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MERCADO FUTURO Luis Fernando Veríssimo O governador do Rio não acredita no que ouve. - Quem?! O Budum da Gelsa. O Budum da Gelsa, o traficante? Esse. Quer falar comigo? E diz que é urgente, Espera um pouquinho. Deixa eu ver se entendi. O Budum da Gelsa, um dos maiores traficantes de narcóticos do Rio, o chefe da quadrilha que domina a Rocinha e aterroriza a cidade, o homem que há anos, desde o governo Roberto D’Ávila, a polícia carioca tenta prender sem sucesso... está aqui? No palácio? E pede para falar comigo? - Exatamente. - Mas esse homem não tem que estar no palácio falando com o governador. Tem que estar na delegacia se explicando com o delegado. Prendam-no, imediatamente! - Governador... - O quê? - Acho melhor o senhor falar com ele. - Nunca! Eu não negocio com bandido. Eu não... - Governador... - O quê? - Acho melhor negociar. - Mas... Ele nem marcou audiência! - Governador... - Está bem. Mande ele entrar. O Budum da Gelsa está desarmado, mas o que faz volume sob a camisa dos seus seguranças certamente não são hérnias. O governador o recebe com o dedo em riste. - Olha aqui, seu... - Não aponte esse dedo para mim a menos que pretenda usá-lo, meu chapa - diz o bandido, com o canto da boca que tem um dente de ouro. - Vim apresentar um ultimato. - Um ultimato?! - Exactly. Quero exclusividade na distribuição da coca na Grande Rio. Darei subsídios e talvez até ceda alguns homens para a polícia acabar com os outros traficantes. Quero exclusividade e não quero ser importunado pela polícia ou por ninguém, entendeu? - Seu, seu... - começa a dizer o governador, indignado. - Porque nós temos a bomba - conclui o Budum da Gelsa. - O quê?! - Foi isso que você ouviu. Nós temos a bomba nuclear e a polícia não tem. - Mas como... - Da mesma maneira que conseguimos outras armas de uso exclusivo das Forças Armadas, só que desta vez miramos mais alto. - Você está blefando, Budum. - Confira com a Comissão Nacional de Energia Nuclear. Veja se não está faltando uma bomba. O governador manda sua secretária telefonar para a CNEN. Ela consegue a ligação, mas tem alguma dificuldade em se fazer entender. - Bomba nuclear. Nuclear. Você sabe. Plutônio, essas coisas. Não. "Plutônio"! Não tem sobrenome, é um... Isso. Finalmente consegue a informação. A CNEN não tem notícia de que uma bomba esteja faltando, mas isso não quer dizer nada porque ela é sempre a última a saber de tudo. De qualquer jeito, não dá para checar agora porque o cara que tem a chave do almoxarifado está almoçando e... - Acredite, meu chapa, nós temos a bomba - diz Budum da Gelsa. - Ou você prefere que a gente destrua a Ilha do Governador para ter certeza? O governador aceita o ultimato. E passa a discutir com Budum da Gelsa um método para evitar acidentes. Para começar, instalarão uma linha telefônica direta entre o palácio do governo e a fortaleza de Budum da Gelsa na Rocinha. Luís Fernando Veríssimo é um excelente vidente, além, é claro, de escritor. É o que se pode verificar nesta crônica que consta de seu livro "ORGIAS", da LP&M Editores - Porto Alegre, 1989, pág.35. Sua visão do futuro do Rio chega a ser trágica, se o autor não conseguisse transformá-la em cômica. Tudo sobre o escritor e sua obra em nossa página "Biografias". ®anjo 19-04-98