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Michelin,Simone. Utopia - Atopia – Heterotopia - Teletopia

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inventaram o Tropicalismo. 
É fantástico… plim, plim. 
Fig. Stan Vanderbeek superfície facetada para ambiente intermídia com projeções múltiplas; Open Score de 
Rauschenberg para Nine Evennings: Theater and Engeneering; Trouxas do Barrio
A principal dificuldade da arte dita pública reside no conceito problemático de 
espaço público como corolário da democracia foi inventada pela Revolução Francesa, a 
revolução política da burguesia do séc XVIII, que inaugura “uma história na qual o povo 
experimenta a indeterminação fundamental como a base do poder, lei e conhecimento, e 
como a base de relações entre self/eu e o outro” (Deutsche, 1998: 273). Quando a 
democracia transfere sua fonte de poder para um coletivo, refere-se e passa a ser 
representada por uma abstração, o social, o qual precisa de um referente concreto como algo 
que possa, ainda que de modo relativo, parcial, unificar, recompor seu sentido. Para isso, a 
invenção democrática inventa algo mais: o espaço público baseado na indeterminação 
surgida quando a identidade da sociedade passa a ser um enigma, a partir do abandono dos 
marcos de certeza do referente externo, Deus ou o Rei. O espaço público passa a ser o 
espaço de contestar o poder, de negociação de condições, do conflito que põe em destaque a 
relação eu-outro e nela a incompletude é a única certeza. Ele não é algo dado a priori, mas 
construído, um espaço vazio que se configura temporariamente e muda conforme atuam as 
forças em questão, é o espaço da política que acontece quando há subversão e desligamento 
do social, em outras palavras, quando aparecem as diferenças. Nesse sentido “a 
irreconhecibilidade do social é o cerne da questão que gera o espaço público no coração 
da democracia” (Deutsche, 1998: 274).
Fig. ADA Anarquitetura do Afeto, SM 2004
Para organizar (ou controlar) o social o conhecimento foi atrelado a uma “atitude 
científica entendida como a aplicação do pensamento ‘epistemológico’” (Lefebvre, 
2000:4) que estaria logicamente conectado à esfera espacial. O pensamento epistemológico 
somado às teorias linguísticas acabaram com o status do povo como sujeito coletivo criador 
de linguagem específica e o substituiram por uma generalização, um pronome impessoal 
criador de sistemas. Essa estratégia promove um engano que é continuamente alimentado 
segundo o qual a “noção filosófico-epistemológica de espaço é fetichizada e o âmbito 
mental vem a envelopar o social e o físico” (Lefebvre, 2000:4). Daí o esforço de Lefebvre 
para criar uma relação dialética entre as três instâncias da produção do espaço, o domínio do 
percebido, do concebido e do vivido, e também a importância da relação entre as 
representações do espaço e os espaços de representação de cujo embate poderiam surgir 
novas alternativas de vida. 
A esfera/espaço/vida pública que, conforme vimos, foi apropriada em favor de 
alguns através da estratégia de associar o conhecimento das coisas a códigos – a 
perspectiva, a analogia, o discurso, a escrita, o diagrama, o planejamento, a atribuição de 
significados específicos a certos lugares – a serviço de uma hegemonia e não de uma razão 
realmente lógica, está longe de poder ser considerada um absoluto. Embora a última versão 
da ordem político-econômica capitalista tivesse gerado um tipo de sistema globalizado como 
um super estado – o Império de Negri que não implica em um único centro mantendo, 
porém, uma unidade de intenções e ações entre seus componentes para garantir a própria 
sobrevivência – uma mesma sociedade, pensada em termos de sua geografia, comporta 
diferentes temporalidades e correspondentes espacializações, quer seja na sua dimensão 
mais abstrata ou na mais concreta, passando por diversas gradações. A identidade de uma 
cidade é composta desse tipo de acidente que resulta da conjunção da intenção com o acaso. 
Na zona sul do Rio de Janeiro, a comunidade da Rocinha que divide a vista do mar de São 
Conrado com os frequentadores do mais puro country club da cidade e dos poucos 
privilegiados moradores de tão distinto bairro vizinho é um exemplo disso e também de 
como no âmbito social identidades constituem-se através do relacionamento com um 
“outro” antagônico. O antagonismo afirma e simultaneamente impede o fechamento da 
sociedade, revelando a parcialidade e precariedade, a contingência de toda totalidade, é “a 
‘experiência’ do limite do social” (Deutsche, 1998:274). 
No final do século XX o apelo por arte pública eclode como, talvez, um dos poucos 
fatores unificadores, um raro consenso social, que está presente tanto no discurso da direita 
quanto da esquerda, a despeito de uma assincronia no seu florescimento global e de sua 
adaptação aparente às condições locais. O desejo é comum, embora essa prática e sua 
definição continuem problemáticas, começando pelo fato que em tese arte pública seria um 
oxímoro, seus termos contraditórios indicam um paradoxo uma vez que o original, relativo 
à arte, é avesso ao ordinário, comum a todos e nesse sentido público. A que símbolo, então, 
referir-se? Se a escolha desse símbolo depender do artista, via de regra esse, ao expressar 
sua individualidade desagrada a audiência que não o compreende, por outro lado, o poder 
público quando elege o que é melhor para todos baseia sua escolha em motivos políticos e 
econômicos; na melhor das hipóteses o povo como audiência é submetido a uma questão de 
gosto, na pior à ideologia. A partir do momento em que vivemos um espaço social 
extremamente complexo, como é nossa percepção de mundo e sua real condição agora, a 
contradição existirá sempre porque a democracia e o espaço público que requerem 
igualdade e ausência de conflito são idealizações que só se mantém separando a experiência 
do mundo da representação que explica como ele é ou tem que ser – a diferença entre 
espaço representacional e representação do espaço do sistema de Lefebvre. O problema em 
relação ao espaço abstrato é de extrema complexidade pois ele opera negativamente, não é 
como a abstração do signo ou do conceito. Essa negação é dirigida sobre aquilo que ele 
percebe e que o sustenta, que são exatamente as esferas histórica e político-religiosa. Da 
mesma forma, ele age negativamente em relação ao espaço-tempo diferencial (Lefebvre, 
2000:50), essa espécie de outro gerado por ele mesmo. Por outro lado ele age positivamente 
sobre suas próprias implicações: tecnologia, ciências aplicadas e conhecimento ligado ao 
poder e assim subsume cidade e estado, agindo como um sujeito que decide sobre suas 
relações sociais. O que está envolvido aqui e que diz respeito ao público (povo) é sua 
própria identidade criada por representações com base em uma subjetividade programável 
ou construida. Considerações, imaginações e espacializações polisensoriais 
multidimensionais que podem ser orquestradas pelas potências individuais – o tal sujeito 
interno a quem tudo se refere e que como indivíduo emite opiniões sobre tudo – ou 
formatadas pelo sistema o qual determinado conhecimento e imagens representam e ajudam 
a construir. Se até então os limites possíveis de ação restringiam-se ao espaço das 
micropolíticas, parece que entramos agora na dimensão da “nanopolítica e da hiperpolítica”, 
estados que vibram simultaneamente configurando um universo duplo onde a questão 
espaço-temporal não é mais a da impermanência mas a da oscilação. É aqui nessa dimensão 
que uma proposição como a de Vito Acconci faz sentido para mim, assim como certos 
trabalhos de Eduardo Kac e até as posições teóricas “pouco ortodoxas” do visionário 
Ascott com seu olhar paralaxe que une ciência e tecnologia de ponta, arte e conhecimento 
arcaico, em torno do tema da consciência e da construção de uma “nova natureza”.
Fig. holograma kac

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