Prévia do material em texto
See discussions, stats, and author profiles for this publication at: https://www.researchgate.net/publication/268398763 PESQUISA DE ENDOPARASITAS EM FEZES DE GAMBÁS DO GÊNERO DIDELPHIS NA MATA ATLÂNTICA NO ESTADO .... Article CITATIONS 0 READS 248 14 authors, including: Some of the authors of this publication are also working on these related projects: Active Surveillance on Zoonosis View project Avaliação de saúde de canídeos domésticos e silvestres na Serra do Cipó, MG View project Filipe Aléssio Universidade de Pernambuco 11 PUBLICATIONS 62 CITATIONS SEE PROFILE Maria Fernanda Corporación Universidad de la Costa 16 PUBLICATIONS 33 CITATIONS SEE PROFILE Jean-François Mauffrey Aix-Marseille Université 27 PUBLICATIONS 461 CITATIONS SEE PROFILE Michelle Klein Sercundes University of São Paulo 17 PUBLICATIONS 63 CITATIONS SEE PROFILE All content following this page was uploaded by Michelle Klein Sercundes on 14 January 2015. The user has requested enhancement of the downloaded file. PESQUISA DE ENDOPARASITAS EM FEZES DE GAMBÁS DO GÊNERO DIDELPHIS NA MATA ATLÂNTICA NO ESTADO DE PERNAMBUCO Vanessa de Oliveira Ribeiro1, Daniel Barreto Siqueira2, Filipe Martins Aléssio3, Maria Fernanda Vianna Marvulo4, Jean-François Mauffrey5, Leucio Câmara Alves6, Mariana Karolina Freitas Galindo7, Michelle Klein Sercundes8, Rodrigo Martins Soares9 e Jean Carlos Ramos Silva10 ________________ 1. Primeiro Autor é Estudante de graduação do Curso de Medicina Veterinária, Universidade Federal Rural de Pernambuco. R. Dom Manoel de Medeiros, s/n, Recife, PE, CEP 52171-900. E-mail: vanaribe@yahoo.com.br 2. Segundo Autor é Pós-graduando em Ciência Veterinária (nível mestrado), Universidade Federal Rural de Pernambuco. R. Dom Manoel de Medeiros, s/n, Recife, PE, CEP 52171-900. 3. Terceiro Autor é Pós-Graduando do Laboratoire Population Environnement Developpement, UMR-151, Université de Provence - IRD, Case 10, 3, Place Victor Hugo, Marseille cedex 3, 13331, France. 4. Quarto Autor é Médica veterinária do Instituto Brasileiro para Medicina da Conservação – Tríade. Estrada do Encanamento, n° 1752, apto. 1201, Casa Forte, Recife, PE. CEP. 52070-000. 5. Quinto Autor é Professor do Laboratoire Population Environnement Developpement, UMR-151, Université de Provence - IRD, Case 10, 3, Place Victor Hugo, Marseille cedex 3, 13331, France. 6. Sexto Autor é Professor Adjunto do Departamento de Medicina Veterinária, Universidade Federal Rural de Pernambuco. R. Dom Manoel de Medeiros, s/n, Recife, PE, CEP 52171-900. 7. Sétimo Autor é Residente do Programa de Pós-Graduação em Ciência Veterinária, Universidade Federal Rural de Pernambuco. R. Dom Manoel de Medeiros, s/n, Recife, PE, CEP 52171-900. 8. Oitavo Autor é Pós-Graduanda (nível mestrado) em Epidemiologia Experimental e Aplicada às Zoonoses, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade de São Paulo. Av. Prof. Dr. Orlando Marques de Paiva, 87, Cidade Universitária, São Paulo, SP. CEP. 05508 270. 9. Nono Autor é Professor Doutor do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade de São Paulo. Av. Prof. Dr. Orlando Marques de Paiva, 87, Cidade Universitária, São Paulo, SP. CEP. 05508 270. 10. Décimo Autor é Professor Adjunto do Departamento de Medicina Veterinária, Universidade Federal Rural de Pernambuco. R. Dom Manoel de Medeiros, s/n, Recife, PE, CEP 52171-900. Apoio financeiro: CNPq. Introdução Os marsupiais do Novo Mundo habitam as Américas desde o Sudeste do Canadá até o Sul da Patagônia [1]. Os gambás do gênero Didelphis destacam-se como mamíferos sinantrópicos nativos da Mata Atlântica facilmente encontrados próximos de áreas peridomiciliares [2,3]. No estado de Pernambuco ocorrem duas espécies destes marsupiais: gambá-de- orelha-branca (Didelphis albiventris Lund, 1840) e o gambá-de-orelha-preta (D. aurita Wied-Newied, 1826) que pertencem à Ordem Didelphimorphia e à Família Didelphidae. As espécies de gambás brasileiras possuem hábito noturno e deslocam-se basicamente pelo solo, porém o habitat arbóreo também pode ser utilizado, principalmente à procura de alimento [4]. Sua dieta onívora consiste em frutos, moluscos, insetos, ovos, anfíbios e pequenos répteis, filhotes de pássaros e outras aves e de pequenos mamíferos [5,6,7]. O hábito alimentar generalista dos gambás predispõe à infecção por endoparasitas, podendo estes marsupiais tornarem- se hospedeiros e disseminadores de protozoários e helmintos [5,7,8]. Contudo, os estudos sobre estes agentes e suas parasitoses em Didelphis são escassos e restringem-se na sua maioria à pesquisa com gambá da Virgínia (D. virginiana) [9] nativo da América do Norte, e em espécies nativas em algumas regiões do Brasil [5,10]. De acordo com a literatura consultada não existem estudos sobre ocorrência de endoparasitas em marsupiais de vida livre no Estado de Pernambuco, justificando assim a importância da realização desta pesquisa que teve por objetivo realizar um levantamento coproparasitológico de endoparasitas (helmintos e protozoários) em gambás do gênero Didelphis na Mata Atlântica de Pernambuco. Material e métodos No período de dezembro de 2007 até abril de 2009 foram capturados 77 gambás, sendo 57 D. albiventris (29 machos e 28 fêmeas) e 20 D. aurita (nove machos e 11 fêmeas), dos quais seis eram filhotes, 30 jovens e 41 adultos. Os gambás foram provenientes de seis áreas de Mata Atlântica do Estado de Pernambuco, da Região Metropolitana do Recife e do Centro de Triagem de Animais Silvestres - CETAS do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - IBAMA. As áreas de Mata Atlântica foram: Estação Ecológica de Tapacurá – ESEC, São Lourenço da Mata (latitude: 8° 3'23.12"S, longitude: 35°10'48.53"O); Parque Estadual de Dois Irmãos - PEDI (latitude: 8° 0'20.79"S, longitude: 34°56'51.85"O), Recife; Centro de Instrução Marechal Newton Cavalcanti - CIMNC, Paudalho (latitude: 7°50'23.53"S, longitude: 35° 6'3.97"O); Parque Ecológico São José, Igarassu (latitude: 7°50'19.83"S, longitude: 34°59'52.86"O); Aldeia, Camaragibe (latitude: 7°57'31.86"S, longitude: 34°59'6.99"O) e Estação Ecológica de Caetés, Abreu e Lima (latitude: 7°55'17.23"S, longitude: 34° 55'44.39"O). Cada período de captura teve duração de cinco a seis noites consecutivas e foram realizadas a cada 15 dias, em média, totalizando um esforço de captura de 25.231 armadilhas/noite. Para a captura dos animais utilizou-se armadilhas do tipo Tomahawk (Live trap), confeccionadas com arame nas dimensões 45 x 21 x 21 cm e do tipo Sherman (Live trap). Elas foram dispostas na forma de grid – armadilhas a cada 25m em um retângulo de 200m x 250m totalizando 80 pontos com duas armadilhas em cada e estes pontos foram georreferenciados por um aparelho Global Positioning System (GPS). As armadilhas também foram colocadas a cada 10m em trilhas pré-existentes nas áreas de mata. Para atração dos gambás foram utilizadas iscas como abacaxi, banana e paçoca de amendoim, sendo as armadilhas reiscadas no terceiro dia de captura. As armadilhas foram verificadas diariamente a partir das 5:30h para averiguar a presença de animais. Cada animal do estudo foi identificado por marcação individual com brincos de alumínio (Zootech®) ou com uso da tatuagem na face medial do membro pélvico direito, utilizando-se um tatuador (Meicha 2000 Fuji). As fezes foram colhidas da armadilha ou diretamente da cloaca do animal e colocadas em potes plásticos - coletores universais. Foi adicionado bicromato de potássio 2,5% (K2Cr6O7) às amostras e estas foram deixadas abertas em temperatura ambiente (20-24ºC) em contato com o ar durante cinco dias para esporulaçãodos oocistos dos coccídios. Após este período as fezes foram refrigeradas e, posteriormente, examinadas ao microscópio óptico. As amostras de fezes foram analisadas e processadas individualmente por três métodos coproparasitológicos: método direto, método de Willis e método de centrífugo-flutuação em solução de sacarose (d = 1,203 g/cm3) [11,12]. Os métodos diretos e Willis (flutuação) foram realizados no Laboratório de Doenças Parasitárias do Departamento de Medicina Veterinária – DMV da Universidade Federal Rural de Pernambuco - UFRPE, enquanto o método de centrífugo-flutuação em solução de sacarose (d = 1,203g/cm3) foi realizado no Laboratório de Doenças Parasitárias do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal - VPS da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia - FMVZ da Universidade de São Paulo - USP. Os potes de plásticos (coletores universais) foram enviados refrigerados em caixa isotérmica por correio (Sedex) de Recife para São Paulo, atendendo às normas de biossegurança. Todas as amostras examinadas foram observadas ao microscópio óptico com objetivas de 10x, com confirmação na objetiva de 40x. Por se tratarem de métodos qualitativos, os resultados foram expressos quanto à presença ou ausência das estruturas dos agentes. Este estudo possuiu autorização do órgão competente - Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade - ICMBio - por meio das licenças Números: 10769-1 e 11854-1. Resultados e discussão Das 77 amostras de fezes analisadas pelos três métodos coproparasitológicos, 59 (76,6%) apresentaram ovos de helmintos e oocistos de protozoários sendo consideradas positivas para endoparasitas fecais. Em relação à espécie, 75,4% (43/57) dos indivíduos de D. albiventris e 80% (16/20) dos indivíduos de D. aurita estavam parasitados. Ao todos, 33 dos 39 indivíduos fêmeas (84,6%) estavam parasitados, enquanto nos indivíduos machos, 26 dos 38 animais (68,4%) estavam parasitados. Os indivíduos adultos apresentaram maior frequência de parasitismo, apresentando 80,5% (33/41) de resultados positivos, enquanto os indivíduos jovens e filhotes apresentaram 73,3% (22/30) e 66,7% (4/6) de resultados positivos, respectivamente. Ao todo, foram encontrados Nemathelminthes em 42 amostras (71,2%), Platyhelminthes em uma amostra (1,7%) e Acanthocephala também em uma amostra (1,7%). Com relação aos protozoários foram encontrados animais positivos em 38 amostras (64,4%), entre eles Eimeria sp, Cryptosporidium sp e Cystoisospora sp. A identificação dos Nemathelminthes foi feita em nível de Superfamília e família, encontrando-se Strongyloidea, Trichuroidea, Ascaridae, Oxyuridae e Spiruridae, com exceção do gênero Trichuris sp, cuja identificação foi feita pela particularidade do ovo bioperculado. Os Platyhelminthes foram classificados em nível de Classe, sendo a Cestoda a única encontrada. A classificação do Acanthocephala não pôde ser feita permanecendo a denominação do filo. De acordo com o levantamento de literatura realizado, esta representa a primeira pesquisa de endoparasitas (helmintos e protozoários) da Mata Atlântica da Região Nordeste do Brasil. Da mesma forma, relatamos a primeira descrição de Cystoisospora spp em um D. albiventris no Brasil em um indivíduo macho, jovem procedente da área de Mata Atlântica do Parque Ecológico São José. Novos levantamentos serão realizados para confirmar tal achado. Em nosso estudo, por se tratar de exames coproparasitológicos, não foi possível chegar ao gênero (em helmintos) e à espécie em protozoários. A ocorrência de endoparasitas helmintos e protozoários em gambás do gênero Didelphis procedentes da Região Metropolitana do Recife e da Mata Atlântica de Pernambuco foi mais baixa do que a relatada por outros autores que pesquisaram a presença de helmintos em D. virginiana [8,13] e em D. albiventris [5,7,14], que relataram ocorrência superior a 90,0% de infecção. Este fato pode ser explicado devido à realização, em todos esses trabalhos citados, de eutanásia dos animais e, portanto, pesquisa dos próprios helmintos, e não de seus ovos nas fezes. Quanto à presença de protozoários, o índice de infecção também foi mais baixo se comparado a outros trabalhos, nos quais há relatos de 66,7% (4/6) de ocorrência [15]. No entanto, quando comparamos os resultados deste trabalho com os de outros autores que utilizaram o método de análise fecal, notamos que a freqüência de infecção dos animais deste estudo foi maior do que o observado por Araújo et al. [16] que relatou 46,7% (7/15) de ocorrência de endoparasitas. Conclusões A ocorrência de endoparasitas helmintos e protozoários em gambás do gênero Didelphis procedentes da Região Usuario Realce Usuario Realce Metropolitana do Recife e da Mata Atlântica de Pernambuco foi alta (59 animais, 76,7%). Possivelmente estes marsupiais são reservatórios e disseminadores destes enteroparasitas. Além disso, eles podem carrear os parasitos do ambiente urbano para a mata, ou vice-versa e também se infectarem com parasitas provenientes de outros animais sejam domésticos ou silvestres. Considerando que esses gambás podem estar em contato direto com animais domésticos e o homem devido ao seu hábito peridomiciliar e sinantrópico, é importante direcionar mais estudos a esses marsupiais, já que atualmente tais pesquisas são escassas. Agradecimentos À Universidade Federal Rural de Pernambuco - UFRPE, ao Laboratoire Population Environnement Developpement, UMR-151 IRD, à Université de Provence – ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq (Universal 478.229/2007-0), ao AlBan Program e ao Instituto Brasileiro para Medicina da Conservação – Tríade. Referências [1] Collins, L.R. 1973. Monotremes and Marsupials:. Washington, Smithsonian Institution Press. 323p. [2] Aléssio F.M., Pontes A.R.M., Silva V.L. 2005. Feeding by Didelphis albiventris on tree gum in the Northeastern Atlantic Forest of Brazil. Mastozoología Neotropical. 12:53-56. [3] Graipel. M.E.; Cherem, J.J.; Ximenez, A. 2000. Mamíferos terrestres não voadores da Ilha de Santa Catarina, sul do Brasil. Biotemas, 14: 109-140. [4] Malta M.C.C., Luppi M.M. 2006. Marsupialia: Didelphimorphia. In: CUBAS, Z. S.; SILVA, J. C. R.; CATÃO-DIAS, J. L. (Eds). Tratado de animais selvagens: Medicina veterinária. São Paulo: Roca. p.340-357. [5] Silva M.G.Q., Costa H.M. A. 1999. Helminths of white-bellied opossum from Brazil. Journal of Wildlife Diseases 35:371– 374. [6] Cáceres N.C. 2002. Food habits and seed dispersal by the white-eared opossum Didelphis albiventris in southern Brazil. Studies on Neotropical Fauna and Environment. 37:97–104. [7] Antunes G.M. 2005. Diversidade e potencial zoonótico de parasitas de Didelphis albiventris Lund, 1840 ( Marsupialia: Didelphidae). Acta Scientiae Veterinarie. 33:335-336. [8] Ellis R.D., Pung O.J., Richardson D.J. 1999. Site selection by intestinal helminths of the virginia opossum (Didelphis virginiana). Journal of Parasitology. 85:1-5. [9] Babero, B. B. 1960. Further studies on helminths of the opossum, Didelphis virginiana, with a description of a new species from this host. Journal of Parasitology. 46:455-463. [10] Gomes, D. L., R. P. Cruz, et al. (2003). "Nematode parasites of marsupials and small rodents from the Brazilian Atlantic Forest in the State of Rio de Janeiro, Brazil." Revista Brasileira de Zoologia 20(4): 699-707. [11] Urquhart G.M., Armour J., Duncan J.L. Dunn A.M., Jennings F.W. 1998. Parasitologia veterinária. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan. 274p [12] Ogassawara S., Benassi S., Larsson C.E., Hagiwara M.K. 1986. Prevalência de endoparasitas em gatos na cidade de São Paulo. Revista da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo. 23:39-46.[13] Richardson D.J., Campo J.D. 2005. Gastrointestinal Helminths of the Virginia Opossum (Didelphis virginiana) in South- Central Connecticut, U.S.A. Comp. Parasitology. 72:183-185. [14] Santa Cruz A., Borda T., Montenegro A., Gomes L., Prieto O., Scheibler N. 1999. Estudio de ecto y endo parasitos de Didelphis albiventris (Comadreja overa), Marsupiala, Didelphidae. Comunicaciones Cientificas y Tecnologicas de la de la Secretaria General de Ciencia y Técnica de la Universidad Nacional del Nordeste, Tomo IV, 25 de Octubre de 1999. [15] Zanette R.A., Silva A.S., Lunardi F., Santurio J.M., Monteiro S.G. 2008. Occurrence of gastrointestinal protozoa in Didelphis albiventris (opossum) in the central region of Rio Grande do Sul state. Parasitology International. 57:217-218. [16] Araújo F.A.P., Paiva M.G.S., Chaplin E.L., Silva N.R.S. 1990. Fauna parasitária intestinal de Didelphis marsupialis no município de Porto Alegre. Arquivos da Faculdade de Veterinária da UFRGS. 18:5-11. View publication statsView publication stats Usuario Realce