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ROBERT DARNTON 
O BEIJO 
DE LAMOURETTE 
MÍDIA, CULTURA 
E REVOLUÇÃO 
Tradui;lo: 
DENISE BOTIMANN 
,----
Pasta nº_ Cópias_ 
Prof.: (Ój \elk ilCnJiM U~t~tUD 
Oisc.:ib4Jf!v1-;, ola Jó.ÁJ>~ 
. Data: I I Vlslo: 
--- -· -- .,_ ... _,_.,.._. ___ .., ... 
1J .1...:.r...: ·; l' 'i'·~ 
Parte III 
A PALAVRA IMPRESSA 
Profa.#J•a l"rpuhlicor111, 1793. 
7 
O QUE Í: A HISTÓRIA DOS LIVROS? 
Tlistoire du livre na França. Gt'sdiirlrte w Burhwesrm na Alc-
tr.•lllhll, M.tr<>ry of hookt ou o/ the bwiJc nos países de llnl!\I~ inglcsr. -
o Mme varia de luca.r rara lug11r. mas por toda parte e!a c.<1tá :>cr.do 
reconhecida como u:na nova dis..:iplina importante. At~ se poderia cha-
mar de ~l!:\.tória soc~~I ci:iufu~~l~~~cõijiút.i~ãç'à.Q. jmpresSã.hc não fouc 
um ll\11ne tãu comprido, pois snP. finalidade é entender como ~ idéias 
'enim trnn~milidas por -.·iii .. imp"ri:ssiís e cómu ;, co1\ráto oorit" E. iiali.vra 
. ' iim-'ri!sia.ti_iõ~_Uién~!!Jenio e 'romportãr.tento da humauídàde "nos 
: ; último.s qu_ii;illcnt!l-HTI06. ATguns-TusToffid"iirc:s ao-livro oúscàmseüõô-
' jcco no períorlo anterior à invenç;io do tipo mÓ\·cl. Alguns estudiosos da 
imprensa se conc-er.tr111:1 cm jornais, folhetos e ourras formas além do 
li\"m. Pode-se estender e ampliar o campo de muitas maneiras, mas 
de modo geral ele trah: de livros desde a época de Gutenberg, sendo 
11m:1 árl!a de pe~quisa que se de~nvolvcu com tanla rapidez nos úlli· 
mos anos q11e é prm·á\·cl que conquiste u:n bgar ao lado de campos 
cor.lo A hi,;!óría da ciência e :i hi~tória da arte, no elenco das di~cíµlinas 
acadêmicas. 
Qualquer que s.:ja o fun1ro da hist6ria do~ livros, se11 p:is~atlo 
mos~ra cumu um SªllJPQ de conhccír:ienlo poik ~ssumir uma idc1_tti-
dade at·acêmicn distinta_ Eln surgi~-dà êon\·êritêiiêia de J-i~er'w disci· 
riiinas iiúm ~o:ljurító'coniuni ilc i:iro'biêmas, tó<los rciii~-iÕnad1)s-cõ.,l\.o 
ei_(_'~cssô de êõmunicnção. Inicíalmerite, cs problemas ~óin.l\r.i11i\ a íôr· 
ma d.e qucsiõescorlcrêiãs-éni ramos do con!lec:ime:ito sem ttlac;ào entre 
si: qua:s foram os textos originais de Shakespeare? O c1ul! t:ausou a 
109 
RCl·olução Francesa? Qur.J é a ligação entre a cultura e a estratificação 
social? Ao trabalharem nessas çuestôes, os cstudio~ viram que esta· 
vam se cnm1ndo nos mesmos caminhos, nunia temi de ninguém si-
tuada n~JJ!teno~çiio de meia dúzia de: campus de estudo. Decidiram 
1.-onstítuir un~âmpo ~ convidàr lthluriàdores, C.'>Íudiosos da 
lite ral.\!.ni. sodí3fügos ,bMi~1;;;:4i-lõs e i~dos õ~rqüc '(fuisC$5em e~ .~~;de; 
i.Pllvr<l-co~~~-~mi(forÇa na histó;iâ~IA hutória do~ liv:'<ls comeÇoú a te; 
seus prÓprÍOs-periÓdiC<:JS, CC1ttr0s dt: pesqui5n, i:onferêaciais t: circu itns 
de palestras. Congregou tanto os mais velhos do cl! quanto os jo\'C:TL'I 
radicais. E. embura ainda. não tenh;1 criac.lo senhas, códigos se.eretos · 
para o aperto de mã:>s ou uma. populaçio pr6pria de doutores, scus 
adeptos podem se idc:uti{icnr pelo brilho nos olho~. Pertencem à mesma 
cau.1'a, um d01'. poucui. setores na~ ciências humanas com ~p[rit~' exlru· 
vcrli<lo e uma lufada de idéias novllS. 
Nnturalmente, a história da hislórin dos livros não começou on· 
tem. r::i~ se cstct(de_ii!la..cultura da Renascença, se não antes; eco-
meçou a sério í~~ulo ~11';.·.~1!~._!!o o_c;.dud<?.d_u$_ livro.~ co~> !_!~j~.!O~ 
m:ileriais levou ao êr~~imento_piLJ)_iblj.ografia an&Htica. 1ia lngla.!erra. 
/\-fas ó"'fràbalh·Õ-coiitemporâneo representa um dt:.:>'YiO dar;'·cÕÍ'ieÍ:tks· 
estabelecidas de estudos na àrea, cujas origens podem ser remontada\ 
ao século XlX, passando pel~ antigos números de The Library e IJOr· 
senblatt für dcm JJ1mrs.chtn Bucl1ha11dtl ou pelas LCSes na ~olc des 
Charles. A nova co:rcntc se desenvolveu nos anos' 1960 na França, onde 
se ennüzoc cm insütuições como a Êcolc Pratique dcs Hauh:s Études, 
sendo dh·dgada en: publicações como L 'apparition du livre (1958), de 
Luden Febvrc e Henri-Jean M11rtin, e Livre tt société da11s la Franct du 
XVJ/I~ siiclt (2 v., 1965 e 1970), de um gn:po ligado à Vle Scction da 
f!colc Pralique des H.aute.~ P.turles. 
. _Qs_novos historiadorts do livro inseriram o tema dentro do leque 
. '' \' . . ,.. .. 1 :de ~ssun tÕs -êShld ãOÕs peia cscofa .d.9sÀn11aiii defiíS fóija S<)êig:eeQ..~~ 
1!míca. Ao invés de se dcten:m em detalhes da bibliogn1fia, tentaram 
'
1dêscobrir o 1Hoddo geral da prnduç~o e consunm cio livro ao longo de 
gr~ndes -per1odos de)emp0. Compilaram cstatisticas a partir de solic:i·. 
t:içõe~ rlc pri~ilêge.1 (uma r-.,.pécic de din:ito de publicação), analisaram 
o conteüdÕ de biblioteca:1 partic~larcs e mapl!a:-am corrcnles ideoló· 
gicas através de gêneros pouco lt>mbrados, como a b?;bliotlieque IJ/e11e 
(brochura$ primitivas). Não se intere5sa~am por livros raros e c:diçôcs 
de laxo; pelo contrário, ooncenlraram·se no'tipo mais comum de livros; 
pon1nc Cjucriarn d~cobrir a experiência limá:ia dos leito-res comuns. 
Cole<:aram fenômenos conhcciclos como 11 Contra-l{eforma e o lhrmi· 
nismo sub um.iinsulo pouco conhccide>, mü~lr:i.nito o qu~nlo a cufüíra 
JJO 
.\..-·· 
.< 
tradidand ullrap~\·a a cultura de vanguarda no consumo literário 
de toda a sociedade. Embon. niw apr~ntasscm um conjunto sólido de 
ronch.1sões, ele" demonstraram a importância de levantar n01as ques· 
tões, de i.:sar nov()S mêtodos e acreSC"entor novas fontes.: 
O exemplo deles se difundiu por toda a Europ11 e Estados Unidos 
fortalecendo tradições locais, como os estudos da reo::epçao na Ale· 
manha e a história da imprensa na Gtà·Bretanha. Reunidos pela sua 
participação num mesmo empreendimento e animad(ls pelo entusiasmo 
por :iovas idéias. os historiadores de livro começaram a se em:ru1trar, 
prin1eiro em cafés, depois em conferências. Criaram noYos periódicos 
- Publislii11g lliJ1ory, Bihliography News!etter, Nouvel/cs du lim~ 
ancien. R<JVuefrançaiM! d'histoire du lilire (nova série), Buchha11dels· 
1:eschicl1tf! e Wolfcnbiitteler Notize11 zur Buchgrschichrc. Fundaram 
novos centros - o Institui d'~tude du Livre em Paris, o Arhcitskreis 
füt Gescbich1e cics 811chwesens em Wolfenbüttel, o Centcr for the Book 
ua Biblioteca do Congresso. Colôquios especiais - cm Genebra, Pari~. 
Boston, Worcester, WolfenbQttel e Atenas, para citar apenas 11lguns 
que se rcaliurem no final dos ano~ 70 - divulgaram suas pesquisas cm 
escala internacional. No curto período de ~inlc anos. a história dos 
livros se t1>rnou um campo de e~tudos rico e dí\'ersificado. 
T1\o rica, de falo, que asou, mais do que um campo, parece uma 
cxuberantc'llorcsla tropica] O explorador mal cnr.seeul! 11tr11.ve$sá·la. 
A cada pas;), ele se vê emaranhado numa densa \•cgetaçlo de ulig::is 
de re,·istas, e fka oosorientado com o entrecru2amc11to de disciplinas 
·- a biblíografia analítica apontando neslà. direção, a sociologia d~ 
cÓnhetiméó.to naquela outra} enquanto a história, a literatura ingl~sa 
;·a literatura comparada delímit1un territórios que se sobrep~~. Ele é 
as.Sedtaclo pÕr ·pretensões a nôvldade - ••ta 11ouvcÜe bibliograpliít! mll· 
térielle", "tlze new lilt!rul')' llistory" - e se rê desconcertado com meto-
dologia~ rivais, que lhe dizem para cotejar edições, compilar esta1is-
1icali. decotlificar a lei do~ dircilox autorais, r;ien:orrer milhões de ma-
uuM:ritos, arfando junto à harra de uma imµren~a romum reçons-
!ru!da, psic11nali~r os processos mentais dos leitores. A história ilos 
livros ficou tão po•:oada de disciplinas a.uxilial'<'_ç que já não é pos.~i,•el 
óistiq~uir secs conto:nos gerais. Como o historiador do livro poderia. 
negligenciar a histó:ia d11s bibliotec:is, d~s eóiç()es, do pa1icl, dos tipo~ 
e da leitura? Mas cvmo ele pode dominar suas cecnologi.as, principal· 
mente quo.udo aparecem em impor.entes fouuulações estrar.gcira~, 
t."Omo Geschichte der Appellscrukrnr e Bibliométrie biblialngiqur.? (~ o 
~uc bas:.a para que a pessoa sinta vonUldcde se recolher a um.li sala de 
livros raros, para licar contando as marcas·d'tgua. 
lll 
Para conseguir uma certa distlncia dessa correria in terdi~lln~ 
_ ... _ ~criiar o objeto como um todo, talvez caiba propor umf~odel~ 1.'~'""'~<.J- cral ·.llraanali~~..E2lllººs~~~~<!!~~~tre'-a·s~ <.-t:'"'>~~ ll a e,_ V1 entemente, as condições variaram tanto de lugar para IUgar 
. e de época para época, desde a invenção do tipo m6vel, que seria tolo 
esperar que todas as biografias dos livros se encaixassem num mesmo 
modelo. Mas, de ~.C>!k> ger~. _'!:S_li~ impresso~_P.ª!S!ID _l!Pr-ºxárn~_!!a­
mente pelo mesmo ciclo de vida.~..scLd~_~mo9tn cir-
' , <-~·.s ., ~;: 1 (cu i to-dê co-m uníé~~ã"o ~Üe -Viilci~ ~ut~ JP ~df ~ÕiJsc não é o~l~_!~~o_jú.e 
- \"""::i f i assu~c~-1?.'.l~, ao 1mpre~sor~~-~ .... !fí~~1<!~~-ª~~~~-âc~~!~-~~~ga 
1 ao leitor. Ole1tor encerra o Cll'CUJtO porque ere influencia-ó autor tanto 
·antes quanto depois do ato de composit;ão. Os próprios autores são lei· 
tores. Lendo e se associando a outros leitores e escritores, eles formam 
noções de 11ênero e estilo, além de uma idéia geral do empreendimento 
literário, que afetam seus textos, quer estejam escrevendo sonetos sha-
kespearianos ou instruções para montar um kit de rádio. Um escritor, 
cm seu texto, pode responder a críticas a seu trabalho anterior ou ante-
cipar reações que serão proV()cadas por esse texto. Ele s;_d!!!Bc a leito· 
res impl!cit<>!i e ou\'C a resposta de resenhistas expllcitos. Assi;"·ÕCir-
êüiiõ pcrcóiTc um ciclo completo. Ele transmite mensagens, transfor· 
mando-as durante o pcrcurw, conforme passam do pensamento para o 
texto, para a letra impressa e de novo para o pensamen to..._A histf>.!!!25' 
_l~~re!>Sa por ~.!!!,J~!;1_~_e~es:so e pelo eroo:sso co_mo um 
lodo, cm todas as SU"!_ Vl\!!aç®5:no. tBlll~ e no espaço, e~ 
~3~ r~_aÇ,õêS-~!)].2~~siSté~-~~ee~n6iiil.~~i·1 ~JJç~ijuitu:. 
raJ, ·na meio circundante." · ·- -
- ·-ru-mà.'gr~deêffipreita. Para manter suas tarefas dentro de pro-
porçõe~~_íve1s~s..histw:iad.Q~_dQji..!_~ geralmente recortam u~ 
seg!_tl_cnto.docircuíto.d«omu.~.i~~~~.!~ªII.sam~no s.egúadõ·osp~­
dli:nen~~ ~e. uma .única...disci~_ - a im-prêS:são, porcxemplo, que 
estudam através da bibliografia analltica. Mas as partes não adquirem 
seu Si8!!_ific1a~ co_ipp_kt9. c;_nquanto não sfo rela~§ii~as_~~ todo.: 
, ~'-·, r, se,~ h~l?Jͪ-~~~º-~~ten~}l'..!~~!lfe~~-~m;~~"!atíiãÇ~~ _ 
'"""'"·- ~tenc~!!91,!l8!.e!!~-5..1.P.!'_ t~n1c~ -~uste!_;'~. e 11!~1!.'.!!E."..eensões. 
'~~"" müt)iii._;mcre n~ria algypjá: visã!tl!.ollitlca !19.livioooma.m~ 
oo?rú1!1iCaçlo~ õ'modelo mostrado-na figu;ãl;q;-rcsenta uma maneira 
g;:-visüãTiw o p~so completo de comunicai;ão. Com pequenas 
adaptações, ele se aplicaria a todos os períodos da hist6ria do livro 
impresso (os manuscritos e as ilustrações de livros terão de ser consi-
derados cm outra oc:asiio), mas cu gostaria de discuti-lo cm relação ao 
período que ~onhc~o melhor, o século XVIII, e abordá-lo fase por fase, 
112 
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mos Irando como cadii fti~ está ligaJa a: (1) outns afai<l1uks que: uma 
dcterminAda pessoa desenmlvc :ium dcltmnlnado ;:>onlo do 1:ircuilu; 
(2) outras pessoas no momento kmporal em outros drcuitos; (3) uulras 
pc!>Soas ~m outro:> poulos nc mci.mo circuito; (4) o;llru!i clcll\cnlos nll 
sociedade. A~ três primeiras cousidcraçõcs se referem diretamente à 
transmissão do tc:i;to, ao passe: que a 1'1l1ima diz res1>c:ilo a influênd11s 
cxtern:1s, que podem variar ao infiníto. Pur urna q~cstlo de simpi\ci-
dade, redu:7.i-as às ti& categoria:!; gerais 110 centro do diagrama. 
Os modelos têm uma ten<lênciR a congelar os seres hum:rnos fora 
da históril\. P11ra dar um pouco de vida a c:~lc: modelo e mostrar como 
de pmlc cxplícur um c~cmpio real, \•ou aplicá-lo à hi~t6ria ;:ditorial 
das.Qw:~riu11s.s11[.f'1.JtJ~dopédie, de Voltaire, Umll obr11 irnporrante 
do Ilumi11is1110 que afetou a Yida de muitos liyf!.!irns do sécllln XVJ!L 
Podé·se csludar o circui10 de sua trimsmísi.ão em qu;ilqucr ponto -· 
por exemplo, 110 cslágio de compo~içlio, qaanclo Volla.ire deu forma ao 
texto e orquestrou sua divulgaçào para promover sua ca111paaha contra 
a intolerância religiosa. conforme mo\1raram M:11s bió11rafos; no cs1•sio 
de impressão, onde a anwisc bibliogr!lfica contribui para estabele..~r o 
número de edições: ou no 1>01110 de sua penetrnção :11\S biblioh:cóls, 
onde. scp,undo esluclos estat!sticos de h~toriadorc!> literários. as obrns 
de Voltaire ocupavam uma pan:c:la ímprr,J;sionanu: do CS}laço nas es-
tantes.> Ma~ eu gnstaria de coni>idcrar o cio menos farr.iliar no procrs~o 
de difusão, o pa1-.cl dory~nd~d~;-de livro». tomando romo exerr.plo 
lsaac·l'krre Rigaud de Montpellier, e j>assa:ido pelas quatro conside-
rações :icima menc-ionad.1s.·1 
l. Em lú llt: ago~to de 1?70, Rir,aud encomendou trinu. exem-
plares da edição;,, ·ocr.wn das Qui'Mim1.f, cm no~·c vol1:mcs, que .1 So-
ciété Typogro.phíquc de Ncuchitei (STNJ romeçara a imprimir r.o prin· 
cipadu prus~iano C.c '.'oit"uchd.tcl no lado saíço da fronteira entre a França 
e a Suíçu. Normalmente, Ríg11ud preferia icr pelo menos alguma~ pági· 
nas de um tino novo, anh:s de lê-lo cm ~~oquc, ma~, no caso das Qm!.s · 
1iu11J, ele achava que e!'"a um negócio tào s.eguro tJue i;c arriscou a faz.er 
umac:ncumc11da bastante grnnrlc, mesmo sc:ru tê-las \"isto. Ele não natria 
nenhmna slmp<itit-. pessonl por Voltaire. Pelo ce>ntrário, dcploru·a a lcn· 
dência do íilúsofo em brincar com seu~ línos, acrescentando e corrigirnla 
passagens. c11q1:anto c1>0pcrav11 com edii;ões pirnieadas pelas costas dos 
editores originais. E~a priilica gera\·a rcdamaçõcs dos clieules, que se 
qucillavam de :-eccbc:r !e:11tos inícrio~~ (ou não suficic111crncnlc audil· 
ciosos). "Í! cspDnto,;o que no fi11al ele: sua carri:ira ~- de Volta.ire não 
consiga se 3?'."ter .de cng:mar os liwciros'', pro:cstou. Rigauc.1 à ST:"I. 
114 
Nãu teria import3nci:i se todw; essas p"qnen;.s ;;stú,·iu, :macltu e !tapa· 
ç:.s f~sem l!ribu[da~ ao autor. M:ts, inlt:lizmtnk, ~;\u ~cditorc:a i1ind;• 
rn.\is os \'Cndedorts a '"arejo que i:cral:ncncc sào con~idcrados como os 
r~sp1u1~heis. • 
Vollnire dificultava a \'ida para os livreiros, n:as ,·cmlia hc:n. 
Não havia nada de voltairiano na maioria d1» outros livnJs na loja 
de Rigaud. Seus ca1á:ogos de \'endas m1JStrnm lllll: ele se cspccialirou 
ba.~lar.te cm livros médicos, que sempre :inham t.lcmanda cr.\ Moot· 
lléllicr, graça5 à famosa faculôadc de medicina. Rís:a11d 1anibém man· 
linha nmn linl:.n discreto de obras proteslanh::~. pui~ Montpellier fi· 
CA\':1 cni lcrritúrio huguc11o!c. E, qu:rndti as autoridt.dcs. t•.stavnm ocu· 
padas em 0;1tras coisas, ele traz;ia alguns i=arrcgamcnto~ de linos proi· 
bidO;';.s Mas, de ruodo geral, ater.dia aO'i clientes com todos os tipos 
ce liYros, 1ir:1dos de uma relaçào qut! "alia pelo menos 45 niil libra.;; 
franctsas, 11 maior de l\fontepdlicr e prm•avdmcnlc de todo o langue· 
doe, segundo um relatório do :s11bdéJl-g11t do intendente.~ 
A cnr.omcndn de Rigaud à STN il11stTa o foitio dr. ~r.u negócio. 
Ao contrário t!c uulms grnndcs co:nl!n~ianh:s co interior, que, ao fare· 
j:1rem um h('.ff·.J€J/er, c:r.pcculavum com cem ou mais e:umplarc~ du 
livrCJ, raramente ele encomendava mais do que meia dúúa ele Có\cmpla· 
res de uma mesma obra. li;i. mui'.~. ~vnsuhava ~eus clicn1cs, fa1.ia son· 
dagens em sua correspondência comc«:ial e estudava os ca~álogos que a 
.STN e seus O'Jtros fomeccdorcs lhe enria,·am (em 1785, a catálo~o da 
STN arrolau 750 titulas). Então escolhfo cerca ôe dez tirnlos e enco· 
menclw3 .aper.as o número de exemplares suficientes para formarem 
urna carga de 50 libra~. peso mínimodo frere ao preço mai.~ harato 
c<ibrado pelos carroc:ciros. Se os lh·ros \·endiam bçm, ele QS cccomen· 
dau de novo. mas Kcralmenle mantinha encomendas bastan(c modes· 
tas, íaando seus pedidos ~uatro ou cinco vezes por ano. Dessa forma. 
ele ronservava o capi(al, mi11i111i;r..a.Ya us risc1.1s e m1.1nlou um i::stoquc llo 
grande e diversificado que sua livram se tomou um centro de atendi· 
mcnto de todos os tipos de demandas literárias na região. 
O modelo de cncoc1cndas de Rigaud, que !>e patcnteiaclaramcnlc 
nos livros de conui.s da STN, mostra que ele oferecia aos seus clientes 
um pouco de tudo - lil'ros de \'Íagcn~. histórir.~. mm~nccs, obras reli-
giosa~ e os oca.~ionais tratados ciemífico.s ou lilosóficm. Ao invfa ~ 
. .. -·-··-- -··'·~~- -
seguir suas preferências pessoais. ele parecia· n:flefa a de~~~~a tpm 
~~1~ ~-r~i:i._~~ .P.reci~l) e. ,-i~; J.lc.~_c!>rdo.so.m a .s~~_d_o!ia · ~~!J.hcc i4_a_ Q.o 
comércio de faros, resumida por um outru cliente Lia STN da seguinte 
·ninneira: ''Ó ·melhor livru ~ara um IÍ\•reiro ê u que vende bcm".1 cm 
115 
~i~tn de ~u estilo prudente de negócio, a decisão de Rigaud em enco· 
u:endar an:ecipad11mentc trinta conjuntos de: nove volumes da<1 Q1U"s-
tío11s sur /"Encydoptdi,. ~e afíRura espedalmentc síi:nificativa. Ere nào 
teria aplicado tanto dinheiro ni:ma única obu se não tivesse certeza 
quar.to i demanda·· - e suas encomendas posteriores mostram que seus 
cálculos ~tavam c.>rre1os. Em 19 dc:junoo de 1Tl2, logo depois de re-
ceber l\ última entrega do último \'Ofume, Rigaud encomendem mais 
doze con;untos, e dois anos depois encomendou :nais duas coleções, 
embora nessa ép<>ea a STN jâ tivesse esgotado seu.~ estoques. ~la havia 
pubfü:aco uma edição enom1e, 2500 e.~einplarcs, r.lais ou menos o do· 
bro de sua tiragem normal, e os livreiros rinh11m se atropelado 1111. corre· 
ria para comprá-los. A:;sim, a compra ck Rigaud não foi uma aberra-
ção. Expressava uma oom:nte de voltairianismo que se difundira larga-
mente entre o público leitor do AntigQ Regime. 
2. Como se afigura a compra das Qu!!ticns, vista da perspectiva 
cias relo~ entre Rigaud e os ou!rcs livreiro.~ de Monlpellier? Cm 
almanaque do comércio de livros, em 1 n1. arrolava nove deles:• 
Edito'"~ /..iurdroJ: A11g. Fran~. Hodlard 
Jt.1<l Ma~M 
livreirv•: Isaac-Pierre Rii:aucl 
J. B. t'aure 
Albe=t Pun5 
Tcurnd 
s~~cor. 
Cê.rn~y 
Fonlan~I 
~as. de acordo com um relat.írio de um vendedor amhu!:mte da 
STl'l, ha~·i:i. apenas sete.' Rignud e Pc:u tinham se uiúdo e dominado 
compktamc:n1e o comércio local; Cézary e Faun: iam vh·en~n r.0<1 níveis 
in!cnnedit\rio:1>, e o~ demais oscilavam ã beira da falência cm lojinhas 
Jlrcd1rias. O ocasional enc:iden1adnr e ms~cate disfarçado também dís· 
tribuíu 11lguns livros, cm sua maforia ilegais, para os leitor~.s mais ª''en· 
tureiros da cidade. Por exemplo, a demoiulle Bringand, ~onh.ecid11 
como "a mãe dos estudant~·', g\Jardna alguns frutos proibidos "de· 
baixo da (ama à direita, no segundo andar", conforme o relatório ~ 
uma h;11i1fa engenhada pe!oi. liVTdros estahe~cciclos.10 O c_omérdQ.M 
maioria das cidades do interior obedecia ao mr.smo modelo, que pode 
Ser visto ~'UltlO uma Série de ('irc~OS roncêntríecs-: no"eeni-io; ·Ü-m~-ou 
,1;1:Ls firmas 1enl:i•••m mnnopQliur o mercado: na pcrifcri:1, :tlg1:n~-i>e -
116 
quenm: romercia?ltes sobreviviam cspcciali7..ando·Sc cm brochuras 
populares e livros usodos, mont11ndo clubes de ldh1ra (eabi11ets litté· 
rair~.s) e cnclldernadoras ou ma~oteando suas mercadorias pelu rc-
gifo$ mais interiores; fora da fímbria da legalidade, ôS aventuu:i(l)s 
cn~ravam e saiam do mercado, vendendo lilcratura proibida. 
Quando fel' sua encomenda das Que.stirms, Rir:aud estava cunso· 
lidando sua posição no centro do comércio local. Sua fusão cum Pons, 
em 1770, deu-lhe capital e ativos suficientes para resi:.tir a imprevisto~ 
- atraso nas eotregas, devedores omissos, crises de liquidei. - que 
muilaS n:us trans11m1;ivam ncttócios menores. E ele também jogava 
duro. Quando Cezary, um dos comerciantes de nivt.I m~dio, deixou 
de atender a aljpms pagamentos seus em 1781, Rigaud <."Cnsc~uiu 
tirá-lo cio ramo orgauiz.nndl> um conluio de seus credores. Eles se nega· 
ram a dar novos prum~ dl! pagamento, lc\'aram-no 11 ser proso por 
dívid11~ e obrigaram-no ll liquidar seu 1!~loque em hast11 pública, onde 
m:mtivcrnm ns preços baixos e arrcma1aram os lh•ros. Fmncccndo 
elíenlela. Riga mi rnnlrolava a maioria das ofidnas de encadernação de 
Montpellier, e excrcc~do pressl'io solm: os er.<:adcmatlor1:s, ele criava 
atrasos e ohstáculos nos ~crviços para os outros livreiros. Em 1789, 
restavam 11penas um, Abraham r-'ontancl, que só pcrm:mecia solvente 
por manter 11111 c:abürtt littéraire, "1tui:: provoca t~rrlveis acessos de in· 
\'eju no Jie11r Rigaud. que q11erfícar como o único e todos os dias mani· 
festa seu ódio por mim" ,n conforme confirlcncíou Funtanel à STN. 
Rigaud não clin1inou seus concorl'\!ntcs simplesmente Tenccr..do 
no estilo compctíti't'O feroz. do capitalismo comercíal ncs primeiros lcm· 
pos da França moderna. As cartas dele, de seus concorrentes e a cor-
::e~po:1d~ncia de muitos outros liYreiros mn~tr:im que n comércio de li· 
\•ros sofreu um11 rctra.çào cntre o final dos anos 1170 e nos ane>s 1780. 
En1 tempos diftceis, cs gran(itS livn:irns climina,·am os pequenos, e os 
duros sobreviviam aos brandos. Higat:d e:a um cl.ien~e duro desde o 
çomeco d;; suas rtlaçiic~ et)m a STN. Ele er.c1)r.iendou seus cxcmp!ucs 
d~s Q1tes1íons a Neuchâtel. onde a ST~ e~tava impriminclo uma edição 
pi:-;:.tti., e não a Cenebrn, onde Gabriel Cnmer, o editor regular de Vol-
:airc, •~sta\·a imprimindo a edição original, e isso porque havia arran· 
c;:ido termo!> mdhores em !'leuchiiteL Ele também exigiu serviços me-
;!wres, pr;11,·!palmcntc qua11do os outros li'i?'Círos de Montpellier. qut 
l:aüam tratado C<lm úamer, receberam au:~ !>í!US exemplares. O atra-
so prnvocou uma saraiva1!a de cartas de Ri~aud para a STN. Por que a 
ST:"i n:\o trabalhava mais rãpido'? Ela não sabia que estaYll frizcndo 
com que ele perrle~sc clientes para seus concorre~ces? Se ela n11o forne-
cesse c:ntn:gas mah rt.pi~s õt preço mais baixo, no futnro et.e teri;i de 
117 
fazer suas encomendas a Cramcr. Finalmente, quando os volume~ l a 3 
chegaram de Ncuchâtel, os volumes 4 a 6 de Genebra já estuam à 
\-cnda nas outra.<> linarias. Rigaud comparou Oi> textos, palavra por 
palaHa, e descobriu que a edição da STN não tru.ia nenhum dos mate· 
rinis adicionais que ela di~5cra receber à socapa de Voltaire. Assiro, 
como ele ia podi:r introdu?jr o tema dos "acréscimos e corrt:çí>es" cm 
~ discurso de venda? As recriminações se amontoavam rclO'l.mente no 
correio entre Montpellier e Ni:uchâlel, e mostravam que Rigaud queria 
explorar cada ccnrtmetro de todas as vautagens que consegui!>Se lo~n1r 
sobre seus conct1m:ntcs. E, mais importante, elas também tevcl.avam 
que as Qut>stió~•s estavam sendo vendidas por toda a ell'.teosl\o de Mont-
pcllíer, embora em principio não puckssem circular legalmente na 
França. Longe de estar restrita ao comércio clandestinu de personagens 
marginais como "a mãe dos estudantes", a obra de Voltaire revelava-~ 
como um artigo concorrido na disputa por lucros, no próprio cerne do 
comércio livreiro estabelecido. Quaudo comerciantes cumo Rigaud se 
an·anhavaru e dilaceravam ~la entrega de suas encomendas d;i. obra, 
Voltaire podin Ccr certe7.a de que estava conseguindo impulsionar suas 
idéias pela.~ principais linhas do sistema de oomunkações da França. 
3. O papel de Voltaire e Cramer no processo de difusão levanta 
um outro problema: como a operação de Rig11Ud se encti.nva nos ou· 
tro!i c~tágios do ciclo de vida das Question.t. Rigaud sabia que não 
estRvA comprando unta primeira edição; a ST1' emiara uma circular a 
ele e a seus outros principais clientes, e>:plicandoque da reproduziria 
o texto dê Cramer, ma.<: com cor~ões e a.:réscimos feitos pelo próprio 
a1:tor, rle modo que es~a i.1:a versão seria superior à versão origioal. 
Urn dos diretores da STN tinha Tisitadu Voltaire em Femey, eru ab1i1 
de 1770, e voltam com a promessa de qui: Voltaire retocaria as páginas 
impressas que iria receber de Cram.J.r....! então as passaria para Neu-
châlel, para uma c:diçào pirata.ll"YoltairC'fazia cwis brincadeiras com 
,_. ·. muita freqüênda. Eram uma maneii1nlr mclllortor a qualidade e au-
mentar a quantidade de seu:o; fü-ros, e assim serviam ao se_l<J>!?ietivo 
1 principal~ qúe·n~Õ CónsL .. 1111 cm ganhar· dinhciro;-~ls -não .. veüéila-
; sci1s texros aos cditÔres, e sim cm difundir· o llumfilismo. -No enlanlt>, 
!1a QUt!Slão do lucro m~Í1•i~ as c>UlfllS,parlCS d<f~is!CDJlh Assim, quando 
.:Cramer souhe du lcn1111h·11 da STN em atacar seu mercado, ele protcs-
'lou junto a. Voltaire. Voltaire voltou atrás em sua promessa à STN, 
e estn teve de se rontentar com uma verslíu atrasada do (e-..::lo, que ela 
recebeu de Fernl!y, mas apena~ com um mlnimo de ai;réscimos e cor- ' 
reções.n Na v~rdad!• esse recuo não afetou suas vendas, porque o mcr· 
ll8 
e.ado tinha muito espaço para absoner as edições, não só d11 STN, 
como também de Mate Michel Rey em Amstcrdà, e: pro1·avclmcntc 
outras mais. Os livreiros podiam escolher seus iomocedorc!>, e e~co­
lhcram de acordo oom as \'antagens marginais qae oouseguiucm obter, 
em matéria de preço, qualidade, rapidez e g.:1rautia na. entrega.. Rigaud 
tratava regularmente com editores em Paris, Lyun, Rouen, Avignon 
e Genebra. Jogava-os uns contra os outros, e às ''ezes en<.""Omendava o 
mesmo lino a doii; nu três, para ter certeza de recebiHo antes de seus 
ooocorrcntcs. Mas, no caso das Questio11s, ele ficou para trás e te1·e 
de receber sua mercudoria pela rota tortuosa Voltaire-Cramcr-Vol· 
ta.ire-STN. 
E:.sa rota simplesmente leva,·a o livro do autor até o editor. Para 
que llS pâginas impressa~ seguissem das oficinas da STN cm Neuchâ-
tel pura a loja de Rigaud cm Montpellier, elas linharn de serpentear 
por um dos est.Agios mais complexos no cirçuito do tino. Podiam se1pir 
duas rot.as principais. Uma ia de Ncuchâtel para Genebra, Turim, Nice 
(que ainda não era francesa) e Marsdha. Ela possu!a a vantagem de 
contornar o território franc~ -- e, portanto, o perii:o du coufüco ..• 
mas envolvia enorme~ dc.wio~ e despes.-as. o~ livroo tinham de ser arnu· 
tados pelos Alpes e passar por unia legião de intermediários - agent.:s 
de expedição, batclciros, carroceiros, encarregados de entrepostos, ca-
pitãc,; de navios e portuários -, anle!ô de chegarem ao depósito de 
Rigaud. Os melhores expedidores sciç-os anunciavam que podiam en· 
tregar uma eucoménda err. Nice nurr.. pra,o..o de trinta dia'i, n 1 J librJ~ 
francesas e 8 vinténs por 100 quilos de peso, mns seu~ c.ákulos se mo~­
trara.m irreais. A rota direta de ~euchâtd 11 Lycu e Rooanu abai.'l:o era 
rápida. fácil e barata - mas perigosa. As caixa~ tinham de receber 
uma ::han1:cla no momento de sua entrada na França, eram inspecio-
nadas pela L"Qrporaçào dos livreiros e pelo inspetor real de lh'rus em 
Lyon, sendo a seguir reexpedidas e novamente ir.specionadas cm Mont· 
pcllicr.11 
Sempre cauteloso, Rigaud pediu à S l'N que expedisse os primei· 
ros \'olumes das Que~ti<in.s'pela rota índireta, poís sabia que podia con· 
fiar em seu agente Joseph Colomb cm Marselha, que colocar:a O!> livros 
na Fra:-iça sem maiores perca.Jçcs. A encomenda saiu em 9 de dczembre1 
de l 771, mu s6 chegou depois de março, quando M trê~ primeiros 'l'O· 
lumes da ediçào de Cramer já esta\·am sendo ~endidos pelos concor· 
rentes de Rigaud. O SC&'tlndo e o terceiro volume~ c!icgaram cm julho, 
portm carrcgacios de ta:tu de expediçào e danificados pelo manejo 
gros.sc;iro. "Parece que e5!.A:nos a urna distíim:ia de 5 ou 6 lêguas", re· 
clamou Rigauct, acrescentado que lamentava não ter fcllo negócio com 
j}9 
Cramc:r, cuj;as er.trP.gu já tinham cheg:id() ao sexto Ynlunie.u A essas 
:dtur:n, a STN jil t.stava bast:inte prcoçupada com a possibilidade de 
perder c!icm~ crn todo o sul da frança, e montou uma operaç!lo de 
contrabando cm l.yon. O cn.::irrc.:ado, um vcudedor marginal de frrro5 
chamado Josep:1-Louis Il~rthoud, conSCt!'\JiU passar o quartc e o quinto 
volumes !>'!los inlpctorcs da corpornçào, mu logo a seguir foi à falb-
cia: p:ir.i pior:tr ainds. mais as coisas. o governo francês impôs uma 
taxa de 60 libras por 100 quilus em todas as importações de livros. A 
STN Nllou·:i rota &lpina, ofercccndo· se para lev&r ~us despachos até 
· 1'ice por IS líbrns/ 100 quilos, se Rigaud pagasse as demais despes~. 
ii:clusive o impn~ro de importação. r-;o entanto, Rigaud achou que essa 
tua era 11m gulµe tio fo1 te 110 •·omérci() internacional que sus(X'nclcu 
todas .1S suas encom~nd:is juntp r.os ro~dores internacionais. Com 
a !1ova ;>c>lltíca tarifária, 11 opcraçiio de disfarçar os livros clandestinos 
coino obrns permitidas e passá· los pelo~ ran11i~ comerciais no:mais tor· 
r:ou·se proibitivamente oncm\:I . 
l::m <!eumhm, Jacques Dcandreis, o :tj:!Cnte da STN cC1 1'ice, 
conseguiu c e .ilguma m;a11~ir11 dcsµ.1chu um cvre~ameuto do ~xto 
volume das QuutiotU para Ri1:iu11!, pelo porto de ~te, supusL"tmcnte 
fechado a i:nportações d~ livres . A seguir, o gcw~mo franc.!so, pt:n:c-
bcnJo que qu='~ tinha dcstruldo o comfrc:lo de lhros estrangeiro,, rc-
du:tiu a tarifa para 25 libras/100 q;.iilos. Rig:n:d propôs dhidir os cu~ 
to~ cnni os fornecedores: ele p11gari:: 113, e eles 213. Essa proposta foi 
a1.~ita pela STN, mas na prirn:wer:i de 1772 Rii;aud tlccidiu 4ue a ·rot;i 
de Nice era cam demais, wo quai~quer concllçl'lcs. Tendo ouvido tantas 
recl;im;.,çôc:s de seus outros clientes, a STN chegou à mr:s.111a roncluslo 
e enviou um de seus diretores a l.)'Ull, e ele convenceu J.·M . Bnrret, 
um comerciante lionês mais confüh·el, a fau;r passar as encomendas 
pcl11 t.'Orpora~l\o local e encaminhá-las até seu~ dientes das provlnciu. 
ür:i~õls a esse acordo, ~ três últimos volome5 das Q11e1tions de Rigaud 
éct!nram a salvo no verào. 
A entreica d;. colcção inteira em Montpellier custara um esforço 
1:011st1mlc ~despesas cons.idcrhcis, e , finda \.'Ssa lransaçllo, Rigaud e a 
STN ,._,11ti1:11ar:im a redefinir suas rotl\s de fornedmento. Como as 
prcs~õc~ polilicas e cconômi..:''~ cu11tinu~va111 a mudu. eles preci5avam 
rccon: hinar a to do momento seus :icord"s dentro do mundo com~lexo 
dos inlcrmerliários, que liga1•am as editoras às livrari11s e, cm última 
anol.lise , freqüentemente determinavam a titerarur:i que chegaria aos 
leitores frunctses. 
'.";lo é p~~h·cl definir '-"-Omo _o;s leitores assirnihlYilln seus _ li~r.os . 
Uni;1 anális.1: bibljografic:i de todos o·s exem.plare.~ locali1.à1·eis mostra-
/20 
ria ;u variant~ ,tispontvei\ de uni texto. Um t'S\u<lo dcs u~t;ui1•os de 
c.inório de Montpellier pmlcria indicu quaulos ncmplarcs apareciam 
nn~ heranças, e ª"' estntisticas extraídas dos caláloiios de leilões pcrmi· 
1iifam calcul11r o oúmcro delPS em vultosas bibliotecas particulares. 
~1u, em ~ista do atual est<1do da c.Jocumentaçilu, n:l.o é possível saber 
.- - qa:cm cp:ar:n os leitores Je Voltaire n~!1~ corr.siJ~pndiam !_:)!;_ll~J~x_rns .. 
/ A lcitur~ Cl.)~l!inli~~.~r .. ~ c~t~c11io i:i:o _ciw.1i1~~os ii~ros quc ufcn:cc 
\.... n::liores dificulrlades de esturlo. ·•· ····· .,,. .J 
-v--'.::.o;·.,·----~ e.~·.:· . . ·- .. -··-
/ 4. T"do~ t's está~ios eram afetadns pela~ conrliçõcs sociai<;, eco· 
11(unica~. políticas e i.ntcleclua.is da época:. ma:>, para Rigaud, cs.us 
i:tfiu~ncias iteniis se fujam sentir num contelCto lllCal. Elt~ ~e11dia lh·rus 
11111na cidudc de :11 mil hahit11ntes. A;>llSB?' ele impo1t;11:1c ~c:tor Lêl!.til, 
~untpellicr cr3 essencialmentt um antigc centro rdii;iow adminis-
trafüo, larganu:nte ctntarlu de instituiçõesculluraís, e!ltre elas uma 
univc:isidndc. uma a::aderr.ia de ciências, doze lojas maçilnic:is e dc7.r.s· 
seis comun:darles monâ1'tka~. E, por ser uma íntc:nd.1ncill e sede dlli; 
prllpr!edades prm·ind.ü.<> do Lansucdoc, além de contar com várm tri· 
bunaês, adi.fad.> rinha um grar,de número de advogo.dos~ funcíonárillS 
do rei. Se este!> g11ard;wam algum;s semelhança cnm seu:s e4uivaleDtcs 
em outrO!I cenlro5. de prmfr.cia,1• pr0\·1uel111ente conc~p()adiam i um;i 
tioa piirccln dos dic:lte~ <!e Rigaud r. prma.~dmen!c apreciavam a lit.:· 
rahara ilumini~ta. l:::le não di~utia a ha<;e soci,.l do~ clic:ulcs cm sua 
corrcspo11dên~i11. mas comentava que eles imistiar.1 cm ter as obras de 
Voltaírl'!, lfousscau e Raynal. Assinavam em pesou E•1rydnpi>die, e até 
c'.icgavam a pedir trate.dos atcl~ta.~ cumo Systêm<! dl' /<J 11ar11re e Philo· 
sophi~ de la nalu"-· Mnntpellicr n3o era um centro intelectualmente 
atrasado, I! con<>ti1uía um bom ~rrít6rio de livrns. ··o comércio c!e li-
vm!i é muito amplo nesta .;idade", .:omcntou uin ob$Cn·ndor cm 1768. 
"O~ l~vrciro~ 1êm mantido bons estoques em su;as livr3rias desde que 
!JS habitan!cs dcsem•ol•ernm um gosto pur bibliotecas."" 
Eram es~as condíçõcs propíciu que predomina,·am quando Ri· 
t:aurt encomendou suai Q111'.(ti<111s. M11s no começo do~ anos 1770 chc-
l(aram tempos diíicds. e nos anus 1780 Rigaud, como a mniorí.:i dos 
li.-..-iros. quei~ava·sc de um grande declinio em seu <'Ombcío. Toda a 
economia francesa sofreu uma ri:tr1tçao nesses anos, -.tgundô a versào 
Cl'rrcnh; de C. E. l..1brou.ssc.I" As finanças tlu Estitdo ccrtamente dcs· 
11enc:iram: por isso a catastr6fic:a tarifa de 1771 sobre os livros, que 
iur.ia par~e da tl!ntath·a malugrnla rlc Tcrray em diniinuir n déficit 
a1:umnlado durante a Guerra dos Sete An!>s. O go,emo tamb~m tentou 
acabar rorn os füros proibidos e pinh:aclos, primeiramente com um 
121 
policiamento mai~ r;goroso cm 1771·74, e a scp,uir ~m uma reforma 
geral do comén:io de iivm.-; ena 1777. Esu.s medidas u~abaram arrui· 
Cl:intlo o cL•mércio de Rigaud com a STN e as 11utras editoras que hn· 
\"Íam crt>scida cm volta da.'I fronteira.s francc:us nos anos prósperos da 
metade do s&ulo. Os editores t.strangciros publicavam edições origi· 
nai~ de lh·ros que não pP.ssnriam pela l-c.n.rura cm Paris e edições J>Íra-
tcndas de lhros lançados pelos editores pari~icnscs. Cor.10 os parisicn· 
ses tinham adquirido quase um monopó:i(l no setor editorial legal, seus 
ri\ôais nas provindas (ízcr11m ali:mças com as erlitora.<; estrangeiras, e 
fcchnv:tm o.s olhos quando chegavam dcspachus do exterior, parasetem 
inspecionados n:i.s cllrr.aras das corporaçõc.-s locais khamhrt'!.~ :Jyndica· 
/e.s) . Com Louis XI V, o governo ha~·ia ut:lizado a corporação parisienso: 
como instrumento pora dimir.ar o comércio ilícito; mas com Louis XV 
ela se tomoll C'1da ~·ct mais ímun, até o advento de uma nova era dt: 
rigor com a queda do min:~tério de Choi!lt!ul (dezembro de 1770). As· 
sim, as relações de Risaud com a STN ajustavam·s:e perfeitamente a 
uma configuração econtKnic:i. e p<>l!tica que predominava nu comércio 
livreiro desde o cumc,;o do século XVlll, e comcça\·a a sr. dc<Jfazer jus· 
tamente quando 4S primeiras caixas rlas Q11estions cslavam a camin!:io 
de Ncucltâtel para Montpellier. 
lJma outra pc~quisa pode~ia niostrar<mtra.~ configurações, pois o 
moddo não prccisil ser l\plicado dcs~a maneira, e na ~crdadc pode ser 
inteiramente di~pcnsado. ~ão eslou alimiandu que a história do livro 
dc\·a sc:r escrita ôe acordo t."<>m uma fórmula padrão, e ~im tentando 
mo~trar como seus segmentos dispares J>(.'<lem ser reurudos dentro de 
um ímim esquema conceituai. Outros hi~toriadurcs do livro podem 
preferir outTos esquemas. Podem se concentrar 'obre o com~rcio li-
vreiro de todo o Lansuedoc, como fez. Madeleiuc Ventre; sobre a biblio· 
grafia 8Cr&.I de Voltaire, conao Gil~ Barber, kroom Vcrcruysse e outros 
~tão fazendo; ou ainda sobre o modelo ~cral da produção de livroç na 
França sck1:c11tisla, à mnncira de François Furei e Robert Estivale.1• 
Mas, como quer que definam seus temas, eles n~o conseguirão extrair 
si:u significado pl:sno a menos que o relacionem com todos os elementos 
que operaw1m em conjunto, como um cin:uito para & transmis.d.o dos 
textos. Para esclare,cr melhor ""'ce p<lnto, passarei uma vez. mais J>clO 
circuito modelo, levantando questões que tEm 5ído in,·estigadas com 
ê•ilo ou que parecem maduras para maiores pcsquii-:\.,. 
L~",!EÚ!~ J\~' da Proliferaç!o drb".!is;:~s de grandes a· 
_crito~, ~ fº"~iç·~--~~~ic~~ "d11 amorfa fOntinuãm-õbs~uras para inú· 
meros períodos da hisióri;\,.En\ Cjilc·pnnto ~ escritores se lihcrtarr.rn 
112 
du patr:mato dos noàres ricos e do C:Stado, par11 ~·ivcn:m dt: suas penas! 
Qual ern a nalureza de uma carreira literária, e como se a seguia? 
l'.omo os escritores tr111avam com os editores, o.e; impressurt:s, us lhcci· 
ros, (lS rc.c;cnhislas, e entre si? cnqu!lfllo essa.e; perguntas não forem 
rc;,pon<lida5, não cnlendcn::mos plenamente a trun~nissão dos tc~tns. 
Voltaire podia fazer aliam;a~ secretas com eriitorc~ pirulas porque não 
p1-ccisi1va viver do que escrevia. Um século mais t3rcie, Zola proclamou 
que a. indcpend2nda de um escritor consistia em vcmJcr sua prosa ao 
lance mais elev;?do.lll Cor.io se deu essa tn1nsfor:na1;1io'? O trabalho de 
John Loush começa a .nos fornecer \lma :-esposta, m;is é possh·el fazer 
uma pr:squisa mais sislcmâtica sobre a evolução da república das letras 
na França a partir do.e; registros palidais. ahnnnai:iucs literários e bi· 
bli"grafia." (La Franr:' littrrairt óá os nomes c pul>liC4çôes ele 1.11!7 
cscritQrCS em 1757 e 30R9 em 1784). A situação na Alcm::1nha é mais 
obscura, de\·ido à fragmcnll!ção dos estados germânicos antes de 1871. 
Mas os estudios:os alt:màes estio começando a rt:\:orrer a for.tes <.:omo 
nn1 g<'lehru Tcursc"1u71d. que relaciona 4 mi: cscritoJ.:s em 1779. e a 
!r~~QÜ~~ ~!'=.~ .. !!J.9!!S•.e.ç,i:or~s e l.~i!o~~ cnJ_e~.lUd0s. monogr!· 
' fi~.,!JÇgiC?nr.i,;S~' Marino Berengo tem mostrado o quanto é pos~i\·cl 
descobrir a<.:cn:a das relaçô~ a'-ltor-cditur na ltàlia .~ E o trabalho de 
A. S. Collins ainda oferece uma cxposiç!10 cxceieme da q:icstoo da au 
tori11. na luglaterra, embon: precise ~r atuali1.J1do e ampliado para 
além do )é<.:ulo XV 111 . .ti 
... ·. " ·: · . ......._. r J::d_itar_'-~•i/'.gora O papel fu11darucntal dos editores vem Se lor· 
nand1Í mais.claro:' gt'aças a artigos publicado~ no Jvumo/ of Puhli1/ii11g 
lli:rtof')' e a monograf:ns corno T/1r •mrld o/ A/Jus 1'vfanutius 1 O mundo 
d11 A/útJ5 Miumtiu.s), de Martin Lowry, Chur/e3 Di<:lc.:11$' a11d his. pub-
lisl1rrs ( Clwrlts Dícke11s r. Sfus editores), de Robert Patcc1;, e 1:·ntrt· 
prt11t11rs of ideolog,v: llf'Ot:o11.~en•ati•·e publiJ.·lurs in Grrmany. 1890· 
1933 (Empresários da idenfogia: eclitor~s ncownsen:ad<>res 110 Alr.ma-
11ha, J890·19.1Jl. de: Gar)' Stark. Mas ~,.S!Q.lttç_lln .Q9_~ditor, con_10 fi~ura 
específü·a diferenciada do mc:1ti7'Ti~rciro e dQ impre$Sor, ainda cfe-
mana;~-~'"';Siud;si.stêmãtic:~: ô~ hlst~riadorc's mal co;,,eÇíiram'âutili· 
iârãi-dõcünieiit6s-dÕs ·çarfo:-es, embora sej am as fontes miUs ril.:a~ 
dentre todas ,para a históri:l dos livros. Os arquivos <sã é'<:iiia Verl~g-~n·, 
Marbach. ror cx~mplo, -contê1~ ~~» r.íínimo 1so mit docun1cntos, mas 
só foram examinados superficialmente, et11 busca de referências a Goc· 
lhe, Schiller e outros escritores ramosos. Uma pesquisa mais aprofun-
<l:ida quase certamente rc~claria umo grande quantidade de informa· 
ções ~obre o livro oowo uma forte influência m'.I Alemanha oitocentista. 
123 
Como "~ editores firmav11m rontra:os com autores, faziam aliança\ 
com liv~eiros, ncgocia~·am com autoridades pol!tic:as, tratavam as fi. 
nança5, llS fornecimentos, as reme~$1\S e a publicidac1c? A.~ re'ipo~ta~ !!. 
e""ª~ pcr.!:untas levariam a hi<iróriados livros a ;>cnetrar no território da 
história social, econômica e polltica, com hencficios mútuos. 
O Projeto de BiobíbUogrnfia Histórica em Newcastle·upon-Tynl! 
e o Jn,tilul d~ littératurc et de Tcchniquc5 Arlísliqut-S de Massc cm 
Burdi:aux e!Cemplificar:tm as direções já tomadas por r.s~e trahallrn 
intc:rdisciplir1ar. O grupo de Dordc:111x tem tenLado rastrear n~ livros 
a Ira~·~ de <fü·cr.c;o .. sistema.' de díslribuiçllCl, p:ira descobrir a experiên· 
da literária de diferentes grupos na Frirnça contcmpori111ct1.'• Os rie~­
quisadon:s 1.k Newcutle 1êtt1 esludado o proç~so de: difusi.o pela 11.:iá· 
liso: das T't!lações de assiuauks. que foram largamente etilizadas n:i.s 
campanhas de vcndu dos editores ingleses rlcsclc o Cllmeço do século 
XVII aiê o começo do s1ic11lo XIX . .!' Seria po~sível fazer um !rabalho 
seindhantc com os catálogos e prospertos dos cclitores. qce se en.:on· 
lram reunido~ P.m r.cntros de l~!Q\!!>a, como a hihliotcca de Ncwhc!T)·. 
'.fuda a __ ll~t:~l:\o 9,11 prop~g~nria d<> lívrÕ hquer exat:ic. Muito~ :ipm:· 
d~ria wbre ;1.s atitudes cm. ~~Ta"i;:ro-ãuslivr~ e o comc·imnrc 5t.ia u!ili:. 
lllÇrió'e<iiud-;.udo-à maneira coníõ'era~ -;p;~;nl:ldos : - ã--;s1r:it~gi~ do 
áp~lo, os v;i!Orcs ilivocaJus p-do· diS<"ÚtSo -empr~g~do ~-~,n··1oC!õ~ · us 
tipo~ cle puhliciifadc, das noticias dos jornais aos c;irtaic:s d.e ·rí11iro:"<'.lS-
!-.istmiadort.s· aõ1êrieano~ têm atili~ado eis :in~n~:os de jl)rtm';:>~'rh ma-
pc:n ~ pem~lração da p11lav~11 impressa em área~ afast:ic.las da soded:ide 
.:olon;al. ?1• Co:isultando os documcmu~ dos editores. poderi~m fa1.cr 
ir.cu~ mai~ profundas nfü séculos XIX e XX." Mas, inft:li:r.niente, 
os editores é1)~tumam tratar seus arquivos e<1mo lixo. Ainda que: pou· 
1~111 uma c1· .. ntuill can.a. .de •,1m .a.t.!!o.r fil.tn'>)$9,_dC$ j"&l!-i:n. f.lr_i' .. Rs_ t!vr~ 
1 (f~:<-~:li!lúJi~~rr~Si~-~d~r.ci11 _~o.1~~"'r~i.aJ, ~1~u! L..:.r!'.ltnç_ntc~~.~~!~J9ures 
\de informações mais importantes p.1ra o hístoriador do li\'ro. O Centro 
(io" n;,,-;.(l IÍ a ~>iblió:ecâ cio ConiresSl.l está no' rn-;;-1;.~~(~'°;:,iiiiptl:mdo UT'.' 
gui;1 11ara os 11rqui1•os de editores. Se forçm prei;ervados e cstuc<1d05, 
1>t•dcr.l11 oferecer um~ perspccti\'i\ <liferimte :>ahrc todo o curw dn hist<•· 
rin ;11r.cric~na. 
~ ~ . 3\!..".'Jl';::tso~e~l A t>ficirn1 ~rãlic~ é muito ".1ail> bem C\)rohedda do 
que os outros csfftg1ô.~ da produçao e d1fu:sllo de hvros, por ser um terna 
dr. ·~~:udos muito valoril.ado no campo da ~ihlio~rafia analílica, cujo 
. objetivo, tal cQnto foi definido por R. B. McKcrrow e Philip Guske!I, ~ 
! "cJ~czidat a tr~onnissão dc.l.c,,tus cxpJi<'•a4o ~5 .prciccsM1~.dll..1uodução.. 
cio li\'r~·· ~:t.-Ós billliói.c.rnfos 1êm dado .:onttil>ui~~lt'$ im1HJTll111tcs i'i <:rÍ· 
. . 
124 
tica de text0<o, principalmente na âre3 de es111:tns !1.hakespe11riano~. ti-
raudo inforP.ncias que remontam da cstmtur.1 rlc um livro para o p~­
cesso de sun impressão e, portanto. para um tnto original, como os 
manuscritos desaparecidas de Shakespeare. Essa linha de raciodnio foi 
r~-enteme11le d~stac-:ufa por D. F. McKenzic.2' Mas. mesmo que nun-
ca consigam recon5tmir um Ur·Sh~t;SP.~~re. Qi> bibli6Rrafos po<~m 
dcrnonstr ª~i .Ú~i~1f.~~l!itc_d_!!crén_ti~!~i.ç_~s: ae.-~rll -_ícºxt~f diferentes 
estados de uma edição, o GUC é uma cspeciali.ui;âo riccéS\.lria nos es-
tudos de difu~ào. Sua' técnicas também permitem decifrar os arquh·os 
dos impressores. e assim inauguraram uma fl0\'3 fase arquivística na 
lúst6ria da impressão. Gra<;:i.s ao trabalho de McKenz..ie, ~n 'l<x:t, 
Raymond de RoOYcr e Jucqccs Rydmer, agora temos uma visão clllra 
~~!1d0.!_18UIC_~~~- .d~Qfici'!~~~~!!=-~5_ ~? long~ ~!_ti]. d~ -º-'1.~riO~Q ~Q. 
prelo maníiãf1apro:<1mndamentc bOO-lâê))).'.t' São necessánas uutr;is 
pesquisàspãr7!-p;ri~d~- ~sienoru~ . e. "podcr·~-iam ~'<llocar novas 
questões: C(11110 us imp~sores calculavam os cu:dos e organizavam a 
produ.;ão, princip;i.Jmente após a expanslo do jornalismo e cta im-
pressão de materiai~ volantu? Ouau as alterações sofridas nos orça-
mentos dos li\'Cos <.'\Jm a i1:ttodu~ão do papel h:ito a má4~i1111, na pri-
meira déca:fa do século XIX, e do linotipo nos anos 1880? De que ma-
neira a.s transformaçõei; tecnológicas afc:tarilm a condução do tra-
balho? E que papel desimpc:nh:uam o~ oficiílis i:rálicos, :im setor 
excepcionalmente cxpr~ivo e militante uu operariado, na históri3 do 
trabalho? Vista de fora, a bibliografi:t annl!tica pode pa!ectr um mis-
tério, mas ela é capaz: de: dar srandc.ç contnbuir;õcs tanto para a hjs. 
túria social quanto para a história literária, especialmente se vier acom· 
r~nhada de alAum11 leitura dos manuai! e autobiogrnfia~ rle imp•e~­
sores. a começar pelos de Thomas Plattcr, Thi,mss Gent, N. !:. Restif 
de la Bretonnc,•Renjamin Pranklin e Charles Manby Smith. 
J • 
. • .------....~..-·- - lfo·-··· .t.' . .., 4~:.É;ll!!f!f~'![E'. '!~ÇIU~ ~a~~-~br~ .. a m~nei!~_cumo ~~livr~ 
s.'\iam rias gráficas c;·~~~'!...~~~~~lt~~. A.1~~ufü1yj~_<lo .:airclo. 
dàõ~ mercante, do correio e ifa estrada e.te Cerro «ihre a 
tíisiória da liiêr~111ra ~dê ter sido maior do q1ie Se imagin.1. Embora 
t.;:.ha· siiiú" provavclrrÍeri :e peqÜcno o efeito d11s facilidades Je tnins-
pcrte sobre o comércio nos '1'andc:s ceD!ros editoriais, como Londre$ e 
Paris, al11u:nas vcus elas determinaram o ritmo dos UcKt'>eios em áreas 
dist:mtes. Antes do sécu!a XIX, os livros eram gernlmr.n1c cuviado,o cm 
folhas soltas. -de niõJ~ -q.ue o"rompr~cfor'"podfa 'enr.l\rrlcmá-los de 1 
:u:créo rom ~u gosto e ~~u bolm. Eks erlllll t~11nsport11dt'l.'I r.111 gr11;1de-~ 
fardos embrulhados cm basla11te papel, e facilmente sofriam estragos , 
125 
com a chu\·a e o atrito das cordas. F.m comparação a men::adorias como 
teci~, seu valor intrínseco d& pequeno, mas as despesas do frete 
eram c:lcvadas, de,·ido ao la..rnanho e pc:IO das folhn'>. Assim. freqOen· 
h::~•ente a expcdiçi\o respondia por uma larga parrela do custo total do 
livro e ocupa,•11 t!m grande espaço na estratégia de marlut1'nx itns edi· 
ttir~s. Em r:nuitas plU'tes.d~ E_uropa, ru impressores alu podi_am contar 
com a r~m;;ss.i ~jos livros para m. livre.iros .nos m~ de -~J,'OSIO e SC· 
lembro. p0rquc: os carroceiros largu11m os carretos para trabãlhar na 
colheita. o con:érl"io báltico' frcqüenteinent~ arnarjava uma iritcr-
rupçáo ;<1pós outubro. pois o gelo hloqucaYa 0$ portos. As rotas se 
abrillm e fccha\·am por toda pilrtc, em resposta às ·pressões da guerra, 
da politice. e mesf}\o.das1'alCfiS ck IC8Uto. l>esde o século XVI acé nossos 
dias, a1lf lerah;ra ni\l)•Orloooxà··Jcm sij{o--triflsjjortada clandestina· 
mente e'fil~llOfmCs q~-~~Jl<fa~lr;~; d~ modo QU~ SUi\ i11fiuênci11 varia con• 
forme a eficiência d~lrabandflE outros gêneros, como brochura~ 
populares e publi~ao;õc:s 6ariiiãs· de ter:-or e mistério, circub.,·am por 
sistemas especiais de distribuição, qu1.1 dcmilndam um estudo muito 
maior, ainda que os hislori111d<'rcs do livro estejam agora começando 11 
nbrir o lerrcno, 11 
s(i7:r,•ir~c:)raças a alRlln~ estudos clássil:os - 1-1. W. Henne!l 
sobre o ~ttnr.rêra moderna na Inglaterra. L. C. Wroth snbrc o~ Es· 
tados Unidos no período colonial, H.-J. Martin wbre a fn.:1ça i;eis-
ccntis.La e lonanr1 Goldfricdrich so~ a - é punh·el mon· 
tar um quadro gcr,~[ d;~uçàC1 do ~2m:Wá!l.f!! li\lru~. 2 Mas~ pred~o 
estudar melhor o~~iro Q..U.!:!1.~~~~-'~-c~J~~r~)õlnt~rn;cd.iário ~n­
trc a oferta e a de111a11 a em scn principal ponto ele concxãLl. Amda nAo 
conhecemos multo o mundo social e intelectual de homens como Ri· 
gaud, seus gostos e valoreç, a inserção deles crr. suas oomunid&ocs. Eles 
também operavam drntro de rede~ comerciais, que~ ampliavam e se 
dcifaz.iani c,,ml> as alianças no mundo diplomltic-n. Quais as lei1 que 
go\·cmavam a ascensão e a qceda dos impérios c:omcrciais na irea edi· 
tori:U? Um ci;1ud,") comparatiYo dns hi)tórias nacionais poderia revelaralgum:\s tend~nciu gerais. como a força cemrlpc!Al dr. grandes centros 
Nlmó l.ondres, PAriS, frankfurt e Leipzig. que atr3.Í<im a.s ccitoras 1fo 
interior para suas órl>itas, e a tcnêênda •:ontrabalanc:ead<H·a da inte· 
8raçiio entre fornecedores e comerciantes pro\·inci11i~ cm enclaves indc-
1icndctltes como Llcgc, Couillon, Ncuchâtel, Gent.bra e Avignon. MBs é 
dificil fazer comparações porque o comércio funciona''ª através de difc· 
rentes instituições em diferente~ pai-c-s, gerando diferentes tipos tlc ar· 
quivos. Os r~gistr~s da umdon S1a1ionc~· C'omp•rn)·. rla Communautê 
12ti 
des Ubrairi:~ c:t lmprimeurs de PE.:is e da.s feiras de faros d.:: lc!1nig e 
Fra1!k!urt l;llilr<lam urna pmfund<i relação com o curso tomad\"I pela 
histó;ia. 1fo li"ro na Ingla1erra. França e Alcman:1a. n 
N.lo 111-!~trut~, os livro~ er.:in; vendidos como tn~rc<t~.o~ias por to· 
dr.s ai_iarteJi. Um c~tu·d~ cconómk:i mú'\ uusàdo abririJ umil nm:a 
PefS~i:>tj;·a.JWíl .a ~tÓri11 da Út.eratt:ra. Jmc~ Ba~nci., j~lrn Tebb~I e 
Í~~d~ric Rarhi~r mo,rràram ·a impor~ânda do elemento c~onnmiro no 
mmt4n·io rlt" livros dura:lle o s~u:o XlX, na lni;l.a.!erra, E.~tados Unidos 
e França.~ Ma~ é pn'l<;lvel ampliar os c~tudo~ - por exemplo, whrc os 
mecanismo~ de crédito. as têcnic115 de negvciar a~ letnH d~ dlmbio, à 
se i!elt:mkr contra as iUspensõcs de paeamento. e ~e lNCilr lolh;i> :r.:-
press.'\S ao invê~ de pa~anl<'nlm; .~m c:opécie. O rom~r.::ío liYf'"iru, como 
outros negó.;í,)s na Renas<'cn~a e nos rnfrio~ d• Idade Modcrn:1, era cm 
larga mcdiclu um jo~o de <:vnlian\·a. mas ainda :iàu ub:mos cnmo r.:r. 
cm jogado. 
(!~!.~~.:;.\pesar de urr.11 rnln:nos11o lile:a:ura sobre su~. psico· 
loltia. fonomenolor,ia, :cxto:ogia e sociologia, a leitura co:nim.111 a S('r 
mi~lcr,i'!st1. Como os leitores cncendcm os !!>inài~ na pAr.:na imprc~s:i.? 
Quais são os eleito~ sociais ôc.~s.'\ experiência? E como d11 surre vRria· 
çõcs? ~h:diosos da l:teratura co:nn Waynr. BooU1, Starnlc:y t=ish, Wolf· 
gau~ lser, Wal!cr On,!! ~ Jonalhan Culler to:nam n Jeituril cun:o ir.te· 
resse central c\a crítica de textos por tmlen<lercr.1 a literatura ccmll ati-
vidade. cumtrui;llo de sentido dentro de um sislema di: co1au11icaçào, e 
uào como um d1no11 1.k kxtus.l; O hí~lorir.dor do livro poóc empreg;1r 
suas uoçõcs de "públicos ííctícios", "l!!ito~s implíc:tos .. e '"comur.i· 
dades inteq.m:tafüas". Mas ele também porle achar que suas conside-
rações são um poucn estáticas no tempo. Embora os críticos sa.iba:n 
perccm:r a história literária {e são muito fortes no sécul1> XVII ir.glês), 
el~ parecem p:esumir que: os tc:lllos sempre aíetar4m 11 sensibilidade 
dos lei'.orcs de uma r:n,~ma .. maoeica. Mas um habitante seiscentista de 
Londres l'iYiR_nultl uni\·c:tSO m'cnt~~difcrcnte do de ~m .. p.rofcsSor .. ailic· 
r~C!l!líl do.século XX.· ~Pn'll'ltia_Lei:u~a .. ~ 1~~,;s!~~ -lo~Ji'?.:_cl~ 
1emp..~. El:i er:i íreqücutcrr.ente íeila em wupu e em voz nlta, ou cm se· 
g;;d~ ê cnrn · unÍ~- ir.len~idade que hojii: till•·c·z ·riem "éO~~fR;n:õs iala-
si~ar. Ca~io Ci:izburg mostrou quan!u sc111itlo.uii1-nio!Círo qufniié~1· 
t"'iSL'ã" podi;i infundir a um !exto, e Margaret Spi:fforc di:11101~shou 4ue 
tra·n:hadorcs ainda mais humildt:S lutavam para ter um domínio dr-. 
palaH2. i1:1pressa na época de Areopai;ilinL·"' No ir.ício da era n~r>· 
~rna, por t1>d;n ~ partc5 da Europa, das cama.w sociais de Mon· 
t11ignr às camadas sociai~ de Menocchio. os lcito::õ r:àu -.e lími!R•·a111 a 
127 
decifrar os livros, mas extraiam um significado deles. A leitura jã era 
uma pnido muito antc5 do .. 1.-,tewur"' e do "Wuth,.rfiebr:r" da er.a 
mmânticn; ee!;I ainda tem emsi0St11rm u11dDro11g, a~r da moda da 
l~it..ira dinâmicn e da visiio mc:canidsta da litera~ra <."Omo codificação 
e clc<.-odificnçAo de mensagens. 
Mas os textos moldaut a re,·epção dos leitore~. por mais ativos 
que PO!'.'am ser. Como ohscn·ou Walter Ong, as pi\gbas iniciais !le The 
Ccmltrb11ry talt:s [Os C'QllCO.f da CantuáriuJ e A farewtll IO urm.1 (Adeus 
às amws) criam um arcabouço e dfo um papel no leitor ao qual de não 
pode se esquivar, independen!ement~ do que pense sobre peregrinações 
e guerras chis. 11 Com .:feito, a lipOJ:rafia, o eslilo e 11 sintaxe deter· 
minam como os tex1os transmitem os scnlidos. McKcn7.ie mostrou que 
o Congr'\WC obsceno e desregrado da.s primeiras edições i11·q1Jarto as· 
sentou-se como o pudico neoda5sici~ta das Wo,.Jr.r !Obras! de t 709 não 
tanto dc\·:do a um expurgo, mas por cau!la do formato do livro.Je A 
1: hilitóri11 da leitura.. terá r.le...levar em cont11 a coerção ~-~r.êó 
i i 1citu~;~~1n éo~~· a libCrd ad.e 4o teÚor t~m o teJ:tu~ À· tendo enire.êSiâs 
h tendênciai; cxi•Ú 5êmpre que 3S·p~ÓÚ°C:st1Ó di-~nte de livros, C gero:! 
11lguns resull;uto~ cxtraordin&rios. 1:1\ c-omo a leitura dm Salmo~ por 
l.11km, a li-itura de Le mi.'u"tl1rop.> por Rouss1·au, a leitura Jo sacr.-
firio de haac- por Kí~rkcgaard. 
Se é possível retomar a~ grandes rel~itura.<1 do passado, por outro 
1 ado a ex~ r:ê!lcia·foti maA;ls J~itQrcs. comuns semp.ruode se r.squh'.ar j <le 1.19~.)i~s dcverfa.mo~ l\O menos <."Onscguir reconstrui;:-.;;·; parte Jo 
.. ~; i t ~(iii~!(o:::~!~Ldãliílu~~.:O Jebate sobN a leitura em $ilêncio na Idade 
1 Media fC!>Ultou cãi'ilfgumos indicações impressionantes s:ihn os h~­
'oitos de lci1ura.,lll e os estudos na Alemanha, oud~ prolifcrar11m elltra· 
ordinariamente oos $éculos XVIII e XIX, mostram a importáncia da 
leitur:t para o desenvolvimento de um estilo cultural próprio da bur-
guesia.-=· Os estudiosus nlcmàes também têm co?1tribuldo tnnito para. a 
história das bihlíotet:as e para touQs os tipcx de cstudm "°brc a re· 
ccpçãu. 0 Set.:uindo uma noç l!.o de Rol! l!ngclsin11. eles defendem amiú· 
de 11 idéia de que ~ . .háb~"--d~ .l~i~11r;t..seJu.n~formaran)_.no fin11l d~ 
S.:.culo XVIII. Antes dt:S~a "L~t•~"~1·0Jution", os-leí!Ores .. tinham :1 hm· 
\dê-nciãºif1!"pcrcorrc-r:ce1>C11tlà. ~}abõrií>s1iín-ri11t~ u;~ pei1u~n~ ;1_ó;11~ro tk 
' ~ . .. . . - '• ' _,. -
·textos, cm c~pecia,1 a Hiblia. Com d;1, ,eassaram a ~ _l;u~11ar a m~kriaL 
ide qualquer gênero, atrás di eõtret~ninê~io:e nào tanto dÍ:: edificação. 
!:fj)_:i_ss~g~m d-~ l~in1ra.inte'!siva. é!~-~-i~u~ ~:ttc!.'~_i_:.'~ coin1.:_idiu ~()~ uma cc~satrahzação d!l palavra impressa. O n11m,10 rnmeçou a se con-
~ fu~dÚ lºOlll a qucsti\0 da leiturã; C 05·t~~!OS começaram a ser tratados 
como rr.ercadori~s. podendo s.:r desl:.ulados c:om a mesma indiferença 
12.~ 
para com o jornal do dia anterior. Essa interpretação foi rc(.~ntcmc!n!c! 
quc.~tíOnada por Reinhart Siegert, Martin Welkc e outros jovens estu· 
diosos, que desoobriram~alciturã;·iniei1sii'\l\!1~J~S.à'l de º~!':ª~ 
cfê:nera.s como almanaques Clnmais;· not~danfcnte o ,".,...J1/11111d llii/ff · 
bÜclifein,-de Rudolph Zad1arias Bed:er, um sucesso extraordinário da 
(J()etluuit.•l Mas, quer o conceito de uma revolução na leitura preva-
leça quer nào, ele contribuiu para aproicimar :i pesquisa ~hre a leitura 
de algumas questões gerais da história social e cultural..:i Pode-se tliur 
o m~o quanto À pesquisa sobre a alfabctü.açào,<M que PQSsíbíl!tou 
aos csludioros a descoberta de um vago perfil rle tlivenos públicos lei-
tores de dulentos e trc1..entM anos atrh, e a atribuição dos livros a seus 
respectivos leitores em vârios nÍ\-els da sociedade. Qua:ito :nais baixo o 
:iível. ru:iis intens;J o csll!do. A literatura popular tem !Íl!o um tema de 
pesquisa muito c.:on~-orr~do nesses últím05 de?. ano~."' apesar da Len· 
dência cada vez maior de questionilr a idéia de q::e os livretrn> haratos, 
como a hibliothiqu.- bl~ui?, tenh:im rcpn:sentado uma cultura 11.utô· 
noma da gc:ite simple~. ou de que seja posslvel distinguir (.'.h1ramente 
enue correntes da cultura de "elite" e da cultura "popular". Al:ial· 
mente. parece descahido conceber a tranrlonnação cultural como um 
movimento linear, ou gradtJa!ruentedescendente, de influ.:ncias. As 
cnrrcn1r.s não s6 desciam, mas também subiam, fundindo-se e mistll· 
rar:rlo·s~ nesse trânsito. Personagens como Gargantua, Cin<lcrcb e 
Buscon :ivançavam e rocuavam .-.través das tradições orais, das hro-
cburu baratas e da literatura refinada, mudando de nacionalidade e 
de ~ênero. 411 Pode· se inclush·c rastrear u mctnmorfoses das figuras 
correntes dos almanaques. O que a rccncanrnç~o de P0-0r Richurd como 
/r! lkmlwmme Richard revela acerca da cultura litcrãria nos Estad05 
Unidos e na França? E o que \C pode 5aber a rl!spdtu <las relações 
franco-germânicas acompanhando o Mensageiro Manco {der l1i11kende 
Bote, lt mtssag<!r boitP.u:c) através do comércio <le almanaqu~ peh> 
Reno? 
~s .1>crguntas so_l?,re gucm 1.e o_ quê, em que cond_ic;~ •• ~.9.~ 
moménto, coniºqUéresu!t;°do$, ligam osêSiu.<loi ·da -téitura t ~ocw!o~ia. 
6 nísiõrfoilÔ;rlo liwo pÔdcrla ~prenderº a wegulrtais ºjic;g-;;·,~i;;-;:õmº o 
trabalho de nouglas Waplcs, Bernard Berclson, Paul Lu.arsfcld e Pier-
re Dour<lieu. Poderia se inspir•r {14. w:squisa ~bre a Jcitura. qu~ se 
d~nvolveu ua E~ola de Bibliotccon_omia dil UniYenid~le .de Chicago 
eotre 1930 e19~0. e que ainda aparece nosc~porá'dk0Úcl11.tórios Gal· 
lup • ., E, como exemplo da corrente sociol6gic11 na historiografia, ele 
poderia consultar o~ estudos d11 lcitur;:i (e nl\o·h;itura) entre os traba· 
lhadores ingleses nos dois úl1imos séculos, malizado~ por Richard Ali-
129 
ide, Rob:rt Webb e Richard Hoggart .4~ Todos esses trabalhos se abrem 
para o prnblema mais amplo de como o contato com a palavra impressa 
afeta n maneira de pensar dos homens. A invenção do tipo mó,·el trans· 
formou o unh·crso meoul do homem? Nllo existe uma resposta única 
satisfatória a essa pergunta, porque. con10 m~"trou Eli.1.abeih Eiscn· 
steiD, da abarc.1 inúmeros açpectos diferentes da vida européia nos 
inkios da ldadc Modem.a.~ Mas há de SC1 possh'CI chegar u uma idéia 
mais sóli:la do sentido dos lh-ros para "5 pessoas. A prc~enç:i. do livro na 
prestação de juramentos, na trocil de pre~entes, na concessão de p~· 
mios e na doaçào c.lc hcrançali oferece pistas ~obre seu si!(nific:arln em 
diferentes soded;1dcs. A kxmografia dos livros poderia indicar o peso 
de ~ua autoridade:, mesmo para trabalbadorts analfahctos que se SCJt· 
tavam nas igrejas diante de pinturas representando as titbua.s de Moi· 
sés. O lugar d~ livros no folclore e dos motivos folcl6ricos n~ livros 
mostra que, quandu a tradição oral entrou em contato rom o texto im· 
presi;o, :is influênd11s se deram em ambu llS direções, e que os livros 
tem d!! ~r eslud;1dus cm rcla..;ão com os outms meios de cetmuni· 
caçào. w !-~ linhas de pesquisa podem levar li. vàrios ru..!!!~i ~as, cm 
última anãlise, toda. .. <levem pennitir cnhmder_ melh,or ,çom'! n pal.~vta 
Ü!Jpres~li mold~111s .tentaliv~~-~~ ltomens de compreender a· éOndição 
hunia1ía: · · -· · · - - · ·----- · · · 
Ê fkil perder d.e vista as dimensões mais ampla<; desse empl'C1:r.· 
dimento, porque os historiadores do livro muitas veus se ertra~iam em 
atalbos esotéricos e especializações compartimcntalizadas. Seus tra· 
balhos podem ficar tão fragmentados, mesmo no& limites da biblio· 
lj'r&6a sobre um único pa.ls, que a con~pçlo da hist6ria do livro como 
um tema único, a ser e~tudado numa. perspectiva comparatí\'a dentTO 
de lodo o leque da.\ di!i<:iplinas hist6rica~. chega a parecer uma vã espc· 
rança. Mas O!> livros não respeitam limites, sejam linKüísliços o.u !lll· 
~ cionais. "Miiitas \'Cl<.'S íornm escritos por aulorei; que pertenciam a uma 
.• ropí1blica internacion:il e.IM lctraS, compostos por impn:~·que na?· 
; trabalhavam em suai. línguas matcrnô4!i. vendidos por livreiros que opc-
1 cavam além d"~ fronteiras nacionais, e lidos !!Um idiomi po'r leitores 
: que falava.~ em OLflra língua. Qs liYros, quando tratados como objéfos. 
i <Ji estudo, também se recusam a -fiêár confinados de(!tr<i_dôs.limit.es de. 
. unia única disciplina. Nenhuma delas - a história, a lileratura, a«<>-
nomia, a sOc:io\ogia, a bibliografia - é capaz de fazer justiça a todos os 
aspectos da viria de uni livro. Pela sua própria nnt~ri::z.a, portanto, :i 
história dos li,·ros deve orcrar em ei;cala internacional e ~n:i método 
-- -- -··- -. - .. . . ., .... - -- . . .. ..-
JJ() 
intcrdi:idplina.r. Mu não pr~cis~.açr priv~.d!' de coerência çon~it\ln\, 
'(>ôr'qiie os Üvros· falem parte de circ·Jitos de comuni::açio que fundo· 
llltn scaucdo modelos homogêneos, por mm complexos que sejam. 
Exumando esses circwtos, os .b,istoriadorcs podem mostrar q·Jc os für<?S 
oàõ 'sé-limítâm 1 rciatar a história: eleS a fau:n: . . - .. ' .. 
-......... ····· ·· · . 
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	Parte III - A PALAVRA IMPRESSA
	7 - O QUE Í: A HISTÓRIA DOS LIVROS?

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