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Texto de apoio para atividade avaliativa que diferencia senso comum, ciência e atitude filosófica, explicando crenças cotidianas, exemplos (ditados, ideia Sol/Terra, chás) e o caráter investigativo da ciência, com citação de Giles G. Granger.

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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – PÓLO UNIVERSITÁRIO DE VOLTA REDONDA 
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS – ICHS 
PROGRAMA NACIONAL DE FORMAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA – PNAP/UAB 
BACHARELADO EM ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 
Fundação Centro de Ciências e Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro 
Centro de Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro 
 
 
Texto de Apoio para Atividade Avaliativa I – Questionário 
Seminário Integrador 
Coordenadora Marina Cordeiro 
 
Diferenciando senso comum, ciência e atitude filosófica 
 
Em nossa vida cotidiana, afirmamos, negamos, desejamos, aceitamos ou recusamos 
coisas, pessoas, situações. Fazemos perguntas, como "Que horas são?", ou "Que dia é 
hoje?". Fazemos afirmações, como "Onde há fumaça, há fogo", ou "Não saia na chuva para 
não se resfriar". Avaliamos coisas e pessoas, dizendo, por exemplo, "Esta casa é mais 
bonita do que a outra" e "Maria está mais jovem do que Glorinha". Também é comum 
ouvirmos os pais e amigos dizerem que quando o assunto é o namorado ou a namorada não 
somos capazes de ver as coisas como elas são, que vemos o que ninguém vê e não vemos o 
que todo mundo está vendo. Dizem que somos "muito subjetivos". Ou, como diz o ditado, 
que "quem ama o feio, bonito lhe parece". Ao perguntar "Que horas são?" ou "Que dia é 
hoje?", espera-se que alguém, tendo um relógio ou um calendário, dê a resposta exata. Em 
que acreditamos quando fazemos a pergunta e aceitamos a resposta? Acreditamos que o 
tempo existe, que ele passa, pode ser medido em horas e dias, que o que já passou é 
diferente de agora e o que virá também será diferente deste momento, que o passado pode 
ser lembrado ou esquecido, e o futuro, desejado ou temido. Assim, uma simples pergunta 
contém, silenciosamente, várias crenças. 
Por que crenças? Porque são coisas ou ideias em que acreditamos sem questionar, que 
aceitamos porque são óbvias, evidentes. Afinal, quem não sabe que ontem é diferente de 
amanhã, que o dia tem horas e que elas passam sem parar? Crenças e certezas como essas 
formam nossa vida e o senso comum de nossa sociedade, transmitido de geração em 
geração, e que muitas vezes, se transforma em uma crença inquestionável. Quando 
refletimos, concluímos que essas certezas cotidianas, esse pensamento de senso comum, é 
muito diferente do conhecimento científico. Como e por que ela existe? 
O que diferencia a atitude científica do senso comum? Essas “certezas cotidianas”, 
convicções sem a base de um conhecimento racional ou de uma adequada compreensão, 
sendo ditas pelas pessoas a todo instante sobre as mais diversas coisas, são chamadas de 
senso comum. Uma das características principais do senso comum é basear-se no que está 
aparente, na aparência das coisas, como as coisas parecem ser. Por exemplo: o Sol é menor 
do que a Terra e é ele que gira ao redor dela. Tendo a própria Terra como ponto de 
referência e dependendo da maneira como observamos, pode parecer que é uma afirmativa 
correta. Porém, só parece, pois a Astronomia, com seus cálculos matemáticos e suas 
considerações físicas comprova que na realidade, o Sol é muitas vezes maior que a Terra, e 
é ela que se move em torno do Sol. Da mesma forma, é comum ouvirmos expressões e 
ditados como “comer manga com leite dá dor de barriga”, “não toque em asa de borboleta, 
pois pode ficar cego” e etc.; essas expressões, transmitidas de geração em geração e que 
aprendemos como sendo “verdade”, são exemplos de opiniões do senso comum. São 
opiniões baseadas em hábitos, preconceitos e tradições cristalizadas. Vale lembrar que 
muitas vezes, o senso comum pode apontar conhecimentos “corretos” do ponto de vista 
científico, como o uso de chás medicinais em caso de certas doenças – posteriormente a 
comprovadas pela própria ciência. 
A ciência diferencia-se do senso comum porque se baseia em pesquisas, investigações 
metódicas e organizadas, tentando descobrir a verdade sobre a realidade. A ciência é um 
conhecimento que é resultado de um trabalho racional. A ciência desconfia de nossas 
certezas, de nossa aceitação imediata às coisas e ideias, da ausência de crítica e da falta de 
curiosidade. Por isso, onde vemos coisas, fatos e acontecimentos, a atitude científica vê 
problemas e obstáculos, aparências que precisam ser explicadas e em certos casos, 
afastadas. Em seu livro Lógica e filosofia das ciências, o filósofo das ciências Giles Gaston 
Granger escreve: 
A ciência é uma forma sistematicamente organizada do pensamento 
objetivo (...). Da magia – considerada um conjunto de práticas destinado a 
aproveitar os poderes sobrenaturais – a ciência teria conservado uma 
aparência de mistério e gravidade ritual, traço que ainda hoje surpreende a 
maioria dos espíritos. Do feiticeiro ao cientista há apenas um pequeno 
 
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – PÓLO UNIVERSITÁRIO DE VOLTA REDONDA 
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS – ICHS 
PROGRAMA NACIONAL DE FORMAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA – PNAP/UAB 
BACHARELADO EM ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 
Fundação Centro de Ciências e Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro 
Centro de Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro 
 
passo, fácil de transpor, quando considerados os ‘milagres’ da ciência 
moderna. Quanto mais escapam aos nossos sentidos as forças naturais das 
quais ela se aproveita (ondas hertzianas, eletricidade, emissões eletrônicas), 
mais parece ela realizar os sonhos dos mágicos. (...) A ciência, entretanto, 
apenas poderá ser magia aos olhos de espectadores, pois apenas se 
libertando da magia que a ciência propriamente dita pode desenvolver-se. 
 
Nessa discussão sobre a construção do conhecimento científico (pois sim, a ciência é 
um conhecimento criado e desenvolvido por seres humanos, não um fato dado pela 
existência do mundo) é importante lembrar que os fatos observados também são 
construídos pela ciência e cientistas. Ou seja, os fatos , objetos e processos investigados 
pela ciência não são dados empíricos espontâneos de nossa experiência cotidiana, mas são 
construídos pelo trabalho científico. Esta é um conjunto de atividades intelectuais, 
experimentais e técnica, realizadas com base em métodos que permitem e garantem que a 
principal marca da ciência seja o rigor: 
• Separar os elementos objetivos dos subjetivos de um fenômeno; 
• Construir o fenômeno como um objeto de conhecimento controlável, verificável, 
interpretável e capaz de ser retificado ou corrigido por novas elaborações; 
• Demonstrar e provas os resultados obtidos durante a investigação, graças ao 
rigor das relações definidas entre os fatos estudados; a demonstração deve ser 
feita não só para verificar a validade dos resultados obtidos, mas também para 
prever racionalmente novos fatos como efeitos dos já estudados; 
• Relacionar com outros fatos um fato isolado, integrando-o numa explicação 
racional unificada, pois somente essa integração transforma o fenômeno em 
objeto científico, isto é, explicado por uma teoria; 
• Formular uma teoria geral sobre o conjunto dos fenômenos observados e dos 
fatos investigados, isto é, formular um conjunto sistemático de conceitos que 
expliquem e interpretem as causas e os efeitos, as relações de dependência, 
identidade e diferença entre todos os objetos que constituem o campo 
investigado. 
Por isso, no livro acima citado, Granger nos diz que ‘o verdadeiro significado da 
ciência, que a distingue de toda outra forma de nossa atividade civilizada, é o de ser um 
método de pensamento e de ação. 
Delimitar ou definir os fatos a investigar, separando-os de outros semelhantes ou 
diferentes; estabelecer os procedimentos metodológicos para observação, experimentação e 
verificaçãodos fatos; construir instrumentos técnicos e condições de laboratório específicas 
para a pesquisa; elaborar um conjunto sistemático de conceitos que formem uma teoria 
geral dos fenômenos estudados, que controlem e guiem o andamento da pesquisa, além de 
ampliá-la com novas investigações, e permitam a previsão de fatos novos com base nos já 
conhecidos: esses são os pré-requisitos para a construção de uma ciência e as exigências da 
própria ciência. 
A ciência é uma forma de conhecimento distinta do senso comum porque este é baseado 
em hábitos, preconceitos, tradições cristalizadas, enquanto a primeira baseia-se em 
pesquisas, investigações metódicas e sistemáticas e na exigência de que as teorias sejam 
internamente coerentes e digam a verdade sobre a realidade. O que, por sua vez, não 
significa que os conhecimentos do senso comum sejam falsos; o importante é marcar que a 
ciência possui um compromisso com a busca da verdade, enquanto o senso comum é fruto 
das interações sociais cotidianas e não há tal tipo de comprometimento em seu processo de 
construção. 
Importante lembrar por fim, que a própria adesão acrítica à ciência deve ser questionada. 
Considerando a concepção construtivista de ciência, esta é um conhecimento passível a 
aperfeiçoamento, desconstrução e reconstrução – e é, portanto, que muitas vezes 
observamos polêmicas sobre efeitos benéficos ou maléficos de determinadas substâncias e 
alimentos no corpo humano. Sendo assim, é importante manter a postura crítica e atenta em 
relação à própria ciência, buscando reconhecer as bases estruturais através da quais o 
conhecimento foi construído e as afirmações elaboradas. Manter a faculdade de pensamento 
 
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – PÓLO UNIVERSITÁRIO DE VOLTA REDONDA 
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ativa e não transferi-la àqueles considerados “autorizados a pensar” (os cientistas) faz parte 
da construção de um desejo constante pelo saber crítico. 
E a filosofia? Quando mudamos de atitude em relação ao mundo, quando começamos a 
fazer perguntas mais ousadas e profundas, quando começamos a desconfiar do senso 
comum (como “comer manga com leite dá dor de barriga”), podemos dizer que estamos 
adotando uma atitude filosófica. Imagine que em vez de perguntar “que horas são?”, 
perguntássemos “o que é o tempo?”; ou em vez de dizer “Maria ficou maluca”, 
perguntássemos “o que é a loucura, o que é a razão?”. A filosofia também desconfia da 
própria ciência. Quando um médico lhe dá uma receita você faz perguntas? Não, ele manda 
e nós simplesmente obedecemos, afinal, ele tem autoridade, sabe do que está falando e nós 
devemos confiar. Porém, a ciência também muda e erra; você conhece a polêmica entre os 
cientistas sobre os benefícios ou malefícios de comer ovos? Há anos se discute se ovos 
mexidos, cozidos ou fritos fazem bem ou mal à saúde, e enquanto alguns dizem que o 
problema é que ele aumenta o colesterol, outros dizem que ele é muito rico em nutrientes; 
uns dizem que podemos comer até três ovos por semana, outros dizem não se deve comer 
tantos... Em qual dos cientistas devemos acreditar? O ovo é mocinho ou vilão para a saúde 
humana? Essa é apenas uma das polêmicas da ciência. E é por essas e outras, que é 
importante termos uma postura crítica em relação ao que vemos e ouvimos, buscando 
sempre “pensar com a nossa própria cabeça”. Essa mudança de atitude diante do mundo, 
buscando explicações e questionamentos sobre as coisas que vemos, ouvimos e pensamos, 
é a base do desejo do saber, ou seja, é a base de uma atitude filosófica. 
 
(Texto adaptado por Marina Cordeiro. Fonte: Chauí, Marilena. Filosofia - série Novo Ensino 
Médio. SP:Editora Ática, 2008, p.10-11; 275-76).

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