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Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 1 ano VII • número 33 • julho/dezembro de 2004 Segurança biológica - entrevista PCR em tempo real Micropropagação de copaíba Controle bacteriano de efluentes Produção de esferas de quitosana Análise serial da expressão gênica Metabolismo da celulose em isoptera Quorum sensing em sistemas agrícolas Patentes – Extratos de plantas e derivados Goma Curdlana: propriedades e aplicações Estudo ecofisiológico sobre endomicorrizas Desenvolvimento sustentável e biodiversidade Similaridade genética em grupos de avestruzes Cultivo de anteras x cultivo de micrósporos isolados Hibridização de cDNA bovino em Macroarray humano Tendência de acidentes em laboratórios de pesquisa Pragas de cana-de-açúcar x métodos alternativos de controle ISSN 14146347 33 9 7 7 1 4 1 4 6 3 4 0 0 6 2 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 EM MAIO DE 1997 PLANTAMOS A PRIMEIRA SEMENTE DE BIOTECNOLOGIA NA IMPRENSA BRASILEIRA Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 3 AGORA VOCÊ PODE COLHER OS FRUTOS www.biotecnologia.com.br KL3 4 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 SEGURANÇA BIOLÓGICA Entrevista Entrevista concedida a Maria Fernanda Diniz Segurança biológica: agricultura, pecuária e florestas saudáveis e livres de doenças e pragas Ministério da Agricultura, Embrapa e ABIN se preparam para desenvolver plano estratégico de inteligência para livrar o Brasil do ataque de pragas e doenças exóticas A sociedade contemporânea vivencia hoje um fenômeno chamado globalização. Críticas e polêmicas à parte, esse processo vem diminuindo barreiras, distâncias, aproximando po- vos e culturas. Graças a ele também, o comércio internacional vem crescendo significativamente nas últimas décadas. De acordo com dados da Organização Mundial do Comércio – OMC, no pri- meiro semestre de 2004, houve um crescimento de 8,5%, comparado com anos anteriores. O Brasil, apesar de ainda apresentar uma atuação modesta nesse cenário vem também sendo be- neficiado pelas trocas comerciais de mercadorias entre países, com pers- pectivas promissoras para décadas fu- turas. Um dos itens principais da balan- ça comercial brasileira é o agronegócio, que teve uma participação de US$ 39,016 bilhões no ano de 2004. O crescimento exponencial do co- mércio internacional é um dos fatores que colaboram para que grandes quan- tidades de mercadorias sejam levadas rapidamente de uma região para outra pelos mais diversos meios de transpor- tes. Mas, se por um lado, esse cresci- mento é saudável, pois favorece a en- trada de divisas e uma posição de des- taque do Brasil no mercado internacio- nal, por outro lado, possibilita o movi- mento de inimigos, quase sempre mi- núsculos, como insetos e microrganis- mos (bactérias, vírus, fungos, nematóides e ácaros), mas que podem causar danos inversamente proporcio- nais ao seu tamanho à nossa agricultura, pecuária e florestas. Exemplo recente disso é a ferrugem da soja, que entrou no Brasil em 2001 e já causou perdas BC&D – Qual a relação entre globalização e disseminação de pragas? Valois – Com a intensificação do co- mércio hoje existente, principalmente por causa da globalização, o processo de ida e vinda, que está inserido dentro do direito legítimo de ir e vir, se inten- sificou também. E é justamente neste processo de ida e vinda, que as pessoas podem carregar consigo condicionantes biológicos que podem ser nocivos à agricultura, à pecuária ou às nossas florestas, de forma intencional ou não. E é por isso que hoje se fala em bioglobalização, que é a relação entre a globalização de mercados e a dissemi- nação de organismos vivos, microrga- nismos ou plantas, que podem causar prejuízos à agricultura, pecuária ou às florestas brasileiras. BC&D – Quais as medidas o Brasil toma, nos dias de hoje para proteger a nossa agricultura da entrada dessas pragas? Valois – O Brasil tem se preocupado especialmente com a questão das bar- reiras sanitárias e com o processo de superiores a US$ 2 bilhões na safra de 2003. Preocupados com esse estranho fenômeno, ao qual chamam de “bioglobalização”, ou seja, o desloca- mento intencional ou não de organis- mos vivos entre regiões, cientistas bra- sileiros da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e da ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) se uniram para desenvolver um plano es- tratégico inteligente de vigilância para a segurança biológica da agricultura, pecuária e florestas, sob a coordenação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Esse plano inclui uma série de ações emergenciais para conter a entrada de pragas e doen- ças no país e será desenvolvido primei- ro no estado do Maranhão para depois ser levado a outros estados brasileiros. Para falar sobre essa parceria e sobre as demais medidas que vêm sen- do tomadas para proteger o Brasil do ataque desses inimigos silenciosos, a revista Biotecnologia, Ciência & Desenvolvimento entrevistou o pes- quisador da Embrapa, Afonso Celso Candeira Valois. Durante a entrevista, Valois ressal- tou que a preocupação com a seguran- ça biológica tem que ser considerada prioridade para o Brasil, pois como ele mesmo afirma, “apesar de ser o setor que paga as contas do Brasil há mais de seis anos, o agronegócio é hoje também o setor mais vulnerável, em função do risco da entrada de pragas e doenças que podem devastar a nossa agricultu- ra, se não forem tomadas as medidas necessárias”. Confiram a entrevista: Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 5 quarentena, que é desenvolvido pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, que é uma das 40 unida- des de pesquisa da Embrapa e está localizada em Brasília, para o caso de plantas. A Unidade é o órgão oficial designado pelo MAPA para executar a quarentena de todo o material vegetal que é introduzido no Brasil para fins de pesquisa. As plantas são analisadas em laboratórios e se apresentarem fungos, bactérias, vírus, nematóides, ácaros ou insetos exóticos, para os quais não exis- ta tratamento conhecido, são incinera- das. Em caso de pragas que já ocorram no país, são recomendadas formas de tratamento. Mas ainda é preciso aumentar esse controle para enfrentar o crescimento da chamada bioglobalização. Eu lembro que quando a Embrapa inaugurou a sua vitrine de tecnologias, no fim da década de 90, um ex-ministro da agricultura fez um comentário interessante. Ele afir- mou que nós estávamos passando pela terceira guerra mundial, que é a guerra da globalização, e que só poderá vencer essa guerra quem tiver o domínio da tecnologia. Então, na minha opinião, esse é o ponto chave. O Brasil tem que ter o domínio da tecnologia não só para evitar a entrada dessas pragas e doen- ças, como também para se preparar proativamente para controlar os efeitos nocivos da sua introdução no país, quan- do não for possível evitá-la. Um exemplo recente, bem marcante, foi a desastrosa entrada da ferrugem da soja no Brasil, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi. Essa praga foi identificada primeiramente em Mato Grosso, em 2001, e já atingiu diversos estados, causando sérios danos à cultura da soja. Esse, aliás, é um exemplo importante também para ilus- trar uma nova terminologia, muito usa- da no contexto atual: o bioterrorismo, que é a introdução intencional de um patógeno na agricultura. Outro exemplo que eu gostaria de citar, nesse caso para ilustrar a impor- tância de se estar preparado para a entrada de pragas indesejáveis, é o da seringueira, que não se refereao Brasil e sim à Ásia. Clones de seringueira da espécie Hevea brasiliensis foram leva- das do Brasil, da região do baixo Amazo- nas, para a Ásia em 1876, e essa espécie é altamente suscetível ao fungo Microcyclus ulei, causador do mal das folhas da seringueira. Hoje, os países da Ásia - Tailândia, Indonésia e Malásia – são os maiores produtores de borra- cha do mundo. Se, porventura, esse fungo chegasse à Ásia, seria um desas- tre, pois dizimaria grande parte da pro- dução e, por isso, para evitar a entrada dele, por exemplo, rotas de avião foram modificadas e até mesmo canceladas, como uma que saía do Brasil, passava em Joanesburgo, na África do Sul, e chegava em Bangkok, na Tailândia. Eu dou esse exemplo para enfatizar que, muitas vezes, medidas radicais como essa são necessárias para evitar a entra- da dessas pragas em um país ou região. O outro caminho é se preparar para controlar os efeitos danosos da sua entrada inadvertida na economia do país, através do melhoramento genéti- co de plantas, por exemplo, que permi- te o desenvolvimento de variedades com resistência a pragas e doenças da agricultura. Um exemplo interessante é com relação à ferrugem do café. Antes que essa doença entrasse no Brasil, o IAC – Instituto Agronômico começou a fazer melhoramento gené- tico do cafeeiro, de modo que quando ela foi introduzida, nós já tínhamos va- riedades resistentes. Por isso, hoje essa doença não é considerada um proble- ma no Brasil. Outro exemplo de proatividade foi com relação à sigatoka negra da bananeira. Há 22 anos, a Embrapa, através da sua Unidade de Recursos Genéticos e Biotecnologia, já se preo- cupava em introduzir no Brasil germoplasma (qualquer parte da plan- ta, animal ou microrganismo que tenha capacidade de reprodução) de banana de Honduras e da Venezuela para se preparar para a chegada do fungo Mycosphaerella fijiensis, causador da doença. Esse exemplo ilustra a impor- tância da coleta, introdução e uso de recursos genéticos para a pesquisa agropecuária brasileira. De posse do germoplasma de banana introduzido, a Embrapa, através de duas de suas uni- dades de pesquisa: a Embrapa Mandio- ca e Fruticultura, em Cruz das Almas, na Bahia; e a Embrapa Amazônia Ociden- tal, em Manaus, AM; começou a desen- volver o melhoramento genético dessa cultura, de forma que, quando a doença chegou ao Brasil, já estávamos prepara- dos para recebê-la com seis variedades resistentes à sigatoka negra e, por isso, os prejuízos estão sendo evitados ou mitigados de maneira significativa. BC&D – Quais são as doenças ou pra- gas exóticas que ainda não existem no Brasil e com as quais devemos nos preocupar? Valois – Uma delas é a monília (Moniliophthora roreri) do cacaueiro, que é pior do que a famosa vassoura de bruxa porque fica no hospedeiro por até oito meses, enquanto a vassoura de bruxa, causada pelo fungo Crinipellis perniciosa, permanece por cerca de três meses. Essa doença já está no Peru, país próximo ao nosso, e está para entrar no Brasil pelo Acre. O que temos que fazer é reforçar a barreira nessa região, ou seja, dificultar a entrada dessa praga em nosso país. Além disso, a CEPLAC – Comissão Executiva do Plano de Lavoura Cacaueira já está desenvol- vendo pesquisas de melhoramento genético para chegar a clones resisten- tes. Outras pragas cuja introdução no “Precisamos trabalhar muito na divulgação dos perigos da entrada desses organismos, pois, muitas vezes são introdu- zidos no Brasil através de um inocente “vasinho” ou souvenir trazido de uma viagem” “O agronegócio é o setor que vem pagando as contas do Brasil há cerca de seis anos. Mas o risco da entrada de pragas exóticas o torna extre- mamente vulnerável. Basta que um fungo entre no país para causar um enorme prejuí- zo, com conseqüências econô- micas, sociais etc.” 6 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 Brasil causa preocupação são: o ácaro do arroz (Steneotarsonemus spinki); a cochonilha rosada (Maconellicoccus hirsutus), que ataca especialmente fru- teiras, além de muitos outros produtos; e o besouro asiático, que é um proble- ma seríssimo e que se entrar no Brasil pode simplesmente dizimar a silvicul- tura nacional, especialmente as culturas de pinus e eucaliptos. A melhor forma de evitar a entrada dessa praga no Brasil é não importar nada da Ásia que venha em embalagens de madeira, que é uma das formas de disseminação do be- souro. Além dessas, existem ainda: o mal de vaca louca, que voltou a aterrorizar o mundo, levando os Estados Unidos a suspenderem, novamente, a importa- ção de carne do Canadá; e a gripe asiática do frango. BC&D – Pelo que o senhor falou, exis- tem muitas ameaças externas à nossa agropecuária, sem falar de outras que surgem e se instalam como novas pra- gas. Qual seria a forma rápida e eficien- te de conhecermos essas pragas? Valois – É fundamental que se faça um levantamento nos países dos quais o Brasil importa para saber as pragas e doenças que podem ser classificadas como potenciais ameaças a nossa agropecuária e florestas. Isso já vem sendo feito, mas precisa ser intensifica- do. Vale lembrar o caso de um navio que chegou ao Brasil em 1995 com um carregamento de trigo contaminado pelo fungo Tilletia controversa que foi interceptado pela equipe de quarente- na da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia. A entrada dessa praga poderia ter causado sérios danos à cul- tura de trigo no Brasil. Outra questão importantíssima se refere à exportação. É imprescindível que o Brasil conheça as exigências fitossanitárias dos países para os quais exporta. O fato de o Brasil não ter adido agrícola nos países dificulta essa ques- tão, pois, na maior parte das vezes, os adidos comerciais não têm o conheci- mento necessário sobre as exigências agrícolas e fitossanitárias. Temos que considerar, no proces- so como um todo, três situações de pragas no sentido amplo: a primeira se refere àquelas que estão há muito tem- po no Brasil, como por exemplo, o bicudo do algodoeiro e a mosca branca, dentre outras. A segunda diz respeito a pragas que entraram mais recentemente, como a mosca da carambola, há cerca de seis anos, que, infelizmente foi introduzida no Brasil pelo Suriname, apesar de to- dos os esforços para evitar. Esse inseto está no Amapá e a maior preocupação é que, além da carambola, ele ataca mais 99 espécies de frutas, principal- mente goiaba. Para evitar que chegue ao Pará, que é um produtor expressivo de frutas, as autoridades do estado es- tão intensificando as barreiras. Temos ainda a mosca dos citros, que entrou no País há seis ou sete anos. Ela foi introduzida provavelmente da Colôm- bia e foi vista pela primeira vez no quintal de uma casa no centro de Belém (PA). Esse exemplo é interessante para ilustrar uma situação muito comum e sobre a qual devemos estar sempre atentos: a introdução inadvertida de organismos nocivos à nossa economia. Precisamos trabalhar muito na divulga- ção dos perigos da entrada desses orga- nismos, pois muitas vezes são introdu- zidos no Brasil através de um inocente “vasinho” ou souvenir trazido de uma viagem. Ainda como pragas que entra- ram recentemente no Brasil, temos a sigatoka negra da banana e a ferrugem da soja. A terceira e última situação é com relação àquelas que ainda não entraram no Brasil, sobre as quais eu já falei em questão anterior. BC&D – As ameaças de riscos de entra- da dessas pragas no Brasil não tornam o agronegócio, de certa forma, vulnerá- vel? Valois – Agora você tocou no ponto principal dessa questão. O agronegócio é o setor que vem pagando as contas do Brasil há cerca de seis anos. Mas, o risco da entrada de pragas exóticas o torna extremamente vulnerável. Basta que um fungo entre no país para causar umenorme prejuízo, com conseqüências econômicas, sociais etc. Quer dizer, apesar de ser o setor onde se assenta hoje a economia brasileira, em termos de renda, serviços, empregos, oportu- nidades etc., é também o que possui a maior vulnerabilidade. BC&D – E qual seria a solução para diminuir essa vulnerabilidade? Valois – A solução é nos organizarmos dentro de um plano estratégico inteli- gente de vigilância para a segurança biológica da agricultura, pecuária e flo- restas no Brasil. Esse plano está sendo elaborado em parceria entre a Embrapa e a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) e tem como objetivo maior proteger a segurança biológica brasilei- ra, que envolve o manejo de todos os riscos bióticos e abióticos associados, incluindo agricultura, pecuária, flores- tas, espécies invasoras exóticas, sanida- de animal e vegetal, bioterrorismo, agroterrorismo, “bioburla”, além da se- gurança e qualidade dos alimentos. Quanto a esse último item, devemos estar atentos para o controle de, princi- palmente, três perigos: o físico, como por exemplo, a presença de partes de animais ou de outros objetos nos ali- mentos; o biológico, que se refere à presença de microrganismos; e o quími- co, que se divide em duas classes - a primeira refere-se ao uso dos agroquímicos que, quando mal aplica- dos podem ser perigosos, sendo inclu- sive a quarta maior causa de intoxicação no mundo; e a outra são as toxinas, como as micotoxinas (produzidas por fungos). Temos hoje no Brasil o “Pro- grama Alimentos Seguros” que se pre- ocupa com a qualidade dos alimentos do campo à mesa. Esse programa está calcado na segurança ao longo de toda a cadeia produtiva, englobando: consu- midor, lavoura, alimentos, meio ambi- ente e produtor rural. Por exemplo, quanto custou ao Brasil a entrada da ferrugem da soja? Sabemos que o prejuízo direto foi de US$ 2 bilhões na safra de 2003. Mas, na verdade, foi muito maior, pois foram gastos cerca de “Muito importante é introduzir os novos conceitos de segurança do produtor rural e de todos os outros atores envolvidos na cadeia produtiva nos municípios, associações, cooperativas etc.” Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 7 US$ 500 milhões em fungicidas, além dos danos indiretos à saúde, dos produ- tores, e do meio ambiente. Devemos manter sempre um enfoque sistêmico sobre essa questão, não podemos con- siderar apenas os danos aos alimentos, mas sim a todas as etapas da cadeia produtiva. E um passo muito importan- te nesse sentido é a municipalização, ou seja, introduzir os novos conceitos de segurança do produtor rural e de todos os outros atores envolvidos na cadeia produtiva nos municípios, asso- ciações, cooperativas etc. Esse proces- so pressupõe mudanças em quatro ní- veis: hábito, cultura, postura e atitude. O nosso objetivo daqui para frente é expandir o programa de segurança para outros produtos, como borracha, óleo de dendê etc. Com isso será fortalecido o processo para evitar as barreiras tarifárias e não tarifárias (técnicas) e constantes rechaços de produtos brasi- leiros resultantes das exportações. BC&D – Ao longo dessa entrevista, nota-se que essa discussão tem trazido à pauta uma série de novas terminolo- gias, como “bioterrorismo”, “bioglobali- zação” e outros. Agora, o senhor falou em “agroterrorismo” e “bioburla”, po- deria explicar melhor esses conceitos? Valois – Agroterrorismo pode ser en- tendido como a introdução intencional de organismos nocivos em um país, como resultado da competição interna- cional por mercados ou mesmo a inter- ferência danosa de um terceiro país em transações comerciais no setor de agronegócio entre outros dois países; e “bioburla” foi um termo criado por mim e pela pesquisadora da Embrapa Recur- sos Genéticos e Biotecnologia, Maria Regina Vilarinho de Oliveira, que desig- na o não cumprimento de leis ambientais, como por exemplo, a derrubada indiscriminada de florestas, como vem ocorrendo na Amazônia. BC&D – Voltando ao plano estratégico que está sendo desenvolvido entre a Embrapa e a ABIN, como vai funcionar? Valois – O plano identifica os princi- pais “gargalos” que existem hoje no Brasil na área de segurança biológica e propõe ações para solucioná-los. Estão previstas as seguintes ações: elabora- ção de planos de contingência para pragas e doenças, que vai possibilitar maior agilidade na tomada de decisões para reduzir os riscos de dispersão de pragas e doenças; implantação de um sistema em rede de consulta para pra- gas e doenças, de modo a dinamizar o processo de inspeção, vigilância, fisca- lização sanitária e contribuição para pro- jetos estratégicos de pesquisas técnico- científicas e inovação tecnológica; de- senvolvimento de metodologia de amostragem em portos e aeroportos, visando diminuir os riscos de entrada de pragas e doenças; quantificação de im- pactos para pragas e doenças dos pon- tos de vista: econômico, social, ambiental, e níveis de dano e de tole- rância; desenvolvimento de métodos de diagnóstico para a detecção e iden- tificação de pragas e doenças; mapeamento geográfico de pragas e doenças; desenvolvimento de um siste- ma integrado de informações de Análi- se de Risco de Pragas (ARP); levanta- mentos sobre as exigências de países importadores quanto à sanidade; comu- nicação de riscos; e, finalmente, levan- tamentos proativos sobre a ocorrência de pragas e doenças em países expor- tadores. BC&D – E de que forma essas ações serão conduzidas? Valois – O plano será iniciado no esta- do do Maranhão. A pré-proposta já foi apresentada a AGED – Agência Estadu- al de Defesa Agropecuária do Maranhão e ao governo do estado e, após a aprovação, o projeto final do plano piloto será elaborado em conjunto en- tre a AGED, UEMA (Universidade Esta- dual do Maranhão); Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Maranhão; MAPA/ Superintendência Federal de Agricultu- ra do estado; ABIN e a Embrapa Recur- sos Genéticos e Biotecnologia. No Maranhão, já existem experiências bem sucedidas quanto ao desenvolvimento de programas de controle de doenças e pragas da agropecuária e também com a implantação de barreiras sanitárias contra a sigatoka negra da bananeira. O plano piloto no Maranhão poderá servir de modelo para outros estados brasilei- ros e já há, inclusive, um início de entendimento para que a segunda eta- pa seja conduzida no Paraná. BC&D – Quais serão as principais ações do programa piloto a ser desenvolvido no Maranhão? Valois – O plano piloto prevê o desen- volvimento de ações em áreas estraté- gicas do Maranhão, visando à soberania do estado e a segurança biológica de suas áreas agrícolas, ambientais e urba- nas. Com isso, além de evitar ou reduzir danos causados por pragas e doenças e por possíveis ações de bioterrorismo e agroterrorismo, contribuirá para melho- rar a qualidade de vida da população, beneficiando comunidades regionais e locais, com a produção de alimentos de melhor qualidade. As ações incluem: o mapeamento de fronteiras, portos e aeroportos do estado, com o objetivo de estabelecer barreiras sanitárias; di- vulgação junto a agricultores e pecuaristas acerca de procedimentos sanitários adequados quanto ao uso de agroquímicos para que não se transfor- mem em agrotóxicos, vacinação de gado bovino, levantamento das pragas e doenças que já entraram no estado, como o bicudo do algodoeiro e mosca branca e daquelas avaliadas como ame- aças potenciais, com o objetivo de esta- belecer estratégia e tática de controle inteligente de vigilância; desenvolvi- mento de campanhas de conscientização pública sobre a importância da seguran- ça biológica no meio rural, com a parti- cipação do governo do estado, prefei- turas municipais, associações e coope- rativas de produtores; e modernização da infra-estrutura institucionalpara o desempenho adequado dessas ações. “Agroterrorismo pode ser entendido como a introdução intencional de organismos nocivos em um país, como resultado da competição internacional por mercados ou mesmo interferência danosa de um terceiro país em transações comerciais no setor de agronegócio entre outros dois países” Colaboraram nesta edição BIOTECNOLOGIA Ciência & Desenvolvimento KL3 Publicações Ltda Fundador Dr. Henrique da Silva Castro Direção Geral e Edição Ana Lúcia de Almeida E-mail biotecnologia@biotecnologia.com.br Home-Page www.biotecnologia.com.br Projeto Gráfico KL3 Publicações Ltda SHIN CA 02 Bloco "C" Edifício Garden Place salas 225/226 Lago Norte - Brasília - DF Cep 71503-502 Tel.: (061) 468-6099 Fax: (061) 468-3214 Os artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores. ISSN 1414-6347 NOTA: Todas as edições da Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento estão sendo indexadas para o AGRIS (International Information System for the Agricultural Sciences and Technology) da FAO e para a AGROBASE (Base de Dados da Agricultura Brasileira). Portal Biotecnologia - www.biotecnologia.com.br Adelaide Maria de Souza Antunes Adriana Campos Moreira Afonso Celso Candeira Valois Aldo Pacheco Ferreira Ana Cláudia Borja Paim Antônio Vargas de Oliveira Figueira Bernardo Elias Correa Soares Caroline Monteiro Novais Catalina Romero Lopes Cláudio Manoel Rodrigues de Melo Conceição Eneida dos Santos Silveira Elisabeth Pelosi Teixeira Erika Cristina Jorge Fabiane Siqueira Fábio Freitas Silva Gustavo Arbex Avelar Gustavo Ribeiro Xavier Isabel Cristina Müller Jorge E.A Mariath José Fernando Garcia José Ribamar Felipe Marques Júlio César dos Santos Leonardo Gonçalves Noleto Lia Rosane Rodrigues Luiz Carlos de Almeida Luiz Lehmann Coutinho Luiz Padulla Magnólia Góes Silva Marco Fábio Mastroeni Marcos Barros de Medeiros Mária Antônio Alves da Cunha Maria Fernanda Diniz Maria Helena Bodanese-Zanettini Maria Rosa Costa Mariana Roberta dos Reis Maury Dorta de Souza Júnior Melissa Pires-Alves Mônica Cristina Cardoso da Fonseca Nei Pereira Júnior Norma Golvêa Rumjanek Odilio B.G.Assis Paulo Henrique Sá Maia Raimundo Nonato Camargo Jr. Raúl Jorge H.C.Gómez Rejane Celi Goy Ricardo Antônio Polanczyk Sérgio Batista Alves Sérgio P.Campana-Filho Silvaney Fonseca Ferreira Silvia Edelweiss Crusco dos Santos Silvio Silvério da Silva Solange Maria Costa de Amorim Tercílio Calsa Junior Vagner Augusto Benedito Wanderley Dias da Silveira Conselho Científico Dr. Aluízio Borém - Genética e Melhoramento Vegetal Dr. Henrique da Silva Castro - Saúde; Dr. Ivan Rud de Moraes - Saúde - Toxicologia; Dr. João de Deus Medeiros - Embriologia Vegetal; Dr. Naftale Katz - Saúde; Dr. Pedro Jurberg - Ciências; Dr. Sérgio Costa Oliveira - Imunologia e Vacinas; Dr. Vasco Ariston de Carvalho Azevedo - Genética de Microorganismos; Dr. William Gerson Matias - Toxicologia Ambiental. Conselho Brasileiro de Fitossanidade - Cobrafi Dr. Luís Carlos Bhering Nasser - Fitopatologia Fundação Dalmo Catauli Giacometti Dr. Eugen Silvano Gander - Engenharia Genética; Dr. José Manuel Cabral de Sousa Dias - Controle Biológico; Dra. Marisa de Goes - Recursos Genéticos Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares - IPEN Dr. José Roberto Rogero Sociedade Brasileira de Biotecnologia - SBBiotec Dr. Luiz Antonio Barreto de Castro - EMBRAPA Dr. Diógenes Santiago Santos - UFRGS Dr. José Luiz Lima Filho - UFPE Dra. Elba P. S. Bon - UFRJ Entrevista Segurança biológica - entrevista pág 04 Pesquisa PCR em tempo real pág 10 Pragas de cana-de-açúcar x métodos alternativos de controle pág 14 Similaridade genética em grupos de avestruzes pág 18 Estudo ecofisiológico sobre endomicorrizas pág 23 Controle bacteriano de efluentes pág 27 Produção de esferas de quitosana pág 30 Quorum sensing em sistemas agrícolas pág 35 Cultivo de anteras x cultivo de micrósporos isolados pág 51 Goma Curdlana: propriedades e aplicações pág 55 Patentes – Extratos de plantas e derivados pág 62 Desenvolvimento sustentável e biodiversidade pág 72 Metabolismo da celulose em isoptera pág 76 Hibridização de cDNA bovino em Macroarray humano pág 82 Análise serial da expressão gênica pág 88 Tendência de acidentes em laboratórios de pesquisa pág 101 Micropropagação de copaíba pág 109 10 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 Pesquisa PCR em tempo real Uma Inovação tecnológica da Reação em Cadeia da Polimerase (PCR) Caroline Monteiro Novais Estudante do curso de farmácia do Centro Universitário de Barra Mansa. E-mail: carol_farmacia@hotmail.com Melissa Pires-Alves Doutora em Biologia Celular e Molecular pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Professora do Centro Universitário de Barra Mansa. E-mail: melalves@ig.com.br Colaborador Fábio Freitas Silva Introdução advento da biologia molecular foi certamente um dos maiores passos das ciências biológicas durante o Século XX. A descoberta da Reação em Cadeia da Polimerase (PCR) trou- xe enormes benefícios e desenvolvi- mentos científicos como o seqüenciamento de genomas, a ex- pressão de genes em sistemas recombinantes, o estudo de genética molecular, a determinação rápida da paternidade e o diagnóstico rápido de doenças infecciosas. Ultimamente, uma inovação tecnológica resultante da PCR, deno- minada de PCR em Tempo Real, vem ganhando espaço nos diagnósticos clí- nicos e nos laboratórios de pesquisa por apresentar a capacidade de gerar resultados quantitativos. Essa técnica permite o acompanhamento da rea- ção e a apresentação dos resultados de forma mais precisa e rápida, em rela- ção à PCR que apresenta somente resultados qualitativos. PCR A Reação em Cadeia de Polimerase (PCR, do inglês Polymerase Chain Reaction), é uma metodologia que pode ser executada inteiramente in vitro sem o uso de células (BRUCE, 1999). A técnica da PCR foi desenvol- vida nos anos 80 por Kary Mullis, que recebeu, em 1994, o prêmio Nobel. A PCR possibilita a síntese de fragmentos de DNA, usando a enzima DNA-polimerase, a mesma que parti- cipa da replicação do material genéti- co nas células. Esta enzima sintetiza uma seqüência complementar de DNA, desde que um pequeno fragmento (o iniciador, ou primer, em inglês) já esteja ligado a uma das cadeias do DNA no ponto escolhido para o início da síntese. Os iniciadores definem a seqüência a ser replicada e o resultado obtido é a amplificação de uma deter- minada seqüência DNA com bilhões de cópias (MULLIS, 1990). Utilização da técnica da PCR O desenvolvimento da técnica de amplificação de segmentos de DNA utilizando a PCR abriu enormes pers- pectivas para a análise de genes, diag- nóstico de doenças genéticas e detecção de agentes infecciosos como citomegalovírus, vírus da hepatite B e C, herpes vírus simples, vírus da rubé- ola, vírus da imunodeficiência humana (HIV), Chlamydia trachomatis, Helicobater pylori, Mycobacterium tuberculosis e Pneumocistis carinii. O avanço da ciência sobre a com- preensão dos genes trouxe para a rotina do laboratório de genética, fer- ramentas que permitem o diagnóstico em nível molecular. Na linha das doen- ças genéticas, o permanente desen- volvimento de novos protocolos tem permitido a pesquisa de pequenas alterações na seqüência de DNA, como, por exemplo, na fibrose cística. Outras aplicações especialmente úteis para a PCR é a clonagem de um determinado fragmento de DNA, que pode ser um gene e o conhecimento do DNA codificante (cDNA) obtido a partir da molécula de RNA, o que permite o estudo da expressão de genes. Finalmente, a PCR tem um gran- Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro2004 11 de potencial na medicina forense. Sua sensibilidade torna possível utilizar uma amostra bastante pequena (traços mí- nimos de sangue e tecidos que pode- riam conter os restos de somente uma única célula) e ainda se obter uma “impressão digital de DNA” da pessoa da qual a amostra foi coletada, poden- do assim fazer comparações com aque- les obtidos de vítimas e/ou suspeitos de casos de infração penal (SILVA & PASSOS, 2002). O genoma de cada ser humano (exceto dos gêmeos idênticos) é dife- rente nas regiões polimórficas, sendo possível amplificar essas regiões. As- sim, a pesquisa de STRs (Small Tan- dem Repeats) através da PCR, utilizan- do um conjunto de iniciadores que cobrem estas partes altamente variá- veis do genoma humano, pode gerar uma impressão digital característica de DNA para cada indivíduo (BRUCE, 1999). PCR em Tempo Real A possibilidade de monitorar a PCR em tempo real revolucionou o processo de quantificação de frag- mentos de DNA e RNA. A PCR em tempo real realiza a quantificação des- tes ácidos nucléicos de maneira preci- sa e com maior reprodutibilidade, por- que determina valores durante a fase exponencial da reação. O ponto que detecta o ciclo na qual a reação atinge o limiar da fase exponencial é denomi- nado de Cycle Threshold (C T ) (Figura 1). Este ponto permite a quantificação exata e reprodutível baseado na fluorescência. A emissão dos compostos fluo- rescentes gera um sinal que aumenta na proporção direta da quantidade de produto da PCR. Sendo assim, os valo- res da fluorescência são gravados du- rante cada ciclo e representam a quan- tidade de produto amplificado (http:/ /www.ncifcrf.gov/rtp/gel/rtqpcr/ WhatIs.asp, 2004). Os compostos flu- orescentes mais utilizados são o SYBR® Green e TaqMan®. A PCR em tempo real requer uma plataforma de instrumentação que con- tém um termociclador com sistema ótico para a excitação da fluorescência e na coleção da emissão e um compu- tador com um software para aquisição de dados e análise final da reação. Estas máquinas, disponíveis de diver- sos fabricantes, diferem na capacidade da amostra (96-poços padrão, processamento de poucas amostras ou requerem tubos capilares de vidro especializados), no método da excita- ção (lasers ou fontes claras do espec- tro largo com filtros ajustáveis), e na sensibilidade total. Há também dife- renças nos softwares para o processamento dos dados (http:// www.ambion.com/techlib/tn/81/ 813.html, 2004). Fluoróforos Os fluoróforos são moléculas que absorvem e emitem luz em um com- primento de onda específico. Os siste- mas de detecção da PCR em Tempo Real utilizam estas moléculas que pro- porcionam o acompanhamento da re- ação ao longo dos ciclos. SYBR® Green O SYBR® Green se liga entre a fita dupla de DNA (Figura 2) e com a excitação da luz emitida pelo sistema ótico do termociclador, emite uma fluorescência verde. As vantagens da utilização do SYBR® Green são: baixo custo, facilidade no uso e sensibilida- de. A desvantagem é a ligação em todo DNA fita dupla que surge durante a reação, incluindo os dímeros dos iniciadores e outros produtos inespecíficos, podendo superestimar a concentração do fragmento alvo. O SYBR® Green não ligado ao DNA exibe uma fluorescência muito pe- quena. Entretanto, a fluorescência é realçada quando ligado na fita dupla do DNA. No começo da amplificação, a mistura da reação contém o DNA desnaturado, os iniciadores e o SYBR® Green. As moléculas não-ligadas do SYBR® Green apresentam fluorescência fraca produzindo um si- nal mínimo sendo este subtraído du- rante a análise de computador. Após o reconhecimento dos iniciadores, algu- mas moléculas do SYBR® Green po- dem ligar-se na fita dupla previamen- te formada. Durante a polimerização catalisada pela enzima Taq DNA polimerase, as moléculas do SYBR® Green vão se ligando ao DNA recen- temente sintetizado. Assim, a reação é Figura 1: Curva de amplificação do PCR em Tempo Real. C T – Cycle Threshold. A amplificação mostra 3 fases distintas (1) linha basal: não houve produtos da PCR suficiente para detectar a fluorescência; (2) fase log: a quantidade de produtos da PCR dobra a cada ciclo e (3) fase platô: não há mais aumento no número de produtos. Figura 2: Molécula de SYBR Green® entre a fita dupla de DNA. 12 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 monitorada continuamente e um au- mento da fluorescência é observado em tempo real. No ciclo seguinte, na etapa de desnaturação do DNA, as moléculas do SYBR® Green são libe- radas e há queda no sinal da fluorescência. A detecção da fluorescência no fim da etapa de ex- tensão de cada ciclo da PCR permite monitorar a quantidade crescente de DNA amplificado (VITZTHUM et al., 1999). As duas alternativas mais utiliza- das além do SYBR® Green são TaqMan® e Molecular Beacons, am- bos com capacidade de hibridização gerando transferência de energia para quantificação. 4.1.2. TaqMan® TaqMan® é uma sonda (fragmen- to de DNA marcado usado para hibridizar outra molécula de DNA) utilizada para detectar seqüências específicas nos fragmentos de DNA amplifi- cados na PCR. Esta sonda apre- senta em uma extremidade um fluoróforo, e na outra ex- tremidade um quencher (mo- lécula que aceita energia do fluoróforo na forma de luz e a dissipa na forma de luz ou calor) como mostrado na Figura 3. Os produtos da reação são detectados pela fluorescência gerada após a atividade exonuclease 5'—>3' da Taq DNA polimerase. Durante a PCR em tempo real a sonda TaqMan® hibridiza com a se- qüência da fita simples de DNA com- plementar alvo para a amplificação. No processo da amplificação a sonda TaqMan® é degradada devido à ativi- dade exonuclease 5'—>3' da Taq DNA polimerase, separando o quencher da molécula fluorescente durante a ex- tensão. A separação do fluoróforo do quencher resulta em um aumento da intensidade da fluorescência (Figura 4). Assim, durante o processo de am- plificação a emissão de luz é aumenta- da de forma exponencial. Esse au- mento da fluorescência ocorre apenas quando a sonda hibridiza e quando a amplificação da seqüência alvo é estabelecida (HEID et al., 1996). A reação com a TaqMan® é con- siderada um método sensível para determinar a presença ou ausência de seqüências específicas (HOLLAND et al., 1991). Molecular beacons Molecular beacons são oligonucleotídeos usados como son- das de fita simples que formam uma estrutura secundária entre as extremi- dades 5’ e 3’, chamada de haste-e- loop. O loop contém uma seqüência que é complementar à seqüência-alvo e a haste é formada pelo anelamento das seqüências complementares que estão localizadas nas extremidades. Um fluoróforo é covalentemente liga- do no final de uma extremidade e um quencher é covalentemente ligado na outra extremidade (Figura 5A). Os oligonucleotídeos molecular beacons não emitem fluorescência quando es- tão livres em solução. Entretanto, quan- do hibridizam com a fita de DNA contendo a seqüência-alvo, as sondas assumem uma mudança conformacional tornando-a capaz de emitir fluorescência (Figura 5B). Figura 3: Ilustração de uma sonda TaqMan®. F – Fluoróforo e Q – quencher. Figura 4: PCR em tempo real com sonda TaqMan®. 1.Polimerização 3.Clivagem 2.Substituição da fita Fluoróforo Quencher 4.Polimerização finalizada Iniciador reverso Iniciador “foward” SONDA Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 13 Na ausência de alvos, o oligonucleotídeo não emite fluorescência, pois o quencher está próximo do fluoróforo captando ener- gia. No momento em que o molecular beacon encontra o seu alvo, ocorre a hibridização resultando em uma reor- ganização conformacional, onde o fluoróforo de dissocia do quencher,emitindo assim a fluorescência. Os molecular beacons podem ser sintetizados com diferentes cores de fluoróforos, possibilitando ensaios que necessitam detectar diferentes alvos em uma mesma reação. São altamente específicos permitindo dis- criminar seqüências-alvo que diferem entre si por apenas um nucleotídeo substituído. São sondas ideais, no en- saio diagnóstico para identificação ge- nética, detecção de SNP (single nucleotide polymorfism) e aplicações farmacogenéticas (KRAMER, 2004). Utilização da PCR em Tempo Real O sistema de quantificação em tempo real tem as seguintes aplica- ções: · Identificação de alelos em DNA genômico; · Análise de seqüências virais, bacterianas ou de protozoários a partir de várias fontes; · Análise de patógenos em ali- mentos; · Análise de produtos transgênicos; A aplicação em diagnósticos, como a detecção de patógenos, ou doenças, torna-se interessante uma vez que esta técnica permite a quantificação e rapidez do resultado, pois não mais requer a detecção em gel de eletroforese, necessário na análise da PCR. Conclusão As técnicas associadas à biologia molecular e à engenharia genética progrediram muito desde a década de 50, quando o DNA teve sua estrutura descrita. O avanço foi tão grande que em pouco tempo, pouco mais de 50 anos, suas aplicações práticas já permeiam o nosso cotidiano. A descoberta da PCR faz parte desse progresso, sendo que o mais novo avanço tecnológico partiu da própria PCR, gerando a PCR em Tem- po Real, que permite a quantificação das amostras amplificadas, sendo de grande relevância para diagnósticos de patógenos e doenças genéticas. Dentre as vantagens, esta técnica em relação à PCR qualitativa estão a faci- lidade na quantificação, maior sensibi- l idade, maior precisão, reprodutibilidade e acurácia, velocida- de na análise, melhor controle de qua- lidade no processo e menor risco de contaminação. Referências bibliográficas BRUCE, A., BRAY. D., JOHNSON, A., LEWIS, J., RASS, M., ROBERTS, K & WALTER, P. Fundamentos da Biologia Celular: Uma introdução à biologia molecular da célula. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999. p. DYES & FLUORESCENCE DETECTION CHEMISTRY IN qPCR. Disponível em: http:// www.gene-quantification.info/. Acesso em: 27 maio 2004. HEID, C.A, STEVENS, J., LIVAK, K.J. & WILLIAMS, P.M. Real time quantitative PCR. Genome Res. 6(10):986-94, 1996. HOLLAND, P.M., ABRAMSON, R.D., WATSON, R. & GELFLAND, D.H. Detection of specific polymerase chain reaction product by util izing the 5'—>3' exonuclease activity of Thermus aquaticus DNA polymerase. Proceedings of the National Academy of Sciences USA, 88: 7276-7280, 1991. KRAMER, F.R. Molecular Beacons. Disponível em: <http:// www.molecular-beacons.org/ default.htm>. Acesso em: 27 maio 2004. MULLIS, K.B. Target amplification for DNA analysis by the polymerase chain reaction. Ann Biol Clin 48(8): 579-82, 1990. SILVA, L.A.F. & PASSOS, N.S. DNA Forense. Coleta de amostras bioló- gicas em locais de crimes para estudo do DNA. Maceió: edUFAL, 2002. 84 p. REAL-TIME PCR GOES PRIME TIME. Disponível em: <http:// www.ambion.com/techlib/tn/81/ 813.html>. Acesso em: 15 feverei- ro 2004. VITZTHUM, F., GEIGER, G., BISSWANGER, H., BRUNNER, H. & BERNHAGEN, J. A quantitative fluorescence-based microplate assay for the determination of double-stranded DNA using SYBR Green I and a standard ultraviolet transilluminator gel imaging system. Anal Biochem. 276(1):59-64, 1999. WHAT IS REAL-TIME QUANTITATIVE PCR? Disponí- vel em: <http://www.ncifcrf.gov/ rtp/gel/rtqpcr/WhatIs.asp>. Aces- so em: 15 fevereiro 2004. Figura 5: (A) Oligonucleotídeo usado como sonda é sintetizado de modo a possibilitar a formação de uma estrutura secundária nas extremidades 5’e 3’. (B) Toda fita nova formada durante a amplificação é alvo para o anelamento do molecular beacon, aumentando a intensidade da fluorescência. A B 14 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 Ricardo Antônio Polanczyk Eng. Agrônomo, Prof. Dr. Laboratório de Entomologia, Centro de Ciências Agrárias – Universidade Federal do Espírito Santo E-mail: ricardo@cca.ufes.br Luiz Carlos de Almeida Eng. Agrônomo, MSc. Coordenadorias de Recursos de Variedades. Centro de Tecnologia COPERSUCAR. E-mail:almeida@copersucar.com.br Luiz Padulla Biólogo. Laboratório de Patologia e Controle Microbiano de Insetos (ESALQ/USP) E-mail: luizpadulla@bol.com.br Sérgio Batista Alves Eng. Agr. Prof. Dr. Laboratório de Patologia e Controle Microbiano de Insetos (ESALQ/USP) E-mail: sebalves@esalq.usp.br Ilustrações cedidas pelos autores Pesquisa Manejo de pragas de cana-de-açúcar, monitoramento, controle biológico e transgenia visando ao controle de praga de solo Resumo Este artigo aborda duas situações reais: controle de Diatraea saccharalis (broca-da-cana-de-açúcar) com o parasitóide Cotesia flavipes; monitoramento do besouro Migdolus fryanus com feromônio e um etapa a ser desenvolvida que visa ao controle de outro besouro (Sphenophorus levis); a geração de plantas expressando toxina(s) da bactéria entomopatogênica Bacillus thuringiensis (Bt), visando minimizar ou substituir o uso de agrotóxicos. Este trabalho descreve a importâncias dessas pragas e de como as alternativas de controle não- convencionais podem contribuir no seu manejo, de forma mais eficiente e menos agressiva ao ambiente do que a utilização de inseticidas convencionais. Como etapa inicial de estudo, foi realizada a seleção de isolados de Bt para o sphenophorus, resultando no primeiro relato de suscetibilidade de S. levis para esse entomopatógeno. Introdução Diatraea saccharalis (broca-da- cana-de-açúcar) É a principal praga da cana, sendo provavelmente originária da América Central e do Sul. O adulto é uma mariposa com as asas anteriores de coloração amarelo-palha, com al- guns desenhos pardacentos e as asas posteriores esbranquiçadas e com 25 mm de envergadura. As lagartas após a eclosão alimentam-se do parênquima das folhas, depois se des- locam para a bainha e penetram pela parte mais mole do colmo abrindo galerias de baixo para cima. Os preju- ízos são diretos pela abertura de gale- rias, que ocasionam perda de peso da cana e provocam a morte das gemas, causando falhas na germinação. Quan- do a broca faz galerias transversais, seccionando o colmo, elas provocam o tombamento da cana pelo vento. Nas canas novas, a broca produz o secamento dos ponteiros (coração morto). Os prejuízos indiretos são consideráveis, uma vez que através dos orifícios e galerias penetram fun- gos que causam a podridão vermelha do colmo. Os fungos causadores são Colletotrichum falcatum e Fusarium moniliforme,que invertem a sacarose, diminuindo a pureza do caldo e dando menos rendimento de açúcar e álcool. Trabalhos desenvolvidos pela ESALQ/ USP, COPERSUCAR e UFSCar mostram que para cada 1% de intensidade de infestação da praga, ocorrem prejuízos de 0,25% de açúcar, 0,20% de álcool e 0,77% de peso (Gallo et al., 2002). Juntamente com medidas de controle cultural, o controle biológico com o parasitóide Cotesia flavipes é uma alternativa não convencional de manejo dessa praga que contribuiu significativamente para a diminuição do impacto da broca sobre a cana. Este himenóptero foi introduzido no Brasil em 1974 e entre 1980 e 2002 a inten- sidade de infestação dessa praga dimi- nuiu de 11% para 2,8%. Neste período foram liberados 14,8 bilhões de adultos em 2,44 milhões de hectares a um custo de R$ 7,14 por hectare, implican- do um custo de R$ 16,7 milhões. Isto Figura1: Adulto de Sphenophorus le- vis (bicudo da cana-de-açúcar) Pragas de Cana-de-açúcar X métodos alternativos de controle Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro2004 15 significou uma economia de R$ 88,4 milhões, pois não foram aplicados mais de 700.000 litros de inseticidas para o controle da D. saccharalis. Migdolus fryanus (besouro migdolus) M. fryanus é um besouro da família Cerambycidae cuja fase larval causa danos ao sistema radicular da cana-de-açúcar, que passa a exibir sin- tomas de seca, iniciando com o secamento das folhas mais velhas. Com a evolução dos sintomas pode ocorrer o secamento de todas as folhas, morte da gema apical e até murcha dos colmos. Os danos podem se estender aos internódios basais dos colmos, pre- judicando a brotação das soqueiras nos próximos cortes, o que contribui para o declínio acentuado na produtividade das áreas infestadas e obriga o produ- tor a renovar precocemente o seu canavial, existindo relatos de renova- ções de áreas que foram feitas logo após o segundo corte. Ocorre, em média, uma redução de 25 toneladas/ ha/ano nas áreas infestadas, compara- das com parcelas tratadas com inseti- cidas de solo. O conhecimento restrito sobre a biologia e ecologia da praga dificulta a adoção de métodos alternativos de controle. Sabe-se que apenas a larva causa danos e que a duração desta fase é de, no mínimo, dois anos, sendo encontrados indivíduos até a profundi- dade de cinco metros no solo. Todo o ciclo biológico é subterrâneo, sendo possível coletar adultos na superfície do solo apenas por ocasião das “revoadas”, quando só os machos, que apresentam asas funcionais, voam nas áreas infestadas até locali- zarem as fêmeas que se encontram abrigadas no solo ou expostas na superfície e que não possuem asas funcionais. A atração ocorre em fun- ção de um potente feromônio sexu- al emitido pelas fêmeas, sendo que estas, logo após o acasalamento, penetram novamente no solo e rea- lizam a deposição dos ovos isolados, em número médio de 25 ovos por fêmea, a profundidades que ultra- passam 1,5 metro. No estado de São Paulo estima- se a existência de 50.000 ha de cana afetados por esta praga e sua pre- sença foi constatada também nos estados do Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais. Existe no mercado um feromônio sexual para essa praga do grupo amida, que é comercializado em “pellets” de 3,5%, ou seja, 1 mg/ ”pellet”. Ele pode ser usado para monitoramento empregando-se uma armadilha por talhão de 10 a 20 ha, entre outubro e março, com substi- tuição dos “pellets” a cada 3 a 4 semanas (Gallo et al., 2002). A des- coberta, identificação, isolamento e síntese do feromônio contou com a participação de pesquisadores brasi- leiros. Da sua identificação até a síntese passaram-se pouco mais de três anos, sendo hoje utilizado na quase totalidade das usinas e destila- rias da região Centro Sul do Brasil. Além do grande potencial de uso no monitoramento, este foi o primeiro caso no mundo de um feromônio sexual de ação a longa distância entre os cerambicídeos (Bento et al., 2001). Sphenophorus levis (Coleoptera:Curculionidae) Conhecido como sphenophorus ou besouro-bicudo da cana-de-açú- car (Figura 1), causa danos aos perfilhos e na base dos colmos em desenvolvimento, reduzindo o nú- mero de plantas por área e a produ- tividade das áreas infestadas. As fêmeas perfuram a base de colmos e de perfilhos e efetuam a deposição de ovos que darão origem às larvas (Figura 2) res- ponsáveis pelos danos. Estas, ao se ali- mentarem, escavam galerias e danifi- cam os tecidos no interior das bases, podendo provocar a morte das plantas, falhas nas brotações das soqueiras e redução na longevidade dos canaviais, que muitas vezes não passam do segun- do corte. Ocorrem prejuízos de, em média, 20 a 23 toneladas/ha/ano nas áreas infestadas. Atualmente a praga encontra-se disseminada em 30 municípios próxi- mos à região de Piracicaba, além de cinco municípios mais distantes, existin- do a perspectiva de aumento de sua dispersão de ano a ano. A disseminação da praga por meio do trânsito de mudas é a hipótese mais provável para expli- car a rápida expansão da área infestada, visto que o inseto praticamente não voa e seu caminhamento é lento, com uma reduzida taxa de dispersão. O método mais recomendado para o controle da praga é o cultural, que consiste na destruição antecipada das soqueiras nas áreas infestadas, destina- das à reforma, preferencialmente no período de maio a setembro. A seguir a área deverá ser mantida livre de plantas hospedeiras da praga e o próximo plan- tio deverá ser realizado o mais tarde possível, em março-abril, em ciclo de cana de ano e meio, reduzindo, desta forma, a probabilidade de infestação a partir dos adultos que normalmente es- tão presentes em maiores quantidades no período de janeiro a março. As mudas a serem utilizadas no plantio deverão estar isentas da praga, sendo originárias de áreas não infestadas ou tendo sido colhidas em sistema de corte basal alto com até 20cm acima do nível do solo. Os métodos de controle que inclu- em a aplicação de inseticidas ou a distri- buição de iscas tóxicas apresentam as desvantagens de necessitarem o dis- pêndio elevado com mão-de-obra e a necessidade de reaplicações constan- tes. Em relação às áreas destinadas ao plantio de viveiros, recomenda-se o pre- paro antecipado e a inspeção das mudas provenientes do viveiro anterior, que deverão estar totalmente isentas de qual- quer forma biológica da praga, sendo Figura 2: Larva de S.levis 16 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 adotado o corte basal alto em situa- ções de necessidade de uso de deter- minada muda com a presença da pra- ga. Biotecnologia X Sphenophorus levis No Brasil, a área cultivada de cana-de-açúcar sofrerá nos próximos anos um incremento significativo de- vido, principalmente, ao interesse de alguns países, como Japão e China, em importar álcool para se adequarem ao Tratado de Kioto, que regula a emis- são de gases poluentes na atmosfera. Certamente a importância dessa praga vai aumentar com o incremento da área plantada, sendo necessário a bus- ca por novas táticas de controle menos agressivas ao meio ambiente. A bactéria entomopatogência Bacillus thuringiensis (Bt) é empre- gada no controle de diversas pragas, existindo mais de 200 produtos dispo- níveis no mercado. Uma das descober- tas que aumentou sua utilização ocor- reu em 1983, quando foi isolado e caracterizado o Bt tenebrionis, eficaz contra coleópteros. Desde então mui- tos estudos foram desenvolvidos, e atualmente existem produtos eficazes para estes insetos. Entre os aspectos favoráveis destes produtos, destaca- se: seletividade, preservando o ambi- ente e os inimigos naturais das pragas (Glare & O’Callagham, 2000). As toxinas Cry responsáveis por grande parte da atividade inseticida desse patógeno localizam-se nos cris- tais protéicos. Geralmente cada toxina Cry é caracterizada por um gene cry específico, o que facilita a sua manipu- lação genética. Com os avanços na engenharia genética foi possível, em 1985, a obtenção da primeira planta geneticamente modificada resistente a insetos. Estas plantas têm apresenta- do algumas limitações quanto a sua eficácia, principalmente devido à rápi- da evolução da resistência (Glare & O’Callagham, 2000) causada pela gran- de pressão de seleção que exercem sobre os insetos (Tappeser, 1997). Porém, se adequadamente manejadas e usadas racionalmente (Tappeser, 1997; Neppl, 2000), representam uma importante tática dentro do manejo integrado. O impacto de produtos à base de Bt e plantas-Bt no ambiente é pouco estudado, embora muitas especula- ções sejam feitas. As principais preo- cupações são: expressão de caracte- rísticas fenotípicas indesejáveis, fluxo gênico e permanência das toxinas no solo após a morte da planta (Glare & O‘Callagham, 2000). Porém, os relatos sobre esses impactoscitados são raros, ao passo que os agrotóxicos têm efei- tos negativos já comprovados tanto sobre o ambiente como para a saúde humana. Além disso, esse produtos podem afetar os inimigos naturais que atuam no controle biológico natural de outras pragas, como D. saccharalis. Deve-se ressaltar que a utilização de plantas geneticamente modifica- das evita o trânsito e utilização em demasia de máquinas e implementos, que pode compactar e comprometer a estrutura do solo. Tal premissa está de acordo com estudos realizados pela Universidade de São Paulo, que apon- tam a viabilidade do preparo reduzido do solo nesta cultura. Em 5 anos, os dados dos sistemas de preparo indica- ram uma diminuição de custos da ordem de 28,9% entre os preparos convencional e reduzido, e de 46,9% na comparação entre convencional e direto (Luz et al., 2003). É importante enfatizar que essa praga ocorre em reboleiras, e a utiliza- ção de plantas expressando toxinas Cry, somente nestes locais favorece o manejo da evolução resistência dos insetos a planta-Bt, pois diminui a pressão de seleção destas plantas so- bre as populações das pragas, preser- vando indivíduos suscetíveis que ao cruzar com os resistentes retardam a evolução resistência (Neppl, 2000). Outro fato favorável é que a cana-de- açúcar é colhida antes do florescimento, evitando o risco de fluxo gênico entre as plantas de espécies diferentes. De um modo geral, as autorida- des responsáveis pela liberação do cultivo de plantas geneticamente modificadas estão sofrendo pressões para reduzir ou proibir o seu plantio em muitos países devido, principal- mente, à falta de trabalhos indepen- dentes sobre o impacto do seu uso no agroecosistema. Glare & O’Callagham (2000) enfatizam a necessidade de realização destes estudos para verifi- car a viabilidade desta tática de contro- le dentro do contexto do manejo inte- grado de pragas. No caso da cana-de-açúcar, a pesquisa deve iniciar pela seleção em laboratórios de isolados do patógeno eficientes contra as pragas (testes de patogenicidade, virulência) ou por material já caracterizado contendo to- xinas Cry ativas para as espécies-alvo em questão (Cry1J, IH, 3 e 8). Após esta etapa, os genes cry selecionados serão clonados e sequenciados para posterior inserção na planta por técni- cas de transgenia. Após a obtenção da planta geneticamente modificada, se- rão conduzidos testes em campo para avaliar a eficiência. Todas as partes da planta ou somente a sua parte inferior podem expressar a(s) toxina(s) escolhida(s) e quando o inseto se alimenta da planta, este ingere a toxi- na, cessa a sua alimentação em 5-10 min, e morre cerca de 3 dias após a ingestão. Com a finalidade de selecionar isolados de Bt eficientes para o esse curculionídeo estão sendo realizado ensaios em laboratório para verificar a patogenicidade (se Bt causa morte do inseto ou não) e, posteriormente, viru- lência (agressividade do agentes patogênico), uma vez que nada existe na literatura sobre efeito desse entomopatógeno sobre o sphenophorus. Bioensaio de patogenicidade O isolamento do Bt a partir de amostras de solos e o bioensaio foram realizados no Laboratório de Patologia e Controle Microbiano de Insetos da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP) em Piracicaba- SP. Neste biensaio foram utilizados isolados de Bt obtidos a partir de amostras de solos, conforme método adaptado da Organização Mundial da Saúde (WHO, 1985), onde cada amos- tra de 1 g do substrato foi homogeneizada em 10 mL de solução salina (0,006 mM FeSO 4 .7H 2 O; 0,01 mM CaCO 3 .7H 2 O; 0,08 mM MgSO 4 .7H 2 O; 0,07 mM MnSO 4 .7H 2 O; 0,006 mM ZnSO 4 .7H 2 O; pH 7,0) e submetida à agitação durante 24 h. Uma alíquota de 1 ml foi transferida Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 17 para tubo de microcentrífuga tipo “eppendorf” e, após choque térmico (80 oC por 12 min) para eliminar as células vegetativas, foi diluída 10 e 100 vezes em solução salina. Uma alíquota de 100 ml da última diluição foi distribuída em placa de Petri con- tendo ágar nutritivo (0,05% extrato de levedura; 0,01% de triptona; 0,17 M NaCl e 0,023% de ágar bacteriológi- co). O material foi então mantido em estufa, 30 oC durante 48 h. As colônias obtidas foram avalia- das quanto à morfologia (forma, bor- do, elevação, estrutura, tamanho e coloração), selecionadas para as carac- terísticas correspondentes a bacilos e transferidas para meio contendo peni- cilina G a 100 mg/L, seletivo para B. thuringiensis e B. cereus (Jung et al., 1998). Os isolados inoculados neste meio foram mantidos 24 h a 30 oC e 180 rpm no agitador. Após este perí- odo cada amostra foi individualmente analisada quanto ao crescimento do microrganismo. Em seguida foram pre- paradas lâminas e observadas em microscopia de contraste de fase para a verificação da presença de corpos de inclusões parasporais (cristais) que permitem a diferenciação entre B. thuringiensis e B. cereus. Após, os isolados foram cultiva- dos por 48 h em ágar nutritivo. Após esse período foram feitas diluições sucessivas (10 e 10 x) para a determi- nação do número de esporos/mL para se obter uma suspensão com 3 x 108 esporos/mL, confor- me Alves & Moraes (1998). Em seguida, 100mL dessa suspen- são foi aplicada na su- perfície de um placa (3 x 1,5 cm) conten- do dieta artificial apro- priada para o desen- volvimento do inse- to, sobre a qual foi colocada uma larva (0,03g de peso mé- dio), após a evapora- ção do excesso de água. Os insetos utili- zados são provenien- tes de uma criação laboratorial perten- cente ao Núcleo de Pesquisa da COPERSUÇAR em Piracicaba-SP. Para cada isolado, denominados como ESALQ Bt – 5, 20, 95, 244, 245, 246, 277 e 279, foram testados 45 insetos distribuídos em 3 repetições. O mate- rial foi acondicionado em B.O.D. a 70±10% RU e 25±2oC e a avaliação da mortalidade foi feita 7 dias após a aplicação dos tratamentos. Os dados foram submetidos a Tukey 5% para verificar a diferença entre os trata- mentos (SAS Institute, 1982). Apesar da maior mortalidade ob- servada ter sido baixa (26,66%), o resultado obtido com o isolado ESALQ Bt 95 mostra que a bactéria Bacillus thuringiensis é patogênica (tem ativi- dade tóxica) para S. levis, mostrando potencial para ser utilizada no contro- le de praga. Este é o primeiro relato de atividade desse entomopatógeno para o sphenophorus. A seleção dos isola- dos continuará a fim de encontrar um isolado altamente virulento que possa ser utilizado em transgenia visando ao controle dessa praga. Conclusão Este trabalho mostrou que a bactéria entomopatogênica Bacillus thuringiensis é promissora para o con- trole de S. levis. Literatura citada Alves, S.B.; Moraes, S.B. Quantificação de inóculo de patógenos de inse- tos. In: ALVES, S.B. (Ed.). Contro- le microbiano de insetos. 2.ed. Piracicaba: FEALQ, 1998. cap. 23, p.765-778. Bento, J.M.S.; Vilela, E.F.; Lucia, T.M.C.D. Considerações sobre a história do estudo e emprego de feromônios no Brasil. In: VILELA, E.F.; LUCIA, T.M.C.D. (Eds.). Feromônios de insetos. 2. ed. Ribeirão Preto: Editora Holos, 2001. cap 18, p.147- 160. Glare, T. R.; O’Callaghan, M. Bacillus thuringiensis: biology, ecology and safety. Chichester: John Wiley & Sons, 2000. 350 p. Jung, Y.C.; Kim, S.U.; Côte, J.C. et al. Characterization of a new Bacillus thuringiensis subsp. Higo strain isolated from rice bran in Korea. Journal of Invertebrate Pathology, v.71, n.1, p.95-96, 1998. Luz, P.H.C.; Montezuma, M.; Scaléa, M. Plantio direto e preparo reduzido ganham terreno. JornalCana, n.111, p.34-36, 2003. Neppl, C. C. Managing resistence to Bacillus thuringiensis toxins. B.A. Tese. Universidade de Chicago, 2000. 35 p. SAS Institute.User’s Guide: Statitics. SAS Institute. Cary, NC, 18, 1982. 520p. Teppeser, B. The differences between conventional Bacillus thuringiensis strains and transgenic insect resistance plants. Possible reasons for rapid resistance development and susceptibility of non-target organisms. Open- endind Group on Safety, 6 p. 1997. World Health Organization. Informal consultation on the development of Bacillus shaericus as a microbial larvicide. Geneva/UNDP: World Bank/WHO. 24 p. Special Program for Research and Training in Tro- pical Diseases (TDR). odalosI *)%(edadilatroM QLASE tB 59 a66,62 AHNUMETSET b88,8 QLASE tB 542 b88,8 QLASE tB 02 b66,6 QLASE tB 642 b66,6 QLASE tB 5 b66,6 QLASE tB 772 b44,4 QLASE tB 442 b22,2 QLASE tB 972 b0 Tabela 1: Atividade de isolados de Bacillus thuringiensis para larvas de Sphenophorus levis. 18 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 Similaridade genética em GRUPOS DE AVESTRUZES José Ribamar Felipe Marques Zootecnista., Dr. em Genética Embrapa Amazônia Oriental marques@cpatu.embrapa.br Maria Rosa Costa Eng. Agro., M.Sc. em Genética Embrapa Amazônia Oriental mrco@cpatu.embrapa.br Silvaney Fonseca Ferreira Bolsita PIBIC/CNPq/UFPA Embrapa Amazônia Oriental Paulo Henrique Sá Maia M. Veterinário PG – Ciência Animal UFPA/ EMBRAPA Raimundo Nonato Camargo Jr. M. Veterinário PG – Ciência Animal / UFPA / EMBRAPA Ilustrações cedidas pelos autores Pesquisa Similaridade genética em grupos de avestruzes (Struthio camelus) na Amazônia Caracterização e uso de recursos genéticos animais criação de avestruzes ou estrutiocultura apresenta grande desenvolvimento no País e, na região amazônica, o número de criadores vem aumen- tando bastante nos últimos anos, o que faz deduzir que, em pouco tempo, essa atividade assumirá papel impor- tante no âmbito da produção animal. Algumas pesquisas sobre o comporta- mento e o manejo desses animais estão sendo desenvolvidas em alguns criatórios regionais e, dentro de pouco tempo, darão importantes respostas para a criação dessas aves na Amazô- nia. Na área da biologia molecular não há informações, até o momento, de qualquer estudo, com a espécie, na região, contudo, na região Sudeste, alguns autores têm desenvolvido aná- lises de PCR voltados para sexagem (Bello & Sánchez, 1999; Malagó Jr. et al., 2002;) e, fora do país, há informa- ções de estudos com marcadores microssatélites na detecção de polimorfismos na espécie (Kumari & Kemp, 1998). Este estudo é pioneiro no bojo de um projeto mais abrangente que visa desenvolver tecnologias de manejo associadas à detecção de índices zootécnicos para um sólido estabele- cimento do avestruz na região amazô- nica, respeitando-se as peculiaridades de clima, solo e outras variáveis que interferem na criação animal. O Avestruz (Struthio camelus) pertence ao grupo das ratitas, ou seja, é uma ave corredora, sendo originária da África do Sul. Apresenta tempera- mento dócil e grande rusticidade (Negrini, 2002; Taguchi, 2002; Nithack, Figura 1 Animais da fazenda MARAVEST Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 19 2001). Podem ser classificadas em subespécies, ou seja, S. camelus camelus, australis, siriacus, domesticus. No Brasil encontra-se em maior escala a Black Neck (Pescoço Preto) denominada, em geral, de African Black, sendo a mais difundida pelo temperamento dócil, rusticidade e, con- seqüentemente, alta produtividade, es- tando adaptada às diversas regiões, onde são criadas, comercialmente. Em menor escala encontra-se a Red Neck (Pescoço Vermelho) e a Blue Neck Tabela 1.Identificação dos indivíduos. Belém – PA, 2004. ºN edadilacoL 1VA F123 AM,zirtarepmI 1 2VA 651 AM,zirtarepmI 1 3VA F04 AM,zirtarepmI 1 4VA F26 AM,zirtarepmI 1 5VA MA157 AM,zirtarepmI 1 6VA F012 AM,zirtarepmI 1 7VA F603 AM,zirtarepmI 1 8VA M902 AM,zirtarepmI 1 9VA M581 AM,zirtarepmI 1 01VA M271 AM,zirtarepmI 1 11VA F413 AM,zirtarepmI 1 21VA 802 AM,zirtarepmI 1 31VA F31ETEUQIP AP,auetaucarT 1 41VA F5ETEUQIP AP,auetaucarT 1 51VA RONEMGELF22 AP,auetaucarT 1 61VA ROIAMGELF22 AP,auetaucarT 1 71VA ednarGgeLM22 AP,auetaucarT 1 81VA geLM22 AP,auetaucarT 1 91VA F5 AP,auetaucarT 1 02VA 42M7 AP,auetaucarT 1 12VA 92M71 AP,auetaucarT 1 22VA F51 AP,auetaucarT 1 32VA M31 AP,auetaucarT 1 (Pescoço Azul) (Kiss, 2002; Nithack, 2001). A importância da atividade decor- re em função dos produtos e subprodutos que oferece, sendo que a carne, além de apreciada pelo paladar, possui todos os requisitos atuais de um alimento altamente saudável: baixíssimo teor de colesterol, pouca gordura, alto teor de proteína e alto teor de ferro, etc. (Taguchi, 2002). A característica de carne magra se deve à distribuição da gordura no corpo, que se concentra em volta do estômago e abaixo da pele (Negrini, 2002). Os derivados como couro (pele), as plu- mas e ovos e, ainda, o aproveitamento secundário de tendões, córneas e gor- dura (Nithack, 2001) a tornam imbatí- vel em valor agregado, sendo alta- mente rentável. Por outro lado, os ovos, além da incubação, podem ser utilizados na alimentação, por possuí- rem propriedades nutricionais seme- lhantes ao ovo de galinha. Os ovos não-fecundados são utilizados em ar- tesanato na fabricação de peças deco- rativas que alcançam cotações bastan- te expressivas no mercado de arte (Taguchi, 2002). O óleo é utilizado na indústria de medicamentos e cosméti- cos, assim como as pestanas na fabri- cação de pincéis. As córneas por se assemelhar à córnea humana, estão em estudo para serem utilizadas em transplante para seres humanos (Taguchi, 2002). Por tudo isso, o mercado potenci- al para essas aves na região é muito grande, inclusive para o aproveita- mento de áreas já abertas, degradadas e improdutivas, sem abertura de no- vas fronteiras de pastagens, o que a torna, ainda, uma importante alternati- va de produção de proteína nobre ecologicamente correta, pois o Brasil é bastante favorecido pelo seu clima e solo, sendo considerado pela comuni- dade mundial como um dos países de maior potencial para o crescimento dessa atividade. O presente trabalho tem como objetivo efetuar uma análise prelimi- nar de alguns grupos genéticos criados na Amazônia, avaliando o grau de similaridade, como ferramenta para o desenvolvimento de ações de melho- ramento genético, utilizando mais ra- cionalmente a variabilidade existente nos plantéis, visando a maior produti- vidade animal. Material e métodos Germoplasma O material investigado foi com- posto de 23 indivíduos, provenientes das fazendas MARAVEST (12), locali- zada em Imperatriz – MA (Figura 01) e PERI-CIGANO (11), em Tracuateua – PA (Figura 02). Os animais em ambas as proprie- dades são pertencentes à raça Black 1 Localidade 20 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 Neck ou African Black, conforme es- pecificado na Tabela 01. O sangue foi coletado em tubos vacutainer de 5ml contendo EDTA (anticoagulante) e mantido em refri- geração até o processamento no Labo- ratório de Genética e Biologia Molecular - LABGEN da Embrapa Ama- zônia Oriental. O DNA genômico foi extraído a partir de 150 µl de sangue total ao qual foi adicionado 5 ml de tampão STE, 250 µl de SDS 10% e 100 µl de proteinase K (10mg/ml), dei- xando-se 40 minutos a 55 0C em contínua agitação. Em seguida adicio- nou-se 2ml de NaCL 5M, agitando cuidadosamente por 15 segundos e acrescentou-se 5ml de clorofórmio: álcool isoamílico ( 24:1) agitando por inversão durante 15 minutos até a completa homogeneização. Após centrifugar por 15 minutos a 4 0C e 12.000 rpm. A parte superior foi cuida- dosamente isoladae submetida a etanol absoluto, o que ocasionou a precipitação do DNA que foi, em se- guida, centrifugado por 10 minutos a 4 0C e 12.000 rpm, lavado com 1000µl de etanol 70 %, para remover sais e, posteriormente, seco à temperatura ambiente, por aproximadamente 12 horas. O DNA foi ressuspendido com 100 µl de TE . A concentração de DNA foi estimada em gel de agarose 1,0 %, pela comparação do DNA total com três concentrações do DNA lambda. As amostras utilizadas no RAPD, após a quantificação, partiram de diluições da amostra total em água estéril, de modo a conter 5 ng/µl de DNA. As alíquotas foram armazenadas a –20 0C. Para a triagem dos “primers” foram selecionados 6 indivíduos aleatoria- mente e foram testados 160 “primers” de 8 kits da Operon Technologies. Os “primers “que apresentaram padrão de amplificação de má qualidade, ban- das fracas ou rastros foram excluídos. Dentre os primers polimórficos foram selecionados aqueles que possuíam pelo menos três bandas. Os primers randômicos utilizados no RAPD foram: OPB03, OPB09, OPQ04, OPQ05, OPQ06, OPQ07, OPQ09, OPQ20, OPF09, OPF10, OPAW08, OPO08, OP015 e OPO19. As reações RAPD foram desen- volvidas, de acordo com o protocolo de Williams et al. (1990), modificado, num volume final de 13 µl, contendo água destilada autoclavada; 20 mM Tris-HCl (pH 8,0); 50 mM KCl; 2,0 mM MgCl2; 200 µM de cada dNTP; BSA purificada (2,5 mg/ml); 1,3 µM primer arbitrário; 1U.I. Taq DNA polimerase e 15 ng de DNA genômico, cobertas com duas gotas de óleo mineral. As amplificações foram realizadas em termociclador de DNA Thermolyne Amplitron II, modelo DB.80225, sen- do realizados 40 ciclos de 1’ a 94 0C, 1’ a 37 0C e 2’ a 72 0C, seguidos de mais 7’ a 720 C, para a completa extensão dos produtos amplificados. O método utilizado para a separação dos produ- tos amplificados foi a eletroforese ho- rizontal, em gel de agarose 1,5%, cora- do com brometo de etídio 1mg/ml. Utilizou-se 13 µl de cada reação, acres- cido de 2 µl de uma solução de azul de bromofenol (40 %), mais sacarose. Utilizou-se TBE (Trizma base 0,1 M; Ácido bórico 1M e EDTA 0,5M), como tampão do gel e de corrida. Após a eletroforese, os géis foram visualizados e fotografados em equi- pamento de foto documentação, por transiluminação em ultravioleta. Aplicou-se um ladder de 1Kb no início e no final do gel para definir o tamanho aproximado dos fragmentos gerados nas PCRs. Inicialmente, construiu-se uma matriz para os fragmentos polimórficos amplificados com presença (1) e au- sência de banda (0). Somente foram consideradas as bandas que não da- vam margens a dúvidas. Bandas muito fracas, de difícil resolução, não foram incluídas. Para análise dos dados, utili- zou-se o NTSYS-pc (Numerical Taxonomy and Multivariate Analysis System), versão 2.02. A similaridade entre as amostras foi estimada pelo coeficiente de Jaccard, que gerou a matriz de similaridade. A partir dessa matriz, foi gerado o cluster, pelo mé- todo UPGMA (“Unweighted Pair-Group Method Using Arithmetic Average”), que foi expresso na forma de um dendograma (Figura 5) Resultados e discussão Figura 2 – Detalhe de animais da fazenda PERI – CIGANO Figura 3. Eletroforese do RAPD gerado pelo primer OPQ06. A primeira e última colunas correspondem ao marcador Ladder e as demais aos genótipos analisados. Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 21 Um total de 76 marcadores RAPD, com tamanhos variando de 300pb a 2200 pb, foi amplificado pelos 14 primers utilizados, onde todos foram polimórficos. O número de fragmen- tos polimórficos por primer variou de 11 (OPQ-06) a 01 (OPQ-04, OPB-03 e 09). Observou-se dentre os fragmen- tos amplificados, a ocorrência de ban- das específicas aos indivíduos. Na Fi- gura 3, visualizam-se exemplos destes marcadores. Estimaram-se os índices de similaridade para todos os indivídu- os analisados (Figura 4). A maior dissimilaridade foi obtida, comparando-se o indivíduo Av23 com o Av18 (7 %) de Tracuateua-PA. Isso indica que estes indivíduos são candidatos potenciais, como fonte de variabilida- de, visando o melhoramen- to genético, pois se trata de genótipos com carac- terísticas gênicas diversas. Por outro lado, a maior si- milaridade genética foi en- tre o Av7 e o Av4 (83 %) de Imperatriz-MA, indican- do que, para a realização de acasalamentos, os ma- chos escolhidos como reprodutores devem ser de diferentes origens, para aumentar a variabilidade dos descendentes. Na Figura 5, encon- tra-se o dendograma, ge- rado pelo método UPGMA, através do programa NTSYS-pc, 2.02. Esta aná- lise de distância genética gerou o cluster, que mos- tra a separação dos aces- sos, em dois grupos princi- pais. No primeiro grupo encontra-se isolado o indi- víduo AV9, indicando ser ele um potencial reprodutor, em função de, provavelmente, possuir um conjunto gênico dife- renciado. No segundo gru- po, que se subdividiu em dois subgrupos, com coe- ficiente de similaridade, va- riando de 7% a 83%, inclu- em-se 22 indivíduos, oriun- dos das duas localidades, demonstrando que num trabalho de melhoramen- to genético deve-se lançar mão para ordenar os acasalamentos dos indiví- duos mais dissimilares, ou seja, quanto menor for a similaridade dos indivíduos maior será a resposta fenotípica, isto é, a produtividade de carne, a fertilidade e quantidade de ovos, além da apresentação dos ani- mais como um todo. Observou-se gran- de divergência em alguns materiais, oriundos da mesma localidade, indi- Figura 4. Matriz de distância genética estimada pelo coeficiente de Jaccard para todos os indivíduos analisados. 1 vA 2 vA 3 vA 4 vA 5 vA 6 vA 7 vA 8 vA 9 vA 1 vA 11 vA 21 vA 31 vA 41 vA 51 vA 61 vA 71 vA 81 vA 91 vA 02 vA 12 vA 22 vA 32 vA 1 vA 00 .1 2 vA 65 .0 00 .1 3 vA 75 .0 26 .0 00 .1 4 vA 26 .0 46 .0 17 .0 00 .1 5 vA 35 .0 46 .0 56 .0 37 .0 00 .1 6 vA 66 .0 26 .0 36 .0 97 .0 07 .0 00 .1 7 vA 26 .0 55 .0 95 .0 38 .0 07 .0 67 .0 00 .1 8 vA 64 .0 46 .0 85 .0 85 .0 06 .0 65 .0 94 .0 00 .1 9 vA 63 .0 61 .0 13 .0 43 .0 72 .0 33 .0 83 .0 01 .0 00 .1 1 vA 33 .0 22 .0 12 .0 52 .0 81 .0 04 .0 52 .0 81 .0 72 .0 00 .1 11 vA 15 .0 05 .0 45 .0 75 .0 37 .0 55 .0 36 .0 84 .0 53 .0 41 .0 00 .1 21 vA 34 .0 73 .0 25 .0 46 .0 34 .0 35 .0 94 .0 83 .0 43 .0 73 .0 43 .0 00 .1 31 vA 13 .0 33 .0 24 .0 93 .0 54 .0 83 .0 24 .0 73 .0 02 .0 81 .0 74 .0 84 .0 00 .1 41 vA 34 .0 45 .0 16 .0 76 .0 46 .0 65 .0 45 .0 36 .0 91 .0 81 .0 95 .0 35 .0 24 .0 00 .1 51 vA 04 .0 93 .0 34 .0 84 .0 95 .0 94 .0 65 .0 44 .0 62 .0 01 .0 57 .0 72 .0 63 .0 26 .0 00 .1 61 vA 05 .0 06 .0 76 .0 57 .0 27 .0 36 .0 66 .0 26 .0 42 .0 02 .0 26 .0 35 .0 25 .0 66 .0 25 .0 00 .1 71 vA 24 .0 63 .0 25 .0 55 .0 25 .0 65 .0 25 .0 73 .0 63 .0 93 .0 14 .0 66 .0 25 .0 54 .0 73 .0 45 .0 00 .1 81 vA 63 .0 53 .0 33 .0 14 .0 54 .0 04 .0 54 .0 43 .0 52 .0 71 .0 15 .0 12 .0 72 .0 63 .0 64 .0 74 .0 52 .0 00 .1 91 vA 84 .0 74 .0 35 .0 36 .0 85 .0 27 .0 85 .0 15 .0 03 .0 83 .0 35 .0 45 .0 34 .0 06.0 05 .0 06 .0 75 .0 04 .0 00 .1 02 vA 63 .0 15 .0 54 .0 05 .0 25 .0 34 .0 83 .0 05 .0 61 .0 32 .0 24 .0 43 .0 03 .0 06 .0 43 .0 05 .0 43 .0 14 .0 94 .0 00 .1 12 vA 25 .0 83 .0 63 .0 14 .0 04 .0 84 .0 64 .0 04 .0 71 .0 53 .0 14 .0 43 .0 23 .0 04 .0 34 .0 93 .0 13 .0 43 .0 34 .0 23 .0 00 .1 22 vA 45 .0 35 .0 95 .0 57 .0 96 .0 57 .0 96 .0 05 .0 23 .0 23 .0 06 .0 75 .0 94 .0 36 .0 05 .0 47 .0 36 .0 93 .0 77 .0 25 .0 24 .0 00 .1 32 vA 03 .0 42 .0 82 .0 13 .0 92 .0 44 .0 92 .0 03 .0 32 .0 34 .0 12 .0 54 .0 62 .0 82 .0 32 .0 13 .0 64 .0 70 .0 84 .0 31 .0 43 .0 34 .0 00 .1 22 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 AV1 AV2 AV8 AV3 AV4 AV7 AV6 AV5 AV16 AV19 AV22 AV14 AV11 AV15 AV20 AV13 AV12 AV17 AV21 AV18 AV10 AV23 AV9 0.27 0.41 0.55 0.69 0.83 Coefficient cando, talvez, que houve aquisição de animais de origens diversas, o que pode ser importante para imprimir maior variabilidade ao plantel, sendo fundamental para o estabelecimento de linhas de melhoramento genético mais eficazes. Conclusões Os marcadores RAPD mostraram- se eficientes para detectar polimorfismo nesta espécie e podem ser utilizados como uma poderosa fer- ramenta na obtenção de informações úteis para o manejo e o direcionamento de programas de melhoramento ge- nético. Este estudo de diversidade gené- tica permitiu a obtenção de informa- ções úteis, entretanto, acredita-se que, incluindo outras populações e outras técnicas moleculares, pode-se obter um quadro geral da diversidade na espécie na região. Agradecimentos Os autores agradecem aos pro- prietários das fazendas MARAVEST, Drs. Pedro e Lécio Galleti (Imperatriz – MA) e PERI-CIGANO, Dr. Luís No- gueira (Tracuateua – PA) que estão apoiando os trabalhos de pesquisa na região e cederam o material biológico para este trabalho. Referências bibliográficas BELLO N, SÁNCHEZ A: The identification of a Sex-specific DNA marker in the ostrich using a random amplified polymorphic DNA (RAPD) assay. Molecular Ecology, 1999, 8(4):667-669. KISS, J. Avestruz. 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Nucleic Acids Research, v.18, p.6531-6535, 1990. Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 23 Estudo ecofisiológico sobre Endomicorrizas Solange Maria Costa de Amorim Doutora, Professora Adjunta. Laboratório de Ecofisiologia da Unidade Experimental Horto Florestal da Universidade Estadual de Feira de Santana-UEFS samorim_maria@superig.com.br samorim@uefs.br Ana Claudia Borja Paim Mestre, Bióloga - Centro Universitário de Cultura e Arte da Universidade Estadual de Feira de Santana-UEFS anaclpaim@ig.com.br Magnólia Góes Silva Mestre, Bióloga sqmagnolia@bol.com.br Ilustrações cedidas pelos autores Pesquisa 1. Introdução Micorrizas são associação mutualista presente na maior parte de plantas vasculares e resultando desta simbiose o incremento da absorção dos elementos minerais, enquanto o fungo obtém compostos de carbono derivados da fotossíntese (Allen, 1992). Desta forma, a planta tem acesso a uma maior quantidade de água e de elementos nutricionais do solo, incrementa o seu crescimento e de- senvolvimento, além de otimizar a sua resistência aos estresses bióticos e abióticos. Nas últimas décadas, têm-se mul- tiplicado as evidências do efeito bené- fico das associações micorrízicas com diversas plantas superiores de impor- tância econômica. Na natureza, po- dem ser encontrados diferentes tipos de micorrizas: Arbutóide, Monotóide, Ericóide, Endomicorriza, Ectomicorriza e Orquidióide. Em algumas espécies vegetais é tão acentuada a dependên- cia à presença desses fungos que, na ausência total da simbiose, não conse- guem absorver os nutrientes necessá- rios para a sua sobrevivência (Allen, 1992). O presente artigo tratará sobre o tipo Endomicorrizas, presente na mai- oria das Angiospermas, nas suas hifas penetram nas células, produzem arbúsculos dentro das células coloniza- das (estruturas responsáveis pela trans- ferência bidirecional de nutrientes en- tre os simbiontes, realizados na interfase planta-fungo), podendo ou não for- mar vesículas (estruturas globosas e irregulares cuja função está associada ao armazenamento de lipídios e açú- cares). Os fungos micorrizos arbusculares são Zigomicetos da família Endogonaceae que promovem o cres- cimento das plantas e elevam o seu potencial para a exploração comercial em larga escala. Além de possuírem o efeito comprovado como bio-regula- dores de crescimento, biofertilidade e biocontrole em plantas, sendo estes muito importantes para o manejo e aclimatação de várias espécies vege- tais (Silveira, 1992). A associação entre o desenvolvi- mento vegetal e a atividade micorrízica pode ser considerada, também, como um fator importante na recuperação dos solos degradados, pois mesmo quando profundamente alterados, eles podem manter uma comunidade microbiana ativa. Os fungos micorrízicos arbusculares (MA) ou endomicorrizicos, por exemplo, têm sido naturalmente encontrados nesses solos alterados os fungos MA nativosFigura 1. Colonização micorrízica em raízes de Myracrodruon urundeuva Fr. All. irrigadas diariamente em viveiro com sombrite, filtrando de 70 % da radiação solar. O efeito do déficit hídrico sobre a colonização endomicorrízica em duas espécies vegetais típicas da região semi-árida do Nordeste 24 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 podem interferir na composi- ção, na competição e na su- cessão das comunidades ve- getais (Bethlenfalvay, G.J., 1992). Embora a ocorrência de micorrizas no reino vegetal seja um fenômeno bastante co- mum, o grau de dependência das diferentes espécies de plantas, através da associação de fungos micorrízicos em suas raízes, é bastante variável Cox & Sanders (1980). Diferentes trabalhos mostram a contribui- ção das micorrizas em áreas de revegetação que sofreram interferên- cias antropogênicas e em muitos se tem enfatizado a relevância desta rela- ção simbiótica às variações das condi- ções atmosféricas como temperatura, chuvas, ventos e umidade (Chu et al. 2001; Taiz, 2000; Siqueira, 2002). Esta experimentação objetivou avaliar as relações entre a colonização endomicorrízica em Myracrodruon urundeuva Fr. All. (aroeira-do-sertão) e Spondias tuberosa Arr. Cam. (umbu), pertencentes à família Anacardeaceae,submetidas a diferentes condições tem- porais de déficit hídrico. 2. Material e métodos O estudo foi desenvolvido no Laboratório de Ecofisiologia da Unida- de Experimental Horto Flores- tal da Universidade Estadual de Feira de Santana – BA. As plantas experimentais foram obtidas a partir de cultivo sob condições de viveiro com sombrite, filtrando 70% da ra- diação solar, onde foram sub- metidas ao estresse hídrico com dois meses de idade. O material vegetal consti- tuiu-se em duas espécies da família Anacardiacea, Myracrodruon urundeuva Fr. All. e Spondias tuberosa, Arr. Cam. de reconhecido potenci- al econômico na região semi- árida do Nordeste, cujas sementes fo- ram obtidas no Centro de Pesquisa Agropecuária do Trópico Semi-Árido- CPATSA da Empresa Brasileira de Pes- quisa Agropecuária-EMBRAPA. No período de aplicação do défi- cit hídrico, foram monitoradas as taxas de transpiração, mg cm-2s-1 com a utilização do porômetro de difusão LICOR 1600C nos horários de 09:00 e 10:00 horas (aroeira) e 09:00, 11:00 e 13:00 horas (umbu) A suspensão do déficit hídrico foi determinada pela apresentação de alterações fisionômicas como a coloração e dis- posição foliares (Larcher, 2000) e fisi- ológicas como a redução significativa (quase nula) das taxas de transpiração e para a aplicação do tratamento foi instalada uma barreira de plástico cris- tal transparente na mesa onde as mu- das estavam sendo cultivadas (Paim, 2002; Silva, 2004). Após a suspensão do tratamento hídrico foi avaliada a colonização endomicorrízica em amostras de raízes de Myracrodruon urundeuva (aroeira- do-sertão) e Spondias tuberosa (umbu).As raízes foram clareadas com hidróxido de sódio e água oxigenada alcalina. Após a lavagem em água corrente, acidificada com ácido clorí- drico, e posteriormente, fo- ram coloridas com azul de algodão segundo as técnicas de Phillips & Hayman (1970) modificada por Grace & Stribley (1991). Posterior- mente, a colonização foi ava- liada e abordada de modo qualitativo (Carneiro et al. 1998) através de fotomicrografia das lâminas em microscópio NIKON. Para a categorização quanto à co- lonização, as amostras foram classificadas em alta, média, baixa e sem colonização, me- diante a presença de hifas, arbusculos, vesículas, células reprodutoras e esporos. O solo utilizado para o cultivo de aroeira e do umbu foi da região de Feira de Santana com textura franco- arenosa, segundo a classificação do Ministério da Agricultura – USA, e com baixo teor de fósforo (4,8mg/dm3 de P) segundo análise do Laboratório de física e nutrição do solo do Centro Nacional de Pesquisa de Mandioca e Fruticultura – EMBRAPA. 3. Resultados e discussão Através de observações micros- cópicas, pode-se registrar que a colo- nização micorrízica ocorreu em todos os tratamentos de irrigação, de acordo com as condições experi- mentais utilizadas, ou seja, um viveiro (Figuras 1, 2, 3 e 4). M y r a c r o d r u o n urundeuva Fr. All. e Spondias tuberosa Arr. Cam apresentaram um incre- mento na formação de esporos intra-radiculares ao serem aplicados os trata- mentos de déficit hídrico (Figura 3 e 4), embora te- nha sido diferenciado o tem- po de tolerância ao estresse hídrico entre as duas espé- cies vegetais em estudo (sete dias em aroeira e nove dias em umbu). De acordo com Cavalcante et al. (2001), a contribuição dos fungos micorrízicos arbusculares é otimizada em condição de cultivo sujeito à defi- Figura 3. Colonização micorrízica em raízes de Spondias tubero- sa Arr. Cam. irrigadas diariamente em viveiro com sombrite, filtrando de 70 % da radiação solar. Figura 2. Colonização micorrízica em raízes de Myracro- druon urundeuva Fr. All. submetidas a sete dias de déficit hídrico em viveiro com sombrite, filtrando de 70 % da radiação solar. Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 25 0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 CONTROLE DÉFICIT HÍDRICO CONTROLE DÉFICIT HÍDRICO M A SS A SE CA (g ) AROEIRA UMBU PARTE AÉREA RAIZ ciência hídrica, atribuindo-se o papel preponderante da relação fungo-plan- ta para a manutenção do crescimento do vegetal sob estresse hídrico. Para ambas espécies vegetais foram deter- minadas intensidades da colonização radicular média e alta para os trata- mentos de irrigação diária e suspensão de rega respectivamente. Embora a colonização micorrízica tenha sido semelhante entre as espé- cies vegetais, neste estudo, constatou- se que houve diferenças na produção de massa seca entre aroeira e umbu (Figura 5). Em Spondias, na qual hou- ve um significativo incremento do crescimento radicular, o efeito do tra- tamento com déficit hídrico foi potencializado. Em aroeira, o déficit hídrico em condições de cultivo, ocasionou o comprometimento do desenvolvimen- to inicial, embora beneficiadas pela simbiose com fungos micorrízicos arbusculares (Figura 5). Estes resultados corroboram com as considerações de Janos (1988) e Koide (1991) relacionadas ao grau de interação entre o fungo-planta. A colonização radicular pode sofrer altera- ções, mas o seu potencial de resposta à colonização pare- ce ser uma característica in- trínseca, de herança genéti- ca relacionado às caracterís- ticas morfológicas, fisiológi- cas ou fonológicas do hos- pedeiro, os quais controlam a demanda e suprimento de P, e, assim como, o grau de dependência da planta. Sob condições de déficit hídrico, as raízes parecem atuar como “sensor primário” que desencadeia, a partir de seus carotenóides, a síntese e o acúmulo endógeno de ácido abscísico (ABA) que é transportado para dife- rentes partes da planta. Nas folhas atuam reduzindo a taxa transpiratória, a condutância estomática e, conse- qüentemente, a fotossíntese (Riccardi et al. 1998; Medina et al., 1999 e Larcher, 2000). Em aroeira e umbu, foram observadas respostas temporais ao déficit hídrico em amplitudes dife- rentes (Figuras 6, 7 e 8). Neste estudo com aroeira e o umbu pode-se sugerir que a eficiência da colonização micorrízica relacionou-se com o po- tencial genético de cada uma delas. O umbuzeiro é endêmico da re- gião do semi-árido brasileiro, apresen- ta características morfológicas como raízes com parênquima armazenador de água, glicose, amido, mucilagens entre outros compostos que possibili- tam a sua sobrevivência mesmo por um período prolongado de seca, indi- cando o seu elevado grau de ajusta- mento ecológico. Nas regiões onde ocorre a aroeira- do-sertão é observado que a baixa disponibilidade hídrica que se consti- tui em fator limitante para o cresci- mento inicial de muitas espécies ve- getais inclusive, como observaram Sil- va et al. (2001), nos meses mais quen- tes do ano, a aroeira-do-sertão aumen- ta o teor de carboidratos nos tecidos foliares sugerindo que esta é uma estratégia para garantir a sua sobrevi- vência no período de seca. 4. Conclusão Myracrodruon urundeuva (aroeira-do-sertão) é menos tolerante do que Spondias tuberosa (umbu) ao déficit hídrico durante o seu desenvol- vimento inicial em condições de culti- vo. O déficit hídrico incrementa o crescimento das raízes micorrizadas de umbu na fase inicial de crescimen- to, refletindo o seu potencial genético Figura 5 - Produção de massa seca da parte aérea e radicular em Myracrodruon urundeuva (aroeira) e Spondias tuberosa (umbu) micorrizadas e submetidas ao déficit hídrico. Figura 6 - Medições da taxa de transpiração (µg cm –1 s-1) com o porômetro LICOR 1600 em plan- tas de aroeira-do-sertão e umbu micorrizadas submetidas ao dé- ficit hídrico. Figura 4. Colonização micorrízica em raízes de Spondias tuberosa Arr. Cam. submetidas ao déficit hídrico por nove dias em viveiro com sombrite, filtrando de 70 % da radiação solar. 26Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 0 2 4 6 8 10 1 2 3 4 5 6 7 SUSPENSÃO DE IRRIGAÇÃO (DIAS) T R A N S PI R controle déficit hídrico Figura 7 - Variação da taxa de transpiração (µg cm –1 s -1) em plantas de aroeira-do-sertão micorrizadas sub- metidas ao déficit hídrico por sete dias. Figura 8 - Variação da taxa de transpiração (µg cm –1 s -1) em plantas de umbu micorrizadas submetidas ao déficit hídrico por nove dias. 0 2 4 6 8 1 2 3 4 5 6 7 8 9 SUSPENSÃO DE IRRIGAÇÃO (DIAS) TR AN SP IR AÇ ÃO controle déficit hídrico em sobreviver em ambientes xéricos. 5. Referências bibliográficas ALLEN, M. A. The ecology of mycorrhizae. Cambridge. Cambridge University Press, 1992. BETHLENFALVAY, G.J., Mycorrhizae in agriculture plant-soil system, v.14, p.413-425, 1992. CARNEIRO, M. A.; SIQUEIRA,. O.; MOREIRA, F. M. 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Departamento de Saúde Faculdade de Tecnologia de Sorocaba, FATEC epelosi@uol.com.br Wanderley Dias da Silveira Ph.D.Departamento de Microbiologia e Imunologia, Instituto de Biologia, Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP, Campinas. wds@unicamp.br Ilustrações cedidas pelos autores Pesquisa Introdução aumento populacional, jun- tamente com o crescimento desordenado das cidades, tem levado, paulatinamente, ao des- gaste qualitativo e ao consumo irreversível das fontes de abasteci- mento, incluindo, aqui, as fontes aqüíferas para consumo, uso domésti- co e agricultura. O esgoto urbano bru- to é resultante dos despejos domésti- cos e industriais, o qual lançado num manancial contribui para sua degrada- ção, afetando sua qualidade (JORDÃO et al., 1995). Assim, com a finalidade de pou- par as fontes naturais, a água já utiliza- da por seres humanos para consumo próprio, ou outras finalidades, deve passar por processos de tratamento que permitam a sua reutilização segu- ra sem causar processos de morbidade à saúde e/ou mortalidade. A implantação de uma estação de tratamento de efluentes (ETE) tem por objetivo reduzir a carga contaminante ou poluente das águas residuárias, de modo que o efluente final tratado possa retornar para o corpo d’água, sem provocar a degra- dação do meio e não causar riscos à saúde do homem (BORSOI et al., 2002; Von SPERLING, 1996). O presente trabalho relata o uso de bacteriófagos (fagos líticos), vírus que lisam bactérias, como método para a redução de número de unida- des formadoras de colônias (UFC) de bactérias potencialmente patogênicas para os seres humanos e presentes em estações de tratamento de esgotos (ETE), com o objetivo de minimizar possíveis processos de morbi-mortali- dade causadas por essas mesmas bac- térias quando da utilização da água para consumo. A principal vantagem de utilizar fagos líticos como controle bacterioló- gico, e ferramenta complementar em tratamento de efluentes nas ETEs resi- de na propriedade que eles possuem de se replicarem apenas na presença de seu hospedeiro específico, levan- do à lise celular bacteriana com produ- ção de novos fagos, os quais mantêm seu ciclo de lise enquanto existirem células bacterianas disponíveis para sua replicação, o que deverá, teorica- mente, levar a uma diminuição pro- gressiva dos possíveis contaminantes bacterianos presentes as ETEs (DAVIS et al., 1973). Por outro lado, os mes- mos fagos podem estar presentes den- Figura 1: Curva de avaliação de morte celular bacteriana de Staphylococcus aureus (Sa), determinada através da contagem de UFC. A: Curva controle contendo apenas Sa. B: Curva Sa contendo fago não mutante. C: Curva Sa’ contendo fago mutante lítico obrigatório. Os dados são médias de 2 repetições ± desvio padrão da média. Gráfico: Mariana Roberta dos Reis Controle biológico bacteriano e tratamento de efluentes através do uso de bacteriófagos 28 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento- Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 tro do genoma de sua célula hospedei- ra, em estado quiescente ou profágico, e não levar à lise celular dele. Por esse motivo, a obtenção e utilização de fagos mutantes que realizem apenas o ciclo lítico para posterior utilização nas ETEs é um objetivo que deve ser alcançado. Como dentro dos resíduos das ETEs existem milhares de espécies bacterianas diferentes, muitas das quais potencialmente contendo um ou mais fagos específicos, este trabalho teve por objetivo selecionar fagos que pu- dessem ser utilizados para o objetivo acima e dentre esses, selecionar um para a obtenção de mutante que obri- gatoriamente realizasse apenas o ciclo lítico. Metodologia e resultados Seleção de fagos Para essa finalidade, suspensões contendo material bruto de diferentes ETEs (industriais, hospitalares e municipais) foram coletados em condições de assepsia, filtradas em membranas Millipore de 0,2µm e o sobrenadante resultante mantido em condições de refrigeração (4°C). Um volume de 200µL dessas suspensões foi, a seguir, adicionadas a culturas bacterianas líquidas purificadas (Shigella flexneri, Shigella sonnei, Klebsiella pneumoniae, Salmonella typhimurium, Escherichia coli , Streptococcus pyogenes, Staphylococcus aureus) e mantidas em cultivo (37°C) por 12 horas. A seguir, os meios foram centrifugados e os sobrenadantes armazenados entre 4°C e 8°C, após filtração. A confirmação de fagos específicos na cultura de cada uma das bactérias foi realizada através do mesmo procedimento observando- se agora, ou o não crescimento bacteriano, ou a diminuição da turbidez do meio de cultura líquido. A obtenção de fagos purificados específicos foi realizada através da metodologia descrita por DAVIS et al., 1973 e a observação do sobrenadante líquido através de microscopia eletrônica (PALMER, 1988). Posteriormente, cada fago isolado em uma determinada cultura bacteriana foi testado contra as demais culturas para confirmar a sua especificidade. Obtenção de fago lítico mutante obrigatório Para isto, uma suspensão bacteriana contendo Staphylococcus aureus, com um bacteriófago em seu interior, foi submetida ao tratamento com luz ultravioleta (260nm) (5% de sobrevivência de UFC/mL) e o sobrenadante obtido, após filtração, novamente testado contra essa cultura bacteriana, usando-se como controle uma cultura contendo essa bactéria e a suspensão do fago não-lítico obriga- tório. A seguir, após nova filtração, o sobrenadante (300µL) foi adicionado a 200µL da cultura bacteriana receptora e a mistura adicionada a 4mL de meio LA semi-sólido e, então, incubada a 37°C por 30min, para haver a interação do fago com a célula bacteriana. Esta suspensão final foi, então, adicionada sobre uma placa contendo 15mL de meio LA (conforme metodologia des- crita por SAMBROOK et al., 1989, com modificações). Após incubar a 37°C durante a noite uma placa de lise (a que apresentou halo o mais translúcido possível) foi retirada do ágar e adicio- nada a uma cultura bacteriana em fase exponencial de crescimento. Após cultivo (37°C) por 12 horas e centrifugação (12.000rpm), o sobrenadante foi novamente filtrado e mantido em estoque a 4°C. Utilização do fago lítico mutante obrigatório no controle de células bacterianas específicas Suspensões fágicas, não mutante e mutante, obtidas como descrito an- teriormente, foram, separadamente, adicionadas em culturas contendo Staphylococcus aureus (1:1000) em fase exponencial de crescimento (5x106 UFC/mL) e alíquotas (100µL) retiradas, diluídas seqüencialmente, na razão 1:10, e semeadas em placas de Petri contendo meio LA. Após cresci- mento (37°C, 12h) as UFC/mL foram determinadas. Resultados e discussão Assim, como há preocupação no sentido de tornar pura a água captada em rios, fontes ou poços, antes de servi-la à população, também há pre- ocupação quanto ao destino dos esgo- tos sanitários, sabendo-se que o des- pejo “in natura”, nos rios, tem conse- qüências danosas à saúde das popula- ções, ocorrendo, não raras vezes, uma relação entre manifestações de doen- ças de transmissão fecal-oral e a exis- tência de focos de contaminação. Tal situação, porém, pode ser minimizada com o tratamento de esgotos sanitári- os. Há várias opções disponíveis para tratamento de efluentes, que devem ser avaliadas segundo critérios de via- bilidade técnica e econômica, além de adequação às características topográfi- cas e ambientais da região. Depen- dendo das necessidades locais, o trata- mento pode se resumir aos estágios preliminar, primário e secundário (COS- TA, 2004). No entanto, quando o lançamen- to dos efluentes tratados se der em corpos d’água importantes para a po- pulação, seja porque deles se capta a água para o consumo, seja porque são espaços de lazer, recomenda-se tam- bém o tratamento terciário caracteri- zados pelo uso de hipoclorito de sódio, ozonização, luz ultravioleta, etc. (LINSLEY et al., 1992). A abundância e a importância ecológica dos vírus nos meios aquáti- cos têm sido atestadas com o aumento do número de estudos voltados para eles. Segundo TEDIASHVILI et al., 2003, os fagos apresentam um papel importante no controle da densidade e diversidade da população bacteriana no meio. Eles também são considera- dos indicadores naturais da população microbiológica do efluente. Neste trabalho, procuramos obter fagos que pudessem ser utilizados como tratamento complementar, aos já disponíveis, para a diminuição do número de bactérias potencialmente patogênicas presentes em ETEs. Para isso, a primeira etapa foi a obtenção de bacteriófagos a partir da água de diferentes ETEs sendo obtidos fagos com capacidade de lise de todas as amostras bacterianas estudadas, a mai- oria dos quais com especificidade para uma determinada bactéria utilizada como hospedeiro. A exceção a esse comportamento foi um bacteriófago, isolado em Shigella flexneri, que tam- bém apresentou capacidade de lise de Shigella sonnei e Escherichia coli. Existem muitos estudos com efei- Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 29 tos da luz UV em diferentes microrga- nismos (ANGEHRN, 1984; MASSCHELEIN, 2002; OPPENHEIMER et al., 1993). Lâmpadas UV emitem radiação num comprimento de onda entre 240-260nm, comprimento de onda no qual o ácido nucléico absorve a energia (ANGEHRN, 1984). A luz UV causa mutação através da formação de dímeros de pirimidinas nas bases nitrogenadas existentes ao longo da cadeia de DNA (MASSCHELEIN, 2002). Assim, o uso dessa luz pode causar mutação nos genes responsáveis pela manutenção adequada do vírus no estado de profago e liberar vírus que possuam apenas a capacidade lítica. Dessa maneira, entre todos os fagos específicos que foram isolados, e com a finalidade de simplificar os resultados obtidos, utilizamos aqueles originários de Staphylococcus aureus para a irradiação com luz UV e obten- ção de fagos líticos obrigatórios. Verificou-se que, após irradiação para a determinação da dose letal que levava à sobrevivência de 5% das UFC/mL (7,75 x 105 UFC/mL), um elevado número de placas de lise em cultura sensível (Staphylococcus aureus). No teste realizado “in vivo”, os fagos mutantes líticos obrigatórios de Staphylococcus aureus foram utiliza- dos, sendo obtida uma diminuição do número de UFC/mL de 55,4% do cres- cimento bacteriano, em relação ao controle A utilizado. Uma diminuição maior do núme- ro de UFC/mL pode não ter sido obtida devido à provável existência da pre- sença de bacteriófagos integrados ao genoma de uma parcela da população da bactéria hospedeira, Staphylococcus aureus, o que torna essas bactérias imunes à lise fágica (LEWIN, 1987). Isso, porém, não inviabiliza nossos resultados, pois diferentes tipos de fagos líticos obrigatórios, específicos para a bactériahospedeira, podem ser selecionados e utilizados com o pro- pósito de provocar o aumento da lise bacteriana, minimizando, assim, a pos- sível presença de fagos em estado profágico. Nosso trabalho demonstra que fagos líticos obrigatórios podem ser obtidos a partir de fagos não mutantes, pré-existentes, como já descrito na literatura (NAKASHIMA et al., 1998) e que o uso deles em uma cultura celular “in vivo” pode levar a uma diminuição no número de unidades formadoras de colônias e, consequentemente, dimi- nuição do número de bactérias patogênicas presentes em uma deter- minada ETE. Dessa maneira, sugerimos que o uso de fagos líticos específicos pode ser obtido para qualquer tipo bacteriano, inclusive aqueles patogênicos presentes no esgoto bru- to, e que o uso deles pode ser utilizado de maneira complementar àqueles já preconizados em estações de trata- mento de águas residuais. Outrossim, suspensões contendo diferentes fagos, para diferentes espécies bacterianas, poderiam ser utilizados para tal finali- dade, levando a uma diminuição glo- bal de prováveis patógenos. Conclusão Os resultados aqui obtidos de- monstram que o isolamento de fagos específicos pode ser realizado a partir de fagos presentes em águas residuais obtidas a partir de estações de trata- mento de esgotos. A partir destes isolados de fagos podem ser obtidos fagos líticos obriga- tórios, de maneira prática, rápida e de baixo custo. Os fagos líticos podem ser utiliza- dos de maneira complementar aos métodos já existentes para a diminui- ção do número de bactérias patogênicas presentes em uma determinada esta- ção de tratamento, o que torna esse tratamento mais eficiente e, portanto, a água a ser liberada dela com menor potencial patogênico. Referências Bibliográficas ANGEHRN, M. Ultraviolet disinfection of water. Aqua, 1984, n.2, p. 109- 115. BORSOI, Z.; CAMISÃO, M. L.; LANARI, N.; TORRES, S.; GOMES, S. M. Tra- tamento de Esgoto: Tecnologias Acessíveis. Informe infra-estru- tura, Área de projetos de infra- estrutura, n.16, nov. 1997. COSTA, A. J. F. Saneamento ambiental. Disponível em: <http:// federativo.bndes.gov.br/dicas/ D 1 2 1 % 2 0 - %20Saneamento%20ambiental .htm>. Acesso em: 16 jun. 2004. DAVIS, B. D.; DULBECCO, R.; EISEN, H. S.; GINSBERG, H. S.; Jr WOOD, W. B. Microbiologia. São Paulo: EDART, 1973. 4v. V.4: Virologia. JORDÃO, E. P.; PÊSSOA, C. A. Trata- mento de Esgoto Doméstico. 3ªed. 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Campana-Filho, Dr. Instituto de Química de São Carlos - IQSC Universidade de São Paulo - USP São Carlos, SP. scampana@iqsc.usp.br Ilustrações cedidas pelos autores Introdução A quitina é um polissacarídeo extremamente abundante na nature- za, perdendo somente para celulose em disponibilidade. Pode ser encon- trada em diversos organismos como em insetos e crustáceos, sendo o prin- cipal constituinte das cascas de cama- rão e das carapaças de caranguejo. A quitosana também é um polissacarídeo que ocorre naturalmente em alguns fungos, mas que geralmente é obtido pela desacetilação da quitina, uma reação que pode ser executada em diferentes condições empregando di- ferentes alcalis. Entretanto, a execu- ção da reação de desacetilação de quitina em temperaturas elevadas e empregando soluções concentradas de NaOH é o método mais usual para a obtenção de quitosana (Campana & Desbrières, 2000). A quitosana pode ser definida como um copolímero de 2–amino-2– desoxi–D–glicopiranose e 2– acetamido–2–deoxi–D–glicopiranose, de composição variável em função do grau residual de acetilação, cujas uni- dades também estão unidas por liga- ções β (1→4) (Figura 1). O termo quitosana é usado para identificar copolimeros contendo mais de 50% a 60% de unidades desacetiladas, en- quanto quitina corresponde a produ- tos muito mais acetilados. Como con- seqüência de seus diferentes conteú- dos de unidades acetiladas, quitina e quitosana possuem diferentes graus de solubilidade, sendo que quitina é insolúvel na maioria dos solventes, enquanto a quitosana é solúvel em soluções aquosas de ácidos orgânicos e inorgânicos. As características e propriedades de quitosanas comerciais variam de acordo com os fatores do processo de manufatura. Tais propriedades inclu- em grau de pureza, solubilidade, vis- cosidade, grau de desacetilação, mas- sa molecular e a capacidade de interagir com diferentes substâncias. A habilidade de adsorver metais, por exemplo, depende do processo de hidrólise dos grupos acetamido. As- sim, a desacetilacao homogênea de quitina resulta em quitosana com mai- or capacidade de adsorção do que aquela preparada por processo hete- rogêneo, ainda que os polímeros te- nham o mesmo grau de acetilação (Li, 1992). De fato, uma das mais importan- tes propriedades da quitosana é a de agir como quelante (Li, 1992), pois esta pode se ligar seletivamente a substâncias como o colesterol, gordu- ras, proteínas, células tumorais, e tam- bém a íons metálicos, o que tem originado sua exploração em diversas aplicações nos últimos vinte e cinco anos (Mathur, 1990; Roberts, 1992; Kurita, 1986). A capacidade da quitosana em interagir fortemente com íons metálicos dissolvidos em meios aquosos é consideravelmente superi- Figura 1: Representação esquemática da estrutura primária idealizada de quitosana, sendo n = grau de polimerização. Meio para interação com metais em fase aquosa Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 31 or à apresentada pela quitina. Contu- do, sua aplicação em processos de descontaminação fica limitada a efluentes de baixa acidez (pH > 6-7), considerando que a quitosana é solú- vel em meios de acidez moderada a forte, o que impede, ou pelo menos dificulta, sua utilização na forma de filtros, membranas ou colunas (Roberts,1992; Li, 1992; Kurita, 1986). As alter- nativas viáveis para estender as possi- bilidades de emprego de quitosana como quelante de íons metálicos a uma faixa mais ampla de pH são: i) a introdução de substituintes acila porta- dores de cadeias relativamente longas (Guibal, 1997); ii) a introdução de substituintes quelantes , como grupos aldeídos (Peter, 1995) e iii) o estabe- lecimento de um certo número de entrecruzamentos ou ligações covalentes intercadeias (Kurita, 1986; Guibal,1997; Koyama, 1986; Goy et al., 2002). Algumas aplicações de quitosana A produção industrial e o uso de quitina e seus derivados, principal- mente a quitosana, encontra-se em constante crescimento. Os principais fatores para este interesse podem ser atribuídos a: i) abundância de matéria- prima; ii) possibilidade de utilização de rejeitos fartos e de baixo custo oriundos da indústria pesqueira e iii) volume de pesquisas confirmando e ampliando continuamente o potencial de aplicação desses materiais. A Tabe- la 1 exemplifica de forma sucinta algu- mas áreas nas quais a quitosana tem sido aplicada, sendo a medicina e biotecnologia os campos mais investi- gados. Esferas de quitosana e entrecruzamento Quitosanas no formato de esferas e microesferas têm sido produzidas e amplamente empregadas em diver- sas áreas de biotecnologia, principal- mente como veículos de transporte e liberação de drogas ou substâncias no organismo (Genta, 1998; Josué, 2000). Trabalho recente (Chiou & Li, 2003) também relata o seu uso como meio de interação e remoção de tintas pre- sentes em efluentes industriais. O for- mato esférico é preferencialmente desejado por apresentar a vantagem de uma melhor caracterização superfi- cial, permitindo o estabelecimento de parâmetros geométricos úteis para reprodutibilidade do processo e para comparações, além de aspectos como otimização de empacotamento em reatores e dispositivos de filtração. Indústrias têxteis, de papel, cou- ro, plásticos, etc, invariavelmente ge- ram quantidades de efluentes que pre- cisam de tratamento adequado e a quitosana presta-se a essa aplicação por sua alta capacidade de adsorção. Os agentes usualmente utilizados em escala industrial para a adsorção de tintas apresentam capacidades de re- moção que podem variar de 50g/Kg a até 600kg/Kg. Contudo, a capacidade de adsorção pode ser elevada para valores próximos de 1000g/kg-1100g/ kg quando quitosana é empregada como composto coadjuvante (Chiou, 2003). Essa capacidade deve-se a protonação dos grupos amino da quitosana em solução ácida, facilitan- do assim a interação eletrostática com as cargas negativas dos corantes e pigmentos presentes nas tintas. Como em pH baixo a quitosana pode se dissolver, o entrecruzamento das suas cadeias tem sido sugerido para tornar o polímero mais estável e para facilitar a sua recuperação. Diversos reagentes entrecruzantes bifuncionais podem ser aplicados, contudo, o glutaraldeído é o mais empregado. Nesse sentido, Koyama e colabo- radores, 1986, compararam o compor- tamento de quitosanas solúveis e quitosanas homogeneamente entrecruzadas com glutaraldeído no que diz respeito à adsorção de íons cobre numa ampla faixa de pH. Ob- servaram que o entrecruzamento das cadeias de quitosana diminuiu a cristalinidade do polímero, contribuin- do para aumentar a capacidade de adsorção de íons cobre. Constataram também que a razão molar grupos aldeído (do glutaraldeído) / grupos amino (da quitosana) empregada na reação de entrecruzamento exerce forte influência sobre a capacidade de adsorção do material resultante. En- quanto a quitosana original adsorveu cerca de 74% de íons Cu2+, este valor elevou-se para 96% quando foi utiliza- da a quitosana entrecruzada empre- gando razão aldeído/amino=0,7/1. Porém, foi observado que a utilização de excesso de glutaraldeído resultava em diminuição da capacidade de adsorção diminuía. O aumento inicial na capacidade de adsorção foi atribu- ído ao aumento da hidrofilicidade do material e a maior acessibilidade aos grupos quelantes resultante da des- truição parcial da estrutura cristalina da quitosana causada pelo seu entrecruzamento. Por outro lado, a subseqüente diminuição da capacida- de de adsorção foi atribuída ao aumen- to da hidrofobicidade do material e devido a formação das bases de Schiff. Assim, pode ser concluído que o grau de entrecruzamento deve ser otimizado para garantir a insolubilidade do polímero sem entretanto diminuir sua capacidade de interação. Alem disso, o grau de entrecruzamento deve se adequar a aplicação, levando-se em consideração a massa molar da quitosana e a acidez do meio em que Figura 2: Gotejamento manual da solução de quitosana com seringa de insulina. Figura 3: Esferas em processo de neutraliza- ção de pH. 32 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 estará interagindo. Obtenção de quitosana a partir da quitina Neste estudo, quitina comercial extraída de cascas de caranguejo (Sigma; lote no 84H7175, C-7170), foi empregada para a preparação de quitosana. Para a execução da reação de desacetilação de quitina, adotou-se a seqüência estabelecida por Horton & Lineback, 1965, sendo a quitina triturada e então suspensa em solução aquosa de NaOH (40%), sob agitação mecânica constante a temperatura de 115 ± 2oC. A reação prosseguiu nessas condições por 6 horas. O meio reacional foi então filtrado e o precipitado abluído com água destilada até a neutralidade, sendo em seguida lavado com metanol. O precipitado foi transferido para uma placa de Petri e seco à temperatura ambiente. Purificação da quitosana Embora não seja um procedimen- to estritamente necessário nas aplica- ções industriais, a quitosana pode pas- sar por um processo de purificação para a remoção de sais remanescentes da desacetilação (principalmente acetato de sódio), impurezas e mate- riais insolúveis (principalmente quitina insuficientemente desacetilada). As- sim, a purificação disponibiliza mais grupos polares, aumentando a capaci- dade de interação (Assis, et al., 2004). Como procedimento de purificação adotou-se a seqüência proposta por Signini & Campana-Filho, 2001, ou seja, dissolveu-se 1,0g de quitosana lentamente em 300mL de ácido acético (0,5M), mantendo a suspensão resul- tante sob agitação contínua por apro- ximadamente 24 horas a temperatura ambiente. Após este período a solu- ção foi seqüencialmente filtrada sob pressão positiva através de uma série de membranas com tamanhos de po- ros decrescentes (8,0µm, 5,0µm, 0,8µm e 0,45µm) para remoção de frações insolúveis e géis. O material filtrado foi neutralizado com NH 4 OH concentrado provocando a precipita- ção da quitosana. O precipitado foi separado do sobrenadante por filtra- ção e então lavado exaustivamente com água destilada, seguido de imersão em metanol e secagem a temperatura ambiente. Preparação das esferas Três metodologias podem ser empregadas para a obtenção de esfe- ras de quitosana com dimensões con- troladas: i) Por coagulação, na qual a quitosana é dissolvida em meio ácido e gotejada sobre um banho alcalino coagulante para formação das esferas; o entrecruzamento é executado após a obtenção e neutralização das esferas; ii) Por inversão de fases, sendo as microesferas obtidas in situ pela disso- lução da quitosana em meio ácido contendo o agente de entrecruzamento e dispersão da fase aquosa em uma fase oleosa de manei- ra a obter materiais insolúveis e, iii) Pela técnica de spray-drying, na qual a quitosana purificada é dissolvida em meio ácido e a esta é adicionado o agente entrecruzante. A solução é então sugada por uma bomba peristáltica e as microesferas são formadas pela ação de ar comprimido que “interrompe” o fluxo e promove a formação das esfe- ras. A técnica mais simples é, semdúvida, a de coagulação em meio alcalino pelo gotejamento do polissacarídeo dissolvido em ácido e que foi aqui adotada. Assim, cerca de 1,5g de quitosana purificada foram dissolvidas em 37,5mL de solução de ácido acético 5% (m/v). A solução obtida, extremamente viscosa, foi go- tejada manualmente com o auxílio de uma seringa sobre solução de hidróxido de sódio concentrado (2,5M), o que provoca a imediata coagulação do gel Tabela 2: Viscosidades intrínsecas ([η]), constantes de Huggins (k H ), massas molares médias viscosimétricas ( vM ) e graus médios de acetilação ( GA ) da quitosana. seõçacilpA solpmexE augáedotnematarT aarapetnalucolfetnegaomoc;oãçaleuqadsévartasocilátemsnoíedoãçomeraN eoãçacifiralc;sadicibrehesetnaroc,saníetorpomocsaicnâtsbusedoãçanimile .anasotiuqesabasanarbmemedritrapaoãçartlif lepapeaploP azerudaratnemuaededadilanifamocsacisólulecseicífrepusedotnematartoN oaetnetsiseretnalosilepapedoãçnetboan;ohlirbodoãçaretlames sedadeirporpsaravelearapocifárgotoflepapmeosuon;otnemicehlevne .sacitátseitna aigoloncetoibeanicideM salulécedetabmocon;loretselocoartnocanasotiuqodnetnocseõçalumrofmE edsetneledoãçaraperpan;aimecueladotnematartonomoc,sanegírecnac etnalugaocitnaetnegaomoc;esiláidarapsanarbmemedoãçudorpan;otatnoc sarefseorcimedoãçacirbafanesetnegiletnisovitarucedoãçudorpan;oeníügnas .sagordedadalortnocoãçarebilarap socitémsoC siamedeazepmiledsemercme;upmaxmeamogedsarbosedoãçomeraN .olebaceelepedsotnematartedsotsopmoc earutlucirgA edotnemassecorp sotnemila edoãçomeran;sognufedoãçibiniaarapetnemesadeicífrepusanotnematartoN saicnâtsbuseonetorac-b,sodilósedoãçomeran;socirtícsocusmesetnaroc sarutrebocmeesohnivedoãçacifiralcan;aruonecedeãçamedsocusedsadicá .soturfarapsarotetorpsievítsemoc Tabela 1: Algumas aplicações da quitosana (Sanford, 1988, Laranjeira, 1995; Jameela, 1995; Gupta, 2000; Assis et al., 2003). Figura 4: Esferas de quitosana: (a) sem entrecruzamento e (b) após entrecruzamento com glutaraldeído (sem escala). Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 33 em formato esférico, Figura 2. A altura do gotejamento, as características da seringa e da viscosidade (concentra- ção) são parâmetros funda- mentais que devem ser ob- servados para a reprodutibilidade do proces- so. As esferas coaguladas fo- ram mantidas na solução al- calina por 16 horas, filtradas e lavadas abundantemente com água destilada até o equilíbrio do pH da água de lavagem (Figura 3). Após esta etapa as esferas foram dividi- das em três frações para a obtenção de dados compara- tivos: (a) parte das esferas foi submetida à reação de entrecruzamento com glutaraldeído, (b) parte foi seca a temperatura ambien- te sem entrecruzamento e (c) uma fração, não entrecruzada, congelada em nitrogênio líquido e liofilizada. O entrecruzamento con- sistiu na reação de quitosana com solução aquosa conten- do o agente entrecruzante durante uma noite. A concentração do glutaraldeído foi fixada em 2,5% e a razão entre glutaraldeído e quitosana foi de aproximadamente 15mL/g. Após o tempo de reação as esferas foram exaustivamente lavadas com água destilada, sendo a água de lavagem testada com reagente de Feder (Morita & Assumpção,1995) até que o sobrenadante aparecesse isento do aldeído. Características das esferas As principais características da quitosana obtida pela desacetilação da quitina comercial estão apresentadas na Tabela 2. Os dados caracterizam um material com alto grau de desacetilação (em torno de 90%) e média massa molar. Os valores das constantes de Huggins encontrados demonstram que as soluções são de boa qualidade, embora esses valores não sejam indicativos definitivos que não possu- am agregados. Para uma comprova- ção final seria necessário a utilização de demais técnicas complementares como a cromatografia de permeação em gel e métodos de espalhamento de luz, para obter evidências definiti- vas. Relativamente às esferas, o entrecruzamento com glutaraldeído modifica o aspecto visual do material, introduzindo alteração da cor, tenden- do a amarelo, Figura 4. O caráter hidrofóbico da quitosana entrecruzada é plenamente compro- vado por testes de solubilidade, assim como alterações, não apenas na colo- ração, mas na morfologia podem ser melhor observadas por microscopia eletrônica. A Figura 5 apresenta as micrografias das esferas nas condições avaliadas. Pelas micrografias pode ser ob- servado que no caso das esferas secas à temperatura ambiente e sem entrecruzamento (Figura 5 (a) e (b)) não há a ocorrência de poros em sua superfície e as esferas possuem diâ- metro de aproximadamente 800µm. Após o entrecruzamento observa-se a formação de pequenas estruturas granu- lares uniformemente distri- buídas na superfície, origi- nalmente não rugosa. Cons- tata-se, contudo, que o entrecruzamento não gera poros na superfície, preser- vando praticamente as di- mensões originais das esfe- ras antes do reticulamento. A condição que mais se di- ferencia é a da liofilização (Figuras 5 (e) e (f)), em que a esferas apresentam maior diâmetro (≅2x103µm ou 2µm) e superfície altamen- te porosa, caracterizando uma estrutura do tipo es- ponja. A ocorrência de poros na superfície das esferas não é uma característica indese- jável, pelo contrário. De fato, esta característica pode se tornar um fator determi- nante na interação do polis- sacarídeo com o meio, con- siderando que quanto maior a área superficial melhor será sua interação e conseqüentemente a capacidade de adsorver metais. Testes de interação com Cu2+ em meio aquoso Para avaliar a interação dessas esferas com íons Cu2+ foram realizados testes simples nos quais 50 mg de esferas (isoladamente em cada condi- ção) foram mantidas em solução aquo- sa de CuCl 2 (50 mg) sob agitação constante por três dias, pH≅5,3 e tem- peratura média de 25oC. Após este período o sobrenadante foi removido e analisado quanto ao conteúdo de íons cobre por espectroscopia de ab- sorção atômica, sendo os resultados apresentados na Tabela 3. Como pode ser constatado pelos dados acima, a presença de poros nas esferas parece ser um fator funda- mental para promover a adsorção dos íons de cobre. De fato, as esferas liofilizadas, que possuem superfícies porosas conforme constatado por microscopia eletrônica de varredura, Figura 5: Fotomicrografias das esferas de quitosana obtidas por MEV: (a) esfera seca a temperatura ambiente; (b) idem a (a), características da superfície; (c) esfera entrecruzada com glut- araldeído; (d) idem a (c), aspecto superficial; (e) esfera liofiliza- da e superfície resultante (f). 34 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 apresentaram capacidade de remoção de íons cobre muito superior àquelas exibidas pelas esferas de quitosana, entrecruzadas ou não. Assim, tal fato é atribuído a maior acessibilidade dos íons cobre aos sítios quelantes (grupos amino) da quitosana. Por outro lado, a menor capacidade de interação exibi- da pelas esferas entrecruzadas de quitosana deve ser atribuída ao esta- belecimento de ligações entrecruzadas, as quais se formam por reação dos grupos amino de quitosana com molé- culas de glutaraldeído. Assim, o consu- mo de grupos amino na reação de entrecruzamento é responsável pela menor capacidade de quelação das esferas entrecruzadas, pois uma me- nor quantidade de sítios quelantes fica disponível para a interação com os íons cobre presentes na solução. Cabe salientar, entretanto, que esses resultados se referem a uma condição físico-químico especifica, i. e., os experimentos de interação fo- ram realizados em pH=5,3 e, conside- rando que o grau de intumescimento dos materiais à base de quitosana é função do pH, assim como a especiação dos íonscobre também depende da acidez do meio, outras condições de- vem ser investigadas para permitir uma comparação mais abrangente entre esses materiais. Embora as esferas entrecruzadas adsorveram uma menor quantidade de íons, cabe salientar que as análises aqui apresentadas foram conduzidas em pH da água destilada, no qual nenhum dos materiais é solúvel. Para pHs mais ácidos os resultados eviden- temente serão diferentes, em decor- rência da insolubilidade do material entrecruzado. Referências bibliográficas ASSIS, O. B. G.; LEONI, A. M. Filmes comestíveis de quitosana: Ação biofungicida sobre frutas fatiadas. Biotecnologia: Ciência e De- senvolvimento. n.30, p.33 - 38, 2003. ASSIS, O.B.G.; BALDO, E.F.; SUAZO, C.A. Effect of purification step on wetting properties of chitosan thin- films. In The 6th International Con- ference of the European Chitin Society (EUCHIS ’04), Poznan, Poland, 2004 CAMPANA, S.P.; DESBRIÈRES, J. Chi- tin, Chitosan and Derivatives. Na- tural Polymers and Agrofibers Composites; (E. Frollini; A. L Leão; L. H. C. Mattoso eds.), USP; UNESP; EMBRAPA. p.41-71, 2000. CHIOU, M.S.; LI, H.Y. 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Tabela 3: Quantidades de moles de íons Cu2+ remanescentes nas soluções e a porcentagem de remoção desses íons por esferas de quitosana não entrecruzadas, entrecruzadas e liofilizadas. artsomA uCedseloM +2 setnecsenamer oãçulosan edoãçomeR uCsnoí +2 )%( adazurcertne-oãnarefsE 01x96,6 5- 34 adazurcertnearefsE 01x20,9 5- 32 adazilifoilarefsE 01x30,1 6- 19 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 35 Pesquisa Quorum sensing em sistemas agrícolas Norma Gouvêa Rumjanek PhD, Química Farmacêutica, Pesquisadora Embrapa Agrobiologia norma@cnpab.embrapa.br Mônica Cristina Cardoso da Fonseca Dra., Fitotecnica, Analista ambiental, IBAMA monica.fosenca@ibama.gov.br Gustavo Ribeiro Xavier Dr., Ciência do Solo, Pesquisador Embrapa Agrobiologia gustavo@cnpab.embrapa.br Ilustrações cedidas pelos autores Introdução Bactérias tradicionalmente defi- nidas como seres unicelulares de es- trutura celular procarionte podem atu- ar de maneira multicelular quando um determinado nível populacional críti- co é atingido. A percepção da densida- de celular resulta de uma comunica- ção intercelular mediada pela secre- ção de sinais moleculares sintetizados pelas células individuais. Estas molé- culas são detectadas por receptores específicos o que permite as células bacterianas “tomarem conhecimento” do tamanho da população através da concentração dos sinais, e quando o nível crítico é atingido elas passam a agir em grupo como um único organis- mo multicelular. Este nível crítico ca- racteriza, como no caso de uma as- sembléia, um “quorum” onde as ações passam a ser tomadas em conjunto. O comportamento coletivo pode ser vantajoso, como por exemplo, a migração para ambientes mais satisfatórios com melhor oferta de nu- trientes e, a adoção de novos modelos de crescimento, tais como, esporulação ou formação de biofilmes, que propi- ciam proteção contra efeitos deletéri- os do ambiente. Como os microrganis- mos apresentam uma diversidade me- tabólica e são capazes de ocupar todos os nichos onde a vida é termodinamicamente possível, as van- tagens advindas da atuação de bacté- rias como organismos multicelulares interessam a diferentes áreas do co- nhecimento, entre elas, a medicina e a agronomia, onde a natureza do com- portamento celular pode resultar na formação de simbioses e associações benéficas, ou adversas, causando es- tados patogênicos através da regulação de fenótipos específicos. Os sinais moleculares, também chamados de auto-indutores ou feromônios, regulam genes específi- cos que caracterizam o comportamen- to multicelular propiciando desta ma- neira a exploração do ambiente de maneira muito mais eficiente do que seria possível a células individuais. Densidades populacionais muito bai- xas de estirpes patogênicas, por exem- plo, teriam uma chance limitada de superar os sistemas de defesa de um hospedeiro (animal ou vegetal) e pro- mover com sucesso um ataque a este organismo. Neste caso, um retarda- mento na expressão dos fatores de virulência pelo agente patogênico até o momento que fosse atingido um número suficiente de células pode ser uma estratégia altamente interessan- te, uma vez que o sistema de defesa do organismo só seria ativado quando a situação estivesse mais favorável ao agente patogênico. De modo similar, bactérias benéficas responsáveis pela fixação de nitrogênio podem empre- gar este mecanismo para otimizar a formação de nódulos nas raízes das plantas. Bactérias capazes de produzir substâncias antagonistas que atuam como agentes de biocontrole, matan- do ou inibindo a proliferação de mi- crorganismos fitopatogênicos, também se beneficiam do mecanismo de per- cepção do “quorum”. Neste caso, as substâncias antagonistas são produzi- Comportamento multicelular em procarioto via comunicação intercelular 36 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 das apenas quando uma densidade populacional crítica da bactéria é atin- gida reduzindo as chances de apareci- mento de formas de resistência do patógeno o que dificultaria o controle destas populações. “Quorum sensing” “Quorum sensing” (QS) é o me- canismo de comunicação através do qual bactérias regulam a expressão de conjuntos de genes especializados em resposta à densidade celular (Cha et al., 1998). Hardman et al. (1998) refe- rem-se a QS como um exemplo de comportamento multicelular em procariotos que regula diversos pro- cessos fisiológicos,incluindo bioluminescência, biossíntese de anti- bióticos, transferência de plasmídeos por meio de conjugação e produção de fatores de virulência em patógenos de plantas e animais. A percepção do “quorum” é capaz, também, de pro- mover a diferenciação multicelular, desenvolvimento de corpos de frutificação e esporulação, assim como a ativação de processos de metabolis- mo secundário. A formação de biofilmes também tem sido considerada uma resposta ao mecanismo de QS. McLean e colaboradores (1997) detectaram a presença de sinais moleculares so- mente sobre extratos de rochas submersas onde havia a formação de biofilmes aquáticos. Nos extratos obti- dos de rochas sem biofilmes estes sinalizadores estavam ausentes. Os auto-indutores são moléculas pequenas produzidas pelas células bacterianas. Estas moléculas atraves- sam as células, algumas vezes por simples difusão, e se acumulam no ambiente em quantidade proporcio- nal ao crescimento celular. Por meio do mecanismo de QS, a bactéria é capaz de detectar a concentração de auto-indutores, e desta maneira per- ceber o tamanho da população. A partir de uma determinada concentra- ção limite dos auto-indutores, estes sinais servem de co-indutores e pas- sam a regular a transcrição de genes- alvo sendo que os produtos de trans- crição garantem, presumivelmente, alguma vantagem para a célula bacteriana nesta condição particular (Figura 1). Estudos in vitro têm mostrado que as bactérias utilizam uma grande variedade de sinalizadores, inclusive o estado nutricional e a densidade populacional, para perceber e respon- der ao meio biótico (Gray, 1997; Wirth, 2000). Histórico Os estudos sobre QS foram inici- ados no fim dos anos 60. Kenneth H. Nealson e Jonh Woodland Hastings e colaboradores (Nealson et al., 1970; Nealson, 1977) observaram uma ca- racterística peculiar na bactéria Gram- negativa, simbiótica, luminescente Vibrio fischeri (também citada como Photobacterium fischeri) que coloni- za órgãos luminosos especializados de certos peixes e cefalópodos, como a lula (Euprymna scolopes). Esta coloni- zação garante uma bioluminescência ao organismo e desempenha um pa- pel na atração da presa ou na camufla- gem. Esses pesquisadores descobri- ram que a bactéria V. fischeri, que coloniza a lula, é capaz de proporcio- nar invisibilidade ao seu hospedeiro. À noite, quando a lula se alimenta, a luminescência proveniente dos órgãos aruturtsE lacidaR alumróF omsinagrorciM HC 3 LSH-4C ,asonigureasanomoduesP .pssanomoreA HC 3 HC( 2)2 LSH-6C muiretcabomorhC muecaloiv HC 3 )2HC( 4 LSH-8C aicapecairedlohkruB HC 3 HC( 2)6 LSH-01C imehtnasyrhcainiwrE HC 3 HC( 2)5 HC(HCHC 2)3 LSH-41C-sic-7 sedioreahpsretcabodohR HC 3 HC( 2)2 LSH-6C-oxo-3 ,irehcsifmuiretcabotohP .psainisreY HC 3 HC( 2)4 LSH-8C-oxo-3 muiretcaborgA sneicafemut HC 3 HC( 2)6 LSH-01C-oxo-3 muraliugaoirbiV HC 3 HC( 2)8 LSH-21C-oxo-3 asonigureasanomoduesP HC 3 LSH-4C-ordih-3 ,iyevrahoirbiV sudbahroneX sulihpotamen HC 3 HC( 2)5 HC(HCHC 2)3 --sic-7-ixordih-3 LSH-41C murasonimugelmuibozihR Tabela 1: Estruturas de auto-indutores da classe dos ALHs encontrados em diversas espécies de bactérias. R N H O O OH R N H O O OH O R N H O O OH OH Fonte: www.quorum-sensing.de/ qsintro.html em 10/12/2002 (modificado). Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 37 luminosos é dirigida para o fundo do mar e regulada de forma a simular a intensidade da luz da lua e/ou estrelas, impedindo desta forma a projeção de qualquer sombra o que poderia atrair predadores (Visick & McFall-Ngai, 2000) (Figura 2). A bactéria marinha existe naturalmente tanto no estado planktônico de vida livre quanto como simbionte (Ruby & Nealson, 1976, Ruby & McFall-Ngai, 1992), porém, a luminescência só é observada quando a bactéria coloniza os órgãos dos ani- mais hospedeiros mencionados, não ocorrendo emissão de luz quando em vida livre. Do ponto de vista evolutivo parece ser coerente que a bactéria mantenha um controle rigoroso da bioluminescência, uma vez que o mecanismo através do qual a luz é produzida é altamente consumidor de energia. Por outro lado, estudos realizados sob condições de cultivo em meio líquido mostraram que a produção de luz só é ativada na presença de um grande número de células presente (Greenberg, 1997). Inicialmente, su- geriu-se que no meio líquido deveria estar presente um inibidor da luminescência que de alguma forma seria removido quando a população alcançasse um tamanho crítico (Kempner & Hanson, 1968). A expli- cação surgiu quando o cultivo foi rea- lizado num meio pré-exposto à bacté- ria, o que resultou no aparecimento da luminescência mesmo sob baixa den- sidade celular. Posteriormente, de- monstrou-se que a luminescência era iniciada não pela remoção de um inibidor, mas pelo acúmulo de uma molécula ativadora ou auto-indutora (Nealson et al., 1970; Eberhard, 1972). Esta molécula produzida e secretada pela bactéria ativava a luminescência quando uma concentração suficiente- mente alta era atingida. Desta forma, a bactéria é capaz de perceber a densi- dade celular através da detecção da concentração do auto-indutor. Auto-indutores em bactérias Gram-negativas A molécula produzida por V. fischeri foi isolada, caracterizada e identificada como N-(3-oxohexanoil)- lactona homoserina (3-oxo-C6-LHS) pela primeira vez em 1981 por Eberhard e colaboradores (Eberhard et al., 1981). As análises dos genes en- volvidos no QS em V. fischeri foram iniciadas por Engebrecht et al. (1983) que demonstraram que a bactéria re- gula a expressão de genes codificados para bioluminescência em resposta à densidade da população, levando a um modelo básico de QS nesta bacté- ria que é atualmente um paradigma para outros sistemas de QS similares. A pesquisa sobre a regulação da bioluminescência em V. fischeri levou a descoberta dos sistemas bacterianos de QS via N-acil lactonas homoserinas (ALHs). A partir desta descoberta, a identificação do mecanismo de QS em diferentes grupos bacterianos passou a ser antecedida da identificação dos sinais químicos moleculares respecti- vos (Kaiser & Losick, 1993; Costerton et al., 1995;; Kaprelyants & Kell, 1996). Estes sinais extracelulares são conhe- cidos genericamente como feromônios (Stephens, 1986; Kell et al., 1995; Moré et al., 1996; Hardman et al., 1998; Harris et al., 1998; Mäe et al., 2001), auto-indutores (Nealson, 1977; Meighen, 1991; Fuqua et al., 1996) ou auto-reguladores (Khokhlov, 1991). Figura 1: Mecanismo de “quorum sensing” regulado pela secreção de auto-indutores sintetizados pela célula bacteriana (A) que a partir de uma concentração crítica (B) passam a atuar como co-indutores e promovem a transcrição de genes-alvo (C). Aumento da densidade celular Aumento da concentração de auto-indutores Auto-indutor co-indutor DNA A B C 38 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 Os ALHs formam uma classe de moléculas sinalizadoras de QS geral- mente encontrada em bactérias Gram- negativas que apresentam uma estru- tura comum de aminoácidos modifica- dos (lactonas homoserinas) com radi- cais substituintes de cadeias acil (Ta- bela 1). No caso do V. fischeri, quando a população de bactérias atinge um de- terminado nível crítico, as moléculas do auto-indutor passam a interagir com proteínas chamadas LuxR, converten- do-as os fatores de transcrição ativos. É ativada então a transcrição do operon lux, cujo primeiro gene é o luxI. A partir daí, a proteína LuxI, codificada por este gene, cataliza a síntese de novas moléculas sinalizadoras ALHs (Dunlap & Greenberg, 1988; Fuqua et al., 1994; Fuqua et al., 1996). Sendo assim, a ativação por auto-indução resulta na produção de quantidades crescentes dosativadores funcionais (co-indutores) e, concomitantemente, a amplificação da transcrição do operon-alvo (Figura 3). Este tipo de circuito regulatório mediado por ALHs e proteínas perten- centes às famílias LuxR e LuxI é co- mum a uma grande quantidade de bactérias Gram-negativas e, é capaz de atuar, também, como regulador da expressão de genes envolvidos em interações microrganismo-microrganis- mo e hospedeiro-microrganismo, se- jam estas benéficas ou prejudiciais (Fuqua et al., 1996 e Swift et al., 1996). No início dos anos 90, foram des- cobertas outras bactérias Gram-nega- tivas que possuíam sistemas de QS regulando genes com diferentes fun- ções (Throup et al., 1995; Eberl et al., 1996; McClean et al., 1997; Puskas et al., 1997; Swift et al., 1997). Muitos destes sistemas empregam ALHs, o que levou ao desenvolvimento de bio-sensores capazes de detectar es- tas moléculas sinalizadoras em outras bactérias, como Enterobacter, Hafnia, Rahnella e Serratia (Swift et al., 1993; Winson, 1998). Desde então, este e, também, outros métodos têm sido usados para identificar um grande nú- mero de espécies que apresentam sistemas de QS. A Tabela 2 lista bacté- rias que possuem sistemas de QS ba- seados em moléculas ALHs e o fenótipo correspondente derivado da ativação do sistema. Auto-indutores em bactérias Gram-positivas As bactérias Gram-positivas se comunicam por meio de diferentes sinalizadores de QS. Muitas delas em- pregam peptídeos modificados pós- tradução obtidos a partir de precurso- res maiores. Ao contrário dos ALHs, estes peptídeos são geralmente secretados por transportadores depen- dentes de ATP. Alguns interagem com sensores de quinases ligados à mem- brana que transportam o sinal através da membrana, outros são transporta- dos diretamente para dentro da célula por permeases de oligopeptídeos, onde então interagem com recepto- res intracelulares. Estes sistemas estão envolvidos na regulação de processos tão diversos como virulência em Staphylococcus aureus, competência para aquisição de DNA em Bacillus subtilis e Streptococcus pneumoniae, esporulação em B. subtilis, transfe- rência de plasmídeo por conjugação em Enterococcus faecalis, e produção de bacteriocina em bactérias de ácido lático (Kleerebezem et al., 1997; Lazazzera & Grossman, 1998; Kuipers et al., 1998; Mayville et al., 1999; Novick & Muir, 1999). Uma segunda molécula sinalizadora de QS utilizada por bacté- rias Gram-positivas é a butirolactona, usada por várias espécies de Streptomyces para controlar a produ- ção e resistência à antibiótico (Bibb, 1996) e síntese de micélio aéreo (Nodwell & Losick, 1998). Comunicação entre diferentes espécies microbianas A maioria das bactérias que habi- tam água, solo, plantas e animais é Figura 2: Invisibilidade ou ausência de sombra conferida à presa (lula) através da ativação do mecanismo de “quorum sensing” que produz bioluminescência em Vibrio fischeri. Fonte: www.quorum-sensing.de/ qsintro.html em 10/12/2002 (modificado). Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 39 airétcaB sagolómohsaníetorP I/RxuLa HLAlapicnirP etnerrocedopitóneF aicnêrefeR alihpordyhsanomoreA IyhA,RyhA LSH-4C oãçamrof,ralulecartxeesaetorP emlifoibed ;c9991;b9991;7991,.latetfiwS 9991,.latehcnyL adicinomlassanomoreA IasA,RasA LSH-4C ralulecartxeesaetorP 7991,.latetfiwS sneicafemutmuiretcaborgA IarT,RarT LSH-8C-oxo-3 oãçagujnoC 9991,.laterepiP;4991,.lateauquF aicapecairedlohkruB IpeC,RpeC LSH-8C orofóredis,esaetorP 9991,.lateazneweL muecaloivmuiretcabomorhC IivC,RivC LSH-6C ,aníecaloiv,socitóibitnA otenaic,samizneoxe ,.lateninrehC;7991,.latenaelCcM 8991 snaremolggaretcaboretnE IgaE,RgaE LSH-6C-oxo-3 odicehnocseD 3991,.latetfiwS psbusarovotoracainiwrE arovotorac )IraC(IpxERpxE,RraC LSH-6C-oxo-3 ,menepabracocitóibitnA samizneoxe ,.latetfiwS;2991,.latenotniaB 3991,.latenenohriP;3991 imehtnasyrhcainiwrE )IhcE,RhcE(IpxE,RpxE LSH-6C-oxo-3 sesanitceP 8991,.lateressaN ilocaihcirehcsE AidS odicehnocseD ralulecoãsiviD 6991,.latevokintiS aeaporuesamosortiN odicehnocseD LSH-6C-oxo-3 galesafadaicnêgremE 7991,.laterolehctaB suetorpmuiretcabmusebO IrpO,RrpO LSH-6C-oxo-3 odicehnocseD 9991,.latetfiwS iitrawetsaeotnaP IasE,RasE LSH-6C-oxo-3 oedíracassilopoxE 5991,dnarraF&namdoBnovkceB asonigureasanomoduesP IsaL,RsaL LSH-21C-oxo-3 edoãçamrof,pcX,samizneoxE otnemaçapse,RlhR,emlifoib .alulécaaluléc ;7991,.lateévreH-nopahC ;1991,ikswelgI&ollebmaG terensselG;3991,.laterodassaP 9991,.la asonigureasanomoduesP )ImsV,RmsV(IlhR,RlhR LSH-4C ,SopR,otenaic,samizneoxE ,oedípilonmar,aninaicoyp,sanitcel 4opit.ilip tenosniW;6991;5991,.lateifitaL ;7991,.latenosraeP;5991,.la 9991,.laterensselG sneicafoeruasanomoduesP IzhP,RzhP LSH-6C anizanefocitóibitnA ,.latedooW;4991,.lateIIInosreiP 7991 snecseroulfsanomoduesP IzhP,RzhP odicehnocseD anizanefocitóibitnA 7991,.latewahS .vpeagniryssanomoduesP icabat IysP,RysP odicehnocseD odicehnocseD 9991,.latetfiwS muraecanalosainotslaR IloS,RloS LSH-8C odicehnocseD 7991,.latereivalF iltemuibozihR IiaR,RiaR odicehnocseD soludónedoremúnodoãçirtseR ,.latereyemesoR;6991,.lateyarG 8991 murasonimugelmuibozihR RihR --41C-sic-7-ixordih-3 LSH ,anicoiretcab,oãçaludoN esafanaicnêviverbos airánoicatse ;9991,.latesaledoR;7991,yarG 9991,smailliW&enrohT sedioreahpsretcabodohR IreC,RreC LSH-41C-sic-7 edadinumocanepacsE 7991,.latesaksuP sneicafeuqilaitarreS IrwS,RrwS LSH-4C esaetorp,otnemasnedA ,.latevoksviG;6991,.latelrebE 8991,.latemudniL;7991 muralliugnaoirbiV InaV,RnaV LSH-01C-oxo-3 odicehnocseD 7991,.latenotliM irehcsifoirbiV IxuL,RxuL LSH-6C-oxo-3 aicnêcsenimuloiB sulihpotamensudbahroneX odicehnocseD uoLSH-4C-ixordih-3 atsinogamu anairetcabesapil,aicnêluriV 7991,.lateyhpnuD acitilocoretneainisreY IneY,RneY LSH-6C odicehnocseD 5991,.latepuorhT sitsepainisreY IepY,RepY odicehnocseD odicehnocseD b;a9991,.latetfiwS sisolucrebutoduespainisreY IspY,RspY LSH-6C-oxo-3 oãçaremolga,edadiliboM 9991,.latenosniktA sisolucrebutoduespainisreY IbtY,RbtY LSH-8C odicehnocseD 9991,.latenosniktA irekcurainisreY IkuY,RkuY odicehnocseD odicehnocseD 9991,.latenosniktA Tabela 2: Espécies bacterianas que possuem sistemas de QS análogos ao de Vibrio fischeri. 40 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 parte de comunidades complexas com- postas por membros diversos, o que sugere a possibilidade de comunica- ção entre eles. A presença de algum tipo de comunicação pode propiciar que cada célula tome conhecimento do tamanho e composição destas co- munidades e, dessa maneira, se com- portar de modo que lhe seja mais vantajosa nesta situação. Uma bactéria é capaz de avaliar a comunidade de microrganismos que a circunda de várias formas. Moléculas sinalizadoras produzidas por espécies diferentes não necessariamente são únicas, o que propicia à bactéria a possibilidade de detectar a presença de outras estirpes que imitam o seu “dialeto”. Além disso, enquanto algu- mas moléculas sinalizadoras só são reconhecidas por pouquíssimas espé- cies, outras são reconhecidas por vári- as espécies diferentes. Estas espécies que reconhecem uma maior varieda- de de moléculas sinalizadoras, tendem a apresentar, no entanto, uma respos- ta mais efetiva frente à molécula sinte- tizada pelos seus próprios genes. A habilidade de comunicação en- tre diferentes espécies bacterianas apresenta ampla distribuição. Desde 1979, que Greenberg e colaboradores mostraram que 19 de 28 bactérias marinhas produziram fatores que in- duziram V. harveyi a gerar luz (Greenberg et al., 1979). Em V. fischeri, moléculas sinalizadoras exógenas po- dem se ligar à LuxR e impedí-las de funcionar normalmente, mesmo em presença de suas moléculas sinalizadoras. Em princípio, os micror- ganismospoderiam manipular-se mu- tuamente através de interferências nos sistemas de QS uns dos outros. Certamente existem dificuldades para se determinar as condições de atuação do mecanismo de QS em condições naturais, porém em condi- ções de laboratório, os resultados mos- tram que as bactérias podem ser con- fundidas reconhecendo auto-indutores produzidos por outras espécies. Pierson III & Pierson (1996) realizaram estu- dos com comunidades bacterianas que colonizam raízes de plantas de trigo com o objetivo de compreender se bactérias de uma espécie em condi- ções naturais podem se comunicar com organismos não relacionados. Neste estudo, uma estirpe de Pseudomonas aureofaciens produto- ra de antibiótico foi geneticamente modificada de tal modo que a síntese de moléculas sinalizadoras não era mais observada, porém, o mutante manteve a capacidade de responder a sinais produzidos por outras bactérias. Além disso, foi inserido nessa estirpe um gene reporter que produz uma proteína facilmente detectável capaz de indicar a produção usual de antibi- ótico. Quando uma estirpe produtora de moléculas sinalizadoras foi adicio- nada às raízes infectadas com a estirpe transformada incapaz de sintetizar o sinal, a produção da proteína marcadora aumentou, sugerindo que populações distintas de bactérias podem, de fato, se comunicar em situação real. Em outro estudo foram testadas cerca de 40 bactérias de raízes de trigo e, apro- ximadamente, um terço delas foi ca- paz de produzir um sinal reconhecível por Pseudomonas aureofaciens (Pierson et al., 1998). Steidle et al. (2001) produziram estirpes capazes de monitorar ALHs de forma a poderem visualizar a co- municação entre populações bacterianas definidas na rizosfera de plantas de tomate crescidas axênicamente. Foi demonstrado que a comunidade bacteriana nativa que coloniza raízes de tomate cultivado em solo não-esterilizado produz molé- culas sinalizadoras de QS do tipo ALH que são reconhecidas por diferentes espécies bacterianas. Estes resultados indicam que as ALHs têm um papel importante na comunicação entre espécies atuando como um sinal uni- versal. No entanto, esta resposta pare- ce ser limitada uma vez que a diversi- dade na cadeia acil (comprimento da cadeia, grau de oxidação e saturação) é capaz de conferir uma certa especificidade na comunicação. Parte da comunicação cruzada pode repre- sentar uma maneira pela qual as bac- térias adquirirem informação acerca da população total, permitindo uma res- posta a competidores ou associados potenciais. Pierson III & Pierson (1996) também sugerem que o controle da expressão dos genes de outros orga- nismos seria uma estratégia eficiente de competição. Além deste tipo de comunicação cruzada via ALHs, foram descritos auto- indutores do tipo AI-2 em Vibrio harveyi, uma bactéria marinha bioluminescente na qual os genes de luminescência são regulados por QS. Ao contrário de V. fischeri, V. harveyi possui dois sistemas de QS, um deles empregando um tipo de ALH como sinalizador, 3-hidroxi-C4-LHS e, um segundo sistema baseado no acúmulo de uma molécula desconhecida deno- minada AI-2. Cada tipo de auto-indutor é detectado por proteínas sensoras Figura 3 : “Quorum sensing” em Vibrio fischeri: Durante a transcrição do operon lux, a proteína LuxI é sintetizada, que por sua vez cataliza a síntese do auto-indutor ALH. O ALH quando atinge um nível crítico passa a atuar como co-indutor, interagindo com a proteína LuxR e ativando, num mecanismo de retro-alimentação positivo, a região promotora (box) do gene lux . luxR LuxR luxl Luxl AHLs Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 41 específicas, porém estas proteínas quando ativadas enviam informações para uma proteína integradora que é compartilhada entre os dois sistemas e que controla a emissão da luz. A habi- lidade de detectar não só o tamanho da população, mas, também, a pre- sença de outras espécies permitem que V. harveyi responda de maneira diferenciada quer a espécie seja a única presente ou faça parte de uma comunidade multi-específica (Bassler et al., 1993). O AI-2 tem sido encontrado num grande número de espécies bacterianas e por isto é considerado como um sinal de comunicação universal entre dife- rentes espécies. A sua estrutura crista- lina foi desvendada e as evidências indicam que para torná-lo ativo é ne- cessária a presença de boro, um ele- mento amplamente distribuído na biosfera e, apesar de ser importante para o desenvolvimento de inúmeros organismos, a sua função até então era muito pouco conhecida (Chen et al 2002). Os dois sistemas de QS provavel- mente atendem a diferentes objeti- vos, enquanto o sistema que percebe os indivíduos da mesma espécie numa população mista proporciona uma ava- liação do tamanho da população, a presença de um segundo tipo de sinal capaz de detectar a presença de ou- tras espécies pode informar sobre a percentagem da espécie em relação aos outros microrganismos. Estas infor- mações provavelmente permitem uma modulação fina do comportamento de uma determinada espécie frente às flutuações populacionais do seu habitat. Por outro lado, o estudo dos auto- indutores do tipo AI-2 em diversas estirpes patogênicas de Escherichia coli, Salmonella typhimurium e Vibrio cholerae mostrou que os sistemas são regulados de maneira complexa e que condições ambientais podem influen- ciar a comunicação mediada pelos auto-indutores. Apesar disso, os genes responsáveis pela síntese de AI-2 são altamente homólogos estando pre- sentes em várias espécies bacterianas, e, portanto, provavelmente codificam proteínas que deverão definir uma nova família de proteínas. Tem sido sugerido que o mecanismo de QS é determinante na transição do estado não patogênico para o patogênico quando ocorre a colonização do hos- pedeiro (Mok et al., 2003; Miller et al., 2004; Xavier & Bassler, no prelo). A estratégia de controle de mi- crorganismos através da interferência nos sistemas de QS não é restrita apenas a outros microrganismos. Estu- dos têm mostrado que, pelo menos, uma espécie de alga marinha australi- ana (Delisea pulchra) é capaz de per- turbar a comunicação entre os micror- ganismos. Estas algas, que são particu- larmente bem sucedidas defendendo- se contra colonização bacteriana, pro- duzem substâncias inibidoras naturais do QS bacteriano, furanonas halogenadas (Givskov et al., 1996). Este tipo de descoberta revela uma possível fresta no sistema de defesa bacteriano. Manefield et al. (2001) observaram inibição da produção de celulase, protease e carbapenem (an- tibiótico) em Erwinia carotovora em decorrência da adição de furanonas halogenadas produzidas por algas. A interferência de plantas em sistemas de QS bacterianos, também, já foi relatada. Byers et al. (2002) mostraram que in vitro as moléculas ALHs produzidas por Erwinia carotovora por exemplo, tornam-se instáveis em uma faixa de pH entre 7 e 8, sugerindo que a ativação da bom- ba de prótons observada em plantas em resposta ao ataque bacteriano, seria uma resposta defensiva do vege- tal, com o intuito de alcalinizar o sítio de infecção (pH superior a 8,2) e, desta forma, inativar as moléculas sinalizadoras. Foi observada inibição de ALHs por exudatos produzidos por Figura 4: Importância do mecanismo de “quorum sensing” nas interações entre organismos em ambientes agrícolas complexos. Promotor de crescimento Fixação biológica de N2 Controle Biológico 42 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 plântulas de ervilha desse vegetal, embora os compostos responsáveis não tenham sido completamente iden- tificados (Teplitski et al., 2000). Extra- tos de uva e morango, também, pos- suem capacidade de inibir ALHs de bactérias fitopatogênicase epifíticas habitantes da rizosfera (Fray, 2002). Em alguns casos, é possível que os sinalizadores de densidade populacional possam ser modulados ou superados por fatores como tensão de oxigênio, esgotamento de nutrien- tes, limitação de ferro ou repressão de catabólito. Estes fatores podem ser indiretamente alterados pelas subs- tâncias produzidas por plantas. Evolução dos genes envolvidos com o mecanismo de QS A presença de auto-indutores as- sociados ao mecanismo de QS é co- mum a diversos grupos filogenéticos, encontrando-se nos genomas bacterianos já seqüenciados uma alta similaridade com os genes que carac- terizam a resposta de QS. Dois grupos principais de proteínas podem ser considerados: (1) LuxI/R presente em bactérias Gram-negativas, a LuxI é catalisadora da síntese de auto- indutores do tipo AHLs que são detec- tados por proteínas do tipo LuxR e, por sua vez ativam a transcrição dos genes-alvo, e (2) LuxS que sintetiza o AI-2, um diester furanosil borato des- coberto inicialmente em Vibrio harveyi (Federle & Bassler, 2003). As árvores filogenéticas obtidas a partir dos genes que codificam o LuxS e daqueles que codificam as duas famílias de LuxI/R mostram um alto grau de concordância com a árvore de RNA ribossomal que caracteriza a rela- ção entre os diferentes taxa. Estes resultados sugerem que os sistemas QS estão presentes de maneira contí- nua durante a evolução de grupos, tais como as divisões de Proteobacteria e de Firmicutes (Lerat & Moran, 2004). A análise filogenética dos genes indutores ou receptores de LuxI/R compreendem duas famílias de prote- ína sem homologia entre elas, uma delas restrita a γ-Proteobacteria e a outra, que apresenta distribuição mais ampla. Os genes que codificam as proteínas LuxI/R parecem ter evoluí- dos juntos existindo poucas evidênci- as de troca de material por transferên- cia lateral, exceto em algumas linha- gens de γ-Proteobacteria. A transfe- rência lateral, no entanto, parece ser mais comum nos genes que codificam o LuxS em Firmicutes. QS em microrganismos de importância agrícola A presença dos sistemas de QS são comuns como mecanismo de regulação de genes entre bactérias Gram-negativas que se associam a plantas. De acordo com Cha et al. (1998) a maioria das bactérias associativas a plantas produzem AHLs, especialmente quase todos os isola- dos de Agrobacterium, Rhizobium e Pantoea, além de cerca de metade daqueles de Erwinia e Pseudomonas. Membros do gênero Rhizobium mos- traram a maior diversidade de sinalizadores, alguns produzindo ape- nas um tipo de molécula, enquanto outros produziram até 7 sinalizadores detectáveis. Por outro lado, poucos isolados de Xanthomonas foram ca- pazes de produzir sinais detectáveis. Num levantamento realizado por Steidle et al. (2001) com mais de 300 estirpes isoladas da rizosfera de toma- te, 12% apresentaram sinal positivo para AHL, ao passo que Pierson et al. (1998) observaram 8% a partir de um estudo com 700 estirpes associadas a raízes de trigo. Em um outro estudo foi observada uma maior proporção de bactérias com essa característica, de 137 estirpes de diferentes espécies de Pseudomonas patogênicas do solo e associadas às plantas, cerca de 40% apresentaram capacidade de produ- ção de AHL (Elasri et al., 2001). O mais interessante, segundo os autores, foi a observação de que bactérias associativas produziram AHL com maior freqüência do que as estirpes patogênicas do solo, sugerindo que a proximidade da bactéria com a planta hospedeira aumenta a probabilidade de produzir AHL. Esses resultados abrem novas perspectivas para a com- preensão da comunicação entre bac- térias que estão sob influência do sis- tema radicular, e que participam de diferentes mecanismos de regulação de populações de microrganismos do solo. A maioria das bactérias que em- pregam sistemas de QS associam-se com animais ou plantas e se benefici- am deste processo, porém, nem sem- pre o organismo hospedeiro é benefi- ciado, como em V. fischeri, citado anteriormente. Pseudomonas aeruginosa, por exemplo, uma bacté- ria oportunista patogênica a plantas e animais, utiliza sistemas de QS via ALHs. Neste modelo, QS é utilizado para a maturação de biofilmes e para determinar a expressão da virulência, sendo que circuitos múltiplos de QS capazes de controlar a expressão de dezenas de genes específicos relacio- nados com a virulência já foram descri- tos (Parsek & Greenberg, 2000). Nes- ta espécie, um terceiro auto-indutor, designado PQS (Pseudomonas Quinolone Signal) também foi identi- ficado (Pesci et al., 1999). Pseudomonas aueruginosa apresenta a capacidade de produzir pioverdinas, que são sideróforos e, como tais, tem a capacidade de quelar Fe. Embora esse elemento seja abun- dante em solos aerados (1 - 6%), sua disponibilidade depende do pH e da solubilidade dos óxidos de Fe. À medi- da que o pH do solo aumenta, a disponibilidade de Fe diminui e os sideróforos se tornam mais efetivos (Zago et al., 2000). Dessa forma, esses compostos tem importância em rela- ção a disponibilidade desse elemento para os seres vivos. Stintzi et al. (1998) foram os pio- neiros ao observar o efeito de QS sobre sideróforos, estudando o gene lasR, que regula, em parte, a densida- de celular dessa bactéria. Através da utilização de mutantes lasR nulos e defeituosos, esses autores observaram uma redução de até 2 vezes na produ- ção do sideróforo. Além da produção dos sideróforos, a produção de antibiótico também é regulada por sistemas QS. A expressão do operon de biossíntese do antibióti- co fenazina produzido em Pseudomonas aureofaciens, um agen- te de biocontrole do fungo Gaeumannomyces graminis var. tritici que causa a doença “take-all” em trigo, é controlada por uma ALH (HLH – N- hexanoil lactona homoserina) que atua Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 43 como molécula sinalizadora na rizosfera de trigo (Wood et al., 1997). Além de atuar como agente de biocontrole, a fenazina também aumenta a sobrevi- vência da bactéria propiciando uma vantagem competitiva frente aos ou- tros microrganismos presentes na rizosfera de trigo. A caracterização de sistemas QS tem utilizado tradicionalmente estir- pes do gênero Pseudomonas como modelo, reconhecidamente por re- presentar um grupo com capacidade patogênica e com uma variedade de rotas metabólicas. No entanto, outras bactérias associativas tem sido estuda- das, como no caso de Agrobacterium tumefaciens através da transferência conjugativa de plasmídeos. O plasmídeo Ti dessa bactéria fitopatogênica capaz de causar tumo- res em plantas, é controlado por um sistema hierárquico onde as opinas, substratos produzidos pelos tumores, induzem um sistema de QS que envol- ve o ativador de transcrição TraR. Esse ativador requer um fator de conjuga- ção como co-indutor para ativar a expressão do gene tra, que é um homólogo de luxR. Assim, os dois sistemas reguladores estão relaciona- dos e as duas proteínas ativadoras apresentam similaridades, sistema cofactor lux e autoindutores que subs- tituirão o fator de conjugação na ativa- ção dos genes tra no plasmídeo Ti (Piper et al., 1993; Fuqua & Winans, 1994; Moré et al., 1996). Em Erwinia carotovora ssp. carotovora, uma outra bactéria fitopatogênica, responsável pela indução de doenças como podridão mole em plantas, a produção de enzimas extracelulares (isoenzimas de pectato liase, celulase, poligalacturonase e protease) que de- gradam componentes da parede celu- lar vegetal é regulada por QS. Prova- velmente a produção destas enzimas por um número pequeno de células não teria efeito no tecido das plantas que responderia ativando os seus me- canismos de defesa (Pirhonen et al., 1993). Liu et al. (1998) relatam que esta bactéria produz sinalizadores tipo ALH que controlamvia QS a produção das enzimas extracelulares menciona- das e do indutor de reações de hipersensibilidade (HarpinEcc). Em outra espécie também fitopatogênica, E. chrysanthemi, foi verificada a pro- dução de 3 tipos de ALHs o que sugere a existência de um sistema regulatório hierárquico complexo de QS (Nasser et al., 1998). Em adição aos AHLs, outras molé- culas sinalizadoras vêm sendo desco- bertas como responsáveis pelo QS. Por exemplo, Ralstonia solanacearum, também uma bactéria fitopatogênica, produz uma substância (ácido metil- ester-3-hidroxi-palmítico) que em con- junto com os AHLs regulam a virulên- cia (Flavier et al., 1997). Já para Xanthomonas campestris tem sido observada a produção de um fator extracelular difuso (DSF) que não tem sido caracterizado como um AHL pro- priamente dito, mas, que induz um princípio semelhante ao QS (Barber et al., 1997). Além dos efeitos negativos ob- servados nos organismos hospedeiros, mais recentemente tem sido observa- do efeito de sistemas de QS nas interações de protocooperação, que envolvem benefícios mútuos entre os organismos. Uma das simbioses mais estudadas é a que se estabelece entre leguminosas e bactérias do grupo rizóbio capazes de reduzir o nitrogê- nio atmosférico (N 2 ), processo biológi- co reconhecido como Fixação Biológi- ca de Nitrogênio (FBN), capaz de reduzir a necessidade de adubação nitrogenada nas culturas como resulta- do da inoculação com bactérias efici- entes e competitivas. Esse processo é dependente de uma rede de sinais moleculares entre o hospedeiro e o microssimbionte, cujos mecanismos de QS têm sido mencionados como pa- pel chave (Loh & Stacey, 2003; Marketon et al., 2003). Diferentes parâmetros relaciona- do com a FBN, tais como eficiência da nodulação, desempenho simbiótico e produção de exopolissacarídeos são controlados por mecanismos de QS. Nesse grupo de microrganismos, a espécie Rhizobium leguminosarum bv. viciae é a melhor caracterizada (vide revisão de Wisniewski-Dye & Downie, 2002), com vários sistemas já identificados: rai, rhi, cin e tra (Cubo et al., 1992; Wisniewski-Dye et al., 2002; Wilkinson et al., 2003). No entanto, ainda há pouca informação sobre o papel desses sistemas no ciclo de vida desses microrganismos (González & Marketon, 2003). Estudos têm sido realizados para outras espécies do grupo rizóbio, como para Rhizobium etli (Mendoza et al., 2004), Sinorhizobium meliloti (Chen et al., 2003; Hoang et al., 2004) e Mesorhizobium huakuii (Zhu et al., 2003). No caso de Bradyrhizobium japonicum, também pertencente ao grupo rizóbio, estruturas definidas como CDF designadas como bradioxetinas foram identificadas (Loh et al., 2002; Loh e Stacey, 2003). Estas moléculas apresentam estrutura simi- lar a certos antibióticos e sideróforos e encontram-se ativas, também, em outros membros de α-proteobacteria, sugerindo que esses compostos po- dem desempenhar um papel não so- mente na simbiose com rizóbio, mas em outras interações de bactérias com plantas e animais (González e Marketon, 2003). Chin-A-Woeng et al. (1998), Delany et al. (2000) e Lithgow et al. (2000) realizaram a análise detalhada do controle baseado em QS em três espécies de bactérias, uma espécie usada como biofertilizante, Rhizobium leguminosarum e duas empregadas como agentes de biocontrole de do- enças de plantas, Pseudomonas chlororaphis, PCL1391, e P. fluorescens, F117. Foram encontra- dos sistemas de QS nas 3 espécies, sendo que, em R. leguminosarum, quatro sistemas de QS interligados foram observados. As análises de efei- tos de mutações nos sistemas de con- trole gênico via QS de R. leguminosarum revelaram que carac- terísticas como nodulação da leguminosa, sobrevivência da bacté- ria, transferência horizontal de genes e habilidade de inibir crescimento de outros rizóbios foram influenciadas por QS. Em ambas as espécies de Pseudomonas, observou-se que a pro- dução do antibiótico antifúngico é con- trolada por QS. Em P. chlororaphis, o sistema de QS controla a produção de fenazina-1-carboxamida, uma substân- cia capaz de inibir o crescimento do fungo Fusarium oxysporum f. sp. radicis-lycopersici (Chin-A-Woeng et al., 2001). 44 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 Já em P. fluorescens, o sistema de QS demonstrou afetar a regulação do metabólito antifúngico 2,4 diacetil floroglucinol. Comparações entre os metabólitos de QS produzidos pelas 3 espécies demonstraram que estas bac- térias possuem potencial para regula- rem-se mutuamente através da comu- nicação cruzada na rizosfera. Por outro lado, elas também têm potencial para ativar a expressão gênica em fitopatógenos como sub-espécies de Agrobacterium e Erwinia. Bachofen & Schenk (1998) relataram que siste- mas de QS são comumente encontra- dos em diversas bactérias de solo. Algumas destas bactérias, inclusive, possuem potencial para utilizar as moléculas sinalizadoras de QS como substrato de crescimento. Os sistemas de bioensaios estabelecidos por Chin- A-Woeng et al. (1998) mostraram-se sensíveis e satisfatórios como forma de medição da comunicação entre bactérias da rizosfera. As análises de sistemas regulatórios baseados em QS em ambientes de solo artificial revela- ram que sinalizadores de QS produzi- dos por R. leguminosarum podem afetar positivamente a transferência de genes entre bactérias do solo de diferentes gêneros, permitindo a co- municação cruzada dependente de QS entre diferentes espécies de bac- téria in vivo. Esses relatos têm demonstrado que características essenciais para o sucesso de interações benéficas entre bactérias do solo e raízes de plantas podem ser responsivas a sistemas de QS. No sentido de impulsionar as pes- quisas nessa área, o Consórcio Euro- peu sobre “Comunicação na rizosfera” financiado pelo programa EU BIOTECH da Comunidade Européia, vem investigando até que ponto rizobactérias promotoras de crescimen- to de plantas (RPCP) usam QS basea- do em ALH de modo a regular carac- terísticas fisiológicas importantes e qual o grau de comunicação cruzada de RPCPs com fitopatógenos. As vias dos sinalizadores identificadas até o mo- mento envolvem um número de genes regulatórios incrivelmente reduzido. Esta simplicidade poderá vir a facilitar sua exploração no desenvolvimento de melhores estratégias agrícolas e de seleção de estirpes de bactérias para uso como biofertilizantes e biocontrole. Aplicação biotecnológica de QS A descoberta da diversidade de microrganismos que usam QS cria um alvo atrativo para a sua aplicação biotecnológica na agricultura. O estu- do dos sistemas de QS, além de forne- cer detalhes fundamentais a cerca dos mecanismos de parasitismo e simbiose, pode permitir meios inovadores para o controle de infecções em plantas e animais. De La Cruz (2001) defende que uma das metas de trabalho a longo prazo é a inibição dos sistemas de QS em patógenos de animais e plantas de forma a facilitar o controle destas po- pulações. Para tanto, a autora relata evidências bioquímicas e moleculares que sugerem que Bacillus cereus, UW85 tem capacidade de inibir o sistema de QS em Chromobacterium violaceum, CV026, através da inativação enzimática da molécula auto- indutora. Do mesmo modo, Dong et al. (2000) descobriram um gene em Bacillus sp., 240B1, que codifica uma enzima inativadora de ALHs. A ex- pressão desse gene em uma estirpe de Erwinia carotovora transformada levou à redução significativa da libera- ção de ALHs, diminuição das ativida- des de enzima pectinolítica extracelular e atenuação da patogenicidade em batata, beringela, repolho, aipo, ce- noura, couve-flor e tabaco. Alternativamente, a produção de moléculas sinalizadoras pela própria planta aumenta o potencial de uso biotecnológico visando o controle de doenças e a maximização dasinterações benéficas de modo a otimizar a produtividade agrícola. Nesse con- texto, tem sido estudada a obtenção de plantas geneticamente modifica- das com a habilidade de produzir moléculas bacterianas sinalizadoras de QS, com o objetivo de desenvolver formas inovadoras para controle de doenças e manipulação de interações planta-microrganismo (Fray et al., 1999; Mäe et al., 2001). Já foram desenvolvidas plantas transgênicas de tabaco produtoras de altos níveis de ALHs ou que podem degradar ALHs produzidas por bactérias (Fray, 2002). Ainda neste sentido, Dong et al. (2001) relataram que plantas expressando a enzima ALH lactonase isolada de Bacillus sp. inutilizaram as moléculas sinalizadoras de QS de Erwinia carotovora e mostraram resistência significativamente aumentada ao fitopatógeno. Os autores consideram promissor o uso de sinalizadores de QS como alvos moleculares para controle de doenças, ampliando as atuais for- mas de prevenção de infecções bacterianas. Além de material geneticamente modificado, o manejo agrícola utiliza- do pode alterar a intensidade de res- posta dos sistemas de QS. No manejo convencional, onde a monocultura e a aplicação de agroquímicos são reco- mendadas, não raro observam-se alte- rações nas populações microbianas que tendem a se tornar menos diver- sas e mais reduzidas. Nesta situação a possibilidade de uma população de fitopatógeno se tornar prevalente atra- vés da utilização de sinais de auto- indutores deve ser facilitada uma vez que a ocorrência de competidores é reduzida. Por outro lado, a retomada de um equilíbrio dinâmico preconizado com as novas formas de manejo agrícola, através de implementação de práticas alternativas ao modelo convencional (manejo orgânico e suas variáveis), onde a ênfase é na introdução de policultivos e de práticas rotacionais e de consorciação, na integração de plan- tas e animais e na racionalização do uso de insumos orgânicos, favorece a diversificação dos organismos e, como conseqüência, a competição, o con- trole e a regulação dos fitopatógenos. Nesses ambientes, os organismos be- néficos e prejudiciais convivem mutu- amente não se observando incidênci- as severas de doenças responsáveis por sintomas que acarretam em danos econômicos. É possível que a presen- ça de uma diversidade alta de organis- mos dificulte o estabelecimento das populações de patógenos, de tal modo que o nível crítico que permite a expressão da virulência dificilmente é alcançado. Paralelamente, a utilização de uma agricultura menos impactante, através da adoção de sistemas complexos, a evolução do conhecimento científico Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 45 tem apontado, também, para a neces- sidade de se obter uma visão holística do processo biológico baseada nas interações entre os indivíduos e destes com o meio ambiente. Ao contrário, resultados obtidos de estudos reducionistas apresentam limitações principalmente quando se visa a ob- tenção de produtos biológicos eficien- tes, que para serem introduzidos com sucesso devem ser capazes de com- petir com a biota do solo e aquela associada ao tecido vegetal e sobrevi- ver sob diferentes condições edafo- climáticas. Estudos que visam aprofundar os conhecimentos de QS nestes ambien- tes serão uma contribuição para o entendimento da regulação de popu- lações microbianas em comunidades complexas, tais como os consórcios microbianos que têm recebido aten- ção especial recentemente. Além dis- so, a compreensão não só da comuni- cação célula a célula que ocorre entre membros de mesma espécie, mas também da comunicação cruzada com bactérias de outros gêneros e outros organismos, podem propiciar a otimização de características positivas de RPCPs. Desse modo, os conheci- mentos dos sistemas de QS abrem grandes perspectivas para aplicação no ambiente agrícola visando a maior eficiência de inoculantes e de agentes de controle biológico (Figura 4). Referências 1. ATKINSON, S.; THROUP, J. P.; STEWART, G. S.; WILLIAMS, P. A hierarchical quorum-sensing sys- tem in Yersinia pseudotuberculo- sis is involved in the regulation of motility and clumping. Molecu- lar Microbiology, Oxford, v. 33, p. 1267-1277, 1999. 2. 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Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 51 Pesquisa CULTIVO DE ANTERAS x CULTIVO DE MICRÓSPOROS ISOLADOS Lia Rosane Rodrigues PhD, Doutora em Ciências pelo Programa de Pós- Graduação em Genética e Biologia Molecular, Instituto de Biociências (IB), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) liarr@ufrgs.br Jorge E.A. Mariath PhD, Professor Titular do Departamento de Botânica, IB, UFRGS jorge.mariath@ufrgs.br Maria Helena Bodanese-Zanettini PhD Professora Titular do Departamento de Genética, IB, UFRGS maria.zanettini@ufrgs.br Ilustrações cedidas pelos autores regeneração direta de esporófitos a partir de micrósporos ou de pólen foi inicialmente registrada no cultivo de anteras de Datura innoxia por Guha e Maheshwari (1964, 1966), quando alguns grãos de pólen apresentaram um desvio de sua rota de desenvolvimento e originaram plantas haplóides. A partir daquele primeiro regis- tro, cultivos experimentais foram con- duzidos para obtenção de indivíduos haplóides de inúmeras espécies vege- tais por esta via morfogênica. Nas condições de cultivo propostas, algu- mas espécies responsivas tornaram-se modelo para o estudo dos fatores que alteram e redirecionam o desenvolvi- mento gametofítico, dos padrões inici- ais das divisões celulares que envol- vem a transição direta gametófito- esporófito e das condições de cultivo que aceleram a regeneração de plan- tas. A formação direta de plantas a partir do micrósporo ou do pólen re- quer a ocorrência de divisões celulares atípicas e a síntese das paredes das novas células. À medida que o número destas células aumenta, ocorre a rup- tura da parede de exina e a liberação de uma estrutura multicelular com variados graus de organização entre o padrão de desenvolvimento zigótico e calogênico (Maheshwari et al., 1982; Wang et al., 2000). Em condições de cultivo favoráveis, estes conjuntos celulares originam estruturas embriogênicas, que se desenvolvem até regenerar plantas. O cultivo de anteras in vitro con- solidou-se como sistema morfogênico a tal ponto que, em inúmeros traba- lhos, foi apresentado como sinônimo de embriogênese do micrósporo e do pólen. Mais recentemente, o cultivo de micrósporos isolados tem substitu- ído o cultivo de anteras em inúmeros laboratórios e a proporção de traba- lhos publicados a respeito deste siste- ma tem aumentado. Ambos os siste- mas servem à pesquisa básica, como modelo para estudo dos diferentes aspectos (molecular, fisiológico, Figura 1: Secção transversal de parte de uma antera imatura de soja, dentro de um botão floral de comprimento 3,5 mm. Os gametófitos estão cercados pelos estratos parietais, constituídos pelo tapete, pelo endotécio, pela(s) camada(s) média(s) e pela epiderme Dez razões para uma nova abordagem da embriogênese do micrósporo 52 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 histológico etc.) da embriogênese e da embriologia lato sensu. Além disso, plantas haplóides e duplo-haplóides têm amplo emprego como ferramen- ta biotecnológica em trabalhos que visam à manipulação de variabilidade genética para o melhoramento das plantas cultivadas, permitindo o mapeamento de genes de interesse agronômico e a descoberta de muta- ções. Entretanto, com base em nossa experiência na transição do cultivo de anteras para o cultivo de micrósporos isolados de soja (Glycine max L. Merrill), podemos propor, no mínimo, dez ra- zões para a adoção do cultivo de micrósporos isolados: 1a. No cultivo de micrósporos isolados, não há interferên- cia dos tecidos esporofíticos. No cultivo de anteras, os micrósporos são estabelecidos in vitro envolvidos pelos estratos parietais, constituídos pelotapete, pelo endotécio, pela(s) camada(s) média(s) e pela epiderme (Figura 1). Também está presente o tecido conectivo que, no botão floral, une a antera ao filete e, conseqüentemente, ao receptáculo floral (Mariath et al., 2003). Em geral, as condições de cultivo não favore- cem a proliferação destes tecidos. Também tem se assumido que os tecidos da planta que já ingressou em fase reprodutiva, como são os estratos parietais e o conectivo, apresentam pouco ou nenhum potencial morfogênico. Porém, no cultivo de anteras de algumas espécies vegetais, estes tecidos apresentaram capacida- de de proliferação. Uma destas espé- cies é a soja (Rodrigues et al., 2004; Rodrigues et al., in press). A presença de células haplóides nos calos embriogênicos derivados do conectivo pode aumentar a confusão entre eventos morfogênicos no culti- vo de anteras (Altamura et al., 1992; Woodward e Puonti-Kaerlas, 2001; Rodrigues, 2004). Pouco se sabe a respeito da origem destas células haplóides, mas, em calos embriogênicos de raízes de Arabidopsis thaliana, foram atribuí- das à redução do tipo meiótica e associadas a desdiferenciação celular (Yihua et al., 2001). Mesmo não se proliferando in vitro, os tecidos esporofíticos também podem ter um efeito inibitório ou seletivo sobre a embriogênese dos micrósporos (Hoffmann et al., 1982; Van Geyt et al., 1985). 2a. Em micrósporos isolados, os tratamentos são aplicados diretamente sobre as células- alvo do cultivo. No cultivo de anteras, a presença dos tecidos esporofíticos pode retar- dar ou neutralizar o efeito das condi- ções de cultivo indutoras da embriogênese do micrósporo ou mas- carar a resposta morfogênica, impe- dindo conclusões efetivas a respeito dos tratamentos. 3a. O cultivo de micrósporos isolados permite a separação dos constituintes da suspen- são Em geral, diferentes estádios da microsporogênese e da microgametogênese estão transcor- rendo dentro de uma mesma antera, o que impede que células em estádios específicos do desenvolvimento se- jam estabelecidas in vitro. No cultivo de micrósporos isola- dos, por meio de centrifugação com gradientes (de sacarose, percoll e manitol) e de filtração através de ma- lhas de náilon de 15 a 500 µm, os constituintes de um mesmo cultivo podem ser separados em populações homogêneas. Estes recursos permi- tem separar populações de micrósporos e gametófitos para compa- ração entre os estádios (Kyo e Harada, 1986); separar os micrósporos responsivos, de maior tamanho, da maioria não-responsiva; e reunir volu- me suficiente de material em cada estádio de desenvolvimento para a execução de estudos citológicos e moleculares (Maraschin et al., 2003). 4a. A competição entre estru- turas embriogênicas por es- paço e nutrientes é evitada no cultivo de micrósporos isola- dos Quando a proporção de micrósporos responsivos no cultivo de anteras é grande, o desenvolvimento dos grãos de pólen multicelulares e das estruturas embriogênicas a partir de um mesmo sítio, o lóculo da antera, pode gerar competição por espaço e nutrientes, causar alterações morfo- anatômicas ou impedir a continuidade do desenvolvimento de algumas es- truturas, o que caracterizaria um tipo de seleção in vitro. No cultivo de micrósporos, é possível transferir sele- tivamente as estruturas embriogênicas para uma condição em que possam completar a histodiferenciação, princi- palmente quando o desenvolvimento não é sincronizado entre elas. A com- petição pelo efeito posicional não apenas é evitada, como o acréscimo de meio líquido pode compensar uma superprodução de estruturas embriogênicas. 5a. A proporção de micrósporos responsivos é sempre superior no cultivo de micrósporos isolados Figura 2: Gametófitos de soja isolados em meio de cultivo líquido. Os núcleos generativo e vegetativo apresentam reação fluorocromática ao 4´-6-diamidino-2-fe- nilindol (DAPI) Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 53 Nos trabalhos em que os dois sistemas foram comparados, o cultivo de micrósporos isolados foi sempre mais eficiente, mesmo em diferentes meios nutritivos (Ma et al., 2004) e a produção de esporófitos androgênicos foi cinco a dez vezes superior (Siebel e Pauls, 1989; Hoekstra et al., 1992). 6a. O cultivo de micrósporos isolados permite recursos adi- cionais de manipulação gené- tica Protoplastos de micrósporos po- dem ser obtidos pelo emprego de combinações de enzimas (Sun et al., 1999). Sendo similar a outros cultivos de células em meio líquido, o cultivo de protoplastos de micrósporos pode permitir o desenvolvimento de técni- cas para manipulação e geração de variabilidade genética, como a indução de mutações (Barro et al., 2001), a fusão de protoplastos e a transforma- ção genética (Stöger et al., 1995). 7a. O estabelecimento de micrósporos isolados in vitro é um sistema mais rápido e prático para algumas espéci- es vegetais. Para o cultivo de anteras in vitro, é necessária a remoção individual das anteras do interior de botões florais imaturos. Para o estabelecimento de micrósporos isolados, é possível exe- cutar um procedimento massal, que inicia com a maceração dos botões florais desinfestados. Conforme as ca- racterísticas morfológicas dos botões florais imaturos e as condições ambientais em que estes botões são obtidos, o estabelecimento de micrósporos isolados é mais simples (Duijs et al., 1992). Entretanto, isso não é regra. O estabelecimento de micrósporos isolados de soja, cujos pequenos botões florais apresentam muitos tricomas, é bem mais trabalho- so do que o estabelecimento de anteras (Rodrigues, 2004). 8a. O acompanhamento dos cultivos de micrósporos isolados pode ser feito com todas as técnicas já emprega- das para o cultivo de anteras e ainda dispensa esmagamen- tos O acompanhamento dos cultivos que visam à embriogênese do micrósporo, tanto no cultivo de anteras quanto no cultivo de micrósporos iso- lados, pode empregar microscopia em campo claro, fluorescência (Figura 2), seções histológicas e uma série de estudos moleculares. No cultivo de anteras, os estratos parietais e o conectivo permanecem nos esmagamentos e interferem na microscopia. Quando estes tecidos apresentam potencial morfogênico, podem originar estruturas embriogênicas similares às derivadas dos micrósporos, tanto na observação do explante ao estereomicroscópio quanto em esmagamentos para análi- se ao microscópio. Isso ocorre porque, em geral, não há diferença nos pa- drões iniciais de desenvolvimento entre os dois tipos de embrião. Além disso, o embrião somático inicial apresenta depósitos parietais de calose e de pectinas que podem ser confundidos com a parede do pólen na observação em microscopia de campo claro. 9a. O cultivo de micrósporos isolados permite o acompa- nhamento ao microscópio da resposta individualizada de cada célula No cultivo de anteras, a resposta dos micrósporos envolvidos por teci- dos esporofíticos, não pode ser acom- panhada sem a destruição dos estratos parietais (Figura 3). O cultivo de micrósporos isolados, entretanto, quan- do conduzido em meio gelificado ou em meio de dupla fase (uma fase líquida sobre outra gelificada), viabiliza o acompanhamento das divisões de cada célula ao microscópio invertido. Este tipo de acompanhamento não- destrutivo poderá oferecer informa- ções irrefutáveis acerca do suposto potencial embriogênico do pólen atípico do tipo P ou S. Nas décadas de 1970 e 1980, a Figura 3: Lóculo de uma antera de soja após 18 dias de cultivo. As condições in vitro, principalmente a indução sob a luz e a presença de 2,4-D no meio, desencadearam aumento de volume, desdiferenciação e proliferação de células dos estratos parietais, simultaneamente à degradação da maioria dos micrósporos e gametófitos (compare com a Figura 1). Apenasum grão de pólen permanece vivo, apresentando divisão celular simétrica característica do desvio da rota gametofítica. Porém, a resposta vigorosa dos tecidos esporofíticos dificulta ou impede a embriogênese a partir deste gametófito 54 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 pesquisa em dimorfismo do pólen foi associada ao estudo da androgênese e alguns autores propuseram que micrósporos do tipo P ou S, possivel- mente resultantes de alterações meióticas, teriam maior predisposição para tomar a rota de desenvolvimento esporofítico quando estabelecidos in vitro (Horner e Street, 1978; Heberle- Bors, 1985). Porém, inúmeros traba- lhos demonstraram embriogênese a partir de micrósporos e de grãos de pólen típicos. Uma maneira de escla- recer o papel destes micrósporos atípicos pode ser o acompanhamento individual ao microscópio invertido. 10a. Estudos básicos também requerem a efetiva separação das gerações gametofítica e esporofítica As mesmas suspensões de micrósporos e grãos de pólen que podem ser submetidas ao cultivo vi- sando à embriogênese também po- dem servir para estudos básicos da fisiologia da microsporogênese e da microgametogênese e da expressão gênica na geração gametofítica. Apesar de o cultivo de micrósporos isolados ser pouco difun- dido no Brasil, é um sistema promissor para abordagem da androgênese nas numerosas espécies vegetais para as quais ainda não foram desenvolvidos protocolos. Nossa experiência com- prova que ajustes simples permitem implantar este sistema em um labora- tório equipado para outros tipos de cultivo, por isso, esperamos que esse trabalho motive os pesquisadores bra- sileiros a adotá-lo. Bibliografia Citada Altamura MM, Cersosimo A, Majoli C e Crespan M (1992) Histological study of embryogenesis and organogenesis from anthers of Vitis rupestris du Lot cultured in vitro. 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Biol. 37:654-657 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 55 Pesquisa Goma Curdlana: Propriedades e aplicações Mário Antônio Alves da Cunha Químico Industrial, Ms. em Ciência de Alimentos, Doutorando em Biotecnologia Industrial. Faculdade de Engenharia Química de Lorena mariocunha@debiq.faenquil.br Júlio César dos Santos Engenheiro Industrial Químico, Doutorando em Biotecnologia Industrial. Faculdade de Engenharia Química de Lorena jsant100@ig.com.br Raúl Jorge H. C. Gómez Professor Titular. Departamento de Tecnologia de Alimentos e Medicamentos. Universidade Estadual de Londrina rcastrog@yahoo.com Silvio Silvério da Silva Professor-pesquisador. Departamento de Biotecnologia. Faculdade de Engenharia Química de Lorena silvio@debiq.faenquil.br 1. Introdução As gomas podem ser definidas como moléculas de elevada massa molecular, com características hidrofílicas ou hidrofóbicas, que usual- mente têm propriedades coloidais e a capacidade de produzir géis ao com- binarem-se com o solvente apropria- do. É comum o termo goma ser aplica- do a polissacarídeos, ou seus deriva- dos, obtidos de plantas ou por proces- so microbiológico, que ao se dispersar em água fria ou quente produzem soluções ou misturas viscosas. A indústria de alimentos é uma das principais usuárias das gomas, onde elas desempenham funções de espessante, gelificante, emulsificante, floculante, estabilizante e como for- madoras de filmes para revestir inú- meros alimentos. Dependendo de sua natureza, podem apresentar proprie- dades adesivas e ainda potencial farmacológico, principalmente quan- do modificadas quimicamente. Atualmente existe uma grande tendência na utilização de biopolímeros em áreas tradicionalmente dominadas por polímeros sintéticos, em função da importância do uso de materiais oriundos de fontes renováveis. Neste contexto, as gomas obtidas por pro- cessos microbiológicos vêm se desta- cando no mercado mundial. Entre elas, a goma curdlana, um polímero de D- glicose com ligações glicosídicas β (1→3), que é o terceiro polissacarídeo produzido industrialmente por fermen- tação, depoisdas gomas xantana e gelana. A goma curdlana possui a propri- edade única de formar dois tipos de géis por aquecimento. Um gel termo- reversível que é formado quando sus- pensões deste biopolímero são aquecidas em temperaturas entre 50ºC e 60ºC e resfriadas a temperaturas inferiores a 40ºC e outro gel, termo- irreversível , que é formado quando as suspensões são aquecidas a 80 ºC ou mais. Este biopolímero tem enorme potencial como aditivo alimentar, po- dendo ser utilizado em inúmeros pro- dutos além de propriedades farmacológicas quando modificada quimicamente, possuindo atividade antivirótica, anticoagulante e antitrombótica. 2. Hidrocolóides / Gomas De maneira geral, os termos hidrocolóide, colóide hidrofílico ou goma têm sido usados como sinôni- mos. Também é observado o termo mucilagem, embora este seja mais empregado para materiais que for- mam com a água massas viscosas, como é o caso das pectinas (CUNHA, 2002). Segundo Zohuriaam & Shokrolahi (2004), o termo goma mais FIGURA 1. Estrutura química da curdlana (FUNAMI et al., 1999b) CH 2 OH O O O O O HO OH CH 2 OH CH 2 OH OH OH HO HO OH H * OH n Um polímero bacteriano com propriedades peculiares 56 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 especificamente denota um grupo de polissacarídeos de uso industrial ou seus derivados que hidratados em água quente ou fria, em baixas concentra- ções, formam dispersões ou soluções viscosas. Os hidrocolóides são substâncias altamente hidrofílicas solúveis ou que se dispersam em água, aumentando a viscosidade do sistema. Do ponto de vista químico são polissacarídeos (goma arábica, goma guar, goma carragenana, carboximetilcelulose, amido, pectinas) ou proteínas como a gelatina (IBAÑES & FERRERO, 2003). O termo “hidrocolóide” engloba todos os polissacarídeos que são obtidos de plantas, algas marinhas e de fonte microbiana, bem como as gomas obtidas de exsudados de plan- tas e biopolímeros modificados produ- zidos pelo tratamento químico ou enzimático do amido e da celulose. Além da gelatina que é a única prote- ína que tem sido aceita nesse grupo por seu caráter altamente hidrofílico e polidisperso (DICKINSON, 2003). As gomas são classificadas como naturais e modificadas. O grupo das naturais inclui os extratos de algas marinhas (alginatos), exsudados de plantas (goma arábica e tragacanta), gomas obtidas de sementes ou raízes (amido de batata) e as gomas obtidas por fermentação (goma xantana). Dentro do grupo das modificadas têm- se principalmente as gomas derivadas do amido e da celulose (Zohuriaam & Shokrolahi (2004). Devido à elevada capacidade de retenção de água, os hidrocolóides conferem estabilidade aos produtos que sofrem ciclos de congelamento- descongelamento e demonstram boas propriedades como mimetizadores de gordura (GUARDA et al. 2004). O uso de hidrocolóides (gomas) na indústria de alimentos baseia-se principalmente no aproveitamento de suas propriedades funcionais, que es- tão relacionadas à capacidade de es- pessar, de manter partículas em sus- pensão e de reter água (SANDERSON, 1981). São usados em concentrações baixas, que variam de 0,5% a 5%, e usualmente não contribuem para o aroma, paladar ou valor nutritivo do produto. Exercem, no entanto, papel importante no controle da textura e na estabilidade de muitos alimentos in- dustrializados, prevenindo ou retar- dando uma série de fenômenos físicos como a sedimentação de partículas sólidas suspensas no meio; a cristaliza- ção da água ou do açúcar; a agregação ou desagregação de partículas disper- sas e a sinérese de sistemas gelificados (FREITAS et al., 1996). 3. Goma curdlana: características e propriedades A goma curdlana (FIGURA 1) é um polissacarídeo microbiano extracelular composto exclusivamente de resídu- os de D-glicose ligados por ligações glicosídicas b (1→3) (FIGURA 2) e pro- duzida através de fermentação por cepas não-tóxicas e não-patogênicas de Alcaligenes faecalis var. mixogenes (hoje, identificada como Agrobacterium biovar 1) e Agrobacterium radiobacter (CUNHA, 2002; LEE & PARK, 2001; NAKAO, 1997; SAUDAGAR & SINGHAL, 2004). Este biopolímero foi descoberto em 1966 por Tokuya Harada, então professor da Universidade de Osaka, Japão e recebeu a denominação de curdlana por sua habilidade de coagu- lação (“curdle”), quando aquecida em solução (PSZCZOLA, 1997). Possui a ca- pacidade de ligação com a água e de gelificação por aquecimento, proprie- dades de interesse da indústria de alimentos. Além de fazer parte da família das β-glucanas que são bem conhecidas da comunidade científica por seus benefícios a saúde (JEZEQUEL, 1998). As β-glucanas são consideradas como fibras, não sendo digeridas devi- do à ausência no organismo humano de enzimas capazes de hidrolisar as ligações β-glicosídicas. As fibras inso- lúveis não sendo metabolizadas pelo trato digestivo, não contribuem com valor calórico, podendo ser utilizadas em produtos com teor calórico reduzi- do (LIVESEY, 1990); podem auxiliar na prevenção do câncer intestinal e na redução dos níveis de LDL como de colesterol total (JESEQUEL, 1998). Em estado natural é pobremente cristalina e é encontrada como um grânulo (FIGURA 3) semelhante ao ami- do. O grânulo é insolúvel em água destilada, porém dissolve-se facilmen- te em solução alcalina diluída, devido à ionização de pontes de hidrogênio intermolecular e intramolecular (CHEESEMAN & BROWN JR., 1995). Apre- senta massa molecular de aproxima- damente 74000 e é produzida indus- trialmente por uma empresa Japone- sa, através de processo fermentativo com a Alcaligenes faecalis variedade myxogenes (FUNAMI et al., 1999a). 3.1 Obtenção do gel de curdlana Em suspensão aquosa, a curdlana é capaz de formar gel por aquecimen- to e de acordo com a temperatura de aquecimento, há formação de dois tipos de géis. O gel denominado “low- set”, que é formado quando a suspen- são aquosa de curdlana é aquecida a 50ºC - 60ºC e então resfriada a tempe- raturas inferiores a 40ºC. É um gel termoreversível similar ao agar-agar e à gelatina. E o gel “high-set”, que é formado quando a suspensão aquosa de cudlana é aquecida à temperatura de 80ºC ou superior, sendo um gel termo-irreversível, bastante estável a uma ampla faixa de temperatura de FIGURA 2. Células de Agrobacte- rium radiobacter var. k 84 com grande secreção gomosa (goma curdlana). FIGURA 3. Microscopia de luz polariza- da do grânulo de curdlana (CHEESEMAN & BROWN JR., 1995). Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 57 congelamento (FUNAMI et al., 1998) e frente a tratamentos com altas tempe- raturas, permanecendo insípido, inodoro e incolor (NAKAO et al, 1991). A goma curdlana também forma gel termo-irreversível em sistemas ali- mentares, mesmo quando processa- dos em temperaturas inferiores a 80ºC devido ao aumento de componentes funcionais. Além disso, quando a con- centração de curdlana é aumentada no sistema a temperatura necessária para a gelificação termo-irreversível é re- duzida, pois há uma alteração no pon- to de transição do gel “low-set” para o “high-set” (FUNAMI et al., 1999b) em função do aumento das interações hidrofóbicas entre micelas de curdlana (FUNAMI et al., 1998). Funami et al., (1999c) estudaram algumas propriedades viscoelásticas de géis de curdlana preparados com várias concentrações do polímero e em várias temperaturas e observaram que a temperatura (temperatura de transição) em que o gel torna-se irreversível depende da concentração do polímero e sugerem que com o aumento da temperatura de aqueci- mento, interações entre moléculas de curdlana, formando uma rede tridimensional, tornam o gel mais forte e mais elástico. O mecanismo molecular de for-mação dos géis “high set” e “low-set”, é diferente. No gel “high-set” as liga- ções cruzadas entre miscelas de curdlana, formadas por moléculas com cadeias em hélice tríplice ou hélice múltipla, são mantidas com interações hidrofóbicas; enquanto no gel “low- set” as miscelas, que são formadas por moléculas com cadeias em hélice sim- ples, são mantidas por pontes de hi- drogênio (FUNAMI et al., 1999c). Nas figuras 4 e 5 estão represen- tados os possíveis modos de formação das pontes de hidrogênio intramolecular, no gel “low-set”, e das interações hidrofóbicas entre molécu- las de cudlana, no gel “high-set”, des- critos por Tako & Hanashiro, (1997). A microscopia eletrônica de trans- missão de baixa resolução mostra que o gel de curdlana formado a tempera- turas mais baixas é composto de microfibras entrelaçadas (FIGURA 6), en- quanto que o gel formado a tempera- turas mais elevadas é composto por FIGURA 4. Esquema do possível modo de estruturação das pontes de hidrogênio intramolecular. FIGURA 5. Esquema do possível modo de estruturação das interações hidrofóbicas SOTNEMILA OÃÇNUF sadassecorpsenraC augáedoãçneter,arutxetedoãçacifidoM sodazilifoilsotnemilA oãçatardiheredrailixua,arutxetedoãçacifidoM sohloM otnemidneredrailixua,edadisocsivedotnemuA sodizoc-érpsotnemilA arutxetedoãçacifidoM oãrracaM arutxetedoãçacifidoM saiéleG etnacifilegetnegA sodassecorpsotnemilA edsotiefesoaodnitsiser(etnacifilegetnegA otnemalegnoceotnemiceuqa sievítsemocsemliF emlifedoãçamroF sairolacsaxiabmocsotnemilA )levíregidni(acitéteidarbiF sêugrubmahesotnuserp,saçiügniL aneaugáedoãçneteranrailixua,etnazirutxeT zeicam sojieuQ arudrogadrodazitemiM setrugoI eserénisebinieedadisocsivaarohleM sadalegsasemerboS eserénisebinI setevroS augáadoãçazilatsircaativE TABELA 1. Aplicações da goma Curdlana em Alimentos 58 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 microfibras associadas (FIGURA7) (CHEESEMAN & BROWN Jr., 1995). Há também formação de gel de curdlana quando em solução alcalina em presença de cátions bivalentes como Ca++ e Mg ++ ou quando neutra- lizada por solução ácida sem aqueci- mento (NAKAO, 1997; SPICER; GOLDENTHAL & IKEDA, 1999). A estrutura linear da goma curdlana a torna mais resistente ao aquecimen- to e a outras forças externas incluindo o pH (KANKE et al., 1995). Podendo formar gel sob uma ampla faixa de pH (pH 2 a pH 10), sendo isto uma vantagem em relação a outros agentes gelificantes. Outra propriedade única do gel de curdlana é sua alta estabilida- de a processos de congelamento-des- congelamento (NAKAO, 1997). 3.2 Produção e bio-síntese da goma curdlana A goma curdlana é bio-sintetizada por Alcaligenes faecalis var. myxogenes e Agrobacterium radiobacter sob con- dições de limitação de nitrogênio e sua produção tem atraído considerável interesse devido a suas propriedades únicas de gelificação (KIM et al., 2000). Industrialmente é produzida por pro- cesso fermentativo pela Agrobacterium radiobacer biovar 1 (FUNAMI et al., 1999a). Seu processo de produção (FIGU- RA 8) a partir da A. radiobacter biovar 1 é patenteado e envolve fermenta- ção aeróbica de um meio de cultivo contendo glicose, uma fonte de nitro- gênio e quantidades traços de mine- rais. O polímero formado no meio é dissolvido com álcali, separado da biomassa e então purificado (JEZEQUEL, 1998). O produto final do processo con- tém 90% de β (1→3) D-glucana e 10% de umidade. Lee (2003) esquematizou a via metabólica para a síntese da curdlana a partir da glicose (FIGURA 9). Este esquema metabólico mostra a biosíntese da goma curdlana, a partir do substrato glicose ocorrendo em três etapas. Primeiramente ocorre a absor- ção do substrato pela célula, seguida da formação intracelular do polissacarídeo e finalmente excreção deste para fora da célula. De acordo com Lee (2003) o substrato entra na célula por transpor- te ativo e translocação de grupo. O substrato é então direcionado ao longo da cadeia catabólica ou é direcionado à síntese do polissacarídeo. No proces- so de formação do polímero UDP- glicose, um precursor-chave é sinteti- zado pela ação da enzima UDP-glicose pirofosforilase sobre a glicose-1-P. Sub- seqüentemente a construção da molé- cula de curdlana ocorre junto com a transferência de monossacarídeo (glicose) da UDP-glicose para um lipídeo carreador, ocorrendo então a formação do polissacarídeo e excreção para fora da célula. KAI el at., (1993) reportaram um estudo da biosíntese de curdlana por Agrobacterium sp (ATCC 31749) usan- do como substrato glicose com carbo- no marcado. Neste trabalho os autores sugerem que seu processo de bio- síntese pode ocorrer por várias rotas: por síntese direta a partir da glicose; por recombinação de trioses a glicose; a partir da frutose-6-fosfato formada no ciclo das pentoses e neogênese de glicose a partir de fragmentos produ- zidos em outras vias catabólicas, com subseqüente polimerização. Sendo, portanto, um biopolímero produzido intracelularmente e excretado poste- riormente para o meio. Apesar das várias rotas possíveis de bio-síntese, estes autores relatam que mais de 60% da goma são sinteti- zados por polimerização direta da glicose e que a degradação da glicose ocorre principalmente via ciclo das pentoses e via Entner-Doudoroff mais do que a via Enbden Meyhorf-Parmas. 3.3 Aplicações da goma curdlana A) Alimentos A goma curdlana foi aprovada como aditivo alimentar e comercializada inicialmente no mer- cado asiático, mais especificamente no Japão, em Taiwan e na Korea em 1989 e em 16 de dezembro de 1996 foi aprovada pelo Food and Drug Administration (FDA) para uso como aditivo alimentar nos Estados Unidos. Este biopolímero foi introduzida no mercado japonês para melhorar a textura e a capacidade de retenção de água de alimentos processados e para o desenvolvimento de novos alimen- tos (FUNAMI et al., 1999b). Hoje é am- plamente usada no Japão como ingre- diente essencial em vários tipos de alimentos processados, especialmen- te em produtos à base de carne onde é usada para a modificação de textura e melhoria na capacidade de retenção de água (FUNAMI, YADA & NAKAO, 1998), além de alimentos como tofu, geléia de feijão e pastas de peixe (SUTHERLAND, 1998). FIGURA 6. Microfibras não associadas no gel de curdlana preparado a 65ºC (CHEESEMAN & BROWN Jr., 1995) Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 59 FIGURA 7. Microfibras associadas no gel de curdlana preparado a 95ºC (CHEESEMAN & BROWN Jr. 1995). Como aditivo alimentar é usada em quantidades relativa- mente pequenas (0,1% a 1,0%), sendo utilizada para modificar ou estabilizar propriedades físi- cas do produto e normalmente envolve pouca ou nenhuma técnica especial de processamento, podendo ser adicionada juntamente com outros ingredientes alimenta- res na forma de pó (NAKAO, 1997). Pode ser usada como um modificador de textura, me- lhorando a retenção de água em lingüiças e presuntos; em queijos, como substituinte de gordura e em iogurtes para pre- venção de sinérese. Quando utilizada em concentrações de 0,2% a 1% em bife de hambúrguer promove elevada suculência, maciez e textura após cozimento (PSZCZOLA, 1997). Usada isoladamente ou em con- junto com outros hidrocolóides tem notável potencial como sistema mimetizador de gordura (FUNAMI; YADA & NAKAO, 1998), podendo desta forma contribuir para a redução do teor de gordura do alimento, o que é muitas vezes desejado. A Tabela 1 apresenta de forma resumida possíveis aplicações da goma curdlana na área de alimentos. B) Imobilização de enzimas De acordo com Saudagar & SINGHAL, (2004) a molécula de curdlana apresenta potencial como matriz para imobilização enzimática, uma vez que contémgrande número de grupos hidroxil e a reação destes grupos com epicloridrina resulta em grupos epóxi ativados que podem ligar-se covalentemente com grupos sulfidril, hidroxil e amino de enzimas, conse- qüentemente imobilizando-as. C) Área biomédica As áreas médica e farma- cêutica são campos bastante promissores e novos com rela- ção ao uso de polissacarídeos microbianos com atividade bio- lógica (CHENGHUA et al., 2000; SUTHERLAND, 2001). Desta forma, estas são áreas de imenso po- tencial para uso da goma curdlana, sendo observados na literatura diversos trabalhos que relatam este potencial. Jagodzinski et al (1994) e TOSHIO et al., (1998) constata- ram o efeito inibitório da molé- cula de curdlana sulfatada (sul- fato de curdlana) sobre a infec- ção com o vírus da imunodeficiência adquirida tipo 1 (HIV-1) “in vitro”. Igarashi et al. (1998) verificaram ação inibitória da molécula de curdlana sulfatada, em testes “in vitro” e “in vivo” sobre o desenvolvimento de Babesia bigemina, um protozoário pa- rasita causador da babebiose bovina, doença conhecida como “tristeza pa- rasitária bovina” que é responsável por grandes prejuízos principalmente em países tropicais e subtropicais. Alban et al. (1995) observaram em ensaios biológicos com coelhos e ratos a ação anticoagulante e antitrombótica da curdlana sulfatada (CurS). Em um trabalho mais recente de ALBAN & FRANZ (2000) a ação anticoagulante do sulfato de curdlana foi caracterizada, ficando demonstra- do que a estrutura da CurS inibe o processo de coagulação em vários sítios, inibindo a formação da trombina. A possibilidade de usar géis de curdlana como um novo material para liberação controlada de drogas tam- bém é observado na literatura. Kim et al., (2000) relatam que o gel de curdlana foi hábil para o aprisionamen- to e liberação controlada de Soro Albumina Boniva (BSA) por um perío- do de até 100 horas. Flieber et al., (2003), reportam que o campo mais novo de aplicação da curdlana é a produção de plásticos biodegradáveis para aplicações médi- cas. D) Outros campos de aplicação Outros campos de aplicação queFigura 8. Esquema simplificado do processo de produção da goma curdlana. F. NitrogênioGlicose Minerais (traços) FERMENTAÇÃO A.Radiobacter Biovar 1 Dissolução em Álcali Purificação Secagem CURDLANA 60 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 são relatados na literatura incluem o uso como aditivo de concreto, sendo utilizada para aumentar a fluidez dele (LEE & PARK, 2001) e o seu uso combi- nado com carvão ativado em processo de remoção de metais pesados (Cu++, Mn++, PB++ e Cd++) de soluções aquosas (MOON & LEE, 2004). 4. Considerações finais A goma curdlana é um polímero bacteriano com propriedades peculia- res que o tornam um material de grande interesse para a indústria. É uma goma que vem aos poucos con- quistando mercado, inicialmente o asi- ático e mais recentemente o norte- americano e tem amplo potencial de uso na indústria de alimentos, farma- cêutica entre outras. A área farmacêutica é um dos campos mais inovadores e propícios para o desenvolvimento de novos produtos de elevado valor agregado com este biopolímero, tanto no de- senvolvimento de medicamentos antiviróticos, antiparasitários, anticoagulantes e antitrombóticos, como na elaboração de materiais efi- cazes para a liberação controlada de drogas, bastante almejados pela indús- tria. Além de poder ser utilizada como suporte inerte para imobilização de enzimas, no preparo de plásticos biodegradáveis para fins biomédicos e em processos de adsorção de metais pesados. Referências bibiográficas ALBAN, S.; FRANS, G.. 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Polymer Testing. v. 23, p. 575-579, 2004. 62 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 Introdução “A biodiversidade está na moda”. Não é um exagero, mas sim um resu- mo real do que tem caracterizado o cenário internacional. Há uma cres- cente valorização dos produtos da na- tureza, considerados confiáveis e se- guros. Desta forma, as grandes com- panhias, visando atender a um merca- do consumidor cada vez mais exigen- te, têm procurado novas moléculas detentoras de atividade biológica no chamado “ouro verde”, ou seja, exa- minando os elementos que constitu- em a biodiversidade (Ferreira et al, 1998; Calixto, 2000; Megale, 2002). Contudo, ao longo deste proces- so de busca por novos princípios ati- vos, é evidente a enorme disparidade existente entre os países desenvolvi- dos e os denominados países em de- senvolvimento. Os primeiros possu- em uma enorme quantidade de recur- sos para serem investidos em pesqui- sa e desenvolvimento, mas não possu- em uma biodiversidade tão rica quan- to os segundos. Estes, por sua vez, apresentam um vasto número de re- presentantes da flora e da fauna, a Pesquisa PATENTES Extratos de plantas e derivados Adriana Campos Moreira Aluna de Doutorado do Curso de Pós-Graduação em Tecnologia de Processos Químicos e Bioquímicos Escola de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Especialista em Patentes da Coordenação de Gestão Tecnológica da Fundação Oswaldo Cruz/ GESTEC adriana@fiocruz.br Adelaide Maria de Souza Antunes D.Sc., professora do Departamento de Química Orgânica da Escola de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro adelaide@eq.ufrj.br Nei Pereira Júnior PhD, professor do Departamento de Engenharia Bioquímica da Escola de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro nei@eq.ufrj.br exemplo do Brasil – o país detentor da biodiversidade mais rica do mundo, porém não têm a mesma disponibili- dade financeira para a realização de investimentos na área em questão e tampouco contam com um sistema efetivo para controlar o acesso aos seus recursos genéticos. Países como o Brasil, portanto, são alvos de atenção internacional. Porém, são poucos os casos onde a soberania dos países sobre os seus recursos genéticos, a qual foi determinada pela Convenção da Dibersidade Biológica, é respeitada e eles recebem algum benefício resul- tante da exploração comercial dos seus recursos genéticos (Dutfield, 2000; Santilli, 2003; UNEP, 2004). Pelo con- trário, o resultado de tal disparidade é a biopirataria. A realidade evidencia que ele- mentos pertencentes à biodiversidade dos países em desenvolvimento são, na sua grande maioria, levados para o exterior de forma clandestina e pesquisados. Estas pesquisas têm ge- rado depósitos de pedidos de patente por parte de grandes companhias in- ternacionais. Tal afirmativa pode ser exemplificada pelos resultados de uma Resumo Inicialmente, o presente artigo destaca a crescente valorização da biodiversidade, ressaltando também o grande interesse que a flora e a fauna brasileiras despertam à nível internacional. Em seguida, o artigo em questão salienta que os principais detentores de documentos de patente associados a plantas tipicamente nacionais são estrangeiros. Desta forma, o referido artigo enfatiza a falta de estímulo ao conhecimento dos pesquisadores e empresários brasileiros sobre o tema “patentes”. Conseqüentemente, o presente trabalho aponta as dúvidas mais freqüentes acerca do tema em questão e, assim, esclarece as mesmas. Então, este artigo desmistifica os principais equívocos acerca do assunto e, finalmente, apresenta informações relevantes, as quais devem constar de um pedido de patente na área de produtos naturais, especificamente no âmbito das pesquisas com extratos de plantas e seus derivados. Verdades e Mentiras sobre a patenteabilidade no Brasil Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 63 análise feita pelo presente grupo, onde, após examinar centenas de documen- tos de patente provenientes de diver- sos países, e os quais estão relaciona- dos a plantas tipicamente brasileiras, verificou que apenas 5.8% destes são de titulares nacionais (dados não mos- trados). Seria uma grande injustiça justifi- car esta notória ausência de pesquisa- dores/universidades/ Instituições de pesquisa ou empresários brasileiros como detentores de documentos de patentes pelo simples fato de não serem realizadas pesquisas associadas às plantas e seus derivados em nível nacional. Afinal, o Brasil conta com um quadro de recursos humanos altamen- te qualificado para a realização de pesquisas na área em questão, sendo amplamente divulgados os resultados promissores que eles têm alcançado no decorrer de tais pesquisas. Todavia, é fundamental ressaltar que a falta de uma política nacional de inovação, a qual valorize a patente como indicador de produtividade, pode ser um dos fatores responsáveis por tal cenário brasileiro. Os pesquisa-dores são avaliados pela publicação de artigos científicos, participação em con- gressos etc., mas não são orientados, ou melhor, não têm estímulo para aprender acerca do tema “patentes” e, desta forma, proteger os seus resulta- dos antes de revelá-los. Logo, o país assiste a representantes da sua flora sendo protegidos por estrangeiros atra- vés do sistema de patentes e, em situações não raras, paga preços ele- vados por produtos feitos à base de plantas tipicamente nacionais. Assim, o presente trabalho abor- da a patenteabilidade dos produtos naturais no Brasil, enfatizando a possi- bilidade de proteção de resultados de pesquisas com extratos de plantas e derivados no território nacional, sali- entando a importância deste tipo de proteção, além de esclarecer as dúvi- das mais comuns por parte de pesqui- sadores ou empresários nacionais acer- ca deste tema, além de fornecer as principais informações que devem constar de um pedido de patente na área em questão. Metodologia A metodologia empregada na determinação do escopo de proteção dos produtos naturais no Brasil, espe- cificamente os extratos de plantas e seus derivados, foi a análise da Lei de Propriedade Industrial Brasileira - Lei 9279/96 (Brasil, 1996). A detecção das principais dúvidas associadas ao tema “patentes” foi decorrente do contato com pesquisadores e empre- sários brasileiros durante a experiên- cia profissional na Fundação Oswaldo Cruz, além da observação de informa- ções preliminares na literatura perti- nente à área em questão (Assumpção, 2001;Chamas, 2001). Finalmente, os detalhes acerca de bases de dados de patentes foram resultantes da obser- vação das páginas eletrônicas do Insti- tuto Nacional da Propriedade Industri- al do Brasil (INPI), do United States Patent Office e do European Patent Office. Resultados e discussão Inicialmente, é fundamental sali- entar a importância da proteção de resultados de pesquisas, independen- temente da área de enfoque delas. Sejam estas vinculadas às plantas, ou não, comumente são resultantes de anos de pesquisa, durante os quais foram investidos recursos para o pros- seguimento e a finalização dos expe- rimentos. E tais investimentos, em muitos casos, podem alcançar valores altíssimos. Desta forma, como seria interessante obter alguma compensa- ção pela obtenção dos resultados em questão. E se esta compensação não fosse apenas o reconhecimento pelo mundo científico, mas também algu- ma espécie de retorno financeiro de- corrente da exploração econômica deles? Tal retorno financeiro poderia ser empregado no desenvolvimento de novas pesquisas e assim sucessiva- mente. Porém, para se obter a compen- sação supracitada através da comercialização do objeto resultante de uma dada pesquisa, não é aconse- lhável que ela possa ser reproduzida livremente. Ela precisa estar protegida de forma a que o seu detentor, ou um terceiro autorizado por ele, possa re- produzi-la de uma forma privilegiada. E o sistema de patentes confere tal privilégio, na medida em que o Estado confere ao titular de uma patente o monopólio temporal sobre o objeto dela. Caso o titular de tal patente assim deseje, poderá conceder licença para um terceiro usufruir do monopólio em questão. No entanto, este terceiro pre- cisará pagar ao titular uma determina- da quantia a ser previamente acorda- da. Contudo, respeitosamente, é pos- sível destacar que o cenário nacional pode ser caracterizado, quanto ao ní- vel de conhecimento sobre o tema em questão, pela existência de três gru- pos distintos de pesquisadores ou em- presários: Em relação ao primeiro grupo, nestes encontram-se pesquisadores ou empresários nacionais que já utiliza- ram, pelo menos uma única vez, o sistema de patentes para a proteção de resultados de suas pesquisas. En- tão, no decorrer do processo de solici- tação da referida proteção, tiveram a orientação de profissionais especializados no assunto acerca das características do sistema em questão. Assim, tornaram-se conscientes a res- peito da importância de estarem aten- tos à proteção da informação antes de revelá-la a terceiros e, em muitos ca- sos, caracterizam-se como difusores deste conhecimento adquirido. Porém, a realidade brasileira evidencia que este grupo abrange a minoria dos pesquisadores ou empresários do país (Chamas, 2001). Os segundos correspondem aos pesquisadores brasileiros, os quais, em virtude do próprio sistema nacional para a avaliação das suas produtivida- des, nunca foram alertados quanto à necessidade de proteção dos resulta- dos das suas pesquisas. Logo, estão completamente atentos à continuida- de das suas pesquisas e ao desenvol- vimento de novos projetos de traba- lho, cujos resultados são revelados mediante os meios de divulgação mais empregados no ambiente acadêmico, a exemplo da publicação de artigos científicos e da participação em con- gressos. Estes pesquisadores obtêm o merecido mérito científico pelos seus resultados, mas deixam de usufruir dos benefícios decorrentes da exploração econômica de objetos de documentos de patentes dos quais sejam invento- 64 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 res. No terceiro grupo estão pesqui- sadores ou empresários nacionais que já tiveram contato, de alguma forma, com informações sobre o sistema de patentes. Porém, estão repletos de dúvidas a respeito do presente tema. E, somados a estas dúvidas, possuem, por algum motivo, determinadas in- formações que não correspondem à realidade do sistema em questão ou, em outras palavras, não são verdadei- ras e podem ser caracterizadas como “falsos mitos” vinculados à área de patentes. Tanto as dúvidas quanto os “falsos mitos” precisam ser esclareci- dos. Dentre as dúvidas mais freqüen- tes, as quais foram identificadas quan- do do desenvolvimento do artigo em questão, é possível mencionar e, en- tão, esclarecer: 1) A patente é internacional, ou seja, uma vez requerida em um dado país, vale para todo o mundo? A resposta é não. A Patente é territorial, valendo apenas nos territó- rios em que a solicitação da proteção foi realizada. Logo, caso se requeira este privilégio somente no Brasil, qual- quer indivíduo no mundo poderá re- produzir a pesquisa e comercializar o produto dela, exceto no território bra- sileiro. 2) É necessário depositar pedidos de patente em todos os países aonde se deseja obter proteção em um mesmo momento? Não. De acordo com um dos tratados mais antigos relacionados às patentes, conhecido como Conven- ção da União de Paris/CUP (WIPO, 2002), há um prazo de 12 meses, contados do primeiro depósito de pedido de patente, para que sejam efetuados os depósitos dos pedidos de patente denominados correspon- dentes. O primeiro depósito geral- mente é feito no país de origem do inventor, por exemplo o Brasil, mas não se trata de uma regra. 3) E se neste período alguém tomar conhecimento do conteúdo da pes- quisa e depositar pedidos de patente referentes a ela no exterior? Caso estes depósitos sejam feitos dentro do prazo de 12 meses supracitado, não é necessário ter qual- quer preocupação; pois, de acordo com a CUP (WIPO, 2002), o seu pedi- do, caso contenha matéria patenteável, é aquele que será concedido. O outro pedido será negado. 4) Como decidir sobre os países em que há necessidade de requerer pro- teção? Geralmente, a escolha dos terri- tórios onde a proteção será solicitada é feita mediante a análise de três fato- res, em conjunto ou isoladamente. O primeiro, é referente à existência de mercado consumidor para a matéria objeto do documento de patente. O segundo, é a possibilidade da indústria local reproduzir a referida matéria. No que diz respeito ao terceiro fator, este está associado à existência de poten- ciais parceiros para executar tal repro- dução do objetoda patente. 5) E se um determinado indivíduo desejar reproduzir uma pesquisa ob- jeto de patente, mas apenas para fins de pesquisa? É possível? Esta é uma das grandes dúvidas detectadas. A resposta é, sim. Afinal, a patente não pode impedir o progres- so tecnológico e, portanto, o conheci- mento das informações contidas nela pode resultar em novas pesquisas, cujos resultados, no futuro e desde que atendam aos requisitos de patenteabilidade, também poderão ser privilegiáveis. Porém, caso este indiví- duo mude de idéia e deseje explorar o objeto da patente com fins comerci- ais, terá que solicitar a autorização do titular desta patente. 6) Qualquer resultado de pesquisa é patenteável? O que torna os resulta- dos de uma pesquisa patenteáveis? É fundamental a compreensão de que não é qualquer resultado de pes- quisa que pode obter privilégio pelo sistema de patentes. Apenas aqueles que atendem, simultaneamente, a três requisitos de patenteabilidade pode- rão ser protegidos. O primeiro requisi- to é a NOVIDADE, ou seja, os resulta- dos da pesquisa devem ser novos, não tendo sido revelados sob nenhuma forma (oral, escrita, etc.) antes do depósito do pedido de patente. O segundo requisito corresponde à APLI- CAÇÃO INDUSTRIAL, ou melhor, os resultados precisam ter utilização em qualquer tipo de indústria, a exemplo da farmacêutica e da alimentícia. O último requisito é o mais subjetivo e corresponde à ATIVIDADE INVENTI- VA, não podendo ser óbvio para um técnico no assunto caso ele fosse cha- mado para solucionar o mesmo pro- blema inicial que motivou o pesquisa- dor a desenvolver o trabalho e obter os resultados finais. Em outras palavras, não pode ser uma mera combinação de meios conhecidos por outros de mesma função. 7) É possível proteger uma idéia? Não. É preciso que a idéia esteja concretizada, ou melhor, que tenha sido demonstrada a sua aplicação. Por exemplo, não basta mencionar que o extrato de uma determinada planta possui atividade antiinflamatória; é necessário demonstrar o referido efei- to. 8) Qual o momento de depositar um pedido de patente? Esta dúvida também é muito im- portante. Não é necessário esperar o alcance da escala industrial dos resul- tados da pesquisa para, então, reque- rer a proteção deles. De forma algu- ma. O momento exato para requerer a proteção é tão logo se comprove a aplicação desejada, a exemplo da ati- vidade antiinflamatória supracitada. Ge- ralmente, esta comprovação ocorre ainda na escala de laboratório. Assim, neste caso, este é o momento adequa- do. E todo este cuidado deve ser realizado de forma a evitar que tercei- ros, a exemplo de grupos de pesquisa que estejam trabalhando em projetos similares, depositem pedidos de pa- tentes prioritariamente. 9) O titular precisa esperar a concessão da patente para poder comercializar o seu objeto de forma privilegiada? Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 65 Não. Afinal, quando se deposita um pedido de patente já se adquire a expectativa de direito sobre o objeto do pedido. Logo, a partir do depósito, quem quer que deseje explorar o seu conteúdo comercialmente terá que solicitar a autorização daquele que depositou o pedido. 10) E se o pedido de patente não for concedido? Será necessário devolver o di- nheiro àquele a quem o depositante autorizou a exploração econômica? Não. Apenas, a partir da data da nega- tiva ao pedido de patente, este não precisará mais pagar pela sua utiliza- ção no território do país que negou tal proteção. 11) Quem concede patentes no Brasil? Trata-se do Instituto Nacional da Propriedade Intelectual/INPI, o qual possui um quadro de funcionários especializados em diferentes áreas do conhecimento humano. Dentre estes funcionários, encontram-se os exami- nadores de pedidos de patente, os quais analisam a patenteabilidade das informações contidas nos pedidos de patente depositados e, assim, conce- dem ou não a proteção por patentes. O INPI está localizado no Rio de Janei- ro. 12) Mas, e se o interessado não morar no Rio de Janeiro? Como poderá re- querer tal proteção? O INPI possui delegacias em ou- tros estados, as quais estão prontas para receber os referidos pedidos. O Instituto também fornece a alternativa dos pedidos serem encaminhados via correio. 13) Qual é o tempo de vigência de uma patente? E depois da expiração deste prazo, o que ocorre? A patente possui a vigência de 20 anos, contados da data do depósito do pedido de patente. Após este prazo, a matéria objeto da patente é considera- da de domínio público, podendo ser livremente utilizada por qualquer indi- víduo interessado nela. 14) A quem pertencem as invenções? A Lei de Propriedade Industrial Brasileira – Lei 9279/96 (Brasil, 1996) – determina que, quando a obtenção dos resultados de uma pesquisa esti- ver associada a um contrato de traba- lho cuja execução ocorra no país, a invenção pertence ao empregador. Aqueles que participaram da pesquisa podem ser denominados inventores. Em outro caso, quando a pesquisa resultar de atividades não relacionadas ao contrato de trabalho e o pesquisa- dor não utilizar qualquer tipo de recur- so do empregador, a invenção perten- cerá exclusivamente ao empregado. Por último, quando a obtenção dos resultados da pesquisa estiver associa- da à contribuição pessoal do emprega- do e de recursos do empregador, en- tão a invenção pertencerá a ambos. 15) Os inventores recebem algum tipo de prêmio pelo desenvolvimento de resultados objeto de documentos de patente? No caso da obtenção dos resulta- dos estar associada ao contrato de trabalho, ainda de acordo com a Lei de Propriedade Industrial Brasileira – Lei 9279/96 (Brasil, 1996) – as entidades da administração pública deverão, a título de incentivo, prever premiação aos inventores sobre os valores auferidos com o pedido de patente ou com a patente concedida. 16) Depois do depósito do pedido de patente ou da patente concedida, ainda é necessário mais algum tipo de providência? Sim. É importante que o reque- rente não se esqueça de pagar as taxas de manutenção do pedido, ou seja, as anuidades deles. O mesmo deverá ser feito após a concessão da patente. Ao longo do período de vigência do pedi- do de patente ou da patente concedi- da, caso sejam feitas quaisquer tipos de exigências pelos órgãos oficiais que concedem patentes, elas também deverão ser cumpridas dentro de pra- zos estipulados por eles, sob pena de perda do pedido de patente ou da patente concedida. 17) Qual a diferença entre ‘autor’ e ‘inventor’? Na área de patentes, o significado de ‘inventor’ é diferente daquele ca- racterístico para o ‘autor’ de um traba- lho científico. ‘Inventor’ é aquele que contribuiu intelectualmente para o desenvolvimento da pesquisa e a con- seqüente obtenção dos resultados. Não é aconselhável incluir como ‘invento- res’ aqueles que desempenharam ape- nas atividades mecânicas ao longo da pesquisa, não tendo exercido qual- quer papel intelectual no decorrer dela. Porém, há a necessidade de que tal decisão seja tomada de forma sen- sata, a fim de se evitar que injustiças sejam cometidas. Em relação às idéias equivocadas a respeito do tema “patentes”, a inves- tigação que originou o presente artigo determinou que as mais comuns são aquelas descritas a seguir: 1) ‘“Patentear” resultados de pesqui- sa custa caro!’ É preciso ter cuidado ao realizar tal afirmativa. No Brasil, a taxa de depósito de um pedido de patente custa, no máximo, R$140,00. E de acordo com a Resolução 104/03 do INPI, esta retribuição é reduzida em cerca de 60% quando os requisitantes forem pessoas naturais, ou microempresas, ou instituições de en- sino e pesquisa, ou sociedades/associ- ações com intuito não-econômico ou órgãos públicos (INPI, 2004). No que dizrespeito às anuidades de um pedido de patente ou de uma patente concedida, os seus valores variam de R$ 195,00 até R$ 1.950,00. Porém, é importante ressaltar que, assim como mencionado para a taxa de depósito, também existe a mesma possibilidade de redução de 60% so- bre os valores destas anuidades (INPI, 2004). Contudo, é importante mencio- nar que, no exterior, os custos não são da mesma ordem de grandeza daque- les em nível nacional. Para se efetuar o depósito de um pedido de patente em qualquer país, é necessário utilizar os serviços de escritórios de proprie- 66 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 dade intelectual existentes neles. E cada um destes escritórios cobra, além das taxas oficiais associadas aos pedi- dos de patente ou às patentes conce- didas, honorários referentes às suas atividades profissionais. E tais cobran- ças são feitas na moeda local. Logo, apenas tendo como base o dólar ame- ricano, é possível verificar como as ordens de grandeza são diferentes em relação aos custos com os pedidos de patente ou patentes concedidas no Brasil. Todavia, é importantíssimo res- saltar que algumas universidades e instituições de pesquisa brasileiras já contam com setores especializados em patentes dentro das suas instala- ções, os quais têm todo o apoio institucional para, caso julguem perti- nente, arcar com os custos supracitados. Sem dúvida alguma, tais setores são fundamentais aos pesqui- sadores como um todo e para as pró- prias universidades ou instituições. Alguns deles já encontram-se mais estabelecidos do que outros, na medi- da em que possuem mais experiência neste tipo de atividade, seja perante a própria universidade/Instituição, seja perante o ambiente externo a elas. Neste caso podem ser incluídas, por exemplo, a Coordenação de Gestão Tecnológica da Fundação Oswaldo Cruz e a Área de Propriedade Intelec- tual do CENPES/Petrobrás, as quais vêm, ao longo dos anos, difundindo as suas experiências àqueles interessa- dos no assunto. Outros setores especializados em assuntos relaciona- dos à propriedade intelectual, tal como a patente, apesar de não instituídos há muito tempo, estão se consolidando a cada dia (REPICT, 2003). Os empresários locais, por sua vez, têm a oportunidade de contar com os serviços de escritórios priva- dos especializados no presente tema. O Brasil conta com escritórios alta- mente qualificados para o desempe- nho de atividades relacionadas às pa- tentes, dentre outras. Porém, seja no âmbito das univer- sidades e instituições de pesquisas seja no setor privado, a utilização des- te tipo de serviço especializado ainda é muito tímida. Normalmente, esta procura é espontânea, ou seja, por parte de apenas alguns integrantes de Intituições ou poucos empresários nacionais. O número de pedidos de patente depositados ou de patentes concedidas, por exemplo, não é con- dizente com o tamanho e a importân- cia das universidades e instituições de pesquisa brasileiras nos cenários naci- onal e internacional. 2) ‘Por ser pesquisador e trabalhar em benefício da sociedade, não é correto ter preocupação em “patente- ar”! Afinal, tal atitude seria uma es- pécie de lucro sobre a sociedade!’ Também é fundamental ter cau- tela ao afirmar que, por trabalhar em uma instituição pública, não é possível pensar em ‘patentes’. Justamente pelo fato de a instituição ser pública, e cujo principal objetivo é realizar pesquisas no intuito de trazer benefícios à socie- dade, torna-se importantíssimo uma reavaliação de tal conceito. Afinal, caso uma instituição pública seja detentora de um pedido de patente ou de uma patente concedida, ela poderá produ- zir o objeto de tal documento patente sem qualquer tipo de concorrência. Então, poderá fornecê-lo gratuitamen- te à sociedade e não ser influenciada pelos preços estabelecidos pelo mer- cado. Por outro lado, se tal instituição não puder produzir este objeto, ela ainda tem o direito de licenciar a produção a um interessado capaz de realizá-la e, com os benefícios oriun- dos de tal exploração econômica, po- derá investir no desenvolvimento de novos projetos de pesquisa que visem atender aos anseios da população na- cional. 3) ‘A Patente impede a publicação de artigos científicos!’ Esta noção é completamente equivocada. De forma alguma a pa- tente impede a publicação de artigos científicos. Na realidade, é importante apenas atrasar a divulgação dos resul- tados da pesquisa até que o respectivo pedido de patente seja depositado. Por exemplo, caso um pedido de patente seja depositado junto ao INPI hoje às 8:00 hs da manhã, às 8:01hs já é possível realizar tal divulgação. Porém, é importante enfatizar que, em uma situação ideal, seria aconse- lhável revelar os resultados contidos em um pedido de patente após um prazo de 18 meses contados do depó- sito prioritário. Esta recomendação é baseada no fato do pedido ficar sob sigilo, por exemplo, no Instituto Naci- onal da Propriedade Industrial do Bra- sil/INPI, durante o período em ques- tão. Neste prazo, caso um terceiro procure obter informações sobre o seu pedido de patente, não terá êxito. As informações apenas poderão ser ad- quiridas após o término de tal período. Assim, nesta situação ideal, o pesqui- sador estararia em posição vantajosa em relação a terceiros que atuam em projetos de trabalho similares ao rela- cionado a sua pesquisa. Contudo, é notória a forma de averigüação da produtividade dos pes- quisadores nacionais. Logo, nos casos em que os pesquisadores utilizam o benefício da proteção dos seus resul- tados mediante o sistema de patentes, o máximo que os profissionais da área de patentes conseguem é um atraso da revelação da invenção até que o depósito do pedido de patente seja realizado. Comumente, após esta data, tais pesquisadores enviam os seus ar- tigos para publicação, ou revelam os seus resultados em congressos etc. 4)‘Caso resultados de pesquisa sejam revelados antes do depósito de um pedido de patente, já não há chance de se obter qualquer proteção para eles’ Cabe ressaltar que, caso todos os resultados de uma pesquisa sejam re- velados anteriormente ao depósito de um pedido de patente, ainda há chance de se requerer proteção para eles em alguns países, e mediante o sistema de patentes. A justificativa para esta afirmação é dada pelo fato de determinados países, a exemplo do Brasil, dos Estados Unidos e Japão, estabelecerem uma espécie de prazo de carência, conhecido como “perío- do de graça”, para o depósito de pedidos de patentes posteriores à di- vulgação de seus conteúdos. Assim, caso o pedido de patente seja deposi- tado dentro de tal período, não será considerado qualquer prejuízo ao aten- dimento do requisito da NOVIDADE. No Brasil e nos Estados Unidos, por Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 67 exemplo, tal prazo é de 12 meses contados a partir da data da revelação em questão. No Japão, por sua vez, este período é de 6 meses a contar de tal divulgação (Brasil, 1996; Japan, 1999; United States, 2001). Porém, a maioria dos países não apresenta este tipo de salvaguarda. Logo, para este tipo de divulgação prévia, os territóri- os onde a proteção poderá ser requerida fica bastante restrito. Ainda é necessário enfatizar que, quando da revelação parcial das infor- mações resultantes de uma pesquisa, é fundamental analisar cada palavra utilizada ao longo de tal revelação. Desta forma, será possível identificar se houve comprometimento total ou parcial quanto à NOVIDADE dos resul- tados da pesquisa. Caso haja um com- prometimento total, apenas será pos- sível requerer a proteção nos países que permitem a utilização do período de graça. Por outro lado, caso o con- teúdo revelado não comprometa to- talmente a NOVIDADEda invenção, o pedido poderá ser depositado em qualquer território desejado. Todavia, nestes casos, naqueles países sem o chamado “período de graça”, apenas os elementos da invenção não revela- dos anteriormente poderão ser privilegiáveis. Nos territórios que apre- sentam tal prazo de carência, a inven- ção poderá ser protegida por comple- to. Também é imprescindível co- mentar que, para os casos onde não há como evitar a divulgação dos resul- tados de uma pesquisa em data ante- rior ao depósito de um pedido de patente, é aconselhável verificar a possibilidade de revelar as informa- ções principais sob a forma mais geral possível. Por exemplo, em vez de mencionar a espécie de uma planta cujo extrato possui atividade farmacológica, é prudente relatá-la apenas pelo nome do seu gênero, ou da sua família, ou até mesmo de um modo codificado, a exemplo de ‘plan- ta X’. Todo este cuidado, realmente, visa “esconder as informações ou não abrir o jogo” e, assim, procurar se defender quanto a futuros questionamentos em relação ao não atendimento dos requisitos de patenteabilidade por parte dos resul- tados da pesquisa. 5)‘A patente impede a defesa de tese!’ Assim como no item anterior, esta informação não deve ser generalizada. Caso não haja a possibilidade de se depositar um pedido de patente antes da defesa de uma tese relacionada ao conteúdo do referido pedido, há uma alternativa que vem sendo aceita por diversas universidades e instituições de pesquisa brasileiras: realizar uma “defesa de tese fechada”. Ou seja, apenas os membros da banca e os orientadores poderão assistir a dita defesa, mediante a prévia assinatura de um documento intitulado “termo de confidencialidade”. Através da assi- natura deste termo, estes se compro- metem a não divulgar o conteúdo da pesquisa até que o pedido de patente seja depositado, ou até que termine o processo de análise da patenteabilidade dos resultados desta pesquisa e, então, se conclua que eles não são patenteáveis e, portanto, podem ser divulgados. Todavia, há locais que não aceitam este tipo de defesa, afirman- do que ela deve ser pública e, portan- to, podendo ser assistida por qualquer pessoa interessada no tema. Logo, esta alternativa somente pode ser em- pregada quando da sua permissão por universidades e instituições de pes- quisa. 6) ‘O examinador de pedido de paten- te verificará se os meus resultados são tóxicos!’ É fundamental esclarecer que um examinador de pedido de paten- te, quando da análise da pertinência da proteção dos resultados de uma pes- quisa pelo sistema de patentes, ape- nas pode considerar os três requisitos de patenteabilidade comentados an- teriormente. Então, por exemplo, no caso de uma pesquisa que envolva uma composição para combater a asma, eles não podem julgar se ela é tóxica ou não. Este papel é conferido ao órgão oficial de registro de medica- mentos de cada país. 7) ‘Os meus resultados são novos!’ Não é aconselhável afirmar a NOVIDADE de resultados de pesqui- sa, apenas tendo como base uma revi- são bibliográfica feita na literatura ci- entífica. Porém, tal afirmativa é bas- tante freqüente no meio acadêmico nacional. Ainda como uma conseqüência da falta de estímulo ao aprendizado sobre o sistema de patentes, os pes- quisadores brasileiros não possuem uma noção sobre a importância da literatura patentária como uma fonte de informação técnico-científica. Não seria exagero afirmar que o mesmo quadro pode ser aplicado aos empre- sários nacionais. Neste sentido, é fundamental sa- lientar que a literatura patentária é constituída por documentos de paten- te provenientes de diversos países do mundo, sejam estes pedidos de pa- tente ou patentes concedidas. Um levantamento realizado por especia- listas na área de patentes verificou que este tipo de literatura contém documentos inéditos, os quais não foram revelados sob nenhuma outra forma de divulgação e, no caso de terem sido revelados, tal revelação somente aconteceu após o depósito do respectivo pedido de patente (Macedo et al, 2001). Desta forma, é possível enfatizar que a literatura de patentes é caracterizada por conter informações inéditas e atuais, as quais estão relacionadas às diferentes áreas do conhecimento humano. Então, antes de iniciar qualquer projeto de pesquisa, assim como ao longo de todo o seu desenvolvimento e, finalmente, quando da análise da patenteabilidade dos resultados dele, é imprescindível observar não apenas a literatura científica, como também a literatura patentária. Desta forma, é possível evitar a chamada “reivenção da roda”, ou seja, a obtenção de resul- tados outrora obtidos por terceiros, não desperdiçando tempo e recursos em algo já desenvolvido anteriormen- te. E, além disso, a constante análise das informações contidas na literatura patentária permite direcionar a pes- quisa no sentido da obtenção de resul- tados passíveis de proteção pelo siste- ma de patentes. Mas, como verificar se determina- dos resultados de pesquisa atendem aos requisitos de patenteabilidade? Os profissionais vinculados à área de pa- tentes costumam empregar o seguin- 68 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 te raciocínio ao longo da execução das suas atividades: uma pesquisa é de- senvolvida com o objetivo de solucio- nar um determinado problema. Este problema, o qual pode ser novo ou antigo, é o que funciona como uma motivação para o delineamento de uma linha de investigação e a conse- qüente obtenção da solução almejada. Logo, a forma empregada para soluci- onar o problema original constitui uma obra do intelecto humano e, desta forma, precisa ser analisada quanto ao atendimento aos requisitos de patenteabilidade. Assim, é importante verificar se esta forma já era previamente conhe- cida, por exemplo, pelo fato de tercei- ros já a terem empregado para soluci- onar o mesmo problema. Caso tal forma seja completamente inédita, os resultados são patenteáveis. Mas, se forem encontradas formas similares, estas deverão ser analisadas quanto a possíveis diferenças em relação àque- la do pesquisador. Contudo, não sendo possível identificar qualquer diferença que comprove o ato inventivo associ- ado à pesquisa ora em foco, há um sério comprometimento da patenteabilidade dos seus resutlados e, portanto, não é aconselhável reali- zar o depósito do pedido de patente. Porém, caso seja possível identificar vantagens do trabalho do pesquisador perante aqueles decorrentes das lite- raturas científicas e patentárias, estas deverão ser apontadas no pedido de patente de maneira a defender a patenteabilidade dos seus resultados. A literatura de patentes pode ser consultada mediante uma busca ma- nual, ou através de uma busca informatizada. A “busca manual” é de- finida como aquela realizada no que pode ser denominado “bibliotecas de patentes”. Os documentos são arqui- vados de acordo com uma classifica- ção internacional de patentes, a qual foi criada para facilitar a recuperação das informações e, assim, evitar que os usuários tenham que observar todos os documentos de patente publicados até a atualidade, quando, na verdade, têm o interesse apenas por um deter- minado ramo do conhecimento tecnológico (WIPO, 2003). O Instituto Nacional da Propriedade Industrial do Brasil/INPI, assim como diversas re- partições oficiais de propriedade inte- lectual ao redor do mundo, possuem um acervo contendo documentos de patente originários de vários países. Assim, o interessado pode compare- cer a tais bibliotecas e, então, pesquisar os referidos documentos manualmen- te. Porém, há um outro tipo de bus- ca, a “busca informatizada”, cuja reali- zação é feita via off-line (CD-ROMs) ou via on-line (páginas eletrônicas). Os dois tipos de possibilidade de “bus- ca informatizada” propiciam uma aná- lisede documentos de patente prove- nientes de diversas regiões do mundo, dependendo do acervo disponível. Contudo, a busca on-line contém do- cumentos mais atuais do que a busca off-line. A “busca informatizada” per- mite a realização de procura por pala- vras-chave, por nomes de inventores e/ou instituições que possuem docu- mentos de patente, por ano de depó- sito do pedido de patente, dentre outras várias opções de procura. Ainda é importante citar que al- gumas páginas eletrônicas são priva- das, logo cobram pela realização da busca. Outras, porém, são gratuitas. Dentre estas, é possível destacar as presentes nas páginas eletrônicas do INPI (www.inpi.gov.br) e das Reparti- ções Oficiais de Propriedade Intelec- tual dos Estados Unidos (United States Patent and Trademark Office/ USPTO) e da Europa (European Patent Office/EPO), respectivamente ‘www.uspto.gov’ e ‘http:// www.european-patent-office.org/ espacenet/info/access.htm’. Esta últi- ma proporciona a busca em documen- tos de patente dos mais variados paí- ses, além de possibilitar a impressão dos referidos documentos na sua ínte- gra. A página americana apenas possi- bilita a procura em documentos de patente americanos, mas também permite a impressão deles. A página brasileira, por sua vez, permite a busca em documentos de patente brasilei- ros. O INPI está realizando esforços no intuito de possibilitar a impressão inte- gral dos documentos de patentes em questão. 5) É “produto da natureza”, então não é patenteável! Esta afirmativa também não é verdadeira. Afinal, cada país possui a sua lei associada às patentes e, depen- dendo do país onde se deseja obter a proteção dos resultados de trabalhos com extratos de plantas e seus deriva- dos, será possível, ou não, a proteção para todos os elementos integrantes de tais pesquisas. Nestas situações, o ponto primor- dial é a observação daquilo que uma dada legislação interpreta como uma descoberta ou como uma invenção. Esta interpretação evidencia quais re- sultados podem ser protegidos em seus territórios, tendo em vista que, ao contrário de uma INVENÇÃO, uma DESCOBERTA não pode ser patente- ada. Neste sentido, é pertinente sali- entar que o conceito de invenção está relacionado a uma nova solução para um problema técnico de produção. Este problema pode ser antigo ou novo, a exemplo de, respectivamen- te, como criar ou aperfeiçoar um pro- cesso de extração de princípios ativos de uma determinada planta ou um novo produto para atender a uma necessidade antes inexistente. Entre- tanto, a solução, para ser invenção, precisa ser obrigatoriamente nova, ou seja, ninguém havia criado anterior- mente a idéia ou, pelo menos, nin- guém a havia divulgado ou dado aces- so de sua informação ao público. En- tão, pode-se afirmar que invenção é diferente de descoberta. Os conheci- mentos resultantes das descobertas podem ser livremente utilizados por todos, uma vez que consistem apenas em informações previamente exis- tentes na natureza e que apenas estão sendo reveladas de forma a acrescen- tar a gama de informações em poder do homem. Logo, estas não podem ser protegidas através das patentes, uma vez que a proteção patentária se des- tina, de forma única e exclusiva, às criações essencialmente relacionadas à fabricação de mercadorias tangíveis (incluindo processos de produção), por definição, as invenções. Assim, especificamente na área de pesquisas com extratos de plantas e seus derivados, cada resultado deve ser analisado individualmente, a fim de verificar se eles constituem matéri- as patenteáveis. Caso estes não sejam Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 69 passíveis de proteção, não há sentido em avaliar se apresentam NOVIDA- DE, ATIVIDADE INVENTIVA ou APLI- CAÇÃO INDUSTRIAL. Focalizando a atenção no Brasil, a observação da Legislação de Proprie- dade Industrial Brasileira - Lei 9279/96 (Brasil, 1996), especificamente os ar- tigos 8, 10 e 18, permite verificar os resultados de pesquisas com extratos de plantas e derivados que são passí- veis de proteção no território nacional. Uma vez que, conforme a Lei 9279/96, “o todo ou parte de seres vivos naturais e materiais biológicos encontrados na natureza, ou ainda que dela isolados”, não é considerado uma invenção, é possível concluir que um extrato de uma determinada plan- ta, ou qualquer substância extraída dele, não pode ser protegido pelo sistema de patentes no território naci- onal. No país, tais resultados não são considerados resultantes do intelecto humano, mas sim a descoberta de informações já existentes na natureza e que, agora, foram simplesmente detectadas. Porém, é importante esclarecer que composições que contenham tais extratos ou moléculas isoladas deles, caso apresentem alguma finalidade, a exemplo de uma determinada ativida- de biológica, são passíveis de prote- ção por patentes no Brasil. Apesar de conterem “produtos da natureza”, elas não são classificadas como tal. Outros resultados de pesquisas na área em questão, os quais podem ser privilegiáveis no país pelo sistema de patente, são aqueles correspon- dentes aos processos de obtenção de extratos ou de substâncias provenien- tes dos mesmos. Estes processos, caso sejam novos, possuidores de atividade inventiva e de uma aplicação industri- al, também são patenteáveis em nível nacional. Desta forma, é falsa a idéia de que qualquer resultado de pesquisa associ- ado a produtos da natureza não pode ser protegido no Brasil. Porém, a rea- lidade nacional, conforme ressaltada na introdução do presente artigo, evi- dencia que nem o pouco de proteção concedida no país é utilizado pelos pesquisadores ou empresários nacio- nais. Mais uma vez, cabe ressaltar que o importante é analisar individualmen- te cada resultado da pesquisa. Neste sentido, não é correto generalizar! Outro ponto considerado bastan- te pertinente à compreensão do tema “patentes” é a clara noção das diferen- ças existentes entre um documento de patente e um artigo científico. Afinal, não basta ter o conhecimento dos conceitos relevantes ao assunto em questão, a exemplo do que é ou não passível de proteção no Brasil. É fundamental ter a compreensão acer- ca das características de um documen- to de patente, ou melhor, sobre a espécie de informações necessárias à elaboração dele. Um artigo científico, geralmente, é organizado de uma maneira muito familiar aos pesquisadores e aos em- presários. Comumente contém uma introdução, a descrição dos materiais e métodos utilizados no desenvolvimen- to da pesquisa e, em seguida, há a apresentação dos resultados obtidos, assim como a discussão e a conclusão deles. Uma lista de referências empre- gadas ao longo da elaboração do artigo também é fornecida. Adicionalmente, não é exagero afirmar que cerca de 70% das informações contidas em um artigo científico correspondem a ape- nas uma das diversas divisões de um documento de patente: os ‘exem- plos’. O documento de patente é com- posto pelo ‘Relatório Descritivo’, ‘Reivindicações’, ‘Figuras’ (se houver) e ‘resumo’ (Macedo et al, 2001). No que diz respeito ao ‘Relatório Descri- tivo’, este é subdividido em: a) Título da Invenção; b) Fundamentos da Invenção; c) Sumário da Invenção; d) Breve Descrição das Figuras (se houver); e) Descrição Detalhada da Inven- ção, e f) Exemplos. Especificamente em relação às pesquisas com extratos de plantas e seus derivados, é interessante desta- car as informações indispensáveis em cada um dos itens mencionados ante- riormente. Assim, nestes casos, o ‘Título da Invenção’, como o próprio termo diz, representa a denominação conferida à pesquisa, não devendo conter nomes de fantasia, tal como “melhor”, “mara- vilhoso”, etc. No que diz respeito aos ‘Fundamentos da Invenção’, ele deve retratar o cenárioda área tecnológica referente às plantas, a qual está mais vinculada à matéria objeto da inven- ção. Logo, esta subdivisão deve salien- tar, por exemplo, os principais proble- mas característicos no campo da iden- tificação e obtenção de princípios ati- vos provenientes de plantas, o que tem sido feito para solucioná-los, quais as desvantagens associadas e, princi- palmente, aquilo que ainda necessita ser realizado. O ‘Sumário da Invenção’ apresenta, de forma sucinta, os resul- tados do pesquisador como a solução para a eliminação de dificuldades ain- da existentes no ramo tecnológico em questão, caracterizando-os como aqui- lo que necessitava ser (e foi) desen- volvido. Neste sentido, fornece uma breve noção sobre as concretizações da invenção. Através da ‘Breve Descri- ção das Figuras’, o elaborador nomeia cada figura integrante do pedido, es- clarecendo, por exemplo, as suas le- gendas. Porém, o relato profundo da in- venção pode ser encontrado no tópi- co denominado ‘Descrição Detalhada da Invenção’. Geralmente, este é um dos campos que os pesquisadores mais debatem com os elaboradores do pe- dido (caso não sejam a mesma pes- soa), tendo em vista a generalização aqui realizada. Neste sentido, há uma frase que traduz todo este debate: “aos inventores cabe realizar a invenção e, aos elaboradores de pedidos de pa- tente, cabe ‘inventar’ a invenção”. Des- crever detalhadamente a invenção não significa relatar apenas o que foi reali- zado pelos pesquisadores em seus laboratórios, mas sim pensar e, então, prever todas as variações, ou melhor, todas as formas possíveis para se rea- lizar tal invenção. Por exemplo, na descrição da obtenção de extratos ou substâncias provenientes de plantas, devem ser previstos todos os proces- sos possíveis, com alternativas para os solventes a serem utilizados, sejam estes orgânicos ou aquosos, assim como para as condições da sua realização (faixas de temperatura viáveis à exe- cução do processo, etc.). Logicamente, é primordial manter coerência ao se descrever todas as alternativas para a dada invenção. 70 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 A descrição minuciosa e exata da pesquisa em questão é feita nos exem- plos. Novamente, fazendo uma analo- gia com os artigos científicos, nesta subdivisão do pedido de patente são revelados os materiais e métodos em- pregados, assim como os resultados obtidos e a discussão deles. Logo, em tal subdivisão deve ser descrita a pes- quisa conforme realizada no laborató- rio, informando, por exemplo, o pro- cesso de extração exato, o solvente utilizado, a temperatura da operação etc. Adicionalmente, devem ser des- critos os testes que comprovam uma atividade farmacológica alegada, tal como uma atividade analgésica. No pedido, também devem ser apresentadas (caso existam) as figuras relacionadas à invenção, as quais já foram nomeadas anteriormente, ou seja, no campo Breve Descrição das Figuras. As referidas figuras são nome- adas neste campo e apresentadas após os exemplos. Exemplos destas figuras podem ser representados pelos gráfi- cos de testes in vitro e/ou in vivo sobre a atividade dos extratos da in- venção ou de substâncias isoladas de- les. Adicionalmente, deve ser inserido um resumo da invenção, o qual facili- tará, posteriormente, a leitura rápida a respeito da invenção em questão e, portanto, será interessante quando ter- ceiros realizarem a busca na literatura patentária. As informações contidas no resumo são semelhantes àquelas des- critas para o ‘Sumário da Invenção’. Ainda é fundamental comentar sobre as ‘Reivindicações’ de um docu- mento de patente. Tal subdivisão corresponde às especificidades da in- venção para as quais a proteção é requerida, ou melhor, os aspectos par- ticulares que os inventores conside- ram como novidade em relação ao estado da técnica existente até aquele momento. Uma vez concedida a pa- tente, estas irão delimitar e estabele- cer os direitos do titular da referida patente sobre a matéria objeto da proteção. Desta forma, é primordial ter extrema atenção quando da elabo- ração do quadro reivindicatório. As ‘Reivindicações’ podem ser classificadas em: a) Reivindicações Independen- tes, e b) Reivindicações Dependentes. As Reivindicações Independen- tes definem todos os elementos es- senciais da invenção dentro dos limi- tes em que esta funciona. Uma reivin- dicação independente não pode ser tão ampla a ponto de abranger o estado da técnica, nem tão restrita de forma a conferir oportunidade para que terceiros produzam o objeto da patente, porém sem violá-la. Logo, a maneira de solicitar a proteção medi- ante tais reivindicações dependerá da comparação entre os resultados do pesquisador e aqueles decorrentes das buscas nas literaturas científica e patentária. Podem existir tantas rei- vindicações independentes quantas fo- rem necessárias para proteger a in- venção. No que diz respeito às Reivin- dicações Dependentes, estas têm por objetivo proteger detalhes específi- cos da invenção, os quais já devem estar mais amplamente abrangidos nas relativas reivindicações independen- tes. Um exemplo de Reivindicação Independente a ser apresentada ao INPI é descrito a seguir: 1) Composição com atividade farmacológica, em especial atividade antiinflamatória, caracterizada por compreender um extrato selecionado do grupo consistindo do extrato bru- to aquoso da planta (colocar a es- pécie da planta), do extrato bruto orgânico da planta (colocar a es- pécie da planta), de frações do extrato bruto aquoso da planta (co- locar a espécie da planta), de frações do extrato bruto orgânico da planta (colocar a espécie da plan- ta) e um veículo farmaceuticamente aceitável. Quanto à Reivindicação Indepen- dente, a mesma pode ser exemplificada da seguinte forma: 2) Composição de acordo com a rei- vindicação 1 caracterizado pelo fato da fração ser uma das frações do extrato metanólico da raiz da planta (colocar a espécie da planta). De uma forma geral, é possível afirmar que o conteúdo básico de uma determinada reivindicação pode ser mantido inalterado quando dos depó- sitos de pedidos de patente em dife- rentes países. Logicamente, será ne- cessário realizar algumas adequações conforme cada regulamentação local. Por exemplo, no Brasil, é necessário escrever a expressão ‘caracterizado(a) por’, ou ‘caracterizado(a) pelo fato’, antes de mencionar o que diferencia um resultado daqueles já conhecidos no estado da técnica. Um outro termo comumente utilizado é ‘de acordo com a reivindicação’, a fim de expres- sar a relação de dependência de uma reivindicação dependente a uma de- terminada reivindicação independen- te. Ainda é interessante ressaltar um artifício comumente empregado por especialistas na área de patentes: a generalização. Ou melhor, é funda- mental ter a noção de que ao ‘elaborador’ de um pedido de patente é fundamental requerer a proteção dos resultados de uma forma a mais ampla possível; pois é ao ‘examina- dor’ de pedidos de patente que cabe a função de restringir, ou não, uma proteção requerida”. Porém, é impres- cindível manter uma coerência no momento de utilizar a generalização em questão. Neste sentido, observando o exemplo de reivindicação indepen- dente supracitado, são apresentadas diversas opções de extratos e suas frações, os quais podem ser os ingre- dientes ativos de tal composição. É interessante reparar que, na maioria das vezes, o pesquisador apenas rea- lizou testes com um tipo de solvente, a exemplo de um determinado solvente orgânico. Porém, o elaborador do pedido precisa estar atento à pos- sibilidade de não restringir o requeri- mento de proteção para uma compo- sição cujo princípio ativo é um extrato obtido com um solvente orgânico em particular, mas sim para todos os ex- tratos obtidoscom qualquer solvente orgânico. Tal preocupação evita que um terceiro possa, empregando um tipo diferente de solvente orgânico, obter o mesmo resultado do pesquisa- dor; mas, não violar o documento de patente pelo fato do escopo do mes- mo se encontrar restrito. Logo, este terceiro teria a chance de reproduzir a pesquisa com fins comerciais e não precisaria pagar nada a titular do docu- mento em questão. Lógico que uma reivindicação in- Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 71 dependente apenas poderá ser elabo- rada da forma supracitada se a pesqui- sa puder ser realizada com um extrato aquoso e diferentes extratos orgâni- cos. Porém, sabe-se que nem sempre esta situação é real. Então, em tais casos não será possível tamanho nível de abrangência da proteção solicitada. O mesmo raciocínio pode ser empre- gado para explicar o emprego do termo ‘veículo farmacêuticamente aceitável’ em tais reivindicações. Assim, o fundamental é sempre ter atenção a não restringir o escopo do seu pedido de patente. É melhor reservar esta preocupação aos exami- nadores dos mesmos. Conclusão Os pontos abordados pelo pre- sente trabalho evidenciam a gama de informações relevantes acerca do sis- tema de patente, em especial quando da sua aplicação à proteção dos resul- tados de pesquisas com extratos de plantas e seus derivados. Sem dúvida alguma, o tema “patentes” não é im- possível de ser aprofundado no cená- rio nacional. Este aprofundamento merece ser estimulado! Contudo, é imperativo que idéias equivocadas, as quais geram precon- ceitos sobre a utilização do sistema em questão, sejam completamente elimi- nadas. Afinal, este sistema de proteção de invenções não pode ser encarado como um ‘inimigo’ da sociedade. Quando compreendido e bem utiliza- do, o sistema de patentes proporciona a premiação merecida àqueles que utilizaram o conhecimento e tornaram concretas as soluções necessárias ao desenvolvimento humano. Neste sen- tido, a sociedade como um todo tam- bém é beneficiada. O Brasil é um país privilegiado. Este país possui a biodiversidade mais rica do mundo e é dotado de profissi- onais qualificados para estudá-la. Ape- sar das pesquisas até então realizadas por profissionais nacionais, ainda há muito o que aprender sobre a biodiversidade brasileira. Ela está aqui, é alvo de cobiça internacional, mas precisa ser explorada racionalmente, e pelos brasileiros. É necessário compreendê-la e ter orgulho dos re- sultados decorrentes de tal conheci- mento, mas é fundamental que se saiba ocultar as informações resultan- tes destas pesquisas enquanto neces- sário. Então, o orgulho também preci- sa estar associado ao fato de se escon- der os dados relevantes e somente revelá-los após tomar os devidos cui- dados com a sua proteção pelo siste- ma pertinente. Neste caso em particu- lar, o sistema de patentes. Referências bibliográficas ASSUMPÇÃO, E., 2001, Nota sobre Patentes e Biotecnologia. Centro de Documentação e Informação Tecnológica/CEDIN. Instituto Na- cional da Propriedade Industrial. Rio de Janeiro, Brasil. 46p. BRASIL, 1996, Lei de Propriedade In- dustrial, n. 9.279. Instituto Naci- onal da Propriedade Industrial. Mi- nistério da Indústria, do Comércio e do Turismo. CALIXTO, J.B., 2000, Biopirataria – A Diversidade Biológica na Mira da Indústria Farmacêutica. Revista Ciência Hoje, 28(167), pp. 36-43. CHAMAS, C.I., 2001, Proteção e Ex- ploração Econômica da Proprie- dade Intelectual em Universida- des e Instituições de Pesquisa. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 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Acesso em 01 de Março de 2003. 72 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 Pesquisa Desenvolvimento Sustentável e biodiversidade Bernardo Elias Correa Soares Núcleo de Biossegurança, Vice-Presidência de Serviços de Referência e Ambiente, Fundação Oswaldo Cruz bernardo@fiocruz.br Aldo Pacheco Ferreira Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental, Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz aldoferreira@fiocruz.br 1. Introdução O Século XX testemunhou o mai- or e mais rápido avanço tecnológico da história da humanidade e também as maiores agressões ao meio ambiente, decorrentes de um desenvolvimento que não considerou os impactos rele- vantes da revolução industrial e a finitude dos recursos naturais. Por ou- tro lado, nas últimas décadas, o concei- to ecológico vem se ampliando, den- tro de um modelo de desenvolvimen- to que busca uma relação de equilíbrio, resgatando uma nova ética na relação do homem com a natureza (Schramm, 1999). Até 1972, época da Conferência de Estocolmo, o modelo de desenvol- vimento vigente caracterizava-se pela exploração não-planejada dos recur- sos naturais, levando à degradação ambiental. Hoje, presenciamos a cria- ção de um novo paradigma ambiental, que tira a natureza de uma posição de passividade e inércia, concebendo o meio ambiente como expressão de criatividade, diversidade e depositário da inter-relação de todos os seres, visando à boa sobrevivência e qualida- de de vida. Os impactos ecológicos, na vida cotidiana das sociedades, têm sido gran- des, afetandoa qualidade de vida das pessoas, além de semear interroga- ções e críticas aos modelos de desen- volvimento socioeconômicos adotados até então. Tencionando resolver esses impasses, tivemos a oportunidade de presenciar reuniões de grande impor- tância temática, como a Cúpula Mundi- al para o Desenvolvimento Sustentá- vel, a Rio + 10, na África do Sul – em 2002, em que observamos que pala- vras vazias e declarações de efeito tomaram o espaço de um verdadeiro Resumo Apesar do enfoque integrado, hoje praticado, entre condições e conheci- mentos socioeconômicos e ambientais, o papel desempenhado por essa integração nem sempre é reconhecido por projetos que envolvam impactos estratégicos sobre o ambiente, nem figuram seriamente no contencioso das políticas públicas, principalmente dos países em desenvolvimento. É necessária, pois, uma abordagem epistemológica que reconheça a responsabilidade coletiva sobre as crises ambientais globais, indicando-se a necessidade de consideração de uma ética ambiental nos programas coletivos de sensibilização ecológica. Por outro lado, os padrões ideológicos e tecnológicos, importados dos países centrais, não permitem a utilização adequada do potencial ambiental de cada região, o que pode levar à deterioração dos ecossistemas. Além da gestão racional e ecológica dos recursos ambientais, os autores concluem que é preciso uma reeducação ecológico-ambiental, que respeite os critérios de interdisciplinaridade científica, os ditames de sobrevivência do planeta, bem como as perspectivas diferenciadas da cultura, do ser e do pensar humanos. Gestão racional e ecológica dos recursos ambientais Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 73 plano de ações concretas que real- mente implementasse a chamada “Agenda 21”, acordada, preliminarmen- te, na conferência planetária anterior, a Eco-92, no Rio de Janeiro. Doblhoff-Dier and Collins (2001) afirmaram que a Terra, nesse período, conheceu mudanças hidrográficas, cli- máticas e biológicas, que diferiram dos episódios anteriores de mudança glo- bal, em virtude de que o fator modificante desta vez é eminente- mente humano. Os momentos anteri- ores de mudanças climáticas na história do planeta não tiveram como causa a ação humana. O que temos hoje, como exemplo, é a destruição da camada de ozônio, atribuída ao acúmulo de clorofluorcarbonetos (CFCs) na estra- tosfera, originado em nossas atividades industriais poluentes; o aumento das taxas de dióxido de carbono na atmos- fera, motivado pelo uso crescente de combustíveis fósseis e pela eliminação da cobertura florestal, como também a perda da diversidade biológica (extinção de espécies e de seus habitats), em razão da derrubada cres- cente de áreas tropicais de florestas úmidas para fins de exploração agríco- la não-planejada e predatória. Por outro lado, o crescente au- mento das liberações ambientais de organismos geneticamente modifica- dos – OGMs, em diversas regiões do planeta, indica, ainda, a necessidade de mão-de-obra qualificada para ativi- dades de vigilância e avaliação de riscos. Atualmente, a preocupação mundial com a biodiversidade pede maior compromisso dos cientistas na luta pela preservação dos recursos naturais e pelo planejamento de pro- gramas ligados às questões sociais (So- ares, 1997). A diversidade de ecossistemas requer, também, cuida- dosa análise caso a caso para as solici- tações de liberação ambiental de OGMs ou de outros produtos derivados da biotecnologia (Hood, 2002). Nesse sentido, é possível dizer-se que, em futuro próximo, diante das cautelas adotadas no processo de pesquisa dos OGMs, evoluiremos da imagem caricatural que muitas vezes desfrutam, na opinião pública, para uma percepção de que, inequivocadamente, apesar de se cons- tituírem em novas tecnologias, pode- rão, no futuro, representar alternativas eficientes e sem nenhum risco para a saúde humana e coletiva. No entanto, para além das deci- sões técnicas e planejadas somente pela perspectiva administrativa e eco- nômica, temos praticamente uma vi- são unânime de que as variáveis ambientais devem ser consideradas sobre qualquer perspectiva de proje- tos de desenvolvimento. Nessa pers- pectiva, surgiu a idéia, hoje corrente e seriamente estudada, do desenvolvi- mento “sustentável”. 2. Desenvolvimento sustentável A necessidade de conciliar desen- volvimento econômico e preservação ambiental, duas questões antes trata- das separadamente, levou à formação do conceito de desenvolvimento sus- tentável, que surge como alternativa para a comunidade internacional. A consciência de que é necessário tratar com racionalidade os recursos naturais, uma vez que estes podem se esgotar, mobiliza a sociedade no sentido de se organizar para que o desenvolvimento econômico não seja predatório, mas sim, “sustentável”. Tal aspecto é lem- brado por Leff (2002), ao afirmar que “a questão ambiental não é ideologi- camente neutra nem distante dos pro- blemas sociais e interesses econômi- cos”. Nesse sentido, as estratégias de ação política sobre os processos ecoló- gicos vinculam-se a ações práticas de desenvolvimento social e é através dos limites epistemológicos da ciência que se configura um conceito próprio, capaz de racionalizar a “complexidade ambiental”. No entanto, o processo de de- senvolvimento sustentável, baseado na manutenção da biodiversidade e no equilíbrio dos ecossistemas, requer mudança completa no comportamen- to dos processos humanos de produ- ção diante da natureza. Da mesma forma como, por exemplo, as inter- venções sobre saneamento visam ao controle dos vetores que exercem efei- tos nocivos sobre a saúde, o desenvol- vimento sustentável objetiva devolver ao ser humano os direitos a uma vida saudável e produtiva, sem que isso afete negativamente o equilíbrio da biosfera. Conforme assinalam Ferreira et al. (2003), o desenvolvimento eco- nômico deve ater-se ao controle da poluição e à preservação dos ecossistemas naturais. De acordo com Egler (2001), além da necessidade de constantes avaliações ambientais es- tratégicas sobre projetos de desenvol- vimento em territórios circunscritos, o desenvolvimento sustentável pressu- põe o estabelecimento de metas de qualidade ambiental e/ou taxas de emissão que viabilizem o alcance des- sas metas; o fortalecimento institucional para se promover o alcance combina- do de metas de qualidade ambiental e de desenvolvimento econômico; e o uso intensivo de instrumentos econô- micos para conduzir as economias para caminhos que viabilizem um desen- volvimento sustentável efetivo. 3. O crescimento da consciência ambiental A consciência ambiental é estruturada, na atualidade, sobre fatos reais e confiáveis: a existência do cha- mado “efeito-estufa”, por exemplo, confirmada por meteorologistas e ci- entistas renomados, assim como ou- tros problemas ecológicos de natureza global, vem sendo enfocados por orga- nismos de credibilidade internacional como a ONU, que notabilizou o seu programa de estudos ambientais (PNUMA, 2003), cuja importância vem sendo acolhida inclusive pelas classes empresariais dos países em desenvol- vimento. A posição pró-ativa de industriais em relação à questão ambiental é, entretanto, fato recente. Conforme Gomes (1998), no entanto, é recente também o impacto causado pela ativi- dade industrial humana no ambiente global. Para o autor, a empresa, que até há um século mantinha um interesse quase insignificante em relação à natu- reza, o que propunha uma visão irres- ponsável de desenvolvimento, evo- luiu para uma nova postura, em que empresários e executivos não se colo- cam mais em oposição sistemática aos movimentos e organizações não-go- vernamentais que defendam, porventura, o meio ambiente. Introdu- ziu-se, então, na maioria das empresas, uma visão nova, de gerenciamento74 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 dos recursos naturais e de exame aten- to dos projetos em relação a seus futuros impactos ambientais. Percebe-se uma mudança na ma- neira de empresários e industriais en- xergarem a questão ambiental, com- preendendo a perspectiva de que os problemas ambientais globais são, agora, de responsabilidade não mais de uni- dades isoladas (instituições, empresas, comunidades científicas ou governos), mas sim de toda a sociedade. Nesse contexto, Christiansen and Sandoe (2000) concordam em que é inegável a influência da questão ambiental no mundo dos empreendimentos, a tal ponto que as empresas que compre- enderem tal realidade irão obter vanta- gens estratégicas. Não se ignora, tampouco, a dificuldade de se incluir conceitos novos de gestão ambiental em qualquer organização, mas tam- bém não podem ser ignoradas as pres- sões impostas pelo mercado e pela sociedade como um todo. Cortina (1998), por sua vez, apre- senta abordagem sintética sobre o re- lacionamento entre economia e meio ambiente. Argumenta ser difícil, para não dizer impossível, proteger o meio ambiente sem o uso de instrumentos econômicos. Afirma, ainda, que o meio ambiente sempre fora abordado de maneira subordinada e suplementar nos estudos econômicos, o que foi modificado por nova configuração paradigmática, em que a economia passaria a ser integrada e não conflitiva em relação às questões ecológicas. Avalia, ainda, que os choques do petró- leo, nos anos 70 do século passado, e os acidentes nucleares, radioativos e de vazamento de combustíveis fós- seis, que expuseram a evidência de perigos à sobrevivência dos ecossistemas, além da possibilidade de esgotamento de recursos naturais escassos, produziram transformações importantes nos conceitos estritamen- te econômicos, principalmente os afe- tos à questão do crescimento. Enfatiza, também que, em nossos dias, desde as teorias ortodoxas de economia (libe- rais, neoliberais e neoclássicas), pas- sando pelas teorias keynesianas e neokeynesianas e chegando às hete- rodoxas, como a marxista, coexistem e são interpenetradas pelos novos con- ceitos oriundos da “economia ambiental”, que procura embutir nos processos econômicos os ciclos biofísicos do planeta. Assim, a econo- mia ambiental, recentemente forma- da, apresenta elementos das teorias que a precederam, incorporando ele- mentos de outras áreas de conheci- mento, como a biologia e a ecologia. Enfim, ressalta o autor que as respostas dadas pela economia neoclássica, do- minante no mundo ocidental até como uma espécie de “pensamento único”, não são suficientes para resolverem os problemas universais de escassez de recursos, mudanças climáticas globais, perdas significativas na camada de ozônio, extinção de espécies essenci- ais ao equilíbrio ecológico, efeito estu- fa, etc. Hoje, o trinômio econômico-soci- al-ambiental constitui a base do desen- volvimento sustentável e as decisões empresariais devem ser avaliadas à luz dos impactos ambientais, fazendo par- te da estratégia corporativa da gestão ambiental em um conjunto de ativida- des e ações integradas dentro de um complexo paradigma ecológico (Fiocruz, 1998; Ferreira, 2000). 4. Gestão empresarial e meio ambiente no Brasil É possível valorar e quantificar os recursos ambientais? É possível formar uma nova linhagem de gestores ambientais, que aglutinem vários cam- pos de conhecimento e sejam capazes de responder às questões que a nova consciência do sistema global-ecológi- co suscitam neste Terceiro Milênio? Partindo-se do princípio de que os conceitos econômicos e ecológicos tra- dicionais não são satisfatórios para ul- trapassar tais questionamentos (Mar- ques, 1996), a coexistência de teorias econômicas diferentes, concebidas ao longo da história dos países capitalistas ocidentais, pautou-se pela inclusão das variáveis ambientais nas múltiplas e mais importantes teorias. Observando- se as novas proposições para o relaci- onamento entre economia/meio am- biente/gestão ambiental, constata-se que existe uma convergência no sen- tido de se valorizar as intenções e tentativas de valoração dos recursos naturais, uma vez que as preocupa- ções ecológicas são fundamentadas em fatos inegáveis – como vimos – já disseminados, comprovados pela ci- ência e adotados pela sociedade como sinais inequívocos da necessidade de adoção do novo paradigma. É necessário esclarecer que esses níveis de exigência ainda não são total- mente praticados no Brasil, onde exis- tem sérias pendências sociais e econô- micas a serem resolvidas, sobretudo as desigualdades de rendas, o que não induz à incorporação completa pelo desenvolvimento econômico e social das variáveis ambientais, ainda conta- minadas por uma visão um pouco atrasada de preservacionismo, tal como praticada pelos governos federal e estaduais, nos idos dos anos 60 do século passado. No entanto, vale dizer que, para um país em desenvolvimento, um es- tatuto de proteção ambiental e a ava- liação ambiental como fórmula estraté- gica não são luxos, mas parte de um projeto de sustentação da vida huma- na, melhoria social e de qualidade de vida para muitos segmentos de popu- lação desassistidos. Dessa forma, os alertas de ecolo- gistas e da comunidade científica de- vem ser tratados com a máxima aten- ção, sob pena de o futuro reservar-nos problemas ainda mais graves. Além disso, se o desenvolvimento nacional for orientado por um caminho susten- tado, pode-se estabelecer uma forma pioneira de crescimento econômico que não ensejem os mesmos erros cometidos pelas nações desenvolvi- das, que adiaram a preocupação com o meio ambiente até o limite onde este não possa mais ser desconsiderado. No Brasil, pode-se adotar, desde já, uma consciência de crescimento ambientalmente saudável, o que não significa apenas exigências e encar- gos, ainda que estes possam existir, mas também oportunidades novas paras empresas nacionais que consi- gam se adaptar à nova mentalidade ambiental. Egler (2001) argumenta que é possível quantificar os recursos ambientais através de sua avaliação estratégica, que assegurem que fato- res ambientais e sociais sejam adequa- damente considerados no processo de tomada de decisões de desenvolvi- mento. Em sua forma mais comum, Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 75 uma Avaliação de Impacto Ambiental pressupõe um procedimento de avali- ação inicial (“screening”); identifica- ção dos aspectos econômicos, sociais e ambientais significativos; preparação de Estudo de Impactos Ambientais; revisão do estudo, preparação de rela- tório e implementação das ações per- tinentes, que incluam medidas de mitigação e um sistema de monitoramento, que objetivem verifi- car se as medidas foram realmente implementadas para mitigar os efeitos negativos ambientais dos empreendi- mentos. Ainda segundo o autor, ques- tões como a consideração de diferen- tes alternativas (economia de escala, localidade, tempo e tecnologia) e as medidas de mitigação de efeitos nega- tivos sobre os ecossistemas (territórios, bacias, rios, etc...) podem dar uma perspectiva correta da quantificação dos recursos naturais em jogo, princi- palmente se considerarmos devida- mente que a natureza das interven- ções feitas em território brasileiro são significativamente diferentes, se com- paradas com aquelas feitas em países europeus ou nos Estados Unidos. Dife- rentemente desses países, o Brasil ain- da dispõe de imensas áreas a serem ocupadas, bem como são díspares os nossos projetos de eixos de desenvol- vimento e programas de zoneamento ecológico e econômico, praticados nos estados da Federação, e que diferem fundamentalmente dos projetos lança- dos por países do Primeiro Mundo. 5. Consideraçõesfinais: consciência ecológica, socie- dade e políticas públicas Os governos, como organizações institucionais pesadas, raramente res- pondem às reivindicações das socieda- des, o que também ocorreu no plano das questões ecológicas. Foram mais de quarenta anos, transcorridos, desde a década de 60 do século passado, para que o organograma administrativo dos governos ocidentais adotassem, siste- maticamente, ministérios e secretarias dedicados às questões de controle e fiscalização de ecossistemas e manan- ciais hídricos. Hoje, as questões de exaustão de reservas de petróleo e de água potável no mundo vêm ensejando uma série de conferências preventivas sobre quais as novas alternativas energéticas a se- rem usadas (termoelétrica, solar, eólica etc.), sendo que a comunidade cientí- fica vem acenando com pesquisas cada vez mais excitantes nos campos da biotecnologia, da genética, da química fina e outras oportunidades a serem descobertas, inclusive as mais recen- tes, de fusão dos átomos de hidrogê- nio. Os políticos, sempre sensíveis à opinião pública, perseguem denoda- damente as percepções de suas popu- lações sobre a problemática ecológica, que incluem questões de bem-estar e qualidade de vida. No entanto, a crise ambiental é acima de tudo um proble- ma de conhecimento (Leff, 2000), o que nos leva a repensar o ser do mundo complexo e entender suas vias de complexificação. Esta via de com- preensão da complexidade ambiental emerge por meio da desnaturalização da história natural, que culminou na tecnificação e economização do mun- do, com base nas quais o ser e o pensar se encontram relacionados pelo cálcu- lo e pela planificação, pela determina- ção e pela legalidade; deste mundo dominado e assegurado que chega a seu limite com o caos e a incerteza. Leff (2000) assinala que “a crise ambiental leva-nos a interrogar o co- nhecimento do mundo, (...) corporifica um questionamento da natureza e do ser no mundo, com base na flecha do tempo e na entropia vistas como leis da matéria e da vida, com base na morte vista como lei limite na cultura que constitui a or- dem simbólica do poder e do saber. (...) A complexidade ambiental inau- gura uma nova reflexão sobre a natu- reza do ser, do saber e do conhecer, sobre a hibridização de conhecimen- tos na interdisciplinaridade e na transdisciplinaridade; sobre o diálo- go de saberes e a inserção da subjeti- vidade, dos valores e dos interesses nas tomadas de decisão e nas estraté- gias de apropriação da natureza.” Quando o homem procura com- pensar a sua “falta de ser” pelo conhe- cimento, procura idéias ordenadoras e absolutas sobre si mesmo e sobre a natureza, o que faz uma obstrução de sua capacidade de escolher e respeitar a diversidade. Parece que, em princí- pio, as políticas públicas devem ser redirecionadas no sentido de respeito à biodiversidade e às diferenças, obe- decendo a complexidade ambiental,. Referências Bibliográficas CHRISTIANSEN, S.B. & SANDOE, P., 2000. Bioethics: limits to the interference with life. Animal Reproduction Science, 60-61:15- 29. CORTINA, A., 1998. Ética, Tecnologia y Salud. Buenos Aires: Ed. Salvier DOBLHOFF-DIER, O. & COLLINS, C.H., 2001. Biosafety: future priorities for research in health care. Journal of Biotechnology, 85: 227- 239 EGLER, P.C.G., 2001. Perspectivas de uso no Brasil do Processo de Avaliação Ambiental Estratégica. Parcerias Estratégicas, 11: 175- 190. FERREIRA, M.J.L, 2000. Nova ordem econômica-ambiental. Gazeta Mercantil supl. esp., São Paulo. FIOCRUZ (Fundação Oswaldo Cruz),1998. Saúde e Ambiente no Processo de Desenvolvimento. Projeto Fiocruz Saudável, Fundação Oswaldo Cruz .GOMES, W., 1998. Desperdício e improdutividade afligem empresas. Gazeta Mercantil, São Paulo. HOOD, E.E., 2002. From green plants to industrial enzymes. Enzyme and Microbial Technology, 30: 279- 283. LEFF, E., 2000. Epistemologia Ambiental. Ed. Cortez, São Paulo. MARQUES, M. B., 1999. Em busca de um fórum para a bioética na política pública do Brasil. Cadernos de Saúde Pública, 12: 443-454. PNUMA (Programa de las Naciones Unidas Para el Medio Ambiente), 2003. 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Segundo Constantino (1998), na região neotropical, consi- derada a segunda região zoogeográfica com maior número de espécies do mundo, as 5 principais famílias estão assim distribuídas : I - família Kalotermitidae (122 spp.) es- tritamente xilófagos; II - família Rhinotermitidae (35 spp.) térmitas de comportamento subterrâneo; III - família Serritermitidae (1 spp.) IV Termitidae (381 spp.), considerada a mais evoluída, subdividida em 3 subfamílias: Apicotermitinae (41 spp.), Nasutitermitinae (248 spp.) e Termitinae (92 spp.); e, por último, a família Termopsidae (4 spp). Fo- ram descritas mais de 1900 espécies em todo o mundo, entre espécies vivas e fósseis. De acordo com o autor entre as cinco famílias acima mencionadas, as famíl ias Kalotermitidae e as Rhinotermitidae, a lém de Mastotermit idae e Hodotermitidae são famílias de Pesquisa Metabolismo da Celulose em Isoptera Marcos Barros de Medeiros Prof. Dr., Departamento de Agropecuária Centro de Formação de Tecnólogos Universidade Federal da Paraíba mbmedeir@yahoo.com.br Ilustrações cedidas pelo autor térmitas inferiores, visto que possu- em formas livres de protozoários nas partes posteriores de seus intesti- nos. Esses são protozoários flagelados simbiontes. Portanto, essas famílias dependem desses protozoários flagelados na digestão da celulose. Ao que tudo indica, a família Termitidae é a mais evoluída e não depende desses protozoários. Tra- ta-se de uma família cujos indivíduos têm uma digestão evoluída, bastante numerosa e com grande especializaão social (Krishna & Weesner, 1969). Em razão da devastação de seu habitat natural, as florestas, atual- mente constituem-se num grande problema para a humanidade por invadirem ecossistemas do campo e das cidades, causando perdas irreparáveis na agricultura e danos nas estruturas de edificações que levam madeira como matéria-prima. Este artigo tem por objetivo explicar os mecanismos de digestão envolvi- dos processo metabólico da celulose e o papel dos f lagelados endosimbiontes no trato digestivo de cupins inferiores. 2.A celulose como principal alimento dos isopteros A celulose é um polissacarídeo complexo de cadeia longa e de ele- vado peso molecular, cuja composi- ção (C 6 H 10 O 5 )n é o principal consti- tuinte estrutural da parede celular dos vegetais e um importante com- ponente da madeira. Tem uma es- trutura vizinha à do amido, onde se forma longas cadeias helicoidais de glicose remanescentes. Mas, a celu- Como agem os flagelados que nidificam o intestino de cupins inferiores Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 77 lose é formada de β -glucosídios (e não α - glucosídios ), como os cons- tituintes da celobiose. Este tipo de ligação glicosídica confere à molécu- la uma estrutura espacial muito line- ar, que forma fibras insolúveis em água. Apresenta-se impregnada por outras substâncias poliméricas, não sendo digerida pelos animais, que não apresentam enzimas para que- brar as ligações do tipo β, a exceção de animais herbívoros, que possuem bactérias e protozoários simbióticos que digerem a celulose em seus aparelhos digestivos, a exemplo dos cupins. O número de moléculas freqüentemente elevado, mais de 1500, explica a duração de molécu- las de certas celuloses. Nas fibras de madeira e em fibras têxteis, elas são feitas de linhas de molécula que chegam até a 10.000. Isto é, um composto exclusivamente de polissacarídeos de β- glucosídios. As amilases e glucosidases atuam hidrolisando os amidos e glucosídios. As celulases hidrolisam as celuloses originando produtos variáveis (celodrextrinas, celotrioses), da qual o último é a celobiose (açúcar em C12), composto por duas moléculas de glicose. Certas celulases condu- zem a hidrólise de moléculas libe- rando totalmente a glicose. A celobiose composta por um par de moléculas de glicose, também é hidrolisada por uma outra enzima, a celobiase. (Grasse, 1986) A celulose é um alimento sem o qual os térmitas não podem sobrevi- ver, porém outros compostos substi- tutos, deste glucosídeo, foram en- contrados. Compostos com o mono -, di -tri, polissacarídeos e pentoses, foram rapidamente absorvidos por Zootermopsis sp. quando submeti- dos a uma dieta de jejum numa temperatura acima de 30o C. (Yamaoka, 1989). Na madeira existem outros glicídios, semelhantes ou próximos celulose, as chamadas hemiceluloses (termo inadequado, pois são profun- damente diferentes das celuloses). Na verdade são açucares em C5 (arabinose, xilose) ou em C6 (manose, galactose, glicose), que quando condensadas num certo nú- mero de moléculas, constituem as pentoses (arabano, xilano) ou hexoses (mananas, galactanas, glucanas), as quais prendem-se a moléculas complexas, L - arabinose, D ácido - glicurônico, por exemplo, no caso de xilanoses. Em geral, os alimentos contêm uma proporão fra- ca destes componentes, 7 %, na madeira de Pinus, contra 58% de celulose, 27% de lignina. Adota-se valores medianos entre 7 a 12% nos bosques tenros, 15 têm 30% na ma- deira dura. A lignina tem uma larga parte na constituição de na madeira. Em sua natureza aromática há uma molécula benzênica (fenil, geralmen- te). Ela apresenta-se em estrutura amorfa, insolúvel em solventes habi- tuais, porém solúvel em fenol e ace- tona. A estrutura dela é formada por um polímero complexo de 1.000 a 4.000 monômeros, geralmente de fenilpropanos. Uma parte da celulo- se parece unir-se com a lignina (Grassé 1986). 3.Digestão da celulose nos isopteros O sistema digestivo dos isopteros Figura 01: Celulose Figura 02: Celobiose 78 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 é considerado desenvolvido e geral- mente ocupa uma ampla parte de seu abdômen (Krishna & Weesner, 1969). Grassé (1986) descreve que seu sistema digestivo é composto por um tubo que começa no cibarium ou parte superior da cavidade bucal. Seguida pela hipofaringe, e posteri- ormente, diferenciada em três par- tes distintas: o estomodeumm ou intestino anterior. Este é formado por invaginações ectodérmicas que se inserem entre o tritocérebro (3o segmento) e às mandíbulas. O mesêntero ou intestino médio, de origem endodérmica e responsável por grande parte da digestão e absorção, e f inalmente, o proctodeumm, formado por invaginações embrionárias do ectoderma, bastante desenvolvido. Analisando a anatomia do tubo digestivo em espécies do gênero neotropical Tauritermes Krishna, vá- rias diferenças foram estabelecidas entre este gênero e outros de Kalotermitidae, utilizando-se padrões de comprimento do mesêntero e observaões da est rutura e ornamentaão cuticular dos segmen- tos proctodeais. Estes caracteres do intestino vêm sendo utilizados em sistemática e filogenia de térmites e permite diferenciar outros gêneros dentro Kalotermitidae, por exemplo (Godoy, 2004). A fisiologia digestiva dos térmitas é dominada por dois fenô- menos: a) a vida social, acompanha- da por contínuas trocas e intercâmbi- os de nutrientes entre indivíduos, processo denominado de trofolaxia (trocas de alimentos entre indivídu- os) e a digestão de material celulósico com a colaboração de microorganismos simbiontes locali- zados em seu proctodeumm uma região expandida da porão proximal do intestino posterior. (Krishna & Weesner,1969) Até o presente, evidencia-se que os produtos microbianos da digestão no metabolismo da celulose são áci- dos graxos de cadeia curta, princi- palmente acetato (Yamim, 1980), que são ativamente transportados para o inglúvio (Hogan et al, 1985). O caminho do acetato no metabolis- mo foi localizado em térmitas junta- mente com ácidos gordurosos e lipídeos e o acetato também pode ser um precursor para aminoácidos, hidrocarboneto de formação cuticular e terpenos. (Tonada e Kaya, 1994). 4. Importância dos flagelados endosimbiontes no metabolismo da celulose Foram relatados mais de 300 espécies de protozoários simbiontes de cupins (Tonada e Kaya, 1994), 54 delas só em Rhinotermitidae, com a ocorrência dos principais gêneros Spi- rotrichonympha, Pseudotrichonym- pha, Holomastigoides (Kitade & Mat- sumoto, 1998). Os gêneros Tera- tonympha, Trichonympha, Pyr- sonympha, e Dinenympha também foram relatados por Yamaoka (1989). Mais recentemente, estudando-se a patologia desses insetos, verificou- se, através de exame fecal em fezes depositadas por operárias, a presen- ça de flagelados e bactérias. Acredi- ta-se que a reinfestação ou transmis- são destes simbiontes para as formas jovens (ninfas) dos cupins ocorra através da ingestão de exudatos do ânus, de origem proctodeica, ou pela aceitação de alimento regurgitado pelas operárias, oriundos do mesên- tero (Tonada e Kaya, 1994). Segun- do Borror & DeLong (1984) além da madeira e de seus derivados os cu- pins também se alimentam de exu- vias e de fezes excretadas pelas operárias ou alimentam-se de seus cadáveres. Tonada e Kaya (1994) afirmam ainda que os térmitas menos evolu- ídos podem ter mutualismo com bac- térias e protozoários ou unicamente com protozoários. Os cupins superi- ores (família Termitidae) são carac- terizados pelo alto grau de organiza- ção social e pela ausência de protozoários simbiontes no seu in- testino posterior, que é diferenciado em 5 segmentos: P1 a P5 (Kovoor, 1971). Segundo Yoshimura et al. (1994), a digestão da madeira por protozoár ios endosimbiontes (zooflagelados) termitícolas obser- va-se facilmente in vivo. A fagocitose de fragmentos de madeira por espécias como Trichonimpha ou Joenia tem sido observado in-vitro (Grassé, 1986). A partícula de ma- deira envolvida pelo citoplasma do flagelado que se encarrega de degradá-la (Grassé, 1986). Trager [citado por Grassé (1986)] descobriu a existência de uma celulase dentro do intestino de Zootermopsis angusticollis e supôs que esta enzima era sintetizada pelos flagelados simbiontes. A dieta dos térmitas, a exemplo dos cupins de madeira seca, muito pobre em proteínas, contudo, existe evidência de que a fixação de Figura 3: Detalhe do interior de uma colônia de Nasutitermes sp. Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 79 nitrogênio por bactérias simbiontes presentes no inglúvio pode ser uma fonte significativa de compostos nitrogenados para esses cupins (Panizzi & Parra, 1991). Yoshimura et al. (1994), utili- zando operárias de Reticulitermes campinensis, constataram que após a eliminaçãode Pseudotrichonym- pha gassii do trado digestivo, houve uma redução de 30 % na atividade de atuação digestiva sobre o alimen- to, afirmando-se que esta espécie depende largamente destes proto- zoários. 5. A degradação da celulose no intestino dos isopteros A degradação biológica da celu- lose requer intervenção de várias enzimas hidrolizadoras. Grassé (1986) descreveu a seqüência de enzimas no intestino dos cupins: pri- meiro agem sobre o alimento as celulases tipo C1, que atuam hidrolizando a celulose cristalina, substância de elevado peso molecular. Em seguida, ocorrem as celulases Cx. Estas atuam sobre os fragmentos de celulose não cristali- na e sobre outros derivados solúveis ou produtos superiores, resultantes da degradação das celuloses. Por ultimo, segue a ação das celobiases (β - glucosidases) que atuam sobre a celobiose e moléculas livres de β - glicosídeos. Estudos reportam-se a dois ti- pos de celulases detectadas na di- gestão dos térmitas, uma secretada pela glândula salivar e a outra sinte- tizada pelo protozoário intestinal. Estabeleceu-se, significativamente, uma relação entre a diferenciação ultra-estrutural e a função de absor- ção de nutrientes no epitélio do proctodeum, à ingestão seletiva de par t ículas de celulose por protozoários, a contribuição da fauna de protozoário intestinal e uma in- fecção oportuna deles. Um outro fator é a presença de bactérias que provêm condições boas para protozoários intestinais (Tonada & Kaya, 1994). Atualmente sabe-se que esses simbiontes agem bem sobre a celu- lose, porém pouco praticamente nada se conhece ou sobre as enzimas que atuam sobre a molécula de lignina, cuja digestão feita através de bactérias, e apoiada pela ação de micélios de basidiomicetos e ascomicetos e, certamente, também por protozoários flagelados que se alimentam de lignina. As celulases são enzimas tam- bém encontradas em certas bactéri- as e outros agentes presentes na decomposição da madeira. Também em outras que habitam no estômago de ruminantes. Conteúdos de celula- ses também são produzidos pelo tubo digestivo de Moluscos Lamelli- branches, e muitos insetos de solo ou pragas de arvores como Ceram- bycidae, por exemplo (Grassé, 1986). Exceto pelos cupins cultiva- dores de fungo (subfamília Macro- termitinae), os cupins superiores parecem possuir o conjunto com- pleto de enzimas necessárias para digestão de celulose nativa (Schultz et al. 1986), embora o envolvimento de bactérias simbiontes na digestão de celulose não possa ser desconsi- derado. De acordo com Bignell et al. (1983), a hidrólise da celulose ocor- reria na região P3. Similar ao que acontece com os cupins inferiores, o nitrogênio é fixado nos cupins supe- riores através da ação de bactérias simbiontes (Bentley, 1984) e é pro- vavelmente incorporado à massa corpórea do cupim após a ingestão e digestão das fezes previamente ex- pelidas. Os cupins cultivadores de fungo (Macrotermitinae) são capa- zes de sintetizar as suas próprias celobiases e celulases Cx. Entretan- to, as celulases C1 críticas para de- gradação de celulose são derivadas dos conidióforos de um fungo que os cupins cultivam em seus ninhos, e que consomem em pequenas quan- tidades, junto com madeira e outros materiais de celulose que formam a maior parte de seu alimento (Martin & Martin 1979). Segundo Wood e Thomas, (1989), usualmente eles nidificam em ninhos ou termiteiros onde cultivam os fungos utilizando material de origem fecal, como meio de cultura. Uma vez que a digestão da celulose provavelmente realiza- da no intestino médio, ao mesmo tempo em que a de outros compos- tos, a fermentação no intestino pos- terior nos Macrotermitinae; talvez, não seja muito importante. Presumi- velmente, essa seria a razão pela qual Macrotermitinae não apresenta- ria o segmento misto, que se supõe seja envolvido com a fermentação no intestino posterior. (Panizzi & Parra, 1991). Resultados disponíveis mostram que celulose, amilase e in- vertase ocorrem em glândulas sali- Figura 4: Aspecto de um ninho de Nasutitermes sp. coletado em pomar de citros, Bananeiras-PB 80 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 vares e intestino médio, enquanto maltase só encontrada no intestino médio (Veivers et al. 1982). Itakura et al. (1995), estudando coeficiente de digestibilidade para glicose constituinte da celulose no al imento de Coptotermes formosanus (72 a 78%), concluíram que a celulose é digerida eficiente- mente por mecanismos de ação com- binada entre a trituração e as enzimas celulolíticas existentes no trato di- gestivo deste inseto. Itakura et al. (1998) purificaram e estudaram a distribuição de celulases no sistema digestivo dos térmitas, cerca de 20%, 18% e 36 % da atividade enzimática de C. formosanus foi detectada na saliva glandular, intestino médio e posteri- or, respectivamente. Os mesmos autores constataram ainda que 35% da CMcase (Carboximetil celulase) estão em ação já na saliva glandular, 21,1 % no mesêntero e 18,2 % no proctodeum Constataram também que 75 % da D- glucosidase encon- travam-se no mesêntero, 93 % da glucose e 87% da trealose do inseto, presentes em todo o trato intestinal, sendo 66 % da glicose no mesêntero. Com base nestes resultados, conclu- íram que a celulose hidrolisada em oligossacarídeos já nas partes anteri- ores no aparelho digestivo, sendo posteriormente hidrolisados por b - D - glucosidases em monossacarídeos (glicose), os quais são absorvidos também no mesêntero. Neste traba- lho 5 componentes das celulases foram purificados, 2 no proctodeum e 3 no mesêntero, entre eles a CMcase e avicelase. 6.Perspectivas futuras para o controle biológico dos cupins A evolução da resistência de cupins aos inseticidas químicos sin- téticos tem se tornado num dos gran- des entraves para os programas de controle dessa praga. Partindo para um novo horizonte, visando uma forma de controle biológico dos cu- pins, Lelis (1992) estudando a ação do hormônio juvenil impregnado no alimento (papel de filtro) sobre os protozoários simbiontes dos gêneros Dynenynpha, Pyrsonympha, Spyro- trichonympha e Trichonympha, em adultos e operárias de Reticuliter- mes santonensis, constatou que os térmitas perderem completamente suas colônias de simbiontes, sugerin- do uma ação tóxica desse hormônio àqueles microorganismos. Desse modo alertou para a possibilidade de uso deste agente no controle de cupins. No mesmo sentido, Belitz & Waller (1998) estudaram em Reticu- litermes flavipes o efeito da tempe- ratura sobre a fagocitose dos proto- zoários simbiontes, observaram que Trichonympha permaneceu com alta fagocitose por 96 horas no intestino a 32o C., enquanto que Pyrsonym- pha e Dinenympha, foram significa- tivamente reduzidos até 72 horas após, a esta mesma temperatura. Estes trabalhos apontam para o de- senvolvimento de protozoicidas ca- pazes de atuarem reduzindo as ativi- dades simbiontes nos cupins, até ocasionarem a sua morte. Por isso, também na mesma direção, Waller et al. (1996) sugerem o uso de uma combinação de antibióticos (ampici- lina ou tetraciclina) associada à uréia como potentes agentes promissores contra as populações desses proto- zoários. Atualmente tem sido promissor a interação de profissionais de entomologia com profissionais de outras ciências na busca de soluções para o controle de insetos e vetores de doenças de plantas e animais. Pesquisas no ramo da fitoquímica tem-se alavancado, por exemplo, na prospecção de atividades biológicas e obtenção de novos compostos bi- ologicamente ativos de plantas. Di- versas espécies vegetais já apresen- tam atividades biológicas úteis para o controle de insetos e protozoários. A combinação de diferentes formas de combate, pode ser o meio mais eficaz para o controle de cupins.Trabalhos nessa direção vêm sendo desenvolvidos no Laboratório de Tecnologia Farmacêutica da UFPB e pelo Laboratório de Fitoquímica do Departamento de Química da UFAL e apontam para novas descobertas, onde se inclui a modificação de com- postos e sua micro-encapsulação para Figura 5: Cupim de solo (Cornitermes sp.) coletado no campus da UFPB em Bananeiras-PB Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 81 lenta liberação. Este e outros proces- sos têm se constituído em novas ferramentas para o controle de inse- tos e vetores de doenças, a exemplo dos que já vêm sendo utilizados pela farmacognosia e pesquisados pela etnobotânica. 7.Bibliografia BELITZ, L. A. & WALLER, D. A. 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Metodologias inovadoras, como aquelas envolvidas nos arranjos de DNA (DNA arrays), foram desenvolvi- das para explorar os dados gerados a partir das seqüências de DNA e produ- zir informações sobre os níveis dinâmi- cos de expressão gênica de genomas inteiros. Essa técnica faz parte de uma nova classe de biotecnologias que permite o monitoramento dos níveis de expressão de milhares de genes simultaneamente (Laughlin et al., 2002). Os arranjos de DNA são constitu- ídos por suportes sólidos, comumente vidro ou náilon, aos quais estão fixadas de forma ordenada seqüências com- pletas ou parciais de genes em fita simples de DNA, com ou sem função conhecida (Duggan et al., 1999). A partir do mRNA obtido das células em estudo, são produzidas sondas de cDNA (DNA complementar), via trans- crição reversa na presença de um nucleotídeo marcado com elemento radioativo ou fluorescente, permitin- do assim sua posterior detecção (Heller et al., 1997; Baldwin et al., 1999). Pesquisa Macroarray: uma importante ferramenta para análise de expressão gênica em bovinos As sondas de cDNA marcadas são hibridizadas aos arranjos e quanto mai- or a expressão de um gene em uma determinada condição, maior será a intensidade do sinal derivado da sonda hibridizada na região do arranjo que contém a seqüência deste gene. A seqüência de cada gene é imobilizada no suporte em locais específicos e uniformemente distribuídos denomi- nados de spots (Felix, 2002). Os conjuntos de cDNAs podem ser seqüencialmente hibridizados em um único arranjo, no caso das lâminas de vidro (microarray), ou em arranjos separados, no caso das membranas de náilon (macroarray). A análise dos padrões diferenciais de expressão gênica é realizada através do cálculo da razão entre os valores dos sinais das distintas hibridizações, que refletem a diferença na quantidade do transcrito (Baldwin et al., 1999). A produção das membranas de náilon ou das lâminas de vidro é feita utilizando sondas esco- lhidas diretamente de bancos de da- dos como o GeneBank, o dbEST e o Unigene (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/) ou a partir de dados gerados de bibli- otecas específicas de cDNA. Schena et al. (1995), descreve- ram pela primeira vez a grande capa- cidade analítica da técnica, monitorando 45 genes de Arabidopsis simultanea-mente. Desde então, a aplicação da tecnologia de DNA arrays vem sendo relatada em vários organismos tais como plantas (Schena, 1996; Felix, 2002), leveduras (De Risi et al., 1997; Schoondermark-Stolk et al., 2002), se- res humanos (Bubendorf et al., 1999; Chin et al., 2002) e animais (Moody et al., 2002; Dalbiès-Tran & Mermillod, Hibridização de cDNA bovino em Macroarray humano Fabiane Siqueira Doutora em Genética do Instituto de Biociências, Universidade Estadual Paulista – Campus de Botucatu, SP. biasiqueira@hotmail.com Erika Cristina Jorge Doutoranda em Biotecnologia Animal, Departamento de Zootecnia, Esalq, Universidade de São Paulo – Piracicaba, SP. ecjorge@esalq.usp.br Silvia Edelweiss Crusco dos Santos Pós-doutoranda em Medicina Veterinária no Laboratório de Bioquímica e Biologia Molecular Animal, Universidade Estadual Paulista – Campus de Araçatuba, SP. silviacrusco@terra.com.br Gustavo Arbex Avelar Doutorando em Genética do Instituto de Biociências, Universidade Estadual Paulista – Campus de Botucatu, SP. garbex@hotmail.com Maury Dorta de Souza Júnior Médico Veterinário, Universidade Estadual Paulista – Campus de Araçatuba, SP. maurydorta@yahoo.com.br Cláudio Manoel Rodrigues de Melo Prof. Assistente Dr. do Departamento de Aqüicultura - AQI, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC. cmrmelo@cca.ufsc.br Luiz Lehmann Coutinho Prof. Associado do Departamento de Zootecnia, Laboratório de Biotecnologia Animal, Esalq, Universidade de São Paulo – Piracicaba, SP. Email: llcoutin@carpa.ciagri.usp.br Catalina Romero Lopes (Orientadora) Profa. Titular do Departamento de Genética, do Instituto de Biociências, Universidade Estadual Paulista – Campus de Botucatu, SP. Email: dtcatalina@terra.com.br José Fernando Garcia (Co-orientador) Prof. Assistente Dr. do Departamento de Apoio, Produção e Saúde Animal, Universidade Estadual Paulista – Campus de Araçatuba, SP e Pesquisador na International Atomic Energy Agency – IAEA – Vienna – Austria, j.f.garcia@iaea.org Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 83 2003; Evans et al., 2004). Entretanto, a contribuição desta técnica para a ciência depende da complexidade e da identidade da bi- blioteca de cDNA a partir da qual o arranjo é feito. No momento, a coleção de cDNAs humanos é a mais represen- tativa e melhor caracterizada entre todas as espécies de mamíferos, po- dendo fornecer uma alternativa viável para a identificação de um grande número de genes em espécies do- mésticas com importância econômica, como bovinos, suínos e caprinos, devi- do à alta taxa de homologia existente entre as seqüências gênicas dessas espécies (Adjaye et al.; Jones et al., 2004). O uso de arranjos de DNA para estudos de análises de expressão gê- nica em bovinos ainda é raro, apesar da disponibilidade de aproximadamen- te 497.315 ESTs de bovinos Bos pri- migenius taurus e 5.950 ESTs de bovinos Bos primigenius indicus de- positadas no banco de dados do Gen- Bank (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/ dbEST/dbEST_summary.html). Uma das razões para o fato de que esta tecnologia não esteja sendo mais am- plamente empregada em bovinos é a inexistência de arranjos de DNA bovi- nos disponíveis comercialmente (Jo- nes et al., 2004), com exceção do CattleArray 7600TM, que contém mais de 7.000 clones de cDNA de bibliote- cas de baço e de placenta impressos em duplicata em uma lâmina de vidro (Pyxis Genomics Inc, Chicago, EUA). Especificamente na esfera reprodutiva de animais de produção, a análise da expressão gênica pode ser de grande utilidade na busca de genes candidatos responsáveis por fenótipos desejáveis. Como o sucesso reprodutivo é essencial para o desen- volvimento econômico dos rebanhos, muitos estudos têm sido direcionados para essa área, dentre eles a seleção de bovinos da raça Nelore (Bos primigenius indicus) que apresen- tem características desejáveis quanto à precocidade sexual, comparáveis àquelas apresentadas por animais Bos primigenius taurus. A raça Nelore é a principal raça de gado de corte no Brasil, compondo 80% do rebanho nacional, estando distribuída nas regi- ões Sul, Sudeste, Nordeste e, predomi- nantemente no Centro-Oeste e Norte do país (De Lucia, 2002). Em geral, fêmeas bovinas da raça Nelore atingem a maturidade reprodutiva acima dos 24 meses de idade, enquanto que as fêmeas bovi- nas das raças que compõem a subespécie Bos primigenius taurus atingem essa fase entre 12 e 16 meses de idade. Esta disparidade fenotípica entre as diferentes raças que com- põem as duas subespécies gera trans- tornos no processo produtivo, levan- do, no caso das fêmeas da subespécie Bos primigenius indicus, a atraso de pelo menos um ano na cadeia de produção bovina, quando comparado com o que ocorre nas fêmeas da subespécie Bos primigenius taurus. O desenvolvimento biotecnoló- gico e a aplicação desse conhecimen- to à pecuária nacional podem trazer novas perspectivas e diminuir o tem- po de seleção de animais genetica- mente superiores. Devido ao alto grau de conserva- ção das seqüências gênicas entre es- pécies relacionadas e da importância do conhecimento dos processos fisio- lógicos que controlam o sistema reprodutivo em bovinos, este trabalho teve como objetivo avaliar o uso de arranjos de náilon contendo cDNA humano em hibridizações heterólogas com cDNAs bovinos, para identificar genes diferencialmente expressos en- tre folículos dominantes de novilhas da raça Nelore pré-púberes e púberes. Metodologia Animais Para a realização dos experimen- tos, foram utilizadas 3 novilhas da raça Nelore com 7 meses de idade (pré- púberes) e 2 novilhas com 25 meses Figura 1: Novilhas da raça Nelore utilizadas nos experimentos. A – Novilhas pré-púberes (Grupo I). B – Novilhas púberes (Grupo II). B A 84 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 de idade (púberes), provenientes do município de Araçatuba, SP (Figura 1). O acompanhamento da dinâmica folicular foi feito através de exames ultra-sonográficos diários (a partir dos 4 meses de idade para as novilhas pré- púberes e dos 22 meses de idade para as novilhas púberes) utilizando o equi- pamento de ultra-sonografia GE (Ge- neral Eletric LogicTM α-100 CE 0459; GE Medical System, Milwaukee, EUA) acoplado a um transdutor linear de 5 MHz para uso transretal. Os exames para avaliação dos ovários foram feitos de acordo com metodologia descrita por Ginther et al. (1996). As novilhas foram abatidas quando seus folículos dominantes apresentavam o diâmetro máximo de crescimento, determinado arbitrariamente após o acompanha- mento das ondas de crescimento folicular, durante 3 meses nos dois grupos experimentais. Imediatamen- te após o abate, o folículo dominante foi dissecado do ovário e congelado em nitrogênio líquido. Extração de RNA total O RNA total foi extraído dos folículos dominantes pelo método TRizol (Invitrogen Life Technologies, Carlsbad, CA, EUA), conforme o proto- colo do fabricante. Em seguida, o RNA foi submetido a tratamento com DNase (Amersham Biosciences, Piscataway, NJ, EUA) para garantir a remoção de qualquer resquício de DNA contaminante presente nas amostras. A quantificação do RNA total foi reali- zada por espectrofotometria a 260nm em equipamento UV/VIS Spectrometer Lambda Bio 10 (Perkin Elmer, CT, EUA). A qualidade das amos- tras de RNA foi avaliada em gel de agarose desnaturante de formaldeído a 1% e por meio da análise da razão espectrofotométrica DO 260 /DO 280 . O índice DO 260 /DO 280 foi considerado adequado para hibridizações heterólogas em membranas de náilon quando esteve acima de 1,8, indican- do tratar-se de boa extração sem a presença de contaminaçãopor prote- ínas. Síntese de cDNA marcado radioativamente Para a síntese do cDNA foram utilizados 10 µg de um pool constitu- ído de quantidades iguais de RNA total proveniente de folículos de novilhas pré-púberes e 10 µg de um pool constituído de quantidades iguais de RNA total proveniente de folículos de novilhas púberes. Os cDNAs foram sintetizados através da reação de transcriptase reversa, utilizando-se o sistema SuperScriptTm First-Strand Synthesis System for RT-PCR (Invitrogen Life Technologies, Carlsbad, CA, EUA) com a utilização de oligo dT, na presença de 5 µL de α 33P- dCTP (10 mCi/mL; Amersham Biosciences, Piscataway, NJ, EUA). O cDNA marcado com o isótopo radioativo (sonda) foi purificado atra- IopurGonsosserpxesiamseneG IIopurGonsosserpxesiamseneG edoremúN seneg )%(megatnecroP senegedoremúN )%(megatnecroP sezev15> 2 56,4 1 33,2 sezev05-14 4 03,9 0 00,0 sezev04-13 1 33,2 1 33,2 sezev03-12 5 36,11 2 56,4 sezev02-11 4 03,9 4 03,9 sezev01-2 01 52,32 5 26,11 sezev2< 1 33,2 3 89,6 latoT 72 97,26 61 12,73 Tabela 1: Genes envolvidos com a reprodução mais expressos nas novilhas pré-púberes (Grupo I) e nas novilhas púberes (Grupo II). Porcentagens são calculadas como frações do total de 43 genes diferencialmente expressos (P < 0,01). Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 85 vés de passagem por colunas de cromatografia (ProbeQuantTM G50 Micro Columns - Amersham Biosciences, Piscataway, NJ, EUA) para remover os nucleotídeos que não fo- ram incorporados durante a síntese. Em seguida, a sonda foi desnaturada em termociclador (PTC-100TM Programmable Thermal Controller MJ - Research, CA, EUA) a 96ºC por 10 minutos e acondicionada em gelo, até o momento de ser adicionada à mem- brana no processo de hibridização. Hibridização e aquisição das imagens Para as hibridizações foram utili- zadas duas membranas Human Named Genes - GF211 (Research Genetics - Invitrogen Life Technologies, Huntsville, AL, USA), que contém 5.184 seqüências de genes humanos com função conhecida. Uma membrana foi utilizada para hibridizar o cDNA sinte- tizado a partir do RNA total dos folículos das novilhas pré-púberes e a outra para o cDNA originado a partir do RNA total dos folículos das novilhas púberes. Cada ponto da membrana con- tém aproximadamente 0,5 ng de inserto de DNA de um clone contendo a terminação 3’ do transcrito. Os clones de cDNA foram selecionados da cole- ção do Integrated Molecular Analysis of Genomes and their Expresion (IMAGE Consortium, LLNL). As membranas foram inicialmen- te lavadas em solução previamente aquecida a 100ºC de dodecil sulfato de sódio 0,5% (SDS) por 10 minutos e pré-hibridizadas em forno de hibridização (Isotemp Hybridization Incubator, Fisher Scientific, Pittsburg, PA, EUA) em 5 mL de solução MicroHyb (Invitrogen Life Technologies, Carlsbad, CA, EUA) contendo 5 µg (1 µg/µL) dos agentes bloqueadores PolydA (Invitrogen Life Technologies, Carlsbad, CA, EUA) e Cot-1 DNA (Invitrogen Life Technologies, Carlsbad, CA, EUA), incubando-se por 2 horas a 42ºC. Em seguida, a sonda desnaturada foi adicionada a esta solu- ção e as membranas foram hibridizadas em garrafas distintas por aproximada- mente 16 horas a 42ºC. Após a hibridização, as membranas foram la- vadas duas vezes por 20 minutos a 50ºC em 30 mL de solução 2 X SSC/1% SDS e uma vez por 15 minutos a 55ºC em 30 mL de solução 0,5 X SSC/1% SDS. Após as lavagens, as membranas foram embaladas individualmente em filme plástico (Brand plastic film – Johnson, EUA), expostas por 24 horas a um écran intensificador (Imaging Plate, Fuji Film, Japan) e digitalizadas a 50 µm de resolução em equipamen- to Phosphor Imager Storm 860 Molecular Dynamics (Amersham Biosciences, Piscataway, NJ, EUA). Análises As imagens foram analisadas com o auxílio do software ArrayVisionTM 8.0 (Imaging Research Inc, Ontario, Canada). O programa gerou tabelas de dados com informações referentes à hibridização de cada ponto (região da membrana contendo um único gene). Cada gene recebeu um valor numéri- co de acordo com a sua respectiva intensidade na imagem. Após a quantificação dos sinais, o background (emissão de fundo presente em toda membrana) foi subtraído do valor refe- rente a cada ponto. Em seguida, os dados foram normalizados dividindo- se a intensidade de sinal de cada ponto pela mediana do sinal de todos os pontos na membrana (Richmond & Somerville, 2000). Os valores de in- tensidade dos genes expressos nos folículos das novilhas pré-púberes (Grupo I) foram comparados com os valores de intensidade dos genes ex- pressos nos folículos das novilhas púberes (Grupo II) utilizando o teste t (P< 0,01). Resultados e discussão Devido ao fato da reprodução ser um evento controlado por múltiplos genes e da possibilidade de analisar simultaneamente os perfis de expres- são desses genes em distintos mo- mentos fisiológicos, a técnica de arran- jos de DNA, utilizando hibridização heteróloga (bovino x humano), foi aplicada com o intuito de avaliar a expressão gênica diferencial em folículos de novilhas da raça Nelore antes e após o estabelecimento da A B Figura 2: Imagens digitalizadas das membranas de náilon GF211 contendo 5.184 seqüências de genes humanos, submetidas a hibridizações heterólogas utilizando cDNA bovino. A – RNA total de folículo dominante de novilhas pré-púberes. B – RNA total de folículo dominante de novilhas púberes. 86 Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 puberdade. Para analisar alterações na ex- pressão gênica em folículos dominan- tes de novilhas pré-púberes (Grupo I) e púberes (Grupo II), membranas de náilon contendo 5.184 seqüências de genes humanos foram hibridizadas com cDNAs provenientes de RNA total de folículos dominantes desses animais. Exemplos de imagens geradas pela hibridização heteróloga são apresen- tados na Figura 2. Condições extringentes de hibri- dização e de lavagens foram mantidas conforme as especificações do fabri- cante da membrana (Research Gene- tics - Invitrogen Life Technologies, Huntsville, AL, USA) sugeridas para hibridização homóloga, com o objeti- vo de preservar a confiabilidade dos resultados e de manter um baixo sinal de background na membrana. Segun- do Schoondermark-Stolk et al. (2002), as membranas GF100 (Research Ge- netics) contendo 3072 seqüências de genes de Saccharomyces cerevisiae, quando utilizadas para hibridizações heterólogas com cDNA de outra leve- dura (Zygosaccharomyces rouxii), apresentaram resultados não confiá- veis e mostraram afinidades de ligação não-específica quando as temperatu- ras de hibridização, das lavagens ou a combinação de ambas foram diminuí- das. A análise dos padrões diferenciais de expressão gênica foi realizada atra- vés do cálculo da razão dividindo-se a média de intensidade dos genes das novilhas pré-púberes pela média de intensidade dos genes das novilhas púberes. Os genes foram considera- dos diferencialmente expressos quan- do apresentaram valores de razão aci- ma de 1,5 (P < 0,01). Dos 5.184 genes presentes na membrana Human Named Genes GF211 (utilizada no presente estudo), 526 genes (10,14%) foram considera- dos diferencialmente expressos utili- zando o teste t (P < 0,01), sendo que destes 404 (7,79%) foram mais ex- pressos nas novilhas pré-púberes e 122 (2,35%) foram mais expressos nas novilhas púberes. Dos 526 genes dife- rencialmente expressos, 43 genes (8,17%) estão envolvidos com repro- dução, entre eles estão presentes al- guns hormônios, como hormônio liberador de gonadotrofinas (GNRH) que estimula a liberação de FSH e LH, o receptor de leptina (LEPR) que está envolvido na regulação do metabolis- mo de gordura e possivelmente na reprodução, o receptor de ocitocina(OXTR) que facilita o transporte de gametas, induz contrações uterinas e induz a descida do leite, e o receptor de hormônio esteróide (ESRRA) que está relacionado ao receptor de estrógenos. Alguns genes relacionados a fato- res de crescimento também apresen- taram expressão diferencial, como, por exemplo, a proteína ligadora do fator de crescimento semelhante à insulina (IGFBP5) que regula a proliferação e a diferenciação de vários tipos celula- res, o fator de crescimento de transfor- mação (TGFBI) que está intimamente relacionado ao fator de crescimento epidérmico sendo produzido nas célu- las da granulosa, da teca e no oócito, e o receptor para ativina A (ACVR2) que está associado à liberação de FSH. Os fatores de crescimento são substâncias relacionadas aos hormônios e contro- lam o crescimento e o desenvolvi- mento de diversos órgãos, tecidos e células em cultivo. Além dos hormônios das glândulas endócrinas, inúmeras pes- quisas revelaram o papel de fatores de crescimento peptídicos em reprodu- ção durante a última década (Hafez & Hafez, 2004). A Tabela 1 apresenta o número de genes mais expressos nas novilhas pré-púberes e púberes e as porcentagens referentes aos 43 genes diferencialmente expressos envolvi- dos com reprodução. Cada experimento de hibridização foi realizado em duplicata com o obje- tivo de verificar a repetibilidade da técnica e de aumentar a confiabilidade dos dados. O coeficiente de correlação de Pearson foi calculado entre duas membranas hibridizadas em momen- tos diferentes com cDNA sintetizado a partir do mesmo RNA. O coeficiente de correlação (r) é uma medida da intensidade de associação existente entre duas variáveis quantitativas (Callegari-Jacques, 2003). Os valores obtidos para o coeficiente de correla- ção foram 0,98 e 0,99 para os folículos das novilhas pré-púberes e púberes, respectivamente. Estes resultados in- dicam que a reprodutibilidade da téc- nica foi alta para as hibridizações entre os dois grupos de animais. Moody et al. (2002) utilizando a mesma membrana (GF211) analisaram hibridizações heterólogas entre cDNA de suíno e de humano e, por meio do cálculo de coeficientes de correlação de Pearson e de Spearman, obtiveram valores de 0,96 (Pearson) e 0,97 (Spearman) en- tre as hibridizações com cDNA suíno em membranas contendo genes de humanos e 0,97 para ambos coeficien- tes entre hibridizações com cDNA de humano nas mesmas membranas. A análise comparativa entre as seqüências de genes humanos que estão presentes na membrana com as seqüências de genes bovinos que es- tão depositadas no banco de dados do National Center for Biotechnology Information (NCBI) revelou um índi- ce médio de homologia de 90%, indi- cando que esta alta homologia permi- te o uso de hibridizações heterólogas para avaliar expressão gênica em folículos dominantes de novilhas da raça Nelore. Segundo Schoondermark- Stolk et al. (2002), o índice de homologia utilizado para a detecção de genes diferencialmente expressos em hibridizações heterólogas deve estar acima de 83%. Conclusão Trata-se do primeiro trabalho com- pletamente realizado no Brasil envol- vendo o uso de macroarrays para o estudo de fenômenos fisiológicos em animais de produção. A metodologia para a hibridização heteróloga (bovino x humano) utilizando arranjos de DNA mostrou-se eficiente para o estudo de expressão gênica em bovinos, geran- do grande quantidade de informações que deverão ser avaliadas cuidadosa- mente nas próximas etapas, durante as quais serão validados, utilizando a técnica de Real-time Quantitative PCR (Q-RT-PCR), alguns dos genes que apresentaram expressão diferencial. Estes resultados poderão auxiliar na compreensão dos mecanismos envol- vidos no estabelecimento da maturi- dade sexual em fêmeas bovinas, con- tribuindo para o conhecimento dos processos fisiológicos que modulam as atividades reprodutivas. Espera-se que as informações pre- Revista Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento - Edição nº 33 - julho/dezembro 2004 87 liminares obtidas neste trabalho sinali- zem novos genes candidatos a marcadores moleculares relacionados à precocidade sexual em bovinos da raça Nelore. Agradecimentos Os autores agradecem à Funda- ção de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq, pelo apoio fi- nanceiro concedido a este projeto (Pro- jetos FAPESP N° 97/13372-9 e 00/ 07772-9 e Projetos CNPq N° 464357/ 2000-4 e N° 301432/03-1). Nossos agradecimentos a Fazenda Santa Cecí- lia - OMF - Araçatuba, pelo forneci- mento dos animais. Referências bibliográficas ADJAYE, J.; HERWIG, R.; HERRMANN, D. et al. Cross-species hybridisati- on of human and bovine ortholo- gous genes on high density cDNA microarrays. BMC Genomics, v.5, n.83, 2004. BALDWIN, D.; CRANE, V. & RICE, D. 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