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Contos, crônicas e cartas Organizador: Ricardo Kelmer 1ª edição impressa: set2016 2ª edição Amazon: jan2017 Capa, projeto gráfico e revisão: Miragem Editorial Fortaleza-CE - Brasil - Terra, 3ª Pedra do Sol Neste livro, organizado pelo escritor Ricardo Kelmer, o poeta, cantor e compositor cearense Belchior é homenageado por catorze autores conterrâneos, que escreveram contos, crônicas e cartas inspirados em suas músicas, as mesmas que tanto encantaram os mais velhos e continuam a encantar os mais novos. Literatura para celebrar um notável literato. Ele que soube, como poucos, harmonizar música e poesia, e que fez de sua obra e sua vida um intenso canto de amor, liberdade, questionamento e rebeldia. Salve Belchior! ÍNDICE Apresentação Alucinação Thiago Arrais A palo seco Ana Karla Dubiela Apenas um rapaz latino-americano José Américo Bezerra Saraiva Como nossos pais Ricardo Guilherme Conheço o meu lugar Ethel de Paula Coração selvagem Cleudene Aragão Divina comédia humana Ricardo Kelmer Fotografia 3x4 Raymundo Netto Galos, noites e quintais Joan Edesson de Oliveira Na hora do almoço Gero Camilo Paralelas Carmélia Aragão Sujeito de sorte Jeff Peixoto Todo sujo de batom Xico Sá Velha roupa colorida Roberto Maciel Autores Sobre Belchior APRESENTAÇÃO A ideia de homenagear Belchior em seu aniversário de 70 anos me veio em 2015, quando pensei em montar um show musical que contemplasse também os aspectos literário e filosófico de sua riquíssima obra, que a mim me surpreende desde a adolescência. Impossibilitado de concretizar a ideia inicial, pensei em escrever um livreto com contos baseados em suas músicas, mas desisti, ciente de que não teria fôlego. Veio então a ideia de organizar um livro que reunisse autores conterrâneos de Belchior, cada um escolhendo uma música e escrevendo um texto literário (conto, crônica, carta ou prosa poética) baseado nela. O resultado é este livro que você agora tem em mãos. Seus catorze textos pretendem explorar algumas das infinitas possibilidades literárias que oferece a obra desse cearense de Sobral, que, por si, já é literariamente significativa. Dentro da diversidade da cultura brasileira, Belchior é um nome plenamente reconhecido por seu talento e a originalidade de seu trabalho, no qual une a técnica esmerada da composição melódica com a feitura literária das letras, enriquecidas com filosofia, erudição popular e cultura pop e, muitas vezes, estabelecendo um curioso diálogo com a obra de outros poetas e artistas. A música de Belchior fala de amor, paixão e desejo, da liberdade rebelde do ser e de existências robotizadas, da solidão das grandes cidades e da universalidade do sertão. Mesmo tendo sido, em boa parte, criadas nos anos 1970, suas canções mantêm-se atuais, ganhando releituras e conquistando novos admiradores. Sua polêmica decisão de ausentar-se dos palcos e dos holofotes da mídia conferiu-lhe status de lenda viva e reacendeu o interesse por ele, provocando saudáveis discussões sobre a função do artista e o sentido da vida, e também sobre o papel do indivíduo quando confrontado com um sistema que o oprime e o seduz diariamente com o vil metal, comprando seus sonhos mais verdadeiros até que deles restem tão somente a dor e a frustração de não tê-los vivido. Espero que estes textos proporcionem às pessoas uma rica experiência de imersão na obra desse formidável artista, e que instiguem a curiosidade de conhecê-la melhor. E você, Belchior, se este humilde livro um dia chegar às suas mãos, espero que sinta-se carinhosamente abraçado, e que receba de volta o tanto amor que sua arte trouxe e continua trazendo para nossas vidas. Obrigado por tudo. Ricardo Kelmer São Paulo, agosto de 2016 Alucinação Thiago Arrais Se meu pai não houvesse me cantado, somente os dois, nas águas de um açude que entardecia no Cariri, “mas se você quiser me atirar, mate-me logo, à tarde, às três, pois à noite eu tenho um compromisso e não posso faltar, por causa de vocês”, e me mostrasse o sorriso ironicamente cúmplice à minha perplexa infância; se Xico Sá não escrevesse – muito depois, sobre tardes caririenses ainda mais antigas no Balneário do Caldas a ouvir o mesmo cantor debochado (não meu pai) como quem toma uma cachaça (e tomava), acompanhado do pai – não o meu, mas o seu “Big Jato” do filme de Claudio Assis – que é diretor de que muito gosto e portanto entra nesta crônica memorial; se Ricardo Guilherme, amigo a quem costumo prestar reverente atenção em suas considerações poéticas, não insistisse que se trata de um dos nossos maiores letristas – não ele, Ricardo, que é de outro ouro verbal, o do teatro, e diz que “o mundo é grande mas o Ceará é maior” ‒ e ainda observa que “eu sou apenas um rapaz latino-americano” seria aforismo de Augusto Pontes, que aprendi a querer bem nas mesas do Arlindo e de outras movidas alencarinas (não aquelas que o próprio Augusto falava da vida e bebia no bar com os ainda inominados rapazes deste “canto” do país – já explico as aspas); se não telefonasse (ou escrevesse, nem lembro), quando Ricardo Guilherme era para mim mito adolescente inacessível, para outro amigo, hoje artista feito, Rafael Martins, a declarar-me sobre “Paralelas” ser dessas coisas que redimem qualquer peito juvenil ao falar de trevos, carros, e sobretudo (eu que sonhava e haveria de morar lá) que “Copacabana, essa semana o mar sou eu”; se não ouvisse num desses shows desgrenhados de Diana na Praça do Ferreira (que me lembrava a adolescência asseada em coros colegiais de “ó meu amado, por que brigamos”), já muito depois – os tempos não convergem, alargam-se, mas se encontram noutras esquinas – que “este cearense” que ela dizia querer bem, dormia de violão no braço na porta da gravadora carioca de que fazia parte (também nas areias de Copacabana?); ou que Aderbal Freire-Filho, com quem trabalhei no Rio e deve ter curtido sua fossa na luxuriante cidade onde também fui ser baldio, pode ter sido seu amigo ainda em Fortaleza (e foi Aderbal que a chamou de “canto”, esquina musical, no título dum disco que produziu e em que este possível amigo-cantor deixou, talvez, seu primeiro registro fonográfico, talvez, “que sabemos nós”, não é Aderbal?); ou, noutro tempo, mas na mesma cidade, já depois de Aderbal no Rio, já de volta eu a Fortaleza, tenha escutado, como se fosse pela primeira vez, no Cantinho Acadêmico de sempre, “Coração Selvagem” e o verso que passou a ser meu “mas quando você me amar, me abrace, me beije bem devagar, que é para eu ter tempo de me apaixonar”; ou ainda antes, de volta às tardes adolescentes com Rafael Martins, talvez, a canção de Ednardo (mestre, medo, inspiração, como chamá-lo?), que canta, como ninguém, seu (dele) A Palo Seco; ou que cantava (eu), de moleque metido a artista, dele, não de Ednardo, e sempre de Elis Regina, “Como Nossos Pais”, hino dos karaokês ao vivo da PI pré-Dragão do Mar nos anos 90; se eu não soubesse dessas coisas, e do bigode, e de alguns discos, e das caricaturas caprichadas num ou outro bar do que um dia chamamos de “boemia” (a nova está por aí em novas releituras e caricaturas), se tudo isso não se juntasse, tivesse mesmo pouco a dizer de Belchior. Mas tem, e certamente estou esquecendo de mais. De que neste agosto que já ficou para trás (não sei exatamente quando este texto será lido e tudo é passado ou futuro), eu assoviava surpreendido a longínqua Galos, Noites e Quintais, certo de que esta é sua mais bela melodia, e tem um verso (fora tantos de beleza espalhada como “eu tenho medo...”) que é para ouvir desarmado: “eu era alegre como um rio, um bicho, um bando de pardais, um galo, quando havia galos, noites e quintais” ‒ e insisto, descobrir, após tanto sabê-la, que esta composição é relicário; ou lembrar que Átila, meu prodigioso artistaJames Dean, apresentou a muitos de nós, na sua timeline juvenil de facebook, numa virada de ano qualquer, “Sujeito de Sorte”, e por um tempo aquilo virou para muitos um mantra estilo oração de São Jorge, ponto de Macumba ou quem sabe I Will Survive, e falo isso respeitoso, mas sem seriedade absoluta, por que não vale tanto a pena assim deixar de lado alguma alegria – e que Átila é um cara moço (gosto desta palavra muito à Belchior, “Moço”) que curte profundamente Belchior nestes intermináveis e ubíquos anos 2000, e inclusive interpretou-o (sim, ele foi Belchior) numa peça que dirigi. Se eu não soubesse o que talvez não sei, talvez não tivesse mais que falar que Belchior, que me parece um sujeito muito na dele (duro, difícil, dócil, não sei), mas que me diz algo que não posso tirar-lhe a razão, que é, a propósito desta crônica que chega ao fim e não esqueceu sua temática escolhida: “a minha alucinação é suportar o dia a dia, amar e mudar as coisas me interessa mais”. Sim, meu querido Bel (Ednardo, que conheço de telefone, te chama assim que eu sei e ouvi). E é que nem falei que você foi aluno de medicina do meu pai (que era dentista de Ednardo) e fez-lhe uma pergunta debochada sobre por que o dedo mindinho estala, e andava com jaleco solto e a sua “corriola”, palavra boa daquela geração, atrás de si (pois claro que falo de você, não de meu pai ou dos dentes de Ednardo). Alucinação é uma palavra que me chega perto, porque real e delirante, pares práticos, poeta Belchior – e eu sei que o belíssimo poema “Medo” de meu amigo de sempre Alan Mendonça vem do teu medo (“o medo é um poeta preso no porão”, diz Alan, e claro que é; ou “o medo é um dos dedos de minha mão”, e talvez sejam todos, Alan, que adora Belchior muito antes de mim e com maior atenção). Na verdade conheci Belchior por que tenho juízo, amigos e poetas por perto. E ainda a seu respeito, que desconfio viver num país de que muito gosto e fica longe, chamado Uruguai, diz minha modestíssima, distraída, opinião que carrega em distintos momentos o seu som – é que sua palavra é sua mais forte ritmia. (E ainda li, em qualquer lugar por aí, que você morou em Belo Horizonte, anos de hiato e travessia, talvez mais disso de ser público e anônimo com idêntica paixão, incerto, certíssimo; mas isso não vem ao caso. E vem). A música Alucinação, de Belchior, integra o álbum Alucinação, lançado em 1976 A palo seco ou: Uma faca só lâmina Ana Karla Dubiela No campus da UFSC, um grupo magro de estudantes divide o último baseado à espera do show. Um frio cortante gela a espinha e a grama orvalhada refrigera a bunda. Mais de uma hora de atraso, por problemas técnicos. Goela seca, grana curta. Uma “vaquinha” garante o garrafão de vinho doce que compramos ali mesmo no bairro Pantanal, na casa de uma camponesa de rosto de maçã, que sempre vem nos atender arrastando os chinelos, a qualquer hora da noite. Nunca decorei seu nome esquisito, mas guardo até hoje seus traços europeus e o orgulho com que nos dava para provar dezenas de vinhos, armazenados por gradação de cor, na antiga Frigidaire vermelha. Bebíamos tudo e quando finalmente nos decidíamos pelo mais barato, já estávamos devidamente alegres. Em lua de mel naquela ilha deslumbrante, aos 19, fiquei surpresa ao saber que o grande ídolo da rapaziada de Floripa, em 1984, era o conterrâneo Belchior. Era dele o show daquele sábado, praticamente a única opção da cidade que dormitava sempre cedo. Com os LPs debaixo do braço para pedir autógrafo, lanternas no bolso (e sonhos que roubamos de outros mais velhos, que se desesperavam), voltamos a tempo de ouvir o boa noite ao microfone. “Tenho 25 anos de sonho e de sangue e de América do Sul”, gritávamos em coro e êxtase, a palo seco. Não havia alienado ou militante, quer defendesse a tese de um golpe que desembocou em ditadura ou, ao contrário, apostasse em uma revolução, que não encontrasse abrigo naquele canto. “Só a lâmina da voz, sem a arma do braço”, como no verso de João Cabral. O show durou bem mais que as duas horas previstas e os blusões de couro já não estavam segurando o frio. Ficamos todos por ali depois dos autógrafos, numa roda de violão, repetindo as mesmas canções, exaustivamente. “Por força deste destino, um tango argentino me vai bem melhor que um blue”. Sem que restasse uma gota de vinho, a madrugada encompridou-se, e caímos por lá mesmo, abraçados, servindo de cobertor uns aos outros, sentindo o hálito quente e perfumado das uvas. Não havia medo. Não havia solidão. Até que um sol todo acabrunhado nos devolveu a realidade morna e fomos expulsos pelos seguranças, geralmente cúmplices, do campus. Dois anos depois, retornamos ao Ceará e às velas do Mucuripe, para que eu concluísse com a minha turma, na minha terra, o curso de jornalismo interrompido. A ditadura já definhava. Os anos mais duros nos pegaram de calças curtas, ainda tão inocentes, em brumas. Ouvíamos falar sem parar em censura, golpe, revolução, tortura, exílio, militares, perseguições, prisões. Mas tudo era cena de um filme em que éramos só figurantes. Quando fomos testemunhas do desespero que virou moda em 76, éramos adolescentes – e, com algumas exceções, os nossos desesperos eram outros. Pouco mais tarde, universitários, andávamos meio descontentes, é verdade, sem entender muito bem por que o ar era mais denso, os silêncios mais gritantes, as conversas cifradas. Ou porque aquele tio querido havia sumido sem rastros. Vez ou outra a polícia, com seus gases, arrancava à força nossas lágrimas. Um professor mais afoito deu tiros pra cima e vociferou chorando, defendendo o campus da UFC e todos nós. Uma ou outra manifestação, uma ou outra arbitrariedade. Mas quem gritava desesperadamente, em bom português, eram nossos pais. Eles sim, de olhos abertos, sentiram arder na pele a ditadura por longos vinte anos, enquanto nós, quase sempre, sonhávamos. A democracia engatinhava e o gosto da ressaca persistiria por anos em nossas bocas, dando um certo torpor. Daquela época, a trilha sonora ainda reverbera na consciência política. Durante décadas de jornalismo, lendo e escrevendo, inclusive sobre os tempos de chumbo, tomei partido e me indispus com muitos. Até bem pouco, tinha uma noção teórica do que realmente significava poder conversar, postar e compartilhar aquilo que conhecia só por ouvir falar. A prática corriqueira (e legal) era a de empunhar o grito e a bandeira, encarnada ou bicolor, pelas ruas da cidade, escrever o que bem quisesse, criticar quem bem entendesse. Meu pai veria isso tudo sorrindo, tristemente, com uma certa inveja de ser jovem nessa geração em que falar mal do governo ou da oposição era tão natural quanto respirar. O que não poderia ser dito no jornal ou na TV, dizia-se no blog, na praça, no instagram, no face, no telegrama internético (twitter), no whatsapp, em todo canto. Em 2013, retornei à Universidade de Santa Catarina para dar uma palestra. Meia dúzia de gatos pingados ouviam. Disseram os organizadores que boa parte dos alunos foi ao tributo a Vinícius de Moraes, na noite anterior, e não acordou. Lembrei-me logo do vinho e da senhora arrastando o par de chinelos para nos servir, havia 32 anos. Sorri, satisfeita. Desconfio que não haja mais vinhos caseiros por essas bandas, o nível de vida melhorou muito. Não há tantos casacos surrados. Creio, porém, que beber com os amigos ouvindo Vinicius continua sendo mais interessante que ir a uma palestra sobre literatura às oito da manhã. Uma menina de grossas lentes míopes e pernas de palito tenta desmentir meus pensamentos: queria tirar dúvidas, anotar informações, prolongar a conversa. Uma sósia da CDF que fui e que hoje recebe a alcunha de nerd. Não sei direito desde quando tive a certeza de conviver com o incômodo de consumir notícia falsa, distorcida e manipuladora. Não sei a partir de quando comecei a ter muita vergonha de ser jornalista e de ser confundida com esse tipo de imprensa. Nãosei quando a poesia morreu. Nem a data em que deixei de ser o coadjuvante sonhador da canção e passei a ser aquela que grita desesperadamente em português. Mas todos nós guardaremos na memória o dia 31 de agosto de 2016 – o dia em que o golpe de uma faca só lâmina cortou a garganta de uma nação inteira e virou manchete na imprensa internacional. Passada a sessão de tortura cujo fim nós todos já sabíamos de antemão, fui ouvir pela enésima vez a gravação da conversa entre o empresário Sérgio Machado e o ministro do Planejamento Romero Jucá, divulgada em maio. Ali, está claro que o impedimento da presidente do Brasil, Dilma Rousseff, resultaria em um pacto pra estancar a operação Lava Jato. Ou seja, tudo como dantes no quartel de Abrantes, especialmente a corrupção e os corruptos. Do bombardeio de informações à direita e à esquerda, embaixo e em cima do muro, esta me fez separar o joio do trigo ‒ se é que se pode falar em tirar algum proveito do falso angu que desandou. A imagem que emerge é a de um esgoto de estreita tubulação, que veio acumulando matéria-prima por séculos, até que o mau cheiro e a lama invadiram as ruas, as calçadas, as casas, derrubaram viadutos, tomaram conta de tudo, de norte a sul do país. O que falo aqui é uma tentativa de não sentir a frieza da faca a entrar macio no pescoço. Do enterro de sonhos, com pompas e honrarias. Da prepotência e do cinismo. Da raiva que senti por ter ajudado a eleger aquelas pessoas que votavam e falavam em nome, unicamente, de um deus fictício (bem diferente daquele em que acredito), de si mesmo e de suas próprias crias robustas. Ressurreição da TFP e das forças retrógradas que havíamos deixado para trás (havíamos mesmo?). Na estaca zero, começamos a dar ré em alta velocidade. As posições se inverteram. Hoje, em 2016, sou eu quem pergunta àquele rapaz latino, contestador, por onde ele anda. Por aqui, ensaiamos um grito perplexo, indignado, desesperado, pela garantia de direitos usurpados (ou em vias de), pela livre expressão, pelo respeito ao voto, por um Congresso minimamente respeitável. Precisamos que se una a nós o canto a palo seco de Belchior, assim como a súplica do poeta João. Porque nosso canto, torto feito faca, “que não é um cante a esmo, exige ser cantado com todo o ser aberto; é um cante que exige o ser-se ao meio-dia, que é quando a sombra foge e não medra a magia”. Do alto de seus 70 anos de sonho e de sangue, volta Belchior. Ainda que nosso desejo de desaparecer seja forte, há um vinho, na temperatura exata, esperando por nós. A música A palo seco, de Belchior, integra o compacto duplo lançado em 1973 Apenas um rapaz latino-americano José Américo Bezerra Saraiva Caro, divino e maravilhoso rapaz latino-americano. Você disse que vinha, e veio, lá do Norte, com o mar nos olhos. Era noite sem vento, e eu nem cri na minha sorte. Houve curiosidade, um calmo susto, alguma palidez por trás do ouro do seu rosto. Quero ser justo! Mesmo que não pudéssemos manter a lua cheia acesa, ou não, ainda, nem no seu nem no meu coração, eu vi você, uma das coisas mais lindas da natureza e da civilização, eu vi você, saindo do sertão da sua solidão para um sonho feliz de cidade a que depressa aprendeu chamar de realidade. Eu vi você conduzido pelas canções do rádio aportar numa infelicidadania e viver na rua, sem dinheiro no banco ou parentes importantes. Eu vi você caminhando o seu caminho num sol de quase dezembro. Eu vi você... E sei no quando agora em mim nada valer mais do que o seu e o meu caminho sob o sol no signo da alegria. Eu vi você sobrar sobre o sol de Sobral e, lucinado, rebelar-se contra o minguar da lua que decretava o fim dos galos, das noites e dos quintais. Eu vi você, abandonado o terral dos sonhos, despir-se das velhas roupas coloridas, recolher seu dedo em “v” e admitir que aquilo que vinha do rádio era só uma canção e que qualquer canto seria sempre menor do que a vida de qualquer pessoa. Eu vi você confessar-se, deglutindo, digerindo e excretando seu medo, para encarar o perigo das esquinas e dizer não ao não e ao silêncio a pino da noite imensa. Eu vi, estampada em fotografia 3x4, a lucinação de um sujeito de sorte que, para não viver à maneira de nossos pais, agiu como o diabo gosta e canto-recomendou a palo seco: antes do fim da nossa aventura de jovens, não leve flores. Eu vi você, rapaz latino-americano, louco de amores nos seus modos de ser América Latina, Brasil, Ceará e Sobral. Vi você filosofar em português numa canção. Vi você buscar desesperadamente sentido nas coisas reais, retirar o véu dos olhos e, de olhos abertos, desembainhar sua faca-só-lâmina. Vi você afirmar-se por negação polemizando com o velho fazer cancional do antigo compositor baiano, que alimentou sua esperança de jovem, que não aconteceu no seu coração. Vi você triar e concentrar valores para dizer o que você não era enquanto estava sendo no e pelo seu dizer singularizante. Vi a sua intensa reação de jovem, mais que demais humana, gestada na confluência dos estados passionais de decepção, frustração e desespero. Vi você denunciar a falsa paz quente do status quo e provocar, numa crise de confiança, quem lhe insuflara a esperança na ideia de uma nova consciência e juventude. Vi você, numa espécie de idolatria crepuscular, tornar-se tropicalista antitropicalista porque eles haviam vencido e o sinal estava fechado para você e seus amigos, que eram jovens e tinham coisas novas a dizer. Vi você mostrar a face excludente da máquina que maquina triturando a gente que sonha. Vi você fazer ver o destino trágico de populus, seu domesticado cão. Vi você, descrente da mistura, da assimilação de tudo e de todos, combater a segregação e apontar para a abertura e a expansão do universo. Vi você individuar-se numa forma de ser e estar impulsionada pelo querer agressivo. Eu vi sobretudo você assumir e relatar o percurso do migrante nordestino e cantar o sorriso ingênuo e franco de um rapaz novo e encantado, com vinte anos de amor. Vi você interpelar outros rapazes, os de Ingazeiras e Carneiro, que, na iminência de migrar, desejavam abrir seu campo de presença em busca da expansão do sentido. Vi você montado num cavalo-ferro cruzar o planalto central das terras trópico-americanas – loucura, chiclete e som – sem perigo fatal. Vi a ferida viva do seu coração acesa e pulsante. Vi você, analítico, elaborar em suas canções a frustração e a revolta do migrante nordestino. Vi você dirigir-se aos rapazes que saíram da terra natal e foram ancorar em terra estrangeira. Vi você consolar os desejosos do retorno nostálgico e propor-lhes a permanência combativa, exortando-os assim: vamos ficar nesta cidade, não vamos voltar para o sertão, pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação. Vi você voltar sua atenção para quem vivia o desespero da rua. Vi você falar desse estado de desesperança como núcleo passional propulsor da revolta que você e os seus amigos encampariam contra os velhos e ultrapassados hábitos das horas todas: do café da manhã, do almoço, do jantar e de outras tantas veneráveis horas dos devotados à tradição, família e propriedade. Vi você tentar aliviar o sofrimento dos rapazes que chegavam migrantes e deparavam-se com a realidade adversa da terra estrangeira frustrando seus sonhos. Vi você dirigir-se ao rapaz de Desembarque, sujeito inocente, puro e violentado em sua sensibilidade, que, tomado pela revelação decepcionante, desejava saber o que se passava com ele e por que suas esperanças não floresceram. Vi você fazer ver que nesse sujeito estava o princípio da atitude resignada que se transformaria em desejo de retornar à terra de origem, vivida pelo sujeito de Terral e Longarinas e repudiada por você. Vi você fazer ver que o rapaz de Aguagrande, também um resignado amigo seu, investia precocemente no desejo de retorno à terra natal, metamorfoseada pelo contraste com a terra estrangeira. Vi você fazer ver queele já era um prelúdio dos rapazes do retorno nostálgico, que iriam se esboçar com mais nitidez em Terral e Longarinas e que buscavam refúgio na lembrança da Praia de Iracema. Vi você fazer ver que os rapazes do retorno nostálgico ou voltaram à terra de origem, caso daquele amigo seu que embarcara consigo cheio de esperança e fé e já se mandara, ou estavam a sonhar novamente, mas então com o regresso à terra natal. Vi você fazer ver que o rapaz de Longarinas era outro resignado amigo seu que investiu também no retorno efetivo à terra natal. Ele não quis ficar na cidade porque não sentiu o cheiro da nova estação, como você. Soubemos assim que você, rapaz latino-americano, revelava uma visão mais crítica do processo migratório, constatava a diferença que o punha na condição de segregado ou, na melhor das hipóteses, de admitido, quando esperava pela prometida assimilação integradora. Eu vi você fazer ver que esses rapazes representavam fases de um percurso porque pontuavam momentos diversos da trajetória do migrante, trajetória da qual você se consagrou o cronista-mor: havia o rapaz que saiu da terra natal, seduzido por valores do estrangeiro (Ingazeiras e Carneiro); o rapaz que se decepcionou com esses valores (Desembarque, Aguagrande e Terral); e o rapaz que ou se resignou na grande cidade ou esboçou uma fraca reação e, em seguida, ensaiou o retorno à terra de origem (Aguagrande, Longarinas e, em menor medida, Terral). Mas houve também o rapaz latino-americano, de atitude francamente combativa, que reagiu ao desespero insurgindo-se contra quem lhe dera a esperança de uma nova consciência e juventude, mas naquele momento estava em casa, guardado por deus, contando o vil metal. E esse sujeito da revolta era você, meu amigo. Foi você que apostou na permanência combativa, que não quis voltar para o sertão nem resignar-se na cidade, e assumiu a tarefa de denunciar e provocar todo discurso que lhe parecesse mitificador. Foi você que, regido pelo princípio de realidade, acrescentou aos discursos que à época se teciam outras e novas palavras, conservou os olhos abertos e refugou todo sonho vão como mistificação do real. Foi você que relatou a trajetória do migrante, desde a saída, reconstituindo assim a identidade de um percurso para fornecer o percurso de uma identidade: a sua e a de muitos ouvintes seus, jovens iguais a você que desceram do norte e foram viver na rua. Você soube melhor que ninguém fazer ver que, naqueles tempos, uma vez no longe sudeste, o homem antes nordeste, em desaprumo, em desatino, iria viver sudestino. Nesse relato real e cruel da migração, você foi a um só tempo o decepcionado migrante nordestino e o analista amigo dele, ambos movidos pela compaixão. Você estava assim autorizado a exercer, de direito e de fato, o papel de seu novo porta-voz. Foi então que eu vi você, rapaz latino-americano, empunhar sua metralhadora giratória e contraditar primeiramente o antigo compositor baiano que dizia que tudo era divino, tudo era maravilhoso. Você fez ver que no percurso do migrante nada era divino, nada era maravilhoso, nada era secreto, nada era misterioso. Você polemizou francamente com esse discurso enganador e declarou em alto e bom som que viver era melhor que sonhar e que, reitero, qualquer canto era menor do que a vida de qualquer pessoa. Você forjou um modo de fazer canção que lhe é peculiar. Eu vi você eleger o antigo compositor baiano como interlocutor preferencial. Não poderia ser outro. As referências a ele, você as fez pipocar em muitas de suas canções, às vezes de modo explícito: “Veloso o sol (não) é tão bonito”; “tudo é divino, tudo é maravilhoso”; “velhas roupas coloridas”; outras vezes não. Quem, açulando um pouco mais a atenção, não veria, no “caminhando o meu caminho”, uma sutil remissão ao “caminhando” presente em Alegria alegria; ou, no “mas sei que tudo é proibido”, uma alusão ao É proibido proibir ; ou ainda, no “meu bem, que outros cantores chamam baby”, uma provocação direcionada ao autor da canção Baby? Três composições do cancionista baiano. Eu vi você, meu amigo, dizer, insubmisso, sim ao não num clássico long play com dez canções, das quais nove traziam a palavra de que o diabo gosta, e cinco delas logo no primeiro verso. A única que não continha não dizia não pelo modo a palo seco da expressão. Mas toda a insubmissão de rapaz latino-americano eu vi cifrada mesmo foi na sua veemente recusa a se curvar a qualquer injunção que lhe quisesse regular o modo de produzir canção. Você nunca fez canções como prescreviam alguns figurinos da moda, canções corretas, brancas, suaves, muito limpas, muito leves, simplesmente porque sons, palavras sempre foram navalhas para você. Em franco desacato ao “você precisa” do antigo compositor baiano, você se negou a fazer as canções singelas, os iê-iê-iês românticos ou as canções de amor. Mesmo abalado pelo mal que a força do tempo negro sempre faz, você não sucumbiu e rejeitou altivamente toda prescrição, não cantou como convinha, e, tropicalista antitropicalista, permitiu-se permitir. Para tocar sua vida a palo seco, dentro ou fora da esfera musical, eu vi você, enfim, optar definitivamente pela navalha na carne e, para promover a independência sua e de seus amigos, vi você, resoluto, canto-bradar que não queria regras nem nada, que tudo estava como o Diabo gosta e que o certo era nenhuma regra ter, nunca fazer nada que o Mestre mandasse, sempre desobedecer e nunca reverenciar. Eu vi você, cego às avessas de tanto saber que o certo é saber que o certo é certo, exercer com coragem seu papel de fomentador do dissenso para construir os consensos possíveis antes do juízo final. Vi você esmerar-se em dizer de todas as maneiras “não, eu não vou por aí”, para caminhar o seu caminho com independência e compaixão. Eu vi você, rapaz latino-americano, força bruta do viver num homem gentil e refinado, a coisa mais linda da natureza e da civilização. Eu vi você... E no quando agora em mim sei que o presente mente e o passado é a roupa que nos veste mais. Presentemente vejo você, meu amigo, estrangeiro sem o ser, num quadro que dói na parede da memória, e quero ser justo: você não clamou no deserto! A música Apenas um rapaz latino-americano, de Belchior, integra o álbum Alucinação, lançado em 1976 Como nossos pais ou: O que há de vir Ricardo Guilherme Pela minha paixão você me pergunta. Digo que estou encantado com uma nova invenção, pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação. Aí você talvez até venha me dizer que eu estou por fora ou então que estou inventando, mas se disser, diz porque você ama o passado e não vê que o novo sempre vem. Acontece, entretanto, que o novo vem do velho. Feito a frase daquele que tramou augustas pontes entre o ontem e o amanhã ao afirmar que o passado pressente futuro. Do vai e vem dos atávicos rastros vêm os nossos lastros. O devir vem de antigos desvãos, dos desvios em redemoinhos que vêm e vão e vão se fazendo e desfazendo em descaminhos. Provém também de tantos de dantes o que advém depois. Vêm dos brechós as roupas que não nos servem mais, o que há algum tempo era jovem, novo, e que hoje é antigo. No entanto, você que ama o passado como se o passado fosse ultrapassado não vê que é dos belchiores que de novo o novo sempre vem. E esse novo que vem se labirinta e nos enreda em mundos e desmundos que nos plugam para além, muito além daquela serra em que ainda azulam desorizontes. Em nós o novo vem quando revem de além milhas e milhas de si mesmo, em direção a uma urbi-orbi, uma paragem do que há de vir, uma miragem em que há devir. Essa nova invenção vem dos viramundos de todos os nossos submundos, esses topógrafos da utopia, aquele tópico quase impossível, aquele vir-vindo que o tempo apenas temporariamente adia de existir. São esses utópicos os que fomentam a razão e fermentam a emoção para que, então, possamos sentir bem-vindo o eventode uma nova estação. Você me pergunta qual é a dessa minha sazão. Digo que estou desencantado de inverno, outono, primavera, verão, pois antevejo que na previsão do tempo vem o gen de uma quinta estação, algo que se mistura a tudo isto e faz um misto disto. Pode, então, você até dizer que eu, fora de mim, estou aventando impossíveis palavras. Mas é você que ama o dicionarizado e que não vê que pro que há de novo o neologismo sempre vem: aquele toque beatleânico, john-lennônico, rock-rolling stonesíaco, um canto a palo seco, feito a faca joão-cabralina, um poema itabírico-drumoniano, algo antónio-gedeânico de quem tem pressa de viver como que edgarallanpoe-poetando ou como heterônimas personas do Pessoa, sulamericanamente, brasileiramente nordestinamente lorcado, alighieriamente metropolitano, cosmopolita das provincianópoles, caetanicamente cinematográfico, cearensemente copacabânico, luizgonzagamente paulicéico, claricemente adonirânico, vanzolinimente perdido na noite, em vão a se procurar pelos vãos da voraz cidade. Neologismo é síntese de sonho que se escreve pelos muros ou nas velhas roupas coloridas sob as dobras blue dos blusões. E esses meus neologismos ‒ virginais, vaginais palavras-iracemães, oriundas dessa alencarina Iracemamérica ‒ designam o que por si só não se designa, o que não se circunscreve aos termos, aos términos das acepções do dicionário que tão-só confirma o falar corrente e recorrente, dissecando a gramática e a semântica. Os artistas, antenas do povo nas praças, reprocessam, inventam ou reinventam um idioma, transcendendo jargões e bordões para engendrar palavras efervescentes, nascidas das entranhas da inventiva, já que eles exercem de forma quase irresponsável e delirante, o insolente direito de sonhar. Sei que viver é melhor que sonhar. Porém também sei que por não se dever viver de sonho, é preciso viver o devir que se sonha. E a palavra inventada expressa esse sonhável, o inexprimível, o que a cabeça pensa e o que a alma deseja, prenunciando que uma nova mudança em breve vai acontecer: uma coisa utópica, canaãnica, palestínica, dalailâmica, mahatma-ghândica, coisa pasárgada, martin luther kinguiana, coisa taichichuânica, uma africânica coisa nelson-mandeloásis, alguma coisa quilombólica de uma palmares da pindorama, uma coisa eldoradiana brasilis da agroalforria, em libertas quae sera tamen. Pergunta você pelas minhas paixões. Digo que estou reencantado com umas velhas intervenções, pois prevejo intervindo nos novos tempos renovadas contravenções, reinvenções desses n-ossos reerguidos e aguerridos ossos, redivivos ídolos que ainda são os mesmos, apesar de nós, por sermos nossos pais, termos nos feito o tudo que nós nos fizemos, com as mesmas ideias- ícones ideais que nunca envelhecem: a ciência de que precisamos todos rejuvenescer, a convivência nas praças cheias de pessoas, a incumbência de amar e mudar as coisas, a experiência da paixão fundamental de inventar seu próprio ser, a emergência de algum modo de dizer não, a consciência do que já aconteceu, a premência do que ainda está por vir e a urgência do algo mais. Por isso é que se você me pergunta pela minha paixão, digo que estou pré-encantado pelo que ainda não me encantei, pelo que futuramente vai se despertar em mim, pelo desconhecido, o intangível, o inexplicável. Porque, afinal, não quero lhe falar das coisas que aprendi nos discos nem lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo. Quero é lhe anunciar o que todavia não sei de todo na ferida viva do meu coração. A música Como nossos pais, de Belchior, integra o álbum Alucinação, lançado em 1976 Conheço o meu lugar ou: Belchior mora no porão Ethel de Paula Uma voz feito faca corta o mormaço da tarde, suspendendo o tempo. Ela diz sobre um lugar. Um lugar utópico, intangível, inalcançável. Um Nordeste-ficção que nunca houve, onde a vida comovida, livre e triunfante é própria da pessoa. Um abraço-canção em torno do homem e sua utopia de liberdade, ímpeto ainda hoje afinado ao pensamento dos gregos, aqueles que, na Antiguidade, intuíram que homens livres só poderiam governar e cuidar de outros homens livres quando se dedicassem à sobre-humana tarefa de governar e cuidar de si mesmos. Algo como um aprendizado dos prazeres, lida infinda e de fundo existencial, individual e coletiva a um só tempo, abrindo passagem para sujeitos aptos e sensíveis à construção de uma vida bela, uma existência esculpida à exaustão como obra de arte. “Conheço o meu lugar” é a canção-filosofia de Belchior que me leva numa canoa ao que pode o homem comum, aquele que, incansavelmente, ainda tenta inaugurar no presente essa vida bela, livre e triunfante. Para o autor da canção, artista que ousou se libertar dos holofotes e viver em modo silencioso, no limiar da ficção, usar a voz para cantar coisas escondidas no porão foi sua dose diária de máxima saúde, o exercício poético que lhe deu musculatura para alcançar um mínimo de liberdade, à revelia da História porca vigente. Embarcou em si para se governar, cuidar da própria festa, fugir do riso fácil intrínseco ao espetáculo. É político e poético o gesto dissonante de Belchior: desaparecer, poder ser, mas também poder não ser. Ouçamos. É ativa a voz que admite sangrar e denuncia pontapés, uivando como um cão de rua. Em seu corpo disforme, hoje quase lenda, Belchior põe em xeque nossa surdez, nossa vitalidade, o lugar que inventamos dia após dia para viver-com. O dele, me parece, não é o dos esquecidos nem dos condenados. Ao contrário. Sua estranha obstinação em descer ao porão e jejuar diz sobre resistência, sensibilidade exacerbada, recusa à gorda saúde dominante. Sua presença impalpável é a de um novo tipo de desaparecido político, aquele que, no rastro de seu próprio apagamento e no limite do extremo cansaço, emite sinais luminosos para a afirmação vital de uma outra ordem. E eis que o nome Belchior, segundo o dicionário, significa exatamente isso: “Rei da luz. Rei luminoso”. Ou ainda o seu correspondente terreno, plebeu: “mercador de objetos usados; alfarrabista”. Um simples cantador das coisas do porão. Uma pessoa. E a palavra pessoa, nele, ainda soa bem. A música Conheço o meu lugar, de Belchior, integra o álbum Era uma Vez um Homem e Seu Tempo, lançado em 1979 Coração selvagem Cleudene Aragão Dirigindo para um pequeno povoado de praia, perto de Fortaleza, com o coração na boca, vou pensando o que é que eu vou perguntar para o Belchior. Será que eu vou conseguir falar, diante do meu maior ídolo? Do autor da minha canção preferida, entre todas do Universo? Vai ser tipo o que o meu pai dizia sobre o que vemos depois da morte: sei como vai ser não, só vou saber quando chegar lá. O trato foi que eu não revelasse a ninguém onde ele está, nem desse qualquer detalhe que pudesse identificar seu paradeiro. Aceitei, claro. Aceitaria qualquer coisa por esse encontro. Ainda não acredito que ele topou, nem sei o porquê. Tremendo toda, chego, uma hora antes do combinado, à pequena birosca onde marcamos o encontro, parece até que eu vou encontrar o grande amor da minha vida. Fico ali, sentada e resolvo comer para me acalmar e para que os nativos parem de olhar aquela forasteira agoniada. Peço ao rapazinho que atende na lanchonete que me recomende algo. “Tome um refrigerante, coma um cachorro quente”, solta. Beleza. Gostei. Como. Engulo. Respiro pesadamente. Caminhando em minha direção com passo vigoroso, mas lentamente, vejo se aproximar um bigode. O Bigode. Cabelo já meio embranquecido com corte no um, barba rala e grisalha, roupa despojada de morador de vilarejo praiano, um pouco mais gordinho, corado, de boné e óculos escuros. No entanto, o Bigode. Acho que se tivesse tido o desapego necessário para raspar o bigode, estaria irreconhecível mesmo. Passaria mesmo por alguém comum, desde que não falasse. ‒ Boa tarde! ‒ Soa a voz inconfundível. ‒ Boooataaarde, Bel... ‒ Por aqui pode me chamar de Antonio Carlos, ok? Vamos conversar ali no Polo, onde o Rio encontra o Mar, pode ser? ‒ Claro! Caminhamos em silêncio até chegar ao local, de uma beleza limpa e singela, quase na hora do por do sol. Estava praticamente deserto e nos sentamos em um banco de frente para o rio. ‒ Diga lá, o que você tanto quer com esse velho setentão? Confesso que aceitei te encontrar porque descobriu onde eu estava, decifrou um enigma. Também foi pela sua irritante insistência. Achei que merecia. Mas também porque tenho planos pra você. ‒ Nossa... obrigada... Nem sei como começar... Por que escolheu viver aqui, justamente tão perto de Fortaleza? ‒ Porque o meu lugar é onde você quer que ele seja, onde alguém que ama a minha música imagina que eu estou. Mas também, esse é o lugar mais improvável para me procurarem. Mesmo que me reconheçam, pensarão que eu não viria justamente para cá e esquecerão. Entendi logo o sinal e entrei também no jogo. ‒ Faz sentido, mas... por que saiu de cena? Foi por que a vida te violentou? ‒ Muitas vezes. Mas não foi por isso, apesar de sentir que aqui a vida pisa devagar. Acho que as pessoas não conseguem entender que o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente. Basta querer seguir e ter coragem. ‒ Dizem por aí que você fugiu e está se escondendo, mas eu não vejo assim. Acho que foi uma escolha pela Vida Plena. Acho que resolveu andar caminho errado pela simples alegria de ser. Pelo menos foi seguindo essa hipótese que eu te achei aqui. ‒ Foi por isso que eu aceitei ver você. Primeiro porque me disse que queria entender melhor minha história e jurou que não publicaria nada do que vai ouvir, o que ainda terá que me provar. Depois porque gosta de seguir pistas ficcionais. Todas as respostas sempre estiveram nas minhas canções. Fui preparando isso por muito tempo, e nas minhas composições fui deixando pistas sutis do meu plano. E você achou algumas. Não me perdi. Não fugi. Não me escondi. Me permiti viver como eu queria. Afinal de contas, não quero o que a cabeça pensa, eu quero o que a alma deseja. ‒ Fico lisonjeada, mas com as suas pistas, tem gente procurando você até na França, na Argentina... Acho que todos nós algum dia sonhamos com essa fuga pra Pasárgada... Você está feliz com a sua nova vida? ‒ Sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem tem essa pressa de viver. Meu coração, minha mente e meu corpo viviam aprisionados, deixando tudo para depois. Quando seria esse depois? Tive que decidir o momento e me preparar para que o depois virasse agora, justamente na hora que eu achei conveniente. ‒ E esse coração ainda é selvagem? ‒ Sempre! Cada dia o meu novo Eu renasce mais selvagem... mas o coração ainda é frágil, como um beijo de novela. ‒ Você ainda precisa levar um tempo pra se apaixonar? ‒ Amar é muito perigoso, parafraseando o Rosa. Precisaria encontrar alguém que pudesse compreender a minha solidão, o meu som, e a minha fúria e essa pressa de viver. E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza e arriscar tudo de novo com paixão. Como você pode imaginar, isso é bem difícil. ‒ Sei que é muito difícil mesmo. Cada dia mais! Você tem saudades de algum beijo guardado sob as dobras do blusão? Teve uma grande estória de amor? ‒ A juventude é tão intensa que se consome inteira, não sobra nada. Tudo foi vivido como tinha de ser. Gastei o Amor até a última faísca, por isso não preciso ter saudade. ‒ Alguém ainda hoje merece ser chamado por você de “Meu Bem”? ‒ Em cada momento da vida, alguém merece ser chamado de Meu Bem. No entanto, aos setenta, eu já teria que estar fazendo a colheita dos amores semeados ao longo da vida. Não sei se ainda é tempo de plantar, mas tento viver tudo que chega o mais corajosamente possível. ‒ Você disse que precisaria de alguém que entendesse o seu som. Continua compondo e cantando? ‒ Continuo sim, mas na solidão. Tenho um novo projeto. É sobre isso que eu queria falar com você. Tenho planos para você. ‒ Planos para mim??!! ‒ Não quero mais holofotes, como você bem percebeu, mas amo minha música e tenho mais de trezentas canções inéditas. ‒ Nossa! Isso é um tremendo legado! Tenho que me conter para não puxar agora mesmo um “Volta, Belchior!”. ‒ Acho que já deu para entender que não adiantaria nada... ‒ Mas olha, você faz muita falta, tem noção disso? Consegue perceber o prazer que traria a milhares de pessoas divulgando essas canções? ‒ Consigo sim e é aí que você entra... quer dizer, se passar nos testes. ‒ Testes? ‒ O primeiro teste você já conseguiu vencer. Sei que muita gente me procura. Lancei muitas pistas falsas ao longo desses anos, mas confiei que alguém encontraria os rastros que deixei nas músicas. Você conseguiu descobrir as primeiras pegadas, e aí lancei de propósito novas iscas para você. O segundo teste também foi vencido: conseguiu chegar aqui sozinha, sem trazer ninguém com quem tivesse compartilhado o nosso segredo. ‒ Poxa, e eu me achando um gênio, mas valeu... mas vai, conta logo os outros testes. ‒ O terceiro teste é que vou te observar por um ano inteiro, a partir de amanhã. Não importa como, mas te aviso que tenho olhos por todos os lados. Caso você não divulgue absolutamente nenhum detalhe dessa conversa de hoje, e se ninguém novo aparecer por aqui me procurando, você ganhará o direito de voltar aqui para mais uma conversa. ‒ Que maravilha! ‒ Você não sabe se vencerá o desafio... mas, caso vença... ‒ Vou vencer sim! O que vem depois? ‒ Confiante demais... mas, enfim... caso volte no ano que vem, te entregarei uma pequena mostra de meus novos trabalhos, para que você escute e para testar se você aguentará não divulgá-las durante mais um ano. Caso passe nesse teste também, poderá me encontrar regularmente aqui e ouvir as histórias que eu tenho para contar. De amores, de dores, de canções. ‒ Haja controle! Sei que vou conseguir, porque não vou perder uma oportunidade dessas, mas... e os outros? Muita gente te ama. Não mereço ser a única a ter esse privilégio. ‒ No momento certo, se você demonstrar sua lealdade, vou autorizar você a contar e publicar minhas histórias para todo mundo e a publicar minhas canções, do jeito que eu desejar, no formato que eu disser. ‒ Por que eu? ‒ Porque você não tinha qualquer relação anterior comigo. Ninguém vai te rastrear. E aí, vem correr perigo? ‒ Nem sei como agradecer... Poxa, Bel, guarde uma frase pra mim dentro de alguma canção. ‒ Pode deixar. Talvez eu morra jovem, n’alguma curva do caminho. Até lá, nem minha família, nem meus melhores amigos, nem os diversos namorados ao longo desses anos, nunca entenderão porque faço questão de vir tantas vezes, e sempre sozinha, a esse pequeno povoado onde um Rio se encontra com o Mar. A música Coração selvagem, de Belchior, integra o álbum Coração Selvagem, lançado em 1977 Divina comédia humana ou: O amor é uma coisa mais exótica que um conto em terza rima Ricardo Kelmer Mentre che piena di stupore e lieta l'anima mia gustava di quel cibo che, saziando di sé, di sé asseta Dante Aliguieri - A Divina Comédia A sombria floresta de Beatriz anunciou-se naquela tarde de sábado, num ponto de ônibus do centro, após ela sair do culto na igreja. Anunciou-se nos olhos do atraente moço de porte atlético que lhe pediu informação. Com simpatia, ela lhe explicou que ônibus deveria tomar, e era o mesmo que ela tomaria, ora veja. E juntos sentaram, ele com sua mochila vermelha, ela com a bíblia ao colo, quase a mão dele em sua mão. Chamava-se Antonio, e Beatriz soube que estudava filosofia, mas gostava mesmo era de ser goleiro, e nos fins de semana jogava por times de bairro, e ela achou isso tão lindo... Ele desceu primeiro, mas antes do ônibus os separar, correu até embaixo da janela e a convidou, Vai me ver jogar amanhã, e ela seguiu o resto do percurso a conversar manhosa com asestrelas, enquanto em seu peito borbulhava a nascente do rio a que chamam os poetas perdição. Eu te amo, eu te amo, ela disse e repetiu ao ouvido dele, sussurrando baixinho. Lá fora, a última estrela se despedia e o amanhecer clareava aos poucos a suíte do Dante motel. Eu te quero tanto, meu goleirão, ela murmurou, lembrando que horas antes o admirava embaixo das traves, e reparou que, dormindo, ele parecia um anjinho. Beatriz beijou-o nos olhos e agradeceu ao seu deus pela dádiva daquele amor imenso, que surgira num bobo encontro casual, e agora, um ano depois, a instalara definitivamente no céu. Então Antonio se aconchegou e Beatriz sentiu a urgência de seu desejo, e ela nem sabia mais quantas vezes nas últimas horas haviam se amado. Ele a beijou com ardência, depois a virou de costas para ele e aguardou que ela se preparasse, e ela, percebendo vazio o tubo de lubrificante, não teve dúvidas: Ah, vai sem gel. Um dia Antonio sumiu, simplesmente sumiu, sem deixar um mísero bilhete, sem que houvesse discussão ou algo que pudesse deixá-lo bravo. Só pode ser uma brincadeira, ele sempre gostou de me pregar peças..., Beatriz disse para si mesma, sem encontrar explicação convincente. Mas as semanas se passaram e ele não voltou, e da vida fez-se o limbo, a angustiante espera da definição que não vinha, a existência uma peça suspensa em pleno ato. O que fazer com o amor que tanto dá sentido ao tempo e depois, de uma hora para outra, parece que disso se arrepende? Era o que pensava quando, pesquisando os sites de futebol de bairro, soube que Antonio jogaria naquele tarde em outra cidade ‒ e para lá Beatriz se mandou. Torceu por ele o jogo inteiro, no alambrado encostadinha, engasgada num choro que ela segurou firme... até vê-lo tomar um gol no fim da partida, e foi exatamente aí que ela entendeu que estava tudo acabado, que a eternidade daquele amor se desmanchara no ar, feito uma estrela cadente. Na floresta escura dos meses seguintes, sonhava à noite com Antonio, ele jogando e ela torcendo, mas ele sempre olhava para ela no momento errado e, angustiado, tomava o gol. Solidão e desamparo foram suas companhias inseparáveis, e nem as orações na igreja trouxeram luz aos subterrâneos do seu desgraçado ser. Então, na agência lotérica em que trabalhava, no nono subsolo do shopping, ah, e como combinavam com sua alma os subsolos, um dia o sol voltou. Uma antiga amiga de colégio, Carla o nome dela, após receber o troco da mega-sena, a reconheceu: Beatriz, é você? Daí, foi o chope após o expediente, as boas lembranças colegiais revividas com alegria, mais dois chopes, tantas coisas para contar, outro chope ‒ era a velha amizade que retornava. Um mês depois, quando Carla precisou dormir em seu apartamento, e a amizade já cedia espaço aos carinhos e estes à sedução, elas consumaram na cama, abençoadas pela noite estrelada, aquilo que em seus corpos ansiava por acontecer. Ironias do destino: amigas de colégio, anos sem se ver, e agora lá estão elas tornadas outra vez adolescentes, peles coladas noite e dia, ternamente apaixonadas. Beatriz frita os bolinhos prediletos de Carla, que desenha corações coloridos no caderno de Beatriz, que, da janela do quarto, suspira feliz para as estrelas, recuperada de seu passado sofredor. Porém, naquela noite na igreja, o pastor bradou enfático: A mulher nasceu para o homem, e aquela que desobedece às leis divinas sucumbirá na condenação, para sempre amaldiçoada!!! Ela voltou para casa e buscou dormir, mas as leis divinas não permitiram, e foi assim que abandonou a igreja, trocando-a por outra que a aceitava, a ela e seu pecaminoso amor. E tudo se resolveu, mas só até o dia em que o fantasma do passado ressurgiu na tela do celular: era Antonio, que dizia ter errado, implorava por perdão e pedia encarecidamente um encontro. Assustada, Beatriz desligou, mas ele insistiu e ela teve de explicar que seu amor agora era de outra pessoa, e que ele a esquecesse, por favor. Bastou aquele telefonema para castigar as certezas de Beatriz, substituindo a paz celestial que Carla trouxera aos seus dias por aquele pesadelo dos demônios. O amor que, ao custo de um mar de lágrimas ferventes, jurava haver esquecido, voltava para lembrá-la daquilo que tão bem ela sabia. Sim, apesar de tudo ainda amava Antonio, sim, e agora a profundidade desse amor vinha assombrá-la num íntimo e cruel confronto. Na semana seguinte, após acordar de uma noite em que não brilharam estrelas em seu céu, Beatriz foi até a cozinha, onde Carla preparava o café, respirou fundo e lhe pediu imensas desculpas por tê-la envolvido nos descaminhos de sua alma tresloucada, sua pobre alma que no amor parecia sofrer de disritmia. A cena é tão melancólica: Carla escutando a tudo em silêncio, e ao fim pegando suas coisas e indo embora, deixando no ar a pesada sombra das palavras que no peito preferiu calar. Na cozinha fica Beatriz, encostada à parede, massacrada pela tristeza de saber que fizera o que devia ser feito, enquanto na mesa o café esfria. Nossa história bem que podia terminar aqui, com a mocinha, enfim purgada de seus pecados, vivendo com seu amado na bem-aventurança seculum seculorum ‒ mas, ai, ai, é justamente quando julgamos ter a gerência da vida que a própria vida trata de tudo bagunçar. Acertada outra vez com seu adorado goleiro, embalada novamente pela melodia das estrelas, Beatriz, surpresa, vê-se saudosa de tudo que tinha com Carla, e experimenta em si a estranha contradição de saber-se amada e amando, mas... incompleta. Antonio a abraça, compreensivo, e diz que em nenhum momento lhe exigiu exclusividade, e que se ela ainda ama a ex-namorada, ele perfeitamente entenderá. Mas se você me ama, como pode aceitar que eu ame também a outro alguém, perdeu o senso, foi?, ela pergunta, confusa, e ele explica o que aprendeu nos dias em que duelava no inferno contra sua própria possessividade: que só há salvação no amor que liberta. Naquela mesma noite, na igreja, ao ouvir o pastor pregar a fidelidade e a monogamia, Beatriz nem esperou pelo fim do sermão: ergueu- se decidida, pegou de volta o dízimo que deixara na caixinha, saiu e foi até a casa de Carla, e contou- lhe, emocionada, que havia finalmente se libertado e encontrado a iluminação de sua vida inteira. Bem, a história ainda deu umas boas voltas, é vero, mas para encurtar: Carla resistiu, resistiu, mas um dia também encontrou a luz, aleluia!, e semana passada, inclusive, aceitou ir com Beatriz ver Antonio jogar ‒ mas deu-se o direito de não aplaudir suas defesas, porque afinal ela ainda não está tão iluminada, tem que dar um tempo, né? E assim vão os três, novos atores para essa velha comédia de sucesso chamada amor, onde ouvir as augustas estrelas não garante absolutamente nada, e, como bem nos ensina a terza rima, tudo é eterno enquanto não vem a palavra derradeira. A música Divina comédia humana, de Belchior, integra o álbum Todos os Sentidos, lançado em 1978 Fotografia 3x4 Raymundo Netto Quanto amei ou deixei de amar, é a mesma saudade em mim. Fernando Pessoa “Sobral?”, riu-se. “E existe isso?” “Existe, seu guarda. E não é só no Norte, não, viu? Na Europa também. O senhor já deve ter estado por lá, claro.” O policial, que tirando a farda e a arrogância, não era muito diferente daquele moço encantado, de cabelos ventaneados, basto bigode e surrado pela cidade grande, percebeu a mangação, lhe devolveu o documento e advertiu: “Tome juízo, rapaz. Assim como você, tem muitos aqui no xilindró.” Não era mentira. Sozinho, tarde da noite, numa esquina deserta da Lapa, sem dinheiro no bolso e com perversa juventude sobrando no peito, caminhava no descompromisso do tempo para a praça Mauá, ou na direção de onde nasce o Sol, esperando a noite passar – aprendera com a noite fria a amar mais o seu dia, assim como pela dor o poder da alegria – ao encontro de um camarada, como ele, a morar na filosofia (leia-se“na rua”), que se sustentava na venda de cachorros-quentes e refrigerantes na av. Atlântica. Levando o violão debaixo do braço, arranhando um acorde aqui e acolá, arrastava-se aquele moço de tantas tristezas pelo abismo e pelas vertigens de sombras do abandono de sobrados inda em sacadas de ferro, cruzando com taxistas nas calçadas a discutir o futebol, com amantes em bancos apertados e abraços espaçosos, com damas noturnas de mãos nos quartos ilustradas apenas por tímidos lampiões em seu tempo negro: “É, sir Newton já sabia: o que pesa no Norte, pela lei da gravidade, desce para o Sul grande cidade...” Sentou-se num degrau de escadaria e retirou a cansada alpercata, comprimindo calos de léguas tiranas, enquanto observava à frente o burburinho nos bares e inferninhos, revelando a cinzenta alegria da solidão carioca. Ali, desapontado e desnorteado (sem o Norte), saudoso de casa, de afetos, dos quintais, da rede branca, da mulher que amou e que não pôde, ainda bem, lhe seguir, cantarolava num dedilhado baixinho: “Nam... na, na, na, na, na, na, nam... nam, nam...” Enfadado e ferido às contas pelo peso das escolhas, tirou do bolso um livrinho, quase sua oração, onde se lia: “A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.” Enchia os olhos de lágrimas, fortes como um segredo e verdes como o doce da cana, e, num poço qualquer de seu coração selvagem e repleto de dias de ironias, lhe saltava a certeza de que, como “a eterna novidade do mundo”, tinha coisas novas, coisas novas para dizer. Levantou-se e meteu o pé na estrada de não poder parar mais – na cabeça canções de rádio e de discos –, a curtir o teimoso violão, aceso pelo cigarro, livre pelas palavras, sonhos e sons, sem regras nem reverências, lembrando-se de um tempo de cantoria em feira e o desejo de esquecer o que lhe era antigo, deixadas as suas mágoas todas naquelas águas fundas e distantes dos verdes-marinhos mucuripes: “Mesmo vivendo assim, não me esqueci de amar / Que o homem é pra mulher e o coração pra gente dar”. A madrugadinha já despertava os primeiros cantares de galos de sua memória sertaneja. Veio-lhe com ela um trecho de carta a um conterrâneo – “Veloso, o Sol não é tão bonito pra quem vem do Norte e vai viver na rua” –, quando deparou-se com o olhar desconfiado de outro policial na curva do caminho, cumprindo o seu duro dever: “Por gentileza, seus documentos.” O poeta repetiu o mesmo gesto de todas as vezes e de todas as noites, retirando o registro do bolso traseiro de seu blue jeans e lhe entregando, enquanto trastejava um dedo de violão: “Eu sou como você, eu sou como você, eu sou como você...” “Sobral?”, estranhou. “Sim, senhor. Mas Sobral do Ceará. Soy latino-americano.” “Carlos Gomes? O músico famoso, é?”, gargalhou, estalando o indicador na fotografia mal impressa. “Sim, Carlos Gomes Belchior. Mas pode me chamar de Belchior, também músico, ainda não famoso. Mas vamos logo, seu guarda, que o Sol está nascendo e eu não tenho nada, nadinha, a não ser uma puta pressa de viver!” A música Fotografia 3x4, de Belchior, integra o álbum Alucinação, lançado em 1976 Galos, noites e quintais Joan Edesson de Oliveira Quando dei por gente a primeira vez, num sertão distante no tempo, profundo na geografia do país, já havia um tempo negro entre nós, e a força já fazia conosco o mal que a força sempre faz. Quando meus ouvidos de menino magro e triste nasceram para a música a primeira vez, fazia um tempo que era de sussurros, de meias-palavras, de coisas não ditas, de pessoas que se iam para não mais voltar. O que me chegava pelo rádio, naquele lugar tão longe, falava de coisas que eu ainda não entendia direito, de coisas que eu ainda aprenderia, num longo caminho que mal começara. Havia um sujeito de bigodes enormes que encantava, que parecia falar com a gente, diretamente, sem intermediários. O menino que eu era fantasiava aquele sujeito cuja música me tocava tanto, embora falasse de coisas tão distantes de mim. Eu não tinha identidade real com aquela música. Havia um engenho, é verdade. Mas nele, o que me encantava mesmo, muito mais que a doçura espalhada no ar, eram as engrenagens da moenda. Era um engenho velho, ainda puxado a bois, e aquelas engrenagens eram um enorme brinquedo. Fascinavam-me aqueles movimentos, fascinavam- me aqueles tachos enormes, fumegantes. Mas eram tristes, muito tristes, aqueles pobres bois e aqueles homens pobres e cansados, aos meus olhos magros nos quais a miopia começava a erguer sua morada. Eu não era alegre, nunca fui. Era pequeno e medroso, e corria de bichos e de rios. Era um menino construído em ossos e tristeza, em magreza e solidão. E já tinha, desde aquela época, a mesma lágrima verde que teima em habitar em mim, o mesmo olhar pronto a se derramar pelas dores daqueles que eu nunca vi. Com tanta falta de identidade, aquele homem sério de bigodes enormes cantava para mim, com a voz saída de dentro daquela maravilhosa caixa, que meu pai guardava com zelo de avarento, num lugar de honra na sala da casa, a parecer mais um objeto sagrado em mesa de altar, com toalhinha branca como forro, com uma capa cuidadosamente bordada a lhe proteger da poeira e dos olhares invejosos. Naquele rádio, o menino triste que eu sempre fui ouviu falar naquele homem de nome tão comprido e volumoso quanto o seu assustador bigode. O locutor anunciou, pausadamente, aqueles seis nomes, para resumi-los depois a um único, do qual jamais esqueceria. Naquele rádio, o mesmo locutor anunciou aquela música, que não tinha nada a ver comigo, mas que era como se tivesse sido feita para mim. No caminho de lá até aqui aprendi que a vida é cheia de contradições, e que aquela talvez fosse apenas a mais simples delas. A vida, entre acasos e determinações, carregou-me de um lado a outro dos sertões cearenses. Daquele lugar perdido nos confins do Ceará, sem nome no mapa, filho órfão do trem que se foi sem olhar para trás, palmilhei légua por légua do sertão e cruzei, entre outros miúdos e sem nome, o Jaguaribe, o Banabuiú e o Acaraú, até arranchar-me cansado e perdido na margem esquerda deste último. Deixei o lugar seco e ossudo em que vivi, equidistante entre a temporária valentia do velho rio das onças e a verdura melancólica da chapada do Araripe. Vim para este outro lugar, entre um rio que vez por outra se rebela e lambe ruas com labaredas de água, carregando consigo gentes e casas pobres, e uma serra que me acena todos os dias pela manhã, fêmea voluptuosa a me convidar, incansavelmente, a dormir consigo. O menino triste e magro, que já carregava um olhar lacrimoso e míope, veio ser aqui um homem sério e triste, com o mesmo olhar verde aquoso escondido por trás das lentes dos óculos, inseparável companheiro. Mas foi aqui que compreendi melhor o homem de nome comprido e suas canções. Compreendi que eu também fora, contraditoriamente, um menino alegre feito um rio. É que alegria não pode ser estado permanente. É transitório que se alterna, que vai e que volta, mas que no fim do dia sempre desequilibra o prato da balança em desfavor da tristeza. Feito o homem de bigodes que cantava, também fiz o meu caminho, fileiras de milho verde ondeando, quando havia chuvas e milharais. O tempo negro havia sido espantado, e ingenuamente julgamos que era para sempre. Voltamos a cantar, a cantar muito mais, julgando que éramos felizes e que não éramos mudos, que éramos donos da nossa própria voz e do nosso próprio destino, que faríamos nós mesmos o nosso caminho. Aqui, nessa cidade encravada entre uma serra e um rio, encontrei muitas vezes o seu filho cantor de canções que me tocavam, desde que dei por gente a primeira vez, num lugar e num tempo cada vez mais distantes. Aqui vi, embevecido, o homem de bigodes a cantar ou simplesmente a conversar, mansa voz por trás de olhos que se apertavam, curiosos e inquiridores das coisas do mundo. Masagora, que um tempo negro ameaça voltar, que a força tenta, novamente, fazer o mal que a força sempre faz, não vejo mais aquele homem de bigodes grossos, de nome comprido de fazer cansar a palavra da gente. Exilado, quem sabe, em si mesmo; perdido em caminhos que desconhecemos, quem sabe. Ou, talvez, o homem tenha voltado em busca do menino que foi, e esteja por aí a procurar por galos, noites e quintais. Talvez esteja à cata de novas canções, de novos versos. Não sei desse homem, por onde ele anda, se sente a mesma e desesperadora angústia de um goleiro na terrível hora do gol. Sei que gostaria de abraçá-lo, de dizer muito obrigado por tantas canções belíssimas. De dizer muito obrigado por essa, em especial, que ele compôs para mim, mesmo que não o saiba. Gostaria de dizer a ele que essa canção foi que me trouxe até aqui, e é que me faz, olhando o tempo negro que se avizinha, cantar muito mais, para conjurar de volta o tempo da alegria e da felicidade. Não sei se sou feliz ou não mas, com certeza, não sou mudo. Por isso, é que hoje canto muito mais. A música Galos, noites e quintais, de Belchior, integra o álbum Coração Selvagem, lançado em 1977 Na hora do almoço Gero Camilo No centro da sala, diante da mesa No fundo do prato, comida e tristeza Belchior Sol de comer sombra, e eu meio-dia e meio-homem, querendo engasgar de tristeza e fome. Até ontem parecia que não havia por trás da minha casa, depois que o leite desceu pela mão e as pernas tremeram de prazer e eu quase caí no chão do quarto, depois que o pau gozou com o vaivém da mão, os pelos enrolaram junto com as ideias e pensei... deve haver pra mais longe. Restaria a família. Ficariam ali petrificados à espera da poeira do Vesúvio, da goteira de Canudos, ficariam ali, eternos até na morte. E eu não sabia mais ficar, assim como o tempo, eu diluía. E de não ouvir mais uma palavra nova eu fui perdendo a voz. Fui ficando de canto naquela casa grande. Ouvi Mãe chamar: Hora do almoço! Limpei a gala no lenço e guardei o pau na cueca. Destranquei o ferrolho da porta. Vesti a calça de riscado e a camisa de linho branco que meu primo Arquelau esqueceu na rede. Escondi a revista de sacanagem que ele também me deixou. E escondi o beijo que ele cuspiu quando saiu. Minha irmã mais nova é Rabeca, uma garota de 13 anos com uma cabeleira preta que gosto de pentear. Entra no meu quarto quando desferrolho e corre pra penteadeira. Ela é libriana de signo e língua, muda de nascença. Mas não importa sua cala e sim o canto dos seus cabelos. Quando são tocados soam uma música grande. Variante, seca, disforme, agudeira, sertônica, rasga uma folha de coqueiro. Meu pai Acrísio não gosta, sinto longe, uma vez distante nos meus primeiros anos me deixava penteá-lo, um dia raivou-se não sei por onde e não me deixou mais contar seus cabelos. Minha mãe Líria gostaria mas não pede nem manda. Fica tudo por conta do velho que é o que menos quer falar. Demora acontecer, e sempre que estamos ou no campo ou na escola ou no descanso e ouvimos um alerta é sinal de que nosso pai vocifera. Falar pra quê?! O papagaio que tínhamos falava, e o que adiantou? O gato que via tudo também se coubesse falava, e o que adiantaria? Nosso cão, nosso porco, nossas ovelhas... Nem Orla nem Serto, os dois vão virar quântico. Então por meu pai o melhor é ser mudo. Pra ele o mundo mudaria. Pra mim também, no avesso. E foi. Mundou. Minha vó nunca emudece (na porta do meu quarto): Isso não é coisa de macho, pentear mulher. Macho caça, mata, trai! Não ouviram a mãe chamar?! Hora do almoço. Sem ser convidada, vó Dora invade meu quarto e expulsa Rabeca na marra e ocupa o seu lugar na penteadeira. Traz na mão esquerda a panela e dentro o sumo do maracujá pro almoço, na direita uma colher, fica por ali amassando o açúcar na semente da fruta pro suco. Basta meu pente arrepiar sua cabeleira longamente branca que ela revira os olhos e escuta dos pelos as fontes, olhos dágua. Olhatas. A velha em transe. Minha vó morre ali. E eu arranho, por mim, até sangrar seu crânio. O Pai, na cabeceira da mesa, pensa em voz alta: Baitola! Mas nesse pequeno intervalo de chamar pro almoço um copo vazio é o mar; e a vó, amansada no pente, re-acorda braba, e grita: Chega de risquinho no couro cabeludo, Hora do Almoço. É de costume alimentar as moscas, os olhos, as mãos nos talheres holandeses... até abrir a boca preguiçosa, desde que minha mãe perdeu o filho na barriga que nasceu enforcado nas tripas. Daí pra hoje tudo é triste naquele lugar pra mais de oito anos. Ou seja, metade do mundo até esses meus dezessete fui luto e eu ainda sou moço pra tanto reclame. Os talheres foi um viajante, deixou de presente, Sthephan veio de Amsterdam, de passagem científica por Sobral, e sem querer lhe roubei a bússola. Hospedou-se em nossa casa. Ficou um mês estudando o movimento dos ventos. Íamos aos mares da região e ele dizia da energia que salvaria o mundo. Subíamos no telhado mais alto da cidade e ao contrário do que era em casa eu e Sthephan falávamos línguas. E eu nem sabia que sabia holandês. Agora fico com essa culpa no quengo, preciso lhe achar pra devolver a bússola. O Pai, já na cabeceira da mesa, pensa em voz alta: Senta porra! A mãe senta. Senta a vó. Senta a irmã Consinto. Acrísio, Líria, Dora, Rabeca... eu daria nomes às flores caso minha família cheirasse bem. Botanizaria nosso pólen, o mundo está polémico. Eu de animal doméstico mesmo só tenho um Cururu, o Platão, que mora na beira do pote. O olhar vai pra depois da sala de comer pra chegar na porta na calçada na estrada e aonde a tal bússola queira ir, se pra dentro do Mar se pra dentro do Serto certo será. Meu pai na cabeceira e nós pelos lados, mas hoje decidi sentar de fronte, e vi o raio do meio- dia entrar casa adentro pela única porta aberta e fazer seu Acrísio virar uma enorme sombra e daí a estrada fica estradinha de medo. Nunca vi meu pai mais sombra. Ousadia minha, muita petulância. Decidi, sentei de fronte. Rabeca lambeu rapidamente o prato, como lambe a sua cobra de estimação Elistra o pires ao pé da mesa, cuscuz com leite de entrada. Vó Dora levantou pra me sugerir a cadeira, lhe respondi que a minha não quebrou. Apenas que o assento estava assuntando... e sentei de fronte. Minha mãe Líria bate talheres. Nos mataria num único rompante, mas escreve, e isso a acalma. Escreve muito. Ontem procurei um caderno pra um bilhete de despedida e encontrei um baú de receitas escritas à mão. Não era um nem dois nem três, minha mãe guardava ali centenas de cadernos com receitas e frases soltas entre os temperos, frases inacabadas ou conectadas ao mundo dela que nós nem sempre alcançávamos. Minha mãe Líria diz que comer é delíriar. E nesses surtos ela versa enquanto talhera, dana a falar coisas e nomes que não existem. Já a vi arremessar violentamente uma cabeça de porco pela janela, abrir suas costelas no punho, limpar suas tripas, separar seus órgãos, e nessas horas suas mãos ficam grandes e sinceras. Quando é assim meu pai macho não sente fome. Some pro quarto cedo. Todos vamos deitar com medo. Apagam-se as luzes dos cômodos e ficam apenas: minha mãe Líria, a faca, a cozinha e o bicho grande. Geralmente quando acordo tudo está limpo, Rabeca me comunica que quem limpa o sangue é vó Dora. Minha mãe não costuma ir pra mesa nessa hora. Vó Dora diz que mãe Líria fica indisposta quando o bicho é grande e precisa de repouso e que o pai também não vem comer porque vai secar o couro. E eu com isso... hoje sentei de fronte. O caso é o fastio. E a falta do que não se sabe. Sabedoria nenhuma vence a morte. Bem melhor sentir fome. Nessa dança de cadeiras, meus bilhões de pensamentos ensaiando gritar. Medo. Medo. Medo. Fiz isso, num rompante levantei e abri o corte do meio-dia. Abri o tempo verbal. Abri todas as janelas, são 15. Vem vento junto. Tudo arrepia. Vó Dora, Rabeca, Elistrae Platão me olham espantados. Meu pai Acrísio e Mãe Líria levantam-se sobressaltados. E desabafo: De agora em diante janelas abertas dentro de casa. Chega de luto. Pai, mãe, vó, cobra, sapo... Meu coração meu pai está cansado de ser triste e ainda agora me disse pra arrebentar, assim como as velas do Mucuripe rebentam o mar. Minha mãe seus delírios profetizam o fim dos tempos enquanto suas mãos matam diariamente. O fim é sem hora minha senhora. Minha vó Dora saiba que pentear é o mesmo que carpir, campo fértil seus miolos moles. E que eu sou macho que ama o cheiro de machos, como amo Arquelau. E como isso não quer dizer nada. Medo. Medo. Medo. O que caça, mata e trai; também cai. E se estamos vivos que tal morrermos? Medo. Medo. Medo. Eu ri. Simplesmente eu ri! Viu isso Rabeca, eu ri! Um riso curto e pequeno que eu não conhecia de tanta tristeza que vivia. Estou rindo! A luz me faz cócegas. Eu estou rindo! Seu Acrísio seja feliz! Dona Líria seja feliz. Vó Dora doure seus anos. E você minha irmã Rabeca leia o que nossa mãe escreve e o surto passará. Minha mãe não adianta chorar o filho perdido. O único choro justo é o da morte. O filho perdido não está morto. Olhem só a tarde! Ela invade. A tarde dura. Eu ri! Eu ri! Eu ri! Eu vi o sol, me engasguei, desentalei e ri! Adeus. Adeus tristeza. Adeus. A música Na hora do almoço, de Belchior, integra o compacto duplo lançado em 1971 Paralelas ou: A Macabéa e a Bailarina Carmélia Aragão Em cada luz de mercúrio Vejo a luz do teu olhar Passas praças, viadutos Nem te lembras de voltar Belchior Talvez, um dia, Ângelo, quando você voltar, vou pedir que se deite no chão para eu desenhar o contorno de teu corpo. Vai parecer mau gosto, eu sei, encontrar o contorno deslocado de um corpo chapado, aqui, no chão da sala, tal como a perícia costuma fazer nos locais do crime. Mas não é crime. É saudade. É você, Ângelo. É deitar dentro da sombra do teu corpo, Ângelo, e me sentir abraçada pela tua ausência. A gente era as sobras da noite: a paraíba e a bicha preta. As tristes alegres figuras, como você mesmo dizia, toda vez que começava a contar nossa história: do encontro da Macabéa com a Bailarina. Eu era estudante e morava na Barata Ribeiro. Sem dinheiro e sem sono, segui até um boteco qualquer. Tinha prova no dia seguinte, além do aluguel atrasado, e as economias no fim. Na verdade, fui andar para não pensar em nada. Queria desmaiar mesmo. Para tudo sumir. E, ali estava você, Ângelo. Ou, melhor: Leona. Você só apareceu de manhã com a cara borrada, toda desmontada, perguntando se eu tinha algum demaquilante poderoso pra Leona descansar a cútis. Você era lindo mesmo assim. A cabeça raspada, os cílios numa mão e o picumã na outra. E Leona dançava. Tinha acabado de passar num teste numa boate na Prado Júnior. Um dia na semana, por meia hora! Todo começo era assim. No entanto, você nem desfrutava da boa notícia, estava arrasada, comendo um bauru com um copo de coca, e com uma mala azul enorme de lado, porque aquela colega invejosa de sonhos tinha te colocado na rua. Leona era uma traíra. Tra-í-ra. Roubara-lhe o lugar na boate. Mas lembrando da gente assim, talvez se eu fumasse, poderia até parecer uma personagem mais interessante pra ti que a Macabéa. Sabe, até acho bonito ver alguém fumando um cigarro blasé na varanda, mas meu dinheiro nem pra isso dava. Além do mais, eu morava nos fundos. De frente para o muro do nada. E não sei o que deu na gente naquela noite. Você disse que foi amor de viado: intenso e único. Mas sei lá. Penso assim hoje: da mesma maneira que eu, a Macabéa, irritava os riquinhos da Zona Sul cursando Direito, a Leona era também um completo desacerto da natureza. E as coisas foram melhorando pra nossa vida a três. Começou meu estágio. Ângelo conseguiu uma vaga como técnico de laboratório. E a Leona passou a dançar duas vezes na noite. Alugamos o conjugado da Miguel Lemos. Onde você me ensinou a apreciar o requinte da voz de Maria Callas, a tristeza de Pina Bausch, e a chorar vendo Marilena Ansaldi. Você só teve sua avó pra te permitir o sonho da dança. Foi mais de uma década de estudos, quando você me disse que, no dia do teste pra uma companhia, a diretora te mandou a real: você era negro, pobre e morava na Baixada. Você não servia para príncipe e nem para sapo. Mesmo com toda tua leveza. E, talvez por isso, a gente tenha se encontrado. Quando você chamou Leona pra invocar toda essa tua fúria, toda tua frustração, nós nos conhecemos. Nos conhecemos exatamente no dia em que Leona Baker veio ao mundo. E da Prado Jr. pro Cabaret Casanova, na Lapa, recepcionada por Laura de Vison. Foi quando percebi que você partiria sem mim. Não levado pelos homens impossíveis pelos quais você se apaixonava piscianamente como um louco. Por cada novo médico enrustido que chegava no laboratório, prometendo um canto no armário, o banco traseiro do carro. Foi por Leona, pelas luzes, pela promessa de um corpo pleno. Porque, afinal, para Ângelo só restava a piada da bichinha que voltava pra casa no fim do dia, com as mãos sujas de tanto abrir os frascos abarrotados com a merda do Copa D’Or. – Sabe qual meu maior sonho? – você me disse assim, do nada, naquela tarde no Posto 2, olhando pro mar. – Que Leona pudesse estar aqui, vendo esse por do sol com a gente. Que Leona pudesse ser livre. Toda noite percorro a Av. Atlântica. Sigo devagar no carro. Ponta a ponta. Não sei quanto tempo faz. Disseram que 10 anos. Mas a dor é a mesma. A Espanha já não é mais tão longe. Nem o amor é tão eterno. Casamentos tive três. Nenhum com a tua mesma cor, nem com teu cheiro, nem com tua risada. Também te busco todas as manhãs nos jornais quando chego ao escritório. Mas agora falta pouco. Eu sinto. Eu sei. Falta pouco. Procuro você em todas elas. Debaixo das luzes. Devagar. Quase imóveis na Av. Atlântica. A música Paralelas, de Belchior, integra o álbum Coração Selvagem, lançado em 1977 Sujeito de sorte Jeff Peixoto O ano de 2015 se despedia com a luz dos fogos de artifício a queimarem no céu, com o som estridente de uma contagem regressiva feita por aquela multidão que vestia branco. O certo é que aquele ano que terminava trazia uma tristeza imensa que tomara conta de Gaspar. Um dia antes, um jogo de conspirações sobrenaturais fez com que um sólido relacionamento de cinco anos se despedaçasse como se fosse um velho copo americano que beija o solo. Sua noiva, Christine, resolvera que o ano novo que se apresentava não seria mais com ele. De onde deveria ter vindo a crueldade daquela mulher? Afinal, não se dá cabo de uma relação assim, numa virada de ano. E Gaspar se embebedou com os espumantes mais caros que o dinheiro podia comprar, banhou-se com eles. Fumou charutos cubanos e se queimou com eles. Beijou bocas vadias e se entristecia cada vez mais a cada beijo barato. Queria Christine de volta. Queria já. Mas Christine tomara sua decisão, aparentemente impulsiva, de caso pensado, já com todas as noções de causa e efeito, tendo toda a certeza de que não queria mais. E não quis. Nunca mais. Gaspar voltou para o seu apartamento vazio. Guiando torto seu carro pelas ruas da cidade que se mostrava cinzenta. O dia resolvia amanhecer. Era o ano novo. Era um 2016 que chorava como uma criança após a leve palmada do médico. Vinha ao mundo num berreiro desesperador. E Gaspar já amaldiçoava aquele primeiro dia percebendo que todos os próximos seriam cada vez piores. Já em casa, com o sol invadindo a fresta da janela da sala, atirou-se no sofá sem mais sentir que o chão em que pisava estava ali. Não conseguiu dormir. Sentou-se diante do computador e foi revirar os álbuns de fotografias com Christine. E chorou. Chorou a dor de um braço trucidado, mais do que isso, chorou a dor de um coração arrancado pelo corte certeiro de uma espada cretina. Mesmo já absurdamente bêbado resolveu abrir a garrafa de uísque que apenasenfeitava a estante. E passou a beber a goles rápidos, como se quisesse que o álcool lhe conduzisse para um mundo de conforto que ele jamais lhe levaria. Até que apagou sobre o teclado e só se fez vivo outra vez na madrugada do dia seguinte, com um hematoma na testa, largado ao chão da sala do apartamento e padecendo de uma ressaca a romper-lhe o juízo. Saiu tateando o pouco que via pela frente até lançar-se no banheiro num vômito que representava que aquele ano novo não viria a ser dos melhores. Ficou em casa, acabrunhado em seu quarto escuro, por intermináveis três dias. Esquecera o telefone e toda e qualquer comunicação com o mundo exterior. Nesses dias mal comeu. Não tomou banho. O único impulso que lhe arrebatava era um choro doloroso e silente ao lembrar que Christine havia lhe deixado pelo caminho. Chegou então a segunda-feira e ele precisava ir trabalhar. Era editor do caderno de economia do principal jornal da cidade e, ainda que não quisesse sair da cama, precisava trabalhar. Vestiu-se com a primeira roupa que as gavetas apresentavam, devidamente amassadas. Nem lembrou de escovar os dentes. Tirou o carro da garagem como quem move um transatlântico em mar revolto. Parou na bodega do Seu Jacinto para tomar, pelo menos, um café preto. E Seu Jacinto não teve como não indagar o rapaz diante daquela aparência deprimente. “Isso foi mulher, tenho certeza!”. Sim! Seu Jacinto estava certo. Era mulher mesmo! E, como um miserável que implora por migalhas, Gaspar abriu seu coração para o dono da bodega. E chorou ali. Chorou mais uma vez. E choraria mais outras tantas. Mas Seu Jacinto abriu sua pasta de discos e disse, ao retirar um com todo cuidado: “Você tem uma radiola? Se tiver, empresto este disco. Quero que você escute esta faixa, 'Sujeito de Sorte'; não vá trabalhar hoje. Volte pra casa e fique ouvindo essa música o dia inteiro, até cansar.” Já em casa, após telefonar para o jornal inventando uma desculpa para não ir trabalhar, Gaspar abriu a sua Crosley e pôs o disco para rodar na vitrola, sempre ouvindo a música que o proprietário da bodega indicara: “Sujeito de Sorte”. Ouviu por quase uma centena de vezes, sem cansar ao se erguer a cada término para fazê-la tocar outra vez. E no intervalo entre uma reprodução e outra tratava de encerrar a garrafa de uísque que abrira outro dia. E uma vida inteira se passou em apenas um dia. O disco indicado por Seu Jacinto era de Belchior e a música “Sujeito de Sorte” trouxe novo ânimo para Gaspar. Já no primeiro verso o vozeirão inigualável apresentava: “Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte / porque apesar de muito moço me sinto são e salvo e forte...” Trouxe novo ânimo e sorte. Gaspar saiu para trabalhar no dia seguinte, não poderia dar mais desculpas, e, após ter gravado a música numa mídia que fosse compatível com o aparelho de som de seu carro, saiu a ouvir “Sujeito de Sorte” enquanto driblava os engarrafamentos da cidade, enquanto tentava driblar os engarrafamentos de sua dor; “Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro”. E ficou preso a este verso. “Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro”. Como se fosse um mantra forte a invadir seus pensamentos. Sem perceber, Gaspar criava ali um elo mágico com o grande Belchior, um cara que ele pouco conhecia. A música “Sujeito de Sorte” foi seu refúgio, foi seu hino de salvação. Depois passou a se interessar mais pelo músico e a ouvir todas as músicas. Gaspar e Belchior haviam criado um elo místico indecifrável, como se o velho Bel, havia tempos desaparecido, tivesse se tornado um anjo a acalentar seu coração partido. Tendo Seu Jacinto da bodega como um humilde mensageiro. Belchior foi capaz de tirar Gaspar do fundo do poço a que só uma desilusão amorosa é capaz de lançar. Belchior fez de Gaspar, realmente, um Sujeito de Sorte. Não demorou para que o sujeito encontrasse uma mulher bem melhor do que Christine. Teve a sorte de encontrar uma mulher encantadora chamada Elis, com quem casou poucos meses depois. E na cerimônia de casamento, Gaspar exigiu que a música tocada na igreja fosse a sua velha companheira de dias difíceis intitulada “Sujeito de Sorte”; e um dos padrinhos do casamento, o mais importante, não poderia deixar de ser o velho proprietário da bodega que na cerimônia olhou-me nos olhos e relembrou um trecho importante da canção: Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro. Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro...” Ano passado Gaspar realmente morreu, mas no ano novo não morreria mais. A música Sujeito de sorte, de Belchior, integra o álbum Alucinação, lançado em 1976 Todo sujo de batom ou: Uma balada nova falando de brotos, de coisas assim Xico Sá Ela havia levado um bolo do namorado ou daquele cara que só promete. Ele estava apenas caminhando sem rumo pelas ruas do centro da metrópole como qualquer outro rapaz sem cartaz. Ela foi até o orelhão e ligou para o desalmado, tum, tum, tum... Ele teve a súbita compreensão do drama. A primeira lufada do vento frio que veio do vale do Anhangabaú zombou de fazer um S de solidão com o cachecol vermelho da moça. Somente ele, um suburbano tão sentimental, leu tudo que se passava naquela cabeça. Se tivesse mais algumas pratas no bolso, a convidaria para um chope com bauru no Ponto Chic, contaria um pouco da sua história ‒ não para impressioná-la, não trouxera nada de tão romântico assim dos finados anos 80. Ela veria “Cabo do Medo” em um dos cinemas da Galeria Olido. Procurava o prometido acompanhante daquela sessão das cinco entre os casacos cinzas que lotavam a parada de ônibus do Largo do Paissandu. Lembraria do seu rosto entre os passantes? “Que ódio!” Só ao rapaz sem cartaz que vagava pelo centro era dado o dom de captar todos os sentimentos e frases silenciosas da garota. Apenas ele havia parado o seu mundo para prestar atenção nas coisas tristes que acontecem no redemoinho crepuscular de São Paulo. Ela fumava apenas quando terminava um romance, talvez ele captasse isso quando ela comprou na banca de jornais um cigarro avulso. Ele curtia cinema americano antigo e correu com fogo e proteção, a mão em concha contra o vento gelado, para acender aquela brasa que iluminaria a cidade antes das lâmpadas de mercúrio. Ele, o menino da caixa de fósforo, estava desprotegido, imaginou a menina: “Os garotos pensam que uma camiseta da banda predileta é escudo contra frio e perigo”. A camiseta do Nirvana, embora seminova, continha alguns pequenos furos. “O que você vai fazer com esses ingressos já comprados?”, quase disse o moço. Eles se olharam bonitos. O rapaz, porém, tinha algum pavor. Não era o tipo de filme que o agradasse. “Quer passar medo comigo no escuro do cinema ou nesse mundo aqui de fora?” Ele imaginou ter ouvido uma frase bonita da boca dela. O vento assobiava mais alto do que qualquer legenda. Eles atravessaram a rua rumo ao Ponto Chic. Eles foram longe no bonde chamado desejo. A mãe, lá na vila Tolstói, zona leste de SP, gastou sabão e paciência para tirar tanto batom daquela camisa pós-adolescente. A música Todo sujo de batom, de Belchior, integra o álbum Mote e Glosa, lançado em 1974 Velha roupa colorida ou: O passado nunca mais Roberto Maciel Sim, isso é uma carta, meu amigo. Ou uma conversa. Ou não, como o antigo compositor baiano e o poeta louco americano me diziam. Só escrevo desse jeito porque não sei onde estou e nem aonde vou. Não sei quando parti nem sei se vou voltar. Tenho medo de ser denso, e disso nunca fiz segredo. É o medo que já aconteceu e também o medo do que já aconteceu. O medo que está logo ali, não é? Sempre. Dobrando a esquina, há perigo e não há mapa do tempo. Um Rio, um Porto Alegre, um Recife, medo Fortaleza, medo Ceará, Paranapá. Avião. Sempre. É que agora muito se perdeu de vista, rumou para bem longe daquela cidade de sobrados, de sobras, de tanta luz que esbanja sombras. O passadonunca mais. Há um estranhamento, uma ânsia esquisita. Nem sei se tenho precisão para enxergar aquilo, ou dentro daquilo, a importância do que eu mesmo fiz. Tenho por ora vivido de memórias, algumas forçadas, outras alheias. São notas e impressões que se misturam em tons de diários ou de diálogos que nunca tive, mas acabei tendo. Poderia escolher sentar numa praça qualquer, embriagado, congelando, esperando a morte me achar, e conversar com pessoas que ouvi e li. Na rua, em grupo reunido: ‒ Salve, senhor Kerouac, já botei o pé na estrada. ‒ Olá, senhor Zimmerman, tento enxergá-lo como me enxergo no espelho, gaita e violão às mãos, fazendo pose de trovador. ‒ Ei, senhor Morganfield, senhor Jagger, senhor Richards, como pedras rolantes inda careço de turvar um trisquinho a mais as águas do Acaraú, do Jaibaras, ora tão escassas, ora tão barrentas. * * * Três passarinhos no degrau da minha porta: um corvo, um assum preto e um merlo-preto. Jack, Dylan, Muddy. Ou Poe, Gonzaga, McCartney. Poderiam cantar melodias bonitas e verdadeiras – mas aí seria um reggae, não uma solução nem um tango argentino, que me vai bem melhor como mensagem para você. Não nos preocupemos com as coisas, pois. As pequenas coisas vão acabar de boa, nothing to blues. * * * Tudo o que poderia ter falado, falei. Se não falei, ao menos construí memórias para torná-las verdades. Mas memórias que não são verdades não são saudades. No passado, a mente mente e o corpo é indiferente, indivisível. E novas mudanças nem sempre acontecem. Careço também de brincar nas águas fundas do Mucuripe. A propósito, como estão as velas e as mágoas? Eu ainda as tenho, mesmo que em rabiscos e telas mal terminadas feitas daquele algodão que outro dia desses lá no campo ainda era flor. Sinto falta, ou não sinto, de um porto – pode ser seguro, pode ser um vinho, também pode ser alegre. Porque loucura, chiclete e som podem ainda grudar como símbolos de uma transviada juventude que nunca tive, uma juventude James Dean, como as meninas que nunca mais convidei para correr no meu carro. Coisas de um tempo que hoje é antigo, que não me serve mais, que não nos serve mais. Coisas de uma quarta-feira às cinco da manhã. Coisas como aquele toque Beatle: “ela está se mandando de casa”. Até parece que foi ontem a minha mocidade, não é? Saindo de casa depois de viver, depois de viver sozinho. Hoje, eu quero segurar a sua mão. * * * Não quis nem pude me aquietar. Não admito mais a ideia de ser uniformemente plural, como gente jovem reunida. Sou singular, sei e sinto, e sequer penso em alimentar outra condição. Ou outra contradição. Poderia estar escrevendo agora para Edgar, como se querendo avisar que o corvo permanece solto na noite infinda. E para quem vive solto mas não pode voar o que resta é cantar de dor. Ou cantar a dor. * * * O passado, essa imensidão que a gente enxerga às vezes ao longe e satisfeito, às vezes tão perto e voraz, não nos colore nem como passado, quanto mais como roupa. Pode parecer angústia, mas não é. Tudo são imagens, versos, letras, melodias. Não é pouco, porque é assim que a vida se monta e se desmantela. Escrevo desse jeito porque não sei o tempo que tenho ou mesmo se terei algum tempo. Não sei se parti e, por isso, não sei se quero voltar. Sou um sujeito de sorte. Afinal, o que há algum tempo era novo, jovem, hoje é antigo. E precisamos todos rejuvenescer. A música Velha roupa colorida, de Belchior, integra o álbum Alucinação, lançado em 1976 AUTORES Ana Karla Dubiela Nasceu em Iguatu, em 1964. Mora em Fortaleza. Escritora e jornalista. É especialista, mestre e doutora em Literatura. Autora dos livros A Traição das Elegantes pelos Pobres Homens Ricos - Uma leitura da crítica social em Rubem Braga, Um Coração Postiço - A formação da crônica de Rubem Braga e As Mães de Chico Xavier (coautora). Proferiu palestras na Câmara Federal, na Casa de Rui Barbosa (RJ), entre outras. Carmélia Aragão Nasceu em Sobral. É escritora e doutora em Literatura pela PUC-Rio na área de literatura, leitura, formação do leitor e políticas públicas. Seu livro de contos Eu Vou Esquecer Você em Paris foi premiado no III Edital de Incentivo às Artes da Secult-CE. Trabalhou para o governo do Ceará e na Cátedra UNESCO de Leitura/RJ em projetos de leitura e acesso aos livros. Cleudene Aragão Nasceu em Fortaleza, em 1972, onde ainda mora. Professora universitária da UECE, gestora cultural e escritora. Publicou pelas edições UFC o ensaio Rachel de Queiroz e Xosé Neira Vilas: Vidas feitas de terras e palavras (Prêmio Osmundo Pontes, 2011). Publicou também, com outras cinco autoras, a coletânea de contos Quantas de Nós (Prêmio Moreira Campos, 2010). Ethel de Paula Nasceu em 1971, em Fortaleza, onde mora. É jornalista free-lancer, com interesse e inserção em projetos editoriais, culturais, memorialísticos e acadêmicos que privilegiam histórias de vida, memórias e narrativas. Graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará (UFC), é mestre em Memória Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Gero Camilo Nasceu em Fortaleza, em 1970. Mora em São Paulo-SP. É poeta, escritor, ator, compositor e cantor. Tem cinco livros publicados nos gêneros conto, dramaturgia e poesia. Em 2016, lançou seu livro de poemas Cajita de Monerías, pela Editora Edith. Com sua banda Caroço da Aurora, apresenta-se com o show Alucinação, no qual interpreta o álbum homônimo de Belchior. Jeff Peixoto Nasceu em Fortaleza, em 1978, onde mora. Escritor e jornalista. É autor dos romances O Melhor Livro do Ano e O Mal de Janine, e do livro de poemas Leuconíquia. Seu romance 96 Dias Embaixo da Cama recebeu o Prêmio Jader de Carvalho, concedido pelo Governo do Estado do Ceará. Joan Edesson de Oliveira Nasceu em Cedro, em 1965, e mora em Sobral desde 1993. Educador e escritor. É autor de Com Margaridas nos Olhos (poesia), Do Voo dos Elefantes e Outros Azuis (poesia) e O Plantador de Borboletas (contos). É colunista do Portal Vermelho. José Américo Bezerra Saraiva Nasceu em Várzea Alegre, em 1964. Mora em Fortaleza. É professor do Curso de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal do Ceará e autor dos livros A Identidade de um Percurso e o Percurso de uma Identidade: Um estudo semiótico das canções do Pessoal do Ceará (2012), A Trama Poética em Caetano Veloso (2014) e Exercícios de Semiótica Discursiva (este em parceria com Ricardo Lopes Leite e no prelo). Raymundo Netto Mora em Fortaleza, onde nasceu em 1967. Editor e escritor. É autor de Um Conto no Passado: cadeiras na calçada (romance), Os Acangapebas (contos), Crônicas Absurdas de Segunda (crônicas), Boto Cinza Cor de Chuva, A Casa de Todos e de Ninguém (infantojuvenis) e Centro: um ‘Coração’ Malamado (ensaio), entre outros. Mantém o blog AlmanaCULTURA: raymundo- netto.blogspot.com.br Ricardo Guilherme Nasceu em Fortaleza, em 1955, onde mora. É ator e diretor teatral, com mais de cem espetáculos realizados em quase cinquenta anos de atividades e temporadas internacionais. Escritor, jornalista, radialista, professor da Universidade Federal do Ceará, com pós-graduação em Comunicação Social e Arte-Educação. É o formulador do Teatro Radical, objeto de análise de dissertações e teses em universidades do Brasil e do exterior. Ricardo Kelmer (organizador) Mora em São Paulo e Fortaleza, onde nasceu em 1964. Escritor e roteirista. É produtor do Bordel Poesia, sarau que reúne diversas expressões artísticas em torno dos temas paixão, desejo e erotismo. Apresenta-se em bares e teatros com shows musicais-literários. É autor de O Irresistível Charme da Insanidade (romance) e Indecências para o Fim de Tarde (contos eróticos). Roberto Maciel Nasceu em Fortaleza, em 1962, onde mora. Jornalista, produtor cultural e gaitistanas horas vagas. É colunista do jornal Diário do Nordeste. Organizou, com Adísia Sá e Fátima Vilanova, o livro Ombudsmen/Ouvidores - Transparência, Mediação e Cidadania (Edições Demócrito Rocha). É coprodutor, ao lado de Luis Carlos de Carvalho e do músico Jefferson Gonçalves, do CD Belchior Blues, tributo à poética de Belchior na interpretação de nomes referenciais do blues brasileiro. Thiago Arrais Nasceu em Santana do Cariri. Mora em Fortaleza. Diretor teatral. Graduado em direção teatral pela UFRJ. Mestre em Teatro pela USP. Doutorando em Estudos Artísticos por Coimbra. Pesquisador convidado em Sorbonne. É fundador e diretor do Coletivo Soul. Contemplado pelo programa Itaú Rumos Cultural pelo projeto Undead: Desmortais do Inominável. É professor do curso de Licenciatura em Teatro do IFCE. Xico Sá Nasceu em Crato, em 1962. Mora no Rio de Janeiro. Escritor e jornalista. Tem vários livros publicados, entre eles O Livro das Mulheres Extraordinárias e Big Jato, que virou um longa- metragem. Escreve para a edição brasileira do jornal El Pais e participa de programas televisivos, como Amor e Sexo, da Rede Globo, e Papo de Segunda, do GNT. SOBRE BELCHIOR Antonio Carlos Belchior nasceu em 26 de outubro de 1946, em Sobral-CE. Durante sua infância, foi cantador de feira e poeta repentista. Estudou música, coral e piano com Acácio Halley. Seu pai tocava flauta e saxofone e sua mãe cantava em coro de igreja. Tinha tios poetas e boêmios. Ainda criança, recebeu influência dos cantores do rádio Ângela Maria, Cauby Peixoto e Nora Ney. Foi programador de rádio em Sobral. Em 1962 mudou-se para Fortaleza, onde estudou Filosofia e Humanidades. Estudou também Medicina, mas abandonaria o curso no quarto ano, em 1971, para dedicar-se à carreira artística. Na capital cearense, ligou-se a um grupo de jovens compositores e músicos, como Fausto Nilo, Fagner, Ednardo, Rodger Rogério, Teti e Cirino, entre outros, com quem passou a compartilhar sua arte. De 1965 a 1970 apresentou-se em festivais de música no Nordeste. Em 1971, quando se mudou para o Rio de Janeiro, venceu o IV Festival Universitário da MPB, com a canção Na hora do almoço, cantada por ele, Jorge Melo e Jorge Teles, com a qual estreou como cantor em disco, num compacto da gravadora Copacabana. Em São Paulo, para onde se mudou posteriormente, compôs canções para filmes de curta metragem, continuando a trabalhar individualmente e às vezes com o grupo do Ceará. Em 1972 Elis Regina gravou sua composição Mucuripe (parceria com Fagner). Em 1973 a Chantecler lançou um compacto duplo com sua música A palo seco. Atuando em escolas, teatros, hospitais, penitenciárias, fábricas e televisão, gravou seu primeiro LP, Mote e Glosa, em 1974, na gravadora Chantecler, que inclui a primeira gravação de Todo sujo de batom . O segundo, Alucinação (Polygram, 1976), consolidou sua carreira, lançando canções de sucesso como Velha roupa colorida e Como nossos pais, que foram regravadas por Elis Regina, e Apenas um rapaz latino-americano. Outros êxitos incluem Coração selvagem, Paralelas e Galos, noites e quintais, presentes no disco Coração Selvagem, de 1977. Em 1978 lançou Todos os Sentidos (Warner), que inclui Divina comédia humana. Em 1979, no disco Era uma Vez um Homem e Seu Tempo (Warner), gravou Conheço o meu lugar. Em 1983 fundou sua própria produtora e gravadora, Paraíso Discos, e em 1997 tornou-se sócio do selo Camerati. Em 2009 afastou-se dos palcos e da mídia, provocando muita curiosidade sobre seu paradeiro e os motivos de seu afastamento. OBRAS DO AUTOR O Irresistível Charme da Insanidade (romance) Dois casais, nos séculos 16 e 21, vivem duas ardentes e misteriosas histórias de amor, e suas vidas se cruzam através dos tempos em momentos decisivos. Ou será o mesmo casal? Nesta história, repleta de suspense e reviravoltas, Luca é um músico obcecado pelo controle da vida, e Isadora uma viajante taoísta em busca de seu mestre e amante do século 16. A uni-los e desafiá-los, o amor que distorce a lógica do tempo e descortina as mais loucas possibilidades do ser. Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos (contos) O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais. Indecências para o Fim de Tarde (contos) Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro... Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres... Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta... A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai... Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação. Matrix e o Despertar do Herói A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas (ensaio) Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente numa linguagem descontraída, Kelmer nos revela a estrutura mitológica do enredo do filme Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer. Vocês Terráqueas Seduções e perdições do feminino (contos/crônicas) Nos contos e crônicas deste livro, Kelmer mistura humor e erotismo para celebrar o Feminino em suas diversas e irresistíveis encarnações. Ciganas, lolitas, santas, prostitutas, espiãs, sacerdotisas pagãs, entidades do além, mulheres selvagens – em todas as personagens, o reflexo do olhar masculino fascinado, amedrontado, seduzido... Em cada história, o brilho numinoso dos arquétipos femininos que fazem da mulher um ícone eterno de beleza, sensualidade, mistério... e inspiração. Baseado Nisso Liberando o bom humor da maconha (contos/glossário) Os pais que decidem fumar um com o filho, ETs preocupados com a maconha terráquea, a loja que vende as mais loucas ideias... Nesses contos estão reunidos aspectos engraçados e pitorescos do universo dos usuários de maconha, a planta mais polêmica do planeta. Inclui glossário de termos e expressões canábicos. O Ministério da Saúde adverte: o consumo excessivo deste livro após o almoço dá um bode desgraçado. Blues da Vida Crônica (crônicas) Sociedade, relacionamentos, arte, internet, drogas, futebol, política, misticismo, Natureza, erotismo, mulher... O velho olhar kelmérico, agudo e bem-humorado, está de volta nesta seleção de 46 crônicas, boa parte publicada em sua coluna de jornal. Elas compõem o melhor da produção de crônicas do autor entre 2003 e 2006. A Arte Zen de Tanger Caranguejos (crônicas) Em sua maior parte publicados em jornais, revistas e sites na Internet, entre 1992 e 2003, as crônicas e artigos deste livro trazem o sagrado e o profano tão típicos do estilo de Ricardo Kelmer. Feito caranguejos tangidos na mesma direção, aqui estão reunidos os vários Ricardos: o cronista gozador, o observador irônico e debochado dos costumes, o ousado viajante dos mistérios e também o pensador inquieto a desenrolar o novelo infinito das possibilidades filosóficas e existenciais. Versos Safadinhos para Noites Românticas ou Vice-versa (poemas) Escritos entre 1989 e 2016, os 35 poemas deste livro versam sobre amor, paixão, desejo e erotismo. Neles, o autorcanta os sabores das aventuras amorosas e celebra o êxtase dionisíaco dos enlaces carnais, mas também diverte-se com os irônicos descaminhos das relações e não esquece de louvar a musa unânime dos poetas, a língua portuguesa. Os desenhos são do artista húngaro Mihály Zichy. Trilha da Vida Loca Contos e canções do amor doído (contos) O amor é belo. Mas também é ridículo, risível, trágico... Aqui estão reunidas seis histórias de amor, inspiradas em grandes sucessos musicais da dor de cotovelo. Paixões de cabaré, porres horrendos, brigas, escândalos, traições, vinganças e outras baixarias em nome do amor. Amar é para estômagos fortes. Para Belchior com Amor (contos, crônicas e cartas - vários autores) Neste livro, organizado pelo escritor Ricardo Kelmer, o poeta, cantor e compositor cearense Belchior é homenageado por catorze autores conterrâneos, que escreveram textos literários inspirados em suas músicas, as mesmas que tanto encantaram os mais velhos e continuam a encantar os mais novos. Literatura para celebrar um notável literato. Ele que soube, como poucos, harmonizar música e poesia, e que fez de sua obra e sua vida um intenso canto de amor, liberdade, questionamento e rebeldia. Salve Belchior! Guia do Escritor Independente Como publicar livros e gerenciar a carreira literária (dicas) As novas tecnologias possibilitam cada vez mais aos escritores a oportunidade de desenvolver suas carreiras sem necessariamente estarem ligados a alguma editora. Hoje é possível publicar, divulgar e vender os próprios livros usando-se a internet e outros meios alternativos, baratos e eficientes. Como Escrever Roteiros de Sitcom Um guia para criação individual e em equipe (dicas) O sitcom (situation comedy, comédia de situação) é um tipo de seriado de humor televisivo que tem alcançado cada vez mais sucesso no mundo inteiro. Neste livro, Kelmer usa sua experiência de roteirista de TV e de professor em oficinas de roteiro para ensinar a escrever sitcom, individualmente ou em equipe. Mesmo que o leitor não pretenda seguir uma carreira de roteirista, este livro poderá ser bastante útil para o aperfeiçoamento das técnicas de criação de histórias, desenvolvimento da criatividade e do humor e para a disciplina profissional. Table of Contents Alucinação A palo seco Como nossos pais Coração selvagem Divina comédia humana Fotografia 3x4 Galos, noites e quintais Na hora do almoço Paralelas Sujeito de sorte Todo sujo de batom Velha roupa colorida AUTORES OBRAS DO AUTOR Alucinação A palo seco Como nossos pais Coração selvagem Divina comédia humana Fotografia 3x4 Galos, noites e quintais Na hora do almoço Paralelas Sujeito de sorte Todo sujo de batom Velha roupa colorida AUTORES OBRAS DO AUTOR