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3 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA Modelos de Átomos N° 3, MAIO 1996 A dificuldade de se fazer modelos adequados para átomos nos lembra citações da Bíblia e do Alcorão: “...e dele não farás imagens!” preciso que se tenha o conceito de orbital, ausente no modelo de Bohr. Logo, os diferentes modelos são modificados em função de novas leituras que se faz sobre a natureza da matéria. Na instigante novela de Jostein Gaarder sobre a história da filosofia, O mundo de Sofia (São Paulo: Com- panhia das Letras, 1995), numa das primeiras cartas que Sofia recebe de um misterioso filósofo há apenas uma interrogação: “Por que o Lego é o jogo mais genial do mundo?” Nas páginas seguintes o autor constrói uma admi- rável analogia entre as variadas peças de Lego e as propostas de Demócrito (460-370 a.C) para a explicação da natureza. Assim como alguns poucos átomos formam milhares de substâncias diferentes, também as variadas peças de Lego servem para construir diferen- tes objetos, pois, como os átomos de Demócri- to, são de diferentes formas e tamanhos, maciças e im- penetráveis. Resistentes, os blocos de Lego podem ser usados para construir diferentes brinquedos por várias ge- rações de crianças. Da mesma manei- ra, quando um corpo — uma árvore ou um animal, por exemplo — morre e se desintegra, os átomos do mesmo são reutilizados novamente em outros corpos. Os átomos são constantes no Universo — excetuando-se apenas os que se transmutam nos processos radioativos — e são sempre os mes- mos, usados na formação de novas substâncias. É importante observar como o mo- delo de Demócrito ainda hoje é ade- quado para a maioria das explicações necessárias sobre átomos. É claro que, por desconhecer maneiras mais Uma das perguntas que pro-fessoras e professores dequímica fazem, principalmen- te quando trabalham no ensino médio, é: “Qual o modelo de átomo que devo ensinar?” Uma boa resposta poderia ser: “Depende para que os átomos modelados vão ser usados depois...” Construímos modelos na busca de facilitar nossas interações com os entes modelados. É por meio de mo- delos, nas mais diferentes situações, que podemos fazer inferências e previsões de propriedades. Por limitações que advêm da ma- neira como interagimos com a na- tureza, temos dificuldades em ima- ginar, por exemplo, a luz com com- portamento dualístico. É mais fácil pensá-la ora como onda, ora como partícula. Construir modelos, isto é, imaginar átomos — e vale recordar que imaginar é fazer imagens — tem limitações e exigências que transcen- dem as interações mais usuais em nosso cotidiano. Em função de nos- sas vivências, é muito mais fácil ima- ginar um elétron corpuscular que um elétron ondulatório. É ainda mais difícil imaginá-lo comportando-se, ao mes- mo tempo, como onda e partícula. Há uma questão capital: para que construímos modelos? Se quisermos explicar as ligações que ocorrem em um cristal de cloreto de sódio, o modelo atômico proposto por Bohr (1875-1962) é razoavelmente ade- quado e nos ajuda a compreender como ocorre a formação de cátions e ânions e como se estabelecem entre estes interações para a estruturação de um edifício cristalino. Se quisermos explicar uma molécula aparentemente simples como a de hidrogênio, esse mesmo modelo oferece muitas limita- ções. Para explicar de forma mais consistente como dois átomos de hi- drogênio formam uma molécula H2, é apropriadas de investigar a natureza da matéria, Demócrito não fala de elétrons, prótons, nêutrons. Essas partículas, tidas como fundamentais, só foram descobertas recentemente (os nêutrons, por exemplo, em 1932). Mesmo estas, porém, não são mais consideradas indivisíveis. Há modelos (confirmados experimentalmente em abril de 1994) que consideram os quarks e léptons como as partículas formadoras dos prótons. Cientistas cogitam agora (anúncio feito em fe- vereiro de 1996) a possibilidade dos quarks serem divisíveis. Se isto for confirmado, teremos a reedição do feito de Rutherford (1871-1937), quando anunciou que átomos tinham núcleo. Vemos que po- demos pensar em um não limite de novos modelos para o átomo. Esta é razão para não ignorarmos o quanto nossos modelos são prováveis. Quando dizemos que os modelos de átomos são prováveis não podemos esquecer que as moléculas que construímos com esses modelos também são modelos prováveis. Isto implica considerar que com esses modelos prováveis fazemos modelos prováveis de reações. Estes comentários fazem aflorar uma citação — inspirada na Bíblia e no Alcorão — que faço em Catalisan- do transformações na educação (Ijuí: UNIJUÍ, 1995, 3ª edição), ao discutir a dificuldade de se fazer modelos adequados para átomos: “...e dele não farás imagens!” Attico I. Chassot, licenciado em química e doutor em educação, é professor do Programa de Pós- Graduação em Educação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) - São Leopoldo, RS. Sobre prováveis modelos de átomos Attico Chassot ENSINO DE QUÍMICA 38 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA N° 20, NOVEMBRO 2004 A constituição da matéria sempre intrigou os homens. Ela está entre as primeiras especulações filosóficas, e nestas a idéia de átomos tem uma longa his- tória. Várias concepções surgiram, tanto no Ocidente como no Oriente, em circunstâncias, culturas e épocas distintas. Diferentes hipóteses a res- peito da constituição da matéria a par- tir de partículas discretas surgiram na Índia antiga, por exemplo, e especula- se se poderia ter ocorrido alguma forma de intercâmbio intelectual com os gregos nesse campo. Tanto no bramanismo como no budismo e no jainismo desenvolveram-se concep- ções de organização da matéria an- tes da era cristã. No entanto, como este artigo trata da tradição ocidental, culminando na obra de John Dalton, esse aspecto do atomismo não será aqui abordado. Por isso, vamos pas- sar em revista algumas das concep- ções surgidas na Grécia e em outras partes da Europa Ocidental. Em Eléia, ao sul da Itália, surgiu no início do século V a.C. uma escola de pensamento, representada por filósofos como Parmênides e Zenão, que se preocuparam sobretudo com questões ligadas ao mundo material. Sua concepção da matéria tem muito ▲ ▲ Recebido em 28/05/04; aceito em 5/11/04 Carlos Alberto L. Filgueiras A teoria atômica de Dalton, um dos marcos da Química do século XIX, surgiu e foi publicada ao longo da primeira década daquele século. Ela deu uma forma operacional, capaz de ser usada em determinações experimentais, a uma das mais antigas inquietações humanas, que dizia respeito à constituição da matéria. Com Dalton cessa toda a especulação puramente abstrata que cercava o tema desde a Antigüidade clássica. Em seu lugar surge uma teoria que une conceitos teóricos à possibilidade de sua aplicação prática. Por isso o presente artigo faz uma breve resenha de aspectos das teorias filosóficas que precederam a elaboração daltoniana e procura mostrar o encadeamento que levou ao aparecimento da obra do químico inglês. origem da Teoria Atômica, Dalton, bicentenário da Teoria Atômica a ver com a realidade ou não do movimento e do vácuo. Para os elea- tas, o movimento, a mudança e a variedade das coisas e tudo o que apreendemos com os sentidos é ilu- sório. O movimento não existe: o pre- tenso deslocamento de uma flecha no ar é um engano de nossos sentidos e pode ser decomposto em quadros estáticos, como numa película cine- matográfica. São nossos olhos que nos iludem, fazendo- nos crer na realidade do movimento. A matéria é contínua; logo não pode haver movimento. Se ele existisse, o desloca- mento de um corpo em relação a outro teria de dar-se no vazio. Caso contrá- rio, corpos diferentes ocupariam o mesmo espaço, o que é absurdo. Se a matéria é contínua, não existem va- zios e o movimento não pode ocorrer. Leucipo de Abdera (ativo em mea- dos doséculo V a.C.), em oposição aos eleatas, acreditava na evidência dos sentidos e, conseqüentemente, na realidade do movimento dos cor- pos. Em conseqüência, deve haver vácuo, para que os corpos se movi- mentem uns em relação aos outros. Para que haja movimento, a matéria não pode ser contínua, portanto ela deve ser constituída por partículas, ou princípios. Os primeiros princípios de que se constitui a matéria são partí- culas fundamentais, os “átomos” (dis- cute-se se o nome “átomos”, ou “indi- visíveis”, teria sido cunhado por Leu- cipo ou por Demócrito). Os átomos, além de indivisíveis, são também sólidos, compactos e podem ter inúme- ros formatos. Dife- rentes combinações de diferentes átomos dão origem à varie- dade de coisas no mundo. Demócrito de Abdera (~460-370 a.C.) é tradicional- mente considerado um elaborador das idéias de Leucipo, embora não se tenha certeza da autoria das contri- buições de cada um, uma vez que o que se conhece deles provém quase totalmente de citações de pósteros, como Aristóteles, que os citaram para deles discordarem. Para Demócrito, nada é criado do nada e nada é des- truído para o nada. Esta é uma ex- pressão prematura do princípio de Duzentos anos da teoria atômica de Dalton Diferentes hipóteses a respeito da constituição da matéria a partir de partículas discretas surgiram na Índia antiga, e especula-se se poderia ter ocorrido alguma forma de intercâmbio intelectual com os gregos nesse campo 39 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA N° 20, NOVEMBRO 2004 conservação da matéria, o qual, em sua versão quantitativa, viria a ser explicitado por Lavoisier ao final do século XVIII. Demócrito acreditava que os áto- mos, em adição às características já assinaladas, também eram inquebrá- veis, tinham peso e participavam da constituição de todos os corpos, os quais tinham cada qual seu tipo de átomo. Aristóteles (384-322 a.C.) não aceitava o atomismo de Leucipo e Demócrito, por considerá-lo rudimen- tar. Esse caráter rudimentar resulta de sua natureza exclusivamente materia- lista. Os corpos são constituídos de matéria, mas também de atributos imateriais. As distinções mais impor- tantes entre os corpos estão nas pro- priedades, funções e capacidades de cada um. A principal objeção de Aris- tóteles à teoria atômica de Leucipo e Demócrito é sua incapacidade de ex- plicar a mudança nas substâncias, as transformações químicas, como diría- mos hoje. Se existem átomos para cada tipo de substância, não há pos- sibilidade de transformações quími- cas, o que evidentemente se choca com a evidência. Epicuro de Samos (342/1-271/0 a.C.) sustentava que a única garantia ou critério de verdade é a percepção sensorial. A filosofia epicurista revive o atomismo, ao admitir que toda sen- sação é um movimento de átomos resultando do contato entre corpos materiais. No tato ou no paladar isto é óbvio. A visão, por outro lado, é ex- plicada da mesma maneira, supondo que ela depende de que átomos dos objetos vistos sejam emitidos por esses objetos e venham até nossos olhos. Em Lucrécio (Roma, 100/94-55 a.C.), a teoria atômica é retomada e expressa em verso, num longo poe- ma intitulado De Rerum Natura (Da Natureza das Coisas). Durante a Ida- de Média e o Renascimento, todavia, o materialismo da teoria atômica e a oposição de Aristóteles, elevado à condição de principal filósofo das uni- versidades e da cristandade ociden- tal, tornaram a teoria inaceitável, chegando a ser considerada herética. Com a efervescência cultural da Revolução Científica, as possibilida- des de existência de vácuo e de áto- mos voltaram a ser temas de grande importância. A invenção do barômetro pelo discípulo de Galileo, Evangelista Torricelli (1608-1647), mostrou que, ao se inverter um tubo cheio de mercúrio sobre uma cuba contendo o mesmo metal, a coluna de mercúrio só permanece até um certo pon- to, que depende da pressão atmosférica local. Acima da coluna há vácuo (na realidade, vapor de mercúrio em equi- líbrio com o líquido, o que não se conhecia no século XVII). O aparecimento desse “vácuo” estava de acordo com o prin- cípio hidrostático de Blaise Pascal (1623-1662). Pascal, todavia, distinguia o “vácuo” sobre a coluna de mercúrio do “nada”. Por isso não admitia a possibilidade de haver vácuo fora do mundo. No entendi- mento moderno de que o “vá- cuo” é na verdade uma rarefa- ção, o pensamento de Pascal nos afigura bastante moderno. De acordo com René Descar- tes (1596-1650), a caracterís- tica essencial da matéria do universo é sua extensão. A extensão é também a característica fundamen- tal do espaço. A matéria cartesiana é infinitamente divisível e não há espaço vazio na natureza. O universo está pleno de matéria e o movimento é uma realidade, transmitindo-se por contato entre vórtices que se comu- nicam ao longo do espaço. Esses vórtices, ou turbilhões, seriam devidos ao movimento de um material hipoté- tico e muito sutil que permearia todo o universo, denominado “éter”. Pierre Gassendi (1592-1655) se contra- punha a seu contemporâneo, defen- dendo uma espécie de “atomismo cristianizado”, a partir das idéias de Epicuro. Como sacerdote católico, Gassendi não podia admitir o atomis- mo ateu dos gregos e sim um sistema que necessitava de Deus como cria- dor e autor da força que anima e regu- la o mundo. Na Inglaterrra, Robert Boyle (1627- 1691) procurou conciliar o atomismo com sua própria experiência de quími- co, preferindo, todavia, falar de “cor- púsculos” constituintes dos corpos, em vez de fenômenos que não são oriundos apenas de trocas entre as características aristotélicas da ma- téria. Uma qualidade como o odor depende do arranjo dos corpúsculos que formam os corpos: desta sorte, Duzentos anos da teoria atômica de Dalton Cronologia sucinta do desenvolvimento da obra de Dalton até chegar à Teoria Atômica 1801: Lei das Pressões Parciais 1803: Primeira tabela de pesos atômicos (publicada em 1805) 1807: Primeira publicação da teoria atômica de Dalton, por Thomas Thomson (System of Chemistry) 1808: Publicação da primeira parte do livro mais importante de Dalton, o New System of Chemical Philosophy, com seu próprio relato da nova teoria atômica (as outras duas partes se seguiriam em 1810 e 1827, respectivamente). John Dalton em gravura de 1823. Além de equipa- mento de laboratório, vêem-se também os símbolos químicos de Dalton nos papéis à sua frente. 40 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA N° 20, NOVEMBRO 2004 duas substâncias de mau odor po- dem interagir, produzindo um novo composto de cheiro agradável. Muitas outras abordagens do con- ceito de átomo apareceram ao longo do tempo. Todas elas partilharam com aquelas que aqui foram delineadas seu caráter de pura especulação filo- sófica. Somente no início do século XIX é que surgirá, com John Dalton, uma teoria atômica operacional. Nem sequer Lavoisier, cuja obra aponta, poucos anos antes de Dalton, para o que se costuma chamar de Química Moderna, quis tratar do assunto, por ainda não dispor de dados concretos sobre o tema. O rigor lavoisiano em só afirmar aquilo que pode ser deter- minado pela experiência, fugindo do que só pode ser conjecturado, está presente nesta afirmação de seu Tratado Elementar de Química, de 1789: A química caminha pois em direção a seu objetivo e em di- reção à perfeição, dividindo, subdividindo e ainda resubdi- vidindo, e nós ignoramos qual será o fim de sua trajetória. Não podemos assegurar que aquilo que consideramos hoje como simples o seja de fato; tudo que podemos dizer é que tal subs- tância é o termo atual ao qual chega a análise química, e que ela não pode mais se subdividir no estado atual de nossos conhecimentos. Por ter essa convicção ele não quis especular sobre o conceito de átomo. William Higgins (1762/3-1825), um químico irlandês, publicou em1789 um livro em que comparava a velha química flogística, anterior a Lavoisier, com a nova química do pesquisador francês e seu círculo. Nessa obra ele usa o termo “partículas últimas” para o que nós chamaríamos átomos. Todavia, ele diz, por exemplo, que as partículas últimas de enxofre e de oxigênio no dióxido de enxofre são to- das idênticas em peso, o mesmo sucedendo com as partículas últimas de nitrogênio e oxigênio que consti- tuem o óxido nítrico. Sua teoria atô- mica era, portanto, ainda bastante rudimentar e continha incorreções. No entanto, alguns anos após a publica- ção da teoria atômica de Dalton, Higgins alegou que o crédito da des- coberta da teoria deveria ser credi- tado a ele. Isto originou uma longa controvérsia, mas uma análise do co- pioso material existente mostra a grande originalidade e abrangência do trabalho de Dalton. Vida e obra de John Dalton John Dalton (1766-1844) nasceu em Eaglesfield, um lugarejo do norte da Inglaterra, filho de um modesto te- celão. A família pertencia à religião Quaker, que foi uma forte influência para John e à qual ele permaneceu ligado por toda a vida. Sua educação formal não chegou ao nível universi- tário, mas ele sempre demonstrou muita determinação e grande predile- ção por Matemática. Sua aptidão nos estudos foi sempre extraordinária, e ele se tornou um autodidata em mui- tos assuntos. A necessidade de aju- dar a família fez com que desde cedo o jovem Dalton começasse a traba- lhar naquilo que sabia fazer: ensinar. Aos 12 anos de idade criou uma es- cola, que funcionava de início num paiol, sendo depois transferida para o salão de reuniões dos Quakers. A escola teve duração efêmera, pois funcionou só até 1780. Ao mesmo tempo, Dalton continuou a estudar e veio a tornar-se versado em grego, latim, francês e filosofia natural. Em 1781, John e seu irmão Jonathan fo- ram convidados a se tornarem assis- tentes na escola de Kendal, onde lecionaram Matemática e línguas antigas e modernas. A partir de 1785, com a aposentadoria do mestre- escola, seu primo George Bewley, os dois irmãos assumiram a direção da escola. De 1784 a 1794, John Dalton escreveu em jornais, estudou Zoolo- gia e Botânica, passou a manter um diário de observações meteorológi- cas e a lecionar cursos de filosofia natural, incluindo-se aí a química dos gases. Em 1793 foi convidado a ser professor de Matemática e filosofia natural no New College, de Manches- ter. A partir daí, viveu naquela cidade até o fim de seus dias. Em suas aulas de Química, um dos livros adotados era o Tratado Elementar de Química, de Lavoisier. Poucos anos depois ele deixou o cargo de professor no New College e passou a se manter sobre- tudo com aulas particulares. Um de seus alunos ilustres foi James Prescott Joule (1818-1889), futuro ela- borador da teoria mecânica do calor. Dalton desenvolveu desde cedo uma paixão pela meteorologia. Por 46 anos tomou medidas diárias do tem- po e das condições atmosféricas, re- gistrando no papel mais de duzentas mil observações. Se for verdade a opi- nião popular de que o assunto que mais interessa aos ingleses é o tem- po, então Dalton pode ser conside- rado a quintessência do britanismo. Esse interesse pela meteorologia levou-o a debruçar-se sobre o estudo dos gases, concentrando-se, numa fase inicial, naqueles que constituem a atmosfera. Sua meticulosidade em realizar e anotar observações era pro- verbial. Embora seus copiosos volu- mes de notas manuscritas houves- sem já sido publicados, é de lamentar que os originais tenham sido total- mente destruídos na noite de 23-24 de dezembro de 1940, juntamente com milhares de outros documentos e volumes preciosos, quando um ata- que aéreo da Luftwaffe, a força aérea alemã, bombardeou sua cidade e Duzentos anos da teoria atômica de Dalton Frontispício de A New System of Chemi- cal Philosophy, de 1808. 41 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA N° 20, NOVEMBRO 2004 destruiu a sede da Sociedade Literária e Filosófica de Manchester, onde estavam depositados aqueles mate- riais. O primeiro dos estudos de Dalton sobre os gases levou à teoria da mis- tura dos gases. Havia ao final do sé- culo XVIII um enigma que desafiava os pesquisadores. Sabia-se que a atmosfera era composta principal- mente de nitrogênio e oxigênio, contendo também gás carbônico e vapor d’água. No entanto, como se relacionavam esses gases entre si? Formavam eles um composto gaso- so, que podia ser decomposto duran- te as reações exaustivamente estuda- das pelos eminentes químicos dos setecentos, ou, ao contrário, estavam apenas misturados, como numa mistura de açúcar e sal? Curiosamen- te, a composição do ar era pratica- mente constante, como mostravam as abundantes observações de Dal- ton realizadas em lugares os mais dis- tantes entre si. Alguns anos depois, em França, o químico Louis Joseph Gay-Lussac (1778-1850) viria a mos- trar que a constituição percentual da atmosfera é praticamente constante até alturas consideráveis, mesmo sendo a pressão menor. Isto ele pró- prio determinou por meio de duas ascensões em balão, no ano de 1804, quando chegou a atingir a altitude de 7016 metros. Dalton, sob a influência de Newton, acreditava que os gases da atmosfera formassem apenas uma mistura, sem que qualquer ligação química existisse entre eles. Se isso fosse correto, por que o dióxido de carbono, mais pesado, não se con- centraria nas camadas inferiores da atmosfera, seguido do vapor d’água, do oxigênio e do nitrogênio, em or- dem decrescente de peso? Aqui é bom lembrar que ainda não se sabia que o oxigênio e o nitrogênio forma- vam espécies diatômicas O2 e N2, e que a composição da água era consi- derada como sendo do tipo 1:1 em hidrogênio e oxigênio, ou HO. A con- dução da questão por Dalton é um exemplo de que muitas vezes a ciên- cia progride não a partir de dados experimentais, mas sim de uma idéia concebida previamente pelo cientista e só então testada à luz da experiên- cia. Tudo isso está claro em seu artigo intitulado “Nova teoria da constituição dos fluidos aeriformes mistos e parti- cularmente da atmosfera”, lido origi- nalmente em 1801 na Sociedade Literária e Filosófica de Manchester e publicado no ano seguinte nas Me- mórias da Sociedade. Nessa memó- ria Dalton introduz a seguinte propo- sição: Quando dois fluidos elásti- cos, denominados A e B, são misturados, não há qualquer re- pulsão mútua entre suas partí- culas, isto é, as partículas de A não repelem as de B, como elas se repelem umas às outras (isto é, só A repele A, ou só B repele B, n. do presente autor). Conseqüentemente, a pressão ou peso total sobre qualquer partícula deve-se apenas àque- las de sua própria espécie. Esta é uma importante lei desco- berta por Dalton, conhecida como lei das pressões parciais. Mais tarde ele daria um novo enunciado dessa lei em termos mais práticos: Quando a mistura de quais- quer dois ou mais gases atinge o equilíbrio, a energia elástica de cada um deles sobre a su- perfície do recipiente ou de qualquer líquido é precisamen- te a mesma como se ele fosse o único gás presente ocupan- do todo o espaço, e todos os outros tivessem sido retirados. Seu amigo William Henry (1774- 1836) enunciaria essa mesma lei co- mo: cada gás é um vácuo para qual- quer outro gás. Um enunciado moder- no da lei é: a pressão total de uma mistura de gases é igual à soma das pressões que cada um exerceria se estivesse sozinho. Na realidade, os dados então disponíveis não levariam a essa generalização, mas Dalton es- tava convencido de sua realidade, que veio a se mostrar correta. Anos mais tarde o próprio Dalton confessaria, numa conferência profe- rida na Royal Institution, em Londres, que sua teoria atômica lhe veio a partir da lei das pressões parciais. A inde- pendência de um gás em relação a outro seria devida aos diferentes tamanhosdas partículas que os cons- tituíam. Mais tarde também lhe ocor- reu a idéia de que seus pesos tam- bém seriam diferentes. É sintomático da variedade dos interesses de Dalton que, no mesmo ano de 1801 em que produziu suas memórias sobre os gases, ele tam- bém publicaria seus Elementos de Gramática Inglesa. Esse interesse por assuntos de natureza variada seria mantido ao longo de toda a sua vida. A influência de Lavoisier e seu ima- ginário calórico, o fluido do calor, tam- bém foram consideráveis sobre Duzentos anos da teoria atômica de Dalton Os símbolos criados por Dalton para os elementos e seus compostos, de A New Sys- tem of Chemical Philosophy. 42 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA N° 20, NOVEMBRO 2004 Dalton. Ele descreveria uma partícula gasosa como constituída por um átomo central de matéria sólida extre- mamente pequena, que está cercado por uma atmosfera de calor, de grande densidade nas proximidades do átomo, e rarefazendo-se gradualmen- te de acordo com alguma potência da distância. Já que as partículas de dife- rentes gases não interagiam quimi- camente, uma possível conseqüên- cia era aquela que ele vislumbrou brilhantemente ao formular a lei das pressões parciais. A preocupação em mostrar a vali- dade de suas idéias a respeito da natureza dos gases que constituem a atmosfera levou Dalton a continuar sua pesquisa, enveredando pelo ca- minho da natureza da dissolução dos gases em água e do problema de de- terminar o peso relativo de diferentes gases em relação a outros. Aqui se encontra o germe de sua teoria atô- mica. Seus apontamentos de setem- bro de 1803 mostram pela primeira vez os símbolos atômicos, fórmulas atômicas e pesos relativos do que ele ainda chamava de “partículas últi- mas”. Como o vapor d’água tem den- sidade menor que o oxigênio, embora contenha oxigênio, ele rejeitou com- parar os pesos relativos das partícu- las últimas com as densidades dos gases. A partir daí decidiu tentar obter os pesos relativos a partir das propor- ções em que essas partículas se combinam. Surgiram então relações simples como as seguintes: o car- bono se une ao oxigênio para formar o monóxido de carbono na proporção de 3 para 4 em peso, ao passo que na formação do dióxido de carbono a proporção é de 3 para 8. Conside- rações dessa natureza levaram a mais uma lei fundamental, a das pro- porções múltiplas: em compostos diferentes formados pelos mesmos elementos, há uma razão simples en- tre o peso fixo de um elemento e os pesos variáveis do outro. Na verdade, pode-se ler nos apon- tamentos de laboratório de Dalton que, em 1803, de forma explícita ou implícita, ele já sustentava os seguin- tes princípios: • a matéria é constituída por par- tículas últimas ou átomos; • os átomos são indivisíveis e não podem ser criados nem destruí- dos (Princípio de Conservação da Matéria - Lavoisier); • todos os átomos de um mesmo elemento são idênticos e apre- sentam o mesmo peso; • átomos de elementos diferentes têm pesos diferentes; • os compostos são formados por um número fixo de átomos de seus elementos constituintes (Lei das Proporções Fixas - Proust); • se existir mais de um composto formado por dois elementos diferentes, os números dos áto- mos de cada elemento nos compostos guardam entre si uma razão de números inteiros (Lei das Proporções Múltiplas - Dalton) - podemos aplicar este princípio em muitos exemplos, como nos óxidos de ferro, FeO, Fe2O3 e Fe3O4; • o peso1 do átomo de um ele- mento é constante em seus compostos - se a reagir com b para formar ab e c reagir com d para formar cd, então se ab reagir com cd os produtos serão ad e cb (Lei das Proporções Recíprocas - Richter). Como exemplo, podemos considerar as seguintes reações, dadas, em notação moderna, por: 2K + I2 → 2KI Pb + Cl2 → PbCl2 2KI + PbCl2 → 2KCl + PbI2 Estava preparado o terreno para a explicitação da Teoria Atômica. A Teoria Atômica A primeira comunicação oral de Dalton a respeito de sua teoria foi lida por ele na Sociedade Literária e Filo- sófica de Manchester em 21 de outu- bro de 1803. Sua publicação deveu- se inicialmente a seu amigo Thomas Thomson (1773-1852) que, após ouvi- la do autor em 1804, decidiu apresen- tá-la, com o devido crédito, em seu livro System of Chemistry, publicado em 1807. Thomson, em sua detalha- da descrição da teoria de Dalton, usa Duzentos anos da teoria atômica de Dalton Versão elaborada dos símbolos criados por Dalton para os elementos e seus compostos. 43 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA N° 20, NOVEMBRO 2004Duzentos anos da teoria atômica de Dalton Tabela 1: Os pesos atômicos segundo Dalton: primeira tabela de pesos atômicos, apresentada oralmente por Dalton em 1803 e publicada como artigo nas Memoirs of the Philosophical Society of Manchester (2nd series, v. 1, p. 271-287, 1805). O padrão é o átomo de hidrogênio, cujo peso atômico foi considerado unitário. A coluna da direita apresenta parte de sua segunda tabela, publicada no livro A New System of Chemical Philosophy, em 1808. Pesos atômicos (sic) Espécie química 1805 1808 Hidrogênio 1 1 Azoto 4,2 5 Carbono 4,3 5 Amônia 5,2 6 Oxigênio 5,5 7 Água 6,5 8 Fósforo 7,2 9 Hidrogênio fosforetado (PH3) 8,2 - Gás nitroso (NO) 9,3 12 Éter 9,6 - Óxido gasoso de carbono (CO) 9,8 12 Óxido nitroso (N2O) 13,7 17 Enxofre 14,4 13 Ácido nítrico (NO2) 15,2 19 Hidrogênio sulfuretado (H2S) 15,4 16 Ácido carbônico (CO2) 15,3 19 Álcool 15,1 16 Ácido sulfuroso (SO2) 19,9 - Ácido sulfúrico (SO3) 25,4 34 Hidrogênio carburetado da água estagnada (CH4) 6,3 7 Gás olefiante (C2H4) 5,3 6 O leitor é convidado a analisar os pesos atômicos acima, quando se tratar de compostos, e examinar as fórmulas moleculares atribuídas por Dalton. A água, por exemplo, tinha a fórmula HO. a palavra átomo e também os símbo- los inventados por ele para represen- tar os átomos de sua teoria. Esta veio a ser publicada pelo próprio Dalton em sua obra principal, saída à luz a partir de 1808, o New System of Chemical Philosophy. As três partes do livro foram publicadas, respectiva- mente, em 1808, 1810 e 1827. Dalton ousou onde Lavoisier não tinha se- quer especulado. Ele correlacionou os pesos relativos das unidades fun- damentais dos elementos químicos com as combinações que estes apre- sentavam em seus compostos, consi- derando que todas as partículas de hidrogênio, de oxigênio etc. existentes em qualquer composto desses ele- mentos seriam iguais em peso, tama- nho ou forma; da mesma maneira, qualquer partícula de água seria igual a qualquer outra partícula de água. As partículas constituintes das subs- tâncias simples, contendo apenas um tipo de elemento, foram chamadas de “partículas últimas”, e são os nossos átomos. No livro Novo Sistema, ele assim raciocinou para demonstrar que ga- ses diferentes não podem ter partí- culas de mesmo tamanho: Se medidas iguais dos gases azótico (nitrogênio) e oxigeno- so (oxigênio) fossem mistu- radas, e pudessem rapida- mente unir-se quimicamente, seriam formadas cerca de duas medidas de gás nitroso (óxido nítrico), pesando o mesmo que as duas medidas originais; mas o número de partículas últimas só poderia ser no máximo a metade daquele que existia an- tes da união. Diferentes fluidos elásticos (gases) não têm, por- tanto, o mesmo número de par- tículas, seja no mesmo volume, seja no mesmo peso. A afirmação final de Dalton não é verdadeira, a nossos olhos moder- nos, uma vez que ela se choca com a hipótese de Avogadro, que apare- ceria em 1811, a qual afirma que “volumes iguais de gases diferentes contêm o mesmo número de molé- culas”. Sua primeira “tabela de pesos relativos das partículas últimas dos corpos gasosos e outros”, de 1803, está reproduzida na Tabela 1. Esta ainda era muito primitiva, refletindo a falta de acurácia das determinações de então. No New Systemof Chemi- cal Philosophy ele apresenta uma nova tabela, bastante expandida e aperfeiçoada, que dá conta dos pe- sos relativos de substâncias simples e compostas. As unidades fundamen- tais dessas substâncias são todas denominadas átomos, uma vez que o conceito de molécula, como o co- nhecemos, ainda não existia. Dalton mostrou também como os diferentes átomos se combinavam para formar as substâncias compostas, usando seu complicado sistema de notação. Este viria mais tarde a ser suplantado pelo sistema do químico sueco Jons Jakob Berzelius (1779-1848), que usamos até hoje, no qual o símbolo de um elemento é dado pela inicial ou por uma combinação desta mais uma outra letra do nome latinizado do elemento. A Teoria Atômica, porém, não teve uma aceitação pronta e universal; muito pelo contrário. Apesar do apoio de químicos eminentes como Berze- lius, muitos outros cientistas de reno- me relutaram em aceitá-la. A determi- nação experimental dos pesos atômi- cos permaneceu precária por muito tempo, e a confusão que freqüente- mente se fazia entre átomos e molé- culas ajudou a manter a incerteza. Por isso, durante a maior parte do século XIX preferiu-se trabalhar com o con- ceito de peso equivalente das espé- cies químicas, no lugar de peso atô- mico ou molecular. Só nas últimas décadas dos oitocentos é que a situa- ção começaria a esclarecer-se e a teoria atômica de Dalton passaria a ocupar pouco a pouco o lugar de proeminência que ela goza na Quí- mica. A história da aceitação da Teoria Atômica é interessantíssima, mas bastante longa para ser discutida aqui. Seria necessário um outro artigo para tratar desse processo. Considerações finais Por seus trabalhos, que lhe ren- deram muita fama e honrarias, Dalton foi feito em 1816 membro correspon- 44 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA N° 20, NOVEMBRO 2004 Nota Abstract: Two Hundred Years of Dalton’s Atomic Theory - Dalton’s Atomic Theory, one of the landmarks of chemistry in the 19th century, was developed and published along the first decade of that century. It gave an operational format, amenable to use in experimental determinations, to one of humankind’s oldest quests, an explanation of the constitution of matter. With Dalton all purely abstract speculation that pervaded the theme since classical antiquity ceases. In its place emerges a theory that unites theoretical concepts with the possibility of their practical application. For this reason the present article briefly reviews aspects of the philosophical theories that preceded the daltonian elaboration and aims at showing the chain of thought that led to the appearance of the work of the English chemist. Keywords: orign of the atomic theory, Dalton, bicentennial of the atomic theory Duzentos anos da teoria atômica de Dalton Referências bibliográficas CROSLAND, M.P. Historical studies in the language of chemistry. Nova Iorque: Dover, 1978. DALTON, J. A new system of chemi- cal philosophy. Part I, Manchester, 1808; Part II, Manchester, 1810; Part First of Vol. II, Manchester, 1827. LEICESTER, H.M. e KLICKSTEIN, H.S. A sourcebook in chemistry 1400-1900. Nova Iorque: McGraw-Hill, 1952. PARTINGTON, J.R. A history of chem- istry. Ed. reimpressa. Nova Iorque: St. Martin´s Press, 2000. v. 3. PARTINGTON, J.R. The origins of the atomic theory. Annals of Science, v. 4, p. dente do Institut de France e, em 1830, sucedeu a Humphry Davy (1778-1829) como um dos oito asso- ciados estrangeiros daquele instituto. Foi também eleito, em 1822, membro da Royal Society, a Academia das Ciências da Grã-Bretanha, e quatro anos depois recebeu sua Medalha Real. Dalton sempre gozou de ótima saúde até próximo dos setenta anos; a partir daí sua condição deteriorou gradativamente até sua morte em 1844. Ele manteve até o fim da vida sua rotina metódica de pesquisador incansável. Com o tempo veio a tor- nar-se uma celebridade em toda a Europa, morrendo coberto de honras em seu país e no estrangeiro. Dalton estudou e escreveu sobre assuntos os mais variados, tendo publicado cerca de 150 comunica- ções, desde a cegueira às cores, que ele descobriu em si próprio em 1792, e que conhecemos pelo nome de daltonismo, até sua principal contri- buição à Ciência, uma teoria atômica operacional, que veio a ser um dos esteios da Química. Sua teoria atô- mica diferia de tantas outras, de natu- reza especulativa, enunciadas ante- riormente desde os gregos, porque permitia a realização de cálculos quantitativos baseados em dados experimentais coligidos em labora- tório. A teoria atômica de Dalton é um dos marcos fundamentais da Química do século XIX. Ao contrário das cogi- tações abstratas de tantas outras teo- rias sobre a constituição da matéria, a sua se originou de uma combinação de intuição teórica e observações de laboratório, sendo respaldada direta- mente por seus estudos sobre os ga- ses. A obtenção de resultados confiá- veis nas determinações de pesos atômicos levou muitas décadas. Com pesos atômicos confiáveis e o escla- recimento definitivo da diferença en- tre átomos e moléculas, a teoria pas- sou a ter aceitação universal e tornou- se um dos alicerces da Química. Nota 1. Neste artigo, optou-se por usar a expressão “peso” em vez de “mas- sa”, sendo-se fiel ao uso da época. Carlos Alberto L. Filgueiras (calf@iq.ufrj.br), enge- nheiro químico pela Universidade Federal de Minas Gerais e doutor em Química pela Universidade de Maryland (EUA), é docente do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi pre- sidente da SBQ no biênio 1990-1992. 245-282, 1939. PULLMAN, B. 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Elemento 111: Roentgênio No dia 1º de novembro de 2004, o elemento 111, descoberto em dezembro de 1994 por pesquisadores do GSI - Centro de Pesquisas sobre Íons Pe- sados, em Darmstadt, Alemanha (vide QNEsc n. 5, p. 12, 1997), foi ofi- cialmente nomeado pela IUPAC como roentgênio (símbolo Rg). A descoberta deste elemento foi confirmada, em 2003, por um grupo de trabalho conjunto da IUPAC e da IUPAP (União Internacional de Física Pura e Aplicada). A seguir, os desco- bridores do elemento propuseram à IUPAC o nome roentgênio e o símbolo Rg, seguindo a tradição de nomear elementos em homenagem a cientis- tas famosos. Wilhelm Conrad Roent- gen descobriu os raios X em 8 de novembro de 1895, um novo tipo de radiação ao qual ele deu esse nome dada a sua natureza incerta (vide QNEsc n. 2, p. 19-22, 1995). Imediata- mente, os raios X passaram a ser usa- dos em Medicina e encontraram muitas aplicações tecnológicas, anunciando a era da Física Moderna, baseada em propriedades atômicas e moleculares. Em 1901, somente seis anos após sua descoberta, os benefícios dos raios X à humanidade já eram tão evidentes que Roentgen foi laureado com o Prê- mio Nobel de Física. O elemento 111 foi sintetizado exatamente 100 anos depois da descoberta de Roentgen. Para mais informações:www.iupac. o r g / n e w s / a r c h i v e s / 2 0 0 4 / naming111.html. (R.C.R.F.) Rg 111 6 Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 4 – Maio 2001Modelos teóricos Wagner B. de Almeida e Hélio F. dos Santos A matéria é constituída de sub-partículas (prótons, elétrons e nêutrons) cujo comportamento deve ser descrito pela teoria quântica. No presente artigo apresentamos os principais aspectos relacionados ao conceito e ao formalismo da química quântica modelos teóricos, estrutura da matéria, química quântica Observações experimentais e modelos teóricos I nformações importantes a respeito da natureza de átomos e moléculas têm sido obtidas através do estudo da interação da radiação com a ma- téria. Muitas evidências experimentais, desde a metade do século XIX, suge- riam que a luz deveria ser descrita como um movimento ondulatório. Esta evidência incluía o fato de que a luz exi- be fenômenos de interferência e difra- ção. Naquela época, em 1864, a teo- ria eletromagnética ondulatória foi de- senvolvida em uma forma bastante satisfatória por J.C. Maxwell. Suas fa- mosas equações diferenciais en- volvendo os cam- pos elétricos e magnéticos des- crevem a radia- ção luminosa on- dulatória e suas propriedades, em uma forma similar na qual as equações do movimento são aplicáveis às ondas sonoras. Utilizando a teoria eletromag- nética ondulatória, podemos correla- cionar a inteira gama de comprimentos de onda, λ, desde raios X (λ ≈ 10-10 m) até ondas de rádio ordinárias (λ ≥ 1 m). Todas estas superficialmente diferen- tes formas de radiação viajam no vácuo a mesma velocidade, c = 2,998 x 108 m.s-1. Uma onda luminosa pode ser caracterizada por sua freqüência, ν, ou comprimento de onda, λ (ν = c/λ) como mostrado na Figura 1. A espectroscopia tem como funda- mento básico revelar o efeito da inte- ração da radiação com a matéria, es- tando esta no estado gasoso, líquido ou sólido. Desde o século XIX traba- lhos experimentais na área de espec- troscopia, mais especificamente espectroscopia atômica, proporciona- ram um conjunto de informações rele- vantes que levaram cien- tistas a buscarem mo- delos e teorias mais ade- quadas para a descrição da interação da radiação com a matéria. No caso do átomo de hidrogênio, várias equações empíricas foram propostas para descrever seu espec- tro atômico (Figura 2 e Tabela 1). O padrão de espaçamento entre as linhas do espectro pode ser reprodu- zido com o auxílio da equação empí- rica mostrada na Tabela 1, sendo RH a constante de Rydberg e m e n núme- ros inteiros que assumem valores ca- racterísticos nas diferentes regiões do espectro eletromagnético. Considerando as relações entre ra- diação, energia e matéria, pode-se observar que quando gases são ex- postos a uma descarga elétrica ou aquecidos a temperaturas altas, uma emissão característica de luz é obser- vada. Esta consiste de uma série de linhas distintas, chamadas bandas de radiação, distribuídas em várias fre- qüências, com pouca ou nenhuma ra- diação em freqüências intermediárias (Figura 2). Um sólido aquecido, por um outro lado, produz um espectro que parece ser uma função contínua do comprimento de onda. Um espectro como este é chamado de espectro de Figura 1: Espectro de radiação eletromag- nética. O comprimento de onda (λ) é defini- do como sendo a distância entre dois máxi- mos ou dois mínimos da onda. A espectroscopia tem como fundamento básico revelar o efeito da interação da radiação com a matéria 7 Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 4 – Maio 2001Modelos teóricos corpo negro ideal ou espectro normal. O espectro obtido para um corpo ne- gro ideal não depende da natureza, ta- manho ou forma do sólido, mas so- mente da temperatura (Figura 3). A radiação de corpo negro é a radiação eletromagnética em equilíbrio térmico com o corpo negro a uma temperatura específica. Através da análise da radiação do corpo negro, foi estabele- cido experimentalmente que a densi- dade de energia total, ρ, é dada pela lei de Stefan-Boltzmann. ρ = σ.T4 (1) sendo σ uma constante, 7,56 x 10-16 J.m-3.K-4, e T a temperatura absoluta (em K). Se um detector de radiação e um espectroscópio são usados para deter- minar a energia para vários comprimentos de onda, um gráfico suave de densidade de energia (ρ) vs. com- primento de onda (ou freqüência) é obtido, como mostrado na Figura 3. Estas curvas se constituem em uma família, com a forma de cada curva depen- dendo da temperatura. Como pode ser visto na Figura 3, a equação clássica para a densidade de energia em função da freqüência da radiação proposta por Rayleigh-Jeans em 1900, discordou dramaticamente da curva experimental. O desenvolvimento de uma equação para reproduzir a forma experimental da dependência da ener- gia da radiação com o comprimento de onda (ou freqüência) da luz foi um dos problemas centrais dos físicos do século XIX. Planck apresentou no final de 1900 uma solução, na qual foi introduzida pela primeira vez a hipótese da quantização da energia (E = n.h.ν, sendo h a constante de Planck, 6,62 x 10-34 J.s, e n um número inteiro). A curva teórica construída utilizando a equação de Planck concorda perfeitamente com a curva experimental para a radiação do corpo negro. Uma discussão detalhada não será apresentada aqui, mas podemos dizer que este foi o passo inicial para o nascimento da mecânica quântica. Apesar da teoria desenvolvida por Planck para explicar a radiação de cor- po negro ter sido compatível com as observações experimentais, naquela época Planck se questionava quanto ao significado físico do formalismo ma- temático introduzido. Com esta visão, Planck buscou du- rante um longo perío- do explicações físicas para o que ele consi- derava como um “postulado limitado proposto a partir de um ato de desespero”. No final do século XIX Heinrich Hertz realizou experiências e descobriu que uma descarga elétrica entre dois ele- trodos ocorre mais facilmente quando se faz incidir sobre um deles luz ultravioleta. Lenard, seguindo alguns experimentos de Hallwachs, mostrou em seguida que a luz ultravioleta facilita a descarga ao fazer com que elétrons sejam emitidos da superfície do catodo (M, Figura 4a). A emissão de elétrons de uma superfície, devido à incidência de luz sobre essa superfície, é cha- mada de Efeito Fotoelétrico (Figura 4). Os principais aspectos observados empiricamente do Efeito Fotoelétrico não podem ser explicados em termos da teoria ondulatória clássica da radiação. Em 1905 Albert Einstein ques- Tabela 1: Diferentes séries propostas empiricamente para descrever o espectro de emissão atômico do átomo de hidrogênio (Figura 2). Nome da série Região do espectro eletromagnético m n Lyman Ultravioleta 1 2, 3, 4... Balmer Visível 2 3, 4, 5... Paschen Infravermelho 3 4, 5, 6... Brackett Infravermelho 4 5, 6, 7... Pfund Infravermelho 5 6, 7, 8... Figura 3: Espectro de radiação do corpo negro. Figura 4: Ilustração do efeito fotoelétrico No final de 1900 Planck apresentou a hipótese da quantização da energia: E = n.h.ν Esse foi o passo inicial para o nascimento da mecânica quântica Figura 2: Espectro atômico do átomo de hidrogênio em diferentes regiões do espectro eletromagnético. 8 Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 4 – Maio 2001 tionou o formalismo clássico utilizado na descrição da luz. Einstein propôs que a energia radiante fosse quantizada em pacotes concentrados, que mais tarde vieram a ser chamados de fótons. Eins- tein supôs que a energia do pacote, ou fóton, está relacio- nada à sua freqüência ν pela equação E = h.ν; também foi su- posto que no efeito fotoelétrico um fóton é c o m p l e t a m e n t e absorvido por um elé- tron no fotocatodo. Quando um elétron é emitido da superfíciedo metal, sua energia cinética é K = h.ν - w, sendo o primeiro termo da direita a energia do fóton incidente e w o trabalho necessário para remover os elétrons do metal. No caso de um elétron estar fra- camente ligado e não havendo perdas internas, o fotoelétron vai emergir com energia cinética máxima, Kmax. No efeito fotoelétrico os elétrons podem ser detectados sob a forma de uma corrente elétrica se forem atraídos para um coletor metálico através de uma dife- rença de potencial V. Invertendo o sinal do potencial e tornando-o suficien- temente grande, podemos fazer a corrente fotoelétrica cair a zero. Este é o chamado potencial de corte ou limite, V0. Einstein relacionou o potencial de corte com a energia do fóton incidente pela equação e.V0 = h.ν - w0, onde w0 é chamada de função trabalho, a energia mínima necessária para um elétron atravessar a superfície do metal e esca- par às forças atrativas que ligam-no ao metal. Utilizando as equações mencio- nadas anteriormente e a Figura 4, podemos observar que construindo um gráfico de eV0 em função da freqüência ν obteremos uma linha reta cuja inclina- ção fornece a constante de Planck, h (Figura 4b). Enquanto no efeito fotoelétrico a ra- diação ultravioleta é absorvida pelo elé- tron, Compton mostrou, em 1923, que um feixe de raios X de comprimento de onda λ era espalhado por elétrons quan- do incididos sobre uma amostra de grafi- te. Para interpretar as observações experimentais, Compton postulou que o feixe de raios X incidente não era uma onda de freqüência ν, mas um conjunto de fótons, cada um com energia E = h.ν, e que esses fótons colidiam com os elétrons livres do alvo da mesma forma que colidem duas bolas de bilhar. A natureza corpuscular da radiação foi então confirmada. Portanto foi consta- tado que a radiação ele- tromagnética tem um comportamento dual. A necessidade da hipó- tese do fóton, ou partí- cula localizada, para interpretar processos que envolvem a inte- ração com a matéria é clara, mas ao mesmo tempo é necessária uma teoria ondulatória da radiação pa- ra explicar os fenômenos de interferência e difração. É importante considerar que a radiação não possui um compor- tamento puramente ondulatório nem meramente se comporta como um fei- xe de partículas. A radiação se apresenta como uma onda em certas circuns- tâncias e como uma partícula em outras. A dualidade evidente na natureza onda-partí- cula da radiação é uma característica ge- ral de todos os entes físicos. Veremos que elétrons, por exem- plo, têm a mesma natureza dual dos fó- tons. A conciliação da existência de aspectos ondulatórios com a de aspec- tos corpusculares, para qualquer ente físico, é conseguida com o auxílio da mecânica quântica. Em 1924, Louis De Broglie propôs a existência de ondas de matéria. A hipó- tese de De Broglie era de que o compor- tamento dual onda-partícula da radiação também se aplicava a matéria. Assim como um fóton tem associado a ele uma onda luminosa que governa seu movi- mento, também uma partícula material (por exemplo, um elétron) tem associa- da a ela uma onda de matéria que governa seu movimento. Foi proposto que os aspectos ondulatórios da maté- ria fossem relacionados com seus as- pectos corpusculares exatamente da mesma forma quantitativa com que es- ses aspectos são relacionados para a radiação. Assim, tanto para a matéria quanto para a radiação, as seguintes relações são válidas: E = h.ν e p = h/λ, onde E e p são respectivamente a energia total e momento linear da partícula. O comprimento de onda de De Broglie é portanto definido como: (2) sendo m e v a massa e a velocidade da partícula respectivamente. Apesar da relação de De Broglie ser aplicada a todas as substâncias físicas, o comprimento de onda associado a partículas macroscópicas é mui- to pequeno, não sen- do possível observar o comportamento ondulatório (difração, interferência etc.). Alguns exemplos são apre- sentados na Tabela 2. Desenvolvimento da teoria atômica Evidências experimentais foram acumuladas no início do século pas- sado revelando que átomos contêm elétrons, e como normalmente átomos são neutros, eles devem conter uma carga positiva igual em módulo à carga Modelos teóricos Tabela 2: Exemplos da aplicação da relação de De Broglie. 1. Cálculo do comprimento de onda de De Broglie (λ = h/m.v) para um elétron de massa 9,1 x 10-31 kg movendo-se a velocidade de 1,0 x 106 m.s-1. 2. Cálculo do comprimento de onda de De Broglie (λ = h/m.v) para um carro de massa 1 x 103 kg movendo-se a 100 km.h-1 (27,8 m.s-1). Compton postulou que um feixe de raios X, incidindo sobre uma amostra de grafite, não se compotra como uma onda de freqüência ν mas como um conjunto de fótons. Isso confirmou a natureza corpuscular da radiação A dualidade evidente na natureza onda-partícula da radiação é uma característica geral de todos os entes físicos 9 Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 4 – Maio 2001 negativa de seus elétrons. Portanto um átomo neutro contendo Z elétrons tem uma carga negativa -Ze, onde -e é a car- ga do elétron, e também uma carga positiva de mesmo valor em módulo. O fato de que a massa do elétron é muito pequena se compara- da com a de qualquer átomo, implica que a maior parte da massa do átomo deve estar associada à carga po- sitiva. Estas consi- derações levaram na- turalmente ao proble- ma de como seria a distribuição de cargas positivas e negativas dentro do átomo. Um dos primeiros modelos para o átomo foi proposto por J.J. Thomson em 1910, segundo o qual os elétrons carregados negativamente estariam localizados no interior de uma distribuição esférica contínua de carga positiva, com um raio da ordem de grandeza do raio de um átomo, 10-10 m. Este modelo é conhecido também como “pudim de ameixas”. O modelo de Thomson não fornecia uma concor- dância quantitativa com os espectros observados experimentalmente. A demonstração da inadequação do mo- delo de Thomson foi obtida em 1911 por Ernest Rutherford, a partir da análise de experiências sobre o espalhamento de partículas α por átomos. Rutherford mostrou que em vez de estar espalha- da por todo o átomo, a carga positiva estava concentrada em uma região muito pequena, ou núcleo, no centro do átomo. Este foi um dos progressos mais importantes da física atômica e foi a base da física nuclear. A verificação experimental detalha- da das previsões do modelo nuclear de Rutherford para o átomo deixou pouco espaço para dúvidas em relação à validade desse modelo. Contudo, sur- giram sérias questões a respeito da esta- bilidade de um átomo desse tipo. Os elétrons circulando em órbitas em torno do núcleo, de acordo com a teoria elet- romagnética clássica, perderiam energia e mover-se-iam em espiral até atingir o núcleo. Teríamos um átomo que rapi- damente sofreria um colapso para di- mensões nucleares. Além disso, o espectro contínuo da radiação que seria emitido durante este processo não esta- va de acordo com o espectro atômico de natureza discreta, conforme já se conhecia na época. Em 1913 Niels Bohr desenvolveu um modelo atômico que apresentava concor- dância quantitativa com os dados espectros- cópicos obtidos para o átomo de hidrogênio. Um outro aspecto inte- ressante do modelo de Bohr é que a matemá- tica envolvida era de fácil compreensão. O modelo de Bohr expli- cava a estabilidade do átomo postulando que a energia total do elétron é constante quando este encontra-se em uma das órbitas permitidas, caracterizadas por números inteiros denominados números quânticos (n = 1, 2, 3...). A freqüência da radiação emitida durante uma tran- sição eletrônica entre dois níveis é calculada pela equação: (3) sendo Einicial e Efinal as energias dos dife- rentes estados eletrônicos, definidas, de acordo com o modelo deBohr, como: (4) O raio das órbitas dos elétrons nos diferentes estados eletrônicos é ex- presso como: (5) Nas Equações (4) e (5), m refere- se à massa do elétron, Z ao número atômico do átomo, e à carga do elétron (e = 1,602 x 10-19 C), h = h/2pi e ε0 a permissividade do vácuo (ε0 = 8,85 x 10-12 F.m-1). As propriedades do espectro de absorção dos átomos de um elétron também são facilmente compreensí- veis em termos do modelo de Bohr. O sucesso do modelo de Bohr, medido por sua concordância com as experiên- cias, foi impressionante. Mas fez também acentuar a natureza misterio- sa dos postulados nos quais se ba- seava o modelo. Em 1916 Sommerfeld propôs um modelo no qual as órbitas permitidas para o movimento dos elétrons no áto- mo de hidrogênio seriam elípticas. Isso foi feito na tentativa de explicar a estru- tura fina do espectro do átomo de hi- drogênio, a qual corresponde a uma separação das linhas espectrais. A es- trutura fina pode ser observada so- mente se usarmos um equipamento de alta resolução, já que a separação, em termos de número de onda (1/λ), en- tre as componentes adjacentes de uma única linha espectral é da ordem de 10-4 vezes a separação entre as li- nhas adjacentes. De acordo com o modelo de Bohr, isto deve significar que o que tínhamos pensado ser um único estado de energia do átomo de hidrogênio consiste na realidade em vários estados com energias muito próximas. A esta teoria desenvolvida até aqui nós nos referimos como ‘teoria quân- tica antiga’. Esta teoria só é aplicável a átomos contendo um único elétron (H, He+, Li++ etc.) além de sofrer uma crí- tica subjetiva de que a teoria parece de alguma forma não ter coerência, sendo intelectualmente insatisfatória. A nova teoria quântica proposta por Schrödinger e independentemente por Heisenberg, denominada ‘mecânica quântica’, nos fornecerá um procedi- mento mais geral para o tratamento de partículas de qualquer sistema micros- cópico. Fundamentos da mecânica quântica Como descrito nas seções anterio- res, o final do séc. XIX foi marcado por uma série de experimentos envolvendo a interação da radiação eletromagné- Modelos teóricos O modelo de Thomson não fornecia uma concordância quantitativa com os espectros observados. A demonstração da inadequação desse modelo foi obtida por Rutherford. Ele mostrou que uma carga positiva estava concentrada em uma região muito pequena (o núcleo) no centro do átomo O modelo de Bohr explicava a estabilidade do átomo postulando que a energia total do elétron é constante quando este encontra-se em uma das órbitas permitidas 10 Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 4 – Maio 2001 tica com a matéria. Dentre os mais importantes, podem ser citados os estudos da radiação emitida por um corpo negro, o efeito fotoelétrico e o espalhamento Compton. Estas inves- tigações experimentais levaram a uma reformulação geral da teoria clássica do eletromagnetismo, introduzindo conceitos como a quantização da ener- gia e as propriedades corpusculares da radiação. Os trabalhos de De Bro- glie, relacionados a dualidade partí- cula-onda, estabe- leceram um forma- lismo quantitativo do comportamento on- dulatório da matéria, sendo o comprimen- to de onda (λ) da ra- diação associada à partícula de massa m e velocidade v dado pela Equação (2). A derivação da Equa- ção (2) pode ser as- sociada aos conceitos de energia e fóton introduzidos por Einstein. No efeito fotoelétrico, a radiação eletro- magnética é considerada como sen- do constituída de partículas movendo- se na velocidade da luz (c = 2,998 x 108 m.s-1), denominadas fótons, cuja energia é E = h.ν (ν ≡ freqüência da radiação). Por outro lado, a teoria da relatividade estabelece que uma partícula nestas condições possui energia E = m.c2, sendo m a massa relativística da partícula. Logo, as duas equações mencionadas anteriormente podem ser combinadas, produzindo: (6) A Equação (6), valida para um fóton movendo-se na velocidade c, é equi- valente a Equação (2) para uma partí- cula de massa m movendo-se com velocidade v. O postulado de De Bro- glie (Equação 2) foi comprovado expe- rimentalmente através de estudos de difração de elétrons. A necessidade de introduzir concei- tos ondulatórios na descrição do com- portamento de partículas microscópi- cas levou a uma reformulação da me- cânica de Newton. Surge assim o con- ceito de onda de matéria (ou função de onda) cuja interpretação foi dada por Max Born em 1926. A análise de Born tem como princípio os conceitos clássicos da radiação eletromagnética e suas propriedades corpusculares. A intensidade da luz é proporcional a A2 (A ≡ amplitude da onda), que por sua vez é proporcional ao número de fó- tons (n) por unidade de volume. Por- tanto, a probabilidade de encontrar um fóton no elemento de volume dV pode ser escrita como A2dV. De forma análoga, Born associou à proba- bilidade de encontrar uma partícula no ele- mento de volume dV a quantidade Ψ2dV, onde Ψ representa a ampli- tude da função de on- da da matéria. A inter- pretação probabilística de Max Born con- trapõe-se ao determi- nismo da mecânica clássica e inicia o desenvolvimento de uma nova teoria para estudar movimentos de partículas, onde as propriedades observáveis são descritas como valores esperados. Esta teoria recebeu o nome de mecâ- nica quântica. Postulado fundamental da mecânica quântica Para qualquer sistema material, existe uma função de onda (Ψ) asso- ciada, a qual é função das coordena- das e tempo, que contém toda infor- mação que pode ser obtida sobre o sistema, e satisfaz a equação abaixo: ÔΨ = oΨ (7) sendo o uma propriedade observável do sistema e Ô o operador correspon- dente. O conceito de operador pode parecer novo para alguns leitores, mas com certeza todos já fizerem uso de algum tipo de operador em exercícios de cálculo. Exemplos de operadores clássicos são a raiz quadrada (√) e a derivada (d/dx), ou seja, operador é “al- go” que executa algum tipo de opera- ção sobre uma função matemática. Em mecânica quântica, o uso de operado- res constitui parte da teoria, como descrito pelo teorema fundamental (Equação 7). Alguns exemplos especí- ficos serão discutidos em maiores de- talhes, visando introduzir a forma dos principais operadores em mecânica quântica. Inicialmente, considere uma partí- cula movendo-se livre da ação de for- ças externas. A função de onda desta partícula pode ser representada como Ψ(x, t) = cos(kx - ωt) + ik sen(kx - ωt) (8) sendo (9) Derivando a expressão (8) em rela- ção a x, mantendo t constante, temos: (10) Reescrevendo a Equação (10), obtém-se: (11) Comparando a Equação (11) com a expressão que representa o postula- do fundamental da mecânica quântica (Equação 7), podemos escrever Ψ = pΨ (12) com p correspondendo ao momento linear da partícula (observável) e ao operador momento linear. O resultado da análise anterior pode ser utilizado em conjunção com os conceitos da mecânica clássica para derivar um outro operador funda- mental em mecânica quântica, o ope- rador energia total ( ). A energia total clássica pode ser escrita como a soma da energia cinética (K) e potencial (V). E = K + V (13) A Equação (13) pode ser escrita em função do momento p como (14) Modelos teóricos A necessidade de introduzir conceitos ondulatórios na descrição do comportamento de partículas microscópicas levou a uma reformulação da mecânica de Newton. Surge assim o conceito de onda de matéria (ou função de onda) 11 Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 4 – Maio 2001 A soma K + V representa a energia total da partícula de massa m se movendo com velocidade v sob a ação de forças definidas pelo potencial V (F = -dV/dx).Associando o formalismo clássico (Equação 14) com o conceito de operadores da mecânica quântica (Equações 7 e 12) temos: (15) Utilizando (15), a Equação (14) pode ser escrita como: (16) Utilizamos o símbolo para repre- sentar o operador energia total do sis- tema (ao invés de Ê); este é chamado o operador Hamiltoniano (ou operador energia total) do sistema. Assim, (17) Na Equação (17), operador energia cinética (18) ≡ operador energia potencial (19) (20) Utilizando o postulado fundamen- tal da mecânica quântica (Equação 7) e a Equação (17) podemos escrever: Ψ = EΨ (21) A Equação (21) corresponde à Equação de Schrödinger independen- te do tempo. Esta é uma equação fun- damental em mecânica quântica. A equação de Schrödinger, escrita na forma (21), corresponde a um pro- blema de ‘autovalor’ e ‘autovetor’, sendo a energia total (E) o autovalor e a função de onda (Ψ) o autovetor. De acordo com o postulado fundamental da mecânica quântica (Equação 7), a função de onda associada à partícula contém todas as informações neces- sárias para a determinação de suas propriedades observáveis. O valor de E e a forma de Ψ dependem do ope- rador Hamiltoniano ( ), o qual possui contribuições da energia cinética ( ) e potencial ( ) da partícula. O operador possui sempre a mesma forma des- crita na Equação (18), sendo m a massa da partícula. Portanto, o que di- ferencia a aplicação da equação de Schrödinger para diferentes sistemas e processos em física e química é a função potencial ( ). Em analogia com a mecânica clássica, pode ser dito que o comportamento de uma partícula é determinado pelo campo de forças no qual ela se move. As formas do operador para alguns processos simples são apre- sentadas na Tabela 3 para partículas movendo-se em uma dimensão. Em 3a, é apresentado o exemplo mais simples da aplicação da equação de Schrödinger para uma partícula mo- vendo-se livre da ação de forças ex- ternas. Nesta situação, = 0 em qualquer posição x, sendo a energia total (E) puramente cinética. No exem- plo (b), a partícula move-se livremente; entretanto, a função potencial possui valores distintos em diferentes regiões de x. Nas regiões x < 0 e x > a, = 0 e o potencial possui um valor constante igual a V0 na região 0 < x < a. Nesta situação a equação de Schrödinger deve ser resolvida nas duas regiões distintas, com a solução geral determi- nada em cada região definida por condições de contorno, as quais a fun- ção de onda deve satisfazer (Ψ deve ser contínua, finita e unívoca em qual- quer ponto x). No exemplo (3c) o ope- rador Hamiltoniano para descrever o movimento harmônico é apresentado. Note que a função potencial não é constante nesta situação, sendo fun- ção da coordenada x. O estudo do os- cilador harmônico é fundamental em física e química e constitui o princípio básico da descrição teórica de vibra- ção de moléculas. Funções potenciais como aquela representada em (3c) for- mam também a base da construção de campos de força utilizados em estu- dos de mecânica molecular. A Tabela 4 apresenta a forma do operador Hamiltoniano para átomos e moléculas. Os sistemas considerados nesta tabela envolvem um maior nú- mero de partículas movendo-se em um espaço de três dimensões, e portanto são mais complexos do que aqueles representados na Tabela 3. Antes de entrarmos em aspectos específicos sobre as soluções da equação de Schrödinger para os sistemas apre- sentados na Tabela 4, é importante comentar so- bre a construção do ope- rador Hamiltoniano. A energia total do sistema é o somatório de contribuições devido às energias cinética e potencial; logo, o operador Hamiltoniano deve ser constituído de operadores associados Modelos teóricos Tabela 3: Exemplos do operador Hamiltoniano para o movimento de uma partícula de massa m em diferentes campos de força definidos pela função (operador) potencial V. Operador (a) Partícula livre (b) Barreira de potencial (c) Oscilador harmônico O estudo do oscilador harmônico é fundamental em física e química e constitui o princípio básico da descrição teórica de vibração de moléculas 12 Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 4 – Maio 2001 a todas as formas de energias cinética e potencial do sistema. Para átomos de um elétron, a função potencial é representada somente pelo potencial de interação elétron-núcleo (Ven) . Em átomos de muitos elétrons, a função potencial contém termos devido à atração elétron-núcleo (Ven) e repulsão elétron-elétron (Vee). Em moléculas, considerando os núcleos fixos nas posições de equilíbrio, o operador que representa a energia potencial é composto de termos que descrevem a atração elétron-núcleo (Ven), repulsão elétron-elétron (Vee) e repulsão núcleo- núcleo (Vnn). O operador energia ciné- tica descrito pela Equação (18) em uma dimensão é substituído pelo ope- rador correspondente em três dimen- sões (∇2) denominado operador Lapla- ciano. (22) Em todos os termos do operador aparecem somatórios (Σ) indicando a contribuição de cada partícula individual. Para sistemas que não estão sob ação de forças externas que sofram alte- rações em função do tempo, a energia potencial (V) dependerá apenas das coordenadas das partículas. Neste caso estaremos considerando a equação de Schrödinger independente do tempo, Equação (21). Uma grande parte dos problemas de interesse para a química podem ser formulados em termos de potenciais independentes do tempo. Portanto estamos interessados nas autofunções (Ψ) e autovalores (E) do operador Hamiltoniano, , independente do tempo. Chamaremos daqui por diante a Equação (21) simplesmente de equação de Schrödinger. A Equação de Schrödinger pode ser resolvida exatamente apenas para áto- mos contendo um elétron, como por exemplo o átomo de hidrogênio. Neste caso a função energia potencial possui uma forma simples dependendo ape- nas da distância entre o próton e o elétron (V(r) = -e2/r). Para o caso de áto- mos multieletrônicos e moléculas temos de utilizar métodos matemáticos apro- ximados para a resolução da equação de Schrödinger, pois a complexidade da função energia potencial para a intera- ção de repulsão entre os elétrons impe- de a separação das variáveis na equa- ção de Schrödinger. Neste caso utiliza- mos métodos numéricos com o auxílio de computadores. Para o caso do átomo de hidrogênio, obtemos expres- sões analíticas (fórmulas matemáticas) para a função de onda e energia, cujos detalhes serão omitidos aqui. Os números quânticos principal (n), secun- dário (l) e magnético (ml) surgem natu- ralmente durante o processo algébrico de solução da equação de Schrödinger para o átomo de hidrogênio. A energia total pode ser escrita como E = -13.6/n2 eV (n = 1, 2, 3…), isto é, a energia é quantizada variando com o número quântico principal n. Temos então os Modelos teóricos níveis energéticos permitidos para o elétron no interior do átomo. A quanti- zação da energia não é um postulado na teoria de Schrödinger. Esta surge naturalmente de requisitos matemáticos para que a equação tenha soluções aceitáveis (funções de onda ‘bem com- portadas’). Quando um elétron ocupa um desses níveis sua energia total é constante, e ele não emite e nem absor- ve energia. Estes são chamados esta- dos estacionários. A função de onda pa- ra o átomo de hidrogênio depende de três números quânticos (n, l e ml). Por simplicidade inserimos estes rótulos na função de onda, Ψn,l,ml. Podemos então escrever a equação de Schrödinger para o átomo de hidrogênio na forma abaixo Ψn,l,ml (x, y, z) = EnΨn,l,ml (z, y, z) (23) As funções de onda Ψn,l,ml são também chamadas orbitais atômicos, e os designamos por símbolos em função do valor do número quântico secundário l: l = 0, orbital s; l = 1, or- bital p; l = 2, orbital d etc. Osorbitais atômicos são na realidade as funções de onda que são soluções da equação de Schrödinger, Ψ1s, Ψ2s, Ψ2p, Ψ3s, … etc. Podemos ver que cada nível energético n pode ter várias funções de onda associadas, dependendo dos valores dos números quânticos l e ml. A este fenômeno chamamos ‘degene- rescência’. Quando a degenerescên- cia é removida, temos energias distin- tas para os vários subníveis atômicos. Concluindo: quando resolvemos a equação de Schrödinger para o átomo de hidrogênio, obtemos as energias para os níveis energéticos (En) e os orbitais atômicos (Ψn,l,ml). Temos então um diagrama de níveis energéticos no interior do átomo, isto é, dizemos que um átomo se constitui de um sistema energético quantizado (somente al- guns valores de energia são possíveis), como mostrado na Figura 5. À medida que n aumenta os níveis se aproximam, tendendo para um contínuo de ener- gia. Pelo diagrama energético repre- sentado na Figura 5, obtido da resolu- ção da equação de Schrödinger, temos uma compreensão clara das transições eletrônicas que originam o espectro atômico de linhas do átomo de hi- drogênio (Figura 2). Para o caso de átomos multiele- Tabela 4: Exemplos do operador Hamiltoniano para átomos e moléculas. Na Equação (a) a massa do elétron, m, foi utilizada em substituição à massa reduzida. Operador (a) Átomos de um elétron (b) Átomos de muitos elétrons (c) Moléculas 13 Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 4 – Maio 2001Modelos teóricos Para saber mais ATKINS, P.W. Físico-química, 6 ed. Rio de Janeiro: Editora LTC, v. 2, 1999. BORN, M. Física atômica, 4 ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. EISBERG, R. e RESNICK, R. Física quântica, átomos, moléculas, sólidos, núcleos e partículas 6 ed. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1988. FOCK, V.A. Princípios de mecânica quântica. Moscou: Editora MIR, 1986. LOPES, J.L. A Estrutura quântica da matéria, do átomo pré-Socrático às partí- culas elementares, 2 ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1993. TEIXEIRA DIAS, J.J.C. Química quân- tica, fundamentos e métodos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. trônicos e moléculas, a resolução da equação de Schrödinger utilizando mé- todos aproximados nos leva à obtenção de níveis de energia atômicos e molecu- lares e à determinação de configurações eletrônicas. Para moléculas, a função de onda obtida como solução da equação de Schrödinger repre- senta os orbitais mole- culares, os quais permi- tem uma descrição de ligações químicas em termos de combina- ções de orbitais atô- micos. É importante men- cionar que na Equação (23) a função de onda depende também das coordenadas de spin, sendo o estado eletrônico do sistema caracterizado pelos números quânticos espaciais (n, l e ml) e pelo número quân- tico de spin (ms). A função de onda deve, portanto, ser representada com o símbolo Ψn,l,ml,ms. Esforços têm sido continuamente empreendidos na busca de soluções aproximadas da equação de Schrödin- ger para sistemas de muitos elétrons (átomos e moléculas) com acuracidade satisfatória. O procedimento utilizado pa- ra a resolução da Equação (23) para um sistema contendo muitos elétrons consiste em escrever a função de onda total do sistema para um dado nível energético, digamos o nível fundamen- tal (de mais baixa energia), como um produto de funções dependendo das coordenadas de somente um elétron, além de representar a energia potencial de interação como uma soma de ter- mos. Neste procedimento supomos que os elétrons estão sob a ação de um campo potencial efetivo devido aos núcleos e aos outros elétrons (V = Vefetivo). Na resolução da equação de Schrödinger utilizamos um procedi- mento interativo, onde uma função de onda inicial dita ‘tentativa’ é fornecida, com a qual obtemos o potencial de interação para os elé- trons, o qual é utilizado na resolução da equa- ção de Schrödinger, obtendo assim novas funções de onda e energias orbitais. O procedimento é repe- tido até que a auto- consistência seja atin- gida (não haja mais variações nas funções de onda). Este méto- do é conhecido como método de Hartree-Fock do campo autoconsistente (HF-SCF). Várias sofisticações podem ser incorporadas no método de Hartree- Fock para melhorar a qualidade das funções de onda e energias. Estes métodos são denominados Pós- Hartree-Fock. Conhecida a função de onda total Ψ, várias propriedades podem ser calculadas e posteriormente compa- radas com valores obtidos experimen- talmente. Existe uma variedade de métodos teóricos para a resolução da Equação de Schrödinger tendo como base fun- damental o procedimento de Hartree- Fock para encontrar funções de ondas aproximadas. O método de Hartree- Fock é variacional, o que implica que a energia total obtida é sempre um limite superior para a energia do sistema, isto é, está sempre acima (ou no máximo igual) a energia exata ou experimental. Os métodos podem ser classificados em duas classes: ab initio e semiem- píricos. Nos métodos ab initio nenhum parâmetro experimental é utilizado, e que todas as integrais presentes são avaliadas. Já nos métodos semiempí- ricos vários parâmetros experimentais ajustáveis são utilizados, e o método tem um custo computacional muito mais baixo do que os métodos ab initio. O leitor pode consultar a literatura dispo- nível para maiores detalhes sobre mé- todos quânticos. Para o caso de moléculas, resolve- mos a equação de Schrödinger para os elétrons separada dos núcleos, e a ener- gia molecular total é uma soma das con- tribuições eletrônicas e nucleares. Este procedimento baseia-se na aproxi- mação de Born-Oppenheimer, a qual consiste em descorrelacionar os movi- mentos de núcleos e elétrons. Nesta si- tuação, a equação de Schrödinger pode ser separada em duas equações que descrevem os movimentos de núcleos e elétrons. A matemática utilizada na resolução da equação de Schrödinger é complexa, envolvendo conhecimentos das áreas de cálculo diferencial e inte- gral e álgebra matricial. Estes aspectos não foram considerados no presente artigo, podendo o leitor interessado re- correr à literatura específica fornecida. Finalizando, é importante reforçar que a mecânica quântica é atualmente a teoria aceita e válida para descrever fenômenos relacionados à estrutura da matéria. Entretanto, devido à complexi- dade do formalismo matemático, torna- se necessária a utilização de apro- ximações teóricas. Neste contexto, a busca de novos métodos matemáticos para resolução da equação de Schrö- dinger tem sido um grande desafio para os cientistas, objetivando aplicar a teoria quântica para sistemas de interesse em física e química com a exatidão deseja- da. Wagner B. de Almeida (wagner@netuno.qui.ufmg.br), doutor em química pela Universidade de Manchester, é professor adjunto no Departamento de Química da Universidade Federal de Minas Gerais. Hélio F. dos Santos (helius@quimica.ufjf.br), doutor em química, é professor do Departamento de Química da Univer- sidade Federal de Juiz de Fora. Figura 5: Diagrama de energia para o áto- mo de hidrogênio. A mecânica quântica é atualmente a teoria aceita e válida para descrever fenômenos relacionados à estrutura da matéria. Entretanto, devido à complexidade do formalismo matemático, torna-se necessária a utilização de aproximações teóricas 22 Sabia-se desde a Antiguidadeque a luz solar pode serdecomposta nas cores do ar- co-íris, mas foi Newton, no século XVII, que pela primeira vez descreveu de forma adequada o fenômeno da decomposição da luz por um prisma, assim como de sua recomposição por um segundo prisma. O conjunto das cores obtidas com o prisma é conhe- cido como espectro, e varia do verme- lho, numa extremidade, ao violeta, na outra. Além das chamadas sete cores do arco-íris, o espectro solar também apresenta radiaçõesinvisíveis ao olho humano. Como é que podemos com- provar isso? Os químicos sabem muito bem que o cloreto de prata é um sólido branco que escurece por ação da luz. Este é o princípio da fotografia em preto e branco. O filme fotográfico con- tém uma suspensão de um composto semelhante, o brometo de prata, que também escurece ao ser atingido pela luz. Este fenômeno, comum aos dois sais, não se deve ao cloreto ou ao bro- meto, mas sim à prata, presente em ambos os compostos. A reação que ocorre é a redução dos íons de prata, promovida pela luz e pelo processo de revelação, originando o metal finamen- te dividido, que é preto. Em 1777 o químico sueco Carl Wilhelm Scheele resolveu pôr amos- tras de cloreto de prata em cada uma das diferentes regiões coloridas do espectro solar obtido com um prisma. Percebeu, então, que o escureci- mento do material se processava mais intensamente quanto mais próximo da extremidade violeta. Isto devia signifi- car que a luz violeta era a mais ener- gética do espectro, pois era a que mais acelerava a reação. Em 1801, o alemão Johann Wilhelm Ritter decidiu pôr uma amos- tra de sal de prata na região escura além do violeta. Qual não foi sua surpresa ao verificar que a reação de redução da prata se dava com mais facili- dade ainda. O inglês William Hyde Wollaston fez nessa época, inde- pendentemente, a mes- ma descoberta. A con- clusão desse experi- mento é que existe no espectro solar uma radiação de energia mais alta que a luz violeta; a essa radiação, invisível a nossos olhos, chamou-se ultravioleta. Podemos dizer que a temperatura de um corpo é uma medida de sua agitação térmica, isto é, das vibrações de suas moléculas ou partículas. O as- QUÍMICA NOVA NA ESCOLA Espectroscopia e Química N° 3, MAIO 1996 Neste número a seção “História da Química” apresenta a história do desenvolvimento da espectroscopia e suas extraordinárias e imediatas conseqüências para a ciência, em particular para entendermos a estrutura da matéria. Os leitores vão deslocar-se para uma época — o final do século XIX, mais precisamente o ano de 1885 — quando inexistiam os conceitos de elétron, estrutura atômica, transição eletrônica. Vão conhecer também a importante contribuição de um professor do ensino médio. Balmer, ciência no final do século XIX, descoberta de novos elementos, espectroscopia, espectro solar, hélio Na fotografia ocorre uma redução de cátions prata, presentes em suspensão no filme, para prata metálica →Luz A ESPECTROSCOPIA E A QUÍMICA DA DESCOBERTA DE NOVOS ELEMENTOS AO LIMIAR DA TEORIA QUÂNTICA Carlos A.L. Filgueiras HISTÓRIA DA QUÍMICA trônomo inglês William Herschel, em 1800, experimentou colocar o bulbo de um termômetro em cada uma das regiões coloridas do espectro solar. O resultado observado foi que a tem- peratura do mercúrio aumentava pela incidência da luz, mas esse era mais rápido quanto mais próximo da extre- midade vermelha. Ao testar a região não iluminada depois do vermelho, Herschel descobriu que a temperatura subia ainda mais rapidamente. A radiação invisível que provocava este efeito foi então denominada de infra- vermelho. Estava assim demonstrado que a luz continha componentes não detectáveis por nossos olhos, em adição à porção visível. Numa linguagem moderna, dize- mos que o ultravioleta é uma radiação muito energética capaz de promover reações químicas que envolvem transições eletrônicas, como a reação citada: Ag+ + e- Ag Por outro lado, o infravermelho é uma radiação de baixa energia, e esta coincide com a faixa de energia necessária para fazer vibrar — isto é, movimentar uns em relação aos outros — os átomos de uma substância sem provocar uma reação. Wollaston também descobriu que ao tra- balhar com um feixe de luz muito estreito — oriundo de uma fenda de 0,01 mm, e não de aberturas maiores, co- mo havia feito Newton —, o espectro solar resultante apresentava sete linhas negras sobrepostas às cores bri- lhantes. O jovem construtor de instrumentos ópticos alemão Joseph Fraunhofer, usando inicialmente prismas e depois grades de difração, constatou que o espectro solar na realidade contém 23 panela no fogão, a chama do gás fica amarela. O mes- mo princípio é usa- do nas lâmpadas de vapor de sódio de iluminação pú- blica, de luz ama- relada. Fraunhofer no- tou que ao se pas- sar por um prisma a luz emitida por aqueles materiais incandescentes, o resultado era um espectro discreto, e não contínuo co- mo o espectro so- lar. Esse espectro discreto era forma- do por linhas lumi- nosas brilhantes, cujas energias pa- reciam correspon- der àquelas das linhas negras so- brepostas ao es- pectro solar. Outro aspecto interes- sante percebido por ele foi que o conjunto de linhas negras do espec- tro solar era idên- tico ao do espectro da luz da lua ou dos planetas, mas diferente das estrelas, cada uma da quais apresentava um espectro par- ticular. Ora, a luz da lua ou dos plane- tas é apenas um reflexo da luz solar, ao passo que as estrelas emitem luz própria. Será então que o espectro de cada estrela poderia ser uma impres- são digital da estrela em termos de sua composição química? A colaboração de dois cientistas da Universidade de Heidelberg, na Ale- manha, levou a conseqüências de enorme alcance para a química e a física. O químico Robert Wilhelm Bun- sen, inventor do queimador de gás comum de laboratório, associou-se em 1859 ao físico Gustav Robert Kir- chhoff na criação do espectroscópio, mostrado na Fig. 2, instrumento sim- ples mas de alcance extraordinário. Kirchhoff percebera que duas li- nhas escuras no espectro solar, chamadas de linhas D por Fraunhofer em 1814, coincidiam com as linhas amarelas emitidas por chamas con- tendo sódio (Fig. 1). Quando se intro- duzia um sal de sódio na chama do queimador de Bunsen e a luz emitida era passada por um prisma, observa- va-se o espectro de emissão do sódio, representado pelas linhas luminosas amarelas. No entanto, ao passar uma luz branca contínua, obtida pela quei- ma de gás ou por um arco elétrico, através da chama de sódio, o resulta- QUÍMICA NOVA NA ESCOLA Espectroscopia e Química N° 3, MAIO 1996 Figura 2: O espectroscópio de Bunsen e Kirchhoff. Este aparelho, de concepção bastante simples e conseqüências extraordinárias para o avanço da ciência, mostra uma alça de platina presa ao supor- te E, contendo um composto que será excitado até à incandescência pela chama do queimador de Bunsen. A luz emitida será colimada e atravessará o tubo B para ser decomposta pelo prisma F. A luneta C permitirá a observação do espectro de emissão (ou ele poderá ser projetado num anteparo). centenas de linhas negras sobre as cores. Algumas dessas linhas podem ser vistas no espectro solar mostrado na Fig. 1. Fraunhofer designou as linhas mais fortes pelas letras do alfabeto, de A até I, e mapeou 574 li- nhas entre a linha B (no vermelho) e a linha H (no violeta). Também ocorriam linhas nas regiões invisíveis do espec- tro. Com o passar do tempo, verificou- se que o número de linhas era bem maior, chegando a vários milhares. Desde muitos séculos se sabia que muitos materiais também podem emitir luz quando excitados. Este é o princípio dos fogos de artifício: para obter uma luz verde usam-se sais de bário; para uma luz vermelha, sais de estrôncio; amarela, de sódio, e assim por diante. Aliás, todo mundo já deve ter reparado que ao escorrer água com sal (cloreto de sódio) de uma Figura 1: Espectros solar e de vários elementos individuais. O primeiro, acima, é o espectro contínuo de emissão do Sol, ao qual estão sobrepostas várias linhas negras correspondentes aos espectros de absorção de elementos químicos presentes no Sol. Os 11 seguintes são espectros de emissão de vários elementos, obtidos em laboratório. Note-se, por exemplo, que os espectrosde emissão do sódio e do hélio apresentam linhas muito próximas no amarelo, correspondendo a linhas negras no espectro solar. 24 do, após atravessar o prisma, era um espectro contínuo com as cores do arco-íris, contendo duas linhas negras muito próximas entre si, na mesma posição em que se produzia o espec- tro de emissão do sódio. A conclusão foi que o sódio gasoso emite e absorve luz de mesma energia. Kirchhoff deduziu que deve haver vapor de sódio na atmosfera solar, que absorve as linhas D presentes no espectro con- tínuo proveniente da superfície do as- tro, abaixo da atmosfera. Assim, a luz que chega à Terra consiste no espec- tro contínuo subtraído dos componen- tes absorvidos na atmosfera do Sol. Um raciocínio análogo pode ser feito para outros elementos presentes ou ausentes no Sol. Por exemplo, quando a luz solar atravessa uma chama de lítio antes de passar pelo prisma do espectroscópio, o resultado é o aparecimento de uma nova linha negra, inexistente no espectro solar. Em conseqüência, não deve haver lítio na atmosfera do sol. Bunsen e Kirchhoff usaram sua descoberta como instrumento de análise química e rapidamente descobriram (em 1860) um novo ele- mento a partir de algumas gotas de um resíduo alcali- no da água min- eral de Durkheim. Como este mate- rial produzia um espectro de emis- são com linhas azuis, não corres- pondentes a ne- nhum elemento conhecido, eles o denominaram cé- sio, do latim cae- sius, azul-celeste. No ano seguinte, também usando quantidades extre- mamente diminu- tas de material, eles identificaram um outro elemento que produzia linhas vermelhas intensas no espectro de emissão. Da palavra latina rubidus, da cor de rubi, surgiu o nome do elemento rubídio. A espectroscopia possibilitou a descoberta, em poucos anos, de inúmeros elementos químicos, em es- pecial muitos dos que correspondiam às lacunas presentes na tabela perió- dica que seria publicada por Dmitri Mendeleiev em 1869. Também os lantaní- deos, de separação extremamente difícil, foram prontamente identificados pela es- pectroscopia. A descoberta mais retumbante propiciada pela espectroscopia, contudo, ocorreu em 1868. O estudo do espectro solar ficava facilitado du- rante os eclipses, quando se podia QUÍMICA NOVA NA ESCOLA Espectroscopia e Química N° 3, MAIO 1996 observar apenas a borda do disco solar, sem os problemas normais de ofuscamento. Naquele ano de 1868, em agosto, ocorreu o eclipse solar de maior duração do século XIX. Visível na Índia e em países vizinhos, chegou a durar, em alguns lugares, mais de seis minutos. O astrônomo francês Pierre Janssen deslocou-se até à Índia para observá-lo. Acoplando uma luneta a um espectroscópio, Janssen pôde observar o espectro das protu- berâncias solares, jatos de gás que se projetam milhares de quilômetros aci- ma da atmosfera solar. O espectro observado daquele material excitado das protuberâncias era um espectro de emissão, uma vez que não havia a possibilidade de absorção pela atmos- fera solar. Janssen descobriu que o mesmo tipo de observação também podia ser feito na ausência de um eclipse, bastando usar uma fenda bem estrei- ta disposta tangencialmente ao disco solar, de forma a receber apenas a radiação das protuberâncias, elimi- nando assim o ofuscamento pelo dis- co solar. Janssen identificou dessa maneira os espectros de emissão de vários elementos, sendo o hidrogênio o principal. À mesma época, em outubro de 1868, o astrônomo inglês Joseph Norman Lockyer chegou independen- temente ao mesmo método de obser- var as protuberâncias solares. Entre as linhas observadas por ele havia uma linha amarela próxima ao espectro do sódio, mas não coincidente com o espectro de nenhum elemento conhe- cido. Lockyer concluiu então que o sol devia ter um novo elemento, desconhecido na Terra, que denominou hélio, em homenagem ao deus grego do sol. Esta proposição foi recebida com reservas, até que em 1895 o novo elemento foi descoberto na Terra pelo químico escocês William Ramsay. O processo de descoberta de Figura 3: Retrato do professor secundário de matemática Johann Jakob Balmer (1825-1898), descobridor, em 1885, da equação que leva seu nome, relacionando os comprimentos de onda (e, conseqüentemente as energias) das transições energéticas nos átomos com números inteiros. Balmer conseguiu pôr ordem no emaranhado de linhas dos espectros, cujo relacionamento parecia impossível, tornando-se um importante precursor da Teoria Quântica. A espectroscopia é o germe para conhecimento da estrutura do átomo O hélio foi descoberto no Sol 27 anos antes de ser descoberto na Terra 25 vários novos elementos químicos, sobretudo essa espetacular descober- ta do hélio no sol, 27 anos antes de ser encontrado na Terra, mostrou a extraordinária importância da espec- troscopia no estudo da constituição íntima da matéria. Havia porém um problema sem solução. O que repre- sentavam os valores das energias (ou dos comprimentos de onda) corres- pondentes às emissões ou absorções dos elementos? E por que esses fenô- menos só se operavam naqueles valo- res precisos de energia? O problema foi intensamente dis- cutido por físicos, químicos e astrôno- mos. Não obstante, o enigma só veio a ser desvendado por um matemático, o suíço Johann Jakob Balmer (Fig. 3). Balmer obteve um doutorado em matemática e passou a vida como pro- fessor dessa disciplina numa escola secundária para moças em Basiléia. Os físicos tentavam achar uma relação para as linhas espectrais baseando- se numa analogia mecânico-acústica, e buscavam expressões harmônicas simples que explicassem essas rela- ções. Talvez por não ser físico e sim matemático, isto é, por não partir de posições preconcebidas, Balmer chegou em 1885 à equação que hoje traz seu nome e que expressa perfei- tamente tal relação, para as linhas do espectro do hidrogênio. A equação de Balmer, que todo estudante de quí- mica geral aprende, é modernamente formulada como: onde λ = comprimento de onda correspondente à linha espectral (em cm); R = constante, que provou ser igual a 109 677 cm-1; n = 3, 4, 5, 6,... A equação de Balmer descreve adequadamente os espectros de emissão ou absorção do hidrogênio na região visível, mas pode ser modi- ficada para incluir também as outras regiões espectrais. Para outros ele- mentos podem ser usadas equações análogas, mas a precisão é tanto menor quanto mais pesado for o elemento. Além de descrever corretamente as relações entre as linhas espectrais, a relação importantíssima: os compri- mentos de onda (ou as energias) correspondentes às linhas que resul- tam da absorção ou emissão de ener- gia estão relacionados entre si por números inteiros (n é a variável independente da equação, com valo- res dados por 3, 4, 5, 6...). Conseqüen- temente, os ganhos ou perdas de energia nos átomos são discretos e também guardam uma relação de números inteiros. Está aí o germe da mecânica quântica, anos antes de sua formula- ção teórica, e também anterior à des- coberta do elétron ou de qualquer modelo de constituição do átomo. Por isso a equação de Balmer tem tanta importância: uma expressão matema- ticamente simples que encerra a expli- cação de tantos fenômenos, cujo entendimento desafiou inúmeros cientistas por anos a fio. Carlos A.L. Filgueiras é doutor em química inorgânica pela Universidade de Maryland (EUA) e professor titular do Departamento de Química da Universidade Federal de Minas Gerais. Para saber mais Já recomendado nesta seção no n° 2 de Química Nova na Escola, Dos raios X aos quarks. Físicos modernos e suas descobertas. Brasília: Editora da UnB, 1987. Escrito por Emílio Segré, ganhador do Prêmio Nobel de Física em 1959, este livro traça um agradável pan- orama da ciência no final do século XIX, mostrando quanto,por exemplo, as descobertas relacionadas ao conheci- mento sobre a estrutura da matéria determinaram alterações na física que atingiram de imediato a biologia (e nesta, particularmente a genética), a geologia, a medicina e a química. Neste texto será possível conhecer um pouco mais sobre Balmer e outros homens e mulheres que deram significativas con- tribuições para a ciência por ocasião da última virada do século. 4 Mario Tolentino Romeu C. Rocha-Filho Ao cunhar o conceito de átomo,os filósofos da antiga Gréciatentavam explicar a natureza do mundo em que viviam, criando uma base lógica para a existência das coisas. Por portentoso que fosse já esse primeiro objetivo, acabou tornan- do-se acanhado frente às descobertas e invenções tecnológicas que esse conceito possibilitou nos últimos séculos. Nós e os elétrons O modelo atômico evoluiu, indo em um enorme salto de Rutherford para as idéias de Bohr, concepções com- plementadas mais tarde pelas de Sommerfeld. O elétron torna-se uma entidade que ora com- porta-se como partícula ora como onda, e os trabalhos de Pauli, Hei- senberg, Dirac, Schrö- dinger e muitos outros acabaram tornando quase indefinível a nu- vem eletrônica dos áto- mos. Mas não importa o que realmente sejam os elétrons e de que maneira eles se disponham no átomo. Em certo momento, os conhe- cimentos sobre o comportamento dos elétrons transferiram-se dos laborató- rios para as fábricas, e o que era an- tes uma curiosidade de laboratório transformou-se em instrumento da tecnologia. Os elétrons emitem radiações O fato fundamental do modelo de Bohr, a quantização, implica na absor- ção ou emissão de energia pelos elétrons, conforme eles saltem de uma órbita de energia mais baixa para outra mais elevada (absorção) ou vice- versa, retornando a órbitas de menor energia e emitindo radiação eletro- magnética — luz de determinada freqüência, isto é, monocromática. A cor (freqüência) da luz emitida depende dos átomos cujos elétrons são ex- citados. Essa é a es- sência do colorido dos fogos de artifício, já conhecidos pelos chi- neses há séculos. No século 19, a descober- ta das descargas elé- tricas em gases rare- feitos levou à observação de que os gases iluminavam-se com cores variadas. Imediatamente, a tecnologia desenvolveu as fontes de luz emitidas por lâmpadas contendo gases rarefei- tos, excitados pela eletricidade. Entre elas estão as lâmpadas de vapor de mercúrio ou de sódio e as lâmpadas de gases raros ou de halogênios. Estas últimas emitem luz intensa e são usadas, por exemplo, em faróis de automóveis e na iluminação de aero- portos, edifícios, monumentos etc. A excitação dos elétrons de certas substâncias produz emissão de luz por fluorescência ou por fosforescência. São as substâncias usadas no reves- timento interno dos tubos de vidro das lâmpadas chamadas fluorescentes, ou adicionadas a plásticos usados na confecção de interruptores e tomadas elétricas. A pesquisa de dispositivos espe- ciais para excitação elétrica em cristais ou gases levou à produção da luz la- ser (light amplification by stimulated emission of radiation, ou seja, amplifi- cação de luz por emissão estimulada de radiação). Uma tecnologia que até pouco tempo atrás era limitada a uni- versidades e centros de pesquisa, o laser hoje já é comum, usado em apa- relhos de compact discs (CDs). Esse sistema de ‘leitura’ de dados armaze- nados por meio de um feixe de luz la- ser já avançou para a informática (CD- ROM), a medicina, a indústria etc. Mas não é só luz que pode ser pro- duzida pelos ‘saltos’ dos elétrons. Se um feixe de elétrons acelerado por um intenso campo elétrico incidir sobre átomos de metais pesados (multiele- trônicos), a decorrente excitação pode dar origem aos raios X, descobertos por Röntgen, hoje com aplicações inestimáveis na indústria e, sobretudo, na medicina. Neste caso, a versão mais avançada desta técnica de diagnóstico é a chamada tomografia, que consiste na obtenção de várias imagens radio- gráficas, melhoradas posteriormente por técnicas de computação. O uso de raios X em laboratórios de pesquisa de materiais levou à A seção “Química e sociedade” apresenta artigos que focalizam aspectos importantes da interface ciência/sociedade, procurando sempre que possível analisar o potencial e as limitações da ciência na solução de problemas sociais. A tendência moderna no ensino da química é relacionar seu conteúdo com o que ocorre no dia-a-dia. Isso vem sendo chamado de “o cotidiano no ensino de química” e, por vezes, de “química aplicada ao setor produtivo”. Este artigo apresenta o ensino da estrutura do átomo como um rico manancial de fatos que resultaram em aplicações importantes ou explicaram fenômenos do dia-a-dia. átomo, elétrons, estrutura atômica, tecnologia A essência do colorido dos fogos de artifício, já conhecidos pelos chineses há séculos, é a excitação de diferentes átomos, que emitem luz de freqüências diferentes QUÍMICA NOVA NA ESCOLA O Átomo e a Tecnologia N° 3, MAIO 1996 QUÍMICA E SOCIEDADE 5 elétrons de certos metais (alcalinos, alumínio etc.) é o chamado efeito foto- elétrico, que consiste na expulsão de elétrons de certos metais quando sua superfície é atingida por fótons de fre- qüência muito elevada (geralmente luz ultravioleta). Esse efeito é usado na construção de células fotoelétricas, nas quais os elétrons são acelerados por campos elétricos, dando origem a correntes elétricas que podem acionar alarmes, motores, campainhas etc. Outros dispositivos podem gerar energia elétrica pela excitação de elétrons provocada pe- la incidência da luz. Es- ses geradores ou pilhas fotovoltaicas represen- tam uma maneira inte- ressante de se aprovei- tar a energia da luz so- lar para o acionamento de aparelhos elétricos ou eletrônicos. Seu uso já é comum em satéli- tes artificiais e sondas espaciais. A corrente elétrica e os elétrons O conhecimento da estrutura dos metais e da natureza dos elétrons livres no interior do retículo cristalino (arranjo ordenado dos átomos do metal) permi- tiu entender a corrente elétrica: um fluxo de elétrons dentro da rede cristalina QUÍMICA NOVA NA ESCOLA O Átomo e a Tecnologia N° 3, MAIO 1996 Feixes de elétrons gerados por efeito termoiônico podem ser refratados por campos eletromagnéticos e, ao incidir sobre materiais devidamente preparados, geram imagens ampliadas milhares de vezes. É o microscópio eletrônico construção das microssondas eletrô- nicas, cuja essência de funcionamento consiste na emissão de raios X típicos (freqüência específica) por átomos de materiais. A análise das freqüências dos raios X emitidos permite identificar os elementos existentes no material. Por outro lado, a difração de raios X provocada por substâncias cristalinas é um método rotineiro para a análise de minerais, ligas metálicas e materiais em geral. Por fim, os elétrons existentes nos metais, quando excitados por energia de alta freqüência, emitem radiação eletromagnética na faixa das onipre- sentes ondas de rádio, portadoras dos sinais de radiotelegrafia, radiotelefonia (telefones celulares e sem fio, por exemplo), rádio e televisão. Os elétrons são arrancados dos metais Sabe-se que os metais possuem uma estrutura singular formada por íons dispostos numa rede cristalina (ou retículo cristalino). Nos espaços vazios dessa rede agitam-se os elétrons periféricos que abandonaram os áto- mos e que passam a constituir um ver- dadeiro gás de elétrons. Alguns efeitos de importância tec- nológica resultam da existência desse ‘gás de elétrons’: se um fio metálico é aquecido, a intensa agitação dos elé- trons faz com que eles escapem da rede cristalina e formem uma nuvem de elétrons ao redor do fio. Esse efeito, chamado termoiônico, é tão mais intenso quanto mais alta fora tempera- tura do metal. Assim, só certos metais de alto ponto de fusão (platina, tungs- tênio etc.) são usados para esse tipo de filamento. Essa excitação múltipla dos elétrons determina a emissão de luz branca (isto é, policromática), como ocorre nas lâmpadas chamadas incan- descentes. Nas lâmpadas elétricas co- muns, o filamento é geralmente consti- tuído de tungstênio, sendo o sistema mantido dentro de uma ampola de vidro que contém um gás raro (geralmente argônio) sob pressão reduzida. O efeito termoiônico permitiu que um físico americano, Lee De Fo- rest, inventasse em 1906 um dispositivo chamado válvula ele- trônica, posteriormente muito aperfeiçoada. Es- sas válvulas permitiram o desenvolvimento da radiotelegrafia e da ra- diofonia, sendo ainda hoje usadas na retifica- ção de corrente elétrica (passagem de corrente alternada a contínua) em fornos de microondas, em emissoras de rádio e televisão etc. O efeito termoiônico deu origem ainda a outras aplicações tecnológicas, como os cinescópios. Neles, feixes de elétrons oriundos de um filamento aque- cido são modulados por campos elétri- cos e/ou magnéticos. Quando esses feixes atingem um anteparo de vidro re- vestido de material fluorescente, produ- zem o desenho de símbolos e imagens movimentadas. Descendentes dos antigos tubos de raios catódicos, esses dispositivos constituem o equipamento essencial de aparelhos de televisão, monitores de computador, osciloscó- pios etc. Feixes de elétrons também gerados por efeito termoiônico podem ser refra- tados por campos eletromagnéticos (enrolamentos ou bobinas, funcionando como verdadeiras lentes) e, ao incidir sobre materiais devidamente prepa- rados, geram imagens muito ampliadas — milhares de vezes mais do que as produzidas por um microscópio óptico. Esse dispositivo é o microscópio eletrônico, de que existem versões altamente sofisticadas. Outro fenômeno associado aos Figura 2: Diferentes fronteiras da tecnologia: o chip e a válvula eletrônica. Figura 1: Esquema do tubo de Coolidge. 6 metálica, provocado pela ação de um campo elétrico ou magnético. Não é preciso entrar em grandes detalhes para perceber o valor tecnoló- gico da corrente elétrica. Os condutores elétricos estão presentes em todos os equipamentos eletrodomésticos, resi- dências, casas de comércio, edifícios industriais etc. Isto permite que haja iluminação artificial, que sejam aciona- dos os motores elétricos que impulsio- nam máquinas, ônibus e trens, que fun- cionem os dispositivos de comunicação e toda a parafernália elétrica, desde brinquedos até aparelhos médico- hospitalares. Os elétrons transferem-se de um átomo a outro É sabido que nas reações de oxir- redução ocorrem transferências de elé- trons que passam de um átomo (ou íon) para outro átomo (ou íon). Essa movi- mentação de elétrons também pode resultar em aplicações tecnológicas de grande importância. A indústria meta- lúrgica utiliza esse tipo de reação para obter metais de interesse para o setor produtivo, como insumos para a fabri- cação de máquinas e utensílios. O ferro, o alumínio e o estanho são exemplos de metais obtidos a partir de óxidos re- duzidos por agentes (adequados) que fornecem elétrons aos cátions metáli- cos, transformando-os nos átomos que vão constituir os respectivos metais. Em alguns casos, a transferência de elétrons é feita por intermédio de um circuito elétrico. A eletrólise que resulta daí é usada tecnologicamente para a produção de alguns metais, de subs- tâncias de uso industrial e de reves- timentos protetores ou embelezadores (niquelação, cromeação, anodização do alumínio etc.). Essa transferência de elétrons dá origem também aos geradores eletro- químicos (pilhas), cujo protótipo foi desenvolvido por Volta. Desde essa época (início do século XIX), as pilhas elétricas evoluíram para as sofisticadas baterias hoje utilizadas em aparelhos como marcapassos, aparelhos eletrô- nicos, relógios e computadores. Mas também pode ocorrer o trans- porte de elétrons de um metal a outro diferente sem que isso possa ser clas- sificado como uma reação de oxirredu- ção. O aquecimento de dois metais adequados unidos por um ponto de solda ocasiona a passagem de elétrons de um metal para outro. Esses pares termoelétricos são usados para medi- das de temperaturas em fornos e em outros ambientes aquecidos, funcio- nando como um termômetro elétrico. O núcleo atômico e a tecnologia nuclear Sabe-se que o núcleo é extrema- mente pequeno em relação ao átomo em si. Ele é estruturado e formado por prótons e nêutrons e estes, por sua vez, por quarks. A coesão do núcleo é resultado da atuação sobre os prótons e nêutrons de uma força que veio a ser chamada força forte. Em situações especiais, que dizem respeito principal- mente à relação entre o número de pró- tons e o de nêutrons, o núcleo torna-se instável e passa a ser radioativo. Os ele- mentos naturalmente radioativos emi- tem basicamente três tipos de radiação: alfa, beta e gama. As duas primeiras são corpusculares e a terceira é de natureza eletromagnética. O homem produz a radioatividade artificial Em 1934, o casal Iréne e Frédéric Joliot Curie, bombardeando lâminas finas de alumínio por partículas alfa, conseguiu produzir átomos radioativos de fósforo 30. No ano seguinte, ganha- ram o Prêmio Nobel de Química por sua “síntese de novos elementos radioati- vos”. Seguiu-se uma longa série de experimentos que levaria à produção de radioisótopos de novos elementos, isto é, com número atômico acima de 92. Atualmente, grande número de isótopos radioativos é produzido em reatores nu- cleares, expondo os elementos ao bom- bardeio de intensos feixes de nêutrons. A princípio mera curiosidade cientí- fica, os radioisótopos logo passaram a ser usados pela indústria, pela medicina e pela própria pesquisa científica. Na indústria, são usados radioisótopos emissores de radiação gama de alta energia que em muitas ocasiões subs- tituem os raios X. São, então, empre- gados para examinar junções e soldas de estruturas metálicas (gamagrafia), controlar a espessura de chapas metálicas em laminadores da indústria metalúrgica etc. Radioisótopos gasosos podem ser usados na detecção de vazamentos em tubulações subterrâ- neas, cabos condutores de eletricidade, gasodutos etc. Em medicina, os radioisótopos são usados na detecção de anomalias, por exemplo, na glândula tireóide, no cérebro e no pâncreas. Nesses casos, os radioisótopos devem atender a certas condições especiais, em espe- cial a absorção seletiva da radiação por determinados órgãos e meia-vida curta. Na pesquisa científica, os radioisó- topos são usados em fisiologia animal e vegetal, para indicar o caminho se- guido e as regiões de acumulação de nutrientes, o volume de sangue de um animal etc. Na chamada medicina nu- clear, as radiações gama de alta energia (do cobalto 60 e do césio 127) têm sido usadas em radioterapia para o trata- QUÍMICA NOVA NA ESCOLA O Átomo e a Tecnologia N° 3, MAIO 1996 Figura 4: Pilha nuclear Figura 3: Em ilustração de 1800, as Pilhas de Volta (Alessandro Volta, 1743-1820), as primeiras baterias dignas desse nome. 7 mento de tumores cancerígenos. O uso de tais fontes fortemente radioativas exige blindagens especiais e manipu- lação cuidadosa para que a radioativi- dade não provoque danos irreversíveis aos pacientes. Descuidos podem levar a conseqüências sérias, como ocorreu em Goiânia, em setembro de 1987, quando uma fonte de césio abandona- da teve a sua blindagem destruída e o material radioativo foi indevidamente manipulado. Alguns empregos menos comuns ainda podem ser citados: • esterilização de alimentos por radia- ção gama, o que favorece a conser- vação dos mesmos; • análise por ativação com neutrons, que consiste em bombardear o mate- rial com intenso feixe de nêutronse em seguida analisar o espectro da radioa- tividade induzida, o que permite carac- terizar quais os elementos constituintes do material; • geradores de energia elétrica basea- dos no calor produzido naturalmente por substâncias radioativas — o calor liberado serve para aquecer séries de termopares que então geram corrente elétrica. Tais geradores são usados em estações meteorológicas isoladas, em sondas espaciais e satélites artificiais. Em 1934, o físico italiano Enrico Fermi mostrou que o bombardeio de átomos de urânio por nêutrons provo- cava a fissão dos átomos — os núcleos eram partidos, gerando novos nêutrons e libertando energia (fenôme- no que também pode ocorrer com o plutônio 239). Iniciava-se a era nuclear. A fissão dos átomos de urânio, em especial do isótopo 235, deu origem aos reatores nuclea- res — a grande quantidade de ener- gia liberada sob a forma de calor mo- vimenta turbinas e geradores elétricos. A operação desses reatores exige tec- nologia refinada e equipamentos pe- sados e precisos, além de um rígido esquema de segu- rança, para evitar acidentes como os de Chernobyl. Outra fonte de energia nuclear é a fusão de átomos leves, que leva à pro- dução de outros mais pesados (por exemplo, dois átomos de deutério resultando em um de hélio), com liberação de enormes quantidades de energia. A fusão, entretanto, exige temperaturas e pressões muito altas, que ainda não se conseguiu controlar; assim, ela ocorre apenas na forma explosiva (bomba de hidrogênio), usando como detonador as condições geradas pela explosão de uma bomba de urânio ou plutônio. Uma aplicação sui generis Uma aplicação tecnológica de fenômenos nucleares é a ressonância QUÍMICA NOVA NA ESCOLA O Átomo e a Tecnologia N° 3, MAIO 1996 nuclear magnética (RNM). Esse fenô- meno é baseado no fato de alguns núcleos atômicos serem magnéticos (por exemplo, 1H, 13C e 31P) e em seu comportamento quando submetidos à ação de radiação hertziana e de um campo magnético bastante intenso. Inicialmente, a ressonância nuclear magnética foi empregada em análise química, mas desenvolvimentos pos- teriores transformaram esse processo em instrumento de diagnóstico médi- co por imagens, fornecendo-as com extraordinário poder de resolução. Não são necessários mais exem- plos para mostrar como podem ser amplas as aplicações científicas e tecnológicas, nos mais variados cam- pos, de assuntos eventualmente tratados sob um ponto de vista pura- mente teórico. Não causará surpresa se alguma teoria hoje incipiente revelar-se fértil em aplicações tecnoló- gicas, bastando para isso que alguém se aventure a pesquisá-la. Mario Tolentino é doutor honoris causa pela Universidade Federal de São Carlos, da qual é apo- sentado como professor titular do Departamento de Química. Romeu C. Rocha-Filho é licenciado em química, doutor em ciências (área de físico-química) pela USP e docente do Departamento de Química da Univer- sidade Federal de São Carlos, São Carlos - SP. Para saber mais BARROS, F.S. Luminescência: da alquimia à época moderna. Ciência Hoje, v. 1, n. 2, p. 50-55, set./out. 1982. BIASI, R. de. A energia nuclear no Brasil. Rio de Janeiro: Atlântida, 1979. CHASSOT, A. Raios X e radioativi- dade. Química Nova na Escola, São Paulo, n. 2, p. 19-22, nov. 1995. CLOSE, F. A cebola cósmica. Tradução por Paula Vitória. Lisboa: Edições 70, 1983. GOMES, A.S.L. Lasers sem cavi- dades: pesquisas ampliam as possi- bilidades de utilização do Laser. Ciên- cia Hoje, v. 18, n. 107, p. 68-69, mar. 1995. PANEPUCCI, H., DONOSO, J.P., TANNÚS, A., BECKMAN, N., BONA- GAMBA, T. Novas imagens do corpo: tomografia por ressonância nuclear magnética, Ciência Hoje, v. 4, n. 20, p. 46-56, set./out. 1985. SANTIN FILHO, O. Breve histórico dos cem anos da descoberta dos raios X: 1895-1995. Química Nova, v. 18, n. 6, p. 574-583, nov./dez. 1995. SANTOS, C.A. dos. Raios X: des- coberta casual ou criterioso experi- mento. Ciência Hoje, v. 19, n. 114, p. 26-35, out. 1995. SILVA, A.G. da. Radioisótopos para medicina. Ciência Hoje, v. 3, n. 16, p. 12-14, jan./fev. 1985. SILVA, H.T. da. OLIVERIA, C.E.T. de. Circuito integrado para rede de computadores. Ciência Hoje, v. 2, n. 8, p. 33-42, set./out. 1983. SIMON, D. Como funciona o reator de Angra. Ciência Hoje, v. 2, n. 8, p. 54-57, set./out. 1983. TOLENTINO, M., ROCHA-FILHO, R.C. A nucleossíntese dos elementos transurânicos. Química Nova, v. 18, n. 4, p. 384-395, jul./ago. 1995. CIÊNCIA HOJE. Autos de Goiânia, v. 7, n. 40, mar. 1988. Suplemento. Figura 5: RNM em uso na medicina. 22 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA N° 17, MAIO 2003 A seção ‘Conceitos científicos em destaque’ tem por objetivo abordar, de maneira crítica e/ou inovadora, conceitos científicos de interesse dos professores de Química. Carga nuclear efetiva e estrutura eletrônica dos átomos Recebido em 28/11/02; aceito em 27/3/03 ▲ ▲ CONCEITOS CIENTÍFICOS EM DESTAQUE N o curso introdutório sobre estrutura eletrônica dos átomos e propriedades periódicas, geralmente utilizamos os conceitos fator de blindagem e carga nuclear efetiva. Estes conceitos surgem ao se utilizar a solução exata da equação de Schrödinger para o átomo de hidrogê- nio para descrever os átomos polieletrôni- cos. De outra forma, o professor indubita- velmente teria de apresentar conceitos bem mais abstratos e exigir dos alunos co- nhecimentos avan- çados de alguns tó- picos da Física e da Matemática. Obvia- mente, isto não faz sentido em um curso introdutório de Química para estudantes do primeiro ano universitário. Apresentar conceitos de grande abstração e difícil analogia, como os da Química Quântica, sem discutir as suas bases matemáticas e físicas, parece um tanto pretensioso e corre- se o risco do ensino tornar-se mais informativo, em detrimento da aprendi- zagem. Geralmente, nos livros de Quí- mica Geral, a estrutura eletrônica dos átomos polieletrônicos é tratada de for- ma superficial, relacionando a carga nuclear efetiva, obtida de forma empírica, com as propriedades periódicas, tais como raio atômico, potencial de ionização e afini- dade eletrônica. O in- centivo à crítica cientí- fica (que nunca deve faltar) é substancial- mente prejudicado por falta de dados experi- mentais que possibili- tem aos alunos assimilarem os con- ceitos de carga nuclear efetiva e suas conseqüências para a compreensão da periodicidade. Para uma introdução às equações de Schrödinger e à estrutura eletrônica dos átomos e moléculas, indicamos artigo do caderno temático Estrutura da matéria: uma visão molecular (Almeida et al., 2001) . O conceito de blindagem eletrostática é muito bem apresentado por Huheey (1983) , em seu livro de Química Inorgânica. Torna-se, no entanto, necessário lembrar que a so- lução exata das equações de Schrödinger só é factível para sistemas simples, tais como uma partícula em uma caixa, rotor rígido e para os áto- mos hidrogenóides (aquelas espécies monoatômicas que possuem apenas um elétron) (McQuarrie, 1983). Em áto- mos polieletrônicos, a interação entre os elétrons impossibilita a separação de variáveis e, conseqüentemente, a solução exata das equações de Schrödinger. O método de Hartree- Fock utiliza funções de onda de um elé- tron e a aproximação do campo auto- consistente para descrever o movimen- to dos elétrons no campo coulombiano definido pelos núcleos dos átomos. De acordo com Slater (1951), em seu arti- go intitulado “Uma simplificação do método de Hartree-Fock”, esse méto- do pode ser visto como um modelo no qual o elétron se movimenta em um Hélio Anderson Duarte Os conceitos de fator de blindagem e carga nuclear efetiva são geralmente evocados para explicar a estrutura eletrônica dos átomos e as propriedades periódicas em cursos introdutórios de Química nas universidades. Asregras de Slater e, mais recentemente, a idéia de percentagem de blindagem, têm sido usadas de forma semi-quantitativa para estimar o fator de blindagem e relacioná-lo com as propriedades periódicas. Dados experimentais como sucessivos potenciais de ionização e os dados de espectroscopia fotoeletrônica de raios X (XPS) permitem avanços no entendimento do fator de blindagem. Neste artigo mostra-se que esses dados correlacionam-se muito bem com Z2, como previsto pelo modelo atômico de Bohr. No entanto, os dados demonstram que elétrons de camadas mais externas são capazes de blindarem os elétrons mais internos em relação ao núcleo, em desacordo com a 2a regra de Slater. Ressalta-se assim o caráter probabilístico da Química Quântica e a interpenetração das funções de onda. Usando-se o modelo de Bohr, é possível estimar a carga nuclear efetiva a partir de dados experimentais. As conseqüências de uma abordagem com ênfase no conceito de átomo e de sua estrutura eletrônica para a compreensão de novas técnicas e tecnologias são brevemente discutidas. carga nuclear efetiva, fator de blindagem, estrutura eletrônica É necessário lembrar que a solução exata das equações de Schrödinger só é factível para sistemas simples, como uma partícula em uma caixa, rotor rígido e átomos hidrogenóides (espécies monoatômicas que possuem apenas um elétron) 23 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA N° 17, MAIO 2003Carga nuclear efetiva e estrutura eletrônica dos átomos campo médio repulsivo devido aos outros elétrons. Ou seja, na teoria de Hartree-Fock, o elétron não sente a re- pulsão dos outros elétrons de forma explícita, mas sim como uma nuvem de elétrons blindando parte da carga nuclear. Dessa forma, o elétron sente uma carga nuclear efetiva resultante da blindagem parcial da carga nuclear pelo campo médio repulsivo devido aos outros elétrons. Os níveis de energia dos átomos hidrogenóides são determinados por: (1) A partir desta equação, pode-se calcular a energia do orbital 1s, que é exatamente a energia de ionização do átomo de hidrogênio. Observa-se que a energia de ionização está relacionada com o fator Z2/n2. Como a carga nuclear (ou seja, o número atômico Z) aumenta mais rapidamente que o número quân- tico principal (n), esperaríamos um au- mento contínuo do potencial de ioniza- ção, ou seja, a energia necessária para retirar um elétron do átomo. Entretanto, se observarmos a energia de ionização dos átomos de hidrogênio e lítio (1312 kJ/mol e 520 kJ/mol, respectiva- mente), verificaremos ocorrer a diminui- ção da energia. As razões para essa diminuição da energia de ionização é atribuída ao fato da distância média do elétron 2s ao núcleo ser maior que a do 1s e da repulsão do elétron 2s pelos elé- trons 1s da camada mais interna do lítio. Dessa forma, a energia de ionização está relacionada à razão Zef 2/n2, onde Zef é a carga nuclear efetiva sentida pelo elétron 2s. Qual o valor de Zef para o caso do lítio? Alguém poderia supor que se trataria apenas de uma conta simples Zef = 3 - 2 = 1, isto é, os elétrons 1s estariam blindando completamente a carga nuclear. No entanto, esse valor é aproximadamente igual a 1,30, mostrando que os elétrons 1s não são eficientes na blindagem. A compreen- são desse fato é a base para se expli- car a periodicidade ao longo da Tabela Periódica e as anomalias observadas para alguns grupos. A dificuldade de compreender esse fato aparece no modelo de átomo que normalmente os alunos tendem a fixar - o modelo de cebola. Nesse modelo, os elétrons que estão em orbitais de nú- mero quântico maior estariam na região do espaço mais externo. Conseqüen- temente, esperaríamos que os elétrons mais internos contribuíssem com um fator de 100% para a blindagem. Porém, no átomo quântico, isto não se verifica: os elétrons dos orbitais de maior número quântico principal apresentam maior probabilidade de serem encontrados na região mais externa. Mas há uma pro- babilidade, ainda que pequena, desses elétrons serem encontrados em regiões mais internas do que elétrons de número quântico menor. Esse conceito de pro- babilidade advém da natureza ondula- tória dos elétrons. A análise da função radial da equação de Schrödinger para os átomos é normalmente a forma en- contrada pelos professores para explicar o porquê dos elétrons das camadas internas não serem efetivos na blinda- gem dos elétrons da camada de valên- cia. Estudantes universitários iniciantes têm dificuldade para compreender a par- tir da análise das funções de onda ra- diais como elas podem se interpenetrar, o que aparentemente significa que esses elétrons estariam ocupando o mesmo espaço. Trata-se de uma dificul- dade enorme para o professor argu- mentar sem entrar nos conceitos mais complexos da Matemática e da Mecâ- nica Quântica. A proposta deste artigo é apresen- tar alguns argumentos baseados em dados experimentais para ajudar a compreender a natureza da estrutura eletrônica dos átomos, as funções de onda e suas conseqüências para o fa- tor de blindagem. A relação das pro- priedades periódicas e os fatores de blindagem serão discutidos. Cálculo das constantes de blindagem: Regras de Slater e percentagem de blindagem Slater (1930) publicou um conjunto de regras para estimar as constantes de blindagem e, conseqüentemente, a carga nuclear efetiva dos átomos. Ele as aplicou com sucesso para estimar o tamanho dos átomos e íons, os níveis de energia e a suscetibilidade magné- tica. Desde a publicação desse traba- lho, vários autores têm sugerido o uso didático dessas regras em cursos intro- dutórios de Química no nível universi- tário (Brink, 1991). Essas regras foram resumidas por Huheey (1983) e estão descritas abaixo: 1) Escreva a configuração eletrô- nica dos elementos na seguinte ordem e grupos: (1s) (2s, 2p) (3s, 3p) (3d) (4s, 4p) (4d) (4f) (5s, 5p) etc. 2) Elétrons em qualquer grupo à di- reita do grupo (ns, np) não contribuem para a constante de blindagem. 3) Todos os outros elétrons no gru- po (ns, np) blindam o elétron de valên- cia de 0,35 cada. 4) Todos os elétrons na camada (n - 1) contribuem com 0,85 cada. 5) Todos os elétrons (n - 2) ou em camadas mais baixas blindam comple- tamente, ou seja, contribuem com 1 para o fator de blindagem. Quando o elétron que está sendo blindado pertence a um grupo (nd) ou (nf), as regras 2 e 3 são as mesmas, mas as regras 4 e 5 tornam-se: 6) Todos os elétrons nos grupos à esquerda do grupo (nd) ou (nf) contri- buem com 1,0 para o fator de blinda- gem. A carga nuclear efetiva é estimada a partir da equação: Zef = Z - S (2) onde S é o fator de blindagem. Geralmente, as regras de Slater são muito úteis para correlacionar a carga nuclear efetiva com propriedades tais como raio atômico e eletronegatividade ao longo das linhas da Tabela Periódica. No entanto, as regras de Slater falham nas tendências ao longo das colunas, como pode ser visto na Tabela 1. Waldron et al. (2001) introduziram o Tabela 1: Carga nuclear efetiva de Slater para a 2a linha e a 1a coluna da Tabela Periódica. 2a linha Li Be B C N O F Ne Z ef 1,30 1,95 2,60 3,25 3,90 4,55 5,20 5,85 1a coluna H Li Na K Rb Cs - - Z ef 1,0 1,3 2,2 2,2 2,2 2,2 - - 24 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA N° 17, MAIO 2003Carga nuclear efetiva e estrutura eletrônica dos átomos conceito de percentagem de blinda- gem (PB), juntamente com uma modi- ficação da 4a regra de Slater, como segue: 4) Para o cálculo dos elétrons s e p, os elétrons d da camada (n - 1) são contados como 0.50 cada. Todos os elétrons f são contados como 0.69 ca- da. As regras para calcular os valores dos elétrons d e f permanecem as mes- mas. Ou seja, elétrons na mesma ca- mada contam 0,35 e os outros contam como 1,0. Nessa nova regra, os elétrons d e f são menos eficientes para blindarem. A percentagem de blindagem, dadapor PB = S / Z x 100% (3) correlaciona-se muito melhor com as propriedades periódicas, como pode ser observado na Tabela 2. A utilização das percentagens de blindagem permite fazer uma análise muito mais detalhada das proprie- dades periódicas, incluindo a série dos lantanídeos. As similaridades entre os elementos 3p/4p e os elementos 4d/ 5d podem ser demonstradas. A carga nuclear efetiva calculada pelas regras de Slater ao longo da série dos lantanídeos não sofre modificação. No entanto, o potencial de ionização dos elementos lantanídicos aumenta de 0,83 eV ao longo da série 4f. Além disso, o tamanho dos lantanídeos dimi- nui de 11 pm ao longo da série, indi- cando que deve haver alguma pene- tração da densidade do elétron 6s na camada 4f. Enfim, o potencial de ioni- zação (PI, 1a energia de ionização) ao longo da série dos lantanídeos é inver- samente proporcional à percentagem de blindagem que leva em conta a in- capacidade de blindar dos elétrons (n - 2)f. Discussão detalhada das conse- qüências de se utilizar o conceito de percentagem de blindagem no estudo das propriedades periódicas é apre- sentada por Waldron et al. (2001). Embora os valores estimados da car- ga nuclear efetiva e da percentagem de blindagem se correlacionem muito bem com as propriedades dos átomos, argu- mentos tais como penetração dos orbi- tais e blindagem ineficiente dos elétrons d e f devem ser evocados, de forma a explicar o comportamento periódico. Na próxima seção, discutiremos uma forma de calcular a carga nuclear efetiva e usaremos dados experimen- tais para demonstrar a capacidade dos elétrons em camadas mais externas de efetivamente blindarem os elétrons mais internos. Como exemplo, elétrons em orbitais ns contribuem para o fator de blindagem dos elétrons nos orbitais 1s, contrariando a 2a regra de Slater. Espectroscopia fotoeletrônica de raios X (XPS) e a energia do orbital 1s Nos anos 30, grande parte da Quí- mica Quântica já tinha sido desenvol- vida; porém, as dificuldades em fazer cálculos complexos impediam a apli- cação desse conhecimento para es- tudos quantitativos de forma extensiva. Por isso, aproximações eram, muitas vezes, a única forma de se utilizar a teoria para estudar sistemas químicos. As regras de Slater foram propostas para permitir a utilização de funções de onda simplificadas e sem nós em cál- culos teóricos. Ele decompôs o fator de blindagem em contribuições das camadas eletrônicas dos átomos. Tra- tando-se de uma simplificação, o mé- todo de Slater foi posteriormente assi- milado como uma ferramenta didática, para se compreender as propriedades periódicas e a estrutura eletrônica dos átomos. Os níveis eletrônicos no átomo de hidrogênio e dos íons hidrogenóides são corretamente descritos pela equa- ção de Rydberg: (4) onde Rh é a constante de Rydberg, igual a 13,6 eV. A Figura 1 mostra o modelo para o qual a equação de Rydberg é válida. Observe que a eq. 4 descreve corre- tamente a última energia de ionização de todos os átomos. A última energia de ionização (EIZ) corresponde à retira- da do elétron 1s, depois que todos os outros foram retirados. No entanto, se analisarmos a última e a penúltima energia de ionização dos elementos, verificaremos serem elas diferentes. Esse fato está previsto na 3a regra de Slater, ou seja, um elétron blinda o outro mesmo estando no mes- mo orbital. Por isso, a penúltima ener- gia de ionização é sempre menor do que a última. Podemos, então, fazer uma simplificação, modelando o íon como um hidrogenóide. Suporíamos que a penúltima energia de ionização pode ser reproduzida pela carga nu- clear desse hidrogenóide (veja Figura 2). Baseando-nos nesse argumento, podemos estimar essa carga nuclear efetiva a partir da modificação da equa- ção de Rydberg: (5) onde EIZ-1 é a (Z - 1)ésima energia de ionização. Observe que n é igual a 1; por isso, ele não aparece na eq. 5. O íon hidrogenóide tem carga Z ef e o elé- tron está na pseudoprimeira camada. Em seguida, serão apresentados argu- mentos validando a utilização da eq. 5 para o cálculo de carga nuclear efetiva. A Tabela 3 apresenta a última e a penúltima energia de ionização dos elementos da 2a linha da Tabela Perió- Tabela 2: Percentagens de blindagem (PB) para os elementos da 2a linha e 1a coluna da Tabela Periódica. 2a linha Li Be B C N O F Ne PB 56,7 51,3 48,0 45,8 44,3 43,1 43,2 41,5 1a coluna H Li Na K Rb Cs - - PB 0,0 56,7 80,0 88,4 94,0 96,0 - - Figura 1: Modelo de Bohr para os hidroge- nóides. 25 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA N° 17, MAIO 2003 dica (Barros, 1995), a energia de ioni- zação calculada pelo modelo de Bohr e a carga nuclear efetiva calculada pela eq. 5. Como era esperado, o modelo de Bohr (eq. 4) reproduz corretamente a última energia de ionização dos áto- mos. A carga nuclear efetiva sentida pelos elétrons do orbital 1s aumenta ao longo da série e o fator de blinda- gem permanece praticamente cons- tante. Esse resultado evidencia a não alteração apreciável da forma dos or- bitais 1s pelo aumento do número atô- mico, justificando assim o fato do fator de blindagem permanecer constante. Um estudante poderia então per- guntar: “Qual seria a energia necessá- ria para retirar um elétron do orbital 1s de um átomo polieletrônico mantendo todos os outros elétrons? Nesse caso, qual seria a carga nuclear efetiva sentida por esse elétron?” Felizmente, a primeira questão pode ser respondi- da através dos dados obtidos por espectroscopia fotoeletrônica de raios X (XPS). Em XPS, a energia incidente do fóton é tão grande que os elétrons são retirados das camadas internas dos átomos. Dessa forma, obtém-se a energia característica do orbital 1s dos átomos (Cullity, 1978). Na Tabela 4, são apresentados os dados de XPS, a respectiva carga nuclear e a blindagem eletrostática para os elementos da 2a linha da Tabela Periódica. Diferentemente do observa- do com as energias de ionização na Tabela 3, o fator de blindagem aumen- tou monotonicamente. Qual a diferença em relação à energia de ionização? No caso dos dados de XPS, a diferença está no fato de, ao ser aumentado o número atômico, ou seja, passar de um átomo para outro, aumenta-se também elétrons na camada de valência. Esses elétrons, embora na camada de valên- cia, contribuem para blindar a carga nuclear em relação aos elétrons 1s. Es- sa explicação é perfeitamente plausível e está de acordo com os resultados da equação de Schrödinger, pois há probabilidade (ainda que pequena) desses elétrons serem encontrados mais próximos do núcleo do que os elétrons do orbital 1s. A Figura 3 mostra a função radial dos orbitais atômicos s do hidrogênio, exemplificando o racio- cínio anterior. Esses dados experimen- tais demonstram de forma enfática a capacidade que os orbitais tem de se interpenetrarem. A distância média dos elétrons em diferentes orbitais aumenta com o aumento do número quântico principal e secundário; no entanto, para uma análise correta, mesmo que quali- tativa, é preciso levar-se em conta a natureza probabilística da Química Quântica. Considerações finais Os dados de potencial de ionização sucessivos dos átomos e os dados de XPS consistem em fortes evidências da estrutura de camadas dos átomos e da interpenetração dos orbitais atômi- cos. Mostramos que os orbitais atômi- cos descritos pela equação de Schrö- dinger para o átomo de hidrogênio são semelhantes aos dos átomos poliele- trônicos, uma vez que são capazes de descrever e racionalizar o comporta- mento dos dados de EI e XPS ao longo da Tabela Periódica. A Figura 4 mostra de forma inequívoca que o comporta- mento da energia do orbital 1s como função do número atômico segue uma parábola em acordo com o modelo de Bohr. A diferença entre os valores Carga nuclear efetiva e estrutura eletrônica dos átomos Figura 2: Íonse átomos reduzidos ao modelo de Bohr. Tabela 3: Última e penúltima energia de ionização da 2a linha da Tabela Periódica. Os dados estão em eV1. Elemento Z Modelo Energia de Carga nuclear Fator de de Bohr ionização2 efetiva3 blindagem Z2 R h Z - 1 Z S H 1 13,6 - 13,6 - He 2 54,4 24,6 54,4 1,34 0,67 Li 3 122,4 75,6 122,4 2,36 0,64 Be 4 217,6 153,8 217,6 3,36 0,64 B 5 340,0 259,3 340,1 4,37 0,63 C 6 489,6 391,9 489,8 5,37 0,63 N 7 666,4 551,9 666,8 6,37 0,63 O 8 870,4 739,1 871,1 7,37 0,63 F 9 1101,6 953,5 1102,7 8,37 0,63 Ne 10 1360,0 1195,9 1362,3 9,38 0,62 11 kJ/mol = 1,036 x 10-2 eV. 2Dados reproduzidos de Barros (1995). 3Rh = 13,6 eV. Tabela 4: Dados de XPS para camada K (em eV), carga nuclear efetiva e fator de blindagem calculados pelo modelo de Bohr. Elementos Li Be B C N O F Ne XPS1 50 110 190 280 400 530 690 850 Z 3 4 5 6 7 8 9 10 Z ef 1,95 2,85 3,75 4,55 5,44 6,26 7,14 7,91 S 1,05 1,15 1,25 1,45 1,66 1,74 1,86 2,09 1 Dados obtidos de Cullity (1978). 26 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA N° 17, MAIO 2003 Abstract: Effective Nuclear Charge and its Consequence for the Comprehension of the Electronic Structure of Atoms – The concepts of screening factor and effective nuclear charge are generally invoked to explain the electronic structure of atoms and periodic properties in chemistry introductory courses at the university level. Slater rules and, more recently, the concept of percent screening have been used in a semi-quantitative form to estimate the screening factor and to relate it to the periodic properties. Experimental data such as successive ionization potentials and data from X-ray photoelectron spectroscopy (XPS) allow advances in the understanding of the screening factor. In this paper, it is shown that these data correlate very well the atomic number, Z, as predicted by Bohr’s atomic model. Nevertheless, the data demonstrate that electrons in the outermost shells are capable of screening the more internal electrons from the nucleus, in disagreement with Slater’s 2nd rule. Thus, the probabilistic character of quantum chemistry and the interpenetration of the wave functions are highlighted. From Bohr’s model, it is possible to estimate the effective nuclear charge from the experimental data. The consequences of an approach with emphasis on the concept of atom and its electronic structure for the comprehension of new techniques and technologies are briefly discussed. Keywords: effective nuclear charge, screening factor, electronic structure Carga nuclear efetiva e estrutura eletrônica dos átomos Referências bibliográficas ALMEIDA, W.B. de; SANTOS, H.F. dos; ROCHA, W.R. e Duarte, H.A. Modelos teóricos para a compreensão da es- trutura da matéria. In: AMARAL, L.O.F. e ALMEIDA, W.B. de (Eds.). Cadernos Te- máticos de Química Nova na Escola (Es- trutura da matéria: uma visão molecular), n. 4, p. 6-13, 2001. BARROS, H.L.C. Química Inorgânica - Uma introdução. Belo Horizonte: SE- GRAC, 1995. BRINK, C.P. The use of effective nuclear charge calculations to illustrate the rela- tive energies of ns and (n-1)d orbitals. J. Chem. Educ., v. 68, p. 377-378, 1991. CULLITY, B.D. Elements of X-ray diffrac- tion. 2ª ed. Menlo Park: Addison-Wesley, 1978. HUHEEY, J.E. Inorganic chemistry. 3ª ed. Nova Iorque: Harper and Row, 1983. cap. 2. MCQUARRIE, D.A. Quantum chemis- try. Mill Valley: University Science Books, 1983. SLATER, J.C. A simplification of the Hartree-Fock method. Phys. Rev., v. 81, p. 385-390, 1951. SLATER, J.C. Atomic shielding con- stants. Phys. Rev., v. 36, p. 57-64, 1930. WALDRON, K.A.; FEHRINGER, E.M.; STREEB, A.E.; TROSKY, J.E. e PEAR- SON, J.J. Screening percentages based on Slater effective nuclear charge as a versatile tool for teaching periodic trends. J. Chem. Educ., v. 78, p. 635-639, 2001. demonstra que os elétrons mais exter- nos contribuem para o fator de blinda- gem do elétron no orbital 1s em relação à carga nuclear, contrariando a 2a regra de Slater. Ou seja, o elétron no orbital 1s sente uma carga nuclear menor do que o equivalente ao seu número atô- mico pelo fato dos elétrons em cama- das mais externas terem uma proba- bilidade de serem encontrados mais próximos do núcleo. A Figura 4 mostra que a diferença em termos percentuais entre o modelo de Bohr e os dados de XPS decresce tendendo a um patamar, demonstrando assim que elétrons em camadas mais externas blindam menos, por terem uma probabilidade menor de serem encontrados próximos ao núcleo. Enfim, as regras de Slater e suas modi- ficações nos oferecem uma forma quali- tativa e limitada para estimarmos o fator de blindagem. Entendemos que uma vi- são qualitativa e conceitualmente correta da estrutura eletrônica dos átomos per- mite aos alunos vislumbrarem de forma mais ampla as conseqüências do mode- lo atômico atual pro- porcionado pela Química Quântica. Esse modelo auxilia na descrição de fe- nômenos observa- dos em espectros- copia eletrônica, ressonância mag- nética nuclear e res- sonância paramag- nética eletrônica, espectroscopia de raios X e tantos ou- tros métodos avan- çados de análise que vêm sendo de- senvolvidos ao lon- go dos últimos anos (como exemplo cita- Figura 3: Densidade de probabilidade radial dos orbitais atômicos 1s, 2s e 3s. ríamos as espectroscopias Zeke e EXAFS). O conceito físico e químico bem compreendido é a base para que pos- samos ser capazes de lidar, apreender e compreender os avanços tecnológicos e os utilizarmos de forma eficaz e efi- ciente. Agradecimentos À FAPEMIG, à CAPES e ao CNPq por apoiar nossas pesquisas com auxí- lios financeiros e bolsas de pós-gra- duação. Hélio Anderson Duarte (duarteh@ufmg.br), mestre em Química pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e doutor em Química pela Universidade de Montreal (Canadá), é docente do Departamento de Química da UFMG. Figura 4: Energia do orbital 1s como função do número atômico estimado pelo modelo de Bohr (eq. de Rydberg) e por dados de espectroscopia de raios X. A diferença relativa entre os dois modelos (em %) é mostrada no gráfico. Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 7, DEZEMBRO 2007 25 Entidades quânticas na Química Recebido em 10/10/06; aceito em 18/10/07 ▲ ▲ A fora o modelo atômico de Bohr, a teoria dos orbitais mo- leculares é o primeiro contato que o aluno de Ensino Médio costu- ma ter com a Física Quântica. Isso é feito por meio de uma representação pictórica1 dos orbitais atômicos e moleculares. A Figura 1 (Aichinger; Mange, 1980, v. 2, p. 2-13) é uma represen- tação visual de um átomo de carbono, na conformação adotada em ligações triplas, como no gás acetileno C2H2. O que são os curiosos “balões” com as etiquetas p e sp? Os autores os apresentam como “nuvens eletrôni- cas”, que fazem parte de um modelo molecular específico: o modelo dos Osvaldo Pessoa Jr. Neste artigo, exploramos o significado das representações pictóricas de orbitais atômicos e moleculares apresentadas em textos didáticos de Química. Salientando a existência de diferentes interpretações da teoria quântica, algumas mais realistas, outras mais positivistas, sugerimos que diferentes avaliações do significado das representações pictóricas podem ser adotadas no caso de átomos com um único elétron. Para o caso de átomos multieletrônicos, descrevemos uma recente controvérsia a respeito da observabilidade de orbitais em ligações covalentes interpretação, orbital, representação pictórica, teoria quântica orbitais moleculares. Sem maiores esclarecimentos a respeito da natu- reza dessas nuvens, utilizam-nas para explicar vários tipos de ligações do átomo de carbono. Até que ponto tal representação corresponde à realida- de? A Figura 2, retirada de outro texto do Ensino Médio (Sienko; Plane, 1980), representa a chamada ligação pi envolvendodois orbitais atômicos p, como ocorre no acetileno. Segundo a explicação dos autores, “o orbital molecular formado consiste de duas nuvens eletrônicas com forma de salsicha” (p. 90). Esclarecem da se- guinte maneira a natureza dos “ba- lões” que representam as “nuvens eletrônicas”: os pontos que aparecem na Figura 2 exprimem a “probabili- dade, ou possibilidade relativa, de um elétron se encontrar em um dado lugar dentro do átomo [...]. A intensi- dade de sombreamento mostra a probabilidade relativa de localizar o elétron” (p. 55). Em alguns textos mais recentes de Ensino Médio, um cuidado maior é dispensado na contextualização do modelo dos orbitais em conceitos da Física Quântica. A Figura 3 (Feltre, 1996) é uma representação visual dos orbitais p de um átomo de flúor, no qual o sombreamento dos orbitais atende apenas a motivos estéticos. Anteriormente, o autor apresenta um breve relato histórico do “princípio da dualidade partícula-onda” (e também do princípio da incerteza), no qual ex- plica: Segundo o modelo dos orbi- tais, o elétron é uma partícula- onda que se desloca (ou vibra) no espaço, mas com maior probabilidade dentro de uma esfera (orbital) concêntrica ao núcleo. Devido à sua velocida- de, o elétron fica como que ‘es- Figura 1: Orbitais híbridos “sp” e orbitais puros “p”, responsáveis respectivamente por ligações mais fortes (σ) e mais fracas (pi). Figura 2: A combinação dos orbitais atô- micos p de dois átomos forma o orbital molecular alongado p. Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 7, DEZEMBRO 2007 26 Entidades quânticas na Química parramado’ dentro do orbital, assemelhando-se, então, a uma ‘nuvem eletrônica’. (p. 75) Em algumas representações pic- tóricas, os orbitais atômicos e mole- culares são visualizados como algo fluido, homogêneo e suave, como uma nuvem uniforme e contínua. Em outras figuras, a nuvem é composta de pontinhos separados, que repre- sentariam os elétrons como partícu- las. Devemos levar a sério tais repre- sentações, ou seja, elas correspon- dem parcialmente ou integralmente a algo no mundo real? Ou devemos encará-las apenas como um auxílio para a memorização da teoria das ligações químicas, instrumento com o qual podemos prever e explicar pro- priedades de diferentes moléculas? O início da Química Quântica A teoria das ligações químicas ba- seada no conceito de valência surgiu por volta de 1852, com o inglês Edward Frankland. Ela foi estendida pelo alemão Friedrich August Kekulé que, em 1857, estabeleceu a quadri- valência do carbono, proposta inde- pendentemente pelo escocês Archi- bald Couper no ano seguinte. Traba- lhando em Gent, na Bélgica, o alemão descobriu que a molécula de benzeno C6H6 é constituída por uma cadeia cí- clica de seis átomos de carbono. Mais tarde, Kekulé anunciou: “Salvo enga- no, fui eu quem introduziu a idéia da atomicidade dos elementos na Quí- mica [...] a natureza dos radicais e de seus compostos deve ser derivada da natureza dos átomos” (apud Parting- ton, 1957, p. 288). Como aponta Par- tington, Kekulé de fato se enganou ao não reconhecer a prioridade de Frankland. Em 1916, o norte-americano Gil- bert Newton Lewis apresentou a teoria eletrônica da valência, que partia da teoria do átomo de Bohr. Supôs que a camada externa de gases nobres tem oito elétrons e que, em outros áto- mos, há uma tendência a se comple- tar os oito elétrons por meio (i) do ga- nho ou da perda de elétrons externos, formando íons negativos ou positivos, numa ligação “iônica”, ou (ii) do com- partilhamento de pares de elétrons com outros átomos, formando ligação “covalente”. Seu compatriota, Irving Langmuir (1919), estendeu a teoria para átomos mais pesados, com a ligação “dativa” (Partington, 1957, p. 361-369). A capacidade explicativa da Quí- mica aumentou ainda mais a partir de 1927, com a formulação de um novo arcabouço teórico para descrever a física dos átomos, a chamada Mecâ- nica Quântica, conforme apresenta- remos na próxima seção. Com essa nova teoria, o dinamarquês Øyvind Burrau descreveu o caso simples da molécula ionizada de hidrogênio H2 +, que possui apenas um elétron. Se- guindo os passos da teoria do átomo de hélio de Heisenberg (que envolve dois elétrons correlacionados), Walter Heitler e Fritz London (1927) conse- guiram formular a teoria quântica da molécula de hidrogênio. Um conceito novo que surgiu nesses trabalhos foi o de “energia de troca”, responsável pela estabilidade da molécula de hidrogênio2. Para estender a teoria quântica das ligações químicas para molécu- las mais complexas, aproximações teriam que ser introduzidas. Para um átomo único com mais de um elétron, um método de aproximações suces- sivas para a construção de funções de onda foi iniciado por Douglas Hartree e aperfeiçoado por Vladimir Fock e John Slater, em torno de 1930 (Berry, 1966, p. 290). Para moléculas, a abordagem de Heitler e London foi desenvolvida por Slater (1929) e mais extensamente por Linus Pauling (1931) no “método da ligação de va- lência”, que considera que pares de elétrons se localizam entre dois átomos de uma molécula. Um méto- do diferente, que não considera que os elétrons estejam localizados, mas distribuídos em “orbitais moleculares” que se estendem por toda molécula (o que é mais próximo do espírito do método de Hartree-Fock), foi propos- to em 1929 por Friedrich Hund e Ro- bert Mulliken. Ambos os métodos (de Pauling e de Mulliken) coexistiram por várias décadas, apesar de o último acabar sendo considerado superior (Brush, 1999, p. 44-45, 285-292; Si- mões; Gavroglu, 2001). Elementos de teoria quântica Para tentar responder às questões levantadas no início do texto, vamos agora considerar algumas questões conceituais e filosóficas relacionadas com a teoria quântica3. Uma boa maneira de apresentar a Física Quântica é por meio do expe- rimento da dupla fenda para um elétron único4. Nesse experimento de interferência (quer seja de luz ou de elétrons), observam-se franjas na tela detectora (Figura 4a), com máximos e mínimos de intensidade, explicados pela suposição de que há ondas que Figura 3: Representação de um átomo isolado de flúor, onde cada setinha repre- senta um elétron com certa orientação de “spin”. Figura 4: (a) Experimento da fenda dupla, no qual o padrão de interferência sugere uma representação em termos de ondas; (b) formação ponto a ponto do padrão de interferência. Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 7, DEZEMBRO 2007 27 Entidades quânticas na Química se superpõem de maneira construtiva ou destrutiva. Se o processo de for- mação das franjas puder ser acompa- nhado em detalhe, o que se observa é a formação gradual do padrão pelo acúmulo paulatino de pontos (Figura 4b). Todos concordam que um elétron ou fóton (quantum de luz) é medido em uma posição bem definida. No entanto, será que o elétron ou o fóton sempre tiveram uma posição bem definida enquanto se propagavam em direção à tela fosforescente? Nesse ponto, há discordância entre as inter- pretações, como veremos na seção seguinte. Outro experimento importante foi realizado em Frankfurt, em 1921, por Otto Stern e Walter Gerlach. Passando um feixe de átomos de prata por um campo magnético não homogêneo, observaram que os átomos são detectados em dois pontos separa- dos e não em um contínuo de pontos como seria de se esperar na Física Clássica (Figura 5a). Quando um átomo é detectado no ponto de cima, diz-se que ele foi medido no estado |+z〉, e intuitiva- mente pensa-se em uma setinha apontando para cima, no sentido +z, como na Figura 3. Quando o átomo aparece em baixo, diz-se que ele foi medido no estado |-z〉, e a setinha aponta para baixo (a curiosa notação “|...〉” para um estado quântico foi introduzida por Paul Dirac). Antes da medição, porém, o áto- mo único foipreparado em uma su- perposição desses dois estados, que podemos imaginar como uma setinha apontando no sentido +x, de tal for- ma que |+x〉 = c1 |+z〉 + c2 |-z〉, no qual c1 = c2 = 1/√2. Qualquer estado de momento angular do átomo pode ser representado a partir desses dois estados em z, apenas variando os valores dos números complexos c1 e c2, sujeitos à condição de normali- zação |c1| 2 + |c2| 2 = 1. De maneira análoga, qualquer estado pode ser representado como uma superposi- ção da base |+x〉, |-x〉. Qualquer estado (indicado por uma seta grossa na Figura 5b) pode ser representado como a superposição de qualquer par de estados ortogonais (nosso siste- ma tem dimensão 2; se tivesse di- mensão 5, precisaríamos de cinco estados mutuamente ortogonais). Há assim uma espécie de simetria, cha- mada “simetria de representação”, em que nenhuma base é privilegiada. No entanto, durante o processo de medição, uma dessas bases se torna privilegiada. Na Figura 5, é a base |+z〉, |-z〉. Se exprimirmos o estado do átomo nessa base, fica fácil cal- cular as probabilidades de se obter os diferentes resultados possíveis (que é |c1| 2 e |c2| 2). Assim, a escolha da base de representação não signi- fica que essa base seja privilegiada no sistema antes da medição, mas é apenas uma estratégia para facilitar os cálculos, exprimindo quais são os “auto-estados” associados à medi- ção que será feita. Interpretações da teoria quântica Até aqui, neste artigo, menciona- mos representações pictóricas (como as das Figuras 1, 2, 3) e represen- tações matemáticas (como a da Figu- ra 5b). Uma diferença entre as duas é que as primeiras procuram repro- duzir o aspecto visual do objeto, ao passo que as segundas são mais abstratas. Concentrando-nos na re- presentação pictórica, não está claro no que consistiria o “aspecto visual” de átomos e moléculas, já que eles são entidades tão diminutas. O que a teoria quântica teria a dizer sobre isso? O que é um átomo na realidade, por trás dos traços luminosos e mar- cações de ponteiro que obtemos no laboratório? Para além das previsões feitas pela Física Quântica, o que ela nos diz sobre a melhor maneira de representar átomos e moléculas? Uma resposta a essa pergunta con- siste numa “interpretação” da teoria quântica. Esperaríamos, talvez, que essa teoria nos fornecesse uma única representação pictórica da natureza, mas o que acontece de fato é que há muitas propostas diferentes de como interpretá-la, algumas inclusive rejei- tando que se possam utilizar repre- sentações visuais. É curioso que a Mecânica Quânti- ca foi descoberta a partir de duas abordagens diferentes5. A “Mecânica Matricial”, dos alemães Werner Hei- senberg, Max Born e Pascual Jordan, punha ênfase na correta descrição dos resultados de medição, sem se preocupar com a visualização de uma realidade que explicaria intuitivamente esses resultados. Essa ênfase exclu- siva nas observações pode ser cha- mada de positivismo (ou mais preci- samente “instrumentalismo”6). Por outro lado, o austríaco Erwin Schrö- dinger derivou - a partir da idéia do francês Louis de Broglie de que toda matéria oscila como uma onda - a chamada “Mecânica Ondulatória”, que fornecia um retrato intuitivo da realidade do mundo microscópico. Esse retrato permitia uma visualiza- ção não só dos resultados das medi- ções, mas também da realidade que estaria por trás das observações, uma realidade que seria parecida com as ondas que intuímos na Física Clássi- ca. Por essa razão, tal abordagem pode ser classificada como realista. No período 1927-32, pelo menos quatro “interpretações” diferentes fo- ram propostas para a teoria quântica. 1) As interpretações ondulatórias realistas, imaginadas por Schrödinger e por alguns outros cientistas, tinham diversos aspectos contra-intuitivos como, por exemplo, a necessidade de postular “colapsos não-locais”. Uma onda que se espalhasse no es- paço poderia subitamente se concen- trar em uma região pequena, em tor- no de um detector, violando a noção Figura 5: (a) Experimento de Stern-Gerlach; (b) representação vetorial de um estado quântico, expresso a partir de duas bases diferentes. Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 7, DEZEMBRO 2007 28 Entidades quânticas na Química de que todo efeito físico se propaga no máximo com a velocidade da luz. 2) Havia também uma interpreta- ção dualista realista, proposta por de Broglie, segundo a qual um elétron, por exemplo, seria constituído de uma partícula, que é observada nas medi- ções, e de uma onda associada, res- ponsável por efeitos tipicamente ondulatórios como a “difração” e a “interferência”. Essa interpretação, ao que parecia, não tinha o problema dos colapsos não-locais, mas acaba- va postulando a existência de “ondas vazias”, que não carregariam energia e poderiam não ser detectáveis. Dian- te de diversas críticas, feitas especial- mente pelo austríaco Wolfgang Pauli, de Broglie abandonou sua visão rea- lista em 1928. 3) Na década de 1920, a postura positivista na ciência era bastante for- te, e uma atitude natural diante da Físi- ca Quântica era atribuir realidade apenas ao que era observado, por exemplo, aos pontos descontínuos deixados pela passagem de uma par- tícula carregada em um detector cha- mado “câmara de nuvem”. A teoria quântica falava em uma “função de onda ψ”, mas para eles essa “onda de probabilidade” deveria ser vista apenas como uma entidade matemá- tica que, seguindo a regra introduzida por Max Born em 1926, forneceria a probabilidade de se detectar uma par- tícula em certa posição. Se pergun- tados “qual a realidade de um elé- tron”, diriam que essa pergunta “não tem sentido”, a não ser que ela fosse reformulada para a pergunta “como o elétron aparece quando ele é me- dido” e, nesse caso, a resposta seria que ele aparece de maneira pontual. Heisenberg defendeu uma visão cor- puscular positivista em 1927. A partir de 1929, surgiu com John Slater a noção de que a Mecânica Quântica seria uma teoria intrinseca- mente estatística, que só descreve um coletivo (ensemble) de partículas ou quanta e não um indivíduo. Essa tradição buscou uma posição mais realista, envolvendo autores como Popper, Blokhintsev, Margenau, Lan- dé e Ballentine (1970), sendo que es- se último autor argumenta que até Einstein se filiaria a essa postura rea- lista. Paralelamente a essa tradição pequena, mas ruidosa, um grande número de físicos adotou mais silen- ciosamente o lema de que “a Mecâ- nica Quântica é uma teoria apenas estatística”, dentro de uma postura positivista. Parece-me inclusive que, com o declínio da interpretação de Copenhague após 1970, essa visão corpuscular positivista dos coletivos estatísticos tem se tornado a preferida entre os físicos profissionais. 4) O dinamarquês Niels Bohr for- mulou em 1928 uma interpretação de cunho positivista que acabou se tor- nando a ortodoxia na Física Quântica, a chamada “interpretação de Cope- nhague”, baseada no conceito de “complementaridade”. Essa visão é basicamente positivista, mas em vez de se prender apenas ao que é obser- vado, salienta que, para entender um experimento em Física Quântica, após o seu término, devemos usar ou um quadro corpuscular ou um quadro ondulatório, apesar de nunca ambos simultaneamente. Assim, essa inter- pretação pode ser classificada como dualista positivista. Essa visão é positivista porque não devemos as- sociar nenhum modelo mental pictó- rico antes do fim do experimento, mas ela tem um elemento de realismo, pois após o término do experimento, podemos fazer uma extrapolação para o que aconteceu no passado. Vejamos agora como essas qua- tro interpretações tratam do experi- mento da dupla fenda para elétron único, ilustrado na Figura 4. 1) A visão ondulatória realista dirá que o elétron se propagou como uma onda, o que explicaas franjas de inter- ferência. Para explicar porque ele aparece como um ponto na tela detectora, dirá que a onda “sofreu um colapso”, tornando-se pacote de onda muito comprimido. 2) A visão dualista realista consi- dera que o ponto na tela é devido à presença ali do corpúsculo do elétron, que seguiu uma trajetória contínua, passando por apenas uma das fen- das. Para explicar as franjas de inter- ferência, consideram que a partícula é guiada por uma “onda piloto”, como um surfista que só desliza onde há ondas (e não onde a interferência é destrutiva). Vemos que as interpretações rea- listas dão uma resposta clara a per- guntas que se referem a situações que não são observadas. Antes da detecção, um partidário da visão 2 dirá que não sabe onde o elétron está, mas tem certeza que está bem locali- zado em algum lugar. O realista se- para o ser das coisas (a existência das coisas - “ontologia”) do conheci- mento das coisas (“epistemologia”). Já o positivista tende a juntar ambos. Para o positivista, na ciência, só faz sentido falar de coisas que podemos conhecer. Para a pergunta sobre se o elétron tem posição bem definida antes da medição, o positivista res- ponde que essa pergunta não tem sentido, é mal-formulada ou está para além do escopo da ciência. 3) Para o positivismo corpuscular dos coletivos estatísticos, a teoria quân- tica só se aplicaria para o diagrama da extrema direita da Figura 4b (ou para o limite de infinitas detecções) e não para os diagramas que contêm pou- cos pontos, como os da esquerda. Não faz sentido perguntar o que está acontecendo antes da detecção. O fato é que a teoria quântica é um ex- celente instrumento, testado exausti- vamente, para prever o comporta- mento estatístico de entidades mi- croscópicas. 4) O dualismo positivista da inter- pretação de Copenhague considera que o experimento da dupla fenda é um “fenômeno ondulatório”, de forma que podemos associar um quadro mental da Física Ondulatória Clássica para entendê-lo. Nesse quadro, não se coloca a questão por qual fenda passou o elétron, pois isso só deve ser perguntado para fenômenos cor- pusculares. Se perguntado como, em um quadro ondulatório, pode-se ex- plicar o aparecimento de pontos na tela, Bohr diria que isso se deve a um princípio ainda mais fundamental da teoria quântica, o chamado “postu- lado quântico” de Max Planck. Interpretando os orbitais de um átomo com um único elétron Retornemos agora às questões formuladas no início do artigo. Qual a maneira correta de encarar os Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 7, DEZEMBRO 2007 29 Entidades quânticas na Química orbitais que são representados pictoricamente nos textos de Quí- mica? Nossa discussão sobre as interpretações da teoria quântica sugere que não há uma maneira única de encará-los! No final desta seção, veremos como os quatro pontos de vista a respeito do experimento da dupla fenda são aplicados para explicar os orbitais eletrônicos. Para iniciar a discussão, devemos considerar um sistema de apenas um elétron, como o átomo de hidrogênio. O primeiro fato a ser explicado a res- peito desse átomo (e de qualquer outro átomo ou molécula) são suas “linhas espectrais”: quando energia é fornecida aos átomos, luz é emitida em apenas algumas freqüências bem definidas, justamente as mesmas li- nhas que são absorvidas pelos áto- mos quando são iluminados por luz de espectro contínuo. No início do sé- culo XX, a idéia era que os átomos (ou seus elétrons) vibrariam com a mesma freqüência que a luz absorvi- da e emitida. Isso mudou com o mo- delo quântico para o átomo de Bohr (1913): a luz absorvida ou emitida corresponderia à diferença de energia entre dois estados atômicos. No modelo de Bohr, cada estado atômico discreto se associaria a uma energia bem definida do elétron, que se situaria em uma órbita estacionária a certa distância do núcleo. Para o átomo de hidrogênio, identificam-se níveis de energia básicos numerados por n = 1, 2, 3 etc. A Mecânica Ondu- latória aperfeiçoou a descrição des- ses estados, introduzindo dois outros números quânticos. Um deles está associado ao momento angular do elétron, representado pelas letras s, p, d, f etc. ou pelos números A = 0, 1, 2, 3 etc. Os subníveis de um átomo de hidrogênio corresponderiam então aos estados 1s, 2s, 2p, 3s, 3p, 3d, 4s, 4p, 4d, 4f etc., mas a energia de cada nível, na ausência de campos externos, seria dada apenas por n. Já em átomos com mais de um elétron, os subníveis s, p, d, f etc. têm energia diferente, devido à influência dos outros elétrons. Quando colocado em um campo magnético externo, esses subníveis se desdobram mais ainda no chamado efeito Zeeman normal, regidos pelo terceiro número quântico mA. Para a Mecânica Ondulatória, um estado de um elétron é representado pela chamada “função de onda” ψ(x,y,z), que corresponde a um certo estado |ψ〉 na notação de Dirac (ver Pessoa, 2003, p. 69). O módulo quadrado |ψ(x,y,z)|2 fornece a função de probabilidade de se encontrar um elétron nos diferentes pontos x,y,z, ou a “densidade eletrônica”. Para exemplificar, tomemos como nosso sistema de estudo o subnível 3d do átomo de hidrogênio. Para esse sistema, os livros didáticos mencio- nam que há cinco orbitais, conforme aparecem na Figura 6 (obtida de Aichinger; Mange, 1980, v. 1, p. 7-14) e recebendo os nomes indicados. Uma representação um pouco dife- rente é apresentada na Figura 7, mo- dificada de um texto universitário de Física Moderna (Eisberg; Resnick, 1979, p. 324), no qual a representa- ção do subnível 3d aparece ao lado de outras densidades eletrônicas para o átomo de hidrogênio. Cada uma das figuras é um “auto-estado de energia” do sistema, significando que cada estado é estacionário, ou seja, se o elétron está inicialmente nesse estado, ele permanece nele indefinidamente7. Segundo o princípio quântico de superposição, que tocamos ao anali- sar a simetria de representação na Figura 5, dados dois estados possí- veis de um sistema, sua soma ponde- rada geralmente também é um esta- do possível. Isso significa que o esta- do do elétron pode ser uma soma de dois ou mais dos estados represen- tados na Figura 7. Considerando o subnível 3d, um elétron pode estar no estado |d xy 〉 ou no estado |d x 2 -y 2〉. Ou então, pode estar no estado super- posto (1/√2)|d xy 〉 + (i/√2)|d x 2 -y 2〉, que é um auto-estado do componente de momento angular, correspondendo ao número quântico mA = 1. Assim, uma diferença entre as Figuras 6 e 7 é que os estados utilizados pelos quí- micos não são todos auto-estados do momento angular, como os dos físi- cos. No entanto, já vimos que não é uma diferença importante, dada a simetria de representação dos esta- dos quânticos: o importante é exprimir um estado qualquer do subnível 3d como uma superposição em uma base de cinco estados ortogonais. Figura 6: Orbitais 3d, segundo a repre- sentação em textos didáticos de Química, feita a partir das distribuições angulares. Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 7, DEZEMBRO 2007 30 Entidades quânticas na Química pondem àquilo que é observado experimentalmente (em analogia com os auto-estados na direção z da Figura 5b). Alguns cientistas argu- mentam que o papel da medição, no caso das transformações químicas, é desempenhado pelo ambiente (ver Primas, 1983). No entanto, afinal, qual é o signifi- cado dos orbitais? Conforme já adian- tamos, isso vai depender da interpre- tação adotada! Todos concordam que, se pudéssemos medir a posição exata de um elétron no átomo, a probabilidade de encontrar os dife- rentes valores possíveis seria dado por |ψ(x,y,z)|2, ou seja, pelo grau de sombreamento na Figura 7. Entretan- to, o que significa esse estado quân- tico quando ninguém faz uma medi- ção de posição do elétron? A “nuvemeletrônica” existe como tal quando ninguém está observando? A função de onda ψ(x,y,z) tem alguma reali- dade? 1) Para a interpretação ondulatória realista, o elétron não observado no átomo seria uma espécie de fluido homogêneo, com a carga distribuída homogeneamente, ponderada de acordo com a função |ψ(x,y,z)|2. Algumas interpretações falam em uma “onda de probabilidade”, uma “potencialidade” objetiva que teria um estatuto de realidade diferente das “atualizações” a que estamos acostu- mados no mundo macroscópico (es- sa terminologia é oriunda de Aristó- teles). 2) A interpretação dualista realista tem uma concepção curiosa a respei- to desses estados. Quando a função de onda ψ(x,y,z) só envolve números reais, como nos estados com mA = 0 (para a expressão matemática das funções de onda, ver Eisberg; Res- nick, 1979, p. 312, ou Levine, 1991, p. 135), essa interpretação prevê que o corpúsculo (o elétron) permanece parado! Essa foi uma das razões que deixou Einstein insatisfeito com a teoria de Bohm. Quando a função de onda inclui um número imaginário i (raiz de -1), essa interpretação prevê que o corpúsculo se movimenta em uma órbita em torno do núcleo. Em ambos os casos, porém, não esque- çamos que há também um “potencial Figura 7: Representação visual dos esta- dos estacionários do elétron em um áto- mo de hidrogênio. Há um detalhe que é mais fácil de visualizar na Figura 7 do que na 6. Para um dado n e A, a soma dos auto- estados resulta numa distribuição esfericamente simétrica. Por que isso não é visível na representação de “balões” da Figura 6? O que ocorre é que as figuras dos textos de Química não representam a distribuição radial R2nA(r) da densidade eletrônica (que no estado 3s, por exemplo, tem três máximos, como se vê na Figura 7), mas apenas a distribuição angular ϑ2Am(q). Um ponto importante é que, para qualquer orbital p z , a distribuição an- gular ϑAm(θ) da função de onda ψpz é cosθ, o que em coordenadas esféri- cas resulta em um círculo (ver os “hal- teres” em Aichinger; Mange, 1982, v. 1, topo da p. 7-13, e a Figura 8, obti- da de Levine, 1991, p. 137). No entan- to, ao exprimirmos a densidade de probabilidade (densidade eletrônica) |ψ pz |2, sua distribuição angular ϑ2Am(θ) = cos2θ resulta em balões alongados como os da Figura 3. Outra maneira de representar orbitais é por meio da superfície de contorno de densidade de probabilidade constante, que se aproxima da Figura 7 (Levine, 1991, p. 136-140). Isso indica que os orbi- tais (balões alongados) desenhados nos livros didáticos representam a distribuição angular da densidade eletrônica e não da função de onda. Outra questão é entender a “hibri- dização”, apresentada na Figura 1 no chamado caso sp. Para tanto, consi- deremos como nosso sistema o nível 2 do átomo de carbono, envolvendo os subníveis 2s e 2p. Esse sistema tem dimensão 4, como se depreende da Figura 7, na qual está indicada a base envolvendo os estados ortogo- nais |2s〉, |2p x 〉, |2p y 〉 e |2p z 〉. Ora, qualquer estado de nível 2 de um átomo pode ser representado como superposição de outra base ortogo- nal, como |2sp +x 〉, |2sp-x〉, |2py〉 e |2p z 〉, na qual os estados híbridos podem ser definidos como |2sp±x〉 = |2s〉 ± |2p x 〉. Se ambas as represen- tações são equivalentes, qual é a van- tagem da base com hibridização? A vantagem é que, após a ligação química, são esses auto-estados (da base com hibridização) que corres- Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 7, DEZEMBRO 2007 31 Entidades quânticas na Química quântico” associado, ou seja, uma onda piloto. A interpretação dos auto-estados de energia da Figura 7 é feita de ma- neira direta pelas visões realistas. Pode-se discordar dessas interpreta- ções, especialmente com base em problemas que se tornam agudos para duas ou mais partículas intera- gentes, mas as visões realistas se adaptam bem a representações pic- tóricas como as da figura. Já para as visões positivistas, tais figuras são vis- tas mais como um auxílio didático do que como uma representação de átomos. 3) O positivismo corpuscular não diz nada além do que todos concor- dam. Se fizéssemos uma série de me- dições de alta resolução da posição do elétron em diferentes cópias do áto- mo de hidrogênio, cada qual prepa- rada no mesmo estado, obteríamos uma distribuição de posições pontuais que se pareceria com uma “nuvem eletrônica” da Figura 7. Isso explica porque os orbitais são desenhados por meio de pontos, como na Figura 2. 4) A interpretação de Copenhague é basicamente positivista, mas ela con- serva alguns traços realistas, dentre eles a tese (condizente com seu dua- lismo) da simetria das representações (como na Figura 5b): representar um estado atômico como uma soma (in- tegral) de auto-estados de posição seria equivalente a uma soma de auto- estados de energia (ou de momento). Como geralmente se mede a energia de um átomo, é preferível usar uma base de representação de auto- estados de energia, como os das Figuras 6 ou 7. Questões relevantes surgem no caso em que o estado inicial do átomo for uma superposição de estados com energia distintas (ver Pessoa, 2003, p. 121-125). Para o dualismo positivista, se medirmos a energia do átomo, diremos que o áto- mo sempre teve energia bem definida (pois o “estado superposto” é apenas uma representação matemática), e não faria sentido atribuir uma posição bem definida ao elétron. Entretanto, se medíssemos a posição do elétron, este não poderia ser visto como tendo momento e energia bem definidos (isso é expresso pelo princípio de incerteza). A recente controvérsia sobre a observação de orbitais Em 1999, químicos da Universi- dade Estadual do Arizona (Zuo e col., 1999) obtiveram imagens de alta resolução da densidade eletrônica de um átomo de cobre em um cristal de cuprita Cu2O, combinando informação obtida por difração de raios-X e por difração de feixe convergente de elé- trons. A Figura 9 é uma reconstrução tridimensional da imagem bidimen- sional obtida - após sofisticado trata- mento de dados -, na qual as regiões em azul representam uma densidade eletrônica mais baixa, correspondendo a um “buraco do orbital d”, na direção da ligação covalente Cu-O. Essa diminuição da densidade é explicada por uma “hibridização” dos estados 3d z 2 e 4s, associada a uma ligação metálica mais intensa entre os átomos de cobre da rede cristalina (indicados pelas regiões vermelhas da figura). Para os autores, “a correspondên- cia entre nosso mapa experimental e os diagramas clássicos dos orbitais d z 2 esboçados nos livros didáticos é notável” (Zuo e col., 1999, p. 51). Na mesma edição da Nature, um comen- tador declarou que “a forma clássica dos orbitais eletrônicos, dos livros di- dáticos, foi agora diretamente obser- vada [...] a qualidade dos mapas de densidade de carga permitem, pela primeira vez, que um ‘retrato’ experi- mental direto fosse tirado da forma complexa do orbital d z 2” (Humphreys, 1999, p. 21). O título do artigo de Zuo e col. é “Observação direta de buracos de orbitais d e ligação Cu-Cu em Cu2O”, e o do comentário de Hum- phreys, “Elétrons vistos em órbita”. Essas afirmações levaram alguns autores a protestarem, em especial Eric R. Scerri, filósofo da Química que tra- balha na Universidade da California, em Los Angeles. Nas páginas do Jour- nal of Chemical Education, Scerri e o grupo de Arizona travaram um impor- tante debate. O argumento de Scerri (2000) envolve a superposição de dois pontos distintos, que busco destrinchar e esclarecer abaixo: (i) O termo “orbital” designa uma função de onda ψ que, segundo as interpretações ortodoxas da teoria quântica (numeradas 3 e 4 nas seções anteriores), é apenas uma construção matemática, não podendo ser obser- vada. O que pode ser observadoé a densidade eletrônica que, segundo a teoria quântica, corresponde a |ψ|2. (ii) Orbitais atômicos como d z 2, rigo- rosamente falando, são estados de um único elétron sem interação com outros elétrons. Em átomos de muitos elé- trons, estes se tornam correlacionados, e não se pode atribuir um estado sepa- rado para cada elétron. No entanto, para esses sistemas, existem um método de aproximação, o de Hartree- Fock, que supõe que os elétrons ocupam orbitais bem definidos, para em seguida calcular as correções introduzidas pelos outros elétrons (ver discussão em Jenkins, 2003). Assim, a noção de orbital atômico pode ser Figura 9: Mapa de densidade eletrônica em Cu2O, segundo Zuo e col. (1999). Fonte: Arizona State University, Tempe. Figura 8: Distribuição angular da função de onda do orbital p z , com forma de “hal- teres”. Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 7, DEZEMBRO 2007 32 Entidades quânticas na Química útil em métodos aproximativos, mas a rigor eles não correspondem a algo na realidade. Os autores do trabalho experimen- tal aceitaram a crítica (ii), mas alega- ram que o uso corrente do termo “or- bital” pode ser associado a |ψ|2, ou seja, à densidade eletrônica. Rejeitam, portanto, a crítica (i). Em outras pa- lavras, eles consideram que para um átomo mono-eletrônico é possível em princípio observar um “orbital” puro, como os desenhados na Figura 5, pois definem “orbital” como o quadrado da função de onda e não como a própria função de onda, como sugere Scerri. Creio que esse ponto pode ser conce- dido a Zuo e col. Com relação ao ponto (ii), porém, apesar de concordarem com o argu- mento de Scerri, salientam que “seria perverso não mencionar a semelhan- ça inquestionável de nosso resultado final com o modelo mono-eletrônico simples de uma distribuição de den- sidade de carga de orbital d” (Spence e col., 2001, p. 877). Esse é um ponto importante. Se de fato a imagem obtida for muito semelhante à de um orbital (de densidade mono-eletrônica) d z 2, então esse fato precisa ser explicado. Talvez a explicação seja que a aproxi- mação dos orbitais é boa para o siste- ma considerado e, nesse caso, poder- se-ia falar em uma “observação apro- ximada”, da mesma maneira que se diz que “vejo o seu pai” ao olhar para um filho que lhe é parecido. Em sua tréplica, Scerri (2002) volta a insistir no ponto (i): A audiência que tem mais probabilidade de ficar confusa [...] é a comunidade de edu- cação Química. Até aqui, tive- mos a difícil tarefa de tentar salientar para os estudantes que, de acordo com a Mecâni- ca Quântica, os elétrons não podem mais ser considerados como tendo trajetórias ou ca- minhos definidos. Afinal de contas, esta é a única razão categórica para negar a obser- vabilidade dos orbitais, ao invés de apelar para a natureza apro- ximada de sistemas de muitos elétrons. De fato, de acordo com a Mecânica Quântica con- vencional, os orbitais são inob- serváveis mesmo no caso do átomo de hidrogênio. (p. 310) Creio que essa argumentação de Scerri não se sustenta. A questão das trajetórias dos elétrons é outra, pois toda discussão de orbitais pode ser travada dentro de um quadro ondula- tório, realista ou positivista. E ele insiste na identificação de “orbitais” com “função de onda”, o que é mera- mente uma questão semântica. Na verdade, já vimos que se fôssemos representar as funções de onda dos orbitais p, desenharíamos esferas (pois a distribuição angular ϑAm(θ) é dada por cosθ ou senθ), e não os balões alongados que corresponde- riam a cos2θ ou sen2θ do módulo quadrado da função de onda ou as mais elaboradas superfícies de con- torno desse módulo quadrado. No entanto, Scerri e outros auto- res, como Ogilvie (1990), têm razão em lembrar que, em átomos ou molé- culas de mais de um elétron, o orbital hidrogênico não representa correta- mente o estado de um elétron, já que os elétrons estão emaranhados em estados de mais de uma partícula. Conclusões O que dizer então das representa- ções pictóricas de orbitais em textos didáticos de Química? O conceito de “orbital” é proveniente da teoria quân- tica, e argumentamos que essa teoria pode ser interpretada de diferentes ma- neiras, tanto realistas quanto positi- vistas. Assim, o significado das repre- sentações pictóricas de orbitais vai depender de nossa postura interpre- tativa. Examinamos alguns aspectos do problema e, no final, não descartamos o interesse em se explorar didatica- mente as “observações” de orbitais. O fato de uma teoria poder ser inter- pretada de diferentes maneiras não significa, a meu ver, que não haja obje- tividade na ciência. Em minha visão pessoal, existe verdade objetiva na ciência, há fatos que estão “lá fora” esperando para serem descobertos (por exemplo, que a célula cristalina da cuprita é cúbica), apesar de a expres- são lingüística e representação mental desses fatos serem construídos psico- lógica e socialmente. No entanto, mes- mo dentro de uma epistemologia obje- tivista, devemos reconhecer que há questões científicas gerais que não estão sujeitas ao teste experimental. Cabe a cada um de nós decidir se ele prefere se ater a uma dessas inter- pretações em particular ou se ele fará uso de diferentes interpretações em diferentes situações ou momentos na carreira de cientista ou na sala de aula. Não pudemos abordar as questões interpretativas envolvendo mais de um elétron correlacionado por falta de es- paço e de estudo. Esse caso foi men- cionado na controvérsia sobre a visua- lização de orbitais e no comentário sobre as “forças de troca”. Vale dizer que nos Fundamentos da Mecânica Quântica há um grande problema conceitual em aberto, que envolve a noção de “não-localidade” que ocorre para pares de partículas correlacio- nadas (ver Pessoa, 2006, p. 274-277). Notas 1De maneira simplificada, podem- se dividir as representações mentais em duas classes. As representações lingüísticas envolvem cadeias de unidades (letras, fonemas, notas musicais, símbolos lógicos ou mate- máticos etc.) ligadas segundo regras de formação. As representações pictóricas, também chamadas imagé- ticas ou visuais, geralmente se re- ferem a corpos bi ou tridimensionais, parados ou em movimento. Diagra- mas moleculares parecem possuir características de ambas as classes. 2É um desafio para a área de Ensi- no de Química explicar didaticamen- te os traços essenciais desse fenô- meno de “força de troca”, mesmo que de maneira incompleta. A explicação envolve as sutilezas da Mecânica Quântica, incluindo a questão das partículas idênticas e do princípio de exclusão de Pauli para partículas de spin ½ (Berry, 1966, p. 295-298) (para uma discussão histórica e filosófica, ver Carson, 1996). 3O relato sucinto que se segue po- de ser aprofundando com a leitura dos capítulos iniciais de Pessoa (2003). 4O experimento da fenda dupla foi realizado para a luz por Thomas Young, Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 7, DEZEMBRO 2007 33 Entidades quânticas na Química Abstract: Pictorial Representation of Quantum Mechanical Entities in Chemistry – In this paper, we examine the meaning of pictorial representations of atomic and molecular orbitals in Chemistry textbooks. Emphasizing the existence of different interpretations of Quantum Theory, some more realist, other more positivist, we suggest that different assessments of the meaning of pictorial representations may be adopted, in the case of atoms with a single electron. For the case of many electron atoms, we describe a recent controversy concerning the observability of orbitals in covalent bonds. Keywords: interpretation, orbital, pictorial representation, quantum theory Referências AICHINGER, E.C.; MANGE, G.C. Quí- mica básica 1. Química 2 (Orgânica). São Paulo: Editora Pedagógica e Univer- sitária, 1980.BERRY, R.S. Atomic orbitals. Journal of Chemical Education, v. 43, p. 283-99, 1966. BRUSH, S.G. Dynamics of theory change in Chemistry: Part I. The benzene problem 1865-1945. Part 2. Benzene and molecular orbitals, 1945-1980. Studies in the History and Philosophy of Science, v. 30, p. 21-79, p. 263-302, 1999. CARSON, C. The peculiar notion of ex- change forces - I: Origins in quantum mechanics, 1926-1928. II: From nuclear forces to QED, 1929-1950. Studies in the History and Philosophy of Science, v. 27, p. 23-45, p. 99-131, 1996. EISBERG, R.; RESNICK, R. Física Quântica. Rio de Janeiro: Campus, 1979. FELTRE, R. Química. v. 1. 4a ed. 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Em inglês, dois clássicos são Jammer (1996) e Kragh (1999). 6Ernest Nagel (1961, p. 117-152), em um dos melhores textos didáticos de filosofia da ciência (em nível univer- sitário) do século XX, delineia três pos- turas básicas com relação à natureza de teorias científicas: realismo (propo- sições envolvendo termos teóricos, que não se referem a entidades obser- váveis, também têm valor de verdade), instrumentalismo (só faz sentido atribuir valor de verdade para termos de obser- vação, a teoria é apenas um instrumen- to para se fazerem previsões) e descri- tivismo (os termos teóricos têm valor de verdade apenas na medida em que podem ser traduzidos para termos de observação). O “positivismo”, segundo Kolakowski (1981, p. 15-22), envolveria pelo menos quatro atitudes distintas: o instrumentalismo (“fenomenalismo”), o nominalismo (ou seja, a negação de que idéias abstratas ou “universais” tenham existência independente), a separação entre fato e valor, e a tese da unidade metodológica da ciência. Segundo esse autor, o conjunto dessas teses teria sido adotado pela primeira vez pelo filósofo escocês David Hume, antes do termo “positivismo” ser cu- nhado por Auguste Comte. 7Na realidade, sabemos que o elé- tron em um estado excitado tem a ten- dência a decair, mas isso se deve à sua interação com as flutuações do vácuo, fenômeno que está para além do escopo deste artigo. Os estados representados na Figura 5 também são auto-estados do operador quadrado do momento angular L2, e para cada número quântico mA, tem-se um auto- estado do operador componente do momento angular L z . Cada um desses auto-estados pode ser populado por dois elétrons, cada qual com um número quântico m s de spin diferente, mas isso não é representado na figura. Osvaldo Pessoa Jr., formado em Física e Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), mestre em física experimental pela Universidade Estadual de Campinas e doutor em filosofia da ciência pela In- diana University, é professor de filosofia da ciência no DF da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. E-mail: opessoa@usp.br. 8 OU Ligação Química: Abordagem ?ClássicaQuântica QUÍMICA NOVA NA ESCOLA Ligação Química N° 6, NOVEMBRO 1997 O meio material ao nosso redor, com suas formas, proprie- dades e valores, reflete a enorme variedade de maneiras como os átomos se ligam para formar com- postos. Por isso, as ligações químicas representam um assunto de funda- mental importância, e seu conheci- mento é essencial para um melhor entendimento das transformações que ocorrem em nosso mundo. Algumas substâncias, como as que compõem os alimentos e combustíveis, fornecem energia mediante a quebra e a formação de ligações químicas; outras interagem dando origem a novos com- postos ou facilitam a dissolução de resíduos em um meio fluido (solventes, detergentes). Desse modo, a dinâmica das ligações químicas acaba regendo a nossa vida. A explicação do meio material pode ser feita utilizando-se modelos propostos para as ligações químicas, e está longe de ser uma questão fechada, em termos científicos ou pedagógicos. Um exemplo disso é o artigo escrito por Ogilvie (1990) sobre ligações químicas, no qual o autor expressa com convicção: There are no such things as orbitals! (“Orbitais não existem!”). A resposta a essa provocação foi dada magistralmente por Pauling (1992), em artigo que resgata o uso da mecânica quântica para tratar das ligações químicas. Modelos de ligações A escolha do modelo no ensino de ligações químicas deve ser compatível com o modelo atômico adotado, con- forme destacado por Chassot (1996), e ao mesmo tempo, adequar-se aos obje- tivos de ensino- aprendizagem, for- necendo a base necessária para o de- senvolvimento cog- nitivo do aluno. O uso de orbitais na des- crição de estruturas, ligações e proprie- dades é generalizado nos cursos de quí- mica no ensino superior; contudo, a transposição para o ensino médio ainda requer cuidados. De fato, o aluno passará a ter necessidade de modelos quânticos (orbitais) quando a descrição dos compostos e mate- riais se basear na distribuição espacial dos átomos e elétrons e na dinâmica dastransformações. Essa necessida- de deverá se expandir com a crescen- te popularização dos programas computacionais de modelagem (simu- lação) molecular e realidade virtual em todos os níveis do ensino. As teorias atuais sobre ligação quí- mica foram em grande parte inspiradas na idéia da união por meio de pares de elétrons, proposta por G.N. Lewis em 1916, logo após o lançamento da teoria de Bohr. A ligação ficaria representada por meio de dois pontos, que seriam os elétrons, colocados entre os símbolos dos elementos, ou por um traço, simbolizando a união. Na concepção de Lewis, os dois elétrons da ligação são atraídos eletrostatica- mente pelos dois núcleos atômicos, sendo compartilhados pelos mesmos. Associada a esse modelo de ligação está a teoria do octeto. Segundo Lewis, os elétrons ficariam dispostos ao redor do núcleo de modo a minimizar a repulsão entre os mesmos. O número máximo de elétrons de valência seria oito, com exceção dos elemen- tos do primeiro período (H, He). O octeto de Lewis, embora seja normalmente repre- sentado por oito pon- tos ao longo de um cír- culo ou por quatro pa- res de pontos ao redor do símbolo do ele- mento, na realidade ex- pressa a disposição espacial de um cubo, pois é a geometria que conduz à menor repulsão entre os elétrons. Henrique E. Toma A seção “Conceitos científicos em destaque” engloba artigos que abordam de maneira nova ou crítica conceitos químicos ou de interesse direto dos químicos. Este artigo procura ressaltar que os modelos de ligação química não são absolutos; ao contrário, são construções de uma outra ordem de realidade — a realidade do mundo infinitamente pequeno — que só podemos compreender com o uso de teorias que se modificam com o desenvolvimento da ciência. A partir das teorias analisadas, podemos refletir sobre qual modelo de ligação devemos ensinar a nossos alunos no nível médio, de modo que seja compatível com o modelo atômico adotado e com as explicações que pretendemos desenvolver a partir desses modelos. ligação química, Lewis, Linnett, Mulliken, modelo de bandas CONCEITOS CIENTÍFICOS EM DESTAQUE As ligações químicas representam um assunto de fundamen- tal importância, e seu conhecimento é essencial para um melhor entendimento das transformações que ocorrem em nosso mundo 9 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA Ligação Química N° 6, NOVEMBRO 1997 Com a movimentação dos elétrons, a disposição cúbica acaba por tornar- se uma distribuição esférica ao redor do núcleo. Na idéia de compartilhamento ele- trônico, está inerente a questão da afinidade dos átomos por elétrons (afinidade eletrônica, potencial de ioni- zação), bem como a questão da igualdade ou desigualdade com que estes são atraídos pelos núcleos. A afinidade associa-se ao conceito de valência como maneira de expressar a capacidade de com- binação dos átomos. Para tratar das desi- gualdades atômicas, Pauling introduziu o conceito de eletro- negatividade (em ter- mos de energias de ligação), que foi reedi- tado sob várias formas — por exemplo, por Mulliken, em termos de potenciais de ionização e afinidade eletrônica, e por Allred-Rochow, em termos da força de atração do núcleo pelo elétron da ligação. A ligação química apresenta três características importantes: polarida- de, distância e energia. Essas caracte- rísticas podem ser avaliadas experi- mentalmente, e fazem parte do banco de dados do químico. A eletronegati- vidade permite racionalizar a assime- tria das cargas na ligação, explicando o aparecimento de dipolos elétricos, e conduz naturalmente ao problema da separação de cargas, que leva à formação de íons. Ao mesmo tempo, é útil na previsão de distâncias e ener- gias de ligação. J.W. Linnett ampliou o modelo de Lewis de forma a assimilar o Princípio de Pauli. Conseqüentemente, confor- me descrito por Luder (1967), o par eletrônico deve ser representado por dois elétrons de spins opostos, e o octeto passa a ser constituído por dois quartetos de elétrons, diferenciados pelos spins. Enquanto no modelo de Lewis os elétrons são representados da mesma forma (‘o’, por exemplo), no modelo de Linnett os diferentes spins são representados por símbolos distintos (por exemplo ‘o’, ‘x’). Manten- do a distribuição cúbica, os elétrons de mesmo spin ficam dispostos se- gundo os vértices de um tetraedro, aumentando ao máximo a distância entre os mesmos de modo a minimizar a repulsão. O resultado conduz a dois tetraedros geminados, formando um cubo. Dois elétrons de spins opostos fi- cam unidos pela a- resta do cubo sepa- rados, portanto, por uma distância menor que a observada en- tre dois elétrons de mesmo spin. O uso dos quartetos du- plos preserva a sim- plicidade do octeto e permite a colocação dos spins, possi- bilitando tratar de propriedades mag- néticas e de ordens de ligação fracionárias, ao contrário do que acon- tece com o modelo de Lewis. Um exemplo interessante onde se faz necessário o uso de quartetos du- plos é o da molécula de NO. Com um total de 11 elétrons de valência, seria necessário compartilhar cinco elétrons entre os dois átomos. Por isso, não é possível construir uma estrutura de Lewis com octetos completos. Entre- tanto, na teoria dos quartetos duplos, basta compartilhar três elétrons de mesmo spin (‘o’) e dois de spins con- trários (‘x’). Na realidade, é a única opção. Com isso, a montagem da estrutura de Linnett poderia ser feita como explicado no quadro abaixo. A representação espacial da dis- tribuição eletrônica requer um pouco de imaginação, lembrando sempre que cada quarteto de elétrons está dis- posto em forma de tetraedro. Como pode ser visto, a molécula apresenta uma ordem de ligação fracionária igual a 2,5, existindo no balanço global um elétron desemparelhado, compatível com o caráter paramagnético obser- vado experimentalmente. Abordagem quântica da ligação química O modelo de Lewis é bastante útil na descrição qualitativa das ligações químicas. Porém, quando se quer dis- cutir questões energéticas, geometrias ou aspectos de natureza espectroscó- pica, torna-se necessário lançar mão de teorias quânticas que enfocam a ligação química em termos da combi- nação de orbitais. Esse tipo de abor- dagem exige o ensino do modelo quântico para o átomo, e considera que quando dois átomos se ligam, o compartilhamento eletrônico se dá pe- la combinação dos orbitais que estão interagindo. Os dois orbitais atômicos são representados pelas funções de onda ΨA e ΨB. O resultado dessa combinação é a formação de novos orbitais estendidos sobre os dois áto- mos, denominados orbitais molecula- res. Essas idéias constituem a base da Teoria dos Orbitais Moleculares, proposta por R.S. Mulliken, em 1932. De modo geral, um orbital molecu- lar de uma molécula AB — isto é, ΨAB — pode ser descrito por uma com- binação linear (soma ou diferença) dos orbitais atômicos localizados em A e em B, respectivamente (ΨAB = cAΨA ± cBΨB). A combinação dos dois orbitais pode ocorrer em proporções variáveis, expressas pelos coeficientes cA e cB. Quando os orbitais são equivalentes, como é o caso dos orbitais 1s na molé- cula de H2, esses coeficientes são iguais, isto é, cA= cB. Esses coeficien- tes diferem cada vez mais à medida que aumenta a diferença de energia entre os orbitais. Quando cA >> cB, a participação do ΨA é dominante e o orbital molecular ΨAB se assemelha a ΨA e vice-versa. Isso equivale a dizer que os elétrons não são compartilha- dos eqüitativamente, podendo ficar a maior parte do tempo em A ou em B, dependendo dos valores relativos de cA e cB. Isso está relacionado com a diferença de eletronegatividade entre os elementos. Deve-se lembrar que os orbitais antiligantes contribuem para a composição dos vários estados de energia da molécula, os quais podem ser monitorados por meio de técnicasespectroscópicas 10 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA Ligação Química N° 6, NOVEMBRO 1997 Na mecânica quântica, as energias são calculadas por meio da equação de Schrödinger, cuja representação genérica é do tipo HΨAB = EΨAB, sendo H, conhecido como operador hamil- toniano, uma expressão matemática dos termos energéticos da molécula, englobando por exemplo a energia cinética dos elétrons, a atração dos núcleos pelos elétrons de ligação, a repulsão entre os elétrons e a repulsão internuclear. A solução da equação de Schrö- dinger sempre conduz a dois valores de energia, E+ e E-, associados às combinações, por soma ou diferença, dos orbitais atômicos. A solução E+, de menor energia, provém da com- binação dos orbitais atômicos com o mesmo sinal, formando um orbital molecular denominado ligante que leva à estabilização da molécula. A solução E- provém da combinação dos orbitais atômicos com sinais opostos, produzindo um orbital molecular de maior energia denominado antiligante. Uma ilustração desses orbitais pode ser vista na Figura 1. O diagrama de energia dos orbitais moleculares mostra que a formação da ligação química está relacionada à estabilização proporcionada pelo pre- enchimento do orbital ligante. Quando colocamos elétrons nos orbitais antili- gantes, diminuímos essa estabiliza- ção. A combinação por soma leva a um reforço na densidade eletrônica entre os núcleos, de modo que os elé- trons possam promover uma aproxi- mação dos mesmos, resultando em uma ligação. Por outro lado, a combi- nação por diferença desloca a densi- dade eletrônica da região internuclear para as extremidades opostas, deixan- do os núcleos atômi- cos expostos a uma interação fortemente repulsiva. A ocupação desse orbital por elé- trons favorece a que- bra da ligação (disso- ciação). A teoria dos orbi- tais moleculares per- mite expressar a or- dem da ligação em termos da metade da diferença entre o nú- mero de elétrons ligantes e o de antili- gantes. Assim, na molécula de H2, como só existem dois elétrons em or- bital ligante, a ordem da ligação será 1, isto é, equivalente a uma ligação simples. No caso de uma molécula hipotética de He2, teríamos dois elé- trons ligantes e dois antiligantes, e a ordem de ligação seria nula. De fato, o hélio é um gás nobre e não forma moléculas estáveis. Contudo, a teoria prevê a existência da molécula-íon He2 + com ordem de ligação 1/2. A força da ligação depende da energia de interação entre dois orbitais, tam- bém chamada de energia de resso- nância. Quando os orbitais estão muito distantes, apresentam simetrias que não permitem um recobrimento efetivo ou têm energias muito diferentes, sua interação é diminuída. A descrição dos orbitais molecu- lares como ligantes ou antiligantes pode oferecer dificuldades para o alu- no principiante. Nesse ponto deve-se lembrar que os orbi- tais antiligantes contri- buem para a compo- sição dos vários estados de energia da molécula, os quais podem ser monitora- dos por meio de téc- nicas espectroscópi- cas. Portanto, não se trata de ficção cien- tífica. Uma das con- seqüências mais óbvias da existência dos orbitais moleculares é o apa- recimento da cor nos compostos. O modelo de bandas A teoria de bandas admite vários formalismos; um deles extende a teoria dos orbitais moleculares para um número grande ou infinito de átomos. Assim como a combinação de dois orbitais atômicos conduz a dois orbitais moleculares, a combi- nação de n orbitais atômicos dará ori- gem a n orbitais moleculares, porém com forte superposição, formando uma banda de orbitais (Fig. 2). A situação mais simples no diagra- ma é a do átomo isolado (n = 1) ou de moléculas pequenas (n = 2, 3, ...), para os quais todos os níveis são discretos. A situação intermediária, com bandas de valência separadas umas das outras, é típica dos elementos não metálicos encadeados. Nesses ele- mentos, o último nível com elétrons está completo e encontra-se separado do nível vazio mais próximo por uma diferença significativa de energia (∆E), como pode ser visto na Figura 2. A condução eletrônica exige a promoção dos elétrons da banda cheia para a banda vazia (banda de condução), me- diante, por exemplo, energia térmica ou de luz. Em princípio, um elemento não metálico pode tornar-se condutor à cus- ta de uma energia de promoção igual à diferença de energia entre os níveis ocupado e vazio. Quando essa energia não é muito grande, os sistemas são considerados semicondutores.Figura 1: Representação de um diagrama simplificado de orbitais moleculares. A visão sobre a ligação química não pode se restringir ao compartilhamento de um par de elétrons entre dois átomos, ou à idéia de um par de elétrons ocupando um orbital molecular formado pela combinação de dois orbitais atômicos 11 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA Ligação Química N° 6, NOVEMBRO 1997 No estado metálico ocorre forte superposição entre a banda cheia e a banda vazia superior, de modo que a passagem do elétron para a banda de condução exige uma quantidade insignificante de energia (∆E ≈ 0). Também é possível que a última banda eletrônica esteja apenas parcialmente preenchida, apresentando vacância para condução, sem necessidade da interpenetração energética com o nível vazio superior. Nesse caso, também se observa um caráter metálico. Nos sistemas metálicos, os elé- trons se distribuem dentro da banda como se fossem um fluido dentro de um copo. O limite de separação entre a parte ocupada e a vazia equivaleria à superfície do líquido, isto é, forma um nível de ocupação bem-definido. Esse nível é denominado limite de Fer- mi. Nos semicondutores, um aumento de temperatura favorece a condução, contribuindo para a promoção dos elétrons para a banda vazia. Nos me- tais, o aumento de temperatura tem efeito contrário, dificultando a condu- ção eletrônica pelo aumento da resis- tência ao percurso dos elétrons, devi- do à vibração térmica da rede. Os elementos dos grupos 13 (Al, Ga, In) e 15 (P, As, Sb), quando com- binados, formam materiais semi- condutores de grande aplicação práti- ca, principalmente em dispositivos eletro-ópticos, isto é, que convertem energia elétrica em energia luminosa ou vice-versa. O arseneto de gálio, GaAs, por exemplo, tem um ∆E de 138 kJ/mol e, quando conduz corrente, os elétrons da banda de condução po- dem decair para a banda de valência com emissão de luz — no caso, com comprimento de onda de 870 nm (infravermelho próximo). Esse é o princípio do funcionamento do disposi- tivo conhecido como LED (light-emi- tting diode) e de lasers semicondu- tores. Manipulando ligações químicas na Era da Informática O desenvolvimento vertiginoso da computação vem tornando acessíveis inúmeros programas de modelagem molecular baseados em mecânica molecular (clássica) ou em mecânica quântica. Esse tipo de recurso já está sendo usado nos cursos de gradua- ção em química, e com certeza chegará ao ensino médio. Na mecâ- nica molecular, trabalha-se com forças de campo; os movimentos atômicos são descritos por constantes de força (como as de oscilador harmônico) de estiramento e torção. Além disso, incluem-se barreiras conformacionais, interações eletrostáticas, pontes de hidrogênio e forças de dispersão como a de van der Waals. As equa- ções usadas são relativamente sim- ples, e o cálculo de uma estrutura mo- lecular pode ser feito com o auxílio de parâmetros experimentais como as já conhecidas constantes de força. A energia total é dada pela soma de to- das as energias (ligação, torção, conformacional, eletrostática, van der Waals e pontes de hidrogênio), que por sua vez depende de distâncias, ângulos e cargas. Essas variáveis po- dem ser alteradas gradualmente até se chegar ao mínimo de energia, situação que define a geometria mais estável da molécula. Os cálculosde mecânica molecu- lar podem ser conduzidos em níveis altamente sofisticados, sendo de in- teresse, principalmente, na previsão da estrutura e atividade de fármacos e na construção de sistemas com capacidade de reconhecimento mole- cular. Sob o ponto de vista didático, a modelagem molecular permitirá que o aluno explore em detalhes a estrutura tridimensional das moléculas, reco- nhecendo aspectos conformacionais e estéricos. A outra opção faz uso da mecânica quântica. Estruturas moleculares podem ser simuladas a partir da solu- ção da equação de Schrödinger, utilizando programas de computador que têm evoluído continuamente. Exis- tem vários programas executáveis em microcomputadores pessoais que po- dem ser usados por estudantes de cursos introdutórios de química. Atualmente, os métodos de mecânica molecular seriam os mais adequados para alunos de ensino médio. Ligação química: a visão atual A visão sobre a ligação química não pode se restringir ao comparti- lhamento de um par de elétrons entre dois átomos, ou à idéia de um par de elétrons ocupando um orbital mole- cular formado pela combinação de dois orbitais atômicos. A idéia de orbi- tais deslocalizados, como no caso do benzeno e do grafite, deve ser explo- rada, para explicar a equivalência das distâncias C-C do primeiro e as pro- Figura 2: Extensão dos orbitais moleculares mostrando a multiplicação dos níveis com o aumento do número de átomos, até formar bandas de orbitais moleculares. 12 priedades condutoras do segundo. Esse modelo poderá ser facilmente ampliado para explicar a existência de polímeros condutores (poliacetileno, polianilinas e polipirróis), fios mole- culares e materiais supercondutores. A estrutura de biomoléculas como o DNA permite mostrar a importância das ligações de hidrogênio e a com- plementaridade das bases nucleicas. Outra oportunidade interessante para discutir as interações de hidrogênio é Referências bibliográficas OGILVIE, J.F. The nature of the chemical bond - 1990, Journal of the Chemical Education, v. 67, n.4, p. 281-289, 1990. PAULING, L. The nature of the chemical bond - 1992, Journal of the Chemical Education, v. 69, n. 7, p. 519-521, 1992. fornecida pela piezoeletricidade em cristais de diidrogenofosfato de po- tássio, KH2PO4, onde os dipolos elé- tricos oscilam ao longo das ligações P-O-H...O-P pelo simples desloca- mento do átomo de hidrogênio que atua como ponte. A partir do conheci- mento das interações intermolecu- lares, o aluno poderá entender o sig- nificado do reconhecimento molecular, bem como discutir a questão da inteli- gência molecular. Com a exploração sistemática dos vários tipos de ligações, o aluno terá maior contato com os aspectos espa- ciais (tridimensionais) da química, pas- sará a perceber a existência dos ele- mentos de simetria nas moléculas e materiais, e talvez venha a ter uma no- va visão estética do mundo em que vive. Henrique E. Toma, bacharel e licenciado em quí- mica, doutor em ciências, é professor titular do Instituto de Química da USP, em São Paulo - SP. CHASSOT, A. Sobre prováveis modelos de átomos, Quimica Nova na Escola, n. 3, p. 1, 1996. LUDER, W. F., The electron-repul- sion theory of the chemical bond. New York: Reinhold Publishing Corp., 1967. Para saber mais Para obter um questionamento à idéia da molécula como objeto real e uma abordagem crítica das concep- ções clássicas de ligação química, ver: MORTIMER, E. Para além das fronteiras da química: relações entre filosofia, psicologia e ensino de química. Química Nova, v. 20, n. 2, p. 200-207, 1997. MORTIMER, E. O significado das fórmulas químicas. Química Nova na Escola, n. 3, p. 19-21, 1996 14 Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 4 – Maio 2001Ligações químicas Introdução A partir do desenvolvimento da mecânica quântica e da resolução da equação de Schrödinger, compreendeu-se a relação entre as propriedades químicas dos elementos e a sua estrutura eletrônica. Com as evidências experimentais de que os elétrons se comportam como onda e também como partícula, além do fato de que a energia é quantizada, tornou-se possível explorar o mundo microscópico em sua intimidade, de- scobrindo-se a causa das propriedades muitas vezes observada no nosso mun- do macroscópico. Através da estrutura eletrônica de camadas dos átomos explicam-se as propriedades periódicas. A energia e a forma dos orbitais ex- plicam, em última análise, a reação quí- mica, a reatividade química e a forma como novas substâncias são formadas. Na química moderna, fazemos sempre a relação entre as propriedades quími- cas de uma certa substância com a estrutura geométrica e eletrônica de suas moléculas. A ligação química, sendo a intera- ção de dois átomos (ou grupos de áto- mos), está intimamente ligada ao rear- ranjo da estrutura eletrônica, ou melhor, Hélio A. Duarte A natureza da ligação química é revelada a partir da estrutura eletrônica dos átomos, mostrando como esta afeta as propriedades macroscópicas das substâncias. Os três tipos mais comuns de ligações químicas, consideradas fortes e que estão presentes na maioria das moléculas (ligação iônica, ligação covalente e ligação metálica), são discutidas em detalhe. ligação química, ligação covalente, ligação iônica, ligação metálica, TOM, TLV dos elétrons dos átomos dentro de uma nova molécula. O potencial de ionização e a afinidade eletrônica são duas propriedades periódicas que po- dem nos auxiliar a compreendermos a natureza da ligação química. Lembre- mos, inicialmente, que o potencial de ionização é a energia requerida para retirar um elétron do átomo (PI) e a afini- dade eletrônica é a energia liberada quando um átomo recebe um elétron (AE): M → M+ + 1e– PI (1) X + 1 e– → X– AE (2) A Tabela 1 mostra PI e AE para os elementos do segundo período da tabela perió- dica. Observa-se que aquele elemento que se tem maior dificuldade em retirar elétrons, ou que apresenta menor afini- dade eletrônica, é o áto- mo de neônio. Em outras palavras, dentre todos os átomos da segunda linha da tabela periódica, o neônio é o que apresenta menor tendência a rece- ber ou doar elétrons. Ele precisa de 2080 J.mol-1 para que um elétron seja retirado e para receber um elétron, precisaria ainda de 29 J.mol-1 (valor negativo na Tabela). Vemos que outros elementos ten- dem a doar seus elétrons mais facil- mente e outros a receber elétrons libe- rando energia. O processo de receber ou doar elétrons leva à formação de ânions ou cátions, respectivamente. Espera-se, assim, que os dois íons for- mados interajam devido às forças de atração de cargas formando uma ligação química. A natureza da ligação química de- penderá de como acontece o rearranjo dos elétrons na molécula formada. Tabela 1: Afinidade eletrônica e potencial de ionização dos elementos do segundo período (Dados em kJ.mol-1). Elementos Afinidade eletrônica* Potencial de ionização Li 60 520 Be -18 900 B 27 800 C 122 1086 N -9 1402 O 141 1314 F 328 1681 Ne -29 2080 * Valor positivo significa que o processo X + e– à X- é exotér- mico. 15 Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 4 – Maio 2001 Neste capítulo trataremos de três tipos de ligações química, consideradas for- tes e que estão presentes na maioria das substâncias: ligação iônica, liga- ção covalente e ligação metálica. Ligação iônica Normalmente reação química entre metais alcalinos (Li, Na, K) e halogê- nios (F, Cl) leva a formação de sais que, se dissolvidos em solução aquosa, conduzem eletricidade. Esta é uma evi- dência de que os sais são formados por íons. Seria então a energia de coe- são de um sal oriunda de interações eletrostáticas? Para respondermos a esta questão, precisamos inicialmente compreender o que é energia de rede. Seja o sal de cozinha,NaCl, formado a partir do cátion Na+ e do ânion Cl–, respectiva- mente: Na+(g) + Cl – (g) → NaCl(s) ∆Hr = -787 kJ.mol–1 (3) Observe que a energia de rede é a energia liberada quando os íons estão na fase gasosa, ou seja, eles estão muito distantes um do outro de tal for- ma que não haja interação entre eles, para então se aproximarem e formar o sólido iônico. Esta energia pode ser calculada a partir de dados de termo- dinâmicos (Barros, 1995) e é devida unicamente à formação da ligação quí- mica no sólido, uma vez que os rea- gentes estão completamente na sua forma atômica e ionizada. Podemos descrever a energia de rede a partir da energia de interação entre duas car- gas: (4) onde Z+, Z–, e– e εo são a carga do cá- tion, do ânion, a carga do elétron e a permissividade no vácuo, respectiva- mente. A Eq. (4) descreve a interação de apenas duas cargas e não de um sólido que, em princípio, podemos considerar com um número infinito de íons. Além disso, temos que imaginar que em um sólido temos uma carga positiva rodeada por cargas negativas, que por sua vez estão rodeadas por cargas positivas e assim por diante. Lo- go, a energia de rede é a soma da inte- ração de um íon com todos os outros, seja a interação atrativa ou repulsiva. Imaginemos o sólido iônico unidi- mensional como mostrado na Figura 1 A energia de rede deste sólido hipo- tético seria dada pela soma de todas as contribuições: (5) O fator 2 deve-se ao fato de termos sempre duas cargas de mesmo sinal e a mesma distância em relação ao íon de referência. Substituindo o termo Z+Z+ por -Z+Z–, podemos escrever a Eq. (5) da seguinte forma: (6) A constante A é chamada de cons- tante de Madelung. Para este caso hipotético o seu valor é exatamente ln(2) = 0,69315. A constante de Ma- delung é um número adimensional que está relacionada com as característi- cas geométricas do sólido. Para cada forma de empacotamento do sólido existe uma constante de Madelung. No entanto resta-nos uma dúvida: a Eq. (6) explica a estabilidade do sólido? Para responder esta questão precisa- mos de analisar a Eq. (6). O fator Z+Z– é sempre negativo, o que implica que a energia de rede será sempre nega- tiva. Termodinamicamente o valor da energia negativa implica que o sistema libera energia quando da sua formação de acordo com a Eq. (3). Com exceção de r, todos os outros parâmetros são constantes, logo a energia de rede como escrita na Eq. (6) é função de -1/ r, como mostrada na Figura 2. Observando apenas a linha ponti- lhada, vamos perceber que quanto mais r diminui, ou seja, quanto menor a distância entre dois íons, menor é a energia de rede. Seguindo o raciocínio, o sistema seria tanto mais estável quanto menor for o valor de r. Ou seja, a separação entre os íons tenderia para zero, levando o sistema ao colapso. Deve haver alguma força de repulsão entre dois íons de carga oposta quan- do a distância entre os dois íons torna- se muito pequena. Foi Born-Landé que propôs que a repulsão seria proporcio- nal ao valor de r, de acordo com a equação: (7) Onde B é dado por (8) n é o expoente de Born e re é a distân- cia de equilíbrio encontrada no sólido. A repulsão mesmo para íons de cargas opostas deve ser entendida como sen- do devida à superposição das distri- buições eletrônicas dos íons quando r se torna muito pequeno. Por isso, o expoente de Born foi parametrizado em função da configuração eletrônica do íon (ver Tabela 2). Ligações químicas Figura 1: Cristal iônico linear. r é a distância entre dois íons quaisquer. Figura 2 Variação da energia com a distân- cia entre dois íons de cargas opostas. Tabela 2. Expoentes de Born em função da configuração eletrônica. Configuração do íon N He 5 Ne 7 Ar 9 Kr 10 Xe 12 16 Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 4 – Maio 2001 A Eq. (7) é também mostrada na Figura 2. Desta forma a energia de rede em função de r é dada pela soma das contribuições devido à atração eletros- tática e à repulsão devido à superpo- sição das distribuições eletrônicas dos dois íons. (9) A Eq. (9), que também é represen- tada na Figura 2, descreve a energia de rede do sólido e explica a sua esta- bilidade. Esta curva mostra que não é possível obter energia menor do que aquela quando a distância de equilíbrio é alcançada. Sendo esta energia, para r = re, a energia de rede, ela pode ser calculada pela fórmula (10) A Eq. (10) descreve a energia de rede de um sólido iônico a partir de um modelo puramente iônico. A Tabela 3 mostra que a Eq. (10) explica cerca de 98% da energia de rede de sistemas considerados iônicos. E os outros 2% que faltam, se deve a que tipo de interação? Na natureza os átomos se unem e, em função da eletronegati- vidade que eles apresentam, podem atrair os elétrons mais ou menos para si. Esta capacidade de atrair mais ou menos para si os elétrons está correla- cionada com o seu potencial de ioniza- ção e com a afinidade eletrônica (Huheey, 1983). De acordo com a definição de Mulliken, a eletronegati- vidade é dada por c = 1/2 (PI + AE). Quando a transferência de elétrons pode ser considerada como uma apro- ximação válida face a diferença de eletronegatividade dos átomos, pode- mos tratar o sistema como sendo uma interação entre íons, ou seja, pura- mente eletrostática. No entanto, há sempre uma interação devida ao fato de que os elétrons sempre têm uma pequena probabilidade de ser encon- trados nas vizinhanças do átomo me- nos eletronegativo; é o que chamamos de covalência (que será tratada na pró- xima seção). Ligação Covalente Foi visto para o caso da ligação iônica que a ligação química pode ser considerada como a interação eletros- tática entre dois íons. No entanto, certa- mente, este não é o caso das moléculas diatômicas como O2, N2, F2 e H2. Neste ca- so, os dois átomos competem igualmen- te pelos elétrons. A química quântica mostra que a distribui- ção da função de on- da destes elétrons implica na probabilidade igual de se encontrar o elétron tanto em um átomo quanto no outro. Deste modo, os elé- trons são compartilhados pelos dois átomos. Mas quantos elétrons serão compartilhados pelos átomos? Obser- vamos que somente os elétrons de va- lência, ou seja, aqueles que estão na última camada e, conseqüentemente, com maior energia, estarão disponíveis para serem transferidos (como numa ligação iônica) ou compartilhados (como na ligação covalente). Dois átomos iguais se unem para compar- tilhar seus elétrons de valência porque a matéria formada apresenta geral- mente maior poten- cial de ionização e menor afinidade ele- trônica, ou seja, tor- na-se mais estável em relação a ten- dência dos elétrons de escaparem do sistema. Em termos da termodinâmica, o potencial de ioniza- ção e a afinidade ele- trônica estão relacio- nados ao potencial químico e à dure- za do sistema (Duarte, 2001). A chamada regra do octeto surge do fato de que quando os átomos doam, recebem ou compartilham elé- trons de tal forma que passam a apre- sentar configuração eletrônica seme- lhante a dos gases nobres, eles tornam-se mais estáveis em relação a tendência dos elétrons de escaparem do sistema, ou seja, o sistema como um todo torna-se mais estável. Como podemos compreender a for- mação de ligação química do ponto de vista da química quântica? Como ficam os orbitais atômicos? Para respon- dermos estas ques- tões, precisamos com- preender que um sis- tema de muitos elé- trons, seja um átomo ou um arranjo deles (moléculas), é sempre descrito a partir da solução da equação de Schrödinger apre- sentada no artigo de introdução ao conceito de modelagem mo- lecular. Esta equação pode ser resol- vida por pelo menos dois métodos bem populares entre os químicos: a TLV (Teoria de Ligação de Valência) ou a TOM (Teoria dos OrbitaisMolecu- lares). Todas são evocadas para raciona- lizar a estrutura, reatividade e proprie- dades de sistemas químicos em geral. Os aspectos matemáticos da resolu- ção da equação de Schrödinger estão fora do escopo deste trabalho. Restrin- gir-nos-emos à interpretação das so- luções desta equação e aos aspectos relevantes para a química. Teoria dos orbitais moleculares (TOM) Inicialmente, vamos estudar uma molécula simples: a molécula de H2. Em termos da TOM, resolver a molécu- la de hidrogênio consiste em achar uma função de onda que minimize a energia total do sistema calculado pela equação de Schrödinger (Levine, 1991), E = <Ψ Ψ> (11) onde é um operador matemático (Hamiltoniano do sistema) que inclui a Ligações químicas Tabela 3 Comparação entre a energia de rede calculada pela Eq. (10) e o valor experimental*. Composto iônico Er (kJ/mol) ∆Hrede(298 K)(kJ.mol-1) CaCl2 -2520,0 -2635,0 NaCl -764,6 -787,0 CsF -730,0 -740,8 CsCl -636,4 -655,0 CsBr -613,0 -629,6 *Determinada de acordo com o Ciclo de Born-Haber (Barros, 1995). Dois átomos iguais se unem para compartilhar seus elétrons de valência porque a matéria formada apresenta geralmente maior potencial de ionização e menor afinidade eletrônica, ou seja, torna-se mais estável em relação a tendência dos elétrons de escaparem do sistema 17 Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 4 – Maio 2001 energia cinética dos elétrons e o poten- cial eletrostático onde os elétrons se movem devido aos núcleos dos dois átomos e a interação eletrostática elé- tron-elétron. Este último tem caráter re- pulsivo uma vez que corresponde a interação de partículas com cargas de mesmo sinal. A função de onda, Ψ, é uma função matemática das coorde- nadas dos dois elétrons que compõem a molécula, ou seja, Ψ = Ψ(x1, y1, z1, s1, x2, y2, z2, s2) (12) as variáveis xi, yi e zi correspondem à posição do elétron no espaço cartesia- no e s1 e s2 correspondem as coorde- nadas de spin. A função de onda tem as mesmas propriedades que os orbi- tais atômicos. Torna-se necessário observar que a função de onda por si não tem necessariamente significado físico. Deve ser considerada um ‘arti- fício’ matemático. Na verdade, qual- quer rotação desta função também é uma solução da equação de Schrödin- ger; em outras palavras, há infinitas soluções que minimizam a energia da molécula de hidrogênio. Porém esta função contém toda a informação necessária para se obter as propriedades observáveis da molé- cula, como por exem- plo momento de di- polo, energia cinética, potencial de ionização etc. O quadrado da função de onda, Ψ2, consiste na probabi- lidade de se encontrar os elétrons no espaço. Observe que para qualquer rotação que se faça em Ψ, o seu quadrado será sempre o mesmo. Ou seja a probabilidade de se encontrar o elétron (Ψ2) é invariante com relação a rotação da função de onda no espaço2. Para facilitar (e tornar factível) o cálculo de orbitais moleculares, des- crevemos a função de onda, Ψ, como um produto de funções de um elétron, χ i, conhecido como produto de Hartree. Posteriormente, reconheceu- se a necessidade de garantir o princí- pio de exclusão de Pauli. Em termos da física moderna, dizemos que a função de onda tem que ser antissimé- trica com relação à troca das coorde- nadas de dois elétrons. Este requisito é garantido usando-se ao invés de um produto simples o determinante de Slater. (13) No caso da molécula de hidrogê- nio, o princípio da antissimetria é ga- rantido se lembrarmos que cada orbital molecular pode ser ocupado com no máximo dois elétrons com spins opos- tos. Colocando explicitamente a função de spin (α ou β), a função de um elétron pode ser assim rescrita χ1(1) = φ(1)α(1) (14a) χ2(2) = φ(2)β(2) (14b) temos então que a função de onda completa pode ser escrita da seguinte forma: (15) A Eq. (15) mostra que a função de onda é composta por uma parte espacial e outra de spin. A parte de spin é antissimétrica com relação a troca da coordenadas, logo a parte espacial φ(1) = φ(x1, y1, z1), pode e deve ser simétrica. Resta-nos agora a seguinte questão: co- mo podemos descre- ver os orbitais mole- culares φ? O método comum é a com- binação linear de orbitais atômicos (CLOA), ou seja, para o exemplo da molécula de H2, φ(1) = c11sA + c21sB (16) onde o subscritos A e B se referem aos dois átomos de hidrogênio, 1s é o res- pectivo orbital e os coeficientes c1 e c2 devem ser determinados de modo a minimizar a energia, ou seja, permitir a melhor combinação entre os orbitais atômicos. Na prática procuramos os coefici- entes c1 e c2 que minimizem a energia dada pela Eq. (11). O princípio variacio- nal garante que a energia eletrônica calculada pela Eq. (11) nunca será mais baixa que o valor exato, ou seja, Eo ≤ E = <Ψ Ψ> (17) onde Eo é a energia exata do sistema. Para o exemplo acima, o resultado desta minimização nos leva aos se- guintes valores para os coeficientes: c1 = c2 = 1 ou c1 = 1 e c2 = -1. A Figura 3 mostra esquematicamente o que ocorre: o orbital 1s dos átomos de hi- drogênio A e B se combinam para for- mar dois orbitais moleculares, um mais estável, chamado de ligante, e um outro, menos estável, chamado antili- gante. Observa-se que os orbitais molecu- lares de mais baixa energia são ocupados primeiramente. Inspecionan- do a Figura 3, podemos afirmar que a energia dos orbitais atômicos é mais alta do que a dos orbitais moleculares ocupados. Temos assim outra forma de explicar a formação da ligação química. Vejamos o exemplo da molécula hipotética He2. Neste caso cada orbital atômico contribuiria com dois elétrons e conseqüentemente com a formação da molécula; os orbitais moleculares ligante e antiligante estariam ocupa- dos. A estabilização devido à formação do orbital ligante seria completamente perdida com a ocupação do orbital antiligante que desestabiliza o sistema. Por isso a molécula de He2 não é formada. Na Figura 4, o valor de Ψ2 é dese- nhado ao longo do eixo entre os dois átomos. Observa-se que o orbital mo- lecular ligante apresenta probabilidade Ligações químicas Figura 3: Diagrama da formação de orbitais moleculares da molécula de H2. Observe a ocupação dos orbitais pelos elétrons. Os orbi- tais moleculares de mais baixa energia são ocupados primeiramente desde que o prin- cípio de exclusão de Pauli seja satisfeito. Podemos afirmar que a energia dos orbitais atômicos é mais alta do que a dos orbitais molecu- lares ocupados. Temos assim outra forma de explicar a formação da ligação química 18 Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 4 – Maio 2001 igual de se encontrar os dois elétrons próximos aos dois núcleos e também uma alta probabilidade de se encontrar os dois elétrons entre eles, contribuin- do assim para a formação da ligação química. Dizemos que houve a forma- ção de uma ligação química covalente, onde dois elétrons são igualmente compartilhados (c1 = c2). O orbital antiligante, por sua vez, não apresenta probabilidade de se encontrar os elétrons entre os dois átomos, mas apenas próximo aos núcleos (c1 = -c2); por isso é chamado de antiligante. A Figura 4 nos mostra claramente o que a estrutura de Lewis nos mostra esquematicamente. A molécula de H2 compartilha seus dois elétrons igual- mente como mostrado no Esquema 1. A TOM é largamente usada qualita- tivamente para racionalizar a reação química seja na química orgânica, inor- gânica, bioquímica etc. Atualmente, cálculos precisos são possíveis de serem feitos devido ao grande desen- volvimento dos computadores e de metodologias dos cálculos teóricos. A grande vantagem da TOM é que ne- nhum conhecimento prévio da molé- cula é necessário, apenas as quatro constantes básicas da física, a saber: velocidade da luz (c), constantede Planck (h), carga do elétron (e) e o nú- mero atômico (Z) são necessárias. Ligações químicas serão ou não for- madas dependendo do sistema cal- culado. Por isso, estes cálculos são chamados de ab initio ou de primeiros princípios. Infelizmente estes cálculos não são possíveis para moléculas ou agregados com mais que algumas de- zenas de átomos pertencentes à se- gunda linha da tabela periódica devido ao esforço computa- cional. Aproximações são possíveis de se- rem feitas para dimi- nuir o custo compu- tacional e permitir o cálculos de sistemas ainda maiores; este é o caso dos métodos semiempíricos. são chamados assim por- que em seu formalis- mo alguns parâmetros são estimados a partir de dados expe- rimentais de uma série de moléculas conhecidas. Por fim, a mecânica mo- lecular surge como uma possibilidade para tratar sistemas muito grandes. Neste método, a ligação química é representada por molas com a cons- tante de Hooke parametrizada para reproduzir a ligação no equilíbrio, ou seja, é uma abordagem clássica da li- gação química. Embora a utilidade deste método seja evidente para estudar propriedades geométricas e conformações de moléculas grandes como aquelas encontradas em siste- mas biológicos, a estrutura eletrônica não pode ser descrita com tais méto- dos. Teoria de ligação de valência (TLV) Esta teoria é geralmente usada para racionalizar a ligação química em com- postos orgânicos por tratar-se de uma teoria que é facilmente aplicada, pelo menos em termos qualitativos. Sabe- mos que os elétrons de valência estão disponíveis para a formação de ligação química, por dois motivos básicos: 1. Os elétrons de valência estão desemparelhados ou podem se de- semparelhar com um custo energético relativamente baixo. Lembremos que as energias dos orbitais atômicos são inversamente proporcionais ao número quântico principal (~1/n2), logo para as camadas mais externas esta diferença tende a diminuir. Além disso, as sub- camadas, ou seja, os orbitais de dife- rentes números quânticos secundários (l) são degenerados (mesma energia) para o átomo de hidrogênio e muito próximas em energia para os átomos multieletrônicos (como foi visto no ar- tigo de modelos teóricos para a com- preensão da estrutura da matéria). Logo a energia para desemparelhar ou ex- citar os elétrons é relativamente baixa. 2. Na formação de uma ligação química os orbitais devem se superpor. Os orbitais de valência são mais difusos, isto é, têm um raio médio maior, per- mitindo que a super- posição entre eles seja mais eficiente. Embora, do ponto de vista quali- tativo, esta forma de racionalizar a ligação química esteja correta, sabe- mos que os elétrons mais internos par- ticipam indiretamente da formação da ligação, polarizando os orbitais de valência na direção da ligação. A nossa proposta aqui é discutir alguns con- ceitos básicos que surgem a partir da TLV e não de cálculos intensos e com- plicados relacionados à química teó- rica, por isso nos deteremos na análise qualitativa da ligação química pela TLV. A formação de uma ligação quími- ca, de acordo com a TLV, ocorre quan- do dois orbitais, cada um com apenas um elétron, se superpõem construtiva- mente. Esta premissa mostra desde já um ponto fraco da TLV: ela super enfa- tiza o caráter covalente da ligação quí- mica (McQuarrie, 1983). O mesmo não ocorre com a TOM, cujos coeficientes moleculares são balanceados de forma a levar em conta o caráter iônico de uma ligação. Este caráter iônico es- tá sempre presente quando se trata de Ligações químicas Figura 4: Função de probabilidade, Ψ2± da molécula de H2. Os subscritos + e - são relativos aos orbitais moleculares ligante e antiligante, respectivamente. Esquema 1: Formação da molécula de H2 de acordo com a estrutura de Lewis. A formação de uma ligação química, de acordo com a TLV, ocorre quando dois orbitais, cada um com apenas um elétron, se superpõem construtiva- mente. Esta premissa mostra desde já um ponto fraco da TLV: ela super enfatiza o caráter covalente da ligação química 19 Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 4 – Maio 2001 uma ligação entre átomos de diferentes eletronegatividades. Analisemos novamente a formação da molécula de H2. Cada átomo de hi- drogênio apresenta o orbital 1s ocu- pado com um elétron. Quando os dois átomos estão suficientemente próxi- mos para que haja superposição dos dois orbitais, ocorre a formação da liga- ção química. O Esquema 1 ilustra bem esta idéia. Vejamos um caso mais interessan- te: o hidreto de berílio, BeH2. Como a ligação química é formada? A configu- ração eletrônica do berílio é 1s22s2, estando todos os seus elétrons empa- relhados. Alguém poderia desaten- ciosamente pensar que este átomo não forma ligações químicas. Sabe- mos que trata-se de um metal alcalino terroso muito reativo. Afinal, como a TLV racionaliza a formação do BeH2 se ele não apresenta orbitais com apenas um elétron para formar a ligação quími- ca? Nosso conhecimento da estrutura eletrônica do Be nos permite dizer que a camada de valência (número quân- tico principal 2) apresenta outros três orbitais vazios, a saber: 2px, 2py e 2pz. Um elétron do orbital 2s pode ser facil- mente excitado para um dos orbitais 2p. Observe que a energia liberada com a formação da ligação química é muito maior do que a energia gasta para a excitação deste elétron para o orbital 2p. O processo de formação da ligação total continua sendo favore- cido. No entanto, o fato de termos dois orbitais com um único elétron não ex- plica ainda a formação da ligação química. Observe na Figura 5 o dese- nho (a); ele mostra a formação de uma molécula linear. Porém dificilmente a ligação química ocorreria, pois um dos átomos de hidrogênio teria uma super- posição destrutiva com relação ao or- bital 2p, isto é, sinais opostos. Na Fi- gura 5b, a superposição ocorre, mas por questões de repulsão eletrostática, uma ligação química com um ângulo de 90 graus nesta situação não seria favorecida. Como foi discutido na teoria dos orbitais moleculares, os orbitais não têm necessariamente significado físico e qualquer rotação destes orbitais no espaço consiste em solução da equa- ção de Schrödinger. Em outras pala- vras, isto significa que dois orbitais quaisquer podem sempre ser mistura- dos para formar dois outros orbitais. A estes dois novos orbitais chamamos de orbitais híbridos. A Figura 6 mostra como o orbital 2s e o orbital 2px se mis- turam para formar dois orbitais híbridos sp. Cada orbital híbrido sp tem um elé- tron e está pronto para se superpor ao orbital 1s do hidrogênio e formar a ligação Be-H. Logo a ligação química na molécula de BeH2 é esquemati- camente mostrada na Figura 7. Podemos então dizer que na forma- ção da ligação química os orbitais atômicos são primeiramente prepara- dos ou ajustados para melhor atender os requisitos de superposição dos orbi- tais. A Figura 8 mostra esquemati- camente cada uma das etapas de formação da ligação química. Em outros compostos onde se for- mam mais de duas ligações químicas, os orbitais híbridos são formados a par- tir de um número maior de orbitais atô- micos. Como estes orbitais híbridos Ligações químicas Figura 5: Possível forma de formar ligação química a partir dos orbitais 2s e 2px do Be e de 1s dos átomos de hidrogênio. Figura 6: Formação dos orbitais híbridos sp. Figura 7: Ligação química do BeH2 de acordo com a TLV. Figura 8: Perfil energético da formação da ligação química no composto BeH2 de acordo com a TLV. Figura 9: Formação de orbitais híbridos sp2 a partir dos orbitais s, px e py. 20 Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 4 – Maio 2001 equivalem a uma rotação dos orbitais atômicos canônicos, sempre um certo número de orbitais atômicos geraráum número igual de orbitais híbridos. Para a molécula de BF3, o átomo de boro tem configuração eletrônica de valên- cia 2s22p1. Para que haja três ligações químicas com o boro, este tem que ter 3 orbitais disponíveis para formar a liga- ção química, ou seja, contendo ape- nas 1 elétron cada. Ocorre um pro- cesso semelhante ao do BeH2, onde um elétron do orbital 2s é promovido a um orbital 2p vazio. Os três orbitais contendo um elétron (2s, 2px, 2py) se misturam para formar três outros or- bitais híbridos chamados de sp2. Estes três orbitais estão no plano (plano xy se usarmos os orbitais 2px e 2py) e fazem um ângulo entre si de 120 graus. Por isso o BF3 tem geometria triangu- lar plana, pois os átomos de flúor vão se orientar ao longo destes eixos para fazer uma melhor superposição de seu orbital 2p com um elétron e o orbital híbrido sp2 (a Figura 9 ilustra a forma- ção do orbital sp2). Vejamos agora as moléculas isoele- trônicas CH4, NH3 e H2O; todas apre- sentam 10 elétrons, sendo que o áto- mo central tem ocupado parcialmente os orbitais 2p. No caso do CH4, o car- bono precisa de 4 orbitais com um elé- tron em cada para se ligarem aos orbitais 1s do hidrogênio. O carbono no estado fundamental tem configu- ração eletrônica 2s22p2. Promovendo um elétron do orbital 2s para o orbital 2p, podemos gerar os orbitais híbridos sp3. São 4 orbitais atômicos gerando 4 orbitais híbridos, cada um voltado para a direção dos vértices de um tetraedro, formando assim a molécula de metano. Em termos de diagrama simplificado podemos escrever como mostrado na Figura 10. Sabemos que em um tetraedro o ângulo entre as liga- ções é de exatamente 109,5 graus. No caso de NH3, um dos orbitais híbridos está duplamente ocupado, por isso ele não se liga. Apenas três orbitais híbri- dos estão disponíveis para se super- porem ao orbital 1s do hidrogênio. Embora os orbitais híbridos se dispo- nham no espaço na forma de um tetrae- dro, a molécula de NH3 é uma piramide trigonal como mostrada na Figura 12. O par de elétrons está disposto na direção de um dos vértices do tetraedro. A molé- cula de H2O segue o mesmo raciocínio, ou seja, dois de seus orbitais híbridos estão duplamente ocupados, logo ape- nas dois orbitais sp3 estão disponíveis para interagir com os átomos de hidrogênio (veja Figura 10). A molécula, por isso, é angular. O ângulo entre as ligações H-O-H é por volta de 104,5 graus. Esta distorção em relação ao tetraedro perfeito deve-se ao fato de que os dois pares de elétrons não-ligantes ocupam um espaço maior do que se estivessem sendo compartilhados por dois átomos. Este fato leva a uma re- pulsão maior entre os pares não-ligantes e os pares compartilhados na ligação O-H, forçando a diminuição do ângulo de ligação. Naqueles átomos, cuja camada de valência apresenta orbitais d vazios, pode ocorrer a expansão do octeto e acomodar ao seu redor mais átomos que alguém poderia esperar em se tra- tando da regra do octeto. A partir da terceira linha da tabela periódica os ele- mentos podem sofrer a expansão do octeto, ou seja, elétrons são excitados para os orbitais d, e estes juntamente Ligações químicas Figura 10: Formação dos orbitais híbridos sp3 nos átomos de C, N e O. Figura 11: Formação dos orbitais híbridos sp3d e sp3d2 nos átomos de fósforo e enxofre, respectivamente. Figura 12. Exemplo de possíveis geometrias de algumas moléculas. 21 Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 4 – Maio 2001 com os orbitais s e p formam orbitais híbridos. Isto sempre ocorre em mo- léculas cujos átomos possuem mais de 4 ligações químicas. O PCl5 é um bom exemplo deste fato. O fósforo apresen- ta valência 3s23p3, apresentando apenas três elétrons desem- parelhados. Como o orbital 3d está vazio, este pode receber elé- trons para desempa- relhar 5 elétrons preparando orbitais para fazer ligação com os 5 átomos de cloro. Então temos o esquema da Figura 11. Deste modo o PCl5 tem geometria bipiramide trigonal, como mostrada na Figura 12. O átomo de nitrogênio está na mesma coluna do fósforo na tabela periódica e, conseqüentemente, tem a mesma configuração eletrônica de va- lência. No entanto, a molécula NCl5 não existe, pois o átomo de nitrogênio não sofre expansão do octeto pelo fato de não possuir orbitais d em sua camada de valência. Uma outra molécula interessante é o SF6, cujo átomo central sofre expan- são do octeto e forma orbitais híbridos sp3d2, levando a uma geometria octaé- drica. (Figura 12). Observe que molé- culas como o ICl5 e SF4 possuem par de elétrons não-ligantes que estarão ocupando um dos orbitais híbridos. Porém, diferentemente do que foi visto para o caso das moléculas NH3 e H2O, dependendo de qual orbital híbrido for ocupado pelo par não-ligante (PNL), temos uma estrutura molecular diferen- te. Neste caso, uma avaliação da interação eletrostática entre par de elé- trons não-ligante e par de elétrons li- gante deve ser realizada para verificar qual estrutura é mais estável. A estru- tura que possuir o menor número de interações par não-ligante - par não- ligante com ângulo de 90 graus é o mais estável, pois os pares não-ligante são mais volumosos, e por isso a repulsão eletrostática é maior. Em seguida, o que tiver menor número de interações a 90 graus do tipo par não- ligante - par ligante (PL) é a mais es- tável. De um modo geral temos que as interações entre pares de elétrons seguem a seqüência: PNL-PNL > PNL- PL > PL-PL. Em cálculos teóricos todas estas interações são automaticamente leva- das em conta. A geometria mais está- vel é sempre aquela cuja função de onda, seja ela TLV ou TOM, gera a menor energia total da molécula. Observa-se que a TLV gera naturalmente a estrutura de Lewis pa- ra as moléculas devi- do ao fato de se ba- sear no compartilha- mento de elétrons. A sua maior de- ficiência está no fato de não levar em conta o caráter iônico em uma ligação covalente. Mesmo assim, há sérias dificuldades em se tratar moléculas que apresentam elétrons desempa- relhados em seu estado fundamental, como, por exemplo, a molécula de O2. Esta molécula apresenta dois elétrons desemparelhados. A TOM prevê a formação desta molécula com dois orbitais pi degenerados. Estes orbitais pi são formados a partir da interação entre dois orbitais 2p dos átomos de oxigênio. Os orbitais pi são ocupados por apenas dois elétrons, que de acordo com a regra de Hund, vão estar desemparelhados. Ligação metálica Os metais são materiais formados por apenas um elemento e apresentam uma estrutura geométrica bem defi- nida. Desde a descoberta do elétron por Thompson em 1897, foram várias as tentativas de des- crever a estrutura ele- trônica dos metais. Uma das primeiras tentativas foi feita por Drude, em 1900. Em sua teoria, um metal era tratado como um gás uniforme de elé- trons. Drude aplicou a teoria cinética dos gases e obteve al- guns resultados ra- zoáveis para a época em relação à condu- ção térmica e elétrica do metal (Ashcroft & Mermen, 1976). Esta idéia de se utilizar um modelo tão simples está relacio- nada ao fato de que se acreditava que a boa condução elétrica dos metais era devido aos elétrons estarem livres. Este modelo foi logo refutado por não levar em conta as interações elétron-elétron e nem o potencial eletrostático devido aos núcleos atômicos. O fato do metal ser constituído de apenas um elemento leva-nos a pensar que a ligação metálica apresenta ca- ráter essencialmente covalente. Em princípio podemos imaginar uma mo- lécula constituída de alguns elementos metálicos onde outros elementos do metal vão sendo adicionados para for- mar o metal. Neste caso, o que aconte- ceria com os orbitais moleculares? Co- mo seriam os orbitais moleculares no limite da formação do metal? Para re- sponder a estas duas questões temos que invocar a teoria dos orbitaismole- culares e lembrar que dois orbitais atô- micos vão sempre formar dois orbitais moleculares: um ligante e outro antili- gante. Como no metal temos todos os orbitais atômicos com a mesma ener- Ligações químicas A geometria mais estável é sempre aquela cuja função de onda gera a menor energia total da molécula. Observa-se que a TLV gera naturalmente a estrutura de Lewis para as moléculas devido ao fato de se basear no compartilhamento de elétrons Figura 13: O esquema mostra como o aumento do número de orbitais atômicos participando da ligação química explica a liga- ção metálica e a densidade de estados. A estrutura que possuir o menor número de intera- ções par não-ligante - par não-ligante com ângulo de 90 graus é o mais estável, pois os pares não-ligante são mais volumosos, e por isso a repulsão eletrostática é maior 22 Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 4 – Maio 2001 gia e forma, então, por exemplo, em um agregado de 4 átomos teremos 4 orbitais dxy, cada um com um elétron, formando 4 orbitais moleculares, todos deslocalizados sobre os quatro áto- mos, haja visto que eles têm a mesma simetria (forma) e a mesma energia. Em um pedaço de metal que contenha 1 mol de átomos, em relação aos orbi- tais d, que corres- pondem aos orbitais de valência dos me- tais de transição, o equivalente a 5 x 6,02 x 1023 orbitais atômi- cos estariam en- volvidos na formação da ligação metálica. Um número equiva- lente de orbitais mo- leculares seria, con- seqüentemente, for- mado. Acontece que para um número tão grande de orbitais com energia muito próxima torna-se difícil distinguir cada orbital molecular. Passamos, então, a falar em banda, como se hou- vesse um contínuo de estados eletrô- nicos (orbitais moleculares) possíveis para os elétrons e, no limite, realmente o é. A Figura 13 mostra como o diagrama de orbitais moleculares fica na formação da ligação metálica. Em metais alcalinos a banda mais alta em energia é chamada de banda s, devido ao fato de que esta banda é constituída basicamente dos elétrons s da camada de valência dos átomos alcalinos. Pelo fato de que estes metais tem um potencial de ionização relati- vamente baixo em relação aos outros elementos da tabela periódica, os elé- trons nesta banda estão deslocali- zados, permitindo assim a sua fácil condução. Falamos em banda d, que corresponde àquela faixa de energia onde se encontram os estados devidos às interações dos orbitais d. Falamos também de densidade de estados co- mo sendo o número de estados em uma estreita faixa de energia. Em me- tais como o alumínio e o sódio, os esta- dos são tão deslocalizados que no limi- te dos estados ocupados ele segue a aproximação de um gás uniforme de elétrons, ou seja, a densidade de esta- dos é proporcional a ε1/2, onde ε é a energia do estado eletrônico. O estado Ligações químicas de mais alta energia ocupado é chama- do, no jargão da física do estado sólido, de energia de Fermi e é tomada como referência fazendo-a igual a zero. A energia de Fermi está relacionada à função de trabalho do metal, que por analogia podemos dizer que é o potencial de ionização do metal. Valores negativos da energia se refe- rem aos estados ocu- pados e os positivos aos estados não ocu- pados. À diferença en- tre a banda de valên- cia, próximo ao nível de Fermi, e a banda dos estados não ocupa- dos, chamamos de la- cuna de energia (en- ergy gap) e está rela- cionada a importantes propriedades dos me- tais, como por exemplo a conduti- vidade. Dependendo desta lacuna de energia, o metal é considerado con- dutor, semicondutor ou isolante. Quando, ao nível de Fermi, ocorre uma grande densidade de estados, se- guindo a regra de Hund, os elétrons tendem a ficar desemparelhados, e a superfície metálica passa a apresentar paramagnetismo. O paládio é um caso interessante, pois ele não apresenta paramagnetismo em seu estado fun- damental, mas devido ao fato de se ter gran- de densidade de esta- dos próximo ao nível de Fermi, a suscep- tibilidade magnética do paládio é muito grande. Basta dizer que um simples defei- to da estrutura crista- lina do Pd, ou impu- rezas, é suficiente para tornar o metal paramagnético, ou seja, desemparelhar os elétrons. Na física do estado sólido, vários métodos são usados para tratar siste- mas metálicos. Alguns deles partem do modelo de que os elétrons estão livres e se movimentam em um potencial da- do pelos núcleos dos átomos metáli- cos. Dada a grande dimensão do siste- ma, o método do Funcional de Densi- dade é normalmente usado, ou a sua aproximação chamada de método Xα. Nestes métodos a variável básica é a densidade eletrônica ao invés da função de onda, que é muito mais complexa, pois leva em conta explicitamente as coordenadas espaciais e de spin para cada elétron do sistema. Este método baseia-se no princípio de que a energia total de um sistema é um funcional da densidade eletrônica3 . No entanto, o funcional exato da energia não é ainda conhecido, e aproximações são usadas. Esta é uma área que tem sido intensa- mente estudada pelos físicos e químicos teóricos na tentativa de obter funcionais cada vez mais exatos. Ligação química Nesta seção refletimos um pouco so- bre o que é ligação química no sentido mais amplo da palavra. De um modo geral uma molécula deve ser definida como sendo um ente capaz de ser caracterizado por métodos experimen- tais tais como espectroscopia, difração de raio-X, análise química via úmida ou seca tradicional. Toda interação entre dois átomos, agregados de átomos ou moléculas que leva a um estado de equi- líbrio, e conseqüentemente estável em relação ao tempo relativamente longo também deve ser considerada como uma ligação química. Em outras pala- vras, ligação química leva sempre a um abai- xamento da energia do sistema, estabilizando- o4. Esta interação pode ser mais fraca ou mais forte dependendo das forças envolvidas. Quando dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio interagem en- tre si para formar a molécula de água em fase gasosa, ou seja, que pode ser consi- derada isolada, dizemos que houve a formação da ligação covalente H-O-H. Porém, duas destas moléculas podem se encontrar para formar um agregado ligado por interações devido a ligações de hidrogênio e eletrostáticas, devido aos dipolos da molécula H2O. Este agregado também é uma molécula. Porém, como as forças envolvidas são Densidade de estados é o número de estados em uma estreita faixa de energia. Em metais como o alumínio e o sódio, os estados são tão deslocalizados que no limite dos estados ocupados ele segue a aproximação de um gás uniforme de elétrons O estado de mais alta energia ocupado é chamado, no jargão da física do estado sólido, de energia de Fermi e é tomada como referência fazendo-a igual a zero. A energia de Fermi está relacionada à função de trabalho do metal, que por analogia podemos dizer que é o potencial de ionização do metal 23 Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola N° 4 – Maio 2001 Leitura recomendada ASHCROFT, N.W.; MERMIN, N.D. Solid state physics Nova Iorque: Saun- ders College Publishing, 1976. BARROS, H.L.C. Química inorgânica, uma introdução. Belo Horizonte: SE- GRAC, 1995. DUARTE, H.A. Química Nova, 2001, no prelo. HUHEEY, J.E. Inorganic Chemistry , Nova Iorque: HarperCollins Publishers, 1983. LEVINE, I.N. Quantum Chemistry Englewood Cliffs: Prentice Hall, 1991. MCQUARRIE, D.A. Quantum Chemis- try Mill Valley: University Science Books, 1983. Ligações químicas bem mais fracas que a ligação covalen- te, elas podem se dissociar mais facil- mente nas duas moléculas de água. Quando olhamos para o meio conden- sado com uma ‘lupa’ (in loco), por exemplo o líquido água,será muito difícil distinguir as moléculas de H2O. As interações de dipolo-dipolo e ligações de hidrogênio irão ofuscar a nossa idéia do que é água líquida. Esta dificuldade deve-se ao fato de que a nossa per- cepção do mundo é estática, e a química, como de um modo geral a natureza, é antes de mais nada dinâ- mica. Mesmo em sistemas em equilíbrio, dizemos que ocorre equilíbrio dinâmico, ou seja, ao nível microscópico há sempre mudanças ocorrendo, porém em nosso mundo macroscópico perce- bemos apenas uma média de todos esses processos. Felizmente, muito dos processos que estudamos na química podem ser facilmente desacoplados de outros processos considerados dinâmi- cos. A ligação química da qual tratamos aqui envolve uma energia de ligação grande, o que impede que as liga- ções sejam modifica- das em uma escala de tempo curta. Logo a nossa aproximação da formação de uma liga- ção estática é, para to- dos os propósitos, plausível. Não deve- mos esquecer, porém, que no líquido puro temos 10-7 mol/L de H+ e OH- que estão sendo formados e consumidos conti- nuamente, ou seja, há quebra da liga- ção H-O-H em quantidades pequenas, mas existentes. Se olharmos para a água na nossa temperatura ambiente, observaremos que as ligações mais fra- cas, tais como ligações de hidrogênio, estão sendo rompidas e formadas continuamente em relação a nossa escala de tempo: há uma agitação tér- mica. Por isso, dizemos que o líquido água é formado essencialmente de moléculas H2O, pois elas são entidades que podemos distinguir. Quando abaixa- mos a temperatura ao ponto de congela- mento da água, então as interações mais fracas passam a ser importantes e o líquido se cristaliza de forma a maximizar a formação de ligações de hidrogênio. Resta então a questão: o cubo de gelo formado é uma molécula ou um composto de várias moléculas de H2O ligadas por ligações fracas? Tudo vai depender da definição que fazemos de molécula. As ligações químicas iônica, cova- lente e metálica são as mais fortes que existem e normalmente definem a forma- ção de moléculas. Na catálise, que tem grande interes- se tecnológico, procuramos sempre uma forma de quebrar ligações cova- lentes ou iônicas com um custo ener- gético menor, ou seja, diminuindo o custo de produção. As refinarias de petróleo utilizam maciçamente cataliza- dores a base de zeólitas para fazer o craqueamento do óleo cru. O petróleo é normalmente constituído de alcanos de cadeias longas e os catalizadores levam à quebra destas cadeias, que de- pois são separadas por destilação em frações que consistem na gasolina, diesel, óleo combustível e outros. Muitos catali- sadores são baseados nos metais nobres co- mo Pd, Rh e Ru. O processo catalítico consiste, na maior par- te das vezes, no fato de que quando um composto interage co- m o metal, este doa elétrons populando os orbitais antiligantes, facilitando assim a quebra de suas ligações químicas. Esta é uma área de intensa pesquisa na área de química ex- perimental e crescente na área de química teórica. Afinal pouco se sabe ainda do mecanismo e da natureza destas reações a nível molecular. Uma outra área a ser relacionada são as reações fotoinduzidas. Basicamente, consiste no fato de que quando um elétron recebe um fóton com energia bem definida, este é excitado para orbitais antiligantes enfraquecendo assim a ligação química, levando até mesmo à sua ruptura. Embora as ligações covalentes se- jam as mais fortes, também deve ser dada atenção para as interações mais fracas (discutidas no artigo de interações Quando olhamos para o meio condensado com uma ‘lupa’ (in loco), por exemplo o líquido água, será muito difícil distinguir as moléculas de H 2 O. Esta dificuldade deve-se ao fato de que a nossa percepção do mundo é estática, e a química, como de um modo geral a natureza, é antes de mais nada dinâmica moleculares), pois elas apresentam flexibilidade suficiente para que proces- sos importantes sejam realizados. A estrutura na forma de hélice das proteí- nas, que em última análise garante a formação da vida, é sustentada por ligações de hidrogênio. O alto ponto de fusão da água e o seu papel no controle da temperatura na Terra é devi- do em grande parte a estas interações fracas. Enfim, cabe a nós químicos analisar cada propriedade, cada siste- ma e cada processo, com a devida cautela, com as ferramentas corretas, sem esquecer do todo, ou seja, de que tudo é química. Hélio A. Duarte (duarteh@netuno.qui.ufmg.br), doutor em química teórica, é professor no Departamento de Química da Universidade Federal de Minas Gerais. Notas 1. Em relação a este ítem, Pearson, em 1987, sugeriu o princípio da dureza máxima (η), que é aproximado pela equação η = I - A. Os conceitos de potencial químico e dureza são apre- sentados em detalhe no artigo de re- visão de DUARTE, H.A. Química Nova, 2001, no prelo (sobre Pearson, ver Ref. 37) 2. Matematicamente dizemos que o valor esperado da energia total do sistema é invariante com relação a transformações unitárias da função de onda. 3. Quando F = F(g) e g = g(x), dizemos que F é um funcional de g. 4. Em outras palavras, dizemos que há um mínimo na superfície de energia potencial. O Conceito de HibridizaçãoQUÍMICA NOVA NA ESCOLA N° 28, MAIO 2008 24 Recebido em 10/10/06, aceito em 7/3/08 Joanna Maria Ramos, Antônio Orlando Izolani, Claudio Alberto Téllez e Maria Josefa Gomes dos SantosDiscute-se no seguinte artigo as formas de apresentar o conceito de “hibridização” em diferentes textos de química geral de uso universitário. Conclui-se que nenhum dos exemplos é satisfatório, porquanto o enfoque é superficial e não explica as razões conceituais e experimentais que levaram à formulação de dito conceito. No artigo, apresentam-se os argumentos consistentes que conduzem à definição mais formal e completa do conceito de hibridização. orbitais atômicos, hibridização, modelo conceitual O Conceito de Hibridização P elo fato de o conceito de hi-bridização ser apresentado em diferentes textos de ensino universitário com enfoques diferentes, incompleto e sem a profundidade ne-cessária para seu total entendimento – e muitas vezes com a aparência de mero recurso de memorização, usando um modelo atômico estático –, temos como objetivo na seguinte discussão sobre o conceito de hibri-dização apresentá-lo de forma mais abrangente, indicando os pontos controvertidos e/ou omissos nos textos universitários.O uso de recursos gráficos – tais como usar gaiolas em ordem, tantos quanto o número quântico principal indica para a camada eletrônica – conduz à apresentação de um modelo estático de átomo com elétrons orbi-tais (modelo de N. Bohr), resultando a hibridização numa mera acomodação do elétron numa outra posição dentro do esquema das gaiolas. A apresenta-ção do conceito dessa forma não está de acordo com o modelo mecânico-quântico, cuja característica principal é o dinamismo do sistema atômico.Os textos escolhidos para a aná-lise do conceito de hibridização são de uso comum nas universidades brasileiras. A escolha de outros textos de Química Geral não foi necessária, porquanto em todos eles se notou a mesma metodologia para a apresen-tação do conceito. Distribuição eletrônicaA idéia do conceito de hibridização, que nos foi entregue pelos autores de grande parte dos textos de química geral, tem, como no caso do conceito de orbital, um abuso invocando fins didáticos que distorcem o verdadeiro sentido do conceito. Para ilustrar a idéia da distribuição eletrônica, veja-mos, por exemplo, os modelos de dia-gramas, tais como casas separadas acomodando dois elétrons em cada uma delas, seguindo os princípios de Hund e Pauli. No texto Introdução à Química Geral de Olhweiler (1978, p. 110), encontra-se o vício da simplifica-ção para articular o modelo de casas com elétrons como, por exemplo, para o oxigênio,a configuração eletrônica é: 1s2 2s2 2p4, no qual os quatro elétrons 2p podem distribuir-se aleatoriamente nos orbitais 2px, 2py e 2pz. O modelo apresentado por Ohlweiler (1978) é apresentado na Figura 1. Brady e Humiston (1994), no seu texto de Química Geral (p. 165), colo-ca a estrutura eletrônica da camada do oxigênio conforme a Figura 2. O mesmo diagrama é apresentado no texto de Química Geral Superior de Masterton e Slowinski (1990, p. 214).Ao compararmos o mesmo mo-delo apresentado por diferentes autores, podemos perguntar: já que cada orbital aceita dois elétrons com spins opostos, por que no átomo de oxigênio os elétrons não emparelha- Figura 1: Diagrama de flechas para preenchimento de elétrons nos orbitais s e p de acordo com Ohlweiler (1978). Figura 2: Diagrama de flechas para preenchimento de elétrons nos orbitais s e p de acordo com Brady e Humiston (1994). O Conceito de HibridizaçãoQUÍMICA NOVA NA ESCOLA N° 28, MAIO 2008 25 dos apresentam a distribuição dos spins opostos em posições distintas? E ainda, por que, no modelo apre-sentado por Olhweiler (1978), o par de elétrons compartilhado no orbital 2p cai no 2px? Por que não no 2py ou 2pz? Esses orbitais não são por acaso equivalentes no espaço? Existe alguma razão para a preferência pelo orbital 2px?Nos modelos de Brady e Humiston (1994) e naquele de Masterton e Slo-winski (1990), essa dificuldade é omitida, e podemos supor que os autores pensaram que cada um dos orbitais 2px, 2py e 2pz tem a mesma probabilidade de se-rem preenchidos de acordo a regra de Hund.Em princípio, podemos aceitar esse tipo de simplificação, mas de-vemos alertar o estudante da falha que eles trazem. Quando essas idéias são apresentadas de forma rígida, sem discussão, devemos pensar também que, além de não sabermos responder por que a diferença no posicionamento do spin dos elétrons entre uns e outros autores, não deve-mos considerar a ocupação no orbital 2px como o sítio preferencial para a ocupação dos elétrons nos orbitais p. Também devemos refletir que existe uma tendência no próprio modelo (tal como no modelo de Lewis) de manter os elétrons engaiolados, distorcendo assim a característica fundamental da sua dinâmica. HibridizaçãoO conceito de hibridização foi explicado pelo professor Ohlweiler (1978, p. 110) no texto Introdução à Química Geral mostrando que o áto-mo de carbono é tetravelente, pois se encontra excitado, e por esse motivo deve transferir um dos seus elétrons para o orbital p vazio. Por sua vez o professor Pauling (1972, p. 246) intro-duz o conceito de hibridização mos-trando que ele é possível por meio da combinação linear entre os orbitais s e p do carbono de forma a obter ligações mais fortes que as ligações simples entre um orbital s e um orbital p, sem considerar a hibridização, e representa a hibridização sp3 como a combinação linear das funções de ondas dos orbitais (Equação 1). Ψ = a ϕs + b ϕpx + c ϕpy + d ϕpz Eq. 1A ilustração de Masterton e Slowinski no seu texto de Quí-mica Geral (1990, p. 186) é: orbitais sp3. O fato de o átomo de carbono formar quatro ligações co-valentes poderá ser explicado considerando que, antes da reação, um dos elétrons 2s é promo-vido ao subnível 2p (Figura 3). Agora que o átomo de carbono tem quatro elétrons desemparelha-dos, ele pode formar quatro ligações covalentes, compartilhando elétrons com outros átomos (Figura 4) tais como os de hidrogênio. A versão de Bueno e colabora-dores (1981) no texto Química Geral (p. 125) é a seguinte: “por exemplo, o átomo de carbono tem a seguinte estrutura eletrônica: 1s2 2s2 2px1 2py1 2pz0. Esta estrutura admite que o metileno (CH2) deveria ser estável, enquanto o metano (CH4) teria liga-ções CH com energias diferentes entre si. Estes fatos não ocorrem normalmente, mas, se um elétron do nível 2s é promovido ao nível 2p vazio, tem-se uma reorganização destes orbitais formando quatro orbitais de uma mesma energia”.A versão de Coulson (1953) no seu texto Valence (p. 237) é a seguinte: “o estado mais baixo do carbono é 1s2 2s2 2px1 2py1, o qual tem dois elétrons não compartilhados e é des-crito espectroscópicamente como um triplete 3P . Tal átomo de carbono seria divalente, com ângulo entre as ligações, semelhante ao ângulo encontrado na molécula de água. A única forma de obter a tetravalência é excitar o átomo, tomando um dos elétrons 2s e levando-o ao orbital 2pz totalmente vazio, para dar 1s2 2s2 2px1 2py1 2pz1, temos então quatro elétrons não compartilhados, isto é, um estado 5S. A energia para tal excitação está ao redor de 96 Kcal/mol, existindo acordo entre o cálculo e o experimento”.Com esse tipo de excitação, con-seguimos quatro elétrons desempa-relhados, mas não obtemos quatro tipos de orbitais idênticos para cada elétron. Três deles são do tipo p e o outro é do tipo s. Já que os orbitais p possuem caráter direcional, e no orbi-tal s essa característica está ausente, obtemos um ângulo de 90° para as ligações p-p, e um ângulo de 125º, 14’ para as ligações s-p.Esse tipo de estrutura geométrica é incongruente para o caso particular do CH4. Experimentalmente tem-se demonstrado que, entre as quatro ligações do átomo central de carbo-no, existe um ângulo de 109º 28´. Esse tipo de evidência conduz a pensar em uma mistura dos orbitais p e s, criando o conceito de orbitais “híbridos”. No caso do metano, essa mistura inclui um orbital s e três orbi-tais p, denominando-se comumente hibridização sp3.Wiberg, no seu texto Physical Organic Chemistry (1964, p. 169), faz menção aos artigos de Pauling (1928; 1931) e de Slater (1931) e proporciona na discussão a mesma argumentação de Coulson (1953), acrescentada de um tratamento matemático mais rigoroso. Segundo Pauling e Slater, a natureza da ligação química observada no CH4 pode explicar-se supondo que os orbitais híbridos podem ser formados por O conceito de hibridização é apresentado muitas vezes com enfoques diferentes, incompleto e sem a profundidade necessária para seu total entendimento. Figura 3: Um dos elétrons 2s é promovido ao subnível 2p, de acordo com Masterton e Slowinsky (1990). Figura 4: Formação de quatro ligações covalentes compartilhando elétrons com outros átomos, de acordo com Masterton e Slowinsky (1990). As retas tracejadas indicam os elétrons fornecidos pelo hidrogênio. O Conceito de HibridizaçãoQUÍMICA NOVA NA ESCOLA N° 28, MAIO 2008 26 meio de combinações lineares entre os orbitais s e p. Esses orbitais po-dem ser descritos como: Ψ1 = a1 s + b1 px + c1 py + d1 pz Eq. 2a Ψ2 = a2 s + b2 px + c2 py + d2 pz Eq. 2b Ψ3 = a3 s + b3 px + c3 py + d3 pz Eq. 2c Ψ4 = a4 s + b4 px + c4 py + d4 pz Eq. 2dAs contribuições dos caracteres s e p ao orbital híbrido são de ¼ e ¾ respectivamente.Temos uma relação geométrica entre esses orbitais híbridos. A parte s não tem efeito sobre a geometria por ser totalmente esférica – a direcionalidade invocada por Coul-son, (1953) – e Ψ1 contém a soma de três orbitais p. Qual-quer ponto sobre o eixo do orbital descrito por Ψ1 será eqüidistante dos eixos +x, +y e +z. Similarmente, para Ψ2, um ponto sobre o eixo do orbital será eqüidistante de +x, -y, e –z etc. Isso pode ser visualizado consideran-do que, no centro de um cubo, está a origem dos eixos coordenados. Direcionando os orbitais, obtemos, então, uma distribuição tetraédrica para os orbitais híbridos sp3, ilustrada na Figura 5. Vejamos se já podemos tirar al-guma conclusão do que foi visto até agora. De Ohlweiler (1978), podemos concluir que existe certo grau de concordância com os outros autores, quando manifesta a noção de orbital híbrido introduzido por L. Pauling. Notamos, porém, alguns pontos obscuros e discutíveis: a) os elétrons s não são transferidos para orbitais p; b) a função de onda Ψ = a ϕs + b ϕpx + c ϕpy + d ϕpz implica só uma das componentes para o orbital híbrido; c) não temos condições ou restrições aos coeficientes a, b, c e d.Masterton e Slowinski (1990), ao explicarem a hibridização, põem em manifesto a idéia de uma reação químicacomo meio de ter o átomo de carbono em um estado excitado. Aqui, o conceito de átomo excitado está mais bem colocado que no caso de Ohlweiler (1978). Os pontos discutíveis são: a) os elétrons não são promovidos ao nível 2p; b) o es-quema dos elétrons em gaiolas ou celas não ilustra o orbital híbrido e não explica a hibridização.Por seu lado, Bue-no e colaboradores (1981) manifestam idéias de razão estrutural e ener-gética; promove elétrons como os outros autores; e novamente não distinguimos o porquê de os orbitais 2px e 2py predominarem perante o orbital 2pz para serem preenchidos com elétrons.De Coulson (1953), concluímos que as razões energética, espectros-cópica e geométrica impossibilita aos orbitais híbridos do carbono terem uma estrutura diferente que a de uma orientação espacial tetraédrica. Como no caso dos outros autores, dá preferência aos orbitais 2px e 2pz para serem preenchidos com elétrons.A versão de Wi-berg (1964) é a mais rigorosa. Além das razões energética, espectroscópica e geométrica, apon-ta a argumentação matemática de Pau-ling e Slater. Usa lamentavelmente o termo promovido ao se referir a um rearranjo de elétrons diferente ao do estado de equilíbrio.Admitimos nesta discussão como lógicos os argumentos energéticos, espectroscópicos, geométricos e matemáticos dados por Coulson (1953) e Wiberg (1964) – adotados parcialmente pelos outros autores citados – e que traduzem as idéias de Pauling e Slater. Faltaria explicar o caso no qual o átomo de carbono assume a sua potencialidade tetra-valente, quando está frente a algum tipo de excitação de tipo externo. Por exemplo, frente à presença de um campo que perturbe o seu sistema de equilíbrio fundamental. Essa idéia foi descrita por Masterton e Slowinski (1990) quando falaram de reação química (entre outros autores) no seu texto de Química Geral. Pensamos, então, que a presença do fator per-turbação induz ao átomo de carbono a possuir um estado energético, cuja descrição no âmbito da teoria é feita por meio de uma função de onda “or-bital híbrido”. Para diferentes graus de excitação, teremos diferentes formas de distribuir essa tetravalência. E a cada uma dessas formas correspon-derão orbitais híbridos diferentes, que são: sp3, sp2 e sp.Finalmente, quando criticamos o fato da “promoção de elétrons”, o fazemos no sentido de alertar que a imagem projetada é a de elétrons “pulantes”, e que está em contradição com a característica de movimentos oscilatórios do elétron, em que, em um movimento ondulatório com maior comprimento de onda, se pode atingir estados de energia mais elevados. E também ao fato de que a densidade da probabilidade, na qual os elétrons podem tomar outros limites, está fora da densidade de probabilidade de equilíbrio. A idéia de salto de elétron traduz uma trajetó-ria retilínea, o que é proibido na mecâni-ca quântica. Como um todo, o átomo pode adquirir qual-quer um dos seus estados energéticos possíveis. O elétron “pulante” dá a idéia de corte (ou ampu-tação) de uma parte do conjunto, sendo que todo o sistema é aquele que sofre a perturbação e não só uma parte dele. Demos também outro sentido a essa última frase dizendo que os estados energéticos que se O motivo energético, espectroscópico e geométrico impossibilita aos orbitais híbridos do carbono terem uma estrutura diferente que a de uma orientação espacial tetraédrica. Existe certo grau de concordância de alguns autores quando manifestam a noção de orbital híbrido introduzido por Pauling. Figura 5: Relação entre as diferentes funções de onda sp3. O Conceito de HibridizaçãoQUÍMICA NOVA NA ESCOLA N° 28, MAIO 2008 27 conhecem comumente nos átomos denominam-se orbitais, e os trânsitos eletrônicos devidos à perturbação do sistema conduzem ao posicionamen-to eletrônico diferente ao da situação de equilíbrio. Existem também no áto-mo os estados energéticos híbridos de elevada instabilidade e que são espectroscopicamente observados. Esses estados se estabilizam na formação da ligação química com a participação de outros átomos.Como comentário final, queremos indicar que no transcurso da discus-são usamos a palavra “orbital” no sentido de que o leitor está familiariza-do com ela e com o significado desse conceito. Os orbitais, no sentido matemático, são as representações gráficas das funções de onda. O leitor pode encontrar as equações matemáticas que representam tais funções nos texto de físico-química de Atkins e de Paula (2004, p. 415) ou no de mecânica-quântica de Hanna (1966, p. 182). AgradecimentosJ. M. Ramos e C. Téllez agradecem ao CNPq pelas bolsas recebidas. Abstract: The Hybridization Concept. In the present paper we discuss the different ways to introduce the hybridization concept which are given in several universitary texts of general chemistry. We conclude that there is not an appropriate position to introduce this concept which appears to be superfluous, and the authors of the general chemistry texts do not explain which ideas and/or experimental and theoretical results constitute the conceptual basis to introduce the concepts of hybridization. In this paper we present a consistent argument necessary to carry out a more complete and formal conceptualization of hybridization. Keywords: atomic orbital, hybridization, conceptual models ReferênciasATKINS, P. e DE PAULA, J. Físico-Química. v. 2. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 2004.BRADY, J.E. e HUMISTON, G.E. Química Geral. 2 ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1994.BUENO, W.A.; BOATS, J.F.C.; DE-GREVE, L.; LEONE, F.A. Química Geral. São Paulo: McGraw-Hill. 1981.COULSON, C.A. Valence. Oxford: Oxford University Press, 1953.HANNA, M.W. Quantum Mechanics in Chemistry. New York: W. A. Benjamin. 1966.MASTERTON, W.L.; SLOWINSKI, J. Princípios de Química. 6 ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1990.OHLWEILER, O.A . Introdução à Química Geral. Porto Alegre: Globo, 1978.PAULING, L. Química Geral. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1972.PAULING, L. The nature of the chemi-cal bond: Application and results ob-tained from the quantum mechanics and from a theory of paramagnetic sus-ceptibility to the structure of molecules. Journal American Chemical Society. v. 53, p. 367, 1931.SLATER, J.C. Directed Valence in Polyatomic Molecules. Physical Review. v. 37, 481, 1931.WIBERG, K.B. Physical Organic Chem-istry. New York: Wiley, 1964. Para saber maisPESSOA JR.,O. A Representação Pictórica de Entidades Quânticas da Química. Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola, v. 7, p. 25-33, 2007. Joanna Maria Ramos (joannamaria@uol.com.br), mestre em Química pela UFF, doutoranda em Química Inorgânica pela PUC-Rio. Pontifícia Uni-versidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio. Antônio Orlando Izolani (antonio.izolani@uss.br), mestre em Química pela PUC-Rio, doutor em Geo-química pela UFF, é professor da Universidade Sev-erino Sombra, Vassouras-RJ. Maria Josefa Gomes dos Santos (claudiogiron@bol.com.br), doutora em Química, professora da Universidade Estadual de Londrina – UEL. Claudio Alberto Téllez (tellez@vm.uff.br), mestre em Filosofia com menção em Química pela Universidade de Chile (UCh), dou-tor em Ciências Naturais pela Universidade de Dortmund, Alemanha, é professor de Química Inorgânica na UFF. NotaO Ministério da Educação lançou neste ano o Portal do Pro-fessor, um novo espaço de colaboração que ajudará o professor a enriquecer suas aulas. Neste portal eletrônico, o professor encontra sugestões de aulas, discussões de temas ligados à educação, recursos educacionais multimídia (arquivos de áudio, vídeo e imagens, animações, simulações, experimentos e mapas), cursos, materiais de estudo para o professor, chats, fóruns e blogs e links para bibliotecas, dicionários, museus, entre outros. Estão sendo formados cerca de 20 mil professores em alfabetização digital e este número deve chegar a 250 mil nos próximos 3 anos.Acesse o portal do professor por:http://portaldoprofessor.mec.gov.brLuciana Caixeta BarbozaGerente editorial de QNEsc 32 QUÍMICANOVA NA ESCOLA Aston e os Isótopos N° 10, NOVEMBRO 1999 HISTÓRIA DA QUÍMICA O s resultados de uma recente pesquisa realizada por nós entre estudantes do ensino médio, assim como entre estudantes universitários de química e de física, revelaram um enorme desencontro entre suas compreensões da teoria atômica e suas distintas capacidades de enunciar o conceito de isótopos1. Ainda que os detalhes daquela pes- quisa sejam extensos demais para se- rem discutidos no escopo deste artigo, ao menos um resultado merece ser comentado. Parcela representativa dos entrevistados demonstrou acreditar que átomos de um mesmo elemento têm masas iguais. Quando questiona- dos sobre a conceituação dos isóto- pos, uma parte não soube o que responder. Dentre os que forneceram respostas aceitáveis para aquele con- ceito, a quase totalidade não chegou a perceber o desencontro entre a con- ceituação apresentada e a crença em algo extremamente semelhante ao se- gundo postulado de Dalton para a teoria atômica. Esse desencontro revela-nos o quanto a idéia revolucionária da exis- tência de isótopos na natureza é ensi- nada de modo descontextualizado da história de sua construção. Ignorando as dificuldades e as disputas travadas ao longo da história, o conteúdo pare- ce ser apresentado de modo assép- tico, desprovido de significado para o Aston e a descoberta dos isótopos Alexandre Medeiros A descoberta dos isótopos foi decisiva na história da ciência, servindo para definir conceitos importantes para a química e para a física na primeira metade deste século. O trabalho de Aston foi dos mais significativos e é central na história da construção do conhecimento, por isso seu destaque nesta seção de Química Nova na Escola. Aston, espectrógrafo de massa, isótopos estudante. O intuito deste artigo é oferecer um pequeno resgate histórico da cons- trução do conceito de isótopos que possa vir a ser útil aos interessados na problemática da construção das idéias cientí- ficas. Afinal, como afirmou W e i n b e r g (1990, p. 82), Prêmio Nobel de Física de 1979: “ne- nhuma dis- cussão dos pesos atômi- cos estaria c o m p l e t a sem um rela- to de como nossa moderna compreensão dos isó- topos veio a se desenvolver”2. A trajetória inicial de Aston Francis William Aston ganhou o Prêmio Nobel de Química em 1922 pela descoberta, realizada em 1919, de isótopos de grande número de ele- mentos não-radioativos, assim como pelo enunciado da regra do número inteiro — a afirmação de que todos os isótopos têm números massas atô- micas relativas muito próximas de números inteiros em relação ao 16O (ou como diríamos hoje, em relação ao 12C). Aston utilizou, para isso, um novo instrumento, por ele mesmo construí- do: o espectrógrafo de massa. É importante assinalar, no entanto, que Aston não foi o primeiro a utilizar o conceito de isótopo, mas sim o primei- ro a estabelecer evidências convincen- tes de que tal conceito não se restringia aos elementos radioativos, ou seja, que a existência dos isótopos era mais uma regra que uma exceção. Por outro lado, essa não foi uma descoberta for- tuita ou casual, produto de algum feliz acidente histórico, como freqüente- mente são caricaturadas as desco- bertas científicas. Não estamos afirmando com isso a inexistência da ca- sualidade nas descobertas científicas, mas apenas ressal- tando que para que uma tal casualidade possa vir a ter significado é preciso que o cientista tenha uma carga teó- rica apropriada. Como afir- maram Watson e Crick, ao receberem o Prêmio Nobel pela descoberta do DNA: “nós descobrimos ouro tateando, mas era ouro o que estávamos procurando”. De modo análo- go, também, Alexandre Fleming, descobridor da penicilina, afirmou certa vez que: “o espírito despreparado não vê a mão que a sorte lhe oferece”. Nesse sentido, a contribuição de Aston para a descoberta dos isótopos não-radioativos corresponde a um esforço planejado e à busca de uma solução para uma disputa travada, à época, no seio da ciência, a respeito da inexatidão dos valores dos então denominados pesos atômicos dos ele- mentos. Recuemos, portanto, um pou- co no tempo para que possamos com- preender melhor a origem e a própria Aston não foi o primeiro a utilizar o conceito de isótopo, mas sim o primeiro a estabelecer evidências convincentes de que tal conceito não se restringia aos elementos radioativos, ou seja, que a existência dos isótopos era mais uma regra que uma exceção 33 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA Aston e os Isótopos N° 10, NOVEMBRO 1999 natureza dessa mencionada disputa, assim como a maneira pela qual Aston veio a inserir-se na mesma. Aston nasceu em 1877 em Harbor- ne, no condado de Birmingham, na Inglaterra. Estudou na escola paroquial local e posteriormente na Malvern School, onde o seu interesse pelo estudo da ciência pa- rece ter sido desper- tado, chegando mes- mo a montar um pe- queno ‘laboratório com sucatas’ na fazenda de seu pai. Em 1894 ingressou no Mason College, que logo depois viria a se transformar na Univer- sidade de Birmin- gham. Lá estudou quí- mica com Frankland e física com Poynting, que viriam a orientar as suas primeiras pesquisas. Edward Frankland, ex-aluno de Robert Bunsen, havia se notabilizado pelos seus trabalhos na teoria dos equivalentes químicos, pela descober- ta dos compostos organometálicos e principalmente pela descoberta do ele- mento hélio, no Sol, uma conseqüência de seus estudos na nascente ciência da espectroscopia. Frankland era ain- da um entusiasta das aplicações da química no estudo dos alimentos, na análise das águas, na purificação de esgotos e na prevenção da poluição da água. Aston iniciou suas pesquisas em espectroscopia após ganhar uma bol- sa de estudos em 1898, estudando sob a orientação de Frankland as pro- priedades óticas dos derivados do ácido tartárico. Após terminar sua graduação, abandonou a vida acadê- mica por três anos, dedicando-se a tra- balhar como químico no laboratório de uma cervejaria. Ali, interessou-se pelos dispositivos mecânicos de evacuação de recipientes, o que o levou ao desenvolvimento de novos tipos de bombas de vácuo. Os trabalhos com a tecnologia do vácuo o aproximaram novamente da vida acadêmica, pas- sando a interessar-se pelo estudo, então dominante na química, dos fenômenos resultantes das descargas elétricas em tubos com gases rare- feitos. Retornou então, em 1903, com uma nova bolsa de estudos, para a já denominada Univer- sidade de Birmin- gham. Seu intuito era investigar, sob a orien- tação de Poynting, as propriedades do “es- paço escuro de Cro- okes”, uma região sem luminosidade que aparecia na traje- tória dos raios cató- dicos durante as des- cargas nos tubos de Crookes. Aston obte- ve evidências que cor- roboraram a expli- cação dada por sir J.J. Thomson de que o referido espaço escu- ro era uma região de partículas positivas movendo-se em direção ao cátodo. Como conseqüência de tais estudos, descobriu ainda um outro espaço escuro, quase imperceptível, próximo ao cátodo, que viria a ser denominado “espaço escuro de Aston”. No final de 1909 foi convidado por Thomson, en- tão já uma celebridade, para trabalhar como seu assistente nos laboratórios Cavendish, na Universidade de Cam- bridge, em um estudo sobre os raios canais, ou raios positivos. É nesse período, até o início da Primeira Guer- ra Mundial, em 1914, que Aston encon- trou evidências da existência de dois isótopos do neônio. Como começaram, no entanto, os estudos sobre a existência dos isó- topos? E como veio Aston a inserir-se numa tradição de pesquisas — e dis- putas — já existentes, àquela época, sobre esse tema? A polêmica sobre o segundo postulado de Dalton Nossa história pode ser reconsti- tuída, em boa parte, com base nos pró- prios escritos de Aston, comoo traba- lho por ele publicado na revista Nature, no início do século, intitulado “Isotopes and atomic weights” (“Isótopos e pe- sos atômicos”), assim como no discur- so de apresentação do Prêmio Nobel de Química de 1922. Acompanhar tal história pode fornecer ao professor uma visão mais ampla para enfocar as próprias dificuldades encontradas por seus alunos na utilização da idéia da existência de isótopos. Aston lembra-nos que o segundo postulado da teoria atômica, enuncia- do por Dalton em 1801, estabelecia que: “átomos de um mesmo elemento são semelhantes uns aos outros e iguais em peso”. Por mais de um sé- culo essa concepção foi hegemônica entre os atomistas e, embora tenha sido superada devido aos trabalhos de Aston, parece muito semelhante às idéias freqüentemente encontradas entre estudantes, segundo dados de nossas próprias pesquisas. Se isso é um fato, conhecer um pouco do ca- minho que levou a seu abandono pode ser de alguma utilidade para os pro- fessores. Apesar de o segundo postulado de Dalton ter sido aceito pelos atomistas, no século XIX, como algo dogmático, uma série de dificuldades, origina- riamente não relacionadas ao mesmo, foram sendo acumuladas. A questão ligava-se à inexplicável variação dos valores determinados experimental- mente para os pesos atômicos dos ele- mentos. Por maior que fosse o rigor experimental adotado, algo que de início parecia fruto de simples erros nas medições insistia em manter-se inalte- rável. A questão não poderia ser resol- vida simplesmente com medições mais acuradas — era necessária uma autêntica mudança conceitual, uma nova maneira de interpretar os dados das observações experimentais. Em outras palavras, o problema estava na teoria que conferia significado aos da- dos experimentais coletados. Munidos da crença no segundo postulado de Dalton, a maior parte dos químicos e físicos do século XIX tentou justificar os desencontros nas determinações experimentais dos valores dos pesos atômicos de um mesmo elemento por meio de fórmulas estatísticas que dessem conta daquelas flutuações. As observações, carregadas da teoria vi- gente à época, indicavam exatamente que os valores dos pesos atômicos de um mesmo elemento — por pressu- No final de 1909 foi convidado por Thomson, então já uma celebridade, para trabalhar como seu assistente nos labora- tórios Cavendish, na Universidade de Cam- bridge, em um estudo sobre os raios canais, ou raios positivos. É nesse período, até o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, que Aston encon- trou evidências da existência de dois isótopos do neônio 34 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA Aston e os Isótopos N° 10, NOVEMBRO 1999 posto considerados iguais entre si — estavam flutuando segundo uma esta- tística a ser identificada. A idéia de que átomos de um mesmo elemento pu- dessem ter efetivamente pesos diferen- tes e que as flutuações experimentais observadas pudessem ser interpre- tadas como flutuações na distribuição de tais átomos, e não nos erros expe- rimentais das medidas, era algo que necessitava de um salto conceitual revolucionário. Na verdade, as grandes desco- bertas não são feitas necessariamente quando novos fatos experimentais são encontrados, mas, no mais das vezes, quando dados experimentais já conhe- cidos são enquadrados em uma nova estrutura teórica que lhes confere um novo significado. E isso, tanto do ponto de vista do desenvolvimento da ciência quanto da educação, é sempre um enorme desafio. Não existe talvez ta- refa mais difícil do que pedir a alguém que veja de um modo completamente diferente um conjunto de coisas que já esteja acostumado a interpretar de determinada maneira, pois é neces- sária uma transformação na própria mente do observador. Os educadores adeptos da mudança conceitual teriam talvez mais a aprender com o estudo das investigações históricas do que com uma corrida desenfreada ao pote dos ‘experimentos cruciais’. Isso não significa em absoluto negar o enorme valor dos experimentos na ciência. A questão é que a compreensão de tais experimentos tem sempre uma carga teórica interpretativa que a investi- gação histórica pode nos revelar, e que é costumeiramente negligenciada nas salas de aula. É exatamente por isso que parece bastante educativo acom- panhar a história do desenvolvimento da crise do segundo postulado de Dalton, do aparecimento das dúvidas e das disputas interpretativas até a síntese revolucionária provocada pelas novas evidências apresentadas por Aston. Embora a história não possa, evidentemente, ser tida como a solu- ção dos problemas pedagógicos no ensino das ciências, ela pode conferir o necessário apoio para a interpreta- ção das diferentes maneiras de com- preender os experimentos, inclusive em salas de aula. Ignorar essa impor- tância da história seria cair num objeti- vismo que confere aos experimentos um papel que eles não podem efeti- vamente desempenhar. Tomemos, por exemplo, a atmosfera do final do sécu- lo passado — no tocante à interpre- tação dos experimentos relacionados às relações ponderais —, nas palavras do renomado químico escocês William Ramsey, que viria a ganhar o Prêmio Nobel de Química de 1904 pela des- coberta de vários gases nobres. Em 1897, ano da descoberta da radioatividade, quando Aston era ainda estu- dante de gra- duação em Bir- m i n g h a m , Ramsey sinte- tizava da se- guinte maneira, num encontro da Sociedade Britânica para o Avanço da Ci- ência, a atmos- fera de incertezas da época: ”Tem havido inúmeras tenta- tivas para reduzir as diferenças entre os pesos atômicos a uma regularidade por meio da busca de alguma fórmula que possa expressar os números que representam os pesos atômicos, com todas as suas irregula- ridades. Seria desnecessário dizer que tais tentativas não têm sido bem-sucedidas. Sucessos aparentes têm sido obtidos à custa de descuidos na precisão e os números reproduzidos não são aqueles aceitos como os verdadeiros pesos atômicos. Tais tentativas, em minha opi- nião, são fúteis. Mais ainda, a mente humana não pode se contentar com o mero registro de tais irregularidades; ela esfor- ça-se para compreender por que uma tal irregularidade de- veria existir (...) Foi lançada pelo professor Schutzenburger, e mais tarde por Crookes, a idéia de que aquilo que denomina- mos peso atômico de um ele- mento é uma média; que quan- do dizemos que o peso atômico do oxigênio é 16, estamos ape- nas afirmando que o peso atômi- co médio é 16 — e não é incon- cebível que um certo número de moléculas tenha um peso algo maior que 32, enquanto um cer- to número tenha um peso me- nor.” A idéia da existência de isótopos, ainda que tal denominação tenha sido introduzida apenas em 1913, por Fre- derick Soddy, começava já a germinar e a orientar pesqui- sas que pudessem fornecer evidências de sua existência. Ainda que os velhos resul- tados estatísticos pudessem ser reinterpretados, ba- seados agora na idéia da isotopia, isso não parecia, no entanto, convincente para uma parcela representativa dos cientistas. Parecia ne- cessário isolar experimen- talmente essas que até então eram ‘construções teóricas’. Os primeiros avanços nessa direção vie- ram dos recentes estudos das trans- formações dos elementos radioativos, realizados por Ernest Rutherford e seus colaboradores, por volta de 1907. Os dados coletados por Rutherford pare- ciam indicar a existência de alguns elementos que possuíam proprieda- des químicas idênticas, para efeitos práticos, mas cujos átomos apresenta- Aston em 1922, ano em que ganhou o Prêmio Nobel de Química. Fu nd aç ão N ob el Embora a história não possa, evidentemente, ser tida como a solução dos problemas pedagógicos no ensino das ciências, ela pode conferir o necessário apoio para a interpretação das diferentes maneirasde compreender os experimentos 35 vam pesos diferentes. As transmuta- ções, por exemplo, de materiais radio- ativos em certos tipos de chumbo, com propriedades químicas idênticas mas pesos atômicos diferentes, ofereciam uma classe de evidências que dificil- mente poderia ser atribuída a erros experimentais. Apresentava-se agora, como uma conjectura arrojada, a idéia de que os elementos não-radioativos, aqueles mais comuns para todos nós, pudes- sem consistir também de misturas de isótopos que fossem inseparáveis pelos métodos químicos tradicionais. E nesse caso, os trabalhos com subs- tâncias radioativas não pareciam ser de grande ajuda. Aqui entram em cena as contribui- ções dos estudos das descargas elé- tricas nos gases rarefeitos, já em desenvolvimento desde o século XIX, abrindo-se um novo flanco na batalha contra o segundo postulado de Dalton. Os trabalhos desenvolvidos por Thomson sobre os raios positivos, ou ‘raios canais’, em tubos contendo o gás neônio, forneceram um campo de estudos no terreno dos elementos mais leves e não-radioativos. O desloca- mento desses raios por campos eletro- magnéticos forneceram evidências, pelas curvaturas observadas, de que dois tipos de átomos estariam presentes, com pesos atômicos 20 e 22. Dado que o peso atômico aceito pelos métodos tradicionais era de 20,2, parecia plausível conjecturar que o neônio fosse na verdade uma mistura de dois isótopos, numa proporção tal que justificasse aquele valor tradi- cionalmente aceito. Porém, as pri- meiras tentativas de separação parcial por fracionamento não deram bons resultados e a idéia da existência dos isótopos, por mais atraente que pudes- se parecer, continuava no plano das conjecturas arrojadas. É exatamente nessa época, 1909, que surge o convite de Thomson a As- ton para trabalhar como seu assistente, na Universidade de Cambridge. Essa aliança marcará, sobretudo, um aper- feiçoamento nos métodos de análise dos desvios eletromagnéticos e na busca incessante dos isótopos. As tentativas de Aston na procura dos isótopos As primeiras comparações experi- mentais dos pesos atômicos dos ele- mentos feitas por Thomson com o seu método dos desvios parabólicos dos raios canais submetidos a campos elé- tricos e magnéticos perpendiculares deram origem, no entanto, a contra-evi- dências da existência dos isótopos. Assim como a ausência da paralaxe das estrelas havia se constituído inicial- mente em uma contra-evidência à revolução copernicana, os primeiros experimentos de Thomson apontavam para um fundamento experimental da não existência dos isótopos não-ra- dioativos. Tanto naquele caso como neste foi a obstinação trazida por uma convicção teórica que fez os pesqui- sadores perseverarem em suas crenças apesar dos resultados contrá- rios das observações. De fato, subme- tidos ao teste dos desvios parabólicos no aparelho de Thomson, muitos dos elementos pareciam obedecer ao segundo postulado de Dalton, pro- duzindo parábolas que pareciam provir de grupos de átomos com diferentes velocidades, mas com as mesmas massas. Apenas os inconclusivos resultados com o neônio pareciam alimentar a crença na existência dos isótopos não-radioativos. Por volta de 1913, Aston obteve os primeiros bons resultados na sepa- ração dos isótopos do neônio, utilizan- do a técnica da difusão, após a reali- zação de milhares de experimentos. Mudanças aparentes de 0,7 nas densidades das frações mais leves e mais pesadas foram, porém, todo o resultado do seu trabalho. Segundo o próprio Aston, no início da Primeira Guerra Mundial várias linhas de racio- cínio já apontavam para a idéia de que o neônio devia ser uma mistura de isótopos, mas nenhuma delas fornecia evidências convincentes para um desenvolvimento tão importante quan- to aquele. Após o final da guerra, embora a teoria dos isótopos já fosse aceita para os elementos radioativos, permanecia ainda como matéria especulativa de debates para os demais elementos. Tendo o método da difusão se mos- trado lento e trabalhoso, Aston voltou- se novamente para os estudos dos desvios dos raios positivos em tubos de descarga, aperfeiçoando o apa- relho de Thomson. Naquele aparelho, um feixe de partículas positivas, os ‘raios canais’, era defletido por um campo eletromagnético, formando curvas visíveis, cada uma das quais associada a um certo valor da relação carga/massa da partícula. O grande problema do instrumento estava exata- mente nas imagens difusas, que não permitiam mais que uma estatística das densidades dos possíveis isóto- pos presentes. Aston planejou diversas maneiras para melhorar a calibração do aparelho, conseguindo finalmente um novo arranjo dos campos eletro- magnéticos defletores que permitia focalizar os raios defletidos com bas- tante nitidez sobre uma chapa fotográ- fica. A necessidade de focalização conduziu Aston ao princípio do espec- trógrafo de massa. A principal diferen- ça entre o aparelho de Thomson e o espectrógrafo de Aston estava em que no aparelho de Thomson os campos elétricos e magnéticos eram aplicados de maneira perpendicular e simultâ- nea, enquanto no espectrógrafo eles eram aplicados consecutivamente e QUÍMICA NOVA NA ESCOLA Aston e os Isótopos N° 10, NOVEMBRO 1999 Aparelho usado por Thomson em 1910 para investigar raios positivos (‘raios canais’). C é o eletrodo negativo (cátodo). O feixe é defletido pelos pólos MM de um eletroímã e pelas placas paralelas PP conectadas a uma fonte de eletricidade. Este aparelho simples foi o protótipo dos espectrógrafos de massa. S P P M M C + 36 em um mesmo plano. Foi esse novo arranjo das peças já presentes que conduziu à invenção de um novo e revolucionário instrumento. Colimando os feixes das partículas através de fen- das e defletindo-os com o novo arranjo do campo eletromagnético, Aston conseguiu obter imagens sobre uma chapa fotográfica que lembravam os espectros obtidos classicamente nas técnicas espectroscópicas ao fazer passar um feixe de luz através de um prisma. Possuía, assim, um registro gráfico, em filme, que lhe permitia, pelo cálculo dos deslocamentos dos raios, tratados como projéteis, determinar a massa das partículas constituintes dos mesmos — daí o nome do novo instru- mento: o espectrógrafo de massa. De posse desse novo instrumento e do conceito de isótopos, Aston pôde, num curto espaço de tempo, determi- nar as massas de 212 isótopos natu- rais, estabelecendo assim uma nova classe de evidências que fizeram o velho segundo postulado de Dalton cair rapidamente em descrédito. Ainda assim, as disputas interpretativas não cessaram de imediato, e o próprio Thomson chegou a levantar sérias dúvidas sobre os resultados de Aston. De fato, no final de 1921, em uma reu- nião da Royal Society, Thomson con- fessou que não estava plenamente convencido de que formações híbridas nas condições artificiais dos tubos de descarga não pudessem fornecer explicações alternativas aos resultados de Aston e que a não existência signi- ficasse necessariamente a evidência dos isótopos não-radioativos. Assim sendo, no caso dos isótopos do cloro, 35Cl e 37Cl, Thomson argumentava que aquele último poderia ser apenas o ClH2. Thomson mostrava-se sobretudo cético quanto à precisão de uma parte em 103 defendida por Aston para seu espectrógrafo. Podemos apenas espe- cular sobre as razões das críticas de Thomson, até então um fervoroso adepto da existência dos isótopos não- radioativos mas subitamente transfor- mado num feroz adversário da mesma. Ainda que fatores psicológicos pos- sam ser invocados na tentativa de explicar a referida disputa, vale salien- tar que Thomson não estava sozinho naquele debate, tendo apenas sido, paradoxalmente, o último dos grande combatentes da idéia dos isótopos não-radioativos, que ele mesmo havia perseguido longamente. A disputa causou umacisão entre os próprios componentes dos laboratórios Cavendish, tendo Rutherford, que havia sido convidado para trabalhar em Cambridge pelo próprio Thomson, to- mado o partido de Aston. Soddy foi mais além, afirmando que os trabalhos de Aston eram “uma das mais brilhan- tes combinações de análise matemá- tica e habilidades experimentais que este século já produziu”. Soddy, numa clara referência a Thomson, chegou a afirmar ainda que: “não acho que os químicos tenham alguma razão para duvidarem da precisão dos trabalhos de Aston. Nós químicos estamos satis- feitos, mesmo que vocês físicos não estejam”. Apesar de toda a acesa disputa que marcou a longa história do segundo postulado de Dalton, foi só a partir dos trabalhos de Aston que a denominação de isótopos, cunhada em 1913 por Soddy para explicar as séries radioa- tivas, passou a ter uma aceitação que rapidamente se tornaria hegemônica, embora a busca pelos isótopos dos elementos estáveis ainda se prolon- gasse por mais de 30 anos. A com- posição isotópica de alguns elementos estáveis só veio a ser encontrada na década de 50, mas a maior parte dos isótopos estáveis já havia sido des- coberta na década de 20. A idéia de isótopos como átomos de massas diferentes mas com as mesmas propriedades químicas, e que por isso ocupariam o mesmo lugar na tabela periódica, passou a ser aceita desde então de forma tão dominante que ganhou contornos de lugar-co- mum. Aquilo que por muito tempo pareceu a vários cientistas de renome um autêntico absurdo e que requereu um intenso esforço e uma acesa dis- puta para seu estabelecimento, em meio a uma crítica vigorosa, foi sendo incorporado ao ensino como algo de aspecto quase trivial. Não é à toa por- tanto que, retirado do contexto histó- rico que lhe deu origem, o conceito de isótopo seja tão fácil de ser enunciado pelos professores quanto de ser es- quecido pelos estudantes, que em última instância se recordam da defi- nição tal como nos lembramos de um verso, sem se dar conta da extensão das conseqüências que tal conceito carrega. Professores interessados em que seus alunos compreendam de maneira mais significativa precisariam, portan- to, fazer um esforço para romper o ape- lo inegável exercido por convicções semelhantes ao segundo postulado de Dalton, entre seus alunos, em vez de presenteá-los com uma definição his- toricamente descontextualizada do que são isótopos. Se evitarmos o risco de apresentar as respostas antes que as perguntas tenham sido ao menos identificadas, a história da ciência com certeza será uma importante contribui- ção ao ensino. Alexandre Medeiros, licenciado em física pela UFPE, mestre em ensino de física pela USP e doutor em edudação em ciências pela Universidade de Leeds, Inglaterra, é professor da Universidade Fed- eral Rural de Pernambuco. Notas 1. Trabalho apresentado no II Encontro Nacional de Pesquisa em Educação nas Ciências (Valinhos, set. 1999) sob o título: “Com isótopos na mente e Dalton no coração”. Para interessados nos detalhes das entre- vistas realizadas, o CD com as atas do encontro encontra-se disponível para venda na secretaria da Abrapec (abrapec@if.ufrgs.br). 2. Embora modernamente seja importante estabelecer a conceituação de massa atômica, em lugar de peso atômico, como fazemos nas concei- tuações mais recentes apresentadas no presente texto, nas incursões histó- ricas adotamos a denominação mais antiga de peso atômico em respeito às interpretações da época. É importante, nesse sentido histórico, destacar o pró- prio título do célebre artigo de Aston: “Isotopes and atomic weights”, assim como o trecho mencionado do dis- curso de Ramsey. Desse modo, não há por que nos prendermos exclusiva- mente à denominação atualmente consagrada de massa atômica, se qui- sermos estar mais atentos à questão histórica. QUÍMICA NOVA NA ESCOLA Aston e os Isótopos N° 10, NOVEMBRO 1999 Referências bibliográficas ASTON, F. The structure of the atom. In: Andrade, E.N., org. Science: a course of selected readings by au- thorities. Londres: International Univer- sity Press, 1957. BOORSE, H.; MOTZ, L. e WEA- VER, J. The atomic scientists: a bio- graphical history. Nova Iorque: John Wiley & Sons, 1989. BROCK, W. Aston, isotopes and the mass spectrograph. In: Brock, W.; Chapple, M. e Hewson, M., orgs. Stu- dies in physics. Leicester: Hulton Edi- torial, 1972. ELYASHEVICH, M.; GAPANOV- GRAKHOV, A.V.; GINZBURG, V.L., GOLDANKII, V.I.; LETOKHOV, V.S.; RABINOVICH, M.I.; SHANTOROVICH, V.P. e TRIFONOV, D.N. Physics of the 20th century: history and outlook. Moscou: Mir Publishers, 1987. PAIS, A. Inward bound: of matter and forces in the physical world. Oxford: Oxford University Press, 1988. TRIGG, G. Landmark experiments in twentieth century physics. Nova Iorque: Dover Publications, 1995. WEINBERG, S. The discovery of subatomic particles. Nova Iorque: W.H. Freeman and Company, 1990. Para saber mais GLADKOV, K. A energia do átomo. Trad. P. Graça. Lisboa: Portugália Editora, 1969. FRISCH, O. A natureza da matéria. Trad. J.C. Ferreira. Lisboa: Editorial Verbo, 1973. SEGRÉ, E. Dos raios X aos quarks. Físicos modernos e suas desco- bertas. Brasília: Editora da UnB, 1987. TAYLOR, J. La nueva física. Trad. E. Paredes. Madri: Alianza Editorial, 1984. 21 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA N° 16, NOVEMBRO 2002 A seção ‘Conceitos científicos em destaque’ tem por objetivo abordar, de maneira crítica e/ou inovadora, conceitos científicos de interesse dos professores de Química. O conceito de elemento U ma das maneiras de utilizar a história da Ciência para melhorar o ensino consiste em realizar uma análise histórica da gênese do co- nhecimento científico e da sua cons- trução. Entre as possíveis estratégias para alcançar esses objetivos, tem-se a identificação dos chamados “concei- tos estruturantes” das ciências e uma análise da sua evolução histórica. Segundo Gagliardi (1988), “os concei- tos estruturantes são aqueles que permitiram e impulsionaram a transfor- mação de uma ciência, a elaboração de novas teorias, a utilização de novos métodos e novos instrumentos concei- tuais”. O conceito de elemento químico é um dos mais importantes da Química, podendo ser considerado, de acordo com a proposta de Glagiardi, como um conceito estruturante que, ao lado de tantos outros, como átomo, molécula, substância, reação química, ligação química etc., foram fundamentais para o desenvolvimento dessa ciência. Através do uso da história e episte- mologia da Química, podemos conhe- cer a gênese desse conceito, as várias concepções que se sucederam nos seus diferentes contextos e as modifi- cações ocorridas ao longo do tempo relacionadas a fatores socioculturais. Um estudo usando o referencial his- tórico-epistemológico também revelará relações importantes com outros con- ceitos, que certamente serão impor- tantes para o ensino de Química. Atualmente, o conceito de elemento químico é introduzido, de um modo ge- ral, nos primeiros capítulos dos livros de Química. Alguns dos conceitos que são apresentados podem ser vistos a seguir: “Um elemento é uma subs- tância simples, fundamental e elemen- tar. Um elemento não pode ser sepa- rado ou decomposto em substâncias mais simples” (Russel, 1994); “Os ele- mentos são substâncias que não po- dem ser decompostas em outras mais simples... Cada elemento é constituído por apenas uma espécie de átomo” (Brown et al., 1999). Os trechos anteriormente citados foram extraídos de livros adotados no Brasil e traduzidos dos originais na lín- gua inglesa dos referidos autores. Nota-se que o conceito de elemento remete ao conceito de substância, mais especificamente ao de substân- cia simples. A simbiose entre os dois conceitos gera confusão, que poderia ser evitada se os tradutores esclare- cessem aos leitoreso duplo sentido associado ao emprego dessa palavra na língua inglesa. Em artigo publicado na revista Quí- mica Nova sobre o ensino de conceitos em Química, Tunes et al. (1989) discu- tem os equívocos existentes no empre- go da expressão “elemento químico” em nosso país, o que é ocasionado pe- lo maior uso no nível superior de livros traduzidos da língua inglesa, nos quais o vocábulo utilizado “element” inclui tanto o conceito de substância simples quanto o de elemento. Para Tunes et al. (1989), o elemento químico constitui uma classe de áto- mos formada pelos diferentes nuclí- deos ou “tipo de átomo caracterizado por um número atômico específico”. Nesse artigo define-se nuclídeo como “tipo de um dado elemento químico ca- racterizado por um número de massa específico”. Maria da Conceição Marinho Oki Este artigo apresenta uma maneira de utilização da história e epistemologia da Ciência para melhorar o ensino através da identificação e estudo de conceitos estruturantes das ciências. A evolução histórica do conceito de elemento é apresentada destacando-o como um conceito estruturante da Química. São apresentadas concepções de elemento que se sucederam desde a antigüidade grega até o século XX. história e epistemologia, ensino de química, conceito de elemento Recebido em 18/06/01; aceito em 10/06/02 ▲ ▲ CONCEITOS CIENTÍFICOS EM DESTAQUE 22 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA N° 16, NOVEMBRO 2002 Elementos: os princípios constituintes da matéria A origem do nome elemento encon- tra-se relacionada ao vocábulo grego “stocheion”, correspondente ao termo latino “elementum”, que reúne três letras consecutivas do centro do alfabeto latino: L, M e N (Lockemann, 1960). Aristóteles usou a palavra “stocheion”, que significava para ele tanto elemento quanto princípio. Essa palavra foi posteriormente adotada nas várias línguas européias. Elementos, princípios e áto- mos acompanhar-nos-ão em to- da a história da Química, mas não assinalam uma unidade, uma continuidade conceitual à qual a história da Química esteja submetida (Bensaude-Vincent e Stengers, 1992). O uso desses termos nos diferentes contextos denota as divergências exis- tentes nas explicações das qualidades da matéria manifestadas na sua apa- rência e nas suas transformações sus- tentadas em diferentes bases interpre- tativas. O conceito de elemento começou a se estruturar a partir da necessidade de explicação das mudanças obser- vadas na natureza; os filósofos pré- socráticos foram os primeiros a tentar justificar o que aparentemente mudava e o que permanecia sem alteração, estando esse conceito vinculado às es- peculações desses filósofos sobre os princípios constituintes da matéria, ou seja, a sua causa primária, a sua essência. Tales de Mileto (624-544 a.C.) consi- derou a água o único e primordial prin- cípio responsável pela multiplicidade dos seres. Anaximandro (610-546 a. C.), discípulo de Tales, foi o primeiro a usar o termo “arché”, que significa prin- cípio; no entanto, discordava de Tales em relação à explicação da existência de um único princípio, o que conside- rava uma limitação. Segundo ele, o princípio de tudo seria o “apeíron”, uma substância primária, indeterminada e imaterial. Empédocles (490-430 a.C.) usou em suas explicações a idéia de quatro princípios ou elementos primordiais: terra, água, ar e fogo. O amor e o ódio eram as forças antagônicas que pro- moviam a união ou dissociação dos quatro elementos e explicavam as mu- danças observadas no mundo. Esse filósofo não utilizou em seus textos a palavra elemento, substituindo-a por raízes, mas manten- do o mesmo signifi- cado. “O termo ele- mento parece ter sido utilizado pela primeira vez por Platão” (Maar, 1999). Os quatro “elementos-princípios” de Empédocles foram adotados pelo importante filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.), que lhes atribuiu quali- dades. Um estudo das obras de Aristó- teles revela que a sua visão sofreu al- gumas modificações ao longo do tem- po (Mierzecki, 1991). No seu trabalho “Física”, no qual examina conceitos gerais relativos ao mundo físico, Aristó- teles declarou a existência de somente três elementos; na sua obra “Sobre a geração e a corrupção”, considerou a existência de quatro elementos e, em “Sobre o céu”, onde apresenta estudos sobre o mundo sideral e sublunar, acrescentou o quinto elemento: o éter, a matéria constituinte dos corpos ce- lestes. Posteriormente, esse último ele- mento foi chamado de quinta essência, caracterizando-se como o princípio formador de todos os corpos existen- tes no mundo supralunar, ou seja, a parte do Universo que se inicia com a Lua (Chassot, 1995). Aristóteles considerava que tudo era formado por uma matéria de ba- se ou substrato “hylé”; a este se jun- tavam as qualidades responsáveis pela sua aparência e forma. Essas qualidades elementares eram: quen- te, seco, frio e úmido. Todas as subs- tâncias existentes seriam formadas pelos quatro elementos e cada ele- mento era caracterizado por um par de qualidades. O conceito de “elemento-princípio” oriundo da filosofia grega revela uma ciência baseada nas qualidades apa- rentes dos corpos e que são perce- bidas pelos sentidos e o importante pa- pel conferido à observação e à contem- plação. Essa é uma ciência que con- cebe a realidade natural como um mundo hierarquizado com lugares pré- determinados para todas as coisas. A concepção de que a mudança na proporção quantitativa dos elementos constituintes podia levar à mudança nas propriedades e aparência dos corpos foi a base teó- rica para a crença na transmutação de metais menos nobres naquele cuja combina- ção de qualidades se- ria a mais perfeita pos- sível: o ouro. Essas tentativas foram empreendidas por alquimistas árabes e europeus durante o período medieval usando-se vários procedimentos e operações. Nesse período, os quatro elemen- tos de Empédocles e, posteriormente, de Aristóteles, eram considerados como existentes em todas as substân- cias; os metais, por exemplo, não eram considerados como corpos simples. Atribui-se a Jabir ibn Hayyan, um alquimista árabe sobre o qual não se tem certeza sobre as suas origens, mas que teria vivido entre os séculos VIII e IX, a introdução da teoria do “enxofre- mercúrio”, baseada numa concepção dualista. Segundo essa teoria, todos os corpos seriam formados em dife- rentes proporções por dois princípios: o enxofre, portador da propriedade combustibilidade, e o princípio mercú- rio, carregador da metalicidade. A transmutação seria possível pela modificação da composição natural dos corpos. O ouro era o metal que encerrava uma composição ideal dos constituintes enxofre e mercúrio e uma maior pureza. Esses “elementos-princípios” intro- duzidos no período da Alquimia fica- ram conhecidos como espagíricos e a eles foi adicionado por Paracelso (1493-1541), no século XVI, o elemento sal, causador da solubilidade dos corpos e cuja presença estava relacio- nada à estabilidade. Devemos considerar que, no con- texto em que foram propostos, os ele- mentos enxofre e mercúrio eram prin- cípios abstratos, numa concepção metafísica de elemento, não devendo ser confundidos com as substâncias reais que desde aquela época e até hoje têm o mesmo nome. O conceito de elemento O conceito de elemento começou a se estruturar a partir da necessidade de explicação das mudanças observadas na natureza 23 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA N° 16, NOVEMBRO 2002 Elementos: os limites extremos da análise química Uma definição de elemento que já é considerada por alguns historiadores como moderna foi formulada por um dos mais importantes químicos do sé- culo XVII, o inglês Robert Boyle (1627- 1691). Segundo Partington (1961), Boyle apresentou uma definição que discordava das concepções de ele- mentos como princípios. Maar(1999) considera que a proposta de Boyle foi realmente moderna, só deixando de servir à Química com a descoberta dos isótopos a partir do início do século XX. No entanto, existem algumas divergên- cias quanto a essa abordagem. Alfonso-Goldfarb (1987) considera que Boyle apresentou uma definição aparentemente moderna de elemento, uma vez que, ao final, questionava a sua validade. A sua principal contribui- ção foi a destruição do conceito exis- tente, abrindo caminho para uma nova elaboração. Para outros historiadores, Boyle não substituiu a definição tradi- cional por outra moderna, mas questio- nou a função de elemento na prática do químico, expressando as suas dú- vidas quanto ao fato de que cada ele- mento estaria ou não presente na cons- tituição de todos os corpos (Bensaude- Vincent e Stengers, 1992). O conceito de elemento de Boyle, bem como suas dúvidas, aparecem explicitadas na sua importante obra “O químico cético” (1661), como pode ser observado no trecho a seguir, extraído do apêndice desse livro: Chamo agora elementos certos corpos primitivos e simples, perfeitamente puros de qualquer mistura, que não são constituídos por nenhum outro corpo, ou uns pelos outros, que são os ingre- dientes a partir dos quais todos os corpos que chamamos mistu- ras perfeitas são compostos de modo imediato, e nos quais estes últimos podem ser finalmente resolvidos. E o que me pergunto agora é se existe um corpo deste tipo que se encontre de modo constante em todos, e em cada um, daqueles que se dizem constituídos por elementos (Ben- saude-Vincent e Stengers, 1992). Esse conceito difere em sua essên- cia das concepções aristotélicas e es- pagíricas, que dominaram a Química até o período medieval, e passa a funda- mentar o principal programa da Qímica no século XVIII: a análise dos corpos. Para Boyle, os elementos eram os constituintes que resultavam da análise química, ou seja, “os verdadeiros limites extremos da análise química” (Mason, 1964). Boyle, no entanto, não cita em suas obras exemplos de elementos existentes na natureza. Embora nesse trabalho outros as- suntos tenham sido discutidos, como o problema da combustão, uma das prin- cipais questões colocadas era o número de elementos existentes e a influência da composição dos corpos nas proprie- dades. Boyle criticou o raciocínio usado pe- los alquimistas e propôs que todos os corpos químicos fossem produzi- dos por diferen- tes texturas, resultantes da combinação de diferentes partí- culas; as proprie- dades dos “cor- pos mistos” ou substâncias compostas deveria resultar também de sua estrutura e não somente de sua composição. Tal concepção revela a influência das idéias perten- centes ao atomismo mecanicista, muito influente na Química no século XVII. O novo conceito de elemento “boylia- no” influenciou a Química nos séculos seguintes, embora as concepções an- tigas tenham resistido até o século XVIII. Lavoisier (1743-1794) usou meios empíricos para contestar os conceitos antigos, herdados de Aristóteles e dos alquimistas. Ele adotou o conceito intro- duzido por Boyle, dando-lhe uma exis- tência concreta e precisa e definindo-o claramente no trecho a seguir, extraído do seu importante livro “Tratado Elemen- tar de Química” (1789): Se [...] associarmos ao nome de elementos ou de princípios dos corpos a idéia do último termo ao qual chega a análise, todas as substâncias que não po- demos decompor por meio al- gum são para nós elementos: não que possamos assegurar que es- tes corpos, que nós considera- mos como simples, não sejam eles mesmos compostos de dois ou mesmo de um maior número de princípios, mas como estes princípios jamais se separam, ou antes, como não temos nenhum meio de os separar, eles com- portam-se para nós como os cor- pos simples, e não devemos su- pô-los compostos senão no mo- mento em que a experiência e a observação nos tenham fornecido a prova (Bensaude-Vincent e Stengers, 1992). A proposta de Lavoisier e colabo- radores (Louis Bernard Guyton de Mor- veau, Claude Louis Berthollet e Antoine François de Fourcroy) de introduzir uma nova nomenclatura para as substâncias quí- micas teve como princípio geral que o nome da subs- tância refletisse a sua com- posição; para tanto, a nova definição de elemento foi essencial. Uma análise da tabela de substâncias simples propos- ta por Lavoisier no seu “Tratado Ele- mentar de Química” demonstra que ele já reconhecia os metais como subs- tâncias simples, embora alguns dos elementos considerados fossem, na verdade, substâncias compostas. Dos trinta e três elementos citados, cinco de- les são hoje reconhecidos como óxidos, três são radicais que ainda não haviam sido identificados e dois correspondem à luz e ao calórico. Apesar dos méritos do importante trabalho de Lavoisier e dos avanços in- troduzidos na Química Teórica, alguns equívocos foram cometidos por ele, como a inclusão do calórico e da luz como elementos imponderáveis. As concepções apresentadas sobre o ca- lórico, assim como sobre o “princípio oxigênio”, trazem ainda embutidos resí- duos de uma Química qualitativa. Em seu livro, Lavoisier ainda se referia aos elementos químicos usando diferentes nomenclaturas, como: princípio, ele- mento, substância simples e corpo simples (Tolentino et al., 1997). O conceito de elemento Segundo Boyle, elementos seriam certos corpos primitivos e simples, perfeitamente puros de qualquer mistura, que não fossem constituídos por nenhum outro corpo, ou uns pelos outros 24 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA N° 16, NOVEMBRO 2002 Corpos simples, substâncias simples ou elementos? A concepção de elemento como si- nônimo de corpo simples foi também explicitada em um livro-texto do mais influente químico da primeira metade do século XIX, Jons Jacob Berzelius (1779-1848), “Manual de Química” (1825), como pode ser visto a seguir: Corpos que ocorrem na Terra são divididos em simples, não decompostos e compostos: (1) Corpos simples são aque- les que podemos acreditar com certeza que eles não são com- postos e que ocorrem como constituintes do restante da na- tureza. (2) Corpos não decompostos (“indecomposed“) são aqueles que nós podemos supor que não são simples, mas eles não foram decompostos em ele- mentos mais simples; se estes corpos são compostos não se conhece os seus constituintes absolutamente. (3) Corpos compostos são aqueles que podem ser decom- postos por meios químicos em outros mais simples (Mierzecki, 1991). Observa-se que nesse período con- fundia-se o conceito de elemento com o de corpo simples; uma outra questão a ser observada é que os vocábulos corpo e substância eram usados indis- tintamente, não se fazendo diferen- ciação entre ambos. A confusão conceitual envolvendo os termos elemento e substância sim- ples ainda hoje é observada em alguns livros de Química, como visto anterior- mente. No entanto, ainda no século XIX, Mendeleiev já registrava esse fato, propondo uma diferenciação entre ele- mento e corpo simples no seu impor- tante artigo científico “A lei periódica dos elementos químicos” (1871). Tal como Laurent e Gerhardt empregaram as palavras molé- cula, átomo e equivalente indis- tintamente, também hoje em dia se confundem freqüentemente as expressões corpos simples e elemento. Contudo, cada uma delas tem um significado bem distinto, que importa precisar para evitar confusões nos termos da filosofia química. Um corpo simples é qualquer coisa de material, metal ou metalóide, do- tada de propriedades físicas e químicas. A expressão corpo simples corresponde à idéia de molécula[...]. Pelo contrário, deve-se reservar o nome de elemento para caracterizar as partículas materiais que formam os corpos simples e compostos e que determinam o modo como se comportam do ponto de vista físicoe químico. A palavra ele- mento corresponde à idéia de átomo (Bensaude-Vincent e Stengers, 1992). O conceito de elemento passou a ser vinculado ao conceito de átomo; essa relação está claramente explicitada por Mendeleiev nesse trecho de sua autoria e o peso atômico passou a se impor como critério de classificação. Critérios modernos para uma conceituação de elemento químico Embora os conceitos de elemento e átomo tenham sido introduzidos pelos gregos, não coube a eles a associação desses conceitos; este foi um mérito da Química moderna e do processo intera- tivo teoria e prática, idéias e técnicas que permanentemente se modificam e se influenciam mutuamente. Os avanços na Química Teórica do século XIX e a sua aproximação da Física permitiram que outros critérios passassem a ser utilizados para se distinguir um elemento químico, tais como a valência e o peso atô- mico (atualmente massa atômica rela- tiva). Tais critérios fo- ram fundamentais pa- ra a identificação de grande número de elementos químicos e possibilitaram a organização dos mesmos em diversos sistemas de classificação e o relaciona- mento das propriedades dos elemen- tos com os seus pesos atômicos. As primeiras determinações de pe- sos atômicos foram realizadas por John Dalton (1766-1844) e os resultados obtidos para essas grandezas foram responsáveis pela aceitação da Química como uma ciência exata. A primeira metade do século XIX caracterizou-se por disputas inclusive no plano ideológico envolvendo a comu- nidade química. Os químicos compro- metidos com o positivismo não aceita- vam os pesos atômicos e preferiam fazer uso dos pesos equivalentes, obtidos exclusivamente a partir das relações de combinações ponderais ou volumé- tricas. Um outro grupo acreditava que o peso atômico era a característica fun- damental de um elemento, definindo as suas propriedades. O fim dessa disputa teve início com a importante contribuição do químico italiano Stanislao Canizzaro (1826-1910), que teve distribuído ao fim do importante Congresso de Karlsruhe (1860) um artigo científico de sua autoria, “Sunto di um Corso di Filosofia Chimica“, no qual deixava clara a diferença entre os conceitos de átomo e molécula, ba- seando-se na hipótese que havia sido formulada em 1811 por seu conterrâneo Amedeo Avogadro (1776-1856). Após a superação das divergências, estabeleceram-se definitivamente os conceitos de átomo e molécula, equiva- lente, atomicidade e valência e as bases da Teoria Atômico-Molecular. Nesse período, os valores determi- nados para os pesos atômicos nem sempre eram concordantes, o que se atribuía à imprecisão dos métodos experi- mentais e aos diferen- tes referenciais que eram usados como ba- se para os cálculos. A variação nos valores determinados foi du- rante um certo período um problema inexpli- cável e não podia ser resolvido apenas com um maior rigor nas me- dições efetuadas. Foi necessária uma nova maneira de interpretação dos dados experimentais pautada numa mu- dança conceitual, que colocava em cheque o segundo postulado de Dalton e passava a admitir a idéia de que átomos de um mesmo elemento pudes- O conceito de elemento Em 1871, Mendeleiev chamava atenção para a confusão conceitual envolvendo os termos ‘elemento’ e ‘substância simples’ (no século XIX, ‘corpo simples’). Apesar disso, ainda hoje tal confusão é observada em alguns livros de Química 25 QUÍMICA NOVA NA ESCOLA N° 16, NOVEMBRO 2002 sem ter pesos diferentes. Essa idéia pas- sou a orientar pesquisas que pudessem fornecer evidências da existência dos isótopos. O termo isótopo foi criado em 1913 por Frederick Soddy (1877-1956) e incorporado à linguagem científica nas primeiras décadas do século XX. A construção do conceito de isótopo de- monstra a necessidade do diálogo da razão com a experiência, pré-requisito hoje necessário para o processo de construção racional do conhecimento químico, que é mediado pela técnica. Cabe destacar nesse episódio a contribuição de Francis William Aston (1877-1945) que, visualizando o princí- pio do espectrômetro de massa e fazendo uso desse instrumento, estabe- leceu evidências de que o conceito de isótopo aplicava-se a todos os elemen- tos e não apenas aos radioativos. O conceito de elemento passou a ser definido com base na estrutura atômica e molecular, acessível por métodos físicos baseados principalmente em interações radiação-matéria. A signifi- cação dos fenômenos elétricos dos átomos é dada pelo aparelho; cabe ao espectrômetro de massa essa função quando separa, seleciona e registra a massa dos diferentes isótopos. A estreita relação entre a teoria e o instrumento é uma das características da Química moderna; o processo de aplicação experimental é que confere o valor de uma teoria, o instrumento científico é uma teoria materializada (Bachelard, 1977). No século XX, a Química Teórica pas- sou a se utilizar cada vez mais de co- nhecimentos produzidos no âmbito da Mecânica Quântica e da Física de Par- tículas. Os conhecimentos físicos sobre a estrutura do átomo penetraram na Química e introduziram mudanças radicais em conceitos básicos, apoia- das em um mundo submicroscópico em que muitas das leis naturais não se aplicam. A identificação de um elemento quí- mico passou a ser feita pelo seu núme- ro atômico e a sua caracterização con- sidera a configuração eletrônica e os elé- trons responsáveis pelas interações quí- micas que chamamos de elétrons de valência. Os conceitos de isótopo e de nuclídeo tornaram-se fundamentais para a elaboração de um novo conceito de elemento químico. A identidade do elemento químico foi modificada, já que esse passou a reagrupar um certo número de isótopos distintos. O elemento químico deixou de ser o fim último da análise química, posição que passou a ser ocupada pelas partículas subatômicas. Novas proprie- dades, hoje consideradas como “ele- mentares”, foram propostas visando sistematizar o grande número de par- Referências bibliográficas ALFONSO-GOLDFARB, A.M. Da alqui- mia à química. São Paulo: Nova Stella, Edusp, 1987. p.189. BACHELARD, G. O racionalismo apli- cado. Trad. N.C. Caixeiro. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977. p. 122-124. BENSAUDE-VINCENT, B.B. e STEN- GERS, I. História da Química. Trad. xxx. Lisboa: Editora Piaget, 1992. p. 23, 53- 54, 128-129, 198-199. BROWN, T.L.; LE MAY Jr., H.E. e BURSTEN, B.E. Química - ciência central. Trad. H. Macedo. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1999. p. 4. CARUSO, F. e OGURI, V. A eterna busca do indivisível: do átomo filosófico aos quarks e léptons. 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No mundo subnuclear, isto é, nesse cam- po da Física Atômica, considera-se co- mo elementar “qualquer coisa da qual não se veja a estrutura” (Caruso e Oguri, 1997). A evolução do conceito de elemen- to químico nos fornece um bom exemplo“da natureza multidisciplinar da Química onde se contrapõe a atividade manual com a intelectual, o microscópico com o macroscópico, o pragmatismo empíri- co com a especulação teórica” (Chagas, 1989). É importante não nos esquecermos da provisoriedade dos conceitos, de- corrente das modificações da Ciência resultantes dos avanços científicos; queremos registrar a dificuldade ine- rente à formulação desse conceito, que estabelece uma importante relação en- tre o que é macroscopicamente obser- vado e o que se imagina microsco- picamente, ou seja, requer que faça- mos uso da nossa importante capa- cidade de abstração. Maria da Conceição Marinho Oki (marinhoc@ufba.br), engenheira química, mestre em Química Inorgânica, é professora do Departamento de Química Geral e Inorgânica do Instituto de Química da UFBA. O conceito de elemento Dordrecht: Polish Scientific Publishers e Kluwer Academic Publishers, 1991. p. 35, 46, 90. PARTINGTON, J.R. A history of chemis- try. London: MacMillan and Company, 1961. v. 2, p. 501-502. RUSSEL, J.B. Química Geral. 2a ed. Trad. M. Guekezian et al. São Paulo: Makron Books, 1994. v. 1, p. 10. TOLENTINO, M.; ROCHA-FILHO, R.C. e CHAGAS, A.P. Alguns aspectos históri- cos da classificação periódica dos ele- mentos químicos. Química Nova, v. 20, n. 1, p. 105, 1997. TUNES, E.; TOLENTINO, M.; SILVA, R.R. DA; SOUZA, E.C.P. DE e ROCHA- FILHO, R.C. Ensino de conceitos em Química. IV - Sobre a estrutura elementar da matéria. Química Nova, v. 12, p. 199- 202, 1989. Abstract: The Concept of Element: from Antiquity to Modern Times - This paper reports a way of using the history and epistemology of science for improving education through the identification and study of structuring concepts in the sciences. The historic evolution of the concept of element is presented highlighting it as a structuring concept of chemistry. Succeeding conceptions of element from antiquity to the 20th century are presented. Keywords: history and epistemology, education in chemistry, concept of element