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OFICINA LITERÁRIA AULA 09 – MINHAS LEITURAS I 1a Questão Leia o texto a seguir: Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia. há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Mata-cavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do teto e das paredes é mais ou menos igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos blocos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do teto as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo... Não alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Mata-cavalos, já ela estava assim decorada; vinha do decênio anterior. (...) O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mais falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não agüenta tinta. http://fragmentosliterariospauloavila.blogspot.com.br/2011/11/fragmentos-da-obra-prima-de-machado-de.html Sabemos que o narrador exerce um papel muito importante no romance. O texto apresentado é um fragmento do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. Após a leitura, identifique a posição assumida pelo narrador. Trata-se de um narrador-personagem que apresenta total conhecimento de si mesmo e dos outros. Trata-se de um narrador-observador que fala sobre a casa construída no Engenho Novo. Trata-se de um narrador que não faz parte da história narrada. Trata-se de um narrador-personagem que conta a história a partir de um simulacro. Trata-se de um narrador-observador que conta a história a partir de um prédio abandonado. 2a Questão O romance Memórias Póstumas de Brás Cubas apresenta certa distância entre os fatos narrados e o tempo de narração. Sendo assim, leia os fragmentos abaixo e responda. I-Os detalhes dos fatos narrados podem não ser, exatamente, como aconteceram. PORQUE II- Os fatos narrados sofrem o desgaste do tempo. Estão sujeitos ao processo seletivo da memória. As afirmativas I e II são verdadeiras, mas a segunda não justifica a primeira. A afirmativa I é verdadeira e a II é falsa. As afirmativas I e II são verdadeiras e a segunda justifica a primeira. As afirmativas I e II são falsas A afirmativa I é falsa e a II é verdadeira. 3a Questão Sobre o narrador e a narração em "Memórias póstumas de Brás Cubas", todas as alternativas estão corretas, EXCETO: [...] o eu que narra se identifica com o eu da personagem principal que vive os fatos. Trata-se de um ator que acumula o papel de sujeito da enunciação e de sujeito do enunciado. Ele nos conta uma história por ele vivida, a história de uma parcela da sua existência. (D'ONOFRIO, S. Teoria do texto 1 - Prolegômenos e teoria da narrativa. 2a. ed. São Paulo: Ática, 1999, p. 62) [...] a história parece contar-se por si própria, prescindindo da figura do narrador. [...] A narração de acontecimentos e a descrição procedem de um modo neutro, impessoal, sem que o narrador tome partido ou defenda algum ponto de vista. (D'ONOFRIO, S. Teoria do texto 1 - Prolegômenos e teoria da narrativa. 2a. ed. São Paulo: Ática, 1999, p. 60) Rememorando por ondas e por associacionismo múltiplo e dinâmico, o narrador se afasta insensivelmente do fio das coisas que pretende relatar e deriva para acontecimentos colaterais, ligados ou não às reminiscências centrais. (MOISÉS, M. A criação literária - prosa. 13a. ed. São Paulo: Cultrix, 1997, p. 127) É através dos seus olhos e de seus sentimentos que são apresentados os elementos constitutivos da narrativa: os fatos, as outras personagens, os temas e os motivos, as categorias de tempo e espaço. [...] a personagem central faz uma sondagem na profundidade de sua consciência, misturando sensações presentes com lembranças do passado. (D'ONOFRIO, S. Teoria do texto 1 - Prolegômenos e teoria da narrativa. 2a. ed. São Paulo: Ática, 1999, p. 62) Uma das técnicas mais conhecidas, utilizadas nas narrativas a serviço do tempo psicológico, é o flashback, que consiste em voltar no tempo. Neste romance de Machado de Assis, por exemplo, o presente para o narrador é sua condição de morto, a partir da qual ele volta ao passado próximo (como morreu) e ao passado mais remoto, sua infância e juventude, usando portanto o flashback. (GANCHO, C. V. Como analisar narrativas. 7a. ed. São Paulo: Ática, p. 22) 4a Questão Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo. https://literaturaemcontagotas.wordpress.com/tag/trechos- de-o-cortico/ O texto apresentado é um fragmento do romance O Cortiço, de Aloisio Azevedo. De acordo com o que foi estudado nas aulas, o que significa a imagem do cortiço no processo de construção dos gêneros literários? O cortiço representa as classes minoritárias. O cortiço revela, na literatura, a miscigenação A imagem do cortiço revela que o romance abre espaço na literatura para a representação de diversos segmentos sociais. O cortiço expõe a dura condição de vida do trabalhador. O cortiço representa, no romance, a defesa do autor por um único segmento social. 5a Questão Leia o texto a seguir: A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus. Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia peneirava uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa idéia no discurso que proferiu à beira de minha cova: "Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que tem honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado." e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei. E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias; http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/MachadodeAssis/brascubas.ht m A compreensão de um romance requer a observação do papel assumido pelo narrador. Como podemos definir a posição do narrador a partir dos fragmentos apresentados do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas? O narrador-observador se comove com o discurso sincero do amigo. O narrador-personagem revela preocupação com a opinião dos leitores.O narrador-personagem lamenta sua própria morte. O narrador-personagem adquire liberdade ao narrar do mundo dos mortos. O narrador-observador tem a oportunidade de constatar a fidelidade dos amigos. 6a Questão (UFF) Óbito do autor Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco. (Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas) Assinale a alternativa que NÃO corresponde ao texto de Machado de Assis: O narrador declara que é um defunto autor, para quem o túmulo foi um outro berço porque somente depois de morto ele resolveu produzir a narrativa que o vai transformar em autor. A hesitação expressa pelo narrador [por em primeiro lugar seu nascimento ou a sua morte] não faz parte do repertório tradicional de autores realistas ou naturalistas. Este narrador em primeira pessoa é uma alternativa ao narrador onisciente, tradicional do Realismo. Este narrador em primeira pessoa é uma alternativa ao narrador intimista tradicional, que tem seu ponto de vista absolutamente limitado pelas circunstâncias e pelo que o narrador-personagem pode conhecer a partir delas. Memórias póstumas de Brás Cubas foi publicado depois que Machado de Assis morreu, razão pela qual Machado declara que não é propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço. 7a Questão No romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, o narrador traça o perfil das personagens com matéria de memória, conforme sinaliza o título da obra. Diante deste fato, como podemos nos posicionar enquanto leitores? Devemos aceitar os fatos, pois, ao narrar do além-túmulo, o narrador tem uma visão mais ampla dos acontecimentos. Devemos observar que as personagens são, totalmente, diferentes do narrador-personagem Podemos acreditar em tudo que está sendo narrado, pois o narrador personagem participou dos acontecimentos. Devemos colocar como suspeita a veracidade dos fatos, pois a memória não registra, integralmente, os acontecimentos. Devemos observar que as personagens são definidas com simplicidade. 8a Questão O narrador exerce um papel crucial em todos os romances de Machado de Assis. A condição de defunto autor de Brás Cubas torna possível ao narrador: olhar com absoluta indiferença as preocupações em que a humanidade consome a existência. dizer livremente o que pensa do mundo dos vivos, sem se preocupar com a opinião pública. assumir um tom mais cerimonioso e cauteloso ao falar do mundo dos vivos. adotar uma perspectiva religiosa na consideração dos problemas humanos. considerar criticamente as injustiças sociais. 1a Questão O narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas não é um narrador confiável porque, para cada afirmação que faz há uma negação correspondente, em um processo de construção e desconstrução, que torna questionável a veracidade do narrado. Essa estratégia faz o leitor: pensar que o autor não percebeu as contradições em seu texto. acreditar na veracidade do narrado, apesar de tudo. considerar a obra mal escrita. pensar que o autor não teve tempo de rever e corrigir seu texto antes de publicá-lo. desconfiar da aparência e se questionar sobre a essência dos personagens. 2a Questão Os três grandes romances da maturidade de Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Quincas Borba, abordam, ainda que em perspectivas diversas, a questão de: morte. ciúmes entre irmãos. sexualidade. adultério. luta pela sobrevivência. 3a Questão Em "Memórias póstumas de Brás Cubas", Machado de Assis se vale de procedimentos metaficcionais, como as muitas referências ao ato de escrever, à figura do escritor e de interpelações ao leitor. É um romance que chama a atenção para o seu próprio processo de construção. Em qual dos trechos é possível encontramos um procedimento metaficcional? Não era esta certamente a Marcela de 1822; mas a beleza de outro tempo valia uma terça parte dos meus sacrifícios? Era o que eu buscava saber, interrogando o rosto de Marcela. (Capítulo XXXVIII/ A quarta edição) Não podia acabar de crer nos meus olhos. Esfreguei-os uma e duas vezes, e reli a declaração inoportuna, insólita e enigmática. (Capítulo CXLVIII/ O problema insolúvel) Virgília afastou-se e foi sentar-se no sofá. Eu fiquei algum tempo a olhar para os meus próprios pés. Devia sair ou ficar? (Capítulo XLI/ A alucinação) Há aí, entre as cinco ou dez pessoas que me leem, há aí uma alma sensível, que está decerto um tanto agastada com o capítulo anterior, começa a tremer pela sorte de Eugênia, e talvez... sim, talvez lá no fundo de si mesma, me chame cínico. Eu cínico, alma sensível? (Capítulo XXXIV/ A uma alma sensível) Quem escapa a um perigo ama a vida com outra intensidade. Entrei a amar Virgília com muito mais ardor, depois que estive a pique de a perder, e a mesma coisa lhe aconteceu a ela. (Capítulo LXXXV/ O cimo da montanha) 4a Questão CAPÍTULO PRIMEIRO / ÓBITO DO AUTOR "Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco." http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?act ion=download&id=28178 O texto apresentado é um fragmento do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Trata-se de uma narrativa de memória que apresenta um defunto-autor. O que isto significa? O autor rompe com a verossimilhança ao dar poder de fala a um narrador-personagem já morto. O autor rompe com a verossimilhança ao inverter a ordem da narração. O autor rompe com a verossimilhança porque apresenta uma distância temporal entre o tempo de narração e a narrativa. O autor rompe com a verossimilhança ao comparar Brás Cubas com Moisés. O autor não rompe com a verossimilhança em nenhum momento. 5a Questão Urupês "Jeca Tatu é um piraquara do Paraíba, maravilhoso epítome de carne onde se resumem todas as características da espécie. Hei-lo que vem falar ao patrão. Entrou, saudou. Seu primeiro movimento após prender entre os lábios a palha de milho, sacar o rolete de fumo e disparar a cusparada d'esguicho, é sentar-se jeitosamente sobre os calcanhares. Só então destrava a língua e a inteligência. - 'Não vê que' De pé ou sentado as ideias se lhe entramam, a língua emperra e não há de dizer coisa com coisa. De noite, na choça de palha, acocora-se em frente ao fogo para "aquentá-lo", imitado da mulher e da prole. Para comer, negociar uma barganha, ingerir um café, tostas um cabo de foice, fazê-lo noutra posição será desastre infalível. Há de ser de cócoras.Nos mercados, para onde leva a quitanda domingueira, é de cócoras, como um faquir do Bramaputra, que vigia os cachinhos de brejaúva ou o feixe de três palmitos. Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade! Jeca mercador, Jeca lavrador, Jeca filósofo..." . (Monteiro Lobato "Urupês " ed. Brasiliense, 2004. p. 166- 170) EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA "E aqui aproveito o lance para implorar perdão ao pobre Jeca. Eu ignorava que eras assim, meu Tatu, por motivo de doença. Hoje é com piedade infinita que te encara quem, naquele tempo, só via em ti um maparreiro de marca. Perdoas? " (Monteiro Lobato. Urupês. São Paulo: Monteiro Lobato & Cia. Editores, 1923, p.VII. Nos dois excertos da personagem 'Jeca Tatu', de Monteiro Lobato, como única opção correta, com base no segundo, pode-se dizer que o autor? Denuncia o descaso do governo com relação às pessoas da zona rural, uma vez que, segundo Monteiro Lobato, "Jeca Tatu não é assim, ele está assim". Denuncia o descaso do governo na distribuição de terras, uma vez que, segundo Monteiro Lobato, "Jeca Tatu não é assim, ele está assim". Denuncia a falta de educação uma vez que, segundo Monteiro Lobato, "Jeca Tatu não é assim, ele está assim". Denuncia o descaso do governo com relação à saúde e ao ensino, uma vez que, segundo Monteiro Lobato, "Jeca Tatu não é assim, ele está assim" Denuncia o descaso do governo com relação às pessoas que produzem na zona rural, uma vez que, segundo Monteiro Lobato, "Jeca Tatu não é assim, ele está assim". 6a Questão O narrador é a instância organizadora do discurso. Cabe ao leitor, prestar muita atenção a este importante elemento da narrativa. Em "Memórias póstumas de Brás Cubas", por exemplo, temos uma narração em primeira pessoa, sobre a qual é correto afirmar que: se trata de um narrador que atua como um personagem secundário. se trata de um narrador que não participa dos fatos narrados, apenas os observa e os relata em primeira pessoa. se trata de um narrador que participa do que narra, pois é também o protagonista da narrativa. se trata de um narrador que conta as memórias de um antepassado de sua família. se trata de um narrador que não apresenta qualquer participação nos fatos narrados. 7a Questão Distanciado dos fatos e situações narrados, o narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas reconstrói o passado com a ajuda da memória. O problema com essa reconstrução do passado pela memória é que: a veracidade dos fatos é colocada sob suspeita porque a memória reelabora o passado pela via da emoção, não pela via da razão. a veracidade dos fatos é colocada sob suspeita porque, ao resgatar o passado, a memória não faz distinção entre fato verídico e fato imaginado. a veracidade dos fatos é colocada sob suspeita porque, sendo seletiva, a memória não registra tudo, havendo ainda o desgaste temporal dos fatos, acrescido do fato de se tratarem de memórias póstumas. a veracidade dos fatos é colocada sob suspeita porque a memória reinventa o passado como uma fábula muito mais do que o reconstrói fielmente. a veracidade dos fatos é colocada sob suspeita porque, fundamentada na imaginação, a memória confunde-se com o trabalho da ficção, além do mais tratando-se de um texto literário. 8a Questão No romance, o resgate de fragmentos do passado, através da memória, permite-se viver de novo os fatos, mas de forma organizada. A narrativa organiza tudo aquilo que, na vida, é bagunçado. Quando o narrador tenta fazer essa arrumação dos fatos da vida, dá maior nitidez aos acontecimentos, dá sentido àquilo que, na vida real, acontece de forma tão desordenada. São fatos selecionados pela memória e organizados pelo discurso, como exemplo, temos o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Sobre esse romance, é incorreto afirmar: O discurso do narrador-personagem relativiza conceitos e questões éticas. Brás Cubas é um narrador nada confiável. Para cada afirmação que faz, apresenta uma negação. Assegurando a relação entre o texto literário e a sociedade que o produziu, o romance faz alusões, por meio do narrador-personagem, à aristocracia, que, sem projeto, vive no vazio. O fato do narrador afirmar e negar o tempo todo, atribui veracidade ao que está sendo contado. Há, em toda a narrativa, um processo de construção e desconstrução. 1a Questão (UNIFESP) (...) Um poeta dizia que o menino é pai do homem. Se isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino. Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de «menino diabo»; e verdadeiramente não era outra cousa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce «por pirraça»; e eu tinha apenas seis anos. Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, -- algumas vezes gemendo,-- mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um -- «ai, nhonhô!» -- ao que eu retorquia: -- «Cala a boca, besta!» -- Esconder os chapéus das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabeleiras, dar beliscões nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram mostras de um gênio indócil, mas devo crer que eram também expressões de um espírito robusto, porque meu pai tinha-me em grande admiração; e se às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia-o por simples formalidade: em particular dava-me beijos. Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a quebrar a cabeça dos outros nem a esconder- lhes os chapéus; mas opiniático, egoísta e algo contemptor dos homens, isso fui; se não passei o tempo a esconder-lhes os chapéus, alguma vez lhes puxei pelo rabicho das cabeleiras. (Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas) Indique a frase que, no contexto do fragmento, confirma o sentido de o menino é o pai do homem, citação inicial do narrador. [...] alguma vez lhes puxei pelo rabicho das cabeleiras. [...] fustigava-o, dava mil voltas a um e a outro lado [...] [...] deitei um punhado de cinza ao tacho [...] [...] fui dos mais malignos do meu tempo [...] [...] um dia quebrei a cabeça de uma escrava [...] 2a Questão (Adaptado - UNIFESP) (...) Um poeta dizia que o menino é pai do homem. Se isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino. Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de «menino diabo»; e verdadeiramente não era outra cousa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce «por pirraça»; e eu tinha apenas seis anos. Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, -- algumas vezes gemendo,-- mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um -- «ai, nhonhô!» -- ao que eu retorquia:-- «Cala a boca, besta!» -- Esconder os chapéus das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabeleiras, dar beliscões nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram mostras de um gênio indócil, mas devo crer que eram também expressões de um espírito robusto, porque meu pai tinha-me em grande admiração; e se às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia-o por simples formalidade: em particular dava-me beijos. Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a quebrar a cabeça dos outros nem a esconder- lhes os chapéus; mas opiniático, egoísta e algo contemptor dos homens, isso fui; se não passei o tempo a esconder-lhes os chapéus, alguma vez lhes puxei pelo rabicho das cabeleiras. (Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas) É correto afirmar que: o texto apresenta papéis sociais ambíguos das personagens em foco. o texto revela um juízo crítico do contexto escravista da época. o narrador se apresenta bastante sisudo e amargo, bem ao gosto machadiano. se trata basicamente de um texto naturalista, fundado no Determinismo. a identidade do narrador é desnudada por ele próprio ao revelar alguns comportamentos e características presentes desde a sua infância. 3a Questão Escolha a opção que completa corretamente as lacunas da sentença. A fina ironia assumida pelo narrador machadiano em Memórias Póstumas de Brás Cubas permite ao leitor rir das contradições da sociedade de fins do século XIX. Esse riso corrosivo e demolidor visa, sobretudo, a classe ___________ a que o próprio Brás Cubas pertencia. camponesa. clerical. proletária. aristocrática. política. 4a Questão Os fatos narrados em Memórias Póstumas de Brás Cubas passaram, em sua maioria, entre os anos de 1840 e 1850, mas o narrador só os conta em 1881, doze anos após sua morte. Esse distanciamento faz com que os fatos e situações narrados sejam transformados pela: imaginação. tradução. memória. emoção. reflexão. 5a Questão O romance introdutor do Realismo no Brasil, Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) começa da seguinte maneira: AO VERME QUE PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES DO MEU CADÁVER DEDICO COMO SAUDOSA LEMBRANÇA ESTAS MEMÓRIAS PÓSTUMAS Esta dedicatória contém um elemento importante de Memórias póstumas de Brás Cubas, presente em toda a narrativa, que é: o delírio de um narrador em estado alterado de consciência. o rigor científico de um narrador realista. O humor com certa melancolia existencial. a loucura de um doente que se sente em decomposição. o desespero de quem não existe mais. 6a Questão Leia o texto a seguir: Acocorada junto às pedras que serviam de trempe, a saia de ramagens entalada entre as coxas, sinha Vitória soprava o fogo. Uma nuvem de cinza voou dos tições e cobriu-lhe a cara, a fumaça inundou-lhe os olhos, o rosário de contas brancas e azuis desprendeu-se do cabeção e bateu na panela. Sinha Vitória limpou as lágrimas com as costas das mãos, encarquilhou as pálpebras, meteu o rosário no seio e continuou a soprar com vontade, http://www.mensagenscomamor.com/seriados-filmes-e-novelas/frases_de_vidas_secas.htm Que traço do romance predomina no texto apresentado? A personagem revela sua individualidade por estar sozinha junto às pedras. A personagem revela suas emoções e sua fé por carregar um rosário. A personagem, mergulhada em sua individualidade, expõe sua fragilidade através das lágrimas. A personagem revela sua condição social. A personagem demonstra perseverança ao continuar a soprar. 7a Questão "Memórias póstumas de Brás Cubas", além de ser a obra inaugural do Realismo no Brasil, é uma narrativa surpreendente a partir da sua própria estrutura. Leia as afirmações que seguem e assinale a alternativa verdadeira. I - Machado de Assis, tanto na seção "Ao leitor" quanto na célebre "Dedicatória": "Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas", inovou ao expandir a ficção para espaços que, convencionalmente, não são ficcionais. II - o conjunto dos acontecimentos narrados é tramado em ordem cronológica por um narrador que não participa dos fatos narrados. Está ali só para contá-los: "Virgília fez aquilo um brinco; designou as alfaias mais idôneas, e dispô-las com a intuição estética da mulher elegante [...]" (Capítulo LXX/ Dona Plácida) III - a técnica dos capítulos curtos, ao todo 160, imprime um ritmo dinâmico e descontínuo à narrativa, além de pontuar as constantes digressões do narrador. Já os títulos, que cada capítulo recebe, revelam frequentemente o humor e a ironia do narrador, presentes, por exemplo, em: Capítulo XXXV/ No caminho de damasco, Capítulo XLII/ Que escapou a Aristóteles e Capítulo LV/ O velho diálogo de Adão e Eva. Apenas I e III estão corretas. Apenas I está correta. Apenas II e III estão corretas. Todas estão corretas. Apenas I e II estão corretas. 8a Questão Leia o texto: A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus. http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/MachadodeAssis/brascubas.ht m A partir da leitura do fragmento apresentado, que conclusão podemos tirar da relação autor texto - leitor? O autor, através da voz do narrador, quer ganhar o leitor. O autor, através da voz do narrador, é gentil com o leitor. O autor, através da voz do narrador, relativiza a importância do leitor. O autor, através da voz do narrador, revela parceria com o leitor. O autor e o leitor estão acima da obra publicada.