O NORMAL E O PATOLÓGICO
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O NORMAL E O PATOLÓGICO

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O NORMAL E O PATOLÓGICO
Sem os conceitos de normal e de patológico o pensamento e a atividade do médico são incompreensíveis. Torna-se então grandemente necessário que esses conceitos sejam tão claros à apreciação médica quanto lhe são indispensáveis. O conceito de patológico é idêntico ao de anormal? Ele é o contrário ou o contraditório de normal? E normal é idêntico a são? Anomalia é a mesma coisa que anormalidade? Enfim, o que pensar dos monstros? Supondo-se ter sido obtida uma delimitação satisfatória do conceito de patológico em relação aos seus aparentados, acreditar-se-ia que o daltonismo seja um caso patológico tal como a angina de peito, ou que a doen­ça azul seria tal como o paludismo e que entre uma enfermidade na ordem da vida de relação e uma ameaça permanente para a vida vegetativa há outra identidade além daquela do adjetivo que as qualifica na linguagem humana? A vida humana pode ter um sentido biológico, um sentido social, um sentido existencial. Todos esses sentidos podem ser indiferentemente retidos na aprecia­ção das modificações que doença inflige ao vivente humano. Um homem não vive unicamente como uma árvore ou um coelho.
Com frequência se notou a ambiguidade do termo normal que designa ora um fato capaz de descrição por recenseamento estatístico - média das medidas operadas em um caráter apresentado por uma espécie e pluralidade dos indivíduos apresentando esse caráter segundo a média ou com alguns desvios estimados indiferentes-, ora um ideal, princípio positivo de apreciação no sentido de protótipo ou de forma perfeita. Que essas duas acepções estejam sempre ligadas, que o termo normal seja sempre confuso, é o que se destaca dos conselhos próprios que nos são dados para evitarmos essa ambiguidade. Mas talvez seja mais urgente buscaras razões da ambiguidade para se compreender sua vitalidade renovada e extrair disso mais uma lição do que um conselho.
No fundo, o que está em questão é tanto o objeto da biologia quanto o da arte médica. Bichat, em Recherches sur la vie et la mort (1800), fazia da instabilidade das forças vitais, da irregularidade dos fenômenos vitais, em oposição com a uniformidade dos fenômenos físicos, o caráter distintivo dos organismos. E, em sua Anatomie générale (1801), ele observava que não há astronomia, dinâmica,hidráulica patológicas porque as propriedades físicas, nunca se desviando de “seu tipo natural”, não necessitam de ser a ele reconduzidas. Nestas duas considerações está o essencial do vitalismo de Bichat; mas como basta, depois de alguns 100 anos, qualificar uma teoria médica ou biológica de vitalista para depreciá-la, esqueceu-se de conceder a essas observações toda a atenção que elas mereceriam. Portanto, é preciso acabar com a acusação de metafísica, de fantasia, para não dizer mais, que persegue os biólogos vitalistas do século XVIII. De fato, e nos será fácil mostrá-lo um dia desses e em outro lugar, o vitalismo é a recusa de duas interpretações metafísicas das causas dos fenômenos orgânicos: o animismo e o mecanismo. Todos os vitalistas do século XVIII são newtonianos, homens que recusam hipóteses sobre a essência dos fenômenos e que pensam apenas dever descrever e coordenar, diretamente e sem preconceito, os efeitos tais como os percebem. O vitalismo é o simples reconhecimento da originalidade do fato vital. Nesse sentido, as observações de Bichat que unem os dois caracteres de irregularidade e de alteração patológica à organização vital, como um fato específico, parecem-nos dever ser retomadas de perto.
No fundo, não se trata de nada menos do que de saber se, falando do vivente, devemos tratá-lo como sistema de leis ou como organização de propriedades, se devemos falar de leis da vida oudc ordem da vida. Com muita frequência os sábios consideram as leis da natureza como invariantes essenciais cujos fenômenos singulares constituem exemplares aproximados, mas falhos para reproduzir a integralidade de sua suposta realidade legal. Num tal ponto de vista, o singular, isto é, o desvio, a variação, aparece como um fracasso, um vício, uma impureza. O singular é, portanto, sempre irregular, mas, ao mesmo tempo, ele é perfeitamente absurdo,pois ninguém pode compreender como uma lei cuja invariância em que a identidade a si garante a realidade é, a um só tempo, verificada por exemplos diversos e impotente para reduzir sua variedade, ou seja, sua infidelidade. É que, na ciência moderna, apesar da substituição da noção de gênero pela noção de lei, o primeiro desses conceitos retém do segundo, e da filosofia onde ele tinha um lugar eminente, uma certa significação de tipo imutável e real, de modo que a relação da lei com o fenômeno (a lei da gravidade e da queda do caco que matou Pirro) é sempre concebida sobre o modelo da relação entre o gênero e o indivíduo (o Home e Pirro). Vemos reaparecer, sem intenção de paradoxo ou de ironia, o problema, célebre na Idade Média, da natureza dos Universais.
Isso não escapou a Claude Bernard que, em Principe de Médecine expérimentale,dedica a esse problema da realidade do tipo e das relações do indivíduo com o tipo, em função do problema da relatividade individual do fato patológico, algumas páginas mais ricas de convites a refletir do que de respostas propriamente ditas. Foi nossa intenção invocar aqui Claude Bernard preferencialmente a outros, pois sabemos o quanto em Introduction à letude de la médecine expérimentale - e também em Principes de Médecine expérimentale - Claude Bernard dispôs de energia para afirmar a legalidade dos fenômenos vitais, sua constância tão rigorosa nas condições definidas quanto o pode ser a dos fenômenos físicos. Em suma, para refutar o vitalismo de Bichat, considerado como um indeterminismo. Ora, precisamente em Principes, Claude Bernard é levado a constatar que se a verdade está no tipo, a realidade se encontra sempre fora desse tipo e difere dele constantemente. Ora, para o médico, essa e uma coisa muito importante. É com o sujeito que ele tem sempre de lidar. Não há médico do tipo humano, da espécie humana.

O problema teórico e prático se torna então estudar “as rela­ções do indivíduo com o tipo”. Essa relação parece ser a seguinte: “A natureza tem um tipo ideal em todas as coisas, é certo; mas nunca esse tipo é realizado. Se fosse realizado, não haveria indiví­duos, todo mundo se pareceria”. A relação que constitui a particularidade de cada ser, de cada estado fisiológico ou patológico é “a chave da idiossincrasia sobre a qual repousa toda a medicina”. Mas essa relação, ao mesmo tempo em que é a chave, é também obstáculo. O obstáculo à biologia e à medicina experimental reside na individualidade. Essa dificuldade não se encontra na experimentação sobre os seres brutos. E Claude Bernard recenseou todas as
coisas ligadas ao fato da individualidade que alteram, no espaço e no tempo, as reações de viventes aparentemente semelhantes a condições de existência aparentemente idênticas.
 Apesar do prestígio de Claude Bernard sobre os espíritos dos médicos e fisiologistas,3 não hesitaremos em formular, no que concerne às reflexões acima relatadas, algumas observações restritivas. O reconhecimento dos existentes individuais, atípicos, irregulares, como fundamento do caso patológico é, em suma, uma homenagem bastante bela, involuntária, à perspicácia de Bichat. Mas o que impede essa homenagem de ser inteira é a crença em uma legalidade fundamental da vida, análoga à da matéria, crença que não testemunha necessariamente sobre toda a sagacidade que usualmente lhe reconhecem. Pois, afinal, afirmar que a verdade está no tipo, mas que a realidade está fora dele, afirmar que a natureza tem tipos, mas que estes não são realizados, não seria fazer do conhecimento uma impotência em alcançar o real e justificar a objeção feita outrora por Aristóteles a Platão: se separarmos as Ideias e as Coisas, como dar conta da existência das coisas e da ciência das Ideias? Melhor ainda, ver na individualidade “um dos obstáculos mais consideráveis da biologia e da medicina experimental” não é uma