Parasitologia 2 - Fernando Zanette
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Parasitologia 2 - Fernando Zanette


DisciplinaInternato Médico IV – Saúde do Adulto – Clínico3 materiais38 seguidores
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Parasitologia 3ª Fase \u2013 Fernando Netto Zanette \u2013 Med. UFSC 13.2 
 Malária 
 Definição 
A malária \u2013 também conhecida como maleita, febre palustre ou impaludismo \u2013 
caracteriza-se como uma parasitose de grande importância devido à sua alta 
letalidade \u2013 principalmente em gestantes e crianças -, sendo grave problema para 
aqueles que adquirem a doença pela primeira vez pela ausência de anticorpos 
protetores. A enfermidade se encontra majoritariamente em áreas tropicais e 
subtropicais do planeta, com África, Ásia, Oceania e Américas enquadrando-se como 
os continentes mais afetados, e sendo que cerca de 85% dos casos localizam-se no 
continente africano. Em solo brasileiro, as principais áreas endêmicas estão na 
Amazônia Legal, que comporta mais de 90% dos casos do País. 
Das inúmeras espécies de Plasmodium, apenas cinco se mostram capazes de 
parasitar o ser humano, listadas abaixo em ordem decrescente de ocorrência. 
 Plasmodium vivax \u2013 terçã benigna, ciclos febris de 48 horas. Período 
de incubação de 14 dias; 
 Plasmodium falciparum \u2013 terçã maligna, acessos febris cíclicos de 36 a 48 horas. Período de incu-
bação de 12 dias; 
 Plasmodium malariae \u2013 quartã, acessos febris a cada 72 horas. Período de incubação de 30 dias; 
 Plasmodium ovale \u2013 terçã benigna, ciclos febris de 48 horas. Período de incubação de 14 dias; 
 Plasmodium knowlesi \u2013 febre cotidiana; 
O P. falciparum se mostra predominante na região da África, sendo seguido pelo P. malariae e, mais raramen-
te, pelos P. ovale e P. vivax. Este \u2013 embora incomum na África \u2013 tornou-se a espécie predominante nas Américas, 
responsabilizando-se pelo maior número de casos da doença no Brasil, em contraste com o maior número de óbitos 
provocado pelo P. falciparum. 
Os plasmódios que infectam humanos diferem em características clínicas e epidemiológicas, sendo o P. 
falciparum o mais virulento e o responsável por produzir uma doença potencialmente mais grave. 
Os insetos vetores da malária pertencem à ordem Diptera, família Culicidae e gênero Anopheles, o qual 
abrange cerca de 300 espécies. O Anopheles gambiae se mostra o vetor maior predominância na África, ao passo que 
o Anopheles darlingi se demonstra a espécie mais comum no Brasil. 
 Morfologia 
Os plasmódios apresentam características morfológicas variadas de acordo com o estágio de desenvolvimento 
em que se encontram. As formas evolutivas extracelulares \u2013 capazes de invadir as células do hospedeiro \u2013 
qualificam-se como esporozoítos, merozoítos (no homem) e oocineto. Todas elas possuem um complexo apical 
formado por roptrias e micronemas, ambas envolvidas no processo de interiorização nas células. As formas 
intracelulares dos plasmódios, por outro lado, compreendem os trofozoítos, os esquizontes e os gametócitos. 
 Classificação científica 
Filo Apicomplexa 
Classe Aconoidasida 
Ordem Haemosporida 
Família Plasmodiidae 
Gênero Plasmodium 
Espécie Plasmodium spp. 
 Esporozoítos 
Os esporozoítos possuem forma alongada com 
extremidades afiladas. Eles apresentam uma membrana 
externa revestida por um material proteico contendo a 
proteína circunsporozoíta, importante na composição 
antigênica do plasmódio. O complexo apical, no terço 
anterior do esporozoíto, apresenta três formações anulares, 
com um par de roptrias e incontáveis micronemas centrais. 
Os esporozoítos dispõem da capacidade de permanecer 
viáveis nas glândulas salivares do inseto vetor por até dois 
meses. 
 Trofozoíto 
O trofozoíto \u2013 na sua forma exoeritrocítica/pré-
eritrocítica, ou seja, fora dos eritrócitos \u2013 desfruta de uma 
morfologia arredondada, formado a partir da perda de 
organelas do complexo apical dos esporozoítos no 
momento em que estes penetram no hepatócito. Após 
inúmeras divisões, os trofozoítos originam o criptozoíto ou esquizonte tissular, composto por uma massa 
citoplasmática e incontáveis núcleos. A forma eritrocítica inclui os trofozoítos jovens, os maduros ou esquizontes e 
os gametócitos. 
 Merozoítos 
Essa forma do parasita \u2013 que possui capacidade de 
invadir os eritrócitos - é menor e mais arredondada, 
embora ainda seja muito semelhante aos esporozoítos. Eles 
se recobrem por uma capsula pilosa contendo glicoproteínas 
e muitas moléculas de adesão que auxiliam na invasão do 
eritrócito. À medida que o parasita cresce, processa-se um 
aumento do seu conteúdo citoplasmático, principalmente 
do número de ribossomos. Ao fim da esquizogonia 
eritrocitária, ocorre a formação do complexo apical e de 
microesferas. No interior do citoplasma do eritrócito, dá-se 
a formação de uma estrutura denominada rosácea, com o 
pigmento malárico concentrado em uma porção do 
citoplasma. Após o rompimento da hemácia, o pigmento 
malárico sofre fagocitose pelas células de Kupffer no 
fígado ou pelos macrófagos do baço ou de outros órgãos. 
Os trofozoítos sanguíneos originam os gametócitos. 
O microgameta, como de costume, constitui o gameta 
masculino, uma célula flagelada originada do processo de 
exflagelação e formada no estômago do mosquito. O macrogameta \u2013 ou gameta feminino \u2013 possui um clone atrativo 
na sua superfície, local onde ocorrerá a penetração do microgameta. Após a fecundação, um zigoto será formado. Este 
Morfologia dos três principais estágios de P. falciparum 
Morfologia dos três principais estágios de P. malarie 
sofrerá um processo de alongamento e adquirirá motilidade, transformando-se na forma móvel e alongada do 
parasita denominada oocineto. 
O oocineto se envolve em uma cápsula espessa e dá origem ao oocisto, uma estrutura esférica que apresenta 
em seu interior grânulos contendo pigmentos. Nas infecções mais brandas, todos os oocistos possuem, de forma 
geral, o mesmo tamanho. Nas infecções mais intensas, todavia, eles podem apresentar dimensões variadas. Cada 
oocisto dispõe da capacidade de originar em torno de 1000 esporozoítos. 
 Ciclo biológico 
O parasita apresenta um ciclo digenético ou heteroxênico, sendo o homem o hospedeiro intermediário e o 
mosquito Anopheles o definitivo. O ciclo, de 
maneira didática, pode se dividir em três 
estágios. 
 Estágio hepático 
Esse estágio, caracterizado pelo ciclo 
exoeritrocítico, tem local de ocorrência no 
fígado do homem. A fêmea do mosquito, 
durante sua alimentação hematófaga, inocula 
esporozoítos na corrente sanguínea do 
hospedeiro intermediário \u2013 o ser humano. O 
parasita possui tropismo pelo tecido hepático 
e, da corrente sanguínea, migra para o fígado. 
Aqui, os esporozoítos penetram nos 
hepatócitos e, por meio de divisões nucleares 
assexuadas, transformam-se em células 
multinucleadas denominadas esquizontes. 
Cada esquizonte, posteriormente à ruptura do 
hepatócito, origina milhares de merozoítos. O 
estágio hepático do ciclo tende a durar, em 
média, 14 dias, correspondendo ao período de 
incubação da doença. 
 Nas espécies P. vivax e P. ovale, 
durante essa esquizogonia hepática, ocorre a 
formação de estruturas que ficam dormentes no fígado, denominadas de hipnozoítos, os quais podem se reativar 
meses ou anos depois, levando o paciente a apresentar recaídas da malária mesmo fora de área endêmica. 
 Estágio sanguíneo 
Nesse estágio, há a ocorrência do ciclo eritrocítico, com a infestação de hemácias pelo parasita. Após o período 
de latência no tecido hepático, os merozoítos rompem os hepatócitos, atingem os sinusóides hepáticos e retornam 
para a corrente sanguínea, o que lhes permite a invasão dos eritrócitos. No interior dos eritrócitos, os merozoítos 
podem seguir dois caminhos: 
 Originar os trofozoítos que, por reprodução assexuada, formam os esquizontes; 
 Transformarem-se em gametócitos, a forma sexuada capaz de infectar o vetor da doença \u2013 fêmeas anó-
feles;