Prévia do material em texto
TOXOPLASMOSE e o parasita Toxoplasma gondii GENERALIDADES A Toxoplasmose é zoonose que infecta o gato e numerosas outras espécies de vertebrados, inclusive o homem. Ela tem por causa uma só espécie de protozoário, o Toxoplasma gondii, parasito com ampla distribuição na natureza (mais de 30 espécies de aves e 300 de mamíferos já comprovadas) e que ocorre com muita freqüência na população humana (admite-se que em geral 1/3 das pessoas seriam sorologicamente positivas), sob a forma de infecção crônica assintomática, de longa duração. Em cada região a prevalência varia com a abundância de gatos e com os hábitos alimentares. No entanto, Toxoplasma gondii é capaz de determinar nos indivíduos adultos um quadro agudo febril, com linfadenopatia, e, nas crianças, uma forma subaguda de encefalomielite e coriorretinite. A forma congênita é particularmente grave e chega a ser fatal. A partir dos anos 1980, a epidemia de AIDS iniciada nos EUA tornou a Toxoplasmose um problema preocupante, pois a imunoincompetência tem a capacidade de agudizar as formas crônicas da doença, tornando-a uma das principais causas de morte dos aidéticos e de outros pacientes com imunodepressão. O parasito foi descoberto em 1908, quase ao mesmo tempo e independentemente por Splendore, em coelhos, no Brasil, e logo depois por Nicolle & Manceaux no gondi, um roedor do norte da África. A partir de 1948, Sabin & Feldman desenvolveram um método sorológico que permitiu associar as diferentes formas clínicas da doença ao Toxoplasma gondii. Toxoplasma gondii é parasito intracelular obrigatório, do filo Apicomplexa e classe Sporozoea (= Sporozoa), sendo, portanto, um esporozoário e, morfologicamente, muito próximo dos coccídios e plasmódios. Nas classificações modernas, pertence à família Sarcocystidae . Os primeiros casos humanos desta infecção foram assinalados em 1923, na então Tchecoslováquia, por Janku, e em 1927 por Magarinos Torres, no Brasil (se bem que classificando o parasito como Encephalitozoon). Sua importância atual decorre de: a) ser a infecção cosmopolita e estar muito difundida (15 a 68% da população adulta norte-americana, segundo as áreas geográficas, têm sorologia positiva para anticorpos de T. gondii); b) atacar fetos e crianças pequenas (mais de três mil casos por ano, só nos EUA); c) constituir uma infecção oportunista, que se manifesta com gravidade, sempre que o paciente venha a sofrer de imunodeficiência de qualquer natureza. Pelo menos 30% dos aidéticos que são soropositivos para T. gondii desenvolverão encefalite toxoplásmica. Assim, a expansão da pandemia de AIDS e o uso de imunodepressores, em medicina, aumentam a importância da toxoplasmose; d) e por causar mortalidade neonatal em carneiros ou outros animais, a doença assume também significação na área econômica. O PARASITO A natureza do Toxoplasma gondii permaneceu muito tempo incerta, até que a microscopia eletrônica demonstrou sua semelhança com os coccídios e com os esporozoítas de plasmódios da malária, pois todos eles possuem um complexo apical que permite a invasão das células de seus hospedeiros. O Toxoplasma gondii desenvolvem um ciclo sexuado nos hospedeiros definitivos (gatos) e um ciclo assexuado nos hospedeiros intermediários. Mas, nos felídeos, encontra-se também a reprodução esquizogônica. Foram reconhecidas três linhagens de Toxoplasma gondii. Tipo I: É o menos encontrado, porém de maior patogenicidade. Tipo II: É a mais freqüente como causa de doença (ao menos no hemisfério norte) e a mais relacionada com lesões oculares ou com a reagudização da toxoplasmose na imunodeficiência humana adquirida. Tipo III: Ocorre principalmente em animais, porém linhagens mistas I-II também podem ser encontradas. A virulência da infecção é multifatorial. Organização e Ultra-estrutura Do Toxoplasma gondii. Por sua forma, o Toxoplasma gondii parece-se com o esporozoíta de um coccídio . Seu nome genérico compõe-se das palavras gregas: toxon( arco) e plasma (molde), pois é alongado, encurvado em arco ou crescente e com uma das extremidades mais atenuada que a outra (lembrando geralmente a forma de uma banana ou de meia-lua). Mede 4 a 8 μm de comprimento por 2 a 4 μm de largura. Quando examinado a fresco, no exsudato peritoneal de animais infectados, é bastante refringente. Cora-se com alguma dificuldade. O núcleo fica situado no meio do corpo, ou mais próximo da extremidade posterior. Sua forma é esférica, oval ou alongada O núcleo cora-se em vermelho, pelo método de Giemsa, enquanto o citoplasma fica azul. Por vezes, o parasito mostra-se oval, em vez de arqueado, o que parece indicar que se prepara para uma divisão celular. Ao microscópio eletrônico, vê-se que possui uma membrana externa simples (membrana celular unitária) e uma membrana interna dupla (constituída pelo acoplamento de duas membranas unitárias), que é fenestrada e incompleta, sobretudo no pólo anterior, onde se localiza o complexo apical. Na superfície foram identificados antígenos que são específicos de cada etapa: * SAG1: É encontrado apenas em taquizoítas. * SAG3: Parece ter importância para aderência e penetração do parasita nas células hospedeiras. O aparelho apical compreende externamente uma prega circular que delimita pequena depressão central, tendo por baixo o conóide, organela com estrutura em forma de tronco de cone oco, formado por um sistema de três anéis polares ligados por microtúbulos que se cruzam obliquamente. Do contorno do anel polar inferior partem 22 microtúbulos que se dispõem sob a membrana interna e se dirigem para a metade posterior do corpo do toxoplasma, onde se terminam livremente. O aparelho apical goza de motilidade e participa das ações necessárias à penetração nas células do hospedeiro. Organelas secretoras, denominadas roptrias e micronemas, dispõem-se como estruturas alongadas na região anterior do citossomo, indo desde as proximidades do núcleo, onde têm maior volume, até a extremidade anterior, que alcançam depois de se adelgaçarem e de atravessarem o inte rior do conóide.. O núcleo, limitado por membrana nuclear típica, com dois folhetos, contém um nucléolo. Para diante dele e em estreito contato, vê-se o aparelho de Golgi, enquanto para trás ficam situadas as mitocôndrias. O retículo endoplásmico, os ribossomos e granulações diversas são visíveis no citoplasma. Na altura do meio do corpo há um citóstoma, semelhante ao encontrado nos esporozoítas e merozoítas dos plasmódios. Fisiologia Do PARASITO Toxoplasma gondii é parasito intracelular, invadindo tipos de células nucleadas (com exceção das hemácias) no organismo dos hospedeiros. Sua afinidade maior é para as células do sistema fa- gocítico mononuclear, para os leucócitos e para as células parenquimatosas. A fim de penetrar nas células do hospedeiro, os toxoplasmas desenvolvem um processo ativo de endocitose. Quando um macrófago está sendo invadido, tem-se a impressão de simples fagocitose. Porém, em outros casos (células HeLa, em cultura, p. ex.), torna-se evidente o trabalho do parasito. Com a microscopia óptica, foi possível seguirem-se os discretos movimentos de flexão, de escorregamento, de rotação ou deslocamento em espiral que permitem ao Toxoplasma aproximar-se da célula, fixar-se a ela pelo conóide e insinuar-se para dentro, por endocitose . Em microscopia eletrônica pôde-se demonstrar que a membrana da célula invadida não se rompe, mas invagina-se para receber o Toxoplasma. Esse crescimento da membrana induzido pelo parasito não é impedido pelas drogas que inibem a fagocitose (pelo bloqueio da glicólise, p. ex.). Além disso, a membrana desse vacúolo parasitóforo deve ser diferente da dos fagossomos, visto que os lisossomos não conseguem fundir-se com ela e derramar aí seu conteúdo. No momento da penetração, as roptrias esvaziam-se;suas proteínas ou alguns epítopos do material parasitário são encon- trados dentro do vacúolo parasitóforo, livres ou fazendo parte de sua parede. Há lugar, portanto, para se pensar que a membrana do vacúolo onde se abrigam os toxoplasmas seja, ao me- nos em parte, produzida por eles. Através dessa membrana realizam-se as trocas metabólicas entre os parasitos e o organismo hospedeiro. Os íons Ca++ parecem importantes no processo de protrusão do conóide, endocitose e formação do vacúolo parasitóforo, onde sua concentração é elevada, assim como no núcleo e na região perinuclear do parasito. Mesmo para sair das células hospedeiras o cálcio parece desempenhar algum papel. CICLO BIOLÓGICO E REPRODUÇÃO Espécies dos gêneros Felis e Lynx — mas particularmente os gatos — são os únicos hospedeiros nos quais o Toxoplasma gondii pode realizar todo seu complicado ciclo vital . Os demais animais (mamíferos ou aves) não podem manter senão as fases assexuadas do ciclo e, portanto, desempenham o papel de hospedeiros intermediários, transmitindo a infecção apenas quando sua carne serve para a alimentação de outros animais (ou do homem), ou quando o fazem por via congênita. No Tubo Digestivo dos Gatos. Quando um gato jovem come camundongos que apresentem Toxoplasmose aguda ou crônica, começam a aparecer em suas fezes oocistos imaturos de Toxoplasma gondii, alguns dias depois . O mesmo sucede se lhe administrarmos, por via oral, cistos obtidos pela trituração de tecidos de algum animal infectado. A eliminação de oocistos pode durar um mês e, depois, desaparece, mas o isolamento de toxoplasmas do intestino de gatos infectados pode ser positivo mesmo um ano depois da infecção. A necrópsia de gatinhos sacrificados durante o período de eliminação fecal dos parasitos revela a presença de toxoplasmas nas células epiteliais do intestino. Inicialmente, os parasitos que aí penetraram arredondam-se e começam a multiplicar-se assexuadamente (reprodução esquizogônica), podendo repetir esse ciclo muitas vezes . Mas, logo, alguns esquizontes diferenciam-se em gametas , produzindo macro- e microgametas, que vão unir-se, formar um zigoto e realizar seu ciclo sexuado (gametogônico). Os oocistos formados abandonam as células epiteliais, antes de completarem seu desenvolvimento, e saem para o exterior com as fezes . Esses oocistos, que medem em torno de 12,5 por 11 μm, amadurecem no meio externo em poucos dias (2 a 5 dias, segundo alguns autores), para o que requerem oxigênio, e produzem no seu interior dois esporocistos (com 8,5 por 6 μm). Cada um destes cistos forma quatro esporozoítas (medindo 8 por 2 μm) e uma massa de citoplasma residual. Desde que maduros, eles passam a ser infectantes, se ingeridos por gatos ou quaisquer outros animais suscetíveis (aves, mamíferos e o próprio homem). No meio ambiente, resistem meses ou anos, desde que as condições de temperatura e umidade sejam adequadas. Nos Tecidos dos Hospedeiros. Dos tecidos de gatinhos infectados (lâmina própria do intestino, linfonodos mesentéricos, pulmões, tecidos muscular e nervoso etc.), podem-se isolar toxoplasmas, desde o sétimo dia, mediante inoculação intrape ritoneal de triturados desses órgãos em camundongos jovens. As reações sorológicas tornam-se positivas em uma semana e alcançam títulos altos depois da segunda semana. A evolução dos toxoplasmas nos tecidos (fora do ciclo gametogônico) compreende a invasão das células do hospedeiro e multiplicação do parasito por processo assexuado. Demonstrou- se que o mecanismo envolvido é semelhante a um brotamento interno , formando-se primeiro, nas proximidades do pólo anterior do núcleo, duas estruturas membranosas que se desenvolvem para constituir dois conóides filhos. Em seguida, o núcleo adota a forma de uma ferradura, com as pontas crescendo em direção aos conóides. Na medida em que se vão formando dois núcleos filhos independentes, as estruturas membranosas crescem para trás, envolvendo cada um dos núcleos e englobando outras organelas celulares. Os restos da célula mãe degeneram e deixam livres os dois toxoplasmas filhos que, por algum tempo, ainda se manterão unidos pela extremidade posterior. A esse processo de reprodução assexuada deu-se o nome de endodiogenia, ou endogenia. Em hospedeiros não-imunes, com infecção aguda, a mul- tiplicação dos toxoplasmas faz-se dentro das células parasitadas, em um espaço limitado por membrana, denominado de vacúolo parasitóforo. Ela conduz à formação de agrupamentos parasitários (pseudocistos) que, ao atingirem certas dimensões, rompem a membrana envolvente e deixam os parasitos em liberdade para invasão de outras células. Como esse processo é relativamente rápido e novos pseudocistos podem desenvolver-se em seguida, os parasitos aí formados foram chamados taquizoítas (do grego tachys, rápido). Nas formas crônicas da infecção, quando os hospedeiros desenvolvem imunidade, os toxoplasmas seguem reproduzin- do-se por endodiogenia, porém muito lentamente, e formam grandes aglomerados parasitários que segregam envoltórios císticos. Estes cistos são muito resistentes às condições ambientes e aos medicamentos, podendo durar anos ou toda a vida dos pacientes, principalmente no sistema nervoso central. Os cistos de Toxoplasma medem entre 20 e 200 μm, podendo ser arredondados ou alongados . Os parasitos que se encontram dentro desses cistos contam-se por centenas ou milhares e foram denominados bradizoítas (do grego bradys, lento). Quando os gatos são infectados, por via oral, a partir de cistos ou de pseudocistos, o período pré-patente da infecção dura 7 a 9 dias. Porém, quando se lhes administram oocistos, por via digestiva, eles só começam a eliminar uma nova geração de oocistos em suas fezes decorridas 3 a 7 semanas. O glicogênio, sempre abundante nas células parasitadas, estimula a respiração. Vários açúcares simples e glutamina são metabolizados rapidamente. CO2 e ácido lático respondem por 80% da glicose utilizada. Em suspensões puras de Toxoplasma encontrou-se também uma catalase que lhe permite suportar concentrações de H2O2 letais para outros protozoários. Várias catalases e diaforases, ligadas às mitocôndrias, foram reveladas, sugerindo por sua presença que o parasitismo intracelular não decorre de exigências energéticas. Em toxoplasmas livres e intracelulares, foram encontradas reservas que parecem ser de glicogênio, sob a forma de pequenos grânulos, mais volumosos nos parasitos contidos em cistos (bradizoítas). A reação de ácido periódico-Schiff dá coloração vermelha intensa a todo o cisto e cor rósea na membrana. Ciclo biológico de Toxoplasma gondii. O Toxoplasma gondii apresenta ciclo biológico do tipo Heteroxênico, ou seja, apresenta um hospedeiro definitivo (onde acontece a reprodução sexuada do protozoário) e um hospedeiro intermediário (onde ocorre a reprodução assexuada do parasita). O gato é o hospedeiro definitivo, porque no seu intestino desenvolve-se a fase sexuada do Toxoplasma gondii e a produção de oocistos. Os Oocistos vão contaminar o meio ambiente (solo, pastagens, águas) ao serem eliminados com as fezes dos felídeos. Os roedores e outros pequenos animais são hospedeiros intermediários, por se infectarem com os oocistos e desenvolverem pseudo-cistos ou cistos em seus tecidos, capazes de infectar novos gatos e outros carnívoros, quando ingeridos por eles. Muitos animais domésticos ou silvestres adquirem igualmente a infecção, através das pastagens ou do feno poluído, comportando-se também como hospedeiros intermediários. O homem infecta-se ao comer carne mal cozida desses hospedeiros, ou quando ocasionalmente ingere oocistos eliminados pelos gatos. A transmissão congênita ocorre entre animais e na espécie humana CULTURA E MANUTENÇÃO Em Culturas de Tecido:Como parasito endocelular, o Toxoplasma. gondii não pôde ser cultivado nos meios acelulares até aqui experimentados, mas se desenvolve bem em qualquer tipo de cultura de tecido (embrião de galinha, células HeLa, fibroblastos humanos etc.) ou em meios contendo células nucleadas, como hemácias de aves, sem perder a virulência. No ovo embrionado, cresce abundantemente e dissemina- se por todo o embrião, quando inoculado no saco vitelino. Também nessas condições conserva suas propriedades infectantes e sua virulência. Nas culturas de tecido, pôde-se observar os movimentos do parasito e sua invasão das células hospedeiras. A penetração do parasita demora cerca de 15 minutos. Duas a três horas depois começa a divisão do taquizoíta, que se repete, em seguida, de hora em hora. Observações feitas por outros autores registram o tempo de penetração como sendo de uma hora, e o período de repouso que se segue, de 8 a 10 horas. Inicia-se então um crescimento exponencial com divisões ocorrendo cada 6 a 8 horas. A mesma célula pode sofrer infecção múltipla ou ser reinvadida, parecendo que o único limite para o número de parasitos em uma célula hospedeira seja a capacidade da mesma. Cada parasito que penetrou na célula forma um clone, confinado em seu vacúolo parasitóforo e isolado dos demais. Os elementos filhos passam a constituir aglomerados em forma de cachos de banana ou de rosáceas. Finalmente a célula, repleta de toxoplasmas, rompe-se e os taquizoítas invadem novas células, onde continuarão seu ciclo multiplicativo assexuado. Qualquer animal de sangue quente pode ser infectado experimentalmente, se bem que alguns contraiam apenas uma infecção inaparente. A inoculação intracerebral feita em camundongos, coelhos, hamsters, cobaias, pombos e outros animais de laboratório conduz à morte em uma semana, mais ou menos, mesmo quando se usem linhagens de Toxoplasma com baixa virulência. O mesmo sucede com o rato, que é resistente, por via cutânea, até para cepas virulentas. A tendência da infecção é para a generalização, qualquer que tenha sido a via de inoculação. Porém, com injeções intraperitoneais, a maioria das cepas determina a produção de abundante exsudato, riquíssimo em toxoplasmas ao fim de três ou quatro dias. Essa é uma fonte importante para a obtenção de parasitos, seja para trabalhos experimentais, seja para funcionar como antígeno na reação de Sabin-Feldman ou na reação de imunofluorescência indireta. Em Baixas Temperaturas os toxoplasmas sobrevivem oito dias a 5°C, porém em solução a 1% de peptona ou no leite, resistem duas semanas. No líquido peritoneal de camundongo a infectividade começa a decrescer depois de 20 dias e é totalmente perdida aos 30 dias. Ainda a 5°C, conserva-se infectante por 4 a 8 dias na carcaça de camundongo, ou duas semanas no cérebro desse roedor, mantido em solução de Tyrode. Toxoplasma gondii pode ser mantido a –70°C (nitrogênio líquido) RELAÇÕES PARASITO-HOSPEDEIRO: Tanto os oocistos, eliminados pelos gatos e amadurecidos no meio exterior, quanto os taquizoítas e os bradizoí tas, que são as formas infectantes do Toxoplasma gondii, encontrados no interior de pseudocistos e de cistos, respectivamente, ou livres nos tecidos dos animais hospedeiros, são capazes de infectar os animais de laboratório inoculados por via digestiva ou parenteral. Desde as primeiras investigações, foi observado que os toxoplasmas não apresentam sempre a mesma infectividade e virulência. Os resultados variam segundo a fonte de onde se isolou o parasito. Assim, a inoculação de camundongos com toxoplasmas isolados de diferentes hospedeiros naturais traduz-se pelo desenvolvimento lento do quadro infeccioso, difícil de confirmar e exigindo, por vezes, numerosos repiques “cegos” (isto é, apa rentemente negativos) antes que se estabeleça uma infecção evidente e virulenta. Essa particularidade tem sido atribuída a uma progressiva adaptação do parasito a cada espécie de novo hospedeiro onde esteja evoluindo. Outros indicadores da virulência são a quantidade de inóculo necessária para produzir uma infecção letal, ou o tempo de sobrevivência do animal, os sintomas produzidos, o grau de imunidade conferida ao animal por ocasião das reinoculações çõe etc. A mesma linhagem de Toxoplasma gondii, mantida por repiques em animais de laboratório ou em ovo embrionado, apresenta, após algum tempo, poder patogênico completamente distinto para esses animais, perdendo a que foi mantida em ovo sua virulência para o camundongo, a cobaia etc. Do mesmo modo, pode-se desenvolver um neurotropismo, ou um viscerotropismo pre- ponderante, em linhagens de T. gondii que foram diferenciadas a partir de um mesmo material original. Contudo, não se pode negar a existência de cepas diferentes de Toxoplasma gondii, na natureza. Resistência ao Parasitismo: O grau de suscetibilidade dos animais varia com a cepa de Toxoplasma; mas, para uma dada linhagem, alguns hospedeiros mostram-se mais suscetíveis que outros. Assim, camundongos, coelhos, cobaias e hamsters sucumbem mais facilmente a uma inoculação experimental do que os ratos, que apresentam apenas um surto febril transitório, se a inoculação for cutânea. Os pombos são mais sensíveis que as galinhas. Nos cães e macacos a evolução tem curso subagudo. No entanto, o parasito sempre pôde ser isolado do organismo resistente, nos casos de inoculação experimental de animais de sangue quente. Todas as espécies estudadas revelam certo grau de imunização nas reinoculações. Algumas tornam-se resistentes inclusive às inoculações intracerebrais (coelhos, ratos, cobaias, hamsters e pombos). Nos animais mais sensíveis, como os camundon gos, houve pelo menos um aumento da sobrevida. Os títulos de anticorpos, geralmente baixos depois da primoinfecção, tornaram-se altos depois da reinfecção. Gatos experimentalmente infectados com cistos, por via oral, passaram a eliminar oocistos em 60% dos casos, mas após uma segunda dose infectante, apenas 25% voltaram a eliminá-los e em bem menor quantidade. Já na terceira infecção, nenhum oo cisto foi eliminado. A resposta sorológica foi observada, após a primoinfecção, em todos os animais testados. Os títulos de anticorpos mantiveram-se estáveis em um terço dos gatos reinfectados, elevando-se nos demais. Os sinais clínicos de toxoplasmose reapareceram por ocasião das reinfecções. Portanto, mesmo nos hospedeiros definitivos e com ciclo parasitário completo, a imunidade não é absoluta, apesar de persistirem os anticorpos aparentemente durante toda a vida dos felídeos. Na fase crônica da infecção, encontrando-se apenas formas encistadas nos tecidos, as provas sorológicas podem ser negativas ou apresentarem títulos extremamente baixos. O Toxoplasma tem sido isolado de muitos pacientes com reações imunológicas negativas, assim como de aves e mamíferos igualmente negativos aos testes do corante. Aliás, todas as observações sobre a resistência e pequena permeabilidade da parede cística convergem no sentido de que devam ser muito reduzidas as trocas de substâncias antigênicas através dessa membrana. Alguns trabalhos experimentais sugerem que na toxoplasmose, como noutras infecções por parasitos endocelulares, a proteção é assegurada principalmente pela imunidade celular (Linfócitos T), cabendo aos anticorpos circulantes um papel secundário.. Os macrófagos ativados parecem ser os principais agentes dessa imunidade celular. A permanência de infecções latentes e silenciosas, em pequenos cistos localizados no sistema nervoso, em linfonodos ou no globo ocular, constitui uma grave ameaça para indivíduos que venham a desenvolver futuramente uma imunodepressão ou que recebam tratamentos imunodepressores. Patologia Em função da linhagem de Toxoplasma usada nas inoculações dos animais de laboratório, duas evoluções podem ter lugar: 1. Com linhagensvirulentas. Em vários animais (canários, camundongos, cobaias e outros roedores) desenvolve-se um quadro agudo e, como as células mais freqüentemente invadidas pelos parasitos são os leucócitos e macrófagos, os toxoplasmas podem ser encontrados, em breve prazo, em quase todos os tecidos do hospedeiro. A multiplicação intracelular ocorre em ritmo acelerado, distendendo a célula e recalcando o núcleo para a periferia. O número de parasitos chega logo a algumas dezenas ou centenas, formando um agrupamento tecidual (pseudocisto) que, por ser uma formação transitória, rompe-se e libera grande número de parasitos para invasão de novas células. A ação destrutiva assim desenvolvida pode levar os animais à morte em poucos dias. Como não foi confirmada, até agora, a produção de qualquer toxina pelo parasito, deve-se supor que os mecanismos patogênicos dependam da destruição celular e de fenômenos alérgicos. Os toxoplasmas virulentos (de multiplicação mais rápida e de produção de cistos mais lenta) con- seguiriam destroçar as defesas orgânicas em tão pouco tempo que provocariam a morte. No camundongo, o quadro é o de meningoencefalomielite aguda e peritonite. 2. Com linhagens não-virulentas. A inoculação em cães jovens, coelhos e camundongos, por via intraperitoneal, produz a formação de agrupamentos parasitários em ritmo lento. A maior densidade de parasitos é encontrada no exsudato peritoneal, por volta do sexto dia. As células geral- mente contêm menos de 20 parasitos quando estão prestes a se rompere. Esse parasitismo decresce até que, após duas semanas, já não se encontram toxoplasmas nessa localização. A partir do quarto dia, porém, já podem ser vistas no cérebro algumas células parasitadas, e as subinoculações mostram-se sempre positivas. Com oito dias já se observam parasitos envolvidos por uma membrana cística, contendo 2 ou 4 elementos e medindo 5 a 10 μm. A parede cística, sendo elástica e muito resistente, vai aumentando de espessura à medida que cresce o cisto e o número de cistozoítas (bradizoítas) no seu interior. Ao fim de quatro meses, os cistos alcançam suas dimensões máximas. No sistema nervoso são esféricos, medindo 40 a 50 μm, podendo conter mais de 3.000 microrganismos. Na fase crônica, isto é, 4 a 10 meses depois do início da infecção, ao lado dos cistos grandes notam-se outros, de pequenas dimensões, agrupados nas proximidades dos primeiros. Em torno dos cistos não se observa nenhuma reação do tecido, nem se encontram parasitos isolados ou pseudocistos, como na etapa inicial (aguda) da doença. A partir do sétimo dia, começam a aparecer cistos no pulmão do camundongo, mais evidentes depois da segunda semana. Finalmente, os cistos aparecem livres no interior dos espaços respiratórios. Eles são vistos, em pequeno número, na musculatura esquelética, onde diferem apenas pela forma alongada. Do fígado, baço, rins e músculo cardíaco, puderam ser isolados os parasitos por inoculação de triturados desses órgãos em camundongos limpos, admitindo-se que ali se encontrassem também sob a forma de cistos. Interconversão Taquizoíta-Bradizoíta. Fato muito importante na patogenia da toxoplasmose, em pacientes imunodeprimidos, é a interconversão bradizoíta-taquizoíta, cujos fatores determinantes são praticamente desconhecidos. Normalmente, quando os taquizoítas penetram nas células hospedeiras, alteram a parede do vacúolo, de modo que aí não mais se encontram muitas proteínas normais (o que impede a adesão de lisossomos ou a acidificação de seu interior) e aparecem outras que levam o vacúolo a evoluir para uma parede cística dentro da qual se diferenciam os bradizoítas. Esta transformação corresponde ao estabelecimento de uma proteção imunológica, que pode manter-se por toda a vida do paciente. Os bradizoítas possuem antígenos de superfície e plasmáticos diferentes dos de taquizoítas, sendo mais resistentes à ação da pepsina ou da tripsina. A resposta imunológica do hospedeiro é mediada por interferon-gama (IFN-γ), que aparentemente impede a ruptura dos cistos. Por outro lado, a ativação dos toxoplasmas pode ser obtida pela neutralização do IFN-γ com o fator de necrose tumoral (ou TNF-α). Mulheres com infecção crônica pelo Toxoplasma gondii não contaminam seus filhos, durante o desenvolvimento intra-uterino.. No entanto, as mulheres que contraem toxoplasmose durante o período de gestação estão sujeitas a riscos de alta gravidade. O curso da doença parece depender da idade da gestação em que se deu a infecção e da capacidade que possam ter os anticorpos maternos para proteger o feto. Quando a infecção materna ocorre entre a concepção e o sexto mês de gestação, costuma haver um quadro agudo ou subagudo. Quando no último trimestre, a doença tende a ser branda ou assintomática. Entretanto, mais da metade dos filhos de mães que se infectaram durante a gravidez nasceram sem toxoplasmose. Geralmente os casos de toxoplasmose congênita apresentam-se com um decurso subagudo ou crônico, onde o Toxoplasma gondii invade todos os órgãos, mas prevalecendo as lesões do sistema nervoso e da retina. Ela se inicia com um processo agudo em que há espleno ou hepatomegalia, icterícia, exantema e, por vezes, linfadenopatia e meningoencefalite. Esse quadro agudo poucas vezes é observado, porque ocorre geralmente durante a vida intra-uterina e levando à morte fetal ou ao abortamento. As crianças que sobrevivem geralmente apresentam graves anomalias e grande retardo no desenvolvimento físico e mental. A infecção passa muitas vezes para sua fase subaguda ou crônica, onde as alterações viscerais regridem, mas as neurooculares permanecem. re. Estima-se que 20 a 30% das crianças nascidas com toxoplasmose têm esta forma da doença. A localização exclusivamente ocular aparece em 10% dos casos. Evidências da doença podem manifestar-se por ocasião do nascimento ou, mais freqüentemente, surgem alguns dias depois, ou decorridas semanas ou meses. A síndrome mais característica, denominada de Síndrome de Sabin, compreende: a) retinocorioidite, em 90% dos pacientes com infecção; b) calcificações cerebrais (em 69%); c) perturbações neurológicas (em 60%); d) hidrocéfalo interno ou microcefalia (em 50% dos casos). As lesões iniciais são nódulos miliares disseminados por todo o encéfalo, ou agrupados em torno de focos necróticos. Nos nódulos predominam células da micróglia que parecem proliferar em torno dos parasitos livres e de restos celulares. Há também linfócitos, monócitos e eosinófilos em pequeno número. Algumas áreas maiores de necrose e caseificação, podendo chegar até 2 cm de diâmetro, são encontradas no tecido nervoso e nas meninges. Observam-se desde pequenas lesões constituídas por mononucleares agrupados em torno de capilares, até extensas zonas em que desapareceu, completamente, a arquitetura do tecido, cercadas por reação inflamatória e macrófagos. Nas proximidades de tecido aparentemente sadio podem ser vistos grupos de taquizoítos ou cistos. Os ventrículos cerebrais estão dilatados, com tecido de granulação nas paredes e descamação do epitélio ependimário. Há hiperplasia e infiltração nas leptomeninges. As lesões cerebrais podem calcificar-se, aparecendo ao exa- me radiológico como manchas arredondadas, faixas ou grãos disseminados. O exame do líquor, que é hipertenso, revela xantocromia (coloração amarelada), aumento das células e da albumina e, por vezes, parasitos.. Lesões oculares graves, extensas e bilaterais caracterizam-se por edema da retina, graus diversos de degeneração e de inflamação, envolvendo as áreas necrosadas. A coróide apresenta alterações vasculares, hemorragias, infiltrados inflamatórios e edema. Pode haver neurite óptica.. Zonas cicatriciais aparecem vivamente demarcadas por áreas de atrofia da coróide e da reti- na, com pigmentaçãoirregular. Outras alterações oculares também podem estar presentes, como microftalmo, nistagmo, estrabismo, irite ou atrofia óptica. Entre as manifestações neurológicas estão as perturbações psicomotoras, convulsões generalizadas, retração da cabeça, rigidez de nuca e paralisias. Pode haver dificuldade para a alimentação da criança. A proporção de casos fatais, na toxoplasmose congênita sintomática, é muito alta. As crianças que sobrevivem são, com freqüência, mentalmente retardadas. TOXOPLASMOSE PÓS-NATAL Não se conhece a duração do período de incubação, supondo-se que possa ser de 5 a 20 dias, ou alcançar vários meses. A maioria dos casos adquiridos na segunda infância ou na idade adulta é assintomática ou não exibe um quadro clínico definido. Os casos sintomáticos mais freqüentes podem ser agrupados nas categorias seguintes: 1) formas subclínicas, sem febre ou outras queixas, que são diagnosticadas somente nos exames médicos de rotina ou pela sorologia; 2) formas com adenopatia e sem febre 3) formas febris, com adenopatia. A duração da doença pode variar de uma semana a alguns meses, acompanhando-se de quadros sintomáticos inconstantes, ora obrigando o paciente a ficar acamado, ora não. Em alguns casos predomina a sensação de fadiga. Comumente há linfocitose, com mononucleares atípicos. As adenopatias parecem ser o sintoma mais freqüente da infecção em adultos, representando 5 a 15% dos casos de adenopatias de origem desconhecida. Os gânglios mais afetados costumam ser os cervicais; e, como algumas vezes simulam um quadro de linfoma, podem dar motivo a biópsias. Nestas o diagnóstico nem sempre é claro, por ser a patologia sugestiva de sarcoidose ou de mal de Hodgkin; ou porque se diagnostica apenas hiperplasia reativa de natureza desconhecida. Outros sintomas que a acompanham são mal-estar, mialgias, cefaléia e anorexia. Uma retinocoroidite pode ser a conseqüência ou a única manifestação de uma toxoplasmose, confirmada pelos títulos altos das provas sorológicas. Provavelmente, ela é a seqüela tardia de uma infecção congênita. A perda da visão em um olho ou alterações da visão normal, sentidas pelo paciente, talvez sejam o motivo da consulta ao médico. O exame oftalmológico vai revelar lesões de retinite focal necrotizante. Mas ocorrem também formas graves, nos adultos. Há casos clínicos fulminantes e rapidamente fatais, com exantema macropapular (durando até duas semanas e cobrindo todo o corpo, com exceção da face e das regiões palmar e plantar), com febre, mal-estar, dores musculares e articulares, no início. Esses casos acompanham-se de prostração, hepatite, esplenite, miocardite e, por vezes, meningite e encefalomielite. A morte sobrevém em uma semana, talvez, ou então a evolução pode fazer-se para a cura. TOXOPLASMOSE EM PACIENTES IMUNODEFICIENTES: Pacientes que apresentam resposta imune celular ( Diminuição no número de linfócitos do tipo T, com consequente diminuição no número de linfócitos CD4), apresentam uma infecção extremamente grave, de quadro agudo. Doentes que venham a sofrer depressão imunológica de etiologias diversas, ou em conseqüência de terapia imunodepressora ( uso de corticoides, neoplasias, pancitopenia) Com a pandemia de AIDS, a partir dos anos 80, a situação tornou-se freqüente, pois a toxoplasmose vem ocupando um lugar destacado como causa de óbito por infecções oportunistas, nesses pacientes. Na maioria dos casos desenvolve-se um quadro clínico de encefalite aguda, que leva ao óbito em poucos dias. . Outras vezes a evolução é prolongada. Em apenas 2% dos casos observa-se toxoplasmose extracerebral (ocular, pulmonar ou cardíaca). Os indivíduos HIV-positivos que desenvolvem encefalite toxoplásmica já têm, em geral, o diagnóstico de AIDS; porém, em alguns casos, a encefalite é a primeira manifestação clínica de uma imunodepressão. Em 25% dos pacientes com a Sindrome de Iminodeficiência Adquirida (AIDS ou SIDA) desenvolvem encefalite toxoplásmica, onde a maioria dos pacientes apresentam como sintomas febre e dor de cabeça. A alteração das funções cerebrais manifesta-se por confusão, letargia, alucinações ou psicose franca, perda de memória ou do conhecimento e coma. Convulsões aparecem em um terço dos casos, e sintomas neurológicos focais, em 60% dos pacientes, principalmente hemiparesias, além de afasia, ataxia, escotomas, paralisia de nervos cranianos, movimentos desordenados etc. Em poucos casos observa-se coriorretinite e, mais raramente, meningismo. Os achados laboratoriais clínicos são inespecíficos. O exame do líquor pode ser normal, revelar discreto aumento de linfócitos e monócitos e um aumento das proteínas. A tomografia computadorizada e as imagens de ressonância magnética podem oferecer subsídios sugestivos de encefalite toxoplásmica. Nos países e lugares em que se consome muita carne mal cozida, a freqüência de sorologia positiva para toxoplasmose é elevada, como em algumas regiões na França (96%) e da Alemanha (70%). Diagnóstico Clínico Da Toxoplasmose É praticamente impossível na toxoplasmose do adulto, assintomática ou com sintomas indefinidos, podendo o exame clínico apenas sugerir a eventualidade dessa etiologia. As suspeitas são grandes nos casos de retinocoroidite. O quadro da toxoplasmose congênita ou neonatal, com sua síndrome sintomática, é mais característico, porém não basta para firmar o diagnóstico, que dependerá sempre da confirmação laboratorial. Nos aidéticos com encefalite, tem-se generalizado a prática do diagnóstico terapêutico, devendo-se pensar em outras etiologias quando não houver resposta favorável ao tratamento contra a toxoplasmose. Diagnóstico Parasitológico Demonstrar a presença de toxoplasmas no organismo do paciente, ou isolar os parasitos mediante inoculação do material suspeito em animais de laboratório, constituem as principais técnicas parasitoscópicas de diagnóstico. 1. Busca de toxoplasmas: Geralmente é feita durante os exames anatomopatológicos dos casos fatais ou nas biópsias. A parasitemia é muito fugaz e só se observa na fase aguda da doença. Mas, em exsudatos e no líquor, os parasitos podem ser pesquisados no sedimento, após centrifugação. Os toxoplasmas podem ser vistos em cortes de tecidos, fixados e corados pela hematoxilina-eosina, ou em impressões de órgãos fixadas, preferivelmente, por técnica de fixação úmida (sublimado, Zenker, Bouin, ácido ósmico), quando se quiser preservar melhor a morfologia dos parasitos, corando-os depois pelo Giemsa. Nas infecções congênitas, os parasitos podem ser vistos em cortes de placenta, ou isolados mediante inoculação em camun- dongo de um triturado desse órgão. Na caracterização morfológica é preciso ter presente a semelhança doToxoplasma com fungos( Histoplasma, Cryptococcus), com Leishmania e Trypanosoma (formas amastigotas) e com outros protozoários (Sarcocystis, Encephalitozoon). A PCR (reação de polimerase em cadeia) também tem sido utilizada para a detecção do parasitismo, principalmente em gestantes, por ser rápida e por sua relativa sensibilidade e es- pecificidade. 2. Isolamento de toxoplasmas: Faz-se habitualmente pela inoculação do material suspeito em animais de laboratório, como o camundongo jovem, bastante suscetível à infecção. O camundongo albino é o animal de escolha não só pela sensibilidade, como por não apresentar infecção natural (caso freqüente em coelhos, cobaias etc.). A via usual é a intraperitoneal, mas pode-se usar também, em outro lote de animais, a via intracerebral. Devem-se empregar de 4 a 6 animais. Examinar o exsudato peritoneal, depois de 6 a 10 dias, e, caso este seja negativo, inoculá-lo em outros camundongos.. A semeadura em cultura de tecidos tem sido objeto de es- tudos recentes para contornar as dificuldades diagnósticas, nos casos de toxoplasmose dospacientes imunodeprimidos. A semeadura do material infeccioso (creme leucocitário, líquido cefalorraquidiano etc.) em meio com fibroblastos humanos (ou outras células de cultura), em camada única e semiconfluente, provoca a formação de placas depois de quatro dias, bastando para isso a presença de uns poucos taquizoítas. Essas placas, coradas pelo método de Wright-Giemsa e examinadas ao microscópio, mostram acúmulos de células necróticas e pesadamente infectadas por toxoplasmas, além de parasitos livres no meio. Evidenciação mais precoce (cerca de uma semana) pode ser obtida mediante fluorescência. Diagnóstico Imunológico: Devido às limitações e dificuldades inerentes às técnicas parasitológicas, os métodos sorológicos são os mais comumente usados para o diagnóstico da toxoplasmose. No entanto, essa prática sofre das complicações que resultam da alta prevalência de anticorpos específicos na população geral.. Diferentes marcadores sorológicos têm sido descritos para distinguir entre infecção latente e infecção recente ou toxoplasmose-doença. Outras necessidades são: Datar na gestante seu contágio pelo toxoplasma ou, no imunocomprometido, assinalar a reagudização de uma toxoplasmose latente. Os testes para pesquisa de anticorpos específicos podem ser reunidos em dois grupos: Aqueles que usam organismos intactos (o teste do corante, o da aglutinação direta e o do anticorpo fluorescente) e os que usam parasitos como fontes de antígenos (ELISA, fixação do complemento, aglutinação do látex, hemaglutinação indireta). Os antígenos utilizados provêm seja do citoplasma, seja da membrana celular do toxoplasma. Na fase inicial da infecção a resposta imune do hospedeiro é dirigida principalmente contra os antígenos de membrana, enquanto os antígenos citoplásmicos vão se tornando mais importantes nas infecções crônicas. Ensaios que utilizam toxoplasmas inteiros como fonte de antígenos são mais reativos na fase aguda da infecção, enquanto os que dependem da destruição dos toxoplasmas dão títulos inicialmente baixos, mas que vão aumentar e durar por muito mais tempo. A gravidade da infecção não guarda relação com a intensidade desses testes. Atualmente, o diagnóstico é feito sobretudo pelo método de ELISA (IgG ou IgM) ou pela imunofluorescência indireta. Outras técnicas são: reação de Sabin-Feldman, ou teste do corante (IgG e IgM); reação da imunofluorescência direta; reação de hemaglutinação; reação de aglutinação do látex (IgG e IgM); reação de fixação do complemento. Anticorpos IgM Específicos. São detectados mediante o teste imunoenzimático (ELISA), a imunofluorescência indireta ou outros métodos. Aparecem na primeira semana de infecção e apresentam seu pico, geralmente, dentro de um mês. Estima-se que o teste de ELISA para anticorpos específicos IgM tem uma sensibilidade de 97% e uma especificidade de 100%. Na maioria dos pacientes, os soros se tornam não-reagentes (isto é, com títulos menores que 1:16) depois de alguns meses. Nos casos mais favoráveis, os anticorpos IgM específicos tendem a não ser mais detectados entre o terceiro e o quinto mês pós-infecção. De acordo com os conhecimentos atuais, um título de IgM negativo exclui o diagnóstico de toxoplasmose aguda com menos de três semanas de duração, mas não exclui a possibilidade de infecções mais antigas. Raramente um título baixo pode permanecer por um ano ou mais. Portanto, um só exame com título alto de IgM, ou uma série de dois ou mais testes com elevação do título (realizar concomitantemente os testes com as várias amostras), permitem diagnosticar infecção recente ou reativação de infecção anterior. Anticorpos IgG Específicos. Podem ser detectados e dosados pelo teste de ELISA (o mais usado atualmente), pela imunofluorescência indireta, pela reação de Sabin-Feldman, pelo teste de hemaglutinação indireta e pela reação de fixação do complemento. Sempre que a comparação de duas amostras de soro do paciente, tomadas com intervalo de três semanas (mas processadas simultaneamente), acusar uma elevação do título com qual- quer desses métodos, podemos falar de infecção aguda. Em geral, essa elevação do título vai a 1:1.024 ou mais, na fluorescência e no teste do corante. Mas como o pico de anti- corpos IgG é alcançado ao fim de um ou dois meses, os testes devem ser aplicados logo, caso se queira surpreender uma elevação da titulação. Um teste isolado para IgG, mesmo quando o título seja elevado, tem pouco valor diagnóstico, visto que pode ocorrer no decurso de infecções crônicas. Sorologia em Mulheres Grávidas. Os testes mais usados são o de ELISA e a imunofluorescência indireta para IgM. Mas recentemente tem sido empregado o teste imunoenzi mático reverso, para captura de anticorpos IgM específicos. O teste de avidez de IgG tem sido usado para ajudar a discriminar entre a infecção passada e a recentemente adquirida por mulheres grávidas. Entretanto este teste deve ser usado como método confirmatório, apenas, e não o único para estabelecer o diagnóstico. Caso não se disponha desses métodos, repetir o teste de imunofluorescência indireta para IgG ou o teste do corante, em duas amostras de soro com intervalo de uma a três semanas, para verificar se o título está em elevação. Perfis sorológicos da toxoplasmose: IgM e IgG negativos: ausência de infecção IgM positiva e IgG negativa: infecção aguda IgM e IgG positivas: infecção recente ou subaguda IgM negativa e IgG positiva: infecção crônica IgM negativo (- ou não reagente) com IgG positivo (+ ou reagente): Infecção no passado com o T.gondii há mais de 1 ano, podendo não ter desenvolvido sintomas. IgM negativo (- ou não reagente) com IgG negativo (- ou não reagente): Ausência de contato com o T.gondii ou infecção muito recente, dentro do prazo de poucos dias em que a resposta imunológica ainda não está detectável. IgM positivo (+ ou reagente) com IgG negativo (- ou não reagente): Este resultado deve ser analisado com cautela – pode ser um IgM falso positivo, fato que pode ocorrer, mas existe a possibilidade de ser uma infecção aguda na fase inicial onde IgG ainda não está positivo mas pode vir a ficar positivo ainda, o que não é muito comum. O procedimento neste caso é realizar novo exame depois de 2 semanas e se o novo resultado apresentar IgG e IgM (Positivo) era uma infecção na fase inicial e se continuar o mesmo resultado anterior IgG (-) e IgM(+) é um resultado falso positivo para IgM. IgM positivo (+ ou reagente) e IgG positivo (+ ou reagente): Este resultado indica que deve ser uma infecção ocorrida recentemente, e deverá ser confirmada com o exame de toxoplasmose – teste de avidez IgG. Teste de Avidez IgG – Avidez baixa (menor do que 30%) sugere infecção recente adquirida há menos de 4 meses; Avidez moderada não exclui uma infecção recente; e Avidez elevada (maior do que 60%) pode excluir infecção primária adquirida há mais de 4 meses. Lembrando-se que: Anticorpos da classe IgG: São capazes de atravessar a barreira placentária e quando presentes não indicam que foram produzidos pelo feto pela mãe. Atualmente, o diagnóstico é feito sobretudo pelo método de ELISA (IgG ou IgM) ou pela imunofluorescência indireta. Se o título na imunofluorescência para IgG for menor que 1:1.024 e for negativo na imunofluorescência com anti-IgM, não será necessário prosseguir na avaliação. Um resultado negativo pela imunofluorescência indireta com anti-IgM, dentro das três primeiras semanas de gestação, significa que a toxoplasmose não foi adquirida durante essas três semanas, quaisquer que sejam os títulos na imunofluorescência indireta para IgG ou no teste do corante. Por outro lado, depois de três semanas, um teste negativo para IgM não exclui a possibilidade de que a infecção começou durante ou após aconcepção. Sorologia em Pacientes Imunodeprimidos. No caso de pacientes com AIDS, a determinação de IgG, IgM, IgA ou IgE não é satisfatória, devendo-se procurar toxoplasmas no líquor, em lavado broncopulmonar ou no humor aquoso; ou pesquisar a presença de antígenos parasitários. Ensaios com a técnica de polimerase no sangue (PCR), em casos de encefalite toxoplásmica, deram 50% de resultados positivos (contra 7,4% nas culturas de tecido in vitro), mas como foram encontrados falsos positivos dos grupos testemunhas, o método requer novos estudos. Tem-se procurado desenvolver antígenos recombinantes, para os testes sorológicos. O antígeno SAG1 é o principal da membrana de taquizoítas (ausente nos bradizoítas), sendo muito específico para a fase aguda. Ele se presta para o diagnóstico da toxoplasmose (em immunoblotting), sendo reconhecido pelas imunoglobulinas IgG e IgM em pessoas imunocompetentes. Mas está ainda em estudo seu valor em pacientes com imu nodeficiência. Um antígeno citoplásmico, proteína de 30 kDa codificada pelo gene BAG1, é expresso apenas em bradizoítas, enquanto P18 é outro antígeno específico dessa fase crônica da doença, situado na membrana. Além desses antígenos, os existentes nas organelas secretoras, como GRA5 e GRA6, são também importantes na patologia da toxoplasmose. Exames Neurológicos Devido ao fato de a encefalite toxoplásmica ser a causa mais freqüente de lesões focais intracerebrais, em pacientes com AIDS, o estudo das imagens obtidas pela tomografia computadorizada (TC) e pela ressonância magnética (RM) tornaram-se indispensáveis para o diagnóstico e tratamento desses pacientes. Massas lesionais hipodensas, múltiplas e bilaterais são reveladas pela TC. As lesões têm predileção pelos gânglios da base e pela junção hemisférica corticomedular. No entanto, os abscessos podem aparecer isoladamente e localizarem-se em qualquer parte do cérebro. Nos pacientes com sintomas neurológicos focais, a TC tem sido praticamente tão eficiente quanto a RM para a identificação das lesões cerebrais, mas nos outros casos esta última técnica revela massas lesionais não detectadas pela TC. Na toxoplasmose cerebral, a RM sempre revela multiplicidade de lesões, a ponto de se dever pensar em outras etiologias se for encontrada uma única lesão. Os efeitos da terapêutica específica podem ser apreciados mediante as imagens neurorradiológicas ou de ressonância magnética, que diminuem em número e tamanho, mas a resolução das lesões requer semanas ou meses, podendo deixar seqüe las nos focos de necrose. TRATAMENTO O tratamento da toxoplasmose é ainda assunto controverso. A maioria dos estudos têm sido feitos em animais de laboratório e instituídos pouco depois de estabelecida a infecção. Os estudos clínicos são ainda insuficientes para que se possam fixar normas quanto à posologia e à duração da terapêutica. Acresce que as drogas efetivas são poucas e bastante tóxicas, nas doses requeridas para o tratamento. Os únicos medicamentos que já demonstraram ser eficazes contra a toxoplasmose aguda de pacientes adultos são combinações de sulfonamidas com pirimetamina. A quimioterapia tem caráter sobretudo supressivo, agindo sobre os toxoplasmas em fase proliferativa (taquizoítas), mas deixando fora de alcance os bradizoítas protegidos pelas forma- ções císticas. Por isso as principais indicações terapêuticas são para o tratamento de processos e lesões em atividade. Medicamentos Disponíveis Sulfadiazina É a mais utilizada das sulfonamidas. São igualmente ativas a sulfamerazina, a sulfametazina e a sulfapirazina, com a mesma posologia. Associações dessas sulfas, conhecidas como sulfonamidas tríplices, são igualmente recomendadas. Para adultos e crianças, a dosagem de sulfadiazina que se recomenda é de 100 a 125 mg/kg de peso do paciente e por dia, dividida em quatro doses, por via oral. Continuar o tratamento por duas a quatro semanas. Se aparecerem fenômenos tóxicos, encurtar sua duração. Se a doença ativa persistir, prolongar a terapêutica. Pirimetamina Essa droga (Daraprim, Malocide) deve ser administrada oralmente, em associação com as sulfas. Para os adultos, alguns especialistas recomendam a dose de 75 a 100 mg, durante 10 dias, reduzindo-se para 50 mg, por mais 10 dias e, depois, 25 mg diariamente. Outros recomendam doses menores, desde o início (25 mg/dia). Para crianças, dar 2 mg/kg/dia divididos em duas doses para tomar cada 12 horas, nos três primeiros dias; reduzir depois as doses à metade, se persistirem as manifestações clínicas, ou à quarta parte (0,5 mg/kg/dia), nos casos sem sintomatologia. A duração será a mesma que para as sulfas. Uma a duas vezes por semana, é necessário controlar os pacientes com exames de sangue completos: contagem de hemácias, de leucócitos (leucograma) e de plaquetas, visto que a pirimetamina é um antifólico e pode deprimir a atividade da medula óssea. Para reduzir o efeito tóxico da pirimetamina sobre a medula, administrar ácido folínico (não ácido fólico, que neutralizaria a ação do medicamento sobre o toxoplasma) na dose de 2 a 10 mg por dia, para um adulto; ou substituí-la por levedura de pão, fresca e refrigerada (5 a 10 gramas por dia). O tratamento da toxoplasmose ocular é feito, também, segundo o esquema acima. Para reduzir as reações de hiper- sensibilidade, que constituem os principais responsáveis pelas manifestações inflamatórias locais, acrescentar corticóides ao esquema terapêutico: 30 a 60 mg de prednisona ou prednisolona por dia, durante 5 a 10 dias, e doses decrescentes depois. *Clindamicina Quando há intolerância às sulfas, pode-se usar esta droga como medicação alternativa, por via endovenosa: 900 a 1.200 mg cada 6 ou 8 horas, durante seis semanas, associada à pirime- tamina. A posologia, por via oral, é de 450 mg a cada 6 horas. Terapêutica nas Diversas Formas Clínicas Nas Infecções Congênitas. A toxoplasmose contraída du rante o primeiro trimestre da gravidez foi considerada, no passado como razão suficiente para indicar-se o abortamento, nos países em que a legislação e a ética médica o permitiam. Atualmente, pensa-se que esta não deva ser uma regra absoluta, pois cerca de metade das crianças nascidas nessas condições nunca apresentaram a infecção. O tratamento materno, precoce, é aconselhado para prevenir a contaminação fetal, empregando-se para isso a espiramicina (2 a 4 mg por dia), que, não atravessando a barreira placentária, também não oferece risco iatrogênico para o embrião. Nos últimos estádios da gravidez, quando o aborto está fora de possibilidade, o diagnóstico de infecção fetal requer a instalação de um tratamento à base de sulfadiazina ou de outras sulfonamidas. A pirimetamina é absolutamente contra-indicada, nesses casos, por sua ação teratogênica Nas Infecções Adquiridas Depois. Admite-se em geral que os casos assintomáticos, mesmo com altos títulos de anticorpos, não devam ser tratados. Também os casos de simples linfadenites toxoplásmicas não requerem tratamento, por sua evolução benigna e autolimitada. Mas tanto os pacientes com processos ativos (febre, miocardites, pneumonites, retinocoroidites ou encefalites) como os imunodeficientes devem ser tratados adequadamente. Nos Pacientes Imunodeprimidos. Em aidéticos e outros doentes com imunodepressão, é imprescindível fazer-se sistematicamento diagnóstico sorológico de infecção por Toxoplasma gondii, para se conhecer a situação de risco existente (sempre muito alto) e, aos primeiros sintomas neurológicos, proceder aos exames do encéfalo por TC ou RM, que permitirão precisar a ocorrência de encefalite e, inclusive, fazer depois a avaliação dos resultados terapêuticos. Excluídos outros diagnósticos prováveis, nesses casos (linfoma, abscesso por fungos,tuberculose, infecção por citomegalovírus e sarcoma de Kaposi) o tratamento deve ser instituído mesmo quando não haja senão razoável suspeita de toxoplasmose. Como terapia primária, administrar sulfadiazina (ou sulfonamidas tríplices) associada com pirimetamina e ácido folínico, durante pelo menos seis semanas. Continuar, depois, com tratamento supressivo à base de pirimetamina (25 a 50 mg diariamente, por via oral). A natureza recidivante da encefalite toxoplásmica torna este tratamento permanentemente necessário, nos aidéticos. Resultados iniciais favoráveis são obtidos em 80 a 90% dos pacientes com síndrome de imunodeficiência adquirida, porém os efeitos tóxicos sobre a medula acabam por exigir a suspensão desses medicamentos anti-Toxoplasma, tanto mais que as drogas utilizadas contra a infecção por HIV (azidotimidina, p. ex.) também produzem alterações das funções hematológicas. É, pois, urgente a descoberta de novas drogas menos tóxicas e mais eficazes. EPIDEMIOLOGIA E CONTROLE Distribuição Geográfica e Prevalência A distribuição da toxoplasmose é universal, tendo sido registrada em todos os continentes e em todos os climas. Mas, por falta de inquéritos epidemiológicos, a prevalência não é bem conhecida. Em escala mundial, os índices costumam estar compreen-didos entre 25 e 50% ou mais. No Brasil, situam-se entre 50 e 80%, sendo esta última taxa a prevalência encontrada em inquéritos feitos no Rio de Janeiro e em população indígena de Mato Grosso. Alguns estudos indicam que as taxas de positividade aumentam com a idade dos indivíduos: 0% abaixo dos cincos anos; 18% de6a15anos; 26% de16a30anos. Elas são mais elevadas nas zonas rurais que nas urbanas, mas também tem sido assinalada uma distribuição irregular, por manchas. Nos EUA, por exemplo, predomina nas regiões orientais e no sul, sem diferenças do meio urbano para o rural. A ocorrência da toxoplasmose adquirida por mulheres, durante o período de gravidez, nos EUA (antes dos anos 60), foi estimada em dois a seis casos por 1.000 gestações. No Rio de Janeiro, foi verificado que quatro recém-natos em 1.000 nascidos vivos apresentaram-se com toxoplasmose congênita inaparente (subclínica). No Rio Grande do Sul foi encontrada uma taxa de 2,2 por 1.000 nascimentos e de 0,7 em 1.000 nascidos vivos apresentando sintomatologia. O Toxoplasma gondii tem sido encontrado em grande número de animais domésticos e silvestres, dentre os quais podem ser citdos o cão, o gato, o coelho, o porco, o carneiro, o boi, além de ratos, pombos e outras aves domésticas (Fig. 14.7). O número de animais silvestres que se encontram infectados aumenta continuamente com as pesquisas. O parasito mostra-se ubiqüitário, entre os animais homeotermos, e a incidência chega a ser elevada, segundo os resultados de inquéritos imunológicos, atingindo 40 a 75% dos gatos, 16 a 32% dos cães, 8 a 50% dos porcos, 12 a 64% dos carneiros, zero a 21% dos bovinos, 23% dos ratos, 10% dos coelhos etc. Conseguiram-se isolar toxoplasmas da retina em 24,3% de 300 bovinos examinados, bem como dos olhos de porcos, carneiros, cavalos e gatos. Mas enquanto os animais que se comportam como hospedeiros intermediários de T. gondii, ao serem caçados ou consumidos pelos carnívoros, só contaminam a um ou poucos predadores, os hospedeiros definitivos conseguem, através da contaminação fecal do solo, multiplicar enormemente as fontes de infecção. O número de oocistos eliminados em uma só evacuação de um gato infectado é da ordem de 2 a 20 milhões, isto em 20 gramas de fezes, que misturados com o solo podem assegurar uma concentração de 10 a 100 mil oocistos por grama. Acrescente- se o fato de permanecerem os gatos infectados por um ano ou mais. A dispersão desse material pela chuva, pelo vento ou pela fauna coprófila pode representar alto potencial de disseminação do Toxoplasma gondii. CONDIÇÕES DO MEIO E TRANSMISSÃO Enquanto os taquizoítas de Toxoplasma. gondii são pouco resistentes às condições do meio externo, os oocistos eliminados pelos felinos embrionam no solo em poucos dias e mantêm-se viáveis até um ano ou um ano e meio no solo úmido e sombreado. Dessa forma, os gatos asseguram a poluição do domicílio e do peridomicílio, onde devem infectar-se os animais domésticos e, eventualmente, crianças e adultos. O gado deve contaminar-se através das pastagens e do feno poluídos pelos felinos, particularmente pelos gatos errantes, que acusam maiores taxas de prevalência de toxoplasmose que os domésticos. Não há informações sobre a possível participação das aves na cadeia de transmissão. Os dados epidemiológicos indicam que os gatos se infectam principalmente caçando pequenos roedores parasitados, tal como deve suceder também com outros carnívoros; ou com os restos de animais abatidos para o fornecimento de carne à população humana. Mas podem infectar-se igualmente ao revolver a terra dos lugares onde costumam defecar e ao lamberem as patas ou o pêlo contaminado com oocistos de origem fecal. Inquéritos feitos em algumas ilhas do Pacífico mostraram que a toxoplasmose humana e a toxoplasmose animal estavam ausentes daquelas ilhas em que não havia gatos. Ao que parece, basta um só gato infectado para que se tenha uma fonte adequada de contaminação do meio para uma infecção geral dos herbívoros de uma região (ovelhas, p. ex.). A eliminação de oocistos dura 3 ou 4 semanas. Como já referimos, os gatos podem reinfectar-se e voltar a eliminar oocistos (ao menos em condições experimentais). Ainda que os oocistos sejam infectantes também para o homem e que as crianças possam contaminar-se ao brincar em caixas de areia dos parques infantis (provavelmente freqüentadas pelos gatos) ou em função da intimidade com estes animais, a origem da toxoplasmose humana deve-se principalmente a 1) ingestão de carne crua ou mal cozida de gado ou de caça, que contenha cistos de T. gondii, e o consumo de produtos cárneos não-cozidos (lingüiça, presunto etc.) igualmente infectados. A manipulação dessas matérias cruas pode oferecer risco de contaminação, por via oral, através das mãos sujas; 2) transmissão congênita por mulheres que se infectaram durante a gravidez. Os taquizoítas atingem primeiro a placenta e, depois, o feto. Nas infecções crônicas (por exemplo, nas que ocorreram antes da gravidez) não há transmissão transplacentária. Na carne e nas vísceras, as formas infectantes são os bradizoítas contidos nos cistos. Esses suportam temperaturas de 4°C durante três semanas, mas morrem se a carne for congelada a –15°C, durante mais de três dias; ou a –20°C, durante mais de dois dias. Controle da Toxoplasmose Os indivíduos com infecção crônica parecem ter relativa proteção contra reinfecções (estado de premunição) e correm um risco limitado de reagudização do processo, exceto em casos de imunodepressão, natural ou iatrogênica. Os grupos populacionais mais expostos ao risco de infecção por Toxoplasma são as crianças de baixa idade e as pessoas que não apresentem sorologia positiva, principalmente quando convivam com gatos, ou quando manipulem carnes e produtos cárneos crus. Para prevenir a toxoplasmose congênita, as mães devem obedecer rigorosamente aos preceitos a seguir. O risco maior vem do consumo de carne crua ou mal cozida de porco, de carneiro, de boi etc. (aves e ovos sendo de menor significação), bem como de derivados cárneos que não sofreram cocção suficiente. Portanto, a medida preventiva mais importante consiste na cocção adequada: os cistos morrem se a carne for inteiramente submetida a uma temperatura de 65°C e mantida nessa temperatura durante 4 a 5 minutos. Eles são também destruídos nos produtos salgados ou preparados com nitratos. Manter boa higiene e lavar as mãos depois de manipular aqueles alimentos crus. Esses mesmos cuidados higiênicos devem ser dispensadosàs crianças que brincam em tanques de areia ou em contato com o solo, eventualmente poluído por gatos. Também depois de contato com os gatos, em cujos pêlos podem estar retidos oocistos que amadurecem em poucos dias. Deve-se evitar esses animais em casa e proteger os tanques de areia onde brincam as crianças com telagem para impedir o acesso aos gatos da vizinhança que aí vão para defecar. Os gatos domésticos (daqueles que insistem em criá-los) devem receber alimentos secos, enlatados ou fervidos e não se deve permitir que cacem (combater os ratos) ou comam carniça. Eles devem ser examinados para ver se eliminam oocistos. Se os exames forem positivos, tratá-los administrando a 2-sulfamoil-4,4’-diaminofenilsulfona, 10 mg por quilo de peso do animal. Para que não se reinfectem, impedi-los de sair. Caso não se disponha do diagnóstico ou do tratamento, esses animais devem ser descartados, especialmente se na casa vivem crianças pequenas ou mulheres em perspectiva ou início de gestação. Evitar contato com gatos vadios ou desconhecidos. As fezes dos gatos e o material de forração de seu leito devem ser eliminados diariamente, antes que os oocistos tenham tempo para embrionar. Quando se utilizam caixas de areia para a defecação dos gatos, estas devem ser tratadas periodicamen te (2 vezes por semana) com água fervendo, para destruir os oocistos eventualmente existentes. Nunca envolver gestantes nessas tarefas. O exame e o acompanhamento sorológico das gestantes, além de identificar as pacientes em situação de risco (que têm sorologia negativa), podem permitir o reconhecimento de uma toxoplasmose aguda materna e recomendar o tratamento específico, com curas repetidas durante todo o período de gravidez, a fim de proteger a criança até seu nascimento. O exame sistemático do material placentário deveria constituir uma forma de vigilância epidemiológica, além de assegurar a prevenção das seqüelas tardias da toxoplasmose congênita. Até o presente não existem vacinas para prevenir a infecção pelo T. gondii. Profilaxia da Toxoplasmose Não se alimentar de leite cru ou carne crua de qualquer animal mal cozida. Combater gatos de rua e ratos. Incinerar as fezes dos gatos. Proteger as caixas de areia. Exame pré-natal. Exame das gestantes com aborto sucessíveis. Desenvolvimento de vacinas.