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Comunicação
e Sociedade
João Pissarra Esteves
(Org.)
Livros
Horizonte j A
0 Centro de Investigação
de Media e Jornalismo (CIM3),
é uma associação
interuniversitária, sem fins
lucrativos, integrada
por docentes, investigadores
e profissionais, que realiza
trabalhos de investigação,
estudos aprofundados,
relatórios, pareceres
e recomendações sobre temas
ligados aos media e ao
jornalismo, por sua iniciativa
ou mediante solicitação de
entidades oficiais ou privadas.
C o m u n ic a ç ã o e S o c ie d a d e
OS EFEITOS SOCIAIS DOS MEIOS
DE COMUNICAÇÃO DE MASSA
C o m u n ic a ç ã o
e S o c ied a d e
OS EFEITOS SOCIAIS DOS MEIOS
DE COMUNICAÇÃO DE MASSA
ORGANIZADO POR
J oão Pissarra E stev es
COLECÇÃO
Media e Jornalismo
Sob a direcção do
Ce n t r o d e In v e s t ig a ç ã o M e d ia e J o r n a l is m o
Título:
Comunicação e Sociedade
Os efeitos sociais dos meios de comunicação de massa
C apa:
João Segurado
Organizador:
João Pissarra Esteves
7Yadutores:
Isabel Branco, Daniel Branco, Célia Caeiro,
Joana Haderer e Patrícia Silva
flewsão d a tradução:
Clara Roldão Caldeira
▲
© Livros Horizonte, 2002
ISBN 972-24-1188-8
Paginação/Fotolito:
Gráfica 99
Impressão:
Rolo e Filhos, Lda.
Março, 2002
Dep. Legal n.° 176376/02
▼
Reservados todos os direitos de publicação
total ou parcial para a língua portuguesa por
LIVROS HORIZONTE, LDA.
Rua das Chagas, 17*1.° Dt.° - 1200 LISBOA
e-mail: livroshorizonte@mail.telepac.pt
ÍNDICE
AGRADECIMENTOS.......................................................................................................................9
INTRODUÇÃO
O ESTUDO DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO
E A PROBLEMÁTICA DOS EFEITOS
J o ã o P issa r r a E s t e v e s .................................................................................................................................................. 1 3
TEXTOS
AS NOTÍCIAS COMO UMA FORMA DE CONHECIMENTO:
UM CAPÍTULO NA SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO
R o b e r t E . P a r k ...................................................................................................................................................................3 5
A ESTRUTURA E A FUNÇÃO DA COMUNICAÇÃO NA SOCIEDADE
H arold D . L a s s w e l l .......................................................................................................................................................4 9
O FLUXO DE COMUNICAÇÃO EM DOIS NÍVEIS: MEMÓRIA
ACTUALIZADA DE UMA HIPÓTESE
E lihu K a t z .............................................................................................................................................................................6 1
O FLUXO DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA
E O CRESCIMENTO DIFERENCIAL DO CONHECIMENTO
P. J. T ic h en o r , G. A. D on o h u e e C. N. O l i e n ........................................................................ 79
AS NOTÍCIAS COMO UMA REALIDADE CONSTRUÍDA
G aye T u c h m a n ....................................................................................................................................................................9 1
SOCIOLOGIA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
T odd G it l in ........................................................................................................................................................................ 1 0 5
OS EFEITOS DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO
NA PESQUISA SOBRE OS SEUS EFEITOS
E l isa b et h N oelle-N e u m a n n ....................................................................................................................................1 5 1
AGRADECIMENTOS
A p u blicação deste con junto de textos perm ite reconstitu ir alguns dos m o
m entos fundam entais da problem ática dos efeitos sociais dos m eios de com u
n icação - um a problem ática central no âm bito dos estudos sociológicos da
com u nicação e, de um a form a m ais geral, de toda a pesquisa com u nicacional.
O conjunto dos trabalhos aqui apresentado fornece uma perspectiva h istóri
ca da evolução do debate sobre os efeitos dos m eios de com unicação social e, em
sim ultâneo, perm ite tam bém estabelecer um quadro geral das principais pro
postas de análise que foram desenvolvidas ao longo dos últim os anos. E, assim,
dada visibilidade a diferentes ângulos de abordagem do tem a - perspectivas
política, econôm ica e cultural bem como a um vasto conjunto de tem áticas
adjacentes que esta discussão vem m obilizando e tem ajudado a aprofundar:
com portam entos políticos, cidadania, violência, processos sociais de m anipula
ção e de influência, a formação dos gostos, etc.
Os textos aqui reunidos constituem algumas das propostas originais m ais
m arcantes do estudo dos efeitos, desde uma perspectiva com portam entalista
(através das teorias dos efeitos totais e dos efeitos lim itados), até às m ais recen
tes perspectivas cognitivistas e críticas (teorias do agendam ento, distribuição
do conhecim ento , espiral do silêncio , construção das notícias e um a con cep
ção crítica dos m eios de com unicação].
Enquanto problem ática central da investigação das ciências sociais, os efeitos
dos m eios de com u nicação são hoje em dia um objecto de estudo incontorná
vel para todos aqueles que encontram nestes novos m eios tecnológicos de
m ediação sim bólica das relações hum anas um m otivo de preocupação ou de
m era curiosidade. Não só para os profissionais dos próprios m eios e todos
aqueles que estabelecem um a relação privilegiada (de ordem profissional, ao
n ível das diversas institu ições e organizações sociais, ou «sim plesm ente» cív i
ca) com estes m eios; m as tam bém , e m uito em especial, para a generalidade
dos alunos e investigadores que se vêm dedicando a este dom ínio de estudo,
que em bora relativam ente novo no nosso país, tem vindo a registar nos ú lti
m os anos um desenvolvim ento seguro e decisivo.
O co n trib u to de d iv ersos co leg as e am igos fo i d eterm in an te para a
concretização desta publicação.
10 C om u n icação e S oc ied ad e
Gostaria de agradecer, m uito em particular, o incentivo e ajuda que de to
dos eles recebi.
Em prim eiro lugar, ao Professor N elson Traquina, o prim eiro grande entu
siasta deste projecto, que acom panhou desde a prim eira hora, sem pre com
grande cuidado e dedicação.
Aos colegas, M aria João Silveirinha, João Carlos Correia, Teresa Garcia M ar
ques e Leonel Garcia M arques, pelas suas sugestões e sábias propostas que me
ajudaram a solu cionar alguns problem as m ais intrincados que a tradução dos
textos colocou.
E, finalm ente, m ais que todos, à Paula, à Catarina e ao David: um a perm a
nente presença inspiradora e pela infinita p aciência que me dispensaram ao
longo de toda a realização deste projecto - e m uito mais.
JPE
Lisboa, 29 de Junho de 2001
INTRODUÇÃO
O ESTUDO DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO
E A PROBLEMÁTICA DOS EFEITOS
BREVE RESENHA HISTÓRICA E CONTRIBUTOS
PARA UMA PERSPECTIVA CRÍTICA
J o ã o P iss a r r a E s t e v e s
A form ação, nas prim eiras décadas do século XX, de um a d iscip lina cien tí
fica esp ecialm ente vocacionada para o estudo do fenôm eno da com unicação
apresenta com o suas condições constitu intes um conjunto diversificado de
factores. Alguns destes factores dizem respeito à situação geral das sociedades
ocidentais nessa época, outros estão m ais directam ente relacionados com as
condições esp ecíficas de desenvolvim ento das ciên cias sociais e, de entre es
tas, em particular, a sociologia.
A este nível, sobressai com o grande problem ática m obilizadora de esforços
para a constitu ição e, depois, para rápida consolidação da sociologia da com u
n icação, a cham ada questão dos efeitos,cu ja presença m arcou, até aos nossos
dias, quase todos os grandes m om entos do desenvolvim ento desta nova d isci
plina cien tífica : proporcionou a form ulação de propostas teóricas e m etodo
lógicas originais, de novas técnicas de análise (que viriam a conhecer uma
am pla repercussão m esm o noutros dom ínios das ciên cias sociais] e, ainda, o
desenvolvim ento de várias pesquisas de cam po paradigm áticas. A questão dos
efeitos acabou, assim , por exercer um a espécie de função ordenadora sobre
um a série de outras im portantes problem áticas da d iscip lina: o estudo dos
diversos elem entos constitu intes dos processos com u nicacionais, em especial
das audiências, o estudo da recepção e dos processos de estruturação das m en
sagens, as funções sociais dos m edia - para referir apenas alguns exem plos.
O con ju nto de textos apresentados nesta colectânea constitu i a selecção
possível, dentro dos condicionalism os próprios a um a primeira edição do gênero
o ferecida ao pú blico português, de alguns dos trabalhos e propostas m ais
m arcantes surgidas neste dom ínio de estudos ao longo de todo o século xx.
Não é, certam ente, um a selecção exaustiva, nem o seu critério poderá ser
considerado inquestionável: m ais que fechar um a problem ática, o que esta
edição pretende é sim abri-la a um a m ais am pla discussão da com unidade
(cien tífica e não só) de língua portuguesa, desejando, num futuro tanto quanto
possível próximo, o surgimento de novos contributos, nomeadamente editoriais,
14 C om u n icação e S oc ied ad e
deste m esm o gênero e outros, que m ais incisivam ente possam dar expressão
p ú blica à produção cien tífica nacional que vai sendo realizada neste dom ínio
de estudos. Em qualquer caso, a im portância dos trabalhos aqui apresentados
- de diferentes autores e, em alguns casos, já m uito afastados no tem po - é
absolutam ente inquestionável: todos eles continuam , ainda hoje, a m arcar
m om entos decisivos da história desta d iscip lina cien tífica e são m otivo de
reflexão da m aior actualidade para todos os que se preocupam com os proble
m as da com u nicação nos nossos dias.
I
Para um a m elhor com preensão das incidências, m arcantes mas tam bém
bastante contraditórias, do desenvolvim ento cien tífico desta problem ática,
ju stifica-se um esforço prelim inar de esclarecim ento quanto ao significado
propriam ente dito, e preciso, da noção «efeitos da com unicação» neste con tex
to; sendo tanto m ais ú til esta precisão quanto as questões delim itadas a partir
dessa noção são, efectivam ente, bastante m ais restritas do que a própria desig
nação sugere. Prim eiro, haverá que ter em conta que os efeitos considerados
são apenas (ou prioritariam ente) efeitos de carácter sociológico, ou seja, as
conseqüências dos processos de com unicação ao nível da vida colectiva e da
organização das sociedades hum anas, o que deixa de fora (ou em plano secu n
dário) m uitos outros tipos de efeitos; não obstante estes poderem tam bém ser
considerados, m as sem pre, sublinhe-se m ais um a vez, de um modo secund á
rio ou com plem entar. Em segundo lugar, haverá que considerar que a com u ni
cação em causa se restringe aos cham ados m eios de com u nicação de m assa:
não a com u nicação tout court, portanto, m as a com unicação relativa aos referi
dos m eios e, m esm o dentro desta, com a atenção esp ecial a incid ir naquela
que assum e um carácter público, habitualm ente designada por com unicação
so cia l1.
Para se com preender a razão porque a problem ática dos efeitos foi d elim i
tada desta form a, as circu nstâncias sociais e h istóricas da sua em ergência são
da m aior im portância. Recuando aos anos 30 do século passado, ao período
entre as duas Guerras M undiais, deparam os com um am biente de extrem a
conturbação a n ível social, econôm ico e político: m ais um a das fatídicas crises
do sistem a capitalista (fazendo-se sentir as suas repercussões dram áticas quer
nos Estados U nidos quer na Europa), a revolução com unista que se consolid a
va na R ússia e os totalitarism os que germ inavam de form a am eaçadora no
C ontinente Europeu - estes apenas alguns exem plos m ais m arcantes desse
clim a geral de enorm e instabilidade. Ao m esm o tem po que as tecnologias de
difusão co lectiva de m ensagens registavam um desenvolvim ento até então
nunca visto: a im prensa de m assa, a rádio (já com um im pacto poderoso no
con junto da sociedade) e a televisão (a ensaiar, então, os seus prim eiros pas
sos). Em bora ainda só de um modo difuso, com eçou então a tom ar forma social
m ente a consciência de um a íntim a relação entre estes dois tipos de fenôm enos,
dando origem à constitu ição de um a preocupação consistente com os m eios
C om u n icação e S oc ied ad e 15
de com u nicação, bem com o ao reconhecim ento, pela prim eira vez e de forma
clara, do enorm e poder destes m esm os m eios. E um a inquietação envolta por
um clim a de tem or e de um certo m istério, m as tam bém de um a profunda
ignorância quanto aos m eandros m ais secretos do funcionam ento dos novos
m eios de com u nicação e aos lim ites do seu poder.
Foi assim , neste contexto histórico e nestas circu nstâncias sociais particu
lares, com o objectivo de dar resposta a este gênero de necessidades de conhe
cim ento, que ao nível da ciência , diferentes d isciplinas (e de entre elas em
particular a sociologia) com eçaram a consolidar um a preocupação com a com u
nicação, através do seu estudo rigoroso e sistem ático.
A circu n stân cia de as preocupações científicas em torno dos m eios de co
m u nicação se constitu írem a partir de um a forte pressão social acabaria por
m arcar decisivam ente o desenvolvim ento dos estudos da com u nicação (e da
sociologia da com unicação, em particular) neste período. As necessidades de
conhecim ento a este nível partiram , m ais precisam ente e de um a form a orga
nizada, dos próprios agentes sociais m ais directam ente ligados à actividade
dos m eios de com u nicação: os em issores institucionalizados, que desta form a
se im puseram , desde o in ício , com o a m ais poderosa in flu ên cia sobre o traba
lho cien tífico , segundo interesses próprios e tendo em vista, declaradam ente,
m axim izar a sua capacidade de controlo e de m anipulação dos m eios.
Neste sentido, a problem ática dos efeitos assum e um valor paradigm ático
para a sociologia da com unicação, tam bém em função do dilem a fundam ental
que introduz no desenvolvim ento subsequente da d isciplina: de um lado, as
exigências próprias do conhecim ento científico e do saber sobre um a dada
realidade que procura sem pre aperfeiçoar-se, de outro, as pressões m ais ou
m enos subtis no sentido de se produzir um «conhecim ento útil» - os constran
gim entos de diversos tipos que recaem sobre o trabalho científico , procurando
transform á-lo num m ero recurso produtivo, em saber instrum entalizável para
fins ex tracientíficos. Esta am bivalência ficou bem tip ificada num a célebre
tipologia de caracterização da pesquisa com u nicacional, enunciada nestes ter
m os por Lazarsfeld: a pesquisa adm inistrativa, «conduzida ao serviço de algu
ma in stân cia adm inistrativa, se ja ela de carácter público ou privado», e a
pesquisa crítica , «que, prioritariam ente e a par de qualquer outro propósito
particu lar servido, visa o estudo do papel geral dos m eios de com u nicação no
sistem a social» (Lazarsfeld, 1941: 8 e 9).
II
Este dilem a, em bora tendo atravessando toda a história da sociologia da
com u nicação até aos nossos dias, fez-se sentir de form a m ais aguda nos pri
m eiros tem pos, com o se torna patente, nom eadam ente, na cham ada teoria dos
efeitos ilimitados - a primeira proposta propriamente dita surgida neste domínio.
Como o seu próprio nom eindica, a ideia que aí com eça a tom ar form a é a
de que os efeitos da com u nicação de m assa se exercem de um modo total,
d irecto e irreversível «sobre cada elem ento do público, que é pessoal e directa-
16 C om u n icação e S oc ied ad e
m ente “atingido” pela m ensagem » (Wright, 1975: 79). A tendendo às circu n s
tâncias h istóricas referidas e, em particular, ao tipo de utilização predom inan
te que dos m eios de com unicação era realizada nessa época, podemos considerar
que o sentido lato do fenôm eno com u nicacional se encontra ausente desta
teoria e, de um modo geral, do pensam ento da m aioria dos autores que à m es
m a prestaram um contributo. O que de form a clara então sobressai com o refe
rên cia do fenôm eno dos m eios de com unicação de m assa é, estritam ente e em
rigor, a propaganda; perante a qual o m eio cien tífico reage com a m aior perple
xidade: revelando tem or em relação às suas conseqüências, mas ao m esm o
tem po não escondendo tam bém um certo fascínio por este novo e enorm e po
der que agora era colocado à disposição do hom em (e que a ciência , em p ri
m eiro lugar, teria a possibilidade ou sonhava poder vir a dominar).
No percurso cien tífico da sociologia da com unicação, esta hipótese sobre
os efeitos não é m ais do que um a espécie de pré-história da d iscip lina: os
contornos da problem ática com eçaram a ganhar alguma definição e os con h e
cim entos sobre a m esm a adquiriram tam bém um a certa sistem aticidade, mas
continuavam ainda a predom inar as meras intuições e as percepções pouco
rigorosas do fenôm eno2. Embora condicionada pelo am biente social convulsivo
da época, já referido, esta proposta não deve ser considerada propriam ente
com o destituída de quaisquer m éritos científicos, destacando-se m esm o, a este
nível, outras duas teorias com o sua principal base de sustentação: a teoria
com portam entalista da acção e a teoria da sociedade de m assa - um a de carác
ter psicológico e outra sociológica, respectivam ente3.
A teoria com portam entalista tom ou forma a partir da psicologia behaviorista
w atsoniana com o um a explicação de tipo naturalista (biologizante) da acção
hum ana, tendo por referência a relação que se estabelece entre o organism o e
o am biente. Esta relação é concebida, então, ainda de um a form a pouco com
plexa, num a lógica estrita de associações estím ulo-resposta: aos estím ulos que
têm por origem as condições am bientais correspondem determ inadas respos
tas por parte do organism o, as quais constituem , afinal, o próprio com porta
m ento do indivíduo. Transposta esta lógica para o funcionam ento dos m eios
de com u nicação, torna-se fácil perceber a form ulação que adquire a hipótese
dos efeitos totais: as m ensagens dos m eios de com unicação funcionam com o
estím ulos «in jectados» nos indivíduos capazes de produzirem um a determ i
nada resposta - um com portam ento uniform e e predeterm inado4.
A teoria da sociedade de m assa, por sua vez, fornece o suporte sociológico
da concepção dos efeitos ilim itados dos media. A preocupação com o fenôm eno
da m assificação com eçou a m arcar presença no pensam ento social ainda du
rante o século XIX, na seqüência de um a série de m utações sociais que atingi
ram o cham ado m undo desenvolvido. Nas prim eiras décadas do século xx,
esta preocupação assinala um a im portante m udança qualitativa: quando se
passou a considerar que a m assa deixa de delim itar, m eram ente, um a certa
form a de sociabilidade (emergente) e passa a apresentar-se com o o verdadeiro
paradigm a da organização geral das sociedades desenvolvidas. Toda a carga
negativa já antes associada à m assificação vê-se assim transposta para a teoria
geral da sociedade, sobressaindo a imagem dos processos de com unicação im
C om u n icação e S oc ied ad e 17
pessoais, destinados a gigantescas aglomerações hum anas, constituídas por in
divíduos anônim os, isolados entre si, indefesos e sem qualquer capacidade de
resposta às m ensagens que lhes eram dirigidas; as pessoas organizadas social
m ente como massa transformam-se em alvos inertes dos meios de comunicação,
enquanto as m ensagens destes m eios, estruturadas sob a forma de propaganda,
se apresentam com o autênticos projécteis que visavam esses m esm os alvos5.
A im agem do processo de com unicação subjacente quer à teoria com porta
m entalista quer à teoria da sociedade de m assa é, pois, a da m anipulação: um
im enso poder dos m edia para controlar as pessoas e levá-las a agir de acordo
com as m ensagens difundidas (isto é, conform e as in tenções daqueles que as
produziram ).
A apresentação m ais com um da teoria dos efeitos totais assum iu um a for
m a difusa e fragm entária. Ela não é tanto um corpo de conhecim entos coeren
te e sistem ático, mas antes um con junto de ideias dispersas e desconexas, que
podem ser encontradas em autores m uito diferentes e, em geral, sem qualquer
relação entre si. A excepção a esta regra cabe a Harold Lassw ell, o qual, ao
form ular um m odelo de com u nicação próprio, forneceu a sistem atização orgâ
n ica e a form alização m ais consistentes desta m esm a teoria dos efeitos.
Como cientista político, a preocupação de Lasswell com o fenôm eno com uni
cacional tinha por principal objectivo verificar as condições de eficácia da
propaganda política. N este sentido, o seu trabalho avançou com a id en tifica
ção dos elem entos fundam entais constituintes do processo com u nicacional -
em issor, m ensagem , receptor, canal e efeitos6; e estruturou a partir deles, de
pois, as diferentes áreas de pesquisa da com u nicação7. E, porém , na form a
com o o m odelo estabelece o encadeam ento linear dos seus elem entos, bem
com o num con junto de pressupostos essenciais relativos ao «funcionam ento»
dos processos de com unicação, que a teoria dos efeitos ilim itados m ais n itida
m ente transparece no pensam ento de Lassw ell: a com unicação com o um pro
cesso de tran sm issão de in form ação (entre dois pontos d eterm inad os e
percorrendo um a série definida de etapas/elementos interm édios), que obede
ce a um a intencionalidade in trínseca (consubstanciada pelo conteúdo da m en
sagem e em vista à obtenção de resultados específicos, aferíveis em term os
com portam entais), com um a organização estrutural assim étrica (o em issor como
agente activo - gerador de estím ulos - e o receptor com o elem ento passivo -
lim ita-se a «reagir» enquanto m assa) e absolutam ente insulada, isto é, o pro
cesso de com u nicação fechado sobre si m esm o, dependente estritam ente das
suas condições técn icas internas e sem qualquer in terferência determ inante
por parte de algum elem ento exterior (social ou cultural).
Em bora a construção deste m odelo tenha obedecido a um propósito essen
cialm ente analítico, a partir dele foi possível dar in ício a um trabalho m ais
sistem ático de pesquisa e experim entação em píricas, revelando-se os seus re
sultados, de um modo geral, inesperados e surpreendentes. Contra todas as
expectativas e os próprios pressupostos de base do m odelo, os efeitos dos m e
dia não se revelaram «totais»8. E por esta razão, a Lassw ell deve ser reco n h eci
do um duplo papel na história da teoria dos efeitos da com unicação: se, por
um lado, se apresenta com o o m ais esclarecido representante da teoria dos
18 C om u n icação e S oc ied ad e
efeitos totais, por outro, foi tam bém o prim eiro responsável de um a superação
desta hipótese de trabalho, abrindo a porta a novas linhas e orientações de
pesquisa, que vieram a desenvolver-se nas décadas seguintes e todas elas apon
tando para um a nova (e m ais com plexa) concepção dos efeitos9.
III
A resposta da sociologia da com unicação, a partir dos anos 40, aos proble
mas suscitados pelom odelo linear de Lassw ell evidencia um a alteração de
fundo no paradigm a geral de análise: a in fluência passa a ocupar o lugar cen
tral de referência que até então tinha pertencido à m anipulação - in fluência
considerada com o processo social geral, o que significa tam bém que, a partir
de agora, a com u nicação dos m eios de m assa deixa de poder ser considerada
de um a form a isolada, exigindo antes a sua integração no con junto dos proces
sos com u nicacionais que constituem a sociedade e, em term os m ais latos, nos
próprios processos sociais gerais. Esta alteração, com o se com preende, tem
tam bém profundas im plicações em term os da form a de com preender o Espaço
Público e a O pinião Pública dos nossos dias.
Outra alteração m arcante no plano científico é o investim ento p raticam en
te in con d icion al no trabalho de pesquisa em pírica - característica quase au
sente nos prim eiros passos da sociologia da com unicação, mas que depois (e
até final dos anos 60) se veio a revelar com o o seu principal atributo.
Como grande dinam izador desta viragem destaca-se a figura de um ilustre
acadêm ico, Paul Felix Lazarsfeld. A sua chegada aos Estados U nidos, em 1932,
ainda m uito jovem , a convite da Fundação Rockefeller e para dirigir o Radio
Research Project, m arcou o in ício de um percurso fulgurante não só no dom í
nio dos estudos da com u nicação m as tam bém , de um modo m ais geral, ao
nível de toda a pesquisa social norte-am ericana. Em bora de origem europeia,
Lazarsfeld notabilizou-se por ter im prim ido um cunho de identidade próprio
à investigação social do outro lado do A tlântico, desenvolvendo aquilo que
ficou conhecido com o um «novo espírito universitário», onde o behaviorism o
e o positivism o m arcavam posições de destaque contra a propensão m ais filo
sófica até aí predom inante (herdada da tradição europeia). A partir destas n o
vas bases, a aposta no trabalho em pírico, realizado de form a sistem ática e
m assiva, surgiu com o que um a conseqüência natural, assim com o o estreita
m ento de ligações entre o m eio acadêm ico e o m undo das em presas. Toda uma
nova orientação, em sum a, tendo em vista um único objectivo: a racionaliza
ção em term os praticistas das ciên cias sociais - o «cam inho da glória» que
viria a projectar estas ciências para a sua participação com enorm e êxito no
grande processo de desenvolvim ento desencadeado no Pós-Guerra.
A problem ática dos efeitos foi da m aior utilidade para este am bicioso pro
jecto . Todos os requisitos indispensáveis encontravam -se nela reunidos: trata-
-se de um a questão com um sentido prático indiscutível, a exigir um esforço
su bstancial em term os de pesquisa em pírica e que correspondia, tam bém , a
um a necessidade social em inente (reclam ada por agentes sociais m uito diver-
C om u n icação e S oc ied ad e 19
sos, directa ou indirectam ente ligados aos meios de com unicação). O contributo
decisivo de Lazarsfeld para a sociologia da com unicação ficou em especial
associado a duas propostas originais deste autor: um novo m odelo de com u ni
cação, conhecido por «fluxo de com unicação em dois níveis», e a teoria dos
efeitos m ínim os (que, com o o nom e indica, altera radicalm ente alguns dos
princípios da anterior concepção dos efeitos). A validação de am bos estes in s
trum entos cien tíficos decorreu na seqüência da realização de dois im portan
tes trabalhos de pesquisa, cujos resultados viriam a ser objecto de publicação
em livro com os seguintes títulos sugestivos: The People’s Choice - how the
voter m akes up his mind in a presidential campaign (1944) e Personal Influence
- the part played by people in the flow o f mass communications (1955 )10.
Em qualquer destas pesquisas, Lazarsfeld procede a um a análise dos efe i
tos tendo em esp ec ia l consid eração o contexto socia l dos processos de com u
n icação de m assa; e conclu i, quanto a estes m esm os efeitos, que eles dependem
essencialm ente do referido m eio socia l (e não tanto, com o antes se pensava,
do conteú do propriam ente dito das m ensagens difundidas). Por outro lado, a
observação m ais porm enorizada do processo dos m eios de com u n icação so
c ia l p u n h a em ev id ên cia , tam bém , a profunda in ad equ ação do m odelo
lassw ellian o : a difusão das m ensagens não é lin ear nem u niform e no tecido
social. Nas referidas pesquisas foi possível identificar, entre a totalidade dos
recep tores, um con ju n to m ais restrito de indivíduos que revelavam um a ca
pacidade de re lacionam ento com os m eios de com u nicação m ais in tensa;
são os cham ados «líderes de opinião», que se destacam no in terior dos gru
pos inform ais (dos quais eles próprios fazem parte), entre outras razões, pre
cisam en te pela sensib ilid ad e superior que dem onstram perante este tipo de
com u n icação e pela sua m aior pred isposição em aco lh er as m ensagens com
origem n esses m eio s11.
E com base nestes novos dados que Lazarsfeld acaba por form ular o seu
m odelo de com u nicação: já não linear mas segundo níveis - «dois níveis» -
isto é, a com u nicação dos m eios de m assa antes de atingir a generalidade do
pú blico sofre ela própria um a m ediação, através dos líderes de opinião. Estes,
por sua vez, cum prem neste processo a m ediação sob a form a de um a dupla
função: são retransm issores das m ensagens dos m eios de com u nicação e pro
cedem , sim ultaneam ente, a um trabalho selectivo sobre essas m esm as m ensa
gens, ou seja, adequam -nas de algum modo às características (valores, norm as,
regras, padrões de conhecim ento, etc.) dos grupos a que se destinam (fam ília,
círcu los de amigos, de relações de trabalho, de vizinhança, associações de
vários tipos, etc.). E assim se contraria a ideia a partir de agora considerada
fantasiosa (da teoria hipodérm ica) de que os efeitos dos m eios de com unicação
de m assa se processam de um a form a directa sobre as pessoas: pelo contrário,
e les d ecorrem , em geral, in d irectam en te , através do quadro de re lações
interpessoais em que cada indivíduo se insere e, em particular, da m ediação
de certos elem entos destacados dos grupos inform ais.
Por últim o, quanto à avaliação propriam ente dita do poder dos m eios de
com unicação, as conclu sões das pesquisas desm entem , de um a forma que para
Lazarsfeld é tam bém categórica, a hipótese dos «efeitos totais». Desde logo, os
20 C om u n icação e S oc ied ad e
dados em píricos recolhidos não autorizam a que se fale de um ú nico efeito (de
m anipulação), verificando-se pelo contrário diferentes tipos de efeitos, a sa
ber: o reforço, a activação e a conversão - tendo sem pre por referência o pro
cesso de constitu ição de um a dada opinião. Apenas o últim o se adequa ao
paradigm a da teoria dos efeitos totais, na m edida em que corresponde a um
poder ilim itado dos m eios de com u nicação de orientarem o com portam ento
dos indivíduos; já o reforço e a activação, pela sua natureza, são a própria
negação desse poder: reportam -se a com portam entos que já estão orientados
(ou pelo m enos pré-orientados) antes de qualquer intervenção dos m eios de
m assa. A quantificação destes vários tipos de efeitos revela, ao m esm o tempo,
que são precisam ente estes últim os os m ais observados, enquanto a conversão
se verifica apenas num núm ero m uito reduzido de casos12. A conclusão inevi
tável, segundo esta lógica de raciocín io, só pode então ser um a: ao contrário de
todas as afirm ações conhecidas e da própria convicção generalizada entre a
m aioria dos estudiosos, os efeitos dos meios de com unicação são, afinal, extrema
m ente diminutos!
De form a um tanto paradoxal m as com o um a m ais-valia desta teoria que
não pode ser esquecida (e não obstante todas as reservasque possam m erecer
os seus m étodos de pesquisa e conclu sões), há que destacar a im portante
reabilitação, por assim dizer, aqui proporcionada ao processo de com unicação
pessoal. E este tipo de com unicação, em últim a análise, que estabelece os lim i
tes dos efeitos e do poder dos m eios de m assa; um a suprem acia da com u nica
ção p essoal que advém do p ap el fu nd am ental que ela co n tin u a ain d a a
desem penhar em term os sociais, com o factor de hom ogeneidade e de coesão,
e que lhe garante um a capacidade de in fluência superior13.
Depois de um período em que dom inaram os sentim entos m ais paroxísticos
sobre os m eios de com u n icação - receios, tem ores, con fian ça e fé absolu tas -
, a teoria dos efeitos lim itados assum iu-se com o um elem ento de grande sere
nidade, m as não estando isenta de um a profunda am bigüidade. Q uando
Lazarsfeld afirm a, confiante, que nos processos gerais de in flu ên cia , o papel
prim ordial con tin u a a pertencer às pessoas (relações in terp essoais), em de
trim ento da im pessoalidade e do anonim ato dos m eios de com u nicação , pa
rece acred itar que isto é só por si um a garantia contra a propaganda e a
m anip u lação ; m as não é verdade, com o todos bem sabem os e a exp eriên cia
quotidiana da com unicação confirm a a todo o m om ento. E o próprio Lazarsfeld
tam bém não o ignorava, ao recon h ecer que o «poder lim itado»/«efeitos m ín i
m os» dos m eios de com u n icação tinha com o corolário um papel secundário
das ju stifica çõ es e das fundam entações racionais ao n ível dos processos ge
rais de in flu ên cia (Lazarsfeld, B erelson e Gaudet, 1962 : 217 e 218) - neste
caso, um a verdade que se ap lica tanto à com u n icação in terp essoal com o à
dos m eios de m assa.
O bservado à d istância o contributo de Lazarsfeld para a sociologia da co
m unicação, subsiste seriam ente a dúvida se a tranqüilidade e a confiança que
irradiam das suas teorias são, na verdade, a expressão de um verdadeiro saber
ou, pelo contrário, meras m itificações de uma época que tantas vezes se inebriou
até ao lim ite com o su cesso do seu próprio desenvolvim ento.
C om u n icação e S o c ied a d e 21
IV
D urante cerca de três décadas, a teoria dos efeitos lim itados assum iu in d is
cu tivelm ente a posição de paradigm a dom inante da sociologia da com u nica
ção - um a situação ímpar, que nenhum a outra teoria (anterior ou posterior a
Lazarsfeld) no âm bito desta d iscip lina conheceu.
Como refere G itlin , as razões deste sucesso estão m uito para além de asp ec
tos propriam ente cien tíficos, relacionando-se antes com um con junto de pre
disposições ideológicas que acabariam por se constitu ir com o verdadeiros
princíp ios m etateóricos desta proposta14. Delas, cabe referir, em prim eiro lu
gar, o ponto de vista adm inistrativo: a orientação das pesquisas determ inada a
p artir do ex terio r por in stitu içõ e s e organizações so c ia is com am bições
hegem ônicas, que viam nos m eios de com unicação um instrum ento essencial
para atingirem os seus fins e desenvolverem as suas estratégias de afirm ação
em geral15. Em segundo lugar, foi de igual modo determ inante para o sucesso
destas pesquisas a sua orientação com ercial, isto é, a forma com o assim ilaram
na perfeição a «natureza» do seu objecto de estudo - o sistem a dos m eios de
com unicação norte-am ericano; a problem ática dos efeitos assum iu, assim , como
seu objectivo m uito preciso e prioritário, a produção de um conhecim ento útil
quanto à «m elhor form a de com unicar», num a perspectiva de eficácia econô
m ica (dos próprios m eios de com unicação e dos bens de consum o em geral,
cu ja com ercialização passou a estar directam ente dependente dos prim eiros)16.
Por últim o, há a registar a m arca indelével da ideologia social-dem ocrata no
pensam ento de Lazarsfeld - definida desde o tem po da sua juventude vienense
e do círcu lo de am izades que então estabeleceu com destacados in telectu ais e
dirigentes políticos do cham ado m arxism o-austríaco (Adler, Bauer i Hilferding);
a partir de um a ideia de dem ocracia sui generis, as ciên cias sociais de um
m odo geral são predispostas de modo a prestarem o seu contributo à celebra
ção de um a esp écie de ritual perm anente de expressão das escolhas e prefe
rências dos indivíduos (segundo um a pauta, porém , predefinida por agentes
institu cionais, com erciais e políticos, à margem da in iciativa dos próprios in
divíduos).
Deste m odo, o declín io do paradigma dom inante, a partir dos anos 70, não
pode tam bém deixar de ser relacionado com as condições sociais que determ i
naram a crise destes m esm os princíp ios m etateóricos (pressupostos ideológi
cos). A este nível destacam -se certas transform ações registadas directam ente
ao n ível do próprio sistem a dos m eios de com unicação, em particular, a fulgu
rante expansão da televisão, que num curto espaço de tem po conquistou um a
posição hegem ônica, afirm ando-se com um a intervenção p olítica decisiva e
evidenciando recursos operativos únicos (fora do a lcance de todos os outros
m eios) - capacidades apelativas, de sedução, de síntese de m ensagens e de
m anipulação da fronteira sim bólico-realidade. Neste plano, ainda, outra alte
ração im portante (resultado da própria televisão, mas não só) foi a grande d i
v ersifica çã o da oferta de m ensagens dos m eios de co m u n icação , com a
conseqüente pulverização das audiências, a sua m aior hom ogeneidade e uma
distribuição da inform ação no sistem a social m uito m ais diferenciada. Quanto
22 C om u n icação e S o c ied ad e
a outras transform ações sociais de ordem m ais geral que acabaram tam bém
por se repercutir nos m eios de com unicação, salientam -se: um a intensificação
progressiva dos factores de instabilidade p olítica (com o fim do «grande con
senso» que prevaleceu nas sociedades ocidentais no Pós-Guerra), a mudança/
/crise profunda dos partidos políticos (ao nível da sua estrutura e papel social)
e a transform ação tam bém do discurso político (no sentido de um a crescente
dependência dos m eios de com unicação de m assa)17.
M ais do que apenas um outro sentido da problem ática dos efeitos, o que
com eça realm ente a tom ar form a pelos anos 70, com estas novas condições
sociais e com as alterações em curso ao n ível das pesquisas18, é um a nova
sociologia da com unicação, que alia às preocupações tradicionais sobre os efei
tos e funções dos m eios de com unicação, novas preocupações relacionadas
com o funcionam ento da Opinião Pública nos nossos dias, a im portância social
do jornalism o no actual discurso político e o papel geral dos m eios de com u ni
cação na construção social da realidade19. Estes novos horizontes foram defi
nindo cada vez m ais nitidam ente os seus contornos a partir de um confronto
crítico decisivo com o anterior paradigm a e da convicção que se consolidou de
que este apenas soube esclarecer alguns aspectos da questão com u nicacional
nas sociedades actuais, ao m esm o tem po que deixou obscuros, incom pletos
ou esquecidos outros aspectos, servindo assim com o m era form a de ju stifica
ção do status quo (sistem a de propriedade, form as de controlo e objectivos
estabelecidos dos m eios de com unicação de massa).
Este esforço de renovação recupera algumas das ideias in icia is desenvolvi
das pela pesquisa sociológica da com unicação - ideias que perm aneceram es
quecidas durante largo período, em virtude das poderosas pressões externas
que se fizeram sentir sobre este gênero de pesquisa (interesses econôm icos e
p olíticos que esperavam um a avaliação im ediatista dos efeitos e, acim a de
tudo, o desanuviam ento das preocupações sociais quanto ao poder dos m eios
de com unicação). Autorescom o Lippm ann, Park e os m em bros da Escola de
Frankfurt em geral voltaram , assim , a ganhar actualidade, em função de duas
ideias principais: o grande poder social dos m eios de com unicação (embora esse
poder não seja agora já apresentado sob a forma sim plista de «efeitos totais») e a
avaliação da incidência dos efeitos da com unicação num plano social m ais pro
fundo - ao nível das formas de apreensão do mundo envolvente (representações
sim bólicas), isto é, enquanto conhecim ento não sistem ático, intuitivo, fragmen
tário, de senso com um e colectivam ente partilhado (acquaintance with20).
Como podem os verificar, é m ais um a vez a questão dos efeitos dos m eios de
com u nicação a ocupar o prim eiro plano das preocupações, mas agora através
de um a perspectiva inteiram ente diferente. Já não a concepção ob jectiv ista (de
Lazarsfeld ou de Lassw ell) que fazia a aferição dos efeitos em term os im edia
tos e estritam ente com portam entais, mas um a concepção dos efeitos em ter
m os cognitivos: ao n ível do conhecim ento social, do saber público partilhado,
das form as de entendim ento que as sociedades adquirem sobre si próprias e o
seu m eio envolvente.
A lém deste aspecto, quanto à natureza propriam ente dita dos efeitos, regis-
tam -se ainda outras grandes diferenças entre estas duas concepções. Como já
C om u n icação e S o c ied a d e 23
foi referido, os m eios de com unicação voltam a ser avaliados com o poderosos
- sem o dram atism o (e um a certa ingenuidade) dos anos 20, mas tam bém sem
a obsessão tranquilizadora dos anos 50 e 60. Sendo efeitos ao nível das formas
de pensar e de com preender o mundo, não podem já ser encarados com o efeitos
directos e im ediatos, m as sobretudo indirectos (através de com plexos processos
de m ediação sim bólica) e com carácter cum ulativo. Por esta razão, não são tam
bém efeitos instantâneos mas de longo prazo, que exigem quadros de análise
alargados e um acom panham ento mais prolongado das pesquisas. A sua aferi
ção já não pode fazer confiança ilim itada nos métodos quantitativos, tornando-
-se indispensável a m obilização de métodos qualitativos de pesquisa e a im agi
nação de formas originais de articular estes dois tipos de metodologias. E por
últim o, será a própria avaliação social dos efeitos que ganha um a nova dim en
são: além dos indivíduos propriamente ditos (unidades singulares e discretas),
há que considerar as unidades sociais colectivas - as instituições e as organiza
ções sociais em geral que, tal com o os sujeitos individuais, são tam bém desti
natárias das m ensagens dos meios de com unicação (e dos seus efeitos).
Todas as principais propostas da sociologia da com unicação surgidas ao
longo dos últim os anos, não obstante as diferenças que as separam , situam -se
nesta linha teórica. A título m ais representativo podem os referir: a teoria da
função de tem atização dos m eios de com unicação, desenvolvida por Luhm ann
no âm bito de um a análise sistêm ica da Opinião Pública contem porânea (1978:
85 -1 2 9 )21; a teoria de agenda-setting, que procede a um a com paração da agen
da dos m eios de com u nicação com a agenda do público para avaliar o poder de
penetração que a prim eira tem sobre a segunda22; os estudos de newsmaking,
que exploram o papel das notícias na construção social da realidade23; ou, ain
da, a teoria do diferencial cognitivo, que procede a um a avaliação em termos
sociológicos da distribuição diferenciada do conhecim ento e da inform ação
através dos m eios de com u nicação24.
V
Todas estas teorias evidenciam um claro centram ento num a concepção dos
efeitos em term os cognitivos, mas cabe tam bém realçar na m ais recente linha
de renovação dos estudos sociológicos da com unicação a preocupação crítica.
A posição de ruptura frontal com o paradigm a dom inante e a contestação à
hegem onia que Lazarsfeld e a sua Escola exerceram neste dom ínio de estudo
perpassa num a crítica dos «efeitos m ínim os» que se articula em torno de três
eixos: as questões teóricas, os procedim entos m etodológicos e o quadro tem
poral de análise.
No plano teórico, o m odelo de Lazarsfeld coloca diversos problem as, mas
quanto à questão dos efeitos, especificam ente, esses problem as podem ser cir
cu nscritos (e inter-relacionados) num núcleo m ais restrito. Prim eiro, a ques
tão da form a de re co n h e c im e n to do poder dos m eios de co m u n ica çã o
(«influência»), para a qual Lazarsfeld toma com o padrão aquilo que ele pró
prio tip ifica com o a «m udança de atitude» (denunciando, assim , o seu apego
24 C om u n icação e S oc ied ad e
ainda à lógica dos «efeitos totais» e à concepção do poder dos m eios de com u
n icação com o «m anipulação»); todas as demais situações em que não se obser
va um a «conversão» da opinião in icia l (segundo a sua própria tipologia, os
casos de «reforço» e de «activação»), e que constituem a larga m aioria das ocor
rências, são interpretadas com o um a suposta ausência de efeitos. Esquece-se,
assim , que o que se esconde afinal por detrás desta falácia é um outro (e deci
sivo) poder dos m eios de com unicação, o poder definido não pela capacidade
de fazer as pessoas pensarem de outra forma mas, pelo contrário, de levá-las a
pensar sem pre do m esm o modo - esse trabalho m onum ental de consolidação
das ideologias ao n ível das consciências individuais, que não é objecto de
qualquer questionam ento por parte das pesquisas adm inistrativas e que per
m anece, assim , na m ais com pleta obscuridade25.
O corolário desta prem issa m inim izadora dos efeitos dos m eios de com u ni
cação é estabelecido pelo poder reconhecido às relações pessoais, mas de um a
form a, contudo, bastante equívoca, que consiste em considerar estas duas fon
tes de influência, em term os behavioristas, com o perfeitam ente com ensuráveis
entre si, esquecendo as diferenças estruturais m arcantes que na verdade as
caracterizam 26.
A intenção apaziguadora da teoria dos efeitos lim itados está ainda presente
num a concepção in tu icionista (e m uito ingênua) do poder, que ignora por com
pleto os padrões estruturais (não equitativos nem pluralistas) da sua distribui
ção social; na concepção da «liderança de opinião» com o m ero seguidism o -
com o se dentro dos grupos sociais só houvesse lugar para a estabilidade e os
«líderes» não tivessem qualquer papel de inovação e m udança social; e, por
últim o, tam bém na equivalência funcional totalm ente abstracta que Lazarsfeld
estabelece entre as diversas actividades sociais (moda, frequência de salas de
cinem a, consum o de bens dom ésticos e assuntos políticos), a partir da qual
procede à avaliação dos efeitos (em term os quantitativos)27.
Um segundo eixo de crítica ao paradigm a dom inante desenvolve-se em tor
no da sua base m etodológica28. Como é sabido, os instrum entos de análise e os
m étodos de pesquisa em pírica desenvolvidos por Lazarsfeld ainda hoje gozam
de um elevado reconhecim ento de notoriedade entre o m eio acadêm ico em
geral, m as, com o se procurará argumentar, estes atributos não são suficientes,
só por si, para construir um a sólida teoria científica , nem é claro, tão-pouco,
que a sua utilização tenha sido sem pre a m ais coerente.
Como já sabem os, a tese que m inim iza os efeitos dos m eios de com u nica
ção tem com o corolário o reconhecim ento do papel prim ordial que continu a a
pertencer à in flu ên cia pessoal; todas as pesquisas foram orientadas no sentido
de confirm ar esta ideia e acum ularam -se dados sobre dados para im por a sua
«evidência». M as, pelo m enos em dois m om entos cruciais, Lazarsfeld (e o seu
circu n stan cia l com panheiro de pesquisa, E lihu Katz) deparou-se com contra-
-ev id ên cias em baraçosas: foi em Personal Influence, quando se procurou
identificar,a propósito das questões políticas, as fontes de in flu ência e o papel
que os próprios indivíduos foram cham ados a reconhecer possuírem no pro
cesso de in fluência . Em am bos os casos, o poder da in flu ência pessoal parece
dissipar-se com o que m isteriosam ente: ao contrário dos restantes assuntos que
C om u n icação e S o c ied ad e 25
foram objecto de pesquisa, nas questões políticas as pessoas não evidenciaram
um a intervenção m uito relevante das relações pessoais e, nesse m esm o senti
do, revelaram tam bém grande dificuldade em reconhecer para si próprias um
p a p e l e s p e c íf ic o n e s s e su p o sto p ro c e s s o g era l de in f lu ê n c ia (co m o
influenciadoras de outras ou com o influenciadas por outras). Am bas as situa
ções - confirm adas por dados quantitativos inequívocos - deixam supor, rela
tivam ente ao caso dos assuntos políticos, um a infirm ação da tese genérica dos
efeitos que é sustentada: podem os de facto aceitar que estam os perante uma
negação dessa tese, pois de acordo com a lógica da própria pesquisa, quando
não se verifica a in flu ên cia pessoal é porque no seu lugar estará a in fluência
dos m eios de com unicação. No m ínim o, porém, a questão deveria ser m erece
dora de um aprofundam ento; mas não foi isso de modo algum o que acon
teceu, lim itando-se os autores a proceder a um a agregação geral dos resultados
(as opiniões políticas conjuntam ente com as opiniões sobre os restantes as
suntos), que teve por efeito m ágico (mas cientificam ente m uito duvidoso) uma
diluição das d iscrepâncias referidas.
Este é um caso típico de «efeito de realidade» m itificador produzido pela
teoria, revestindo aqui a form a deste suprem o paradoxo: em bora as questões
políticas tenham fornecido os dados m enos convincentes da teoria dos efeitos
lim itados, seria contudo a este nível que a teoria depois encontrou o seu aco
lhim ento m ais favorável e onde obteve m aior consagração.
Por ú ltim o, a crítica a propósito do quadro tem poral das pesquisas sobre o
fluxo de com u nicação a dois níveis. A lém da questão básica de estas pesquisas
visarem apenas os efeitos de curto prazo dos m eios de com unicação, colocam -
-se ainda outros problem as a este n ível quanto ao processo de generalização
de resultados adoptado.
O perfil desenhado para as investigações paradigm áticas contém pelo m e
nos duas m arcas tem porais determ inantes que recom endavam um certo cu i
dado n a in terp re ta çã o dos resu ltad o s: quanto ao s istem a dos m eios de
com u nicação, o facto de a televisão não ter sido objecto de estudo, e quanto ao
sistem a social, o tipo de com unidades estudadas (com unidades com um m isto
de rural e de urbano, onde se observavam ainda laços fortes de relações sociais
directas entre os indivíduos). M esm o considerando que este seria o perfil m ais
adequado para a época - perfeitam ente aceitável quanto à exclusão da televi
são (dada a sua expressão social, então, ainda m uito pouco significativa), mas
já nem tanto no que se refere às com unidades seleccionadas (o perfil m isto
não as torna representativas dos m eios propriam ente urbanos nem dos rurais)
- , isso não chega para fazer dos resultados obtidos (para todos os efeitos, resu l
tad os p o n tu a is ) a b ase de u m a «grande teoria» (su p o sta m en te geral e
intem poral). M as foi isto m esm o o que acabou por acontecer29, não obstante
todas as oportunidades que estes investigadores tiveram ao seu dispor (mas
não aproveitaram ) para testarem de um modo m ais rigoroso as suas co n clu
sões, noutro tem po e em outros locais com condições (sociais e com u nica
cionais) d istintas - com a televisão já com o m eio de com u nicação de grande
im pacto e com relações sociais m ais fortem ente m assificadas (e sob a in flu ên
cia dos m eios de com unicação). Prevaleceu, assim , um procedim ento «cientí
26 C om u n icação e S oc ied ad e
fico» de cariz m arcadam ente positivista, que teve com o efeito uma certa feti-
ch ização da realidade social: dados em píricos circu nstanciais que ao serem
apresentados com o «factos sociais» indiscutíveis, criaram uma absoluta evidên
cia da «realidade» que é, contudo e na verdade, com pletam ente enganadora30.
V I
Perante as cr ítica s co n tu n d en tes que se abateram sobre o im portante
paradigm a de Lazarsfeld, é natural que se possa instalar um a certa incerteza
quanto à viabilidade da própria sociologia da com unicação.
Contra esta perspectiva dos m ais cépticos, é possível, contudo, afirm ar com
um a fundam entada convicção, um trabalho reconstrutivo, tendo por base, ju s
tam ente, esta discussão crítica do paradigma dom inante que se desenvolveu
nos últim os anos a partir de m últiplas direcções.
Este trabalho poderá iniciar-se, m ais um a vez, partindo da questão dos efei
tos, m as agora necessariam ente segundo um novo ponto de vista, que perm ita
ultrapassar a visão superficial predom inante durante largo período - dos efei
tos dos m eios de com unicação apenas a um nível de aparência, superficial,
efeitos m ensuráveis, com portam entais, de curto prazo, m ais ou m enos d irec
tos e im ediatos. Estam os agora confrontados com um a noção sociológica m ais
consistente das audiências, considerando não só os seus diversos critérios de
segm entação m as tam bém os perfis sim bólicos que lhes estão associados: os
processo de recepção e as form as diferenciadas de descodificação das m ensa
gens (Hall, 1999 : 59-61), os quadros culturais e os investim entos afectivos
m obilizados.
De um ponto de vista reconstrutivo, tão im portante quanto estas alterações
em alguns aspectos específicos da questão dos efeitos, é a possibilidade de
reenquadrar em termos gerais de um novo modo a problem ática da com unica
ção na actualidade. E todo um im enso trabalho de recuperação de questões fun
dam entais sobre os meios de com unicação, a cultura de massa e a com unicação
em geral que ficou esquecido pelo paradigma dom inante (ou que foi realizado
apenas m uito parcialm ente): os interesses e os fins que dom inam o actual siste
ma dos m eios de com unicação de massa, as configurações institucionais que
gerou e as transform ações que im prim iu nas instituições já existentes (ao nível
da sua estrutura, objectivos e significado social), a sua repercussão nos univer
sos sim bólicos das nossas sociedades (na linguagem quotidiana e nas culturas
tradicionais, por exem plo), as relações que estabelece (ou inibe) com as diversas
aspirações sociais e os interesses hum anos em geral. Em termos políticos, a par
de um a perspectiva sistêm ica, é a possibilidade tam bém de reencontrar as pes
soas concretas: perceber o significado da com unicação de m assa no universo
dem ocrático dos dias de hoje (a dem ocracia de m assa face às aspirações utópi
cas dos cidadãos e da vontade colectiva), o seu papel, em particular, sobre as
institu ições políticas e os m ovim entos sociais.
O que se espera hoje da sociologia da com unicação é, sobretudo, um a capa
cidade de análise m ais incisiva, habilitada a captar as am bivalências subtis
C om u n icação e S o c ied a d e 27
que atravessam o cam po dos m eios de com unicação e o universo m ais lato da
com unicação nos nossos dias. Perceber por que formas e em que circunstâncias
os m eios de com u nicação operam com o dispositivos de controlo social - uma
«engenharia social» ao nível sim bólico, com vista à im posição de um «consen
tim ento público» que tem por objectivo reprim ir aspirações e expectativas so
ciais fundam entais; com preender, sim ultaneam ente, o papel esp ecífico que
produtores e difusores têm em todo este trabalho. Mas, ao m esm o tem po, per
ceber tam bém as form as de resistência que perpassam por estas redes, os ecos
de um a infelicidadequotidiana que ressoa em m anifestações de contestação e
revolta, e que por vezes se fazem tam bém ouvir através dos novos dispositivos
tecnológicos de m ediação sim bólica.
A par destas am plas possibilidades de renovação que se oferecem à socio
logia da com u nicação a partir do seu próprio objecto de estudo, tem os ainda a
considerar todo um vasto trabalho que está por realizar nos planos teórico e
m etodológico: a possibilidade (e a necessidade) de encontrar enquadram entos
m ais abrangentes e consistentes (para todas as novas problem áticas que aca
baram de ser referidas) - que equacionem as questões do poder, da econom ia
política, das ideologias, do sistem a e da sociedade de consum o, da cultura em
geral (m esm o nas form as autônom as que persistem em afirm ar-se à margem
dos p rocessos de m assificação) - e novos m étodos de p esqu isa (com o a
etnografia, o in teraccionism o sim bólico, a sociofenom enologia, a observação
participante ou as histórias de vida) que possam vir a superar o em pirism o
reinante.
O vasto cam po de possibilidades que, com o se vê, está ao a lcance da socio
logia da com u nicação perm ite fundadam ente continuar a alim entar expectati
vas quanto a um conhecim ento crítico m ais agudo do Espaço Público e da
O pinião P ú blica - não apenas nas suas dim ensões m ais form ais e in stitu cion a
lizadas, m as tam bém nas form as espontâneas e autônom as que nos nossos
dias continuam a emergir a partir da vida quotidiana (Habermas, 1998: 439-468).
N o t a s
1 Esta delimitação tão restritiva da problemática dos efeitos deixou de fora vários aspectos relevantes
do fenômeno comunicacional, os quais só puderam encontrar resposta em áreas um tanto marginais da
sociologia da comunicação; o caso lalvez mais representativo é o do sociólogo canadiano Erving Goffman,
com uma obra monumental dedicada ao estudo da comunicação interpessoal - da sua vasta obra sobres
saem como estudos mais específicos sobre a comunicação (Goffman, 1980; 1987).
Nos últimos anos tem crescido a consciência (mesmo entre os investigadores que têm nos meios de
comunicação de massa o seu principal motivo de interesse) de que o conhecimento neste domínio de
estudo só poderá verdadeiramente sustentar-se a partir de uma perspectiva mais global e integrada do
fenômeno da comunicação (o que implica uma outra forma de equacionar a problemática dos efeitos).
2 Esta fragilidade está bem patente, por exemplo, nas valorizações completamente antagônicas da
própria teoria que se encontram entre os seus diversos autores. De um lado, os que viam nos meios de
comunicação (e no seu extraordinário poder) uma «nova aurora da democracia» - como Park ou Cooley;
de outro, aqueles que os consideravam autênticos agentes diabólicos e instrumentos demoníacos, capa
zes de conduzir «à total destruição da sociedade democrática» - por exemplo, Adorno, Horkheimer ou
Mills (Katz e Lazarsfeld, 1979: 17 e 18).
28 C om u n icação e S o c ied ad e
3 A presença destas duas teorias na hipótese dos efeitos totais perpassa na concepção de «uma massa
atomizada, composta por milhões de leitores, ouvintes, etc. dispostos a receber a mensagem, sendo cada
mensagem um estímulo directo e poderoso que conduz à acção, que obtém uma resposta directa e espon
tânea; em suma, os meios de comunicação considerados como um novo tipo de força unitária - um
sistema nervoso simples - que alcança os olhos e os ouvidos de todos, numa sociedade caracterizada por
uma organização social amorfa e pela escassez de relações interpessoais» - (Katz e Lazarsfeld, 1979:18).
4 A designação «teoria hipodérmica» aplicada a esta concepção dos efeitos é extremamente evocativa
e encontra-se com regularidade na literatura especializada (Wolf, 1987: 22 e sg.s).
5 Daí, também, a designação «bullet theory» para esta concepção dos efeitos totais ou do poder
ilimitado dos meios de comunicação (Schramm, 1971: 3-53).
G Elementos identificados a partir da resposta a cinco perguntas fundamentais que podem ser dirigidas
a qualquer processo de comunicação concreto: Quem? Diz o quê? A quem? Por que meios? Com que
conseqüências? (Lasswell, 1971: 84).
7 Segundo a terminologia do próprio autor, essas áreas são as seguintes: análise de controlo («factores
que iniciam e guiam o processo comunicativo»), análise de conteúdo, análise dos meios de comunicação
social, análise das audiências e análise dos efeitos (Lasswell, 1971: 84 e 85). Dadas as suas preocupações
prioritárias, Lasswell veio a explorar mais sistematicamente apenas os estudos dos efeitos e dos conteú
dos - domínios nucleares da propaganda (a sua produção e a avaliação das suas conseqüências).
8 Contra a ideia de um receptor passivo, que se limitava a reagir deterministicamente a estímulos que
lhe eram incutidos, «a audiência revelava-se intratável; as pessoas decidiam por si se escutavam ou não, e
mesmo quando escutavam, a comunicação podia não provocar qualquer efeito ou provocar efeitos opostos
aos previstos. Os investigadores eram então obrigados a desviar progressivamente a sua atenção da audiên
cia para compreenderem os indivíduos e o contexto social que a constituíam» (Bauer, 1964:127).
9 São três as linhas de investigação que se desenvolveram a partir do modelo de Lasswell: a pesquisa
empírica da psicologia experimental (onde se destacam como nomes mais relevantes, Kurt Lewin e Carl
Hovland), a sociologia estrutural-funcionalista (com uma abordagem funcional dos meios de comunica
ção no conjunto da sociedade) e a sociologia empírica (que deu lugar à chamada M ass Communication
R esearch ) (Schramm, 1964: 11 e 12); Wolf, 1987: 27 e 28). A primeira destas linhas de pesquisa desen
volve-se um tanto à margem dos estudos sociológicos da comunicação e só a última viria a ter um
impacto decisivo na consolidação da problemática dos efeitos.
10 O primeiro destes trabalhos corresponde a uma pesquisa de campo realizada em 1940, em Erie
County, por altura da campanha presidencial que viria a conferir a Roosevelt o seu terceiro mandato
como Presidente dos Estados Unidos; o outro trabalho apresenta os resultados de uma grande pesquisa
realizada cinco anos mais tarde (em Decatur - Illinois), onde foram seguidos os processos de influência
dos meios de comunicação social em diferentes áreas temáticas (bens domésticos, moda, frequência de
salas de cinema e assuntos políticos) e no qual os autores procuraram testar e aperfeiçoar os instrumen
tos de análise ensaiados na anterior investigação (respectivamente, Lazarsfeld, Berelson e Gaudet, 1962;
Katz e Lazarsfeld, 1979).
" Esta relação privilegiada que certos indivíduos mantêm com os meios de comunicação é apenas
um aspecto da função social mais ampla de «liderança dos grupos informais», a qual é definida por uma
espécie de critério moral reconhecido pela generalidade dos membros do grupo a certos indivíduos: os
que aceitam mais entusiasticamente as normas do grupo, os mais conhecedores dos assuntos importan
tes para o grupo e os mais estimados em geral pelo grupo (Katz e Lazarsfeld, 1979:108).
12 Acresce ao número diminuto de situações de conversão, a caracterização sociológica profunda
mente atípica da maioria dos indivíduos nelas envolvidos: em geral, com níveis de interesse muito
baixos pelos assuntos em causa e sujeitos a pressões (sociais) contraditórias (Lazarsfeld, Berelson e Gaudet,
1962:114-116). Do ponto de vista dos efeitos limitados, estes factores constituem um elemento de desva
lorização suplementar do poder dos meios de comunicação social.
13 Este «poder» superior da comunicação pessoal pode também ser explicado pelas características
próprias deste tipo de comunicação (em contraste com a dos meios de massa): mais extensa, mais casual
(e, aparentemente, menos intencional), mais flexível, portadora de uma confiança intrínseca, com um
carácter profundamentepersuasivo e a possibilidade de conferir recompensas imediatas (Lazarsfeld,
Berelson e Gaudet, 1962: 212 e sg.s).
” Para o que se segue (Gitlin, 1978: 225 e sg.s).
15 «Administrativismo» que foi o principal responsável da relação siderada que esta teoria estabele
ceu com a realidade social constituída (em particular, a estrutura estabelecida do sistema dos meios de
C om u n icação e S o c ied ad e 29
comunicação de massa), rejeitando qualquer interrogação sobre o sentido e a razão de ser dessa realida
de, ou as possibilidades da sua transformação; o caso tipico de «empirismo abstracto» que é capaz de
«eliminar da pesquisa os grandes problemas sociais e as questões humanas do nosso tempo» (Mills,
1982: 83).
16 As conseqüências, no plano científico, da orientação comercial das pesquisas são demolidoras: ao
assumir «o quadro consumista como definitivo e ao colocar as questões correspondentes sobre o “como”,
deixa ao mesmo tempo de lado outras questões; está interessada em como os meios de massa podem
expandir o seu poder e como a vida quotidiana coloca obstáculos a essa expansão, mas não está interes
sada em saber quando e em que circunstâncias o poder dos meios de comunicação é um bem social, nem
nas conseqüências estruturais e culturais de diferentes modelos de propriedade dos meios de comunica
ção, nem na construção de uma visão de conjunto sobre as técnicas desses meios ou sobre os seus
percursos históricos; não considera problemática a própria cultura do consumo e não consegue imaginar
o discurso político concreto, que pode ser afectado para o melhor e para o pior pelas representações que
os meios de comunicação social fazem da política» (Gitlin, 1978: 237).
17 O fenômeno de espectacularização da política, que está intimamente associado ao triunfo de uma
linguagem dos meios de comunicação de massa dominada pelas figuras da narrativa, da dramatização e
do entretenimento (Gomes, 1995: 299-317).
18 Não podem ser esquecidas as condições propriamente científicas que também contribuíram para
o declínio deste paradigma, através de um conjunto de contributos bastante diversificado e complexo -
com origem na mass com m unication research mas também noutras fontes científicas, até exteriores à
própria sociologia da comunicação (Saperas, 1987: 36-49).
19 Na linha do decisivo trabalho desenvolvido pela pesquisa sociofenomenológica, passa a reconhe-
cer-se, por exemplo, que «as notícias, ao imporem significações sociais, estão permanentemente a definir
e a redefinir, a construir e a reconstruir os fenômenos sociais» (Tuchman, 1978:184).
20 A designação pertence a Robert Park (a partir de uma tipologia estabelecida por William James) e
serve para caracterizar o tipo de conhecimento produzido pelas notícias (com base no qual os indivíduos
definem uma certa imagem do seu mundo envolvente e de si próprios nesse mundo); por contraste com
o conhecimento formal, analítico, sistemático e exaustivo que é próprio da ciência - know ledge about
(Park, 1940: 669-686).
21 Além de ser um dos contributos pioneiros no desenvolvimento da perspectiva cognitiva dos efei
tos, este trabalho assinala também a recuperação de uma posição de relevo por parte da pesquisa social
europeia nos estudos dos meios de comunicação de massa.
22 A ideia de uma orientação cognitiva dos indivíduos (da sua atenção relativamente a certos temas
e assuntos) da responsabilidade dos meios de comunicação social tinha já aparecido nos anos 20, a
propósito da imprensa (Lippmann, 1922; Park e Burgess, 1967). Só na década de 70, porém, esta ideia
pôde ser formalizada como uma teoria específica dos efeitos (McCombs e Shaw, 1972: 176-187). A ver
são mais radical desta teoria sustenta não apenas uma transposição genérica das temáticas dos meios de
comunicação para o «conhecimento público» mas também um paralelismo no ordenamento das duas
agendas (hierarquização temática em termos de importância atribuída aos diversos assuntos) «as pessoas
têm tendência para incluir ou excluir dos seus conhecimentos aquilo que os meios de comunicação de
massa incluem ou excluem do seu próprio conteúdo e, além disso, o público tende a atribuir àquilo que
esse conteúdo inclui uma importância que reflecte de perto a ênfase atribuída pelos meios de comunica
ção de massa aos acontecimentos, aos problemas, às pessoas» (Shaw, 1979: 96).
23 O new sm aking estuda, como o nome indica, o processo de construção das notícias, o que sendo em
si uma área importante de desenvolvimento da sociologia da comunicação (do jornalismo e dos jornalis
tas) não é propriamente uma teoria dos efeitos; só se aproxima desta na medida em que põe em discussão
o problema da «construção social da realidade», na linha da investigação fenomenológica iniciada por
Schutz, e depois amplamente desenvolvida no âmbito da sociologia (Berger e Luckmann, 1978). Como
trabalho de convergência exemplar a este nível deve ser mencionado (Tuchman, 1978).
24 A questão dos efeitos na «hipótese de distanciamento» assume a forma de uma discussão do papel
do conhecimento como mecanismo de controlo social. A intervenção dos meios de comunicação a este
nível é assim sumarizada no texto que inaugura esta teoria: «quando a difusão da informação dos meios
de comunicação de massa num sistema social cresce, os sectores da população com mais elevado estatu
to socioeconóm ico tendem a adquirir esta informação de forma mais ampla que os sectores
socioeconómicos baixos, ao mesmo tempo que o distanciamento entre estes sectores tende a acentuar-se
em vez de diminuir» (Tichenor, Donohue e Olien, 1970:159-160).
30 C om u n icação e S o c ied ad e
25 A ideia de uma aferição dos efeitos a partir do acompanhamento das opiniões dos indivíduos
deixa também supor, erradamente, que o trabalho dos meios de comunicação tem sempre por objecto
uma realidade previamente constituída. Como sabemos, isto está longe de ser verdade nos nossos dias,
quando os meios de comunicação se apresentam cada vez mais como dispositivos primários de consti
tuição da experiência simbólica: são eles os primeiros formadores da opinião e, muitas vezes, os únicos.
Foi, aliás, um discípulo do próprio Lazarsfeld quem primeiro levantou esta objecção de fundo à «grande
teoria» (Klapper, 1968: 85).
26 Como refere Gitlin, só uma lógica comportamentalista muito rudimentar, que reduz o comporta
mento humano a uma resposta a estímulos (externos), pode esquecer as diferenças entre uma forma de
influêirtia (pessoal) que é generalizada e recíproca, e outra (dos meios de comunicação social) que é
hierarquizada, unidireccional e restrita (Gitlin, 1978: 212 e 213).
27 Como se os processos de opinião fossem perfeitamente uniformes e obedecessem a um mesmo
padrão de exigências em todas estas matérias; segundo uma lógica política muito cara à ideologia social-
democrata e que levou Lazarsfeld a sustentar como uma das suas mais conhecidas máximas a «equiva
lência metodológica entre o voto socialista e a compra de sabão» (Lazarsfeld, 1969: 279).
28 Antes mesmo de uma questão de fundo relativa ao empiricismo da pesquisa da comunicação de
massa, a perspectiva crítica pode tomar como seu objecto de problematização, a própria lógica interna
seguida nos trabalhos de campo mais representativos (nomeadamente o estudo de Decatur sobre a «in
fluência pessoal») (Gitlin, 1978: 219 e 220).
29 Aparentemente, em contradição com as recomendações muito claras que os próprios autores assu
miram quanto à validação de resultados de pesquisa: exigência de repetição e corroboração regular de
provas, análise comparativa sistemática de dados (Lazersfeld, Berelson e Gaudet, 1962 :18 e sg.s).
30 E o sociologismo durkheimiano que aqui se revela no seu lado mais obscuro: «os fenômenos
sociais são coisas e devem ser tratados como coisas (...) desligados dos sujeitos conscientes que deles
têm representações; estudados defora, como coisas exteriores» (Durkheim, 1980: 51 e 52).
B ib l io g r a f ia
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TEXTOS
AS NOTÍCIAS COMO UMA FORMA DE CONHECIMENTO:
UM CAPÍTULO NA SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO
R o b e r t E. Pa rk
I
Existem , tal com o W illiam Jam es e outros autores têm vindo a constatar,
dois tipos fundam entais de conhecim ento, nom eadam ente, (I) «fam iliaridade
com » e (II) «conhecim ento sobre». Esta d istinção parece ser bastante evidente.
No entanto, na tentativa de a tornar m ais explícita, receio desvirtuar o seu
sentido original. N esse caso, ao interpretar a distinção, estarei a dar-lhe um
sentido pessoal. A form ulação de Jam es é, em parte, a seguinte:
«Existem dois tipos de conhecim ento que se distinguem em term os gerais e
práticos: podem os designá-los, respectivam ente, conhecimento de fam iliari
dade e conhecimento sobre...
Em m entes capazes de articular linguagem existe, de facto, algum co n h eci
m ento sobre tudo. As coisas podem, pelo m enos, ser classificadas e an u n cia
das quando se m anifestam . Mas em geral, quanto m enos analisarm os uma
coisa e quanto m enos perceberm os as suas relações, m enor é o nosso co n h eci
m ento e m aior é o nosso contacto do tipo “fam iliaridade” com essa realidade.
Os dois tipos de conhecim ento são, por isso, da form a com o a m ente hum ana
os utiliza, term os relativos. Isto é, o m esm o pensam ento sobre um a coisa pode
ser designado conhecim ento sobre em com paração com um pensam ento mais
sim ples, ou fam iliaridade com em com paração com um pensam ento m ais com
plexo e m ais explícito» (James, 1896: 221 e 222).
Em todo o caso, «fam iliaridade com», tal com o eu utilizaria a expressão, é o
tipo de conhecim ento que inevitavelm ente se adquire no decurso dos co n
tactos pessoais e im ediatos com o m undo que nos rodeia. E o tipo de co n h eci
m ento que advém do uso e do costum e e não de um a investigação form al e
sistem ática. N estas circunstâncias, conseguim os conhecer as coisas não ape
nas através dos sentidos, mas tam bém através das respostas do nosso organis
m o, com o um todo. C onhecem os as coisas, neste caso, com o coisas a que
estam os habituados, num mundo ao qual estamos ajustados. Tal conhecim ento
pode, efectivam ente, ser concebido com o um a form a de adaptação ou a justa
m ento orgânico, que representa um a acum ulação e, por conseguinte, a conso-
A ESTRUTURA E A FUNÇÃO
DA COMUNICAÇÃO NA SOCIEDADE
Ha ro ld D. La ss w e l l
O ACTO DE COMUNICAÇÃO
U m modo adequado para descrever um acto de com u nicação consiste em
responder às seguintes questões:
Quem
Diz o quê
Através de que canal
A quem
Com que efeito?
O estudo científico do processo com unicacional tende a concentrar-se num a
ou noutra destas questões. A queles que estudam o «quem», o em issor, debru
çam -se sobre os factores que desencadeiam e conduzem o acto de com u nica
ção. Esta subdivisão do cam po de pesquisa é denom inada análise de controlo.
Os esp ecialistas que se dedicam ao «diz o quê» desenvolvem um a análise de
conteúdo. A queles que dão prioridade ao estudo da rádio, im prensa, cinem a,
televisão e outros canais de com unicação realizam um a análise dos meios.
Quando a preocupação principal são as pessoas atingidas pelos m eios de co
m u nicação, falam os de análise de audiência. Se a questão se refere ao im pacto
sobre as audiências, então trata-se de análise do efeito.
A utilidade de tais distinções depende unicam ente do grau de sofisticação
considerado apropriado para um determinado objectivo científico e adm inistra
tivo. Por exem plo, m uitas vezes é m ais sim ples com binar as análises de audiên
cia e de efeito,do que m antê-las separadas. Por outro lado, podemos pretender
concentrar-nos na análise do conteúdo, subdividindo para esse fim o cam po
de pesquisa no estudo do sentido e no estudo do estilo, o prim eiro referindo-se
à m ensagem e o segundo à organização dos elem entos que a com põem .
ESTRUTURA E FUNÇÃO
Por m uito m otivante que seja o trabalho de desenvolver com m aior detalhe
estas categorias, a presente discussão tem um objectivo diferente. O nosso
50 C om u n icação e S o c ied a d e
in teresse é m enos o de dividir o acto de com unicação, do que observá-lo com o
um todo, na sua relação com o processo social global. Qualquer processo pode
ser analisado segundo dois quadros de referência, nom eadam ente, o da estrutu
ra e o da função; esta nossa análise da com unicação irá abordar as especializa
ções que com portam determinadas funções, entre as quais se podem distinguir
claram ente as seguintes: (1) a vigilância sobre o meio am biente; (2) a correlação
dos elem entos da sociedade na resposta ao meio am biente; (3) a transm issão da
herança social de uma geração para a seguinte.
EQUIVALÊNCIAS BIOLÓGICAS
M esm o correndo o risco de estabelecer falsas analogias, podem os adquirir
um a perspectiva sobre as sociedades hum anas quando verificam os até que
ponto a com u nicação é um a característica da vida a todos os níveis. Um a enti
dade com vida, re la tiv am en te iso lad a ou em asso ciação , p o ssu i m odos
especializados de receber estím ulos do m eio am biente. Quer um organismo
u nicelu lar quer um grupo com posto por vários m em bros tendem a m anter um
equilíbrio interno e a responder a m udanças no m eio am biente, de modo a
m anter esse equilíbrio. O processo de resposta requer m odos especializados
de co n d u ção das p artes do todo a um a acção harm onizad a. Os an im ais
m u lticelu lares possuem célu las especializadas para a função dos contactos
externos e da correlação interna. Assim , entre os prim atas, a esp ecialização é
exem plificada por órgãos com o o ouvido ou o olho, e o próprio sistem a nervo
so. Quando os padrões de recepção e dissem inação dos estím ulos operam re
gularm ente, as diversas partes do anim al actuam de form a concertada em
relação ao m eio am biente («alimentar», «fugir», «atacar»)1.
Em algum as sociedades anim ais, determ inados m em bros desem penham
papéis especializados de vigilância do meio am biente. Estes indivíduos actuam
com o «sentinelas», m antendo-se à parte do bando ou da m anada, e provocam
agitação sem pre que alguma alteração alarm ante ocorre na área envolvente.
O cacarejar, o rugir ou o grito do sentinela são o suficiente para levar o grupo a
reagir. Entre as actividades dos «líderes» especializados, está o estím ulo in ter
no dos «seguidores» para se adaptarem de um a form a ordenada às c ircu n stân
cias anunciadas pelos sentinelas.
No interior de um organismo específico, altam ente diferenciado, os im pul
sos nervosos recebidos e os im pulsos enviados são transm itidos através de fi
bras que estabelecem ligações sinápticas com outras fibras. Os pontos críticos
no processo ocorrem nos term inais de ligação, onde o im pulso que chega pode
ser demasiado fraco para atingir o lim iar capaz de activar o elo de ligação se
guinte. Nos centros superiores, as correntes separadas m odificam -se um as às
outras, produzindo assim resultados muito diferentes daquele que seria obtido
se cada um a delas seguisse um rumo separado. Em qualquer term inal de ligação
pode existir não condutibilidade, condutibilidade total ou condutibilidade
interm édia. Estas mesm as categorias são aplicáveis aO que se passa entre os
m em bros de um a sociedade anim al. A raposa m atreira pode aproximar-se do
C om u n icação e S o c ied ad e 51
galinheiro fornecendo estím ulos demasiado fracos para que a sentinela faça soar
o alarme. Ou o anim al que ataca pode elim inar a sentinela, não lhe perm itin do
outra reacção além de um breve grito. É óbvio que existe toda uma gradação
possível entre a «condutibilidade total» e a ausência de condutibilidade.
A ATENÇÃO NA SOCIEDADE MUNDIAL
Quando se examina o processo de com unicação de qualquer Estado da com u
nidade mundial, distinguem-se três tipos de especialistas. Um grupo supervisio
na o meio ambiente político do Estado como um todo, outro correlaciona a resposta
da totalidade do Estado com o meio ambiente, e um terceiro transmite determina
dos padrões de resposta dos mais velhos para os jovens. Diplomatas, adidos e
correspondentes estrangeiros representam aqueles que se especializam sobre o
meio ambiente. Editores, jornalistas e oradores estabelecem a correlação da res
posta interna. Os educadores na fam ília e na escola transmitem a herança social.
As com u nicações com origem no exterior atravessam seqüências nas quais
diversos em issores e receptores estão interligados. Su jeitas a m odificações em
cada ponto de retransm issão, as m ensagens que têm origem num diplom ata
ou num correspondente estrangeiro podem passar pelas m esas de edição e,
eventualm ente, virem a alcançar grandes audiências.
Se se pensar o processo de atenção m undial com o uma série de estruturas
de atenção, é possível determ inar a proporção segundo a qual um conteúdo
equivalente é trazido à atenção de indivíduos ou de grupos. Pode-se determ i
nar o ponto a partir do qual deixa de existir «condutibilidade», e pode-se ob
servar tam bém o espectro entre «condutibilidade total» e «condutibilidade
m ínim a». Os centros m etropolitanos e políticos m undiais têm m uito em co
m um com a in terdependência , a d iferenciação e a actividade dos centros
corticais ou su bcorticais de um organism o individual. Sendo assim , as estru
turas de atenção que se encontram nestes locais são as m ais variáveis, sofisti
cadas e interactivas de todas as estruturas da com unidade m undial.
No extrem o oposto encontram -se as estruturas de atenção dos habitantes
prim itivos de zonas isoladas. Isso não significa que as culturas tradicionais
estejam com pletam ente isoladas da civilização industrial. Quer se caia de pára-
quedas no in terior da Nova Guiné, ou se aterre nas encostas do Him alaia, não
se encontra ho je nenhum a tribo sem o m ínim o contacto com o m undo. As
extensas redes de com ércio, de acção m issionária, de exploração aventureira,
do cam po de estudo cien tífico e da guerra global alcançam locais m uito lon
gínquos. N inguém se encontra com pletam ente fora do m undo.
Entre os prim itivos, a form a final que tom a a com unicação é a canção ou o
conto. A contecim entos rem otos do grande m undo dos negócios, acontecim en
tos que chegam ao conhecim ento das audiências das grandes cidades são re-
flectidos, se bem que de um modo im preciso, no m aterial tem ático dos cantores
e dos narradores. Nestas criações, os líderes políticos de locais distantes po
dem assim ser apresentados entregando terras aos cam poneses, ou a restitu ir
caça em abundância às m ontanhas.
52 C om u n icação e S oc ied ad e
Q uando fazem os ascender o fluxo de com unicação, verificam os que a fun
ção de retransm issão im ediata entre os m em bros de tribos rem otas e nôm adas
é por vezes desem penhada por habitantes de povoações com os quais aqueles
m antêm contactos esporádicos. O retransm issor pode ser o professor, o m édi
co, o ju iz, o co lector de im postos, o polícia, o soldado, o traficante, o vendedor,
o m issionário , o estudante; em qualquer dos casos é ele o ponto de encontro de
notícias e de com entários.
EQUIVALÊNCIAS MAIS PORMENORIZADAS
Os processos de com unicação da sociedade hum ana, quando exam inados
em porm enor, revelam m uitas equivalências com as esp ecializações que se
encontram nos organism os físicos e nas sociedades anim ais inferiores. Porexem plo, os diplom atas de um Estado estão colocados por todo o m undo e
enviam m ensagens para um reduzido núm ero de pontos centrais. Como é ób
vio, estes re la tó rio s p artem de m u itos pontos para chegarem a p ou cos,
interagindo aí uns sobre os outros. M ais tarde, a seqüência desdobra-se com o
um leque, segundo um padrão de poucos-para-m uitos, com o acontece quando
um m inistro dos negócios estrangeiros profere um discurso em público, um
artigo é publicado na im prensa, ou um docum entário é distribuído pelas salas
de cinem a. As linhas de orientação que provêm do m eio exterior ao Estado são
funcionalm ente equivalentes aos canais aferentes dos anim ais, que transm i
tem im pulsos nervosos para o sistem a nervoso central, ou aos m eios pelos
quais um sinal de alarm e é difundido entre um grupo de anim ais. Im pulsos
que saem , ou eferentes, revelam paralelism os do m esm o tipo.
O sistem a nervoso central é apenas parcialm ente envolvido na totalidade da
transm issão de im pulsos aferentes-eferentes. Existem sistem as autom áticos que
podem actuar uns sobre os outros, sem envolver os centros «superiores». A esta
bilidade do m eio interno é m antida através, principalm ente, da m ediação das
especializações do sistem a nervoso vegetativo ou autônomo. De modo sem e
lhante, a m aioria das m ensagens no interior de qualquer Estado não envolvem
os canais centrais de com unicação. Estas têm lugar no interior das fam ílias, das
relações de v izinhança, das lojas, dos grupos e de outros contextos locais.
A m aior parte do processo educacional decorre do mesmo modo.
Um outro conjunto de equivalências significativas está relacionado com os
circuitos de com unicação, os quais são predom inantem ente de sentido único ou
de dois sentidos, dependendo do grau de reciprocidade entre com unicadores e
audiência. Ou, dito de outro modo, a com unicação em dois sentidos ocorre quan
do as funções de em issor e receptor são desempenhadas com igual frequência por
duas ou mais pessoas. Considera-se norm alm ente que a conversação é um pa
drão de com unicação de dois sentidos (sem considerar os monólogos). Os m o
dernos instrum entos da com unicação de massa conferem um a enorm e vantagem
aos que controlam as em presas gráficas, os equipam entos de radiodifusão e ou
tras form as de capital fixo ou especializado. No entanto, deve-se ter em conta
que as a u d iên cia s «respondem », depois de algum tem po; e m u itos dos
C om u n icação e S o c ied ad e 53
controladores dos meios de com unicação de massa utilizam métodos científicos
de amostragem de modo a antecipar este fecham ento do circuito.
Os circuitos de duplo contacto são particularm ente evidentes nos grandes
centros m etropolitanos, políticos e culturais do mundo. Nova Iorque, Moscovo,
Londres e Paris, por exem plo, m antêm um intenso contacto em dois sentidos,
m esm o quando o fluxo é muito reduzido em volum e (como entre M oscovo e
Nova Iorque). Até locais insignificantes se tornam grandes centros quando se
transformam em cidades capitais (Camberra, na Austrália; Ancara, na Turquia; o
Distrito de Columbia, nos EUA). Um centro cultural como a cidade do Vaticano
tem uma relação intensa de dois sentidos com os centros dominantes por todo o
mundo. M esmo centros de produção especializada como Hollywood, apesar da
preponderância do material emitido, recebem um enorme volume de mensagens.
Um a outra distinção pode ser estabelecida entre os centros de controlo e de
processam ento de m ensagens e as form ações sociais. O centro de m ensagens
no enorm e Edifício do D epartam ento de Guerra do Pentágono, em W ashing
ton, transm ite, apenas com pequenas alterações acidentais, as m ensagens re
cebidas aos seus destinatários. Este é tam bém o papel das em presas im pressoras
e distribuidoras de livros; dos expedidores, operadores de linha e m ensageiros
ligados às com u nicações telegráficas; dos engenheiros radiofônicos e outros
técn icos associados à radiodifusão. Estes processadores de m ensagens distin-
guem -se daquelas que alteram o conteúdo do que é dito, com o é o caso de edi
tores, censores e propagandistas. Falando assim dos especialistas dos símbolos
em geral, é n ecessário d iferenciá-los em m anipuladores (controladores) e
processadores; tip icam ente, o prim eiro grupo m odifica o conteúdo das m ensa
gens, enquanto o segundo não o faz.
NECESSIDADES E VALORES
A pesar de term os referido um a série de equivalências funcionais e estrutu
rais entre a com u nicação nas sociedades hum anas e noutras entidades vivas,
não está aqui im plícito que possam os investigar de form a frutífera o processo
de com u nicação na A m érica ou no m undo com os m esm os m étodos da pes
quisa em anim ais inferiores ou em organism os físicos individuais. Em p sico lo
gia com parativa, quando se descreve algo daquilo que rodeia um rato, um gato
ou um m acaco com o um estím ulo (isto é, com o uma parte do m eio que atinge
a atenção do anim al), não se pode questionar o rato; utilizam -se sim outros
m eios para inferir a percepção. Quando os objectos de investigação são seres
hum anos, é possível entrevistar o grande «anim al que fala». (Isto não significa
que se aceite tudo com o evidências. Por vezes, prevem os o oposto do que o
indivíduo diz pretender fazer. Neste caso, são consideradas outras indicações,
tanto verbais, com o não verbais.)
No estudo dos seres vivos, é vantajoso, como já foi dito, considerá-los como
transformadores do m eio am biente no processo de satisfação das suas necessida
des, m antendo assim um a situação estável de equilíbrio interno. Alim ento, sexo
e outras actividades que envolvem o meio podem ser exam inadas em termos
54 C om u n icação e S oc ied ad e
com parativos. Dado que os seres hum anos exibem reacções discursivas, podem
ser investigadas m uito m ais relações do que nas espécies não hum anas2. C onsi
derando os dados fornecidos pelo discurso (e por outros actos com unicativos),
pode investigar-se a sociedade hum ana em termos de valores, isto é, com referên
cia a categorias de relações que são objectos reconhecidos de satisfação. Na
Am érica, por exem plo, não é necessária nenhum a técnica de estudo elaborada
para perceber que o poder e o respeito são valores. Podemos demonstrá-lo, sim
plesm ente, escutando testem unhos ou observando o que acontece à nossa volta.
É possível estabelecer um a lista de valores correntes em qualquer grupo es
colhido para investigação. M ais ainda, é possível descobrir a ordem hierárquica
desses m esm os valores. Podemos ordenar os m embros de um grupo de acordo
com as suas posições em relação aos valores. No que diz respeito à civilização
industrial, não há hesitação em afirmar que o poder, a riqueza, o respeito, o bem -
-estar e o conhecim ento se encontram entre os seus valores. Considerando ape
nas esta lista, que não é exaustiva, podemos descrever com base no conhecim ento
disponível (mesmo que frequentemente fragmentário) a estrutura social da maior
parte do m undo. Como os valores não estão distribuídos de form a hom ogênea,
a estrutura social revela um a m aior ou m enor concentração de quantidades
relativam ente significativas de poder, de riqueza e de outros valores em pou
cas m ãos. Em alguns locais, esta concentração é transm itida de geração em
geração, form ando castas em vez de um a sociedade com m obilidade.
Em qualquer sociedade, os valores são modelados e distribuídos segundo
padrões m ais ou m enos próprios (instituições). As instituições incluem com uni
cações que servem de apoio à rede social com o um todo. Estas com unicações
constituem a ideologia; e em relação ao poder é possível diferenciar a doutrina
política, a fórmula política e os miranda3. Estas distinções são ilustradas, nos
Estados Unidosda Am érica, pela doutrina do individualism o, pelos artigos da
Constituição, que são a fórmula, e pelas cerim ônias e lendas da vida pública, que
formam os miranda. A ideologia é transmitida às novas gerações através de ins
tâncias especializadas como o lar e a escola.
A ideologia é apenas um a parte dos m itos de qualquer sociedade. Podem
existir contra-ideologias opostas à doutrina, à fórm ula e aos miranda dom i
nantes. Hoje em dia, a estrutura de poder da política m undial é profundam en
te afectada pelo conflito ideológico e pelo papel de dois poderes gigantescos,
os Estados U nidos e a Rússia. As elites dirigentes vêem -se m utuam ente com o
potenciais inim igos, não só no sentido em que equacionam as diferenças entre
Estados com o podendo ser dirim idas pela guerra, mas tam bém no sentido m ais
prem ente de que a ideologia do outro pode fazer apelo a elem entos internos
insatisfeitos, enfraquecendo assim a posição interna de poder de cada um a
das classes dirigentes.
CONFLITO SOCIAL E COMUNICAÇÃO
N estas circu nstâncias, os dirigentes de um lado estão especialm ente alerta
aos do outro, e confiam na com unicação com o um m eio para preservar o po
C om u n icaçã o e S o c ied a d e 55
der. Sendo assim , um a função da com unicação é fornecer inform ação acerca
das actividades da outra elite e sobre a sua força. Dado o medo de os canais de
inform ação poderem ser controlados pela outra parte, de modo a sonegar ou
distorcer inform ação, há a tendência para recorrer a um a vigilância secreta.
A ssim , a espionagem internacional in tensifica-se acim a do seu n ível norm al
durante os períodos de paz. Além disso, são desenvolvidos esforços de ocultação
da própria identidade, de modo a neutralizar o escrutínio realizado pelo in i
migo potencial. E ainda, a com unicação é utilizada afirm ativam ente com o
objectivo de estabelecer contacto com as audiências no interior das fronteiras
da outra potência.
Estas diversas actividades estão patentes na u tilização de agentes declara
dos e secretos para escrutinar o outro lado, no trabalho de contra-inform ação,
na censura e na restrição de viagens, na radiodifusão e noutras actividades de
inform ação para além das fronteiras.
As elites dirigentes encontram -se tam bém sensibilizadas em relação a poten
ciais am eaças no m eio interno. A lém do recurso a fontes de inform ação v isí
veis, tam bém são adoptadas m edidas secretas. São tom adas precauções no
sentido de im por «segurança» sobre o m aior núm ero possível de assuntos po
líticos. Sim ultaneam ente, a ideologia da elite é reafirm ada e as contra-ideolo-
gias suprim idas.
Os processos aqui esboçados apresentam um paralelism o com os fenôm enos
que podem ser observados no reino anim al. Instâncias esp ecializadas são
m obilizadas para m anter sob vigilância as am eaças e as oportunidades que
tem por origem o m eio exterior. Esses paralelism os incluem a vigilância exercida
sobre o am biente interno, visto que entre os anim ais inferiores, alguns líderes
de grupo alertam para ataques com origem em duas frentes, a interna e a exter
na; dirigem a sua observação atenta para dois m eios. De modo a evitar a vigi
lân cia exercida pelo inim igo, certas espécies dispõem de estratagem as bem
conhecidos, com o por exem plo, a utilização de um fluido com o «nevoeiro» de
protecção pela lu la, ou a coloração de cam uflagem do cam aleão. No entanto,
parece não existir nada de sem elhante à d istinção entre canais «secretos» e
«visíveis» que se observa na sociedade hum ana.
Dentro de um organism o físico, o paralelism o m ais próxim o com um a revo
lução social seria o desenvolvim ento de novas ligações nervosas com partes
do corpo que concorrem e podem substituir as estruturas de integração central
existentes. Poder-se-á dizer que isto ocorre com o em brião quando se desen
volve no corpo da m ãe? Ou então, se considerarm os um processo destrutivo,
enquanto distinto de um reconstrutivo, poder-se-á dizer com propriedade que
a vigilância in terna se verifica no caso do cancro, dado que os cancros com pe
tem pelos suplem entos alim entares do organismo?
COMUNICAÇÃO EFICIENTE
A análise realizada até este ponto pressupõe determ inados critérios de efi
ciên cia ou de in efic iên cia na com unicação. Nas sociedades hum anas, o pro-
56 C om u n icação e S o c ied a d e
cesso é tanto m ais eficien te quanto os juízos racionais são facilitados. Um
juízo racional prom ove objectivos em função de valores. Nas sociedades ani
m ais, a com u nicação é eficien te quando contribui para a sobrevivência, ou
para algum a outra necessidade esp ecífica do agregado. Os m esm os critérios
podem ser aplicados ao organism o individual.
Um a das tarefas de um a sociedade organizada racionalm ente é descobrir e
controlar todos os factores que interferem com a com unicação eficiente. Alguns
factores lim itativos são de ordem p sicotécn ica . Por exem plo, as radiações
destrutivas podem estar presentes no meio am biente, e mesmo assim perm ane
cerem sem serem detectadas, dada a capacidade lim itada do organismo isolado.
No entanto, m esm o as insu ficiências técn icas podem ser superadas pelo
conhecim ento. Nos últim os anos, a radiodifusão de onda curta tem registado
interferências por perturbações que acabarão por ser resolvidas, ou, então, que
poderão levar ao abandono deste modo de radiodifusão. Durante os últim os
anos, têm sido reg istad os avan ços no sen tid o de e n co n tra r su b stitu to s
satisfatórios para a visão e a audição deficientes. Um desenvolvim ento m enos
dram ático, em bora não m enos im portante, tem sido a descoberta de possib ili
dades de correcção dos hábitos de leitura inadequados.
Existem , por certo, obstáculos deliberados à com unicação, com o a censura
ou a lim itação drástica de m ovim entos. Até certo ponto, os obstáculos podem
ser ultrapassados por uma evasão habilidosa, mas a longo prazo será sem dú
vida m ais eficien te elim iná-los através do consentim ento ou da coerção.
A pura ignorância é um factor influente cujas conseqüências nunca foram
avaliadas adequadam ente. Ignorância significa, neste contexto, a ausência, num
dado ponto do processo de com unicação, de conhecim ento socialm ente d is
ponível. Devido à falta de form ação adequada, as pessoas envolvidas na reco
lha e difusão de inform ação interpretam continu am ente m al ou de form a
descuidada os factos, entendendo por factos aquilo que um observador treina
do e objectivo pode discernir.
Ao tentar com preender a ineficiência , não devemos neglicenciar a pouca
im portância atribuída à capacidade de produzir com unicação relevante. Mesmo
m uitas vezes irrelevantes, ou positivam ente deturpadores, os desem penhos
com andam o prestígio. Pelo interesse de um «furo», o repórter dá um toque
sensacionalista a um a conferência internacional m orna, e contribui assim para
a im agem popular da política in ternacional com o um conflito intenso, crôn i
co, e pouco m ais. Os especialistas em com unicação não acom panham , m uitas
vezes, a expansão do conhecim ento sobre este processo; note-se a relu tância
com que m uitos recursos visuais têm sido adoptados. E apesar da pesquisa
realizada sobre vocabulário, m uitos com unicadores de m assa continuam a
seleccion ar palavras inadequadas. Isto acontece, por exem plo, quando um
correspondente estrangeiro acaba por se deixar envolver pelo am biente do país
em que se encontra, esquecendo que a audiência do seu país de origem não
tem equivalentes directos, na sua experiência, para «esquerda», «centro» e outros
term os faccionais deste gênero.
Para além dos factores de com petência, o nível de e ficiên cia é por vezes
in fluenciado adversam ente pela estrutura de personalidade. U m a pessoa opti-C om u n icação e S o c ied ad e 57
m ista e expansiva pode transform ar «uma pena em pássaros», e adquirir uma
visão incorrecta, exageradamente optimista, dos acontecim entos. Por outro lado,
quando se juntam personalidades pessim istas e cism áticas, escolhem «pássa
ros» com pletam ente diferentes para confirm ar a sua consternação. Existem
tam bém diferenças im portantes entre as pessoas em term os de níveis de in te
ligência e de energia.
Algum as das am eaças m ais graves à com unicação eficiente para a com u ni
dade com o um todo estão relacionadas com os valores do poder, riqueza e
respeito. Talvez os exem plos m ais evidentes de distorção pelo poder ocorram
quando o conteúdo da com u nicação é ajustado deliberadam ente a um a ideo
logia ou contra-ideologia. As distorções relacionadas com a riqueza não deri
vam só das tentativas de in fluenciar o m ercado, por exem plo, mas tam bém das
concepções rígidas de interesses econôm icos. Um exem plo típico de ineficiên-
cias relacionadas com o respeito (classe social) ocorre quando um a pessoa de
classe alta se relaciona apenas com pessoas do seu próprio estrato, e se esque
ce de corrigir a sua perspectiva através do contacto com m em bros de outras
classes.
A PESQUISA EM COMUNICAÇÃO
Os factores referidos que interferem com a eficiência da com u nicação ind i
cam os tipos de pesquisa que, de form a vantajosa, podem ser levados a cabo
sobre elos representativos da cadeia de com unicação. Cada agente é um vórti
ce de factores am bientais e de predisposições. Se ja quem for que desem penhe
um a função de ligação, pode ser exam inado em term os de inform ação receb i
da e enviada. Q ue relatos são trazidos à atenção do elo de ligação? O que é que
ele passa literalm ente? O que é que elim ina? O que é que transform a? O que é
que acrescenta? Que relação as diferenças entre inform ação recebida e inform a
ção enviada m antém com a cultura e a personalidade? Ao responder a estas
questões é possível ponderar os vários factores de condutibilidade, de não
condutibilidade e de condutibilidade m odificada.
A lém do elo de ligação, é necessário tam bém considerar o elem ento prim á
rio de um a seqüência de com unicação. Ao estudar o foco de atenção do obser
vador prim ário, são realçados dois tipos de influência: as m ensagens às quais
está exposto; e outras características do seu m eio am biente. Um adido ou um
correspondente estrangeiro encontram -se eles próprios expostos aos m eios de
com u nicação de m assa, bem com o às conversas privadas; podendo tam bém o
próprio efectuar contagens de soldados, avaliar o posicionam ento de armas,
anotar os horários de trabalho num a fábrica, observar a m anteiga e a gordura
num a m esa.
E de facto ú til ter em consideração a estrutura de atenção da retransm issão,
mas tam bém a do elem ento prim ário, em term os de exposição aos m eios de
com u nicação e de outros tipos. O papel dos factores exteriores aos m eios de
com u nicação é m uito ténue, no caso de m uitos dos operadores dos elos de
ligação, ao contrário do que se verifica quanto ao observador prim ário.
58 C om u n icação e S oc ied ad e
AGREGADOS DE ATENÇÃO E PÚBLICOS
Pode-se considerar que nem todas as pessoas são m em bros do p ú blico
m undial, em bora pertençam , de certo modo, ao agregado de atenção m undial.
Para pertencer a um agregado de atenção basta ter sím bolos de referência co
m uns. Todos os que têm um sím bolo de referência para Nova Iorque, para a
A m érica do Norte, para o hem isfério ocidental ou para o globo são, respectiva
m ente, m em bros do agregado de atenção de Nova Iorque, da A m érica do Nor
te, do hem isfério ocidental ou do globo. No entanto, para se ser m em bro do
p ú blico de Nova Iorque, é essencial fazer-se exigências de acção p ú blica em
Nova Iorque, ou que afectem expressam ente Nova Iorque.
O público dos Estados Unidos, por exem plo, não está reduzido aos seus
residentes ou cidadãos, visto que não cidadãos além fronteiras podem tentar
in flu enciar a p olítica am ericana. E ao invés, nem todos os que vivem nos Esta
dos U nidos são m em bros do público am ericano, dado ser necessário algo m ais
do que atenção passiva. Um indivíduo passa de um agregado de atenção para
o público, quando com eça a ter a expectativa de que aquilo que deseja pode
afectar a p olítica pública.
GRUPOS DE SENTIMENTO E PÚBLICOS
Um a outra lim itação tem de ser tida em conta, antes de ser possível fazer
um a classificação correcta de um indivíduo esp ecífico ou de um grupo com o
parte de um público. As exigências form uladas em relação à p olítica pública
têm de ser passíveis de debate. O público m undial é relativam ente fraco e
pouco desenvolvido, em parte porque se m antém subordinado a dom ínios que
envolvem sentim entos, nos quais nenhum debate é perm itido sobre assuntos
políticos. Por exem plo, durante uma guerra ou crise de guerra, os habitantes de
um a região estão com pletam ente em penhados em im por determinadas políticas
a outros. Dado que o resultado do conflito depende da violência, e não do deba
te, não existe público nestas condições. Existe sim um a rede de grupos de senti
m ento que agem com o m ultidões, sem tolerância para nenhum dissidente4.
Da análise realizada, torna-se claro que existem áreas de atenção, de p ú bli
cos e de sentim ento com diferentes graus de inclu são na política m undial.
Estas áreas estão inter-relacionadas com as características estruturais e fu n cio
nais da sociedade m undial, e especialm ente do poder m undial. E evidente,
por exem plo, que as potências mais fortes tendem a estar incluídas na mesma
área de atenção, dado que as suas elites dirigentes estão atentas um as às ou
tras enquanto fonte de grande am eaça potencial. As potências m ais fortes pres
tam norm alm ente m enos atenção às potências m ais fracas do que estas prestam
às prim eiras, visto que as potências m ais fortes são norm alm ente fontes m ais
im portantes de am eaça, ou de protecção para as potências m ais fracas do que
estas para as m ais fortes5.
A estrutura de atenção no interior de um Estado é um índice im portante do
respectivo grau de integração estatal. Quando as classes dom inantes tem em a
C om u n icação e S o c ied a d e 59
m assa, os seus m em bros não partilham a sua visão da realidade com os restan
tes m em bros da sociedade. Quando não é possível que a visão da realidade de
reis, presidentes e m inistérios circu le pelo Estado com o um todo, o grau de
d iscrep ância revela a que ponto os grupos dirigentes assum em que o seu po
der depende da distorção.
Ou, exprim indo as coisas de outro modo, se a «verdade» não é partilhada,
os dirigentes esperam m ais um conflito interno do que um ajustam ento har
m onioso ao am biente exterior do Estado. Consequentemente, os canais de com u
n icação são controlados na esperança de se organizar a atenção da com unidade
no seu con junto , de m aneira a lim itar as respostas apenas àquelas considera
das favoráveis à posição de poder das classes dom inantes.
O PRINCÍPIO DO ESCLARECIMENTO EQUIVALENTE
D iz-se frequentem ente, na teoria dem ocrática, que a opinião pública racio
nal depende do esclarecim ento. Existe, contudo, m uita am bigüidade no que se
refere à natureza do esclarecim ento, e o termo é m uitas vezes tornado sinônim o
de conhecim ento perfeito. Um a concepção m ais m odesta e actual é a de esc la
recim ento equivalente, em vez de perfeito. A estrutura de atenção de um espe
cia lista dedicado integralm ente a um a dada política será m ais elaborada e
precisa do que a de um leigo. Podemos tom ar com o certo que esta diferença irá
existir sem pre. A inda assim , é m uito possível que o esp ecialista e o leigo ch e
guem a acordo sobre os traçosgerais da realidade. Um objectivo viável da
sociedade dem ocrática é o esclarecim ento equivalente entre o especialista, o
líder e o leigo.
O esp ecialista, o líder e o leigo podem ter a m esm a estim ativa geral das
principais tendências populacionais do m undo. Podem partilhar a m esm a v i
são geral acerca das probabilidades de guerra. Não é de modo algum absurdo
im aginar que os controladores dos m eios de com unicação de m assa virão a
assum ir a liderança no estabelecim ento de um elevado grau de equivalência,
por toda a sociedade, entre a im agem leiga de relações significativas e as im a
gens de um perito ou de um líder.
RESUMO
O processo de com unicação na sociedade desem penha três funções: (a)
vigilância do m eio am biente, revelando am eaças e oportunidades que possam
afectar a posição da com unidade e das suas partes constitu intes, em term os de
valores; (b) correlação dos elem entos que constituem a sociedade, com o res
posta ao m eio exterior; (c) transmissão da herança social. Em geral, podem ser
encontrados equivalentes biológicos nos agrupam entos hum anos e anim ais, e
na econom ia de um organism o individual.
Na sociedade, o processo de com unicação apresenta características especiais
quando o elem ento dirigente revela m edo quer do am biente interno quer do
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externo. Para determ inar a eficiência da com unicação num determ inado con
texto, é n ecessário ter em conta os valores em causa e a identidade do grupo
cu ja posição está a ser estudada. Nas sociedades dem ocráticas, as escolhas
racionais dependem do esclarecim ento, que, por sua vez, depende da com u ni
cação; e, especialm ente, da equivalência em term os de atenção entre líderes,
esp ecialistas e restantes m em bros da população.
HAROLD D. LASSWELL
«The Structure and Function of Communication in Society», in Lyman Bryson (ed.),
The Comm unication o f Ideas, New York, Institute for Religious and Social Studies, 1948.
NOTAS
1 Na medida em que os padrões comportamentais são transmitidos na estrutura hereditária de cada
animal, desempenham uma função similar à transmissão da «herança social» através da educação.
2 Considerado apropriadamente, o acontecimento discursivo pode ser descrito com tanta confiança
e validade quanto muitos acontecimentos não discursivos, os quais são utilizados como dados em inves
tigações científicas mais habitualmente.
3 Estas distinções derivam e foram adaptadas dos escritos de Charles F. Merriam, Gaetano Mosca,
Karl Manheim, e outros. Para uma exposição sistemática, ver (Lasswell e Kaplan, 1950).
(N.T. - O termo latino m iranda é aqui utilizado com o sentido de aquilo que é digno de admiração e
merece respeito.)
4 A distinção entre «multidão» e «público» foi estabelecida na literatura crítica italiana, francesa e
alemã, como reacção à utilização excessiva por Le Bon do conceito de multidão. Para um resumo desta
literatura, por um autor que se veio a revelar como um dos mais profícuos cientistas sociais neste campo,
ver (Park, 1904).
5 As asserções deste parágrafo são hipóteses passíveis de serem subsumidas a partir da teoria geral
do poder, referida na nota 3. Ver também (Lasswell e Goldsen, 1947: 3-11).
B ib l io g r a f ia
LASSWELL, Harold D. e KAPLAN, Abraham, 1950, Power an d Society, New Haven, Yale University
Press.
LASSWELL, Harold D. e GOLDSEN, Joseph M., 1947, «Public Attention, Opinion and Action», The
International Journal o f Opinion an d Attitude R esearch, n.° 1.
PARK, Robert E., 1904, M asse und Publikum; Eine m ethodologische und soziologische Untersuchung,
Berne, Lack and Grunau.
O FLUXO DE COMUNICAÇAO EM DOIS NIVEIS:
MEMÓRIA ACTUALIZADA DE UMA HIPÓTESE*
E lih u Katz
A análise do processo de tom ada de decisão no decorrer de um a cam panha
eleitoral levou os autores da obra The People’s Choice a sugerir que o fluxo da
com u nicação de m assa poderia ser m enos directo do que norm alm ente se su
punha. Estes autores propuseram com o provável que as in fluências transm iti
das pelos m eios de com unicação de m assa alcançam prim eiro os «líderes de
opinião» e que estes, por sua vez, transm item o que lêem e ouvem a grupos que
lhes são próxim os na sua vida quotidiana, e sobre os quais exercem influência.
Esta hipótese foi designada «fluxo de com unicação em dois níveis» (Lazarsfeld,
Berelson e Gaudet, 1948 : 151).
A ideia despertou grande interesse. Os próprios autores ficaram surpreen
didos com as suas im plicações para a sociedade dem ocrática. Consideraram
um sinal positivo o facto de as pessoas serem m ais facilm ente persuadidas
pela com u nicação interpessoal e a in flu ência dos m eios de com u nicação ser
m enos autom ática e m enos poderosa do que se tinha presum ido. Para a teoria
social e para o m odelo de investigação com u nicacional, a h ip ótese sugeria que
a im agem da sociedade urbana m oderna necessitava de um a revisão. A ideia
da au diência com o um a m assa de indivíduos separados entre si, apenas liga
dos pelos m eios de com unicação, não é com patível com a proposta do «fluxo
de com u nicação em dois níveis», que im plica o reconhecim ento de redes de
indivíduos interligados, através das quais a com unicação de massa é canalizada.
De todas as ideias presentes em The People’s Choice a hipótese do «fluxo
em dois níveis» é, provavelm ente, aquela que foi m enos bem docum entada
com dados em píricos. E a razão para tal é clara: a concepção do estudo não
previa a im portância que as relações interpessoais viriam a assum ir na análise
dos dados. U m a vez que a im agem da audiência atom izada caracterizava gran
de parte da investigação dos m eios de com unicação, foi surpreendente que a
questão da in flu ên cia interpessoal tenha sequer suscitado interesse aos inves
tigadores1.
Em quase 17 anos, desde o in ício das pesquisas eleitorais, vários estudos
desenvolvidos no Bureau o f Applied Social Research da U niversidade de
Colum bia procuraram analisar esta hipótese e trabalhar a partir dela. Quatro
62 C om u n icação e S o c ied a d e
desses trabalhos serão aqui destacados: o estudo sobre a influência interpessoal
e com portam entos com unicacionais em Rovere, de M erton (Merton, 1 9 4 9 :1 8 0 -
-219); o estudo de D ecatur sobre os processos de decisão nos dom ínios do
consum o, moda, frequ ência de salas de cinem a e assuntos públicos (Katz e
Lazarsfeld, 1955 : Parte II); o estudo de Elm ira sobre a cam panha eleitoral de
1948 (Berelson, Lazarsfeld e M cPhee, 1954); e, por últim o, um estudo m uito
recente de Colem an, Katz e M enzel sobre a divulgação de um novo m edica
m ento entre os m édicos2.
Estes estudos servirão com o trabalhos de enquadram ento, a partir dos quais
se procurará verificar o estado actual da hipótese do «fluxo em dois níveis»,
exam inar até que ponto esta encontrou confirm ação e de que form as tem sido
desenvolvida, contrariada e reform ulada. A lém disso, estes estudos servirão
para destacar as sucessivas estratégias que têm sido desenvolvidas para co n si
derar de form a sistem ática as relações interpessoais no âm bito da investigação
em com u nicação, visando em últim a análise uma espécie de «levantam ento
sociom étrico». Finalm ente, estes estudos, e ainda outros a que nos referirem os
de passagem , proporcionarão um a rara oportunidade de reflexão sobre proble
mas no âm bito do desenvolvim ento da pesquisa social3.
RESULTADOS DE THE PEOPLE’S CHOICE
O ponto de partida desta retrospectiva deve ser a verificação da evidência
patente no estudo eleitoral de 1940, que conduziu à form ulação original da
hipótese. Essencialm ente, parecem ter estado envolvidos três tipos distintos
de resultados. O prim eiro diz respeito ao impacto da influência pessoal. É afir
m ado que tanto os indivíduosque se decidiram tardiam ente na cam panha,
com o aqueles que alteraram a sua form a de pensar no decorrer desta, estão
m ais aptos do que qualquer outra pessoa a referir a in flu ência pessoal com o
determ inante para as suas decisões. A pressão política que é exercida por gru
pos de fam iliares e de amigos é explicada pela hom ogeneidade política que
caracteriza estes grupos. E m ais, foi m aior o núm ero de pessoas que revelou
ter, no seu dia a dia, participado em discussões sobre as eleições do que pro
priam ente ter ouvido algum discurso da cam panha ou lido qualquer editorial
de jornal. Com base nestes dados, os autores conclu íram que os contactos pes
soais parecem ter sido m ais freqüentes e m ais eficazes do que os m eios de
com unicação de m assa na influência das decisões de voto (Lazarsfeld, Berelson
e Gaudet, 1948 : 135-152).
O segundo elem ento que entrou na form ulação da hipótese esteve re lacio
nado com o fluxo da influência pessoal. Dada a aparente im portância da in flu
ên cia pessoal, o passo seguinte, óbvio, foi saber se algumas pessoas tinham
sido m ais im portantes do que outras na transm issão da influência. O estudo
procurou identificar indivíduos «líderes de opinião» a partir de duas questões:
«Tentou recentem ente convencer alguém das suas ideias políticas?» e «Alguém
lhe pediu recentem ente conselho sobre um a questão política?» Na com para
ção entre líderes de opinião e os restantes indivíduos, percebeu-se que os p ri
C om u n icação e S oc ied ad e 63
m eiros m anifestavam m aior interesse pelas eleições. E devido à distribuição
quase uniform e dos líderes de opinião pelas várias classes e ocupações, bem
com o à referência freqüente por parte dos eleitores à in flu ência de amigos,
colegas de trabalho e fam iliares, conclu iu -se que os líderes de opinião são
susceptíveis de ser encontrados em todos os níveis da sociedade e, presum i
velm ente por essa razão, são indivíduos m uito parecidos com as pessoas que
eles próprios in fluenciam [Ibid.: 50-51).
Um a posterior com paração entre os líderes e as restantes pessoas, no que
diz respeito aos hábitos relacionados com os m eios de com unicação, proporcio
nou o terceiro elem ento: os líderes de opinião e os meios de comunicação de
massa. Com parados com o resto da população, os líderes de opinião estiveram
consideravelm ente m ais expostos à rádio, jornais e revistas, isto é, aos m eios
form ais de com u nicação (Ibid.: 51).
A ssim o argum ento é claro: se a com unicação pessoal é tão im portante, se
os m ais destacados neste dom ínio estão am plam ente dispersos na sociedade e
se estes se encontram m ais expostos aos m eios de com unicação do que aque
les que eles in fluenciam , então talvez se possa afirm ar que «as ideias frequen
tem ente circu lam a partir da rádio e da im prensa para líderes de opinião,
passando em seguida destes para os sectores m enos activos da população»
(Ibid.: 151).
ESTRUTURA DO ESTUDO ELEITORAL
Para estudar a form a com o o fluxo de in fluência intervém na tom ada de
decisões, o m odelo de pesquisa de The People’s Choice apresentou várias van
tagens. A m ais im portante foi o m étodo de painel, que tornou possível lo ca li
zar as m udanças de opinião praticam ente quando estas ocorriam e a partir daí
estabelecer a sua correlação com as in fluências que afectavam os eleitores. Em
segundo lugar, a unidade de efeito, a decisão, constituiu-se com o um in d ica
dor tangível da m udança, que podia ser prontam ente registado. No entanto,
para estudar a parte do fluxo de in fluência relacionada com os contactos entre
os indivíduos, o m odelo de pesquisa revelou-se insu ficiente, um a vez que re
correu a um a am ostra aleatória de indivíduos descontextualizados dos seus
am bientes sociais. Este aspecto do m odelo de investigação explica a evolução
que viria a ser necessária a partir dos dados disponíveis até à form ulação da
hipótese de «fluxo de com unicação em dois níveis».
O facto de os indivíduos, num a am ostra aleatória, apenas poderem falar
por si próprios, levou a que a identificação dos líderes de opinião no estudo
eleitoral de 1940 tivesse sido feita por autodesignação, isto é, com base nas
respostas dos próprios indivíduos às duas questões anteriorm ente referidas4.
Com efeito, era apenas exigido aos inquiridos que dissessem se eram ou não
líderes de opinião. A lém do óbvio problem a de validade colocado por esta
técn ica, é im portante realçar que a m esm a não perm ite a com paração entre os
líderes e os seus respectivos seguidores, mas apenas a com paração entre líde
res e não líderes de um modo geral. Por outras palavras, os dados consistem
64 C om u n icação e S o c ied a d e
apenas em dois grupos estatísticos: o dos indivíduos que afirm aram dar con se
lhos e o dos que afirm aram não dar. A ssim , o facto de os líderes estarem m ais
interessados nas eleições do que os não-líderes não pode ser considerado para
afirm ar que a in flu ên cia flu i no sentido dos m ais interessados para os m enos
interessados. Expondo o problem a de um a form a drástica, pode até acontecer
que os líderes apenas se in fluenciem uns aos outros, perm anecendo os não-
-líderes à m argem do processo de influência. Contudo, a tentação de consid e
rar que os não-líderes são os seguidores dos líderes é enorm e, e, em bora The
People’s Choice seja um a obra cautelosa quanto a este aspecto, acabou por
ceder a esta ideia5. Foi a partir da noção de que os líderes de opinião se en con
tram m ais expostos aos m eios de com unicação de m assa do que os não-líderes
que surgiu a proposta do «fluxo de com unicação em dois níveis»; no entanto,
m anifestam ente, esta proposta só poderá ser considerada verdadeira se os não-
-líderes forem , de facto, seguidores dos líderes.
Os próprios autores realçaram que um método m ais rigoroso teria sido o de
«questionar as pessoas sobre a quem tinham pedido conselho sobre determ i
nado assunto, e em seguida investigar a interacção entre conselheiros e acon
selhad os. M as este proced im ento teria sido extrem am ente d ifícil, se não
im possível, já que poucos destes “líderes” e “seguidores” faziam parte da am os
tra» (Lazarsfeld, B erelson e Gaudet, 1948: 49-50). Como verem os já em segui
da, este é, provavelmente, o problema mais importante que os estudos subsequentes
procuraram resolver.
ESTRUTURA DE TRÊS ESTUDOS SUBSEQUENTES
Até aqui, foram passados em revista dois aspectos da form ulação original
da hipótese de «fluxo em dois níveis». Prim eiro, a hipótese foi apresentada
com o possuindo três elem entos distintos, respeitando, respectivam ente, ao
im pacto da in flu ên cia pessoal, ao fluxo da in fluência pessoal e à relação entre
os líderes de opinião e os m eios de com unicação de m assa. A evidência sub
jacen te a cada um deles foi já objecto de análise. Segundo, o m odelo do estudo
foi invocado com o objectivo de apontar a dificuldade inerente à resolução do
problem a da incorporação, num estudo transversal, dois dois padrões de in
flu ência num a situação de transacção de influências.
A partir deste ponto, o foco principal de atenção voltar-se-á para os estudos
que surgiram na seqüência de The People’s Choice. Abordarem os, em prim eiro
lugar, as diferentes concepções de investigação sobre a in flu ência pessoal,
apresentadas por três dos quatro estudos seleccionados para revisão6. C onse
quentem ente, os resultados substantivos destes estudos serão passados em
revista e avaliados de form a a poderem constituir um a m em ória actualizada
das com provações acum uladas contra e a favor da hipótese do «fluxo de co
m u nicação em dois níveis».
1 - 0 Estudo de Rovere. Realizado exactam ente na altura em que a pesquisa
eleitoral de 1940 estava a ser term inada, este estudo,o prim eiro dos três a ser
C om u n icação e S o c ied ad e 65
concluído, foi efectuado num a pequena cidade de New Jersey. Com eçou por
considerar um a amostra de 86 inquiridos, aos quais foi pedido que indicassem
as pessoas a quem recorriam para obter inform ações e conselhos sobre variados
assuntos. Nas respostas foram m encionados centenas de nom es, e aqueles que
surgiram quatro ou m ais vezes foram considerados líderes de opinião. Estes
indivíduos influentes foram destacados e entrevistados (Merton, 1 9 49 :184 -185 ).
A qui deparam os com a prim eira tentativa, a um a escala reduzida, de resol
ver o problem a colocado pelo m odelo de investigação de The People’s Choice.
Para localizar alguém influente, este estudo sugere que se com ece por pergun
tar ao entrevistado «quem é que o influencia?», partindo das pessoas in flu en
ciadas para aquelas designadas com o influentes.
E fundam ental su blinhar a existência de duas im portantes diferenças entre
este estudo e o estudo eleitoral de 1940. Em prim eiro lugar, há uma diferença
na concepção da liderança de opinião. Enquanto o estudo eleitoral encarava
qualquer pessoa que tivesse fornecido um conselho com o um líder de opinião,
m esm o influenciando apenas um a pessoa (por exem plo, o m arido ind icar à
m ulher em quem votar), os líderes identificados através do critério em pregue
em Rovere eram , certam ente, apenas os «conselheiros» com larga influência.
Em segundo lugar, o estudo eleitoral, pelo m enos indirectam ente, m ostra-
va-se interessado em questões com o a im portância da in flu ência pessoal na
tom ada de decisões e a sua relativa eficácia em com paração com a dos m eios
de com unicação de massa. Enquanto o estudo de Rovere tomou com o adquirida
a im portância da in fluência pessoal e m obilizou esforços de form a a id entifi
car as pessoas que desem penhavam papéis-chave na transm issão deste tipo de
influência.
Um últim o aspecto a frisar, relacionado com o m odelo deste estudo, é o
facto desta pesquisa ter utilizado as entrevistas in iciais quase exclusivam ente
com a finalidade de localizar os líderes de opinião, acabando por quase não
explorar as relações entre líderes e seguidores. Um a vez identificados os líd e
res, a preocupação lim itou-se praticam ente a classificá-los consoante os dife
rentes tipos, em estudar os com portam entos com u nicacionais respectivos e a
in teracção que os líderes estabeleciam entre si, prestando pouca atenção à
in teracção dos líderes com os indivíduos que os tinham designado.
2 - O Estudo de Decatur, efectuado em 1945-46 , procurou dar um passo em
frente (Katz e Lazarsfeld, 1955: Parte II). Tal com o o estudo eleitoral, e ao con
trário do estudo de Rovere, procurou-se ter em consideração as decisões - in s
tâncias esp ecíficas onde o efeito de diferentes influências pode ser identificado
e avaliado. Tal com o no estudo de Rovere, e ao contrário do estudo eleitoral,
foram realizadas entrevistas com as pessoas que tinham sido creditadas com o
influentes, relativam ente a tomadas de decisão m ais recentes dos indivíduos
da am ostra in icia l (nas áreas de consum o, frequência de salas de cinem a e
assuntos públicos). O estudo incid ia, nesse m om ento, não nos líderes de opi
nião em si, m as (1) sobre a im portância relativa da in fluência pessoal e (2)
sobre os indivíduos que definiram os líderes, bem com o sobre os próprios
líderes - o par «conselheiro-aconselhado».
66 C om u n icação e S oc ied ad e
Idealm ente, por conseguinte, este estudo pôde questionar se os líderes de
opinião tenderiam a pertencer à m esm a classe social dos indivíduos que eles
aconselham ou se a tendência era para a influência se processar das classes
superiores para as inferiores. Seriam os m embros do par conselheiro-aconselha-
do da m esm a idade, do m esm o sexo, etc.? Estaria o líder m ais interessado na
esfera de influência propriamente dita do que o seu aconselhado? Teria ele maior
probabilidade de se encontrar exposto aos meios de com unicação de massa?
Da m esm a form a que poderíam os construir o par partindo de um aconse
lhado para o seu conselheiro, tam bém era possível fazê-lo em sentido inverso,
falando prim eiro com alguém que tivesse assum ido ter actuado com o co n se
lheiro e a partir daí localizar a pessoa que supostam ente teria sido in flu en cia
da. O estudo de D ecatur tentou precisam ente este método. U tilizando o m esm o
gênero de perguntas de autodesignação do estudo eleitoral, foi solicitado às
pessoas que se consideravam influentes que indicassem os nom es dos ind iví
duos que tinham influenciado. Através de um processo tipo «bola de neve»,
das pessoas in fluentes para as influenciadas, surgiu a oportunidade, não ape
nas de estudar a in teracção entre conselheiros e aconselhados, mas tam bém
de verificar até que ponto existia correspondência entre a opinião dos que se
autodesignavam influentes e a apreciação realizada pelos indivíduos alega-
dam ente in fluenciados. Procedendo desta form a, os investigadores esperavam
poder verificar a validade da técn ica da autodesignação7.
Os autores de The People’s Choice assum iram que «perguntar às pessoas a
quem é que elas recorrem e depois investigar a in teracção entre conselheiros e
aconselhados... seria extrem am ente d ifícil, senão im possível». E, de facto, pro-
vou-se ser um a tarefa extrem am ente d ifícil. Surgiram m últiplos problem as no
trabalho de cam po com o conseqüência do processo de «bola de neve», pois
nem todas as entrevistas puderam ser realizadas8. Por isso, em diversas partes
da análise de dados foi necessário regressar às com parações entre líderes e não
líderes, atribuindo um m aior poder de in fluência aos grupos que apresenta
vam concentrações m ais elevadas da «autodesignada» capacidade de lideran
ça. No entanto, ficou m esm o assim demonstrado, em princípio, que um m odelo
de estudo para dar conta das relações interpessoais era não só possível de
executar mas tam bém útil.
M as quando se tornou evidente que este objectivo era alcançável, o próprio
com eçou a alterar-se. Tornou-se pertinente dar conta de cadeias de influência
m ais com plexas do que as que correspondiam ao par «conselheiro - acon se
lhado»; e, consequentem ente, esta relação passou a ser vista com o apenas um
aspecto da estrutura m ais elaborada dos grupos sociais.
Estas alterações surgiram gradualm ente e por variadas razões. Em prim eiro
lugar, os resultados do estudo de Decatur, e, depois, tam bém os do estudo de
Elm ira revelaram que os próprios líderes de opinião afirm avam frequentem ente
que as suas decisões eram influenciadas por outras pessoas [Ibid., 318; Berelson,
Lazarsfeld e M cPhee, 1 9 5 4 :1 1 0 ). Tornou-se desejável, por esse m otivo, com e
çar a pensar em term os de líderes de opinião de líderes de opinião9. Em segun
do lugar, tornou-se claro que a liderança de opinião não podia ser vista com o
um «característica» que algumas pessoas possuem e outras não, em bora o es
C om u n icação e S o c ied a d e 67
tudo eleitoral tenha, por vezes, precisam ente induzido este ponto de vista. Em
vez disso, revelou-se sim ilusório que o líder de opinião seja influente em
certas ocasiões e quanto a determ inadas assuntos im portantes pelo facto de
ser investido de poderes para tal pelos outros m em bros do grupo. A razão pela
qual determ inadas pessoas são escolhidas deve ser explicada, não apenas em
term os dem ográficos (estatuto social, sexo, idade, etc.), mas tam bém em ter
m os da estrutura e dos valores dos grupos a que pertencem tanto o «conselhei
ro» com o o «aconselhado». Assim , a inesperada ascensão de jovens à liderança
de opinião em grupos tradicionais, quando estes enfrentaram as novas situa
ções de urbanização e industrialização,só pode ser entendida tendo em conta
os antigos e novos padrões das relações sociais dentro do grupo e os antigos e
os novos padrões de orientação face ao m undo exterior ao grupo10. A recupera
ção da literatura de pesquisa sobre os pequenos grupos ajudou a form ular esta
concepção (Katz e Lazarsfeld, 1955: Parte I).
U m outro factor con tribu i tam bém para d efin ir a d irecção do novo pro
gram a de pesquisa. R eflectindo sobre o estudo de Decatur, fica claro que
em bora se possa falar do papel das várias in flu ên cias nas tom adas de decisão
sobre m oda, o m odelo de estudo não era adequado para estudar a m oda no
seu todo - a m oda com o um p rocesso de difusão - um a vez que não co n sid e
rava nem o conteú do das decisões, nem o factor tem po envolvido. As d eci
sões dos indivíduos que «m odificaram a sua opinião sobre moda», estudadas
em Decatur, ter-se-iam neutralizado m utuam ente: enquanto a senhora X re
feria um a alteração da m oda A para a m oda B, a senhora Y podia referir a
passagem da m oda B para a A. O que é válido para a m oda é válido para
qualquer outro fenôm eno de difusão: para estudá-lo, deve-se traçar o fluxo
de alguns tópicos esp ecíficos ao longo do tem po. A com binação deste in te
resse pela d ifusão com o in teresse em analisar o papel das redes socia is de
com u n icação m ais elaboradas proporcionou o aparecim ento de um a nova
pesquisa que se centrou (1) num tópico esp ecífico , (2) difundido num deter
m inado período tem poral, (3) atravessando a estrutura so cia l de um a dada
com u nidade na sua totalidade.
3 - 0 estudo sobre medicamentos. Este estudo procurou determ inar quais
os critérios u tilizados pelos m édicos nas suas tom adas de decisão relativa
m ente à adopção de novos m edicam entos. Desta vez, quando se procurou de
fin ir um estudo que desse conta do possível papel da in flu ência interpessoal
entre os m édicos, constatou-se que estes eram tão poucos (m enos de um e
m eio por cada m il pessoas) que seria possível entrevistar todos os elem entos
da classe m édica em várias cidades. Se todos os m édicos (ou todos aqueles
que exerciam especialidades relacionadas com o assunto em questão) podiam
ser entrevistados, não restaria qualquer dúvida de que todos os pares «conse
lheiros - aconselhados» estariam inclu ídos na amostra. Todos estes pares po
deriam então ser localizados no contexto de agrupam entos sociais m ais am plos
de m édicos, e poderiam ser avaliados através de m étodos sociom étricos.
Foram entrevistados m édicos especialistas em quatro cidades do Sudoeste
dos EUA. Para além de questões relacionadas com o conhecim ento anterior,
68 C om u n icação e S o c ied a d e
atitudes, uso de m edicam entos, exposição a várias fontes de inform ação, in
flu ência, etc., so licitou-se ainda a cada m édico que referisse o nom e de três
colegas com quem tinha m aior contacto social, de três colegas com quem cos
tum ava discutir m ais frequentem ente casos clín icos e de três colegas a quem
recorria quando necessitava de inform ações ou conselhos11.
Para além de perm itir delinear as redes de relações interpessoais, esta in
vestigação tam bém forneceu os outros dois elem entos necessários para um
verdadeiro estudo da difusão: a atenção a um tópico esp ecífico no decorrer do
período da sua ace itação e um registo desta d ifusão ao longo do tem po.
A investigação foi realizada através de um a consulta às receitas arquivadas
nas farm ácias locais das cidades em estudo, o que tornou possível determ inar
cronologicam ente a prim eira prescrição feita por cada m édico de um determ i
nado m edicam ento novo - um m edicam ento que tinha ganho larga aceitação
alguns m eses antes do in ício deste estudo. Cada m édico pôde, desta forma, ser
classificado em função do grau de rapidez da sua decisão de resposta às inova
ções, e em term os tam bém de outras inform ações fornecidas pela verificação
das receitas.
Comparando com os estudos anteriores, esta pesquisa conseguiu um enquadra
m ento m ais ob jectivo - em term os psicológicos e sociológicos - das decisões.
Em prim eiro lugar, o indivíduo que decide não é a ú nica fonte de inform ação
quanto à sua decisão. Os dados objectivos presentes no registo da receita fo
ram tam bém utilizados. Em segundo lugar, o papel das diferentes in fluências é
estabelecido, não apenas com base na reconstrução do evento pelo indivíduo,
m as tam bém a partir de correlações objectivas, a partir das quais se podem
estabelecer in ferências relativas aos fluxos de influência. Por exem plo, os m é
dicos que adoptavam o m edicam ento m ais cedo eram m ais susceptíveis de
participar em encontros m édicos da especialidade, fora das suas cidades, do
que os m édicos que o adoptaram m ais tarde.
Da m esm a forma, é possível inferir o papel das relações sociais nas tomadas
de decisão dos m édicos, não só a partir do próprio testem unho destes profissio
nais sobre o papel das diferentes formas de influência, mas tam bém a partir da
«localização» do m édico nas redes interpessoais definida através de inquérito
sociom étrico. Assim , com base em dados sociom étricos, é possível classificar os
m édicos de acordo com o seu nível de integração na com unidade m édica, ou
com o seu grau de influência, m edidos pelo número de vezes que são m enciona
dos pelos colegas com o amigos, parceiros de discussão e consultores. Podem
tam bém ser classificados de acordo com a sua qualidade de m embro de uma
determinada rede ou grupo exclusivo, conforme a informação fornecida por quem
os indica. U tilizar a prim eira medida torna possível investigar até que ponto os
m édicos m ais influentes adoptam um m edicam ento m ais cedo do que os m enos
influentes. A partir do segundo tipo de análise podemos verificar, por exem plo,
se os m édicos que pertencem aos m esmos subgrupos têm ou não os mesmos
padrões quanto ao uso de m edicam entos. Desta forma, foi possível fazer uma
com paração entre, por um lado, o próprio testem unho do m édico acerca das
suas decisões e formas de influência envolvidas e, por outro, o registo mais
objectivo das suas decisões e das influências às quais esteve exposto.
C om u n icação e S o c ied ad e 69
R efira-se que as redes de relações sociais nesta investigação foram refe
renciad as an teriorm ente à introdução do novo m edicam ento ser estudada,
no sentido em que a am izade, o aconselham ento , etc. foram registados in d e
pendentem ente de qualquer decisão do m édico. A investigação estava in teres
sada na p otencial relevância de vários aspectos destas estruturas sociom étricas
para a transm issão de in flu ên cia . Por exem plo, é possível assinalar os asp ec
tos da estrutura que são «activados» com a introdução de um novo m ed ica
m ento, e d escrever a seq ü ên cia da difusão deste m edicam ento, à m edida que
vai ganhando aceitação por parte dos indivíduos e dos grupos na com u nid a
de. E nqu anto o estudo de D ecatu r p rocurou apenas exam in ar a re lação
in terp essoal p articu lar que in flu en cia um a determ inada decisão, este estudo
sobre m edicam entos pôde situar esta relação no contexto m ais vasto de toda
um a rede de re lações p oten cia lm en te relevantes onde o m édico se encontra
inserido.
OS RESULTADOS DOS ESTUDOS SUBSEQUENTES A THE PEOPLE’S CHOICE
Depois de exam inados os m odelos de pesquisa destes estudos, o passo se
guinte consiste em explorar os seus resultados naquilo que possuem de re le
vante para a hipótese de «fluxo de com unicação em dois níveis». Será necessário
voltar às três categorias já referidas na discussão de The People’s Choice: (1) o
im pacto da in flu ência pessoal; (2) o fluxo da in fluência pessoal; e (3) os líderes
de opinião e os m eios de com unicação de m assa. Serãoconvocados aqui resu l
tados dos três estudos já referidos, bem com o do estudo de Elm ira (Berelson,
Lazarsfeld e M cPhee, 1948), e de alguns outros; de qualquer form a, as caracte
rísticas de cada m odelo de pesquisa devem ser consideradas na avaliação dos
resultados apresentados.
A. O impacto da influência pessoal
1 - A Influência Pessoal e dos Meios de Comunicação de Massa. O estudo de
1940 evidenciou que a in flu ência pessoal afectava de form a m ais acentuada
do que a dos m eios de com unicação de m assa as decisões de voto, particular
m ente no caso daqueles que tinham mudado de opinião no decorrer da cam pa
nha. O estudo de D ecatur procurou explorar o im pacto relativo das influências
pessoais e dos m eios de com unicação de m assa noutras três áreas: consum o,
m oda e frequência de salas de cinem a. Tendo com o base das suas conclusões
o testem unho dos próprios indivíduos em processo de decisão e usando um
instrum ento para avaliar a eficácia relativa dos diferentes m eios que in terferi
ram nessas decisões, o estudo de D ecatur confirm ou que a in flu ência pessoal
era m ais freqüente e efectiva do que a de qualquer m eio de com u nicação de
m assa (Katz e Lazarsfeld, 1955: 169-186).
A análise efectuada no estudo sobre m edicam entos não equacionou o pro
b lem a da e ficácia relativa dos vários m eios de com unicação, do ponto de vista
70 C om u n icação e S o c ied a d e
da própria reconstru ção realizada pelos m édicos sobre o que tinham tido em
consideração na sua tom ada de decisão. Comparando a sim ples frequência
das referências feitas pelos m édicos relativam ente aos diferentes m eios, torna-
-se claro que os colegas não foram a fonte mais vezes m encionada. No entanto, a
análise dos factores relacionados com a questão do m om ento de adopção de um
m edicam ento acabou por revelar que o factor m ais determ inante foi o grau de
integração do m édico na com unidade médica. Isto é, quanto m ais um m édico
for apontado pelos colegas com o um amigo ou um parceiro de discussão, m aior
é a probabilidade de ser um inovador no que respeita à introdução de um novo
m edicam ento. O grau de integração parece ser, deste modo, um factor m ais im
portante do que qualquer outro (seja ele a idade, a faculdade que frequentou, ou
o núm ero de pacientes que possui) ou mesmo do que qualquer outra fonte de
influência (tal com o a leitura de jornais da especialidade) examinada.
O estudo da relação entre integração e inovação in d ica dois aspectos ce n
trais: (1) com u n icação in terp essoal - os m édicos que se encontram in tegra
dos m antêm m ais contactos e estão m ais actualizados; (2) apoio socia l - os
m édicos que estão integrados sentem m aior segurança quando enfrentam
os riscos da inovação m éd ica52. A ssim , tam bém o estudo sobre m ed icam en
tos forn ece um a com provação do forte im pacto que têm as re lações pessoais
- m esm o na tom ada de d ecisões cien tíficas.
2 - Homogeneidade de Opinião nos Grupos Primários. O efeito da in flu ên
cia pessoal, tal com o nos tem vindo a ser revelado pelos estudos em análise,
re flecte-se na hom ogeneidade de opiniões e acções nos grupos prim ários.
A form a de com u nicação do grupo prim ário é, por definição, pessoa-a-pessoa.
A m bos os estudos eleitorais assinalam o elevado grau de hom ogeneidade da
opinião p olítica entre m em bros da m esm a fam ília, entre colegas de trabalho e
am igos. A eficácia destes grupos prim ários em im pedir potenciais desvios à
linha definida é dem onstrada pelo facto de aqueles que alteraram a sua in ten
ção de voto serem m aioritariam ente pessoas que logo desde o in ício da cam pa
nha revelaram a sua intenção de votar de form a diferente da sua fam ília ou
am igos (Lazarsfeld, Berelson e Gaudet, 1948: 137-145 ; Berelson, Lazarsfeld e
M cPhee, 1954 : 94-101 e 120-122).
Tam bém o estudo sobre m edicam entos perm itiu avaliar o nível de hom o
geneidade no com portam ento dos m édicos sociom etricam ente correlacionados,
e dem onstrar que existem situações onde um com portam ento sim ilar pode ser
observado. Por exem plo, verificou-se que, quando eram cham ados a tratar do
enças m ais com plexas, os m édicos tinham tendência para receitar os m esm os
m edicam entos que os seus colegas com características sociom étricas sem e
lhantes. O estudo m ostrou tam bém que, na introdução de um novo m edica
m ento, os m édicos inovadores que estavam sociom etricam ente correlacionados
tendiam a adoptar o novo m edicam ento praticam ente ao m esm o tempo. Este
fenôm eno de hom ogeneidade de opinião ou de com portam ento entre ind iv í
duos que interagem , e que se confrontam com um a situação pouco clara ou
incerta que exige acção, tem sido frequentem ente estudado por sociólogos e
psicólogos so cia is13.
C om u n icação e S oc ied ad e 71
3 - Os Diferentes Papéis dos Meios de Comunicação de Massa. O estudo
eleitoral de 1940 explorou algumas das razões pelas quais a in flu ência pessoal
pode ser m ais determ inante nas m udanças de opinião do que os m eios de
com u n icação : é norm alm ente n ão-in ten cion al, é flexível, é de con fian ça .
O que sugere que os m eios de com unicação têm m ais frequentem ente um pa
pel de reforço das predisposições existentes e das decisões já tom adas. No
entanto, foi assum ido que os vários m eios e a in fluência pessoal são essen cia l
m ente com petitivos entre si, na medida em que um a dada decisão é influenciada
pelos prim eiros ou pela segunda. O estudo de D ecatur adoptou tam bém esta
acepção, m as a determinada altura procurou demonstrar que os diferentes meios
de com u nicação desem penham diferentes papéis no processo de decisão e
assum em posições padronizadas num a seqüência de várias in fluências. O es
tudo sobre m edicam entos avança um pouco m ais na questão dos papéis dos
m eios de com u nicação, fazendo a distinção entre m eios que «inform am » e
m eios que «legitim am » decisões. Assim , nas decisões dos m édicos, os m eios
de com u nicação profissionais (tal com o os colegas) parecem ter um papel
legitimador, enquanto os m eios de com unicação com erciais desem penham um
papel inform ativo.
B. O fluxo da influência pessoal
O estudo eleitoral de 1940 verificou que os líderes de opinião não se con
centravam nos extractos m ais elevados da população, mas existiam em iguais
proporções em todos os grupos e extractos sociais. Esta descoberta conduziu
os estudos subsequentes a um esforço de verificação desta ideia em outras
áreas além das cam panhas eleitorais, e tam bém a um a preocupação de averi
guar o que torna diferentes os líderes de opinião das pessoas sob sua influência.
A prim eira coisa bem clara a reter dos estudos aqui analisados é que existe
um a forte relação entre o assunto sobre o qual a in fluência é exercida e a deter
m inação de quem será líder e seguidor. Assim , o estudo de Rovere sugere que
no am plo dom ínio dos assuntos públicos, um a parte dos indivíduos influentes
se ocupa dos assuntos «locais» e outra parte dos assuntos «cosm opolitas»
(M erton, 1949 : 187-188). O estudo de Decatur, por sua vez, sugere que em
term os de consum o, por exem plo, a liderança de opinião cabe às m ulheres
m ais velhas e com fam ílias num erosas, enquanto em term os de m oda e fre
quência de salas de cinem a são as raparigas jovens e solteiras que são m ais
solicitadas para aconselham ento. Raram ente existe uma sobreposição da lid e
rança: aquele que é líder de opinião num dom ínio não é provável que exerça
in flu ência noutro dom ínio d iferente14.
No entanto, m esm o quando a liderança num determ inado dom ínio se en
contra fortem ente concentrada nos m em bros de um grupo esp ecífico - com o
no caso da lid erança de opinião em m atérias de consumo, referida no estudo
de D ecatur - os resultados sugerem que as pessoas continuam a conversar,
principalm ente, com outras pessoas que possuem características sem elhantes
às suas. A ssim , em bora as m ulheres casadas de fam ílias num erosas tam bém
72 C om u n icação e S o c ied ad e
in flu enciassem outros tipos de m ulheres, a sua m aior in fluência dirigia-se a
m ulheres com a m esm a situação. Além disso, no que respeita a consum o, moda
e frequência de salas de cinem a, não existia um a concentração considerável
de indivíduos influentes em nenhum dos três níveis socioeconóm icos. A pe
nas ao nível dos assuntos públicos se verificava essa concentração da lideran
ça nos extractos m ais elevados, existindo um a ténue constatação de que a
in flu ên cia partia deste grupo para os indivíduos dos extractos in feriores.
O estudo de Elm ira perm itiu verificar tam bém que os líderes de opinião se
encontravam em proporções sem elhantes em todos os níveis ocupacionais e
socioeconóm icos, perm itindo constatar ainda que as conversações sobre a cam
panha se estabeleciam , regra geral, entre indivíduos da m esm a idade, profis
são e tend ência política.
O que é que contribui para a concentração de alguns tipos de liderança de
opinião em certos grupos? E quando «influente» e «influenciado» partilham apa
rentem ente as m esm as características - com o se verifica com frequência - o que
é que na verdade os distingue, se algo de facto os distingue? Em termos gerais, a
influência parece estar relacionada (1) com a personificação de certos valores (o
que se é); (2) com a competência (o que se sabe); e (3) com o posicionamento
social estratégico (quem se conhece). O posicionam ento social, por sua vez, ope
ra a divisão entre as pessoas que se conhecem no seio de um grupo e fora dele.
A transm issão da in flu ência é frequentem ente bem sucedida porque os
in flu en ciad os desejam tornar-se o m ais possível idênticos aos in flu entes15.
O facto de jovens solteiras serem as líderes de opinião em relação à m oda é
facilm ente com preensível num a cultura onde os jovens e a juventude co n sti
tuem valores suprem os. Este é um exem plo em que o que se é tem um peso
m uito forte.
M as o que se sabe não é m enos im portante16. Verificam os que as m ulheres
m ais velhas, graças à sua grande experiência, são encaradas com o conselheiras
em questões de consum o, tal com o os especialistas em m edicina interna - os que
gozam de um estatuto m ais «científico» entre os m édicos praticantes - são os
m ais frequentem ente m encionados com o líderes de opinião entre os m édicos.
A influência que os jovens exercem relativam ente à frequência de salas de cin e
ma pode tam bém ser facilm ente entendida, dada a sua familiaridade com o mundo
cinem atográfico. O estudo de Elm ira encontrou concentrações de liderança de
opinião ligeiram ente m aiores entre os elem entos m ais instruídos de cada nível
socioeconóm ico, sugerindo novam ente a im portância da com petência. F inal
m ente, a in fluência dos «cosmopolitas» no estudo de Rovere baseou-se na pre
sunção de que estes possuíam m uita informação.
Não basta, no entanto, ser alguém com petente ou que outros pretendam
imitar. E necessário tam bém ser acessível. Assim , o estudo de D ecatur verifi
cou a existên cia de um gregarismo - quem se conhece - relacionado com todos
os tipos de liderança. O estudo de Rovere mostra que a liderança em term os
«locais» se relaciona com a posição central que os influentes detêm na rede de
contactos interpessoais. Do m esm o modo, estudos sobre a transm issão de rum o
res identificaram aqueles que são considerados os indivíduos «socialm ente acti-
vos» enquanto agentes transm issores de rumores (Allport e Postman, 1 9 4 3 :1 8 3 ).
C om u n icação e S o c ied a d e 73
É claro que a im portância de quem se conhece não é apenas a questão do
núm ero de pessoas com as quais um líder de opinião estabelece contacto.
É tam bém um a questão de as pessoas com quem o líder contacta terem interes
se pela área em que este exerce a sua liderança. Por esta razão, é bem claro que
o m aior in teresse dos líderes de opinião pelos assuntos nos quais exercem
in flu ência não é um a explicação satisfatória para a sua influência. Enquanto
os estudos eleitorais, assim com o o estudo de Decatur, apresentam os líderes
com o aparentem ente m ais interessados, o estudo de D ecatur vai porém m ais
longe, ao dem onstrar que o interesse não constitu i por si o factor determ inante
(Katz e Lazarsfeld, 1955: 249-252). Em m atéria de moda, por exem plo, uma
jovem solteira é consideravelm ente m ais susceptível de exercer in flu ência do
que um a m ãe de fam ília com igual interesse por roupas. A razão que explica
esta situação é que a jovem solteira é susceptível de conhecer m ais pessoas
que partilham o seu interesse, e é por isso tam bém m ais susceptível de vir a ter
seguidoras que peçam o seu aconselham ento. Por outras palavras, a liderança
depende de dois factores: um líder e um seguidor.
Finalm ente, há um segundo aspecto a considerar quanto a «quem se con h e
ce». Um indivíduo pode ser influente não só porque os elem entos do seu gru
po lhe pedem conselhos, m as tam bém devido às pessoas que conhece fora do
grupo17. Tanto o estudo de Elm ira com o o de D ecatur constataram que os h o
m ens têm m aiores possibilidades do que as m ulheres de se tornarem líderes
de opinião no dom ínio dos assuntos públicos, o que é justificado pelo facto de
terem m ais oportunidades de sair à rua, de conhecer pessoas e de falar de
política. Da m esm a m aneira, o estudo de Elm ira revelou que os líderes de opi
nião eram m em bros de m ais organizações e conheciam m ais m em bros de par
tidos políticos, além de outros aspectos, do que o resto dos indivíduos. O estudo
sobre m edicam entos perm itiu verificar que os m édicos in fluentes poderiam
ser caracterizados em term os de aspectos com o a frequência de deslocações a
encontros fora da sua cidade e a diversidade de locais freqüentados, com par
ticu lar relevância se fossem distantes. É ainda interessante sublinhar que um
estudo sobre agricultores inovadores e responsáveis pela difusão das sem en
tes híbridas em Iowa conclu iu que estes líderes poderiam ser tam bém caracte
rizados em função da relativa frequência com que viajavam para fora da cidade
(Ryan e Gross, 1942a: 7 0 6 -7 0 7 )18.
C. Os líderes de opinião e os meios de comunicação de massa
O terceiro aspecto da hipótese de «fluxo de com unicação em dois níveis»
relaciona-se com o facto de os líderes de opinião se encontrarem m ais expos
tos aos m eios de com u nicação de m assa do que os indivíduos que eles in flu en
ciam . Na obra The People’s Choice esta ideia é apoiada pela referência ao
com portam ento dos líderes e dos não-líderes face aos m eios de massa.
O estudo de D ecatur corroborou esta constatação e partiu para a explora
ção de dois aspectos ad icionais desta ideia (Katz e Lazarsfeld, 1955 : 309-
-320). Em prim eiro lugar, dem onstrou-se que os líderes de um a dada esfera
74 C om u n icação e S o c ied ad e
(m oda, assu ntos pú blicos, etc.) estavam particu larm ente expostos aos m eios
d ireccionad os para essa área. Esta foi essen cia lm en te um a confirm ação dos
resultados do estudo de Rovere, de que os indivíduos in flu entes em relação
aos assu ntos cosm opolitas tinham m aior probabilidade de serem leitores de
p u b licações inform ativas n acionais, em bora o m esm o não fosse válido no
que se refere aos indivíduos com in flu ên cia em assuntos «locais». Em segun
do lugar, o estudo de D ecatur m ostra que, pelo m enos no que respeita à qu es
tão da m oda, os líderes não só se encontram m ais expostos aos m eios de
com u nicação de m assa, m as são tam bém m ais afectados por estes nas suas
d ecisões. Este caso parece não ter sucedido em outros dom ínios onde, em bo
ra os líderes estivessem m ais expostos aos m eios de com u n icação do que os
não-líderes, a in flu ên cia pessoal era o factor referido com o determ inante nas
suas decisões. Isto sugere que, em alguns dom ínios, as cadeias de in flu ên cia
pessoa-a-pessoa, consid eravelm ente m ais extensas do que as do par «conse-
lheiro-aconselhad o», têm de ser consideradas antes de qualquer registo de
in f lu ê n c ia d e c is iv a dos m eios de co m u n ica çã o de m assa , a in d a que o
contribu to da in flu ên cia destes possa ser assinalado em vários m om entos.
O estudo de E lm ira sugeriu igualm ente esta ideia. N esta pesquisa constatou-
-se que os líd eres, apesar de m ais expostos aos m eios de com u n icação , re fe
riam m ais frequ entem ente outras pessoas com o fonte de in form ações de
acon selh am en to (Berelson, Lazarsfeld e M cPhee, 1954 : 110).
Da form a sem elhante, o estudo sobre m edicam entos m ostrou que os m édi
cos in fluentes eram m ais frequentem ente leitores de um a vasta gama de pu bli
cações especializadas e valorizavam -nas m ais do que os m édicos com m enor
influência. M as, sim ultaneam ente, eram tam bém capazes de afirmar, com o
qualquer outro m édico, que os seus colegas m ais próxim os constitu íam uma
im portante fonte de inform ações e de aconselham ento para as suas decisões.
Por últim o, o estudo sobre m edicam entos dem onstrou tam bém que se po
deriam caracterizar os m édicos m ais influentes não só pelo seu m aior in teres
se por p u blicações de m edicina, mas tam bém pelos contactos que estabeleciam
e pelos encontros em que participavam fora da sua cidade. Esta questão foi já
d iscutida no tópico de análise anterior sobre o posicionamento estratégico do
líder de opinião em relação ao «mundo exterior» ao seu grupo. C onsiderá-la
novam ente neste contexto, sugere-nos que a m aior exposição dos líderes de
opinião aos m eios de com unicação de m assa pode ser apenas um caso especial
da perspectiva m ais geral segundo a qual os líderes de opinião têm com o fun
ção estabelecer a relação entre os seus grupos e dom ínios relevantes do m eio
am biente, função para a qual os m eios de com unicação se revelam adequados.
Esta afirm ação m ais geral torna claras as funções sim ilares que se observam
nos jornais das grandes cidades para os líderes no dom ínio da moda, no estu
do de D ecatur; nas pu blicações inform ativas nacionais para os líderes «cosm o
politas», no estudo de Rovere; nos encontros profissionais fora da cidade para
os m édicos in fluentes; e no contacto com a cidade para os agricultores inova
dores em Iow a19, bem com o para os novos jovens líderes de opinião em áreas
subdesenvolvidas um pouco por todo o m undo (ver, Lerner Berkm an e Pevsner,
no prelo).
C om u n icação e S o c ied a d e 75
CONCLUSÕES
A pesar da diversidade de assuntos abordados, os estudos aqui passados
em revista constituem um exem plo de continuidade e acum ulação, tanto em
term os de m odelo de pesquisa com o de projecto teórico. O conjunto dos resu l
tados avançados por estes estudos à luz da proposta original da hipótese de
«fluxo em dois níveis», sugere o seguinte cenário.
Os líderes de opinião e os indivíduos que eles in flu en ciam têm m uito em
com u m uns com os outros e pertencem , geralm ente, aos m esm os grupos p ri
m ários de fam ília , am igos e colegas de trabalho. Em bora o líder de opinião
possa estar m ais in teressado no dom ínio p articu lar em que ele é in flu ente,
não é provável que o n ível de in teresse dos indivíduos in flu en ciad os seja
m uito in ferior ao do líder. In flu entes e in flu enciad os podem trocar de papéis
em dom ínios de in flu ên cia d iferentes. M uitos assuntos focalizam a atenção
do grupo em algum aspecto do seu m undo exterior, e a função do líder de
op inião é estab elecer ligação entre o grupo e esse aspecto relevante do seu
m eio envolvente, contando com os m eios de com u nicação com o veículo ade
quado a esse fim . Em todos os casos considerados, verificou -se que os in d iv í
duos in flu en tes se encontravam m ais expostos a estes pontos de contacto
com o m undo exterior. No entanto, é tam bém verdade que, apesar da sua
m aior exposição aos m eios de com u nicação , a m aior parte dos líderes de
opinião são p rin cip alm en te afectados, não pelos m eios de com u nicação , m as
por outras pessoas.
A m aior ênfase da hipótese de «fluxo em dois níveis» parece ser dada a
apenas um aspecto das relações interpessoais - as relações in terpessoais com o
canais de com u nicação. M as, a partir dos vários estudos apresentados, ficou
claro que estas m esm as relações interpessoais in fluenciam a tom ada de d eci
sões, pelo m enos de duas outras form as distintas. Para além de funcionarem
com o redes de com unicação, as relações interpessoais constituem -se igual
m ente com o fontes de pressão para conform ação dos indivíduos com as for
mas de pensar e de agir do grupo e com o fontes de apoio social. As m anobras
de pressão de grupo são claram ente evidentes na hom ogeneidade de opiniões
e de acções observada quer entre votantes quer entre m édicos, em situações
pouco definidas ou de incerteza. O apoio social que decorre da integração
num a com unidade m édica pode transm itir ao profissional a confiança n eces
sária para se decid ir a adoptar um novo m edicam ento. Assim , as relações
in terpessoais são (1) canais de inform ação, (2) fontes de pressão social, e (3)
fon tes de apoio so cia l, e cada um destes elem en tos co n e cta as re lações
in terpessoais com o processo de decisão, de form a diferente20.
O problem a m etod ológico cen tra l em cada um dos estudos co n sid era
dos tem sido com o dar conta das re lações in terp essoais, preservando ao
m esm o tem po a econ om ia e a rep resentativ id ade que a am ostra a leatória e
tran s-se cto ria l p rop orcion a. As respostas a este p roblem a vão desde pedir
aos m em bros da am ostra para d escreverem aqu eles com quem interagiram
(Elm ira), a con d u zir in q u éritos tipo «bola de neve» com pares « in flu en te-
in flu en ciad o » (D ecatur), ou a en trev istar toda um a com u nid ad e (estudo
76 C om u n icação e S oc ied ad e
sobre m ed icam en to s). Estudos futuros d escobrirão certam en te um p o s ic io
nam en to in term éd io . Para a m aior p arte deles, no en tan to , o p rin cíp io
orien tad or poderá ser o de con stru ir m olécu las so cia is m aiores ou m enores
em torno de cad a átom o in d ivid u al da am ostra21.
ELIHU KATZ
«The Two-Step Flow of Communication: an Up-to-Date Report on an Hypothesis»,
Public Opinion Quarterly, n.° 21, 1957.
NOTAS
* Este artigo pode ser identificado como a publicação n.° A-225 do Bureau o f A pplied Social Research
da Universidade da Columbia. E uma versão resumida de um capítulo de Interpersonal Relations and
M ass Com m unications: studies in the Flow o f Influence, de Elihu Katz, Universidade da Columbia, 1956
(tese de doutoramento, não publicada). O aconselhamento e o estímulo dados pelo Professor Paul F.
Lazarsfeld na escrita desta tese são largamente conhecidos.
’ Para a discussão da imagem da audiência atomizada e sua refutação por evidência empírica, ver
(Katz e Lazarsfeld, 1955: 15-42; Friedson, 1953: 313-317; e Janowitz, 1952).
2 Um relatório sobre a fase piloto deste estudo encontra-se em (Menzel e Katz, 1955: 337-352); um
volume e vários artigos sobre o estudo completo estão actualmente a ser preparados.
3 Outros autores que trabalharam os conceitos de líder de opinião e de «fluxo de comunicação em
dois níveis», e que posteriormente os desenvolveram, são (Rileye Riley, 1951:445-460; Eisenstadt, 1952:
42-58 e 1955:153-167; Riesman, 1950; Handel, 1950). O programa de pesquisa em comunicações inter
nacionais do Bureau o f A pplied Social R esearch prestou considerável atenção ao conceito de líder de
opinião (cf. Glock, 1952-53: 512-523; Styeos, 1952: 59-70; e Lerner, Berkman e Pevsner, no prelo). Estu
dos em preparação de Peter H. Rossi, Robert D. Leigh e Martin A. Trow debruçam-se igualmente sobre a
articulação das influências pessoal e dos meios de comunicação de massa nas comunidades locais.
4 Rigorosamente falando, é claro que quando um inquirido exprime se é ou não um líder não está a
falar por si, mas pelos seus seguidores, reais ou imaginários. Além disso, é conveniente registar que, por
vezes, é possível ao entrevistado falar por outras pessoas além dele. Os estudos eleitorais, por exemplo,
questionam os indivíduos acerca das intenções de voto dos outros membros da sua família, de amigos,
de colegas de trabalho, embora este procedimento seja de validade duvidosa.
5 Existe um procedimento alternativo que é, em certa medida, um improviso. Pode-se perguntar aos
inquiridos não apenas se tinham dado conselhos mas se tinham também recebido conselhos. Este proce
dimento foi utilizado no estudo de Decatur e no estudo de Elmira, antes referidos. Assim, os não-líderes
podem ser classificados conforme estejam ou não incluídos no circuito de influência, isto é, conforme
sejam ou não «seguidores».
6 O estudo de Elmira será omitido neste ponto porque o seu modelo de pesquisa é essencialmente
igual ao do estudo eleitoral de 1940, excepto quanto ao importante facto de ter obtido de cada inquirido
consideravelmente mais informação acerca das intenções de voto de outras pessoas exteriores, do gênero
de pessoas com quem os inquiridos falavam, etc. do que a informação que tinha sido conseguida em The
P eop le’s Choice.
1 Cerca de dois terços dos alegados influenciados confirmaram que tinha tido lugar uma conversa
entre eles e os que se autodesignaram influentes sobre o assunto em questão. Destes, 80% confirmaram
posteriormente ter recebido aconselhamento. A dimensão desta confirmação é consideravelmente me
nor no domínio dos assuntos públicos do que em matéria de consumo ou moda (Katz e Lazarsfeld, 1955:
149-161 e 353-362).
a Em parte isto deveu-se à incapacidade de localizar as pessoas designadas, mas em parte também ao
facto de os inquiridos nem sempre conhecerem a pessoa que os tinha influenciado, como é obviamente,
por exemplo, o caso de uma mulher que copia o estilo do chapéu de outra mulher, etc. Ver (Katz e
Lazarseld, 1955: 362-363).
C om u n icação e S o c ied a d e 77
9 Isto foi, efectivamente, tentado num momento do estudo de Decatur. Ver (Katz e Lazarsfeld, 1955:
283-287).
10 Ver, por exemplo (Eisenstadt, 1952 e 1955; Glock, 1952-53J. Também o estudo de Rovere tem
cuidadosamente em linha de conta a estrutura das relações sociais e os valores em que se encontram
inseridos os indivíduos mais influentes, e faz a discussão das várias vias de influência abertas às diferen
tes pessoas.
" Ver nota 2.
12 Sobre a relação entre a integração social e a autoconfiança numa situação laborai, ver (Blau, 1955:
126-129).
13 Estes indivíduos, face a uma situação pouco estruturada, olham uns para os outros de forma a
construir uma «realidade social» na qual possam agir - um tema central do trabalho de Durkheim, de
Kurt Lewin e seus discípulos, H.S.Sullivan («validação consensual»), e dos estudos de Sherif, Asch e
outros.
14 Para um resumo dos resultados do estudo de Decatur sobre o fluxo da influência interpessoal, ver
(Katz e Lazarsfeld, 1955: 327-334).
15 Que os líderes são, em certo sentido, os membros mais conformistas dos grupos - defendendo
quaisquer que sejam as normas e os valores centrais do mesmo - é a proposição que melhor ilustra este
ponto. Para uma ilustração empírica inserida num estudo de grande relevo, ver (Marsh e Coleman, 1954:
180-183).
16 A distinção entre «o que» e «quem» se conhece é utilizada por (Merton, 1949: 197).
17 É interessante verificar que alguns estudos concluíram que as pessoas mais integradas no seio de
um grupo parecem ser as que maior número de contactos estabelecem fora do grupo. Por exemplo, (Blau,
1955: 128).
18 Para um sumário geral, ver (Ryan e Gross, 1942b: 15-24). Um artigo, actualmente em preparação,
aponta alguns paralelismos no modelo de pesquisa e nas conclusões entre este estudo e o estudo sobre
medicamentos.
19 Ryan e Gross (1942b) optaram por explicar as «viagens à cidade» como um outro indicador da
orientação não tradicional, da qual constitui também um indicador a própria inovação. No caso dos
encontros farmacêuticos realizados fora da cidade e das viagens a centros de conhecimento externos à
cidade, etc., estas últimas foram também mencionadas pelos médicos considerados inovadores e influ
entes como fontes principais de aconselhamento.
20 Estas diferentes dimensões do relacionamento interpessoal podem ser ilustradas tendo como base
de referência os estudos que representam o «modelo puro» de cada dimensão. Os estudos sobre a difusão
dos rumores abordam a dimensão dos canais de informação (ver, por exemplo, Moreno, 1953: 440-450).
O estudo de Festinger, Schachter e Back (1950) ilustra a segunda dimensão. Blau (1955:126-129) ilustra
a dimensão do «apoio social».
21 Várias formas de aperfeiçoamento das pesquisas têm sido discutidas nos últimos dois anos num
seminário sobre «análise das relações», no Bureau o f A pplied Social R esearch. O trabalho recente de
Lipset, Trow e Coleman (1956), constitui um exemplo, com o estudo realizado sobre os tipógrafos nos
diversos contextos sociais dos seus locais de trabalho. O estudo de Riley e Riley (1951) é um outro bom
exemplo.
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O FLUXO DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA
E O CRESCIMENTO DIFERENCIAL DO CONHECIMENTO
P. J. T ic h en o r , G. A. D o n o h u e e C. N. O lien
A aquisição de conhecim ento sobre ciência e outros assuntos públicos pode
ser vista com o um aspecto da m udança social, de acordo com um m odelo de
m udança cum ulativa. Segundo esta perspectiva, um dado increm ento no sen
tido da m udança pode conduzir a um a reacção em cadeia, surgindo com o um
acréscim o de aceitação de um determ inado padrão de com portam ento, de um a
crença, de um valor ou de um elem ento tecnológico num dado sistem a social
(Moore, 1963 : 37 e 38; Loom is e Loom is, 1961 : 589). Com o determ inados
subsistem as, dentro de qualquer sistem a social considerado no seu todo, têm
padrões de com p ortam en to que cond u zem à m u dança, ten d em a surgir
d istanciam entos entre subgrupos que estão já a experim entar a m udança e
outros subgrupos que se encontram estagnados ou m ais lentos na sua in ic ia
ção a essa m esm a m udança.
O objectivo deste trabalho é exam inar resultados de estudos anteriores e de
um a exp eriência de cam po recente realizada em M inneapolis e St. Paul, com
base na seguinte hipótese geral:
Q uando a introdução de inform ação dos m eios de com unicação de m assa
n u m sis te m a so c ia l au m en ta , os seg m en to s da p o p u la çã o de esta tu to
socioeconóm ico m ais elevado tendem a adquirir esta inform ação a um ritm o
m ais rápido do que os segm entos socioeconóm icos de níveis m ais baixos, pelo
que a diferença de conhecim ento entre estes segm entos tende a aum entar em
vez de dim inuir.
Esta hipótese de «diferencial de conhecim ento» não afirm a que os segm en
tos popu lacionais de estratos m ais baixos se m antêm com pletam ente desin-
form ados (ou que os pobres em conhecim ento se tornam m ais pobres num
sentido geral). A firm a-se sim que o crescim ento do conhecim ento é relativa
mente m aior nos segm entos de estatuto m ais elevado. No âm bito deste estudo,
o nível de instru ção é considerado com o um indicador válido de estatuto
socioeconóm ico (Reiss Jr., 1961 : 115 e 116).
Dois outros pressupostos são im portantes para esta análise. O prim eiro é
que, em bora o crescim ento do con h ecim en to hum ano possa ser caracteriza
do por ten d ên cias lineares ou cu rvilineares, esse crescim ento é irreversível
80 C om u n icação e S oc ied ad e
dentro do in tervalo de tem po su je ito a estudo (Coelm an, 1964 : 492 e ss;
C arlsson, 1968 : 706 -7 1 4 ). Um segundo pressuposto é o de que, para um dado
tem a em análise, não foi ainda alcançado um ponto de d im inuição de res
posta à infusão dos m edia, ou, se foi a lcançado, é possível que o m esm o
ocorra a n íveis d iferentes para os d iferentes grupos socioecon óm icos. A lém
disso, esta h ip ótese ap lica-se em prim eiro lugar a no tícias sobre ciên c ia e
assu ntos p ú blicos, de in teresse m ais ou m enos geral. Não se ap lica n ecessa
riam ente a assu ntos d ireccionados a au diências m ais esp ecíficas, tais com o
cotações da bo lsa de valores, n otícias da sociedade, de desporto ou de ja rd i
nagem .
RESULTADOS PRELIMINARES
A pesar de não afirm ada ex p lic itam en te , esta h ip ótese do d iferen cia l de
co n h e cim en to en co n tra-se im p líc ita na literatu ra sobre os efeitos da co m u
n ica çã o de m assa. Por trás deste ponto de vista, está a co n clu são geral de
que a in stru ção tem um a re lação estre ita com a aqu isição de co n h ecim en to
sobre assu n tos p ú b lico s e sobre c iê n c ia a partir dos m eios de co m u n icação
de m assa (Davis, 1 9 5 8 ; Sch ram m e W ade, 196 7 ; Wade e Sch ram m , 196 9 :
1 9 7 -2 0 9 ).
O acréscim o da educação form al proporciona um espaço de v ivência m ais
dilatado e m ais diferenciado, que in clu i um m aior núm ero de grupos de refe
rência, um m aior interesse e con sciên cia sobre questões cien tíficas e outros
assuntos públicos, m ais conhecim ento acum ulado sobre estes tem as e um a
exposição m ais extensiva ao conteúdo dos m eios de com unicação de m assa
nestas áreas (Sam uelson, Carter e Ruggles, 1963: 491-496).
A h ip ó tese do «d iferen cia l de co n h ecim en to » p arece , desta form a, apre-
sen tar-se com o um a ex p licação fu nd am ental para o ap arente fracasso da
p u b lic ita çã o da co m u n icação de m assa na in form ação do p ú b lico em geral.
N um a an á lise aos esforços para inform ar os adultos de C in cin a ti sobre as
N ações U nidas, S tar e H ughes destacam que as p essoas atingid as pela cam
p an h a ten d iam a ser as m ais in stru íd as, os jovens e os hom en s, enquanto
as p essoas m ais v elh as e com m enos in stru ção ignoravam p raticam en te o
assu n to (S tar e H ughes, 1 9 5 0 : 3 8 9 -3 9 7 ). R ob in son propõe a ex p lica çã o
n ew ton ian a de que as p essoas desinform adas se m antêm n esse estado, a
não ser que se jam estim u lad as por um a força exterior, enq u anto as p essoas
já in form ad as co n tin u am o p rocesso de desenvolv im ento do seu c o n h e c i
m ento (R obin son , 1 9 6 7 : 2 3 -3 1 ). A p ersp ectiva m e ca n ic is ta de R obin son
p arece sugerir que as p essoas podem d esenvolver cap acid ad es ou incap a-
cid ad es treinad as para reagir a estím u los de fon tes tanto in tern as com o
extern as. H ym an e S h eatsley parecem tam bém ace ita r a n oção de cap acid a
des treinad as para a aprendizagem de assu ntos p ú b lico s: «à m edida que as
p essoas aprendem m ais, o seu in teresse aum enta, e à m edida que isso a co n
te ce , elas são im p elid as a aprender m ais» (H ym an e Sh eatsley , 194 7 : 4 1 3 -
-423 ).
C om u n icação e S o c ied a d e 81
Star e H ughes vão m ais longe na esp ecificação da in terd ep end ência entre
instru ção , in teresse e exposição, su blinhand o que as pessoas com um nível
de instru ção m ais elevado atingidas pela cam panha estariam provavelm ente
m ais in teressad as e, por isso, m elhor inform adas. C onclu íram , assim , que as
pessoas que foram m ais atingidas pela cam panha eram as que tinham m enos
n ecessid ad e dela, e que as pessoas não-atingidas eram as que a cam panha
p retendia a lcan çar (Star e Hughes, 1950). A análise de Key da in ten sa re la
ção entre a estratificação da au diência e a exposição a n o tícias p o líticas su
gere que um a das funções p rincip ais de um a cam panha p resid en cia l seria
aum entar a d iferença do n ível de inform ação entre pessoas posicionad as em
extrem os ed u cacion ais, pois os que estão no topo têm taxas m ais elevadas de
exposição (Key, 196 1 : 348 -3 5 7 ). Num sentido m ais geral, um crescen te d is
tan ciam en to do con h ecim en to pode estar a ocorrer nas nações em desen
volv im ento , com o resu ltad o dos sistem as de d ifusão de in form ação. Com o
é afirm adopor B eers, o padrão de m elh oria dos n íveis de in stru ção das
n ações em m od ern ização pode ser ta l que a re lativa ig n orân cia de um a l
deão in stru íd o h o je é m aior do que a do seu pai que não tin h a qu alqu er
in stru ção (Beers, 1963).
Existem várias razões que contribuem para o aparecim ento e crescim ento
do referido d iferencial de conhecim ento, com o aum ento dos níveis de infor
m ação fornecida pelos m eios de com unicação. Um factor são as competências
comunicacionais. Os indivíduos com um a m aior educação form al têm, previ-
sivelm ente, m ais capacidades de leitura e de com preensão necessárias à aqu i
sição de conhecim ento sobre assuntos públicos e ciência.
Um segundo factor é a quantidade de informação armazenada, ou o co n h e
cim ento existente resultante da exposição anterior ao tem a através dos m eios
de com u nicação de m assa, ou da própria educação form al. As pessoas que já
se encontram m elhor inform adas têm um a m aior probabilidade de tom ar cons
ciên cia de um tem a, quando este aparece nos m eios de com u nicação de m as
sa, e estão m elhor preparadas para o com preender.
Um terceiro factor é o contacto social relevante. O grau de instrução d elim i
ta norm alm ente um a esfera m ais am pla de actividade quotidiana, um m aior
núm ero de grupos de referência e m ais contactos interpessoais, o que aum enta
a probabilidade da d iscussão de assuntos públicos com outras pessoas. Estu
dos sobre a difusão em grupos com o m édicos ou agricultores tendem a revelar
taxas de aceitação superiores e m ais rápidas entre os indivíduos m ais activos e
socialm ente integrados (Katz, 1961).
Um quarto factor in clu i a exposição, aceitação e retenção selectivas da in
form ação. Como foi referido por Sears e Freedm an, a exposição voluntária tem
m uitas vezes um a relação m ais próxim a com a instrução do que com qualquer
outro gênero de variáveis. Estes autores consideram que o que aparenta ser
exposição selectiva segundo um critério de atitudes pode ser cham ado «de
facto», de modo m ais apropriado, selectividade resultante de diferenças de
n ível de instru ção (Sears, 1967 : 194-214). A aceitação e a retenção selectivas
podem , contudo, ser o resultado con junto de diferenças de atitude e de in s
trução. Um tem a persistente na pesquisa dos m eios de com unicação de m assa
82 C om u n icação e S o c ied a d e
é a aparente tendência para interpretar e convocar inform ação que seja de
algum m odo congruente com as crenças e os valores existentes (Klapper, 1960:
15-26).
Um últim o factor é a natureza do sistem a dos m eios de com u n icação de
m assa responsável pela difusão da inform ação. Até aqui, a m aioria das notí
cias sobre assuntos pú blicos e c iên c ia (com as possíveis excep ções recentes
de acon tecim entos de crise e acontecim entos esp ectacu lares relacionad os
com as conqu istas esp aciais) surgia nos m eios de com u nicação im pressos,
que são trad icion alm en te consu ltados com m ais frequ ência pelas pessoas de
estatuto socia l m ais elevado. Os m eios de com u nicação im pressos são orien
tados de acordo com os gostos e in teresses do segm ento de estatuto m ais
elevado, e podem fazer d im inuir a sua cobertura de determ inados tem as,
quando estes com eçam a perder a novidade que caracteriza a «notícia». Ao
contrário de m u ita da p u blicidade contem porânea, às n o tícias sobre assu n
tos p ú blicos e c iên c ia falta-lhes a constante repetição que facilitaria a apren
dizagem e a fam iliarização com esses assuntos por parte das pessoas de
estatu to m ais baixo.
A hipótese do diferencial de conhecim ento pode ser expressa, operacional
m ente, pelo m enos de dois modos diferentes:
1. Ao longo do tempo, a aquisição de conhecim ento sobre um tema m uito
publicitado irá decorrer m ais rapidam ente entre as pessoas m ais instruídas,
do que entre aqueles com m enor instrução; e
2. Num determinado momento, deverá existir um a m aior correlação entre
aqu isição de co n h ecim en to e instru ção no que se refere a tem as m uito publi-
citad os nos m eios de com u n icação do que no caso de tem as m enos pu-
b licitad os.
Será de esperar um diferencial de conhecim ento especialm ente sign ificati
vo quando um ou m ais dos factores referidos estiver presente. D este modo, na
m edida em que sejam m obilizados a com petência com u nicacional, o co n h eci
m ento anterior, o contacto social ou a selectividade com base na atitude, o
d iferencial deverá aum entar proporcionalm ente ao fluxo dos m eios de com u
n icação de m assa.
DADOS DE TENDÊNCIA TEMPORAL
Podem ser extraídas conclu sões tanto a partir de estudos a curto prazo,
com o a longo prazo. Budd, M acLean e Barnes estudaram a difusão, ao longo
de um período de dois dias, de dois grandes acontecim entos noticiosos: a dem is
são de Nikita K hrushchev e o caso W alter Jenkins em 1964. Os estudos cobriam
o período que com eçava com o primeiro anúncio dos acontecim entos e continua
va a partir do dia seguinte (Budd, M acLean Jr. e Barnes, 1966: 221-230). Apesar
de os autores esperarem que as diferenças socioeconóm icas a n ível de co n h e
cim ento d im inuíssem neste tipo de acontecim entos de grande im pacto, os re
su ltad os foram no geral co n sis te n te s com a h ip ó tese do d ife re n cia l de
conhecim ento. Os inquiridos com m aior instrução tomaram conhecim ento mais
C om u n icação e S o c ied a d e 83
rapidam ente dos acontecim entos do que aqueles com m enor instrução; e um a
grande percentagem de pessoas m ais instruídas estava consciente dos aconte
cim entos dois dias após eles terem ocorrido. Neste intervalo de tem po, o dis
tan ciam en to em term os de co n h ecim en to entre grupos so cio eco n ó m ico s
aum entou.
U m outro teste à h ip ótese do d iferen cia l de co n h ecim en to envolve o
recu rso a dados de estudos cond u zid os ao longo do tem po, realizand o a
m esm a pergunta em d iferen tes m om entos. D ados sobre três tóp icos a n a li
sados dessa form a foram recolh id os pelo American Institute o f Public Opinion
en tre 1 9 4 9 e 1 9 6 5 1. Os tóp icos in c lu íam satélites terrestres, a ten tativ a do
H om em chegar à Lua e a con trovérsia sobre can cro e tabagism o. Cada um
d estes tem as m ereceu um a con sid eráv el aten ção dos m eios de co m u n ica
ção de m assa durante o período de estudo, co in cid in d o com um a fase em
que os m eios de co m u n icação de m assa am ericanos d edicaram , em geral,
grande aten ção à c iê n c ia (K rieghbaum , 196 8 : 65 e ss). Em 195 8 , fo i p ergu n
tado aos d irectores de 240 jo rn ais d iários se o esp aço n o tic io so ded icad o à
c iê n c ia , en g en h aria e m ed icin a se tin h a alterado nos ú ltim os anos. M ais de
9 0 % afirm aram que tin h a havido um aum ento, e aproxim ad am ente dois
qu in tos in d icaram um aum ento corresp on d en te à d u p licação das n o tícias
sobre c iê n c ia (K rieghbaum , 1968). A lém disso, cada tem a esp ec ífico m ere
ceu um tratam en to profundo por parte dos m eios de co m u n icação em re
sultado de acon tecim entos esp ecíficos ocorridos. O p rin cip al acontecim ento
na p esq u isa esp acia l foi o lan çam en to do Sp u tn ik I, em 1 9 5 8 , seguido por
vários lan çam en to s de outros sa té lites tanto pelos Estados U nidos com o
p ela R ú ssia S o v iética . A possível re lação entre tabagism o e can cro receb eu
p ela p rim eira vez um a vasta cobertu ra na seq ü ên cia do re latório AM A, de
1 9 5 4 , sobre o problem a.
Em relação a cada um destes tem as, houve ao longo do tem po um cresci
m ento geral do seu conhecim ento ou da aceitação da crença apresentada. Os
coeficien tes de correlaçãoentre instrução e conhecim ento ou crença em rela
ção a cada assunto e ano são apresentados na Tabela 1, sendo o padrão bastan
te consistente com a hipótese de um crescente diferencial de conhecim ento.
Os dois inquéritos sobre satélites terrestres são ilustrativos, visto que a corre
lação cresce à m edida que o conhecim ento aum enta, desde 1955 (três anos
antes do Sputnik) a 1961 (depois da prim eira viagem espacial norte-am ericana
com um ser hum ano).
M ais m arcantes são ainda os resultados dos quatro inquéritos em que se
perguntava aos inquiridos se acreditavam que o Hom em iria chegar à Lua num
futuro próxim o2. Novam ente, à m edida que a aceitação geral desta convicção
aum entava, a correlação com a instrução m ostrava um crescim ento estatisti
cam ente significativo, ao longo de um período de cinco ou seis anos. O distan
ciam ento crescente entre níveis de instrução é directam ente visível na Figura
l 3. Entre as pessoas com form ação universitária, a convicção de que o Homem
iria chegar à Lua subiu de m enos de 20% , em 1949, para m ais de 80% , 16 anos
m ais tarde; entre as pessoas com a instrução prim ária, essa convicção cresceu
apenas para 38% durante o m esm o período.
84 C om u n icação e S o c ied ad e
Tabela 1
Correlação entre instrução e conhecimento, relativamente a três temas que mereceram publicitação cres
cente ao longo do tempo
Tema 1949 1954 1955 1957 1959 1961 1965 1969 Diferenço entre coef.s
corre.
Identificação correcta
de satélites terrestres .158 .265 p <.050
Crença de que o Homem vai
chegar à Lua .042 .132 .259 .334 1949-1954, p <.020
1954-1959, p <.001
1959 -1965, p <.010
Crença de que os cigarros causam .050 .116 .127 n.s.
cancro do pulmão .79
Fonte dos dados: AIPO AIPO AIPO AIPO AIPO AIPO AIPO AIPO
450 541, 544 585, 621 652 705 Set.
525 592 1969
Percentag
—♦— Escola prim.
—•— Secundário
—j — Universidade
Figura 1. Percentagem de respostas em inquéritos nacionais que afirmam acreditar
que o Homem vai chegar à Lua, por Nível de Instrução e Ano
N enhum destes estudos aferiu directam ente a cobertura ou exposição dos
m eios de com u nicação de m assa, e o im pacto da sua inform ação nestes pa
drões tem assim de ser inferido. Parece bastante claro, porém , que a p u blicita
ção realizada por estes m eios de com unicação é aqui um factor fundam ental,
mas tam bém é possível que existam outros factores envolvidos. Estes dezasseis
anos cobrem um período de m udanças no sistem a educacional. A população
tam bém m udou, passando a incluir, em 1965, no nível edu cacional m ais ele
vado, um a m aior proporção de jovens do que em 1949. No entanto, a questão
im portante é que o diferencial de conhecim ento não deixou de existir no período
estudado.
C om u n icação e S o c ied a d e 85
A crença na relação tabagism o-cancro tam bém obedece ao padrão previsto,
apesar de a correlação no últim o ano perm anecer baixa. No período de 1954-
-1957 , contudo, a relação entre fum ar e ter cancro levantava m uito m ais dúvi
das do que actualm ente. Apesar de terem sido realizados estudos m ais recentes
sobre este assunto, com o envolveram diferentes am ostras e técn icas de m edi
ção, não podem assim ser com parados directam ente com os dados da AIPO.
ESTUDO DE UMA GREVE NUM JORNAL
Outro modo possível de testar a hipótese do d iferencial de conhecim ento é
através da observação da exclusão da publicitação realizada pelos m eios de
com u nicação de m assa. De acordo com a referida hipótese, seria de esperar
que a au sência da cobertura de um dado tem a pelos m eios de com u nicação de
m assa reduzisse a diferença de conhecim ento entre grupos com diferentes n í
veis de instrução. Em bora tal experiência seja de difícil concretização, ela pode
ser aproxim ada num a situação de greve dos jornais. Sam uelson estudou, em
1959, o conhecim ento de acontecim entos públicos correntes num a com u ni
dade onde os jornais se encontravam em greve, e num a outra com unidade
próxim a onde o jornal diário continuava a ser publicado com o habitualm en
te4. O estudo foi realizado após a prim eira sem ana de greve, antes que os cid a
dãos da com unidade afectada pudessem estabelecer algum m eio de substituição
dos m eios de com unicação. Um a vez que a ausência de jornais im plica um a
m enor atenção às notícias do dia difundidas pelos m eios de com u nicação por
parte das pessoas com m aiores níveis de instrução, pode adm itir-se, com o h i
pótese, que essas pessoas «perdem» proporcionalm ente m ais em resultado da
greve dos jornais. Sendo assim , deveria existir um a m enor diferença de con h e
cim ento entre as pessoas m ais e m enos instruídas na com unidade em situação
de greve do que na outra com unidade.
C onsid erand o que a am ostra da com u nid ad e em que não havia greve só
in c lu ía nove p essoas com um n ív el de in stru ção in ferio r ao secu n d ário , a
an á lise p resen te co n sid erou apenas os grupos com os n íveis secu n d ário e
u n iv ersitário em cada com u nid ad e. De acordo com a h ip ótese , a d iferen ça
de co n h e cim en to entre n íveis de in stru ção é efectiv am en te m aior na com u
nidade onde não se registou greve do que na com u nid ad e onde o jorn al
tinha estado em greve na sem ana anterior (Tabela 2, d iferença de 1.08 vs .44).
E sta in teracção , ou con traste , é sig n ifican te em term os esta tísticos a um
nível de sign ificação .0 0 1 5. M ais um a vez, estes dados não exclu em e x p lic a
ções a ltern ativ as, tais com o a p ossib ilid ad e de a com u nid ad e em situ ação
de greve ser caracterizad a por um a correlação b a ixa entre in stru ção e co
n h ecim e n to dos assu ntos p ú b lico s antes da greve. A pesar de as duas com u
n id ad es serem próxim as g eograficam ente, a com u n id ad e sem greve era
m ais p equena, m enos in d u stria lizad a e caracterizad a por um n ív el so c io
eco n óm ico geral m ais elevado. Na au sên cia de dados antes e depois da
greve, a in terp retação dos dados reco lh id os não deve pois ser tom ada com o
d efin itiva .
86 C om u n icação e S o c ied ad e
Tabela 2
Níveis de conhecimento de assuntos públicos para pessoas com diferentes níveis de instrução, numa
comunidade em que o seu jornal esteve em greve e numa outra comunidade sem greve, 1959*
Com unidade Ensino Secundário Ensino Superior Diferença
Greve do jornal 4.07 (N = 153) 4.51 (N = 142) .44
Ausência de greve do jornal 4.38 (N = 40) 5.46 (N = 56) 1.08
* Número de tópicos correctos num teste de 11 tópicos sobre acontecimentos correntes
A EXPERIÊNCIA DE MINEAPOLIS-ST. PAUL
Apesar de a m aior parte dos dados acim a apresentados serem consistentes
com a hipótese do d iferencial de conhecim ento, os factores su bjacentes são
inferidos e não directam ente observados. Se a hipótese geral estiver correcta, a
instru ção deverá estar m ais fortem ente correlacionada com o conhecim ento
adquirido a partir de um artigo esp ecífico relativo a um tem a que anteriorm en
te tivesse sido objecto de grande publicitação, em contraste com artigos sobre
tem as m enos publicitados. Pessoas com elevado n ível de instrução têm um a
m aior probabilidade de terem estado expostas a um tem a m uito publicitado;
encontram -se já «activas» em relação a esse tem a e evoluem nele m ais fa c il
m ente do que as pessoas com m enor instrução (Robinson, 1967).
Um a exp eriência de cam po recente realizada na área m etropolitana de
M ineapolis-St. Paul tornou possível um teste m ais directo deste aspecto da
hipótese. A com preensão da leitura foi aferida através de 22 artigos relacion a
dos com pesquisa m édica e b iológica e de 21 artigos sobre ciências sociais,
todos eles retirados de jornais m etropolitanos de referênciado midwest dos
Estados Unidos, no Verão de 1967 e no Inverno de 1967/68. Estas áreas tem áticas
foram analisadas separadam ente, visto que, no caso das notícias m édicas, a
relação entre instrução e com preensão é frequentem ente curvilinear (Tichenor,
1 965 ; Krieghbaum , 1958 : 5). Foi ainda essencial utilizar artigos sobre áreas
tem áticas que variavam no nível de publicitação prévia6.
Na área m etropolitana de M ineapolis-St. Paul, foi seleccionada um a am os
tra p robabilística de 600 pessoas, tendo sido as entrevistas realizadas em A bril
de 1968. Foi pedido a cada entrevistado que lesse dois artigos diferentes de
notícias c ien tíficas7. Cada artigo era apresentado com a seguinte questão, «Por
favor, le ia o artigo com o leria qualquer outro artigo noticioso?». D epois do
entrevistado ter term inado a leitura, o entrevistador recolh ia o artigo e pergun
tava: «Procure lem brar-se o m elhor possível do conteúdo deste artigo». Os
entrevistadores tinham instruções para fornecerem dois ind ícios que ajudas
sem os su jeitos a recordar. M ais de 94% dos inquiridos leram pelo m enos um
dos dois artigos. Cada artigo foi lido por 20 pessoas no m áxim o. O em parelha-
m ento foi organizado de m aneira a que um dado artigo fosse apresentado em
prim eiro lugar em 10 entrevistas e em segundo nas outras 10.
As respostas foram depois analisadas por unidades individuais de conteú
do, definidas com o asserções específicas, independentem ente das frases que
C om u n icação e S o c ied ad e 87
os inquiridos utilizavam para as compor. As fontes citadas nos artigos foram
então contactadas e foi-lhes pedido que avaliassem a exactidão das afirm ações
apresentadas. A compreensão do leitor era definida pelo núm ero de unidades
de conteúdo por si produzidas e classificadas pela fonte acim a do ponto m édio
de um a «escala de exactidão» de 7 pontos.
A m edida de m em ória era de resposta aberta e pode, com certeza, su besti
m ar a capacidade para reconhecer inform ação m ais tarde. No entanto, é supos
to m edir a capacidade de os indivíduos verbalizarem o conteúdo de um artigo
noticioso e, consequentem ente, a inform ação que conseguem transm itir para
o sistem a social.
O nível de p u blicitação de um artigo foi definido operacionalm ente com o o
núm ero de vezes que, durante o anterior ano civil, artigos dessa m esm a área
tem ática tinham surgido na prim eira página de um dos quatro principais jor
nais diários das cidades gem inadas. O pressuposto é de que a presença na
prim eira página constitu i pu blicitação de grande relevo dos m eios de com u ni
cação. Para a biologia e m edicina, «mais publicitado» significava duas ou m ais
m enções de prim eira página; para as ciên cias sociais, «mais publicitado» sig
n ificava quatro m enções de prim eira página.
RESULTADOS
Visto que as respostas a um segundo artigo lido por uma determ inada pessoa
podem divergir das do primeiro, os resultados foram analisados separadam ente
(Tabela 3). A lém disso, a distribuição dos artigos noticiosos conduziu a alguma
sobreposição nas subam ostras para o primeiro e segundo artigos. Contudo, os
dados relativos ao «primeiro artigo lido» na Tabela 3 representam 4 subam ostras
independentes, sendo o mesmo válido para o «segundo artigo lido».
Tabela 3
Correlações entre instrução e compreensão de artigos científicos para tópicos de elevada e baixa publici
tação em duas áreas gerais
Primeiro artigo lido Segundo artigo lido
Área Temas mais
publicitados
Temas menos
publicitados
Temas mais
publicitados
Temas menos
publicitados
Medicina - Biologia r = .109
(N = 84)
n.s.
r =.032
(N =111)
n.s.
R =.264
(N = 90)
p <.02
r = .165
(N = 108)
n.s.
Ciências Sociais r = .278
(N = 104)
p <.01
r =.228
(N = 93)
p <.05
r = .282
(N = 91)
p <.01
r =.117
(N = 97)
n.s.
O padrão geral de correlações entre instrução e com preensão na Tabela 3 é
consistente com a hipótese in icia l; em cada um a das quatro com parações, os
artigos «m ais publicitados» tendem a revelar um a m ais elevada correlação. Em
88 C om u n icação e S oc ied ad e
relação ao prim eiro artigo lido, as correlações não variam significativam ente
em função da p u blicitação anterior. No entanto, no que se refere ao segundo
artigo lido, o coeficien te é significativam ente m aior que zero no caso das
subam ostras de leitura de tem as m ais publicitados, e não é significativo para
os tem as m enos publicitados. Este padrão é observado em relação tanto aos
artigos sobre m edicina e biologia, com o em relação aos artigos sobre ciências
sociais.
Com o era esperado, a relação observada entre instrução e com preensão,
nos tem as de m edicina e biologia publicitados m ais intensam ente, tende a ser
curvilinear. Isto é, a diferença de com preensão entre os tem as m ais e m enos
publicitados nesta área é m ais acentuada no nível de instrução m édio, ao in
vés do n ível de instrução m ais elevado. Este padrão dem onstra, m ais um a vez,
o in teresse elevado pela inform ação sobre m edicina e saúde por parte das pes
soas m edianam ente instruídas.
PUBLICITAÇÃO E FAMILIARIDADE
A m aior parte dos dados tende, assim , a ser consistente com hipótese do
«crescente diferencial de conhecim ento». Na m edida em que esta hipótese pode
ser sustentada, fornece algumas reflexões cruciais sobre o im pacto «massivo»
dos m eios de com unicação. No que se refere aos assuntos aqui estudados, os
m eios de com u nicação de m assa parecem ter um a função sem elhante à de
outras institu ições sociais: reforçar ou aum entar in ju stiças existentes.
Se os m eios de com u nicação aum entam estas diferenças, em que cond i
ções os distanciam entos podem deixar de existir? C ertam ente, algumas ideias
sobre este assunto acabam por ser universalm ente partilhadas. Em bora não
existam ainda dados disponíveis, há poucas dúvidas que a «cam inhada na
Lua», em Ju lho de 1969, contribuiu para a aceitação geral de que o hom em
podia a lcançar a su perfície lunar. No entanto, os m eios de com u nicação têm
recursos lim itados, e o espectáculo espacial de 1969 pode ser um a excepção
extraordinária que ilustra um a regra m ais geral: a cobertura dos m eios de co
m u nicação tende a esm orecer antes que deixe de existir um diferencial de
conhecim ento . Esta tendência pode ser especialm ente óbvia no dom ínio dos
assuntos científicos, onde um novo desenvolvim ento ou descoberta torna im e
diatam ente obsoletos os tem as das notícias do dia anterior. Logo que o hom em
entrou em órbita, os satélites terrestres foram com pletam ente ignorados pelos
m eios de com unicação. Se este é o caso geral, a perspectiva de anular o d ife
ren cia l de conhecim ento em áreas gerais de ciên cia e de assuntos públicos, a
partir dos m eios de com unicação de m assa, parece ser som bria. Outros siste
m as de difusão de inform ação de m assa podem ser necessários para evitar que
segm entos da população de m ais baixo estatuto se afastem ainda m ais em ter
m os da sua relativa fam iliaridade com acontecim entos e descobertas de actua-
lidade.
Esta análise concentrou-se, fundam entalm ente, nos aspectos relacionados
com a pu blicitação de m assa na imprensa e pode não se aplicar à aprendiza-
C om u n icação e S o c ied a d e 89
gem a partir da televisão - talvez, pelo m enos, não na m esm a medida. Visto que
o uso da televisão tende a estar m enos correlacionado com a instrução, existe a
possibilidade de a televisão ser um «nivelador de conhecim ento» em algumas
áreas. Esta parece ser um a questão prioritária para a futura investigação.
Apesar da su stentação dos resultados desta análise, estes não apontam n e
cessariam ente para um «fracasso» das cam panhas de inform ação, com o sugerem H ym an e Sh eatsley ou Star e Hughes. A criação de d iferenciais m ais
elevados de conhecim ento na sociedade é, em si m esm a, um profundo efeito
social e pode ser um factor central na m udança social futura. Na m edida em
que as pessoas m ais instruídas se encontram na vanguarda da m udança social
e tecnológica, a sua aquisição acelerada de conhecim ento através dos m eios
de com u nicação pode ser socialm ente funcional. No entanto, ao m esm o tem
po, os d iferenciais de conhecim ento podem conduzir a um aum ento da tensão
no sistem a social; um a das reconhecidas disparidades entre pessoas brancas e
negras, por exem plo, é a diferença relativa na tom ada de con sciên cia de nova
inform ação. Um diferencial de conhecim ento im plica, por definição, um a di
ferença com u n icacion al e constitu i um desafio especial quando se pretende
resolver problem as sociais.
TICHENOR. P.J., DONOHUE, G. A. e OLIEN C. N„
1970, «Mass Media Flow and Differential Growth in Knowledge»,
Public Opinion Quarterly, n.° 34.
N o t a s
1 Os dados dos inquéritos da AIPO foram obtidos através do Roper Public Opinion R esearch Center,
Williamstown, Mass.
2 As perguntas específicas variaram ligeiramente. Em 1949,1959 e 1965, foi perguntado aos inquiri
dos se eles pensavam que o homem iria chegar à Lua dentro de 20 anos. Em 1954, a pergunta foi se o
homem iria chegar à Lua nos próximos 50 anos. Nestes dois itens e naqueles relativos às conseqüências
do tabagismo, assume-se que a «crença» reflecte aumento de conhecimento.
3 A análise de tendência dos dados, na Figura 1, mostra que tanto os efeitos lineares como quadráticos
são estatisticamente significantes para além do nível .001 para os três níveis educacionais. No entanto, o
efeito quadrático para o grupo universitário, por exemplo, diz respeito a uma variância adicional de
menos .005. Logo, é razoável considerar estas tendências como basicamente lineares.
4 Dados de um estudo conduzido por Merrill Samuelson (1960) «Some News-Seeking Behavior in a
Newspaper Strike», tese de doutoramento não publicada, Stanford University, 1960.
5 A análise de variância utilizada na realização deste teste é baseada num algoritmo de aproximação,
no qual os quadrados médios são ajustados para números desiguais de casos nas várias células (ver,
Blalock, 1960: 264).
e O estudo envolveu um total de 60 artigos. No entanto, aqueles que não diziam respeito a assuntos
de medicina, biologia ou ciências sociais, variavam tanto em termos de tema e tão pouco quanto ao nível
de publicitação anterior, que não foram considerados apropriados para esta análise.
7 As entrevistas foram realizadas como parte de uma sondagem da Metro-Poll, conduzida pelo
M inneapolis Star e Tribune R esearch Division.
90 C om u n icação e S oc ied ad e
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AS NOTÍCIAS COMO UMA REALIDADE CONSTRUÍDA
G aye T u ch m a n
As diferentes sociologies assum em um a posição teórica relativam ente às
pessoas com o actores sociais. As sociologias m ais tradicionais - não aquelas
habitualm ente utilizadas no estudo da produção noticiosa (Tuchm an, 1978) -
caracterizam as actividades dos hom ens e das m ulheres com o produtos da sua
socialização, segundo norm as que derivam das características objectivas da
estrutura social. Su cintam ente, defendem que a sociedade cria a consciência.
De form a distinta, as sociologias interpretativas m ais recentes consideram que
o m undo social fornece norm as que os actores invocam , com o recursos ou
constrangim entos do seu trabalho activo, para concretizar os seus p ro jectos1.
Através deste trabalho, os actores dão form a ao m undo social e às suas in sti
tu ições com o fenôm enos construídos e partilhados. Dois processos ocorrem
em sim ultâneo. Por um lado, a sociedade ajuda a m oldar a consciência . Por
outro lado, através da sua apreensão in tencional dos fenôm enos no m undo
social partilhado - através do seu trabalho activo - , os hom ens e as m ulheres
constroem e constituem colectivam ente os fenôm enos sociais.
AS NOTÍCIAS COMO UMA REALIDADE CONSTRUÍDA
Cada um a destas perspectivas sobre os actores sociais im plica um a aborda
gem teórica diferente das notícias. Partindo da prim eira perspectiva, a m ais
tradicional, pode-se argum entar de form a lógica, tal com o Roshco (1975), que
qualquer defin ição social de notícia depende da própria estrutura da socieda
de em questão. A estrutura social produz norm as, inclu indo atitudes que defi
nem os aspectos da vida social que são do interesse ou têm im portância para
os cidadãos. E suposto que as notícias digam respeito a esses tópicos reconhe
cíveis. Socializados nessas atitudes sociais e nas norm as profissionais, os jor
nalistas cobrem , seleccionam e difundem histórias sobre os tem as identificados
com o interessantes ou im portantes. Em virtude do cum prim ento desta função
por parte dos jornalistas, as notícias reflectem a sociedade: as notícias apre
sentam à sociedade um espelho das suas preocupações e interesses. Para que
um a definição social de notícia se altere, infere-se logicam ente, a estrutura da92 C om u n icação e S oc ied ad e
sociedade e das suas institu ições tem prim eiro de mudar. Como diz Roshco, as
notícias podem desem penhar um papel na m udança social ao relatarem actos
desviantes «interessantes» sob a form a de notícias leves, com o no exem plo
paradigm ático do hom em que m ordeu o cão. Se um núm ero su ficiente de pes
soas adoptar essas form as de desvio, a estrutura social pode ser m odificada e a
sua definição de notícia pode ser alterada. Mas, segundo esta perspectiva, as
defin ições de notícia perm anecem dependentes da estrutura social, e não das
actividades dos jornalistas ou das organizações jornalísticas.
Estudos realizados (Tuchman, 1978: 156-181) desacreditam , porém , esta
perspectiva tradicional das notícias e da m udança social. As concepções m o
dernas de notícia desenvolveram -se em conjunto com a estrutura social norte-
-am ericana. A im prensa popular proporcionou o aparecim ento, em sim ultâ
neo, de novos cap italistas e de novas definições de dem ocracia, m as está tam
bém indissociavelm ente ligada a estes m esm os fenôm enos. Criou a distinção,
então radical, entre m oralidade pública e m oralidade privada, ao assum ir a
noção de inform ação pública difundida para benefício privado (em presarial).
Rom peu tam bém a relação face-a-face entre produtores e consum idores de
com u nicação - um a transform ação crucial para as subsequentes form as de
interacção parasocial e para a segm entação de papéis nas sociedades industriais
avançadas.
A abordagem interpretativa das notícias - de acordo com a m etáfora da
janela-enquadram ento (Ibid .: 1-14) - é m ais activa. Enfatiza a actividade dos
jornalistas e das organizações jornalísticas, em vez das norm as sociais, um a
vez que não pressupõe que a estrutura social produz norm as claram ente defi
nidas que determ inam o que é digno de notícia. De modo diferente, defende
que os jornalistas, que sim ultaneam ente invocam e aplicam norm as, tam bém
definem essas m esm as norm as. Isto é, as noções de noticiabilidade encontram
as suas definições em cada m om ento; com o, por exem plo, quando os editores
de jornais decidem os assuntos a ser apresentados em prim eira página. De
form a sem elhante, defende esta abordagem que as notícias não espelham a
sociedade. A judam a constitu í-la com o um fenôm eno social partilhado, dado
que no processo de descrição de um acontecim ento, as notícias definem e
m oldam esse acontecim ento ; tal com o as histórias noticiosas interpretaram
e construíram o período in icia l do m oderno m ovim ento fem inista, com o um a
actividade de ridículas incendiárias de soutiens.
Ao enfatizar as actividades dos jornalistas, a abordagem interpretativa es
tabelece tam bém um tratam ento diferente da m udança social. A sem elhança
da perspectiva m ais tradicional, esta abordagem aceita a ideia de que as h istó
rias sobre desviantes têm alguma relação com a estrutura social, m as descreve
esta relação de um a m aneira diferente. Em vez de afirm ar que as histórias
sobre desviantes podem «m odificar» a estrutura social, as sociologias interpre-
tativas consideram que essas histórias definem , de um modo activo, o que é
desviante e o que é norm ativo. Reciprocam ente, as histórias sobre actos e acto
res sociais positivam ente sancionados são recursos que perm item definir tan
to a conform idade com o o desvio. Cada um destes tipos de histórias im plica
ou afirm a a presença ou ausência do outro tipo, na m edida em que cada um
C om u n icaçao e S o c ied a d e 93
deles está integrado nos processos que os jornalistas utilizam para reduzir a
grande quantidade de ocorrências enquanto m atéria prim a de notícias (Ibid.:
39-63). As histórias acerca de grupos sociais desviantes, com o o m ovim ento
fem inista, são transform adas, por exem plo, em notícias leves (Ibid.: 133-155),
ou, quando tratadas com o notícias sérias, caracterizam as fem inistas com o
pessoas que se reúnem em locais im próprios, a horas im próprias e com objec-
tivos im próprios (M olotch and Lester, 1975), com o um a am eaça à estabilidade
social. Ao im por estas significações, as notícias estão perm anentem ente a de
fin ir e a redefinir, a construir e a reconstru ir os fenôm enos sociais.
Já em anteriores ocasiões recorri a um a abordagem interpretativa no estudo
das notícias, procurando dem onstrar com o o trabalho jornalístico transform a
as ocorrências quotidianas em acontecim entos inform ativos. Por vezes exp li
citam ente, outras im plicitam ente, essas descrições do trabalho jornalístico re
correm aos conceitos de «reflexividade» e «indexicalidade», propostos pelos
etnom etodólogos (particularm ente Garfinkel, 1967); de «quadro sim bólico» e
«tira», propostos por Goffm an (1974); e de «construção social da realidade»,
desenvolvido por Berger e Luckm ann (1967). Todos estes conceitos sublinham
que os hom ens e as m ulheres constroem activam ente significações sociais.
Todos eles derivam, em últim a análise, de leituras do trabalho de Alfred Schütz
(1962, 1 9 6 4 ,1 9 6 6 ,1 9 6 7 ) , um filósofo das ciências sociais cu jas ideias in flu en
ciaram tam bém a form ulação de ideologia de Sm ith (1972). Os escritos de
Schütz, por sua vez, derivam do seu estudo da fenom enologia de Edm und
H usserl, do trabalho de H enri Bergson e dos pragm atistas am ericanos, e da
sociologia de M ax Weber.
ALFRED SCHÜTZ E O ESTUDO DO MUNDO QUOTIDIANO
Um ensaio de Schütz, incorporando as ideias de W illiam Jam es, teve um
im pacto particularm ente poderoso no desenvolvim ento m ais recente da socio
logia interpretativa2. Em «On M ultiple Realities», Schütz (1962) desenvolve as
propriedades fenom enológicas básicas do m undo social partilhado3. Prim eiro,
Sch ü tz aceita a noção de Jam es de que todos nós experienciam os m uitos
subuniversos, inclu indo o m undo dos sentidos e das coisas físicas, o m undo
da ciên cia , o m undo dos sonhos e o m undo da loucura. Em seguida, Schütz
distingue o m undo quotidiano dos sentidos e das pessoas de outras realidades
m últiplas. Interroga-se de que form a experienciam os estas realidades m ú lti
plas? Como, por exem plo, é que a nossa experiência do m undo dos sonhos
difere da nossa percepção do m undo quotidiano? Schütz está particularm ente
interessado no m undo quotidiano porque, tal com o Jam es, identifica-o com o
um a realidade prim ordial.
Duas ideias que Sch ü tz vai bu scar a Husserl assum em particular im portân
cia. No desenvolvim ento da sua filosofia, Husserl (1960, 1967) destacou a re
lação entre aquele que conhece e o que é conhecido. R econhece a con sciên cia
com o um fenôm eno in ten cion al4. A lém disso, H usserl propôs que o filósofo
pode apreender a essência dos fenôm enos adoptando um a atitude esp ecífica,
94 C om u n icação e S o c ied a d e
referida com o «pôr entre parênteses» ou a redução fenom enológica. Ao adop-
tar esta atitude, o filósofo põe em dúvida a existência de um fenôm eno o b jec
tivo para verificar a sua essência, com o oposta à sua forma m aterial no m undo
social. Por exem plo, o filósofo pode duvidar da existência das notícias para
descobrir a sua essência idealista, enquanto oposta às suas form as, do passa
do, do presente ou do futuro, no m undo social.
A explicação de H usserl (1967) para a redução fenom enológica é com plexa
e tem sido ob jecto de análise por parte de outros autores (e.g., Farber, 1966).
Aqui, é im portante apenas na m edida em que Schütz inverte a ideia de Husserl
quanto ao significado do «pôr entre parenteses». Husserl propôs esta atitude
com o aquela que distingue o filósofo fenom enológico; Schü tz explica que o
m undo quotidiano se distingue precisam ente pela ausência dessa atitude. Em
vez de adoptarem um a atitude de dúvidaem relação aos fenôm enos do m undo
social, os actores sociais aceitam os fenôm enos com o dados adquiridos. Por
exem plo, apesar de um leitor de jornal poder duvidar da veracidade de uma
n otícia esp ecífica , ele ou ela não põem em causa a própria existência das notí
cias com o fenôm eno social. O leitor pode contestar o ponto de vista de um a
h istó ria esp ec ífica , de um dado jorn al ou de um determ inado n oticiário
televisivo, mas os jornais, as transm issões de radiodifusão e as próprias n o tíc i
as surgem com o dados objectivos. Schü tz dá o nom e de «atitude natural» ao
estilo cognitivo que aceita a existência objectiva dos fenôm enos sociais. Esse
term o p ressu p õe que todos nós dam os com o adquirida a ex is tê n cia dos
fenôm enos sociais, vêm o-los com o dados, com o estando «naturalm ente» ali.
Mas Sch ü tz nu n ca afirm a que esses fenôm enos dados são eles próprios «natu
rais». Em «On M ultiple Realities», a sua preocupação não é em relação aos
fenôm enos do m undo, mas com a atitude que os actores sociais assum em para
abordar o m undo5.
Ao u tilizar o term o «atitude natural», Schütz considera que quaisquer que
sejam os conteúdos culturais, estruturais ou pessoais da vida do indivíduo,
todos os indivíduos com petentes experienciam estilos cognitivos sem elhantes
quando lidam com a realidade social. Isto é, um sam oano, um ucraniano ou
um am ericano, apesar dos seus antecedentes diferentes, podem experienciar
estilos cognitivos sem elhantes. Os indivíduos aceitam o seu m undo (quais
quer que sejam os seus conteúdos) com o «natural», aceitam as coisas tal com o
são. Im aginem os duas pessoas que leiam a m esm a n otícia de jornal. Um a delas
situa-se p oliticam ente ao centro; a outra é um revolucionário. O revolucioná
rio pode duvidar que a ocorrência relatada no jornal tenha acontecido da for
m a com o a n o tíc ia a descreve. M as não duvida da ex istên cia da própria
ocorrência. A liás, por exem plo, na tentativa de prever o efeito daquela notícia
nos seus leitores ou de com preender com o é que ela pode in fluenciar a ten ta
tiva de lançar um novo programa político, o revolucionário pode até dar m ais
atenção à «notícia do que aquele que é politicam ente conservador»6. Na obra
de Schütz, o conceito do m undo quotidiano é quase tautológico: o m undo
quotidiano é constituído pelo próprio facto de ser dado com o pressuposto.
Lançar a dúvida leva-nos de um a das realidades m últiplas ou subuniversos
para outra. Por exem plo, ao lançar a dúvida, podem os entrar no m undo da
C om u n icação e S o c ied ad e 95
ciên cia , no qual os indivíduos põem em dúvida (entre parênteses) a existência
dos fenôm enos com o objectivo de os estudar.
Mas Schü tz não define a atitude natural de forma tautológica. Pelo contrá
rio, propõe seis «características clássicas que constituem o estilo cognitivo
específico» do m undo quotidiano e que o diferenciam de outras «províncias
fin itas da significação» (outras realidades m últip las)7. Para os m eus objectivos,
há duas tensões interessantes nesta lista de características apresentada por
Schütz. Em prim eiro lugar, enfatiza a característica de se dar com o pressupos
tos os elem entos básicos da vida social, tais com o o tem po e a in tersubjecti-
vidade (tomar o papel do outro), enquanto socialm ente adquiridos. Em segundo
lugar, Sch ü tz defende que, na atitude natural, os actores sociais «trabalham »
activam ente, no sentido em que assum em um a posição activa de perfeita vigí
lia perante o m undo, através da qual apreendem e criam significações. Assim ,
por exem plo, ao ler um jornal o actor tom a com o certo que as notícias existem
e que as histórias são «notícias de actualidade». O leitor ou a leitora apreen
dem as histórias num quadro tem poral claram ente delineado que é socialm en
te definido em term os de intersecção da experiência hum ana com o m ovim ento
da lua e dos planetas. No m undo dos sonhos, o tem po está ausente, em expan
são ou em suspenso; perde a sua referência social.
Os leitores de notícias tam bém trabalham para encontrar sentido nas m an
chas de tin ta im pressas na página. Percebem palavras e frases, factos e in ter
pretações. A preendem activam ente e atribuem significados a essas m anchas,
tal com o apreendem activam ente sons articulados com o declarações e lingua
gem. De form a sem elhante (Tuchm an, 1978: 15-38) os jornalistas trabalham
para apreender e atribuir significado quando identificam certos tópicos, e não
outros, como notícias. Através deste trabalho, segundo Schütz, os actores sociais
criam significações e, ao m esm o tem po, um sentido colectivo partilhado da
ordem social. A ordem social depende da partilha de significações.
A noção de atitude natural de Schü tz serviu com o ponto de partida para
vários autores da sociologia interpretativa, todos eles afirm ando que os h o
m ens e as m ulheres se em penham na criação de significações sociais. As teo
rias que derivam da abordagem de Schütz aplicam -se à produção n oticiosa e
às notícias enquanto fenôm enos sociais, da m esm a form a que se aplicam à
apreensão de sons articulados com o enunciações com sentido.
Considerem os de seguida os conceitos de «reflexividade» e «indexicalidade»
desenvolvidos pelos etnom etodólogos.
AS NOTÍCIAS COMO ACTIVIDADE REFLEXIVA E INDEXICAL
Sob a d irecção de Garfinkel (1967) e Cicourel (1 9 6 4 ,1 9 7 3 ) , os etnom etodó
logos exam inam com o as pessoas constroem o sentido do m undo quotidiano
quando assum em a atitude natural8. («Etnometodologia», foi um term o estabe
lecido por um dos d iscípulos de Garfinkel, que significa o estudo dos m étodos
das pessoas.) Os etnom etodólogos não estão interessados nas categorias que as
pessoas utilizam para darem sentido ao m undo; por exem plo, não consideram
96 C om u n icaçao e S o c ied ad e
os estereótipos que um grupo pode aplicar a outro. Estudam sim o trabalho diário
de criação de categorias (ou, utilizando os seus próprios termos, a «produção» de
categorias); por exemplo, com o os significados estereotípicos são atribuídos aos
actos de outras pessoas, com o na estereotipização dos mem bros in iciais do m o
vim ento fem inista (Tuchman, 1978: 133-155), na identificação de certos m em
bros de m ovim entos sociais com o «líderes responsáveis» [Ibid.: 82-103), ou na
rejeição do estereótipo de que todos os presidentes são desonestos [Ibidem).
Os etnom etodólogos propõem, especificam ente: tal com o a atitude natural
existe em todas as sociedades e culturas, há tam bém características ou m éto
dos invariantes da atitude natural que as pessoas utilizam para darem sentido
ao m undo quotidiano. Tais características não têm um conteúdo específico,
m as podem ser invocadas para darem sentido a um a variedade de conteúdos.
Essas características da atitude natural identificadas pelos etnom etodólogos
esp ecificam com o é que as pessoas funcionam num estado de plena vigília
para apreenderem e criarem significações.
«Reflexividade» e «indexicalidade» são duas características invariáveis
identificadas pelos etnom etodólogos. Estes conceitos gêmeos (indexicalidade
im plica reflexividade e vice-versa) podem ser utilizados para descrever com o
é que as pessoas conferem sentido às expressões um as das outras em conver
sações partilhadas; com o é que as pessoas dão sentido às notícias com o regis
tos do m undo quotidiano; com o os repórteres dão sentido aos acontecim entos;
ou com o é que as pessoas extrapolam a partir de cada tópico esp ecífico uma
caracterização do m undo quotidiano.
Tanto a reflexividade com o a indexicalidade referem-se à inserção contextual
dos fenôm enos. A reflexividade especifica que os relatos dos acontecim entos
estão inseridos na m esm a realidade queeles próprios caracterizam , registam ou
estruturam. A indexicalidade especifica que os actores sociais, ao utilizarem
relatos (termos, enunciações ou narrativas), podem atribuir-lhes sentidos inde
pendentes do contexto no qual esses relatos são produzidos e processados. Por
exem plo, alguém atribui sentido a um a afirmação feita num a conversação em
que participa tendo em conta o contexto dessa afirmação. (Sem contexto, a ex
pressão «uh» não tem sentido). Retirar essa afirmação do seu contexto de produ
ção e repeti-la num a segunda conversação, pode ser um a tentativa de atribuição
indexical de sentido. Considerem os uma conversa hipotética de um casal (Ibid.:
1-14). D iscutindo sobre as notícias do dia, eles conversaram ao mesmo tempo
sobre o com portam ento de Joe num a reunião do departamento. No futuro, o
casal pode referir-se a esse dia com o «o dia em que Joe disse x». Separando a
caracterização «o dia em que Joe disse x» do processo da sua produção, eles
transform am aquela caracterização num a indexicalidade específica.
Tanto a reflexividade com o a indexicalidade são com ponentes essenciais
da transform ação dos acontecim entos em notícias. São com ponentes quer do
carácter público das notícias quer do próprio trabalho inform ativo.
O carácter público das notícias. As notícias registam a realidade social e são
sim ultaneam ente um produto dessa m esm a realidade, na m edida em que for
n ecem aos seus consum idores um a abstracção selectiva in tencionalm ente co
C om u n icação e S o c ied a d e 97
erente, m esm o podendo descurar certos porm enores. Quando os consum ido
res de notícias lêem ou vêem notícias, acrescentam -lhes porm enores - mas
não necessariam ente aqueles que foram suprim idos na construção da história.
A abstracção e a representação selectivas da inform ação, e a atribuição reflex i
va de significado aos acontecim entos enquanto notícias são características n a
turais da vida quotidiana.
C onsiderem os dois casos, o m assacre de M y Lai e o escândalo Watergate.
A pesar de centenas de pessoas terem sido chacinadas em M y Lai, as suas mor
tes não tiveram existência pública para os am ericanos até à divulgação de
relatos selectivos do m assacre. Sem esses relatos inform ativos, o acon tecim en
to teria sido apenas um a preocupação pessoal dos soldados envolvidos e dos
sobreviventes. Da m esm a forma, o assalto à sede nacional do Partido D em ocrá
tico no ed ifício de escritórios Watergate com eçou por ser um assunto público
para os assaltantes detidos, m as um a preocupação pessoal para o pequeno
grupo de indivíduos que poderiam ser identificados com o conspiradores - até
que m ais ninguém tivesse conhecim ento do seu efectivo envolvim ento. A di
vulgação p ú blica da inform ação foi necessária para que se in iciassem os pro
cessos ju d icia is e no Congresso e para que, em últim a análise, R ichard N ixon
fosse forçado a renunciar à Presidência. Em am bos os casos, os relatos n o tici
osos divulgaram o que se estava a passar ou o que se tinha passado no m undo
quotidiano; em am bos os casos, os relatos noticiosos tiveram , claram ente, uma
intervenção activa no processo sociopolítico. Os m ilitares tentaram silen ciar a
história de M y Lai; os acessores do Presidente tentaram silen ciar as notícias
sobre W atergate. Os m eios de com unicação social foram parte integrante do
drama de estruturar e divulgar a inform ação, que constitu iu depois base para
a form ação do conhecim ento.
Os relatos inform ativos não só conferem às ocorrências a sua existência
com o acontecim entos públicos, com o tam bém lhes atribuem um certo carác
ter, na m edida em que ajudam a dar form a à definição p ú blica dos acon teci
m entos, atribuindo-lhes de form a selectiva porm enores ou «particularidades»
esp ecíficas. Tornam acessíveis aos consum idores de notícias esses porm eno
res selectivos. C onsiderem os o caso de um m otim . Ao divulgarem porm enores
com o o núm ero de participantes, o núm ero de feridos ou m ortos, a dim ensão
dos estragos e a seqüência das acções (por exem plo, um hom em foi preso e
depois um a m ultidão de cidadãos concentrou-se frente à esquadra da polícia),
os relatos noticiosos transform am um m otim enquanto acontecim ento amorfo,
no m otim (aquele m otim em particular), com o acontecim ento público e preo
cupação pública. Os relatos noticiosos dão tam bém form a a noções sobre as
características gerais de todos os m otins. Kapsis et al. (1970) referem que todos
os m otins atravessam fases de form ação, quando «nada de especial» parece
estar a acontecer, tal com o as batalhas têm tam bém os seus «m om entos de
acalm ia». As notícias norm alm ente ignoram estas fases, reduzindo o curso dos
m otins a um a actividade in tensa e contínua. Através dos seus relatos de m o
tins esp ecíficos, as notícias ajudam a dar form a a um a definição p ú blica do
que é um m otim , e essa definição pública existe sem referência aos processos
que transform aram o m otim -ocorrência em m otim -acontecim ento-notícia. Em
98 C om u n icação e S oc ied ad e
últim a análise, os cientistas sociais podem de facto utilizar o relato noticioso
com o se fosse um a descrição verídica da ocorrência, com o se a notícia fosse o
próprio acontecim ento (ver Danzger, 1975, 1976; Tuchm an, 1976). Ao m esm o
tem po, por exem plo, alguns historiadores e sociólogos tradicionais u tilizam as
notícias com o dados que revelam a natureza dos fenôm enos e os focos m utáveis
das preocupações do público. Ao utilizarem as notícias com o dados sem refe
rên cia ao contexto da sua produção, esses sociólogos estão a basear-se no ca
rácter ind exical das notícias.
Notícias e a produção noticiosa. Tal com o o carácter público das notícias é
s im u ltaneam ente in d exical e reflexivo, tam bém a produção noticiosa está
inserida num dado contexto. As notícias estão inseridas na organização social
do trabalho inform ativo: nos m eios conflituais das cadeias de responsabilida
de territoriais, institucionais e de tópicos - descritas noutro contexto com o
rede de notícias (Tuchm an, 1978: 15-38), que requerem um a perm anente n e
gociação; nas tip ificações tem porariam ente estabelecidas, enraizadas no rit
mo do trabalho (Tuchm an, 1978 : 39-63); e na constitu ição m útua dos factos e
das fontes, realizada quer pela ancoragem da rede de notícias em institu ições
legitim adas quer pelas negociações entre concorrentes-colegas (Ibid.: 64-81).
Segundo G arfinkel (1967 ; ver tam bém Cicourel, 1968), os trabalhadores
recorrem à sua com preensão dos processos de um a institu ição para produzi
rem registos sobre aspectos desses m esm os processos. No exem plo de Garfinkel,
os entrevistadores responsáveis pelo controlo de adm issões num a clín ica u ti
lizam a sua com preensão dos processos de trabalho dessa clín ica para produ
zirem os registos de adm issão dos entrevistados. Esses registos são assim
objectivados com o relatos factuais da história c lín ica e pessoal dos pacientes.
G arfinkel m ostra-nos com o, no processo de produção destes registos, os traba
lhadores reproduzem e objectivam quadros sociais da clín ica . M oloch e Lester
(1975) referem que podem os ver as notícias com o um a reprodução da com pre
ensão que os jornalistas têm tanto dos processos jornalísticos com o dos pro
cessos políticos, e, assim , tam bém com o um a reprodução desses processos.
Por exem plo, quando um jornalista ou um editor id entifica um a ocorrência
com o notícia séria, aquele agente de inform ação está a basear-se na sua com pre
ensão pessoal da forma de processam ento deste tipo particular de notícias. Quan
do o executivo m unicipal é identificado com o «a cidade», o jornalista está a
basear-se em com preensões dos processos políticose dos processos jornalísticos
que transform am os políticos em representantes da cidade, passando assim a
significar a própria cidade. Quando Betty Friedan foi identificada com o uma
«porta-voz responsável» ou com o líder do movim ento fem inista, os jornalistas
basearam -se nos seus m étodos para determ inarem a liderança responsável
(Tuchm an, 197 8 : 82 -103 e 133-155). Em todas estas situ ações, o trabalho
jornalístico está reflexivam ente mergulhado no contexto da sua própria produ
ção e apresentação. Baseia-se e ao m esm o tempo reproduz a estrutura política,
assim com o se baseia e tam bém reproduz a organização do trabalho informativo.
A pesar do carácter reflexivo da produção das notícias, as histórias são nor
m alm ente apresentadas de form a ind exical - dissociadas do seu contexto de
C om u n icação e S o c ied a d e 99
produção. Este aspecto das notícias é captado pelo modo de ob jectivação dos
factos. Um jornalista pode citar um a fonte sem indicar qual foi a pergunta
concreta que m otivou aquela afirm ação em particular [Ibid.: 96). Um repórter
pode id entificar um facto sem explicar com o aqule facto foi produzido com o
um porm enor não problem ático ou «especial» (Ibid.: 88). A indexicalidade das
notícias está presente, sim ultaneam ente, quer na a-historicidade das notícias
quer na sua lógica do concreto, a insistente recusa por parte dos jornalistas em
apresentarem as histórias no seu contexto situacional concreto - a recu sa em
analisarem a relação entre o ontem , o hoje e o am anhã.
AS NOTÍCIAS COMO QUADRO SIMBÓLICO
Goffm an (1974) baseia-se claram ente na interpretação etnom etodológica
de Schü tz para a elaboração de dois conceitos centrais da sua análise dos qua
dros sim bólicos9. Um «quadro sim bólico» é constituído pelos «princípios de
organização que governam os acontecim entos - pelo m enos os sociais - e o
nosso envolvim ento subjectivo nos m esm os». Os quadros sim bólicos organi
zam tiras do m undo quotidiano (ou de qualquer outra das realidades m ú lti
plas). Goffman define «tira» com o «uma fatia ou um corte arbitrários na corrente
das actividade em curso» (1974: 10-11). Tal com o Schütz, Goffm an considera
que a experiência da realidade im põe um a dada ordem nessa m esm a realida
de. E à sem elhança dos etnom etodólogos, não adm ite a possibilidade de a or
dem ser um a característica in trínseca do m undo quotidiano. Assim , os quadros
sim bólicos tornam acontecim entos não reconhecíveis ou a conversa am orfa
em acontecim entos identificáveis. Sem os quadros sim bólicos, seriam sim ples
ocorrências ou m era conversa, sons incom preensíveis. Considerem os o seguinte
diálogo apresentado com o um a tira:
«Como foi?»
«Nada de especial.»
«Seis parágrafos?»
«Está bem.»
Em si m esm o, este diálogo não tem sentido. Contudo, fornecendo-lhe um
dado quadro sob a form a de inform ação adicional, esta tira transform a-se:
Um repórter regressa à redacção vindo da cena de um incêndio. Aproxima-se do
editor-chefe, que levanta os olhos do seu trabalho e lhe pergunta: «Como foi?».
Referindo-se ao incêndio, o repórter responde: «Nada de especial». O editor per
gunta: «Seis parágrafos?». (Seis parágrafos serão o espaço suficiente para contar
a história do incêndio?) O repórter responde: «Está bem», e dirige-se para a sua
secretária, onde escreve seis parágrafos acerca do incêndio.
Enquadrada, esta tira torna-se reconhecível com o um a conversação sobre
um a ocorrência. Pode ser vista com o a negociação do valor-notícia daquela
100 C om u n icação e S o c ied ad e
ocorrência com o acontecim ento inform ativo. E fornece uma determ inada ca
racterística àquela ocorrência. O incêndio que o repórter observou não é um
incênd io qualquer; é um pequeno incêndio, um incêndio esp ecífico que vale
seis parágrafos de cobertura jornalística.
Os editores e os repórteres podem ser caracterizados com o profissionais
que procuram quadros sim bólicos. Van G leder procurava um quadro sim bóli
co que lhe perm itisse encontrar a sua história sobre a m anifestação de m u lhe
res ocorrida durante o C oncurso de M iss A m érica de A tlantic City para o seu
jorn al (Tuchm an, 1978 : 138). Os editores do Seabord City Daily procuravam
um quadro sim bólico que lhes perm itisse afirm ar que um determ inado ed ifí
cio habitacional de um a zona degradada tinha perm anecido, em pleno Inver
no, vários dias sem aquecim ento, sem que o senhorio tivesse tom ado qualquer
previdência [Ibid.: p. 95). As im agens das notícias televisivas u tilizam ângulos
de câm ara esp ecíficos com o quadros sim bólicos para dar significados sociais
às relações esp aciais (Ibid.: 104-132). E as seqüências desses ângulos são de
pois elas próprias enquadradas (ou dispostas em justaposições convencionais)
para criar outras relações entre os vários elem entos constitu intes de um a h is
tória. Em todos estes casos, dois processos ocorrem sim ultaneam ente: uma
ocorrência é transform ada em acontecim ento, e um acontecim ento é transfor
m ado em notícia. O quadro sim bólico das notícias organiza a realidade do
quotidiano e é parte constitu inte dessa m esm a realidade, dado que, com o vi
m os, o carácter público das notícias é um a das características essenciais das
próprias notícias.
A análise de quadros sim bólicos de Goffm an reconhece a ex istên cia das
notícias em duas realidades, sim ultaneam ente. Ao contrário de Schü tz e dos
etnom etodólogos, Goffm an não reconhece o m undo quotidiano com o um a re
alidade prim ordial. Está interessado noutras realidades m últiplas, com o o tea
tro e o m undo da ilusão in tencional (encenado por burlões e vigaristas, espiões
e agentes duplos). Propõe os seus conceitos de quadro sim bólico e de tira para
questionar: quais as regras constitutivas do com portam ento quotidiano que as
pessoas u tilizam para organizar a sua experiência num determ inado m undo
(realidade m últipla) de form a a poderem traduzir essa experiência para um
outro m undo? Por exem plo, que regras perm item transform ar a realidade quo
tidiana em ficção? E su blinha Goffm an que a ficção, sob a form a de film es,
rom ances ou ilusões é um elem ento do m undo quotidiano. Para Goffm an, os
próprios quadros sim bólicos são fenôm enos negociados.
Talvez o grande interesse de Goffm an pelas ilusões o tenha levado, m as não
aos etnom etodólogos, a acentuar a vulnerabilidade da experiência de realizar
enquadram entos. Para os etnom etodólogos, o «docum entário» é um m étodo de
ilustração, com o no «método docum ental de interpretação», um a das caracte
rísticas invariantes da atitude natural. O «método docum ental de interpreta
ção» é um a form a de dar sentido aos fenôm enos, associando-os a um princípio,
a um a noção, ou a um conceito gerais10. Para Goffman, o termo «docum entário»
refere-se a transform ação, não a associação, e revela a vulnerabilidade das
cadeias de experiência (tiras) perante os dispositivos de enquadram ento. Refe-
rindo-se a notícias e a docum entários film ados, Goffm an afirm a (1974 : 448 ,
C om u n icação e S o c ied a d e 101
450) que o enquadram ento do docum entário «deve incid ir um a lim itação de
inform ação relativa (...) à interconexão dos acontecim entos literais no m undo
real. (...) Paradoxalm ente, (...) aquilo a que hoje cham am os docum entário... é
exactam ente o que deveria ser considerado suspeito segundo os padrões da
docum entação». Ao im por um a ordem, ao lim itar a inform ação acerca de um a
tira que é inclu íd a e difundida segundo um certo quadro docum ental, esse
quadro docum ental cria necessariam ente significação. Cria a significação tan
to do jornalista na cena de um a história com o jornalista-que-está-de-fora-e-
-com enta-os-acontecim entos, o «repórter objectivo», com o daocorrência en
quanto acontecim ento público.
No entanto, paradoxalm ente, precisam ente porque Goffm an está in teressa
do na vulnerabilidade da experiência e na organização social da m esm a, re je i
ta de form a explícita a preocupação com a organização social per se. O seu
in teresse está nos estados de espírito e nos gestos que deslocam um fenôm eno
de um quadro sim bólico para outro, não nos m ecanism os institucionais que
operam essa transform ação. Com efeito, Goffm an recusa-se a identificar os
recursos organizacionais e profissionais que podem ser convocados para orga
nizar a experiência, m esm o reconhecendo-lhes esse seu papel. Alguns desses
recursos, porém , são explicitam ente objecto de discussão no trabalho de Peter
Berger e de Thom as Luckm ann, tam bém eles seguidores do trabalho de Schütz.
AS NOTÍCIAS E A CONSTRUÇÃO DA REALIDADE
Berger e Luckm ann (1967) fundem as ideias de Alfred Schü tz com algumas
das preocupações sociológicas tradicionais acerca dos conteúdos da realidade
que podem ser encontrados na atitude natural. Tal com o Schü tz e Jam es, reco
nhecem o m undo quotidiano com o realidade prim ordial. À sem elhança dos
ensaios de Sch ü tz sobre o tem a (1964), os escritos de Berger e Luckm ann ex
ploram tam bém o im pacto das institu ições e dos processos sociais, à m edida
que os m esm os se desenrolam historicam ente, na criação e definição dos fac
tos sociais. No estudo dos factos sociais estão inclu ídas as categorias segundo
as quais os grupos organizam a sua experiência colectiva da realidade e os
processos através dos quais essas m esm as categorias são constitu ídas. A ssim ,
Berger e Luckm ann falam do m undo em que nascem os com o um m undo dado,
que é trazido até nós pelo m undo dos nossos antepassados (e que partilham os
com os nossos contem porâneos, inclu indo aqueles que nos estão m ais próxi
m os; ver Schütz, 1962 : 15 e segs.), e com o um m undo a que damos form a na
organização das nossas in teracções diárias e invocações de relevância. C ria
m os, por exem plo, a relevância do nosso passado colectivo para as nossas ac
ções presentes e futuras ao invocar elem entos do passado para ju stificar acções
presentes. Por exem plo, o jornalista invoca grandes notícias do passado para
construir novas notícias no presente.
Berger e Luckm ann tam bém su blin ham a form a com o as in stitu içõ es
objectivam as significações sociais. Sugerem que as significações sociais, cons
titu ídas nas in teracções sociais, se transform am em regras e procedim entos
102 C om u n icação e S o c ied ad e
institucionais e organizacionais que podem ser invocados com o recursos para
ju stificar acções. («Podemos in clu ir este com entário na notícia, se nos arranja-
res m ais citações.») Do seu ponto de vista, as significações podem ser altera
das, da m esm a form a que os significados das palavras se transform am quando
são aplicados a novas situações. Os significados podem tam bém ser cod ifica
dos à m argem dos contextos nos quais foram originalm ente produzidos. R eti
rado do seu contexto de origem, um procedim ento pode tornar-se «a form a de
fazer as coisas»; ou seja, pode ser transm itido ao m undo dos nossos d escen
dentes com o um dado h istórico objectivo. Por exem plo, os norte-am ericanos
consideram com o adquirido que as notícias são relatos a-históricos e a-teóri-
cos de acontecim entos de actualidade que ocorrem em institu ições esp ecífi
cas, e que as no tícias u tilizam a lógica do concreto. C onsideram os com o
adquirida a produção diária de notícias com o um bem de consum o, sem ter
em atenção a sua relação h istórica com o desenvolvim ento da publicidade na
im prensa barata. Tomamos com o adquirida a integração da rede de notícias
em institu ições legitim adas e a ex istência de um a recolha centralizada de n o
tícias, com o chegou até nós desde o século xix . E não conseguim os perceber
com o esta integração pesa negativam ente na em ergência de novas form as de
notícia. Enquanto as notícias sérias continuarem a estar associadas às activ i
dades das institu ições legitim adas e enquanto a organização espacial e tem po
ral do trabalho jornalístico continuar condicionada pelas actividades destas
institu ições, as notícias continuarão a reproduzír-se a si m esm as com o factos
h istó rico s in d iscu tív e is . Não só d efin indo e red efin in d o , co n stitu in d o e
reconstitu indo as significações sociais; m as tam bém definindo e redefinindo,
constituindo e reconstitu indo m odos de fazer as coisas - os processos ex isten
tes nas in stitu ições existentes.
A IDEOLOGIA COMO PROCEDIMENTOS OBJECTIVADOS
Na sua abordagem da ideologia, Sm ith (1972) defende que a integração dos
procedim entos em institu ições legitim adas - a sua indexicalidade e reflex iv i
dade (Garfinkel, 1967), a sua objectificação (Berger e Luckm ann), o seu pro
cesso sim ultâneo de enquadrar e participar no m undo quotidiano (Goffman,
1974), e a sua estruturação vulnerável da experiência (Goffman, 1974) - os
identifica com o meios para não conhecer. Na perspectiva desta autora, os proce
dim entos tornam -se assim «procedim entos interessados», m étodos de não saber
que se encontram incrustados nas instituições legitimadas que eles próprios
reproduzem. Estes procedim entos facultam aos actores sociais m ateriais que se
destinam à produção de estruturas sociais e, ao mesmo tempo, lim itam a cap aci
dade de os actores transform arem as instituições e as estruturas existentes.
A caracterização que Sm ith estabelece da ideologia com o m eio de não sa
ber vai m ais longe que a noção de ideologia com o indicação dos projectos
possíveis dos actores sociais agindo num estado de perfeita vigília, de acordo
com a atitude natural. Baseando-se nas sociologias interpretativas, esta carac
terização com porta um a crítica à form a com o os «procedim entos in teressa
C om u n icação e S o c ied ad e 103
dos» perm anecem cegos perante as suas próprias profecias de autorealização.
Um a crítica que se aplica ao jornalism o, assim com o às ciên cias sociais.
GAYE TUCHMAN
1978, «News as a Constructed Reality»,
in M aking News: a Study in the Construction o f Reality, New York, The Free Press.
N o t a s
1 «Projectos» é um termo técnico. Schütz (1962: 48-85) vê a acção como um projecto (ou projecção)
de preocupações presentes e experiências passadas para o futuro, e sublinha que os actores sociais se
empenham na sua realização. Sugere também que a base das acções do passado e do presente significa
que a acção terá lugar num futuro hipotético; cada indivíduo baseia a sua acção naquilo que espera que
venha a acontecer.
2 O uso de Schütz das ideias de James desvaloriza o modo como o conhecimento se desenvolve
através de padrões de trocas. O trabalho de Schütz está também directamente ligado ao trabalho de
Husserl, o qual foi extremamente influenciado por Brentano. E James também foi influenciado por
Brentano.
3 Heap e Roth (1973) fornecem uma discussão útil da relação entre o trabalho de Schütz e as socio
logias fenom enológicas su bsequentes. Estes autores dão destaque e explicam a noção de
intersubjectividade.
4 Ver Heap e Roth (1973) para uma discussão da intencionalidade e da intersubjectividade.
5 Este uso do conceito de «atitude» é bem diferente da acepção sociológica comum. Não se refere a
estados de espírito (como «atitude positiva»), nem a opiniões e ideias (como «a atitude da classe média
perante a sexualidade»). Mais uma vez, ver Heap e Roth (1973).
6 Há uma distinção que tem de ser estabelecida entre «dar atenção» a alguma coisa e «atentar» em algo.
Agindo de acordo com a atitude natural, ambos os leitores estão a atentar na notícia; estão a apreendê-la.
Segundo o quadro de Schütz, a apreensão nãoé um contínuo; «dar atenção» é algo que pode ser aferido pelas
ciências sociais mais tradicionais.
7 Estas são, segundo Schütz (1962: 230, 231):
1. Uma tensão particular da consciência, nomeadamente um estado de perfeita vigília, originado
pela plena atenção à vida.
2. Uma ep o ch é específica, designadamente a suspensão da dúvida.
3. Uma forma de espontaneidade predominante, nomeadamente laboriosa (uma espontaneidade
significante baseada num projecto e caracterizada pela intenção de realizar o estado projectado dos
acontecimentos, através de movimentos corporais que têm por origem o mundo exterior).
4. Uma forma específica de experiência de si mesmo (um eu trabalhador como eu total).
5. Uma forma específica de sociabilidade (o mundo comum intersubjectivo da comunicação e da
acção social).
6. Uma perspectiva de tempo específica (o tempo-padrão originado numa intersecção entre a durée
e o tempo cósmico como estrutura temporal universal do mundo intersubjectivo).
8 Mehan e Wood (1975) apresentam uma explicação valiosa da etnometodologia.
9 Mas Goffman atribui a Bateson (1955) estes termos e aplica a utilização que Bateson faz deles.
10 Por exemplo, Zimmerman e Pollner (1970) acusam os interaccionistas simbólicos de usarem o
método documental de interpretação ao reorganizarem a sabedoria popular das suas fontes em vez de
analisarem como essa sabedoria é uma realização intersubjectiva (ver Wilson, 1970). A sua critica teóri
ca invoca também um argumento epistemológico a propósito da forma de produção de dados pelo cien
tista social.
104 C om u n icação e S o c ied a d e
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SOCIOLOGIA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
O PARADIGMA DOMINANTE
T odd G itlin
Desde a Segunda Guerra M undial, à m edida que os m eios de com unicação
social nos Estados U nidos se tornaram m ais concentrados em term os de pro
priedade, m ais centralizados nas suas operações, com m aior a lcance nacional
e com um a presença cada vez m ais penetrante, o seu estudo sociológico tem
sido dom inado pelo tem a da relativa falta de poder dos operadores de radiodi
fusão. Quando as redes nacionais de televisão - as prim eiras na história -
in iciaram a sua actividade, a sociologia am ericana afastou-se do estudo da
propaganda. N este ensaio, sustento que esta singular con junção de acon teci
m entos encerra um a lógica própria. Sustento que os sociólogos, devido a com
prom issos in telectu ais, ideológicos e institucionais, não colocaram as questões
críticas; que por detrás da tese da relativa pouca im portância dos m eios de
com u nicação de m assa está um conceito distorcido e errôneo de «im portân
cia», sem elhante ao conceito pouco rigoroso de «poder», que os sociólogos
políticos tam bém sustentaram neste m esm o período, especialm ente os defen
sores da persuasão pluralista; e que, com o o pluralism o, a sociologia dom inan
te da com u nicação de m assa tem sido incapaz de explorar alguns aspectos
fundam entais do seu objecto de estudo. M ais: tem obscurecido e circunscrito
tais aspectos, ignorando por vezes a sua existência e, assim , tendo com o efeito
ju stificar o sistem a actual de propriedade, de controlo e de fins dos m eios de
com u nicação social.
O paradigm a dom inante da sociologia dos m eios de com u nicação de m as
sa, que D aniel B ell designou com o o «conhecim ento recebido» da «influência
pessoal» (Bell, 1975 : 218), tem desviado a atenção do poder dos m eios de co
m u nicação de definirem o que é norm al e anorm al em term os de actividade
social e política; de estabelecerem o que é politicam ente autêntico e legítim o e
aquilo que não o é; de justificarem a estrutura política bipartidária; de estabe
lecerem determ inadas agendas políticas, para captar a atenção social, ao m es
mo tem po que contêm , conduzem e excluem outras; e de m oldarem as im agens
dos m ovim entos de oposição. Devido à sua metodologia, a sociologia dos meios
de com u nicação tem salientado a obstinação das audiências, a sua resistência
às m ensagens difundidas pelos m eios de com unicação, em vez da sua depen
106 C om u n icação e S o c ied ad e
dência , co n d escen d ên cia e credulidade. O paradigm a dom inante tem co n
siderado os «efeitos» da program ação de radiodifusão de um modo esp eci
fica m en te co m p ortam en ta lista , d efin in d o-o s de um a form a tão restrita ,
m icroscóp ica e d irecta, que, na m elhor das hip óteses, os estudos que p roce
dem à sua aferição apenas podem detectar efeitos insignificantes. O paradigma
dom inante tem privilegiado «efeitos» a curto prazo com o «m edidas» de «im
portância», em grande parte porque estes «efeitos» são m ensuráveis num sen
tido co m p ortam en ta lista estrito e linear, desviando assim a aten ção dos
sign ificad os socia is m ais am plos da produção dos m eios de com u n icação de
m assa. Tem procurado «dados sólidos,» produzindo resultados confusos que
pretendem agradar a todos e a ninguém , em vez de colocar, de form a m ais
produtiva, as questões m ais d ifíce is. Ao estudar apenas os «efeitos» que po
dem ser «m edidos» de form a experim ental ou através de inquéritos, tem co
locad o a carro ça m etod ológica à frente do cavalo teórico . Ou m elhor: o
paradigm a dom inante tem procurado um cavalo para puxar a sua carroça.
Será,então, surpresa que trin ta anos de pesquisa m etódica sobre os efeitos
ten h am p rod u zid o tão p ou ca teo ria e tão p o u co s resu ltad o s co eren tes?
O p rin cip a l resultado, m aravilhoso paradoxo, é o in íc io da decom posição do
próprio paradigm a dom inante1.
No processo de acum ulação de um im pressionante corpo de resultados
em píricos, a pesquisa dos m eios de com unicação de m assa teve a necessidade
de certificar com o norm al precisam ente o que deveria ser investigado com o
problem ático, nom eadam ente o vasto dom ínio dos instrum entos da radiodifu
são de m assa, em particular da televisão. Ao enfatizar os efeitos precisos sobre
as «atitudes» e o «com portam ento» definidos de forma m icroscópica, esta área
de estudo tem ignorado sistem aticam ente a im portância da própria existência
da radiodifusão de m assa, em prim eiro lugar, de um a forma corporativa e sob
um certo grau de regulação estatal. Durante a m aior parte da história da c iv ili
zação, nunca existiu nada sem elhante. Quem quis a radiodifusão, e para que
fins? Q ue configurações institucionais foram geradas devido à radiodifusão de
m assa, e que alterações se registaram nas institu ições existentes - política,
fam ília, educação, desporto - em term os de estrutura, objectivos, significado
social, e que repercussões tiveram estas m esm as institu ições sobre a radiodi
fusão ao n ível dos seus produtos? De que modo a prevalência da radiodifusão
m udou a orientação da política, o carácter da vida política, os desejos e as
expectativas? Como se relacionou com a estrutura social? Que epistem ologias
populares fizeram o seu percurso através das sociedades de radiodifusão? Como
é que a rotina de certas hierarquias, que num m esm o dia se im põem a m ilha
res de lares, afecta a linguagem com um , os conceitos e os sím bolos? Ao contor
nar estas questões, tom ando por garantida a ordem institu cional existente, a
pesquisa contornou tam bém as avaliações substantivas: o aparato televisivo,
tal com o existe, preenche ou frustra as necessidades hum anas e os interesses
sociais? Ao não colocar estas questões, a investigação dos m eios de com u nica
ção de m assa tornou-se a si própria um instrum ento útil para as grandes redes
de com u nicação, para as em presas de pesquisa de m ercado e para os candida
tos políticos.
C om u n icação e S o c ied ad e 107
O PARADIGMA DOMINANTE E OS SEUS DEFEITOS
O paradigm a dom inante nesta área de estudo, desde a Segunda Guerra
M undial, tem sido, claram ente, o con junto de ideias, m étodos e resultados
associados a Paul Lazarsfeld e à sua escola: a procura dos «efeitos» específicos,
m ensuráveis, a curto prazo, individuais, relativos às atitudes e ao com porta
m ento, do conteúdo dos m eios de com unicação de m assa, e a conclusão de
que estes m eios não são m uito im portantes para a form ação da opinião pú bli
ca. Em toda esta configuração, a teoria esp ecífica m ais destacada tem sido,
seguram ente, a do «fluxo de com unicação em dois níveis:» a ideia de que as
m ensagens dos m eios de com unicação atingem os indivíduos, não tanto de
modo directo, m as através da intervenção selectiva, interesseira e com plexa dos
«líderes de opinião». No subtítulo de Personal Influence, o famoso e m arcante
estudo sobre a difusão da opinião em Decatur, Illinois, em meados da década de
40, E lihu Katz e Lazarsfeld esclareciam a sua preocupação: «o papel desem pe
nhado pelas pessoas no fluxo das com unicações de massa» (Katz e Lazarsfeld,
1955). Um entendido na m atéria com enta o estudo da seguinte forma oportuna
e transparente: «Poucas formulações nas ciências comportamentais tiveram maior
im pacto que o m odelo do fluxo de com unicação em dois níveis» (Ardnt, 1968:
457-465). D aniel Bell, com a sua im petuosidade característica, define Personal
Influence com o um «trabalho-m odelo» (Bell, 1975).
Como em toda a sociologia, as questões form uladas e o cam po de análise
definem o paradigm a antes m esm o de os resultados serem registados. Na tra
dição estabelecid a por Lazarsfeld e os seus correligionários, os investigadores
prestam m ais atenção às «variáveis» que intervém entre os produtores e os
receptores das m ensagens, especialm ente à «variável» das relações in terp es
soais. C onceptualizam a audiência com o um tecido de indivíduos inter-relacio-
nados, e não com o alvos isolados num a sociedade de m assa. C onsideram os
m eios de com u nicação de m assa apenas com o um a entre diversas «variáveis»
que in fluenciam as «atitudes» ou as opções de voto, e interessam -se pelos «efei
tos» m ensuráveis dos m eios de com unicação, particularm ente em com para
ção com outras «variáveis» com o o «contacto pessoal». M edem os «efeitos»
com o mudanças ao longo do tem po ao nível das atitudes ou dos com porta
m entos d iscretos dos inquiridos, de acordo com a form a com o estes são
referenciados nas pesquisas. Na seqüência de estudos iniciada com The People’s
Choice (Lazarsfeld, Berelson e Gaudet, 1948), Lazarsfeld e os seus correligio
nários desenvolveram um a m etodologia (enfatizando os estudos de painel e a
sociom etria) adequada à sua preocupação com a m ediação de «variáveis» como
o estatuto social, a idade e o gregarismo. Mas em que sentido é que o seu
aparato de investigação constitu i um «paradigma», e em que sentido tem sido
o m esm o «dom inante»?
Pretendo u tilizar o term o «paradigma» livrem ente, sem o peso que tem na
história da ciência , para ind icar um a tendência de pensam ento que (a) identi
fica com o im portantes certas áreas de investigação num cam po, (b) explora
um a certa metodologia, m ais ou m enos distintiva, e (c) produz um con junto de
resultados particulares e, m ais im portante, que são reconhecidos com o tal.
108 C om u n icação e S o c ied ad e
N este sentido, um paradigm a é estabelecido com o tal não apenas pelos seus
produtores, m as tam bém pelos seus consum idores, o corpo de profissionais
que lhe confere o estatuto de perspectiva fundam ental.
D entro do paradigm a, a teoria em particular do «fluxo de com unicação em
dois níveis» de Katz e Lazarsfeld, a ideia de que os «líderes de opinião» fu n cio
nam com o m ediadores decisivos entre os m eios de com unicação de m assa e as
audiências, tem sido o foco de atenção principal dos acadêm icos. Em qualquer
d iscussão sobre os efeitos dos m eios de com unicação de m assa, citações de
Personal Influence tornaram -se virtualm ente obrigatórias. Enquanto prim eira
exploração extensiva da ideia - o «fluxo de com unicação em dois níveis» tinha
surgido com o sim ples reflexão, pouco elaborada, no final da obra anterior, The
People’s Choice - , Personal Influence pode ser considerado com o o docum ento
fundador de todo um cam po de pesquisa. Apesar de a teoria ter sido recen te
m ente contestada, com grande veem ência, com base em fundam entos em pí
rico s2, o paradigm a com o um todo continua a ser a configuração central que os
críticos não podem ignorar. The Effects o f Mass Communication (1960), de Joseph
T. Klapper, é a com pilação definitiva das prim eiras etapas da teoria; m as o
estudo de Decatur, com toda a sua porm enorização, parece-m e um a m elhor
base de análise para um a reavaliação de todo o paradigma. Ao ter o poder de
despoletar citações e críticas a um nível geral, perm anece com o um a referên
cia central neste dom ínio de estudo. D urante vinte anos, proliferaram estudos
de resposta, com p lexifican d o e m u ltip licando as categorias do estudo de
Decatur, observando diferentes tipos de com portam ento, diferentes tipos de
«função das notícias» («retransmissão», «informação», entre outras), alguns con
firm ando o fluxo de com u nicação em dois níveis num a escala reduzida (Rosa
rio, 1971: 288-297 , em particular),mas a m aioria refutando-o ou qualificando-o
severam ente3. Todos estes estudos resultam da introdução, num sistem a social
isolado, de um ú nico artefacto - um produto, um a «atitude», um a im agem.
O «efeito» advém sem pre de um a experiência controlada (essa é, pelo m enos, a
in tenção), mas a tendência é para extrapolar, sem fundam ento, do estudo do
«efeito» de um ú nico artefacto, para o «efeito» m uito m ais geral e significante
da radiodifusão sob os auspícios das corporações e do Estado. Independente
m ente dos resultados esp ecíficos, as questões gerais do im pacto estrutural e
da m udança institu cion al perdem -se na aura e na reputação do «fluxo de co
m u nicação em dois níveis».
Talvez a p resença proem inente de Paul Lazarsfeld na sociologia recente
seja um a «influência pessoal» que ajuda a com preender a suprem acia do seu
paradigm a, que superou, aliás, as suas próprias pretensões, relativam ente m ais
m odestas. Mas o carism a de um hom em , m esm o tornado um lugar com um ,
não exp lica tudo. Não pode explicar, por exem plo, com o é que o paradigm a da
« influência pessoal» se encontra referenciado, sem nenhum a reserva crítica,
num trabalho crítico com o The Class Structure o f the Advanced Societies, de
A nthony Giddens: «A in flu ência dos m eios de com unicação de m assa e a difu
são da “cultura de m assa” em geral são norm alm ente apontadas com o a fonte
original da suposta "hom ogeneização” dos padrões de consum o, das n ecessi
dades e dos gostos. Mas a pesquisa sobre o “fluxo de com u nicação em dois
C om u n icação e S o c ied a d e 109
n ív eis” m ostra que um conteúdo form alm ente idêntico, dissem inado pelos
m eios de com u nicação, pode ser interpretado e suscitar respostas bastante
diferentes. Longe de serem erradicadas pelo conteúdo uniform e dos m eios de
com u nicação, as form as de d iferenciação da estrutura social podem ser activa
m ente reforçadas por esse m esm o conteúdo, com o um a co n seq ü ên cia da
selectiv idade de percepção e de resposta» (Giddens, 1975 : 222).
Naturalm ente que a questão da estrutura de classe não pode ser nem a sua
erradicação (um argumento ilusório) nem o seu «simples» reforço (como se o
reforço fosse sim ples), mas sim a sua transform ação num cam inho m odelar pela
possibilidade de «leituras» alternativas e hierarquicam ente preferidas de qual
quer material difundido pelos meios de com unicação (Hall, 1973; Williams, 1977:
121-127). O m eu objectivo é apenas afirmar que a teoria de Katz e Lazarsfeld, em
1973, tinha ainda o poder de incutir entusiasm o num teórico que, sim ultanea
m ente, não revelava grande sim patia pela abordagem daqueles autores.
Como salientaram M elvin L. D eFleur (1970: 112-154) e Roger L. Brow n
(1 9 7 0 :4 1 -5 7 ), o percurso da teoria dos m eios de com unicação de m assa tem de
ser entendido com o um processo histórico, ao longo do qual os teóricos con
frontam não só a realidade social mas tam bém as teorias existentes. Os teóri
cos, com o é evidente, respondem às teorias vigentes através das linguagens da
pesquisa social correntes nesse m om ento, isto é, de acordo com um a visão
so ciocien tífica do m undo considerada então «normal», em vias de se tornar
«normal», ou aspirando à «norm alidade». Respondem , explicitam ente ou não,
à luz ou à obscuridade da história - das novas e proem inentes forças do m un
do social, p o lítico e tecnológico. Existem , assim , três condições m etateóricas
que dão form a a qualquer perspectiva teórica: a natureza da teoria ou teorias
precedentes (neste caso, a teoria «hipodérm ica»); a perspectiva sociológica
«norm al» então em vigor, ou que aspira a um a suprem acia em term os ideológi
cos (neste caso, o com portam entalism o); e as condições sociais, políticas e
tecnológicas, do m undo nesse m om ento. A teoria do fluxo de com u nicação em
dois n íveis e a abordagem esp ecífica dos «efeitos» em que esta teoria está
inserida são resultado de um a perspectiva com portam entalista que se tornou
d ecisiva - e in visível - sob a form a de m icropressupostos m etodológicos.
O paradigm a dom inante tem de ser com preendido com o um a intersecção de
todos estes factores.
Na crítica que se segue, neste primeiro ponto, a m inha preocupação é com a
forma com o Personal Influence se constituiu como um esteio e uma referência
para a abordagem «normal», mais lata e geral dos efeitos dos meios de com unica
ção. Pretendo identificar as falhas de uma teoria particular, mas mais, averiguar as
suas im plicações para o campo global da pesquisa com unicacional. No ponto
seguinte, a incidência recairá nas raízes deste empreendimento intelectual.
A Teoria «Hipodérmica»
O paradigm a da «influência pessoal» está relacionado com a crítica da pre
cedente teoria «hipodérm ica», que, por sua vez, é sim ultaneam ente um a teoria
110 C om u n icação e S oc ied ad e
da sociedade e um a teoria do funcionam ento interno dos m eios de com u nica
ção de m assa4. De acordo com o m odelo «hipodérm ico», a sociedade é um a
sociedade de m assa, e as com unicações de m assa «injectam » ideias, atitudes
de ordem com portam ental em indivíduos passivos, atomizados e extrem am ente
vulneráveis. Katz e Lazarsfeld, os prim eiros a nom ear o paradigma da «influên
cia pessoal», codificaram este paradigma e trouxeram-no para o centro do cam po
de pesquisa, pretendendo, explicitam ente, destronar a teoria «hipodérm ica»:
«... os m eios de com u nicação eram considerados com o um novo tipo de
força unificadora - uma espécie de sistem a nervoso sim ples - alcançando cada
olho e cada ouvido, num a sociedade caracterizada por um a organização social
am orfa e um a escassez de relações interpessoais.
Este era o “m odelo” - de sociedade e dos processos de com u nicação - que a
pesquisa dos m eios de com u nicação parecia ter em m ente, no seu in ício , pou
co tem po após a introdução da rádio, na década de 20. Em parte, o “m odelo”
desenvolveu-se a partir de um a ideia de potência dos m eios de com unicação
de m assa, que estava presente no im aginário popular. Sim ultaneam ente, en
controu tam bém apoio no pensam ento de certas escolas de teoria social e p si
cológica. A ssim , a sociologia clássica das escolas europeias do final do século
X IX enfatizava a ruptura das relações interpessoais na sociedade urbana e in
dustrial, e a em ergência de novas formas de controlo social rem oto e impessoal»
(Katz e Lazarsfeld, 1955: 16-17).
Durante os anos 20, o «im aginário popular» de que Katz e Lazarsfeld fala
vam, estava a recuperar do fenôm eno sem precedentes de propaganda dos
Estados-N ação, durante a Prim eira Guerra M undial, e da prim eira u tilização
da rádio a larga escala. As «escolas de teoria social e psicológica», a que se
referiam , eram orientadas de acordo com a psicologia relativam ente elem entar
de estím ulo-resposta (DeFIeur, 1970). Foi este m odelo «hipodérm ico» que Katz
e Lazarsfeld se propuseram desalojar, ao cham arem a atenção para o contexto
social em que as audiências recebiam as m ensagens dos m eios de com u nica
ção. Como um correctivo às noções «hipodérm icas» trazidas a descoberto, com o
um a reabilitação da sociedade no contexto do estudo da com u nicação social, a
nova in sistên cia na com plexidade do processo de m ediação parecia fazer todo
o sentido.
Pressupostos comportamentalistas e resultados distorcidos
Como a teoria da «influência pessoal» foi fundada em pressupostos lim ita-
tivos, as suas sólidas pretensões acabaram por se revelar enganadoras, ainda
que su bstanciais. De facto, o que acontece é que a teoria nem sequer se su sten
ta nos seus próprios term os; o estudo de Decatur, confrontado nos seus resu l
tados, não consegu e su sten tar sob vários aspectos a teoria que pretendeconfirm ar. A lém disso, as próprias anom alias ajudam -nos a com preender o
contexto social da teoria; isto é, as anom alias têm significado. Por agora, pre
tendo isolar os pressupostos teóricos do con junto do paradigm a, e observar
com o foram aplicados em Personal Influence. Na discussão que se segue, centrar-
C om u n icação e S o c ied ad e 111
-m e-ei nos pressupostos lim itativ os da teoria, em algum as discrepâncias
em píricas, e - um a questão m ais lata, m esm o m antendo-a à parte - nos limites
temporais da teoria.
Vale a pena salien tar de novo que a teoria se enraizou num com porta
m entalism o estrito. Os «efeitos» dos m eios de com unicação de m assa in screv i
am -se su p e rfic ia lm e n te ; eram en carad o s com o «efeitos» a cu rto prazo,
p recisam en te em term os de m u danças m ensuráveis de «atitudes» ou de
com portam entos discretos. Tanto nas pesquisas de Lazarsfeld com o nas expe
riências laboratoriais de Carl Hovland e dos seus correligionários, o objectivo
consistia em produzir teorias predicativas das respostas da audiência, n eces
sariam ente - in tencionalm ente ou não - consonantes com um ponto de vista
adm inistrativo, a partir das quais adm inistradores posicionados em lugares de
centrais, possuindo a inform ação adequada, estariam em condições de tomar
decisões que afectam a totalidade da sua área de intervenção, com um a ideia
prévia rigorosa das conseqüências das suas escolhas.
É um facto que, em várias notas de rodapé, Katz e Lazarsfeld anotaram (a
palavra é apropriada) as lim itações auto-im postas do seu estudo e da sua co n
cepção. M ais tarde, seguidores, utilizadores e prom otores da teoria nem sem
pre foram tão cuidadosos a esp ecificar as fronteiras do seu trabalho. Tal com o
a noção de «conhecim ento recebido», as noções de «fluxo de com u nicação em
dois níveis» e «líderes de opinião» tendem a não ser qualificadas5. Num a nota
de rodapé, Katz e Lazarsfeld classificaram quatro tipos de «efeitos», «ao longo
de um a dim ensão tem poral sim plificada»: «resposta im ediata, efeitos a curto
prazo, efeitos a longo prazo e m udança institucional» (Katz e Lazarsfeld, 1955:
18, n5). Na página seguinte, num a outra nota de rodapé, escreveram : «E im por
tante salientar que alguns destes efeitos num âm bito m ais alargado, que quase
não têm sido estudados, prom etem revelar m uito m ais o poder dos m eios de
com u nicação de m assa do que os efeitos de “cam panha” [isto é, efeitos de uma
ú nica cam panha prom ocional ou eleitoral, de curto prazo]. Estes últim os, com o
irem os salientar depois, transm item a im pressão de que os m eios de com u ni
cação são praticam ente ineficazes em term os persuasivos, quanto a m atérias
sociais e p olíticas [isto é, não com erciais]» [Ibid.: 19, n6).
Algum as páginas adiante, advertem novam ente: «Seria um erro... generali
zar o papel dos m eios de com u nicação de m assa a partir... dos efeitos directos
e a curto prazo para o grau de poder dos m eios de com u nicação que seria
revelado se alguns efeitos indirectos e de longo prazo fossem conceptualizados
e objecto de estudo» [Ibid.: 24, n l6 ) .
E com o últim a palavra desta parte - Prim eira - teórica do seu trabalho,
conclu íram com um a cham ada de atenção tão poderosa quanto um a nota de
rodapé o pode ser: «Talvez valha a pena reiterar o que foi dito no in ício : a pes
quisa dos m eios de com u nicação de m assa tem incidido quase exclusivam ente
sobre o estudo de um ú nico tipo de efeito - o efeito a curto prazo que procura
(“cam panhas”) alterar opiniões e atitudes... O que não se deve esquecer em
tudo isto, no entanto, é a ideia de que existem outros tipos de efeitos dos m eios
de com u nicação de m assa - que não têm sido m uito estudados - pelo que o
im pacto destes m eios sobre a sociedade poderá ser muito maior. Assim , os m ei
112 C om u n icação e S o c ied a d e
os de com unicação proporcionam todos os tipos de gratificações psicológicas e
“usos” sociais; parecem ter efeitos visíveis no carácter da “participação” pessoal,
num a grande diversidade de actividades culturais e políticas; têm sido frequen
tem ente creditados com o sendo os agentes primários de transm issão de valores
culturais, etc. Estes capítulos não tiveram como seu interesse explícito estas
questões (predom inantem ente de longo alcance). Mas a nossa asserção - de que
a p e sq u isa da co m u n ica çã o deve tom ar em co n sid era çã o os co n tex to s
interpessoais em que os m eios de com unicação de massa se inserem - pode ser
útil, tam bém , para a necessária pesquisa sobre esses efeitos m enos aparentes,
m as talvez m ais poderosos, das com unicações de massa» [Ibid.: 133, n20).
Finalm ente, para evitar qualquer eventual m al-entendido, os autores in tro
duziram no texto um enunciado para situar a sua análise da in flu ência pessoal
- «m udanças de curto prazo e in fluências ao n ível das relações face-a-face» -
num qualquer outro programa de pesquisa m ais am bicioso: «Esperam os, com
a continuação, que cada vez m ais elos nas cadeias de in flu ência geral perm i
tam o estudo da nossa sociedade... N enhum leitor deverá confundir a m odés
tia da nossa presente iniciativa com um fecham ento relativam ente a problem as
m ais gerais e com plexos. Mas estes problem as m anter-se-ão, provavelm ente,
para sem pre, fora do nosso alcance, se não dedicarm os a devida atenção a
investigações tão esp ecíficas, com o a que aqui realizam os» (Ibid.: 163).
Esta ú ltim a afirm ação deve significar que a análise da in flu ên cia pessoal é
necessária para um a análise m ais geral dos efeitos dos m eios de com unicação
de m assa e é comensurável com ela.
M as, m odéstias à parte, o m étodo de estudo de Personal Influence, tal com o
o de trabalhos precursores e sucessores, m antém -se com o um a perspectiva
m uito própria. Não só um a geração de sucessores veio a trabalhar com o modelo
da influência pessoal, com o o próprio Katz (1957: 61-78) e m uitos com entadores
posteriores se referiram a este m odelo com o um a hipótese auto-sustentável.
O m odelo, por si próprio, pretende ser m ais do que prelim inar; constitu i-se de
form a coerente e unitária, separado do desejado m odelo geral, que nunca ch e
gou a m aterializar-se. Exige a sua própria crítica, partindo dos pressupostos
que assum e com o garantidos.
Pressuposto 1. Comensurabilidade dos Modos de Influência: o exercício de
poder através dos m eios de comunicação de massa é considerado comparável
ao exercício de poderem situações de comunicação face a face. «As pessoas»
«desem penham um papel» no «fluxo das com unicações de m assa». Os elos na
«cadeia de in flu ên cia geral» são todos do m esm o tipo; as relações entre as
várias form as de in flu ências podem ser caracterizadas com o «m aiores» ou
«m enores». Isto foi assum ido, m as não explicitam ente afirm ado em Personal
Influence, apesar de existirem algumas passagens do texto (por exem plo, na
página 96), onde o pressuposto é relativam ente explicitado. D iscutir as duas
«formas de influência» ao m esm o tem po, com o funcionalm ente equivalentes
ou com ensuráveis, abriu cam inho à concepção de efeito genérico.
Esta redução de processos sociais estruturalm ente d istintos a unidades
com ensuráveis pode ser reconhecida com o um a operação central no cânone
C om u n icação e S o c ied ad e 113
com portam entalista. Mas o que é distinto nos dois processos é, com certeza, o
facto de todos terem a oportunidade de exercer «influência pessoal» d irecta
m ente sobre alguém , ainda que de modo inform al, num a relação que é em
geral recíproca, enquanto que a in fluência directa dos m eios de com unicação
se processa regular e profissionalm ente a partir de um a hierarquia organizadade indivíduos que têm acesso aos m eios de com unicação. A própria im agem
de um a cadeia é um a rem in iscência da ideia m edieval da Grande Corrente da
E xistência , em que tudo e todos se encontram no seu lugar apropriado e divi
nam ente definido. Um a linguagem deste tipo revela a prem issa silenciosa do
trabalho.
Pressuposto 2. O Poder como Ocorrências Distintas: o Poder é concebido
para ser avaliado em estudos de caso de incidentes discretos. Katz e Lazarsfeld
discutiram e rejeitaram dois outros possíveis critérios de in fluência : o m étodo
reputacional, porque (a) não perm ite revelar a frequência das in fluências e, (b)
pode destacar nom es de indivíduos prestigiados que, de facto, não in flu en cia
ram , n aq u ele m om ento, d irectam en te, o inqu irid o . Em segundo lugar, a
contabilização dos contactos face-a-face não foi tam bém considerada porque
poderia deixar escapar os encontros decisivos. Em detrim ento destas alterna
tivas, os autores decidiram pedir aos inquiridos para recordarem «ocorrências
de troca de influência», e quais os influenciadores em concreto envolvidos
(Katz e Lazarsfeld, 1 9 5 5 :1 4 6 ). Em particular, perguntavam aos inquiridos com o
tinham m udado as suas opiniões em cada um a de quatro áreas tem áticas; e,
então, entrevistavam em seguida o próxim o elo da cadeia. A ocorrência da
in flu ên cia era o encontro face-a-face, em que o indivíduo A fazia passar uma
atitude a ou com portam ento b para o indivíduo B. Os que exerciam in fluência
nestas circu n stân cias eram definidos com o «líderes de opinião».
Note-se que esta com portam entalização do poder é idêntica à alcançada e
defendida pelos investigadores que se ocupam da análise p olítica da com u ni
dade, da esco la pluralista, que adquiriram proem inência e com eçaram a dom i
nar o seu cam po de estudo na década de 506. Aqui, foi tam bém notória a revolta
contra um paradigm a precedente, que enfatizava o poder das elites (de um
lado, o m odelo hipodérm ico, do outro o m arxism o vulgar ou a teoria das e li
tes). Tam bém aqui se encontra a negação tácita dos padrões do poder estrutu
ralm ente estabelecido, ou aquilo a que m ais se tarde se cham aria «não-decisões»
(Bachrach e Baratz, 1962 : 947 -952 ; 1970). E tam bém um a insistência em estu
dar episódios discretos de exercício da influência, com o se o poder fosse um a
esp écie de m ercado de livre fluxo num a situação de relativa igualdade; daí,
com o verem os adiante, a descoberta de que a liderança de opinião, tal com o o
con ceito pluralista de influência, depende dos tem as esp ecíficos e «não se
estrutura em pirâm ide» (Katz e Lazarsfeld, 1955: 107-108 , 332-334). Os «líde
res de opinião» reconhecidos num determ inado dom ínio não o eram noutros
dom ínios, tal com o os influenciadores de New Haven, na pesquisa de Dahl,
tam bém não processavam a sua in fluência «em pirâm ide». A hom ologia estru
tural dos dois paradigm as - in flu ência pessoal e pluralism o - revela algo m ais
significante do que um a m era co incidência na configuração dos resultados;
114 C om u n icação e S oc ied ad e
revela a sim ilaridade de problem áticas e de m etodologias, as preocupações
com uns aos dois cam pos.
Pressuposto 3. Comensurabilidade entre o Consumo e a Política: a unidade
de influência é uma «mudança de atitude» ou um comportamento discreto, a
curto prazo; ou, de modo mais exacto, o relato realizado pelo inquirido de tal
«mudança» ou comportamento, e que ele pode atribuir a uma determinada
intervenção exterior. Katz e Lazarsfeld interessaram -se por «quatro áreas de
decisões quotidianas: com ércio, moda, assuntos públicos e escolhas de cin e
ma» [Ibid.: 138). Estas áreas eram assumidas como assimiláveis no âmbito de
uma única teoria.
O dom ínio do seu interesse será m elhor apreendido se considerarm os os
tópicos relevantes do questionário (Ibid.: 341):
Em relação ao com ércio: «Durante o mês passado ou aproxim adam ente,
com prou algum produto novo ou alguma m arca que habitualm ente não com
pra? (Não m e refiro a algum a coisa que tenha com prado porque era a única
disponível.) S im ... Não... (Se não) De qual destes produtos experim entou uma
m arca nova, recentem ente? a. cereais de pequeno alm oço... b. sabão em flocos
ou em barra... c. café... d. nenhum destes».
Em relação à moda: «Mudou recentem ente algo no seu penteado, form a de
vestir, cosm éticos, m aquilhagem , ou fez alguma outra m udança para estar m ais
na m oda? Sim ... N ão... (Se sim) Que tipo de m udança fez?
Em relação ao cinem a, «com eçám os por perguntar à inquirida qual o nom e
do últim o film e que tinha visto» (Todos os inquiridos eram m ulheres. Para
entender a razão, ver m ais adiante, pp. 134-135).
Sobre os assuntos públicos, os entrevistadores colocaram algumas ques
tões que se encontravam na ordem do dia num a eleição recente, e pergunta
ram em seguida se a inquirida havia mudado a sua opinião sobre alguma questão
«sem elhante» àquelas.
Assim , em duas das quatro áreas tem áticas, o interesse dirigiu-se exp licita
m ente para as m udanças de com portam ento de consum o; na terceira, para um
outro com portam ento discreto no cam po da escolha de consum o; e, na quarta,
para um a m udança na opinião expressa. Estas áreas tem áticas foram consid e
radas com paráveis, e a presum ida hipótese de com paração de ideias políticas
com preferências sobre produtos distorceu alguns resultados. M ais: o pressu
posto inconseqü ente da com ensurabilidade entre com ércio e política, nunca
justificad o explicitam ente, nem abertam ente questionado, pairou sobre todo o
argum ento de Personal Influence com o um nevoeiro ideológico.
Pressuposto 4. «Mudança de Atitude» como a Variável Dependente: de for
ma mais profunda notável, a atenção microscópica sobre a «mudança de atitu
de» baseou-se numa abordagem restrita à natureza do poder. Em Personal
Influence, o poder consistia em com pelir um determ inado com portam ento,
nom eadam ente de com pra; ou, no caso dos «assuntos públicos», consistia em
com pelir um a m udança na «atitude» em relação a algum assunto corrente. Se
tais m udanças tivessem ocorrido, perguntava-se às inquiridas que indicassem
C om u n icação e S o c ied ad e 115
quem as havia in fluenciado (Ibid.: 271, n2) Se não tivessem mudado as suas
atitudes, assumia-se que não tinham sido influenciadas.
Há dois aspectos em que este sentido de in fluência é inadequado. Prim eiro,
é possível que um a inquirida tivesse com eçado por «mudar a sua opinião»
sobre um determ inado assunto, apenas para ser persuadida a regressar à sua
posição original, por in fluências pessoais ou, directam ente, pelos m eios de
com u nicação. Os aspectos m ais im portantes, porém, dizem respeito aos casos
em que as atitudes não m udaram absolutam ente nada. Se a ausência de varia
ção de opiniões não for considerada garantida, mas algo que necessita de ser
explicado, com o poderem os com preender as «não-decisões» daí decorrentes?
Não existe qualquer constrangim ento para que a estabilidade de atitude, na
era cap italista, se ja tom ada com o certa. Na verdade, aquilo que, na era m oder
na, se cham a estabilidade de atitude, era considerado uma variabilidade, an ti
gamente. A volubilidade da lealdade é um pré-requisito da sociedade capitalista,
onde a propriedade privada se rende habitualm ente às exigências da riqueza e
da acum ulação (Arendt, 1958). Especialm ente no período do capitalism o de
alto consum o, quando o «novo» funciona com o um a afirm ação sim bólica de
valor positivo e o «antiquado» é um sím bolo de atraso, «mudar de opinião»
sobre produtos é um acontecim ento rotineiro. E no espaço da vida p ú blica em
geral, o indivíduo é frequentem ente confrontado com novas agendas políticas
(ecologia,por exem plo), além de invenções tecnológicas, «tendências» sociais,
celebridades e artefactos culturais, e nestas circu nstâncias cada indivíduo é
solicitado a ter, desde logo, um a opinião. Alterar políticas do Estado regular
m ente apela à m obilização e a m udanças de opinião pública.
N esta situação h istórica, considerar a estabilidade de atitude com o certa
corresponde à opção, fundam ental, de ignorar a questão das origens das diver
sas opiniões que se m antêm constantes, apesar das circu nstâncias que apelam
à m udança. Ao lim itarem desta form a a sua investigação, Katz e Lazarsfeld
não poderiam , de modo algum, explorar o poder institucional dos m eios de
com u nicação de m assa: o grau do seu poder para m oldar as agendas públicas,
para m obilizar redes de apoio às p olíticas de Estado e dos partidos, para
cond icionar o apoio do público a estas m esm as organizações institucionais.
Tal com o não poderiam tornar visíveis as questões das origens destes poderes.
E esta au sência não é rectificada pela presença de um outro term o funda
m ental no cânone de Lazarsfeld: reforço. Para Lazarsfeld e a sua escola, esp ecial
m ente Joseph T. Klapper, reforço é o m eio pelo qual a in fluência dos m eios de
com u nicação se faz sentir. Considera-se que os m eios de com u nicação apenas
«reforçam opiniões existentes», em vez de alterarem as form as de pensar.
O livro de síntese de Klapper, The Effects o f Mass Communication (1960), m an-
tém -se com o o lócus classicus deste argumento, invalidando a crítica à ideia
m ais geral sobre a ineficácia dos m eios de com unicação. Klapper e outros au
tores referem -se ao reforço com o um a questão de ordem m enos im portante,
quando com parado com a persuasão ou a m obilização. No entanto, o reforço
de opinião é um vínculo indispensável entre as atitudes e as acções. Se os
m eios de com u nicação «apenas» reforçam «opiniões existentes», podem estar
a antever a acção ou a ancorar a opinião a um novo com portam ento de rotina.
116 C om u n icação e S o c ied a d e
A lém disso, o «reforço» pode ser entendido com o a solid ificação essencial da
atifude em ideologia, um a configuração relativam ente duradoura da co n sciên
cia que determ ina, de modo im portante, com o as pessoas percepcionam ou
respondem a novas situações. Mas «ideologia» e «consciência» são conceitos
que escapam tanto ao com portam entalism o quanto à psicologia de estím ulo-
resposta. Estas noções não têm qualquer posição ontológica no restritivo m un
do conceptual da pesquisa predom inante dos m eios de com unicação de m assa7.
A pesar de ter om itido estes aspectos no seu trabalho anterior, Klapper veio,
m ais recentem ente, equilibrar a sua postura com um a proposição que deita
por terra o antigo aparato teórico: «Reforço e conversão só podem ocorrer, ob
viam ente, quando existe um a opinião para reforçar ou para objectar. Não po
dem ocorrer na au sência de opinião. Apesar de existir relativamente pouca
pesquisa sobre o assunto, os meios de com unicação parecem ser extremamente
eficazes na criação de opiniões. Através de um exem plo de senso com um , al
guns m eses antes de Fidel Castro ter chegado ao poder, provavelm ente m enos
de 2% dos am ericanos conheciam o seu nom e, e m uito m enos as suas in clin a
ções políticas. Um ano m ais tarde, no entanto, o pú blico am ericano sabia m ui
to sobre ele e sobre o seu com portam ento político, e as opiniões eram bastante
hom ogêneas. A origem dos seus conhecim entos e as bases das suas opiniões
eram , obviam ente, restritas, por um a diversidade de razões práticas, aos m eios
de com u nicação de m assa» (Klapper, 1968: 85)8.
E claro que estas situações são rotineiras na vida política nacional e in ter
nacional: as pessoas esperam constantem ente conhecer algo sobre situações
que quase d esconheciam no dia anterior. Os tem as apresentados desta forma
estão entre os m ais significativos: assuntos de guerra ou de paz, situação e
alinham entos in ternacionais, política econôm ica. Um a sociologia dos m eios
de com u nicação que não considere o sentido da im portância p olítica de tais
assuntos falha sistem aticam ente o seu objectivo.
Sem levantar estas questões, Klapper, o responsável de pesquisa da CBS
Television e um dos m ais notáveis discípulos de Lazarsfeld, prossegue: «Não é
d ifícil com preender porque é que os m eios de com u nicação de m assa são ex
trem am ente eficazes na criação de opinião em novos tem as. N esta situação, as
audiências não possuem opiniões que possam ser contem pladas por proces
sos con scien tes ou su bconscientes da exposição, retenção ou percepção se lec
tivas. Da m esm a form a, os seus grupos de referência não têm opiniões, e os
líderes de opinião não estão ainda em condições de liderar. Em sum a, os facto
res que geralm ente proporcionam aos m eios de com unicação um a oportuni
dade de reforço são inoperantes, e estes m eios estão, então, em condições de
poderem trabalhar d irectam ente sobre as suas audiências».
É obvio que m esm o este caso não é satisfatório enquanto avaliação das
condições de im pacto dos m eios de com unicação, um a vez que a argum enta
ção não d iscute qual a origem de qualquer «opinião existente» que prevaleça
«em geral». E tam bém não perm ite um a análise do substrato de crença que está
na base de «opiniões» discretas. Klapper m antém -se preso ao paradigm a da
in flu ên cia pessoal. Mas a sua observação m ostra que é im possível basear um a
teoria do im pacto dos m eios de com unicação em dados recolh idos sobre as
C om u n icação e S o c ied a d e 117
origens auto-atribuídas de mudança de opinião. E m ais: apesar de Lazarsfeld e
os seus d iscípulos terem tentado dem onstrar que as atitudes podem ter origem
na posição social (estatuto socioeconóm ico, etc.), o seu m étodo de considerar
as atitudes com o unidades discretas e desconexas não presta ju stiça à sua lo
calização na estrutura das ideias, ou seja, na ideologia.
Pressuposto 5. Os Seguidores como «Líderes de Opinião»: Katz e Lazarsfeld
tomaram a estrutura e o conteúdo dos meios de comunicação como adquiridos,
definitivos e fundamentais. A atenção m ais próxim a que dedicaram aos «líde
res de opinião» não só desviou a atenção da im portância central das redes de
radiodifusão e dos serviços por cabo, com o tam bém definiu «liderança de opi
nião» enquanto um acto de seguimento, sem a con sciên cia - de facto, com
satisfação - da confusão que tal ideia iria causar. O bservaram o processo de
m ovim ento de ideias através da sociedade pelo lado errado do telescópio.
Especificam ente, foi pedido às m ulheres de D ecatur que designassem «lí
deres de opinião», em relação às notícias definidas externamente. Para dizer
quem era um «líder de opinião», Katz e Lazarsfeld perguntaram -lhes as «suas
opiniões sobre um a série de problem as nacionais e in ternacionais então cor
rentes nas notícias, nom eadam ente sobre a política externa de Trum an, a p o lí
tica de desm obilização das forças arm adas, etc.». Então, perguntava-se às
m ulheres se tinham «recentem ente m udado as suas opiniões» e se tinham pe
dido algum conselho (Katz e Lazarsfeld, 1955: 271n )9. «Peritos» - aqueles que
opinavam um pouco sobre tudo o que se relacionasse com assuntos públicos,
entretanto, eram definidos com o aqueles que tinham sido nom eados nas res
posta a esta questão: «C onhece alguém, das redondezas, que se m antém a par
das notícias e em quem possa confiar para lhe dizer o que se est: realm ente a
passar?» [Ibid.: 276n)- Em que sentido, então, um «líder de opinião» liderava
realm ente? O que era um «perito», e quem definia o critério de especialização
certificada?
O problem a, para u tilizar a linguagem oficial da sociologia, é que a m enta
lidade administrativa exagera a im portância das «variáveis independentes»
que estão localizadas de form a m ais próxim a, no tem po e no espaço, em rela
ção às «variáveis dependentes» objecto de investigação10. Som ente a sua pers
pectiva adm inistrativa im pediu Katz e Lazarsfeld de considerarem aquilo que
era óbvio: que os seus «peritos» eram dependentes para a sua especialização
de um a «variável» explicitam ente excluída do cam po de análise. Pedia-se às
inquiridas que nom eassem com o influenciadores aqueles indivíduos que elas
acreditavam estar m ais em sintonia com os m eios de com unicação de m assa.
Katz e Lazarsfeld estavam a tom ar com o certo o poder dos m eios de com u nica
ção de m assa para definir as notícias; e não estavam , assim , a descobrir «o
papel desem penhado pelas pessoas no fluxo das com u nicações de m assa»,
mas sim a natureza dos canais desse flu xo11. Um a linguagem vaga (e, tam bém ,
um conceito vago de poder, com o verem os) encobria um a distinção crucial.
E com o se alguém estudasse a in flu ência das ruas nas taxas de m ortalidade -
durante um a enorm e cheia. Um a rua é um canal, não um a causa de afogam en-
tos. M as a distinção perde-se num a linguagem im precisa. Quando trataram
118 C om u n icação e S oc ied ad e
este problem a, Katz e Lazarsfeld lim itaram o assunto das notícias institu ciona
lizadas desta form a: «Comparado com o dom ínio da moda a todos os níveis,
som os levados a suspeitar que a cadeia de in fluência interpessoal é m ais longa
no dom ínio dos assuntos públicos e que as “inform ações confid enciais in ter
nas”, bem com o a in flu ência em episódios específicos de influência, são m uito
m ais um a questão de relação face-a-face» [Ibid.: 319).
A suspeita de um a «cadeia m ais longa de influência» é um subterfúgio para
a questão das relações institucionalizadas entre em issores e audiências.
M as um a perspectiva adm inistrativa irá, provavelm ente, confundir, desde
o in ício , um determ inado tipo de in flu ência com o poder que lhe deu origem,
já que a fonte institucional, por ser m ais distante, quer em term os conceptuais
quer quanto ao tem po e ao espaço, irá, inevitavelm ente, «escapar» na trans
m issão. Ao inquirir sobre como as decisões são form adas ao nível da base da
estrutura de in fluência , não há condições para averiguar, em prim eiro lugar,
porque é que a ocasião para decidir existe, em prim eiro lugar. Por outras pala
vras, as questões colocadas são as m esm as que um adm inistrador colocaria
ou, neste caso, as m esm as que um com erciante colocaria. (Foi, de facto, um a
entidade com ercial a Macfadden Publications, que prim eiro encom endou o
estudo de Decatur. Sobre o trabalho de Lazarsfeld no dom ínio da pesquisa
com ercial, ver m ais adiante, pp. 132-138).
Falhas e Discrepâncias Empíricas
M esm o que aceitássem os as prem issas com portam entalistas assum idas no
projecto de Personal Influence, ainda teríam os de considerar os m odos esp ecí
ficos em que a teoria falha nos objectivos propostos. Devido ao facto de recla
m arem ter descoberto um princípio geral de interacção social, Katz e Lazarsfeld
obscureceram algumas das d iscrepâncias interessantes com que se depararam
nos seus resultados. Ou seja, relataram as d iscrepâncias, m as não as interpre
taram, de form a a perm itir um a avaliação adequada da sua im portância na
teorização.
A d iscrep ância m ais surpreendente entre os resultados e a teoria surge no
m om ento em que Katz e Lazarsfeld revelaram os resultados do seu estudo das
fontes de toda e qualquer «m udança de atitude» relativam ente aos assuntos
públicos, entre os dois períodos de entrevistas, Junho e Agosto. M esm o que
aceitem os o pressuposto questionável de que as pessoas podem comprovar,
com segurança, as fontes da sua «m udança de atitude», persiste um a anom alia
peculiar: Como se poderá entender o sentido do seguinte resultado?
«Nem todas as opiniões [relativas aos assuntos públicos] que mudaram [entre
Junho e Agosto] envolveram um contacto pessoal. 58% (das mudanças, não dos
indivíduos que m udaram de opinião) aconteceram , aparentem ente, sem o
envolvimento de qualquer contacto pessoal que as inquiridas recordassem e eram,
frequentemente, dependentes dos meios de com unicação de massa» [Ibid.: 142).
Este extraordinário resultado desacredita a teoria do fluxo de com u nicação
em dois níveis, sendo, de facto, consistente com a antiga noção «hipodérm ica».
C om u n icação e S o c ied ad e 119
Na verdade, «nem todas as opiniões m udaram »12! A conclusão teórica geral de
que «as ideias frequentem ente fluem a partir da rádio e im prensa para os líde
res de opinião e destes para as secções da população m enos activas» [Ibid.:
309; citando Lazarsfeld, Berelson e Gaudet, 1 9 4 8 :1 5 1 ) surge, agora, com o m ais
errada do que certa. Como é que esta infirm ação não entrou na conclusão
teórica de Katz e Lazarsfeld? A penas posso con jectu rar que a om issão da
infirm ação em pírica da teoria - ou seja, em bora exposta, a d iscrepância não
foi considerada na concepção da teoria - resulta da elaboração de um a falsa
com ensurabilidade entre as quatro áreas: moda, com ércio, cinem a e assuntos
públicos. Se estas áreas forem consideradas com o igualm ente significantes e
com paráveis, e se a teoria for construída de modo a ser aplicada a todas elas
indiscrim inadam ente, então a infirm ação em apenas um a das áreas não é re le
vante. Se, por outro lado, o estudo incid ir sobre o im pacto das com u nicações
de m assa sobre as atitudes políticas, a infirm ação é decisiva. Assim , a escolha
ex trín seca à própria investigação das quatro áreas tem áticas (ver adiante,
p. 135) acabou por perm itir aos autores ignorar um a d iscrepância im portante.
Existe um a outra ocasião em que os dados do estudo de D ecatur se afasta
ram da teoria do fluxo de com u n icação em dois n íveis, e em que Katz e
Lazarsfeld não tiveram em consideração o lapso em pírico na form ulação da
teoria. As pessoas nom eadas com o influenciadoras ou influenciadas na área
dos assuntos públicos confirm aram com m aior dificuldade esse estatuto - por
outras palavras, as pessoas eram m ais renitentes em reconhecer que haviam
feito um a tentativa, de facto, de influenciar, ou que haviam sido, de facto,
in fluenciadas - do que as pessoas nom eadas nas áreas de com ércio ou de moda
(Katz e Lazarsfeld, 1955: 159). 57% dos influenciados na área com ercial reco
nheceram o seu papel; o m esm o ocorreu com 56% quanto à moda; mas apenas
38 % dos in flu e n c ia d o s re la tiv am e n te a assu n to s p ú b lico s . Q uanto aos
in fluenciadores designados, as confirm ações foram de 71% na área com ercial,
61% na m oda e apenas 37% nos assuntos públicos. Por outras palavras, quan
to a esta d iscrep ância [Ibid.: 160), Katz e Lazarsfeld m encionaram a p ossib i
lidade de que os hom ens, que foram num a grande desproporção os m ais
in fluenciadores na área de assuntos públicos, tivessem tido inform antes po
bres nestas m atérias; mas não m encionaram a possibilidade de a in flu ência
esp ecífica sobre a «m udança de atitude [de um indivíduo] em relação a assu n
tos públicos» ser tão d ifícil de determ inar quanto de lançar o descrédito sobre
a ideia do fluxo de com unicação em dois níveis, operando generalizadam ente,
ou de qualquer outro processo decisivo de influência interpessoal. Dados com o
estes são totalm ente consistentes com a teoria «hipodérm ica»: com a hipótese
de que, na área dos assuntos públicos, os m eios de com unicação trabalham
directam ente sobre a con sciên cia pública. Apesar desta m arcante falta de con
firm ação arruinar a variante dos assuntos públicos da teoria - não obstante
esta m esm a variante ter proporcionado, certamente, nos anos m ais recentes,
um a das m ais im portantes extrapolações do seu trabalho - , Katz e Lazarsfeld
contornaram essas im plicações, com apelos à necessidade de realizar «muito
m ais estudo» e com considerações sobre o carácter «exploratório» do seu tra
balho.
120 C om u n icação e S oc ied ad e
Os Limites Temporais da Teoria
M esm o que aceitássem os os pressupostos com portam entalistas de Personal
Influence, e lim itássem os as pretensões da teoria, de modo a fazer ju stiça às
d iscrepâncias em píricas, teríam os ainda de ponderar sobre os seus lim ites h is
tóricos, definidos de modo im preciso.
Frequentem ente, as notas de rodapé constituem o terreno do criticism o an
tecipado, sendo, tam bém , locais apropriados para in iciar explorações arqueo
lógicas de uma investigação crítica. E isto m esmo o que se verifica, após centenas
de páginas de generalizações sobre as com unicações de m assa, quando num a
nota de rodapé Katz e Lazarsfeld recordaram ao leitor: «O estudo foi conclu ído
antes da introdução generalizada da televisão» [Ibid.: 312, n4). E regressaram
de seguida, rapidam ente, à sua argum entação, sem alterarem visivelm ente a
generalidade das suas conclusões quanto «ao fluxo das com unicação de massa».
É d ifícil saber com o tratar esta questão e os autores não nos prestaram qual
quer ajuda. M as, para com eçar, saliente-se que não é óbvio, para dizer pouco,
que aquilo que era aplicado à rádio e à im prensa em 1945, pudesse sê-lo, m ais
tarde, tam bém ao m eio m ais intrusivo, m ais im ediato e m ais «credível»: a te le
visão. Poderia parecer, a priori, que a televisão teria, ou pelo m enos, poderia
ter, um im pacto m ais directo do que a rádio ou a im prensa. Por outras pala
vras, m esm o que os resultados de Personal Influence fossem verdadeiram ente
persuasivos (o que não são), e m esm o que a teoria a partir deles construída
fosse m ais convincente do que é (e não é), não estaríam os em posição de dizer
algo conclu sivo acerca do período após 1945, sobre a força da televisão no
dom ínio da con sciên cia e da conduta políticas.
M as um a questão m aior ergue-se aqui, relacionada com a confusão entre as
dim ensões sincrón ica e diacrónica. Como a sua retórica torna claro, Katz e
Lazarsfeld não pretendiam apenas produzir afirm ações sobre as relações que
estabeleciam as m ulheres m ais e m enos expostas aos m eios de com u nicação
social, em Decatur, Illinois, no Verão de 1945; eles pretendiam estabelecer afir
m ações gerais, válidas para além de lim ites tem porais. Devido às dificuldades
m etodológicas que estavam associadas ao estudo positivista dos efeitos a lo n
go prazo, os autores e os seus seguidores construíram um paradigm a que seria
tom ado com o válido durante m uito tempo. A partir do im ediato, propuseram
inferências que só seriam possíveis de estabelecer em film e. Mas a transposi
ção não foi justificada. C. Wright M ills, que supervisou o trabalho de cam po do
estudo de D ecatur e que depois esboçou a análise original dos dados em 1946,
apontou com m uita clareza um ponto crítico : «M uitos dos problem as com os
quais os praticantes [do em piricism o abstracto] tentam lidar - os efeitos dos
m eios de com u nicação de m assa, por exem plo - não podem ser expostos de
modo adequado sem uma dada base estrutural. Poder-se-á desejar com preen
der os efeitos destes m eios - e m ais, tam bém o seu significado para o desenvol
vim ento da sociedade de m assa - estudando, com um determ inado grau de
precisão, apenas um a população que tem sido «saturada» por estes m eios ao
longo, pelo m enos, de um a geração? A tentativa de distinguir indivíduos «m e
nos expostos» e «mais expostos» a um ou outro m eio de com u nicação pode ter
C om u n icação e S o c ied ad e 121
grande im portância para os interesses dos publicitários, m as não é um a base
adequada para o desenvolvim ento de um a teoria sobre o significado social dos
m eios de com u nicação de m assa» (M ills, 1959: 52).
Claro que foi precisam ente o que M ills considerou «uma teoria do signifi
cado social dos m eios de com u nicação de massa», necessariam ente um a teoria
situada na história, o que Katz e Lazarsfeld desprom overam , com o algo vago,
n ão-cien tífico e im praticável. Na verdade, Lazarsfeld fê-lo, m uito objectiva-
m ente, no seu ensaio m ais crítico (escrito em conjunto com Robert K. M erton):
«Que papel pode ser atribuído aos m eios de com unicação de m assa, pelo facto
de existirem ? Quais são as im plicações de Hollywood, da Radio City, ou da
em presa Time-Life-Fortune sobre a nossa sociedade? Estas questões podem ser
discutidas, obviam ente, apenas em term os totalm ente especulativos, já que
nenhum a experim entação ou estudo com parativo rigoroso é possível. Com pa
rações com outras sociedades que não possuem estes meios de com unicação de
m assa seriam demasiado incipientes para perm itir resultados decisivos, e com
parações com a sociedade am ericana de outrora im plicaria afirm ações grossei
ras, não dem onstrações precisas. Assim, é aconselhável a concisão. E as opiniões
devem ser explanadas cautelosam ente» (Lazarsfeld e M erton, 1957: 459).
No entanto, a abordagem claram ente positivista de Lazarsfeld em Personal
Influence é «totalm ente especulativa», à sua m aneira, ao elevar os resultados
de um único estudo, ele próprio duvidoso, ao estatuto de um a teoria intemporal.
Num livro de quatrocentas páginas foi considerado su ficiente um a nota de
rodapé de um a linha para lem brar que as proposições gerais não tom avam em
consideração um aspecto central da realidade que pretendiam estar a revelar;
ou, para falar de form a técn ica, a «variável independente» central estava m ui
to incom pleta. Tal im precisão era, perfeitam ente, indicadora de um a falta de
prudência. E se se alegasse que as proposições positivistas de Personal Influence,
expressas pela linguagem com um das verdades intem porais, poderiam , em
princíp io, vir a ser desacreditadas por descobertas futuras, m antendo-se c ien
tíficas, no sentido popperiano, teria de se garantir, em contrapartida, que as
asserções h istóricas gerais seriam igualm ente refutáveis e, assim , igualm ente
passíveis de validação pelo critério de Karl Popper. Ao recusar uma esp ecula
ção histórica directa (e porque não poderia ser uma especulação bem elaborada?),
re jeitando-a com o «uma afirm ação grosseira, ao contrário de um a dem onstra
ção precisa», Lazarsfeld deixou a «afirm ação grosseira» entrar pela porta dos
fundos.
Se as alternativas são «afirm ação grosseira» e «dem onstração precisa», pa
rece que regressam os às categorias altam ente elaboradas da técn ica m icroscó
pica, ou àquilo a que A lfred North W hitehead cham ou um «concretism o m al
colocado». M as um a m ultip licação de categorias não im plica necessariam ente
um a clarificação da realidade. C onfundir estes dois aspectos é a fatalidade da
tradição positivista. As gerações m ais recentes de estudiosos herdaram e per
petuam os principais contornos do estudo pioneiro e enganador, de acordo
com o seu estatuto de paradigm a fundador, e raram ente o subm etem a um a
análise crítica . E extrem am ente fácil, especialm ente quando se está envolvido
num projecto próprio, ignorar ou esquecer os percalços e contradições do tra
122 C om u n icação e S o c ied ad e
balho fundador, em particular quando os m esm os se encontram de form a tão
obscura no texto. O carácter da ciên cia social que daí resulta é captado de
form a irônica por um antigo estudante da U niversidade de Colum bia, M aurice
Stein: «Uma das m inhas fantasias favoritas é um diálogo entre M ills e Lazarsfeld,
em que o prim eiro lê a este a frase in icia l de The Sociological Imagination:
‘A ctualm ente, os indivíduossentem com frequência que as suas vidas priva
das consistem num a série de arm adilhas”. Lazarsfeld im ediatam ente respon
de: “Q uantos indivíduos, que indivíduos, há quanto tem po se sentem assim ,
que aspectos das suas vidas privadas os incom odam , quando é que eles se
sentem livres, e não aprisionados, que tipo de arm adilhas é que eles experien-
ciam , etc., etc., e tc .”. Se M ills aquiescesse, os dois teriam de so licitar ao In sti
tuto N acional de Saúde M ental um subsídio de um m ilhão de dólares para
verificar e elaborar aquela prim eira frase. N ecessitariam de um a equipa de
centenas de assistentes e, quando term inassem , teriam escrito Americans View
Their Mental Health, em vez de The Sociological Imagination, partindo do prin
cíp io que conseguiriam term inar, e que algum deles estaria ainda em con d i
ções de escrever qualquer coisa» (Stein, 1964: 2 1 5 -2 1 6 )13.
As u tilizações reais dos estudos de que Stein troça devem ser bem pondera
das; o absurdo das suas pretensões e a trivialização da sua linguagem não lhes
retira força. De facto, a rede de pressupostos em que se baseia Personal Influence
persiste, apesar de ser agora contestada por críticas estruturais e radicais. Sem
surpresa, o padrão de pressupostos teóricos revela um a forte sem elhança com
os pressupostos das próprias em presas de radiodifusão. As duas actividades
partilham o m esm o fetichism o dos factos, factos esses que, pela sua robustez,
ind iscu tib ilidade, «dureza», tom aram conta da autoridade da teoria no seu
conjunto. Nas ciên cias sociais, os factos tornam -se um a espécie de m ercado
ria, m oeda corrente do discurso, que se destinam a ser com parados, trocados e
suplantados por outros, tal com o a sua apresentação nos m eios de com u nica
ção de m assa os torna um a autoridade em si m esm os, um a orientação para o
m undo d esconcertante , à m argem dos indivíduos e fora do seu controlo.
A sociedade das vozes incisivas e autoritárias da rádio e da televisão, do jo r
nalism o objectivo e do em piricism o abstracto, é a sociedade da repetição in s
tantânea, dos registos desportivos m icroscópicos, do Guiness Book o f World
Records - e das contagens de corpos e dos cam biantes explosivos. Tanto o
Sargento Friday de Dragnet com o a sociologia dom inante exigem «Apenas os
factos, m inh ’senhora». T. W. Adorno traçou esta orientação sociológica a partir
da «regra de D urkheim segundo a qual os factos sociais devem ser tratados
com o objectos, renunciando-se desde o in ício e para sem pre a qualquer esfor
ço para os “com preender”», algo que se aplica tam bém à realidade das «rela
ções entre indivíduos, desenvolvidas de forma incrivelm ente independente
deles, opacas, e que perm anecem agora afastadas dos seres hum anos com o se
se tratassem de um a outra substância» (Adorno, 1 9 6 9 :1 4 7 ). A prática socio ló
gica de tornar o facto com portam entalista «duro» um fetiche cresce em sim ul
tâneo com a utilização de «notícias sérias», de factos difundidos pelos m eios
de com u nicação com o «propaganda tecnológica», ou um a «propaganda dos
factos», cu ja função é desencorajar a reflexividade. Estas frases provêm de
C om u n icação e S o c ied ad e 123
um a excelente análise do assunto, publicada em 1943, por Robert K. M erton e
Paul F. Lazarsfeld (M erton, 1968: 578-582). O fetichism o dos factos com o um a
prática m ostra-se m ais forte do que a irônica com preensão teórica da sua as
cen são14.
RAÍZES DO PARADIGMA
Porque é que o estudo de Personal Influence com eçou por assum ir que a
in flu ên cia dos m eios de com unicação é com parável à in fluência interpessoal e
que o poder se m anifesta com o ocorrências discretas de «m udanças de atitu
de» ou de escolhas com portam entais a curto prazo? Como podem os com pre
ender a lim itad a am ostragem da realidade que su sten ta a teoria, as suas
d iscrepâncias e a ausência destas na súm ula da teoria? E porque é que o cam
po de estudo, que cresceu a partir destas bases, preservou essas lim itações e
d iscrepâncias, tanto ao nível da teoria, com o da m etodologia? Se nos afastar
m os do estudo de D ecatur e dos que se lhe seguiram , e analisarm os o estilo
geral de pensam ento que lhe dá forma, a sua orientação sociológica, encontra
m os um con junto inter-relacionado de predisposições e orientações ideológi
cas. Encontram os, em particular, um ponto de vista administrativo, enraizado
na assim ilação ideológica da sociologia acadêm ica ao capitalism o m oderno e
na sua aproxim ação institucional às grandes fundações e corporações, num a
sociedade oligopolista de alto consum o; encontram os um a orientação comer
cial concordante, na qual floresce a pesquisa de audiência com finalidades
econôm icas; e encontram os, curiosam ente, um a ideologia social democrata
justificativa. O ponto de vista administrativo, a orientação com ercial e a variante
austro-m arxista da ideologia social dem ocrata com põem um a constelação cujas
partes se desenvolveram sim ultaneam ente, mas que são (no m ínim o) analiti-
cam ente independentes, e serão aqui tratadas separadam ente.
Um a nota prelim inar: em toda a discussão que se segue, quero sublinhar
que pretendo ir ao encontro das raízes do paradigma como um todo - a procura
de «efeitos» específicos, mensuráveis, a curto prazo, individuais, e não para
além deles - e não apenas das origens da teoria em particular do fluxo de
com unicação em dois níveis. E o espectro geral do paradigma - o seu individua
lism o m etodológico, os seus pressupostos com erciais, a sua ingenuidade es
trutural - que está em análise. O «fluxo de com unicação em dois níveis» poderia
até ser um a teoria fiável, e, m esm o assim , iriam subsistir questões quanto à
validade das suas prem issas aplicadas a todo o cam po da C om unicação.
E para que esta bu sca pelas origens gerais do paradigm a não possa ser con
siderada sem ju stificação , contextual, reducionista, ou talvez ad hominem,
parece apropriado citar um antecessor ilustre. O próprio Paul F. Lazarsfeld
escreveu que «a com ponente ideológica», «o clim a intelectual» e «o equilíbrio
pessoal» eram «raízes prováveis» do seu «novo estilo de investigação», e que as
suas origens ideológicas, intelectuais e pessoais lhe perm itiram um a «adapta
ção estrutural» ao cenário sociológico em ergente na A m érica (Lazarsfeld, 1969:
277, 299).
124 C om u n icação e S o c ied ad e
O Ponto de Vista Administrativo
Quando afirm o que o ponto de vista de Lazarsfeld é adm inistrativo, refiro-
-me ao facto de, em geral, ele colocar questões vantajosas para aqueles que
ocupam lugares de direcção em institu ições que procuram reforçar ou racio
nalizar, em term os de funções sociais, o seu controlo sobre sectores sociais.
O sociólogo, deste ponto de vista, é um esp ecialista que se ocupa de problem as
que são form ulados, directa e indirectam ente, por essas pessoas em lugares de
d irecção, que estão preocupados, em sum a, com a gestão da expansão, da esta
bilidade e da legitim idade das suas em presas, e com o controlo de potenciais
desafios que lhes possam surgir. No desenvolvim ento da pesquisa dos m eios
de com u nicação, em particular, e com o em todo o m ovim ento positivista das
c iên cias sociais do Pós-Guerra, a procura dirige-se para os m odelos dos efeitos
dos m eios de com u nicação de m assa que sejam previsíveis, o que, no con tex
to, significa apenas que os resultados podem ser antecipados pelos, e a favor
dos, postos de com ando dos m eios de co m u n icação . As «variáveis» são
estabelecidas por aqueles que têm por função a produção dos m eios de com u
n icação de m assa, e apenas por eles; assim , a sua análise tende a ser de curto
prazo, em term os tem porais, e com portam entalista, em vez de estrutural, em
term osde perspectiva. A partir do ponto de vista dos adm inistradores, o siste
ma dos m eios de com unicação de m assa e a sua organização estrutural não
estão, obviam ente, em questão; são a própria prem issa da pesquisa. Assim , o
teórico adm inistrativo (o term o é utilizado por Lazarsfeld com o autocaracte-
rização (Lazarsfeld, 1941a: 2-16)) não se interessa, por exem plo, com a decisão
em presarial de produzir aparelhos receptores de rádio ou de televisão com o
m ercadorias dom ésticas, em vez de aparelhos de utilização pública, apesar de
esta opção fundam ental ter im portantes conseqüências para as utilizações so
ciais, poder e significado dos m eios de com unicação de m assa15. O teórico
adm inistrativo não está interessado na estrutura corporativa de propriedade e
controlo em geral, ou com o critério em presarial de definição do conteúdo dos
m eios de com u nicação que daí advém: parte da ordem existente e considera os
efeitos de um determ inado uso dessa ordem. O que C. Wright M ills designou
em piricism o abstracto não é nada abstracto na perspectiva de um a ordem so
cial concreta nem de um sistem a de poder concreto.
E lógico que a perspectiva adm inistrativa seja m ais facilm ente adoptada
por aqueles que desem penham funções adm inistrativas, ou que se encontram
num cam inho seguro para essa posição, especialm ente no caso de em preendi
m entos in telectu ais desenvolvidos sob os auspícios corporativos ou do Esta
do, tendo por base o apoio financeiro destes em preendim entos e a sua im agem
organizacional em condições de tirar proveito da sua legitim idade para abrir
as portas da pesquisa e recrutar um corpo de funcionários experientes. Para o
ponto de vista adm inistrativo há um ângulo da teoria intim am ente relaciona
do com um a prática, e que m elhor se desenvolve dentro dela. O ponto de vista
e o posicionam ento in stitu cional derivam um do outro. O próprio Lazarsfeld
foi, certam ente, um dos pioneiros da abordagem burocrática na pesquisa socio
lógica, pelas suas próprias características, um «hom em institucional» (La
C om u n icaçao e S o c ied ad e 125
zarsfeld, 1969 : 302-303), um mago adm inistrativo e em presarial. Prim eiro de
dicado ao Office o f Radio Research de Princeton, cu ja d irecção assum iu em
1937 e, depois, ao Bureau o f Applied Social Research da U niversidade de
C olum bia - a reencarnação do anterior - «desenvolveu», segundo as suas pró
prias palavras, «a im agem do acadêm ico gestor» (Ibid.: 310). Lazarsfeld presi
diu, nestas organizações, a um sem -núm ero de projectos de pesquisa nos
dom ínios das questões com erciais e dos m eios de com unicação, à form ação
determ inante dos seus sucessores, e à reputação que tanto os projectos com o
estes sucessores granjearam . A sua habilidade em reunir fundos para a pesqui
sa era lendária; sabia com o transferir expeditam ente esses fundos de um pro
jecto para outro, angariando, aqui, dinheiro de fundações e com panhias para
propósitos restritos e esp ecíficos, para o usar m ais tarde, acolá, frequentem en
te noutros projectos m ais abrangentes. (Tal foi o caso, efectivam ente, do estu
do de D ecatur. Ver adiante, p. 134.) Como d irector adm inistrativo, podia
«assum ir riscos consideráveis, experim entar inovações insólitas, sem entrar
dem asiado em conflito com as norm as prevalecentes» [Ibid.: 303).
O m om ento da sua ascensão na vida acadêm ica am ericana foi, com o ele
próprio salientou, fortuito. Foi um m om ento em que as áreas adm inistradas da
política, dos m ercados, da cultura, da educação estavam, um a por um a, a ad
quirir um a autonom ia própria, conquistando legitim idade, num processo de
desenvolvim ento de ligações estreitas entre si de todas estas áreas. As suas
forças gravitacionais m útuas estavam a levá-las a formar, gradualm ente, uma
constelação em ergente e estável, um m undo de vida reconhecido, com norm as
e práticas próprias e dom inantes, mas flexíveis. U niversidades, corporações e
fundações estabeleciam parcerias entre si, por vezes desconfortáveis, mas
m utuam ente indispensáveis; o seu encontro decorria sob o signo do com por
tam entalism o.
Em 1929, o novo responsável pela área das C iências Sociais da Fundação
Rockefeller, Edm und E. Day, com eçou o seu discurso de tom ada de posse com
estas palavras: «Praticam ente todas as ciências em ergiram , in icialm ente, da
filosofia. A introdução dos m étodos laboratoriais perm itiu às ciên cias naturais
realizar um a separação total, e as ciên cias m édicas operaram a m esm a ruptura
m ais tarde. As ciên cias sociais estão ainda no processo de estabelecim ento da
su a in d e p e n d ê n c ia ... Temos, pois, virtualmente, de quebrar um padrão
acadêmico. Temos de estabelecer um novo modelo acadêmico»16.
Nos quinze anos que se seguiram , e com o forte im pulso da Fundação
Rockefeller, este novo m odelo acadêm ico estava em form ação. Um hom em
com o Paul Lazarsfeld, um teórico sério e com petente, com facilidade em se
m ovim entar tanto no m eio das teorias com o ao n ível das relações hum anas,
tão adepto do positivism o quanto «hom em institucional», pôde assum ir um
papel central em todo o processo de desenvolvim ento neste dom ínio, quer em
term os in telectu ais quer organizacionais. Mas não faz sentido perguntar quais
foram as institu ições em concreto que lideraram , e quais as que seguiram , a
profunda transform ação social e cultural no sentido do capitalism o oligopolista.
H om ens com o Lazarsfeld, atingindo a m aturidade in telectu al sob a estrela
p olítica da social dem ocracia europeia, inventivos nos instrum entos m atem á
126 C om u n icação e S oc ied ad e
ticos utilizados, capazes de colocar os m étodos sociológicos ao serviço de um
capitalism o consum ista, im petuoso e em expansão, procuravam institu ições
que abraçassem a sua abordagem do m undo. As fundações e corporações, que
tinham aprendido a utilidade da quantificação com a expansão da engenharia
(especialm ente durante a produção taylorista) e das políticas de m ercado, dos
m odelos de m udança e dos aum entos de preços, sob a liderança de Alfred E.
Sloan da General Motors, pretendiam racionalizar as ciências sociais e torná-
las práticas. O Estado estava interessado em conhecer as condições para um a
propaganda efectiva. As universidades queriam estabelecer novas bases fin an
ceiras para poderem participar no processo de crescim ento do Pós-Guerra e na
nova cultura hegem ônica, em bora quisessem garantir tam bém a legitim idade
do novo estilo de pesquisa, e que o m esm o não iria am eaçar a posição dos
m andarins acadêm icos estabelecidos. Todos estes interesses e estratégias esta
vam a convergir, e um pensador perspicaz, aVentureiro e habilidoso com o Paul
Lazarsfeld porfiava no interesse comum, com grande sucesso.
Na cristalização da nova força intelectual, a Fundação R ockefeller desem
penhou, de facto, um papel fundam ental, p rincip alm ente ao co locar Paul
F. Lazarsfeld no m apa am ericano. Lazarsfeld recordou m uito m ais tarde que o
estudo pioneiro que organizou, em 1930, sobre o desem prego na aldeia de
M arienthal, lh e foi originalm ente sugerido por Otto Bauer, o líder do Partido
So cia lista da Á ustria (Lazarsfeld, 1969: 2 7 5 -2 7 6 )17. Esse estudo, um trabalho
estatístico de valor, prefigurou o seu trabalho futuro - «fez com que eu caísse
na atenção do representante da Fundação R ockefeller em Paris e, em 1932,
obtive um a bolsa de estudos para os Estados Unidos, onde cheguei em Setem
bro de 1933».
Numa nota de rodapé das suas m em órias, Lazarsfeld acrescentou: «A forma
com o recebi a m inha bolsa tem algum interesse. O representante da Fundação
R ockefeller deu-m e um im presso de candidatura. A viver no clim a pessim ista
de V iena daquela altura, eutinha a certeza de que não iria obter a bolsa e, por
isso, não me candidatei. Em Novembro de 1932, receb i um a m ensagem do
gabinete da Fundação, de Paris, inform ando-m e que a m inha candidatura ti
nha sido m al preenchida, e que queriam um a outra cópia. O bviam ente, eles
tinham decidido conceder-m e a bolsa, por recom endação do seu representan
te, e nunca lhes ocorreu que eu não me tinha candidatado. Enviei um “dupli
cado” e a bolsa foi-m e concedida» (Ibid.: 276, nlO).
A Fundação continuou a preocupar-se assiduam ente com o «estabelecim ento
da independência» das ciên cias sociais relativam ente à filosofia prim ordial,
não-instrum ental. Quando, em 1937, a Fundação concedeu a Hadley Cantril,
de Princeton, e a Frank Stanton, da C BS, o financiam ento para o Office o f Radio
Research, Robert Lynd, em Colum bia, convenceu C antril a contratar Lazarsfeld
com o Director. Poucos anos depois, o departam ento «tinha adquirido um a vida
institu cion al própria» e estava apto a procurar financiam entos de outras fon
tes (Ibid.: 305, 309). Mas a Fundação perm aneceu com o o seu principal apoio
(Ibid.: 329). A Fundação encontrou em Lazarsfeld um hom em de organização
insuperável, capaz de im plantar o «novo estilo de pesquisa», m esm o nas u n i
versidades relutantes, e fazer prevalecer o espírito positivista, em detrim ento
C om u n icação e S oc ied ad e 127
do carácter retrógrado da filosofia. A segunda edição de The People’s Choice
refere: «Este estudo foi tornado viável, em term os financeiros, graças a um
subsídio geral da Fundação Rockefeller, a um contributo financeiro da Divisão
de C onsultoria do Office o f Radio Research da U niversidade de C olum bia e a
contribu ições esp eciais da revista Life e de Elm o Roper» (Lazarsfeld, Berelson
e G audet, 1 9 4 8 : x x ix ). Seg u e-se o que o então P resid en te da Fundação
R ockefeller escreveu sobre os apoios da Fundação: «Um incentivo m aior foi o
apoio dado à Escola de Relações Públicas e Internacionais da U niversidade de
Princeton para a realização de um estudo sobre o papel da rádio na vida dos
ouvintes. Organizado pelo Dr. Paul F. Lazarsfeld, esse estudo pretendia respon
der a questões com o estas: Que indivíduos e grupos sociais são ouvintes de
rádio? Q uanto tem po dedicam à sua audição e porquê? De que m odos são
afectados pelo facto de serem ouvintes radiofônicos? A indústria da rádio esta
va, com certeza, interessada em determ inar a dim ensão e a distribuição da sua
au diência para avaliar a sua condição de potenciais consum idores dos produ
tos que publicitava. Ao procurar conhecer m elhor o ouvinte, com o indivíduo e
com o m em bro da sociedade, o estudo de Princeton, quase literalm ente, com e
çou no ponto onde a indústria tinha parado. Este m esm o tipo de estudo foi,
m ais tarde, apoiado tam bém pela U niversidade de Colum bia, tam bém com o
Dr. Lazarsfeld. A pesquisa realizada pelas duas institu ições não só proporcio
nou um retrato porm enorizado e preciso do público ouvinte am ericano, mas
desenvolveu tam bém novos m étodos de inquérito com possibilidades de ap li
cação à previsão e teste das reacções a programas originais; e, um a vez que os
relatórios produzidos no âmbito dos estudos foram largamente utilizados pela
indústria da rádio, o departam ento de Dr. Lazarsfeld foi cada vez m ais con su l
tado com o um a fonte de aconselham ento especializada e im parcial» (Fosdick,
1952 : 2 4 6 -2 4 7 )18.
Lazarsfeld, por seu lado, não estava preocupado com a sua dependência da
Fundação. «A form ulação liberal do programa da Fundação Rockefeller», es
creveu m ais tarde, «perm itiu-m e fazer qualquer tipo de estudo esp ecífico , des
de que garantisse algum a ligação nom inal com os problem as da rádio...»
(Lazarsfeld, 1969 : 308). Mas não só. O programa da Fundação insistia em subs
crever apenas estudos que eram consonantes com os princíp ios em piricistas e
pelo m enos num a ocasião Lazarsfeld reconheceu que quem pagava o m úsico,
na verdade, esco lh ia directam ente a m úsica, apesar de um a certa hesitação do
próprio Lazarsfeld. Em 1938, Lazarsfeld, em conjunto com M ax Horkheimer,
na altura em Colum bia, convidaram T. W. Adorno para ir para os Estados U ni
dos, dirigir a secção de m úsica do Office o f Radio Research de Lazarsfeld. Terá
de se especular sobre os com plexos m otivos que levaram Lazarsfeld a tal atitu
de: o desejo hum anitário de auxiliar um com panheiro refugiado; a sua afinida
de com alguns dos estudos em píricos recentes do Instituto de Frankfurt; o seu
d ese jo , talvez, de dar um a expressão m ais activa a um a vertente cr ítica
secundarizada. Por sua conta e risco, Lazarsfeld queria «ver se podia induzir
Adorno a tentar relacionar as suas ideias com a pesquisa em pírica». A sua
m aneira, caprichosam ente, relutante e crítico, Adorno tentou: durante o tem
po que esteve com Lazarsfeld, escreveu um a série de estudos concretos sobre
128 C om u n icação e S o c ied a d e
aquilo a que m ais tarde cham aria «a indústria da cultura» (Jay, 1 9 7 3 :1 9 1 -1 9 3 ).
Escrevendo sobre este período, Adorno não criticou Lazarsfeld directam ente;
ao invés, escreveu as seguintes palavras: «Naturalm ente, parecia haver pouco
espaço para... a pesquisa social crítica no quadro de trabalho do Projecto de
P rinceton . O seu plano, definido pela Fundação Rockefeller, estipulava ex
pressam ente que as investigações deviam ser realizadas dentro dos limites do
sistema de rádio com ercial prevalecente nos Estados Unidos. Estava assim
im plicado que o próprio sistem a, as suas conseqü ências cu lturais e so cio ló
gicas e pressupostos socia is e econôm icos não eram para ser analisados»
(Adorno, 196 9 : 3 5 3 )19.
Adorno acrescen tou secam ente: «Não posso afirm ar que obedeci estrita
m ente ao plano». Após um ano de tensão quanto à d efin ição do dom ínio
próprio da pesquisa cu ltural, Lazarsfeld, honra lhe seja feita, tentou, num a
longa carta, con v en cer Adorno a abandonar a sua linguagem fetich ista e a
«falta de respeito» pelos procedim entos em píricos, m as sem qualquer su ces
so20. De novo segundo o próprio Lazarsfeld (1969 : 322, 324), Joh n M arshall
da Fundação R ockefeller «sentiu provavelm ente que os m eus esforços para
trazer o tipo de pesquisa cr ítica de Adorno para o cam po das com u n icações
tinham falhado» e, no O utono de 1939 , a Fundação recu sou a renovação do
p ro jecto da área m u sical.
Lazarsfeld iria argum entar na própria revista do Instituto de Frankfurt que
a pesquisa «crítica» e a pesquisa «adm inistrativa» eram, de facto, com patíveis
(Lazarsfeld, 1941); ele pretendia que a pesquisa em pírica respondesse às ques
tões colocadas pela teoria crítica. O próprio Adorno esclareceu que a sua ob-
jecção não era quanto à pesquisa em pírica com o tal, m as à sua prim azia sobre
- e finalm ente em vez da - teoria21. Mas independentem ente dos conflitos in e
rentes à posição de Lazarsfeld quanto à teoria crítica, e independentem ente
tam bém das suas dificuldades pessoais de relacionam ento com Adorno, a Fun
dação, evidentem ente, não pretendia estar tão próxim a desta «filosofia» retró
grad a e p e rig o sa . « C o n h e c im e n to s e s p e c ia liz a d o s e im p a rc ia lid a d e » ,
significavam por fim atenção aos problem as práticos da indústria da cultura; e
requeria um a adesão estrita a um ponto de vista adm inistrativo22.
A teoria adm inistrativa de Lazarsfeld e as suas relações próxim as com a
indústria cultural, na pessoa de Frank Stanton, prosseguiam lado a lado. Foi
em 1935 que Lazarsfeld estabeleceu aquilo que seria um a longa parceria de
trabalho - cham ou-lhe «relações amigáveis» - com Stanton, «então um jovem
m em bro da equipa da Columbia Broadcasting System» (Lazarsfeld, 1969: 304).
Claroque a posição corporativa de Stanton não significa que Lazarsfeld fosse
m ais partidário dos interesses corporativos específicos da C BS, do que, por
exem plo da NBC ou do The New York Times. Na verdade, a sua afinidade m ú
tua era consideravelm ente m ais profunda do que qualquer in teresse im ediato.
As relações entre Stanton e Lazarsfeld, e a carreira bem sucedida de Stanton
constitu íam um sím bolo da expansão da ciên cia social adm inistrativa, antes,
durante e após a Segunda Guerra M undial, e das suas ligações estreitas ao
aparato das corporações e do Estado. Os dois hom ens partilhavam o interesse
com um pela pesquisa positivista, especialm ente na m edição das audiências e
C om u n icação e S o c ied ad e 129
dos «efeitos» de determ inadas m ensagens dos meios de com unicação, que iriam
perm itir às institu ições centralizadas (em issores, publicitários, o Estado) pre
ver as reacções do público às escolhas institucionais. O próprio Stanton foi
contratado pela C BS em 1935, porque a estação ficou im pressionada com a
sua dissertação de doutoram ento em Psicologia sobre a pesquisa das au d iên ci
as. Stanton inventou «o prim eiro dispositivo autom ático de registo, destinado
a ser colocado em casa dos receptores»23, antecipando assim os lucrativos pe
quenos audím etros de A. C. N ielsen. Em 1938, Stanton era sim ultaneam ente
director de pesquisas da CBS e D irector-A ssistente do projecto de Princeton.
Estava m uita coisa em jogo para Lazarsfeld, nesta relação. Ele pôde legitim ar-
-se aos olhos do sistem a dos m eios de com unicação, ao m esm o tem po que
pôde tam bém em penhar-se em atingir um a legitim idade intelectual, ao associ-
ar-se com sociólogos com o Robert Lynd e Hadley Cantril. Como «marginal», a
form a com o se via a si próprio e, além disso, com o um refugiado judeu na
academ ia anti-sem ita, Lazarsfeld tinha que proteger am bos os flan cos24. Com
ligações directas às corporações, conseguiu acesso não só aos financiam entos
de pesquisa, mas tam bém aos dados, sem os quais a pesquisa adm inistrativa
seria inim aginável. Stanton, entretanto, tornou-se Presidente da C BS Inc. em
1946, lugar em que perm aneceu até 1971, liderando assim a estação durante
os prim eiros anos decisivos da televisão. A convergência dos in teresses de
pesquisa entre Lazarsfeld e Stanton, a sua colaboração prolongada na direcção
do Office o f Radio Research, prim eiro, e do Bureau o f Applied Social Research ,
depois, e ainda na edição das séries irregulares da Radio Research, a partir de
1940, escreveram um a história em blem ática de sucesso: as duas carreiras tri
unfaram em con junto ; graças às ciên cias sociais conseguiram quer utilidade
com ercial quer legitim idade acadêm ica. Foi a situação ideal para se encontrar
no lugar certo no m om ento certo, ou o que Lazarsfeld definiu m ais tarde com o
«adaptação estrutural»: a convergência da perspectiva de um sociólogo refugi
ado com «algu m as te n d ên cia s em erg entes na co m u n id ad e am erican a» .
(Lazarsfeld, 1969 : 299). Um dos seus com panheiros im igrantes disse, recen te
m ente, sobre Paul Lazarsfeld: «Ele era m uito am ericano - o m ais bem -sucedido
de todos nós»25.
Na p o sição de um a certa m arginalidade p o lítica , é tn ica e id eológica,
Lazarsfeld acabou por se tornar, com o ele dizia, um «hom em institucional»,
p recisam ente o que a pesquisa social em piricista nos Estados Unidos p recisa
va para personificar o novo estilo acadêm ico, num a base autônom a m as no
âm bito da academ ia (Lazarsfeld, 1969 : 302). A sua experiência tanto nas c iên
cias socia is com o nos m étodos m atem áticos, e a sua in clin ação filosó fica
v ienense tornaram -no valioso para os novos sistem as com ercial e sociocien-
tífico . «Parece plausível», escreveu Lazarsfeld, com o seu discernim ento e as
pereza característicos, «que tal configuração levasse a um a carreira centrada
num a inovação institucional, em vez de traçada directam ente a partir da m o
bilidade individual» [Ibid.: 303). O construtor da institu ição, um hom em que
se definia com o m arginal, necessitava das m ais firm es filiações com as in sti
tu ições determ inantes, associado e indispensável para todas elas, mas ind e
pendente de qualquer interesse particular.
130 C om u n icação e S o c ied a d e
Não existe aqui qualquer conspiração, mas um a poderosa convergência de
com prom issos. O ponto crucial é que a m entalidade adm inistrativa que carac
terizava Lazarsfeld e Stanton estava em harm onia com o interesse corporativo
da C BS e com o programa prático da Fundação R ockefeller e com o m odelo
positivista em expansão das ciên cias sociais am ericanas. Quando ocorria al
gum a fricção, com o com Adorno, Lazarsfeld estava disposto a sacrificar o su
posto lado crítico do seu pensam ento. Para entender a orientação de Paul
Lazarsfeld, a força e o a lcance da teoria e do m étodo de Personal Influence, não
é tão im portante conhecer a identidade exacta da assinatura de cada cheque
de pagam ento (em bora e isso tam bém seja im portante), mas sim com preender
a unidade tem ática do ponto de vista adm inistrativo, qualquer que fosse a
institu ição em que surgisse. Com todas as pressões a seu favor, com tanta u tili
dade para tantos interesses coordenados, certam ente algum cheque assinado,
m ais cedo ou m ais tarde, acabaria por aparecer. O ponto de vista adm inistrati
vo e os seus m étodos de pesquisa procuraram patrocinadores, de modo talvez
m ais sistem ático do que os patrocinadores procuraram as técn icas de pesqui
sa. E desta form a que a ideologia, perspicaz e flexível, procura com frequência
o apoio dos interesses que defende.
Na sua fascinante - e fascinante tam bém porque incom pleta - m em ória
biográfica, Lazarsfeld discorreu sobre algumas das dificuldades que enfrentou
na negociação das persistentes divergências entre os interesses institucionais
dos m eios de com u nicação de m assa e os requisitos m etodológicos de pesqui
sa com p ortam entalista. E o que não disse d irectam ente, deixou im p lícito :
«A pesquisa das com u nicações era, no m om ento», escreveu, «um novo em pre
endim ento, e eu tom ei a palavra em seu favor perante audiências altam ente
qualificadas, com o a National Association o f Broadcasters e a Association o f
American Newspaper Editors. N essas ocasiões, enfrentei um problem a m uito
d ifícil: a relação com a indústria». Continua: «Num destes discursos, m ais tar
de publicado em The Journalism Quarterly (Lazarsfeld, 1941b), form ulei a ques
tão da seguinte form a: “Nós, os cientistas sociais que estam os especialm ente
interessados na pesquisa das com unicações, dependem os da indústria para a
obtenção de m uitos dados. Na verdade, m uitos dos editores e operadores de
radiodifusão têm sido bastante generosos e cooperantes nos últim os tem pos,
em que a pesquisa das comunicações se desenvolveu como uma espécie de
empresa conjunta de indústrias e universidades. Mas nós, os acadêm icos, te
m os sem pre a sensação de andar na corda bam ba: quando é que os parceiros
com erciais irão encontrar algum resultado útil, que é sem pre tão d ifícil de
conseguir, e quando é que nos irão afastar das indispensáveis fontes de fin an
ciam entos e de dados?”» (Lazarsfeld, 1969 : 314 -315 )26.
E interessante que, neste discurso, Lazarsfeld não se tenha preocupado com
a sua relação com as universidades; a sua audiência com ercial deveria ser
esclarecid a de que a corda bam ba tinha m ais que um lado. M as, de qualquer
form a, Lazarsfeld continuou: «Finalm ente pensei num a form a de com prom is
so. Num discurso sobre “O Papel do C riticism o na Gestão dos M eios de Com u
nicação de M assa”, com ecei por dizer que os m eios de com u nicação de m assa
eram dem asiado sensíveis à críticados in telectu ais, enquanto estes eram de
C om u n icação e S o c ied ad e 131
m asiado intransigentes nas suas acusações; deveria existir uma forma de tor
nar a crítica mais útil e aplicável para os que a exercem e para os que a rece
bem» (Ibid.: 3 1 5 )27.
E prosseguiu no seu discurso propondo que as escolas de jornalism o trei
nassem os alunos na crítica - presum ivelm ente um a crítica «útil», «aplicável»,
e não do modo desregulado, contextual, estrutural e radical de Adorno.
Trata-se, de facto, de um assunto delicado. Que tipo de «independência» se
estabelece nos in terstícios de universidades, fundações, em presas de com u ni
cação social e o Estado? O «hom em da instituição» pode negociar as diferenças
entre estas várias instâncias, contribuir para a sua interpretação mútua, salientar
e consolidar o interesse com um sob a forma de sím bolos ideológicos partilha
dos. À m edida que «cam inha na corda bam ba», salvaguarda a estabilidade e as
dependências m útuas, frequentem ente tão difíceis, da «em presa conjunta».
Como um árbitro e interm ediário, o sociólogo-adm inistrador-perito evita tor
nar-se devedor de qualquer interesse particular: m as, na verdade, trata-se de
um a «independência» lim itada. Num período de reaproxim ação entre os sec
tores político, econôm ico e cultural, nesta visão social de convergência de um
capitalism o oligopolista racionalizado, Lazarsfeld iria procurar um dom ínio o
m ais alargado possível para as relações institucionais am istosas. Ele teria al
gum interesse, o que não surpreende, no sector do Estado que coordenava e
regulava as operações corporativas. E foi assim que, im ediatam ente após ter
term inado a apresentação do seu discurso para a elite dos m eios de com u nica
ção, sem um sinal de conclusão ou transição, ou qualquer ju stificação gram a
tical sobre o facto, continuou da seguinte forma: «Em todo o trabalho do Princeton
Office tentei responder às controvérsias públicas, m as considerei em geral que
o nosso departamento servia uma função mediadora. Assim , por exem plo, ser
víam os com o um canal para o projecto do presidente progressista da Federal
Communications Commission, C lifford Durr. E le tinha incum bido C harles
Siepm ann de desenvolver ideias sobre com o a FCC poderia m elhorar o seu
trabalho para conseguir m elhores padrões de radiodifusão. Esta m issão resul
tou em dois docum entos: o “livro azul” da FCC, que prom ulgou critérios de
licenciam ento m ais exigentes, e o trabalho Radio: Second Chance, de Siepm ann.
A am bas as p u blicações, a indústria reagiu com violento antagonism o e eu
convenci Joh n M arshall da Fundação Rockefeller a d isponibilizar um orça
m ento esp ecial para que eu pudesse organizar um a conferência de dois dias, a
fim de reunir a indústria, a FCC, e estudiosos proem inentes do cam po da pes
quisa, para debater os assuntos» (Ibid.: 3 16)28.
Como se pode constatar, isto não representa qualquer m udança de assunto.
A m entalidade adm inistrativa é, em suma, um a m entalidade de negocia
ção, que deseja estabelecer relações harm oniosas entre as institu ições de co
m ando, dentro de um quadro ideológico com um e hegem ônico: neste caso,
isto foi conseguido graças à legitim idade da indústria da cultura com ercial. Na
academ ia traduz-se num a lógica «interdisciplinar», no governo em «interdepar-
tam entalism o», no Pentágono é «interserviços», na econom ia é «gestão do tra
balho». A m entalidade adm inistrativa está constantem ente a coordenar, mediar,
estabilizar, harm onizar. No processo, gere a realidade exterior com o um con
132 C om u n icação e S oc ied ad e
junto de dados, e prefere trabalhar no interior das institu ições principais e em
parceria com as que têm a capacidade de fazer com que o m undo pare e se
torne inform ação, ou de o im aginar dessa forma. O seu modus operandi é,
acim a de tudo, o contacto e a conexão da «influência pessoal».
A Orientação Comercial
Um a m entalidade adm inistrativa é com patível com um a grande variedade
de sociedades, desde as totalitárias às liberais; a cada um a destas corresponde
um a orientação teórica das ciências sociais. Por si, a m entalidade adm inistra
tiva não pode responder ao apelo de procura da «influência pessoal» ou à ênfa
se pecu liar nos «efeitos» com portam entais ou relativos às atitudes, concebidos
de form a restrita, da investigação social. Estam os m ais próxim os de com pre
ender a sociologia am ericana dos m eios de com unicação social quando obser
vam os a variante particular do pensam ento adm inistrativo que Paul Lazarsfeld
trouxe para a academ ia deste país: a orientação com ercial. Só através da pro
cura da história relevante - em particular, a história dos m eios de com u nica
ção de m assa nos Estados U nidos - podem os com eçar a com p reend er o
significado do trabalho de Lazarsfeld. Pois é um a oeuvre inim aginável à m ar
gem da em ergência da prática e da teoria da sociedade de consum o de m assa
do século XX.
Não é segredo que a pesquisa das com unicações de m assa descende direc
tam ente do desenvolvim ento de sofisticadas técnicas com ercia is. A teoria dos
«efeitos» foi desenvolvida, em prim eiro lugar, para utilização explícita e d irec
ta dos operadores de radiodifusão e publicitários, e continua a ser utilizada
p rincipalm ente nestes círcu los, tendo-se tornado, nesse âm bito, m ais sofisti
cada. De um a form a sintética adm irável, Robert K. M erton resum iu a lin h a de
descendência lógica e h istórica: «Como Lazarsfeld e outros salientaram , a pes
quisa das com u nicações de m assa desenvolveu-se largam ente em resposta às
exigências com erciais. A com petição severa pela publicidade entre os diver
sos m eios de com u nicação de m assa e entre as agências no interior da cada
m eio provocou um a procura econôm ica de caracterização objectiva das au
d iências (de jornais, revistas, rádio e televisão), em term os de tam anho, com
posição e respostas. E na sua com petição pela m aior parcela possível de receitas
p u blicitárias, cada m eio de m assa e cada agência fica m ais atenta a possíveis
im perfeições nas m edidas de com paração das audiências utilizadas pelos con
correntes, introduzindo assim um a pressão considerável para se desenvolve
rem aferições rigorosas e objectivas, dificilm ente vulneráveis à crítica» (Merton,
1968 : 5 0 4 -5 0 5 )29.
Quando Paul Lazarsfeld chegou aos Estados Unidos, o marketing e a pu bli
cidade estavam a com eçar a conquistar o seu lugar próprio. Ao longo dos anos
20, com o Stuart Ew en evidenciou (1976) os oligopólios estavam a preparar a
publicidade e as técn icas de vendas para a sociedade de consum o, que iria
em ergir a partir de 1945 com grande pujança. Os m ercados de consum o de
m assa estavam já a despontar; a publicidade estava a transpor a linha estreita
C om u n icação e S o c ied a d e 133
m as notável que separa o sim ples fornecim ento de inform ação, dirigida à pro
cura tradicional e já constituída, da glorificação dos bens de consum o e da
produção da procura, e m ais im portante, da produção do próprio consum idor.
(O M odelo T, totalm ente preto, m odelo único, sem opções, foi substitu ído por
um a com plexa variedade de autom óveis, de preços cada vez m ais elevados, a
partir dos anos 30) (Rothschild, 1973 : 37-40). As m arcas nacionais m u ltip lica
v am -se e co n q u istav am p arce las cad a vez m ais largas dos m ercad os e,
ind issociavelm ente, as corporações recorriam às cam panhas publicitárias a
n ível nacional. Precisavam de um a «ciência» com ercial que lhes ensinasse o
que dizer, com que frequência, através de que canais, a quem . Os m ercados
reais contraíram -se durante a Depressão, mas a infra-estrutura técn ica de um a
sociedade de consum o m adura estava a desenvolver-sesolidam ente sob a su
perfície, aguardando a explosão da procura consum ista de 1945.
A radiodifusão foi, de alguma forma, a força liderante da nova, em bora no
m om ento protelada, sociedade de consum o, e os anos 30, época da fixação de
Paul Lazarsfeld nos Estados Unidos, foram um m om ento essencial, não só para
as ciên cias sociais am ericanas, com o para a história da radiodifusão neste país.
A pesar da D epressão, ou em parte devido a ela (com a grande necessidade de
entretenim ento barato), o m ercado de m assa na radiodifusão estava a formar-
-se: era um dos poucos m ercados de m assa que poderia penetrar na população
em pobrecida. A televisão não estava, ainda, nesse estádio, e o m ercado de
receptores de rádio estava à beira da saturação. Os núm eros são sugestivos.
Em 1925, existiam 4 000 000 de aparelhos nos Estados U nidos, ou 0 .15 por
habitação; em 1930, 13 000 000 de aparelhos, ou 0.43 por habitação; em 1935,
30 500 000 aparelhos, ou 0 .96 por habitação; em 1940, 51 000 000 de apare
lhos, ou 1.45 por habitação (DeFleur, 1970: 66). De acordo com estes dados,
com o refere M erton, a com petição estava ao rubro. A partir daqui, iria tornar-
-se im portante para as estações, e tam bém para as redes de radiodifusão, au
m entar as suas quotas entre a audiência existente, e obter os seus lucros atra
vés da venda de tem po publicitário, m ais do que com a produção de aparelhos
receptores de rádio. (Quando David Sarnoff prim eiro im aginou a possibilida
de da indústria radiodifusora de m assa, em 1915, previu vendas enorm es de
«Radio Music Boxes», mas nem sonhava com a publicidade com ercial nas on
das hertzianas) (Barnouw, 1966: 78-79). A NBC foi organizada no final de 1926,
e a C BS tornou-se um a séria am eaça na concorrência em 1928 , com a ascensão
de W illiam S. Paley à presidência. A com petição entre as rádios C BS e NBC
in tensificou -se ao longo dos anos 30 (Ibid.\ 224, 272-273). Em 1940, a Federal
Communications Commission determ inou que a NBC renunciasse a um a das
suas duas redes radiofônicas, e, em 1943, a NBC consum ou a venda à recen te
m ente form ada American Broadcasting Company (Barnouw, 1968: 170-171 ,
190). Com a saturação do m ercado de aparelhos de rádio, e com o cada vez
m aior crescim ento das redes de radiodifusão e da com petição pela pu blicida
de, os desenvolvim entos corporativos com eçaram a exigir um a pesquisa de
audiências precisa em grande escala.
A C BS contratou Frank S tan ton - que estava para ser colaborad or de
Lazarsfeld - da U niversidade de Ohio, em 1935, para garantir o rigor necessá
134 C om u n icação e S o c ied ad e
rio ao seu novo aparato de pesquisa30. Daí em diante, a pesquisa de audiências
(na área da comercialização de bens de consum o) tornou-se tão im portante
quanto a pesquisa fundam ental (na área da produção de bens de consum o)31.
Para poder aum entar o preço do tem po publicitário, as redes de radiodifusão
iriam ter de desenvolver um conhecim ento fiável sobre a dim ensão e a com po
sição («os aspectos demográficos») das audiências. O tipo de pesquisa que
Stanton e Lazarsfeld estavam preparados e desejosos para realizar iria ser cada
vez m ais requisitada ao longo dos anos - pelos grandes com erciantes, pelas
redes de radiodifusão, pelos publicitários, pelos conglom erados que iam alar
gando o seu controlo sobre os m eios de com unicações de m assa e, finalm ente,
pelo m undo acadêm ico32. O Princeton Office o f Radio Research foi a prim eira
institu ição de pesquisa sobre rádio na A m érica - um sintom a da nova im por
tân cia deste m eio na vida cultural da sociedade e no pensam ento dos seus
adm inistradores econôm icos e políticos. O anúncio estereotipado, «Amos ‘n’
Andy», o Fireside Chat e o Office o f Radio Research eram rebentos da m esm a
planta. A rádio tinha chegado. Não era só necessária, m as legítim a.
Não deve, pois, surpreender que, num dos «encaixes estratég icos» de
Lazarsfeld, um a exigência esp ecífica de m ercado e um interesse acadêm ico se
pudessem fundir, no in ício dos anos 40, para proporcionar o suporte do estu
do de Decatur. Quando a prim eira edição de The People’s Choice surgiu em
1944, com a prim eira alusão às ideias de «fluxo de com u nicação em dois n í
veis» e «líder de opinião», as Macfadden Publications interessaram -se pela teo
ria dos líderes de opinião, desejando que a teoria do «fluxo de com unicação
em dois níveis» pudesse ajudar a m elhorar a difusão, e consequentem ente as
taxas publicitárias, da sua revista True Story (Katz e Lazarsfeld, 1955 : 3; Gillam ,
1972: 300). Bernarr M acfadden, o fundador, publicava Physical Culture, Liberty,
Graphic, True Story, True Confessions e True Detective Mysteries, e há m uito
tem po que estava interessado em aum entar a sua difusão através das técnicas
de radiodifusão. Em 1925 tornara-se o prim eiro patrocinador com ercial da es
tação de rádio W OR em Newark, ao passar publicidade num programa m atinal
de ginástica (Barnouw, 1966: 167-168). Em 1927 esteve perto de com prar a
rede que viria a tornar-se a C BS, sob a direcção de Paley (Ibid.: 220). Agora, a
sua com panhia estava ansiosa por u tilizar as técnicas de pesquisa de radiodi
fusão para saber se os leitores da classe trabalhadora iriam chegar a True Story
«horizontalm ente», pela passagem da palavra dos «líderes de opinião» da clas
se trabalhadora, em vez de «verticalm ente», a partir dos leitores de classes
m ais elevadas. Pela sua parte, Lazarsfeld há m uito que pretendia prosseguir o
estudo de 1940, de Erie County, Ohio (redigido em The People’s Choice), de
form a a dar continuidade à hipótese do fluxo de com unicação em dois níveis.
Conseguiu o financiam ento da M acfadden, e o estudo de D ecatur estava pron
to a avançar.
Parece razoável supor que o patrocínio da M acfadden para o estudo influen
ciou directam ente tanto a selecção dos inquiridos quanto as questões co loca
das. Parece não existir qualquer outra explicação plausível para a lim itação do
estudo ao sexo fem inino: as m ulheres eram, afinal, as leitoras de True Story.
E parece tam bém m uito provável que o patrocínio da M acfadden tenha deter
C om u n icação e S o c ied ad e 135
m inado a esco lh a das áreas tem áticas da aquisição de bens de consum o, moda
e cinem a; a inform ação sobre o processo pelo qual os bens de consum o, a
moda e o cinem a eram escolhidos pelas potenciais leitoras de True Story seriam
úteis para os pu blicitários da M acfadden. (Presum ivelm ente, as questões so
bre as atitudes políticas terão sido acrescentadas ao estudo por Lazarsfeld.)
A ssim , o carácter ideológico pouco subtil e m esm o algo grosseiro de grande
parte de Personal Influence (pois esforçava-se por considerar as atitudes p olíti
cas com ensuráveis com as preferências quanto a café instantâneo) pode ser
atribuído directam ente ao patrocínio concedido pela M acfadden, em bora exista
tam bém , com o irem os ver m ais à frente (pp. 141-143), um significado m ais
profundo para este questionário sim étrico: a convergência efectiva entre as
preferências políticas e as preferências em term os de consum o, tanto enquan
to facto social com o ao nível teórico. De novo, seria sim plista e enganador
reduzir esta convergência à influência em particular da M acfadden. Muito antes
de ter ouvido falar de Bernarr M acfadden, tam bém com o jovem socialista,
Lazarsfeld tinha defendido a «equivalência m etodológica entre o voto socia lis
ta e a aquisição de sabão» (Lazarsfeld, 1969: 279), e estava inclinado, em ter
m os teóricos, com o irem os ver m ais à frente, a considerar as escolhas políticas
e de consum o com o com ensuráveis em term os estruturalm ente sim ilares.
O facto de Personal Influence e os estudos subsequentes estarem in flu en cia
dos pelosvalores da sociedade de consum o - com as escolhas de consum o
consideradas com o o ne plus ultra da liberdade - não pode ser atribuído à
M acfadden. M as seria ingênuo afirm ar que o patrocínio deste estudo nada
teve a ver com o seu m odelo teórico, e tam bém com as suas falhas.
Q uer tenha sido su bscrita pela M acfadden ou pela M cC ann-Erikson, pela
U niversidade de Colum bia ou pelo Columbia Broadcasting System, a orienta
ção com ercial considera o quadro consum ista com o certo, as questões co loca
das surgem nesse âm bito, sobre «como» se processam os fenôm enos nesse
enquadram ento, deixando de lado, sistem aticam ente, outras questões. A orien
tação com ercial está interessada em questionar com o os m eios de com u nica
ção de m assa podem aum entar o seu alcance, e com o a vida social quotidiana
levanta obstáculos à extensão do poder dos m eios de com unicação. Não está
interessada de modo nenhum em saber se a extensão dos m eios de com u nica
ção de m assa é um bem social, e em que circunstâncias. Não está interessada
nas conseqü ências estruturais e culturais dos diferentes m odelos de proprie
dade dos m eios de com unicação. Não está interessada na construção de um a
visão global das técn icas dos m eios de com unicação, nem nos precursores
históricos destes m esm os m eios (à excepção apenas dos casos polêm icos).
E não avalia com o problem ática a própria cultura de consum o. A orientação
com ercial não concebe um discurso político vivido que pode ser afectado, para
m elhor ou para pior, pelas representações da política produzidas pelos m eios
de com u nicação. Q uestões deste tipo não são «práticas» para as institu ições
que definem o que é prático, e assim , com o M erton conclu iu , «as categorias de
pesquisa [das com u nicações de m assa] têm sido moldadas, até há pouco tem
po, não tanto pelas necessidades da teoria social ou da psicologia, mas pelas
necessidades práticas dos grupos e agências que criaram a procura da pesqui
136 C om u n icação e S o c ied ad e
sa de audiências. Sob pressão directa do m ercado e das necessidades m ilita
res, técn icas de pesquisa precisas são desenvolvidas, com portando desde o
in ício as m arcas da sua origem ; fortem ente condicionadas pelos usos práticos
a que desde o princíp io são subm etidas» (Merton, 1968: 505-506).
M as, então, qual a alternativa para a pesquisa dos m eios de com u nicação
socia l? Será a cr ítica algo necessariam ente abstracto, um desejo retrosp ec
tivo em nom e de um ideal inconcretizável, p latônico , da pesquisa social?
A cr ítica enfrenta sem pre esta questão, quando é incapaz de apontar um a
alternativa efectiva, e quando os principais in terven ientes preferem um a de
term inada via em detrim ento de outras. N este caso, no entanto , um a a ltern a
tiva con cep tu al fo i de facto avançada. A sua sorte e os seus lim ites dizem -nos
algo sobre a força da orientação com ercial. Como um a esp écie de luz lateral
na h istória recen te da pesquisa social, lan ça sobre a m esm a um a som bra
distin ta.
Como Katz e Lazarsfeld referem nos seus Agradecim entos, o cam po de pes
quisa em Decatur, Illinois, foi organizado, nada m ais, nada m enos, que por
C. W right M ills, então ligado ao Bureau o f Applied Social Research da U niver
sidade de Colum bia. F icarem os a saber m ais sobre o modo com o M ills encetou
um a ruptura rad ical com a ortodoxia m etodológica, quando o historiador
R ichard G illam publicar a biografia que tem em preparação sobre este autor;
por agora, será su ficien te referir que foi o jovem e am bicioso M ills quem se
deslocou para D ecatur para coordenar as duas vagas de entrevistas, em Junho
e Agosto de 1945. Em m eados de 1946, M ills tinha delineado, para debate,
um a análise dos dados. Neste longo docum ento inédito, de acordo com Richard
G illam , que procedeu ao seu estudo nos arquivos da U niversidade de Texas,
M ills escreveu «não só acerca da “in flu ência” e da “opinião”, m as tam bém , de
form a arro jad a , a ce rca da “id e o lo g ia ”... e re la c io n a -a com a estru tu ra
in stitu cion al e de classes. M ills encontra algumas com provações da in flu ência
horizontal, de acordo com a teoria do fluxo de com unicação em dois níveis,
m as d iscute tam bém a im portância da in fluência vertical ou “piram idal”, es
pecialm ente no dom ínio da política». M ills especulou quanto à posição dos
Estados U nidos, a m eio cam inho entre os m odelos extrem os de um a «pura
sociedade dem ocrática» e um a «sociedade autoritária de m assa» (Gillam, 1972:
302-303). Segundo Gillam , este docum ento de M ills é, de facto, não só um
docum ento vago, mas tam bém profundam ente m arcado por um a divisão de
fidelidades; M ills estava mergulhado nos particularism os da análise positivista,
ao m esm o tem po que pretendia continuar a dem onstrar algum a devoção a
um a esp écie de radicalism o populista33. Mas a sua proposta para o tratam ento
dos dados do estudo de D ecatur estabelecia um enquadram ento m uito d ife
rente. Propôs um a releitura dos dados sociom étricos sobre as atitudes p o líti
cas com o ob jectivo de inferir a estrutura do processo de decisão neste cam po;
e propôs a constitu ição de um a teoria da com unicação política com o base para
um a teoria da ideologia social am ericana. Como M ills cuidadosam ente expri
m iu no artigo que apresentou ao encontro da American Association for the
Advancement o f Science, em 29 de D ezem bro de 1946, em Boston, a «cadeia de
liderança p olítica é definitivam ente um processo vertical»34.
C om u n icação e S o c ied ad e 137
Lazarsfeld, apesar de não ter desafiado o trabalho de M ills, quanto à reco
lha e apresentação de dados, ficou obviam ente preocupado com o a lcance e o
tom populista da sua retórica, no «tratam ento e interpretação da inform ação já
reunida»; e, consequentem ente, decidiu retirar a M ills a análise dos dados de
D ecatur (Gillam , 1972 : 304). Mas estranham ente, em 1950, M ills ainda a li
m entava esperanças de ser incluído com o co-autor do estudo de D ecatur [Ibid.:
307n). N esse m esm o ano escreveu um artigo em que apoiava a perspectiva de
Lazarsfeld (M ills, 1963 : 577-598). N esse trabalho, publicado num a edição do
D epartam ento de Estado dirigida a um a audiência russa, defendeu, com vee
m ência, a perspectiva pluralista que viria depois a repudiar, frontalm ente, em
The Power Elite, publicado em 1956.
Mas a alternativa apresentada por M ills em 1946 não com preendia ainda,
ou fingia não ter com preendido, que a A m érica do pós-guerra estava já a des
locar-se na direcção de um a nova form a de capitalism o corporativista de alta
tecnologia, com um a cultura política baseada no consum o, em que o consenso
do bipartidarism o iria prevalecer e a oposição de classes seria destroçada e
desviada, para - durante algum tem po - se extinguir. Talvez o fracasso de M ills
se tenha ficado a dever à sua filiação no Bureau o f Applied Social Research de
Lazarsfeld, ou às suas ilusões hesitantes com o m ovim ento dos trabalhadores
am ericano; talvez tenham existido tam bém outras razões. De qualquer forma,
a em ergência da sociedade de alto consum o não tinha ainda sido com preendi
da com o nova condição - o que só viria a acontecer com M ills em The Power
Elite. O que é um a outra form a de dizer que, só com raras excepções nas m ar
gens da sociologia am ericana35, a orientação com ercial de Lazarsfeld era, no
m om ento, incontestada e hegem ônica. O m om ento acabou por se prolongar a
um a era da sociologia; a orientação e os paradigm as correspondentes estabele
ceram -se então com o opinião sociológica comum.
U m a alternativa m ais radical, em term os teóricos e práticos, poderia ter
com eçado, e prosseguido, destacando os benefíciosde produtividade que o
capital podia obter com a organização «científica» do trabalho, benefícios que
tornaram possível, em prim eiro lugar, um a sociedade de consum o. Esta abor
dagem perm itiria dar conta e analisar qualquer cultura política relativam ente
autônom a, detectada sob a superfície gélida da cultura de consum o. Poderia
abordar a cultura de consum o com o um a deslocação no sentido da esfera pri
vada e individual, dos im pulsos no sentido da liberdade e da felicidade in atin
gíveis na vida quotidiana, com o condição e com o conseqüência do fracasso de
um a p olítica rad ical alternativa capaz de se dirigir à infelicidade predom inan
te36. Um contra-paradigm a poderia escrutinar a «indústria da cultura» com o
forma de controlo social e com o um a revolta falhada, confusa e privatista contra
as condições de exploração do trabalho e da fam ília no m undo do capitalism o
organizado. Em piricam ente, poderia então prestar atenção à degenerescência
da vida p olítica autêntica, vibrante, no século XX, e ao destino dos contra-
-m ovim entos; poderia dar conta da m u ltip licação dos m eios de m anipulação
do consentim ento público, especialm ente no que se refere às políticas da Guerra
Fria. Poderia estudar os processos de decisão dos produtores de bens de con su
mo, dos seus anunciantes e dos produtores de telenovelas, bem com o os dos
138 C om u n icação e S o c ied ad e
seus consum idores. Poderia observar quer as origens dos tem as políticos, quer
as origens das «atitudes políticas». Poderia atentar nas conseqüências da radio
difusão, não apenas no que concerne os indivíduos mas tam bém as form ações
colectivas com o os m ovim entos socia is37.
Ao nível da teoria, poderia apreender a com patibilidade entre estruturas
elitistas e procedim entos pluralistas num a «totalidade» de dom inação. Com
um a m etodologia com plexa, inclu indo histórias de vida e observação p artic i
pante, poderia indagar o grau de convergência real, na vida dos cidadãos, en
tre escolhas de consum o e conhecim ento político, entre o voto e a aquisição de
bens de consum o, e indagar as origens de tal convergência, em vez de a tomar
com o certa, em term os m etodológicos. Partindo de um sentido de estrutura
política, a sociologia dos m eios de com unicação poderia contribu ir para aqui
lo que Dave M orley designou «etnografia das audiências» (1974), m ostrando
com o diferentes classes, etnias, idades ou outras audiências «descodificam »
(ignoram, assim ilam ) d istintam ente os padrões das m ensagens dos m eios de
com u nicação ao longo do tempo. (Assim, alguns dos resultados esp ecíficos de
Lazarsfeld poderiam ser integrados num a análise social m ais am pla.) Por ou
tras palavras, tal alternativa poderia contribuir para revelar um processo dos
m eios de com u nicação dinâm ico mas decidido, em articulação com a totalida
de da cultura política.
Talvez M ills tivesse em m ente, em bora de form a enviesada, algumas destas
in tenções, em 1946. De qualquer forma, as m esm as continuaram por realizar.
M uitas continuam ainda hoje por concretizar, e era para serem concretizadas.
No entanto, o que se verificou foi que a orientação com ercial se tornou a pró
pria sociologia dos m eios de com unicação.
O Campo Ideológico: Social Democracia
Os teóricos não vivem só da teoria. E o em piricism o abstracto não é excep-
ção. Tal com o os factos não se sustentam a si próprios, tam bém os teóricos do
em piricism o abstracto não são m otivados por puro prazer de acum ular eterna
m ente pequenos factos, ou pela vantagem decorrente de os possuir e poder
trocar. O em pirism o abstracto não é só fundado concretam ente na cultura po
lítica e com ercial prevalecente, é tam bém , em grande parte, justificado por
um a posição ideológica. Tal posição pode ser m ais ou m enos consciente, m ais
ou m enos pública. E geralm ente considerado de mau gosto declarar que a ideo
logia é algo de relevante neste cenário, a não ser que seja radical; a falácia
genética é aduzida com o um bilhete grátis para o dom ínio suave, desinteressa
do e im perial da ciência , onde todas as ideias nascem iguais e com as m esm as
oportunidades para provar o seu m érito, através dos bons trabalhos (em píricos).
Na prática, a falácia genética é m enos com um do que a falácia da concepção
im aculada.
Já afirm ei, anteriorm ente, que a social dem ocracia era o enquadram ento
ideológico que delim itava e servia para ju stificar a totalidade do paradigma
dom inante da sociologia dos m eios de com unicação social. Pretendo aqui abrir
C om u n icação e S o c ied ad e 139
um certo espaço para esta «hipótese ultrajante», desejando que algumas das
afirm ações que se seguem possam ser tidas em consideração pelos acadêm icos
de tem peram ento crítico e espírito aberto, tanto quanto largueza de vistas e
um a infinita p aciência . O m eu exercício versa dois tipos de ligação da social
dem ocracia com o trabalho de Paul Lazarsfeld: biográfica e teórica. A avalia
ção da prim eira irá conduzir na direcção da segunda, a interligação da ideolo
gia social dem ocrata com a teoria da sociedade de grande consum o, onde alguns
aspectos biográficos serão significativos.
Os factos biográficos que relacionam Paul Lazarsfeld e a social dem ocracia
austro-m arxista são perfeitam ente claros38. Na sua própria m em ória biográfi
ca, Lazarsfeld, de modo inquietante - e auto-inquietante - identificou as liga
ções que são, no m ínim o, m etodológicas. M ais ainda, na sua própria opinião,
a social dem ocracia fazia parte do am biente ideológico que deu origem, por
vezes indirectam ente, aos seus interesses. Lazarsfeld não desenvolveu as suas
teorias na V iena pós-Habsburgo, nem foi lá que chegou às suas conclu sões,
mas definiu aí a grande problem ática que viria a desenvolver ao longo da vida e
as raízes da abordagem da mesma. Os factos exigem um breve com entário histó
rico - suficiente, espero, para sublinhar um contexto e um estado de espírito.
Na sua juventude, Lazarsfeld foi líder da A ssociação dos Estudantes So cia
listas do Ensino Secundário da Á ustria (Buttinger, 1953: 83). Em 1916 encon-
trav a-se , por razõ es d e sco n h e cid a s , «a v iver sob a cu stó d ia de R u d o lf
Hilferding», um dos grandes teóricos do m arxism o austríaco (Lazarsfeld, 1969:
285n). Segundo Lazarsfeld, terá sido o líder social dem ocrata Otto Bauer que
lhe deu a ideia de estudar o desemprego, o objecto da sua prim eira grande
pesquisa social (Ibid.: 275n). Considerou que o interesse geral na academ ia
v ienense pelo estudo dos processos de decisão se tinha ficado a dever à ênfase
do m arxism o austríaco sobre as estratégias eleitorais, e relacionou este «clim a
político» com os seus próprios interesses acadêm icos [Ibid.: 279). Enquanto
preparava a sua prim eira pesquisa (sobre as preferências ocupacionaís da ju
ventude austríaca), Lazarsfeld teve de ultrapassar algumas dificuldades de
análise, em colaboração com um a estudante, cu jo nom e se desconhece, que
possuía já algum conhecim ento das prim eiras técn icas de pesquisa de m erca
do am ericanas. Ela tornou-se a sua «principal colaboradora» no trabalho de
cam po do estudo, m ais am bicioso, sobre o desemprego na aldeia de M arienthal
e a inspiradora das pesquisa de m ercado que Lazarsfeld realizou em V iena. Ao
escrever sobre esta colaboração feliz, Lazarsfeld salientou, com o já tivém os
ocasião de referir, a «equivalência m etodológica entre o voto socialista e a com
pra de sabão» [Ibidem). Presumo que com esta im passível declaração, Lazarsfeld
pretendia neutralizar a retórica dos seus críticos, precisam ente entregando-se
a ela para m ostrar com o era inofensiva. Sim , claro, parecia estar a dizer que
são equivalentes, metodologicamente equivalentes; não afirm o m uitomais,
em bora esta seja já um a afirm ação de peso; e então? Pacata e ironicam ente,
Lazarsfeld desarm ava o tipo de crítica que avança apenas para encontrar o seu
território já ocupado. Um a franqueza mordaz.
M as outros tipos de com entários m ordazes recaíram sobre a So cia l D em o
cracia austríaca, e nem sem pre de form a tão suave. Leon Trotsky, que viveu
140 C om u n icação e S o c ied a d e
sete anos em Viena, antes da Guerra, observou os proem inentes m arxistas aus
tríacos e encontrou, na sua m arginalidade política, algo de arrogante: «Na ve
lha Viena im perial, vã e fútil, os acadêm icos m arxistas referiam -se uns aos
outros, com um a espécie de deleite sensual, com o “Herr Doktor”» (Trotsky,
1970 : 209).
Trotsky referiu que os m arxistas austríacos eram incapazes de falar à-von-
tade com trabalhadores social dem ocratas: eles eram instruídos, m as provincia
nos, filisteus, chauvinistas. «Estas pessoas orgulhavam -se de serem realistas e
de estarem relacionadas com o m undo dos negócios», escreveu Trotsky sobre
eles desdenhosam ente; m as, apesar da sua am bição, eles eram possuídos por
um a «atitude rid ícu la de m andarins» [Ibid.: 210, 212 )39. Que um a perspectiva
adm inistrativa viesse a em ergir deste cadinho, com o um a form a de m anter o
estatuto de elite e um sentido de orgulho num a situação desfavorável, não
deveria ser surpreendente. O que Trotsky não apreciava, no entanto, eram al
gumas das razões que estavam na raiz da marginalidade do m arxism o austríaco:
socialm ente, o isolam ento da classe trabalhadora v ienense na Áustria-H ungria
(e m ais tarde, Áustria) e o isolam ento dos judeus num a cultura anti-sem ita40;
politicam ente, o fracasso da revolução de 1918 na A lem anha, associado ao
isolam ento do m arxism o austríaco.
Trotsky resum ia a posição do m arxism o austríaco anterior à Guerra com o
de «auto-satisfação». No final da Prim eira Guerra M undial, no entanto, Paul
Lazarsfeld, bastante activo no M ovim ento Estudantil Socialista , não dem ons
trava auto-satisfação, m as aquilo que se segue ao seu falhanço: um a atitude
defensiva. A ideologia social dem ocrata, que «acabou por ser decisiva» para a
vida in telectu al de Lazarsfeld, encontrava-se «na defensiva, antes da onda de
nacionalism o crescente» (Lazarsfeld, 1969: 272). E com o colapso da Segunda
In ternacional em 1914, e o sucesso do Leninism o na Rússia em 1917, a social
dem ocracia tinha, agora, um a Esquerda para com bater internacionalm ente,
assim com o um a Direita nacionalista e vingativa. Em Viena, apesar do leninism o
n u nca ter tido tanto significado com o na A lem anha, a social dem ocracia con
siderou ainda necessário prestar hom enagem ao ideal revolucionário m arxista
e diferenciar-se do leninism o; perm aneceu, então, duplam ente defensiva. No
entanto, este m arxism o austríaco cercado era tam bém um a grande força in te
lectual. M onopolizou a sociologia na U niversidade, e podia reivindicar só li
das cred enciais no dom ínio da psicologia no m eio socialista antifreudiano de
A lfred A dler41. O círcu lo de Adler era, de facto, o «grupo social de referência»
de Lazarsfeld, e a ênfase de Adler na educação socialista para os trabalhadores
in fluenciou -o de form a m arcante (Lazarsfeld, 1969: 272). Apesar de tudo isto,
o prestígio in telectu al da social dem ocracia não ultrapassou a insegurança
que Trotsky reconheceu tão astutam ente. Lazarsfeld resum iu esta questão da
seguinte form a: «Estávam os interessados em saber porque é que a nossa pro
paganda não tinha sucesso, e queríam os desenvolver estudos psicológicos para
explicar esta situação. Recordo-m e de um a fórm ula que criei nessa altura: uma
revolução com bativa necessita de m eios financeiros (M arx); um a revolução
v itoriosa n ecessita de engenheiros (Rússia); um a revolução derrotada n ecessi
ta da psicologia (Viena)» [Ibidem).
C om u n icação e S o c ied ad e 141
E a q u i re s id e u m a lig a ç ã o , a p e n a s u m a d e la s , e n tre a id e o lo g ia
socialdem ocrata austríaca e a ciên cia social positivista42. Mas enquanto a soci
al dem ocracia estava a fracassar catastroficam ente na Europa, um capitalism o
sem contestação na A m érica estava a necessitar dos seus engenheiros: esta foi
tam bém um a revolução de um certo tipo, contra as relações sociais tradicio
nais. O encontro entre engenheiros e psicólogos fazia nascer a nova sociologia
da adm inistração e do marketing.
M as é óbvio que a afinidade entre o voto socialista e a aquisição de sabão
não é apenas m etodológica. E construída no interior da sociedade capitalista
corporativa, tal com o nas form ulações teóricas m ais tardias de Lazarsfeld, e
em toda a estrutura de pensam ento da pesquisa am ericana sobre a com u nica
ção social. A ideologia dos m eios de com unicação tam bém é im plicitam ente
social dem ocrata, e essa é um a razão, não referida, pela qual os socialistas são
alternadam ente repelidos pela cultura de m assa, e defensivos em relação a ela.
A orientação com ercial e pelo m enos um a im portante variante da social
dem ocracia europeia partilham um a concepção com um de «povo», que é, à
prim eira im pressão, paradoxal: é ao m esm o tem po soberano e passivo. De fac
to, o cap italism o de alto consum o justifica-se a si próprio em term os de satis
fação da m assa, e assum e que o m ercado é um a m edida real da expressão
dem ocrática. O povo é, num a palavra, consum idores. Escolhe entre as possibi
lidades d isponíveis, sejam m arcas de produtos, profissões ou partidos políti
cos. Q uando o consum idor escolhe, confirm a a legitim idade dos fornecedores.
A parentem ente, a orientação com ercial de Paul Lazarsfeld coincid iu com o
seu interesse na legitim idade m ais am pla que pode ser encontrada num futuro
socia l dem ocrático. Dito de outra form a, a social dem ocracia iria exigir um a
orientação com ercial, enquanto procedim ento rigoroso para «dar às pessoas
aquilo que elas querem ». Isto seria verdade para o actual m ercado de bens, e
seria tam bém verdade para todos os dom ínios da liberdade, inclu indo a ques
tão da esco lh a ocupacional, tem a sobre o qual Lazarsfeld realizou o seu p ri
m eiro trabalho.
A social dem ocracia iria exigir não só um a orientação com ercial m as tam
bém um ponto de vista adm inistrativo, para que as escolhas pudessem ser
preparadas a partir de cim a. Faz parte da responsabilidade do fornecedor cen
tralizado, hierarquizado, saber o que os consum idores querem ; esta é a d ife
rença, afinal, entre tirania e dem ocracia. Lazarsfeld referiu-se desta form a às
« im plicações de um a sociedade planificada», no seu estudo de Jugend und
Beruf: «M uitos jovens não definiram planos ocupacionais e, assim , não se im
portam de ser orientados - de facto, é provável que gostem m esm o de ser orien
tados - para um a escolha ocupacional; deveria, consequentem ente, ser fácil
preencher as quotas ocupacionais estabelecidas com base num plano econ ô
m ico central» (Lazarsfeld, 1969: 280).
N esta lógica, quando as pessoas não sabem o que querem , «não se im por
tam de ser orientadas - de facto, é provável que gostem m esm o de ser orienta
das». A p rem issa é que, quando as pessoas não sabem , não se opõem à
dom inação: esta é um a das prem issas ideológicas om nipresentes ao longo do
século xx . C om eça por se assum ir que as pessoas poderiam ser ovelhas, e aca
142 C om u n icação e S oc ied ad e
ba-se a trabalhar para a indústria da lã. Do Estado social dem ocrata h ipotético,
que pretendia saber o que os jovens desejam fazer das suas vidas, à gigantesca
rede de radiodifusão, que insiste estar a dar às pessoas o que elas querem , não
vai um a grande d istância43. A ligação entre as duas ideias é especialm ente
fácilpara um a ciên cia social patrocinada por fundações e corporações. O m es
m o m odelo de pesquisa adequa-se a am bos os casos.
M as no final dos anos 20, à época de Jugend und Beruf, o que provavelm en
te não foi antecipado por Paul Lazarsfeld, nem pela teoria m arxista, foi que
um a nova form a de sociedade capitalista viria a emergir, prom etendo oferecer
- e, até certo ponto, oferecendo m esm o - um sim ulacro de prazer e de ócio,
algo que todas as form as de ideologia socialista tinham prom etido: um a versão
privatizada, com fronteiras de classes, m utilada, mas, de qualquer forma, uma
versão. Os Estados U nidos eram, e ainda são, a principal pátria desta socieda
de de consum o. «A cultura com ercial dos anos 20», com o refere Stuart Ewen,
«encobriu-se com os ideais “socialdem ocratas”, e estava programada para a
m anutenção do poder capitalista. A cultura com ercial esforçou-se para deixar
a dom inação corporativa do processo produtivo in tacta e, ao m esm o tempo,
continu ou a falar da procura de um a vida social m ais rica» (Ewen, 1 9 7 6 :1 9 7 ).
A ssim , a transição de Paul Lazarsfeld para as ciên cias sociais am ericanas não
foi tão d ifícil com o para outros refugiados, especialm ente os do Instituto de
Frankfurt. O consum ism o am ericano era apenas a transposição do tem a essen
cia l da social dem ocracia para um novo cam po. O invariável Leitmotif era a
lim itação das alternativas face à grande quantidade fornecida pelas autorida
des. N ovam ente Ew en: «Dentro da ideologia política do consum o, a dem ocra
cia surgiu com o um a expressão natural da produção industrial am ericana - se
não m esm o um subproduto do sistem a com ercial. A equação do consum o de
bens com a liberdade p olítica tornaram tal configuração possível» [Ibid.: 89).
Um teórico da actividade com ercial da época fala da «cidadania de massa»,
baseada no «processo da “descoberta de factos” - dando a conhecer a cada indi
víduo a variedade de bens». Outro teórico pronunciou-se sobre o com ércio, como
aquilo que determ ina «o que as pessoas consideram que vale a pena consumir».
«No entanto, dentro de cada um a destas noções de dem ocracia política [pros
segue Ewen], existia um a aceitação im plícita da centralização do processo
político . A dem ocracia nunca foi tratada com o algo que flu ía dos desejos e
necessidades das pessoas, mas era antes um a expressão da aptidão das pessoas
para participar e a lcançar o “pluralism o de valores” [a expressão pertence a
M ax H orkheim er], que era exibido perante as pessoas e filtrado em sentido
descendente, a partir dos directores de em presas» [Ibidem).
E, à m edida que a soberania política efectiva decaía, a soberania do con su
m idor crescia , de facto e na teoria. O Partido Socia lista am ericano de Eugene
Debs, que tinha obtido cerca de 6% dos votos nas eleições presidenciais de
1912, afundou-se num sectarism o fútil, no final da década, e, na m esm a altura,
um a com binação de repressão com alguma fraqueza interna liquidou o sind i
cato dos Industrial Workers o f The World. O populism o já estava m orto. S im u l
taneam ente, os Estados Unidos saíam da Prim eira Guerra M undial dom inando
a econom ia m undial, particularm ente nas indústrias de consum o autom óvel e
C om u n icação e S o c ied ad e 143
de bens electrónicos (rádio e cinem a)44. A m ultiplicação destes bens de consu
mo espectaculares, juntam ente com o aparato publicitário que a tornou possí
vel, fizeram aparecer o que M arcus Raskin cham ou a «colônia de sonho», uma
nova orientação na direcção da liberdade (Raskin, 1971). De novo Ew en sugere,
lucidam ente, o processo pelo qual a nova concepção se pôde desenvolver:
«A cultura de consum o cresceu em resposta à crise [social, nos anos 20] e ao
extraordinário crescim ento da capacidade produtiva, com a qual estava interli
gada. A m edida que a produção se alterou e o carácter social do trabalho se
tornou ainda m ais rotineiro e m onótono, a cultura de consum o surgiu com o o
domínio em que era possível obter gratificação e excitação - uma alternativa às
exigências mais radicais e anti-autoritárias... O objectivo era a consolidação de um
novo “carácter nacional”, ligado às exigências do capitalismo em expansão...
O desenvolvimento da publicidade e do consum ism o na década de 20 faz
parte de um a m udança m ais alargada no carácter da sociedade capitalista.
A propaganda com ercial não actuou como determinante da mudança, mas foi, de
d iv ersas form as, tanto um re flex o com o um agen te da tra n sfo rm a çã o .
A publicidade ergueu o estandarte da social democracia consumível num mundo
onde o grande desenvolvimento corporativo estava a eclipsar e a redefinir o espa
ço em que as alternativas críticas poderiam efectivam ente desenvolver-se...»45.
Ao longo do século XX, utilizando estratégias que Ew en desm ontou esque-
m aticam ente, o cap italism o iria esforçar-se por apresentar a soberania do con
sum idor com o o equivalente da liberdade, na visão com um e na linguagem
coloquial. («Se não gosta da televisão, desligue-a.» «Se não gosta de carros, não
os conduza.» «Se não gosta de estar aqui, volte para a Rússia.» «Se não gosta de
Crest, com pre Gleem .» «Se não gosta dos Republicanos, vote nos D em ocra
tas.») O pressuposto de que a escolha eqüivale à liberdade torna-se a base da
lógica racional, em todo o mundo das corporações globais, aquilo a que Richard
Barnet e Ronald M üller cham aram a visão do «centro com ercial global» (Barnet
e Müller, 1974). A ssim se desenvolve um a sociedade, em que o voto e a compra
de sabão, a escolha de um film e e a opinião política se tornam mais que equiva
lentes m etodológicos, em termos de objectos de estudo; tornam -se actos igual
m ente m anipuláveis e marginais que m uito prometem, mas que apenas oferecem
«bens» em balados em conservantes que não se podem saborear. Ao ignorar a
natureza sistêm ica e institucionalizada destes processos, e ao fundir os seus
im pulsos adm inistrativos, com erciais e social democratas, a sociologia am erica
na dom inante dos m eios de com unicação cum priu a sua parte na consolidação
e legitim ação do regime cornucópico capitalista de meados do século. O facto de
o paradigma dom inante estar, agora, a mostrar-se vulnerável à crítica em dife
rentes níveis é um indício do declínio da legitimidade capitalista, dos valores
com erciais e da autoconfiança política dos dirigentes. Mas essa é outra história.
Agradecimento
Agradeço a disponibilidade para o diálogo e os conselhos, tanto su bstanti
vos com o bibliográficos (embora não necessariam ente acatados), de Richard
144 C om u n icaçao e S oc ied ad e
Gillam, David Horowitz, Leo Lowenthal, David M atza e Jam es M ulherin. A pren
di esp ecialm ente com o criticism o interessado e a elaboração de um prim eiro
esboço, de A rlie H ochschild , M ichael Paul Rogin, A lan Wolfe, M artin Jay e
Tim Haight. A cim a de tudo, não poderia im aginar a tentativa de realizar este
trabalho sem o encorajam ento e a orientação instigadora de W illiam Kornhauser.
TODD GITLIN
1978, «Media Sociology: the Dominant Paradigm», Theory an d Society, n.° 6.
N o t a s
1 Sobre alguns afastamentos recentes de teóricos americanos relativamente ao paradigma dominan
te, ver os ensaios (Chaffee, ed., 1975); e, de forma mais básica (Gandy, 1976). Contra a ênfase lazarsfeldiana
sobre a influência limitada e mediada dos meios de comunicação de massa, o interesse geral nas funções
de agendamento (McCombs e Shaw, 1972: 176-187) é prometedor, mas ainda demasiado elementar e
ahistórico; analiticamente, abstrai tanto os meios de comunicação como as audiências da sua matriz
social e histórica. Em Inglaterra, a abordagem alternativa dos estudos culturais, influenciada pela teoria
cultural marxista e por «leituras»