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CONSIDERAÇÕES INICIAIS A Psicologia Analítica engloba todo o arcabouço teórico criado por Carl Gustav Jung, um trabalho denso e essencial para a compreensão da mente humana. Muitos dos temas desenvolvidos por Jung brotaram de suas próprias experiências pessoais. O psiquiatra suíço vivenciou constantemente sonhos marcantes e a visão de imagens mitológicas e espirituais, passando então a nutrir um grande interesse por mitos, sonhos e religiões, do ponto de vista psicológico. Ele também experimentou a ocorrência de manifestações parapsicológicas, o que suscitava em sua inteligência questionamentos cada vez mais freqüentes. Segundo Jung, o homem deveria ser analisado em sua integridade, na sua vida em comunidade, nunca isolado do contexto sócio-cultural e universal. DESENVOLVIMENTO Breve biografia do criador da Psicologia Analitica Carl Gustav Jung, psiquiatra suíço, nasceu no dia 26 de julho de 1875, na cidade de Kresswil, na Basiléia. Sua família era muito religiosa, o pai e outros familiares eram pastores da Igreja Luterana, o que justifica o interesse precoce de Jung pela filosofia e pelo espiritualismo. Alguns trabalhos seus, posteriormente, desenvolverão a questão da religião e sua contribuição para o amadurecimento psicológico dos indivíduos, bem como dos povos e civilizações. Jung buscou inspiração para o desenvolvimento de seu pensamento nas esferas da Alquimia, da Mitologia, nos povos ancestrais da Ásia, África e nos indígenas da tribo dos Pueblos, dos Estados Unidos. Também foi muito influenciado pela filosofia e pela religião orientais, principalmente a indiana, e pelo I Ching. Jung foi um dos maiores estudiosos da vida interior do homem e tomou a si mesmo como matéria prima de suas descobertas, suas experiências e suas emoções estão descritas no livro "Memórias, Sonhos e Reflexões" Em 1903 publicou sua primeira obra, "Psicologia e Patologia dos Fenômenos ditos Ocultos", fruto de sua tese de doutoramento. Publicou nos anos seguintes mais três trabalhos, relacionadas à descoberta dos complexos afetivos e das ignificações nos sintomas das psicoses. Em 1905 tornou-se livre docente na Universidade de Zurique. Em 1907 Jung visitou Sigmund Freud, o criador da psicanálise, em Viena, iniciando uma estreita colaboração com o mestre, que se mostrou impressionado com o talento do jovem discípulo. Os dois viajaram juntos aos Estados Unidos em 1909, proferindo palestras num centro de pesquisas. Em 1910 foi fundada a "Associação Psicanalítica Internacional", da qual Jung foi eleito presidente. Em 1917, Jung publicou seus estudos sobre o inconsciente coletivo no livro "A Psicologia do Inconsciente" e, em 1920, apresentou os conceitos de introversão e extroversão na obra "Tipos Psicológicos"A partir daí, Jung construiu as bases da psicologia analítica, desenvolvendo a teoria dos arquétipos e incorporando conhecimentos das religiões orientais, da alquimia e da mitologia. Sua produtiva carreira se materializou na publicação de dezenas de estudos, trabalhos, seminários e outras obras. Já octogenário, reuniu em livro as memórias de toda a sua vida.Já octogenário, reuniu em livro as memórias de toda a sua vida. Carl Gustav Jung morreu aos 86 anos, no dia 6 de junho de 1961, como um dos mais influentes pensadores do século 20. A Inspiração e o Relacionamento com Freud Mas quem mais o inspirou foi Freud. A obra de Freud inspirou Jung e o levou a buscar o caminho do conhecimento da mente. A partir do momento em que teve contato com o que era escrito por Freud, criador da psicanálise, ele mandou pessoalmente as suas pesquisas sobre o inconsciente para que Freud avaliasse. Foi a partir daí que os dois começaram a se falar constantemente. No primeiro encontro que tiveram, conversaram por aproximadamente 13 horas, sem nenhuma interrupção. Nasceu, então, uma amizade que se firmou durante muitos anos, apesar das suas pesquisas serem classificadas em grau de importância diferente. Por exemplo, Jung não conseguia aceitar as explicações de cunho sexual para os distúrbios emocionais, e Freud não sabia lidar com as inquietações espirituais do amigo. Chegou um momento em que as diferenças foram se acentuando e o rompimento da amizade foi inevitável, embora dolorosa e cheia de pontos mal resolvidos/mágoas. Essa ruptura, inclusive, separou os dois drasticamente, tanto que foram para escolas de vertentes diferentes e permanecem assim classificados até hoje. Anteriormente ao contato com Freud, Jung já estava desenvolvendo a psicologia dos complexos, que um tempo depois passou a se chamar psicologia analítica. Essa vertente psicológica nasceu da sua relação com os pacientes. Embora sua ideia de inconsciente já estivesse bastante estabilizada antes de conhecer Freud, foi com a ajuda dele que amadureceu as suas pesquisas. Surgimento da abordagem Segundo Jung, o homem deveria ser analisado em sua integridade, na sua vida em comunidade, nunca isolado do contexto sócio-cultural e universal. Os conceitos por ele criados foram batizados com expressões imbuídas de um simbolismo profundo, que por si só já definem seu valor temático. O Inconsciente Coletivo, por exemplo, diferencia-se já no próprio nome do universo desvendado por Freud, visto como um depósito mnemônico e de pulsões reprimidas significando um sistema herdado por cada geração, dinâmico e pulsante, incessantemente ativo. O inconsciente junguiano não pode ser meramente descrito como um conjunto de memórias legadas pelos ancestrais, mas sim de tendências inatas para a disposição da psique. Ou seja, este oceano da mente humana já existe ‘a priori’, antes de tudo, no início, uma expressão tipicamente kantiana, o homem é concebido já com o inconsciente, que como um arquivo perpetuado ao longo do tempo traz em si, potencialmente, toda produção mental legada pelos ancestrais. Assim, pode-se afirmar que ele é anterior à consciência, um pequeno ponto na vastidão do universo da inconsciência. Mas o inconsciente não apenas recebe conteúdos elaborados em tempos distantes, ele também produz seus próprios temas, rearranja os que herdou e trabalha em conjunto com o consciente. Nesse sentido, Jung divide o Inconsciente em Pessoal e Coletivo. O Inconsciente Pessoal ou Individual quase se confunde com o espaço da consciência, pois suas fronteiras são bem tênues, ele é um estrato temático mais superficial, semelhante ao de Freud, porque contém elementos que por algum motivo foram ali reprimidos. Nele também se encontram percepções que não foram percebidas pela consciência e memórias que esta esfera não deseja para si o tempo todo. Aqui estão igualmente os complexos tema desenvolvido por Jung e depois adaptado por Freud, elementos que, desconectados da consciência, refugiam-se no inconsciente, mas continuam a exercer influência sobre o comportamento humano, tanto negativa quanto positiva, ao incentivar o exercício do potencial criativo do ser. Jung lida com os complexos por meio do exame das personas, papéis sociais desempenhados pelos indivíduos, as famosas máscaras que todos desenvolvem no processo de interação social. O Inconsciente Coletivo, revelação essencial de Jung, é a esfera mais íntima e recôndita da psique humana. Nela se encontram vestígios das ações naturais da mente, impressas como representações potenciais, ou seja, automatismos desenvolvidos pela psique ao longo de milênios. Estes traços são compartilhados por toda a humanidade e estão ao alcance de cada um, preparados para se tornarem concretos através da ação humana. Neste estrato psíquico todos são iguais, diferenciando-se depois por meio da experiência pessoal, na qual o homem realiza escolhas e assim atualiza uma ou outra tendência inata, o que se processa no nível do InconscientePessoal. Os arquétipos, para Jung, são justamente os automatismos desenvolvidos pela psique, estes traços do Inconsciente Coletivo. Cada um deles corresponde a uma circunstância apresentada pela vida, recepcionada pela mente como um desafio a ser conquistado e transformado em conhecimento, através da repetição exaustiva da experiência, então automatizada em nossa organização psíquica, no início mais como disposição formal do que como conteúdo, simbolizando tão somente possibilidades, dentre as quais o homem posteriormente escolherá a que se tornará real. Eles se traduzem em imagens primitivas, estreitamente relacionadas à criação da nossa espécie, são embriões das características humanas, latentes em cada ser. Segundo Jung, é em volta do centro de um arquétipo que se agrupam os complexos que têm em comum uma carga emocional semelhante. A teoria junguiana é muito vasta, e aqui estão delineados os conceitos principais. Mas há outros igualmente importantes, como o processo de Individuação, processo através do qual o ser evolui de um estado de identificação profunda com o ambiente à sua volta, para outro de sintonia com o Si-mesmo, o centro de sua personalidade individual, de onde brota toda a energia inata da mente -, objetivo máximo da psique humana; Eu ou ego, centro da Consciência, simboliza os impulsos inferiores da personalidade; Sombra – a parte mais sombria do homem, legada, segundo Jung, das formas mais primitivas de vida; Sigízia, ou arquétipo da alteridade, diz respeito à oposição entre masculino e feminino na mente, constituindo uma elaboração voluntária do inconsciente, o ‘animus’ corresponde à face masculina da mulher, enquanto a ‘anima’ refere-se ao lado feminino do homem; os Tipos Psicológicos, ou seja, a Personalidade. Na psicologia analítica o psicólogo deixa o paciente livremente, mas não tanto assim, fazendo intervenções quando necessário e conduzindo ou orientando o discurso, não de maneira a influenciar, mas de modo a manter o indivíduo em seu discurso, não permitindo que ele perca o foco e vá para caminhos que, muitas vezes, podem ser distrações a serviço da resistência e de mecanismos de defesa. A postura do analista nesse caso já é diferente, pois ele se coloca como uma outra personalidade a frente do paciente, mostrando-se como uma outra pessoa passando pelos mesmos processos que o outro, apenas mais analisado e treinado para que possa ajudá-lo. Com isso, Jung defendia que a personalidade do analista está envolvida e também era um dos fatores que determinava aquela relação e aquele processo. Defendia ainda, que ambos estavam numa jornada, aprendendo, se descobrindo e se influenciando mutuamente, em busca de seus inconscientes. Jung compartilhava com Freud a questão da transferência, porém, colocou uma diferença. Jung acrescentou que o analista deve ter conhecimento da transferência que está acontecendo ali, mas que não deve fazer uso dela. Deve, portanto, ter cuidado diante disso, pois o paciente fica muito frágil e suscetível diante do analista, assim como qualquer pessoa transferida por outra. A psicologia analítica utiliza também outras ferramentas além do discurso verbal. Elas podem ser expressões artísticas de todos os tipos, como desenhos, pinturas e argila, por exemplo. Também a amplificação, que possibilita a associação de mitologia e contos de fadas ao discurso do paciente, seja ele o relato de um sonho, fantasia, ou até mesmo de alguma situação de vida. Há ainda a imaginação ativa, que já existia entre os alquimistas, e que consiste em uma interação com os conteúdos do inconsciente através de sua personificação. Ou seja, seria imaginar livremente (utilizando a intuição e o sentimento, e não a razão) tais conteúdos específicos em questão e também seu relacionamento com eles vivos. Outra técnica utilizada é a caixa de areia, onde o sujeito pode manusear a areia seca ou molhada e acrescentar miniaturas, criando cenários em um ambiente ao mesmo tempo livre e protegido, tanto pela relação terapêutica quanto pela própria caixa. Todas essas técnicas proporcionam o diálogo entre consciente e inconsciente, ativando o desenvolvimento da personalidade. Dois fatores foram decisivos na cisão do relacionamento entre Jung e Freud, suas discordâncias a respeito da natureza do inconsciente e sobre a libido. Para Freud o inconsciente é visto como o repositório de memórias e pulsões negadas e/ou reprimidas da consciência desde o nascimento até a morte da pessoa, cujos conteúdos são oriundos principalmente da infância e lutam sempre para vir à consciência. Sua manifestação trazia à tona o que a censura permitia passar pelos mecanismos de defesa. Nos sonhos, as imagens oníricas vinham o mais disfarçadamente possível, para que pudesse passar pela censura, e possuíam o objetivo de realização de desejos reprimidos ou vinham simplesmente porque eventos da vida ou conflitos interiores surgiam incomodando a consciência, fazendo com que tais conteúdos se manifestassem através dos sonhos. Jung partilhava dessa opinião, mas acrescentou que, além disso, o inconsciente possuía outro aspecto além do pessoal, que seria sua parte coletiva, onde estariam presentes os arquétipos, que são imagens primordiais herdadas por todos devido ao fato de tais situações terem se repetido tantas vezes nas psiques na história da humanidade. Para Jung as imagens dos sonhos e das fantasias não vêm daquela forma difícil de ser entendida porque a censura atua para que o sujeito não se depare com o material recalcado, mas sim porque é próprio do inconsciente se comunicar de forma simbólica (e o próprio conceito de símbolo diz que nunca poderemos esgotá- lo totalmente, ficando um aspecto seu sempre inconsciente), ou seja, não porque vem disfarçado, mas sim porque o inconsciente só sabe se manifestar dessa maneira, não possuindo uma linguagem mais semelhante a que temos na consciência. Por isso é importante saber as associações do paciente, pois se o inconsciente dele usou tais imagens, é importante ver a relação que ele tem com elas. O objetivo do inconsciente é passar uma mensagem, ser reconhecido e integrado, compensar a atitude da consciência e proporcionar maior plenitude ao homem, e só não faz isso de forma mais clara porque não possui as ferramentas necessárias, fazendo então à sua maneira, mas isso não significa que ele tenta dificultar disfarçando, para proteger a consciência. Para Freud a libido era considerada uma energia psíquica que direciona o sujeito na busca de prazer e estava relacionada aos fenômenos psicossexuais, mudando de objeto à medida em que o homem ia amadurecendo, como nas fases de seu desenvolvimento (oral, anal e fálica), sempre buscando a maturação sexual, caracterizada por um forte Eu e a capacidade de retardar o desejo por recompensas. Jung defendia que a libido não tinha somente a natureza sexual, mas tinha um sentido mais amplo, se manifestando por qualquer necessidade do indivíduo, à medida e no momento que ela fossem surgindo, como a fome, a sede, a sexualidade, a intelectualização etc. Freud acreditava que não era possível uma cura completa, mas que a análise poderia ajudar a pessoa a abrandar as dificuldades inerentes à condição humana e, principalmente, entender e transformar os traumas infantis, deixando de ficar presa a eles de forma neurótica, mas encarando-os de forma mais saudável, mudando para objetos e objetivos mais saudáveis. Para Jung o objetivo da análise era a individuação, um caminho que cada um percorre de forma única e individual na direção de sua unidade interna através de forças interiores que sempre objetivam levar os indivíduos ao centro de seu interior, o Self. CONSIDERAÇÕES FINAIS Como funciona a Psicoterapia Junguiana: A psicoterapia junguiana é baseada nas idéias do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, para a análise e compreensão do ser humano,são utilizadas técnicas que exploram o universo simbólico, enfatizando o trabalho com os sonhos e as técnicas expressivas. Estabelece-se assim um diálogo entre o consciente e o inconsciente, possibilitando a transformação e a ampliação do olhar em relação a si mesmo e ao mundo. A psicoterapia pode te ajudar a se desligar do sofrimento desnecessário e a lidar com aquele que é inevitável. O conceito de inconsciente coletivo e arquétipos nos mostra que existe uma conexão entre os seres humanos, mesmo em épocas em que não existia essa facilidade de comunicação entre as diferentes culturas. Assim como na questão 4 dos arquétipos, o inconsciente coletivo pode ser abordado no sentido de amplificar o processo psicoterapêutico, quanto mais nos aprofundamos em nós mesmos, mais entramos em contato com o inconsciente coletivo, e consequentemente vamos tendo mais consciência do coletivo/humanidade. Podemos perceber, por exemplo, que o arquétipo do herói está sendo acionado no cliente, é perceptivo isso em clientes de todas as idades. Ele pode ser percebido nas imagens do inconsciente, nos sonhos e recursos expressivos (caixa de areia, desenho, argila, atividades lúdicas, etc). Qando este material é identificado, costuma-se fazer amplificações, ou seja, associações com histórias míticas semelhantes às que o cliente está vivenciando, valorizando os símbolos que apareceram durante o processo. Na prática procuramos auxiliar o cliente a Individuar-se conscientizando-o de seu caminho único. A pessoa vai tomando consciência da sua história, da sua personalidade, de seus desejos, de sua vida. Qanto mais o indivíduo se aprofunda em si mesmo, mais ele se fortalece para continuar o seu caminho. Durante o processo de autoconhecimento é importante mostrar ao cliente que existem vários tipos de pessoas e personalidades, e que elas podem interagir entre si. O trabalho com os sonhos são importantíssimos para nessa abordagem. Eles mostram um caminho, organizam a psique, identificam aspectos da sombra e as possibilidades de transformação. Mas as vezes é dificultoso lembrar dos sonhos, e nestes casos acaba-se explorando os símbolos através de recursos expressivos como desenhos, argila, caixa de areia,como foi citado acima. De qualquer forma o universo simbólico é o instrumento mais valioso desta abordagem. Não é por acaso que a Psicologia Junguiana também é conhecida como Psicologia Profunda, pois o que percebemos nesta abordagem é que o processo de individuação acaba despertando o cliente para novas formas de olhar-se. Os símbolos acabam conduzindo-os a partes profundas da psique, fornecendo respostas únicas para cada processo e apesar da densa teoria formulada por Jung, ele se preocupava em não intelectualizar sua proposta. Comparativamente sobre a Psicologia Cognitiva Comportamental ou Behaviorista, por exemplo, é que eles focam na eliminação do sintoma, tornando a medicina tradicional forte aliada destas abordagens. Já os junguianos vêem o sintoma como um símbolo, e assim usa este aspecto como base para aprofundar e transformar a doença.