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Resumo de Economia Brasileira – 1ª Prova 
1. Brasil ao longo do século XX: alguns fatos estilizados 
Gremaud, Economia Brasileira Contemporânea cap. 12 
Etapas do crescimento brasileiro 
Pode-se comparar as fases do crescimento brasileiro por meio do PIB per capita e compará-lo com o 
mundial. Nota-se um crescimento sempre acima da média mundial, porém a diferença retrai-se nas 
últimas duas décadas. Depois de 1980, o PIB per capita brasileiro parou de crescer, e chegou a ter 
uma tendência negativa se comparado com o PIB per capita norte-americano. 
Oscilações e transformações no crescimento brasileiro 
É interessante notar que esse crescimento não foi contínuo ao longo do século. Existiram fases 
marcadas por elevadíssimas taxas de crescimento, como no período do Plano de Metas no final dos 
anos 50 e o período do milagre econômico entre as décadas de 60 e 70; e períodos de forte crise 
como a fase de meados dos anos 60 e início dos anos 80, na chamada crise da dívida externa, e 
também no início dos anos 90 marcado pelo Plano Collor. Mas de modo geral, todo o século é 
marcado por um crescimento muito significativo, embora muito oscilante. As décadas de 80 e 90 
são as que se diferenciam, pois a média de crescimento deste período é significativamente inferior à 
média secular. As décadas do pós guerra marcam o período do Milagre Econômico brasileira, com 
crescimento acelerado, taxa média de crescimento de 7% a.a e picos de 14%a.a. em 1973, auge 
desse período. 
 
Ao longo desse século, houve um intenso processo de urbanização da economia brasileira, 
contraparte do também intenso processo de industrialização. Entre 1930 e 1980, a indústria 
apresentou taxas de crescimento econômico acima da média do país. 
A industrialização é acompanhada por um processo inflacionário. A relativa aceleração dos índices 
inflacionários chegaram ao auge em meados da década de 60, e depois é em parte contida. É nos 
Período População Crescimento econômico Modelo de desenvolvimento
1900-1930
População aberta. Taxas 
relativamente elevadas de cresc. 
pop. em função do processo 
migratório
taxas elevadas mas instáveis economia agroexportadora
1930-1945
população fechada. taxas baixas 
de cresc. pop. (alta mortalidade e 
natalidade)
crescimento mais lento e mais 
instável (crise internacional) deslocamento do centro dinâmico
1945-1980
população fechada. cresc. pop. em 
forte elevação. Risco de explosão 
demográfica
forte crescimento econômico e 
diminuição da instabilidade (essa 
cresce no final do período)
processo de industrialização 
acelerado
1980-2000
População fechada forte. 
diminuição das taxas de 
crescimento populacional. 
Explosão demográfica afastada
desaceleração significativa do 
crescimento econômico com 
aumento da instabilidade
crise da dívida e problemas de 
estabilização.
�1
anos 80 que a inflação dispara, e só é contida em meados dos anos 90 pelo Plano Real. A disparada 
do processo de inflação ocorre conjuntamente com a perda de dinamismo da economia brasileira. 
Aspectos externos da economia brasileira 
No inicio do século, as exportações eram fundamentais na economia brasileira, pois possibilitavam 
as importações que eram a base da estrutura de consumo no Brasil, e o bom desempenho dessas 
exportações ditava o ritmo do crescimento da economia brasileira. 
Depois da década de 30, o Brasil passou por uma forte industrialização que vai até pelo menos a 
década de 70. Essa industrialização se faz, em parte, pelo modelo de substituição de importação. 
Esse modelo dependia ainda, em parte, das exportações, para poder suprir as necessidades da 
industrialização; por outro lado, protegia as indústrias nacionais dos concorrentes externos. 
Essa industrialização não se fez de imediato visando ao mercado internacional. Assim, durante 
quase todo o século, o Brasil tinha uma alta dependência de poucos produtos primários em sua 
pauta de exportação (café, borracha, cacau e algodão). 
Só a partir da década de 40 que a pauta de exportação se diversifica, diminuindo assim a 
vulnerabilidade externa do Brasil em termos de sua balança comercial. Entretanto, enquanto a 
vulnerabilidade das exportações diminui, a questão da divida externa possui uma perspectiva de 
logo prazo diferente. 
Aspectos sociais do crescimento econômico brasileiro 
O lado ruim do crescimento está na distribuição de renda entre as pessoas. O progresso em termos 
de crescimento e mesmo a melhoria dos indicadores sociais não foram acompanhados por um 
progresso na justiça econômica do país. 
Questões 
• Em termos de crescimento econômico, o século XX foi um século perdido? 
• Em termos de desenvolvimento econômico, o século XX foi um século perdido? 
• Reconstrua a tabela, levando em consideração o processo inflacionário do Brasil. 
• Explique a evolução da vulnerabilidade externa brasileira ao longo do século XX. 
�2
2. Economia Agroexportadora 
Gremaud, Economia Brasileira Contemporânea cap. 13 
Os ciclos e a economia agroexportadora 
Desde a época Colonial até a Republica Velha, a economia brasileira dependeu quase que 
exclusivamente do bom desempenho de suas exportações, as quais, restringiram-se a algumas 
poucas commodities agrícolas. Isso, caracterizava o Brasil como uma economia agroexportadora. O 
que variou ao longo do tempo foram os produtos aqui produzidos destinados ao mercado 
internacional: açúcar, café, algodão, borracha… 
A partir desses produtos definiram-se os ciclos da economia brasileira - ciclo do açúcar, ciclo do 
outro, ciclo do café - cada um referindo-se a um período de tempo marcado por um produto 
principal que dava dinâmica ao balanço de pagamentos e nome ao ciclo. 
O bom desempenho da economia brasileira dependia das condições do mercado internacional dos 
produtos exportados, sendo a variável chave, no império e na Republica Velha, o preço 
internacional do café. Assim, as crises internacionais causavam problemas nas exportações 
brasileiras de café, criando serias dificuldades para toda a economia brasileira, dado que 
praticamente todas as outras atividades dentro do país dependiam direta ou indiretamente do 
desempenho do setor exportador cafeeiro. Essa falta de controle das variáveis chave da economia 
explica, em parte, a elevada vulnerabilidade de uma economia agroexportadora. 
Os problemas históricos de distribuição de renda e propriedade ainda podem ser associados à 
estrutura fundiaria concentrada desde o inicio da colonização e às condições do mercado de trabalho 
(escravidão, e dificuldade de incorporação dessa mão de obra ao mercado depois da abolição em 
função de preconceitos e do excesso de oferta no mercado de trabalho). 
Modelo de desenvolvimento voltado para fora 
A estrutura econômica agroexportadora é um modelo de desenvolvimento voltado para fora. Esse 
modelo caracterizou boa parte da América Latina. Esse tipo de desenvolvimento caracterizava-se 
por possuir alto peso relativo do setor externo na estrutura econômica, mas o principal problema era 
o descompasso entre a base produtiva e a estrutura de consumo desses países. 
A pauta de exportação do Brasil era fortemente concentrada em um produto, café, enquanto que a 
pauta de importação era bastante diversificada, contendo muitos produtos manufaturados e 
correspondendo praticamente à estrutura de consumo da economia brasileira. Outro elemento que 
explica a vulnerabilidade desse tipo de economia, já que todo problema na balança de pagamentos 
pode implicar na queda das importações, afetando diretamente as condições de consumo. 
Oscilações de preço na economia 
Entre 1951 e 1908 houve importantes oscilações no preço do café, e houve três ciclos de preços 
completos nesse período. Essas oscilações devem-se, por um lado, às condições de demanda, ou 
seja, os ciclos da economia mundial. Por outro lado,existem as condições de oferta, com a 
�3
incidência de geadas e pragas, reduzindo a oferta, e o investimento em novos cafezais aumentando-
a. 
Em períodos de preços altos, aumento da demanda, são feitos investimentos novos, estes porém, são 
maturados apenas quatro anos depois. Depois desses quatro anos ocorre o aumento da oferta. Esse 
aumento da oferta, se for superior ao crescimento da demanda, pode induzir a uma queda nos 
preços, que continuará enquanto a oferta for maior. Quando os preços começam a cair, a diminuição 
nos investimentos. Mas, apesar dos investimentos diminuírem, a produção continua a se expandir, 
em função dos investimentos anteriores, e assim, os preços continuam a cair. Assim, os preços só 
tendem a aumentar 4 anos depois, quando a reversão dos investimentos se refletirem no mercado. 
Assim, há uma tendência de comportamento cíclico dos preços. 
Outro aspecto é o comportamento tendencial. Como os preços do café foram os preços das 
exportações de países agroexportadores, como o Brasil, e as manufaturas tendem a refletir as 
importações dessas economias, dizem que há uma tendência de deterioração do termos de troca das 1
economias agroexportadoras, já que os preços das suas exportações tenderiam a cair frente aos das 
importações. 
A deterioração dos termos de troca seria explicada em função de duas considerações básicas: uma 
elasticidade-renda da demanda de produtos primários inferior a um, frente a uma elasticidade-renda 
da demanda de produtos manufaturados superior à unidade; e um mercado com características 
oligopolísticas no caso dos produtos manufaturados, frente a um mercado com características 
concorrenciais para os produtos primários. 
Se houvesse efetivamente uma deterioração dos termos de troca, haveria uma tendência de 
crescimento relativamente inferior desse tipo de economia, agroexportadora, frete às outras 
economias mundiais, implicando assim uma perspectiva de menor desenvolvimento ou de 
subdesenvolvimento das nações agroexportadoras. 
 Essa tendência de deterioração dos termos de troca é objeto de controvérsia entre os analistas. Mas, 
historicamente, dada a essa possível tendência, isso fez com que surgisse a defesa do fortalecimento 
do setor industrial brasileiro. 
Políticas de defesa da economia agroexportadora e seus problemas: superprodução e socialização 
das perdas 
Um dos problemas da economia agroexportadora é a oscilação de preços do produto primário 
exportados. De modo geral, pode-se dizer que a lucratividade na atividade cresce e boa parte desse 
lucros é reinvestida no próprio setor, gerando um aumento do volume de emprego dessa economia. 
Esse reinvestimento significa um aumento no número de trabalhadores, mas não em suas 
remunerações, devido a grande oferta de mão-de-obra. 
 Termos de troca: relação entre os preços das exportações e das importações de uma economia1
�4
Por outro lado, quando os preços do café caiam, o inverso ocorria, havia uma queda nos lucros da 
agricultura e uma diminuição dos investimentos. Da mesma forma, não havia uma queda nos 
salários, mas um diminuição no volume de emprego ocupado. 
Nesses momentos, as possibilidades de ação do governo com intuito de proteger foram utilizados 
nos momentos de queda dos preços no mercado internacional: a desvalorização cambial e a política 
de valorização do café. Esse mecanismos eram eficientes no curto prazo para proteger a 
cafeicultura, mas tinha efeitos negativos no longo prazo e sobre outros setores que compunham a 
sociedade da época. 
Desvalorização cambial 
Esse mecanismo poderia ser usado para proteger, em moeda nacional, os lucros do setor cafeeiro 
quando da queda dos preços. Ao manter a renda dos cafeicultores, a desvalorização acabava 
também por sustentar o nível de emprego da economia, evitando que as quedas no mercado 
internacional gerasse desemprego na economia brasileira. 
Mas esse mecanismo gerava 2 problemas: ela escondia os sinais dados pelo mercado, ou seja, 
deixava de sinalizar o excesso de oferta, indicando a necessidade de reversão nos investimentos, 
isso acarretava a continuidade futura do excesso de oferta e a provável continuidade do processo de 
queda dos preços do café, o que resultou no acirramento a tendência de superprodução do café; por 
outro lado, encarecia-se todos os produtos importados, e esses constituíam a base de consumo, 
assim, a desvalorização cambial tinha um efeito inflacionário que atingia quase toda a sociedade da 
época, esse fenômeno foi chamada de socialização das perdas, já que as perdas se espalhavam por 
toda a sociedade ao invés de ficarem restritas ao setor cafeeiro. 
Política de valorização do café 
Essa política consistia na retenção de parte da oferta de café na forma de estoques, assim, os preços 
poderiam se recuperar, ou ao menos parar de cair. O problema era o que fazer com os estoques e 
como financiar a estocagem. O financiamento foi resolvido por meio de financiamento externo. 
A ideia da estocagem era que esses estoques fossem utilizados no período de entressafra, que era 
quando a oferta diminuía, e assim os preços aumentavam. Entretanto, não havia propriamente uma 
oscilação nos preços entre a safra e a entressafra de café. Efetivamente, ocorreram momentos de 
reversão na produção de café, e nos primeiros planos, houve períodos posteriores à estocagem em 
que o café estocado pôde ser vendido. Porém, essa reversão na oferta mostrava-se cada vez mais 
difícil à medida que os planos sucediam-se. 
Problemas: essa política também acentuava a tendência à superprodução, pois também escondia os 
sinais do mercado, pois os produtores acabavam por receber preços pelo café acima daqueles que 
seriam fixados normalmente pelo mercado. O problema no mercado ainda era agravado pelo fato de 
outros países também serem indiretamente incentivados a plantar café, dada a elevada remuneração 
recebida, pois os preços eram sustentados pela política do governo brasileiro. Assim, a política 
contribuía para forjar um aumento da concorrência internacional no mercado cafeeiro. 
�5
Superprodução e crise da economia cafeeira em 1930 
Dadas as elevadas condições de rentabilidade da economia cafeeira, especialmente em épocas em 
que não há crise internacional, os recursos existentes no país acabam convergindo para essa 
atividade. Essa convergência de recursos é a base para a chamada superprodução que se configurou 
como uma tendência nos últimos anos da Republica Velha. A superprodução ainda era reforçada 
pelas políticas de defesa da economia, e as condições no mercado internacional tendiam a tornar-se 
mais problemáticas à medida que as plantações do produto no Brasil se expandiam. 
Em 1930, dois problemas conjugaram-se, a produção nacional era enorme, e a economia mundial 
entrou numa das maiores crises de sua história. Os preços caíram drasticamente, o que obrigou o 
governo a intervir fortemente, comprando e estocando café e desvalorizando o cambio, com o 
objetivo de proteger o setor cafeeiro e sustentar o nível de emprego e renda dessa economia. Mas 
essa situação era insustentável. O governo foi obrigado a queimar boa parte de seus estoques 
durante as décadas de 30 e 40. 
A crise de 30 foi um momento de ruptura no desenvolvimento econômico brasileiro, e a fragilização 
do modelo agroexportador trouxe à tona a consciência sobre a necessidade da industrialização como 
forma de superar os constrangimentos internos e o subdesenvolvimento. A partir desse momento, a 
industrialização passou a ser a meta prioritária. 
Para isso, foi necessário um rompimento com o Estado oligárquico e descentralização da República 
Velha e que houvesse centralização do poder e dos instrumentos de política econômica do governo 
federal. Da revolução de 30, decorreu o fortalecimento do Estado Nacional e a ascensão renovas 
classes econômicas no poder, permitindo priorizar a meta da industrialização,como um projeto 
nacional de desenvolvimento. 
Irradiação do setor exportador e inicio da industrialização brasileira. 
A urbanização e a industrialização do país tiveram parte de sua origem na irradiação do setor 
cafeeiro. Antes de 1930, as industrias existentes eram parte da economia cafeeira. 
Teoria dos choques adversos: a industria surgiu no Brasil como respostas a dificuldade de importar 
produtos industriais em determinados períodos. Nesses momentos, em que se diminuía o valor das 
exportações, havia dificuldades no balanço de pagamentos, o que levava o governo a adotar 
medidas protecionistas, que favorecia a industria de seus concorrentes externos e aumentava sua 
rentabilidade. Assim, passava-se a produzir mais internamente, com vistas a suprir a falta de 
importações. Em contrapartida, quando não havia crise no setor cafeeiro, as condições de produção 
eram dificultadas pela facilidade de importação de produtos. 
Teoria da industrialização induzida por exportações: a industria crescia justamente nos momentos 
de expansão da economia cafeeira. Nesses momentos, ocorria a expansão da renda e do mercado 
consumidor, por meio do aumento da massa salarial. Esses elementos eram condição fundamental 
para a demanda por produtos industriais. Por outro lado, as divisas geradas pelo bom desempenho 
das exportação eram necessárias à importação de maquinas, fundamentais para os investimentos no 
setor industrial. 
�6
Com essas duas teorias, conclui-se que o investimento industrial ocorreu nas fases de expansão do 
setor agroexportador, quando havia divisas para comprar máquinas. Já a ocupação da capacidade 
instalada, o aumento da produção, dava-se nos momentos de crise do setor, quando havia 
dificuldade de importação de bens de consumo e se permitia que a produção nacional se tornasse 
competitiva. 
A origem do capital industrial foi o vazamento do capital cafeeiro, e ele as industrias surgiram, em 
parte, para atender às necessidades da economia cafeeira. 
Em termos setoriais, nessa fase inicial, destacavam-se a produção de bens de consumo leve (têxteis, 
alimentos e bebidas). Os demais ramos eram setores acessórios aos principais setores. 
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– 
Café e o Crescimento da Indústria durante a Primeira Republica (1889-1930) 
Gremaud, Formação econômica do Brasil – 2.2 a 2.5 
A economia brasileira na primeira república: a agricultura de exportação e a produção 
primaria para o mercado interno 
A economia cafeeira (1889-1930) 
A. DESENVOLVIMENTO E CRISE 
São Paulo foi beneficiada com o grande fluxo de imigrantes europeus, em grande parte destinados à 
lavoura cafeeira. Essa oferta de mão-de-obra relativamente ampla constituída, portanto, importante 
estimulo para a expansão das fazendas de café no interior paulista. Houve uma expansão de credito 
a partir da reforma bancaria aprovada no fim do Império, mas implantada no começo da republica 
que forneceu recursos relativamente fáceis para a formação de novos cafezais. O mesmo efeito teve 
a expansão ferroviária. 
De 1885 a 1890 o preço internacional do café cresceu rapidamente, aumentando também o valor 
total das exportações de café do Brasil. Essa elevação se refletiu integralmente nos preços internos, 
pois foi amortecida pela valorização da moeda nacional. A própria receita de divisas propiciadas 
pelo crescente valos das exportações somada aos recursos advindos de empréstimos externos havia 
criado uma situação extremamente favorável no mercado cambial. 
Essa situação se inverteu nos anos 90. Os preços internacionais manifestaram tendência a declinar, 
em especial depois de 1893 (crise nos EUA). No entanto, os preços internos continuaram a elevar-
se em função da acentuada desvalorização da moeda brasileira ao longo da década. 
Essa desvalorização decorreu de um conjunto de fatores: aumento do meio circulante em função da 
política monetária implementada na República, saldos comerciais reduzidos em vários anos e 
limitado volume de empréstimos externos, provocando acentuado declínio do valor da moeda 
nacional. 
Como resultado havia uma clara divergência nos números de preços externos e internos. Em 1894 
os preços internacionais haviam caído cerca de 10% (1889) e os preços internos haviam quase 
�7
triplicado sem que houvesse uma inflação (ou aumento dos custos) correspondente. Ou seja, os 
preços internos davam um estimulo ao setor cafeeiro que a situação do mercado internacional já não 
sustentava. 
Na segunda metade dos anos 90 começaram a chegar aos mercados os produtos das fazendas que se 
estipularam em 1890, que encontraram o mercado enfraquecido. Seus efeitos se agravaram a partir 
de 1898 quando o governo de Campos Sales alterou radicalmente a política monetária e fiscal do 
Brasil. 
Em 1906, diante da previsão de safra altamente elevada, se tornou claro o diagnóstico da 
superprodução de café. A entrada da safra brasileira em meados deste ano iria provocar o declínio 
abrupto do preço do café e o agravamento da crise já em curso. 
Diante dessa perspectiva, os Governadores dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas gerias 
consideraram necessária uma intervenção no mercado cafeeiro a fim de evitar o aprofundamento da 
crise. Essa intervenção, estabelecida pelo chamado convênio de Taubaté, implicava as seguintes 
ações: 
1. Compra do excedente da safra de café pelo (s) governo (s) 
2. Obtenção de empréstimos externos para gerar os recursos para a compra do excedente 
3. Cobrança de um imposto, em ouro, sobre cada saca de café exportada a fim de captar 
recursos para o serviço da dívida externa incorrida para a compra do excedente 
4. Proibição de novas plantações de café naqueles Estados 
5. Para evitar a valorização da moera (devido a entrada de volumosos empréstimos externos), 
seria estabelecida a Caixa de Conversão, que seria um órgão emissor de moedas com base 
no lastro de divisas representado pelos capitais externos que entravam no país. (Sob a forma 
de empréstimos ou de investimento direto). Esta emissão (e a conversão do papel-moeda 
emitido em divisas) se faria a uma taxa fixa de cambio, impedindo assim a valorização da 
moeda nacional (e, consequentemente, a perda de receita do produtor de café). 
No ano seguinte o Governo Federal assumiu o programa de valorização de café. Desde esse 
momento e até 1929, embora sob diferentes formas, realizou-se algum tipo de defesa da produção 
cafeeira. Havia, porém, uma inconsistência fundamental na manutenção, por longo prazo, desses 
esquemas de valorização do café. 
A economia agroexportadora tem uma tendência a superprodução e também a reinvestir os lucros da 
atividade em sua própria expansão em face das limitadas alternativas de investimento nessa 
economia. Isso acontece mesmo quando os preços internacionais mostram traços de 
enfraquecimento, e como o aumento da procura de café cresce apenas vegetativamente (com o 
aumento da população e não de sua renda), o crescimento da produção tende a superar o da 
demanda, conduzindo a crise da superprodução. 
A manutenção de um programa de defesa do café por longo prazo agravava essa tendência. A 
proibição a novas implantações de café era de difícil implementação: desse modo, nos anos 20, 
�8
percebe-se a enorme ampliação da oferta brasileira, preparando assim a grande crise cafeeira de 
1929. Por outro lado, mesmo que essa proibição fosse eficaz no brasil, ela não podia ser estendida 
aos outros países produtores de café, o que reforçava a tendência a superprodução no mercado 
mundial. Como resultado, o problema da superprodução tendia a tornar-se estrutural, embora seu 
efeito ficasse oculto, pois a valorização do café impedia o declínio dos preços. 
A quebra da bolsa de NY iniciava longo período de crise econômica norte americana e mundial com 
dois efeitos perversos paraa economia cafeeira: de um lado, o impacto negativo sobre a demanda 
expresso pela abrupta redução dos preços internacionais do produto; de outro, a imediata retração 
dos mercados financeiros internacionais que dificultava a obtenção de empréstimos externos para a 
compra dos excedentes de café. A crise de 1929, portanto, precipitou a destruição do programa de 
defesa do café e o fechamento da caixa de estabilização e, em certo sentido, a própria revolução de 
1930 que encerrou o período conhecido como a Primeira República. 
B. DIVERSIFICAÇÃO DA ATIVIDADE NA ECONOMIA CAFEEIRA: A URBANIZAÇÃO 
A sociedade não era estritamente rural. A economia cafeeira gerou ampla diversificação da atividade 
economia (antes mesmo do desenvolvimento da indústria) de modo a estimular a expansão das 
cidades. 
A primeira atividade induzida pela expansão do café foi, evidentemente, a comercial. A atividade 
comercial logo se associou a financeira. Bancos estrangeiros também se acomodaram no brasil, 
principalmente na região do porto de santos. 
A diversificação da economia ampliou-se com a construção das estradas de ferro. Formaram-se 
então empresas nacionais que ocuparam progressivamente o interior paulista. A maior parte dessas 
empresas nacionais formou-se com capitais nacionais, originários da atividade rural ou do comercio 
e teve algum impacto sobre o processo de urbanização. Suas sedes e oficinas localizaram-se em 
núcleos urbanos criando novos empregos e estimulando a economia dessas cidades. São Paulo foi 
beneficiada pelo surto ferroviário, pois muitos fazendeiros foram viver na capital. Em consequência 
disso, houve certo adensamento econômico da capital que passou também a centralizar os principais 
negócios. Também no nos últimos anos do século XIX, instalaram-se algumas indústrias de grande 
porte. 
Então, a economia cafeeira não se restringiu à atividade rural e ao comercio do produto de 
exportação. Gerou o “complexo econômico” ou “complexo cafeeiro” – um conjunto de atividades 
relativamente integradas e que sustentam, em especial, o acelerado processo de urbanização da 
capital do Estado. Paralelamente, outros núcleos urbanos reproduziram, em menos dimensão, o 
processo da urbanização da capital. 
Por outro lado, exceto pela presença do capital estrangeiro, não há “especialização” dos capitais 
investidos em cada atividade. Em geral, foram grandes fazendeiros e/ou comerciantes de café que 
constituíram as empresas ferroviárias nacionais como seus acionistas e diretores. O mesmo se pode 
dizer dos bancos, do grande comercio de importação, das grandes casas comissárias e das empresas 
de serviços urbanos. Mesmo algumas industrias tiveram origem semelhante. Nesse sentido, parece 
�9
razoável caracterizar um “capital cafeeiro” que seria, a um tempo, agrário, comercial, industrial, 
bancário. Parece razoável afirmar que a “face urbana” do capital cafeeiro tende a fortalecer-se ao 
longo do tempo, diante da atividade puramente agrária. 
As exportações continuavam a ser o determinante do nível do produto, renda e emprego uma vez 
que os demais setores se veem, em grande medida, influenciados pelo que ocorre no setor 
exportador. Trata-se, no entanto, de importante desdobramento da economia cafeeira que tem papel 
relevante nas transformações posteriores rumo à industrialização. 
C. AS RELAÇÕES DE TRABALHO NA ECONOMIA CAFEEIRA 
A substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre constitui um dos marcos fundamentais da 
história econômica do Brasil. A massa de salários dos trabalhadores das fazendas de café teria sido 
o núcleo do mercado interno – “consumidores”. 
O trabalho propriamente assalariado não se implantou na agricultura brasileira, como forma típica 
de trabalho, após o fim da escravidão. Além do colonato, a área cafeeira, predominaram formas de 
parceria ou de clara dependência entre proprietário e trabalhador. 
Os fluxos migratórios se modificaram nas primeiras décadas do século XX. Redução da imigração 
subvencionada e aumento da imigração espontânea que, com frequência, busca os centros urbanos e 
não o trabalho agrícola; intenso fluxo de saída de imigrantes em certos períodos; aumento das 
migrações internas para São Paulo a partir de 1920, fazendo com que nos anos 30 essa fonte de 
mão-de-obra já fosse maior do que a imigração. 
A heterogeneidade nacional dos novos trabalhadores rurais provavelmente dificultava qualquer tipo 
de ação coletiva dos trabalhadores. Evidentemente, essa heterogeneidade permitia que o 
proprietário rural impusesse uma situação de relativa dependência social ao trabalhador, mesmo 
quando se preservava algum tipo de remuneração monetária. 
Produção primária para exportação e para o mercado interno 
A economia brasileira da Primeira Republica não se restringe, mesmo no plano da exportação, ao 
café. Haviam demais atividades primárias que, com peso maior ou menor na economia nacional, 
sustentavam economias regionais. 
A atividade de exportação, grosso modo, permite caracterizar as principais economias regionais do 
país. Os dados mostram a preponderância do café como produto de exportação (exceto na IGM). 
Igualmente importante ao nível macroeconômico foi a exportação de borracha até o período da 
IGM. O açúcar adquiriu, ao longo da Primeira República um novo caráter. Houve momentos em 
que as exportações de açúcar reassumiram, ao menos em parte, sua antiga expressão. Isso se deu na 
primeira década da republica; e também durante a IGM e anos subsequentes pela demanda dos 
países em guerra e pela desorganização da produção europeia de açúcar e beterraba. O brasil se 
tornara um fornecedor marginal no mercado internacional de açúcar, seja pela expansão e pelos 
incentivos dados ao açúcar e beterraba na Europa, seja porque vários países europeus e os EUA 
�10
estabeleciam tratamento preferencial ao açúcar proveniente de suas áreas coloniais ou de áreas nas 
quais mantinham interesses especiais. 
Paralelamente, verificou-se significativa expansão da demanda interna por açúcar, resultante tanto 
da imigração acelerada nas décadas inicias da Republica e também da urbanização acelerada em 
algumas regiões do país. 
O cacau e o fumo na Bahia e o mate no paraná e Matogrosso mantiveram-se com participações 
reduzidas, mas constante na pauta de exportações brasileira. O algodão, produzido principalmente 
no interior de estados do Nordeste manteve participação modesta no montante das exportações, mas 
já encontrava crescente possibilidade de escoamento no mercado interno como matéria-prima para o 
setor têxtil. Esse fato pode ser percebido ao se comparar o valor das exportações de algodão com o 
calor de sua produção nos anos 20. Sua organização não fugiu aos padrões gerias da agricultura 
brasileira em que predominavam formas de trabalho não tipicamente assalariadas. 
O último item especifico das exportações são os couros e peles. A pecuária responde por essas 
exportações e especialmente no Nordeste apresenta relações de trabalho em que a remuneração 
monetária é quase inexistente. O principal responsável por essas exportações é o Rio Grande do Sul 
cuja economia apresentou solida articulação com o mercado interno. Entre os produtos derivados da 
pecuária, o charque era o mais importante. Entre os produtos agrícolas, o mais importante era o 
arroz. Além dessas atividades, no RS também se consolidou um importante setor de pequenas 
propriedades a partir da colonização oficial. Estas condições estão associadas a outras 
peculiaridades da economia gaúcha, como a forma de desenvolvimento industrial a dimensão do 
sistema bancário 
A mesma tendência a produção para o mercado interno se verificou na agricultura paulista. Ao lado 
da exportação do café, o produto paulista passava a dirigir para o mercado interno do próprio estado 
de São Paulo ou de outras regiões uma série de produtos alimentares. 
Esta caracterização da produçãoprimaria na Primeira República – que buscou ressaltar a 
diversidade da produção exportável e a expansão da produção para o mercado interno – não deve, 
no entanto, fazer-nos esquecer o papel preponderante do café na dinâmica da economia brasileira 
desse período. 
A Economia Brasileira na Primeira República: o Café e o Desenvolvimento da Indústria 
A expansão cafeeira e condições para a industrialização 
A partir dos anos 40 do século XIX, verificou-se o surgimento de estabelecimentos fabris em várias 
províncias brasileiras. O número crescente de fabricas de tecidos registradas no país a indicar que 
não se tratava de um fenômeno isolado; de outro, sua localização, de início concentrada na Bahia, 
passando depois para Rio de janeiro, Minas Gerais e São Paulo. 
Fabricas de outros ramos produtivos também se instalaram no Brasil nessa mesma época, em 
especial chapéus, cerveja e algumas fundições. A agroindústria do açúcar modernizou-se a partir 
dos anos 70 (usinas), ao passo que outros ramos mantinham uma estrutura tipicamente artesanal. 
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Esses exemplos de fabricas mostram o âmbito limitado no desenvolvimento da indústria dessa 
época, o que é atribuído ao caráter escravagista da economia brasileira durante a época imperial que 
determinava um mercado de consumo restrito, limites à implementação de novas técnicas e 
reduzida acumulação de capital. 
Há na expansão cafeeira as condições para o desenvolvimento industrial mais sistemático. A 
transição do trabalho escravo para o trabalho livre do imigrante europeu respondeu por algumas das 
mais importantes condições para a industrialização. O surgimento de uma massa de salários, 
impondo a rápida monetização da economia, contra as condições que estimulavam a produção de 
manufaturados para o mercado interno. O fim do escravismo propiciara o surgimento de uma massa 
salarial a ser despendida no mercado e a presença do imigrante trouxera padrões de consumo 
diferentes daqueles característicos da sociedade escravista. 
Os cafeicultores também investiram em estradas de ferro, bancos e empresas comerciais, fazendo 
com que os lucros da atividade agrícola fossem mantidos dentro da economia cadeira e se 
dirigissem crescentemente ao meio urbano. 
A introdução do trabalhador livre assalariado teria conduzido a novas condições econômicas de 
produção: racionalização da produção, fim da autarquia das fazendas, diversificação do 
investimento, “urbanização” dos fazendeiros etc. em suma, estavam definidas duas classes sociais 
fundamentais do capitalismo (empresários capitalistas e trabalhadores destituídos dos meios de 
produção), generalizava-se a economia mercantil, ampliava-se a divisão social do trabalho. 
O crescimento do comercio mundial e a exportação de capitais aparecem como condições externas 
para o desenvolvimento de países como o Brasil do século XIX, também estabeleceram condições 
gerais em que a substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre pudesse ser efetivada. 
Expansão do capital comercial nacional, trabalho assalariado, estradas de ferro, mecanização do 
beneficiamento do café, bancos, urbanização são características que lançam as bases para a 
industrialização. A industrialização deve ser vista como fruto de um processo que envolve as 
relações sociais capitalistas e que pressupõe expansão do mercado, divisão do trabalho, acumulação 
de capital. 
Características da indústria na primeira república 
Não se observou, no Brasil, a sequência artesanato-manufatura-indústria. Por ser um processo 
atrasado de industrialização foi possível pular etapas, ingressando num estagio técnico semelhante 
ao dos países mais adiantados, fato expresso pelo predomínio das grandes empresas industriais, já 
mecanizadas, no conjunto da indústria brasileira. 
Ao lado da especulação de um momento já relativamente avançado da indústria, teria havido 
alguma capitalização de empresas industriais aproveitando a abundância de credito e as facilidades 
para a formação de sociedades por ações. Desse modo, empresas de pequeno porte teriam sido 
capazes de ampliar substancialmente sua escala de produção pelo aporte de capitais de terceiros. 
Mesmo que a pequena empresa tenha tido alguma importância na fase inicial, logo se passa para a 
grande indústria, reafirmando, assim, essa característica de industrialização retardatária. 
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Outro elemento típico da industrialização brasileira é a estrutura setorial que prevalece em suas 
fases iniciais. Assim como não se reproduziu a evolução do artesanato à manufatura e desta à 
grande indústria mecanizada, também não se verificou o desenvolvimento simultâneo da produção 
de bens de consumo e bens de produção. Desse mono, o predomínio dos ramos produtores de bens 
de consumo é uma característica da indústria brasileira na Primeira Republica. 
Além das tradicionais indústrias de bens de consumo, na década de 20 já havia um parque industrial 
razoavelmente diversificado e integrado, em particular com o surgimento ou a expansão de 
indústrias de bens intermediários e de bens de produção. 
Outra característica da indústria à época diz respeito a origem dos capitais nela investidos e dos 
empresários que a levam à frente. A matriz econômica da indústria foi o comercio de importação: 
como o mercado da economia cafeeira era suprido por manufaturados estrangeiros, o importador 
tinha grandes vantagens na hipótese de estabelecimento de indústrias. Ele conhecia o mercado 
consumidor de modo preciso, tinha o controle do custo dos importados e acesso fácil aos bens de 
capital e matérias-primas importadas necessárias ao inicio da produção industrial. Portanto, 
ninguém melhor que o importador para avaliar a oportunidade de investir em uma fabrica no brasil. 
Além disso, também podia obter credito para o investimento industrial. Quanto às origens sociais 
do empresário industrial há duas vertentes: o fazendeiro de café e o imigrante. 
A contrapartida do crescimento da indústria foi a formação de numeroso operariado urbano. A 
maior parte desses operários concentrava-se em empresas de grande porte, o que facilitava sua 
mobilização. O crescimento das migrações internas a partir de 1920 tendeu também a modificar a 
natureza do movimento social. O “populismo”, que caracteriza as relações entre Estado e 
operariado depois de 1930, esta associado a essa nova composição da força de trabalho urbana já 
insinuada nos anos 20 e que se firma até a década seguinte. 
Crescimento Industrial na economia exportadora 
Na fase inicial de expansão do café, os lucros crescem rapidamente e não há reinvestimento total 
dos lucros em novas plantações. Nessa fase, mesmo que a rentabilidade da indústria seja inferior à 
do café, o investimento industrial torna-se possível pelo “excedente” de capitais numa situação de 
abundancia de divisas que torna barato as importações de bens de capital. Com o estimulo dos 
preços elevados do café, inicia-se um segundo momento da fase de expansão em que a acumulação 
cafeeira demanda mais recursos do que os gerados pelos lucros cafeeiros. Estes deixam, portanto de 
alimentar o investimento industrial e podem levar mesmo ao declínio da produção industrial: se os 
recursos para o café forem obtidos no exterior, a concorrência externa se acirra, levando a indústria 
a um momento de crise. Portanto, na fase de expansão cafeeira define-se um primeiro momento de 
expansão industrial e um segundo de crise da indústria. 
A reação da indústria à crise acontece sob a forma de concentração e centralização do capital 
industrial: embora no conjunto a indústria não cresça, as empresas mais fortes podem ampliar sua 
capacidade produtiva e mesmo modernizar-se. Mas em seguida sobrevém a crise cafeeira em que a 
queda dos preços dos produtos é fruto da super-acumulação efetivada anteriormente. O declínio da 
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rentabilidade exportadora é imediato e afeta, a seguir, a do setor industrialpelo impacto que tem 
sobre a sua demanda. No entanto, a redução da capacidade de importar, decorrente da crise das 
exportações, acaba por defender a rentabilidade da indústria, que volta a crescer, ocupando 
progressivamente a capacidade ociosa. Desse modo, também na fase de declínio das exportações 
observa-se um momento de crise da indústria e outro de crescimento da sua produção. 
A política econômica durante a Primeira República 
Além da liderança da cafeicultura paulista e mineira, existem outros grupos de pressão com força 
política variada que também atuam defendendo seus próprios interesses, os quais, muitas vezes, se 
contrapõem aos da cafeicultura: 
a) Os “interesses nacionais” – principalmente banqueiros que operam com o governo 
brasileiro, investidores no mercado financeiro internacional, comerciantes e corporações 
diplomáticas. 
b) Os demais grupos oligárquicos regionais do país, como aqueles associados ao açúcar do 
Nordeste e RJ, pecuária no sul, borracha no norte, etc. 
c) Interesses não oligárquicos – classes urbanas, envolvendo funcionários públicos, 
profissionais liberais, comerciantes, industriais, operários, etc. 
A politica de defesa do café foi favorável aos interesses da cafeicultura, mas não apenas da lavoura 
cafeeira, porém, houve fortes resistências com relação à adoção dessa política, resistência que se 
encontra, em parte, no próprio governo federal. Quanto à politica monetária/cambial, havia muita 
alternância entre as taxas fixas e flexíveis. Mesmo durante os períodos de taxa flexível, a política 
monetária também sofria variação, podendo ser considerada heterodoxa no inicio da republica, 
passando por uma ferrenha ortodoxia no final do século XIX. Estas inflexões decorrem da 
combinação de fatores externos e internos. 
Alternância nas políticas monetária e cambial 
As oscilações seguem, grosso modo, uma sequencia, que podem ser observadas, primeiro, entre o 
inicio da República e a IGM, e a outra pós IGM até a crise de 1930. 
A sequencia se inicia com uma política monetária não ortodoxa (começo da republica e pós-IGM) 
em um regime de cambio flexível, com uma situação externa relativamente favorável; essa situação, 
não obstante algum crescimento econômico, reverte em uma situação de desequilíbrio interno e 
externo. Esta nova situação (final da década de 90 e meados dos anos 20) é enfrentada por meio de 
um acerto com os credores internacionais e com a reversão da politica monetária interna (que se 
torna bastante ortodoxa), ainda dentro de um regime de cambio flexível, que agora passa a se 
valorizar. 
Além das melhoras externas, surgem restrições internas. A superação destas restrições, dentro de um 
ambiente externo relativamente favorável, leva a substituição do regime cambial, adotando-se as 
regras do padrão ouro (politica de cambio fixo com uma politica monetária passiva), o que 
possibilita que a politica monetária se torne mais flexível em função da situação externa favorável e 
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configura-se na nova fase de crescimento econômico. Esta fase se mantem enquanto as condições 
externas são favoráveis; com a reversão dessas condições, a politica monetária se torna 
contracionista e quando a situação atinge grandes proporções (IGM e crise de 30), abandona-se o 
cambio fixo e volta-se a um regime de cambio flexível. 
A Lei Bancária de 1890 possibilitou forte expansão monetária, com base nas emissões 
inconversíveis feitas a partir de 3 órgaos emissores (bancos) e lastreadas em títulos públicos. Foi 
fortemente criticada, mas haviam fortes demandas para ela. A principal explicação é decorrente da 
ampliação do trabalho assalariado na economia brasileira. O crescimento do trabalho assalariado 
elevou a necessidade de moeda para transação nessa economia, ampliando as já existentes crises de 
liquidez. Ampliavam-se as pressões pela flexibilização da politica monetária e por reformas no 
sistema financeiro tido como inelástico. O próprio crescimento econômico também pressionava por 
novas instituições monetárias no país. 
Tal medida deu alivio de crédito para a cafeicultura, além da possibilidade de incorporação de 
novos cafezais e também tinha como objetivo a expansão de outros setores econômicos. Houve a 
facilitação da criação de empresas, especialmente de sociedades anônimas (SA’s). a facilidade 
creditícia e a de criar novas empresas explicam o “encilhamento” (movimento de especulação 
bursátil, ocorrido na Bolsa de Valores do RJ no inicio dos anos 90. Criavam-se empresas com 
facilidade lançando ações na bolsa; dada a possibilidade da obtenção de crédito fácil, estas eram 
adquiridas e se valorizavam, atraindo novos investidores e novas empresas, formando uma bolha 
especulativa, que envolvia boa parte da burguesia financeira carioca e mesmo pessoas que até então 
nada tinham a ver com ela. Muitas das empresas surgidas eram fictícias, sendo criadas apenas para 
obter lucros especulativos. Em determinado momento, o mercado notou que o castelo de cartas 
montado tinha bases frágeis, e quando isso ocorreu, ele acabou ruindo. Porem, nesse período, um 
numero substancial de empresas não fictícias foi criado, então, pode-se considerar o período de 
crescimento econômico. 
Externamente, o cambio se havia mantido estável até 1891, quando sofreu uma desvalorização que 
se estendeu pelos anos subsequentes. Alguns atribuem a desvalorização à expansão monetária e ao 
descontrole das contas publicas do período, sendo a desvalorização a contrapartida da inflação 
interna. Outros acreditam que a desvalorização ocorreu devido a fatores externos. a situação do 
balanço de pagamentos que era estável ate o inicio da republica, sofre reverso com a saída de capital 
do pais, que se fez em função da retração do mercado financeiro internacional por conta da crise 
que enfrentava a argentina, além da má apreciação da politica econômica brasileira nesse mercado. 
Também influi na crise do balanço de pagamentos a deterioração na balança comercial, dado o 
crescimento das importações e a relativa queda das exportações entre 1990 e 1991. 
A desvalorização de cambio agravou os problemas fiscais do governo já comprometidos em função 
dos gastos militares incorridos com a pacificação de revoltas e com os compromissos para a 
consolidação da Republica. O impacto da desvalorização do cambio sobre as contas do governo é o 
de aumentar os gastos, dado o crescimento da divida externa e de seus pagamentos em moeda 
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nacional, e diminuir as receitas com a queda das importações, já que a base da arrecadação do 
governo eram os impostos sobre a importação. 
Essa desvalorização tem efeito positivo sobre as cotações do café em moeda nacional, mas tem 
efeito perverso sobre os demandantes de mercadoria importada, configurando o quando de 
“socialização das perdas”. 
A situação externa se complicou a partir de 1895 com a contínua queda de preços do café no 
mercado externo que não era compensada pelo aumento da quantidade vendida, de modo que a 
receita decorrente da exportação de café se reduziu. Dada a pequena queda das importações, o 
pagamento da divida externa tornou-se cada vez mais complicado, forçando o governo brasileiro a 
procurar um acordo com os banqueiros, o Funding-loan. O brasil deixaria de pagar os juros da 
divida externa por três anos e adiaria as amortizações por 13 anos. Em contrapartida, os rumos da 
politica econômica interna seriam alterados, passando a ser fortemente contracionista. 
As taxas de cambio também passaram a sofrer um processo de valorização nos anos subsequentes, 
dado que o regime ainda era de taxas flexíveis de cambio. Por um lado, atribui-se a reversão ao 
enxugamento monetário, por outro, outros veem os fatores externos como determinantes a reversão 
da situação do balanço de pagamento. Esta se deve tanto à expansão das exportações, como ao 
alivio decorrente do adiamento no pagamento das obrigações externas.Também é enfatizada a 
reversão da visão do mercado financeiro internacional em relação à política econômica brasileira, o 
que facilitou a entrada autônoma de capitais no Brasil. 
Internamente, a politica deflacionista teve como primeiro efeito uma forte crise bancaria e, no 
médio prazo, as taxas de crescimento econômico retraíram-se, configurando um quadro recessivo os 
preços internacionais do café continuaram em queda. Internamente, a valorização magnifica tais 
efeitos, causando importantes prejuízos a cafeicultura. As dificuldades se aumentaram com a safra 
de 1905 que era bastante grande e previa-se uma queda ainda maior nos preços do café. Por outro 
lado, havia dificuldade em se convencer o governo federal a alterar sua politica econômica, 
revertendo a valorização cambial e ampliando a concessão de credito. 
A solução encontrada (1906) foi a politica de valorização do café com o intuito de evitar maiores 
quedas no preço internacional do café, juntamente com a “Caixa de Conversão”. Por meio desta 
ultima o cambio foi estabilizado, alterando o regime cambial que passou a ser de taxas de cambio 
fixas. O governo garante a conversão da divisa em mil-réis a uma taxa fixa de câmbio; desse modo, 
a politica monetária passou a depender da situação do balanço de pagamentos. Quando há mais 
entrada do que saída de divisas, expande-se o crédito interno, sem efeitos sobre a taxa de cambio. 
A expansão monetária, decorrente da situação positiva do balanço de pagamentos, juntamente com 
a manutenção de boas condições para a cafeicultura, garantiram uma fase de crescimento 
econômico. Nesse período também houve um expressivo ingresso de capital externo na economia 
brasileira. Esta situação se sustentou até a IGM, quando se reverteram as boas condições externas 
da economia brasileira. Com a manutenção da caixa de conversão, a politica monetária se tornou 
contracionista, gerando crise de liquidez e recessão na economia brasileira. O agravamento das 
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condições externas, porém, levou ao abandono da caixa de conversão, retornando a um regime de 
taxas cambiais flexíveis. 
Com o fim da caixa de conversão desvalorizou-se o cambio. A situação fiscal do governo se 
deteriorou, devido a isso e a queda das importações, obrigando um novo acordo com os credores 
internacionais e o recurso a emissões de moeda inconversível. Estas, juntamente com a 
desvalorização cambial, provocaram a aceleração da inflação que é sentida pelas classes urbanas, 
estando por trás da greve de 1917. A cafeicultura também sofreu impactos negativos, dada a 
retração da demanda eterna, sendo necessária a adoção de um segundo plano de defesa do café. Por 
outro lado, a guerra e o cambio protegiam os produtos nacionais destinados ao mercado doméstico. 
Após a guerra, repetiu-se, grosso modo, a mesma sequencia das primeiras décadas republicanas. 
Logo após a guerra, houve rápida recuperação econômica em função da elevação dos preços de 
exportação. O crescimento das exportações viabilizou o crescimento das importações atendendo às 
demandas reprimidas no período da guerra. A situação externa, porém, foi revertida rapidamente no 
início da década de 20, conduzindo a um novo colapso cambial e consequente desvalorização, que 
deteriorou ainda mais as contas publicas. Em 1924, ao mesmo tempo que novos acordos com os 
banqueiros externos foram negociados, a politica monetária, depois de um período de relativa 
flexibilidade, voltou a ser contracionista, acarretando novo choque recessivo. 
Em 1926, dadas as pressões internas para reverter a política monetárias e a recuperação na situação 
externa, voltou-se a adotar um regime de cambio fixo, por meio da caixa de estabilização. Houve 
uma nova fase do crescimento econômico até 1929, quando a situação externa se deteriorou em 
função da elevação das importações e do estancamento da entrada de capitais. Imediatamente 
reverte-se a politica iniciando um período recessivo. Com a crise de 29/30 o governo teve que 
romper com a caixa de estabilização. 
Intervenção no mercado de café 
A expansão das plantações de café se dever por um lado, ao maior dinamismo da imigração e à 
expansão das estradas de ferro. Por outro lado, a facilidade creditícia do início da Republica e os 
incentivos decorrentes da desvalorização cambial também tiveram forte influencia nessa expansão. 
No inicio do século XX já havia a percepção de que o mercado estava saturado e que novas 
plantações deveriam ser evitadas, além do que, nessa época, o cambio já não minimiza a queda de 
preços internacional, evidenciando-se os problemas da cafeicultura. 
A situação se agravou em 1905 com uma expectativa de safra excepcional, onde surgiram pressões 
para que o governo intervisse. A ideia era retirar o excesso de oferta de café do mercado, estocando-
o, a fim de sustentar os preços. Para a estocagem ter efeito sobre os preços, o mercado não poderia 
ser concorrencial. Assim, sendo o brasil um grande produtor, com posição de domínio sobre o 
mercado, a intervenção do governo brasileiro efetivamente teria efeito sobre os preços. Por outro 
lado, o s desequilíbrios deviam ser temporários, ou o excesso de oferta poderia ser revertido em 
algum momento não muito longe. Se isto não ocorresse, os estoques iriam se acumular 
indefinidamente. 
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Para o objetivo de ampliação das receitas de exportação, a demanda de café também deveria ser 
inelástica, o que parecia ser o caso. Contudo, para financiar as estocagens, a ideia era recorrer a 
empréstimos externos, que seriam pagos quando da venda dos estoques e com a arrecadação de 
receita decorrente da introdução de imposto sobre as exportações de café. Existia forte resistência 
em relação a esses empréstimos. Por um lado, o governo se mostrava reticente em apoiar o plano, 
que podia implicar perdas para o governo caso ele falhasse e comprometeria a politica econômica 
que vinha sendo posta em pratica desde 1898. Por outro lado, a Casa Rotschild, tradicional casa 
bancária com a qual o governo federal fazia a maior parte de suas operações, colocou-se contra o 
plano, alegando que ele comprometeria a capacidade de o governo federal fazer frente a seus 
compromissos internacionais. 
Inicialmente, o governo de SP assumiu sozinho o plano. Em 1907, o governo federal também entrou 
no esquema, consolidando e garantindo os empréstimos antes feitos por SP. Os preços do café 
acabaram por subir em 1909, também em função de safras inferiores. Nos anos seguintes, os 
estoques foram vendidos e antes da guerra os empréstimos já haviam sido pagos. 
O plano de valorização, em um regime de cambio flexível, teria por consequência a valorização 
cambial, pois haveria ingresso de divisas em função dos empréstimos necessários para a estocagem 
e do aumento de receita das exportações de café. Essa valorização poderia contra-restar, em moeda 
nacional, os aumentos nos preços internacionais do café. Assim, com a caixa de conversão, evitou-
se tal valorização e a contrapartida da entrada de recursos externos foi a ampliação do crédito 
domestico. 
Efeitos colaterais: como as estocagens foram realizadas pelos intermediários do mercado, estes 
obtiveram grande parte dos ganhos decorrentes da intervenção, gerando criticas ao setor produtivo 
nacional. Internamente, também outroS grupos defenderam a extensão de tal politica para outros 
produtor que também enfrentavam problemas no mercado. O incentivo a novas inversões em 
cafezais que a manutenção de preços acarreta, fazendo com que, em longo prazo, uma situação de 
superprodução pudesse ocorrer. O controle sobre novas plantações fazia parte do plano e houve 
certo controle sobre a ampliação da produção nacional. Porém, não se podia controlar a produção de 
outros países, que passou a crescer apesar da sua participação no mercado ainda ser relativamente 
pequena. Por fim, a intervenção do governo forçando a alta dos preços começou agerar problemas 
internacionais. 
Durante a guerra, foi necessária uma nova intervenção do governo no mercado cafeeiro (II plano de 
valorização do café) em função das dificuldades de exportação decorrentes da guerra e novas 
grandes safras. Neste plano a utilização de recursos externos era difícil. A estocagem se realizou 
com base em emissões monetárias internas, ampliando o descontrole monetário do período. A 
inflação decorrente das emissões foi o imposto para financiar a estocagem. Com uma forte geada 
em 1918, os preços dispararam de imediato no pós-guerra, possibilitando a venda dos estoques com 
lucros em 1920. Porem, dessa vez, perdeu-se o controle das plantações nacionais. 
Em 1921, outra operação foi realizada (III Plano de Valorização do Café). Foram usados recursos 
externos, porem em condições menos favoráveis que as do primeiro plano. Mas, o governo 
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procurou reter os estoques em território nacional, nos portos e armazéns localizados no interior, nas 
estradas de ferro. Isso gerou insatisfação dos importadores de café que perderam o controle dos 
estoques e viram suas oportunidades de lucro especulativos serem reduzidas. Ao mesmo tempo, 
cresceram as pressões contrarias do governo norte-americano. Depois dessas intervenções, também 
auxiliado por problemas nas safras seguintes, os preços reagiram e os estoques puderam ser 
vendidos. 
Até 1924, a defesa do café se fazia de modo “esporádico”, montava-se a operação quando os 
problemas surgiram. A partir desse ano, instituiu-se a “defesa permanente” que acabou sendo 
conduzida por SP. Por meio de um instituto de defesa, procurou-se limitar a entrada de café no porto 
de Santos e financiar a manutenção de depósitos de café nos armazéns reguladores situados no 
interior do Estado. O financiamento desta politica foi feito com endividamento externo, mas 
também comprometendo-se o crédito domestico. Ao longo da segunda metade do século XX, os 
preços do café mantiveram-se relativamente altos. No entanto, as plantações e produção de café 
ampliaram-se, dentro e fora do país. 
Como não se conseguiu estabelecer um controle sobre a ampliação da produção, acabou-se por criar 
uma situação de superprodução de café e um desequilíbrio no mercado cafeeiro de natureza 
estrutural. Tal desequilíbrio ganhou conotações trágicas na crise dos anos 30, quando, além do 
excesso de oferta, houve forte retração da demanda. 
Política industrializante na República Velha 
A economia brasileira durante a República velha não pode ser considerada industrializada, mas 
houve crescimento significativo nesse sentido. Não obstante houvesse participação do estado nesse 
processo, houve politicas deliberadamente industrializantes no país, como ocorreu nas décadas 
seguintes. Quando estas ocorriam, tinham um caráter secundário dentro do quadro geral da politica 
econômica, muitas vezes sendo parte de medidas cujos objetivos não eram propriamente o de 
auxiliar a indústria em geral. 
Existiam defensores de um incentivo maior a republica (Rui Barbosa). A facilidade creditícia as 
mudanças na legislação comercial são as principais medidas do período que acabaram por 
incentivar a indústria. 
Ao longo do tempo, aumentou o consenso acerca da importância do crescimento industrial no 
período, pelo menos para melhorar a situação do balanço de pagamentos e evitar problemas sociais, 
especialmente nas cidades, gerando empregos. Depois da IGM, questões de defesa nacional também 
passaram a ganhar força e a justificar a concessão de incentivos creditícios e subsídios fiscais a 
industrias especificas. 
Em relação a política comercial, ocorreram inflexões em termos cambiais: houveram alguns anos de 
desvalorização cambial seguidos por outros de valorização entremeados por períodos de 
estabilidade cambial. Essa alternância acabou sendo importante para o período de industrialização. 
Quando da valorização cambial, facilitava-se a importação, o que era favorável à ampliação da 
capacidade produtiva da indústria do país, dado que as máquinas e os equipamentos utilizados pela 
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indústria brasileira eram importados. Com a desvalorização cambial havia proteção à indústria 
nacional, dado o aumento do preço dos produtos importados; nessa situação, utilizava-se a 
capacidade instalada no período anterior para substituir as importações. Os ciclos cambiais 
possibilitaram, assim, o crescimento por etapas da indústria, com fases de ampliação da capacidade 
produtiva seguidas por momentos em que esta era efetivamente utilizada. 
As tarifas sobre importação tinham o objetivo principal de arrecadação do governo, mas 
contribuíram como mecanismo de proteção à indústria nacional, especialmente quando 
adequadamente combinadas com as oscilações cambiais. Tal politica não pode ser considerada 
industrializante, porem, a pequena seletividade da proteção identifica que o auxilio prestado não foi 
deliberado. 
A proteção tarifaria parece ter sido importante para o desenvolvimento inicial de algumas industrias, 
particularmente aquelas para as quais a diferença nos direitos aduaneiros sobre o produto final e 
sobre os insumos importados era suficientemente grande para garantir altos níveis de proteção 
tarifaria efetiva, aquelas caracterizadas pela natureza volumosa relativamente ao preço de seus 
produtos, para as quais os altos custos de transporte representavam uma proteção natural adicional, 
e aquelas que processavam matérias-primas não ordenas. Foi só na década de 1930 que as politicas 
comerciais desempenharam um papel realmente importante, com a depreciação cambial 
aumentando os preços relativos das importações e as restrições às importações contribuindo para 
desviar demanda interna. 
Estado Oligárquico da Primeira República 
Republica federativa, em que os estados tinham razoável autonomia e com um sistema de 
representação fundado no voto universal não obrigatório. O caráter democrático das instituições 
republicanas não se transportava para a esfera política: a prática de fraudes nas eleições era regra, e 
não a exceção; as pressões sobre os eleitores limitavam a possibilidade de expressão de sua vontade 
e as articulações no plano federal fechavam o circulo que praticamente impedia às oposições 
qualquer influencia sobre as decisões politicas. 
Muitos colocam o “coronelismo” como núcleo da articulação desse sistema de poder oligárquico 
(poucos tinham o poder politico). O coronel era um grande proprietário rural que exercia ampla 
influencia no plano local. Por seu poder, podia “determinar” o resultado das eleições em seu 
município. Afinal, o voto não era secreto e poucos eleitores tinham coragem de desafiar o coronel. 
Quando essa pressão era insuficiente, havia, por exemplo, a fraude, conhecida como “bico de pena” 
pela qual a ata da eleição era redigida sem qualquer respeito ao resultado das urnas; ou mesmo a 
consignação do voto de eleitores “fantasmas”. Com todos esses mecanismos, o coronel podia 
definir o resultado da eleição em seu município, não só nos pleitos de âmbito local, mas também 
nos da esfera estadual e da federal. 
O poder politico poderia ser comparado a uma pirâmide que teria na base uma infinidade de grandes 
proprietários rurais (coronéis) que se comporiam para definir os estratos superiores do poder 
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polítcos. Os deputados, senadores, presidentes dos estados e o da republica seriam, em essência, 
representantes desses grandes proprietários rurais. 
Há então uma cadeia que vincula o chefe local aos trabalhadores rurais, e também a situação 
estadual. É nesta situação estadual que se situa o segredo do Estado Oligárquico. 
O Estado tem a função de garantir a reprodução das relações de produção. Em cada sociedade, 
tendo como núcleo o processo de produção, estabelecem-se relações sociais entre os homens 
envolvidos com a produção. Essas relações dizem respeito à forma pela qual os meios de produção 
sãopossuídos e aos vínculos entre os homens decorrentes de sua posição no processo de produção. 
O estado deve, portanto, manter essas relações a fim de viabilizar a continuidade dessa particular 
forma de organização social. Para tanto, dispõe, no limite, do uso legal da força; mas também de 
instrumentos ideológicos que visam ocultar a dominação de classe, em especial no capitalismo. 
Em relação ao trabalhador rural, a dominação afirma-se, em geral, por uma situação de dependência 
social. O trabalhador não podia contrariar a vontade do coronel. Nesse caso, a dominação de classe 
está presente na pratica eleitoral e não pode ser ocultada por ela. 
Há, por outro lado, a subordinação do “coronel” à “situação estadual”. Desde cedo, forma-se um 
complexo de atividades urbanas que envolve, de inicio, o comercio e progressivamente outras 
atividades como as estradas de ferro, os bancos, serviços urbanos e a própria indústria. Em grau 
maior ou menos, as demais economias exportadoras também incluem atividades econômicas de 
expressão. Mais do que isso, admite-se que o elemento mercantil seja, nessas economias, o 
dominante por sua posição-chave no processo de circulação e no financiamento da produção 
exportável. Nas regiões em que o desenvolvimento urbano foi mais complexo, há uma massa de 
trabalhadores urbanos, tipicamente assalariados, que sustenta as atividades comerciais, financeiras, 
de serviços urbanos e industriais. 
O significado do coronelismo completa-se quando observamos sua atuação na preservação do poder 
de uma facção estadual. Essa facção não expressa a hegemonia política dos coronéis no plano 
estadual e sim sua submissão à “situação estadual” que é composta por grandes comerciantes, 
banqueiros, dirigentes de grandes empresas e talvez até industriais que podem ser também grandes 
fazendeiros, mas que tem, certamente, em suas empresas urbanas o foco de atividade econômica. 
A politica dos governadores praticada até 1930 (com razoável êxito) reiterava no plano federal a 
dominação das oligarquias estaduais, pois procurada reforças o poder de cada oligarquia em seu 
Estado e evitar, no plano federal, cisões entre as oligarquias que pudessem colocar em risco a 
estabilidade do estado. O acordo entre SP e MG pela alternância na presidência da republica 
caminhava nessa mesma direção. 
A critica ao sistema politico da Primeira Republica se manifestou, antes de mais nada, por meio de 
grupos tipicamente urbanos, já que estes se viam alijados do acesso ao sistema de representação. O 
tenentismo, por sua forma ostensiva e violenta de manifestação, ganhou relevo entre aqueles que 
criticavam a estrutura oligarquia da Primeira Republica. É inegável, que a politica do café-com-leite 
�21
era um foco permanente de insatisfação no seio das próprias oligarquias estaduais, pois a maior 
parte delas se via excluída de um efetivo acesso à instância de poder nacional. 
Entende-se também por que a conjunção de forças que promoveu a Revolução de 1930 era 
complexa e incluía elementos tipicamente oligárquicos ao lado de elementos tipicamente urbanos, 
em certo sentido representados pela presença dos tenentes no movimento revolucionário. A 
popularidade da Revolução de 1930 deveu-se, em grande medida, ao fato de se apregoar a 
existência de fraudes eleitorais e de falseamento do processo representativo. Evidentemente, a 
Revolução de 1930 não destruiu o Estado Capitalista no Brasil, mas obrigou-o a buscar novas 
formas concretas de cumprir sua função de garantir a dominação de classe, sem descartas de todo o 
uso dos resquícios do poder local, mas integrando-o sob nova forma. O estado oligárquico cedeu 
lugar ao Estado Populista, outra forma do estado capitalista no Brasil. 

�22
3. Processo de Substituição de Importações 
Gremaud, Economia Brasileira Contemporânea cap. 14 
A década de 30 e o deslocamento do centro dinâmico 
A crise de 1930 chegou ao Brasil por meio de uma rápida queda na demanda por café, acompanhada 
de forte queda nos preços do café. Outro impacto foi a reversão dos fluxos de capital: capital 
externo saiu do Brasil. O resultado foi uma grave crise no balanço de pagamentos brasileiros, pois 
as exportações caíram e a balança de capital passou a ser negativa. 
A forma como o Brasil fez frente à crise, provocou o que Furtado chamou de Deslocamento do 
Centro Dinâmico da economia brasileira: isso se refere ao momento em que o elemento essencial na 
determinação do nível de renda deixa de ser a demanda externa, e passa a ser atividade voltada ao 
mercado interno (consumo e investimento doméstico). Esse deslocamento ocorreu em função da 
crise e da resposta dada pelo governo de Getúlio Vargas. 
O efeito da crise do Brasil foi negativo, mas foi de menor intensidade e de menor duração se 
comparado com outros países. Isso pode ser explicado pela política do governo, que podem ser 
consideradas Heterodoxas. As medidas adotadas pelo governo foram de duas ordens: a política da 
manutenção da renda e o deslocamento da demanda. 
Manutenção da renda 
A manutenção do nível de renda foi feita essencialmente por meio do reforço da política de defesa 
do café. O Governo, dada a enorme dificuldade nas vendas das supersafras de café, decidiu estocá-
lo e acabou por queimá-lo. Esse tipo de política, principalmente se financiada com crédito e 
emissão de moeda domestica, constitui um tipo de política de sustentação de demanda agregada. 
Mesmo pagando um preço mínimo baixo para os cafeicultores, esse preço ainda viabilizava a 
realização da própria colheita, e portanto, o emprego e a renda de muitas pessoas, assim como 
permitia a manutenção de parte do efeito multiplicador exercido pelo café sobre o restante da 
economia. 
Deslocamento da demanda 
A demanda continuava, mesmo que mantida minimamente, porém, existia um problema no balanço 
de pagamentos, causado pela queda nas exportações de café e na entrada de recursos externos, e 
agravado pela própria manutenção da demanda nessa economia. A fim de solucionar esse problema, 
foi declarada moratória sobre parte da divida externa do país e permitida uma expressiva 
desvalorização cambial. 
Também se impôs um contingenciamento no uso dos recursos externos, isto é, as poucas divisas que 
entravam no pais tinham sua utilização regulada pelo governo, e foram utilizadas para o pagamento 
de alguns compromisso externos e para a aquisição de bens essenciais ao país. 
�23
A desvalorização de câmbio provocou forte elevação nos preços dos produtos importados, e tornou 
os produtos nacionais atraentes. Assim, os produtos nacionais passaram então a substituir os 
produtos importados no atendimento à demanda. Assim a demanda mantida pela política de estoque 
e queima de café foi deslocada dos produtos importados para os produtos nacionais, entre os quais 
muitos produtos industriais. 
A produção nacionais passou a gerar rentabilidade que atraia o capital de outros setores e o próprio 
reinvestimento dos lucros gerados na atividade industrial. Nesse momento, são justamente esses 
investimentos que passam a ditar o ritmo do crescimento da economia brasileira, caracterizando 
assim, o deslocamento do centro dinâmico da economia. 
Características da industrialização por substituição de importações 
A década de 30 compõe o período em que houve forte avanço do setor industrial brasileiro. esse 
avanço teve características que permitiam chama-lo de industrialização por substituição de 
importações. A principal característica desse processo é uma industrialização fechada, que responde 
a desequilíbrios externos e é realizada por partes. 
Primeira característica: industrialização fechada. Fechada em função de dois elementos: ser voltada 
para dentro e depender de medidas que protegem a industria nacional dos concorrentes externos. 
O PSI pode ser caracterizado pela sequencia: 
- inicia-se com um estrangulamento externo:queda do valor das exportações; o qual junto a 
manutenção de parte da demanda interna, mantendo a demanda por importações, gera escassez 
de divisas. 
- para contrapor-se à essa crise cambial (estrangulamento), o governo tomou medidas que 
acabaram pro proteger a industria nacional, aumentando a competitividade e a rentabilidade da 
produção doméstica; 
- gera-se uma onda de investimentos nos setores substituidores de importação, produzindo-se 
internamente parte do que antes era importado, aumentando a renda nacional e a demanda 
agregada. 
- Observa-se, no entanto, um novo estrangulamento externo, em função do próprio crescimento da 
demanda – aumento das importações e de parte dos investimentos que se transformam em 
matérias-primas e equipamentos importados; o ritmo do crescimento das importações é mais 
rápido do que o crescimento das exportações, o que gera uma nova crise. 
Percebe-se que o motor do PSI era o estrangulamento externo. Os estrangulamentos funcionavam 
como estímulos e limites ao investimento industrial. Tal investimento passou a ser a variável-chave 
para determinar o ritmo do crescimento econômico nacional, substituindo as exportações que eram 
o ponto-chave do ritmo de crescimento do país em suas fase agroexportadora. 
Entretanto, conforme o investimento e a produção avançaram em determinado setor, geravam-se 
pontos de estrangulamento em outros. A demanda pelos bens desse outros setores era atendida por 
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meio de importações. Assim, a industrialização era feita por etapas, a pauta de importações ditaria a 
sequencia dos setores objeto dos investimento industriais. 
O Brasil foi industrializado por etapas, começou pelo setor de bens de consumo não duráveis e 
terminando no setor de bens de capital, gerando desequilíbrios em função da demanda não atendida 
que um setor possui em relação aos outros. 
O PSI caracterizava-se pela ideia de construção nacional, ou seja, alcançar o desenvolvimento e a 
autonomia com base na industrialização, de forma a superar as restrições externas e a tendência à 
especialização na exportação de produtos primários. Nesse processo, a industria vai se 
diversificando. 
Mecanismos de proteção à industria nacional utilizados no PSI 
Do ponto de vista comercial, pode-se apontar quatro tipos de respostas a crises cambiais. 
1. Desvalorização real do cambio: com ela, acaba-se por aumentar o preço dos produtos 
importados frente aos nacionais, o que se constitui em uma proteção aos produtores nacionais. 
A desvantagem é que a desvalorização cambial implicava também o aumento dos preços de 
equipamentos e matérias primas importados, dificultando os investimentos. A vantagem é que 
se geram efeitos positivos sobre o setor exportador. Governo Vargas 
2. Controle de câmbio: se estabelece um sistema de licenças para importar, controlando o acesso 
dos demandantes de divisas à moeda estrangeira. Com isso, diminui-se as importações. Pode-se 
proteger a industria nacional com a vantagem de possibilitar um investimento com baixo custo, 
já que não há a necessidade de desvalorizar o câmbio. A introdução desse tipo de controle gera 
o surgimento do mercado paralelo de câmbio, assim como de esquemas de corrupção na 
obtenção de licenças. Outra desvantagem é que a não desvalorização cambial gera estímulos ao 
setor exportador. Governo Dutra 
3. Taxas múltiplas de câmbio: nesse sistema estabelecem-se vários mercados cambiais, 
destinando-se a cada um deles alguns tipos de demanda e oferta de divisas. Em cada mercado 
surge uma taxa especifica de câmbio. O governo acaba definindo as condições de cada um 
desses mercados. Dentro de tal sistema, colocando-se os produtos com similar nacional em 
mercados com taxas desvalorizadas, encarecendo assim seus preços, favorece-se a industria 
nacional; do mesmo modo, colocando as importações de matérias-primas e equipamentos em 
mercados com excesso de oferta, a taxa se valorizará barateando o custo dos investimentos. 
Uma possível vantagem desse sistema é que o governo pode arrecadar recursos, comparando e 
vendendo em mercados diferentes. 2º gov. Vargas 
4. Elevação das tarifas aduaneiras: em vez de se controlar o cambio, simplesmente se elevam as 
tarifas de importação, diminuindo-as. Se for estabelecida uma diferenciação significativa das 
tarifas, também é possível obter um efeito protecionista sobre alguns produtos ao mesmo tempo 
em que barateiam outros produtos, principalmente os que significam custos nos investimentos. 
Governo JK. 
�25
Dificuldades na implementação do PSI 
- Tendência ao desequilíbrio externo: apareceu por várias razões, como política cambial – 
transferência de renda da agricultura para a industria (confisco cambial), os agricultores recebiam 
menos pelas divisas que eram pagas pelos demandantes, desestimulando as exportações de 
produtos agrícolas –; indústria sem competitividade – protecionismo, a industria visava atender 
apenas ao mercado interno, sem grandes possibilidades no mercado internacional –; elevada 
demanda por importações – estabelecida graças ao investimento industrial e ao aumento da 
renda. Assim, o PSI só se tornava viável com recurso ao capital estrangeiro. 
- Aumento da participação do Estado: ao estado caberiam 4 funções principais: adequação do 
arcabouço institucional à industria – legislação trabalhista, mecanismos para direcionar capitais 
da atividade agrícola para a industrial, dada a ausência de um mercado de capitais organizado, 
criação de agências estatais e uma burocracia para gerir o processo –; geração de infraestrutura 
básica – transportes e energia foram as principais áreas de atuação –; fornecimento de insumos 
básicos – estado deveria atuar de forma complementar ao setor privado, nesse sentido foi criada, 
a companhia siderúrgica nacional, Petrobras, companhia Vale do Rio Doce e etc… –; captação e 
distribuição de poupança – financiamento da economia por meio do BB e BNDE). 
- Aumento do grau de concentração de renda função do êxodo rural – desincentivo à agricultura, 
legislação trabalhista restrita ao trabalhador urbano –, do caráter intensivo do capital para 
investimento industrial – não permitia grande geração de emprego no setor urbano. Esses pontos 
geravam excedente de mão de obra, e por isso, baixos salários. Por outro lado, o protecionismo e 
a concentração industrial permitiam preços elevados e altas margens de lucro para as industrias. 
Poucas empresas participavam do mercado interno, e isso fazia com que os ganhos obtidos, em 
função da possibilidade de conluio ou formação de cartéis, não eram repassadas para os preços, 
significando acúmulos de lucros. Além de concentração industrial, esse modelo de 
industrialização promovia a baixa eficiência, dada a não exposição à concorrência ou o excessivo 
protecionismo. A critica principal não é a proteção em si, justificada pelo argumento de industria 
nascente, mas seu mal uso ou seu uso por um período de tempo muito longo ou indefinido. 
- Escassez de fontes de financiamento: dificuldade de financiamento dos investimento, dado o 
grande volume de poupança necessário. Isso se deve à quase inexistência de um sistema 
financeiro (por causa da Lei da Usura – desestimulava a poupança); o sistema se restringia aos 
bancos comerciais, algumas financeiras e aos agentes financeiros oficiais (BB e BNDE). Havia 
também ausência de uma reforma tributária ampla – a arrecadação continuava centrada nos 
impostos de comércio exterior e era difícil ampliar a base tributária, já que a industria deveria ser 
estimulada, a agricultura não poderia ser mais penalizada, e os trabalhadores, além de sua baixa 
remuneração, eram parte da base de apoio dos governos do período. 
Papel da agricultura na industrialização de um país 
Em geral, consideram-se as seguintes funções da agricultura em um processo de industrialização: 
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- liberação de mão-de-obra: a força de trabalho,antes concentrada no campo, deve ser transferida 
para as industrias. Assim, a agricultura deve aumentar sua produtividade por trabalhador, a fim 
de poder fornecer às cidades parte da mão de obra que até então ela utilizava. 
- fornecimento de alimentos e matérias primas: Levando em consideração que a mão de obra do 
campo está diminuindo em virtude de sua transferência para as industrias, o aumento da 
produtividade deve ser substancial no setor agrícola. A falta de alimentos e de matéria prima 
pode inviabilizar a continuidade do processo de industrialização e/ou gerar sérios problemas - 
aumento do preço desses bens, gerando inflação. 
- transferência de capital: a industrialização exige que parte dos recurso concentrado no campo 
seja transferida para o investimento em setores industriais. 
- geração de divisas: uma importante função do setor agrícola é manter elevado o nível de 
exportações, a fim de viabilizar, com as divisas obtidas, a importação de máquinas e 
equipamentos necessários ao processo de industrialização 
- mercado consumidor: A medida que a agricultura se desenvolve, ela necessita cada vez mais de 
implementos agrícolas, como tratores, colheitadeiras, produtos químicos, etc. que são fornecidos 
pela industria. Ademais, dependendo da renda gerada na agricultura e de sua distribuição, pode 
haver crescimento da demanda por produtos de consumo, como televisores, automóveis, 
eletrodomésticos etc. 
Durante o PSI alguns atores destacam a visão estruturalista de inflação, segundo a qual a agricultura 
atrasada impedia que o crescimento da oferta de produtos agrícolas acompanhasse a demanda 
urbana, constituindo-se em constantes choques de oferta, que levam à elevação do nível dos preços. 
Outro problema era a ausência de uma reforma agrária, já que os grandes latifúndios causavam uma 
profunda concentração de renda, impedindo a criação de um mercado consumido mais amplo para a 
industria. 
Outros autores, tinha uma visão diferente, afirmando que a agricultura não representava um entrave 
a esse desenvolvimento, dado que o setor primário cumpriu suas funções, apesar de a política 
econômica adotada no período não lhes ser favorável. A agricultura expandiu-se e diversificou-se, 
de modo que, com algumas dificuldades, cumpriu seu papel no processo, apesar de ser prejudicada 
pela política econômica do governo. 
Plano de Metas 
O plano de metas adotado no gov. JK pode ser considerado o auge desse período da industrialização 
brasileira. O principal objetivo do plano de metas era estabelecer as bases de uma economia 
industrial madura no país, especialmente aprofundando o setor produtor de bens de consumo 
duráveis. 
A racionalidade do plano estava baseada nos estudos do grupo BNDE-Cepal, que identificaria a 
existência de uma demanda reprimida por bens de consumo duráveis, e via nesse setor importante 
fonte de crescimento pelos efeitos inter-industriais que gera sobre a demanda por bens 
�27
intermediários e, por meio da geração de emprego, sobre os bens de consumo leves. A demanda por 
esses bens vinha da própria concentração de renda anterior, que elevara os padrões de consumo de 
determinadas categorias sociais. 
Para viabilizar o projeto, dever-se-ia readequar a infraestrutura e eliminar os pontos de 
estrangulamento existentes, além de criar incentivos para a vinda de capital estrangeiro nos setores 
que se pretendia implementar. 
Pontos principais do plano: 
- investimentos estatais em infraestrutura, com estaque para os setores de transporte e energia 
elétrica. Consonância com o objetivo de introduzir o setor automobilístico no país 
- estimulo ao aumento da produção de bens intermediários, como o aço, o carvão, o cimento.. que 
foram objeto de planos específicos. 
- incentivos à introdução dos setores de consumo duráveis e de capital. 
O plano foi implementado por meio da criação de uma serie de comissões setoriais que 
administravam e criavam os incentivos necessários para atingir as metas setoriais. Os principais 
instrumentos de ação do governo para realizar as metas foram, alem dos investimentos das 
empresas estatais, o credito com juros baixos e de carência bonda por meio do BB ou do BNDE, 
uma política de reserva de mercado e a concessão de avais para obtenção de empréstimos externos. 
Pelo Plano, visava-se atacar os pontos de estrangulamento existentes e impedir o aparecimento de 
novos, na oferta de infraestrutura e de bens intermediários para os novos setores. Além disso, outros 
setores eram tomados como pontos de germinação, em que o investimento gerava demandas 
derivadas que acarretam novos investimento, sustentando a taxa de crescimento do país. 
Houve uma clara mudança no direcionamento da produção industrial. Os setores de consumo leve, 
que ja haviam sido implementados, passaram a ceder o lugar dinâmico aos bens de consumo 
duráveis. 
Os principais problemas do Plano estavam na questão do financiamento. Os investimento públicos, 
na ausência de uma reforma fiscal condizente com as metas e os gastos estipulados, precisam ser 
financiados principalmente por meio e emissão monetária, o que gerou uma aceleração 
inflacionaria. Do ponto de vista externo, houve uma deterioração do saldo em transações correntes e 
o crescimento da divida externa, outra forma de financiamento do plano. A concentração de renda 
ampliou-se pelo desestimulo à agricultura e investimentos na industria com tecnologia e capital 
intensivo. 
Assim, apesar das lapidar transformações provocadas, ampliando e diversificando a matriz 
industrial brasileira, esse plano aprofundou todas as contradições criadas ao longo do PSI, tornando 
claros os limites do modelo, dentro do arcabouço institucional vigente. Por outro lado, essa fase 
representa a superação do próprio modelo de substituição de importações, pois vai alem de uma 
resposta a um problema de estrangulamento externo, sendo sua concepção a interação entre os 
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diferentes setores e subsetores da economia que passam a ditar o ritmo de uma economia que no 
final dos anos 50 já estava muito mais madura e integrada. 
�29
4. Crise política, reformas institucionais e mudanças estruturais na economia brasileira nos 
anos 60: as reformas de Castello Branco e o período expansivo 1968/73 (“Milagre” brasileiro). 
Lacerda, Economia Brasileira cap. 8 
A crise de 1962-1967, o PAEG e as bases do milagre econômico 
A primeira crise industrial endógena – os limites do processo de substituição de importação 
Após um período de intenso crescimento do PIB, entre 1965 e 1962, a economia brasileira sofreu 
uma desaceleração que perdurou até 1967. Em 1964, a inflação disparou e atingiu uma taxa anual 
de 90%. 
Parte dessas divergências deve-se à própria complexidade daquele momento histórico, quando se 
entrelaçavam questões económicas estruturais com políticas econômicas conjunturais. Para autores 
estruturalistas, essa seria uma típica crise cíclica, relacionada à conclusão do volumoso conjunto de 
investimentos do Plano de Meras. Depois da conclusão desses investimentos, a economia levaria 
algum tempo para absorve-los. 
O setor produtor de bens de consumo duráveis enfrentou dificuldades, pois a demanda não crescia 
de maneira satisfatória, devida a baixa renda per capita e da elevada concentração de renda no país. 
A inexistência de mecanismos para o financiamento a longo prazo do consumo trazia ainda mais 
limitações à demanda. 
Outro enfoque estruturalista é o de Celso Furtado. Segundo ele, as dinâmicas das economias 
capitalistas desenvolvidas são determinadas elas inovações tecnológicas e pelo continuo aumento da 
produtividade do trabalho, que permite atender às reivindicações salariais dos trabalhadores e 
manter a lucratividade dos capitalistas.A industrialização por substituição de importações deu-se 
pela produção de mercadorias semelhantes às originarias dos países desenvolvidos.O problema 
central dos países subdesenvolvidos era adotar tecnologia poupadora de mão de obra e de alta 
intensidade de capital, em franco antagonismo com o baixo nível da acumulação de capital e com a 
abundância de mão de obra dos países atrasados. 
Nessas condições, a industrialização por substituição de importações emprega poucos trabalhadores, 
paga baixos salários e não é capaz de criar seu próprio mercado consumidor. Essa situação é 
agravada pelas características monopolistas das empresas que se instalam na periferia 
subdesenvolvida, utilizando grandes montantes de capital, devido à tecnologia sofisticada, e 
operando com elevadas escalas de produção, em flagrante contraste com a precariedade dos 
mercados subdesenvolvidos. Daí a tendência para a grande capacidade ociosa e a vigência de preços 
elevados, reforçando a concentração de renda há muito existente no Brasil e acentuando a 
deficiência do mercado consumi- dor. Assim, o processo de industrialização brasileiro tendia à 
estagnação tão logo lhe faltassem impulsos dinâmicos externos, quando se completa o processo de 
substituição de importações. Segundo Furtado, a economia brasileira nos anos 1960 apresentava os 
sintomas de esgotamento do processo de substituição de importações e caminhava para uma 
�30
profunda estagnação. Isso resultava nos altos preços dos pro- dutos agrícolas e no baixo nível de 
vida da população. Se não se criava um mercado de base industrial, pouco se podia esperar da 
demanda do setor agrícola. 
Ironicamente, o golpe militar de 1964, aprofundando ainda mais as características perversas e 
excludentes apontadas por Celso Furtado, permitiu a retomada do crescimento econômico e a 
realização do chamado “milagre econômico” brasileiro. 
Em conjunto com essas questões estruturais atuavam, ainda, fatores conjunturais, como a ascensão 
inflacionária, que corroía o poder aquisitivo dos trabalhadores, reduzindo a própria demanda por 
bens não duráveis, e a política anti-inflacionária recessiva do Plano Trienal. 
Para autores de posições políticas conservadoras, como Mário Henrique Simonsen, o início da crise 
se devia à instabilidade política presente no país a partir da renúncia de Jânio Quadros, o que teria 
desestimulado os investimentos. Francisco de Oliveira, em A economia brasileira: crítica à razão 
dualista, associou a crise e a queda dos investimentos ao aumento da atividade sindical e política 
dos trabalhadores, que, durante todo o período populista, haviam sido os grandes sustentadores do 
processo de acumulação industrial, ao participar, ainda que de forma marginal, dos enormes ganhos 
de produtividade ocorridos na economia brasileira nesse período.4 Posteriormente, Oliveira 
desenvolveu uma interpretação dessa crise a partir das contradições resultantes de um padrão de 
acumulação baseado na produção de bens de consumo duráveis (departamento II) e nas fracas bases 
internas do setor produtor de bens de produção (departamento I), uma vez que ambos eram 
controlados pelo capital estrangeiro.Paul Singer, em Desenvolvimento e crise, ressalta a 
importância do aspecto político e do papel da inflação no processo de concentração de renda e de 
potencialização da acumulação capitalista. O recrudescimento da luta sindical e sua transformação 
crescente em luta política, com a defesa das “reformas de base”, levaram a um impasse político e 
econômico solucionado apenas pelo golpe militar. 
Por fim, alguns autores consideraram como causa do início da crise a política de estabilização 
recessiva do Plano Trienal, baseada em forte contração monetária. Evidentemente, trata-se de uma 
explicação parcial e incompleta para uma crise cuja superação implicou transformações políticas e 
um governo militar que se impôs ao país por mais de 20 anos. 
Uma explicação mais abrangente sobre a crise de 1962, deveria, com certeza, levar em consideração 
os vários aspectos abordados nas análises anteriores. Tratou-se efetivamente de uma crise cíclica, 
agravada pelo aumento da instabilidade política e pelas políticas de estabilização recessivas, como o 
Plano Trienal, num primeiro momento, e o próprio PAEG, a partir da política econômica pós-1964. 
Some-se a isso o fato de que a economia brasileira se industrializara, ampliando a enorme 
dependência com relação ao setor externo, o que provocava frequentes crises cambiais. 
Crise política e o plano trienal de Celso Furtado 
Durante o curto governo Jânio Quadros, a política econômica foi bastante conservadora no 
enfrentamento dos problemas herdados do governo JK: aceleração inflacionária, o déficit fiscal e a 
pressão sobre o balanço de pagamentos. Em março de 1961, realizou-se uma reforma cambial, com 
�31
desvalorização de 100% do chamado câmbio de custo, aplicado às importações preferenciais, como 
petróleo, trigo e papel de imprensa. O objetivo foi diminuir a pressão dos subsídios cambiais sobre 
o déficit público. Em maio e junho, o governo obteve sucesso na renegociação dos débitos com 
credores ex- ternos e com organismos financeiros internacionais, reescalonando os vencimentos da 
dívida externa do período 1961-1965. A abrupta renúncia do presidente, em agosto de 1961, a 
continuidade de sua política econômica foi interrompida. 
A posse do vice-presidente João Goulart só foi possível com as limitações que lhe seriam impostas 
pelo regime parlamentarista, resultado dos vetos militares. três gabinetes parlamentares que, diante 
do quadro de indefinição política, não conseguiam implementar nenhuma política econômica 
consistente. Em razão disso, a taxa de inflação alcançou 45,5% em 1962, contra o índice 33,2% de 
1961. No final de 1962, poucos meses antes do plebiscito que restabeleceria o regime 
presidencialista no Brasil, foi apresentado por Celso Furtado, ministro Extraordinário para Assuntos 
do Desenvolvimento Econômico, o Plano Trienal, uma resposta política do governo à aceleração 
inflacionária e à deterioração econômica ex- terna, que objetivava dar continuidade ao 
desenvolvimento do país. 
 O plano trienal possuía plano de ações anti-inflacionárias bastante ortodoxas. Mais uma vez, foi 
usada a política de contenção de gastos públicos e de liquidez. Rapidamente, as reivindicações 
sindicais e as políticas da base de apoio do governo se impuseram, sobretudo, com a recusa dos 
assalariados em suportar novamente o peso do ajuste anti-inflacionário. A tentativa de estabilização 
fracassou e provocou o crescimento negativo do PIB per capita: a economia cresceu 6,6% em 1962, 
mas apenas 0,6% em 1963, com inflação anual de 83,25%. O fim do governo ocorreu com o golpe 
militar de 1964. 
Ruptura democrática e o modelo dependente e associado 
O golpe militar pôs fim ao populismo no país. Os governos populistas, principalmente aqueles com 
traços mais nacionalistas, eram, acusados pelo pensamento econômico conservador de serem 
excessivamente redistributivistas, pois buscavam distribuir uma renda ainda inexistente. Essa 
postura redistributivista, que seria conhecida posteriormente como populismo econômico, geraria, 
segundo seus críticos, pressões inflacionárias e dificultaria a continuidade do processo de 
acumulação. Entretanto, todas as evidências empíricas sobre o caso brasileiro desmentem esse 
raciocínio. 
O regime militar assumiu a direção do país, em 1964, com uma postura tecnocrática-modernizante, 
comprometida com a superação das políticas populistas de João Goulart, consideradas atrasadas e 
ultrapassadas. Apesar das críticas ao nacionalismo econômico do governo deposto, o novo regime 
manteria um discurso desenvolvimentista, comprometido com a retomada do crescimento 
econômico. A prioridade inicial do novo governo foi a normalização das relações com os 
organismos financeiros inter- nacionais. A partir de então, todas as ações buscavam uma integração 
maior com os países capitalistas desenvolvidos, especialmente os Estados Unidos.O Brasil 
assumiu, assim, uma clara subordinação: tratava-se do aprofundamento do modelo de capitalismo 
�32
dependente e associado, já hegemônico no país desde o Plano de Metas de JK. O resultado foi o 
aumento da internacionalização da economia brasileira com relação 
aos capitais externos e a consolidação da oligopolização, com o franco predomínio das empresas 
multinacionais (EMN). O aumento da dependência externa, que se refletiu, sobretudo, no enorme 
aumento da dívida externa do país, foi determinante para os rumos da economia brasileira. 
PAEG estabilização e mudanças institucionais 
O PAEG foi criado pela equipe econômica do governo do Marechal Castelo Branco. Esse plano de 
estabilização conseguiu reduzir a taxa de inflação de 90%, em 1964, para menos de 30%, em 1967, 
invertendo a tendência inflacionária que existia desde o final dos anos 1930. Entretanto, o aspecto 
mais importante do PAEG foi o conjunto de transformações institucionais impostas ao país, 
consubstanciadas nas reformas bancária e tributária e na centralização (autoritária) do poder político 
e econômico. O autoritarismo permitiu ao governo militar executar uma política econômica de 
garantia dos investimentos, estimulando ainda mais o processo de oligopolização. 
O diagnóstico do processo inflacionário brasileiro era embasado na ortodoxia monetarista: o 
excesso de demanda seria causado pela monetização dos déficits públicos, pela expansão do crédito 
às empresas e pelos aumentos salariais superiores ao aumento da produtividade. Apesar de autores 
como Lara Resende12 procurarem distinguir aspectos não ortodoxos nesse diagnóstico, cabe 
registrar que o único fator que poderia não se enquadrar na ortodoxia era a proposta de uma 
estabilização a ser alcançada de forma gradativa: pretendia-se redução gradual do déficit público e 
da inflação, a qual deveria atingir 10% em 1966. A partir desse diagnóstico, foram implementadas 
ações que buscavam controlar as contas públicas, aumentando as receitas e reduzindo as despesas; 
foi, então, executada uma política monetária restritiva, com controle de emissão monetária e de 
crédito; e, especialmente, foi implementada uma dura política de contenção salarial. Essa política – 
uma derrota dos trabalhadores e assalariados em geral – acabou provocando um efetivo arrocho 
salarial, somente possível em um regime autoritário. 
A reforma bancária de 1965 criou a estrutura básica do sistema financeiro nacional, com a 
instituição do Banco Central e do Conselho Monetário Nacional, e permitiu a especialização desse 
sistema com a divisão em financeiras (voltadas ao financiamento dos bens de consumo duráveis), 
bancos comerciais e bancos de investimento. A criação do Sistema Financeiro da Habitação (SFH) e 
do Banco Nacional da Habitação (BNH) possibilitou o fomento extraordinário da construção 
habitacional e do saneamento básico, utilizando recursos das cadernetas de poupança e do Fundo de 
Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) criado em 1966. A reforma tributária de 1967 criou o 
sistema tributário ainda hoje vigente no país, aumentando a arrecadação e centralizando-a no 
governo federal. Além dos impostos, adquiriram grande importância fundos parafiscais como o 
FGTS, o Programa de Inte- gração Social (PIS) e o Programa de Assistência ao Servidor Público 
(Pasep) – estes últimos voltados a propiciar a participação dos assalariados no lucro das empresas. 
Além disso, ao longo dos anos, o governo federal passou a se financiar por meio da constituição de 
uma dívida pública baseada na ORTN e, posteriormente, em Letras do Tesouro Nacional (LTN). A 
�33
nova estrutura tributária também permitiu o aumento das exportações em virtude de incentivos 
fiscais variados. 
A avaliação do PAEG como programa de estabilização é positiva, apesar de seus custos para uma 
parcela importante da população. O plano reduziu a inflação para a faixa de 20% ao ano e executou 
um amplo conjunto de transformações institucionais fundamentais para o grande crescimento 
econômico que se seguiria. 
Em contrapartida, as críticas, como as formuladas por Bacha, centram-se no diag- nóstico de 
inflação, erroneamente considerada como de demanda, o que resultou em uma política recessiva 
com altos custos sociais. Segundo Bacha, a política monetária restritiva praticada em 1966 foi 
equivocada, tendo em vista que a ameaça de retomada do crescimento inflacionário devia-se a 
pressões dos preços agrícolas, consequência da quebra de safra por causa da seca.14 
Contraditoriamente, em 1965, a inflação havia sido declinante, apesar da política monetária 
claramente expansionista. 
Outra linha de críticas é aquela dirigida contra o autoritarismo na implementação das 
transformações institucionais e na execução da política de estabilização, demons- trando que o 
liberalismo econômico preconizado pelo governo militar não era acom- panhado por liberalismo 
político e democracia representativa. Criticava-se todo um projeto voltado ao fortalecimento dos 
grandes oligopólios e ao aprofundamento da desnacionalização da economia, quando um regime 
político ditatorial promovia o aumento da exploração da força de trabalho, agravando ainda mais a 
perversa distribuição de renda no país. 
�34
Lacerda, Economia Brasileira cap. 9 
O milagre brasileiro – auge e crise 
A expansão da economia mundial e a economia brasileira entre o pós-guerra e os anos 1970 
Em março de 1967, iniciou-se o governo do general Costa e Silva, com uma nova equipe econômica 
liderada por Antônio Delfim Netto, que continuaria responsável pela política econômica durante a 
Junta Militar, no período após o impedimento de Costa e Silva, e ainda durante o governo do 
general Médici. Delfim assumiu a direção da política econômica com um novo diagnóstico do 
processo inflacionário brasileiro: após o ajuste das contas públicas efetuado pelo PAEG, e com os 
salários rigidamente controlados, a inflação passou a apresentar um forte componente de custos, 
decorrentes da grande capacidade ociosa existente e dos altos custos financeiros. A solução para a 
continuidade da queda da inflação seria a retomada do crescimento econômico, tendência verificada 
em toda a economia mundial da época. Para isso, era fundamental que se adotasse uma política 
monetária expansiva e que houvesse um grande aumento no crédito ao setor privado, estimulando a 
produção para o mercado interno e externo. Assim, o novo ciclo de crescimento foi, mais uma vez, 
comandado pelos setores produtores de bens de consumo duráveis e de bens de capital. 
Financiamento externo – necessidade ou conveniência 
O grande incremento do endividamento externo a partir do milagre econômico le- vou alguns 
autores a classificar esse como um período de crescimento conduzido por financiamento externo. 
Eles supõem que o capital externo que entrou no país sob a forma de empréstimos teria sido 
fundamental para o financiamento desse crescimento. A única explicação para o extraordinário 
crescimento da dívida externa ao longo do milagre seria de origem financeira: o excesso de liquidez 
internacional diminuiu bastante as taxas reais de juros, o que tornou os empréstimos muito 
atraentes. Ao mesmo tempo, o sistema financeiro brasileiro, especialmente no setor privado, nunca 
se voltou para o financiamento produtivo de médio e longo prazo. Portanto, o aumento do 
endividamento ocorreu por causa da captação de recursos do exterior e seu repasse para empresas 
de dentro do país, sem que houvesse necessidade estrita de empréstimos externos que financiassem 
grandes déficits em transações correntes. 
As contradições do Milagre 
A grande crítica ao milagre refere-se aos aspectos sociais. Houve crescimento econômico e não 
desenvolvimento econômico. O mero crescimento econômico registrado na melhoria dos índices de 
produção não se reflete, necessariamente, no aumento do bem-estar do conjunto da população.Foi o 
que ocorreu durante o milagre, tanto que os próprios dirigentes diziam que “a economia ia bem, mas 
o povo ia mal”. A renda concentrou-se ainda mais, em consequência da diminuição do valor real do 
salário-mínimo. 
Em São Paulo, no período 1964-1966, época de implantação do PAEG, a perda de compra do 
salário mínimo fora de 25,2%, enquanto entre 1967-1973 caiu 15,1%. Ademais, de 1964-1974, 
registrou-se aumento dos acidentes de trabalho, conseqüência das horas extras e da grande 
intensidade de trabalho. Cresceu o número de pessoas em- pregadas por família, em parte devido à 
�35
diminuição do salário do chamado chefe de família.9 As consequências da política de exclusão 
social desse período foram dramáticas e podem ser sintetizadas no agravamento das condições de 
saúde da maioria da população. Houve, enfim, um agravamento de todo o quadro social no país, 
algo aparentemente incompatível com o enorme aumento da riqueza nacional. Na verdade, 
encontra-se aqui uma interpretação do que teria sido o milagre econômico brasileiro: um intenso 
cresci- mento da acumulação capitalista beneficiado por altíssimas taxas de lucro, resultantes, por 
sua vez, da compressão dos salários dos trabalhadores, de maneira tão exagerada que chegou a 
ameaçar a continuidade do processo de crescimento. Essa forma de crescimento foi chamada de 
competitividade espúria. 
Os limites estruturais do crescimento dependente 
Em 1973, o milagre atingiu seu auge, com um crescimento de 14% do PIB. No ápice do ciclo 
expansivo, um conjunto de contradições decorrentes de um desenvolvi- mento dependente se 
manifestaria. A principal dessas contradições foi o enorme aumento de importação de bens de 
produção, resultante de uma industrialização com grande desproporcionalidade departamental, dado 
que o departamento I da economia era insuficientemente desenvolvido. No auge do ciclo 
(1970-1973), enquanto a produção de bens de consumo duráveis praticamente dobrou (97%), a de 
bens intermediários aumentou 45%.12 Isso provocou o surgimento de focos de tensão inflacionária 
e o reaparecimento de déficits comerciais. As pressões inflacionárias também viriam dos aumentos 
dos salários, que começavam a se recuperar em função do enorme aumento da demanda por 
trabalhadores. Além disso, o grande crescimento da agricultura de exportação reduziu a produção de 
alimentos (e mesmo de matérias-primas) direcionada para o mercado interno, gerando mais 
pressões sobre os preços. Após a grande mudança no contexto econômico mundial, com o primeiro 
choque do petróleo, em setembro de 1973, essas tensões inflacionárias se amplificaram ainda mais. 
A essa altura, o peso dos serviços na conta de transações correntes também começou a aumentar, 
em decorrência do aumento dos juros no mercado financeiro internacional. O déficit crescente na 
balança de transações correntes era coberto com o aumento do endividamento, com base na 
avaliação de que as turbulências da economia mundial seriam passageiras. 
O governo do general Geisel, que assumiu a presidência em março de 1974, buscou enfrentar os 
desequilíbrios estruturais da economia com a implantação do II Plano Nacional de 
Desenvolvimento (II PND), em que seria retomada a tentativa varguista de desenvolvimento do 
departamento I da economia. As prioridades do II PND foram as indústrias produtoras de bens de 
capital e de bens intermediários, os grandes pontos de estrangulamento que impediam a 
continuidade do desenvolvimento nacional. Finalmente o país entrava na etapa final do processo de 
substituição de importações. 
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– 
Gambiagi, Economia Brasileira Contemporanea 
�36
Reformas, endividamento externo e o “milagre” econômico. 
O período de 1964-73 abrigou 3 mandatos de presidentes militares, que são marcados pela 
continuidade no terreno político, bem como quanto ao modelo de política econômica. 
No governo Castello Branco (1964-66). Os ministros do planejamento e da fazenda estabeleceram 
um combate gradual à inflação, a expansão das exportações e a retomada do crescimento como 
principais objetivos da política econômica. Contudo, devido ao cenário de desequilíbrio monetário e 
externo do início do período, a política econômica acabou por assumir uma orientação claramente 
restritiva. 
A continuidade no campo da política econômica foi reflexo da continuidade política do período. A 
visão política econômica do governo não encontrava resistência formal. 
Em relação ao desempenho da economia, o período do milagre abriga duas fases distintas. A 
primeira 1964-67, caracterizou-se como uma fase de ajuste conjuntural e estrutural da economia, 
visando ao enfrentamento do processo inflacionário, do desequilíbrio externo e do quadro de 
estagnação econômica do início do período. Também foi marcado pelo Plano de Ação Econômica 
do Governo (PAEG) e de importantes reformas estruturais – do sistema financeiro, da estrutura 
tributária e do mercado de trabalho. A segunda fase (68-73) caracterizou-se por uma política 
monetária expansiva e por vigoroso crescimento da atividade econômica, acompanhado de gradual 
redução da inflação e do desequilíbrio externo. 
O PAEG (1964-66): Diagnostico e Estratégia de Estabilização 
Ao longo de 1963 até o início de 1964 a economia brasileira operava em estado e estagnação da 
atividade econômica junto com o aumento da inflação. 
O diagnóstico da inflação era de que a responsabilidade primordial do processo inflacionário cave 
aos déficits governamentais e à continua pressão salarial. Os déficits alimentavam a expansão dos 
meios de pagamento que, por sua vez, sancionavam os aumentos de salários. Esse diagnóstico 
inspirou as principais medidas do PAEG: 
1) Um programa de ajuste fiscal, com base em metas de aumento de receita (via aumento de 
arrecadação tributária e de tarifas públicas) e de contenção (ou corte) das despesas 
governamentais. 
2) Um orçamento monetário que previa taxas decrescentes de expansão dos meios de 
pagamentos 
3) Uma política de controle do credito ao setor privado, pela qual o credito total ficaria 
limitado às mesmas taxas de expansão definidas para os meios de pagamento 
4) Um mecanismo de correção salarial pelo qual as revisões salariais deverão guiar-se pelo 
critério da manutenção, durante o período de vigência de cada reajustamento, do salário real 
médio verificando o biênio anterior, acrescido de porcentagem correspondente ao aumento 
da produtividade. 
�37
O PAEG estabeleceu metas decrescentes graduais de inflações para períodos. Essas metas, 
comparadas com as metas monetárias e fiscais permitem perceber que o plano previa crescimento 
nulo dos meios de pagamento para 1964, comportando alguma expansão no biénio 65-66. No 
campo fiscal, contata-se também uma política austera para 1964, especialmente no que tange ao 
corte de despesas, com algum alívio em 1965. Apesar das austeridades monetária e fiscal, o 
combate à inflação estava sempre qualificado no sentido de não ameaçar o ritmo da atividade 
produtiva. 
Essa graduação da inflação foi justificada no Plano com base no argumento de que havia a 
necessidade de uma inflação corretiva e de evitar-se uma grave crise de estabilização. 
A aceleração da inflação é, em geral, acompanhada de um processo de desajuste de preços relativos, 
sendo particularmente penalizados aqueles preços fixados em contratos de longo prazo. Esse 
desajuste é, em si, uma fonte realimentadora da inflação, porque gera um conflito distributivo 
causador de continuas demandas por correções de preços defasados. O diagnóstico do PAEG para 
1964 era de que entre aqueles preços, apenas os salários não estavam defasados. A correção das 
tarifas públicas e da taxa de cambio era apontada como uma medida duplamente necessária, pois 
elimina ou atenua as distorções de preços relativos, econtribuiria também para o ajuste fiscal e do 
balanço de pagamentos. 
A magnitude dos cortes fiscais e monetários necessários para reduzir rapidamente a inflação, 
provocaria uma grave recessão da atividade econômica, o que não era politicamente recomendável 
àquela altura. Para legitimar o regime de exceção junto a sociedade e ao meio político internacional 
era necessário preservar a renda agregada de uma queda abrupta, enquanto se implementava o plano 
de combate à inflação. 
Nesse período, havia no Brasil um certo consenso de que as crises de estabilização não eram uma 
necessidade para o alcance da estabilidade. Predominou a visão de que era possível conciliar taxas 
razoáveis de crescimento do PIB com o combate gradual à inflação. Essa conciliação seria feita pela 
correção monetária. 
As reformas estruturais do Período 1964-67 
Foram reformas tributarias e financeiras. Além dessas reformas, houve a criação do FGTS. A 
reformas tributária e financeira foram implementadas gradualmente 
Reforma tributária 
Os objetivos explícitos eram o aumento da arrecadação do governo e racionalização do sistema 
tributaria. Nesse sentido, pretendia-se reduzir os custos operacionais da arrecadação, eliminando 
impostos de pouca relevância financeira, e definir uma estrutura tributária capaz de incentivar o 
crescimento econômico. Para tanto, as principais medidas implementadas foram: 
1. Instituição da arrecadação de impostos através da rede bancária 
2. Extinção dos impostos do selo (federal), sobre profissões e diversões públicas (municipais); 
3. Criação do ISS (imposto sobre serviços), a ser arrecadado pelos municípios; 
�38
4. Substituição do imposto estadual sobre vendas, incidente sobre o faturamento das empresas, 
incidente apenas sobre o valor adicionado a cada etapa de comercialização do produto; 
5. Ampliação da base de incidência do imposto sobre a renda de pessoas físicas; 
6. Criação de uma série de mecanismos de isenção e incentivos a atividades consideradas 
prioritárias pelo governo à época; 
7. Criação do fundo de participação dos estados e municípios, através do qual parte dos 
impostos arrecadados no nível federal era repassada às demais esferas do governo; 
Esse conjunto de medidas resultou em significativa elevação da carga tributária do país. Do ponto 
de vista distributivo, a reforma tributária foi regressiva, beneficiando classes de renda mais alta com 
os incentivos e isenções sobre o imposto de renda. Assim, a maior parte das arrecadações foi obtida 
através dos impostos indiretos, que penalizam mais as classes de baixa renda. 
Havia um caráter centralizador nessa reforma. Foi limitado o deito dos estados e municípios 
legislarem sobre tributação. Além disso, a reforma atribuiu exclusivamente à União o poder de 
decisão sobre o percentual das transferências através do FPEM; poder de ingerência sobre a 
alocação de parte desses recursos e eliminou o princípio da anualidade, pelo qual novos tributos só 
podem entrar em vigor no ano seguinte à sua aprovação pelo Congresso, para impostos indiretos e 
contribuições. 
O êxito foi devido a racionalidade das medidas e ao regime autoritário vigente. 
Reforma financeira 
As reformas de 1964-67 tiveram por objetivo explícito complementar o Sistema Financeiro 
Brasileiro (SFB) constituindo um segmento privado de longo prazo no Brasil. A carência dessas 
instituições e instrumentos fiscais tinha ficado patente durante o Plano de Metas. A precariedade 
daquele segmento do SFB determinava ainda que a emissão de moeda se tornasse uma fonte de 
financiamento inflacionária, na medida em que os recursos novos criados pelo governo não 
retornavam ao sistema sob a forma de poupança financeira, mas, sim, de depósitos à vista. 
O objetivo central foi dotar o SFB de mecanismos de financiamento capazes de sustentar o processo 
de industrialização já em curso, de forma não inflacionaria. Era necessário, em primeiro lugar, 
reorganizar o funcionamento do mercado monetário, o que foi feito com a criação do Banco central 
do Brasil, como executor da política monetária e do Conselho Monetário Nacional, com funções 
normativa e reguladora do SFB. 
O modelo de financiamento seguia o vigente nos EUA, onde as instituições financeiras atuam em 
segmentos distintos do mercado, cabendo aos bancos de investimento o papel de prover 
financiamento de longo prazo, como intermediários na colocação de títulos no mercado de capitais 
e, em menor escala, como emprestadores finais. No brasil, manteve-se ainda um papel importante 
para os bancos públicos no credito de longo prazo. 
Para viabilizar esse modelo, era necessário estabelecer regras claras de funcionamento do mercado 
de capitais e dotar as instituições financeiras, bem como as empresas interessadas no financiamento 
�39
direto, de condições de acesso a recursos de longo prazo. As regras de funcionamento do mercado 
foram estabelecidas numa série de Leis e Resoluções do Governo. Quando à captação de longo 
prazo, o diagnostico era de que tanto a geração, quanto a alocação de poupança no Brasil eram 
prejudicadas pelo baixo retorno real dos ativos de longo prazo, em um contexto de inflação 
crescente e jutos nominais limitados. 
O aumento do retorno real dos ativos requeria a contenção do processo inflacionário. Esse problema 
seria enfrentado com PARG. A opção do governo pelo gradualismo no combate à inflação exigia a 
criação de mecanismos de proteção do retorno real dos ativos, bem como de incentivo à demanda 
durante o período de transição para baixa inflação. Foram então criados 4 mecanismos divididos 
entre títulos públicos, ativos privados de renda fixa, ativos de renda variável e para os bancos 
públicos. 
Outro aspecto importante dessas reformas foi a ampliação do grau de abertura da economia ao 
capital externo, de risco e, principalmente, de empréstimos. Os principais expedientes criados para 
atrair esses recursos foram: 
1. Regulamentação da lei 4131 (62) de forma a permitir a captação direta de recursos externos 
por empresas privadas nacionais 
2. Regulamentação da captação de empréstimos externos pelos bancos nacionais para repasse 
às empresas domésticas. 
3. Mudança na legislação sobre investimento estrangeiro no país de modo a facilitar as 
remessas de lucros ao exterior – o objetivo era tornar o mercado brasileiro mais competitivo 
na captação de investimentos estrangeiros. 
A abertura financeira era vista como elemento capaz de contribuir para o aumento da concorrência e 
eficiência do SFB. Além disso, o pais padecia de uma carência estrutural de poupança interna, de 
modo que, mesmo com a reorganização do sistema financeiro doméstico, a oferta de fundos teria de 
ser suplementada por recursos externos. 
A economia brasileira no período de 64-67 
Em meio à política de estabilização e à reforma monetária, a atividade econômica se recuperou, mas 
cresceu a taxas moderadas no período 1964-67. Apesar do efetivo aperto monetário e fiscal do 
período, o PAEG não cumpriu as metas estabelecidas. 
As metas de expansão nominal dos meios de pagamento fixadas pelo governo foram 
ultrapassadas em 1964 e as do credito do setor privado o foram nos 3 anos do PAEG. Contudo, 
as metas de inflação também foram superadas, o crescimento real dos meios de pagamento e do 
crédito privado oscilou bastante: foi negativo em 64 e 66, mas em 65 superou a meta. Essa 
expansão foi concentrada no segundo período do ano, como compensação da forte retração 
monetária implementada até meados de 65, que acabou sendo o menor ano de crescimento do 
PIB. 
�40
A política salarial do plano também foi bastante restritiva, tanto pela formula de correção, quanto 
pelo período de referência para o cálculo do salário real. A escolha do período de referência para o 
cálculo do salário real e o comportamento da inflação ao longo do período são cruciais. Como ovalor do salário nominal é fixo entre duas datas de reajuste, na presença de inflação o salário real se 
reduz a cada mês, ao longo desse período. Assim, se for um período de inflação estável, o valor 
relativo dos salários e dos lucros fica equilibrado, se foi um período de queda de inflação, a 
indexação retroativa resultará em ganho para os salários reais, porque o período comportará salários 
reais mais elevados que no cenário de inflação estável; se for período de aceleração da inflação, 
haverá ganho para os lucros, porque a média do salário real ficará achatada em relação ao que seria 
nos outros cenários. 
Esse foi exatamente o caso quando da implementação do PAEG. Como foi um período de 
aceleração da inflação, a política salarial penalizou os salários reais, em favor dos lucros. Essa perda 
se estendeu por todo o período de vigência do plano por que: 
1. Em 1965. A média dos dois anos anteriores incluía o ano de 1964, que ainda manteve a 
tendência de alta inflação. 
2. A partir de 1966, um decreto de lei determinou que as correções salariais fossem calculadas 
com base na inflação prevista pelo governo, que foi superada pela inflação efetiva naquele 
ano. 
3. O aumento devido à produtividade não era integral, mas equivalente a dois terços da taxa de 
crescimento da produtividade estimada pelo próprio governo. 
Esse efeito distributivo negativo sobre os salários foi também contrapartida das correções de preços 
relativos consideradas necessárias para estancar o processo inflacionário na época. 
Em suma, as pressões inflacionarias de demanda e de custos, diagnosticadas no PAEG, foram 
efetivamente combativas com políticas monetária, fiscal e salarial restritivas. Contudo, o sucesso do 
Plano foi parcialmente comprometido pelos aumentos atribuídos aos custos básicos – impostos, 
tarifas públicas, câmbio e juros – e pela criação da correção monetária para ativos e contratos em 
geral. 
Na pratica, o PAEG estabeleceu um mecanismo de seleção de custos que deveriam ser comprimidos 
(salários reais), em nome da necessidade de conter o processo inflacionário, e daqueles que 
deveriam ser preservados (itens componentes da receita do governo, as tarifas das empresas estatais 
e os rendimentos reais do setor financeiro e dos rentistas em geral), e também aqueles que deveriam 
ser reajustados. Assim, o PAEG cumpriu outras funções macroeconômicas, contribuindo para o 
ajuste fiscal e externo da economia. 
O nível adequado da taxa de câmbio real, aliado ao fraco crescimento econômico no biênio 
1964-65, permitiu o aumento dos saldos comerciais, explicado tanto pela expansão das exportações 
quanto pela retração das importações. Essas últimas voltaram a crescer em 1966, acompanhando a 
recuperação da atividade econômica. O saldo do balanço de pagamentos foi favorecido também 
pelo ingresso de capitais voluntários e de empréstimos de regularização no período. Esses 
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empréstimos explicam o único superávit no período de 1964-67. Nesse caso, porém, é difícil 
separar a contribuição das medidas econômicas e a do cenário político do período. É sabido que, 
tanto o golpe militar de 64 quando os governos militarem que se sucederam no Brasil contaram com 
o apoio dos EUA, principal exportador de capital para as econômicas latino-americanas à época. 
Em relação a reforma financeira, os efeitos do PAEG foram mais lentos, só se fazendo sentir ao 
longo dos anos seguintes. O principal efeito visível em curto prazo foi a efetiva criação de um 
mercado de dívidas públicas no país, viabilizando, de forma permanente, o financiamento não 
monetário dos déficits do governo. A partir de 1965, esses déficits passaram a ser 
predominantemente financiados com a dívida pública. 
O período de 1968-73: Recuperação e “Milagre” 
Características Gerais do Milagre 
Em 1968, a economia brasileira inaugurou uma fase de crescimento vigoroso, que se estendeu até 
1973. Nesse período, o PIB cresceu a uma taxa média de ordem de 11% ao ano, liderada pelos bens 
de consumo durável, e em menor escala, pelos bens de capital. Esse crescimento retomou e 
complementou o processo de difusão da produção e do consumo de bens duráveis, iniciado no 
Plano de Metas. 
A façanha da economia brasileira nesse período foi ainda mais surpreendente porque tal ritmo de 
crescimento foi acompanhado de queda da inflação e de sensível melhora no balanço de 
pagamentos, que registrou superávits crescentes ao longo do período. O termo “milagre” se justifica 
ainda mais nesse caso em razão de duas relações macroeconômicas: 
1. A relação direta entre crescimento e inflação, retratada na Curva de Phillips; e 
2. A relação inversa entre crescimento econômico e saldo do BP, retratada em diversos 
modelos de macroeconomia aberta, que ressaltam o “dilema” da política econômica entre o 
equilíbrio interno e externo. 
Ao assumir o governo em março de 1967, o general Costa e Silva convidou Antônio Delfim Netto 
para assumir a pasta da Fazenda. Delfim manteve a política de combate a inflação, mas imprimiu 
uma mudança de ênfase da política econômica em dois sentidos. 
1. O controle da inflação passou a enfatizar o componente de custos, em vez da demanda, já 
que a economia operou em ritmo de stop and go nos três anos do governo Castello Branco 
2. Por esse motivo, o combate à inflação deveria ser conciliado com políticas de incentivo à 
retomada do crescimento econômico. 
Essa reorientação atendia a necessidade do governo limitar de legitimar-se no poder como uma 
alternativa melhor para o pais do que a do governo deposto, marcado pela tendência à estagflação. 
Na nova estratégia, as políticas fiscal e salarial do PAEG foram mantidas praticamente sem 
alterações: os déficits do governo foram sendo reduzidos e as correções salariais seguiram com a 
regra criada em 1966. Mas 1967 marca um ponto de inflexão política monetária, que se tornou 
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expansiva após a forte restrição da liquidez em 1966. Para compensar os possíveis efeitos da 
expansão monetária sobre a inflação, foram instituídos controles de preços através de um órgão 
criado exatamente para esse fim – CONEP (comissão nacional de estabilização de preços). A 
CONEP passou a tabelar não apenas preços públicos, mas também uma série de preços privados – 
basicamente, insumos industriais. Os juros cobrados pelos bancos comerciais também foram 
tabelados pelo Bacen. 
Em meados de 1968 foi lançado o Plano Estratégico de Desenvolvimento (PED), cujas prioridades 
eram: 
1. Estabilização gradual dos preços, mas sem a fixação de metas explícitas de inflação. 
2. O fortalecimento da empresa privada, visando à retomada do investimento 
3. A consolidação da infraestrutura, a cargo do governo 
4. A ampliação do mercado interno, visando a sustentação da demanda de bens de consumo, 
especialmente dos duráveis. 
A ausência de metas explicitas na inflação deixava maior espaço para a implementação de políticas 
de crescimento. Outro reforço nesse sentido foi a adoção da política de minidesvalorizações 
cambiais a partir de 1968, evitando que a inflação causasse uma defasagem cambial significativa, 
que viesse a prejudicar a balança comerciai e, indiretamente, a atividade econômica. 
No campo fiscal, havia a determinação de que os investimentos públicos em infraestrutura não 
comprometessem o ajuste fiscal em curso. Isso foi obtido através do aumento da participação de 
empresas estatais nesses investimentos, reduzindo a participação da administração direta. 
Como resultado, o governo pode conciliar a realização de novos investimentos públicos com a 
redução do déficit primário e até com a geração de superávits, a partir de 1970. Ademias, essas 
empresas tinham melhores condições de auxiliar na implementação do PED, porque, em geral, 
contavam com outras fontes de financiamento que não os recursos orçamentários. 
Com o afastamento de Costa e Silva, a mesmaorientação política foi mantida no Governo Médici. 
No campo político, porém, o período marca uma fase de nítida radicalização do regime autoritário. 
Em resposta às inúmeras manifestações contrárias ao regime militar desde 1964, em dezembro de 
1968, o governo Costa e Silva decretou o Ato Institucional número 5 que suspendeu garantias 
constitucionais, fechou o congresso por tempo ilimitado e cassou mandatos de políticos e opositores 
ao regime. Ao AI5 seguiu-se um longo perídio, conhecido como “anos de chumbo”, marcado por 
prisões arbitrárias, torturas, deportações de cidadãos considerados “subversivos da ordem”. Esse 
ambiente político favoreceu indiretamente a política inflacionária do governo, calcada no controle 
direto de preços e na contenção dos salários reais. 
A política econômica e a economia durante o “Milagre” 
A mudança de ênfase na política monetária e anti-inflacionária introduzidas pelo Ministro Delfim, 
aliada aos efeitos da reforma financeira, que facilitou a expansão de credito ao consumidor, se 
refletiu em na atividade econômica a partir de 1968, com o crescimento do PIB. Comparada ao 
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período de 1964-67, a fase do milagre foi claramente favorecida pela política monetária, onde 
cresceram os meios de pagamentos, e o credito total. Esse crescimento foi concentrado no credito 
ao setor privado já que a manutenção do ajuste fiscal reduziu a absorção de recursos pelo setor 
público. 
Quatro fatores atuaram para conter a tendência de aumento da inflação: 
1. a capacidade ociosa da economia, herdada do período de fraco crescimento 
2. O controle direto do governo sobre preços industriais e juros 
3. A politica salarial em vigor, que, em geral, resultou em queda dos salários reais 
4. A política agrícola implementada, que contribuiu para expandir a produção e evitar pressões 
inflacionárias no setor, através de financiamentos públicos subsidiados e de isenções fiscais 
para a compra de fertilizantes e tratores. 
A capacidade ociosa existente atuou também do lado da demanda: o fato de as empresas não 
precisarem, de início, repor capital fixo reduzia o horizonte de tempo envolvido na decisão de 
investir, bem como os custos financeiros da retomada. Nesse caso, a atividade produtiva torna-se 
mais sensível à política monetária, já que o investimento não depende, incialmente, nem de credito 
e nem de expectativas a longo prazo. 
Além disso, a melhora das contas externas permitiu um controle maior sobre a taxa de cambio. 
Apesar da política de minidesvalorizações cambiai adotada a partir de 1968, as defasagens entre as 
correções cambiais e a inflação, especialmente entre 1970 e 1973 evitaram que o câmbio tornasse 
uma fonte autônoma de pressão inflacionária. Isso contribuiu para conter a inflação de custos que 
ameaçava a economia, à medida que aumentava o grau de utilização da capacidade existente. 
Quanto ao dilema entre crescimento e equilíbrio externo, a solução do problema foi facilitada por 
uma combinação de condições favoráveis: 
1. A disponibilidade de liquidez a jutos baixos no mercado externo, aliada à boa vontade dos 
EUA para com o brasil 
2. A posição favorável dos termos de troca, diante do aumento dos preços das commodities 
exportáveis 
3. A expansão do comercio mundial 
A tendência à redução dos saldos do BP à medida que o PIB brasileiro crescia foi evitada com base 
numa política deliberada de captação de recursos externos. Tal política, na verdade, teve início 
ainda no governo Castello Branco, com a abertura financeira implementada no período, como parte 
da ampla reforma financeira de 1964-67. Nos governos Costa e Silva e Médici, as condições 
favoráveis à atração de capital externo foram indiretamente reforçadas pela política cambial: os 
ajustes contínuos da taxa de cambio evitavam expectativas de grade desvalorizações à frente, o que 
favorecia retorno real esperado dos empréstimos externos concedidos às empresas e bancos 
brasileiros. 
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A forte expansão econômica em 1968-73 no Brasil refletiu também a forte entrada de capital no 
país: os investimentos externos diretos e os empréstimos em moeda cresceram continuamente no 
período. Esses recursos foram os grandes responsáveis pelo “milagre” brasileiro em relção ao BP, já 
que a tendência à deterioração nas contas externas foi confirmada para a conta de transações 
correntes, 
As exportações e importações também cresceram vigorosamente no período. Ao crescimento das 
exportações foi liderado pelos bens manufaturados, enquanto à composição das receitas, pelo 
aumento do quantum (volume físico) embora a contribuição dos preços das mercadorias exportadas 
pelo Brasil também tenha sido significativa. A expansão das importações teve um perfil semelhante, 
com maior crescimento dos volumes que dos preços. A elevada sensibilidade do quantum de 
importações ao crescimento do PIB nesse período refletiu, essencialmente, o estádio de 
desenvolvimento industrial da economia brasileira à época: face à dependência externa do pais com 
relação a bens de capital e insumos, o crescimento do setor de bens duráveis pressionou as 
importações desses itens. A moderada valorização do real cambio no período de 1970-73 estimulou 
também a importação de bens já produzidos no brasil. Devido ao bom desempenho das exportações, 
a balança comercial foi equilibrada na média de 68-73, mas sofreu déficits significativos em 71-72. 
A conta de serviços e rendas registrou déficits crescentes. A causa foi o aumento das despesas com 
jutos e remessas de lucros decorrente do aumento da corrente de comercio. Portanto, o “milagre” no 
campo das contas externas só foi possível porque o ingresso de capital no pais elevou-se 
acentuadamente: a dívida externa do brasil aumentou muito e esse endividamento mais que 
compensou a necessidade de financiamento do déficit em corrente, permitindo inclusive o acumulo 
de reservas internacionais pelo Bacen. 
Comentários finais: o Período de 1964-73 e a Herança para o Governo Geisel 
De 1964 – 1985 os objetivos da política econômica foram os mesmos: combate à inflação, 
promoção do crescimento econômico e melhora das contas externas, através do aumento das 
exportações e da substituição de importações. Os primeiros quatro anos (64-67) exibiram um 
comportamento errático, alternando curtos períodos de recuperação e desaceleração econômica; o 
período de 68-73 foi teve tendência expansiva. 
O governo Castello Branco (64-66) queria viabilizar a rápida retomada do crescimento econômico- 
que, em princípio, deveria ocorrer ainda em sua gestão. Contundo, o PAEG, apresar de gradualista, 
acabou se mostrando mais restritivo a atividade econômica do que o desejável, além de menos 
eficaz no combate à inflação. Esse quadro, aliado à política de restrição fiscal e monetária em curso, 
inviabilizou uma recuperação economia sólida ainda no período 64-67. 
O desequilíbrio do BP também não foi solucionado. A realimentação entre as sucessivas correções 
cambiais e a inflação em 64-67 não permitiu grandes melhoras no saldo comercial. Por outro lado, a 
inflação persistente e o crescimento claudicante também não atraiam capital externo. O maior êxito 
econômico de Castello Branco se deu na área fiscal: além de os déficits serem reduzidos, criou-se, 
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com a reforma financeira na área da dívida pública, condições duradouras de financiamento não-
monetário desses déficits. 
Em 68-73 a percepção da ineficácia da política economia em curso, no sentido de promover a 
retomada do crescimento, levou o governo Costa e Silva (1967-69) a “afrouxar” a política 
monetária a partir de 1967 e a lançar o PED que foi um plano mais desenvolvimentista que o PAEG, 
prevendo a continuidade do combate gradual à inflação, mas acompanhado de investimentos 
públicos e politicas propicias à recuperação dos investimentos privados. 
A economia brasileira iniciou em 68 uma fase de crescimentovigoroso. Foi a combinação desse 
crescimento com a redução das taxas de inflação e com a total eliminação dos déficits do BP que 
formaram o “milagre” econômico. Essa façanha foi possível, de um lado, por um grupo onde 
atuaram algumas condições econômicas e políticas favoráveis e de outro a habilidade do governo no 
aproveitamento das oportunidades que essa conjuntura oferecia. 
No primeiro grupo deve-se mencionar a existência de capacidade ociosa da economia, o quando de 
ampla liquidez no mercado internacional, o regime autoritário vigente e a “simpatia americana pelo 
regime. No segundo grupo, a adoção do controle de preços, a política de jutos tabelados, a política 
de crawling peg para o câmbio e a política deliberada de captação de recursos. 
A herança desse período para Geisel foi um misto de vantagens e problemas as vantagens foram a 
inflação muito mais baixa; a reorganização da estrutura fiscal e financeira; e a recuperação do BP, 
além do ritmo acelerado do crescimento do período que condicionou a ousada opção politica 
econômica do governo Geisel, guiada pelo objetivo de manutenção do crescimento, apesar das 
dificuldades externas do período. Os grandes problemas foram: a correção monetária, com seus 
efeitos perversos sobre a dinâmica dos preços, e o aumento da dependência externa do pais, nos 
setores industriais e financeiro, este como reflexo da política de endividamento. 
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Lacerda, Economia Brasileira cap. 10 
O II PND – fim de um ciclo 
O II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), embora fosse a resposta do governo militar à crise 
conjuntural da economia brasileira, também tinha o objetivo de superar o próprio 
subdesenvolvimento do país, eliminando os estrangulamentos estruturais de nossa economia. O 
governo Geisel assumiu uma postura de afirmação de um projeto nacional, ainda que este fosse 
contraditório e dissociado dos anseios e necessidades da grande maioria da população do país. Uma 
síntese dessa postura era o programa nuclear brasileiro, desenvolvido com apoio tecnológico e 
financeiro da Alemanha Ocidental, contra a vontade dos Estados Unidos, potência política e 
econômica hegemônica. 
O financiamento do II PND foi feito em boa parte com empréstimos externos, fundamentais para o 
fechamento do balanço de pagamentos do país, desequilibrado por grandes déficits em transações 
correntes. Entretanto, a amplitude da crise mundial e suas repercussões internas provocaram a 
desaceleração do plano, e seus resultados concretos só foram sentidos em 1983 e 1984. 
O II PND (1975-1979) – a fuga para a frente 
O governo de Geisel tinha pela frente o desafio de dar continuidade ao crescimento econômico, 
grande fator de legitimação do regime militar que dirigia o país desde 1964. Ao mesmo tempo, a 
facção militar que assumira a presidência tinha um projeto geo- político de afirmação do país como 
potência, ainda que regional, e de abertura política, com a paulatina transformação do autoritarismo 
militar. A abertura política “lenta, gradual e segura” deveria conduzir o país, no futuro, a algum tipo 
ainda não claramente definido de governo civil. 
O II PND foi a mais ampla e articula experiência brasileira de planejamento após o Plano de Metas. 
Partindo da avaliação de que a crise e os transtornos da economia mundial não eram passageiros1 e 
de que as condições de financiamento eram favoráveis (taxas de juros ex ante reduzidas e longo 
prazo para a amortização), o II PND propunha uma “fuga para a frente”, assumindo os riscos de 
aumentar provisoriamente os déficits comerciais e a dívida externa, mas construindo uma estrutura 
industrial avançada que permitiria superar conjuntamente a crise e o subdesenvolvimento. 
Em vez de um ajuste econômico recessivo, conforme aconselharia a sabedoria econômica 
convencional, o II PND propunha uma transformação estrutural. As prioridades recairiam sobre o 
setor energético, por meio do aumento da prospecção de petróleo e da produção de energia elétrica e 
nuclear; sobre os setores siderúrgico e petroquímico; e sobre a indústria de bens de capital. Para a 
concretização desses objetivos, o governo contaria com o auxílio de empresas estatais como 
produtoras e como grande mercado para as indústrias do setor privado. O governo federal 
procuraria transferir boa parte dos fundos públicos, via BNDE, para o financiamento de grandes 
empresas de bens de capital do setor privado nacional. As EMN participariam do processo agora 
como coadjuvantes das empresas nacionais, pois não estavam interessadas em realizar grandes 
investimentos em uma conjuntura de grandes incertezas que atingia o mundo todo. Para as empresas 
nacionais de bens de capital, o II PND era extremamente interessante: tratava-se de completar o 
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PSI, capacitando a indústria a produzir bens mais sofisticados tecnologicamente, com 
financiamentos subsidiados e um mercado garantido pela própria abrangência do Plano. 
O Financiamento externo – a reciclagem dos “petrodólares”. 
Além do grande esforço na tentativa de redirecionamento da poupança interna para os projetos do II 
PND, houve uma grande participação de empréstimos externos no financiamento dos programas de 
investimento. Nesse período houve um intenso debate sobre a reciclagem das divisas auferidas 
pelos países exportadores de petróleo e que passaram a apresentar grandes superávits em suas 
contas externas, mas nem mesmo a proposta de fazer essa reciclagem sobre a supervisão do FMI 
teve apoio. Assim, esse processo foi totalmente conduzido pelos bancos privados. Apenas quando 
ocorreu a crise das dívidas, a partir de 1982, é que essa discussão foi retomada. 
O centro do palco da industrialização brasileira nesse momento era a grande empresa estatal. Os 
gigantescos investimentos a cargo de Eletrobrás, Petrobras, Siderbrás, Embratel e outras empresas 
públicas eram o sustentáculo do programa. As empresas estatais, conforme determinação 
governamental, só podiam ter acesso ao sistema financeiro externo, estando impedidas de recorrer 
ao cré- dito interno. Com seus imensos ativos, eram o mercado ideal para o sistema financeiro 
internacional, que já estava reciclando os “petrodólares”, isto é, os imensos excedentes que os 
países árabes exportadores de petróleo começavam a acumular com o aumento dos preços do 
produto. 
 O governo brasileiro e suas grandes empresas passaram a ser praticamente os únicos grandes 
tomadores de recursos do sistema financeiro internacional. Dessa maneira, entraram no país recur- 
sos que financiariam nossos déficits em transações correntes, causados, por sua, vez pelo aumento 
dos déficits das balanças comercial e de serviços. A deficiência desse es- quema de financiamento 
reside no fato de que os empréstimos eram concedidos a taxas de juros flutuantes, em uma 
conjuntura econômica mundial em que já não se efetuavam as taxas de juros reais praticamente 
negativas dos anos 1960. 
Os limites do II PND 
Cumprir um conjunto extremamente amplo de objetivos em um prazo bastante curto revelou-se 
tarefa superior às possibilidades econômicas e políticas do país, em uma conjuntura externa 
adversa. Segundo Lessa, o II PND era impossível de ser implantado em função de seu gigantismo e 
da crise econômica mundial, uma vez que se tratava de um verdadeiro projeto de Nação-potência, 
não apoiado pelas bases sociais de sustentação do regime militar. 
A clássica análise de Antonio Barros de Castro, desenvolvida já na metade dos anos 1980, 
apresentou conclusões opostas às de Lessa. Os grandes projetos do II PND, por sua complexidade e 
longo prazo de maturação, teriam começado a produzir resultados visíveis somente a partir de 1983 
e 1984. As dificuldades econômicas e políticas apontadas por Lessa teriam levado à diminuição do 
ritmo dos investimentos a partir de 1976, mas não à sua paralisação total, nem mesmo durante a 
forte recessão de 1981-1983. 
�48Mesmo os grandes empresários nacionais do setor de bens de capital, considerados os sócios 
estratégicos das estatais para a implantação do II PND, passaram paulatinamente à oposição ao 
governo militar. Após a conclusão da instalação das vultosas plantas industriais, com 
financiamentos subsidiados pelo governo federal, refreou-se o ritmo de implementação do plano e 
transferiu-se parte das prometidas encomendas de bens de capital para o mercado externo, 
aproveitando-se, assim, os financiamentos dos fornecedores, os suppliers credits. 
Essa nova posição política do setor de bens de capital engrossou o coro da oposição empresarial ao 
regime militar, descontente com a direção da política econômica e saudosa dos tempos de intenso 
crescimento da época do milagre econômico. 
Segundo Castro, os objetivos centrais do II PND, que buscavam a superação dos estrangulamentos 
estruturais do setor de bens de produção, seriam assumidos mesmo por um regime democrático, 
uma vez que eram uma decorrência lógica do próprio su- cesso do processo de substituição de 
importações. Apesar do autoritarismo do regime militar e do gigantismo de alguns de seus projetos, 
como a política nuclear, o II PND era uma clara proposta desenvolvimentista. 
A desaceleração e o alongamento do II PND – a colheita nos anos 1980 
A política econômica do governo Geisel manteve o crescimento da economia, embora a taxas bem 
inferiores às do milagre econômico. A onda de investimentos do II PND, porém, refletiu-se em 
déficit em transações correntes e em crescimento da inflação, o que levou as autoridades 
econômicas a optar pela diminuição das taxas de crescimento industrial. A desaceleração da 
implantação do II PND adiou o início das atividades dos grandes projetos nas áreas de energia, 
química pesada, siderurgia etc. A partir de 1983, contudo, seus resultados apareceram na forma de 
um superávit comercial. 
Para alguns autores, embora a recessão de 1981-1983 implicasse um estímulo conjuntural ao 
aumento das exportações e à diminuição das importações, tais superávits comerciais seriam 
decorrentes de uma diminuição estrutural da pauta de importações do país, com destaque para bens 
de capital, petróleo, produtos químicos e fertilizantes. Já outros, creditavam os resultados ao ajuste 
recessivo promovido no período 1981-1983, consequência inevitável da grave crise econômica 
mundial. 
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