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Sistemas de funcionamento da democracia SST Seidel, Carolina Cunha; Lopes, Franciele Aparecida Sistemas de funcionamento da democracia / Carolina Cunha Seidel; Franciele Aparecida Lopes Ano: 2020 nº de p.: Copyright © 2020. Delinea Tecnologia Educacional. Todos os direitos reservados. 12 3 Sistemas de funcionamento da democracia Apresentação Desde a década de 1980, os Estados têm passado por diversas mudanças em suas formas de administrar o Estado e suas políticas públicas. Reformas que sempre estão inspiradas nas práticas dos setores privados e que afetam todas as áreas de governo. No Brasil, não é diferente, pois diversos modelos foram tentados desde praticamente o nascimento da república. Nesta unidade, estudaremos alguns dos elementos que fazem parte do governo, de modo a deixar você, estudante, mais bem capacitado para exercer sua cidadania de maneira consciente e com práticas transformadoras. Conceito de democracia Você sabe o que é democracia? Democracia: Dada como “governado pelo povo”, é uma forma de governo em que todos os cidadãos elegíveis participam igualmente, seja diretamente ou por meio de representantes eleitos na criação deleis Surgiu na Europa logo após a Revolução Gloriosa de 1688 e a Revolução Francesa de 1789. Nos Estados Unidos da América, surgiu depois da consolidação da independência no século XVIII.' Curiosidade 4 Agora, vamos retomar as possíveis formas do regime democrático: 1. Democracia direta: O poder soberano e as questões políticas do Estado são exercidos pelo povo. 2. Democracia indireta ou representativa: As funções soberanas administrativas do Estado são realizadas pelo povo por meio de seus representantes, eleitos para representá-los por determinado prazo legal. 3. Democracia semidireta ou mista: O povo delega ou exerce parte do poder. Veja o que diz Costin (2010, p. 9) a respeito da representação: [...] o conceito de representação associa-se à ideia de que um corpo escolhido por cidadãos age em nome destes, e tal corpo é escolhido por meio de um procedimento eleitoral racionalmente estabelecido. Trata-se, antes de tudo, do Parlamento, em que um conjunto de representantes é eleito para decidir que leis deverão governar aquela sociedade e, mais especificamente, que políticas públicas serão implementadas. Inclui também o poder executivo, em que o presidente ou primeiro ministro age representando a coletividade que lhe outorgou o poder para tanto, por um período especificado, mas equilibrando seu poder com o do corpo legislativo. Dessa forma, podemos dizer que o Estado representativo é o praticado hoje por diversos países. Nesse regime, o poder concedido ao representante pode ser retirado de duas formas: se não houver renovação do mandato nas eleições ou se houver cassação do mandato (para membros do Poder Legislativo) ou impeachment (para o presidente). Essa espécie de punição ocorre por decisão dos demais representantes caso alguma lei que rege a conduta desses membros seja burlada (COSTIN, 2010). 5 A democracia representativa, como o próprio nome já diz, acontece por meio da representação: o povo escolhe, por votações periódicas, quem irá representá-lo. Por essa escolha, a população está, de forma indireta, exercendo uma espécie de influência sobre as decisões do governo. Essa representação evita o poder absoluto, tendo em vista que a margem de autonomia do representante é, em teoria, limitada pelos representados (COSTIN, 2010). Atenção O Estado representativo inseriu novas ideias e trouxe avanços para a sociedade, transferindo poder aos cidadãos (que passam a ter mais valor que o Estado) e permitindo o aumento dos direitos políticos, chegando até o sufrágio universal. Sufrágio universal: É o direito de votar ou ser votado, isto é, o direito ao voto de todos os cidadãos adultos, sem restrição. Curiosidade Acquaviva (2010, p. 133) complementa: Tanto a democracia representativa como a democracia semidireta apresentam um pressuposto que se destaca de imediato, qual seja, o da existência de um corpo eleitoral periodcamente renovado. No mundo moderno, quem se refere à democracia, refere-se, inevitavelmente, ao eleitorado, ao conjunto daqueles que são dotados de cidadania, enfim, àqueles que têm o direito de votar. Entretanto, para se saber quem terá o direito de votar é preciso, preliminarmente, estabelecer os requisitos para a obtenção de tal direito. Tais requisitos, estabelecidos na própria Constituição, constituem o sufrágio. (ACQUAVIVA, 2010, p. 133). Essas mudanças criaram a necessidade de partidos e associações, um paradoxo em relação ao verdadeiro significado da representação, que inicialmente é feita por um representante e não por um conjunto deles (COSTIN, 2010). 6 Conselhos gestores de políticas públicas Sobre conselhos gestores, Nahra (2006, p. 32) afirma que: Os Conselhos Gestores de Políticas Públicas são canais institucionais, plurais, permanentes, autônomos, formados por representantes da sociedade civil e poder público, cuja atribuição é a de propor diretrizes das políticas públicas, fiscalizá-las, controlá-las e deliberar sobre elas, sendo órgãos de gestão pública vinculados à estrutura do Poder Executivo, ao qual cabe garantir a sua permanência. A Constituição Federal de 1988 estabeleceu princípios mínimos norteadores da Administração Pública (BRASIL,1988). A título de exemplo, temos dois importantíssimos princípios implícitos na Administração Pública: o princípio da supremacia do interesse público sobre o interesse privado e o princípio da indisponibilidade do interesse público. Atenção Assim, tanto a Administração Pública Direta quanto a Administração Pública Indireta de todos os poderes estão sujeitas aos princípios administrativos. Administração pública direta Compreende a União, os Estados, o Distrito Federal, os Municípios e seus respectivos órgãos. É assim nomeada pois tem suas atividades desenvolvidas pelo centro – trata-se da chamada centralização. Já na administração pública indireta, a prestação da atividade administrativa é retirada do núcleo ou do centro e é repassada para outros entes administrativos – descentralização, portanto. 7 Centralização: A atividade é desenvolvida pelo núcleo (administração pública direta). Descentralização: A atividade é repassada para outros entes (administração pública indireta). Tanto uma como a outra podem se organizar internamente, no intuito de distribuir funções e competências dentro de uma mesma pessoa jurídica. Quando isso ocorre, acontece o que chamamos de desconcentração. Desconcentração: Resulta na criação de órgãos, que são centros de competências desprovidos de personalidade jurídica e que estão hierarquicamente subordinados à pessoa que os criou.É diferente da descentralização, que cria uma nova pessoa jurídica, não estando subordinada à pessoa que a criou. Curiosidade Administração pública indireta Consiste na forma descentralizada de prestação da atividade administrativa. Sempre que houver descentralização administrativa, haverá, necessariamente, a criação de uma nova pessoa jurídica. Ela é formada pelas autarquias, pelas fundações públicas, pelas empresas públicas e pelas sociedades de economia mista. Essas entidades estão vinculadas à administração direta, entretanto, não estão subordinadas a ela. Conceito de gestão e governança Podemos definir a administração pública como um conjunto de órgãos, funcionários e procedimentos que o Estado usa para executar suas funções econômicas e os papéis que a sociedade lhe atribuiu em dado momento histórico (COSTIN, 2010). E 8 é com base nesse contexto histórico que podemos dividir a Administração Pública em três modelos: patrimonialista, burocrático e gerencial. Modelos de gestão pública Modelo patrimonialista de gestãopública Conforme Vieira (2016), a administração pública patrimonialista é derivada domodelo absolutista do século XVIII. Como o nome sugere, está relacionado aopatrimônio – esse modelo não prevê a separação do patrimônio do Estado do patrimônio do governante. Atenção O Estado, então, era considerado uma propriedade do monarca e a população estava ali para servi-lo. Quem assumia um cargo público era considerado parte da nobreza real; portanto, essas posições eram muito cobiçadas, gerando corrupção e nepotismo, que marcaram esse período (VIEIRA,2016). Outra característica desse modelo era a influência da religião na política, que dava ao monarca, além da autoridade real, o poder divino. Sendo assim, o povo devia lealdade a ele, não à nação, e qualquer tipo de ameaça ao governante era considerada, antes de tudo, um pecado (COSTIN, 2010). A administração pública, inserida nesse contexto, era inexistente e, obviamente, não representava os interesses e a segurança da sociedade. Logo, tornou-se um modelo de gestão ineficiente e incabível. Modelo burocrático de gestão pública Este modelo surgiu no século XIX com o intuito de acabar com a corrupção e o nepotismo, trazendo um formato mais racional, rígido e autoritário na gerência dos processos que envolvem a administração pública. Para atingir essa eficiência, são 9 utilizados alguns princípios, como desenvolvimento, profissionalização, hierarquia funcional, impessoalidade e formalismo, que serão descritos a seguir. A profissionalização é baseada na meritocracia, ou seja, os profissionais são contratados de forma justa e promovidos por mérito. Em oposição ao nepotismo, a valorização e o crescimento do profissional estão atrelados ao seu bom desempenho (VIEIRA, 2016). Relacionado à profissionalização está outro princípio, a impessoalidade, na qual “os cargos pertencem à organização e não às pessoas, o que possibilita evitar a apropriação individual do poder” (VIEIRA, 2016, p. 34). Já o princípio da formalidade, nesse contexto, está atrelado aos deveres, às responsabilidades e à hierarquia administrativa. A seguir, veja mais detalhes sobre os princípios básicos da administração burocrática (COSTIN, 2010). 1. Formalismo: Atividades, estruturas e procedimentos estão codificados em regras exaustivas para evitar a imprevisibilidade e instituir maior segurança jurí- dica nas decisões administrativas. 2. Impessoalidade: Interessa o cargo e a norma, e não a pessoa em sua subjetividade – aqui, as carreiras estão bem estruturadas, e a evolução do funcionário podeser prevista em bases objetivas. 3. Hierarquização: A burocracia contém uma cadeia de comando longa e clara, em que as decisões obedecem a uma lógica de hierarquia administrativa, prescrita em regulamentos expressos, com reduzida autonomia do administrador. 4. Rígido controle de meios: Para evitar a imprevisibilidade e introduzir ações corretivas a tempo, é necessário um constante monitoramento dos meios, especialmente dos procedimentos adotados pelos membros da administração no cotidiano das suas atividade. 10 O modelo burocrático pareceu ser a melhor solução após o surgimento do Estado social, o qual trouxe consigo uma infinidade de tarefas e atribuições que, até então, não eram papel do governo, e algumas sequer existiam. Se antes o Estado cuidava basicamente da proteção dos territórios e da administração de seus próprios bens, agora estava incumbido de prestar serviços como educação, saúde, vigilância sanitária, políticas sociais para combater desigualdades, entre outros. Para dar conta de tudo isso,os seus princípios de comando, controle e rigidez nos processos pareciam a melhor saída para manter a eficiência da Administração Pública, controlando possíveis abusos e atitudes corruptas (COSTIN, 2010). Saiba mais No entanto, esses princípios trouxeram também alguns problemas. Preocupados em seguir os processos à risca, o excesso de regras e as extensas hierarquias desvirtuaram os funcionários de sua real função: servir os cidadãos com rapidez e eficiência. Eles estavam tão ensimesmados e focados em garantir o poder do Estado que acabaram afetando negativamente a população com processos morosos e inflexíveis (VIEIRA, 2016). Apesar dessas falhas, o modelo burocrático perdurou ao longo dos Trinta Anos Gloriosos (1945-1973) e em parte dos anos 1980. Na segunda metade do séculoXX, porém, esse modelo entrou em crise por causa de vários fatores: a globalização econômica e suas transformações tecnológicas, que trouxeram mais competitividade e dinamismo ao mercado; a recessão econômica, decorrente das crises do petróleo em 1973 e 1979; a crise fiscal do Estado, que não conseguia mais financiar seus déficits; enfim, diversas mudanças que tornaram o Estado incapaz de resolver os problemas sociais decorrentes desses colapsos (VIEIRA, 2016). Esses fatores foram essenciais para que o Estado burocrático aos poucos fosse dando espaço ao modelo gerencial, o qual veremos aseguir. 11 Modelo gerencial de gestão pública Nas palavras de Vieira (2016, p. 35), é baseado na“descentralização das decisões e das funções do Estado, a autonomia na gestão dos recursos humanos, materiais e financeiros e a ênfase na qualidade e na produtividade do serviço público”, com o objetivo de cortar custos e tornar o serviço público mais eficiente. Iniciado na Inglaterra em 1979 com a Primeira Ministra Margaret Thatcher, pode ser chamado também de Nova Gestão Pública. A aprovação do partido conservador significou uma conquista daqueles avessos ao Welfare state, isto é, o Estado de bem-estar social, cujo principal objetivo era a inserção de políticas públicas para assegurar as necessidades básicas do povo. O welfare state já estava em crise, com poucos recursos e poderes políticos enfraquecidos, portanto, e a vitória de Thatcher serviu como um catalisador para difundir o pensamento liberal contrário ao Estado burocrático. Fechamento Pode-se dizer que no Brasil, principalmente na década de 1930, reformas administrativas vêm acontecendo, levando o Estado a experimentar as falhas e as qualidades de diversos sistemas. Tais reformas fazem parte do amadurecimentos dos Estados, e não há mal nenhum nisso. Talvez o Brasil encontre maiores dificuldades na consolidação da sua democracia exatamente por ser considerado uma democracia ainda em amadurecimento, já que passou a grande parte da história sob regimes autoritários,que, com seus defeitos, não evoluiram muito no quesito democracia. 12 Referências ACQUAVIVA, M. Teoria Geral do Estado. São Paulo: Manole, 2010. COSTIN, C. Administração Pública. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010. NAHRA, C. M. L. Os conselhos municipais gestores de políticas públicas em Porto Alegre. Um panorama. Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Secretaria Municipal de Coordenação Política e Governança Local. Projeto: Conselhos Municipais – Potencializando a Gestão Participativa, mar. 2006. Disponível em: . Acesso em: 6 out. 2020. VIEIRA, L. N. Administração Pública: modelos, conceitos, reformas e avanços para uma nova gestão. Curitiba: Intersaberes, 2016. http://lproweb.procempa.com.br/pmpa/prefpoa/observatorio/usu_doc/panorama.pdf http://lproweb.procempa.com.br/pmpa/prefpoa/observatorio/usu_doc/panorama.pdf