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O sentido das coisas
(epílogo de Conexões Ocultas.
Fritjof Capra. SP: Cultrix, 2002)
Meu objetivo nesse livro, foi o de desenvolver uma estrutura conceitual que integre as dimensões biológica, cognitiva e social da vida; uma estrutura que nos habilite a resolver de maneira sistêmica alguns dos maiores problemas da nossa época. A análise dos sistemas vivos em função de quatro perspectivas interligadas – forma, matéria, processo e significado – faz com que e nos seja possível aplicar uma compreensão unificada da vida não só aos fenômenos materiais, mas também aos que ocorrem no campo dos significados. Vimos, por exemplo, que as redes metabólicas dos sistemas biológicos correspondem às redes de comunicações dos sistemas sociais; que os processos químicos que produzem estruturas materiais correspondem aos processos de pensamento que produzem estruturas semânticas; e que os fluxos de energia e matéria correspondem aos fluxos de informações e idéias.
A idéia central dessa concepção sistêmica e unificada da vida é a de que o seu padrão básico de organização é a rede. Em todos os níveis de vida – desde as redes metabólicas dentro da célula até as teias alimentares dos ecossistemas e as redes de comunicações da sociedade humana -, os componentes dos sistemas vivos se interligam sob a forma de rede. Vimos, em particular, que na Era da Informação – na qual vivemos – as funções e processos sociais organizam-se cada vez mais em torno das redes. Quer se trate das grandes empresas, do mercado financeiro, dos meios de comunicações ou das novas ONGs globais, constatamos que a organização em rede tornou-se um fenômeno social importante e uma fonte crítica de poder.
No decorrer deste novo século, dois fenômenos em específico terão efeitos significativos sobre o bem-estar e os modos de vida da humanidade. Ambos esses fenômenos têm por base as redes e ambos envolvem tecnologias radicalmente novas. O primeiro é a ascensão do capitalismo global; o outro é a criação de comunidades sustentáveis baseadas na alfabetização ecológica e na prática do projeto ecológico. Enquanto que o capitalismo global é feito de redes eletrônicas onde ocorrem fluxos financeiros e de informações, o projeto ecológico trata das redes ecológicas de fluxos energéticos e materiais. O objetivo da economia global é o de elevar ao máximo a riqueza e o poder de suas elites; o objetivo do projeto ecológico é o de elevar ao máximo a sustentabilidade da teia da vida.
Essas duas propostas – cada uma das quais envolve uma rede complexa e uma tecnologia avançada e especial – encontram-se, atualmente, em rota de colisão. Já vimos que a forma atual do capitalismo global é insustentável dos pontos de vista social e ecológico. O chamado “mercado global” nada mais é do que uma rede de máquinas programadas para atender a um único princípio fundamental: o de que o ganhar dinheiro deve ter precedência sobre os direitos humanos, a democracia, a proteção ambiental e qualquer outro valor.
Entretanto, os valores humanos podem mudar; não são leis naturais. As mesmas redes eletrônicas nas quais correm fluxos financeiros e se informações podem ser programadas de acordo com outros valores. A questão principal não é a tecnologia, mas a política. O grande desafio do século XXI é da mudança do sistema de valores que está por trás da economia global, de modo a torná-lo compatível com as exigências da dignidade humana e da sustentabilidade ecológica. Com efeito, vimos que esse processo de remodelação da globalização já começou.
Um dos maiores obstáculos à sustentabilidade é o aumento contínuo do consumo material. Apesar da importância que têm na nova economia o processamento de informações , a geração de conhecimento e outros artigos “intangíveis”, o principal objetivo de todas essas inovações é o de aumentar a produtividade, o que faz aumentar, em última análise, o fluxo dos bens materiais. Embora a Cisco Systems e outras empresas virtuais administrem informações e conhecimentos especializados sem fabricar nenhum produto material, seus fornecedores fabricam; e muitos deles, especialmente no Hemisfério Sul, operam com um impacto ambiental tremendo. Como observou ironicamente Vandana Shiva, “os recursos vão dos pobres para os ricos enquanto a poluição vai dos ricos para os pobres”.
Além disso, os projetistas de software, analistas financeiros, advogados, banqueiros de investimentos e outros profissionais que ficaram muito ricos com a economia “não-material” tendem a ostentar sua riqueza através de um consumo desenfreado. Suas residências gigantescas, localizadas em bairros elegantes estão cheias das mais recentes invenções eletrônicas; suas garagens guardam de dois a três carros por pessoa. David Suzuki, biólogo ambientalista, observa que nos últimos 40 anos o tamanho das famílias canadenses diminuiu em 50 por cento, mas o tamanho das residências dobrou. Explica ele: “Cada pessoa usa quatro vezes mais espaço porque nós compramos muitas coisas.”
Na sociedade capitalista contemporânea, o valor central - ganhar dinheiro – caminha de mãos dadas com a exaltação do consumo material. Uma corrente infinita de mensagens publicitárias reforça a ilusão das pessoas de que a acumulação de bens materiais é o caminho que leva à felicidade, o próprio objetivo de nossa vida. Os EUA projetam pelo mundo o seu tremendo poder para conservar condições favoráveis à perpetuação e à expansão da produção. O objetivo central de seu gigantesco império – com um poderio militar impressionante, um extensíssimo serviço secreto e posições de predomínio na ciência, na tecnologia, nos meios de comunicação e no mundo artístico – não é de aumentar o território, nem o de promover a liberdade e a democracia, mas o de garantir que o país tenha livre acesso aos recursos naturais do mundo inteiro e que todos os mercados permaneçam abertos aos seus produtos. É assim que a retórica política norte-americana passa rapidamente da noção de “liberdade” para a de “livre-comércio” e “mercado livre”. O livre fluxo de bens e de capital é identificado com o elevado ideal da liberdade humana, e o consumo material desenfreado é retratado como o direito humano básico – até mesmo, cada vez mais, como uma obrigação ou um dever.
Essa exaltação do consumo material tem raízes ideológicas profundas, que vão muito além da economia e da política. Parece que suas origens estão ligadas à associação universal da virilidade com os bens materiais nas culturas patriarcais. O antropólogo David Gilmore estudou as imagens da virilidade pelo mundo afora – as “ideologias masculinas”, como ele as chama – e encontrou semelhanças marcantes em diversos contextos culturais. É recorrente a noção de que a “virilidade verdadeira” é diferente da simples virilidade biológica, é algo que tem de ser conquistado. Segundo Gilmore, na maioria das culturas os meninos têm de “merecer o direito” de ser chamados de homens. Embora as mulheres também sejam julgadas segundo critérios sexuais freqüentemente rígidos, Gilmore observa que sua feminilidade quase nunca é questionada.
Além das imagens mais conhecidas da virilidade, como a força física, a dureza e a agressividade, Gilmore constatou que na maioria das culturas os homens “de verdade” são os que produzem mais do que consomem. O autor deixa claro que, nessa antiga associação da virilidade com a produção material, tratava-se de uma produção feita para a coletividade: “Reiteradamente constatamos que os homens ‘de verdade’ são os que dão mais que recebem, os que servem aos outros. Os homens de verdade são generosos, às vezes até em excesso.”
No decorrer do tempo essa imagem mudou da produção para o bem dos outros para a posse de bens materiais para o bem de si próprio. A virilidade passou a ser medida pela posse de bens valiosos – terra, dinheiro ou gado – e pelo poder exercido sobre os outros, especialmente as mulheres e as crianças. Essa imagem foi reforçada pela associação universal da virilidade com a “grandeza” – medida pelo tamanho dos músculos, das realizações ou das

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