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P R á T I C A C A M B I A L UNIDADE 1 A CONJUNTURA INTERNACIONAL E NACIONAL NA PRÁTICA CAMBIAL OBJETIvOs DE APRENDIzAgEM A partir desta unidade, você será capaz de: visualizar o contorno econômico internacional em que o Brasil está inserido e a sua relação com o mercado cambial; reconhecer os principais sócios comerciais do Brasil e como eles podem influenciar na taxa de câmbio do real; conhecer como funciona o mercado de câmbio internacional; saber por que os países precisam de reservas internacionais. TÓPICO 1 – CENÁRIO ECONÔMICO INTERNACIONAL TÓPICO 2 – PRINCIPAIS PAÍSES E BLOCOS ECONÔMICOS QUE INFLUENCIAM O COMÉRCIO INTERNACIONAL DO BRASIL TÓPICO 3 – O MERCADO CAMBIAL INTERNACIONAL TÓPICO 4 – O MERCADO CAMBIAL BRASILEIRO DURANTE AS ÚLTIMAS TRÊS DÉCADAS PLANO DE EsTUDOs Esta unidade está dividida em quatro tópicos. No final de cada um deles você encontrará atividades que o(a) ajudarão a fixar os conhecimentos adquiridos. P R á T I C A C A M B I A L P R á T I C A C A M B I A L CENÁRIO ECONÔMICO INTERNACIONAL 1 INTRODUÇÃO TÓPICO 1 UNIDADE 1 Caro(a) acadêmico(a), você sabe quantas transações que envolvem a prática cambial estão inseridas nos produtos que você compra no mercado? Na verdade é difícil de determinar, mas a prática cambial faz parte do dia a dia das transações internacionais. Estas transações não param de crescer ano a ano, acompanhando assim um processo de integração comercial constante e muito forte entre os diferentes países que fazem parte da economia mundial. Grande parte dessa integração é mais um reflexo do fato que na atualidade o mundo é um grande ambiente global, graças às inovações e aprimoramentos dos serviços logísticos e de comunicação. Assim, sob este cenário neste primeiro tópico vamos analisar e estudar: • Como funciona a economia internacional com seus diferentes mercados e necessidades, com suas diferentes opções de oferta de bens e serviços e com sua disponibilidade limitada de matérias-primas. Oferta limitada para um consumo de bens e serviços que aumenta todos os anos, reflexo claro da progressiva e ilimitada procura de novas necessidades humanas. • Como a economia mundial durante os últimos anos vem se transformando a passos muito rápidos, tanto assim que o cenário econômico mundial de hoje é muito diferente do cenário de 10 ou 20 anos atrás. • Como a abertura econômica do Brasil vem transformando nosso país e como esse aumento de produtos exportáveis brasileiros vem trazendo um impacto muito forte na oferta de produtos no comércio internacional. • Quais são os fatos que estão transformando o novo cenário econômico mundial. As perspectivas econômicas atuais vão mudar de maneira mais agressiva o comércio UNIDADE 1TÓPICO 14 P R á T I C A C A M B I A L internacional de bens e serviços, principalmente se analisarmos as perspectivas da nova classe média dos grandes países que não param de crescer, tais como o Brasil, a China e a Índia. Com tantas mudanças acontecendo lá fora e aqui no Brasil vamos começar a inter- relacionar os diferentes interesses que os países têm para atuar no comércio internacional. Interesses tais como: necessidade de matérias-primas, de tecnologia de ponta para aprimorar processos, mão de obra qualificada, produtos industriais com valor agregado, vantagens econômicas na produção de um bem em um país etc. Nesse contexto econômico mundial é que vamos começar a estudar a Prática Cambial. Logo, nos próximos tópicos vamos conhecer a relação direta do mercado de câmbio com a economia global. Vamos lá? 2 A ECONOMIA INTERNACIONAL Para satisfazer o aumento progressivo do consumo, os países têm aumentado a sua interdependência econômica, tornando hoje o comércio internacional uma atividade muito dinâmica. Nesse cenário de consumo e produção mundial de bens e serviços, os países procuram satisfazer suas necessidades primárias e progressivas no mercado mundial, produzindo uma rede matricial de inter-relações comerciais e monetárias que ninguém sabe onde começa nem onde termina. Seguramente você tem se perguntado: Mas quais são essas necessidades primárias dos países? Os países são formados por pessoas que precisam satisfazer a suas necessidades básicas, tais como moradia, deslocamento e alimentação. Esses tipos de necessidade são conhecidos em economia como necessidades básicas. E as necessidades progressivas? À medida que o ser humano vai progredindo, novas necessidades vão surgindo, tais como: roupa de moda, restaurantes, comida mais elaborada, educação, carros de luxo, lazer etc. Assim, essas necessidades (que não são básicas para sobreviver) são conhecidas como progressivas. Agora que temos mais clareza sobre como são classificadas essas necessidades, vamos ver como o mercado mundial faz para que o comércio internacional de mercadorias consiga satisfazê-las. Procura primeiramente as melhores regiões no globo para extrair matérias- primas, produzir insumos e bens de consumo e, em seguida, oferece bens e serviços onde UNIDADE 1 TÓPICO 1 5 P R á T I C A C A M B I A L 3 O NOVO CENÁRIO ECONÔMICO APÓS A CRISE INTERNACIONAL DE 2008 (CRISE SUBPRIME) sejam necessários. Com certeza o mercado por si só vai encontrar a melhor opção possível para produzir onde o custo/benefício for menor. Deste modo, um país pode ser competitivo produzindo máquinas industriais, outro tem mão de obra barata, outro tem disponibilidade de extrair e produzir matéria-prima a preços competitivos, e assim por diante. Assim existe um mix ponderado de exportações e importações entre quase todos os países do mundo, onde a prática cambial é uma peça chave. É nesse complexo, mas muito dinâmico comércio internacional, que a economia do mundo se desenvolve hoje em dia. A atividade econômica entre os países tornou-se interdependente de tal forma que não cabe mais uma nação se isolar do mundo. Hoje, as economias fechadas são bem poucas e as poucas que ainda existem apresentam uma economia muito pobre, com pouca dinâmica e com uma sociedade que consegue, com sorte, satisfazer apenas as necessidades básicas da maioria de sua população. Agora vamos analisar o novo cenário mundial. Antes da crise econômica mundial de 2008, o poder econômico mundial ainda estava concentrado principalmente nos EUA, na Europa (UE) e no Japão; pelo menos esta era a percepção geral, logo as decisões geopolíticas giravam em torno dessas economias. Depois da crise, entretanto, ficou bem mais claro como está mudando esse cenário mundial. Cabe lembrar que, embora a grande recessão começasse nos EUA, os países que mais sofreram e perderam poder econômico foram os países da União Europeia, com exceção da máquina econômica da Alemanha. Assim, ficou claro quais são os países ou regiões com maior capacidade de se adaptar à nova situação mundial. No ano da crise, 2008, muitos bancos quebraram e outros não graças à intervenção dos governos. Estes governos hoje têm dívidas públicas muito altas. Tal como a situação da Espanha: o governo ajudou muito seu sistema financeiro em problemas e logo passou a ter uma dívida bem alta em relação ao seu PIB, passando de 36,30% em 2007 a 68,50% em 2011. Segundo artigo econômico da Globo, “A dívida pública espanhola alcançará 79,8% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2012, contra 68,5% no fim de 2011 [...]”. (DÍVIDA..., 2012). Seguramente você está se perguntando: quais são esses países que estão concentrando agora o poder econômico? Com certeza os países do Primeiro Mundo, mas agora também entrarão no jogo de maneira direta e para ficar: a China, o Brasil, a Rússia e a Índia. A partir do ano 2009 a China se converteu no primeiro exportador do mundo, no ano 2011tornou-se UNIDADE 1TÓPICO 16 P R á T I C A C A M B I A L a segunda economia mundial. Assim, neste novo contexto mundial, as decisões econômicas e geopolíticas vão ter que ser negociadas entre todos os países, onde cada um, como país líder, representará uma região. Por exemplo, o Brasil poderá representar os interesses comerciais dos países da América do Sul. 4 FATOS QUE ESTÃO MUDANDO O CENÁRIO ECONÔMICO MUNDIAL 5 ABERTURA ECONÔMICA DO BRASIL Será que o cenário atual que acabamos de estudar vai ficar? Sob esse novo cenário é que o Brasil entrou no jogo das grandes potências que têm a força de influenciar a dinâmica da economia mundial. Desta maneira, por exemplo, o Brasil tem o poder de influenciar a oferta de certos produtos necessários para satisfazer as necessidades do consumidor mundial. Assim o Brasil está se convertendo numa peça chave, especialmente na produção de commodities para alimentar o mundo, como também para o fornecimento de energia. Em termos de capacidade agrícola: Há uma grande expectativa mundial do Brasil enquanto fornecedor mundial de alimentos, fibras e energia. A agricultura ocupa hoje 60 milhões de hectares. Somos os únicos no mundo a dispor de 100 milhões de hectares para crescer, sem contar áreas de preservação permanente. (NEVES, 2011, p. 29). Ou seja, o horizonte de terras agrícolas pode ser ampliado em 170%. Logo, faz sentido esse enorme interesse pela agroindústria nesta região do mundo. Vantagem competitiva que o Brasil tem que aproveitar para alavancar de uma maneira segura seu desenvolvimento econômico sustentável. Em termos internacionais, o Brasil é ainda considerado um país de economia relativamente fechada, se compararmos seu PIB em relação a suas exportações. Para você ter uma visão melhor deste fato, observe o quadro a seguir dos principais exportadores mundiais e a relação nas suas economias. UNIDADE 1 TÓPICO 1 7 P R á T I C A C A M B I A L QUADRO 1 – PRINCIPAIS EXPORTADORES DO MUNDO, EM TRILHÕES DE US$ Posição País Exportações PIB % 1 China 1.506 5930 25% 2 Alemanha 1.337 3286 41% 3 Estados Unidos 1.270 14527 9% 4 Japão 765 5488 14% 5 França 509 2563 20% 10 Reino Unido 406 2263 18% 17 Espanha 268 1395 19% 23 Brasil 200 2143 9% FONTE: Disponível em: <http://knoema.com/nwnfkne>; <http://www.nationmaster.com/graph/eco_ exp-economy-exports>. Acesso em: 24 jul. 2012. Contudo, se compararmos o Brasil de hoje com o Brasil de há três décadas, muito tem acontecido, e os esforços do país para se abrir ao mercado mundial têm sido enormes. Esforços que têm um reflexo direto na melhora de qualidade nos produtos consumidos hoje em dia no país. O processo de abertura iniciou na década de 90, quando o governo de Collor começou a fazer mudanças estruturais na política de comércio exterior brasileira. Após a queda do muro de Berlim e, por conseguinte, a queda do sistema comunista soviético, veio ao mundo uma nova ordem mundial, a globalização. Deste modo o Brasil foi pressionado para se integrar mais comercialmente com os outros países, através de acordos bilaterais e multilaterais. Neste contexto, nos anos 90, para melhorar a competitividade dos produtos e serviços produzidos no país, o governo brasileiro criou alguns programas tais como: o Programa de Competitividade Industrial e o Programa Brasileiro de Qualidade e Competitividade. Estes programas foram as diretrizes para uma política industrial e de comércio exterior, norteando assim recursos financeiros e, sobretudo, processos de inovação e aprimoramento industrial e/ou tecnológico. Os resultados desta nova política industrial fizeram com que as empresas mudassem sua perspectiva de geração de lucros. Antes desta década, na maioria das vezes, as empresas tentavam melhorar seus lucros através de ajustes financeiros e ganhos no mercado financeiro, pois praticamente não havia concorrência estrangeira. Depois deste período, no entanto, o jeito de enxergar a gestão de gerar lucros mudou para ficar. As empresas começaram a investir em processos de reestruturação em busca de competitividade, eficiência e qualidade, para poder assim se manter no mercado e aumentar as vendas internas e as exportações. Com a implantação desta nova política de comércio exterior, a maior parte das barreiras não tarifárias foi abolida, e as barreiras tarifárias foram reduzidas drasticamente. Sabe em quanto foram reduzidas? Na média houve uma redução de quase 60%. UNIDADE 1TÓPICO 18 P R á T I C A C A M B I A L Temos que lembrar que na década de 90 existia uma forte pressão da demanda interna, logo pressão inflacionária: momento econômico oportuno para implantar o Plano Real. Com a estabilização da moeda e a queda dos impostos de importação, o mercado interno foi invadido por produtos com preços competitivos, segurando a pressão da inflação. Este fato simbolizou mais um referente para a abertura comercial. Sob esse novo cenário é que as empresas nacionais tiveram que enfrentar a concorrência externa, procurando logo reduzir custos e otimizar processos, ou, caso contrário, poderiam simplesmente fechar. O fato foi um incentivo para a modernização e a inovação, através de importação de insumos e bens de capital. Assim se promoveu o dinamismo que ainda faltava à industria nacional diante dos desafios da globalização. Será que todo esse processo de abertura comercial foi tão fácil e não apresentou problemas? Mais adiante na Unidade 2 vamos analisar em mais profundidade o Plano Real e os outros efeitos não tão bons que influenciaram a economia brasileira. LEITURA COMPLEMENTAR O MUNDO GLOBALIZADO ESTÁ COM ENORME DIFICULDADE PARA ENCONTRAR A PORTA DE SAÍDA DA CRISE INICIADA EM 2008/2009 Sidnei Moura Nehme O mundo globalizado está com enorme dificuldade para encontrar a porta de saída da crise iniciada em 2008/2009 e que, desde então, revela-se mutante passando do sistema financeiro, que tornou pública toda sua irresponsabilidade no trato do crédito, para os governos que buscaram resgatá-lo e agravaram suas situações fiscais, embora também notoriamente tenha havido irresponsabilidades da grande maioria dos governos, especialmente na eurozona, no convívio com uma moeda nova e única desamparada por controles eficazes por parte das autoridades gestoras. Em perspectiva a crise pode, então, vir a atingir o todo, governos e sistemas financeiros, e globalizar-se provocando uma queda generalizada da atividade econômica. Esta perspectiva de agravamento da crise é o grande temor presente globalmente e deixa evidente que não se podem ter expectativas de melhora de curto prazo. Há um longo e penoso trajeto a ser transcorrido, antes que se possam vislumbrar melhoras. Na Europa, as autoridades buscam superar o quadro ambíguo e complexo, e está claro e evidente que os problemas não se limitam a recursos financeiros para evitar as quebras, mas há empecilhos relevantes de natureza política, com governos fragilizados e que não têm força e autonomia política para colocar em prática planos de austeridade visando a reordenamentos dos desmandos cometidos. Entre os países membros da comunidade da eurozona há enormes UNIDADE 1 TÓPICO 1 9 P R á T I C A C A M B I A L conflitos de interesses e recíprocas desconfianças e acusações, nem sempre expressadas publicamente, mas repercutidas através de movimentos das populações de cada país, que não querem se resignar a devolver o que conquistaram sem méritos efetivos de crescimento sustentável. O enorme aporte de liquidez da ordem de Euros 1,0 Tri não foi suficiente para levar o sistema bancário a restabelecer o crédito em abundância para reativar a atividade econômica, pois os riscos presentes inibem movimento neste sentidoe conduzem à “estocagem” destes recursos em aplicações no próprio BCE. Assim, o emprego e a renda são diretamente afetados e não se restabelece a atividade econômica sustentável. Nos Estados Unidos, epicentro do início da crise, parece que tudo que era possível já foi feito e não houve sucesso considerável na recuperação da renda e do emprego. As cifras injetadas pelo governo americano na economia foram dantescas, mas os resultados pífios, pois, da mesma forma que se vê agora na Europa, também não provocou a fluidez do crédito. O grande “sonho” dos mercados financeiros é que o governo americano, através do FED, venha a anunciar um novo plano de incentivo, o chamado “QE3”, para que inunde o sistema de liquidez e então se inicie nova rodada de euforismo sem causa, interferindo largamente na especulação com ativos no mercado global. Há uma velha máxima que diz que os sistemas financeiros não têm pátria, pois focam unicamente o lucro onde estiver a oportunidade. Quando vemos este tipo de comportamento, que ignora a situação crítica das economias, mas forja movimentos nos preços dos ativos como se nada tivessem a ver com o quadro real, sentimos que aquele pensamento está sendo validado. A China “começa a fazer água” e o mundo começa a olhar para a sua parte interior, suas imperfeições e dificuldades para efetivamente se tornar um país desenvolvido. Na última década se tornou a 2ª maior economia, passando França, Reino Unido, Alemanha e Japão e em alguns itens específicos com viés de superar os Estados Unidos. Responde por quase um décimo do PIB mundial, contudo os benefícios desta ascensão meteórica não estão sendo compartilhados igualmente por seus 1,4 bi de habitantes. O PIB chinês, quando dividido por sua população, representa US$ 9.143,00 per capita, algo como o 91º do mundo. Há nichos de grande opulência e riqueza nas cidades maiores, mas há enormes bolsões de pobreza na região rural onde o trabalhador recebe em torno de US$ 2,00 por dia. A renda na zona urbana é mais do que o triplo da zona rural. Para atingir padrões de país desenvolvido, o PIB deveria representar algo como US$ 15.000,00 per capita, e não parece que esta cifra será atingida tão rapidamente. UNIDADE 1TÓPICO 110 P R á T I C A C A M B I A L O país revela uma dependência externa maior do que percebida e tem um mercado interno insuficiente para dar suporte ao seu crescimento sem repercutir a queda de atividade das economias desenvolvidas. E isto está ganhando transparência mais acentuada neste momento. No Brasil, a Presidente Dilma apontou problemas cruciais para o travamento da atividade econômica. Mas acreditamos que podemos ter soluções paliativas temporárias, mas consistentes somente com reformas estruturais de grande abrangência. Dados, números que “são frios e não têm amigos”, demonstram nossas mazelas e o porquê não conseguimos crescimento sustentável. Nos últimos 7 anos os custos na produção brasileira, segundo dados disponíveis, cresceram 46% enquanto nos Estados Unidos 3,6%. A produção por hora trabalhada, entre 1980 e 2011, cresceu 18% no Brasil, enquanto nos Estados Unidos 66%, no Reino Unido 86% e na Turquia 203%. Esta é a guerra que precisamos enfrentar internamente com decisões firmes e amplas. Feito isto, será fácil nem percebermos a tal “guerra cambial”, pois teremos produtividade e competitividade. É perceptível que a investida do governo sobre os “spreads” bancários, que tornam o juro brasileiro descabidamente elevado, está alcançando resultados. Bancos privados sentiram o peso da intervenção do governo via bancos oficiais. O problema que resta é saber se a fluidez do crédito efetivamente ocorrerá, pois uma coisa é o discurso e outra é a prática. Há forte expectativa sobre o teor da Ata da mais recente reunião do COPOM para vislumbrar-se a possibilidade de novos cortes na SELIC. Acreditamos que a tendência de novos cortes esteja presente, pois decididamente o governo parece disposto a ousar nesta linha buscando compatibilizar a taxa de juro brasileira ao seu conceito internacional. O BC parece ter a percepção mais correta sobre os impactos desinflacionários da crise internacional no Brasil, sendo desnecessário afirmar, embora não destaque que atingirá nossa atividade econômica provocando retração nas expectativas sobre o crescimento do PIB. A estratégia câmbio em alta, juro em baixa e efeitos externos equalizando as pressões inflacionárias a ponto de anulá-las é uma equação que exige acompanhamento contínuo. E a nossa percepção é de que o governo tem consciência que o fluxo cambial tenderá a ser menos favorável, o que por si só exercerá pressão natural de alta no preço da moeda americana, mas busca administrar esta alta para monitorar se a inflação sustenta linha decrescente no país, o que é fundamental para que ambos os objetivos – dólar em alta e juro em baixa – ocorram na forma estratégica delineada. UNIDADE 1 TÓPICO 1 11 P R á T I C A C A M B I A L A alta do dólar é uma tendência, no nosso entender, na medida em que o fluxo cambial demonstrar-se menos favorável ou até negativo. Continuamos com a projeção de R$ 2,00 ou pouco mais para o final do ano. O governo certamente não descarta esta possibilidade, mas precisa acompanhar as repercussões benéficas da crise sobre a inflação brasileira que lhe possibilitará manter o juro baixo. Por isso, dentro do possível, busca administrar o mercado de câmbio e a formação do preço não deixando a elevação consolidar-se rapidamente, mas a força do mercado é muito forte e se o fluxo cambial tornar-se negativo de forma sustentável, não terá muitos espaços para induzir o comportamento, a menos que passe a vender dólares para os bancos, o que será constrangedor para quem alegou que estávamos sendo atingidos por “enxurrada de dólares” e “tsunami monetário”. O único entrave para um corte mais incisivo no juro é a problemática com as cadernetas de poupança, praticamente imutáveis em suas regras num ano eleitoral, face às repercussões negativas numa base enorme de beneficiários. Mas, como temos salientado, é tempo de observar, não há certezas, são crescentes, isto sim, as incertezas. Sidnei Moura Nehme, economista, diretor executivo - NGO Corretora de Câmbio FONTE: Adaptado de: <http://câmbionews.blogs.advfn.com/2012/04/24/o-mundo-globalizado-esta- com-enorme-dificuldade-para-encontrar-a-porta-de-saida-da-crise-iniciada-em-20082009-e- que-desde-entao-revela-se-mutante-passando-do-sistema-financeiro/>. Acesso em: 4 jun. 2012. UNIDADE 1TÓPICO 112 P R á T I C A C A M B I A L RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico você estudou: • Como funciona a dinâmica do comércio internacional, como era nossa economia há 20 anos e como é agora. • Que nosso país no passado sofreu com um processo de grande instabilidade interna, com uma inflação extremamente elevada. • Que grandes mudanças na economia mundial, com o efeito da globalização, deram origem a novas lideranças mundiais como a China, Índia e até mesmo o Brasil, principalmente no que tange à produção agrícola, abastecendo o mundo com forte crescimento no agronegócio. UNIDADE 1 TÓPICO 1 13 P R á T I C A C A M B I A L AUT OAT IVID ADE � 1 Quais os principais interesses econômicos que influenciam diretamente a dinâmica do comércio internacional? 2 Antes de 2008 a economia mundial era dominada principalmente pelos EUA e Europa. A partir de então surgiu uma nova ordem mundial, com o posicionamento de novas lideranças econômicas. Quais países são considerados os novos líderes mundiais no comércio? 3 Embora o Brasil tenha aberto suas portas para o comércio mundial, suas ações ainda são muito frágeis, levando-se em consideração que ainda não podemosnos considerar um país que vende produção com valor agregado em escala. Mas, apesar disso, em tempos passados a situação era muito pior. Quando começou o processo de abertura econômica do Brasil? UNIDADE 1TÓPICO 114 P R á T I C A C A M B I A L P R á T I C A C A M B I A L PRINCIPAIS PAÍSES E BLOCOS ECONÔMICOS QUE INFLUENCIAM O COMÉRCIO INTERNACIONAL DO BRASIL 1 INTRODUÇÃO TÓPICO 2 UNIDADE 1 Seguramente você deve se estar perguntando: Qual o motivo para estudar de novo os blocos econômicos, se já foram vistos nas outras disciplinas? Com a globalização e a acirrada concorrência internacional, os países têm a necessidade de formar blocos comerciais e econômicos, desenvolvendo assim grupos de países com mais força comercial diante da agressiva concorrência internacional. Assim, desenvolvendo esses blocos, os países conseguem melhores posições comerciais e financeiras, dando dinâmica ao fluxo internacional de capitais, com importantes implicações para o mercado de divisas, aprimorando o mercado de câmbio. É precisamente nesse contexto financeiro que vamos analisar os principais países e blocos econômicos que influenciam a economia do Brasil e, portanto, da posição do real perante as outras moedas. Assim, antes de estudar os principais parceiros do Brasil, vamos dar uma olhada no comportamento da Balança Comercial do Brasil, dos últimos anos. O comércio internacional do Brasil tem experimentado uma dinâmica de crescimento exponencial. Deste modo, pode-se observar que as exportações brasileiras das últimas décadas têm mostrado um comportamento extraordinário, com exportações de US$ 34 bi no ano de 1989 e finalizando o ano 2011 com mais de US$ 256 bi, ou seja, em 23 anos o aumento nas exportações foi de 653%! Fato que se pode alinhar com a abertura comercial que começou no governo do presidente Collor. Apesar deste extraordinário desempenho do comércio exterior das últimas décadas, o Brasil ainda é considerado uma economia relativamente fechada. Se você analisar o Brasil no ano de 2012, verá que ele passou para a 6ª potência econômica mundial, mas ainda fica na 20º posição entre os maiores importadores e na 22º entre os maiores exportadores do mundo. UNIDADE 1TÓPICO 216 P R á T I C A C A M B I A L Ou seja, para ficar numa posição equilibrada em relação ao tamanho de sua economia, o país deveria aumentar suas exportações até chegar a uma posição próxima à 6ª entre os maiores exportadores. Veja o caso da economia francesa, ela é a 5ª potência econômica e o 6º maior país exportador do mundo. Pode-se concluir que existe ainda um enorme potencial para ampliar o comércio internacional do Brasil nos próximos anos, para isso é preciso modernizar e dinamizar ainda mais o mercado cambial. Ainda que o Brasil mantenha uma economia relativamente fechada, as variações no comércio exterior trazem um impacto direto ao mercado cambial. Assim, podemos observar que, desde que começou o Plano Real, os anos de maior desvalorização aconteceram quando a balança comercial foi negativa, finais da década de 90, e quando o saldo desta teve queda durante a crise de 2008. Ou seja, o mercado cambial está diretamente relacionado ao movimento da balança comercial. Fato de que devemos nos lembrar sempre quando pensamos na posição do câmbio, como se pode conferir no seguinte gráfico: GRÁFICO 1 – BALANÇA COMERCIAL DO BRASIL, EM MILHARES DE US$, DESDE 1989 FONTE: Adaptado de: <http://www.mdic.gov.br//arquivos/dwnl_1331125742.pdf>. Acesso em: 24 jul. 2012. Se observarmos o gráfico, vamos ver que, quando a balança comercial ficou negativa ao final dos anos 90, o real sofreu desvalorização; do mesmo modo também se desvalorizou após a crise de 2008, data na qual o saldo da balança comercial decresceu. Ao contrário disso, podemos ver quando o saldo começa a se recuperar, ao longo da década de 2000 até o ano 2008. Ao longo de 2009, o real também teve momentos de valorização, pois nesses anos o saldo líquido da balança estava se recuperando. Seguindo esse padrão de comportamento, será que vamos experimentar um cenário de desvalorização do real a partir do ano 2012? A perspectiva do ano 2012 é de queda na balança comercial, pois, com a crise da dívida na Zona do Euro e as perspectivas negativas na economia mundial, a tendência nos preços das UNIDADE 1 TÓPICO 2 17 P R á T I C A C A M B I A L commodities é mesmo de queda. Logo, com mais de 70% das exportações em commodities (matérias-primas), não é improvável esperar uma queda no balanço de pagamentos. Desta maneira, o real poderia sofrer uma desvalorização, aliás, no segundo trimestre do ano 2012 já sofreu uma queda (pontual) de 16%, passando de R$ 1,72, em 1º de março de 2012, até R$ 2,00, no dia 16 de maio de 2012. Além deste panorama, devemos acrescentar a queda dos juros em 2012, o que poderá afetar ainda mais o déficit em conta corrente externa do Brasil, provocando saída de capitais de curto prazo, colocando assim mais pressão sobre o real. Para observar como se tem comportado a balança comercial do Brasil, vamos analisar o comportamento das importações e das exportações do Brasil em relação a seus principais sócios, no quadro a seguir. QUADRO 2 – PRINCIPAIS SÓCIOS COMERCIAIS DO BRASIL (IMPORTAÇÕES E EXPORTAÇÕES) FONTE: Adaptado de: <http://www.mdic.gov.br//arquivos/dwnl_1331125742.pdf>. Acesso em: 24 jul. 2012. UNIDADE 1TÓPICO 218 P R á T I C A C A M B I A L GRÁFICO 2 – PRINCIPAIS MERCADOS DE DESTINO DAS EXPORTAÇÕES FONTE: Adaptado de: <http://www.mdic.gov.br//arquivos/dwnl_1331125742.pdf>. Acesso em: 24 jul. 2012. Nestes dados podemos visualizar que o maior mercado internacional é a Ásia, que ganhou uma grande posição nos últimos anos. Além disto, é interessante observar que, embora o maior mercado seja, de fato, a Ásia, há uma boa ponderação entre os maiores parceiros. Nenhuma região tem mais de 30% das exportações totais, e, se, por exemplo, somarmos o MERCOSUL com o resto da América Latina, isso vai representar 22,40% do total das exportações. Outro dado interessante é que com todas essas grandes regiões o Brasil tem uma balança comercial positiva, com a exceção dos Estados Unidos e da África. Este fato e a saudável ponderação entre as várias regiões do mundo fazem com que a dinâmica do comércio internacional do Brasil seja muito flexível, bem estruturada e com uma fonte diversificada de divisas, atingindo estabilidade e sustentabilidade no comércio exterior brasileiro, logo estabilidade no câmbio. O grande ponto fraco do comércio internacional brasileiro é o aumento relativo das commodities nas exportações brasileiras, passando de 51% em 2000, do total das exportações, a 69,40% em 2011. Embora isso apresente riscos, devemos analisar que esse fato tem acontecido devido ao enorme e acelerado aumento na demanda externa, logo, na produção nacional, destas commodities. UNIDADE 1 TÓPICO 2 19 P R á T I C A C A M B I A L Tem sido tão rápido o aumento na exportação das commodities que o país não está conseguindo agregar valor a estes produtos básicos na mesma velocidade, já que não é possível montar fábricas para dar conta do processamento destes produtos básicos em poucos anos. Precisa-se de investimento, tempo, redução de impostos de produtos industrializados, planejamento e incentivos por parte do governo, ou seja, falta dinamismo para uma economia como a brasileira, que demora a reagir. No entanto, o governo da presidente Dilma e os empresários já estão se alinhando para dar mais valor agregado aos produtos exportáveis, através de projetos de industrialização e incentivos para aprimoramento e inovação nas agroexportações.GRÁFICO 3 – PARTICIPAÇÃO % DAS EXPORTAÇÕES POR BLOCO ECONÔMICO FONTE: Adaptado de: <http://www.mdic.gov.br//arquivos/dwnl_1331125742.pdf>. Acesso em: 24 jul. 2012. Caro(a) acadêmico(a), sobre este plano do governo para incentivar a indústria brasileira e as exportações, sugiro que você dê uma olhada no Plano Brasil Maior, em que se expõem, entre outros temas, alternativas para reduzir o custo Brasil. DIC AS! Para aprofundar seus conhecimentos, você pode acessar este plano através do material de apoio desta disciplina ou através do seguinte endereço: <http://www.brasilmaior.mdic.gov.br/>. UNIDADE 1TÓPICO 220 P R á T I C A C A M B I A L Para finalizar, é interessante observar que o grande comprador de matérias-primas é a Ásia. Os outros mercados procuram produtos brasileiros com maior valor agregado, em especial os países de América Latina e os Estado Unidos. Ou seja, analisando esses gráficos podemos ver que o Brasil deve se focar em: • Aprimorar a venda de commodities, especialmente para a Ásia, visando adicionar valor agregado a estas exportações, ou seja, produtos semimanufaturados, tal como óleo de soja. • Posicionar ainda mais os produtos com maior nível de desenvolvimento (valor agregado) nos mercados que já os estão demandando, por exemplo, o resto da América Latina e a América do Norte (Canadá e Estados Unidos). Também deve procurar novos mercados destes produtos na Ásia. Deste modo, o enorme potencial de crescimento das exportações brasileiras poderá atingir níveis mais sustentáveis, no tempo, o que poderá trazer para o real uma taxa de câmbio sem maiores variações e complicações, assegurando, portanto, desenvolvimento e estabilidade à economia brasileira. Agora vamos analisar aos principais parceiros comerciais do Brasil e as suas implicações para a taxa de câmbio. Vamos lá? 2 MERCADO COMUM DO SUL (MERCOSUL) Lembrando o que já foi estudado, a formação do bloco foi materializada no ano de 1991, na cidade de Assunção, com o chamado Tratado de Assunção entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. A partir desse momento começou a se desenvolver o processo de união aduaneira entre os quatro países, fato que vem influenciando e melhorando o comércio regional entre os países membros e entre outros países convidados como associados comerciais: Chile, Bolívia, Peru, Colômbia e Venezuela, este último em processo, talvez, de se converter em membro definitivo. Deste modo, está se incrementando a dinâmica do fluxo de capitais que entram e saem constantemente da região do MERCOSUL e da América do Sul como um todo. UNIDADE 1 TÓPICO 2 21 P R á T I C A C A M B I A L DIC AS! Caro(a) acadêmico(a), para ter maiores informações sobre o MERCOSUL, você pode acessar o seguinte site: <http:// alicewebmercosul.desenvolvimento.gov.br/>. Para conseguir esse objetivo de união aduaneira entre os quatro países membros, primeiramente foram eliminados os impostos de importação das mercadorias produzidas e exportadas para quaisquer destes quatro países membros. Logo, para atingir esse fim foi determinado que: nos processos de importação, o importador tem que receber por parte do exportador o Certificado de Origem do MERCOSUL, no qual expõe que: 1. O produto a produzir utilize pelo menos 60% de matéria-prima produzida em qualquer um dos países que formam o MERCOSUL. 2. E/ou que os insumos importados de terceiros países (extrabloco) passem por um processo de transformação que lhes confira uma nova identidade, em vista de criar indústrias que gerem valor agregado, além do simples processamento de matérias-primas. O segundo passo, para atingir a unificação aduaneira, foi definir a Tarifa Externa Comum (TEC). Porém, para que ela fosse definida, os países membros tiveram que passar por um processo de negociação de vários anos. Por enquanto, nem todos os associados têm o mesmo nível de desenvolvimento e força econômica, por isso o processo de demarcação da Tarifa Externa Comum tem sido desenvolvida gradativamente e com várias exceções e complicações no tempo. Em relação à posição cambial dos quatro países associados, o processo de integração comercial tem provocado vários impasses, desde o início do MERCOSUL, decorrentes da valorização e desvalorização de suas quatro diferentes moedas. Este quesito reflete como as dinâmicas econômicas díspares destes países podem afetar as relações comerciais a qualquer momento, principalmente entre os dois maiores sócios, a Argentina e o Brasil. Este impasse já aconteceu em 1999, quando o real foi fortemente depreciado atingindo uma posição frente ao dólar de R$ 2,21. Logo as mercadorias e serviços brasileiros ficaram bem mais competitivos dentro do MERCOSUL, principalmente em relação às mercadorias da Argentina. Acrescente-se o fato de que, nessa data, a moeda argentina estava bem sobrevalorizada em relação ao dólar, aumentando ainda mais a desvalorização do real no comércio entre os dois países. UNIDADE 1TÓPICO 222 P R á T I C A C A M B I A L Nesta conjuntura, para os argentinos a situação da economia foi devastadora na época, 1999, dependente do enorme mercado brasileiro. Por outro lado, para os brasileiros, foi uma medida necessária para evitar um colapso do real. Ou seja, neste exemplo podemos conferir que, quando acontece uma crise, os países procuram melhorar suas condições e posições de interesse, visando resguardar as condições macroeconômicas básicas. Se o governo brasileiro não tivesse desvalorizado o real, teríamos o agravamento da crise cambial, já existente, o que nos levaria para uma moratória da dívida externa. Não só o Brasil sofreria, mas também todos os países do MERCOSUL, particularmente a Argentina. (MAIA, 2011, p. 365). Tomando como exemplo essa situação entre o Brasil e a Argentina, e muitas outras conjunturas ao longo da história, temos que nos lembrar de que entre as nações não existem “amigos”, existem interesses que levam a um relacionamento de amizade e respeito. Esse relacionamento entre países faz com que se desenvolva um elo muito forte entre as taxas de câmbio e as posições relativas de competitividade das nações. Assim, no curto prazo, a desvalorização da moeda pode ajudar as exportações, como tem acontecido no Brasil e em muitos outros países. Porém, no longo prazo as vantagens comparativas da produtividade possuem muito mais peso na competitividade das nações. Na situação brasileira a competitividade industrial vem diminuindo em relação a outros países, no que diz respeito ao MERCOSUL, em relação à Argentina e ao Uruguai. Entre os problemas desta falta de competitividade brasileira está a pesada carga tributária e os altos juros, quesito muito importante na hora que uma empresa quer se estabelecer na região do MERCOSUL. Tanto assim que algumas empresas estrangeiras, e mesmo indústrias brasileiras, têm se estabelecido na Argentina e/ou no Uruguai para vender para o imenso mercado nacional. DIC AS! Para aprofundar este tema muito interessante, sugerimos acessar o seguinte artigo econômico do Estadão de São Paulo: <http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,custo-brasil-e- competitividade,685364,0.htm>. Sob a perspectiva das grandes diferenças econômicas e da competitividade entre os quatro países membros, seria possível o MERCOSUL desenvolver uma moeda comum? Caso fosse, seria conveniente? Levando em consideração essas questões, vamos analisar agora as vantagens e as desvantagens de uma moeda comum: UNIDADE 1 TÓPICO 2 23 P R á T I C A C A M B I A L Vantagens: • estabelece risco cambial zero entre os países membros; • elimina o protecionismo do amparo das taxas de câmbio. Desvantagens: Precisa-se: • definir um déficit orçamentáriomáximo que seja atingível; • combinar níveis mínimos de inflação; • estabelecer níveis máximos de dívida pública; • homologar a taxa de juros. As vantagens de uma moeda única podem ser muito boas e atraentes, mas se os países membros não tiverem suas economias bem harmonizadas e niveladas, com uma política monetária única, logo surgirão problemas muito maiores que as vantagens mais adiante. E, com certeza, extremamente complexas para solucionar, tal como a situação da UE (União Europeia) do ano 2012. Voltando para a pergunta inicial sobre uma moeda única para os países membros do MERCOSUL, a resposta pode ser que por enquanto essa ideia ainda está longe de ser atingida, pois os riscos são muito altos, além de os países ainda não estarem preparados. Se países de maior desenvolvimento, que passaram anos desenvolvendo o projeto do euro, estão encontrando sérios problemas com sua moeda única, cabe ao MERCOSUL aguardar e analisar melhor a situação. Entretanto isso não impede que algumas medidas já tenham sido tomadas para desenvolver uma trilha inicial que possa levar os sócios do MERCOSUL a uma possível alternativa de moeda comum no futuro. Em referência ao euro vamos analisar essa questão em profundidade mais adiante, pois é uma situação que vale a pena analisar por si só. 2.1 SISTEMA DE PAGAMENTOS EM MOEDA LOCAL (SML) Em vistas de começar essa trilha para atingir uma moeda comum e para reduzir os custos nas transações cambiais, o MERCOSUL (a partir de outubro de 2008) estabeleceu que o comércio regional não precisa comprar mais em dólares americanos. Desta maneira, foi formado o Sistema de Pagamentos em Moeda Local (SML). Exemplo: antes dessa data uma empresa brasileira que queria importar matéria-prima da Argentina tinha que vender reais para comprar dólares que logo seriam transferidos ao banco do exportador lá na Argentina. Logo, o exportador tinha que vender esses dólares para comprar moeda local, pesos argentinos. Portanto, com o Sistema de Pagamentos em Moeda UNIDADE 1TÓPICO 224 P R á T I C A C A M B I A L Local, pôde ser eliminada a intermediação do dólar nas transações entre os países membros, reduzindo custos no processo. A ideia foi muito adequada e desde essa data vem se desenvolvendo certa procura por essa modalidade de câmbio. Porém, na prática, o mercado cambial não tem aceitado essa modalidade, mantendo o dólar como moeda referencial na maioria das transações entre os países membros. Ou seja, o mercado ainda procura pelo dólar na hora de fazer as transações internacionais, mesmo entre países do mesmo bloco, tal como o MERCOSUL. DIC AS! Aprofunde-se no assunto, consultando SML (Brasil-Uruguai): <http://www.fiesp.com.br/derex/publicacoes/pdf/2.%20 daniel%20gersten%20reiss%20-%20banco%20central.pdf>; <http://www.aduaneiras.com.br/destaque/brasil_argentina_sml. asp>. 3 UNIÃO EUROPEIA Esse bloco econômico iniciou seu processo de integração no ano de 1952, com a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. Geopoliticamente essa época foi muito importante, sendo o primeiro passo para uma integração econômica e, pela primeira vez, num bloco de países, houve uma transferência real de alguns direitos de soberania. Hoje seu nome oficial é União Europeia (UE), depois de ter experimentado uma evolução constante no seu processo de integração e de aceitar novos membros. O bloco, quando foi criado, tinha seis membros: Alemanha Ocidental, Bélgica, França, Holanda, Itália e Luxemburgo. Atualmente conta com 27 países membros, com quase 500 milhões de pessoas, 23 línguas oficiais. Sendo assim é um dos mercados mais importantes para as exportações do Brasil. Neste tópico não vamos entrar em detalhes já estudados sobre este bloco. Agora vamos nos focar nas questões ligadas à prática cambial. UNIDADE 1 TÓPICO 2 25 P R á T I C A C A M B I A L 3.1 O TRATADO DE MAASTRICHT 3.2 O EURO COMO MOEDA ÚNICA DA UE Neste tratado datado do ano de 1992, foi desenvolvido o primeiro passo para uma integração monetária, tratado no qual os países do Mercado Comum Europeu mudaram seu nome oficial para União Europeia (UE). Neste tratado foram definidos os seguintes pontos: • Integração econômica: mercado sem fronteiras onde haverá independência política entre os países membros. • Banco Central Europeu (BCE): em Frankfurt foi estabelecida a sede do Banco Central, que iniciou como Instituto Monetário Europeu, para em 1999 se transformar em BCE. • Moeda única: foram estabelecidas as metas para a criação de uma moeda única, o euro. Essas metas são: • déficit orçamentário de 3% do PIB; • inflação com um mínimo de variação entre os países, assim foi estabelecida uma variação de 1,5% da média dos três países com menor inflação; • dívida pública de não mais de 60% do PIB. Após o tratado de Maastricht, e só depois de vários anos de negociações, o euro começou a operar a partir de 1999 e unicamente como moeda escritural entre os Bancos Centrais dos países membros. Bem depois, no começo do ano 2002, as cédulas das moedas dos diferentes países membros começaram a circular juntamente com as novas moedas e cédulas do euro. Em meados desse mesmo ano, o euro começou a circular livremente como moeda única, entre seus países membros, tirando assim de circulação todas as moedas nacionais. Hoje dos 27 países membros da União Europeia, 17 têm o euro como moeda única, os outros 10 países não a usam por diversos motivos. Primeiro, porque alguns deles são membros novos que estão em processo de cumprir as rígidas normas estabelecidas. Além disso, outros países como o Reino Unido, a Dinamarca e a Suécia não têm adotado o euro por questões internas, tais como: • O Reino Unido simplesmente, desde o início das conversações sobre a moeda única, estabeleceu não aderir à zona do euro. UNIDADE 1TÓPICO 226 P R á T I C A C A M B I A L • A Dinamarca e a Suécia, através de plebiscitos realizados no ano 2000 e 2003, respectivamente, rejeitaram o euro como moeda. Antes de entrar em mais detalhes sobre o euro e para visualizar como têm sido as flutuações do euro versus o dólar desde seu nascimento, vamos mostrar as taxas históricas em relação ao dólar. GRÁFICO 4 – COTAÇÃO DO EURO X DÓLAR AMERICANO DO PRIMEIRO MÊS DE CADA ANO FONTE: Disponível em: <http://www4.bcb.gov.br/pec/conversao/conversao.asp>. Acesso em: 24 jul. 2012. Podemos observar que o euro tem apontado variações bem fortes no seu histórico de taxa de câmbio, com perspectivas incertas depois de estourar a crise da dívida pública na zona do euro. Crise que está se aprofundando em 2012, logo muitos investidores e o comércio mundial estão à espera dos acontecimentos. Apesar desta situação complexa, desde que começou a moeda única, o euro vem trazendo as seguintes vantagens: • Melhorou a posição financeira dos países europeus, como bloco perante o dólar em nível mundial. Deste modo, atingiu perspectivas de concorrer com o dólar como moeda nas negociações internacionais. O posicionamento do euro tem sido tão importante, e case de sucesso econômico, que em pouco mais de uma década de seu nascimento em qualquer país do mundo podem-se trocar euros por moedas nacionais. UNIDADE 1 TÓPICO 2 27 P R á T I C A C A M B I A L • Conseguiu reduzir os gastos administrativos, decorrentes da eliminação dos custos das transações das negociações de câmbio entre os países que adotaram o euro, trazendo maior estabilidade ao fluxo das exportações e importações entre esses países. • Estabeleceu uma política macroeconômica estável dentro da zona do euro, impedindo políticas inadequadas aos interesses comuns dos países membros. Melhorou muito o nível da classe média, especialmente dos países mais pobres dobloco. Assim, é difícil não aceitar as melhorias que o euro tem trazido aos países europeus. Entretanto, o futuro da moeda única e até da economia mundial estão em risco. A partir da crise financeira do ano de 2008, o euro vem apresentando um cenário instável e falta de dinâmica para reagir ao estancamento econômico mundial. Situação que ficou bem mais evidente em 2010, quando iniciou a crise dos mercados financeiros da dívida pública da Grécia, Irlanda e Portugal, que logo se espalharam para a Espanha e Itália. Em 2012 as dívidas da França, Holanda e da Bélgica também começaram a dar sinais de risco, ou seja, o efeito “dominó”, tão temido, da dívida pública começou de fato. Seguramente, caro(a) acadêmico(a), você deve se perguntar: mas por que se apresenta a crise da dívida nos países do euro? Existem várias respostas e pontos de vista diferentes, porém os analistas econômicos e financeiros apontam um fator em comum para essa crise: a dívida pública para socorrer os bancos que quebraram quando estourou a crise internacional em 2008. Aliás, crise que tem sido a pior desde a grande depressão dos anos 30 do século passado, cujas sequelas ainda não terminaram. Nesta crise o Brasil não sofreu muito e, o mais importante, não teve implicações pós-crise graves, ainda. Por enquanto, o Brasil estava bem preparado macroeconomicamente e houve a boa procura das commodities pela China e Índia, que ajudou e muito. Como já se falou, os países da zona do euro, para socorrer seus bancos, começaram a incrementar sua dívida pública e ultrapassaram o limite estabelecido em 60%. Se não tivessem feito isso, os bancos com problemas poderiam ter entrado em falência criando um efeito dominó, o que poderia começar uma bola de neve cujo fim ninguém saberia prever. Os países de menor competitividade da zona do euro, principalmente os do Sul, não conseguiram nivelar seus orçamentos, começando assim um aumento no déficit público em mais de 8%, em alguns casos ultrapassando 10%. Esse fator implicou aumento do peso da dívida pública, estourando ainda mais o limite de 60% estabelecido. Em vistas desse problema, a União Europeia estabeleceu fortes medidas de austeridade, piorando ainda mais a situação econômica das pessoas e reduzindo as receitas de impostos dos governos. Como os consumidores reduziram seu consumo, seguidamente as empresas começaram a fechar e a demitir. Ou seja, os déficits públicos seguiram aumentando, aumentou o desemprego, as famílias reduziram sua capacidade de consumo, as receitas dos governos seguiram diminuindo, UNIDADE 1TÓPICO 228 P R á T I C A C A M B I A L em consequência começou um círculo onde a dívida pública não parava de crescer. Mas, agora, você deve se perguntar: qual é a relação entre esse problema da dívida e a moeda única? A resposta é muito simples, mas muito complexa nas suas implicações: fixar uma moeda única para economias muito diferentes e com diferentes níveis de competitividade cria problemas. Deste modo, fica muito complexo combinar uma política monetária única para esses países. Se cada um deles tivesse suas próprias moedas nesses momentos de crise, a solução direta e simples seria a desvalorização de suas moedas. Para explicar esse raciocínio, vamos analisar um exemplo: um trabalhador espanhol tem, mais ou menos, o mesmo salário que um trabalhador alemão, logo tem a mesma capacidade de consumo, certo? Certo, porém a produtividade do alemão é bem maior, ou seja, a Espanha e os outros países com problemas têm salários supervalorizados. Desta maneira, as empresas da Espanha não dão conta da concorrência com seus irmãos alemães. O resultado é uma taxa bem maior de desemprego. Nesta situação, se a Espanha, como mero exemplo (também poderia ser a Itália), tivesse sua própria moeda, o mercado cambial desvalorizaria a moeda deste país, assim nivelando a capacidade relativa destas duas economias. Talvez o trabalhador espanhol não fosse tão rico quanto o alemão, mas pelo menos teria trabalho. É neste cenário que o euro enfrentará seu maior desafio desde sua criação. Seus países membros deverão ceder posições políticas e ainda soberania e terão que flexibilizar seu mercado de trabalho. E o mais importante, os países terão que fazer reformas políticas visando a estruturas fiscais combinadas; terão que unificar a política monetária, tornando o Banco Central Europeu o único Banco Central dos países da UE, e que deverá ser 100% independente na tomada das decisões monetárias. Atualmente cada país tem certa liberdade monetária, pois: Na zona do euro, cada governo nacional pode utilizar o Banco Central para financiar seus déficits. Os custos destes déficits podem ser parcialmente ex- ternalizados e jogados sobre os outros países, onde eles se transmutam em aumentos de preços. (BAGUS, 2012). Com a atual estrutura monetária da UE ficou em evidência a falta de capacidade de agir em situações extremas, como tem sido a crise do ano 2008. Portanto, uma unificação real da política monetária poderá ser uma saída à atual crise do euro, tornando assim a União Europeia realmente uma federação de nações, com poder político e monetário semelhantes ao de um país só. Caro(a) acadêmico(a), sob uma perspectiva econômica das forças do mercado cambial, é que fica muito interessante uma análise da situação atual do euro. Só o tempo vai nos indicar o caminho final que terá esse grande projeto de moeda única entre tantos e tão diversos países. UNIDADE 1 TÓPICO 2 29 P R á T I C A C A M B I A L Esta experiência poderá nos servir como case de estudo comparativo para analisar se realmente vale a pena, ainda, desenvolver o projeto de moeda única aqui no MERCOSUL. 3.3 O BRASIL E A RELAÇÃO COMERCIAL COM A UNIÃO EUROPEIA (UE) O Brasil vem tendo uma relação comercial muito boa com os países europeus durante as últimas décadas, tanto assim que muitas empresas de lá têm investimentos, fábricas ou parceiros brasileiros na produção de seus produtos. Se dermos uma olhada na balança comercial com a UE desde os anos noventa, ela vem se mantendo estável e em constante aumento monetário, com saldos favoráveis na maioria dos anos. Só para lembrar, uma balança comercial positiva sempre favorece o país e fortalece a posição do real frente ao euro, neste caso. Em termos relativos, essas exportações à UE têm se mantido num padrão entre 22% até 30% do total das exportações do país, logo, a UE é de fato um dos grandes parceiros do Brasil, pois não só compra matéria-prima, mas também produtos com valor agregado. A seguir vamos mostrar um gráfico visualizando o histórico da balança comercial com a UE. GRÁFICO 5 – EXPORTAÇÕES AOS ESTADOS UNIDOS EM BILHÕES DE US$* * Eixo vertical: valores em milhões de dólares, eixo horizontal: o ano das exportações. FONTE: Disponível em: <http://www.desenvolvimento.gov.br/sitio/interna/interna. php?area=5&menu=3385&refr=576>. Acesso em: 24 jul. 2012. 1 2 1 2 UNIDADE 1TÓPICO 230 P R á T I C A C A M B I A L Como podemos observar, a cesta das exportações à UE vem sendo mais ou menos 50% em commodities e os outros 50% produtos industriais e semi-industriais. É uma mistura favorável ao Brasil, pois, se os preços das commodities caírem, o impacto nos preços não será tão forte como para outras regiões, tal como com a China. Agora, sob a perspectiva da prática cambial, vamos analisar mais um bloco econômico ou país, os Estados Unidos. 4 ESTADOS UNIDOS Embora os Estados Unidos não sejam um bloco econômico, ainda assim pelo enorme tamanho de sua economia vale a pena analisar a sua importância comercial para o Brasil, pois, por si sós, são a maior potência econômica. Os Estados Unidos ainda são o líder econômico e da inovação. Se compararmos sua economia comas maiores do mundo, poderemos visualizar quão grande é seu poderio. Para visualizar isto, observe o quadro comparativo do PIB (Produto Interno Bruto) do ano 2010, das principais economias do mundo. Cabe lembrar que para o ano 2011, o Brasil ultrapassou o Reino Unido, e agora já é a sexta potência econômica mundial. QUADRO 3 – PIB 2010 PAÍS PNB/2010 1 ESTADOS UNIDOS 14.582 2 CHINA 5.879 4 JAPÃO 5.498 3 ALEMANHA 3.310 5 FRANÇA 2.560 6 REINO UNIDO 2.246 7 BRASIL 2.087 Bloco de países da União Europeia* 16.747 FONTE: Disponível em: <http://siteresources.worldbank.org/ DATASTATISTICS/Resources/GDP.pdf>. Acesso em: 24 jul. 2012. NO TA! � *Como a União Europeia não é um país, não existem dados referenciais no Banco Mundial, logo foram tomados os dados do site da União Europeia, disponíveis em: <http://epp.eurostat. ec.europa.eu/portal/page/portal/eurostat/home/>. UNIDADE 1 TÓPICO 2 31 P R á T I C A C A M B I A L Como se pode observar, a segunda economia do mundo (China) representa 40% da maior economia, EUA. Só juntando todos os países da União Europeia é que eles, como bloco, conseguem ultrapassar a maior economia em 15%. Aqui só vamos analisar os valores da balança comercial entre o Brasil e os Estados Unidos, pois, depois da China, é o segundo sócio comercial do Brasil, com 13% do total das exportações. Assim vamos comparar seu histórico com o total das exportações, como também vamos ver as possíveis implicações para a posição do câmbio. Embora as exportações aos Estados Unidos não tenham experimentado o mesmo crescimento exponencial como as da Europa, também têm um comportamento de aumento considerável. E o mais importante, a participação das exportações de produtos com valor agregado tem aumentado consideravelmente em relação às matérias-primas, como se pode ver na continuação: GRÁFICO 6 – EXPORTAÇÕES AOS ESTADOS UNIDOS, EM BILHÕES DE US$* * A linha 1 representa as exportações com valor agregado e a linha 2, as exportações de matérias-primas. FONTE: Disponível em: <http://www.desenvolvimento.gov.br/sitio/interna/interna. php?area=5&menu=3385&refr=576>. Acesso em: 24 jul. 2012. Talvez você esteja se perguntando: por que é interessante que as exportações tenham maior proporção de valor agregado? Porque assim a cesta dos produtos exportados fica menos sensível às variações drásticas nos preços das commodities, portanto a relação exportações/importações (a balança 1 2 UNIDADE 1TÓPICO 232 P R á T I C A C A M B I A L comercial) tem menos risco de sofrer quedas bruscas, que podem afetar muito a posição do real perante as outras moedas. Do lado da composição das exportações, a estrutura comercial com os Estados Unidos é muito boa. Porém, as importações deste país nos últimos anos têm disparado de maneira drástica, como se pode observar em seguida: GRÁFICO 7 – BALANÇA COMERCIAL COM OS ESTADOS UNIDOS EM BILHÕES DE US$ Assim, pode-se observar no gráfico que a balança comercial tem apresentado uma queda acentuada a partir de 2006, estabilizando-se na ordem dos US$ 8 bi negativos, desde 2008. Se analisarmos mais profundamente esse aumento das importações dos Estados Unidos, vamos ver que a maioria delas são bens de capital e fertilizantes, para suprir, principalmente, o aumento da produção de commodities para outros mercados de exportação, especialmente o agronegócio. Além da importância comercial com os Estados Unidos, existe um fato geopolítico, muito importante, na agenda do Brasil e dos Estados Unidos. A questão do aumento quase exponencial na procura de energia e na procura de alimentos: necessidades que já têm e vão ter um peso muito forte nas próximas décadas. É neste quesito que os dois países têm potenciais enormes para desenvolver ainda mais, eis a nova amizade geopolítica. Na questão energética, os Estados Unidos têm desenvolvido uma tecnologia de ponta que vai revolucionar a geração e o consumo de energia, permitindo explorar e extrair gás em enormes quantidades. Isto poderá mudar a posição, deste país, de importador de energia a exportador de energia, pois, conforme artigo da BBC Brasil: FONTE: Disponível em: <http://www.desenvolvimento.gov.br/sitio/interna/interna. php?area=5&menu=3385&refr=576>. Acesso em: 24 jul. 2012. UNIDADE 1 TÓPICO 2 33 P R á T I C A C A M B I A L Até 2008, os americanos importavam do Canadá cerca de 13% do gás con- sumido no país, segundo um relatório da consultoria KPMG. Hoje, com a exploração das reservas de xisto, não só o país se tornou autos- suficiente, como já pensa em exportar. Para completar, o preço do produto está caindo de forma acentuada, com os custos de extração cobertos pela venda de outros produtos químicos produzidos no processamento do gás. (BBC BRASIL, 2012). Em vista desta nova posição privilegiada da maior potência econômica do mundo, os dois países têm se aproximado politicamente nestes últimos anos. O Brasil, com suas reservas do pré-sal, será um parceiro chave no negócio energético do futuro com os Estados Unidos, compartilhando tecnologia de ponta e o enorme mercado energético mundial. Na segunda questão (o enorme mercado mundial de alimentos), o Brasil é muito importante para os Estados Unidos. Por enquanto, o aumento constante da população mundial faz o Brasil ter muita importância, pois somos o único país do mundo que tem a capacidade de aumentar seu horizonte agrícola em 170%, sem mexer nas florestas. Assim, as necessidades de fertilizantes, bens de capital e tecnologia de ponta no agronegócio são quesitos de interesse para os dois países, pois os Estados Unidos são um dos principais fornecedores mundiais. Sob esta perspectiva de liderança internacional destes dois enormes mercados estratégicos mundiais, é que a parceria entre os Estados Unidos e o Brasil está se aproximando. Portanto, no longo prazo é de se esperar que o dólar vá manter sua liderança como moeda internacional, fato importante para as taxas cambiais do real para com as outras principais moedas internacionais. Caro(a) acadêmico(a), agora vamos ver a posição comercial que o Brasil tem com a segunda potência econômica e o principal sócio comercial do Brasil, a China. É um mercado estrategicamente importante para a posição do real no mercado internacional. 5 A ÁSIA E A CHINA Assim como vimos, a Ásia vem sendo o maior sócio comercial do Brasil dos últimos anos. A Ásia tem uma população de mais de 4 bilhões de pessoas, quase 60% da população mundial; a sua grande maioria é pobre, mas está mudando de maneira acelerada para os padrões de classe média dos países ocidentais. Eis o grande diferencial desta região: populações enormes acostumadas a viver com bens de subsistência e em poucos anos começaram a ter acesso a novos bens de consumo, gerando uma procura simplesmente enorme de bens de capital e matérias-primas. Há mais de 10 anos quem liderava esta região era o Japão e, em menor escala, a UNIDADE 1TÓPICO 234 P R á T I C A C A M B I A L Coreia do Sul, únicos países com economias desenvolvidas. A China, no entanto, com uma taxa de crescimento de mais de 10% durante as três últimas décadas, com a maior população do mundo e com o terceiro maior território mundial, tirou essa liderança do Japão. Embora a China seja ainda considerada uma economia subdesenvolvida, possui: • vastos recursos naturais; • mão de obra muito barata, pois tem milhões de camponeses migrando para as cidades à procura de emprego, com salários muito baixos, nas fábricas montadas pelos novos empresários, empresas desenvolvidas com empréstimos baratos através do governo central comunista; • governo centralista que planeja tudo com vistas para se converter num país desenvolvidonas próximas décadas. Sob estas condições principais, a China tem se desenvolvido em níveis impressionantes, elevando ano após ano os preços internacionais das matérias-primas. Este fato tem trazido crescimentos exponenciais ao seu poderio econômico, o que, aliás, tem mantido, juntamente com a Índia, os preços das commodities em constante alta, apesar da grande crise mundial desde 2008. Esse enorme crescimento na procura por commodities, principalmente da China e da Índia, alinhado à nova fronteira agrícola do Brasil e seu grande mercado interno, é que tem trazido à economia nacional oportunidades únicas que fizeram a atenção do mundo se voltar para o Brasil como país líder no agronegócio. Assim o Brasil se converteu em peça chave na geopolítica mundial das próximas décadas. Apesar desta oportunidade para a economia brasileira, não deixa de haver riscos que precisam ser bem ponderados pelo governo e pelos empresários. Conforme veremos a seguir, a balança comercial da China em sua grande maioria é composta pela exportação de commodities sem nenhum valor agregado. UNIDADE 1 TÓPICO 2 35 P R á T I C A C A M B I A L GRÁFICO 8 – EXPORTAÇÕES À CHINA DESDE 1989 ATÉ 2011, EM MILHARES DE US$ FONTE: Disponível em: <http://www.desenvolvimento.gov.br/sitio/interna/interna. php?area=5&menu=3385&refr=576>. Acesso em: 24 jul. 2012. GRÁFICO 9 – BALANÇA COMERCIAL COM A CHINA, DESDE 1989 ATÉ 2011, EM MILHARES DE US$ FONTE: Disponível em: <http://www.desenvolvimento.gov.br/sitio/interna/interna. php?area=5&menu=3385&refr=576>. Acesso em: 24 jul. 2012. Como podemos observar, o crescimento das exportações para a China durante as últimas décadas é simplesmente abismal. Começou com US$ 628 milhões de exportações totais em 1989 e terminou em 2011 com mais de US$ 44 bilhões, e com uma balança comercial positiva em US$ 11.5 bilhões (também em 2011). Como já foi comentado, caro(a) acadêmico(a), a maioria destas exportações é matéria- UNIDADE 1TÓPICO 236 P R á T I C A C A M B I A L prima sem nenhum valor agregado. Assim, em 2011, dos 44 bilhões de exportação, 37 bilhões correspondem à pura matéria-prima, ou seja, 84% das exportações. Com esses valores qualquer queda nos preços das commodities pode trazer problemas à balança comercial brasileira, portanto riscos à economia e à taxa de câmbio do real. Essa situação não muda para o resto da Ásia, que compra R$ 36 bilhões do Brasil, ou seja, a China representa 60% e o saldo de 40% representa o resto da Ásia. Apesar de isto ser um fator de risco, a boa diversificação das exportações brasileiras para as outras regiões do mundo faz este risco ponderável em proporção relativa à economia brasileira, pois temos duas situações importantes: • As exportações à Ásia representam 30% do total. Ou seja, o Brasil não é dependente demais deste mercado, como já aconteceu com os Estados Unidos há mais de 20 anos. • As exportações totais representam 10% do PIB do Brasil. Portanto, a demanda interna brasileira é muito grande em relação às exportações. Eis o fato por que se diz que o Brasil é uma economia pouco aberta internacionalmente. Assim, em tempos de crise internacional e com uma macroeconomia em boa situação, o Brasil tem a capacidade de avaliar quedas na demanda externa e, logo, incentivar a demanda interna. Assim já foi feito em 2009 após a crise de 2008, e o governo está fazendo novamente no ano de 2012, com a crise do euro. No entanto, apesar destas vantagens da economia brasileira, sempre é necessário avaliar as implicações das estruturas do mercado. Temos que estar cientes, por exemplo, que qualquer alteração na procura dos produtos que a China compra (e resto da Ásia) traz implicações à economia nacional, e um dos primeiros reflexos disto são as variações no tipo de câmbio, ou seja, mudanças diretas no mercado de divisas. 6 NAFTA NAFTA (North American Free Trade Agreement) quer dizer: Tratado Norte-Americano de Livre Comércio. Este tratado envolve os três países que fazem parte do continente norte- americano, ou seja, Canadá, Estados Unidos e México. O tratado entrou em vigor em 1º de janeiro de 1994, logo depois o Chile aderiu como associado. Neste tratado, como o nome já diz, seu principal alvo é o livre comércio entre os países membros, diferente da União Europeia ou do MERCOSUL. Ou seja, não cria um conjunto de corpos intergovernamentais. UNIDADE 1 TÓPICO 2 37 P R á T I C A C A M B I A L Entre os principais objetivos deste bloco estão: • zero impostos de importação (barreiras alfandegárias) entre os países membros, facilitando deste modo o livre comércio de bens e serviços; • permitir oportunidades de investimento, analisando as vantagens comparativas de seus membros; • defender os direitos de propriedade intelectual, um dos quesitos que têm trazido polêmica. Por enquanto, segundo vários analistas, amparadas por esses direitos de propriedade intelectual, muitas multinacionais americanas poderiam impor seus interesses acima dos interesses nacionais. Talvez você esteja se perguntando: o Brasil teria interesses neste tratado? De uma maneira direta, quase nenhum, mas de maneira indireta sim. Através do México, o Brasil tem desenvolvido muitos tratados bilaterais a fim de aproveitar a proximidade desse país com a maior economia do mundo e devido aos investimentos que os Estados Unidos têm trazido à economia mexicana, depois da assinatura do tratado. Deste modo, o intercâmbio comercial entre Brasil e México tem melhorado e muito, tanto assim que existem empresas brasileiras com fábricas lá no México para atingir o mercado americano. Logo, o Brasil tem recebido remessas financeiras dos lucros gerados destas empresas. Remessas financeiras e intercâmbio comercial que dinamizam o comércio internacional do Brasil e a posição do real em relação às outras divisas do mercado cambial. LEITURA COMPLEMENTAR O QUE CAUSOU A CRISE ECONÔMICA MUNDIAL ENTRE 2008 E 2009? A causa da crise que vivemos foi o desequilíbrio na maior economia do mundo, os Estados Unidos. E os ataques de 11 de setembro têm a ver com isso. “Depois da ofensiva terrorista, o governo americano se envolveu em duas grandes guerras, no Iraque e Afeganistão, e começou a gastar mais do que deveria”, diz Simão Davi Silber, professor do departamento de economia da Universidade de São Paulo (USP). Para piorar a situação, ao mesmo tempo em que o país investia dinheiro na guerra, a economia interna já não ia muito bem – uma das razões é que os Estados Unidos estavam importando mais do que exportando. Em vez de conter os gastos, os americanos receberam ajuda de países como China e Inglaterra. Com o dinheiro injetado pelo exterior, os bancos passaram a oferecer mais crédito, inclusive a clientes considerados de risco. Aproveitando-se da grande oferta a baixas taxas de juros, os consumidores compraram muito, principalmente imóveis, que começaram a valorizar. “A expansão do crédito financiou a bolha imobiliária, já que a grande procura elevou o preço dos imóveis”, diz Silber. Porém, depois disso, chegou uma hora em que a taxa de juros começou UNIDADE 1TÓPICO 238 P R á T I C A C A M B I A L a subir, diminuindo a procura pelos imóveis e derrubando os preços. Com isso, começou a inadimplência – afinal, as pessoas já não viam sentido em continuar pagando hipotecas exorbitantes quando as propriedades estavam valendo cada vez menos. Nesse momento, faltou dinheiro aos bancos, que em um primeiro momento foram ajudados pelo governo americano. Só que, ao mesmo tempo, surgiram críticas a essa política de socorro aos banqueiros. Frente à pressão política, a Casa Branca decidiu que não ia mais interferir, deixando o banco Lehman Brothers quebrar.O fechamento do quarto maior banco de crédito dos Estados Unidos causou pânico e travou o crédito. Chegou a crise, que prejudica também o nosso país. “Sem crédito internacional, também diminui o crédito no Brasil, caem as exportações e o preço das nossas mercadorias aumenta o risco e a taxa de juros”, explica Silber. O economista também afirma que as recessões são recorrentes, mas essa é maior do que de costume. “Uma crise dessa intensidade não é comum, a mais parecida com ela foi a de 1929”, afirma Silber. FONTE: Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/geografia/fundamentos/causou-crise- economica-mundial-470382.shtml>. Acesso em: 4 jun. 2012. UNIDADE 1 TÓPICO 2 39 P R á T I C A C A M B I A L RESUMO DO TÓPICO 2 • Neste tópico você aprendeu sobre os principais blocos econômicos e suas relações. • Você conheceu por que a abertura econômica do Brasil ainda é tímida perante outros países emergentes como China e Índia, embora o volume de exportações tenha crescido nos últimos 20 anos cerca de 650%. • O país ainda ocupa frágil posição em exportações, em percentuais sobre o PIB, comparado aos países já citados. • Você conheceu os principais parceiros comerciais do Brasil, principalmente o continente asiático, que representa em torno de 30% do volume de exportações brasileiras. • Você constatou os constantes conflitos do Mercosul entre Brasil e Argentina, sendo este o maior entrave econômico da região sul da América do Sul. • Você aprendeu sobre o Mercado Comum Europeu e sua moeda única, o euro, que deu nova dinâmica às práticas cambiais em escala mundial, fazendo frente ao dólar americano. • Agora você está pronto(a) para realizar as autoatividades do tópico. Até o próximo tópico! UNIDADE 1TÓPICO 240 P R á T I C A C A M B I A L AUT OAT IVID ADE � 1 Quais são os principais mercados de destino das exportações brasileiras? 2 Compreendendo o comércio mundial e o posicionamento das principais economias mundiais, o que o Brasil deverá fazer para buscar uma melhor posição? 3 No comércio entre os países do MERCOSUL, o que deve ocorrer com uma matéria- prima ou insumo que foi adquirido extrabloco? 4 Quais são as vantagens de haver uma moeda única no MERCOSUL? 5 Quais são as desvantagens de haver uma moeda única? 6 O que determinou o tratado de Maastricht? P R á T I C A C A M B I A L O MERCADO CAMBIAL INTERNACIONAL 1 INTRODUÇÃO TÓPICO 3 UNIDADE 1 Agora que já temos um panorama do mercado internacional onde o Brasil tem interesses comerciais, vamos passar a estudar o mercado de câmbio em si, ou seja, os parâmetros sob os quais esse mercado atua e os conceitos que o definem. Nem sempre o mercado de câmbio foi da forma como é conhecido por nós hoje. Antes da década de 70, existia o padrão ouro, mercado onde as moedas eram fixadas ao valor do ouro, assim cada país podia emitir sua moeda de acordo as reservas que tinha em ouro. Nos primeiros anos dessa década (70), aconteceu a primeira grande crise do preço do petróleo e uma baixa considerável no Balanço de Pagamentos dos Estados Unidos. Além do alto preço do petróleo, os Estados Unidos estavam pagando os altos custos da guerra do Vietnã. Consequentemente, esse país sofreu uma baixa crítica nas reservas de ouro que sustentavam sua moeda, o dólar. Nessa situação crítica e sendo o dólar americano a moeda internacional de maior circulação no mundo, os Estados Unidos decidiram que o dólar não seria mais conversível em ouro, ou seja, deixaram unilateralmente o padrão ouro. Logo, sendo a moeda da maior potência econômica e de maior circulação no mundo, os demais países seguiram o exemplo, deixando também o padrão ouro. Isto levou o dólar a flutuar livremente nos mercados de câmbio e deixou o livre mercado fixar os preços das moedas. Ao ser o dólar a moeda de maior circulação, ele passou imediatamente a ser referente internacional no mercado de câmbio, sem a necessidade de os países terem reservas em ouro, deixando prevalecer os movimentos dos preços entre as diferentes moedas e tendo como referência o dólar americano. UNIDADE 1TÓPICO 342 P R á T I C A C A M B I A L Neste novo cenário, desde os anos 70, vários países têm resistido em deixar flutuar suas moedas no mercado, em especial quando suas economias estavam sob pressão, portanto, impondo taxas fixas em relação ao dólar. Após terem aplicado as taxas fixas, essas economias experimentaram mercado secundário de divisas, gerando o mercado negro de US$ e problemas econômicos que continuaram por um tempo. Posteriormente, as forças do mercado de câmbio terminaram fixando e estabelecendo a taxa real relativa dessas moedas em relação ao dólar. Ou seja, no curto prazo os países podem até tentar manipular a taxa de câmbio de acordo com seus interesses, mas no longo prazo as forças do mercado terminam prevalecendo. 2 MERCADO CAMBIAL 2.1 DEFINIÇÃO DE CÂMBIO EM SI 2.2 PARIDADE DE PODER DE COMPRA DE UMA MOEDA (PPP) Depois de ter analisado que as taxas de câmbio estão sujeitas ao mercado e às diferentes posições relativas das forças econômicas de cada país, talvez você esteja se perguntando: Afinal de contas, o que é o mercado de câmbio? E se houvesse uma só moeda mundial, para assim terminar com toda essa questão de taxas relativas? Para conseguir responder a essas perguntas, na continuação vamos analisar dois conceitos bem importantes sobre o mercado de câmbio. O mercado de câmbio funciona através de uma taxa atrelada à unidade de uma moeda em relação à unidade de outra, ou seja, são as forças do mercado que geram a procura dessas moedas, sob a pressão de: balanço de pagamentos (exportações menos importações), investimentos internacionais e movimentos financeiros internacionais. Exemplo, ao final de abril de 2012 a taxa de câmbio estava em R$ 1,89 por US$ 1,00. Logo, neste caso, se a quantidade de reais procurados para comprar dólares aumentasse, o real estaria se desvalorizando em relação, neste caso, ao dólar. Agora que podemos definir como funciona o mercado de câmbio, vamos analisar o conceito de Paridade de Poder de Compra de uma Moeda, o conhecido PPP (Purchasing Power Parity). UNIDADE 1 TÓPICO 3 43 P R á T I C A C A M B I A L Sob esse conceito todos os bens e serviços produzidos e mensurados em uma moeda, em um país, deveriam exibir os mesmos custos referenciais em outra moeda, tirando os custos de transporte. Assim, se o custo de um produto não for igual em outro país, a tendência seria de comprar no país onde o produto é mais barato, certo? Portanto, a convergência é que as taxas de câmbio consigam, através do tempo, ajustar os preços relativos desses produtos. Contudo, dentro dos custos de produção, os países têm níveis de inflação bem diferentes que, ao final das contas, são refletidos nas taxas de câmbio através da desvalorização das moedas, atingindo, assim, o poder relativo das moedas dos diferentes países. NO TA! � Para você aprofundar a definição econômica do mercado de câmbio, sugiro acessar o seguinte site: <http://www.mises.org. br/Article.aspx?id=829>. Agora voltando à nossa pergunta: E se houvesse uma só moeda mundial? A resposta seria que é quase impossível, ou simplesmente impossível, conseguir uma dinâmica econômica mundial para manter uma só moeda. Como exemplo, podemos citar a União Europeia: depois de uma década de aparente sucesso e muitas negociações complexas entre seus países membros, o euro está passando por um período muito crítico. Afinal de contas, as forças de mercado mostram como cada país tem sua própria dinâmica econômica que deve ser ajustada conforme as suas condições internas (inflação, estrutura macroeconômica,competitividade, acesso a matérias-primas, flexibilidade laboral etc.). Estas questões no mercado internacional se refletem nas taxas de câmbio. Em referência ao euro, a seguir vamos analisar um pouco mais o sintoma que revelou o problema estrutural dessa moeda. No quesito de níveis máximos de dívida pública da zona do euro, podemos observar que é de 60%. Porém, esse limite já foi ultrapassado pela maioria desses países a partir de 2008, uma vez que, devido à crise internacional (crise do subprime), os governos socorreram os bancos emprestando elevadas quantias de dinheiro. A moeda necessária foi obtida pela emissão de títulos da dívida pública. Com isso debelou-se a crise financeira. Entretanto, posteriormente, os governos poderão ter dificuldades de honrar a dívida contraída, muitas vezes em moedas estrangeiras. Em síntese, depois da crise financeira poderá haver a crise da dívida. (MAIA, 2011, p. 464). A crise da dívida pública não demorou a chegar à União Europeia, começando pela UNIDADE 1TÓPICO 344 P R á T I C A C A M B I A L Grécia, Irlanda, Portugal, no ano de 2010, com sérios riscos de piorar a situação já crítica da Espanha e Itália em 2012, colocando em risco a situação do euro com sérias repercussões para a economia mundial. Mas, em relação às taxas de câmbio, como essa conjuntura da dívida pode afetar a posição do euro em relação ao dólar e outras moedas? Perante o risco da dívida, o euro perderá força, pois os países debilitados terão que enfrentar várias situações: pagar maior taxa de juros para refinanciar seus empréstimos públicos; eles terão maior taxa de juros para empréstimos ao setor produtivo; haverá menor quantidade de capital por parte dos investidores; poderá haver uma saída de capitais, além de uma série de problemas macroeconômicos. Ou seja, a balança comercial desses países será reduzida, portanto menor quantidade de euros disponíveis na zona econômica do euro, com perspectivas de desvalorização da moeda. Fato este que já aconteceu em 2011 e 2012. Agora que temos uma noção de como funciona o mercado de câmbio, vamos estudar os diferentes pontos importantes do mercado de divisas. 3 BALANÇO DE PAGAMENTOS Para atuar no mercado internacional, cada país dispõe da posição de sua moeda em relação às outras moedas, como já foi estudado. Porém, para conhecer a quantidade de moeda disponível, é necessário que cada um dos diferentes bancos centrais saiba quanto dinheiro tem disponível. Deste modo, cada país dispõe de uma estrutura contábil muito importante, o Balanço de Pagamentos, onde são registradas, classificadas e interpretadas as transações internacionais de acordo com padrões internacionais. Os padrões internacionais são definidos pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) para seus países membros, dos quais o Brasil é sócio ativo. A definição de pagamentos feita pelo FMI é a seguinte: “Balanço de Pagamentos é o registro sistemático de todas as transações econômicas realizadas entre os residentes em determinado país e os residentes no resto do mundo, durante certo período, geralmente de um ano.” (MAIA, 2011, p. 76). Nesta definição entende-se que “residentes” são todas as pessoas físicas ou jurídicas domiciliadas em um país determinado. Na próxima unidade vamos aprofundar esses detalhes financeiros do Balanço de Pagamentos, agora vamos passar a estudar as reservas internacionais. UNIDADE 1 TÓPICO 3 45 P R á T I C A C A M B I A L 4 RESERVAS CAMBIAIS Para se defenderem de possíveis problemas econômicos no futuro, as famílias fazem reservas de dinheiro através da poupança, certo? Preparam-se para imprevistos, tais como doenças, desemprego e até para possíveis oportunidades no futuro. De igual maneira as empresas fazem a mesma coisa, portanto os países, através de seus governos, fazem algum tipo de reserva para imprevistos no exterior. De fato eles têm uma conta especial de reservas internacionais, assim os países possuem contingentes para essa provisão. Essas reservas são alimentadas através do saldo positivo líquido do balanço de pagamentos – provisões que permitem aos países enfrentar crises financeiras externas. No caso da última crise financeira de 2008, o Brasil estava bem preparado conseguindo amortizar o choque externo, pois tinha reservas internacionais em mais de US$ 200 bilhões, dinheiro suficiente para incentivar a economia e conseguir amortizar os impactos da crise e não haver sequelas muito negativas no futuro. Mas você imagina como estão estruturadas essas reservas estrangeiras? Essas reservas são estruturadas por meio de uma cesta de divisas internacionais (dólares, ienes, euros etc.) e ouro. A maior parte dessas reservas é aplicada em US$, pois é a moeda com maior circulação no mundo, e os títulos do Tesouro Americano (treasuries) são considerados os mais seguros do mundo. Por este motivo, quando acontece uma crise numa região do mundo ou uma crise financeira mundial, os investidores internacionais procuram dólares, eis a alta procura do dólar nestas situações. Por exemplo, no dia 14 de maio de 2012, diante de uma iminente quebra da Grécia e uma crise do euro, o dólar se valorizou em relação às outras moedas. Para nos informarmos sobre a quantia de US$ em reservas, agora vamos ver quais são os maiores países credores de treasuries, em março de 2012: QUADRO 4 – MAIORES PAÍSES CREDORES DE TREASURIES Países mar/12 mar/11 N° US$ bi N° US$ bi China 1 1.169,90 1 1.144,90 Japão 2 1.083,00 2 908,10 Países exportadores de petróleo 3 254,50 3 222,50 Brasil 4 237,40 5 193,50 Reino Unido 12 112,00 4 326,20 FONTE: Disponível em: <http://www.treasury.gov/resource-center/data-chart-center/tic/ Documents/mfh.txt>. Acesso em: 24 jul. 2012. UNIDADE 1TÓPICO 346 P R á T I C A C A M B I A L É interessante observar a posição do Brasil, como tem aumentado seus ativos em treasuries, passando da 5ª à 4ª posição, e como o Reino Unido tem passado da 4ª posição à décima segunda em um só ano. Embora o dólar seja considerado um ativo financeiro seguro, e de fato muitos investidores mantêm posições neste ativo, nos últimos anos com o enfraquecimento desta moeda e da crise do euro, os investidores têm procurado ativos em ouro. Esse fato tem sido um dos principais motivos do porquê da alta desse metal, além de muitos governos também terem trocado parte de suas reservas internacionais para posições em ouro. Será que o mundo vai voltar ao padrão ouro? Entre as maiores potências econômicas, quais serão as que detêm as maiores reservas internacionais? Será que o Brasil mantém uma posição privilegiada entre elas? Outro dado interessante de observar é como têm aumentado as reservas internacionais dos países durante a última década, passando a quantias enormes em 2011, como se pode ver a seguir: QUADRO 5 – RESERVAS INTERNACIONAIS Reservas internacionais mundiais em trilhões de US$ Ano 2011 2005 2000 1995 US$ Trilhões 10.197 4.320 1.936 1.390 FONTE: Disponível em: <http://www.imf.org/external/np/sta/cofer/eng/cofer.pdf>. Acesso em: 24 jul. 2012. Como se pode observar, as reservas internacionais representam valores muito altos. Um dos motivos principais disto é porque, com o desenvolvimento dos mercados financeiros internacionais, os países estão bem mais sensíveis aos saques de elevados valores monetários de suas economias, como já aconteceu em 2008. Logo, aumentou a necessidade de manter reservas internacionais bem elevadas. Elas cresceram, portanto, exponencialmente: no ano 2000 representavam US$ 1.936 trilhão e no ano 2011 representaram US$ 10.197 trilhões. Agora qual é o valor ideal destas reservas? Segundo o IMF (2012, [s.p.]), os países precisam ter reservas internacionais paracobrir: • pelo menos três meses de importações; • pelo menos dois terços do déficit dos pagamentos externos. UNIDADE 1 TÓPICO 3 47 P R á T I C A C A M B I A L Para países em desenvolvimento, o IMF sugere reservas que representem 10% do PIB. No caso da economia brasileira, alguns analistas econômicos pensam que as reservas deveriam ser maiores que as sugeridas pelo IMF, pois: • Para corrigir um desequilíbrio cambial, o governo necessita tomar algumas medidas cujo efeito nem sempre é instantâneo. • Uma parte de nossas reservas foi tomada por capitais estrangeiros aplicados a curto prazo que poderão retornar ao exterior a qualquer momento. A propó- sito, Antônio Ermírio de Moraes declarou que o governo deveria providenciar a separação, nas reservas cambiais, dos valores decorrentes de capital espe- culativo: reserva especulativa só é reserva enquanto as taxas de juros forem elevadas. (MAIA, 2011, p. 110, grifos no original). O montante total de reservas brasileiras e mais detalhes sobre o assunto vamos ver na unidade seguinte. Agora vamos estudar o eurodólar. 5 EURODÓLAR Hoje em dia, 60% da circulação de dólares americanos acontece fora dos Estados Unidos, é como se 60% dos reais circulassem fora do Brasil. Seguramente, você deve estar se perguntando: como pode acontecer isto? Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos se converteram, formalmente, na maior potência econômica do mundo e, portanto, financeiramente o dólar se tornou a moeda internacional mais segura para ativos financeiros. Antes da Segunda Guerra, essa posição estava ocupada pela libra esterlina do Reino Unido. Mas, como surgiram os eurodólares? Pode-se dizer que eles são um legado da guerra fria. No final da década de 50 a situação política entre as duas maiores potências mundiais (Estados Unidos e ex-União Soviética) se encontrava em ponto crítico, a primeira representava o sistema capitalista e a segunda, o sistema comunista. Nesse ponto crítico é que a União Soviética começou a se preocupar com seus ativos financeiros em dólares colocados em bancos nos Estados Unidos, pois o governo soviético temia o congelamento de seus depósitos em dólares por parte do governo americano. Sob essa situação, autoridades inglesas propuseram ao governo soviético abrir contas em dólares em território do Reino Unido, Londres. Logo, esses ativos financeiros seriam depositados nos Estados Unidos como depósitos de bancos ingleses. Deste modo, a União Soviética não teria risco de congelamento de seus ativos financeiros, os Estados Unidos não sofreriam uma corrida desses depósitos, consideráveis e, portanto, Londres aproveitaria a situação política para intermediar ativos financeiros em dólares. Aos poucos a intermediação financeira em dólares foi se espalhando não só para o UNIDADE 1TÓPICO 348 P R á T I C A C A M B I A L governo soviético, mas também para dar dinamismo ao comércio internacional entre os grandes exportadores e importadores da Europa para o resto do mundo. Assim, a intermediação de depósitos em dólares começou também na França, na Alemanha, na Itália e em alguns outros países europeus. Deste modo nasceu o “eurodólar”, e as suas principais características são: • Londres ficou como centro de operações dos eurodólares, cujos valores são estabelecidos com taxas de juros LIBOR (London Interbank Offered Rate) mais o fator de risco. Libor é a taxa fixada no mercado financeiro de Londres. • Não existe risco cambial, pois todas essas operações internacionais são estabelecidas em dólares. Um dos grandes benefícios do mercado de eurodólares é que o cliente pode escolher onde a sua operação vai render melhores taxas de juros, se no mercado financeiro europeu ou nos Estados Unidos, assim esses depósitos têm uma dinâmica constante. Com o aumento geométrico das operações em eurodólares no mercado financeiro europeu, logo vieram para esse mercado os depósitos dos grandes exportadores de petróleo. Este fato converteu o eurodólar numa denominação para todo investimento financeiro em dólares fora dos Estados Unidos. Para se ter uma ideia da dimensão desse mercado financeiro, em 1963 os eurodólares representavam US$ 7 bilhões, no início dos anos 90 representavam US$ 8 trilhões. Ou seja, a massa monetária em dólares é tão grande que os Estados Unidos através de sua moeda são líderes das transações financeiras no mundo. Posição privilegiada para a moeda de um país, que permite aos Estados Unidos financiar seu déficit sem maiores complicações. Hoje em dia, o termo eurodólares é sinônimo de todo dólar circulando fora dos Estados Unidos. Dominick Salvatore (apud MAIA, 2011, p. 162) diz em seu livro International Economics: “Cerca de 60% do montante dos dólares em papel-moeda em circulação estão fora dos Estados Unidos”. Caro(a) acadêmico(a), esse é um dos grandes motivos de toda transação internacional ser feita em dólares. Mas será que essa liderança vai durar muito mais tempo? Há poucos anos o euro também começou a se converter em moeda líder internacional. Todo país no mundo tem à disposição dólares ou euros, assim essas moedas converteram-se em moedas de intermediação entre os países. Com a atual crise da Europa ninguém sabe como vai ficar a situação do euro como moeda internacional. Mas com certeza o dólar vai ficar mais um pouquinho circulando pelo mundo. UNIDADE 1 TÓPICO 3 49 P R á T I C A C A M B I A L 6 CONTROLES NA PRÁTICA CAMBIAL Os países, por mais que queiram fugir das forças do mercado de câmbio, ao final do caminho vão sucumbir. Em termos práticos os superávits ou déficits nos balanços de pagamentos dos países são os que definem a posição relativa do câmbio. Contudo, em períodos curtos de tempo, os países podem aplicar suas ferramentas financeiras para amortizar as variações drásticas na taxa de câmbio. Diante disso vamos estudar as várias tentativas que os governos fizeram para aplicar controles na prática cambial no passado. É provável que tentem novamente no futuro, especialmente nestes momentos de crise internacional, em que muitos países estão se fechando no intuito de cuidar de suas economias, como também já aconteceu no passado. Mas como um país pode tentar controlar o câmbio? Ele pode controlar o câmbio através de medidas quantitativas, qualitativas ou mistas. Vejamos: a) Medidas quantitativas As medidas quantitativas fazem referência ao racionamento de divisas no mercado. Assim, o governo define a quantidade de dólares que um importador pode comprar durante um determinado período de tempo. Desta maneira a Venezuela vem operando há vários anos, e o resultado qual é? Uma quantidade enorme de dólares circulando no mercado negro da Venezuela, onde existe uma taxa de câmbio oficial e outra determinada pelo mercado negro, ou seja, mercado secundário. Outra opção que os governos podem fazer é limitar os gastos no exterior. Essa medida, no entanto, prejudica o turismo e as viagens ao exterior para educação ou qualificação em tecnologia de ponta que ajudam o desenvolvimento das economias. Limitar os gastos no exterior ajuda a poupar divisas e o turismo interno, mas não resolve o problema de fundo. b) Medidas qualitativas Neste caso são tomadas medidas restritivas, que, aliás, podem ser muito complexas, tais como: restrições às importações e restrições ao fluxo de capitais. c) Restrições às importações As importações só podem entrar ao território nacional se forem amparadas por licenças UNIDADE 1TÓPICO 350 P R á T I C A C A M B I A L prévias de importação. Nesta situação o governo define quais produtos serão importados e importantes para a dinâmica da economia. Neste caso a burocracia adquire um poder de decisão sujeitoà corrupção. As restrições às importações geram distorções na economia no longo prazo. A mais importante é a superproteção da indústria nacional, gerando empresas ineficientes, como já aconteceu no Brasil. Como exemplo, citamos a indústria brasileira de automóveis, que não tinha necessidade de progredir. A simples importação de alguns carros estrangeiros obrigou-a a introduzir novos melhoramentos. (MAIA, 2011, p. 166). Ainda hoje, se compararmos automóveis brasileiros aos de outros mercados, o Brasil precisa melhorar, especialmente em questões de preço final e inovação de ponta. d) Restrições ao fluxo de capitais No passado situações com restrições ao fluxo de capitais só serviram para afastar o capital estrangeiro. No longo prazo essas restrições só servem para afastar a inovação e novos investimentos estruturais na economia nacional, tais como novas fábricas que geram emprego. Porém, no curto prazo, as restrições ao fluxo de capitais são medidas corretivas que podem ajudar, mas de novo não resolvem o problema de fundo, só servem até se encontrar uma solução mais estrutural para a economia. Nos anos de 2010 e 2011, com a crise internacional, os principais países desenvolvidos tentavam incentivar suas economias através das exportações, baixa dos juros e emissão muito grande de nova moeda (para incentivar a demanda interna), em especial os Estados Unidos. Sob essa situação, com o aumento exponencial na exportação de matérias-primas e com as altas taxas de juros praticadas na economia nacional, o real começou a se supervalorizar, chegando a uma taxa de R$ 1,55 por dólar. Nessa situação o governo começou a taxar: • toda compra de divisas, para assim afastar o investimento especulativo de curto prazo. Exemplo de um investimento sujeito a ser taxado: uma pessoa consegue um empréstimo nos Estados Unidos a taxas muito baixas, logo vende esses dólares e investe em ativos financeiros de curto prazo aqui no Brasil, ganhando um spread financeiro muito atrativo; • todo gasto feito com cartão de crédito no exterior. Afinal de contas, essas medidas só serviram para baixar a onda de supervalorização por um período muito curto, semanas, logo voltou a tendência de valorização excessiva. O que realmente parou a supervalorização do real foi a baixa da taxa Selic no final de 2011, as perspectivas de juros baixos em 2012 e as novas perspectivas negativas das exportações de matérias-primas. Ou seja, perspectivas de um balanço de pagamentos mais fraco. UNIDADE 1 TÓPICO 3 51 P R á T I C A C A M B I A L As restrições ao fluxo de capitais servem só como medidas paliativas que ajudam no curto prazo, sim. No longo prazo o que realmente mexe na taxa de câmbio é o balanço de pagamentos, os níveis dos juros nacionais versus os internacionais e as perspectivas de competitividade de um país. 7 DOENÇA HOLANDESA Como falamos, o que realmente mexe na taxa de câmbio é o balanço de pagamentos, em especial a balança comercial de um país. No início dos anos 70 a Holanda experimentou um incremento geométrico na sua balança comercial, decorrente das entradas de divisas das exportações de gás do Mar do Norte. O aumento das exportações supervalorizou sua moeda, o florim, prejudicando as exportações de outros setores da economia. Qual a consequência disto? Uma superexposição da Holanda aos preços das commodities. Quando os preços deles caíram, o país experimentou uma grave crise econômica. Antes disso, vinha tendo anos de bonança econômica, com aumento das exportações, de commodities, maior gasto, maior consumo da população e um processo de desindustrialização de outros setores da economia. Depois deste fenômeno comercial decorrente do aumento das exportações de commodities, essa condição econômica de um país ficou conhecida como a “doença holandesa”. Será que o Brasil está apresentando sintomas da doença holandesa? Gerbelli argumentou: O Brasil vem aumentando cada vez mais nos últimos anos sua dependência da exportação de matérias-primas. No ano passado, apenas seis grupos de produtos - minério de ferro, petróleo bruto, complexo de soja e carne, açúcar e café - representaram 47,1% do valor exportado. Em 2006, essa participação era de 28,4%. (2012, [s.p.]). O total das exportações das commodities em 2011 foi de quase 70%, com uma elevação bem forte da balança comercial decorrente destas exportações. A balança comercial, entre outros fatores como os juros altos e uma onda de investimentos estrangeiros, tem aumentando o balanço de pagamentos do país, portanto, o real se supervalorizou durante todo o ano de 2011. Este fato, além do “custo Brasil”, tem prejudicado a exportação de outros setores da economia com maior valor agregado. Sob essas condições fica muito claro que o Brasil tem os sintomas da “doença holandesa”. No entanto o Brasil tem uma condição econômica quase única, que pode ajudá-lo UNIDADE 1TÓPICO 352 P R á T I C A C A M B I A L a amortizar a doença, o enorme consumo interno. As exportações só representam 9% do PIB, assim, sua condição de economia relativamente fechada pode ajudar nestas condições, como já aconteceu em 2008. Cabe esperar e ver como o país enfrentará a nova crise internacional de 2012. Por enquanto, o real já se desvalorizou mais de 22% em somente três meses, chegando a ser cotado em R$ 2,08 por dólar no dia 22 de maio de 2012. Toda essa desvalorização é devida, em grande parte, às perspectivas de queda no preço das commodities. Agora que já analisamos como aconteceu a “doença holandesa” e o porquê de o Brasil poder apresentar essa doença em 2012, o tempo vai definir o desfecho da questão. A doença acontece quando um só produto de exportação, ou um grupo de produtos, prejudica a exportação de outros, em especial os de maior valor agregado. Haveria uma possível solução? Vejamos: • Os exportadores não teriam prazos para o ingresso das divisas recebidas no Brasil. Isso reduziria a oferta de divisas. Assim, os exportadores não teriam que colocar pressão na taxa de câmbio, ao momento de comprar reais e vender seus US$, situação, portanto, que valoriza a moeda nacional. • A criação de agências de bancos off-shore aqui no Brasil, assim os exportadores poderiam ter seus depósitos em US$ no país, sem ter que comprar reais. Portanto, não poderiam influenciar a moeda nacional, tal como acontece com os eurodólares, lá na Europa. 8 MERCADO PARALELO Como o próprio nome diz, o mercado paralelo é um mercado paralelo ao mercado oficial de câmbio de um país. Neste mercado de câmbio, as transações são realizadas por pessoas não autorizadas, ou seja, são operações ilegítimas. Esse mercado paralelo mostra como funciona um mercado totalmente livre: nele não existe falta de divisas, dólares ou euros, pois há uma ponderação automática entre as taxas formadas decorrentes da oferta e da procura destas divisas. Talvez você esteja se perguntando: quais são as fontes de divisas deste mercado? A seguir veremos suas principais fontes. a) Subfaturamento da exportação Esse subfaturamento pode ser decorrente dos altos impostos de importação. Vamos supor, por exemplo, que um exportador brasileiro vende um produto por R$ 1.000. Esse produto, UNIDADE 1 TÓPICO 3 53 P R á T I C A C A M B I A L porém, é faturado só em R$ 800, e o importador pagará os impostos em sua moeda local sobre esse valor de R$ 800,00. Em seguida pagará o saldo de R$ 200,00 na conta do exterior do exportador e, pronto, negócio fechado. b) Superfaturamento da importação A situação de superfaturamento é igual à de subfaturamento, mas ao inverso. Deste modo, o importador brasileiro pagará menos impostos de importação. Na situação brasileira o mercado paralelo pode funcionar em várias formase jeitos que só o mercado informal da economia pode dar detalhes, e com certeza em vários produtos. Entre eles está a importação de sapatos da China que está prejudicando a indústria nacional, há tempos. Outro exemplo são as exportações de café: como o Paraguai pode exportar mais café do que realmente produz? Resposta: esvaziamento da produção de café brasileiro ao Paraguai para logo ser exportado para o mundo. LEITURA COMPLEMENTAR OBAMA PRESSIONA EUROPA POR MEDIDAS PRÓ-CRESCIMENTO Por Vânia Por CartaMaior A mensagem emitida pela cúpula do G-8 refletiu as próprias preocupações do anfitrião, o presidente dos EUA, Barack Obama, de que um contágio da zona do euro – que ameaça o futuro do bloco monetário único de 17 países – possa afetar a frágil recuperação estadunidense e suas possibilidades de ser reeleito nas eleições presidenciais de novembro. “Nos comprometemos a dar todos os passos necessários para reforçar e revigorar nossas economias e para combater as tensões financeiras”, disseram os líderes no comunicado final. La Jornada Os líderes do G-8 (grupo que reúne os oito países mais poderosos do mundo) definiram como prioridade para a saída da crise a promoção do crescimento e a criação de empregos, além da estabilização fiscal. Além disso, manifestaram o interesse em que a Grécia permaneça dentro da zona do euro, desde que respeite seus compromissos. “Coincidimos no reconhecimento da importância para a estabilidade e recuperação global de uma zona do euro forte e coesa e afirmamos nosso interesse em que a Grécia permaneça na eurozona desde que respeite seus compromissos”, disseram os líderes do G-8 ao término das sessões de trabalho, centradas na economia em geral e na crise da eurozona em particular. UNIDADE 1TÓPICO 354 P R á T I C A C A M B I A L O comunicado final do G-8 – que frequentemente resulta em documentos anódinos – não foi usual ao mencionar uma nação pequena. Mas o temor da situação política na Grécia, que poderia levar o país do Mediterrâneo a deixar a união monetária da Europa com efeitos imprevisíveis para o sistema financeiro, tem aterrorizado os mercados globais. A declaração final também expressou as diferenças de estratégias entre os países do G-8. As medidas necessárias (para implementar o crescimento e abater o déficit) não são as mesmas para cada um dos países, reconheceram os líderes. A cúpula do G-8 – que agrupa os maiores economias do mundo: Estados Unidos, Alemanha, Japão, Canadá, Grã-Bretanha, França, Itália e Rússia – foi realizada em Camp David, a residência de repouso do presidente dos EUA, situada a 100 quilômetros de Washington. O tema da dívida na Europa foi o primeiro assunto abordado no segundo e último dia de encontros que concluíram a favor de um impulso para equilibrar a austeridade europeia – uma postura defendida há longo tempo pela chanceler alemã, Ângela Merkel – com uma nova dose de estímulo ao estilo estadunidense considerado vital para sanear as combalidas economias europeias. Ao concluir a reunião de cúpula, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou que a crise da dívida da zona do euro ameaça a economia mundial. Obama, que pressionou a Europa por mais medidas promotoras do crescimento como aquelas que ele aplicou nos EUA, lembrou aos líderes da zona do euro que há muito em jogo e que, se eles fracassarem, isso pode significar custos enormes para a economia global. O crescimento e os empregos devem ser nossa máxima prioridade, comentou Obama, reafirmando sua visão de que a Europa tem a capacidade de enfrentar esse desafio. No entanto, ficou claro que permanecem algumas divisões. “Nos comprometemos a tomar todas as medidas necessárias para fortalecer e revigorar nossas economias e combater as tensões financeiras, reconhecendo que não são as mesmas para todos nós”, disseram os líderes em um comunicado conjunto. A mensagem emitida pela cúpula refletiu as próprias preocupações do anfitrião, o presidente dos EUA, Barack Obama, de que um contágio da zona do euro – que ameaça o futuro do bloco monetário único de 17 países – possa afetar a frágil recuperação estadunidense e suas possibilidades de ser reeleito nas eleições presidenciais de novembro. “Nos comprometemos a dar todos os passos necessários para reforçar e revigorar nossas economias e para combater as tensões financeiras”, acrescentaram. Tradução: Katarina Peixoto FONTE: Disponível em: <http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/os-eua-e-a-crise-na-zona-do-euro>. Acesso em: 4 jun. 2012. UNIDADE 1 TÓPICO 3 55 P R á T I C A C A M B I A L • Neste tópico você aprendeu sobre o mercado de câmbio e suas diferentes variações, influenciadas pelas forças econômicas mundiais. • Estudou a paridade e o poder de compra de uma moeda. • Estudou a influência de residentes e não residentes de um país e as influências sobre balanço de pagamento. RESUMO DO TÓPICO 3 UNIDADE 1TÓPICO 356 P R á T I C A C A M B I A L AUT OAT IVID ADE � 1 O que você entendeu por mercado de câmbio? 2 O que é o balanço de pagamentos? 3 Que medidas um país poderá adotar para controlar o câmbio? 4 Quais são os tipos de medidas qualitativas? 5 O que você entendeu por mercado paralelo? P R á T I C A C A M B I A L O MERCADO CAMBIAL BRASILEIRO DURANTE AS ÚLTIMAS TRÊS DÉCADAS 1 INTRODUÇÃO 2 OPERAÇÕES DE COBERTURA, REPASSES INTERBANCÁRIOS E COBERTURA INTERBANCÁRIA TÓPICO 4 UNIDADE 1 O mercado cambial do Brasil nem sempre foi assim como hoje, com taxas fixadas pelo mercado. Neste mercado o real fica com uma posição flutuante de acordo com a procura e oferta de divisas decorrente das necessidades do balanço de pagamentos, com possíveis intervenções de compra e venda de divisas pelo Banco Central, mas só em situações de flutuações extremas. Desta maneira, as intervenções do Banco Central no mercado só visam amortizar súbitas variações na taxa de câmbio, portanto, impactos fortes demais nas atividades comerciais dos exportadores, importadores e investimentos e serviços financeiros. Temos que lembrar que essas intervenções do Banco Central não manipulam a posição do real. Só amortizam a tendência do mercado até que a economia real possa se adaptar às novas condições do mercado. Mas como era então o mercado de câmbio, sem as taxas fixadas pelo mercado? Como já estudamos, o Brasil, antes da década de noventa, tinha uma economia fechada, e só a partir do governo do presidente Collor o câmbio ficou fixado pelo mercado. Assim, até finais dos anos 80, a taxa de câmbio perante o dólar e outras moedas estava determinada e fixada pelo Banco Central, que tinha o monopólio total deste mercado. Este monopólio cambial terminou no dia 19 de março de 1990, na presidência do presidente Collor. Neste sistema de câmbio controlado pelo Banco Central, as transações de câmbio funcionavam através de operações de cobertura, onde os bancos autorizados a operar no mercado cambial tinham que manter posições de compra e venda de divisas. Quem determinava UNIDADE 1TÓPICO 458 P R á T I C A C A M B I A L o montante total dessa cobertura era o Banco Central, de acordo com as necessidades que o governo pensava que poderia ter o Balanço de Pagamentos, mantendo assim decisões estáticas (do Banco Central) e não dinâmicas determinadas pelo próprio mercado de câmbio. Desta maneira quando a posição comprada (posição em US$) ultrapassava a posição estabelecida pelo Banco Central, o banco comercial tinha a obrigação de repassar esse excedente (em US$) ao Banco Central; em troca o banco recebia moeda nacional. Sob esse sistema, os bancos tinham a opção de vender o excesso de divisas para outros bancos que poderiam estarprecisando de divisas (US$) para assim nivelar suas posições perante o Banco Central. Esta operação era conhecida na época como repasse interbancário. De igual maneira os bancos poderiam precisar vender suas posições, quando ultrapassavam o limite, ou seja, estavam precisando de divisas. Assim, eles poderiam comprar essas divisas do Banco Central ou dos repasses interbancários, operação cambial conhecida como cobertura interbancária. 3 O MERCADO CAMBIAL CONTROLADO Esse sistema de controlar o mercado de câmbio estava justificado pelo governo em vista de controlar o Balanço de Pagamentos, que estava em constante desequilíbrio. Porém, a prática real de décadas desse sistema mostrou que decisões estáticas no mercado sempre resultavam em desequilíbrios constantes do Balanço de Pagamentos, tornando-se um círculo vicioso no qual o governo tinha medo de soltar o mercado de divisas. E os problemas macroeconômicos se tornaram estruturais, tais como as constantes minidesvalorizações e a inflação, até chegar à hiperinflação. Na época do monopólio cambial, até princípios dos anos 90, o governo não queria deixar o controle do câmbio para não aumentar o custo das importações, pois se pensava que o mercado livre poderia aumentar ainda mais a inflação, em especial as importações de petróleo. Temos que lembrar que o Brasil dessa época quase não tinha produção petrolífera, portanto ficava dependente da sua importação, logo, susceptível às variações da taxa de câmbio. Mas esse controle da taxa de câmbio não atingiu seu objetivo, pois, com a taxa de câmbio controlada, a moeda local tinha uma constante valorização seguida de uma constante desvalorização. A posição cambial ficava constantemente fora da realidade, até o Banco Central desvalorizar de novo a moeda. Vejamos as consequências disso: • Não estimulava as exportações. Exemplo: os custos dos exportadores de café, com altos índices de inflação e uma taxa de câmbio controlada, chegavam, até certo ponto, a ser UNIDADE 1 TÓPICO 4 59 P R á T I C A C A M B I A L 4 AS DESVALORIZAÇÕES CAMBIAIS ANTES DO PLANO REAL 5 O PLANO REAL maiores que o valor a ser exportado. • Estimulava as importações. Exemplo: o consumidor brasileiro era incentivado a consumir um petróleo barato artificialmente, estimulando assim novos desequilíbrios no balanço de pagamentos. • Estimulava gastos no exterior, tais como o turismo externo, e desestimulava o turismo estrangeiro para o Brasil. Portanto, com esse sistema de controle de câmbio, o país ficava sem divisas até chegar ao ponto crítico de não haver mais dólares para comprar petróleo, obrigando o governo a fazer desvalorizações drásticas. Assim, o que não era feito pelo livre mercado de divisas na hora certa, era feito abruptamente pelo Banco Central, abrindo a porta para um sem-número de problemas macroeconômicos de difícil solução, refletindo-se, principalmente, numa inflação estrutural. Nesse círculo vicioso de valorização e de desvalorização constante da moeda nacional, o governo desenvolveu o sistema de minidesvalorizações. Desta maneira, tinha-se de certa forma regularizado o mercado e incentivado as exportações. Assim, as desvalorizações aconteciam entre períodos curtos de tempo. Até 1984 elas foram semanais e, por causa da pressão da hiperinflação, a partir de 1985 foram diárias. Sob essa perspectiva de desvalorizações constantes, os exportadores conseguiram melhorar sua competitividade conjuntural, desenvolvendo mercados internacionais para seus produtos. Por outro lado, foram desestimuladas as importações. Na teoria, essas minidesvalorizações poderiam ter melhorado o balanço de pagamentos, porém não foi assim. As condições de dívida externa, com montantes exorbitantes de pagamento de juros e capital (saída de divisas), gastos de governo em constante aumento e outros problemas estruturais não deixavam fôlego às contas do governo, ficando ainda mais problemático nortear a macroeconomia e parar a hiperinflação. Foi neste cenário desalentador de inflação estrutural que foi desenvolvido o Plano Real: durante o governo interino de Itamar Franco, em 1992, com o seu ministro da Economia, UNIDADE 1TÓPICO 460 P R á T I C A C A M B I A L logo presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso. Foi um plano econômico muito bem desenhado e implantado que deu finalmente fôlego à inflação estrutural. Uma das estratégias, iniciais, deste plano era manter a taxa de câmbio baixa por um período determinado. Isto permitiu manter as importações com preços competitivos no mercado nacional, logo o mercado ficaria bem abastecido, puxando a inflação para baixo. Isto ajudou a estabilidade dos preços, colaborando muito com o fim da inflação estrutural no Brasil. Mantendo a taxa de câmbio baixa, ou seja, o real valorizado, as exportações enfrentaram uma época de custos altos, logo o Brasil experimentou um período de baixas receitas das exportações e altas saídas de divisas das importações. Este fato puxou para baixo a balança comercial, ficando logo bastante negativa. Essa situação de balança comercial negativa, no entanto, não preocupava o governo, pois nesse período o Brasil tinha elevadas reservas no exterior, permitindo equilibrar esse déficit no balanço de pagamentos. Embora essa estratégia de manter o real valorizado tivesse sido apenas temporário (desde 1994 até 1999), foi o suficientemente longa para estabilizar a inflação. Esta estratégia econômica ficou conhecida como Âncora Cambial Brasileira. Toda decisão tem um custo, e a âncora cambial brasileira não foi exceção. De qualquer maneira, vale a pena lembrar que o custo/benefício desta decisão acabou finalmente com a hiperinflação que tinha paralisado a economia brasileira por décadas, com baixa competitividade e população empobrecida. A conta desta decisão econômica, da âncora cambial, chegou logo no ano de 1999 com muita pressão sobre o real valorizado, como vamos ver mais adiante. Nem sempre as âncoras cambiais foram bem-sucedidas, como já aconteceu em várias situações, por exemplo: “[...] nos governos Juscelino Kubitschek (1960) e João Goulart (1963). Também a Argentina e o México tiveram problemas com a utilização da âncora cambial.” (MAIA, 2011, p. 149). Assim, a âncora cambial é uma ferramenta econômica temporária que, se não for bem planejada, seu efeito (de supervalorização) vai aparecer mais adiante com uma situação econômica pior que a inicial. Isto aconteceu na Argentina e quase no Brasil em 1999. Na Argentina a âncora cambial foi estabelecida na década dos anos 90, igual ao Brasil, a fim de combater a hiperinflação. O alvo foi atingido, mas os efeitos colaterais foram muitos e difíceis de controlar. Deste modo, em 2001, foi estabelecido o “corralito financeiro” no país vizinho, para interromper a saída massiva de capitais e para evitar uma quebra total do sistema financeiro. Essa situação levou a Argentina a anos de retrocesso econômico, atingindo níveis de pobreza nunca antes experimentados. No caso brasileiro a situação também foi complexa, mas não chegou aos extremos da UNIDADE 1 TÓPICO 4 61 P R á T I C A C A M B I A L Argentina. Depois de 5 anos de âncora cambial, a economia brasileira apresentava os sintomas desta medida, que são: • valorização extrema da moeda, para conter a inflação; • aumento excessivo das importações; • desempenho enfraquecido das exportações; • déficits constantes na balança comercial no período de 1995 até o ano 2000; • elevação extrema dos juros para atrair capital estrangeiro e conseguir assegurar o câmbio fixo; • elevação da dívida pública em decorrência dos juros muito altos praticados na economia. Nesta situação econômica e com os choques externos dacrise asiática de 1997 e da russa de 1998, a economia brasileira não teria conseguido se manter operando por muito mais tempo sem entrar em profunda crise. O então governo de Fernando Henrique Cardoso, em 1999, decidiu implantar a segunda fase do Plano Real, que tinha os seguintes delineamentos: • Deixar de usar os juros extremamente altos para assegurar as taxas de câmbio. Assim a taxa de câmbio passou a ser cotada 100% livre da pressão do mercado, com o efeito imediato de uma desvalorização estabelecida pelo próprio mercado. • Em contrapartida, foi estabelecido e logo implantado um plano bem-sucedido de metas de inflação, através de: superávits primários dos gastos do governo e ajustes das taxas de juros básicas, altas ainda, de acordo as metas da inflação. Os superávits primários foram atingidos por meio do aumento da carga tributária que passou de 25%, em 1999, para 37%, em 2002, além de controle do gasto público. A segunda fase do Plano Real foi bem-sucedida basicamente porque a economia estava indo bem como um todo e os investidores observaram que o plano estabelecido pelo governo era viável, pois visava manter sempre um superávit primário. Além disso, o Brasil, dessa época, já estava com capacidade para ter uma balança comercial positiva. Tudo isso contribuiu para que o país pudesse cobrir as obrigações da dívida pública e ter um balanço de pagamentos positivo. Portanto, o próprio mercado de câmbio sem intervenção do Estado teria uma expectativa real das cotações cambiais. UNIDADE 1TÓPICO 462 P R á T I C A C A M B I A L UNI Você lembra o que é superávit primário? É o resultado das receitas operativas do Estado menos seus gastos operativos, excluindo as receitas financeiras e juros da dívida pública. Assim começou a segunda fase do Plano Real que perdura até os dias de hoje, enfrentando com sucesso várias crises externas e, principalmente, dando estabilidade e desenvolvimento à economia brasileira, sem artifícios temporários. Agora, para visualizar como tem se comportado a taxa de câmbio desde a implantação do Plano Real, vamos analisar o seguinte gráfico: GRÁFICO 10 – HISTÓRICO DA TAXA DE CÂMBIO ENTRE O REAL E US$ FONTE: Adaptado de: <http://www4.bcb.gov.br/pec/conversao/conversao.asp>. Acesso em: 24 jul. 2012. Se você observar, a trilha da moeda brasileira fica bem alinhada nas duas fases do Plano Real. Na primeira fase, 1994 até 1999, a moeda começa com uma valorização absoluta de 18%, em 1995, para logo ter uma relação real/US$ de R$ 1,10 até 1998, em seguida uma desvalorização em termos absolutos de só 10% em 4 anos. Porém, nessa época o país enfrentou uma inflação média de 8,60% ao ano, índice bom demais se o compararmos com a hiperinflação que o país experimentou até 1994. UNIDADE 1 TÓPICO 4 63 P R á T I C A C A M B I A L Portanto, se a inflação média desse período (1994-1998) foi de 8,60% ao ano e o real sofreu uma desvalorização de 10% em quatro anos, de quanto foi a valorização relativa do real em relação ao dólar? Para responder a essa pergunta, primeiro vamos ver quanto foi a inflação acumulada do período: • Com inflação média por ano de 8,60%, o real experimentou uma inflação acumulada de 39%, ou seja, R$ 1,00 do ano 1994 teria um valor de R$ 1,39 no ano 1998, logo, traduzindo isso em porcentagens, ficaria assim: 1,39-1*100 = 39%. • A maneira de referenciar esse valor futuro de R$ 1,39 do período (1994-1998) foi calculado da seguinte maneira: VF (Valor futuro) = R$ 1,39 = R$ 1.00*(1 + 8,60%)4, onde: R$ 1,39 é o real do ano de 1998, R$ 1,00 é o real do ano de 1994, 8,60% é a inflação média do período, e ‘4’ é o período dos quatro anos. Assim, com uma desvalorização de 10%, logo, em termos relativos de paridade cambiária, a moeda nacional teve uma valorização de 29% (39% da inflação – 10% da desvalorização). Desta maneira, como já estudamos, os produtos importados ficaram baratos demais em relação aos nacionais, assim a indústria nacional estava indicando uma desindustrialização. Nesta situação chegamos ao ponto crítico de 1999, quando começou a segunda fase do Plano Real. Na segunda fase do Plano Real, 1999 até os dias de hoje, ao ficar o real com cotação quase 100% livre, o câmbio foi mais ou menos acompanhando a capacidade relativa da economia de enfrentar a estrutura de balanços de pagamentos e os saldos da balança comercial, como foi mostrado no Gráfico 1. Agora, ao fazer uma análise matemática direta entre a desvalorização do real de 1999 a 2003, vamos ver que o real ficou bem desvalorizado em termos relativos, para em seguida ter uma valorização constante até o ano de 2008. Assim: No período de 1999 até 2003, a inflação acumulada foi de 37% e a desvalorização do real foi de 193%! Taxa de câmbio em 1999 de R$ 1,20 + 193% = R$ 3,52. Ou seja, a superdesvalorização do período ajudou a compensar, em muito, a supervalorização do real acumulada em 1998, logo, ajudou bastante a posicionar as exportações no mercado externo e também as indústrias locais. Porém, a moeda estava desvalorizada demais, para logo ter mais uma valorização constante até o ano 2008. Esse foi o processo do Plano Real, que tem dado à economia nacional estabilidade e desenvolvimento. Ele posiciona o Brasil (mais outros fatores além do real) entre um dos países mais atraentes para se investir no mundo. 6 VALORIZAÇÃO DO REAL NA SEGUNDA FASE DO PLANO REAL Como já vimos, a partir de 2008 a economia internacional mudou e continuará mudando, UNIDADE 1TÓPICO 464 P R á T I C A C A M B I A L pois o impacto econômico da crise iniciada nos Estados Unidos e logo espalhada pelo mundo mexeu as estruturas econômicas de muitos países, com especial impacto na zona do euro, iniciando um dos momentos mais difíceis da moeda única. No Brasil, graças à sua estrutura macroeconômica, reservas internacionais, forte economia interna, boa posição do real no mercado de câmbio e bons preços das commodities, as sequelas dessa crise não se expandiram para a economia nacional. Portanto, o real tem experimentado uma tendência de valorização. Os problemas da Europa, em 2012, no entanto, podem trazer novas condições negativas à economia internacional, especialmente, aos preços das commodities, exportadas pelo Brasil, através de impactos na economia chinesa, dependente de exportações para a Europa. Logo, podem impactar o Brasil de uma maneira bem mais forte do que foi em 2008. UNI Como você pode observar, a economia global está ligada como se fosse uma rede matricial: é difícil saber onde começa e mais difícil ainda onde termina. Aqui acabamos de analisar um problema que está acontecendo na Europa e que, logo, talvez afete a China, para em seguida também afetar o Brasil. Assim podemos ver que existe um efeito em cadeia que, com certeza, não acabará no Brasil. 6.1 GUERRA CAMBIAL Voltando à boa posição do Brasil nesse cenário negativo da Europa e uma economia meio parada nos Estados Unidos, o real vem se valorizando, enquanto os países desenvolvidos estão tentando desvalorizar suas moedas para incentivar o crescimento de suas economias, com níveis de desemprego nunca antes experimentados, pelo menos nas últimas décadas. Enquanto isso acontece nos países desenvolvidos, a China tem como estratégia comercial manter sua moeda artificialmente desvalorizada. Neste cenário de manipulação das divisas, o real mantém uma taxa cambial alinhada quase 100% ao mercado. Ou seja, é cotado livremente, enquanto os demais países tentam aplicar artifícios para desvalorizar suas moedas, mantendo assim uma tendência de valorização desde 2008. Mas por que os países desenvolvidos e a China querem manter suas moedas relativamente desvalorizadas? Principalmente para melhorar a competitividade de seus UNIDADE1 TÓPICO 4 65 P R á T I C A C A M B I A L produtos, incentivar suas exportações e diminuir as importações, melhorando o mercado de trabalho e o consumo interno através de mais produção nacional. Neste cenário vamos analisar o porquê de os maiores exportadores do mundo quererem manter seu tipo de câmbio depreciado, afetando o real e a indústria nacional. Para visualizar a posição relativa desses países, vamos apresentar novamente o Quadro 1 já exposto anteriormente: QUADRO 1 – PRINCIPAIS EXPORTADORES DO MUNDO, EM TRILHÕES DE US$ Posição País Exportações PIB % 1 China 1.506 5930 25% 2 Alemanha 1.337 3286 41% 3 Estados Unidos 1.270 14527 9% 4 Japão 765 5488 14% 5 França 509 2563 20% 10 Reino Unido 406 2263 18% 17 Espanha 268 1395 19% 23 Brasil 200 2143 9% FONTE: Disponível em: <http://knoema.com/nwnfkne>; <http://www.nationmaster.com/ graph/eco_exp-economy-exports>. Acesso em: 24 jul. 2012. • China: em 2011 foi o primeiro exportador do mundo e é um país altamente dependente de suas exportações para manter sua dinâmica econômica, por enquanto, 25% do PIB em 2011 vieram das exportações. Por outro lado sua economia interna não é muito forte; assim, embora a classe média desse país tenha aumentado muito nos últimos anos, ainda não é um forte motor de crescimento econômico, como pode ser aqui no Brasil ou nos Estados Unidos. Logo, para cumprir suas metas de crescimento econômico, a China precisa manter suas exportações em constante alta, conservando seus investimentos em novas fábricas e infraestrutura: assim mantém sua oferta exportável e a economia em crescimento. Desta forma, como plano de seu posicionamento internacional, tem mantido sua moeda artificialmente desvalorizada e semifixa durante os últimos anos. • Alemanha: em 2011 foi o segundo maior exportador e sua economia depende muito das exportações, que representaram 40% do PIB em 2011, ou seja, 40% de sua economia é dependente do mercado externo. Embora a classe média desse país seja uma das mais ricas e produtivas do mundo, a Alemanha tem mantido seu crescimento dependente mais do mercado externo, tanto da União Europeia como do resto do mundo. Em termos relativos de análise, a economia alemã está utilizando uma moeda relativamente desvalorizada para o nível de sua economia. Quando comparados, o trabalhador alemão é mais produtivo que o trabalhador espanhol ou italiano, porém esses países UNIDADE 1TÓPICO 466 P R á T I C A C A M B I A L compartilham o euro como moeda única, eis o problema de produtividade relativa da Europa. Se cada um desses países tivesse sua moeda própria, o mercado já teria desvalorizado as dos países cuja produtividade é menor que a alemã; este é justamente um dos grandes problemas de existir uma moeda única entre economias diferentes. Desta maneira, a Alemanha tem se aproveitado indiretamente dessa conjuntura, atingindo níveis muito bons de exportação para a zona do euro e para países fora dela. Assim, da mesma forma que a Alemanha, muitos outros países da zona do euro têm interesse em manter sua moeda desvalorizada e, assim, incentivar suas economias semiparadas. Ou seja, o maior país da Europa, Alemanha, junto com outros países da zona do euro querem manter, conjunturalmente, desvalorizado o euro, afetando diretamente a posição do real. • Os Estados Unidos: embora seja a maior economia do mundo, é o terceiro exportador mundial, pois suas exportações representam somente 9% do seu PIB. Isto quer dizer que sua economia interna é muito forte, igual à do Brasil que possui os mesmos 9% do PIB vindo das exportações. Com a grande recessão de 2008, os Estados Unidos tentam incentivar sua demanda e o mercado de trabalho, através de juros baixos e uma grande emissão de moeda. Esta emissão de moeda tem invadido os mercados financeiros internacionais com dinheiro barato em US$: deste modo, os investidores têm conseguido lucros muito bons pegando dinheiro emprestado, a quase 0% de juros, e colocando-o aqui no Brasil a juros muito atraentes, acima de 10%. Este fato tem pressionado muito o real, valorizando-o. Exemplos bem parecidos podem ser encontrados em muitos outros países, mas de menor tamanho, que estão na mesma situação. Desta maneira, pode-se visualizar que o real possui muitas frentes que pressionam sua valorização. Destas frentes financeiras de pressão as mais fortes são os fluxos de capital vindo ao Brasil e a desvalorização artificial da moeda chinesa. Ao contrário de outros países, o interesse da China em desvalorizar sua moeda é mais estrutural, e faz parte de seu projeto de crescimento econômico. Essa guerra cambial, principalmente da China, tem causado muito impacto no Brasil. Tal é a situação que muitas fábricas brasileiras têm demitido empregados e alguma delas até ido à falência. Os produtos chineses entram com preços muito baixos, graças ao yuan desvalorizado e à mão de obra excessivamente barata de que dispõe a China. 6.2 AS NOVAS NORMAS CAMBIAIS Outra das frentes de valorização do real é o incremento das exportações brasileiras dos últimos anos, em especial das commodities (matérias-primas). Assim, o país tem mudado algumas normas para dilatar a entrada de divisas geradas pela exportação. UNIDADE 1 TÓPICO 4 67 P R á T I C A C A M B I A L O Brasil de hoje não tem a mesma estrutura econômica de há 30 anos. Naquele tempo o país procurava atrair as divisas geradas pelas exportações o mais rápido possível. Assim, o país criou uma série de normas para que os exportadores comprassem moeda local assim que cobrassem suas faturas no exterior. Desta maneira pressionava a moeda nacional para diminuir a desvalorização estrutural que o país enfrentava na época. Essas normas tiveram que ser mudadas para acompanhar a nova situação do Brasil, que tem melhorado muito sua dinâmica na balança comercial. Os problemas crônicos de falta de divisas passaram para a situação inversa: excesso de divisas estrangeiras, portanto essas normas mudaram. Até março de 2005, os exportadores dispunham de apenas 20 dias (após ter recebido o valor de suas vendas no exterior) para vender suas divisas e comprar moeda nacional. Essa norma que antes ajudava o real a se apreciar, e assim baixar a pressão estrutural de desvalorização, estava prejudicando a economia. Deste modo, em março daquele ano, a norma mudou e o prazo passou para 210 dias, visando diminuir a oferta de divisas no mercado de câmbio e frear um pouco as perspectivas de valorização do real. Apesar dessa norma, a pressão de valorização continuava, portanto foram criadas mais normas adicionais. No dia 3 de agosto de 2006 foi publicada no Diário Oficial a Medida Provisória n°315, visando entre outras coisas: • Possibilidade para os exportadores de manter saldos no exterior. Além de poder manter até 210 dias as vendas já cobradas das exportações no exterior, os exportadores podem disponibilizar até 30% dessas vendas sem ter que ingressar no país. Deste modo, haverá redução no fluxo de divisas ingressando no país. Esta porcentagem está sujeita a mudanças do Conselho Monetário Nacional (CMN), de acordo com as necessidades da economia. • Possibilidade para os exportadores da utilização desses saldos no exterior. Esses saldos podem ser utilizados em aplicações próprias para o giro do negócio do exportador. Ou seja, a partir desta nova norma, os exportadores poderão utilizar esses recursos para suas necessidades de insumos e matérias-primas do exterior (importações). Antes eles tinham que vender suas divisas, depositar esses reais gerados das exportações, e logo comprar divisas para pagar seus fornecedores no exterior, gerando excesso de operações de câmbio, sem necessidade alguma, e encarecendo os custos de produção.Esses saldos no exterior também podem ser utilizados para novos investimentos de seus negócios, compra de bens de capital (maquinaria). • Dispensada a necessidade de contratos de câmbio para compra e venda de divisas abaixo de US$ 3.000. Desta forma, pequenas exportações seriam dispensadas de fazer contratos de câmbio. Isto facilita os trâmites de pequenos exportadores e dos turistas que entram e saem do país, precisando só informar o nome da pessoa (jurídica ou não), o objetivo da transação e o montante. UNIDADE 1TÓPICO 468 P R á T I C A C A M B I A L UNI Se você quiser dar uma olhada na publicação integral da MP no Diário Oficial, segue o link: <http://www.receita.fazenda.gov.br/ legislacao/mps/2006/mp315.htm>. Fica claro que essas normas foram estabelecidas para baixar a pressão da valorização do real, pois, além do incremento das exportações como já vimos, também existe a pressão financeira com fluxos de investimentos de curto e longo prazo entrando no Brasil. Toda essa perspectiva do novo cenário do mercado de câmbio em que agora o Brasil está inserido faz pensar que as mudanças vão continuar. Será que agora a fase seguinte é permitir agências de bancos off-shore (agências bancárias que podem movimentar saldos em divisas estrangeiras dentro do país)? Talvez seja este o passo a seguir para dinamizar mais ainda a movimentação de divisas de que o país precisa, como já existe em muitos outros países. Agora que já estudamos o cenário econômico internacional, os principais países ou blocos econômicos que são parceiros comerciais do Brasil, os conceitos de mercado cambial internacional e o mercado cambial atual do Brasil, temos a capacidade de enxergar a posição econômica do Brasil neste grande mercado de divisas. Assim, ficará mais fácil para você ligar os conceitos que vai apreender nas unidades seguintes deste caderno sobre a prática cambial e como podem ser vinculados ao cenário internacional em que o Brasil está inserido. Vamos adiante? LEITURA COMPLEMENTAR GUERRA CAMBIAL: UMA DISPUTA ENTRE GIGANTES A guerra cambial não está apenas relacionada ao câmbio, mas está ligada às “relações econômicas internacionais que não estão resolvidas”, alerta o economista Guilherme Delgado. Para ele, a ideia de que a crise internacional terminou é falsa. “As repercussões monetárias e financeiras da crise estão presentes até agora”, menciona Por: Patrícia Fachin A guerra cambial que se desenha no cenário internacional é uma batalha entre grandes economias: “a Europa tenta defender as suas posições de competição no comércio internacional; os EUA defendem a sua situação crítica; e a China, que é o grande emergente mundial, tenta defender a sua crescente participação neste comércio mundial”. A constatação UNIDADE 1 TÓPICO 4 69 P R á T I C A C A M B I A L é do economista Guilherme Delgado e foi expressa na entrevista que segue, concedida por telefone à IHU On-Line. Segundo ele, um dos principais fatores da guerra cambial está relacionado à tentativa de a economia norte-americana tentar se recuperar da crise de 2008, e com isso, o dólar, que, desde o Acordo de Bretton Woods rege o sistema monetário internacional, gradualmente pode perder espaço entre as economias. “Quando se perde a hegemonia da potência emissora da moeda de reserva, os países adotam políticas de defesas cambiais e comerciais para preservar sua posição competitiva no mercado internacional. [...] Países como o Brasil, que têm uma situação emergente no comércio mundial e que são vitimados pela crise das finanças globais, precisam se defender até que haja condições de um acordo global, no qual eles consigam se inserir de uma forma mais autônoma e segura do ponto de vista dos seus interesses estratégicos”, aconselha. Na avaliação do economista, os países querem sair da dependência da zona do euro e do dólar “porque essas moedas estão se revelando frágeis em relação ao projeto de construção de uma nova ordem monetário-financeira internacional, que foi gestada nos anos 1940 do pós- guerra, a qual cumpriu o seu papel, mas está em fase de exaustão”. Guilherme Delgado é doutor em Economia pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp. Trabalhou durante 31 anos no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - Ipea. Confira a entrevista. IHU On-Line - Quais são os critérios para definir a taxa cambial, hoje, no mercado global? Guilherme Delgado – O regime cambial brasileiro, desde 1999, é de livre flutuação. Então, as transações comerciais e financeiras que o país realiza com o exterior, as quais provocam entrada e saída de capitais (dólar ou de outras moedas estrangeiras), geram um fluxo de entrada de dólares. Já o movimento comercial de importações de mercadorias e serviços gera a saída de dólares. O que ocorre atualmente é uma superentrada de dólares pelo lado financeiro, à medida que existe uma liquidez externa muito grande dirigida aos países emergentes como fonte de aplicações financeiras ou de investimentos. Em contrapartida, temos um movimento comercial ruim porque as exportações têm sido, crescentemente, penalizadas e diminuídas, enquanto as importações são incrementadas. Então, há um déficit de transações de mercadorias e serviços. Essa superentrada de capitais provoca uma forte apreciação do real em relação ao dólar e isso inibe as exportações, facilitando, por outro lado, as importações. Esse é o quadro que estamos vivendo: déficit nas transações comerciais e superávit nas transações financeiras, o que provoca uma forte apreciação da moeda brasileira em relação ao dólar. IHU On-Line - É possível controlar o câmbio e o sistema financeiro? Quais as implicações do controle e da flutuação cambial? UNIDADE 1TÓPICO 470 P R á T I C A C A M B I A L Guilherme Delgado – A primeira implicação do atual regime é uma apreciação elevada do real. Com isso, o país perde competitividade, ou seja, capacidade de exportar. Esse movimento é também facilitador das importações de mercadorias e serviços: viajar para o exterior se torna barato, por exemplo, e essa política inibe a indústria nacional. Como se controla isso? Atualmente o governo está apelando para instrumentos fiscais, como é o caso do Imposto sobre Operações Financeiras – IOF – para inibir a excessiva entrada de capitais estrangeiros na economia. Inicialmente, este era um imposto extremamente baixo, de 0,30%. Depois, aumentou para 2, para 4 e deve ser aumentado para 6% a fim de tentar frear o ritmo das aplicações financeiras na economia com o intuito de reduzir a valorização da moeda nacional. Há uma guerra cambial, na qual os EUA, que são os emissores da moeda de reserva internacional, estão financiando os seus déficits internos, provocados pela crise internacional, diante de forte emissão de moeda de reserva. Isso inunda o mundo de dólares e, portanto, torna a moeda muito barata. Diante disso, os países têm de adotar medidas de contra-ataque para não ficarem reféns no comércio e nas finanças internacionais. O Brasil está sendo atacado por uma guerra cambial, na qual os interesses comerciais e financeiros da potência hegemônica dos EUA estão em jogo. IHU On-Line - Pode nos explicar o que é e o que significa essa “guerra cambial”? É uma guerra entre países emergentes e desenvolvidos? Que interesses existem por trás dela? Guilherme Delgado – Essa guerra acontece em situações de transição nas relações econômico-financeiras internacionais. Quando se perde a hegemonia da potência emissora da moeda de reserva, a linha de defesa das políticas cambiais e comerciais tenta resolver o seu problema gerando o máximo de excedentes externos, o máximo de exportações e o mínimo de importações, na perspectiva de sair bem do processo competitivo. Essa perspectivanão resolve o problema global; pelo contrário, isso tende a reduzir o comércio e as transações até que se chegue a um acordo internacional sobre condições de comércio e finanças. No momento, estamos vivendo uma guerra entre os grandes: a Europa tenta defender as suas posições de competição no comércio internacional; os EUA defendem a sua situação crítica; e a China, que é o grande emergente mundial, tenta defender a sua crescente participação no comércio internacional. Dos emergentes, como é o caso do Brasil, Índia e China, cada qual quer preservar ou melhorar a posição competitiva. Essa situação requer um novo acordo internacional de comércio e finanças, mas, enquanto isso não acontece, a estratégia privada ou público-privada de cada país seria defender o seu quinhão. É o que se faz hoje. A expressão “guerra cambial” é verdadeira não apenas quando o assunto é câmbio, mas também quando se fala nas relações econômicas internacionais que não estão resolvidas. A ideia de que a crise internacional terminou não é verdade. IHU On-Line - Essa guerra cambial sinaliza a não hegemonia da moeda americana como moeda de troca internacional? Vislumbra a ascensão do yuan? Guilherme Delgado – Sinaliza, sim, a crise do dólar. Na medida em que a potência hegemônica é debilitada na sua capacidade econômica de exercer uma competitividade global, UNIDADE 1 TÓPICO 4 71 P R á T I C A C A M B I A L percebe-se uma fragilidade da economia americana. A crise financeira de 2008 exacerbou essa dependência externa da economia americana em relação aos seus financiadores e aos grandes exportadores, como China e Japão. Então, tudo isso é um caldo de cultura e aponta uma debilidade da moeda de reserva internacional como grande âncora da economia global desde o pós-guerra. A China hoje é um grande credor internacional porque é o maior exportador mundial; atrela sua moeda à moeda americana. Portanto, o yuan é uma moeda desvalorizada. A grande pressão norte-americana é para que a China adote a mesma política brasileira, que é valorizar ou seguir valorizando a moeda nacional em relação ao dólar. Essa não é a política chinesa e nem deve ser a política brasileira, agora que o Brasil sentiu claramente o sintoma dessa valorização cambial. O sintoma claro é o aparecimento de déficits em conta-corrente extremamente elevados. O déficit é financiado pela entrada de capitais externos de empréstimos ou de riscos. A entrada expressiva desses capitais valoriza a moeda nacional e, portanto, torna as exportações menos competitivas e aumenta a condição do déficit. O Brasil estava ignorando o déficit como um problema, mas agora adotou uma política defensiva em relação à entrada excessiva de capitais estrangeiros, passando a tributar. O país está na linha certa, embora isso tenha sido feito tardiamente. IHU On-Line - Brasil e China pretendem desenvolver um sistema de câmbio direto entre real e yuan, sem passar pelas cotações do dólar e do euro. Quais as vantagens e desvantagens dessa relação cambial para a economia brasileira? O Brasil tem condições de fazer esse tipo de negociação? Guilherme Delgado – Essa relação sinaliza a crise da moeda de reserva. Quando se estabelecem outras moedas como referência no comércio, supostamente a moeda de reserva não cumpre mais esse papel. Por outro lado, esse tipo de medida também não é uma solução porque, se o Brasil estabelecer um acordo bilateral com a China para fazer do yuan uma moeda de reserva e vice-versa com o real, cria-se um sistema monetário muito complexo e baseado em convênios e não no intercâmbio e na capacidade de ter uma moeda simples que possa expressar o intercâmbio mundial de mercadorias. Os países querem sair da dependência da zona do euro e do dólar porque essas moedas estão se revelando frágeis em relação ao projeto de construção de uma nova ordem monetário-financeira internacional. A transição a esse processo de hegemonia financeira em geral é demorado. Esse assunto será retomado nesta fase de instabilidade monetária internacional. IHU On-Line - Como avalia a relação cambial entre Brasil e China? Guilherme Delgado – O país tem uma situação de relação comercial com a China relativamente desfavorável ao Brasil porque, assim como os EUA, a China tem uma moeda muito desvalorizada. Então, uma relação Brasil X China de forma privilegiada, sem alterações cambiais que permitam um novo padrão de paridades entre as moedas, pode não ser funesta, por um lado, porque o Brasil será inundado de produtos chineses. De qualquer modo, perderá competitividade industrial, da mesma forma como perderia também para a economia americana, UNIDADE 1TÓPICO 472 P R á T I C A C A M B I A L mantida essa paridade atual. É preciso ter um novo quadro de paridade entre as moedas euro, dólar, yuan, real etc. que reflita uma relação econômica internacional mais equilibrada para que os países não apresentem déficits em conta-corrente de forma crescente e insustentável, como é o caso brasileiro. O Brasil está caminhando para uma situação de déficit em conta-corrente insustentável. Portanto, isso não é um bom parâmetro para se fazer acordos internacionais. Temos de mudar a nossa relação cambial seja mediante um pacto internacional, se houver, ou através de políticas internas defensivas para evitar uma crise cambial. Esse ainda não é o caso presente no Brasil porque temos reservas altas, mas essas reservas não resolvem o problema futuro, quando se acumulam déficits crescentes e se precisa cada vez mais de empréstimos ou entradas de capitais para financiar esses déficits. Ou o Brasil resolve esse problema, ou qualquer acordo assimétrico seja com a China, EUA, ou União Europeia, não irá resolver a questão. Uma nova relação com a China é importante desde que o Brasil consulte o interesse nacional estratégico nesse campo. O Brasil tem mais a ganhar com uma certa valorização da moeda chinesa porque a sua desvalorização, acompanhando a desvalorização da moeda americana, aumenta a nossa dependência externa. A política de desvalorização do yuan é boa para a China, mas não é boa para o Brasil. A valorização da moeda chinesa é boa para o Brasil no sentido de inibir o déficit em conta-corrente com a China, mas, evidentemente, isso afetará o preço das commodities que o Brasil exporta para a China e terá outras consequências. FONTE: Disponível em: <http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=articl e&id=3604&secao=348>. Acesso em: 4 jun. 2012. UNIDADE 1 TÓPICO 4 73 P R á T I C A C A M B I A L • Nesta unidade você verificou a diferença entre repasse interbancário e cobertura interbancária. • Aprendeu sobre o mercado cambial controlado, assim como as novas normas cambiais. • Você também aprendeu sobre os principais países exportadores, bem como a guerra cambial entre eles. • Outro fato importante que você aprendeu foi sobre a desvalorização cambial antes do Plano Real, e a importância da sua criação, para que trouxesse o equilíbrio econômico e controle inflacionário para o Brasil que vivemos hoje. • Agora você está apto(a) a realizar as autoatividades, procure responder sem copiar do texto. RESUMO DO TÓPICO 4 UNIDADE 1TÓPICO 474 P R á T I C A C A M B I A L AUT OAT IVID ADE � 1 Qual é a diferença entre repasse interbancário e cobertura interbancária? 2 O que você entendeu por mercado cambial controlado? 3 O que foi o Plano Real? UNIDADE 1 TÓPICO 4 75 P R á T I C A C A M B I A L AVA LIA ÇÃO Prezado(a) acadêmico(a), agora que chegamos ao final da Unidade 1, você deverá fazer a Avaliação referente a esta unidade. UNIDADE 1TÓPICO 476 P R á T I C A C A MB I A L