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Testes imunológicos • Introdução: Os testes imunológicos é um importante tema e de constante avanço no transplante renal. Desde o clássico estudo de Terasaki em 19691, é proibitivo a realização do transplante sem antes ser avaliado o risco imunológico do procedimento. Podemos dividir os testes em dois grandes grupos: as provas cruzadas e os testes de fase sólida. As provas cruzadas podem ser por citotoxicidade dependente de complemento (CDC) ou por citometria de fluxo, enquanto os testes de fase sólida são exames imunoenzimáticos semiquantitativos que visam a detecção de anticorpos contra antígenos HLA (Human Leukocyte Antigen) presentes na população em geral (teste de reatividade contra painel – PRA) ou no doador (neste caso – “donor specific alloantibody” – DSA). Cada teste imunológico tem um grau de especificidade, e quando bem executados e interpretados podem ser muito úteis para predizer o risco de rejeição aguda e com isso ajudar na definição de conduta baseado no perfil do serviço de transplante em questão e no contexto clínico do paciente. De uma forma geral, apenas a prova cruzada por CDC contraindica o transplante pela sua alta associação a rejeição hiperaguda, entretanto, qualquer evidência de anticorpo pré-formado contra o doador, desde que não seja considerado falso positivo (como será comentado adiante), reflete um maior risco de menor sobrevida do enxerto, sendo importante para ponderar risco-benefício da realização do transplante. • Princípios Gerais: O primeiro passo na avaliação imunológica do transplante é a avaliação da compatibilidade pelo sistema ABO. Pacientes ABO incompatíveis não avançam nos testes de compatibilidade. Para o transplante renal é feita a tipagem sanguínea ABO através das técnicas usuais de aglutinação direta, e respeitado a compatibilidade (a mesma regra utilizada para transfusões sanguíneas) com exceção dos casos de doador falecido, onde, por questão de “justiça social”, são alocados os órgãos pela identidade em vez da compatibilidade. A avaliação inicial do transplante envolve o estabelecimento do risco de sensibilização, através da história clínica. Pacientes com passado de transfusões sanguíneas, gestações prévias e transplante anterior apresentam uma probabilidade pré-teste muito maior do que os que não apresentam eventos como estes de possuírem anticorpos pré-formados, e esta informação é importante para analisar os resultados de testes imunológicos que vão interferir no desfecho clínico do transplante. Pacientes candidatos a transplante que já possuem um transplante prévio, história de gestação ou hemotransfusões apresentam maior probabilidade de terem desenvolvidos anticorpos anti-HLA. Essa sensibilização não acontece de forma imediata e, portanto, o soro do paciente candidato a receptor deve ser testado novamente sempre após 15 dias do evento sensibilizatório. O sistema HLA é composto por moléculas presentes em todas as células - HLA classe I - e células especializadas apresentadoras de antígenos (macrófagos, células dendríticas, linfócitos B, linfócitos T e células endoteliais ativadas) - HLA classe II. Essas substâncias são glicoproteínas de superfície celular, originadas do complexo principal de histocompatibilidade, ou MHC (major histocompatibility complex), nome este dado justamente devido a importância do produto da tradução destes genes na resposta imunológica ao transplante. A molécula HLA I é composta de uma uma cadeia α e uma cadeia menor chamada β2-microglobulina, enquanto a molécula HLA II é composta de uma cadeia α ligada de forma não covalente a uma cadeia β. Por serem formado por duas cadeias polimórficas, os genes que codificam as moléculas de HLA clase II em geral vem escrito com a letra A ou B depois das duas primeiras letras (p. ex: gene DQA1, DRB4, DQB1 etc.). Essas moléculas possuem intenso polimorfismo, apresentam herança mendeliana simples com codominância, e estão associadas à apresentação de uma gama variada de antígenos, sendo, portanto, peças chaves no processo imunogênico do transplante. No contexto da doação de órgãos, um dos primeiros passos é a tipificação HLA da dupla doador x receptor, através de técnicas de amplificação do DNA. Idealmente, no transplante renal, a tipificação HLA inclui os loci A, B, C, DRB1,3,4,5, DQB1, DQA; DPB1 e DPA2,3, mas muitas vezes essa tipificação completa não é feita. Aqui no Brasil, usualmente os laboratórios tipificam apenas os HLA A, B e DR. Alguns poucos laboratórios realizam a tipificação do dos demais loci gênicos, de acordo com a necessidade, afim de uma análise mais acurada do risco imunológico. A tipificação HLA pode ser realizada em alto, médio ou baixo grau. Em baixo grau permite a definição das especificidades HLA/grupos de alelos. Na tipificação HLA em média resolução é possível restringir os possíveis alelos. Nesses casos, utilizamos o código NMDP para representa-los, que é um código baseado no banco de dados de doadores de medula óssea norte-americano. Em alto grau temos o alelo definido. Para cada nível de diferenciação é colocado um número separado por “dois pontos”. Um alelo já definido é representado convencionalmente pelos números até a segunda casa. Para o transplante renal a tipificação em médio grau já é o suficiente. No caso de transplantes de doadores vivos aparentados, após a determinação dos grupos de alelos, é realizada a análise dos haplótipos herdados. A determinação da coincidência de alelos é realizada através da dedução dos haplotipos parentais. Outros tipos de transplantes, como o transplante de medula óssea, precisam de uma tipificação mais precisa, que diferencia o gene em alta resolução. A nível de estudos biológicos, muitas vezes é feita a tipificação que levam em consideração a análise completa da molécula de DNA, incluindo variações silenciosas nos éxons e os introns, sendo este nível de especificidade estão representados pela nomenclatura através dos números a partir da terceira casa, como exemplificado na figura abaixo. • Testes de fase sólida Os testes de fase sólida são exames semiquantitativos onde o soro do paciente é testado contra antígenos implantados em uma superfície sólida, e formam os principais exames envolvidos na avaliação imunológica do transplante. Atualmente a principal metodologia de quantificação utilizada é a imunofluorescência – Luminex. Usualmente o teste envolve duas etapas, com a primeira de triagem com placas contendo microesferas chamadas “beads” com vários antígenos, normalmente separados em HLA-I e HLA-II, e uma segunda com “beads” HLA específico. O resultado então é dado como intensidade de fluorescência média (MFI). Geralmente esses exames são os mais importantes na escolha do doador pela sua alta sensibilidade, entretanto, por não ser um resultado qualitativo dicotômico, pode gerar dificuldade em sua interpretação e o valor de corte ou “cut-off” ideal ainda não está tão bem estabelecido na literatura2,3,6,7. O ponto de corte deve ser interpretado baseado no objetivo clínico do teste e aplicado aos algoritmos de aceitação de órgãos baseado no perfil do serviço. A presença única e simplesmente de anticorpo contra determinado antígeno, sem que isso necessariamente represente um desfecho clínico desfavorável, deve ser definido como um valor de MFI superior ao do soro-controle negativo acrescido de três desvios-padrão (em torno de 300 a 500 MFI). Para predizer prova cruzada positiva (testes que estão mais classicamente associado ao risco de rejeição aguda) os valores de MFI devem ser tão altos como >5.000 para prova cruzada por citometria de fluxo ou >10.000 paraCDC3. No nosso serviço, baseado em estudo retrospectivo realizado com soros de doadores no período de 2001 a 2006 (antes da utilização da tecnologia de Luminex), observou-se uma correlação positiva do ponto de corte de 1.500 MFI com rejeição aguda, menor sobrevida do enxerto em 05 anos e menor clearance de creatinina ao final do primeiro mês, primeiro ano e quinto ano pós transplante, sendo portanto adotado como referência na nossa prática e em conformidade com o “cut-off” ideal em outras referências da literatura, que gira em torno de 1.500-3.000 MFI2,3,8. • Prova Cruzada As provas cruzadas são consideradas o exame final para determinar o risco de rejeição aguda do transplante, entretanto é menos sensível de uma forma geral que os testes de fase sólida. O CDC é o teste historicamente mais utilizado e mais bem estabelecido como risco de rejeição hiperaguda, sendo contraindicação ao transplante quando positivo. Nesse teste os linfócitos do doador e o soro do receptor são misturados junto com complemento, levando a lise celular e sendo utilizado um corante vital para marcar as células mortas. Através da comparação com um controle negativo é dado o resultado do teste. Erros operacionais na execução e interpretação do teste podem ocorrer, sendo importante a expertise do laboratório. A análise do soro contra os linfócitos T pode avaliar a presença de anticorpo anti-HLA I. O testes CDC contra linfócitos B avalia a presença tanto de anticorpos HLA-I quanto HLA II. Entretanto, o enriquecimento do material biológico com células B é tecnicamente um pouco mais difícil. Esse teste também não é capaz de detectar anticorpos que não são capazes de se ligar ao complemento ou tem baixa afinidade. No CDC contra linfócitos T existe a possibilidade da adição de uma etapa de mistura de anticorpos capazes de ligar complemento contra anticorpos humanos (CDC-AGH) aumentando a sensibilidade do exame. A citometria de fluxo tem uma sensibilidade maior de detectar anticorpos contra antígenos HLA I e II do que o CDC e também diminui a subjetividade e a variabilidade interobservador associada ao método, todavia a sua associação com a rejeição hiperaguda está menos estabelecida do que o CDC e as sociedades de transplante de uma forma geral não obrigam a utilização deste método como prova cruzada de escolha. A maioria dos serviços optam pela citometria de fluxo junto com os testes de fase sólida, a fim de realizar uma avaliação mais apurada do risco imunológico do transplante2,3,5,8. • Estratificação de risco Como citado anteriormente, a estratificação de risco do transplante é o produto tanto da interpretação do resultado dos testes imunológicos como da história clínica de sensibilização do receptor. Assim, por exemplo, um DSA positivo em um paciente sem história prévia de sensibilização e com prova cruzada negativa deve ser analisado com muita cautela e ponderando o contexto clínico do paciente e o perfil do serviço. Além disso, para a adequada interpretação desses testes é fundamental a ampla comunicação entre o laboratório de imunogenética e a equipe clínica, afim de tentar desvendar possíveis falso positivos ou falso negativos. Algumas das possíveis armadilhas nesse contexto são: - Anticorpo contra HLA desnaturado: erros na confecção das moléculas de HLA em superfície sólida podem acabar levando a desnaturação da molécula e consequentemente exposição de epítopos que não seriam apresentados na molécula in natura, consequentemente podendo levar a resultado de um Anti-HLA falso positivo. Uma forma de detectar esse fenômeno é tratar as “beads” com ácido, que levará a desnaturação de todo o HLA e se o resultado mantiver positivo é indicativo da presença deste erro laboratorial. - Ligação não específica de anticorpos contra linfócitos do doador por substâncias presentes no soro do receptor, como por exemplo nos casos de tratamento recente com anticorpo monoclonal anti-CD20 (rituximab) pode levar a resultado falso positivo na citometria de fluxo. O pré-tratamento dos linfócitos do doador com a enzima pronase ajuda a remover este efeito2,9. Há relato na literatura da influência do uso do Rituximab no resultado de prova cruzada até 06 meses. - Presença de prova cruzada positiva devido a auto-anticorpo. Essa situação pode ser testada com a realização de uma auto-prova cruzada, ou seja, realização de uma citometria de fluxo com soro e linfócitos do próprio receptor. A experiência de um grande centro especializado em transplante tem demonstrado resultados que levam a crer que a presença de citometria de fluxo positiva devido a auto-anticorpo apresenta desfecho semelhante à prova cruzada negativa2. - Efeito “prozona”: a presença de intensa quantidade de anticorpos pode acabar saturando as “beads” ou ativar o complemento presente no próprio soro do paciente e levar a um paradoxal efeito de MFI baixa. Existem várias técnicas de detectar esse erro como, por exemplo, a diluição do soro do receptor até 1:8, ou realizando pré-tratamento do soro que seja capaz de inativar o complemento (aquecimento do soro, EDTA ou DTT são os mais utilizados). A presença do efeito “prozona” contraindica o transplante devido a alta probabilidade de rejeição aguda. -Tipificação HLA incompleta da dupla doador x receptor. Como mencionado anteriormente, idealmente, a tipificação HLA deve contemplar os loci A, B, C, DRB1,3,4,5, DQB1, DQA; DPB1 e DPA2,3, embora na nossa realidade quase nunca essa tipificação completa é feita e, por conta disso, uma prova cruzada pode vir inesperadamente positiva, pela presença de DSA contra um antígeno HLA não tipificado inicialmente, principalmente em pacientes hipersensibilizados. Pacientes hipersensibilizados (PRA > 80%), portanto, devem ter alta suspeição para o risco de rejeição aguda, sendo preconizado sempre a comunicação entres as equipes clínica e do laboratório de imunogenética, afim de se evitar falsos negativos e melhor apurar o resultado dos exames. Além disso, algumas situações ainda possuem risco de rejeição aguda incerto como, por exemplo, a presença de DSA em soro histórico. O paciente candidato a transplante deve ser submetido periodicamente aos testes imunológicos, e em soros anteriores (ou soro histórico), o paciente pode apresentar anticorpo contra o doador, mesmo este não estando mais presente no momento do transplante e a prova cruzada estando negativa. O real valor deste resultado ainda é desconhecido, entretanto muitos serviços optam por não realizar o transplante nesses casos. Outra situação com risco imunológico incerto é quando o paciente apresenta DSA positivo, entretanto, com prova cruzada negativa. Embora todo DSA deva ser evitado, a presença da prova cruzada negativa pode indicar que esse anticorpo não apresenta relevância clínica e, excepcionalmente, pode ser indicado transplante. Nesses casos, está indicado monitoramento do anticorpo no pós-transplante. Quando acontece o inverso e a prova cruzada é positiva na ausência de DSA, mesmo com tipificação HLA completa, isto pode indicar a presença de auto- anticorpos ou direcionados a antígenos não HLA. A significância clínica da presença desses anticorpos também precisa ser melhor estudada. • Abordagem prática Na prática, o uso racional dos testes imunológicos e das diversas técnicas passa pela análise da história de sensibilização, do tipo de doador (vivo x falecido), do contexto clínico e do perfil de cada serviço, além da comunicação entre o corpo clínico do hospital e o laboratório de imunogenética. No nosso serviço por ter um perfil de transplantes com baixo riscoimunológico, preconizamos a realização da prova cruzada por citometria de fluxo e do teste de fase sólida com tecnologia luminex (crossmatch virtual), com ponto de corte de 1.500 de MFI para todas as duplas intervivos. Nos casos de transplantes doador falecido, fazemos CDC AGH e o crossmatch virtual para todos os casos. Particular atenção deve ser dada aos pacientes sensibilizados (PRA > 50%) ou hipersensibilizados (PRA > 80%), e em caso de dúvidas é discutido caso entre equipe clínica e laboratório de imunigenética. Referências: 1. Terasaki PI, Patel R. Signiifcance of the positive crossmatch test in kidney transplantation. The New England of Medicine. 1969; 280; 735:739 2. Schinstock CA, Gandhi MJ, Stegall MD. Interpreting Anti-HLA Antobody Testing Data: A Pratical Guide for Physicians. Transplantation. 2016;00; 00- 00 3. Lima MG, Marco R. Testes imunológicos pré e pós transplante renal. In: Pestana JOM, Freitas TVS, Junior HTS. Transplante Renal Manual Prático. 1ª ed. São Paulo: Livraria Balieiro; 2014. p. 27-44 4. Coelho V, Silva HM, Caldas C, Kalil J. Imunobiologia do transplante renal. In: Manfro RC, Noronha IL, Filho APS Manual de Transplante Renal. 2ª ed. Barueri, SP, Editora Manole; 2014. p. 3-25 5. Lima MG. Avaliação e seleção imunológica: prova cruzada, reatividade contra painel e tipificação HLA. In: Manfro RC, Noronha IL, Filho APS Manual de Transplante Renal. 2ª ed. Barueri, SP, Editora Manole; 2014. p. 29-55 6. Fuggle SV, Martin S. Tools for human leukocyte antingen antibody detection and their application to transplanting sensitized patients. Transplantation 2008; 86 (3): 384-90 7. Tait BD, Hudson F, Cantwell L, Brewin G, Holdsworth R, Bennett G. Review article: Luminex technology for HLA antibody detection in organ transplantation. Nephrology 2009; 14(2); 247-54 8. Susal C, Roelen DL, Fischer G, Campos EF, Lima MG, Honger G, Schaub S, Lachmann N, Martorell J, Claas F. Algorithms for the determination of unacceptable HLA antingen mismatches in kidney transplant recipientes. Tissue Antigens 2013; 82 (2): 83-92 9. Vaidya S, Cooper TY, Avandsalehi J,cet al. Improved flow cytometric detection of HLA alloantibodies using pronase: potential implications in renal transplantation. 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