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UNIVERSIDADE SALGADO DE OLIVEIRA PROFESSOR SEBASTIÃO ADILSON D. BRANDÃO FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS DA CORPOREIDADE TEXTO 5 CORPO E CORPOREIDADE Quando pensamos em corporeidade logo pensamos no movimento do corpo, em crianças que brincam, correm, saltam, dançam e assim por diante, mas esquecemos que corporeidade não é apenas o movimento do corpo, mas sim a união deste com a mente, corpo e mente, ou seja, o corpo não pode ser dissociado da mente, ou vice-versa. Corporeidade é movimento em tudo o que o indivíduo faz, é um sujeito ativo, expressando sentimento. Gallo( 1997, p.65) nos diz que "Viver num mundo é ser um corpo, e ser um corpo é relacionar-se nesse mundo, é sentir, falar, pensar, amar, agir. Já não podemos dissociar o corpo da alma, ou da consciência. O ser humano deve ser visto como uma unidade. Somos corpos físicos, agente de nossa relação com o mundo, reflexão, mas nunca dissociada desse corpo, pois ele é a própria estrutura dessa consciência.” Nas culturas primitivas, o indívíduo não tinha consciência de possuir um corpo que interage num mundo de corpos e objetos. Não havia reflexão sobre a individualidade, e, portanto, a corporeidade não era percebida em meio a um mundo de corpos objetivos. Com o início da atividade reflexiva, a concentração do seu próprio eu, o homem descobriu a individualidade de cada corpo e mente diante dos outros. Contudo, filósofos como Platâo e Sócrates iniciam estudos sobre corpo e mente, e a partir de então o corpo vem sido tratado de forma avassaladora. Sócrates, quebra a unidade do ser, dividindo-o em corpo perecível e alma imortal e Platão, considera a alma eterna, pura, sábia, ao passo que o corpo é imortal, impuro, degradante. Somente no século XX, a partir de uma corrente filosófica, o existencialismo, o corpo é visto em união com a mente, mudando radicalmente na forma de a filosofia perceber a corporeidade. Essa corrente filosófica mostra que um só pode existir pelo outro, ou seja, não podemos falar em corpo sem falar em consciência e não podemos sentir, viver seus dramas e paixões sem o corpo. (GALLO, 1997, p.62-63) Em tempos atuais, problemáticas diversas afloram no âmbito da educação física, dentre elas, a discussão e entendimento sobre corpo e corporeidade se torna algo necessário à formação do profissional em educação física, implicando diretamente em um melhor conhecimento de si, do outro e de sua prática. Definir corpo e entendê-lo em suas especificidades nunca foi um exercício fácil a ser realizado. Porém, é necessário que façamos um esforço de resgate, mesmo breve, sobre as concepções corporais ao longo da história, para assim compreender essa discussão no âmbito da formação profissional. Para isso, é necessário primeiro entender que durante toda a história existiu uma dicotomia na concepção e experiência de corpo, ora visto como uno, ora visto como dual. Ou seja, uma visão ampliada e complexa versus uma visão fragmentada (corpo x mente). Para Gallo (2007), nas culturas primitivas ainda não havia reflexões sobre a individualidade, logo sobre corpo e corporeidade. O indivíduo não tinha consciência de possuir um corpo integrado ao mundo de corpos e objetos, mas, mesmo assim, estabelecia com seu corpo uma relação una, desenvolvendo naturalmente sua sensibilidade e percepção. Já com a Idade Média, o corpo passa a ser visto como algo dissociado da mente, fragmentado, físico, representando a corrupção, o pecado, um impedimento à elevação e desenvolvimento da alma, e, desta forma, devendo ser punido, reprimido e controlado. Ainda, segundo Gallo (ibidem), na Idade Moderna, o corpo passa a ser encarado como objeto de conhecimento, a partir de um viés científico. Inverte- se a lógica de total descaso, para pensá-lo em sua função mais anatômica, estética e de controle. Mais uma vez, corpo se torna estático (morto), mecânico, apenas físico, sem que haja uma preocupação maior com sentimentos, anseios, comportamentos e tudo mais que o constitui e que o faz uno, completo, e ligado à consciência. A contemporaneidade marca o advento da sociedade capitalista, que reproduz essa concepção de corpo como objeto de dominação e controle, ao passo que faz surgir também a necessidade de um debate mais profundo sobre o corpo e corporeidade na busca por essa visão una. Assim, aos poucos, compartilhando desse ideal de corpo uno, passamos a percebê-lo, como afirma Merleau-Ponty (1999), a partir de sua perspectiva ontológica, valorizando sua essência e existência. Agora, o corpo não se constitui mais como integração de partes distintas com respectivas funções, mas como unidade e construção social. E nessa mesma lógica, surge a corporeidade, extensão do entendimento e vivência do corpo, que representa, de acordo com Merleau- Ponty (1999 apud BOLSI, 2006), algo além da materialidade do corpo, o contido em toda a dimensão humana, o resgate do corpo, o deixar fluir, viver, escutar, existir. A história de cada corpo inteiro, vinculado, envolvido e vivente. Toda essa discussão e reflexão corporal chega ao âmbito da formação do profissional de educação física, e se configura para nós um desafio de pensar e perceber essa temática no espaço de formação inicial. Quanto a isso, autores no âmbito nacional, como Araújo (2004), Alves et. al.(2006), Bolsi (2006), dentre outros, que direcionam seus estudos à prática docente, apontam que há nesse âmbito uma forte presença de concepções e vivências de corpo e corporeidade ligadas a idéias arraigadas de corpo como algo inexpressível, inerte e pouco necessário ao processo de ensino e aprendizagem, isto é, uma visão de corpo na perspectiva dual. Para esses autores, ainda, essa realidade pode ser fruto e/ou se originar na própria formação acadêmica docente e, consequentemente, no âmbito da formação inicial do profissional. Melo (2006), ao desenvolver um estudo com pedagogas em formação, enfocando a sexualidade, constata que existe uma negação corporal que permeia o espaço de formação desses sujeitos e, assim, afirma que é necessário e possível que se crie nesse espaço uma nova visão de corpo na perspectiva de potencial e de esperança, baseada na própria relação entre prática e formação. Mesmo sem objetivar compreender concepções e vivências corporais no espaço de formação, esta autora já nos mostra que há fortes indícios da presença e vivência corporal acadêmica fragmentada. Assim, por acreditarmos que o profissional deve ser visto como sujeito formador e humanizador que atua nos níveis de ensino da Educação, que precisa estabelecer uma melhor compreensão de si e do outro, e se ver como pessoa inteira/una e, portanto, como corpo, é que direcionamos nosso estudo para algumas questões: como os alunos do curso de educação física percebem e vivenciam o corpo e corporeidade no âmbito da formação? Em que espaços essa concepção/vivência é experienciada no interior do curso? Como a discussão corporal contribui para a formação pessoal e profissional desses sujeitos? Qual é a importância atribuída à discussão de corpo no âmbito da formação? Conceber, vivenciar e discutir corpo e corporeidade ao longo da história, nunca foi “tarefa” fácil a ser realizada, tornando-se, pois, mais uma pretensão do que uma consumação. O primeiro ponto essencial na discussão corporal é que durante todos os períodos históricos, corpo e corporeidade foram tratados a partir de duas vertentes: ou de forma una (integral) ou de forma fragmentada (dualista). Isso se dá porque as inúmeras variações na concepção e no tratamento de corpo e corporeidade, bem como as formas de comportar-se corporalmente, decorre das relações estabelecidas entre o corpo e um determinado contexto social. (GONÇALVES, 1994). Nas sociedades primitivas, percebemos uma concepção e vivência de corpo e corporeidade de forma unae profunda. Apesar de não se ter uma reflexão sobre a individualidade e, portanto, sobre a corporeidade objetiva, o homem primitivo ao depender, como diz Gonçalves (1994), diretamente da acuidade dos seus sentidos, da agilidade de seus movimentos e da rapidez de suas reações corporais, revela sua íntima união com a natureza. Seu corpo é parte da natureza e, desta forma, está em harmonia com seus movimentos corporais. Todos os acontecimentos que os rodeiam estão envolvidos em uma intensa participação corporal, expressando cultura, emoções, sentimentos etc. Nessa relação natural, o homem primitivo tem a percepção corporal como algo fundamental à vida, tudo que faz depende diretamente da percepção sensível e da ação corporal. Aqui, corpo e natureza se misturam, complementam-se, o corpo é a natureza e a natureza é o corpo, entendidos no horizonte da existência. E assim, os saberes são imediatos e práticos, com maior sensibilidade e percepção. Entretanto, com o desenvolvimento societal, e com a divisão social do trabalho, atinge-se o período da Idade Média, que proporciona o surgimento de uma sociedade organizada, tendo como pano de fundo, visões de corpo e corporeidade pautadas na divisão dualista entre corpo e alma, entre sujeito e objeto etc. A Idade Média marca o período clássico com o enfoque da razão em detrimento da emoção e dos sentimentos, da valorização do pensamento racional em detrimento do conhecimento intuitivo e do universal em detrimento do particular (ARAÚJO, 1994). Nessa época, há uma nítida descoberta do corpo como objeto e alvo de poder. Para Foucault (1987, p.117), nesse período, “encontraríamos facilmente sinais dessa grande atenção dedicada então ao corpo – ao corpo que se manipula se modela, se treina, que obedece, responde se torna hábil ou cujas forças se multiplicam”. Assim, aos poucos, de um corpo uno e indissociável da natureza, temos um corpo objeto a “serviço” de uma estrutura social. Nesse mesmo período, a partir do Cristianismo, segundo Platão, Aristóteles, e outros, o corpo é tratado como algo corrompido e pecador, que precisa ser mortificado e punido para purificar a alma. Para se conquistar a vida eterna, de acordo com Araújo (1994), agora é fundamental cuidar da salvação da alma, sendo assim, desejos, impulsos e vontades tem que ser reprimidos, calados, controlados, pois se traduzem em tentações e pecados. Essa cisão entre corpo e alma, inaugura uma visão inteiramente nova do homem e do universo. O homem agora é visto como portador de livre-arbítrio para realizar seu destino que está articulado ao código moral que ele deseja seguir. Código revelado por Deus, possuidor de um valor incondicional. (GONÇALVES, 1994). Essa forma fragmentada de concepção e vivência corporal, de origem medieval, estende-se em todas as sociedades ocidentais e implica na transformação do homem que passa a ser visto cada vez mais como moldável e manipulável. Isso demarca a visão de corpo como objeto do sujeito, ramificando de uma vez a separação da realidade inteligível da sensível, e pondo esta em um plano inferior. A transição das sociedades primitiva e média à sociedade contemporânea revela a diminuição da espontaneidade e da expressividade corporal, e a instauração da instrumentalização do corpo (GONÇALVES, 1994). Logo, corpo e corporeidade ganham novas conotações no âmbito da sociedade capitalista que ora os afasta de uma compreensão una e integral, fazendo com que sejam percebidos como objeto, ora proporciona o resgate e defesa de se pensar corpo na perspectiva una, isto é, como sujeito. Quanto a isso, autores como Gallo (2007) e Gonçalves (1994), baseados nos escritos de Merleau-Ponty (1999), afirmam a necessidade de ressignificação corporal, a partir do rompimento de uma visão fragmentada que não enxerga o cerne real da problemática, relegando o corpo à temática de segundo plano e sem muitas contribuições para a vida pessoal, social e profissional dos sujeitos. Para isso, busca-se perceber e viver corpo e corporeidade como algo amplo, complexo, e sujeito-próprio, negando uma perspectiva de percepção superficial e o colocando [...] em uma perspectiva dialética em que sentimentos, percepção, afetividade, razão e comportamentos estão inseridos no complexo horizonte da existência, não se preocupando apenas em buscar definições para as coisas que acontecem com o corpo. (GALLO, 2007, p, 65). Pois, só assim, poderemos chegar a uma concepção de corpo que representa um ser individual e coletivo de desejos, de necessidades, de prazer, ou seja, um ser-sujeito que transforma e é transformado na sua própria relação de existência. E nessa mesma lógica, atingindo essa percepção e vivência corporal, a corporeidade representa a capacidade que o ser humano tem de sentir e utilizar o corpo em sua interação com o mundo. Ela é o vivenciar o mundo pelo corpo, o ver e ser visto, o sentir e ser sentido, o tocar e ser tocado no processo de coexistência. (BOLSI, 2006). E vivenciar o corpo por meio da corporeidade é perceber que Sendo corpo, relacionamo-nos, comunicamo-nos, convivemos e produzimos nossas organizações e conhecimentos. Ao manter contato com outras pessoas, revelamo-nos pelos gestos, pelas atitudes, pela mímica, pelo olhar, pelos movimentos A forma de sentir, de interagir, de se expressar e de se relacionar, reflete o que entendemos por corpo e a comunicação que estabelecemos com ele. As vivências e/ou experiências corporais fazem parte do cotidiano de todo indivíduo, originando-se, ultrapassando e/ou se modificando a partir de ambientes sociais, como família, escola, igreja, comunidade e universidade, que este indivíduo esteja ou esteve inserido. No campo dual, através de concepções/vivências que remetem à ausência e/ou controle/disciplinamento do corpo, percebemos que o corpo é visto como objeto, como instrumento, como feixe de funções biológicas, psicológicas, sociais e culturais, dissociadas. No outro campo, está aquela que mais se aproxima de uma visão do corpo como total, existencial e essencial, a expressiva, isto é, o corpo como um sujeito, capaz de expressar gestos, sentimentos, de “falar” e ser “ouvido”. De acordo com Foucault (1987), o disciplinamento é fruto de um modelo societal que busca controlar, disciplinar e manipular o corpo para atender a finalidade social desejada. Assim, ao investigar o espaço prisional, afirma que por se tratar de um ambiente social, assim como a escola e a igreja, possui práticas de disciplinamento/controle corporais, que visam não unicamente o aumento das habilidades do corpo, “nem tampouco aprofundar suas sujeições, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto mais útil, e inversamente”. (p.119). Entretanto, mesmo reconhecendo tal fato, não podemos esquecer que essas instituições mesmo marcadas por repressão de sentimento e atitudes, podem configurar espaços de transformação de vivências corporais. Quanto a isto, Gonçalves (1994) aponta que a escola tem plenas condições de superar o disciplinamento/controle com que é tratado o corpo, bastando para isso que haja um esforço de uma ressignificação corporal que rompa com a lógica dualista presente. Pois pensar em corpo como expressão da tradição dualista é enxergar a natureza e cultura separadas, e o corpo localizado no âmbito da natureza, é negado na instância da cultura. É ainda, enxergar o ser humano apenas em sua entidade físico-biológico. (ARAÚJO, 2004). No entanto, não podemos pensar o corpo apenas sob um caráter físico, pois corpo é unidade, vai além do material, se constitui como “veículo do ser no mundo, e ter um corpo é, para um ser vivo, juntar-se a um meio definido, confundir-se com certos projetos e empenhar-se continuamente neles” (MERLEAU- PONTY, p.122). Ter um corpo é ter consciência deser, estar, de se expressar e de interagir no e com o mundo. Afinal, o corpo é expressão, fala, linguagem e percepção, nossa inscrição no mundo, ponto de partida para toda e qualquer abordagem sobre o ser humano. (BOLSI, 2006). As concepções e vivências de corpo e corporeidade são essenciais, necessitando ser refletidas e discutidas no âmbito da formação docente e do profissional de educação física, de modo a favorecer uma visão de cada um como sujeito ativo, corporal, que se relaciona e se descobre a partir de sua corporeidade, bem como de uma melhor compreensão dos outros. Nosso estudo, acerca das concepções corporais, consta que, de modo geral, ainda possuimos concepções baseadas no dualismo corporal, na fragmentação de corpo e mente; de corpo e corporeidade, do objetivo e subjetivo. Essas concepções dualistas além de permear todos os espaços sociais em que estamos inseridos, como é o caso da família, da escola, da Igreja e da academia, também podem ser percebidas no espaço das práticas docentes, como já demonstrado por Bolsi (2006), Araújo (2004), Melo (2006) e Alves et al (2006). Entretanto, apesar dessa realidade corporal dualista, observa-se um esforço de mudança no campo de formação inicial do profissional, que pode estar articulada a realidade expressa na prática, no sentido de se pensar o corpo e a corporeidade sob uma perspectiva de unidade, isto é, o corpo como sujeito, como essência, como existência, em uma perspectiva complexa e ontológica, como afirma Merleau-Ponty (1999). O campo de formação configura um espaço social em que vivências e concepções se mantêm e/ou se transformam a partir de reflexão. Quanto a isto, nossos dados ainda apontam que aliado a essa necessidades de mudança diante da ressignificação corporal, espaço de formação e campo de nosso estudo, a partir da disciplina Dinâmica de Grupo 1, único lócus de vivência e discussão corporal apontado por nossos sujeitos, vem desenvolvendo, a nosso ver, uma reflexão corporal, mesmo que de forma preliminar, que proporciona para alguns sujeitos essa ressignificação. Assim, se configura um espaço de possibilidade de uma nova visão corporal, como já tinha sido evidenciado por Melo (2006), que afirma que apesar da existência de uma negação corporal, o espaço de formação do pedagogo, professor, profissional, o âmbito da universidade tem o compromisso e a possibilidade de promover uma compreensão de corpo como potencial/esperança. Além disso, esse ambiente se configura como lócus de possibilidade de um entendimento ampliado do corpo, como total e sujeito, também estimula que os sujeitos compreendam a importância da discussão corporal para uma compreensão de si (formação pessoal) e para uma melhora de sua prática presente e/ou futura (formação profissional). Além disso, não podemos esquecer que os sujeitos afirmam que a vivência corporal propicia momentos de relaxamento para o estresse do dia a dia e surge como uma forma de experienciar novas formas de aprendizagem e momentos mais prazerosos no espaço de formação. REFERÊNCIAS ALVES, Juliane; ANCA, Caroline; MOLON, Susana; SILVA, Dayse; Oficinas de formação continuada: reflexões sobre o corpo na constituição do ser professor. UNIREVISTA, vol.1, n. 2, abril, 2006. ARAÚJO, Marlene. Faces do Corpo na Condição docente. In: VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais. A questão Social no Novo Milênio. Coimbra, 2004. BOLSI, Mirian Terezinha. 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