AARÃO REIS, Daniel   Ditadura e Sociedade, as reconstruções da memória
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AARÃO REIS, Daniel Ditadura e Sociedade, as reconstruções da memória


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Parte I 
Hí,tória e Memória 
REIS, José Carlos. Tempo, história e evasão. Campinas: Papiros, 1994 .. 
SANTOS, Wanderley Guilherme. Sessenta" e quatro: anatomia da crise. R1o de 
Janeiro: Vértice, 1986. 
STARLING, Heloísa. Os senhores das Gerais: os novos inc?nfidentes e o golpe 
de 1964. Petrópolis: Vozes, 1986. 
TAVARES, Maria da Conceição. Da substituição de importações ao capitalismo 
financeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. 
TOLEDO, Caio Navarro. O governo João Goulart e o golpe de 64. São Paulo: 
Brasiliense, 1982. 
___ . A democracia populista golpeada. ln: TOLEDO, Caio Navarro (Org.). 
1964: visões críticas do golpe: democracia e reformas no populismo. Campi-
nas: Ed. da Unicamp, 1997. 
C._A. 
DE 
ENGEN~-Lt\RIA 
( 
Capítulo 2 
DITADURA E SOCIEDADE: 
AS RECONSTRUÇÕES DA MEMÓRIA 
Daniel 'Aarão Reis* 
A essência de uma nação ... 
é que todos sejam capazes de esquecer muitas coisas. 
Ernest Renan 
MEMÓRIA E HISTÓRIA 
São conhecidas as artimanhas da memória. Imersa no presente, preo-
cupada com o futuro, quando suscitada, a memória é sempre seletiva. Provo-
cada, revela, más também silencia. Não raro, é arbitrária, oculta evidências 
relevantes, e se compraz em alterar e modificar acontecimentos e fatos cru-
ciais. Acuada, dissimula, manhosa, ou engana, traiçoeira. Não se trata da afir-
mar que há memórias autênticas ou mentirosas. Às vezes, é certo, é possível 
flagrar um propósito consciente de falsificar o passado, mas mesmo neste 
caso o exercício não perde o valor porque a falsificação pode oferecer interes-
santes pistas de compreensão do narrador, de sua trajetória e do objeto recor-
dado. Por outro lado, e mais freqüentemente, embora querendo ser sincera, a 
memória, de modo solerte, ou inconsciente, desliza, se faz e se refaz em vir-
tude de novas interpelações, ou inquietações e vivências, novos achados e ân-
gulos de abordagem. 
* Professor Titular de História Contemporânea. Núcleo de Estudos Contemporâ-
neos do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense. 
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Parte I 
História e Memória 
O propósito deste artigo' é visitar criticamente certas "batalhas" de 
memória a respeito de processos 2í:uciais de um passado recente da história 
de nosso país: a gênese e a consolidação da ditadura militar, as lutas que se 
travaram contra ela, particularmente a luta armada, e o processo lento, segu-
ro e gradual através do qual os militares abandonaram o proscênio da cena 
política. 
Como se sabe, em História, quando ainda se desenrolam os enfrenta-
mentos nos terrenos de luta, ou mal se encerram, o sangue ainda fresco dos fe-
ridos, e os mortos se~ sepultura, já se desencadeiam as batalhas de memória. 
Nelas os vitoriosos no terreno haverão de se desdobrar para garantir os troféus 
conquistados. E a vitória que fora sua, no campo de luta, poderão perdê-la na 
memória da sociedade que imaginavam subjugada. 
Porque o tempo dá voltas inesperadas. Os derrotados de ontem, na luta 
aberta, podem ser os vitoriosos de amanhã, na memória coletiva. Nas batalhas 
de memória, o jogo nunca está definitivamente disputado, as areias são sempre 
movediças e os pontos considerados ganhos podem ser subitamente perdidos. 
O intuito do texto não é formular, recuperar ou restabelecer verdades. 
Mas compreender como e porque determinados exercícios de memória têm 
sido empreendidos, a lógica interna, as incoerências e as fraturas, e as possí-
veis consequências para a construção de uma sociedade democrática nestes 
brasis do século 21. 
A DITADURA MILITAR: GÊNESE 
Tentemos começar pela conjuntura anterior à intervenção de março de 
1964 que instaurou a ditadura militar. Nela se acumularam as forças que se 
30 
As idéias centrais deste artigo foram originalmente apresentadas no Seminário: 40 
anos do golpe (1964-2004), promovido no Rio de Janeiro e em Niterói, entre 22 e 
26 de março de 2004, pelos Departamentos de História da UFF/Núcleo de Estudos 
Contempor.âneos e da UFRJ, pelo CPDOC da Fundação Getúlio Vargas e pelo Ar-
quivo Público do Rio de Janeiro/APERJ. Ligeiramente modificadas, e enriquecidas 
pelos debates que provocaram, foram também apresentadas no Seminário: Pensan-
do 1964, promovido pelo Centro Cultural Banco do Brasil, entre 30 de março e 2 
de abril de 2004, no Rio de Janeiro (25 de março) e em São Paulo (1 de abril). 
Capitulo 2 
Ditadura e sociedade: as reconstruçôes dà memória 
enfren,taram num grande embate, o mais complexo e violento, e de maiores 
dimensões sociais, que até então conhecera a república brasileira. 
Quando tudo pode ter começado? Na sucessão do tempo, sempre fluí-
do e contínuo, o historiador depara-se com o desafio de estabelecer referên-
çias sem escorregar no puro arbítrio. Compartilho o ponto de vista de muitos 
que apontam agosto de 1961 como um marco inicial.' Deu-se, então, a renún-
cia de um presidente eleito, Jânio Quadros, há apenas sete meses no poder. O 
quanto este líder carismático despertara de esperanças positivas, nas eleições 
que o consagraram, e na posse, em janeiro de 1961, desencadearia, agora, com 
a renúncia, de perplexidade e de decepção. 
Os ministros militares, nomeados por ele, não se conformaram. De 
modo atabalhoado urdiram o golpe: impedir a posse do vice-presidente elei-
to, João Goulart, o Jango, que estava no momento, longe, em visita à China 
Popular, acusando-o de vínculos com o sistema e com o legado de Getúlio Var-
gas, que segundo eles fora derrotado p~lo renunciante,' e também com o co-
munismo internacional. 
Entretanto, contra os primeiros prognósticos, que imaginavam uma vi-
tória rápida, o golpe não prosperou. Foi co11tido por um movimento de resis-
tência democrática liderado pelo então governador do Rio Grande do Sul, Leo-
nel Brizola, cunhado e correligionário de Jango. Agindo com determinação e 
ousadia, Brizola alertou e mobilizou a população de Porto Alegre, formou uma 
cadeia nacional de comunica,ções, a rede da légalidade, e persuadiu_o general 
Machado Lopes, comandante do III Exército, a mais poderosa grande unidade 
do exército brasileiro, sediada no sul do país, a resistir com ele ao golpe. 
Referindo-se à tradição dos militares brasileiros em ganhar ou perder 
batalhas apenas fazendo ameaças ou comunicando intenções, Brizola lançou: 
2 LABAKI, 1961; CASTELO BRANCO, 1996; MARKUN; HAMILTON, 2001. 
3 Pela legislação vigente na época, votava-se separadamente para' presidente e vice-
presidente da República. Assim, Jânio Quadros, apoiado por uma ampla coligação 
liderada pela União Democrática Nacional/UDN (que tinha em sua chapa Miltom 
Campos, político mineiro da UDN, como vice-presidente),' elegeu-se com João 
Goulart, que era vice-presidente de outra chapa, encabeçada pelo Marechal Henri-
que Lott, candidato à presidência apoiado pela coligação formada pelo Partido So-
cial-Democrático/PSD e pelo Partido Trabalhista Brasileiro/PTB. 
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Parte I 
História e Memória 
"Desta vez, eles não vão ganhar .. pelo telefone". De fato, não ganharam. Quem 
ganhou, mas também pelo telefone, foi o próprio Brizola. 
Entretanto, temendo enfrentamentos, Jango aceitou negociar a posse, 
ocorrida em 7 de setembro de 1961. Mas assumiu a presidência com os· pode-
res castrados por uma emenda parlamentarista votada poucos dias antes a to-
que de caixa e de clarins pelo Congres_so Nacional. 
Passada a ameaça da refrega, conjurada mais uma batalha de Itararé: o 
importante para nossos propósitos, é verificar como as forças em presença 
analisaram e interpretaram o ocorrido. 
As direitas ficaram aturdidas. Já perplexas com a renúncia de Jânio, 
quedaram-se completamente desorientadas com o fracasso da aventura gol-
pista. Mais tarde, rememorando os acontecimentos, muitos narrariam o quão 
difícil seria atar e reatar os fios de um processo conspiratório contra Jango.' 
A opinião centrista, largamente majoritária, e com