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37 UNIDADE 2 NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS Nessa unidade vamos: • refletir sobre eventos da década de 1920 que resultaram na Revolução de 1930; • compreender o arranjo de forças que deu sustentação à Revolução de 1930; • identificar a maneira como o Estado Novo foi pensado e as condições po- líticas, econômicas e sociais que permitiram sua implantação; • entender as características gerais do período histórico e os direcionamen- tos tomados pelo governo durante o Estado Novo; • compreender algumas faces dos embates políticos e sociais que ganharam relevo no Brasil entre os anos de 1945 e 1964; • identificar a importância política de Getúlio Vargas nos anos pós-1930. Esta unidade está dividida em três tópicos e em cada um deles você encontra- rá atividades visando à compreensão dos conteúdos apresentados. TÓPICO 1 – A REVOLUÇÃO DE 1930: GETÚLIO VARGAS NO PODER TÓPICO 2 – O ESTADO NOVO E SEUS DESDOBRAMENTOS TÓPICO 3 – A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES DA DEMO CRACIA Assista ao vídeo desta unidade. 38 39 TÓPICO 1 A REVOLUÇÃO DE 1930: GETÚLIO VARGAS NO PODER UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO A recuperação integral da experiência vivida, do “fato”, é algo inacessível para os historiadores. A consciência desta falta resulta em uma atividade que busca, no limite, o máximo de aproximação em relação àquilo que teria ocorrido. Tal aproximação está sempre vinculada ao ponto de vista adotado pelo historiógrafo. É importante que esta questão fique bem clara, pois ela é a chave para a compreensão da existência de discursos que, embora tomem o mesmo “fato” como referência, conferem a ele significações diferenciadas. Nesta segunda unidade, a começar por este tópico, nosso olhar será lançado em direção à análise de um período da História do Brasil bastante instigante, imerso em conflitos ideológicos, aspirações políticas e sociais das mais diversas inclinações. Por maiores que sejam as discordâncias entre os historiadores que escreveram sobre o período compreendido entre os anos de 1930 e 1964, não há quem discorde da importância de Getúlio Dorneles Vargas, possivelmente o maior articulador político da história republicana. Vargas chegou ao poder em 1930 e manteve-se nele até 1945. Saiu de cena entre o final de 1945 até 1950, tempo em que articulou a sua volta à Presidência em 1951, ficando nela até 1954, ano do seu suicídio. Mesmo após a morte, sua presença se fez valer durante no mínimo os dez anos seguintes. Dando sequência à proposta de elaboração de um texto com um caráter eminentemente didático, nesta unidade seguiremos um itinerário que toma por vetor central as ações do governo de Getúlio Vargas em seus distintos períodos de desenvolvimento. Em linhas gerais é possível falar na existência de três períodos. O primeiro se estende de 1930 a 1937, momento marcado por forte instabilidade e grandes oscilações no campo de forças políticas; o segundo vai de 1937 a 1945, período de vigência do chamado Estado Novo, cuja tônica foi a centralização do poder (com traços preponderantemente autoritários) e o investimento no desenvolvimento industrial do país; o terceiro surge logo após um breve período de governo militar (1946-1950) e se processa num momento em que no Brasil insinuavam-se os apelos de um regime democrático. Tais apelos se fizeram valer neste “segundo” governo de Vargas (1951-1954) e ressoaram durante os mandatos presidenciais seguintes. Em 1964 um golpe militar decretou o fim deste cenário. Para chegar até este ponto, momento final desta unidade, teremos que retroceder no tempo e observar com atenção alguns importantes eventos da década de 1920. UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” 40 2 A DÉCADA DE 1920: RAÍZES DE UM IMPASSE NÃO NEGOCIÁVEL O pacto firmado entre as duas maiores forças econômicas do país, São Paulo e Minas Gerais, responsável pela instauração da “República do Café com Leite”, sofreu um golpe fatal no final da década de 1920. Tanto no viés econômico quanto no social, os anos vinte marcaram um ponto de inflexão nos rumos do regime republicano. Não se pode falar em uma ruptura radical, mas os ventos que sopravam no período traziam consigo ares da mudança. Penna afirma que A década de 1920 foi marcada economicamente pelo esgotamento do modelo agroexportador, calcado quase que exclusivamente no café. No plano social, pela emergência definitiva da questão social que trouxe em seu bojo novos segmentos e camadas sociais. A inabilidade das elites brasileiras, profundamente conservadoras, concorreu para a superação das práticas políticas excludentes e, em consequência, para o próprio fim do sistema em vigor. Essa crise atingirá, politicamente, seu ponto de maior inflexão com a pressão exercida pelos militares, vinculados às revoltas do tenentismo, e pela desagregação da política de equilíbrio exercitada ao longo da Política dos Governadores. (PENNA, 1999, p. 151-152). O cenário acima descrito ganha mais nitidez se o interpretarmos levando em conta o ano de 1922. Conforme vimos na unidade anterior, as reverberações da Revolução Russa causaram impacto no movimento operário e um impulso nas manifestações de rua, ocasionando um receio por parte dos grupos mais conservadores. Em meio a estes acontecimentos, no cenário político-eleitoral, ocorre a aproximação das oligarquias do Rio Grande do Sul, da Bahia, de Pernambuco e do Rio de Janeiro, constituindo uma frente de oposição ao candidato do eixo São Paulo/Minas Gerais, Artur Bernardes. Este ano marca também a origem do Tenentismo, a revolta da oficialidade intermediária contra os rumos assumidos pelo governo na Política dos Governadores. Contemporâneos de 1922 presenciam a fundação do Partido Comunista Brasileiro (PCB), partido que viria a ter alcance nacional e cujo ideário chocava-se frontalmente com as práticas políticas vigentes no país. No plano cultural, o ano de 1922 é marcado pela disseminação de novas manifestações estético-políticas, materializadas de maneira clara na “Semana de Arte Moderna”. Formalização de um conjunto de propostas intelectuais, a Semana de Arte Moderna lançou ao proscênio três maneiras distintas de pensar o Brasil: a corrente “verde-amarela”, que pregava a reflexão da brasilidade, propondo o abandono de influências estrangeiras e sustentando a singularidade do país; a corrente “antropofágica”, cuja proposta era a incorporação dessas influências através de um “canibalismo cultural”; e, por fim, a corrente que previa a incorporação, por parte do país, de valores culturais considerados universais. Nesta última destacou-se Mário de Andrade (PENNA, 1999). Este intelectual viria a ter uma importante participação no governo – na área de políticas culturais – anos mais tarde, por ocasião do Estado Novo. TÓPICO 1 | A REVOLUÇÃO DE 1930: GETÚLIO VARGAS NO PODER 41 Proscênio é a parte anterior dos palcos dos teatros, junto à ribalta; teatro, cena, palco; lugar onde acontecem fatos à vista de todos; arena, cenário. (HOUAISS; VILLAR, 2009, p. 1.563). FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Arte- moderna-1922.jpg>. Acesso em: 10 abr. 2010. FIGURA 12 – PERSONALIDADES DA SEMANA DE ARTE MODERNA A Figura 12 mostra importantes personalidades que participaram da Semana de Arte Moderna de 1922. Mário de Andrade (sentado), Anita Malfatti (sentada, ao centro) e Zina Aita (à esquerda de Anita), em São Paulo, Brasil, 1922. A Semana de Arte Moderna pode ser interpretada como uma manifestação, no plano cultural,de que o Brasil sofria mudanças importantes. A preocupação com uma reflexão sobre o país, sobre o que vinha a ser o Brasil, trazia consigo aspectos de crítica social que reverberavam no terreno político. O presente carregava consigo um sintoma e um índice: o primeiro aludia à doença crônica decorrente dos conchavos que ditavam os rumos políticos do país; o segundo indicava a necessidade de ruptura com o passado. É significativo o fato de o evento ter ocorrido em São Paulo, cidade que apresentava o processo de urbanização NOTA UNI UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” 42 e crescimento mais acelerado do país, pois a capital paulista pode ser tomada como exemplo da emergência de novos grupos sociais – transmudados em atores políticos – não comportados nos quadros da República Velha. A incapacidade da cúpula do PRP em aceitar o novo cenário social e político levou ao surgimento de lutas internas que enfraqueceram o partido. Em 1926, por exemplo, é criado em São Paulo o Partido Democrático (PD). Seu surgimento se deveu, em grande medida, ao descontentamento de alguns segmentos do PRP que viam nas ações governamentais e na postura da cúpula um perigo à ordem institucional. Segundo Penna (1999), o objetivo do PD era “mudar para conservar”, ou seja, era necessário absorver certas demandas da sociedade e administrá-las politicamente para que se eliminasse o perigo da ruptura radical do sistema. Como você pode notar, a década de 1920 foi se constituindo em um barril de pólvora. Enquanto o poder econômico das elites paulistas e mineiras era garantido pela rentabilidade do café, o estopim esteve longe de ser aceso. Ocorre que, em 1929, a eclosão de uma grave crise de alcance mundial balançou os alicerces da estrutura econômica vigente. Em 1930, ano eleitoral, de acordo com o pacto político estabelecido entre São Paulo e Minas Gerais, Washington Luís deveria indicar Antônio Carlos, governador (em verdade, na época o cargo era o de “presidente do estado”) de Minas, como seu sucessor. Possivelmente preocupada com a condução das políticas de valorização do café, a cúpula do PRP apoiou Washington Luís na indicação do paulista Júlio Prestes. O fato resultou na fagulha necessária: o barril explodiu. 3 A ALIANÇA LIBERAL E A “REVOLUÇÃO” DE 1930 Durante toda a República Velha o Estado do Rio Grande do Sul ocupou uma posição intermediária na hierarquia do poder. Contudo, tal posição não impediu sua participação em muitos dos principais eventos políticos do período. A Revolução Federalista, em 1893, foi o momento em que a ação direta mais se fez valer, mas isto não significa que as lideranças políticas do Estado não estivessem presentes em outros momentos decisivos. Em 1930, ano que inaugurou um novo período da República brasileira, uma dessas lideranças projetou-se no cenário nacional: Getúlio Vargas. Vargas nasceu em 1882, na cidade de São Borja, na divisa do Brasil com a Argentina. Filho de uma tradicional família gaúcha, ingressou na carreira militar, mas deixou a função. Formou-se em Direito e chegou a exercer o cargo de promotor público. Em 1909 foi eleito deputado estadual pelo Partido Republicano Riograndense e, anos mais tarde, deputado federal. Sua atuação na Câmara dos Deputados, como líder da bancada gaúcha, rendeu-lhe uma indicação ao cargo de ministro da Fazenda no governo de Washington Luís. Com este último, Vargas manteve um bom relacionamento durante muitos anos. Sua saída do ministério se deveu ao fato de ter se candidatado, em 1927, ao governo do Estado do Rio Grande do Sul. Eleito, não chegou a concluir o mandato. Uma guinada em sua carreira política colocou-o em um novo rumo. TÓPICO 1 | A REVOLUÇÃO DE 1930: GETÚLIO VARGAS NO PODER 43 O descontentamento do PRM em relação à indicação de Júlio Prestes induziu uma aproximação entre os mineiros e importantes grupos políticos do Rio Grande do Sul e da Paraíba. Esta aproximação resultou na formação da Aliança Liberal, cujo candidato escolhido para a disputa da eleição, marcada para o dia 01 de março de 1930, foi Getúlio Vargas (como vice foi indicado João Pessoa, da Paraíba). O surgimento da Aliança Liberal e, principalmente, o fato de esta agremiação ter alcançado expressão nacional, constituindo-se como um grupo de pressão, foi uma novidade no cenário republicano. Pela primeira vez uma força política civil não representava apenas os interesses dos cafeicultores. Por ocasião das eleições, as velhas práticas de fraude eleitoral se fizeram valer mais uma vez. De acordo com Penna (1999), ambos os candidatos foram agraciados por uma enxurrada de votos de natureza duvidosa. Para se ter uma ideia, no Rio Grande do Sul teriam comparecido 99% dos eleitores, dando a Getúlio 699.627 votos e a Júlio Prestes apenas 982. São Paulo não deixou por menos: apenas inverteu a proporção. Apurada a totalidade dos votos, as “urnas” apontaram Júlio Prestes como vencedor. Levando-se em conta o fato de que a fraude eleitoral não era uma novidade, possivelmente Júlio Prestes teria sido empossado sem maiores problemas. Mas o acaso entrou em cena. Rivalidades políticas no Estado da Paraíba resultaram no assassinato de João Pessoa (morto por João Dantas, um jornalista e adversário político). Embora tenha sido o fruto de rixas internas, este evento agiu como um catalisador que exaltou os ânimos no país. Depois de cogitada, a ideia de uma revolução ganhou corpo e se materializou. FONTE: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/9a/ Ao300706_2.jpg>. Acesso em: 21 mar. 2010. FIGURA 13 – TELEGRAMA DA RÁDIO CRUZEIRO, NOTICIANDO O ASSASSINATO DE JOÃO PESSOA UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” 44 De acordo com Penna (1999), civis como Osvaldo Aranha e Lindolfo Collor reuniram-se com generais que detinham postos de comando visando à articulação do movimento. No dia 24 de outubro ocorre o golpe de Estado, com a deposição do presidente Washington Luís e a instauração de uma junta militar que condicionou a entrega do governo a Getúlio Vargas mediante o cumprimento de alguns compromissos, tais como a manutenção dos ministros militares. Esta foi a primeira de muitas concessões que Vargas teve que fazer em prol da governabilidade. Com efeito, a busca por apoio e simpatia levou o novo presidente a negociar em várias frentes. A Igreja compôs uma delas. Segue abaixo a transcrição (mantendo a escrita original) de uma carta endereçada ao Cardeal D. Sebastião Leme explicando e justificando a Revolução de 1930. Rio, 14 de Novembro de 1930. A Sua Eminencia o Senhor Cardeal D. Sebastião Leme. Tenho o prazer de accusar o recebimento das cartas que, nos dias 9, 10, e 11 do corrente Sua Eminencia me dirigiu. O preclaro Chefe do Episcopado Brasileiro conhece necessariamente a marcha dos acontecimentos que, encadeados uns aos outros, culminaram no movimento revolucionário, irrompido em 3 de Outubro. De parte dos homens que hoje occupam o poder houve, sempre, manifestado de varios modos e em multiplas occasiões, sincero desejo de concordia e, tão forte era esse desejo, que, por vezes, a opinião publica tomou a nossa attitude, como índice de fraqueza e sem razão. Procuramos, durante longos mezes, evitar, com abnegação, a lucta que se presentia, proclamando, continuamente, que as reivindicações almejadas não deviam ultrapassar o puro dominio das ideias, bastando para uma acomodação fossem aceitos e praticados, pelos detentores do poder, os principios que nos congregavam. Todo esse esforço para manter uma ordem de cousasque não desejavamos anniquilar, mas, apenas modificar para o bem da nação, foi inutil. O Governo de então recebia os nossos appellos tentando asphixiar, por meios illegaes, a vontade popular, praticando os maiores attentados contra direitos inviolaveis, destruindo principios basilares da nossa organização, qual o da autonomia dos Estados, e, chegando ao cumulo, com a sua intervenção indebita na Parahyba, de concorrer para o desfecho tragico em que foi sacrificado o cidadão eminente que a presidia. Iniciada a revolução, com o baptismo do sangue brasileiro e a perda de vidas preciosas, é natural que novo rumo tomasse os acontecimentos e a conquista de principios, que constituia o ideial dos que se oppunham aos desmandos do Governo, foi accrescida, pela revolução victoriosa, do dever indeclinavel de se apurarem as responsabilidades dos que dispunham dos cargos da administração publica e delles abusaram. TÓPICO 1 | A REVOLUÇÃO DE 1930: GETÚLIO VARGAS NO PODER 45 Mesmo assim Sua Eminencia terá observado que todas as autoridades do governo actual têm agido com a maior magnanimidade, em relação aos vencidos, tratando-os com respeito e bondade, convindo notar-se, somente os poderosos hão sido atingidos pela justiça revolucionária, emquanto os humildes, victimas preferidas do governo que passou, nada têm soffrido. Os acctuaes dirigentes da nação não podem fugir ao imperativo consubstanciado no postulado de que a piedade jamais deve sobrepor-se á justiça. Justiça, exclusivamente, guiará a acção das actuaes autoridades. Os altos funccionarios do Governo deposto responderão apenas por crime de direito commum, devendo ser julgados por tribunal especial, composto por homens de altas virtudes e competencias juridica indiscutivel. Louvando a nobre intervenção de Sua Eminencia, digna de admiração e respeito, affirmamos, com segurança, poder reppousar, tranquilla e sem sobresaltos, a consciencia christã e catholica do Brasil, pois, jamais patrocinaremos violencias, apenas procurando realizar meritoria obra de saneamento moral e politico, impossivel de ser evitada, conhecidos os compromissos que assumimos com a opinião pública nacional. Aproveito o ensejo para reiterar a Sua Eminencia os protestos de minha alta estima e mais distincta consideração. FONTE: CENTRO de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil – CPDOC – Fundação Getúlio Vargas. Disponível em: <http://cpdoc.fgv.br/>. Acesso em: 21 mar. 2010. O CPDOC disponibiliza para consultas on-line um arquivo digitalizado que contém milhares de manuscritos e outros documentos históricos, tais como fotografias, arquivos pessoais, entrevistas etc. de grandes personagens da história nacional. Importantes elementos da História Política do Brasil Contemporâneo aparecem nessas fontes. Por exemplo: os telegramas e as cartas escritos ou recebidos por Getúlio Vargas entre 1929 e 1930 dão uma clara noção de como a Aliança Liberal e a Revolução de 1930 foram articuladas. Vale muito a pena verificar. Conforme consta na correspondência, o movimento revolucionário teve início no dia 3 de outubro. Organizado sob o comando do coronel Góes Monteiro (conhecido de Getúlio desde os tempos em que este ingressou no exército), envolveu todos os estados, com exceção de São Paulo. Ou seja, durante todo o mês de outubro de 1930 ocorrem as mobilizações e os acordos políticos que deram sustentação ao golpe ou, dito de outra forma, à Revolução. No bojo desses acordos abrigaram-se os interesses de oligarquias regionais, mas também, dentre outras, as reivindicações de militares que haviam participado do movimento tenentista. DICAS UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” 46 Estes indivíduos, após terem sofrido perseguição durante os governos de Artur Bernardes e Washington Luís, retornavam ao cenário político. Del Priore e Venâncio (2003) afirmam que o cenário criado nos anos 30 deu a tônica à história política brasileira até 1954, ou seja, resultou na emergência de uma série de alianças, rupturas, aproximações e perseguições entre o novo presidente e diversos segmentos da sociedade. Negociação foi a palavra de ordem durante o período em que Vargas esteve à frente do poder. Embora os interesses de oligarquias regionais se fizessem valer uma vez mais, isto não significa afirmar que o ano de 1930 não tenha sido importante, pois, mesmo Não tendo caráter acentuadamente social e muito menos qualquer ambição de promover radicais transformações nas relações de produção, 1930 teve significativa importância se considerarmos certos aspectos ligados ao processo de modernidade brasileira. Elevou, por exemplo, o nível de aspirações políticas de parcelas expressivas da população até então excluídas do processo político do país. Incrementou a industrialização, através de uma consciência que julga como inadiável a questão industrial, sobretudo para uma nação que se pretende soberana. Definiu-se pela organização da estrutura sindical, incorporando os trabalhadores na vida política do país. Fortaleceu o Estado reduzindo o poder de grupos econômicos ligados às velhas práticas oligárquicas. Nesse sentido, 1930 promoveu uma revolução nas relações entre Estado e sociedade cujas consequências não são desprezíveis (PENNA, 1999, p. 168). FONTE: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f6/Revolu %C3%A7%C3%A3o_de_1930.jpg>. Acesso em: 31 mar. 2010. FIGURA 14 – COMITIVA DE GETÚLIO VARGAS TÓPICO 1 | A REVOLUÇÃO DE 1930: GETÚLIO VARGAS NO PODER 47 A Figura 14 mostra a comitiva de Getúlio Vargas (ao centro) fotografada por Claro Jansson durante sua passagem por Itararé (São Paulo) a caminho do Rio de Janeiro, após a vitoriosa Revolução de 1930. Refletindo sobre outra ordem de fatores, Linhares (1990) nos lembra que a Revolução de 30 inaugurou uma etapa decisiva no processo de constituição de um Estado brasileiro capitalista e burguês. Quebrando a autonomia dos estados, Vargas promoveu uma forte centralização do poder, exercendo controle sobre as políticas econômicas e sociais e construindo um forte aparelho coercitivo e repressivo. O suporte ideológico dado a estas iniciativas repousava na crença de que o Estado agia como um representante do interesse geral da nação. Conforme veremos no Tópico 2, isto ficou mais do que evidente em 1937, por ocasião da instauração do Estado Novo. Tendo em vista a governabilidade e o fortalecimento do aparato administrativo, Vargas desenvolveu ações em três direções: definiu um novo padrão de relações políticas entre o governo federal e os estados; promoveu a criação de instituições com abrangência nacional (principalmente aquelas ligadas à economia); ampliou a importância e o papel desempenhado pelo exército (alguns militares, inclusive, participaram diretamente da administração, como foi o caso de Juarez Távora). Por outro lado, a implementação dessas medidas dependia da eficácia do controle do governo sobre os estados da federação. Para tanto, Vargas criou o cargo de Interventores Estaduais, que ocuparam o lugar dos antigos presidentes (ou governadores) dos estados, obedecendo às ordens do presidente. A nomeação de um desses interventores, para São Paulo, resultou em uma guerra civil entre este Estado e a União. 4 PRIMEIROS ANOS: OPOSIÇÃO, CONFLITOS E O CAMINHO RUMO AO ESTADO NOVO A criação do Partido Democrático em São Paulo, conforme vimos, respondeu pela expectativa de adequação das ações governamentais às novas demandas políticas e sociais gestadas ao longo da década de 1920. Por este motivo,o PD paulista teve participação direta na Aliança Liberal. Ocorre que, ao dissolver o Congresso Nacional e as Assembleias Legislativas dos estados, mas, principalmente, ao nomear interventores para os estados, Vargas conquistou para si a antipatia de seus aliados de ocasião. Do ponto de vista dos democratas paulistas, o objetivo do governo provisório era garantir a reforma política via convocação de uma Assembleia Constituinte. A nomeação do interventor João Alberto Lins de Barros, tenente promovido a coronel UNI UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” 48 por ocasião da Revolução de 30, foi prova de que as intenções de Vargas diferiam significativamente daquela dos democratas. Se, para o presidente, um controle maior sobre São Paulo era vital para manutenção do poder, para os dirigentes do PD o apoio dado a Vargas nas eleições de 30 era motivo mais do que suficiente para que ao partido fosse concedida a prerrogativa de indicar um interventor advindo de suas fileiras. O descontentamento do PD resultou em uma aproximação em relação ao PRP e na formação da Frente Única Paulista (FUP). Elites políticas de estados como Minas Gerais e Rio Grande do Sul também nutriam certo desconforto em relação às ações do governo. A reivindicação desses grupos dizia respeito principalmente à realização de eleições, posto que o governo de Vargas era apenas provisório. Observando que o descontentamento ganhava corpo, Vargas publicou um novo Código Eleitoral e fixou data para eleições da Assembleia Constituinte. Mudanças importantes, como a introdução do voto feminino, do voto secreto e a extensão aos sindicatos do direito de indicação de representantes ao Congresso Nacional, assim como a criação da Justiça Eleitoral, resultaram em uma racionalização do processo eleitoral, erradicando muitas das práticas fraudulentas que vigoraram durante a Primeira República. Ocorre que a dubiedade e o conteúdo das entrelinhas do texto de convocação da Assembleia Constituinte davam margem à interpretação de que Vargas não intentava deixar o poder. Em razão disso, e também como uma resposta à imposição do interventor em São Paulo, os paulistas pegaram em armas contra o governo. No entendimento de Del Priore e Venâncio (2003), caso não houvesse ocorrido um recuo dos grupos políticos mineiros e gaúchos, Vargas seria deposto. FONTE: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/ commons/7/77/Cartaz_ Revolucion%C3%A1rio.jpg>. Acesso em: 10 mar. 2010. FIGURA 15 – CARTAZ CONVOCANDO JOVENS PAULISTAS PARA A REVOLUÇÃO DE 1932 TÓPICO 1 | A REVOLUÇÃO DE 1930: GETÚLIO VARGAS NO PODER 49 A eclosão do movimento deu-se em 09 de julho de 1932. Os confrontos com tropas do governo federal contaram com a participação de muitos segmentos da população paulista, com exceção dos trabalhadores, cujos interesses, em parte, eram contemplados por algumas ações governamentais. Os combates se estenderam durante três meses. Em outubro, os paulistas se renderam. Embora derrotados, o movimento [...] alcançou parte importante de seus objetivos. No ano seguinte ao seu término, além da confirmação da convocação da Assembleia Constituinte, os paulistas conseguiram influenciar na escolha do interventor local, Armando Salles de Oliveira. O mérito de Getúlio foi ter conseguido permanecer no poder. Sua situação, porém, era frágil. Na ausência de um partido político de alcance nacional que o apoiasse, foi-lhe necessário fazer várias concessões às oligarquias, tal como aconteceu por ocasião da escolha do interventor paulista. O presidente teve ainda que aceitar uma Constituição de cunho liberal, que em muito restringia seu poder. De certa maneira, Getúlio pagava o preço por ter feito uma revolução política, mas não econômica ou social. (DEL PRIORE; VENÂNCIO, 2003, p. 313). FONTE: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/83/ Foto136. jpg>. Acesso em: 10 mar. 2010. FIGURA 16 – SOLDADOS PAULISTAS EM TRINCHEIRAS EM COMBATE POR OCASIÃO DA REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA À vitória sobre a oligarquia paulista soma-se a promulgação da Constituição de 1934. O momento era o de transição e havia a necessidade de uma eleição para legitimar o governo republicano. Como seria de se imaginar, Vargas, como presidente provisório, era um candidato natural. Embora a aceitação de sua candidatura não fosse unanimidade, Vargas foi lançado oficialmente em abril de 1934 e, após ter sua campanha marcada por atos que visavam criar um clima favorável à sua eleição, como, por exemplo, a suspensão da censura à imprensa, foi eleito indiretamente pelo Congresso. Assim, entre 1934 e 1937, surge o período constitucional. UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” 50 Como você já deve ter notado, a inexistência de partidos de alcance e representatividade nacional era uma das consequências da forma como a estrutura política fora concebida durante a República Velha, período em que os interesses regionais ditavam as regras. Tentando contornar esta situação, Getúlio promove uma maior aproximação tanto em relação aos trabalhadores (operários) quanto em relação ao exército. No que se refere a este último, vislumbrava neste ato uma maneira de garantir o apoio de uma instituição que, além do poder de fogo, tinha abrangência nacional. O problema é que o próprio exército, em verdade as forças armadas como um todo, não constituía um todo coeso e sujeito aos mesmos interesses. Dentre outros desdobramentos, a crise econômica de 1929 – cujos efeitos se fizeram valer, com menor ou maior intensidade, em todos os países capitalistas –, gerou um surto de descontentamento em relação às políticas liberais favoráveis ao não intervencionismo estatal no campo econômico. Uma interpretação possível para a crise mundial de 1929, que eclodiu num momento em que as sequelas da Primeira Guerra Mundial ainda estavam presentes, sugere que foi justamente a ausência de intervenção do Estado na economia que teria propiciado a crise ou, pelo menos, a magnitude do seu impacto. Ocorre que a União Soviética, uma economia socialista e planificada, contrária aos princípios liberais, foi o país menos atingido pela crise. Enquanto os Estados Unidos e países da Europa enfrentavam surtos de falências, desemprego e estagnação econômica, a URSS, na década de 1930, apresentava índices notáveis de crescimento. Se o ideário socialista havia encontrado boa acolhida por parte do movimento operário já na década de 1920 (logo após a Revolução Russa), nos anos 30 seu apelo foi ainda maior. Neste quadro podemos inserir uma das razões da fratura existente no exército. Embora uma parcela dos participantes do movimento tenentista tenha se integrado à máquina administrativa do governo provisório, outra parte firmou presença na oposição, radicalizando cada vez mais suas posições políticas. Luiz Carlos Prestes foi um exemplo. Del Priore e Venâncio (2003) afirmam que desde 1927, ano da extinção do tenentismo, Prestes estava sendo contatado pelo PCB. Durante os dois anos seguintes o PCB, agora sob forte influência das diretrizes da política internacional soviética, passa a contar com o apoio de tenentes dissidentes, criando, em 1929, o Comitê Militar Revolucionário. Em 1931 Prestes filia-se ao partido e viaja para Moscou, onde permanece até 1934. No ano de 1935, após a volta de Prestes, agora um militante ativo do PCB, ocorre a criação da Aliança Nacional Libertadora (ANL). Sua fundação foi uma resposta à tendência de internacionalização do socialismo cujas diretrizes emanavam de Moscou e defendiama articulação de uma Frente Popular. No bojo da ANL associavam-se grupos socialistas e nacionalistas, anti-imperialistas e contrários ao nazifacismo (extrema direita que ganhava corpo na Alemanha e na Itália), mas também tentativas de proteção das classes populares contra os impactos funestos da crise econômica de 1929. Penna (1999) afirma que o programa da ANL preconizava a implantação de um governo popular, a reforma agrária, a suspensão da dívida externa e a nacionalização das empresas estrangeiras que atuavam no TÓPICO 1 | A REVOLUÇÃO DE 1930: GETÚLIO VARGAS NO PODER 51 Brasil. O problema é que a comunhão de propostas esbarrava na maneira como os diferentes grupos integrantes da ANL concebiam a maneira de pô-las em prática. [...] a política frentista da ANL apresentava desde seu início um forte desequilíbrio a favor dos comunistas. Assim, a ANL, embora composta por forças políticas moderadas, teve como presidente de honra Luís Carlos Prestes. O PCB, por sua vez, assumiu posturas cada vez mais radicais contra Getúlio Vargas, abrindo caminho para que fosse decretado, em julho de 1935, o fechamento de nossa primeira experiência de front populaire. Extinta a ANL, os comunistas, por sua vez, avaliam mal a correlação de forças e partem para o confronto com o governo federal. Em novembro de 1935, no melhor estilo das revoltas tenentistas, os quartéis se levantam contra Getúlio Vargas. Em Natal, no Recife e no Rio de Janeiro, os conflitos acabam resultando em mortes de oficiais e soldados. (DEL PRIORE; VENÂNCIO, 2003, p. 315). O episódio descrito acima, também conhecido como Intentona Comunista, foi muito bem aproveitado por Vargas, pois serviu como um excelente pretexto à perseguição e repressão sistemática não só de comunistas, mas dos mais variados grupos que se opunham ao governo. Por outro lado, o movimento favoreceu ainda mais a aproximação entre Vargas e os militares, cujo efetivo aumentou significativamente no ano de 1936. Neste contexto pavimenta-se a via que conduziria à instauração do Estado Novo. FONTE: Disponível em: <http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/ AEraVargas1/anos30-37/RadicalizacaoPolitica/ANL>. Acesso em: 7 maio 2010. FIGURA 17 – LEVANTE COMUNISTA (AVENIDA PASTEUR, 1935, RIO DE JANEIRO) O texto constitucional de 1934, que previa a eleição para este mesmo ano, pregava também a realização de novas eleições em 1938, ocasião do término do mandato de Vargas. As articulações políticas estavam em pleno curso já no ano de 1936, sendo que, dentre as correntes políticas que vislumbravam a Presidência, constava a Ação Integralista Brasileira (AIB). Nascida em 1932, sob influência de Plínio Salgado, a AIB sustentava um programa de cunho doutrinário que supunha “serem os povos dirigidos por Deus e que os homens e as classes têm tudo para viverem harmoniosamente”. (PENNA, 1999, p. 183). A negação da luta de classes UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” 52 evidenciava nesta proposta a influência do pensamento católico tradicionalista e seu caráter anticomunista ou antimarxista (o lema do Integralismo era “Deus, Pátria e Família”). Alastrando-se pelo país, a AIB conseguiu amealhar seguidores, ganhando dimensão nacional e, consequentemente, vislumbrando o poder. FONTE: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/ commons/e/e5/Congresso _Integralista_1935.jpg>. Acesso em: 28 mar. 2010. FIGURA 18 – SESSÃO DE ENCERRAMENTO DO CONGRESSO INTEGRALISTA. PLÍNIO SALGADO ENCONTRA-SE AO CENTRO (SENTADO). BLUMENAU –SC, 1935 Durante seus anos de existência a AIB desenvolveu uma postura que em muito se assemelhava à de grupos paramilitares, inclusive adotando um uniforme padrão. Os “camisas verdes”, como passaram a ser conhecidos, possuíam um órgão de divulgação de ideias, a revista Anauê, cujos escritos organizavam-se em três frentes: uma político-social, uma sociocultural e uma moral-espiritual. Estruturada em células, a AIB se fez presente inclusive em municípios com um número muito reduzido de habitantes, tais como os pequenos municípios do interior dos estados do Sul do país. Em 1937 chegou a haver uma aproximação entre a AIB e Getúlio Vargas, mas em novembro deste mesmo ano um decreto governamental extingue o movimento e ordena o fechamento de seus núcleos organizacionais. Meses depois, no início de 1938, uma tentativa de subversão levada a cabo pela AIB, objetivando a deposição de Vargas, foi desbaratada pelas forças governamentais. A absoluta discrepância entre o ideário da ANL e o da AIB não impede a existência de um denominador comum entre os dois movimentos: em ambas as pautas irrompiam questões relativas à luta de classes. Embora os vetores operacionais da ANL tenham se desviado da linha programática que preconizava ações de massas dentro dos quadros da legalidade constitucional, indo, desta forma, ao encontro de ações clandestinas com viés golpista, a expectativa de fomentar o caráter explosivo da mobilização do proletariado sempre esteve presente. A AIB, por sua vez, tendia a aplainar o relevo dado à questão social, negando categoricamente a luta de classes. Neste assunto sua ação foi tão incisiva que acabou resultando em uma das maiores farsas do período republicano: o Plano Cohen, impulso derradeiro à implantação do Estado Novo. Analisaremos este assunto no próximo tópico. TÓPICO 1 | A REVOLUÇÃO DE 1930: GETÚLIO VARGAS NO PODER 53 LEITURA COMPLEMENTAR OUTROS OLHARES: SANGUE BRASILEIRO Por José Alfredo Vidigal Pontes Ao contrário do que se diz, a Revolução Constitucionalista de 1932 não foi um movimento meramente regional de inspiração revanchista, maquiado por “separatistas” de São Paulo. “Tive anteontem um longo e cordial colóquio com João Alberto, que me fez declarações de estilo absolutamente fascista. Ele disse que o Brasil deverá permanecer um período de alguns anos de luta intestina se persistir no estilo liberal antiquado, a não ser que os brasileiros se convençam de que a salvação da nação na presente época histórica está nos regimes que exercitam uma autoridade indiscutível e ilimitada através da imposição de uma rígida disciplina.” Este era o texto de um telegrama enviado em 18 de setembro de 1932 pela embaixada italiana no Rio para a chancelaria em Roma. Vittorio Cerruti, o embaixador italiano no Brasil, informava ao Ministério dos Negócios Estrangeiros da Itália, então sob o regime do fascista Benito Mussolini, acerca da guerra civil brasileira em curso. A referência ao pensamento político de João Alberto Lins de Barros, um dos mais destacados “tenentes” do círculo mais próximo a Getúlio Vargas, revelava a sedução representada pelo autoritarismo entre a cúpula decisória do Governo Provisório, nome pelo qual era chamada a ditadura imposta após a Revolução de 1930. Iniciada na noite de 9 de julho de 1932, em São Paulo, a Revolução Constitucionalista não era “revanchista” ou “separatista”, como alardeou a propaganda do Governo Provisório para todo o país, a partir do isolamento a que foi relegado o Estado de São Paulo logo no início da insurgência, resultado de uma eficiente contraofensiva política e militar de Vargas. Como poderia ser separatista uma insurreição comandada por militares oriundos de outros estados? A Revolução Constitucionalista foi efetivamente uma confrontação ideológica nacional entre os “tenentes”, defensores de um regime autoritário, e políticos que, na verdade, tinham apoiado a candidatura de Vargas à Presidência da República, na campanha da Aliança Liberal de 1929/30,assim como a própria revolução vitoriosa de outubro de 1930 – seus aliados de véspera, portanto. O grupo dos “tenentes” era formado por antigos participantes dos movimentos militares de contestação ocorridos nos anos 20. Durante e após a Revolução de 1930, movimento civil e militar vitorioso que derrubou o governo de Washington Luís (1926-1930), e junto com ele o viciado regime eleitoral vigente, alguns deles ganharam grande projeção e prestígio junto ao Governo Provisório chefiado por Getúlio Vargas. Dentre eles destacam-se João Alberto, Juarez Távora e Miguel Costa. “Os tenentes” defendiam abertamente um governo executivo forte e centralizado, desprezando a UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” 54 ideia de eleições, pois temiam que as dificuldades econômicas abrissem a possibilidade de haver um retorno das oligarquias afastadas. Do outro lado, os constitucionalistas acreditavam que, se ocorresse uma eleição limpa e transparente, incorporando novidades como voto secreto e voto feminino, as forças mais progressistas do país seriam amplamente representadas na futura Assembleia Constituinte. Em novembro de 1931 ocorreu o primeiro movimento de pressão mais consistente pela convocação da Assembleia Constituinte, vindo das principais lideranças políticas do Rio Grande do Sul. Reunidos no interior do Rio Grande, os dois partidos gaúchos, Republicano e Libertador – coligados na Frente Única Gaúcha desde 1929 durante a campanha presidencial de Getúlio Vargas –, exigiam a convocação das eleições. Em São Paulo, nesta altura, o cenário político era bastante tenso. O ano de 1931 chegava ao final sob o governo do coronel Manuel Rabelo, o terceiro interventor estadual desde a vitória da Revolução de 1930. A primeira interventoria no Estado fora assumida por João Alberto, um dos principais comandantes da famosa Coluna Prestes (1924-26) e ligado aos “tenentes”. Isto frustrou os políticos paulistas do Partido Democrático, agremiação de oposição ao regime derrubado, também aliada dos revolucionários desde o início da Campanha da Aliança Liberal, em 1929. A gestão de João Alberto durou pouco mais de oito meses, tendo sido substituído por um juiz de direito, Laudo de Camargo, logo afastado por pressão de Miguel Costa, o comandante da Força Pública, a polícia militar estadual. Foi então que assumiu interinamente outro militar, o coronel Manuel Rabelo, alinhado com os “tenentes”. O desgaste do Governo Provisório em São Paulo era crescente, resultando na formação da Frente Única Paulista, em fevereiro em 1932. Tratava- se de uma aliança das principais lideranças políticas de São Paulo, reunindo adversários antigos, como o Partido Democrático, e alguns setores do PRP, o Partido Republicano Paulista, proscrito desde 1930. Porém, no dia 24 de fevereiro, surpreendendo a todos, Getúlio Vargas publicou um novo código eleitoral, bastante progressista para a época, mas sem definir a data das eleições. A reação contrária foi violenta: na noite seguinte à divulgação do novo código, alguns adeptos dos “tenentes” empastelaram o Diário Carioca, jornal constitucionalista do Rio de Janeiro. Getúlio Vargas procurou atender uma das reivindicações dos opositores e, no dia 1° de março, nomeou um interventor “civil e paulista”, o embaixador Pedro de Toledo, embora exigisse que metade do secretariado fosse indicada pelos “tenentes”. A repercussão foi péssima: mais uma vez o Partido Democrático sentiu-se desprezado, iniciando entendimentos com oficiais do Exército e da Força Pública visando a um movimento armado para derrubar a ditadura. A tensão nas ruas, em São Paulo, era crescente. Estudantes de Direito, adeptos da Constituinte, enfrentavam-se com as Legiões Revolucionárias, uma organização paramilitar fardada, controlada por Miguel Costa. Inspiradas nos Camisas Negras de Mussolini, as Legiões foram transformadas logo após em partido político de apoio à continuidade da ditadura: o PPP, Partido Popular Paulista. Retomando a iniciativa, no dia 7 de maio, Vargas marcou as eleições para o dia 3 de maio de 1933, quase um ano após, portanto, conseguindo descontentar gregos e troianos. Para os constitucionalistas era muito tarde e, para os “tenentes”, TÓPICO 1 | A REVOLUÇÃO DE 1930: GETÚLIO VARGAS NO PODER 55 cedo demais. Preocupado com a evolução do clima de confronto, Vargas enviou Osvaldo Aranha, o ministro da Fazenda, como emissário a São Paulo para a definição do secretariado, questão que se arrastava há mais de dois meses. Mas sua chegada a São Paulo, no dia 22 de maio, provocou uma série de protestos e manifestações de rua, forçando Aranha a refugiar-se no Quartel-General do 2° Exército, onde passou a noite. No dia seguinte, após consultar Vargas, aceitou que a Frente Única Paulista indicasse totalmente o secretariado e retornou ao Rio. O primeiro ato do novo secretário da Justiça, o jurista Waldemar Ferreira, foi o afastamento de Miguel Costa do comando da Força Pública. No dia seguinte, ocorria uma grande manifestação de estudantes em Porto Alegre em comemoração à vitória política da Frente Única Paulista. Diante da evolução dos fatos, no decorrer do mês de junho Vargas tentou se aproximar dos constitucionalistas, os quais exigiam indicar a totalidade do Governo Provisório, bem como a convocação imediata de eleições. Mas, pressionado pelos “tenentes”, acabou desistindo da reforma ampla cogitada, causando novamente o rompimento dos políticos gaúchos e paulistas com o Governo Provisório, bem como a retomada da conspiração armada. Os constitucionalistas gaúchos não estavam mais seguros quanto ao posicionamento de Flores da Cunha, o interventor no Rio Grande do Sul. Em razão disso, pediam que se adiasse o início da rebelião. Ignorando o fato, o general Bertoldo Klinger, comandante militar de Mato Grosso, precipitou-se ao forçar o início da insurgência na noite de 9 de julho, em São Paulo. Colhidos de surpresa, os constitucionalistas gaúchos não puderam se articular convenientemente, sob a vigilância de uma interventoria já comprometida com o Governo Provisório. E em Minas Gerais, onde a articulação prévia era mais frágil ainda, a adesão armada foi nula. Foi uma revolução que já nasceu derrotada, pois a disparidade de forças era enorme. O general Klinger, que prometia uma tropa de 6 mil soldados, chegou a São Paulo acompanhado por dez pessoas. O apoio gaúcho ficou restrito a uma coluna com cerca de trezentos homens, com ações restritas ao interior do Rio Grande, onde resistiram bravamente. E no Rio, diversos oficiais de alta patente esperavam em vão o avanço das tropas que vinham de São Paulo para concretizar a tomada da capital da República. Mas as forças constitucionalistas estacionaram no Vale do Paraíba paulista, aguardando uma hipotética e ilusória adesão dos mineiros. Apesar do isolamento imposto aos insurgentes paulistas, manifestações de apoio ocorreram em outros estados. Na região sul do Mato Grosso, alguns destacamentos do Exército também se rebelaram, conseguindo ocupar dois portos fluviais no rio Paraguai. Estudantes promoveram manifestações de rua em Salvador e no Rio. Mas foi em Belém que os fatos evoluíram de forma mais dramática: estudantes secundaristas e universitários armados conseguiram ocupar o centro da cidade por dois dias. As forças rebeldes contaram com cerca de 40 mil combatentes, muitos deles civis voluntários, contra 300 mil do Governo Provisório que se revezavam. Uma rápida adaptação da indústria paulista para o esforço da guerra chegou mesmo a assustar a ditadura no mês de agosto, surpreendida com a eficiência alcançada na reposição de armase munições. Roberto Simonsen, presidente da Federação das Indústrias, comandou pessoalmente esse trabalho de interação UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” 56 do parque industrial com as necessidades de combate, articulando empresários, militares, engenheiros e técnicos. Mas, 85 dias depois de iniciada, a Revolução Constitucionalista chegaria ao fim no dia 2 de outubro, com o triste saldo de cerca de seiscentos mortos entre os insurgentes e duzentos nas tropas do Governo Provisório. As lideranças civis e militares dos rebeldes foram expatriadas e não puderam participar da eleição para a Assembleia Constituinte, realizada em maio de 1933. Mesmo assim, os constitucionalistas conseguiram eleger 71% dos representantes paulistas. Esta inquestionável demonstração de popularidade acabou forçando Vargas a conceder uma anistia geral e a promulgar uma nova Constituição, em 1934. José Alfredo Vidigal Pontes é historiador graduado pela USP e autor, entre outros livros, de 1932: O Brasil se revolta. São Paulo: Ed. O Estado de S. Paulo; Ed. Terceiro Nome, 2004. FONTE: PONTES, José A. V. Sangue brasileiro. Nossa História em Revista, São Paulo, ano 2, n. 21, jul. 2005. TÓPICO 1 | A REVOLUÇÃO DE 1930: GETÚLIO VARGAS NO PODER 57 Para aprofundamento destes temas, sugiro que você veja os filmes e leia os seguintes livros: FILMES: 1 – Revolução de 30. Brasil: Direção de Sylvio Back, documentário, 118 min. 1980. Trata-se de um documentário-colagem de vários documentários e filmes de ficção dos anos 20, culminando com imagens inéditas da Revolução de 1930. 2 – O assalto ao poder. Brasil: Direção de Eduardo Escorel, documentário, 100 min. 2002. O ano de 1935 estava chegando ao fim quando três levantes militares, em três diferentes capitais brasileiras, tentaram derrubar o governo de Getúlio Vargas, que foi implacável com os insurretos. Vários deles foram brutalmente torturados. Em poucos dias, o movimento foi inteiramente dominado, num dos primeiros passos para a escalada autoritária de Getúlio Vargas, que se manteria no poder até 1945. O filme documenta todos os lances dessa insurreição comunista, que teve como protagonistas, além de Getúlio Vargas, Luiz Carlos Prestes, Octávio Brandão, Olga Benário, Gregório Bezerra, Giocondo Dias entre outros anti-heróis da utopia comunista na América Latina. LIVROS: FAUSTO, Bóris. A Revolução de 1930: historiografia e história. São Paulo: Brasiliense, 1972. FIGUEIREDO, Eurico de Lima (org.). Os Militares e a Revolução de 30. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. DICAS 58 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico abordamos as seguintes questões: • Durante a década de 1920, em meio a oscilações no cenário econômico, nacional e internacional, ocorreram no Brasil manifestações de cunho político, social e cultural que balançaram as bases da República Velha. Dentre estas manifestações destaca-se o Tenentismo, movimento dirigido por militares, o impacto da Revolução Russa em meio ao operariado brasileiro (levando à formação do Partido Comunista do Brasil), e a Semana de Arte Moderna. • Do ponto de vista político-eleitoral, no início da década de 20 a comunhão de interesses e descontentamentos em relação aos rumos da República Velha ocasionou uma aproximação entre oligarquias regionais dos estados do Rio Grande do Sul, Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco. O objetivo em pauta era dar sustentação a um candidato de oposição ao pacto Minas/São Paulo. • A ruptura do pacto político firmado entre Minas e São Paulo, em 1929, ano de início de uma grande crise econômica mundial, resultou na formação da Aliança Liberal, constituída por representantes dos estados de Minas, Rio Grande do Sul e Paraíba. • A Aliança Liberal indica Getúlio Vargas como candidato à disputa das eleições. Em meio à fraude deliberada, de ambos os lados, o candidato paulista à Presidência, Júlio Prestes, é eleito, mas não chega a assumir. • Apoiada por setores do exército, a Aliança Liberal leva a cabo um levante militar que resulta na Revolução de 1930. Getúlio assume o poder e implanta um governo provisório. • Em 1932, forças políticas de São Paulo insurgem-se contra o governo no episódio conhecido como Revolução Constitucionalista. Embora derrotado, o movimento obtém êxito em muitas de suas reivindicações, como, por exemplo, a implantação de uma Assembleia Constituinte em 1934. • Em 1934 ocorrem eleições e, para o governo federal, elege-se Getúlio Vargas. Inicia-se o governo constitucional, vigente até 1937. • Durante o governo constitucional, Getúlio Vargas joga com as forças políticas existentes no cenário nacional. Neste período ganham força e projeção duas correntes políticas: a Aliança Nacional Libertadora (ANL), cuja linha de frente foi composta pelo ideário comunista, e a Ação Integralista Brasileira (AIB), defensora de um governo forte e centralizado, e contrária à luta de classes. 59 • A ANL tenta um malsucedido golpe de Estado em 1935, denominado Intentona Comunista. A AIB, por sua vez, embora tenha se aproximado de Vargas, é extinta por decreto governamental em 1937. • Em meio a tentativas frustradas de deposição do governo, Vargas promove uma aproximação em relação ao Exército. Ações como aquelas orquestradas pela ANL e a AIB criaram as condições e justificativas para a implantação do Estado Novo. 60 AUTOATIVIDADE 1 Estabeleça uma relação entre eventos que eclodiram ao longo da década de 1920 e a Revolução de 1930. 2 Entre 1930, ano em que Getúlio Vargas chega ao poder, e 1937, ano da instauração do Estado Novo, o governo Vargas enfrentou duas sublevações de grande impacto e relevância: a Revolução Constitucionalista e a Intentona Comunista. Descreva, em linhas gerais, as circunstâncias nas quais estes movimentos encontraram condições de emergência. Assista ao vídeo de resolução da questão 1 61 TÓPICO 2 O ESTADO NOVO E SEUS DESDOBRAMENTOS UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Embora a eleição indireta de Getúlio Vargas, em 17 de julho de 1934, pela Assembleia Constituinte significasse sua legitimação à frente do Executivo, o governo que se seguiu nem de longe foi tranquilo. Respaldados pelo clima favorável no cenário internacional, os movimentos sociais tornavam-se cada vez mais incisivos e de difícil controle. Greves operárias e manifestações de alguns segmentos da classe média resultavam em uma maior pressão sobre o governo e a classe patronal. A questão social, que até então, na maioria das vezes, era tratada como um simples caso de polícia, entrou em ressonância com a perspectiva teórica da luta de classes. A radicalização política teve um terreno fértil para germinar. Tendo as Forças Armadas ao seu lado e contando com o receio da elite econômica do país em relação aos desdobramentos de uma possível tomada do poder por parte das classes operárias, Getúlio, em nome da “legalidade institucional”, decreta o Estado Novo. 2 O PLANO COHEN Escrevendo a respeito do cenário político do Brasil da década de 1930, Penna (1999) sustenta que não é possível dissociar o Estado Novo dos acontecimentos que irão produzir a Revolução de 1930. O pronunciamento de 10 de novembro de 1937 teria sido um desdobramento daquele fato ou, em outras palavras, uma roupagem institucional para o “Estado de fato” criado com a decretação da Lei de Segurança Nacional em 1935. Evidentemente, em um contexto de forças e interesses políticos tão intensos, o Estado Novo precisava se apresentar como um gesto de defesa da legalidade, ou seja, precisava de respaldo político e social. Respondendo por este imperativo, Vargas torna público um documento forjado pelo capitãoOlímpio Mourão Filho, militar integralista, cujo conteúdo mencionava um suposto plano comunista que consistia em promover desordens e atentados com vistas à tomada do poder. Coube à imprensa fazer a divulgação, cujo impacto foi imediato. Para se ter um exemplo do grau de dramaticidade do documento, uma de suas partes fazia menção ao desrespeito sistemático “à honra e aos sentimentos mais íntimos da mulher brasileira”, ou seja, ao estupro como estratégia de ação. O fato é que Conivente com os verdadeiros planos de eliminação dos direitos constitucionais perpetrado pelo governo, o capitão Mourão Filho se 62 UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” deixa envolver nesta trama, e a 30 de novembro o general Eurico Gaspar Dutra a denunciava. Antes, os integralistas, tendo à frente o capitão, “reconhecem” o teor do documento como de autoria comunista. Em 1º de outubro a Câmara aprova o estado de guerra, suspendendo as garantias constitucionais por um prazo de noventa dias. Contra esta decisão se insurgem as bancadas de São Paulo e do Rio Grande do Sul. (PENNA, 1999, p. 186). A Lei de Segurança Nacional, promulgada em 4 de abril de 1935, definia crimes contra a ordem política e social. Sua principal finalidade era transferir para uma legislação especial os crimes contra a segurança do Estado, submetendo-os a um regime mais rigoroso, com abandono das garantias processuais. Esta lei foi aprovada após acirrados debates, num contexto de crescente radicalização política, pouco depois de os setores da esquerda terem fundado a Aliança Nacional Libertadora. Nos anos seguintes à sua promulgação, foi aperfeiçoada pelo governo Vargas, tornando-se cada vez mais rigorosa e detalhada. Em setembro de 1936, sua aplicação foi reforçada com a criação do Tribunal de Segurança Nacional. FONTE: Disponível em: <www.cpdoc.fgv.br>. Acesso em: 2 abr. 2010. Os exageros contidos no documento, algo que um olhar mais atento detectaria como indícios de uma farsa, foram ofuscados com a sugestão de ser o plano parte de um complô internacional (a proposta de internacionalização do comunismo), razão pela qual foi denominado “Plano Cohen”. Seu caráter prescritivo, uma ameaça à soberania nacional e aos interesses do capital, levou até mesmo os setores mais liberais da sociedade brasileira a admitir uma ação mais contundente por parte do governo: o 10 de novembro marca, então, a leitura do texto de uma nova Constituição para o corpo de ministros do Estado. Iniciava-se um novo momento da vida política e institucional brasileira. Na linha de frente das ações pós-decreto ocorreram intervenções nos estados onde a oposição e resistência à nova ordem eram maiores. Bandeiras estaduais foram queimadas, símbolo evidente do fim da autonomia dos estados. A repressão generalizou-se e, supostamente agindo em nome do povo, fez do povo seu alvo preferencial. 3 O ESTADO NOVO As continuidades e as permanências que marcaram o regime republicano até a chegada de Vargas ao poder ganharam uma nova roupagem a partir de 1937. As estruturas de dominação permaneceram articuladas, mas algo de novo se insinuou no horizonte. Del Priore e Venâncio afirmam que NOTA TÓPICO 2 | O ESTADO NOVO E SEUS DESDOBRAMENTOS 63 A permanência de Getúlio Vargas no poder dificilmente teria sido possível sem o extraordinário sucesso econômico alcançado durante seu primeiro governo. Para se ter uma noção do significado profundo dessa afirmação, basta mencionarmos que, por volta de 1945, nossa industrialização finalizava seu primeiro grande ciclo. Em outras palavras: pela primeira vez, a produção fabril brasileira ultrapassava a agrícola como principal atividade econômica. Nesse mesmo período, também assistimos ao surgimento da indústria de base, ou seja, aquela dedicada à produção de máquinas e ferramentas pesadas, à siderurgia, à metalurgia e à indústria química (2003, p. 320, grifo no original). No quadro descrito por Del Priore e Venâncio, podemos inserir a constatação de que o desenvolvimento econômico ocorrido durante o Governo Vargas associou- se à afirmação hegemônica de uma burguesia industrial, à proliferação da força de trabalho no meio urbano e a um intenso processo de urbanização. Analisaremos cada um desses elementos de maneira mais detalhada. Antes, porém, tentaremos compreender por quais razões o ordenamento político instaurado com o Estado Novo teve condições de vingar. Conforme comentamos anteriormente, o receio das elites dominantes – nos anos trinta intimamente associados aos interesses da burguesia industrial – em relação à mobilização da classe operária foi decisivo para a emergência de um regime de caráter autoritário. Contudo, há que se considerar que os regimes autoritários não se sustentam sem a utilização da força ou, de maneira mais ampla, sem o respaldo das armas. Neste sentido, o aval dado pelos militares, tanto do ponto de vista do poder bélico, quanto do da constituição de uma identidade para o regime político pós-37, foi decisivo. Ou seja, de meros atores coadjuvantes na conjuntura política dos anos 20 os militares transformaram-se em peças- chave nos anos 1930, reafirmando seu papel incisivo após o término da Segunda Guerra Mundial, situação na qual é fundada a Escola Superior de Guerra. Mais do que mantenedores da ordem e da soberania nacional, os militares ingressaram diretamente nos quadros do Poder Executivo e, como veremos mais tarde, no plano eleitoral. Durante o Estado Novo surgiu nas Forças Armadas um grupo com fortes inclinações nacionalistas e partidário da modernização industrial visando impedir as tentativas de recomposição do monopólio do poder por parte das oligarquias rurais. O cenário econômico nacional e internacional favoreceu este objetivo, pois, a partir de 1930, a atividade industrial apresentava taxas de crescimento anual aproximadamente três vezes maiores que a taxa de crescimento agrícola. A crise econômica de 1929 atingiu em cheio o café, carro-chefe do setor agrícola, e, nos anos 30, as exportações do produto caíram pela metade se considerarmos os primeiros anos da década de 1920. Importante enquanto base de sustentação, a maior projeção do exército, contudo, não significou que as Forças Armadas passaram a ditar regras e orientar os rumos do governo. Este segmento do espectro político constituía-se apenas como mais um dos grupos com os quais Vargas tinha que habilmente lidar. Entre os civis destacavam-se a burguesia industrial, o proletariado urbano e os grandes 64 UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” latifundiários. Visando conter estes últimos, Vargas valorizou a aliança com grupos urbanos. Penna (1999) afirma que o novo regime tinha se instaurado em uma sociedade ainda fortemente marcada por traços preliminares do capitalismo. O desenvolvimento econômico capitaneado pela burguesia não fora acompanhado de uma representação burguesa capaz de conceber um projeto para o exercício do poder e de uma classe operária que interpretasse os interesses do mundo do trabalho. O vácuo criado pela ausência de tais projetos, tanto burgueses quanto proletários, foi ocupado por uma hipertrofia do Estado. Por outro lado, a forte presença da ação estatal não pode ser interpretada apenas levando-se em conta o atraso do desenvolvimento das forças produtivas associadas à industrialização. O processo ocorrido no Brasil encontrava par em países afetados pela crise econômica que se arrastou ao longo da década de 1930. Neste sentido, o exemplo mais evidente pode serencontrado na Alemanha, cujo poder concentrava-se nas mãos de Adolf Hitler. O paralelo entre o Brasil e a Alemanha pode ser interessante na medida em que o concebemos do ponto de vista da expectativa de anulação do ideário da luta de classes em ambos os países. No caso brasileiro, o Estado, consciente do seu papel como indutor do desenvolvimento, tratou de dispensar aliados incômodos, as classes em ascensão, trabalhando ideologicamente visando à sua desqualificação como portadoras de interesses comuns, produzindo um Processo de despolitização da sociedade, cujo efeito mais perverso atingiu em cheio os trabalhadores. Procurou atraí-los por meio de recursos que iam de medidas compensatórias – a maioria transformada em legislação trabalhista – ou por meio de mensagens de sentido dúbio, típicas de regimes autoritários, tais como aquelas em que se procura demonstrar que numa sociedade “sadia” não há lugar para os interesses de classe. (PENNA, 1999, p. 188). O fato é que, para cada segmento com o qual tinha que lidar, Vargas lançou uma estratégia específica. Para os trabalhadores urbanos, por exemplo, estabeleceu- se um conjunto de mudanças na legislação visando à melhoria das suas condições de vida. Paralelamente à legalização de reivindicações dos trabalhadores – agentes ativos que desde o início do governo republicano lutaram por seus direitos, portanto não se pode falar na existência de uma doação de Vargas – incrementou- se a lógica do sindicalismo corporativo, ou seja, após anos de aperfeiçoamento de um sistema que tendia a diminuir o poder de barganha e representatividade dos sindicatos, em 1939 Vargas determina a existência de um único sindicato por categoria. Del Priore e Venâncio (2003) nos lembram também que este foi o momento da criação do imposto sindical – desconto anual de um dia de salário da folha dos empregados – com a finalidade de financiar a estrutura sindical. Neste sentido, “de instrumento de luta, os sindicatos dos anos de 1940 passam à condição de agentes promotores da harmonia social e instituições prestadoras de serviços assistenciais”. (DEL PRIORE; VENÂNCIO, 2003, p. 321). Evidentemente, uma parte dos líderes sindicais com formação nas fileiras do movimento anarquista via estas mudanças de maneira crítica, denunciando a cooptação e a manipulação dos trabalhadores. Ocorre que, para a grande massa TÓPICO 2 | O ESTADO NOVO E SEUS DESDOBRAMENTOS 65 dos trabalhadores, Vargas atendia expectativas mais imediatas, principalmente após a criação da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) em 1943 e da criação de uma Justiça do Trabalho (que visava à mediação dos conflitos entre empregados e patrões). Seja como for, a postura adotada por Vargas foi responsável pela penetração das massas populares urbanas no cenário político. Embora condicionadas, estas massas Constituem a única fonte social possível de poder pessoal autônomo para o governante e, em certo sentido, se constituirão na única fonte de legitimidade possível para o Estado. O chefe do Estado passará a atuar como árbitro dentro de uma situação de compromisso que, inicialmente formada pelos interesses dominantes, deverá contar com um novo parceiro – as massas populares urbanas – e a representação das massas nesse jogo estará controlada pelo próprio chefe de Estado. Nas funções de árbitro, ele passará a decidir em nome dos interesses de todo o povo e isso significa dizer que ele tende, embora esta tendência não possa efetivar-se sempre, a optar por aquelas alternativas que despertam menor resistência ou maior apoio popular. (WEFFORT, 1989, p. 69-70). O quadro de compromisso, ao qual se refere Weffort, resultou de uma associação entre o regime (Estado Novo), a instituição Estado e a nação (sociedade), associação esta “[...] realizada com o esmero de quem tece uma fina fibra responsável pela feitura de um tecido”. (PENNA, 1999, p. 188). A figura política de Getúlio Vargas se destaca nesse processo porque soube encarnar esses distintos elementos, ligando-os num único objetivo: fazer de todos os cidadãos partes integrantes de uma vocação comum, a de realização do destino de todos. Evidentemente, uma tarefa com tal envergadura não poderia ser realizada individualmente. Em uma de suas linhas de ação, Vargas promoveu uma maior aproximação em relação a certos meios intelectuais, criando, inclusive, uma revista chamada Cultura Política. Esta passou a contar com a contribuição de articulistas de diferentes concepções políticas e filosóficas, com o objetivo de revelar-se aberta ao conhecimento científico. Há que se considerar, porém, que o pano de fundo sobre o qual se inseriam os escritos publicados era composto pela máxima da “ordem e coesão social”. Segundo Penna (1999), nomes como Gilberto Freyre e Nelson Werneck Sodré publicaram textos na Cultura Política. Mobilizar possíveis e futuros fazedores de opinião passou a ser um dos objetivos das políticas culturais levadas a cabo pelo Estado Novo. O sucesso da proposta estava intrinsecamente ligado à eficiência do controle sobre o campo educacional. Com efeito, a intervenção estatal na educação foi um dos feitos mais contundentes do Estado Novo, vindo a ocasionar drásticas mudanças neste setor. Del Priore e Venâncio (2003) afirmam, por exemplo, que durante a gestão de Gustavo Capanema, ministro da Educação e Saúde entre os anos de 1934, que reuniu em torno de si intelectuais do quilate de Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade e Heitor Villa-Lobos, foram planejadas e executadas importantes alterações, como a ampliação de vagas e a unificação de conteúdos das disciplinas no ensino secundário e universitário (durante o Estado Novo foi notável a expansão do sistema universitário, tendo como resultado a formação de toda uma geração de sociólogos, economistas e administradores). Na 66 UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” mesma época ocorre a nacionalização de escolas que até então eram controladas por imigrantes europeus ou seus descendentes, tais como aquelas implantadas no Sul do país (com a consequente imposição da língua portuguesa como única língua passível de uso nos meios escolares), assim como a criação do ensino profissional, materializado em instituições tais como o SENAI, SESI, SENAC e SESC. FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Gustavo_ Capanema_1932.jpg>. Acesso em: 10 abr. 2010. FIGURA 19 – GUSTAVO CAPANEMA: MINISTRO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE ENTRE OS ANOS DE 1934 E 1945 Outra importante linha de ação governamental implementada por Vargas teve como veículo de disseminação o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Visando à propaganda política através dos novos meios de comunicação como o rádio e o cinema, o DIP organizava rituais totalitários de culto à personalidade do ditador. Neste período ocorre a criação de programas de rádio como o Repórter Esso e A Hora do Brasil, sendo que, especialmente este último, tinha por escopo a divulgação de propagandas e ideias do regime. As prerrogativas legais que davam sustentabilidade às ações dessa natureza estavam contidas no texto da Constituição de 1937, a Constituição do Estado Novo ou, ainda, Polaca – numa alusão ao fato de ter sido inspirada no modelo de Constituição polonesa do marechal Josef Pilsudski. Legitimando um regime centralizado e autoritário, dando ao Executivo a capacidade de se sobrepor aos demais poderes de Estado, a Carta Constitucional de 1937 favoreceu a criação de mecanismos de controle da opinião pública através da censura e/ou manipulação. Uma característica marcante do texto constitucionalfoi a atribuição da prerrogativa de governar por decretos-leis. Um desses decretos, assinado em 3 de dezembro de 1937, proibiu o uso de símbolos, gestos, manifestações de qualquer espécie, formação de partidos políticos, determinando a dissolução dos existentes. De imediato, o decreto tinha por escopo os integralistas, mas em médio e longo prazos seu objetivo era promover a despolitização da sociedade, abrindo caminho para o exercício da tutela do Estado sobre os grupos sociais organizados. A relação TÓPICO 2 | O ESTADO NOVO E SEUS DESDOBRAMENTOS 67 de Vargas com os trabalhadores urbanos, conforme comentada anteriormente, insere-se neste plano. Numa outra ordem de fatores a política getulista procurou incentivar o desenvolvimento econômico. Segundo Del Priore e Venâncio (2003), já no início dos anos trinta Vargas retomou a política de valorização do café com o objetivo de impedir a estagnação da economia. São Paulo, favorecido por esta política, liderou o processo de formação de um mercado nacional voltado para a substituição de importações. Paralelamente a isso, o governo garantiu, através da política fiscal e cambial, a transferência de renda para o setor industrial local. A importância dos empresários paulistas cresceu a olhos vistos: nos anos 40 eles passaram a ser responsáveis pela metade da produção fabril brasileira. O revés mais imediato desta política econômica foi, portanto, a ampliação do desequilíbrio regional, implicando o declínio de estados que não acompanhavam o ritmo competitivo de crescimento. Para além das ações da iniciativa privada, uma das grandes marcas do Estado Novo foi a constituição das chamadas empresas públicas, uma alternativa para sustentar o processo de expansão industrial acelerada. Linhares (1990) sustenta que Neste contexto específico incrementou-se a opção pela empresa pública como alternativa de financiamento do novo padrão de acumulação, numa conjuntura internacional de tecnologia altamente monopolizada. Setores como os de ferro e de aço, da energia elétrica, da química pesada e da produção de motores tiveram sua solução inicial com base no investimento estatal ou na forma de empresas de economia mista. A Companhia Siderúrgica Nacional (1941), a Companhia Vale do Rio Doce (1942), a Companhia Nacional de Álcalis (1943) e a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (1945) são alguns exemplos. (p. 247, grifo no original). A implantação das indústrias de base a partir de iniciativas estatais contrariava os princípios do liberalismo, mas, levando-se em conta que os anos de 1930 não foram os melhores para a política do não intervencionismo, ocorria no Brasil algo semelhante ao que se processava em vários outros países do mundo ocidental. No mais, os investimentos estatais nesse setor criaram as condições necessárias para o desenvolvimento do setor de bens de consumo, pois favoreceu a redução de custos ao capital privado. No que se refere às relações internacionais, o governo de Vargas durante o Estado Novo ficou marcado pela estratégia da barganha. O presidente soube se aproveitar de maneira exímia do conturbado cenário internacional, principalmente após 1939, ano de eclosão da Segunda Guerra Mundial. Enquanto pôde, Vargas manteve-se distante do conflito, embora viesse a demonstrar certa simpatia pelos países do Eixo, mais especificamente a Alemanha e a Itália, países cujos governos autoritários se assemelhavam ao seu. A partir de 1942, com o avanço dos Aliados, Vargas opta pelo rompimento com o Eixo, não sem antes obter um empréstimo de 20 milhões de dólares dos Estados Unidos, capital usado na construção da Companhia Siderúrgica Nacional. 68 UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” FONTE: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/ commons/9/9a/Vargas_ e_Roosevelt.jpg>. Acesso em: 10 abr. 2010. FIGURA 20 – GETÚLIO VARGAS E FRANKLIN DELANO ROOSEVELT A Figura 20 mostra Getúlio Vargas e Franklin Delano Roosevelt, em encontro ocorrido já em 1936, antes da instauração do Estado Novo. As negociações entre os presidentes dos dois países americanos se intensificaram ao longo da Segunda Guerra Mundial. Desde o início de 1942 os contatos entre Vargas e o presidente norte- americano F. D. Roosevelt haviam se intensificado. Roosevelt inclusive chegou a visitar o Brasil, vindo a conhecer algumas regiões brasileiras. Em pouco tempo as negociações resultaram na formação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) que, em 1944, foi enviada à Itália para lutar ao lado das forças norte-americanas. Diante do progressivo avanço dos Aliados, a própria sobrevivência do Estado Novo passava a ser ameaçada, pois uma vitória dos países em que vigoravam regimes democráticos colocava em xeque o regime ditatorial capitaneado por Vargas. FONTE: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/ commons/3/36/Feb_ Apeninos.jpg>. Acesso em: 10 abr. 2010. FIGURA 21 – FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA NOS APENINOS – ITÁLIA, 1945 UNI TÓPICO 2 | O ESTADO NOVO E SEUS DESDOBRAMENTOS 69 Aliada das pressões do cenário internacional, uma das determinações da legislação vigente militava contra o Estado Novo. De acordo com a Constituição outorgada em 1937, em 1943 deveria ocorrer um plebiscito que poria o regime à prova. O prazo foi prorrogado para o período imediatamente posterior à Segunda Guerra justamente devido à decretação do estado de guerra no país. De 1943 a 1945, portanto, as articulações políticas começaram a ser feitas com maior intensidade. Em 1944, o próprio Getúlio reconheceu como esgotado o ciclo autoritário, visando promover a transição ao regime democrático dentro da ordem institucional, ou seja, seu interesse era fazer com que o próprio Executivo comandasse o processo de transição política. Del Priore e Venâncio (2003) vão mais longe, afirmando que desde 1941 já estavam sendo feitas as articulações para garantir a transição. O próprio Vargas tentava organizar um partido de alcance nacional. Em 1943, o descontentamento das elites regionais marginalizadas durante o Estado Novo foi expresso no Manifesto dos Mineiros, texto cujo conteúdo tecia críticas ao caráter autoritário do governo, assinado por políticos de renome nacional. Em 1944 a estrutura partidária que comandaria a transição já estava praticamente constituída. As elites dissidentes que, desde a Revolução de 1930, haviam sido marginalizadas, agruparam-se em torno da União Democrática Nacional (UDN). Getúlio, por sua vez, reúne os interventores estaduais no Partido Social Democrático (PSD). A estrutura sindical e previdenciária criada por Vargas serviu de base à constituição do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). As estruturas partidárias anteriormente descritas foram legalizadas em 1945. Del Priore e Venâncio afirmam que A UDN lança candidato próprio às eleições previstas para 1946, o mesmo ocorrendo com o PSD. A posição do PTB é outra. Não lança candidato, mas defende a convocação de uma assembleia constituinte ainda no governo de Getúlio, que seria por isso mesmo prolongado um pouco mais. Tal movimento ganhou as ruas – sendo popularmente denominado na época de “queremismo”, ou seja, “queremos Getúlio” – e contou com o apoio do Partido Comunista Brasileiro (PCB), apoio este, aparentemente, surpreendente. [...] Vargas foi responsável por uma feroz repressão aos comunistas. No entanto, é necessário lembrar que foi no seu governo que o Brasil entrou em guerra contra o nazifascismo, em uma aliança da qual participou a União Soviética. No final de suagestão também houve a anistia e a legalização do PCB. Mais ainda: para os comunistas, os inimigos políticos de Vargas reunidos na UDN representavam o que havia de mais atrasado na sociedade brasileira. (2003, p. 330). 70 UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” FONTE: CENTRO de Referência da História Republicana Brasileira. Disponível em: <http://www.republicaonline.org.br/ reponlinenav/>. Acesso em: 5 maio 2010. FIGURA 22 – MOVIMENTOS SOCIAIS E POLÍTICOS A Figura 22 mostra populares manifestando-se em apoio à permanência de Vargas na Presidência, Rio de Janeiro – 1945. O receio em relação à manipulação das eleições levou tanto a UDN quanto o PSD a escolherem militares como candidatos à Presidência. A UDN escolheu o brigadeiro Eduardo Gomes, enquanto que o PSD optou pelo general Eurico Gaspar Dutra. No último ano da Segunda Guerra Mundial, sob alegação da existência do conflito internacional, o exército brasileiro aumentou sobremaneira seu contingente militar. Assim, Getúlio experimentaria “[...] agora o sabor amargo de uma prática intervencionista feita por uma instituição que ele mesmo havia ajudado a crescer”. (DEL PRIORE; VENÂNCIO, 2003, p. 331). Em outubro de 1945, sob pressão do exército, Getúlio era obrigado a deixar o poder. Sem candidato próprio, o PTB apoia Eurico Gaspar Dutra, que vence a eleição presidencial. Vargas, eleito para o Senado, pouco participou da Assembleia Constituinte responsável pela elaboração da Constituição, promulgada em 1946. Retornando para sua terra natal, em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, fica em relativo exílio até retornar ao cenário político para um novo mandato presidencial. Neste período, seus desafios seriam outros. UNI TÓPICO 2 | O ESTADO NOVO E SEUS DESDOBRAMENTOS 71 LEITURA COMPLEMENTAR CULTURA, BRASIL E ESTADO NOVO Por Carlos Alberto Dória A POLÍTICA CULTURAL DE GETÚLIO VARGAS, QUE SE MATOU EM 1954, AINDA INCOMODA OS INTELECTUAIS “A arte de viver é criar afetos”. Gustavo Capanema O elitismo brasileiro estabelece uma relação constante entre a modernização getulista e o autoritarismo. A expansão do serviço público e a normatização de novas atividades que Getúlio promoveu ainda hoje encontram críticos que veem nelas a sombra da ditadura sobre a sociedade civil, turbando os passos de uma caminhada “natural” em direção a uma vida mais democrática. Por exemplo, até a definição de “cidade”, obviamente anacrônica por força da urbanização pós- guerra, encontra quem a classifique como “entulho varguista”. Trata-se de uma leitura liberal da história, que dificulta a avaliação isenta. Contrário senso, quando se trata da administração cultural, o período Vargas é visto como o ponto alto da trajetória do Estado brasileiro. Muitos intelectuais manifestam sua perplexidade ao constatar que naquele período autoritário tanto se fez em prol da democratização da cultura. Neste domínio o liberalismo não avançou muito. Ao contrário do enquadramento antropológico que a Constituição de 1988 tentou fixar, nas Constituições de 1934 e 1937 o Estado (União, Estados e Municípios) é guindado à posição de institucionalizador da vida cultural: defensor de monumentos naturais, artísticos e históricos; deve também “animar o desenvolvimento das ciências, das artes, das letras e da cultura em geral” e “prestar assistência ao trabalhador intelectual”; e, por fim, favorecer ou fundar “instituições artísticas, científicas e de ensino”. Assim, é indubitável que no período Vargas fundou-se o Estado tal e qual hoje ele se situa frente à cultura. Esta obra é atribuída a Gustavo Capanema. Ele foi, ao longo de toda a sua vida, homem do poder de Estado: oficial de Gabinete de Olegário Maciel, Presidente de Minas, em 1930; Secretário do Interior no período de consolidação da Revolução; Interventor em Minas, em 1933; ministro da Educação e Saúde, entre 1934 e 1945; deputado federal e senador pela Arena, entre 1966 e 1971. Como ministro, reuniu em torno de si uma enorme plêiade de intelectuais, colocando-os a serviço do Estado. No aconchego de Capanema, Carlos Drummond de Andrade, Villa- Lobos, Mário de Andrade, Gilberto Freyre, Cândido Portinari, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e tantos outros deram a sua contribuição para a projeção do Estado como organizador da cultura. Terminados os governos de Vargas, a cultura tinha outro 72 UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” estatuto. Arquitetura, patrimônio histórico, música, cinema, todos foram afetados no seu perfil a partir de uma nova relação com a sociedade. O período desta convivência estreita abarcou todo o Estado Novo. Assim, enquanto se construía a modernidade cultural, intelectuais e oposicionistas eram presos, mortos, torturados, exilados. “Memórias do cárcere”, de Graciliano Ramos, é o documento pungente desse lado sórdido da modernização getulista. As relações ambivalentes dos intelectuais com o Estado foram homólogas às de Luis Carlos Prestes e o PCB frente ao getulismo. Quando entendeu necessário para o processo de democratização, Prestes apoiou publicamente aquele que fora algoz de sua mulher, Olga Benário. Os intelectuais que colaboraram com o getulismo nunca deixaram de reconhecer que aquele convívio foi necessário para a criação das novas condições institucionais da gestão cultural entre nós. Hoje, o elogio do getulismo é uma tônica frequente na história da administração da cultura, mas surge também certa tendência de condenação dos intelectuais que transacionaram com o poder de Estado. Mas, passados quase 70 anos do Estado Novo, é legítimo nos perguntarmos: o que restou de tudo isso? Uma geração intelectual sacrificou-se ao se entregar ao Leviatã ou deixou como legado uma perspectiva democrática para a cultura no Brasil? A resposta a essas questões exige que se deixe de lado o “cronocentrismo”, que consiste em julgar a ação política passada com os olhos de agora. Por exemplo, é preciso considerar que a principal tendência política à qual se filiavam os intelectuais mais proeminentes de então – o comunismo – defendia táticas frentistas que implicavam a convivência entre diferentes forças políticas na busca de objetivos comuns. A política era vista como o resultado contraditório de ações que se desenvolviam no interior da cidadela adversária e ela impunha que se participasse da história sob todas as formas, recusando o caminho da crítica distanciada. A Revolução de 1930 havia provocado fissuras profundas no poder oligárquico, e criar novos espaços institucionais era uma condição essencial para se aprofundar as distâncias entre o velho e o novo. Mas a mediação ideológica que o Estado promovia não contava com muitos mecanismos de convencimento, obrigando-o a trazer para o seu interior o conflito que se dava na sociedade, contrapondo democratas e integralistas, como forma eficaz de administrá-lo. Ao mesmo tempo em que os intelectuais modernistas se aninhavam nas repartições culturais, os integralistas buscavam manter o seu quinhão. Essa tensão foi registrada por Lauro Cavalcanti, ao analisar o momento político-intelectual de criação do Sphan (futuro Iphan), em 1937. Para ele, o Brasil viveu naquele momento o paradoxo de ser “o único país no qual membros de uma só corrente (modernista) são, ao mesmo tempo, os revolucionários de novas formas artísticas e os árbitros e zeladores do passado cultural”. Ora, o triunfo modernista deu-se claramente contra o nacionalismo verde-amarelo, aboletado desde 1922 no Museu HistóricoNacional, com Gustavo Barroso. TÓPICO 2 | O ESTADO NOVO E SEUS DESDOBRAMENTOS 73 O ideal museológico de Gustavo Barroso era claro: “O Brasil precisa de um museu onde se guardem objetos valiosos, espadas, canhões, lanças”. Ao cooptar os modernistas, o Estado rompeu o monopólio conservador de Gustavo Barroso sobre a política patrimonial-histórica. Encastelados no Sphan, os modernistas, na medida em que projetam o futuro como tão importante quanto o passado, colocam o Estado numa perspectiva evolucionista. O Sphan teve, assim, uma missão ideológica e política muito clara, e a forma autárquica, autocrática e “independente” que assumiu correspondia à mobilização dos recursos necessários para poder ser impositivo na definição do que, daí em diante, viria a ser o “patrimônio nacional”. A ultracentralização do órgão assemelhava-se ao perfil de toda a administração estadonovista, independente de sua finalidade. Esse aspecto autoritário, que então foi condição do seu sucesso, é hoje criticado como inibidor da mobilização da sociedade civil em prol da defesa do patrimônio histórico brasileiro. Mas, quando olhamos aquele momento com os olhos de hoje, ainda remanesce uma questão não desprezível: o “tombamento” e a patrimonialização do passado colonial escravista, católico e europeizado, com signo material da nacionalidade. Este sentido do alçamento do barroco à condição de “estilo nacional” é inequívoco. A ele se paga um tributo muito grande, e só recentemente outras facetas do passado nacional ganharam estatuto patrimonial. O Sphan foi concebido por Mário de Andrade e Paulo Duarte. À época, poucos intelectuais se aproximaram da cultura popular com abordagem moderna como Mário de Andrade e “conquistá-lo” foi ato de clarividência getulista. Depois de 1922, se deu um outro movimento de aproximação com o país real, principiado em 1924 com a Caravana Modernista, que mostrou o país ao poeta Blaise Cendrars; prosseguindo com as viagens de Mário, em 1927, ao Nordeste e Amazônia e, de novo, em 1941, à região Norte. Dessas aproximações sucessivas, além de uma série de ensaios sobre arquitetura e patrimônio, nasceram especialmente o “Ensaio sobre a música brasileira” (1928), o “Compêndio de história da música” (1929), “Modinhas imperiais” (1930) e “Música, doce música” (1933). Há na patrimonialização do barroco e na compilação musical uma invenção extraordinária da brasilidade, contraposta à força centrífuga dos regionalismos tributários do mundo oligárquico que a Revolução de 1930 pretendeu encerrar. Mas o mais interessante foi o hibridismo de valores que esse movimento promoveu. “No Brasil do ouro/ a história morta/ sem sentido”, enunciada em “Pau Brasil”, se revalorizará como cenário para o moderno hotel que Niemeyer construiu em Ouro Preto (“obra de arte”, segundo Lúcio Costa) e para o prédio do Ministério da Educação no Rio de Janeiro, numa afirmação de contrastes que se completará apenas com a construção de Brasília. 74 UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” Na música, a desfolclorização da tradição popular caberá a Villa-Lobos, tomando os temas para composições coerentes com as tendências mais modernas da música erudita. Ele, que vinha conhecendo o “Brasil interior” desde 1915, encontrará sob o getulismo as condições políticas para o trabalho de educação das massas, segundo paradigmas do canto coral e do ensino musical, culminando na formação do Conservatório Nacional de Canto Orfeônico. Nessa trajetória também merece destaque uma iniciativa pouco citada na literatura histórica: entre 1935 e 1936, a cantora lírica Bidu Sayão participou de duas enormes turnês, de Manaus a Santana do Livramento, cantando em teatros, cinemas e mesmo ao ar livre em cima de um tablado, levando a música erudita a cidades pequenas aonde jamais chegaria de outra maneira; até que em 1937 sofreu violenta vaia no Municipal do Rio de Janeiro, orquestrada pela milionária Gabriela Besanzoni Lage. Neste mesmo ano, Bidu Sayão foi contratada pelo Metropolitan, de Nova Iorque, e não mais cantou no Brasil. Estes dois casos – a arquitetura e a música – ilustram o paradoxo do Estado forte e empenhado na construção da cultura moderna brasileira e a questão remanescente é se haveria outro caminho a ser trilhado. Ao contrário da educação ou da saúde, não existe uma “demanda popular” por cultura. Portanto a hegemonia de novas formas de cultura depende fortemente do empenho do Estado e não há por que ver na participação intensa dos intelectuais nas atividades públicas uma fonte automática de contaminação autoritária por contágio. Essa colaboração só pode ser julgada pelos seus resultados. Evidentemente a cooptação intelectual sob o getulismo se opunha à profissionalização que o concurso público instituiu posteriormente, como forma exclusiva de acesso ao aparelho de Estado. A cooptação getulista possuiu um caráter provisório, o que não a impediu de degenerar. Consta que, sob Juscelino, o redator dos seus discursos, o poeta Augusto Frederico Shmidt, gabava-se de ser presidente da Companhia Nacional de Álcalis sem jamais ter visto “um álcalis”. O cargo público se transformara numa “posição”, isto é, numa situação hierárquica na estrutura de poder e num desvio de função. A trajetória mais recente – especialmente após a ditadura militar – mostra o Estado distanciado do que foram os anos de formação da moderna cultura brasileira de feição pública, ou seja, do projeto que ele mesmo impulsionou nos anos 30 e 40 do século passado. A degeneração burocrática do Iphan e a supressão da educação musical na escola pública são exemplos suficientes da trajetória miserável. Premida entre o mercado e um Estado incapacitado, a cultura logo se converteu num sem-lugar da vida social. De novo, então, o intelectual se vê diante do Estado como um estranho, pois ele já não tem qualquer projeto civilizatório que se alimente do seu trabalho criativo. A manutenção do “patrimônio” parece ser o seu único encargo, ainda que mal desempenhado; a título de fomento, distribui fundos públicos escassos entre produtores privados, que sempre pressionam por mais e mais verbas. Por TÓPICO 2 | O ESTADO NOVO E SEUS DESDOBRAMENTOS 75 outro lado, o servidor público, no qual eventualmente o intelectual se converteu, participa do destino geral dos trabalhadores do Estado, distanciando-se das práticas experimentais ou contestatórias que são medidas de valor da ação criativa. Fora do Estado, apenas a seletividade destruidora do mercado. Assim, o legado de Getúlio foi, sobretudo, a construção de uma institucionalidade inédita para a cultura, ao mesmo tempo em que tratou da elaboração ideológica do patrimônio voltado para a identidade brasileira. Os brasileiros deixaram de ser soltos na história para estarem aderidos a uma matriz étnica na qual se procurou igualar o passado indígena, negro e ibérico. Um pluralismo desconexo foi substituído pelo ideal de miscigenação, do qual eram portadores os modernistas de repartição. A questão de hoje é saber se esse legado, que ficou anacrônico, pôde ser superado pelas forças vivas da democracia pós-Estado Novo através da afirmação de um projeto alternativo de caráter democrático e popular. Tudo indica que a resposta é negativa. Assim, o getulismo ainda não é coisa do passado em matéria de administração cultural, e continua impossível para os trabalhadores da cultura julgá-lo com isenção. Carlos Alberto Dória – é sociólogo, doutorando em sociologia no IFCH- Unicamp e autor de “Ensaios Enveredados”, “Bordado da Fama” e “Os Federaisda Cultura”, entre outros livros. FONTE: A POLÍTICA cultural de Getúlio Vargas. Disponível em: http://pphp.uol.com.br/tropico / html/textos/2930.1.shl>. Acesso em: 20 abr. 2010. Para aprofundamento destes temas, sugiro que você veja o filme e leia os livros a seguir: FILME: Getúlio Vargas. Brasil: Direção de Ana Carolina Teixeira Soares, 1974. O filme-documentário foi construído a partir de materiais filmados nas décadas de 1920, 1930, 1940 e 1950. Como é possível notar no recorte temporal, o filme não fica restrito ao Estado Novo, pois abraça desde a Revolução de 1930 até o suicídio de Vargas. Contudo, a divisão em blocos temáticos evidencia o período do regime ditatorial. LIVROS: GARCIA, Nelson Jahr. Estado Novo – Ideologia e propaganda política. São Paulo: Loyola, 1982. VARGAS, Getúlio Dornelles. As diretrizes da Nova Política do Brasil. São Paulo: José Olímpio Editora, 1942. Além de: MARQUES, Ademar; BERUTTI, Flávio; FARIA, Ricardo. História Contemporânea: através do texto. 11 ed. São Paulo: Contexto, 2008. DICAS 76 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico abordamos as seguintes questões: • Em meio a um clima de mobilizações populares e efervescência política, de projeção contundente da “Questão Social”, tendo as Forças Armadas ao seu lado e contando com o receio da elite econômica do país em relação aos desdobramentos de uma possível tomada do poder por parte das classes operárias, Getúlio, em nome da “legalidade institucional”, decreta o Estado Novo. • A instauração do Estado Novo foi facilitada devido à alegação de um complô internacional apresentado em documento forjado – o Plano Cohen –, cujo caráter prescritivo, uma ameaça à soberania nacional e aos interesses do capital, levou até mesmo os setores mais liberais da sociedade brasileira a admitir uma ação mais contundente por parte do governo. • Durante o Estado Novo surgiu nas Forças Armadas um grupo com fortes inclinações nacionalistas e partidário da modernização industrial visando impedir as tentativas de recomposição do monopólio do poder por parte das oligarquias rurais. • Dentre os mais variados grupos com os quais Vargas teve que lidar durante o Estado Novo destacam-se a burguesia industrial, o proletariado urbano e os grandes latifundiários. Devido ao fato de nenhum desses grupos ter sido capaz de alcançar a hegemonia no poder, o período de 1937 a 1945 foi marcado pela hipertrofia do Estado e pela projeção inequívoca da figura de Getúlio Vargas. • Vargas teceu uma estratégia de ação específica para cada grupo com o qual tinha que negociar. Em relação aos trabalhadores, instrumentalizou o “sindicalismo corporativo”, ou seja, atrelou os sindicatos aos interesses do governo. Por outro lado, há que se considerar que durante o Estado Novo ocorreram avanços importantes no campo de luta pelos direitos trabalhistas. • O Estado Novo também ficou marcado pela aproximação entre o governo e alguns grupos de intelectuais. Agindo desta forma, Vargas visava angariar a simpatia de “formadores de opinião” em prol da causa governamental. Investimentos no setor educacional visavam preparar a sociedade para inserção em uma nova realidade caracterizada pela vida urbana e pelo desenvolvimento industrial. • O direcionamento da opinião pública foi condicionado por um forte investimento estatal em mecanismos de censura e pela constituição de veículos de propaganda do governo e da figura do ditador. • No plano internacional a política estadonovista primou pela lógica da barganha, ou seja, pela negociação com forças oponentes representadas, por exemplo, por 77 países como a Alemanha e os Estados Unidos. Em 1942, em meio à Segunda Guerra Mundial, Vargas associa-se aos aliados, vindo, inclusive, a mandar tropas brasileiras ao combate em solo europeu. • Após o término do conflito bélico internacional, o governo ditatorial de Vargas não pôde mais se sustentar. Articulações políticas iniciadas já em 1941 resultaram na criação de três grandes partidos que viriam a disputar as primeiras eleições diretas pós-Estado Novo: a UDN, o PSD e o PTB. Vargas é deposto e retorna para sua terra natal, São Borja, de onde voltará à Presidência “nos braços do povo”. 78 AUTOATIVIDADE 1 Elabore alguns comentários sobre as relações que podem ser estabelecidas entre a “Questão Social” e a implantação do Estado Novo. 2 Duas características/práticas marcantes do Estado Novo: o “Sindicalismo Corporativo” e a “Política da Barganha”. Explique o significado desses conceitos. Assista ao vídeo de resolução da questão 2 Assista ao vídeo de resolução da questão 1 79 TÓPICO 3 A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES DA DEMOCRACIA UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Conforme vimos no tópico anterior, o regime ditatorial implantado durante o Estado Novo foi carregado de ambiguidades. A estratégia da barganha adotada em relação à política internacional deixou sua marca também no cenário das articulações internas. Jogando de maneira hábil com o conjunto de interesses postos em relevo, Vargas soube, na medida do possível, atender as mais variadas reivindicações. Um exemplo marcante dessa postura pode ser encontrado na relação que o ditador estabeleceu com os trabalhadores urbanos. Embora o signo da cooptação tenha sido marca indelével, não há como negar que o Estado Novo ficou caracterizado pela institucionalização de uma legislação trabalhista há muito requisitada por este segmento social. Por maiores que sejam as divergências na perspectiva de análise dos historiadores que tomam o período pós-1945 como objeto de estudo, dificilmente encontraremos quem não aceite o fato de que o processo de redemocratização a ele associado foi problemático. De imediato há que se considerar a dificuldade de se convencer a população das vantagens da democracia constitucional. A vinculação entre os avanços no campo da legislação trabalhista e o governo estadonovista era por demais estreita para ser desconsiderada em prol de uma ideia – a democracia – que no Brasil, historicamente, nunca havia encontrado terreno fértil para germinar. Mas, sendo outros os tempos, as mudanças estavam em curso. De acordo com Penna (1999), a transição da ditadura do Estado Novo para a democracia representativa teve seu momento inaugural antes mesmo da deposição de Getúlio Vargas em 1945, mas é a partir deste ato, até a promulgação de uma nova Constituição, em 1946, que se convenciona designar redemocratização. Participaram desse processo grupos conservadores, grupos econômicos estrangeiros (principalmente norte-americanos), setores egressos do antigo regime e uma opinião pública sedenta por dias melhores. As oscilações no jogo do poder, que até então haviam marcado o regime republicano, ganharam novos contornos entre os anos de 1945 e 1964, pois o término do Estado Novo foi acompanhado por um aumento significativo no número de eleitores. Devido às reformas educacionais e à incorporação do voto feminino (o voto feminino sem restrições passou a ser obrigatório em 1946), os índices de participação da população nas eleições aumentaram de maneira 80 UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” significativa, sendo que, em sua maioria, os eleitores e eleitoras eram moradores do meio urbano (a maior limitação à participação popular no processo eleitoral ficou por conta do veto ao voto dos analfabetos). Este aumento ocorreu paralelamente à mudança no perfil tanto de eleitores quanto de candidatos: neste novo período o voto passou a ser mais uma resposta a interesses individuais e/ou de classe do que uma imposição (como fora o caso do voto de cabresto na Primeira República). Cabia agora aos candidatosusar de sua representatividade e aceitação junto às massas populares para chegar ao poder. 2 A PERSONALIZAÇÃO DO PODER: O POPULISMO Os anos que se estenderam de 1930 a 1964 ficaram marcados pela emergência de uma prática política singular no período republicano: o populismo. Francisco Weffort afirma que O populismo, como estilo de governo, sempre sensível às pressões populares, ou como política de massas, que buscava conduzir, manipulando suas aspirações, só pode ser compreendido no contexto do processo de crise política e de desenvolvimento econômico que se abre em 1930. Foi a expressão do período de crise da oligarquia e do liberalismo, sempre muito afins na história brasileira, e do processo de democratização do Estado que, por sua vez, teve que se apoiar sempre em algum tipo de autoritarismo, seja o autoritarismo institucional da ditadura Vargas (1937-45), seja o autoritarismo paternalista ou carismático dos líderes de massa da democracia do após-guerra (1945-64). Foi também uma das manifestações das debilidades políticas dos grupos dominantes urbanos quando tentaram substituir-se à oligarquia nas funções de domínio político de um país tradicionalmente agrário, numa etapa em que pareciam existir as possibilidades de um desenvolvimento capitalista nacional. E foi sobretudo a expressão mais completa da emergência das classes populares no bojo do desenvolvimento urbano e industrial verificado nestes decênios e da necessidade, sentida por alguns dos grupos dominantes, de incorporação das massas ao jogo político. (WEFFORT, 1989, p. 61). Weffort confere ao populismo uma envergadura temporal que abraça períodos e realidades distintas. Sua emergência nos anos 1930 representou, dentre outras coisas, a força dos movimentos sociais e, de acordo com Penna (1999), foi produto de uma situação política geradora da proletarização de amplas camadas sociais, que, em meio à transição para uma sociedade desenvolvida industrialmente, perdem a sua identidade. Esta perda passa a ser suprida por um processo de identificação, por parte das massas, com uma liderança política julgada capaz de um exercício do poder que põe na ordem do dia a preocupação com o desemprego e a miséria. Desta forma, “o populismo estabelece uma relação direta entre o líder e as massas, exalta o poder público e transforma o líder na própria encarnação do Estado protetor dos trabalhadores pobres e humildes”. (PENNA, 1999, p. 197). Via de mão dupla, esta relação resulta em ganhos tanto para as massas – cuja parte das reivindicações é atendida –, quanto para o líder. A este último é dado o poder de TÓPICO 3 | A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES DA DEMOCRACIA 81 negociação com as elites, sejam elas militares ou civis, pois, como chefe de Estado, passará a atuar como árbitro dentro de uma situação de compromisso onde os mais variados interesses estão envolvidos. O representante por excelência da política populista foi Getúlio Vargas. Seu prestígio popular foi construído ao longo de sua primeira estada à frente do poder, principalmente nos anos de 1937 a 1945, e, enquanto pôde, Vargas soube se utilizar muito bem dele durante seu segundo governo (1951-1954). Mas Vargas não foi o único. Na verdade, a única exceção clara na política populista, entre os anos de 1945 e 1964, foi o governo Dutra (1945-1950), que embora eleito à base do prestígio de Vargas, estabeleceu, uma vez no poder, uma forte aliança conservadora. 3 O GOVERNO DUTRA E O RETORNO DE VARGAS O governo Dutra teve início em 31 de janeiro de 1946 e apresentou fortes traços do liberalismo econômico, vindo a desenvolver uma postura contrária àquela adotada durante o Estado Novo. Decorre dessa postura o abandono da política de desenvolvimento amparado pelo Estado, assim como uma abertura à iniciativa privada e ao capital internacional. A retração do Estado, acompanhada pela ausência de controle sobre as remessas de lucros de empresas estrangeiras para o exterior, causou uma verdadeira sangria das divisas brasileiras. A passagem intempestiva de um forte intervencionismo estatal a um liberalismo agudo causou grandes estragos ao país e favoreceu politicamente Getúlio Vargas, que, de São Borja, acompanhava os desdobramentos do governo Dutra e articulava a sua volta à Presidência. Em qualquer que seja o período histórico alvo de análise, é pouco prudente desconectar os encaminhamentos do governo de um país do contexto internacional. No caso do governo Dutra, esta questão ganha contornos mais nítidos, pois ele se deu nos anos subsequentes ao término da Segunda Guerra Mundial e em meio ao surgimento da “Guerra Fria”, que pôs em confronto as duas grandes potências mundiais do pós-45: os Estados Unidos e a União Soviética. Dentre outros desdobramentos, a Guerra Fria resultou naquilo que se pode chamar de “política do alinhamento”, ou seja, a necessidade de identificação com os ideais defendidos seja pela potência capitalista (EUA), seja pela potência socialista (URSS). A opção do governo Dutra foi pelo desenvolvimento de uma política de orientação privatista e pró-norte-americana, com presença maciça dos americanos na economia brasileira, inclusive com a participação em programas do governo. 82 UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Boavi n2.jpg>. Acesso em: 7 maio 2010. FIGURA 23 – NORTE-AMERICANOS DÃO BOAS-VINDAS AO PRESIDENTE EURICO GASPAR DUTRA EM VIAGEM AOS ESTADOS UNIDOS Numa outra linha de ação, a retração do Estado e a defesa da ação da iniciativa privada tiveram efeitos sobre o conjunto dos trabalhadores. Primeiro porque não houve durante este governo uma preocupação com a política salarial. Para se ter uma ideia, enquanto Dutra esteve à frente do Executivo o salário mínimo não sofreu nenhum reajuste. O poder aquisitivo dos trabalhadores entrou em queda livre diante do aumento do índice de inflação. Por outro lado, em se tratando de um período de redemocratização, este descaso para com os trabalhadores acabou gerando as condições para o aflorar de manifestações por parte das massas conduzidas, em grande medida, por lideranças comunistas associadas ao PCB. Como seria de se imaginar, o governo conservador não demorou a acionar a repressão com veemência. Além de promover ações repressivas nas ruas contra os trabalhadores, em pleno processo de “redemocratização” o PCB é lançado na ilegalidade (maio de 1947). Neste mesmo ano o governo brasileiro rompe relações diplomáticas com a URSS e promove a cassação de deputados comunistas. Desta forma, aplicava- se no Brasil o procedimento idealizado pelos Estados Unidos para ratificar sua influência sobre os países latino-americanos. Todo este quadro nos dá uma ideia de como o governo Dutra acabou se tornando impopular. Do seu “retiro” em São Borja, Vargas observava a ordem dos acontecimentos: neste momento, o apelo populista torna-se mais forte do que nunca. No final de 1946 Vargas retirou o apoio dado a Dutra. Sua preocupação passou a ser, então, o fortalecimento do PTB e o estabelecimento de alianças políticas. A mais importante destas foi firmada com o Partido Social Progressista (PSP), cujo representante de maior peso era o governador de São Paulo, Ademar de Barros. O acordo previa o apoio de Vargas a Barros quando da sucessão presidencial. Esta aliança colocou sob o teto do mesmo projeto político os dois maiores líderes populistas daquela época: Vargas, o “pai dos pobres” – imagem TÓPICO 3 | A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADESDA DEMOCRACIA 83 construída durante o Estado Novo –, contava agora com o apoio de Barros, político conhecido como sendo “o tocador de obras”. A pedra no sapato de Vargas era o exército. Conforme vimos, sua deposição em 1945 foi resultado das pressões desta instituição. Havia, portanto, a necessidade de ampliar o leque de negociações para que o exército também fosse incluído. Segundo Del Priore e Venâncio (2003), devido ao forte apelo popular de Vargas, muitos militares o viam como um antídoto frente à expansão do comunismo. Talvez por este motivo Vargas tenha conseguido, de imediato, a garantia de que, uma vez eleito, a ordem constitucional seria preservada e sua posse estaria garantida. De fato, ela foi. Representando os maiores partidos da época, participaram das eleições de 1950: Getúlio Vargas, pela coligação PTB/PSP, Eduardo Gomes, pela UDN, e Cristiano Machado, pelo PSD. Vargas foi eleito com 48,7% dos votos válidos. Exatamente por isso teve sua posse contestada pela UDN mediante alegação de que era necessária uma votação superior a 50% dos votos válidos. O ato da UDN era mais um indício de que, em nome da governabilidade, Vargas teria que conseguir apoio político. Sua vitória nas eleições deveria ser respaldada por um corpo administrativo que contemplasse vários partidos. Atendendo a este imperativo, Vargas distribuiu os ministérios entre o PSD, o PTB, o PSP e a UDN. Compostos os ministérios, era necessário implementar o plano de governo. Segundo Penna, em seu primeiro ano, Vargas lançou-se a uma política norteada por duas preocupações: 1) no plano externo, não operar mudanças bruscas no rumo das negociações com as agências de financiamento, cujos resultantes geraram empréstimos concedidos pelo Eximbank e o BIRD (Bank for International Reconstruction and Development); 2) no plano interno, criar mecanismos que pudessem incrementar as indústrias de base. Neste último caso, foi elaborado o Plano Nacional de Reaparelhamento Econômico, também conhecido como plano Lafer. Tratava-se de um plano quinquenal visando a investimentos sobretudo em energia, transporte e modernização da agricultura. Os recursos para estes investimentos seriam administrados pelo BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico), criado em 1952, através de autorização do Congresso Nacional, onde o governo contava com a maioria. (PENNA, 1999, p. 215). Para além da apresentação das preocupações mais imediatas do governo Vargas, as entrelinhas do fragmento acima nos fornecem indícios para uma reflexão sobre o dilema no qual o Brasil estava mergulhado no início da década de 1950. Naquela ocasião reinava uma nítida divisão no seio das elites brasileiras, incluindo as forças armadas, que dizia respeito ao modelo de desenvolvimento econômico a ser adotado pelo país. Uma vez que o impasse relativo à “vocação agrícola” versus o primado do desenvolvimento industrial já deixara de ser um problema durante os últimos anos do Estado Novo (momento em que a maior parte da economia brasileira passou a girar em torno da indústria), a questão agora era saber como orquestrar o desenvolvimento do setor industrial. Del Priore e Venâncio (2003) 84 UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” afirmam que, de maneira esquemática, é possível identificar duas posturas definidas: a primeira, representada pelos defensores do nacionalismo econômico e da participação do Estado no desenvolvimento industrial; a segunda, adepta da tese de que o segundo ciclo de nossa industrialização deveria ser comandado exclusivamente pela iniciativa privada brasileira, associada a capitais estrangeiros. Vale lembrar que os defensores da injeção de capitais internacionais tinham em mente principalmente capitais advindos dos Estados Unidos. Durante um tempo Vargas conseguiu transitar entre estas duas correntes, mas logo foi obrigado a tomar partido único. Na década de 1950 uma questão de suma importância para o país era a definição de políticas voltadas ao setor energético e, por este motivo, o petróleo foi lançado ao proscênio. Em dezembro de 1951 ao Congresso Nacional é apresentada a proposta de criação do programa nacional do petróleo e a criação da PETROBRAS. Ao governo seria destinado 51% das ações com direito a voto, o que resultava no monopólio estatal sobre a extração do petróleo. Em meio a agitações no plano social, a campanha “O petróleo é nosso” foi encampada por organizações tais como a União Nacional dos Estudantes (UNE) e sindicatos. Penna (1999) nos lembra que em 3 de outubro de 1953 a Lei nº 2.004 é sancionada criando a PETROBRAS. Num primeiro momento este acontecimento significou uma derrota das correntes políticas que durante o governo Dutra haviam defendido a não intervenção estatal nos assuntos econômicos. Por outro lado, ao aceitar a inevitabilidade do confronto direto com seus opositores, Vargas teve que promover uma mudança ministerial. Da forma como passou a agir, Vargas aprofundou a política nacionalista, inclusive vindo a limitar a remessa de lucros de empresas estrangeiras para seus países de origem. No que tange às mudanças ministeriais, o evento mais significativo foi a nomeação de João Goulart, jovem político com apoio de organizações sindicais, para a pasta do Ministério do Trabalho. Dada a importância desse Ministério no contexto dos governos populistas, esta medida causou forte impacto. Para se ter uma ideia disto, é importante saber que, dentre suas primeiras medidas como ministro, João Goulart promoveu o reajuste do salário mínimo em 100%. A crise ganha corpo. O exército, mais uma vez, é porta-voz do descontentamento das elites. Em fevereiro de 1954 vem a público o Manifesto dos Coronéis. O texto é um exemplo do radicalismo comum ao período da Guerra Fria. Queixando-se de que o aumento não era extensivo às forças armadas, os militares aproveitaram a ocasião para denunciar a ameaça da República Sindicalista, assim como a “infiltração de perniciosas ideologias antidemocráticas”, ou, para alertar a respeito do “comunismo solerte sempre à espreita...”, pronto para dominar o Brasil. (DEL PRIORE; VENÂNCIO, 2003, p. 336-337, grifo nosso). A gravidade da situação levou Vargas a afastar João Goulart do Ministério do Trabalho, mas o aumento do salário mínimo foi mantido. O grupo que fazia oposição a Getúlio Vargas congregava militares americanófilos, críticos ferrenhos do projeto político do governo, ligados TÓPICO 3 | A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES DA DEMOCRACIA 85 internamente à UDN e externamente ao governo norte-americano. Como veículo de difusão de críticas, este grupo utilizava a imprensa, a exemplo dos jornais “O Estado de São Paulo, da família Mesquita, os Diários Associados, de Assis Chateubriand, e O Globo, dirigido pela família Marinho.” (PENNA, 1999, p. 217). Contudo, as críticas mais ácidas dirigidas ao governo Vargas eram veiculadas no Tribuna da Imprensa, fundado pelo jornalista Carlos Lacerda. Diante da ação contínua desses veículos de comunicação, Vargas resolveu criar um jornal para defender seus propósitos. Surgia assim o Última Hora, sob comando de Samuel Wainer jornal acusado pela oposição de ter sido criado a partir de um empréstimo irregular contraído junto ao Banco do Brasil. Seja como for, a criação do Última Hora municiou a oposição, que acusava o governo de corrupção, nepotismo e uso indevido do dinheiro público. Carlos Lacerda vociferava na linha de frente da oposição. O clima ideológico dos anos de 1950 favoreceu a composição de uma segunda frenteoposicionista representada por setores de esquerda. Em 1954, portanto, Vargas encontrava-se entre dois setores oposicionistas extremados: à direita, grupos políticos, empresariais e militares que admitiam a saída golpista para retirá-lo do poder; à esquerda, “uma tendência não menos golpista desencadeada pela direção do PCB”. (PENNA, 1999, p. 218). Em junho deste mesmo ano o Congresso brasileiro vota o impeachment de Vargas. Embora não tenha sido aceito, a pressão sobre o governo permaneceu muito grande. Ao que tudo indica, Vargas interpretava a situação de pressão como sendo o ônus a ser pago na implantação de seu projeto político. Contudo, elementos ligados diretamente ao presidente não interpretavam os acontecimentos da mesma forma. Agindo à revelia das ordens de Vargas, elaboraram um plano para eliminar o maior delator do presidente. Em agosto um atentado contra Carlos Lacerda resulta na morte do seu acompanhante, Rubens Tolentino Vaz, um major da Aeronáutica. Lacerda canalizou o acontecimento em favor de seus próprios argumentos. A atmosfera em torno de Vargas ficou absolutamente nebulosa. Um inquérito aberto pela Aeronáutica para investigar o atentado – que resultou na acusação de pessoas próximas a Vargas – levou “o velho” a admitir estar mergulhado em um “mar de lama”. A pressão pela renúncia foi enfrentada com a proposta de licença provisória, sugerida por Vargas, ao que se seguiu a imediata recusa por parte dos opositores. No dia 24 de agosto de 1954, no Palácio do Catete, Rio de Janeiro, às oito horas e trinta minutos da manhã, o presidente senta na cama de seu quarto, põe um revólver à altura do peito e puxa o gatilho. Ao entrarem no quarto, os familiares, acompanhados pelo médico pessoal de Vargas, o encontram agonizante. Na mesa de cabeceira, uma carta: Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram- se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos 86 UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás [sic] e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente. Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder. Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História. (Rio de Janeiro, 24/08/1954 – Getúlio Vargas) FONTE: CARTA-TESTAMENTO de Vargas. Disponível em: <http://www.espacoacademico. com. br/047/47cvianna.htm>. Acesso em: 24 abr. 2010. TÓPICO 3 | A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES DA DEMOCRACIA 87 FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/ Ficheiro:GetulioVargasPijamaRevolver.jpg>. Acesso em: 7 maio 2010. Por maiores que sejam as possibilidades de interpretação deste ato derradeiro de Vargas, é difícil negar que tenha se tratado de um golpe de mestre. Seu suicídio – emoldurado por um conjunto de palavras escolhidas de maneira absolutamente sagaz – foi responsável por uma intensa mobilização das massas populares, causando inúmeros distúrbios e manifestações em vários locais do país. A uma só vez Vargas recuperou o apelo popular e invalidou qualquer possibilidade de êxito do espectro golpista que se armava no interior das forças armadas. FONTE: Disponível em: CENTRO de Referência da História Republicana. <http:// www.republicaonline.org.br/reponlinenav/>. Acesso em: 5 maio 2010. FIGURA 24 – PIJAMA E REVÓLVER USADOS POR GETÚLIO VARGAS NA MANHÃ EM QUE SE SUICIDOU (MUSEU DA REPÚBLICA) FIGURA 25 – PALÁCIO DO CATETE 88 UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” A Figura 25 mostra a concentração de populares à porta do Palácio do Catete, após a notícia do suicídio do Presidente Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954. 4 DE KUBITSCHEK A JOÃO GOULART Após a morte de Vargas, a Presidência da República é assumida por João Fernandes Campos Café Filho. Durante este governo são preparadas novas eleições. O momento era o de escolher candidatos e promover as alianças. A UDN optou por um candidato militar, Juarez Távora. O discurso do partido, contrário ao salário mínimo, ao direito de greve e ao ensino gratuito, como seria de se esperar, resultou na derrota do partido. Contra a UDN coligaram-se o PTD e o PSD, cujo candidato era o mineiro Juscelino Kubitschek. Ao PTD coube a indicação do vice, João Goulart. Vitoriosa na eleição, a coligação não encontrou um clima favorável, pois militares alegavam a necessidade de maioria absoluta nas eleições presidenciais (Juscelino obtivera 36% dos votos, contra 30% de Juarez Távora). Sem obter respaldo junto aos legalistas, a corrente militar antinacionalista é obrigada a aceitar a posse do novo presidente, não sem antes pôr em prática mais uma tentativa golpista. Ao assumiro governo, Juscelino procura resolver alguns problemas que fatalmente lhe seriam um entrave. Em meio ao embate entre grupos nacionalistas e antinacionalistas, procura conciliar propostas. Não abre mão do intervencionismo estatal, mas abre a economia para investimentos estrangeiros. Em linhas gerais é possível afirmar que O novo governo, aliado do PTB, conserva traços populistas. No entanto, a política econômica representa uma alteração profunda em relação ao modelo precedente. Durante os dois governos de Vargas, a prioridade do desenvolvimento nacional constituiu no crescimento da indústria de base, produtora de aço ou de fontes de energia, como petróleo ou eletricidade. Naquele modelo, a iniciativa estatal predominava e os recursos para o crescimento econômico advinham da economia de exportação. Pois bem, Juscelino Kubitschek altera a forma de nosso crescimento industrial, instituindo o que os historiadores economistas chamam de tripé: a associação de empresas privadas brasileiras com multinacionais e estatais, essas últimas responsáveis pela produção de energia e insumos industriais. (DEL PRIORE; VENÂNCIO, 2003, p. 338- 339). UNI TÓPICO 3 | A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES DA DEMOCRACIA 89 FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/ Ficheiro:Juscelino_Kubitschek.jpg>. Acesso em: 7 maio 2010. Outra diferença marcante desse modelo de desenvolvimento econômico em relação ao conduzido por Vargas foi o investimento maciço na produção de bens duráveis, tais como os automóveis produzidos por empresas multinacionais. Os automóveis, inclusive, podem ser tomados como um dos símbolos do período de euforia e otimismo pelo qual passou a história brasileira, de maneira específica, e o capitalismo, num plano geral. Segundo o historiador Eric Hobsbawm (1995), os anos de 1950 foram representantes por excelência dos “anos dourados” ou “A Era de Ouro”. Embora países desenvolvidos do Hemisfério Norte tenham sido os maiores beneficiários desta era de bonança, nosso país, de fato, viveu um momento singular. Transformações: nos mais variados cenários urbanos, surgimento de novas cidades, a exemplo da nova capital, Brasília (maior ícone do projeto de modernização do Brasil); cinema, televisão, esta última, em processo de expansão acelerado, adentrando lares, moldando gostos, disseminando valores e visões de mundo; euforia nos esportes: o Brasil é campeão mundial pela primeira vez. Estes exemplos nos dão uma noção de que a realidade brasileira era muito diferente do que fora em momentos anteriores. Durante o governo de Juscelino o populismo chegou ao seu auge. O Plano de Metas, cujo lema era “cinquenta anos em cinco”, expressão máxima do nacional-desenvolvimentismo, resultou na criação de novas rodovias, na ampliação da fronteira agrícola em direção a estados como Goiás e Mato Grosso. Evidentemente, tudo isso só foi possível mediante a disponibilidade de capital. FIGURA 26 – JUSCELINO KUBITSCHEK E CORRELIGIONÁRIOS NO DIA DA SUA POSSE 90 UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:0741_ NOV_B_05_Esplanada_ dos_Ministerios_Brasilia_DF_03_09_1959. jpg>. Acesso em: 7 maio 2010. Uma das fontes de capital, como vimos, foi o investimento estrangeiro. Este não se originou de um ato de altruísmo de potências estrangeiras, objetivando, pelo contrário, aproveitar o máximo possível as condições de reprodução do capital que o nosso país oferecia. Por outro lado, Juscelino utilizou de maneira ampla a expansão da base monetária para financiar os déficits de orçamento, bancar aumentos salariais (em 1959, para se ter uma ideia, o salário mínimo alcançou um poder aquisitivo não alcançado até o presente momento) e atividades produtivas. O resultado mais imediato desse tipo de política econômica foi a elevação do índice de inflação e a contração de uma pesada dívida externa. Esta herança seria um presente de grego para os governos subsequentes. FIGURA 27 – ESPLANADA DOS MINISTÉRIOS – 1959 A Figura 27 mostra uma foto tirada por ocasião da construção de Brasília, Esplanada dos Ministérios – 1959, Arquivo Público do Distrito Federal. UNI TÓPICO 3 | A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES DA DEMOCRACIA 91 FONTE: Disponível em: CPDOC/FGV. <http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/ JK/artigos/ Economia/PlanodeMetas>. Acesso em: 7 maio 2010. FIGURA 28 – JUSCELINO EM PALESTRA NO CLUBE MILITAR, DIVULGAÇÃO DO PLANO DE METAS, RIO DE JANEIRO – 1959 De maneira geral é possível sustentar a afirmação de que o balanço político do governo de Juscelino Kubitschek foi favorável. Além de conseguir cumprir os pontos essenciais do seu programa de governo, tais como aqueles relativos ao campo econômico, Kubitschek soube administrar bem os interesses conflitantes com os quais convivia. Por outro lado, Penna (1999) afirma que possivelmente devido à impotência demonstrada ou pelo estímulo às práticas fisiológicas, os observadores mais atentos desse governo concordam em considerá-lo forte politicamente, mas frágil institucionalmente. O governo tinha boas bases políticas, mas as instituições não estavam consolidadas. A explicação para esta situação pode ser encontrada justamente no fenômeno do populismo, pois, ao mesmo tempo em que este ensejava a participação das massas na política, não estimulava sua organização. Seja como for, não foi no governo de Kubitschek que o populismo encontrou seu momento derradeiro. Desde o governo Dutra a formação de novos partidos políticos não era algo difícil de ocorrer. Neste período de redemocratização a emergência de novas propostas e novos candidatos não chegava a ameaçar os três grandes partidos. A novidade neste cenário ficou por conta da projeção alcançada por Jânio Quadros, representante do Partido Democrata Cristão (PDC). Orador inflamado, com um discurso anticomunista e uma retórica moralista, Jânio atraiu a atenção de membros da UDN e acabou sendo a aposta do partido para a disputa das eleições de 1960. Concorrendo contra a coligação PSD/PTB, que lançara como candidato o general Teixeira Lott, da ala nacionalista do exército, Jânio obtém uma vitória esmagadora, em grande medida resultado da capacidade deste político de, mesmo sendo de direita, conquistar o apoio das massas. 92 UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” O mais intrigante nas eleições de 1960 foi a inversão de papéis orquestrada pelos grandes partidos nacionais. Enquanto a UDN – absolutamente avessa à incorporação das massas ao jogo político – apoia um candidato com inclinações populistas, o PSD resolve lançar um militar cujo passado militava a favor (Lott fora um dos militares legalistas que garantiram a posse de Juscelino Kubitschek), mas que não tinha apelo junto às massas populares. O fato é que, embora a UDN tenha feito a aposta certa, chegando assim ao poder, as ações governamentais de Jânio logo se mostraram frustrantes para os udenistas, pois o novo presidente pouco consultava a coligação de partidos que o elegeu. Da mesma forma, tentava governar à revelia do Poder Legislativo. FONTE: Disponível em: CPDOC/FGV – Arquivo Castilho Cabral. <http:// cpdoc.fgv.br/producao/dossies/Jango/artigos/ Campanha1960/A_campanha_presidencial_de_1960>. Acesso em: 7 maio 2010. FIGURA 29 – JÂNIO QUADROS (AO CENTRO) EM EVENTO DO MOVIMENTO POPULAR JÂNIO QUADROS, 1959-1960 Do ponto de vista das políticas econômicas, Jânio Quadros promove açõesbastante coerentes objetivando combater os altos índices de inflação que vigoravam no país. Desagradando a UDN, põe em prática o não alinhamento com os Estados Unidos e passa a valorizar acordos comerciais com países do bloco comunista. Resguardado o desagrado, parecia que o risco de instabilidade política havia diminuído, a não ser por interessante detalhe sustentado pelas regras eleitorais vigentes: era possível votar no candidato a presidente de uma chapa e no vice de outra. O resultado dessa “pérola eleitoral” pôs no Poder Executivo um candidato da UDN e, como vice, um candidato do PSD. Este último, João Goulart. Embora o governo de Juscelino Kubitschek tenha procurado ampliar as fronteiras agrícolas do país, a preferência dada ao modelo de desenvolvimento industrial gerou um problema com o qual Jânio Quadros teve que conviver. No início dos anos de 1960 havia uma disparidade significativa entre o aumento da população urbana e a capacidade de produção agrícola do país. Como resultado, crises de abastecimento levaram a revoltas e inquietações populares generalizadas. Novas formas de organização social, tanto na cidade quanto no campo, davam o ritmo das reivindicações que, dentre outras coisas, estavam atentas ao processo TÓPICO 3 | A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES DA DEMOCRACIA 93 acelerado de concentração de renda presenciado no país desde o governo Kubitschek. Conforme vimos em momento anterior, situações nas quais a pressão sobre o chefe do Executivo tende a inviabilizar a governabilidade geram medidas excepcionais. Estas podem ser conciliatórias, desesperadas, autoritárias ou absolutamente inusitadas. Jânio Quadros optou por esta última: renuncia tendo em mente que, diante do impasse criado, no melhor dos quadros possíveis o próprio povo sairia às ruas para clamar por sua permanência no poder. Isto não aconteceu. Conforme ele [Jânio] próprio reconhece, em livro organizado alguns anos mais tarde sobre a História do Povo Brasileiro, seu objetivo era forçar uma intervenção militar: primeiro, operar-se-ia a renúncia; segundo, abrir- se-ia o vazio sucessório – visto que a João Goulart, [...], não permitiriam as forças militares a posse, e, destarte, ficaria o país acéfalo; terceiro, ou bem se passaria a uma fórmula, em consequência da qual ele mesmo emergisse como primeiro mandatário, mas já dentro de um novo regime institucional, ou bem, sem ele, as forças armadas se encarregariam de montar esse novo regime... O aprendiz de ditador fracassa por causa da “vacilação dos chefes militares”. Instala-se, porém, grave crise política, cujo desfecho final tem uma data marcada: 31 de março de 1964. (DEL PRIORE; VENÂNCIO, 2003, p. 344, grifos no original). FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/J%C3%A2nio_ Quadros>. Acesso em: 7 maio 2010. FIGURA 30 – CARTA RENÚNCIA DE JÂNIO QUADROS A carta renúncia de Jânio Quadros: “Ao Congresso Nacional. Nesta data, e por este instrumento, deixando com o Ministro da Justiça, as razões de meu ato, renuncio ao mandato de Presidente da República. Brasília, 25.8.61.” UNI 94 UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” Após a renúncia de Jânio o cenário político brasileiro ficou muito conturbado. Do ponto de vista constitucional esta renúncia implicava a posse do vice-presidente, João Goulart. Conforme previra Jânio – não integralmente –, a posse do novo presidente foi dificultada. De imediato é necessário lembrar que João Goulart, ou “Jango”, em sua atuação como político, já havia desagradado em muito a uma parcela conservadora da sociedade brasileira. Além do aumento de 100% no salário mínimo, ainda durante o governo Vargas, Jango era defensor das chamadas “Reformas de Base”, que, por motivos que veremos mais à frente, contrariavam muitos interesses. Alguns grupos militares demonstraram-se imediatamente contrários à posse de Jango. Contudo, por ter sido eleito através do voto direto, sua posição ganhava legitimidade e respaldo junto a muitos setores legalistas do exército. Contando com o auxílio de Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, que, no início dos anos de 1960, despontava como uma nova liderança nacional do PTB, Jango obteve o apoio do III Exército para a posse. Brizola inclusive lançou uma campanha nacional, através dos meios de comunicação de massa, pela posse do presidente. Como ambos os lados do certame tinham à sua disposição armas e um número elevado de simpatizantes, era necessário negociar ou o país entraria em uma guerra civil. Mais uma vez o caminho golpista foi barrado. A saída encontrada para resolução do impasse foi a adoção do sistema parlamentarista. De acordo com ele, Jango assumiria a Presidência sem maiores percalços, mas a chefia do Executivo ficaria a cargo de um Primeiro-Ministro, indicado pelo presidente e aprovado pelo Congresso Nacional. Posto em exercício o sistema parlamentarista, mostrou-se um verdadeiro fracasso, pois as políticas econômicas implementadas no período não conseguiram dar cabo da grave crise econômica que oprimia o país. Jango aproveita a situação para antecipar um plebiscito que seria realizado (nove meses antes do término do mandato presidencial) para optar ou não pela manutenção do parlamentarismo. O resultado da consulta confere ao Brasil um retorno ao presidencialismo. Em janeiro de 1963 Jango assume o Poder Executivo. Os atropelos associados à sucessão e ao período do parlamentarismo indicavam que o governo de Jango seria cambaleante. As pressões populares que, até então, tinham como centro irradiador o meio urbano, alcançaram também o meio rural. Em verdade, por ocasião da campanha pelo presidencialismo, Jango comprometeu-se com as massas alegando que seria o presidente das reformas sociais. Para tanto, seu objetivo era conseguir pôr em prática as já mencionadas reformas de base, que incluíam reformas na estrutura agrária, tributária, administrativa, bancária, educacional e eleitoral. Todas essas medidas faziam parte de um conjunto mais amplo de ação representado pelo Plano Trienal, cujo escopo primário era a redução das desigualdades regionais, a dinamização da economia e um crescimento econômico que impedisse a marcha da inflação. TÓPICO 3 | A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES DA DEMOCRACIA 95 FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/ Ficheiro:Jo%C3% A3o_Goulart_NYWTS.jpg>. Acesso em: 7 maio 2010. FIGURA 31 – JOÃO GOULART EM VISITA AOS ESTADOS UNIDOS – 1962 Dentre todas as medidas anteriormente apontadas, uma das mais importantes era a reforma agrária. A estrutura fundiária do Brasil, historicamente voltada ao latifúndio agroexportador, demonstrava-se pouco condizente com a nova realidade urbano-industrial do país. Este modelo não dava conta de abastecer de maneira eficiente os grandes centros urbanos, elevando os custos de vida e impedindo que aos trabalhadores sobrassem recursos para aquisição de produtos industriais. Del Priore e Venâncio (2003) resumem a situação: sem reforma agrária a economia brasileira estaria fadada à estagnação ou, na melhor das hipóteses, por demais dependente em relação aos investimentos estrangeiros. Ciente da gravidade da situação, Jango enviou ao Congresso Nacional um anteprojeto de reforma constitucional que permitisse o início das discussões sobre as necessárias reformas de base. Sem o menor interesse em negociar, tanto a UDN quando o PSD posicionaram-se frontalmente contra a possibilidade de mudanças na Constituição, principalmente mudanças relacionadas à questão agrária, visto queparte do corpo partidário das duas siglas congregava membros e representantes dos proprietários rurais. A situação do presidente era muito complicada: por um lado era acusado de ser defensor de uma guinada à esquerda (subentenda-se socialista) dos rumos políticos e sociais do Brasil; por outro, a própria esquerda acusava a fraqueza do governo por não conseguir efetivar importantes questões sociais que prescindiam da aprovação do Congresso. O isolamento de Jango em relação às elites o conduziu a uma maior aproximação em relação à ala radical do trabalhismo, liderado por Leonel Brizola (defensor da mobilização popular a favor para pressionar as reformas de base). Neste momento, 96 UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” [...] em parte devido à inflação, e também a essa política populista, as greves se multiplicam. Assim, é possível afirmar, por exemplo, que de 1961 a 1963 ocorreram mais movimentos grevistas do que no período compreendido entre 1950 e 1960. No que diz respeito às greves gerais, ou seja, aquelas envolvendo várias categorias socioprofissionais, o aumento registrado no mesmo período é de 350%! Não é difícil imaginar os transtornos criados nos serviços básicos de saúde e transportes coletivos por esse tipo de prática, tornando o presidente bastante impopular junto às classes médias e fatias importantes dos trabalhadores. Mais ainda: observa-se, durante seu governo, o declínio acentuado da repressão aos grevistas, dando munição aos que disseminavam, entre as elites, o medo em relação à implantação de uma república sindicalista no Brasil. (DEL PRIORE; VENÂNCIO, 2003, p. 350). O fato é que, até aquele momento, nunca as pressões populares foram tão intensas em toda história do país. O jogo político que até então havia sido um privilégio parlamentar adentrava agora os mais diversos locais em que houvesse concentração de populares. No campo ocorria a formação de sindicatos que reclamavam pela viabilização da reforma agrária e o cumprimento das leis trabalhistas que, em 1963, foram estendidas aos trabalhadores rurais. Desde 1955 a revolta frente à situação de opressão no campo fora cristalizada nas Ligas Camponesas (organizadas por Francisco Julião), cujo lema era levar a justiça para o campo através da reforma agrária. Nas cidades, os estudantes, organizados em agrupamentos de esquerda, defendiam uma aliança entre os operários, os camponeses e os estudantes. Em meio a este clima de gritante instabilidade, no início de 1964, Jango envia ao Congresso Nacional um projeto de reforma agrária que é derrotado. A saída frente a esta derrota foi apelar para a mobilização das massas visando pressionar o Poder Legislativo. No dia 13 de março de 1964 organiza um comício com a participação de aproximadamente 150 mil pessoas, onde discursa defendendo a nacionalização de refinarias particulares de petróleo e a desapropriação de terras com mais de 100 hectares localizadas à margem de rodovias e ferrovias federais. A direita reage a manifestações dessa natureza organizando, com o apoio da Igreja Católica, de associações empresariais e de segmentos da classe média, a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, evento que reuniu aproximadamente 250 mil pessoas em São Paulo. TÓPICO 3 | A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES DA DEMOCRACIA 97 FONTE: Disponível em: CPDOC/FGV. <http://cpdoc.fgv.br/ producao/dossies /Jango/album>. Acesso em: 7 maio 2010. FIGURA 32 – PRESIDENTE JOÃO GOULART, AO LADO DA ESPOSA Devido à interferência de Jango em uma questão militar, anistiando marinheiros que participaram de um levante em 25 de março, setores oposicionistas das Forças Armadas conseguiram o apoio das facções legalistas. A quebra da hierarquia militar foi uma ingerência não tolerável por parte daqueles que, de alguma medida, poderiam manter a ordem institucional. No dia 31 de março o general Mourão Filho desloca tropas de Minas Gerais em direção ao Estado da Guanabara, à época governado por Carlos Lacerda. Movimentações semelhantes seguem-se em outras partes do país. Sem resistência militar ou popular, Jango é deposto. A UDN participa ativamente do movimento e, após várias tentativas, chega ao poder através de um golpe. Uma ditadura militar era implantada no Brasil. A figura mostra o Presidente João Goulart, ao lado da esposa Maria Tereza, discursando no comício organizado na Central do Brasil, em 13 de março de 1964. UNI 98 UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” FONTE: Disponível em: CPDOC/FGV. <http://cpdoc.fgv.br/producao/ dossies/Jango/album>. Acesso em: 7 maio 2010. FIGURA 33 – MILITARES NO PALÁCIO DA GUANABARA, RIO DE JANEIRO, EM 31 DE MARÇO DE 1964 LEITURA COMPLEMENTAR I A ÚLTIMA CARTADA Vivo ou morto, Getúlio é o grande mito político da nossa história recente. Seu suicídio foi o golpe de mestre. Imobilizando os inimigos, ele possibilitou a manutenção da ordem democrática e a eleição de Juscelino, em 1955. O suicídio de Getúlio Vargas, ocorrido há cinquenta anos, foi um acontecimento trágico e único da História do Brasil, razão pela qual vem sendo recordado e reforçado por múltiplos mecanismos de memória. Não fosse isso o suficiente, o ano de 2004 também assinala os quarenta anos do golpe civil-militar de 1964, outro evento traumático da política nacional, que guarda com o suicídio um laço fundamental. Não só os analistas políticos profissionais, como também grande parte da população que tem acesso a informações, sabem e repetem que o suicídio adiou por dez anos o golpe. Ou seja, se Vargas não tivesse dado um tiro no coração, a conspiração que então se armava contra ele dificilmente seria evitada. O segundo governo Vargas (1950-54) não transcorreu em clima de tranquilidade, tendo o presidente sofrido, sistematicamente, a oposição da maioria da imprensa e de grande parte dos setores políticos e militares. Mas, em agosto de 1954, uma grave crise se instalara com o atentado ao jornalista Carlos Lacerda, desencadeando um impasse de graves proporções, onde se opunham um presidente eleito, gozando ainda de grande popularidade, e uma ferrenha e aguerrida oposição civil e militar, que acusava o governo, especificamente o próprio Vargas, de estar envolvido em um “mar de lama”. Tudo isso, é bom lembrar, tendo como cenário a Guerra Fria, que alimentava o medo aos comunistas e também aos sindicalistas. TÓPICO 3 | A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES DA DEMOCRACIA 99 A tensão chegou a tal ponto que a renúncia do presidente foi pedida, ficando claro que, se ele não se afastasse, seria deposto mais uma vez. Foi nessas circunstâncias que Vargas se matou, num derradeiro golpe político que visava reverter uma situação que vinha beneficiando os antigetulistas. Lançando sobre eles seu cadáver, Vargas, como escreveu na carta-testamento, oferecia seu corpo em defesa do povo da pátria, saindo da vida para entrar na História. Nunca se saberá o que teria acontecido no Brasil caso Vargas não tivesse se matado. Mas é certo que sua morte transformou o equilíbrio das forças políticas vigentes, bloqueando o golpe que se armava e possibilitando a manutenção da legalidade constitucional, com a realização das eleições para presidente, em que saiu vitorioso Juscelino Kubitschek. Importa assim ressaltar o “sucesso” imediato do suicídio para a manutenção da democracia no Brasil. Trata-se de uma excelente janela para se adentrar à chamada Era Vargas (1930-45), e aí, particularmente, para se pensar nas razões quetornaram possível a construção da figura desse presidente como um mito da política nacional. É bom assinalar que a memória de 2004 reconstrói os acontecimentos de 1954 na perspectiva dos quarenta anos do regime militar e de todas as frustrações que o país viveu a partir daí. Frustrações que, de certa forma, ainda vivem, até porque sob o governo de um outro presidente que possui enorme popularidade, Luiz Inácio Lula da Silva, e que, como Vargas, também conseguiu mobilizar as crenças e esperanças do povo brasileiro. FONTE: GOMES, Ângela de Castro. A última cartada. Nossa História, Rio de Janeiro, ano I, n.10, p. 14-15, ago. 2004. LEITURA COMPLEMENTAR II GETÚLIO E OS ANOS DE 1930 A 1964 1930 – Eclode a Revolução de 30. Um grupo de militares exige a renúncia do presidente Washington Luís. Getúlio assume o governo. 1931 – É promulgada, em março, a Lei de Sindicalização, subordinando os sindicatos ao Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio recém-criado. 1932 – Promulgação do Código Eleitoral, que cria a Justiça Eleitoral e institui o voto secreto e o voto feminino. Em 9 de julho, eclode a Revolução Constitucionalista em São Paulo, que é derrotada pelo Governo Provisório em outubro. Fundada a Ação Integralista Brasileira (AIB) de inspiração fascista. 1933 – Em março, realizam-se eleições e, no dia 15 de novembro, instala-se a Assembleia Nacional Constituinte. 1934 – Em julho, a Assembleia Nacional Constituinte promulga uma nova Constituição e elege Getúlio Presidente da República. 1935 – Grupos ligados à Aliança Nacional Libertadora (ANL) promovem 100 UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” revoltas em quartéis de Natal, Recife e Rio Janeiro, num episódio que ficaria conhecido como Intentona Comunista. 1937 – Instauração da ditadura do Estado Novo. Uma nova Constituição é outorgada ao país. O Congresso é fechado e os partidos políticos são extintos. 1938 – Integralistas atacam o Palácio Guanabara, onde o presidente e sua família se encontravam. 1939 – Criado o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), com o objetivo de difundir a ideologia do Estado Novo junto às camadas populares. Tem início a Segunda Guerra Mundial. 1940 – Abril: a polícia desmantela o que restava do Partido Comunista, prendendo todo seu Comitê Central; no Dia do Trabalho, 1° de maio, a lei do salário mínimo, de 1938, entra em vigor; julho: decreto federal estabelece o Imposto Sindical; setembro: o governo norte-americano aprova empréstimo para a construção da Usina Siderúrgica de Volta Redonda. 1941 – Criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Instalação, em todo o país, da Justiça do Trabalho. 1942 – O Brasil declara guerra ao Eixo completando seu alinhamento com os EUA. 1943 – Dia do Trabalho, 1° de maio, é anunciada a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). 1945 – Abril: é organizada a UDN; funda-se em Belo Horizonte o PSD; maio: criação do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Agosto: líderes sindicais promovem no Rio de Janeiro a primeira manifestação do “Queremismo”, pela permanência de Vargas; outubro: Vargas é deposto pelo Alto Comando do Exército. Eurico Gaspar Dutra é eleito presidente e Vargas deputado por sete estados e senador pelo Rio Grande do Sul e São Paulo. 1946 – Janeiro: Dutra toma posse; março: solicitada a cassação do PCB; junho: promulgada a nova Constituição; em setembro, a Assembleia Nacional Constituinte promulga a nova Constituição. 1950 – Candidato do PTB, Vargas é eleito em outubro presidente da República. 1951 – Getúlio toma posse e privilegia medidas que considera necessárias para a industrialização do país. 1952 – Vargas inaugura o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) e estatiza a geração de energia elétrica, decidido a lutar pelos interesses nacionais. TÓPICO 3 | A DÉCADA DE 1950: AS (IM)POSSIBILIDADES DA DEMOCRACIA 101 1953 – João Goulart (PTB), ministro do Trabalho, propõe aumento de 100% no salário mínimo. É criada a PETROBRAS e instituído o monopólio estatal na produção de petróleo. Essas medidas provocam a reação dos conservadores liderados pela UDN. 1954 – Atentado contra Carlos Lacerda (UDN) provoca a crise do “mar de lama”. Na madrugada de 24 de agosto, durante reunião ministerial, no Palácio do Catete, Getúlio é pressionado a renunciar ou ser deposto, horas depois o presidente suicida-se. Com a morte de Vargas, Jango assume a responsabilidade de continuar sua obra, sob a bandeira trabalhista. 1960 – Jânio Quadros (UDN) é eleito presidente e João Goulart (PTB-PSD), vice-presidente. 1961- Jânio renuncia à Presidência no dia 25 de agosto. Importantes setores das forças armadas se opõem à posse de João Goulart, mas ele assume o cargo, em setembro, com a condição de aceitar um regime parlamentar. 1963 – Num plebiscito, 80% dos eleitores optam pelo retorno do presidencialismo. Jango estreita as alianças com o movimento sindical e setores nacional-reformistas. 1964 – Golpe civil-militar depõe Jango em 1° de abril. O presidente e Leonel Brizola exilam-se no Uruguai. 1979 – De volta do exílio, Brizola funda o Partido Democrático Trabalhista (PDT), que passou a ser identificado como herdeiro da tradição trabalhista e da obra de Getúlio Vargas. FONTES: NOSSA HISTÓRIA. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, ano 1, n.10, p. 20 agosto 2004. LINHARES, Maria Yedda (Org.). História geral do Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1990. 102 UNIDADE 2 | NOVOS ARRANJOS POLÍTICOS: DA REVOLUÇÃO DE 1930 AO GOVERNO DE “JANGO” Para aprofundamento destes temas, sugiro que você leia os seguintes livros e assista aos filmes indicados: LIVROS: COHEN, Marleine. JK - O Presidente Bossa Nova. Rio de Janeiro: Globo, 2001. O livro reconstitui a vida de Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902-1976). A obra traça também o panorama político, social e cultural de uma época em que o Brasil vivia uma onda de entusiasmo com seu futuro. JARDIM, Serafim. Juscelino Kubitschek - Onde está a verdade?. Petrópolis: Vozes, 1999. O autor, que em 1996 pediu a reabertura do inquérito sobre as circunstâncias da morte de JK, não apenas esmiúça o acidente de 22 de agosto de 1976, que acredita ter sido um atentado, como narra passagens da vida do ex-presidente, de quem foi um próximo colaborador. FILMES: Jango. Brasil: Direção de Silvio Tendler, 1984. Realizado na época da campanha pelas eleições diretas para presidente, em 1984, “Jango” faz uma retrospectiva do governo João Goulart e dos acontecimentos que precederam sua deposição pelo golpe de 31 de março de 1964. Apesar do título, o filme escapa de um registro meramente personalista em torno da figura de João Goulart, aproveitando o momento político de sua realização para fazer um discurso sobre a volta da democracia. Tendler não se limita, na montagem dos documentos, ao golpe em si. Utiliza-se da personalidade de Jango como um pretexto para inserir uma colagem de imagens históricas do regime militar implantado em 1964. Cabra Marcado Para Morrer. Brasil: Direção de Eduardo Coutinho, 120 min. 1984. Em fevereiro de 1964 inicia-se a produção de Cabra Marcado Para Morrer, que contaria a história política do líder da liga camponesa de Sapé (Paraíba), João Pedro Teixeira, assassinado em 1962. No entanto, com o golpe de 31 de março, as forças militares cercam a locação no engenho da Galileia e interrompem as filmagens. Dezessete anos depois, o diretor Eduardo Coutinho volta à região e reencontra a viúva de João Pedro, Elisabeth Teixeira – que até então vivia na clandestinidade –, e muitos dos outros camponeses que haviam atuado no filme antes brutalmente interrompido. Além de: MARQUES, Ademar; BERUTTI, Flávio;FARIA, Ricardo. História Moderna: através de textos. 11º ed. São Paulo: Contexto, 2010. FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. DICAS 103 RESUMO DO TÓPICO 3 Revisando o conteúdo, é importante você ter em mente que: • Após o término do Estado Novo inicia-se no Brasil um processo de redemocratização que se estende até 1964. O primeiro presidente eleito democraticamente no período foi o militar Eurico Gaspar Dutra. • Entre 1945 e 1964 o número de eleitores e o seu perfil mudaram de maneira substancial. A incorporação de novos grupos sociais ao cenário democrático demandou a constituição de mecanismos de captura da simpatia do eleitorado. A chegada ao poder pela via democrática passou a exigir uma maior aproximação em relação às massas. • O Populismo, embora surgido já no primeiro governo de Getúlio Vargas, ganha maior projeção neste momento. Este consistia em um processo de identificação, por parte das massas, com uma liderança política capaz de um exercício do poder preocupado com o desemprego e a miséria. Estabelecia uma relação direta entre o líder e as massas, relação esta que resultava em ganhos tanto para as massas quanto para o líder. • O governo Dutra apresentou fortes traços do liberalismo econômico, vindo a desenvolver uma postura contrária àquela adotada durante o Estado Novo. Adepto da aproximação em relação aos Estados Unidos, abandonou a política de desenvolvimento amparado pelo Estado e promoveu a abertura à iniciativa privada e ao capital internacional. A passagem agressiva de um forte intervencionismo estatal a um liberalismo agudo causou grandes estragos ao país e favoreceu politicamente Getúlio Vargas, que articulava a sua volta à Presidência, desta vez pela via democrática. • Vargas, representando a coligação PTB/PSP, é eleito com 48,7% dos votos válidos. Teve sua posse contestada pela UDN mediante alegação de que era necessária uma votação superior a 50% dos votos válidos. Diante desse quadro, Vargas teve que efetuar uma série de concessões em nome da governabilidade. O presidente distribuiu os ministérios entre o PSD, o PTB, o PSP e a UDN. • Do ponto de vista da economia, no segundo governo de Vargas o Brasil enfrentou um dilema relativo ao tipo de postura a ser adotada. Uma delas defendia o nacionalismo e a participação do Estado no desenvolvimento industrial. A outra defendia a ação da iniciativa privada brasileira, associada a capitais estrangeiros. • Vargas opta pela política nacionalista com participação do Estado. Esta postura se evidencia quando da criação da PETROBRAS. Neste momento entra em confronto direto com seus opositores. 104 • A nomeação de João Goulart para a pasta do Ministério do Trabalho e a elevação do salário mínimo em 100% instauram uma crise no país. • Recebendo críticas severas por meio da imprensa de grande circulação, tais como as dirigidas por Carlos Lacerda, representante da direita brasileira, assim como acusações de setores da esquerda, o governo Vargas fica numa situação dramática. • Após um atentado malsucedido contra Carlos Lacerda, a situação fica insustentável. Tendo sido recusado seu pedido de licença, Vargas comete suicídio. Sua ação impossibilita a aplicação de um golpe militar que estava se armando no país. • Na eleição seguinte Juscelino Kubitschek chega à Presidência. Em seu governo o embate entre grupos nacionalistas e antinacionalistas é relativamente contornado pela via da conciliação. Kubitschek não abre mão do intervencionismo estatal, mas abre a economia para investimentos estrangeiros. • O governo de Kubitschek teve um balanço político favorável. Desenvolveu-se em meio a uma época de bonança no mundo capitalista. Além de conseguir cumprir os pontos essenciais do seu programa de governo, Kubitschek soube administrar bem os interesses conflitantes com os quais convivia. Com o Plano de Metas promoveu o desenvolvimento econômico do país, mas deixou uma pesada herança para seus sucessores. • O governo seguinte foi assumido por Jânio Quadros, político populista e de personalidade contraditória. Eleito com apoio da UDN, governa sem consultar suas bases. • Com uma atitude surpreendente, Jânio renuncia. Acreditava que os clamores populares o colocariam novamente no poder. Seu plano dá errado e o vice, João Goulart, assume. • Para chegar à Presidência, João Goulart teve que aceitar a imposição do regime parlamentarista. Somente após o insucesso desse regime de governo, Jango assume a chefia do Executivo. • A tentativa de implementação das chamadas “Reformas de Base” leva seu governo a entrar em confronto com a elite econômica do país. Sua proposta de reforma agrária foi barrada pelo Congresso. • A situação de João Goulart ficou muito complicada: por um lado era acusado de ser defensor de uma guinada à esquerda; por outro, a própria esquerda acusava a fraqueza do governo por não conseguir efetivar importantes questões sociais que prescindiam da aprovação do Congresso. • Em meio às manifestações no campo e na cidade, Jango se aproxima da ala radical do trabalhismo, liderado por Leonel Brizola. 105 • Apelando para a mobilização das massas, Jango organiza um comício com a participação de aproximadamente 150 mil pessoas. A direita reage e, com o apoio da Igreja Católica, de associações empresariais e de segmentos da classe média, promove a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, evento que reuniu aproximadamente 250 mil pessoas em São Paulo. • Devido a uma bem articulada iniciativa militar, em 31 de março de 1964 Jango é deposto. A UDN participa ativamente do movimento e, após várias tentativas, chega ao poder através de um golpe. Uma ditadura militar é implantada no Brasil. 106 1 Indique as características gerais do populismo e a maneira como Getúlio Vargas se utilizou desse mecanismo em seu governo no período democrático. 2 Descreva, em linhas gerais, as circunstâncias nas quais o golpe militar de 1964 foi articulado. Procure enfatizar as ações realizadas por João Goulart e as repercussões das mesmas nos meios conservadores do país. AUTOATIVIDADE