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Paloma Viana

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37
UNIDADE 2
NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: 
DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO 
GOVERNO DE “JANGO”
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
Nessa unidade vamos:
•	 refletir	sobre	eventos	da	década	de	1920	que	resultaram	na	Revolução	de	
1930;
•	 compreender	o	arranjo	de	forças	que	deu	sustentação	à	Revolução	de	1930;
•	 identificar	a	maneira	como	o	Estado	Novo	foi	pensado	e	as	condições	po-
líticas,	econômicas	e	sociais	que	permitiram	sua	implantação;
•	 entender	as	características	gerais	do	período	histórico	e	os	direcionamen-
tos	tomados	pelo	governo	durante	o	Estado	Novo;
•	 compreender	algumas	faces	dos	embates	políticos	e	sociais	que	ganharam	
relevo	no	Brasil	entre	os	anos	de	1945	e	1964;
•	 identificar	a	importância	política	de	Getúlio	Vargas	nos	anos	pós-1930.
Esta	unidade	está	dividida	em	três	tópicos	e	em	cada	um	deles	você	encontra-
rá	atividades	visando	à	compreensão	dos	conteúdos	apresentados.
TÓPICO	1	–	A	REVOLUÇÃO	DE	1930:	GETÚLIO	VARGAS	NO	PODER	
TÓPICO	2	–	O	ESTADO	NOVO	E	SEUS	DESDOBRAMENTOS
TÓPICO	3	–	A	DÉCADA	DE	1950:	AS	(IM)POSSIBILIDADES	DA	DEMO
																						CRACIA
Assista ao vídeo 
desta unidade.
38
39
TÓPICO 1
A REVOLUÇÃO DE 1930: GETÚLIO 
VARGAS NO PODER
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
A	recuperação	integral	da	experiência	vivida,	do	“fato”,	é	algo	inacessível	
para	os	historiadores.	A	consciência	desta	falta	resulta	em	uma	atividade	que	busca,	
no	 limite,	 o	máximo	 de	 aproximação	 em	 relação	 àquilo	 que	 teria	 ocorrido.	 Tal	
aproximação	está	sempre	vinculada	ao	ponto	de	vista	adotado	pelo	historiógrafo.	É	
importante	que	esta	questão	fique	bem	clara,	pois	ela	é	a	chave	para	a	compreensão	
da	existência	de	discursos	que,	embora	tomem	o	mesmo	“fato”	como	referência,	
conferem	a	ele	significações	diferenciadas.	
Nesta	segunda	unidade,	a	começar	por	este	tópico,	nosso	olhar	será	lançado	
em	 direção	 à	 análise	 de	 um	 período	 da	História	 do	 Brasil	 bastante	 instigante,	
imerso	em	conflitos	 ideológicos,	aspirações	políticas	e	 sociais	das	mais	diversas	
inclinações.	 Por	maiores	 que	 sejam	 as	 discordâncias	 entre	 os	 historiadores	 que	
escreveram	sobre	o	período	compreendido	entre	os	anos	de	1930	e	1964,	não	há	
quem	discorde	da	importância	de	Getúlio	Dorneles	Vargas,	possivelmente	o	maior	
articulador	político	da	história	 republicana.	Vargas	 chegou	ao	poder	 em	1930	e	
manteve-se	nele	até	1945.	Saiu	de	cena	entre	o	final	de	1945	até	1950,	tempo	em	
que	articulou	a	sua	volta	à	Presidência	em	1951,	ficando	nela	até	1954,	ano	do	seu	
suicídio.	Mesmo	após	a	morte,	sua	presença	se	fez	valer	durante	no	mínimo	os	dez	
anos	seguintes.
 
Dando	sequência	à	proposta	de	elaboração	de	um	texto	com	um	caráter	
eminentemente	didático,	nesta	unidade	seguiremos	um	itinerário	que	 toma	por	
vetor	central	as	ações	do	governo	de	Getúlio	Vargas	em	seus	distintos	períodos	de	
desenvolvimento.	Em	linhas	gerais	é	possível	falar	na	existência	de	três	períodos.	
O	primeiro	se	estende	de	1930	a	1937,	momento	marcado	por	forte	instabilidade	
e	grandes	oscilações	no	campo	de	forças	políticas;	o	segundo	vai	de	1937	a	1945,	
período	 de	 vigência	 do	 chamado	 Estado	 Novo,	 cuja	 tônica	 foi	 a	 centralização	
do	 poder	 (com	 traços	 preponderantemente	 autoritários)	 e	 o	 investimento	 no	
desenvolvimento	industrial	do	país;	o	terceiro	surge	logo	após	um	breve	período	
de	 governo	militar	 (1946-1950)	 e	 se	 processa	 num	momento	 em	 que	 no	 Brasil	
insinuavam-se	os	apelos	de	um	regime	democrático.	Tais	apelos	se	fizeram	valer	
neste	“segundo”	governo	de	Vargas	(1951-1954)	e	ressoaram	durante	os	mandatos	
presidenciais	seguintes.	Em	1964	um	golpe	militar	decretou	o	fim	deste	cenário.	
Para	chegar	até	este	ponto,	momento	final	desta	unidade,	teremos	que	retroceder	
no	tempo	e	observar	com	atenção	alguns	importantes	eventos	da	década	de	1920.
UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
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2 A DÉCADA DE 1920: RAÍZES DE UM IMPASSE NÃO 
 NEGOCIÁVEL
O	 pacto	 firmado	 entre	 as	 duas	maiores	 forças	 econômicas	 do	 país,	 São	
Paulo	e	Minas	Gerais,	 responsável	pela	 instauração	da	“República	do	Café	com	
Leite”,	sofreu	um	golpe	fatal	no	final	da	década	de	1920.	Tanto	no	viés	econômico	
quanto	no	 social,	 os	 anos	vinte	marcaram	um	ponto	de	 inflexão	nos	 rumos	do	
regime	republicano.	Não	se	pode	falar	em	uma	ruptura	radical,	mas	os	ventos	que	
sopravam	no	período	traziam	consigo	ares	da	mudança.	Penna	afirma	que
A	década	de	1920	 foi	marcada	economicamente	pelo	esgotamento	do	
modelo	agroexportador,	calcado	quase	que	exclusivamente	no	café.	No	
plano	social,	pela	emergência	definitiva	da	questão	social	que	trouxe	em	
seu	bojo	novos	segmentos	e	camadas	sociais.	A	 inabilidade	das	elites	
brasileiras,	profundamente	conservadoras,	concorreu	para	a	superação	
das	práticas	políticas	excludentes	e,	em	consequência,	para	o	próprio	
fim	do	sistema	em	vigor.	Essa	crise	atingirá,	politicamente,	seu	ponto	
de	maior	 inflexão	 com	a	pressão	 exercida	pelos	militares,	 vinculados	
às	revoltas	do	tenentismo,	e	pela	desagregação	da	política	de	equilíbrio	
exercitada	 ao	 longo	da	Política	dos	Governadores.	 (PENNA,	 1999,	 p.	
151-152).
O	cenário	acima	descrito	ganha	mais	nitidez	se	o	interpretarmos	levando	
em	conta	o	ano	de	1922.	Conforme	vimos	na	unidade	anterior,	as	reverberações	
da	 Revolução	 Russa	 causaram	 impacto	 no	movimento	 operário	 e	 um	 impulso	
nas	 manifestações	 de	 rua,	 ocasionando	 um	 receio	 por	 parte	 dos	 grupos	 mais	
conservadores.	Em	meio	a	estes	acontecimentos,	no	cenário	político-eleitoral,	ocorre	
a	aproximação	das	oligarquias	do	Rio	Grande	do	Sul,	da	Bahia,	de	Pernambuco	
e	do	Rio	de	 Janeiro,	 constituindo	uma	 frente	de	oposição	ao	 candidato	do	eixo	
São	Paulo/Minas	Gerais,	Artur	Bernardes.	Este	ano	marca	 também	a	origem	do	
Tenentismo,	a	 revolta	da	oficialidade	 intermediária	contra	os	rumos	assumidos	
pelo	governo	na	Política	dos	Governadores.	Contemporâneos	de	1922	presenciam	
a	fundação	do	Partido	Comunista	Brasileiro	(PCB),	partido	que	viria	a	ter	alcance	
nacional	e	cujo	ideário	chocava-se	frontalmente	com	as	práticas	políticas	vigentes	
no	país.	No	plano	cultural,	o	ano	de	1922	é	marcado	pela	disseminação	de	novas	
manifestações	 estético-políticas,	 materializadas	 de	 maneira	 clara	 na	 “Semana	
de	 Arte	 Moderna”.	 Formalização	 de	 um	 conjunto	 de	 propostas	 intelectuais,	 a	
Semana	de	Arte	Moderna	lançou	ao	proscênio	três	maneiras	distintas	de	pensar	
o	 Brasil:	 a	 corrente	 “verde-amarela”,	 que	 pregava	 a	 reflexão	 da	 brasilidade,	
propondo	o	abandono	de	influências	estrangeiras	e	sustentando	a	singularidade	
do	 país;	 a	 corrente	 “antropofágica”,	 cuja	 proposta	 era	 a	 incorporação	 dessas	
influências	através	de	um	“canibalismo	cultural”;	e,	por	fim,	a	corrente	que	previa	
a	 incorporação,	por	parte	do	país,	de	valores	 culturais	 considerados	universais.	
Nesta	última	destacou-se	Mário	de	Andrade	(PENNA,	1999).	Este	intelectual	viria	
a	 ter	uma	importante	participação	no	governo	–	na	área	de	políticas	culturais	–	
anos	mais	tarde,	por	ocasião	do	Estado	Novo.
TÓPICO 1 | A REVOLUÇÃO DE 1930: GETÚLIO VARGAS NO PODER
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Proscênio é a parte anterior dos palcos dos teatros, junto à ribalta; teatro, cena, 
palco; lugar onde acontecem fatos à vista de todos; arena, cenário. (HOUAISS; VILLAR, 2009, 
p. 1.563).
FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Arte-
 moderna-1922.jpg>. Acesso em: 10 abr. 2010.
FIGURA 12 – PERSONALIDADES DA SEMANA DE ARTE MODERNA
A Figura 12 mostra importantes personalidades que participaram da Semana de 
Arte Moderna de 1922. Mário de Andrade (sentado), Anita Malfatti (sentada, ao centro) e Zina 
Aita (à esquerda de Anita), em São Paulo, Brasil, 1922.
A	Semana	de	Arte	Moderna	pode	ser	interpretada	como	uma	manifestação,	
no	plano	cultural,de	que	o	Brasil	sofria	mudanças	 importantes.	A	preocupação	
com	uma	reflexão	sobre	o	país,	 sobre	o	que	vinha	a	 ser	o	Brasil,	 trazia	consigo	
aspectos	 de	 crítica	 social	 que	 reverberavam	 no	 terreno	 político.	 O	 presente	
carregava	consigo	um	sintoma	e	um	índice:	o	primeiro	aludia	à	doença	crônica	
decorrente	 dos	 conchavos	 que	 ditavam	 os	 rumos	 políticos	 do	 país;	 o	 segundo	
indicava	a	necessidade	de	ruptura	com	o	passado.	É	significativo	o	fato	de	o	evento	
ter	 ocorrido	 em	 São	 Paulo,	 cidade	 que	 apresentava	 o	 processo	 de	 urbanização	
NOTA
UNI
UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
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e	 crescimento	mais	 acelerado	 do	 país,	 pois	 a	 capital	 paulista	 pode	 ser	 tomada	
como	exemplo	da	emergência	de	novos	grupos	sociais	–	transmudados	em	atores	
políticos	–	não	comportados	nos	quadros	da	República	Velha.
A	incapacidade	da	cúpula	do	PRP	em	aceitar	o	novo	cenário	social	e	político	
levou	ao	surgimento	de	lutas	internas	que	enfraqueceram	o	partido.	Em	1926,	por	
exemplo,	é	criado	em	São	Paulo	o	Partido	Democrático	(PD).	Seu	surgimento	se	
deveu,	 em	 grande	medida,	 ao	 descontentamento	 de	 alguns	 segmentos	 do	 PRP	
que	viam	nas	ações	governamentais	e	na	postura	da	cúpula	um	perigo	à	ordem	
institucional.	Segundo	Penna	(1999),	o	objetivo	do	PD	era	“mudar	para	conservar”,	
ou	 seja,	 era	necessário	 absorver	 certas	demandas	da	 sociedade	e	 administrá-las	
politicamente	para	que	se	eliminasse	o	perigo	da	ruptura	radical	do	sistema.	
Como	você	pode	notar,	a	década	de	1920	foi	se	constituindo	em	um	barril	de	
pólvora.	Enquanto	o	poder	econômico	das	elites	paulistas	e	mineiras	era	garantido	
pela	rentabilidade	do	café,	o	estopim	esteve	longe	de	ser	aceso.	Ocorre	que,	em	
1929,	a	eclosão	de	uma	grave	crise	de	alcance	mundial	balançou	os	alicerces	da	
estrutura	econômica	vigente.	Em	1930,	ano	eleitoral,	de	acordo	com	o	pacto	político	
estabelecido	 entre	 São	 Paulo	 e	Minas	 Gerais,	Washington	 Luís	 deveria	 indicar	
Antônio	Carlos,	governador	(em	verdade,	na	época	o	cargo	era	o	de	“presidente	do	
estado”)	de	Minas,	como	seu	sucessor.	Possivelmente	preocupada	com	a	condução	
das	políticas	de	valorização	do	café,	a	cúpula	do	PRP	apoiou	Washington	Luís	na	
indicação	do	paulista	Júlio	Prestes.	O	fato	resultou	na	fagulha	necessária:	o	barril	
explodiu.
3 A ALIANÇA LIBERAL E A “REVOLUÇÃO” DE 1930
Durante	 toda	a	República	Velha	o	Estado	do	Rio	Grande	do	Sul	ocupou	
uma	 posição	 intermediária	 na	 hierarquia	 do	 poder.	 Contudo,	 tal	 posição	 não	
impediu	sua	participação	em	muitos	dos	principais	eventos	políticos	do	período.	
A	Revolução	Federalista,	em	1893,	foi	o	momento	em	que	a	ação	direta	mais	se	fez	
valer,	mas	isto	não	significa	que	as	lideranças	políticas	do	Estado	não	estivessem	
presentes	em	outros	momentos	decisivos.	Em	1930,	ano	que	inaugurou	um	novo	
período	 da	 República	 brasileira,	 uma	 dessas	 lideranças	 projetou-se	 no	 cenário	
nacional:	Getúlio	Vargas.
Vargas	nasceu	em	1882,	na	cidade	de	São	Borja,	na	divisa	do	Brasil	com	
a	 Argentina.	 Filho	 de	 uma	 tradicional	 família	 gaúcha,	 ingressou	 na	 carreira	
militar,	mas	deixou	a	função.	Formou-se	em	Direito	e	chegou	a	exercer	o	cargo	de	
promotor	público.	Em	1909	foi	eleito	deputado	estadual	pelo	Partido	Republicano	
Riograndense	e,	anos	mais	tarde,	deputado	federal.	Sua	atuação	na	Câmara	dos	
Deputados,	 como	 líder	da	bancada	gaúcha,	 rendeu-lhe	uma	 indicação	ao	 cargo	
de	ministro	da	Fazenda	no	governo	de	Washington	Luís.	Com	este	último,	Vargas	
manteve	um	bom	relacionamento	durante	muitos	anos.	Sua	saída	do	ministério	se	
deveu	ao	fato	de	ter	se	candidatado,	em	1927,	ao	governo	do	Estado	do	Rio	Grande	
do	Sul.	Eleito,	não	chegou	a	concluir	o	mandato.	Uma	guinada	em	sua	carreira	
política	colocou-o	em	um	novo	rumo.	
TÓPICO 1 | A REVOLUÇÃO DE 1930: GETÚLIO VARGAS NO PODER
43
O	 descontentamento	 do	 PRM	 em	 relação	 à	 indicação	 de	 Júlio	 Prestes	
induziu	uma	aproximação	entre	os	mineiros	e	importantes	grupos	políticos	do	Rio	
Grande	do	Sul	e	da	Paraíba.	Esta	aproximação	resultou	na	formação	da	Aliança 
Liberal,	cujo	candidato	escolhido	para	a	disputa	da	eleição,	marcada	para	o	dia	
01	 de	 março	 de	 1930,	 foi	 Getúlio	 Vargas	 (como	 vice	 foi	 indicado	 João	 Pessoa,	
da	 Paraíba).	O	 surgimento	 da	Aliança	 Liberal	 e,	 principalmente,	 o	 fato	 de	 esta	
agremiação	ter	alcançado	expressão	nacional,	constituindo-se	como	um	grupo	de	
pressão,	foi	uma	novidade	no	cenário	republicano.	Pela	primeira	vez	uma	força	
política	civil	não	representava	apenas	os	interesses	dos	cafeicultores.	
Por	ocasião	das	eleições,	as	velhas	práticas	de	fraude	eleitoral	se	fizeram	
valer	mais	 uma	 vez.	De	 acordo	 com	Penna	 (1999),	 ambos	 os	 candidatos	 foram	
agraciados	por	uma	enxurrada	de	votos	de	natureza	duvidosa.	Para	se	 ter	uma	
ideia,	no	Rio	Grande	do	Sul	teriam	comparecido	99%	dos	eleitores,	dando	a	Getúlio	
699.627	votos	e	a	Júlio	Prestes	apenas	982.	São	Paulo	não	deixou	por	menos:	apenas	
inverteu	a	proporção.	Apurada	a	totalidade	dos	votos,	as	“urnas”	apontaram	Júlio	
Prestes	como	vencedor.	Levando-se	em	conta	o	fato	de	que	a	fraude	eleitoral	não	
era	uma	novidade,	possivelmente	Júlio	Prestes	teria	sido	empossado	sem	maiores	
problemas.	Mas	o	acaso	entrou	em	cena.
Rivalidades	políticas	no	Estado	da	Paraíba	 resultaram	no	assassinato	de	
João	Pessoa	(morto	por	João	Dantas,	um	jornalista	e	adversário	político).	Embora	
tenha	 sido	o	 fruto	de	 rixas	 internas,	 este	 evento	 agiu	 como	um	catalisador	que	
exaltou	os	ânimos	no	país.	Depois	de	cogitada,	a	ideia	de	uma	revolução	ganhou	
corpo	e	se	materializou.
FONTE: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/9a/
 Ao300706_2.jpg>. Acesso em: 21 mar. 2010.
FIGURA 13 – TELEGRAMA DA RÁDIO CRUZEIRO, NOTICIANDO O ASSASSINATO 
DE JOÃO PESSOA
UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
44
De	acordo	com	Penna	(1999),	civis	como	Osvaldo	Aranha	e	Lindolfo	Collor	
reuniram-se	com	generais	que	detinham	postos	de	comando	visando	à	articulação	
do	movimento.	No	dia	24	de	outubro	ocorre	o	golpe	de	Estado,	com	a	deposição	do	
presidente	Washington	Luís	e	a	instauração	de	uma	junta	militar	que	condicionou	
a	 entrega	 do	 governo	 a	 Getúlio	 Vargas	 mediante	 o	 cumprimento	 de	 alguns	
compromissos,	tais	como	a	manutenção	dos	ministros	militares.	Esta	foi	a	primeira	
de	muitas	concessões	que	Vargas	teve	que	fazer	em	prol	da	governabilidade.	Com	
efeito,	a	busca	por	apoio	e	simpatia	levou	o	novo	presidente	a	negociar	em	várias	
frentes.	A	Igreja	compôs	uma	delas.	Segue	abaixo	a	transcrição	(mantendo	a	escrita	
original)	 de	 uma	 carta	 endereçada	 ao	Cardeal	D.	 Sebastião	 Leme	 explicando	 e	
justificando	a	Revolução	de	1930.
Rio,	14	de	Novembro	de	1930.
A	Sua	Eminencia	o	Senhor
Cardeal	D.	Sebastião	Leme.
Tenho	o	prazer	de	accusar	o	recebimento	das	cartas	que,	nos	dias	9,	10,	e	
11	do	corrente	Sua	Eminencia	me	dirigiu.
O	preclaro	Chefe	do	Episcopado	Brasileiro	conhece	necessariamente	a	
marcha	dos	 acontecimentos	 que,	 encadeados	 uns	 aos	 outros,	 culminaram	no	
movimento	revolucionário,	irrompido	em	3	de	Outubro.
De	 parte	 dos	 homens	 que	 hoje	 occupam	 o	 poder	 houve,	 sempre,	
manifestado	 de	 varios	 modos	 e	 em	 multiplas	 occasiões,	 sincero	 desejo	 de	
concordia	e,	tão	forte	era	esse	desejo,	que,	por	vezes,	a	opinião	publica	tomou	a	
nossa	attitude,	como	índice	de	fraqueza	e	sem	razão.
Procuramos,	durante	 longos	mezes,	 evitar,	 com	abnegação,	 a	 lucta	que	
se	presentia,	proclamando,	continuamente,	que	as	reivindicações	almejadas	não	
deviam	ultrapassar	o	puro	dominio	das	ideias,	bastando	para	uma	acomodação	
fossem	 aceitos	 e	 praticados,	 pelos	 detentores	 do	 poder,	 os	 principios	 que	 nos	
congregavam.
Todo	esse	esforço	para	manter	uma	ordem	de	cousasque	não	desejavamos	
anniquilar,	mas,	apenas	modificar	para	o	bem	da	nação,	foi	inutil.	O	Governo	
de	 então	 recebia	os	nossos	 appellos	 tentando	asphixiar,	por	meios	 illegaes,	 a	
vontade	popular,	praticando	os	maiores	attentados	contra	direitos	inviolaveis,	
destruindo	principios	basilares	da	nossa	organização,	qual	o	da	autonomia	dos	
Estados,	e,	chegando	ao	cumulo,	com	a	sua	intervenção	indebita	na	Parahyba,	
de	concorrer	para	o	desfecho	tragico	em	que	foi	sacrificado	o	cidadão	eminente	
que	a	presidia.
Iniciada	a	revolução,	com	o	baptismo	do	sangue	brasileiro	e	a	perda	de	
vidas	preciosas,	é	natural	que	novo	rumo	tomasse	os	acontecimentos	e	a	conquista	
de	principios,	que	constituia	o	ideial	dos	que	se	oppunham	aos	desmandos	do	
Governo,	foi	accrescida,	pela	revolução	victoriosa,	do	dever	indeclinavel	de	se	
apurarem	as	responsabilidades	dos	que	dispunham	dos	cargos	da	administração	
publica	e	delles	abusaram.
TÓPICO 1 | A REVOLUÇÃO DE 1930: GETÚLIO VARGAS NO PODER
45
Mesmo	assim	Sua	Eminencia	terá	observado	que	todas	as	autoridades	do	
governo	actual	têm	agido	com	a	maior	magnanimidade,	em	relação	aos	vencidos,	
tratando-os	com	respeito	e	bondade,	convindo	notar-se,	somente	os	poderosos	
hão	sido	atingidos	pela	justiça	revolucionária,	emquanto	os	humildes,	victimas	
preferidas	do	governo	que	passou,	nada	têm	soffrido.
Os	 acctuaes	 dirigentes	 da	 nação	 não	 podem	 fugir	 ao	 imperativo	
consubstanciado	 no	 postulado	 de	 que	 a	 piedade	 jamais	 deve	 sobrepor-se	 á	
justiça.	Justiça,	exclusivamente,	guiará	a	acção	das	actuaes	autoridades.	Os	altos	
funccionarios	 do	 Governo	 deposto	 responderão	 apenas	 por	 crime	 de	 direito	
commum,	devendo	ser	julgados	por	tribunal	especial,	composto	por	homens	de	
altas	virtudes	e	competencias	juridica	indiscutivel.
Louvando	a	nobre	intervenção	de	Sua	Eminencia,	digna	de	admiração	
e	 respeito,	 affirmamos,	 com	 segurança,	 poder	 reppousar,	 tranquilla	 e	 sem	
sobresaltos,	a	consciencia	christã	e	catholica	do	Brasil,	pois,	jamais	patrocinaremos	
violencias,	apenas	procurando	realizar	meritoria	obra	de	saneamento	moral	e	
politico,	impossivel	de	ser	evitada,	conhecidos	os	compromissos	que	assumimos	
com	a	opinião	pública	nacional.
Aproveito	o	ensejo	para	reiterar	a	Sua	Eminencia	os	protestos	de	minha	
alta	estima	e	mais	distincta	consideração.	
FONTE: CENTRO de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil – CPDOC 
 – Fundação Getúlio Vargas. Disponível em: <http://cpdoc.fgv.br/>. Acesso em: 21 mar. 
 2010.
O CPDOC disponibiliza para consultas on-line um arquivo digitalizado que 
contém milhares de manuscritos e outros documentos históricos, tais como fotografias, 
arquivos pessoais, entrevistas etc. de grandes personagens da história nacional. Importantes 
elementos da História Política do Brasil Contemporâneo aparecem nessas fontes. Por exemplo: 
os telegramas e as cartas escritos ou recebidos por Getúlio Vargas entre 1929 e 1930 dão uma 
clara noção de como a Aliança Liberal e a Revolução de 1930 foram articuladas. Vale muito a 
pena verificar.
Conforme	 consta	 na	 correspondência,	 o	movimento	 revolucionário	 teve	
início	no	dia	3	de	outubro.	Organizado	sob	o	comando	do	coronel	Góes	Monteiro	
(conhecido	 de	 Getúlio	 desde	 os	 tempos	 em	 que	 este	 ingressou	 no	 exército),	
envolveu	 todos	os	 estados,	 com	exceção	de	São	Paulo.	Ou	 seja,	durante	 todo	o	
mês	de	outubro	de	1930	ocorrem	as	mobilizações	e	os	acordos	políticos	que	deram	
sustentação	ao	golpe	ou,	dito	de	outra	forma,	à	Revolução.	No	bojo	desses	acordos	
abrigaram-se	os	interesses	de	oligarquias	regionais,	mas	também,	dentre	outras,	
as	reivindicações	de	militares	que	haviam	participado	do	movimento	tenentista.	
DICAS
UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
46
Estes	 indivíduos,	após	 terem	sofrido	perseguição	durante	os	governos	de	Artur	
Bernardes	 e	 Washington	 Luís,	 retornavam	 ao	 cenário	 político.	 Del	 Priore	 e	
Venâncio	(2003)	afirmam	que	o	cenário	criado	nos	anos	30	deu	a	tônica	à	história	
política	 brasileira	 até	 1954,	 ou	 seja,	 resultou	 na	 emergência	 de	 uma	 série	 de	
alianças,	rupturas,	aproximações	e	perseguições	entre	o	novo	presidente	e	diversos	
segmentos	da	sociedade.	Negociação	foi	a	palavra	de	ordem	durante	o	período	em	
que	Vargas	esteve	à	frente	do	poder.	
	Embora	os	interesses	de	oligarquias	regionais	se	fizessem	valer	uma	vez	
mais,	isto	não	significa	afirmar	que	o	ano	de	1930	não	tenha	sido	importante,	pois,	
mesmo
Não	 tendo	 caráter	 acentuadamente	 social	 e	 muito	 menos	 qualquer	
ambição	de	promover	radicais	transformações	nas	relações	de	produção,	
1930	 teve	 significativa	 importância	 se	 considerarmos	 certos	 aspectos	
ligados	ao	processo	de	modernidade	brasileira.	Elevou,	por	exemplo,	
o	 nível	 de	 aspirações	 políticas	 de	 parcelas	 expressivas	 da	 população	
até	 então	 excluídas	 do	 processo	 político	 do	 país.	 Incrementou	 a	
industrialização,	através	de	uma	consciência	que	julga	como	inadiável	a	
questão	industrial,	sobretudo	para	uma	nação	que	se	pretende	soberana.	
Definiu-se	 pela	 organização	 da	 estrutura	 sindical,	 incorporando	 os	
trabalhadores	na	vida	política	do	país.	Fortaleceu	o	Estado	reduzindo	
o	poder	de	grupos	econômicos	ligados	às	velhas	práticas	oligárquicas.	
Nesse	sentido,	1930	promoveu	uma	revolução	nas	relações	entre	Estado	
e	sociedade	cujas	consequências	não	são	desprezíveis	 (PENNA,	1999,	
p.	168).
FONTE: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f6/Revolu 
%C3%A7%C3%A3o_de_1930.jpg>. Acesso em: 31 mar. 2010.
FIGURA 14 – COMITIVA DE GETÚLIO VARGAS
TÓPICO 1 | A REVOLUÇÃO DE 1930: GETÚLIO VARGAS NO PODER
47
A Figura 14 mostra a comitiva de Getúlio Vargas (ao centro) fotografada por Claro 
Jansson durante sua passagem por Itararé (São Paulo) a caminho do Rio de Janeiro, após a 
vitoriosa Revolução de 1930.
Refletindo	sobre	outra	ordem	de	fatores,	Linhares	(1990)	nos	lembra	que	
a	Revolução	de	30	inaugurou	uma	etapa	decisiva	no	processo	de	constituição	de	
um	Estado	brasileiro	capitalista	e	burguês.	Quebrando	a	autonomia	dos	estados,	
Vargas	 promoveu	 uma	 forte	 centralização	 do	 poder,	 exercendo	 controle	 sobre	
as	 políticas	 econômicas	 e	 sociais	 e	 construindo	 um	 forte	 aparelho	 coercitivo	 e	
repressivo.		O	suporte	ideológico	dado	a	estas	iniciativas	repousava	na	crença	de	
que	o	Estado	agia	como	um	representante	do	interesse	geral	da	nação.	Conforme	
veremos	no	Tópico	 2,	 isto	ficou	mais	do	que	 evidente	 em	1937,	por	 ocasião	da	
instauração	do	Estado	Novo.
Tendo	 em	 vista	 a	 governabilidade	 e	 o	 fortalecimento	 do	 aparato	
administrativo,	 Vargas	 desenvolveu	 ações	 em	 três	 direções:	 definiu	 um	 novo	
padrão	 de	 relações	 políticas	 entre	 o	 governo	 federal	 e	 os	 estados;	 promoveu	 a	
criação	de	instituições	com	abrangência	nacional	(principalmente	aquelas	ligadas	
à	economia);	ampliou	a	importância	e	o	papel	desempenhado	pelo	exército	(alguns	
militares,	inclusive,	participaram	diretamente	da	administração,	como	foi	o	caso	
de	Juarez	Távora).	Por	outro	lado,	a	implementação	dessas	medidas	dependia	da	
eficácia	do	controle	do	governo	sobre	os	estados	da	federação.	Para	tanto,	Vargas	
criou	 o	 cargo	 de	 Interventores	 Estaduais,	 que	 ocuparam	 o	 lugar	 dos	 antigos	
presidentes	(ou	governadores)	dos	estados,	obedecendo	às	ordens	do	presidente.	
A	nomeação	de	um	desses	interventores,	para	São	Paulo,	resultou	em	uma	guerra	
civil	entre	este	Estado	e	a	União.
4 PRIMEIROS ANOS: OPOSIÇÃO, CONFLITOS E O 
 CAMINHO RUMO AO ESTADO NOVO
A	 criação	 do	 Partido	 Democrático	 em	 São	 Paulo,	 conforme	 vimos,	
respondeu	 pela	 expectativa	 de	 adequação	 das	 ações	 governamentais	 às	 novas	
demandas	 políticas	 e	 sociais	 gestadas	 ao	 longo	 da	 década	 de	 1920.	 Por	 este	
motivo,o	PD	paulista	teve	participação	direta	na	Aliança	Liberal.	Ocorre	que,	ao	
dissolver	o	Congresso	Nacional	e	as	Assembleias	Legislativas	dos	estados,	mas,	
principalmente,	ao	nomear	interventores	para	os	estados,	Vargas	conquistou	para	
si	a	antipatia	de	seus	aliados	de	ocasião.
Do	ponto	de	vista	dos	democratas	paulistas,	o	objetivo	do	governo	provisório	
era	garantir	a	reforma	política	via	convocação	de	uma	Assembleia	Constituinte.	A	
nomeação	do	interventor	João	Alberto	Lins	de	Barros,	tenente	promovido	a	coronel	
UNI
UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
48
por	ocasião	da	Revolução	de	30,	foi	prova	de	que	as	intenções	de	Vargas	diferiam	
significativamente	 daquela	 dos	 democratas.	 Se,	 para	 o	 presidente,	 um	 controle	
maior	sobre	São	Paulo	era	vital	para	manutenção	do	poder,	para	os	dirigentes	do	
PD	o	apoio	dado	a	Vargas	nas	eleições	de	30	era	motivo	mais	do	que	suficiente	para	
que	ao	partido	fosse	concedida	a	prerrogativa	de	indicar	um	interventor	advindo	
de	 suas	fileiras.	O	descontentamento	do	PD	 resultou	 em	uma	aproximação	 em	
relação	ao	PRP	e	na	formação	da	Frente	Única	Paulista	(FUP).	
Elites	políticas	de	estados	como	Minas	Gerais	e	Rio	Grande	do	Sul	também	
nutriam	certo	desconforto	em	relação	às	ações	do	governo.	A	reivindicação	desses	
grupos	dizia	respeito	principalmente	à	realização	de	eleições,	posto	que	o	governo	
de	Vargas	era	apenas	provisório.	Observando	que	o	descontentamento	ganhava	
corpo,	Vargas	publicou	um	novo	Código	Eleitoral	e	fixou	data	para	eleições	da	
Assembleia	 Constituinte.	 Mudanças	 importantes,	 como	 a	 introdução	 do	 voto	
feminino,	do	voto	secreto	e	a	extensão	aos	sindicatos	do	direito	de	indicação	de	
representantes	ao	Congresso	Nacional,	assim	como	a	criação	da	Justiça	Eleitoral,	
resultaram	em	uma	racionalização	do	processo	eleitoral,	erradicando	muitas	das	
práticas	fraudulentas	que	vigoraram	durante	a	Primeira	República.	
Ocorre	 que	 a	 dubiedade	 e	 o	 conteúdo	 das	 entrelinhas	 do	 texto	 de	
convocação	da	Assembleia	Constituinte	davam	margem	à	 interpretação	de	que	
Vargas	não	intentava	deixar	o	poder.	Em	razão	disso,	e	também	como	uma	resposta	
à	imposição	do	interventor	em	São	Paulo,	os	paulistas	pegaram	em	armas	contra	
o	governo.	No	entendimento	de	Del	Priore	e	Venâncio	(2003),	caso	não	houvesse	
ocorrido	um	recuo	dos	grupos	políticos	mineiros	e	gaúchos,	Vargas	seria	deposto.
FONTE: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/
commons/7/77/Cartaz_ Revolucion%C3%A1rio.jpg>. Acesso 
em: 10 mar. 2010.
FIGURA 15 – CARTAZ CONVOCANDO JOVENS PAULISTAS PARA A 
REVOLUÇÃO DE 1932
TÓPICO 1 | A REVOLUÇÃO DE 1930: GETÚLIO VARGAS NO PODER
49
A	eclosão	do	movimento	deu-se	 em	09	de	 julho	de	 1932.	Os	 confrontos	
com	tropas	do	governo	federal	contaram	com	a	participação	de	muitos	segmentos	
da	 população	 paulista,	 com	 exceção	 dos	 trabalhadores,	 cujos	 interesses,	 em	
parte,	 eram	 contemplados	 por	 algumas	 ações	 governamentais.	 Os	 combates	 se	
estenderam	durante	 três	meses.	Em	outubro,	os	paulistas	 se	 renderam.	Embora	
derrotados,	o	movimento
[...]	 alcançou	 parte	 importante	 de	 seus	 objetivos.	 No	 ano	 seguinte	
ao	 seu	 término,	 além	 da	 confirmação	 da	 convocação	 da	Assembleia	
Constituinte,	 os	 paulistas	 conseguiram	 influenciar	 na	 escolha	 do	
interventor	local,	Armando	Salles	de	Oliveira.	O	mérito	de	Getúlio	foi	
ter	conseguido	permanecer	no	poder.	Sua	situação,	porém,	era	 frágil.	
Na	ausência	de	um	partido	político	de	alcance	nacional	que	o	apoiasse,	
foi-lhe	 necessário	 fazer	 várias	 concessões	 às	 oligarquias,	 tal	 como	
aconteceu	por	ocasião	da	escolha	do	interventor	paulista.	O	presidente	
teve	ainda	que	aceitar	uma	Constituição	de	cunho	liberal,	que	em	muito	
restringia	 seu	 poder.	 De	 certa	 maneira,	 Getúlio	 pagava	 o	 preço	 por	
ter	 feito	 uma	 revolução	 política,	mas	 não	 econômica	 ou	 social.	 (DEL	
PRIORE;	VENÂNCIO,	2003,	p.	313).
FONTE: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/83/
Foto136. jpg>. Acesso em: 10 mar. 2010.
FIGURA 16 – SOLDADOS PAULISTAS EM TRINCHEIRAS EM COMBATE POR 
OCASIÃO DA REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA
À	 vitória	 sobre	 a	 oligarquia	 paulista	 soma-se	 a	 promulgação	 da	
Constituição	de	1934.	O	momento	era	o	de	transição	e	havia	a	necessidade	de	uma	
eleição	para	legitimar	o	governo	republicano.	Como	seria	de	se	imaginar,	Vargas,	
como	 presidente	 provisório,	 era	 um	 candidato	 natural.	 Embora	 a	 aceitação	 de	
sua	candidatura	não	fosse	unanimidade,	Vargas	foi	lançado	oficialmente	em	abril	
de	1934	e,	após	ter	sua	campanha	marcada	por	atos	que	visavam	criar	um	clima	
favorável	à	sua	eleição,	como,	por	exemplo,	a	suspensão	da	censura	à	imprensa,	
foi	eleito	indiretamente	pelo	Congresso.	Assim,	entre	1934	e	1937,	surge	o	período	
constitucional.
UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
50
Como	 você	 já	 deve	 ter	 notado,	 a	 inexistência	 de	 partidos	 de	 alcance	 e	
representatividade	nacional	era	uma	das	consequências	da	forma	como	a	estrutura	
política	fora	concebida	durante	a	República	Velha,	período	em	que	os	interesses	
regionais	ditavam	as	regras.	Tentando	contornar	esta	situação,	Getúlio	promove	
uma	maior	 aproximação	 tanto	 em	 relação	aos	 trabalhadores	 (operários)	quanto	
em	 relação	 ao	 exército.	 No	 que	 se	 refere	 a	 este	 último,	 vislumbrava	 neste	 ato	
uma	maneira	de	garantir	o	apoio	de	uma	instituição	que,	além	do	poder	de	fogo,	
tinha	abrangência	nacional.	O	problema	é	que	o	próprio	exército,	em	verdade	as	
forças	armadas	como	um	todo,	não	constituía	um	todo	coeso	e	sujeito	aos	mesmos	
interesses.	
Dentre	outros	desdobramentos,	a	crise	econômica	de	1929	–	cujos	efeitos	
se	fizeram	valer,	com	menor	ou	maior	intensidade,	em	todos	os	países	capitalistas	
–,	gerou	um	surto	de	descontentamento	em	relação	às	políticas	liberais	favoráveis	
ao	não	intervencionismo	estatal	no	campo	econômico.	Uma	interpretação	possível	
para	a	crise	mundial	de	1929,	que	eclodiu	num	momento	em	que	as	sequelas	da	
Primeira	Guerra	Mundial	ainda	estavam	presentes,	 sugere	que	 foi	 justamente	a	
ausência	de	intervenção	do	Estado	na	economia	que	teria	propiciado	a	crise	ou,	
pelo	menos,	 a	magnitude	 do	 seu	 impacto.	 Ocorre	 que	 a	 União	 Soviética,	 uma	
economia	socialista	e	planificada,	contrária	aos	princípios	liberais,	foi	o	país	menos	
atingido	pela	crise.	Enquanto	os	Estados	Unidos	e	países	da	Europa	enfrentavam	
surtos	de	falências,	desemprego	e	estagnação	econômica,	a	URSS,	na	década	de	
1930,	 apresentava	 índices	 notáveis	 de	 crescimento.	 Se	 o	 ideário	 socialista	 havia	
encontrado	boa	acolhida	por	parte	do	movimento	operário	já	na	década	de	1920	
(logo	após	a	Revolução	Russa),	nos	anos	30	seu	apelo	foi	ainda	maior.	Neste	quadro	
podemos	inserir	uma	das	razões	da	fratura	existente	no	exército.
Embora	uma	parcela	dos	participantes	do	movimento	tenentista	tenha	se	
integrado	 à	máquina	 administrativa	do	 governo	provisório,	 outra	 parte	 firmou	
presença	na	oposição,	radicalizando	cada	vez	mais	suas	posições	políticas.	Luiz	
Carlos	Prestes	foi	um	exemplo.	Del	Priore	e	Venâncio	(2003)	afirmam	que	desde	
1927,	ano	da	extinção	do	 tenentismo,	Prestes	estava	 sendo	contatado	pelo	PCB.	
Durante	os	dois	anos	seguintes	o	PCB,	agora	sob	forte	influência	das	diretrizes	da	
política	internacional	soviética,	passa	a	contar	com	o	apoio	de	tenentes	dissidentes,	
criando,	 em	 1929,	 o	Comitê	Militar	 Revolucionário.	 Em	 1931	 Prestes	 filia-se	 ao	
partido	e	viaja	para	Moscou,	onde	permanece	até	1934.	
No	 ano	 de	 1935,	 após	 a	 volta	 de	 Prestes,	 agora	 um	militante	 ativo	 do	
PCB,	ocorre	a	criação	da	Aliança	Nacional	Libertadora	(ANL).	Sua	fundação	foi	
uma	 resposta	 à	 tendência	 de	 internacionalização	 do	 socialismo	 cujas	 diretrizes	
emanavam	 de	Moscou	 e	 defendiama	 articulação	 de	 uma	 Frente Popular.	 No	
bojo	da	ANL	associavam-se	grupos	socialistas	e	nacionalistas,	anti-imperialistas	e	
contrários	ao	nazifacismo	(extrema	direita	que	ganhava	corpo	na	Alemanha	e	na	
Itália),	mas	também	tentativas	de	proteção	das	classes	populares	contra	os	impactos	
funestos	da	crise	econômica	de	1929.	Penna	(1999)	afirma	que	o	programa	da	ANL	
preconizava	a	implantação	de	um	governo	popular,	a	reforma	agrária,	a	suspensão	
da	dívida	externa	e	a	nacionalização	das	empresas	estrangeiras	que	atuavam	no	
TÓPICO 1 | A REVOLUÇÃO DE 1930: GETÚLIO VARGAS NO PODER
51
Brasil.	O	problema	é	que	a	comunhão	de	propostas	esbarrava	na	maneira	como	os	
diferentes	grupos	integrantes	da	ANL	concebiam	a	maneira	de	pô-las	em	prática.
[...]	 a	 política	 frentista	 da	 ANL	 apresentava	 desde	 seu	 início	 um	
forte	 desequilíbrio	 a	 favor	 dos	 comunistas.	 Assim,	 a	 ANL,	 embora	
composta	 por	 forças	 políticas	 moderadas,	 teve	 como	 presidente	 de	
honra	Luís	Carlos	Prestes.	O	PCB,	por	sua	vez,	assumiu	posturas	cada	
vez	 mais	 radicais	 contra	 Getúlio	 Vargas,	 abrindo	 caminho	 para	 que	
fosse	 decretado,	 em	 julho	 de	 1935,	 o	 fechamento	 de	 nossa	 primeira	
experiência	de	 front populaire.	 Extinta	 a	ANL,	 os	 comunistas,	 por	 sua	
vez,	avaliam	mal	a	correlação	de	forças	e	partem	para	o	confronto	com	
o	governo	federal.	Em	novembro	de	1935,	no	melhor	estilo	das	revoltas	
tenentistas,	os	quartéis	se	levantam	contra	Getúlio	Vargas.	Em	Natal,	no	
Recife	e	no	Rio	de	Janeiro,	os	conflitos	acabam	resultando	em	mortes	de	
oficiais	e	soldados.	(DEL	PRIORE;	VENÂNCIO,	2003,	p.	315).
O	episódio	descrito	acima,	também	conhecido	como	Intentona Comunista,	
foi	muito	bem	aproveitado	por	Vargas,	pois	serviu	como	um	excelente	pretexto	à	
perseguição	e	repressão	sistemática	não	só	de	comunistas,	mas	dos	mais	variados	
grupos	 que	 se	 opunham	 ao	 governo.	 Por	 outro	 lado,	 o	 movimento	 favoreceu	
ainda	 mais	 a	 aproximação	 entre	 Vargas	 e	 os	 militares,	 cujo	 efetivo	 aumentou	
significativamente	 no	 ano	 de	 1936.	 Neste	 contexto	 pavimenta-se	 a	 via	 que	
conduziria	à	instauração	do	Estado	Novo.
FONTE: Disponível em: <http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/
AEraVargas1/anos30-37/RadicalizacaoPolitica/ANL>. Acesso em: 
7 maio 2010.
FIGURA 17 – LEVANTE COMUNISTA (AVENIDA PASTEUR, 1935, RIO DE 
 JANEIRO)
O	texto	constitucional	de	1934,	que	previa	a	eleição	para	este	mesmo	ano,	
pregava	também	a	realização	de	novas	eleições	em	1938,	ocasião	do	término	do	
mandato	de	Vargas.	As	articulações	políticas	estavam	em	pleno	curso	 já	no	ano	
de	1936,	sendo	que,	dentre	as	correntes	políticas	que	vislumbravam	a	Presidência,	
constava	a	Ação	Integralista	Brasileira	(AIB).	Nascida	em	1932,	sob	influência	de	
Plínio	Salgado,	a	AIB	sustentava	um	programa	de	cunho	doutrinário	que	supunha	
“serem	os	povos	dirigidos	por	Deus	e	que	os	homens	e	as	classes	têm	tudo	para	
viverem	harmoniosamente”.	(PENNA,	1999,	p.	183).	A	negação	da	luta	de	classes	
UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
52
evidenciava	 nesta	 proposta	 a	 influência	 do	 pensamento	 católico	 tradicionalista	
e	seu	caráter	anticomunista	ou	antimarxista	 (o	 lema	do	Integralismo	era	“Deus,	
Pátria	e	Família”).	Alastrando-se	pelo	país,	a	AIB	conseguiu	amealhar	seguidores,	
ganhando	dimensão	nacional	e,	consequentemente,	vislumbrando	o	poder.
FONTE: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/
 commons/e/e5/Congresso _Integralista_1935.jpg>. Acesso em: 28 
 mar. 2010.
FIGURA 18 – SESSÃO DE ENCERRAMENTO DO CONGRESSO 
INTEGRALISTA. PLÍNIO SALGADO ENCONTRA-SE AO CENTRO 
(SENTADO). BLUMENAU –SC, 1935
Durante	seus	anos	de	existência	a	AIB	desenvolveu	uma	postura	que	em	
muito	se	assemelhava	à	de	grupos	paramilitares,	inclusive	adotando	um	uniforme	
padrão.	Os	“camisas	verdes”,	como	passaram	a	ser	conhecidos,	possuíam	um	órgão	
de	divulgação	de	 ideias,	a	revista	Anauê,	cujos	escritos	organizavam-se	em	três	
frentes:	uma	político-social,	uma	sociocultural		e	uma	moral-espiritual.	Estruturada	
em	células,	a	AIB	se	fez	presente	inclusive	em	municípios	com	um	número	muito	
reduzido	de	habitantes,	tais	como	os	pequenos	municípios	do	interior	dos	estados	
do	Sul	do	país.	Em	1937	chegou	a	haver	uma	aproximação	entre	a	AIB	e	Getúlio	
Vargas,	mas	em	novembro	deste	mesmo	ano	um	decreto	governamental	extingue	o	
movimento	e	ordena	o	fechamento	de	seus	núcleos	organizacionais.	Meses	depois,	
no	início	de	1938,	uma	tentativa	de	subversão	levada	a	cabo	pela	AIB,	objetivando	
a	deposição	de	Vargas,	foi	desbaratada	pelas	forças	governamentais.	
A	absoluta	discrepância	entre	o	 ideário	da	ANL	e	o	da	AIB	não	 impede	
a	 existência	de	um	denominador	 comum	entre	os	dois	movimentos:	 em	ambas	
as	 pautas	 irrompiam	 questões	 relativas	 à	 luta	 de	 classes.	 Embora	 os	 vetores	
operacionais	da	ANL	tenham	se	desviado	da	linha	programática	que	preconizava	
ações	 de	 massas	 dentro	 dos	 quadros	 da	 legalidade	 constitucional,	 indo,	 desta	
forma,	 ao	 encontro	 de	 ações	 clandestinas	 com	 viés	 golpista,	 a	 expectativa	 de	
fomentar	 o	 caráter	 explosivo	 da	 mobilização	 do	 proletariado	 sempre	 esteve	
presente.	A	AIB,	por	 sua	vez,	 tendia	 a	 aplainar	o	 relevo	dado	à	questão	 social,	
negando	categoricamente	a	luta	de	classes.	Neste	assunto	sua	ação	foi	tão	incisiva	
que	 acabou	 resultando	 em	 uma	 das	 maiores	 farsas	 do	 período	 republicano:	 o	
Plano Cohen,	impulso	derradeiro	à	implantação	do	Estado	Novo.	Analisaremos	
este	assunto	no	próximo	tópico.
TÓPICO 1 | A REVOLUÇÃO DE 1930: GETÚLIO VARGAS NO PODER
53
LEITURA COMPLEMENTAR
OUTROS OLHARES: SANGUE BRASILEIRO
Por	José	Alfredo	Vidigal	Pontes
Ao	 contrário	do	que	 se	diz,	 a	Revolução	Constitucionalista	de	 1932	não	
foi	um	movimento	meramente	regional	de	inspiração	revanchista,	maquiado	por	
“separatistas”	de	São	Paulo.
“Tive	anteontem	um	longo	e	cordial	colóquio	com	João	Alberto,	que	me	
fez	 declarações	 de	 estilo	 absolutamente	 fascista.	 Ele	 disse	 que	 o	 Brasil	 deverá	
permanecer	 um	 período	 de	 alguns	 anos	 de	 luta	 intestina	 se	 persistir	 no	 estilo	
liberal	antiquado,	a	não	ser	que	os	brasileiros	se	convençam	de	que	a	salvação	da	
nação	na	presente	época	histórica	está	nos	regimes	que	exercitam	uma	autoridade	
indiscutível	e	ilimitada	através	da	imposição	de	uma	rígida	disciplina.”
Este	era	o	texto	de	um	telegrama	enviado	em	18	de	setembro	de	1932	pela	
embaixada	italiana	no	Rio	para	a	chancelaria	em	Roma.	Vittorio	Cerruti,	o	embaixador	
italiano	no	Brasil,	informava	ao	Ministério	dos	Negócios	Estrangeiros	da	Itália,	então	
sob	o	regime	do	fascista	Benito	Mussolini,	acerca	da	guerra	civil	brasileira	em	curso.	
A	referência	ao	pensamento	político	de	João	Alberto	Lins	de	Barros,	um	dos	mais	
destacados	“tenentes”	do	círculo	mais	próximo	a	Getúlio	Vargas,	revelava	a	sedução	
representada	pelo	autoritarismo	entre	 a	 cúpula	decisória	do	Governo	Provisório,	
nome	pelo	qual	era	chamada	a	ditadura	imposta	após	a	Revolução	de	1930.
Iniciada	 na	 noite	 de	 9	 de	 julho	 de	 1932,	 em	 São	 Paulo,	 a	 Revolução	
Constitucionalista	 não	 era	 “revanchista”	 ou	 “separatista”,	 como	 alardeou	 a	
propaganda	 do	Governo	 Provisório	 para	 todo	 o	 país,	 a	 partir	 do	 isolamento	 a	
que	foi	relegado	o	Estado	de	São	Paulo	logo	no	início	da	insurgência,	resultado	
de	uma	 eficiente	 contraofensiva	política	 e	militar	 de	Vargas.	Como	poderia	 ser	
separatista	uma	insurreição	comandada	por	militares	oriundos	de	outros	estados?	
A	 Revolução	 Constitucionalista	 foi	 efetivamente	 uma	 confrontação	 ideológica	
nacional	entre	os	“tenentes”,	defensores	de	um	regime	autoritário,	e	políticos	que,	
na	verdade,	tinham	apoiado	a	candidatura	de	Vargas	à	Presidência	da	República,	
na	 campanha	 da	Aliança	 Liberal	 de	 1929/30,assim	 como	 a	 própria	 revolução	
vitoriosa	de	outubro	de	1930	–	seus	aliados	de	véspera,	portanto.
O	grupo	dos	“tenentes”	era	formado	por	antigos	participantes	dos	movimentos	
militares	de	contestação	ocorridos	nos	anos	20.	Durante	e	após	a	Revolução	de	1930,	
movimento	 civil	 e	militar	 vitorioso	 que	 derrubou	 o	 governo	 de	Washington	 Luís	
(1926-1930),	e	junto	com	ele	o	viciado	regime	eleitoral	vigente,	alguns	deles	ganharam	
grande	projeção	e	prestígio	junto	ao	Governo	Provisório	chefiado	por	Getúlio	Vargas.	
Dentre	eles	destacam-se	João	Alberto,	Juarez	Távora	e	Miguel	Costa.	“Os	tenentes”	
defendiam	abertamente	um	governo	executivo	 forte	e	centralizado,	desprezando	a	
UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
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ideia	de	eleições,	pois	temiam	que	as	dificuldades	econômicas	abrissem	a	possibilidade	
de	haver	um	retorno	das	oligarquias	afastadas.	Do	outro	lado,	os	constitucionalistas	
acreditavam	 que,	 se	 ocorresse	 uma	 eleição	 limpa	 e	 transparente,	 incorporando	
novidades	como	voto	secreto	e	voto	feminino,	as	 forças	mais	progressistas	do	país	
seriam	amplamente	representadas	na	futura	Assembleia	Constituinte.
Em	 novembro	 de	 1931	 ocorreu	 o	 primeiro	 movimento	 de	 pressão	 mais	
consistente	 pela	 convocação	 da	 Assembleia	 Constituinte,	 vindo	 das	 principais	
lideranças	políticas	do	Rio	Grande	do	Sul.	Reunidos	no	interior	do	Rio	Grande,	os	dois	
partidos	gaúchos,	Republicano	e	Libertador	–	coligados	na	Frente	Única	Gaúcha	desde	
1929	durante	a	campanha	presidencial	de	Getúlio	Vargas	–,	exigiam	a	convocação	das	
eleições.	Em	São	Paulo,	nesta	altura,	o	cenário	político	era	bastante	tenso.	O	ano	de	
1931	chegava	ao	final	sob	o	governo	do	coronel	Manuel	Rabelo,	o	terceiro	interventor	
estadual	desde	a	vitória	da	Revolução	de	1930.	A	primeira	interventoria	no	Estado	
fora	assumida	por	João	Alberto,	um	dos	principais	comandantes	da	famosa	Coluna	
Prestes	(1924-26)	e	ligado	aos	“tenentes”.	Isto	frustrou	os	políticos	paulistas	do	Partido	
Democrático,	 agremiação	 de	 oposição	 ao	 regime	 derrubado,	 também	 aliada	 dos	
revolucionários	desde	o	início	da	Campanha	da	Aliança	Liberal,	em	1929.
A	 gestão	 de	 João	Alberto	 durou	 pouco	mais	 de	 oito	meses,	 tendo	 sido	
substituído	por	um	juiz	de	direito,	Laudo	de	Camargo,	logo	afastado	por	pressão	
de	Miguel	Costa,	o	comandante	da	Força	Pública,	a	polícia	militar	estadual.	Foi	
então	que	assumiu	interinamente	outro	militar,	o	coronel	Manuel	Rabelo,	alinhado	
com	os	“tenentes”.	O	desgaste	do	Governo	Provisório	em	São	Paulo	era	crescente,	
resultando	na	formação	da	Frente	Única	Paulista,	em	fevereiro	em	1932.	Tratava-
se	 de	 uma	 aliança	 das	 principais	 lideranças	 políticas	 de	 São	 Paulo,	 reunindo	
adversários	 antigos,	 como	 o	 Partido	 Democrático,	 e	 alguns	 setores	 do	 PRP,	 o	
Partido	Republicano	Paulista,	proscrito	desde	1930.	Porém,	no	dia	24	de	fevereiro,	
surpreendendo	a	todos,	Getúlio	Vargas	publicou	um	novo	código	eleitoral,	bastante	
progressista	para	a	época,	mas	sem	definir	a	data	das	eleições.
A	 reação	 contrária	 foi	 violenta:	 na	 noite	 seguinte	 à	 divulgação	do	novo	
código,	 alguns	 adeptos	 dos	 “tenentes”	 empastelaram	 o	 Diário	 Carioca,	 jornal	
constitucionalista	do	Rio	de	 Janeiro.	Getúlio	Vargas	procurou	 atender	uma	das	
reivindicações	 dos	 opositores	 e,	 no	 dia	 1°	 de	 março,	 nomeou	 um	 interventor	
“civil	 e	 paulista”,	 o	 embaixador	 Pedro	de	Toledo,	 embora	 exigisse	 que	metade	
do	secretariado	fosse	indicada	pelos	“tenentes”.	A	repercussão	foi	péssima:	mais	
uma	vez	o	Partido	Democrático	 sentiu-se	desprezado,	 iniciando	 entendimentos	
com	oficiais	do	Exército	e	da	Força	Pública	visando	a	um	movimento	armado	para	
derrubar	a	ditadura.	A	tensão	nas	ruas,	em	São	Paulo,	era	crescente.	Estudantes	de	
Direito,	adeptos	da	Constituinte,	enfrentavam-se	com	as	Legiões	Revolucionárias,	
uma	organização	paramilitar	fardada,	controlada	por	Miguel	Costa.	Inspiradas	nos	
Camisas	Negras	de	Mussolini,	as	Legiões	foram	transformadas	logo	após	em	partido	
político	de	apoio	à	continuidade	da	ditadura:	o	PPP,	Partido	Popular	Paulista.
Retomando	a	iniciativa,	no	dia	7	de	maio,	Vargas	marcou	as	eleições	para	
o	dia	3	de	maio	de	1933,	quase	um	ano	após,	portanto,	conseguindo	descontentar	
gregos	e	troianos.	Para	os	constitucionalistas	era	muito	tarde	e,	para	os	“tenentes”,	
TÓPICO 1 | A REVOLUÇÃO DE 1930: GETÚLIO VARGAS NO PODER
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cedo	demais.	Preocupado	com	a	evolução	do	clima	de	confronto,	Vargas	enviou	
Osvaldo	Aranha,	o	ministro	da	Fazenda,	como	emissário	a	São	Paulo	para	a	definição	
do	secretariado,	questão	que	se	arrastava	há	mais	de	dois	meses.	Mas	sua	chegada	
a	São	Paulo,	no	dia	22	de	maio,	provocou	uma	série	de	protestos	e	manifestações	
de	 rua,	 forçando	Aranha	 a	 refugiar-se	no	Quartel-General	do	 2°	Exército,	 onde	
passou	a	noite.	No	dia	seguinte,	após	consultar	Vargas,	aceitou	que	a	Frente	Única	
Paulista	 indicasse	 totalmente	 o	 secretariado	 e	 retornou	 ao	 Rio.	 O	 primeiro	 ato	
do	novo	secretário	da	 Justiça,	o	 jurista	Waldemar	Ferreira,	 foi	o	afastamento	de	
Miguel	Costa	do	comando	da	Força	Pública.	No	dia	seguinte,	ocorria	uma	grande	
manifestação	de	estudantes	em	Porto	Alegre	em	comemoração	à	vitória	política	
da	Frente	Única	Paulista.	Diante	da	evolução	dos	 fatos,	no	decorrer	do	mês	de	
junho	Vargas	tentou	se	aproximar	dos	constitucionalistas,	os	quais	exigiam	indicar	
a	totalidade	do	Governo	Provisório,	bem	como	a	convocação	imediata	de	eleições.	
Mas,	pressionado	pelos	“tenentes”,	acabou	desistindo	da	reforma	ampla	cogitada,	
causando	 novamente	 o	 rompimento	 dos	 políticos	 gaúchos	 e	 paulistas	 com	 o	
Governo	Provisório,	bem	como	a	retomada	da	conspiração	armada.
Os	 constitucionalistas	 gaúchos	 não	 estavam	 mais	 seguros	 quanto	 ao	
posicionamento	de	Flores	da	Cunha,	o	interventor	no	Rio	Grande	do	Sul.	Em	razão	disso,	
pediam	que	se	adiasse	o	início	da	rebelião.	Ignorando	o	fato,	o	general	Bertoldo	Klinger,	
comandante	militar	de	Mato	Grosso,	precipitou-se	ao	forçar	o	início	da	insurgência	na	
noite	de	9	de	julho,	em	São	Paulo.	Colhidos	de	surpresa,	os	constitucionalistas	gaúchos	
não	puderam	se	articular	convenientemente,	 sob	a	vigilância	de	uma	 interventoria	
já	comprometida	com	o	Governo	Provisório.	E	em	Minas	Gerais,	onde	a	articulação	
prévia	era	mais	frágil	ainda,	a	adesão	armada	foi	nula.
Foi	uma	revolução	que	já	nasceu	derrotada,	pois	a	disparidade	de	forças	era	
enorme.	O	general	Klinger,	que	prometia	uma	tropa	de	6	mil	soldados,	chegou	a	São	
Paulo	acompanhado	por	dez	pessoas.	O	apoio	gaúcho	ficou	restrito	a	uma	coluna	
com	cerca	de	trezentos	homens,	com	ações	restritas	ao	interior	do	Rio	Grande,	onde	
resistiram	bravamente.	E	no	Rio,	diversos	oficiais	de	alta	patente	esperavam	em	vão	
o	avanço	das	tropas	que	vinham	de	São	Paulo	para	concretizar	a	tomada	da	capital	
da	República.	Mas	 as	 forças	 constitucionalistas	 estacionaram	no	Vale	 do	 Paraíba	
paulista,	aguardando	uma	hipotética	e	ilusória	adesão	dos	mineiros.
Apesar	 do	 isolamento	 imposto	 aos	 insurgentes	 paulistas,	 manifestações	
de	 apoio	 ocorreram	 em	 outros	 estados.	 Na	 região	 sul	 do	 Mato	 Grosso,	 alguns	
destacamentos	do	Exército	também	se	rebelaram,	conseguindo	ocupar	dois	portos	
fluviais	no	rio	Paraguai.	Estudantes	promoveram	manifestações	de	rua	em	Salvador	e	
no	Rio.	Mas	foi	em	Belém	que	os	fatos	evoluíram	de	forma	mais	dramática:	estudantes	
secundaristas	e	universitários	armados	conseguiram	ocupar	o	centro	da	cidade	por	
dois	dias.	As	 forças	 rebeldes	 contaram	com	cerca	de	40	mil	 combatentes,	muitos	
deles	civis	voluntários,	contra	300	mil	do	Governo	Provisório	que	se	revezavam.
Uma	rápida	adaptação	da	indústria	paulista	para	o	esforço	da	guerra	chegou	
mesmo	 a	 assustar	 a	 ditadura	 no	 mês	 de	 agosto,	 surpreendida	 com	 a	 eficiência	
alcançada	 na	 reposição	 de	 armase	 munições.	 Roberto	 Simonsen,	 presidente	 da	
Federação	 das	 Indústrias,	 comandou	 pessoalmente	 esse	 trabalho	 de	 interação	
UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
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do	 parque	 industrial	 com	 as	 necessidades	 de	 combate,	 articulando	 empresários,	
militares,	 engenheiros	 e	 técnicos.	 Mas,	 85	 dias	 depois	 de	 iniciada,	 a	 Revolução	
Constitucionalista	chegaria	ao	fim	no	dia	2	de	outubro,	com	o	triste	saldo	de	cerca	de	
seiscentos	mortos	entre	os	insurgentes	e	duzentos	nas	tropas	do	Governo	Provisório.	
As	 lideranças	 civis	 e	 militares	 dos	 rebeldes	 foram	 expatriadas	 e	 não	 puderam	
participar	da	eleição	para	a	Assembleia	Constituinte,	 realizada	em	maio	de	1933.	
Mesmo	 assim,	 os	 constitucionalistas	 conseguiram	 eleger	 71%	 dos	 representantes	
paulistas.	 Esta	 inquestionável	 demonstração	 de	 popularidade	 acabou	 forçando	
Vargas	a	conceder	uma	anistia	geral	e	a	promulgar	uma	nova	Constituição,	em	1934.
José Alfredo Vidigal Pontes	é	historiador	graduado	pela	USP	e	autor,	entre	
outros	livros,	de 1932: O Brasil se revolta.	São	Paulo:	Ed.	O	Estado	de	S.	Paulo;	Ed.	
Terceiro	Nome,	2004.
FONTE: PONTES, José A. V. Sangue brasileiro. Nossa História em Revista, São Paulo, ano 2, n. 21, 
 jul. 2005.
TÓPICO 1 | A REVOLUÇÃO DE 1930: GETÚLIO VARGAS NO PODER
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Para aprofundamento destes temas, sugiro que você veja os filmes e leia os 
seguintes livros:
FILMES: 
1 – Revolução de 30. Brasil: Direção de Sylvio Back, documentário, 118 min. 1980.
Trata-se de um documentário-colagem de vários documentários e filmes de ficção dos anos 
20, culminando com imagens inéditas da Revolução de 1930.
2 – O assalto ao poder. Brasil: Direção de Eduardo Escorel, documentário, 100 min. 2002. 
O ano de 1935 estava chegando ao fim quando três levantes militares, em três diferentes 
capitais brasileiras, tentaram derrubar o governo de Getúlio Vargas, que foi implacável com 
os insurretos. Vários deles foram brutalmente torturados. Em poucos dias, o movimento foi 
inteiramente dominado, num dos primeiros passos para a escalada autoritária de Getúlio Vargas, 
que se manteria no poder até 1945. O filme documenta todos os lances dessa insurreição 
comunista, que teve como protagonistas, além de Getúlio Vargas, Luiz Carlos Prestes, Octávio 
Brandão, Olga Benário, Gregório Bezerra, Giocondo Dias entre outros anti-heróis da utopia 
comunista na América Latina. 
LIVROS: FAUSTO, Bóris. A Revolução de 1930: historiografia e história. São Paulo: Brasiliense, 
1972. 
FIGUEIREDO, Eurico de Lima (org.). Os Militares e a Revolução de 30. Rio de Janeiro: Paz e 
Terra, 1979.
DICAS
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RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico abordamos as seguintes questões:
•		Durante	a	década	de	1920,	em	meio	a	oscilações	no	cenário	econômico,	nacional	e	
internacional,	ocorreram	no	Brasil	manifestações	de	cunho	político,	social	e	cultural	
que	balançaram	as	bases	da	República	Velha.	Dentre	estas	manifestações	destaca-se	
o	Tenentismo,	movimento	dirigido	por	militares,	o	impacto	da	Revolução	Russa	
em	meio	ao	operariado	brasileiro	(levando	à	formação	do	Partido	Comunista	do	
Brasil),	e	a	Semana	de	Arte	Moderna.
 
•	Do	ponto	de	vista	político-eleitoral,	 no	 início	da	década	de	 20	 a	 comunhão	
de	 interesses	 e	descontentamentos	em	 relação	aos	 rumos	da	República	Velha	
ocasionou	uma	aproximação	 entre	 oligarquias	 regionais	dos	 estados	do	Rio	
Grande	do	Sul,	Bahia,	Rio	de	Janeiro	e	Pernambuco.	O	objetivo	em	pauta	era	dar	
sustentação	a	um	candidato	de	oposição	ao	pacto	Minas/São	Paulo.
•	A	ruptura	do	pacto	político	firmado	entre	Minas	e	São	Paulo,	em	1929,	ano	de	
início	de	uma	grande	crise	econômica	mundial,	resultou	na	formação	da	Aliança	
Liberal,	constituída	por	representantes	dos	estados	de	Minas,	Rio	Grande	do	Sul	
e	Paraíba.
•	A	Aliança	Liberal	indica	Getúlio	Vargas	como	candidato	à	disputa	das	eleições.	Em	
meio	à	fraude	deliberada,	de	ambos	os	lados,	o	candidato	paulista	à	Presidência,	
Júlio	Prestes,	é	eleito,	mas	não	chega	a	assumir.
•	Apoiada	por	setores	do	exército,	a	Aliança	Liberal	leva	a	cabo	um	levante	militar	
que	resulta	na	Revolução	de	1930.	Getúlio	assume	o	poder	e	implanta	um	governo	
provisório.
•	Em	1932,	forças	políticas	de	São	Paulo	insurgem-se	contra	o	governo	no	episódio	
conhecido	como	Revolução	Constitucionalista.	Embora	derrotado,	o	movimento	
obtém	êxito	em	muitas	de	suas	reivindicações,	como,	por	exemplo,	a	implantação	
de	uma	Assembleia	Constituinte	em	1934.
•	Em	1934	ocorrem	eleições	 e,	para	o	governo	 federal,	 elege-se	Getúlio	Vargas.	
Inicia-se	o	governo	constitucional,	vigente	até	1937.
•	Durante	o	governo	constitucional,	Getúlio	Vargas	 joga	com	as	 forças	políticas	
existentes	no	 cenário	nacional.	Neste	período	ganham	 força	 e	projeção	duas	
correntes	políticas:	a	Aliança	Nacional	Libertadora	(ANL),	cuja	linha	de	frente	foi	
composta	pelo	ideário	comunista,	e	a	Ação	Integralista	Brasileira	(AIB),	defensora	
de	um	governo	forte	e	centralizado,	e	contrária	à	luta	de	classes.	
59
•	A	ANL	tenta	um	malsucedido	golpe	de	Estado	em	1935,	denominado	Intentona	
Comunista.	A	AIB,	por	sua	vez,	embora	tenha	se	aproximado	de	Vargas,	é	extinta	
por	decreto	governamental	em	1937.
•	Em	meio	a	tentativas	frustradas	de	deposição	do	governo,	Vargas	promove	uma	
aproximação	em	relação	ao	Exército.	Ações	como	aquelas	orquestradas	pela	ANL	
e	a	AIB	criaram	as	condições	e	justificativas	para	a	implantação	do	Estado	Novo.
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AUTOATIVIDADE
1	Estabeleça	uma	relação	entre	eventos	que	eclodiram	ao	longo	da	década	de	
1920	e	a	Revolução	de	1930.
2	Entre	 1930,	 ano	 em	que	Getúlio	Vargas	 chega	 ao	poder,	 e	 1937,	 ano	da	
instauração	do	Estado	Novo,	o	governo	Vargas	enfrentou	duas	sublevações	
de	grande	impacto	e	relevância:	a	Revolução	Constitucionalista	e	a	Intentona	
Comunista.	Descreva,	 em	 linhas	gerais,	 as	 circunstâncias	nas	quais	 estes	
movimentos	encontraram	condições	de	emergência.
Assista ao vídeo de
resolução da questão 1
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TÓPICO 2
O ESTADO NOVO E SEUS DESDOBRAMENTOS
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Embora	 a	 eleição	 indireta	 de	 Getúlio	 Vargas,	 em	 17	 de	 julho	 de	 1934,	
pela	Assembleia	Constituinte	significasse	sua	legitimação	à	frente	do	Executivo,	
o	 governo	 que	 se	 seguiu	 nem	 de	 longe	 foi	 tranquilo.	 Respaldados	 pelo	 clima	
favorável	no	cenário	internacional,	os	movimentos	sociais	tornavam-se	cada	vez	
mais	 incisivos	 e	de	difícil	 controle.	Greves	operárias	 e	manifestações	de	 alguns	
segmentos	da	classe	média	resultavam	em	uma	maior	pressão	sobre	o	governo	e	a	
classe	patronal.	A	questão	social,	que	até	então,	na	maioria	das	vezes,	era	tratada	
como	um	simples	caso	de	polícia,	entrou	em	ressonância	com	a	perspectiva	teórica	
da	luta	de	classes.	A	radicalização	política	teve	um	terreno	fértil	para	germinar.
Tendo	 as	 Forças	Armadas	 ao	 seu	 lado	 e	 contando	 com	o	 receio	da	 elite	
econômica	 do	 país	 em	 relação	 aos	 desdobramentos	 de	 uma	 possível	 tomada	
do	 poder	 por	 parte	 das	 classes	 operárias,	 Getúlio,	 em	 nome	 da	 “legalidade	
institucional”,	decreta	o	Estado	Novo.
2 O PLANO COHEN
Escrevendo	a	respeito	do	cenário	político	do	Brasil	da	década	de	1930,	Penna	
(1999)	sustenta	que	não	é	possível	dissociar	o	Estado	Novo	dos	acontecimentos	que	
irão	produzir	a	Revolução	de	1930.	O	pronunciamento	de	10	de	novembro	de	1937	
teria	sido	um	desdobramento	daquele	fato	ou,	em	outras	palavras,	uma	roupagem	
institucional	para	o	“Estado	de	fato”	criado	com	a	decretação	da	Lei	de	Segurança	
Nacional	em	1935.	Evidentemente,	em	um	contexto	de	forças	e	interesses	políticos	
tão	intensos,	o	Estado	Novo	precisava	se	apresentar	como	um	gesto	de	defesa	da	
legalidade,	ou	seja,	precisava	de	respaldo	político	e	social.	Respondendo	por	este	
imperativo,	 Vargas	 torna	 público	 um	 documento	 forjado	 pelo	 capitãoOlímpio	
Mourão	Filho,	militar	integralista,	cujo	conteúdo	mencionava	um	suposto	plano	
comunista	que	consistia	em	promover	desordens	e	atentados	com	vistas	à	tomada	
do	poder.	Coube	à	imprensa	fazer	a	divulgação,	cujo	impacto	foi	imediato.	Para	
se	ter	um	exemplo	do	grau	de	dramaticidade	do	documento,	uma	de	suas	partes	
fazia	menção	ao	desrespeito	sistemático	“à	honra	e	aos	sentimentos	mais	íntimos	
da	mulher	brasileira”,	ou	seja,	ao	estupro	como	estratégia	de	ação.	O	fato	é	que
Conivente	 com	 os	 verdadeiros	 planos	 de	 eliminação	 dos	 direitos	
constitucionais	 perpetrado	 pelo	 governo,	 o	 capitão	 Mourão	 Filho	 se	
62
UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
deixa	envolver	nesta	trama,	e	a	30	de	novembro	o	general	Eurico	Gaspar	
Dutra	 a	denunciava.	Antes,	 os	 integralistas,	 tendo	 à	 frente	 o	 capitão,	
“reconhecem”	 o	 teor	 do	 documento	 como	de	 autoria	 comunista.	 Em	
1º	 de	 outubro	 a	Câmara	 aprova	 o	 estado	de	 guerra,	 suspendendo	 as	
garantias	 constitucionais	 por	 um	prazo	 de	 noventa	 dias.	 Contra	 esta	
decisão	se	insurgem	as	bancadas	de	São	Paulo	e	do	Rio	Grande	do	Sul.	
(PENNA,	1999,	p.	186).
A Lei de Segurança Nacional, promulgada em 4 de abril de 1935, definia crimes 
contra a ordem política e social. Sua principal finalidade era transferir para uma legislação 
especial os crimes contra a segurança do Estado, submetendo-os a um regime mais rigoroso, 
com abandono das garantias processuais. Esta lei foi aprovada após acirrados debates, num 
contexto de crescente radicalização política, pouco depois de os setores da esquerda terem 
fundado a Aliança Nacional Libertadora. Nos anos seguintes à sua promulgação, foi aperfeiçoada 
pelo governo Vargas, tornando-se cada vez mais rigorosa e detalhada. Em setembro de 1936, 
sua aplicação foi reforçada com a criação do Tribunal de Segurança Nacional.
FONTE: Disponível em: <www.cpdoc.fgv.br>. Acesso em: 2 abr. 2010.
Os	 exageros	 contidos	 no	 documento,	 algo	 que	 um	 olhar	 mais	 atento	
detectaria	 como	 indícios	de	uma	 farsa,	 foram	ofuscados	 com	a	 sugestão	de	 ser	
o	 plano	 parte	 de	 um	 complô	 internacional	 (a	 proposta	 de	 internacionalização	
do	 comunismo),	 razão	 pela	 qual	 foi	 denominado	 “Plano Cohen”.	 Seu	 caráter	
prescritivo,	uma	ameaça	à	soberania	nacional	e	aos	interesses	do	capital,	levou	até	
mesmo	os	setores	mais	liberais	da	sociedade	brasileira	a	admitir	uma	ação	mais	
contundente	por	parte	do	governo:	o	10	de	novembro	marca,	então,	a	leitura	do	
texto	de	uma	nova	Constituição	para	o	corpo	de	ministros	do	Estado.	Iniciava-se	
um	novo	momento	da	vida	política	e	institucional	brasileira.	
Na	 linha	 de	 frente	 das	 ações	 pós-decreto	 ocorreram	 intervenções	 nos	
estados	 onde	 a	 oposição	 e	 resistência	 à	 nova	 ordem	 eram	 maiores.	 Bandeiras	
estaduais	foram	queimadas,	símbolo	evidente	do	fim	da	autonomia	dos	estados.	A	
repressão	generalizou-se	e,	supostamente	agindo	em	nome	do	povo,	fez	do	povo	
seu	alvo	preferencial.
3 O ESTADO NOVO
As	continuidades	e	as	permanências	que	marcaram	o	regime	republicano	
até	a	chegada	de	Vargas	ao	poder	ganharam	uma	nova	roupagem	a	partir	de	1937.	
As	 estruturas	 de	 dominação	 permaneceram	 articuladas,	 mas	 algo	 de	 novo	 se	
insinuou	no	horizonte.	Del	Priore		e	Venâncio	afirmam	que
NOTA
TÓPICO 2 | O ESTADO NOVO E SEUS DESDOBRAMENTOS
63
A	 permanência	 de	 Getúlio	 Vargas	 no	 poder	 dificilmente	 teria	 sido	
possível	 sem	 o	 extraordinário	 sucesso	 econômico	 alcançado	 durante	
seu	primeiro	governo.	Para	se	ter	uma	noção	do	significado	profundo	
dessa	 afirmação,	 basta	 mencionarmos	 que,	 por	 volta	 de	 1945,	 nossa	
industrialização	 finalizava	 seu	 primeiro	 grande	 ciclo.	 Em	 outras	
palavras:	 pela	primeira	vez,	 a	produção	 fabril	 brasileira	ultrapassava	
a	agrícola	como	principal	atividade	econômica.	Nesse	mesmo	período,	
também	assistimos	ao	surgimento	da	indústria de base,	ou	seja,	aquela	
dedicada	à	produção	de	máquinas	e	ferramentas	pesadas,	à	siderurgia,	
à	metalurgia	e	à	indústria	química	(2003,	p.	320,	grifo	no	original).
 
No	quadro	descrito	por	Del	Priore	e	Venâncio,	podemos	inserir	a	constatação	
de	que	o	desenvolvimento	econômico	ocorrido	durante	o	Governo	Vargas	associou-
se	à	afirmação	hegemônica	de	uma	burguesia	industrial,	à	proliferação	da	força	de	
trabalho	no	meio	urbano	e	a	um	intenso	processo	de	urbanização.	Analisaremos	
cada	um	desses	elementos	de	maneira	mais	detalhada.	Antes,	porém,	tentaremos	
compreender	por	quais	razões	o	ordenamento	político	instaurado	com	o	Estado	
Novo	teve	condições	de	vingar.
Conforme	 comentamos	 anteriormente,	 o	 receio	 das	 elites	 dominantes	
–	nos	anos	 trinta	 intimamente	associados	aos	 interesses	da	burguesia	 industrial	
–	em	relação	à	mobilização	da	classe	operária	foi	decisivo	para	a	emergência	de	
um	regime	de	caráter	autoritário.	Contudo,	há	que	se	considerar	que	os	regimes	
autoritários	não	se	sustentam	sem	a	utilização	da	força	ou,	de	maneira	mais	ampla,	
sem	o	 respaldo	das	armas.	Neste	 sentido,	o	aval	dado	pelos	militares,	 tanto	do	
ponto	 de	 vista	 do	 poder	 bélico,	 quanto	 do	 da	 constituição	 de	 uma	 identidade	
para	o	regime	político	pós-37,	foi	decisivo.	Ou	seja,	de	meros	atores	coadjuvantes	
na	 conjuntura	 política	 dos	 anos	 20	 os	 militares	 transformaram-se	 em	 peças-
chave	nos	anos	1930,	reafirmando	seu	papel	incisivo	após	o	término	da	Segunda	
Guerra	Mundial,	situação	na	qual	é	 fundada	a	Escola	Superior	de	Guerra.	Mais	
do	que	mantenedores	da	ordem	e	da	soberania	nacional,	os	militares	ingressaram	
diretamente	 nos	 quadros	 do	 Poder	 Executivo	 e,	 como	 veremos	mais	 tarde,	 no	
plano	eleitoral.
Durante	o	Estado	Novo	surgiu	nas	Forças	Armadas	um	grupo	com	fortes	
inclinações	nacionalistas	e	partidário	da	modernização	industrial	visando	impedir	
as	tentativas	de	recomposição	do	monopólio	do	poder	por	parte	das	oligarquias	
rurais.	O	cenário	econômico	nacional	e	internacional	favoreceu	este	objetivo,	pois,	
a	 partir	 de	 1930,	 a	 atividade	 industrial	 apresentava	 taxas	de	 crescimento	 anual	
aproximadamente	três	vezes	maiores	que	a	taxa	de	crescimento	agrícola.	A	crise	
econômica	de	1929	atingiu	em	cheio	o	café,	carro-chefe	do	setor	agrícola,	e,	nos	anos	
30,	as	exportações	do	produto	caíram	pela	metade	se	considerarmos	os	primeiros	
anos	da	década	de	1920.	
Importante	 enquanto	base	de	 sustentação,	 a	maior	projeção	do	 exército,	
contudo,	não	significou	que	as	Forças	Armadas	passaram	a	ditar	regras	e	orientar	
os	 rumos	 do	 governo.	 Este	 segmento	 do	 espectro	 político	 constituía-se	 apenas	
como	mais	um	dos	grupos	com	os	quais	Vargas	tinha	que	habilmente	lidar.	Entre	
os	civis	destacavam-se	a	burguesia	industrial,	o	proletariado	urbano	e	os	grandes	
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UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
latifundiários.	Visando	conter	estes	últimos,	Vargas	valorizou	a	aliança	com	grupos	
urbanos.	 Penna	 (1999)	 afirma	 que	 o	 novo	 regime	 tinha	 se	 instaurado	 em	 uma	
sociedade	 ainda	 fortemente	marcada	por	 traços	preliminares	do	 capitalismo.	O	
desenvolvimento	econômico	capitaneado	pela	burguesia	não	fora	acompanhado	
de	uma	 representação	burguesa	 capaz	de	 conceber	um	projeto	para	o	 exercício	
do	poder	e	de	uma	classe	operária	que	interpretasse	os	interesses	do	mundo	do	
trabalho.	O	vácuo	criado	pela	ausência	de	tais	projetos,	 tanto	burgueses	quanto	
proletários,	 foi	 ocupado	por	uma	hipertrofia	do	Estado.	Por	outro	 lado,	 a	 forte	
presença	da	ação	estatal	não	pode	ser	interpretada	apenas	levando-se	em	conta	o	
atraso	do	desenvolvimento	das	 forças	produtivas	 associadas	 à	 industrialização.	
O	 processo	 ocorrido	 no	 Brasil	 encontrava	 par	 em	 países	 afetados	 pela	 crise	
econômica	que	se	arrastou	ao	longo	da	década	de	1930.	Neste	sentido,	o	exemplo	
mais	evidente	pode	serencontrado	na	Alemanha,	cujo	poder	concentrava-se	nas	
mãos	de	Adolf	Hitler.
O	paralelo	entre	o	Brasil	e	a	Alemanha	pode	ser	 interessante	na	medida	
em	que	o	concebemos	do	ponto	de	vista	da	expectativa	de	anulação	do	ideário	da	
luta	de	classes	em	ambos	os	países.	No	caso	brasileiro,	o	Estado,	consciente	do	seu	
papel	como	indutor	do	desenvolvimento,	tratou	de	dispensar	aliados	incômodos,	
as	classes	em	ascensão,	trabalhando	ideologicamente	visando	à	sua	desqualificação	
como	portadoras	de	interesses	comuns,	produzindo	um
Processo	 de	 despolitização	 da	 sociedade,	 cujo	 efeito	 mais	 perverso	
atingiu	 em	 cheio	 os	 trabalhadores.	 Procurou	 atraí-los	 por	 meio	 de	
recursos	que	iam	de	medidas	compensatórias	–	a	maioria	transformada	
em	legislação	trabalhista	–	ou	por	meio	de	mensagens	de	sentido	dúbio,	
típicas	de	 regimes	 autoritários,	 tais	 como	aquelas	 em	que	 se	procura	
demonstrar	que	numa	sociedade	“sadia”	não	há	lugar	para	os	interesses	
de	classe.	(PENNA,	1999,	p.	188).
O	fato	é	que,	para	cada	segmento	com	o	qual	tinha	que	lidar,	Vargas	lançou	
uma	estratégia	específica.	Para	os	trabalhadores	urbanos,	por	exemplo,	estabeleceu-
se	um	conjunto	de	mudanças	na	legislação	visando	à	melhoria	das	suas	condições	
de	vida.	Paralelamente	à	legalização	de	reivindicações	dos	trabalhadores	–	agentes	
ativos	 que	 desde	 o	 início	 do	 governo	 republicano	 lutaram	 por	 seus	 direitos,	
portanto	não	se	pode	falar	na	existência	de	uma	doação de Vargas	–	incrementou-
se	 a	 lógica	do	 sindicalismo	 corporativo,	 ou	 seja,	 após	 anos	de	 aperfeiçoamento	
de	um	sistema	que	tendia	a	diminuir	o	poder	de	barganha	e	representatividade	
dos	 sindicatos,	 em	 1939	 Vargas	 determina	 a	 existência	 de	 um	 único	 sindicato	
por	categoria.	Del	Priore	e	Venâncio	(2003)	nos	 lembram	também	que	este	foi	o	
momento	da	criação	do	imposto	sindical	–	desconto	anual	de	um	dia	de	salário	da	
folha	dos	empregados	–	com	a	finalidade	de	financiar	a	estrutura	sindical.	Neste	
sentido,	“de	instrumento	de	luta,	os	sindicatos	dos	anos	de	1940	passam	à	condição	
de	agentes	promotores	da	harmonia	social	e	instituições	prestadoras	de	serviços	
assistenciais”.	(DEL	PRIORE;	VENÂNCIO,	2003,	p.	321).
Evidentemente,	uma	parte	dos	líderes	sindicais	com	formação	nas	fileiras	
do	movimento	anarquista	via	estas	mudanças	de	maneira	crítica,	denunciando	a	
cooptação	e	a	manipulação	dos	trabalhadores.	Ocorre	que,	para	a	grande	massa	
TÓPICO 2 | O ESTADO NOVO E SEUS DESDOBRAMENTOS
65
dos	 trabalhadores,	 Vargas	 atendia	 expectativas	mais	 imediatas,	 principalmente	
após	a	criação	da	CLT	(Consolidação	das	Leis	Trabalhistas)	em	1943	e	da	criação	de	
uma	Justiça	do	Trabalho	(que	visava	à	mediação	dos	conflitos	entre	empregados	e	
patrões).	Seja	como	for,	a	postura	adotada	por	Vargas	foi	responsável	pela	penetração	
das	massas	populares	urbanas	no	cenário	político.	Embora	condicionadas,	estas	
massas
Constituem	a	única	 fonte	 social	possível	de	poder	pessoal	 autônomo	
para	o	governante	e,	em	certo	sentido,	se	constituirão	na	única	fonte	de	
legitimidade	possível	para	o	Estado.	O	chefe	do	Estado	passará	a	atuar	
como	árbitro	dentro	de	uma	situação	de	compromisso	que,	inicialmente	
formada	 pelos	 interesses	 dominantes,	 deverá	 contar	 com	 um	 novo	
parceiro	–	as	massas	populares	urbanas	–	e	a	representação	das	massas	
nesse	jogo	estará	controlada	pelo	próprio	chefe	de	Estado.	Nas	funções	
de	árbitro,	ele	passará	a	decidir	em	nome	dos	interesses	de	todo	o	povo	
e	 isso	 significa	dizer	que	 ele	 tende,	 embora	 esta	 tendência	não	possa	
efetivar-se	 sempre,	 a	 optar	 por	 aquelas	 alternativas	 que	 despertam	
menor	resistência	ou	maior	apoio	popular.	(WEFFORT,	1989,	p.	69-70).
 
O	 quadro	 de	 compromisso,	 ao	 qual	 se	 refere	Weffort,	 resultou	 de	 uma	
associação	entre	o	regime	(Estado	Novo),	a	instituição	Estado	e	a	nação	(sociedade),	
associação	esta	“[...]	realizada	com	o	esmero	de	quem	tece	uma	fina	fibra	responsável	
pela	 feitura	de	um	tecido”.	 (PENNA,	1999,	p.	188).	A	figura	política	de	Getúlio	
Vargas	se	destaca	nesse	processo	porque	soube	encarnar	esses	distintos	elementos,	
ligando-os	num	único	objetivo:	fazer	de	todos	os	cidadãos	partes	integrantes	de	
uma	vocação	comum,	a	de	realização	do	destino	de	todos.	Evidentemente,	uma	
tarefa	com	tal	envergadura	não	poderia	ser	realizada	individualmente.
Em	uma	de	suas	linhas	de	ação,	Vargas	promoveu	uma	maior	aproximação	
em	 relação	 a	 certos	 meios	 intelectuais,	 criando,	 inclusive,	 uma	 revista	 chamada	
Cultura Política.	 Esta	 passou	 a	 contar	 com	 a	 contribuição	 de	 articulistas	 de	
diferentes	concepções	políticas	e	filosóficas,	com	o	objetivo	de	revelar-se	aberta	ao	
conhecimento	científico.	Há	que	se	considerar,	porém,	que	o	pano	de	fundo	sobre	
o	 qual	 se	 inseriam	os	 escritos	publicados	 era	 composto	pela	máxima	da	 “ordem	
e	 coesão	 social”.	 Segundo	 Penna	 (1999),	 nomes	 como	 Gilberto	 Freyre	 e	 Nelson	
Werneck	Sodré	publicaram	textos	na	Cultura Política.		Mobilizar	possíveis	e	futuros	
fazedores	de	opinião	passou	a	ser	um	dos	objetivos	das	políticas	culturais	levadas	a	
cabo	pelo	Estado	Novo.
O	 sucesso	 da	 proposta	 estava	 intrinsecamente	 ligado	 à	 eficiência	 do	
controle	sobre	o	campo	educacional.	Com	efeito,	a	intervenção	estatal	na	educação	
foi	um	dos	feitos	mais	contundentes	do	Estado	Novo,	vindo	a	ocasionar	drásticas	
mudanças	neste	 setor.	Del	Priore	e	Venâncio	 (2003)	afirmam,	por	exemplo,	que	
durante	 a	 gestão	 de	 Gustavo	 Capanema,	 ministro	 da	 Educação	 e	 Saúde	 entre	
os	anos	de	1934,	que	reuniu	em	torno	de	si	 intelectuais	do	quilate	de	Mário	de	
Andrade,	Carlos	Drummond	de	Andrade	e	Heitor	Villa-Lobos,	foram	planejadas	
e	executadas	importantes	alterações,	como	a	ampliação	de	vagas	e	a	unificação	de	
conteúdos	das	disciplinas	no	ensino	secundário	e	universitário	(durante	o	Estado	
Novo	 foi	 notável	 a	 expansão	 do	 sistema	 universitário,	 tendo	 como	 resultado	 a	
formação	de	toda	uma	geração	de	sociólogos,	economistas	e	administradores).	Na	
66
UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
mesma	época	ocorre	a	nacionalização	de	escolas	que	até	então	eram	controladas	
por	imigrantes	europeus	ou	seus	descendentes,	tais	como	aquelas	implantadas	no	
Sul	do	país	(com	a	consequente	imposição	da	língua	portuguesa	como	única	língua	
passível	de	uso	nos	meios	escolares),	assim	como	a	criação	do	ensino	profissional,	
materializado	em	instituições	tais	como	o	SENAI,	SESI,	SENAC	e	SESC.
FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Gustavo_
 Capanema_1932.jpg>. Acesso em: 10 abr. 2010.
FIGURA 19 – GUSTAVO CAPANEMA: MINISTRO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE 
 ENTRE OS ANOS DE 1934 E 1945
Outra	importante	linha	de	ação	governamental	implementada	por	Vargas	
teve	como	veículo	de	disseminação	o	Departamento	de	Imprensa	e	Propaganda	
(DIP).	Visando	à	propaganda	política	através	dos	novos	meios	de	comunicação	
como	 o	 rádio	 e	 o	 cinema,	 o	 DIP	 organizava	 rituais	 totalitários	 de	 culto	 à	
personalidade	do	ditador.	Neste	período	ocorre	a	criação	de	programas	de	rádio	
como	o	Repórter Esso e A Hora do Brasil,	sendo	que,	especialmente	este	último,	
tinha	por	escopo	a	divulgação	de	propagandas	e	ideias	do	regime.	As	prerrogativas	
legais	que	davam	sustentabilidade	às	ações	dessa	natureza	estavam	contidas	no	
texto	da	Constituição	de	1937,	a	Constituição	do	Estado	Novo	ou,	ainda,	Polaca 
–	numa	alusão	ao	fato	de	ter	sido	inspirada	no	modelo	de	Constituição	polonesa	
do	marechal	 Josef	Pilsudski.	Legitimando	um	regime	centralizado	e	autoritário,	
dando	ao	Executivo	a	capacidade	de	se	sobrepor	aos	demais	poderes	de	Estado,	
a	Carta	Constitucional	de	1937	favoreceu	a	criação	de	mecanismos	de	controle	da	
opinião	pública	através	da	censura	e/ou	manipulação.
Uma	 característica	 marcante	 do	 texto	 constitucionalfoi	 a	 atribuição	 da	
prerrogativa	de	governar	por	decretos-leis.	Um	desses	decretos,	assinado	em	3	de	
dezembro	de	1937,	proibiu	o	uso	de	símbolos,	gestos,	manifestações	de	qualquer	
espécie,	formação	de	partidos	políticos,	determinando	a	dissolução	dos	existentes.	
De	imediato,	o	decreto	tinha	por	escopo	os	integralistas,	mas	em	médio	e	longo	
prazos	seu	objetivo	era	promover	a	despolitização	da	sociedade,	abrindo	caminho	
para	o	exercício	da	tutela	do	Estado	sobre	os	grupos	sociais	organizados.	A	relação	
TÓPICO 2 | O ESTADO NOVO E SEUS DESDOBRAMENTOS
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de	 Vargas	 com	 os	 trabalhadores	 urbanos,	 conforme	 comentada	 anteriormente,	
insere-se	neste	plano.
Numa	outra	 ordem	de	 fatores	 a	 política	 getulista	 procurou	 incentivar	 o	
desenvolvimento	econômico.	Segundo	Del	Priore	e	Venâncio	(2003),	 já	no	início	
dos	anos	trinta	Vargas	retomou	a	política	de	valorização	do	café	com	o	objetivo	de	
impedir	a	estagnação	da	economia.	São	Paulo,	favorecido	por	esta	política,	liderou	
o	processo	de	formação	de	um	mercado	nacional	voltado	para	a	substituição	de	
importações.	Paralelamente	a	 isso,	o	governo	garantiu,	através	da	política	fiscal	
e	 cambial,	 a	 transferência	de	 renda	para	o	 setor	 industrial	 local.	A	 importância	
dos	empresários	paulistas	cresceu	a	olhos	vistos:	nos	anos	40	eles	passaram	a	ser	
responsáveis	 pela	metade	 da	 produção	 fabril	 brasileira.	O	 revés	mais	 imediato	
desta	 política	 econômica	 foi,	 portanto,	 a	 ampliação	 do	 desequilíbrio	 regional,	
implicando	o	declínio	de	estados	que	não	acompanhavam	o	ritmo	competitivo	de	
crescimento.	
Para	 além	 das	 ações	 da	 iniciativa	 privada,	 uma	 das	 grandes	marcas	 do	
Estado	Novo	foi	a	constituição	das	chamadas	empresas	públicas,	uma	alternativa	
para	 sustentar	 o	 processo	 de	 expansão	 industrial	 acelerada.	 Linhares	 (1990)	
sustenta	que
Neste	contexto	específico	incrementou-se	a	opção	pela	empresa pública 
como	 alternativa	 de	 financiamento	 do	 novo	 padrão	 de	 acumulação,	
numa	conjuntura	internacional	de	tecnologia	altamente	monopolizada.	
Setores	 como	 os	 de	 ferro	 e	 de	 aço,	 da	 energia	 elétrica,	 da	 química	
pesada	e	da	produção	de	motores	tiveram	sua	solução	inicial	com	base	
no	investimento	estatal	ou	na	forma	de	empresas	de	economia	mista.	
A	Companhia	Siderúrgica	Nacional	 (1941),	a	Companhia	Vale	do	Rio	
Doce	 (1942),	a	Companhia	Nacional	de	Álcalis	 (1943)	e	a	Companhia	
Hidrelétrica	do	São	Francisco	(1945)	são	alguns	exemplos.	(p.	247,	grifo	
no	original).
A	 implantação	 das	 indústrias	 de	 base	 a	 partir	 de	 iniciativas	 estatais	
contrariava	os	princípios	do	 liberalismo,	mas,	 levando-se	em	conta	que	os	anos	
de	1930	não	foram	os	melhores	para	a	política	do	não	intervencionismo,	ocorria	
no	Brasil	algo	semelhante	ao	que	se	processava	em	vários	outros	países	do	mundo	
ocidental.	 No	mais,	 os	 investimentos	 estatais	 nesse	 setor	 criaram	 as	 condições	
necessárias	para	o	desenvolvimento	do	setor	de	bens	de	consumo,	pois	favoreceu	
a	redução	de	custos	ao	capital	privado.	
No	que	se	refere	às	relações	internacionais,	o	governo	de	Vargas	durante	
o	Estado	Novo	ficou	marcado	pela	estratégia	da	barganha.	O	presidente	soube	se	
aproveitar	de	maneira	exímia	do	conturbado	cenário	internacional,	principalmente	
após	1939,	ano	de	eclosão	da	Segunda	Guerra	Mundial.	Enquanto	pôde,	Vargas	
manteve-se	distante	do	conflito,	embora	viesse	a	demonstrar	certa	simpatia	pelos	
países	do	Eixo,	mais	especificamente	a	Alemanha	e	a	Itália,	países	cujos	governos	
autoritários	se	assemelhavam	ao	seu.	A	partir	de	1942,	com	o	avanço	dos	Aliados,	
Vargas	opta	pelo	rompimento	com	o	Eixo,	não	sem	antes	obter	um	empréstimo	
de	 20	milhões	 de	 dólares	 dos	 Estados	Unidos,	 capital	 usado	 na	 construção	 da	
Companhia	Siderúrgica	Nacional.
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UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
FONTE: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/
 commons/9/9a/Vargas_ e_Roosevelt.jpg>. Acesso em: 10 abr. 
 2010.
FIGURA 20 – GETÚLIO VARGAS E FRANKLIN DELANO ROOSEVELT
A Figura 20 mostra Getúlio Vargas e Franklin Delano Roosevelt, em encontro 
ocorrido já em 1936, antes da instauração do Estado Novo. As negociações entre os presidentes 
dos dois países americanos se intensificaram ao longo da Segunda Guerra Mundial.
Desde	 o	 início	 de	 1942	 os	 contatos	 entre	 Vargas	 e	 o	 presidente	 norte-
americano	F.	D.	Roosevelt	haviam	se	intensificado.	Roosevelt	inclusive	chegou	a	
visitar	o	Brasil,	vindo	a	conhecer	algumas	regiões	brasileiras.	Em	pouco	tempo	as	
negociações	resultaram	na	formação	da	Força	Expedicionária	Brasileira	(FEB)	que,	
em	1944,	foi	enviada	à	Itália	para	lutar	ao	lado	das	forças	norte-americanas.	Diante	
do	 progressivo	 avanço	 dos	 Aliados,	 a	 própria	 sobrevivência	 do	 Estado	 Novo	
passava	a	ser	ameaçada,	pois	uma	vitória	dos	países	em	que	vigoravam	regimes	
democráticos	colocava	em	xeque	o	regime	ditatorial	capitaneado	por	Vargas.
FONTE: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/
 commons/3/36/Feb_ Apeninos.jpg>. Acesso em: 10 abr. 2010.
FIGURA 21 – FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA NOS APENINOS – ITÁLIA, 
 1945
UNI
TÓPICO 2 | O ESTADO NOVO E SEUS DESDOBRAMENTOS
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Aliada	das	pressões	do	cenário	internacional,	uma	das	determinações	da	
legislação	vigente	militava	contra	o	Estado	Novo.	De	acordo	com	a	Constituição	
outorgada	em	1937,	em	1943	deveria	ocorrer	um	plebiscito	que	poria	o	regime	à	
prova.	O	prazo	foi	prorrogado	para	o	período	imediatamente	posterior	à	Segunda	
Guerra	justamente	devido	à	decretação	do	estado	de	guerra	no	país.	De	1943	a	1945,	
portanto,	as	articulações	políticas	começaram	a	ser	feitas	com	maior	intensidade.	
Em	1944,	o	próprio	Getúlio	reconheceu	como	esgotado	o	ciclo	autoritário,	visando	
promover	a	 transição	ao	 regime	democrático	dentro	da	ordem	 institucional,	ou	
seja,	seu	interesse	era	fazer	com	que	o	próprio	Executivo	comandasse	o	processo	
de	transição	política.
Del	Priore	e	Venâncio	(2003)	vão	mais	longe,	afirmando	que	desde	1941	já	
estavam	sendo	feitas	as	articulações	para	garantir	a	transição.	O	próprio	Vargas	
tentava	organizar	um	partido	de	alcance	nacional.	Em	1943,	o	descontentamento	
das	 elites	 regionais	 marginalizadas	 durante	 o	 Estado	 Novo	 foi	 expresso	 no	
Manifesto dos Mineiros,	texto	cujo	conteúdo	tecia	críticas	ao	caráter	autoritário	
do	 governo,	 assinado	 por	 políticos	 de	 renome	 nacional.	 Em	 1944	 a	 estrutura	
partidária	 que	 comandaria	 a	 transição	 já	 estava	 praticamente	 constituída.	 As	
elites	dissidentes	que,	desde	a	Revolução	de	1930,	haviam	sido	marginalizadas,	
agruparam-se	em	torno	da	União	Democrática	Nacional	(UDN).	Getúlio,	por	sua	
vez,	 reúne	 os	 interventores	 estaduais	 no	 Partido	 Social	 Democrático	 (PSD).	 A	
estrutura	sindical	e	previdenciária	criada	por	Vargas	serviu	de	base	à	constituição	
do	Partido	Trabalhista	Brasileiro	(PTB).
As	 estruturas	 partidárias	 anteriormente	 descritas	 foram	 legalizadas	 em	
1945.	Del	Priore	e	Venâncio	afirmam	que
A	 UDN	 lança	 candidato	 próprio	 às	 eleições	 previstas	 para	 1946,	 o	
mesmo	ocorrendo	 com	o	PSD.	A	posição	do	PTB	 é	 outra.	Não	 lança	
candidato,	mas	defende	a	convocação	de	uma	assembleia	constituinte	
ainda	 no	 governo	 de	Getúlio,	 que	 seria	 por	 isso	mesmo	 prolongado	
um	pouco	mais.	Tal	movimento	ganhou	as	ruas	–	sendo	popularmente	
denominado	na	época	de	“queremismo”,	ou	seja,	“queremos	Getúlio”	–	
e	contou	com	o	apoio	do	Partido	Comunista	Brasileiro	(PCB),	apoio	este,	
aparentemente,	 surpreendente.	 [...]	 Vargas	 foi	 responsável	 por	 uma	
feroz	repressão	aos	comunistas.	No	entanto,	é	necessário	lembrar	que	
foi	no	seu	governo	que	o	Brasil	entrou	em	guerra	contra	o	nazifascismo,	
em	uma	aliança	da	qual	participou	a	União	Soviética.	No	final	de	suagestão	 também	 houve	 a	 anistia	 e	 a	 legalização	 do	 PCB.	Mais	 ainda:	
para	os	comunistas,	os	inimigos	políticos	de	Vargas	reunidos	na	UDN	
representavam	o	que	havia	de	mais	 atrasado	na	 sociedade	brasileira.	
(2003,	p.	330).
70
UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
FONTE: CENTRO de Referência da História Republicana Brasileira. 
 Disponível em: <http://www.republicaonline.org.br/
 reponlinenav/>. Acesso em: 5 maio 2010.
FIGURA 22 – MOVIMENTOS SOCIAIS E POLÍTICOS
A Figura 22 mostra populares manifestando-se em apoio à permanência de 
Vargas na Presidência, Rio de Janeiro – 1945. 
O	receio	em	relação	à	manipulação	das	eleições	levou	tanto	a	UDN	quanto	
o	PSD	a	 escolherem	militares	 como	candidatos	 à	Presidência.	A	UDN	escolheu	
o	 brigadeiro	 Eduardo	 Gomes,	 enquanto	 que	 o	 PSD	 optou	 pelo	 general	 Eurico	
Gaspar	Dutra.
No	último	ano	da	Segunda	Guerra	Mundial,	sob	alegação	da	existência	do	
conflito	internacional,	o	exército	brasileiro	aumentou	sobremaneira	seu	contingente	
militar.	Assim,	Getúlio	experimentaria	“[...]	agora	o	sabor	amargo	de	uma	prática	
intervencionista	feita	por	uma	instituição	que	ele	mesmo	havia	ajudado	a	crescer”.	
(DEL	PRIORE;	VENÂNCIO,	2003,	p.	331).	Em	outubro	de	1945,	 sob	pressão	do	
exército,	Getúlio	 era	 obrigado	 a	deixar	 o	poder.	 Sem	 candidato	próprio,	 o	PTB	
apoia	Eurico	Gaspar	Dutra,	que	vence	a	eleição	presidencial.	Vargas,	eleito	para	o	
Senado,	pouco	participou	da	Assembleia	Constituinte	responsável	pela	elaboração	
da	Constituição,	promulgada	em	1946.	Retornando	para	sua	terra	natal,	em	São	
Borja,	 no	 interior	 do	Rio	Grande	 do	 Sul,	 fica	 em	 relativo	 exílio	 até	 retornar	 ao	
cenário	político	para	um	novo	mandato	presidencial.	Neste	período,	seus	desafios	
seriam	outros.
UNI
TÓPICO 2 | O ESTADO NOVO E SEUS DESDOBRAMENTOS
71
LEITURA COMPLEMENTAR
CULTURA,	BRASIL	E	ESTADO	NOVO
Por	Carlos	Alberto	Dória
A POLÍTICA CULTURAL DE GETÚLIO VARGAS, QUE SE MATOU EM 1954, 
AINDA INCOMODA OS INTELECTUAIS
“A	arte	de	viver	é	criar	afetos”.
																					Gustavo	Capanema
 
	O	elitismo	brasileiro	estabelece	uma	relação	constante	entre	a	modernização	
getulista	e	o	autoritarismo.	A	expansão	do	serviço	público	e	a	normatização	de	
novas	atividades	que	Getúlio	promoveu	ainda	hoje	encontram	críticos	que	veem	
nelas	a	sombra	da	ditadura	sobre	a	sociedade	civil,	 turbando	os	passos	de	uma	
caminhada	“natural”	em	direção	a	uma	vida	mais	democrática.	Por	exemplo,	até	
a	 definição	 de	 “cidade”,	 obviamente	 anacrônica	 por	 força	 da	 urbanização	 pós-
guerra,	encontra		quem	a	classifique	como	“entulho	varguista”.	Trata-se	de	uma	
leitura	liberal	da	história,	que	dificulta	a	avaliação	isenta.
Contrário	senso,	quando	se	trata	da	administração	cultural,	o	período	Vargas	
é	visto	como	o	ponto	alto	da	 trajetória	do	Estado	brasileiro.	Muitos	 intelectuais	
manifestam	sua	perplexidade	ao	constatar	que	naquele	período	autoritário	tanto	
se	 fez	 em	prol	da	democratização	da	 cultura.	Neste	domínio	 o	 liberalismo	não	
avançou	muito.	
Ao	 contrário	 do	 enquadramento	 antropológico	 que	 a	 Constituição	 de	
1988	 tentou	fixar,	 nas	Constituições	de	 1934	 e	 1937	 o	Estado	 (União,	 Estados	 e	
Municípios)	 é	 guindado	 à	 posição	 de	 institucionalizador	 da	 vida	 cultural:	
defensor	de	monumentos	naturais,	artísticos	e	históricos;	deve	também	“animar	o	
desenvolvimento	das	ciências,	das	artes,	das	letras	e	da	cultura	em	geral”	e	“prestar	
assistência	ao	trabalhador	intelectual”;	e,	por	fim,	favorecer	ou	fundar	“instituições	
artísticas,	 científicas	 e	 de	 ensino”.	Assim,	 é	 indubitável	 que	 no	 período	Vargas	
fundou-se	o	Estado	tal	e	qual	hoje	ele	se	situa	frente	à	cultura.
Esta	 obra	 é	 atribuída	 a	Gustavo	Capanema.	 Ele	 foi,	 ao	 longo	 de	 toda	 a	
sua	 vida,	 homem	do	 poder	 de	 Estado:	 oficial	 de	Gabinete	 de	Olegário	Maciel,	
Presidente	de	Minas,	em	1930;	Secretário	do	Interior	no	período	de	consolidação	
da	 Revolução;	 Interventor	 em	Minas,	 em	 1933;	ministro	 da	 Educação	 e	 Saúde,	
entre	1934	e	1945;	deputado	federal	e	senador	pela	Arena,	entre	1966	e	1971.	Como	
ministro,	reuniu	em	torno	de	si	uma	enorme	plêiade	de	intelectuais,	colocando-os	
a	serviço	do	Estado.
No	 aconchego	 de	 Capanema,	 Carlos	 Drummond	 de	 Andrade,	 Villa-
Lobos,	Mário	de	Andrade,	Gilberto	Freyre,	Cândido	Portinari,	Lúcio	Costa,	Oscar	
Niemeyer	e	tantos	outros	deram	a	sua	contribuição	para	a	projeção	do	Estado	como	
organizador	da	cultura.	Terminados	os	governos	de	Vargas,	a	cultura	tinha	outro	
72
UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
estatuto.	Arquitetura,	patrimônio	histórico,	música,	cinema,	todos	foram	afetados	
no	seu	perfil	a	partir	de	uma	nova	relação	com	a	sociedade.
O	período	desta	convivência	estreita	abarcou	todo	o	Estado	Novo.	Assim,	
enquanto	se	construía	a	modernidade	cultural,	intelectuais	e	oposicionistas	eram	
presos,	mortos,	torturados,	exilados.	“Memórias	do	cárcere”,	de	Graciliano	Ramos,	
é	o	documento	pungente	desse	lado	sórdido	da	modernização	getulista.
As	relações	ambivalentes	dos	intelectuais	com	o	Estado	foram	homólogas	
às	de	Luis	Carlos	Prestes	e	o	PCB	frente	ao	getulismo.	Quando	entendeu	necessário	
para	 o	 processo	 de	 democratização,	 Prestes	 apoiou	 publicamente	 aquele	 que	
fora	algoz	de	sua	mulher,	Olga	Benário.	Os	intelectuais	que	colaboraram	com	o	
getulismo	nunca	deixaram	de	reconhecer	que	aquele	convívio	foi	necessário	para	
a	criação	das	novas	condições	institucionais	da	gestão	cultural	entre	nós.
Hoje,	 o	 elogio	 do	 getulismo	 é	 uma	 tônica	 frequente	 na	 história	 da	
administração	da	cultura,	mas	surge	também	certa	tendência	de	condenação	dos	
intelectuais	que	transacionaram	com	o	poder	de	Estado.	Mas,	passados	quase	70	
anos	do	Estado	Novo,	é	 legítimo	nos	perguntarmos:	o	que	restou	de	 tudo	 isso?	
Uma	geração	intelectual	sacrificou-se	ao	se	entregar	ao	Leviatã	ou	deixou	como	
legado	uma	perspectiva	democrática	para	a	cultura	no	Brasil?
A	resposta	a	essas	questões	exige	que	se	deixe	de	lado	o	“cronocentrismo”,	
que	 consiste	 em	 julgar	 a	 ação	 política	 passada	 com	 os	 olhos	 de	 agora.	 Por	
exemplo,	é	preciso	considerar	que	a	principal	tendência	política	à	qual	se	filiavam	
os	 intelectuais	 mais	 proeminentes	 de	 então	 –	 o	 comunismo	 –	 defendia	 táticas	
frentistas	que	implicavam	a	convivência	entre	diferentes	forças	políticas	na	busca	
de	 objetivos	 comuns.	 A	 política	 era	 vista	 como	 o	 resultado	 contraditório	 de	
ações	que	se	desenvolviam	no	interior	da	cidadela	adversária	e	ela	impunha	que	
se	participasse	da	história	 sob	 todas	as	 formas,	 recusando	o	 caminho	da	 crítica	
distanciada.
A	 Revolução	 de	 1930	 havia	 provocado	 fissuras	 profundas	 no	 poder	
oligárquico,	e	criar	novos	espaços	institucionais	era	uma	condição	essencial	para	
se	aprofundar	as	distâncias	entre	o	velho	e	o	novo.	Mas	a	mediação	 ideológica	
que	o	Estado	promovia	não	contava	com	muitos	mecanismos	de	convencimento,	
obrigando-o	 a	 trazer	 para	 o	 seu	 interior	 o	 conflito	 que	 se	 dava	 na	 sociedade,	
contrapondo	democratas	e	integralistas,	como	forma	eficaz	de	administrá-lo.	Ao	
mesmo	tempo	em	que	os	intelectuais	modernistas	se	aninhavam	nas	repartições	
culturais,	os	integralistas	buscavam	manter	o	seu	quinhão.
Essa	 tensão	 foi	 registrada	por	Lauro	Cavalcanti,	 ao	 analisar	 o	momento	
político-intelectual	de	criação	do	Sphan	(futuro	Iphan),	em	1937.	Para	ele,	o	Brasil	
viveu	naquele	momento	o	paradoxo	de	ser	“o	único	país	no	qual	membros	de	uma	
só	corrente	(modernista)	são,	ao	mesmo	tempo,	os	revolucionários	de	novas	formas	
artísticas	e	os	árbitros	e	zeladores	do	passado	cultural”.	Ora,	o	triunfo	modernista	
deu-se	claramente	contra	o	nacionalismo	verde-amarelo,	aboletado	desde	1922	no	
Museu	HistóricoNacional,	com	Gustavo	Barroso.
TÓPICO 2 | O ESTADO NOVO E SEUS DESDOBRAMENTOS
73
O	ideal	museológico	de	Gustavo	Barroso	era	claro:	“O	Brasil	precisa	de	um	
museu	onde	se	guardem	objetos	valiosos,	espadas,	canhões,	lanças”.	Ao	cooptar	
os	modernistas,	o	Estado	rompeu	o	monopólio	conservador	de	Gustavo	Barroso	
sobre	a	política	patrimonial-histórica.	Encastelados	no	Sphan,	os	modernistas,	na	
medida	em	que	projetam	o	futuro	como	tão	importante	quanto	o	passado,	colocam	
o	Estado	numa	perspectiva	evolucionista.
O	Sphan	teve,	assim,	uma	missão	ideológica	e	política	muito	clara,	e	a	forma	
autárquica,	autocrática	e	“independente”	que	assumiu	correspondia	à	mobilização	
dos	 recursos	 necessários	 para	 poder	 ser	 impositivo	 na	 definição	 do	 que,	 daí	
em	 diante,	 viria	 a	 ser	 o	 “patrimônio	 nacional”.	 A	 ultracentralização	 do	 órgão	
assemelhava-se	ao	perfil	de	toda	a	administração	estadonovista,	independente	de	
sua	finalidade.	Esse	aspecto	autoritário,	que	então	foi	condição	do	seu	sucesso,	é	
hoje	criticado	como	inibidor	da	mobilização	da	sociedade	civil	em	prol	da	defesa	
do	patrimônio	histórico	brasileiro.
Mas,	 quando	 olhamos	 aquele	 momento	 com	 os	 olhos	 de	 hoje,	 ainda	
remanesce	uma	questão	não	desprezível:	o	“tombamento”	e	a	patrimonialização	
do	 passado	 colonial	 escravista,	 católico	 e	 europeizado,	 com	 signo	 material	 da	
nacionalidade.	 Este	 sentido	 do	 alçamento	 do	 barroco	 à	 condição	 de	 “estilo	
nacional”	é	inequívoco.	A	ele	se	paga	um	tributo	muito	grande,	e	só	recentemente	
outras	facetas	do	passado	nacional	ganharam	estatuto	patrimonial.
O	Sphan	 foi	 concebido	por	Mário	de	Andrade	e	Paulo	Duarte.	À	época,	
poucos	intelectuais	se	aproximaram	da	cultura	popular	com	abordagem	moderna	
como	Mário	de	Andrade	e	“conquistá-lo”	foi	ato	de	clarividência	getulista.
	 Depois	 de	 1922,	 se	 deu	 um	 outro	 movimento	 de	 aproximação	 com	 o	
país	real,	principiado	em	1924	com	a	Caravana	Modernista,	que	mostrou	o	país	
ao	poeta	Blaise	Cendrars;	 prosseguindo	 com	as	 viagens	de	Mário,	 em	 1927,	 ao	
Nordeste	e	Amazônia	e,	de	novo,	em	1941,	à	região	Norte.	Dessas	aproximações	
sucessivas,	além	de	uma	série	de	ensaios	sobre	arquitetura	e	patrimônio,	nasceram	
especialmente	 o	 “Ensaio	 sobre	 a	 música	 brasileira”	 (1928),	 o	 “Compêndio	 de	
história	da	música”	(1929),	“Modinhas	imperiais”	(1930)	e	“Música,	doce	música”	
(1933).
Há	na	patrimonialização	do	barroco	e	na	compilação	musical	uma	invenção	
extraordinária	 da	 brasilidade,	 contraposta	 à	 força	 centrífuga	 dos	 regionalismos	
tributários	do	mundo	oligárquico	que	a	Revolução	de	1930	pretendeu	encerrar.	
Mas	o	mais	interessante	foi	o	hibridismo	de	valores	que	esse	movimento	promoveu.	
“No	Brasil	do	ouro/	a	história	morta/	 sem	sentido”,	 enunciada	em	“Pau	
Brasil”,	se	revalorizará	como	cenário	para	o	moderno	hotel	que	Niemeyer	construiu	
em	Ouro	Preto	(“obra	de	arte”,	segundo	Lúcio	Costa)	e	para	o	prédio	do	Ministério	
da	Educação	no	Rio	de	Janeiro,	numa	afirmação	de	contrastes	que	se	completará	
apenas	com	a	construção	de	Brasília.
74
UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
Na	música,	 a	desfolclorização	da	 tradição	popular	 caberá	 a	Villa-Lobos,	
tomando	os	temas	para	composições	coerentes	com	as	tendências	mais	modernas	
da	 música	 erudita.	 Ele,	 que	 vinha	 conhecendo	 o	 “Brasil	 interior”	 desde	 1915,	
encontrará	sob	o	getulismo	as	condições	políticas	para	o	trabalho	de	educação	das	
massas,	segundo	paradigmas	do	canto	coral	e	do	ensino	musical,	culminando	na	
formação	do	Conservatório	Nacional	de	Canto	Orfeônico.
Nessa	trajetória	também	merece	destaque	uma	iniciativa	pouco	citada	na	
literatura	histórica:	 entre	1935	e	1936,	 a	 cantora	 lírica	Bidu	Sayão	participou	de	
duas	enormes	turnês,	de	Manaus	a	Santana	do	Livramento,	cantando	em	teatros,	
cinemas	e	mesmo	ao	ar	livre	em	cima	de	um	tablado,	levando	a	música	erudita	a	
cidades	pequenas	aonde	jamais	chegaria	de	outra	maneira;	até	que	em	1937	sofreu	
violenta	vaia	no	Municipal	do	Rio	de	Janeiro,	orquestrada	pela	milionária	Gabriela	
Besanzoni	Lage.	Neste	mesmo	ano,	Bidu	Sayão	foi	contratada	pelo	Metropolitan,	
de	Nova	Iorque,	e	não	mais	cantou	no	Brasil.
Estes	dois	casos	–	a	arquitetura	e	a	música	–	ilustram	o	paradoxo	do	Estado	
forte	 e	 empenhado	 na	 construção	 da	 cultura	 moderna	 brasileira	 e	 a	 questão	
remanescente	é	se	haveria	outro	caminho	a	ser	trilhado.	Ao	contrário	da	educação	
ou	da	saúde,	não	existe	uma	“demanda	popular”	por	cultura.	Portanto	a	hegemonia	
de	novas	formas	de	cultura	depende	fortemente	do	empenho	do	Estado	e	não	há	
por	que	ver	na	participação	intensa	dos	intelectuais	nas	atividades	públicas	uma	
fonte	automática	de	contaminação	autoritária	por	contágio.	Essa	colaboração	só	
pode	ser	julgada	pelos	seus	resultados.
Evidentemente	 a	 cooptação	 intelectual	 sob	 o	 getulismo	 se	 opunha	 à	
profissionalização	que	o	concurso	público	instituiu	posteriormente,	como	forma	
exclusiva	 de	 acesso	 ao	 aparelho	 de	 Estado.	A	 cooptação	 getulista	 possuiu	 um	
caráter	provisório,	o	que	não	a	impediu	de	degenerar.
Consta	que,	sob	Juscelino,	o	redator	dos	seus	discursos,	o	poeta	Augusto	
Frederico	Shmidt,	gabava-se	de	ser	presidente	da	Companhia	Nacional	de	Álcalis	
sem	jamais	ter	visto	“um	álcalis”.	O	cargo	público	se	transformara	numa	“posição”,	
isto	é,	numa	situação	hierárquica	na	estrutura	de	poder	e	num	desvio	de	função.
A	trajetória	mais	recente	–	especialmente	após	a	ditadura	militar	–	mostra	
o	 Estado	 distanciado	 do	 que	 foram	 os	 anos	 de	 formação	 da	 moderna	 cultura	
brasileira	de	feição	pública,	ou	seja,	do	projeto	que	ele	mesmo	impulsionou	nos	
anos	30	e	40	do	século	passado.	A	degeneração	burocrática	do	Iphan	e	a	supressão	
da	 educação	 musical	 na	 escola	 pública	 são	 exemplos	 suficientes	 da	 trajetória	
miserável.	Premida	entre	o	mercado	e	um	Estado	incapacitado,	a	cultura	logo	se	
converteu	num	sem-lugar	da	vida	social.	
De	novo,	então,	o	 intelectual	 se	vê	diante	do	Estado	como	um	estranho,	
pois	ele	já	não	tem	qualquer	projeto	civilizatório	que	se	alimente	do	seu	trabalho	
criativo.	A	manutenção	do	 “patrimônio”	parece	 ser	 o	 seu	único	 encargo,	 ainda	
que	mal	desempenhado;	a	 título	de	fomento,	distribui	 fundos	públicos	escassos	
entre	produtores	privados,	que	sempre	pressionam	por	mais	e	mais	verbas.	Por	
TÓPICO 2 | O ESTADO NOVO E SEUS DESDOBRAMENTOS
75
outro	lado,	o	servidor	público,	no	qual	eventualmente	o	intelectual	se	converteu,	
participa	 do	 destino	 geral	 dos	 trabalhadores	 do	 Estado,	 distanciando-se	 das	
práticas	experimentais	ou	contestatórias	que	são	medidas	de	valor	da	ação	criativa.	
Fora	do	Estado,	apenas	a	seletividade	destruidora	do	mercado.
Assim,	 o	 legado	 de	 Getúlio	 foi,	 sobretudo,	 a	 construção	 de	 uma	
institucionalidade	 inédita	 para	 a	 cultura,	 ao	 mesmo	 tempo	 em	 que	 tratou	 da	
elaboração	 ideológica	 do	 patrimônio	 voltado	 para	 a	 identidade	 brasileira.	 Os	
brasileiros	deixaram	de	ser	soltos	na	história	para	estarem	aderidos	a	uma	matriz	
étnica	 na	 qual	 se	 procurou	 igualar	 o	 passado	 indígena,	 negro	 e	 ibérico.	 Um	
pluralismo	desconexo	 foi	 substituído	pelo	 ideal	de	miscigenação,	do	qual	 eram	
portadores	os	modernistas	de	repartição.	
A	questão	de	hoje	é	saber	se	esse	legado,	que	ficou	anacrônico,	pôde	ser	
superado	pelas	forças	vivas	da	democracia	pós-Estado	Novo	através	da	afirmação	
de	um	projeto	 alternativo	de	 caráter	democrático	 e	popular.	Tudo	 indica	que	a	
resposta	é	negativa.	Assim,	o	getulismo	ainda	não	é	coisa	do	passado	em	matéria	
de	administração	cultural,	e	continua	impossível		para	os	trabalhadores	da	cultura	
julgá-lo	com	isenção.
 
 Carlos Alberto Dória –	é	sociólogo,	doutorando	em	sociologia	no	IFCH-
Unicamp	e	autor	de	“Ensaios	Enveredados”,	“Bordado	da	Fama”	e	“Os	Federaisda	
Cultura”,	entre	outros	livros.
 
FONTE: A POLÍTICA cultural de Getúlio Vargas. Disponível em: http://pphp.uol.com.br/tropico /
 html/textos/2930.1.shl>. Acesso em: 20 abr. 2010.
Para aprofundamento destes temas, sugiro que você veja o filme e leia os livros 
a seguir:
FILME: Getúlio Vargas. Brasil: Direção de Ana Carolina Teixeira Soares, 1974.
O filme-documentário foi construído a partir de materiais filmados nas décadas de 1920, 1930, 
1940 e 1950. Como é possível notar no recorte temporal, o filme não fica restrito ao Estado 
Novo, pois abraça desde a Revolução de 1930 até o suicídio de Vargas. Contudo, a divisão em 
blocos temáticos evidencia o período do regime ditatorial. 
LIVROS: GARCIA, Nelson Jahr. Estado Novo – Ideologia e propaganda política. São Paulo: 
Loyola, 1982.
VARGAS, Getúlio Dornelles. As diretrizes da Nova Política do Brasil. São Paulo: José Olímpio 
Editora, 1942. 
Além de: MARQUES, Ademar; BERUTTI, Flávio; FARIA, Ricardo. História Contemporânea: através 
do texto. 11 ed. São Paulo: Contexto, 2008. 
DICAS
76
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico abordamos as seguintes questões:
•	Em	meio	 a	um	clima	de	mobilizações	populares	 e	 efervescência	política,	de	
projeção	contundente	da	“Questão	Social”,	tendo	as	Forças	Armadas	ao	seu	lado	e	
contando	com	o	receio	da	elite	econômica	do	país	em	relação	aos	desdobramentos	
de	uma	possível	tomada	do	poder	por	parte	das	classes	operárias,	Getúlio,	em	
nome	da	“legalidade	institucional”,	decreta	o	Estado	Novo.
 
•	A	instauração	do	Estado	Novo	foi	facilitada	devido	à	alegação	de	um	complô	
internacional	apresentado	em	documento	forjado	–	o	Plano	Cohen	–,	cujo	caráter	
prescritivo,	uma	ameaça	à	soberania	nacional	e	aos	interesses	do	capital,	levou	
até	mesmo	os	setores	mais	liberais	da	sociedade	brasileira	a	admitir	uma	ação	
mais	contundente	por	parte	do	governo.
•	Durante	 o	 Estado	Novo	 surgiu	 nas	 Forças	Armadas	 um	grupo	 com	 fortes	
inclinações	nacionalistas	e	partidário	da	modernização	industrial	visando	impedir	
as	tentativas	de	recomposição	do	monopólio	do	poder	por	parte	das	oligarquias	
rurais.
•	Dentre	os	mais	variados	grupos	com	os	quais	Vargas	teve	que	lidar	durante	o	
Estado	Novo	destacam-se	 a	burguesia	 industrial,	 o	proletariado	urbano	 e	os	
grandes	latifundiários.	Devido	ao	fato	de	nenhum	desses	grupos	ter	sido	capaz	
de	alcançar	a	hegemonia	no	poder,	o	período	de	1937	a	1945	foi	marcado	pela	
hipertrofia	do	Estado	e	pela	projeção	inequívoca	da	figura	de	Getúlio	Vargas.
•	Vargas	teceu	uma	estratégia	de	ação	específica	para	cada	grupo	com	o	qual	tinha	
que	negociar.	Em	relação	aos	trabalhadores,	 instrumentalizou	o	“sindicalismo	
corporativo”,	ou	seja,	atrelou	os	sindicatos	aos	interesses	do	governo.	Por	outro	
lado,	 há	 que	 se	 considerar	 que	durante	 o	Estado	Novo	 ocorreram	avanços	
importantes	no	campo	de	luta	pelos	direitos	trabalhistas.
•	O	Estado	Novo	também	ficou	marcado	pela	aproximação	entre	o	governo	e	alguns	
grupos	de	intelectuais.	Agindo	desta	forma,	Vargas	visava	angariar	a	simpatia	de	
“formadores	de	opinião”	em	prol	da	causa	governamental.	Investimentos	no	setor	
educacional	visavam	preparar	a	sociedade	para	inserção	em	uma	nova	realidade	
caracterizada	pela	vida	urbana	e	pelo	desenvolvimento	industrial.
•	O	direcionamento	da	opinião	pública	foi	condicionado	por	um	forte	investimento	
estatal	em	mecanismos	de	censura	e	pela	constituição	de	veículos	de	propaganda	
do	governo	e	da	figura	do	ditador.
•	No	plano	internacional	a	política	estadonovista	primou	pela	lógica	da	barganha,	
ou	seja,	pela	negociação	com	forças	oponentes	representadas,	por	exemplo,	por	
77
países	 como	a	Alemanha	e	os	Estados	Unidos.	Em	1942,	 em	meio	à	Segunda	
Guerra	Mundial,	Vargas	associa-se	aos	aliados,	vindo,	inclusive,	a	mandar	tropas	
brasileiras	ao	combate	em	solo	europeu.
•	Após	o	término	do	conflito	bélico	internacional,	o	governo	ditatorial	de	Vargas	
não	pôde	mais	se	sustentar.	Articulações	políticas	iniciadas	já	em	1941	resultaram	
na	criação	de	três	grandes	partidos	que	viriam	a	disputar	as	primeiras	eleições	
diretas	pós-Estado	Novo:	a	UDN,	o	PSD	e	o	PTB.	Vargas	é	deposto	e	retorna	para	
sua	terra	natal,	São	Borja,	de	onde	voltará	à	Presidência	“nos	braços	do	povo”.
78
AUTOATIVIDADE
1	Elabore	alguns	comentários	 sobre	as	 relações	que	podem	ser	estabelecidas	
entre	a	“Questão	Social”	e	a	implantação	do	Estado	Novo.
2	Duas	 características/práticas	marcantes	do	Estado	Novo:	 o	 “Sindicalismo	
Corporativo”	 e	 a	 “Política	 da	Barganha”.	 Explique	 o	 significado	desses	
conceitos.
Assista ao vídeo de
resolução da questão 2
Assista ao vídeo de
resolução da questão 1
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TÓPICO 3
A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES 
DA DEMOCRACIA
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Conforme	 vimos	 no	 tópico	 anterior,	 o	 regime	 ditatorial	 implantado	
durante	o	Estado	Novo	foi	carregado	de	ambiguidades.	A	estratégia	da	barganha	
adotada	em	relação	à	política	internacional	deixou	sua	marca	também	no	cenário	
das	articulações	internas.	Jogando	de	maneira	hábil	com	o	conjunto	de	interesses	
postos	em	relevo,	Vargas	soube,	na	medida	do	possível,	atender	as	mais	variadas	
reivindicações.	 Um	 exemplo	 marcante	 dessa	 postura	 pode	 ser	 encontrado	 na	
relação	que	o	ditador	estabeleceu	com	os	trabalhadores	urbanos.	Embora	o	signo	
da	cooptação	tenha	sido	marca	indelével,	não	há	como	negar	que	o	Estado	Novo	
ficou	caracterizado	pela	institucionalização	de	uma	legislação	trabalhista	há	muito	
requisitada	por	este	segmento	social.	
Por	 maiores	 que	 sejam	 as	 divergências	 na	 perspectiva	 de	 análise	 dos	
historiadores	que	tomam	o	período	pós-1945	como	objeto	de	estudo,	dificilmente	
encontraremos	quem	não	aceite	o	fato	de	que	o	processo	de	redemocratização	a	ele	
associado	foi	problemático.	De	imediato	há	que	se	considerar	a	dificuldade	de	se	
convencer	a	população	das	vantagens	da	democracia	constitucional.	A	vinculação	
entre	os	avanços	no	campo	da	legislação	trabalhista	e	o	governo	estadonovista	era	
por	demais	estreita	para	ser	desconsiderada	em	prol	de	uma	ideia	–	a	democracia	–	
que	no	Brasil,	historicamente,	nunca	havia	encontrado	terreno	fértil	para	germinar.	
Mas,	sendo	outros	os	tempos,	as	mudanças	estavam	em	curso.
De	 acordo	 com	 Penna	 (1999),	 a	 transição	 da	 ditadura	 do	 Estado	 Novo	
para	a	democracia	 representativa	 teve	seu	momento	 inaugural	antes	mesmo	da	
deposição	de	Getúlio	Vargas	em	1945,	mas	é	a	partir	deste	ato,	até	a	promulgação	de	
uma	nova	Constituição,	em	1946,	que	se	convenciona	designar	redemocratização.	
Participaram	 desse	 processo	 grupos	 conservadores,	 grupos	 econômicos	
estrangeiros	(principalmente	norte-americanos),	setores	egressos	do	antigo	regime	
e	uma	opinião	pública	sedenta	por	dias	melhores.	
As	oscilações	no	jogo	do	poder,	que	até	então	haviam	marcado	o	regime	
republicano,	 ganharam	 novos	 contornos	 entre	 os	 anos	 de	 1945	 e	 1964,	 pois	 o	
término	 do	 Estado	 Novo	 foi	 acompanhado	 por	 um	 aumento	 significativo	 no	
número	de	eleitores.	Devido	às	reformas	educacionais	e	à	incorporação	do	voto	
feminino	 (o	voto	 feminino	 sem	restrições	passou	a	 ser	obrigatório	 em	1946),	os	
índices	 de	 participação	 da	 população	 nas	 eleições	 aumentaram	 de	 maneira	
80
UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
significativa,	sendo	que,	em	sua	maioria,	os	eleitores	e	eleitoras	eram	moradores	do	
meio	urbano	(a	maior	limitação	à	participação	popular	no	processo	eleitoral	ficou	
por	conta	do	veto	ao	voto	dos	analfabetos).	Este	aumento	ocorreu	paralelamente	
à	mudança	no	perfil	tanto	de	eleitores	quanto	de	candidatos:	neste	novo	período	
o	voto	passou	a	ser	mais	uma	resposta	a	interesses	individuais	e/ou	de	classe	do	
que	uma	imposição	(como	fora	o	caso	do	voto	de	cabresto	na	Primeira	República).	
Cabia	agora	aos	 candidatosusar	de	 sua	 representatividade	e	aceitação	 junto	às	
massas	populares	para	chegar	ao	poder.
2 A PERSONALIZAÇÃO DO PODER: O POPULISMO
Os	anos	que	se	estenderam	de	1930	a	1964	ficaram	marcados	pela	emergência	
de	uma	prática	política	singular	no	período	republicano:	o	populismo.	Francisco	
Weffort	afirma	que	
O	 populismo,	 como	 estilo	 de	 governo,	 sempre	 sensível	 às	 pressões	
populares,	 ou	 como	 política	 de	 massas,	 que	 buscava	 conduzir,	
manipulando	suas	aspirações,	só	pode	ser	compreendido	no	contexto	
do	processo	de	crise	política	e	de	desenvolvimento	econômico	que	se	
abre	em	1930.	Foi	a	expressão	do	período	de	crise	da	oligarquia	e	do	
liberalismo,	sempre	muito	afins	na	história	brasileira,	e	do	processo	de	
democratização	do	Estado	que,	por	sua	vez,	teve	que	se	apoiar	sempre	
em	 algum	 tipo	 de	 autoritarismo,	 seja	 o	 autoritarismo	 institucional	
da	 ditadura	 Vargas	 (1937-45),	 seja	 o	 autoritarismo	 paternalista	 ou	
carismático	dos	líderes	de	massa	da	democracia	do	após-guerra	(1945-64).	
Foi	também	uma	das	manifestações	das	debilidades	políticas	dos	grupos	
dominantes	 urbanos	 quando	 tentaram	 substituir-se	 à	 oligarquia	 nas	
funções	de	domínio	político	de	um	país	tradicionalmente	agrário,	numa	
etapa	em	que	pareciam	existir	as	possibilidades	de	um	desenvolvimento	
capitalista	 nacional.	 E	 foi	 sobretudo	 a	 expressão	 mais	 completa	 da	
emergência	das	classes	populares	no	bojo	do	desenvolvimento	urbano	
e	 industrial	 verificado	 nestes	 decênios	 e	 da	 necessidade,	 sentida	 por	
alguns	 dos	 grupos	 dominantes,	 de	 incorporação	 das	massas	 ao	 jogo	
político.	(WEFFORT,	1989,	p.	61).
Weffort	 confere	 ao	 populismo	 uma	 envergadura	 temporal	 que	 abraça	
períodos	e	realidades	distintas.	Sua	emergência	nos	anos	1930	representou,	dentre	
outras	coisas,	a	força	dos	movimentos	sociais	e,	de	acordo	com	Penna	(1999),	foi	
produto	de	uma	situação	política	geradora	da	proletarização	de	amplas	camadas	
sociais,	que,	em	meio	à	transição	para	uma	sociedade	desenvolvida	industrialmente,	
perdem	 a	 sua	 identidade.	 Esta	 perda	 passa	 a	 ser	 suprida	 por	 um	 processo	 de	
identificação,	por	parte	das	massas,	com	uma	liderança	política	julgada	capaz	de	
um	exercício	do	poder	que	põe	na	ordem	do	dia	a	preocupação	com	o	desemprego	
e	a	miséria.	Desta	forma,	“o	populismo	estabelece	uma	relação	direta	entre	o	líder	
e	as	massas,	exalta	o	poder	público	e	transforma	o	líder	na	própria	encarnação	do	
Estado	protetor	dos	trabalhadores	pobres	e	humildes”.	(PENNA,	1999,	p.	197).	Via	
de	mão	dupla,	esta	relação	resulta	em	ganhos	tanto	para	as	massas	–	cuja	parte	das	
reivindicações	é	atendida	–,	quanto	para	o	líder.	A	este	último	é	dado	o	poder	de	
TÓPICO 3 | A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES DA DEMOCRACIA
81
negociação	com	as	elites,	sejam	elas	militares	ou	civis,	pois,	como	chefe	de	Estado,	
passará	 a	 atuar	 como	árbitro	dentro	de	uma	 situação	de	 compromisso	onde	os	
mais	variados	interesses	estão	envolvidos.
O	representante	por	excelência	da	política	populista	foi	Getúlio	Vargas.	Seu	
prestígio	popular	foi	construído	ao	longo	de	sua	primeira	estada	à	frente	do	poder,	
principalmente	nos	anos	de	1937	a	1945,	e,	enquanto	pôde,	Vargas	soube	se	utilizar	
muito	bem	dele	durante	seu	segundo	governo	(1951-1954).	Mas	Vargas	não	foi	o	
único.	Na	verdade,	a	única	exceção	clara	na	política	populista,	entre	os	anos	de	
1945	e	1964,	foi	o	governo	Dutra	(1945-1950),	que	embora	eleito	à	base	do	prestígio	
de	Vargas,	estabeleceu,	uma	vez	no	poder,	uma	forte	aliança	conservadora.
3 O GOVERNO DUTRA E O RETORNO DE VARGAS
O	governo	Dutra	teve	início	em	31	de	janeiro	de	1946	e	apresentou	fortes	
traços	 do	 liberalismo	 econômico,	 vindo	 a	 desenvolver	 uma	 postura	 contrária	
àquela	 adotada	durante	 o	Estado	Novo.	Decorre	dessa	postura	 o	 abandono	da	
política	de	desenvolvimento	amparado	pelo	Estado,	assim	como	uma	abertura	à	
iniciativa	privada	e	ao	capital	internacional.	A	retração	do	Estado,	acompanhada	
pela	ausência	de	controle	sobre	as	remessas	de	 lucros	de	empresas	estrangeiras	
para	o	exterior,	causou	uma	verdadeira	sangria	das	divisas	brasileiras.	A	passagem	
intempestiva	de	um	forte	intervencionismo	estatal	a	um	liberalismo	agudo	causou	
grandes	estragos	ao	país	e	 favoreceu	politicamente	Getúlio	Vargas,	que,	de	São	
Borja,	acompanhava	os	desdobramentos	do	governo	Dutra	e	articulava	a	sua	volta	
à	Presidência.
Em	qualquer	que	seja	o	período	histórico	alvo	de	análise,	é	pouco	prudente	
desconectar	os	encaminhamentos	do	governo	de	um	país	do	contexto	internacional.	
No	caso	do	governo	Dutra,	esta	questão	ganha	contornos	mais	nítidos,	pois	ele	se	
deu	nos	anos	subsequentes	ao	término	da	Segunda	Guerra	Mundial	e	em	meio	ao	
surgimento	da	“Guerra	Fria”,	que	pôs	em	confronto	as	duas	grandes	potências	
mundiais	 do	 pós-45:	 os	 Estados	 Unidos	 e	 a	 União	 Soviética.	 Dentre	 outros	
desdobramentos,	a	Guerra	Fria	resultou	naquilo	que	se	pode	chamar	de	“política	
do	alinhamento”,	ou	seja,	a	necessidade	de	identificação	com	os	ideais	defendidos	
seja	pela	potência	capitalista	(EUA),	seja	pela	potência	socialista	(URSS).	A	opção	do	
governo	Dutra	foi	pelo	desenvolvimento	de	uma	política	de	orientação	privatista	e	
pró-norte-americana,	com	presença	maciça	dos	americanos	na	economia	brasileira,	
inclusive	com	a	participação	em	programas	do	governo.
82
UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Boavi 
 n2.jpg>. Acesso em: 7 maio 2010.
FIGURA 23 – NORTE-AMERICANOS DÃO BOAS-VINDAS AO 
 PRESIDENTE EURICO GASPAR DUTRA EM VIAGEM 
 AOS ESTADOS UNIDOS 
Numa	 outra	 linha	 de	 ação,	 a	 retração	 do	 Estado	 e	 a	 defesa	 da	 ação	 da	
iniciativa	 privada	 tiveram	 efeitos	 sobre	 o	 conjunto	 dos	 trabalhadores.	 Primeiro	
porque	não	houve	durante	este	governo	uma	preocupação	com	a	política	salarial.	
Para	se	ter	uma	ideia,	enquanto	Dutra	esteve	à	frente	do	Executivo	o	salário	mínimo	
não	 sofreu	 nenhum	 reajuste.	 O	 poder	 aquisitivo	 dos	 trabalhadores	 entrou	 em	
queda	livre	diante	do	aumento	do	índice	de	inflação.	Por	outro	lado,	em	se	tratando	
de	 um	 período	 de	 redemocratização,	 este	 descaso	 para	 com	 os	 trabalhadores	
acabou	gerando	as	condições	para	o	aflorar	de	manifestações	por	parte	das	massas	
conduzidas,	 em	 grande	medida,	 por	 lideranças	 comunistas	 associadas	 ao	 PCB.	
Como	 seria	 de	 se	 imaginar,	 o	 governo	 conservador	 não	 demorou	 a	 acionar	 a	
repressão	com	veemência.
Além	de	promover	ações	repressivas	nas	ruas	contra	os	trabalhadores,	em	
pleno	processo	de	“redemocratização”	o	PCB	é	lançado	na	ilegalidade	(maio	de	
1947).	Neste	mesmo	ano	o	governo	brasileiro	 rompe	 relações	diplomáticas	 com	
a	URSS	e	promove	a	cassação	de	deputados	comunistas.	Desta	forma,	aplicava-
se	no	Brasil	 o	procedimento	 idealizado	pelos	Estados	Unidos	para	 ratificar	 sua	
influência	sobre	os	países	latino-americanos.	Todo	este	quadro	nos	dá	uma	ideia	
de	como	o	governo	Dutra	acabou	se	tornando	impopular.	Do	seu	“retiro”	em	São	
Borja,	 Vargas	 observava	 a	 ordem	 dos	 acontecimentos:	 neste	momento,	 o	 apelo	
populista	torna-se	mais	forte	do	que	nunca.
No	final	de	1946	Vargas	 retirou	o	apoio	dado	a	Dutra.	Sua	preocupação	
passou	 a	 ser,	 então,	 o	 fortalecimento	 do	 PTB	 e	 o	 estabelecimento	 de	 alianças	
políticas.	A	mais	importante	destas	foi	firmada	com	o	Partido	Social	Progressista	
(PSP),	cujo	representante	de	maior	peso	era	o	governador	de	São	Paulo,	Ademar	
de	 Barros.	 O	 acordo	 previa	 o	 apoio	 de	 Vargas	 a	 Barros	 quando	 da	 sucessão	
presidencial.	 Esta	 aliança	 colocou	 sob	o	 teto	do	mesmo	projeto	político	 os	dois	
maiores	líderes	populistas	daquela	época:	Vargas,	o	“pai	dos	pobres”	–	imagem	
TÓPICO 3 | A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADESDA DEMOCRACIA
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construída	durante	o	Estado	Novo	–,	contava	agora	com	o	apoio	de	Barros,	político	
conhecido	como	sendo	“o	tocador	de	obras”.	
A	pedra	no	sapato	de	Vargas	era	o	exército.	Conforme	vimos,	sua	deposição	
em	1945	foi	resultado	das	pressões	desta	instituição.	Havia,	portanto,	a	necessidade	
de	 ampliar	 o	 leque	 de	 negociações	 para	 que	 o	 exército	 também	 fosse	 incluído.	
Segundo	Del	Priore	e	Venâncio	(2003),	devido	ao	forte	apelo	popular	de	Vargas,	
muitos	militares	o	viam	como	um	antídoto	frente	à	expansão	do	comunismo.	Talvez	
por	este	motivo	Vargas	tenha	conseguido,	de	imediato,	a	garantia	de	que,	uma	vez	
eleito,	a	ordem	constitucional	seria	preservada	e	sua	posse	estaria	garantida.		De	
fato,	ela	foi.
Representando	 os	maiores	 partidos	 da	 época,	 participaram	 das	 eleições	
de	 1950:	 Getúlio	 Vargas,	 pela	 coligação	 PTB/PSP,	 Eduardo	 Gomes,	 pela	 UDN,	
e	Cristiano	Machado,	pelo	PSD.	Vargas	 foi	 eleito	 com	48,7%	dos	votos	válidos.	
Exatamente	por	isso	teve	sua	posse	contestada	pela	UDN	mediante	alegação	de	que	
era	necessária	uma	votação	superior	a	50%	dos	votos	válidos.	O	ato	da	UDN	era	
mais	um	indício	de	que,	em	nome	da	governabilidade,	Vargas	teria	que	conseguir	
apoio	 político.	 Sua	 vitória	 nas	 eleições	 deveria	 ser	 respaldada	 por	 um	 corpo	
administrativo	que	 contemplasse	vários	partidos.	Atendendo	a	 este	 imperativo,	
Vargas	distribuiu	os	ministérios	entre	o	PSD,	o	PTB,	o	PSP	e	a	UDN.
Compostos	os	ministérios,	era	necessário	implementar	o	plano	de	governo.	
Segundo	Penna,	em	seu	primeiro	ano,
Vargas	 lançou-se	 a	 uma	 política	 norteada	 por	 duas	 preocupações:	
1)	 no	 plano	 externo,	 não	 operar	 mudanças	 bruscas	 no	 rumo	 das	
negociações	 com	 as	 agências	 de	 financiamento,	 cujos	 resultantes	
geraram	empréstimos	concedidos	pelo	Eximbank	e	o	BIRD	 (Bank	 for	
International	 Reconstruction	 and	Development);	 2)	 no	 plano	 interno,	
criar	 mecanismos	 que	 pudessem	 incrementar	 as	 indústrias	 de	 base.	
Neste	último	caso,	foi	elaborado	o	Plano	Nacional	de	Reaparelhamento	
Econômico,	 também	 conhecido	 como	 plano	 Lafer.	 Tratava-se	 de	 um	
plano	 quinquenal	 visando	 a	 investimentos	 sobretudo	 em	 energia,	
transporte	 e	 modernização	 da	 agricultura.	 Os	 recursos	 para	 estes	
investimentos	 seriam	 administrados	 pelo	 BNDE	 (Banco	 Nacional	 de	
Desenvolvimento	Econômico),	criado	em	1952,	através	de	autorização	
do	 Congresso	 Nacional,	 onde	 o	 governo	 contava	 com	 a	 maioria.	
(PENNA,	1999,	p.	215).
Para	além	da	apresentação	das	preocupações	mais	imediatas	do	governo	
Vargas,	as	entrelinhas	do	fragmento	acima	nos	fornecem	indícios	para	uma	reflexão	
sobre	o	dilema	no	qual	o	Brasil	estava	mergulhado	no	início	da	década	de	1950.	
Naquela	ocasião	reinava	uma	nítida	divisão	no	seio	das	elites	brasileiras,	incluindo	
as	forças	armadas,	que	dizia	respeito	ao	modelo	de	desenvolvimento	econômico	a	
ser	adotado	pelo	país.	Uma	vez	que	o	impasse	relativo	à	“vocação	agrícola”	versus 
o	primado	do	desenvolvimento	industrial	já	deixara	de	ser	um	problema	durante	
os	últimos	anos	do	Estado	Novo	(momento	em	que	a	maior	parte	da	economia	
brasileira	passou	a	girar	em	torno	da	indústria),	a	questão	agora	era	saber	como	
orquestrar	 o	desenvolvimento	do	 setor	 industrial.	Del	Priore	 e	Venâncio	 (2003)	
84
UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
afirmam	 que,	 de	 maneira	 esquemática,	 é	 possível	 identificar	 duas	 posturas	
definidas:	a	primeira,	representada	pelos	defensores	do	nacionalismo	econômico	
e	 da	 participação	 do	 Estado	 no	 desenvolvimento	 industrial;	 a	 segunda,	 adepta	
da	tese	de	que	o	segundo	ciclo	de	nossa	industrialização	deveria	ser	comandado	
exclusivamente	pela	iniciativa	privada	brasileira,	associada	a	capitais	estrangeiros.	
Vale	 lembrar	que	os	defensores	da	 injeção	de	capitais	 internacionais	 tinham	em	
mente	principalmente	capitais	advindos	dos	Estados	Unidos.		
Durante	um	tempo	Vargas	conseguiu	transitar	entre	estas	duas	correntes,	
mas	 logo	 foi	 obrigado	 a	 tomar	partido	único.	Na	década	de	 1950	uma	questão	
de	 suma	 importância	 para	 o	 país	 era	 a	 definição	de	 políticas	 voltadas	 ao	 setor	
energético	e,	por	este	motivo,	o	petróleo	foi	lançado	ao	proscênio.		Em	dezembro	
de	1951	ao	Congresso	Nacional	é	apresentada	a	proposta	de	criação	do	programa	
nacional	do	petróleo	e	a	criação	da	PETROBRAS.	Ao	governo	seria	destinado	51%	
das	ações	com	direito	a	voto,	o	que	resultava	no	monopólio	estatal	sobre	a	extração	
do	petróleo.	Em	meio	a	agitações	no	plano	social,	a	campanha	“O	petróleo	é	nosso”	
foi	encampada	por	organizações	tais	como	a	União	Nacional	dos	Estudantes	(UNE)	
e	sindicatos.	Penna	(1999)	nos	lembra	que	em	3	de	outubro	de	1953	a	Lei	nº	2.004	é	
sancionada	criando	a	PETROBRAS.	Num	primeiro	momento	este	acontecimento	
significou	uma	derrota	das	correntes	políticas	que	durante	o	governo	Dutra	haviam	
defendido	a	não	intervenção	estatal	nos	assuntos	econômicos.	Por	outro	lado,	ao	
aceitar	a	inevitabilidade	do	confronto	direto	com	seus	opositores,	Vargas	teve	que	
promover	uma	mudança	ministerial.
Da	forma	como	passou	a	agir,	Vargas	aprofundou	a	política	nacionalista,	
inclusive	vindo	a	limitar	a	remessa	de	lucros	de	empresas	estrangeiras	para	seus	
países	de	origem.	No	que	tange	às	mudanças	ministeriais,	o	evento	mais	significativo	
foi	a	nomeação	de	João	Goulart,	jovem	político	com	apoio	de	organizações	sindicais,	
para	a	pasta	do	Ministério	do	Trabalho.	Dada	a	importância	desse	Ministério	no	
contexto	dos	governos	populistas,	esta	medida	causou	forte	impacto.	Para	se	ter	
uma	 ideia	 disto,	 é	 importante	 saber	 que,	 dentre	 suas	 primeiras	medidas	 como	
ministro,	João	Goulart	promoveu	o	reajuste	do	salário	mínimo	em	100%.	A	crise	
ganha	corpo.
O	exército,	mais	uma	vez,	é	porta-voz	do	descontentamento	das	elites.	
Em	 fevereiro	 de	 1954	 vem	 a	 público	 o	 Manifesto dos Coronéis.	 O	
texto	é	um	exemplo	do	radicalismo	comum	ao	período	da	Guerra Fria.	
Queixando-se	de	que	o	aumento	não	era	extensivo	às	forças	armadas,	os	
militares	aproveitaram	a	ocasião	para	denunciar	a	ameaça	da	República 
Sindicalista,	 assim	 como	 a	 “infiltração	 de	 perniciosas	 ideologias	
antidemocráticas”,	ou,	para	alertar	 a	 respeito	do	“comunismo	solerte	
sempre	 à	 espreita...”,	 pronto	 para	 dominar	 o	 Brasil.	 (DEL	 PRIORE;	
VENÂNCIO,	2003,	p.	336-337,	grifo	nosso).
 
A	gravidade	da	situação	levou	Vargas	a	afastar	João	Goulart	do	Ministério	
do	Trabalho,	mas	o	aumento	do	salário	mínimo	foi	mantido.
 
O	 grupo	 que	 fazia	 oposição	 a	 Getúlio	 Vargas	 congregava	 militares	
americanófilos,	 críticos	 ferrenhos	 do	 projeto	 político	 do	 governo,	 ligados	
TÓPICO 3 | A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES DA DEMOCRACIA
85
internamente	à	UDN	e	externamente	ao	governo	norte-americano.	Como	veículo	
de	 difusão	 de	 críticas,	 este	 grupo	 utilizava	 a	 imprensa,	 a	 exemplo	 dos	 jornais	
“O Estado de São Paulo,	da	 família	Mesquita,	os	Diários Associados,	de	Assis	
Chateubriand,	e	O Globo,	dirigido	pela	família	Marinho.”	(PENNA,	1999,	p.	217).	
Contudo,	as	críticas	mais	ácidas	dirigidas	ao	governo	Vargas	eram	veiculadas	no	
Tribuna da Imprensa,	 fundado	 pelo	 jornalista	 Carlos	 Lacerda.	 Diante	 da	 ação	
contínua	desses	veículos	de	 comunicação,	Vargas	 resolveu	 criar	um	 jornal	para	
defender	seus	propósitos.	Surgia	assim	o	Última Hora,	sob	comando	de	Samuel	
Wainer	jornal	acusado	pela	oposição	de	ter	sido	criado	a	partir	de	um	empréstimo	
irregular	contraído	junto	ao	Banco	do	Brasil.	Seja	como	for,	a	criação	do	Última 
Hora	municiou	a	oposição,	que	acusava	o	governo	de	corrupção,	nepotismo	e	uso	
indevido	 do	 dinheiro	 público.	 Carlos	 Lacerda	 vociferava	 na	 linha	 de	 frente	 da	
oposição.	
O	 clima	 ideológico	 dos	 anos	 de	 1950	 favoreceu	 a	 composição	 de	 uma	
segunda	 frenteoposicionista	 representada	 por	 setores	 de	 esquerda.	 Em	 1954,	
portanto,	 Vargas	 encontrava-se	 entre	 dois	 setores	 oposicionistas	 extremados:	 à	
direita,	grupos	políticos,	empresariais	e	militares	que	admitiam	a	saída	golpista	para	
retirá-lo	do	poder;	à	esquerda,	“uma	tendência	não	menos	golpista	desencadeada	
pela	 direção	 do	 PCB”.	 (PENNA,	 1999,	 p.	 218).	 Em	 junho	 deste	 mesmo	 ano	 o	
Congresso	brasileiro	vota	o	impeachment	de	Vargas.	Embora	não	tenha	sido	aceito,	
a	pressão	sobre	o	governo	permaneceu	muito	grande.
Ao	que	tudo	indica,	Vargas	interpretava	a	situação	de	pressão	como	sendo	o	
ônus	a	ser	pago	na	implantação	de	seu	projeto	político.	Contudo,	elementos	ligados	
diretamente	ao	presidente	não	interpretavam	os	acontecimentos	da	mesma	forma.	
Agindo	 à	 revelia	 das	 ordens	 de	 Vargas,	 elaboraram	 um	 plano	 para	 eliminar	 o	
maior	delator	do	presidente.	Em	agosto	um	atentado	contra	Carlos	Lacerda	resulta	
na	morte	do	seu	acompanhante,	Rubens	Tolentino	Vaz,	um	major	da	Aeronáutica.	
Lacerda	canalizou	o	acontecimento	em	favor	de	seus	próprios	argumentos.	
A	 atmosfera	 em	 torno	 de	 Vargas	 ficou	 absolutamente	 nebulosa.	 Um	 inquérito	
aberto	 pela	Aeronáutica	 para	 investigar	 o	 atentado	 –	 que	 resultou	na	 acusação	
de	pessoas	próximas	a	Vargas	–	levou	“o	velho”	a	admitir	estar	mergulhado	em	
um	“mar	de	 lama”.	A	pressão	pela	 renúncia	 foi	 enfrentada	 com	a	proposta	de	
licença	provisória,	sugerida	por	Vargas,	ao	que	se	seguiu	a	 imediata	recusa	por	
parte	dos	opositores.	No	dia	24	de	agosto	de	1954,	no	Palácio	do	Catete,	Rio	de	
Janeiro,	às	oito	horas	e	trinta	minutos	da	manhã,	o	presidente	senta	na	cama	de	
seu	quarto,	põe	um	revólver	à	altura	do	peito	e	puxa	o	gatilho.	Ao	entrarem	no	
quarto,	os	familiares,	acompanhados	pelo	médico	pessoal	de	Vargas,	o	encontram	
agonizante.	Na	mesa	de	cabeceira,	uma	carta:
Mais	 uma	 vez,	 as	 forças	 e	 os	 interesses	 contra	 o	 povo	 coordenaram-
se	 e	 novamente	 se	 desencadeiam	 sobre	mim.	Não	me	 acusam,	 insultam;	 não	
me	combatem,	caluniam,	e	não	me	dão	o	direito	de	defesa.	Precisam	sufocar	a	
minha	voz	e	impedir	a	minha	ação,	para	que	eu	não	continue	a	defender,	como	
sempre	defendi,	o	povo	e	principalmente	os	humildes.	Sigo	o	destino	que	me	é	
imposto.	Depois	de	decênios	de	domínio	e	espoliação	dos	grupos	econômicos	
86
UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
e	 financeiros	 internacionais,	 fiz-me	 chefe	 de	 uma	 revolução	 e	 venci.	 Iniciei	 o	
trabalho	de	libertação	e	instaurei	o	regime	de	liberdade	social.	Tive	de	renunciar.	
Voltei	ao	governo	nos	braços	do	povo.	
A	 campanha	 subterrânea	 dos	 grupos	 internacionais	 aliou-se	 à	 dos	
grupos	nacionais	revoltados	contra	o	regime	de	garantia	do	trabalho.	A	lei	de	
lucros	extraordinários	foi	detida	no	Congresso.	Contra	a	 justiça	da	revisão	do	
salário	mínimo	 se	 desencadearam	 os	 ódios.	 Quis	 criar	 liberdade	 nacional	 na	
potencialização	das	nossas	riquezas	através	da	Petrobrás	[sic]	e,	mal	começa	esta	
a	funcionar,	a	onda	de	agitação	se	avoluma.	A	Eletrobrás	foi	obstaculada	até	o	
desespero.	Não	querem	que	o	trabalhador	seja	 livre.	Não	querem	que	o	povo	
seja	independente.	
Assumi	o	governo	dentro	da	espiral	inflacionária	que	destruía	os	valores	
do	trabalho.	Os	lucros	das	empresas	estrangeiras	alcançavam	até	500%	ao	ano.	
Nas	declarações	de	valores	do	que	importávamos	existiam	fraudes	constatadas	
de	mais	de	100	milhões	de	dólares	por	ano.	Veio	a	crise	do	café,	valorizou-se	
o	nosso	principal	produto.	Tentamos	defender	seu	preço	e	a	resposta	foi	uma	
violenta	pressão	sobre	a	nossa	economia,	a	ponto	de	sermos	obrigados	a	ceder.
Tenho	 lutado	 mês	 a	 mês,	 dia	 a	 dia,	 hora	 a	 hora,	 resistindo	 a	 uma	
pressão	constante,	 incessante,	 tudo	suportando	em	silêncio,	 tudo	esquecendo,	
renunciando	 a	 mim	 mesmo,	 para	 defender	 o	 povo,	 que	 agora	 se	 queda	
desamparado.	 Nada	 mais	 vos	 posso	 dar,	 a	 não	 ser	 meu	 sangue.	 Se	 as	 aves	
de	 rapina	 querem	 o	 sangue	 de	 alguém,	 querem	 continuar	 sugando	 o	 povo	
brasileiro,	eu	ofereço	em	holocausto	a	minha	vida.	Escolho	este	meio	de	estar	
sempre	convosco.	
Quando	vos	humilharem,	sentireis	minha	alma	sofrendo	ao	vosso	lado.	
Quando	a	fome	bater	à	vossa	porta,	sentireis	em	vosso	peito	a	energia	para	a	luta	
por	vós	e	vossos	filhos.	Quando	vos	vilipendiarem,	sentireis	no	pensamento	a	
força	para	a	reação.	Meu	sacrifício	vos	manterá	unidos	e	meu	nome	será	a	vossa	
bandeira	de	luta.	Cada	gota	de	meu	sangue	será	uma	chama	imortal	na	vossa	
consciência	e	manterá	a	vibração	sagrada	para	a	resistência.	Ao	ódio	respondo	
com	o	perdão.	E	aos	que	pensam	que	me	derrotaram	respondo	com	a	minha	
vitória.	Era	escravo	do	povo	e	hoje	me	liberto	para	a	vida	eterna.	Mas	esse	povo	
de	quem	fui	escravo	não	mais	será	escravo	de	ninguém.	Meu	sacrifício	ficará	
para	sempre	em	sua	alma	e	meu	sangue	será	o	preço	do	seu	resgate.	
Lutei	contra	a	espoliação	do	Brasil.	Lutei	contra	a	espoliação	do	povo.	
Tenho	lutado	de	peito	aberto.	O	ódio,	as	infâmias,	a	calúnia	não	abateram	meu	
ânimo.	Eu	vos	dei	a	minha	vida.	Agora	vos	ofereço	a	minha	morte.	Nada	receio.	
Serenamente	dou	o	primeiro	passo	no	caminho	da	eternidade	e	saio	da	vida	para	
entrar	na	História.
(Rio	de	Janeiro,	24/08/1954	–	Getúlio	Vargas)
 
FONTE: CARTA-TESTAMENTO de Vargas. Disponível em: <http://www.espacoacademico. com.
 br/047/47cvianna.htm>. Acesso em: 24 abr. 2010.
TÓPICO 3 | A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES DA DEMOCRACIA
87
FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/
 Ficheiro:GetulioVargasPijamaRevolver.jpg>. Acesso em: 7 maio 
 2010.
Por	 maiores	 que	 sejam	 as	 possibilidades	 de	 interpretação	 deste	 ato	
derradeiro	de	Vargas,	é	difícil	negar	que	tenha	se	tratado	de	um	golpe	de	mestre.	
Seu	suicídio	–	emoldurado	por	um	conjunto	de	palavras	escolhidas	de	maneira	
absolutamente	sagaz	–	foi	responsável	por	uma	intensa	mobilização	das	massas	
populares,	causando	inúmeros	distúrbios	e	manifestações	em	vários	locais	do	país.	
A	uma	só	vez	Vargas	recuperou	o	apelo	popular	e	invalidou	qualquer	possibilidade	
de	êxito	do	espectro	golpista	que	se	armava	no	interior	das	forças	armadas.
FONTE: Disponível em: CENTRO de Referência da História Republicana. 
 <http:// www.republicaonline.org.br/reponlinenav/>. Acesso em: 5 
 maio 2010.
FIGURA 24 – PIJAMA E REVÓLVER USADOS POR GETÚLIO VARGAS NA 
 MANHÃ EM QUE SE SUICIDOU (MUSEU DA REPÚBLICA)
FIGURA 25 – PALÁCIO DO CATETE 
88
UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
A Figura 25 mostra a concentração de populares à porta do Palácio do Catete, 
após a notícia do suicídio do Presidente Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954.
4 DE KUBITSCHEK A JOÃO GOULART
Após	 a	 morte	 de	 Vargas,	 a	 Presidência	 da	 República	 é	 assumida	 por	
João	Fernandes	Campos	Café	Filho.	Durante	este	governo	são	preparadas	novas	
eleições.	O	momento	era	o	de	escolher	candidatos	e	promover	as	alianças.	A	UDN	
optou	por	um	candidato	militar,	Juarez	Távora.	O	discurso	do	partido,	contrário	
ao	 salário	 mínimo,	 ao	 direito	 de	 greve	 e	 ao	 ensino	 gratuito,	 como	 seria	 de	 se	
esperar,	 resultou	na	derrota	do	partido.	Contra	a	UDN	coligaram-se	o	PTD	e	o	
PSD,	cujo	candidato	era	o	mineiro	Juscelino	Kubitschek.	Ao	PTD	coube	a	indicação	
do	vice,	 João	Goulart.	Vitoriosa	na	eleição,	a	coligação	não	encontrou	um	clima	
favorável,	pois	militares	alegavam	a	necessidade	de	maioria	absoluta	nas	eleições	
presidenciais	(Juscelino	obtivera	36%	dos	votos,	contra	30%	de	Juarez	Távora).	Sem	
obter	respaldo	junto	aos	legalistas,	a	corrente	militar	antinacionalista	é	obrigada	
a	 aceitar	 a	 posse	 do	 novo	presidente,	 não	 sem	 antes	 pôr	 em	prática	mais	 uma	
tentativa	golpista.
Ao	assumiro	governo,	 Juscelino	procura	resolver	alguns	problemas	que	
fatalmente	lhe	seriam	um	entrave.	Em	meio	ao	embate	entre	grupos	nacionalistas	e	
antinacionalistas,	procura	conciliar	propostas.	Não	abre	mão	do	intervencionismo	
estatal,	mas	abre	a	economia	para	investimentos	estrangeiros.	Em	linhas	gerais	é	
possível	afirmar	que
O	novo	governo,	aliado	do	PTB,	conserva	traços	populistas.	No	entanto,	
a	política	econômica	representa	uma	alteração	profunda	em	relação	ao	
modelo	precedente.	Durante	os	dois	governos	de	Vargas,	a	prioridade	
do	 desenvolvimento	 nacional	 constituiu	 no	 crescimento	 da	 indústria	
de	base,	produtora	de	aço	ou	de	fontes	de	energia,	como	petróleo	ou	
eletricidade.	 Naquele	 modelo,	 a	 iniciativa	 estatal	 predominava	 e	 os	
recursos	 para	 o	 crescimento	 econômico	 advinham	 da	 economia	 de	
exportação.	 Pois	 bem,	 Juscelino	 Kubitschek	 altera	 a	 forma	 de	 nosso	
crescimento	industrial,	instituindo	o	que	os	historiadores	economistas	
chamam	de	 tripé:	 a	 associação	de	 empresas	privadas	brasileiras	 com	
multinacionais	e	estatais,	essas	últimas	responsáveis	pela	produção	de	
energia	e	insumos	industriais.	(DEL	PRIORE;	VENÂNCIO,	2003,	p.	338-
339).
UNI
TÓPICO 3 | A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES DA DEMOCRACIA
89
FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/
 Ficheiro:Juscelino_Kubitschek.jpg>. Acesso em: 7 maio 
 2010.
Outra	diferença	marcante	desse	modelo	de	desenvolvimento	 econômico	
em	relação	ao	conduzido	por	Vargas	foi	o	 investimento	maciço	na	produção	de	
bens	duráveis,	tais	como	os	automóveis	produzidos	por	empresas	multinacionais.	
Os	automóveis,	inclusive,	podem	ser	tomados	como	um	dos	símbolos	do	período	
de	euforia	e	otimismo	pelo	qual	passou	a	história	brasileira,	de	maneira	específica,	
e	o	capitalismo,	num	plano	geral.	Segundo	o	historiador	Eric	Hobsbawm	(1995),	
os	anos	de	1950	foram	representantes	por	excelência	dos	“anos	dourados”	ou	“A	
Era	de	Ouro”.	Embora	países	desenvolvidos	do	Hemisfério	Norte	tenham	sido	os	
maiores	beneficiários	desta	era	de	bonança,	nosso	país,	de	fato,	viveu	um	momento	
singular.
Transformações:	 nos	 mais	 variados	 cenários	 urbanos,	 surgimento	 de	
novas	 cidades,	 a	 exemplo	 da	 nova	 capital,	 Brasília	 (maior	 ícone	 do	 projeto	 de	
modernização	do	Brasil);	cinema,	televisão,	esta	última,	em	processo	de	expansão	
acelerado,	adentrando	lares,	moldando	gostos,	disseminando	valores	e	visões	de	
mundo;	euforia	nos	esportes:	o	Brasil	é	campeão	mundial	pela	primeira	vez.	Estes	
exemplos	nos	dão	uma	noção	de	que	a	realidade	brasileira	era	muito	diferente	do	
que	fora	em	momentos	anteriores.	Durante	o	governo	de	Juscelino	o	populismo	
chegou	ao	seu	auge.	O	Plano de Metas,	cujo	lema	era	“cinquenta	anos	em	cinco”,	
expressão	máxima	do	nacional-desenvolvimentismo,	resultou	na	criação	de	novas	
rodovias,	na	ampliação	da	fronteira	agrícola	em	direção	a	estados	como	Goiás	e	
Mato	Grosso.	Evidentemente,	tudo	isso	só	foi	possível	mediante	a	disponibilidade	
de	capital.
FIGURA 26 – JUSCELINO KUBITSCHEK E CORRELIGIONÁRIOS NO 
 DIA DA SUA POSSE 
90
UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:0741_
 NOV_B_05_Esplanada_ dos_Ministerios_Brasilia_DF_03_09_1959.
 jpg>. Acesso em: 7 maio 2010.
Uma	das	fontes	de	capital,	como	vimos,	foi	o	investimento	estrangeiro.	Este	
não	se	originou	de	um	ato	de	altruísmo	de	potências	estrangeiras,	objetivando,	pelo	
contrário,	 aproveitar	 o	máximo	possível	 as	 condições	de	 reprodução	do	 capital	
que	 o	 nosso	país	 oferecia.	 Por	 outro	 lado,	 Juscelino	utilizou	de	maneira	 ampla	
a	 expansão	 da	 base	 monetária	 para	 financiar	 os	 déficits	 de	 orçamento,	 bancar	
aumentos	salariais	(em	1959,	para	se	ter	uma	ideia,	o	salário	mínimo	alcançou	um	
poder	aquisitivo	não	alcançado	até	o	presente	momento)	e	atividades	produtivas.	
O	 resultado	mais	 imediato	 desse	 tipo	 de	 política	 econômica	 foi	 a	 elevação	 do	
índice	de	inflação	e	a	contração	de	uma	pesada	dívida	externa.	Esta	herança	seria	
um	presente	de	grego	para	os	governos	subsequentes.
FIGURA 27 – ESPLANADA DOS MINISTÉRIOS – 1959
A Figura 27 mostra uma foto tirada por ocasião da construção de Brasília, Esplanada 
dos Ministérios – 1959, Arquivo Público do Distrito Federal.
UNI
TÓPICO 3 | A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES DA DEMOCRACIA
91
FONTE: Disponível em: CPDOC/FGV. <http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/
 JK/artigos/ Economia/PlanodeMetas>. Acesso em: 7 maio 2010.
FIGURA 28 – JUSCELINO EM PALESTRA NO CLUBE MILITAR, DIVULGAÇÃO DO 
PLANO DE METAS, RIO DE JANEIRO – 1959
De	maneira	geral	é	possível	sustentar	a	afirmação	de	que	o	balanço	político	
do	governo	de	Juscelino	Kubitschek	foi	favorável.	Além	de	conseguir	cumprir	os	
pontos	 essenciais	 do	 seu	 programa	 de	 governo,	 tais	 como	 aqueles	 relativos	 ao	
campo	econômico,	Kubitschek	 soube	administrar	bem	os	 interesses	 conflitantes	
com	os	 quais	 convivia.	 Por	 outro	 lado,	 Penna	 (1999)	 afirma	 que	 possivelmente	
devido	 à	 impotência	 demonstrada	 ou	 pelo	 estímulo	 às	 práticas	 fisiológicas,	
os	 observadores	 mais	 atentos	 desse	 governo	 concordam	 em	 considerá-lo	 forte	
politicamente,	mas	frágil	institucionalmente.	O	governo	tinha	boas	bases	políticas,	
mas	 as	 instituições	 não	 estavam	 consolidadas.	A	 explicação	 para	 esta	 situação	
pode	 ser	 encontrada	 justamente	 no	 fenômeno	 do	 populismo,	 pois,	 ao	 mesmo	
tempo	em	que	este	ensejava	a	participação	das	massas	na	política,	não	estimulava	
sua	organização.	Seja	como	for,	não	foi	no	governo	de	Kubitschek	que	o	populismo	
encontrou	seu	momento	derradeiro.
Desde	 o	 governo	Dutra	 a	 formação	de	 novos	 partidos	 políticos	 não	 era	
algo	difícil	de	ocorrer.	Neste	período	de	redemocratização	a	emergência	de	novas	
propostas	e	novos	candidatos	não	chegava	a	ameaçar	os	três	grandes	partidos.	A	
novidade	neste	cenário	ficou	por	conta	da	projeção	alcançada	por	Jânio	Quadros,	
representante	do	Partido	Democrata	Cristão	 (PDC).	Orador	 inflamado,	com	um	
discurso	anticomunista	e	uma	retórica	moralista,	Jânio	atraiu	a	atenção	de	membros	
da	UDN	e	acabou	sendo	a	aposta	do	partido	para	a	disputa	das	eleições	de	1960.	
Concorrendo	contra	a	coligação	PSD/PTB,	que	lançara	como	candidato	o	general	
Teixeira	Lott,	da	ala	nacionalista	do	exército,	Jânio	obtém	uma	vitória	esmagadora,	
em	grande	medida	resultado	da	capacidade	deste	político	de,	mesmo	sendo	de	
direita,	conquistar	o	apoio	das	massas.	
92
UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
O	mais	intrigante	nas	eleições	de	1960	foi	a	inversão	de	papéis	orquestrada	
pelos	 grandes	 partidos	 nacionais.	 Enquanto	 a	 UDN	 –	 absolutamente	 avessa	 à	
incorporação	das	massas	ao	 jogo	político	–	apoia	um	candidato	com	inclinações	
populistas,	o	PSD	resolve	 lançar	um	militar	 cujo	passado	militava	a	 favor	 (Lott	
fora	um	dos	militares	legalistas	que	garantiram	a	posse	de	Juscelino	Kubitschek),	
mas	que	não	tinha	apelo	junto	às	massas	populares.	O	fato	é	que,	embora	a	UDN	
tenha	feito	a	aposta	certa,	chegando	assim	ao	poder,	as	ações	governamentais	de	
Jânio	 logo	 se	mostraram	 frustrantes	 para	 os	 udenistas,	 pois	 o	 novo	 presidente	
pouco	consultava	a	coligação	de	partidos	que	o	elegeu.	Da	mesma	forma,	tentava	
governar	à	revelia	do	Poder	Legislativo.
FONTE: Disponível em: CPDOC/FGV – Arquivo Castilho Cabral. <http://
 cpdoc.fgv.br/producao/dossies/Jango/artigos/
 Campanha1960/A_campanha_presidencial_de_1960>. Acesso 
 em: 7 maio 2010.
FIGURA 29 – JÂNIO QUADROS (AO CENTRO) EM EVENTO DO 
MOVIMENTO POPULAR JÂNIO QUADROS, 1959-1960
Do	ponto	de	vista	das	políticas	econômicas,	Jânio	Quadros	promove	açõesbastante	coerentes	objetivando	combater	os	altos	índices	de	inflação	que	vigoravam	
no	país.	Desagradando	a	UDN,	põe	em	prática	o	não	alinhamento	com	os	Estados	
Unidos	 e	 passa	 a	 valorizar	 acordos	 comerciais	 com	países	do	 bloco	 comunista.	
Resguardado	 o	 desagrado,	 parecia	 que	 o	 risco	 de	 instabilidade	 política	 havia	
diminuído,	a	não	 ser	por	 interessante	detalhe	 sustentado	pelas	 regras	eleitorais	
vigentes:	era	possível	votar	no	candidato	a	presidente	de	uma	chapa	e	no	vice	de	
outra.	O	resultado	dessa	“pérola	eleitoral”	pôs	no	Poder	Executivo	um	candidato	
da	UDN	e,	como	vice,	um	candidato	do	PSD.	Este	último,	João	Goulart.
Embora	 o	 governo	de	 Juscelino	Kubitschek	 tenha	procurado	 ampliar	 as	
fronteiras	 agrícolas	do	país,	 a	preferência	dada	 ao	modelo	de	desenvolvimento	
industrial	gerou	um	problema	com	o	qual	Jânio	Quadros	teve	que	conviver.	No	
início	dos	anos	de	1960	havia	uma	disparidade	significativa	entre	o	aumento	da	
população	urbana	e	a	capacidade	de	produção	agrícola	do	país.	Como	resultado,	
crises	de	abastecimento	levaram	a	revoltas	e	inquietações	populares	generalizadas.	
Novas	formas	de	organização	social,	tanto	na	cidade	quanto	no	campo,	davam	o	
ritmo	das	 reivindicações	que,	dentre	outras	coisas,	estavam	atentas	ao	processo	
TÓPICO 3 | A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES DA DEMOCRACIA
93
acelerado	 de	 concentração	 de	 renda	 presenciado	 no	 país	 desde	 o	 governo	
Kubitschek.
Conforme	 vimos	 em	 momento	 anterior,	 situações	 nas	 quais	 a	 pressão	
sobre	o	chefe	do	Executivo	tende	a	inviabilizar	a	governabilidade	geram	medidas	
excepcionais.	 Estas	 podem	 ser	 conciliatórias,	 desesperadas,	 autoritárias	 ou	
absolutamente	inusitadas.	Jânio	Quadros	optou	por	esta	última:	renuncia	tendo	em	
mente	que,	diante	do	impasse	criado,	no	melhor	dos	quadros	possíveis	o	próprio	
povo	sairia	às	ruas	para	clamar	por	sua	permanência	no	poder.	Isto	não	aconteceu.
Conforme	 ele	 [Jânio]	 próprio	 reconhece,	 em	 livro	 organizado	 alguns	
anos	mais	tarde	sobre	a	História do Povo Brasileiro,	seu	objetivo	era	forçar	
uma	intervenção	militar:	primeiro, operar-se-ia a renúncia; segundo, abrir-
se-ia o vazio sucessório – visto que a João Goulart, [...], não permitiriam as 
forças militares a posse, e, destarte, ficaria o país acéfalo; terceiro, ou bem se 
passaria a uma fórmula, em consequência da qual ele mesmo emergisse como 
primeiro mandatário, mas já dentro de um novo regime institucional, ou bem, 
sem ele, as forças armadas se encarregariam de montar esse novo regime... 
O	 aprendiz	 de	 ditador	 fracassa	 por	 causa	 da	 “vacilação	 dos	 chefes	
militares”.	Instala-se,	porém,	grave	crise	política,	cujo	desfecho	final	tem	
uma	data	marcada:	31	de	março	de	1964.	(DEL	PRIORE;	VENÂNCIO,	
2003,	p.	344,	grifos	no	original).
FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/J%C3%A2nio_
 Quadros>. Acesso em: 7 maio 2010.
FIGURA 30 – CARTA RENÚNCIA DE JÂNIO QUADROS
A carta renúncia de Jânio Quadros: “Ao Congresso Nacional. Nesta data, e por 
este instrumento, deixando com o Ministro da Justiça, as razões de meu ato, renuncio ao 
mandato de Presidente da República. Brasília, 25.8.61.”
UNI
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UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
Após	 a	 renúncia	 de	 Jânio	 o	 cenário	 político	 brasileiro	 ficou	 muito	
conturbado.	Do	ponto	de	vista	constitucional	esta	renúncia	implicava	a	posse	do	
vice-presidente,	 João	Goulart.	Conforme	previra	 Jânio	 –	 não	 integralmente	 –,	 a	
posse	do	novo	presidente	 foi	dificultada.	De	 imediato	é	necessário	 lembrar	que	
João	Goulart,	 ou	 “Jango”,	 em	 sua	 atuação	 como	político,	 já	 havia	 desagradado	
em	muito	a	uma	parcela	conservadora	da	sociedade	brasileira.	Além	do	aumento	
de	100%	no	salário	mínimo,	ainda	durante	o	governo	Vargas,	Jango	era	defensor	
das	chamadas	“Reformas	de	Base”,	que,	por	motivos	que	veremos	mais	à	frente,	
contrariavam	muitos	interesses.
Alguns	 grupos	 militares	 demonstraram-se	 imediatamente	 contrários	 à	
posse	de	Jango.	Contudo,	por	ter	sido	eleito	através	do	voto	direto,	sua	posição	
ganhava	 legitimidade	 e	 respaldo	 junto	 a	 muitos	 setores	 legalistas	 do	 exército.	
Contando	com	o	auxílio	de	Leonel	Brizola,	governador	do	Rio	Grande	do	Sul,	que,	
no	início	dos	anos	de	1960,	despontava	como	uma	nova	liderança	nacional	do	PTB,	
Jango	obteve	o	apoio	do	III	Exército	para	a	posse.	Brizola	 inclusive	 lançou	uma	
campanha	nacional,	através	dos	meios	de	comunicação	de	massa,	pela	posse	do	
presidente.	Como	ambos	os	lados	do	certame	tinham	à	sua	disposição	armas	e	um	
número	elevado	de	simpatizantes,	era	necessário	negociar	ou	o	país	entraria	em	
uma	guerra	civil.	Mais	uma	vez	o	caminho	golpista	foi	barrado.
A	 saída	 encontrada	 para	 resolução	 do	 impasse	 foi	 a	 adoção	 do	 sistema	
parlamentarista.	De	acordo	com	ele,	Jango	assumiria	a	Presidência	sem	maiores	
percalços,	 mas	 a	 chefia	 do	 Executivo	 ficaria	 a	 cargo	 de	 um	 Primeiro-Ministro,	
indicado	pelo	presidente	e	aprovado	pelo	Congresso	Nacional.	Posto	em	exercício	
o	 sistema	parlamentarista,	mostrou-se	um	verdadeiro	 fracasso,	pois	as	políticas	
econômicas	 implementadas	 no	 período	 não	 conseguiram	 dar	 cabo	 da	 grave	
crise	 econômica	 que	 oprimia	 o	 país.	 Jango	 aproveita	 a	 situação	 para	 antecipar	
um	 plebiscito	 que	 seria	 realizado	 (nove	 meses	 antes	 do	 término	 do	 mandato	
presidencial)	para	optar	ou	não	pela	manutenção	do	parlamentarismo.	O	resultado	
da	consulta	confere	ao	Brasil	um	retorno	ao	presidencialismo.	Em	janeiro	de	1963	
Jango	assume	o	Poder	Executivo.
Os	 atropelos	 associados	 à	 sucessão	 e	 ao	 período	 do	 parlamentarismo	
indicavam	que	o	governo	de	Jango	seria	cambaleante.	As	pressões	populares	que,	
até	então,	 tinham	como	centro	irradiador	o	meio	urbano,	alcançaram	também	o	
meio	rural.	Em	verdade,	por	ocasião	da	campanha	pelo	presidencialismo,	Jango	
comprometeu-se	 com	 as	massas	 alegando	 que	 seria	 o	 presidente	 das	 reformas	
sociais.	Para	tanto,	seu	objetivo	era	conseguir	pôr	em	prática	as	 já	mencionadas	
reformas de base,	 que	 incluíam	 reformas	 na	 estrutura	 agrária,	 tributária,	
administrativa,	bancária,	educacional	e	eleitoral.	Todas	essas	medidas	faziam	parte	
de	um	conjunto	mais	amplo	de	ação	representado	pelo	Plano	Trienal,	cujo	escopo	
primário	era	a	redução	das	desigualdades	regionais,	a	dinamização	da	economia	e	
um	crescimento	econômico	que	impedisse	a	marcha	da	inflação.
TÓPICO 3 | A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES DA DEMOCRACIA
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FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/
 Ficheiro:Jo%C3% A3o_Goulart_NYWTS.jpg>. Acesso em: 7 
 maio 2010.
FIGURA 31 – JOÃO GOULART EM VISITA AOS ESTADOS UNIDOS – 
1962
Dentre	 todas	 as	 medidas	 anteriormente	 apontadas,	 uma	 das	 mais	
importantes	era	a	reforma	agrária.	A	estrutura	fundiária	do	Brasil,	historicamente	
voltada	 ao	 latifúndio	 agroexportador,	 demonstrava-se	 pouco	 condizente	 com	 a	
nova	realidade	urbano-industrial	do	país.	Este	modelo	não	dava	conta	de	abastecer	
de	maneira	 eficiente	 os	 grandes	 centros	 urbanos,	 elevando	 os	 custos	 de	 vida	 e	
impedindo	que	aos	trabalhadores	sobrassem	recursos	para	aquisição	de	produtos	
industriais.	Del	Priore	e	Venâncio	(2003)	resumem	a	situação:	sem	reforma	agrária	
a	economia	brasileira	estaria	fadada	à	estagnação	ou,	na	melhor	das	hipóteses,	por	
demais	dependente	em	relação	aos	investimentos	estrangeiros.		
Ciente	da	gravidade	da	situação,	Jango	enviou	ao	Congresso	Nacional	um	
anteprojeto	de	reforma	constitucional	que	permitisse	o	início	das	discussões	sobre	
as	necessárias	reformas	de	base.	Sem	o	menor	interesse	em	negociar,	tanto	a	UDN	
quando	o	PSD	posicionaram-se	frontalmente	contra	a	possibilidade	de	mudanças	
na	Constituição,	principalmente	mudanças	relacionadas	à	questão	agrária,	visto	
queparte	do	corpo	partidário	das	duas	siglas	congregava	membros	e	representantes	
dos	proprietários	rurais.	A	situação	do	presidente	era	muito	complicada:	por	um	
lado	 era	 acusado	 de	 ser	 defensor	 de	 uma	 guinada	 à	 esquerda	 (subentenda-se	
socialista)	dos	rumos	políticos	e	sociais	do	Brasil;	por	outro,	a	própria	esquerda	
acusava	a	fraqueza	do	governo	por	não	conseguir	efetivar	importantes	questões	
sociais	que	prescindiam	da	aprovação	do	Congresso.	
O	 isolamento	 de	 Jango	 em	 relação	 às	 elites	 o	 conduziu	 a	 uma	 maior	
aproximação	em	relação	à	ala	radical	do	trabalhismo,	liderado	por	Leonel	Brizola	
(defensor	da	mobilização	popular	a	 favor	para	pressionar	as	reformas	de	base).	
Neste	momento,	
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UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
[...]	em	parte	devido	à	inflação,	e	também	a	essa	política	populista,	as	
greves	se	multiplicam.	Assim,	é	possível	afirmar,	por	exemplo,	que	de	
1961	a	1963	ocorreram	mais	movimentos	grevistas	do	que	no	período	
compreendido	entre	1950	e	1960.	No	que	diz	respeito	às	greves	gerais,	ou	
seja,	aquelas	envolvendo	várias	categorias	socioprofissionais,	o	aumento	
registrado	 no	 mesmo	 período	 é	 de	 350%!	 Não	 é	 difícil	 imaginar	 os	
transtornos	criados	nos	serviços	básicos	de	saúde	e	transportes	coletivos	
por	esse	tipo	de	prática,	tornando	o	presidente	bastante	impopular	junto	
às	classes	médias	e	 fatias	 importantes	dos	 trabalhadores.	Mais	ainda:	
observa-se,	durante	seu	governo,	o	declínio	acentuado	da	repressão	aos	
grevistas,	dando	munição	aos	que	disseminavam,	entre	as	elites,	o	medo	
em	relação	à	implantação	de	uma	república sindicalista	no	Brasil.	(DEL	
PRIORE;	VENÂNCIO,	2003,	p.	350).
 
O	 fato	 é	 que,	 até	 aquele	momento,	 nunca	 as	 pressões	 populares	 foram	
tão	 intensas	 em	 toda	história	do	país.	O	 jogo	político	 que	 até	 então	havia	 sido	
um	 privilégio	 parlamentar	 adentrava	 agora	 os	 mais	 diversos	 locais	 em	 que	
houvesse	concentração	de	populares.	No	campo	ocorria	a	formação	de	sindicatos	
que	 reclamavam	pela	viabilização	da	 reforma	agrária	e	o	cumprimento	das	 leis	
trabalhistas	 que,	 em	 1963,	 foram	 estendidas	 aos	 trabalhadores	 rurais.	 Desde	
1955	a	revolta	frente	à	situação	de	opressão	no	campo	fora	cristalizada	nas	Ligas 
Camponesas	(organizadas	por	Francisco	Julião),	cujo	lema	era	levar	a	justiça	para	
o	 campo	 através	 da	 reforma	 agrária.	 Nas	 cidades,	 os	 estudantes,	 organizados	
em	 agrupamentos	 de	 esquerda,	 defendiam	 uma	 aliança	 entre	 os	 operários,	 os	
camponeses	e	os	estudantes.
Em	meio	a	este	clima	de	gritante	instabilidade,	no	início	de	1964,	Jango	envia	
ao	Congresso	Nacional	um	projeto	de	reforma	agrária	que	é	derrotado.	A	saída	
frente	a	esta	derrota	foi	apelar	para	a	mobilização	das	massas	visando	pressionar	
o	 Poder	 Legislativo.	No	 dia	 13	 de	março	 de	 1964	 organiza	 um	 comício	 com	 a	
participação	de	aproximadamente	150	mil	pessoas,	onde	discursa	defendendo	a	
nacionalização	de	refinarias	particulares	de	petróleo	e	a	desapropriação	de	terras	
com	mais	de	100	hectares	localizadas	à	margem	de	rodovias	e	ferrovias	federais.	A	
direita	reage	a	manifestações	dessa	natureza	organizando,	com	o	apoio	da	Igreja	
Católica,	de	associações	empresariais	e	de	segmentos	da	classe	média,	a	“Marcha	
da	Família	com	Deus	pela	Liberdade”,	evento	que	reuniu	aproximadamente	250	
mil	pessoas	em	São	Paulo.
TÓPICO 3 | A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES DA DEMOCRACIA
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FONTE: Disponível em: CPDOC/FGV. <http://cpdoc.fgv.br/
 producao/dossies /Jango/album>. Acesso em: 7 maio 
 2010.
FIGURA 32 – PRESIDENTE JOÃO GOULART, AO LADO DA ESPOSA 
Devido	 à	 interferência	 de	 Jango	 em	 uma	 questão	 militar,	 anistiando	
marinheiros	que	participaram	de	um	levante	em	25	de	março,	setores	oposicionistas	
das	 Forças	Armadas	 conseguiram	 o	 apoio	 das	 facções	 legalistas.	A	 quebra	 da	
hierarquia	militar	 foi	 uma	 ingerência	 não	 tolerável	 por	 parte	 daqueles	 que,	 de	
alguma	medida,	poderiam	manter	a	ordem	institucional.	No	dia	31	de	março	o	
general	Mourão	Filho	desloca	 tropas	de	Minas	Gerais	em	direção	ao	Estado	da	
Guanabara,	à	época	governado	por	Carlos	Lacerda.	Movimentações	semelhantes	
seguem-se	 em	outras	 partes	 do	país.	 Sem	 resistência	militar	 ou	popular,	 Jango	
é	deposto.	A	UDN	participa	ativamente	do	movimento	e,	após	várias	tentativas,	
chega	 ao	 poder	 através	 de	 um	golpe.	Uma	ditadura	militar	 era	 implantada	 no	
Brasil.
A figura mostra o Presidente João Goulart, ao lado da esposa Maria Tereza, 
discursando no comício organizado na Central do Brasil, em 13 de março de 1964. 
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UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
FONTE: Disponível em: CPDOC/FGV. <http://cpdoc.fgv.br/producao/
dossies/Jango/album>. Acesso em: 7 maio 2010.
FIGURA 33 – MILITARES NO PALÁCIO DA GUANABARA, RIO DE JANEIRO, 
EM 31 DE MARÇO DE 1964
LEITURA COMPLEMENTAR I
A ÚLTIMA CARTADA
Vivo	ou	morto,	Getúlio	é	o	grande	mito	político	da	nossa	história	recente.	
Seu	 suicídio	 foi	o	golpe	de	mestre.	 Imobilizando	os	 inimigos,	 ele	possibilitou	a	
manutenção	da	ordem	democrática	e	a	eleição	de	Juscelino,	em	1955.
O	 suicídio	 de	 Getúlio	 Vargas,	 ocorrido	 há	 cinquenta	 anos,	 foi	 um	
acontecimento	trágico	e	único	da	História	do	Brasil,	razão	pela	qual	vem	sendo	
recordado	e	reforçado	por	múltiplos	mecanismos	de	memória.	Não	fosse	 isso	o	
suficiente,	o	ano	de	2004	também	assinala	os	quarenta	anos	do	golpe	civil-militar	
de	1964,	outro	evento	traumático	da	política	nacional,	que	guarda	com	o	suicídio	
um	laço	fundamental.	Não	só	os	analistas	políticos	profissionais,	como	também	
grande	parte	da	população	que	tem	acesso	a	informações,	sabem	e	repetem	que	o	
suicídio	adiou	por	dez	anos	o	golpe.	Ou	seja,	se	Vargas	não	tivesse	dado	um	tiro	no	
coração,	a	conspiração	que	então	se	armava	contra	ele	dificilmente	seria	evitada.
O	 segundo	 governo	 Vargas	 (1950-54)	 não	 transcorreu	 em	 clima	 de	
tranquilidade,	 tendo	 o	 presidente	 sofrido,	 sistematicamente,	 a	 oposição	 da	
maioria	da	imprensa	e	de	grande	parte	dos	setores	políticos	e	militares.	Mas,	em	
agosto	de	1954,	uma	grave	crise	se	instalara	com	o	atentado	ao	jornalista	Carlos	
Lacerda,	 desencadeando	 um	 impasse	 de	 graves	 proporções,	 onde	 se	 opunham	
um	 presidente	 eleito,	 gozando	 ainda	 de	 grande	 popularidade,	 e	 uma	 ferrenha	
e	 aguerrida	 oposição	 civil	 e	 militar,	 que	 acusava	 o	 governo,	 especificamente	
o	próprio	Vargas,	de	 estar	 envolvido	 em	um	“mar	de	 lama”.	Tudo	 isso,	 é	 bom	
lembrar,	tendo	como	cenário	a	Guerra	Fria,	que	alimentava	o	medo	aos	comunistas	
e	também	aos	sindicalistas.
TÓPICO 3 | A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES DA DEMOCRACIA
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A	 tensão	 chegou	 a	 tal	 ponto	 que	 a	 renúncia	 do	 presidente	 foi	 pedida,	
ficando	claro	que,	se	ele	não	se	afastasse,	seria	deposto	mais	uma	vez.	Foi	nessas	
circunstâncias	 que	Vargas	 se	matou,	 num	derradeiro	 golpe	 político	 que	 visava	
reverter	uma	situação	que	vinha	beneficiando	os	antigetulistas.	Lançando	sobre	
eles	seu	cadáver,	Vargas,	como	escreveu	na	carta-testamento,	oferecia	seu	corpo	
em	defesa	do	povo	da	pátria,	saindo	da	vida	para	entrar	na	História.	Nunca	se	
saberá	o	que	 teria	acontecido	no	Brasil	 caso	Vargas	não	 tivesse	se	matado.	Mas	
é	 certo	 que	 sua	 morte	 transformou	 o	 equilíbrio	 das	 forças	 políticas	 vigentes,	
bloqueando	o	golpe	que	se	armava	e	possibilitando	a	manutenção	da	legalidade	
constitucional,	com	a	realização	das	eleições	para	presidente,	em	que	saiu	vitorioso	
Juscelino	Kubitschek.	 Importa	 assim	 ressaltar	 o	 “sucesso”	 imediato	do	 suicídio	
para	a	manutenção	da	democracia	no	Brasil.	Trata-se	de	uma	excelente	janela	para	
se	adentrar	à	chamada	Era	Vargas	(1930-45),	e	aí,	particularmente,	para	se	pensar	
nas	razões	quetornaram	possível	a	construção	da	figura	desse	presidente	como	
um	mito	da	política	nacional.	É	bom	assinalar	que	a	memória	de	2004	reconstrói	os	
acontecimentos	de	1954	na	perspectiva	dos	quarenta	anos	do	regime	militar	e	de	
todas	as	frustrações	que	o	país	viveu	a	partir	daí.	Frustrações	que,	de	certa	forma,	
ainda	vivem,	até	porque	sob	o	governo	de	um	outro	presidente	que	possui	enorme	
popularidade,	Luiz	Inácio	Lula	da	Silva,	e	que,	como	Vargas,	também	conseguiu	
mobilizar	as	crenças	e	esperanças	do	povo	brasileiro.
FONTE: GOMES, Ângela de Castro. A última cartada. Nossa História, Rio de Janeiro, ano I, n.10, p. 
 14-15, ago. 2004. 
LEITURA COMPLEMENTAR II
GETÚLIO E OS ANOS DE 1930 A 1964
1930	–	Eclode	a	Revolução	de	30.	Um	grupo	de	militares	exige	a	renúncia	
do	presidente	Washington	Luís.	Getúlio	assume	o	governo.
1931	–	É	promulgada,	em	março,	a	Lei	de	Sindicalização,	subordinando	os	
sindicatos	ao	Ministério	do	Trabalho,	Indústria	e	Comércio	recém-criado.
1932	 –	 Promulgação	 do	 Código	 Eleitoral,	 que	 cria	 a	 Justiça	 Eleitoral	 e	
institui	 o	 voto	 secreto	 e	 o	 voto	 feminino.	 Em	 9	 de	 julho,	 eclode	 a	 Revolução	
Constitucionalista	 em	 São	 Paulo,	 que	 é	 derrotada	 pelo	Governo	 Provisório	 em	
outubro.	Fundada	a	Ação	Integralista	Brasileira	(AIB)	de	inspiração	fascista.
1933	–	Em	março,	realizam-se	eleições	e,	no	dia	15	de	novembro,	instala-se	
a	Assembleia	Nacional	Constituinte.
1934	–	Em	julho,	a	Assembleia	Nacional	Constituinte	promulga	uma	nova	
Constituição	e	elege	Getúlio	Presidente	da	República.
1935	–	Grupos	ligados	à	Aliança	Nacional	Libertadora	(ANL)	promovem	
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UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
revoltas	 em	 quartéis	 de	 Natal,	 Recife	 e	 Rio	 Janeiro,	 num	 episódio	 que	 ficaria	
conhecido	como	Intentona	Comunista.
1937	–	Instauração	da	ditadura	do	Estado	Novo.	Uma	nova	Constituição	é	
outorgada	ao	país.	O	Congresso	é	fechado	e	os	partidos	políticos	são	extintos.
1938	–	Integralistas	atacam	o	Palácio	Guanabara,	onde	o	presidente	e	sua	
família	se	encontravam.
1939	–	Criado	o	Departamento	de	 Imprensa	e	Propaganda	 (DIP),	 com	o	
objetivo	de	difundir	a	ideologia	do	Estado	Novo	junto	às	camadas	populares.	Tem	
início	a	Segunda	Guerra	Mundial.
1940	 –	Abril:	 a	 polícia	 desmantela	 o	 que	 restava	do	Partido	Comunista,	
prendendo	 todo	 seu	 Comitê	 Central;	 no	 Dia	 do	 Trabalho,	 1°	 de	 maio,	 a	 lei	
do	 salário	mínimo,	 de	 1938,	 entra	 em	vigor;	 julho:	 decreto	 federal	 estabelece	 o	
Imposto	Sindical;	setembro:	o	governo	norte-americano	aprova	empréstimo	para	a	
construção	da	Usina	Siderúrgica	de	Volta	Redonda.
1941	–	Criação	da	Companhia	Siderúrgica	Nacional	(CSN).	Instalação,	em	
todo	o	país,	da	Justiça	do	Trabalho.	
1942	–	O	Brasil	declara	guerra	ao	Eixo	completando	seu	alinhamento	com	
os	EUA.	
1943	–	Dia	do	Trabalho,	1°	de	maio,	é	anunciada	a	Consolidação	das	Leis	
do	Trabalho	(CLT).		
1945	–	Abril:	é	organizada	a	UDN;	funda-se	em	Belo	Horizonte	o	PSD;	maio:	
criação	do	Partido	Trabalhista	Brasileiro	(PTB).	Agosto:	líderes	sindicais	promovem	
no	Rio	de	Janeiro	a	primeira	manifestação	do	“Queremismo”,	pela	permanência	de	
Vargas;	outubro:	Vargas	é	deposto	pelo	Alto	Comando	do	Exército.	Eurico	Gaspar	
Dutra	é	eleito	presidente	e	Vargas	deputado	por	sete	estados	e	senador	pelo	Rio	
Grande	do	Sul	e	São	Paulo.
1946	 –	 Janeiro:	Dutra	 toma	 posse;	março:	 solicitada	 a	 cassação	 do	 PCB;	
junho:	 promulgada	 a	 nova	 Constituição;	 em	 setembro,	 a	Assembleia	 Nacional	
Constituinte	promulga	a	nova	Constituição.	
1950	 –	 Candidato	 do	 PTB,	 Vargas	 é	 eleito	 em	 outubro	 presidente	 da	
República.
1951	–	Getúlio	toma	posse	e	privilegia	medidas	que	considera	necessárias	
para	a	industrialização	do	país.
1952	–	Vargas	inaugura	o	Banco	Nacional	de	Desenvolvimento	Econômico	
(BNDE)	e	estatiza	a	geração	de	energia	elétrica,	decidido	a	lutar	pelos	interesses	
nacionais.
TÓPICO 3 | A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES DA DEMOCRACIA
101
1953	 –	 João	 Goulart	 (PTB),	 ministro	 do	 Trabalho,	 propõe	 aumento	 de	
100%	no	salário	mínimo.	É	criada	a	PETROBRAS	e	instituído	o	monopólio	estatal	
na	produção	de	petróleo.	Essas	medidas	provocam	a	 reação	dos	 conservadores	
liderados	pela	UDN.
1954	–	Atentado	contra	Carlos	Lacerda	(UDN)	provoca	a	crise	do	“mar	de	
lama”.	Na	madrugada	de	24	de	agosto,	durante	reunião	ministerial,	no	Palácio	do	
Catete,	Getúlio	é	pressionado	a	renunciar	ou	ser	deposto,	horas	depois	o	presidente	
suicida-se.	Com	a	morte	de	Vargas,	Jango	assume	a	responsabilidade	de	continuar	
sua	obra,	sob	a	bandeira	trabalhista.
1960	–	Jânio	Quadros	(UDN)	é	eleito	presidente	e	João	Goulart	(PTB-PSD),	
vice-presidente.
1961-	Jânio	renuncia	à	Presidência	no	dia	25	de	agosto.	Importantes	setores	
das	forças	armadas	se	opõem	à	posse	de	João	Goulart,	mas	ele	assume	o	cargo,	em	
setembro,	com	a	condição	de	aceitar	um	regime	parlamentar.
1963	 –	 Num	 plebiscito,	 80%	 dos	 eleitores	 optam	 pelo	 retorno	 do	
presidencialismo.	 Jango	estreita	as	alianças	com	o	movimento	sindical	e	setores	
nacional-reformistas.
1964	–	Golpe	civil-militar	depõe	Jango	em	1°	de	abril.	O	presidente	e	Leonel	
Brizola	exilam-se	no	Uruguai.
1979	–	De	volta	do	exílio,	Brizola	funda	o	Partido	Democrático	Trabalhista	
(PDT),	que	passou	a	ser	 identificado	como	herdeiro	da	tradição	trabalhista	e	da	
obra	de	Getúlio	Vargas.
FONTES: NOSSA HISTÓRIA. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, ano 1, n.10, p. 20 agosto 2004.
LINHARES, Maria Yedda (Org.). História geral do Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1990.
102
UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO”
Para aprofundamento destes temas, sugiro que você leia os seguintes livros e 
assista aos filmes indicados:
LIVROS:
COHEN, Marleine. JK - O Presidente Bossa Nova. Rio de Janeiro: Globo, 2001.
O livro reconstitui a vida de Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902-1976). A obra traça também 
o panorama político, social e cultural de uma época em que o Brasil vivia uma onda de 
entusiasmo com seu futuro. 
JARDIM, Serafim. Juscelino Kubitschek - Onde está a verdade?. Petrópolis: Vozes, 1999.
O autor, que em 1996 pediu a reabertura do inquérito sobre as circunstâncias da morte de JK, 
não apenas esmiúça o acidente de 22 de agosto de 1976, que acredita ter sido um atentado, 
como narra passagens da vida do ex-presidente, de quem foi um próximo colaborador. 
FILMES:
Jango. Brasil: Direção de Silvio Tendler, 1984. 
Realizado na época da campanha pelas eleições diretas para presidente, em 1984, “Jango” 
faz uma retrospectiva do governo João Goulart e dos acontecimentos que precederam sua 
deposição pelo golpe de 31 de março de 1964. Apesar do título, o filme escapa de um registro 
meramente personalista em torno da figura de João Goulart, aproveitando o momento político 
de sua realização para fazer um discurso sobre a volta da democracia. Tendler não se limita, 
na montagem dos documentos, ao golpe em si. Utiliza-se da personalidade de Jango como 
um pretexto para inserir uma colagem de imagens históricas do regime militar implantado em 
1964.
Cabra Marcado Para Morrer. Brasil: Direção de Eduardo Coutinho, 120 min. 1984.
Em fevereiro de 1964 inicia-se a produção de Cabra Marcado Para Morrer, que contaria a 
história política do líder da liga camponesa de Sapé (Paraíba), João Pedro Teixeira, assassinado 
em 1962. No entanto, com o golpe de 31 de março, as forças militares cercam a locação no 
engenho da Galileia e interrompem as filmagens. 
Dezessete anos depois, o diretor Eduardo Coutinho volta à região e reencontra a viúva de 
João Pedro, Elisabeth Teixeira – que até então vivia na clandestinidade –, e muitos dos outros 
camponeses que haviam atuado no filme antes brutalmente interrompido.
Além de: MARQUES, Ademar; BERUTTI, Flávio;FARIA, Ricardo. História Moderna: 
através de textos. 11º ed. São Paulo: Contexto, 2010. 
FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 
2007. 
DICAS
103
RESUMO DO TÓPICO 3
Revisando o conteúdo, é importante você ter em mente que:
•		Após	o	término	do	Estado	Novo	inicia-se	no	Brasil	um	processo	de	redemocratização	
que	se	estende	até	1964.	O	primeiro	presidente	eleito	democraticamente	no	período	
foi	o	militar	Eurico	Gaspar	Dutra.	
•	Entre	 1945	 e	 1964	o	número	de	 eleitores	 e	o	 seu	perfil	mudaram	de	maneira	
substancial.	A	 incorporação	de	novos	grupos	 sociais	 ao	 cenário	democrático	
demandou	a	constituição	de	mecanismos	de	captura	da	simpatia	do	eleitorado.	A	
chegada	ao	poder	pela	via	democrática	passou	a	exigir	uma	maior	aproximação	
em	relação	às	massas.
•	O	Populismo,	embora	surgido	já	no	primeiro	governo	de	Getúlio	Vargas,	ganha	
maior	projeção	neste	momento.	Este	consistia	em	um	processo	de	identificação,	
por	parte	das	massas,	com	uma	liderança	política	capaz	de	um	exercício	do	poder	
preocupado	com	o	desemprego	e	a	miséria.	Estabelecia	uma	relação	direta	entre	
o	líder	e	as	massas,	relação	esta	que	resultava	em	ganhos	tanto	para	as	massas	
quanto	para	o	líder.
•	O	governo	Dutra	apresentou	 fortes	 traços	do	 liberalismo	econômico,	vindo	a	
desenvolver	uma	postura	 contrária	 àquela	 adotada	durante	 o	Estado	Novo.	
Adepto	da	aproximação	em	relação	aos	Estados	Unidos,	abandonou	a	política	de	
desenvolvimento	amparado	pelo	Estado	e	promoveu	a	abertura	à	iniciativa	privada	
e	ao	capital	internacional.	A	passagem	agressiva	de	um	forte	intervencionismo	
estatal	 a	um	 liberalismo	agudo	 causou	grandes	 estragos	 ao	país	 e	 favoreceu	
politicamente	Getúlio	Vargas,	que	articulava	a	sua	volta	à	Presidência,	desta	vez	
pela	via	democrática.
•	Vargas,	representando	a	coligação	PTB/PSP,	é	eleito	com	48,7%	dos	votos	válidos.	
Teve	sua	posse	contestada	pela	UDN	mediante	alegação	de	que	era	necessária	
uma	votação	superior	a	50%	dos	votos	válidos.	Diante	desse	quadro,	Vargas	teve	
que	efetuar	uma	série	de	concessões	em	nome	da	governabilidade.	O	presidente	
distribuiu	os	ministérios	entre	o	PSD,	o	PTB,	o	PSP	e	a	UDN.
•	Do	ponto	de	vista	da	economia,	no	segundo	governo	de	Vargas	o	Brasil	enfrentou	
um	dilema	 relativo	 ao	 tipo	de	postura	 a	 ser	 adotada.	Uma	delas	defendia	o	
nacionalismo	e	a	participação	do	Estado	no	desenvolvimento	industrial.	A	outra	
defendia	a	ação	da	iniciativa	privada	brasileira,	associada	a	capitais	estrangeiros.
•	Vargas	opta	pela	política	nacionalista	com	participação	do	Estado.	Esta	postura	se	
evidencia	quando	da	criação	da	PETROBRAS.	Neste	momento	entra	em	confronto	
direto	com	seus	opositores.
104
•	A	nomeação	de	João	Goulart	para	a	pasta	do	Ministério	do	Trabalho	e	a	elevação	
do	salário	mínimo	em	100%	instauram	uma	crise	no	país.
•	Recebendo	críticas	severas	por	meio	da	imprensa	de	grande	circulação,	tais	como	
as	dirigidas	por	Carlos	Lacerda,	representante	da	direita	brasileira,	assim	como	
acusações	de	setores	da	esquerda,	o	governo	Vargas	fica	numa	situação	dramática.
•	Após	um	atentado	malsucedido	contra	Carlos	Lacerda,	a	situação	fica	insustentável.	
Tendo	sido	recusado	seu	pedido	de	 licença,	Vargas	comete	suicídio.	Sua	ação	
impossibilita	a	aplicação	de	um	golpe	militar	que	estava	se	armando	no	país.
•	Na	eleição	seguinte	Juscelino	Kubitschek	chega	à	Presidência.	Em	seu	governo	o	
embate	entre	grupos	nacionalistas	e	antinacionalistas	é	relativamente	contornado	
pela	via	da	conciliação.	Kubitschek	não	abre	mão	do	intervencionismo	estatal,	
mas	abre	a	economia	para	investimentos	estrangeiros.	
•	O	governo	de	Kubitschek	teve	um	balanço	político	favorável.	Desenvolveu-se	
em	meio	a	uma	época	de	bonança	no	mundo	 capitalista.	Além	de	 conseguir	
cumprir	os	pontos	essenciais	do	seu	programa	de	governo,	Kubitschek	soube	
administrar	bem	os	interesses	conflitantes	com	os	quais	convivia.	Com	o	Plano	de	
Metas	promoveu	o	desenvolvimento	econômico	do	país,	mas	deixou	uma	pesada	
herança	para	seus	sucessores.
•	O	governo	 seguinte	 foi	 assumido	por	 Jânio	Quadros,	político	populista	 e	de	
personalidade	contraditória.	Eleito	com	apoio	da	UDN,	governa	sem	consultar	
suas	bases.
•	Com	uma	atitude	 surpreendente,	 Jânio	 renuncia.	Acreditava	que	os	 clamores	
populares	o	colocariam	novamente	no	poder.	Seu	plano	dá	errado	e	o	vice,	João	
Goulart,	assume.
•	Para	chegar	à	Presidência,	João	Goulart	teve	que	aceitar	a	imposição	do	regime	
parlamentarista.	Somente	após	o	insucesso	desse	regime	de	governo,	Jango	assume	
a	chefia	do	Executivo.
•	A	tentativa	de	implementação	das	chamadas	“Reformas	de	Base”	leva	seu	governo	
a	entrar	em	confronto	com	a	elite	econômica	do	país.	Sua	proposta	de	reforma	
agrária	foi	barrada	pelo	Congresso.
•	A	situação	de	João	Goulart	ficou	muito	complicada:	por	um	lado	era	acusado	de	
ser	defensor	de	uma	guinada	à	esquerda;	por	outro,	a	própria	esquerda	acusava	
a	fraqueza	do	governo	por	não	conseguir	efetivar	importantes	questões	sociais	
que	prescindiam	da	aprovação	do	Congresso.
•	Em	meio	às	manifestações	no	campo	e	na	cidade,	Jango	se	aproxima	da	ala	radical	
do	trabalhismo,	liderado	por	Leonel	Brizola.
105
•	Apelando	para	a	mobilização	das	massas,	 Jango	organiza	um	comício	 com	a	
participação	de	aproximadamente	150	mil	pessoas.	A	direita	reage	e,	com	o	apoio	
da	Igreja	Católica,	de	associações	empresariais	e	de	segmentos	da	classe	média,	
promove	a	“Marcha	da	Família	com	Deus	pela	Liberdade”,	evento	que	reuniu	
aproximadamente	250	mil	pessoas	em	São	Paulo.
•	Devido	a	uma	bem	articulada	iniciativa	militar,	em	31	de	março	de	1964	Jango	é	
deposto.	A	UDN	participa	ativamente	do	movimento	e,	após	várias	tentativas,	
chega	ao	poder	através	de	um	golpe.	Uma	ditadura	militar	é	implantada	no	Brasil.
106
1	 Indique	as	 características	gerais	do	populismo	 e	a	maneira	 como	Getúlio	
Vargas	se	utilizou	desse	mecanismo	em	seu	governo	no	período	democrático.
2	Descreva,	em	 linhas	gerais,	as	circunstâncias	nas	quais	o	golpe	militar	de	
1964	foi	articulado.	Procure	enfatizar	as	ações	realizadas	por	João	Goulart	e	
as	repercussões	das	mesmas	nos	meios	conservadores	do	país.
AUTOATIVIDADE

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