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161 UNIDADE 3 MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você: • aprenderá o que são formas e sistemas de governo; • saberá distinguir as formas puras de governo das impuras; • entenderá as principais características do Parlamentarismo e do Presiden- cialismo; • conhecerá os modelos de administração pública utilizados; • compreenderá a importância da adoção de modelos eficientes na adminis- tração pública; • aprenderá sobre as principais crises e reformas que aconteceram no Esta- do Brasileiro; • verá a importância da Constituição de 1988; • compreenderá os benefícios trazidos pela aprovação da Lei de Responsa- bilidade Fiscal. Esta unidade está dividida em três tópicos. No final de cada um deles você encontrará atividades que reforçarão o seu aprendizado. TÓPICO 1 – FORMAS E SISTEMAS DE GOVERNO TÓPICO 2 – MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA TÓPICO 3 – CRISES E REFORMAS DO ESTADO 162 163 TÓPICO 1 FORMAS E SISTEMAS DE GOVERNO UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Caro(a) acadêmico(a), você já aprendeu que a convivência em grupo faz parte da vida do homem desde seu início. Aprendeu, também, que foi necessário criar uma entidade que primasse pelo bem da coletividade, surgindo assim, o Estado. E que o funcionamento do Estado só acontece através do governo. Agora você aprenderá sobre as formas e sistemas de governo. Forma de governo é a maneira como se estabelece o poder e a relação entre governantes e governados. As formas de governo são: monarquia, aristocracia e democracia. Para Dallari (2011, p. 222): “A organização das instituições que atuam no poder soberano do Estado e nas relações entre essas instituições fornecem a caracterização das formas de governo.” As formas de governo podem ser puras ou impuras. As formas de governo puras e impuras serão estudadas de forma detalhada nas próximas páginas. Além das formas de governo temos também os sistemas de governo. O sistema de governo representa a forma como os poderes Legislativo e Executivo se relacionam na prática das funções governamentais. Os sistemas de governo são: presidencialismo e parlamentarismo. ESTUDOS FU TUROS UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 164 2 FORMAS PURAS DE GOVERNO Chamamos de formas puras de governo as formas boas de governo, ou seja, aquelas que buscam o bem comum. A classificação das formas de governo recebeu influência dos filósofos Aristóteles, Maquiavel e Montesquieu. Conforme Bächtold (2008, p. 20-21): “A administração pública exige que seja adotada uma forma de governo que é o modo pelo qual o poder se organiza e se exerce. São três as tipologias clássicas das formas de governo: a de Aristóteles, a de Maquiavel e a de Montesquieu.” Para que se possa chegar a uma definição sobre as formas puras de governo, precisamos primeiramente compreender a ideia de cada um desses filósofos. É importante entender que a classificação das formas de governo é feita levando-se em consideração três critérios: o do número de titulares do poder soberano, o da separação de poderes com rigorosa fixação de suas respectivas relações e o dos princípios essenciais que animam as práticas governativas e consequente exercício limitado ou absoluto do poder estatal. (BONAVIDES, 2010). Vamos começar pela classificação de Aristóteles, considerada a mais antiga dos três, foi baseada no número de governantes. Segundo Dallari (2011, p. 223, grifo do autor): Distingue ele [Aristóteles] três espécies de governo: a realeza, quando é um só indivíduo que governa; a aristocracia, que é o governo exercido por um grupo, relativamente reduzido em relação ao todo; e a democracia (ou república, segundo alguns tradutores), que é o governo exercido pela própria multidão no interesse geral. Aristóteles, também, foi quem classificou as formas de governo em puras e impuras. Para ele “Governos puros são [...] aqueles em que os titulares da soberania, quer se trate de um, de alguns ou de todos, exercem o poder soberano tendo invariavelmente em vista o interesse comum [...].” (BONAVIDES, 2010, p. 209). As formas de governo realeza ou monarquia, aristocracia e democracia são as formas puras de governo na classificação de Aristóteles. A classificação das formas de governo para Maquiavel pode ser compreendida já no início de sua famosa obra O Príncipe, onde ele classifica as formas de governo em duas: monarquia, onde o poder é singular, e república, onde o poder é de todos. A república abrange ainda a aristocracia e a democracia. (BONAVIDES, 2010). Observe que a classificação de Maquiavel não contraria a de Aristóteles, apenas a apresenta de duas formas: monarquia e república, ficando a aristocracia dentro da república. TÓPICO 1 | FORMAS E SISTEMAS DE GOVERNO 165 Montesquieu, por sua vez, considera que: Em toda forma de governo distingue [...] a natureza e o princípio desse governo. A natureza do governo se exprime naquilo que faz com que ele seja o que é. O princípio do governo, por sua vez, vem a ser aquilo que o faz atuar, que anima e excita o exercício do poder: as paixões humanas, por exemplo. São formas de governo: a república, a monarquia e o despotismo [...]. (BONAVIDES, 2010, p. 210, grifo do autor). Veja no quadro a seguir as formas de governo apontadas por Montesquieu de acordo com sua natureza e princípio: QUADRO 7 – FORMAS DE GOVERNO APONTADAS POR MONTESQUIEU DE ACORDO COM SUA NATUREZA E PRINCÍPIO Forma de governo Natureza Princípio República (compreende democracia e aristocracia) Democracia – a soberania fica nas mãos do povo. Virtude, traduzida no amor à pátria e na igualdade. Aristocracia – a soberania pertence a alguns. A moderação dos governantes. Monarquia G o v e r n o d e u m s ó ( a organização acontece através de grupos intermediários como o clero, a justiça e a nobreza). Está no sentimento da honra, no amor das distinções, esse amor é com relação à posição, ao título. A honra desperta nos servidores da coroa a fidelidade pessoal e a dedicação. Despotismo Ignorância ou transgressão da lei. Reside no medo. Exist indo desconfiança, insegurança, as relações entre governantes e governados se fazem à base do temor recíproco. O governo nega a liberdade ao povo e também o teme. FONTE: Baseado em Bonavides (2010). Importante observar que na classificação de Montesquieu aparece uma terceira forma de governo, que até então não havia sido apontada nem por Aristóteles, nem por Maquiavel, o despotismo. UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 166 “des.po.tis.mo sm 1 Poder absoluto e arbitrário. 2 Opressão.” (MELHORAMENTOS MINIDICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA, 1997, p. 161). Após conhecer as ideias de cada um desses filósofos acerca das formas puras de governo, vamos estudar com maior ênfase as duas formas que são apontadas pelos três: a monarquia e a república (considerando que dentro da república temos a democracia e a aristocracia). A seguir, você conhecerá as principais características dessas formas de governo. 2.1 MONARQUIA Dentre as formas de governo monarquia e república, a monarquia é a mais antiga e a que foi adotada em praticamente todos os estados do mundo, uma vez que, os reis predominaram por muitos e muitos anos, até mesmo no Brasil, onde essa forma de governo perdurou por 70 anos. O Brasil é o único país das Américas que teve um regime monárquico estável e reconhecido mundialmente. Haiti e México também tiveram suas experiências monárquicas, mas estas duraram pouco, tendo nenhuma relevância na história de ambos. O período monárquico brasileiro, que durou de 1822, ano da independência do país,até 1889, quando foi proclamada a República dos Estados Unidos do Brasil, marcou de forma indelével a história nacional. (SANTIAGO, 2014). Conforme Dallari (2011), a monarquia foi aos poucos sendo enfraquecida e abandonada, entretanto, com o surgimento do Estado Moderno houve a necessidade de governos fortes e isso favoreceu seu ressurgimento, na época como monarquia absoluta. Porém, a resistência ao absolutismo foi crescendo e no final do século XVIII surgiram as monarquias constitucionais, onde o rei governa, mas deve obedecer limites estabelecidos na constituição. Outra situação que limitou o poder do rei foi a adoção do sistema parlamentar de governo, em que o monarca passa a figurar como chefe de estado, apenas representando, não mais governando, pois o poder de governar é passado para um gabinete de ministros. NOTA IMPORTANT E TÓPICO 1 | FORMAS E SISTEMAS DE GOVERNO 167 Atente que na monarquia, sempre existirá a figura do rei, entretanto, com a criação do gabinete de ministros, o poder não está mais nas mãos de apenas uma pessoa. Para entender melhor como funciona a monarquia atualmente, vamos utilizar como exemplo a Inglaterra, onde a Rainha Elizabeth II exerce a função de Chefe de Estado, e David Cameron que exerce a função de Primeiro-Ministro. São características fundamentais da monarquia: vitaliciedade, hereditariedade e irresponsabilidade. Conforme Dallari (2011, p. 225, grifo do autor): Vitaliciedade. O monarca não governa por um tempo certo e limitado, podendo governar enquanto viver ou enquanto tiver condições para continuar governando. Hereditariedade. A escolha do monarca se faz pela simples verificação da linha de sucessão. Quando morre o monarca ou deixa o governo por qualquer outra razão, é imediatamente substituído pelo herdeiro da coroa. Houve alguns casos de monarquias eletivas, em que o monarca era escolhido por meio de eleições, podendo votar apenas os príncipes eleitores. Mas a regra sempre foi a hereditariedade. Irresponsabilidade. O monarca não tem responsabilidade política, isto é, não deve explicações ao povo ou a qualquer órgão sobre os motivos pelos quais adotou certa orientação política. Vamos usar como exemplo a coroa britânica, a Rainha Elizabeth II está no poder há 61 anos, e não existe previsão alguma para deixá-lo e quando isso acontecer herdará o trono seu filho, Charles. Evidentemente, existem grupos que são a favor da monarquia e outros que são contra, em função de suas características. O quadro a seguir aponta os argumentos de quem é a favor e contra essa forma de governo. QUADRO 8 – ARGUMENTOS DE QUEM É A FAVOR E CONTRA ESSA FORMA DE GOVERNO Argumentos a favor Argumentos contra Sendo vitalício e hereditário, o monarca está acima das disputas políticas, podendo assim intervir com grande autoridade nos momentos de crise política. Se o monarca não governa é uma inutilidade, geralmente muito dispendiosa, que sacrifica o povo sem qualquer proveito. O monarca é um fator de unidade do Estado, pois todas as correntes políticas têm nele um elemento superior, comum. A unidade do Estado e a estabilidade das instituições não podem depender de um fator pessoal, mas devem repousar na ordem jurídica, que é um elemento objetivo e muito mais eficaz. UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 168 FONTE: Adaptado de: Dallari (2011, p. 225-226) Não se pode negar que toda forma de governo possui vantagens e desvantagens, e em se tratando de pessoas, nunca será possível agradar a todos. O fato é que a monarquia realmente tem alto custo, frequentemente ouvimos nos noticiários sobre os custos altíssimos de se manter um governo monárquico, apesar disso, a Revista Veja apontou em uma de suas reportagens sobre a família real britânica que: “Uma pesquisa recente mostrou que hoje míseros 13% defendem o fim das cabeças coroadas.” (Edição de 27 de abril de 2011, p. 98). Afinal, qual o segredo para fazer tanto sucesso? Na mesma reportagem acima citada, encontramos uma possível resposta para isso: A capacidade de resistência e de adaptação da monarquia, além da relação primal que os britânicos têm com ela, explicada mais pela narrativa mitológica do que pela lógica política, é objeto de constantes e nunca inteiramente satisfatórias explicações. A mais simples delas opera no campo dos arquétipos imemorialmente moldados no inconsciente coletivo. [...] Imperadores, reis, rainhas e princesas continuam a fascinar a humanidade muitíssimo tempo depois que o sistema de um único governo hereditário, mais ou menos contemporâneo da emergência dos estados nacionais, deixou de ter utilidade como fator unificador. (VEJA, 2011, p. 98-99). É importante lembrar que o sistema de governo adotado na monarquia é o Parlamentarismo, que será estudado mais adiante. Sendo o ponto de encontro das correntes políticas, e estando à margem das disputas, o monarca assegura a estabilidade das instituições. Se o monarca efetivamente governa, será extremamente perigoso ligar o destino do povo e do Estado à sorte de um indivíduo e de sua família. Mesmo com a educação especial que se ministra ao herdeiro da coroa, não têm sido raros os exemplos de monarcas desprovidos das qualidades de liderança e de eficiência que se exigem de um governante. Além disso tudo, o monarca é alguém que, desde o nascimento, recebe uma educação especial, preparando-se para governar. Na monarquia não há, portanto, o risco de governantes despreparados. A monarquia é essencialmente antidemocrática, uma vez que não assegura ao povo o direito de escolher seu governante. E como o monarca é hereditário, vitalício e irresponsável dispõe de todos os elementos para sobrepor sua vontade a todas as demais, desaparecendo, pois, a supremacia da vontade popular, que deve ser mantida permanentemente nos governos democráticos. TÓPICO 1 | FORMAS E SISTEMAS DE GOVERNO 169 Confira a lista de países que adotam a monarquia como forma de governo: Andorra, Arábia Saudita, Austrália, Bahrain, Bélgica, Brunei, Butão, Camboja, Canadá, Dinamarca, Emirados Árabes Unidos, Espanha, Jamaica, Japão, Jordânia, Lesoto, Liechtenstein, Luxemburgo, Malásia, Marrocos, Mônaco, Nepal, Noruega, Nova Zelândia, Omã, Países Baixos, Qatar, Reino Unido, Suazilândia, Suécia, Tailândia, Tonga e Vaticano. FONTE: Disponível em: <http://www.causaimperial.org.br/index.php/arquivos/1159>. Acesso em: 14 jan. 2014. 2.2 REPÚBLICA Na forma de governo república está contida a democracia. É importante compreender que nessa forma de governo o poder está nas mãos do povo, que o exerce sempre na busca pelo bem comum. É bem verdade que esse poder está nas mãos do povo de forma indireta, uma vez que este escolhe seus representantes em eleições e esperam que os eleitos os representem de forma satisfatória. Conforme Dallari (2011, p. 226, grifo do autor): “A república, que é a forma de governo que se opõe à monarquia, tem um sentido muito próximo do significado de democracia, uma vez que indica a possibilidade de participação do povo no governo.” A república resultou das lutas contra a monarquia absoluta e pela afirmação da soberania popular. Essas lutas iniciaram no século XVIII, onde vários teóricos buscavam a extinção da monarquia. Paralelo às críticas à monarquia aumentava a reivindicação do povo por maior participação no governo, surgindo a república, cujos benefícios eram: a limitação do poder dos governantes e a atribuição de responsabilidade política. Dentre as vantagens da república estavam: a possibilidade de substituir os governantes periodicamente e a aproximação do povo com o governo. (DALLARI, 2011). São características fundamentais da república: temporariedade, eletividade e responsabilidade. Se você lembrar as características fundamentaisda monarquia verá que são exatamente opostas. De acordo com Dallari (2011, p. 227, grifo do autor): Temporariedade. O Chefe do Governo recebe um mandato, com o prazo de duração predeterminado. E, para evitar que as eleições reiteradas do mesmo indivíduo criasse um paralelo com a monarquia, estabeleceu-se a proibição de reeleições sucessivas. IMPORTANT E UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 170 Eletividade. Na república o Chefe do Governo é eleito pelo povo, não se admitindo a sucessão hereditária ou por qualquer forma que impeça o povo de participar da escolha. Responsabilidade. O Chefe do Governo é politicamente responsável, o que quer dizer que ele deve prestar contas de sua orientação política, ou ao povo diretamente ou a um órgão de representação popular. Observe que a forma de governo utilizada no nosso país é a república, proclamada em 15 de novembro de 1889. Nossos governantes são eleitos para um mandato com prazo determinado e possuem responsabilidade sobre seus atos, devendo prestar contas de tudo que fazem. Na república a maior autoridade do país é o presidente, eleito pelo povo, no caso do Brasil, para um mandato de 4 anos, podendo ser reeleito apenas uma vez, isso quer dizer que um presidente poderá ocupar o cargo por no máximo 8 anos consecutivos. São muitos os países que utilizam a república como forma de governo, entre eles: Brasil, Estados Unidos, Alemanha, Argentina, África do Sul, Chile, Uruguai, Equador, Itália, Israel, Líbano, Peru e Polônia. Estando a democracia contida na república, faz-se necessário, aqui, conhecermos um pouco mais sobre ela. Conforme Gomes (2014, grifo da autora) democracia: “É o governo do povo, para o povo, pelo povo”. “Governo do povo” quer dizer governo com um sentido popular; “para o povo” significa que o objetivo é o bem do povo; “pelo povo” quer dizer realizado pelo próprio povo. Na democracia é o povo quem toma as decisões políticas importantes (direta ou indiretamente por meio de representantes eleitos). A ideia da democracia surgiu na Grécia. Lá, o governo era realmente exercido pelo povo, que se reunia nas ruas para tratar dos assuntos relativos à comunidade, esse tipo de democracia é denominado democracia direta. Com o tempo a população foi aumentando, não sendo mais possível reunir todos e tomar as decisões, por isso, a democracia evoluiu de direta para representativa, onde o povo se reunia e escolhia através do voto seus representantes. IMPORTANT E TÓPICO 1 | FORMAS E SISTEMAS DE GOVERNO 171 As características da democracia podem variar de país para país. Segundo Gomes (2014): “Não é possível contabilizar quantas democracias existem no mundo, mas estima-se que existam mais de 120.” A autora cita também algumas características de uma democracia: “[...] liberdade individual, igualdade perante a lei sem distinção de sexo, raça ou credo, direito ao voto, educação e direito ao livre exercício de qualquer trabalho ou profissão.” Vivemos numa democracia representativa, onde escolhemos nossos representantes de tempos em tempos através do voto, além disso, das características da democracia apontadas por Gomes, podemos dizer que todas estão presentes na nossa. 3 FORMAS IMPURAS DE GOVERNO QUADRO 9 – FORMAS PURAS E IMPURAS DE GOVERNO Forma Pura Passa a ser impura A monarquia Tirania, governo de um só que vota o desprezo da ordem jurídica. A aristocracia Oligarquia, plutocracia ou despotismo, como governo do dinheiro, da riqueza desonesta, dos interesses econômicos antissociais. A democracia Demagogia, governo das multidões rudes, ignaras e despóticas. FONTE: Adaptado de: Bonavides (2010, p. 209) “Chama-se tirania o governo conduzido por um tirano, onde determinada população é oprimida e tem seu livre arbítrio retirado, transformando-se em peças em um jogo de poder.” (SANTIAGO, 2014). Um governo tirânico não se importa em oprimir a população, além disso, utilizará de violência para atingir seus objetivos e manter-se no poder. UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 172 De acordo com Santiago (2014): Uma forma comum de implantação do modelo tirânico de governo começa com o controle e distribuição de falsas informações, por exemplo, com a instituição de ministérios da propaganda chamados de “informação pública” ou “marketing”. Outra manobra comum é a da fraude eleitoral, usada para impedir a eleição de reformadores. O tirano irá se utilizar ainda da usurpação de poderes, controle das forças armadas, militarização da aplicação da lei, com medidas aparentemente fortes, como a declaração de uma “guerra contra o crime”, por exemplo, que acaba por gerar uma guerra contra as liberdades civis. Outras formas básicas da tirania é a instituição da prática de espionagem e vigilância interna, supressão de pesquisadores e denunciantes, além da criação de uma classe de funcionários acima da lei. Não faltam exemplos de tiranos pelo mundo, dentre eles, podemos citar Hugo Chavez, ex-presidente da Venezuela, falecido no ano de 2013. Agora vamos estudar um pouco sobre a oligarquia. Oligarquia é um governo de poucas pessoas que exercem o poder em benefício próprio. De acordo com Pacievitch (2014): A palavra oligarquia tem origem grega, e significa literalmente, governo de poucos. [...] O próprio Platão cita em uma de suas obras, os governos oligárquicos da Grécia Antiga, como o dos Trinta Tiranos. Com o aumento do comércio internacional e o crescimento e concentração de riquezas nas mãos de poucos, surgem mais oligarquias, como por exemplo, a oligarquia da família Médice, em Florença, que atingiu seu apogeu entre os séculos XV e XVII. A oligarquia faz parte da história de vários países, inclusive do Brasil. Você já ouviu falar na época chamada política café-com-leite? Pois foi nessa época que a oligarquia prevaleceu no Brasil, entre os anos de 1889 e 1930. Segundo Pacievitch (2014): Nesse período, os “coronéis” de São Paulo e Minas Gerais faziam um revezamento no comando do Brasil, estabelecendo, dessa forma, uma oligarquia. Esses “coronéis” eram os grandes cafeicultores de São Paulo e os grandes pecuaristas, produtores de leite, em Minas Gerais. O PRP (Partido Republicano Paulista) e o PRM (Partido Republicano Mineiro) controlavam as eleições, e alternadamente elegiam o presidente da República, civis ligados ao setor agrário. As políticas nesse período favoreciam o setor agrícola, sobretudo o café (os fazendeiros paulistas) e o leite (os produtores mineiros), daí o nome “política café-com-leite”. TÓPICO 1 | FORMAS E SISTEMAS DE GOVERNO 173 Infelizmente, enquanto esses dois estados foram privilegiados com esse sistema, outras regiões do país acabaram sendo prejudicadas, agravando ainda mais seus problemas sociais. A plutocracia, por sua vez, pode ser considerada uma forma de oligarquia. Plutocracia, palavra de origem grega, significa governo da riqueza, sendo um sistema político onde o poder está concentrado nas mãos daqueles que detém as fontes de riqueza da sociedade. A plutocracia acontece quando os representantes políticos atendem interesses apenas daqueles que os apoiaram financeiramente no processo eleitoral, deixando de representar os interesses de toda a população. (GASPARETTO JUNIOR, 2014). Esse financiamento em troca de favores após a eleição é irregular, é crime, mas infelizmente, ainda estamos longe de conseguir fazer com que essa prática seja extinta, muitos candidatos são eleitos devido a esses financiamentos e quando assumem o cargo trabalham de acordo com as vontades de quem financiou sua campanha. No Brasil, um caso de financiamento irregular de partidos políticos aconteceu durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ficou conhecidocomo Caixa Dois. Esta foi uma das práticas inseridas no processo de maior amplitude conhecido como Mensalão, que ficou conhecido como um dos casos de corrupção mais graves e emblemáticos da história do país. FONTE: GASPARETTO JUNIOR, Antonio. Disponível em: <http://www.infoescola.com/ formas-de-governo/plutocracia/>. Acesso em: 25 fev. 2014. Vimos anteriormente o conceito de despotismo, agora vamos ver como essa forma funciona na prática. No despotismo o governo é concentrado nas mãos de apenas uma pessoa, onde essa pessoa faz o que quer e como quer. Segundo Gasparetto Junior (2014): O Despotismo constitui uma das formas mais autoritárias de se governar um Estado ou uma nação. É uma categoria de governo que se assemelha à ditadura ou à tirania, mas o governante não precisa se esforçar para sobrepor-se ao povo, pois o povo é vetado para se expressar, não sabe o que fazer e, principalmente, é tratado como escravo. Assim, há o governo sem leis e regras de um único indivíduo no despotismo, no qual tudo depende de suas vontades. NOTA UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 174 Essa forma de governo é muito antiga. Você consegue lembrar nomes de governantes déspotas? De acordo com Gasparetto Junior (2014), o despotismo na sua forma tradicional foi praticado por: Napoleão, Mussolini, Hitler, Stalin, Perón, Fidel Castro, Pinochet e Sadam Hussein. O Brasil teve dois governos despóticos: o do Marechal Floriano Peixoto e do ditador Getúlio Vargas. Observe como essa forma de governo é injusta para com o povo, afinal, quem governa está administrando o dinheiro do povo, logo, este tem o direito de dar sua opinião e de ter suas necessidades básicas supridas (leia-se aqui: saúde, educação e segurança) não podendo ficar refém das vontades de apenas uma pessoa. E para terminar a etapa de estudos sobre as formas impuras de governo, vamos ao estudo da demagogia. Conforme Gasparetto Junior (2014), a palavra demagogia, de origem grega, significa a arte de conduzir o povo. E, inicialmente, representava o indivíduo que tinha a capacidade de conduzir o povo. Aos poucos a palavra demagogia passou a ser usada para descrever políticos que prometem, mas não cumprem com sua palavra. Ora, se demagogia é prometer e não cumprir, no Brasil, muitos de nossos políticos são demagogos! O demagogo utiliza-se das emoções da população para atingir fins políticos que não beneficiam a população, mas ainda assim, eles fazem com que o povo acredite que tudo está perfeito. Nesse sentido, Gasparetto Junior (2014) afirma: Atualmente, no Brasil, a imagem cultural construída em torno do homem político na sociedade gira muito em torno da Demagogia. A descrença do brasileiro com a política é muito grande e é comum de se encontrar declarações que condenem todos os políticos, sem exceção. Quando se ouve dizer que os políticos buscam por apoio do eleitorado e prometem grandes medidas ou fazem grandes propostas para aumentar a popularidade, mas, na prática, agem apenas em benefício próprio, isso é uma acusação típica de Demagogia. Na sua cidade existe algum demagogo? Acreditamos que você já pensou em alguns que conhece logo que começou a estudar sobre o que significa a demagogia. O fato é que a grande maioria das pessoas gosta de ter poder, e para conseguir isso, não mede consequências. É preciso que nós, eleitores, fiquemos bem atentos para evitar que esse tipo de político chegue ao poder, precisamos lutar contra as formas impuras de governo, só assim, as boas formas prevalecerão e beneficiarão a coletividade. NOTA TÓPICO 1 | FORMAS E SISTEMAS DE GOVERNO 175 4 SISTEMA DE GOVERNO: PARLAMENTARISMO No início deste tópico você viu que o sistema de governo é a maneira como se relacionam os poderes Legislativo e Executivo no exercício das funções governamentais, e que existem dois sistemas: o parlamentarismo e o presidencialismo. Vale acrescentar que no parlamentarismo existe maior colaboração entre os poderes, enquanto no presidencialismo existe maior independência. Antes de explicar como funciona o parlamentarismo na prática é preciso que se faça um resumo de como surgiu esse sistema de governo. De acordo com Dallari (2011, p. 229, grifo do autor): O parlamentarismo foi produto de uma longa evolução histórica, não tendo sido previsto por qualquer teórico, nem se tendo constituído em objeto de um movimento político determinado. Suas características foram se definindo paulatinamente, durante muitos séculos, até que se chegasse, no final do século XIX, à forma precisa e bem sistematizada que a doutrina batizou de parlamentarismo [...]. O berço desse sistema de governo é a Inglaterra, talvez se deva isso ao fato desse país ainda utilizar o sistema. Para sua melhor compreensão vamos elaborar aqui um quadro com os anos e principais acontecimentos que resultaram no parlamentarismo. QUADRO 10 - ANOS E PRINCIPAIS ACONTECIMENTOS QUE RESULTARAM NO PARLAMENTARISMO Ano Acontecimentos 1265 Simon de Montfort, nobre francês, neto de inglesa e grande amigo de barões e eclesiásticos ingleses, chefiou uma revolta contra o rei da Inglaterra, Henrique III, realizando uma reunião que muitos apontam como a criação do parlamento. Simon deu à reunião caráter de assembleia política, reunindo pessoas de igual condição política, econômica e social. Nesse mesmo ano Simon morreu em combate, mas os cavaleiros (nobres que não eram pares do reino), cidadãos e burgueses continuaram se reunindo. 1295 O Rei Eduardo I oficializou essas reuniões, consolidando a criação do Parlamento. 1332 Começa a se definir a criação de duas Casas do Parlamento. Os barões, que eram pares do reino, continuavam a realizar suas assembleias, às quais o clero não mais comparecia. E os cavaleiros, cidadãos e burgueses, designados commoners, formaram sua própria assembleia, que seria a Câmara dos Comuns. UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 176 1 6 8 8 - 1689 A Revolução Inglesa resultou na expulsão do rei Católico Jaime II, este foi substituído por Guilherme de Orange e Maria, ambos protestantes. A partir de 1688 o Parlamento se impõe como a maior força política, chegando ao ponto de alterar a linha de sucessão com a exclusão do ramo católico dos Stuarts, isso teria sérias consequências futuramente. Durante o reinado de Guilherme e Maria e também de sua sucessora Ana, tornou-se hábito a convocação pelo soberano de um Conselho de Gabinete, o conselho era formado por um corpo restrito de conselheiros privados, consultados regularmente sobre assuntos de relações exteriores. 1714 Rainha Ana falece no mês de agosto, subindo ao trono o príncipe alemão Jorge, com o título de Jorge I. Nem ele e tampouco seu sucessor Jorge II conheciam os problemas políticos ingleses e também não revelavam interesse em tê-lo. Nenhum dos dois falava inglês e ao se dirigirem ao Parlamento falavam em latim. A consequência disso foi que o Gabinete continuou a se reunir e a tomar decisões sem a presença do rei. Dentre os ministros do Gabinete, um deles foi se destacando, liderando o Gabinete e expondo e defendendo suas decisões perante o Parlamento, esse ministro era Roberto Walpole, que ironicamente foi chamado de Primeiro-Ministro, pois se destacava dos demais e controlava o rei. A atuação de Walpole foi decisiva para a redução da participação e da autoridade do monarca nas decisões políticas, delineando um dos pontos básicos desse sistema de governo: a distinção entre o Chefe de Governo (Primeiro-Ministro) e o Chefe de Estado (monarca). 1757 John Wilkes, agitador político influente junto às classes mais pobres, foi eleito para a Câmara dos Comuns. Logo que assumiu, Wilkes adotou atitude de hostilidade em relação ao monarca. Isso fez comque fosse acusado de sedição na Câmara dos Lordes resultando na sua expulsão da Câmara dos comuns após a condenação na Câmara dos Lordes. 1770 Na tentativa de reagir contra a submissão da coroa ao Parlamento, o Rei Jorge III escolheu para Primeiro-Ministro Lord North, chamando para si a responsabilidade pela fixação da política do Estado. 1774 John Wilkes foi reeleito para a Câmara dos Comuns, essa reeleição gerou polêmicas sobre a validade da eleição, mas para afirmar sua independência e autoridade, a Câmara dos Comuns o acolheu e ainda o designou Lord Mayor de Londres, ou seja, prefeito. Dois anos depois, as colônias norte-americanas conquistaram sua independência (apoiada por Wilkes) fornecendo pretextos para ataques ao rei e seus conselheiros políticos, acusados de incapacidade para fixar a política do Estado. 1782 O monarca se viu obrigado a demitir Lord North, ficando estabelecido que a escolha do Primeiro-Ministro deveria ser aprovada pela Câmara dos Comuns. Estabelecia- se a supremacia da representação popular. FONTE: Adaptado de: Dallari (2011, p. 229-231) TÓPICO 1 | FORMAS E SISTEMAS DE GOVERNO 177 Além de aprovar a escolha do Primeiro-Ministro, o Parlamento vendo sua força começou a pressionar os ministros a se demitirem quando discordavam de sua política. Inicialmente usaram o impeachment, instituto de direito penal, para afastar os indesejáveis. Os ministros eram acusados de um delito, reconhecida a culpa era declarado o impeachment, perdendo o ministro o ministério e recebendo uma pena. Com o tempo, os ministros foram percebendo que era melhor deixar o cargo quando o Parlamento manifestasse descontentamento com a política por eles adotada. Nascendo, dessa forma, a responsabilidade política, com a obrigatoriedade de demissão sempre que receber um voto de desconfiança. (DALLARI, 2011). Ora, se a escolha do Primeiro-Ministro depende da aprovação do Parlamento, isso quer dizer que o Primeiro-Ministro sempre representará a maioria do Parlamento e ficará no cargo enquanto essa situação permanecer. Quando o Parlamento for composto por apenas dois partidos o Primeiro- Ministro será o representante do partido com maior número de cadeiras, é o que acontece no sistema britânico, entretanto, num sistema pluripartidário, é preciso que os partidos façam coligações para compor a maioria parlamentar e daí escolher um Primeiro-Ministro. (DALLARI, 2011). Agora que você viu como surgiu o parlamentarismo, vamos ver suas principais características e trazer exemplos práticos para facilitar seu entendimento. São características do parlamentarismo: a) Pode ser utilizado em monarquias e repúblicas. b) Existe o Chefe de Estado (rei ou presidente), este não participa das decisões políticas, apenas representa o Estado. c) E o Chefe de Governo (primeiro-ministro) que é a figura central do parlamento, é ele que exerce o poder executivo e tem responsabilidade política, o tempo de permanência do primeiro-ministro não tem limite, pode durar 2 dias, meses ou anos, enquanto este tiver a maioria parlamentar a favor e não receber o voto de desconfiança, permanece no poder. (DALLARI, 2011). IMPORTANT E UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 178 Veja um exemplo prático onde aparecerão essas características, para isso, vamos usar o governo britânico. A forma de governo da Inglaterra é a monarquia, logo, o sistema de governo só pode ser o parlamentarismo. A Rainha Elizabeth II é a Chefe de Estado, não participando das decisões políticas, apenas representando o Estado. Enquanto a função de Chefe de Governo é exercida pelo Primeiro-Ministro David Cameron, este sim toma decisões políticas, exerce o poder executivo. O parlamento é composto por duas casas: a Câmara dos Lordes e a Câmara dos Comuns. O Primeiro-Ministro está à frente do gabinete, que serve de intermediário entre o Chefe de Estado (rei) e o Parlamento. (BONAVIDES, 2010). São funções do Primeiro-Ministro segundo Bonavides (2010, p. 350): “[...] organizar o gabinete, dirigi-lo, presidir-lhe às sessões, chefiar o partido majoritário, exercer a liderança parlamentar, tratar diretamente com o rei, ou Chefe de Estado, servir de intermediário entre o ministério e a Coroa ou a Presidência da República, enfim, assumir a direção de todos os negócios de governo e obter sempre o apoio da maioria, demonstrando para tanto a necessária habilidade e competência como líder parlamentar.” Ainda sobre o Chefe de Governo, saiba que ele “[...] é convidado pelo chefe de Estado [rei] para compor o governo e aprovado parlamento, recebendo o título de primeiro-ministro (Inglaterra), chanceler (Alemanha) ou presidente do conselho (Espanha).” (BÄCHTOLD, 2008, p. 22). 5 SISTEMA DE GOVERNO: PRESIDENCIALISMO O presidencialismo é o sistema de governo adotado pelo Brasil desde a proclamação da república, em 15 de novembro de 1889. Vale acrescentar que esse sistema só pode ser usado em estados que tenham como forma de governo a república. O presidencialismo assim como o parlamentarismo não foi produto de uma criação teórica, não existe autor ou livro estipulando sua criação ou suas características, mas ao contrário do que ocorreu no parlamentarismo, esse sistema não demorou muito para ser elaborado. O presidencialismo foi criado pelos norte- americanos durante o século XVIII, resultando da aplicação das ideias democráticas, concentradas na liberdade e na igualdade dos indivíduos e na soberania do povo. Os americanos buscaram criar um sistema que impedisse a concentração de poder, uma vez que não tinham boas lembranças da época em que eram subordinados ao rei da Inglaterra, por isso, aplicaram com o máximo de rigor a teoria da separação dos poderes. (DALLARI, 2011). ATENCAO TÓPICO 1 | FORMAS E SISTEMAS DE GOVERNO 179 Ora, se os americanos estavam descontentes com a subordinação ao monarca, nada mais natural que criassem um sistema oposto ao que foram obrigados a conviver durante muito tempo. Nesse novo sistema, a teoria da separação dos poderes foi colocada em prática, daí podemos dizer que o presidencialismo é um sistema onde o executivo não depende do legislativo. Cada um dos poderes tem sua função bem definida. Para relembrar os poderes são: executivo (governa, executa as leis), legislativo (elabora as leis) e judiciário (garante a aplicação das leis). Para que você entenda a independência do poder executivo em relação ao legislativo veja o que afirma Bonavides (2010, p. 319): O Presidente [...] recebe da Nação soberana os seus poderes, quase sempre por sufrágio universal direto, o que de uma parte aumenta-lhe o prestígio da investidura pela origem imediatamente democrática do poder público que desfruta e doutra parte lhe afiança posição de inteira independência política perante a esfera do poder legislativo. Para entender esse sistema é preciso conhecer suas principais características. Observe no quadro a seguir: QUADRO 11 – SISTEMA PRESIDENCIALISTA Característica Breve explicação O Presidente é Chefe do Estado e Chefe do governo. Além de representar o Estado, o Presidente exerce a chefia do poder executivo, tomando decisões políticas. A chefia do executivo é unipessoal. Quem estabelece as diretrizes do poder executivo é o próprio Presidente, podendo utilizar o apoio de auxiliares diretos para isso. O Presidente da República é escolhido pelo povo. É a população que vota e escolhe o Presidente, portanto, é um cargo eletivo e não de livre nomeação. O Presidente da República é escolhido para um prazo determinado. Para garantir o caráter democrático foi estabelecido prazo determinado para o mandato, e decorrido esse prazo, o povo elege um novo representante. O Presidente da República tem poder de veto. O Congresso (composto por Câmara e Senado)é o poder legislativo, como no presidencialismo a separação dos poderes foi um ponto determinante, coube ao Congresso a atividade de legislar, entretanto, para que o Presidente não fosse mero executor de leis lhe foi concedido o poder de veto, então, quando este considerar que o projeto é inconstitucional ou inconveniente poderá vetá-lo, ou seja, pode negar sua aprovação. FONTE: Adaptado de: Dallari (2011, p. 239-241) UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 180 Sobre a figura do Presidente podemos dizer que ele tem inúmeros poderes e atribuições, no caso do nosso país, as atribuições do Presidente da República estão elencadas no artigo 84 da Constituição de 1988. Conforme Bonavides (2010, p. 322-323), as atribuições do Presidente do Brasil: “[...] se dilatam da matéria legislativa à ordem administrativa, da esfera do poder militar ao campo da polícia exterior, dos negócios da ordem federativa aos da função judiciária.” Para conhecer todas as atribuições do Presidente da República, leia o artigo 84 da Constituição de 1988. Para entender o presidencialismo é preciso que você conheça a estrutura desse sistema. Podemos considerar que o poder executivo é exercido pelo Presidente com o auxílio dos Ministros de Estado (escolhidos pelo próprio Presidente) e o poder legislativo é o Congresso composto pela Câmara dos Deputados e pelo Senado. A Câmara dos Deputados, ou casa baixa, segundo Bonavides (2010, p. 333): [...] representa a totalidade dos cidadãos, dos contribuintes, do povo como fonte primária do poder político, composta de representantes populares em número proporcional aos habitantes (critério demográfico) ou de eleitores (critério político). É a assembleia democrática por excelência. Já o Senado [ou câmara alta] tem no sistema presidencial feição menos popular, sendo nas organizações federativas e presidenciais, a assembleia dos Estados, que se fazem nela representar em termos de paridade política, cabendo a cada Estado igual número de senadores. Em termos simples, a Câmara dos Deputados representa o povo, enquanto o Senado representa os estados. A competência de cada casa também está estabelecida na Constituição. O presidencialismo surgiu com o objetivo de fazer valer a opinião do povo, de se ter um sistema mais democrático possível, entretanto, existem muitos argumentos contrários e a favor desse sistema. Veja o quadro a seguir: DICAS TÓPICO 1 | FORMAS E SISTEMAS DE GOVERNO 181 QUADRO 12 - ARGUMENTOS A FAVOR E CONTRA O PRESIDENCIALISMO A favor Contra Rapidez no decidir e no concretizar as decisões. Dizem que é uma ditadura a prazo fixo (eleito para tempo determinado o Presidente pode agir contra a vontade do povo ou do Congresso sem que seja possível afastá-lo da presidência). Unidade de comando (o Presidente pode decidir sozinho, isso faz com que as possibilidades do Estado sejam mais bem aproveitadas). O Presidente precisa de base legal para praticar seus atos e por isso acaba mantendo relações com o legislativo (a prática comprova que se o executivo for mais forte que o legislativo, obtém deste o que quiser, agindo como ditador; agora, se o legislativo se sobrepor ao executivo, este ficará de mãos atadas, não podendo agir com eficácia, tornando o Estado ineficiente). Energia na utilização dos recursos do Estado (como o Presidente é responsável pela política e tem meios de aplicá-la fará de tudo para que o Estado atue com o máximo de suas possibilidades). FONTE: Adaptado de: Dallari (2011, p. 242) O afastamento de um presidente é chamado de impeachment. “O impeachment, geralmente previsto nos sistemas presidenciais, é uma figura penal, que só permite o afastamento do presidente se ele cometer um crime. E é perfeitamente possível que o presidente, adotando uma política inadequada, mas sem praticar qualquer ato delituoso, cause graves prejuízos ao Estado, não havendo, nessa hipótese, como retirá-lo da presidência e impedir a manutenção da política errônea.” (DALLARI, 2011, p. 242, grifo do autor). O Brasil tem em sua história o impeachment do Presidente Fernando Collor de Melo no ano de 1992, quando o Congresso, após o movimento “Diretas já” feito pela população, aprovou o impeachment. IMPORTANT E UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 182 Com relação às vantagens e desvantagens do sistema presidencialista, façamos aqui uma breve reflexão. Os argumentos contrários ao sistema são comprovados ao analisarmos o Congresso Nacional com as coligações entre partidos, o que parece é que não existe mais oposição, todos se apoiam para poder tirar pelo menos uma lasquinha da “pizza”. Por falar em Congresso Nacional, você sabe quanto custa para mantê-lo? “No ano de 2013, somente os gastos das duas Casas Legislativas, excluindo o TCU, deverão alcançar 8,5 bilhões. Assim sendo, chova ou faça sol, trabalhem ou não suas Excelências, cada dia do parlamento brasileiro custará R$ 23 milhões, ou seja, quase um milhão por hora!” FONTE: Branco, disponível em: <http://oglobo.globo.com/opiniao/quanto-custa-congresso- nacional-7668883>. Acesso em: 19 jan. 2014. Vejamos o presidencialismo na prática. A forma de governo utilizada no Brasil é a república e o sistema de governo o presidencialismo. Temos um Presidente exercendo as funções de Chefe de Estado e Chefe de Governo. É ele que juntamente com os ministros administram o poder executivo. Os ministros são escolhidos pelo Presidente. No poder legislativo temos o Congresso Nacional, dividido em duas casas: a Câmara dos Deputados e o Senado. UNI TÓPICO 1 | FORMAS E SISTEMAS DE GOVERNO 183 LEITURA COMPLEMENTAR Certamente de todas as monarquias ainda existentes no mundo, a mais famosa e falada é a britânica. A seguir, você confere reportagem publicada no dia 02/06/2012. MANTER UMA RAINHA CUSTA CARO - MAS O RETORNO É AINDA MAIOR Se colocada ao lado das grandes empresas britânicas, a ‘marca’ da família real valeria, entre propriedades, turismo e valor agregado, cerca de R$ 138,7 bilhões. De tempos em tempos, a família real é acusada de onerar demasiadamente os cofres públicos da Grã-Bretanha. De fato, manter as imensas propriedades reais demanda uma quantia em dinheiro considerável a cada ano. Somente o Palácio de Buckingham - residência oficial da rainha e onde está localizado seu escritório, em Londres - abriga nada menos que 775 cômodos em uma colossal estrutura de 77.000 metros quadrados (o equivalente a 8,5 campos de futebol). Mais de 800 funcionários circulam pelo local em funções que variam das mais comuns, como limpeza e manutenção, até algumas impensáveis, a exemplo dos responsáveis pela limpeza de lareiras e pelo hasteamento de bandeiras. Em um ano normal, a rainha abre suas portas para mais de 50.000 pessoas, em banquetes, almoços, jantares e recepções. Calcule-se, por baixo então, que mais de 3 milhões de convidados já tenham sido recebidos por Elizabeth II em seus 60 anos de reinado - completados este ano. Para arcar com todos esses custos, há quatro fontes públicas de renda para financiar a rainha, seus familiares e funcionários: a Lista Civil, que atende às necessidades da monarca como chefe de Estado e da Comunidade Britânica (Commonwealth); um fundo destinado exclusivamente aos gastos públicos e pessoas da realeza; um fundo especial do governo para a manutenção dos palácios reais; e, por fim, um fundo especial do governo para viagens, incluindo custos aéreos e ferroviários para deslocamentos associados a compromissos oficiais. Segundo a rede britânica BBC, nestas últimas seis décadas, Elizabeth II fez 261 viagens internacionais, entre as quais 96 foram visitas de Estado a 116 países, que incluíam destinos pouco conhecidos,como as minúsculas Ilhas Cocos - um território australiano habitado por apenas 596 pessoas. Isso sem considerar as viagens feitas pelos herdeiros da coroa em nome dela - os príncipes Charles, William e Harry. UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 184 Mas esse é apenas o ônus de se manter a família real mais tradicional e conhecida do mundo. Porque é também esse status de celebridade conferido a ela que abre caminho para um bônus ainda maior a todo o país. Segundo um estudo divulgado no início desta semana pela consultoria britânica Brand Finance - especializada em avaliação e gestão de marcas -, o valor comercial da realeza britânica já supera 44,5 bilhões de libras (mais de 139 bilhões de reais). A pesquisa sugere que, se fosse colocada à venda como qualquer outro negócio, a monarquia valeria mais do que as redes de supermercado locais Tesco (33 bilhões de libras) e Marks & Spencer (7,4 bilhões de libras) juntas, por exemplo. Assim, a coroa não só devolve todos os seus gastos aos cofres públicos como também leva uma série de benefícios ao país, principalmente em forma de turismo. ‘Firma’ - Não é de se estranhar, portanto, que o apelido de “firma” lhe caia tão bem. Somente Festa de Jubileu da rainha - que teve início nesse sábado e segue até terça-feira - deve representar um lucro em turismo de 924 milhões de libras (quase 2,9 bilhões de reais). Do valor total da “marca” família real, 18 bilhões de libras (56 bilhões de reais) cobririam o valor das joias da coroa e das propriedades reais, considerados bens materiais por ora intocáveis. Já os outros 26,5 bilhões de libras (82,9 bilhões de reais) referem-se aos benefícios econômicos imediatos, ao impulsionar o turismo e a indústria local. “A monarquia é um poderoso apoio para marcas de indivíduos, de empresas e do próprio país. Ela contribui de forma significativa para impulsionar o crescimento econômico da Grã-Bretanha em sua tentativa de tirar o país da recessão”, destacam os especialistas responsáveis pelo relatório. Segundo David Haigh, presidente-executivo da Brand Finance, a realeza - ao ser colocada dentro dos círculos das finanças corporativas com valor de capitalização de mercado - é visto como uma das marcas mais valiosas do país. O documento analisa desde ativos físicos - como a coleção de obras de arte que sozinha vale 10 bilhões de libras - e intangíveis - como resultado da publicidade gratuita feita no exterior (cerca de 500 milhões de libras por ano). Somado, esse montante supera em muito os valores gastos em segurança (3,3 bilhões de libras), na Lista Civil (461 milhões de libras), em viagens (195 milhões de libras), entre outros. “Tudo isso é compensado pela sua contribuição à economia da Grã-Bretanha, especialmente durante grandes eventos reais, como o casamento de William e Kate no ano passado e o Jubileu neste ano”, acrescenta o estudo. É compreensível, portanto, que a rainha Elizabeth II viva um momento de popularidade recorde em um país onde 70% da população acredita que estaria pior sem a monarquia. FONTE: Disponível em: <http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/manter-uma-rainha-custa- caro-mas-o-retorno-e-ainda-maior>. Acesso em: 15 jan. 2014. 185 Neste tópico vimos que: • Forma de governo é a maneira como se estabelece o poder e a relação entre governantes e governados. • As formas de governo são: monarquia, aristocracia e república, estas são formas puras, ou seja, formas boas que buscam o bem da coletividade. • À degeneração das formas puras chamamos de formas impuras, cujo objetivo é beneficiar quem está no poder, sem se preocupar com o povo. São formas impuras de governo: tirania, oligarquia, plutocracia, despotismo e demagogia. • Aristóteles, Maquiavel e Montesquieu abordaram a classificação das formas de governo. • A monarquia é a forma de governo mais antiga, tendo sido usada em praticamente todos os estados do mundo, inclusive no Brasil, onde durou 70 anos. • A monarquia foi evoluindo de absolutista para constitucionalista. A partir da monarquia constitucional, além da figura do Rei (Chefe de Estado) temos também o Primeiro-Ministro (Chefe de Governo). • As características fundamentais da monarquia são: vitaliciedade, hereditariedade e irresponsabilidade. • A forma de governo república tem por objetivo um governo democrático, ou seja, um governo do povo, para o povo e pelo povo. • São características fundamentais da república: temporariedade, eletividade e responsabilidade. • Sistema de governo é a maneira como se relacionam os poderes legislativo e executivo. Existem dois sistemas de governo: parlamentarismo (com maior colaboração entre os poderes) e presidencialismo (o poder executivo depende do legislativo). • O berço do parlamentarismo é a Inglaterra, enquanto do presidencialismo, os Estados Unidos da América. • O parlamentarismo pode ser utilizado em monarquias e repúblicas; existe o Chefe de Estado (Rei ou Presidente) e o Chefe de Governo (Primeiro-Ministro). RESUMO DO TÓPICO 1 186 • O Primeiro-Ministro é indicado pelo Chefe de Estado e se aprovado pelo Parlamento, fica no poder enquanto tiver apoio deste. • O Parlamento é composto por duas casas: a Câmara dos Lordes e a Câmara dos Comuns. • São características do presidencialismo: o Presidente é o Chefe de Estado e de Governo, é ele quem estabelece as diretrizes do poder executivo, é escolhido através do voto para um prazo determinado. • No presidencialismo o poder executivo é exercido pelo Presidente com o auxílio dos ministros de estado, enquanto o poder legislativo é o Congresso Nacional, composto por duas casas: a Câmara dos Deputados e o Senado. • A forma de governo adotada no Brasil é a república, e o sistema, o presidencialismo. 187 1 Sobre as formas de governo, analise as proposições a seguir e assinale a alternativa CORRETA: I. Forma de governo representa a maneira como os poderes legislativo e executivo se relacionam na prática das funções governamentais. II. As formas de governo podem ser puras ou impuras. As puras são formas boas que buscam o bem da coletividade, enquanto as impuras são más formas, onde prevalece o interesse daquele que está no poder. III. São formas puras de governo: monarquia, aristocracia e república. IV. São formas impuras de governo: parlamentarismo e presidencialismo. a) ( ) As proposições I, II e IV estão corretas. b) ( ) Apenas as proposições II e III estão corretas. c) ( ) Apenas as proposições I e II estão corretas. d) ( ) Todas as proposições estão corretas. 2 Sobre a monarquia é CORRETO afirmar: a) ( ) É uma forma de governo criada recentemente e nunca existiu no Brasil. b) ( ) A grande maioria dos países utiliza essa forma de governo. c) ( ) É uma forma de governo, sendo a mais antiga delas. O Brasil já usou essa forma de governo por 70 anos. Na monarquia temos o Rei e o Primeiro-Ministro. d) ( ) O Rei, que é o Chefe de Estado, é eleito pelo povo, para um prazo determinado. 3 Sobre a república é CORRETO afirmar: a) ( ) Nessa forma de governo o poder está nas mãos do povo que o exerce na busca pelo bem comum. O Presidente é o Chefe de Estado e de Governo, é eleito pelo povo para um prazo determinado. b) ( ) A república surgiu para apoiar a monarquia. c) ( ) São características da república: vitaliciedade, hereditariedade e irresponsabilidade. d) ( ) O Primeiro-Ministro é eleito pelo povo em eleições que acontecem de tempos em tempos. AUTOATIVIDADE 188 4 Sobre os sistemas de governo é CORRETO dizer: a) ( ) É a maneira como se estabelece o poder e a relação entre governantes e governados. b) ( ) Os sistemas de governo são: monarquia e república. c) ( ) Os sistemas podem ser puros e impuros. d) ( ) Representama forma como os poderes legislativo e executivo se relacionam na prática das funções governamentais. São dois: parlamentarismo e presidencialismo. 5 Acerca do parlamentarismo considere as assertivas a seguir: I. No parlamentarismo existe colaboração entre o poder executivo e o poder legislativo. II. O berço do parlamentarismo foi a Inglaterra. III. Esse sistema pode ser utilizado em monarquia e república. IV. A estrutura do parlamentarismo é composta pelo Rei, que é o Chefe de Estado, e pelo Primeiro-Ministro, que é o Chefe de Governo, representando o poder executivo, enquanto o poder legislativo é representado pelo Parlamento, composto pelas duas casas: a Câmara dos Lordes e a Câmara dos Comuns. Agora, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As assertivas I, II e III estão corretas. b) ( ) As assertivas I, II, III e IV estão corretas. c) ( ) As assertivas I, III e IV estão corretas. d) ( ) As assertivas I e II estão corretas. 6 Sobre o presidencialismo analise as proposições a seguir: I. Nesse sistema o poder executivo é independente do poder legislativo. II. O presidencialismo surgiu para fazer valer a opinião do povo. É o governo do povo, para o povo e pelo povo. III. Esse sistema complementa o parlamentarismo. IV. A estrutura do presidencialismo está assim estabelecida: o poder executivo é exercido pelo Presidente com o auxílio dos Ministros de Estado, e o poder legislativo é exercido pelo Congresso Nacional, composto pela Câmara dos Deputados (representa o povo) e pelo Senado (representa os estados). Agora, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As proposições I, II e III estão corretas. b) ( ) As proposições I e III estão corretas. c) ( ) As proposições I, II e IV estão corretas. d) ( ) As proposições I, II, III e IV estão corretas. 189 TÓPICO 2 MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Sabemos que existem diversos modelos de administração. Já vimos neste Caderno de Estudos as teorias da administração e sua evolução. Na administração pública os modelos de administração se dividem em três momentos: o patrimonialista, o burocrático e o atual modelo gerencial. Vamos observar que cada um destes modelos teve sua importância e que, com o passar do tempo, a administração foi se aprimorando e continua em constante evolução. A leitura complementar deste tópico relata de forma breve a história de como ocorreram as passagens destes modelos de administração pública e explica porque esta evolução foi acontecendo. Estudaremos também os 3 Es: eficácia, eficiência e efetividade. Saberemos também diferenciar estes três conceitos que são comumente confundidos. Relacionaremos os 3 Es com as características dos modelos da administração pública: patrimonialista, burocrático e gerencial. 2 MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA A administração pública passou por três momentos na sua forma de gerenciar: modelo patrimonialista, burocrático e gerencial. Esta evolução ocorreu conforme a necessidade de gerir a coisa pública. A seguir, um quadro ilustrativo das principais características de cada um dos três modelos de administração pública: 190 UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO QUADRO 13 – PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DOS MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA PATRIMONIAL “Monarquia”, nepotismo, corrupção, desleixo com a coisa pública, bens públicos e bens soberanos eram confundidos. BUROCRÁTICO Combater o patrimonialismo, foco excessivo nos processos deixando a qualidade dos serviços públicos a desejar, legalização dos atos da administração pública, controles rígidos já que este modelo de administração pública parte da desconfiança do servidor público, elaboração de admissão de pessoal baseado em critérios técnico, meritocracia, profissionalização, hierarquia, máxima eficiência nos processos. GERENCIAL Foco no resultado sem obsessão nos processos, cidadão passa a ser visto como cliente que deverá ficar satisfeito com o serviço prestado, flexibilidade e autonomia aos servidores que também se responsabilizarão por seus atos, treinamento, meritocracia, controle rígido, busca pela qualidade dos serviços públicos prestados. FONTE: Os autores De certa forma, os três modelos ainda estão presentes no modelo de administração pública atual. Vamos nos aprofundar no assunto mais adiante. Caro(a) acadêmico(a), não deixe de se atentar à leitura complementar que trará uma breve história de como ocorreu a transação dos modelos de administração pública, além de comentar como as características de cada modelo evoluiu e se adaptou conforme a necessidade do momento histórico. 3 MODELO PATRIMONIALISTA O modelo de administração patrimonialista é caracterizado pela informalidade, corrupção e nepotismo, onde o rei designava seus servidores por parentesco ou amizade. ATENCAO TÓPICO 2 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 191 “Nepotismo é um termo utilizado para designar o favorecimento de parentes ou amigos próximos em detrimento de pessoas mais qualificadas, geralmente no que diz respeito à nomeação ou elevação de cargos, e é uma palavra que deriva do latim, onde nepos significa neto ou descendente”. FONTE: Disponível em: <http://www.significados.com.br/nepotismo/>. Acesso em: 18 jan. 2014. Conforme Bitencourt (2008, p. 110): Administração Pública Patrimonialista, também denominada Patriarcal, é característica dos Estados absolutos, nos quais o patrimônio público e o patrimônio do soberano confundiam-se. Todas as decisões político- administrativas concentravam-se no monarca e beneficiavam apenas o clero e a nobreza; consequentemente, a corrupção, o empreguismo e o nepotismo eram marcantes. Com este modelo de administração, onde apenas o rei e seus favorecidos eram beneficiados, fica claro que o Estado não se preocupava com a coisa pública, com o bem comum. Este modelo de administração pública tinha muito a ver com a Monarquia. Segundo Palomba apud Bitencourt (2008, p. 111): No Patrimonialismo o aparelho de Estado funcionava como uma extensão do poder soberano, pois os servidores possuíam status de nobreza real. Os cargos funcionavam como prendas e, em consequência disso, predominavam o nepotismo, a corrupção e o controle do órgão público por parte dos soberanos. Entretanto a coisa pública deveria ser de todos e para todos. Nessa fase administrativa de caráter patrimonialista, confundiam-se cargos públicos, grau de parentesco e outros participantes do governo, não havendo um comprometimento básico do Estado de defender a coisa pública. Na realidade, era uma continuidade do modelo de administração utilizado pelos monarcas até o surgimento da burocracia. Aos poucos o patrimonialismo foi enfraquecendo, fazendo surgir o modelo de administração burocrática. Principais características do modelo de administração pública patrimonialista: “Monarquia”, nepotismo, corrupção, desleixo com a coisa pública, bens públicos e bens do rei eram confundidos. NOTA 192 UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 4 MODELO BUROCRÁTICO O modelo de administração burocrático combate o patrimonialismo, visa à eficiência na administração pública deixando de lado a informalidade e o nepotismo. Busca pela meritocracia, hierarquia, treinamento dos funcionários, legalidade, impessoalidade e critérios específicos para o funcionamento da administração pública. A administração pública burocrática, conforme Chiavenato (2008, p. 106): Surge na segunda metade do século XIX, na época do Estado liberal, como forma de combater a corrupção e o nepotismo patrimonialista. Constituem princípios orientadores do seu desenvolvimento a profissionalização, a ideia de carreira, a hierarquia funcional, a impessoalidade, o formalismo, em síntese, o poder racional-legal. Oscontroles administrativos a evitar a corrupção e o nepotismo são sempre a priori. Parte-se de uma desconfiança prévia nos administradores públicos e nos cidadãos que a eles dirigem demandas. Por isso, são sempre necessários controles rígidos dos processos, como, por exemplo, na admissão de pessoal, nas compras e no atendimento a demandas. Como podemos observar diferente do modelo patrimonialista onde o patrimônio do rei se confundia com o patrimônio público, a contratação de servidores era baseada em amizade e parentesco, onde o Estado não se importava com a coisa pública e o bem comum; agora, no modelo de administração burocrático, tudo deve ser devidamente comprovado por controles rígidos, já que este tipo de administração parte da desconfiança das pessoas na eficiência da administração pública. A admissão do pessoal é baseada em critérios técnicos e profissionais, prevalece a impessoalidade, a meritocracia e o treinamento dos funcionários, é enfatizada a eficiência nos trabalhos da administração pública, se faz necessário haver hierarquia dentro dos setores da administração, contratos, compras e todo tipo de execução do serviço público é rigorosamente controlado. Este modelo de administração passou a enfatizar muito a eficiência interna, deixando a desejar no que diz respeito a servir à sociedade, “[...] o Estado volta-se para si mesmo, perdendo a noção de sua missão básica, que é servir à sociedade [...] Seu defeito, a ineficiência, a autorreferência, a incapacidade de voltar-se para os serviços aos cidadãos vistos como clientes.” (CHIAVENATO, 2008, p. 106). O modelo de administração burocrático limitava-se à eficiência dos processos (meios) e deixava a desejar nos resultados (fim). A administração pública, os servidores, devem prestar serviços de qualidade aos cidadãos, no modelo de administração burocrático, o cidadão dificilmente ficaria satisfeito com o serviço público, pois o foco estava somente nos processos, tornando uma simples tarefa, algo demorado e difícil de concluir, desta forma, a qualidade do serviço público foi deixando cada vez mais a desejar. TÓPICO 2 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 193 O modelo de administração burocrático contribuiu muito para a evolução da qualidade da Administração Pública, onde a principal mudança foi formalizar as relações de trabalho, separando os aspectos pessoais dos aspectos profissionais, porém, ainda há a necessidade de ter uma visão além das melhorias internas da administração, como por exemplo: “[...] a necessidade de reduzir custos e aumentar a qualidade dos serviços, tendo o cidadão como beneficiário [...].”. (CHIAVENATO, 2008, p. 106). É neste momento que surge o novo modelo de administração, o modelo de administração pública gerencial. As principais características do modelo de administração pública burocrático são: combater o patrimonialismo, foco excessivo nos processos deixando a qualidade dos serviços públicos a desejar, legalização dos atos da administração pública, controles rígidos já que este modelo de administração pública parte da desconfiança do servidor público, elaboração de admissão de pessoal baseado em critérios técnico, meritocracia, profissionalização, hierarquia, máxima eficiência nos processos. 5 MODELO GERENCIAL O modelo de administração pública gerencial tem de certa forma como base o modelo de administração burocrático, mas com algumas adaptações. O cidadão passa a ser visto como cliente, os processos demorados deverão se adaptar a isto, fazendo melhorar a qualidade dos serviços públicos, reduzindo custos racionalizando os recursos disponíveis. Chiavenato (2008, p. 107) explica: A administração pública gerencial constitui um avanço e, até um certo ponto, um rompimento com a administração pública burocrática. Isto não significa, entretanto, que negue todos os seus princípios. Pelo contrário, a administração pública gerencial está apoiada na anterior, da qual conserva, embora flexibilizando, alguns dos seus princípios fundamentais, como a admissão segundo rígidos critérios de mérito, a existência de um sistema estruturado e universal de remuneração, as carreiras, a avaliação constante de desempenho, o treinamento sistemático. A diferença fundamental está na forma de controle, que deixa de basear-se nos processos para concentrar-se nos resultados, e não na rigorosa profissionalização da administração pública, que continua um princípio fundamental. Na administração pública burocrática o foco está nos processos e no profissionalismo, o resultado da administração em si, que é o que realmente importa, não era observado ou controlado. Já na administração pública gerencial, o foco está no resultado, o que não significa que os processos e profissionalismo não fossem tão importantes quanto. Acontece que, a administração pública gerencial busca um equilíbrio entre os processos e o resultado, um objetivo para ser realizado precisa ter um início, um meio e um fim. Portanto, a administração 194 UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO pública gerencial surge a partir da administração burocrática, mas com outra necessidade de controle: garantir os resultados sem focar tanto nos processos, que também não deixam de ser importantes. Para Chiavenato (2008, p. 107), na administração pública gerencial, a estratégia volta-se: 1 – Para a definição precisa dos objetivos que o administrador público deverá atingir em sua unidade; 2 – Para a garantia de autonomia do administrador na gestão dos recursos humanos, materiais e financeiros que lhe forem colocados à disposição para que possa atingir os objetivos contratados; 3 – Para o controle ou cobrança a posteriori dos resultados. Adicionalmente, pratica-se a competição administrada no interior do próprio Estado, quando há a possibilidade de estabelecer concorrência entre unidades internas. No plano da estrutura organizacional, a descentralização e a redução dos níveis hierárquicos tornam-se essenciais. Em suma, afirma- se que a administração pública deve ser permeável à maior participação dos agentes privados e/ou das organizações da sociedade civil e deslocar a ênfase dos procedimentos (meios) para os resultados (fins). Podemos observar que na administração pública gerencial são definidos os objetivos ao administrador público, que tem autonomia para gerir os recursos disponíveis (humanos, materiais e financeiros) de forma a atingir os objetivos propostos. Chiavenato (2008) afirma que a administração pública gerencial inspira-se na administração de empresas. Vamos observar o quadro, a seguir, para que esta ideia fique mais clara: QUADRO 14 – COMPARAÇÃO: ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS X ADMINISTRAÇÃO GERENCIAL ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA GERENCIAL A receita das empresas depende dos pagamentos que os clientes fazem livremente na compra de seus produtos e serviços. A receita do Estado deriva de impostos, ou seja, de contribuições obrigatórias, sem contrapartida direta. O mercado controla a administração das empresas. A sociedade – por meio de políticos eleitos – controla a administração pública. A administração de empresas está voltada para o lucro privado, para a maximização dos interesses dos acionistas, esperando- se que, através do mercado, o interesse coletivo seja atendido. A administração pública gerencial está explícita e diretamente voltada para o interesse público. FONTE: Adaptado de: Chiavenato (2008, p. 107) TÓPICO 2 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 195 Como podemos verificar acima, o cidadão é visto como um cliente da administração pública, de certa forma, assim é. Chiavenato (2008, p. 108) complementa: A administração pública gerencial vê o cidadãocomo contribuinte de impostos e como clientes dos seus serviços. Os resultados da ação do Estado são considerados bons não porque os processos administrativos estão sob controle e são seguros, como quer a administração pública burocrática, mas porque as necessidades do cidadão-cliente estão sendo atendidas. Conforme citado acima, o cidadão sendo cliente da administração pública ficará satisfeito se for realizado o que deseja, se o resultado gerar uma ação positiva diante de suas necessidades, independente de como foram os processos até chegar ao resultado final. Aqui podemos comparar a administração burocrática que foca nos processos e não no resultado, com a administração gerencial que foca no resultado, porém, também se atentando aos processos. Portanto, podemos concluir que o modelo de administração pública gerencial, surge a partir do modelo burocrático, porém, visa ao resultado positivo com a racionalização dos recursos, ao contrário do modelo de administração pública burocrático, que foca excessivamente nos processos sem se ater aos resultados. Busca ser mais flexível e dar mais autonomia aos servidores para que executem suas atividades e respondam por elas, dessa forma, a agilidade dos serviços causa impacto positivo na qualidade dos serviços públicos, e o cidadão que é visto como cliente na administração gerencial fica satisfeito. Principais características do modelo de administração pública gerencial: foco no resultado sem obsessão nos processos, cidadão passa a ser visto como cliente que deverá ficar satisfeito com o serviço prestado, flexibilidade e autonomia aos servidores que também se responsabilizarão por seus atos, treinamento, meritocracia, controles rígidos, busca pela qualidade dos serviços públicos prestados. 6 OS 3 ES: EFICÁCIA, EFICIÊNCIA E EFETIVIDADE Ao estudar sobre os modelos de administração pública patrimonialista, burocrático e gerencial, é de suma importância ter o entendimento dos conceitos: eficácia, eficiência e efetividade, que se diferem, apesar de comumente serem confundidos. A seguir, vamos estudá-los individualmente e posteriormente relacionar estes conceitos com os modelos de administração pública. Para facilitar o entendimento, segue o quadro ilustrativo que relaciona os conceitos dos 3 Es com os modelos da administração pública: 196 UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO QUADRO 15 – 3 ES EFICÁCIA EFICIÊNCIA EFETIVIDADE Foco no resultado Foco nos processos Foco no resultado e nos processos Fim Meio Fim + Meio O que alcançar? Como alcançar? Alcançou o objetivo de forma correta? Podemos comparar com o modelo de administração pública gerencial, que foca no resultado da administração, que vê o cidadão como cliente que deve ficar satisfeito com o serviço prestado. Podemos comparar com o modelo de administração pública burocrático, que foca muito nos processos, quando também deveria dar mais importância e se preocupar em atingir os resultados. Também podemos comparar com o modelo de administração pública gerencial, que ao mesmo tempo em que foca no resultado, não deixa de dar importância aos processos, porém, de forma mais objetiva. FONTE: Os autores Não citamos no quadro acima o modelo de administração pública patrimonialista, pois como sabemos, este modelo é muito parecido com a Monarquia, onde apenas o rei e seus “seguidores” são privilegiados e beneficiados, em um tempo onde não podemos classificar a eficácia, eficiência e efetividade, já que o bem comum e a coisa pública não eram respeitados e administrados como deveriam, onde não era feito a coisa certa (eficácia) da maneira certa (eficiência). A seguir iremos nos aprofundar nos conceitos: eficácia, eficiência e efetividade. 6.1 EFICÁCIA Eficácia podemos dizer que é sinônimo do resultado de um objetivo ser positivo, alcançado, independente dos processos ou forma (meio) que se chegou ao resultado (fim). Chiavenato (2008, p. 152) conceitua: “A eficácia consiste em fazer a coisa certa (não necessariamente da maneira certa). Assim, está relacionada ao grau de atingimento do objetivo”. Para ficar mais claro, vamos usar como exemplo uma partida de futebol. O objetivo é vencer o jogo, não importa como, o time só alcançará a eficácia se vencer TÓPICO 2 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 197 o jogo. Não adianta jogar bem na partida e não fazer gols, não ganhar. “Cavando” pênalti, fazendo falta, jogando corretamente, tudo isso não importa, desde que no fim da partida o time saia vitorioso. Conclusão: só haverá eficácia se o time atingir o objetivo, que é vencer a partida de futebol, independente de como fará para vencer, o objetivo precisa ser alcançado. Comparando com os modelos de administração pública, podemos identificar a eficácia no modelo gerencial, que foca no resultado, no atingimento do objetivo, sem se importar tanto com os processos, porém, buscando também utilizar os recursos de maneira correta para atingir os objetivos. 6.2 EFICIÊNCIA A eficiência é quando os processos (meio) são feitos de maneira correta, porém muitas vezes, sem atingir o objetivo principal, o resultado (fim). Conforme Chiavenato (2008, p. 152): “O conceito de eficiência relaciona-se com a maneira pela qual fazemos a coisa. É o como fazemos, o caminho, o método”. Com o mesmo exemplo da partida de futebol citado no tópico acima, lá, na eficácia, o importante é o resultado (fim) alcançado, o time vencer, independente de como conseguiu a vitória. Aqui, na eficiência, o importante é de que forma, com que técnica (meio) o time jogou, foi eficiente? Independente do resultado, vitorioso ou não, aqui o que importa é a excelência nos processos, na técnica deste esporte. Comparando com os modelos de administração pública, podemos identificar a eficiência no modelo burocrático, onde o foco era nos processos (meio), sem se preocupar como deveria com o resultado (fim). 6.3 EFETIVIDADE A efetividade podemos dizer que é a soma da eficácia com a eficiência. Fazer a coisa certa de maneira certa, atingir o resultado (fim) certo da maneira (meio) certa. É alcançar a eficácia e a eficiência. Chiavenato (2008, p. 152) relata: “[...] há autores que defendem que a efetividade decorre do alcance da eficácia e da eficiência [...] Na “ponta da linha”, a efetividade ocorre quando um produto ou serviço foi percebido pelo usuário como satisfatório”. Para ele, a eficiência está na “[...] economia dos meios, o menor consumo de recursos dado um determinado grau de eficácia.”. Continuando com o exemplo da partida de futebol, o time se torna eficiente caso além de vencer o jogo que é o resultado desejado, jogar de maneira correta, com as devidas técnicas do futebol, dentro das regras do jogo, de forma ética. Atingir o 198 UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO resultado (fim) desejado de forma (meio) correta, isso significa ser eficiente, pois aliou a eficiência e a eficácia. Comparando com os modelos de administração pública, podemos identificar a efetividade no modelo gerencial também, que foca no resultado (fim), mas não deixa de atingi-lo de forma (meio) correta. LEITURA COMPLEMENTAR UMA BREVE REFLEXÃO SOBRE A EVOLUÇÃO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA A seguir, serão reproduzidos os principais conceitos trabalhados no Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado, elaborado em 1995 durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Lá, constam os alicerces do modelo que começou a ser implementado com vistas à modernização da burocracia brasileira, implantada por Vargas na primeira metade do século. Uma vez que as questões que tratam do assunto normalmente fazem referência a este documento, houvemos por bem elaborarmos um breve resumo,no sentido de orientar sua leitura para os aspectos mais significativos. Tendo em vista as práticas patrimonialistas (rente-seeking ou privatização do Estado – leia-se: usar a máquina administrativa com fins privados, escusos) correntes em nossa cultura, Vargas optou pela adoção de um modelo que pautasse pelo controle minucioso nas atividades-meio. Ou seja, para “colocar ordem na casa”, buscou referências no modelo idealizado por Weber, acreditando que a burocracia, dado seu caráter rígido e hierarquizado, poderia ordenar a máquina administrativa em nosso País. Está, aí, o primeiro modelo estruturado de administração do Brasil. Para facilitar sua implementação, contou com o apoio do DASP, Departamento Administrativo do Setor Público, extinto há pouco tempo sem, infelizmente, ter logrado êxito em sua missão (se a burocracia tivesse funcionado, em tese, as práticas patrimonialistas teriam sido suprimidas, o que parece não ter ocorrido). Nessa época, em virtude da desconfiança total que havia no servidor público, o modelo burocrático revelava-se ser o mais adaptado. Com isso, Vargas almejava basicamente três coisas: criar uma estrutura administrativa organizada, uniforme, estabelecer uma política de pessoal com base no mérito (motivo pelo qual Joaquim Nabuco foi “convidado”); e acabar com o nepotismo e corrupção existentes. Com o passar do tempo, percebeu-se que a burocracia, se exacerbada em suas características, revela-se um modelo pouco flexível, inadequada em cenários dinâmicos, que exigem agilidade. A partir daí, é possível identificar diversas tentativas de desburocratizar a máquina: a criação do COSB (Comitê de Simplificação da Burocracia), da SEMR (Secretaria de Modernização da Reforma Administrativa), o Decreto-Lei nº 200, de 1967, o PND (Programa Nacional de TÓPICO 2 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 199 Desburocratização) e ainda outros de menor vulto que, infelizmente, não tiveram o sucesso desejado. Até que em 1995, com a edição do plano diretor, começa a implantação, no Brasil, do chamado modelo gerencial. O modelo gerencial, em sua fase inicial, implica administrar a res publica de forma semelhante ao setor privado, de forma eficiente, com a utilização de ferramentas que consigam maximizar a riqueza do acionista, ou a satisfação do usuário (considerando-se a realidade do serviço público). Nesse sentido, busca- se a adoção de uma postura mais empresarial, empreendedora, aberta a novas ideias e voltada para o incremento na geração de receitas e no maior controle dos gastos públicos. Esse modelo é melhor entendido considerando o cenário em que foi concebido: no plano econômico, dada a crise do petróleo na década de 1970, esgotaram-se as condições que viabilizavam a manutenção do Welfare State (Estado de Bem-Estar Social), onde prevalecia o entendimento de que cabia ao Estado proporcionar uma gama enorme de serviço à população, respondendo esse por saúde, educação, habitação etc. A partir daí, começa a ser difundida a ideia de devolução ao setor privado daqueles serviços que o Poder Público não tem condições de prestar com eficiência (privatizações), devendo o Estado desenvolver aquilo que cabe intrinsecamente a ele fazer (Diplomacia, Segurança, Fiscalização etc.). O Estado Mínimo volta a ganhar força... Ou seja, o que propôs, na verdade, foi a quebra de um paradigma, a redefinição do que caberia efetivamente ao Estado fazer e o que deveria ser delegado ao setor privado. Como referência, é possível citar a obra de Osborne & Gaebler, Reinventando o Governo, onde são destacados princípios a serem observados na construção deste modelo, tais como: 1. Visão estratégica; 2. Estado catalisador, em vez de remador; 3. Visão compartilhada; e 4. Busca de excelência. 5. Formação de parcerias; 6. Foco em resultados; Assim, o modelo gerencial (puro, inicial), buscou responder com maior agilidade e eficiência aos anseios da sociedade, insatisfeita com os serviços recebidos do setor público. Tal modelo, contudo, representou o inicio do Managerialism, que, atualmente, congrega ainda, duas correntes: o Consumerism e o Public Service Orientation (PSO). Se tivermos em mente um continuum, é possível interferir que a administração gerencial evoluiu do Managerialism para o PSO, sem, contudo, ser possível afirmar que o PSO representa a versão final da administração gerencial. 200 UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO As principais diferenças podem ser percebidas no quadro a seguir, proposto por Fernando Luiz Abrúcio, no Caderno nº 10 da Enap: Modelo gerencial puro Consumerism Public Service Orientation Economia/Eficiência Efetividade/Qualidade Accountability/Equidade Taxpayers (contribuintes) Clientes/Consumidores Cidadãos A preocupação primeira do modelo gerencial, conforme o quadro nos informa, foi o incremento da eficiência, tendo em vista as disfunções do modelo burocrático. Nessa fase, o usuário do serviço público é visto tão somente como o financiador do sistema. No Consumerism, há o incremento na busca pela qualidade, decorrente da mudança de serviços públicos. Nesse momento, há uma alteração no foco da organização: a burocracia, que normalmente é autorreferenciada, ou seja, voltada para si mesma, passa a observar com maior cuidado a razão de sua existência: a satisfação de seu consumidor. Com isso, buscar-se-á conhecê-lo por meio, dentre outras coisas, de pesquisas de opinião e preocupar-se-á proporcionar um atendimento diferenciado com vistas ao atendimento de necessidades individualizadas. Na fase mais recente, o entendimento de que o usuário do serviço deve ser visto como cliente-consumidor perdeu força, principalmente porque a ideia de consumidor poderia levar a um atendimento melhor para alguns e pior para outros, num universo em que todos têm os mesmos direitos. É possível perceber isso quando levamos em consideração que clientes mais bem organizados e estruturados teriam mais poder para pleitear mais ou melhores serviços, culminando em prejuízo para os menos estruturados. Por isso, nesta abordagem é preferível o uso do conceito de cidadão, que, em vez de buscar sua satisfação, estaria voltado para a consecução do bem-comum. Com isso, o que se busca é a equidade, ou seja, o tratamento igual a todos os que se encontram em situações equivalentes. FONTE: Chiavenato (2008, p. 97-99) 201 Neste tópico vimos que: • O modelo de administração patrimonialista é caracterizado pela informalidade, corrupção e nepotismo, onde o rei designava seus servidores por parentesco ou amizade. • No modelo de administração patrimonialista, onde apenas o rei e seus favorecidos eram beneficiados, fica claro que o Estado não se preocupava com a coisa pública, com o bem comum. Este modelo de administração pública tinha muito a ver com a Monarquia. • As principais características do modelo de administração pública patrimonialista são: “Monarquia”, nepotismo, corrupção, desleixo com a coisa pública, bens públicos e bens soberanos eram confundidos. • Aos poucos o patrimonialismo foi enfraquecendo, fazendo surgir o modelo de administração burocrático. • O modelo de administração burocrático combate o patrimonialismo, visa à eficiência na administração pública deixando de lado a informalidade e o nepotismo. Busca pela meritocracia, hierarquia, treinamento dos funcionários, legalidade, impessoalidade e critérios específicos para o funcionamento da administração pública. • Diferente do modelo patrimonialista, onde o patrimônio do rei se confundia com o patrimônio público, a contratação de servidores era baseada em amizade e parentesco, onde o Estado não se importava com a coisa pública e o bem comum; agora, no modelo de administração burocrático, tudo deve ser devidamente comprovadopor controles rígidos, já que este tipo de administração parte da desconfiança das pessoas na eficiência da administração pública. • No modelo de administração burocrático, a admissão do pessoal é baseada em critérios técnicos e profissionais, prevalece a impessoalidade, meritocracia e treinamento dos funcionários, é enfatizada a eficiência nos trabalhos da administração pública, se faz necessário haver hierarquia dentro dos setores da administração, contratos, compras e todo tipo de execução do serviço público é rigorosamente controlado. • O modelo de administração burocrático limitava-se à eficiência dos processos (meios) e deixava a desejar nos resultados (fim). A administração pública, os servidores, devem prestar serviços de qualidade aos cidadãos, no modelo de administração burocrático, o cidadão dificilmente ficaria satisfeito com o serviço RESUMO DO TÓPICO 2 202 público, pois o foco estava somente nos processos, tornando uma simples tarefa, algo demorado e difícil de concluir, desta forma a qualidade do serviço público foi deixando cada vez mais a desejar. • O modelo de administração burocrático passou a enfatizar muito a eficiência interna, deixando a desejar no que diz respeito a servir à sociedade, no resultado/ eficácia. • As principais características do modelo de administração pública burocrático são: combater o patrimonialismo, foco excessivo nos processos deixando a qualidade dos serviços públicos a desejar, legalização dos atos da administração pública, controles rígidos já que este modelo de administração pública parte da desconfiança do servidor público, elaboração de admissão de pessoal baseado em critérios técnico, meritocracia, profissionalização, hierarquia, máxima eficiência nos processos. • O modelo de administração pública gerencial tem de certa forma como base o modelo de administração burocrático, mas com algumas adaptações. O cidadão passa a ser visto como cliente, os processos demorados deverão se adaptar a isto, fazendo melhorar a qualidade dos serviços públicos, reduzindo custos racionalizando os recursos disponíveis. • Na administração pública burocrática o foco está nos processos e no profissionalismo, o resultado da administração em si que é o que realmente importa não era observado ou controlado. Já na administração pública gerencial, o foco está no resultado, o que não significa que os processos e profissionalismo não fossem tão importantes quanto. Acontece que, a administração pública gerencial busca um equilíbrio entre os processos e o resultado, um objetivo para ser realizado precisa ter um início, um meio e um fim. • Na administração pública gerencial, são definidos os objetivos ao administrador público, que tem autonomia para gerir os recursos disponíveis (humanos, materiais e financeiros) de forma a atingir os objetivos propostos. • Na administração pública gerencial, o cidadão é visto como um cliente da administração pública. O cidadão sendo cliente da administração pública ficará satisfeito se for realizado o que deseja, se o resultado gerar uma ação positiva diante de suas necessidades, independente de como foram os processos até chegar ao resultado final. • As principais características do modelo de administração pública gerencial são: foco no resultado sem obsessão nos processos, cidadão passa a ser visto como cliente que deverá ficar satisfeito com o serviço prestado, flexibilidade e autonomia aos servidores que também se responsabilizarão por seus atos, treinamento, meritocracia, controle rígidos, busca pela qualidade dos serviços públicos prestados. 203 • Ao estudar sobre os modelos de administração pública patrimonialista, burocrático e gerencial, é de suma importância ter o entendimento dos conceitos dos 3 Es: eficácia, eficiência e efetividade, que se diferem, apesar de comumente serem confundidos. • Eficácia podemos dizer que é sinônimo do resultado de um objetivo ser positivo, alcançado, independente dos processos ou forma (meio) que se chegou ao resultado (fim). • Comparando com os modelos de administração pública, podemos identificar a eficácia no modelo gerencial, que foca no resultado, no atingimento do objetivo, sem se importar tanto com os processos, porém, buscando também utilizar os recursos de maneira correta para atingir os objetivos. • A eficiência é quando os processos (meio) são feitos de maneira correta, porém muitas vezes sem atingir o objetivo principal, o resultado (fim). • Comparando com os modelos de administração pública, podemos identificar a eficiência no modelo burocrático, onde os processos (meio) eram o principal foco, sem se preocupar como deveria ser com o resultado (fim). • A efetividade podemos dizer que é a soma da eficácia com a eficiência. Fazer a coisa certa de maneira certa, atingir o resultado (fim) certo da maneira (meio) certa. É alcançar a eficácia e a eficiência. • Comparando com os modelos de administração pública, podemos identificar a efetividade no modelo gerencial também, que foca no resultado (fim), mas não deixa de atingi-lo de forma (meio) correta. 204 AUTOATIVIDADE 1 Quais são os modelos da administração pública? a) ( ) Ética, eficiência, efetividade. b) ( ) Patrimonialista, burocrático, gerencial. c) ( ) Patrimonialista, burocrático, gerencial, pós-gerencial. d) ( ) Patrimonialista, pós-burocrático, gerencial. 2 Complete as lacunas: ( 1 ) Administração pública patrimonialista. ( 2 ) Administração pública burocrática. ( 3 ) Administração pública gerencial. ( 4 ) Eficácia. ( 5 ) Eficiência. ( 6 ) Efetividade. ( ) Foco excessivo nos processos. ( ) Foco no resultado, porém, atenta aos processos. ( ) Significa alcançar algo, fazer a coisa certa. ( ) O Estado não se importa com a coisa pública, parecido com a Monarquia, apenas o rei e a nobreza são favorecidos, nepotismo, corrupção. ( ) Significa executar algo da forma correta, utilizar os recursos de forma adequada para atingir determinado objetivo. ( ) Significa ser eficiente e eficaz. A sequência CORRETA é: a) ( ) 5, 3, 2, 1, 4, 6. b) ( ) 4, 3, 2, 5, 6,1. c) ( ) 2, 3, 4, 1, 5, 6. d) ( ) 6, 4, 3, 1, 2, 5. 3 Ao estudar sobre os modelos de administração pública patrimonialista, burocrático e gerencial, é de suma importância ter o entendimento dos conceitos dos 3 Es: eficácia, eficiência e efetividade, que se diferem, apesar de comumente serem confundidos. Assinale V para verdadeiro e F para falso: a) ( ) Eficácia podemos dizer que é sinônimo do resultado de um objetivo ser positivo, alcançado, independente dos processos ou forma (meio) que se chegou ao resultado (fim). b) ( ) Eficiência podemos dizer que é sinônimo do resultado de um objetivo ser positivo, alcançado, independente dos processos ou forma (meio) que se chegou ao resultado (fim). c) ( ) A efetividade é o mesmo que eficiência. 205 d) ( ) A efetividade podemos dizer que é a soma da eficácia com a eficiência. Fazer a coisa certa de maneira certa, atingir o resultado (fim) certo da maneira (meio) certa. É alcançar a eficácia e a eficiência. Assinale a alternativa que contém a sequência CORRETA: a) ( ) V, F, F, F. b) ( ) V, V, V, F. c) ( ) V, F, F, V. d) ( ) F, V, V, F. 4 Sobre os modelos de administração pública, assinale a alternativa CORRETA: I. O modelo de administração patrimonialista é caracterizado pela informalidade, corrupção e nepotismo, onde o rei designava seus servidores por parentesco ou amizade. II. O modelo de administração burocrático combate o patrimonialismo, visa à eficiência na administração pública deixando de lado a informalidade e o nepotismo. Busca pela meritocracia, hierarquia, treinamento dos funcionários, legalidade, impessoalidade e critérios específicos para o funcionamentoda administração pública. III. O modelo de administração pública gerencial foca excessivamente nos processos. IV. O modelo de administração pública gerencial tem de certa forma como base o modelo de administração burocrático, mas com algumas adaptações, ao invés de focar apenas nos processos, prioriza o alcance dos resultados. Vê o cidadão como um cliente que busca resultados satisfatórios. V. O modelo de administração pública burocrático visa ao resultado, sem se importar muito com os processos. a) ( ) I e IV estão corretas. b) ( ) Apenas a III está correta. c) ( ) I, II e IV estão corretas. d) ( ) Todas estão corretas. 206 207 TÓPICO 3 CRISES E REFORMAS DO ESTADO UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Vimos na leitura complementar do tópico dois deste Caderno de Estudos sobre a evolução da administração pública, onde de forma breve relata que: Em 1995, no governo de Fernando Henrique Cardoso, foi elaborado o Plano Diretor da Reforma do aparelho do Estado, com base no modelo que visava à modernização da burocracia, que originou no governo de Vargas, na metade do século. Vargas visava a controles mais rígidos para uma melhor administração e adotou os princípios de Weber, que valorizava o mérito profissional. Para isso contou com o DASP – Departamento Administrativo do Setor Público. Sobre o DASP nos aprofundaremos no decorrer deste tópico. Na época, devido à desconfiança das pessoas, o modelo burocrático foi adotado por ser mais rígido. Dessa forma, Vargas conseguiu alcançar alguns objetivos como: a prática do mérito profissional, ter uma estrutura administrativa mais organizada e acabar com a corrupção e o nepotismo existente no patrimonialismo. Apesar dos pontos positivos, com o passar do tempo percebeu-se que o excesso da burocracia rígida começa a prejudicar a qualidade dos serviços públicos. Logo, houve a tentativa da desburocratização. Foi criado o COSB – Comitê de Simplificação da Burocracia), a SEMOR – Secretaria de Modernização da Reforma Administrativa, entre outros menos significantes. Então em 1995, foi implantado o modelo gerencial no Brasil. No modelo gerencial os cidadãos passam a ser vistos como clientes que deverão estar satisfeitos com seus anseios. O cidadão é contribuinte e em contraprestação o Estado deverá cumprir seu papel de saciar as necessidades do cidadão com qualidade e eficiência, visando sempre ao bem comum. O serviço público se espelhou no serviço privado, buscando a excelência na execução dos serviços e responsabilizando os agentes públicos por seus atos. Vamos estudar a partir de agora sobre as crises e reformas do Estado: o DASP na era Vargas, o Decreto-Lei no 200 em 1967, o Ministério da Desburocratização em 1979, sobre a Constituição Federal em 1988, a Emenda Constitucional no 19 de 1988, e por fim sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal. UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 208 2 CRISES E REFORMAS DO ESTADO Sabemos que o Estado é composto pelo povo que manifesta sua vontade ao Governo. Este deverá administrar os recursos para atingir essas vontades do povo, tornando o Estado cada vez mais desenvolvido e melhor para todos. O Governo por sua vez, é eleito pela sociedade. Aqui, quando falarmos em Estado estamos nos referindo a determinado território que também faz parte do Estado e neste caso estamos falando do nosso país, o Brasil. Conforme Chiavenato (2008, p. 99): “Estado e sociedade formam, numa democracia, um todo indivisível [...] É pelo diálogo democrático entre o Estado e a sociedade que se definem as prioridades a que o Governo deve ater-se para a construção de um país mais próspero e justo.”. Sabendo disso, qual papel o Estado deve desempenhar diante da sua forte influência no mercado que está em constante e acelerado desenvolvimento, sabendo do impacto que suas ações podem causar e influenciar na economia? Esta resposta por longas datas é motivo de muito debate e discussão. Segundo Chiavenato (2008, p. 99-100): Nos últimos anos, assistimos em todo o mundo a um debate acalorado – ainda longe de concluído – sobre o papel que o Estado deve desempenhar na vida contemporânea e o grau de intervenção que deve ter na economia. No Brasil, o tema adquire relevância particular, tendo em vista que o Estado, em razão do modelo de desenvolvimento adotado, desviou-se de suas funções precípuas para atuar com grande ênfase na esfera produtiva. Essa maciça interferência do Estado no mercado acarretou distorções crescentes neste último, que passou a conviver com artificialismos que se tornaram insustentáveis na década de 1990. Com o crescimento acelerado do país, o Estado preocupou-se muito com a esfera produtiva, deixando de lado seu principal papel de saber equilibrar e administrar os recursos para estabilizar a economia junto com este crescimento, porém foi inevitável a existência de problemas que originam da relação que o Estado tem com o mercado. O mercado e o Estado precisam encontrar um equilíbrio para o bem-estar da sociedade e crescimento do país, pois ambos têm forte influência sobre o sucesso ou o fracasso da economia que reflete resultados positivos ou negativos tanto para a sociedade, quanto para o mercado e o Estado. Trata-se de uma “aliança”, onde todos devem desempenhar seu papel para que todos sejam beneficiados. O fato é que, infelizmente, irregularidades são detectadas e as consequências são inevitáveis a todo o país, neste caso nos referimos à crise. Chiavenato (2008, p. 100) explica: TÓPICO 3 | CRISES E REFORMAS DO ESTADO 209 Sem dúvida, num sistema capitalista, Estado e mercado, direta ou indiretamente, são as duas instituições centrais que operam na coordenação dos sistemas econômicos. Dessa forma, se uma delas apresenta funcionamento irregular, é inevitável que nos deparemos com uma crise. Foi assim nos anos 1920 e 1930, em que claramente foi o mau funcionamento do mercado que trouxe em seu bojo uma crise econômica de grandes proporções. Já nos anos 1980, é a crise do Estado que põe em cheque o modelo econômico em vigência. Foi neste período de acelerado desenvolvimento do mercado, em 1990, que o papel do Estado procura ser redefinido, visto que este tem forte influência na economia nacional, já que o Estado já não conseguia mais ser eficiente em relação às suas atribuições, principalmente na área social, pois a sociedade estava frustrada com os resultados apresentados pelo Governo na administração do Estado. Segundo Chiavenato (2008, p.100): É importante ressaltar que a redefinição do papel do Estado é um tema de alcance universal nos anos de 1990. No Brasil, esta questão adquiriu importância decisiva, tendo em vista o peso da presença do Estado na economia nacional. Tornou-se, consequentemente inadiável equacionar a questão da reforma ou da reconstrução do Estado, que já não consegue mais atender com eficiência à sobrecarga de demandas a ele dirigidas, sobretudo na área social. A reforma do Estado não é, assim, um tema abstrato: ao contrário, é algo cobrado pela cidadania, que vê frustradas suas demandas e expectativas. Por exemplo, a crise do Estado que se confirmou nos anos de 1980, foi motivada pela ineficiência do Estado na administração de suas atribuições, em função da sobrecarga das obrigações a ele destinadas naquele cenário. O que ocasionou esta situação foi basicamente: “[...] descontrole fiscal, diversos países passaram a apresentar redução nas taxas de crescimento econômico, aumento do desemprego e elevados índices de inflação.”. (CHIAVENATO, 2008, p. 100). O Estado estava com dificuldade de gerir e alcançar as expectativas da sociedade que visava à estabilidade diante da crise. Para Chiavenato (2008, p.100): A crise do Estado teve início nos anos 1970, mas só nos anos1980 se tornou evidente. [...] a causa da desaceleração econômica nos países desenvolvidos e dos graves desequilíbrios na América Latina e no Leste Europeu era a crise do Estado, que não soubera processar de forma adequada a sobrecarga de demandas a ele dirigidas. A desordem econômica expressava agora a dificuldade do Estado em continuar a administrar as crescentes expectativas em relação à política de bem- estar aplicada com relativo sucesso no pós-guerra. A Primeira Grande Guerra Mundial e a Grande Depressão foram o marco da crise no mercado e do Estado liberal. UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 210 Conforme citado acima, A Primeira Grande Guerra Mundial e a Grande Depressão foram o marco da crise no mercado e do Estado liberal. A partir disso o Estado assume um novo papel, onde deverá promover além do desenvolvimento social, o desenvolvimento econômico. Para relembrar, a Primeira Guerra Mundial foi motivada pela luta entre as grandes potências para ter o domínio econômico e político sobre o mundo. A Grande Depressão, em 1929, ocorreu após a Primeira Guerra Mundial, pois os EUA após a Guerra passaram por uma crise, influenciando várias nações, inclusive o Brasil, pois além de serem financiadores de vários países, os EUA tiveram queda na sua produção industrial, também passaram a importar menos. Logo, “[...] o Estado passa a desempenhar um papel estratégico na coordenação da economia capitalista, promovendo poupança forçada alavancando o desenvolvimento econômico, corrigindo as distorções do mercado e garantindo uma distribuição de renda mais igualitária”. (CHIAVENATO, 2008, p. 100). O Estado passa a desempenhar seu novo papel conforme citado acima, porém, não demora muito, suas ações são prejudicadas pelas atitudes de certos funcionários e empresários que utilizam o Estado em seu benefício próprio, quando deveria ser para o bem comum. Conforme Chiavenato (2008, p. 100): Não obstante, nos últimos 20 anos esse modelo mostrou-se superado, vítima de distorções da tendência observada em grupos de empresários e de funcionários, que buscam utilizar o Estado em seu próprio benefício, vítima também da aceleração do desenvolvimento tecnológico e da globalização da economia mundial, que tornaram a competição entre as nações muito mais aguda. Como podemos observar na citação acima, além de funcionários e empresários que utilizaram o Estado em beneficio próprio, o Estado se deparou com uma nova situação que é a aceleração do desenvolvimento tecnológico e da globalização da economia mundial, onde a competição entre os países tornou-se mais acirrada. Define-se a crise do Estado, conforme Chiavenato (2008, p. 100): 1 – Como uma crise fiscal, caracterizada pela crescente perda do crédito por parte do Estado e pela poupança pública que se torna negativa; 2 – como o esgotamento da estratégia estatizante de intervenção do NOTA TÓPICO 3 | CRISES E REFORMAS DO ESTADO 211 Estado, a qual se reveste de várias formas: o Estado do bem-estar social nos países desenvolvidos, a estratégia de substituição de importações no terceiro mundo e o estatismo nos países comunistas; 3 – como a superação da forma de administrar o Estado, isto é, a superação da administração pública burocrática. Com todos esses acontecimentos providos pela crise, em 1990, se fez necessário uma reforma do Estado, para recuperar a autonomia financeira e também em relação às políticas públicas. Conforme Chiavenato (2008, p. 101): “Só em meados dos anos 1990 surge uma resposta consistente com o desafio da superação da crise: a ideia da reforma ou reconstrução do Estado, de forma a resgatar sua autonomia financeira e sua capacidade de implementar políticas públicas”. O Estado precisava reagir diante da crise e para isso foi necessário, conforme citado acima, uma reconstrução, uma reforma para redefinir o papel do Estado. Chiavenato (2008, p. 101) cita alguns ajustes que ocorreram neste sentido: 1 – o ajustamento fiscal duradouro; 2 – as reformas econômicas orientadas para o mercado, que acompanhadas de uma política industrial e tecnológica, garantam a concorrência interna e criem as condições para o enfrentamento da competição internacional; 3 – a reforma da previdência social; 4 – a inovação dos instrumentos de política social, proporcionando maior abrangência e promovendo melhor qualidade para os serviços sociais; 5 – a reforma do aparelho do Estado, com vistas a aumentar sua “governança”, ou seja, sua capacidade de implementar de forma eficiente políticas públicas. Segundo o Banco Mundial, “governança é a maneira pela qual o poder é exercido na administração dos recursos sociais e econômicos de um país visando ao desenvolvimento, e a capacidade dos governos de planejar, formular e programar políticas e cumprir funções”. FONTE: Disponível em: <http://www.significados.com.br/governanca/>. Acesso em: 18 jan. 2014. NOTA UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 212 Segue um quadro com a função dos órgãos para efetivar as mudanças citadas acima: ÓRGÃO FUNÇÃO Ministérios da área econômica, principalmente da Fazenda e do Planejamento. Propor alternativas com vistas à solução da crise fiscal. Ministérios Setoriais Rever as políticas públicas, em consonância com os novos princípios do desenvolvimento econômico e social. Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado Estabelecer as condições para que o governo possa aumentar sua governança. FONTE: Adaptado de: Chiavenato (2008, p. 101) Vale ressaltar que não podemos confundir reforma do Estado com reforma do aparelho do Estado. Conforme Chiavenato (2008, p. 102): A reforma do Estado é um projeto amplo que diz respeito às várias áreas do governo e, ainda, ao conjunto da sociedade brasileira, enquanto que a reforma do aparelho do Estado tem um escopo mais estrito: está orientada para tornar a administração pública mais eficiente e mais voltada para a cidadania. Podemos distinguir a reforma do Estado da reforma do aparelho do Estado, se considerarmos o conceito do Estado que é composto por três elementos: o povo, o território e o Governo, logo a reforma do Estado abrange todos os elementos. É possível comparar o aparelho do Estado com o motor de um veículo, onde este aparelho terá suas características para fazer funcionar o veículo de acordo com o perfil do comprador. O aparelho do Estado é a forma como o Estado é administrado e executado para funcionar de acordo com as características que o povo visa. A reforma do Estado nada mais é do que o papel definido que o Estado deve assumir através do aparelho do Estado, o Estado assume um papel e o aparelho do Estado é a forma de execução desse papel. Segue um quadro ilustrativo para que de forma simplificada possam ser visualizados os principais objetivos das reformas: QUADRO 16 – FUNÇÃO DOS ÓRGÃOS PARA EXECUÇÃO DOS OBJETIVOS DO ESTADO TÓPICO 3 | CRISES E REFORMAS DO ESTADO 213 QUADRO 17 – REFORMAS DO ESTADO E DO APARELHO DO ESTADO REFORMA OBJETIVO DASP (1936) Mudar a forma como a administração pública estava sendo administrada, visando à burocracia rígida. Decreto Lei Nº 200/1967 Flexibilizar e superar a rigidez da administração burocrática da época, em consequência das inadequações do modelo vigente até então. O Decreto-Lei nº 200 é considerado um marco, pois a partir deste que a administração gerencial nascia no Brasil. Ministério da Desburocratização (1980) Inicialmente as ações do PRND - Programa Nacional da Desburocratização era para combater a burocracia Excessiva nos procedimentos e posteriormente conter a expansão da administração descentralizada devido ao excesso de autonomia concedida pelo Decreto-Lei nº 200. Constituição Federal (1988)Organizar o Estado através dos princípios fundamentais, garantindo direitos e deveres aos cidadãos, além de legislar sobre tributação e orçamento, ordem econômica e financeira e ordem social. Para elaborar esta Constituição o povo foi chamado a participar, reafirmando a sua ideia de democracia. Emenda Constitucional no 19 de 1988 Reforma administrativa do Estado, tratando de questões como a estabilidade dos servidores públicos, o regime de remuneração e a gestão gerencial. Lei de Responsabilidade Fiscal Estabelecer normas de finanças públicas voltadas para a responsabilidade na gestão fiscal, obrigando os gestores a planejarem suas despesas com base na receita efetivamente arrecadada. Estabelece limites na geração de despesas com pessoal. FONTE: Os autores Como podemos observar, a evolução e melhoria da administração pública, das reformas do Estado e do Aparelho do Estado foi motivo de muito debate e discussão. Vamos conhecer e entender melhor o assunto a partir de agora. UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 214 3 DASP – DEPARTAMENTO DE ADMINISTRAÇÃO DO SERVIÇO PÚBLICO (ERA VARGAS – 1936) O DASP foi criado no governo de Vargas, em 1936, com o objetivo de mudar a forma como a administração pública estava sendo administrada, visando à burocracia. Conforme Chiavenato (2008, p. 109): “Com o objetivo de realizar a modernização administrativa, foi criado o Departamento Administrativo do Serviço Público – DASP, em 1936.”. O modelo de administração burocrática se destaca a partir de 1930, com a aceleração da indústria brasileira, onde o Estado poderia ser o principal influenciador no setor produtivo de bens e serviços. Conforme Chiavenato (2008, p. 109): “No Brasil, o modelo de administração burocrática emerge a partir dos anos 1930. Surge no quadro da aceleração da industrialização brasileira, em que o Estado assume papel decisivo, intervindo pesadamente no setor produtivo de bens e serviços.”. Como estudamos anteriormente, o modelo de administração burocrático se caracteriza pela racionalização de recursos, na excessiva ênfase nos processos, por controles rígidos. Foi a partir do modelo de administração burocrática, na era Vargas, que o ingresso ao serviço público passou a ser através de concurso público. Chiavenato (2008, p.109) afirma: A partir da reforma empreendida no governo Vargas por Maurício Nabuco e Luiz Simões Lopes, a administração pública sofre um processo de racionalização que se traduziu no surgimento das primeiras carreiras burocráticas e na tentativa de adoção do concurso como forma de acesso ao serviço público. A implantação da administração pública burocrática é uma consequência clara de emergência de um capitalismo moderno no país. Com o crescimento da indústria e desenvolvimento do país se faz necessária uma administração mais eficiente e transparente. Podemos concluir que o modelo patrimonialista não cabe mais a um país onde o capitalismo se torna cada vez mais emergente, onde o cidadão luta com garra por seus interesses. Sendo assim, é evidente que o modelo de administração burocrático nasce deste capitalismo que pede maior controle e transparência no serviço público, nasce dos cidadãos que cada vez mais desconfiam da administração pública temendo o modelo de administração patrimonialista onde apenas a minoria privilegiada sai beneficiada. No início a administração pública burocrática teve influência da teoria científica de Taylor que já estudamos na primeira unidade deste Caderno de Estudos. TÓPICO 3 | CRISES E REFORMAS DO ESTADO 215 Conforme Chiavenato (2008, p.109), as influências que a administração pública sofreu baseada na teoria científica de Taylor foram respectivamente: - Racionalização mediante a simplificação. - Padronização e aquisição racional de materiais. - Revisão de estruturas e aplicação de métodos na definição de procedimentos. - A função orçamentária vinculada ao planejamento. Quanto à administração de recursos humanos, a burocracia da administração pública sofreu influência da teoria científica de Weber, onde o mérito profissional passou a vigorar. Conforme Chiavenato (2008, p.109): No que diz respeito à administração dos recursos humanos, o DASP representou a tentativa de formação da burocracia nos moldes weberianos, baseada no princípio do mérito profissional. Entretanto, embora tenham sido valorizados os instrumentos importantes à época, tais como o instituto do concurso público e do treinamento – não se chegou a adotar consistentemente uma política de recursos humanos que respondesse às necessidades do Estado. Podemos afirmar que apesar da evolução da área de recursos humanos no modelo burocrático da administração pública, como por exemplo, o concurso público, treinamento e mérito profissional, ainda não existia uma política de recursos humanos que suprisse todas as necessidades da época, porém, a busca pela evolução era constante. Apesar de a burocracia vigorar, o patrimonialismo ainda estava presente. “O patrimonialismo (contra o qual a administração pública burocrática se instalara), embora em processo de transformação, mantinha ainda sua própria força no quadro político brasileiro. O coronelismo dava lugar ao clientelismo e ao fisiologismo.” (CHIAVENATO, 2008, p. 109). Antes, no modelo patrimonialista existia o coronelismo, agora, na administração burocrática a presença do modelo patrimonialista “mudou de nome” para clientelismo, que significa a mesma coisa: troca de favores, apoio político em troca de algum interesse pessoal, quando deveria a coisa pública beneficiar a todos, e não apenas ao indivíduo que é visto como cliente pelo político que em troca disso quer o apoio nas eleições. Estas inadequações do modelo burocrático na era Vargas, deram brecha para diversas tentativas de novas reformas. UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 216 4 DECRETO-LEI No 200 (1967) O Decreto-Lei nº 200 surgiu a partir de uma nova reforma, no governo de JK (Juscelino Kubitschek), em 1967, com o objetivo de flexibilizar e superar a rigidez da administração burocrática da época, em consequência das inadequações do modelo vigente até então. O Decreto-Lei nº 200 é considerado um marco, pois a partir dele nascia a administração gerencial no Brasil. Conforme Chiavenato (2008, p. 109-110): Não obstante, as experiências se caracterizaram, em alguns casos, pela ênfase na extinção e criação de órgãos, e, em outros, pela constituição de estruturas paralelas visando a alterar a rigidez burocrática. Na própria área da reforma administrativa, esta última prática foi adotada, por exemplo, no Governo JK, com a criação de comissões especiais, como a Comissão de Estudos e Projetos Administrativos, objetivando a realização de estudos para simplificação dos processos administrativos e reformas ministeriais, e a Comissão de Simplificação Burocrática, que visava à elaboração de projetos direcionados para reformas globais e descentralização de serviços. A reforma operada pelo Decreto-Lei nº 200, entretanto, constitui um marco na tentativa de superação da rigidez burocrática, podendo ser considerada como um primeiro momento da administração gerencial no Brasil. Como podemos observar na citação acima, foram criadas comissões com o objetivo de superar a rigidez burocrática, estudavam para chegar à simplificação dos processos administrativos e também à descentralização dos serviços. Através do Decreto-Lei nº 200, segundo Chiavenato (2008, p. 110): - Realizou-se a transferência de atividades para autarquias, fundações, empresas públicas e sociedades de economia mista, a fim de obter-se maior dinamismo operacional por meio da descentralização funcional.- Instituíram-se como princípios de racionalidade administrativa o planejamento e o orçamento, o descongestionamento das chefias executivas superiores (desconcentração/descentralização), a tentativa de reunir competência e informação no processo decisório, a sistematização, a coordenação e o controle. Apesar de o Decreto-Lei nº 200 visar à descentralização e maior flexibilidade da administração pública burocrática como um ponto positivo à administração pública, pecou em alguns quesitos. Neste caso, o Decreto-Lei nº 200, nada estabeleceu quanto à administração burocrática central (administração direta) em relação às empresas estatais (administração indireta), desta forma deu brecha para a ineficiência da administração pública direta, pois não havia especificado como seria a administração das empresas estatais. Sendo assim, coexistiram na administração indireta diferentes núcleos para administrar, ou seja, houve um excesso de autonomia à administração indireta/empresas estatais. Conforme Chiavenato (2008, p. 110): TÓPICO 3 | CRISES E REFORMAS DO ESTADO 217 [...] as reformas operadas pelo Decreto-Lei nº 200/1967 não desencadearam mudanças no âmbito da administração burocrática central, permitindo a coexistência de núcleos de eficiência e competência na administração indireta e formas arcaicas e ineficientes no plano da administração direta ou central. O regime militar propositalmente não se preocupou em estabelecer um plano de carreira aos administradores públicos de alto nível, preferiu contratar o pessoal de alto escalão através das empresas estatais. Conforme Chiavenato (2008, p. 110): O núcleo burocrático foi, na verdade, enfraquecido indevidamente através de uma estratégia oportunista do regime militar, que não desenvolveu carreiras de administradores públicos de alto nível, preferindo, em vez disso, contratar os escalões superiores da administração através das empresas estatais. O Decreto-Lei nº 200 contribui para a evolução da administração pública, pois, como vimos, tinha como objetivo flexibilizar a rigidez da administração pública burocrática e a descentralização para melhorias nos processos, porém houve um excesso de autonomia às empresas estatais, que como vimos, usufruiu de forma incorreta do patrimônio público, além disso, não tinha processo seletivo ou concurso público para ter acesso aos cargos das empresas estatais (autarquias, fundações, empresas públicas e sociedades de economia mista). Estas falhas que precisavam ser corrigidas provocaram uma nova iniciativa para modernizar a administração pública. Conforme Chiavenato (2008, p. 110): Em meados dos anos 1970, uma nova iniciativa modernizadora da administração pública teve início, com a criação da SEMOR – Secretaria da Modernização. Reuniu-se em torno dela um grupo de jovens administradores públicos, muitos deles com formação em nível de pós-graduação no exterior, que buscou implantar novas técnicas de gestão, e particularmente de administração de recursos humanos, na administração pública federal. Essa tentativa de novamente modernizar a administração pública resultou na criação da SEMOR – Secretaria da Modernização, onde um grupo de jovens administradores públicos estudava para buscar novas alternativas para a melhoria na gestão pública. Ainda assim, no início de 1980, houve uma nova tentativa de reforma à administração pública burocrática rumo à administração pública gerencial, estamos falando agora do Ministério da Desburocratização. UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 218 5 MINISTÉRIO DA DESBUROCRATIZAÇÃO (1980) No início de 1980 houve uma nova tentativa de reforma da administração pública burocrática rumo à administração gerencial. Foi criado o Ministério da Desburocratização e o Programa Nacional da Desburocratização – PRND. Conforme Chiavenato (2008, p. 110): “No início dos anos 1980, registrou-se uma nova tentativa de reforma à burocracia e orientá-la na direção da administração pública gerencial, com a criação do Ministério da Desburocratização e do Programa Nacional de Desburocratização – PRND [...]”. Tinham basicamente quatro objetivos, que, segundo Chiavenato (2008, p. 110-111), eram: - Revitalização e agilização das organizações do Estado. - Descentralização da autoridade. - Melhoria e simplificação dos processos administrativos. - Promoção da eficiência. Inicialmente as ações do PRND eram para combater a burocracia excessiva nos procedimentos e posteriormente conter a expansão da administração descentralizada devido ao excesso de autonomia concedida pelo Decreto-Lei nº 200. Segundo Chiavenato (2008, p.111), as ações do PRND voltaram-se “[...] inicialmente para o combate à burocratização dos procedimentos. Posteriormente, foram dirigidas para o desenvolvimento do Programa Nacional de Desestatização, [...] para conter os excessos da expansão da administração descentralizada, estimulada pelo Decreto-Lei nº 200/1967”. Como já estudamos sobre as constituições, devemos recordar que em 1985 houve a transição da ditadura militar à democracia no país, rumo a Constituição de 1988. Foi neste momento que as ações para alcançar a administração gerencial foram paralisadas, pois o Estado estava com altos custos com os cargos públicos da administração indireta e das delegacias dos ministérios dos Estados para os políticos vitoriosos. O que aparentemente demonstra que a flexibilidade e medidas contra a rigidez democrática e a descentralização, são sinônimas de fracasso, onde rigidez burocrática é a solução. Por outro lado, entendia-se que a rigidez burocrática era culpada pela crise do Estado, já que incentivou o crescimento acelerado deste. Conforme Chiavenato (2008, p. 111): As ações rumo a uma administração pública gerencial, são, entretanto, paralisadas na transição democrática de 1985 que, embora representasse uma grande vitória democrática, teve como um de seus custos mais surpreendentes o loteamento dos cargos públicos da administração indireta e das delegacias dos ministérios nos Estados para os políticos dos partidos vitoriosos. Um novo populismo patrimonialista surgia no país. De outra parte, a alta burocracia passava a ser acusada, principalmente pelas forças conservadoras, de ser a culpada da crise do Estado, na medida em que favorecia seu crescimento excessivo. TÓPICO 3 | CRISES E REFORMAS DO ESTADO 219 Esses fatores levaram a administração pública a um retrocesso burocrático. Sobre este assunto nos aprofundaremos a seguir. 6 CONSTITUIÇÃO FEDERAL (1988) Como vimos, foram basicamente dois fatores que motivaram o retrocesso burocrático na administração pública: o novo populismo patrimonialista que surgia no país, ou seja, os políticos favoreciam os que lhe davam apoio político, geralmente contratando-os com altos salários, e a alta burocracia que foi acusada pela crise do Estado, já que incentivou o seu desenvolvimento de forma acelerada. Segundo Chiavenato (2008, p. 111): A conjunção desses dois fatores leva, na Constituição de 1988, a um retrocesso burocrático sem precedentes. Sem que houvesse maior debate público, o Congresso Constituinte promoveu um surpreendente engessamento do aparelho estatal, ao estender para os serviços do Estado e para as próprias empresas estatais praticamente as mesmas regras burocráticas rígidas adotadas no núcleo estratégico do Estado. Sendo assim, o que resultou deste retrocesso burocrático foi a decisão do Congresso Constituinte de empregar a rígida burocracia adotada pelo núcleo estratégico do Estado aos serviços do Estado e para as empresas estatais. A nova Constituição determinou, segundo Chiavenato (2008, p.111): - Perda de autonomia do Poder Executivo para tratar da estruturação dos órgãos públicos. - Instituiu a obrigatoriedade de regimejurídico único para os servidores civis da União, dos Estados-membros e dos Municípios. - Retirou da administração indireta a sua flexibilidade operacional, ao atribuir às fundações e autarquias públicas normas de funcionamento idênticas às que regem a administração direta. Podemos perceber que todo o avanço que a administração pública havia conquistado rumo à administração gerencial foi boicotado, retornando/ retrocedendo a rígida administração burocrática. Não podemos associar o retrocesso burocrático como um aparente fracasso das medidas (flexibilização burocrática e descentralização) tomadas pelo Decreto-Lei nº 200/1967, mesmo que este tenha dado excessiva autonomia para a administração indireta/empresas estatais que abusaram disto. Na transição democrática do Brasil, as forças democráticas identificavam o Decreto-Lei nº 200/1967 como resultado da descentralização que o regime militar queria implantar. Assim relata Chiavenato (2008, p. 111): UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 220 O retrocesso burocrático não pode ser atribuído a um suposto fracasso da descentralização e da flexibilização da administração pública que o Decreto-Lei nº 200/1967 teria promovido. Embora alguns abusos tenham sido cometidos em seu nome, seja em termos de excessiva autonomia para as empresas estatais, seja em termos do uso patrimonialista das autarquias e fundações (onde não havia a exigência do processo seletivo para a admissão de pessoal), não é correto afirmar que tais distorções possam ser imputadas como causa do mesmo. Na medida em que a transição democrática ocorreu no Brasil em meio à crise do Estado, essa última foi equivocadamente identificada pelas forças democráticas como resultado, entre outros, do processo de descentralização que o regime militar procurara implantar. Na transição democrática existiu uma campanha contra a estatização (centralização), isto levou ao aumento de rígidos controles burocráticos às empresas estatais. “Por outro lado, a transição democrática foi acompanhada por uma ampla campanha contra a estatização, que levou os constituintes a aumentar os controles burocráticos sobre as empresas estatais e a estabelecer normas rígidas para a criação de novas empresas públicas e de subsidiárias já existentes”. (CHIAVENATO, 2008, p. 111-112). Todos esses acontecimentos citados acima sobre o retrocesso da administração burocrática trouxeram dois resultados, um deles é a volta da rigidez da burocracia ficando novamente longe do modelo de administração gerencial, outro resultado foi de certa forma a presença do modelo patrimonialista que é totalmente o oposto da administração burocrática. Segundo Chiavenato (2008, p.112): [...] geraram-se dois resultados: [...] o abandono do caminho rumo a uma administração pública gerencial e a reafirmação dos ideais da administração pública burocrática clássica; [...] [e] dada a ingerência patrimonialista no processo, a instituição de uma série de privilégios, que não se coadunam com a própria administração pública burocrática. Podemos citar como exemplo destes privilégios da administração patrimonialista presente na administração burocrática: “[...] estabilidade rígida para todos os servidores civis, diretamente relacionada à generalização do regime estatutário na administração direta e nas fundações e autarquias, a aposentadoria com proventos integrais sem correlação com o tempo de serviço ou com a contribuição do servidor.” (CHIAVENATO; 2008, p.112). Estes privilégios de certa forma acabaram denegrindo a imagem dos administradores públicos e da própria administração pública de forma injusta, pois todos os acontecimentos negativos ou positivos tiveram como objetivo a melhoria da administração pública. Conforme Chiavenato (2008, p. 112): Todos estes fatos contribuíram para o desprestígio da administração pública brasileira, não obstante o fato de que os administradores públicos TÓPICO 3 | CRISES E REFORMAS DO ESTADO 221 brasileiros são majoritariamente competentes, honestos e dotados do espírito público. Essa qualidade, que eles demonstram desde os anos 1930, quando a administração pública profissional foi implantada no Brasil, foram um fator decisivo para o papel estratégico que o Estado jogou no desenvolvimento econômico brasileiro. A implantação da indústria de base nos anos 1940 e 1950, o ajuste nos anos 1960, o desenvolvimento da infraestrutura e a instalação da indústria de bens de capital, nos anos de 1970, de novo o ajuste e a reforma financeira nos anos 1980, e a liberação comercial nos anos 1990, não teriam sido possíveis não fosse a competência e o espírito público da burocracia brasileira. Através da citação acima percebemos os avanços que o Estado e a administração pública tiveram graças aos esforços dos administradores públicos. Chiavenato (2008, p. 112) faz uma breve análise do comportamento dos governos posteriores em relação às distorções provocadas pela nova Constituição, após todos estes acontecimentos: - No governo de Collor, entretanto, as respostas a elas foi equivocada e apenas agravou os problemas existentes, na medida em que se preocupava em destruir ao invés de construir. - O governo de Itamar Franco buscou essencialmente recompor os salários dos servidores, que haviam sido violentamente reduzidos no governo anterior. Em 1994, estava prevista uma nova reforma administrativa rumo à administração gerencial. Conforme Chiavenato (2008, p. 112): “O discurso de reforma administrativa assume uma nova dimensão a partir de 1994, quando a campanha presidencial introduz a perspectiva da mudança organizacional e cultural da administração pública no sentido de uma administração gerencial.” No entanto, se por um lado, a Constituição de 1988 provocou retrocesso no modelo de administração gerencial, fazendo o país voltar ao modelo burocrático, não podemos deixar de frisar os benefícios trazidos por ela, chamada de Constituição cidadã desde sua promulgação. Segundo Alkmim (2009, p. 192, grifo do autor): Trata-se nas palavras de Ulisses Guimarães, de uma Constituição cidadã, porquanto contou com ampla participação popular em sua elaboração e, em especial, porque se volta decididamente para a plena realização da cidadania, muito embora os sucessivos governos que vieram após a sua promulgação pouco tenham feito para o seu pleno atingimento. Vale dizer que, nada obstante a Constituição, sob aspecto formal, seja de fato cidadã, falta concretizar esta cidadania também no aspecto material. A atual constituição foi elaborada pela Assembleia Constituinte que iniciou seus trabalhos no início do ano de 1987, ou seja, foram mais de 18 meses de trabalho até que ela fosse elaborada e promulgada em 05 de outubro de 1988. UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 222 É considerada uma constituição democrática, pois: [...] foi ampla a participação popular nos trabalhos constituintes, sendo que, durante os trabalhos, cerca de 5,4 milhões de pessoas transitaram pelo edifício do Congresso Nacional, com a apresentação de 122 emendas populares, algumas com mais de um milhão de assinaturas, fato que revela a ampla participação democrática. (ALKMIM, 2009, p. 192). É provável que o sucesso e a duração dessa Constituição, já são mais de 25 anos, deva-se à grande participação popular na sua elaboração. Afora isso, precisamos citar as inúmeras conquistas sociais e econômicas trazidas para o país por esta Carta Magna. Conforme consta no site Direito Net (2013): A Constituição de 1988, além de representar o marco entre o regime militar e a democracia, também significou a conquista de vários direitos trabalhistas e sociais. Na área econômica, os constituintes fortaleceram a estrutura do Estado, estabelecendoos monopólios da exploração do subsolo, do minério, do petróleo, dos recursos hídricos, do gás canalizado, das comunicações e do transporte marítimo. Vejamos as principais mudanças trazidas pela Carta Magna de 1988: reestruturou os Poderes da República, fortaleceu o Ministério Público (transformou-o num órgão independente, autônomo e detentor da prerrogativa da ação civil pública; reduziu a jornada de trabalho de 48 para 44 horas semanais, instituiu o abono de férias, o 13º salário aos aposentados e o seguro-desemprego; os direitos dos trabalhadores urbanos foram concedidos também aos trabalhadores rurais e domésticos, a licença maternidade passou de 90 para 120 dias, os homens passaram a ter licença paternidade de 5 dias, foi criado o direito de greve e liberdade sindical aos trabalhadores; foi aprovado renda mensal vitalícia para idosos e deficientes, o racismo foi definido como crime inafiançável e imprescritível, também foi estabelecido a proteção ao consumidor (resultou na elaboração do Código de Defesa do Consumidor); foi instituída a possibilidade de eleição em dois turnos, em cidades com mais de 200 mil eleitores, quando nenhum dos candidatos atingirem mais de 50% dos votos válidos; com a Constituição Cidadã os brasileiros passaram a ter direito ao habeas data, ação que garante a todo cidadão saber os dados a seu respeito em posse dos arquivos governamentais; a Constituição também pôs fim à censura e instituiu a liberdade de expressão. (DIREITO NET, 2013). TÓPICO 3 | CRISES E REFORMAS DO ESTADO 223 Sabemos que muitas normas da Constituição que ficaram na dependência de legislação regulamentar continuam sem regulamentação, é o caso da licença paternidade, entretanto, as conquistas alcançadas pela Constituição cidadã não podem ser ignoradas, foi o momento de o povo deixar a ditadura de lado e entrar na era democrática. 7 EMENDA CONSTITUCIONAL 19 (1998) A Emenda Constitucional nº 19, de 04 de junho de 1998, é conhecida como a emenda da reforma administrativa do Estado Brasileiro. Foi através dessa emenda que aconteceram mudanças significativas responsáveis pela modernização da máquina administrativa do país. De acordo com Silva (1999): “Dentre as modificações introduzidas pela Emenda Constitucional nº 19/98, destacam-se aquelas relacionadas com a estabilidade dos servidores públicos, com o regime de remuneração dos agentes públicos e com a gestão gerencial da administração pública.” Observe que essa emenda fez alterações nas disposições que tratam dos servidores públicos, incluindo também, o princípio da eficiência com a gestão gerencial. Iremos nos ater à análise das mudanças sobre os servidores públicos, uma vez que a gestão gerencial já foi estudada anteriormente. Conforme Alexandrino e Paulo (2011, p. 317, grifo dos autores): O caput do art. 39 da Constituição, originariamente, estabelecia a obrigatoriedade de adoção, por parte de cada ente da Federação, de um só regime jurídico aplicável a todos os servidores integrantes de suas administrações direta, autárquica e fundacional (e também tornava obrigatória a instituição de planos de carreira para esses servidores). Não deixe de ler o artigo completo publicado no Direito Net sobre a Constituição de 1988. Disponível em: <http://www.direitonet.com.br/noticias/exibir/14961/Constituicao- de-1988-completa-25-anos>. DICAS UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 224 Cada ente poderia escolher o regime que adotaria entre: estatutário, regime contratual trabalhista (CLT) ou ainda, um regime misto. Não podendo utilizar mais de um regime. Na esfera federal a União editou a Lei no 8.112/90 adotando o regime estatutário para seus servidores. (ALEXANDRINO; PAULO; 2011). No que tange ao regime jurídico e aos planos de carreira, a Emenda 19 alterou o caput do art. 39, eliminando a obrigatoriedade da adoção de regime único, bem como, a obrigatoriedade do plano de carreira. Essa alteração não prejudicou o disposto na Lei no 8.112/90, apenas permitiu a existência de mais de um regime jurídico na administração direta, autarquias e fundações públicas de cada um dos entes da Federação. Com isso, a União editou a Lei no 9.962/2000 prevendo a contratação de empregados públicos. Entretanto, o STF deferiu medida cautelar suspendendo a eficácia do art. 39 com redação da Emenda no 19/98 a partir de agosto de 2007, voltando à redação original do referido artigo, inclusive no que se refere aos planos de carreira, mas vale lembrar que, toda a legislação editada durante a vigência da Emenda no 19 continua válida. (ALEXANDRINO; PAULO; 2011). Com relação às mudanças quanto à estabilidade, observe o quadro a seguir: QUADRO 18 – REGRAS PARA ESTABILIDADE ANTES E DEPOIS DA EC NO 19 Como era Como ficou após a Emenda no 19 Para adquirir a estabilidade era necessário: l aprovação em concurso público; l dois anos de efetivo exercício do cargo. Para adquirir a estabilidade é necessário: l ser aprovado em concurso público; l cargo público de provimento efetivo; l três anos de efetivo exercício; l aprovação em avaliação especial de desempenho por comissão instituída para essa finalidade. Hipóteses de perda de cargo: l infração disciplinar grave, tipificada em lei e apurada em processo administrativo disciplinar, assegurada a ampla defesa; l trânsito em julgado de sentença judicial. Hipóteses de perda de cargo: l sentença judicial transitada em julgado; l processo administrativo com ampla defesa; l insuficiência de desempenho verificada mediante avaliação periódica, assegurada a ampla defesa; l excesso de despesa com pessoal (conforme art. 169 da CF). FONTE: Adaptado de: Alexandrino e Paulo (2011, p. 328-330) IMPORTANT E TÓPICO 3 | CRISES E REFORMAS DO ESTADO 225 Observe que os critérios para atingir a estabilidade ficaram mais rigorosos após a aprovação da Emenda Constitucional nº 19/1998. Além disso, foram acrescentadas duas hipóteses que podem causar a perda do cargo mesmo após decorrido o período de 03 anos e aprovação em estágio probatório, sendo que o último deles, excesso de despesa com pessoal, independe do bom desempenho do servidor. A partir de agora abordaremos as alterações quanto ao regime de remuneração dos servidores. Segundo Silva (1999): Dentre as alterações introduzidas pela Emenda Constitucional nº 19/98, no bojo da reforma administrativa, algumas delas ganharam importância diferenciada na reflexão jurídica. Entre estas questões está a previsão de subsídios em substituição aos vencimentos ou remuneração de alguns agentes públicos. O subsídio é fixado em parcela única, sendo vedado qualquer acréscimo de gratificação, adicional, abono entre outras espécies remuneratórias. De acordo com Alexandrino e Paulo (2011) a remuneração por subsídio é obrigatória para os agentes políticos (chefes dos Executivos, deputados, senadores, vereadores, ministros de Estado, secretários estaduais e municipais, membros da magistratura, membros do Ministério Público, entre outros), alguns servidores públicos (servidores das carreiras da Advocacia Geral da União, à Defensoria Pública, servidores da Polícia Federal, policiais civis, militares e corpo de bombeiros) e facultativa para os servidores públicos organizados em carreira, desde que disposto em lei. Essa emenda constitucional contribui para o início da profissionalização do serviço público. 8 LEI DE RESPONSABILIDADE FISCAL (2000) A Lei de Responsabilidade Fiscal é nada mais que a regulamentação dos artigos 163, 165 §9º inciso II e 169 da Constituição de 1988, ou seja, a Lei Complementar nº 101, de 04 de maio de 2000, é fruto da Constituição de 1988. A LRF trata da responsabilidade na gestão fiscal (financeira) dos órgãospúblicos. Conforme Nascimento (2010), a Lei de Responsabilidade Fiscal revogou a Lei Complementar nº 96/1999, conhecida como Lei Camata. Os modelos que serviram de referência para a elaboração da LRF são os seguintes: Fundo Monetário Internacional (FMI) no que se refere ao princípio da transparência nas contas públicas através da abertura das contas governamentais ao povo de forma simplificada. UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 226 O programa Fiscal Responsability Act da Nova Zelândia, onde foi enfatizada a ideia de impor limites e restrições aos gastos públicos em busca do ajuste fiscal e a transparência das contas públicas, assim como sugere o FMI. O Tratado de Maastricht da Comunidade Europeia que estabeleceu condições e regras aos seus países membros, tais como: metas de relação estável entre dívida e Produto Interno Bruto e manutenção do equilíbrio fiscal em busca da autossustentabilidade. Influência dos Estados Unidos através das experiências decorrentes de dois mecanismos: o sequestration e o pay as you go, deram fundamento ao artigo 9º da LRF na forma de limites para empenhos e despesas e medidas de compensação. Significa gastar apenas o que se arrecada. A Lei Camata regulamentava o artigo 169 da Constituição de 1988, quanto ao total das despesas com pessoal, onde determinava que essas despesas não poderiam ultrapassar 60% da Receita Corrente Líquida. Além dessa lei, outro instrumento legal que estabelecia normas para gestão fiscal responsável e equilíbrio nas contas públicas foi a Lei nº 9.496/97 que autorizou a União a assumir a dívida pública mobiliária dos estados e do Distrito Federal, cujo objetivo era garantir que o endividamento dos estados não cresceria nos anos seguintes. Com a edição da LRF a prática do refinanciamento e da postergação de dívidas públicas foi proibida. (NASCIMENTO, 2011). A LRF só vem regular tudo que já falamos desde o início deste caderno, quando se trata de dinheiro público, os gestores não podem agir de acordo com sua vontade, é preciso que se estabeleçam regras para o bom uso do dinheiro público, e foi para isso que essa lei foi aprovada. Os gestores não podem simplesmente realizar despesas sem ter receita para isso, pois, isso só faz com que a dívida pública aumente. Segundo Nascimento (2010, p. 212, grifo do autor): O principal objetivo da Lei de Responsabilidade Fiscal [...] consiste em estabelecer “normas de finanças públicas voltadas para a responsabilidade na gestão fiscal”. [...] o § 1º desse mesmo artigo [art. 1º] procura definir o que se entende como “responsabilidade na gestão fiscal”, estabelecendo os seguintes postulados: ação planejada e transparente (pressupostos da LRF); prevenção de riscos e correção de desvios que afetem o equilíbrio das contas públicas; garantia de equilíbrio nas contas, via cumprimento de metas de resultados entre receitas e despesas; IMPORTANT E TÓPICO 3 | CRISES E REFORMAS DO ESTADO 227 obediência a limites e condições para a renúncia de receita e a geração de despesas com pessoal, seguridade, dívida, operações de crédito, concessão de garantia e inscrição em restos a pagar. Para atingir os objetivos da LRF é preciso que os gestores públicos façam planejamento, e as ferramentas para planejamento na administração pública são a LOA (Lei Orçamentária Anual), a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) e o PPA (Plano Plurianual). Através do planejamento é possível prever e minimizar riscos que poderiam afetar as finanças públicas. A participação da população também é importante para que a gestão seja transparente. Com relação ao equilíbrio das contas públicas, Nascimento (2010, p. 213) afirma: “Significa, em outras palavras, que o equilíbrio a ser buscado é o equilíbrio autossustentável, ou seja, aquele que prescinde de operações de crédito, e portanto, sem aumento da dívida pública. [...] é a verdadeira tradução do slogan ‘gastar apenas o que se arrecada’.” Para realizar despesas os órgãos públicos dependem das receitas, e o equilíbrio consiste em não efetuar despesas maiores do que as receitas. Além disso, para garantir a realização de despesa é preciso que o gestor otimize a arrecadação de receitas, e mais, utilize essa receita de forma consciente. Dentre os limites trazidos pela LRF temos o que se refere ao controle nos casos de renúncia de receita. Segundo Nascimento (2010, p. 226), o art. 14, §1º da Lei de Responsabilidade Fiscal traz a definição de renúncia de receita: A renúncia compreende anistia, remissão, subsídio, crédito presumido, concessão de isenção em caráter não geral, alteração de alíquota ou modificação de base de cálculo que implique redução discriminada de tributos ou contribuições, e outros benefícios que correspondam a tratamento diferenciado. A renúncia de receita nada mais é do que abrir mão de determinados valores em função de situações específicas, e a LRF coloca limites nesse sentido para que o gestor o faça de forma planejada. Essas iniciativas de acordo com Nascimento (2010, p. 225) devem atender alguns requisitos, além de estarem previstas na LDO deve-se: estimar o impacto orçamentário financeiro no exercício inicial de sua vigência e nos dois seguintes; demonstrar que a renúncia da receita foi considerada ao se estimar a receita do orçamento e que não afetará as metas de resultados fiscais previstas na LDO; prever medidas de compensação nos três exercícios já referidos. As medidas de compensação podem ser efetivadas por: elevação de alíquota, ampliação da base de cálculo ou novos tributos ou contribuições, sendo que o benefício da renúncia só entrará em vigor após o implemento das medidas de compensação, com a respectiva obtenção de aumento da receita. [...]. UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 228 Você sabe o que significa anistia, remissão e isenção? Anistia é o perdão de multas; remissão é o perdão de dívidas tributárias e isenção é a dispensa do pagamento de tributo devido. (NASCIMENTO, 2010). Outro ponto relevante a ser analisado quando falamos da LRF é no que diz respeito à realização de despesas públicas. Os critérios para realizar despesas com dinheiro público ficaram ainda mais rigorosos. Segundo Nascimento (2010, p. 227): [...] será considerada não autorizada, irregular e lesiva ao patrimônio público toda e qualquer despesa que não esteja acompanhada de: 1. estimativa do impacto orçamentário-financeiro nos três primeiros exercícios de sua vigência; 2. sua adequação orçamentária e financeira com a LOA, o PPA e a LDO e, no caso de Despesa Obrigatória de Caráter Continuado (DOCC), deverá vir acompanhada também de suas medidas compensatórias. Em outras palavras, todo aumento de despesa só será legal se o gestor comprovar o aumento da receita também. É preciso que seja dito de onde sairão os recursos para cobrir essas novas despesas. A LRF também deu atenção especial para as despesas com pessoal, estabelecendo limites de gastos nas esferas Federal, Estadual e Municipal. Esses limites se fazem necessários, uma vez que se o ente comprometer toda a sua receita com a folha de pagamento não lhe sobrará receita para aplicar na saúde, na educação e na melhoria da infraestrutura para a população. Conforme Nascimento (2010, p. 231): “A LRF determina dois limites distintos para os gastos com pessoal no setor público: 50% da RCL para a União; e 60% da RCL para Estados e municípios.” Observe o quadro a seguir para entender como esses limites são repartidos dentro de cada esfera: ATENCAO TÓPICO 3 | CRISES E REFORMAS DO ESTADO 229 QUADRO 19 – LIMITES GASTOS COM PESSOAL NAS ESFERAS FEDERAL, ESTADUAL E MUNICIPAL União – 50% da RCL Estados – 60% da RCL Municípios – 60% da RCL 40,9% parao Executivo 49% para o Executivo 54% para o Executivo 6% para o Judiciário 6% para o Judiciário - 2,5% para o Legislativo 3% para o Legislativo, incluindo o Tribunal de Contas do Estado 6% para o Legislativo, i n c l u i n d o o T r i b u n a l de Contas do município, quando houver 0,6% para o Ministério Público 2% para o Ministério Público - FONTE: Adaptado de: Nascimento (2010, p. 231-232) Para que os entes públicos fiquem dentro das normas estabelecidas pela LRF possuem duas alternativas: aumento da receita, ou diminuição das despesas. Entenda o que é Receita Corrente Líquida, conforme consta no inciso IV do artigo 2º da LRF: IV – receita corrente líquida: somatório das receitas tributárias, de contribuições, patrimoniais, industriais, agropecuárias, de serviços, transferências correntes e outras receitas também correntes, deduzidos: a) na União, os valores transferidos aos estados e municípios por determinação constitucional ou legal, e as contribuições mencionadas na alínea a do inciso I e no inciso II do art. 195, e no art. 239 da Constituição; b) nos estados as parcelas entregues aos municípios por determinação constitucional; c) na União, nos estados e nos municípios, a contribuição dos servidores para custeio do seu sistema de previdência e assistência social e as receitas provenientes da compensação financeira citada no § 9º do art. 201 da Constituição. (NASCIMENTO, 2010, p. 214). A LRF também estabelece limites para contração de dívidas pelos entes públicos. Além disso, estabelece regras para pagamento de despesas de exercícios anteriores, os restos a pagar. Na administração pública brasileira a regra é que as despesas sejam pagas dentro do exercício de sua competência, ou seja, no ano em que realmente aconteceram, entretanto, alguns casos acabam não seguindo essa regra, ficando para serem pagos no ano seguinte. IMPORTANT E UNIDADE 3 | MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E CRISES/REFORMAS DO ESTADO 230 Conforme Nascimento (2010), nem todas as despesas coincidiam com o término do exercício financeiro sendo natural que fossem pagas no exercício seguinte, entretanto, os restos a pagar acabavam sendo utilizados como instrumento de rolagem de dívidas, devido à falta de planejamento dos gestores, por isso, a LRF também estabeleceu critérios para restos a pagar. A Lei de Responsabilidade Fiscal compreende inúmeros pontos da administração pública, no entanto, não é possível abordar aqui 100% de seu conteúdo, o importante é que você entenda seus principais pontos aqui apresentados, e observe que o objetivo da LRF é fazer com que os gestores planejem as despesas com base nas receitas que terão, evitando assim, aumento da dívida pública. A base da LRF é gastar somente o que arrecada. Além disso, a lei estabeleceu limites com os gastos de pessoal, pois, se os entes gastam toda sua receita com folha de pagamento como irão arcar com as demais obrigações? E finalmente, a LRF serve para cobrar responsabilidade na aplicação dos recursos públicos. Embora não possamos ignorar todos os avanços na administração pública no sentido de melhor aplicar os recursos do povo, não podemos deixar de lembrar que ainda estamos longe do ideal, ainda é preciso avançar mais. Dizemos isso com base nas informações que vemos diariamente, pois infelizmente, nosso país, mesmo com tantas leis para garantir o bom uso dos recursos públicos ainda sofre as consequências da corrupção, e não podemos descartar nossa responsabilidade nisso, quem escolhe os governantes? Nós. Assim, como temos o poder de fiscalizar e acompanhar as ações dos nossos representantes. O Brasil só vai mudar essa cultura, só vai passar a aplicar os recursos com responsabilidade se a população demonstrar que está fiscalizando e cobrando isso. 231 Neste tópico vimos que: • O Estado é composto pelo povo que manifesta sua vontade ao Governo. Este deverá administrar os recursos para atingir essas vontades do povo, tornando o Estado cada vez mais desenvolvido e melhor a todos. O Governo, por sua vez, é eleito pela sociedade. • O papel do Estado é motivo de muito debate e discussão, pois tem forte influência no mercado e o impacto que suas ações podem influenciar na economia com muita facilidade. • Com o crescimento acelerado do país, o Estado preocupou-se muito com a esfera produtiva, deixando de lado seu principal papel de saber equilibrar e administrar os recursos para estabilizar a economia junto com este crescimento, porém foi inevitável a existência de problemas que originam da relação que o Estado tem com o mercado. • O mercado e o Estado precisam encontrar um equilíbrio para o bem-estar da sociedade e crescimento do país, pois ambos têm forte influência sobre o sucesso ou o fracasso da economia. Trata-se de uma “aliança”, onde todos devem desempenhar seu papel para que todos sejam beneficiados. O fato é que, infelizmente, irregularidades são detectadas e as consequências são inevitáveis a todo o país, neste caso nos referimos à crise. • Com o acelerado desenvolvimento do mercado, em 1990, o papel do Estado deve ser redefinido, visto que tem forte influência na economia nacional, pois o Estado já não conseguia mais ser eficiente em relação às suas atribuições, principalmente na área social. A sociedade estava frustrada com os resultados apresentados pelo Governo na administração do Estado. • Define-se a crise do Estado como: uma crise fiscal, caracterizada pela crescente perda do crédito por parte do Estado e pela poupança pública que se torna negativa; o esgotamento da estratégia estatizante de intervenção do Estado, a qual se reveste de várias formas: o Estado do bem-estar social nos países desenvolvidos; a estratégia de substituição de importações no terceiro mundo e o estatismo nos países comunistas; a superação da forma de administrar o Estado, isto é, a superação da administração pública burocrática. • A Primeira Grande Guerra Mundial e a Grande Depressão foram o marco da crise no mercado e do Estado liberal. A partir disso o Estado assume um novo papel, onde deverá promover além do desenvolvimento social, o desenvolvimento econômico. RESUMO DO TÓPICO 3 232 • O Estado passa a desempenhar seu novo papel, porém, não demora muito, suas ações são prejudicadas pelas atitudes de certos funcionários e empresários que utilizam o Estado em seu benefício próprio, quando deveria ser para o bem comum. • O Estado se deparou com uma nova situação que é a aceleração do desenvolvimento tecnológico e da globalização da economia mundial, onde a competição entre os países tornou-se mais acirrada. • O Estado precisava reagir diante da crise e para isso foi necessária uma reconstrução, uma reforma para redefinir seu papel. • O DASP foi criado no governo de Vargas, em 1936, com o objetivo de mudar a forma como a administração pública estava sendo administrada. O modelo de administração burocrática se destaca a partir de 1930, com a aceleração da indústria brasileira, onde o Estado poderia ser o principal influenciador no setor produtivo de bens e serviços. • É evidente que o modelo de administração burocrático nasce do capitalismo que pede maior controle e transparência no serviço público. • As influências que a administração pública sofreu baseada na teoria científica de Taylor foram respectivamente: racionalização mediante a simplificação, padronização e aquisição racional de materiais, revisão de estruturas e aplicação de métodos na definição de procedimentos, a função orçamentária vinculada ao planejamento. • Quanto à administração de recursos humanos, a burocracia da administração pública sofreu influência da teoria científica de Weber, onde o mérito profissional passou a vigorar. • Apesar de a burocracia vigorar, o patrimonialismo ainda estava presente.Estas inadequações do modelo burocrático na era Vargas deram brecha para diversas tentativas de novas reformas. • O Decreto-Lei nº 200 surgiu a partir de uma nova reforma, no governo de JK (Juscelino Kubitschek), em 1967, com o objetivo de flexibilizar e superar a rigidez da administração burocrática da época, em consequência das inadequações do modelo vigente até então. O Decreto-Lei nº 200 é considerado um marco, pois foi a partir deste que a administração gerencial nascia no Brasil. • Foram criadas comissões com o objetivo de superar a rigidez burocrática, estudavam para chegar à simplificação dos processos administrativos e também à descentralização dos serviços. • O Decreto-Lei nº 200 contribui para evolução da administração pública, pois tinha como objetivo flexibilizar a rigidez da administração pública burocrática e a descentralização para melhorias nos processos, porém houve um excesso de 233 autonomia às empresas estatais, que como vimos, usufruiu de forma incorreta do patrimônio público, além disso, não tinha processo seletivo ou concurso público para ter acesso aos cargos das empresas estatais (autarquias, fundações, empresas públicas e sociedades de economia mista). Estas falhas que precisavam ser corrigidas provocaram uma nova iniciativa para modernizar a administração pública. • Essa tentativa de novamente modernizar a administração pública resultou na criação da SEMOR – Secretaria da Modernização, onde um grupo de jovens administradores públicos estudava para buscar novas alternativas para a melhoria na gestão pública. • No início de 1980 houve uma nova tentativa de reforma da administração pública burocrática rumo à administração gerencial. Foi criado o Ministério da Desburocratização e o Programa Nacional da Desburocratização – PRND. Tinham basicamente quatro objetivos: revitalização e agilização das organizações do Estado, descentralização da autoridade, melhoria e simplificação dos processos administrativos, promoção da eficiência. • Inicialmente as ações do PRND eram para combater a burocracia excessiva nos procedimentos e posteriormente conter a expansão da administração descentralizada devido ao excesso de autonomia concedida pelo Decreto-Lei nº 200. • Em 1985 houve a transição da ditadura militar à democracia no país, rumo a Constituição de 1988. Foi neste momento que as ações para alcançar a administração gerencial foram paralisadas, pois o Estado estava com altos custos com os cargos públicos da administração indireta e das delegacias dos ministérios dos Estados para os políticos vitoriosos. O que aparentemente demonstra que a flexibilidade e medidas contra a rigidez democrática e a descentralização, são sinônimas de fracasso, onde rigidez burocrática é a solução. Por outro lado, entendia-se que a rigidez burocrática era culpada pela crise do Estado, já que incentivou o crescimento acelerado deste. Esses fatores levaram a administração pública a um retrocesso burocrático. • Foram basicamente dois fatores que motivaram o retrocesso burocrático na administração pública: o novo populismo patrimonialista que surgia no país, ou seja, os políticos favoreciam os que lhe davam apoio político geralmente contratando-os com altos salários, e a alta burocracia que foi acusada pela crise do Estado, já que incentivou o seu desenvolvimento de forma acelerada. • O que resultou deste retrocesso burocrático foi a decisão do Congresso Constituinte de empregar a rígida burocracia adotada pelo núcleo estratégico do Estado aos serviços do Estado e para as empresas estatais, boicotando o espaço que a administração gerencial havia conquistado. 234 • A nova Constituição determinou: perda de autonomia do Poder Executivo para tratar da estruturação dos órgãos públicos, institui a obrigatoriedade de regime jurídico único para os servidores civis da União, dos estados-membros e dos municípios, retirou da administração indireta a sua flexibilidade operacional, ao atribuir às fundações e autarquias públicas normas de funcionamento idênticas às que regem a administração direta. • Na transição democrática do Brasil, as forças democráticas identificavam o Decreto-Lei nº 200/1967 como resultado da descentralização que o regime militar queria implantar. • Na transição democrática existiu uma campanha contra a estatização (centralização), isto levou ao aumento de rígidos controles burocráticos às empresas estatais. • Os acontecimentos que contribuíram para o retrocesso da administração burocrática trouxeram dois resultados, um deles é a volta da rigidez da burocracia ficando novamente longe do modelo de administração gerencial, o outro, foi de certa forma, a presença do modelo patrimonialista que é totalmente o oposto da administração burocrática. • Podemos citar como exemplo destes privilégios da administração patrimonialista presente na administração burocrática: estabilidade rígida para todos os servidores civis diretamente relacionada à generalização do regime estatutário na administração direta e nas fundações e autarquias, a aposentadoria com proventos integrais sem correlação com o tempo de serviço ou com a contribuição do servidor. • Estes privilégios de certa forma acabaram denegrindo a imagem dos administradores públicos e da própria administração pública de forma injusta, pois todos os acontecimentos negativos ou positivos tiveram como objetivo a melhoria da administração pública. • Após todos estes acontecimentos, é importante conhecer o comportamento dos governos posteriores em relação às distorções provocadas pela nova Constituição. • O governo de Collor, entretanto, as respostas a elas foi equivocada e apenas agravou os problemas existentes, na medida em que se preocupava em destruir ao invés de construir. • O governo de Itamar Franco buscou essencialmente recompor os salários dos servidores, que haviam sido violentamente reduzidos no governo anterior. • Em 1994, estava prevista uma nova reforma administrativa rumo à administração gerencial. 235 • A Constituição de 1988 foi chamada de “Constituição Cidadã” por Ulisses Guimarães, sendo a mais democrática de todas, pois, contou com ampla participação da população para sua elaboração. • Dentre as mudanças trazidas pela CF de 1988 temos: redução da jornada de trabalho de 48 para 44 horas semanais; licença maternidade ampliada de 90 para 120 dias; licença paternidade de 05 dias; e direito ao habeas data. • A Emenda Constitucional nº 19/1998 é a emenda da reforma administrativa do Estado, tratando da estabilidade dos servidores públicos, do regime de remuneração e da gestão gerencial. • A Lei de Responsabilidade Fiscal, nº 101, de 04/05/2000, estabelece normas de finanças públicas voltadas para a responsabilidade na gestão fiscal, em outras palavras, ela prega que se gaste apenas o que se arrecada. • A LRF procura cobrar que os gestores ajam de forma planejada e transparente, busquem o equilíbrio das contas públicas e obedeçam limites na geração de despesas, entre elas, as despesas com pessoal. • Embora a administração pública no Brasil já tenha passado por várias mudanças, ainda estamos longe de um modelo ideal de gestão, afinal, com todas as leis que temos para garantir o bom uso dos recursos públicos, nosso país ainda sofre as graves consequências de administradores corruptos, que utilizam o cargo ao qual foram eleitos pelo povo, apenas em benefício próprio. 236 1 Sobre as crises e reformas do Estado, é CORRETO afirmar: a) ( ) O Decreto-Lei nº 200/1967 surgiu a partir de uma nova reforma, no governo de JK (Juscelino Kubitschek), em 1967, com o objetivo de flexibilizar e superar a rigidez da administração burocrática da época, em consequência das inadequações do modelo vigente até então. b) ( ) O Decreto-Lei nº 200/1967 é consideradoum marco, pois foi a partir deste que a administração gerencial nascia no Brasil. c) ( ) Foi a partir do modelo de administração burocrática, na era Vargas, o ingresso ao serviço público passou a ser através de concurso público. d) ( ) No início de 1980 houve uma nova tentativa de reforma da administração pública burocrática rumo à administração gerencial. Foi criado o Ministério da Desburocratização e o Programa Nacional da Desburocratização – PRND. Assinale a alternativa que contém a sequência CORRETA: a) ( ) V, F, F, F. b) ( ) V, V, V, F. c) ( ) V, V, V, V. d) ( ) F, V, V, F. 2 Assinale a alternativa CORRETA: I. A Primeira Grande Guerra Mundial e a Grande Depressão foram o marco da crise no mercado e do Estado liberal. A partir disso o Estado assume um novo papel, onde deverá promover além do desenvolvimento social, o desenvolvimento econômico. II. Foram basicamente dois fatores que motivaram o retrocesso burocrático na administração pública: o novo populismo patrimonialista que surgia no país, e a alta burocracia que foi acusada pela crise do Estado, já que incentivou o seu desenvolvimento de forma acelerada. III. O Decreto-Lei nº 200/1967 era a favor da rigidez burocrática. IV. O Estado não tem influência no desenvolvimento econômico de um país. a) ( ) I e II estão corretas. b) ( ) Apenas a III está correta. c) ( ) I, II e IV estão corretas. d) ( ) Todas estão corretas. AUTOATIVIDADE 237 3 Complete as lacunas: ( 1 ) DASP ( 2 ) Decreto Lei Nº 200/1967 ( 3 ) Ministério da Desburocratização ( 4 ) Constituição de 1988 ( ) Retrocesso burocrático. ( ) Superar a rigidez burocrática e combater a descentralização cedida pelo Decreto-Lei Nº 200/1967. ( ) Flexibilizar e superar a rigidez da administração burocrática da época. É considerado um marco, pois a partir deste que a administração gerencial nascia no Brasil. ( ) Burocracia rígida. A sequência CORRETA é: a) ( ) 3, 2, 1, 4. b) ( ) 4, 3, 1. 2. c) ( ) 4, 3, 2, 1. d) ( ) 3, 4, 1, 2. 4 Com a redação dada pela EC no 19/1998 para adquirir a estabilidade no serviço público é preciso: a) ( ) Aprovação em concurso público e 3 anos de efetivo exercício do cargo. b) ( ) Aprovação em concurso público e 2 anos de efetivo exercício do cargo. c) ( ) Aprovação em concurso público para ocupar cargo de provimento efetivo, 3 anos de efetivo exercício do cargo e aprovação em avaliação especial de desempenho por comissão instituída para essa finalidade. d) ( ) Apenas aprovação em concurso público. 5 Sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal analise as proposições a seguir: I. Estabelece regras na realização de despesas públicas. II. Foi aprovada em 04/05/2000, revogando a Lei nº 96/1999, conhecida como Lei Camata. III. Libera a execução de despesas sem previsão de receita. IV. Exige que o gestor planeje o uso do dinheiro público, realizando apenas despesas no mesmo valor das receitas, garantindo o equilíbrio das contas públicas. Estão corretas: a) ( ) Apenas I e IV. b) ( ) Apenas I, II e III. c) ( ) Apenas I, II e IV. d) ( ) I, II, III e IV. 238 239 REFERÊNCIAS ALEXANDRINO, Marcelo; PAULO, Vicente. Direito administrativo descomplicado. 19. ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2011. ALKMIM, Marcelo. Curso de direito constitucional. Florianópolis: Conceito Editorial, 2009. BÄCHTOLD, Ciro. Noções de administração pública. Cuiabá: EdUFMT; Curitiba: UFPR, 2008. Disponível em: <http://ftp.comprasnet.se.gov.br/sead/ licitacoes/Pregoes2011/PE091/Anexos/servi%E7o_publico_modulo_I/Nocoes_de_ Administracao_Publica.pdf>. Acesso em: 1 set. 2013. BITENCOURT, Jaqueline. Administração pública e suas formas de gerenciar. In: KARKOTLI, Gilson (Org.). Administração pública. 1. ed. Curitiba: Camões, 2008. p.109-116. BONAVIDES, Paulo. Ciência política. 17. ed. 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