Prévia do material em texto
METODOLOGIA DO ENSINO DE HISTÓRIA Professora Me. Priscilla Campiolo Manesco Paixão GRADUAÇÃO Unicesumar C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância; PAIXÃO, Priscila C. M.. Metodologia do Ensino de História. Priscilla Campiolo Manesco Paixão. Maringá-Pr.: UniCesumar, 2018. 240 p. “Graduação - EaD”. 1. Metodologia. 2. Ensino . 3. História 4. EaD. I. Título. ISBN 978-85-459-0691-9 CDD - 22 ed. 372-89 CIP - NBR 12899 - AACR/2 Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828 Impresso por: Reitor Wilson de Matos Silva Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de Administração Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor Executivo de EAD William Victor Kendrick de Matos Silva Pró-Reitor de EAD Janes Fidélis Tomelin Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi NEAD - Núcleo de Educação a Distância Diretoria de Design Educacional Débora Leite Diretoria de Pós-graduação e Graduação Kátia Coelho Diretoria de Permanência Leonardo Spaine Direção de Operações Chrystiano Minco� Direção de Polos Próprios James Prestes Direção de Desenvolvimento Dayane Almeida Direção de Relacionamento Alessandra Baron Head de Produção de Conteúdos Celso Luiz Braga de Souza Filho Gerência de Produção de Conteúdo Diogo Ribeiro Garcia Gerência de Projetos Especiais Daniel Fuverki Hey Supervisão do Núcleo de Produção de Materiais Nádila Toledo Supervisão Operacional de Ensino Luiz Arthur Sanglard Coordenador de Conteúdo Marcia Maria Previato de Souza Designer Educacional Giovana Vieira Cardoso Iconografia Isabela Soares Silva Projeto Gráfico Jaime de Marchi Junior José Jhonny Coelho Arte Capa Arthur Cantareli Silva Editoração Arthur Cantareli Silva Qualidade Textual Hellyery Agda Em um mundo global e dinâmico, nós trabalhamos com princípios éticos e profissionalismo, não so- mente para oferecer uma educação de qualidade, mas, acima de tudo, para gerar uma conversão in- tegral das pessoas ao conhecimento. Baseamo-nos em 4 pilares: intelectual, profissional, emocional e espiritual. Iniciamos a Unicesumar em 1990, com dois cursos de graduação e 180 alunos. Hoje, temos mais de 100 mil estudantes espalhados em todo o Brasil: nos quatro campi presenciais (Maringá, Curitiba, Ponta Grossa e Londrina) e em mais de 300 polos EAD no país, com dezenas de cursos de graduação e pós-graduação. Produzimos e revisamos 500 livros e distribuímos mais de 500 mil exemplares por ano. Somos reconhecidos pelo MEC como uma instituição de excelência, com IGC 4 em 7 anos consecutivos. Estamos entre os 10 maiores grupos educacionais do Brasil. A rapidez do mundo moderno exige dos educa- dores soluções inteligentes para as necessidades de todos. Para continuar relevante, a instituição de educação precisa ter pelo menos três virtudes: inovação, coragem e compromisso com a quali- dade. Por isso, desenvolvemos, para os cursos de Engenharia, metodologias ativas, as quais visam reunir o melhor do ensino presencial e a distância. Tudo isso para honrarmos a nossa missão que é promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária. Vamos juntos! Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quando investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou profissional, nos transformamos e, consequentemente, transformamos também a sociedade na qual estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando oportu- nidades e/ou estabelecendo mudanças capazes de alcançar um nível de desenvolvimento compatível com os desafios que surgem no mundo contemporâneo. O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens se educam juntos, na transformação do mundo”. Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógica e encontram-se integrados à proposta pedagógica, con- tribuindo no processo educacional, complementando sua formação profissional, desenvolvendo competên- cias e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, de maneira a inseri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal objetivo “provocar uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta forma possibilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos conhecimentos necessá- rios para a sua formação pessoal e profissional. Portanto, nossa distância nesse processo de cresci- mento e construção do conhecimento deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o Studeo, que é o seu Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe das dis- cussões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de professores e tutores que se encontra disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranqui- lidade e segurança sua trajetória acadêmica. A U TO R A Professora Me. Priscilla Campiolo Manesco Paixão Mestre em História pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), especialista em História Econômica pela mesma instituição; Especialista em Metodologia do Ensino da Arte pelo Centro Universitário Internacional (UNINTER), Graduada em História pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Mandaguari (FAFIMAN) e Licenciada em Pedagogia pelo Centro Universitário de Maringá (UNICESUMAR). Tem experiência na área da educação atuando como Coordenadora (Ensino Fundamental e Ensino Superior) e Professora da Educação Básica e em Cursos de Graduação e Pós-graduação Lato-sensu. Atualmente é Professora de Pós- graduação Lato-sensu em Cursos de Educação, integrante da Comissão de Elaboração e Revisão de Itens/ENADE do Banco Nacional de Itens (BNI) pelo Instituto Anísio Teixeira (INEP/MEC), integrante do Comitê de Pesquisa da Unicesumar e Coordenadora de Cursos de Graduação do Núcleo de Educação a Distância (NEaD) da Unicesumar - Centro Universitário de Maringá. Para informações mais detalhadas sobre sua atuação profissional, pesquisas e publicações, acesse seu currículo, disponível no endereço a seguir: <http://lattes.cnpq.br/7502281268919774>. APRESENTAÇÃO METODOLOGIA DO ENSINO DE HISTÓRIA SEJA BEM-VINDO(A)! Prezado(a) aluno(a), Na primeira unidade deste material procuramos buscar pelas origens da palavra His- tória, compreendendo seus diversos sentidos. Partiremos da análise da História como ciência e depois enquanto disciplina escolar, buscando entender questões epistemoló- gicas do conhecimento histórico na atualidade. Na sequência, vamos compreender que ensinar História é criar a possibilidade de in- vestigação, sem separar o ensino da aprendizagem e da pesquisa. Daremos ênfase no professor, enquanto um sujeito histórico, inserido em um grupo social no qual interage e, por isso, tem um papel fundamental na construção do conhecimento histórico por parte dos alunos. Isso porque o ponto de partida de qualquer trabalho voltado para o ensino-aprendi- zagem de História envolve considerar o repertório dos alunos. As crianças participam de inúmeros espaços de convívio em que se socializam, produzem e reproduzem uma infinidade de regras, valores, hábitos e costumes. Além do convívio familiar, do bairro, da escola, das festas e da Igreja, ainda contam com os meios de comunicação e informação como a televisão, o rádio, o jornal, o cinema e o mais adorado de todos, a internet. Na terceira unidade, aguçaremos em você, caro(a) aluno(a), o interesse pelas váriasfor- mas de acesso ao conhecimento histórico e diferentes fontes e linguagens: fotografia, vídeo, obras de arte, textos e documentos de época. Isto porque se faz necessário de- senvolver as habilidades de observação, identificação e compreensão, além da própria linguagem (forma, estética, composição do todo), para estabelecer relação entre for- ma e conteúdo nas fontes históricas, além, é claro, de aprender a utilizar didaticamente estes documentos históricos em sala de aula. Em outras palavras, devemos considerar nossos alunos como sujeitos que possuem um repertório cultural enorme e que exer- cem a cidadania constantemente, daí a necessidade de considerar estes documentos históricos como recursos que possibilitam a aprendizagem do alunado. Dando continuidade, na quarta unidade apresentamos o planejamento e a avaliação con- siderando suas características e especificidades voltadas ao ensino de História. Além disso, analisaremos o Parecer/Lei 10.639/03 – transformada na Lei 11.645 de 2008, que incluiu a temática Cultura Afro-brasileira e Indígena, abrindo possibilidades à edificação da igual- dade e da repreensão às atitudes e posturas de discriminação no ambiente escolar. Para finalizar, a última unidade traz a questão do tempo como categoria essencial para se pensar a História. Aqui analisaremos o mundo e sua temporalidade, adquirindo a capacidade de transcender os referenciais usados na divisão do tempo histórico, que considera somente os marcos do poder e da dominação. Por fim, daremos condições a você, de identificar e avaliar as etapas em que as crianças se encontram com relação ao domínio das relações temporais. Boa leitura!! Professora Priscilla C. M. Paixão SUMÁRIO 09 UNIDADE I A HISTÓRIA TEM HISTÓRIA 15 Introdução 16 Origem e Sentido da Palavra História 20 A História Enquanto Ciência 28 A História Enquanto Disciplina Escolar 33 A História Ensinada na Atualidade 38 Considerações Finais 45 Referências 47 Gabarito UNIDADE II TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DO ENSINO DE HISTÓRIA 51 Introdução 52 Mudanças e Permanências nos Métodos da História Escolar 60 Concepções de Conteúdos Escolares e de Aprendizagem 70 A Formação de Conceitos 78 A Formação do Professor e o Cotidiano de Sala de Aula 85 Considerações Finais 93 Referências 95 Gabarito SUMÁRIO 10 UNIDADE III A UTILIZAÇÃO DOS DOCUMENTOS HISTÓRICOS EM SALA DE AULA 100 Introdução 101 Historiadores e Professores: Diferentes Usos das Fontes Históricas 104 A Análise Didática de Uma Fonte Histórica 108 Documentos Escritos e Não Escritos 120 A Construção de Conhecimento Por Meio Das Fontes Históricas 124 Considerações Finais 133 Referências 135 Gabarito UNIDADE IV A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA 139 Introdução 140 Efetivando a Aprendizagem: O Planejamento Como Ponto de Partida 145 As Diferentes Linguagens no Ensino de História: Uma Proposta Interdisciplinar 162 Cultura Afro-Brasileira e Indígena 179 Avaliação Como Processo de Melhorias da Ação Docente e Discente 188 Considerações Finais 196 Referências 199 Gabarito SUMÁRIO 11 UNIDADE V HISTÓRIA: A CIÊNCIA DO HOMEM NO TEMPO 203 Introdução 204 O Tempo: Categoria Essencial Para Pensar a História 206 O Tempo Como Aprendizagem Social 212 Identificando os Diferentes Tipos de Tempo 214 A Criança e as Primeiras Noções de Tempo 223 O Trabalho com Linhas do Tempo 229 Considerações Finais 236 Referências 238 Gabarito 239 Conclusão U N ID A D E I Professora Me. Priscilla Campiolo Manesco Paixão A HISTÓRIA TEM HISTÓRIA Objetivos de Aprendizagem ■ Buscar pelas origens da palavra História, compreendendo seus diversos sentidos. ■ Analisar a História enquanto ciência e disciplina escolar. ■ Entender questões epistemológicas do conhecimento histórico e a problemática do conhecimento no ensino de História da atualidade. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Origem e sentido da palavra História ■ A História enquanto ciência ■ A História enquanto disciplina escolar ■ A História ensinada na atualidade INTRODUÇÃO Para iniciarmos nossas discussões, teremos que nos remeter à origem da pala- vra História, visto que tudo tem uma História, um começo, uma origem. Com esta palavra não poderia ser diferente. É por isso que dizemos que a História tem história. Partiremos de sua definição, buscando suas origens. Depois, pen- saremos na História enquanto disciplina escolar. Talvez, neste momento, você já esteja pensando que estudar tal disciplina seja um tanto monótono. Porém, tenho certeza que ao final desta leitura, você se dará conta do quão prazeroso é estudar uma disciplina que por muito tempo ficou relegada a um segundo plano. A História é uma disciplina que faz parte das chamadas “humanidades”, termo pelo qual os franceses designam estudos humanos superiores. Apesar disso, a história teve seus foros de ciência negados por muito tempo, sendo considerada uma disciplina de segunda categoria. Lembremo-nos que no Brasil dos séculos XIX e XX, a educação escolar se limitou a ensinar a “ler, escrever e contar”. A ênfase do trabalho docente restringia-se à “alfabetização”, na maioria das vezes compreendida como aquisição da leitura, da escrita e do domínio das quatro operações matemáticas. Assim, raramente havia lugar para o Ensino de História. No entanto, compreendemos a alfabetização como a capacidade de leitura não só do texto, mas também da experiência humana vivida por todos e como construção da própria história. Nesta perspectiva, entendemos leitura/escrita não somente como a habilidade mecânica, mas como uma manifestação de cidadania. Estudar as informações históricas a partir da realidade social com o objetivo de desenvolver o raciocínio histórico deve constituir o objeto das aulas de História. Há vários encaminhamentos na defesa da disciplina. A História fas- cina e é capaz de transformar o sujeito, por isto dizemos que cabe a ela “formar um cidadão crítico, reflexivo e atuante”. Portanto, caro(a) aluno(a), podemos afirmar que a História tem histó- ria e que sua aplicação como disciplina escolar passa por uma revisão que lhe confere um grande valor na atualidade. Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 15 A HISTÓRIA TEM HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E16 ORIGEM E SENTIDO DA PALAVRA HISTÓRIA Nas três dimensões básicas do tempo – passado, presente e futuro – a História tem seu destaque. Marc Bloch (1886-1944), um dos fundadores da escola dos Annales francesa, definiu a história como a ciência do homem no tempo. Este historiador, vítima dos nazistas, foi executado por não concordar em por sua história a serviço dos ideais de seus torturadores, e merece toda ênfase por ter participado da revisão de conceitos e métodos da chamada Nova História. Parece claro que, se todos os homens puderem perceber a realidade vivida e compará-la com aquela que estão vivendo, seriam mais conhecedores de seus destinos. É a nossa experiência posta a serviço de nossos “acertos” em nossas escolhas de vida. É por isso que existe a necessidade de conhecer a “história” que a disciplina histórica nos oferece, a sucessão de fatos passados fornecendo exemplos a serem imitados ou rejeitados no presente. Este resgate parcial da História, como uma “mestra” da vida, ainda persiste como um dos meios mais eficazes para educar as novas gerações e a elas apre-sentar o que o passado humano tem a oferecer de didático. Gosto muito de citar a introdução da obra do historiador Leandro Karnal (2004), História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas para pensarmos sobre os sentidos da pala- vra História. Para o historiador, podemos entender o exercício profissional da História de muitas formas. Karnal também faz opção pelo diálogo entre o passado e o presente, porque não podemos reconstruir um passado exatamente como era, nem tão pouco podemos nos remeter ao passado com “os olhos do presente”, ou melhor, com “pré-conceito”. Uso o termo desta maneira, porque definimos Origem e Sentido da Palavra História Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 17 o “pré” como sendo algo que antecipa o que está por vir, assim olhamos o pas- sado com a concepção que temos do presente. O passado existe e isto é inegável. Porém, quem lança o olhar sobre ele, faz o recorte, escolhe, dimensiona e narra este passado é um sujeito do tempo pre- sente. Para ilustrar tal afirmação, Karnal (2004, p. 8) nos conta uma ficção: Imaginemos uma menina de 15 anos que esteja no seu baile de de- butantes (será que ainda existem no século XXI?). Vestida de branco, emocionada, ela vive um momento muito especial. Música, amigas, um possível namorado, comida e muitos fatos para guardar e comentar. A festa é densamente fotografada e filmada. Passados dez anos, nossa protagonista ficcional chegou aos 25. Ela olha os filmes e as fotos e pode vir a considerar tudo de extremo mau gosto. Abrindo o álbum em meio a suspiros, poderia dizer: “Por que não fiz uma viagem com esse di- nheiro?”. Passado mais meio século do baile, eis nossa personagem aos 65 anos. Já de cabelos brancos, ela abre o álbum amarelado e comenta com seus netos: ”Olhem como eu era bonita! Que noite maravilhosa foi aquela”. Na ilustração, podemos verificar que houve um fato: o baile de debutantes. Por outro lado, o olhar que se lança sobre o fato muda conforme a concepção de mundo e do tempo em que o sujeito está inserido. Assim, podemos verificar que a palavra História pode ser entendida sob três sentidos, como afirma Glénisson (1961): ■ Realidade histórica: conjunto dos fenômenos pelos quais se manifestou, manifesta ou manifestará a vida da humanidade; a realidade objetiva do movimento do mundo e das coisas. ■ Conhecimento histórico: a observação subjetiva da realidade pelo historiador. ■ Obra histórica: o registro da observação da realidade feita pelo historia- dor em um relato escrito. Se pudéssemos, desta maneira, estabelecer um comparativo entre a ficção e os sentidos da palavra História, teríamos a realidade histórica como sendo o baile de debutantes; o conhecimento histórico sendo o olhar subjetivo da protago- nista da história e as lentes da filmadora e da máquina fotográfica como sendo a obra histórica. A HISTÓRIA TEM HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E18 A representação do passado e do que consideramos importante repre- sentar é um processo constante de mudança. Se a memória muda so- bre fatos concretos e protagonizados por nós, também muda para fatos mais amplos. A História está envolvida em um fazer orgânico: é viva e mutável. Um livro sobre uma guerra escrito há cem anos continua válido como documento, mas é muito provável que a visão de quem o escreveu esteja superada. Por superação entendemos o que não é mais compartilhado pela maioria (KARNAL, 2004, p. 8). Para Karnal (2004), o “fazer histórico” está submetido a duas transformações constantes: do objeto em si e da ação pedagógica. Isto porque as novas descober- tas arqueológicas, os debates metodológicos e as novas documentações mudam constantemente; o fazer histórico é mutável no tempo, sendo assim, mudam-se também seus agentes. Além disso, a ação pedagógica não pode ficar presa ao pas- sado, pelo contrário, precisa acompanhar tais mudanças sociais e de mentalidade. Os gregos (atenienses em particular) foram os primeiros a utilizar o termo histor para representar quem aprende pelo olhar e, mais tarde, a palavra se estendeu ao testemunho, ou seja, quem testemunhou acontecimentos ou a realidade. Aquele que é por muitos considerado o Pai da História - Heródoto de Halicarnasso (484 - 425) - foi uma espécie de repórter que viajou pelo mundo conhecido, realizou pesquisas acerca das guerras entre gregos e persas que acon- teciam em seu tempo e até procurou por causas que explicassem a vitória helênica perante um exército muito mais armado e numeroso. Os persas contavam com um exército predominantemente mercenário, mas os gregos (atenienses, prin- cipalmente) combatiam em causa própria e eram todos patriotas, movidos pelo fervor de defender a sua terra dos invasores. Combater com o coração lhes deu a grande vantagem, e além de seus generais serem grandes estrategistas, os persas Exercitando a História, remetemo-nos ao passado para entender o presente, não é mesmo? Parece que esta é a definição mais aceita pelos historiadores. Então, de onde e de quando vem essa origem? Origem e Sentido da Palavra História Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 19 tinham um excesso de confiança em seus armamentos e poder de sua esquadra (BOURDÉ; MARTIN, 1990). Com o passar do tempo, o termo História passou a significar pesquisa e os resultados dessa pesquisa eram reu- nidos em uma obra histórica. Segundo Glénisson (1961, p. 13), esta maneira de encarar os estudos históri- cos parece ter-se consagrado na época do historiador Políbio, no século II a.C. “com a reserva de que, como o saber histórico daqueles tempos não conhecia o rigor atualmente exigido, associando-se ainda a fábulas e as lendas” a precisão dos fatos cedia lugar a um termo empregado para definir a disciplina, qual seja o de “narrativa”. O mesmo Glénisson (1961, p. 13-14) nos adverte que “hoje, ao pronunciar- mos a palavra História”, temos de diferenciá-la entre “três sentidos possíveis: o de realidade histórica (...), de conhecimento histórico e (...) de obra histórica”, assim como ilustramos a ficção da personagem em seu dia do baile de debutan- tes (KARNAL, 2004). Isto significa que existe um conjunto de fenômenos a ser estudado na vida passada da humanidade, a história representando a observação deste movi- mento pelo historiador que, em seguida, registra tais observações em seu relato de cunho científico numa obra histórica. Por este ângulo, podemos definir a palavra História como sendo: ■ A ciência que estuda as mudanças e as permanências. ■ O processo de transformação em que todos os homens são agentes. ■ A narração metódica dos fatos mais relevantes ocorridos na vida dos povos, em particular, e na vida da humanidade, em geral. ■ O conjunto de conhecimentos (cultura) adquiridos por intermédio da tradição e/ou por meio dos documentos, relativos à evolução, ao pas- sado da humanidade. Figura 1 - Heródoto Fonte: Edukavita (2015, on-line) 1. A HISTÓRIA TEM HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E20 A História atualmente é considerada uma ciência e tem seu devido valor reco- nhecido nos meios acadêmicos, escolares entre outros. Essa estuda as mudanças e as permanências dos fatos e acontecimentos por meio de um método próprio, buscando compreender os caminhos traçados por um povo específico ou pela humanidade em geral. Além do mais, a História busca a cultura das sociedadespara entendê-las. A HISTÓRIA ENQUANTO CIÊNCIA Na relação entre a visão geral e a específica está o cerne dos conhecimentos históricos, esta relação, segundo Lakatos (1990), vai da conexão ascendente do particular para o geral, e é o produto visado por aquele que segundo Marc Bloch (1976) se dedica ao “ofício” de historiar e sempre começa pelo “ídolo” das origens, partindo do passado para o presente e, depois, em relação inversa, do presente para o passado. A História Enquanto Ciência Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 21 Finalmente, temos de lembrar alguns comentários que dão o valor aos conhe- cimentos históricos: “o proveito que se poderá tirar do conhecimento certo do passado, para prejulgar acontecimentos análogos ou idênticos, a brotar futura- mente no fundo comum da natureza humana” ou “a história é o estudo da ação humana ao longo do tempo, concomitantemente ao estudo dos processos e dos eventos ocorridos no passado” (GLÉNISSON, 1961, p. 17). A aula de História “nasce da própria História”, pois a “análise da dimensão temporal das reflexões sociais” é o grande objetivo da disciplina. Isto equivale a considerar a história uma “construção coletiva”. É para essa direção que Nemi e Martins (1996, p. 25) apontam quando fazem um comentário didático: “as aulas de história para crianças das séries iniciais do Ensino Fundamental têm por base essa concepção de vida”, qual seja a “busca” de uma transformação “constante e possível”. Esse aprimoramento do saber, oferecido pela história como um ins- trumento de cidadania, só pode ser obtido se confrontarmos as experiências do passado com as do presente, sempre visando um futuro melhor e de maior qua- lidade de vida para todos. É preciso que a escola deixe de ser aquilo que os crítico-reprodutivistas como Bourdieu (1930-2002) assinalam, e caminhe, porque os novos tempos exigem um melhor uso para os conhecimentos previamente acumulados. Por meio do uso da noção de violência simbólica, Bordieu tenta desvendar o mecanismo que faz com que os indivíduos vejam como “naturais” as representações ou as ideias sociais dominantes. A violência simbólica é desenvolvida pelas instituições e pelos agentes que as animam, sobre a qual se apoia o exercício da autoridade. Bourdieu (1997), considera que a transmissão pela escola da cultura escolar (con- teúdos, programas, métodos de trabalho e de avaliação, relações pedagógicas e práticas linguísticas), própria à classe dominante, revela uma violência simbó- lica exercida sobre os alunos de classes populares. Bourdieu (1997) partia do conceito de que a dominação recobria formas variadas de relações de poder, sendo a mais insidiosa a “violência simbólica”. No livro “Les héritiers” (Os herdeiros, 1964), ele revela que o sucesso escolar é condicionado à origem social dos alunos e, assim, torna-se o primeiro a reve- lar os mecanismos cognitivos ligados às condições sociais. O termo violência A HISTÓRIA TEM HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E22 simbólica aparece como eficaz para explicar a adesão dos dominados: domina- ção imposta pela aceitação das regras, das sanções, à incapacidade de conhecer as regras de direito ou morais, às práticas linguísticas e outras. Pierre Bourdieu (1997) elabora, assim, um sistema teórico que não cessará de desenvolver: as condições de participação social baseiam-se na herança social. O acúmulo de bens simbólicos e outros estão inscritos nas estruturas do pen- samento (mas também no corpo), e são constitutivos do habitus por meio do qual os indivíduos elaboram suas trajetórias e asseguram a reprodução social. Esta não pode se realizar sem a ação sutil dos agentes e das instituições, preser- vando as funções sociais pela violência simbólica exercida sobre os indivíduos e com a adesão deles. A crítica de Bourdieu (1997) permanece atual como um alerta, ainda que outras tendências e explicações sobre o fenômeno escolar a ela se acrescentem. Sua posição contrária ao neoliberalismo e ao poder da mídia é, ainda hoje, muito comentada. Construir o conhecimento junto com os nossos alunos parece ser uma urgên- cia de nossos tempos. Isso inclui saber o que vem do cotidiano para elevá-lo ao nível da ciência. Tal postura se faz necessária por parte do docente, seja qual for a corrente por ele adotada, ressalvado que a História exige uma metodologia dife- renciada daquela que foi característica da escola “positivista” no século XIX. Para que possamos compreender melhor a escola “Positivista” passamos a analisá-la. Remetemo-nos ao século XIX, quando a Europa presenciou amplo desenvolvi- mento tecnológico e industrial, permitindo sua evolução econômica e a afirmação como o continente mais poderoso do mundo até a Primeira Guerra Mundial. Ao mesmo tempo em que crescia internamente, o continente se expandia para fora de seus domínios, conquistando terras, pessoas e novas riquezas na África e Ásia, numa reedição do colonialismo do Antigo Regime. No entanto, não bastava con- quistar tais territórios e impor uma dominação à força em suas populações: era preciso justificar a razão daquele domínio e gerar um argumento incontestável. Para tal fim, os pensadores e intelectuais europeus utilizaram-se do conceito de ciência, entendida como conhecimento superior e acessível a poucas pessoas. Nessa perspectiva, os europeus, donos da ciência e do desenvolvimento, se dirigiam àquelas novas terras para “salvar” suas populações do estado de barbá- rie e abandono em que estavam. Justificava-se assim o Imperialismo por meio de A História Enquanto Ciência Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 23 argumentos científicos, baseados na superioridade técnica e racial do europeu branco sobre o negro africano e o asiático. Cientificamente falando, o continente europeu tinha o direito de dominar os novos colonos porque era uma civilização mais avançada, dado o desenvolvimento que mostrava e o poder de seu conheci- mento. Essa forma de se compreender o mundo, isto é, baseada no cientificismo tornou-se em pouco tempo a tônica de todo o pensamento do Velho Continente, espalhando-se para diversos campos do saber. Renasceu a importância da Física e da Química como disciplinas exatas, por exemplo. Mas o caso mais destacado desse processo de construção de conhecimento é a transformação que ocorre nas chamadas disciplinas humanistas, como a História. Elas também incorpora- ram a tendência cientificista, auxiliando a explicar o domínio europeu nas novas colônias e impondo novos métodos de se estudar as relações sociais e o anda- mento da História dos povos (BOURDÉ; MARTIN, 1990). Duas correntes dominaram o pensamento europeu a esse respeito. Tratavam-se do Racionalismo, surgido no final do século XVIII com a Revolução Francesa, e o Conservadorismo, presente no pensamento do continente desde o final da Idade Média e durante a Idade Moderna. Contudo, Robert Alexander Nisbet, Sociólogo Americano e seguidor de Emile Durkheim (BOURDÉ; MARTIN, 1990), não aprovava a visão individualista presente na fase pós-Revolução Francesa, a qual pregava a autossuficiência e a individualidade de cada ser humano e que servia de base para a cientifização do conhecimento e do estudo social. Esta negava, pois, a própria existência da sociedade como organização e como meio de influ- ência de comportamentos humanos. O homem seria um ser de livre-arbítrio sobre seus atos, sem a necessidade de estabelecer relações com seus semelhan- tes. Elese bastaria por si mesmo. Com isso, surgiram correntes de pensamento relacionadas a essa forma de pensar e que se opunham a seus princípios, como o próprio Positivismo. O Positivismo pregava a cientifização do pensamento e do estudo humano, visando a obtenção de resultados claros, objetivos e completamente corretos. Os seguidores desse movimento acreditavam num ideal de neutralidade, isto é, na separação entre o pesquisador/autor e sua obra: esta, em vez de mostrar as opi- niões e julgamentos de seu criador, retrataria de forma neutra e clara uma dada realidade a partir de seus fatos, mas sem os analisar. Os positivistas creem que A HISTÓRIA TEM HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E24 o conhecimento se explica por si mesmo, necessitando apenas seu estudioso recuperá-lo e colocá-lo à mostra. Não foram poucos os que seguiram a corrente positivista: Auguste Comte, na Filosofia; Émile Durkheim, na Sociologia; Fustel de Coulanges, na História, entre outros, contribuíram para fazer do Positivismo e da cientifização do saber um posicionamento poderoso no século XIX. Pode-se inclusive dizer que o Positivismo reduz o papel do homem enquanto ser pensante, crítico, para um mero coletor de informações e fatos presentes nos documentos, capazes de fazer-se entender por sua conta. “Os fatos históricos falam por si mesmos”, dizia Coulanges, historiador francês (BOURDÉ; MARTIN, 1984, p. 99). Assim, para os positivistas que estudaram a História, essa assume o caráter de ciência pura: é formada pelos fatos cronológicos e o que realmente significam em si. São objetivos à medida que possuem uma verdade única em sua formação (que é o seu sentido e sua única possibilidade de compreensão) e não requerem a ação do historiador para serem entendidos: como já dito, o papel deste é coletá-los e ajeitá-los, constatando pela análise minuciosa e liberta de julgamentos pessoais sua validade ou não. O saber histórico, dessa forma, provém do que os fatos contêm, e assume um valor tal qual uma lei da Física ou da Química, ciência exatas. Tão objetiva é a História para os positivistas que um de seus maiores ensi- namentos é a busca incessante de fatos históricos, além de sua comprovação empírica. Daí a necessidade, como pregavam, de se utilizar na pesquisa e aná- lise o máximo de documentos possíveis para se obter a totalidade sobre os fatos e não deixar nenhuma margem de dúvida no que se refere à sua compreensão. A busca desses fatos deve ser feita por meio da neutralidade, pois qualquer juízo de valor na pesquisa e análise altera o sentido e a verdade própria dos fatos, modifi- cando a própria História. Essa se tornaria uma ciência falha e totalmente fora de seu caráter científico, e, portanto destituída de valor e validade. Coulanges che- gou a afirmar que a “História não é arte, mas uma ciência pura (...) a busca dos fatos é feita pela observação minuciosa dos textos, da mesma maneira que o quí- mico encontra os seus em experiências minuciosamente conduzidas” (BOURDÉ; MARTIN, 1984, p. 100). A objetividade, a minuciosidade, o detalhe e a dedicação impessoal são, por- tanto, as grandes lições da escola positivista para o estudo da História no século A História Enquanto Ciência Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 25 XIX e no início do século XX. Os historiadores que nessa época tentaram pro- var outras formas de se estudar a disciplina foram desconsiderados e postos à margem. Numa sociedade europeia que buscava seu próprio desenvolvimento e avançava rumo a grandes descobertas na ciência e na tecnologia, a cientifização que marcou a época também se espalhou para o campo dos estudos humanos, reduzindo o papel do profissional desse campo para um mero coletor de infor- mações. A implicação de opiniões externas aos sentidos dos fatos históricos alterava a História, na opinião positivista, e eliminava assim sua legitimidade como saber de importância social. Para positivistas como Fustel de Coulanges, a História é uma ciência pura (...) o historiador não deve ter outra am- bição que a de ver bem os fatos e compreendê-los com exatidão. Não é em sua imaginação ou lógica que ele os procura, mas sim na obser- vação minuciosa dos textos, da mesma maneira que o químico encon- tra os seus em experiências minuciosamente conduzidas (BOURDÉ; MARTIN, 1984, p. 102). A História deveria, sob essa perspectiva, ser tratada como a química e a matemá- tica, por exemplo: sua compreensão estaria na perfeita observação dos fatos por parte do historiador, e não em sua análise, visto que a opinião humana mudaria o verdadeiro sentido do conhecimento histórico. Os fatos falam por si mesmos e, além do mais, possuem uma verdade implícita que aparece quando postos à tona. O trabalho e o ofício do pesquisador seria tão somente resgatá-los do esquecimento e possibilitar sua divulgação, mas nunca interpretá-los ou propor um entendimento para os mesmos: este seria conhecimento falho e mentiroso, por se basear nos sentidos e na avaliação de um ser humano passível de erros e que não possui a exatidão da verdade histórica. Essa forma de se estudar a História nacional predominou até o início dos anos 1930, quando a emergente Escola dos Annales francesa, que emergia na Europa desde a década anterior, começou a influenciar os autores e pensadores, forçando uma renovação no pensamento histórico e social da nossa realidade. Tratava-se de um novo olhar dado ao Humanismo, com a retomada do papel do historiador na formação do saber histórico: ele reassumiria sua atuação na esco- lha do que pesquisar, como o fazer e a linha que seu trabalho seguiria. A partir da década de 60, com a Escola dos Annales, a História passou a dia- logar também com a Literatura, revendo a forma com esta era escrita a partir da A HISTÓRIA TEM HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E26 análise do discurso. Depois disto, a História recebeu diversas contribuições do pós-estruturalismo e do pós-modernismo através, principalmente, dos estudos de Michel Foucaut e de Michel de Certeau, sendo importantes, ainda, as contri- buições de E. P. Thompson e do marxista Eric Hobsbawn. A Historiografia Marxista é baseada nas ideias defendidas por Karl Marx. Este alemão herdou a ideia da dialética de Hegel e completou seu pensamento dando ao homem o papel de sujeito na história. Sua contribuição permitiu uma nova compreensão do passado, valorizando as massas que ganharam destaque nos feitos históricos. Sua abordagem mais econômica da humanidade encara a vida social a partir da luta de classes e considera as mudanças em função das alterações no sistema produtivo das sociedades. Atualmente, além de historiar na curta duração, com aquela orientação fac- tual criticada por Fernand Braudel, não mais procuramos pelos heróis da pátria nem ressaltamos apenas os acontecimentos políticos. Com tal ponto de partida, procuramos evitar a parcialidade intencional que levou a esconder fatos que manchavam o patriotismo, por exemplo. Foi a orientação “positivista” que levou Rui Barbosa (1849-1923) a cometer um ato prejudicial contra o nosso patrimô- nio histórico, ordenando a destruição de documentos (muitos deles) existentes sobre a escravidão em nosso país. Uma consideração que se pode fazer sobre atos como aquele, ordenado por um dos luminares de nossa pátria, mas que representa um ato de “esconder a cabeça” como o avestruz, para não ser visto, é que uma simples incineração não pode apagar os fatos daquela à qual se chamava a “mancha negra” de nosso pas- sado e nos fazia – e ainda nos faz– envergonhados. Contudo, tal vergonha não promoveu a integração do negro liberto na socie- dade e levou à formação de favelas, atualmente rotulada por alguns como as grandes vilãs da violência urbana. A História Enquanto Ciência Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 27 “Chamamos ideologia àquele saber que falseia a realidade apresentando um conhecimento parcial sobre ela” (Nemi; Martins, 1996, p. 34). Segundo Marilena Chauí (2000, p. 12), “a ideologia é um saber cheio de lacunas ou de silêncios que nunca poderão ser preenchidos” isto porque, “se o forem, a ideologia se desfaz por dentro; ela tira sua coerência justamente do fato de só pensar e dizer as coisas pela metade e nunca até o fim” (SOUZA, 1989, p. 8). A necessidade de vencer a grande distância que vai da consciência ingênua, que aceita tudo que lhe é apresentado, à consciência crítica que procura sempre avaliar e pensar por si mesma introduz a grande exigência – e nova responsabilidade – do trabalho docente. Fonte: a autora. A HISTÓRIA TEM HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E28 A HISTÓRIA ENQUANTO DISCIPLINA ESCOLAR Ao historiar sobre a História, verificaremos que seu desempenho como dis- ciplina teve início na França, em um cenário presidido pelo “iluminismo”, onde razão e ciência se uniam para promover a libertação do homem e uma relativa igualdade entre eles. Esse era o ideal da educação bur- guesa oferecida na França de Napoleão, onde o ensino público, gratuito e obriga- tório foi a “novidade” do século XIX. Segundo a historiadora Elza Nadai (1986, p. 106), “o século XIX acrescentou, paralelamente aos grandes movimentos que ocorreram visando construir os Estados Nacionais” a utilidade da História como uma dis- ciplina que atendia à necessidade de se retornar ao passado “com o objetivo de identificar a ‘base comum’ formadora da nacionalidade”. Foi onde se começou a falar em conceitos que ainda hoje existem em nossas histórias ensinadas: nação, pátria, nacionalidade e cidadania. Paralelamente a este requisito, tivemos a escola metódica ou positivista, sendo posta a serviço da República Francesa pós-napoleônica quando ocorria aquela que Bourdé e Martin (1984, p. 110) chamam de “exaltação permanente” da mãe pátria: uma propaganda “nacionalista desenfreada” trazia em primeiro lugar o que se esperava do aluno-soldado, inflamado por exemplos e cantos marciais: A História Enquanto Disciplina Escolar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 29 Para ser um homem é preciso saber escrever E em pequeno, aprender a trabalhar. Pela Pátria, uma criança deve instruir-se E na escola, aprender a trabalhar. Soou a hora, marchemos a passo, Jovens crianças sejamos soldados (BOURDÉ; MARTIN 1984, p. 110). Esse canto, citado ao nível da escola maternal e do atual Ensino Fundamental, entrava em um clima onde “os manuais de história” selecionavam “os feitos de armas que ilustravam a defesa do território contra o invasor”. Foi ainda nessa época que Joana d’Arc tornou-se “heroína nacional, o símbolo da resistência”, uma das figuras mais impressionantes que apareceram na Terra; nenhum outro povo tinha em sua história “uma Joana d’Arc conforme trazia o Manual Gautier- Deschamps” (BOURDÉ; MARTIN, 1984, p. 111). No Brasil, segundo Schmidt e Cainelli (2004), a trajetória da História como disciplina teve início no Segundo Reinado e a partir do colégio Dom Pedro II, sempre sustentada pelas diferentes concepções e “escolas” históricas, como que- rem Bourdé e Martin (1984). A República “Velha” brasileira, sob a égide de republicanos “históricos” como Rui Barbosa, Benjamin Constant e outros, pretendia um Estado presidido pela “ordem e progresso”, como até hoje lemos em nossa bandeira. E este não é outro senão um dístico positivista, que em sua origem com Augusto Comte (1798- 1857) se acrescentava ainda da palavra “amor”. A Europa era, principalmente no foco francês, a principal referência de nos- sos historiadores como Capistrano de Abreu (1853-1927) na época positivista. É de Capistrano a tese ensinada em todas nossas escolas até pelo menos a década de 50 do século passado, que o Brasil foi descoberto por acaso. Segundo ele, teriam sido as calmarias as principais responsáveis pelo afastamento da esqua- dra de Cabral das costas africanas para o Atlântico Sul, na latitude da atual Bahia. Mesmo após a comprovação da experiência náutica portuguesa e seu evidente conhecimento de terras, que pensavam ser uma grande ilha, décadas anteriores A HISTÓRIA TEM HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E30 a Cabral, muitos ainda acreditavam na teoria do acaso. Historiadores como Tito Lívio Ferreira e outros muitos discutiram até que a intencionalidade no descobrimento português do Brasil deixasse de ser vista como obra do acaso, e assumisse o caráter de empresa de navegação planejada por uma nação mercantilista, visto o mercantilismo como a política econômica do capitalismo em sua fase comercial. Capistrano, como todo historiador posi- tivista, tinha suas preferências e elegia seus ídolos ou desafetos, como podemos comprovar em notas sobre sua obra compiladas por José Honório Rodrigues (1979) em seu “História da História do Brasil (tomo I, fase colonial)”: “Capistrano de Abreu, que não foi muito simpático à oratória do Padre Vieira, escreveu a João Lúcio de Azevedo (historiador português) em 14 de abril de 1918: entre os colonos e os jesuítas minha posição é bem definida: sou pelos jesuítas” (RODRIGUES, 1979, p. 478). Essa parcialidade, que pode ser vista como a par- cialidade intencional dos positivistas para colocar a História a serviço de uma exaltação de valores cívicos e nacionalistas, começou a ceder a outra “escola”, desta vez a marxista, quando o historiador Caio Prado Júnior fez escola entre nós. Por meio das leituras realizadas, percebemos que Capistrano de Abreu foi um dos primeiros grandes historiadores do Brasil, o qual produziu ainda nos campos da etnografia e da linguística. A sua obra é caracterizada por uma rigo- rosa investigação das fontes e por uma visão crítica dos fatos históricos. Hoje, ao lado desta explicação e de outras, entre as quais avultam as expli- cações tiradas à Nova História, herdeira da escola dos Annales de Bloch (1976) e Braudel (o historiador da longa duração), temos historiadores que pensam em termos de descontinuidade e relação, uma outra história que procura analisar mitos, textos e rituais, outros que como Henri Marrou, Paul Veyne ou Michel de Certeau inserem pontos de dúvida sobre a história. A História Enquanto Disciplina Escolar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 31 Michel Foucault mostrou, sobretudo, a intenção de “exibir os princípios” da trans- formação em curso na história. A história estrutural e serial de Braudel (1965), que se esforçava por tirar consequências teóricas dos eventos, deu lugar à conhe- cida “Arqueologia do Saber”, de 1969. Aquilo que Bourdé e Martin, comentando Foucault, chamam de mutacionismo “que privilegia as rupturas bruscas e a emer- gência de estruturas novas” passou a ser a tônica (1984, p. 189). Bourdé e Martin (1984, p. 197) mencionam um corte que configura uma escrita “etnológicaque consiste em distinguir, por detrás da irredutível estranheza, a presença de certo número de invariantes que se encontram ligados a uma única e mesma natureza humana” ou, ainda, a uma lógica universal. Paul Veyne pode ser visto como um hipercrítico que procura banir da História as filosofias totalizantes como o marxismo, ainda que sua crítica não seja a de um cético do valor histórico: “a história continua a ser capaz de elaborar um conhecimento autêntico” apesar de parcial, do homem (BOURDÉ; MARTIN, 1984, p. 201). No nosso país, Brasil, continuamos as reflexões ao impacto dessas escolas, que trazem o dinamismo à nossa disciplina e são muito importantes na medida Para Braudel (1965), a duração pode ser distinguida em três ordens que não são diferenciadas de maneira mecânica por medidas cronológicas. São três ritmos diferentes: Acontecimento (duração breve) – trata-se de um momento pontual, preci- so: greve, nascimento, acordo etc. Estrutura (duração longa) – são “marcos cronológicos que escapam à per- cepção dos contemporâneos” (BITTENCOURT, 2004, p. 207): cristianismo, escravidão etc. Conjuntura (duração média) – resultado de flutuações que são mais ou menos regulares em uma estrutura: Revolução Industrial, Guerra Fria etc. Fonte: Paixão (2016). A HISTÓRIA TEM HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E32 em que norteiam os rumos da escola em nível fundamental ou médio, seja qual for o objeto de nossa discussão e, ainda, os rumos dos estudos universitários ligados à disciplina histórica. Um desses momentos aconteceu durante o período de ditadura, por volta de 1964 e 1985, quando não havia preocupação em resgatar o homem como sujeito de sua história, mas sim reservar para ele um caráter de mero expectador, den- tro da perspectiva de que o indivíduo serve o seu Estado. Nesse sentido, foram introduzidas no currículo disciplinas que privilegiavam o civismo em detrimento da crítica ao conhecimento advindo do passado, como foi o caso da Educação Moral e Cívica. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996 (Lei Federal n. 9.394) procu- rou readequar os conteúdos das ciências na direção da democracia e verdadeira cidadania. Sendo assim, há alguns anos tivemos a composição dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), programados para servirem de referência em conteúdos e metodologias de ensino para a estruturação escolar brasileira. Na área de história, os Parâmetros Curriculares Nacionais tiveram como proposta fundamental a modificação da estrutura dos conteúdos até então apresentados”. Mais que isso, “a idéia básica era a transformação dos conteúdos organizados de forma linear em eixos temáticos (SHMIDT; CANELLI, 2004, p. 14). Atentando-se a este assunto, aguarde, pois ele será retomado na próxima unidade. A História Ensinada na Atualidade Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 33 A HISTÓRIA ENSINADA NA ATUALIDADE A colocação da História como disciplina e não apenas como matéria escolar é um primeiro passo indicado por Circe Bittencourt (2004), onde ocorre uma expla- nação sobre conceitos. A História deve ir além daquela “transposição didática” que caracterizou o nosso passado, e se situar em um processo dinâmico de pro- dução, que obedece a uma finalidade e definição de métodos que garantam a sua eficácia como “disciplina”. O que é uma disciplina escolar e quais são suas especificidades? Qual tem sido a participação dos professores na constituição da disciplina de História nas salas de aula? A HISTÓRIA TEM HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E34 Segundo Bittencourt (2004, p. 35), “responder à pergunta ‘o que é uma disci- plina escolar’ não é simples, e existe séria polêmica a respeito desse conceito”. Para entendermos a disciplina escolar em seu sentido amplo, é preciso situá-la em um processo dinâmico de produção. Isso é o mesmo que dizer que toda dis- ciplina precisa ter estabelecida suas finalidades, explicitar os conteúdos a serem ensinados e definir os métodos que garantam tanto a apreensão de tais conteú- dos como a avaliação de tal aprendizagem. Assim, cada disciplina formula seus objetivos no intuito de contribuir para uma formação intelectual e cultural que desenvolva o espírito crítico e capacidades diversas de comparação, dedução, criatividade, argumen- tação, lógica e habilidades técnicas, entre outras (BITTENCOURT, 2004, p. 41). Um constituinte fundamental da disciplina é seu conteúdo explícito que se arti- cula com os outros componentes da disciplina escolar, que envolve os métodos de ensino e de aprendizagem. A avaliação é o momento final do ensino-apren- dizagem, e por isso tem de estar relacionada a métodos e finalidades. Temos afirmado que a concepção de disciplina escolar está intimamen- te associada à de pedagogia e à escola e, portanto, ao papel histórico de cada um desses componentes. Ao concebermos a disciplina esco- lar como produção coletiva das instituições de ensino, admitimos que a pedagogia não pode ser entendida como uma atividade limitada a produzir métodos para melhor ‘transpor’ conteúdos externos, simplifi- cando da maneira mais adequada possível os saberes eruditos ou aca- dêmicos (BITTENCOURT, 2004, p. 49). “Dar aula” é uma ação complexa, que demanda do professor o domínio de saberes característicos e heterogêneos: o trabalho profissional que se define como “saber docente” traz a necessidade de liberar esses saberes do professor, e submetê-los ao reconhecimento por parte dos grupos produtores de saberes da comunidade científica, enquanto um saber original sobre o qual detêm o controle é um empreendimento que lhe parece condição básica para um novo profissionalismo (TARDIFF, 2002, p. 232). A História Ensinada na Atualidade Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 35 Quando pensamos em qual História devemos ensinar, poderemos refletir sobre o que escreve a respeito dos objetivos da História no então “curso secundário” (hoje Ensino Fundamental – nível 2) (COSTA, 1957 apud BITTENCOURT, 2004, p. 93), em um exemplar de 1957, da Revista de História, mas que ainda perma- nece atual quanto ao seu legado, ressalta: “A História matéria tem uma finalidade a preencher (...) como a de for- mar a personalidade integral do adolescente e, em segundo plano, fornecer-lhe conhecimentos básicos”. A autora cita como matéria o que hoje tomamos como disciplina, mas à parte dessa diferença avulta a necessidade de formar antes de informar, no melhor sentido que lhe davam os gregos antigos quando pensa- vam em uma educação liberal, voltada para a formação integral do ser humano. Costa (1957 apud BITTENCOURT 2004, p. 94) prossegue, indagando-se como seria possível à História preencher tal função, e aí encontramos um mote para a resposta que buscamos em nossa pergunta título: “Inicialmente pelo seu caráter informativo, amplia a visão intelectual, fornece conhecimentos novos. Por outro lado, ela dá margem à expansão do aluno – oralmente e por escrito”. A partir da informação básica e obtida por leitura em documento real, vir- tual ou aula expositiva, a expressão do aluno será consequente e natural. Ainda A HISTÓRIA TEM HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E36 sobre isso, Costa (1957 apud BITTENCOURT, 2004, p. 94) esclarece: “A exposi- ção oral contribui para dar segurançaao aluno, domínio e controle de si mesmo, hábito de falar em público. Diminui inibições. Dessa forma, estamos contri- buindo para a formação de sua personalidade”. Nesse ponto, a historiadora passa da informação para a ênfase à formação, porém, outras aplicações para o conhecimento histórico que podem nos respon- der sobre qual a melhor História a ser ensinada são expostas: a História ainda pode também desenvolver o raciocínio indutivo. Edu- ca a imaginação. Formulando problemas, analisando os porquês, as razões, as condições que explicam um determinado fenômeno, pro- blemas da sociedade. Enxergar soluções. Mas tudo isto sempre que a História ensinada permaneça num plano explicativo e não se restrinja a fastidiosa enumeração de fatos, dados, nomes, geralmente sem signifi- cado, e que são obrigatoriamente decorados pelos alunos (grifo nosso) (COSTA, 1957 apud BITTENCOURT, 2004, p. 94). Schmidt e Cainelli (2004) nos dão orientações sobre como efetivar uma aula de História: Abordagem magistral é um método tradicional que possibilita receber muitas informações dadas pelo professor em pouco tempo. Porém, o aluno fica em posição passiva e não se pode garantir que ele seja capaz de reproduzir os conhecimentos fora da aula. Abordagem dialogada parte de perguntas direcionadas aos alunos, mobi- lizando o conhecimento apreendido em aulas anteriores. Os alunos precisam estar motivados a participar para que surta o efeito desejado. Contudo, por apre- sentar questões fechadas que não demandam uma reflexão ou que não possam ser colocadas em um conjunto de problemáticas, “traz o risco de dar ao aluno uma concepção positivista da história, que significa mais a restituição coletiva de uma pseudoverdade histórica do que a reconstrução hipotética do passado” (SCHMIDT; CAINELLI, 2004, p. 39). Por fim, a Abordagem construtivista favorece a autoaprendizagem expe- rimental, colocando o aluno como agente de sua própria formação. Entre os métodos científicos desta abordagem, conforme Bittencourt (2004), encontramos: ■ Método Indutivo – sua aproximação dos fenômenos se encaminha do particular para o geral, ou seja, parte das constatações mais específicas A História Ensinada na Atualidade Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 37 para as mais abrangentes, numa conexão ascendente. Podemos partir da biografia do indivíduo inserido em sua sociedade e tempo de vida para o retrato de uma época histórica, por exemplo. ■ Método Dedutivo – parte das teorias e leis, num âmbito geral, para a ocorrência de fenômenos particulares, numa conexão descendente. Ou seja, podemos estudar a globalização e então compreender suas caracte- rísticas e aplicações na sociedade brasileira. Percebemos que o pensamento de Viotti da Costa é basicamente ilustrativo, para que entendamos a História não mais como uma matéria meramente decorativa, mas sim como uma disciplina que nos permite a apropriação de um conheci- mento científico que tem um método e atende a uma finalidade. A HISTÓRIA TEM HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E38 CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta primeira unidade, procuramos nos aproximar do universo da História, buscando pelas suas origens. Além disso, estudamos os sentidos dados a palavra História e vimos o quanto esta ciência do tempo é necessária para o entendimento da sociedade em seus diversos nuances, do passado ao presente ou vice-versa. Analisamos a História enquanto uma ciência e nos aproximamos das cor- rentes historiográficas como o Positivismo, o Marxismo e a Nova História. Vimos que o Positivismo visa explicar a História por meio do estudo dos fatos, datas e personagens históricos considerados importantes durante o período estudado. Há uma neutralidade do historiador, cabendo apenas analisar os fatos de modo objetivo. O Marxismo, também chamado de Materialismo Histórico, procura explicar as mudanças históricas mediante as condições materiais, modos de produção ou disputa entre classes sociais existentes em um determinado perí- odo histórico. Enquanto a Nova História, influenciada pela Escola dos Annales, objetiva o estudo da História do cotidiano de um povo, do modo como vivem, se organizam, produzem ou se relacionam política e socialmente: aqui cabe ao historiador realizar uma análise dos fatos sob um olhar mais crítico. Devemos considerar, além disso, que a disciplina História percorreu um bom caminho para chegar ao entendimento do que concebemos hoje. De origem tra- dicional, apoiada no positivismo, essa matéria passou a ser concebida como uma disciplina essencial na formação do cidadão consciente e participativo, embora entendamos que cidadania seja um direito não possível de ser formado, mas sim uma visão de conscientização ao exercício pleno dessa cidadania. Na unidade seguinte nos remeteremos às mudanças e permanências dos métodos do Ensino de História, bem como a ação docente, objetivando a for- mação global de nossos educandos. 39 1. Inicialmente, procuramos nesta unidade refletir sobre a origem da palavra His- tória e os sentidos dados a ela, segundo o historiador Glénisson. Assim, procure explicar e dar exemplos para os três sentidos da palavra História. 2. Ainda nesta primeira unidade, discutimos o ensino de História e suas várias perspectivas. Nesse sentido, estabeleça um contraponto entre a concepção positivista e a Nova História, ressaltando aspectos como a utilização de do- cumentos, o enfoque do estudo, a visão do herói e a temporalidade. 3. Leia o excerto retirado da obra de um grande historiador. “A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que os outros esquecem, tornam-se mais importantes que nunca no fim do segundo milênio” (HOBSBAWM, 1995, p. 13). Partindo de tais considerações, expresse a opinião do historiador quanto às finalidades do Ensino de História da atualidade, destacando ainda sua pró- pria opinião. 4. Segundo Caio Boschi (2007, p. 12) “[...] a história serve para que o homem conhe- ça a si mesmo – assim como suas afinidades e diferenças em relação a outros”. Acerca da História enquanto ciência e disciplina, analise as afirmações abai- xo e assinale a alternativa correta: a. Como a experiência humana é objeto de estudo da História, qualquer evidên- cia da ação humana será suficiente para o trabalho historiográfico, ou seja, para a construção do conhecimento histórico. b. A disciplina de História deve proporcionar ao aluno a compreensão do ser hu- mano através das suas relações sociais ao longo do tempo, contudo, é funda- mental que aspectos do cotidiano do aluno sejam inseridos nesses estudos. c. Pela sua contribuição para a compreensão de questões sociais, a História se destaca como a disciplina que gera maior interesse nos alunos. d. A ciência História possibilita que evitemos os erros cometidos no passado, pois estudando o passado de uma sociedade podemos desenvolver fórmulas sociais aplicáveis à sociedade contemporânea. e. A disciplina de História permite ao aluno tornar-se mais pacífico diante das questões políticas, econômicas e sociais que assolam nosso país, pois através de seu estudo o aluno tem condições de neutralizar seus impactos. 40 5. É comum escutarmos que a «História não serve para nada», desse modo, é im- portante que os objetivose limites da História enquanto Ciência e disciplina es- tejam claros. Assim, analise as afirmações a seguir e assinale V para as ver- dadeiras e F para as falsas: ( ) Há uma expectativa de que a História possibilite um melhor direcionamento social na atualidade, para que erros passados não se repitam no tempo presente. Porém, esse não é o objetivo dessa ciência. ( ) Não se pode aplicar em uma sociedade da atualidade, ideias e ações desen- volvidas em uma sociedade do passado, pois ideias e atitudes são determinadas pelo contexto histórico de uma sociedade. ( ) A rapidez com que as informações têm sido difundidas na atualidade con- tribui para a desvalorização da História. Assim, é fundamental que o professor demonstre desde cedo que informação é diferente do Conhecimento Histórico, pois este se conserva por anos. ( ) Sem História, perderíamos nossa identidade social, pois não seria possível conservar o conhecimento acerca das ações de uma sociedade. A sequência correta é: a. V, V, V e V. b. V, F, V e V. c. V, V, F e V. d. F, V, V e V. e. V, V, V e F. 41 O século XIX foi o período em que a História se constituiu enquanto uma ciência. Em um contexto de formação de Estados Nacionais, a História passou a servir enquanto instrumento de afirmação das identidades nacionais e da legitimação de poderes políticos. Nesse sentido, a abordagem tradicional exaltou o feito de grandes “heróis”, ou seja, esteve centrada na história de Estados e aqueles que teriam sido responsá- veis por formá-los e/ou regê-los. O ensino de História foi sendo delineado seguin- do as mesmas premissas, inclusive no Brasil. Contudo, essa prática foi questionada, como podemos ver na crítica expressa no poema abaixo: Perguntas de um Operário Letrado (Bertold Brecht) Quem construiu Tebas, a das sete portas? Nos livros vem o nome dos reis, Mas foram os reis que transportaram as pedras? Babilônia, tantas vezes destruída, Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas da Lima Dourada moravam seus obreiros? No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde foram os seus pedreiros? A grande Roma está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio só tinha palácios para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida na noite em que o mar a engoliu viu afogados gritar por seus escravos. O jovem Alexandre conquistou as Índias Sozinho? César venceu os gauleses. Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço? Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha chorou. E ninguém mais? Frederico II ganhou a guerra dos sete anos Quem mais a ganhou? 42 Em cada página uma vitória. Quem cozinhava os festins? Em cada década um grande homem. Quem pagava as despesas? Tantas histórias Quantas perguntas” Fonte: Escritas.org ([2017], on-line)2. Nesse sentido, no Brasil, somente a partir da década de 1980 é que novas abordagens em torno da História como ciência e enquanto disciplina escolar foram sendo traçadas, na busca de formar cidadãos críticos. Fonte: a autora. Material Complementar MATERIAL COMPLEMENTAR História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas Leandro Karnal Editora: Contexto do Brasil Sinopse: a presente obra é, antes de tudo, uma declaração de amor ao ofício de ensinar História. Catorze pro� ssionais reconhecidos da área unem suas experiências e concepções em um livro que lança novas luzes sobre o trabalho do professor, tanto do ensino fundamental quanto do ensino médio. O livro é, também, um libelo em defesa das aulas de História, que, em tempos de informação instantânea e alta competitividade pro� ssional, corre o risco de perder espaço para disciplinas tidas como mais práticas e úteis na preparação do estudante para o mercado de trabalho. Não podemos abrir mão de apresentar nossos jovens ao patrimônio cultural da humanidade. E qual é o papel do professor senão estabelecer uma articulação entre o patrimônio cultural da humanidade e o universo cultural do aluno? Você também tem acesso a esta obra através da biblioteca virtual Pearson, disponível em seu Ambiente Virtual de Aprendizagem. Que é história? Edward H. Carr. Editora: Saraiva. Sinopse: Que é história? Que é fato histórico? Existem verdades históricas ‘objetivas’? Mestre no ofício, Edward Hallet Carr responde a essas indagações com sutileza e sabedoria. Segundo Carr, o historiador não pode relatar um fato histórico exatamente como se passou. Seleciona uma in� nidade de eventos, tomados das mais diversas fontes, aqueles que, sob sua ótica, merecem ser historiados. Este livro reúne uma série de conferências proferidas pelo Prof. E. H. Carr na Universidade de Cambridge, em 1961, onde ele desvenda o ofício de historiador que ele próprio exerce com dignidade, engenho e arte. MATERIAL COMPLEMENTAR A Escrita da História: novas perspectivas Peter Burke Editora: UNESP Sinopse: o livro A Escrita da História, de Peter Burke, discute as mudanças ocorridas na historiogra� a a partir do surgimento da corrente denominada Nova História. Assim, temas diversos da história, entre eles, a história das mulheres, o renascimento da narrativa, a história oral etc., merecem atenção especial. Para de� nir a Nova História, Burke retoma sua origem associando-a a Escola de Annales e que, além de lutar por uma história total, opõe-se totalmente ao paradigma tradicional da historiogra� a. Noções de Coisas Darcy Ribeiro Editora: FTD Sinopse: nesta obra, o autor apresenta a cultura como sendo tudo que é feito pelos homens ou resultado do trabalho deles. Diferencia cultural material de imaterial nos levando a re� etir sobre tais diferenças. Vale a leitura até para os “grandinhos”. REFERÊNCIAS BITTENCOURT, C. M. F. Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Cor- tez, 2004. ______ O saber histórico na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2004. (Coleção Re- pensando o ensino). BLOCH, M. Introdução à História. São Paulo: Publicações Europa-América, 1976. BOURDÉ, G; MARTIN, H. As escolas históricas. São Paulo: Publicações Europa América, 1984. BOURDIEU, P. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Zahar, 1997. BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Disponível em:<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9394.htm>. Acesso em: 3 abr. 2017. BRAUDEL, F. A história e as Ciências Sociais: a longa duração. Revista de História, v. XXX, n. 62, ano XVI, abr. / jun., 1965. CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2000. BOSCHI, Caio César. Por que estudar história? São Paulo: Ática, 2007. GLÉNISSON, J. Iniciação aos Estudos Históricos. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1961. KARNAL, L. História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas. 2. ed. São Pau- lo: Contexto, 2004. LAKATOS, E. M. Sociologia geral. 6. ed. São Paulo: Atlas, 1990. NADAI, E. A escola pública contemporânea: os currículos oficiais de História e o en- sino temático. Sociedade e Trabalho na História. Revista Brasileira de História. São Paulo: v. 6, n. 11, set. / fev. 1986. NEMI, A. L. L.; MARTINS, J. C. Didática de História: o tempo vivido: uma outra histó- ria? São Paulo: FTD, 1996. PAIXÃO, P. C. M. Metodologia do Ensino de História. São Paulo: Pearson, 2016. RIBEIRO, D. Noções das coisas. São Paulo: FTD. 1995. RODRIGUES, J. H. História da História do Brasil 1. A parte da historiografia colonial. São Paulo, Editora Nacional, 1979. SCHMIDITT, M. A.; CAINELLI, M. Ensinar História. São Paulo: Editora Scipione, 2004. SOUZA, A. H. de. A ideologia. São Paulo: Ed. do Brasil,1989. TARDIFF, M. Sobre docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2002. 45 REFERÊNCIAS REFERÊNCIAS ON-LINE 1Disponível em: <https://edukavita.blogspot.com.br/2015/06/biografia-de-herodo- to-historiador-grego.html>. Acesso em: 3 abr. 2017. 2Disponível em: <http://www.escritas.org/pt/p/tema/perguntas%20de%20um%20 oper%C3%A1rio%20letrado>. Acesso em: 3 abr. 2017. GABARITO 47 1) Os três sentidos da palavra História são: Realidade histórica: conjunto dos fenômenos pelos quais se manifestou, mani- festa ou se manifestará a vida da humanidade; a realidade objetiva do movimen- to do mundo e das coisas. Conhecimento histórico: a observação subjetiva da realidade pelo historiador. Obra histórica: o registro da observação da realidade feita pelo historiador em um relato escrito. Quanto aos exemplos, eles são subjetivos, mas você, caro aluno, precisa ser coe- rente com os estudos realizados. 2) Na concepção positivista, há uma preocupação com o estudo dos fatos, neutralidade do historiador, ênfase na história política, na história dos heróis e na história do passado. O tempo é cristalizado e busca formar o cidadão para a pátria, construindo identidades nacionais. Já na Nova História, a história é de todos os homens, busca analisar o processo histórico e considera as várias his- tórias: história por conceitos e história temática. Tem forte contribuição para a construção da cidadania, e a história é interpretada sob os diferentes tempos e suas nuances. 3) A resposta é interpretativa, porém, é preciso considerar que hoje as finalidades do ensino de História tem sido objeto de preocupação de vários historiadores, principalmente no que diz respeito aos conteúdos, objetivos e métodos das au- las de História, e isso foi discutido nesta unidade. 4) Alternativa “B”. 5) Alternativa “A”. U N ID A D E II Professora Me. Priscilla Campiolo Manesco Paixão TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DO ENSINO DE HISTÓRIA Objetivos de Aprendizagem ■ Compreender que ensinar História é criar a possibilidade de investigação, sem separar o ensino da aprendizagem e pesquisa. ■ Reconhecer que o professor de História é um sujeito histórico, inserido em um grupo social no qual interage e, por isso mesmo, tem um papel fundamental na construção do conhecimento histórico por parte dos alunos. ■ Destacar os conhecimentos prévios dos alunos como ponto de partida e das metas de aprendizagem. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Mudanças e permanências nos métodos da História escolar ■ Concepções de conteúdos escolares de aprendizagem ■ A formação de conceitos ■ A formação do professor e o cotidiano de sala de aula INTRODUÇÃO Toda ciência tem seus métodos de abordagem e procedimento, e são eles que mostram a nossa orientação ideológica e pedagógica. Um historiador que seja herdeiro da escola dos Annales francesa, como vimos na primeira unidade (e que consequentemente se inclua entre os neo-historiadores), obedece a uma linha mestra que foi demarcada pelos “fundadores” da corrente, Marc Bloch e Lucien Fèbvre, na década de 40 do século passado. Estudamos que tanto Bloch (historiador) como Fèbvre (geógrafo) se insur- giram contra o rigorismo da escola metódica (positivista) e ampliaram o sentido de documento histórico. Além disso, esses homens trouxeram para o estudo de nossa disciplina as outras ciências coirmãs, tais como a Geografia, a Sociologia, a Antropologia e a Arqueologia, dando o devido reconhecimento que cada uma merece. A segunda geração da Nova História – liderada por Fernand Braudel – além de incluir a Geografia e o espaço como básico, ampliou o conceito de tempo da curta duração (fatos e datas) para a média (conjuntura), e mais notadamente para a longa duração dos séculos, em que aparecem mais nítidas as estruturas histó- ricas. Assim, o feudalismo tinha uma estrutura diferente do sistema capitalista que o seguiu, sendo as mudanças sempre marcadas por época de transição, onde coexistem o velho e o novo até que este último definitivamente se instale. Esta é a formação que vai estabelecer o perfil do professor que está se formando, para partir e formar o quadro docente que informa e forma os alunos em sala de aula. Dessa forma, nesta unidade estudaremos as concepções de conteúdos escolares e de aprendizagem, dando ênfase às atuais propostas que colocam o conhecimento como centro de todo o processo ensino-aprendizagem da disci- plina de História. Discutiremos também a formação de conceitos, considerando os conhecimentos prévios dos alunos e o papel de relevo que o professor merece, visto que acreditamos que ele exerce função fundamental neste processo de ensino-aprendizagem. Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 51 TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DO ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E52 MUDANÇAS E PERMANÊNCIAS NOS MÉTODOS DA HISTÓRIA ESCOLAR Por muito tempo, a escola denominada elementar ou escola primária era o lugar de ensinar a “ler, escrever e contar”. Para o ensino da leitura, os professores deve- riam utilizar, entre outros, a “Constituição do Império e a história Geral”. O objetivo maior era o fortalecimento do senso moral por meio de deveres para com a Pátria e seus governantes, o que segundo Bittencourt (2004, p. 64), se acen- tuou no decorrer dos séculos XIX e XX. Seguindo preceitos do Positivismo, a escolarização das classes popula- res incluía ensinar a História para “inculcar determinados valores para a preservação da ordem, da obediência à hierarquia, de modo que a Nação pudesse chegar ao progresso, modernizando-se segundo o mo- delo dos países europeus. Nesta prerrogativa, aprender História significava memorizar nomes, fatos e datas, repetindo exatamente o que estava escrito nos livros ou copiados nos cadernos. Não precisamos ir longe para constatar tal afirmação. Ainda hoje é possível verifi- car professores que se recusam a inovar e acompanhar as tendências atuais para o Mudanças e Permanências nos Métodos da História Escolar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 53 ensino, gabando-se na sala dos professores, dizendo que seus alunos já “termina- ram mais um caderno” ou que “todos vão bem nas provas”, afinal, faz apenas uma revisão dando-lhes um questionário para responder, e cobra tal e qual na prova. A História, segundo o método catecismo, era apresentada por pergun- tas e respostas, e assim os alunos deviam repetir, oralmente ou por es- crito, exatamente as respostas do livro. Como castigo, pela imprecisão dos termos ou esquecimento de algumas palavras, recebiam a famosa palmatória ou férula. O sistema de avaliação era associado a castigos físicos (BITTENCOURT, 2004, p. 67). Assim, infelizmente “aprender de cor” tem sido uma constante desde fins do século XIX. O que nos chama a atenção é a perpetuação de um sistema que por vezes sofreu críticas e continua perpetuando-se, muitas vezes, em nossas esco- las. Entretanto, precisamos ainda considerar que memorizar conscientemente é diferente de “aprender de cor”, ou memorizar mecanicamente. Você se lembra de suas primeiras aulas de História? Como elas aconteciam? O que aprendeu? Quais recursos o professor utilizava para que a aprendiza- gem acontecesse? TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DO ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 defevereiro de 1998. IIU N I D A D E54 Se por um lado tal método nos incomoda até hoje, a situação se agravou ainda mais quando, a partir dos anos de 1930, os Estudos Sociais passaram a cons- tituir disciplina escolar nas “escolas primárias” em substituição à História, à Geografia e ao Civismo. Tal substituição visava à integração do indivíduo na sociedade, devendo os conteúdos auxiliar a inserção do aluno na comunidade da qual fazia parte. Os Estudos Sociais foram adotados em algumas escolas denominadas “experimentais” ou “vocacionais”, no decorrer da década de 60, e depois da reforma educacional na fase da ditadura militar, pela Lei 5.692 de agosto de 1971, a área foi introduzida em todo o sistema de ensino – o qual então passou a se chamar de primeiro grau -, estendendo-se para as demais séries do antigo ginásio (BITTENCOURT, 2004, p. 73). Vale ressaltar que tal mudança provocou um esvaziamento de cada uma das disciplinas, uma vez que agora todas elas se diluíam, assim como as categorias e conceitos básicos provenientes das ciências de referência. Dessa maneira, os métodos, que antes eram destinados à memorização, passaram a se tornar vitais Mudanças e Permanências nos Métodos da História Escolar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 55 para o bom resultado do então chamado Estudos Sociais, devendo destacar a observação e descrição do meio local. As crianças das escolas primárias deveriam observar e descrever situações de trabalho, a organização das ruas e praças, os transportes, etc. O mais importante era criar uma atmosfera pedagógica, “para formar, a partir da escola, um indivíduo socialmente eficiente para o sistema” (BITTENCOURT, 2004, p. 75). As datas cívicas e as comemorações dos feitos dos heróis e dos grandes acon- tecimentos políticos nacionais eram, na prática, os únicos conteúdos históricos para os alunos da escola primária. O professor deveria manter uma atitude de neutralidade diante de todos os acontecimentos históricos do passado ou do presente. A constante solicitação da postura neutra do professor evidenciava, paradoxalmente, o caráter político da disciplina (BITTENCOURT, 2004, p. 89). Podemos perceber que todas as mudanças dos anos de 1970 para o ensino de História estavam ligadas especificamente aos métodos e técnicas, como deixamos evidente em nossas discussões, e visavam adequar-se a um reduzido conheci- mento histórico, sem que essencialmente os conteúdos fossem alterados, mas apenas simplificados e resumidos. Contudo, todos os esforços por reformulações que se iniciaram no fim dos anos 80 do século passado ganharam força nos anos 90, graças à nova configu- ração mundial, que impunha um modelo econômico para submeter todos os países à lógica do mercado. Vale lembrar que esta série de reformulações curriculares não foi exclusiva em âmbito nacional. Outros tantos países também sofreram mudanças em seus currículos oficiais, e muitas dessas propostas curriculares, como as dos países in- tegrantes do Mercosul, a de Portugal e a da Espanha, possuem a mesma estrutura na organização dos documentos oficiais e a mesma termino- logia pedagógica (BITTENCOURT, 2004, p. 100). Consagrando-se como tendências atuais, a partir do fim da década de 1980, cria- ram-se várias propostas curriculares de História para o Ensino Fundamental, além dos PCNs, que explicitaremos ainda nesta unidade. Essas propostas tiveram TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DO ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E56 em comum algumas características que passamos a considerar, assim como fez nossa historiadora e professora Circe Bittencourt, em seu livro intitulado “Ensino de História: fundamentos e métodos”, publicado pela primeira vez em 2004, pela Editora Cortez, em sua coleção Docência em formação: ensino fundamental. ■ A alteração nas formulações técnicas dos textos curriculares, que passaram a apresentar fundamentações sobre o conhecimento his- tórico e sobre os demais tópicos da disciplina. ■ A preocupação com a implementação dos currículos, buscando sua legitimidade junto aos professores, justificando sua produção e procurando diluir formas de resistência aos documentos oficiais. ■ A redefinição do papel do professor, fornecendo-lhe maior auto- nomia no trabalho pedagógico, concepção esta expressa na ausên- cia de um rol de conteúdos estabelecidos de forma obrigatória para cada série ou ciclo. ■ A apresentação mais detalhada dos pressupostos teóricos e meto- dológicos do conhecimento histórico; ■ A fundamentação de maneiras diversas, mas tendo como princí- pio que o aluno é sujeito ativo no processo de aprendizagem. ■ A aceitação de que o aluno possui um conhecimento prévio sobre os objetos de estudos históricos, obtido pela história de vida e pe- los meios de comunicação, o qual deve ser integrado ao processo de aprendizagem. ■ A introdução dos estudos históricos a partir das séries iniciais do ensino fundamental (BITTENCOURT, 2004, p. 111-112). A partir destas características, podemos fazer uma contraposição entre a História tradicional e as tendências atuais. Da preocupação do estudo dos fatos e a ênfase na história dos fatos polí- ticos, debaixo da tentativa irreal de “neutralidade” do historiador, passamos a uma história onde todos os seus componentes são vistos como homens e suas esferas de atuação (da política à econômica, da social à ideológica) são vistas em interação recíproca. Mudanças e Permanências nos Métodos da História Escolar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 57 A interdisciplinaridade é uma característica dessa nova tendência, na qual a histó- ria se relaciona com a sociologia, antropologia cultural, filosofia e outras ciências do homem, até a psicologia (ênfase ao inconsciente coletivo, por exemplo). Mas este é um assunto para tratarmos daqui a pouco na Unidade 4. Aguarde! O estudo das origens da genealogia das nações, com o objetivo de formar o cidadão patriota voltado para o legado europeu, cedeu lugar à integração do educando em um meio cada vez mais amplo, que evita o estudo do passado pelo passado e tem sempre em mente o presente. Só o conhecimento crítico do passado permite a construção da cidadania tal como se pretende hoje, com o desenvolvimento de um senso histórico-crí- tico. Na apreensão da pluralidade da memória humana parece estar o caminho, e não apenas na memória nacional. É esta uma das preocupações de Edgar Morin (2001), quando afirma o quanto o pensamento é complexo e quantas lacunas estão aí embutidas sem que nos déssemos conta disto. TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DO ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E58 Todas essas modificações deslocam o professor do papel de transmissor do saber pronto e acabado para um professor mediador, servindo como elo entre o aluno e a produção do próprio conhecimento que este aluno efetua, atuando como sujeito de suas operações mentais, que o levam a recuperar a historicidade e apreender conceitos que levem às sínteses visadas como o ponto mais alto da escalada do conhecimento. Aliás, desde que a Revolução da Informática (1970), quando os computado- res se uniram às telecomunicações (Internet), a informação está ao alcance de todos, o que deixa claro que o professor não tem mais o monopólio da informa- ção. A flexibilidade necessária à docência inclui ser, além de um informante,um formador de consciências críticas e criativas, capazes de pensarem por si mesmas. A avaliação passa, a partir daí, por um processo de revisão que inclui a eli- minação da “avaliação bancária” apontada por Paulo Freire, e sua substituição por outra avaliação. Esta se define agora como diag- nóstica, processual e formativa e, segundo Schmidit e Cainelli (2004, p. 17), essa avaliação busca “o crescimento do aluno e não sua classificação e exclusão”. Recomendamos a leitura da obra: “Introdução ao pensamento complexo”, de Edgar Morin, em que ele aborda aqueles que consideram os atos inibido- res do conhecimento em nossa sociedade. Para ele, “o pensamento comple- xo é animado por um saber não parcelar, não fechado, não redutor e pelo reconhecimento do inacabado, do incompleto, que isola todos os objetos daquilo que os envolve” (MORIN, 2001, p. 18). O autor propõe distinguir ideias sem separar, associar, identificar ou reduzir. Fonte: a autora. Mudanças e Permanências nos Métodos da História Escolar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 59 Hobsbawm (1995, p. 13), na sua obra “Era dos Extremos”, lembra que a destruição do passado é um dos fenômenos mais “lúgubres” enfrentados pelo historiador hoje e recoloca a história no verdadeiro papel que também vem enfa- tizado por autores nacionais como José Murilo Carvalho (1998, p. 454): Nada do que é humano será agora alheio ao historiador. Daí a multi- plicação de estudos sobre a cultura, os sentimentos, as idéias, as men- talidades, o imaginário, o cotidiano. E também sobre instituições e fe- nômenos sociais antes considerados de pequena importância, se não irrelevantes, como o casamento, a família, organizações políticas e pro- fissionais, igreja, etnias, a doença, a velhice, a infância, a educação, as festas e rituais, os movimentos populares. Portanto, a construção de uma memória social exclusivamente nacional cederá lugar a uma memória que fale da identidade humana, além de considerar a sime- tria entre as culturas para erradicar os preconceitos que fortalecem os inimigos da democracia, como acontece com os totalitarismos de toda espécie. TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DO ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E60 CONCEPÇÕES DE CONTEÚDOS ESCOLARES E DE APRENDIZAGEM Ao longo de muitas décadas do século passado e mesmo deste que se inicia, a questão do conteúdo programático tem-se apresentado como um problema para a maioria dos professores. Muitos deles sentem dificuldades de contemplar todos os itens a serem ministrados em suas aulas e, quase sempre, os fatos mais atuais não são vistos, em detrimento do passado que é sempre estudado, quase sem ligação com o presente. Infelizmente percebe-se que ainda temos professores pedagogos, ou seja, que ministram todas as disciplinas, como é o caso dos professores dos anos ini- ciais do Ensino Fundamental, que carecem de domínio dos conteúdos como os específicos de História. Isto porque essa matéria possui complexidades que vão além de “saber” os conteúdos, é preciso dominar os eixos que estruturam a disci- plina e que transpassam todos os conteúdos, como o domínio da temporalidade. Há professores que ainda consideram o aprender como equivalência a memo- rizar, dominar muitas informações de acontecimentos de uma história nacional, datas, episódios, heróis e seu desempenho, sendo esse processo chamado de História factual de curta duração, que Braudel (1965), da segunda geração de neo-historiadores franceses, criticou e propôs substituir pela longa duração. Ainda que admitisse que a ideia de tempo estivesse ligada ao pensamento Concepções de Conteúdos Escolares e de Aprendizagem Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 61 do historiador, assim como a terra adere à pá do jardineiro, Braudel (1965) pen- sava em estruturas que duravam por um tempo bem mais longo do que aquela ocupada por uma simples batalha. Nas diferentes formas de produzir currículos escolares, os conteúdos são fundamentais, ainda que permitam a comparação entre os currículos ideais, os da teoria e o currículo real. Tudo envolve, ainda, o currículo oculto, aquele que está implícito nas formulações oficiais e que é o resultado da orientação peda- gógica, da ideologia que se pretende contemplar. Como escreve Circe Bittencourt (2004), um debate que então se possa insta- lar é benéfico, na medida em que permite avanços para a seleção de conteúdos, como fruto de uma concepção que orienta o processo de ensino-aprendizagem. Portanto, a se julgar pelos currículos mais recentes, os conteúdos escolares corres- pondem à integração dos vários conhecimentos adquiridos na escola. “Destarte, concebem-se como conteúdo escolar tanto os conteúdos explícitos de cada uma das disciplinas como a aquisição de valores, habilidades e competências que fazem parte das práticas escolares” (BITTENCOURT, 2004, p. 106). Para a História todos os autores são unânimes em afirmar que a apreensão do conteúdo envolve não apenas a capacidade dos alunos de dominar informa- ções e conceitos de um determinado período, mas principalmente a capacidade TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DO ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E62 analítica que permitirá a síntese. Sendo assim, faz-se necessária a habilidade interpretativa do texto, a leitura de tabelas, gráficos e mapas, visto que esses con- teúdos são o “lugar” do saber histórico mais privilegiado. Convém destacar que informação não é conhecimento. Informação é “matéria-prima” e só se torna conhecimento se for transformada pelo sujeito cognoscente, se fizer sentido para este e se relacionar com outros conhecimen- tos já construídos e incorporados. Seguindo orientações dos PCNs, apesar das críticas recebidas desde a sua elaboração por parte de alguns educadores, explicitamos seus objetivos gerais para o Ensino de História (BRASIL, 1997, p. 41). Assim, espera-se que ao longo do Ensino Fundamental, os alunos gradativamente possam ler e compreender sua realidade, posicionar-se, fazer escolhas e agir criteriosamente. Nesse sentido, os alunos deverão ser capazes de: ■ Identificar o próprio grupo de convívio e as relações que estabelecem com outros tempos e espaços. ■ Organizar alguns repertórios histórico-culturais que lhes permita localizar acontecimentos numa multiplicidade de tempo, de modo a formular explicações para algumas questões do presente e do passado. ■ Conhecer e respeitar o modo de vida de diferentes grupos sociais, em diversos tempos e espaços, em suas manifestações culturais, econômicas, políticas e sociais, reconhecendo semelhanças e diferenças entre eles. ■ Reconhecer mudanças e permanências nas vivências humanas, pre- sentes na sua realidade e em outras comunidades, próximas ou distan- tes no tempo e no espaço. ■ Questionar sua realidade, identificando alguns de seus problemas e refletindo sobre algumas de suas possíveis soluções, reconhecendo formas de atuação políticas institucionais e organizações coletivas da sociedade civil. ■ Utilizar métodos de pesquisa e de produção de textos de conteúdo histórico, aprendendo a ler diferentes registros escritos, iconográficos, sonoros. ■ Valorizar o patrimônio sociocultural e respeitar a diversidade, reco- nhecendo-a como um direito dos povos e indivíduos e como um ele- mento de fortalecimento da democracia. Concepções de ConteúdosEscolares e de Aprendizagem Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 63 Se analisarmos a metodologia adotada em nossas escolas hoje com relação aos objetivos do ensino da História, teremos especificado para os anos iniciais do Ensino Fundamental itens envolvidos em um conteúdo que permita, sobretudo, identificar o seu grupo de convívio e as relações que entre eles se estabelecem com outros tempos e espaços. Como lemos no próprio documento emanado do MEC é necessário “organizar alguns repertórios histórico-culturais que lhes per- mitam (aos estudantes) localizar acontecimentos numa multiplicidade de tempo, de modo a formular explicações para algumas questões do presente e do pas- sado” (BRASIL, 1997, p. 50). Além do mais, é necessário superar o preconceito e trabalhar com a tolerân- cia, objetivando uma convivência harmônica entre os membros de uma mesma sociedade, como querem Morin (2001) e outros. Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, é importante identificar as relações sociais no seu grupo de convívio, situar acontecimentos históricos na multipli- cidade dos tempos, fazer a relação com outras disciplinas aprendidas como a Geografia, por exemplo, e, novamente, conhecer e respeitar o modo de vida dos outros, independentemente do país. A grande intenção é estabelecer a harmonia, do micro ao macro, visando nossa humanidade, tão atingida pelo fenômeno do “estranhamento” entre culturas, hostilidade motivada pela diferença que brota da especificidade de cada grupo. A valorização do patrimônio sociocultural não escapou aos que pensaram em termos de PCNs conforme a orientação vinda da Europa, aplicada a nossa realidade, e a busca da verdadeira cidadania e democracia finalizando, como a síntese do documento. Muito interessante é o texto anotado por Schmidt e Cainelli (2004, p. 25), que mostra uma menina anônima de quatro anos se perguntando: “Como era isso antes de eu estar aqui?”. Isso é um bom ponto de partida para uma aula de História, pois permite que se parta do interesse e da curiosidade do próprio aluno e, além disso, permite que um conhecimento verdadeiramente histórico seja construído. Quando trata do ensino da História no que diz respeito aos conteúdos relacionados aos concei- tos, Holien Gonçalves Bezerra (2004) não só estuda a nossa Lei de Diretrizes e Bases de 1996, como também se preocupa com a maneira com que os conteúdos TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DO ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E64 alcançarão seus objetivos, em termos de articulação de conhecimentos e valores. Uma das grandes preocupações desse autor é como tudo o que vem no bojo dos conteúdos poderá contribuir de uma maneira “efetiva” na sempre invocada “transformação da sociedade” (BEZERRA, 2004, p. 37). Além disso, esse autor é bastante explícito com relação à seleção e organização dos conteúdos e na orien- tação primeira de não atender a uma única metodologia, como diz a seguir: “a necessária seleção de conteúdos faz parte de um conjunto formado pela preocu- pação com o saber escolar, com as capacidades e com as habilidades, e não pode ser trabalhada independentemente” (BEZERRA, 2004, p. 38). Além de enfatizar que os conteúdos são um meio, e não um fim em si mesmo, o autor recomenda também a diversidade na apresentação dos conteúdos, não obstante se imponha sempre a linearidade e a sequência cronológica, básicas à apreensão do fato histórico. EXEMPLIFICANDO: 1. Abaixo temos trechos da carta de Pero Vaz de Caminha, o escrivão da esqua- dra de Cabral. Ela é considerada a certidão de nascimento do Brasil. Datada de 1º de maio de 1500 e destinada a Dom Manuel, rei de Portugal. Leia-a e faça o que se pede a seguir: Senhor: [...] Neste dia 22 de abril de 1500... avistamos terra! Primeira- mente um grande monte, mui alto e redondo; e outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra plana, com grandes arvoredos: ao monte alto o Capitão pôs nome de Monte Pascoal, e a terra de Vera Cruz. [...] Os habitantes eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. [...] Concepções de Conteúdos Escolares e de Aprendizagem Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 65 Ao domingo de Páscoa pela manhã, determino o Capitão para irmos a missa naquele ilhéu. Mandou naquele ilhéu [...] armar um altar... E ali com todos nós o Padre Frei Henrique presidiu a missa. A missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção. [...] Esta terra, senhor, [...] é muito extensa e muito formosa. Nela, até agora, não pudemos saber se há ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro... Porém a terra em si é de muitos bons ares... Águas são muitas: infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar para plantar, dar-se-á nela tudo, por bem fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente. Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro, da vossa ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500. Pero Vaz de Caminha. Fonte: adaptado de: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm. do?select_action=&co_obra=17424>. Acesso em: 17 abr. 2017. a) A carta acima pode ser considerada uma fonte histórica? Justifique. b) É uma fonte primária ou secundária? Comprove sua resposta. c) Em que data foi escrita? d) Onde foi escrita? e) Quem escreveu? f) Retire do texto duas informações que considerar importante. g) Ao escrever a carta, Pero Vaz de Caminha tinha seus motivos. Cite o motivo pelo qual escreveu a carta. h) Julgue a informação: Através das fontes históricas podemos estudar o modo de vida dos povos do passado? TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DO ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E66 2. Observe o documento iconográfico (1ª missa do Brasil) com atenção e registre a sua primeira impressão. Em seguida descreva o que viu, decompondo a imagem em partes. Figura 1 - 1ª missa do Brasil, Pintura de Victor Meirelles (1861). Fonte: Infoescola ([2017], on-line)1. ■ Pessoas (olhar, gestos, vestuários, adornos, posição...); ■ Espaço (lugares, chão, fundo e utilização do espaço); ■ Objetos (disposição); ■ Iluminação (claro, escuro); ■ Fonte primária ou secundária; ■ Intenção do artista. 3. Imagine que você seja um escrivão, assim como foi Pero Vaz de Caminha, e tenha que produzir uma carta caracterizando sua cidade e endereçada a turis- tas. Como ficaria? A temporalidade cronológica, ao lado da temática, são importantes compo- nentes daquela a qual chamamos hoje uma História integrada, que atende não só ao conteúdo como fim, mas também à necessidade de capacitação envolvida na apreensão desses conteúdos. Concepções de Conteúdos Escolares e de Aprendizagem Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 67 Quadro 1 – Transformações do ensino de História no Brasil ENSINO TRADICIONAL ENSINO DE ESTUDOS SOCIAIS TENDÊNCIAS ATUAIS VISÃO DA CIÊNCIA Preocupação com o estudo dos fatos, neutralidade do his- toriador e da explica- ção histórica. Ênfase na história dos fatos políticos e na história como produto da ação de indivíduos, de he- róis. História conside-rada como ciência que estuda exclusivamente o passado. Interdisciplinari- dade das ciências sociais (História, Geografia, Antro- pologia e Sociolo- gia). Predomínio do ensino de estu- dos sociais. Estudo das sociedades no transcorrer do tempo como obje- tivo do ensino. História como história de todos os homens e não somente de heróis. Inclusão de novas contri- buições historiográficas: história econômica, cultural e social. Análise do fato histórico subs- tituída por outras possibilida- des, como análise do processo histórico e da experiência dos sujeitos da história. Incorpora- ção dos novos temas e objetos da História, como a história das mulheres, a das crianças e a dos movimentos sociais. FUNÇÃO DO ENSI- NO Estudo das origens das nações. Objetivo de formar o cidadão para a pátria e construir identidades nacionais. Estudo dos legados, principalmente daque- les da civilização euro- péia. Compreensão da nação brasileira como fruto da integração en- tre três raças: branca, índia e negra. Integração do educando em um meio cada vez mais amplo. Estudo da história do presente, evi- tando o estudo do passado pelo pas- sado. Formação de cidadãos para a sociedade em desenvolvimento, democrática e industrial. Contribuição para a construção da cidadania. Desenvolvimento de raciocínios historicamente corretos. Aquisição da capaci- dade de análise da relação pre- sente-passado. Apreensão da pluralidade de memórias, e não somente da memória nacional. Preocupação com as finalida- des do ensino de História no mundo contemporâneo. Bezerra (2004, p. 40) lembra, ainda, alguns cuidados especiais com relação aos conteúdos: “o primeiro se refere ao envolvimento do aluno com o objeto de estudo que está sendo trabalhado” e, em seguida, jamais descuidar da preocu- pação com o desenvolvimento das habilidades cognitivas que fazem parte dos horizontes dessas propostas pedagógicas. Trabalhar historicamente os temas e objetos em pauta parece ser a priori- dade que se impõe quanto aos conteúdos de História. Neste sentido, passamos a apresentar resumidamente as transformações do ensino de História no Brasil: TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DO ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E68 ENSINO TRADICIONAL ENSINO DE ESTUDOS SOCIAIS TENDÊNCIAS ATUAIS RELAÇÃO PROFES- SOR X ALUNO Professor como trans- missor do saber histó- rico verdadeiro, pronto e acabado. Aluno como receptor passivo do conhecimento histórico transmitido pelo professor. Aluno como centro do ensino. Professor como facilitador da aprendizagem. Relação baseada na vigilância do aluno pelo pro- fessor. Importância do domínio do conteúdo específico pelo pro- fessor, que deve ser comprome- tido com o aluno e o mediador entre este e o conhecimento histórico. Professor como responsável pela intermediação entre o aluno e o percurso para produção do conhecimento histórico. Aluno sujeito de seu próprio conhecimento e do conhecimento histórico. CONTEÚ- DO Organização de forma linear, cronológica, baseada principalmen- te na periodização política e baseada em fontes escritas. História narrativa e descritiva. Conteúdos selecio- nados com base em visões “oficiais” da His- tória. Valorização das datas comemorativas. Fragilização do conteúdo espe- cífico da História. Valorização da aprendizagem baseada no desen- volvimento de atividades. Livros didáticos em que predominam ilustrações. Simpli- cação do conhe- cimento histórico. Currículos organi- zados em “círculos concêntricos”: família, escola, bairro, cidade, país e mundo. Recuperação da historicidade do conhecimento histórico. Conteúdo histórico como produto do saber-fazer espe- cífico. Novas possibilidades de organização curricular para o ensino de História, como a história temática e o ensino por conceitos. Valorização do conteúdo e de visões plurais e críticas da História. Incorpo- ração de novas produções de historiadores. Concepções de Conteúdos Escolares e de Aprendizagem Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 69 ENSINO TRADICIONAL ENSINO DE ESTUDOS SOCIAIS TENDÊNCIAS ATUAIS MÉTODO Formal e abstrato, sem relação com a vida do aluno. Conteúdos e métodos sem objeti- vo de desenvolver a criticidade. Predomí- nio do “ponto” (texto sobre determinado conteúdo), questioná- rio, testes de múltipla escolha e exercícios com lacunas a serem completadas. Baseado no ensi- no por atividades. Ênfase na pesqui- sa e no trabalho em grupos. Tem como referência a pró- pria ciência. Recuperação do método da História em sala de aula. Preocupação com a trans- posição didática: relação entre saber científico, saber a ser ensinado, saber ensinado, saber aprendido e prática social. Va- lorização do uso de documento histórico em sala de aula. Incor- poração de novas linguagens e tecnologias no ensino da História, como análise de filmes e uso da informática. AVALIA- ÇÃO Avaliação centrada no professor. Avaliação de resultados, do produ- to da aprendizagem, baseada na memori- zação de informações transmitidas pelo professor. Avaliação classificatória. Baseada em obje- tivos previamente propostos. Avalia- ção do processo, e não do conteúdo. Diagnóstica, processual, forma- tiva. Busca o crescimento do aluno e não sua classificação e exclusão. Fonte: Schimidt e Cainelli (2004, p. 15 - 17). TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DO ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E70 A FORMAÇÃO DE CONCEITOS O conhecimento histórico que aqui nos propomos a analisar, não se limita a apresentar o fato no tempo e no espaço acompanhado de documentos que com- provem e dão legitimidade a sua existência. É preciso considerar os sujeitos que os produziram para buscar uma explicação plausível. “E para explicar e interpre- tar os fatos, é preciso uma análise, que deve obedecer a determinados princípios. Nesse procedimento são utilizados conceitos e noções que organizam os fatos, tornando-os inteligíveis” (BITTENCOURT, 2004, p. 183). Tomando como referência os pensamentos do pesquisador russo L. S. Vygotsky (1896 – 1934), acreditamos que há uma proximidade entre os conceitos espon- tâneo e científico. Na passagem do conhecimento espontâneo para o científico Pensando sobre a formação de conceitos, podemos nos interrogar: como nossas crianças aprendem conceitos? É possível que crianças de qualquer faixa etária dominem conceitos? A Formação de Conceitos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 71 não há necessariamente o desaparecimento do primeiro, mas há modificações de esquemas intelectuais anteriormente adquiridos. Tal teoria recai sobre a aqui- sição social dos conceitos. Observando a dinâmica do processo de formação de conceitos, Vygotsky chegou a algumas conclusões que passamos a destacar: ■ A percepção e a linguagem são indispensáveis à formação de con- ceitos; ■ A percepção das diferenças ocorre mais cedo do que as semelhanças porque existe uma estrutura de generalizações e de conceituação mais avançada; ■ O desenvolvimento dos processos que resultam na formação de con- ceitos começa na infância, mas as funções intelectuais que formam a base psicológica do processo de formação de conceitosamadurecem e se desenvolve somente na adolescência; ■ A formação de conceitos é o resultado de uma atividade complexa, em que todas as funções intelectuais básicas (atenção deliberada, me- mória lógica, abstração, capacidade para comparar e diferenciar) to- mam parte; ■ Os conceitos novos e mais elevados transformam o significado dos conceitos inferiores (VYGOTSKY, 1991, p. 76). Nesse sentido, o conhecimento prévio dos alunos é a condição necessária para a construção de novos significados e esquemas. Outro aspecto bastante relevante sobre a formação de conceitos, tratado por Vygotsky (1991), diz respeito aos processos cotidianos, às experiências pessoais da criança e à instrução formal, e também à aprendizagem em sala de aula que, em seu entender, desenvolvem dois tipos de conceitos, que se relacionam e se influenciam constantemente. Nesse aspecto Vygotsky contesta Piaget, pois para este segundo psicólogo, os conceitos “espontâneos” que constituem as ideias da criança acerca da realidade são independentes dos conceitos científicos. Vygotsky (1991) acredita que os conceitos espontâneos e os científicos não estão em conflitos, pois fazem parte de um mesmo processo, ainda que se for- mem e se desenvolvam sob condições externas e internas diferentes e motivadas por problemas diferentes. Segundo ele, nas experiências cotidianas, a criança centra-se nos objetos e TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DO ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E72 não tem consciência de seus conceitos (por exemplo, usa corretamente o con- ceito de município, mas não é capaz de fazê-lo numa situação experimental), ao passo que nos conceitos aprendidos na escola, em colaboração com o adulto, consegue resolver melhor problemas que envolvem o uso consciente do conceito. No entanto, seus estudos confirmaram a hipótese de que os conceitos espontâ- neos e os conceitos científicos, inicialmente afastados, visto que se desenvolvem em direções contrárias, terminam por se encontrar. Pode-se dizer que o desenvolvimento dos conceitos espontâneos da criança é ascendente (indutivo), enquanto o desenvolvimento dos seus conceitos cien- tíficos é descendente (dedutivo) (VYGOTSKY, 1991, p. 93). Contudo, Vygotsky afirma que é necessário que o conceito espontâneo tenha alcançado certo nível para que o conceito científico correspondente seja internalizado, levando em conta que eles dependem e se constroem a partir dos con- ceitos cotidianos. Antes do ingresso na escola, a criança já construiu um conjunto de conhecimento informal, produto do desenvolvimento onto- genético a partir de suas experiências, que constitui o seu sistema de crenças sobre o mundo, que influenciará profundamente a obtenção do conhecimento formal, que se dará de forma planejada pela aprendizagem escolar. Considerando então que o aluno traz uma riqueza de conhecimentos sobre o mundo e seu funcionamento, que na maio- ria das vezes entram em conflito com o que é imposto pela escola e tem de ser aprendido, como o professor pode agir para que os estudantes não rejeitem esses conheci- mentos, não tenham dificuldades em assimilá-los ou, ainda e principalmente, não deem “respostas corretas” apenas para cumprir tarefas escolares sem sen- tido e inúteis? Para os professores essa tarefa não é fácil, pois implica uma revisão tanto de Figura 2 - Vygotsky Fonte: Concepções (2012, on-line)2. A Formação de Conceitos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 73 conteúdos quanto de metodologias. Para que as práticas pedagógicas sejam mais adequadas à formação de conceitos científicos, algumas sugestões são apontadas com o intuito de primar pela busca do conhecimento historicamente acumu- lado pela humanidade: ■ As ideias que o aluno traz para a escola são necessárias para a cons- trução de significados. Suas experiências culturais e familiares não po- dem ser negadas. Essas ideias devem ser aceitas para progressivamente evoluírem, serem substituídas ou transformadas. ■ A resistência para substituir alguns conceitos só é superada se o con- ceito científico trouxer maior satisfação: for significativo, fizer sentido e for útil. Os conceitos científicos com maior grau de aplicabilidade, que explicam um maior número de situações e resolve um maior número de problemas, facilitam a mudança. ■ O diálogo com os alunos possibilita o diagnóstico de suas ideais em vários momentos da aprendizagem. Da mesma forma, a interação entre parceiros e a observação dos diálogos travados entre eles. ■ Provocar conflito com contra-exemplos pode gerar dúvidas e insatis- fação, levando os alunos a testarem suas concepções. ■ Resolver problemas com um plano de atividades cognitivas deve ser estimulado, uma vez que a simples nomeação das características essen- ciais e a repetição de definições não garantem a formação de conceito. Deve-se estimular o aluno a considerar soluções alternativas para um mesmo problema. ■ Deve-se possibilitar ao aluno retomar seu processo de trabalho, ex- plicando suas ideias e analisando a evolução das mesmas. ■ No processo de formação de conceitos, é desejável desenvolver ações de inclusão – estabelecer se um objeto dado refere-se ao conceito indi- cado, e de dedução – reconhecer as características necessárias ou sufi- cientes para incluir ou não os objetos em um conceito dado. ■ Nem todo conceito é passível de experimentação, daí o valor de meios variados: filmes, explorações de campo, vestimentas do passado, entrevista, etc. (NÉBIAS, 1998, on-line)3. É importante lembrar que o ensino sistemático e explícito na escola deve levar o aluno a reconceitualização e, principalmente, ao desenvolvimento de formas TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DO ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E74 de pensar que se estendam para outras áreas do conhecimento e situações que transcendam a sala de aula. Em seu estudo sobre o livro didático, Maria Carolina Bovério Galzerani (2013) chegou à conclusão que tratam de “belas mentiras”, comentando a ideologia nos estudos sobre o livro didático. Tratando assim, a ideologia com o sentido que Marilena Chauí (2000) tão bem explica, nossa autora trata dos conceitos ainda que de maneira indireta, mas de forma a fazer a ligação com tudo o mais que os autores têm nos apresentado. Suas conclusões nos levam a inferir que o livro didático, em sua relação dialé- tica (afirmações X contradições) com a sociedade ainda tem muito a contribuir, pois contém elementos que permitem manter a ambiguidade em aspectos vitais que dizem respeito dessa própria sociedade. É a tentativa de manter a ordem antes do progresso, como ocorre na nossa bandeira de lema positivista. Em seu título, a autora se apropria com autorização das ideias de Maria de Lourdes D. Nosella, que se preocupa com as “belas mentiras” permitidas pela ideologia sub- jacente aos livros didáticos. Um ranço de autoritarismo em prejuízo da ciência como conhecimento é o que ela procura diagnosticar, bem como a “sobrevalorização do conhecimento dito científico” como mais importante do que “outros tipos de conhecimento pos- síveis de serem adquiridos e vivenciados no cotidiano da vida social ou mesmo da vida escolar” (PINSKY, 2004, p. 109). Os fatos são “senhores de segredos que se deixam revelar com lentidão” (AQUINO; FRANCO; LOPES, 1980, p. 41). Pensando desta forma, temos de nos render ao fato de que as apreensões do conteúdo e sua consequente elabo- ração em conceitos ou partes do entendimento em que se definem palavras e ideias envolvemnão só a episteme ou ciência em si, mas também uma deter- minada forma de tratar o objeto. Assim, a elaboração de conceitos exige um planejamento de ação e depois um método (do grego methodo = caminho) para se chegar ao que se pretende. Nesta perspectiva, numa primeira fase teríamos a observação e a análise, e essas se fariam seguir a partir da formulação de conceitos. Desse modo, é impor- tante lembrar que: o ponto mais importante de qualquer processo compreensivo está jus- A Formação de Conceitos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 75 tamente aí: esta ou aquela forma de tratar o objeto está intimamente ligada à própria estrutura mental da sociedade em determinada época, ou seja, à própria visão de mundo, à forma como o objeto é percebido pelo ser que compreende (AQUINO; FRANCO; LOPES, 1980, p. 23). Um conceito, para ser totalmente assimilado, necessita levar em conta a concep- ção que se tem da relação entre o ser que compreende e os seres compreendidos, sem nunca esquecer a outra parte importante que é a realidade apresentada. É essa realidade que vai determinar a fixação dos conceitos teóricos, seguida a ação de fixação dos mesmos conceitos. Assim, como apresentam nossos autores citados com muita propriedade, é fundamental diferenciar história e teoria. Pois “a teoria é a visão geral do que se apresenta e, portanto, é a priori, o que vai presidir e condicionar a apreensão da realidade” (AQUINO; FRANCO; LOPES, 1980, p. 24). Fernand Braudel (1965, p. 24), responsável por tantas colocações interessan- tes ao nosso “ofício”, escreveu que “a realidade do social, a realidade fundamental do Homem revela-se inteiramente nova aos nossos olhos e, queiramos ou não, nosso velho ofício de historiador não cessa de brotar e de reflorir em nossas mãos”. É essa a verdade que tem de informar a nossa prática, que só será real- mente importante quando a tarefa de construir um novo homem, à altura do passado e do presente, com vistas às mudanças futuras for assumida por nós. TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DO ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E76 Da história engajada a uma história que vise à verdadeira integração do ida- dão, existem alguns conceitos fundamentais. Holien Bezerra (2004), por exemplo, menciona quais seriam esses conceitos quando fala de escolaridade básica. Em primeiro lugar, é abordada a cidadania ou a formação histórica que contribuem para a vivência do cidadão. O autor considera ainda o conhecimento histórico como a compreensão dos processos e dos sujeitos históricos, além do desvendamento das relações que se estabelecem entre os grupos humanos em diferentes tempos e espaços. A problematização pode ser um bom método, bem como a prática interdisciplinar. A ampliação das fontes históricas, bem como a percepção da complexidade das relações sociais presentes no testemunho individual ou dos fatos é própria da trama histórica. Finalmente, a historicidade dos conceitos históricos envolve um senso muito próprio. “Os conceitos históricos somente podem ser entendidos na sua histori- cidade”, escreve Bezerra (2004, p. 46). “Isto quer dizer que os conceitos criados para explicar certas realidades históricas têm seu significado voltado para essas realidades, não sendo possível empregá-los indistintamente para toda e qual- quer situação semelhante”. Mais que isso, “os conceitos, quando tomados em sua acepção mais ampla, não podem ser utilizados como modelos, mas apenas como indicadores de expectativas analíticas” e por isso mesmo quando permitem uma compreensão geral podem receber o nome de “categoria” (BEZERRA, 2004, p. 47). E o autor exemplifica: a categoria trabalho, continente, homem e revolução. O conceito de cidadania, por exemplo, envolve o conjunto de preocupações que informam o conhecimento histórico e suas relações com o ensino vivenciado na escola, que por sua vez leva ao aprimoramento de atitudes e valores impres- cindíveis para o exercício da cidadania, dotando de recursos para atuar e dispor dos instrumentos que a cultura põe à nossa disposição. Depois que Braudel (1965) demoliu o factual e a ênfase ao político, temos de novo à volta do político, mas desta vez ao lado do social, do ideológico, do econômico, num todo, como esferas. Em relação a essa nova visão, temos, sobre- tudo, o conceito que permite a historicidade. Porém, evite o historicismo, como escreve Jaime Pinsky (2004), quando comenta a ciência que Aristóteles consi- derava apenas a ciência do particular. A Formação de Conceitos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 77 Esmagado duplamente, de um lado pelo herói, do outro pelo “processo” do qual era vítima passiva, o homem começa a ser descoberto como agente real da história, como aquele que atua para que ela possa ocorrer”, resgata de uma forma mais “nobre”, a sua “particularidade, mas sem abandonar a sua universalidade enquanto ser humano (PINSKY, 2004, p. 21). Essas são as principais diretrizes de nosso tempo para tal abordagem. Schmidt e Cainelli (2004) listam diversos recursos didáticos para comunica- ção de conceitos em sala de aula. Veja alguns deles: Narrar situações que foram vivenciadas no passado contadas pela família. Desenhar cenas de acontecimentos a partir de narrativas históricas. Desenhar diagramas e mapas. Reconstruir acontecimentos históricos com dança ou teatro. Utilizar linhas do tempo. Dar títulos a narrativas históricas. Descrever aspectos concretos do passado, a partir de uma fotografia antiga ou livros, por exemplo. Redigir frases utilizando os conceitos históricos ensinados. Listar aspectos históricos obtidos em diferentes fontes (imagens e textos). Responder às perguntas: “Onde?”, “Como?”, “O quê?” e “Por quê?”. Fazer desenhos, murais, colagens etc. Reunir fontes históricas diferentes. Redigir textos imaginativos e breves sobre o passado, textos descritivos e textos sobre o passado a partir de fontes orais. Redigir textos com base em trabalhos de campo ou estudos do meio. Fazer resumos e sínteses. Comentar documentos (escritos ou iconográficos). Fonte: Paixão (2016, p. 21). TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DO ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E78 A FORMAÇÃO DO PROFESSOR E O COTIDIANO DE SALA DE AULA Munido de conhecimento, baseado em seu próprio meio subjetivo de encarar a História em suas individualidades, fatos, processos e visão geral, o professor tem perante a si o encargo de transportar tudo isso para a prática. Isto porque é ele quem transforma o saber a ser ensinado em saber aprendido, ação fundamental no processo de produção do conhecimento (BITTENCOURT, 2004). Além disso, o cotidiano da sala de aula é, ao mesmo tempo, laboratório e palco de sua capacidade de levar aos seus alunos a historicidade, em conceitos e fatos, a permitir-lhes a apropriação pessoal de um verdadeiro conhecimento histórico, em seu sentido e propriedades. Circe Bittencout (2004) organizou um precioso volume sobre “O saber his- tórico na sala de aula”, com a colaboração de vários professores aqui já citados, como Maria Auxiliadora Schmidt. Nesse livro, que trata dos saberes práticos necessários ao historiador, a pro- fessora doutora Maria de Lourdes Monaco Janotti expressa suas preocupações a respeito do papel que a história pode (ou não) representar a partir do cotidiano A Formaçãodo Professor e o Cotidianode Sala de Aula Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 79 de nossas salas de aula nacionais, amparada nas reflexões de Hobsbawm em obras como a “Era dos Extremos” (1995). O fenômeno indesejável a que ela se refere é “uma inimaginável alienação coletiva de resultados imprevisíveis” (JANOTTI, 2004 apud BITENCOURT, 2004, p. 42), que pode ocorrer agora, em plena sociedade dita do conhecimento precedida pela globalização. O esquecimento é uma arma poderosa nesse movimento que, não in- genuamente, promove pela mídia internacional espetáculos regionais – originalmente fruto de reações à cultura dominante – tornando-os pro- dutos consumíveis pelo público dos talk-shows (JANOTTI, 2004, p. 42). Essa é uma importante indicação para um professor fazer sua escolha, den- tre os temas que considera relevantes para levar à sala de aula. Prestigiar temas apenas do passado ou as irrelevâncias do presente são igual- mente perigosos, pois o passado visto em si mesmo não ilustra e nem informa o presente. Nem mesmo o presente se explica a partir de si mesmo, como escreve a professora. Do passado, devem ser destacados fatos que permitam a conexão com o presente, e nenhum aspecto ou esfera deve ser desprezado, da política ao eco- nômico, do social ao ideológico. Isso tudo tem de ser lembrado, pois se “a História não é o terreno do ‘interes- sante’ e do mundo privado enquanto tal”, ao mesmo tempo, “o perigo de ignorar o passado público pode acarretar a perda da visão dialética da História”. Afinal, con- clui a professora (JANOTTI apud BITENCOURT, 2004, p. 43), é “a vontade política que leva à crítica e à construção de projetos futuros”. Para operar a transformação a partir da consciência individual de nossos alunos, cuja reflexão tem de ser con- venientemente suscitada, temos de partir de suas próprias experiências cotidianas, além de encaminhá-los à linguagem culta própria da ciência e aos conhecimen- tos sistemáticos característicos da ciência, de forma planejada, paulatina, onde os problemas sejam apresentados em forma crescente e ao mesmo tempo cuidadosa, para não assustar ou causar desinteresse ao aluno pela incapacidade de apreender. Janotti cita Durmeval Trigueiro Mendes (2004, p. 44), quando alerta aos gestores educacionais da necessidade que vem imposta pela compreensão de que “toda ação eficaz, sobretudo no mundo de hoje, é antes de tudo a ação que TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DO ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E80 muda a consciência – a própria e a dos outros”. Eis aí um momento de relevân- cia, visto que a professora da USP nos alerta para a necessidade de revisarmos bem o nosso papel de intelectuais “orgânicos” assim como pensava Gramsci, que ressaltava que os professores estão sempre, ainda que inconscientemente, enga- jados num processo de construção de um Estado (que o Estado quer.) O que Janotti (2004) pretende, afinal, é que ao professor não passem desper- cebidos aqueles “segredos” que existem nas sociedades, ou que não caiam nas armadilhas postas em seu caminho intelectual pelas ideologias vigentes. Refletindo sobre o tema, examine o que se diz sobre o quadro negro: O quadro negro fez e faz parte do cotidiano de nossas salas de aula e, desde o advento da tecnologia, ele tem sido substituído por máquinas tais como o retro- projetor, o multimídia e o data-show. Aliás, é sobre a tecnologia que falaremos agora. Os novos recursos postos a nosso serviço em sala de aula podem nos indu- zir a outro excesso, tão prejudicial quanto contar só com a lousa tradicional ou as aulas expositivas, que se alongam por horas a fio. A Formação do Professor e o Cotidianode Sala de Aula Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 81 A esse respeito, Karnal (2004) faz uma importante observação sobre o coti- diano de nossa prática pedagógica. “Há algumas décadas houve um equívoco expressivo na modernização do ensino. Julgou-se que era necessário introduzir máquinas para se ter uma aula dinâmica”. E, nesse intuito, “multiplicaram-se os retroprojetores, os projetores de slides e, posteriormente, os filmes em sala de aula” (KARNAL, 2004, p. 9). O autor não se insurge contra o acréscimo de recursos em prol da apren- dizagem, mas sim quanto a uma nova hipertrofia que demonstra um excesso. Independentemente da tecnologia utilizada em sala de aula, o que realmente importa é a intervenção do mediador, no caso o professor ou o intelectual que responde a questionamentos. A produção do conhecimento se faz de maneira formal, mas também a par- tir do informal, do cotidiano e da experiência do aluno. Le Goff (1983 apud NEVES, 2002), quando discute esse tema do que é impor- tante em História ou como a disciplina deve ser ensinada, nos remete a uma reflexão sobre o seguinte: o que se discute não é o ensino, mas sim a produção do conhecimento histórico no seu sentido mais restrito e específico. Ainda no interesse de organizar o pensamento para o docente da disciplina, o autor aponta “para os imprescindíveis elementos de ordenação do conheci- mento histórico”, tais como: “o que aconteceu? Como aconteceu? Quando, em que ritmo aconteceu?”, pois sem tais questões não se constroem os processos e as explicações gerais. E mais “que isso não se faz uma ciência da história” (NEVES, 2002, p. 163). EXEMPLIFICANDO: Ao se trabalhar com os povos indígenas, por exemplo, é possível oferecer aos alunos trechos de documentos que retratam situações do cotidiano destes povos. Abaixo, apresentamos a cerimônia de casamento para dois destes povos indí- genas distintos. TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DO ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E82 POVO BORORO POVO SURUÍ Entre os índios Bororo, a moça prepara uma refeição e, acompanhada pela mãe, leva o alimento à cabana onde mora e o rapaz por volta do meio-dia. A mãe da moça entrega o alimento ao rapaz, dizendo: - Meu genro, vim com minha filha que deseja viver contigo, porque te quer bem. Depois que a moça e a mãe se retiram, o jovem toma a decisão: se quer casar com ela, saboreia o alimento oferecido; se não quer casar, não o come. Então o rapaz encarrega sua mãe de devolver a vasilha cheia ou vazia à mãe da moça juntamente com a resposta. Fonte: MELATTI, J. C. Índios do Brasil. São Paulo: Hucitec, 1993, p. 126. A cerimônia de casamento acontece da seguinte forma: o noivo, com sua rede nas costas, aproxima-se do grupo onde estão todas as mulheres da aldeia e chama sua noiva. Os dois caminham juntos até o chefe, que pronuncia o nome do noivo. O jovem, voltando-se para a noiva, diz “Icê taukana emrikó” (“você é minha mulher”) e ela responde: “icê taukana imena” (“você é meu marido”). Em seguida, o noivo oferece à noiva mel e carne de jabuti, alimentos muito apreciados por esse povo. Fonte: MUNDUKURU, D. Coisas de Ín- dio. São Paulo: Callis, 2000, p. 25. Ao comparar dois textos sobre o casamento entre o povo Bororo e Suruí, é neces- sário levar os alunos a traçar diferenças e semelhanças, e, ainda, comparar as cerimônias de casamento da atualidade e da comunidade da qual os alunos per- tençam. Para isto pode-se, ainda, sugerir que façam uma entrevista com alguém da família que tenha se casado para que este relate como foi a cerimônia. Percebe-se que, fazendo este tipo de intervenção pedagógica, o professor está sendomuito mais que um simples transmissor de conteúdo, ele passa a ser um mediador entre o conhecimento histórico e o sujeito, no caso o aluno. Os detalhes introduzidos em nossa prática didática em sala de aula podem parecer insignificantes à primeira vista, mas são os responsáveis pela nossa eficácia docente. O que e como ensinar é algo que passa muito além dos temas que envolve nossa investigação e tratamento metodológico, mas, sobretudo, põe à prova a nossa verdadeira capacidade de comunicação do que sabemos. “A produção his- toriográfica busca estabelecer diálogos com o seu tempo, reafirmando o adágio que ‘toda a história é filha do seu tempo’, mas sem ignorar o fruto de muitas tra- dições de pensamento” (KARNAL, 2004, p. 9). Assim, da mesma forma que não A Formação do Professor e o Cotidianode Sala de Aula Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 83 podemos descartar as boas heranças do passado ou só confiar nas necessidades do presente, temos de entender o que existe de verdade na dinâmica da inovação. Ainda sobre isso, o autor menciona “que seja dito e repetido à exaustão: uma aula pode ser extremamente conservadora e ultrapassada contando com todos os mais modernos meios audiovisuais. Uma aula pode ser muito dinâmica e ino- vadora utilizando giz, professor e aluno” (KARNAL, 2004, p. 9). Isso significa que o importante é a nossa concepção de História nas opções que fazemos, e que devem sempre levar em conta o aluno e suas necessidades, curiosidade, indagações e pré-requisitos ou recursos intelectuais prévios, que variam de um para outro, sempre. Le Goff, pelos comentários de Joana Neves (2002, p. 166), nos permite uma conclusão: a história como disciplina escolar não deixa nunca de ser história ciência, mas necessita partir “de um conjunto de provocações” que encaminhem para o verdadeiro saber histórico. O educador frances Edgar Morin, em entrevista à Revista Nova Escola, acre- dita que instigar a curiosidade da criança é a melhor forma de despertá-la para o saber. No nosso caso, o saber histórico. Para o autor, “se vivemos em um mundo complexo e interligado, e novas informações nos fazem, a toda hora, mudar de planos, por que a escola ainda teima em ensinar certezas e conhecimentos que parecem únicos e absolutos?” (MORIN, 2003, p. 36-37). Diante de suas inquie- tações pela forma como a educação caminha, o autor fez um estudo sobre quais seriam os temas que não poderiam faltar para formar o cidadão do século XXI. Dessa forma, nasceu “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro”, texto que serviu de base para a elaboração de nossos Parâmetros Curriculares Nacionais, entre outros documentos. TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DO ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E84 Mas, o que tem essa proposta de diferente? Ela coloca o ser humano e o planeta no centro do ensino. “É preciso aprender sobre a condição humana, a compreensão e a ética, entender a era planetária em que vivemos e saber que o conhecimento, qualquer que seja ele, está sujeito ao erro e à ilusão”, adverte Edgar Morin (2003, p. 36-37). O autor ainda acrescenta que é no cotidiano da sala de aula que tudo acon- tece. Por esse motivo, a nossa responsabilidade enquanto professores aumenta. Precisamos ser mais que professores, como nos lembra Rubem Alves. Temos que ser EDUCADORES. Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 85 CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta segunda unidade, passamos a estudar as mudanças e permanências dos métodos do ensino de História e, assim como devemos fazer com nossos alunos, nos propomos a destacar o que mudou e o que permaneceu como concepção de História ao longo do último século e início deste século XXI. O que merece des- taque é o entendimento de que hoje todos somos sujeitos da História e não mais somente os heróis, como queriam os filhos da escola metódica. Entendemos que ensinar História vai além da exposição de fatos e datas por parte do professor; e ao aluno cabe a responsabilidade de ser sujeito de seu pró- prio processo de aprendizagem. Para tanto, o professor deve escolher mais do que conteúdos de História. O educador deve selecioná-los e encontrar meios para que instigue a curiosidade no alunado, fazendo-os buscarem as respostas para as perguntas referentes a um grupo social de modo específico, e/ou a huma- nidade de modo geral. Desse modo, no ensino de história, é necessário considerar os repertórios trazidos pelos alunos, suas vivências e o contato com o meio e com os outros, o que dá condições a estes para construir conceitos históricos. Isso exige, como vimos, que o professor valorize duas questões: Respeitar o conhecimento do aluno, seu conjunto de representações que foi construído com sua história, e por fim entender que ele é capaz de formular suas próprias ideias a partir das repre- sentações que traz para a sala de aula. Também estudamos que o espaço e o tempo de aprendizado é extremamente infinito, se considerarmos o ambiente virtual, e o mediador do processo para a compreensão do pensamento de determinada época é o professor. Portanto, ser professor é uma tarefa complexa, porém apaixonante, vocês não acham? Na próxima unidade nos limitaremos ao estudo dos documentos históricos e às possibilidades dos seus usos em sala de aula. 86 1. Faça a leitura do texto abaixo para posicionar-se criticamente diante da ta- refa de exercer a profissão docente e sua prática pedagógica voltada para o ensino de História, considerando todas as especificidades do mundo atual. “As grandes mudanças políticas e econômicas ocorridas no final do século XX causa- ram muita perplexidade entre professores e estudantes de História em geral, crian- do, em certos círculos, atitudes de ceticismo com relação ao próprio conhecimento histórico, o valor do ensino de História nas escolas e seu potencial transformador. Por outro lado, diante da difusão das novas tecnologias globais, questiona-se e até duvida-se da eficácia educacional dos livros (considerados, com freqüência, um meio de comunicação desinteressante e obsoleto), da utilidade dos professores como agentes de ensino (tidos como comunicadores inábeis e incompetentes) e das propostas curriculares ligadas às realidades nacional e local (vistas como inade- quadas e ultrapassadas). Procurando acompanhar as mudanças, os novos tempos, muitos professores acabam comprando a idéia de que tudo que não é muito veloz é chato. Na sala de aula, o pensamento analítico é substituído por “achismo”, alunos trocam a investigação bibliográfica por informações superficiais (e não complemen- tar) livros. E o passado, visto como algo passado, portanto superado, tem tanto inte- resse quanto o jornal do dia anterior”. Fonte: Pinsky (2004, p. 17). 2. Consagrando-se como tendências atuais, a partir do fim da década de 1980, criaram-se várias propostas curriculares de História para o Ensino Fundamental. Desse modo, espera-se que ao final deste segmento (Ensino Fundamental) os alunos tenham desenvolvido diversas habilidades. Descreva estas habilidades, discorrendo sobre elas. 3. As finalidades do ensino da história têm sido objeto de preocupação de vários historiadores brasileiros e de outros países. Essa preocupação é tanto maior à medida que alguns acontecimentos históricos apontam questões relativas aos conteúdos e objetos do ensino da história, e também à construção da democra- cia e dos direitos humanos. Nesta perspectiva,enumere três motivos para que ensinemos história às crianças dos anos iniciais do Ensino Fundamental. 4. Para Karnal (2004), o “fazer histórico”, ou seja, ensinar História está submetido a duas transformações constantes: do objeto em si e da ação pedagógica. Isto acontece por que: I. As novas descobertas arqueológicas, os debates metodológicos, as novas docu- mentações mudam constantemente. II. O fazer histórico é mutável no tempo, sendo assim, mudam-se também seus agentes. III. A ação pedagógica não pode ficar presa ao passado, pelo contrário, precisa acompanhar tais mudanças sociais e de mentalidade. 87 IV. A ação pedagógica precisa se concentrar apenas no presente onde tudo aconte- ce no exato momento em que nossos alunos estão estudando. É correto o que se lê em: a. I e II, apenas. b. II e IV, apenas. c. I, II e III, apenas. d. II, III e IV, apenas. e. I, II, III e IV. 5. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996 (Lei Federal n. 9.394) procurou readequar os conteúdos das ciências na direção da democracia e verdadeira ci- dadania. Sendo assim, foram produzidos os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs, 1997) programados para servirem de referência em conteúdos e metodo- logias de ensino para a estruturação escolar brasileira. Sobre o assunto é correto afirmar que: I. Na área de História, os Parâmetros Curriculares Nacionais tiveram como proposta fundamental a modificação da estrutura dos conteúdos até então apresentados. II. A ideia básica era a transformação dos conteúdos organizados de forma linear em eixos temáticos. III. Os PCNs são guias didáticos que, se seguido “ao pé da letra”, a aula se torna muito mais significativa. IV. Um dos objetivos do Ensino de História, segundo os PCNS, é levar o aluno a se apropriar do patrimônio da humanidade e modificá-lo sempre que necessário. É correto o que se afirma em: a. I e II, apenas. b. II e IV, apenas. c. I, II e III, apenas. d. II, III e IV, apenas. e. I, II, III e IV. 88 Isabel Barca, historiadora portuguesa, fala sobre o ensino de História para a Revista Nova Escola (2013) Muitas pessoas ainda acham que a disciplina de História é uma complexa reunião de datas, fatos, lugares e personagens de outrora. Talvez por isso se pense que a disciplina trata do passado longínquo de sociedades das quais nem os estudantes nem os educa- dores participaram. Isabel Barca mostra por que essa ideia é equivocada. Dedicada ao estudo do ensino de História para a Educação Básica, ela defende a importância de um trabalho em sala com recortes temáticos, que estabeleça ligações entre o ontem e o hoje e faça dos alunos sujeitos históricos. Faz sentido apresentar os fatos históricos em ordem cronológica ou esse é um modo de trabalhar ultrapassado? ISABEL BARCA Ensinar História de modo linear faz com que os estudantes lembrem so- mente os marcos cronológicos. Com isso, a moçada se torna incapaz de relacionar tem- pos distintos e compreender em profundidade o mundo em que vivemos. O ideal é que o educador trabalhe em sala com recortes temáticos, estabelecendo relações entre o passado e o presente, sem jamais negligenciar a temporalidade. Se essas duas questões não forem levadas em conta, a turma pode ter uma compreensão limitada da disciplina e da história propriamente dita, formulando ideias vagas e genéricas, o que contribui para o não-entendimento das causas e consequências dos fenômenos estudados. Como conduzir uma atividade de interpretação de objetos antigos? ISABEL BARCA O professor deve propor uma observação cuidadosa do objeto. Depois disso, ele tem de fazer perguntas não muito complicadas para os alunos sobre o passa- do. Podemos convidá-los a imaginar a vida das pessoas a quem ele pertencia. Para que era usado? De que maneira? De onde essas pessoas eram? A análise das respostas ajuda a entender até que ponto as crianças ultrapassam a simples materialidade dos exempla- res, se os relacionam com uma comunidade e um estilo de vida e de que forma o fazem. É o início de um pensamento histórico. Investigar objetos de família ajuda as crianças a relacionar a história de vida delas com a História em geral? ISABEL Sim, desde que aprendam a pensar historicamente com esses utensílios, saindo do aqui e agora. Para isso, o professor tem de ajudar o grupo a relacionar as peças com outros tempos e pessoas que podem estar próximas deles em termos geográficos e fa- miliares, mas que tiveram outra forma de viver. No entanto, não é satisfatório estudar somente o histórico da peça em questão. É necessário ensinar a garotada a generalizar situações e conceitos. O que é fonte histórica e documento histórico? Há diferenças entre eles? ISABEL Segundo alguns especialistas, como o inglês Robin George Colingwood (1889- 1943) e o francês Marc Bloch (1886-1944), qualquer vestígio do passado é fonte. Cabe 89 aos historiadores e a qualquer pessoa que queira pensar historicamente fazer uma per- gunta sobre a História e, em função dela, selecionar as fontes e extrair delas as respostas. Esses traços do passado não são só os deixados pelos agentes do período estudado. Outras fontes, construídas posteriormente, também são interessantes, incluindo o tra- balho de estudiosos que já exploraram o mesmo tema. O termo documento histórico, por sua vez, tem diversas acepções entre os especialistas. Prefiro usá-lo para definir fon- tes históricas com valor legal ou institucional. Não significa que os documentos tenham mais valor que as fontes. Muitas vezes apresentam um ponto de vista conveniente para a instituição que representam. Qualquer fonte ou documento histórico pode ser analisado na escola? ISABEL De modo geral, sim. Mas devemos usar o que for acessível aos alunos com os quais trabalhamos. Os materiais não podem ser complexos a ponto de impedir a turma de lidar com eles. Há estudos em Portugal que mostram que os alunos tendem a ter mais facilidade de entender a História por meio de suportes escritos. No mais, há fontes visuais superelaboradas, difíceis para jovens com pouca experiência. Por fim, temos de considerar o tempo disponível para a realização da atividade, fazendo uma adequação realista das fontes às situações escolares. Como planejar aulas que não desencadeiem uma interpretação parcial da história? ISABEL É fundamental não só garantir a variedade de fontes, como considerar a pers- pectiva de cada uma e planejar momentos diferentes para estudá-las. Por exemplo: o imperador conhecido como dom Pedro I no Brasil e dom Pedro IV em Portugal tem uma imagem muito mais positiva para os portugueses do que para os brasileiros. Apresentar dois trechos da historiografia de cada país que mostrem as imagens contraditórias do personagem e pedir que as crianças dissertem sobre isso não é tão rico. É mais interes- sante que elas analisem os dois trechos de forma isolada para depois buscar similarida- des e diferenças, questionando as distintas perspectivas. Há fontes históricas mais indicadas para explorar em cada etapa da escolaridade? ISABEL Não. Para eleger os materiais apropriados, que possibilitem o ensino dos conte- údos e o pensar histórico, é preciso analisar a situação da classe. A decisão não tem a ver com a idade dos estudantes, e sim com o letramento histórico alcançado por eles. Além disso, o que é mais próximo da turma hoje não é só o que está no entorno. As crianças e os jovens têm muito contato com a TV e com a internet e, por isso, algo que para os adultos pode parecer longínquo no tempo e no espaço para eles é mais próximo. Fonte: Revista Nova Escola (2013, on-line)4 MATERIAL COMPLEMENTAR Sobre História Eric J. Hobsbawm Tradutor: Cid Knipel Moreira Editora: Companhia das Letras Sinopse: nesta coleção de ensaios, muitos ainda inéditos, Eric Hobsbawm refl ete sobre prática e teoria da disciplinaque fez sua justa fama como um dos maiores historiadores contemporâneos. Em suas refl exões sobre o papel do historiador, Hobsbawm analisa problemas da ordem do dia, como: a identifi cação das identidades nacionais na Europa e o uso ideológico do discurso histórico naquele contexto; um balanço dos 150 anos do Manifesto Comunista; as relações entre história e economia; o signifi cado da redução da narrativa histórica à mera variante da narrativa; as modas e vertentes da historiografi a contemporânea; a noção de progresso no conhecimento histórico. Ensino de História: fundamentos e métodos Circe Maria Fernandes Bittencourt Editora: Cortez Sinopse: este livro aborda aspectos de ensino e aprendizagem de História do ponto de vista dos problemas teóricos que fundamentam o conhecimento escolar e dos problemas das práticas em sala de aula. A História, enquanto conhecimento escolar, possui uma história que é brevemente apresentada, a fi m de proporcionar ao leitor refl exões sobre o atual momento da disciplina no processo de reformulações curriculares. O livro preocupa-se em fornecer fundamentos sobre a seleção de conteúdos e métodos para os futuros professores ou para os que já estão enfrentando o trabalho nas salas de aula. Material Complementar MATERIAL COMPLEMENTAR Um Historiador Fala de Teoria e Metodologia Ciro Flamarion Cardoso Editora: EDUSC Sinopse: coletânea de ensaios em que o autor discute questões pertinentes ao ofício do historiador. Tal leitura complementa nossas discussões. Os sete saberes necessários a Educação do Futuro Edgar Morin Editora: Cortez Sinopse: nesta obra, o autor traz a sistematização de um conjunto de refl exões que servem como ponto de partida para se repensar a educação do século XXI. Os sete saberes indispensáveis enunciados por Morin, objeto do presente livro: as cegueiras do conhecimento; o erro e a ilusão; os princípios do conhecimento pertinente; ensinar a condição humana; ensinar a identidade terrena; enfrentar as incertezas; ensinar a compreensão; a ética do gênero humano, são eixos e, ao mesmo tempo, caminhos que se abrem a todos os que pensam e fazem educação e que estão preocupados com o futuro das crianças e adolescentes. MATERIAL COMPLEMENTAR O Triunfo Ano: 2006 Gênero: Drama Direção: Randa Haines Sinopse: Ron Clark é um jovem professor de História, criativo e idealista, sai de sua pequena cidade da Carolina do Norte para ensinar, em uma escola pública de Nova York. Através da utilização apaixonada de regras especiais para a sua sala de aula, ensinando técnicas altamente inovadoras e uma inesgotável devoção aos seus alunos, Clark é capaz de fazer uma notável diferença nas vidas de seus alunos. Parâmetros Curriculares Nacionais – História e Geografi a Acesse <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro051.pdf> e conheça os parâmetros que permeiam os caminhos do Ensino de História em nossas escolas. REFERÊNCIAS AQUINO, R. S. L.; FRANCO, D. A.; LOPES, O. G. C. História das sociedades. v. 2. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1980. BEZERRA, H. G. Ensino de história: conteúdos e conceitos básicos. In: KARNAL, L. (Org.). História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas. 2. ed. São Pau lo: Contexto, 2004. BITTENCOURT, C. M. F. Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Cor- tez, 2004. ______. O saber histórico na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2004. (Coleção Re- pensando o ensino). BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Disponível em:<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9394.htm>. Acesso em: 3 abr. 2017. ______. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: história, geografia/Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1997. 166p. BRAUDEL, F. A história e as Ciências Sociais: a longa duração. Revista de História, v. XXX, n. 62, ano XVI, abr./jun., 1965. CARVALHO, J. M. Pontos e bordados: escritos de história e política. Belo Horizonte: UFMG, 1998. CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2000. GALZERANI, M. C. B. Paisagens da Pesquisa Contemporânea Sobre o Livro Didá- tico de História. São Paulo: Paco Editorial, 2013. HOBSBAWM, E. Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Com- panhia das Letras, 1995. KARNAL, L. História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas. 2. ed. São Pau- lo: Contexto, 2004. MELATTI, J. C. Índios do Brasil. São Paulo: Hucitec, 1993. MORIN, E. Introdução ao Pensamento Complexo. 3. ed. Lisboa: Instituto Piaget, 2003. MUNDUKURU, D. Coisas de Ín dio. São Paulo: Callis, 2000. NEVES, J. Reflexões sobre o ensino de História: discussão de algumas proposições de Jacques Le Goff. História & Ensino. Londrina, v. 9, out. 2002. PAIXÃO, P. C. M. Metodologia do Ensino de História. São Paulo: Editora Pearson, 2016. 93 REFERÊNCIAS PINSKY, J. O ensino de história e a criação do fato. 11. ed. São Paulo: Contexto, 2004. SCHMIDITT, M. A.; CAINELLI, M. Ensinar História. São Paulo: Editora Scipione, 2004. VYGOTSKY, L. Pensamento e linguagem. 3. ed. São Paulo: Martim Fontes, 1991. REFERÊNCIAS ON-LINE 1Disponível em: <http://www.infoescola.com/historia/a-primeira-missa-no-bra- sil/>. Acesso em: 3 abr. 2017. 2Disponível em: <http://letrasppp320121.blogspot.com.br/2012/05/carta-ao-leitor- -lev-vygotsky-philippe.html >. Acesso em: 3 abr. 2017. 3Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S1414-32831999000100011>. Acesso em: 4 abr. 2017. 4Disponível em: <https://novaescola.org.br/conteudo/930/isabel-barca-fala-sobre- -o-ensino-de-historia>. Acesso em: 4. abr. 2017. GABARITO 95 GABARITO 1) A resposta é subjetiva, contudo espera-se que você, caro acadêmico, possa refle- tir sobre a sua própria prática pedagógica a partir do estudo desta unidade, bem como a partir da leitura deste excerto. 2) São várias as habilidades que precisamos desenvolver em nossos alunos: ■ Identificar o próprio grupo de convívio e as relações que estabelecem com outros tempos e espaços; ■ Organizar alguns repertórios histórico-culturais que lhes permita localizar acontecimentos numa multiplicidade de tempo, de modo a formular expli- cações para algumas questões do presente e do passado; ■ Conhecer e respeitar o modo de vida de diferentes grupos sociais, em di- versos tempos e espaços, em suas manifestações culturais, econômicas, políticas e sociais, reconhecendo semelhanças e diferenças entre eles; ■ Reconhecer mudanças e permanências nas vivências humanas, presentes na sua realidade e em outras comunidades, próximas ou distantes no tem- po e no espaço; ■ Questionar sua realidade, identificando alguns de seus problemas e refle- tindo sobre algumas de suas possíveis soluções, reconhecendo formas de atuação política institucionais e organizações coletivas da sociedade civil; ■ Utilizar métodos de pesquisa e de produção de textos de conteúdo histó- rico, aprendendo a ler diferentes registros escritos, iconográficos, sonoros; ■ Valorizar o patrimônio sociocultural e respeitar a diversidade, reconhecen- do-a como um direito dos povos e indivíduos e como um elemento de for- talecimento da democracia. 3) São vários os motivos, dentre eles podemos citar: ■ Contribui para a construção da cidadania; ■ Colabora no desenvolvimento de raciocínios historicamente corretos; ■ Permite formular questões que permeiam nosso cotidiano; ■ Possibilita a aquisição do diálogo entre presente-passado; ■ Analisa fatos cotidianos como processos históricos; ■ Localiza e identifica acontecimentos no tempo e no espaço; ■ Reflete a atuação do homem em sociedade e as transformações no espaço ocorridas emdetrimento de suas necessidades. 4) Alternativa “C”. 5) Alternativa “A”. U N ID A D E III Professora Me. Priscilla Campiolo Manesco Paixão A UTILIZAÇÃO DOS DOCUMENTOS HISTÓRICOS EM SALA DE AULA Objetivos de Aprendizagem ■ Aguçar o interesse pelas várias formas de acesso ao conhecimento histórico e diferentes fontes e linguagens: fotografia, vídeo, pintura, textos e documentos de época. ■ Desenvolver habilidades de observação, identificação e compreensão, além da própria linguagem (forma, estética, composição do todo), para estabelecer relação entre forma e conteúdo das fontes históricas. ■ Aprender a utilizar didaticamente documentos históricos em sala de aula. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Historiadores e professores: diferentes usos das fontes históricas ■ A análise didática de uma fonte histórica ■ Documentos escritos e não escritos ■ A construção do conhecimento por meio das fontes históricas Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 99 INTRODUÇÃO Desde que o conceito de documento foi ampliado, da posição de um positivista (ou metódico) para um neo-historiador, houve um enriquecimento quanto às fontes possíveis para um historiador. O uso das fontes históricas passou a incluir não só o documento escrito em seu sentido restrito, como foi ampliado para outros materiais disponíveis. Contrariamente ao que Charles Langlois ou Seignobos (positivistas) defen- diam, Marc Bloch (1886-1944) afirmava que a História dispõe de um leque de documentos dos escritos aos arqueológicos, passando pelos artísticos entre outros. (BOURDÉ; MARTIN, 1990). Portanto, o autor levantou a hipótese de se consultar certidões de batismo e outros documentos pessoais e oficiais, que constavam nos arquivos municipais, estaduais e até nacionais, observar imagens pintadas ou esculpidas, o mobiliário dos túmulos e inscrições das lápides, crônicas, cartas do passado, objetos retira- dos de escavações arqueológicas entre outros. O diferente uso das fontes históricas inclui a análise didática de uma fonte histórica e a construção do conhecimento por meio dessas fontes. Por esse motivo, Bloch insistia que a formação de um historiador deveria obedecer a um cuidadoso processo, que o preparasse corretamente para aquele que chamava de “ofício” de historiar. Por isso, caro estudante, nesta nova unidade você compreenderá os diferentes usos das fontes históricas pelos historiadores e professores. Além disso, conhe- ceremos os processos de análise didática de uma fonte histórica, isto porque a fonte em si não é produzida com fins didáticos. É preciso fazê-la “falar”, para ser usada como um recurso didático, e desenvolver a aprendizagem em nossos alunos. Ademais, faremos a distinção entre os documentos escritos e não escri- tos e, para isso, utilizaremos como referência os estudos da historiadora Circe Bittencourt. HISTORIADORES E PROFESSORES: DIFERENTES USOS DAS FONTES HISTÓRICAS Marc Bloch (1976) insistia não apenas em explorar novos documentos, mas tam- bém em descobrir novos “domínios” para a História, ou seja, tentava alargar o campo da História para outras direções. Orientava seus estudos, por exemplo, para a análise dos fatos econômicos e, nesse ponto, foi influenciado “sem o reconhecer explicitamente, pela obra de Karl Marx, que o incita a relacionar as estruturas econômicas e as classes sociais”. Ou, ainda, foi inspirado por outros historiadores como Henry Hauser, com relação aos estudos em que se ocupava da apreciação das flutuações econômicas, com base em séries de preços (BOURDÉ; MARTIN, 1990, p. 226). Aquilo que ele preconizava para todo aquele que aspirasse à ciência histórica, ele aplicou aos seus próprios trabalhos, dos quais um dos maiores foi: “Os carac- teres originais da história rural francesa, do século XI ao século XVIII” de 1931. Além do culto às origens e do correto enquadramento no tempo que se exige de toda obra histórica, Bloch observou as formas de ocupação do solo (espaço A UTILIZAÇÃO DOS DOCUMENTOS HISTÓRICOS EM SALA DE AULA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E100 Historiadores e Professores: Diferentes Usos das Fontes Históricas Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 101 e produção), as técnicas produtivas e os modos de povoamento (demografia), e também as práticas comunitárias (realidade/imaginário), tudo contextualizado na longa duração e em relação ao conjunto do território nacional. Desse modo, o autor deu o modelo básico para as vias que levaram os neo-historiadores as suas pesquisas e seus resultados, ao longo de todos os tempos até a atualidade. Bloch escreveu: “É bom que o historiador possua pelo menos uns laivos das principais técnicas do seu ofício”. Saber epigrafia, paleografia, diplomática, arque- ologia, estatística e história da arte é algo necessário a “um autêntico profissional da história” que, além disso, precisa conhecer “as ciências vizinhas” tais como “a geografia, a etnografia, a demografia, a economia, a sociologia, a lingüística” (BLOCH, 1976 apud BOURDÉ; MARTIN, 1990, p. 227). Bloch (1976), sentindo a dificuldade de preencher tais requisitos, então sugere: se não for possível conseguir a multiplicidade das competências num mesmo homem (o historiador) pode-se encarar uma aliança das técni- cas praticadas diferentes eruditos, sendo que isto supõe a organização de um trabalho por equipes, o que reagrupa especialistas de diversas disciplinas (apud BOURDÉ; MARTIN, 1990, p. 127). Em sua obra “Introdução à História” (1976), Bloch traz a tona uma pergunta feita a um pai historiador por seu filho: “Para que serve a História?” e esclarece que a obra se destinará a responder esta pergunta. Se considerarmos a grafia das palavras veremos que é possível compreen- dê-las e entender o quanto elas têm relação direta com a História, por exem- plo: a epigrafia é uma ciência que estuda as inscrições feitas em pedras e metais. A paleografia é a ciência que se dedica a decifrar os escritos antigos e, por fim, a arqueologia estuda os monumentos e vestígios de civilizações antigas. Fonte: a autora. A UTILIZAÇÃO DOS DOCUMENTOS HISTÓRICOS EM SALA DE AULA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E102 A História, como um “profeta com o olhar voltado para o passado”, segundo Eduardo Galeano, é para Bloch “uma ciência dos homens no tempo, que, sem ces- sar, precisa unir o estudo dos mortos ao estudo dos vivos” (BLOCH, 1976, p. 15). O historiador deve ter a “paixão de compreender, o que implica que renuncie, tanto quanto possível ao juízo de valor” ou àquilo que é dominado pelo antropo- centrismo do bem e do mal. Para Bloch (1976), o parecer do historiador é o do sábio, que examina sempre os dois lados de uma questão com isenção de ânimo. Para nos livrar da mania de colocar sempre uma superioridade humana (donde antropos em grego= homem, sediar o núcleo da concepção), Bloch (1976, p. 70) lembra que, para penetrar numa consciência alheia, é preciso que nos des- pojemos “de nosso próprio eu”. O saber objetivo, ainda que não absoluto, entra no rol de metas de um his- toriador que procura “compreender o passado a partir do presente” (1976, p. 11) ou, numa via de duas mãos, “compreender o presente à luz do passado” (1976, p. 13). Aliás, o autor enfatiza sempre que é o perpétuo “vaivémentre passado e presente” que permite “enriquecer o conhecimento das sociedades antigas e escla- recer sobre ela mesma e a sociedade actual” (BOURDÉ; MARTIN, 1990, p. 128). Dessa forma, perante manuscritos, escritos gráficos, epigráficos e materiais de toda sorte, desde moedas até selos, o historiador tem de saber “conversar”, o que equivale a “dialogar atentamente” com suas fontes, como recomenda Marc Bloch. A metodologia do Ensino de História inclui, em seus capítulos mais impor- tantes, o uso das fontes históricas e suas análises didáticas. Na perspectiva histórica da Escola dos Annales, fundada por Frebvre e Marc Bloch, é proposta a utilização de diversos tipos de fontes, não se restringindo apenas à utilização da história política, dos grandes feitos, como propunham os positivistas. Isto porque, diante dessas considerações configura-se a necessidade da utilização de diversas metodologias, fontes e linguagens para a construção de uma História mais atrativa para os jovens desinteressados e desmotivados diante de repetições, decorações e nulidade analítica. Dentre as lingua- gens que podem ser abordadas no estudo da História estão a literatura, a música, a cultura material e imaterial, o teatro, as artes plásticas e o cinema (FERRAZ; CAVALCANTI, 2006, p. 159). No entanto, é importante frisar que os historiadores utilizam-se das fontes A Análise Didática de Uma Fonte Histórica Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 103 históricas para desvendar a História dos povos em particular ou a sociedade em geral e, para isto, utiliza-se de métodos científicos. No entanto, os professo- res transformam essas fontes em recursos didáticos, e por esse motivo é preciso dominá-los. Isto é o mesmo que dizer que todos os documentos têm uma linguagem que lhe é própria e, para poder utilizá-la como instrumento pedagógico para a cons- trução do conhecimento histórico, é necessário dominar as suas especificidades enquanto produto cultural e histórico. A ANÁLISE DIDÁTICA DE UMA FONTE HISTÓRICA Ensinar História representa um desafio para os professores, como demons- trado anteriormente, pois há uma permanente necessidade de unir o papel de docente ao ofício de historiador, o que nem sempre é viável. Além disto, existe um público estudantil nem sempre disposto a estudar História que, de forma pre- conceituosa e inadequada, tem sido conotada ao caráter de matéria meramente decorativa, pouco digna do status de ciência. Tudo isso nos leva a privilegiar, num momento inicial, conteúdos realmente significativos e que permitam todo A UTILIZAÇÃO DOS DOCUMENTOS HISTÓRICOS EM SALA DE AULA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E104 o suporte didático à tarefa de um professor que ministra aulas de História, com todos os quesitos que tem de preencher, muitas vezes sem o suporte necessário. Os materiais didáticos são instrumentos do trabalho docente e se apresentam como suportes fundamentais na mediação entre o ensino e a aprendizagem. Por isso mesmo, por meio do uso de documentos oficiais e não oficiais, como reportagem de jornal, fotografia, filme, monumento, arte rupestre, carta, música e testemunhos de personagens que viveram na época, encontramos muitos tipos de documen- tos históricos que podem facilitar nossa tarefa de mediadores entre o aluno e sua aprendizagem do método indutivo, que por sua vez caracteriza a História. Inovar quanto ao ensino de História, por meio de recursos pré-selecionados que proporcionem aulas mais interessantes e atrativas, viabilizando assim a melhor aprendizagem é, sem dúvidas, algo necessário para que o aluno compreenda a História enquanto uma área do conhecimento em construção, e não apenas um rol de informações quase sem valor sobre o passado. “O processo de conheci- mento é a grande aventura e o grande desafio que o educador enfrenta quando prepara suas aulas e quando as envolve com os seus alunos” (RUIZ, 2004, p. 75). Ultimamente, generalizou-se entre nós o uso de livros didáticos, paradidáti- cos, filmes, excertos de jornais e revistas, mapas, dados estatísticos e tabelas, CDs, DVDs e outros suportes informativos que produzidos (ou não) especialmente para a escola, exigem dos professores uma análise de sua viabilidade quanto a promover a verdadeira ciência a serviço da aprendizagem. Bittencourt (2004) explica como fazer a análise destes suportes informati- vos e, além do mais, pesquisadores do ensino de História e Geografia do Institut National de Recherche Pédagogique (INRP) da França nos indicam alguns meios para tal raciocínio, que decompõe em partes o que vem apresentado em tantos instrumentos novos a nossa disposição. Nossa sociedade atual, chamada de Sociedade ou Economia do Conhecimento, ainda Sociedade Pedagógica, segundo pensadores como Peter Drucker (1993) ou Michel Serres (1999), assinala a ascensão do conhecimento como um com- ponente nuclear do capital. A Análise Didática de Uma Fonte Histórica Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 105 Visto como um bem que gera outro bem, renda ou produção, o capital, com todos seus componentes (equipamento, patrimônios, títulos, proprieda- des...) ainda tem por centro de convergência o dinheiro. Ainda porque cada vez mais se tem por máxima que a socialização da renda se fará por meio do conhe- cimento. É fácil compreender isso se pensarmos que, sem dinheiro no bolso, poucos adquirem conhecimento (donde o papel das escolas públicas é cada vez mais enfatizado), porém sem conhecimento, o dinheiro no bolso escasseia na mesma medida em que o conhecimento o enche. Além disso, estamos em um tempo em que as novas tecnologias propiciam o conhecimento e tornam seu acesso possível para um grande número de pes- soas, e não apenas aos professores, como ocorria no passado. A informação transpôs os limites da sala de aula após a Revolução da Informática, quando em 1993 a Internet permitiu a “globalização”, criando um ciberespaço onde se pôde falar em uma cibercultura. Segundo Pierry Lévy, em seu livro “Cibercultura” (1999), ciberespaço é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computa- dores, especificando não só a infraestrutura, mas o universo de informações e os próprios seres humanos que o movimentam. A partir do acesso às novas tecnologias, portanto, foram criados novos espa- ços do conhecimento tanto nas empresas, domicílios e espaços sociais, assim como nas escolas. Tal conhecimento se reflete nas múltiplas oportunidades de aprendizagem que, agora, cabe à escola selecionar e rever criticamente, sempre no sentido de melhorar, inovar e conservar o melhor do tradicional, dos “clás- sicos” autores e saberes do passado. Nesta perspectiva de inovar enfocamos o ensino de História. Nosso obje- tivo centra-se em propiciar à sociedade uma nova forma de pensar esse ensino, voltada para uma aprendizagem por excelência, oportunizando compreender o homem como um todo, dentro de uma visão holística, por meio de uma aborda- gem mais próxima da realidade cotidiana do educando e, portanto, significativa. A UTILIZAÇÃO DOS DOCUMENTOS HISTÓRICOS EM SALA DE AULA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E106 A abordagem holística nos permite ver o aluno como um ser anímico total, e não apenas uma máquina de aprender. Segundo Antunes (2001, p. 30), “a aprendizagem significativa é o processo pela qual uma nova informação se relaciona de maneiranão arbitrária e substan- tiva (não literal) à estrutura cognitiva do aprendiz”, ou seja, é uma aprendizagem que tem significado para o aluno, dirigindo-o à construção do conhecimento. Bittencourt (2004, p. 190) se serve dos ensinamentos de Paulo Freire para lembrar que: cabe ao professor [...] reconhecer e estabelecer um diálogo com esse co- nhecimento, porque os alunos estão sempre em processo de aprender mais e não são absolutamente sujeitos acomodados; ademais, adverte- -nos o grande educador, o conhecimento não é um dado imobilizado apenas transferido de um especialista para outra pessoa que ainda não o possui. Portanto, a tarefa de estabelecer significados envolve estabelecer a ponte entre leitura, interpretação e correta assimilação das informações, com vistas ao pensamento autônomo. É uma tarefa complexa, que envolve sempre levar da memorização pura e simples às análises críticas e ao pensamento crítico, que se expressa nas conclusões ou sínteses que elaboramos com base nas informa- ções recebidas. É nesse sentido que a seleção de materiais, seguida de uma análise que dará o diagnóstico sob sua viabilidade, tendo em vista o melhor aproveitamento do aluno, é sempre necessária. Por holístico, da palavra grega holos, entendemos a concepção pela qual o homem é um todo. Tal pensamento nos informa que o ser humano é um todo, em que o espírito move a mente e esta move o corpo, ou seja, “somos aquilo que pensamos”. Documentos Escritos e Não Escritos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 107 DOCUMENTOS ESCRITOS E NÃO ESCRITOS Muitos autores contemporâneos como Bittencourt (2004) ou Cardoso (1997), defendem a ideia de utilizar documentos históricos como um recurso inovador adequado ao ensino de História. Bittencourt também recorre ao Institut National de Recherche Pédagogique francês para explicar o que tal pesquisa pedagógica significa, em conexão com o conceito de documento, de acordo ao que foi esta- belecido conforme nossa visão de neo-historiadora: todo conjunto de signos, visuais ou textuais, que são produzidos em uma perspectiva diferente dos saberes das disciplinas escolares e poste- riormente passam a ser utilizados com finalidade didática. (...) Contos, lendas, filmes de ficção ou documentários televisivos, músicas, poemas, cartas, romances são documentos produzidos para um público bastan- te amplo que, por intermédio do professor e seu método, se transforma em materiais didáticos (BITTENCOURT, 2004, p. 296). Dentro de tal categoria, portanto, podemos inserir documentos escritos e não escritos, que podem ser utilizados pelos educadores em sala de aula desde os anos iniciais do Ensino Fundamental. Sua finalidade, já assinalada, será a de desenvolver habilidades cognitivas, como a capacidade de observar, interpretar A UTILIZAÇÃO DOS DOCUMENTOS HISTÓRICOS EM SALA DE AULA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E108 e extrair informações dessa “fonte”, sempre em conexão com a realidade vivida. É, portanto, uma maneira de possibilitar o contato com o “real”, por meio das situações concretas de um passado abstrato, tornando as aulas mais atrativas e dinâmicas. Para Napolitano (2004, p. 149), “nos últimos anos tem sido cada vez mais freqüentes o uso de ‘novas linguagens’ não só para motivar os alunos, mas para tentar ‘atualizar’ a concepção de documento histórico”. Bittencourt (2004, p. 330) aponta o principal objetivo, [...] favorecer sua exploração pelos alunos de maneira prazerosa e in- teligível, sem causar muitos obstáculos iniciais. É preciso cuidado para que os documentos forneçam informações claras, de acordo com os conceitos explorados, e não tornem difícil a compreensão das infor- mações. Tudo que foi abordado, juntamente com a possibilidade de ampliar o leque e a utilização de documentos aberta pela Nova História, sem sombra de dúvidas facilita e moderniza o trabalho de um professor de História. Contudo, se faz necessário seguir algumas recomendações para a utilização didática dos docu- mentos históricos, a saber: 1. O documento deve ser interrogado com base no problema estu- dado, ou seja, ele não fala por si mesmo. Por esse motivo se faz necessário questioná-lo com base nos objetivos que se quer atingir e na relação entre presente e passado; 2. É preciso considerar o método, ou seja, os procedimentos que vão orientar a observação, identificar ideias, temas e contextos, descre- ver aquilo que foi identificado no documento, distinguir relações de oposição, associação e identidade, bem como interpretar dados; 3. A estratégia didática mais eficiente é aquela que considera sua for- ma material, gráfica e discursiva tanto quanto seu conteúdo, que permitam compreendê-lo segundo o contexto de sua produção. É preciso, agora, diferenciar os documentos escritos e não escritos que se apresentam para a utilização em sala de aula, portanto, à disposição do professor que pretende dinamizar a sua didática. Documentos Escritos e Não Escritos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 109 DOCUMENTOS ESCRITOS Entre os documentos mais comuns estão os escritos, aqueles que tradicional- mente são os mais empregados em aulas de História e que se utilizam do registro escrito para expressar sentimentos, ideias e impressões do mundo. Entre eles temos os documentos não oficiais como jornais, literatura, revistas, poemas e letras de música. Existem duas vantagens ao utilizar os documen- tos escritos em sala de aula. Primeiro, pela fami- liaridade em seu uso, ou seja, desde nossa forma- ção somos condicionados a ler e escrever textos para divulgação de resultados de pesquisas, e isso nos torna familiar a este tipo de docu- mento. Segundo, porque são facilmente reproduzíveis em cópias reprográficas (os famosos “xérox”) ou em meio digital. Assim, para utilizá-los com fins didáticos, se faz necessário interrogá-los: a. Qual o tipo de documento? b. Em que data foi escrito? c. Onde e quem escreveu? d. Que outras informações ele traz? e. De que material é feito? Foi manuscrito ou impresso? f. Quais suas condições de conservação? Nessa época, de crítica interna e externa minuciosa e detalhista, só eram considerados fidedignos os documentos que passavam por rigoroso exame e provinham de instituições governamentais e refletissem a atuação de grandes A UTILIZAÇÃO DOS DOCUMENTOS HISTÓRICOS EM SALA DE AULA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E110 personalidades, e que tratassem de questões de política internacional. Entretanto, Certidões de Nascimento, RGs, CICs e outros documentos pessoais podem emprestar autenticidade a outro documento, respeitada as condições do fato, e entram como matéria-prima de debates acerca do que significa a cidadania nas sociedades contemporâneas. O Jornal A utilização de tais documentos emanados da imprensa escrita é um dos mui- tos instrumentos que podem enriquecer o processo de ensino-aprendizagem. Especificamente a respeito do uso de textos jornalísticos, Bittencourt ressalta que é importante considerar tais notícias como um discurso que jamais é neu- tro ou imparcial. É isto que nos permite uma crítica mais cuidadosa “referente aos limites do texto e aos interesses de poder implícitos nele” (BITTENCOURT, 2004, p. 337). Um discurso que não seja neutro pode ser visto como um produto de uma empresa capitalista, que então oculta estratégiastendentes a facilitar a recepção da mensagem por parte dos leitores, ainda que as ideias veiculadas não expressem a realidade em todas as suas faces possíveis. É o que Marilena Chauí (2000) nos ensina quando afirma que esse tipo de ideologia é “a arte de dizer meias-verda- des”, pois se a verdade for dita inteira, a intenção de mascará-la não se completa. O jornal, portanto, é um material didático de fácil acesso, com conteúdos atualizados ou que permitem retrospecto histórico, porém tudo que envolve o ato de educar pressupõe também cuidados que resguardam a responsabilidade com a verdade. Acreditando no jornal como uma das formas mais acessíveis de acompanharmos as mudanças vertiginosas dos fatos, (e aqui nos remetemos às aulas de História), é fundamental que professores e alunos desenvolvam habi- lidades e o hábito de ler, e descubram na leitura formas de ingressar no mundo do saber e da cultura. É importante que os educadores atentem à fatores básicos para o planeja- mento de atividades com o jornal em sala de aula: 1. O tempo que se pretende dedicar ao jornal, no conjunto de atividades de seu programa anual. Documentos Escritos e Não Escritos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 111 2. Trabalho prévio com a criança sobre a dimensão social da escrita e da lei- tura (escolha das atividades que se pretende desenvolver para que o aluno manifeste sobre qual seção prefere, enumerando-as em ordem crescente de escolha e justificando-a; opine sobre o texto lido, recortando uma notí- cia e identificando-a). 3. Trabalho com o jornal na sua totalidade e não desmembrando letras e palavras que só possuem significado no contexto (dentro de um contexto e não como pretexto). 4. O uso do jornal não deve ficar restrito às aulas de Língua Portuguesa. Nas aulas de História, por exemplo, os jornais funcionam como importante recurso didático para estudar fatos vividos por grupos sociais distintos. Determinados esses pontos, vem o principal: estabelecer as estratégias pedagó- gicas a serem utilizadas, atentando-se aos pontos: 1. Os objetivos que se pretende atingir com as atividades escolhidas; 2. O estabelecimento de uma progressão equilibrada entre uma atividade e outra; Estabelecidos estes pontos, será preciso ainda, reunir o material necessário à execução do trabalho e determinar previamente os locais em que as atividades serão desenvolvidas: na sala de aula, em casa, na biblioteca... A Literatura Outro tipo de documento escrito não oficial que pode ser trabalhado de maneira interdisciplinar é a literatura, como romances, poemas ou contos. Tais textos cabem como consulta não apenas nas aulas de Língua Portuguesa, mas também para o ensino de História e outras disciplinas. Os estudos de textos literários têm como objetivo não apenas desenvolver o gosto pela leitura, mas também fornecer condições de análises mais profundas para o estabelecimento de relações entre conteúdo e forma. Para analisar uma literatura, é necessário também oferecer outros textos de apoio como informações sobre o autor e a obra, dicionários, enfim, complementos para a compreensão do texto literário. A UTILIZAÇÃO DOS DOCUMENTOS HISTÓRICOS EM SALA DE AULA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E112 Para o ensino de História, a literatura torna-se um referencial possível de ser analisado e estudado como documentos da época, cujos autores pertencem a um contexto histórico e fazem parte de uma cultura. Fonseca traz palavras bas- tante esclarecedoras: a leitura de textos literários, reservando as especificidades artísticas, pode nos oferecer pistas, referências do modo de ser, viver e agir das pessoas, dos valores e costumes de uma determinada época. É uma fonte/documento/evidência que auxilia o desvendar da realidade, as mudanças menos perceptíveis, os detalhes sobre lugares e paisagens, as mudanças naturais, os modos de o homem relacionar-se com a nature- za em diferentes épocas (FONSECA, 2003, p. 165-166). Cabe aos professores uma escolha que permita não confundir história com fic- ção ou aventura, ainda artigos e textos que contenham mais opiniões do que análises e sínteses científicas, que não permitam que no educando se instalem concepções fantasiosas a respeito do assunto em discussão. A Fotografia Entre os documentos não escritos, fotografias e imagens ocupam um lugar de destaque, sensibilizando quem as observa com seu impacto real e multifacetado em sensações e informações. São denominados documentos iconográficos por utilizar-se de imagens para imprimir o mundo. Documentos Escritos e Não Escritos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 113 Cabe lembrar que a pesquisa iconográfica pode enriquecer um estudo sobre determinado período histórico com imagens de esculturas, obras arquitetôni- cas, quadros ou fotografias de pessoas. Isso dentro de uma perspectiva da Nova História, que dá o devido valor aos diferentes tipos de fontes e não exclusiva- mente aos documentos escritos, como a escola metódica fazia. Fotografias, quadros e charges, ou filmes, vídeos e DVDs se enquadram nessa categoria e, para todos eles, existem métodos de análise que permitem avaliar as características de suas linguagens ou a forma específica pela qual veiculam suas informações. Celso Antunes (2005, p. 120) lembra como a “ausência da palavra aguça a imaginação e sensibiliza a mente”, permitindo uma leitura não verbal que “dá asas à imaginação”. É o mesmo que Leite (1993, p. 158) quer nos dizer quando explica: Os contextos em que estão inseridas as imagens que se deseja ler re- servam ou exprimem sentidos que podem ser transformados em no- vas mensagens, que por sua vez podem atingir os diferentes sentidos. Assim, [...] é necessário um conhecimento prévio e direto da realidade que a imagem representa, simboliza ou indica para não ficar desorien- tado [...]. Antunes (2005, p. 122) acrescenta que é preciso selecionar documentos que esti- mulem “os alunos a enxergar as entrelinhas das fotos, os detalhes da ilustração”, para aprimorar sua acuidade visual e espacial “em aprendizagens mais estrutu- radas e mais significativas”. A palavra iconografia vem do grego, e significa “eikon” imagem e “graphia” escrita. Desse modo, é possível afirmar que se trata do estudo baseado em imagens. Para a História ela é importante, pois nos permite analisar as foto- grafias, ilustrações, obras de arte entre outros itens que remetem aos fatos históricos. Fonte: a autora. A UTILIZAÇÃO DOS DOCUMENTOS HISTÓRICOS EM SALA DE AULA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E114 Figura 1: Na foto, uma menina vietnamita, Kim Phuc, de apenas 9 anos de idade corre pela estrada nua e gritando em meio à indiferença dos soldados norte-americanos, logo após ter sua aldeia incendiada por uma bomba de napalm. Fonte: Bitaites (2007, on-line)1. Portanto, ao observar uma foto, deve-se refletir sobre os elementos que ela com- põe e o que significam. Seguem abaixo algumas perguntas que contribuem para essa reflexão: a. Que pessoas aparecem na fotografia? b. Descreva a aparência física e o vestuário das pessoas da foto. c. Descreva o local onde foi tirada a fotografia. d. O que as pessoas da foto estão fazendo? e. Há alguma informação escrita no verso da fotografia? f. Em que época ou data ela foi tirada? g. Quem a tirou? h. Quais as condições de preservação da fotografia?Documentos Escritos e Não Escritos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 115 Além disso, qual o conhecimento histórico que a fotografia permite? Bittencourt (2004, p. 366) explica: A fotografia registra fatos, acontecimentos, situações vividas em um tempo presente que logo se torna passado. Os álbuns de família são um exemplo de como esse suporte material de imagem serve de registro da memória. Rever fotos significa relembrar, rememorar ou mesmo “ver” um passado desconhecido. Portanto, a imagem fotográfica pode revelar aspectos da vida material de um determinado tempo com muita facilidade, comparado a uma descrição verbal. Finalmente, a fotografia inclui significados e permite uma comunicação instan- tânea, que a qualifica como um meio para aprimorar nossos conhecimentos. O Cinema O cinema pode ser visto como outra forma de registro, que amplia o foco do professor interessado em utilizar o dinamismo de suas imagens, visto que um programa de televisão ou um filme nos despertam sensações, e o conhecimento ocorre com profundidade quanto às emoções e percepções provocadas. Bittencourt (2004) recomenda ao professor identificar as preferências dos alunos e conciliá-las com o tipo de imagens que permitirão o levantamento de questões e incentivarão à curiosidade. O fundamentalismo, tal como acontece no Irã, as sempre retomadas cenas da 2ª Guerra Mundial, o julgamento de Joana d’Arc e a história de Abelardo e Heloísa, por exemplo, são excelentes para reme- terem nossos alunos a uma realidade em seu contexto, com cores e impressões duradouras. O cinema é uma instituição aberta ao público que conserva e exibe evidências do passado, e têm a finalidade de promover a pesquisa e a educação, valendo-se de um recurso prazeroso e de lazer. A UTILIZAÇÃO DOS DOCUMENTOS HISTÓRICOS EM SALA DE AULA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E116 As Músicas Além do mais, entre os documentos não escritos, podemos citar as peças musi- cais. Assim como a literatura, é comum afirmar que elas são espelhos da sociedade que as produziu. Há mais de dois mil anos, filósofos como Platão e Aristóteles já exaltavam a sonoridade como veículo da educação. Era comum os jovens gregos declama- rem seus poemas acompanhados de suas cítaras ou liras. Anchieta, enquanto catequista dos curumins do Brasil, associava música e dança, ensinando a esses indiozinhos com sons e passos de cateretê. Fonseca (2003, p. 187) dá seu testemunho a esse respeito, lembrando que: ensinar história por meio de canções foi meu maior desafio e minha grande paixão desde o início da minha carreira docente. Nos primeiros anos de magistério, procurava auscultar os interesses dos adolescentes Documentos Escritos e Não Escritos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 117 e, sempre que possível – muitas vezes por sugestões deles -, incorporava uma ou mais canções históricas, especialmente nas temáticas ligadas à história do Brasil. Com ela concorda Bittencourt (2004), quando afirma que a música, erudita ou popular, integra nossa cultura tão fortemente que pode ser classificada entre os mais atuantes dos documentos não escritos, considerando os que temos à dis- posição em nossa docência. Porém, fazer uso da música como mera ilustração do conteúdo não conduz à reflexão e tampouco ao conhecimento histórico, tão privilegiado atualmente, como vimos apresentando até aqui, pois não promove o pensamento crítico do aluno e nem o leva a se interrogar sobre sua historicidade, já que o mesmo está condicionado a olhar as canções como alegorias ilustrativas e até mesmo des- prezá-las, desvinculando-as de seu período histórico. Para Bittencourt (2004, p. 379), “o uso da música é importante por situar os jovens diante de um meio de comunicação próximo de sua vivência, mediante o qual o professor pode identificar o gosto, a estética da nova geração”. A historiadora propõe uma atividade ao trabalhar com músicas em sala de aula: 1. Colocar uma música atual ou de interesse da turma; 2. Questionar aos alunos a respeito do tema, do ritmo e da interpretação que se pode ter a partir da primeira impressão da canção; 3. Chamar a atenção dos alunos para os instrumentos utilizados na canção; 4. Perguntar onde os alunos costumam ouvir músicas; 5. Então, levantar questões a respeito do ato de ouvir música sem as técni- cas eletrônicas da atualidade. 6. A partir das respostas dos alunos na etapa anterior, o professor deve ofere- cer documentos que respondam aos questionamentos ou que confirmem o que foi mencionado pelos alunos; 7. Sempre indo além de uma primeira análise do que se propõe como docu- mento histórico (BITTENCOURT, 2004). A UTILIZAÇÃO DOS DOCUMENTOS HISTÓRICOS EM SALA DE AULA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E118 Bittencourt não foi a única historiadora a estudar o “poder” que a música exerce sob as pessoas. O historiador britânico Erick Hobsbawm foi um dos pioneiros no estudo das canções, fazendo um estudo aprofundado sobre o jazz norte-ame- ricano e observando suas influências no mundo ocidental. Por ser materialista histórico, ele analisou as condições sociais e também o contexto em qual este gênero estava inserido. Podemos destacar, portanto, que a música é um importante instrumento de transmissão de mensagem, que consegue abranger uma gama de pessoas por todo mundo. Devido a isso, não utilizá-la em sala de aula é o mesmo que o professor não oferecer aos alunos materiais suficientes para seu desenvolvimento intelec- tual e social, pois a música é presença constante na vida das pessoas. A Construção de Conhecimento Por Meio Das Fontes Históricas Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 119 A CONSTRUÇÃO DE CONHECIMENTO POR MEIO DAS FONTES HISTÓRICAS Está ficando cada vez mais óbvio o sentido que pretendemos dar à constru- ção do conhecimento por meio das fontes históricas, sem desprezar nenhuma delas, desde as manuscritas, tais como encontramos em arquivos antigos mais difíceis de manusear, mas sempre interessantes como testemunho, até as escri- tas impressas e não escritas de vários tipos e, ainda, os documentos virtuais que a informática e a internet nos proporcionam. O uso de documentos em sala de aula, independentemente de seu teor e forma, permite que operemos a construção e reconstrução do conhecimento histórico. Na visão positivista da História, o documento era encarado como prova do real. A aplicação dessa visão ao livro escolar assumia um caráter teleoló- gico – o documento cumpria a função de ressaltar, exemplificar e, sobretudo, A UTILIZAÇÃO DOS DOCUMENTOS HISTÓRICOS EM SALA DE AULA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E120 dar credibilidade à argumentação desenvolvida pelo autor. Na sala de aula, isso se reproduzia: o documento servia para ampliar e, principalmente, confirmar o que o professor disse durante sua exposição. Todos nós sabemos que o passado não pode ser recuperado tal como acon- teceu, e que sua retomada só pode ser realizada a partir de problemas colocados pelo presente. Paralelamente a isso, uma nova concepção de documento se for- mou, ganhando uma nova dimensão nos estudos da História. O começoda utilização desse rico acervo à nossa disposição ainda está começando, mas já se revela um meio útil para suscitar o interesse dos alunos. O trabalho com o documento histórico, independente da sua natureza, deve ser pautado na interpretação. É evidente que as interpretações são relacionadas a todo o conhecimento histórico acumulado, ou seja, às interpretações de histo- riadores consagrados. Nesse sentido, docentes e alunos devem atuar não apenas como consumidores, mas como cocriadores deste conhecimento. Ao se trabalhar com documentos em sala de aula, principalmente os escri- tos, devemos considerar algumas etapas: 1. Exploração inicial: permite ao aluno explorar o documento sem a inter- venção do professor. Aqui vale a primeira impressão, o que marcou, chamou a atenção, etc., buscando informações (internas ou externas ao documento); 2. Identificação da data e local: geralmente constam na fonte original. Quando não, o professor deve fornecer condições para que os alunos iden- tifiquem a data e o local de produção e difusão do documento; 3. Finalidade: identificar o objetivo do documento a partir da leitura do próprio documento. Deve-se questionar se o documento foi produzido como registro para o futuro (documento) ou se tinha fins práticos para resolver uma questão imediata (monumento); 4. Contextualização: visa estabelecer em qual conjuntura o documento foi produzido. Isso pode ser notado tanto nas características explícitas, quanto aquelas que conseguimos identificar através da leitura nas “entrelinhas”. A Construção de Conhecimento Por Meio Das Fontes Históricas Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 121 5. Interpretação: interpretar o documento a partir de sua análise, questio- nando-o: “A que interesses eles atendiam? Quais eram suas intenções? A que objetivos visavam atingir? De que forma os valores e as doutrinas que constituem sua visão de mundo se expressam no texto?” (OLIVEIRA, 2012, p. 76). Vale ressaltar o cuidado que devemos ter ao analisarmos um documento his- tórico, isso porque, segundo Mauad (1996), ele pode “mentir”. Isso é o mesmo que dizer que o documento em si foi produzido com uma intenção. A propósito, todas as ações são resultados de intenções, o que requer por parte de professores e alunos, no caso do Ensino de História, uma apreensão da totalidade, buscando as razões pelos quais esses foram produzidos. Vejamos um trecho da obra da autora e o exercício que se possa verificar a partir dele: Através da imagem: fotografia e imagem “Nunca ficamos passivos diante de uma fotografia: ela incita nossa ima- ginação, nos faz pensar sobre o passado a partir do dado de materia- lidade que persiste na imagem. Um indício, um fantasma, talvez uma ilusão que, em certo momento da história, deixou sua marca registra- da, numa superfície sensível, da mesma forma que as marcas do sol no corpo bronzeado. Num determinado momento o sol existiu sobre aquela pele, num determinado momento um certo aquilo existiu diante da objetiva fotográfica, diante do olhar do fotógrafo, e isso é impossível negar. Discute-se a possibilidade do mentir da imagem fotográfica. A revo- lução digital provocada pelos avanços da informática torna cada vez maior esta possibilidade. Permitindo até que os mortos ressurjam para tomar mais um chope, tal qual a publicidade já mostrou. Não importa se a imagem mente; o importante é saber por que mentiu e como men- tiu. O desenvolvimento dos recursos tecnológicos demandará do his- toriador uma nova crítica que envolva o conhecimento das tecnologias feitas para mentir. Toda imagem é histórica. O marco de sua produção e o momento da sua execução estão calcados nas superfícies da foto, do quadro, da escultura, da fachada do edifício. A história embrenha as imagens, nas opções realizadas por quem escolhe uma expressão e um conteúdo, compondo através de signos de natureza não verbal, objetos de civili- zação, significados de cultura.” Fonte: Mauad (1996, p. 73). A UTILIZAÇÃO DOS DOCUMENTOS HISTÓRICOS EM SALA DE AULA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E122 Exercitando a História a partir da leitura do texto acima, procure analisar a posição da autora em relação aos métodos de análise das imagens tecnológicas; os diferentes tipos de imagem que podem ser utilizados no ensino de História; o papel do professor de História consciente de sua responsabilidade social e o aluno enquanto sujeito histórico. O que mais se impõe é a percepção do explícito em conjunto com o implícito, os chamados testemunhos involuntários, que se revelam quando conseguimos ler um documento nas suas entrelinhas, naquilo que escapou ao autor e revela algo de sua percepção a respeito do seu tempo, ou algo que quer ocultar daque- les que estão lendo o documento. A sala de aula pode ser vista como um ambiente ideal para a reconstrução de tais conhecimentos por intermédio de fontes históricas, e aqui nos referimos às que se encontram no sistema presencial ou que caracterizam a realidade vir- tual de um ensino a distância. Neste último caso, as telecomunicações unidas à informática proporcionam um veículo rápido, que encurta distâncias para o conhecimento. Em sua obra, em que os novos modelos que podem se estabelecer para o ensino de História são abordados, Karnal (2004) parte do princípio que a História linear está condenada ao desaparecimento e, depois do advento do fenômeno da globalização – marcadamente na década de 1990, – temos de olhar em múl- tiplas direções e atender a divergentes contextos. “Até agora”, escreve, “a história era ensinada como se tratasse de quadros já acabados”. Hoje já não é suficiente explicar como se chegou ao Renascimento ou à Segunda Guerra Mundial, à construção do capitalismo ou ao desprestígio do socialismo, que levou à hegemonia do neoliberalismo como política econô- mica. “Ensinar a edificar o próprio ponto de vista histórico significa ensinar a construir conceitos e aplicá-los diante das variadas situações e problemas”. Isso equivale a “interpretar dados e informações de maneira a ter uma maior com- preensão da realidade que estiver sendo estudada” (KARNAL, 2004, p. 77-78). O autor parece preocupado com a retomada do humanismo em tempos dominados pela tecnologia, e para valorizar o homem, nada melhor do que o pensamento autônomo, construído pelo próprio indivíduo, produto de “uma percepção mais abrangente possível da condição humana, nas mais diferentes Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 123 culturas e diante dos mais variados problemas” (KARNAL, 2004, p. 78). “O nosso desafio”, finaliza, “consiste não em saber se é possível fazer isso ensi- nando História, mas em responder positivamente, com um método adequado, à pergunta sobre como é possível fazer isso, ensinando História” (KARNAL, 2004, p. 78). E é aí que os documentos citados assumem seu lugar, como uma alterna- tiva viável e atual a nossa disposição, com todas as tecnologias de que dispomos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao longo desta unidade, verificamos que para compreender as sociedades nos seus aspectos mais amplos, devemos considerar todas as informações, desde as vestimentas e as grandes construções, passando por textos escritos, ima- gens, objetos do cotidiano entre outros. Além disso, verificamos que é possível adquirir conhecimento histórico por meio das fontes e, contudo, constata- mos que os historiadores e professores fazem uso de maneira diferentedestes documentos históricos. É interessante ressaltar que os documentos e as fontes históricas, por nós, foram tomados como sinônimos. E, além do mais, hoje houve uma mudança quanto ao entendimento do que seja um documento. Tal ênfase deve-se a herança deixada pelos historiadores da Escola dos Annales, que lançaram um novo olhar aos documentos. Nessa perspectiva, podemos destacar os objetivos que podemos alcançar fazendo uso desses documentos no processo ensino-aprendizagem: Os documentos não têm intenção didática e, por isso, são produzidos em di- ferentes linguagens, por diversas formas de comunicação. Portanto, devem ser analisados com antecedência para serem utilizados com fins didáticos. A UTILIZAÇÃO DOS DOCUMENTOS HISTÓRICOS EM SALA DE AULA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E124 ■ Fazer o aluno conhecer uma grande variedade de fontes e adquirir expe- riência na sua leitura. ■ Desenvolver no aluno a capacidade de análise e avaliação crítica das fon- tes, distinguindo o que são dados de informação e o que são opiniões. ■ Ensinar a “olhar historicamente” um fenômeno. ■ Desenvolver no aluno a capacidade de síntese interpretativa e narrativa. ■ Aprender a recolher informações sobre o passado distante e próximo. ■ Desenvolver habilidades de pesquisar em arquivos e constituir os seus próprios. Por fim, consideramos o educador como responsável pela intermediação entre o aluno e o percurso do conhecimento histórico, e que as fontes são recursos didáticos inesgotáveis de conhecimento, basta, para isso, dominar suas especi- ficidades e ser um eterno pesquisador. Na unidade seguinte daremos continuidade as nossas discussões, refletindo sobre a prática pedagógica e as possibilidades que o professor tem para minis- trar uma boa aula de História. ANOTAÇÕES 125 126 1. Procure analisar os documentos históricos que seguem para fazer o que se pede: Imagem 1: Imagem 2: a. Descreva as imagens, observando todos os detalhes que envolvem cada cena: o que os personagens estão fazendo, sua expressão (se estão tristes, alegres, irrita- dos etc.), suas roupas, a paisagem e tudo o que compõe as fotografias. b. Construa uma tabela destacando as diferenças e semelhanças entre as fotogra- fias analisadas. c. Escolha uma das crianças das fotografias e redija uma biografia, imaginando como seria sua vida cotidiana. 127 2. A truculência e falta de preparo, herança do modelo policial adotado pela Dita- dura Militar, não poderia ter saído ileso às canções que a juventude da década de 1980 cantava. A Banda Titãs expressou bem este cenário na canção abaixo. A partir da leitura de sua letra, expresse sua opinião sobre o assunto. Polícia Dizem que ela existe Prá ajudar! Dizem que ela existe Prá proteger! Eu sei que ela pode Te parar! Eu sei que ela pode Te prender!... Polícia! Para quem precisa Polícia! Para quem precisa De polícia... (Tony Beloto) 3. Muitos historiadores contemporâneos, como Bittencourt (2004), defendem a ideia de utilizar os documentos históricos em sala de aula como um suporte in- formativo, capaz de conduzir o alunado ao conhecimento histórico. Partindo desta premissa, identifique e exemplifique alguns dos diferentes tipos de documentos históricos que podem ser utilizados em sala de aula. 4. O uso de documentos em sala de aula, qualquer que seja o seu teor e forma, permite que operemos a construção e reconstrução do conhecimento histórico. A respeito da utilização de fontes históricas em sala de aula, assinale a al- ternativa correta. I. O trabalho com documentos históricos pouco contribuem para a formação de nossos alunos, pois são vistos apenas como prova do real. II. A sala de aula pode ser vista como um ambiente ideal para a reconstrução dos conhecimentos relacionados à História, por meio do estudo das fontes históricas. III. O trabalho com o documento histórico, independente da sua natureza, deve ser 128 pautado na interpretação. É evidente que as interpretações são relacionadas a todo conhecimento histórico acumulado, ou seja, às interpretações de historia- dores. IV. As fontes históricas, ao serem trabalhadas em sala de aula, visam à comprovação do que aconteceu no passado, não exigindo que o aluno faça uma leitura a res- peito do conteúdo e, portanto, não auxiliam na construção desse conhecimento. a. Somente as afirmativas I e II estão corretas. b. Somente as afirmativas II e III estão corretas. c. Somente as afirmativas III e IV estão corretas. d. Somente as afirmativas I, II e III estão corretas. e. Todas as afirmativas estão corretas. 5. Ao definir quais documentos vão compor sua fonte de pesquisa, um historiador tem o conhecimento histórico do período, bem como o domínio dos concei- tos para a fundamentação da análise. Contudo, a situação do professor não é a mesma do historiador, pois além de dominar os contextos e conceitos históri- cos ele também deve ter conhecimentos pedagógicos. Acerca do trabalho do professor e de seus cuidados na utilização de documentos como material pedagógico, analise as afirmativas abaixo e assinale a alternativa correta. I. Ao introduzir um documento histórico em sua aula, o professor deve considerar que seus alunos ainda estão assimilando os conteúdos e os conceitos históricos, portanto, eles não têm domínio sobre o contexto em que o documento foi pro- duzido. II. O documento histórico em sala substitui o material didático contextual ofertado pela instituição de ensino. III. O documento histórico pode ser utilizado como introdução a um tema, assu- mindo a condição de situação-problema, no qual o aluno deve identificar no documento o objeto ou o tema de estudo. IV. O professor, ao selecionar o documento, deve considerar o interesse dos alunos pelo mesmo. a. Somente as afirmativas I e II estão corretas. b. Somente as afirmativas II e III estão corretas. c. Somente as afirmativas I, II e III estão corretas. d. Somente as afirmativas I, III e IV estão corretas. e. Todas as afirmativas estão corretas. 129 PLANO DE AULA IMPORTÂNCIA DA ARQUEOLOGIA NA INVESTIGAÇÃO HISTÓRICA Objetivo(s) ■ Compreender o que são documentos históricos e vestígios arqueológicos e identificar a sua importância para a construção de explicações históricas. ■ Compreender como os arqueólogos pesquisam. ■ Notar que o tempo se materializa em camadas no solo. Conteúdo(s) ■ A ciência da Arqueologia. ■ Construção do conhecimento histórico. ■ Tempo estimado: 6 aulas Material necessário ■ Luvas flexíveis de borracha, caderno, lápis. ■ Imagens de sítios arqueológicos e pinturas rupestres encontradas nos sites: ■ Instituto Itaú Cultural; ■ Fundação Museu do Homem Americano; ■ Portal ComCiência; ■ Museu de Arqueologia e Etnologia da USP; ■ Portal Arqueologia; ■ Desvendar ■ Artigos científicos no site do Museu Arqueológico de Sambaquis de Joinville Desenvolvimento 1ª etapa: Quando os alunos entrarem na sala de aula, diga que aquele ambiente não foi arrumado de propósito (para isso, certifique-se de que a área já tenha sido usada). Proponha que procurem vestígios que informem sobre o que ocorreu ali. Explique que, 130 assim como pesquisadores, eles investigarão o passado - na lata de lixo, no que está escrito no quadro, nas inscrições das carteiras, no mural, nos materiais espalhados e na posição das mesas. Organize a turma em duplas: um aluno deve usar luvas para vascu- lhar objetos e outro deve tomar notas. Em seguida, diga que respondam à pergunta: o que houve na sala? 2ª etapa: No quadro, seja o escriba de um relato coletivo, procurando ligar os objetos às interpretações dos alunos. Questões que podem ser respondidas:de qual disciplina era a aula anterior a essa? Os estudantes parecem ter se concentrado? Saíram da sala com pressa? Proponha que respondam à questão: como foi possível escrever um relato histórico a respeito do que houve no passado sem que nós estivéssemos lá para ver? 3ª etapa: Apresente fotografias de escavações sendo realizadas por arqueólogos. Expli- que que, de maneira semelhante ao que eles fizeram na sala, há profissionais que procu- ram vestígios das antigas sociedades. Discuta sobre como os arqueólogos podem saber o que ocorreu perguntando: que vestígios eles podem encontrar e que interpretações fazem? Como lição de casa, distribua cópias de uma fotografia de desenho rupestre e solicite que descrevam e interpretem a imagem. 4ª etapa: Na sala de informática, visite com os jovens o site do Instituto Itaú Cultural sobre Arqueologia Brasileira e acesse o link “linha do tempo”. Diga que analisem a ima- gem do sítio arqueológico e as camadas de solo. Esse é o momento de aprenderem que, quanto mais profundos os objetos estão, mais antigos são. Solicite que cada dupla entre em um dos links e recolha informações a serem compartilhadas com a classe (caso você não disponha de computadores, imprima as páginas do site). Avaliação Para avaliar a aprendizagem dos alunos, distribua um texto sobre a serra da Capivara, um parque nacional e sítio arqueológico do sertão do Piauí. Peça que elaborem uma linha do tempo nos moldes da vista no site do Itaú Cultural. Note se consideram que os vestígios mais antigos devem estar na parte mais profunda, e os mais novos, na superior. Fonte: Nova Escola Clube (2017, on-line)2. Material Complementar MATERIAL COMPLEMENTAR Ensino de História para o Fundamental 1: teoria e prática Adriane Santarosa dos Santos e Maria Belintane Fermiano Editora: Contexto Assunto: Educação, Formação de Professores, História Sinopse: aprender História deve ser importante e estimulante para alunos do ensino fundamental 1. Com um professor preparado e um método adequado, as crianças podem ser levadas a tomar conhecimento da realidade que as cerca, a observar semelhanças e diferenças, permanências e mudanças. A partir disso, elas descobrem que todos possuem história. O maior potencial do ensino de História nessa fase é contribuir para localizar a criança no seu contexto e, assim, torná-la capaz de se reconhecer como ser humano dentro de um sistema de relações sociais que foi formado ao longo do tempo. Com este livro, as professoras Maria Belintane Fermiano e Adriane Santarosa dos Santos mostram como é possível desenvolver nas aulas de História atividades que articulem as diretrizes dos PCNs, materiais e suportes diversos e o respeito à realidade dos alunos. Unindo teoria e prática, as autoras apresentam, com base em exemplos reais, uma série de ferramentas de ensino para que todos os professores de História que desejam encontrar soluções criativas para o trabalho em sala de aula. Este livro consta na Biblioteca Virtual Pearson que você tem acesso através de seu AVA. Cibercultura Pierre Lévy Editora: 34 Sinopse: o que é a cibercultura? Que movimento social e cultural encontra-se oculto por trás deste fenômeno técnico? Podemos falar de uma nova relação com o saber? Quais são as mutações que a cibercultura gera na educação e na formação? Quais são as novas formas artísticas relacionadas aos computadores e às redes? Como o desenvolvimento do ciberespaço afeta o espaço urbano e a organização do território? Quais são as implicações culturais das novas tecnologias? Da digitalização à navegação, passando pela memória, pela programação, pelo software, a realidade virtual, a multimídia, a interatividade, o correio eletrônico, etc, este livro apresenta as novas tecnologias, seu uso e suas questões. MATERIAL COMPLEMENTAR O Substituto Ano: 2012 Sinopse: Henry Barthes (Adrien Brody) é um professor de ensino médio, que apesar de ter o dom nato para se comunicar com os jovens, só dá aulas como substituto, para não criar vínculos com ninguém. Mas quando ele é chamado para lecionar em uma escola pública, se encontra em meio a professores desmotivados e adolescentes violentos e desencantados com a vida, que só querem encontrar um apoio para substituir seus pais negligentes ou ausentes. Sofrendo uma crise familiar, Henry verá três mulheres entrando em sua vida e vai começar a perceber como ele pode fazer a diferença, mesmo que isso venha com um alto custo. O Uso de Documentos e a Construção do Conhecimento Histórico A noção tradicional de documento histórico, que compreendia somente documentos ofi ciais, hoje se ampliou bastante. Um depoimento oral, uma fotografi a, um desenho, uma carta ofi cial, ou pessoal, um antigo caderno escolar, etc., hoje podem ser considerados até mais importante que um registro ofi cial, dependendo do caso. Assim, leia o artigo “O USO DE DOCUMENTOS E A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO HISTÓRICO”, disponível em: <http://www.uesb.br/anpuhba/ artigos/anpuh_III/jairo_carvalho.pdf>. Acesso em 5 abr. 2017. Nós da Educação O programa “Nós da Educação” entrevista a professora Marlene Rosa Cainelli, Doutora em História Social pela Universidade Federal do Paraná, abordando o ensino de História, a formação de professores e alternativas para a prática em sala de aula. TV Paulo Freire. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=TWGKFrIRcI0>. (Parte 1 de 3); <https://www. youtube.com/watch?v=BfgP63HRvTQ>. (Parte 2 de 3) <https://www.youtube.com/watch?v=uTamlVmRI8c>. (Parte 3 de 3). Acesso em: 17 abr. 2017. REFERÊNCIAS 133 REFERÊNCIAS ANTUNES, C. A sala de aula de geografia e história: Inteligências múltiplas, apren- dizagem significativa e competências do dia-a-dia. 4. ed. Campinas: Papirus, 2001. ______. Como transformar informações em conhecimento. 3 ed. Petrópolis: Vo- zes, 2005. BITTENCOURT, C. M. F. Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Cor- tez, 2004. ______ O saber histórico na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2004. BLOCH, M. Introdução à História. São Paulo: Publicações Europa-América, 1976. BOURDÉ, G.; MARTIN, H. As escolas históricas. São Paulo: Publicações Europa Amé- rica, 1990. CARDOSO, C. F.; VAINFAS, R. (org). Domínios da História: ensaios da teoria e meto- dologia. Rio de Janeiro: Elsevier, 1997. CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2000. DRUCKER, P. F. Sociedade pós-capitalista. Trad. de Nivaldo Montigelle Jr. São Paulo: Pioneira, 1993. FERRAZ, L. O. M.; CAVALCANTI, V. R. S. História e cinema: Luz, câmera, transposição didática. Revista HISTÓRIA & ENSINO, Londrina, v. 12, ago. 2006. Disponível em: <http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/histensino/article/view/11727/10375>. Acesso em: 12 de janeiro de 2017. FONSECA, S. G. Didática e prática de ensino de História. 4. ed. Campinas: Papirus, 2003. KARNAL, L. História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas. 2 ed. São Pau- lo: Contexto, 2004. LEITE, M. M. Retratos de família: leitura da fotografia histórica. São Paulo: Edusp, 1993. LEVY, P. Cibercultura, 1. ed. São Paulo: Editora 34, 1999. NAPOLITANO, M. A televisão como documento. In: BITTENCOURT, C. (org). O saber histórico na sala de aula. 9. ed. São Paulo: Contexto, 2004. OLIVEIRA, D. Metodologia do ensino de história e geografia: professor-pesquisa- dor em educação histórica. Curitiba: Inter-Saberes, 2012. SERRES, M. Luzes: cinco entrevistas com Bruno Latour. Trad. de Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: Unimarco, 1999. 133 REFERÊNCIAS REFERÊNCIAS ON-LINE 1Disponível em: <http://bitaites.org/fotografia/tres-fotos-mudaram-guerra-vietna- me>. Acesso em: 4 abr. 2017 2Disponível em: <http://rede.novaescolaclube.org.br/planos-de-aula/importancia- -da-arqueologia-na-investigacao-historica>. Acesso em: 4 abr. 2017 GABARITO 135 GABARITO 1.Esta atividade permite a você, caro aluno, exercitar o que discutimos nesta uni- dade, portanto, ela é subjetiva. 2. A segunda atividade também é subjetiva, mas aqui você ainda pode fazer uma pesquisa pela internet para contextualizar o momento e a proposta que a can- ção nos traz. 3. São vários os documentos históricos que podemos utilizar em sala de aula. Al- guns deles são: Documentos Escritos: Expressam ideias, sentimentos e impressões do mundo por meio de registros escri- tos. São subdivididos em oficiais e não oficiais. Ex: a carta de Pero Vaz de Caminha. Documentos Iconográficos (imagens): São utilizados para representar as ideias, objetos, pessoas e suas vestimentas, além dos acontecimentos por meio de imagens, desenhos, pinturas e fotografias. Documentos de cultura material: Os objetos, as roupas, os brinquedos, os monumentos, ferramentas e móveis são fontes valiosas, principalmente se tratando de sociedades que não deixaram regis- tros escritos. Documentos orais: As entrevistas e depoimentos são reconhecidos como fontes históricas. Ex: todo o conhecimento dos indígenas transmitido de geração em geração oralmente (tradi- ção oral). Documentos sonoros: As músicas e os ritmos em geral informam sobre como pensavam os homens de determinada época. 4. Alternativa “B”. 5. Alternativa “D” U N ID A D E IV Professora Me. Priscilla Campiolo Manesco Paixão A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Objetivos de Aprendizagem ■ Discutir o planejamento como ponto de partida de qualquer ação didática, visando à aprendizagem por parte dos alunos. ■ Compreender as diferentes linguagens para o ensino de História. ■ Analisar o Parecer/Lei 10.639/03 – transformada na Lei 11.645 de 2008, que incluiu a temática Cultura Afro-brasileira e Indígena, abrindo possibilidades à edificação da igualdade e da repreensão às atitudes e posturas de discriminação no ambiente escolar. ■ Estudar o processo avaliativo para a disciplina de História, considerando suas características e compreendendo suas especificidades. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Efetivando a aprendizagem: o planejamento como ponto de partida ■ As diferentes linguagens no Ensino de História: uma proposta interdisciplinar ■ Cultura Afro-brasileira e Indígena ■ Avaliação como processo de melhorias da ação docente e discente Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 139 INTRODUÇÃO Autores como Bernard Charlot (1990; 1994), nos alertam sempre, em suas obras, sobre o perigo de se enveredar por uma “mistificação pedagógica”. A diferença ou o abismo, que muitas vezes se abre entre o que se projeta e o que se alcança é flagrante, e a se julgar pelo que afirma Charlot, nas terras fran- cesas ocorre o mesmo fenômeno frustrador que sentimos entre nós brasileiros. Uma das grandes prioridades do mundo intelectual nas últimas décadas tem sido a necessidade de planejar. Planejamento é a primeira atividade, sem a qual nada parece viável em uma atividade pedagógica. Ao propormos o ensino de História como prioridade, precisamos pressupor um método, tal como a melhor receita de Descartes em seu combate à escolástica. O método – entenda-se, o caminho – inclui vários passos, todos eles enca- minhando para um estado de esclarecimento, da dúvida inicial para algumas certezas. Seja pela leitura, pela pesquisa ou outra metodologia qualquer, a aula precisa sempre caminhar em uma direção segura, visando à sistematização do conhecimento tão exigido na atualidade. A sala de aula é o nosso campo de provas e nosso permanente laboratório, onde são testados os procedimentos que podem dar os resultados que pretende- mos em nossa tarefa docente. Lá é onde tudo acontece, e é nesse local privilegiado da relação ensino-aprendizagem que depositamos o melhor de nossas energias, ideias, propósitos e crenças. É também neste espaço que temos a possibilidade de inserir um tema neces- sário e atual: a Cultura Afro-brasileira e Indígena, que precisou ser transformada em Lei para adentrar o ambiente escolar. Por que será que vemos o outro com diferença? Por que omitimos informa- ções sobre nossas origens? Por que a cultura africana e indígena ainda é vista como primitiva? Por que faltam esclarecimentos de como trabalhar a temática em sala de aula? Estas e outras questões serão respondidas nesta unidade, impondo-se também um estudo mais pormenorizado desse momento de educar, fazendo do ensino de História o nosso instrumento e da prática pedagógica a nossa reflexão. A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E140 EFETIVANDO A APRENDIZAGEM: O PLANEJAMENTO COMO PONTO DE PARTIDA Segundo Ruiz (2004, p. 75), “o processo do conhecimento é a grande aventura e o grande desafio que o educador enfrenta quando prepara as suas aulas e quando as desenvolve com os seus alunos”. Em 1996 houve uma conferência, proferida pelo historiador francês François Hartog, o qual dividia a História em três modos de entendê-la e, consequente- mente, entender o papel do historiador. Seriam eles: a história voltada para o passado, a história teológica voltada para o futuro e, por fim, a história do presente. Assim, o primeiro modo seria o modelo clássico proposto por Tucídides e Cícero, os quais entendiam a história como a magistra vita (velha mestra), a qual educaria por meio do passado, preparando nosso caminho para o futuro. O segundo modelo seria o de Chateaubriand, um historiador e escritor fran- cês que viveu no próprio tempo em que escreveu. Chateaubriand, diferentemente dos primeiros, procurava escrever sobre o passado, vislumbrando o futuro e, ao mesmo tempo, tentando entender a Revolução Francesa que acontecia na mesma época. Ele afirmava: “eu escrevia História Antiga e a História Moderna estava a bater em minha porta” (KARNAL, 2004, p. 76). Efetivando a Aprendizagem: O Planejamento Como Ponto de Partida Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 141 O terceiro e último modelo surgiu ao final da Segunda Guerra Mundial, quando o presente tornou-se mais importante que o futuro. Segundo Hartog (1996), o que temos experimentado no Ocidente ao longo do século XX é uma ênfase crescente no presente enquanto tal. Portanto, fica a pergunta: como nós, professores de História, devemos encaminhar nossas aulas de modo que essas sejam significativas aos alunos? (KARNAL, 2004). Para este mesmo pesquisador, a queda do muro de Berlim, em 1989, sim- bolizou o momento de mudança, pois a partir daí foi mais fácil perceber que há muitos pontos de vista sobre o passado, porém narrados de maneiras diferentes. Segundo Rafael Ruiz (2004, p. 77), existem dois princípios para estudar e ensinar História: ■ Edificar o próprio ponto de vista tão explicitamente quanto possível; ■ Realizar sempre uma abordagem comparativa. Desse modo, não devemos ensinar o edifício da História em si, mas sim, ensinar os alunos a edificarem o edifício. Pois, até agora, a História era ensinada como se já houvessem quadros acabados. Ensinar a edificar é o mesmo que levar nossos alunos a construir conceitos e aplicá-los diante das várias situações-problema que a vida impõe. Significa ainda ensinar a selecionar, relacionar, interpretar, compreender e construir argumentos. Enfim, “ensinar a ter uma percepção mais abrangente possível da condição humana,nas mais diferentes cul- turas e diante dos mais variados problemas” (RUIZ, 2004, p. 78). Portanto, o desafio do profes- sor não é saber se isso é possível, mas sim fazê-lo ensinando História e, por esse motivo, o planejamento é um dos primeiros passos para a aprendizagem eficiente e eficaz. Planejar é um processo de busca e equilíbrio entre meios e fins, envolve recursos e objetivos, A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E142 convergindo para a eficácia que se traduz em resultados. O planejamento é um ato reflexivo, que vai da decisão à ação, previsão e racionalização, definindo eta- pas e pressupondo uma avaliação. Segundo Vasconcellos (1995, p. 56), o planejamento curricular é “o processo de tomada de decisões sobre a dinâmica da ação escolar. É previsão sistemática e ordenada de toda vida escolar do aluno”. Desse modo, é evidente que planejar é um dos melhores instrumentos disponíveis aos professores e uma verdadeira bússola para a ação educativa, pois as experiências de aprendizagem implíci- tas e explícitas são programadas para o estudante por meio dos componentes curriculares. Vale lembrar que não devemos entender o planejamento como uma simples tarefa burocrática, ou seja, realizá-lo somente porque a equipe diretiva exige. Muito mais que isto, o planejamento é o momento inicial de qualquer ação docente, pois sempre que acordamos planejamos nossas ações diárias e fazemos planos para o futuro. Na escola não poderia ser diferente. Esse processo de decisão sobre a atuação concreta dos docentes, envolvidos no cotidiano de seu trabalho pedagógico, não deve nunca ser improvisado e, além disso, o professor deve não só conhe- cer os alunos para os quais planeja tais atividades, como também saber sobre o que irá ensinar e como ensinar. Campos e Nigro (1999, p. 99) se dedicam a explicar algo sobre o planejamento de uma unidade didática “de olho na sala de aula”. Seus exemplos são importantes para explicar o que ocorre quando um professor desconsidera as concepções que as crianças têm sobre o assunto abordado e faz um planejamento descuidado, que compromete seus objetivos e torna as unidades didáticas frágeis e a aprendizagem superficial. Efetivando a Aprendizagem: O Planejamento Como Ponto de Partida Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 143 Existem alguns princípios que o professor deve considerar ao planejar. Iniciar novos conteúdos ainda não problematizados, por exemplo, pode não ser a melhor escolha. Conteúdos diferentes precisam ser trabalhados por meio de várias ativida- des, considerando as múltiplas inteligências dos alunos. Embora tais inteligências já foram um tanto criticadas, para nós, sem dúvidas, elas são importantes para atingirmos o foco do aprendizado em cada um de nossos alunos. O contexto no qual a aprendizagem acontece é fundamental para o planejamento. A respeito disso, a atividade de planejar não deve ignorar alguns pressupostos fundamentais para o ensino de História, segundo nossa visão: ■ Os conteúdos não devem ser desligados do mundo, pelo contrário, devem ser contínuos e prosseguir ao longo da vida. ■ Os conteúdos devem considerar os conhecimentos prévios dos alunos, suas experiências cotidianas. ■ A aula deve estar comprometida com o nível cognitivo da turma, nem tão além e nem tão aquém do exigido para a série. ■ As atividades devem desenvolver a autonomia dos alunos. ■ Deve-se considerar a aplicabilidade dos conhecimentos adquiridos na escola. ■ O professor precisa ser flexível com relação a sua ação docente, ou seja, considerar a variabilidade didática. Em 1994, Howard Gardner publicava sua obra “Estruturas da mente: a teoria das inteligências múltiplas”, apresentando as inteligências múltiplas e múlti- plas linguagens nos caminhos do aprendizado. Ele retoma as linhas de ação do aluno sobre o conhecimento. Para ele, são inteligências: Linguística ou verbal; Lógico-matemática; Espacial; Sonora ou musical; Cinestésico-corpo- ral; Naturalista; Pessoais. Fonte: a autora. A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E144 ■ O ensino de História deve ter “lugar” em outros ambientes que não a escola formal, por intermédio de uma pesquisa de campo, nos museus etc. Ainda, em acréscimo, podemos afirmar que a modalidade de ensino que mais tem se afirmado ultimamente é aquela que se vale de trabalhos interdisciplinares. Uma alternativa que vem ganhando forças entre educadores no que tange o planejamento é a perspectiva Histórico-crítica. João Luiz Gasparin propõe uma ação docente-discente, na qual o professor trabalha com o aluno e não pelo aluno. Essa proposta de trabalho pedagógico consiste no uso do método dialé- tico prática-teoria-prática. Em sua obra “Uma didática para a pedagogia histórico-crítica”, de 2002, Gasparin divide a nova didática em cinco passos: prática social inicial; proble- matização; instrumentalização; catarse e prática social final, com o intuito de alcançar um único objetivo: a aprendizagem por parte do alunado. As Diferentes Linguagens no Ensino de História: Uma Proposta Interdisciplinar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 145 AS DIFERENTES LINGUAGENS NO ENSINO DE HISTÓRIA: UMA PROPOSTA INTERDISCIPLINAR Segundo Neto (2004, p. 57), o ato de educar é constante! Desde os fundamentos filosóficos acerca do modo de conhecer até os procedimentos contínuos em sala de aula é comum supor que educadores e educandos se confrontem e questionem sobre as ações e conteúdos trabalhados e aprendidos pelos estudantes. O mundo em contínua transformação, as constantes alterações das diretri- zes e orientações legais, o controle burocrático cada vez mais eficiente, e alunos pouco dispostos a aceitarem o universo escolar como algo útil e aplicável ao seu cotidiano, provocam no educador a necessidade conti- nua de discussão e alteração para que a escola, em sua tarefa de educar, não se esvazie, e com ela, sua própria profissão (NETO, 2004, p. 57). A valorização da educação traz uma ideia de redenção e grandeza, a qual se choca com o que o aluno esperava. Logo quando se passa os anos iniciais do Ensino Fundamental, é comum o aluno se perguntar: por que devo estudar isso? Onde vou usar este conhecimento? Ele é importante? Pois, muitas vezes, os argumen- tos dos professores de que estudar é importante e são fundamentos da civilização são insuficientes e incompreensíveis para os alunos. Para esses, estudar é inútil, A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E146 como afirmou Içami Tiba, em uma de suas palestras, lembrando que os alunos, embora adorem estar na escola, não gostam de estudar. Alguns professores falham na hora de explorar a realidade e descobrir o conhecimento acumulado historica- mente pela humanidade com o aluno. Esse fato ocorre principalmente na disciplina de História, na escolha dos conteúdos, quando o professor valoriza somente o passado. Além disso, a frag- mentação dos conteúdos, dos horários e da estrutura burocrática na escola difi- culta mais ainda esse aspecto. Para alunos atualizados e moder- nos, que têm acesso à internet, explorar significa “navegar”. Já para o aluno excluído desse processo, explorara realidade significa a busca pela sobrevivência no mundo atual, com violência e violação da dignidade e direitos. Assim, para ambos os alunos, “a realidade é mais dinâmica e mais urgente do que a exposi- ção de uma aula” (NETO, 2004, p. 58). Para superar o problema, há a proposta da transversalidade, atrelada aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), que já mencionamos na unidade anterior. A transversalidade apresenta uma proposta que ultrapassa a fragmen- tação dos conteúdos e disciplinas, prevendo um trabalho cujo conheci- mento seja construído em função dos temas e propostas apresentados. Atrelado aos PCNs, publicados pelo Ministério da Educação, onde se pretende obter um referencial de conteúdos das diversas disciplinas, são apresentados temas que devem nortear a elaboração dos objetivos, programas e conteúdos que serão desenvolvidos por professores e alu- nos nas escolas brasileiras (NETO, 2004, p. 59). A partir da análise da realidade brasileira por especialistas, foram propostos cinco temas para a transversalidade na Educação Nacional: ética, meio ambiente, orientação sexual, pluralidade cultural e saúde. Assim, esses temas devem ser referência na prática escolar de alunos do Ensino Fundamental, aproximando-os As Diferentes Linguagens no Ensino de História: Uma Proposta Interdisciplinar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 147 de seus cotidianos e evitando o choque citado acima, entre conhecimentos dos professores e expectativas dos alunos. Pelo fato de os temas ultrapassarem as visões disciplinares dos professores, é proposto três situações de aplicação da transversalidade: ■ Trabalho interdisciplinar: a partir de uma temática em comum, profes- sores de duas ou mais disciplinas trabalham por um período de tempo com o tema indicado, levando em consideração as especificidades de cada uma delas. A dificuldade dessa situação está em unificar o tema a partir da divisão de cada disciplina e suas particularidades. Assim, deve- -se tentar englobar todos na busca de uma compreensão ampla sobre o determinado tema (NOGUEIRA, 1998). ■ Espaço dentro da grade horária: a escola deve reservar uma aula para dis- cussão dos temas da transversalidade. Porém, ao criar este instante, o tema transversal não estará mais ligado às disciplinas tradicionais, trazendo um conhecimento repetitivo e até mesmo descontextualizado, contrariando o princípio da transversalidade. ■ As disciplinas como meios e a transversalidade como fim: apresentando temas que ultrapassam as diferentes áreas do conhecimento, a proposta de trabalho transversal requer uma nova concepção das disciplinas den- tro da escola. ■ Desse modo, não excluiremos uma disciplina ou criamos uma nova, mas mudamos a forma de abordagem das disciplinas atuais. Devemos capacitar nossos alunos para estarem aptos a viverem nestes tempos que se impõem, ou seja, prepará-los para resolver situações-problema por meio da autonomia. Dessa forma, o desenvolvimento dessas capacidades habilitará o estudante a relacionar as informações e instrumentalizá-las na sua leitura de mundo, que por sua vez deverá ser menos preconceituosa e mais plural e ética, conforme os temas propostos pela transversalidade. Para chegar a essa realização, todas as áreas têm compromissos que impli- cam em maior participação no processo de formação dos alunos. No processo de formação de estudantes, alguns menosprezam os saberes tradicionais, como se a presença de formação ética e cidadã significasse a ausên- cia do domínio de conteúdos e das ciências. Outros desprezam as formulações A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E148 feitas ao longo da tradição ocidental em nome de uma discussão atual, correndo o risco de ficar num discurso inconsciente. O professor deve lembrar que o saber não surge espontaneamente, porém é adquirido, produzido e transformado his- toricamente. Para Neto (2004, p. 64), os temas transversais não deverão ser vistos como opositores dos sabe- res clássicos, mas necessidades e questões do presente, de grande im- portância, que não podem ser ignorados pelos educadores. Se o mun- do, a família, os modelos mudaram, faz-se necessário uma nova prática escolar, que atualize e valorize a própria escola e os que nela estão. Não permitir que os temas do cotidiano se façam presentes em sala de aula em detrimento dos grandes feitos do passado, é ignorar a angústia dos alunos e educar com o olho voltado para trás, com um saudosismo in- justificável que significa dizer que as questões de outras gerações foram mais importantes que as da atualidade. A implantação da transversalidade implica alterações no ensino de História, tanto por meio das mudanças didático-pedagógicas e conceituais quanto pelo ato de educar. Os estudantes brasileiros são educados com uma disciplina de História marcada por grandes acontecimentos sequenciais, até chegarmos ao que somos hoje. Essa prática gerou um distanciamento e indiferença ao ensino de História com relação aos estudantes, principalmente nos anos iniciais, criando um senso comum no qual afirma que a disciplina trata-se apenas de coisas antigas, sem conexão com a realidade. Segundo Neto (2004, p. 66), a inserção dos temas transversais deve ser considerada nesse contexto de questionamento aos procedimentos escolares. Alterar a compreen- são de que a disciplina não é um fim em si mesma, mas um meio de chegar a outros objetivos, refletindo e atuando na educação de valores e atitudes dos alunos e cidadãos, é condição fundamental para renovação do ensino. Deve-se abandonar a visão do conhecimento específico da disciplina, sem abrir mãos dos repertórios e recursos de cada área de conhecimento, e, ao mesmo tempo, incorporar o papel de formação exercido pelo educador, tratando de temas e questões que ultrapassam o conteúdo programático, por meio dos temas transversais. A busca da compreensão da realidade e a efetiva participação do indivíduo a partir de dados e noções relativos ao seu cotidiano, ao seu universo, fazem com que a escola passe a ser considerada como um, espaço de conheci As Diferentes Linguagens no Ensino de História: Uma Proposta Interdisciplinar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 149 mento e reconhecimento, onde por intermédio das diversas disciplinas e de sua nova abordagem o aluno seja capaz de ver e vislumbrar-se como construtor de sua própria história. Dessa forma, o ensino de História deve ser realizado de acordo com os temas propostos pela escola, a fim de se tornar presente e capaz de dizer sua função no processo escolar. Dois são os procedimentos utilizados no ensino de História: ■ A divisão em períodos da História: História do Brasil, História Geral ou da América. ■ A divisão por temas, como a organização do trabalho, industrialização, formação de cidades e a vida urbana. Em ambos os processos, pode-se trabalhar com os temas transversais. A proposta de renovação e de visão da História, que supere a divisão cronológica, aponta para o segundo procedimento como o mais adequado para o ensino transversal. Podemos, a partir das discussões, apontar algumas primeiras conclusões sobre o tema. O ensino é algo dinâmico e necessita se adaptar à realidade dos alunos. Dessa maneira, o professor pode e deve renovar e modificar o ensino de História. A seguir, são citados alguns pontos que resumem a proposta de trabalho com os temas transversais:■ Valorizar o aluno e seu universo. ■ Estimular a oralidade, a produção textual e análise de documentos. ■ Selecionar o que falar e como falar para que o aluno possa fazer a articu- lação entre sua individualidade e a história coletiva. Você é adepto a um ensino transversal? Como faria para que isto se tornasse vivo em suas aulas? A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E150 ■ Saber identificar o esgotamento ou a necessidade de aprofundamento de um tópico, pela maturidade, envolvimento e proximidade com o que é vivido pelos alunos, devendo estar atento ao ritmo dos mesmos. ■ Expor ao aluno o que se ensina, por que se ensina e aonde quer chegar, para que eles reajam e discutam em torno desses mesmos objetivos. ■ Dar a dimensão que o conhecimento histórico é um meio para com- preender o mundo, as questões da atualidade, suas origens, as diversas respostas e explicações para um determinado fato, levando o aluno a ver que há diversas explicações para uma mesma realidade devendo abrir-se para ouvi-las e questioná-las (NETO, 2004). Nilbo Ribeiro Nogueira (1998) faz uma interessante distinção, que merece nossa atenção, ao discutir sobre os termos multidisciplinaridade, pluridisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. A multidisciplinariedade, segundo ele, acontece quando há integração de diferentes conteúdos de uma mesma disciplina. O professor de História pode tratar de temas como a escola, integrando-os ao contexto da cultura. Na pluridisciplinaridade, existem sinais de uma cooperação entre as disci- plinas, ainda que pequena. Exemplo típico, segundo Nogueira (1998), é quando trabalhamos com um mesmo tema nas diferentes disciplinas. Já na interdisciplinaridade, a tônica é o trabalho de integração dos diferen- tes áreas do conhecimento. As diferentes disciplinas não aparecem isoladas, visto que a dinâmica conduz à unificação. Neste momento, se propõe um sistema sem fronteiras, em que a integração chega a um nível tão alto que é impossível dis- tinguir onde começa uma disciplina e termina a outra. Segundo Nogueira (1998), este nível beira a utopia. Ademais, Ivani Fazenda (1995, p. 31), concordando com ele, considera o nível transdisciplinar “o mais alto das relações iniciais nos níveis multi, pluri e interdisciplinares”. É assina- lado, porém, que isso se trata de uma utopia, por apresentar uma incoerência básica. E explica: “a própria ideia de uma transcendência pressupõe uma instân- cia científica que imponha sua autoridade às demais, e esse caráter impositivo da interdisciplinaridade negaria a possibilidade do diálogo, condição sine qua non para o exercício efetivo da interdisciplinaridade”. As Diferentes Linguagens no Ensino de História: Uma Proposta Interdisciplinar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 151 Para Nogueira (1998), é importante refletir sobre a postura do professor, visto que ela norteará os trabalhos de caráter interdisciplinar. Ele acredita que não basta ter vontade de praticar a interdisciplinaridade, mas deve haver tam- bém uma vontade política que supere o mero discurso e assuma uma atitude concreta, principiando por romper com velhos paradigmas. Isto porque há que se presumir que o aluno já é possuidor de um “espectro de competências, ávidas por serem desenvolvidas” e que a centralização nos con- teúdos não é superior “às vivências, à interação social e todos os demais fatores essenciais à construção do conhecimento” (NOGUEIRA, 1998, p. 31). A postura de aceitação do novo não deve, no entanto, partir de um único ou de poucos dentre os professores que trabalham com a mesma série, isso quando não é um único docente que trabalha com todas as disciplinas. A grande difi- culdade consiste em formar uma equipe, chegar ao consenso, superar a fase dos sujeitos isolados e terminar com uma divisão de tarefas que permita os bons resultados, como resultado dos projetos interdisciplinares. Uma boa proposta de trabalho é a união entre o ensino de Língua Portuguesa e de História. Nas aulas de Língua Portuguesa, o professor propõe a leitura de lite- ratura infantil ou mesmo de paradidáticos que tratem de temas relativos à História. Vale ressaltar que, enquanto os livros de literatura infantil se preocupam apenas em contar uma “história”, os paradidáticos visam oferecer informação ao leitor. Neste sentido, esses materiais são uma ferramenta adicional que o profes- sor pode e deve utilizar em suas aulas, para que se tornem atrativas e produtivas aos olhos dos alunos. Mesmo quando o autor destes paradidáticos faz uso de uma pequena história para ilustrar o contexto, ela é sempre um pretexto para facilitar a compreensão do assunto de determinada área do conhecimento. No entanto, o texto expositivo não deve se restringir meramente à transmis- são de informações. Isso porque, no mundo atual, ocorreu uma incrível mudança com a crescente ampliação do campo do saber e o avanço da tecnologia, sobre- tudo no setor das comunicações, o que tornou a informação bastante acessível. Por isso mesmo, o leitor precisa ter condições de selecionar essas informações e de lançar sobre elas um olhar crítico, o que só é possível com o desenvolvimento da autonomia do pensar e do agir. A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E152 A formação desse leitor autônomo supõe que a informação seja contextuali- zada: que parta do que é familiar ao aluno e, ao final, retome a realidade vivida, para que não se reduza a abstrações, mas adquira sentido vital. O conhecimento contextualizado, inserido nas situações vividas, deixa de ser passivo, como acontece com o saber acabado e recebido de fora. De fato, quando o aluno consegue identificar os problemas e conflitos da realidade, tudo o que aprende adquire novo sentido para sua vida. Assim, o conhecimento deixa de ser uma aventura apenas intelectual, porque se encontra enriquecimento por contornos afetivo e valorativo. O saber incorporado ao vivido é uma condição importante para a forma- ção integral do aluno, pois estimula a atitude crítica e responsável, preparando-o para se tornar um cidadão ativo na sociedade, membro integrante da comuni- dade e possível agente transformador. HISTÓRIA E LITERATURA Esta relação que podemos estabelecer entre literatura e História merece destaque nos últimos anos, por meio de estudos aproximando as duas áreas. Essa aproxi- mação, pouco valorizada até a algum tempo atrás, oferece novas possibilidades de trabalho aos professores polivalentes, como é o caso dos pedagogos que atuam da Educação Infantil aos anos iniciais do Ensino Fundamental. Para estabelecer esta relação, é preciso “quebrar” as fronteiras entre o dis- curso histórico e o discurso literário, sistematizando alguns elementos e propondo novas formas de trabalho, principalmente nas salas de aula dos anos iniciais do Ensino Fundamental, no momento da “hora do conto” em que, normalmente, a professora da turma reúne seus alunos para ouvirem contos de fadas, lendas, histórias infantis atuais ou obras de literatura infantil. Desse modo, propomos que haja um trabalho conjunto, promovendo articulações entre o discurso lite- rário e o histórico, problematizando as características das narrativas histórica e literária. Para Seffner e Bicca Jr. (2002, p. 65), As Diferentes Linguagens no Ensino de História: Uma Proposta Interdisciplinar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 153 reconhecer que a escrita histórica toma a forma da narrativa e partilha com outras narrativas, inclusive as ficcionais, numerosas características em co- mum, pode significar ameaça ao próprio estatuto científico da narrativa histórica, trazendo a percepção de que as fronteiras entre história e lite- ratura apresentam contornos pouco nítidos (SEFFNER; BICCA JUNIOR, 2002, p. 65). Isto porque “a história foi por longo tempo considerada um ramo da retórica - a arte de bem dizer- modalidade esta que admitia a proximidade entre ela e as manifestações literárias em geral (HICKMANN, 2002, p. 65). A aparente confusão entre História e literatura que hoje em dia parece existir, se resolve melhor se o professor puder trabalhar ambos os discursos conjunta- mente na sala de aula, destacando proximidades e diferenças, concordâncias e discordâncias, para que o aluno possa perceber características do pensamento científico. Como forma de representação do mundo das relações sociais, a nar- rativa traz, inevitavelmente, para o corpo da ciência, a figura ativa do sujeito. Reconhecer a história como discurso narrativo é reconhecer a presença do sujeito no ato da formulação cientifica. Negar à narrativa legitimidade de representação do mundo real é retificar o projeto de uma ciência sem sujeito. Uma história sem sujeito, centrada no objeto, prefiguraria o ideal cientifico do positivismo, do estruturalismo e quem sabe até dos pioneiros de uma filosofia da história no sentido preciso de um “telos” que amarraria vontades e instintos às leis gerais objetivas que determinam as relações sociais (BOMENY, 1990, p. 92 apud HI- CKMANN, 2002, p. 67). Dessa forma, tratar do problema da narrativa, abordando a figura do autor, é algo que pode ser feito logo nos anos iniciais, na hora do conto. A História e a literatura são formas de conhecer o mundo por meio da nar- rativa, e sua apresentação desde cedo às crianças trará intimidade com elementos típicos da narrativa, tais como: enredo, trama, personagens, ação, contexto etc., facilitando, assim, a compreensão da criança aos dramas sociais vividos, dando-lhes capacidade de interferência neles, além de desenvolver na criança competências de leitura, escrita e leitura histórica do mundo. A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E154 Convém destacar que ambas as matérias narraram o mundo de formas diferen- tes, pois enquanto a literatura trabalha com a convenção da ficcionalidade, a história trabalha com a convenção da veracidade. Se adotarmos o modo de ver as coisas “ao pé da letra” como tratavam filó- sofos e teóricos das ciências sociais até o início do século XIX, que acreditavam que o fato real não se reduzia a si mesmo para constituir a “verdade”, e esta, por sua vez, seria alcançada no momento em que se integrasse a um “conceito”, for- mando o “discurso”, teremos problemas ao trabalhar História e literatura, tendo em vista que, ao considerarmos a ficção como “o que não é verdade”, teremos o obstáculo da compreensão da realidade. Devemos considerar equivocada uma pessoa que busca desqualificar uma obra de arte, procurando nela erros históricos. A obra literária é totalmente fic- cional ou artística, mas também é totalmente histórica. De acordo com Seffner e Bicca Junior (2002, p. 68), “analisada pelos olhos da história, uma obra de fic- ção deixa perceber pistas e pegadas históricas que existem dentro dela”, podendo proporcionar um debate em sala de aula. Muitas obras literárias influenciam até hoje gerações, sendo considerados documentos históricos de tal época. As Diferentes Linguagens no Ensino de História: Uma Proposta Interdisciplinar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 155 Houve um tempo, não muito longínquo, em que a maioria dos historia- dores profissionais desconfiavam da escrita elegante como se existisse algo de imoral em tentar atrair os leitores oferecendo-lhes mais do que ‘os fatos’, servido sem nenhum ornamento, como a comida inglesa. Fe- lizmente na França e em outros lugares, alguns dos melhores historia- dores em atividade hoje se destacam também como escritores – mesmo se não encaram a história como forma de ficção (BURKE, 1998, p. 3). A hora do conto ou hora da história, como muitos professores enfatizam, é uma metodologia que propõe atividades a partir da relação entre História e litera- tura. As obras literárias, em geral, são abordadas a partir de um roteiro original, dividido em quatro tópicos, que permitem estabelecer relações entre o ficcio- nal e o histórico: ■ Descrever e analisar situações presentes na narrativa literária, aprofun- dando a compreensão através de pesquisa histórica. ■ Caracterizar os personagens ficcionais, como profissão, aproximando os com personagens históricos. ■ Perceber e analisar os espaços ficcionais, como castelo, floresta. ■ Perceber a crítica ideológica presente na literatura, analisando as falas, tanto do narrador quanto dos personagens (HICKMANN, 2002, p. 69). Ao final, deve-se aprofundar uma análise mais ampla da obra, com elementos históricos e literários. Assim, o objetivo da metodologia não é o de corrigir as obras literárias de seus erros históricos, mas sim, estabelecer uma narrativa histórica que segue e comenta as cenas descritas na literatura, até mesmo apontando divergências entre o ficcional e o histórico, no intuito de problematizar os diferentes cami- nhos de produção das narrativas. Deve-se, portanto, escolher uma narrativa rica em cenas que possam ser comentadas a partir de um ponto de vista histórico, fazendo com que a narra- tiva histórica preencha algumas lacunas que possam existir, como, acrescentar informações a respeito de um determinado personagem histórico, permitindo que o aluno se familiarize com conceitos como tempo, cultura, história, iden- tidade, memória, guerreiro, cavaleiro, dinastia, casamento, cidade, passado, A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E156 presente, futuro etc., conceitos esses que lhes serão úteis quando estudarem a disciplina de História na sua totalidade e especificidade. Para Seffner e Bicca Junior (2002, p. 70), o trabalho de história sobre as literaturas infantis orienta-se no sentido de recuperar os elementos históricos dispersos pelo texto, e aprofundá- -los com leituras complementares, feitas pela professora e depois trans- mitidas aos alunos através de contação de histórias, do uso de gravuras, da leitura de pequenos textos, etc. configurando a ‘hora da leitura.’ Desse modo, podemos verificar as profissões que aparecem na literatura, em que, por exemplo, o povo trabalha, o clero reza e os nobres guerreiam. Ainda podemos analisar os costumes do cotidiano, como: o que os personagens comem, quais objetos possuem em suas casas, quais animais possuem, quais os meios de loco- moção, onde moram etc. além da estrutura familiar, como o papel da madrasta, localizando-os no tempo e no espaço. Além disso, as gravuras e ilustrações também merecem destaque, conside- rando sua importância para análise da obra. Podemos utilizar gravuras de épocas, como as presentes em literaturas infantis clássicas, ou imagens atuais, refletindo sobre o modo com que o ilustrador interpretou as situações e os personagens presentes na obra. Além do mais, pode-se fazer uma comparação entre essas gra- vuras com as gravuras históricas relacionadas ao mesmo tema. A produção de uma aprendizagem significativana aula de História é dada pela capacidade de analisar situações históricas pelo aluno. E, assim, uma obra literária fornece várias situações históricas, tanto do passado quanto do presente. Para Seffner e Bicca Junior (2002, p. 72), o ensino da história é um ensino de situações históricas [...] é a partir de questões do mundo de hoje que o professor orienta seus alunos no estudo de situações do passado [...] nesta medida torna-se importan- te orientar o aluno a verificar recorrências, mudanças e permanências dentro de cada situação estudada. A partir de fragmentos históricos contidos na literatura infantil e de outras infor- mações, montamos uma história complexa, trazendo aprendizagens significativas em sala de aula, visto que essa é nossa proposta. As Diferentes Linguagens no Ensino de História: Uma Proposta Interdisciplinar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 157 Nos momentos do professor contar histórias a seus alunos, é possível orien- tá-los a identificar elementos históricos presentes na literatura, associando com a realidade da época em que a obra foi escrita. Seffner e Bicca Junior (2002) nos lembram que é possível perceber a atualidade de alguns dramas sociais apresen- tados pelas histórias infantis, e que justamente contribuem para garantir suas permanências como clássicos na literatura, como é o caso do clássico Chapeuzinho Vermelho. Neste exemplo, podemos estabelecer um comparativo, destacando diferenças e semelhanças entre como a história era, no tempo que foi narrada, e como seria hoje. O que substituiria o lobo mau, a floresta, a menina que levou os doces para a vovozinha, etc. ■ Uma vez selecionada a obra, os procedimentos de trabalho envolvem a coleta das diferentes edições e versões do conto disponíveis em língua portuguesa. ■ Leitura e interpretação dos textos, identificando diferenças relevantes entre as várias edições. ■ Identificação dos elementos característicos, tanto no aspecto histórico (a divisão da herança, a vida dos camponeses, o casamento de interesses etc.) como no aspecto cultural- simbólico (o castelo, o gato, as botas etc.). ■ A pesquisa histórica acerca dos elementos selecionados, permitindo mon- tar um roteiro de questões para discussão com as crianças. ■ Elaboração de um texto apresentando os resultados da pesquisa histórica. ■ Seleção e análise das ilustrações, identificando os aspectos históricos nelas presentes, identificando diferenças e recorrências entre as gravuras das diferentes edições. ■ Comparação de aspectos discordantes nas diferentes versões do conto. ■ Construção de roteiro de atividades para o trabalho em sala de aula (SEFFNER; BICCA JUNIOR., 2002, p. 73). A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E158 Fonte: Fatos Desconhecidos (2014, on-line)1. HISTÓRIA EM QUADRINHOS Um recurso didático que as crianças adoram e que pode ser usado também para estudar conteúdos de História é a utilização das Histórias em Quadrinhos. É fundamental que o professor selecione bem as HQs que serão utilizadas na aula. Por sua grande variedade, a seleção deve ser feita tendo em mente o obje- tivo da aula e atentando para os temas e a linguagem da história em quadrinhos, bem como para o grau de desenvolvimento dos alunos e a faixa etária. Para os primeiros anos do ensino fundamental, os alunos começam a socializar-se mais e a ter mais atenção ao ambiente, identificando características de pessoas e gru- pos. Dessa forma, podem ser apresentadas diferentes HQs e incentivá-los a fazer trabalhos que incorporem essa linguagem. As HQs podem ser utilizadas para complementar as aulas de história, por exemplo, com os conceitos das dimensões do tempo. No recordatório, que é um texto que contextualiza as ilustrações para o leitor nas HQs, em que “se lê ‘mais tarde... ’ ou ‘logo depois… ’ [no quadrinho] pode ser um exemplo de sucessão, e aquele em que se lê ‘enquanto isso… ’ pode facilitar ao aluno a percepção da As Diferentes Linguagens no Ensino de História: Uma Proposta Interdisciplinar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 159 ideia de simultaneidade” (COSTA, 2012, p. 133). Além disso, os elementos visu- ais que compõem as HQs também podem ser utilizados para ilustrar a reflexão acerca da noção de tempo. Por exemplo, o anoitecer ilustrado pela lua indica o tempo da natureza, um personagem saindo do escritório indica o término do expediente do trabalho. Costa (2012) aponta três maneiras para utilizar os quadrinhos especifica- mente nas aulas de história: 1. Ilustração dos aspectos da vida social de outras épocas – para esse caso, são selecionados os quadrinhos “históricos”, cuja criação se deu posterior- mente à época representada. São ficções históricas que podem fornecer informações sobre o período em que a história é ambientada. 2. Registro da época em que os quadrinhos foram produzidos – nesse caso, os quadrinhos são um registro do próprio período em que foram produzidos. 3. Introdução de conceitos históricos – para essa finalidade, Costa (2012) cita a obra As aventuras de Conan. Apesar de estar ambientada em lugares e épocas imaginárias, tem inspiração em civilizações da Antiguidade, o que pode ser um ponto de partida para a discussão dos conceitos de civi- lidade, barbárie, Estado, império, expansionismo etc. no mundo antigo. A ATIVIDADE LÚDICA A atividade lúdica, por intermédio de jogos e brincadeiras é também de fun- damental importância, uma vez que possibilita o desaparecimento da fronteira entre o trabalho, que é obrigatório e exige esforço, e o divertimento, prazeroso e alegre, levando os alunos a se envolverem, arriscarem, interessarem e aprende- rem com satisfação, prazer e autoconfiança. Os jogos utilizados com fins didáticos devem apresentar regras criadas pelo professor ou juntamente com os alunos para trabalhar determinadas habilidades, atitudes, conteúdos e valores. Deve ser uma atividade orientada na qual a criança utiliza-se do faz de conta, que é próprio das brincadeiras e da recreação, em que o aluno é espontâneo e tem autonomia para imaginar e A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E160 desenvolver atividades em que, geralmente, não há interferência do professor. Além disso, o lúdico deve proporcionar maior socialização e integração entre o grupo de alunos e entre professor aluno e, acima de tudo, o estabelecimento de valores que venham a contribuir na formação de cidadãos responsáveis, críticos e construtores de um mundo melhor. São inúmeras as vantagens dos jogos educativos que envolvem aspectos motores, afetivos, morais e sociais. Cabe ao professor utilizar os jogos que deem oportunidades aos alunos para desenvolverem esses aspectos que estão, na rea- lidade, interligados. As Diferentes Linguagens no Ensino de História: Uma Proposta Interdisciplinar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 161 Uma possibilidade é a brincadeira do gato e rato. Nessa brincadeira, os ami- gos fazem uma roda, dando as mãos. Alguém tem de ser o rato e ficar dentro da roda. Outra pessoa é o gato e fica do lado de fora. O gato pergunta e a roda responde: -O senhor rato está em casa?-Não! - A que horas chega? -Às cinco horas! A roda, então, começa a girar, contando as horas combinadas. Quando terminar, solta os braços, mas mantém a posição. O gato entra na roda para pegar o rato. O gato e o rato podem entrar e sair da roda, correndo. O gato tenta agarrar o rato, que foge do gato o quanto pode. Quando o rato é preso, recomeça o jogo. Quem foi o rato é o gato na vez seguinte. Outra pessoa da roda é o rato. Esta possibilita desenvolver a noção de tempo, bem como permite a sociali- zação entre outros. Para conhecer algumas brincadeiras, a Revista Nova Es- cola reuniu uma série de brincadeiras de todas as regiões do Brasil. Acesse o link e confira: <http://acervo.novaescola.org.br/brincadeiras-regio- nais/> Fonte: Autora A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E162 CULTURA AFRO-BRASILEIRA E INDÍGENA Diferentes culturas e modos de vida sobrevivem lado a lado no território brasi- leiro. Quais reações tem provocado o encontro dessas culturas? Como cada um de nós interpreta o outro, o desconhecido? Leia a canção a seguir, escrita pelos compositores e estudiosos da cultura popular Antonio Nóbrega e Wilson Freire, que procura reproduzir a impressão dos habitantes do território brasileiro na chegada dos portugueses (CABRINI; CATELLI; MONTELLATO, 2009). CHEGANÇA Sou Pataxó, sou Xavante e Cariri, Ianomâmi, sou Tupi, Guarani, sou Carajá, Sou Pancaruru, Carijó, Tupinajé, Potiguar, sou Caeté, Ful-ni-ô, Tupinambá, Depois que os mares dividiram os continentes, Quis ver terras diferentes. Eu pensei “vou procurar um mundo novo, lá depois do horizonte, levo a rede balançante pra no Sol me espreguiçar”. Eu atraquei num porto muito seguro, céu azul, paz e ar puro... Botei as pernas pro ar. Logo sonhei que estava no paraíso, onde nem era preciso dormir para sonhar. Cultura Afro-Brasileira e Indígena Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 163 Mas de repente me acordei com a surpresa... Uma esquadra portuguesa veio na praia atracar Da Grande-nau, um branco de barba escura, vestindo uma armadura me apontou pra me pegar. E assustado dei um pulo lá da rede, pressenti a fome, a sede, Eu pensei: “Vão me acabar”. Me levantei de broduna já na mão. Aí, senti no coração, o Brasil vai começar. (NÓBREGA; FREIRE, 1997) Na primeira unidade do nosso material didático, foi abordado que a ciência his- tórica procura compreender a cultura das sociedades. Nosso Brasil é rico tanto em extensão quanto em culturas e sociedades. Na canção acima, é possível per- ceber, por exemplo, que mesmo se tratando de indígenas há várias tribos, cada qual com seus costumes, crenças, etc. Para tratar da temática, buscamos como referência o antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro. O antropólogo Darcy Ribeiro (1913-1997) foi um dos maiores intelectuais brasileiros do século XX. Em um passeio pela internet é possível encontrar vários vídeos, que mostram os programas da série baseada na obra central de Darcy: O Povo Brasileiro, em que o autor responde a questão “quem são os brasileiros?”, investigando a formação do nosso povo. Coproduzida pela TV Cultura, a GNT e a Fundar, a série conta com a participação de Chico Buarque, Tom Zé, Antônio Cândido, Aziz Ab´Saber, Paulo Vanzolini, Gilberto Gil, Hermano Vianna entre outras personalidades. O Povo Brasileiro é uma recriação da narrativa de Darcy Ribeiro, e discute a formação dos brasileiros, sua origem mestiça e a singulari- dade do sincretismo cultural que dela resultou. A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E164 Se buscarmos uma definição universal sobre cultura, chegaremos a Edward B. Tylor (1832 – 1917), que a definiu como sendo o conjunto complexo de conhe- cimentos, crenças, arte, moral e direito, além de costumes e hábitos adquiridos pelos indivíduos em uma dada sociedade. Tal conceito se faz importante para compreendermos porque cada um tem uma visão de mundo, avalia determinado assunto sob certa ótica, nasce e con- vive em uma classe social, pertence a uma etnia, etc. Todas estas são condições que nos levam a pensar na diversidade cultural e, consequentemente, na alte- ridade, isto é, no outro ser humano, que é igual a cada um de nós e, ao mesmo tempo, diferente. Se nos remetermos especificamente à cultura brasileira, muitos foram aque- les que tentaram determinar e entendê-la em suas múltiplas dimensões. Mas, é certo que, embora com diferentes posições ideológicas e política, a grande maioria concorda com o fato de que a característica marcante desta cultura é a pluralidade cultural, o que é resultado do processo histórico-social e das dimen- sões continentais de nosso imenso território. Desse modo, acredita-se que não há somente uma cultura brasileira, mas sim várias culturas inseridas em uma, fruto da multiplicidade étnica de sua concepção. No Brasil, a miscigenação e a diversidade multicultural da sociedade foram constituídas em suor e trabalho não remunerado de indígenas e africanos, que receberam como fruto de seu esforço físico a segregação e os maus-tratos. Foram séculos de dívida que marcaram nossa história, comemorada no dia 20 de novembro. Você já assistiu a um vídeo do Darcy Ribeiro? Que tal assistir antes de dar- mos continuidade às nossas discussões? Cultura Afro-Brasileira e Indígena Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 165 Trazendo a problemática para o âmbito Educacional, percebemos que ela também ficou relegada a um modelo eurocêntrico, como afirma Nascimento (1978, p. 95): o sistema educacional [brasileiro] é usado como aparelhamento de controle nesta estrutura de discriminação cultural. Em todos os níveis do ensino brasileiro – elementar, secundário, universitário – o elenco das matérias ensinadas, como se se executasse o que havia predito a fra- se de Sílvio Romero constitui um ritual da formalidade e da ostentação da Europa, e, mais recentemente, dos Estados Unidos. E o autor prossegue indagando: se consciência é memória e futuro, quando e onde está a memória afri- cana, parte inalienável da consciência brasileira? Onde e quando a his- tória da África, o desenvolvimento de suas culturas e civilizações, as características, do seu povo, foram ou são ensinadas nas escolas brasi- leiras? Quando há alguma referência ao africano ou negro, é no sentido do afastamento e da alienação da identidade negra. Tampouco na uni- versidade brasileira o mundo negro - africano tem acesso. O modelo europeu ou norte-americano se repete, e as populações afro-brasileiras são tangidas para longe do chão universitário como gado leproso. Falar em identidade negra numa universidade do país é o mesmo que pro- vocar todas as iras do inferno, e constitui um difícil desafio aos raros universitários afro-brasileiros (NASCIMENTO, 1978, p. 95). DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA No dia 20 de novembro, comemora-se o Dia da Consciência Negra. Nesse dia, várias cidades fazem opção pelo feriado – ele é facultativo, contudo, nas escolas brasileiras é data oficial do calendário. A data faz menção ao dia em que foi assassinado, no ano de 1695, o líder Francisco Zumbi, do Quilombo dos Palmares, herói e um dos principais símbolos da resistência negra à es- cravidão. Fonte: a autora A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do CódigoPenal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E166 Este cenário de discriminação cultural passou a ser repensado com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394/96, e mais especificamente com o advento do Parecer/Lei 10.639/03 – transformada na Lei 11.645 de 2008, que incluiu a temática indígena – abrindo grandes possibilidades no que diz respeito à edificação da igualdade e da repreensão às atitudes e posturas de discrimina- ção no ambiente escolar. A Lei 10.639 é de autoria de Esther Grossi, promulgada pelo então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em 9 de fevereiro de 2003. Ela incluiu no currículo oficial dos estabelecimentos de Ensino Básico das redes pública e privada a obrigatoriedade do estudo da temática história e cultura africana e afro-brasileira. Ferreira (2005, p. 1) expõe sobre o conteúdo da Lei: de acordo com a lei, o conteúdo programático das diversas disciplinas deve abordar o estudo de história da África e dos povos africanos, a luta das pessoas negras no Brasil, a cultura negra brasileira e o(a) negro(a) na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à história do Brasil. Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira de- vem ser ministrados no âmbito de todo o currículo escolar e, principal- mente, nas áreas de educação artística, literatura e história brasileira. Esta Lei foi regulamentada por um parecer, homologado em 19 de maio de 2004, que institui as diretrizes curriculares do país para a educação das relações étni- co-raciais e traz direções de como a Lei deve ser colocada em prática. Ela ainda pertence à lista de medidas educacionais que devem ser implementadas pelo governo federal como signatário de pactos internacionais no combate ao racismo. Para Ferreira (2005, p. 1), esta medida “atende uma demanda gerada pelo des- conhecimento, por parte de grande parcela da população brasileira, das questões relativas às sociedades africanas”, de modo especial no que diz respeito às mar- cantes influências do povo africano na formação da sociedade brasileira. O autor entende que este parecer “foi elaborado para contribuir com a efetivação dessa medida de ação afirmativa e estabelecer as diretrizes curriculares nacionais para a educação das relações étnico-raciais e para o ensino da história e cultura afro- -brasileira e africana no país”. A partir de sua homologação pelo Ministro da Educação, esse parecer se cons- tituiu como uma ferramenta para que todo cidadão, especialmente pais, mães, Cultura Afro-Brasileira e Indígena Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 167 estudantes e profissionais de educação, pudessem dialogar com as escolas e todo o sistema de ensino, além de acompanhar e fiscalizar o cumprimento da Lei. Este pare- cer tem força de lei, e deve, portanto, ser utilizado como norma regulamentadora. Ele corrige conceitos e abordagens das políticas de reparações; reco- nhece e valoriza os indivíduos e as ações afirmativas; contextualiza a educação nas relações étnico-raciais; apresenta as determinações para a inclusão da história e cultura afro-brasileiras e africanas e suas impli- cações e repercussões pedagógicas, incluindo a formação do professo- rado. O parecer trata de questões como consciência política e histórica da diversidade, fortalecimento de identidade e de direitos, ações educa- tivas de combate ao racismo e às discriminações e discute o papel dos conselhos de educação em adequar o proposto pela lei, e pelo próprio parecer, à realidade de cada sistema de ensino (FERREIRA, 2005, p. 1). O QUE DIZ A LEI? Transcorremos abaixo o que a Lei vem nos explicitar para então darmos conti- nuidade as nossas discussões: LEI Nº 11.645, DE 10 MARÇO DE 2008. Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei no 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de en- sino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacio- nal decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art. 1o O art. 26-A da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar com a seguinte redação: “Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena. § 1o O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá di- versos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E168 povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o ne- gro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à his- tória do Brasil. § 2o Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o cur- rículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileiras.” (NR) Art. 2o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. Brasília, 10 de março de 2008; 187o da Independência e 120o da Re- pública. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA Fernando Haddad Este texto não substitui o publicado no DOU de 11.3.2008. (BRASIL, 2008, on-line). A necessidade de aprofundar o estudo sobre a questão étnica no Brasil ficou sub- sidiada com a promulgação das Leis n. 10.639/03 e 11645/08, que altera a Lei 9394/96 e torna obrigatória, nos currículos do Ensino Fundamental e Médio em todos os estabelecimentos de ensino do país, a inclusão da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Para Barbosa (2007, p. 1), todo esse legado cultural trazido pelos escravos africanos, ainda permanece, infelizmente desconhecido por boa parte de nossas crianças. A lei federal 10.6931, sancionada em 2003, tornando obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas esco- las de ensino fundamental e médio, público e particular, em disci- plinas como história e literaturas brasileiras, é uma conquista da sociedade e pretende justamente possibilitar que nossas crianças percebam a importância desses valores civilizatórios na sociedade brasileira. Percorrendo sites de editoras do nosso país, vemos a preocupação de adequar- -se à Lei. A editora Ática, por exemplo, explicita em seu meio eletrônico que a demanda que a comunidade afro-brasileira há décadas vem exigindo, cristaliza- -se com essa lei, pois reconhece e exige valorização e respeito às pessoas negras, à sua descendência africana, sua cultura e sua história. Cultura Afro-Brasileira e Indígena Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 169 A editora prossegue afirmando que, historicamente, a política educacional brasileira traz a exclusão já em seu bojo, pois não só o preconceito de classe, mas o preconceito de raça e as propostas curriculares voltadas para as classes popu- lares constituem-se em falácias e fortalecem o mito da democracia racial. Isso porque, na medida em que não inclui a História da África e a cultura afro-bra- sileira nos currículos escolares do país, nossa políticaeducacional não leva em conta a identidade dos negros, não respeita seu modo de ser e pensar o mundo e resiste a considerar a imensa influência que a cultura africana sempre exer- ceu sobre o modo de ser do brasileiro, que possui mais de 40% da população negra e mestiça. Esse segmento, com escolaridade insuficiente e padrão de vida bem abaixo da média, precisa conhecer a história brasileira sob o ponto de vista não dos pseudo vencedores, mas daqueles que realmente foram protagonistas dela. A Lei explicita que não há uma disciplina ou série específica para se traba- lhar com a temática, pois esse tema deverá ser inserido no âmbito escolar nas diversas disciplinas e séries a fim de compreender, valorizar e integrar tal cul- tura a própria cultura brasileira. Contudo, Braga aponta que, embora decorridos quase dez anos da promul- gação da Lei 10.639/04, “verifica-se que há muito para percorrer na trilha da educação igualitária. Houve muita polêmica, e o que se constata é que as esco- las não desenvolvem atividades concentradas no ensino de ‘História da Cultura Afro-Brasileira’”. Continua justificando este fato “pela ausência de material didá- tico-pedagógico apropriado e de formação docente necessária à compreensão da profundidade e importância desse tipo de aprendizagem ou mesmo pela resis- tência pura e simples de alguns setores” (BRAGA, 2009, p. 3). Percebe-se, então, que é necessário incentivo à aplicação da Lei, e não somente sua fiscalização, mas ambas, aplicadas conjuntamente, para resultados mais efetivos na Educação Básica. Isso porque somos herdeiros de um pensamento dominante que exclui a África, seus descendentes e os povos indígenas da pró- pria história do Brasil, que foi oficializada pela versão lusitana. Mas Ki-Zerbo (1982, p. 28) entende que é preciso resgatar essas histórias e inseri-las no contexto escolar, por meio de atividades pedagógicas reflexivas e compro- metidas com fontes históricas ou documentos escritos, bem como pela tradição oral. A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E170 Porém, faz-se necessário compreender que existem problemas de acesso às fontes para os estudos históricos. A maioria delas foi apagada pela ação do tempo e humana, e em decorrência do jogo de interesses em cada período da história. A dinâmica histórica e os interesses em disputa em cada momento permitem ou impedem a sobrevivência das fontes e sua organização, bem como sua distri- buição no tempo e no espaço. Além destes fatores, a história destes povos possui fontes históricas fragmentadas, geralmente encontradas muito dispersadas. O Centro de Referência Virtual do Professor (2011, p. 1) explica que: a história da África não nos permite pensar numa homogeneidade de experiências históricas do continente, mas num complexo mosaico de experiências simultâneas em diferentes pontos do continente e não raro díspares. Outra questão importante para o estudo da história afri- cana e para análise das fontes é a interdisciplinaridade. Para se estudar a cultura afro-brasileira e indígena, além de inseri-la no ambiente escolar, é necessário unir diversas áreas de conhecimento. Além disso, é impor- tante que as informações sejam expostas do ponto de vista africano e indígena, e não atrelado a padrões eurocêntricos. Atualmente, o professor pode recorrer a vários contos africanos reunidos em obras paradidáticas ou de literatura. Uma das pessoas que contribuiu imensa- mente com o saber africano no Brasil é o escritor e contador de histórias Rogério Andrade Barbosa que, ao morar no continente, teve conhecimento de diversos contos, mitos e lendas, por meio de grupos étnicos africanos, e pôde então escre- ver vários livros didáticos para crianças e jovens. A oralidade constitui-se como um organismo que promove a compreensão e assimilação, neste caso específico, da identidade cultural africana. Assim, “o estudo das fontes linguísticas – em sua dispersão e compreendidas como fontes em constante mutação – muito contribui para compreensão das transformações culturais e sociais pelas quais passaram as sociedades africanas” (CENTRO DE REFERÊNCIA VIRTUAL DO PROFESSOR, 2011, p. 1). O Centro de Referência Virtual do Professor (2011, p. 1) ainda exalta a arque- ologia, especialmente enfatizando a cultura africana: a arqueologia é uma ciência que estuda a história através da análise de objetos e vestígios considerados testemunhos da existência humana em Cultura Afro-Brasileira e Indígena Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 171 algum ambiente. Esses objetos e vestígios podem ser variados, como ossos, peças feitas de osso, cerâmicas, artefatos em ferro, vidro, metal e pedraria, além de pegadas, rastros e outros. Na África, a arqueologia já ofereceu aos estudiosos muitos indícios acerca da existência de socie- dades antigas, as mais antigas do planeta. Há também vestígios de so- ciedades organizadas, muitas delas com sofisticada capacidade artística e técnica, como é o caso de comunidades da região de Ifé, Oió e Benin, além do Egito Faraônico (CENTRO DE REFERÊNCIA VIRTUAL DO PROFESSOR, 2011, p. 1). Quando se discute com estudantes a respeito das fontes mais utilizadas no pro- cesso de construção da história de um povo, no caso, o africano, é interessante introduzir os assuntos da espoliação e da dispersão destas fontes, que muitas vezes foram desviadas do continente. Questões instigadoras que levem à reflexão destes processos são muito valiosas, pois forçam a memorizar fatos importantes, por exemplo, no questiona- mento: “Por que será que o Museu do Louvre, em Paris, possui um dos mais ricos acervos de arte africana egípcia? Como estas peças passaram a integrar aquele acervo?”. Dessa forma, há uma multidisciplinariedade no processo educacional. Com esta única questão, retoma-se o contexto das “invasões napoleônicas, no início do século XIX, quando uma quantidade enorme de produções artístico- -culturais egípcias foram levadas para a França, constituindo parte importante do acervo de arte egípcia do Louvre” (CENTRO DE REFERÊNCIA VIRTUAL DO PROFESSOR, 2011, p. 3). No que diz respeito às fontes arqueológicas, embora possuam variedade e riqueza para compreensão da história, não há homogeneidade para seu estudo. Desse modo, faz-se necessário ter em mente a importância da produção artística Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se po- dem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar. (Nelson Mandela) A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E172 e cultural em determinados contextos e, especialmente, das práticas e percepções de mundo conferidas a estes objetos em certas utilizações, ressaltando que “numa determinada sociedade uma estatueta tenha sido produzida para representar o poder de um grupo sobre outro, ou a capacidade de um elemento natural de modificar ou controlar a vida humana” (CENTRO DE REFERÊNCIA VIRTUAL DO PROFESSOR, 2011, p. 3). As danças são riquezas culturais que merecem destaque, visto que há muita influência africana nas danças difundidas pelo Brasil. Até mesmo as criações nacionais possuem raízes africanas. Especialmente na região sudeste do país, há grande pluralidade cultural nas manifestações de dança. O Portal Brasil Escola ([2017], on-line)2 lista alguns tipos de danças folclóricas de origem africana: Batuque – dança de origem africana, do ritual da procissão. É uma festa muito popular nascidades do interior de São Paulo, nas festas do Divino Espírito Santo, ou nas festas juninas. O batuque é dançado em terreiro ou praça pública. Uma fileira de homens fica a 15 metros de distância das mulheres, quando começa a dança, os homens se aproximam das mulheres e encostam suas barrigas por três vezes na companheira. Samba de Lenço – é uma dança de origem africana, ele é sambado no meio urbano (samba de salão), e no meio rural há três modalidades: samba de roda, samba de campineiro e samba de lenço. Festa de Iemanjá – Iemanjá é a mais prestigiada entidade feminina do Candomblé, Umbanda e Macumba. O culto à Iemanjá é realizado na noite de 31 de dezembro para 1° de janeiro. Nesse dia os devotos vão prestar sua homena- gem. Quando a noite vem chegando, milhares de fiéis dirigem-se para a praia, e todos festejam a Rainha do Mar, protetora das viagens marítimas e mãe de todos os orixás. As pessoas levam presentes, flores, comidas e bebidas e fazem danças temáticas, de origem africana. Capoeira – Moreira (2007, p. 1) define as raízes da capoeira: a capoeira, essa arte de origem controversa e que ainda desperta muita polêmica, emergiu no bojo das camadas populares e adentra as institui- ções públicas e privadas de forma arrebatadora e efusiva, sendo capaz de um pouco mais de quatrocentos anos de trajetória estar presente na maior parte das escolas, clubes, universidades, academias, dentre outros, se firmando com força em vários países do mundo, força esta, Cultura Afro-Brasileira e Indígena Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 173 que ora estamos precisando verificar os interesses ideológicos que estão sendo defendidos nas entrelinhas de sua expansão pelo mundo [...]. A partir da análise deste contexto acima, fica fácil compreender o ta- manho do “desafio” e das transformações, que foram necessárias para enquadrar a capoeira na lógica escolar, pois a capoeira historicamente foi também símbolo de contestação da lógica vigente e sua fundamen- tação filosófica, centra-se em uma simbologia que extrapola o conceito de educação escolar, ratificando o verdadeiro conceito de educação, que não estabelecem fronteiras, nem limites para as relações de ensino- -aprendizagem (MOREIRA, 2007, p. 1). Ainda segundo Moreira (2007, p. 1), as transformações sofridas no processo de ensino da capoeira inicia- riam a aproximação da mesma no ambiente escolar, favorecendo seu reconhecimento e ampliando suas perspectivas com vista a se firmar como ferramenta pedagógica no processo educativo. A expansão da capoeira nas instituições de ensino brasileiras deu-se por volta do final dos anos 1970 e início da década de 1980, acrescentando a estes ambientes de trato com o conhecimento um toque da cultura, além de inúmeras possibilidades de intervenção no que se refere à atividade física, que acabam sendo respalda- das por leis e sugerida por diversos instrumentos informativos que orientam a educação escolar como, por exemplo, os Parâmetros Curriculares Nacionais. Com a instituição da Lei 11.645 de 2008, que prevê o ensino de assuntos e história da África nos currículos escolares, a capoeira ganhou mais força para ser “reconhecida como conteúdo riquíssimo para o acervo cultural do aluno, desenvolvendo não somente os aspectos motor, mas também o cognitivo e afe- tivo-social” (SILVA, 2002, p. 1). A capoeira é considerada uma manifestação genuinamente brasileira (SILVA, 2002, p. 2), mas que contém muitos traços da cultura africana, e por isso, deve ser considerada como manifestação afro-brasileira. Assim, esta análise de registros culturais necessita compreender as práti- cas culturais a eles relacionadas, e também o momento social e histórico destes objetos, registros e práticas. Ocorre, metaforicamente à multidisciplinariedade, que todas as manifestações culturais tornam-se pertinentes para a assimilação deste mosaico cultural africano, em que as festas, ritos, saberes, modos de fazer, a música, os modos de vestir, a rica e diversa alimentação, as concepções políticas, A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E174 as cosmogonias etc., todos partem de um processo histórico e cultural funda- mental para o ensino educacional. Recursos Didáticos Já dissemos anteriormente que há variados recursos que os professores podem utilizar em sua prática pedagógica. Entre o professor tradicional e o professor atual e moderno, existe uma diferença fundamental quanto ao foco. O que antes se centralizava no professor, como principal agente do processo de ensino-apren- dizagem, agora se focaliza no aluno. Desse modo, não basta apenas mostrar os caminhos, mas também orien- tar o aluno para que desenvolva um olhar crítico que lhe permita desviar-se do desnecessário e reconhecer, em meio às informações, as trilhas que conduzem às verdadeiras fontes do conhecimento. Dessa maneira, uma primeira medida que pode melhorar em definitivo nossa prática em sala de aula é “reconhecer” que nosso aluno “é, na verdade, o sujeito de sua aprendizagem; é quem realiza a ação, e não alguém que sofre ou Cultura Afro-Brasileira e Indígena Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 175 recebe uma ação” (DELIZOICOV; ANGOTTI; PERNAMBUCO, 2002, p. 122). E ao professor cabe a tarefa de orientar este processo. Infelizmente temos, ainda, muitos professores despreparados para assumir essa tarefa. Isto equivale a dizer que “não há como ensinar alguém que não quer aprender, uma vez que a aprendizagem é um processo interno que ocorre como resultado da ação de um sujeito” (DELIZOICOV; ANGOTTI; PERNAMBUCO 2002, p. 122). O papel do professor como mediador ou facilitador do processo de apren- dizagem aparece como condição óbvia neste enunciado. Coerentemente ao que já afirmamos, a aprendizagem é o resultado das ações de um indivíduo e não de qualquer ação, pois ela se constrói por meio de uma interação entre um sujeito e seu meio circundante, natural e social. É o mesmo tema que Demo (2003) desenvolve quando propõe o educar pela pesquisa. Este modo de ver parte da definição da educação como processo de for- mação da competência humana, dentro de um quadro renovador, que permita ao aluno ser um pesquisador criterioso que enxergue o processo de aprendiza- gem como algo que dele depende fundamentalmente. Temos como sujeito nosso aluno, e nesta perspectiva o autor enfatiza que: A proposta de educar pela pesquisa tem pelo menos quatro pressupostos cruciais: ■ a convicção de que a educação pela pesquisa é a especificidade mais pró- pria da educação escolar e acadêmica; ■ o reconhecimento de que o questionamento reconstrutivo com qualidade formal e política é o cerne do processo de pesquisa; ■ a necessidade de fazer da pesquisa atitude cotidiana no professor e no aluno; ■ e a definição da educação como processo de formação da competência histórica humana (DEMO, 2003, p. 5). Na proposta de Demo (2003), a base teórica representa o cerne do trabalho. A ela cabe consolidar a capacidade explicativa do educando, buscando por causas, condi- ções, argumentações e contra argumentações, para desenvolver a familiaridade com a ciência, na capacidade de induzir e deduzir. Pesquisa, segundo Bagno (1999, p. 17), A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E176 é uma palavra que nos veio do espanhol. Este porsua vez herdou-se do latim. Havia em latim o verbo perquiro, que significava “procurar; buscar com cuidado; procurar por toda parte; informar-se; inquirir; perguntar; indagar bem, aprofundar na busca”. O particípio passado desse verbo latino era perquisitum. Por alguma lei da fonética histó- rica, o primeiro r se transformou em s na passagem do latim para o espanhol, dando o verbo pesquisar que conhecemos hoje. Perceba que os significados desse verbo em latim insistem na idéia de uma busca feita com cuidado e profundidade. Nada a ver, portanto, com trabalhos superficiais, feitos só para “dar nota” (BAGNO, 1999, p. 17). E, se pensarmos bem, a pesquisa faz parte do nosso dia a dia. Realizamos pes- quisa quando vamos ao supermercado fazer compras, buscamos nos classificados do jornal anúncios de produtos que desejamos etc. Por outro lado, não é necessariamente desta pesquisa que nos propomos a discutir. Sem pesquisa não há ciência, muito menos tecnologia. Um exemplo disto é que todas as grandes empresas do mundo atual possuem um departa- mento denominado “Pesquisa e Desenvolvimento” (P&D), ou seja, a pesquisa possibilita o progresso intelectual de um indivíduo. Na escola isso não poderia ser diferente. Quando lançamos mão de uma pesquisa, precisamos antes ensinar nossos alunos a pesquisar. O que quere- mos dizer é que antes de pedirmos a eles que façam por conta própria uma pesquisa, devemos mostrar como se faz esse tipo de trabalho. Isso porque só podemos obter um produto depois que tivermos conhecimento do processo de produção (BAGNO, 1999). Somente assim eles terão a oportunidade de enriquecer intelectualmente, e hoje não nos falta possibilidades com o acesso à internet. O tema cultura afro- -brasileira e indígena pode muito bem ser trabalhado partindo da pesquisa em diversas fontes, mas o professor exerce papel indispensável. A tarefa de dire- cionar nossos alunos à pesquisa não é fácil, pois requer orientação e mediação pedagógica. A utilização de filmes educacionais é outra possibilidade da ação docente. Esta, na concepção histórica, visa o exercício da desconstrução dos conteúdos escolares estruturados, numa matriz eurocêntrica, além de ser fundamental como material de apoio no processo ensino-aprendizagem. Cultura Afro-Brasileira e Indígena Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 177 O educador precisa ter em mente que não será sempre que o filme escolhido exprimirá a crítica que deseja incitar aos alunos, mas que a exibição do material pode servir como um canal que leve à reflexão da representação que se deseja debater (DINIZ, 2009, p. 12). Neste processo a intervenção do professor se faz necessária na promo- ção do diálogo sobre o que está sendo abordado no filme. Não há que se ter, de certa forma, receios de direcionar o aluno à reflexão proposta, uma vez que este, sem nenhum preparo ou acompanhamento pedagó- gico é “bombardeado” diariamente com representações sociais e espa- ciais hegemônicas presentes nos veículos midiáticos (jornais, novelas, filmes etc.) (DINIZ, 2009, p. 12). Em relação à utilização dos filmes na abordagem dos conteúdos educacionais, Souza (2006, p. 9) enfatiza: na sala de aula, como em qualquer espaço educativo, o cinema é um rico material didático. Agente socializante e socializador, ele desperta interesses teóricos, questionamentos sociopolíticos, enriquecimento cultural. E cada vez mais, tem-se intensificado o número de programas educativos e formativos em que o cinema é utilizado como um dos apa- ratos tecnológicos da educação. A utilização de filmes caracteriza-se como uma forma de acentuar a curiosidade do aluno, além de tornar um pouco concreto aquilo que é extremamente subje- tivo nos conteúdos presentes nos livros didáticos (DINIZ, 2009, p. 12). Quando utilizados corretamente, os filmes auxiliam no processo de desconstrução de visões de mundo tendenciosas que são naturalmente aceitas pelos alunos. O Centro de Referência Virtual do Professor (2011, p. 1) lista alguns dos filmes que são considerados educativos e auxiliam no ensino da cultura afro- -brasileira e indígena. Nesse centro é possível encontrar vários filmes que podem ser considerados didáticos, com a temática do ensino da cultura e história afro- -brasileira e indígena, além de servir como um valioso auxílio para a educação. Dessa maneira, o cinema é uma ferramenta importante para o desenvolvi- mento da aprendizagem em um momento formal e informal, proporcionando ao sujeito experimentação, descoberta, invenção, aprendizado e desenvolvimento de suas habilidades. Além do que, estimula a curiosidade, a autoconfiança e a autonomia, propiciando o desenvolvimento da linguagem, do pensamento, da concentração e da atenção. A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E178 Estamos afirmando que o uso de filmes em sala de aula traz diversos bene- fícios, assim passamos a listar alguns destes benefícios: ■ Reforça a capacidade de argumentação, melhorando o vocabulário, desen- volvendo a imaginação, dando uma visão mais ampla de mundo. ■ Aproxima os conteúdos escolares do estudante por ser um recurso lúdico, facilitando a compreensão de temáticas que por vezes podem ser bastante complexas e difíceis de trabalhar em sala de aula. ■ Mobiliza as emoções, possibilitando aos alunos se envolverem e terem mais disposição para aprender. ■ Melhora o vocabulário. ■ Desenvolve a imaginação. ■ Dá uma visão mais ampla de mundo ao estudante. ■ Aproxima os conteúdos escolares do estudante por ser um recurso lúdico. ■ Facilita a compreensão de temáticas que por vezes podem ser bastante complexas e difíceis de trabalhar em sala de aula. ■ Abre espaço para debates e comparações com o que foi dito em aula ou estudado a partir de outras fontes. ■ Mobiliza não apenas a razão e o intelecto, mas também as emoções, o que é, sem dúvida, bastante importante para que esses alunos se envolvam e tenham mais disposição para aprender. Avaliação Como Processo de Melhorias da Ação Docente e Discente Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 179 AVALIAÇÃO COMO PROCESSO DE MELHORIAS DA AÇÃO DOCENTE E DISCENTE A ruptura com as visões simplistas sobre o ensino de História, o conhecimento extenso sobre a matéria a ser ensinada, a exata dimensão dos limites entre os conhecimentos prévios dos alunos e a busca pelo conhecimento formal são fun- damentais, tanto quanto planejar e preparar atividades capazes de gerar uma aprendizagem efetiva, dirigindo os trabalhos dos alunos, mas permitindo aos mesmos os questionamentos. É preciso, nesse momento, adicionar um fator que consideramos de extrema relevância, um verdadeiro teste para a aptidão educacional do professor de História: o saber avaliar. Campos e Nigro (1999, p. 161) consideram a avaliação o “motor da aprendi- zagem”. Sua abordagem se inicia explicando como, ultimamente, tem-se imposto a aprendizagem significativa dos conteúdos. “Com isso, novas metodologias e A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E180 paradigmas são impostos aos novos professores, muitos dos quais formados sob os moldes do ensino por transmissão-recepção” (CAMPOS; NIGRO, 1999, p. 162). Os autores citados apresentam que, em meio à busca de novos caminhos, a opção pelas provas escritas tem algumas vantagens. Entreelas: permite ava- liar muitos alunos e conteúdos de uma só vez, além de ser um documento que se pode rever e analisar. Ademais, a prova escrita é relativamente fácil de apli- car e pode ser fácil de corrigir, pois sua execução exige um tempo relativamente curto. Tudo isto, portanto, pode explicar sua definitiva inserção no processo de ensino-aprendizagem. No entanto, Campos e Nigro (1999) lembram que a memória é apenas uma das capacidades relacionadas ao ensino-aprendizagem e fazem constar a neces- sidade de contemplar, igualmente: a percepção quanto à clareza do conteúdo no plano consciente, a percepção acentuada do mesmo conteúdo, a consciência crí- tica ou posicionamento do sujeito em relação aos suportes do fenômeno. Por isso, os autores sugerem algumas modificações que levem ao incentivo das diferentes capacidades relacionadas acima. A correção “transparente” que enuncia os valores das questões, por exemplo, é outro momento focalizado, com a sugestão de uma correção “coletiva” das pro- vas aplicadas (CAMPOS; NIGRO, 1999, p. 172). Os autores enfati- zam, ainda, que a avaliação deve cumprir diferentes finalidades, “ocorre em diversos momen- tos do ensino e não apenas ao final de uma unidade didática” (CAMPOS; NIGRO, 1999, p. 173). Quanto ao importante momento de avaliar atitudes, eles sugerem crité- rios para avaliar trabalhos em grupo antes de chegar à avaliação somativa. Avaliação Como Processo de Melhorias da Ação Docente e Discente Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 181 Pessoa de Carvalho e Gil-Pérez (2003, p. 55) escrevem que: é provável que a avaliação seja um dos aspectos do processo de ensino- -aprendizagem, em que mais se faça necessária uma mudança didática, isto é, um trabalho de formação dos professores que questione “o que sempre se fez” e favoreça uma reflexão crítica de idéias e comporta- mentos docentes de “senso comum” muito persistentes. Apontando as “tentações” que levam a avaliar de forma insatisfatória a capaci- dade discente ou, ainda, pensando no fracasso de uma percentagem significativa dos alunos de História perante tais avaliações, esses autores nos apresentam sua visão de saber avaliar. ■ Conceber e utilizar a avaliação como instrumento de aprendizagem que permita fornecer um feedback adequado para promover o avanço dos alunos. ■ Ampliar o conceito e a prática de avaliação ao conjunto de saberes, destrezas e atitudes que interesse contemplar na aprendizagem de História. ■ Introduzir formas de avaliação de sua própria tarefa docente como instrumento de melhoria de ensino (PESSOA DE CARVALHO; GIL-PÉREZ, 2003, p. 59). Ou seja, para tais autores, o importante é que a avaliação possa transformar-se em um instrumento efetivo de aprendizagem. Faz-se necessário lembrar que, para o ensino de História, os Parâmetros Curriculares Nacionais instituíram a necessidade da avaliação como “um con- junto de atuações que têm a função de alimentar, sustentar e orientar a intervenção pedagógica e fornecem orientações didáticas que deverão subsidiar a reflexão do professor a respeito de como ensinar” (BRASIL, 1997, p. 39). Como podemos perceber, uma avaliação que finalize um processo didático que esteja em conformidade com o que relatamos estará apta a ser chamada de uma avaliação eficaz, com relação aos resultados pretendidos. A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E182 A avaliação apresenta basicamente três funções: diagnosticar, controlar e clas- sificar. Relacionadas a essas três funções, existem três modalidades de avaliação: ■ Diagnóstica ■ Formativa ■ Somativa Para Schmidt e Cainelli (2004, p. 148), “as várias atitudes de avaliação têm carac- terísticas que podem ser enumeradas com base em sua finalidade, sua utilização, seus objetivos e nos principais aspectos enfatizados por ela”. Neste sentido, a pri- meira avaliação pode ser denominada inicial ou diagnóstica, e têm por objetivo obter informações sobre os conhecimentos prévios dos alunos, seus gostos, inte- resses e atitudes. Geralmente, ela é usada no início de um conteúdo novo, de um período letivo ou de um projeto. Em outras palavras, a avaliação diagnóstica é aquela realizada no início de um curso, para verificar os pré-requisitos necessários de cada aluno, ou seja: se eles possuem ou não conhecimentos e habilidades imprescindíveis para as novas aprendizagens. Ela subsidia o planejamento e a organização de sequências de ações, e também permite estabelecer o nível de necessidades iniciais para a realiza- ção de um projeto adequado. Luckesi (2005, p. 52) define a avaliação diagnóstica: com isso, queremos dizer que a primeira coisa a ser feita, para que a avaliação sirva para a democratização de ensino, é modificar a sua uti- lização de classificatória para diagnóstica. Ou seja, avaliação deverá ser assumida como instrumento de compreensão do estágio de aprendiza- gem do aluno, tento em vista tomar decisões suficientes e satisfatórias para que ele possa avançar no seu processo de aprendizagem. Desse modo avaliação não seria somente um instrumento para a aprovação ou reprovação do aluno mais sim um instrumento de diagnóstico de sua situação, tendo em vista a definição de encaminhamentos adequa- dos para sua aprendizagem. Avaliação Como Processo de Melhorias da Ação Docente e Discente Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 183 A segunda forma de avaliar pode ser denominada formativa, e tem como principal objetivo detectar problemas de ensino-aprendizagem. Por meio dela, o profes- sor enfatiza os resultados da aprendizagem e estabelece um comparativo entre os diferentes resultados obtidos pelo mesmo aluno, o processo de aprendizagem que permitiu a obtenção dos resultados e as causas dos fracassos na aprendizagem. A avaliação formativa é realizada no decorrer do ano letivo, com intuito de verificar se os alunos estão atingindo os objetivos de aprendizagem previstos. Esse tipo de avaliação é basicamente orientadora, pois encaminha tanto o estudo do aluno quanto os procedimentos do professor. Além do mais, essa avaliação fornece dados para uma tomada de decisão, com o objetivo de criar condições de melhoria do ensino visando uma aprendizagem, considerando-se que o pro- cesso não está acabado. Esse tipo de avaliação desempenha um papel controlador, ou seja, localiza deficiências no ensino e informa - professor e aluno - sobre o rendimento da aprendizagem, além de possibilitar ao educador formas para que possa corrigir as falhas e aperfeiçoar mais o processo. A avaliação formativa é, então, uma importante fonte de informações para o atendimento às diferenças culturais, sociais, psicológicas dos educandos, o que se torna grande conquista na luta contra as desigualdades e o fracasso escolar (PERRENOUD, 1999, p. 28). Quando age reflexiva e razoavelmente partindo de princípios morais, transformamos aquela atividade espontânea, natural, em atividade formativa. Pelo fato de que obtemos conhecimento a partir da avalia- ção, podemos intervir inteligentemente de um modo justo, equânime, eqüitativo para aumentar o conhecimento de quem aprende e de quem ensina. O que não é racional, e menos razoavelmente sustentável, é que sejam exames os que definam o conhecimento, isso é a própria perver- são do conhecimento. Trivializam-no e empobrecem-no, reduzindo-o a um produto de consumo imediato para o êxito fugaz da prova, da A PRÁTICA PEDAGÓGICAE O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E184 qual se torna e é tratado como mercadoria. É a perversão também do que é aprender e do que é avaliar, considerando como evidente a pobre- za intelectual de quem ensina com esse espírito (MENDEZ, 2002 p. 85). Os mecanismos de avaliação devem ser aliados ao processo ensino-aprendiza- gem, de modo a auxiliar a ação do professor na adequação de conteúdos e na identificação de dificuldades. A prática formativa na avaliação tem como objetivo fazer com que todos adquiram conhecimento e apropriem-se deste saber, de maneira reflexiva e cons- trutiva. No entanto, não significa que aqueles que não atinjam esse objetivo serão eliminados. A avaliação formativa acompanha o processo de ensino-aprendiza- gem, verificando se os objetivos iniciais de um trabalho estão sendo atingidos. A avaliação formativa está muito ligada ao mecanismo de “Feedback”, à medida que permite ao professor detectar e identificar deficiências na forma de ensinar, possibilitando reformulações no seu trabalho didático, visando aperfei- çoá-lo. Nesse sentido, Esteban (1997, p. 53) enfatiza que avaliar significa deixar de fazer julgamento sobre a apren- dizagem do aluno, para constituir um momento capaz de expressar os conhecimentos que os alunos já têm estruturado, o processo cognitivo que realizou para alcançar tais conhecimentos, o que o aluno ainda não sabe, o que pode vir a saber, as suas possibilidade de aprendizagem e suas necessidades para que a superação sempre transitória, do não saber, possa ocorrer. A avaliação formativa fornece informações que possibilitam uma adaptação do ensino às diferenças individuais na aprendizagem. É importante ressaltar que essa adaptação dever ser feita “antes que seja tarde demais” (BLOOM, 1978 apud HAYDT, 2000, p. 13). Após a avaliação formativa, que possibilita um ensino eficaz e aprendizagens efetivas, a avaliação somativa, que ocorre no final do bimestre escolar, constitui uma melhor aproximação, visto que é realizado um diagnóstico do aluno no final de um período, seja no final de uma unidade, de um bimes- tre ou de um ano letivo. O principal aspecto enfatizado nesse tipo de avaliação é o resultado da aprendizagem baseada nos objetivos. Consiste em classificar os alunos de acordo com o nível de aproveitamento previamente estabelecido, tendo em vista sua promoção de uma série para outra, ou de um grau para outro. Organizamos estas informações resumidamente para melhor compreensão Avaliação Como Processo de Melhorias da Ação Docente e Discente Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 185 Quadro 1 – A avaliação: quanto à formação PERÍODOS TIPOS OBJETIVOS INTERESSES BUSCAS INÍCIO DIAGNÓSTICA ORIENTAR EXPLORAR IDENTIFICAR ADAPTAR ALUNO ENQUANTO PRODUTOR A avaliação busca conhe- cer, principal- mente as ha- bilidades, os interesses, as capacidades e competências dos alunos. DURANTE FORMATIVA SITUAR COMPREENDER FACILITAR DIALOGAR APOIAR ALUNO ENQUANTO ATIVIDADE, PROCESSOS DE PRODUÇÃO A avaliação busca infor- mações sobre estratégia de solução de problemas e das dificulda- des surgidas no processo. DEPOIS SOMATIVA CLASSIFICAR INFORMAR CERTIFICAR VERIFICAR ALUNO ENQUANTO PRODUTO FINAL A avaliação busca obser- var compor- tamentos globais socialmente significativos, determinar conhecimen- tos adquiridos e, se possível, dar um certifi- cado. Fonte: adaptado de Hoffmann (1993). Vale lembrar que a prática avaliativa como acompanhamento cotidiano da apren- dizagem possibilita ao professor emitir juízos de valor mais adequados sobre o aproveitamento escolar dos alunos. A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E186 Independentemente da forma pela qual a escola expressa esses juízos de valor – notas, conceitos e da frequência com o qual o emite – bimestral, trimestral, semestral – essa formalização tem um caráter de síntese. Nesses momentos, se faz uma reflexão maior e mais cuidadosa sobre os resultados atingidos. Nesse sentido, é importante definir com clareza e antecedência os pontos de chegada desejados pelos professores, bem como os critérios pelos quais o grupo vai julgar se os alunos estão ou não se aproximando dessas metas. Embora tais critérios tenham uma dimensão subjetiva e dependam dos valores do professor, é importante fazer um esforço para defini-los. Isso torna as regras do jogo mais explícitas, esclarecendo o que é esperado, tanto para o professor como para o aluno. Tão importante quanto a avaliação é o ato de corrigir. A correção pode ser realizada a partir da problematização e discussão das respostas – as incompletas, incompreensíveis, as que mostram que o aluno não entendeu o que foi solici- tado, que reproduzem fielmente os assuntos tratados e as que mostram que não havia uma resposta possível. As formas de correção, os critérios e a atribuição de valores também devem ser discutidos com os alunos, principalmente entre os dos 3°, 4° e 5° anos, considerando que os alunos desses anos já possuem uma compreensão do processo. Não se pode esquecer que, o retorno para os alunos sobre os resultados cor- retos ou esperados é parte inseparável da prova, pois cada aluno precisa saber em que e por que acertou ou errou. Isto dará oportunidade para que o aluno não erre num segundo momento. Aqui apresentamos os indicadores de compreensão por parte dos alunos dos conteúdos de História, explicitados por Pluckrose (1996). Avaliação Como Processo de Melhorias da Ação Docente e Discente Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 187 Quadro 2 – Indicadores de compreensão por parte dos alunos ELEMENTOS HISTÓRICOS INDICADORES DE COMPREENSÃO PELO ALUNO CRONOLOGIA Tem experiências no estabelecimento de limi- tes históricos, como antes de Cristo e depois de Cristo, geração, década e século. É capaz de estabelecer sequências de datas e períodos, determinar sequências de objetos e imagens; relacionar acontecimentos com uma cronologia. TESTEMUNHOS É capaz de compreender tipos de testemunho que o historiador utiliza. Distingue fontes primárias e secundárias. É consciente da necessidade de ser crítico na análise de documento. Tem consciência de como os historiadores em- pregam os testemunhos para chegar a uma explicação do passado. LINGUAGEM Compreende o significado de determinadas palavras num contexto histórico. SEMELHANÇA E DIFERENÇA Estabelece comparações simples entre passa- do e presente com referência a uma diversida- de de períodos, culturas e contextos sociais. CONTINUIDADE E MUDANÇA Entende que a História é tanto um estudo da continuidade como da mudança. Compreende que um acontecimento históri- co pode responder a uma multiplicidade de causas. IDENTIFICAÇÃO É capaz de se identificar com pessoas que viveram no passado e cujas opiniões, atitudes, cultura e perspectiva temporal são diferentes das suas. Fonte: Pluckrose (1996). A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O ENSINO DE HISTÓRIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E188 CONSIDERAÇÕES FINAIS De tudo que até agora assinalamos sobre o ensino de História, que vise à eficácia e à adequação aos nossos tempos, em resposta às novas exigências ora apresen- tadas, avultam algumas considerações.Uma das primeiras é que o conhecimento acontece como um todo, e que se o fragmentamos é apenas para facilitar o entendimento. Para reagrupar a inte- gralidade faz-se necessário, então, deixar de lado a posição característica de décadas atrás, quando cada ciência era vista em si mesma ou, mais, a especiali- dade se impunha sobre a visão geral. Hoje em dia, não existem mais compartimentos estanques e isolados quando se trata do saber e do ensinar, para que haja realmente o aprender. Pelo contrá- rio, as disciplinas têm de se comunicar e depois se complementar, chegar aos princípios de aproximação e esclarecimento do todo. São as diversas graduações deste processo que enfatizamos em nossa quarta unidade, da qual consideramos a interdisciplinaridade como a mais recomen- dada e viável no estágio em que nos encontramos, visto que compreendemos o ser numa visão holística, e nunca de modo fragmentado. Além disso, outro setor que merece exame e carece de modificações é o que diz respeito à avaliação. Pedra de toque e ao mesmo tempo pedra no sapato de muitos educadores, avaliar é um processo difícil e doloroso, tendo em vista que causa muitos problemas entre alunos e professores. Os primeiros querem ter a sua opinião aceita sempre, e os professores têm dificuldades em estabelecer o que pre- tendem como disciplina escolar e busca pelo conhecimento por parte dos alunos. Novos critérios ou um número maior de “provas” levam em conta os aspectos cognitivos, sem desdenhar os que representam as mudanças de comportamento obje- tivadas, modificar e diversificar quanto a questões de provas, são sempre aventados. O ideal que representa a convergência entre questões contextuais, que evi- denciem a visão ampla e o específico, que encaminhe à tônica da disciplina, ainda está longe de ser atingido na nossa prática docente. Portanto fica evidente que, quanto mais nos conscientizamos da realidade que ora vivemos, mais nos aproximamos da realização de nossos objetivos enquanto docentes, informando de forma clara a nossa metodologia e epistemologia. 189 1. Estudos apontam que as gerações atuais, nascidas em meio às novas tecnolo- gias de informação e comunicação, desenvolveram novas aptidões cognitivas. Desse modo, as crianças atuais precisam ser estimuladas a aprender. Para tanto, a educação que é praticada na escola necessita de uma nova postura pedagó- gica. Assim, discutimos a respeito do uso de diferentes linguagens no ensino de História. Levando em consideração o contexto acima descrito e as nossas reflexões sobre o trabalho docente a partir de diferentes linguagens, discorra criticamente sobre os benefícios que esses recursos podem trazer à prática de ensino de um professor. 2. Estudamos nesta unidade que o planejamento escolar é uma tarefa docente que inclui tanto a previsão das atividades em termos de organização e coordenação em face dos objetivos propostos, quanto a sua revisão e adequação no decorrer do processo de ensino. Assim, redija um texto dissertativo acerca do seguinte tema: O PLANEJAMENTO ESCOLAR 3. Aborde, em seu texto, os seguintes aspectos: a. De 5 a 10 linhas. b. A importância do planejamento para ensinar História. c. A responsabilidade do professor frente ao processo educativo. 4. A necessidade de aprofundar o estudo da questão étnica no Brasil ficou sub- sidiada com a promulgação das Leis nº 10.639/03 e 11.645/08 que torna obri- gatória a inclusão da temática “História e Cultura Afro-brasileira e Indígena” em nossas escolas brasileiras. Para se estudar esta temática é preciso unir diversas áreas de conhecimento e usar de estratégias metodológicas que versam sobre os assuntos pertinentes, partindo do ponto de vista africano e indígena e não eurocêntrico. Partindo desta premissa, apresente uma estratégia didática que evidencie este compromisso com as Leis. 5. A inserção obrigatória da temática História e Cultura afro-brasileira e indígena nas escolas brasileiras no Ensino Fundamental e Médio, nada mais é que um con- junto de medidas e ações com o objetivo de: I. Corrigir injustiças. II. Eliminar discriminações. III. Promover a inclusão social. IV. Promover a cidadania para todos no sistema educacional brasileiro. É correto o que se afirma em: a. I e II. b. I, II e III. c. I, II e IV. d. I, III e IV. e. I, II, III e IV. 6. “A maneira mais comum de ensinar História ainda hoje tem sido através da aula expositiva do professor ou a utilização inadequada do livro didático. Esta ação docente sempre parte de uma questão do passado descrito e explicado de for- ma descontextualizada do lugar ou do tempo no qual se encontra inserido. Feito isso, o professor avalia através de exercícios de memorização” (Trecho extraído dos PCNs de História e Geografia, com adaptações). O texto acima explicita uma visão tradicional do ensino de História, opondo-se a ela surgiram novas abordagens que buscam práticas pedagógicas que levem a aprendi- zagem significativa. Podemos entender aprendizagem significativa como sendo: a. A utilização de questionários para a verificação do conteúdo trabalhado e com- preendido pelo aluno. b. Aulas dialogadas com a utilização de livros didáticos como importante e único recurso pedagógico. c. A aprendizagem por meio da imitação do professor, sendo este o detentor do saber. d. O meio pelo qual uma nova informação se relaciona a um aspecto relevante que o aluno conhece, contrapondo-se à aprendizagem mecânica conquistada pela repetição e memorização. e. A maneira como o aluno se apropria da informação. Contudo, esse tipo de apren- dizagem acaba sendo esquecido, por utilizar-se da memorização. 190 191 Nessa Unidade IV, verificamos o quanto a inovação na utilização dos recursos didáticos tem trazido diversas contribuições para o processo ensino-aprendizagem de História. Assim, apresentamos como leitura complementar a introdução de uma discussão pro- posta por Selva Guimarães Fonseca sobre a utilização do cinema no ensino da História, na Revista do Arquivo Público Mineiro. Cinema e Ensino de História (Selva Guimarães Fonseca) Que o filme, imagem ou não da realidade, documento ou ficção, intriga autêntica ou pura invenção, é história. Cinema é história. Filme: imagem, documento, ficção, intriga, invenção, história. Partin- do dessas contribuições de Marc Ferro, apresentamos algumas reflexões sobre as rela- ções entre o cinema e o ensino da História. O texto é fruto de uma pesquisa bibliográfica e documental e, ainda, de minha experiência didática, tanto como professora de me- todologia de ensino de História na educação superior, quanto no ensino de História na escola fundamental e média. Desde o fim do século XIX e ao longo do XX, o cinema tornou-se arte, meio de expres- são, de construção de sensibilidades, de comunicação, de entretenimento da socieda- de. Distrai, fascina, inquieta, seduz, comove, inspira e provoca diversas sensações, como medo, alegrias e tristezas. Alimenta nossa imaginação e sonhos, amplia o modo de ver, sentir e compreender as pessoas e o mundo. Com o avanço das novas tecnologias, de- senvolveu-se de forma rápida e sofisticada, tornando-se uma poderosa indústria, capaz de mobilizar milhões de espectadores, consumidores culturais em diferentes lugares do planeta. Logo, o cinema detém um enorme poder de produção, difusão e introjeção de valores, ideias, padrões de comportamento e consumo, modos de leitura e compreen- são do mundo. Nas últimas décadas do século XX e início do XXI, uma das principais discussões na área da metodologia do ensino de História no Brasil tem sido a incorporação de diferentes linguagens e fontes no estudo dessa disciplina. Como exemplos, imagens, obras de fic- ção, jornais, canções, TV, internet, mídias em geral e o cinema. Esse debate se acentuou no contexto de revisão dos currículos, decrítica aos livros didáticos tradicionais, pós- -ditadura militar; do avanço tecnológico da indústria cultural brasileira, do desenvolvi- mento das chamadas mídias educacionais e do movimento de ampliação documental e temática das pesquisas nas áreas da história e da educação. Entre essas fontes mais utilizadas no processo de ensino e aprendizagem de História, estão os filmes. Esse movimento pode ser apreendido em diversas publicações, revistas especializadas, sites e livros, por exemplo, a coletânea A história vai ao cinema, na qual diversos histo- riadores analisam, em uma perspectiva histórica, 20 filmes brasileiros produzidos entre os anos de 1970 a 1990. A coleção Cinema e educação apresenta vários títulos no campo educacional, analisando diferentes aspectos (ideológicos, estéticos, psicológicos, edu- 192 cacionais, formativos) das relações entre o cinema e a educação. Proliferam publicações didáticas para professores sobre “como usar o cinema na sala de aula” e experiências de utilização de filmes na escola em várias perspectivas. Destacam-se também pesquisas e teses acadêmicas nas áreas de história, comunicação e educação. No entanto, estudos demonstram que as relações entre cinema e história e cinema e educação, tanto no contexto europeu como no Brasil, são bem mais antigas. Desde o início do século XX, há registros e publicações de intelectuais, cineastas, historiadores e educadores sobre história e cinema e a viabilidade do uso do cinema na educação. Como afirma Ferro: “[...] desde que o cinema se tornou uma arte, seus pioneiros passa- ram a intervir na história com filmes, documentários ou de ficção”. Simultaneamente, alerta-nos o autor: “[...] desde que os dirigentes de uma sociedade compreenderam a função que o cinema poderia desempenhar tentaram apropriar-se dele e pô-lo a seu serviço” ... Fonte: Fonseca (2009, on-line)3. Material Complementar MATERIAL COMPLEMENTAR Tecnologias de Aprendizagem em Rede e Ensino de História Alfredo Matta Editora: Liber Livro Sinopse: Alfredo Matta realizou este estudo tendo por base sua prática como coordenador de informática educacional do Instituto Social da Bahia (ISBA), um importante colégio confessional de Salvador. A pesquisa foi, portanto, a sistematização de uma prática pedagógica, na qual a mais moderna tecnologia educacional, a Internet e a rede de computadores, serviu como ambiente mediador para a construção da aprendizagem nos mais diversos conteúdos escolares. Como usar as histórias em quadrinhos em sala de aula Angela Rama (Org.) e Waldomiro Vergueiro (Org.) Editora: Contexto Sinopse: os quadrinhos afastam as crianças e adolescentes do mundo dos livros ou podem representar, na verdade, um valioso recurso pedagógico em sala de aula? Depois da leitura deste volume, não restarão mais dúvidas. Aqui, os autores provam que os antigos preconceitos contra as histórias em quadrinhos não têm nenhum fundamento. Por meio de exemplos práticos e muitas sugestões de atividades, os educadores encontrarão nesta obra uma fonte inesgotável de inspiração para trabalhar as HQs com seus alunos. Capítulos específi cos dão orientações didáticas sobre o uso delas em várias disciplinas, como Português, História, Geografi a e Artes. O livro traz também, em sua primeira parte, um guia básico sobre a linguagem dos quadrinhos, indispensável para que os professores se familiarizem ainda mais com o gênero e, assim, possam extrair o maior número possível de recursos do rico e fascinante universo das HQs. Este livro também pode ser lido pela Biblioteca Pearson que você tem acesso através de seu AVA. MATERIAL COMPLEMENTAR O Espelho Tem Duas Faces 1966 Sinopse: dois professores da Columbia University sentem-se solitários, pois não conseguiram se envolver com quem eles queriam. Ele, Gregory Larkin (Jeff Bridges), é um professor de matemática extremamente introvertido e que ainda idolatra Candy (Elle Macpherson), a antiga namorada que o trocou por outro. Ela, Rose Morgan (Barbra Streisand), é uma professora de literatura muito comunicativa, que viu sua grande paixão, Alex (Pierce Brosnan), se casar com Claire (Mimi Rogers), sua irmã. Ao ver o anúncio de Gregory em um correio sentimental, ela decide responder como se fosse apenas Rose, já que ambos pertencem a mesma universidade. Após alguns encontros totalmente platônicos Gregory pede Rose em casamento, mas decidem ter uma união baseada apenas nas suas preferências intelectuais e totalmente desprovida de sexo. No início ela consegue suportar tal situação, mas com o tempo a relação entra em crise e ela decide se produzir, para conquistar realmente seu marido e ter um casamento de fato e não apenas de direito. Sociedade dos Poetas Mortos 1990 Sinopse: em 1959 na Welton Academy, uma tradicional escola preparatória, um ex-aluno (Robin Williams) se torna o novo professor de literatura, mas logo seus métodos de incentivar os alunos a pensarem por si mesmos cria um choque com a ortodoxa direção do colégio, principalmente quando ele fala aos seus alunos sobre a “Sociedade dos Poetas Mortos”. Material Complementar MATERIAL COMPLEMENTAR Do giz ao tablet: por que a tecnologia não revolucionou a educação O documentário “Do giz ao tablet: por que a tecnologia não revolucionou a educação’’ propõe uma discussão sobre o papel que a instituição escolar atual deve exercer em resposta às demandas que as novas gerações e as tecnologias atuais puseram em voga. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=ozpEMQ5niUA>. Acesso em: 6 abr. 2017. História: História e Literatura No documentário “História: História e Literatura’’, a jornalista Mônica Teixeira conversa com o professor Sidney Chalhoub sobre a importância da literatura para os historiadores. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=e5jnTFQg6as>. Acesso em: 6 abr. 2017. Convido você a navegar pelo site: <http://www.acordacultura.org.br/>. Trata-se da apresentação de um projeto educativo de valorização da cultura afro-brasileira. REFERÊNCIASREFERÊNCIAS BAGNO, M. Pesquisa na escola: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 1999. BARBOSA. R. A. ABC do continente africano. São Paulo: Edições SM, 2007. BRAGA, A. F. Educação Afro-Indígena: caminhos para a construção de uma socieda- de igualitária. Revista África e Africanidades, n. 4, fev. ano I, 2009. BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais: história e geografia. Secretaria de Edu- cação Fundamental. Rio de Janeiro: DP&A, 1997. BURKE, P. As fronteiras instáveis entre história e ficção. In: AGUIAR, F. et. al. (Orgs.).Gê- neros de fronteira: cruzamentos entre histórico e o literário. São Paulo: Xamã, 1998. CABRINI C.; CATELLI R.; MONTELLATO A. Historia temática: diversidade cultural e conflitos. 7º ano: Ensino Fundamental. São Paulo: Scipione, 2009. CAMPOS, M. C. C.; NIGRO, R. G. Didática de Ciências: o ensino-aprendizagem como investigação. São Paulo: FTD, 1999. CARVALHO, A. M. P. C.; GIL-PÉREZ, D. Formação de Professores de Ciências. 7 ed. São Paulo: Cortez, 2003. CENTRO DE REFERÊNCIA VIRTUAL DO PROFESSOR. Introdução à história e cultura Africana. Disponível em: <http://crv.educacao.mg.gov.br/sistema_crv/index.aspx?id_ projeto=27&id_objeto=119057&tipo=li&cp=003366&cb=&n2=Biblioteca%20Virtu- al&n3=M%F3dulos%20Did%E1ticos%20-%20Tem%E1ticas%20Especiais&n33=Re- la%C3%A7%C3%B5es%20%C3%89tnico%20Raciais&b=s.>. Acesso em: 17 abr. 2017. COSTA, A. J. D. O ensino de História e suas linguagens. Curitiba: InterSaberes, 2012. DELIZOICOV, D; ANGOTTI, J. A; PERNAMBUCO, M. M. Ensino de Ciências: fundamen- tos e métodos. São Paulo: Cortez, 2002. DEMO, P. Educar pela pesquisa. 6. ed. Campinas, SP: autores associados, 2003. DINIZ. F. G. O uso de filmes no ensino de geografia: uma discussão sobre a re- presentação de África. Disponível em: <http://www.agb.org.br/XENPEG/artigos/Poster/P%20(27).pdf>. Acesso em: 17 abr. 2017. ESTEBAN, M. T. (Org.). Avaliação: uma prática em busca de novos sentidos. Rio de Janeiro: DP&A, 1997. FAZENDA, I. C. A interdisciplinaridade um projeto em parceria. 3 ed. São Paulo: Loyola, 1995. FERREIRA, J. As literaturas africanas de língua portuguesa – um projeto curricu- lar urgente. Usina de Letras, 2005. Disponível em: <http://www.usinadeletras.com. br/exibelotexto.php?cod=6513&cat=Ensaios>. Acesso em: 17 abr. 2017. GASPARIN, J. L. Uma didática para a pedagogia histórico-crítica. Campinas: Au- tores Associados, 2009. HAYDT, R. Avaliação do Processo Ensino-aprendizagem. São Paulo: Ática, 2000. 196 REFERÊNCIAS 197 HICKMANN, R. I. Estudos Sociais: outros saberes e outros sabores. Porto Alegre: Me- diação, 2002. HOFFMANN, J. Avaliação mediadora: uma prática em construção da pré-escola à universidade. Porto Alegre: Mediação, 1993. KARNAL, L. História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas. 2 ed. São Pau- lo: Contexto, 2004. KI-ZERBO, J. História geral da África. São Paulo: Ática, Unesco, 1982. LIVRARIA DA FOLHA.’O povo brasileiro’ investiga a estrutura socioeconômi- ca do Brasil. 2014. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/livrariadafo- lha/2014/10/1520044-o-povo-brasileiro-estrutura-da-formacao-socioeconomica- -do-brasil.shtml>. Acesso em: 15 abr. 2017. LUCKESI, C.C. Avaliação da aprendizagem escolar. 16. ed. São Paulo: Cortez, 2005. MENDEZ, A.; MANUEL, J. Avaliar para conhecer: examinar para excluir. Porto Ale- gre: Artmed, 2002. MOREIRA, R.; MOREIRA, N. Capoeira: Sua Origem e sua Inserção no Contexto Escolar. Disponível em: <http://www.efdeportes.com/efd114/capoeira-sua-origem-e-sua- -insercao-no-contexto-escolar.htm>. Acesso em: 13 abr. 2017. NASCIMENTO, A. O Genocídio do Negro Brasileiro: processo de um racismo mas- carado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. NOGUEIRA, N. R. Interdisciplinaridade aplicada. São Paulo: Érica. 1998. NÓBREGA, A.; FREIRE, W. C. In: NOBREGA, A. Madeira que cupim não rói (CD). São Paulo: Estúdios Eldorado, 1997. PERRENOUD, P. Avaliação: da excelência à regulação das aprendizagens. Porto Ale- gre: Artmed, 1999. PLUCKROSE. H. Enseñanza y aprendizaje de ela historia. Madrid: Ediciones Morata, 1996. PORTAL BRASIL ESCOLA. Aspectos culturais da região sudeste. Disponível em: <http://www.brasilescola.com/brasil/aspectos-culturais-regiao-sudeste.htm>. Acesso em: 6 abr. 2017 RIBEIRO, D. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1995. SILVA, G. O. Capoeira: do engenho a universidade. 3. ed. São Paulo: Cepeusp, 2002. SOUZA, E. P. Negritude, Cinema e Educação: caminhos para a implementação da lei 10.639/2003. Belo Horizonte: Mazza Edições, v. 1, 2006. VASCONCELLOS, C. S. Avaliação da Aprendizagem: Práticas de Mudança - por uma práxis transformadora. São Paulo: Libertad, 1995. REFERÊNCIAS REFERÊNCIAS ON-LINE 1Disponível em: <http://www.fatosdesconhecidos.com.br/de-onde-surgiram-histo- rias-em-quadrinhos/> . Acesso em: 4 abr. 2017. 2Disponível em: <http://brasilescola.uol.com.br/brasil/aspectos-culturais-regiao-su- deste.htm>. Acesso em: 19 abr. 2017. 3Disponível em: <http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/acervo/rapm_pdf/estante- antiga_2009.pdf> . Acesso em: 6 abr. 2017. ⁴Disponível em:<https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/praxis/285/res01_27. pdf?sequence=1>. Acesso em: 20 abr. 2018. GABARITO 199 GABARITO 1. O trabalho docente com diferentes linguagens, que podem ser recursos tecnoló- gicos ou jogos e brincadeiras, possibilitam ao professor de História dinamizar as suas aulas, tornando a compreensão dos conteúdos mais clara, além de romper com uma metodologia tradicional muito praticada ainda hoje em nossas esco- las. Esperamos que você apresente esta visão positiva da utilização destes recur- sos à prática de ensino do professor. 2. O planejamento é um processo de racionalização, organização e coordenação da ação docente, articulando a atividade escolar e a problemática do contexto social. A escola, os professores e alunos são integrantes da dinâmica das relações sociais; tudo o que acontece no meio escolar está atravessado por influências econômicas, políticas e culturais que caracterizam a sociedade de classe. Isso significa que os elementos do planejamento escolar - objetivos-conteúdos-mé- todos – estão recheados de implicações sociais, têm um significado genuina- mente político. Por essa razão, o planejamento é uma atividade de reflexão acer- ca das nossas opções e ações; se não pensarmos didaticamente sobre o rumo que devemos dar ao nosso trabalho docente, ficaremos entregues aos rumos estabelecidos pelos interesses dominantes da sociedade. 3. Para responder a esta questão você poderá recorrer à própria interdisciplinari- dade, partindo de uma literatura, uma música, uma arte indigena e/ou africana para evidenciar a estratégia didática solicitada. 4. Alternativa “E”. 5. Alternativa “D”. U N ID A D E V Professora Me. Priscilla Campiolo Manesco Paixão HISTÓRIA: A CIÊNCIA DO HOMEM NO TEMPO Objetivos de Aprendizagem ■ Analisar o mundo e sua temporalidade, adquirindo a capacidade de transcender os referenciais usados na divisão do tempo histórico, que consideram somente os marcos do poder e da dominação. ■ Identificar e avaliar as etapas em que as crianças se encontram com relação ao domínio das relações temporais. ■ Possibilitar a apreensão do objeto de estudo por meio da relação entre presente e passado. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ O tempo: categoria essencial para pensar a História ■ O tempo como aprendizagem social ■ Identificando os diferentes tipos de tempo ■ A criança e as primeiras noções de tempo ■ O trabalho com linhas do tempo INTRODUÇÃO Nossa Unidade V será, ao mesmo tempo, o núcleo e a prática histórica no que ela tem de mais legítimo e característico. Desde a antiguidade, o homem busca entender o tempo como um meio de orientação dentro de um universo social e como forma de regulação de sua exis- tência. Isso quer dizer que conceber o tempo é algo complexo e exige abstrações. Para Elias (1998, p. 13), “[...] a expressão tempo remete-se a esse relacionamento de posições ou segmentos pertencentes a duas ou mais sequências de aconteci- mentos em evolução contínua”. O tempo é a categoria essencial para pensar a História. Ao mesmo tempo em que inclui um exame de todos os componentes de uma estrutura social humana, ele pode admitir diferentes interpretações, que decorrem de uma determinada visão de mundo. A identificação dos diferentes tipos de tempo nos remete a povos anti- gos, da época medieval, e os modernos, nós, com todos outros contemporâneos. Da clepsidra à ampulheta, do despertar ao canto do galo e do recolhimento para o sono com os mesmos sons da natureza, o aparecimento dos primeiros relógios coincidentemente ao descobrimento de nosso país, muito a humanidade teve de caminhar para chegar até hoje e, certamente, vai continuar caminhando. Filha do tempo e ao mesmo tempo dona dele, a História tem na categoria tem- poral a sua categoria marcante e definitiva, sua marca registrada. Tudo isso é o que procuraremos refletir nesta última unidade. Intencionalmente, escolhemos esta para finalizarmos nossas discussões para ficar aqui uma lição de vida. O homem ao longo de sua existência criou mecanismos para facilitar sua vida e, uma delas, talvez a mais importante, seja o tempo. No entanto, essa mesma criação nos trouxe um grande problema: hoje somos “escravos” de nossa própria invenção. Por isso, essa unidade finaliza não só nossas discussões acerca da História enquanto ciência, como também o ensino-aprendizagem da História enquanto disciplina escolar, enfatizandoa temporalidade como sua marca registrada. Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 203 HISTÓRIA: A CIÊNCIA DO HOMEM NO TEMPO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E204 O TEMPO: CATEGORIA ESSENCIAL PARA PENSAR A HISTÓRIA Quando Marc Bloch apresentou a História como a ciência do homem no tempo, ou quando Braudel com ele concordou, afirmando que o tempo “adere” ao pensamento de qualquer historiador, ambos estavam estabelecendo categorias essenciais. Os gregos pensavam em termos de uma roda dos tempos, ou seja, os per- sonagens indo e voltando de forma cíclica, de modo a afirmarem que sempre haveria um Sócrates, Platão ou Aristóteles. Nós pensamos no tempo como algo que teve um começo, um meio (nós) e um fim. Marizete Lucini (2007) é uma autora que, em sua obra sobre o “Tempo, Narrativa e Ensino da História” nos propõe interessantes reflexões. Ela se socorre de autores conceituados como Paul Ricoeur, em seu livro “Tempo e Narrativa” de 1994, afirma que: a história revela uma primeira vez a sua capacidade criadora de refi- guração do tempo pela invenção e pelo uso de certos instrumentos de pensamento, tais como, o calendário, a idéia de seqüência de gerações e O Tempo: Categoria Essencial Para Pensar a História Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 205 a idéia, conexa, do triplo reino dos contemporâneos, dos predecessores e dos sucessores, enfim e, sobretudo, pelo recurso a arquivos, docu- mentos e rastros (RICOUER, 1994, p. 179 apud LUCINI, 2007, p. 71). Portanto, o pensar do calendário e o fenômeno das gerações pode incluir o pensar do tempo cósmico e do tempo vivido, pois “pensa o tempo de que faz uso a his- tória”. Esclarece ainda que se trata de um tempo construído pelo historiador, do qual advém a narrativa histórica que comunica a correlação das ações humanas com o imperativo temporal. “Todo calendário possui um acontecimento funda- dor, o qual constitui o ponto zero do cômputo” e, mais que isso, esse ponto zero “pode ser pensado a partir da noção fenomenológica de presente, como ponto que determina o que veio antes e o que veio depois” (LUCINI, 2007, p. 71). Do tempo cristalizado referenciado pelos positivistas ou mesmo das catego- rias propostas por Braudel (1965), uma das mais importantes é a longa duração, porém, todas são exemplos de como o núcleo da História é o tempo, em torno dele tudo gira e a ele se refere como condição primeira. Bloch fala no “ídolo” das origens e como um historiador caminha entre passado e presente, presente e passado, com possibilidade de vistas para o futuro, quando se equaciona razo- avelmente o nosso tempo. Paul Ricoeur nasceu em 1913, é considerado um dos principais pensadores da hermenêutica (ou seja, a filosofia da interpretação). Foi professor na Uni- versidade de Estrasburgo, e também na Sorbonne e em Chicago. Publicou numerosos livros fascinantes, que falam da literatura e da filosofia com pala- vras simples, sem o peso do saber arrogante. Entre eles destacamos “Tempo e Narrativa”. Para saber um pouco mais sobre Paul Ricoeur, acesse: <http://www.voltaire- net.org/article125537.html>. Fonte: a autora. HISTÓRIA: A CIÊNCIA DO HOMEM NO TEMPO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E206 O TEMPO COMO APRENDIZAGEM SOCIAL Antes de ser dimensionado em forma de calendários e datas, que repercutem em uma compreensão dos acontecimentos como sendo pontuais, o tempo em si admite outras categorias. Para ser dimensionado em partes apreciáveis de sua totalidade, o tempo pode ser apresentado para um aluno por seu professor, com base nas suas vivências pessoais. Um bom ponto de referência para isso é o caso do tempo biológico, que envolve crescimento, maturidade e envelhecimento. Existe ainda aquele tempo psicológico inerente à nossa ideia de sucessão e mudança, um tempo que para nós, ocidentais, se norteia sempre pela busca do progresso, bem como pela ideia de que podemos melhorar sempre, material e intelectualmente. Temos, por esse motivo, a dimensão de povos atrasados e adiantados, civilizados e selvagens. Todos estes conceitos, postos entre nós há séculos, hoje passam por um processo de revisão. Em nossa visão atual, de que o tempo é sempre um mestre para a nossa aprendizagem social, buscamos por uma maior simetria - entenda-se igualdade - entre os diferentes povos e culturas. O Tempo Como Aprendizagem Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 207 O respeito às diferentes sociedades, incluídas na comunidade humana como um todo, nos leva a refutar conceitos já estabelecidos. Um ponto de partida signi- ficativo vem de Karl Marx, quando redime os pré-letrados e afirma que civilização é apenas um estágio tecnológico mais avançado. Para entender tal afirmação, leia a seguir trechos de uma obra que acabou se tornando uma lição de vida ao homem ocidental, aqui chamado de “Papalagui”. O PAPALAGUI NÃO TEM TEMPO O Papalagui gosta de metal redondo e do papel pesado; gosta de manter para dentro da barriga muitos líquidos que saem das frutas mortas, além da carne de porco e de vaca, e de outros animais horríveis; mas ele gosta principalmente, daquilo que não se pode pegar e que, no entanto, existe: o tempo. Fala muito no tempo, diz uma tolice a respeito do tempo. Nunca existe mais tempo do que aquele que vai do nascer ao pôr do sol e, no entanto, isto nunca foi suficiente para o Papalagui. O Papalagui nunca está satisfeito com o tempo que tem; e acusa o Grande Espírito por não lhe ter dado mais. Chega até a blasfemar contra Deus, contra a sua grande sabedoria, dividindo e subdividindo em pedaços cada dia que se levanta de acordo com um plano muito exato. Divide o dia tal qual o homem partiria um coco mole com uma faca em pedaços cada vez menores. Todos os pedaços têm nome: segundo, minuto, hora. O segundo é menor que o minuto, este é menor do que a hora; juntos, minutos e segundos formam a hora e são precisos sessenta minutos e uma quantidade maior de segundos para fazer o que se chama hora. É uma coisa complicada que nunca entendi porque me faz mal estar pen- sando mais do que é necessário em coisas assim pueris. Mas o Papalagui faz disso uma ciência importante: os homens, as mulheres, até as crianças que mal se têm pernas usam na tanga, presa a correntes grossas de metal, ou pendurada no pes- coço, ou atada com tiras de couro ao pulso, certa pequena máquina, redonda, na qual lê o tempo, leitura que não é fácil, que se ensina as crianças, aproximan- do-lhe do ouvido a máquina para diverti-las. HISTÓRIA: A CIÊNCIA DO HOMEM NO TEMPO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E208 Esta máquina fácil de carregar em dois dedos parece-se por dentro com as máquinas que existem dentro dos grandes navios, que todos vós conheceis. Mas também existem máquinas do tempo grandes e pesadas, que se colocam dentro das cabanas, ou se suspendem bem alto para serem vistas de longe. Para indicar que passou uma parte do tempo, há do lado de fora da máquina uns pequenos dedos, ao mesmo tempo, a máquina grita e um espírito bate no ferro que está do lado de dentro. Sim, produz-se mesmo muito barulho, um grande estrondo nas cidades europeiasquando uma parte do tempo passa. Ao escutar este barulho, o Papalagui queixa-se: “Que tristeza que mais uma hora tenha se passado”. O Papalagui faz, então, uma cara feia, como um homem que sofre muito; e, no entanto logo depois vem outra hora novinha. Só consigo entender isso pensando que se trata de doença grave. “O tempo corre feito um corcel!”; “Dêem um pouco mais de tempo”: são as queixas do Branco. Digo que deve ser uma espécie de doença porque, supondo que o Branco queira fazer alguma coisa, que seu coração queima de desejo, por exemplo, de sair para o sol, ou passear de canoa no rio, ou namorar sua mulher, o que acon- tece? Ele quase sempre estraga boa parte do seu prazer pensando, obstinado: “não tenho tempo de me divertir”. [...] Ó amados irmãos! Nunca nos queixamos do tempo; amamo-lo conforme vem, nunca corremos atrás dele, nunca pensamos em ajuntá-lo ou parti-lo. Nunca o tempo nos falta, nunca nos enfastia. Adiante-se aquele entre nós que não tem tempo! Cada um de nós temos tempo a vontade e nos contentamos com ele. Não precisamos de mais tempo do que temos e, no entanto, temos tempo que chega. Sabemos que no devido tempo havemos de chegar ao nosso fim e o Grande Espírito nos chamará quando for sua vontade, mesmo que não saibamos quantas luas nossas passaram. Devemos livrar o pobre Papalagui, tão confuso, da sua loucura! Devemos devolver-lhe o verdadeiro sentido de tempo que per- deu. Vamos despedaçar a sua pequena máquina de contar o tempo e lhe ensinar que, do nascer ao por do sol, o homem tem muito mais tempo do que é capaz de usar (SCHEURMANN, s.d.) Para entender melhor: Na década de 1920, Tuávii, chefe de uma aldeia loca- lizada numa ilha no arquipélago de Samoa, na Polinésia, decidiu conhecer a O Tempo Como Aprendizagem Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 209 civilização europeia, para verificar como era a vida deste dito homem branco, visto que, em sua cultura, havia uma grande integração do homem com a natu- reza. A vida nesta aldeia estava organizada conforme o clima, as mudanças de estação, a caça, o curso dos rios e outros elementos da natureza. Dessa forma, seu modo de vida desconhecia noções como propriedade privada, dinheiro, roubo, pobreza, falta de tempo e consumismo. Pela leitura é constatado, a priori, que os níveis das durações estão relacio- nados às mudanças ou permanências nas vivências humanas. Estas podem ser identificadas a partir dos acontecimentos ou das estruturas (aqui pensamos com Braudel) que eles formam, quaisquer que sejam os fenômenos focalizados. Existem comportamentos coletivos enraizados, ou ideias que atravessam séculos. O preconceito contra o povo judeu, por exemplo, pode ter tido uma pro- vável origem na ideia de que eles foram os assassinos de Jesus, se levarmos em conta o imaginário medieval do Ocidente entre os séculos V e XV. Além disso, em implicações mais profundas, de um antissemitismo como ódio racial, moti- vado por várias razões (alguns apontam a econômica). Além do mais, Hitler os rotulou de “fermentos de decomposição” em sua obra “Minha Luta” e partiu para o Holocausto que tantas narrativas apresentam. A maior prova de que o tempo inclui uma aprendizagem social, não só pelo legado, mas pelo ambiente vivido, pode ser encontrado no exemplo da vida de personagens que, aparentemente, conduziram o processo histórico como o mencionado Hitler ou, antes dele, Napoleão. Há de se considerar, porém, que na discussão entre quem lidera o processo, o personagem ou a História, sabemos que sem condições específicas e próprias de um ambiente sociocultural ninguém lidera ou convence outras pessoas a se engajar em seu projeto político ou econômico. Fonte: Shutterstock. Figura 1 - Adolf Hitler. HISTÓRIA: A CIÊNCIA DO HOMEM NO TEMPO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E210 Um provérbio árabe diz que os homens são mais filhos dos seus tempos do que dos seus pais. Em outras palavras, um Napoleão ou um Hitler, com todas suas potencialidades não teriam logrado êxito em suas pretensões, se tivessem nascido em uma conjuntura histórica – um tempo – diferente. É necessário todo um arranjo de fatores que permitam que os novos valores substituam outros. Georg Plekahnov escreveu que o grande homem é grande não porque suas particularidades individuais imprimiram uma fisionomia individual aos gran- des acontecimentos históricos, mas porque é dotado de singularidades que o tornam mais capaz de servir às grandes necessidades sociais de sua época, sob a influência de causas gerais e particulares. Tomando-se os calendários como formas socializadas de medida do tempo, é possível imaginar que existam outras medidas da categoria que não sejam a corrente em nossa cultura ocidental. Outras sociedades se valem de outros calen- dários, ou seja, nem todos os povos do mundo utilizam o calendário cristão (o gregoriano) para contar o tempo. O Calendário gregoriano é o calendário utilizado na maior parte do mundo. Foi promulgado pelo Papa Gregório XIII em 24 de Fevereiro do ano 1582, de- pois de ter passado por uma reformulação do calendário romano elaborado por Júlio César (45 a.C.). Oficialmente o primeiro dia deste calendário foi 15 de Outubro de 1582. Neste calendário gregoriano: Omitiram-se dez dias (5 a 14 de Outubro de 1582). Corrigiu-se a medição do ano solar, estimando-se que este durava 365 dias solares, 5 horas, 49 minutos e 12 segundos, o equivalente a 365,2424999 dias solares. Estabeleceu-se o início do novo calendário em 1º de janeiro do respectivo ano. Fonte: adaptado de Cabrini e Catelli (2004, p. 52). O Tempo Como Aprendizagem Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 211 Os muçulmanos, por exemplo, usam como marco inicial do islamismo e do seu calendário a Hégira, data da fuga de Maomé, seu maior profeta, da cidade de Meca para Medina, ambas na atual Arábia Saudita (16 de julho de 622, segundo nosso calendário). Os judeus utilizam como marco inicial o que acreditam ser a data de criação do mundo. O nascimento de Cristo, por exemplo, ano 1 da era cristã, corresponde ao ano 3.761 do calendário judaico. Os chineses, que por milênios tiveram seu próprio calendário, adotaram o calendário gregoriano em 1912. A divisão da História que pretende corresponder às grandes eras da humanidade tem sido muito criticada, pois os termos Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea têm exigido uma revisão, principalmente quando se trata de considerar o homem pós-Revolução Francesa (1789) como nosso contemporâneo. Essas críticas, levantadas por historiadores como Geoffrey Barraclough em seu livro “Introdução à História contemporânea” se misturam à outras daqueles que consideram nossa maneira de historiar eurocêntrica, por ignorar grandes culturas como a dos incas ou maias americanos, além de ignorar a organização da produção nessas sociedades. HISTÓRIA: A CIÊNCIA DO HOMEM NO TEMPO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E212 IDENTIFICANDO OS DIFERENTES TIPOS DE TEMPO Considerando as dificuldades que nossos alunos têm em situar um fato no contexto temporal e, ao mesmo tempo, levá-los a refletir sobre o processo da uti- lização do tempo nas diferentes sociedades, agora passemos a entender melhor a problemática. A noção de tempo transcende a própria história humana, e por esse motivo ela se torna complexa para o entendimento denossos alunos, além de ser con- siderada uma questão puramente convencional e referencial. É também uma regularidade convencionada socialmente, colocada sobre uma sucessão de acon- tecimentos com intuito de organizá-los e facilitar sua referência posterior. A disciplina de História tem como eixo norteador o estudo do tempo, den- tro de suas diversas perspectivas. Diferentemente da concepção dada pelos Identificando os Diferentes Tipos de Tempo Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 213 povos primitivos e da Antiguidade, na qual o tempo era visto como uma ques- tão cíclica, modernamente o tempo é, na maioria das vezes, tomado dentro de uma perspectiva linear, como uma sucessão de fatos que não se repetem, sendo a maneira mais concreta de compreendê-lo. Esse tempo passou, então, a ser conhecido como tempo cronológico. Mas, busquemos compreender os diferentes tipos de tempo. O tempo deno- minado cíclico é o tempo da natureza. Esta noção diz respeito aos fenômenos que ocorrem na natureza e que independem da vontade humana. Como exemplo, teríamos a duração da Rotação da Terra, ocasionando o dia e a noite; das fases da Lua e do movimento de Translação da Terra em torno do Sol. Esses fenômenos naturais repetem-se continuamente, e os chamamos de cíclicos (ELÍADE, s/d.). O tempo histórico é o mesmo que tempo cultural, pois o homem, nas suas relações sociais e enfrentamentos cotidianos, constroem histórica e cultural- mente, sua forma de agir, pensar e viver. Ou seja: o tempo histórico é construído pela ação humana a fim de responder às necessidades concretas impostas pelo vivido, tendo como referência o tempo da natureza. Além disso, há também o tempo subjetivo ou pessoal, pois o tempo em si é algo universal e absoluto, fora do nosso alcance e, por isso mesmo, uma sensa- ção. Às vezes sentimos o tempo bom como curto e o tempo ruim como longo, exaustivo. Sentimos, também, à medida que ficamos mais velhos, que o tempo do relógio parece passar cada vez mais depressa (WHITONW, 1993). Esse tempo é interno de cada indivíduo, é o tempo das mudanças pessoais. Ele é particular, de acordo com nosso modo de vida. A sensação que temos da passagem do tempo ocorre de acordo com o prazer ou dor causado pelos acon- tecimentos. Assim, ao brincar durante uma hora, as crianças terão a sensação de que o tempo passou muito rápido, mas, se passarem o mesmo intervalo de tempo sendo atendidos por um dentista, terão a sensação de que o tempo demo- rou a passar. HISTÓRIA: A CIÊNCIA DO HOMEM NO TEMPO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E214 A CRIANÇA E AS PRIMEIRAS NOÇÕES DE TEMPO É bastante difundida a ideia de que a escola deva atuar na produção das identidades socioculturais dos alunos, na perspectiva da cidadania. “Mas para constituírem-se cidadãos é necessário o domínio de categorias e conceitos que permitam com- preender e intervir no mundo” (HICHMANN, 2002, p. 21). Quando o aluno inicia seu processo de escolarização, ele já domina alguns referentes temporais, como noções de duração, pois são visões ideologicamente construídas de temporalidade social. No entanto, o que se vê nas escolas é um ensino de História numa perspectiva que se resume em festejar datas num des- file linear, anacrônico e sem significado, como afirma Karnal (2004). Agindo dessa forma, a escola está contribuindo para canonizar uma verdade absoluta, na qual não cabe a multiplicidade tampouco a vida das crianças que as estudam. Nessa perspectiva, cabe à escola levar a criança a compreender que, para o senso comum, tempo e medida são a mesma coisa. Isso ocorre pela necessidade de se normatizar de forma “exata” algo que é apreendido sensorial e intuitiva- mente. Assim, não há sentido na observação empírica de se falar em dimensões temporais compreendidas fora do espaço do calendário. A Criança e as Primeiras Noções de Tempo Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 215 Esse tempo científico, expresso no calendário e marcado nos relógios, foi sendo moldado com essas características pela sociedade burguesa, que começou com o ritmo marcadamente agrícola, ditado pela temporalidade natural até che- gar à jornada de trabalho, medida por horas. Os sinos das Igrejas, que chamavam os homens às orações, foram sendo substituídos, em determinado tempo, pelos relógios nas torres que chamavam os homens para o trabalho. Segundo Norbert Elias (1998), atualmente os relógios exercem as mesmas funções que exerciam os fenômenos naturais em outras épocas, ou seja, orienta as pessoas que estão inseridas numa sucessão de processos, procurando har- monizar os diferentes comportamentos e situando-os na duração dos mesmos. A investigação e a problematização que se propõe é de não somente trabalhar as divisões do calendário, além de não fazer a pura e simples transmissão de conteúdos, sem refletir sobre os processos históricos que originam os mesmos. Mais importante que um conteúdo de história de caráter factual é ne- cessário que, no Ensino Fundamental, os alunos construam noções temporais básicas para localizarem-se e organizarem-se no tempo his- tórico, diferenciarem e relacionarem temporalidades, identificarem re- ferências e medições temporais, perceberem a existência de diferentes ritmos e épocas e compreenderem que tempo é uma convenção social (HICHMANN, 2002, p. 24). A forma de contar o tempo é própria de cada cultura. Não basta destacar que existiram outros calendários em outras culturas, mas sim localizar o aluno no seu tempo e espaço, oportunizando lhe condições de reflexão sobre a criação histórica de seu tempo. Assim, na nossa cultura ocidental, o valor do tempo é Você já parou para pensar que atualmente nossas vidas são regidas pelos ponteiros do relógio? HISTÓRIA: A CIÊNCIA DO HOMEM NO TEMPO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E216 medido pela produtividade e otimização do trabalho. “Tempo é dinheiro”, lem- bra Nadai (1986). Para a criança domi- nar os diferentes tipos de tempo, é preciso propiciar momentos de compreen- são das noções de duração em seus diferentes nuances (curta, média e longa dura- ção como queria Braudel), ou seja, quanto tempo durou a ação. Além disso, devem ser abordadas as permanências e mudanças, as continuida- des e descontinuidades, “o que é mais antigo”, “o que é mais atual” e o que cada aluno entende por “antigo ou por passado”. Outra noção é a de sucessão, as coisas que acontecem uma após a outra, “o muito antes”, “o muito depois” e os diferentes ritmos desse suceder, desse tempo sequencial. Além do mais, é importante compreender a simultaneidade tempo- ral, que permite ao aluno perceber que existem coisas que acontecem ao mesmo tempo e, enquanto se está na escola, a mãe e o pai estão fazendo outras coisas. Portanto, “a noção de tempo é uma aprendizagem processual e muito complexa que exige a construção de conceitos” (HICHMANN, 2002, p. 36). Apesar de, ao longo de todas nossas discussões, tenhamos feito referên- cias à construção do conhecimento numa perspectiva dada por Vygotsky, agora passamos a mencionar Piaget, pois defendemos a ideia de que ele, melhor do que qualquer outro pesquisador, realizou estudos e chegou às constatações que comungamos concernentes ao domínio do tempo na criança. Considerando a teoria de Piaget (2002), a criança passa por períodos na construção das noções temporais: após uma primeira fase – “temposensório- -motor” – a criança passa pelo estágio do “tempo intuitivo”, até chegar ao “tempo operatório”. Passemos a examinar cada uma destas etapas mais detalhadamente: A Criança e as Primeiras Noções de Tempo Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 217 No primeiro estágio – denominado Estágio Sensório-motor - existe um tempo prático, ligado às ações e experiências imediatas da criança. O tempo só existe na medida em que o bebê está ocupado numa atividade. Não há nenhuma possibi- lidade de raciocinar sobre um tempo futuro, ou sobre a noção do antes e depois, nem qualquer rudimento da causalidade. A noção temporal corresponde unica- mente à experiência da duração de um reflexo: mamar, engatinhar etc., e é uma espécie de egocentrismo prático, como se a criança vivesse suas próprias ações, imobilizadas num presente contínuo (ANTUNES, 1993). Ou melhor, o período sensório-motor corresponde à passagem do exercício dos reflexos à inteligência sensório-motora, e encontra-se dividido em seis subestágios. No primeiro estágio, que corresponde ao primeiro mês após o nascimento, algumas atividades específicas que a criança realiza têm por função formar os primeiros esquemas, que são ainda muito autistas visto que formam um todo fechado em si mesmo, rígido. No segundo estágio, que corresponde ao segundo, terceiro e quarto meses aproximadamente, o bebê já é capaz de expandir seus esquemas, assimilando novos objetos por meio do tato muitas vezes sem intencionalidade, ou seja, sem ter consciência de seus objetivos, mas feitos repetidamente. No terceiro estágio, aproximadamente do quarto ao oitavo mês, a conduta de repetição de ações ligadas ao próprio corpo estende-se gradativamente para o meio exterior; o bebê procura repetir um acontecimento novo que envolve sua ação sobre os objetos. Por exemplo, após realizar uma ação espontânea sobre os objetos, o bebê procura repeti-la várias vezes (ex.: chacoalhar o brinquedo). No quarto estágio, aproximadamente do oitavo até o décimo segundo mês, a criança começa a coordenar os esquemas que ela já construiu como esquemas meio, para alcançar intencionalmente um objetivo. Agora, é capaz de buscar meios conhecidos para superar o obstáculo e alcançar seu objetivo. No quinto estágio, do décimo segundo mês até o décimo oitavo mês, aproxi- madamente, a criança começa a criar esquemas novos por meio da experimentação para alcançar seus objetivos. Diante de um novo obstáculo imposto pelo meio, primeiro a criança aplica os esquemas conhecidos para alcançar seu objetivo e, caso não tenha sucesso, ela não desiste e passa a realizar tentativas que levam à acomodação. Aqui, Piaget (2002) considera que a inteligência sensório-motora HISTÓRIA: A CIÊNCIA DO HOMEM NO TEMPO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E218 encontra-se constituída, isso porque essa inteligência encontra-se presa à expe- riência prática, ou seja, ao contato direto com o mundo, por intermédio de uma ação sensório-motora. Finalmente no sexto estágio, do décimo oitavo até o vigésimo quarto mês, a criança, ao se deparar com um obstáculo, não realiza mais tentativas por expe- rimentação ativa, que está presa à percepção e ação direta; ela agora realiza uma experimentação mental ou interiorizada, ou seja, ela executa essas tentativas mentalmente para depois aplicar os esquemas. Essa inteligência agora irá evoluir para outro plano, em que o sujeito poderá continuar assimilando um universo cada vez maior, considerando a temporalidade e a espacialidade por intermédio de um sistema de representação que ele virá a construir. Para Antunes (1993), no estágio intuitivo ou pré-operatório, se englobarmos todo o período, as primeiras intuições temporais são centradas sobre alguma relação-privilegiada, ligada ao egocentrismo. Progressivamente, as centraliza- ções primitivas se diluem por meio do processo de descentração. Nesse estágio, cada movimento percebido caracteriza um tempo particular, e os momentos sucessivos do tempo não podem, ainda, se relacionar entre si por uma medida comum. A criança se apoia, por exemplo, na percepção espa- cial para calcular o tempo: é mais velho quem é mais alto; correu mais tempo quem foi mais longe. Ela ainda não consegue coordenar a duração e a ordem de sucessão e age por tentativas empíricas, ou seja, por meio do ensaio e erro. Esse período compreende aproximadamente dos dois aos sete anos. É um perí- odo intermediário entre os esquemas sensório-motores e os esquemas conceituais, constituído de estruturas semiconceituais que são chamadas de pré-conceitos. O pré-conceito, no início do período representativo, ultrapassa os esquemas sensório-motores, porque a criança coordena as experiências mentais e não sim- plesmente os esquemas práticos. Por outro lado, ela ainda não consegue objetivar a realidade, ou seja, não consegue reunir os objetos em classes, extrair relações ou coordenar relações em raciocínios; ela simplesmente deforma a realidade conforme seus desejos e interesses. A Criança e as Primeiras Noções de Tempo Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 219 O desenvolvimento ocorrido nessa primeira etapa do período pré-operató- rio é denominado de período intuitivo. A propriedade de reversibilidade do pensamento é um dos principais pres- supostos da teoria piagetiana, relacionada à inteligência mais elaborada que possibilita a objetivação do meio. A capacidade de reversibilidade do pensa- mento significa a tomada de consciência de que, as ações interiorizadas, que correspondem às transformações de ações mentais, podem ser executadas simul- taneamente em seus dois sentidos, direto e inverso, mantendo a identidade de cada ação por si mesma. Tomamos como exemplo a atividade de conservação de objetos descontínuos: quando solicitada a comparar quantidades de objetos descontínuos, contidos em recipientes de forma bem diferenciada (um fino e alto e outro grosso e baixo), a criança do período intuitivo afirma que não há a mesma quantidade, apoiando- -se em um determinado aspecto figurativo dos dois copos que estão cheios (ou a largura como o comprimento no caso dessa prova). Se questionada quanto à certeza de sua resposta, por exemplo, dizendo que outra criança respondeu em relação a outro aspecto, a criança se desequilibra e alterna seu ponto de vista (ex.: deixa de se centrar na altura para se centrar na largura, por exemplo). No Estágio Operatório, tais métodos de tentativas perduram aproximada- mente dos sete aos doze anos, quando se observa uma organização, caracterizada por uma compreensão de conjunto das relações de sucessão, simultaneidade e dos intervalos, isto é, das durações. Um tempo único é construído e abarca todos os momentos, graças a uma coordenação da duração e da ordem de sucessão. A gênese do tempo operatório revela claramente a ligação entre o egocentrismo e a reversibilidade numa relação inversa, ou seja, quanto mais a criança vence o primeiro, mais adquire a segunda (ANTUNES, 1993). O pensamento operatório é aquele em que as estruturas mentais encontram- -se equilibradas, constituindo um sistema coerente e integrado de operações, em que cada operação está integrada ao sistema total e só tem significado se for enten- dida como parte desse todo, em oposição à ideia de um segmento de elementos HISTÓRIA: A CIÊNCIA DO HOMEM NO TEMPO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E220 justapostos.Assim, o conceito de operação é determinante para compreender o principal avanço dessa fase do desenvolvimento cognitivo. Consideramos o termo operação como uma ação interiorizada e reversível, que deve compor um sistema em coordenação com outras operações. Sendo assim, não podemos considerar uma única operação, mas várias operações que se coordenam em estruturas. Quando a criança é capaz de operar, começa-se o período operatório for- mal, que se inicia por volta dos doze anos e perdura por toda a vida. A maior complexidade que o pensamento equilibrado pode alcançar é no período das operações formais, a partir dos doze anos em média, quando o adolescente é capaz de operar sobre hipóteses. Ele é capaz, frente a uma situação problema, operar sobre os dados empíricos (realizar operações concretas) e além do mais, é capaz de pensar todas as possibilidades que poderiam ocorrer além daquelas que ocorrem de fato e vice-versa (levantar todas as possibilidades para testar qual é verdadeira). Ele toma os resultados das operações concretas como pro- posições e depois opera sobre essas proposições, isolando todas as variáveis e relacionando todas as possíveis combinações entre elas (por análise combinató- ria). Seu pensamento diferencia o real do possível. Analisando os períodos supracitados, podemos inferir, assim como fez Piaget em sua obra “Noção de tempo na criança”, que o tempo não pode ser considerado um conceito, visto que não é possível defini-lo, e ele está sempre em mutação. Além disso, existem muitas variáveis para entendê-lo em toda a sua dimensão: tempo físico, psicológico, vivido e histórico. Desse modo, a criança da faixa etá- ria que aqui nos propomos a trabalhar, do zero aos dez anos em média, não é capaz de elaborar o conceito de tempo. Ela apenas adquire noções que poste- riormente se transformarão em conceitos. Como exercício de análise do que nos propomos a discutir, leia os dois frag- mentos abaixo: ■ Texto 1 Entrevistador (E) – Ivan, você pode contar pra mim a história do Descobrimento do Brasil, o que você sabe? A Criança e as Primeiras Noções de Tempo Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 221 R – Ah, é o Pedro Álvares Cabral, estava navegando no mar. Era barco à vela. Daí o vento, o vento estava para um lado... Depois o vento foi para o outro. Ele estava indo descobrir outro país não sei qual é. Aí o vento bateu para o outro lado e ele foi para o Brasil e quando ele chegou no Brasil só tinha índio, não tinha nenhuma pessoa assim, só índio. E – Quando isso aconteceu? R – Ah, eu não sei. E – Em 1500. Está bem? R – Quando aconteceu o descobrimento do Brasil? 1500. E - Seu pai era vivo quando isso aconteceu? R – Não. E – Por quê? R – Ah, porque isso era muito antigamente, nem acho que meu avô existia. E – O que é muito antigamente? R – Ah, faz muitos anos, faz muitos anos que isso aconteceu. E – Quando você acha muitos anos? R – Faz 400 e alguns anos. E – 400 é muito tempo? R – É. E – Seu avô era vivo na época do descobrimento do Brasil? R – Meu avô? Acho... Talvez sim? E – Por que você acha que sim? R – Porque meu avô faz muito tempo que ele nasceu e que ele viveu. E – E seu bisavô era vivo na época do descobrimento do Brasil? R – Meu bisavô era. HISTÓRIA: A CIÊNCIA DO HOMEM NO TEMPO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E222 E – Por quê? R – Porque faz muito tempo que ele nasceu e que ele viveu e também faz muito tempo que aconteceu isso, o descobrimento (OLIVEIRA, 2000, p. 121). ■ Texto 2 Todo ser humano tem consciência do passado (definido como o período imedia- tamente anterior aos eventos registrados na memória do indivíduo), em virtude de viver com pessoas mais velhas. Provavelmente todas as sociedades que interes- sam ao historiador tenham um passado, pois mesmo as colônias mais inovadoras são povoadas por pessoas oriundas de alguma sociedade que já conta com uma longa história. Ser membro de uma comunidade humana é situar-se em relação ao seu passado (ou da comunidade), ainda que apenas para rejeitá-la. O passado é, portanto, uma dimensão permanente da consciência humana, um compo- nente inevitável das instituições, valores e outros padrões da sociedade humana. O problema para o historiador é analisar a natureza desse “sentido do passado” na sociedade e localizar suas mudanças e permanências. Fonte: Hobsbawn (1998, p. 22). No primeiro texto – a entrevista – podemos verificar os elementos da tem- poralidade histórica que a criança possui, considerando sua idade e a teoria de Piaget. Para o historiador Hobsbawn (1998), qual significado do passado? Quais as relações entre a perspectiva do passado da criança e as ideias do historiador? É possível estabelecer um paralelo? Tente você também realizar este exercício. O Trabalho com Linhas do Tempo Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 223 O TRABALHO COM LINHAS DO TEMPO Uma boa parte dos historiadores compreende que a História da humanidade está organizada em quatro grandes períodos, numa divisão chamada de quadripar- tismo: Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea. O início e o fim de cada um desses períodos são marcados por um acontecimento considerado de relevância do ponto de vista eurocêntrico, ou seja, da História do Ocidente europeu. Ao tratar do tempo histórico, os historiadores se deparam com um problema: a divisão entre História e Pré-história, considerando que a Pré-História é com- preendida como um período em que os povos não deixaram registros escritos. Por outro lado, defendemos a ideia de que todos fazem história e deixam seus registros das experiências cotidianas. Portanto, acreditamos que, embora haja aqueles que simplesmente não consideram a Pré-história um período digno de ser estudado, ele também é tão importante como qualquer outro. HISTÓRIA: A CIÊNCIA DO HOMEM NO TEMPO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E224 Visto sob este ângulo, achamos pertinente definirmos alguns conceitos que permeiam os trabalhos com linhas do tempo. Um marco se refere ao fato que delimita um período e outro. Este período é compreendido como um intervalo de tempo que vai de um marco a outro. Quando o professor trabalha com representações cronológicas pessoais, comparativamente ao exercício de cronologias de uma dada sociedade, poderá inferir e refletir sobre a continuidade ou ruptura dos movimentos sociais dessa sociedade. O aluno, por exemplo, perceberá que sua história pessoal faz parte da história de outras pessoas – simultaneidade – e que nasceram antes ou depois dele – ordenação e sucessão. Dessa maneira, é possível construir uma linha do tempo para cada socie- dade, organizando sua história. Quando se estabelece a linha do tempo de uma sociedade, ou mesmo do mundo, não há apenas uma possibilidade. Com base no estudo de momentos ou fatos amplamente aceitos, cada pesquisador julgará aquilo que considera mais importante e que deve fazer parte de uma linha do tempo. O trabalho com linhas do tempo possibilita desenvolver diferentes habilida- des cognitivas. Cabe ao professor adequá-las a seus objetivos: ■ São organizadas dentro de uma ordem cronológica de fatos e ideias que não se repetem. ■ São tomadas como períodos finitos ou infinitos: tempo geológico, tempo da vida de uma pessoa, de uma cidade, tempo da história humana. ■ É contada a partir de um referencial.Lembremo-nos da linha do tempo tradicional da História que tem como marco o nascimento de Cristo, esses referenciais assumem “valores” crescentes e decrescentes. ■ Pode apresentar diferentes unidades de medida de tempo: dias, semanas, meses, anos, décadas, séculos, milênios, horas... adequando ao tamanho do período de tempo que se deseja representar. ■ Existem diferentes formas de representações de linha do tempo: com desenhos, com valores estatísticos, com fotos, com mais ou menos dados explicativos, na forma espiral. O Trabalho com Linhas do Tempo Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 225 Fonte: adaptado de Orosco Roman ([2017], on-line)1. Para o historiador, em todo estudo há um elemento central: o ser humano. Mas, para outros cientistas, o elemento central é o planeta Terra, cuja histó- ria começou bem antes do aparecimento dos seres humanos. Esses pesqui- sadores criaram a linha do tempo geológico. Ela se inicia com a formação do planeta e é marcada por vários fatos considerados importantes, como as mudanças naturais pelas quais passou o planeta, o surgimento dos primei- ros seres vivos e as mudanças na superfície e na atmosfera terrestre. A linha do tempo explicitada em espiral nos permite analisar o tempo geológico. Fonte: a autora HISTÓRIA: A CIÊNCIA DO HOMEM NO TEMPO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E226 As linhas do tempo podem ser traçadas na horizontal ou também na vertical se forem retas, mas há ainda as elaboradas em linhas curvas, considerando que a história é feita de oscilações, além das em espiral. O importante é que as crian- ças tenham a oportunidade de construir linhas do tempo, inicialmente coletivas, tendo a professora como escriba, depois individualmente, sob a supervisão da professora e, por fim sozinhas, considerando o grau de complexidade que uma linha do tempo exige. Vale frisar que aproveitar o tempo subjetivo ou vivido das crianças da Educação Infantil e anos iniciais do Ensino Fundamental é de extrema impor- tância e, por isso, deve ser bem aproveitado em todas as atividades escolares, pois é a partir dele que melhor se estabelece relação com os tempos mais distantes e não vividos pelo indivíduo. Assim, torna-se evidente valorizar os conhecimen- tos cotidianos de cada aluno para estruturar o planejamento, de forma que este se torne coerente e próximo da realidade da turma. O Trabalho com Linhas do Tempo Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 227 Criação de Santo Agostinho, no ponto de vista linear o calendário cristão as- sinala uma dificuldade que custa muito aos estudantes: compreender uma divisão do tempo que começa do meio, e admite dois sentidos: um negati- vo, outro positivo. - + /2008/.....................1.a.C. CRISTO.1 d.C ....................../2008/ Esta maneira de datar o tempo começou com o monge Dionísio, o Breve ou Pequeno em 525 (no séc.VI d.C.), durante a Idade Média. Dionysius Exiguus (em latim) alterou a forma de calcular as datas que utiliza- vam na altura e que era um método romano. O monge não agiu por conta própria, mas sim, a pedido das autoridades eclesiásticas. O Papa João I pediu a um monge que fizesse os cálculos do ano em que Je- sus teria nascido. Para fazê-lo, Dionísio tomou como referência as descrições de Mateus e Lucas sobre o nascimento de Jesus, chegando à conclusão que Cristo teria nascido 753 anos depois da fundação de Roma. A história ficou assim dividida em antes de Cristo (a.C.) e depois de Cristo (d.C.). Anteriormente, portanto, os romanos contavam o tempo a partir da data da fundação de Roma, (ab urbe condit - em latim) e foi por isso que a data provável do nascimento de Jesus Cristo foi tomada como tendo ocorrido no ano de 753 ab urbe condit (da fundação de Roma), contando, para trás no tempo, os reinados dos imperadores romanos. O fato se explica: observando o evoluir da História, constatamos uma pro- gressiva eliminação dos cultos antigos romanos em favor do cristianismo. Em 380, este se tornou a religião oficial do Estado romano. No séc. IV, de religião perseguida, passou a ser a única religião permitida no Império Ro- mano. Vai-se dando uma progressiva cristianização da sociedade. A contagem do tempo de Dionísio, depois de ampla aceitação popular, foi aceita pela Igreja Católica a partir do ano 1000 e progressivamente acatada pelos países católicos e, bem depois, pelos protestantes. Fonte: a autora HISTÓRIA: A CIÊNCIA DO HOMEM NO TEMPO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E228 Podemos propor uma atividade para fazer e aprender mais sobre o tempo, como no exemplo abaixo: Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 229 CONSIDERAÇÕES FINAIS Nessa última unidade do nosso material de Metodologia do Ensino de História, verificamos que o domínio do tempo é abstrato, em virtude de não apresentar uma materialidade como o objeto ou o espaço e nem apresentar relações obser- váveis como a causalidade. O tempo é, além disso, a categoria mais difícil de ser verificada no comportamento da criança, assim como é a mais significativa, se a considerarmos do ponto de vista pedagógico, visto que, uma vez dominadas, essas categorias permitem ao sujeito realizar a reversibilidade dos fatos e esta- belecer relações entre os ocorridos no passado e no presente. Medir o tempo é algo tão abstrato que não pode ser percebido pelos senti- dos. Desse modo, em todos os momentos de nossas vidas atravessamos o tempo, e isso se refere ao tempo como se este tivesse uma forma na qual fosse objetiva da existência. Exatamente por isso, os grandes pesquisadores seguiram essas orien- tações para entender primeiramente a natureza e decifrar suas composições e, posteriormente, entender o que é o tempo e como se constituiu até a atualidade. Sem dúvida, o tempo organiza nossos modos de ver e conceber a vida em sociedade. Neste sentido, apresentamos aqui a complexa aquisição do conceito de tempo por parte dos alunos, inseridos nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Para que ocorra essa aquisição do tempo, o aluno precisa compreender o antes, o agora e o depois, permeando a relação que se estabelece entre o tempo passado e o tempo presente, para poder perceber que, conforme o tempo passa, a sociedade muda seus costumes e valores sociais. Todo o processo de aquisição de qualquer conhecimento é abstrato. No entanto, o tempo é o mais complexo e, por essa razão, exige do professor uma grande responsabilidade na formação de seus alunos, visto que é necessário que esta criança consiga estabelecer relações específicas entre essas marcas tempo- rais: relações de ordem dos acontecimentos e relações das durações, bem como da simultaneidade. 230 1. As coisas estão sempre mudando. Crianças nascem todos os dias, pessoas en- velhecem, cidades são construídas e outras são destruídas, enfim, muita coisa se ganha e outras se perdem. Tudo se transforma. E com isso, sentimos o tem- po passar, às vezes mais rapidamente, quando há muitas mudanças, e outras mais devagar, quando pouca coisa muda. Nesse sentido, vimos que as noções de temporalidade precisam ser trabalhadas na criança desde a mais tenra idade – pois não é um conceito inato e, por isso, precisa