n á s t i c a , d e i x a a t é d e s e r u m a 
a r t e no s e n t i d o mais r e s t r i t o d o t e r m o , p a r a s e r e n t e n d i d a e vi-
v i d a c o m o um c a m i n h o de a u t o c o n h e c i m e n t o , de c o m u n h ã o c o m 
o m u n d o e de e x p r e s s ã o do m u n d o . 
Ao l a n ç a r - s e em vôos t ã o a m p l o s , p a r a os q u a i s usa a s a s 
de g r a n d e e n v e r g a d u r a , o a u t o r r e t o m a a visão d o s a n t i g o s , se-
12 
g u n d o a q u a l o h o m e m é um m i c r o c o s m o que s i n t e t i z a em si o 
m a c r o c o s m o , o u n i v e r s o . N e s s a visão, as leis q u e r e g e m a g ê n e s e 
e a e v o l u ç ã o do u n i v e r s o s ã o e x a t a m e n t e as m e s m a s leis q u e 
regem a e x i s t ê n c i a h u m a n a . E t o d o esse s i s t e m a u n i v e r s a l de 
leis n ã o c o n h e c e , em s u a m a n i f e s t a ç ã o , a p e r m a n ê n c i a e s t á t i c a : 
t u d o a c o n t e c e em t e r m o s de uma p e r e n e d i n â m i c a c a r a c t e r i z a d a 
p e l o m o v i m e n t o . 
A vida, o m u n d o e o h o m e m m a n i f e s t a m - s e a t r a v é s d o m o -
- v i m e n t o . D a n ç a r é m o v e r - s e com r i t m o , m e l o d i a e h a r m o n i a . 
P o r t a l r a z ã o , n a s m e t a f í s i c a s o r i e n t a i s , os d e u s e s r e s p o n s á v e i s 
p e l a c r i a ç ã o d o m u n d o s ã o g e r a l m e n t e a p r e s e n t a d o s c o m o os 
" S e n h o r e s d a D a n ç a " . E s t e é, p o r e x e m p l o , o c a s o de S h i v a N a -
t a r a j a , o " S e n h o r d a D a n ç a ' ' , deus i n d i a n o d a c r i a ç ã o . 
N o m i t o d a c r i a ç ã o d o m u n d o p o r S h i v a N a t a r a j a , no p r i n - · 
c í p i o o u n i v e r s o e r a c o n s t i t u í d o de s u b s t â n c i a i n e r t e . C a n s a d o de 
s u a i m o b i l i d a d e , B r a m a , o A b s o l u t o , e m a n a de si m e s m o o d e u s 
S h i v a N a t a r a j a , que j á s u r g e d a n ç a n d o . D o c o r p o de S h i v a em 
m o v i m e n t o e m a n a m o n d a s s o n o r a s , v i b r a ç õ e s e e n e r g i a s que vi-
vificam a m a t é r i a i n e r t e . Assim s ã o c r i a d a s as i n f i n i t a s f o r m a s 
d o m u n d o m a n i f e s t a d o . C a d a u m a dessas f o r m a s , p o r s u a vez, 
p a s s a a d a n ç a r e a v i b r a r d e n t r o d o s m e s m o s p a d r õ e s de r i t m o s , 
m e l o d i a s e h a r m o n i a s d a d a n ç a o r i g i n a l de Shiva. E , p o r t a n t o , 
e m si m e s m a s d e p o s i t á r i a s essenciais de Shiva, t o d a s as f o r m a s 
d a c r i a ç ã o n a t u r a l s ã o t a m b é m , p e l o m e n o s em p o t e n c i a l , c r i a d o -
ras. N i s s o i n c l u i - s e o h o m e m , c r i a ç ã o n a t u r a l e c r i a d o r p o t e n c i a l . 
E s t a mesma i d é i a d o h o m e m e d o m u n d o s u r g i n d o e evo-
l u i n d o n o e t e rn o c o n t e x t o de u m a d a n ç a c ó s m i c a q u e n ã o t e m 
c o m e ç o e nem fim t a l v e z s e j a a c h a v e ú l t i m a p a r a a c o m p r e e n s ã o 
d a p r o p o s t a d e K l a u s s V i a n n a . P a r a o b a i l a r i n o , e s t e seu l i v r o 
e n s i n a que a d a n ç a , a m a i s a n t i g a de t o d a s as f o r m a s de a r t e , 
é· u m a o p ç ã o t o t a l d e v i d a . E n s i n a q u e a n t e s de e x p r i m i r n a 
m a t é r i a a s u a e x p e r i ê n c i a e x i s t e n c i a l , o h o m e m a t r a d u z c o m a 
a j u d a d o seu p r ó p r i o c o r p o . A l e g r i a , d o r , a m o r , t e r r o r , n a s c i -
m e n t o , m o r t e , t u d o , p a r a o v e r d a d e i r o b a i l a r i n o , é m o t i v o e o c a - · 
13 
sião de d a n ç a r . A t r a v é s dos m o v i m e n t o s da d a n ç a a p r o f u n d a - s e 
c a d a e x p e r i ê n c i a e realiza-se o milagre da c o m u n i c a ç ã o . 
P a r a os n ã o profissionais, Klauss r e s e r v a u m a r e v e l a ç ã o 
s u b s t a n c i a l : a de que todos somos, sem exceção, b a i l a r i n o s da 
vida. T o d o s nos m o v e n d o p a r a um ú n i c o e f u n d a m e n t a l o b j e t i v o : 
o a u t o c o n h e c i m e n t o . 
P e l a d a n ç a o homem m a n i f e s t a os movimentos d o seu m u n d o 
i n t e r i o r , t o r n a n d o - o s mais conscientes p a r a si mesmo e p a r a o 
e s p e c t a d o r ; pela d a n ç a ele reage ao m u n d o e x t e r i o r e t e n t a 
a p r e e n d e r os fenômenos do universo. Nessa t e n t a t i v a , ele se 
a p r o x i m a c a d a vez m a i s de seu Ser m a i s p r o f u n d o . Ou, f a z e n d o 
de Klauss V i a n n a as p a l a v r a s de M a r i a - G a b r i e l e Wosien em 
seu livro A dança sagrada, " d a mesma f o r m a que a c r i a ç ã o 
e s c o n d e o C r i a d o r , o i n v ó l u c r o fí,sico do homem e s c o n d e a sua 
e s p i r i t u a l i d a d e . D a n ç a n d o , o homem t r a n s c e n d e a f r a g m e n t a ç ã o , 
esse espelho p a r t i d o cujos p e d a ç o s · r e p r e s e n t a m as p a r t e s d i s p e r -
sas d o t o d o . E n q u a n t o d a n ç a , ele p e r c e b e n o v a m e n t e q u e é u n o 
com . s e u p r ó p r i o E u e com o m u n d o exterior. Q u a n d o a t i n g e 
tal nível de e x p e r i ê n c i a p r o f u n d a , o homem d e s c o b r e o s e n t i d o 
da t o t a l i d a d e da v i d a " . 
Luis P e l l e g r i n i 
1 4 
A vida 
I 
Belo Horizonte, anos 30 
Não me enquadro em nada que foi escrito a respeito do 
corpo. Meu trabalho também é assim: não se enquadra em ró-
tulos. Desde o princípio. Eu sempre fui mais intuitivo do que 
estudioso. A distância e a observação foram os pontos básicos 
de toda a minha vida. Desde pequeno. Observava a família, 
como se não pertencesse àquela comunidade. Observei a morte 
do meu pai e de minha mãe. Não as vivenc1e1, porque nunca 
cheguei perto deles. Nem eles de mim. Eu era muito só, o pa-
tinho feio, aquele que faz tudo errado. E esse ficar só me deu 
um conhecimento muito grande das pessoas, eu me afastava para 
me aproximar. Vivia num mundo que só existia na minha ca-
beça: queria mais observar do que participar. A brincadeira de 
ficar horas com os olhos fechados. A comunicação com minha 
avó, que também observava. Alemã, minha avó era a única 
pessoa da casa em quem sentia força, que me conhecia, sabia 
de mim. Nela, o primeiro corpo de mulher. O corpo: castigado 
desde o princípio. Massacrado na escola. O corpo negado em tudo. 
Só o reino da fantasia, do faz-de-conta. Horas no galinheiro, brin-
cando com as aves. Sabia o nome de todas. Também com os 
cachorros do pai, caçador. Com os humanos, não: distanciamento, 
medo. Observações. Horas observando os pés. Os meus e os 
dos outros. As marcas que deixavam na areia ou no cimento, 
quando saíam da piscina. O joelho foi o mais difícil: quase sem-
17 
pre o lado escondido das pessoas. As costas, comprimento dos 
braços, o jeito da cabeça. A expressão, olhos, boca, nariz. As 
mãos. Abrir a mão para apanhar. Lembrança da dor. A casa: não 
só grande. Enorme. Sempre fechada. Duas crianças, eu e meu 
irmão. E quatro irmãs mais velhas, lindíssimas, do primeiro 
casamento do meu pai. Meu pai era médico: um dos quartos da 
casa era o laboratório, com um esqueleto e um coração de ma-
deira, que eu adorava abrir e fechar. A casa: dividida como as 
pessoas que a habitavam. Quartos dos pais, das irmãs. Eu co-
nhecia cada pedaço do assoalho, cada canto das salas e quartos. 
As camas, engraçadas: conversava com cada uma. Menos a 
grande, de casal. A piscina, cheia, me amedrontava. Mas o quin-
tal era todo meu. A árvore preferida, onde escrevi meu nome, 
pequeno e escondido, para ninguém roubar. O gosto dos tomates 
na horta, os verdes e os vermelhos. Em meio a tudo isso, a 
descoberta do nu. O, jardineiro que trabalhava na casa. Às vezes 
ele tirava a camisa. Só no quintal, no meu mundo. Levei muito 
tempo só olhando. Um dia cheguei perto e perguntei. A desco-
berta dos pêlos do corpo: pedi para passar as mãos. Deixou 
que tocasse. Agora, além das árvores, tinha o corpo do jardi-
neiro para explorar. Pedia para que girasse os braços, levantasse 
as pernas. Achava engraçado o movimento dos músculos. Me 
excitava e dava euforia ao mesmo tempo. Mandava ele correr, 
pular, fechar os olhos e me procur~r. Era o meu primeiro e mais 
interessante brinquedo. Até o dia em que a empregada viu, contou 
para os meus pais e meu primeiro aluno foi posto na rua. Antes, 
outro brinquedo: um ônibus vermelho, cheio de bonecos, colados 
ao banco com goma arábica e vestidos pelo tricô da avó. Tirava 
a roupa deles quando estava só. Procurava saber o que havia 
por baixo. Só a mim não olhava: tomava banho de olhos fe-
chados. Dizia que por causa do sabão. E me cobria com uma 
toalha cada vez que fazia xixi ou cocô. Se me perguntavam o 
que seria quando crescesse respondia: "vou ser papa". Nada de 
engenheiro, médico, advogado. Papa: era uma coisa que pairava 
18 
acima, uma posição etérea. Com um espaço todo seu. No corpo 
da avó, com quem dormia, só havia os seios: caídos, feios. 
Prim-eiro corpo de mulher. Um dia, ao entrar de repente no 
quarto, ela:.trocava as calças de baixo: achei engraçado e quis 
pegar nos pêlos. Tapa na mão. O primeiro. O segundo na escola: 
aos sete anos, procurava retribuir uma brincadeira que uma co-
lega fazia com os dedos na minha coxa. De novo o castigo, o 
afastamento: era um monstro. Ficar no fundo da sala, sozinho, 
sem conversar com ninguém. Pela primeira vez, o perigo do 
corpo. Não tinha corpo: vivia o corpo dos outros. Os gestos do 
meu pai, da mi:p.ha mãe, o jeito de andar, de pisar, o movimento 
das mãos. E me fascinavam os ossos do esqueleto, os encaixes. 
E um fato inesquecível: meu corpo se tomou ausente. Só olhava 
nos olhos quando me ·dirigiam a palavra. Sem isso, olhar para 
baixo. Conheci todo o chão de minha casa. E, com muitadifi-
culdade, meu corpo começou a reaparecer: do chão, da base, 
dos pés. Durante anos, foi a única consciência que eu tive de 
mim. Na escola, só fazia o que queria: me fechava em mim. 
Comecei a ler o que caísse na minha mão. Octávio de Faria, 
Lúcio Cardoso, as poesias de Vanessa Neto, a musa de Belo 
Horizonte naquela época. Ganhande sempre os prêmios de dis-
ciplina. Eu me sentia muito próximo a tudo isso: buscava a 
relação entre os livros e a minha vida. Na Tragédia burguesa, 
de Octávio;·. na Crônica da casa assassinada, de Lúcio. Comecei 
a me interessar . por teatro, a dança nunca foi meu interesse: 
queria o teatro.Primeiro papel nas peças de escola, sempre: 
apesar de tudo, não era uma criança tímida. Desde pequeno 
escrevia textos para teatro, inventava cenários com as cadeiras: 
os meninos me evitavam, não queriam brincar comigo. Fui ver 
o espetáculo do balé da Juventude, fiquei encantado era tudo 
o que eu queria na vida: dança, música, teatro. Foi o primeiro 
espetáculo de dança: direção de Igor Schwezoff. Primeira com-
panhia a dançar pelo Brasil. E importante porque foi quem veio 
de fora . para dar importância à dança no Brasil. Ele formou seu 
19 
g r u p o de d a n ç a , com B e r t a R o s a n o v a , T a m a r a K a p e l l e r , e s a í r a m 
d a n ç a n d o pelo país a f o r a . Mas o p r i m e i r o b a i l a r i n o d a c o m p a -
n h i a , C a r l o s Leite, resolve ficar em Belo H o r i z o n t e , c o n v i d a d o 
p e l o D C E . F u i lá me m a t r i c u l a r : o p r i m e i r o . E me d e c e p c i o n e i : 
o. q u e eu t i n h a visto no p a l c o n ã o e r a o que havia n a s a l a de 
aula. N a m i n h a c a b e ç a n ã o e n t r a v a muito bem a q u i l o . Mas 
e s t u d a v a , lia, t i n h a m u i t a c u r i o s i d a d e . N ã o t i n h a livros d e d a n ç a , 
a b i b l i o g r a f i a sempre muito p e q u e n a : n ã o t i n h a d i n h e i r o , r o u -
b a v a os livros que e n c o n t r a v a . E duvidava: " N ã o , esse b r a ç o 
n ã o é assim. é assim". E u q u e r i a m o v i m e n t o s q u e n ã o fossem 
t ã o doloridos. P a r e i t u d o p a r a fazer dança: d e p o i s de u m a n o 
j á d a v a a u l a e era assistente do C a r l o s Leite. Mas n ã o e s t a v a 
satisfeito: p r o c u r a v a ligar os p o n t o s obscuros. Assisti a filmes de 
d a n ç a . D e s c o b r i que t i n h a u m a deficiência t é c n i c a m u i t o g r a n d e : 
uma p e r n a mais c o m p r i d a que a o u t r a . Mas n i n g u é m s a b i a disso. 
As aulas: o p r o f e s s o r m o s t r a v a o m o v i m e n t o e p e d i a p a r a os 
a l u n o s r e p e t i r e m . Se t o d o s conseguem l e v a n t a r a p e r n a e você 
n ã o , você está a z a r a d o . E ninguém me explicava o p o r q u ê da-
quilo. Ninguém p 8 r a e x p l i c a r p o r que t i n h a que l e v a n t a r a p e r n a 
assim. Explicações do tipo p o r q u e t e m . N u n c a aceitei as coisas 
ditas dessa forma. E sofri m u i t o com isso. Mas vivia t u d o i n t e r i o r -
mente: n ã o falava. P r a a p r e n d e r um d e b o u l é foram a n o s : m a s 
um d i a ele resolveu que eu t i n h a q u e s a i r d a l i s a b e n d o fazer. 
A c a b o u m i n h a s a p a t i l h a e eu Já. A s o l a do pé a c a b o u e eu lá. 
S o f r i a , e n j o a v a , mas n ã o desistia. Tive u m a p n e u m o n i a p a r a 
a p r e n d e r um passo. N ã o s a b i a p a r a que servia a q u i l o . A o mesmo 
tempo. a e d u c a ç ã o alemã: t i n h a q u e a c e i t a r as coisas. E o 
m u n d o , lá fora: j á convivia com a r t i s t a s como G u i g n a r d , q u e 
m o r a v a p e r t o da m i n h a casa. E r a f a s c i n a d o p o r ele, p e l a m o -
d e r n i d a d e , Pelo s e r h u m a n o q u e ele era. E A m í l c a r de C a s t r o , e 
CeschiattL Convivia com essas pessoa-: Os desenhos: p o s a v a p a r a 
G u i g n a r d . A c a d a dia i n v e n t a v a uma historinha: " H o j e vou s e r 
o o r g u l h o s o " . E observava q u e músculo a t u a v a : a r e a ç ã o mus-
c u l a r a p a r t i r de uma idéia. A i n t e n ç ã o a n t e r i o r a o m o v i m e n t o . 
E J o t a Dângelo, J o ã o E t i e n n e Filho. F u i l e v a n d o t u d o isso p a r a 
2 0 
a d a n ç a . N ã o de u m a f o r m a consciente: c a o t i c a m e n t e . M a s essa 
e r a a m i n h a ú n i c a forma de descobrir. E M e r c i e r , em O u r o P r e t o : 
a r e l a ç ã o com as a r t e s p l á s t i c a s foi m u i t o forte. Mas n ã o me 
revoltei: p l a c i d a m e n t e b u s q u e i meu e s p a ç o , como seguir em 
frente. O r e s u l t a d o é q u e n ã o existo. O q u e existe é o m e u 
t r a b a l h o . E m i n h a s a u l a s n ã o são p a r a meus alunos: são p a r a 
mim. Sempre tive m u i t o m e d o de mim, da m i n h a i m a g i n a ç ã o , 
das idéias. Mas t e n h o u m a o b r i g a ç ã o , um c a r m a : p a s s a r esse 
t r a b a l h o a d i a n t e . 
21 
li 
Balé clássico: uma visão mineira 
No final dos anos 40 comecei a criar minhas primeiras 
coreografias, dançadas por mim e por minha amiga Angel, mais 
tarde companheira e mãe do meu filho. Esses trabalhos eram 
mostrados no interior mineiro, no Circuito das Águas, em hotéis 
e cassinos onde o jogo corria livre e havia sempre espaço para 
espetâculos artísticos. 
Como qualquer jovem bailarino, jâ me considerava o melhor 
do mundo - um dos melhores, pelo menos - e essa foi a 
forma que encontrei para me expor e ao mesmo tempo buscar 
uma linguagem própria. Claro que eram coisas simples, quase 
infantis, mas foi através desses trabalhos que comecei a descobrir 
meu espaço. 
Essas turnês duraram alguns anos, até que um dia entendi 
que Minas não tinha mais nada a oferecer: era tempo de seguir 
adiante. E, na dança clássica brasileira, só existia uma forma de 
buscar mais conhecimento: ir até a fonte, a russa Maria Olenewa, 
que vivia em São Paulo. 
Carlos Leite - ele próprio ex-aluno de Olenewa - jâ 
havia me dado o respeito pela dança, um alto nível de exigência 
comigo mesmo e a lição· de paciência: "Com três anos de dança 
você não sabe nem varrer o palco", advertia. 
Apesar disso, as aulas dele não eram exatamente um primor 
de respeito humano ou artístico: ~am brutais, com ensinamentos 
22 
que chegavam aos alunos através de xingamentos e varadas. E 
qualquer questionamento mais insistente tinha apenas uma res-
posta: "Isso é segredo profissional". 
Em São Paulo, fiz aulas com Olenewa durante dois anos, 
entre 1948 e 1950, conhecendo o lado prático da dança, espe-
cialmente o repertório clássico e a relação entre a arte e o mundo. 
Desde essa época descobri que a técnica clássica é algo muito 
real e que nada tem de etéreo: o misticismo do balé, se existe, 
está na sua corporificação. 
Olenewa me trouxe não apenas a técnica, mas também a 
necessidade de sobrevivência - não tive qualquer apoio da fa-
mília ao optar pela dança - e de reflexão, uma reflexão que 
tem acompanhado a minha vida artística desde sempre. 
Foi essa observação que me levou a descobrir que aprendia 
mais sobre a dança com as artes plásticas. Passei a visitar museus 
e a observar a articulação, os músculos, o apoio dos corpos. 
Descobri Rafael, Da' Vinci, Modigliani e, lentamente, comecei 
a vislumbrar minha própria técnica. 
Observei, de início, a posição do dedo anular nas pinturas 
renascentistas e fiquei fascinado com a relação entre esses de-
senhos e a postura exigida para as mãos no balé: em ambos 
os casos, a certeza de que o movimento parte de dentro e não 
pode, jamais, ser apenas forma. 
Vejamos: quando você aperta o dedo anular para dentro 
sente todo o braço reagir e é por isso que a mão tem essa 
postura no balé clássico. O problema é que professores e baila-
rinos repetem apenas a forma e isso não leva a nada. O processo 
deveria ser o oposto: a forma surgir como conseqüência do 
trabalho. 
A ~erdade é que as pessoas no Brasil têm a mania de dizer 
que o clássico é uma técnica antianatômica, e não é assim: é 
a coisa mais anatômica que já foi criada na arte ocidental, é a 
rotação da musculatura no sentido máximo que ela pode atingir. 
23 
Desdee n t ã o d e s c o b r i t a m b é m que a p r e o c u p a ç ã o excessiva 
com a t é c n i c a é p r e j u d i c i a l , t ã o p r e j u d i c i a l q u a n t o . t e r u m a r e -
l a ç ã o a f e t i v a com uma p e s s o a e n ã o l a r g á - l a n u n c a , n ã o d a r 
e s p a ç o , t e l e f o n a r d i a r i a m e n t e , p r o c u r a r sempre, d e p e n d e r demais: 
com isso, afogamos a pessoa e m a t a m o s a relação. 
H o j e b r i n c o dizendo que a l u n o n o t a dez é um caso s e n o , 
a t é sete é ótimo, é o limite. N o t a dez n ã o f u n c i o n a : é u m 
obsessivo, q u e r seguir as r e g r a s em d e t a l h e s e p a s s a a t e r u m a 
r e l a ç ã o n e u r ó t i c a com a d a n ç a . N ã o d e s c a n s a e n q u a n t o n ã o 
a p r e n d e um d e t e r m i n a d o p a s s o e n ã o e n t e n d e que, b u s c a n d o 
o u t r o s movimentos, fazendo o u t r a s coisas - na sala de a u l a o u 
n a rua - , o passo n a t u r a l m e n t e vai surgir, no seu t e m p o , p o r -
que t u d o e s t á i n t e r l i g a d o . 
Sempre d i s c o r d e i da forma pela q u a l a t é c n i c a clássica chega 
aos b a i l a r i n o s , no Brasil. N ã o discuto a beleza e a e f i c i ê n c i a do 
clássico - a o c o n t r á r i o , a m o o clássico - , mas h á a l g u m a 
coisa que se p e r d e u na r e l a ç ã o e n t r e p r o f e s s o r e a l u n o e q u e 
faz d a sala de a u l a um e s p a ç o pouco saudável. 
A q u e s t ã o é essa: o p r o f e s s o r de balé é l i m i t a d o , e m g e r a l 
f r u s t r a d o p o r s e r o b r i g a d o a p a r a r de d a n ç a r cedo e assim i n c a p a z 
de d a r a m o r , a t e n ç ã o e i n c e n t i v o aos alunos. O p r o f e s s o r d e v e r i a 
s e r s e m p r e um a r t i s t a mais velho, mais sábio, com mais vivência, 
e que tivesse condições de c r i a r um clima de c o m p r e e n s ã o n a 
s a l a de a u l a . 
U m a s a l a de a u l a n ã o p o d e ser isso que vemos, o n d e a dis-
c i p l i n a tem algo de m i l i t a r , o n d e n ã o se p e r g u n t a , n ã o se ques-
t i o n a , n ã o se discute, n ã o se conversa. C o m isso, a t r a d i ç ã o d o 
b a l é se p e r d e em r e p e t i ç õ e s de formas, o n d e t o d o t r a b a l h o é 
feito a l e a t o r i a m e n t e . A c o m e ç a r pela p i a n i s t a , que t o c a sem a t e n -
ç ã o , f u m a n d o um c i g a r r o e n q u a n t o folheia u m a revista o u se 
p r e o c u p a com q u e s t õ e s domésticas. 
E s s a d e s a t e n ç ã o passa p a r a o a l u n o , que, ao invés de e s t a r 
p r e s e n t e e o u v i r a música, inicia u m processo de a u t o - h i p n o s e 
2 4 
e, em p o u c o t e m p o , n ã o e s t á mais n a s a l a de aula: e s t á n a s 
nuvens, no espelho, n a s n o t a s d o p i a n o , m a s n ã o consigo mesmo. 
A s a l a de a u l a , dessa f o r m a , se t o r n a a p e n a s u m a a r e n a p a r a a 
c o m p e t i ç ã o de egos, o n d e ninguém se i n t e r e s s a p o r n i n g u é m a 
n ã o s e r como p a r â m e t r o p a r a a c o m p a r a ç ã o . 
Mas a c o m p a r a ç ã o é p e r d a de tempo: a filha de F u l a n o é 
e n g r a ç a d i n h a , d a n ç a c o m g r a ç a , t o c a p i a n i n h o , e n q u a n t o a filha de 
S i c r a n o é t í m i d a , d e s a j e i t a d a , vive c a i n d o . Crescemos t o d o s com 
essas i n f o r m a ç õ e s e, depois, d e s c o b r i m o s que a filha de f u l a n o 
se t r a n s f o r m o u n u m a m e d i o c r i d a d e e n q u a n t o a o u t r a se t o r n o u 
e q u i l i b r a d a e h a r m ô n i c a . Mas p a r a d e s c o b r i r isso é n e c e s s á r i a 
t o d a u m a vida. 
A sala de a u l a m a s s i f i c a d a t i r a a i n d i v i d u a l i d a d e do a l u n o 
e, se as pessoas n ã o se conhecem nem possuem i n d i v i d u a l i d a d e , 
n ã o h á como p a r t i c i p a r do coletivo: o c o r p o de b a i l e tem que 
ser c o n s t i t u í d o p o r pessoas c o m p l e t a m e n t e diferentes, p a r a que 
os gestos s a i a m semelhantes: a i n t e n ç ã o é o que i m p o r t a . 
A d a n ç a se faz n ã o a p e n a s d a n ç a n d o , mas t a m b é m p e n -
s a n d o e sentindo: d a n ç a r é e s t a r i n t e i r o . N ã o posso i g n o r a r mi-
nhas emoções em u m a s a l a de a u l a , r e p r i m i r essas coisas t o d a s 
que t r a g o d e n t r o de mim. Mas, infelizmente, é o q u e acontece: 
os a l u n o s se a n e s t e s i a m a o e n t r a r em u m a s a l a de a u l a . 
E s e r i a difícil fugir desse sono: p a r a c o m e ç a r , ficam s e m p r e 
nos mesmos lugares, ouvem sempre a mesma m ú s i c a , o mesmo 
som d i á r i o d a voz do professor, que c o r r i g e d i a r i a m e n t e as 
mesmas coisas nas mesmíssimas pessoas. P r o n t o : c o m c i n c o mi-
n u t o s de a u l a todo m u n d o está em t r a n s e , n i n g u é m mais se e n -
c o n t r a ali. Se um e l e f a n t e p a s s a r pelo meio da s a l a n i n g u é m 
n o t a . 
Mas a v e r d a d e é que a r t i s t a n a s c e a r t i s t a ; u m p r o f e s s o r 
p o d e no m á x i m o l e v a r esse a r t i s t a a t é um c e r t o p o n t o . O p r o -
fessor t i r a de d e n t r o d o a l u n o o q u e ele t e m p a r a dar. F i c o 
s e m p r e i m p r e s s i o n a d o c o m a s a b e d o r i a p o p u l a r , que e x p l i c a bem 
m e l h o r t u d o isso: o q u e é bom j á n a s c e feito. 
25 
Isso sempre achei bonito: ninguém é igual a ninguém, não 
existe receita para se fazer arte ou dança. O professor deve 
apenas aviar a receita - como se fazia antigamente -, mas 
essa receita é pessoal, não serve para todo mundo. Em uma sala 
de aula é a mesma coisa: o desnivelamento existe, e cada caso 
é um caso. O ritmo é sempre o mesmo, mas a aptidão é de 
cada um. 
Por isso é que posso assistir vinte vezes ao Lago dos cisnes 
e as vinte montagens serão completamente diferentes, apesar da 
mesma coreografia. Um coreógrafo, por exemplo, pode usar os 
gestos sensuais dos personagens, outro a frieza de Odete, ou a 
desatenção dela, ou sua maldade. E tudo isso modifica a mus-
culatura, a interpretação dos bailarinos - se eles tiverem uma 
individualidade. 
Nós, profissionais de dança, somos um pequeno exemplo de 
que acontece lá fora. As leis da vida são as mesmas leis da 
dança, não temos como fugir disso. A inconsciência é que gera 
a mediocridade. O bailarino tem os mesmos problemas de um 
sapateiro. 
O resultado da inconsciência é visível nos espetáculos e na 
formação da mentalidade do bailarino brasileiro: ele não discute, 
não se interessa pelo sindicato, não luta pela classe, é desunido 
e alienado. E isso é ensinado a ele desde o princípio: não existe 
o indivíduo que faz dança entre nós, o que existe é essa entidade 
vaga chamada bailarino. 
Mas a técnica clássica não é isso, não exige isso. Através 
do clássico é possível organizar fisicamente as emoções e co-
nhecer o corpo. É uma forma de exprimir harmonicamente essas 
emoções. Para isso, porém, tenho que estar com os sentidos 
alerta. Senão minha dança se torna pura ginástica. 
O gesto no balé não deve ser apenas um gesto do balé: é 
um gesto trabalhado por um ser humano, especialista, e que 
envolve não apenas a memória daquele corpo mas o corpo de 
26 
todos os homens. É claro que tudo isso exige uma técnica e 
somente o aperfeiçoamento dessa técnica vai permitir ao baila-
rino chegar a essa memóriae a essa emoção comum a todos os 
seres humanos. É milagroso o que o corpo é capaz de fazer 
quando o deixamos livre - após o aprendizado técnico. 
Infelizmente, mais uma vez, lembremos que a realidade é 
outra: a técnica clássica tem buscado, antes de tudo, o ego do 
bailarino, do professor, do coreógrafo. E da mãe da bailarina, 
claro. É preciso desarmar tudo isso, para que cada um possa 
encontrar seu próprio movimento, sua forma pessoal. A forma, 
repito, é conseqüência: são os espaços internos que devem criar 
o movimento de cada um. 
Por outro lado - e contra mim mesmo -, admito que 
exista algo de sadomasoquista no clássico: essa busca de limite, 
de tentar vencer as dores físicas, tentar ir sempre além. Talvez 
apenas as pessoas que de alguma forma se identificam com esse 
sadomasoquismo tenham condições de praticar a dança clássica. 
E eu tenho esse componente em excesso. 
Entra aí uma questão cultural: o homem não é treinado 
para ser submisso, como nossa sociedade impõe às mulheres. 
Por isso reage, não se sujeita a ser xingado, humilhado, dimi-
nuído numa sala de aula ou num ensaio. O homem não aceita 
essa situação, o que talvez explique a quantidade muito maior 
de mulheres no balé. 
27 
111 
O c o m p a s s o b a i a n o 
E m 1 9 5 9 , eu e Angel criamos o Balé Klauss V i a n n a , em 
Belo H o r i z o n t e , e t r ê s anos depois o g r u p o p a r t i c i p o u d o I E n c o n -
t r o de E s c o l a s de D a n ç a d o Brasil, em C u r i t i b a . Levei u m a 
c o r e o g r a f i a onde uma b a i l a r i n a atravessava o p a l c o v e s t i d a de 
s a n t a b a r r o c a . E r a u m a p r o p o s t a b e m diferente: n o festival só 
t i n h a cisne, e r a m o r t e de cisne, solo de cisne, vôo de cisne. C e r t a 
m a n h ã meu c e n ó g r a f o p e r d e u a p a c i ê n c i a : " O p r i m e i r o cisne q u e 
eu p e g a r t o r ç o o pescoço". 
Esse foi meu p r i m e i r o t r a b a l h o c o r e o g r á f i c o a d u l t o , A face 
lívida. Usei u m a m o d i n h a i m p e r i a l c a n t a d a p e l a M a r i a L ú c i a 
G o d o y e nele eu buscava a síntese de uma visão m i n e i r a da 
d a n ç a . A n t e s de m o n t a r o t r a b a l h o fomos t o d o s a O u r o P r e t o , 
a n d a m o s p e l a s ruas, pisamos descalços nas p e d r a s , e n t r a m o s nos 
casarões. O r e s u l t a d o foi um e s p e t á c u l o com m u i t a gente v a i a n d o , 
g r i t a n d o - e uns p o u c o s a p l a u d i n d o . 
Mas o R o l f Gelewsky viu esse t r a b a l h o e ele e L i a R o b a t t o 
me c o n v i d a r a m p a r a d a r a u l a s na B a h i a , n a E s c o l a de D a n ç a 
da U n i v e r s i d a d e F e d e r a l , em S a l v a d o r . R o l f a c h a v a que m e u t r a -
b a l h o t i n h a m u i t a a f i n i d a d e com o que eles b u s c a v a m lá. 
R o l f e r a a l e m ã o , mal falava o p o r t u g u ê s , mas t i n h a u m a 
visão do q u e r e a l m e n t e interessava: a busca de um g e s t u a l , u m a 
d a n ç a b r a s i l e i r a . E n t ã o , aceitei: R o l f p a s s o u a s e r meu vizinho 
de q u a r t o n a p e n s ã o e comecei a s e r v i r de i n t é r p r e t e p a r a ele. 
28 
Mas logo senti a B a h i a em mim e me p e r g u n t a v a : como é 
q u e n ã o temos a u l a de c a p o e i r a a q u i , n a E s c o l a de D a n ç a , com 
t o d a a q u a l i d a d e de m o v i m e n t o que tem a c a p o e i r a ? E n t ã o , fui 
p r o c u r a r um p r o f e s s o r de c a p o e i r a p a r a a Escola. 
Sugeri ao R o l f que a c a p o e i r a fosse m a t é r i a c u r r i c u l a r , p o r q u e 
t i n h a s e n t i d o q u e na c a p o e i r a existia uma s e q ü ê n c i a de movimen-
tos igual à técnica clássica - ou às a r t e s m a r c i a i s - , p o r q u e o 
c o r p o h u m a n o tem uma coerência m u i t o g r a n d e de movimentos 
em q u a l q u e r c u l t u r a : o a q u e c i m e n t o na c a p o e i r a t a m b é m começa 
pelos pés, sobe pelas p e r n a s , t r o n c o , braços, até c h e g a r aos olhos. 
Os olhos são i m p o r t a n t í s s i m o s p a r a um c a p o e i r i s t a . 
Meu t r a b a l h o s e r i a c r i a r o s e t o r de d a n ç a clássica n a univer-
s i d a d e , mas isso n ã o me bastava. E u j á dava a u l a descalço, e 
c o n h e c i t r a b a l h o s m a r a v i l h o s o s de c a p o e i r a , c o n h e c i o mestre 
G a t o e foi a t r a v é s dele que a p r e n d i essa técnica. A p e s a r disso, 
ele n ã o podia d a r a u l a s na Escola, era p e d r e i r o , m o r a v a longe, 
n ã o t i n h a nem o curso p r i m á r i o - mas t i n h a d o u t o r a d o em 
c a p o e i r a . 
L e n t a m e n t e , senti q u e tudo a q u i l o p o d e r i a t e r i n f l u ê n c i a no 
meu t r a b a l h o e passei a u s a r os movimentos de t r o n c o , o som, a 
música ao vivo, o pé descalço que eu j á usava, c o n h e c e r os ossos 
- n ã o o nome do osso, que não leva a n a d a - , como se move 
c a d a osso e músculo. 
F u i p r o c u r a r um p r o f e s s o r de o d o n t o l o g i a , A n t o n i o B r o c h a -
do, que e r a c o n s i d e r a d o o m a i o r a n a t o m i s t a da B a h i a . E l e t i n h a 
u m a série de esqueletos n o consultório, pelos quais n u t r i a um 
a m o r p r o f u n d o . T r a t a v a c a d a um p o r um nome d i f e r e n t e . Ele 
a c e i t o u meu convite e foi d a r a u l a de a n a t o m i a n a E s c o l a de 
D a n ç a . 
Ao mesmo t e m p o , B r o c h a d o e r a do c a n d o m b l é e um dia 
me levou até o t e r r e i r o da Mãe Stella. Tive m u i t a d i f i c u l d a d e 
p a r a e n t e n d e r , e n t r a r n a q u e l a s coisas. M a s j á c o n h e c i a C a r y b é , 
G e n a r o , Jorge A m a d o , t o d o s b r a n c o s e p a i s de s a n t o do c a n d o m -
blé, e n t ã o t i n h a uma n o ç ã o mínima s o b r e a q u i l o tudo. 
2 9 
Um dia convidaram a mim e a Angel para ver as moças que 
iam receber o santo: é uma coisa impressionante, porque elas 
ficam em camarinhas, pequenos quartos trancados durante seis 
meses, a cabeça raspada, sem conversar ou ver ninguém, sem ter 
relação sexual nenhuma, comendo só aquilo que deixam no quarto. 
Com isso essas meninas acabam conhecendo profundamente 
o próprio corpo, as reações do corpo, a pessoa mais idiota acaba 
se conhecendo numa situação dessas. Então, era uma beleza quan-
do abriam a porta e vinha aquela pessoa, era uma coisa iluminada, 
uma musa, linda. Durava uma noite inteira - e o caminho, o 
movimento, o ritmo, tudo aquilo me impressionou demais. 
Esse era um momento político de muita efervescência no 
Brasil e a Universidade entrou em greve. Eu e Rolf, sem nada 
para fazer, se111 aula para dar, resolvemos trabalhar, montar algu-
ma coisa, e fomos para uma sala de aula. 
Um dia estávamos ali, ensaiando, quando as moças da Escola 
de Dança arrombaram a porta a pontapés e disseram que não 
pode~íamos ficar ali, que a Universidade estava fechada e que 
a coisa era para valer. 
Levei um susto: elas nos proibiram, simplesmente. No começo 
fiquei chocado, irritado, puto. Eu me dizia: "Mas esperem um 
pouco, sou um bailarino, um artista, não tenho nada a ver com 
política". Não entendia como é que aquele pessoal, aquelas meni-
nas que faziam aula de dança, podiam agir daquela forma. 
Resolvi começar a freqüentar os encontros para entender 
como é que era a cabeça desses alunos, como é que atuavam 
nesse processo político, e logo descobri que eram pessoas muito 
inteligentes e interessantes, fui notando queentre elas, havia urna 
harmonia ali, que não existia na sala de aula. Ali existia o amor 
por uma causa, exatamente o que faltava em relação à dança. 
Minha noção de arte e de dança mudou muito a partir daí: 
não é só dançar, é preciso toda uma relação com o mundo à 
nossa volta. Não adianta se isolar em uma sala de aula, isso leva 
30 
a um completo distanciamento da vida, de tudo o que acontece 
no mundo. O ser humano que existe no bailarino tem que estar 
atento e receber tudo lá fora, nas ruas. É impossível dissociar 
vida de sala de aula. 
Quis fazer uma coreografia que traduzisse essas descobertas 
todas. Mas não queria nada folclórico, nada dessa coisa de ca-
poeira e candomblé baiano visto por um mineiro: queria a música 
de alguém de lá mesmo, mas não conhecido, e traduzir tudo 
isso em movimentos meus, a partir da minha vivência. · 
Um dia me levaram um garoto, um compositor jovem e des-
conhecido que cantou uma série de canções lindíssimas para mim, 
onde ele criticava toda a sociedade baiana. Senti que a música 
dele tinha esse lado social e político, era uma coisa natural nele. 
Era o Caetano. 
Depois de um tempo ele disse: "Olha, eu tenho uma irmã que 
canta" e levou a Maria Bethânia até minha casa. Quando ouvi 
aquela mulher cantar, num apartamento de frente para o mar, 
quase caí duro. Descobri que eles faziam música e Bethânia 
cantava da mesma forma que a gente aprende a andar, como os 
animais se alimentam, do jeito que a gente aprende a defecar: 
naturalmente. Bethânia cantava porque precisava cantar, porque 
era um passarinho, se não cantasse morria. 
Mas a dança é diferente - e só então descobri isso -, a 
dança é um outro processo: eles gostavam muito de mim, me 
mostravam suas músicas, mas isso não era suficiente para que 
abandonassem a liberdade que o baiano tem, nem tinham como 
encarar a disciplina que a dança exige. 
Levei um longo tempo para entender que não repudiavam a 
mim, mas ao processo técnico da dança, a essa forma distante, 
a essa didática mal-resolvida. Aí a riqueza dessa vivência: a 
Bahia me abriu as portas para o exterior, porque até então eu 
vivia apenas o meu interior. 
31 
F i q u e i p o r l á d o i s a n o s , a t é 1 9 6 4 , q u a n d o c h e g o u a h o r a 
de p a r t i r m a i s u m a vez: a U n i v e r s i d a d e n ã o t i n h a v e r b a , o p a í s 
e s t a v a u m c a o s , eu n ã o t i n h a m a i s c a b e ç a p a r a c r i a r n a d a . A o 
m e s m o t e m p o , s a b i a q u e n ã o h a v i a m a i s c o m o v o l t a r p a r a M i n a s , 
o q u e m e fez ir p a r a o R i o , s e m e m p r e g o e s e m c a s a o n d e m o r a r . 
L á c o n s e g u i s o b r e v i v e r d a n d o a u l a s de d a n ç a c l á s s i c a e m 
e s c o l a s d e b a i r r o - de c e r t a f o r m a , u m a v o l t a à v i d a m i n e i r a -
e só a n o s d e p o i s . e m 6 8 , foi q u e s u r g i u a o p o r t u n i d a d e p a r a m e 
a p r o x i m a r d o t e a t r o . 
A ú n i c a p e s s o a q u e f a z i a c o r e o g r a f i a s p a r a t e a t r o , n o R i o -
n a v e r d a d e e r a m d a n c i n h a s , os a t o r e s n ã o t i n h a m a m e n o r n o ç ã o 
de d a n ç a . n a q u e l a é p o c a - e r a a S a n d r a D i c k e n s . U m d i a e l a m e 
p e r g u n t o u se eu n ã o g o s t a r i a d e f a z e r u m a c o r e o g r a f i a n o l u g a r 
d e l a e m u m e s p e t á c u l o de t e a t r o , p o r q u e e s t a v a d e v i a g e m m a r -
c a d a p a r a a A l e m a n h a . 
A c e i t e i , e isso m u d o u a m i n h a v i d a : o e s p e t á c u l o e r a A ó p e r a 
d o s três v i n t é n s , de B e r t h o l t B r e c h t e K u r t Weill, c o m d i r e ç ã o 
de J_osé R e n a t o e a t o r e s c o m o D u l c i n a , M a r í l i a P e r a e O s w a l d o 
L o u r e i r o e a t é u m a t o r e m c o m e ç o d e c a r r e i r a , J o s é W i l k e r . E s s e 
t r a b a l h o i n a u g u r o u a S a l a C e c í l i a M e i r e l l e s , n o R i o , e m 6 8 . 
E r a m u i t o c o m u m a c o n t e c e r e m c o i s a s a s s i m , u m d i r e t o r de 
t e a t r o i m a g i n a r u m a m o v i m e n t a ç ã o e m u m e s p e t á c u l o e c h a m a r 
a l g u é m liga_do à d a n ç a p a r a c r i a r a l g u m a coisa_ M a s e r a s e m p r e 
e s s a danc~nha e foi nesse s e n t i d o q u e a c e i t e i o t r a b a l h o . 
M a s n ã o f i q u e i n i s s o e. o u t r a vez, q u i s i r m a i s l o n g e . É c l a r o 
q u e os a t o r e s n ã o t i n h a m a l i n g u a g e m d a d a n ç a ; p o r isso fiz 
a l g u m a s m a r c a ç õ e s e o r e s u l t a d o foi t ã o d i f e r e n t e d o c o m u m q u e , 
p e l a p r i m e i r a vez, um c r í t i c o de t e a t r o - Y a n M i c h a l s k y , n o 
J o r n a l d o B r a s i l - c h a m o u a a t e n ç ã o d o p ú b l i c o p a r a a e x i s t ê n c i a 
de u m t r a b a l h o c o r p o r a l em um e s p e t á c u l o de t e a t r o . 
O r e s u l t a d o foi q u e , no a n o s e g u i n t e , J o s é C e l s o M a r t i n e z 
C o r r e a e F l á v i o I m p é r i o m e c h a m a r a m p a r a f a z e r R o d a V i v a , 
d e C h i c o B u a r q u e de H o l l a n d a . P a r t i c i p e i d o e s p e t á c u l o d e s d e o s 
3 2 
p r i m e i r o s t e s t e s - t u d o i s s o e n q u a n t o s o b r e v i v i a d a n d o a u l a s e m 
e s c o l a s e c l u b e s - e a c a d a vez o u v i n d o o J o s é C e l s o : " V a i , 
e x p e r i m e n t a m a i s , faz m a i s , b o t a m a i s d a n ç a " . E a c a d a e n s a i o 
p r o p u n h a m a i s m o v i m e n t a ç ã o p a r a os a t o r e s . 
E s s a foi u m a é p o c a d e e n v o l v i m e n t o t o t a l c o m o t e a t r o e os 
a t o r e s , t a n t o q u e m e u t r a b a l h o s e g u i n t e foi a p r i m e i r a m o n t a g e m 
d e N a v a l h a na c a r n e , d e P l í n i o M a r c o s , c o m d i r e ç ã o d e F a u z i 
A r a p , c o m T ô n i a C a r r e r o , N e l s o n X a v i e r e E m i l i a n o Q u e i r o z , 
t a m b é m e m 1 9 6 9 , o n d e d i r i g i o q u e c o m e ç a v a m a c h a m a r d e 
e x p r e s s ã o c o r p o r a l . 
T u d o i s s o e r a d e u m a r i q u e z a e n o r m e , p o r q u e m e u t r a b a l h o 
c o m os a t o r e s m o d i f i c a v a m i n h a s a u l a s c o m os b a i l a r i n o s n o d i a 
s e g u i n t e . A o m e s m o t e m p o , e s s a s a u l a s i n f l u e n c i a v a m a c o r e o g r a f i a 
q u e f a r i a p a r a o t e a t r o , m a i s t a r d e . O t e a t r o , à noite,_ m o d i f i c a v a 
a d a n ç a , d e d i a . E t u d o s e j u n t a v a n u m a c o i s a só. 
D e s d e e n t ã o o l h o p a r a a a r t e S!!m p r e c o n c e i t o s , a c h o u m a 
i g n o r â n c i a a t r o z o p r e c o n c e i t o c o n t r a f o r m a s a r t í s t i c a s e i n f e l i z -
m e n t e a i g n o r â n c i a n ã o t e m s o l u ç ã o . É r i d í c u l o p e n s a r q u e a d a n ç a 
s ó s e f a z a p a r t i r d e c i n c o p o s i ç õ e s o u q u e só é v á l i d a a d a n ç a 
q u e n a s c e u · n a E u r o p a . 
E , n o - e n t a n t o , é o q u e a g e n t e vê a t é h o j e : c o r e ó g r a f o s q u e 
v ê m d a E u r o p a m o n t a r c o r e o g r a f i a s e s t r a n h a s a o n o s s o b a i l a r i n o , 
t r a b al h o s q u e c u l t u r a l m e n t e n ã o t ê m n a d a a v e r c o m a f o r m a ç ã o 
a r t í s t i c a e t é c n i c a d e s s e b a i l a r i n o . E n t ã o o q u e · a c o n t e c e ? O s 
b a i l a r i n o s n ã o s a b e m e n ã o p o d e m i n t e r p r e t a r b e m ' a q u e l e s m o v i -
m e n t o s e a c a b a m f a z e n d o a p e n a s a f o r m a , s e m n a d a d e i n t e r i o r . 
E i s s o n ã o é d a n ç a : é g i n á s t i c a . 
P o r isso i n s i s t o q u e n ã o m e i m p o r t a , h o j e - e t u d o n o m e u 
t r a b a l h o p a r t e d a m i n h a v i v ê n c i a - q u a l a i d a d e , o t i p o d e 
m u s c u l a t u r a , a l t u r a o u p e s o d o b a i l a r i n o : o q u e m e i m p o r t a é a 
cabeça. N ã o t e n h o q u a l q u e r i d e a l i z a ç ã o a n í v e l f í s i c o s o b r e o 
b a i l a r i n o o u a b a i l a r i n a c o m q u e m q u e r o t r a b a l h a r . Q u e r o s ó 
q u e t e n h a u m a b o a c a b e ç a . P o r q u e , a i n d a q u e d i f í c i l , é p o s s í v e l 
3 3 
modificar um corpo. Mas mudar a mentalidade de um adulto é um 
trabalho quase impossível. 
Desde essa época, no Rio, descobri que sou um professor -
filósofo da dança, como digo sempre, brincando --.:..., nem mais 
nem menos do que isso. Mas nunca me coloquei na 'posição de um 
professor distante, superior. O professor é um partéiro, ele tira do 
aluno o que este tem para dar. Se o aluno não tem nada, não sai 
nada. Mas é preciso sempre ter cuidado: é claro que o aborto 
existe. Muitos professores matarp o artista na sala de aula. 
34 
IV 
As pequenas mortes 
Em um desses clubes onde eu dava aula, no Rio, havia uma 
pianista que também tocava na Escola Municipal de Bailados. 
Ela me perguntou se eu queria dar aulas lá, mas eu tinha um 
certo medo, me assustava essa coisa de trabalhar em uma escola 
oficial. Aceitei, mas pedi para dar aula só para crianças. 
Então, em 68, comecei a trabalhar na escola e logo descobri 
uma realidade nova: os professores não conversavam entre si, 
não discutiam nada sobre a dança. Conversavam sobre qualquer 
coisa, menos sobre a dança e os problemas de uma sala de aula. 
Faltava uma filosofia de trabalho, uma unidade. 
Ao mesmo tempo, notava a arquitetura do prédio da escola: 
era uma coisa antiga, com uma escadaria enorme, escura. Para 
mim havia toda uma relação entre aquela arquitetura e a menta-
lidade que vivia lá dentro. É preciso sempre notar isso, a relação 
entre a dança e o espaço onde se faz essa dança. 
E descobri as mães: mãe de bailarina é uma instituição na 
dança. Sempre na portaria, esperando as filhas, típicas na maneira 
de vestir, de sorrir, de cumprimentar os professores. Vestem-se 
sempre com as melhores roupas, como se fossem sair dali para 
o palco. 
Peguei exatamente a turma infantil - os professores não 
gostavam muito dessa aula - e, aos poucos, o trabalho foi dando 
35 
origem a uma relação profunda entre mim e as crianças. Bastava 
dar um estímulo e pronto, elas reagiam, criavam, brincavam, riam. 
Uma vez por mês eu propunha que os pais viessem ver e 
fazer as aulas com os filhos, para que vissem a espontaneidade 
das crianças. Mas logo descobri -que aquele convite era contra-
producente: as crianças se tornavam inibidas e ficava claro que 
aquela relação afetuosa e companheira da sala de aula não existia 
em casa. Dessa forma, em pouco tempo desisti dos convites aos 
pais. 
Mas não desisti das aulas: fiquei com um mesmo grupo de 
meninas dos oito aos treze, quatorze anos, e a proposta foi sempre 
uma aula lúdica. Falava do corpo, das funções dos ossos, brincá-
vamos de roda, pedia para que elas dançassem o que gostavam 
de dançar nas festas, lia histórias. 
Acreditava, nessa época, que é assim que se estimula um 
ser criativo. Não adianta colocar uma criança de sete anos em um 
Royal Ballet: este é um método desenvolvido para menininha 
inglesa, que tem perna comprida e bunda fina, enquanto a brasi-
leira tem perna curta e bunda grande. Essas meninas, coitadas, 
têm que se adaptar a um método que não serve para elas. O pior 
é que tudo vira moda no Brasil, um pouco tempo: dá status ter 
um diploma do Royal Ballet. Como ter pingüim em cima da 
geladeira. 
Naquela mesma época comecei a fazer teatro profissional-
mente, como coreógrafo e, mais tarde, ator - em Hoje é dia 
de rock, de José Vicente - e rião deixava nunca de levar essas 
experiências teatrais para minhas pequenas alunas, na Escola de 
Bailados. 
Aquele • era um momento de grande repressão e medo. Qual-
quer grupo de três pessoas que entrasse na escola fazia a gente 
ficar horrorizado: era o tempo da perseguição ao teatro, aos atores, 
ao pensamento. Mais do que nunca entendi a diferença entre 
dança e teatro, a diferença entre ator e bailarino. 
36 
Nunca houve qualquer censura ao balé no Brasil '- a não ser 
no caso ridículo da transmissão pela tevê do espetáculo do Bolshói. 
Era como se a dança brasileira não fosse feita aqui: era uma coisa 
estranha, não fazia parte do país. Essa foi a fase em que acreditei 
não ter mais nada a ver com a dança, em não voltar mais a 
trabalhar com bailarinos. 
Minha vida passou a ser só isso: dança de manhã e à tarde, 
teatro à noite. E muito cigarro e uísque. Em 1972, ganhei o 
Moliere de Teatro e me dei um enfarte. Era como se não aceitasse 
o prêmio, como se me dissesse: ninguém tem o direito de me 
premiar. 
Depois disso passei a conviver com esse problema cardíaco, 
mas em pouco tempo estava de volta à rotina. Dois anos depois, 
minha turma de alunas da Escola de Bailados se formou e me 
chamou para ser o paraninfo. 
Sempre pensei que algumas coisas eu jamais faria em minha 
vida, e uma delas era ser paraninfo. Ainda assim, aceitei e descobri 
uma lenda oriental que tem tudo a ver com minha proposta 
técnica de dança e de postura diante da arte. 
Não fiz, então, um discurso de paraninfo. Apenas contei a 
lenda: "O imperador amarelo viajou para o Norte, além do lago 
Vermelho, e na montanha do país do inverno ele olhou para o 
sul. Ao voltar da viagem perdeu sua pérola mágica. Então o 
imperador enviou Clara-visão para encontrar a pérola. Mas ela 
não achou. Enviou Força-pensamento, mas ele também não achou. 
Finalmente, enviou Sem-intenção. Este encontrou. Procurar a pé-
rola sem-intenção é' a chave do mistério". 
Com minha turma formada, em 74, me afastei da Escola de 
Bailados. Yan Michalsky me propôs fazer críticas de dança para 
o Jornal do Brasil e eu aceitei. Como introdução ao trabalho, 
republiquei trechos de um artigo que havia escrito anos antes, o 
primeiro ensaio sobre dança publicado na imprensa brasileira. 
37 
Escrever sobre dança, em princípio, não é um grande pro-
blema: tenho um certo instinto crítico, negativista, destrutivo 
mesmo, e sempre senti muito mais força nesse lado do que em uma 
tendência criativa. Tenho umas loucuras do gênero pôr fogo em 
museu ou matar pessoas em pensamento e essas fantasias eram 
mais fortes do que as idéias de montar um espetáculo, abrir um 
centro cultural. 
Um dia fui assistir a um grupo do Rio de Janeiro, dirigido 
pela Dalal Achcar. Era uma montagem da Suíte quebra-nozes. 
Esta suíte é apresentada no mundo inteiro durante o inverno, com 
frio, mas o espetáculo foi montado na praça Tiradentes, no Rio, 
no verão, com as menininhas todas vestidas de veludo. 
Logicamente, não podia ser grande coisa. E escrevi o que 
pensava na minha crítica. Mas parece que a mãe da Dalal -
sempre as mães das bailarinas - era uma pessoa muito influente 
no Rio. Só sei que perdi meu emprego no jornal. Coisa que não 
me fez mais triste. Nem mais alegre. 
Nessamesma época outra lição serviu para o desenvt~lvi­
mento do meu trabalho: Rudolf Nureyev e Margot Fonteyn vieram 
ao Brasil pela primeira vez e fui assistir à aula deles, no Muni-
cipal do Rio. 
Eles começaram lentamente, tiraram o sapato e deslizaram 
os pés no chão, sentindo o contato com o solo, sentindo a relação 
com o solo, com aquele espaço onde iam dançar. Era quase uma 
cerimônia, lenta e cuidadosa. 
Só depois colocaram as sapatilhas e iniciaram um pliê bem 
lento. O corpo de baile, enquanto isso, já estava saltitante e 
pronto para entrar em cena. 
Confirmou-se, para mim, a importância da relação com o 
tempo, o tempo interior, um tempo que só artistas como Margot 
e Nureyev têm. ou atrizes como Fernanda Montenegro e Marília 
Pera. Confirmou-se também que as aulas de clássico são rápidas 
38 
demais, superficiais demais, e professores e bailarinos querem 
resultados em pouco tempo. 
O problema é que não se pode dar saltos em arte. Existe o 
dia, a noité; a semana, o mês, o ano, você não· tem como suprimir 
0 tempo, não posso pular uma noite, não posso ir contra a natu-
reza, a natureza do meu corpo. Não posso lutar contra algo que 
é muito maior do que eu. 
O aprendizado exige um tempo e esse te~po. ~reci~a ser 
consciente. É claro, no entanto, que existem as md1v1duahdades 
_ e 0 professor existe para reconhecer essas individualidades -, 
e esse tempo varia em cada um. A conclusão é a seguinte: o que 
você aprende rápido vai embora rápido. 
O que temos aos montes no Brasil é gente que faz 58 pirue-
tas, ou 32 fuetés, mas faltam aqueles que dançam, que ouvem a 
música, que colocam intenções nos gestos, que têm um tempo e 
uma emoção internos. 
Deixei a Escola de Bailados do Municipal e parti para outra 
pesquisa, mais próxima dos meus interesses no teatro e na danç~: 
o gestual do homem carioca, patrocinado pela Funarte. Quena 
estudar as características desses gestos, como é que a população 
do Rio se move. 
Descobri um dado interessante: a divisão entre norte e sul 
no Rio não é só uma questão de túnel, de ter ou não ter praia. 
As crianças da zona Sul têm as pernas mais longas, as da zona 
Norte têm o tronco mais desenvolvido. As mulheres das· favelas 
ainda tinham o pescoço mais longo, a cabeça mais ereta - talvez 
por levarem a lata d'água na cabeça. Essa pesquisa durou todo o 
ano de 1975, mas nunca me preocupei em publicar nada: incor-
porei, consciente ou inconscientemente, tudo o que descobri du-
rante esse trabalho. 
Nesse mesmo ano passei a dirigir a Martins Pena, escola 
oficial de, teatro do Rio de Janeiro. Essa foi uma experiência 
39 
riqUlsstma, , p o r q u e p u d e c o l o c a r em p r á t i c a t u d o a q u i l o que 
estava s o n h a n d o , t o d a uma a b o r d a g e m d i d á t i c a das a r t e s cênicas. 
M i n h a p r i m e i r a p r o v i d ê n c i a foi a b o l i r o v e s t i b u l a r , u m teste 
t ã o c o m p l i c a d o e exigente que, segundo m i n h a visão, o a l u n o que 
conseguisse p a s s a r n ã o p r e c i s a v a mais e s t u d a r : e r a u m a t o r com-
p l e t o , e s t a v a f o r m a d o em t e a t r o . Pelo m e n o s no t e a t r o a c a d ê m i c o . 
M i n h a p r o p o s t a e r a um c u i s o livre, onde os i n t e r e s s a d o s 
t e r i a m as p r i m e i r a s r e s p o s t a s p a r a suas indagações a r e s p e i t o d o 
t e a t r o , a nível físico, s o b r e o espaço, a h i s t ó r i a , a a c ú s t i c a , a 
i n t e r p r e t a ç ã o . P a r t i a , assim, do mesmo p r i n c í p i o q u e me e n c a m i -
n h o u n a d a n ç a : a a r t e é antes de t u d o u m gesto de vida. 
N a M a r t i n s P e n a e n f r e n t e i t a m b é m a q u e s t ã o do t a l e n t o , 
dessa coisa vaga que c h a m a m o s t a l e n t o e que n ã o sei bem e x p l i c a r 
o que é. T a l e n t o t a l v e z s e j a u m a c a p a c i d a d e n a t a , u m e s t a r a b e r t o 
para, e n a d a mais que isso. 
H o j e a c r e d i t o que é m e l h o r t r a b a l h a r com gente t a l e n t o s a e 
t e n t a r d e s e s t r u t u r a r inclusive esses t a l e n t o s o s p o r q u e eles, mais d o 
que ninguém, têm t o d o um c o n c e i t o do t r a b a l h o a que se p r o p õ e m . 
P e r d i m u i t o t e m p o com gente sem t a l e n t o , mas h o j e me é impos-
sível t r a b a l h a r com essas pessoas. 
P r e c i s o de pessoas que e s t e j a m a b e r t a s , j á n u m d e t e r m i n a d o 
p o n t o do seu a u t o c o n h e c i m e n t o artístico: assim elas o u v e m a q u i l o 
que você p r o p õ e e isso faz com q u e se movam. De q u a l q u e r f o r m a , 
n u n c a me assustei com os a r t i s t a s talentosos. T a n t o que t r a b a l h e i 
com alguns dos m e l h o r e s a t o r e s , atrizes, b a i l a r i n o s e b a i l a r i n a s 
do país. 
F i q u e i n a M a r t i n s P e n a a t é 78 e lQgo passei p a r a o I n e a r t e , 
I n s t i t u t o E s t a d u a l das Escolas de A r t e do R i o de J a n e i r o , o n d e 
t a m b é m fiquei p o r dois anos, a t é a m u d a n ç a de governo. A l i á s , 
a a r t e no B r a s i l e s t á ' sempre t e n d o seu c a m i n h o i n t e r r o m p i d o pelas 
m u d a n ç a s políticas. 
E m 1 9 7 7 , dirigi i n t e i r a m e n t e meu p r i m e i r o e s p e t á c u l o de 
t e a t r o : O e x e r c í c i o , de Lewis J o h n C a r l i n o , com M a r í l i a P e r a e 
4 0 
G r a c i n d o J ú n i o r , no R i o , com o q u a l g a n h e i o P r ê m i o Mam-
b e m b e (dessa vez n ã o me deu u m e n f a r t e ) . M a r í l i a levou t o d o s 
os prêmios como atriz. 
Mas essa m i n h a r e l a ç ã o com o t e a t r o t a m b é m é complexa: 
fiz vários e s p e t á c u l o s mas só dirigi dois, s e n d o q u e e n t r e 1977 e 
1989 só p a r t i c i p e i deste E x e r c í c i o e de M ã o na l u v a , a m b o s c o m 
m u i t o sucesso de c r í t i c a e de público. 
N ã o que eu n ã o quisesse t r a b a l h a r c o m t e a t r o o u q u e tivesse 
a b a n d o n a d o o palco: eu é que fui a b a n d o n a d o . Ou m e l h o r : é 
quase u m a p o s t u r a m i n h a , u m a p r e m i s s a que c o l o q u e i p a r a mim. 
N ã o busco n a d a , n ã o b a t o na p o r t a de d i r e t o r o u p r o d u t o r 
n e n h u m . S e n ã o me c h a m a r e m a c a b o n ã o fazendo n a d a . Mas é 
c l a r o que, no fundo, q u e r o t r a b a l h a r c o m espetáculos. 
P a r a mim ficou c l a r o que, n o t e a t r o , n a m o n t a g e m de um 
t r a b a l h o , as coisas s ã o b e m mais objetivas, sei m e l h o r o q u e quero. 
N a a u l a de d a n ç a s o u mais um mágico, u m p r e s t i d i g i t a d o r , e 
t e n h o u m c a m i n h o p r ó p r i o . T a n t o que n u n c a fui assistente de 
c o r e ó g r a f o , n u n c a p a r t i c i p e i da m o n t a g e m de u m a c o r e o g r a f i a . 
M e u processo n a d a n ç a é muito p a r t i c u l a r , a p a r t i r d a s m i n h a s 
vivências. 
No final dos a n o s 7 0 descubro q u e e s t a v a mais u m a vez 
insatisfeito: e r a um a d m i n i s t r a d o r no I n e a r t e , n ã o h a v i a t e m p o 
p a r a c r i a r n a d a . E nessa h o r a me d á um d e s â n i m o t o t a l , começo 
a fugir das pessoas e dos compromissos, b e b o demais. 
E n t ã o de r e p e n t e fugi de tudo: do R i o , d o c a s a m e n t o , do 
e m p r e g o , das r e s p o n s a b i l i d a d e s . F i z t o d o s os r o m p i m e n t o s que 
a c h a v a necessários n aq u e l a h o r a . F u g i p a r a São P a u l o , sem q u a l -
q u e r p e r s p e c t i v a de t r a b a l h o , sem p r o j e t o s , sem c a s a , sem n a d a . 
4 1 
v 
O e t e r n o · r e c o m e ç o 
A m u d a n ç a p a r a São P a u l o t i n h a um f a t o r p r o f i s s i o n a l , 
p o r q u e eu j á d e r a um c u r s o n a a c a d e m i a do I v a l d o B e r t a z z o e 
sentia c e r t a a f i n i d a d e com a cidade. A o mesmo t e m p o , estava 
sem m u i t a s a í d a n o R i o , a d a n ç a p r a t i c a m e n t e n ã o existia mais. 
J u n t a n d o t u d o isso com as c i r c u n s t â n c i a s pessoais e afetivas, m i n h a 
i d a p a r a S ã o P a u l o foi um p o u c o de fuga e de b u s c a - c o m o 
p a r e c e s e r em t o d o s os casos .. 
O i n í c i o , como s e m p r e , foi c o m p l i c a d o em t e r m o s de s o b r e -
vivência, m a s a L a i a D o h e i n z e l i n me p r o p ô s d a r aulas n a a c a d e m i a 
dela e aos p o u c o s fui me e n t e n d e n d o com a cidade. D e s c o b r i , p o r 
exemplo, q u e São P a u l o é mais solta do que o R i o , o R i o tem 
u m a coisa de superfície, de a p a r ê n c i a , de beleza e x t e r n a q u e d á 
p o u c o espaço p a r a relações mais p r o f u n d a s . 
A o mesmo t e m p o , eu j á e r a mais ou menos c o n h e c i d o n o 
m u n d o da d a n ç a e do t e a t r o em São P a u l o , h a v i a ganho o p r ê m i o 
de m e l h o r c o r e ó g r a f o p e l a m o n t a g e m c a r i o c a de O a r q u i t e t o e o 
i m p e r a d o r da A s s í r i a , em 1 9 6 8 ; p r ê m i o c o n c e d i d o pela A P C A , 
A s s o c i a ç ã o P a u l i s t a de C r í t i c o s de A r t e . N i n g u é m me avisou, 
aliás, s o b r e esse prêmio: eu só s o u b e dele doze anos depois, q u a n d o 
m u d e i p a r a São P a u l o . 
E m 1 9 8 1 , L a i a e seu g r u p o m o n t a r a m Clara C r o c o d i l o a 
p a r t i r das músicas de A r r i g o B a r n a b é e desde e n t ã o surge u m a 
4 2 
r e l a ç ã o m u i t o a f e t u o s a e n t r e nós. S e m p r e n o s c o m p r o m e t e m o s a 
c r i a r um espetáculo j u n t o s , mas esse t r a b a l h o n ã o sai. E talvez 
n ã o s a i a nunca. 
N a q u e l e mesmo a n o , M á r i o C h a m i e - e n t ã o s e c r e t á r i o de 
C u l t u r a d a cidade de São P a u l o - me c h a m o u p a r a d i r i g i r a 
E s c o l a s de Bailados do Municipal. Mais uma vez lá ia eu t r a b a l h a r 
com o E s t a d o . Dessa vez s u b s t i t u i n d o A d d y A d d o r , que b r i g a r a 
com professores, mães e p a i s p o r c a u s a de i n t e r f e r ê n c i a s de t o d o 
g ê n e r o em seu t r a b a l h o . 
É c u r i o s o n o t a r que sou s e m p r e l e m b r a d o nessas h o r a s , 
q u a n d o a b o m b a j á e x p l o d i u , q u a n d o os p r o b l e m a s j á c h e g a r a m 
a um p o n t o m u i t o a v a n ç a d o . Aí o Klauss é l e m b r a d o , p a r a colo-
c a r um p o u c o de o r d e m . E n t r e i e logo n a p r i m e i r a r e u n i ã o senti 
o que iria e n f r e n t a r : a escola p a u l i s t a n ã o e r a nem p a r e c i d a com 
a c a r i o c a . E r a pior, m u i t o pior. 
P o r mais que a E s c o l a de B a i l a d o s do R i o tivesse seus 
ranços (os professores davam aulas p a r a o g r u p o profissional), 
havia · u m a ligação m í n i m a e n t r e os dois g r u p o s - a E s c o l a e o 
C o r p o de Baile - , coisa que não existia em a b s o l u t o em São 
P a u l o . P a r a c o m e ç a r , o p r é d i o da E s c o l a de B a i l a d o s p a u l i s t a n a 
ficava s e p a r a d o dos o u t r o s grupos, e m um local h o r r í v e l , d e b a i x o 
do v i a d u t o do Chá. 
Os professores, p o r o u t r o lado, n ã o m o s t r a v a m interesse 
em m o d i f i c a r n a d a , em a p r e n d e r n a d a . Mais do que n u n c a , ali 
senti que os cursos oficiais de balé n ã o levam a n a d a , as E s c o l a s 
de B a i l a d o s p o d e m e devem fechar p o r q u e é imposs:vel a p r e n d e r 
a l g u m a coisa s o b r e d a n ç a em suas aulas. 
Esses cursos g e r a l m e n t e são e n t r e g u e s a pessoas q u e a t é 
têm um c e r t o t a l e n t o , mas que n ã o conseguem fazer n a d a de 
c r i a t i v o devido ao c u r r í c u l o , aos p r o g r a m a s que n ã o p o d e m s e r 
a l t e r a d o s . Os p r o f e s s o r e s são todos formados p o r u m a t é c n i c a e 
u m a visão antigas da a r t e e estão lá e s p e r a n d o a a p o s e n t a d o r i a . 
U m a a p o s e n t a d o r i a , como se sabe, ridícula. 
4 3 
P o r t u d o isso, não há q u a l q u e r interesse p o r p a r t e dos pro-
fessores em m o d i f i c a r seja o que for, e não falo a q u i especifica-
mente da E s c o l a de Bailados de São P a u l o ou da do R i o , que 
conheci bem. A c r e d i t o que esse seja um fenômeno de t o d a escola 
oficial de d a n ç a , n o Brasil. · 
R e a f i r m o que essas escolas são inúteis p o r q u e seus q u a d r o s 
são f o r m a d o s p o r professores que têm uma m e n t a l i d a d e antiga, 
u l t r a p a s s a d a , uma visão c o n s e r v a d o r a d a árte. E são e x a t a m e n t e 
essas pessoas que formam crianças e jovens, que saem dessas 
escolas j á i n t e i r a m e n t e m a l f o r m a d a s e d e s i n f o r m a d a s em r e l a ç ã o 
à dança. 
A o invés de escolas oficiais de dança, deveriam ser c r i a d o s 
centros de reciclagem p a r a quem quisesse ser professor, p a r a que 
estes pudessem a c o m p a n h a r m e l h o r o que existe de mais m o d e r n o 
n a d i d á t i c a ou n a técnica da d a n ç a . 
Basta l e m b r a r que t o d o a l u n o de E s c o l a de Bailados, se tiver 
d i n h e i r o , e s t u d a t a m b é m em escolas p a r t i c u l a r e s , p o r q u e só 0 
ensin<:J da escola oficial não basta. E m São P a u l o , p o r exemplo, 
e r a a mesma a u l a o ano i n t e i r o , a a u l a que o p r o f e s s o r d á :ao 
p r i m e i r o d i a é e x a t a m e n t e a mesma no último dia Não são mais 
a r t i s t a s , p o r t a n t o : são funcionários públicos da dança. 
As dificuldades são a b s u r d a s . Os professores ou e s t ã o prestes 
a se a p o s e n t a r , e n c e r r a r a c a r r e i r a , ou não se a p o s e n t a m p o r q u e 
n ã o têm mais n a d a a fazer. A o mesmo tempo, estão a c o s t u m a d o s 
com as m u d a n ç a s de d i r e ç ã o n a s escolas, diretores que e n t r a m 
cheios de p r o j e t o s n u n c a realizados. 
Assim, você p r o p õ e idéias e p l a n o s d u r a n t e as reuniões e 
a p a r e n t e m e n t e eles até aceitam, sequer discutem suas p r o p o s t a s . 
Mas, ao s a i r dali, simplesmente ignoram o que você disse e t u d o 
c o n t i n u a n a mesma. 
Uma escola nesses moldes mata a criatividade, a individuali-
d a d e de q u a l q u e r a r t i s t a ou b a i l a r i n o . N a Escola de Bailados de 
São P a u l o , o a l u n o só ia p a r a o· palco depois de oito a n o s de 
aulas - e a d a n ç a só se a p r e n d e no palco. 
4 4 
E r a m 1 2 0 0 alunas, a p a r t i r dos sete anos, t o d a s elas meni-
n i n h a s a c o s t u m a d a s a s o n h a r com a d a n ç a , com a M á r c i a , com 
a M a r g o t , com a A n a B o t a f o g o , e de r e p e n t e e n t r a m n u m a sala 
de a u l a e as o b r i g a m a a g a r r a r um p e d a ç o de p a u , a b r ir as 
p e r n i n h a s e ficar lá, h o r a s e horas, anos e anos, r e p e t i n d o exer-
cícios em silêncio, sem q u a l q u e r explicação sobre a r e l a ç ã o e n t r e 
t u d o isso e a d a n ç a que elas sonham. 
E u quis m o d i f i c a r essas aulas e p r o p u s q u e as c r i a n ç a s 
tivessem apenas duas a u l a s de clássico p o r s e m a n a e u m a a u l a 
de d a n ç a c r i a t i v a - brincadeiraS, d a n ç a não-clássica, jogos -
semanal, e isso seria o suficiente. Q u e r i a antes de t u d o m o s t r a r 
que a d a n ç a n ã o é só o clássico e que essas c r i a n ç a s deviam t e r 
espaço p a r a se descobrir. 
T e n t a n d o m o d i f i c a r a m e n t a l i d a d e vigente, levei p e s s o a s p a r a 
c o n v e r s a r com os p r o f e s s o r e s e p e d i s e m p r e p a r a q u e n ã o dei-
xassem as c r i a n ç a s sem r e s p o s t a em seus q u e s t i o n a m e n t o s s o b r e 
a d a n ç a . É p r e c i s o e x p l i c a r a u m a c r i a n ç a p o r q u e se i n i c i a u m a 
a u l a n a b a r r a , q u a l a f u n ç ã o disso. 
E u l e m b r a v a que a c r i a n ç a é c u r i o s a e p r e c i s a s a b e r q u a l é 
a m o t i v a ç ã o q u e e s t á p o r t r á s d e c a d a gesto e m o v i m e n t o d e 
u m a aula. Se o p r o f e s s o r c o r t a , p r o í b e e s s a c u r i o s i d a d e , f e c h a 
ao mesmo t e m p o u m a série de músculos i n t e r n o s q u e fazem p a r t e 
d o s e r infantil. E esses músculos f i c a r ã o a d o r m e c i d o s a p a r t i r d a í . 
E n t ã o , p o r que c o m e ç a r u m a a u l a s e g u r a n d o u m a b a r r a ? 
P o r q u e q u a n d o começo a a n d a r e u seguro a mão d a m i n h a m ã e , 
d o meu pai. P o r que os pés abertos? P o r q u e c o m os pés a b e r t o s 
e n c o n t r o m e l h o r o m e u equilíbrio. 
É p r e c i s o r e s p o n d e r a essas c u r i o s i d a d e s , a essas a n s i e d a d e s , 
a esses q u e s t i o n a m e n t o s , p o r q u e as r e s p o s t a s v ã o a m p l i a n d o a 
c u r i o s i d a d e e é essa c u r i o s i d a d e q u e move o m u n d o , q u e m o v e 
o a r t i s t a , que move a c r i a n ç a . Se você n ã o t e m mais d ú v i d a s 
. ' 
e n t ã o só tem u m a s a í d a : p a r a r . E o mais t r á g i c o é d e s c o b r i r q u e 
4 5 
os professores não dão espaço para essas perguntas dos alunos 
por dois motivos: autoritarismo e ignorância. Eles também não 
sabem as respostas. 
Eu insistia que não queria programas de cursos - todo 
mundo sempre tem programas a propor -, mas sim que as 
crianças não ficassem sem respostas, tivessem consciência do que 
faziam. Levei Ruth Rachou e Célia Gouveia para dar aulas de 
dança moderna porque até aquele momento nunca havia sido 
dada uma só aula de moderno na Escola de Bailado; quase oito 
décadas depois do seu surgimento a dança moderna ainda não 
tinha conseguido entrar ali. Era como se não existisse: os pro-
fessores e as direções anteriores eram contra. Para eles, o que 
não é clássico não serve. 
Propus que os alunos passassem a fazer espetáculos a partir 
do terceiro ano de aulas e as reações também foram contrárias: 
os professores não queriam coreografar, não tinha teatro, diziam 
que não ia ter público, não tinha iluminador. 
~ntão, milagrosamente, os próprios alunos tomaram aquele 
trabalho nas maos e montaram tudo: coreografavam, convidavam 
alguém que soubesse coisas primárias sobre iluminação, os que 
tinham talento para a coisa criavam a cenografia. 
Consegui os teatros da Prefeitura durante o dia e as salas 
lotavam. Está certo que só com as mães e a família, mas durante 
algum tempo esses espetáculos foram realizados em São Paulo. 
Até minha saída da Escola de Bailados, em 1982,. 
Antes disso, abri a escola para a comunidade, para aqueles 
que não tinham condições de fazer aulas durante o dia. No curso 
noturno me vi diante de uma novidade: duzentos rapazes procu-
raram a entidade. 
Tive que dar aula eu mesmo - os professores não queriam 
. trabalhar fora do horário nem eram obrigados a isso, é claro -
e chamei o João de Bruçó, percussionista, que dava a esse grupo 
46 
um pouco mais de sensibilidade para a música e mostrava a rela-
ção entre os movimentos e os sons. 
Foi esse curso noturno, aliás, que gerou a maior agressão 
que já sofri: quando_ o prefeito Jânio Quadros proibiu a entrada 
de homossexuais na escola, em 1987, dei uma entrevista dizendo 
que aquilo era autoritário. A noite, ao voltar para casa, fui agre-
dido violentamente e mais uma vez acabei no hospital. Mas pouco 
se falou sobre isso. O Brasil está acostumado com sua própria 
intolerância. Perseguir minorias, aqui, faz parte da regra do jogo. 
Saí da Escola de Bailados para subir a rampa: fui para o 
Teatro Municipal dirigir o balé. Era, mais uma vez, o mesmo 
problema. Luís Arrieta, o diretor do grupo, estava brigado e re-
solveu sair. Então o Chamie voltou a me chamar para tentar 
apaziguar os ânimos. 
Esse ia ser um novo desafio, - eu nunca dirigira um grupo 
de dança oficial, mas pensei que prqvavelmente não teria outra 
chance de passar por uma experiência dessas. E fui. No primeiro 
dia, entro na sala e encontro dezenas de bailarinos sentados no 
chão, me olhando, como se dissessem "o que é que você está 
fazendo aqui, se não gosta do clássico?" 
Sentei no chão também e disse o que pensava da dança, do 
clássico, da arte, o que pretendia fazer e pedi a eles um tempo, 
um mês, para ver se começávamos a nos gostar. Porque podia 
ser, disse, que eu também não gostasse deles. 
Nessa época o Balé do Municipal de São Paulo já tinha 
mudado todo o repertório, já dançava trabalhos modernos e belos, 
mas a mentalidade dos bailarinos ainda era a mesma. Tinham 
personalidade, mas não a nível pessoal. :e claro que os trabalhos 
de palco modificam um pouco a postura pessoal, mas ainda exis-
tia todo um ranço antigo, de profissionais que não discutiam, não 
expunham suas opiniões. 
47 
P a r a c o m e ç a r , o d i r e t o r a r t í s t i c o d a c o m p a n h i a n ã o c o n v e r -
s a v a com os b a i l a r i n o s : existia uma tabela, um p e d a ç o de p a p e l 
c o l a d o n a p a r e d e , e ali os p r o f i s s i o n a i s ficavam s a b e n d o d a s d e -
cisões d i a r i a m e n t e . Os b a i l a r i n o s a p e n a s liam e o b e d e c i a m 0 q u e 
h a v i a s i d o e s t i p u l a d o . 
A p r i m e i r a c o i s a que fiz foi a b a n d o n a r a t a l t a b e l a . E p r o -
p u s q u e b r i n c á s s e m o s um p o u c o , t e n t e i t i r a r a q u e l e c o n c e i t o d e 
q u e a d a n ç a tem q u e ser s é r i a e o d i r e t o r , u m a p e s s o a r a n z i n z a . 
Aos p o u c o s implantei no g r u p o essa l i b e r a l i z a ç ã o , p r o p u s um 
c o m p a n h e i r i s m o m a i o r e n t r e eles. Só depois é q u e s u g e r i a u m a 
a u l a d e p o n t a . 
Pedi a J o a n a L o p e s p a r a q u e desse aulas de t e a t r o , de in-
t e r p r e t a ç ã o , e os b a i l a r i n o s c o m e ç a r a m a p e r c e b e r q u e a d a n ç a 
n ã o é só e s s a c o i s a artificial e i m p o s t a d a q u e f o r a m e n s i n a d o s 
a a c r e d i t a r . A d a n ç a - t o d a a r t e - tem e1ementos i n t e r n o s , 
subjetivos, pessoais. 
<;hamei J . C . V i o l l a p a r a m o n t a r u m e s p e t á c u l o , V a l s a das 
v i n t e veias. Q u e r i a i n i c i a r a g e s t ã o c o m um t r a b a l h o n o v o com 
, 
'um cor~ografo q u e n u n c a h a v i a t r a b a l h a d o com eles e u m t i p o 
de m o v i m e n t o que n u n c a h a v i a m feito. V i o l l a t r o u x e N a u m Alves 
de S o u z a e P a t r í c i o Bisso e a c o n v i v ê n c i a com esses a r t i s t a s foi 
n a t u r a l m e n t e m o d i f i c a n d o a m e n t a l i d a d e dos b a i l a r i n o s . 
Mas havia coisas que se repetiam, a p e s a r de u l t r a p a s s a d a s : 
o a s s i s t e n t e de c o r e ó g r a f o , p o r exemplo, ficava n a p l a t é i a d u r a n t e 
os ensaios e a n o t a v a q u a n d o alguém l e v a n t a v a as p e r n a s assim 
o u assado, q u a n d o e s t a v a c o m o b r a ç o e r r a d o . E e u d i s s e : " N ã o 
. -
' 
Isso n a o me interessa. Q u e r o q u e e x i s t a emoção e i n t e n ç ã o n o s 
gestos. N ã o me i m p o r t a a f o r m a " . 
M o s t r e i a eles que o O s c a r Arais t i n h a m o n t a d o u m a c o r e o -
g r a f i a l i n d í s s i m a t e m p o s antes, e r a um t r a b a l h o q u e c o m e ç a v a 
com o t o r n o z e l o g i r a n d o , p a s s a v a p a r a o joelho, p a r a o q u a d r i l , 
48 
p a r a o t r o n c o e t e r m i n a v a e m um x a l e q u e fazia u m a s é r i e d e 
m o v i m e n t o s r e d o n d o s q u e , no fim, g e r a v a m n o v o s m o v i m e n t o s . 
.E o q u e foi q u e a c o n t e c e u ? E l e s se p r e o c u p a v a m e m s a b e r 
se o q u a d r i l a t r a s o u , se o b r a ç o l e v a n t o u n a a l t u r a c e r t a , e em 
t r ê s s e m a n a s a c o r e o g r a f i a n ã o t i n h a mais n a d a a v e r c o m o q u e 
o A r a i s t i n h a p r o p o s t o : t u d o se t r a n s f o r m o u e m p u r a f o r m a . 
T e n t e i m o s t r a r q u e q u a n d o l e v a n t o o b r a ç o f o r a d a h o r a 
n ã o é p o r q u e e s t o u e r r a d o n a c o n t a g e m : é m i n h a e m o ç ã o q u e 
e s t á mal c o l o c a d a , é m i n h a i n t e n ç ã o q u e e s t á t r a v a d a . P o s s o 
f a z e r c o n t a g e n s d i á r i a s d a m ú s i c a n a c o r e o g r a f i a , mas isso n ã o 
vai f a z e r de mim u m b o m b a i l a r i n o . N ã o a d i a n t a i n s i s t i r nesse 
c a m i n h o : q u a n t o mais você insiste, mais p e r d e s u a e s p o n t a n e i -
d a d e , s u a i n d i v i d u a l i d a d e , e um a r t i s t a é, antes d e t u d o , um 
i n d i v í d u o . 
U m macaco, q u a n d o p e g a u m a b a n a n a , p o r mais p r i m á r i o 
e simples q u e s e j a o gesto, h á nele u m a f o r m a d i t a d a p e l o desejo, 
p e l a vontade, p e l a n e c e s s i d a d e : ele sabe, digamos assim, p o r q u e 
está fazendo aquilo, p a r a que está se m o v e n d o em d i r e ç ã o à 
b a n a n a . 
E n t ã o , o u e u consigo f a z e r u m a r e l a ç ã o e n t r e a m i n h a téc-
n i c a de d a n ç a e a v i d a c o t i d i a n a o u a l g u m a c o i s a e s t á m u i t o 
e r r a d a com essa técnica. Aí, n ã o h á como d u v i d a r : n ã o é a v i d a 
q u e e s t á e n g a n a d a . 
Eu tinha visto um e s p e t á c u l o d a M a r a B o r b a - C e r t a s 
m u l h e r e s , com Sônia M o t a , S u z a n a Y a m a u c h i e a p r ó p r i a M a r a 
- e ! p r o p u s q u e o t r a b a l h o fosse r e m o n t a d o . P e l a p r i m e i r a vez 
u m a ~ailarina d a n ç o u com os seios n u s n o B a l é d o M u n i c i p a l e 
isso c~sou t o d o t i p o de b r i g a . M a s esses e r a m e l e m e n t o s n o v o s 
q u e se incorpo~~am ao grupo e ao t r a b a l h o . 
A i n d a assim, e r a p o u c o : p e d i ao g r u p o q u e lesse os j o r n a i s 
d i á r i o s , pedi q u e a S e c r e t a r i a da C u l t u r a m a n d a s s e l i v r o s s o b r e 
49 
h i s t ó r i a d a a r t e p a r a os b a i l a r i n o s . A g e n t e d i s c u t i a s e m p r e e s s a 
t e n d ê n c i a q u e o b a i l a r i n o t e m de v i v e r e m u m a r e d o m a d e v i d r o . 
E u f a z i a q u e s t ã o , n e s s a p r i m e i r a fase, q u e eles f o s s e m s e r e s h u m a -
n o s , e n ã o a p e n a s b a i l a r i n o s . 
Q u a n d o a c o i s a c o m e ç o u a t o m a r u m c e r t o r u m o , v i q u e 
s e r i a b o m c o l o c a r s a n g u e n o v o n o g r u p o . E u e r a t o t a l m e n t e fa-
v o r á v e l à q u e l a g e n t e t o d a q u e fazia d a n ç a f o r a d o M u n i c i p a l , 
f o r a de u m g r u p o oficial, g e n t e c o m o S ô n i a M o t a , D e n i l t o G o -
mes, S u z a n a Y a m a u c h i , M a r a B o r b a , I s m a e l Ivo! J o ã o M a u r í c i o , 
M a z é C r e s c e n t i , g e n t e t a l e n t o s a q u e t r a b a l h a v a s o z i n h a e s e m 
e s p a ç o p a r a e n s a i a r . 
E me p e r g u n t a v a : o q u e i r i a a c o n t e c e r c o m e s s a g e n t e t o d a 
l á n o M u n i c i p a l ? M i n h a i d é i a e r a d a r a eles a p o s s i b i l i d a d e d e 
e s p a ç o e m a t e r i a l p a r a q u e c r i a s s e m e m o s t r a s s e m s e u t a l e n t o . 
D e s s a f o r m a , c r i e i o G r u p o E x p e r i m e n t a l , p r i m e i r o d o g ê n e r o 
e m t o d a a h i s t ó r i a d e g r u p o s o f i c i a i s n o p a í s . 
_Montamos o B o l e r o , d e R a v e l , c o m E m i l i e . C h a r n i e o r g a n i -
z a n d o t u d o e L i a R o b a t t o c o r e o g r a f a n d o . O u m e l h o r : e r a m o s 
b a i l a r i n o s q u e p r o p u n h a m os m o v i m e n t o s e a L i a d i z i a " i s s o s e r -
ve, i s s o n ã o s e r v e " . E l a a n a l i s a v a c a d a m o v i m e n t o e f a z i a a s 
l i g a ç õ e s . P e l a p r i m e i r a vez a q u e l e g r u p o t i n h a l i b e r d a d e p a r a im-
p r o v i s a r , p a r a e r r a r , p a r a e x p e r i m e n t a r . O r e s u l t a d o foi u m e s p e -
t á c u l o b e l í s s i m o , u m s u c e s s o t o t a l . A c a b e i g a n h a n d o m a i s u m 
p r ê m i o d a A P C A , c o m o d i r e t o r a r t í s t i c o d o m e l h o r e s p e t á c u l o 
d e d a n ç a d o a n o . 
D e p o i s veio A dama das camélias, ú l t i m o t r a b a l h o s o b a 
g e s t ã o de C h a m i e n a S e c r e t a r i a . A i d é i a d o J o s é P o s s i N e t o e r a 
m a r a v i l h o s a , a l e i t u r a e r a l i n d a , mas a e x e c u ç ã o foi u m h o r r o r . 
O m o t i v o p r i n c i p a l e r a a f a l t a de u m c o r e ó g r a f o c e n t r a l , q u e 
r e u n i s s e o t r a b a l h o d e c a d a i n t e g r a n t e . F i c o u u m a c o i s a s e m n e x o , 
sem l i g a ç ã o , d e s c o s t u r a d a . U m d e s a s t r e t o t a l . 
5 0 
A í h o u v e a m u d a n ç a d e g o v e r n o , e o c r í t i c o F á b i o M a g a -
l h ã e s p a s s o u a ser o r e s p o n s á v e l p e l o B a l é d o T e a t r o M u n i c i p a l . 
R e c e b i r e c a d o s d a n d o c o n t a de q u e e l e g o s t a r i a q u e e u c o n t i -
n u a s s e d i r i g i n d o o g r u p o , m a s q u e d e v i a m o d i f i c a r a l i n h a d o s 
t r a b a l h o s , q u e o s e s p e t á c u l o s e s t a v a m e x p e r i m e n t a i s d e m a i s e q u e 
0 g r u p o d e v i a d a n ç a r c o m o o b a l é d o M u n i c i p a l d o R i o . 
C l a r o , fui at é ele e disse q u e o t r a b a l h o q u e s e f a z i a n o R i o 
é u m t i p o de d a n ç a q u e n ã o sei f a z e r , n ã o g o s t o d e f a z e r e n ã o 
i r i a fazer. A s o l u ç ã o , s i m p l e s , e r a a m i n h a s a í d a d a d i r e ç ã o d o 
g r u p o . A í , n o e n t a n t o , a c o n t e c e u u m a c o i s a e x t r a o r d i n á r i a : o s 
b a i l a r i n o s se r e v o l t a r a m , f o r a m aos j o r n a i s , p u b l i c a r a m m a n i f e s -
tos e x i g i n d o m i n h a p e r m a n ê n c i a . 
C o m o b o m s a r g e n t o , o c r í t i c o d e a r t e - e r e p r e s e n t a n t e d e 
u m g o v e r n o q u e se d i z i a l i b e r a l - F á b i o M a g a l h ã e s r e s p o n d e u 
d i z e n d o q u e q u e m d e c i d i a a q u e l e a s s u n t o e r a a S e c r e t a r i a , q u e 
os b a i l a r i n o s e s t a v a m s e n d o i n s u b o r d i n a d o s e q u e n ã o d e v i a m d a r 
e n t r e v i s t a s s e m s e u c o n s e n t i m e n t o . 
A c o i s a c o m e ç o u a s e a r r a s t a r e m d i s c u s s õ e s i n t e r m i n á v e i s 
e vi q u e m i n h a p r e s e n ç a p a s s o u a a t r a p a l h a r o t r a b a l h o d o g r u p o . 
P e d i d e m i s s ã o . A n t e s , n o e n t a n t o , p u b l i q u e i u m c o m u n i c a d o a o 
p ú b l i c o , e x p l i c a n d o o q u e e s t a v a o c o r r e n d o . P a r t e s d e s s e c o m u -
n i c a d o e s t ã o a q u i : 
" E s t a m o s n u m m o m e n t o d e crise. M a s o q u e é u m a c r i s e 
e o q u e isso t e m a v e r c o m o p r o j e t o q u e e s t a m o s p r o p o n d o ? 
S o m o s b a i l a r i n o s e, p o r t a n t o , n a d a m e l h o r p a r a e x p r e s s a r n o s s o 
p o n t o d e vista d o q u e o m o v i m e n t o . 
" E m t o d o p r o c e s s o de m u d a n ç a , d e e v o l u ç ã o , e x i s t e u m m o -
m e n t o c r í t i c o e i n s t á v e l , c o m o n o c a m i n h a r : n o m o m e n t o e m 
q u e e s t a m o s d a n d o u m p a s s o à f r e n t e e n o s e n c o n t r a m o s c o m 
u m p é n o c h ã o e o u t r o n o a r c o r r e m o s o risco d e d e s e q u i h b r i o 
e d a q u e d a . É a c r i s e - mas é t a m b é m s o m e n t e a t r a v é s d e s s e 
r i s c o q u e p o d e m o s a l c a n ç a r n o s s o o b j e t i v o . 
S l 
"E qual é a transformação que está ocorrendo? Mudanças 
políticas, democracia, abertura, integração. A nós, artistas, cabe 
captar esse momento histórico e expressá-lo dentro de nossa lin-
guagem, com isso contribuindo na expansão desses ideais. 
"O Balé da Cidade de São Paulo não foge à regra, seu tra-
balho foi sempre precursor de novas tendências. São Paulo é o 
pólo cultural ~o país e esta polaridade vem justamente do fato 
de ser o estado que, por razões políticas. e econômicas, mais se 
transforma e, portanto, gera e propõe o novo. A companhia ofi-
cial de dança tem o compromisso de catalisar e representar o 
espírito dessa cidade. 
"O momento é de democracia, de poder optar e opinar. 
O momento é de abertura, de poder ampliar o campo de atuação 
dos bailarinos, de abrir nossas portas para a comunidade que 
nos sustenta e ir até ela, levando a dança para espaços que ainda 
não foram utilizados, para os bairros, escolas, praças, para o 
interior. O momento é de abertura de novas idéias e linguagens." 
Saí e fui para o Centro Cultural. Haviam aberto uma sala 
para oficinas de pesquisas e fui trabalhar com Fauzi Arap em 
um trabalho sobre musicais. Mas também isso durou pouco: 0 
governo logo mudou - e cada governo, no Brasil, toma posse 
da cultura e impõe novos projetos e pessoas - e eu tive que 
sair. Foi ótimo: aprendi que não dá para trabalhar com arte 
oficial e jurei que nunca mais entro nessa. 
' Voltei ao teatro em 1984, depois de sete anos, participando 
da montagem de Mão na luva, de Oduvaldo Vianna Filho, co~ 
Marco Nanini e Juliana Carneiro da Cunha e direção de Aderbal 
Júnior. Aderbal é uma pessoa muito aberta e, quando viu minha 
aula, resolveu montar o espetáculo como se fosse um pas-de-dex, 
como uma coreografia com palavras. 
Anos depois, em 1987, montei enfim um trabalho de dança 
depois de décadas como professor e pesquisador: Dadá, um espe~ 
52 
táculo com apenas três bailarinos - meus alunos há anos -, 
um percussionista-ator, um pianista, um grupo de percussão e 
um coral. 
O espetáculo buscava um pouco da minha visão agora pau-
listana do que sejà o ser humano, essa visão a partir da megaló-
pole, desse monstro que é São Paulo - um monstro onde, talvez 
exatamente por isso, as relações entre as pessoas é mais pro-
funda, mais sincera. 
Dadá buscava isso: a dança, para mim, não é apenas espe-
táculo. Ali coloquei minhas ansiedades e questionamentos, depois 
de 40 anos de reflexão e de trabalho. Mas a pretensão também 
não era pouca: quis colocar em um espetáculo uma forma de 
expressão viva e singular, que pudesse transcender a sala de aula 
e ganhar os palcos, as ruas, a vida. 
53 
V I 
E s t a r n o m u n d o 
M o v i d o p o r m i n h a s c u r i o s i d a d e s e i n s a t i s f a ç õ e s , p r o c u r e i 
r e f e r ê n c i a s e i n f o r m a ç õ e s e m t u d o o q u e , p a r a m i m , s e c a r a c t e -
r i z a s s e c o m o u m a p e s q u i s a s é r i a e h o n e s t a e m r e l a ç ã o à d a n ç a , 
a o t e a t r o , a o c o r p o . L ó g i c o q u e , n e s s a b u s c a , c e r t a s i n f l u ê n c i a s 
v i e r a m d e t u d o o q u e me s e n s i b i l i z o u p r o f u n d a m e n t e . M a s n u n c a 
m e a f a s t e i d a s m i n h a s i n t u i ç õ e s . 
p s s a b u s c a n ã o a c a b o u , n o e n t a n t o . C o n t i n u a viva, à m e -
d i d a q u e s i n t o n e c e s s i d a d e d e n o v a s r e s p o s t a s . A s s i m c o m o m e 
d e t i v e em d e t a l h e s do n o s s o c o r p o , d e n o s s a c a p a c i d a d e e x p r e s -
siva, assim c o m o m e u a p r e n d i z a d o v e m o c o r r e n d o c o m o u m j o g o 
d e e n c a i x e s - c 9 m a i n c e s s a n t e u n i ã o d e u m a n o v a p e ç a a o 
t o d o i n f i n i t o - , a c r e d i t o , q u e o c o n t e ú d o d e s t e l i v r o t a m b é m 
s u r g i r á c o m o um a m o n t o a d o d e i d é i a s e q u e s t õ e s q u e t ê m , n o 
f u n d o , u m a e s s ê n c i a c o m u m . 
P o r t u d o isso, sei q u e e s t e t r a b a l h o n ã o e s t á p r o n t o n e m 
f i c a r á p r o n t o n u n c a : s ã o o b s e r v a ç õ e s , r e f l e x õ e s , s e n s a ç õ e s q u e 
se m o d i f i c a m e se a m p l i a m n o d i a - a - d i a , n a s a l a d e a u l a , n o 
m e u e n c o n t r o c o m i g o mesmo. À s vezes m e p e r g u n t a m c o m o é 
q u e se c h a m a e s s a t é c n i c a e c o n f e s s o q u e n ã o sei. E u . a p e n a s 
q u e r o l a n ç a r a s e m e n t e . U m a vez s o l t a s em t e r r a g e n e r o s a , essas 
s e m e n t e s p r o v o c a r ã o r e a ç õ e s . A l g u m a s d e s s a s s e m e n t e s e s t ã o n a s 
p r ó x i m a s p á g i n a s . 
5 4 
Q u e r o e s c l a r e c e r q u e , a o c o n t r á r i o d o q u e m u i t a g e n t e p e n s a , 
m e u t r a b a l h o n ã o é u m a t e r a p i a n e m s e r v e p a r a t a l . :E:. c e r t o q u e 
s ã o m a i o r e s as p o s s i b i l i d a d e s d e r e s o l v e r m o s n o s s o s p r o b l e m a s 
à m e d i d a q u e c o n s e g u i m o s fo r m u l á - l o s . C o n t u d o , e s s e p r o c e s s o , 
q u a n d o a p l i c a d o s o m e n t e a o c o r p o , é i n s u f i c i e n t e . O t r a b a l h o 
c o r p o r a l t e m u m a d i m e n s ã o t e r a p ê u t i c a n a m e d i d a e m q u e t o m a 
o c o r p o c o m o • '"~~"'ncia d i r e t a d e n o s s a e x i s t ê n c i a m a i s p r o -
f u n d a . P o r é m , m e u t r a b a l h o n ã o t e m o p o d e r n e m a p r e t e n s ã o 
d e r e s o l v e r t e n s õ e s c r ô n i c a s q u e n o s a c o m p a n h a m v i d a a f o r a . 
:E:. difícil v i v e n c i a r c o m i n t e n s i d a d e n o s s a s e m o ç õ e s e s e n t i -
m e n t o s m a i s p r o f u n d o s . P o r vezes, esse e n f r e n t a m e n t o a s s u m e a 
c o n o t a ç ã o d e u m r i s c o , q u e n e m t o d o s e s t a m o s d i s p o s t o s a e n -
f r e n t a r . A c o s t u m a d o s a i n t r o j e t a r a o r d e m à n o s s a v o l t a , h a b i -
t u a m o - n o s a n ã o o l h a r , n ã o o u v i r , n ã o s e n t i r i n t e n s a m e n t e e d e s -
p r e z a r a i m p o r t â n c i a d o s f a t o s e a c o n t e c i m e n t o s m e n o r e s , q u a s e 
i m p e r c e p t í v e i s - e m b o r a f u n d a m e n t a i s . Q u a n d o t r a b a l h a m o s o 
c o r p o é q u e p o d e m o s p e r c e b e r m e l h o r e s s e s p e q u e n o s e s p a ç o s 
i n t e r n o s , q u e p a s s a m a s e m a n i f e s t a r a t r a v é s d a d i l a t a ç ã o . Só 
e n t ã o esses e s p a ç o s r e s p i r a m . 
O s e s p a ç o s c o r r e s p o n d e m às d i v e r s a s a r t i c u l a ç õ e s d o c o r p o , 
o n d e é p o s s í v e l l o c a l i z a r i m p o r t a n t e s f l u x o s e n e r g é t i c o s e o n d e 
se i n s e r e m o s v á r i o s g r u p o s m u s c u l a r e s . N o s e u s e n t i d o m a i s 
a m p l o , a i d é i a d e e s p a ç o c o r p o r a l e s t á i n t i m a m e n t e l i g a d a à 
i d é i a d e r e s p i r a ç ã o - q u e , a o c o n t r á r i o d o q u e p e n s a m o s , n ã o 
se r e s u m e à e n t r a d a e à s a í d a do a r p e l o n a r i z . N a v e r d a d e , o 
c o r p o n ã o r e s p i r a a p e n a s a t r a v é s d o s p u l m õ e s . E m l i n g u a g e m 
c o r p o r a l , f e c h a r , c a l c i f i c a r e e n d u r e c e r s ã o c;inônimos d e a s f i x i a , 
d e g e n e r a ç ã o , e s t e r i l i d a d e . R e s p i r a r , a o c o n t r á r i o , s i g n i f i c a a b r i r , 
d a r e s p a ç o . P o r t a n t o , s u b t r a i r os e s p a ç o s c o r p o r a i s é o m e s m o 
_gue i m p e d i r a r e s p i r a ç ã o , b l o q u e a n d o o r i t m o l i v r e e n a t u r a l d o s 
m o v i m e n t o s . I m a g e m m u i t o f o r t e d e n o s s a e m o ç ã o , a r e s p i r a ç ã o 
55 
r e p r e s e n t a n o s s a t r o c a c o m o m u n d o . H á dias em que e s t a m o s 
mais e m o c i o n a d o s , mais tristes, o u alegres, o u ansiosos, o u eufó-
ricos e t o d a n o s s a r e s p i r a ç ã o se m o d ü i c a . A r e s p i r a ç ã o a b r e 
espaço p a r a p e r c e b e r m o s m u s c u l a t u r a s mais p r o f u n d a s que, sim- · 
b o l i c a m e n t e , c h a m a r e m o s de m u s c u l a t u r a s d a emoção. O p r i m e i -
ro p a s s o em d i r e ç ã o a u m a m a i o r h a r m o n i a i n t e r n a é d e i x a r o 
a r p e n e t r a r fundo em nosso c o r p o . 
Q u a n d o um a t o r o u b a i l a r i n o se e x p r e s s a mal, mais d o q u e 
uma limitação técnica o que f a l t a a esses i n t é r p r e t e s é r i t m o uni-
versal. B l o q u e a r o u n ã o s a b e r l i d a r com a r e s p i r a ç ã o , c o m a 
e x p a n s ã o e o r e c o l h i m e n t o que c o n d u z e m o r i t m o i n t e r n o só c o n -
tribui p a r a c r i a r c o u r a ç a s no corpo. Pessoas de c o r p o inexpres-
sivo e s t ã o p r i v a d a s de oxigenação. A p a r t i r d o m o m e n t o em que 
b l o q u e a m o s o u dificultamos n o s s a r e s p i r a ç ã o i n t e r n a , c o m e ç a m o s 
a m a t a r n o s s a sensibilidade, a i n t u i ç ã o , t o d o o c o r p o . Q u a n d o 
p o d a m o s a expressividade de nosso c o r p o , i m p e d i n d o q u e res-
p i r e , e s t a m o s c o r t a n d o nosso c o r d ã o umbilical com o m u n d o . 
Q u a n d o o som p e n e t r a em nossos ouvidos - falo d o som 
h a r m ô n i c o , musical, do som i d e a l p a r a J i m a s a l a de a u l a - surge 
u m a r e a ç ã o i n t e r n a : esse som t e m u m a v i b r a ç ã o e, ao c a p t á - l o , 
nosso c o r p o g e r a movimento. É um p r i n c í p i o i n g o v e r n á v e l q u e 
p o d e m o s a p r e n d e r a d o m e s t i c a r . 
I s a d o r a D u n c a n t r a b a l h o u os cinco s e n t i d o s : u s a v a a emo-
ção q u e existe n o fato d e o l h a r o m a r , c a m i n h a r descalço, o u v i r 
os sons d o c o t i d i a n o . E l a n ã o e r a i n d i f e r e n t e ao m u n d o em que 
vivia. E x i s t e u m a m u s c u l a t u r a d a e m o ç ã o e os b a i l a r i n o s , o s a t o -
res e t o d o s os seres h u m a n o s p r e c i s a m se c o n s c i e n t i z a r d e l a . P o r 
que os animais n a floresta não precisam de ginástica? Pegue um 
b i c h o desses e c o l o q u e e n t r e q u a t r o p a r e d e s : em três meses e s t a r á 
gordo, flácido, p e r d e n d o pêlos e d o e n t e . O mesmo a c o n t e c e co-
56 
nosco se p e r d e m o s nossos impulsos, se d e i x a m o s nossos s e n t i d o s 
amortecidos, i g n o r a n d o o m u n d o que nos cerca. 
Sempre digo em m i n h a s aulas que é p r e c i s o d a r e s p a ç o , um 
e s p a ç o novo em mim p a r a que s u r j a m coisas novas. U m a l e n d a 
c o n t a que um s á b i o o c i d e n t a l foi fazer u m a visita a u m mestre 
o r i e n t a l e quis s a b e r o que t e r i a a a p r e n d e r , ainda. O o r i e n t a l , 
e n t ã o , p a g o u u m a x í c a r a d e . chá e C<?meçou a e n c h e r , e n c h e r , 
encher. E disse: " V o c ê j á chegou com a x í c a r a cheia. Q u e mais 
p o s s o o f e r e c e r ? " É isso: p r e c i s a m o s esvaziar a x í c a r a . 
A o b s e r v a ç ã o e o q u e s t i o n a m e n t o s ã o i m p o r t a n t e s em t o d o 
lugar, em t o d a a v i d a - inclusive em u m a s a l a de a u l a d e d a n ç a . 
É p r e c i s o o b s e r v a r a p e s s o a que está a s e u l a d o n a sala, desco-
b r i r p o r q u e · e l a é s i m p á t i c a o u a n t i p á t i c a e n o t a r quais as mus-
c u l a t u r a s que· regem d i a n t e dessa s i m p a t i a o u a n t i p a t i a . P o r isso, 
p e ç o sempr~ que os a l u n o s t r a b a l h e m c a d a d i a p e r t o d e u m a 
p e s s o a diferente, p a r a s e n t i r que existe essa c o i s a que n ã o sabe-
mos e x a t a m e n t e o q u e é e q u e v a g a m e n t e c h a m a m o s energia. 
O p r i m e i r o a p o i o , o a p o i o b á s i c o q u e t o d o s t e m o s é o solo. 
Mas mesmo em u m a s a l a d e a u l a d e d a n ç a a r e l a ç ã o c o m esse 
a p o i o é mínima. As vezes as pessoas e s t ã o d e i t a d a s n o c h ã o e 
p a r e c e m l e v i t a r : é m u i t o difícil o c o n t a t o , a e n t r e g a , a c o n f i a n ç a . 
Algumas p a r t e s do c o r p o se e n t r e g a m às pessoas e aos o b j e t o s , 
mas o u t r a s n ã o . 
Q u a nd o u m a t é c n i c a a r t í s t i c a n ã o t e m um s e n t i d o u t i l i t á r i o , 
se n ã o me a m a d u r e c e nem me faz crescer, se n ã o me l i v r a d e 
t o d o s os falsos conceitos que me são j o g a d o s desde a i n f â n c i a , 
se n ã o facilita meu c a m i n h o em direção a o a u t o c o n h e c i m e n t o -
e n t ã o n ã o faço arte, m a s a p e n a s u m a r r e m e d o d e arte. N ã o sou 
um b a i l a r i n o , mas u m mímico, o p i o r g ê n e r o de mímico. C o n h e -
5 7 
ço a p e n a s a f o r m a , q u e é fria, e s t á t i c a e r e p e t i t i v a e n u n c a m e 
a v e n t u r o n a g r a n d e v i a g e m d o m o v i m e n t o , q u e é v i d a e s e m p r e 
t e n t a n o s t i r a r d o ciclo n e u r ó t i c o d a r e p e t i ç ã o . 
Se a d a n ç a s e t o r n a a d u l t a em mim, se l e v a n t a r o b r a ç o é 
u m p r o c e s s o q u e c o n h e ç o i n t i m a m e n t e , q u e c o n h e ç o c o m o m e u , 
p o s s o e n t ã o c r i a r um gesto m a d u r o , i n d i v i d u a l . À m e d i d a q u e 
t r a b a l h a m o s , é p r e c i s o b u s c a r a o r i g e m , a e s s ê n c i a , a h i s t ó r i a d o s 
g e s t o s - f u g i n d o d a r e p e t i ç ã o m e c â n i c a d e f o r m a s v a z i a s e p r é -
f a b r i c a d a s . Só assim o t r a b a l h o r e s u l t a r á e m u m a c r i a ç ã o o r i g i -
n a l , e m u m a t é c n i c a q u e é m e i o e n ã o fim, p o i s a t é c n i c a só 
t e m u t i l i d a d e q u a n d o se t r a n s f o r m a em u m a s e g u n d a n a t u r e z a 
d o a r t i s t a . 
Se o b a i l a r i n o n ã o se t r a b a l h a c o m o s e r h u m a n o , c o m o p e s -
s o a , se n ã o t e m a m a d u r e c i m e n t o p a r a e n f r e n t a r s i t u a ç õ e s m a i s 
difíceis, s u a a r t e s e r á d e f i c i t á r i a . É assim t a m b é m n a a u l a : é p r e -
ciso q u e e u v i v e n c i e m u i t a s e m u i t a s vezes u m m o v i m e n t o . N ã o 
a d i a n t a e n t e n d ê - l o , r a c i o n a l i z a r c a d a g e s t o - é p r e c i s o r e p e t i r 
e r e p e t i r , p o r q u e é n e s s a r e p e t i ç ã o , c o n s c i e n t e e s e n s í v e l , q u e o 
gesto a m a d u r e c e e p a s s a a s e r meu. A p a r t i r d a í t e m o s a c a p a c i -
d a d e d e c r i a r m o v i m e n t o s p r ó p r i o s e c h e i o s d e i n d i v i d u a l i d a d e e 
b e l e z a . 
A d a n ç a m o d e r n a p r o p õ e e m p r i m e i r o l u g a r o c o n h e c i m e n t o 
d e si e o a u t o d o m í n i o . M i n h a p r o p o s t a é e s s a : a t r a v é s d o c o n h e -
c i m e n t o e d o a u t o d o m í n i o c h e g o à f o r m a , à m i n h a f o r m a - e 
n ã o o c o n t r á r i o . É u m a i n v e r s ã o q u e m u d a t o d a a e s t é t i c a , t o d a 
a r a z ã o d o m o v i m e n t o . A t é c n i c a n a d a n ç a t e m a p e n a s u m a 
f i n a l i d a d e : p r e p a r a r o c o r p o p a r a r e s p o n d e r à e x i g ê n c i a d o e s p í -
r i t o a r t í s t i c o . 
Dizem q u e vivemos n a e r a do c o r p o , d a p r e o c u p a ç ã o c o m 
a c h a m a d a e x p r e s s ã o c o r p o r a l , mas a f i r m o q u e n u n c a v i v e m o s 
5 8 
u m a a u s ê n c i a t ã o g r a n d e d o c o r p o : a p r e o c u p a ç ã o c o m o físico 
se t o r n o u o u t r a d r o g a , o u t r a f o r m a d e f u g a e a l i e n a ç ã o - e m 
vez d e á l c o o l , m a c o n h a o u c o c a í n a as p e s s o a s s e d r o g a m n a s 
a u l a s . 
Q u a n d o d i r i g i o B a l é d o T e a t r o M u n i c i p a l d e S ã o P a u l o 
m a n d e i c o l o c a r u m a c o r t i n a s o b r e o e s p e l h o d a s a l a d e a u l a . 
E m alguns d i a s t r a b a l h á v a m o s e m f r e n t e a o e s p e l h o , e m o u t r o s 
f i c á v a m o s sem ele. A p r o p o s t a e r a m u d a r a d i r e ç ã o d a p o s i ç ã o 
d e c a d a b a i l a r i n o n a s a l a . I s s o t o r n a a a u l a v i v a e, assim, e n t r a m 
em a ç ã o m u s c u l a t u r a s d i f e r e n t e s d o c o r p o . A o b r i g a t o r i e d a d e d a 
o b s e r v a ç ã o m e faz m a i s vivo, me faz o u v i r m a i s , m e f a z o l h a r 
c o m a t e n ç ã o , faz c o m q u e r e f l i t a e t e n h a i n f o r m a ç õ e s d i f e r e n t e s 
s o b r e m e u c o r p o . 
T o d o g e s t o t e m t r ê s fases: s u s t e n t a ç ã o , r e s i s t ê n c i a e p r o j e -
ç ã o . Q u a l q u e r g e s t o d e s t i t u í d o d e u m a d e s s a s fases p e r d e s u a 
i n t e n ç ã o . Q u a n d o d i z e m o s q u e F u l a n o t e m u m m o v i m e n t o c l a r o 
é p o r q u e F u l a n o t e m u m t r a b a l h o b e m - f e i t o e m s e u s g e s t o s , s u a 
m u s c u l a t u r a t r a z o s e n t i d o c o m u m a e s s a s t r ê s fases. P o r e x e m -
p l o : p r i m e i r o você p e n s a e m v i a j a r , s u s t e n t a e s s a i d é i a , d e p o i s 
r e s i s t e - a i n d a q u e t e m p o r a r i a m e n t e - e só e n t ã o a e x e c u t a . 
É u m a c a r a c t e r í s t i c a e x c l u s i v a m e n t e h u m a n a e s s a n e c e s s i d a d e d e 
t e m p o . N a d a n ç a é a m e s m a coisa. M a s é l ó g i c o q u e a p e s s o a 
n ã o p r e c i s a d e c o m p o r d e s s a f o r m a c a d a g e s t o n o p a l c o . 
É p r e c i s o m u i t a f l e x i b i l i d a d e m e n t a l p a r a d a n ç a r . A c h o q u e 
se n ã o se c o m e ç a r o t r e i n a m e n t o d o b a i l a r i n o p e l a c a b e ç a n u n c a 
se c h e g a r á a l u g a r a l g u m . P i n a B a u s c h d i z q u e e s c o l h e as p e s s o a s 
c o m q u e m v a i t r a b a l h a r n ã o p e l a t é c n i c a q u e e x i b e m , m a s p e l o 
q u e p e n s a m . E l a c o n v i v e c o m as p e s s o a s dois, t r ê s d i a s , e só 
e n t ã o as e s c o l h e - o u n ã o . A t é c n i c a , h o j e em d i a , t o d o m u n d o 
a p r e n d e . M a s a t é c n i c a n ã o é n a d a s e m as i d é i a s , a p e r s o n a l i d a d e 
d o b a i l a r i n o . 
5 9 
Toda a deformação da dança, no Brasil, começa no ensino. 
Quando eu estava na Escola de Bailados, em São Paulo, expli-
quei aos professores que a criança é um ser muito sensível, um 
ser humano em formação, que é preciso incentivar a curiosidade, 
as perguntas, o interesse pelas aulas, responder às dúvidas, ter 
cuidado com o tom de voz, explicar, explicar sempre. Ainda 
assim, vi professoras massacrando as alunas, repetindo palavras 
de ordem como "relaxa, relaxa, relaxa" e dizendo que foi o dire-
tor quem mandou. Na Bahia eu dizia aos professores que a nota 
dada aos alunos destinava-se no fundo a eles próprios, profes-
sores. Se a pessoa foi até ali para aprender, se quer descobrir a 
técnica da dança e o professor não tem competência para se 
comunicar, o problema não é do aluno: é o professor quem pre-
cisa se resolver. A nota que todo professor dá a um aluno é um 
reflexo de si mesmo. 
Todas as ansiedades, questionamentos e dúvidas têm origem 
e resposta em mim e isso determina minha postura frente ao 
mundo exterior. Aplicada a uma aula de dança, essa verdade 
toma vulto e as mesmas relações que existem no dia-a-dia aflo-
ram. Por isso não concordo com os que dizem que, ao entrarnuma sala de aula, é preciso deixar os problemas lá fora. Im-
possível, pois minhas angústias e tensões estão presentes em meu 
corpo, em meus gestos. Durante a aula é impossível camuflar, 
esconder o que sinto, o que trago do cotidiano. Em vez de repri-
mir esses sentimentos é possível trabalhá-los, dimensionando-os 
de forma mais equilibrada. ·É fundamental trabalhar com essa 
consciência. 
A repetição dos movimentos em uma sala de aula leva -
ou deveria levar - à observação de nossas dificuldades. Nossas 
articulações funcionam como alavancas que conduzem nossos mo-
vimentos. Se faço um movimento e coloco a tensão em um ponto 
que não é o ideal, meu corpo faz uma compensação de forças. 
60 
Somente a consciência do gesto me fará levar essa tensão para 
o ponto certo. 
• O que é uma técnica? Para mim, além de estética, a técnica 
tem que ter um sentido utilitário, claro e objetivo. De que me 
adianta saber fazer movimentos belos e complexos se isso não 
me amadurece nem me faz crescer? Se não me faz abandonar 
os falsos conceitos competitivos da dança e da arte, de que me 
adianta essa técnica? Um dos requisitos básicos de um movi-
mento é que ele seja claro e objetivo - a beleza surge daí. Toda 
verdade é forte e bela. A arte não é gratuita: se não aprendo 
com ela, se não cresço com ela, então é a mesma coisa que não 
fazer nada. Como bailarino, preciso colocar minha personalidade 
a serviço da dança e de cada personagem que faço. :E: ridículo 
ouvir pessoas dizendo, no final de um espetáculo, "puxa, como 
ela levanta alto a perna!" ou "como ele salta, que beleza!" O 
próprio público é conservador e busca o que existe de mais fácil 
na arte. Mas eu não diria que o papel do artista e o do bailarino 
é realçar esse lado conservador do público. 
A dança deve ser abordada a partir da sensibilidade, da 
verdade de cada um. O mesmo processo deve dirigir a construção 
dos personagens clássicos, para que se tornem clássicos e não 
acadêmicos. A chama de criatividade que leva à individualidade 
de cada artista, seu questionamento próprio - que é a mola 
propulsora da vida, da arte e de todo o conhecimento - é que 
devem dar o contorno desses personagens. 
O coreógrafo que chega com uma música qualquer e começa 
contando um, dois, três, quatro, o coreógrafo que não tem um 
trabalho de composição; que nunca estudou nem ouviu música 
' que não sabe o que está por trás daquela música, que não sabe 
o que é ritmo, o que é desenho de composição, o que é direção 
no espaço, que usa a música de uma forma arbitrária - Chopin, 
61 
V i l l a - L o b o s ou S t r a v i n s k i de u m a mesma m a n e i r a , c o m o se fos-
sem c o m p o s i t o r e s de u m a m e s m a é p o c a e de u m a ú n i c a visão 
e s t é t i c a - esse c o r e ó g r a f o n a d a a c r e s c e n t a ao c o n h e c i m e n t o e 
ao v o c a b u l á r i o a r t í s t i c o do b a i l a r i n o . 
E m g e r a l , m a n t e m o s o c o r p o a d o r m e c i d o . Somos c r i a d o s 
d e n t r o d e c e r t o s p a d r õ e s e ficamos a c o m o d a d o s n a q u i l o . P o r isso 
digo q u e é p r e c i s o d e s e s t r u t u r a r o c o r p o ; sem essa d e s e s t r u t u r a -
ç ã o n ã o s u r g e n a d a de novo. D e s e s t r u t u r a r significa, p o r e x e m p l o , 
p e g a r um e x e c u t i v o ou uma g r ã - f i n a , desses q u e b u s c a m as a c a -
d e m i a s de d a n ç a e, c o l o c a n d o - o s descalços n a s a l a de a u l a , f a z e r 
com q u e dêem c a m b a l h o t a s . E s s e é o c a m i n h o p a r a a d e s e s t r u -
t u r a ç ã o física, q u e d á e s p a ç o p a r a q u e o c o r p o a c o r d e e s u r j a 
o n o v o . N o fundo, é u m a m u d a n ç a de r i t m o : se v o u t o d o s os 
dias p e l o m e s m o c a m i n h o , n ã o olho p a r a mais n a d a , n ã o p r e s t o 
a t e n ç ã o em mim o u n o a m b i e n t e . Mas se p e n e t r o n u m a r u a des-
c o n h e c i d a , c o m e ç o a p e r c e b e r as j a n e l a s , os b u r a c o s n o c h ã o , 
despe~tando p a r a as pessoas que passam, os odores, os sons. Se o 
c o r p o n ã o e s t i v e r a c o r d a d o é impossível a p r e n d e r s e j a o q u e for. 
A p r i m e i r a coisa q u e um p r o f e s s o r p r e c i s a fazer é d a r u m 
c o r p o ao a l u n o . Mas como é possível d a r u m c o r p o a alguém? 
T o d o s s a b e m o s q u e o c o r p o existe, m a s s a b e m o s i n t e l e c t u a l m e n t e . 
Só n o s l e m b r a m o s dele q u a n d o surge algum p r o b l e m a , a l g u m a 
d o r , u m a febre. P a r a a c o r d a r esse c o r p o é preciso d e s e s t r u t u r a r , 
fazer com que a p e s s o a s i n t a e d e s c u b r a a e x i s t ê n c i a desse c o r p o . 
S o m e n t e aí é possível c r i a r um código pessoal, n ã o mais a q u e l e 
c ó d i g o q u e me d e r a m q u a n d o nasci e q u e v e n h o r e p e t i n d o d e s d e 
e n t ã o . 
O que p r o p o n h o é d e v o l v e r o c o r p o às pessoas. P a r a isso 
p e ç o que elas t r a b a l h e m c a d a a r t i c u l a ç ã o , m o s t r a n d o q u e c a d a 
u m a tem u m a f u n ç ã o e essa f u n ç ã o p r e c i s a de e s p a ç o p a r a t r a -
b a l h a r . D a m e s m a f o r m a , t a m b é m a m u s c u l a t u r a p r e c i s a d e es-
p a ç o : e l a se r e l a c i o n a aos ossos, existe u m a t r o c a c o n s t a n t e e n t r e 
e s s a m u s c u l a t u r a e o§' ossos. T u d o no c o r p o , n a vida, n a a r t e , 
é u m a t r o c a . 
O que p o s s o d a r às p e s s o a s são i n f o r m a ç õ e s p a r a q u e c r i e m 
s u a s d a n ç a s h o n e s t a m e n t e , c o m t é c n i c a s q u e s e j a m c o n v i n c e n t e s 
p a r a elas mesmas. I s s o faz s u r g i r u m e s t i l o p e s s o a l , p o r m a i s 
s e m e l h a n t e s q u e essas pessoas s e j a m e n t r e si. I s s o é o q u e e n -
t e n d o p o r c o n t e m p o r â n e o , m o d e r n o em d a n ç a . O q u e b u s c o é 
d a r e s p a ç o p a r a as i n d i v i d u a l i d a d e s : p o s s o t e r u m e s t i l o m e u e 
isso n ã o s e r á p r e j u d i c a d o q u a n d o e s t i v e r d a n ç a n d o em grupo. 
N a d a n ç a e em t o d a a r t e vivemos em f u n ç ã o d a f o r m a , d a 
a p a r ê n c i a , d a n e g a ç ã o d a essência. V i v e m o s o i m p é r i o d a f o r m a . 
A d a n ç a é u m a a r t e q u e exige m u i t o , é p r e c i s o t e r u m a 
c u l t u r a pelo m e n o s m e d i a n a , c o n h e c e r um p o u c o d a h i s t ó r i a d a 
d a n ç a , d a s a r t e s p l á s t i c a s , p a r a p o d e r s a b e r o d e s e n r o l a r d a s c o i -
sas d u r a n t e esses séculos. Se você o l h a p a r a a capoeira,_ d e s c o b r e 
u m a s e q ü ê n c i a s e m e l h a n t e à do b a l é p o r q u e e m a m b o s e x i s t e 
u m a c a d ê n c i a n a t u r a l de m o v i m e n t o s : a o m o v i m e n t o t a l c o r r e s -
p o n d e u m o u t r o . E u n ã o p o s s o q u e b r a r esse r i t m o , e s s a l i n h a ; 
o fluxo e o desenho dos gestos existem n a t u r a l m e n t e . N ã o posso 
i r c o n t r a essa s e q ü ê n c i a , a n ã o s e r p r o p o s i t a l m e n t e - m a s mes-
mo p a r a isso p r e c i s o c o n h e c e r a d a n ç a , a h i s t ó r i a d a d a n ç a : n ã o 
p o s s o m o d i f i c a r a l í n g u a inglesa sem c o n h e c e r p r o f u n d a m e n t e 
essa língua. E x i s t em r e g r a s n a a r t e e n ã o p o s s o i r c o n t r a e l a s 
sem q u e as c o n h e ç a . 
A e n e r g i a do c o s m o é uma e s p i r a l e essa e n e r g i a se r e p e t e 
n o c o r p o h u m a n o . Q u a n d o é i n t e r r o m p i d a , o u q u a n d o n ã o t e m o s 
c o n s c i ê n c i a de s u a e x i s t ê n c i a , os m o v i m e n t o s t o r n a m - s e a l e a t ó -
rios e p e r d e m p s n o s s a i n d i v i d u a l i d a d e . E n t ã o , q u a n d o u m a técni-
6 3 
c a faz c o m q u e as p e s s o a s p r e n d a m o j o e l h o , a p e r t e m a b u n d à 
e e s t u f e m o p e i t o , sem s a b e r o motivo p a r a isso, sem r e s p e i t a r 
a i n d i v i d u a l i d a d e de c a d a iun, o c o r p o d e i x a d e se r e l a c i o n a r 
c o m o a m b i e n t e , c o m o u n i v e r s o , c o m s u a p r ó p r i a n a t u r e z a . N ã o 
p o s s o i n v e n t a r , f a b r i c a r m o v i m e n t o s a p a r t i r d o n a d a p o r q u e t u d o 
tem um s e n t i d o m u i t o p r o f u n d o , t u d o tem u m a r a z ã o m a i o r . 
N ã o p o d e m o s ficar longe desse c i r c u i t o e n e r g é t i c o q u e é a r e l a -
ç ã o e n t r e m i c r o c o s m o e m a c r o c o s m o . 
Um b a i l a r i n o se t o r n a c o r e ó g r a f o , n o B r a s i l , p o r o b r a e 
g r a ç a do D i v i n o E s p í r i t o S a n t o . N ã o existe q u e m ensine, n ã o 
existe a u l a de c o m p o s i ç ã o ; enfim, essas coisas p r i m á r i a s q u e u m a 
c o r e o g r a f i a exige, q u e são a n ã o - v i o l e n t a ç ã o d a música, d o e s p a -
ço, d o s p l a n o s . T o d o esse p r o c e s s o t e m r e g r a s e limites. P o r isso 
a d i f i c u l d a d e p a r a e n c o n t r a r b o n s c o r e ó g r a f o s : em geral, eles c h e -
gam à c o r e o g r a f i a sem v i v e n c i a r a d a n ç a , sem c o n h e c e r d e t a l h e s 
básicos. E , n o e n t a n t o , se p r o p õ e m a c o m e ç a r c o r e o g r a f a n d o t r a -
balhos u l t r a m o d e r n o s . Mas que n ã o são u l t r a m o d e r n o s coisa 
a l g u m a : t ê m f o r m a s q u e se p r e t e n d e m m o d e r n a s , m a s u m a c o n -
c e p ç ã o u l t r a p a s s a d a e antiga. 
Q. e s p a ç o é u m a c o i s a l i m i t a d a e, p a r a d o x a l m e n t e , s e m limi-
tes. C o m o t u d o n a vida. A o d a n ç a r n ã o p o d e m o s p e r d e r d e 
v i s t a e s t a n o ç ã o : somos o c e n t r o do e s p a ç o q u e n o s c e r c a e n e l e 
existimos c o m o i n d i v í d u o s , c o m o pessoas, c o m o seres h u m a n o s , 
e s t a b e l e c e n d o n o s s a r e l a ç ã o c o m o m u n d o . 
O r i t m o do Universo é c o m p o s t o de e x p a n s ã o e r e c o l h i -
m e n t o . Somos t a m b é m e x p a n s ã o e r e c o l h i m e n t o , c a d a c é l u l a é 
e x p a n s ã o e r e c o l h i m e n t o . T e m o s t o d o s u m r i t m o c o m u m e uni-
versal e c a d a a r t i s t a , a t o r o u b a i l a r i n o p r e c i s a a t u a r r e s p e i t a n d o 
esse ritmo. P o r isso n o s s e n t i m o s t ã o mal q u a n d o assistimos a 
um e s p e t á c u l o o n d e u m a r t i s t a t r a b a l h a f o r a desse r i t m o . E s s a 
e x p a n s ã o e esse r e c o l h i m e n t o têm h a r m o n i a e s ã o c a p a z e s d e 
64 
c r i a r u m m o v i m e n t o - r e s p o s t a d e n t r o de mim. N ã o p o s s o l u t a r 
c o n t r a isso, p o r q u e s e n ã o e s t a r e i i n d o c o n t r a a n a t u r e z a , q u e tem 
de s e r e n t e n d i d a e r e s p e i t a d a . 
O único m o m e n t o em q u e sinto que h o u v e m o d i f i c a ç õ e s em 
mim e no meu t r a b a l h o é n a sala de aula, p o r q u e t u d o o que 
a c o n t e c e comigo m o d i f i c a a m i n h a aula, a m i n h a m a n e i r a de e n -
c a r a r u m exercício. S ã o e l e m e n t o s que e n c o n t r o n a s r u a s , n a 
v i d a e q u e in~onscientemente levo p a r a a s a l a de aula. P o r isso 
meus t e r a p e u t a s dizem s e m p r e que e u n ã o t e r i a c o m o v i v e r se 
n ã o fossem m i n h a s aulas. :É lá que me limpo, me e x p o n h o , me 
d e s c u b r o . São m i n h a s p r ó p r i a s dificuldades que c o l o c o n a s a l a 
de a u l a . 
N u m p r o c e s s o de a p r e n d i z a d o é n e c e s s á r i o r e c o n h e c e r e lo-
c a l i z a r a m u s c u l a t u r a , s e n t i r como ela t r a b a l h a , quais os movi-
m e n t o s q u e p o d e g e r a r , as diversas i n t e n ç õ e s q u e p o d e t r a n s -
m i t i r , seu e n c u r t a m e n t o , seu a l o n g a m e n t o . F i c o s e m a n a s a t e n t o 
a isso em meu c o r p o . P a r a mim, esse q u e s t i o n a m e n t o é uma 
necessidade pessoal. N ã o consigo e s t i p u l a r coisas d o gênero " h o j e 
vou d a r a u l a s o b r e a p e r n a e s q u e r d a " , " a m a n h ã s o b r e a i m p o r -
t â n c i a dos o l h o s " . Sem s e g u i r um p r o g r a m a convencion:::J d e 
a u l a s , m a s me g u i a n d o p e l a m i n h a n e c e s s i d a d e de r e s p o s t a s , a c h o 
q u e consigo r e v e l a r c a m i n h o s aos alunos, p a r a que c a d a u m b u s -
q u e as p r ó p r i a s v e r d a d e s de seu c o r p o . 
A d a n ç a é u m a t o de p r a z e r , d e vida, e só d e i x a d e s e r 
p r a z e r o s a e viva n o m o m e n t o em q u e p a s s a a s e r g i n á s t i c a , exer-
cício, c o m p e t i ç ã o de f o r ç a e d e ego. U m a a u l a n ã o p o d e e x c l u i r 
a e m o ç ã o : é p r e c i s o i n c o r p o r á - l a à aula. E n t ã o s o u eu, com 
m i n h a p e r c e p ç ã o , meus c o n h e c i m e n t o s , vivências e e m o ç õ e s q u e m 
vai e s c o l h e r o l u g a r n a s a l a , q u e m vai l e v a n t a r o b r a ç o , q u e m 
vai r o d o p i a r - n ã o é m i n h a p e r n a q u e vai s u b i r p o r q u e o 
p r o f e s s o r m a n d o u . 
65 
Os movimentos surgem a partir das emoções particulares de 
cada um e se transformam em arte quando encontram uma lin-
guagem universal, já que o ser humano tem uma essência comum. 
A energia brinca no meu corpo e quando faço um movi-
mento que joga essa energia para fora há um retomo que vem 
em forma de espiral: é a pirueta, o giro, tão presentes nas co-
reografias clássicas. A dança não é um ato aleatório, que você 
cria de qualquer forma, a partir do nada: a dança tem conceitos 
rígidos - mesmo lsadora Duncan tinha conceitos estabelecidos, 
por mais livres que fossem suas propostas. Ela não fez o que 
bem entendeu; quis ser coerente com a natureza e com o corpo 
humano. 
Para dominar uma técnica é preciso incorporá-la inteira-
mente: só assim o movimento flui com naturalidade e o bailarino 
dança como respira. Então já não há mais preocupação em se-
guir uma técnica. Por isso, costumo dizer a meus alunos: eu não 
danço; eu sou a dança. É o que gostaria que todo bailarino 
sentisse. 
É preciso jogar com os opostos também em nosso corpo. 
Para conhecer o exato grau de relaxamento de um músculo é 
preciso antes ter experimentado a tensão. Para conhecer a im-
portância do espaço entre as articulações é preciso ter sofrido 
com a falta de espaço. Só depois de nos sentirmos presos sabo-
reamos o exato sabor da liberdade. 
Temos que criar espaço para as alternâncias. Uma idéia de 
elevação não é transmitida somente, por exemplo, pela elevação 
contínua dos braços. Essa idéiapode conter um jogo de opostos 
- posso conduzir meus braços (assim como as pernas, o tronco) 
também para baixo, sem deixar de transmitir a idéia de elevação 
66 
(porque a queda também faz parte da elevação, uma não existe 
sem a outra). Na ida de um gesto está contida também a vinda: 
é o que chamo de intenção e contra-intenção muscular. 
Proponho a meus alunos que cada um encontre sua própria 
forma de dançar, que cada um incorpore meus ensinamentos e 
os expresse como quiser, como puder. Cada um deve usar sua 
musculatura dentro de um processo próprio, seguindo uma estru-
tura de movimentos proposta por mim, mas cuja utilização é 
pessoal. 
O balé clássico nunca esteve desligado do mundo em volta: 
nasceu em uma sociedade decadente, sustentou a corte francesa 
durante um tempo porque se fazia dança para que os nobres se 
esquecessem dos problemas políticos. Hoje é impossível estabele-
cer uma única técnica contemporânea; impossível porque não 
existe mais uma única visão do mundo. Por que o clássico, o 
moderno, o jazz, o neoclássico? Porque temos necessidade de 
várias respostas, várias saídas. Não podemos aceitar técnicas 
prontas, porque na verdade as técnicas de dança nunca estão 
prontas: têm uma forma, mas no seu interior há espaço para o 
movimento único, para as contribuições individuais, que mudam 
com o tempo. Essas técnicas continuarão existindo enquanto exis-
tir a dança, enquanto existirem bailarinos. Taglioni e Pavlova não 
reconheceriam o balé clássico que se dança hoje em dia - que, 
na essência, é o mesmo balé clássico de outros tempos. O balé 
clássico não é dessa ou daquela forma: o balé clássico está em 
movimento e continuará existindo enquanto fizer parte do mundo 
em que vivemos. A evolução está em todo lugar e a dança não 
escapa dessa lei. 
67 
V I I 
P e l a c r i a ç ã o d e u m b a l é n a c i o n a l 
( E m 1 9 5 6 , pela p r i m e i r a v e z n o p a í s , p u b l i q u e i u m a r t i g o na 
i m p r e n s a n o q u a l fiz u m a a n á l i s e da s i t u a ç ã o da dança brasileira. 
M a i s de três d é c a d a s d e p o i s , o s p r o b l e m a s e a m e n t a l i d a d e q u e 
d e n u n c i e i c o n t i n u a m p r a t i c a m e n t e os m e s m o s . E s t e artigo foi p u -
b l i c a d o o r i g i n a l m e n t e e m O G l o b o , e m B e l o H o r i z o n t e , e a l g u n s 
t r e c h o s f o r a m r e p u b l i c a d o s n o J o r n a l d o B r a s i l e m 1 9 7 5 ). 
Um g r a n d e m o v i m e n t o r e n o v a d o r tem-se r e a l i z a d o u l t i m a -
m e n t e d e n t r o d o t e a t r o b r a s i l e i r o , a b r a n g e n d o t o d o s os s e t o r e s : 
d i r e ç ã o , i n t e r p r e t a ç ã o , e s c o l h a de a r g u m e n t o s , d e c o r a ç ã o . G r u p o s 
de a m a d o r e s e de u n i v e r s i t á r i o s e m p r e e n d e m r e a l i z a ç õ e s t ã o 
a r r o j a d a s q u e h á p o u c o s a n o s d i r - s e - i a impossível a s u a r e a l i z a ç ã o . 
H á p l a t é i a c o m p e n s a d o r a p a r a t o d o s esses e m p r e e n d i m e n t o s e os 
l u c r o s c o l h i d o s a t e s t a m a s e g u r a n ç a d a i n i c i a t i v a . 
N ã o p o d e m o s c o n s i d e r a r a e x i s t ê n c i a de u m t e a t r o b r a s i l e i r o 
p r o p r i a m e n t e d i t o , mas é de se e s p e r a r que d e n t r o de p o u c o 
t e m p o v e n h a m o s a tê-lo: as n o v a s a g r e m i a ç õ e s p r o f i s s i o n a i s o u 
de a m a d o r e s q u e se m u l t i p l i c a m , as escolas que se f u n d a m , o 
a p a r e c i m e n t o r e c e n t e de u m a c r í t i c a n a c i o n a l e s c l a r e c i d a e as 
p e ç a s de v a l o r q u e alguns de nossos a u t o r e s t ê m p r o d u z i d o , t u d o 
isso v i r á c e r t a m e n t e t e r c o m o fim o a p a r e c i m e n t o d o t e a t r o b r a s i -
l e i r o , c o m c a r a c t e r í s t i c a s p r ó p r i a s . 
68 
E n t r e t a n t o , se a t e n t a r m o s p a r a um o u t r o s e t o r d a a r t e c ê n i c a , 
o b a l é , n o t a r e m o s q u e a s i t u a ç ã o é d i f e r e n t e : a í i m p e r a u m a 
d e s o r g a n i z a ç ã o q u a s e c o m p l e t a e a d e s a g r e g a ç ã o d o t r a b a l h o 
c o n s e g u i d o . H á f a l t a d e p l a t é i a p a r a o b a l é ? N ã o . A l g u m a s i n i c i a -
t i v a s , c o m o a d o b a l é d a J u v e n t u d e , de I g o r Schwezoff, d e m o n s -
t r a r a m c a b a l m e n t e a e x i s t ê n c i a de um g r a n d e · p ú b l i c o p a r a esta 
a r t e , o u seja, a m e s m a p l a t é i a d o n o s s o t e a t r o c h a m a d o de elite. 
P a r e c e mais s e g u r o , pois, q u e . esta d e f i c i ê n c i a t e n h a o r i g e m 
n o n o s s o p r ó p r i o b a l é , ou s e j a , n a f a l t a de o r i g i n a l i d a d e e de 
q u a l i d a d e í n t i m a . E s t a s i t u a ç ã o c o n t r a s t a , e n t r e t a n t o , c h o c a n t e -
m e n t e , com a das e s c o l a s de d a n ç a . M e s t r e s de v a l o r c o m o 
Schwezoff, V e l t c h e k , O l e n e w a e, a t u a l m e n t e , C a r l o s L e i t e e M a d e -
leine R o s a y , p o s s u e m escolas r e p l e t a s de a l u n o s de a m b o s os 
sexos, a n i m a d o s p o r u m i d e a l e a m b i ç ã o p r o f i s s i o n a l . E n t r e t a n t o , 
se alguns c o r e ó g r a f o s de r e n o m e i n t e r n a c i o n a l l o g r a r a m f o r m a r 
e n t r e nós u m a g e r a ç ã o de b a i l a r i n o s - alguns d e l e s d o t a d o s de u m 
t a l e n t o e x c e p c i o n a l - e s t a m e s m a g e r a ç ã o se r e s s e n t e d a f a l t a 
de u m c u n h o de o r i g i n a l i d a d e e isso p o r q u e p r o c u r a s e g u i r , p a s s o 
a p a s s o , os m o d e l o s r u s s o s o u f r a n c e s e s , p o d e n d o - s e d i z e r o 
m e s m o dos c o r e ó g r a f o s n a c i o n a i s . 
O que p r e t e n d e m , assim? M o t i v o s e u r o p e u s , d é c o r s f r a n c e s e s 
e c o r e o g r a f i a s r u s s a s e t e r n a m e n t e p a r a a p l a t é i a n a c i o n a l ? Se 
assim é, p o d e - s e a l e g a r q u e as c o m p a n h i a s e s t r a n g e i r a s que n o s 
t ê m v i s i t a d o p o d e m d e s e n c u m b i r - s e dessa t a r e f a c o m m a i s eficiên-
cia. P o r o u t r o l a d o , esses jovens a r t i s t a s b r a s i l e i r o s t e r m i n a m p o r 
a b a n d o n a r a c a r r e i r a d e v i d o à d i f i c u l d a d e de v e n c e r n o seu 
p r ó p r i o a m b i e n t e ou p a r a se e n g a j a r e m em c o m p a n h i a s e s t r a n -
geiras. A l g u n s p o u c o s d e d i c a m - s e e n t ã o a o e n s i n o de u m a g e r a ç ã o 
mais j o v e m , t r a n s m i t i n d o e x a t a m e n t e a q u i l o q u e r e c e b e r a m dos 
seus m e s t r e s e s t r a n g e i r o s , e é de se p r e v e r que essa g e r a ç ã o mais 
j o v e m e s t e j a d e n t r o em p o u c o na m e s m a s i t u a ç ã o d a que a 
p r e c e d e u . 
E a t é q u a n d o isso? A t é p e r c e b e r e m q u e j á é t e m p o de o r i e n -
t a r e m seus e s f o r ç o s n a c r i a ç ã o de um b a i l a d o b r a s i l e i r o . A g r a n -
6 9 
deza do balé russo deve-se à assimilação do caráter regional 
russo. É realmente um balé russo baseado na técnica acadêmica, 
assim como o balé italiano é italiano e o francês é realmente 
francês, enquanto o nosso balé não será russo e muitomenos 
brasileiro. 
O bailado dramático no Brasil está, pois, fadado ao desapa-
recimento completo ou à subsistência medíocre, a não ser que uma 
volta brusca no leme que o dirige leve-o para as águas regionais. 
Na verdade, não se pode negar que já foram realizados números 
de balé com elementos brasileiros, tais como Yara ou Uirapuru. 
Entretanto, não tiveram a repercussão desejada e não parecem 
frutos de uma tendência, de uma idéia que tenda a generalizar-se, 
a fundar escolas, a traçar novos rumos. 
Apresentam-se mais como incidentes sem repercussão. Quanto 
à dança estilizada brasileira, tal como vem sendo apresentada 
por alguns bailarinos especializados, não oferece recursos dramá-
ticos ou de expressão. Sua técnica mostra-se muito pobre e, para 
supr,ir essa deficiência, são empregados recursos antiartísticos -
e portanto nocivos - que impedem a esse gênero alcançar um 
desenvolvimento formal refinado e artístico propriamente dito, 
relegando-o, ao contrário, ao campo da subarte. 
O balé brasileiro, para alcançar o seu grau de expressão 
máxima, deve ser baseado na técnica acadêmica. E aqui convém 
que seja desfeito um mal-entendido usual entre nós. Errado é o 
conceito assaz generalizado de que o bailado clássico esteja 
subjugado a uma técnica antiquada e já sobrepujada hoje em dia 
pelas experiências de Isadora Duncan, Ida Rubinstein, Maria 
Wigman, Harold Kreutsberg, Martha Graham e Kurt Jooss. 
A técnica que serve à dança clássica vem-se desenvolvendo 
desde o final do século XV, data da criação do bailado acadê-
mico italiano, até os nossos dias. Pode-se mesmo dizer que quase 
todas as possibilidades dançantes do corpo humano foram leva-
das em conta por seus mestres e estudadas detalhadamente, du-
70 
rante todo esse longo período. As cinco posições fundamentais do 
balé clássico e todas as suas inumeráveis derivadas formaram o 
meio técnico mais longamente pesquisado, um verdadeiro alfabeto 
de linguagem dançante. 
Erradamente considera-se 'clássica' toda dança baseada na 
técnica acadêmica. Esta forma de julgar é resultado de uma 
superestimação de valores, pois advém de se tomar como meio de 
identificação exclusivamente o elemento técnico e não o conteúdo 
subjetivo de um balé. Um Bacanal ou um Colóquio sentimental, 
já apresentados entre nós, são tão modernos em suas caracterís-
ticas e na sua essência como a Mesa verde. de Kurt Jooss. ou 
O penitente. de Martha Graham. 
Assim como na pintura: os pincéis, a paleta, a tinta, as cores 
e sua combinação são os meios usados de Da Vinci a Picasso para 
a fixação da obra de arte pictórica. Assim também no bailado 
artístico as cinco posições e suas derivadas são os instrumentos 
mais aperfeiçoados até hoje para a sua fixação. 
Qualquer reforma no bailado necessita partir do próprio 
bailado, levando-se em consideração seu desenvolvimento até 
então. Em sua revolta, Isadora Duncan desprezou o elemento técni-
co do bailado clássico, mas seu movimento não visava a modi-
ficá-lo e sim a ignorá-lo totalmente, eliminá-lo, e o resultado 
dessa atitude foi que sua técnica improvisada e pobre não pode 
perdurar como meio altamente elevado de expressão. 
Hoje, a crítica especializada. representada por altos valores 
como Herald Haskell, André Levison ou Sérgio Lipar, é acorde 
no pronunciamento de que o sucesso de lsadora Duncan não 
passou de um êxito pessoal, embora lhe seja irrestritamente reco-
nhecido o valor da iniciativa como agente modificador da diretriz 
espiritual do bailado dito clássico. . 
O movimento Duncan, embora pretensamente baseado na 
dança grega, não se ligava realmente à tradição do bailado e, 
portanto, foi reduzido a um movimento marginal do ponto de vista 
71 
da contribuição técnica. Foi "externo" quando, para ser dura-
douro, deverià ter partido de dentro para outra direção qualquer. 
Este fato deixou bem claro que qualquer reforma técnica do balé 
só poderá ser baseada no ecletismo e não na ignorância total dos 
princípios acadêmicos. Mostrou-nos também que cinco séculos de 
pesquisas não podem ser desprezados nem substituídos por uma 
improvisação que. embora geniaL após o calor da repercussão como 
novidade virá mostrar fatalmente uma extrema indigência. 
É claro que essa consideração não pode ser estendida ao 
movimento 'idéia', à inovação do que há de subjetivo no balé, 
pois há aí uma unidade absoluta e toda a iniciativa revolucionária 
pode vir a mostrar-se como força capaz de conseguir seu objetivo. 
Foi o que aconteceu com a influência salutar que sofreu o balé 
clássico, tocado pela diretriz expressionista do movimento Duncan. 
Entretanto - e deve ser sublinhado novamente - para servir 
no terreno das idéias é necessária a modificação técnica do balé, 
faz-se mister executar uma verdadeira modificação, ou seja, a 
reforma técnica partindo dessa mesma técnica, levando-a em con-
side~ação. 
Assim tem acontecido durante toda a história da pintura e é 
de presumir que ocorra em todo terreno artístico. Para a criação 
do bailado artístico de caráter brasileiro seria necessário o estabe-
lecimento de bases na técnica acadêmica, ou seja, aquela que se 
encontra hoje elevada ao grau mais avançado. 
Pode-se deduzir, pois, que a única tradição russa do bailado 
era - a exemplo do que ocorre no Brasil - a dança popular, 
sem a qual a forma técnica poderia no máximo ter-se desenvol-
vido paralelamente à francesa ou à italiana, isentando-a do caráter 
marcante que a distingue. A contribuição da cultura regional está 
hoje positivada como fator imprescindível na criação da obra de 
arte original de um povo. É o único elemento que lhe pode empres-
tar realmente um caráter próprio, que a fará distinguir-se aos 
olhos do mundo por uma estranha beleza e poesia, reveladas com 
grande força e originalidade. Para ser entendida universalmente, é 
72 
necessário que a obra de arte seja sincera e tal sinceridade somente 
é conseguida quando surge de todos os elementos culturais que 
contribuíram para a formação do artista. 
Ora, além dos valores culturais estrangeiros assimilados pélo 
artista, assim mesmo sob a refração regional, existem outros fato-
res puramente regionais - de ordem psicológica ou de ordem 
ambiente - que são os participantes mais profundos dessa for-
mação. 
Isto é sabido e é por essa razão que o artista, embora possa 
sentir a seu modo a obra de arte estrangeira, não poderá enqua-
drar a sua própria criação dentro dos moldes espirituais que 
originaram aquela. Quando assim pretende fazer não consegue 
senão enfraquec'er o seu ímpeto inicial, pela distorção que se 
verifica, empobrecendo a obra e tornando-a um meio termo sem 
originalidade e sem expressão. 
Tanto isso é verdade e já amplamente aceita que mesmo na 
nossa literatura ou nas nossas artes os únicos valores universais 
são aqueles que não se afastaram da inspiração regional; antes 
aceitaram-na como elemento participante da sua própria persona-
lidade e, por meio dela, obtiveram uma forma de expressão mais 
aperfeiçoada e mais bela, como no caso de Machado de Assis, 
Euclides da Cunha, Portinari, Villa-Lobos ou Mignone. 
Levando isso em consideração no terreno da dança, apresen-
ta-se-nos, em primeiro lugar, a natureza mesma do povo brasi-
leiro, extremamente inclinada a ela. E em seguida a força latente 
para a sua execução com que nos dotaram as heranças africana, 
ibérica e indígena, principalmente as duas primeiras. Podemos até 
afirmar que na herança afro-ibérica a tradição dançante é uma 
das mais fortes. senão a mais forte no terreno artístico. 
O não-aproveitamento dessa riquíssima fonte, assim como o 
da literatura folclórica, da pintura c da música brasileira - que 
já principiam a tomar um rumo tão definido - aparecem como 
elementos extremamente propícios paraum desenvolvimento de 
73 
um b a l é n a c i o n a l q u e possa vir a ser a p r e s e n t a d o c o m c a r a c t e r í s -
t i c a s p r ó p r i a s e m a r c a n t e s . A e x e m p l o d o q u e foi f e i t o n a R ú s s i a , 
a i n t r o d u ç ã o de novos p a s s o s r e g i o n a i s n a t é c n i c a a c a d ê m i c a e o 
a p r o v e i t a m e n t o dos e l e m e n t o s a r t í s t i c o s p u r a m e n t e n a c i o n a i s vi-
r i a m e n r i q u e c e r e x t r e m a m e n t e o b a l é m u n d i a l , r e v e l a n d o n a d a n ç a 
o m u n d o d a beleza e d a p o e s i a b r a s i l e i r a s . S e r á esse u m s o n h o 
vão? N ã o me parece. 
7 4 
A t é c n i c a 
I 
A h a r m ô n i c a i n c o e r ê n c i a 
T o d a essa i n t r o d u ç ã o n ã o a p e n a s j u s t i f i c a mas t a m b é m explica 
c o m o começou esse t r a b a l h o . E r a s e m p r e um c o n f l i t o e com o 
c o n f l i t o surge o m o v i m e n t o . No c o r p o , n a c a s a , n a vida. Mas o 
q u e g e r a esses c o n f l i t o s ? 
Só mais t a r d e d e s c o b r i que o e s p a ç o e x i s t e n t e e n t r e as o p o s i -
ções g e r a v a os c o n f l i t o s , assim c o m o a m a n e i r a de expressá-los. 
F o i e n t ã o q u e n'Jtci a i m p o r t â n c i a do meio, o u seja, a vivência 
e n t r e o p r i n c í p i o e o fim, o espaço i n t e r m e d i á r i o . 
Assim, a c o n f i g u r a ç ã o do e s p a ç o g e r a d o p o r um m o v i m e n t o 
é mais i m p o r t a n t e do q u e o movimento em si: é nesse i n t e r v a l o 
q u e se p a s s a m a e m o ç ã o , as projeções. A vida em m o v i m e n t o e s t á 
nesse espaço. É a s a b e d o r i a de viver nem t a n t o l á nem t a n t o cá. 
É e s t a r p r e s e n t e a c a d a m o m e n t o , assim c o m o n ã o d e i x a r e s c a p a r 
a i n t e n ç ã o de um m o v i m e n t o e n q u a n t o ele se realiza n e m a n t e c i p a r 
m e n t a l m e n t e s e u fim. 
Mas o c o n f l i t o p r e c i s a de e s p a ç o , g r a n d e o s u f i c i e n t e p a r a 
d e m o n s t r a r com a p r e s e n ç a dos o p o s t o s a v e r d a d e i r a i n t e n ç ã o 
dos gestos. Só com a c o n s c i ê n c i a d a existência de o u t r a s possibi-
l i d a d e s p a r a a r e s o l u ç ã o de um p r o b l e m a é q u e se é c a p a z de c o n -
d e n s a r essas p o s s i b i l i d a d e s em um gesto único, q u e c o n t e n h a 
todos os a n t a g o n i s m o s . Se t e n h o a p e n a s uma p o s s i b i l i d a d e p a r a 
a r e s o l u ç ã o de um p r o b l e m a e d a i n t e n ç ã o de um gesto, n ã o 
77 
existe a f l e x i b i l i d a d e q u e u m a e x p e r i ê n c i a com v á r i a s p o s s i b i l i -
d a d e s o f e r e c e . 
C o m o n a vida, q u a n d o se q u e s t i o n a só um l a d o d o c o n f l i t o , 
ele n ã o t e r á s o l u ç õ e s e c o n t i n u a r á s e m p r e um p r o b l e m a . O mesmo 
se a p l i c a a o gesto. Q u a n d o é d i r e c i o n a d o , sem as o p o s i ç õ e s n a t u -
r a i s e sem o c o n h e c i m e n t o d o seu c ó d i g o n o e s p a ç o , n u n c a t e r á 
uma i n t e n ç ã o : é um gesto a l e a t ó r i o , f o r m a l . 
T o d o r e s u l t a d o de um gesto, o u de uma a ç ã o , p r o v é m d o 
e s p a ç o e x i s t e n t e e n t r e a o p o s i ç ã o de d o i s c o n c e i t o s . Seu g e r a d o r 
é s e m p r e p a r , a i n d a q u e essa l i g a ç ã o se f a ç a a t r a v é s d e u m 
a p a r e n t e d i s t a n c i a m e n t o . É a lei d a h a r m ô n i c a i n c o e r ê n c i a d a 
vida: t o d o t r a b a l h o c o r p o r a l , se a n a l i s a d o sob u m só â n g u l o , é 
i n c o e r e n t e . Mas u n i d o a o t o d o surge a h a r m o n i a . 
D u a s F o r ç a s O p o s t a s g e r a m um C o n f l i t o , que g e r a o Movi-
m e n t o . E s t e , ao s u r g i r , se s u s t e n t a , reflete e p r o j e t a s u a i n t e n ç ã o 
p a r a o e x t e r i o r , n o espaço. N o c o r p o este f e n ô m e n o se i n i c i a n o 
m o m e n t o em que d e s c u b r o a i m p o r t â n c i a d o solo e a ele me e n t r e g o 
e r e s p e i t o . 
E s t a é a p r i m e i r a fase, a d a g e r m i n a ç ã o , a d a e n t r e g a . Só 
q u a n d o d e s c u b r o a g r a v i d a d e , o c h ã o , a b r e - s e e s p a ç o p a r a q u e o 
m o v i m e n t o crie raízes, seja mais p r o f u n d o , c o m o u m a p l a n t a 
q u e só cresce a p a r t i r d o c o n t a t o í n t i m o c o m o solo. 
Só dessa forma surge a o p o s i ç ã o , a r e s i s t ê n c i a q u e vai a b r i n d o 
e s p a ç o e n t r e os ossos, s e g u i n d o s u a d i r e ç ã o nas a r t i c u l a ç õ e s . 
À m e d i d a que vou s e n t i n d o o solo, e m p u r r a n d o o c h ã o , a b r o 
e s p a ç o p a r a m i n h a s p r o j e ç õ e s i n t e r n a s , i n d i v i d u a i s , q u e , à me-
d i d a que se e x p a n d e m , me o b r i g a m a uma p r o j e ç ã o p a r a o 
e x t e r i o r . 
A o i n i c i a r q u a l q u e r coisa - uma a m i z a d e , uma r e l a ç ã o a m o -
rosa, um c u r s o q u a l q u e r - , a p r i m e i r a fase é de p u r o e n c a n t a -
m e n t o . T u d o é belo e novo. S o m e n t e d e p o i s i n i c i a - s e a a d o l e s -
c ê n c i a d o p r o c e s s o , o n d e a r e v o l t a , a c r í t i c a e a busca de novas 
f ó r m u l a s é uma c o n s t a n t e . 
78 
Mas é preciso r e c o n h e c e r o local d o c o r p o o n d e surge a 
o p o s i ç ã o à f o r ç a que vem d o solo: g e r a l m e n t e se s i t u a em p o n t o s 
em q u e nossa t e n s ã o é m a i s f r e q ü e n t e . O m b r o s , l í n g u a , mão, b o c a , 
c o l u n a c e r v i c a l , d i a f r a g m a . É nesse p o n t o de t e n s ã o que c o l o c a m o s 
nosso e q u i l í b r i o - quase n u n c a nos pés. 
P á r a - r a i o s de e n e r g i a a c u m u l a d a , os pés f a c i l i t a m a d i s t r i -
b u i ç ã o dessa e n e r g i a pelas d i v e r s a s p a r t e s do c o r p o , q u a n d o bem 
utilizados. N o e n t a n t o , a n d a m o s em c i m a dos o m b r o s , c o r r e m o s 
c o m a língua: a f o r ç a e s t á s e m p r e c o n c e n t r a d a n a s p a r t e s e r r a d a s . 
Um exemplo: q u a n d o se p e d e u m g r a n d - j e t e a u m a b a i l a r i n a 
é c o m u m d e s c o b r i r que e l a s c o s t u m a m c o l o c a r a t e n s ã o n o pes-
c o ç o . N ã o p e r c e b e m q u e , c o m o p é bem c o l o c a d o , s e n t i n d o o c h ã o , 
essa e n e r g i a se d i s t r i b u i . O p é t a m b é m d e n u n c i a n o s s a r e l a ç ã o com 
a v i d a , ao p i s a r m o s b r i g a n d o com o s o l o , i g n o r a n d o , d e s l i z a n d o , 
a é r e o s ou i n d i f e r e n t e s . 
A o d i v i d i r m o s os e s p a ç o s nos l o c a l i z a m o s d e n t r o deles. E s t a -
b e l e c e m o s seus limites, c o i s a t ã o i m p o r t a n t e p a r a o s u r g i m e n t o de 
u m a v e r d a d e i r a a ç ã o . Mas essa a ç ã o d e p e n d e d o s limites em que 
a t u a m o s : o g e s t o , o som d a voz, a i n t e n ç ã o s e r ã o l i m i t a d o s p e l a s 
p a r e d e s , pelo t e t o e p e l o c h ã o o n d e essa a ç ã o se passa. 
É isso q u e faz com q u e as p e s s o a s se p e r c a m a o a t u a r a o 
a r livre, sem os l i m i t e s n o r m a i s de u m a sala. Sóq u a n d o t e n h o 
c l a r a m e n t e m e u s l i m i t e s i n t e r n o s p o s s o d a r f r o n t e i r a s às m i n h a s 
a ç õ e s , s e j a n u m a s a l a d e a u l a , n u m p a l c o ou a o a r livre. C a s o 
c o n t r á r i o , essas i n t e n ç õ e s s e d i s p e r s a m e p e r d e m s u a f o r ç a . 
Assim, é i m p o r t a n t e q u e antes de c o m e ç a r q u a l q u e r t r a b a l h o 
c o r p o r a l eu i n c o r p o r e o e s p a ç o q u e v o u u s a r . O uso c o n t í n u o dos 
o b j e t o s e dos limites n a n o s s a v i d a c o t i d i a n a i m p e d e m q u a l q u e r 
o b s e r v a ç ã o e q u a l q u e r t r a b a l h o m u s c u l a r , que se t o r n a m e c â n i c o 
e i n c o n s c i e n t e . 
A o c a m i n h a r p o r um e s p a ç o f e c h a d o , a o t e r c o n s c t e n c i a 
dele, l i m i t o meus e s p a ç o s i n t e r n o s p a r a que m i n h a e n e r g i a s e j a 
c o n d u z i d a e u t i l i z a d a só n a e x t e n s ã o d a s u a n e c e s s i d a d e : o gesto 
7 9 
n ã o p r e c i s a s e r n e c e s s a r i a m e n t e g r a n d e n e m o d e s g a s t e m a i o r q u e 
o necessário. 
E x i s t e m m u s c u l a t u r a s em nosso c o r p o que c o n s t i t u e m e 
f o r m a m a sua i n d i v i d u a l i d a d e : q u a n d o a c o r d a m o s e n o s e n c a m i -
n h a m o s p a r a a feira, i n d e p e n d e n t e m e n t e de nosso h u m o r o u 
c a n s a ç o , existe uma m u s c u l a t u r a q u e c o m p õ e a nossa c o u r a ç a -
e que s e r á d i f e r e n t e d a m u s c u l a t u r a que e s t a r á a t u a n d o no m o -
m e n t o de v i s i t a r um amigo o u ir a o cinema. 
A p e r c e p ç ã o e a u t i l i z a ç ã o d e s s a m u s c u l a t u r a são i m p o r t a n t e s 
p a r a a s a ú d e e a i n d i v i d u a l i d a d e d o meu c o r p o . Assim, a a u l a 
d e d a n ç a c o m e ç a p e l a m a n h ã , q u a n d o a b r i m o s os o l h o s n a c a m a . 
O a q u e c i m e n t o i n t e r n o se d a r á no i n t e r v a l o e n t r e esses dois e s p a -
ç o s , a s a l a de á u l a e a m i n h a c a m a , n a rua, no c h u v e i r o , no 
t r â n s i t o - n a vida. 
M u d a r d e local de r e f e i ç ã o e de d o r m i r d e n t r o d a p r ó p r i a 
c a s a s ã o e s t í m u l o s q u e g e r a m c o n f l i t o s e novas m u s c u l a t u r a s d e n -
t r o d o nosso c o t i d i a n o : e s p a ç o s novos, m u s c u l a t u r a n o v a , visão 
n o v a . M e s m o n a s a l a de a u l a o e s p a ç o q u e r e s e r v a m o s p a r a n o s s a 
c r i a t i v i d a d e fica s e m p r e r e s t r i t o ao mesmo e s p a ç o físico q u e o c u p o 
d i a r i a m e n t e - e que aos p o u c o s t e r m i n a s e n d o um e s p a ç o a u s e n t e 
p e l a n ã o - p e r c e p ç ã o d a sua u t i l i z a ç ã o . 
Só p o s s o v e r o e s p a ç o à m i n h a volta q u a n d o me a f a s t o , e o 
mesmo se d á com m i n h a e m o ç ã o : ela e m b a r g a , a t r o f i a , freia q u a l -
q u e r m o v i m e n t o que p a r t a de mim. N ã o posso s e n t i r e ao m e s m o 
t e m p o d i z e r o u a n a l i s a r o q u e se p a s s a comigo. Solução: s i n t o e 
a p ó s o a t o reflexivo n a r r o o que s i n t o . Só e n t ã o m i n h a e m o ç ã o 
c h e g a a o i n t e r l o c u t o r ou à p l a t é i a . 
É p r e c i s o q u e h a j a s e m p r e um d i s t a n c i a m e n t o físico e c r í t i c o 
d o que faço e d o que digo. A e m o ç ã o deve s e r d i s t a n c i a d a : e l a 
é p r o v e n i e n t e d e u m a t é c n i c a , é i n e r e n t e a o s músculos, a o e s p a ç o , 
a o s ossos, ao c o r p o . T u d o isso, a o g e r a r um m o v i m e n t o l i m p o 
e c l a r o , e s t a r á d a n d o e s p a ç o p a r a que a e m o ç ã o se t o r n e viva. 
8 0 
À m e d i d a que t e c n i c a m e n t e vou m u d a n d o meus e s p a ç o s , 
meu eixo, m i n h a f l e x i b i l i d a d e e e q u i l í b r i o , t r a b a l h o t a m b é m 
m i n h a visão de m u n d o , m i n h a ó t i c a s o b r e as coisas e as pessoas. 
A p r e n d e r a q u e s t i o n a r o b j e t i v a m e n t e e a o b s e r v a r a si mesmo 
s ã o as m e l h o r e s f o r m a s de a p r e n d i z a d o . 
O a t o de q u e s t i o n a r é o r e s u l t a d o de uma o b s e r v a ç ã o q u e 
p r o v é m de um d i s t a n c i a m e n t o e de u m a c o n c l u s ã o , a i n d a q u e 
p a s s a g e i r a e n u n c a d e f i n i t i v a . As m u s c u l a t u r a s u s a d a s p a r a isso 
s ã o c a d e i a s p r o f u n d a s q u e a j u d a m a c o n s t r u i r n o s s a imagem: 
s o m o s os únicos r e s p o n s á v e i s pelo c o r p o e pelo r o s t o q u e temos, 
e s o m e n t e nós p o d e r e m o s m o d i f i c a r esse c o r p o e esse r o s t o . 
81 
l i 
A o r i t m o d o U n i v e r s o 
. A c r e d i t o q u e m e u m é t o d o d e t r a b a l h o t e n h a c o m e ç a d o a 
s~rgir. n o m o m e n t o e m q u e vi meu f i l h o n a s c e r . A c h e i t ã o d u r o 
t a o v i o l e n t o v ê - l o n a s c e n d o e logo e m ' d , 
-
segUI a s e r a f a s t a d o d a 
m a e . . . D e a l g u m a f o r m a p e r c e b i q u e a l i c o m e ç a v a a se i n t e r -
r o m p e r o f l u x o n a t u r a l d a s c o i s a s , m a s , p o r p a r a d o x a l q u e o s s a 
p a r e c e r , e r a i m p o s s í v e l c o n c e b e r a v i d a e o , . p p r o p n o n a s c i m e n t o 
s e m q u a l q u e r v i o l ê n c i a . 
. N e s s e m o m e n t o , t o r n o u - s e c l a r o q u e o m e s m o 
o c o r r i p r o c e s s o 
a e m n o s s o c o r p o , d a s u p e r f í c i e d a p e l e a t é n o s s o s i s t e m a 
n e r v o s o , n u m m o v i m e n t o c o n t í n u o o n d e n a s c i m e n t o v i d 
m o r t e se c o n f u n d i a m c o m o u m j o g o d e f , a e 
t o r ç a s a o m e s m o t e m p o 
o p o s os e c o m p l e m e n t a r e s . A í d~veria r e s i d i r a e s s ê n c i a d e I 
q u e r t r a b a l h o q u e p r o q u a -pus~sse r e c u p e r a r a p e r c e p ç ã o d a t o t a l i d a d e 
d o c o r p o e t o r n a r c o n s c i e n t e g e s t o s a t é enta-o m e . d 
, . . . c a m z a os e m 
n o s s a p r a t i c a c o t i d i a n a . 
Isso p o d e s e r m a i s 1 c a r a m e n t e e n t e n d i d o a t r a v é s d e u m s~~ples e x e m p l o : q u a n d o t r a b a l h a m o s os p é s a t r a v é s d e 
CICIOS d ' b ' l ' ' e x e r -e s e n s i I I z a ç ã o e t o q u e c o m e ç a m o s 1 
, ' r e a m e n t e a s a b e r 
q u e _temos pes. E l e s g a n h a m vida e a m p l i t u d e a t r a v é s d a 
c e p ç a o d o s m o v i m e n t o s . p e r -
. D a - m e s m a . f o r m a , q u a n d o t r a b a l h a m o s u m a d e t e r m i n a d a 
a r t J c u l a ç a o , a m p l i a m o s s u a m o b i l i d a d e e o e s f o r ç o I' d r e a IZa o r e -
82 
p e r c u t e s o b r e t o d o o c o r p o , u m a v e z q u e e s s a a r t i c u l a ç ã o é p a r t e 
d e u m t o d o . A o t r a b a l h a r i s o l a d a m e n t e u m a a r t i c u l a ç ã o , a o d i s -
s o c i a r as p a r t e s d o c o r p o , p o u c o a p o u c o r e c u p e r o a p e r c e p ç ã o 
d a t o t a l i d a d e - a d i s s o c i a ç ã o t or n a - s e ú t i l à a s s o c i a ç ã o . 
A o a c o r d a r , a o s e n s i b i l i z a r u m a d a d a a r t i c u l a ç ã o , a d q u i r o 
m a i s u m p o n t o d e e q u i l í b r i o em m e u c o r p o e i s s o a c a b a a g i n d o 
s o b r e t o d o o r e s t o , i n c l u s i v e s o b r e c o i s a s q u e a p a r e n t e m e n t e 
n a d a t ê m a v e r c o m m ú s c u l o s e a r t i c u l a ç õ e s , c o m o a a t i v i d a d e 
i n t e l e c t u a l . 
E s t a m o s s e m p r e e v o l u i n d o e h á u m m o m e n t o n e s s a e v o -
l u ç ã o q u e se r e v e l a e m n o s s o c o r p o e n o s a s s u s t a . D e p o i s d i s s o 
o c o r r e u m a v e r d a d e i r a r e n o v a ç ã o e j á n ã o t e m o s m a i s m e d o 
d a q u i l o q u e se a p r e s e n t a d i a n t e d e n ó s c o m o n o v o . E s s e p r o -
c e s s o é m a r c a d o p o r c o n t r a d i ç õ e s , a v a n ç o s e r e c u o s , p o r i d a s e 
v i n d a s q u e t o r n a m i n t e n s a m e n t e r i c a a n o s s a a ç ã o e a b r e m e s -
p a ç o p a r a p r o f u n d a s t r a n s f o r m a ç õ e s . M a s , se p e r d e m o s e s s a c a -
p a c i d a d e d e r e n o v a ç ã o , se f u g i m o s às d i f i c u l d a d e s q u e s u r g e m , 
e n c e r r a m o s a p r ó p r i a v i d a . N e s s e s e n t i d o , a i m a g e m d o p a r t o 
é e x e m p l a r . 
O q u e é o p a r t o ? É o f i n a l d a g r a v i d e z , d e u m l o n g o p r o -
c e s s o q u e se i n i c i a n o e n c o n t r o d e d u a s f o r ç a s - m a s c u l i n a e 
f e m i n i n a - , d u a s n a t u r e z a s a o m e s m o t e m p o i g u a i s e o p o s t a s . 
H á e n t ã o u m m o m e n t o d e f e r t U i z a ç ã o , u m t e m p o d e i n c u b a ç ã o 
e u m l o n g o p e r í o d o d e g e s t a ç ã o e m q u e u m o u t r o c o r p o e s t á s e 
f o r m a n d o n o c o r p o d a m u l h e r . M a s t a m b é m e s s e p r o c e s s o d e v e 
c h e g a r a u m t e r m o . 
H á u m a lei n a t u r a l q u e c o n d i c i o n a o d e s f e c h o d o p r o c e s s o 
a u m a s i t u a ç ã o d e c r i s e p r o f u n d a , q u e é e x a t a m e n t e o i n s t a n t e 
d o p a r t o . É i m p o s s í v e l c o n c e b e r u m p a r t o n a t u r a l s e m d o r , s e m 
c o n t r a ç õ e s , s e m s a n g u e . M a s , d e p o i s d a c r i s e , o q u e t e m o s d i a n t e 
d e n ó s é u m a n o v a v i d a . 
O m e s m o o c o r r e c o m n o s s o c o r p o : q u a n d o i n i c i a m o s u m 
t r a b a l h o c o r p o r a l , h á t o d o u m p r o c e s s o q u e v a i d a f e r t i l i z a ç ã o 
83 
ao n a s c i m e n t o . Q u a n d o i n i c i a m o s u m t r a b a l h o c o m as a r t i c u l a -
ções, existe um m o m e n t o que c o r r e s p o n d e ao i n s t a n t e d a f e r t i -
l i z a ç ã o , existe um l o n g o p r o c e s s o de g e s t a ç ã o e, f i n a l m e n t e , o 
p a r t o - q u a n d o as a r t i c u l a ç õ e s se d e s p r e n d e m , g a n h a m m o b i l i -
d a d e e m a i o r f l e x i b i l i d a d e . 
C o m o t o d a e s p e r a , vivemos e n t ã o s e n s a ç õ e s c o n t r a d i t ó r i a s , 
d a m e s m a f o r m a c o m o uma m u l h e r g r á v i d a p a r e c e v i v e r , a o 
m e s m o t e m p o , uma força a m o r o s a e um s e n t i m e n t o de r e j e i ç ã o , 
pois algo cresce d e n t r o d e l a e t r a n s f o r m a c o m p l e t a m e n t e s e u 
c o r p o . 
T o d o p r o c e s s o c r i a t i v o é quase s e m p r e m a r c a d o p o r c o n -
t r a d i ç õ e s e a n t a g o n i s m o s c o n s t a n t e s , em que n a s c i m e n t o , vida e 
m o r t e , a l e g r i a , p r a z e r e d o r c o n s t i t u e m m o m e n t o s d i s t i n t o s , q u e 
se c o n f u n d e m e d ã o s e n t i d o a uma n o v a e x i s t ê n c i a . 
I n s i s t o que mais i m p o r t a n t e do que o d e s f e c h o d o p r o c e s s o 
é o. p r o c e s s o em si, pois n o r m a l m e n t e somos l e v a d o s a o b j e t i v a r 
n o s s a s a ç õ e s a p o n t o de fixarmos m e t a s e f i n a l i d a d e s q u e a c a -
bam' i m p e d i n d o a vivência d o p r ó p r i o p r o c e s s o , d o r i c o c a m i n h o 
a s e r p e r c o r r i d o . 
N o t r a b a l h o c o r p o r a l , q u a n d o d e f i n i m o s o b j e t i v o s e x t e r i o r e s 
a nós, a c a b a m o s p o r c o n v e r t e r o p r o c e s s o num meio de a l c a n ç a r 
a p e n a s d e t e r m i n a d o s fins e, c o m jsso, p e r d e m o s de vista o p r ó -
p r i o c o r p o , t o r n a d o assim m e r o i n s t r u m e n t o d a s nossas v o n t a d e s 
e i d e a l i z a ç õ e s . 
Um e x e m p l o : q u a n d o alguém d e c i d e fazer d a n ç a o u hal-
teres, de c e r t a m a n e i r a j á tem uma imagem p r e c o n c e b i d a do 
b a i l a r i n o ou do h a l t e r o f i l i s t a que a c r e d i t a s e r o ideal. E x i s t e , 
p o r t a n t o , um ideal a a t i n g i r e isso faz com que as p e s s o a s às 
vezes se s u b m e t a m a um v e r d a d e i r o massacre_ físico e p s i c o l ó g i c o 
p a r a a l c a n ç a r a f o r m a s o n h a d a . Mas n ã o posso m o l d a r u m c o r p o 
q u a n d o a i n d a n ã o t e n h o um c o r p o : a n t e s de q u a l q u e r c o i s a . devo 
p a r t i r d o c o r p o que t e n h o , e isso r e q u e r d i s c i p l i n a e o r g a n i z a ç ã o . 
8 4 
Q u a n d o falo em d i s c i p l i n a e o r g a n i z a ç ã o n ã o me refiro a 
a t i t u d e s d i t a d a s d o e x t e r i o r , mas ao a t o de se d a r o r g a n i z a ç ã o , 
de e s t a b e l e c e r uma d i s c i p l i n a i n t e r n a . P e n s o q u e é m u i t o difícil 
a l g u é m se s u j e i t a r a q u a l q u e r t i p o de c o n d i c i o n a m e n t o e x t e r i o r 
sem que e s t e j a de a l g u m a forma p r o p e n s o i n t e r n a m e n t e a acei-
t á - l o . 
P a r a q u e se c o n s i g a t o r n a r fluente o m o v i m e n t o é indis-
pensável t r a b a l h a r de m a n e i r a d i s c i p l i n a d a e o r g a n i z a d a . P o r 
e x e m p l o : p a r a l i b e r a r uma d a d a a r t i c u l a ç ã o p r i m e i r o é neces-
s á r i o p r e n d ê - l a , d e s c o b r i r a d i f e r e n ç a e n t r e o que é p r e n d e r e 
s o l t a r . Só q u a n d o se o b t é m um r e l a t i v o d o m í n i o s o b r e a a r t i -
c u l a ç ã o e s u a s p o s s i b i l i d a d e s de m o v i m e n t o é q u e se t o r n a pos-
sível s o l t a r , e n c a i x a r e d e s e n c a i x a r à v o n t a d e , e m p r e g a n d o t o d a 
a p o t e n c i a l i d a d e em f o r ç a r ou l i b e r a r a a r t i c u l a ç ã o . 
Mas, c o m o em q u a l q u e r o u t r o p r o c e s s o de t r a b a l h o , n ã o 
a d i a n t a a p e n a s s a b e r que o c o r p o age d e s s a o u d a q u e l a m a n e i r a . 
É p r e c i s o e d u c a r e t o r n a r fluente a n a t u r a l i d a d e do gesto, a t é o 
m o m e n t o em qu:: o a p r e n d i z a d o se c o n v e r t e n u m h á b i t o , c o m o 
p a r t e de u m a d i n â m i c a c o r p o r a l que assimila e ao mesmo t e m p o 
t r a n s c e n d e os limites d o p r ó p r i o a p r e n d i z a d o . 
R e s u m i d o em c o m p r e s s ã o ee x p a n s ã o , o m o v i m e n t o hu-
m a n o t a n t o é r e f l e x o d o i n t e r i o r do h o m e m q u a n t o t r a d u ç ã o d o 
m u n d o e x t e r i o r . T u d o o que a c o n t e c e n o U n i v e r s o a c o n t e c e c o -
migo e com c a d a célula do meu c o r p o . A e s p i r a l c r e s c e n t e , o 
U n i v e r s o , tem um p o n t o de p a r t i d a em c a d a um de nós e é d o 
nosso i n t e r i o r , da nossa c o n c e p ç ã o de t e m p o e e s p a ç o , que 
e s t a b e l e c e m o s uma t r o c a com o e x t e r i o r . uma r e l a ç ã o com a 
vida. 
Se você chega ao p o n t o de se i n t e g r a r ao r i t m o d o U n i v e r s o , 
seu m u n d o e seus limites t a m b é m vão se a l a r g a n d o e sua mus-
c u l a t u r a se a l o n g a n d o , ao c o n t r á r i o do que a c o n t e c e no c o t i -
d i a n o c o m u m , o n d e as pessoas, pela r e p e t i ç ã o d o d i a - a - d i a , re-
d u z e m g r a d a t i v a m e n t e s u a s vidas, a t r o f i a n d o os músculos. 
85 
O s e r h u m a n o v e m p e r d e n d o o d o m í n i o d e seus s e n t i d o s 
a o r e p r e s e n t a r o g e s t o , e n q u a n t o a s o u t r a s e s p é c i e s a n i m a i s p r o -
c u r a m p r e s e r v a r esse gesto. U m a n i m a l s e l v a g e m é p e r f e i t o e m 
s u a i n t e g r i d a d e , é flexível e a d o t a , i n s t i n t i v a m e n t e , a e s p i r a l c o m o 
l i n g u a g e m c o r p o r a l . 
A r a z ã o i m p õ e a r e t a c o m o c a m i n h o m a i s c u r t o e n t r e d o i s 
p o n t o s , m a s e s q u e c e m o s q u e e l a é t e n s a e d i f i c i l m e n t e s e r á h a r -
m ô n i c a , n o c a s o da m u s c u l a t u r a h u m a n a . Q u a n d o o h o m e m es-
c o l h e os m o v i m e n t o s r e t i l í n e o s e c o n d u z seus m ú s c u l o s a um 
o b j e t i v o p r e d e t e r m i n a d o , a n u l a a i n t u i ç ã o , s o b r e p õ e a r a c i o n a -
l i d a d e a o i n s t i n t o . I s s o n ã o a c o n t e c e r i a se fizesse a o p ç ã o p e l a 
c u r v a o u e s p i r a l , o n d e e n c o n t r a r i a m a i o r p r a z e r e m c a d a e t a p a 
d o a p r e n d i z a d o , com g r a d u a l a p r o f u n d a m e n t o e e x p a n s ã o d a 
c o n s c i ê n c i a . 
A v i d a é a s í n t e s e d o c o r p o e o c o r p o é a s í n t e s e d a v i d a . 
N ã o h á q u a l q u e r n o v i d a d e n e s s a a f i r m a ç ã o : d e s d e I s a d o r a 
D u n c a n - q u e p e r m a n e c e m a i s m o d e r n a d o q u e m u i t a c o i s a 
q u e se faz em d a n ç a - d e s c o b r i u - s e , p e l a s e n s i b i l i d a d e , a r e -
l a ç ã o d a m u s c u l a t u r a h u m a n a c o m o s e l e m e n t o s d a n a t u r e z a . 
Se t e n h o c o n s c i ê n c i a de q u e as f o l h a s , q u a n d o se m o v e m 
c o m o v e n t o , t ê m u m a r e l a ç ã o com m i n h a m u s c u l a t u r a e m i n h a 
r e s p i r a ç ã o , c o n d u z o c a d a m o v i m e n t o p a r a m i n h a m e m ó r i a m u s -
c u l a r m a i s p r o f u n d a , q u e , p o r s u a vez, vai me a j u d a r a g e r a r 
g e s t o s m a i s p u r o s , n a s c i d o s d a s u a l i g a ç ã o c o m a m i n h a e m o ç ã o . 
I s a d o r a o u v i a o s e l e m e n t o s , s e n t i a - o s e c o n s e g u i a c o d i f i c á - l o s e 
m a n t ê - l o s p r e s e n t e s em seu g e s t u a l e em s e u c o r p o . 
C e r t a vez, p e d i a a l g u n s a l u n o s q u e p e g a s s e m p e d r i n h a s e 
a s j o g a s s e m no m a r . P a r a d e m o n s t r a r c r i a t i v i d a d e , o s a l u n o s 
r o l a r a m n a a r e i a , o l h a r a m p a r a o céu, c h u t a r a m a á g u a e, d e p o i s , 
i n t e l e c t u a l m e n t e , j u s t i f i c a r a m t u d o f a l a n d o e m " d i n â m i c a m a i o r " 
e "múscl.Jlos e s p e c í f i c o s " . M a s n i n g u é m j o g o u a p e d r a n a á g u a . 
A d a n ç a e a m o v i m e n t a ç ã o c o t i d i a n a n ã o se p r e n d e m a o 
p a s s a d o o u a o f u t u r o , n e m a u m p r o f e s s o r . O q u e i n t e r e s s a é o 
86 
a g o r a . N i n g u é m m e l h o r d o que você p o d e q u e s t i o n a r sua pos-
t u r a , s u a s a ç õ e s . N ã o s ã o as s e q ü ê n c i a s de p o s t u r a d a d a s p o r 
u m a p e s s o a à s u a f r e n t e q u e v ã o f a z e r de você um b a i l a r i n o ou 
uma pessoa de m o v i m e n t a ç ã o h a r m ô n i c a . A d a n ç a c o m e ç a no 
c o n h e c i m e n t o dos proccs~os i n t e r n o s . V o c ê é e s t i m u l a d o a a d q u i -
r i r a c o m p r e e n s ã o de c a d a m u s c u l o c do q u e a c o n t e c e q u a n d o 
você se m o v i m e n t a . 
Às vezes, p o r p r o c e s s o s p r a z e r o s o s ou d o l o r o s o s , as p a r t e s 
v ã o se l i g a n d o c você a c a b a e n t e n d e n d o o t o d o , t e n d o u m a 
p e r c e p ç ã o mais i n t e g r a d a d o c o r p o . N o r m a l m e n t e , no e n t a n t o , 
n ã o é o q u e a c o n t e c e : você t r a b a l h a t é c n i c a s e s p e c í f i c a s e s ã o 
e s s a s m e s m a s t é c n i c a s que o l e v a m a a d q u i r i r c o u r a ç a s que im-
p e d e m seu r e c o n h e c i m e n t o i n t e r i o r . 
Se existe uma d a n ç a mais n a t u r a l , ela está ma1s no â m b i t o 
d a e x p r e s s ã o p o p u l a r , o n d e é e x e r c i d a sem s o f i s t i c a ç ã o . Q u a n d o 
um p a i - d e - s a n t o b e n z e a l g u é m , e s t á p r o c e d e n d o a um r i t u a l ins-
t i n t i v o , p r o m o v e n d o u m a a r t i c u l a ç ã o b á s i c a q u e e s t á s e m p r e nas 
m a n i f e s t a ç õ e s p o p u l a r e s a u t ê n t i c a s . E nesse g e s t o i n s t i n t i v o ele 
c r u z a e n e r g i a , r e d i s t r i b u i a v i b r a ç ã o d o c o r p o , p r o m o v e um re-
l a x a m e n t o d o s m ú s c u l o s . 
Assim c o m o o b e n z i m e n t o em x r e s p e i t a as l i n h a s d o s nossos 
m ú s c u l o s , t a m b é m n a s d a n ç a s f o l c l ó r i c a s e o u t r a s m a n i f e s t a ç õ e s 
g e s t u a i s d o p o v o e x i s t e m p o n t o s - c h a v e d a i d e n t i d a d e m a i s p r o -
f u n d a . P o r isso m e s m o , s e m p r e d e s c o b r i m o s n a s d a n ç a s p o p u -
l a r e s uma i n f i n i d a d e de s e m e l h a n ç a s c o m a d a n ç a c o n s i d e r a d a 
a r t í s t i c a . 
D e s s a f o r m a , d e v e m o s b u s c a r c o m p r e e n d e r e a s s i m i l a r n o s s a 
i n t e r d e p e n d ê n c i a c o m o e s p a ç o . e s q u e c e n d o a f o r m a q u e . q u a n d o 
p r e c o n c e b i d a , é m o r t a , e s t á t i c a , a c o m o d a d a e i m p e d e o a p r e n -
d i z a d o , o a p e r f e i ç o a m e n t o e a c r i a ç ã o de n o v o s gestos. 
Se t r a b a l h o e n r i q u e c e n d o m i n h a s p o s s i b i l i d a d e s m u s c u l a r e s , 
eu sou o m o v i m e n t o c não a p e n a s me movo. E. se me movo 
i n t e g r a l m e n t e . t e n h o em mim t o d a s as f o r ç a s que regem o U n i -
87 
verso. Q u a n d o d a n ç o , p o r t a n t o , está d e n t r o de mim a e n g r e n a -
gem q u e faz o m o v i m e n t o d o m u n d o . 
O que vemos, no e n t a n t o , é que o d o m í n i o d a a r t e d a 
d a n ç a , em nossos dias, o b e d e c e ac e r t a s r e g r a s e c o n v e n ç õ e s em 
f u n ç ã o de um ideal e s t é t i c o a n t e c i p a d a m e n t e s u p o s t o e p r o p o s t o . 
Mas é possível p e n s a r a d a n ç a p a r a além desses limites, c o m o 
uma das r a r a s a t i v i d a d e s em que o ser h u m a n o se e n g a j a ple-
n a m e n t e de c o r p o , e s p í r i t o e e m o ç ã o . M a i s do q u e u m a m a n e i r a 
de e x p r i m i r - s e a t r a v é s do m o v i m e n t o , a d a n ç a é u m m o d o de 
e x i s t i r - e é t a m b é m a r e a l i z a ç ã o d a c o m u n h ã o e n t r e os 
h o m e n s . 
O c o r p o h u m a n o p e r m i t e uma v a r i e d a d e i n f i n i t a de m o v i -
m e n t o s , q u e b r o t a m de i m p u l s o s i n t e r i o r e s e se e x t e r i o r i z a m a t r a -
vés do gesto, c o m p o n d o uma r e l a ç ã o í n t i m a com o r i t m o , o 
e s p a ç o , o d e s e n h o das e m o ç õ e s , dos s e n t i m e n t o s e das i n t e n ç õ e s . 
Mas, se a d a n ç a é um m o d o de existir, c a d a u m de nós 
possui a s u a d a n ç a e o seu m o v i m e n t o , o r i g i n a l , s i n g u l a r e di-
f e r e n c i a d o , e é a p a r t i r d a í que essa d a n ç a e esse m o v i m e n t o 
e v o l u e m p a r a u m a f o r m a de e x p r e s s ã o em que a b u s c a d a i n d i -
v i d u a l i d a d e possa ser e n t e n d i d a pela c o l e t i v i d a d e h u m a n a . 
8 8 
I I I 
F u n ç ã o e f o r n 1 a 
S e n t a m o s e a n d a m o s c o m o p e n s a m o s . O l h a n d o q u a l q u e r s e r 
h u m a n o a n d a n d o n a s r u a s pode-se d e t e r m i n a r s u a f o r m a de vida. 
C o m a p r á t i c a , um a p u r a d o d i s c e r n i m e n t o nos p e r m i t i r á l o c a -
lizá-lo s o c i a l e e c o n o m i c a m e n t e , t e r u m a i d é i a de s u a s i t u a ç ã o 
n a vida. P o d e m o s c o n h e c e r nosso s e m e l h a n t e p e l o s m o v i m e n t o s 
que ele e x e c u t a . 
O c o r p o i n t e i r o t r a n s m i t e um s i g n i f i c a d o e c o n t a u m a his-
t ó r i a a o c a m i n h a r , ao f i c a r em p é o u ao s e n t a r , ao e s t a r , a c o r -
d a d o ou a d o r m e c i d o . N o i n t e l e c t u a l , a v i d a é t r a n s m i t i d a p e l o 
r o s t o ; n o b a i l a r i n o , o s i g n i f i c a d o e s t á nas p e r n a s . 
A m e m ó r i a g o s t a de r e l e m b r a r o c o r p o i n t e i r o : n ã o é d o 
r o s t o dos nossos p a i s que nos l e m b r a m o s , m a s de seus c o r p o s 
e a t i t u d e s n a s s u a s c a d e i r a s p r e d i l e t a s , c o m e n d o , c o z i n h a n d o , 
f u m a n d o , em t o d a s as p e q u e n a s a ç õ e s do c o t i d i a n o . N ó s n o s 
l e m b r a m o s d a s p e s s o a s c o m o c o r p o s em m o v i m e n t o e n ã o r o s t o s 
e s t á t i c o s . 
O c o m p o r t a m e n t o p o u c a s vezes é r a c i o n a l : h a b i t u a l m e n t e é 
e m o c i o n a l . P o d e m o s d i z e r p a l a v r a s s e n s a t a s c o m o r e s u l t a d o de 
um r a c i o c í n i o , mas o s e r i n t e i r o reage às s e n s a ç õ e s . P a r a c a d a 
p e n s a m e n t o que surge a p a r t i r de uma s e n s a ç ã o , um m ú s c u l o 
se move. A t r a v é s desses m ú s c u l o s , h e r a n ç a b i o l ó g i c a d o h o m e m , 
o c o r p o i n t e i r o r e g i s t r a a e m o ç ã o . 
8 9 
As posturas da tradição dramática cristalizam a teoria dos 
atores e através do desenho de seus corpos é possível estudar 
as qualidades épicas em movimento. Culpa, astúcia, fantasia, 
mesquinhez, êxtase e atração transparecem em alguns movimen-
tos dos braços e das mãos. A vivência de cada um transparece 
em seus movimentos e na postura. A personalidade entra na 
estrutura - mais uma vez pela negação ou pela afirmação 
pessoal. 
Na expressão de cada um existe um equipamento mental e 
emocional, temperamento, experiências e. preconceitos pessoais, 
influenciando e controlando a relação de cada parte do corpo 
com o todo. Este equipamento inclui o trabalho conjunto do 
movimento, a ação neuromuscular sobre os ossos. 
Os ossos representam papel importante no sentido de con-
trole e na posição de cada homem no mundo. Através deles 
cada um de nós determina seu grau de segurança. buscando con-
tinuamente o ritmo do movimento. Mecânica, fisiológica e psi-
cologicamente o corpo humano é compelido a lutar por equi-
líbrio. 
O enfoque fisiológico para o estudo da dinâmica do corpo é 
baseado no fato de o sistema neuromuscular ser a unidade que 
determina o movimento organizado. Mecanicamente, unidades se-
paradas - os ossos - se movem através do espaço numa dis-
posição de tempo definida. A unidade neuromuscular é a força 
motora. 
Fisiologicamente, vários estímulos preparam os músculos 
para suas respostas. Esse~ estímulos, sendo a um só tempo exter-
nos e internos, devem ser correlatos. Isso envolve fatores psico-
lógicos que afetam as respostas. 
Para cada estímulo há uma resposta motora. O número de 
partes envolvidas nessa resposta está condicionado pelas reações 
e comportamentos sociais da pessoa, assim como por seu estado 
90 
físico. O indivíduo é uma totalidade e não pode ser dividido em 
fatores intelectuais, sociais e motores. Eles estão todos inter-
ligados. 
A correlação entre os estímulos visceral, psíquico e perifé-
rico, a resposta muscular fundamental, envolve o todo de um 
homem. O corpo inteiro, animado como é pela memória mus-
cular, torna-se um instrumento sensitivo que responde com sa-
bedoria, excedendo ao raciocínio do homem ou ao controle cons-
ciente. 
A neuromusculatura do esqueleto e as vísceras agem reci-
procamente, sempre condicionados por aquilo que já receberam 
e' que ainda estão recebendo através de computações emocionais e 
mentais incessantes. 
Compreendemos agora que na economia física do indivíduo 
os vários sistemas podem estar trabalhando em uníssono. Com-
preendemos que a função precedeu a estrutura, o pensamento 
precedeu a idéia, o verbo precedeu o substantivo, o fazer foi 
experimentado antes da coisa feita. Tudo se move, e no padrão 
do movimento a vida é objetivada. 
A ciência aumentou nosso conhecimento, ajudando-nos a 
compreender melhor estes valores. Através dos estudos dos cons-
tituintes químicos das células humanas, do equilíbrio e do con-
teúdo químico dos alimentos, do efeito de temperatura e pressão, 
do estudo de vestuário, moradia, repouso e atividade, pode-se 
chegar a um equilíbrio mais perfeito do esqueleto humano. 
Paralelamente ao novo conhecimento dos fatos está o novo 
conhecimento do inconsciente. O inconsciente é o tesouro e o 
cerne da criatividade e uma das chaves para a fisiologia. A base 
que nos deve orientar para novas investigações fisiológicas. 
Mesmo no melhor cérebro, somente 15% da energia total 
são avaliáveis pelas determinações conscientes; 85% são usados 
no processo vegetativo, no funcionamento dÓ coração e assim 
91 
p o r d i a n t e . I s s o nos d e i x a a p e n a s 1 5 % p a r a o t r a b a l h o n o 
m u n d o c o n s c i e n t e . 
Q u a l q u e r e n f r a q u e c i m e n t o do p r o c e s s o v e g e t a t i v o o u i n c o n s -
c i e n t e e x i g i r á novas e n e r g i a s e os 1 5 % s ã o a ú n i c a f o n t e p a r a 
esse r e f o r ç o , q u e deve n o e n t a n t o s e r c o n s e r v a d o p a r a o uso 
d a s a t i v i d a d e s c o n s c i e n t e s . 
C o m p o s t o de h á b i t o s biológicos, r a c i a i s e i n d iv i d u a i s , o d e -
s e n h o d o m e c a n i s m o h u m a n o tem s o f r i d o m u d a n ç a s i m p o r t a n t e s 
e c o n s i d e r á v e i s d u r a n t e seu longo p r o c e s s o de d e s e n v o l v i m e n t o . 
S u a s c a r a c t e r í s t i c a s g e r a i s s ã o d e f i n i d a s , mas as d i v e r s a s v a r i a -
ç õ e s i n d i v i d u a i s a i n d a p o d e m s o f r e r m o d i f i c a ç õ e s , p e l o h á b i t o e 
p e l o t r e i n o . Disposições d e f e i t u o s a s das p a r t e s desse d e s e n h o , 
a t r a v é s de h á b i t o s a r t i f i c i a i s , p o d e m s e r c o r r i g i d a s . O que a n t e s 
foi b o a d i s p o s i ç ã o p o d e se t o r n a r d e f e i t u o s a p e l o m a u h á b i t o 
a d q u i r i d o . 
O c o r p o h u m a n o , assim como t u d o o que f o r p a r t e d a v i d a , 
e n c o n t r a os mesmos p r o b l e m a s e s t r u t u r a i s de f o r ç a s a g i n d o re-
c i p r o c a m e n t e . Os o!>sos n ã o o f e r e c e m a p e n a s p r o t e ç ã o p a r a n o s s o 
o r g a n i s m o , mas t a m b é m u m a e s t r u t u r a de a p o i o p a r a o peso d o 
c o r p o . 
A t r a v é s de uma f o r ç a de a l a v a n c a o r g a n i z a d a , os ossos di-
rigem e d e t e r m i n a m o m o v i m e n t o . N o s s o s c o r p o s t ê m u m a his-
t ó r i a que u l t r a p a s s a em m i l h õ e s de a n o s a h i s t ó r i a d a i n t e l i -
g ê n c i a h u m a n a e este f a t o i n f l u e n c i a de d i v e r s a s m a n e i r a s a 
a t i t u d e h u m a n a p e r a n t e a v i d a . 
M e s m o que as d e s c o b e r t a s c i e n t í f i c a s s e j a m n e g a d a s p o r 
a l g u n s , deve-se a d m i t i r que o c o r p o d o b e b ê j á se f o r m a v a a n t e s 
q u e ele c o m e ç a s s e a p e n s a r , f a l a r e d a r e v i d ê n c i a s d a i n t e l i -
g ê n c i a h u m a n a . Mas q u a n d o , na c r i a n ç a p e q u e n a , r a c i o c í n i o s 
p o d e r o s o s g r a d u a l m e n t e se d e s e n v o l v e m , s u a a t e n ç ã o c o m e ç a a 
se d i r i g i r n ã o mais p a r a o c o r p o e sim p a r a o a m b i e n t e e m q u e 
vive. Assim. i n i c i a - s e um p r o c e s s o de d i s t a n c i a m e n t o i n t e l e c t u a l 
d o p r ó p r i o c o r p o . 
9 2 
M u i t o s de nós a i n d a s e n t e m c e r t a r e p u g n â n c i a q u a n d o ossos 
e mús~.:ulos s ã o m e n c i o n a d o s . I g n o r a n d o o que se p a s s a sob a 
pele, e x e c u t a m o s t a r e f a s d i á r i a s i n t e i r a m e n t e d e p e n d e n t e s de 
nosso m e c a n i s m o i n t e r n o . 
N o s s o c o r p o nos c h a m a a a t e n ç ã o a p e n a s e m c i r c u n s t â n c i a s 
d e s a g r a d á v e i s - q u a n d o e s t a m o s d o e n t e s o u f e r i d o s , e devemos 
n o s d e s p i r p a r a m o s t r a r uma f e r i d a , q u e i m a d u r a ou f r a t u r a . F i -
c a m o s e n v e r g o n h a d o s e c o n f u s o s q u a n d o n o s s a pele é m a c h u -
c a d a e o s a n g u e e s c o r r e d e l a , d e i x a n d o u m a a s s u s t a d o r a e o f e n -
siva m a n c h a . 
M a s os ossos e x i s t e m e a n a t u r e z a agiu s a b i a m e n t e ao n o s 
p r o v e r deles. O osso t e m v á r i o s a t r i b u t o s : é f o r t e , r í g i d o , tem 
e l a s t i c i d a d e - as m e s m a s q u a l i d a d e s q u e fazem d o a ç o o m a -
t e r i a ! e s c o l h i d o pelos e n g e n h e i r o s p a r a suas c o n s t r u ç õ e s . 
O s e r h u m a n o c o n s c i e n t e de seu c o r p o s a b e que d e n t r o dele 
existe um e s q u e l e t o vivo, com m e c a n i s m o s a t u a n t e s e m ú s c u l o s 
p r o n t o s p a r a r e s p o n d e r a q u a l q u e r e s t í m u l o . Nesse s e n t i d o , o 
o u s a d o a n a t o m i s t a e r a m o d e r n o h á q u a t r o c e n t o s anos: V e s a l i u s , 
q u e m o r r e u e m 1 6 1 6 , a n o em que S h a k e s p e a r e n a s c e u . 
V e s a l i u s d e s e n h o u um e s q u e l e t o que p o d e r i a ser u m H a m l e t : 
e m pé, ao l a d o de uma mesa de b i b l i o t e c a , a p o i a d o em u m a 
d a s p e r n a s , c o t o v e l o e s q u e r d o n a mesa, um p o u c o i n c l i n a d o p a r a 
a f r e n t e , a m ã o n o r o s t o . 
A p e d r a , os a r b u s t o s e as folhas n o s pés s u g e r e m o d e s a -
b r o c h a r d a c i ê n c i a d a n a t u r e z a , a pose d o e s t u d a n t e o l h a n d o em 
d i r e ç ã o ao u n i v e r s o invisível da filosofia. O e s q u e l e t o vive, existe: 
d e n t r o em p o u c o i r á se v i r a r , a n d a r , m o v e r o c o r p o e a c a b e ç a . 
É impossível d e i x a r de s e n t i r que esse e s q u e l e t o é u m a pessoa. 
O b a t e r do c o r a ç ã o e o j o r r a r d o s a n g u e s i g n i f i c a m vida. 
M a s p o r t r á s desse fluxo de s a n g u e o q u e s u s t e n t a a v i t a l i d a d e 
é o osso. O osso f a b r i c a s a n g u e , a n t e c e d e ao sangue. A r e n o -
v a ç ã o e a r e p o s i ç ã o de c é l u l a s c o n t i n u a n o t u t a n o dos ossos: os 
ossos vivem. 
9 3 
D e v e m o s s e n t i r os o s s o s v i v o s , se q u i s e r m o s e n t e n d e r s u a 
i n t e r d e p e n d ê n c i a c o m os t e c i d o s f l e x í v e i s a d j u n t o s . P o d e m o s e n -
~ão . a p r e c i a r a. i m p o r t â n c i a d e s u a f u n ç ã o e m r e l a ç ã o a o c o r p o 
mte1ro. E l e s a J u d a m t o d o s os o u t r o s t e c i d o s c o m a p r o t e ç ã o d e 
s u a s c a v i d a d e s , c o m o a p o i o do p e s o e a f a b r i c a ç ã o d e célula~ 
vermel~as. O o s s o t e m e m c o m u m c o m t o d o o t e c i d o d o c o r p o 
a q u a l i d a d e d a r e c u p e r a ç ã o , p r o p r i e d a d e d e t o d o p r o t o p l a s m a 
vivo. 
O o s s o , e m b o r a f o r n e c e n d o p r o t e ç ã o e a p o i o , f o r n e c e t a m -
b é m p o n t o s d e f o r ç a d e a l a v a n c a p a r a as m á q u i n a s d o m o v i -
m e n t o : os m ú s c u l o s . O o s s o se m o v e e m r e s p o s t a à u n i d a d e 
neuro~uscular. O h o m e m c o n t r o l a c o n s c i e n t e m e n t e o e s q u e l e t o , 
m a s n a o c o n t r o l a c o n s c i e n t e m e n t e a u n i d a d e n e u r o m u s c u l a r . 
Q u a n d o d i r i g i m o s o m o v i m e n t o do b r a ç o o u d a p e r n a , e s -
t a b e l e c e m o s c o n d i ç õ e s p a r a o m o v i m e n t o d e v á r i a s a l a v a n c a s 
ó s s e a s , n u m a a ç ã o o r g a n i z a d a . A s a b e d o r i a n ã o r e p o u s a n o c o -
m a n d o c e r e b r a l ou c o n s c i e n t e , m a s n o s v á r i o s s i s t e m a s q u e 
c o o p e r a m c o m o m e c a n i s m o n e u r o m u s c u l a r p a r a e s t a b e l e c e r c o n -
d i ç õ e s a p r o p r i a d a s . 
Q u a n d o um s e r h u m a n o r e s o l v e d a n ç a r , t o d a u m a c a d e i a 
d e r e f l e x o s e n t r a em p r o c e s s o de s i n c r o n i z a ç ã o . E s s e s r e f l e x o s 
e s t ã o s e n d o p r e p a r a d o s n o m o m e n t o em q u e o b a i l a r i n o d e c i d e , 
q u a n d o t o m a p o s i ç ã o , a j u s t a o m b r o e c o s t a s , p r o j e t a os o l h o s . 
R e s p o s t a s i n t e r n a s s ã o a c r e sc e n t a d a s a esses m o v i m e n t o s 
' 
c o m o as q u e m u d a m o r i t m o da r e s p i r a ç ã o . I n s t a n t a n e a m e n t e 
o s refl.exos c o n d i c i o n a d o s a g e m de a c o r d o c o m os p r i n c í p i o s do~ 
m e c a m s m o s e d o f u n c i o n a m e n t o o r g â n i c o . 
A s s i m , é p r e c i s o m a n t e r os o l h o s n a d i s t â n c i a c o r r e t a , a 
c a b e ç a e q u i l i b r a d a p a r a m a n t e r a p o s i ç ã o e o b r a ç o f i r m e , a b s o r -
v e r a r e s i s t ê n c i a d o c o r p o n a e s p i n h a d o r s a l e n a s p e r n a s . M a s 
t o d a s as r e s p o s t a s s ã o a u t o m á t i c a s : a h a b i l i d a d e n o m o v i m e n t o 
d e p e n d e d a s i n c r o n i z a ç ã o d e c o n d i ç õ e s q u í m i c a s , m e c â n i c a s e 
o r g â n i c a s . 
9 4 
A t é m e s m o o m o m e n t o em q u e d e c i d i m o s i n i c i a r o m o v i -
m e n t o é p a r c i a l m e n t e d e t e r m i n a d o p o r s e u s e n t i d o c i n e s t é s i c o , 
q u e p o d e r í a m o s c h a m a r d e s e n s a ç ã o - d e - q u e - t u d o - e s t á - c o r r e t o . A 
l i b e r d a d e d e r e s p o s t a t a m b é m é i n f l u e n c i a d a p e l o o t i m i s m o . Se 
o c o r p o e s t á d e v i d a m e n t e c o n d i c i o n a d o , l i v r e d e d ú v i d a s e me-
d o s , o m o v i m e n t o s u r g e e a d a n ç a e x p l o d e . 
N a s c o n d i ç õ e s a d e q u a d a s , a m o v i m e n t a ç ã o s u r g e - e x a t a -
m e n t e c o m o n e v a , c h o v e , f a z sol. O m o v i m e n t o é r e s u l t a d o de 
c o n d i ç õ e s e s t a b e l e c i d a s d e a c o r d o c o m p r i n c í p i o s b á s i c o s q u e 
d i r i g e m um m e c a n i s m o d i n â m i c o . E n t e n d e r esses p r i n c í p i o s b á -
s i c o s é f u n d a m e n t a l p a r a e n t e n d e r o m e c a n i s m o d o s m o v i m e n t o s . 
M a s n e n h u m a d e s s a s r e s p o s t a s s e r i a p o s s í v e l se n ã o f o s s e 
p e l a f o r m a e p e l a e x t e n s ã o d i v e r s i f i c a d a d a s a l a v a n c a s ó s s e a s , 
a t r a v é s d a s q u a i s o o r g a n i s m o r e a l i z a a d i r e ç ã o d o m o v i m e n t o . 
O e s q u e l e t o é f a b r i c a d o d e m a n e i r a a r e a l i z a r c e r t a s c o i s a s , m a s 
a l g u m a s d e l a s s ã o c o m p l i c a d a s . O c r e s c i m e n t o , o d e s e n v o l v i m e n t o 
e a f u n ç ã o s ã o i n t e r d e p e n d e n t e s . 
O s o s s o s t ê m q u a t r o f u n ç õ e s : a o r g â n i c a , q u e f a b r i c a c é -
l u l a s v e r m e l h a s (os o s s o s e s t ã o v i v o s ) ; a p r o t e t o r a , q u e a l o j a o 
c é r e b r o , a m e d u l a e o c o r a ç ã o , os p u l m õ e s e as v í s c e r a s (os 
o s s o s s ã o c o m p a r t i m e n t o s f e c h a d o s ) ; a d e a p o i o , q u e s u p o r t a o 
p e s o d o c o r p o e s u s t e n t a o s ó r g ã o s d o m o v i m e n t o , o s m ú s c u l o s 
(os o s s o s s ã o f o r m a ) . P o r fim, d u r a n t e a e v o l u ç ã o , a s n e c e s s i -
d a d e s f u n c i o n a i s d e c i d e m a f o r m a (os o s s o s s ã o e s t r u t u r a ) . O 
e s q u e l e t o é u m t r i u n f o m e c â n i c o d a n a t u r e z a : a s l i n h a s d e f o r ç a 
a t r a v e s s a m o s o s s o s c a s e n s a ç ã o de m o v i m e n t o s e s t á n e l e s . A 
m á q u i n a v i v a a n d a . 
O s e r h u m a n o , a s s i m , é u m c o m p o s t o d e f o r ç a s e q u i l i b r a -
d a s . M a n t e r o a p o i o e s t r u t u r a l c o m o m e n o r e s f o r ç o p o s s í v e l n a s 
d i v e r s a s p a r t e s é u m p r o b l e m a d e a j u s t a m e n t o c o r p o r a l às f o r ç a s 
e x t e r n a s , p r i n c i p a l m e n t e a m e c â n i c a . 
A t r a v é s d o e q u i l í b r i o o h o m e m c o n s e r v a a e n e r g i a n e r v o s a 
e d e s s a f o r m a b e n e f i c i a d i r e t a m e n t e t o d a a s u a a t i v i d a d e , t a n t o 
9 5 
a m e n t a l q u a n t o a física. N e s t a fase d o p r o c e s s o e v o l u t i v o , e m 
q u e o h o m e m a s s u m i u a p o s t u r a v e r t i c a l , a s s e g u r o u a o m e s m o 
t e m p o l i b e r d a d e de m o v i m e n t o s e m a i o r c o n t r o l e s o b r e o m e i o 
a m b i e n t e . 
E x i s t e m , c o n t u d o , d e s v a n t a g e n s m e c a m c a s e p o n t o s f r a c o s 
n a d i s p o s i ç ã o e s t r u t u r a l q u e a m e a ç a m a e s t a b i l i d a d e e a p r o -
t e ç ã o d o p r o c e s s o v i t a l . P a r a c o m p e n s a r e s t a f r a q u e z a , é i m -
p e r a t i v o r e c o n h e c e r e u t i l i z a r a p r o p r i a d a m e n t e os princ1p10s m e -
c â n i c o s q u a n d o a p l i c a d o s n a s p r i n c i p a i s u n i d a d e s e s t r u t u r a i s , n a 
p o s i ç ã o v e r t i c a l . 
9 6 
I V 
A p r e n d i z a d o e e n e r g i a : n o ç õ e s 
C o m o v i m o s , a o d e s e q u i l í b r i o e m o c i o n a l c o r r e s p o n d e um 
d e s e q u i l í b r i o p o s t u r a ! , p r o v o c a d o p o r t e n s õ e s d e t o d a o r d e m . 
N o e n t a n t o , a t e n s ã o e m si n ã o c o n s t i t u i u m p r o b l e m a , p o i s s e m 
e l a n ã o c o n s e g u i r í a m o s n o s m a n t e r e m p é o u s u p o r t a r o p e s o d e 
n o s s a e s t r u t u r a , c e d e n d o à f o r ç a d a g r a v i d a d e , q u e c o n s t a n t e -
m e n t e n o s i m p e l e à q u e d a . N a v e r d a d e , o p r o b l e m a e s t á n o 
a c ú m u l o de t e n s õ e s , n a s t e n s õ e s l o c a l i z a d a s q u e r e s t r i n g e m a 
c a p a c i d a d e d e m o v i m e n t o d a s a r t i c u l a ç õ e s e d o s g r u p o s m u s c u l a -
r e s , o b s t r u i n d o o f l u x o e n e r g é t i c o q u e a t r a v e s s a n o s s o c o r p o . 
A o o b s e r v a r as p o s t u r a s q u e n o r m a l m e n t e a d o t a m o s , é p o s -
s í v e l p e r c e b e r de o n d e p r o v é m a m a i o r p a r t e d a s t e n s õ e s . U m a 
t e n s ã o l o c a l i z a d a n o j o e l h o o u n o s c o t o v e l o s p o d e l i m i t a r n o s s a 
c a p a c i d a d e d e a n d a r o u d e m o v i m e n t a r l i v r e m e n t e o s b r a ç o s , 
m a s esse p r o b l e m a p o d e s e r e v i t a d o a t r a v é s d o r e l a x a m e n t o d a 
a r t i c u l a ç ã o c o r r e s p o n d e n t e . 
T e o r i c a m e n t e , e s s a e s t r u t u r a ó s s e a d e v e e s t a r s e m p r e a b e r t a 
e, p a r a isso, c o s t u m a m o s e m p r e g a r v á r i o s e x e r c í c i o s d e a l o n g a -
m e n t o m u s c u l a r e d e c o n s e r v a ç ã o d o s e s p a ç o s i n t e r n o s . P o r 
e x e m p l o : se p r e s e r v a r m o s u m m a i o r e s p a ç o p a r a os p u l m õ e s , a 
r e s p i r a ç ã o g a n h a m a i s a m p l i t u d e e h á u m a m e l h o r o x i g e n a ç ã o d e 
t o d o o o r g a n i s m o , u m v e r d a d e i r o i n c r e m e n t o d e e n e r g i a v i t a l . I s s o 
p o d e p r o p o r c i o n a r p r a z e r , r e l a x a m e n t o e a l í v i o d a t e n s ã o m u s c u l a r . 
9 7 
• 
N o i n í c i o d o t r a b al h o c o r p o r a l é m u i t o difícil l o c a l i z a r as 
tensões m u s c u l a r e s . E l a s e s t ã o e s t r i t a m e n t e l i g a d a s às t e n s õ e s de 
f u n d o e m o c i o n a l e m e n t a l e em g e r a l s u r g i r a m h á t a n t o t e m p o 
q u e n a m a i o r i a das vezes j á c o n s t i t u e m u m h á b i t o o u u m a s e g u n d a 
n a t u r e z a . C o m o j á foi d i t o , uma d a s t é c n i c a s q u e c o s t u m o e m p r e -
g a r p a r a a o b s e r v a ç ã o das tensões é a s e q ü ê n c i a dos m o v i m e n t o s 
básicos de a g a c h a r , s e n t a r , d e i t a r e l e v a n t a r . D u r a n t e essa s e q ü ê n -
c i a é possível p e r c e b e r q u a n t o n o s s a linguagem c o r p o r a l é p o b r e 
e c o m o r e p e t i m o s os mesmos gestos m e c a n i c a m e n t e , em conse-
q ü ê n c i a de tensões q u e i n i b e m n o s s o " v o c a b u l á r i o " g e s t u a l . 
E m n o s s a civilização, c a r a c t e r i z a d a pe1o estresse, o i n d i v í d u o 
t e n d e a m a n t e r com o p r ó p r i o c o r p o u m a r e l a ç ã o c a d a d i a p i o r . 
O a c ú m u l o de tensões é uma c o n s t a n t e no c o t i d i a n o . P a r a j u s t i -
ficá-lo, as pessoas c o s t u m a m dizer que a velhice e s t á c h e g a n d o , 
q u e e s t ã o com r e u m a t i s m o , p r o b l e m a de c o l u n a ou q u a l q u e r o u t r a 
mazela. Q u a s e s e m p r e , p o r é m , n a d a disso é m u i t o v e r d a d e i r o , 
pois o q u e se p r o c u r a é a p e n a s u m a d e s c u l p a d i a n t e de t e n s õ e s 
q u e a c a b a m c o m p r o m e t e n d o s e r i a m e n t e os m o v i m e n t o s mais sim-
ples e i n i b i n d o a s e n s i b i l i d a d e e a p e r c e p ç ã o c o r p o r a l . 
No c o r p o h u m a n o existem v á r i o s p o n t o s suscetíveis de t e n s ã o . 
A l é m dos anéis a m p l a m e n t e e s t u d a d o s p o r R e i c h , a l í n g u a , o 
c o t o v e l o , o j o e l h o e o d e d ã o do pé s ã o t a m b é m g r a n d e s focos 
de tensão. A l í n g u a m e r e c e um e s t u d o à p a r t e - e n t r e o u t r a s 
coisas, ela e s t á em e s t r e i t a r e l a ç ã o com a r e s p i r a ç ã o . A l í n g u a 
a c o m p a n h a , com m o v i m e n t o s m u s c u l a r e s i m p e r c e p t í v e i s , t o d o o 
p r o c e s s o de i n s p i r a ç ã o e e x p i r a ç ã o . 
Nesse s e n t i d o , tensões l o c a l i z a d a s na l í n g u a p r e j u d i c a m o 
d e s e m p e n h o d a s funções r e s p i r a t ó r i a s . P o r o u t r o l a d o , p o r e s t a r 
em e s t r e i t a r e l a ç ã o com a m u s c u l a t u r a d o pescoço, t e n s õ e s ali 
l o c a l i z a d a s p o d e m p r o v o c a r t e n s ã o em t o d o o t r o n c o . 
Desde a i n f â n c i a t o d o s nós t r a z e m o s l e m b r a n ç a s f o r t e m e n t e 
g r a v a d a s de o d o r e s d e f r u t a s , de c o m i d a s , de pessoas, de lugares 
e até mesmo de o b j e t o s , o d o r e s q u e de alguma forma já e s t ã o 
· ·d m nossa m e m ó r i a e m o c i o n a l e q u e são p a r t e indissolúvel m c u t l os e 
de nossa p e r s o n a l i d a d e . 
N e c e s s i t a m o s dessas l e m b r a n ç a s bem vivas se quise~mos sen-
tir 0 m u n d o com i n t e n s i d a d e e se q u i s e r m o s nos m a m f e s t a r _no 
m u n d o com i n t e i r e z a . E uma d a s p o r t a s de e n t r a d a e de s m d a 
dessas e m o ç õ e s é j u s t a m e n t e a língua. T a m b é m se conh~c:. a 
i m p o r t â n c i a vital do ó r g ã o no p r o c e s s o de _ver~alizaç~o d a s ~deias 
- além de l i g a d a à a l i m e n t a ç ã o , à r e s p i r a ç a o e a e m o ç a o , a 
l í n g u a e s t á d i r e t a m e n t e r e l a c i o n a d a ao exercício d a fala. 
o ânus c o m o o u t r a p o r t a d a s emoções, a l é m de c u m p r i r a 
f u n ç ã o espe~ífica de a p a r e l h o e x c r e t o r re~e~a a i n d a e s t a d o s em~­
c i o n a i s _ os d e s a r r a n j o s i n t e s t i n a i s , a p n s a o de v e n t r : e ~ p r o -
p r i a e x c r e ç ã o estão a s s o c i a d o s a p r o c e s s o s físico-~mocwnms ~~e 
a t u a m s o b r e t o d o 0 c o r p o e, m u i t a s vezes, se l o c a l i z a m n a reg1ao 
d o e s f í n c t e r anal. 
o mesmo o c o r r e em r e l a ç ã o aos d e m a i s ó r g ã o s d o s e n t i d o , 
e m m e n o r escala. O a p a r e l h o a u d i t i v o , p o r e x e m p l o , t a m -mas 
· d ' bém p o d e s e r um f o c o d e t e n s ã o que age ~e : o r m a ~~~s ! r e t a 
s o b r e a c a b e ç a . C e r t a s d i f i c u l d a d e s de a s s o c m ç a o de t~eJas ~ d~ 
a r t i c u l a ç ã o d o p e n s a m e n t o p r o v ê m desse t i p o d e . t~~sao. N a o e 
à t o a que as pessoas s u r d a s desenvolvem uma sens1b1hd~de ~o:po­
ral d i f e r e n t e , assim c o m o os cegos, que e n c o n t r a m m m t a dificul-
d a d e em p e r c e b e r s e u s c o r p o s , em t e r u m a imagem c o r p o r a l de 
si mesmos. 
Além disso, existem diversos p o n t o s em nosso c o r p o q u : são 
v e r d a d e i r o s c e n t r o s n e r v o s o s i r r a d i a d o r e s de e n e r g i a , assocm~os 
às emoções: 0 q u e i x o , a região d a t r a q u é i a , o e s t e r n o , a c n s t a 
d o i l í a c o , a região d o p ú b i s , a c o x o f e m o r a l . 
Esses p o n t o s , q u a n d o b l o q u e a d o s , a c u m u l a m t e n s ã o e e m 
t o r n o deles vai se f o r m a n d o u m a v e r d a d e i r a coura~a. musc~lar. 
o ~quilíbrio dessas t e n s õ e s - e n t e n d i d o .c~m.o a tomc1da~e Ideal 
dos m ú s c u l o s _ p e r m i t e t a m b é m o e q m h b n o das e m o ç o e s q u e 
d e r i v a m de c a d a u m desses p o n t o s . 
99 
H á u m a d i f e r e n ç a m u i t o g r a n d e , p o r e x e m p l o , e n t r e a e m o ç ã o 
e x p r e s s a a t r a v é s d o e s t e r n o - q u e a t u a m a i s n o s e n t i d o d a p r o -
j e ç ã o - e a e m o ç ã o q u e flui d a r e g i ã o d o s q u a d r i s . E s s e s p o n t o s 
o u a r t i c u l a ç õ e s n ã o a t u a m a p e n a s c o m o d o b r a d i ç a s d o c o r p o , m a s 
t a m b é m c o m o m a r c o s d i v i s o r e s d a s m a i s d i f e r e n t e s e m o ç õ e s . De 
c e r t a f o r m a , a c a d a g r u p o m u s c u l a r e a r t i c u l a r c o r r e s p o n d e d e t e r -
m i n a d a e m o ç ã o e, d e p e n d e n d o d a e m o ç ã o q u e se q u e i r a t r a n s -
m i t i r , d e v e - s e p r i v i l e g i a r o t r a b a l h o c o m esse o u a q u e l e g r u p o 
m u s c u l a r , essa o u a q u e l a a r t i c u l a ç ã o . 
Se e s t a m o s c o n s t r u i n d o u m p e r s o n a g e m c u j a c a r a c t e r í s t i c a 
p r i n c i p a l s e j a o m e d o , p o r e x e m p l o , o c e n t r o é a p a r t e m a i s 
l i g a d a a essa e m o ç ã o . A l g u é m c o m a s e n s a ç ã o d e m e d o t e n d e 
a se f e c h a r , a r q u e a n d o os o m b r o s e a p o i a n d o - s e n a s c o s t a s . 
Q u a n d o os e s p a ç o s a r t i c u l a r e s s ã o s a t i s f a t o r i a m e n t e p r e s e r v a d o s , o 
j o g o d e e m o ç õ e s a s s o c i a d a s a esses p o n t o s p o d e s e r p l e n a m e n t e 
s e n t i d o . 
·,., Q u a n d o i n i c i a m o s u m t r a b a l h o c o r p o r a l d a m a n e i r a c o m o 
p r o p o n h o , e s t e j a ele v o l t a d o p a r a a d a nç a , o t e a t r o o u q u a l q u e r 
o u t r a a t i v i d a d e , a p r i m e i r a n e c e s s i d a d e q u e se i m p õ e é a d e r r u b a d a 
d a p a r e d e q u e s e p a r a a s a l a de a u l a , o n d e e x e r c i t a m o s n o s s o s 
c o r p o s , d o m u n d o e x t e r i o r , o n d e v i v e m o s n o s s a v i d a c o t i d i a n a . 
N ã o p o d e m o s e s q u e c e r q u e o c o r p o q u e q u e r e m o s e x e r c i t a r é o 
m e s m o c o m o q u a l n o s a c o s t u m a m o s a c o r r e r , b r i n c a r , a m a r o u 
s o f r e r . Q u a n t o m a i s l e v a r m o s em c o n t a e s s a d i m e n s ã o e x i s t e n c i a l 
r e v e l a d a a t r a v é s d o n o s s o c o r p o , q u a n t o m a i s c o n s i d e r a r m o s a s 
d ú v i d a s e q u e s t i o n a m e n t o s q u e n a s c e m n a r e l a ç ã o c o m o m u n d o 
e x t e r i o r , m a i s p r o v e i t o s o p o d e r á v i r a s e r o t r a b a l h o r e a l i z a d o e 
t a n t o m a i s r i c o o r e s u l t a d o o b t i d o . 
P o r o u t r o l a d o , a r e l a ç ã o p r o f e s s o r - a l u n o n ã o d e v e s e r m u i t o 
d i f e r e n t e d a s r e l a ç õ e s q u e m a n t e m o s c o m as p e s s o a s e m n o s s a 
v i d a d i á r i a . É m u i t o c o m u m , p e l o m e n o s nos e s t á g i o s i n i c i a i s , a 
t e n d ê n c i a d o a l u n o a p r o j e t a r n o p r o f e s s o r s u a n e c e s s i d a d e d e u m 
p o n t o d e r e f e r ê n c i a e x t e r n o , u m a f i g u r a d e s t i n a d a a a b s o r v e r 
t o d o g ê n e r o d e c a r ê n c i a s . 
1 0 0 
M a s , q u a n d o e s s a t r a n s f e r ê n c i a o c o r r e e é d e t e c t a d a p e l o 
r o f e s s o r , e s t e d e v e r á e n c o n t r a r u m m e i o c a p a z d e p e r m i t i r q u e ~ a l u n o se d ê c o n t a d o f a t o , p o i s a s s i m p o d e r á a j u s t a r - s e a o 
t r a b a l h o e a si m e s m o . A r e l a ç ã o d o t i p o p r o f e s s o r - g u r u - o n i p o -
t e n t e e a l u n o - f i e l - s u b s e r v i e n t e p o d e s e r m u i t o p r e j u d i c i a l a o t r a -
b a l h o q u e se e s t á d e s e n v o l v e n d o , a s s i m c o m o à p r ó p r i a v i d a . 
A o l o n g o d e s s e p r o c e s s o é f u n d a m e n t a l c o n s i d e r a r a r e l a ç ã o 
m u n d o - e u , v e r d a d e i r a o r i g e m e m o t o r d o m o v i m e n t o e d a p r ó p r i a 
d a n ç a , p o i s d a d i n â m i c a d e s s e r e l a c i o n a m e n t o é q u e e m e r g e a 
s i n g u l a r i d a d e q u e faz d e c a d a p e s s o a u m s e r ú n i c o e d i f e r e n c i a d o . 
A t r a v é s d a v i v ê n c i a d a r e l a ç ã o m u n d o - e u , o e u i n t e r n o d e s a -
b r o c h a a p a r t i r d o a m a d u r e c i m e n t o d o eu s o c i a l , q u e n a d a m a i s 
é d o q u e a n o s s a f o r m a d e r e l a ç ã o c o m o m u n d o e x t e r i o r . 
A d e s c o b e r t a d o eu i n t e r n o , de u m s e r ú n i c o , i n d i v i d u a l e 
c r i a t i v o , é i n d i s p e n s á v e l a o e x e r c í c i o d a d a n ç a , se q u i s e r m o s 
q u e e l a se t o r n e u m a f o r m a de e x p r e s s ã o d a c o m u n i d a d e h u m a n a . 
D e s d e o n a s c i m e n t o s o m o s s u b m e t i d o s a u m a s é r i e d e c o n d i c i o n a -
m e n t o s s o c i a i s , a n t e s m e s m o de v i v e r m o s os p r o c e s s o s d e e d u c a -
ç ã o f o r m a l , o q u e a c a b a r e s u l t a n d o e m p r o c e d i m e n t o s m e c â n i c o s 
e r e p e t i t i v o s , d o s q u a i s n ã o t e m o s p e r c e p ç ã o o u c o n s c i ê n c i a . 
Se isso, de u m l a d o , f a c i l i t a a n o s s a e x i s t ê n c i a c o t i d i a n a , 
p o r o u t r o a f a s t a e d i f i c u l t a o p r o c e s s o d e a u t o c o n h e c i m e n t o . E m 
o u t r a s p a l a v r a s , a m e m ó r i a r o b o t i z a d a p o d e p r o d u z i r f o r m a s j á 
c a t a l o g a d a s e c o n h e c i d a s , m a s d i f i c i l m e n t e c r i a r m o v i m e n t o s n o v o s 
e r i c o s e m e x p r e s s ã o . 
E a d a n ç a n ã o s i g n i f i c a r e p r o d u z i r a p e n a s f o r m a s . A f o r m a 
p u r a é f r i a , e s t á t i c a , r e p e t i t i v a . D a n ç a r é m u i t o m a i s a v e n t u r a r - s e 
n a g r a n d e v i a g e m d o m o v i m e n t o q u e é a v i d a . N e s s e s e n t i d o , a 
f o r m a p o d e se c o m p a r a r à m o r t e e o m o v i m e n t o à v i d a . 
O s m o v i m e n t o s c i r c u l a r e s s ã o os m a i s r e l a x a n t e s p a r a o c o r p o . 
D e c e r t a f o r m a , eles l i b e r a m as a r t i c u l a ç õ e s e os g r u p o s m u s c u l a -
res, p e r m i t i n d o o e q u i l í b r i o ó s s e o e m u s c u l a r , a o c o n t r á r i o d a 
l i n h a r e t a , q u e às v e z e s b l o q u e i a e i m p e d e a e x p l o r a ç ã o d a s m a i s 
d i v e r s a s p o s s i b i l i d a d e s d e m o v i m e n t o . 
101 
Essa l i n h a c u r v a , o u r e d o n d a , vai g~::rando a n é i s m u s c u l a r e s 
p o r t o d o o c o r p o . Estes, p o r sua vez, se n ã o e v o l u í r e m p a r a u m a 
e s p i r a l , i r ã o p r o v o c a r a t e n s ã o . Assim, o m o v i m e n t o c i r c u l a r 
d e v e r á p r o c u r a r s e m p r e o c a m i n h o da e s p i r a l , de u m a c u r v a a b e r t a , 
pois do c o n t r á r i o g i r a r e m o s mas s e r e m o s i n c a p a z e s de s a i r do 
l u g a r . 
De q u a l q u e r forma, t é c n i c a n ã o é estética. A p e s a r de p o s s u i r 
um s e n t i d o u t i l i t á r i o na d a n ç a , a essência da t é c n i c a c o n s t i t u i 
a p e n a s u m a f o r m a de o r g a n i z a r e d i f u n d i r um d e t e r m i n a d o c o n h e -
c i m e n t o a r e s p e i t o do p r ó p r i o c o r p o e das p o s s i b i l i d a d e s de 
m o v i m e n t o . 
E s s a t é c n i c a , p o r t a n t o , deve ser c r i s t a l i n a , t r a n s p a r e n t e , pois 
d o que a d i a n t a fazermos uma série de m o v i m e n t o s f o r m a l m e n t e 
c o n s i d e r a d o s b o n i t o s se isso n ã o t r a d u z ou e x p r e s s a n a d a , se n ã o 
há o b j e t i v o ou i n t e n ç ã o n a q u i l o que faço e se, a c i m a de t u d o , n ã o 
c o n t r i b u i p a r a meu a u t o c o n h e c i m e n t o ? 
H á uma m e n t a l i d a d e p r e d o m i n a n t e que c o n c e b e a t é c n i c a 
corpo um fim em si, q u a n d o na v e r d a d e ela deve s e r mais um 
m e i o eficaz e em plena s i n t o n i a com os fins que p r o p o n h o a t i n g i r . 
E a t é c n i c a eficaz talvez seja a q u e l a que t o r n a possível e x t r a p o l a r 
t o d o s os falsos e r e p e t i t i v o s c o n c e i t o s de beleza, que p e r m i t e 
c r i a r ou r e v e l a r a i d e n t i d a d e e n t r e a d a n ç a e o d a n ç a r i n o , e n t r e 
q u e m d a n ç a e o que está s e n d o d a n ç a d o . 
P o d e m o s d i z e r que o que faz a b e l e z a de um m o v i m e n t o é a 
c l a r e z a , a o b j e t i v i d a d e . Q u a n d o o m o v i m e n t o é limpo, c o n s e g u e 
e x p r e s s a r a q u i l o que busca e x p r e s s a r e, c o m o c o n s e q ü ê n c i a n a t u r a l 
de s u a v e r d a d e , g a n h a em beleza e em o ç ã o . P r e c i s a m e n t e a í reside 
seu v a l o r estético. 
É m u i t o difícil m a n i f e s t a r um s e n t i m e n t o , uma e m o ç ã o , uma 
i n t e n ç ã o , se me o r i e n t o mais por f o r m a s c o n d i c i o n a d a s e c o n -
c e i t o s p r e e s t a b e l e c i d o s do q u e pela v e r d a d e do meu gesto. O que 
c o n f e r e a u t e n t i c i d a d e e e x p r e s s ã o a u m d a d o m o v i m e n t o c o r e o -
g r á f i c o é p r e c i s a m e n t e o p o d e r q u e ele tem de t r a d u z i r c e r t a s 
1 0 2 
e m o ç õ e s , s e n t i m e n t o s o u s e n s a ç õ e s , de t a l f o r m a que s e r i a impos-
sível t r a d u z i - l o s de o u t r a f o r m a ou a t r a v é s d o r e c u r s o de o u t r a 
l i n g u a g e m . O u seja: o q u e é d a n ç a d o é d a n ç a d o p o r a l g u é m 
que vive i n t e n s a m e n t e a q u e l e m o v i m e n t o , a q u e l e gesto, e p o r 
isso c o n s e g u e e x p r e s s á - l o p l e n a m e n t e . 
Q u a n d o s o l t a m o s nosso c o r p o - o que n ã o significa des-
p e n c a r - , o m o v i m e n t o que e x e c u t a m o s flui l i v r e m e n t e , o b e d e -
c e n d o a uma f o r m a de o r g a n i z a ç ã o n a t u r a l , a uma linguagem 
g e s t u a l que, de a l g u m m o d o , já c o n s t i t u i p a r t e de nossa d i n â m i c a 
e e s t á em h a r m o n i a com nossa c a p a c i d a d e a n a t ô m i c a e f u n c i o n a l , 
com n o s s a c a p a c i d a d e de m o v i m e n t o . 
P o r o u t r o l a d o , as s i t u a ç õ e s s o c i a i s e c u l t u r a i s i n f l u e n c i a m 
m u i t o o c o m p o r t a m e n t o g e s t u a l e p o s t u r a ! q u e a d o t a m o s . P o r 
e x e m p l o , as s o c i e d a d e s p o l i n é s i a , h a v a i a n a e t a i t i a n a , c é l e b r e s 
p e l a l i b e r d a d e de c o s t u m e s , p r o d u z e m n a q u e l e s p o v o s p o s t u r a s e 
m o v i m e n t o s flexíveis e r e d o n d o s , d e n o t a n d o o g r a u de l i b e r d a d e 
q u e a q u e l a s p e s s o a s d e s f r u t a m . J á u m a s o c i e d a d e g u e r r e i r a , de 
c a ç a d o r e s , c o m o a de c e r t a s t r i b o s a f r i c a n a s , p r o d u z p o s t u r a s e 
m o v i m e n t o s fortes, i n t e n s o s , de g r a n d e c o n c e n t r a ç ã o e c o n t e ú d o 
r í t m i c o . 
As t é c n i c a s e x c e s s i v a m e n t e f o r m a i s q u e d e s c o n s i d e r a m esses 
fatos q u a s e s e m p r e c a e m n o vazio, n o l i m i t e d o s gestos a r t i f i c i a i s 
e d e s p r o v i d o s de e m o ç ã o . Nesse caso, os m o v i m e n t o s s ã o c o n f u s o s 
e p o u c o o b j e t i v o s e o q u e se a p r e s e n t a c o m o e m o ç ã o s ã o a p e n a s 
m á s c a r a s , a r t i f í c i o s t e c n i c a m e n t e p r o d u z i d o s , sem q u a l q u e r r e l a ç ã o 
com um i m p u l s o v i t a l . O que essas t é c n i c a s i g n o r a m é a p r ó p r i a 
v i t a l i d a d e do m o v i m e n t o . 
O b v i a m e n t e . nosso c o r p o n e c e s s i t a de c e r t o s c ó d i g o s p a r a 
q u e p o s s a se e x p r i m i r . E n t r e t a n t o , esses c ó d i g o s d e v e m b r o t a r d o 
m o v i m e n t o que e x e c u t a m o s a p a r t i r de nossa p r ó p r i a linguagem 
g e s t u a l , d a q u e l a l i n g u a g e m que e m p r e g a m o s n o d i a - a - d i a . T e n d o 
c o n s c i ê n c i a dessa l i n g u a g e m posso me c o m u n i c a r a t r a v é s d e l a , 
p o s s o d a n ç a r com ela. 
1 0 3 
Se n ã o c o n s e g u i m o s e s t a b e l e c e r um c o n t a t o c o n s c i e n t e c o m 
o n o s s o eu i n t e r i o r , c o n t a t o q u e n o r m a l m e n t e se p e r d e d e s d e a 
i n f â n c i a , p e r m a n e c e m o s i m p o t e n t e s e i n c a p a z e s de c r i a r um v e r d a -
d e i r o d i á l o g o , s e j a ele q u a l for. E m l i n g u a g e m c o r p o r a l , isso 
i r á t r a d u z i r - s e em g e s t o s , p o s t u r a s e a t i t u d e s m e d r o s o s , l i m i t a d o s , 
i n s e g u r o s , r e v e l a n d o a m a n e i r a c o m o nos p r o j e t a m o s n o m u n d o . 
O f a t o de c a d a p e s s o a s e r , e m s í n t e s e , o p r ó p r i o m u n d o , 
um m i c r o c o s m o , p e r m i t e q u e ela e n c o n t r e r e s p o s t a s p a r a s u a s 
d ú v i d a s , p a i x õ e s e a n s i e d a d e s q u a n d o m e r g u l h a c o m c o r a g e m e 
t é c n i c a em seu u n i v e r s o i n t e r i o r . T a l v e z s e j a isso q u e faz c o m q u e 
g r a n d e s a t o r e s r e p r e s e n t e m um m e s m o p e r s o n a g e m c e n t e n a s de 
vezes, s e m p r e de m a n e i r a s d i s t i n t a s . O u seja: b u s c a n d o e m si a 
v e r d a d e d a q u e l e p e r s o n a g e m , o a t o r p o d e c o n s e g u i r a c a d a n o v a 
a p r e s e n t a ç ã o e x p l o r a r a s p e c t o s novos e i n é d i t o s do ser f i c t í c i o -
m a s a o m e s m o t e m p o real - que e n c a r n a . 
O m e s m o p r o c e s s o se a p l i c a à c o n s t r u ç ã o dos t i p o s o u p e r s o -
n a g e n s d o balé clássico: q u a n d o essa t é c n i c a é d e v i d a m e n t e a p l i -
c a d a , as G i s e l l e s , O d e t e s e C o p é l i a s d e i x a m de s e r p e r s o n a g e n s 
a c a d ê m i c o s p a r a se t o r n a r v e r d a d e i r o s clássicos, d e i x a m d e s e r 
e s t e r e ó t i p o s de p e r s o n a l i d a d e s h u m a n a s p a r a a t i n g i r a d i m e n s ã o 
de a u t ê n t i c o s a r q u é t i p o s d a h u m a n i d a d e . 
N o t e a t r o ou na d a n ç a , o a t o r e o b a i l a r i n o d e s e n c a d e i a m a 
p a r t i r de s u a s i n d i v i d u a l i d a d e s um r i c o p r o c e s s o c r i a t i v o , a t r a v é s 
do q u a l os e l e m e n t o s t é c n i c o s ad.quiridos p o d e m s e r c o d i f i c a d o s 
e, em s e g u i d a , r e p r e s e n t a d o s . A t é c n i c a c u m p r e a q u i a t a r e f a de 
d a r c o r p o e a l m a a c a d a t i p o o u p e r s o n a g e m q u e se q u e i r a 
r e p r e s e n t a r . E s t e , p a r a mim, deve s e r o p r o c e s s o de c r i a ç ã o 
c a p a z de p r o d u z i r o b r a s e m a n i f e s t a ç õ e s v e r d a d e i r a m e n t e a r t í s t i c a s . 
N o t e r r e n o d a a r t e , a o b r a só t o m a c o r p o na r e l a ç ã o q u e o 
a r t i s t a m a n t é m c o m a r e a l i d a d e que o c e r c a , m e s m o que essa r e l a -
ç ã o seja a t r a v e s s a d a p e l a s m e d i a ç õ e s mais sutis. O a r t i s t a , c o m o 
c r i a d o r , m a i s do que n i n g u é m n e c e s s i t a a g u ç a r s u a p e r c e p ç ã o d o 
r e a l , e o m o m e n t o d a c r i a ç ã o p r e s s u p õ e e a o m e s m o t e m p o 
e n c e r r a o p r o c e s s o de a u t o c o n h e c i m e n t o . 
1 0 4 
O c o r p o h u m a n o é uma s í n t e s e d o U n i v e r s o . N ã o s o u eu 
q u e m diz, nem tal c o i s a foi d i t a a p e n a s neste s é c u l o . Mas s a b e m o s 
q u e no c o r p o t o d a s as r e l a ç õ e s . t o d a s as p r o p o r ç õ e s u n i v e r s a i s 
e s t ã o de a l g u m a f o r m a c o n t i d a s e é p r e c i s a m e n t e essa i n f i n i d a d e 
de a t r i b u t o s , f u n ç õ e s e p o ss i b i l i d a d e s que faz do c o r p o um v e r d a -
d e i r o m i s t é r i o . 
A p e s a r de t o d o c o n h e c i m e n t o a c u m u l a d o a seu r e s p e i t o , o 
c o r p o h u m a n o a i n d a n ã o foi c o m p l e t a m e n t e e x p l o r a d o e t a l v e z 
n u n c a c h e g u e m o s a c o n c l u s õ e s d e f i n i t i v a s s o b r e s u a s p o t e n c i a l i -
d a d e s . De q u a l q u e r f o r m a , sua e x i s t ê n c i a revela a p r e s e n ç a de 
algo c u j a d i m e n s ã o t r a n s c e n d e a sua p r ó p r i a m a t e r i a l i d a d e : a q u i l o 
q u e c o m u m e n t e c h a m a m o s de e n e r g i a vital. 
A t u a l m e n t e , em d i v e r s o s p a í s e s do m u n d o , d e s e n v o l v e - s e um 
a m p l o t r a b a l h o no c a m p o da b i o e n e r g é t i c a , que p e r m i t e s u s t e n t a r 
a i d é i a de que a e n e r g i a é a base da p r ó p r i a vida. C o m o p o t e n -
c i a l i z a r e c a n a l i z a r essa e n e r g i a em um s e n t i d o c r i a t i v o é o q u e 
nos i n t e r e s s a mais de p e r t o , t a n t o no d o m í n i o d a a r t e q u a n t o d a 
p r ó p r i a vida. 
M e s m o r e l a t i v i z a n d o a o n i p o t ê n c i a q u e se c o s t u m a a t r i b u i r a o 
h o m e m e n q u a n t o s e r r a c i o n a l , n ã o há c o m o n e g a r sua c a p a c i d a d e 
c o n s c i e n t e de l a n ç a r m ã o dessa e n e r g i a , m o d i f i c a n d o - s e ou i n t e r -
v i n d o s o b r e p r o c e s s o s n a t u r a i s . A p r ó p r i a a t i v i d a d e b i o l ó g i c a , 
c a r a c t e r i z a d a p o r um c o n t í n u o m o v i m e n t o , é a u s i n a que p r o d u z 
essa e n e r g i a vital e g e r a um fluxo e n e r g é t i c o q u e se p r o c e s s a p o r 
t o d a s as á r e a s do c o r p o h u m a n o . 
E m a l g u m a s d e s s a s á r e a s , esse fluxo é bem mais visível, c o m o 
p o r e x e m p l o nas m ã o s e nos pés, regiões que se c o m u n i c a m com 
o m u n d o e x t e r n o de f o r m a m u i t o mais i n t e n s a . A l é m dessas 
regiões, o p l e x o s o l a r , o e s t e r n o , a g a r g a n t a . a v i r i l h a , s ã o g r a n d e s 
c e n t r o s n e r v o s o s o n d e t a m b é m se r e a l i z a um i n t e n s o fluxo e n e r -
gético. 
A t r a v é s d a e n e r g i a v i t a l p r o d u z i d a p o r m i n h a p r ó p r i a ativi-
d a d e b i o l ó g i c a r e l a c i o n o - m e com o m u n d o , c o m i g o m e s m o e com 
1 0 5 
t u d o o q u e me c e r c a . M i n h a e n e r g i a v i t a l c r e s c e n a m e s m a m e d i d a 
q u e o m e u t r a b a l h o c o r p o r a l se t o m a c o n s c i e n t e . Q u a n t o mais 
p r e s e n t e em mim m e s m o eu ~stiver, q u a n t o mais a t e n t o a c a d a 
g e s t o ou d e s l o c a m e n t o , m a i o r p o d e r á s e r a m i n h a p r o d u ç ã o e 
c o n c e n t r a ç ã o de e n e r g i a vital. 
M o v i d o p o r essa n e c e s s i d a d e f u n d a m e n t a l - a c o n s c i ê n c i a 
de mim - é q u e p r o c u r o , a t r a v é s d o meu t r a b a l h o , p r o p o r c i o n a r 
à s p e s s o a s u m a c o n s c i ê n c i a c o r p o r a l a p a r t i r d a p e r c e p ç ã o d o s 
e s p a ç o s i n t e r n o s d o p r ó p r i o c o r p o . Nesses e s p a ç o s , que em geral 
c o r r e s p o n d e m às d i v e r s a s a r t i c u l a ç õ e s , se l o c a l i z a m fluxos e n e r g é -
t i c o s e se i n s e r e m os v á r i o s g r u p o s m u s c u l a r e s . 
A i n d a é b o m r e s s a l t a r q u e a p r e s e r v a ç ã o do e s p a ç o c o r p o r a l 
a t u a no s e n t i d o de g a r a n t i r u m a b o a r e l a ç ã o de e q u i l í b r i o , p o i s 
q u a n d o se s u b t r a i o e s p a ç o c o r p o r a l s u r g e a t e n d ê n c i a à d i m i -
n u i ç ã o d a c a p a c i d a d e de e q u i l í b r i o e q u a n d o se c o n s e g u e p r e -
s e r v a r e a m p l i a r esse e s p a ç o o e q u i l í b r i o a l c a n ç a um p o n t o 
s a t i s f a t ó r i o . 
P a r a e n t e n d e r essa r e l a ç ã o , m e s m o s a b e n d o q u e o c o r p o 
c o n s t i t u i u m a t o t a l i d a d e i n d i v i s í v e l , p o d e m o s e x e m p l i f i c a r d i z e n d o 
q u e e x i s t e m d o i s t i p o s d e e q u i l í b r i o (ou d e s e q u i l í b r i o ) q u e se 
i n f l u e n c i a m m u t u a m e n t e : o i n t e r n o e o e x t e r n o . Um d a d o e q u i -
l í b r i o (ou d e s e q u i l í b r i o ) e x t e r n o g e r a um d a d o e q u i l í b r i o (ou d e s e -
q u i l í b r i o ) e x t e r n o . E v i c e - v e r s a . 
D o m e s m o m o d o , existe um e s p a ç o i n t e r i o r , e m o c i o n a l , m e n -
t a l , p s i c o l ó g i c o , e um e s p a ç o e x t e r i o r , q u e é o n d e se m a n i f e s t a a 
d i n â m i c a d o c o r p o . A s e n s a ç ã o de e q u i l í b r i o c o r r e s p o n d e a o 
m o m e n t o o u a o s m o m e n t o s em q u e d e s c o b r i m o s u m a m a n e i r a 
h a r m ô n i c a de u t i l i z a ç ã o d o e s p a ç o , e m q u e e q u i l í b r i o i n t e r i o r e 
e x t e r i o r j á n ã o se d i f e r e n c i a m mais. 
O h o m e m se i n s e r e no U n i v e r s o e a t u a c o m o s í n t e s e d e s s e 
U n i v e r s o de t a l m a n e i r a que, a o me c o n h e c e r e c o n h e c e r a h u m a -
n i d a d e , e s t o u d e s v e n d a n d o o p r ó p r i o U n i v e r s o . E s s a r e l a ç ã o p o d e 
s e r e s m i u ç a d a a t é o nível c e l u l a r , c o m o p a r t e d e um p r o c e s s o 
1 0 6 
b a s e a d o na d i a l é t i c a d a p r ó p r i a n a t u r e z a , q u e c o n f o r m a e d i s p õ e 
a s c o i s a s e os h o m e n s i n d e p e n d e n t e m e n t e de q u a l q u e r v o n t a d e . 
C o m o h o m e n s e s e r e s n a t u r a i s , d e v e r í a m o s c o n s i d e r a r e p r o -
c u r a r r e s p e i t a r as leis d a n a t u r e z a t a m b é m i n e r e n t e s a n ó s . O 
f a t o de s e r m o s i n d i v í d u o s c u l t u r a i s n ã o e l i m i n a e s s a v e r d a d e , 
a p e s a r de nos a f a s t a r c a d a vez mais d e l a . O q u e p r o p o n h o é a 
r e t o m a d a d a s leis n a t u r a i s que regem t o d a e x i s t ê n c i a , e x a t a m e n t e 
a t r a v é s d o t r a b a l h o c o n s c i e n t e . 
107 
v 
Percepção corporal a partir de 
movimentos básicos 
No dia-a-dia realizamos uma infinidade de movimentos que 
acabam revelando a relação que costumamos manter com nosso 
corpo e com tudo mais que nos cerca. Se observarmos, por exem-
plo, o ato de andar, veremos como é possível identificar caracte-
rísticas muito distintas de comportamento. 
. Dependendo da relação que normalmente estabelecem os pés 
com o chão. podemos expressar agressividade, dor, alegria ou 
até mesmo ausência. Existem pessoas que agridem o chão ao 
andar, algumas que acariciam e outras ainda que simplesmente 
estão distantes do chão, às vezes deixando transparecer uma rela-
ção de completo abandono. 
Mas o simples ato da observação já interfere na minha ma-
neira de andar, pois tudo aquilo que é observado - o contato 
dos pés com o chão, a posição dos joelhos e quadris, a coloca-
ção do tronco em relação às pernas, a posição da cabeça em 
relação ao tronco - acaba sofrendo uma interferência. Movi-
mentos que hámuito tempo estão incorporados à nossa dinâmica 
são, a partir de então. evidenciados e se tornam perceptíveis. 
Observando atentamente o meu andar. percebo a relação de 
apoio que tenho com o chão e como meu corpo atua em movi-
108 
mento. A minha maior ou menor liberdade de movimento ao 
andar vai, assim, tornando mais clara a relação de equilíbrio que 
costumo manter com o solo, o espaço, a gravidade e meu pró-
prio corpo. 
Da mesma maneira que o andar, os movimentos de agachar, 
sentar, deitar, levantar, também possibilitam observar o desem-
penho das articulações nas ati(udes de postura mais comuns, ou 
ainda as dificuldades na passagem de um movimento para outro. 
É muito importante executar e perceber esses movimentos, pois 
eles acontecem a todo momento, quando sentamos numa cadeira, 
deitamos numa cama ou caminhamos pela rua. E para mim, mais 
do que numa aula, é no cotidiano que essa experiência de obser-
vação e questionamento deve ser vivenciada, permitindo que ges-
tos comuns se convertam em atitudes mais ou menos conscientes. 
Sem que haja consciência desses movimentos e da maneira 
como costumamos fazê-los é muito difícil avançar em direção a 
movimentos mais elaborados, que já exigem um certo conheci-
mento e domínio de si mesmo. Se não levarmos em conta essa 
realidade, qualquer tentativa nesse sentido tende a fracassar ou a 
se converter em pura ginástica. 
Um exemplo: certa vez dei um curso para um grupo de 
senhoras que pareciam se interessar apenas pela vida doméstica, 
pelas coisas que de uma forma ou de outra estavam relacionadas 
ao dia-a-dia. Então. pedi a elas que levassem para as aulas espa-
nadores, panos de chão, vassouras, e que repetissem os movi-
mentos que costumavam fazer ao limpar suas casas, procurando 
observar a maneira como se moviam. 
A partir daí sugeri que procurassem tornar os movimentos 
o mais agradável possível, mais conscientes, mais simples. Só 
mesmo através desse tipo de exercício essas senhoras passaram 
a perceber como se relacionavam mal consigo mesmas e de que 
forma poderiam melhorar essa relação do dia-a-dia. Não propus 
109 
e x e r c í c i o s s o f i s t i c a d o s : se o fizesse elas talvez rei u t a s s e m em t e n -
t a r o u , q u e m s a b e , n ã o e n t e n d e r i a m n a d a d o q u e e s t a v a s e n d o 
p r o p o s t o . 
Isso serve p a r a i l u s t r a r um p r i n c í p i o b á s i c o d o m e u t r a b a -
lho: a t r a v é s da o b s e r v a ç ã o e da p e r c e p ç ã o dos m o v i m e n t o s mais 
e l e m e n t a r e s c r i a m o s um c ó d i g o com n o s s o c o r p o , c o m e ç a m o s a 
s e n s i b i l i z a r as p a r t e s m o r t a s e a l i b e r a r as a r t i c u l a ç õ e s . N o s s o 
c o r p o vai r e a g i n d o aos mais d i f e r e n t e s e s t í m u l o s , d o m e s m o 
m o d o q u e um s a c o p l á s t i c o c h e i o de a r r e a g e a u m a d e t e r m i n a d a 
p r e s s ã o , d e s l o c a n d o - s e , i n f l a n d o em o u t r o p o n t o q u a l q u e r , com-
p e n s a n d o em o u t r a p a r t e a p r e s s ã o e x e r c i d a s o b r e ele. 
D i t o de o u t r a f o r m a , se e x e r c i t a m o s os pés p r o c u r a n d o a b r i r 
os e s p a ç o s e n t r e os d e d o s , m a s s a g e a n d o - o s , o c o r p o i n t e i r o r e s -
p o n d e a esse e s t í m u l o e o r e s u l t a d o p o d e s e r s e n t i d o a t é o á p i c e 
d a c a b e ç a , a t r a v é s d e u m a s e n s a ç ã o de c a l o r , de u m a e n e r g i a 
q u e flui d e b a i x o p a r a cima. E s s e c ó d i g o p o d e s e r e s t a b e l e c i d o 
de d i v e r s a s f o r m a s , mas n o início d o t r a b a l h o interes>a rn;:1::; a 
q u a n t i d a d e d o q u e a q u a l i d a d e dos m o v i m e n t o s e x e c u t a d o s . 
É i m p o r t a n t e t a m b é m m a n t e r - s e a t e n t o a c a d a gesto, a cada 
d e s l o c a m e n t o , à m a n e i r a c o m o as v á r i a s a r t i c u l a ç õ e s e g r u p o s 
m u s c u l a r e s reagem a o s m a i s d i f e r e n t e s e s t í m u l o s - q u a n d o , p o r 
e x e m p l o , e x p e r i m e n t o os m o v i m e n t o s de b a l a n ç a r , s a c u d i r , v i b r a r 
o u f l u t u a r . 
N o v a m e n t e o e x e r c í c i o d e a n d a r p a r e c e s e r v i r c o m o m e l h o r 
e x e m p l o : p r i m e i r o a n d o e a p e n a s o b s e r v o o meu a n d a r , se e s t o u 
à f r e n t e o u a t r á s das p e r n a s , se meu t r o n c o e s t á s o b r e os q u a d r i s 
o u m i n h a s c o s t a s me p u x a m p a r a t r á s , se m i n h a c a b e ç a p e n d e 
p a r a a d i r e i t a , p a r a a e s q u e r d a , p a r a a f r e n t e o u p a r a t r á s , se 
u m b r a ç o b a l a n ç a mai~ d o q u e o o u t r o , se caio p a r a a e s q u e r d a 
ou p a r a a d i r e i t a . 
D e p o i s disso p r o c u r o d e c o m p o r meu a n d a r e r e p r o d u z i r l e n -
L ' m e n t e meus movimentos, o b s e r v a n d o a passagem de uma a r t i -
1 1 0 
c u l a ç ã o p a r a o u t r a , de um a p o i o p a r a o u t r o , t e n t a n d o p e r c e b e r 
que a r t i c u l a ç ã o ou m u s c u l a t u r a e n t r a em a ç ã o nesse ou n a q u e l e 
m o v i m e n t o , n a t r a n s f e r ê n c i a de u m m o v i m e n t o p a r a o u t r o . 
A p a r t i r d a í v o l t o a a n d a r n o r m a l m e n t e e a o b s e r v a r se 
h o u v e alguma m u d a n ç a na m i n h a r e l a ç ã o c o m o c h ã o , n a m i n h a 
p o s t u r a , n a m i n h a s e n s a ç ã o do p e s o d o c o r p o . F i n a l m e n t e , t r a t o 
de r e o r g a n i z a r meu m o v i m e n t o de a c o r d o c o m essa p e r c e p ç ã o , 
b u s c a n d o e s i a b e l e c e r u m a r e l a ç ã o de e q u i l í b r i o : o peso do c o r p o 
s o b r e o m e t a t a r s o ; m a l é o l o s , j o e l h o s e q u a d r i s l e v e m e n t e g i r a n d o 
p a r a f o r a , o s q u a d r i s s o b r e as p e r n a s e o t r o n c o s o b r e os q u a -
d r i s ; a c a b e ç a n u m a p o s i ç ã o de a p r o x i m a d a m e n t e 9 0 ° em rela-
ç ã o a o p e s c o ç o e o c o r p o t o d o v o l t a d o p a r a a f r e n t e , e n f a t i z a n d o 
o t r a b a l h o d a m u s c u l a t u r a a n t e r i o r e p r o c u r a n d o a n u l a r a f o r ç a 
d a m u s c u l a t u r a p o s t e r i o r que, n o r m a l m e n t e , a t u a c o m o f r e i o d o 
m o v i m e n t o e nos p u x a p a r a t r á s . 
C a b e r e s s a l t a r q u e e s s a r e l a ç ã o d e e q u i l í b r i o só se t o r n a 
s a t i s f a t ó r i a q u a n d o a c o n t e c e c o m o r e s u l t a d o d a o b s e r v a ç ã o a t e n -
t a e d a p e r c e p ç ã o c o n s c i e n t e de c a d a m o v i m e n t o r e a l i z a d o . P o r 
isso mesmo, n ã o d e v e s e r vista c o m o f ó r m u l a i d e a l , c a p a z d e 
s o l u c i o n a r q u a l q u e r d e s v i o o u vício de p o s t u r a . 
O u t r o p o n t o i m p o r t a n t e ~ p e r m i t i r q u e o m o v i m e n t o sim-
p l e s m e n t e s u r í a , sem o b s e s s ã o o u i n t e l e c t u a l i z a ç ã o . E m l u g a r d e 
a f e r r a r - s e a u m a d a d a p o s t u r a , a u m a r e c e i t a d o q u e d e v e s e r o 
e q u i l í b r i o p o s t u r a ] , i n t e r e s s a m u i t o mais d e s p i r a p e s s o a d e s u a 
i m a g e m h a b i t u a l , d a p o s t u r a com aq u a l se a c o s t u m o u a e n c a r a r 
o m u n d o . E s s a p o s t u r a revela a t r i b u t o s e d e f e i t o s q u e l h e f o r a m 
s e n d o i m p r e s s o s e q u e , n a m a i o r i a d a s vezes, n u n c a c h e g a r a m a 
s e r s e r i a m e n t e q u e s t i o n a d o s . 
P o r isso mesmo, d u r a n t e a p r i m e i r a fase d o t r a b a l h o em-
p r e g o e x e r c í c i o s l ú d i c o s q u e , c o m o v e r e m o s m a i s à f r e n t e , p õ e m 
em x e q u e e s s a i m a g e m c o n s t r u í d a n a r e l a ç ã o c o m o m u n d o ex-
t e r i o r . B r i n c a r , s a l t a r , p u l a r , c o r r e r l i v r e m e n t e v ã o r e v e l a n d o 
111 
e m o ç õ e s , s e n t i m e n t o s e u m a r i q u e z a d e gestos q u e p a r e c i a m p e r -
d i d o s d e s d e a i n f â n c i a . 
N ã o é à t o a que c e r t a s pessoas s ã o t o m a d a s de u m a g r a n d e 
a n s i e d a d e o u a c a b a m a b a n d o n a n d o as a u l a s q u a n d o se vêem 
d i a n t e de u m a imagem que n ã o c o r r e s p o n d e m a i s a o q u e e l a s 
s ã o , d i a n t e de novas p o s s i b i l i d a d e s e p o t e n c i a l i d a d e s a t é e n t ã o 
c o m p l e t a m e n t e d e s c o n h e c i d a s o u e s q u e c i d a s . 
M a s , a p e s a r d e s e r c o m p r e e n s í v e l o f a t o d e as p e s s o a s n ã o 
q u e r e r e m se d e s f a z e r d e u m a i m a g e m j á c r i s t a l i z a d a e i n c o r p o -
r a d a à p r ó p r i a p e r s o n a l i d a d e , esse p a r e c e s e r o c a m i n h o c a p a z 
d e t r a n s f o r m a r gestos m e c â n i c o s e r e p e t i t i v o s e m m o v i m e n t o s 
c o n s c i e n t e s e, p o r isso m e s m o , v e r d a d e i r o s . P e l o m e n o s é o q u e 
t e m d e m o n s t r a d o o t r a b a l h o até h o j e r e a l i z a d o c o m p e s s o a s d e 
i d a d e s , p r o f i s s õ e s e t r a j e t ó r i a s m u i t o d i s t i n t a s . 
P o r t a n t o , a n t e s d o e n s i n o de u m a t é c n i c a c o r p o r a l e s p e c í -
f i c a é n e c e s s á r i o q u e se f a ç a um t r a b a l h o d e c o n s c i e n t i z a ç ã o c o r -
p o r a l , sem o q u a l o a p r e n d i z a d o p o d e r á s e r d e f i c i e n t e , p o i s o 
c o r p o vai a d q u i r i n d o u m a f o r m a , c r i a n d o u m a a r m a d u r a e c o n -
s o l i d a n d o a i n d a mais as t e n s õ e s m u s c u l a r e s p r o f u n d a s . 
P a r a isso, no e n t a n t o , é i n d i s p e n s á v e l q u e a p e s s o a s e s i n t a 
p r e d i s p o s t a a r e a l i z a r esse t i p o d e t r a b a l h o . N ã o é p o r a c a s o 
q u e m u i t o s b a i l a r i n o s p r o f i s s i o n a i s e n c o n t r a m s é r i a s d i f i c u l d a d e s 
d i a n t e d o t r a b a l h o q u e p r o p o n h o . I s s o n ã o q u e r d i z e r q u e u m 
b a i l a r i n o n ã o p o s s a , a t r a v é s d e t é c n i c a s c o n v e n c i o n a i s , l e v a n t a r 
a p e r n a , g i r a r , d a r mil p i r u e t a s - m a s isso s e r á a p e n a s a c r o b a c i a 
c a s o l i m i t e - s e a u m a a ç ã o p u r a m e n t e t é c n i c a . 
O q u e n ã o p o d e m o s e s q u e c e r é q u e as p e r n a s c o m as q u a i s 
d a n ç o s ã o as m e s m a s c o m q u e a n d o , c o r r o , c a i o o u b r i n c o , d e s d e 
c r i a n ç a . N e s s e s e n t i d o , a e x p e r i ê n c i a d e u m a v i d a p o d e s e r t r a -
d u z i d a , p o r e x e m p l o , no s i m p l e s g e s t o d e e r g u e r um b r a ç o o u 
u m a p e r n a . 
1 1 2 
M a s u m a c o i s a é l e v a n t a r a p e r n a às c u s t a s d e u m a e n o r m e 
t e n s ã o , o que, em l u g a r d e e x p r i m i r u m a a ç ã o o u s e n s a ç ã o , r e -
vela a p e n a s o e s f o r ç o e m p r e g a d o p a r a e r g u ê - l a c a d a vez m a i s 
a l t o em u m a m e r a e x i b i ç ã o de f l e x i b i l i d a d e e p e r í c i a t é c n i c a . 
O u t r a c o i s a é f a z e r d e s s e m o v i m e n t o a e x p r e s s ã o e x a t a d a q u i l o 
q u e se b u s c a a t i n g i r , s e j a um s e n t i m e n t o , u m a e m o ç ã o o u a t é 
m e s m o u m g e s t o a b s t r a t o . 
I s s o n ã o s i g n i f i c a q u e me o p o n h o a q u a l q u e r a p e r f e i ç o a -
m e n t o t é c n i c o , m a s q u e c o l o c o em e v i d ê n c i a o l i m i t e d e t o d a e 
q u a l q u e r t é c n i c a . P o r e x e m p l o : q u a n d o t r a b a l h o as p e r n a s , n ã o 
h á n e c e s s i d a d e d e e r g u ê - l a além d e 9 0 ° em r e l a ç ã o a o t r o n c o . 
T r a b a l h a n d o c o r r e t a e r e g u l a r m e n t e n e s s e l i m i t e , é p o s s í v e l o b t e r 
n ã o só o r e l a x a m e n t o d a s a r t i c u l a ç õ e s c o m o t a m b é m a a ç ã o 
p l e n a d o s m ú s c u l o s r e s p o n s á v e i s p e l a p r e s e r v a ç ã o d o s e s p a ç o s 
a r t i c u l a r e s . E n t ã o , q u a n d o e s t i v e r d a n ç a n d o , p o s s o e r g u e r a p e r n a 
a o m á x i m o , d e i x a n d o f l u i r a t r a v é s d o m o v i m e n t o t o d a m i n h a 
e m o ç ã o , e s t a b e l e c e n d o assim u m a c o m u n i c a ç ã o v i v a e r e a l c o m 
o p ú b l i c o . 
A e s s ê n c i a d o t r a b a l h o c o r p o r a l q u e p r o p o n h o é a b u s c a 
d a s i n t o n i a e d a h a r m o n i a c o m n o s s o p r ó p r i o c o r p o , o q u e p o s -
s i b i l i t a c h e g a r à e l a b o r a ç ã o d e u m a d a n ç a s i n g u l a r , o r i g i n a l , d i f e -
r e n c i a d a , e p o r isso m e s m o r i c a e m m o v i m e n t o e e x p r e s s ã o . P a r a 
s e r i n t é r p r e t e d e m i n h a s e m o ç õ e s t e n h o n e c e s s a r i a m e n t e q u e m e 
d e s p o j a r d e u m a i m a g e m q u e m e foi d e a l g u m a f o r m a i m p o s t a 
p a r a a d o t a r a p o s t u r a q u e c o r r e s p o n d e à m i n h a t r a j e t ó r i a p e s s o a l 
e à m i n h a e x i s t ê n c i a c o t i d i a n a . f : o m e s m o q u e a p a g a r u m q u a -
d r o c h e i o d e f r a s e s v a z i a s q u e m e f o r a m d i t a d a s p a r a d a r i n í c i o 
a o a p r e n d i z a d o d e u m n o v o a l f a b e t o , d e u m a l i n g u a g e m c a p a z 
d e t r a d u z i r a q u i l o q u e v e r d a d e i r a m e n t e s i n t o e q u e r o e x p r e s s a r . 
R e a f i r m o q u e u m c o r p o i n t e l i g e n t e é u m c o r p o q u e c o n s e g u e 
s e a d a p t a r a o s mais d i v e r s o s e s t í m u l o s e n e c e s s i d a d e s , a o m e s m o 
t e m p o q u e n ã o se p r e n d e a n e n h u m a r e c e i t a o u f ó r m u l a p r e e s t a -
1 1 3 
b e l e c i d a , o r i e n t a n d o - s e p e l a s mais d i f e r e n t e s e m o ç õ e s e p e l a p e r -
c e p ç ã o c o n s c i e n t e d e s s a s s e n s a ç õ e s . 
N o e n t a n t o , é m u i t o c o m u m a t e n d ê n c i a à a s s i m i l a ç ã o d e 
p o s t u r a s q u e n ã o r e v e l a m o n o s s o m o d o d e s e r , m a s q u e t ê m 
c o m o r e f e r ê n c i a m o d e l o s e x t e r i o r e s a nós m e s m o s c o m o , p o r 
e x e m p l o , os n o s s o s p a i s . E a u m a d e t e r m i n a d a p o s t u r a c o r r e s -
p o n d e u m a f or m a d e a g i r e p e n s a r . E n t ã o , se n ã o é r e a l m e n t e 
n o s s a p o s t u r a q u e p r o c u r a m o s o s t e n t a r , c o m o p o d e m o s d e s e n v o l -
v e r a ç õ e s e i d é i a s p r ó p r i a s ? N o t r a b a l h o c o r p o r a l - m a s n ã o 
só n e l e - é m u i t o i m p o r t a n t e p e r c e b e r n o s s a imagem a p a r t i r 
d a s r e f e r ê n c i a s m a i s í n t i m a s e i n t e r i o r e s . 
O b v i a m e n t e , a t o d o i n s t a n t e s o m o s s u b m e t i d o s a u m a s é r i e 
d e c o n d i c i o n a m e n t o s s o c i a i s e c u l t u r a i s . D e a c o r d o c o m a l ó g i c a 
e a d i s c i p l i n a de u m m u n d o o r i e n t a d o p a r a o t r a b a l h o , s o m o s 
l e v a d o s à mais c o m p l e t a i m o b i l i d a d e e a d e s e m p e n h a r u m a f o r m a 
m e c â n i c a de gestos. O u n i v e r s o da p r o d u ç ã o é h o j e um u n i v e r s o 
d e t r a b a l h o a l i e n a d o , o n d e t a m b é m os c o r p o s s ã o s u b m e t i d o s a 
u m c o n j u n t o de p r á t i c a s de d o m e s t i c a ç ã o social. 
E s s a o r d e m c o m e ç a a s o f r e r u m revés, n o e n t a n t o , n o m o -
m e n t o em q u e nos r e c u s a m o s a d e s e m p e n h a r c e r t o s p a p é i s se-
g u n d o f ó r m u l a s p r e e s t a b e l e c i d a s . N e s s e s e n t i d o , u m c o r p o l i v r e 
d e c o n d i c i o n a m e n t o s e d o n o d e s u a s e x p r e s s õ e s e m a l g u m a me-
d i d a se r e v e l a um i n c ô m o d o à o r d e m s o c i a l e x i s t e n t e , u m a vez 
q u e b u s c a r e c u p e r a r a p e r c e p ç ã o d a t o t a l i d a d e d e n t r o de u m a 
s o c i e d a d e f u n d a d a e x a t a m e n t e na f r a g m e n t a ç ã o . 
E s s a s o b s e r v a ç õ e s s ã o a i n d a m u i t o s u p e r f i c i a i s d i a n t e d o 
u n i v e r s o q u e é o p r ó p r i o c o r p o h u m a n o . C e r t a m e n t e , h á m u i t a 
c o i s a q u e até hoje n ã o foi p o s s í v e l c o m p r e e n d e r e q u e t a l v e z 
t r a n s c e n d a q u a l q u e r p l a n o de e n t e n d i m e n t o . A i n d a assim, os p r o -
b l e m a s e o b s t á c u l o s q u e se a p r e s e n t a m d i a n t e d e n ó s n o c o t i -
d i a n o o b r i g a m ao e n c a d e a m e n t o de a ç õ e s e à b u s c a d e s o l u ç õ e s 
114 
q u e p o d e m vir a s e r m a i s ou m e n o s s a t i s f a t ó r i o s , m a t a n d o o u 
v i v i f i c a n d o o c o r p o . 
U m a b o a r e l a ç ã o p o s t u r a ! p o d e s e r c o n s e g u i d a a p a r t i r d o 
e q u i l í b r i o e n t r e as d i v e r s a s p a r t e s do c o r p o . N e s s e p r o c e s s o , o 
mais i m p o r t a n t e é a r e l a ç ã o de e q u i l í b r i o e n t r e a p a r t e a n t e r i o r 
d o t r o n c o e a p a r t e p o s t e r i o r d a s p e r n a s , em o p o s i ç ã o à f o r ç a 
e x e r c i d a p e l a m u s c u l a t u r a a n t e r i o r das p e r n a s . 
A m u s c u l a t u r a c o r r e s p o n d e n t e à p a r t e p o s t e r i o r do c o r p o é 
a q u e l a q u e n o s m a n t é m e m pé e t a m b é m a q u e mais c e d o n o s 
d e r r u b a . A f a l t a de e x e r c í c i o s a p r o p r i a d o s o u e x e c u t a d o s de ma-
n e i r a e q u i v o c a d a faz c o m q u e essa m u s c u l a t u r a se t o r n e m a i s 
f o r t e e mais t e n s a a i n d a , p r e j u d i c a n d o a a ç ã o d a m u s c u l a t u r a 
a n t e r i o r , q u e nos d i r e c i o n a . 
Assim, se a f o r ç a p o s t e r i o r p e r m i t e u m c e r t o e q u i l í b r i o , a 
f o r ç a m u s c u l a r a n t e r i o r o r i e n t a esse e q u i l í b r i o n o e s p a ç o . P o d e -
mos, e n t ã o , d i z e r q u e as n o s s a s c o s t a s s ã o a b a s e de s u s t e n t a ç ã o 
de n o s s a f o r m a e a n o s s a f r e n t e o p o n t o de p a r t i d a d e n o s s o 
m o v i m e n t o . 
Q u a n t o às p a r t e s s u p e r i o r e i n f e r i o r d o c o r p o , p o d e m o s dizer 
q u e a d i f e r e n ç a b á s i c a r e s i d e n o e s f o r ç o m u s c u l a r q u e s e v o l t a 
p a r a b a i x o , n a p a r t e i n f e r i o r , e p a r a cima, n a p a r t e s u p e r i o r . N o s 
d o i s casos, o d e s e n h o m u s c u l a r d e s c r e v e u m a d i a g o n a l e s p i r a l a d a 
q u e p a r t e s e m p r e d o c e n t r o d o c o r p o em d i r e ç ã o às e x t r e m i d a d e s . 
Se você o b s e r v a r s e u c o r p o e t o c á - l o c u i d a d o s a m e n t e , e n -
c o n t r a r á d i f e r e n ç a s e n o r m e s q u a n t o à f l e x i b i l i d a d e , p e r c e p ç ã o e 
s e n s i b i l i d a d e e n t r e as p a r t e s a n t e r i o r e p o s t e r i o r , i n f e r i o r e s u p e -
r i o r , d i r e i t a e e s q u e r d a . P e r c e b e r á r e g i õ e s m a i s t e n s a s o u m a i s 
sensíveis d o q u e o u t r a s , p o n t o s do c o r p o o n d e a p e l e é mais 
m a c i a ou o n d e os m ú s c u l o s são mais flexíveis. 
D e v i d o a i n c o r r e ç õ e s , vícios de p o s t u r a o u p r o b l e m a s físico-
e m o c i o n a i s , a m u s c u l a t u r a p o s t e r i o r d a s p e r n a s e a m u s c u l a t u r a 
1 1 5 
anterior do tronco tendem a se atrofiar, o que é comum à maio-
ria das pessoas e se torna ainda mais evidente ao longo dos anos, 
com o acúmulo de tensões de toda ordem. 
A esse encurtamento dos grupos musculares que, teorica-
mente, seriam responsáveis pelo trabalho de abertura, corresponde 
uma sobrecarga da parte posterior do tronco e da parte anterior 
das pernas, que passam a atuar no sentido de buscar uma com-
pensação. Obviamente, não se trata de uma regra geral, mas de 
uma tendência comum à maioria das pessoas. Por isso, me per-
mito sugerir como realizar um trabalho corporal no sentido de 
conseguir uma boa relação postura!. 
Normalmente, os exercícios feitos para o fortalecimento das 
pernas são mal orientados e acabam fortificando ainda mais o 
quadríceps, criando as chamadas "pernas de jogador". Tais exer-
cícios, executados sem o encaixe correto das articulações e com 
extrema violência, acabam causando uma grande desproporção 
muscular entre as partes posterior e anterior das pernas. 
Uma maneira fácil de verificar o encurtamento da muscula-
tura posterior é abaixar e tentar tocar o chão com as mãos, pro-
curando ao mesmo tempo manter as pernas alongadas ao máximo. 
Teoricamente, nesse movimento os abdutores devem estar todos 
.. 
em ação, preservando os espaços de articulação para um melhor 
trabalho muscular. 
Para compensar o encurtamento, porém, o corpo deve cair 
ligeiramente para a frente e os joelhos devem estar levemente 
girados para fora, no sentido do alongamento máximo possível. 
Além disso, é importante preservar os espaços articulares, tanto 
no movimento de abaixar quanto no de levantar. 
As articulações atuam, então, como verdadeiras dobradiças, 
desde a cabeça, passando pelo pescoço, o esterno, a crista ilíaca, 
a coxofemoral, o joelho, o tornozelo e o metatarso. É interes-
116 
sante notar que esse tipo de movimento corporal só existe entre 
os povos ocidentais e, mesmo assim, entre os adultos: as crianças 
e os chamados povos primitivos não executam esse movimento 
instintivamente. Quando se abaixam, sentam ou levantam, per-
correm um caminho sinuoso e espiralado.Outro fato interessante 
é observar o momento em que uma pessoa desmaia: o corpo 
nunca cai para a frente, mas em diagonal, passando pelas articu-
lações laterais. 
Ao considerar nosso desequilíbrio postura! não é possível 
reconhecer um procedimento que se aplique a todos os seres 
humanos indiscriminadamente. No caso das pessoas gordas, por 
exemplo, a flacidez aparente reflete a rigidez provocada por ten-
sões profundas. Há uma forte couraça muscular que ainda é 
mascarada pela flacidez, por uma pseudoflexibilidade. Essa pseu-
doflexibilidade aparece também no caso das pessoas que conse-
guem abrir as pernas ao máximo, mas a custo de muita tensão e 
esforço. 
Mais uma vez. no caso específico da dança, me parece que 
só é possível obter resultados satisfatórios a partir do momento 
em que, aliado a um trabalho consciente de alongamento, conse-
gue-se um mínimo de equilíbrio físico-emocional e, portanto, 
postural. Daí a necessidade de todo o trabalho de preparação e 
conscientização de que falei em toda a primeira parte do livro, 
e que costuma revelar a dificuldade que as pessoas têm de en-
frentar esse processo de reestruturação, preferindo, muitas vezes, 
desistir já no início do trabalho e se conformar com o que está 
convencionado e reconhecido socialmente por todos. Existe um 
medo muito grande do autoconhecimento e a maioria das pessoas 
não resiste ao processo inicial, que sem dúvida requer uma gran-
de dose de vontade e despojamento. 
Mas, quando a pessoa vence esse tipo de bloqueio e passa 
a experimentar um certo equilíbrio postura!, também a sua pos-
117 
t u r a i n t e l e c t u a l e e m o c i o n a l s o f r e s i g n i f i c a t i v a s a l t e r a ç õ e s . O f a t o 
é q u e o t r a b a l h o c o r p o r a l e n c e r r a u m a d i m e n s ã o t e r a p ê u t i c a , n a 
m e d i d a em q u e t o m a o c o r p o c o m o r e f e r ê n c i a d i r e t a d e n o s s a 
e x i s t ê n c i a mais p r o f u n d a . 
D a mesma f o r m a c o m o é m u i t o difícil o b t e r u m e q u i l í b r i o 
p o s t u r a ! e s t a n d o e m o c i o n a l m e n t e d e s e q u i l i b r a d o , é t a m b é m m u i t o 
difícil m a n t e r um e q u i l í b r i o i n t e l e c t u a l e e m o c i o n a l sem e s t a r 
n u m a b o a r e l a ç ã o de e q u i l í b r i o p o s t u r a ! . 
S a b e m o s q u e o c o r p o e s t á s u j e i t o a l i m i t a ç õ e s n a t u r a i s c o r -
r e s p o n d e n t e s a e s t r u t u r a , p e s o , r e l a ç ã o c o m o e s p a ç o e o u t r a s 
mais, m a s isso n a d a t e m a v e r com as l i m i t a ç õ e s e c o n d i c i o n a -
m e n t o s d e c o r r e n t e s d e b l o q u e i o s e t e n s õ e s a c u m u l a d o s ao l o n g o 
d e t o d a uma vida. O c o r p o h u m a n o é n o r m a l m e n t e a t r a v e s s a d o 
p o r um fluxo e n e r g é t i c o q u e , se n ã o for i n t e r r o m p i d o p o r esses 
b l o q u e i o s e t e n s õ e s , p e r m i t e que o m o v i m e n t o flua l i v r e m e n t e . 
O e s t e r n o e os q u a d r i s s ã o as d u a s u s i n a s d o c o r p o e p r e -
c i s a m o s c o n h e c e r e r e s p e i t a r esse p a p e l . O e s t e m o é l a n ç a d o 
p a r a c i m a , n a d i r e ç ã o d o céu, e n q u a n t o os q u a d r i s s e v o l t a m 
p a r a b a i x o , na d i r e ç ã o d a t e r r a . P e l a s p e r n a s e pés m a n t e n h o 
m i n h a o r i g e m t e l ú r i c a , a n i m a l . Pelo t ó r a x e c a b e ç a a v a n ç o n o 
d o m í n i o d a e m o ç ã o e d a r a z ã o . 
D e s s e e q u i l í b r i o d e f o r ç a s o p o s t a s e c o m p l e m e n t a r e s n a s c e 
m i n h a d a n ç a . Mas se b u s c o d e m a i s o c h ã o , a c e n t u o m e u p e s o 
em r e l a ç ã o à g r a v i d a d e , o s o l o me p u x a p a r a b a i x o . D o m e s m o 
m o d o , se u l t r a p a s s o meu p o n t o d e e l e v a ç ã o , p e r c o o e q u i l í b r i o 
e m i n h a base d e s u s t e n t a ç ã o . C o m o l e m b r a o d i t a d o , n e m t a n t o 
a o céu, nem t a n t o à t e r r a . 
A p o s t u r a , p o r t a n t o . n ã o é u m a c o i s a fixa. f : t ã o flexível 
q u a n t o o g a l h o de b a m b u e p r o f u n d o c o m o s u a s r a í z e s , o q u e 
p e r m i t e q u e m e u eixo o s c i l e p a r a a f r e n t e e p a r a t r á s , d e a c o r d o 
118 
c o m m e u e s t a d o f í s i c o - e m o c i o n a l . P o r é m , à g r a n d e f l e x i b i l i d a d e 
deve c o r r e s p o n d e r u m a e n o r m e f o r ç a e r e s i s t ê n c i a . Assim c o m o 
o b a m b u , o c o r p o h u m a n o tem a p r o p r i e d a d e d e se d o b r a r sem 
se q u e b r a r - q u a n d o r e s p e i t a m o s s u a n a t u r e z a e c o l o c a m o s em 
p r á t i c a s u a s p o t e n c i a l i d a d e s . 
l l l ) 
V I 
N a s a l a d e a u l a 
A n t e s de t u d o , t e n h o q u e c o l o c a r os a l u n o s n a s a l a de a u l a . 
E l e s p r e c i s a m d e s c o b r i r que se e n c o n t r a m e n t r e q u a t r o p a r e d e s , 
c o n s c i e n t i z a r - s e de que n ã o e s t ã o n a r u a , o u em c a s a , ou n o 
t r a b a l h o . É p r e c i s o c o m e ç a r p o r aí, p o r q u e s e n ã o a t e n d ê n c i a é as 
p e s s o a s p e r m a n e c e r e m d i s t a n t e s , sem t o m a r c o n s c i ê n c i a d o c o r p o 
e d o a m b i e n t e . 
C o m e ç o e n t ã o p r o p o n d o q u e f a ç a m u m c í r c u l o e s e n t e m - s e 
n o c h ã o - o n d e eu t a m b é m me s e n t o - e falem d o q u e q u i s e r e m , 
d a v i d a , de p o r que e s t ã o ali, o q u e b u s c a m e m u m a · s a l a de 
a u l a . F a l a r é u m a d a s f o r m a s pelas q u a i s um s e r h u m a n o se 
s i t u a n o m u n d o , uma m a n e i r a de o c o r p o t r a d u z i r o q u e e s t á 
s e n t i n d o . 
Esse p r e â m b u l o serve p a r a que o g r u p o se c o n h e ç a , se s i t u e , 
d e s c u b r a q u e e s t á mesmo e m u m a s a l a , a i n d a q u e n e m t o d o s 
t e n h a m a m e s m a d i s p o n i b i l i d a d e p a r a falar. M u i t a s vezes, é 
c l a r o , dizem b o b a g e n s , c o i s a s sem i n t e r e s s e , mas t u d o isso é e s p e -
r a d o e n a t u r a l . 
N ã o t e n h o p r e s s a nem u m t e m p o d e t e r m i n a d o p a r a essa 
i n t r o d u ç ã o : a d u r a ç ã o d e p e n d e de c a d a t u r m a , d a r e a ç ã o de c a d a 
um e d a r e a ç ã o de uns c o m os o u t r o s , d a m i n h a i n t u i ç ã o e d i s p o -
n i b i l i d a d e . Um d i a se c o n v e r s a mais, o u t r o d i a m e n o s . 
A d e s e s t r u t u r a ç ã o q u e b u s c o c o m e ç a a í p o r q u e o s a l u n o s 
em g e r a l n ã o e s p e r a m p o r isso, n ã o p e n s a m em u m a p o s s i b i l i d a d e 
120 
dessas, talvez nem q u i s e s s e m p a s s a r p o r u m a e x p e r i ê n c i a assim. 
Mas é e x a t a m e n t e o q u e q u e r o , isto é, c h e g a r a t é eles, 1mctar 
u m a r e l a ç ã o de c u m p l i c i d a d e , de c o n f i a n ç a , de t r o c a , p o r q u e n ã o 
c r e i o que s e j a possível d a r uma b o a a u l a p a r a p e s s o a s que você 
n u n c a viu e n ã o s a b e nem o n o m e . U m a a u l a dessas é i n ú t i l . 
O q u e p r e t e n d o é d e r r u b a r a divisão e n t r e a s a l a de a u l a e o 
m u n d o l á f o r a , a c a b a r c o m as p a r ed e s , as b a r r e i r a s , m o s t r a n d o 
a o m e s m o t e m p o q u e em t o d a s a l a de a u l a existe t a m b é m u m a 
o r d e m i n t e r n a que deve s e r consciente. 
N ã o b u s c o e s t a b e l e c e r q u a l q u e r r e l a ç ã o c o m os a l u n o s a 
p a r t i r d a possível t é c n i c a o u facilidades que c a d a u m me a p r e s e n t a 
e sim u m a r e l a ç ã o e n t r e seres h u m a n o s que c o n v i v e m em u m 
m e s m o g r u p o . N o r m a l m e n t e , me i n t e r e s s o m a i s p o r a q u e l e s que 
t ê m m a i s d i f i c u l d a d e s de e x p r e s s ã o , de se e x p o r , de f a l a r . 
E m p o u c o t e m p o t o d o s d e s c o b r e m que o p r o f e s s o r n ã o é o 
d o n o d a v e r d a d e , n ã o s a b e t u d o , e x i s t e m c o i s a s que n ã o sei res-
p o n d e r . É a í que a r e l a ç ã o c o m e ç a a s u r g i r , é a p a r t i r d a í q u e 
d e s c o b r e m q'ue s o u um s e r h u m a n o c o m o q u a l q u e r o u t r o e e n t ã o 
s e n t e m c o n d i ç õ e s de se a b r i r e f a l a r u m p o u c o deles mesmos. 
O que fica c l a r o é q u e as d i f i c u l d a d e s - t o d a s , v e r b a i s o u 
físicas - s ã o r e s i s t ê n c i a s p o r q u e n a v e r d a d e t o d o s n ó s nos mo-
vemos, t o d o m u n d o p o d e d a n ç a r e se um l e v a n t a r a p e r n a mais 
a l t o d o que o u t r o isso n ã o q u e r d i z e r q u e s e j a m e l h o r b a i l a r i n o 
o u t e n h a m a i o r f a c i l i d a d e de e x p r e s s ã o . 
E x i s t e a q u e s t ã o do r i t m o de c a d a um em uma s a l a de a u l a 
e essa r e a l i d a d e tem q u e s e r r e s p e i t a d a . N ã o q u e r o de f o r m a algu-
ma q u e t o d o s t e n h a m o mesmo r i t m o e sirh q u e c a d a u m se 
d e s e n v o l v a de a c o r d o com sua c a p a c i d a d e . A p e n a s f a ç o p r o p o s t a s 
e e s p e r o que c a d a a l u n o r e a j a c o m o q u i s e r e p u d e r . 
É t a m b é m nesse i n í c i o d a a u l a que s u r g e a q u e s t ã o d a timidez, 
d a d i s p o n i b i l i d a d e de t r o c a r , se e x p o r , f a l a r em g r u p o . T a m b é m 
n ã o i n t e r f i r o nisso, e s p e r o que c a d a um d e s c u b r a seus limites. 
A c r e d i t o que as pessoas têm que c h e g a r a um c e r t o nível de 
121 
e n t e n d i m e n t o de si m e s m a s p a r a que possam d e p o i s t r o c a r . 
Insisto: as a u l a s n ã o p r e t e n d e m s e r t e r a p i a s , a i n d a que p a r a c a d a 
um dos a l u n o s eu possa a t é s e r v i r c o m o t e r a p e u t a . P a r a o u t r o s , 
no e n t a n t o , sou amigo, o u p r o f e s s o r , ou m é d i c o . Ou b r u x o . C a d a 
um q u e o l h e c o m o q u i s e r . 
O q u e p r e t e n d o nesse i n í c i o é m o s t r a r a n e c e s s i d a d e de r e l a -
x a r , sem q u e esse r e l a x a m e n t o leve a o d e s p e n c a r . isto é, à d e s a t e n -
ç ã o , a o d e s m o n t a r d o s músculos. O c o m u m , q u a n d o o p r o f e s s o r 
p e d e p a r a q u e as p e s s o a s r e l a x e m , é q u e elas se s o l t e m t o t a l -
m e n t e , p e r d e n d o a n o ç ã o d o p r ó p r i o c o r p o e d o e s p a ç o . 
O q u e p r o p o n h o , a o c o n t r á r i o , é que n ã o p e r c a m e s s a n o ç ã o , 
q u e r e l a x e m , deixem a m u s c u l a t u r a à v o n t a d e , q u e b u s q u e m d e s d e 
o p r i n c í p i o d a a u l a o g r a u m í n i m o dé a t e n ç ã o n e c e s s á r i o p a r a 
m a n t e r o e q u i l í b r i o . Ou seja: r e l a x a r n ã o s i g n i f i c a s a i r d a a u l a , 
se a f a s t a r d a s a l a , d i s t r a i r - s e , fugir de si, a u s e n t a r - s e . É possível 
r e l a x a r e p e r m a n e c e r p r e s e n t e . 
A n t e s de t u d o , p o r t a n t o , p r e c i s o m o s t r a r que t e m o s um c o r p o , 
c o n v e n c e r a c a d a um d a e x i s t ê n c i a desse c o r p o , d o q u a l só nos 
l e m b r a m o s q u a n d o s e n t i m o s d o r , i n d i s p o s i ç ã o , c a n s a ç o o u exci-
t a ç ã o física. P o r isso, p r o p o n h o que o i n í c i o do t r a b a l h o s e j a feito 
a t r a v é s de c o n v e r s a s i n f o r m a i s , c o m o j á disse. T a m b é m p e ç o p a r a 
q u e , e n q u a n t o f a l a m , eles t o q u e m em a l g u m a p a r t e d o p r ó p r i o 
c o r p o , l e v e m e n t e , m a s s a g e a n d o e b u s c a n d o r e c o n h e c e r os ossos. 
Dessa f o r m a , meus a l u n o s c o m e ç a m a d e s c o b r i r q u e h á u m a 
r e l a ç ã o e n t r e a v e r b a l i z a ç ã o e a d e s c o b e r t a c o r p o r a l . O r i t m o e a 
m u s c u l a t u r a i n t e r n a se t r a n s f o r m a m , t o r n a m - s e mais p r e s e n t e s 
q u a n d o u n i m o s a c o n s c i e n t i z a ç ã o física a o p r o c e s s o v e r b a l . 
E s t e é um e x e r c í c i o q u e deve s e r r e p e t i d o s e m p r e , p o r q u e 
é d i f í c i l t e r m o s c o n s c i ê n c i a d a e x i s t ê n c i a física, e s t a r m o s p r e s e n t e s : 
v i v e m o s m u i t o em r e l a ç ã o a o p a s s a d o , ou nos s o n h o s e m r e l a ç ã o 
a o f u t u r o , mas s o m o s i n c a p a z e s de viver o m o m e n t o p r e s e n t e a 
nível físico. A p r o p o s t a , e n t ã o , é m a n t e r viva uma p a r t e d o 
c o r p o - g e r a l m e n t e os pés, p o r o n d e c o m e ç o as a u l a s - e n q u a n t o 
a c o n v e r s a se dll'senrola. 
122 
P a r a mim o p o n t o mais i m p o r t a n t e do c o r p o s ã o os pés. 
P o r isso p r o p o n h o q u e c o m e c e m o t r a b a l h o c o m u m a m a s s a g e m , 
p a r a s e n t i r os pés, a f o r m a , a s e n s a ç ã o t á t i l , as d i f e r e n t e s p o s s i b i -
l i d a d e s de m o v i m e n t a ç ã o dos pés, c o m o t r a n s f o r m á - l o s em algo 
e x p r e s s i v o , vivo, s e n s u a l . 
N ã o t e n h o , p o r é m , q u a l q u e r p r e o c u p a ç ã o e s p e c í f i c a com 
a n a t o m i a . A q u e s t ã o é d e s c o b r i r os ossos. Ou mais d o q u e isso: 
é v e r i f i c a r os e s p a ç o s q u e existem e n t r e eles, p o r q u e é a í q u e 
e s t ã o b a s e a d a s as a l a v a n c a s do c o r p o . E me i n t e r e s s a p a r t i c u l a r -
m e n t e o e n t r e d e d o s , p o r q u e é ali que as p e s s o a s c o m e ç a m a se 
t r a v a r . • 
No t r a b a l h o i s o l a d o e inicial com os pés - r e a l i z a d o e n q u a n t o 
se c o n v e r s a s o b r e q u a l q u e r coisa - os a l u n o s c o m e ç a m a r e c u p e -
r a r e a p e r c e b e r a t o t a l i d a d e e a l i g a ç ã o e n t r e as v á r i a s p a r t e s do 
c o r p o . Passam t a m b é m a t o r n a r c o n s c i e n t e s gestos até e n t ã o m e c a -
n i z a d o s pela p r á t i c a c o t i d i a n a . 
Assim. a u m e n t a m - s e a q u a n t i d a d e e a q u a l i d a d e dos movi-
m e n t o s dos pés, a m p l i a n d o sua m o b i l i d a d e e d e s c o b r i n d o novos 
p o n t o s de a p o i o . Esse e s f o r ç o r e p e r c u t e p o r t o d o o c o r p o , uma 
vez q u e c a d a a r t i c u l a ç ã o i n t e g r a um t o d o o r g â n i c o . A o t r a b a l h a r 
i s o l a d a m e n t e uma a r t i c u l a ç ã o , a o d i s s o c i a r p a r t e s do c o r p o ,p o u c o 
a p o u c o se t o r n a possível r e c u p e r a r a p e r c e p ç ã o d a t o t a l i d a d e . 
A d i s s o c i a ç ã o t o r n a - s e útil à a s s o c i a ç ã o . 
M o s t r o aos a l u n o s q u e é possível d e s c o b r i r o pé m o v i m e n -
t a n d o - o de a c o r d o c o m as d o b r a d i ç a s ( t a r s o , m e t a t a r s o , d e d o s ) , 
e x p e r i m e n t a n d o os m o v i m e n t o s de flexão, i n v e r s ã o , e v e r s ã o , dis-
t e n s ã o e r o t a ç ã o (este ú l t i m o s e n d o a l i g a ç ã o e n t r e t o d o s os 
a n t e r i o r e s ) . 
Em meio às t r a p a l h a d a s e b r i n c a d e i r a s i n i c i a i s , p a s s a m o s a 
d e s c o b r i r m u s c u l a t u r a s mais p r o f u n d a s q u a n d o nos d e t e m o s na 
c u r v a do pé, i m p r i m i n d o p o r e x e m p l o um m o v i m e n t o q u e l e m b r a 
o b o c e j a r , o e s p r e g u i ç a r , o c a n s a ç o . 
123 
Aos poucos, todos podem perceber que a expressão nãc 
está necessariamente relacionada às formas que estamos habituados 
a ver e reproduzir. Ao contrário: a origem do movimento expres-
sivo está nas musculaturas mais sutis c profundas que, uma vez 
captadas e compreendidas, não devem ser esquecidas ou perdidas. 
São essas musculaturas que dão expressão vital ao corpo. 
A criatividade exige espaço. Sem espaço interior não é pos-
sível exteriorizar nossa riqueza expressiva nem criar novos códigos 
de comunicação artística ou cotidiana. É por isso que procuro 
desestruturar meus alunos desde o início da aula. 
Depois da conversa. peço que se deitem no chão e se obser-
vem: a intensidade da respiração, a temperatura, o que estão 
sentindo, o que não estão sentindo, o que é agradável, o que não 
é agradável. Peço ainda que imaginem um giz traçando o desenho 
do corpo no chão, como um mapa deles mesmos, onde as várias 
regiões se diferenciam: traços mais fortes onde o contato é mais 
pesado ou profundo, mais delicados onde o contato .é menor, 
ausência de linhas nas regiões onde o corpo não toca o chão. 
Outro exercício inicial já revela quanto é mecânico e limitado 
nosso repertório ie gestos. Procurar várias maneiras de deitar, 
sentar, agachar e ficar em pé geralmente resulta em repetição a 
partir da terceira tentativa. Depois de demonstrações conven-
cionais, as pessoas se recolhem ou passam a imitar os compa-
nheiros. São poucos os que se permitem maiores ousadias. 
No entanto, essa pequena movimentação já possibilita uma 
mudança de ritmo, certa descontração e o início de um aqueci-
mento. Peço então que voltem a deitar, para que percebam as 
transformações que ocorreram em relação às referências ante-
riores, quando se tentou traçar os contornos do corpo com -o giz 
imaginário. 
Uma das etapas seguintes refere-se à importância dos olhos, 
à percepção da muscuiatura que reage ao olhar. E aqui cabe 
um lembrete: quase não usamos a visão até a linha do horizonte. 
124 
O estado de alerta traz a sensação de uma maior amplitude de 
movimentos. Postura comum nos animais, os seres humanos -
principalmente em meio ao caos urbano - tendem a perder essa 
qualidade da visão. Para atores e bailarinos, no entanto, o domínio 
desse atributo é fundamental. 
Nesse processo de descoberta do próprio corpo, incentivo 
meus alunos a observarem o espaço onde transcorre a aula, a 
tentar sentir o clima da sala, sentir a relação com colegas e pro-
fessor, como são essas pessoas, reparando sempre que o experimen-
tar novos lugares no ambiente leva também a novas sensações 
e referências físicas. 
A princípio, é claro que todos agem como se obedecessem 
apenas às minhas orientações. A proposta, porém, é superar pos-
síveis constrangimentos e atingir a naturalidade. Como mencionei, 
não existem regras fixas de pesquisa ou aprendizado. O importante 
é permitir que os movimentos surjam, sem obsessão ou intelectua-
lização. O corpo tem suas leis, como a natureza. É preciso atenção 
e cuidado para não agredi-lo. 
Desde o início da aula minha tendência é prestar maior 
atenção àqueles que se mostram menos, que têm mais dificuldades, 
e não àqueles que querem aparecer ou chamar a atenção do 
professor. Não que eu prefira uns a outros, mas sei que os que 
tentam chamar a atenção do professor estão apenas começando o 
processo e que, naturalmente, irão voltar-se para si mesmos com 
o passar do tempo. Ou, o que também acontece, vão abandonar 
as aulas. 
Não que tudo aconteça sempre da mesma forma. Várias 
vezes vi alunos desistirem no primeiro dia, normalmente gente 
que costuma perguntar: "Tudo isso é muito bom, muito interes-
sante, mas quando é que vamos dançar?" Outros alunos se opõem 
sistematicamente ao trabalho. Se começo a aula pela cabeça, eles 
começam pelos pés. Não largam as aulas, me acompanham 
durante anos, mas se recusam a fazer o que proponho. Claro, 
125 
é uma forma de dizer que existem, que têm uma individualidade, 
ainda que seja pela negação. 
Já nesse início de aula é possível mostrar a importância e a 
existência do tônus: a medida certa, a quantidade exata de tensão 
que se pode colocar em cada osso. É daí que surgem todas as 
coisas, a forma ideal a usar, que não deve massacrar nem soltar 
inteiramente ossos e músculos. 
O que importa, sempre, é levar a consciência corporal até os 
alunos porque penso que bem mais importante do que conhecer o 
espírito é saber que o corpo existe, está aqui comigo e dependo 
dele para viver. Cada um começa a descobrir o próprio corpo, seu 
ritmo, e somente aí esse corpo pode começar a dançar, interpretar, 
se expressar. Nisso não há nada de esotérico, divino ou coisa assim: 
quero apenas recuperar o lado lúdico do movimento. 
É claro que cada um tem seu limite de percepção e, como 
professor, tenho que respeitar esses limites. A cada dia, porém, 
eles entendem uma informação corporal diferente e vão juntando 
os dados. Procuro sempre chamar a atenção de cada um para si 
mesmo, a fim de que se percebam, se olhem, se conheçam, 
notem o peso de seus corpos. Peço para que observem os cinc<. 
sentidos e como o corpo reage por inteiro. Passamos então a 
observar um ponto específico do corpo - os pés, por exemplo -
e, ao final da aula, voltamos a olhar para o corpo como uma 
totalidade. 
A musculatura é tão complexa e articulada que é possível 
partir de qualquer parte do corpo e mexer com a totalidade: se 
mexo um dedo da mão mexo também com todos os ossos do corpo. 
As articulações estão interligadas e qualquer movimento em um 
determinado osso ou músculo leva informações para o resto do 
corpo. Tanto que às vezes dou aulas apenas sobre as mãos e, 
ainda assim, é possível descobrir como todo o corpo reage. 
Volto, então, à questão do tônus: entre cada articulação 
existem cápsulas e essas cápsulas contêm um líquido que, con-
126 
forme o aquecimento, começam a dar elasticidade à musculatura. 
Daí o valor de um aquecimento bem-feito, profundo e detalhado. 
Um exemplo para que o aluno descubra o que chamo de 
tônus: se você tensiona fortemente a mão e depois, aos poucos, 
vai relaxando a pressão dos dedos, existe um ponto em que 
passa a não perceber mais a mão. É esse o ponto do tônus - o 
ponto exato onde se deve deixar a tensão muscular ao iniciar 
um trabalho que envolta os músculos. 
O tônus, dessa forma, é uma tensão contínua - mas não 
incômoda - e é impossível fazer um bom trabalho físico sem a 
consciência desse fato, ou repetir um determinado movimento sem 
saber que músculo se está usando, por que trabalhar uma muscula-
tura ou para que ela existe. 
O tônus faz com que meu corpo e os pontos de tensão 
fiquem mais presentes, e é dessa forma que quero que meus alunos 
percebam seus corpos. A partir desse processode conscientização 
do papel dos músculos e ossos é possível começar a transformar 
uma ginástica fria em movimentação expressiva. 
O processo· inicial, portanto, é esse: uma conversa informal, 
ao mesmo tempo que os alunos massageiam os pés ou, às vezes, 
o joelho. Falo sobre buscar o tônus, proponho que se levantem e 
corram pela sala o mais rápido e mais lento que puderem, para 
que tentem descobrir como é que seus corpos reagem a essas dife-
rentes velocidades. 
É também através do olhar que mostro a necessidade da 
relação com o espaço. O espaço é limitante e é necessário conviver 
com ele, aprender a olhar os limites da sala e além da sala. 
Essas diferentes intenções geram diferentes reações musculares 
e é isso que me interessa mostrar. 
Quero então saber como se sentem em relação a esse espaço 
onde trabalhamos, se há alguma modificação na percepção, se 
sentem tudo da mesma forma. E a melhor forma de saber se há 
alguma diferença, eu mostro, é a partir da respiração, retrato da 
127 
e m o ç ã o . A r e s p i r a ç ã o é u m p r o c e s s o d e t r o c a c o m o m u n d o , 
e u me a l i m e n t o a t r a v é s d e l a . E x a t a m e n t e p o r isso fico s e m r e s p o s t a 
q u a n d o p r e n d o a r e s p i r a ç ã o , q u a n d o d e i x ó d e me r e l a c i o n a r e 
t r o c a r c o m o m u n d o . 
T u d o isso vai d a n d o e s p a ç o p a r a c a d a p e s s o a , c a d a a l u n o , e 
d a r e s p a ç o é c r i a r a p o s s i b i l i d a d e d e v i v e n c i a r coisas n o v a s . P o r 
isso i n s i s t o s e m p r e em q u e a f o r m a n ã o i m p o r t a e q u e essa f o r m a 
só p o d e p a s s a r a s e r i n t e r e s s a n t e n o m o m e n t o em q u e p a s s a a s e r 
c o n s e q ü ê n c i a de t o d o um p r o c e s s o : a e m o ç ã o n ã o é f o r m a , a 
e m o ç ã o é m o v i m e n t o . 
S o m e n t e q u a n d o t e n h o d i s t a n c i a m e n t o dessa e m o ç ã o é q u e 
p o s s o c o m e ç a r a t r a n s f o r m á - l a em f o r m a , posso e n t ã o f a l a r s o b r e 
e l a , p r o c u r a r e s c l a r e c ê - l a . S o b o e f e i t o d a e m o ç ã o é i m p o s s í v e l 
f a l a r , nessa h o r a a e m o ç ã o é d i s f o r m e . O c h o r o n ã o t e m h o r a 
c e r t a n e m f o r m a e x a t a . 
M u i t a s vezes um ou o u t r o a l u n o se e m o c i o n a e c h o r a n a s 
m i n h a s a u l a s , mas n ã o levo essa r e a ç ã o m u i t o a s é r i o : o c h o r o 
c o s t u m a s e r u m a c o i s a fácil e não s i g n i f i c a g r a n d e c o i s a . R e p i t o 
s e m p r e q u e n ã o estou f a z e n d o t e r a p i a em n i n g u é m - a p e n a s 
em mim, talvez - e sei q u e as l á g r i m a s são u m a n e c e s s i d a d e 
n a t u r a l de a t e n ç ã o , n ã o têm - n à à t ! de t ã o p r o f u n d o . 
T u d o isso r e p r e s e n t a o início d e uma d e s c o n s t r u ç ã o e a o s 
p o u c o s as pessoas c o m e ç a m a p e r c e b e r q u e a t r a v é s d e s s a s a ç õ e s 
as c a d e i a s m u s c u l a r e s se d e s f a z e m , se a b r e m , a i n d a q u e n u n c a 
t ã o r a p i d a m e n t e c o m o s e r i a o ideal. D a n d o e s p a ç o p a r a os mús-
c u l o s , t o d a a h i s t ó r i a de v i d a das pessoas c o m e ç a a s u r g i r , as 
a l e g r i a s e t r i s t e z a s , d e s g r a ç a s e f e l i c i d a d e s , a fome e a v o n t a d e , as 
f r u s t r a ç õ e s e f a n t a s i a s . 
C o m isso, os m o v i m e n t o s t o r n a m - s e mais s o l t o s e c o m e ç a a 
s u r g i r uma c o r e o g r a f i a n a t u r a l a p a r t i r de p e q u e n o s e s t í m u l o s . Só 
e n t ã o a música s u r g e , de p r e f e r ê n c i a t o c a d a p o r m ú s i c o s sensíveis, 
c r i a t i v o s e i n t e l i g e n t e s c o m o J o ã o de B r u ç ó - q u e t r a b a l h o u 
12H 
c o m i g o d u r a n t e a n o s - , que p r o d u z i a sons t r a n s f o r m a d o s em 
m o v i m e n t o s e s p o n t â n e o s pelos a l u n o s . 
O m o v i m e n t o , e n t ã o , e a d a n ç a p o s t e r i o r , s ã o a u m a o e n t r e 
esses gestos q u e b u s c a m a n a t u r a l i d a d e d e c a d a um. É esse e s t í m u l o 
i n i c i a l q u e vai g e r a r a m o v i m e n t a ç ã o , t í m i d a de i n í c i o , ma~ que 
t o m a c o n t a do c o r p o e c r i a um d e s e n h o no e s p a ç o . Meu p a p e l , 
c o m o p r o f e s s o r , é r e s p e i t a r a i n d i v i d u a l i d a d e desses m o v i m e n t o s e 
m o s t r a r a c a d a a l u n o o q u e existe de u n i v e r s a l em seu m o v i m e n t o . 
M o s t r o e n t ã o q u e em t o d a s as c a d e i a s m u s c u l a r e s existe o 
p r i n c í p i o do e n c u r t a m e n t o e d o a l o n g a m e n t o e q u e , c o m a t e n ç ã o , 
é possível d e s c o b r i r a h i s t ó r i a de c a d a c o r p o . Ao m e x e r esses 
p o n t o s , a o c o n h e c ê - l o s m e l h o r , a e m o ç ã o dessas m e m ó r i a s vem 
à t o n a e é a p a r t i r d e e n t ã o que c o m e ç a a s u r g i r um c ó d i g o q u e 
r e t r a t e essas l e m b r a n ç a s . 
C h a m o a a t e n ç ã o d o s a l u n o s t a m b é m p a r a o p o n t o q u e fica 
q u a t r o d e d o s a b a i x o d o umbigo, q u e c o r r e s p o n d e a nosso c e n t r o 
físico e e m o c i o n a l . P o p u l a r m e n t e d i z e m o s q u e s e n t i m o s " u m frio 
na b a r r i g a " p o r q u e a e m o ç ã o e s t á a l i , t u d o vem d a l i , o p o r t - d e - b r a s 
d o balé, a p o s t u r a inicial d o yoga, t o d o s n a s c e m o s d a l i . 
A p o s t u r a ideal, p o r t a n t o , p a r t e d e s s e p o n t o e significa a 
b u s c a d o e q u i l í b r i o e n t r e d u a s forças, a r a z ã o e a e m o ç ã o , o sim 
e o n ã o , os o p o s t o s q u e nos a c o m p a n h a m t o d a a v i d a . O q u e 
q u e r o é i n c o r p o r a r essas d i f e r e n t e s s e n s a ç õ e s n a s a l a de a u l a c 
n ã o v i o l e n t a r c a d a c o r p o , r e s p e i t a n d o - o , f a z e n d o c o m que c a d a 
um possa se c o n h e c e r e se a p r o x i m a r . 
Se t o d o m o v i m e n t o p a r t e de um p o n t o e s p e c í f i c o , m o s t r o 
q u e a p a r t i r desse p o n t o posso t r a n s m i t i r i n f o r m a ç õ e s p a r a t o d o 
o c o r p o . M o s t r o q u e se u m a p e s s o a t e m o que c h a m o de c e n t r o 
d e f o r ç a nos o m b r o s ela p o d e g e r a r m o v i m e n t o s a p a r t i r d a í p a r a 
t o d o o c o r p o e a i n d a assim esses m o v i m e n t o s s e m p r e t e r ã o al-
g u m a r e l a ç ã o com o c e n t r o i r r a d i a d o r inicial. 
Esse c e n t r o de força é o p o n t o de t e n s ã o de c a d a um; não 
é o mesmo p a r a t o d o s nós. O que p r o p o n h o é q u e c a d a a l u n o 
12Y 
b u s q u e s e u c e n t r o de f o r ç a e q u e e s p a l h e p o r t o d o o c o r p o essa 
t e n s ã o , q u e leva à c o n s c i e n t i z a ç ã o física, m u s c u l a r e ó s s e a . 
É c u r i o s o t r a d u z i r m i n h a s a u l a s dessa f o r m a p o r q u e n a 
v e r d a d e n u n c a me p r e o c u p e i em a n a l i s a r c a d a s e q ü ê n c i a o u d e s -
c o b r i r seu p a p e l na s a l a de a u l a . C o m o cheguei a t é esse t r a b a l h o 
a t r a v é s de e x p e r i m e n t a ç õ e s , a o l o n g o de q u a r e n t a a n o s, a c h o 
difícil t r a d u z i r t u d o isso o u , mais a i n d a , d a r u m a r e c e i t a : esse 
n ã o deve s e r um livro c u l i n á r i o . 
S i n t o q u e é a i n d a mais difícil s i n t e t i z a r m i n h a a u l a p o r q u e , 
ao c o n t r á r i o de M a r t h a G r a h a m e o u t r o s p e s q u i s a d o r e s d a d a n ç a 
e d o m o v i m e n t o , n ã o t e n h o f ó r m u l a s específicas, p o s i ç õ e s i n i -
c i a i s , s í m b o l o s ideais. G r a h a m , p o r e x e m p l o , i n s t i t u i u u m a s e n e 
de e x e r c í c i o s básicos que d e v e m s e r r e p e t i d o s na sala de a u l a 
p o r t o d o s que p r e t e n d e m s e g u i r seus e n s i n a m e n t o s . 
E u , ao c o n t r á r i o , n ã o p r o p o n h o f ó r m u l a s n e m p o s t ç o e s b á -
sicas, s e q ü ê n c i a s de p o s t u r a s ou q u a l q u e r o r g a n o g r a m a desses 
p o r q u e a c r e d i t o que i d é i a s c o r p o r a i s p r é - f a b r i c a d a s f o r ç a m e d e -
t u r p a m a i n d i v i d u a l i d a d e do a l u n o . Além do m a i s , em geral as 
t é c n i c a s m o s t r a m o n d e o m o v i m e n t o c o m e ç a , mas o q u e me in-
t e r e s s a é o fim desse m o v i m e n t o p o r q u e é isso que vai d a r e s p a ç o 
p a r a a u n i ã o com o m o v i m e n t o seguinte. 
Ao mesmo t e m p o , n ã o me p r e o c u p o com o f a t o de q u e 
o u t r o s p o d e r ã o c o p i a r m i n h a s aulas. N ã o t e n h o q u a l q u e r c i ú m e 
em r e l a ç ã o a isso p o r q u e no f u n d o n i n g u é m c o p i a n i n g u é m : uma 
a u l a de G r a h a m é i n t e i r a m e n t e d i f e r e n t e da a u l a de u m a assis-
t e n t e dela. P i n a Bausch tem um m o d o de e n s i n a r d i s t i n t o d a -
q u e l a s pessoas que fizeram c u r s o s c o m ela na A l e m a n h a . 
Ou seja: n i n g u é m p o d e usar o m é t o d o Klauss V i a n n a a n ã o 
s e r eu mesmo, p o r q u e t o d o esse m é t o d o tem r e l a ç ã o c o m a mi-
nha p r ó p r i a vida. t a l e n t o s e d i f i c u l d a d e s . A c ó p i a n ã o existe: 
e x i s t e m idéias e s e q ü ê n c i a s q u e p o d e m s e r u t i l i z a d a s p o r o u t r o s 
i n t e r e s s a d o s . O que q u e r o é fazer c o m que a q u e l e s q u e p a r t i -
c i p a m d a s m i n h a s a u l a s se s i n t a m bem com seus c o r p o s e em 
1 3 0 
q u a l q u e r s a l a de a u l a , seja ela de t é c n i c a clássica, s e n e g a l e s c a , 
G r a h a m , b u t ô , t a i - c h i ou n u m baile de d e b u t a n t e s . O e x e r c í c i o 
n ã o i m p o r t a : i m p o r t a é c o m o você o e x e c u t a . 
P o r t u d o isso, p o r s e r um g ê n e r o de a u l a q u e n ã o t e m se-
q ü ê n c i a r í g i d a e d e p e n d e m u i t o d a r e l a ç ã o e n t r e p r o f e s s o r e 
a l u n o s , n ã o e s c o n d o n a d a na sala: às vezes fico com p r e g u i ç a , 
ou m a l - h u m o r a d o , ou c a n s a d o . Mas n ã o e s c o n d o essas s e n s a ç õ e s 
e digo á eles " o l h a , h o j e n ã o e s t o u bem, a a u l a talvez n ã o seja 
g r a n d e c o i s a " . 
M o s t r o a s i t u a ç ã o e c o m e ç o a a u l a m e s m o assim. Às vezes, 
em a l g u n s m i n u t o s eles m o d i f i c a m meu h u m o r ; em o u t r a s o c a -
siões p e r m a n e ç o m a l - h u m o r a d o . O u s i m p l e s m e n t e d e s i s t o e sus-
p e n d o a a u l a , p r o p o n d o - a p a r a o d i a s e g u i n t e . N ã o s ã o s e n s a -
ções q u e eu goste q u e o c o r r a m , mas n ã o t e n t o e s c o n d ê - l a s e sim 
d e c i d i r c o m os a l u n o s , r e s p e i t a n d o m i n h a s e n s a ç ã o m o m e n t â n e a . 
M a s n ã o p o s s o e s q u e c e r q u e e s t o u t r a b a l h a n d o c o m s e r e s 
h u m a n o s , -não com b a i l a r i n o s , o u e s p o r t i s t a s o u p r o f e s s o r e s , o u 
d o n a s de casa. São s e r e s h u m a n o s que b u s c a r a m a m i n h a a u l a 
p o r q u e a c r e d i t a v a m q u e e u lhes p o d e r i a a p o n t a r c a m i n h 9 s . O 
que b u s c o , e n t ã o , é d a r u m c o r p o a essas p e s s o a s , porqq~ elas 
t ê m c o i s a s a d i z e r c o m seus c o r p o s . P o r isso n ã o f a ç o q u a l q u e r 
p r o p o s t a d e m o v i m e n t o s q u e n ã o t e n h a m a p l i c a ç ã o n a v i d a d i á -
ria. Q u e r o q u e o t r a b a l h o seja simples e n a t u r a l . 
T a l v e z p o r t u d o isso m i n h a a u l a n ã o s e j a c o p i á v e l : a p e s a r 
de d u r a r d u a s h o r a s , ela n ã o a c a b a . Assim c o m o essa m i n h a 
p e s q u i s a , que d u r a d é c a d a s e n ã o t e m a i n d a u m a r e s p o s t a de-
finitiva. N e m nome e s p e c í f i c o . O que i m p o r t a é l a n ç a r as se-
m e n t e s no c o r p o d e c a d a um, a b r i r e s p a ç o n a m e n t e e n o s 
músculos. E e s p e r a r q u e a s r e s p o s t a s s u r j a m . O u n ã o . 
131 
VII 
Magia e técnica 
Todo esse trabalho tem qualquer coisa de paradoxal: falo 
sobre coisas que devem ser sentidas e não pensadas. Mas, para 
aqueles que conhecem um trabalho · desse gênero, qualquer que 
seja o nome que lhe é dado, esse livro poderá ser uma confir-
mação ou o esclarecimento de alguma observação anterior. Aos 
outros, que têm uma aspiração ainda que. vaga de conhecimento, 
a leitura destas páginas pode ser o início de uma busca através 
de meios práticos. 
Existe entretanto, entre esse livro e a realidade, toda a dife-
rença que separa um croqui topográfico do país verdadeiro que 
este croqui representa. É difícil e às vezes desnecessário teorizar: 
a prática é fundamental, sempre. 
Sabemos que as idéias aqui apresentadas estão ligadas por 
uma coesão profunda e interna que é a experiência vivida por 
mim mesmo. Como disse um mestre zen, para saber se a água de 
um balde .está quente ou fria deve-se meter a mão no balde. De 
nada servirá a discussão, por mais brilhante que possa ser. 
Assim, partiremos sempre do princípio de que existem di-
versos caminhos para alcançar determinada meta. No nosso caso 
a meta é interior, o que torna as coisas um pouco mais com-
plicadas. Mas o resultado desse trabalho surge também no exte-
rior, no corpo. Existe um processo de alquimia interior que 
132 
acompanha cada ser humano e é com essa alquimia que cada 
um deve se exprimir, buscando não se trair, até chegar à inte-
gração de seus recursos físicos e psíquicos. 
O resultado, para quem souber ver, será o mesmo para o 
artista, o carpinteiro, o pensador, a dona de casa, o professor: 
encontraremos neles a mesma realidade dinâmica do ser humano 
realizado através de um longo corpo-a-corpo entre a matéria e 
suas limitações. 
Mas essa transformação é um processo que exige tempo, 
mesmo quando se dá por etapas. E o tempo será inútil se cada 
humano não tiver por método um trabalho profundo e correto, 
centrado na conscientização e na continuidade, que são ainda 
mais importantes do que a força e a quantidade. Com isso, exi-
ge-se um mínimo de perseverança e coragem. O resultado será 
forçosamente essa totalidade, conseguida através do alto preço 
pago ao corpo e ao espírito. 
Observemos que a desarmonia não está, em nenhuma parte, 
mais evidente do que no emprego que todos fazemos do corpo 
e dos movimentos, em ações simples como estar em pé, correr, 
caminhar ou na relação com os objetos docotidiano. Até mesmo 
o simples falar é realizado com uma total falta de harmonia c 
eficácia. 
Se quisermos aprofundar mais essa observação, encontrare-
mos claramente um dos fatores dessa desarmonia na debilidade 
da coordenação. É como se as diferentes partes do aparelho 
motor perdessem a ligação que fazem do corpo uma unidade. 
O outro elemento que chama a atenção é o emprego defeituoso 
da força, que passa da crispação ao relaxamento. A impressão 
final é a de uma máquina mal regulada, sem o fluxo de um ser 
vivo. 
Estranhamente, as imagens que nos vêm a mente não são as 
de um doente incurável ou aleijado, mas sim dos homens ditos 
133 
n o r m a i s , q u e e n c o n t r a m o s d i a r i a m e n t e na v i d a c o n t e m p o r â n e a , 
em e s p e c i a l n a s g r a n d e s c i d a d e s . 
Se t i v e r m o s c h a n c e de e n c o n t r a r um ser h u m a n o q u e c o n -
s e r v o u a o m e n o s p a r c i a l m e n t e o u r e e n c o n t r o u a t r a v é s d e um 
t r a b a l h o a s u a h a r m o n i a m o t o r a , f i c a r e m o s s u r p r e s o s c o m a 
u n i d a d e de seu c o r p o , i n c o r p o r a d o em gestos, e e n c o n t r a r e m o s 
nele a e c o n o m i a e a s i m p l i c i d a d e dos m o v i m e n t o s . 
E se é a t r a v é s d o c o r p o q u e p e r c e b e m o s essa d e s a r m o n i a , 
s a b e m o s a g o r a q u e a e x p r e s s ã o c o r p o r a l r e f l e t e t u d o o q u e sou: 
m i n h a h i s t ó r i a , o q u e p e n s o , c o m o s i n t o . V i d a i n t e r i o r e e x p r e s -
s ã o c o r p o r a l s ã o c o i s a s i n s e p a r á v e i s . 
A i d é i a de c o n c e b e r o h o m e m c o m o u n i d a d e s e p a r á v e l é 
r e l a t i v a m e n t e r e c e n t e , e a c e i t a na c u l t u r a o c i d e n t a l d e s d e a Re-
n a s c e n ç a . A m e d i c i n a de H i p ó c r a t e s . a o c o n t r á r i o , e d e s d e a 
a n t i g a G r é c i a , b a s e i a - s e n o p r i n c í p i o d a u n i d a d e d o c o r p o . Os 
c h i n e s e s d e s e n v o l v e r a m , em t o d a a sua h i s t ó r i a , u m a f i s i o l o g i a 
e n e r g é t i c a r i c a e c o m p l e x a ; as a r t e s e os e s p o r t e s t r a d i c i o n a i s d e 
t o d o o E x t r e m o O r i e n t e s ã o b a s e a d o s na l i g a ç ã o e n t r e e s p í r i t o 
e m a t é r i a , u n i d o s p o r essa e n e r g i a d a q u a l a c i r c u l a ç ã o é a c a -
r a c t e r í s t i c a b á s i c a d o s s e r e s vivos. 
N e g l i g e n c i a d a d e p o i s d a é p o c a de D e s c a r t e s , essa c o n c e p ç ã o 
u n i f i c a d a da n a t u r e z a h u m a n a r e a p a r e c e em nossos d i a s c o m 
f o r ç a c r e s c e n t e . A j o v e m m e d i c i n a p s i c o s s o m á t i c a d e s c o b r i u al-
g u m a s l i g a ç õ e s e n t r e v i d a p s í q u i c a e o r g â n i c a , e a p a l a v r a p a s s a 
h o j e a s e r um dos i n g r e d i e n t e s mais i m p o r t a n t e s d a e x p r e s s ã o 
física. 
E s s a e x p r e s s ã o c o r p o r a l é c o m u m a t o d o s e p e r m i t e d i s t i n -
g u i r , n ã o i m p o r t a em q u a l p a r t e á o m u n d o , a v o n t a d e d e c a d a 
s e r h u m a n o . O h o m e m é u n o em s u a e x p r e s s ã o : n ã o é o e s p í r i t o 
q u e se i n q u i e t a nem o c o r p o que se c o n t r a i - é a p e s s o a i n t e i r a 
q u e se e x p r i m e . 
Meu t r a b a l h o , p o r t a n t o . b u s c a d a r e s p a ç o p a r a a m a n i f e s -
t a ç ã o d o c o r p o c o m o um t o d o , c o m os c o n t e ú d o s d a v i d a psí-
1 3 4 
q u i c a , das e x p r e s s õ e s d o s s e n t i d o s , d a v i d a a f e t i v a . N ã o é pos-
sível n e g l i g e n c i a r ou e s q u e c e r t a i s c o i s a s n e m f a z e r c o m q u e c 
c o r p o p e r m a n e ç a m u d o e n ã o t r a n s m i t a n a d a : as i n f o r m a ç õ e s que 
ele d á s ã o i n c o n t r o l á v e i s . T e m o s é q u e c o n h e c e r esses p r o c e s s o s 
i n t e r n o s p o d e r o s o s e d a r e s p a ç o p a r a que eles se m a n i f e s t e m . 
c r i a n d o assim a c o r e o g r a f i a . a d a n ç a de c a d a um. 
135 
A v i s ã o do o u t r o 
K l a u s s : e d u c a n d o o s s e n t i d o s 
C o n h e c i K l a u s s V i a n n a e m 1 9 8 2 , é p o c a em q u e , r e c é m - f i -
x a d o em S ã o P a u l o , ele c h a m a v a a t e n ç ã o t a n t o p e l a r e n o v a ç ã o 
q u e i m p r i m i a n o a n t i g o C o r p o de B a i l e M u n i c i p a l (o n o m e B a l é 
d a C i d a d e de S ã o P a u l o s u r g i u a p a r t i r de s u a g e s t ã o ) , c o m o 
p e l a s a u l a s que d a v a em a l g u n s e s t ú d i o s d e d a n ç a d a c i d a d e . 
N e s t e a n o , f r e q ü e n t a n d o um de seus c u r s o s , d e s c o b r i o r e v e r s o 
d e t u d o q u e se e n s i n a v a n a s e s c o l a s de b a l é . 
E r a m a u l a s s e m a n a i s , t o d a s as s e x t a s - f e i r a s . n u m s a l ã o e n -
c r a v a d o em p l e n a R u a A u g u s t a . Os a l u n o s - em vez d a s t u r m a s 
q u e f i c a v a m b r i g a n d o c o m o p r ó p r i o c o r p o , e m d i s p u t a p e l a 
p e r n a m a i s a l t a ou p e l o m a i o r n ú m e r o de g i r o s n u m a p i r u e t a 
- f o r m a v a m um g r u p o s u p e r - h e t e r o g ê n e o . G e n t e d e t o d a s a s 
i d a d e s e p r o f i s s õ e s , com o u sem t é c n i c a de d a n ç a . H a v i a b a i l a -
r i n o s sim - mas q u e , ali, p a r e c i a m e s t a r de v o l t a a o c o m e ç o , 
r e f o r m u l a n d o t u d o q u e s a b i a m . 
Se, de início, as a u l a s de K l a u s s p r o v o c a v a m e s t r a n h a -
m e n t a , com o t e m p o c r i a v a m um g r a n d e e n v o l v i m e n t o : o d i a 
de a u l a p a s s a v a a s e r e s p e r a d o c o m o um d o s m o m e n t o s a g r a -
d á v e i s d a s e m a n a - e r a a o p o r t u n i d a d e de se l i v r a r d a s c o u -
r a ç a s d o d i a - a - d i a e de lá s a i r mais leve e d e s c o n t r a í d a , m a i s e m 
h a r m o n i a c o m o m u n d o e c o m i g o m e s m a ( s e n s a ç ã o q u e t o d o s 
p a r e c i a m p a r t i l h a r ) . 
N o s s o c o n t a t o com a a u l a c o m e ç a v a p o r um e x e r c í c i o d e 
" c h e g a d a " - a n t e s de q u a l q u e r coisa, e r a p r e c i s o se s e n t i r p r e -
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s e n t e , d e s v e n c i l h a n d o - s e , a o s p o u c o s , d o q u e o d i a h a v i a d e i -
x a d o p a r a t r á s . T r a b a l h a n d o o c o r p o e m d e t a l h e s , s e n t í a m o s as 
e x t e n s õ e s e l i m i t a ç õ e s d e n o s s a m u s c u l a t u r a , d e n o s s o s m o v i -
m e n t o s n o s s a r e l a ç ã o c o m o c h ã o ( o u c o m a " g r a v i d a d e " , c o m o ele 
d i z ) ; o p e s o d o c o r p o . N o j o g o d e p e r c e p ç õ e s e m p r e e n d i d o p o r 
K l a u s s , d á v a m o s a t e n ç ã o a t é a o e s p a ç o e x i s t e n t e e n t r e os d e d o s 
d o s pés - t o c a n d o e s e n t i n d o essa r e g i ã o p e r c e b í a m o s o q u a n t o 
a b a n d o n a m o s e e s q u e c e m o s c e r t a s p a r t e s d o c o r p o , a p a r e n t e -
m e n t e i r r e l e v a n t e s (assim c o m o f a z e m o s c o m a v i d a - e l e n o s 
f az i a p e r c e b e r ) . 
E x p l o r a n d o o l ú d i c o d e t o d o s n ó s , K l a u s s r e v e s t i a d e b r i n -
c a d e i r a c e r t o s e x e r c í c i o s . P e r c o r r e n d o e d e s c o b r i n d o e s p a ç o s n a 
s a l a , s u g e r i a q u e a n d á s s e m o s a g a c h a d o s ou e x p e r i m e n t a n d o os 
d i f e r e n t e s · a p o i o s d o s pés ( s e m p r e s e n t i n d o o t r a b a l h o m u s c u l a r 
d e s s e s m o v i m e n t o s ) . H a v i a t a m b é m o j o g o d e o l h a r e s : o l h a r 
d i f e r e n t e s p o n t o s o u um p a r a os o u t r o s l e v a v a a p e q u e n a s d e s -
c o b e r t a s . A s s i m c o m o a a l t e r n â n c i a em se m o v i m e n t a r a o s o m 
d a m ú s i c a ou a o som d o s i l ê n c i o . 
A fim de c e r t a s s e q ü ê n c i a s , d e i t á v a m o s no c h ã o : o l h o s fe-
c h a d o s c a n a l i z á v a m o s n o s s o s o u v i d o s p a r a os r u í d o s m a i s p r ó -
x i m o s , d e p o i s p a r a os s o n s m a i s d i s t a n t e s . m a i s l o n g í n q u o s . . . 
De r e p e n t e , me d a v a c o n t a d e que e s t á v a m o s r e d e s c o b r i n d o o 
ó b v i o - o u a n o s s a g r a n d e i n c a p a c i d a d e de, n o d i a - a - d i a , n o s 
f e c h a r m o s p a r a as s u t i l e z a s ( o u p o e s i a ) d a v i d a . 
E t e r n o p e s q u i s a d o r , K l a u s s t r a b a l h a n o s t e r r e n o s d o e x p e -
r i m e n t a l - este c a m p o de a c e r t o s e d e s a c e r t o s , d e b u s c a c o n -
t í n u a d e r e v e l a ç õ e s . c u j o r i s c o i n t i m i d a a t r a j e t ó r i a d e t a n t o s 
p r e t e n s o s a r t i s t a s I n t u i t i v o p o r n a t u r e z a , K l a u s s t e n t a a p r e e n d e r 
a e s s ê n c i a e os m i s t é r i o s de s u a a r t e , f a z e n d o d a p e r e n e i n s a t i s -
f a ç ã o s u a m o l a m e s t r a . E m b o r a r e s t r i t o a o s l i m i t e s de f o r m a ç ã o 
e i n f o r m a ç ã o de seu p a í s c o n s e g u i u , a t r a v é s d o s r e q u i n t e s d e s u a 
p e r c e p ç ã o , e s t a b e l e c e r um m é t o d o d e t r a b a l h o e e n s i n o p r ó p r i o , 
a f i n a d o c o m a f i l o s o f i a d o s g r a n d e s a r t i s t a s d a d a n ç a c o n t e m p o -
r â n e a ( c o m o P i n a B a u s c h e K a z u o O h n o ) . 
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M a i s d o q u e b a i l a r i n o o u c o r e ó g r a f o , K l a u s s se d i s t i n g u e 
c o m o p r o f e s s o r - p a p e l q u e ele vem d e s e m p e n h a n d o à s e m e -
l h a n ç a d o p e r s o n a g e m J o h n K e a t i n g , d o filme " S o c i e d a d e d o s 
P o e t a s M o r t o s " ( D e a d P o e t s S o c i e t y , de P e t e r W e i r ) . A s s i m 
c o m o K e a t i n g , e l e i n c i t a seus a l u n o s a d e s c o b r i r e m - s e a si m e s -
m o s , q u e s t i o n a n d o o q u e p e n s a m q u e s a b e m e e s t a b e l e c e n d o 
u m a p o s t u r a d i a l é t i c a c o m o q u e f a z e m . N ã o à t o a , os b a i l a r i n o s 
e c o r e ó g r a f o s q u e a b s o r v e r a m s u a i n f l u ê n c i a s t e n d e m a se e x -
p r e s s a r d e f o r m a m a i s a r r o j a d a ( A n t o n i o N ó b r e g a é u m d o s 
e x e m p l o s ) T r a n s f o r m a n d o s u a s a u l a s n u m l a b o r a t ó r i o d e i d é i a s , 
d e s a f i a n d o s e u s a l u n o s . p r o m o v e n d o o i n t e r c â m b i o d a d a n ç a c o m 
c o m o u t r a s l i n g u a g e n s , K l a u s s a b r i u c a m i n h o p a r a os a v a n ç o s 
p r e t e n d i d o s p e l a d a n ç a b r a s i l e i r a . 
O g e r m e da i n q u i e t a ç ã o e d a c r i a t i v i d a d e d i f u n d i d o p o r 
K l a u s s e s t á , p o r t a n t o , p r e s e n t e . R e s t a , c o n t u d o . l a m e n t a r a f a l t a 
d e c o n d i ç õ e s de t r a b a l h o q u e um p r o f i s s i o n a l de s u a c a t e g o r i a 
e n c o n t r a n o B r a s i l . 
A n a F r a n c i s c a P o n z i o 
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Klauss V i a n n a conseguiu ao 
longo dos anos u m m é t o d o p r ó -
p r i o de t r a b a l h o e ensino. E s t á 
no mesmo nível dos g r a n d e s a r t i s -
tas da d a n ç a c o n t e m p o r â n e a -
como P i n a B a u s c h e K a z u o O h n o 
e i n f l u e n c i o u v á r i a s gerações 
de bailarinos. 
	Capanull
	Conteúdonull