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PHILIP JOSÉ FARMER O OUTRO DIÁRIO DE PHILEAS FOGG Tradução LAURO S. BLANDY Título original norte-americano THE OTHER LOG OF PHILEAS FOGG Publicado por DAW BOOKS, Inc. Copyright ( c ) by PHILIP JOSÉ FARMER Direitos adquiridos, 1974 da edição em português GLOBAL EDITORA E DISTRIBUIDORA LTDA. Que reserva a propriedade desta edição REVISÃO: João Evangelista Franco DIAGRAMAÇÃO: Luiz Alves Júnior PREFÁCIO Li, pela primeira vez, o livro A Volta ao Mundo em Oitenta Dias" em 1929. Dessa época até 1938, reli essa obra, umas quatro ou cinco vezes. Vi o filme em versão de Todd e gostei muito, porém só tornei a ler o livro cerca de trinta e três anos depois. Pareceu-me ainda mais atraente do que havia imaginado e fiquei admirado por sua atualidade. É um verdadeiro clássico - em seu gênero — embora, naturalmente, não possa ser comparado a Os Irmãos Karamazov ou a Moby Dick. Porém, encontrei certos detalhes que haviam passado despercebidos em minhas leituras anteriores. Após meditar nesses detalhes durante vários meses, cheguei a conclusão de que A Volta ao Mundo em Oitenta Dias é uma narrativa exotérica, de fácil verificação, descrita por J. Verne, de forma interessante e agradável. Há uma outra, esotérica, oculta, e cheia de conseqüências perigosas para a humanidade. Havia uma estória de ficção científica nesse livro, que J. Verne, o pai da ficção, não havia contado. Não o fizera porque o ignorava, não ousava revelar e suspeitava de que algo estava errado, porém não sabia exatamente o que. Por quê havia tanto mistério sobre a origem de Fogg? Por quê sua vida se desenrolava como se ele fosse um relógio mecânico ou um robô? Seria ele clarividente ou possuía um cérebro capaz de calcular o grau de probabilidade dos acontecimentos futuros e, assim, agir de modo conveniente? Por quê todos os relógios de Londres deram horas às dez para as nove, quando Fogg saiu do trem, no fim de sua viagem? Philip José Farmer INTRODUÇÃO Até que ponto Júlio Verne sabia da estória verdadeira que se oculta em A Volta ao Mundo em Oitenta Dias? Não seria possível que soubesse de tudo. Em caso afirmativo, teria medo de escrever a estória, sob qualquer aspecto. Contudo, faz tantas referências veladas sobre Phileas Fogg que deve ter desconfiado de algo. Nenhuma outra descrição desse famoso feito mundial, entre muitas outras, contém tantas dessas alusões ou alterações. Teria J. Verne visto o diário secreto de Fogg, o outro livro de sua viagem de oitenta dias? Não parece provável ter ouvido de alguém e recebido alguns trechos da mesma. Mas, se isso é verdade, não teria ficado mais informado do que antes, embora ficasse muito mais intrigado. O livro secreto foi escrito em símbolos do Eridaneano A. Somente algum antepassado, ou inimigo de Capela ou uma criança adotiva, seria capaz de lê-lo. Nenhuma delas teria revelado a um simples ser humano, aquela informação em idioma desconhecido. É verdade que sempre existem traidores. O senso inclui tanto a lealdade como a deslealdade. Vejamos algumas das referências de Júlio Verne sobre Phileas Fogg. Ele poderia viver mil anos sem envelhecer. Seu ingresso no Reform Club, que era muito fechado, foi misterioso. Os banqueiros Baring o recomendaram, mas qual seria o motivo? Ninguém sabia da procedência de Fogg e de seu dinheiro. Todavia, é bem conhecida a relutância da alta sociedade antiquada inglesa em aceitar alguém sem uma boa tradição de família ou sem dinheiro. Ele parecia ser uma pessoa de costumes rígidos. Não só podiam os vizinhos guiarem-se pela sua rotina, como também deviam ter desejado saber se ele era de fato humano e não um robô mecânico. Pois parecia ser irreal e não humano. Todavia, tinha sentimentos. Ele próprio admitia possuir um coração, às vezes. Era capaz de ficar sentado imóvel por horas a fio, como se fosse uma enorme rã, fitando sem piscar, as suculentas moscas do tempo. Teria viajado, esse homem, que restringiu suas atividades a uma pequeníssima região do mundo? Parece ter conhecido a maior parte do mundo, até mesmo os pontos mais distantes. "O imprevisto não existe" tinha ouvido falarem mais de uma vez. Será que isso significa que era clarividente? Ou quer dizer algo mais crível, porém muito mais trágico? Por quê teria esse inglês, de atitudes bitoladas como uma locomotiva da Great Western, saltado de repente dos trilhos e cruzado o horizonte? Por quê? Existem muitos porquês, aos quais J. Verne não responde. A existência do outro livro do sr. Fogg não foi revelada até 1947, quando foram feitos reparos na casa de n.° 7 em Savile Row, Burlington Gardens, Londres. Essa casa, como todos sabem, foi certa vez habitada pelo famoso e sábio teatrólogo, membro do Parlamento, Richard Brinsley Sheridan. Ele faleceu em circunstâncias penosas em 1816, e não em 1814, segundo J. Verne. Durante a abertura de uma parede, foi encontrado um pequeno diário em espaço vazio, entre duas paredes. Esse diário parece ter se conservado em perfeito estado até quando um furo no forro deixou que penetrasse água no mesmo. Algumas de suas páginas ficaram totalmente estragadas e certas partes de outras, ficaram ilegíveis. Uma boa parte do escrito desconhecido sobrou, para tornar-se uma cause célebre entre criptógrafos e lingüistas de todo o mundo. Em 1962, chegou-se à conclusão de que esses escritos não eram cifrados nem em código, mas sim escritos em um idioma ainda não conhecido. Continuaria sem ser traduzido, não fora a descoberta de algumas anotações em uma casa do interior de Derbyshire. Eles estavam na mansão, que pertenceu a Sir Heraclitus Fogg, baronete. Consistia de anotações feitas para auxiliar uma criança inglesa a aprender o seu idioma. Com essas indicações, um conhecido lingüista da Universidade de Oxford, Sir Beowulf William Clayton, 4.° baronete, examinou o material achado no n.° 7 de Savile Row. Ele tentou traduzir pelo menos um terço do que sobrara. Fui o primeiro a ouvir falar da tradução, porque foram minhas pesquisas sobre a vida do General Sir William Clayton, 1.° baronete, pai de Phileas Fogg, que permitiram a localização do local onde Fogg passou a infância, e, portanto, dos diários esclarecedores. A residência dos Fogg, de há muito abandonada sofreu uma busca por parte de meu colega inglês, o referido lingüista, bisneto de Sir William Clayton e de sua décima esposa, Margaret Shaw. A investigação de Sir Beowulf resultou no achado dos textos equivalentes em inglês e as suas conseqüentes traduções parciais. Com o auxílio das notas que me foram entregues por Sir Beowulf, reconstitui a estória oculta na de Verne: O Outro Diário de Phileas Fogg (The Other Log of Phileas Fogg), Capítulo 1 Segundo Júlio Verne, Phileas Fogg era um Byron barbudo, e tão calmo que seria capaz de viver mil anos, sem envelhecer. Teria sido uma simples coincidência essa declaração sobre a sua possível longevidade, um pensamento fugaz que por acaso passou a ser verdade? Mil anos de vida era exatamente a promessa feita a Fogg. Em 1872, dizia-se que ele estava com cerca de quarenta anos de idade, e de fato estava. Porém o elixir eridaneano não começa a agir sobre o corpo humano antes da idade de quarenta anos, quando então atua rapidamente. Se ainda estivesse vivo, Fogg aparentaria hoje ter ficado um ou dois anos mais velho. É bem possível que ele ainda esteja vivo e talvez em algum ponto da Inglaterra. Será que alguém é capaz de mostrar um túmulo onde esteja gravado o seu nome, com a data de seu nascimento, 1832, seguida da data de sua morte? Ninguém é capaz. O sr. Fogg era uma pessoa de estatura elevada, bem proporcionada e possuía feições agradáveis, o que é de se esperar de quem se parece tanto com Byron. Seus cabelos e bigodes eram ralos, o que significa na linguagem de Júlio Verne que ele era louro ou tinha os cabelos castanhos. A cor de seus olhos não é mencionada por Verne. Um comunicado da Scotland Yard, entretanto, que ainda pode ser examinado pelo pesquisador que for bastante ativo para obtê-lo, menciona os seus cabelos como cinzentos escuro. Já se espera issoem um membro de uma família conhecida por seus olhos cinzentos. Seu rosto era pálido, devido a se expor ao sol somente um dia no intervalo de tempo necessário para andar mil e cento e cinqüenta passos consecutivos. Os seus dentes, ao contrário dos ingleses típicos daquela época, eram perfeitos. Não havia perdido nenhum dente, como era comum entre o povo de Albion no meado do século dezenove. Essa característica, assim como os olhos cinzentos, parece ter sido um fator genético. Por outro lado, tendo tomado um certo número de tônicos durante a sua infância, a sua saúde dental parece ter resultado de uma droga preparada há milênios. Na época em que essa estória tem início, numa quarta-feira, dia 2 de outubro de 1872, o sr. Fogg parecia não possuir parentes. Morava no n.° 7, em Savile Row, onde, além dele, só residia o seu criado. Ele tinha conhecidos, porém nenhum amigo intimo. A sua única distração consistia em caminhar de sua casa até o Reform Club, onde lia os jornais e jogava whist. Segundo Júlio Verne, ele vinha vivendo como um pêndulo de um relógio, há muitos anos. Na realidade, os "muitos anos" foram apenas quatro, de 1868 a 1872. Porém, a sua presença era tão "batida" que as pessoas o consideravam um objeto, como o carro do leiteiro ou mesmo uma casa. Fogg exigia que a água que usava para barbear-se estivesse exatamente na temperatura de 86°F. Nessa manhã, o seu criado, James Forster, surgiu na hora certa trazendo a água, às nove horas e trinta e sete minutos. Colocou a vasilha na bandeja, e o sr. Fogg retirou o termômetro, da água. Este marcava 84°F. Não havia desculpa para essa falha. Embora os seus encargos fossem poucos, deviam ser executados com precisão na hora exata. Devia acordar o seu patrão exatamente às oito da manhã. Vinte e três minutos depois, ele deveria aparecer com uma bandeja, contendo chá e torradas. Verne não menciona se isso devia estar também a uma certa temperatura, porém podemos imaginar que deviam. Dez minutos mais tarde, Forster devia retirar essa bandeja. Ficava faltando para ele apenas a água de barbear às 9 horas e 37 minutos e vestir o seu patrão às vinte para às nove. Às 11 horas e 30 minutos, sem nenhum segundo a mais ou a menos, o sr. Fogg se dirigiria à porta da frente, e voltaria a passar por ela quando os relógios de Londres batessem meia-noite. Entre a sua saída e chegada, o seu criado tinha pouca coisa a fazer. Fazia um pouco da limpeza, contratava uma mulher para limpeza uma vez por semana, certificava-se de que as roupas de seu patrão estavam limpas e passadas, as camas feitas, pagava algumas contas e assim por diante. Com exceção das exigências desumanas de seu horário, James Forster era o seu próprio patrão. Mas, seria de fato? Por exemplo, por quê Foster serviu a água de barbear com dois graus a menos de temperatura do que era exigido? Bastava que ele tivesse verificado o termômetro antes. Por quê não o fez, quando sabia que era tão importante? A resposta é que ele a verificou. O sr. Forster esperou até que a temperatura da água caísse para 86° antes de retirá-la da cozinha. Sabia muito bem que na hora em que chegasse ao banheiro no terceiro andar, a água estaria abaixo da temperatura desejada. E não se perturbou quando o sr. Fogg comunicou-lhe que estava despedido. Fogg deve ter ficado contrariado, pois o metrônomo de sua vida tinha sido alterado. Tudo estava fora de ordem, e embora seja verdade que não são muitas as pessoas que ficariam perturbadas por uma simples diferença de dois graus em sua água de barbear, o sr. Fogg considerava isso como uma coisa grave. Porém a sua expressão de calma quase não se alterou. As suas sobrancelhas se ergueram como se fossem um par de asas agitadas contra a vontade por uma ave habituada a planar a vida toda. Depois voltaram ao normal, e Fogg disse, com voz impassível porém não em excesso: "Deverá ir embora, logo que eu arranjar outro criado. Deverá procurar o seu sucessor em uma boa agência de emprego, e eu entrevistarei os candidatos. Estarei aqui para esse fim até às onze horas e vinte e cinco minutos." — Sim, senhor, está bem, meu senhor, disse Foster. E posso saber de minhas referências? — Você trabalhou bem até o momento, disse o sr. Fogg. "Direi isso em termos claros para qualquer empregador em vista. Porém, preciso também dizer exatamente por quê fui obrigado a despedi-lo." O sr. Foster não respondeu, porém é certo que deve ter pensado que muito poucos empregadores considerariam dois graus de temperatura uma coisa tão grave ou digna de nota. Nenhum dos dois sorriu ao final do diálogo, embora seja difícil entender como conseguiram ficar sérios. Embora não houvesse ninguém presente, e ninguém possa ter visto ou ouvido, nenhum se descuidou. Se houvesse uma câmara ou microfones ocultos, nada fora do comum teria sido registrado. Em 1872, naturalmente, não existia nenhum desses aparelhos. Ou existiam? Que pequeno zumbido era aquele que se ouvia em sua casa quando não havia ninguém falando? A que poderia ser atribuído? E o grande espelho no dormitório do sr. Fogg? Seria esta uma peça de vidro de um só lado, e teria equipamento eletrônico atrás, que seria considerado muito moderno mesmo no ano de 1972?' Estivesse ou não a casa com instalações secretas, era verdade que Fogg e Forster nunca disseram uma palavra a respeito nem fizeram algum gosto que já não fosse esperado pela gente de sua classe e posição social. Não havia nada que indicasse que dois graus pudesse ser um sinal para a demissão do criado e a contratação de outro. Ou que a famosa aposta feita no Reform Club fosse também resultado desse sinal. Isso pode ter sido um excelente motivo para explicar a excentricidade do sr. Fogg, ou seja, a sua fama de invariabilidade. Despedir uma pessoa só porque ele serve água com uma diferença de 2 graus de temperatura, já é ser excêntrico. Tal comportamento em uma pessoa "normal", chamaria imediatamente a atenção. Porém tal conduta já era de se esperar no sr. Fogg. De fato, se ele não tivesse reagido como o fez, seria encarado de forma suspeita por qualquer suposto observador escondido. Às vinte para às dez, Forster ajudou Fogg a se vestir. Quinze minutos depois, Forster saiu de casa e tomou um carro dirigindo à agência de empregos especializados em criados, lacaios, arrumadeiras e cozinheiros. Phileas Fogg sentou-se em sua poltrona e ficou em sua posição habitual. Sua coluna estava na vertical, com as costas bem encostadas no espaldar da poltrona. Seus pés estavam juntos e as mãos apoiadas nos joelhos. Seus olhos fitavam um grande relógio do outro lado da sala. Esse aparelho indicava não só as horas, minutos e segundos normais, como também o dia, mês e ano. Fogg não se movia a não ser para respirar e piscar. Apesar do que se diz a respeito do olhar dos vilões que não pestanejam, tanto em 1872 como em 1972, ninguém que possua visão normal pode ficar sem piscar. As conseqüências disso são muito dolorosas. Portanto, o sr. Fogg piscava, como teria feito espontaneamente, mesmo que ninguém houvesse pedido para fazer tal coisa. Ele duvidava que houvesse algum espião escondido naquela casa, fosse ele humano ou mecânico, porém isso era possível. Ele vivia como se fora um autômato — quase igual ao jogador de xadrez de Poe — por dois motivos. Primeiro, havia aprendido a proceder assim pelo seu pai adotivo. Segundo, embora sua vida fosse pacata, agia assim abertamente. Havia poucas pessoas que sabiam de sua existência, porém essas pessoas sabiam muito. Entretanto, o seu próprio modo saliente, era uma condição capaz de despertar suspeitas de um inimigo. Dava a impressão que os seus inimigos estariam fazendo o máximo possível para parecerem normais, para dissimularem-se na multidão. Portanto, o sr. Fogg, pela sua conduta, os convenceria que não poderia estar se escondendo deles. Apesar dessa hipótese, havia certos indícios de que o sr. Fogg estaria sendo vigiado. E portanto, Fogg, acompanhado ou não, agia sempre com naturalidade. Havia procedido assim há tanto tempo, que acharia forçado proceder de outra forma.O símbolo era ele, e ele era um símbolo. Porém, isso iria mudar muito em breve. Realmente, parece que a previsão disso, essa certeza, fez seu coração bater apressado. Talvez fosse verdade. Mas, não foi esse homem que dissera que o "imprevisto não existe"? Era ele que, sentando-se imóvel em sua poltrona, utilizava o cérebro como com computador para localizar as coisas mais prováveis do futuro? Teria o seu aprendizado quando criança lhe capacitado o controle de certos circuitos nervosos e o estímulo de certos padrões em seu cérebro para computar inconscientemente com a mesma rapidez dos modernos cérebros eletrônicos? Seria ele capaz de visualizar as chances estatísticas de uma ocorrência in potential Fogg nunca se refere a isso em seu diário, porém há algumas afirmativas que parecem referência indireta a tal capacidade. Se ele podia fazer isso, então deveria ter sabido que não podia ter certeza de que certas coisas seriam inevitáveis. Dessa maneira, embora em certo sentido o futuro não contenha imprevistos, também não inclui coisas inevitáveis. Se houvesse fatalismo, e isso pudesse ser previsto, uma das partes nessa guerra secreta, de há muito teria sido derrotada. Realmente, a guerra teria cessado antes de seu início, uma vez que os cálculos mostrariam a ambos os lados, quem iria vencer. Alguém bateu à porta — isso fora previsto? James Forster abriu a mesma e disse: "O novo criado". Por quê teria Forster anunciado assim o candidato? Essa pessoa não havia sido ainda entrevistada; e não tinha sido contratado. Por quê teria Forster falado como se o assunto já estivesse resolvido? Foi um lapso de sua parte, ou a questão já tinha sido predeterminada? Nesse caso, a expressão de Fogg não mudou, e Verne não menciona a de Forster. Por quê iria mencionar? Ele nada sabia do que estava se passando atrás dos bastidores. Um homem entrou e cumprimentou. Era de baixa estatura e robusto; seu rosto era agradável com faces vermelhas e olhos azuis claro; seus cabelos eram castanhos e pareciam estar sempre desfeitos pelo vento. O sr. Fogg disse: "O sr. é francês, se não me engano, e seu nome é John? — Jean, por favor. Jean Passepartout..." Fogg havia dado a sua primeira senha quando perguntou se o seu nome era John. E o parisiense respondera àquela, quando disse que o seu nome era Passepartout. Assim como o nome de Fogg indicava um certo papel na organização, por uma feliz coincidência, também Passepartout indicava seu papel. Porém o nome do francês não era o de nascimento. Tinha sido apelidado Passepartout - "Passa por todo lugar" — por um bom motivo. Ele indicava algo mais do que a instabilidade e o desejo de viajar do francês. Passepartout, a pedido de Fogg, forneceu seu currículo. Tinha sido um ministro errante, embora não obrigatoriamente um pedinte. Havia também lidado com cavalos em vários circos, e dançado sobre uma corda no espaço, como Blondin. Se Passepartout pudesse igualar os feitos desse famoso personagem, como pensara que pudesse, então teria se dedicado a isso como profissão. Foi Blondin quem atravessou pela primeira vez as Cataratas do Niagara sobre um cabo suspenso 160 pés acima do nível das águas e numa extensão de 1100 pés. Fez isso várias vezes com andas, carregando um homem em suas costas, sentando-se em uma cadeira e fazendo uma refeição, e assim por diante. Há apenas onze anos, ele se apresentara no Crystal Palace em Londres e nesse local, utilizando andas, havia dado uma cambalhota em uma corda esticada 170 pés acima do solo. Não se deve supor que Passepartout fosse a Blondin, porém talvez não tenha sido muito inferior em habilidade. Seja como for, ele havia abandonado as acrobacias em cabos para ensinar ginástica, durante algum tempo. Depois tornou-se bombeiro em Paris, mas havia abandonado essa profissão há cinco anos para trabalhar como criado na Inglaterra. Tratava-se, de fato, de uma estranha mudança de profissões, porém ele explicou que estava cansado de coisas perigosas e incertas. Desejava uma vida calma. Estava no momento desempregado, porém, ao saber que o sr. Fogg levava uma vida rigorosamente programada e sossegada, havia se apresentado como um criado conveniente. Não desejava nem mesmo continuar a usar o nome de Passepartout. O sr. Fogg disse: — Passepartout serve para mim. Foi-me bem recomendado. Tenho boas referências suas. Isso era estranho, pois de quem e quando o sr. Fogg ouvira falar de Passepartout? Até a algumas horas antes, ele não havia nem pensado em arranjar um novo criado. Desde que despedira Foster e o mandara arranjar novo criado, não havia se comunicado com ninguém. Tampouco havia colocado um anúncio nos jornais, escrito uma carta e recebido uma resposta, nem usado o telefone. Esse último ele nem possuía, uma vez que o sr. Alexander Graham Bell tinha nessa época apenas vinte e seis anos de idade e faltavam ainda quatro anos para que ele apresentasse a sua patente de telefone. O sr. Fogg poderia ter mandado Forster à agência telegráfica mais próxima, porém Verne nada diz a respeito. Assim como a apresentação de Passepartout foi um lapso da parte de Forster, também o comentário de Fogg sobre a recomendação fora um descuido. O que resta saber é se esses lapsos intencionais seriam para influir sobre um hipotético observador oculto, de uma certa forma? Se o imprevisto realmente não existe para Fogg, teria ele se enganado? E se Fogg fizera um erro de propósito, então é certo supor que Forster fez o mesmo. Isso significa que todos os três, Fogg, Passepartout e Forster estavam cientes de um certo plano. — O senhor sabe as minhas condições? — disse Fogg. A resposta do francês indicava que Forster o havia prevenido no trajeto entre a agência e sua casa. Então, Fogg perguntou que horas eram a Passepartout. O francês tirou um enorme relógio de prata do bolso do colete, olhou o mesmo, e disse: — São onze horas e vinte e dois minutos. — Seu relógio está atrasado, disse o sr. Fogg. Passepartout respondeu que isso era impossível. Fogg disse friamente: — O senhor está com quatro minutos de atraso. Não faz mal. Basta mencionar esse erro. A partir de agora, onze horas e vinte e seis minutos dessa quarta-feira, dois de outubro, o senhor está a meu serviço. Phileas Fogg levantou-se, apanhou o chapéu com a mão esquerda, colocou-o na cabeça, e saiu. O sr. Fogg estava completamente satisfeito por ter Passepartout sido o homem que lhe mandaram para auxiliá-lo em sua nova aventura, fosse ela qual fosse. Forster tinha-o experimentado com certas frases senha na agência. O fato do relógio de Passepartout estar atrasado, tinha sido um outro método de identificação. Além disso, o nome do francês tinha mostrado a sua função, e o grande relógio era desse tamanho porque continha mais de um mecanismo. O fato do sr. Fogg apanhar o seu chapéu com a mão esquerda tinha sido o sinal final, uma vez que não era canhoto. Passepartout notara essa última confirmação e portanto estava também satisfeito. Após a saída de Fogg, ele ficou à escuta durante algum tempo. A porta da frente fechou-se. Esse seria o seu aliado e chefe, saindo exatamente às 11 horas e 30 minutos da manhã. Alguns segundos depois, a porta fechou-se novamente. Era James Forster saindo para algum lugar indicado pelo plano. Ai ele faria uma nova jogada nesse jogo de xadrez secreto e militar que se desenrolava há duzentos anos entre os habitantes de Eridano e de Capela. Capítulo 2 O Reform Club, para onde o sr. Fogg se dirigia a uma velocidade certa ficava a apenas mil cento e cinqüenta e um passos de sua residência em Savile Row. Verne não conta o que transpirou durante a caminhada do sr. Fogg. Para ele, o banal não merece ser descrito, e o fora do comum não lhe foi comunicado. Entretanto, o que é comum em nossos dias e o que era no tempo de Fogg pode ser comparado em proveito do leitor. O habitante de Londres em 1872 tinha o seu tipo especial de smog. De fato, essa palavra formada por uma combinação de smoke e fog, é de origem londrina. A fumaça de centenas de milhares de fogões e fornos industriais e domésticosqueimando carvão muitas vezes escurecia os céus e deixava uma fina camada sobre todas as coisas. Ela também dava ao ar de Londres um odor um tanto acre e sem dúvida contribuiu para o aparecimento da tuberculose e outras moléstias dos pulmões. Um outro odor, agradável sob certas condições e quando não em grande quantidade, emanava do estéreo dos animais. Ele enchia as ruas da cidade desde West End até East End. Nas épocas de seca, erguiam-se montes de estéreo que se misturavam com pó de carvão e poeira, quando as rodas das carruagens batiam nas pilhas. Misturadas com o mesmo, encontravam-se grandes e pestíferos moscardos que foram em certa época comuns, fazendo parte permanente do mundo civilizado. Entretanto, estávamos em outubro, e as noites frias das últimas semanas haviam diminuído de modo considerável as atividades de tais insetos. O sr. Fogg caminhava na calçada vindo do n.° 7 de Savile Row, virou à esquerda entrando na rua Vigo, depois de alguns passos passou para a rua Sackville, e caminhou pela mesma até chegar a Piccadilly. Depois de atravessá-la sem dar atenção aos carros que enchiam essa rua principal (o trânsito londrino era um absurdo e um perigo há um século atrás), ele caminhou para o leste até atingir a estreita rua Church. Dali, virou à direita, e, chegando à rua Jermyn, virou novamente à direita, deu alguns passos, e a seguir, atravessou-a para entrar na rua Duque de York. Com isso chegou na praça St. James. Tendo passado por ela, cruzou a Pall Mall até o Reform Club. Esse edifício famoso e imponente fica vizinho ao Travelers' Club, que só aceita como membro quem tenha viajado pelo menos quinhentas milhas partindo de Londres. Embora o sr. Fogg pudesse facilmente ter ingressado nesse clube tanto antes quanto depois de sua arremetida em volta do mundo, nunca pertenceu ao mesmo. Na rua Pall Mall a uma certa distância ficava o Athenaeum Club, dedicado a reunir os praticantes das belas artes e ciências e os seus conhecidos patronos. Essa instituição é chamada de Diogenes Club nas estórias de Sherlock Holmes. Entretanto, nessa ocasião, Mycroft Holmes, seu futuro membro, estava com apenas vinte e seis anos de idade e seu irmão Sherlock somente dezoito. Todavia, o caminhos do jovem Holmes e um dos muitos pedestres na rua Pall Mall deveriam cruzar-se muitos anos mais tarde. Embora Fogg parecesse não olhar nem à esquerda e nem à direita, como se estivesse sobre um trilho sem precisar guiar-se, ele não deixava passar nada. Por isso, viu um senhor alto, de ombros largos, com cerca de quarenta anos de idade, de pé em uma porta e acendendo um charuto. Somente um excelente observador teria notado que o passo de Fogg se alterou de modo quase imperceptível. E apenas uma pessoa que estivesse próxima e de muito bom discernimento teria reparado numa leve palidez na pele do sr. Fogg. Seus lábios se entreabriram muito pouco, pronunciando um certo nome. A não ser por isso, ele não se traiu. Andou com passo firme como se fosse um planeta em sua órbita, e não podia ser perturbado por nada, a não ser que o Sol se tornasse uma estrela nova. Mas, por detrás desse semblante calmo, milhões de novas microscópicas estavam explodindo, à medida em que entravam em ação os neurônios e os circuitos neurais. Será que ele poderia ser autêntico? Ou tinha se equivocado? Afinal de contas, aquele homem havia atravessado a rua e ficara oculto na sombra de uma porta alta. Os traços não puderam ser notados. Seu físico realmente parecia com o do homem mencionado por Fogg. O fósforo com o qual ele acendeu seu charuto teria iluminado seus traços na sombra da porta, porém a mão que o segurava, desviou a luz. Fogg não pôde saber se aquele indivíduo possuía uma distância fora do comum entre os olhos. Além disso, o olhar de Fogg tinha sido muito rápido para que permitisse uma nova verificação de sua primeira impressão. E, quanto mais se afastava desse homem, menos pensava quem poderia ser. Por que teria ficado em um lugar onde podia ser visto? Qual seria a sua intenção, deixando Fogg saber que ele estava vivo e seguindo-o de perto, às escondidas? Seria um desafio? E como poderia ele estar vivo? Como teria escapado? Fogg sabia que ele e outros três eram os únicos sobreviventes. Além disso, em certa ocasião pensara que ele fora o único a não se afogar, porém descobriu mais tarde que outros haviam tido boa sorte também. Os outros sobreviventes eram franceses e canadenses e não havia muita probabilidade de se encontrarem outra vez. Para ter certeza de que não seria reconhecido se o encontrassem, deixou crescer a barba. Apesar de uma intensa pesquisa, não se encontrou nenhuma prova de que alguém tivesse escapado com vida do redemoinho. Entretanto, isso queria dizer que os habitantes de Capela, haviam mantido o segredo. Eram muito bons para isso. Talvez, pensou Fogg, esse era o motivo por quê tudo se transtornara tão de repente, tendo sido Forster mandado para um destino desconhecido, e Passepartout surgindo com o distorter, o único em poder dos eridaneanos. Subiu os degraus da escada do Reform Club. É verdade que ele havia previsto essa possibilidade de outros sobreviventes, porém havia calculado que as probabilidades em contrário eram tão grandes, a ponto de tornar esse fato extremamente improvável. Porém, se alguém podia sobreviver, esse alguém seria um deles. Talvez ele, Fogg, havia deixado seus desejos interferirem com seus cálculos. Capítulo 3 O Reform Club era de origem política, tendo sido fundado pelos liberais em ambas as casas do Parlamento, a fim de auxiliar a introdução da Reform Bill, de 1830-32. Isso não era o que nós atualmente consideraríamos como uma medida democrática. Essa lei modificava os lugares no Parlamento, dando a representação que faltava à nova classe média das cidades industriais, e ficando livre dos "bairros corrompidos". Ela deixou de satisfazer os radicais (os quais seriam considerados muito conservadores pelos atuais padrões), porém era mais um passo no sentido de obter um governo representativo. Não se sabe por que Fogg escolheu esse clube em lugar dum outro. Ele parecia não ter o mínimo interesse pela política. Pelo menos, J. Verne não indica a sua opinião política, e uma busca eficiente falhou em revelar o seu nome em qualquer registro de eleitores. O club achava-se instalado em um prédio magnífico, de puro estilo italiano, baseado no famoso Palácio Farnese em Roma, projetado por Michelangelo. Possuía seis andares e cento e trinta e quatro apartamentos. No centro, havia um grande hall, quase da altura do edifício. Anexo à recepção, há uma biblioteca e uma sala de jogos. Foi para a mesma que o sr. Fogg se dirigiu. Nesse ínterim, ele fez uma parada programada na sala de refeições, cujas nove janelas davam para um jardim. Sentou-se à mesa, que havia sido posta para ele, e comeu seu desjejum, para o qual não era preciso dar ordens, pois era sempre servido da mesma maneira. Quando faltavam treze minutos para uma hora, ele levantou-se e caminhou rumo ao grande hall. Sentou-se lá e um criado entregou-lhe o Times. Fogg abriu as páginas com um pequeno canivete afiado e leu o jornal até as três e quarenta e cinco. Sem que pedisse, deram-lhe o Standard. Foi-lhe então servido um jantar, cujos pratos não diferiam muito dos do desjejum. O sr. Fogg foi depois ao toalete, fato que Júlio Verne não menciona. Uma vez que suas ações intimas eram tão bem controladas como as externas, o sr. Fogg reapareceu na sala de leitura na hora prevista: às vinte para as seis. Sentou-se para ler o Pall Mall, e continuou lendo durante meia-hora. Entretanto, um bom observador teria notado que ele tirava os olhos do jornal mais vezes do que o necessário, e poderia ter deduzido que o sr. Fogg esperava por alguém. Esse alguém, se aparecesse, não causaria uma reação visível por parte do sr. Fogg. Ao que parece, qualquer que fosse o significado do sinal do 2.° F, os acontecimentos se desenrolavam lentamente. Se existia pressa ou desespero nesse plano, isso não era evidente. O sr. Fogg leu inteiramente os três jornais comnotável rapidez. Isso era mais notável, considerando a falta de prática em outros tipos de leitura. Ninguém no clube vira o sr. Fogg ler outra coisa a não ser jornais, e ele certamente não lia em casa, pois o n.° 7 de Savile Row não possuía livros de espécie alguma. E apesar disso, ele parecia ter estado em toda parte e saber tudo a respeito dos lugares mais remotos. De onde havia recebido esse conhecimento? Ele não parecia estar procurando nada especial, quando lia os jornais. Todavia, os seus olhos as vezes paravam e tornavam a ler. Essas paradas eram motivadas por certas notícias, descrições de fatos estranhos em todos os cantos do mundo. Eram aquelas notícias colocadas para encher espaço, embora se esperasse que iriam interessar muitos seres humanos. Fogg as estava reunindo com outras descrições nos jornais de hoje e também com aquelas que lera anteriormente. Tentava formar uma história coerente com elas. Interessava-se especialmente nas estórias de fenômenos marítimos misteriosos ou fora do comum. Chamavam suas atenção as estórias de serpentes marinhas ou navios perdidos ou atrasados. Também não deixava passar as notícias terrestres, sobre crimes sem motivo ou desaparecimentos. Às seis e dez, cinco membros do clube pararam em frente à lareira para se libertarem da friagem dessa noite de outono. Eram eles, o engenheiro Andrew Stuart; dois banqueiros, Sullivan e Fallentin; um cervejeiro de nome Flanagan; e o diretor do Banco da Inglaterra, Gautheir Ealph. O sr. Fogg estava ciente de sua presença, mas, como não terminara a leitura, não se dirigiu a ele. O sr. Flanagan perguntou ao sr. Ralph o que pensava sobre o roubo. Stuart respondeu em lugar de Ralph, declarando que o Banco da Inglaterra perderia o seu dinheiro. Ralph então disse que o Banco esperava capturar o ladrão. Os melhores detetives tinham sido enviados para todos os grandes portos da América e da Europa, e o ladrão teria que ser muito esperto para escapar das garras da lei. - Mas, o senhor tem uma descrição do mesmo, disse Stuart. — Em primeiro lugar, ele não é ladrão, disse Ralph. Stuart ficou admirado. -- O que!? Um sujeito que foge com cinqüenta e cinco mil libras não é ladrão? — Não. — Talvez seja então um fabricante? - O Daily Telegraph diz que ele é um cavalheiro. Ninguém riu ao ouvir esta última observação, feita por Phileas Fogg. Ele levantou-se, inclinou-se perante seus parceiros de whist, e começou a conversar a respeito do roubo. Três dias antes, um pacote de notas de banco tinha sido tirada por um cavalheiro da mesa do caixa principal. Não era dele, mas ele não as devolveu. Portanto, um certo sentido, era dele. Pelo menos, seria até que fosse capturado. Segundo Júlio Verne, "O Banco da Inglaterra possui uma confiança tocante na honestidade do público". Ninguém mesmo percebeu a falta das cinqüenta e cinco mil libras, enquanto não se fechou o Banco e os livros foram verificados. Não havia guardas prontos para defender a instituição, de atividades ilegais. O caixa tinha visto o homem apanhar as notas, mas não pensou em nada, até ser dada a falta. Entretanto, o Banco da Inglaterra tomou rápidas providências quando verificou a falta de confiança, para não mencionar o dinheiro. Foram mandados detetives às pressas para Liverpool, Glasgow, Le Havre, Suez, Brindisi, Nova York, e outras partes. A dedicação natural dos agentes da lei foi reforçada com a recompensa de duas mil libras e mais cinco por cento sobre a soma recuperada. Eles não estavam agindo às cegas, pois haviam recebido uma perfeita descrição do cavalheiro que havia tirado o dinheiro. Ralph, sendo funcionário do Banco, achava impossível que o homem não fosse logo capturado. O engenheiro Stuart foi contra esse raciocínio, mesmo antes de começar o jogo de whist. Seu parceiro era o sr. Flanagan, e o de Fogg, era Fallentin. Só falaram naturalmente, depois de jogada a primeira série Então, Stuart disse: Continuo afirmando que a sorte favorece o gatuno, que tem de ser um sujeito ladino. — Mas, para onde pode ele ir voando? Não estará seguro em nenhum país. — Disse Ralph. — Para onde iria ele? — disse Ralph. Stuart bufou e disse: -- Não sei. O mundo é muito grande. A seguir, tendo fornecido uma abertura para Fogg, ele aguardou. Stuart é derivado de "steward", aquele que dirige. E Stuart era um engenheiro tanto no sentido geral como particular. Na realidade, ele era chefe de Fogg, e dirigente de toda a raça eridaneana. Era o administrador, e engenheiro-chefe de toda a raça, nativa e por adoção. — O mundo é muito grande, repetiu Stuart. — Já foi grande, disse Fogg em voz baixa. Ele entregou as cartas baralhadas para Flanagan. — Corte, senhor. A seguir, Stuart disse: — O que quer dizer com esse já foi? Será que o mundo ficou menor? — Realmente, concordo com o sr. Fogg, disse Ralph. O mundo tornou-se um tanto menor. Uma pessoa pode dar a volta ao mundo agora dez vezes mais depressa do que há cem anos. É por isso que a caça ao ladrão tem mais probabilidade de dar certo. — Mas, é por isso também que é mais fácil para o ladrão, fugir — disse Stuart. — Queira ter a bondade de jogar, sr. Stuart, disse Fogg. Ninguém a não ser Stuart estava a par do duplo significado desse pedido. Stuart era, para dizer a verdade, um grande trapaceiro quando jogava. Mesmo que não tivesse um talento inato para essas coisas, teria que ser muito estúpido se não tivesse aprendido em cento e cinqüenta anos de prática. Apesar de sua habilidade para trapacear com as cartas, era sempre honesto. Ou melhor, era honesto a menos que as circunstâncias exigissem o contrário. Em nosso caso, as circunstâncias exigiam. E por isso Stuart baixou como sua primeira carta, aquela que havia escolhido, o valete de ouros. Para todos com exceção de Stuart e Fogg, isso significava que o naipe de ouros seria o trunfo. Para Fogg, era uma ordem para apostar, para lançar um desafio, embora não fosse com as cartas. Que aposta seria essa, e que desafio? Isso dependia da conversa de Stuart e da habilidade de Fogg para interpretá-la. Após jogarem a série, Stuart disse: — O sr. tem um modo estranho, sr. Ralph, de provar que o mundo tornou-se menor. Pois, não é porque o senhor pode dar a volta ao mundo em três meses... — Oitenta dias, disse Fogg. Sullivan interveio para explicar por quê seriam apenas oitenta dias. A ferrovia Great Indian Península havia acabado de inaugurar um novo trecho entre Rothal e Allahabad, e isso iria reduzir o tempo de viagem, o bastante para torná-la possível. O próprio Daily Telegraph havia preparado um horário, pelo qual um viajante corajoso e de sorte poderia sair de Londres e dar a volta ao mundo com velocidade suficiente para estar de volta em Londres dentro de onze semanas e três dias. Stuart ficou tão excitado ao ouvir isso, que errou no jogo. Pelo menos, parecia estar excitado. Fogg sabia que o três de ouros queria dizer: A caminho. Prossiga. Stuart disse então que o horário não levava em consideração o mau tempo, os ventos contrários, naufrágios, acidentes ferroviários e outros similares. — Foi tudo incluído, disse Fogg. Ele continuava a jogar, embora os outros tivessem parado. Stuart insistiu: — Suponhamos que os indús ou indianos de origem americana, arranquem os trilhos? Imagine se eles fizerem parar os trens, roubem as bagagens e matem os passageiros. — Tudo isso foi admitido, respondeu Fogg calmamente. Colocou as cartas sobre a mesa. — Dois trunfos. Os outros olharam surpresos, não devido às cartas mas pela sua loquacidade. E acharam irritante a sua atitude. Sua calma exemplar e sua arrogância tinham sido notadas por eles antes, mas em seu todo era considerado um bom sujeito. Seus lapsos eram insignificantes e desculpáveis, porque era um excêntrico. Os ingleses, em geral, gostam dos excêntricos, ou pelo menos, os respeitam. Porém o mundo era muito maior nessa época e havia lugar para a naturalidade. Era a vez de Stuart jogar. Enquanto baralhava as cartas, ele disse: — Teoricamente, o senhor está certo, sr. Fogg. Mas, na prática... — Na prática também, sr.Stuart. O sr Stuart esperava que outros, além dele, começassem a apostar Como isso não se tornou provável, ele teria de apostar. Ele esperava que o inevitável habitante de Capela - - quem seria ele? O criado ao lado? Fallentin? Flanagan? talvez, o próprio Fogg? — pensaria que a aposta havia surgido espontaneamente. É verdade que agora eles prestavam atenção em Fogg, ou pelo menos, suspeitavam dele. Mas ele não queria que suspeitassem de Stuart. Ou, pelo menos, suspeitassem no mesmo grau em que desconfiavam de Fallentin, Flanagan, ou Ralph. De um modo um tanto zangado, ele disse: - Gostaria de vê-lo fazer isso em oitenta dias. — Isso depende do senhor, disse Fogg.. Vamos fazer isso? Stuart respondeu que apostaria quatro mil libras como isso era impossível. Fogg insistiu calmamente dizendo que isso era bem possível. Uma coisa levava à outra, e assim fora feita a famosa aposta. Fogg possuía um depósito de vinte mil libras no Banco Baring. Ele arriscaria tudo. Sullivan protestou, e podemos fazer uma idéia da intensidade de suas emoções — reais ou fingidas — pelo fato de que um cavalheiro inglês teria direito de falar dentro do Reform Club. Ele protestou dizendo que Fogg perderia todo o dinheiro devido a um atraso imprevisto. Phileas Fogg respondeu com uma observação curiosa, e atualmente clássica, de que o imprevisto não existe. Stuart deve ter lançado um olhar de advertência. Qualquer habitante de Capela que estivesse ouvindo essa conversa, ficaria prestando a máxima atenção como se fosse um cão em busca de seu osso, e encontraria no tutano do mesmo, motivo para suspeita. Iria querer saber se não haveria comunicação de um para outro nessa mesa de jogo. Teria Stuart mandado que Fogg falasse de propósito, de modo suspeito? Isso parece o mais provável, uma vez que o plano de Stuart era usar Fogg como uma isca. Já era tempo de entrar em ação e devia-se desalojar o inimigo, para localizá-los e dar cabo deles. Não se sabe de onde Stuart tirou a idéia de expor Fogg. Pelo menos, o outro diário nada diz sobre sua origem. É provável que Stuart tenha se inspirado quando leu o horário padrão para a viagem de oitenta dias, no jornal Daily Telegraph, Fogg só iria descobrir mais tarde por quê Stuart decidira lançar outra campanha. Um dos jogadores declarou que oitenta dias era o tempo mínimo possível para tal viagem. O sr. Fogg deu outra resposta clássica: — Um mínimo bem utilizado basta para tudo. Outro dos presentes, declarou que, se ele tivesse que manter-se dentro de um tempo mínimo, teria que saltar de modo matemático de um trem para o outro e de trens para navios e vice-versa. Fogg deu a sua terceira resposta clássica: — Eu saltarei dos trens — matematicamente. — O senhor está brincando. Fogg replicou dizendo que, realmente, um verdadeiro inglês não brinca com esses assuntos. Convencidos por esse argumento, os jogadores de uiste resolveram aceitar a aposta. O sr. Fogg declarou então que o trem sairia naquela noite para Dover às quinze para as nove. Ele estaria no mesmo. Ele ficara sabendo da aposta apenas naquele momento, e nunca tomara um trem. Como sabia ele os horários dos trens? Teria ele decorado o guia Bradshaw. Considerando os seus outros talentos, isso parece provável, embora tivesse feito isso antes de 1866, como ficará esclarecido no devido tempo. Dessa maneira, ele não tinha meios de saber se os trens ainda seguiam os horários daquela época. Porém, ele deveria ter verificado isso, e certamente confiava na resistência à mudança própria do caráter inglês. Após consultar o seu almanaque de bolso, disse ele: — Já que hoje é quarta-feira, dia 2 de outubro, estarei de volta a Londres, nesta mesma sala, no sábado, dia 21 de dezembro, às quinze para as nove. Em caso contrário, as vinte mil libras depositadas agora em meu nome no Banco Baring serão suas. Eis um cheque nessa quantia. A fortuna total do sr. Fogg era de quarenta mil libras, porém ele previa ter de gastar metade da mesma para ganhar as vinte mil. E isso é tão estranho, que torna-se surpreendente ninguém haver comentado. Por quê, deveria um homem eminentemente prático, realmente, um homem muito prático, que levava sua vida regida pelas leis da mecânica racional, fazer uma aposta desse gênero? Ele era um homem que nunca cedera a um impulso. Além disso, mesmo que ganhasse a aposta, e isso não parecia provável, não ficaria um guineu mais rico do que antes. E se perdesse, ficaria pobre. A única explicação para o fato é a de que ele estava recebendo ordens para esse lance admirável e sem precedentes. Mesmo que não tivéssemos agora o seu diário secreto, poderíamos ter certeza disso. Quanto às suas quarenta mil libras, a propriedade particular de um eridaneano ficava à disposição de Stuart, quando as circunstâncias o exigissem. Stuart sacrificaria os seus próprios bens, se fosse necessário. E assim, se Fogg deveria arriscar toda sua fortuna, podia ter certeza que era para uma boa causa. Poderia perder-se muito mais do que dinheiro. Ele poderia ser morto a qualquer momento. De agora em diante, ele não seria um excêntrico semi-eremita vivendo obscuramente em um minúsculo setor de Londres. Sua aposta seria certamente publicada em breve. O mundo inteiro ficaria acompanhando a sua viagem com grande interesse e sem despesas. Se realmente Fogg estava perturbado por esse motivo, não dava a menor demonstração. De todos os presente, ele era o mais calmo. Os outros estavam bem agitados. Todos com exceção de Stuart achavam que estavam se aproveitando de seu amigo com essa aposta. A agitação de Stuart tinha uma outra causa. Ele sabia dos perigos que Fogg enfrentaria. Capítulo 4 Júlio Verne nada fala sobre esse jogo de uiste, desse ponto em diante. Entretanto, o outro diário menciona. Fogg tinha de deixar Stuart saber que ele havia visto alguém que poderia ser ou não o seu antigo inimigo. Visto que ele gostava de jogar tanto quanto Stuart, embora tivesse tido apenas trinta e um anos de prática e não cento e cinqüenta, não teve dificuldades para revelar o acordo exato. Os olhos de Stuart se arregalaram quando viu sua mão, e seus lábios formaram o nome temido silenciosamente. Ele olhou para Fogg, o qual ergueu devagar a cabeça e baixou-a a seguir, confirmando. Quando chegou a vez de Stuart jogar, ele deu a Fogg cartas que significavam: Aja conforme ordenado. Mas Fogg sabia que Stuart voltaria para sua casa assim que terminasse o jogo, e o plano de investigação seria iniciado. O jogo das surpresas ainda não acabara. Pode ser que Stuart não tivesse planejado fornecer informações adicionais a Fogg. Quanto menos cada indivíduo extra-terrestre soubesse, menos poderia contar no caso de ser capturado e torturado. As notícias dadas por Fogg talvez tivessem alterado a sua mente. Fogg precisava estar prevenido mais do que Stuart suspeitara. E assim, quando Stuart jogou novamente, Fogg entendeu uma mensagem telegráfica porém inteligível. O inimigo havia encontrado um aparelho, na China. Se isso abalou Fogg, ele não demonstrou, naturalmente, € o seu diário não menciona nada sobre o seu estado emocional naquele instante. Porém devia estar sentindo-se não humano, se não estivesse cheio de curiosidade. Quem? Como? Isso acontecera porque ele recebeu ordens para dar a volta ao mundo? Seria esse o motivo da inevitável publicidade? Seria ele a isca? Ou, não ele realmente, mas Passepartout? O inimigo descobrira que Passepartout possuía um aparelho, e iriam tentar se apoderar do mesmo. Um só não bastava; eram precisos dois para haver transmissão. Então, lembrou-se que os habitantes de Capela possuíam pelo menos um. Porém, o mesmo pertencia ao rajá de Bundelcund, que era um traidor. Segundo informes eridaneanos, o rajá havia recebido ordens para entregar o aparelho. Ele havia se recusado e portanto, estava marcado para morrer por seus chefes. Entretanto, isso não significava que o rajá tivesse se bandeado para os eridaneanos. Muito ao contrário, como no caso de um agente eridaneano que aproximou-se do rajá para inscrevê-lo e teve morte horrível. Decididamente,o rajá não era a favor dos eridaneanos. Era favorável somente a si próprio. O serviço de inteligência afirmara que ele estava louco, que tinha intenções de encontrar um outro aparelho, ou melhor, roubar um, e usar os dois em uma revolta contra os ingleses. Em primeiro lugar, ele moveria uma guerra secreta contra os ingleses, utilizando o seu rajá independente, como base de operações. Os aparelhos enviariam bandoleiros, adoradores de Kali, a deusa da morte, nos redutos e lares dos oficiais britânicos. Os bandoleiros estrangulariam os oficiais em seus leitos. O boato criado pelos nativos faria com que a índia inteira soubesse que o rajá de Bundelcund era o responsável por isso e que ele possuía meios mágicos para enviar seus assassinos e para resgatá-los. A mágica do rajá não poderia ser combatida; seus estranguladores poderiam ir a qualquer lugar, não só na índia como no resto do mundo. É provável que houvesse outro grande levante, porém esse, ao contrário da revolta Sepoy que fora suprimida há quatorze anos, teria bom êxito. Não falharia. Pelo menos, isso é o que o rajá transmitiria através de um boato, embora soubesse que com apenas dois aparelhos, só poderia empenhar-se em uma guerra muito reduzida. Embora o transmissor inicial pudesse ser usado em qualquer parte do mundo, o receptor teria que ser colocado no ponto desejado. Se o inglês devia ser morto em seu quarto de dormir, o receptor teria que ser posto em seu interior. Isso poderia ser feito com bastante facilidade pelos criados indús, mas se os ingleses seguissem o exemplo e adotassem rigorosas medidas de segurança, a colocação do aparelho tornar-se-ia difícil. O rajá sabia disso e dizem que ele revelou ao seu confidente mais íntimo que pretendia seqüestrar a rainha Vitória e usá-la como refém, se fosse fazer isso. Tal coisa não deixou em pânico apenas os eridaneanos; os capeleanos foram também afetados. Os homens da Terra não deviam descobrir que existia e que existiria durante duzentos anos, dois grupos de origem extra-terrestre entre eles. Os habitantes da Terra tornar-se-iam histéricos; seria feita uma caçada implacável por todos os governos da terra. Isso, na opinião de Stuart, e sem dúvida na do chefe de Capela, poderia ter somente um fim. O extermínio de todos os eridaneanos e capelianos. Mesmo se alguns escapassem, teriam que se esconder durante muito tempo, e o recrutamento de novos membros por adoção ou educação de seus filhos seria muito perigoso. Stuart, enquanto jogava a sós com Fogg, observando o jogo durante alguns minutos, havia dito isso a Fogg há algum tempo. Tinha predito também que se as duas facções tinham que se acalmar durante muito tempo, a idéia da existência de eridaneanos e capelianos desapareceria. Isso era bem provável no caso de todos os não humanos serem capturados e mortos. Os seus filhos adotivos humanos não poderiam garantir a manutenção da idéia da Raça e a do maior perigo. Houve ocasiões em que Fogg achou que essa seria uma boa idéia. Depois, ele tinha que fazer uma auto-crítica. Afinal de contas, ele e os outros humanos da Raça estavam fazendo tudo isso para.o bem dos povos da Terra. Embora ele fosse considerado como um traidor pelos seres humanos, se descobrissem a sua identidade, era realmente o seu anjo da guarda. Nesse Ínterim, o rajá de Bundelcund ameaçava a existência dos eridaneanos e dos capeleanos. Assim que estivesse de posse de outro aparelho, daria início à primeira fase de seu plano para expulsar os britânicos da índia. Isso concluído, ele assumiria o governo da índia. Depois disso, o que sucederia? Fogg estava bem a par de que a sua pretensa rota em torno do mundo o levaria próximo às fronteiras de Bundelcund. Será que ele pretendia se apoderar do aparelho do rajá? Stuart não comunicou nada a esse respeito. Isso significava que ele não tinha instruções sobre esse assunto específico. E se surgisse uma oportunidade de obter o aparelho, ele tinha a liberdade de aproveitá-la ou desprezá-la. Talvez Stuart estivesse mandando um outro agente para tentar conseguir o aparelho, enquanto o rajá estivesse distraído pela ameaça de Fogg. Mas por quê mandaria ele Passepartout com Fogg? O francês tinha em mãos o único aparelho que os eridaneanos possuíam. Por quê colocá-lo perto do rajá, a fim de que o mesmo tropeçasse nele e conseguisse o que mais precisava? O aparelho de Passepartout era, sem dúvida, a única coisa que faria o rajá se afastar do palácio-fortaleza da cidade de Bundelcund. Embora ele talvez saísse com um exército de bandoleiros, seria sem dúvida acompanhado por um exército, e não ficaria na retaguarda. Iria querer se certificar de que ninguém mais tivesse a oportunidade de se apoderar do aparelho. Kanker, seu general, estava a par dos aparelhos, embora ninguém tivesse falado com ele a respeito da origem dos mesmos. A pesar disso, essa quebra na segurança tinha enraivecido tanto os capeleanos como os eridaneanos. Ninguém, a menos que fosse extra-terrestre, poderia ter a mínima noção da verdade. E se Kanker se tornasse ganancioso e viesse a se apoderar dos aparelhos, não é preciso dizer que aconteceriam coisas terríveis. Entretanto, o rajá era uma pessoa muito esperta, e tomaria certas precauções para ter certeza de que Kanker não conseguiria seus intentos, se de fato pretendia alguma coisa. Porém, os acidentes acontecem, e embora o rajá pudesse viver mil anos, estava sujeito como todos os outros, a ser atingido por uma bala ou ficar doente. Capítulo 5 Segundo Júlio Verne, era verdade que Passepartout ansiava por descansar. Ele havia estado praticamente no mundo todo e fizera todas as coisas. Isso em parte era devido à sua natureza; não era chamado de Passepartout apenas porque usava um aparelho. Embora quase sempre tivesse ido a vários lugares, e fizesse várias coisas a serviço de Stuart. Atualmente, convocado pela sua França bem-amada, tinha vindo para a Inglaterra e passara a exercer uma nova profissão. Havia trabalhado como criado em dez lugares no espaço de cinco anos. Júlio Verne diz que ele não seria capaz de ficar sempre com o mesmo patrão. Sempre os achava impulsivos e confiados. O último deles, o jovem Lord Longferry, M. P., tinha-o demitido porque ele criticara as bebedeiras de seu amo. E isso era verdade. Porém Passepartout havia insultado de propósito Longferry a fim de ser demitido. Suas investigações sobre a vida do jovem nobre nada revelaram de suspeito. Ele parecia estar tão inocente de pertencer a Capela como os nove anteriores. Passepartout estava intrigado por nenhum deles ter sido incluído na relação de Stuart, porém não duvidava de Stuart. E quando recebeu ordens para procurar Fogg imediatamente e oferecer-lhe seus préstimos, ele não perguntou por quê. Só depois de haver recebido uma senha por Forster, na agência, ele começou a desconfiar que esse caso era diferente. Durante o trajeto no carro, ele soube de mais alguma coisa, mas não muito. Ele não sabia que Fogg iria comparecer a um encontro no Reform Club. Forster não poderia tê-lo informado a respeito, porque de nada sabia. Esta falta de informação indica a rigidez da segurança eridaneana. Também mostra a solidão que afetava a maioria dos eridaneanos. Ele ou ela tinham poucos contatos ou intimidade como seus amigos ou amigas, a menos que pudesse um casamento entre eles ou a peculiaridade de uma missão assim o permitisse. Os verdadeiros eridaneanos não podiam nem mesmo casar-se, com intenção de ter filhos, uma vez que o último eridaneano verdadeiro do sexo feminino havia morrido há várias décadas. Entretanto, Stuart era muito cuidadoso tentando estabelecer ambientes que permitissem aos eridaneanos humanos casarem-se e terem filhos. Do contrário, a raça desapareceria, e os capeleanos seriam os vencedores à revelia. Ou melhor, seriam se não tivessem também o mesmo problema de seus inimigos. Passepartout raramente recebia ordens verbais. Quase sempre era através de um código transmitido por meio de cartas de baralho. Ele ficava sentado em um restaurante, e uma pessoa na mesma mesa estaria jogandopaciência. Passepartout ficava observando as cartas com o máximo interesse, naturalmente. E assim as cartas o informariam em uma linguagem telegráfica o que ele devia fazer a seguir. E Passepartout obedeceria. Ele estivera em um restaurante em Tours, onde as cartas o informaram que devia seguir para Londres. Enquanto comia ostras em uma taverna de Cheapside, as cartas, jogadas por uma senhora de meia idade, e de rosto vermelho, disseram-lhe para se empregar como criado de Lord Windermere. Essa seria a sua primeira investigação, a qual, reunida às outras, não chegaram para localizar os capeleanos. Porém Passepartout achou que certas coisas que havia ocultado, seriam provavelmente usadas pelo chefe dos eridaneanos, em benefício da raça. A nona pessoa para a qual trabalhara tinha sido o general Sir William Clayton de Sallust. Passepartout de fato nunca servira de criado para o velho baronete, uma vez que Sir William estava ausente da mansão de Sallust’s House, em Oxfordshire. Ele estava fora, em algum ponto da África Central ou Sudoeste, nessa ocasião. Ao que parece, ele estava novamente procurando o local da antiga cidade de Ophir, se acreditarmos nas palavras da esposa de Sir William. Ela era uma mulher muito atraente com trinta e sete anos de idade, sendo a décima primeira esposa do aventureiro de setenta e três anos. O antecessor de Passepartout havia sido demitido ao ser apanhado bebendo brandy das reservas de seu patrão. Lady Martha Clayton havia contratado esse francês para ser o criado do baronete, quando este voltou do continente negro. Entrementes, ele havia sido ao mesmo tempo despenseiro e administrador da casa, a qual incluía uma criada, um cozinheiro, um jardineiro, Lady Martha, um menor, William, filho do décimo casamento de Sir William, e uma menor, Martha, filha da atual esposa. As esposas do baronete não sobreviviam por muito tempo. Com exceção daquela da qual se divorciara, todas as outras tinham falecido poucos anos depois de casadas. Não havia suspeita de fraude nesta série de fatalidade. O baronete parecia irradiar um fluido que atraia as mulheres bonitas e depois se descartava delas. Como as mariposas contra a luz, pensou Passepartout. Ele não entendia porque as mulheres continuavam a se casar com ele, já que todos sabiam o que sucedera às suas esposas. Mas o fato é que todos se julgam diferentes, achando que a morte não reparará neles. Passepartout estava intrigado com a sua indicação. O estilo de vida principesco de Sir William não o fazia um provável candidato a capeleano. Passepartout não ficou muito tempo em Sallust’s House, entretanto Ao que parece, o chefe estava interessado principalmente em descobrir onde estava Sir William e por quanto tempo ficaria fora. Ele havia saído do país secretamente, sem dizer aos seus íntimos para onde se dirigia. Mas sua esposa sabia e por isso Passepartout leu, a altas horas da noite, uma carta que ela havia escrito, mas ainda não enviara, a um missionário amigo, na sudoeste da África. Ela guardou para si que Sir William estava novamente em busca da cidade de Salomão. Será que sua amiga contaria tudo que ouvira dele? Sir William, apesar de sua idade, era um homem bastante vigoroso, escreveu ela. (Quem melhor do que ela, para conhecê-lo, que lhe havia dado dois filhos, nos últimos três anos, pensou Passepartout.) Ele devia ter saído há mais tempo. Nesse ínterim, o seu filho, Phileas, tinha falecido de eólica. Porém se sua amiga fosse por acaso a procura de Sir William, ela não mencionaria nada disso. Ele não seria demovido de seu propósito. Passepartout, após uma permanência de cinco anos na ilha, estava acostumado com a excentricidade dos ingleses. Por isso, não se surpreendera ao saber que um baronete septuagenário vasculhava as selvas africanas em busca de uma cidade fabulosa, talvez totalmente inexistente. Ficou interessado quando descobriu que o falecido Phileas não era o primeiro filho de Sir William com esse nome. Ele ouviu certas conversas de Lady Martha com sua amiga íntima, a viúva Lady Jane Brandon, respeito. E descobriu que o quarto casamento de Sir William, em 1832, havia produzido dois filhos, Phileas e Roxana. Sua quarta esposa, filha de uma antiga família nobre de Devoshire, tinha tornado a se casar após o divórcio de Sir William. Lady Martha não sabia com quem essa mulher se casara, uma vez que toda informação era baseada em algumas observações esparsas feita por Sir William. Ela ignorava que Lady Lorina odiara tanto a Sir William que tinha arranjado para que o seu novo marido adotasse seus filhos. Sir William não se opusera a isso nem a seu desejo de que ele nunca mais a visse e nem a seus filhos. Esse era o motivo por quê, o filho de Sir William, de seu décimo casamento, herdaria o título de baronete. Os seus filhos e de Lady Lorina, nada herdariam. É claro que houve certas dificuldades legais, já que esperava-se que o título passasse para o filho mais velho sobrevivente. Porém, haviam cuidado disso também. Passepartout quase não pensara nisso e em certas informações adicionais que ela revelara. Quando chegou à conclusão de que Sir William provavelmente não voltaria à civilização durante muito tempo, foi afastado do caso. Após a sua demissão, foi mandado para trabalhar com Lord Longferry, membro do Parlamento e alcoólatra. (Naquela época, as duas coisas eram sinônimas) Passepartout ficara espantado quando soube que o nome de batismo de Longferry era Phileas. Seria isso uma coincidência? Ou teria alguma ligação, sem dúvida de maneira sinistra, com Sir William e os seus Phileas? Durante a sua curta estada com Longferry, Passepartout tentou passar algum tempo na sala de leitura do Museu Britânico. Era preciso arranjar referências para ser admitido, mas o próprio Longferry tratou disso. Ele achara graça quando o seu criado fez esse pedido, como se um membro das classes mais baixas e ainda mais um francês, não pudesse se interessar em assuntos intelectuais. Porém, concordou em enviar uma referência à respectiva autoridade. Passepartout descobriu, então, uma ligação bem definida entre os vários Phileas, embora o seu significado tenha lhe escapado na ocasião. 0 avô do atuar Lord Longferry tinha sido um Phileas, realmente o verdadeiro. Tinha sido amigo íntimo de William Clayton em sua mocidade. Ambos haviam enfrentado Byron e os gregos em sua luta pela independência. Capturado pelos turcos, o jovem Longferry falecera devido aos maus tratos (possivelmente por uma quadrilha de homossexuais turcos, pensou Passepartout) e devido a uma febre. William Clayton sentira durante muito tempo a morte de seu amigo. Havia tentado perpetuar a memória de seu amigo, dando o seu nome a dois de seus filhos. O primeiro havia desaparecido, pelo que consta. Ele procurou nos jornais de 1832 até 1836. Encontrou uma notícia do divórcio de Sir William e Lady Lorina (que exigira uma lei do Parlamento), porém nada achou sobre o seu novo casamento. Naturalmente devia haver um registro desse fato, e Passepartout pretendia localizá-lo. Porém, recebeu ordens, através de um jogo de cartas, para deixar o seu atual patrão. Provocou isso censurando severamente o nobre por ter sido levado bêbado para casa, de madrugada. Dois dias depois, as cartas, jogadas por uma bela mulher de vinte e cinco anos, diziam-lhe para procurar emprego imediatamente com um tal sr. Phileas Fogg. Phileas! Seria mais um fio, não, era um cabo, nessa misteriosa rede. Passepartout sentiu-se atemorizado. O que significava todos esses Phileas? Algum esclarecimento surgiria no futuro, e o que agora parecia tão complexo, tornar-se-ia uma coisa extremamente simples. Quando recebeu sua primeira mensagem, ele admitira que Fogg seria mais um da longa relação de suspeitos de serem habitantes de Capela. Porém, durante a caminhada com Forster até Savile Row, Passepartout soube que ele estava em um setor diferente do plano. O 2.° sinal F informou-lhe que Fogg e Strand eram de sua mesma espécie. Faltava apenas provar isso por meio das palavras em código. Após a saída do seu novo patrão, eleinspecionou cuidadosamente a residência. Como criado, teria mesmo que fazer isso, mas como eridaneano era obrigado, no mínimo por uma questão de sobrevivência. Júlio Verne diz que a casa parecia uma concha de um caracol, para Passepartout. Essa foi a melhor comparação encontrada por Júlio Verne. A concha de caracol não é apenas um lar confortável, como uma fortaleza. Ele percorreu o n.° 7 de Savile Row, do porão até o sótão, verificando mais do que a sua planta. Desejava saber o grau de vulnerabilidade dessa casa a eventuais atacantes e quais as defesas que a mesma possuía. De modo curioso, o que lhe agradava era a sua grande acessibilidade aos intrusos e a sua falta completa de armas de fogo de qualquer tipo. Isso queria dizer que não se esperavam ataques, e não se esperava ninguém, porque o seu proprietário não imaginara — ao que parece -que tivesse qualquer necessidade especial de defender-se. Segundo Júlio Verne: "Tudo transpirava os hábitos mais tranqüilos e pacíficos". Não é de admirar que Passepartout esfregasse as mãos e sorrisse. Não é de espantar que ele falasse em voz alta. "É isso exatamente o que eu queria! Oh, eu e o sr. Fogg vamos nos dar bem! Que cavalheiro caseiro e de hábitos metódicos! É uma verdadeira máquina! Bem, não me importo de trabalhar para uma máquina!" Ele falou em voz alta por vários motivos. Em primeiro lugar, estava de fato alegre. Em segundo, suas palavras eram destinadas a tranqüilizar quaisquer observadores ou registra-dores que estivessem ocultos, de que ele e Fogg eram apenas aquilo que aparentavam. Fogg era um cavalheiro inglês com domínio completo sobre si mesmo, e ele era um francês viajante que finalmente encontrara um cargo confortável e com estabilidade. Passepartout devia estar melhor informado. A longa série de Phileas devem tê-lo deixado em estado de alerta. Porém ele precisava de algum repouso a fim de permitir que suas emoções dominassem a sua lógica. Imaginem o seu espanto quando seu patrão entrou em casa, fora da hora esperada à meia-noite, mais ou menos às dez para as oito. Devido a sua surpresa e preocupação, Passepartout nada disse ao sr. Fogg, quando este se dirigiu ao quarto de dormir. Ele teve de ser chamado duas vezes, antes de se dirigir ao quarto de seu patrão. Calculem o seu desalento ao ouvir que deveria sair com Fogg para Dover e Calais nos próximos dez minutos. Imaginem o seu quase colapso quando foi informado que iriam fazer uma viagem completa em torno do mundo, em tempo recorde. Tentem ver as luzes em seu cérebro e os seus arrepios quando soube que iriam viajar através da índia. Ele conhecia o rajá de Bundelcund. E ficaria bem próximo do aparelho. Às oito horas, ele estava pronto. Então quase desmaiou quando segurou uma bolsa de viagem, contendo o dinheiro das despesas para a mesma. Eram vinte mil libras em cédulas! Então era verdade, e aí estava o resultado de suas pesquisas sobre os vários Phileas! Mas, por quê ele tinha que certificar-se que Sir William Clayton não estava em contato com notícias vindas do mundo civilizado? Capítulo 6 Ao saírem de Savile Row, os dois tomaram um carro, que se dirigiu rapidamente para a estação de Charing Cross. É possível que a rua onde estavam fosse a Vigo, já que andar até rua Conduit leva-los-ia para mais longe de seu destino. O tráfego devia estar muito congestionado aquela noite, e talvez um acidente os tenha atrasado. Júlio Verne diz que chegaram à estação às oito e vinte. Ficando a estação a menos de uma milha de Savile Row, os dois teriam ido mais depressa caminhando pela mesma. Ainda mais estando com pouca bagagem. Fogg levava o Guia Geral de Trânsito Bradshaw embaixo do braço, e seu criado levava a bolsa de viagem. Embora J. Verne declare que a casa de Fogg não possuía livros, ele não deve ter considerado o Guia Bradshaw como literatura. E se Fogg havia decorado o referido guia para as ferrovias inglesas, não havia feito o mesmo para o continente todo. Pois, em caso contrário, não precisaria levar o guia consigo. Ou talvez ele houvesse decorado tudo, mas iria estranhar quem o visse sem essa referência. Seja como for, podemos ter certeza de que J. Verne estava tentando adivinhar ou exagerando quando disse que o carro seguiu "rapidamente" para a estação de Charing Cross. Entretanto, pode ser que o tempo de percurso calculado por J. Verne seja correto e que algo tenha acontecido no trajeto e que Fogg e seu criado tenham mantido em segredo. Talvez os habitantes de Capela tenham tentado raptá-los. Se isso for verdade, então falta uma aventura nessa estória. Porém, Fogg nada menciona a respeito, e já que não se trata de uma novela e sim de uma reconstituição de uma história real, essa lacuna deverá ser considerada como tal: apenas uma lacuna. Ao entrarem na estação, os dois foram interrompidos por uma mulher indigente, a qual carregava uma criança. Eram dois exemplos do bando que infestava as ruas de Londres. Eles são vistos raramente nas capitais do ocidente atualmente, mas nessa época eles eram uma visão familiar, tão comum como na atual cidade de Bogotá, na Colômbia. A mulher descalça, tremendo na friagem de outono com sua chuva miúda, pedia dinheiro. O sr. Fogg havia ganho vinte guineus no jogo de uiste, e como sempre doava o seu lucro no jogo para assistência social, bem como uma boa parte de seus bens pessoais, deu à mulher todo o dinheiro. — Aqui está, mulher, estou satisfeito em encontrá-la, disse ele. Este incidente provocou lágrimas no sensível Passepartout. Afinal de contas, o seu patrão era humano. Aliás, os dois, sendo eridaneanos, ficavam muito impressionados com a pobreza, a doença e o sofrimento que afligiam os numerosos pobres da antiga Inglaterra. Tal situação seria eliminada quando os eridaneanos pusessem em prática o seu plano a longo prazo. A sociedade ideal, na obtenção da qual se esforçariam, seria modelada de acordo com a situação que os eridaneanos afirmavam existir em seu próprio planeta. Mas antes que isso acontecesse, os maléficos capeleanos deviam ser exterminados. O que J. Verne não menciona sobre esse incidente, o que é feito por Fogg, e o que a mulher pedinte trocou por dinheiro. Fogg recebeu em troca um pequeno pedaço de papel. Era realmente um pequeno recorte de jornal. Ele nada significava para qualquer habitante da Terra, bem como para Fogg. Eram algumas frases extraídas de um artigo sobre o roubo do Banco que tinham sido debatidas aquela mesma noite no Reform Club. Fogg tirou seu relógio do bolso e parecia estar olhando para o mesmo. Na realidade, ele estava absorvendo o artigo, que se achava em frente ao seu relógio. Sua mão deixava apenas Passepartout ver o recorte do jornal, e o bom francês olhava lacrimoso a mulher pedinte que se afastava depressa levando sua criança. Naturalmente, o artigo havia sido enviado por Stuart. Porém, qual era o seu significado? Sem dúvida, era algo que tinha relação com ele, algo que iria descobrir com o tempo, embora esperasse que não fosse tarde demais. A seguir, fechou a tampa de seu relógio, deixando o artigo dobrado dentro dele. Mais tarde, tiraria o artigo e o engoliria. Há ocasiões, e essa era uma delas, em que ele desejaria que as comunicações fossem realizadas, se não mais abertamente, pelo menos de modo mais completo. Essas mensagens cifradas e curtas, deixavam-no muitas vezes tão informado quanto antes, e talvez ainda menos, e sempre faziam-no inquieto. É verdade que ele não precisava sofrer ansiedade a menos que o desejasse. Ele era capaz de bloqueá-la mentalmente e assim conservar a sua calma interna. O preço (há sempre um preço) para isso era que ele devia deixar a ansiedade retornar algum dia. Se não o fizesse, ela permaneceria com a mesma intensidade no circuito nervoso onde havia sido colocada. Sua corrente, por assim dizer, seria acrescentada às outras ansiedades previamente recalcadas, como se fossem colocadas em um trilho. Mais tarde, essas ansiedades tornar-se-iam ainda mais prementes, ou melhor, conservando a analogia, elas congestionariam os trilhos. Mais cedo ou mais tarde, e quantomais cedo melhor, ele deveria abrir a chave e colocar as ansiedades na linha principal. Se não o fizesse, sofreria desarranjos cerebrais. A dor e o dano cerebral seriam terríveis. Ele havia sido informado sobre isso por aquele antigo eridaneano, Sir Heraclitus Fogg, a pessoa que o criou. Sir Heraclitus sabia disso por experiência pessoal e por ter observado outros eridaneanos. O baronete, achando-se de há muito em uma situação particularmente desastrosa, havia recalcado suas ansiedades e muitas outras emoções. E um certo dia, logo após haver morto dois capeleanos nos esgotos de Paris, ele havia sido atingido por dentro. A dor havia durado dois dias, e tinha ficado meio cego e paralisado no lado direito durante um ano. Felizmente, os eridaneanos, e não os humanos, o haviam encontrado. Se os humanos o achassem e o tivessem levado a um hospital para fazer um exame, ele seria considerado como um ser extra terrestre. Isso acontecera algumas vezes no passado, porém os eridaneanos e capeleanos haviam evitado que acontecesse. Fogg tinha apenas dez anos de idade nessa época. Ele ainda se lembra do pesar e medo que sentiu quando seu pai adotivo foi trazido para casa a altas horas da noite em um carro guiado por dois eridaneanos. O baronete era o único parente que possuía, o único que amava profundamente. Sua mãe morrera quando ele tinha quatro anos de idade, morta por dois capeleanos, segundo Sir Heraclitus. O seu pai verdadeiro não queria saber dele e por isso Phileas o odiava. Logo após a morte de sua mãe, o baronete começara a dar indiretas, a contar histórias de lugares distantes e outras épocas. Aos poucos, Phileas ficou sabendo da verdade. E assim ele cresceu, terráqueo por hereditariedade mas erideano por educação, condicionamento e amor. Ele não sabia em que proporção fora criado por amor até que seu pai adotivo foi trazido"" para casa, vindo de Paris. A idéia de que ele pudesse morrer ou ficar paralítico abalou Phileas. Contudo, alguns minutos depois, ele agia como se não tivesse sofrido nada. Ele havia recalcado o seu trauma. E além disso, pagava por isso. Sir Heraclitus, quando já estava bom para entender o que sucedera com seu filho adotivo, quase teve uma recaída. Contou depressa a Phileas o que lhe aconteceria se ele não liberasse o trauma. Ele se acumularia com outras ansiedades e choques. Um belo dia, os golpes reprimidos, se liberariam formando uma devastadora corrente nervosa. O que o jovem Phileas devia fazer era construir o equivalente mental de um capacitor de filtro em seu sistema nervoso. Dessa forma, descarregaria aos poucos a carga. Isso seria penoso, mas não causaria danos. Phileas sabia o que era um capacitor. Havia aprendido isso no laboratório existente no porão da mansão. Era um tipo muito mais moderno do que a garrafa de Leyden ou o condensador da época, e ele havia jurado manter segredo a respeito. Phileas agiu como havia sido ordenado, embora nem sempre com cem por cento de controle. Infelizmente, ele havia instalado em seu sistema nervoso uma realimentação regenerativa. Assim que ele curava os traumas, esses adquiriam novo ímpeto. Sir Heraclitus ficou intrigado com isso e acabou procurando Andrew Stuart. Isso se passou quando Phileas tinha doze anos, após a cerimônia de comunhão sangüínea que o tornara um erideano completo. Ela o tornará doente também por algum tempo, uma vez que os glóbulos sangüíneos de Fogg e Stuart usavam vanádio, em vez de ferro, como portadores de oxigênio. Stuart dissera que os traumas de Phileas estavam cicatrizando depressa. Estes haviam sido provocados pelo# afastamento de seu pai verdadeiro e pela morte de sua mãe. Ele havia recalcado isso por meios naturais, embora não desejáveis. E um recalque natural precisava, de certo modo, ser orientado. Entrementes, Phileas sofria de malestar diário, choques e golpes a que todo ser, humano ou não, está sujeito. Acumular e descarregar os mesmos, tomava-lhe muito tempo, e por isso não podia se dedicar a sua tarefa principal. Embora mantivesse um programa rígido para seu aspecto externo nestes últimos quatro anos, estava muito atrasado em seu íntimo, ou psíquico. Dos doze aos vinte e um anos de idade, estivera ocupado com sua educação. Ela foi ministrada tanto por tutores convencionais humanos, como por eridaneanos não convencionais. Após os vinte e um anos, tornou-se um soldado inteiramente dedicado à guerra que vinha se arrastando há dois séculos. Aos trinta e seis anos, ele terminou uma longa campanha, como espião. Ele quase se afogara, mas tinha sido salvo por um pescador no litoral das ilhas Lofoten. Voltou para casa a fim de convalescer e aguardar novas ordens. Enquanto lá se achava, deixou crescer a barba como preparativo para o seu retorno ao mundo. Seu pai adotivo fora morto em combate. Seus ossos ficaram no fundo do mar. Se algum médico ou antropólogo os tivesse examinado, teriam ficado cheios de curiosidade. E a sua morte foi outro grande trauma para ser acumulado e para surgir mais tarde. Na época em que Phileas deixava crescer sua barba, Stuart fazia os seus planos a longo prazo. Os mesmos incluíam Phileas de imediato, mas também exigiam um programa que lhe desse tempo para descansar e tratar-se. Por quê teria Phileas usado o seu próprio nome quando alugou o n.° 7 de Savile Row? Ninguém sabe. Porém em todas as lutas anteriores, ele se disfarçara e utilizara nomes falsos. É quase certo que os capeleanos nada sabiam da verdadeira natureza de Fogg Hall. Se soubessem, teriam atacado a casa. É provável que Stuart tenha previsto que, quando Fogg fizesse a sua aposta, ficaria muito conhecido. Fogg não revelaria a sua origem a nenhuma pessoa que o interrogasse. Porém se algum repórter diligente ou um detetive astuto fizesse uma verificação, poderiam descobrir de onde ele teria vindo. Stuart não desejava que ninguém descobrisse a origem de Fogg, porém não se importava muito se o fizessem. Os seres humanos descobririam apenas certos fatos, que nada revelariam das relações não terrestres de Fogg. Quando os capeleanos descobrissem a verdade, já seria muito tarde. Foi por isso que Passepartout havia sido chamado para descobrir o paradeiro de Sir William Clayton. O velho baronete era a única pessoa em todo o mundo, além de alguns eridaneanos, que poderia informar a imprensa de onde Phileas viera e como estava. Na ocasião em que Sir William voltasse da África e ouvisse a estória do famoso feito, os capelanos nada poderiam fazer. Estariam mortos Ou então os eridaneanos é que teriam morrido. Em ambos os casos, isso não importava. Capítulo 7 Como todo o mundo sabe, a estória da aposta espalhou-se do Reform Club para os jornais. Com exceção do Daily Telegraph, os jornais ingleses achavam que o projeto de Fogg era uma loucura. Apesar disso, havia muita gente que acreditava nele em grau suficiente para investir no mesmo seu dinheiro e sua fé. Isso pode ser avaliado pelo fato de que os "bônus Phileas Fogg" foram vendidos na Bolsa. J. Verne descreve com riqueza de detalhes as variações dos títulos de Fogg, de modo que não há necessidade de repetir. Entretanto, para aqueles que já esqueceram ou por qualquer motivo não leram o livro de J. Verne, uma semana após a partida de Fogg, suas ações caíram a um mínimo. O sr. Rowan, delegado de polícia da Scotland Yard, recebeu um telegrama de um certo sr. Fix, detetive da Peninsular & Oriental Co., companhia de navegação comercial. ENCONTREI O LADRÃO DO BANCO, PHILEAS FOGG. ENVIE IMEDIATAMENTE ORDEM DE PRISÃO PARA BOMBAIM. O incrédulo delegado procurou uma foto de Fogg no Reform Club. Comparou-a com a descrição do homem que roubara cinqüenta e cinco mil libras do Banco da Inglaterra. A semelhança era muito evidente para ser uma coincidência, a não ser que Fogg tivesse um irmão gêmeo. A origem e o passado desconhecido de Fogg, seu estilo de vida não gregário, e a sua partida rápida e inteiramente inesperada da Inglaterra, reforçavam as suspeitas da polícia. Fogg era o culpado. O trem de Fogg levara os dois da estação de Charing Cross para Dover. Duranteo percurso, Passepartout lembrou-se de repente que havia deixado ligado o bico de gás em seu quarto. O sr. Fogg respondeu friamente que ele deveria queimar — às custas de Passepartout. De Dover, os dois tomaram um navio para Calais, e de lá u*n trem para atravessar a França e a Itália. Em Brindisi, ainda dentro do programa, subiram a bordo do navio Mongólia. Esse barco luxuoso, movido a carvão e vapor, atracou em Suez às 11 horas da manhã de uma quarta-feira, 9 de outubro, exatamente dentro do horário. Segundo o diário de Fogg, a viagem tinha até agora levado 158 horas e meia ou seis dias e meio. Para esse período, o outro livro de Fogg continha apenas algumas frases, com certas referências enigmáticas. Permaneci na cabine. P — trouxe as refeições. Dei a P -uma descrição do N —, e P - - o está procurando no navio. Disse a P -- que a cor do N —, pode ser diferente. Quando estive sob suas ordens, eles eram pretos. Porém estavam cobertos com lentes de contato. N — deve ter uma deficiência visual ou então estava usando lentes para disfarçar a verdadeira cor de seus olhos. Essa segunda hipótese parece improvável. Por quê precisaria ele de um disfarce quando estivesse a bordo do N -- ? Porém ele não é capaz de esconder a grande distância entre seus olhos, a não ser que ele finja estar ferido em um dos olhos e use uma atadura. Ou, o que é mais provável, uma venda grande em um dos olhos. Disse a P — para procurar isso. Deveria ter morto N - quando estava a bordo do N — e sofrido as conseqüências. Porém, mil anos não se desperdiçam facilmente. Não é a consciência mas sim a longevidade que nos torna todos uns covardes. Em Suez, o homem que enviara o telegrama à Scotland Yard estava esperando nas docas. O sr. Fix era baixo e magro e tinha traços de uma pessoa muito inteligente, olhos brilhantes de raposa, e as sobrancelhas subiam e desciam sem cessar, como se estivesse recebendo choques elétricos. Era o detetive que fora mandado a Suez para prender o ladrão do Banco da Inglaterra, no caso do mesmo estar tentando escapar pela rota do oriente. O sr. Fix recebera uma boa descrição do homem procurado, porém não precisava dela. Sabia de antemão que o ladrão e o sr. Fogg pareciam gêmeos. Ele agia agora com moderação porque os seus superiores (capeleanos, e não a polícia) não haviam permitido que ele "achasse" e prendesse Fogg, no dia seguinte ao roubo. Mas ao contrário, queriam dar a impressão que Fix encontrara Fogg por acaso, durante sua caminhada entre a residência e o Reform Club. Tudo devia parecer natural e não forçado. A prisão poderia ter lugar três ou quatro dias após o roubo; não havia pressa. De início, Fix devia achar uma desculpa para estar nas vizinhanças de Fogg. Depois, ele deveria "por acaso" ver Fogg, notar a parecença com o ladrão, e tomá-lo sob custódia. Havia pouca chance de conservá-lo preso por muito tempo ou levá-lo a julgamento. Isso parece ter sido negligenciado por J. Verne, embora ele fosse um entre muitos milhões que não levava em conta a pouca evidência das provas contra Fogg. A não ser a grande semelhança física entre Fogg e o criminoso, não havia base para acusações. O sr. Fogg teria o testemunho de seu criado, declarando que ele estivera em casa até as 11 e meia da manhã, do dia do roubo. Pelo menos umas doze pessoas poderiam testemunhar que ele havia estado no Reform Club no horário habitual e teria lá permanecido até muito depois do roubo. O mistério sobre esse caso é o de saber por quê a polícia ou o público não deram atenção à identificação do ladrão feita por Fix, como sendo Fogg. Qualquer policial em serviço poderia ter chegado a conclusão em pouco tempo de que Fogg não poderia ser o culpado. A única explicação para esse engano é a de que o roubo ocorreu na parte da manhã e o criado Forster não tinha sido encontrado para testemunhar que o seu patrão estivera realmente em casa naquela manhã. Forster deve ter sido mandado para fora do país em alguma missão, da qual Stuart não se lembrava, mesmo para salvar a reputação de Fogg. Entretanto, por quê Fix foi para Suez antes de saber que Fogg estava de partida da Inglaterra e viajando no Mongólia? A resposta para isso é que os capeleanos muitas vezes manejavam as pessoas e os acontecimentos. Embora fosse capeleano, Fix era também funcionário do departamento de polícia. Quando mandado pelo chefe de polícia para Suez, ele teve de ir. Podia ter fingido que estava doente para ficar no país. Porém, os seus superiores capeleanos devem ter resolvido que Fogg devia ser preso por um policial não capeleano. E assim, Fix tomou o trem e depois o navio que o levaram para o porto do Mar Vermelho. Nesse ínterim, os seus superiores trataram de avisar a polícia por meio de um recado anônimo. Fogg seria trazido para ser interrogado. Se os capeleanos pudessem raptar Forster, Fogg não teria testemunhas para provar que ele estivera em casa e não no Banco da Inglaterra. 0 fato é que os capeleanos tinham levado muito tempo para executar o plano. Forster havia desaparecido, o que era bom para eles, a não ser por desejarem agarrá-lo e obterem toda a informação possível. Porém, Fogg saíra da Inglaterra. É possível imaginar o que fizeram os capeleanos, pois somos tão lógicos quanto eles. Essa derrota inesperada de seus planos poderá ser benéfica. Se Fogg fosse preso por Fix, este não o entregaria às autoridades. Ao voltarem para a Inglaterra, seria combinada uma "fuga" de Fogg. Este desapareceria, ao que parece escondendo-se. Porém ficaria oculto em alguma sala secreta dos capeleanos. Nela seriam aplicados os mesmos métodos planejados por Forster. A idéia inicial tinha sido a de que Fogg seria mantido preso por um ou dois dias, até que uma investigação provasse a sua inocência. Porém, ele seria "posto em liberdade". Deveria acreditar que os seus libertadores eram eridaneanos. Descobriria o seu erro quando já fosse muito tarde. E assim Fix recebeu uma mensagem para que interceptasse Fogg em Suez. Ficou muito satisfeito com isso. Seguiu imediatamente para o consulado britânico e comunicou ao mesmo que um passageiro bastante parecido com o ladrão desembarcaria logo do Mongólia. Após voltar às pressas para as docas, ele examinou todas as fisionomias dos que desembarcavam. O homem que ele procurava não desembarcou. Fogg, como sabemos, permanecia discretamente em sua cabina. Casualmente -- seria mesmo por acaso? - - um passageiro perguntou-lhe o caminho do consulado. Era um indivíduo baixo e atarracado, com espessos cabelos, olhos azuis claro, e um leve sotaque francês. Ele mostrou o passaporte a Fix. Vendo o seu conteúdo, Fix ficou pasmado. Era ele o homem procurado. O francês Passepartout levava o passaporte de seu patrão para ser visado pelo cônsul. Isso era necessário, pois estávamos em território britânico. Entretanto, Fogg desejava confirmar os locais e datas de sua viagem, a fim de que os apostadores do Reform Club não duvidassem de sua veracidade. Isso era também desnecessário, já que bastava a sua palavra para os seus amigos do Reform Clube. Podemos ficar certos de que ele também desejava que os capeleanos soubessem onde ele estava. Somente assim poderia ter certeza de que os caçadores não tinham perdido a pista. Por quê, entre todas as pessoas que se achavam no porto, Passepartout escolheu Fix para perguntar onde ficava o consulado? Não era isso mais do que uma simples coincidência? Por outro lado, como teria Passepartout sabido que Fix era um capeleano? Eles não usam chapas indicando a sua identidade. Entretanto, Passepartout tivera muitas experiências com a polícia. Assim como Fix se gabara perante o cônsul, dizendo que era capaz de descobrir um malandro, também Passepartout podia farejar um policial. Os capeleanos, como os seus inimigos eridaneanos, possuíam muitos de sua espécie, trabalhando nas chefaturas de polícia. Agiam com grande eficiência nas mesmas. Sendo leigos, podiam com freqüência agir fora da lei com impunidade, se fossem discretos. Portanto, Passepartout deve ter imaginado que um policial poderia ser também um capeleano.É mais provável que Passepartout tenha reconhecido Fix como detetive e achou que um policial poderia dar as informações certas. Seja como for, Fix indicou-lhe o edifício, que ficava a apenas duzentos passos dali na esquina da praça. Uma vez que a bandeira britânica devia estar desfraldada no mesmo, e que haveria sinais indicadores de sua função, é estranho que Passepartout não os tivesse visto. Afinal de contas, é possível que ele estivesse apenas testando os nervos do pequeno capeleano. Fix informou seu criado que, se o passaporte devia ser visado, o seu possuidor deveria comparecer pessoalmente com o mesmo. Passepartout voltou para o navio. Fix dirigiu-se sem demora à presença do cônsul. Disse-lhe que acreditava que o ladrão estava no Mongólia. O cônsul deveria deter Fogg quando ele viesse visar o seu passaporte. Fix precisava de tempo para conseguir uma ordem para sua prisão, vinda de Londres por telegrama. O cônsul recusou-se a fazer isso. A menos que houvesse à mão um mandado de prisão, o cônsul deveria deixar Fogg prosseguir sua viagem. O patrão e o criado apareceram logo depois, e Fix presenciou a imposição do visto no passaporte. Resolveu seguir os dois. Fogg voltou para a cabina, para fazer o seu desjejum, mas Passepartout andava pelo porto. Respondeu prontamente as perguntas de Fix. Disse-lhe que como haviam saído tão às pressas, ele precisava comprar alguns sapatos e camisas, enquanto estivessem em Suez. Fix ofereceu-se para levá-lo até a uma loja. Passepartout aceitou, agradecendo. A caminho, o francês olhou para o seu relógio para ter certeza de que tinha tempo suficiente para fazer compras e depois voltar para o navio. — O senhor tem bastante tempo, disse Fix. - São apenas doze horas. Passepartout ficou espantado. Seu relógio marcava apenas oito minutos para as dez. — O seu relógio está atrasado, disse Fix. Passepartout demonstrou descrença. Seu relógio, disse ele, não fazia uma variação de cinco minutos durante um ano. Era um objeto tradicional, de sua família; tinha antes pertencido a seu bisavô. E era verdade que ele se orgulhava de seu cronômetro, por ser perfeito. Mas ele também balançou o relógio em frente de Fix para provocar uma reação que nada tinha a ver propriamente com relógios. Era preciso saber se esse capeleano, no caso dele ser um, desconfiava que havia um aparelho escondido no mesmo. Entretanto, Fix parecia interessado apenas no desconhecimento de Passepartout a respeito dos fusos horários. Disse-lhe que o seu relógio estava indicando ainda a hora de Londres. Ela era de duas horas a menos em relação a Suez. Ele devia acertar o seu relógio ao meio dia, sempre que passasse por um fuso horário. Passepartout agiu como se essa sugestão fosse quase um sacrilégio. — Eu, acertar o meu relógio? Nunca! Fix, pacientemente mas num rompante, disse: — Nesse caso, ele não combinará com o Sol. A resposta de Passepartout foi tipicamente galesa. — Tanto pior para o Sol. O Sol deve estar errado! Fix permaneceu em silêncio por alguns instantes, devido a sua convicção e desprezo das leis naturais. Quando voltou ao normal, disse: - O senhor saiu de repente de Londres? - Acho que sim! Na quinta-feira passada às oito horas da noite, o sr. Fogg retornou do clube. Quarenta e cinco minutos depois, estávamos partindo! — Mas, para onde vai seu patrão? - Sempre para a frente. Ele está dando a volta ao mundo! Fix ficou espantado ao ouvir essas palavras. Ou, pelo menos, pareceu ficar. Talvez os seus superiores não o tivessem avisado ainda a respeito da aposta. - Ao redor do mundo? Passepartout contou-lhe, então, que a viagem não deveria levar mais de oitenta dias. Quanto a ele, ele não acreditava no motivo invocado para sua partida inesperada da "concha do caracol". Devia haver um outro motivo para essa loucura. Isso deve ter convencido Fix que o francês era apenas um inocente companheiro de viagem. Nesse caso, poderia aprender muito, tratando-o bem. Qualquer que fosse o papel de Passepartout, parece que ele dizia a verdade sobre a intenção de Fogg se dirigir na direção do oriente. — Bombaim fica longe daqui? disse Passepartout. — Muito longe. São dez dias pelo mar. — E em que país fica Bombaim? — Na índia. — Na Ásia? Essa ignorância poderia ser desculpada em um camponês ou num operário iletrado. Mas, poderia um homem cujo nome significa "ir por toda parte" e que havia estado em todos os lugares, ter tão pouco conhecimento geográfico? É quase impossível. Passepartout estava simplesmente continuando a desempenhar o papel que lhe fora atribuído. Para reforçar essa imagem, ele contou a Fix do bico de gás que deixara aceso. Seu patrão estava cobrando dele essa despesa, de forma justa, o que quer dizer que ele estava perdendo seis pence por dia além do que ganhava. Fix não se importou com os problemas de nosso homem. Após despedir-se do criado, enviou um telegrama pedindo uma ordem de prisão. Depois preparou uma pequena mala e subiu ao Mongólia pouco antes do mesmo sair das docas. Podemos ter certeza que ele também enviou um telegrama ern código a seus superiores em Londres. Deveria receber a resposta do mesmo na agência telegráfica de Bombaim. Capítulo 8 O Mongólia deveria atravessar mil trezentas e dez milhas em cento e trinta e oito horas. Fogg fazia suas quatro refeições diárias, desjejum, almoço, jantar e ceia. Durante esta parte da viagem, ele não caminhou no tombadilho, mas também não ficou sempre encerrado dentro de sua cabina. A única coisa de que gostava, além de ser metódico, era jogar uiste. Esse jogo, anterior ao bridge, era na época a mania da Inglaterra. Ele encontrou três pessoas igualmente amantes das cartas e passava a maior parte de seu tempo, com eles à mesa. Eram eles um fiscal de rendas a caminho de Goa, um padre, e um brigadeiro-general a serviço de Sua Majestade, em Benares. Todos eram não apenas excelentes jogadores, porém falavam pouco, o que agradava a Fogg. Parece que ele juntou-se inicialmente aos mesmos para ver se algum deles tinha alguma mensagem de Stuart para ele. Mas os três eram apenas o que aparentavam ser, e a única coisa que os interessava era o jogo de uíste. Passepartout havia informado Fogg que Fix estava a bordo. Segundo ele, Fix passava por um agente da P & O e dirigia-se a Bombaim a negócios. Isso poderia ser verdade. Porém, que negócios eram esses? Matar os dois, raptá-los, ou então o que? Nenhum deles sabia ainda que Fogg era procurado pela policia. Fogg continuava intrigado sobre o recorte de jornal que lhe fora entregue pela mulher pedinte. Ele precisava encontrar meios de esclarecer isso, porém no momento, não sabia como. Poderia ter enviado uma mensagem a Stuart em Suez ou Aden, onde o navio também parou a caminho de Bombaim. Entretanto, era certo que Fix descobriria a quem Fogg havia cabografado, e isso não podia acontecer. Fogg teve uma boa conversa com seu criado. Ele sabia de cor o artigo do jornal. De repente, Passepartout percebeu a semelhança entre o sr. Fogg e a descrição do ladrão. Por quê Fogg, para quem o acaso não existia, não vira isso antes, é inexplicável. A única resposta para isso é que ele não poderia imaginar que alguém associado a ele pudesse ser desonesto. Embora fosse eridaneano, era também um cavalheiro inglês. Todavia, fora ele que havia indicado aos seus colegas de jogo do Reform Club que o ladrão não era ladrão, e sim um cavalheiro. - Mas, que coincidência! disse Passepartout. — Quem teria pensado que tal coisa acontecesse! E principalmente agora! Fogg compreendeu tudo de repente. Agora que podia perceber os fatos não ocultos pelo seu egoísmo, viu exatamente o que acontecera. Porém, Passepartout ainda continuava pensando que tudo não passara de um golpe de azar. — Não, disse Fogg, muito ao contrário. Isso aconteceu provocado, sabe bem por quem. Descobriram que um deles era parecido comigo e foi mandado roubar o dinheiro. Se não tivéssemos saído tão de repente, eu estaria preso a essa altura. Stuart percebeu o que se passava, embora eu não possa entender por quê não me preveniu antes. — Talvezele tenha começado a pensar nisso só depois que o assunto foi comentado no clube, disse Passepartout. — Ele não tinha tempo de nos mandar um recado. Seja como for, isso teria despertado a curiosidade de quem o senhor sabe, se um recado lhe fosse entregue. Por isso, ele escolheu a mulher pedinte, que pode ou não ser um dos nossos. Mas, então, por quê ele mesmo não nos entregou o recorte de jornal quando se despediu de nós na estação? — Porque Flanagan, Fallentin e Ralph também estavam lá. Pareciam estar inocentes, isto é, com exceção daquele que o senhor sabe, porém não quis se arriscar. — Mas o que poderia informá-lo um simples recorte de jornal? — Ele sabia que eu logo perceberia a relação. Poderia ficar sabendo de imediato. Porém, meu orgulho impediu que isso acontecesse. E embora a descrição sirva para mim, de um modo geral, ela não é exata nos detalhes. — O que faremos? — Aja de acordo com os planos, respondeu Fogg calmamente. — Mas, e se o senhor for preso em Bombaim? — Já foi tudo previsto. Passepartout não perguntou-lhe quais eram seus planos. Teria recebido como resposta apenas um olhar frio. No caso dele cair nas mãos do inimigo, quanto menos soubesse seria melhor. Apesar disso, Fogg disse a Passepartout para forçar o uso de bebidas quando estivesse no bar com Fix. Passepartout que era muito resistente às bebidas fortes, por ser francês, iria fingir que faria confidencias sob o efeito da cerveja e do uísque que Fix lhe oferecia diariamente. Nada diria a Fix exceto o que ele deveria saber se o patrão e o criado fossem exatamente o que pretendiam ser. Passepartout informou que Fix continuava com as insinuações feitas durante o seu primeiro encontro no Mongólia. Entre elas a de que a viagem de Fogg era um pretexto para alguma outra missão, possivelmente diplomática. Fix também continuou instando para que o francês acertasse o seu relógio de acordo com o Sol. Fogg disse a Passepartout para seguir Fix para saber se ele estava se comunicando com alguém. As quatro e meia da tarde, os dois globetrotters desembarcaram em Bombaim. J. Verne diz que Fogg deu ao seu criado algumas incumbências, após dizer-lhe que deveria estar na estação ferroviária às oito horas daquela noite. E depois, com seu andar mecânico, dirigiu-se à sala dos passaportes. Ele não mostrava o menor interesse pelas maravilhas arquiteturais daquela notável cidade da índia. Era de esperar esse seu procedimento. Porém, isso era também devido a já ter visto isso antes e mais de uma vez. J. Verne relata um estranho incidente no restaurante da estação ferroviária. Fogg pediu uns miúdos de "coelho nativo" que o dono do restaurante elogiava muito. Ao prová-lo, chamou o proprietário. Encarou-o friamente, disse: — Isso é coelho? — Sim, senhor. Coelho selvagem. — E esse coelho não miou quando foi morto? O dono do restaurante acabou protestando. Fogg disse-lhe: — Lembre-se disso. Os gatos foram considerados certa vez sagrados na Índia. Foi uma boa época. — Para os gatos, meu senhor? — Talvez para os viajantes também. Por aí vemos que Fogg não deixava de possuir também uma certa inteligência sarcástica. Porém, por meio dessa curiosa conversa, Fogg havia verificado que o dono do restaurante era um eridaneano e que ele não vira nada suspeito para relatar. Não havia a menor dúvida na mente de .Fogg, ou em sua língua, que aquele animal era o que ele parecia ser. Se o dono do restaurante tivesse dito — Para os coelhos, meu senhor? em vez de Para os gatos, meu senhor? Fogg ficaria sabendo que o mesmo tinha algo importante para transmitir. A declaração final de Fogg significava que ele não tinha nada mais para dizer e que tudo estava bem, no seu entender. Não era a primeira vez que isso acontecia. Quando Fogg era um membro recém admitido do Reform Club, um garção tinha-lhe trazido um coelho em lugar do bife que costumava comer ao jantar. Durante a conversa entre ambos — em voz baixa, pois ele não queria que o garção fosse despedido — o sr. Fogg recebera instruções. Não fora possível a Stuart transmitir uma mensagem por meio das cartas, devido a um negócio urgente a tratar. 0 mesmo equívoco com coelhos havia sucedido em outras duas vezes, porém com grandes intervalos de tempo. Afinal de contas, se os coelhos fossem trazidos com muita freqüência, algum capeleano poderia suspeitar. Logo depois do incidente no restaurante, ocorreu outro infeliz incidente. Embora fosse eridaneano, Passepartout era também humano. Deixou-se levar pela curiosidade a um magnífico pagode pagão em Malabar Hill. Ele não sabia que os cristãos estavam proibido de entrar nesse lugar sagrado. Não só a lei dos brâmanes como a britânica proibia essa profanação. Passepartout foi obrigado a derrubar vários padres, quando estes lhe batiam e tiravam seus sapatos. Essa atitude foi motivada pela proibição de usar sapatos no templo. Sem sapatos, e também sem o pacote com as compras feitas, Passepartout fugiu. Fix chegou a ouvir o criado explicando a seu patrão o que acontecera. Fix quase os seguira no trem, porém isso fê-lo mudar de idéia. Embora não tivesse chegado ainda a ordem de prisão de Londres, ele já sabia que os dois seriam presos por uma infração cometida na índia. Ele ficou onde estava a fim de informar as autoridades sobre a identidade dos culpados. Os dois tomaram uma carruagem em companhia de Sir Francis Cromarty, o brigadeiro-general que havia jogado uíste com Fogg no Mongólia. Isso parecia suspeito, porém se Sir Francis era jardineiro ou capeleano, Fogg não verificou. Certos fatos posteriores indicam que ele era o que J. Verne dissera. Sir Francis havia observado a excentricidade de seu colega e imaginou se haveria um coração humano sob aquele exterior impassível. Além disso, sendo informado por Fogg sobre a aposta, ele considerou a viagem que estavam fazendo, como inútil e sem sentido. Naturalmente, ele não tinha meios de saber que Fogg estava viajando para salvar o mundo, e não apenas circundá-lo. Às oito horas da noite seguinte, o trem parou a cerca de quinze milhas além de Rothal. O maquinista gritou para que todos os passageiros saíssem do trem, o que agradou aos três. Passepartout, mandado saber o que acontecera, voltou alarmado. Havia parado porque a estrada de ferro terminava naquele ponto. Uma nova verificação revelou uma situação embaraçosa. Ninguém se incomodara de informá-los que, ao contrário do que diziam os jornais de Londres, ninguém poderia viajar de Kholby para Allahabad. Sir Francis estava indignado. Fogg continuava impassível. Pois bem. Tudo fora previsto. Fogg sabia que, cedo ou tarde, se apresentaria algum obstáculo. Devido a rapidez da viagem até aquele ponto, Fogg havia ganho dois dias. Ao meio-dia do vigésimo quinto dia, um navio sairia de Calcutá para Hong Kong. Esse dia era o vigésimo segundo. Tinham quase três dias para chegar a Calcutá. Para Fogg não era motivo de preocupação, o fato de talvez precisarem caminhar a pé umas setenta milhas ou mais através da selva e das montanhas. Esse francês, incansável e sempre curioso, tendo investigado os possíveis meios de ligação com os seus, voltou com boas notícias. Poderiam continuar viajando em um elefante! Dirigiram-se a uma cabana próxima, onde foram apresentados a um hindu. J. Verne diz que Fogg falou diretamente com o nativo. Isso significa que o hindu falava um pouco de inglês ou então Fogg sabia o dialeto local do povo Khandesh. Uma vez que Sir Francis poderia estranhar que ele sendo um estranho na índia pudesse falar o seu idioma, Fogg deve ter se abstido. É mais provável que o general tenha atuado como intérprete e Verne não se incomodou de mencionar isso. Seja como for, não houve dificuldade de idiomas. De fato, o hindu possuía um elefante. Seu nome era Kiouni. Mas Kiouni não estava à venda e nem para alugar. Era muito valioso; estava sendo treinado para ser um elefante de combate. O sr. Fogg ofereceu dez libras por hora para usar o animal. Não aceitaram. Vinte? Negativo. Quarenta? Será que venderiam Kiouni por mil libras? Nessa altura, Sir Francis chamou Fogg àparte. Rogou que ele não se arruinasse. Fogg respondeu-lhe friamente que nunca agia precipitadamente. Ele pagaria vinte vezes o valor do animal, se fosse preciso. Mil e duzentos? Não? Mil e quinhentos? Não? Mil e oitocentas libras? Não? Quando Fogg ofereceu duas mil libras, Passepartout quase desmaiou. Parecia ver o dinheiro na bolsa se consumindo. Duas mil? Sim! O indiano temia pedir mais porque poderia perder tudo. Essa soma permitiria que ele não só vivesse confortavelmente pelo resto da vida, mas também o faria o homem mais poderoso da comunidade, se não de toda a região. Nenhum dos três europeus sabia montar em um elefante e nem como impedir que se perdessem. Foi quando um jovem inteligente da religião Parsi ofereceu seus préstimos. Fogg aceitou sem hesitar, prometendo uma boa quantia em pagamento. Uma hora depois de sua chegada, os três europeus, juntamente com o Parsi, partiram. Sir Francis e Fogg sentaram-se de cada lado do howdah; Passepartout colocou a manta entre eles; o cornaca montou no pescoço do animal. O guia garantiu-lhes que se fossem diretamente através da selva, poderiam encurtar a viagem em cerca de vinte milhas. Passepartout ficou pálido, pois isso significa entrar no território do rajá de Bundelcund. A lei inglesa não vigorava no mesmo, e se o rajá descobrisse que eles estavam lá, estariam à vontade para agir. Ele verificou o relógio. Fogg não hesitou em ordenar que seguissem o atalho. Ao meio-dia tinham saído da selva espessa e entrado em um terreno coberto de tufos de tamareiras e palmeiras anãs. As compridas pernas do paquiderme deixaram logo isso para trás, e entraram em grandes planícies áridas, nas quais medravam arbustos de mau aspecto e grandes blocos de sienita. Fogg informou a Sir Francis que essa pedra era uma rocha ígnea, com grande porcentagem de feldspato. O seu nome científico provinha da antiga cidade de Syene, onde era encontrada em grande quantidade. Sir Francis deu apenas um grunhido como resposta. Ele estava pendurado em um dos lados do howdah, que subia e descia, imitando um barco em um mar encapelado. Passepartout também achava aquele movimento causador de náuseas. Não queria pensar no que aconteceria se encontrassem os habitantes de Bundelcund. Em caso positivo, ele desejaria que o encontro fosse fatal, já que ele preferiria morrer do que continuar essa caminhada, e isso iria acontecer de qualquer forma se ela não cessasse. Chegaram a ver alguns nativos, os quais gesticulavam de modo ameaçador. Entretanto, o Parsi, apressou ainda mais o animal, e os hindus não tentaram segui-los. Às oito horas daquela noite, cruzaram a principal cadeia das montanhas Vindhya. Pararam em uma casa abandonada, para pernoitarem. O elefante carregara-os uma distância de vinte e cinco milhas. J. Verne diz que o Parsi fez uma fogueira para combater o frio noturno e depois utilizaram as provisões que haviam trazido de Kholby. Isso é confirmado no diário secreto de Fogg. Prosseguiram a viagem, segundo J. Verne, às seis horas da manhã seguinte. Porém, a narrativa de J. Verne do ocorrido nesse ínterim, não é bem clara. Segundo ele, o guia vigiou o elefante que dormia. Sir Francis dormiu pesadamente. Passepartout teve sobressaltos, sonhando com a viagem saltitante. Fogg dormiu calmamente como se estivesse em casa, em Savile Row. Essa descrição não é exata. Quem quer que tenha montado um cavalo pela primeira vez durante um dia inteiro pode avaliar como ficaria fatigado e como seu sono seria pesado. Basta aumentar esse cansaço um pouco mais e acrescentar ao mesmo a necessidade inevitável de comer o alimento dos selvagens da floresta tropical, para se ter uma idéia perfeita da situação dos mesmos. Segundo o outro diário, a verdade é a seguinte: Capítulo 9 Embora tivesse viajado depressa, houve algumas paradas. Os três europeus tinham pedido com freqüência ao Parsi para parar o elefante, para que eles penetrassem na floresta. Ao final do dia, até o imperturbável Fogg estava pálido. Antes de se recolherem, o patrão e o criado caminharam pela floresta espessa, para executar certas funções corporais, para as quais se sentiam muito fracos. Fogg ouvia calmamente, e até mesmo com complacência os gemidos, lamentos e queixas de Passepartout até haverem terminado seus deveres - ou pensarem que havia terminado. Disse ele: "Você esteve consultando seu relógio, quando sugeri que fizesse? — Exatamente... — E então? - Não houve nada! Nenhum sinal de espécie alguma! O que é muita sorte! Em caso contrário, poderíamos estar certos que aquele porco do rajá... — Fale com mais calma, disse Fogg. — Seria fácil para alguém se aproximar de nós sem ser notado, nesta floresta densa. — Desculpe, senhor, mas é possível que eu não tenha ouvido o pequeno gongo que anuncia que outra... — Não use essa palavra. — ...que outra, relógio está ativado e irradiando. O ruído feito pelo movimento do animal e os estalidos do howdah, sem falar em seus gemidos, tornou difícil ouvir. — Basta, por ora. — Com exceção dos gritos e da tagarelice daqueles macacos e o grito daquelas aves. E o Parsi diz que ouviremos leopardos e tigres à noite. — Naquela casa haverá bastante sossego, disse Fogg. -Deve ficar com o relógio bem próximo dos ouvidos, hoje à noite. — Exatamente! Planejei fazer isso mesmo. E se recebermos o sinal? — Responderemos. — Mas, como? — À nossa própria maneira, disse Fogg. -- Entretanto, há um modo de ter certeza de que houve transmissão. — Ter certeza? disse Passepartout. Ele estivera pálido: agora estava branco como um dos demônios das lendas hindus. — Não é preciso que eu repita o que disse. Quando os outros forem dormir, coloque o aparelho na posição de transmitir. Os olhos de Passepartout se arregalaram, como o peito de um pombo apaixonado. — Mas, por quê? Seremos imediatamente apanhados... — Não terminei de falar. Você fará isso por muito pouco tempo. Ligue e desligue o aparelho e depois espere. Se, dentro de dez minutos, não houver sinal de que há outro aparelho ligado, você repetirá a transmissão. Mas apenas durante meio segundo. Repetirá esse sinal durante duas horas, após o que eu assumirei o controle. - O que está planejando? O que poderíamos fazer se captássemos um sinal? - Isso já está combinado, disse Fogg. - - Se você captar um sinal antes de decorridas duas horas, acorde-me imediatamente. Passepartout não gostou da idéia de ter de ficar acordado, quando estava tão cansado. Entretanto, descobriu que de qualquer maneira não teria conseguido dormir. Seus músculos pareciam cordas que tivessem sido usadas para levantar pesos o dia inteiro; seus ossos, davam a impressão que alguém estivera tentando fazer saca-rolhas com os mesmos. Seus nervos eram como cordas de harpa que vibrassem tangidas por mãos invisíveis. O repentino chilreio monótono das aves, o grito de algum animal de grande porte à distância — seria um leopardo? — e o rugido longínquo — seria um tigre — fê-lo dar um pulo como se Fogg o tivesse chutado. Pequenas batidas e ruídos no telhado de palha perturbavam seu descanso. Além disso a sua preocupação devido aos planos desconhecidos de Fogg, faziam-no sentir-se mal. Ouvia a respiração regular do inglês e pensava como podia ele dormir tão profunda e rapidamente. Sir Francis roncava calmamente e mudava de posição a cada instante; parecia ter dificuldade em conciliar o sono. O que aconteceria se o brigadeiro-general ainda estivesse acordo quando chegasse um sinal? Depois de algum tempo, incapaz de aquietar-se, o francês levantou-se e saiu da casa. A Lua se elevava no céu e lançava uma luz resplandecente na encosta da colina. A enorme silhueta de Kiouni e o corpo franzino do seu condutor ficavam escuros sob a árvore gigantesca a poucos metros de distância. Um forte estalido fê-lo dar um pequeno salto. Seu coração bateu apressado. Estariam os bandoleiros se aproximando através da selva, empunhando suas armas, com a intenção de estrangular os estrangeiros e sacrificá-los a deusa Kali sem derramamento de sangue? Seria um elefante selvagem avançando na direçãodeles para atacá-los? Ou seria uma manada de perigosos búfalos selvagens ou javalis selvagens? Passepartout suspirou, e seu coração cansado bateu mais pausadamente. Nada disso, era apenas Kiouni arrancando um ramo de árvore para encher o estômago. Ele mastigava ruidosamente, enquanto sua barriga roncava como se fosse uma grande cachoeira ao longe. J. Verne diz que Kiouni dormiu a noite toda, esquecendo-se que o pobre animal havia viajado o dia todo e nada comera. Kiouni precisava dormir, porém necessitava ainda mais de alimento, já que um elefante precisa de várias centenas de libras de forragem por dia para conservar sua força. Kiouni adormecera, de pé, durante várias horas após a chegada- No momento acordara aguilhoado pela fome, e comia, indiferente ao ruído que produzia ou sua possível interferência no sono dos seres humanos. Embora o ar da montanha fosse frio à noite, Passepartout transpirava bastante. Meu Deus! pensou ele. O que fariam eles se fossem transportados para dentro do palácio do rajá? Suas únicas armas - - lamentavelmente muito pequenas — eram os canivetes que ele e Fogg usavam. E não estaria o rajá preparado para enfrentá-las? Não teria ele muitos de seus soldados alinhados ao redor do aparelho, todos armados com fuzis e espadas? Não ficaria ele, Passepartout, e seu patrão maluco, incapazes de resistirem à prisão ou de serem mortos? Seria melhor morrer de uma vez. Cair nas mãos de um capeleano significaria muitos dias da mais terrível tortura. Ah, se ele não parasse de transpirar apanharia um resfriado, que poderia se transformar depressa em uma pneumonia fatal. Vejam! O parsi, que havia dito que ficaria acordado para vigiar o seu animal, havia se deitado no chão e estava nesse instante roncando tão alto que podia ser ouvido mesmo com o ruído do estômago do elefante. Maldita criatura! Não tinha ela o senso do dever? Como podia o parsi dormir enquanto ele, Passepartout, sofria? Estariam todos dormindo com exceção dos sinistros predadores da selva, o voraz Kiouni, e ele mesmo? Segurou o relógio na altura do ouvido e escutou. Nada saía dele a não ser o seu firme tique-taque, medindo o tempo, a sombra do Infinito, enquanto ele, Passepartout, e o universo ficavam mais velhos. Mas o universo, embora condenado a morrer eventualmente, ainda continuaria existindo muito tempo depois que Passepartout houvesse se tornado em pó e ainda menos do que pó. Pó que uma árvore iria absorver com sua estrutura de madeira e que algum elefante sugaria, iria digerir em seu estômago e depois lançaria ao solo, sem mencionar os insetos e aves, que o comeriam para depois lançá-lo fora. Dessa forma, Passepartout, sofrendo milhões de transformações, passaria a eternidade sendo tomado e lançado fora, embora, graças a Deus, inconsciente de todas essas indignidades e vilezas. A não ser que os hindus estivessem errados e ele, como Passepartout, em seu todo, reencarnaria várias vezes. Contudo, ele poderia viver nesse corpo durante mil anos se não sofresse acidente ou fosse morto, ou então — nesse ponto, ele se persignou, pois embora fosse eridaneano era um católico fervoroso — ele se suicidaria. Por quê desperdiçar um milênio deixando-se cair em uma armadilha feita de propósito pelo rajá de Bundelcund? Não era isso suicídio, e o suicídio não era imperdoável? Será que Fogg concordaria com esse raciocínio, essa lógica irrefutável, se lhe fosse apresentado? É pena, mas ele não concordaria. Mas talvez o rajá não tivesse a intenção de lançar uma onda do aparelho. Talvez ele fosse sensato e estivesse nesse mesmo instante cochilando sem dúvida nos braços e seios macios de alguma bela houri ou seja lá qual for o nome dado pelos hindus às suas esposas. Isso seria muito mais racional do que ficar acordado até altas horas da noite, enviando sinais. Mas, infelizmente, os homens não são sempre - - e, de fato raramente — racionais. Como para confirmar essa conclusão, o relógio emitiu um som de campainha. Passepartout tornou a pular, e seu coração palpitou como se fosse um trampolim onde o medo estivesse dando saltos. O que se temia já havia acontecido! Por um instante, Passepartout pensou em guardar a novidade para si mesmo. Mas, apesar de seu medo, era um homem corajoso, e era seu dever informar o inglês. Embora antes tivesse de responder ao sinal. Assim que o som deixou de ser ouvido, ele fechou a tampa do relógio e virou-o depressa num ângulo de cento e oitenta graus e depois colocou os ponteiros nos números indicados. Logo a seguir, fez os ponteiros voltarem na posição anterior indicando a hora exata — exata, para ele, pelo menos — e fez voltar a tampa à sua posição normal. A seguir dirigiu-se apressadamente para aquela casa, a fim de acordar Fogg. Fogg acordou depressa e ficou novamente de pé. Após ouvir aos murmúrios excitados de Passepartout, disse: — Muito bem. Agora, eis o que faremos. Passepartout estava tão pálido quanto o luar em águas paradas. Agora, sua pele parecia refletir o luar depois de passado por um branqueamento. Porém quando Fogg acabou de falar, Passepartout obedeceu imediatamente. A sua primeira tarefa ficou mais fácil porque o Parsi dormia a sono solto. Seus roncos eram suficientes para espantar um tigre. Passepartout conduziu Kiouni. Quando estavam a meia milha de distância, descendo a encosta da montanha, os dois homens subiram pela escada de cordas e guiaram o animal, pelo resto do trajeto. Kiouni não gostava de ser afastado de seu alimento, porém não se queixou. Caminhava devagar porque seus olhos não podiam descobrir os obstáculos facilmente à luz do luar. Além disso, tinha de ter cuidado para não pisar em buracos. É tal o peso desses animais que um passo em falso de apenas dez centímetros, pode quebrar-lhe as pernas. Cerca de uma hora mais tarde, os dois estavam a uma distância que Fogg achou suficiente. Passepartout desceu do elefante; Fogg continuou montado. — Mas será que Sir Francis e o guia não poderão ouvir os sinais mesmo daqui? disse Passepartout. — É possível, disse Fogg. -- Entretanto, entre nós acha-se a própria montanha e uma boa parte da floresta. Isso amortecerá os sons. Podem pensar que estão ouvindo o sino de algum templo distante. Seja como for, eles nada podem fazer a esse respeito. Quando voltarmos, diremos a eles que o elefante fugiu e nós fomos atrás dele. Passepartout tremeu. - Quando voltarmos...! Seria mais realista dizer "se", e não "quando". Apesar disso, ele admirava o otimismo do inglês e tinha muita esperança que isso não fosse sem fundamento. Durante a viagem, Passepartout havia por três vezes acertado o relógio para enviar outros sinais. Os sinais recebidos chegavam agora a cada vinte segundos. Ajuste-o agora para que ele transmita daqui a cinco minutos, disse Fogg. —Porém certifique-se que o seu campo é bem amplo, pois deve incluir Kiouri. E certifique-se que ele voltará automaticamente a receptor, cinco minutos após terminar a sua fase de transmissão. Passepartout, todo trêmulo, abriu a tampa de trás do relógio e acertou o mesmo na posição pedida, girando três pequenos botões. Colocou o relógio em um pequeno buraco que havia cavado no solo, com sua faca. Era preciso que o aparelho ficasse abaixo do nível do solo daqueles que iam ser teletransportados. Além disso, o buraco evitaria que o elefante caísse ao caminhar, embora Passepartout esperasse que o animal não se moveria. Se ele avançasse muitos passos em qualquer direção, ele e os outros poderiam ser cortados ao meio. Subiu novamente pela escada e puxou a corda. Enrolou-a a seguir embaixo de um dos lugares do howdah. O sr. Fogg já estava sentado no pescoço do elefante. Ele havia observado as palavras e os gestos usados pelo condutor. Fazia uso delas agora como se tivesse trabalhando nessa profissão durante anos. Até então, o animal vinha lhe obedecendo. Continuaria a proceder assim, quando se encontrasse em outro lugar cercado por seres hostis? Passepartout, sem poder consultar seu relógio, contava os segundos mentalmente. Achava-se sentado na sela entre os lugares do howdah, com seu caniveteaberto em uma das mãos. Sentia-se muito desamparado, e imaginava como seriam os novecentos e sessenta anos da vida que ele estava ameaçado de perder. Bem, gostaria de ver o que lhe reservava o ano 2842! Ou até mesmo 1972! Quando os eridaneanos houvessem exterminado os canalhas capeleanos, então eles poderiam modificar o mundo. Isso levaria mais de cem anos? Não seria a Terra um paraíso, uma verdadeira Utopia, tendo sido eliminados para sempre toda guerra, crimes, pobreza, doenças e ódios? Por quê lhe seriam negados os frutos de seu trabalho, por causa desse louco, que estava calmamente ao seu lado agora? Porém, se devemos lutar por uma causa, isso deve ser feito sobre os corpos dos mártires, como disse certa vez alguém, provavelmente um inglês. Sua infelicidade foi ser um desses mártires. Além disso, um mártir não deve se sacrificar a não ser que a causa lhe seja proveitosa. Nessa noite não havia proveito para ninguém a não ser o rajá de Bundelcund. Todavia, Fogg não havia dito que o imprevisto não existia para ele? Mas, o que aconteceria se ele houvesse previsto que o rajá morreria, porém, eles também? Muito ao contrário, Fogg era um cavalheiro, e tinha sentimentos. Não seria capaz de pedir ao seu criado e ao seu companheiro que morressem também. Não pediria a menos que isso fosse preciso, pensou Passepartout, com o coração abatido como uma bandeira em um dia sem vento. Mas, o que poderiam eles fazer apenas com canivetes contra fuzis e lanças? — A, mon... Lá estavam eles... Dieu! Fogg não era tão estúpido como Passepartout havia pensado. Um espião havia no passado tentado comunicar onde e de que forma estava guardado o aparelho. Fogg não contara isso a Passepartout apenas porque não tinha certeza de que a situação não mudara desde o comunicado. Não adiantaria ter Passepartout preparado para agir em um ambiente e de repente se defrontar com o inesperado. Isso o desconcertaria totalmente. O pobre sujeito estava aterrorizado. Realmente, Fogg te-lo-ia deixado, se não tivesse certeza de que Passepartout seria bastante capaz, ao entrar em ação. Nenhum covarde chegaria aos trinta anos de idade nessa guerra secreta. Nem tampouco Stuart confiaria essa missão a ninguém que já não tivesse sido provado em muitas outras vezes. Temer não significa falta de coragem. O seu maior interesse era o comportamento de Kiouni. O seu treinamento como elefante de combate tinha sido feito pela metade. Mesmo um velho veterano calejado teria ficado histérico. O transporte foi feito imediatamente. Não houve nenhuma sensação de passagem de tempo ou espaço. Os seus ouvidos foram bombardeados pelo grande ruído, como se estivessem parados bem perto de um sino do tamanho de uma casa. O som era arrasador, e Fogg e seu ajudante, embora segurando os canivetes na mão, tinham que apertar os ouvidos. Kiouni saltou; seu corpo subiu, e ele parecia tomado de pânico. Não podia ser ouvido devido àquele toque odioso, que como sempre, soou nove vezes. Esse fenômeno sonoro era ouvido no início e no final do funcionamento de um aparelho. O local do aparelho que haviam deixado para trás ficaria saturado com os nove toques, o bastante para carregar Sir Francis e o parsi juntos através de algumas milhas de montanha e floresta. A hipótese para explicar esses ruídos era a de que a distorção do espaço na região próxima aos aparelhos causava uma condensação e curvatura do campo magnético da própria Terra. A volta ao estado normal provocava distúrbios atmosféricos e os resultantes ruídos. Essa hipótese era discutível, porém não importa o que produzia os ruídos. Eram inevitáveis e, infelizmente, atuavam como um alarme. Fogg viu num relance que o rajá não havia mudado de lugar o aparelho, desde que fora avisado. Sua localização era tal que apenas um oriental poderia ter imaginado. Estava em uma ampla sala, iluminada por milhares de bicos de gás. Elevava-se a uns seis andares, terminando numa grande cúpula branca. A sala era circular com um diâmetro de mais ou menos oitenta metros. Era toda circundada por mais de trezentos arcos altos e estreitos, com uma parede de azulejos com dois metros de largura. Isso dava a volta completa na sala. Uma passagem ficava a cerca de três centímetros sobre a superfície de um grande tanque, que abrangia quase toda a área. No centro dessa massa de água, havia uma ilhota circular de mármore vermelho liso, com um diâmetro de oito metros. Kiouni e sua montaria surgiram no centro exato dessa ilha, embora não tivessem ficado lá muito tempo. Kiouni começou logo a correr desesperado ao redor da ilha. Os elefantes são notáveis nadadores, porém mesmo em pânico, ele não tratou de pular dentro d'água. Fogg notou que o motivo disso era o grande número de crocodilos existentes no tanque. Fogg tratou de acalmar o animal. Enquanto estava empenhado nessa tarefa aparentemente inútil, sentiu um tapa no ombro. Olhou para trás e depois para a frente. Passepartout apontava para o forro. Fogg viu um quadrado preto surgindo no centro da cúpula branca. Dele, suspenso por um cabo, descia um carro. Seus rostos negros, usando turbantes brancos os encaravam. Fogg olhou para os arcos ao longo da passagem. Continuavam vazios. Passepartout apontou então para o centro da ilhota. Ele mostrava o que havia deixado de ver antes porque o corpo do elefante ficara entre o aparelho do rajá e os dois, e ambos haviam estado muito ocupados para repararem. O aparelho parece ter sido posto na depressão circular no centro da ilha. Na certa, ele não havia sido colocado naquele lugar apenas para um visitante abaixar-se e apanhá-lo. Estava dentro de algum sistema defensivo. O que alarmou Passepartout foi que o aparelho, contido em um relógio, era um modelo que estava desaparecendo. Tinha sido colocado no alto de um cilindro, a cerca de três centímetros abaixo do nível da ilha. A essa altura, o cilindro afundava rapidamente na depressão. A ilha devia ser oca, com uma sala abaixo da superfície. Havia homens lá embaixo manejando as máquinas que levantavam e abaixavam o cilindro de pedra. Eles tirariam o aparelho do alto do cilindro e o levariam para um lugar seguro. E então os homens do rajá cuidariam dos intrusos. Kiouni não diminuiria a sua caminhada circular. Não havia mais tempo para tentar dominá-lo. Fogg acenou para que Passepartout tomasse o seu lugar e saiu do pescoço do animal. Sua agilidade podia ter arrancado aplausos de um acrobata profissional como Passepartout, em circunstâncias diferentes. Porém, o francês estava muito ocupado subindo no animal. À medida em que Fogg escorregava pela pele do elefante, deu um salto para trás e continuou andando, evitando assim cair diretamente no mármore. À seguir, tirou o relógio do bolso do colete, deu corda, olhou no buraco e deixou cair o relógio. Durante todo esse tempo, ele esforçou-se para agir com um ar de quem não tem pressa, e de perfeita calma. Os homens que estavam acima deles e os que estavam abaixo parece terem dado um alarme. Ele não podia ter ouvido pois seus ouvidos ainda ressoavam. Porém, ele olhou para cima e viu, como era de esperar, que os cinco no carro brandiam sabres e um deles possuía um fuzil. Parecia um fuzil do tipo moderno, talvez um Mauser adotado pelo exército prussiano no ano anterior. Os que estavam no carro podiam ver que os invasores não tinham armas de fogo. Já que não se formara fumaça quando jogou o objeto no poço, eles devem ter pensado que, se fosse uma bomba, teria falhado. É possível que não tenham visto jogar o relógio, já que seu corpo interceptava a sua visão. Nem achariam que seria preciso atirar nos invasores; pois eles estavam cercados. Poderiam esperar, dispor do elefante se este não se acalmasse, e dominar os homens. Nesse ínterim, o rajá teria recuperado o aparelho na sala. Fogg acreditava que o rajá estivesse lá embaixo, já que seria improvável que ele deixasse outra pessoa a não ser ele próprio, manejar o valioso aparelho. De fato, Fogg tinha certeza de que havia somente um homem lá embaixo. Quanto menos pessoas vissem o aparelho, melhor. Seria consideradopelos hindus, como um aparelho mágico, que muitos fariam tudo para possuir. O sr. Fogg virou-se, tendo sacado e acertado outro relógio. Com um movimento ágil, ele apontou para cima na direção do carro, que estava agora a cerca de dois andares e meio acima da ilhota. Os movimentos daqueles que ele podia ver, ficaram muito agitados. Dois pularam para fora do carro caindo no taque. O carro desapareceu num jato de fogo, envolto em fumaça. O impacto foi ouvido vagamente pelos dois homens e Kiouni, mas tiveram a impressão de que uma mão gigantesca batera nos mesmos. Pedaços de metal, carne e osso caiu sobre eles. Fogg foi derrubado. Passepartout foi arrancado do pescoço de Kiouni. O elefante girou e começou a correr na direção oposta, nas margens da ilha. Passepartout caiu sem ferir-se, rolando pelo solo e levantando-se como se estivesse terminado de representar. O seu cabelo estava completamente em desalinho, e seus olhos azuis estavam arregalados. Fogg voltou para a depressão no centro da ilha, enquanto a fumaça da explosão, tendo antes descido, subia à sua volta. Ele ajoelhou-se e olhou dentro do poço. O estojo do relógio, podia ser regulado para explodir o seu conteúdo ou convertê-lo em um gás. Esse seria expelido em alta velocidade para encher qualquer local pequeno. Seus efeitos se dissipavam quase de imediato, de modo que ele não precisava ter medo de respirar o ar que saía do poço. O rosto do sr. Fogg conservou a sua serenidade, porém seu diário secreto registra o seu espanto e alarme pelo que viu. O cilindro havia continuado a afundar no poço, no piso da sala abaixo. Mesmo no momento em que olhava, ele parará com sua parte superior a sessenta centímetros acima do piso. Ao seu lado encontrava-se um homem baixo, de pele escura, vestido com roupagem vistosa. Seus pulsos e dedos estavam cheios de braceletes e anéis com pérolas e jóias que somente um rajá muito rico poderia possuir. Seu cabelo e barba eram grisalhos, e seu rosto com nariz encurvado estava cheio de rugas. Fogg sabia que o cabelo grisalho e as rugas eram apenas maquilagem. O rajá Dakkar de Bundelcund não queria que fosse comentado o fato dele não envelhecer. Tal coisa poderia chamar a atenção dos eridaneanos mais depressa do que se pensava, e os ingleses poderiam tornar-se agressivos, se pensassem que ele possuía um segredo para prolongar a vida. O rajá abrira a tampa do cilindro, antes que ele parasse de afundar. Se não fosse pelo gás anestésico, ele já estaria fora da sala a essa altura, levando o distorter (aparelho). Porém o mesmo, encaixado em um grande relógio dourado com vários diamantes encrustados, estava a menos de dois metros abaixo de Fogg. Ele tinha apenas de tirar de sua cintura o magneto e a corda comprida de seda na qual ele estava preso, e deixá-lo cair. A capa de ouro não seria afetada, mas as chapas e mecanismos de aço dentro, ficariam bem magnetizadas. A seguir, ele poderia retirar o valioso objeto, por meio da corda. Porém um homem achava-se ao lado do cilindro de mármore e a procura do aparelho. Algo fê-lo parar, talvez a sensação de que estava sendo observado. Olhou para cima. Fogg não deu alarme, embora seja difícil entender como conseguiu se controlar. Ele conhecia aquele homem. Já não tinha mais barba, e seus olhos não eram mais negros, mas cinzento escuro. Fogg poderia não tê-lo reconhecido agora não fosse pela grande distância entre os olhos. Aquele homem estava usando o uniforme de oficial dos sapadores de Sua Majestade, o que é responsável em parte por Fogg não tê-lo reconhecido de imediato e que o havia visto a pouco tempo. Cessada a impressão causada pelo uniforme, Fogg viu a parecença entre ele e o homem que ele vira parado na porta do Reform Club. Sim, era ele. O homem sob cujas ordens servira, o homem que estava na porta e o que estava prestes a se apoderar do aparelho eram o mesmo. Mas como teria ele chegado antes de Fogg? Teria vindo teletransportado? Aquele homem murmurou uma única palavra: — Fogg! Portanto, ele não reconheceu Fogg como antigo membro de sua tripulação. Se tivesse, não iria querer que Fogg soubesse que ele havia conseguido descobrir o seu disfarce? Fogg pronunciou o nome do homem calmamente. - Capitão Nemo! Capítulo 10 Fogg registra em seu diário secreto muitas coisas que estavam causando espécie sobre a presença desse homem, embora não tivesse tempo para pensar nisso na ocasião. Por que estava ele, que era um capeleano de boa cepa na opinião de Fogg, junto com o rajá traidor? Ou teria ele persuadido o rajá que ele também seria um traidor? Como teria chegado até aqui? Por quê não sofrerá a influência do gás? Essa última pergunta pode ser explicada pela rapidez em que saiu correndo da sala, quando o relógio caiu. Ou talvez estivesse fora e havia acabado de entrar. Fogg deixou o magneto cair dentro do poço sobre o relógio. Nemo estava desarmado; o seu coldre estava vazio. Não há dúvida de que o rajá só permitia os guardas de maior confiança ficarem armados em sua presença. Nemo, seguindo seus reflexos, fez menção de sacar um revólver não existente, percebeu a situação, deu alarma -- Fogg ouviu algo — e afastou-se dali. Fogg não conseguia mais vê-lo. Mas se ele acreditava que o relógio fosse uma outra bomba, gás, ou explosivo, teria saído da sala e talvez batido a porta ao passar. De fato, houve um ruído abafado de porta. Mas ele poderia voltar a qualquer momento. Poderia estar acompanhado por homens armados para verificar se o estojo do relógio continha alguma coisa mortífera. Ou então, como era de raciocínio rápido, poderia perceber o significado da corda amarrada ao estojo, descobrir que ela sustinha apenas um ímã, e voltaria para atacar, armado. Poderia também estar enviando homens armados dentro da grande sala. Fogg estava admirado por não aparecer ninguém; esperava a qualquer momento, ouvir as explosões de tiros de fuzil. Olhou para cima e ao redor. Não havia ninguém nas colunas. Era evidente que o rajá queria o menor número possível de pessoas perto do aparelho. Contava que alguns homens no carro em cima e ele e Nemo embaixo, poderiam cuidar dos eridaneanos. Porém, os guardas iriam aparecer logo. Foi então quando houve outra distração. Passepartout estava retirando um dos homens de dentro d'água, que havia saltado do carro que descia. Fazia isso com a maior rapidez para afastá-lo do caminho de Kiouni, que continuava a correr pela margem da ilha. Os estampidos haviam espantado os grandes crocodilos, o tempo suficiente para que um dos homens escapai- O outro não tivera a mesma sorte. Um dos animais, ma|s rápido que os outros, o alcançara. Apenas uma agitação da água, à medida que o crocodilo girava dentro dela, tentando arrancar um braço ou um perna, mostrava onde se encontrava Fogg não teve tempo de gritar para Passepartout deixar o homem se o elefante viesse muito depressa. Dirigiu sua atenção novamente para o poço, tornou a levantar o imã, fê-lo oscilar um pouco, e deixou-o cair. Dessa vez ele caiu diretamente no aparelho do rajá, e Fogg alçou-o depressa. Antes que houvesse retirado o mesmo do poço, viu o rosto do rajá, agora já refeito, logo abaixo dele. Estava espumando de raiva, e empunhava um revólver Colt. Apontou-o para cima. Fogg poderia deixar cair o aparelho ou pular para trás ou ainda ser atingido por um disparo. De fato, mesmo que o deixasse cair, poderia não se afastar a tempo. As feições do rajá passaram da raiva para o triunfo. Fogg resolveu que deveria tentar enganá-lo. Se continuasse a suspender o aparelho, seria atingido na certa. Sua única chance, e n|° muito boa, seria saltar para o lado e ao mesmo tempo puxar a corda. Se ele não conseguisse afastar o aparelho do rajá, então ficaria entalado. E isso aconteceu mais tarde de varias maneiras desagradáveis. O rajá berrou em inglês para que ele não se movesse ou receberia uma bala entre os olhos. Fogg estava admirado do rajá saber que ele era inglês. Também imaginava se seria verdadeira a fama do rajá como bom atirador. Com exceção do Capitão Moran do Exército hindu, o rajá era consideradoo melhor caçador da índia. Resolveu então lançar-se para um dos lados, já que a morte é a melhor do que ser capturado vivo. Uma sombra cobriu-o. Algo meio brilhante e meio escuro desceu veloz pelo poço. Como se tivesse saído do corpo de algum mágico escondido, o cabo d£ uma faca estava espetado na garganta do rajá. Ele precisou se inclinar para apontar o revólver, deixando sua garganta exposta. Os olhos de Dakkar brilharam e ele caiu. O seu revólver ao atingir o solo, disparou. Houve um grito, e um dos guardas caiu de bruços. Deve ter sido atingido pela bala. Fogg calmamente suspendeu o imã e o aparelho, retirou o imã pressionando a corda do relógio no estojo que o continha, fechou o estojo, tornou a ligar o imã e colocou-o novamente no poço. Tratou então de reaver o revólver. — Onde arranjou aquela faca que foi atirada? disse ele. Do homem a quem salvei dos crocodilos, disse Passepartout. — Infelizmente, ele devia temer o elefante e não os crocodilos. Apontou para um objeto estranho, o que sobrara após Kiouni tê-lo encontrado caído no caminho. O animal estava parado agora, mas ainda estava inquieto com olhos ameaçadores. Seus pés, corpo e cascos estavam salpicados de sangue. — Ótimo, disse Fogg. Passepartout sorriu satisfeito. — Aprendi outras coisas no circo, meu senhor, além de saltar e andar em um arame. — É evidente. — E que faremos agora, senhor, se posso saber? — Há um homem muito perigoso no palácio, disse Fogg. — Se ele estivesse em Londres, seria o mais perigoso de lá. Ou em qualquer outro lugar. Seria morto, mas isso é impossível agora. De fato, se não fizermos uma retirada estratégica, seremos as vítimas. Além disso... — Sim, meu senhor? — Não importa. Não podemos escolher muito. Ah, vejo os guardas avançando. -- Suba depressa no elefante. — Sem uma escada de cordas, meu senhor? Além disso, ele não está com jeito de quem vai deixar subir, com ou sem escada. — Se ele não deixar, iremos sem ele. Fogg tirou outro relógio do bolso. Acertou-o e colocou o imã entre ele e o aparelho. Os três estavam agora ligados pelo campo magnético. Ele abaixou o trio no poço alguns centímetros. Ele nada tinha para pôr na corda para evitar que os três objetos caíssem exceto o corpo do homem que morrera pisado. Não tivera tempo de arrastar o cadáver para o poço e colocá-lo na corda. A primeira descarga dos revólveres dos guardas atingiu o cúpula. Felizmente, os bundelcundianos estavam excitados e talvez fossem maus atiradores, como acontecia com muitos dos nativos mal treinados daquela época. Além disso, tinham apenas cinco fuzis; os restantes estavam equipados com mosquetes de carregar pela boca, armas sem nenhuma precisão. Mas à medida que o seu número aumentava, o volume do fogo iria permitir que atingissem o alvo. O elefante, sendo grande, seria atingido mesmo que ninguém atirasse nele. Se fosse ferido, ele arremeteria contra os dois, que não teriam para onde ir a não ser para dentro do tanque. O francês jogou a escada de cordas, que caiu alguns centímetros pelo chão. Ele agarrou o pescoço do animal e fez o máximo para imitar o parsi. Isso, somado às novas palavras pronunciadas por Fogg, acalmou o elefante. A essa altura, alguns dos guardas haviam saído da nuvem de fumaça até o ponto extremo do tanque e começaram a atirar. Mesmo assim, a fumaça os escondia. Fogg subiu depressa pela escada e puxou a corda. Kiouni foi conduzido em direção ao poço, e parou a alguns passos do mesmo. Foi o ponto mais próximo a que Fogg ousou chegar, já que os guardas deviam estar na sala embaixo. Ele não tinha certeza que essa distância era suficiente, mas precisava se arriscar. — Irradie, pelo amor de Deus! E de Passepartout! gritou o francês. —Irradie, irradie! Um grito partiu lá de cima. Passepartout olhou espantado. — Mãe do Céu! Vão atirar já para baixo! Eles não podem... Suas palavras foram abafadas pelos terríveis nove sons. E eles ficaram outra vez ensurdecidos, embora felizes. Pelo menos Passepartout sorriu. A expressão de Fogg, segurando a corda sem a sua carga, não se alterou. Um instante depois, os dois estavam atarefados subindo em Kiouni. Levou meia hora para levar o animal de nervos abalados novamente para perto do aparelho enterrado. Chegando ao local desejado, Passepartout desceu do elefante, retirou seu relógio, limpou sua superfície, e recolocou-o em sua primitiva corrente. Na lenta viagem de volta, Passepartout disse: — Senhor, pode-se fazer uma pergunta? - Pode, disse Fogg, embora a resposta não seja permitida. - Alguém parece levar um número grande de relógios fora do comum. — Isso é uma observação, e não uma pergunta. - Mas onde foram obtidos aqueles relógios mortíferos? Nada vi que indicasse a sua existência. Acho que ninguém poderia tê-los dado durante a viagem, não é verdade? - Eles estavam inicialmente no escritório de minha casa. Um homem que arrisca a sua vida para conseguir um relógio desses, não é de estranhar que tenha alguns em reserva. —- Mas, como conseguiu ocultá-los de minha vista? Não sou nenhum cego. — Estava desde o início no meu colete. — Entendo. E se algum capeleano os tivesse descoberto e aberto um para examinar? - O primeiro que fosse aberto, teria lhe arrancado a cabeça. — Mas, senhor, eu poderia ter achado um deles e sendo curioso... — Então, ficaria sabendo que existem coisas que não devem ser espionadas. Passepartout calou-se por uns instantes. Tirou o suor do rosto e disse: — E o aparelho do rajá? Havia uma bomba ligada ao mesmo? - Ajustada para explodir depois que fossemos transportados. Passepartout exclamou alegre: E agora voltamos para Londres? Matamos um major capeleano e destruímos seu aparelho. - Essa é a terceira pergunta, e você disse que só tinha uma em mente. Houve outro silêncio. Um leopardo gritou ao longe. O sr. Fogg disse: - Não voltaremos. A aposta não foi cancelada. — E esse homem perigoso que o senhor mencionou? — É aquele que eu lhe disse para vigiar, quando estávamos no Mongólia. E não há mais relógios. Passepartout desejava fazer mais perguntas, porém foi impedido pelo tom conclusivo de Fogg. Capítulo 11 Quando voltaram para a casa na floresta, encontraram o parsi ainda dormindo embaixo da árvore e Sir Francis na mesma posição em que o haviam deixado. Fizeram Kiouni voltar ao mesmo lugar sob a árvore onde o animal, meio dormindo, começou a arrancar os galhos das árvores e colocá-los em sua boca. Fogg e Passepartout entraram na casa, deitaram-se, e dessa vez ambos dormiram. Duas horas depois, foram acordados pelo parsi. O sr. Fogg perguntou-lhe se estava cansado por ter ficado acordado a noite toda. O parsi respondeu que não sentia o mínimo cansaço. Ele era capaz de prosseguir por vários dias sem dormir. Naturalmente, o sr. Fogg não fez nenhum comentário. Às seis horas, dois homens descançados e dois cansados subiram no elefante. Kiouni, apesar da falta de alimento e de sono, parecia ter enormes reservas de energia. Caminhava tão depressa como no dia anterior. Apesar disso, o guia comentou a tendência do animal em assustar-se com qualquer movimento repentino na selva ou dos animais nela existentes. E tiveram que parar durante meia-hora para que Kiouni pudesse comer e assim aquietar uma parte dos roncos de seu estômago. Atravessaram os contrafortes inferiores das Montanhas Vindhya e perto do meio-dia atravessaram um cidade no rio Kani, um afluente do grande Ganges, O condutor afastava Kiouni dos habitantes por questão de segurança. O sr. Fogg concordou com essa decisão. Os homens do rajá morto deviam estar a procura deles. Não havia motivo para incomodar o parsi e o general com a estória da noite passada, a qual, de qualquer maneira, não seria considerada verdadeira. Quando estavam a doze milhas de Allahabad, pararam perto de algumas bananeiras para descansar. Por volta das duas horas, penetraram em outra selva espessa. Passepartout estava satisfeito por estarem bem escondidos na mesma mas estava apreensivo pela sua proximidade da principal cidade de Bundelcund. Duas horas mais tarde, ainda continuavamna densa floresta, embora o parsi dissesse que logo sairiam dela. Passepartout estava a ponto de perguntar-lhe quando seria esse logo, quando o animal parou de repente. — Que diabo será agora? disse Sir Francis, esticando a cabeça para fora do howdah. — Não sei, meu senhor, disse o parsi. Eles ouviram vozes, de muita gente, vindo através da selva. Depois de alguns minutos, podiam distinguir tanto as vozes como os instrumentos musicais de latão e madeira. O parsi desceu, amarrou Kiouni a uma árvore, e afundou-se no meio das árvores. Logo depois, voltou. — Aproxima-se uma procissão de Brahmins. Precisamos nos esconder. Desamarrou a corda da árvore e conduziu o animal com suas montarias para dentro da espessura verde. Do seu esconderijo, os três em Kiouni podiam ver a procissão. Em primeiro lugar, vinham padres, depois muitos homens, mulheres e crianças. A multidão estava cantando um cântico triste, entremeado com o bater dos tambores e o soar dos tímbales, o sopro de flautas e o dedilhar de vários instrumentos de corda. Após a multidão seguia um carro grande com rodas enormes puxado por quatro zebus. Sir Francis, ao ver a odiosa imagem no carro, murmurou para os outros: — É Kali, a deusa do amor e da morte. — Talvez seja só da morte, disse Passepartout. — Mas do amor? Aquela velha bruxa? Impossível! O parsi pediu silêncio com um gesto. Uma multidão de velhos e barbudos faquires estava dançando de modo selvagem em volta do ídolo e cortando-se com facas. Depois deles, vinham mais Brahmins. Levavam uma mulher jovem que não parecia ser uma participante voluntária daquela parada. Apesar de sua expressão dura e passos incertos, ela era bonita. Seus cabelos eram negros, seus olhos castanhos, porém sua pele era completamente branca como a de qualquer inglês. Ela usava uma túnica de bordas douradas e um manto leve de musseline que combinava com um porte esbelto. Estava toda enfeitada com braceletes, anéis e brincos com jóias encrustadas. Acompanhavam-na homens certamente encarregados de evitar que ela fugisse. Os mesmos usavam sabres e revólveres de cano longo enfeitados. Quatro deles levavam também um palanquim no qual se achava um defunto ricamente trajado. Fogg nada disse. Passepartout assobiou de espanto. O corpo era do rajá de Bundelcund. Atrás dele havia músico^ e outros faquires dançarinos de linhagem real. Sir Francis, com ar pesaroso, disse: -- É um sacrifício. Depois de passada a parada, Fogg disse: — O que é um suttee? Isso era de estranhar em uma pessoa de alta cultura como Fogg. Talvez Verne tenha incluído essa pergunta para dar a Sir Francis a oportunidade de esclarecer o leitor. - Um suttee é um sacrifício humano voluntário. A mulher que acabamos de ver será queimada amanhã cedo. — Oh, que patifes! gritou Passepartout. — E o corpo? perguntou o sr. Fogg. - É o de seu marido, um rajá independente de Bandelcund. Fogg disse, então, imperturbável: — Será possível que ainda existam esses costumes bárbaros na índia? Por quê não deram um paradeiro a isso? - Eles já não existem em boa parte da índia. Porém não temos autoridade nas regiões selvagens e especialmente em Bundelcund. Todo o município ao norte das Vindhyas é palco incessante de crimes e pilhagens. — Pobre mulher! disse Passepartout. — Ser queimada viva! Sir Francis explicou que se uma viúva conseguisse escapar do sacrifício, ela seria tratada com o máximo desprezo pelos seus parentes, bem como por todos os que soubessem de sua recusa de tornar-se cinza com seu marido. Teria que raspar a cabeça e viver com o mínimo alimento possível. Seria considerada inferior a um pária, porque até esses juntam-se com seus iguais. Poderia, até mesmo morrer de vergonha e desgosto. Sir Francis não sabia que esse não era exatamente o caso dessa pobre mulher. Se ela pudesse escapar de Bundelcund, iria morar com seus parentes na longínqua Bombaim. Eles eram parsis que não toleram o suttee, Esta seita, descendentes dos adoradores do fogo, persas, cujo profeta era Zoroastro, tinham hábitos diferentes dos indús, como eram diferentes os dos judeus ortodoxos dos seus vizinhos gentios. O parsi não concordou com Sir Francis. — O sacrifício não é voluntário, disse ele. - Como sabe disso? — Todo mundo sabe disso em Bundelcund. Essa declaração é outro dos muitos mistérios na estória A Volta ao Mundo em Oitenta Dias. Esse parsi vivia a apenas trinta milhas das fronteiras de Bundelcund. Apesar disso, considerando as montanhas, a selva, e o isolamento da pequena cidade, era corno se vivesse a trezentas milhas da fronteira. Os habitantes de Bundelcund eram hostis ao seu povo e ao que parece não trocavam noticias com eles através da selva. E como teria ele sabido da morte do rajá? Não falara com ninguém com exceção dos três europeus" desde o inicio da viagem, e o rajá havia morrido apenas na noite anterior. Todavia, J. Verne diz que ele sabia de tudo. A verdade parece ser que nenhum dos viajantes poderia ter sabido de tal fato, se a estória de Verne foi como ele relatou. Naturalmente, Fogg e Passepartout sabiam que o rajá estava morto. Porém não poderiam ter falado, e Verne não sabia do que realmente acontecera aquela noite. Entretanto, o parsi afirmou que a viúva do rajá fora drogada com fumaça de cânhamo e ópio. Isso teria indicado a ele que ela fora posta em um estado em que não se arruinaria e nem prejudicaria a comunidade, resistindo. Foi isso o que aconteceu. J. Verne, como todo bom novelista, inseriu alguns comentários de caráter puramente fictício para informar ao leitor rapidamente o que estava acontecendo. Além disso, teria sido bastante forte o impulso do sr. Fogg para salvar a mulher desse horrível ritual? Por quê teria ele se arriscado em sua missão tão importante e a aposta, para tentar um resgate quase impossível? Será que foi apenas um senso de humanidade que o fez intervir? Talvez fosse. Talvez houvesse também o fato, que ninguém mencionou, de Fogg ter se apaixonado, a primeira vista pela bela mulher. Porém o diário revela que havia um outro motivo, realmente mais forte. Tinha sido colocado um eridaneano dentro do palácio do rajá. Foi o que fez a descrição da sala na qual o rajá guardava o aparelho. Ela, pois esse eridaneano era uma mulher, havia chegado tão próximo do rajá mais do que qualquer outra pessoa. Sua beleza e encanto possibilitaram atrair a atenção do rajá facilmente, e daí para o casamento foi apenas um passo. Fogg havia sido inteirado disso de há muito por Stuart através do jogo de uiste. Esse é o motivo por que, quando a viagem estava prestes a terminar, Fogg disse: — E se salvarmos essa mulher? Sir Francis exclamou: — O que? salvar essa mulher, sr. Fogg? — Tenho doze horas de reserva. Posso gastá-las com isso. — Ora, disse Sir Francis, — o sr. é um sentimental! — As vezes, quando tenho tempo, -- respondeu Fogg. Sir Francis deve ter ficado intrigado com esse homem cujas emoções podiam ao que parece, serem ligadas e desligadas como se houvesse um maquinismo. Mas, o que ele não sabia era que Fogg não podia resolver se poderia ou não ter uma dada emoção. A emoção surgia, a contragosto, porém ele podia deixá-la de lado, armazená-la em seu sistema nervoso, onde a carga emocional poderia circular, como uma corrente em um circuito supercondutor atual. Porém, ele não podia eliminar a emoção, porque ela não morreria. Cedo ou tarde, ele teria que pagar o preço da armazenagem, e sofreria o dobro ou o triplo da emoção original. Os outros dois europeus apoiavam totalmente a idéia. Mas, e o guia parsi? Não se podia esperar que ele arriscasse a sua vida, porém podia concordar em ficar na retaguarda e esperá-los. Até isso seria perigoso para ele. Ele respondeu que era um parsi e que a mulher também era. Estava empenhado nisso para sempre. Verne diz que o parsi sabia tudo a respeito dela. É provável que J. Verne tenha obtido isso do diário comum de Fogg e inclui essa conversa informativa sobre ela nas palavras do parsi, para esclarecer o leitor. Seja como for, sabemos que ela era uma famosa beldade, filha de um ricocomerciante de Bombaim. Se ela era tão famosa, nesse caso o parsi deve ter ouvido afinal de contas falarem dela. Os viajantes que passavam nessa remota cidade devem ter comentado a seu respeito. O nome da mulher era Aouda Jejeebhoy, e havia sido educada em uma escola inglesa em Bombaim. Isso, acrescido de sua pele branca, permitiu que passasse como sendo européia. Era parente de um rico parsi, que tinha sido feito baronete pela rainha. Era ele Sir Jamatsee Jejeebhoy, o qual pode ser encontrado relacionado, pelo leitor curioso, com alguns detalhes biográficos, no livro Peerage de Burke. O parsi disse que após a morte dos parentes dela, tinha sido obrigada a casar-se com o rajá. (Naturalmente, isso era o que acreditava o público e o rajá. Ela tinha conseguido fazer com que parecesse que ela era uma vitima. Se ela estivesse ansiosa por casar com ele, teria despertado suspeitas.) Entretanto, o parsi estava certo em dizer que ela havia fugido logo após a morte do rajá, porém tinha sido capturada e voltara para a capital. Os parentes do rajá insistiam para que ela realizasse o sacrifício, uma vez que não queriam que ela herdasse a fortuna do rajá. Isso talvez fosse verdade, pensou Fogg. Se Nemo tivesse descoberto, ou mesmo suspeitado, que ela era uma eridaneana, ele a teria salvo do sacrifício. Ela seria muito valiosa como fonte de informação para ele, para que fosse perdida na pira funerária. Mas é possível que Nemo não tivesse mais nenhuma influência em Bundelcund e achava-se incapaz de evitar a morte prematura dela. O parsi guiou os viajantes até o templo de Pillaji, onde a desagradável cerimônia devia ter lugar. Trinta minutos mais tarde, eles estavam escondidos em um denso matagal a cerca de setenta metros do templo Brahmin. Kiouni fazia muito ruído arrancando os galhos das árvores e comendo-os, porém isso não podia ser evitado. O animal estava faminto, e qualquer tentativa para impedi-lo poderia resultar em um barulho ainda maior. Felizmente, a distância da multidão, o alarido que faziam, e a vegetação espessa que circundava os viajantes impediam que os habitantes de Bundelcund reparassem nos sons que o elefante produzia. Fogg inquiriu do guia a respeito do diagrama da região em volta do templo, o seu desenho interno, e a conduta dos indús em tais ocasiões. Verne diz que o parsi conhecia bem o templo. Porém qual seria o motivo para um parsi penetrar em um templo hindu, principalmente um em território inimigo? Talvez, sendo inteligente, e portanto curioso, o parsi havia obtido seu conhecimento perguntando a vários indús de sua cidade, ou viajantes, que tinham ido lá adorar. O templo Pillaji parece ter sido muito famoso. O grupo permaneceu no matagal até o cair da noite. Nesse ínterim, continuavam com medo de serem descobertos. Kiouni não parará de se alimentar, e de vez em quando, as crianças se afastavam da multidão e chegavam perto do esconderijo. Uma das vezes, três meninos de dez anos, brincando de uma espécie de esconde-esconde, dirigiram-se na direção do matagal. Já estavam bem perto quando a mãe de um deles, veio procurá-los. Kiouni estava pondo alguns ramos quebrados em sua boca nessa ocasião, de modo que o ruído feito no mato não chamou a atenção dela. Além disso, o vento soprava na direção dos viajantes e contribuiu para afastar o ruído da multidão. Apesar disso, tiveram seus momentos de ansiedade. Com o por do sol, o barulho da multidão começou a diminuir. Kiouni tinha, a essa altura, depenado metade das árvores, mas seu estômago cheio, estava agora em descanso. Os celebrantes não estavam apenas exaustos; estavam sonolentos sob o efeito do ópio líquido misturado com haxixe. Esse uso de tais drogas e outros detalhes da descrição de J. Verne, indicam que os habitantes de Bundelcund não pertenciam a uma seita convencional do hinduismo. Os bundelcundianos eram, afinal de contas, devotos da deusa Kali e sem dúvida considerados não ortodoxos, mesmo pelos outros ramos desse culto específico. Havia elementos de uma religião pré-indu na religião bundelcundiana, ao que parece, adotada de seus primitivos habitantes, os negritos que sobrevivem atualmente apenas nas florestas das montanhas. O relato de Fogg confirma a descrição de Verne, portanto podemos aceitá-la como verdadeiro que esse devotos de Kali usavam de fato ópio e outras drogas. Após o escurecer, o parsi saiu às escondidas para observar a situação de perto. Verificou que a multidão inteira estava deitada num estado de estupor, inclusive as crianças. As infelizes exceções eram os padres e os guardas, alertas dentro do templo. Fogg ao ouvir isso, ficou impassível. Esperariam para ver se as pessoas no templo também iriam dormir mais tarde. À meia-noite, tornou-se evidente que os guardas pretendiam ficar acordados a noite toda. Fogg deu uma ordem, e os viajantes saíram dentro da noite sem lua, pois havia uma camada de grossas nuvens. Pararam na parede dos fundos do templo e começaram a escavar com seus canivetes. Felizmente, após a remoção de um tijolo, os outros saíram sem maior esforço. Por uma vez, tiveram que voltar para dentro do mato, porque °s guardas foram perturbados por um grito. Isso fez com que Sir Francis e o parsi discutissem se deviam desistir de sua tentativa de salvamento. Qualquer que tenha sido a causa do grito, os guardas ficariam agora mais atentos. E o dia não tardaria a romper. Fogg respondeu que desejava ficar até que não houvesse nenhuma esperança. Algo podia acontecer que os beneficiasse. Passepartout, vigiando em cima do ramo de uma árvore, teve uma idéia repentina. Sem nada dizer aos outros, desceu da árvore e saiu dali. Sua atitude foi motivada apenas por solidariedade. Ele não sabia na ocasião que aquela mulher era uma eridaneana. Pela manhã, Aouda Jejeebhoy foi trazida para fora do templo. A multidão havia se recuperado de seu estupor, e as vozes e a música eram agora mais fortes do que nunca. Aouda lutava até ser colocada perto do ópio e do haxixe em combustão e forçada a respirá-los. Sir Francis, bastante tocado por essa cena lamentável, segurou a mão de Fogg e nela encontrou uma faca. Porém Fogg não se atirou contra a multidão brandindo sua faca em um esforço inútil para salvá-la. Verne diz que, nesse ponto, Fogg e os outros dois homens se misturaram na retaguarda da multidão e seguiram-na até a pira. Isso evidentemente não é verdade, uma vez que seriam notados e dominados. Na realidade, eles ficaram a uma certa distância e tiveram o cuidado de se esconder atrás dos arbustos. Verne não diz o que Fogg pensou a respeito do desaparecimento não autorizado de Passepartout. Fogg relata que ele supusera que o francês estaria ainda em sua árvore, como posto de observação. Os três homens viram então a mulher sem sentidos colocada ao lado do corpo do rajá. Viram a lenha na pira embebida em gasolina, sendo acesa com uma tocha. Fogg parece ter perdido o seu auto-controle. Estava prestes a se lançar contra a multidão quando Sir Francis e o parsi o agarraram. Apesar de seus esforços, ele conseguiu desvencilhar-se e estava a ponto de lançar-se novamente quando algo inesperado e terrível aconteceu. A multidão inteira, gritando de pavor, prostrou-se com o rosto em terra e ficou amedrontada. 0 falecido rajá tinha se sentado, depois levantou-se, tomou Aouda em seus braços, e descia agora da pira. A fumaça se espalhava ao seu redor como se ele fosse um demônio carregando uma pobre alma perdida, através dos fogos do inferno. Ele caminhou através da multidão prostrada para o grupo que estava na retaguarda, os quais haviam todo saído de seus esconderijos. O rajá ressuscitado, como todos sabem, era Passepartout. Na escuridão, enquanto a multidão dormia, ele havia retirado o corpo do rajá, enterrando-o sob as achas de lenha, vestira suas roupas, e se deitara na mesma posição e lugar do homem morto. Realmente, o rajá morto estava logo abaixo dele Instantes depois, Kiouni, despertado de seu sono, suportando cinco ou seis pessoas no lombo, sairá correndo como se entendesse a necessidade de uma partida rápida.Gritos e tiros ressoavam atrás dele, e uma bala furou o chapéu do sr. Fogg. 0 fogo tinha a essa altura deixado exposto o corpo do rajá. Os adoradores da deusa Kali entenderam depressa que tinham sido não só enganados, mas também de uma forma inesperada. Como não. tivessem elefantes nem cavalos a sua disposição, ficaram logo bem distanciados. Capítulo 12 Passepartout estava satisfeito com sua façanha. Sir Francis apertou-lhe a mão. Fogg disse: "Bom trabalho, embora deva ter pensado que o criado, que estava, afinal de contas, sob suas ordens, devia tê-lo consultado antes de agir. Entretanto, ele era notoriamente discreto. E era um costume dos eridaneanos agir por conta própria se as circunstâncias o exigissem. Sir Francis contou a Fogg que a mulher nunca estaria segura outra vez na índia. Os fanáticos de Kali a descobririam para estrangulá-la. Em Allahabad, a jovem mulher esperou em uma sala da estação ferroviária enquanto Passepartout comprava roupas apropriadas para ela. Embora Verne não diga isso, ele deve ter comprado roupas para ele também. Quando entrou em Allahabad, ainda usava os trajes que tirara do rajá. A sua roupa tinha sido queimada na pira. No trem para Benares, Aouda refez-se inteiramente. Naturalmente, ela estava aturdida, pois esperava acordar no paraíso parsi. Fogg não fez menção a essa altura, de suas ligações eridaneanas. Ele pretendia passar perante ela com a imagem que o mundo fazia dele, como sendo um cavalheiro inglês excêntrico. Ofereceu-se para levá-la consigo até Hong Kong. Ao que parece, ela possuía nessa cidade, um primo comerciante rico. Em Benares, Sir Francis, que devia retornar à sua brigada, despediu-se deles afetuosamente. Disse que nunca mais esqueceria a sua aventura, e Fogg e Passepartout não o esclareceram naquela em que não havia participado. No dia 25 de outubro, exatamente dentro do horário, o grupo chegou a Calcutá. Os dois dias ganhos na viagem de Londres a Bombaim foram perdidos na viagem através da índia. Verne diz que deve-se supor que Fogg não lamentou a perda. ? alou com maior sinceridade do que era de esperar. Ao deixarem a estação ferroviária, um policial pediu gentilmente aos dois que o acompanhassem. Aouda acompanhou-os até o posto policial. Lá foram detidos para julgamento que deveria ter início às 8:30 daquela manhã. Não lhes disseram porque estavam sendo detidos, o que é de estranhar, já que a lei inglesa exige que as pessoas sejam informadas. Aouda disse que era devido a terem interferido com o suttee. Fogg respondeu que isso era muito pouco provável. Quem se incomodaria de queixar-se às autoridades? Quaisquer que fossem os acontecimentos, ele não abandonaria Aouda. Iria com ela para Hong Kong. Passepartout, limpando o suor da testa, gritou: — Mas, o navio parte ao meio-dia! — Estaremos a bordo ao meio-dia, disse Fogg. Na hora aprazada, os três foram trazidos perante o tribunal. Nessa ocasião ficaram cientes das acusações que lhe faziam. Não tinha sido o caso do templo de Pillaji a causa de sua prisão. Era o que sucedera no templo de Malabar Hill em Bombaim. Fix, a quem vira por último em Bombaim, havia viajado com os três padres para Calcutá. Devido a Fogg e o grupo se atrasarem no salvamento de Aouda, Fix e o seu grupo tinha-os rechaçado para Calcutá. Nessa cidade eles se queixaram às autoridades britânicas da profanação do templo feita por Passepartout. Fix, que havia pago a sua passagem, tinha também prometido que obteria uma boa indenização. Ao ver chegar Fogg e seu grupo, tinha pedido ao policial para detê-los. Sentado irreverentemente a um canto, Fix assistiu ao julgamento. Estava satisfeito com o veredito. Passepartout foi multado em trezentas libras e levou quinze dias de prisão. Uma vez que Fogg, como patrão, era responsável por seu empregado, foi sentenciado a sete dias de prisão e multado em cento e cinqüenta libras. Fix sabia que havia agora tempo para chegar a ordem de prisão. E enquanto Fogg voltava para a Inglaterra como prisioneiro de Fix, muitas coisas podiam — e deviam — acontecer a Fogg. Entretanto, o sr. Fogg reclamou o seu direito à fiança. Fix assustou-se com isso porém reanimou-se quando soube que a fiança seria de mil libras A seguir, tornou a se assustar, quando Fogg pagou a fiança de seu próprio bolso. Passepartout insistia para que lhe devolvesse os sapatos que ele deixara no templo. Eram aqueles que ele reclamava não só terem custado mil libras cada um, como também lhe machucavam os pés. Fix, esperando que Fogg nunca deixaria duas mil libras, seguia-o às escondidas. Para seu pesar, ele viu o grupo tomar um pequeno barco e rumar para o navio Rangoon. Ele nada podia fazer exceto segui-los até Hong Kong. Até o momento, pensou ele, tinha falhado em "prendê-los". Conseguiu entrar no Rangoon sem ser visto pelo francês. Mas antes deu ordens para que a ordem de prisão, quando chegasse, devia ser enviada para Hong Kong. Fix permaneceu em sua cabine, o mais possível. Enquanto lá estava, ele refletia sobre o acréscimo feito ao grupo. De onde ela viera? Quem era ela? Seria uma eridaneana? Isso seria o mais provável, uma vez que Fix não podia conceber uma pessoa não humana e impassível como Fogg ligando-se a uma moça. Ficando entediado na cabina, e convencido de que Passepartout poderia dar-lhe maiores informações, Fix deixou os seus aposentos. Estávamos a treze de outubro; no dia seguinte, o Rangoon faria uma breve escala em Singapura. Fix localizou o francês, que estava passeando no convés anterior de primeira classe. Fingindo surpresa por vê-lo a bordo, Fix cumprimentou-o. Explicou a Passepartout que negócios inesperados em Hong Kong eram responsáveis por sua presença no navio. Não estivera no convés antes devido a enjôo do mar, que o prendera ao leito. Mostrou-se surpreso ao ouvir do francês que uma jovem estava agora em companhia do sr. Fogg — embora, naturalmente, em uma cabine separada. Passepartout contou a história do salvamento, a sua fuga, o julgamento, e a fiança. A mulher, Fix ficou sabendo, devia ser deixada em Hong Kong na casa de um parente. Ouvindo isso, Fix pensou que talvez ela não fosse uma inimiga. Desapontado, desistiu dê seu plano para prender Fogg em Hong Kong sob pretexto de danos morais. A conduta de Fogg para com Aouda, era impecável, segundo Passepartout. Fix convidou Passepartout para beber um gole de gin em sua companhia. Talvez o francês bebesse demais e se tornasse indiscreto. Mais tarde, Passepartout, tendo deixado Fix seguir cambaleando para sua cabina, comunicou-se com Fogg. Esse indivíduo, Fix, estava ao que parece, seguindo-o. Restava descobrir se era apenas um detetive ou um capeleano. Segundo J. Verne, quase nada houve em Singapura. Enquanto o Rangoon se reabastecia, Fogg e Aouda deram um longo passeio pela cidade e as circunvizinhanças. Fix seguiu-os de modo tão discreto que passou despercebido. Entretanto, Passepartout havia seguido Fix durante algum tempo, viu quem ele estava seguindo, e afastou-se para tratar de outros assuntos. Às onze horas, com uma hora e meia de adiantamento, o navio zarpou da colônia fundada pelos ingleses. Quando Fix voltou à sua cabina, encontrou à sua espera um homem que havia conhecido em outra ocasião. Sabemos disso porque está registrado no diário secreto de Fogg, embora ele só soubesse do encontro muito mais tarde. O homem estava sentado em uma poltrona, com as suas longas pernas musculosas estiradas, com os saltos de suas botas apoiadas na mesa. Embora aparentasse uns quarenta anos de idade, tinha o físico de um atleta de vinte e cinco. Sua cintura era estreita; seu peito era largo e espesso; seus ombros eram largos. Seu nariz era comprido e reto. Os lábios eram finos e o queixo saliente; a testa era alta e proeminente. Seus olhos eram cinzento-claro e bem distanciados, atingindo quase cento e oitenta graus. Fumava um charuto longo e fino, cuja marca e aroma Fix não pode identificar. Tinha um certo odor salgado. - Sente-se, Fix, disse o intruso em capeleano. -- Tem alguma coisa interessante para relatar? Fix sentou-se comose não pudesse obedecer muito depressa. Seu nervosismo tornou-se ainda mais visível a medida em que contava o que acontecera desde o dia em que ele encontrara o Mongólia em Suez. Enquanto falava, não podia deixar de pensar se o seu visitante era um dos Antigos ou um humano adotado. Aqueles olhos bem distanciados e o ar sobre-humano e superinteligente que neles havia! Porém ele não ousava perguntar. Seja como for, isso não fazia diferença. Estava sob as ordens dessa pessoa, fosse ela humana ou alienígena. E tratava-se de uma pessoa implacável. Uma completa falta de compaixão desprendia-se do mesmo formando uma auréola quase visível, se podemos conceber uma qualidade negativa irradiante. Após a extensa narrativa de Fix, o homem endireitou-se na poltrona. — Você continuará a segui-lo, durante todo o trajeto de volta a Londres, se for necessário. E continue a sua amizade com esse tal de Passepartout. Ele é sem dúvida um eridaneano. Aquele relógio que ele se recusa a acertar parece suspeito. Pode conter um aparelho. Um deles contém um aparelho. Esse homem era um dos que Fogg havia chamado de Nemo, quando o vira no palácio do rajá. Nemo sabia que Passepartout era cúmplice de Fogg. Ele não o tinha visto durante a incursão, porém os soldados na cúpula haviam feito a descrição do francês. O fato dele não se importar de contar isso a Fix foi um erro devido a sua arrogância. Fix era apenas um subordinado não muito competente na sua opinião. Por quê contaria ele a Fix que tinha certeza que Passepartout era um eridaneano? Havia declarado que o francês era um eridaneano e isso era o bastante para Fix. Entretanto, isso não bastava para Fix. Ele considerou essa declaração como baseada apenas em uma suspeita. Em sua opinião, Passepartout podia ser apenas um simples ser humano. Fix tinha algumas perguntas e algumas sugestões, porém não as formulou. Esse homem era, na certa, aquele que dera ordens e não se dava ao trabalho de discuti-las. Fix ficaria contente quando se fosse embora. - Tanto Fogg como Passepartout, disse o homem, sabem que você não é apenas um detetive. Não sei por quê eles não tentaram matá-lo e nem obter informações suas. Devem saber que você pode tentar matá-los a qualquer momento e que isso lhe será fácil. Além disso, podem estar esperando para agir até que seus planos evoluam. Possuem nervos de aço, são corajosos e inteligentes — para serem eridaneanos. Tenho boas razões para saber disso. Tirou algumas baforadas em seu charuto. Fix gostara que ele lhe dissesse por quê tinha boas razões para saber. Pensou também que ele tivesse identificado pelo menos um dos elementos pelo odor do charuto. Seriam algas marinhas? Mas, nesse caso, era uma alga especial, pois a fumaça era muito agradável, até para quem não fumasse. 0 homem, como se lesse em sua mente, disse: - - Esse é o penúltimo charuto. Depois voltarei a usar os que são mais fáceis de encontrar. Continuando a fumar sem parar, disse: - - Acho que vou guardá-lo para uma ocasião especial, como por exemplo a morte de Fogg, o qual, a propósito tem alguma afinidade com ele. Onde o vi antes? Fix suava cada vez mais. Se um superior falar muito com um inferior, isso pode significar que ele não se importa mais que o subalterno fique sabendo de tudo. Isto é, esse subalterno deverá morrer. Porém, o que havia ele feito? Em que ponto tinha falhado? Tinha executado todas as ordens, e não tinha culpa de Londres não haver mandado a ordem de prisão. 0 homem, cuja expressão não se abrandara por nenhum sinal de emoção, a não ser que a frieza fosse uma delas, começou a sorrir. - Posso contar-lhe o que se passa. Mas posso também dizer-lhe que nunca as coisas correram tão bem para nós. Há um trabalho muito importante, talvez o mais importante de todos em nossa estória, já em andamento e que possivelmente porá um termo em nossa guerra com os eridaneanos. Fix levantou-se: - É incrível! - Não se eu lhe disser. — Desculpe-me, senhor. Mas não um fim! Sim, o fim da guerra. - Mas eles nunca deixarão de lutar contra nós! O homem parou de sorrir. - Você pensa de um modo estranho, talvez estranho demais. Crê de fato que faríamos um tratado de paz com aqueles demônios? Ou então — bateu o charuto como se fosse uma faca - - você espera que façamos? A paz será estabelecida apenas quando todos os eridaneanos forem pacíficos. Isto é, quando estiverem todos mortos. - Desculpe-me, gaguejou Fix, com o suor escorrendo pelo rosto. — Fiquei tão abalado com suas notícias! — Ah, é assim? Pois bem, esse isolamento quase completo, esse segredo, essa falta de comunicação, fica bem para os soldados no campo de batalha. Porém ela tem o seu efeito nocivo, também. Como se pode manter uma comunhão de interesses, uma nação secreta, unida, se os seus componentes perdem o sentido de comunidade, de comunhão, de igualdade, como era antes. - A verdade é que se não fosse por um motivo, tanto os eridaneanos como os capeleanos já se teriam extinguido de há muito. A maioria dos Antigos está morta. Mesmo os atuais, com poucas exceções, são da segunda ou terceira geração. Todas as mulheres dos Antigos foram mortas durante a guerra ou são estéreis. Algum elemento necessário para a concepção parece estar faltando no solo da Terra. Não se trata de segredo, portanto não fique tão assustado. As primeiras naves continham apenas cinco mulheres cada uma, e tanto nós como nossos inimigos escolhemos as mulheres como alvo principal de nossa guerra. Porém você sabe disso. Ou será que esse segredo foi assim mantido que ninguém lhe contou? Fix achou que esse homem, embora parecesse inflexível superficialmente, e sem dúvida assim o era, continuava sendo humano. Ele estava "visitando" tentando restabelecer alguma razão de ser capeleano. Por outro lado, ele poderia estar apenas testando-o ou agradando-o para depois reservar-lhe algo desagradável. Fix sentiu-se isolado apenas porque tinha estado ausente de sua casa há muito tempo e estava em um país, do qual não gostava. Em Londres, ele tinha esposa (naturalmente, uma capeleana) e três filhos. Os filhos tinham sido condicionados desde a época em que começaram a falar. Eles ouviam agora histórias dele e de sua mulher em planetas distantes e sobre vôos espaciais e guerras galácticas. Eles pensavam que se tratasse de contos de fadas, mas dentro de alguns anos eles seriam admitidos na irmandade sangrenta, no caso de serem aprovados em certos testes. Um dos Antigos ofertaria um pouco de seu sangue para ser misturado em suas veias. Fix amava sua mulher e filhos. Gostava de chegar em casa após um dia árduo de trabalho localizando criminosos, prendendo-os, e as vezes submetendo-os a interrogatórios. Naturalmente, só quando ele tinha certeza absoluta de que se tratava de criminosos e que tinham cometido crimes tais como assassinato, atentado ao pudor ou sodomia. Se a vida rotineira de policial tornava-se árdua como acontecia com freqüência, ela era abrandada pela utilização por ele de códigos secretos, mensagens cifradas, e as missões contra os maléficos eridaneanos. Porém ele gostava que suas missões fossem em seu país natal. Afinal de contas, ele era inglês. — Duas coisas nos impediram de desintegrar — dizia o homem. — Uma delas, o medo de morrer no caso de falharmos. A outra, mais poderosa, é a possibilidade de viver durante mil anos. A maioria dos homens e mulheres venderiam suas almas se possuíssem alguma — para obter essa dádiva. Mas, a verdade é que, sendo criados como capeleanos ou eridaneanos isso se torna um cimento que nos une. E nós temos ideais. Pretendemos, quando o inimigo estiver derrotado, mergulhar o mundo numa onda de paz, prosperidade, ausência de doença e sofrimento, e fraternidade. Continuou a fumar, formando grossas nuvens de fumaça esverdeada, sorriu e disse: - Esse mundo será governado pelos únicos que possuem o conhecimento antigo sobre ele. Ou seja, nós. E nossos netos podreão estar entre os aristocratas, Fix. — Sim, senhor. - Seja como for, você tem agora quarenta anos de idade e não quer ficar mais velho, fisicamente, durante oitocentosou novecentos anos. Mas, pode ser morto, Fix. E seus inimigos desejam matá-lo. Portanto, tem de matá-los primeiro. Não é verdade? — É sim, senhor. - Mas, é melhor agarrá-los vivos primeiro para que possamos encontrar os outros e pegá-los também. — Sim, senhor. - Portanto, faça a sua parte. Fogg e Passepartout farão as suas até que tudo esteja terminado. Nesse ínterim, o que pensa sobre essa mulher? - Ela é possivelmente uma eridaneana, disse Fix. Como a conversa de Nemo indicasse uma certa incerteza sobre a verdadeira identidade de Aouda, pode-se supor com certeza que ele nunca a vira antes O rajá de Bundelcund havia evidentemente mantido a mulher escondida em seu harém, e Nemo havia saído de Bundelcund logo após a morte do rajá. — Parece improvável, disse ele, que dois eridaneanos tenham arriscado suas vidas por alguém que não fosse de sua espécie. - Nada sei sobre isso, senhor, se me permite, disse Fix - Esse Fogg é um sujeito estranho. Ele não sente medo, por assim dizer, senhor. E trata-se de um inglês. — Você a teria libertado? - Sim, senhor. Como inglês teria, mas não como capeleano, a não ser que tivesse recebido ordens nesse sentido. - E qual é, na sua opinião, a ação mais humana, Fix? -disse o homem com uma ponta de ironia. — A mais humana, senhor? Fix calou-se por um momento, e depois sorriu. — Ser humano, senhor, e capaz de ambas as ações que o senhor mencionou, acho que elas são iguais. Quanto ao sentimentalismo, meu senhor, qual é a palavra para isso? Compa...? — Compaixão, Fix. Posso citar-lhes a sua definição dada no dicionário, bem como qualquer outra palavra do mesmo e na Enciclopédia Britânica de 1871. Mas duvido que ele conheça de fato a palavra, pensou Fix. A palavra é uma sombra, mas que dizer da sua essência? Sua mente sabe, porém não está ligada ao seu coração. E é no sentimento que vale a pena saber qualquer coisa. O que esse homem disse sobre a medicina do milênio, segundo as palavras de Fix, fez sentido apesar disso. Ele desejava viver durante mil anos. Desejava intensamente que seus filhos partilhassem essa longa vida. Mas havia a possibilidade de pelo menos um de seus filhos não ter permissão para tanto. Se os seus chefes decidissem que a criança era muito instável emotivamente, que ele ou ela poderiam denunciar para o mundo, então nesse caso essa criança não participaria nem do sangue e nem do elixir. E a sua pequena Annie, sua adorada Annie, mostrava sinais de histeria. O homem levantou-se de repente. Era muito alto, pelo menos com um metro e noventa de altura. E, segundo conjeturava Fix, não havia dolo naquela culta voz inglesa. Seria esse homem de descendência irlandesa? — Vou ficar escondido, disse o homem. — Mas estarei por perto. Quando chegar a hora, saberão a meu respeito. Nesse ínterim, faça seu papel. E atrase Fogg o mais possível sem que ele o perceba. Vamos torcer para que a ordem de prisão já esteja em Hong Kong. Se estiver, tentaremos evitar que ele chegue a tempo na América ou mesmo que chegue. Não houve cumprimentos. Nem despedidas. Ele saiu andando normalmente, embora fechasse a porta com cuidado. O senhor Fix exclamou: — Que alívio! Tirou um lenço do bolso para limpar o suor. Teve a impressão He que um tigre havia desistido de devorá-lo. A sala estava saturada com o odor da fera. Era algo que só podia ser sentido por quem tivesse um feixe de nervos extras em seu nariz. Assim como ele se gabara perante o cônsul britânico que podia farejar um criminoso, assim também ele podia sentir o odor de um tigre humano em um ser humano. No caso atual, o homem rescendia tanto a criminoso como a tigre. Fix teria tido pena de Fogg e Passepartout, se eles não fossem eridaneanos. E, mesmo assim, ele nunca teria esse sentimento. Só pensava no inimigo como se fossem canalhas, por sinal que da pior espécie. Além disso, estava satisfeito porque o homem com grandes olhos espaçados não lhe mandara assassinar os dois. A estória narrada por Verne sobre os contratempos de Fogg, desse ponto até o meridiano 180 é bem conhecida. Os acontecimentos desse período são descritos brevemente agora para aqueles que leram a estória há muito tempo e já esqueceram muita coisa. Evidentemente, Aouda se apaixonara por Fogg. Aquele cavalheiro, se havia percebido isso, não dera demonstração de saber. Passepartout não podia compreender por quê Fogg não correspondia ao amor dela. Ele deveria corresponder. Uma tempestade atrasou vinte horas a viagem do Rangoon. Fix, embora tendo ficado enjoado devido a tempestade, tinha uma compensação. Talvez esse atraso daria tempo para a ordem de prisão chegar a Hong Kong, e então ele poderia prender Fogg. Apesar disso, havia ocasiões em que Fix desejava que a ordem de prisão não chegasse a tempo a seu destino. Uma vez que tivesse algemado Fogg, teria de tomar parte no rapto e tortura de Fogg. Não, ele não tomaria parte. Aquele homem não o levaria junto com Fogg, uma vez que pareceria estranho que ele, Fix, desaparecesse também. Ele teria que bancar o detetive enganado, que teria sido incompetente deixando escapar um preso. Fix sentiu-se melhor ao pensar nisso. Ele não considerava o fato de que seria tão responsável por tudo que acontecesse a Fogg como se ele mesmo o estivesse torturando e depois matando. Em que pensava ele? Fogg assim o quisera; tudo que fizessem a ele não seria o bastante. Finalmente, a tempestade amainou e com ela os pensamentos conturbados e de culpa de Fix. O Rangoon estava com um dia de atraso; Phileas Fogg parecia fadado a perder o vapor para Yokohama. Passepartout temia indagar sobre o navio para Yokohama. É melhor nada saber do que receber más notícias. Entretanto, Fogg não vacilou, e ele recebeu boas notícias. O navio se detivera um dia para reparos em uma caldeira. Eles não se atrasariam, afinal de contas. Isso era de fato muita sorte, para não dizer uma necessidade absoluta. Se ele tivesse perdido o vapor, teria que esperar uma semana a chegada do próximo. Ele estava ainda atrasado vinte horas, mas isso não era tão desastroso. Como dispusesse de dezesseis horas para passar em Hong Kong, Fogg aproveitou-se disso para certificar-se de que Aouda ficaria aos cuidados de seu primo, Jeejeeh. A essa altura, Fogg já tinha certeza de que ela era uma espiã eridaneana. Mas, como nenhum dos dois haviam recebido ordens a respeito dela, ela ficaria em Hong Kong. Na casa de câmbio, o sr. Fogg perguntou sobre seu primo. Foi informado que Jeejeeh havia saído da China há dois anos. Ele se aposentara e estaria morando na Holanda. Fogg voltou ao Clube Hotel, onde havia acomodado Aouda em um quanto. Verne diz que ela não fez comentários sobre essa reviravolta nos acontecimentos que a deixaram sozinha e desprotegida. Ao contrário, ela apenas perguntou a Fogg o que devia fazer. Calmamente, ele respondeu: Vá para a Europa. Ela parece ter dito que não poderia incluí-lo ou pelo menos escondê-lo em sua viagem. Fogg respondeu que ela não faria nada disso, e mandou Passepartout reservar três cabinas no navio Carnatic. Esta cena está muito adequada ao caráter de Fogg. Mas não foi isso exatamente o que aconteceu. Fogg não gostou da idéia de deixá-la sozinha em Hong Kong. Ele podia ter dado dinheiro a ela para que se mantivesse durante algum tempo ou para comprar uma passagem para a Inglaterra. Mas ele não queria deixá-la exposta à pobreza, a exploradores de brancas, ou aos adoradores da deusa Kali, que viriam em seu encalço até mesmo na China. Além disso, os capeleanos podiam já tê-la identificado como eridaneana, e se ela ficasse sozinha aqui, teria poucas probabilidades de sobrevivência. E é provável, embora ele não o demonstrasse, que estivesse correspondendo ao seu amor. Essa emoção pode ter influenciado sua filosofia de mecânica racional. Uma mente racional tem de considerar todos os fatores conhecidos, e a emoção pessoal é certamente uma parte do universo. Seja como for, ele disse a ela que duvidava que ela pudesse fazer alguma coisa em Hong Kong para os seus conterrâneos. Uma vez que ela provara ser uma agente muitocompetente, ela poderia acompanhá-los. Três eram mais fortes do que dois. Ela poderia vigiar Fix e outros capeleanos que provavelmente estariam nesse navio. Ou, se não a bordo, podiam estar aguardando a chegada deles em Yokohama ou na América. Nesse ínterim, Fix estava desanimado. A ordem de prisão não chegara. Se ela chegasse dentro de alguns dias, isso não adiantaria. Hong Kong é o último pedaço de território britânico. O grupo de Fogg sairia de lá no dia seguinte. Se pelo menos ele tivesse algum meio de os deter por tempo suficiente. Enquanto andava de um lado para outro no cais, encontrou-se com Passepartout. O francês sorriu para ele como se soubesse em que ele estava pensando. E de certo sabia. Passepartout perguntou se ele havia resolvido acompanhá-los até a América. Não perguntou a Fix por que faria isso. Fix, apertando os dentes, disse que estaria no Carnatic. Foram juntos até a bilheteria. O funcionário informou-lhes que os reparos tinham terminado antes do que se esperava. O navio zarparia naquela noite, e não no dia seguinte pela manhã. Isso deu uma idéia a Fix. Convidou Passepartout para irem a uma taverna no cais. Ele sabia que lá existia um antro de ópio e que uma vez lá ele faria Passepartout fumar um cachimbo de ópio, a fim de embebedá-lo. Assim, Fogg poderia se atrasar, devido à busca de seu criado desaparecido. Enquanto bebiam, e com Passepartout vendo dois Fix em vez de um, esse revelou-lhe que era um detetive e que Fogg era o ladrão de banco procurado. Ele ainda não estava convencido que o francês era um eridaneano. Se fosse apenas um criado, seu senso de dever fá-lo-ia abandonar o seu patrão. Isso teria pelo menos salvo sua vida. Fix estava convencido que, mesmo que Passepartout estivesse inocente, o homem de olhos cinzentos manda-lo-ia matá-lo. Passepartout podia identificar Fix como sendo o homem que os seguira, e o homem de olhos cinzentos iria querer investigações sobre Fix feitas pelos eridaneanos. Além disso, Fix tinha feito boa amizade com esse indivíduo. Isso ele nunca diria ao seu chefe, mas era verdade. 0 resultado de sua estada no antro de ópio foi que Passepartout excedeu-se, Fogg e Aouda foram obrigados a partir sem ele. Não há necessidade de repetir as aventuras do francês, depois de seu despertar. Após alguns episódios agitados, porém cômicos em Yokohama, ele voltou a acompanhar Fogg. Tomaram o navio para a América, na hora exata em que alçavam o embarcadouro. Passepartout deixou de avisar Fogg sob a partida antecipada do vapor. O inglês sempre cheio de expedientes, contratou um barco de aluguel. Este, zarpou para Singapura, onde ele tomou o Carnatic e seguiu para Yokohama. Fix estava profundamente magoado por esses fatos. Pelo menos, disse em monólogo que estava. Os pequenos impulsos alegres compensavam os defeitos de seu caráter, defeitos que poderiam se tornar fatais se não os dominasse. Para maior mágoa sua, devia favores a Fogg. Aquele cavalheiro não só permitira que Fix o acompanhasse no barco, como também insistiu em pagar a sua passagem. Fogg era motivado pelo desejo de conservar Fix junto a si. Ele poderia ter de prender um capeleano e obter dele informações. Além disso, ele suspeitava que outros de sua raça — no caso de Fix ser um capeleano -- estavam no navio. Se estes entrassem em contato com Fix, Fogg poderia localizá-los. Fix sabia disso. Sabia também que se eles fossem todos apenas o pareciam ser, Fogg os teria tratado com a mesma generosidade. Ele não gostava de saber disso. Isso tornava Fogg muito popular. Verne diz que Passepartout, ao encontrar seu patrão no Japão, não o informou que Fix era um detetive que pretendia prender Fogg. Isso não era verdade. Mesmo que a estória superficial de Verne seja válida, seria difícil explicar o silêncio de Passepartout. Verne fez com que ele nada dissesse porque isso era necessário para seu plano. Fogg precisava ignorar a missão de Fix. Do contrário, ele teria se descartado de Fix e assim não teria sido preso quando desembarcou na Inglaterra. Capítulo 13 O navio que Fogg tomou para São Francisco foi o General Grant. Pertencia à Pacific Mail e era um vapor movido a rodas de pás, possuindo também três mastros com velas grandes. Na velocidade de doze milhas por hora, ele cruzaria o Pacífico em vinte e um dias. Fogg calculou que desembarcaria em São Francisco no dia dois de dezembro. De lá, viajaria de trem para Nova York, chegando nessa cidade no dia onze de dezembro. De Nova York tomaria um navio para a Inglaterra. No dia doze de dezembro estaria em Londres, adiantado em relação à data prevista de chegada que era o dia vinte e um. Verne diz que, nove dias após sair de Yokohama, no dia vinte e três de novembro, o navio cruzou o 180° meridiano. Fogg havia chegado exatamente na metade da volta da Terra, uma vez que essa linha imaginária estava na posição antípoda de Londres. Embora Fogg tivesse apenas vinte e oito dias para atravessar a segunda metade de sua viagem, tinha na realidade completado dois terços de seu percurso. Para atingir o 180° meridiano, ele havia sido obrigado a fazer grandes voltas. Porém o caminho daí por diante seria relativamente direto. No dia vinte e três de novembro, segundo Verne, Passepartout fez uma feliz descoberta. O seu relógio, que não havia sido ajustado para os diferentes fusos horários, estava agora de acordo com a hora solar. Segundo Verne, Passepartout não sabia que se o mostrador de seu relógio tivesse sido dividido em vinte e quatro horas (como os relógios italianos) os ponteiros do mesmo teriam indicado sempre a hora certa. Teriam mostrado a ele que não eram nove horas da manhã mas sim nove da noite. Isto é, indicariam a vigésima primeira hora depois de meia-noite, exatamente a diferença entre a hora londrina e a do 180° meridiano. Como sabemos, Fogg não possuía relógios, tendo-os utilizado em Bundelcund. Verne não menciona o incidente no Palácio do rajá, porém também nada diz a essa altura, que não tinha relógio. Por quê seria que esse cavalheiro que fazia tudo cronometrado, não possuía um relógio, Verne nada fala a respeito. Fix havia permanecido em sua cabine ate o dia vinte e três, quando achou que devia sair dela para não enlouquecer. Ao andar pelo tombadilho da frente, passou por Passepartout, sendo atacado a socos pelo pretenso criado enraivecido. Passepartout estava realmente zangado pela peça que Fix lhe pregara. Mas mesmo que não estivesse, ele iria fingir estar. O papel que ele representava assim o exigia. Além disso, Fix era um capeleano, sendo agradável esmurrá-lo. Fix tentou defender-se mas logo viu que o francês lutava melhor. Caído no tombadilho, disse ele: — Está satisfeito? — Sim, por enquanto, disse Passepartout. — Então, deixe-me dizer-lhe uma coisa. — Mas, eu.. . — No interesse de seu patrão. Sentaram-se num local distante dos outros passageiros, que haviam presenciado a luta entusiasmados, chegando alguns a fazer apostas. — Você me machucou, disse Fix. -- Pois bem, eu já esperava por isso. Agora ouça: Até o momento eu fui adversário do sr. Fogg. Mas de agora em diante sou seu aliado. — Ah, então, está convencido que ele é um homem honesto! No intimo pensava quem seria esse sujeito realmente. — Não estou, disse Fix friamente. - Acho que ele é um tratante. Passou então a contar o seu plano a Passepartout, que era o de ajudar a Fogg ganhar sua aposta. Entretanto, ele só faria isso para fazer com que retornasse a solo britânico. Lá seria verificado se ele era ou não inocente. — Somos amigos agora? - disse Fix. — Não, respondeu Passepartout. Talvez aliados. Ao menor sinal de traição, torço-lhe o pescoço. A verdade é que essa ameaça de Passepartout tinha um sentido duplo. Verne diz então que, onze dias depois, no dia três de dezembro, o navio entrou na baía de Golden Gate. O sr. Fogg não havia ganho nem perdido um só dia. Isso é verdade, mas Verne não menciona o que aconteceu nos dias que sucederam àquele em que Fix fora derrubado no convés. Enquanto nós não sabemos exatamente o que Fix e o homem de olhos cinzentospretendiam fazer na ocasião em que estiveram ocultos de Passepartout e Fogg, podemos reconstituir suas atividades por meio do outro diário de Fogg. A uma hora da madrugada, Passepartout foi despertado de uma inquieta sonolência pelos sons da campainha de seu relógio, colocado perto do ouvido. Ouviu por algum tempo, certificando-se que os sons não formavam nenhum código que ele conhecia. Vestiu-se às pressas e saiu da cabina. Não reparou num vulto postado na sombra de um dos grandes barcos salva-vidas suspenso na serviola, a cerca de doze metros de distância. Ele estava vigiando-o porque Fix estava acamado com febre alta. Nemo não estava satisfeito com o rumo dos acontecimentos, tanto por não ser conveniente como por mostrar-lhe que a Natureza era ainda mais forte do que ele. E já que não se importava em ser visto por alguém do grupo de Fogg, ele não podia sair da cabine depois do dia clarear. Tinha um disfarce a sua disposição. Sua barba era na realidade postiça, que ele podia trocar por um bigode, também postiço. Uma peruca dar-lhe-ia a aparência de um homem começando a envelhecer, e seu nariz era redondo artificialmente. A fim de corrigir o maior espaço entre os olhos, ele usava um par de óculos, ao qual estava incluído sobrancelhas falsas e pele postiça colorida. Os olhos estavam cobertos com lentes de contato azuis que tanto os capeleanos como os eridaneanos haviam herdado dos antepassados, juntamente com outros dispositivos muito avançados em relação à ciência da Terra. Isso tudo era colocado sobre os olhos, para que parecessem mais próximos. Infelizmente, metade da visão de cada olho ficava impedida com isso. Nemo não gostava de usá-los, a menos que as circunstâncias o obrigassem. Tinha resolvido ficar em seus aposentos, saindo apenas durante a noite. No momento em que ia acender um charuto, viu abrir-se a porta da cabina do francês. Se ela fosse aberta alguns segundos depois, Passepartout teria visto o brilho de seu fósforo. Praguejando, ele tornou a guardar o charuto em sua caixa, e sacou o revolver Colt de seu coldre. Esperava não precisar usá-lo, uma vez que o ruído de tiros Poderia alarmar os ocupantes das cabinas próximas à de Fogg. Esperou escondido na sombra de um salva-vidas até que Passepartout batesse na porta da cabina de Fogg e entrasse na mesma. Dirigiu-se, a seguir, para a cabina de Fogg, porém teve que se esconder sob um barco salva-vidas. A porta se abrira novamente. Passepartout apareceu e foi para a cabine de Aouda, vizinha à de Fogg, e bateu na porta. Houve uma troca de palavras, que Nemo não pôde ouvir, pelo vão da porta entreaberta. Nemo supôs que Aouda pedia a Passepartout para dar-lhe uma senha, embora ela pudesse reconhecer sua voz. Em menos de dois minutos, Aouda saiu vestindo um roupão, com seus cabelos pretos chegando até à cintura. Ambos entraram na cabina de Fogg. Nemo andou sem fazer ruído até a porta e nela aplicou um estetoscópio, outra herança dos seus antepassados. O luar, iluminando seus traços, mostrava sua apreensão, acompanhada por um aspecto de resolução. Embora ele odiasse fazer ruído, havia uma única maneira de entrar na cabine. Levantou sua bota direita e deu um forte pontapé na fechadura. Poucas fechaduras poderiam resistir um pontapé de Nemo, que era muito forte. A fechadura partiu-se, e a porta escancarou-se, tendo Nemo passado por ela depressa. Um rápido olhar mostrou-lhe que os três estavam desarmados. Estavam sentados em volta de uma mesa. O relógio de Passepartout, iluminado pela oscilante lâmpada de petróleo pendendo do forro, estava sobre a mesa. A sua presença confirmava as suspeitas de Nemo de que continha um aparelho. No silêncio que se seguiu a sua entrada violenta, ele ouvia fracamente os ruídos do relógio, e neles reconheceu o código capeleano. Nemo, apontando o revolver na direção deles, fechou a porta ao passar. Passepartout começou a se levantar. Nemo sacudiu a cabeça. O francês sentou-se. Os seus olhos e os de Aouda estavam arregalados, e os rostos pálidos. Fogg continuava sentado calmamente. Era o único calmo naquela mesa. - Levante-se devagar e fique em frente aquele anteparo, disse Nemo; e ponha depois suas mãos sobre o mesmo. Embora não praguejasse, devia estar pensando neles. Os sinais indicavam uma ação imediata e de emergência para qualquer capeleano que possuísse um aparelho. Nemo não desprezaria um sinal dessa natureza, nem que fosse dado pelo auxiliar menos graduado. Era dirigido ao capeleano que trazia o aparelho recém descoberto na China. Mas ele também pedia que qualquer outro que possuísse um aparelho deveria usá-lo no caso do agente chinês deixar de responder. Qualquer um que respondesse, devia ajustar o seu aparelho em posição de transmitir embora devesse, sem dúvida certificar-se que ninguém se aproximaria dele enquanto estivesse exposto. Para um chefe permitir que se deixasse um aparelho, mostrava como a situação era grave. Além disso, o chefe pensava que o rajá de Bundelcund estivesse ainda vivo e queria ver se conseguia obter uma transmissão do mesmo. O chefe pedia também, se fosse possível, trazerem dois homens. Seria preferível três, porém ele poderia controlar a situação com apenas dois. Não disse para que precisava dos mesmos. Preferia que fossem todos capeleanos, porém se isso não fosse possível, o homem que estava na China - - ou alguém mais que estivesse na escuta - poderia arranjar dois seres humanos e trazê-los à força, ameaçando-os com armas. Nemo, tendo estado há muito tempo fora de contato com outros capeleanos, não sabia quais eram as intenções reais daquela mensagem. Porém, ele alterou seus planos para com os três eridaneanos. Por quê Fix tinha que estar doente numa ocasião dessas? Alguém precisava estar junto a ele para garantir que Nemo e o chefe seriam transportados de volta no caso de necessidade. Se não estivessem, então Fix teria que tomar conta do aparelho. Eram muito valiosos para se perderem. E por quê o agente chinês não respondia? Estaria dormindo? Ou bêbado? Ou teria sido capturado por bandidos? Ou ainda, teria sido preso pelos eridaneanos? Nesse caso, estariam de posse do aparelho, e mesmo que não soubessem o código capeleano, poderiam colocar o aparelho como receptor a fim de recolher tudo o que estivesse do outro lado. Ou então, o que seria menos provável, poderiam transportar um grupo de homens armados até aos dentes. Além disso, o comunicado do serviço de inteligência dizia que os eridaneanos só possuíam um aparelho. E o mesmo estava sobre a mesa em sua frente. Porém nem sempre se pode confiar nos comunicados do serviço de inteligência. Nemo desejava ir em auxílio do chefe imediatamente, porem tinha que fazer certos preparativos que levariam pelo menos dez minutos, ou mesmo quinze. A seu mandado, Passepartout rasgou três lençóis em tiras. Enquanto fazia isso, Nemo, com uma das mãos, apertou o eixo do relógio para mandar uma mensagem para o chefe. A seguir manteve a arma apontada para Passepartout enquanto o francês amarrava as mãos do seu patrão junto com os tornozelos. A seguir, Aouda amarrou Passepartout da mesma maneira, ele amarrou os três juntos. Por um instante pretendeu usar sua faca para matá-los, porém resolveu não fazê-lo. O chefe queria os três, porém vivos. Pois bem, assim os teria. Em primeiro lugar, ele precisava ter certeza que eles não podiam rolar pelo chão e assim sair pela porta, que agora não podia ser fechada. Fez outras tiras de pano e amarrou as pernas dos três, juntas. Depois embebeu as roupas dos três em gasolina, de uma lâmpada que pendia do teto. Colocou três outras lâmpadas perto deles de modo que se eles se movesses em qualquer direção, os vapores da gasolina se inflamariam nas chamas das três lâmpadas. Colocou o relógio no bolso e, fechando a porta ao passar, saiu à procura de Fix. Este estava meio delirante. Quando finalmente entendeu o que Nemo desejava dele, protestou. Ele não seria capaz de andar até a cabina de Fogg e depois carregar o relógio até a sua cabina. - Então vá se arrastando, disse Nemo. -- Mas, é melhor se apressar,pois o barulho vai acordar todos no navio. Se deixar de escapar com o relógio, morrerá. Tratarei disso. — Não posso fazer isso, murmurou Fix. - Então morrerá agora, -- disse Nemo. Fix tentou levantar-se do leito, porém caiu no chão. Nemo rogou-lhe uma praga. A natureza estava provando mais uma vez que era mais forte do que ele. Mas, seria mesmo? Ele agarrou Fix e colocou-o nos ombros e carregou-o até o convés. Contava em não encontrar nenhum noctâmbulo andando pelo convés, nem alguém da tripulação. Caso encontrasse, ele poderia dizer que o seu amigo estava bêbado e ele estava levando-o para o seu quarto. Porém ele não queria que fossem observados quaisquer acontecimentos estranhos que pudessem ser lembrados depois que o tumulto passasse. Se a Natureza estava contra ele naquela noite, assim também estava a outra, a Sorte. Ele foi visto por um oficial quando estava a meio caminho da cabina de Fogg. Nemo explicou-lhe que Fix estava dormindo no convés, estando bêbado ou doente. Ele o estava levando de volta à sua cabina. — O senhor está seguindo na direção errada, disse o oficial. — Os aposentos do sr. Fix ficam lá atrás. — Ah, sim, disse Nemo. — Devo ter tomado o caminho errado. — Duvido que o sr. Fix esteja embriagado, disse o oficial. —_ Ele tem estado doente, como o senhor deve saber se é seu amigo. Ele deve estar delirando e caiu no convés. Chamarei um médico e providenciarei o seu tratamento, bem como arranjarei uma enfermeira. — O senhor é muito gentil, disse Nemo, imaginando um jeito de matar o oficial e jogá-lo no mar. Logo depois encontraram um marinheiro. O oficial insistiu para que o marinheiro ajudasse Nemo a carregar Fix de volta à sua cabina. O marinheiro acompanhou-os enquanto o oficial foi à procura de um médico e de uma enfermeira. Nemo queria afastar-se dali porém sabia que a tripulação acharia estranho a sua falta de interesse pelo seu "amigo". Entretanto, nada o impediu de comunicar-se com seu chefe inteirando-o da alteração havida. Foi até ao banheiro, tirou o relógio, e enviou uma mensagem em código. O chefe respondeu que ele não estava com muita pressa pois sabia que iria receber auxílio. Nemo queria perguntar onde se encontrava o chefe e por quê ele precisava de tanta gente, porém ouviu o médico entrar e achou melhor não ficar muito tempo no banheiro. Tinha de voltar à cabina de Fogg. Mesmo assim, passaram-se mais seis minutos antes dele poder sair. O próprio capitão do navio surgiu e pediu uma explicação. Nemo deu-a. O capitão parece ter ficado satisfeito. Nemo disse que visitaria Fix na manhã seguinte, e despediu-se. Voltou depressa esperando que Fix estivesse bem melhor no dia seguinte, o bastante para ir até a cabina de Fogg e apanhar o aparelho. Afinal de contas, ele seria fixado na parte de baixo da mesa. Mesmo que a tripulação examinasse a cabina, o que poderia fazer se vissem a fechadura Quebrada, não veriam o relógio. Fix entraria lá mais tarde e retiraria o mesmo. Esperava também que os três eridaneanos não resolvessem a se suicidar. Se eles pusessem fogo às vestes, impediriam que fossem transportados. E o fogo chamaria a atenção de todos para aquela cabina. Se isso acontecesse, então ele iria à sua própria cabina e se transportaria para onde estivesse o seu chefe. Se fosse preciso, eles voltariam ao General Grant. Isso implicaria em uma mudança nos planos, o que o chefe evidentemente não desejava. Porém isso não podia ser evitado. Nemo também gostaria de saber onde o chefe tinha arranjado o seu aparelho. Pelo que sabia, o aparelho encontrado na China era o único em poder dos capeleanos. Porém ele não sabia de tudo. Aquele maldito sigilo era um mal nem sempre necessário. Pensando nisso, ele entrou na cabina de Fogg. Nos momentos que se seguiram, ele não pensou em nada. A lâmpada vazia oscilava sobre sua cabeça, quando entrou. Quando acordou, estava na mesa amarrado com o corpo encolhido. Sabia então que lhe tinham tirado o aparelho e colocado o mesmo embaixo da mesa, na qual ele estava. Passepartout, obedecendo a Fogg, espiou para fora da cabina. Ao voltar, disse: — Não há sinal de Fix, senhor. Será que ele é o que pretende ser? De fato, se ele fosse um capeleano, Nemo o teria chamado em seu auxílio? Precisaria dele para guardar o aparelho. — Isso é bem provável, disse Fogg. — Pergunte a ele a esse respeito hoje de manhã. Após a nossa volta. — O senhor está resolvido a levar avante esse projeto maluco? Estou. Tenho de acompanhá-lo juntamente com esse homem? — Certamente. Tivemos sorte da última vez, senhor. Mas agora... Precisamos descobrir o que existe por trás disso. Passepartout suspirou, porém nada mais disse. Em uma poltrona estavam as armas, que foram retiradas dos vários esconderijos nas roupas de Nemo. Havia uma faca que tinha sido amarrada à sua perna esquerda, outra em uma bainha na perna direita, uma outra presa ao seu cinto, e um pequeno objeto cilíndrico, cuja utilidade Nemo deixou de explicar. Entretanto, Passepartout descobriu como a coisa funcionava. Uma pequena saliência lateral, quando comprimida, descarregava evidentemente o conteúdo do cilindro, através de um furo na outra extremidade. Mostrando a ponta do cilindro perto do rosto de Nemo, ele disse: - Agora, senhor, me explique por favor. Do contrário, farei isso funcionar e talvez seja o seu fim. Passepartout não tinha intenção de assim fazer, já que Nemo poderia desejar morrer para escapar de ser interrogado. Nemo suspeitava disso, porém não tinha certeza. E não pretendia suicidar-se, a menos que estivesse em circunstâncias muito mais desesperadas. — Ele expelirá um jato de cianureto, disse ele. - Muito engenhoso, disse Passepartout. E entregou o mesmo a Aouda para ser usado no caso em que Fix aparecesse. - Srta. Jejeebhoy, disse Fogg, a senhorita deverá ligar o aparelho em posição de receber um minuto após a nossa partida. Porém, não acredito que deva ficar nesta cabina. A porta não pode ser fechada, e não temos certeza de que Fix não esteja vindo para cá. Logo que tenhamos feito o transporte, leve o aparelho para a sua cabina e fixe-o na parte de baixo da mesa. — Por quê não deixar esse homem... — Nemo, disse Fogg. — Esse Nemo aqui? — Não confio nele, por mais capaz que seja a srta. Jejeebhoy, disse Fogg. — É muito forte e possui grande inteligência e expediente. Se pudéssemos nos livrar dessas amarras enquanto não nos vissem, ele seria capaz de fazer o mesmo, sendo observado ou não. Nemo gostaria de saber como eles tinham conseguido escapar, porém eles mantinham segredo a respeito. Ele descobriria algum dia; jurou que iria saber. — Além disso, disse Fogg, a visão dele amarrado e amordaçado pode deixar embaraçado quem estiver do outro lado. Pode brincar com ele agora, Passepartout. — O ruído do aparelho na certa acordará todos os que estão a bordo, disse Fogg. - E Fix, se for capeleano, ficará sabendo do que se trata. Se alguém bater à porta, diga-lhe Que está com medo e que não sairá. Não abra a porta para ninguém. — Compreendo, disse Aouda. Sua voz era meiga, tão agradável que o coração de Passepartout pulou como se estivesse num trampolim. Como poderia Fogg resistir a tal mulher, que o amava tão abertamente? - Esses sons parecidos com os de um sino ficarão sendo mais um mistério do mar, disse Aouda. Suas palavras foram proféticas, embora nem mesmo ela tenha previsto que naquela noite haveria não apenas um, mas dois mistérios marítimos. Passepartout engatinhou sob a mesa e acertou o relógio para ser ativado dentro de quatro minutos. Ele e Fogg subiram na mesa e taparam os ouvidos. Capítulo 14 Os três homens passaram para a bordo de outro navio. Entretanto, era um pequeno navio a vela, e o sol indicava pela sua altura estarmos por volta das nove horas da manhã. Fogg sabia que isso os colocaria em algum ponto do Atlântico, talvez entre os meridianos 15 e 30. Após esses rápidos cálculos, não havia tempo para coisas científicas. Eles haviam descido de um altura de alguns centímetros no ar para uma pequena coberta no convés, próximo à proa.Estavam tão pertos de um dos mastros que podiam tocá-lo com as mãos. Nas proximidades, amontoado no chão, havia um encerado. O único ser humano que se podia divisar estava no convés a cerca de uns seis metros, onde tinha certeza de estar fora do campo de ação do aparelho. Estava com chumaços de algodão nos ouvidos e empunhava um revólver. O marinheiro não atirou imediatamente porque deve ter pensado que os dois homens armados eram capeleanos e o homem amarrado seria o "escravo" que eles haviam raptado. A verdade é que ele esperava encontrar apenas um capeleano e dois homens e uma mulher amarrados, porém isso poderia torná-lo ainda mais espantado. Não era capaz de entender que a situação havia mudado. Nemo, embora completamente surdo pelos nove ruídos do aparelho, assim mesmo agiu depressa. Ele empertigou-se e saltou de lado, com suas pernas compridas prestes a atingir os seus dois captores, na altura dos tornozelos. Passepartout, com a agilidade própria de um acrobata, saltou no vazio. Fogg, que deveria ter previsto esse lance, pois dizia que o imprevisto não existe, foi derrubado. Seu tiro passou longe do marinheiro e, deu-lhe a certeza que nem tudo era como ele esperava. O marinheiro atirou em Fogg, errou o alvo, talvez devido aos movimentos do navio, e a seguir correu pelo convés na direção da popa. Passepartout saiu em seu encalço, embora estivesse armado apenas com uma das facas de Nemo. Escorregou, caiu, rolou pelo convés, e tornou a levantar-se. Fogg havia se inclinado para a frente, e portanto estava impedido de evitar que Nemo caísse para fora da coberta do convés. Ele caiu pesadamente ao seu lado, e Fogg começou a persegui-lo alguns instantes depois. Entretanto, Fogg não pensou que Nemo poderia fazer muito daí por diante. Para certificar-se disso, ele golpeou Nemo na cabeça com a coronha de sua arma. O sangue saiu do ferimento, e um instante depois ele sofreu outro ferimento. O marinheiro, tendo tornado a atirar em Passepartout, errara novamente. A bala ricocheteou e atingiu o braço direito de Nemo. Fogg afastou-se daquele corpo mancando e sangrando e saiu em perseguição a Passepartout. O marinheiro havia se refugiado atrás da cabina da popa, bem na frente da roda do leme. Passepartout esperou por Fogg na escada da escotilha que leva à cabina da proa. Nela podia entrar por uma porta corrediça, que já estava aberta de um lado. Como não tinham estado em um local fechado, e o aparelho estava em uma sala, os ruídos não afetaram os seus tímpanos como da vez anterior. A sua audição tinha se normalizado bastante permitindo que falassem entre si, se estivessem perto uns dos outros e gritassem. Fogg pediu ao seu colega para que esperasse ali enquanto ele examinava o interior das cabines de popa. Talvez houvesse uma outra entrada no outro lado da coberta do convés. Tinha de certificar-se de que o marinheiro não tentaria um ataque de surpresa utilizando a mesma. Antes de passar novamente pela porta, ele daria uma senha. Assim, se o marinheiro entrasse do outro lado, e dominasse ou matasse Fogg, não seria capaz de apanhar Passepartout desprevenido. — Do alto desta casa vi a parte superior da roda do leme, disse o francês. — Não havia ninguém na mesma. - O navio parece estar abandonado, com exceção desse capeleano, disse Fogg. É muito estranho, porém deve haver uma explicação. Esse navio parece ser um bergantim, e está seguindo o curso de estibordo. — Desculpe, senhor. Mas não entendi! — O navio está recebendo o vento pela direita. A bujarrona e as velas de estai da proa estão colocadas para curso a estibordo. O navio segue na direção oeste. - Bujarrona? Velas de estai da proa, meu senhor? - As velas principais, na frente do navio. As duas velas do meio, de forma triangular, ligadas ao botaló na proa do navio. O velacho inferior, o quarto a partir da base do mastro principal, parece ter sido desfraldado porém sua parte superior rasgou-se, talvez devido ao vento. Estão faltando a vela do traquete e o velacho superior. Parece-me que foram cortadas a tiros. A vela de estai principal, a mais inferior das três velas triangulares presa entre os dois mastros, está abaixada. As velas de popa foram retiradas. Todas as outras velas estão enfunadas, até mesmo as velas latinas. As principais adriças de pique, cordas usadas para baixar e levantar as velas, foram quebradas. A maioria estragou-se. Antes que se possa consertar a vela mestra, as adriças precisam ser reparadas. O mar está um tanto grosso, porém o navio não está jogando muito, nem mudando de direção. Porém podemos examinar o navio mais tarde. Estou lhe dizendo isso agora para que tenha uma idéia do que fazer, se eu não voltar. Isso não bastava para ele saber, pensou Passepartout. Fogg, empunhando a arma pronta para atirar, entrou na cabina. A porta aberta iluminou-a um pouco. Havia uma janela do lado da proa, porém ela havia sido coberta com um pedaço de encerado preso por ripas pregadas na parede da cabina. O chão estava úmido, embora não houvesse água empoçada. Isso tinha sido o resultado de um mar agitado ou de chuva que penetrara em alguma parte. Havia um relógio sem ponteiros preso de cabeça para baixo por dois pregos em um tabique. Uma mesa continha um diário encadernado e um suporte -chamado de violino, pelos marinheiros — que impediam que os pratos escorregassem. O suporte continha pratos porém nenhum alimento ou bebida era visível, nem havia nenhuma faca ou garfo. No suporte estava um pedaço de encerado, usado evidentemente como toalha. Fogg viu também um fogão e uma lâmpada suspensa. Olhou o diário, que devia ter sido usado pelo chefe para fazer anotações quando estava no convés. H N DIREÇÃO DO VENTO SEGUNDA FEIRA DIA 25 1. 8 2. 8 Leve aragem 3. 8 4. 8 5. 8 6. 8 7. 8 8. 8 Às 8 horas aragem 9. 8 Atingiu as velas de 10. 8 sobre-joanete e joanete 11. 8 12. 8 E. por Sudoeste Chuvoso 1. 8 2. 8 3. 8 No dia 5 atingiu a ilha de 4. 8 Santa Maria, com E.S.E. 5.8 8 6. 8 7. 8 8. 8 9. No dia 8 o ponto mais próximo 10. a leste estava a 6 milhas 11. de distância a S.S=W. 12. "H" significava hora; "N", nós. Embora o diário indicasse que o dia 25 era uma segunda-feira, a data era náutica, e não civil. O dia deveria ter começado ao meio dia do dia 25, e não a meia-noite. O dia 25, para o navio, terminaria ao meio dia do dia 26, após o que seria o dia 26 de novembro. Estávamos a vinte e seis de novembro. Algo acontecera às oito horas da manhã do dia vinte e cinco, ou algumas horas depois, que impediu o imediato de continuar a escrever o diário. Quando terminou o registro, a ilha de Santa Maria estava a cerca de seis milhas a sudoeste. Fogg entrando cautelosamente na despensa, encontrou uma lata aberta contendo açúcar umedecido, uma sacola com vários quilos de chá, um barril de farinha aberto, uma caixa aberta contendo arenque salgado, latas de arroz e feijão comum, alguns vidros de fruta cristalizada, latas de alimento e noz-moscada. Tudo isso seco. Fogg retornou à cabina do imediato e olhou tudo novamente. Do lado do estibordo havia um pequeno suporte mantendo um pequeno vidro de óleo para, ao que parece, lubrificar uma máquina de costura. Essa última estava ainda de pé. Se o navio tivesse enfrentado recentemente mar grosso, ela estaria caída no chão. O leito estava seco e não apresentava sinais de estrago por água. Ele olhou sob o leito e retirou dali o emblema do navio e sua sigla: WT. A letra "W" também havia sido costurada. Sob o leito estavam também um par de botas de marinheiro, próprias para mau tempo mas ao que parece sem uso. Havia ainda duas gavetas. Uma delas continha alguns pedaços de ferro e duas placas de vidro. A gaveta de baixo continha um par de óculos escuros e um carretel para pesca porém sem linha. A cabina ao lado, que era a última, pertencia ao capitão do navio. Fogg duvidava que o marinheiro lá estivesse. Se ele tivesse lá penetrado, a essa altura a sua presença já teria sido notada. Entretanto, Fogg entrou nela devagar, e conservou-se junto às paredes,uma vez lá dentro. Havia uma clarabóia, pela qual o marinheiro poderia atirar se ele se arrastasse por cima da coberta do convés. Um pequeno órgão dividia a cabina no centro. Perto dele havia alguns livros, na maioria religiosos, segundo indicavam seus títulos. Uma cadeira para criança estava no chão junto a uma caixa contendo vidros de remédio. Sobre a mesa achava-se uma bússola sem o seu mostrador. Uma máquina de costura portátil estava em um estojo presa ao parapeito. Embaixo de uma cama, Fogg encontrou uma espada embainhada. Tirou-a da bainha, pensando poder usá-la. Parecia ser de fabricação italiana e pertencera, ao que parece, a um oficial. De um lado da cabine ficava o banheiro. Ainda com cautela, pois o marinheiro poderia estar ali escondido de tocaia, Fogg olhou o interior do mesmo. Perto da porta, havia um cesto de lixo. Parece que ele tinha estado molhado pela água da chuva ou borrifos de água que entravam pela vigia semi-cerrada, do lado oposto. Sentindo curiosidade, Fogg entrou no banheiro. Abriu a sacola de despejo e nela achou roupas femininas, todas molhadas, no seu interior. Portanto, o capitão tinha tido a companhia e sua mulher e de uma criança pequena. O lado de estibordo apresentava duas janelas, também cobertas com encerado cortado de uma vela. Em parte alguma havia sinais de violência, e a cabina não tinha saída pela popa. Fogg voltou ao convés, mas sem deixar de dizer primeiro a sua senha. Passepartout disse que o marinheiro tinha espiado por várias vezes, porém se escondera novamente. Fogg disse a Passepartout o resultado de suas inspeções. Deu-lhe a arma, dizendo: — Prenda o homem com ela. Vou voltar para ver como está Nemo e examinar a coberta do convés. Empunhando a espada, ele caminhou devagar descendo pelo lado estibordo. Embora esse modo de andar o tornasse um alvo melhor para o marinheiro, ele não acreditava que isso fosse o suficiente. Não se podia esperar precisão de tiro devido ao vento e ao balanço do navio. É óbvio que se o marinheiro viu Fogg, teve os mesmos pensamentos. Não houve tiros. Pouco antes de chegar no convés de proa, Fogg foi até o lado do navio. Deu uma olhada. Nemo não estava mais lá. As tiras de lençol rasgadas eram uma prova da grande força de Nemo. Ele os havia rasgado com os seus músculos apenas. As suas botas achavam-se ao lado das tiras. Antes que houvesse voltado ao lado estibordo, Fogg havia olhado a parte lateral do navio. A silhueta calma de Nemo tinha estado no convés. Assim, o malandro tinha esperado até que Fogg se afastasse, porque ele sabia que Passepartout, em busca do marinheiro, ficaria de costas para ele. Fogg circulava pelo navio, na esperança de que Nemo não o tivesse ultrapassado indo para a popa enquanto ele ia para a proa. Mas ele fora realmente. Ele corria descalço, tão depressa e sem fazer ruído, como se fosse um tigre. Estava a apenas dois metros das costas do francês. Fogg deu o seu primeiro grito, como não fazia há anos, e correu na direção dos dois. Passepartout, meio surdo, não o escutou. Nemo atingiu-o na nuca com o seu punho esquerdo. O francês bateu com a cabeça na parede do convés, depois caiu e Nemo apanhou o seu revólver. Mostrando os dentes, ele virou em direção a Fogg. Devia ter o aspecto de vitorioso, porém estava pálido, e o sangue escorria de seu braço direito e pingava pela mão. O seu braço direito parecia estar inutilizado, já que pendia de um lado, e embora não fosse canhoto, segurava o revólver com a mão esquerda. Fogg deu meia volta do lado do navio e correu rumo ao convés. Se Nemo estava atirando nele, ele não podia ouvir os tiros, porém o fato de saber disso, aumentou a sua velocidade. Correu pelos lados e depois na parte da frente. Escondido temporariamente de seus dois inimigos, ele lá ficou respirando fundo. Portanto, os acontecimentos estavam momentaneamente a favor de Nemo. Passepartout estava fora de ação, talvez para sempre, e Nemo e o marinheiro tinham cada um uma arma. Após certificar-se de que Passepartout não poderia imitar a façanha de Nemo, os dois seguiriam rumo a popa. Um seguiria a estibordo e outro a bombordo. Os seus caminhos iriam se encontrar no local onde Fogg se encontrava no momento. Ele poderia atacar um deles com sua espada, porém o outro juntar-se-ia depressa ao homem que ele atacasse. A queima-roupa, ele não erraria. A coberta do convés de popa era de três metros quadrados e um metro e meio acima do convés. Ela continha os aposentos da tripulação, a cozinha e talvez uma cabina para o ajudante de imediato. Não servia para esconderijo de espécie alguma. Fogg olhou para cima. Ele poderia correr ainda para uma das escadas de corda trançadas transversalmente, chamadas enfrechates e presas às enxarcias, par de cordas que dão suporte lateral aos mastros. Se ele subisse por uma das escadas, poderia pelo menos afastar-se deles por algum tempo. Se tornasse a descer, os forçaria a usar ambas as mãos para se aproximarem dele a uma distância suficiente para não errar os tiros. Talvez pudesse atacá-los com sua espada. Se ele fosse um 'acrobata como Passepartout, poderia subir pelo mastro principal até uma das velas triangulares médias e subir por suas cordas até o mastro da popa. Se pudesse descer com bastante rapidez, enquanto os dois ainda estivesse lá em cima, poderia empunhar a roda do leme e mudar o rumo do navio. Poderia fazê-lo virar de repente, desalojando os dois. Entretanto, Fogg não seguiu esse plano desesperado. Ao contrário, deixou aberta a porta de madeira da cabina dianteira e espiou dentro dela. Ela ficava a bombordo da cabina do convés e parecia pertencer ao ajudante do imediato. Ela continha um mapa marítimo que Fogg não examinou. Passou através de uma outra porta corrediça entrando nos alojamentos da tripulação, mais perto da popa. O seu diário não menciona o que sentia nessa ocasião, mas podemos supor que até a fisionomia do imperturbável Fogg mostrava satisfação. Nesse local, como ele esperava, estava o relógio, preso no forro do alojamento. Ele retirou o mesmo e, mantendo-o junto ao ouvido, saiu correndo para o convés de popa. O relógio estava emitindo, uma série de sons, em código eridaneano. Aouda tinha ligado o aparelho para recepção. Se ele ligasse o aparelho capeleano na posição de transmissão, poderia escapar. Isso seria deixar o aparelho inimigo, Passepartout, e a explicação do mistério do navio. Quanto ao primeiro, teria que se entregar a ele se fosse transportado. Quanto ao navio, era melhor sobreviver continuando a ignorar o mistério, e quanto a Passepartout é provável que estivesse morto. Estava condenado a morrer mesmo que Fogg ficasse por aqui e tentasse lutar apenas com a espada. Permaneceu por uns cinco segundos parado, durante os quais os seus inimigos poderiam estar se aproximando. Seis segundos depois disso, os dois capeleanos foram abalados - e ficaram outra vez surdos ao soarem os noves toques que pareciam romper o ar a volta deles e malhar os seus tímpanos. É provável que os dois tenham praguejado juntos, à medida em que ficavam pálidos. Como sabemos, os dois saíram correndo para dentro da cabina supondo que iriam encontrar apenas um aparelho. O astuto eridaneano tinha certamente retirado o único que havia na mesma. Devia tê-lo retirado do forro e colado o mesmo embaixo da mesa e tinha sido transportado de volta ao General Grant. Nemo devia estar se recriminando por não haver antes recuperado o aparelho. Porém, podia consolar-se com a idéia de que se tivesse feito isso, poderia ter ficado preso na cabine do convés em lugar de Fogg. Os capeleanos encontraram-se na entrada dianteira da cabine do convés. O marinheiro chegou em primeiro lugar e assim estava adiantado em relação a Nemo para entrar no alojamento. Ele estacou porque, para seu espanto, o relógio continuava pregado no forro. Foi tudo o que viu. A ponta da espada de Fogg atingiu-lhe no alto da cabeça. Ele caiu, soltando o revólver. E Fogg apanhou a arma. E Nemo? Após o primeiro instante de desapontamento, com uma ponta de pânico, ele afastou-se da escotilhade descida. A situação não havia mudado de repente. Tinha apenas se equilibrado. Nenhum dos lados levava qualquer vantagem a essa altura. Ambos estavam armados. Fogg estava fechado na cabina do convés, porém Nemo sangrava e perdia as forças. O homem de olhos cinzentos subiu à coberta do convés e começou a tirar o paletó e a camisa. Rasgou a mesma em tiras e enrolou-as em seu braço. Felizmente, o ferimento era só na carne, e o sangue parece ter estancado logo. Apesar disso, só dispunha de um braço, e a sua força bruta havia se esgotado. Resolveu desertar de seu posto por alguns instantes. Fogg não ousava atacar a descoberto. Pelo menos, por enquanto. Nemo liquidaria o outro homem e voltaria para a cabina do convés. Fogg estaria ainda abaixado atrás de algum parapeito ou de um móvel. Ele sabia que Nemo poderia quebrar as janelas da cabina e atirar. Se ele não tivesse ficado tão oprimido ao pensar na fuga de Fogg, já teria feito isso. É verdade que se usasse as janelas, corria o risco de receber um tiro de Fogg no rosto. Seria prudente ficar longe delas. Era possível que Fogg fosse forçado a sair da cabina do convés premido pela fome e sede. Ele não podia se dirigir à cozinha. Nemo tinha sido informado pelo seu chefe que a cozinha ficava separada do alojamento e da cabina do auxiliar do imediato. Mesmo que Fogg fizesse um furo no tabique, não encontraria muito alimento. A maior parte dos suprimentos era guardada na despensa, que ficava na popa. Nemo afastou-se sorrateiramente da coberta do convés apenas porque era natural que assim fizesse. Não precisava temer que Fogg o ouvisse. Ele ainda continuava ensurdecido pelo ruído do aparelho. Nemo caminhara alguns metros na direção da popa quando os nove toques soaram de novo. Ele rodopiou. Que diabo estaria Fogg fazendo agora? Teria partido dessa vez? Ou estava armando a mesma armadilha? E, se tivesse ido, não estaria logo de volta com reforços? Nada poderia impedir Fogg de acertar o aparelho para que voltasse automaticamente a receber dentro de um certo tempo. Mas Fogg poderia achar que ele pensaria nisso e por isso apressou-se a desligar o aparelho antes que Fogg e a sua turma pudesse voltar. Nemo estava muito indeciso, o que era estranho em um homem de tanta inteligência e expediente. Se ele entrasse no convés de proa, ficaria exposto aos tiros de um homem cuja frieza e precisão com armas tinha sido provado em Bundelcund. Além disso, Fogg estaria em uma semi-obscuridade. As janelas estavam cobertas com persianas, e quando estivesse quebrando as mesmas para que entrasse alguma luz, ficaria exposto. Fogg ficaria esperando que ele fizesse isso e depois o atacaria. A cabina do convés era feita de chapas finas de metal, que seriam facilmente atravessadas pelas balas, mesmo que Nemo ficasse de um dos lados enquanto rasgasse as cobertas de encerado. Ficou alguns instantes no convés, depois afastou-se. No caso de Fogg não encontrar os diagramas com o chefe, o próprio aparelho teria de ser abandonado, sem que se pudesse fazer nada. E se ao menos Passepartout não estivesse morto. Nemo não esperava que Fogg se entregasse para salvar Passepartout. Isso só acontece em novelas. Fogg sabia que seria morto se capitulasse. Nemo resolveria não mantê-lo mais como prisioneiro. Os dois seriam capazes de dirigir o navio para algum porto, mas Nemo não poderia ficar desperto durante o tempo suficiente. E não podia mais se arriscar se Fogg continuasse vivo. Esse inglês era muito esperto. Passepartout estava sentado de costas para o parapeito da cabina principal. Sua testa e nariz estava sangrando, e os olhos estavam baços. Apesar disso, ele cuspiu em Nemo. — Ótimo! Ainda está vivo! disse Nemo. Passepartout não respondeu. Nemo revistou-o, mas não encontrou armas. Ele segurou Passepartout com sua mão esquerda, com o seu revólver na cinta, e empurrou-o para frente. O francês esparramou-se no convés, porém, depois de ser erguido outra vez, tentou ficar em pé. - Se o seu patrão quiser entrar em um acordo, no qual todos saiam ganhando, embora seja inevitável alguma perda, nesse caso você continuará vivo, disse Nemo. Fez Passepartout caminhar à sua frente com o cano do revólver, até chegarem ao convés de proa. Estacando na entrada da cabina do auxiliar de imediato, Nemo expôs as suas condições. Sua voz era sumida, e ele não tinha certeza que Fogg pudesse ouvi-lo. Talvez ele estivesse até mesmo na cabina, e poderia escapulir enquanto ele estivesse ocupado com o francês, mas não achava isso provável. Após uma breve pausa, ouviu-se a voz fraca de Fogg. — Pois bem! Aceito se me disser o que aconteceu com os passageiros desse navio. Não espero que me conte algo sobre sua própria gente, o que poderia revelar seus segredos. — Não lhe posso dizer muito porque o nosso homem não dispõe de muito tempo a não ser para uma breve descrição. Para ouvi-lo, Fogg tinha que ficar perto da porta. E se ele desse dois tiros rápidos, um de cada lado da porta? As balas atravessariam a parede de metal. Mas, isso era muito arriscado. — Isso tudo parece misterioso, disse Nemo. -- Mas coisas desse tipo já aconteceram antes e sem dúvida tornarão a acontecer. Como deve ter notado, há sinais de partida rápida, porém nenhum indicio de violência no navio. O barco possui uma carga de setecentos barris de álcool, colocados em barris de abeto e carvalho. Esse material é muito volátil, e qualquer vazamento pode dar origem a uma explosão ou um incêndio. Mas não foi esse o caso. Esse navio não foi abandonado por essa causa. — Os marinheiros deixaram suas roupas, botas, impermeáveis e seus cachimbos. Portanto, a situação era tal que não havia tempo para levar os objetos que normalmente um marinheiro não deixaria. Principalmente os cachimbos. É claro que essa desgraça não aconteceu na hora de refeição, pois as mesas não estão postas. — Segundo o nosso homem... — Seu nome era Edward W. Head, e era cozinheiro e garção, disse Fogg. Estava com seus documentos. Acho que é importante o fato de se chamar Head. Ele deve ser o seu chefe. — É apenas uma coincidência, disse Nemo. -- Nós já deixamos aquele costume antigo, mas inútil, de usar nomes que indicam o cargo de uma pessoa. — Talvez, disse Fogg. Nemo imaginava o que mais ele havia achado em Head. — Ele está morto? disse Nemo. — Sim. — Deve ter notado que o livro de bordo, o sextante e o cronômetro estão faltando, disse Nemo. - - Evidentemente, o capitão — que, a propósito, se chamava Briggs — teve tempo de apanhar esses. Outros objetos, tais como roupas, foram deixados. As provisões que estavam na despensa não foram colocadas no escaler. — Escaler? E o barco grande, o salva-vidas principal? — Esse ficou em Nova York. Danificou-se durante o carregamento dos barris. Vários deles caíram sobre o mesmo, e o capitão Briggs não quis atrasar o navio, para esperar o seu conserto. O escaler comportava dez pessoas, porém era menor e não tão próprio para o mar como o outro barco maior. A última hora assinalada no diário de bordo era oito da manhã do dia vinte e cinco de novembro, disse Fogg. — E depois disso? — Entre nove e dez horas, o Mary Celeste estava a várias milhas dos baixios de Dollabarat, disse Nemo. — Eles são perigosos a cerca de três milhas e meia a sudeste das rochas das Formigas. Elas são, ao que parece, os picos de montanhas submersas. O Mary Celeste não se achava tão perto que pudesse correr algum perigo e teria passado a salvo, mas... Nemo imaginava por que Fogg os estava forçando a essa explicação demorada. Esperava ele fazer tempo antes de sua partida porque havia planejado alguma trapaça que exigia tempo para ser preparada? Pois bem, ele nada podia fazer a respeito. Mas se as coisas piorassem de repente para ele, ele mataria Passepartout. E talvez essa conversa demorada pudesse se tornar vantajosa para ele, se tivesse alguma idéia. - Uma dessas calmarias inexplicáveis porém freqüentes, atingiu o navio. Em qualquer outro lugar, o Mary Celeste teria se safado. Mas nesse caso, com as velas arriadas, o navio foi levado pelas correntes marítimasna direção dos baixios de Dollabarat. Esses já fizeram várias vítimas. E parece que em breve fariam mais uma. O capitão Briggs tinha as velas pequenas enfunadas e a vela mestra abaixada e o navio seguia o rumo estibordo. Isso era para ter certeza de que se o vento voltasse a tempo, ele sopraria contra as velas e pararia o navio. Então o escaler poderia encostar no navio, e a tripulação poderia içá-lo. - Depois disso, o capitão ordenou que o' navio fosse abandonado. — O escaler permanecia perto da escotilha principal. Não havia tempo para uma partida demorada; tudo foi feito em poucos minutos. O escaler foi baixado sem guincho, e a adriça de cima não foi usada. Foi utilizada como um cabo de reboque para o escaler, com uma das extremidades presa à carangueja. (A carangueja era o botaló sobre a qual a parte superior de uma vela latina ficava extendida. A adriça tinha cerca de sessenta metros de comprimento, e o local onde ela se prendia à carangueja, ficava cerca de um metro e meio acima do convés.) — O capitão levou os documentos do navio, o cronômetro, e o sextante. Um marinheiro tentou levar uma bússola; é por isso que a bitácula está fora de lugar e a bússola estava quebrada, devido à pressa em retirá-la. Não houve tempo para levar a outra bússola. O navio teria se aproximado muito das rochas. — A essa altura, Head recusou-se a entrar no escaler junto aos outros. Acreditava que a sua única chance de sobrevivência estava no uso do aparelho. Se estivesse no escaler, teria de abandonar o aparelho e as pessoas presentes. É verdade que ele poderia atirar nas nove pessoas no barco, mas seu revólver tinha apenas seis balas, e poderia ser subjugado antes que pudesse recarregá-lo ou mesmo antes que acabasse de atirar. Resolveu arriscar-se no próprio navio. Se pudesse chamar a atenção de... de um dos nossos, de posse de um aparelho, ele poderia ser transportado. Ou melhor ainda, se pudesse ter um número de homens suficiente transportados para o Mary Celeste e a calmaria não perdurasse, então poderia navegar para a Europa. Fogg gostaria de saber por quê Head havia embarcado em um bergantim como cozinheiro e garção em vez de seguir para a Europa em um navio de carreira? Seria porque ele achava que os eridaneanos o procurariam nos navios de passageiros? Esperava ele passar despercebido neste navio a vela, despedir-se ou desertar em Gilbratar, e daí seguir disfarçado para a Inglaterra? O que levava ele consigo tão valioso? O aparelho? Ele era de fato valioso, mas por quê ele não havia esperado na América até que o agente chinês chegasse à Inglaterra a fim de que pudesse ele ser transportado para lá? Um outro capeleano poderia ter trazido o aparelho mais tarde. Se o aparelho fosse o responsável por todo esse sigilo e pressa, ele poderia entender os atos de Head. Mas, achava que devia haver um outro motivo. Se Stuart estivesse a par da existência de Head e de sua missão, teria posto sua gente a procura de Head. Devido ao estrito sistema de segurança não havia informado Fogg. Ou talvez tudo isso tivesse começado após Fogg ter saído da Inglaterra e Stuart não pudera fazer isso chegar ao seu conhecimento. Fogg resolveu examinar outra vez o corpo de Head, antes de sair da cabina. - O capitão Briggs ficou furioso quando Head recusou-se a entrar no escaler. Chamou-o de covarde e amotinado e ameaçou-o com todas as conseqüências que resultariam de um motim. Mas pouco podia fazer e não havia tempo se quisesse fazê-lo. D escaler partiu e estava agora sendo rebocado. Briggs esperava para ver o que aconteceria. Se soprasse uma brisa em tempo, o navio se afastaria dos rochedos. O escaler seria içado novamente e eles tornariam a embarcar no Mary Celeste. Ele deve ter pensado também que Head para reconquistar a confiança e ser perdoado de certas acusações, guiaria o navio e daria toda assistência que pudesse. - Porém, começou a ventar, enfunando as velas redondas, e o navio afastou-se dos rochedos. Entretanto, seguia para bombordo em direção oposta ao seu curso anterior. O cabo de reboque ficou esticado e deslocou-se quebrando. O escaler, embora remado desesperadamente em direção do navio não pôde alcançá-lo. - E por quê Head não aproximou o navio? disse Fogg. - Porque ele temia não contar com a gratidão de Briggs. Ele era um austero capitão da Nova Inglaterra que talvez o prendesse e o acusasse de motim, mesmo que Head houvesse salvo a todos. Estaria Nemo contando a verdade toda? Teria aquele impulso do vento realmente quebrado o cabo de reboque? Ou teria ele sido cortado por Head para garantir que Briggs não voltaria a bordo? Na ocasião em que o escaler avistasse terra ou que seus passageiros fossem recolhidos por outro navio — se não morressem antes no mar - - Head já teria sumido de há muito. Quanto à estória do pânico e do abandono antecipado do navio, ela bem podia ser verdade. Havia cerca de duzentos e trinta e duas deserções cada ano. Às vezes, as tripulações eram recolhidas por outros navios. Em outras, nunca mais eram vistas. Muitas vezes, os motivos das deserções apressadas eram desconhecidos. Um incêndio, uma explosão, água em excesso no porão eram suficientes. Às vezes, não se conseguia saber os motivos das deseções. O caso do Mary Celeste foi apenas um entre muitos — que talvez nunca se chegou a saber. Muitos navios eram tragados pelo oceano. — O navio atravessou vários temporais, o que explica as velas danificadas e a umidade nos porões e nas roupas em algumas das cabinas, disse Nemo. - Head pouco podia fazer contra isso, e esses danos não foram muito graves. Ele estava preocupado principalmente em entrar em contato com nossa gente que possuía aparelhos Nem mesmo se incomodou de fechar as portas e as escotilhas da proa, embora tivesse lavado os pratos. — Estava começando a se desesperar, porque se uma tempestade violenta atingisse o navio, ele na certa afundaria consigo a bordo. - Ele não ficará desesperado nunca mais, disse Fogg. Capítulo 15 Fogg disse a Nemo para esperar alguns minutos até que o acordo de trégua entrasse em vigor. Esse atraso teria irritado Nemo, que poderia querer saber quais seriam as intenções de Fogg. Este não se importava com isso. Queria apenas tempo para reexaminar o cadáver. Sendo um homem muito meticuloso, ele limpou o sangue que estava no chão com um pedaço de lona. Mais tarde ele usaria água do mar para retirar todo vestígio de sangue do chão e água e suco de limão para limpar a espada. Essa última seria posta de novo na bainha, embaixo do leito do capitão. Fogg desejava deixar o navio, da maneira em que o havia encontrado. Ele despiu o cadáver, apalpou as roupas, e depois cortou-as com um canivete. Nada encontrou nas mesmas. As botas foram examinadas, porém nada continham. Head parecia ter todos os dentes naturais; não havia pivots nem coroas que pudessem conter objetos escondidos. Talvez na pele estivessem feitos desenhos ou algo escrito com alguma tinta invisível. Ele não tinha meios de descobrir isso. Jogaria ele o corpo no mar ou o levaria de volta ao General Grant para fazer mais testes? Na certa haveria tumulto devido a essas séries de ruídos, e quando eles soassem pela quarta vez, anunciando a sua chegada, haveria mais confusão. Poderiam ser revistadas todas as cabinas, e ficaria mais embaraçoso explicar a existência do corpo de Head. Após terminar esse exame, ele puxou outra vez os cabelos do cadáver, para ter certeza que não havia uma cabeça raspada com um código escrito nela, sob uma peruca. O cabelo de Head parecia ser natural. Fogg levantou-se e caminhou em direção à porta. Disse que estava pronto para iniciar a operação de desarmamento. Passepartout revistou completamente Nemo, enquanto este mantinha sua arma encostada na cabeça de Passepartout. O francês declarou que Nemo não parecia ter armas escondidas desde o exame feito no General Grant. Nemo revistou Passepartout de maneira idêntica. A seguir, Passepartout afastou-se, parando ao chegar no parapeito. Nemo segurou o cano de seu Colt com a mão direita, que ainda conservava energia suficientepara essa tarefa. Fez menção de tirar as balas do tambor. Fogg jogou fora a espada, o canivete e a faca de Head. Ficou de pé na passagem, segurando o revólver pelo cano. Os dois juntos se desfizeram das balas. Fogg saiu para o convés, com as balas na mão. Nemo afastou-se para trás até chegar no parapeito do navio do lado de estibordo. Fogg fez o mesmo do lado de bombordo. A um sinal feito por Passepartout, ambos ao mesmo tempo, jogaram as balas no mar. Fogg havia tirado seu paletó e camisa antes de entrar na cabina do convés, para certificar-se de que ele não poderia obter outras balas. Isso não era preciso, pois as balas podiam ser vistas afundando no mar. Passepartout lançou as facas no mar. Nemo permitiu que o francês fizesse isso porque achava que ele não estava em condições de fazer mal a ninguém mesmo que Passepartout o atacasse armado com uma faca. Nemo quis que a espada também fosse jogada fora, porém Fogg fez questão que todos objetos a bordo fossem devolvidos aos seus primitivos lugares, com exceção de Head naturalmente. Estávamos em um momento delicado. Nemo podia tentar-se apoderar da espada. Se Passepartout a pegasse antes, Nemo achava que ele podia evitar o primeiro golpe fraco e depois terçar armas com Passepartout. Mesmo se este a jogasse fora, Nemo teria vantagem sobre os outros. Ferido como estava, e ainda com uma forte dor de cabeça devido aos dois golpes que recebera, achou que estava fisicamente superior aos outros dois. Foi então quando Fogg lembrou-lhe que Aouda o esperava do outro lado do navio com o cilindro de cianureto. Ela tinha ordens para usá-lo se Nemo aparecesse sozinho. Apesar de tudo isso, Nemo resolveu de repente que tentaria subjugá-los. Se ele pudesse jogar Fogg no mar, daria conta facilmente do francês. Não o mataria, porque poderia precisar dele para transmitir o código exato para Aouda. Porém, havia muitos modos de fazê-lo fornecer essa informação. E no caso de Passepartout recusar-se, ou se morresse, nesse caso ele enviaria uma mensagem para o chinês. O mesmo estaria certamente na escuta, a essa altura. Ou, no caso de isso não ser possível, ele faria o navio seguir rumo este novamente, na eSperança que um outro barco avistasse o Mary Celeste. Foi nessa ocasião que Nemo teve um acesso de tremor. Não sabemos se isso aconteceu pela primeira vez ou não. Fogg estava perplexo, pois não havia observado nada disso quando servia sob as ordens de Nemo. Segundo informes de um outro inglês, esses acessos tornaram-se mais freqüentes e uma parte deles tornou-se permanente. Ninguém sabe qual seria a origem de tal doença. Talvez as descargas nervosas, reprimidas por muito tempo, teriam danificado uma parte de seu cérebro. Seja como for, nessa ocasião Nemo começou a tremer fortemente. Isso durou cerca de um minuto, após o que ele parece ter recuperado o controle parcialmente. No momento apenas sua cabeça oscilava como se fosse a de uma serpente. Isso, acrescido à sua testa saliente e os olhos muito espaçados, davam-lhe a aparência de uma cobra. Depois de mais ou menos um minuto, cessou o movimento nervoso. Ele tornou-se mais pálido, e parecia muito fatigado. Passou a mão pela testa e gritou bem alto para que Passepartout o ouvisse: — Santo Deus! Isso já basta! Depois disse: -- Não sou capaz de fazer isso! Nenhum dos eridaneanos entendeu o que ele queria dizer com isso, mas podemos deduzir que ele havia planejado um ataque final contra eles, porém agora percebia que não podia executá-lo. Passepartout levou a espada para a cabina do capitão, limpou-a, a pedido de Fogg, e colocou-a de novo na bainha e embaixo do leito. Quando voltou, viu que Fogg e Nemo continuavam no mesmo lugar. O próximo passo seria livrar-se do corpo de Head e de sua roupa. Nemo havia se refeito bastante para ajudar nesse ponto. Fogg segurou o corpo de Head pelos pés e Nemo pela cabeça. Este não largou o cadáver ao mesmo tempo que Fogg, e por um instante, sua mão passou sobre o rosto de Head. Fogg achou que isso indicava a doença de Nemo e a sua resultante falta de coordenação. O alojamento do navio foi inteiramente limpo a fim de que não ficassem vestígios de sangue. Fogg trouxe uma caixa aberta do hospital do navio. Colocou-a de borco sobre o convés, perto da abertura existente no parapeito do navio que serve de acesso ao escaler. Essa caixa continha o aparelho, posto para transmitir dentro de três minutos. Os três se reuniram sobre a caixa e se abraçaram. Fogg esperava que o próprio balanço do navio jogaria o aparelho na água do mar. Ele esperava que o transporte teria lugar antes que os três fossem afastados da caixa pelo balanço do navio. Ele havia dado maiores instruções a Aouda, e ela, usando o relógio que Fogg comprara para ela em Hong Kong, determinou a hora exata do transporte. Ela ajustou seu aparelho em cerca de seis segundos antes que Fogg desse início ao transporte. Os três, seguidos pelos nove estrondos, surgiram em cima da mesa na cabina de Aouda. Aouda havia apontado a ponta do cilindro de cianureto na direção do rosto de Nemo. Ele não se moveu até que Fogg lhe dissesse que podia ir embora. Ele ficou um tanto surpreso, como se esperasse que, agora estando em inferioridade numérica, seria novamente aprisionado. A verdade é que, se as circunstâncias fossem opostas, ele teria se aproveitado das mesmas. Ele inclinou-se e saiu da cabine, cercado pelos passageiros quase histéricos. Como não pudesse ouvir nada ainda, Fogg e Aouda se comunicaram por meio de escrita. Aouda escreveu, então, dizendo que tinha havido muita confusão e gritaria. Depois de algum tempo, a maioria dos passageiros, falando em altas vozes, porém sem pânico, havia retornado às suas cabinas. Alguns continuaram no convés; outros se dirigiram ao bar, que foi aberto devido à insistência deles. As duas séries de estrondos que se seguiram à ativação do aparelho por Fogg a fim de enganar os capeleanos, tinha trazido novamente todo mundo para o convés. Al^ns passageiros insistiam em dizer que o foco do ruído achava-se nas cabinas próximas à de Aouda. E um passageiro chegou a fazer uma verificação, e um oficial tinha falado com ela na porta. De fato, ela ouvira falar da descoberta de uma porta arrombada na cabina de Fogg, e os tripulantes o estavam procurando. Porém nessa confusão toda, quem poderia encontrar qualquer coisa? A fechadura quebrada poderia ser atribuída aos esforços de um ladrão para entrar na cabina de Fogg, enquanto os passageiros estavam em pânico. Fogg achou muito inconveniente isso não poder ser mantido em segredo. Tanto os capeleanos como os eridaneanos, lendo nos jornais sobre os misteriosos estrondos imitando sino, no General Grant, ficariam sabendo que tinham sido usados aparelhos. Ficariam observando o navio, quando os passageiros desembarcassem. O leitor na certa estará querendo saber por quê J. Verne não se refere aos misteriosos estrondos. A resposta para isso é que ele teria mencionado se Fogg tivesse qualquer relação com eles através das autoridades. Ou então se houvesse uma explicação lógica para os ruídos, Verne os teria incluído em seu livro. Mas como esses ruídos imitando sino eram mais um mistério dos mares, Verne, como novelista disciplinado, não viu razão para incluir esse incidente. Se o tivesse feito, o livro A Volta ao Mundo em Oitenta Dias teria o dobro do tamanho. É possível também que J. Verne nunca tenha ouvido falar de tais estrondos. No dia seguinte à tarde, Passepartout encontrou-se com o sr. Fix passeando no convés de proa. Embora um tanto pálido e abalado, Fix havia recuperado quase toda a sua energia. Nemo lhe contara tudo o que havia sucedido. Nemo lhe dissera para continuar a bancar o inocente. Nada devia dizer de sua enfermidade a Passepartout, que atribuiria isso ao fato de Fix não ter acompanhado a Nemo. Fix disse à Passepartout que ele havia estado dormindo sossegadamente até ser despertado pelo primeiro daqueles estrondos. O que sabia o senhor Passepartout a esse respeito? O francês disse que sabia tanto quanto os outros. Após alguma conversa e grandesdoses de bebida, ele voltou a encontrar-se com Fogg. Talvez Fix fosse apenas um detetive. Fogg respondeu que isso era bem provável. E agora, será que ele se sentaria com a srta. Jejeebhoy e ouviria o que Fogg sabia sobre Nemo? Não havia sentido em continuar a manter segredo, se de fato havia antes necessidade disso. Ficariam sabendo que espécie de homem era aquele com quem estavam lidando. Em 1865, Fogg havia sido intimado pelo seu chefe a comparecer a um encontro secreto. Ele, Fogg, havia estado em uma longa missão no Mediterrâneo oriental. Porém havia sido substituído por outro e recebera ordens para retornar depressa a Londres. O fato dele se entender diretamente com o chefe e não receber suas ordens através dos jogos de cartas ou outros meios indicava a gravidade da situação. Em um trem à caminho de Paris, Fogg ficou admirado ao ver seu chefe entrar em seu carro. O chefe lhe disse que tinha motivos para crer que o local escolhido para as reuniões, estava sendo vigiado pelos capeleanos. Por isso ele havia feito Fogg parar na França. O chefe soubera que o homem chamado Nemo (ninguém sabia o seu nome verdadeiro) estava prestes a por em prática um projeto desconcertante. A palavra "lançar" foi usada num sentido duplo, pois esse projeto incluía um submarino. Após sua construção, ele singraria os mares numa expedição pirata. — Ah, o Nautilus! disse Passepartout. Ele, assim como o resto do mundo, tinha lido em 1869, a descrição feita pelo professor Pierre Arronax, publicada e financiada pelo infatigável J. Verne. Fogg prosseguiu dizendo: — Esse tal de Nemo possui um gênio inventivo que, infelizmente não é dedicado para o bem do mundo. Ele se aplica no bem estar dos capeleanos, que naturalmente acham que o fim justifica os meios. — Nemo havia quase terminado um submarino, que estava muito além do que qualquer outra coisa, no que diz respeito aos aperfeiçoamentos científicos. Uma parte de seus engenhosos aparelhos que permitiam o seu funcionamento, provinha do conhecimento fornecido pelos antepassados. O restante era devido à inteligência quase sobre-humana de Nemo. Esse submarino deveria produzir uma enorme riqueza, tanto pelo saque feito aos navios como também recuperando tesouros submersos. Com isso à sua disposição, os capeleanos poderiam guerrear de modo muito mais eficiente. No mínimo poderiam contratar grande número de criminosos para que nos atacassem. É verdade que esses não saberiam a verdadeira identidade de seus chefes, porém não precisariam saber. — Nunca suspeitei que o Nautilus fosse dos capeleanos! gritou Passepartout. — Mas, a descrição de Arronax faz dele um herói! — De fato, é assim para aqueles que não leram a estória com atenção, disse Fogg. — Uma leitura cuidadosa logo desvanece a imagem de um herói baironiano que Nemo procura formar para si. Ele era, na verdade, um pirata. Um pirata ávido por dinheiro e sedento de sangue, que lançou centenas de inocentes em um túmulo marítimo. É óbvio que ele manteve o prof. Arronax, e seu criado, Conseil, e arpoador Ned Land, vivos apenas porque necessidade de companhia intelectual para alimentar o seu ego. Conseil e Land não eram de seu nível mental, porém se Nemo os tivesse morto, Arronax se recusaria a falar com ele. — Como disse, Nemo é um gênio da matemática e da engenharia. Mas mesmo ele, se fosse apenas um ser terreno, não poderia ter projetado e construído os motores para acionar o Nautilus a cinqüenta milhas por hora ou ter criado as ligas metálicas para suportar a pressão do oceano a quarenta mil pés de profundidade. Ele disse a Arronax que o submarino era movido a eletricidade. Seria isso ou seria a força do átomo que ele usava? Em ambos os casos, ele deveria ter obtido alguma informação dada pelos antepassados capeleanos. Desse ponto ele deduziu o restante, embora isso exigisse uma grande genialidade. — Um de nossos espiões soube dos pedidos que Nemo havia feito para várias indústrias em todo o mundo civilizado, incluindo os Estados Unidos. Afinal de conta, os americanos, sejam quais forem os seus defeitos, são ótimos engenheiros. Nemo estava levando essas peças de fabricação especial para uma ilha remota e montando-as lá. Nosso chefe pediu-me para que eu ganhasse a confiança de Nemo e depois sabotasse o navio. Executei a primeira parte e fiquei aguardando a possibilidade de fazer a segunda. De certas fontes, fiquei sabendo que Nemo estava recrutando uma tripulação em vários países. A maior parte deles, indivíduos desiludidos, eram patriotas. Provinham de países que estavam vivendo sob opressão. Nemo disse-lhes que ele moveria uma guerra sem quartel contra os opressores. Ele próprio sugeriu que viera de um país que sofria sob o jugo britânico. Para dar a aparência de um indiano, ele usava lentes de contato que lhe escureciam os olhos, e muitas vezes falava como se tivesse sido exilado de seu país natal após uma revolta mal sucedida contra os ingleses. — Ele chegou a criar uma gíria náutica, que ensinou à tripulação a fim de que ela obedecesse os comandos nesse idioma. Ao que parece, esse era o dialeto de Bundelcund. Nemo havia estado muito tempo em Bundelcund, uma boa parte dele como ajudante de ordens do rajá, antes desse último trair os capeleanos. De fato, não ficaria surpreso se soubesse que Nemo teria falado ao rajá que iria tornar-se um renegado. O lema de Nemo deveria ser não Mobilis in mobili, mas sim Aut Nemo aut nemo. Ou Nemo ou ninguém. — Seja como for, fui engajado como Patrick M'Guire, um irlandês que odiava os ingleses. Fiz parte da tripulação que aterrorizou os mares de 1866 a 1868. Fui também acusado de afundar todos aqueles navios, pois tinha de desempenhar o meu papel. Considerei que os mesmos iriam ser mesmo afundados de qualquer forma. Tinha que participar disso a fim de que pudesse mais cedo ou mais tarde dar um paradeiro na nocividade de Nemo. De fato, se eu não estivesse a bordo, o Nautilus teria agido durante muitos anos. Apesar disso, eu me sentia culpado. - E imaginem o meu estado quando soube, após tudo terminado, que eu havia tomado parte no afundamento de um navio, no qual meu pai era um dos passageiros. Sentia-me culpado de parricídio. A essa altura, Aouda, com lágrimas nos olhos segurou as mãos de Fogg. Ele parece não ter reparado nisso. Pelo menos, não retirou suas mãos. - O fato de não ter sido de propósito não me alivia em nada. - Desde que o Nautilus foi lançado ao mar em seu cruzeiro inaugural, eu buscava uma ocasião para afundá-lo juntamente com seu comandante. Porém naqueles alojamentos superlotados, onde dezenas de olhos estavam sempre nos observando, não tive oportunidade. Após batermos o U. S. Abraham Lincoln recolhemos a bordo Arronax e seus companheiros. Os fatos se sucederam quase conforme a descrição de Arronax, embora ele não tenha sabido de muita coisa. - E nessa ocasião fomos apanhados por um redemoinho na altura das ilhas Lofoten. Até mesmo esse poderoso redemoinho não poderia nos derrotar se eu não tivesse tido a minha primeira oportunidade para agir. Enquanto os outros estavam ocupados em seus postos, e paralisados de terror, eu destruí os circuitos elétricos que comandam a roda do leme. - Ah, então foi o senhor o responsável pelo afundamento daquele maldito submarino! disse Passepartout. Ele havia mudado completamente a sua idéia inicial a respeito de Nemo como um lutador contra o mal, um gênio torturado e solitário cuja única missão na vida era a vingança contra os opressores. — Realmente. Mas eu poderia tê-lo explodido muito antes disso, mesmo que isso significasse também a minha morte. Arronax, Conseil e Land, como você sabe, escaparam. E eu também. O mesmo aconteceu a Nemo e talvez a outros. Não posso dizer. Pensei na ocasião que eu era o único sobrevivente. Vários meses mais tarde, estava de volta a Londres. Meu chefe e eu consideramos Nemo como morto. Depois vi-o no dia dois de outubro na porta do Reform Club. — Mas, esse homem é tão mau assim? disse Passepartout. E o que dizer do retrato da mulher e das duas crianças que Arronax viu na parede da cabinade Nemo? Por acaso o nosso professor não viu Nemo estender os braços para apanhar o retrato, ajoelhar perante ele e soluçar? Será que um homem impiedoso se comporta assim? — Não há dúvida que ele tem algum sentimento, disse Fogg. — Já ficou provado que o criminoso mais empedernido pode amar sua mãe, mulher ou filhos, e até seu cão. Não conheço as suas ligações familiares. Para dizer a verdade, fiquei surpreso ao saber que ele tinha esposa e filhos. Mas acho que o seu casamento não durou muito tempo. Sua mente era tão arrogante que ele encarava todos os demais, homens e mulheres, como pigmeus mentais. E ele é um homem excessivamente mal-humorado e despótico. Talvez tenha sido abandonado pela esposa, a qual levou os filhos consigo. É por isso que ele chorou. Sua auto-imagem foi afetada; se alguém devia ir embora, era ele. — Seja como for, ele nem sempre manteve aquele retrato na parede. Deve ter notado, segundo Arronax, que ele olhou para o retrato somente depois de estar um ano e meio no Nautilus. Na certa, se ele o tivesse visto antes, teria comentado a respeito. Eu que estive a bordo desde o início, só o vi colocar o retrato duas vezes; e sempre no dia 2 de julho; essa data deve ter algum significado para Nemo, mas ninguém sabe qual é. — Agora, eu entendo-o perfeitamente, disse Passepartout. Nemo não era um patriota indiano que reuniu uma tripulação no mundo inteiro para combater os opressores. Ele era um pirata. — A maior parte de sua tripulação era formada por patriotas, de fato. Porém Nemo estava se aproveitando deles. Eles criam que Nemo entregava os tesouros encontrados para organizações secretas para financiar suas revoluções. Mas não era nada disso. A riqueza ia toda para o tesoureiro capeleano ou para suas próprias contas bancárias. — Quanto ao retrato, aquela mulher e as crianças pareciam muito ser européias; pareciam mais ser inglesas do que indús. — Mas Aouda parece européia. — Ela poderia passar como provençal ou italiana, realmente. — Desculpe-me, senhor, a minha insistência, disse Passe-partout. — E a cena final do professor com o capitão Nemo? Ele não ouviu Nemo soluçando e suas últimas palavras não foram — Deus Onipotente, basta! Basta! Não ficou Arronax pensando que esse explosão de tristeza fosse uma confissão de remorso? — Você notou o acesso de tremor sofrido por Nemo quando estávamos nos desarmando no Mary Celeste? Nemo parece ser e é, um gigante em altura e força. E ele possui, como todos os capeleanos, o elixir que o permitiria viver mil anos. Esse elixir, como você sabe, aumenta a resistência contra as doenças. Estou certo, de acordo com as minhas observações, que Nemo está condenado a viver o mesmo tempo que os outros homens. Ele está afetado por algum tipo de moléstia nervosa. Os seus sintomas tem sido leves até o momento. Porém eles aumentarão. E parte de seu sofrimento é uma dor de cabeça rara, mas muito atroz. .Talvez isso seja causado por um tumor, embora eu suspeite que isso seja causado por traumas recalcados. Mas, quando ele estava gritando: Basta! Basta! ele estava, em minha opinião, pedindo uma cessação de sua dor. O fato dele, sendo um completo ateu, invocar a Deus mostra a extensão de seu sofrimento. E o fato dele falar em inglês nesse momento doloroso, quando um homem faz uso de seu idioma natal, é significativo. — Ele não falou em francês? Mas Arronax... — Ele deixou de mencionar que foi em inglês. Pois, Nemo é natural de algum país de fala inglesa, provavelmente da Irlanda. Ele poderia falar em galés, fluentemente quando falasse com algum irlandês de sua tripulação, embora seja evidente que essa não é a linguagem que ele aprendeu de seus pais. Eu, embora passe como sendo irlandês, disse ser de Dublin e conhecedor de apenas algumas frases de celta." — Pobre homem, disse Auoda. — Sofrer tanto assim e condenado a uma morte prematura, quando poderia viver mil anos! De fato, o elixir iria apenas prolongar seus sofrimentos. Sem ele, morrerá dentro de alguns anos, dando um fim aos mesmos. — Não sinta pena dele, disse Fogg. - - Nem deixe que a enfermidade dele a faça subestimá-lo. Devemos estar prevenidos durante o resto de nossa viagem neste navio. Não confio nele e acho que ele poderá quebrar o seu juramento de não lutar até desembarcarmos em São Francisco. Capítulo 16 Assim que desembarcou em São Francisco, o sr. Fogg ficou sabendo que o próximo trem para Nova York saía às seis horas da tarde daquele dia. Reservou aposentos para três pessoas em um hotel e depois dirigiu-se ao Consulado britânico, acompanhado por Aouda. Caminhara apenas alguns passos ao sair do hotel, quando encontrou-se com Passepartout. O francês o aguardava a fim de pedir licença para comprar alguns fuzis Enfield e revólveres Colt. J. Verne diz que o francês precisava deles no caso de serem atacados por índios, a caminho do centro-oeste americano. É verdade que tanto ele como Fogg, pensavam mais na defesa contra os capeleanos do que propriamente os índios Sioux ou Pawnee. Um pouco mais adiante, Fogg encontrou "por mero acaso" com o sr. Fix. Esse detetive fingiu grande surpresa. Seria verdade que ele e o sr. Fogg tinham cruzado juntos o oceano Pacífico e nem uma vez se encontraram? Como Fix devia muitas obrigações ao sr. Fogg, ele gostaria de acompanhá-lo. Será que poderia ir com ele em sua visita a essa agradável cidade americana, tão parecida com o Velho Mundo em muitos aspectos? O sr. Fogg disse que ficaria honrado com isso e Fix seguiu com os dois. Na rua Montgomery, os três toparam com uma grande multidão. Em toda parte, havia gente gritando e cantando slogans e carregando grandes cartazes e faixas. — Viva Camerfield! — Viva Mandiboy! Fix disse que se tratava de um comício político e que se deviam afastar do mesmo. Os americanos tornam-se violentos quando encontram oposição às suas crenças políticas, e os dois partidos se defrontavam naquela data. O sr. Fogg deve ter pensado que o mesmo podia-se dizer a respeito dos ingleses — e isso era verdade naquela época — porém ele nada disse. Ao contrário, fez outra de suas observações clássicas. — Sim, é verdade, e os golpes, mesmo que sejam políticos, continuam sendo golpes. Logo depois, teve inicio uma luta. Os três súditos britânicos ficaram envolvidos no meio de partidários de Camerfield e de Mandiboy. A maioria deles estava armada com bastões revestidos de chumbo ou lâminas, e alguns possuíam revólveres. Os punhos, os bastões, espadas, porretes e saltos de sapatos eram utilizados com vigor e as vezes, sem olhar em quem. O trio estava no alto de uma escadaria no fim da rua, porém achou que esse local não oferecia segurança. A avalanche de malandros arrancou os três da escadaria. Fogg usava seus punhos para proteger Aouda. Um sujeito musculoso de cara vermelha e uma barba ainda mais vermelha fez menção de agredir Fogg. Fix adiantou-se e levou o golpe. Os seus joelhos dobraram, e o seu chapéu de seda caiu ao solo. Ele recuou cambaleando, porém com o olhar baço. Ficaria alguns dias com um galo no alto da cabeça. — Yankee! disse Fogg, olhando com desdém o malandro de barba vermelha. — Seu inglês! Tornaremos a nos encontrar! — Quando quiser, disse Fogg. — Qual é o seu nome, senhor, disse o americano. — Phileas Fogg. E o seu? — Coronel Stamp Proctor. A avalanche de corpos continuava a passar. Fogg agradeceu ao detetive pela sua nobre intervenção. Nenhum deles ficara gravemente ferido, embora as roupas de ambos dessem a impressão que eles haviam saltado de um trem caminhando a sessenta milhas por hora. Aouda estava ilesa. Os três recorreram a uma alfaiataria. Uma hora depois, estavam de volta no hotel, trajando roupas novas. No trajeto, Fogg comentou o incidente com o Coronel. Talvez ele não passasse de um valentão de São Francisco. Porém, aquele nome, Stamp Proctor! Seria ele o procurador capeleano lotado nos Estados Unidos para atuar contra o inimigo? Será que o nome Stamp indicava que outra de suas funções era o assassinato, a eliminação dos eridaneanos? Ou seria o seu nome apenas uma coincidência? Nemo disseraque os capeleanos estavam deixando o antigo costume de utilizar nomes para indicar certas coisas. Entretanto, Nemo era um mentiroso. E mesmo que estivesse dizendo a verdade, talvez a reforma não tivesse ainda entrado em vigor. Disse com seus botões que não deveria ter dado um passeio mas deveria ter ficado em seu quarto, como de costume. E por quê havia ele contrariado essa hábito? Quisera mostrar a cidade a Aouda. Fogg pensou também em Fix. Ele se apressara para aparar o golpe que lhe era destinado. Por quê teria feito isso se era um capeleano? Teria sido para convencer Fogg que ele não passava de um inglês que defenderia um conterrâneo na terra americana? Isso não parecia provável. Se Proctor era um capeleano, não iria querer desperdiçar seus esforços. De fato, Fix devia ter auxiliado Proctor. Porém, não auxiliou; fez justamente o contrário. Após o jantar, Fogg disse a Fix: — O senhor viu novamente esse Proctor? — Não. — Vou voltar a América, para procurá-lo, disse Fogg calmamente. — Não ficaria bem a um inglês deixar que o tratem dessa maneira, sem uma compensação. Fix sorriu, mas não respondeu. Fogg gostaria de saber o que ele pensava. Quanto ao que dissera, era bem verdadeiro. Depois que tudo isso passasse, ele voltaria à procura do coronel. Sendo inglês, ele faria disso um ponto de honra. Como eridaneano, faria isso para eliminar um capeleano — no caso de Proctor ser um deles. Havia 3.786 milhas de estrada de ferro para serem atravessadas entre São Francisco e a cidade de Nova York. Entre o oceano e a cidade de Omaha, em Nebraska, a ferrovia passava em um terreno acidentado e perigoso infestado de animais selvagens e índios bravios. Uma parte desse território era ocupada pelos mórmons, gente relativamente pacífica, embora considerada pela maioria dos gentios daquela época como não civilizados. O trem, andando em média apenas vinte milhas por hora devido às inúmeras paradas, levaria sete dias para fazer a viagem. Ou seja, faria nesse tempo se não houvesse a interferência de búfalos, selvagens, tempestades, enchentes, desabamentos, acidentes, e avalanches. Entretanto, se fosse cumprido o horário, Fogg chegaria no dia onze de dezembro, para tomar o vapor de Nova York para Liverpool, na Inglaterra. Às oito horas, em meio a uma nevasca, o carro em que iam Fogg e seu grupo, estava transformado em dormitório. Ao meio-dia do dia seguinte, o trem parou para que se fizesse Uma refeição de vinte minutos em Remo, Nevada. As doze horas, o trem foi obrigado a parar até o anoitecer a fim de deixar uma grande manada de búfalos atravessar os trilhos. As nove e trinta da noite, o trem penetrou em Utah. Na noite do dia cinco de dezembro, o trem estava a uma distância de cem milhas do Grande Lago Salgado. Embora Fogg não soubesse, foi nesse dia que o bergantim Dei Gratia encontrou-se com o Mary Celeste navegando a esmo, sem uma viva alma a bordo. Se Head tivesse confiado na sorte, teria embarcado no Dei Gratia e teria desembarcado no dia doze de dezembro, em Gibraltar. É verdade que ele seria forçado a comparecer aos tribunais, porém sairia livre. Isso teria acrescentado mais um toque de mistério a um caso que tem intrigado o público e os cientistas e dado origem a muitas estórias falsas, durante um século. Até mesmo o nome do navio para muitos, é Marie Celeste. Entretanto, esse erro não é um mistério. Provém de uma anotação errada no registro de pilotos da cidade de Nova York, do dia sete de novembro de 1872. Esse erro foi perpetuado nos arquivos do Departamento de Estado americano, e os jornais americanos continuaram a usar o nome errado. Talvez quem mais tenha influenciado para disseminar esse erro tenha sido A. Conan Doyle em sua estória bastante conhecida, J. Habakuk Jephson’s Statement. No dia sete de dezembro, o trem parou durante quinze minutos na estação de Green River no território de Wyoming. Vários passageiros desceram para fazer um pouco de exercício. Aouda, olhando pela janela do trem, ficou assustada. Tinha avistado o coronel Stamp Proctor na plataforma. J. Verne diz que foi apenas o acaso que trouxe Proctor naquele trem, porém estamos mais bem informados. Verne diz também que Fix, Aouda e Passepartout combinaram não deixar que Fogg soubesse que o coronel estava em um outro carro como passageiro. Isso foi um dos acréscimos novelísticos de J. Verne. Na realidade, Aouda acordou Fogg para falar-lhe sobre Proctor. Fogg simplesmente perguntou se Fix e Aouda podiam jogar uiste, e logo começaram a jogar. Aouda, usando as cartas como transmissoras de código, perguntou a Fogg o que ele pretendia fazer a respeito de Proctor. Fogg respondeu — Nada por enquanto. — Por quê não, pode-se saber? — A hora e o local não são apropriados. O trem levou-os logo a passar as Rochosas, em meio a neve. Um pouco além de Fort Halleck, o trem parou de modo inesperado. Os passageiros alarmados, com exceção de Fogg, saíram do trem. Acharam o maquinista e o foguista falando com um sinaleiro. Ele havia sido mandado de Medicine Bow, a parada seguinte, a fim de parar o trem. Uma ponte sobre alguns rápidos estava em situação muito precária para que o trem a atravessasse. Um americano chamado Forster, sugeriu que o trem recuasse a fim de que pudesse correr mais. Se alcançasse velocidade suficiente, poderia saltar sobre a ponte. Após alguma hesitação, os passageiros concordaram, com exceção de um deles. Passepartout, utilizando a lógica que distingue o verdadeiro francês, perguntou por quê os passageiros não passavam andando pela ponte? Por quê ficar no trem, que poderia se precipitar no abismo? Ele foi rejeitado por todos e saiu andando todo trêmulo, enquanto o trem correndo a cem milhas por hora, passou rápido sobre a perigosa passagem. Mal acabara de passar as rodas traseiras do último carro, quando a ponte ruiu, com grande alarido, caindo no abismo. Passepartout, limpando o suor da testa, achou que devia haver algo no ar desse continente que tornava loucos todos os seus habitantes. O jogo de uiste foi reiniciado. Quando o trem estava em Nebraska, os três ouviram uma voz familiar. — Eu jogaria uma carta de ouros! Era Proctor, que fingia não haver reconhecido o inglês até aquele instante. — Ah, é o senhor, que vai jogar uma carta de espadas? — E quem o joga? disse Fogg, descartando o dez de espadas. — Bem, gostaria que ele fosse de ouros, disse Proctor. Ele inclinou-se como se fosse apanhar a carta, dizendo: — O senhor não conhece nada do jogo de uiste. — Talvez saiba tanto como os outros, disse Fogg, enquanto se levantava. Fix também levantou-se e disse: — O senhor se esquece que é comigo que deve tratar, meu senhor. Foi a mim que o senhor, não apenas insultou como também agrediu. Fogg entendeu o que Stamp estava fazendo. Ele tentaria matar Fogg abertamente em um duelo. Os mesmos não eram raros nos territórios, mas Nebraska tinha sido admitido como estado no dia 1.° de março de 1867. O estado proibia duelos e fazia cumprir essa lei com severas punições? Isso não importava. Proctor parecia não pensar que um processo legal seria o resultados do duelo. Na realidade, ele estava fazendo exatamente o que Fogg esperava. Foi por isso que Fogg suportara os insultos de Proctor e o obrigara a vir procurá-lo. Se Fogg vencesse e fosse preso, poderia argumentar que não fora o agressor. — Desculpe-me, sr. Fix, disse Fogg. — Esse assunto é só comigo. O coronel disse, de modo indiferente, que a hora, o dia, e as armas do duelo ficariam a escolha de Fogg. Entretanto, lá fora na plataforma Fogg tentou obter um adiamento do duelo com Proctor. Este recusou de modo irônico e insinuou que Fogg era um covarde que, uma vez a salvo na Inglaterra, não ousaria voltar. Vendo que o coronel estava decidido a duelar de imediato, e que ele possuía muitas testemunhas para provar que ele tentara adiar o encontro, Fogg concordou em trocarem tiros na próxima parada. Aouda tentou fazê-lo desistir, mas não teve êxito. Fogg perguntou a Fix se seria o seu padrinho. Fix respondeu que isso lhe seria uma honra. Passepartout entendeuque esse pedido era mais um teste para o detetive. Pouco depois das onze horas da manhã, o trem parou em Plum Creek. Fogg desceu do trem, apenas para saber que o trem não iria parar mais de um minuto. Estava com vinte minutos de atraso, e devia tirar esse atraso. Fogg tornou a subir ao trem. O guarda-trem sugeriu que o duelo fosse feito com o trem em movimento. Fogg e o coronel concordaram. Os duelistas, com seus padrinhos, e o guarda-trem seguiram para o último carro do trem. Lá o guarda trem pediu aos passageiros, em número de mais ou menos doze, que se retirassem até que os dois cavalheiros tivessem resolvido a sua disputa. Eles saíram logo, felizes por terem alguma coisa para aliviar o tédio. 0 carro tinha trinta metros de comprimento. Fogg ficou em uma das extremidades e Proctor na outra. Cada um empunhava um revolver de seis tiros. O guarda afastou-se, e os dois padrinhos fecharam as portas do carro. Após o maquinista apitar a locomotiva, os dois avançariam um contra o outro, atirando como quisessem. Antes que Fogg e Proctor pudessem começar a atirar, o trem foi atacado por cerca de cem índios Sioux a cavalo. Os dois duelistas foram os primeiros a atirar nos índios; concordaram sem dizer palavra em adiar o duelo, até que o perigo tivesse passado. Se sobrevivessem ao ataque, poderiam concluir a sua rixa. Como muitos são capazes de se lembrar da estória de J. Verne, alguns índios Sioux subiram na locomotiva e deixaram inconscientes o maquinista e o foguista. O chefe dos índios, ao tentar deter o trem, abriu mais a válvula de vapor ao invés de fechá-la. O trem atingiu logo a velocidade de cem milhas por hora. Isto obrigou os passageiros a parar o trem em Fort Kearney. Se o trem ultrapassasse essa estação, os Sioux teriam tido tempo de dominar os passageiros. Muitos dos índios estavam no trem, atirando e lutando corpo a corpo com seus inimigos, que dessa vez eram os verdadeiros caras pálidas. Passepartout tinha ficado com medo ao ver a falta de lógica dos outros quando tentaram fazer o trem atravessar aquela ponte defeituosa. Porém, como a lógica exige ação, ele deixou de lado seus temores. A lógica exigia agora que o trem fosse parado em tempo. Com bravura e agilidade, pois ele era um acrobata, ele se arrastou por baixo dos carros sob suas correntes e eixos. Soltou as correntes de segurança entre o carro de bagagem e o tender, e com um golpe violento retirou o pino de ligação. A locomotiva e o tender de carvão logo não foram mais avistados enquanto os carros começaram a parar. As tropas aquarteladas em Fort Kearney atacaram, e os índios fugiram. Infelizmente, Passepartout foi levado junto com o tender. Aouda, que havia matado friamente um certo número de índios, estava ilesa. Fogg também não se ferira. Fix tinha um pequeno ferimento em um dos braços. O coronel Proctor não teve tanta sorte. Recebeu um tiro na virilha que não só o deixou fora de combate, como também poderia causar sua morte. Sentindo dores, ele olhou para Fogg, que o encarou friamente e afastou-se. J. Verne admitiu ter sido uma bala dos Sioux a que atingiu Proctor. Fogg conta que foi ele quem pôs o coronel naquele estado. Assim que percebeu que escapariam ilesos, ele atirou no coronel. Teria atirado em sua cabeça, se tivesse certeza absoluta que se tratava de um capeleano. Seja como for, ele Queria ter certeza de o liquidar logo. As coisas se passaram de tal forma que ele foi favorecido. Ao ser informado que Passepartout e vários outros passageiros tinham sido raptados, ele resolveu segui-los. Isso significava que o trem partiria sem ele e que provavelmente perderia, o vapor em Nova York. Ele não hesitou. Não podia abandonar o valente francês, sabendo que o mesmo seria cruelmente torturado pelos selvagens. Solicitou ao oficial do exército que lhe arranjasse trinta voluntários para acompanhá-lo em uma expedição de resgate. O fato de Fogg ter oferecido cinco mil dólares para ficar entre os soldados deve ter alguma relação com sua disposição de enfrentar os Sioux. E que Passepartout levava consigo o aparelho pode ter algo a ver com a insistência de Fogg em segui-lo. Entretanto, considerando seu caráter, seria bom que ele não pensasse assim inutilmente. Devemos lembrar que Fix ficou para trás. Ele não acreditava que ninguém daquele grupo tornasse a voltar. Teria gostado de se oferecer como voluntário, porque isso teria afastado os últimos resquícios de suspeita de Fogg a seu respeito. Mas ao pensar no que os índios fizeram aos seus prisioneiros, ele desanimou. Mais tarde, ele achou que era um covarde. Porém, que sujeito valente era Fogg! Eridaneano ou não, ele... Não! Tais pensamentos são traiçoeiros Ele andava de um lado para outro em frente a estação. Deveria entrar e se apresentar a Proctor? Ou será que o coronel já sabia que ele, Fix, era um capeleano? Nesse caso, ele não dera nem um sinal para ser reconhecido. E se Proctor não sabia, nesse caso Fix teria uma desculpa perfeita para a sua inação. Nemo, que havia ficado em São Francisco, lhe dera instruções apenas para ficar perto de Fogg. Deveria informar sobre as atividades desse último, quando um agente que estava perto, entrou em contato com ele. O trem partiu, deixando Fix e Aouda. Observando ele desaparecer na imensa planície, Fix perdeu de repente a sua sensação de segurança por ter finalmente seguido as ordens de Nemo. Ele não deveria abandonar Fogg sob nenhum pretexto. E tinha se recusado a segui-lo! O que diria Nemo a esse respeito? Ele sabia bem o que Nemo iria dizer. A não ser que Fogg voltasse, Fix estava perdido. Nemo diria que Passepartout e Fogg poderiam ter usado o aparelho para afastarem-se dos Sioux e dos capeleanos. Fix iria dizer que isso não era provável. Para usar o aparelho, Fogg teria que resgatar primeiro Passepartout, e como poderia ele fazer isso? Além disso, constava que os eridaneanos só possuíam um aparelho. Onde estaria o outro necessário para a sua transmissão? Nemo responderia que não se sabia ao certo se o inimigo possuía apenas um aparelho. Além disso, o que poderia evitar que o esperto Fogg repetisse o incidente do Mary Celeste com o aparelho agora de posse do agente chinês? De fato, o agente chinês podia ter sido morto pelos eridaneanos, que estariam então de posse do segundo aparelho. E isso tinha acontecido porque Fix não fora capaz de auxiliar Nemo no General Grant. E será que Fix estava tão doente como pretendia? Talvez estivesse apenas fingindo de doente. E outras coisas desse teor. Isso era uma fatalidade. Fix entrou na estação. Se ele não possuía calor interno, poderia pelo menos obter um pouco de fogo externo em uma lareira. Porém, logo depois tornou a sair da estação. Sentia uma necessidade de ser castigado. Ele iria sentar-se ali e ficar congelado até que Fogg voltasse. Pelo menos, até que o dia clareasse. Dizia-se que o sol estava situado a noventa e três milhões de milhas de distância. Ele havia visto os terrestres ficarem maravilhados com essa distância inconcebível. Ele havia sempre feito uma introspecção quando isso acontecia. 0 que sabiam eles da incalculável distância do espaço interes-telar? A terra natal deles ficava a uma distância de quarenta e cinco anos-luz. Um homem caminhando vinte milhas por dia levaria quatro milhões seiscentos e cinqüenta mil dias para chegar ao Sol. Quase treze mil anos. Todavia, isso era um simples passeio até a mercearia da esquina para aquele que caminhasse até Capela. Era a sua terra natal? Por quê ela tinha esse nome? Na realidade, ele nunca a tinha visto, o mesmo acontecendo com qualquer de seus antepassados. Eles todos eram na realidade, seres terrestres. Tinha estado sempre restritos a este pequeno planeta remoto. Apenas os Antigos podiam chamar Capela de seu lar, e mesmo aqueles que tinham vindo de lá, estariam provavelmente todos mortos. Os seus habitantes primitivos tinham parado aqui porque pensaram que seria um bom lugar para construir outro forte. E também porque precisavam fazer um levantamento científico desse planeta desconhecido. Tinha que verificar, entre outrascoisas, se ele continha sensitivos. E, em caso afirmativo, se os mesmos eram perigosos para Capela. Isso havia acontecido há cerca de duzentos anos. Os sensitivos naquela época, como agora, estavam ainda muito longe de fazerem vôos inter estelar es ou mesmo interplanetários. Na época em que conseguissem fazer esses últimos, eles com toda certeza se matariam entre si, e o planeta todo também, com guerras nucleares ou, com o que é mais provável, por meio de uma poluição total. Era duvidoso que a sua tecnologia, e o seu uso inteligente, estivessem no mesmo nível da habilidade deles em crearem coisas sociais estúpidas. Se o fizessem, já seria muito tarde. Ou assim tinha falado os primitivos capeleanos. Aqueles que eram místicos entre eles, afirmavam que o homem descendia de algum tipo de macaco atualmente extinto. A parte simiesca nunca desapareceria, por mais que a aparência física se afastasse daquela do símio. Os humanos eram por sua própria natureza destinados a imundície e a lutas. Mas, e se eles tivessem uma orientação adequada? Se os primitivos capeleanos tivessem sido capazes de aqui chegar em grupo, em vez de numa nave isolada, teriam conquistado os sensitivos. Esses últimos, guiados pela sabedoria superior dos antigos capeleanos, poderiam ser encaminhados no caminho certo. Porém os primitivos capeleanos tiveram que se esconder enquanto eles observavam. Do contrário, teriam sido mortos, sem importar quantos milhares pudessem ter sido mortos. Os primitivos capeleanos estavam acabando de completar o seu relato sobre a Terra, quando chegaram os eridaneanos. Houve guerra, e ambas as astronaves ficaram danificadas sem poderem ser reparadas. E depois disso as duas facções passaram a lutar ocultamente. Por meio de cirurgia plástica, modificaram seus corpos para passarem como sendo humanos. Depois de algum tempo, devido ao seu número reduzido, obtiveram seres humanos como aliados. Por meio da adoção de crianças, educação secreta, e a cerimônia do sangue e, a mais forte de todas, a medicina milenar, conseguiram a lealdade de seus aliados. Havia também um Grande Plano que tornaria a humanidade feliz e longeva. Mas, antes disso, os eridaneanos precisavam ser exterminados. Fix estremeceu. Estava se sentindo congelado. O fogo estava se extinguindo. Havia ainda um pouco suficiente para formar algumas sombras. Agora ele podia ver, de repente, sem a intervenção das sombras. Ele se esfriava cada vez mais. Não sentia mais emoções; apenas a lógica podia viver nesse frio extremo. Se os capeleanos e os eridaneanos eram assim tão adiantados, por quê acharam ser necessário haver guerra entre eles? A guerra ficava bem para os seres terrestres, pois eram muito atrasados. Não conheciam nada melhor do que isso. Eram ainda parecidos com macacos. Mas, por que lutariam dois povos vindos das estrelas? Os antigos haviam dito - - ou lhe haviam dito - - que os eridaneanos tinham começado com tudo. Não eram tão adiantados quanto os capeleanos, pelo menos em sabedoria social. Tinham atacado os capeleanos em algum lugar em outro planeta há muito milênios. E os capeleanos tinham sido obrigados a lutar ou serem exterminados. O dia clareou. Fix aqueceu-se um pouco, mas continuou perplexo. Logo depois das sete horas, ele ouviu um tiro. Saiu correndo na direção do tiro acompanhado de soldados e encontrou Fogg, Passepartout e dois outros passageiros marchando juntamente com os voluntários. Aouda, muito abalada para poder falar, segurava apenas as mãos de Fogg. Fix estava satisfeito, porém envergonhado. Passepartout lamentava o custo da viagem para Fogg em tempo e dinheiro até o momento. A seguir, olhou em volta à procura do trem e ficou ainda mais triste ao ver que ele havia partido. Phileas Fogg estava com um atraso de vinte horas. Capítulo 17 Fix sabia que Fogg precisava estar na cidade de Nova York no dia onze, antes das nove horas da noite. Naquela hora, o vapor zarparia para Liverpool e não haveria outro até o dia seguinte. Parecia inevitável que Fogg perdesse o navio. Porém Fix veio em seu auxilio dessa vez. Na noite anterior, ele tinha sido procurado por um tal sr. Mudge, que se oferecera para transportar Fix imediatamente para Omaha, apesar de ser por um acordo fora do comum. Fix não aceitara porque tinha que esperar Fogg. Agora ele informava a Fogg que nem tudo estava perdido. Ele poderia ser levado em um trenó. Esse veículo levava cinco ou seis pessoas e estava equipado com um mastro que continha uma vela dupla e possuía dispositivo para uma vela bujarrona. Era guiado por um leme que mergulhava na neve. Será que Fogg usaria esse veículo? Ele na certa usaria. No momento, o grupo estava sendo levado por um vento oeste sobre o gelo e a neve da planície. As duzentas milhas entre Fort Kearney e Omaha foram cobertas em cinco horas. Fix nada disse durante a viagem, porém estava satisfeito. O seu trabalho para obter o trenó seria um ponto a mais em seu favor, no sentido de reduzir as suspeitas de Fogg a seu respeito. O trenó chegou na hora exata em que o trem de Chigago e Rock Island estava para partir. Fogg e seu grupo subiram a bordo e assim chegaram a Chicago as quatro horas da tarde do dia seguinte. Essa cidade, destruída parcialmente pelo grande incêndio dos dias oito e nove de outubro de 1871, tinha sido reconstruída atentando-se para a parte estética. O grupo não teve tempo para visitar as novas edificações ou para dar um passeio ao longo do soberbo Lago Michigan. Ainda tinham de viajar novecentas milhas e por isso partiram imediatamente no trem da Pittsburgh, Fort Wayne and Chicago Railway. Na noite do dia onze de dezembro, às onze horas, o trem chegou na estaÇão de Nova York. Ela ficava próxima ao píer da Cia. Cunard mas, infelizmente, o navio China havia zarpado para Liverpool, há quarenta e cinco minutos. Fogg parecia derrotado. O navio da Inman só sairia no dia seguinte e não era bastante rápido para recuperar o tempo perdido. Os navios da Hamburgo seguiam diretamente para o Havre, na França, o que significava que a viagem do Havre para Southampton e dai para Londres, o faria atrasar-se muito. Um navio francês só partiria no dia catorze. O sr. Fogg disse apenas: - Amanhã, veremos qual é o melhor. Venham comigo. Tomaram a barcaça de Jersey City sobre o Hudson e uma carruagem os levou ao Hotel St. Nicholas na Broadway. Na manhã seguinte, o sr. Fogg saiu sozinho (segundo J. Verne). Na realidade, Passepartout seguiu-o às escondidas durante uns vinte metros para localizar possíveis inimigos capeleanos. Se Proctor tivesse sido mandado para matar Fogg, seria pouco provável que houvesse outro atentado em Nova York. Contudo, nada houve dessa natureza. Talvez Proctor não passasse, afinal de contas, de um rufião do ocidente. Mas por quê os capeleanos o estavam deixando a sós? O que estava sendo tramado? Se houvesse alguma certeza, não teriam desistido dele. O sr. Fogg procurou saber nas margens do Hudson sobre todos os barcos prestes a zarpar. Havia muitos nessas condições, fazendo lembrar a frase de Whitman sobre a "Manhattan de muitos mastros", porém os navios a vela seriam muito lentos. Ao terminar sua pesquisa, Fogg viu ancorado na Bat-tery, um cargueiro movido a vapor com as costumeiras velas auxiliares. As baforadas de fumação que saiam de sua chaminé, indicavam que ele zarparia logo. Fogg alugou um barco a remos que o levou até o Henriett. Ele ia para Bordeaux e levava apenas lastro nessa viagem. O seu capitão, Andrew Speedy (que não era capeleano nem eridaneano, apesar de seu nome) detestava passageiros. Recusou-se a levar Fogg e o seu grupo por qualquer preço e disse que não pretendia ir a nenhum lugar senão Bordeaux. Entretanto, em face da oferta de dois mil dólares por passageiro, Speedy cedeu. Segundo Verne, passageiros a esse preço não são mais passageiros e sim mercadoria de alto valor. Speedy concedeu a Fogg uma meia-hora irrevogável, para colocar todos a bordo. Fogg seguiu apressadamente de carro para o hotel e voltou com os outros no tempo exato (Nova York já possuía problemas de trânsitoem 1872, mas o fato de Fogg ser capaz de andar a essa velocidade mostra que o problema não era tão grave como atualmente. Ou, talvez Fogg desprezasse todas as leis de trânsito). Uma hora depois, o Henrietta cruzou pelo farol que assinala a entrada para o Hudson, passou por Sandy Hock, e fez-se ao mar. Pode-se supor que Passepartout tenha sentido não poder passear em Manhattan. Devido em grande parte à imigração européia, a cidade de Nova York possuía um milhão de habitantes. Era, em geral, uma cidade suja, pouco atraente, cheia de bêbados, e governada corruptamente, tendo muitos cortiços. Era comum haver brigas, mortes, e tumultos. Os guias da cidade aconselhavam os visitantes a não andarem à noite, a não ser nos locais bem iluminados a gás. Apesar disso, o visitante com posses poderia gostar da cidade. Passepartout teria gostado de andar pelo recém-construído Central Park, embora fosse cercado de cortiços. A Trinity Church era o edifício mais alto da cidade, embora fosse uma coisa comum em Londres essa altitude, ela se destacava de seus arredores. Passepartout deve ter desejado conhecer as novas áreas residenciais com suas fachadas de ferro fundido e frente de pedra marron. Poderia comparar os problemas do transporte em massa que afligiam Nova York, com os de Londres. Se tivesse falado com algum trouxa, teria ouvido boatos de contrabando de armas para os revolucionários cubanos e sobre a gravidade da epizootia que estava matando os cavalos. Teria notado que era apenas devido a essa "gripe eqüina" que as ruas de Manhattan no verão não ficavam tão creias de estéreo, e o ar não ficava tão cheio de grandes moscas e uma mistura de poeira, fumaça de carvão e partículas de estéreo, como no caso de Londres. Isso tudo não tinha razão de ser. Passepartout tinha também mais em que pensar em lugar de cidade exótica. O sr. Fogg tinha fechado o capitão Speedy em seus próprios aposentos. O sr. Fogg, vendo que Speedy mostrava-se inflexível quanto a mudar o rumo de seu navio para Liverpool, subornou a tripulação para que cooperassem com ele. Com Speedy gritando fechado em sua cabine, isso era um motim e pirataria em alto mar, cuja pena era a forca. Fogg ouvi-o dizer isso com sua calma habitual e continuou a dar ordens, na ponte. É nesse ponto que J. Verne diz (com muita propriedade) que o modo de Fogg lidar com o navio mostrava que ele já fora marinheiro. Quanto a Fix, ele lutava contra a tendência para admirar cada vez mais Fogg. Imaginava também por quê não havia recebido ordens de Nova York em relação a Fogg. Não havia dúvida que Nemo havia alterado seus planos, porém seria interessante saber o que estava acontecendo. Talvez um membro da tripulação fosse um capeleano encarregado de matar os eridaneanos mesmo que para tanto tivesse que explodir o navio. Fix não gostava de considerar esse plano, já que significaria a sua própria morte. E ele admitia que realmente estava ficando cada vez mais excitado quanto à aposta. Tinha que lembrar várias vezes que não tinha nenhuma ligação de negócios com tal pessoa. No dia dezesseis de dezembro, já haviam feito metade da viagem. O Henrietta tinha atravessado os nevoeiros da Terra Nova e uma tempestade. Porém, agora o maquinista chefe informou a Fogg que o suprimento de combustível estava se esgotando. O navio tinha carvão suficiente para seguir em "marcha reduzida" até Liverpool. Os fornos ainda continuavam a ''todo vapor". Fogg, após refletir um pouco, disse ao maquinista para conservar os fornos no máximo, até que acabasse o carvão. No dia dezoito, Fogg foi informado que o combustível terminaria nesse mesmo dia. Quase ao meio-dia, Fogg mandou chamar o capitão. Com o rosto vermelho, Speedy inclinou-se na ponte. - Onde estamos? — gritou ele. - A setecentas e sete milhas de Liverpool, disse Fogg calmamente. Seu pirata! — Mandei chamá-lo... — Seu patife! -... para pedir-lhe que me venda o navio. — Com mil demônios, não! — Então serei forçado a incendiá-lo. — O que?! Queimar o Henrietta!! - Pelo menos a parte de cima. Acabou o carvão. — Quer queimar o meu navio? Um barco que vale cinqüenta mil dólares. — Aqui estão sessenta mil, disse Fogg. E entregou-lhe o dinheiro. Nesse ponto J. Verne faz sua clássica observação: — É difícil para um americano continuar imperturbável à vista de sessenta mil dólares. . De fato, o racismo de Verne é evidente nessa afirmação. Hoje em dia como antigamente, pouca gente de qualquer nacionalidade não ficaria afetada emotivamente ao lhe ser apresentada essa soma. Speedy deixou de lado o seu ódio. O dinheiro, mais do que a música, abranda a animalidade. Ele estava fazendo um ótimo negócio. — Ficarei com o casco do navio? - - disse ele. — O casco e as máquinas. Estou comprando só a parte de madeira e as outras substâncias combustíveis. Está de acordo? Fogg ordenou então que retirassem todos os bancos internos, beliches, estruturas e todos os móveis para que fossem colocadas nas fornalhas. No dia seguinte, dezenove do mês, foram jogados nas mesmas os mastros, vergas e vigas. No dia vinte, as amuradas, as armações, a maior parte do convés e a parte de cima do navio. Nesse mesmo dia, o casco do navio podia ser avistado da costa irlandesa e do farol de Fastmet. Às dez horas da noite, surgiu Queenstown. Era esse o porto irlandês onde os navios transatlânticos entravam para entregar o correio. Desse lugar saiam trens expressos para Dublin, de onde o correio era levado em um barco rápido para Liverpool. Esse caminho permitia que o correio chegasse a Londres com doze horas de antecedência em relação aos navios. O Henrietta esperou três horas pela maré alta, após o que entrou no porto e desembarcou o grupo de Fogg. Pouco depois de uma hora, os viajantes pisaram em terra firme. Como se tratava de solo britânico, Fix estava em condições de prender Fogg e encerrá-lo em uma prisão. Verne diz que Fix ficou muito tentado a fazer isso. Porém, Verne não podia imaginar porque ele não o fez. — O que se passava em seu íntimo? Teria ele mudado de opinião a respeito daquele homem! Não. Fix não mudara de idéia. Apenas não podia executá-la. A longa intimidade com seus três inimigos o havia forçado a reconhecer que os eridaneanos podiam ser, como eram nesse caso, tão humanos quanto ele próprio. Apesar de serem inimigos mortais de seu próprio povo, eles não eram o mal encarnado. Ele admirava Fogg pela sua coragem inabalável, perspicácia, desembaraço, lealdade e generosidade. Gostava dele. Gostava dos outros dois pelo mesmo motivo. Gostava mais de Fogg do que de Nemo, a quem, odiava, temia e detestava. E não havia gostado de Proctor; ficara satisfeito quando o plano do coronel para matar Fogg havia sido transformado pelos Sioux. De vez em quando, ele dizia para si mesmo que estava pensando de modo errado. Mas isso não importava. Ele continuava pensando do mesmo jeito. Não conseguia conciliar o sono devido aos seus conflitos íntimos, e os seus dias não tinham continuidade. O que deveria fazer? Quando faltavam vinte minutos para o meio-dia, o grupo de Fogg desembarcou em Liverpool. Fogg tinha que fazer apenas uma viagem de seis horas por trem até a Estação de Charing Cross em Londres, e depois um pequeno trajeto de carro até o Reform Club. Fix não podia continuar sem agir. Tanto a lei inglesa como as ordens dos capeleanos exigiam que ele entrasse em ação. Pôs a mão no ombro de Fogg, uma familiaridade que ele não ousaria tomar a não ser desempenhando um papel oficial. Verne diz que ele tinha a ordem de prisão na outra mão, mas esqueceu-se de que Fix não tivera oportunidade de receber tal ordem. - O senhor é mesmo Phileas Fogg? — disse ele. Não há dúvida de que uma variante da observação famosa de Pilatos passou pela mente de Fogg. O que é a verdade? O que é a realidade? O que ou quem é o verdadeiro Fogg? Porém, ele respondeu: — Sou eu. - Então, está preso em nome da Rainha! Fogg seguiu calmamente sob custódia até a Alfândega. Segundo lhe disseram, seria removido no dia seguinte para Londres. Passepartout tentou atacar Fix mas foi impedidopor vários policiais. Fix não fez acusações contra ele, como poderia ter feito por tentativa de assalto. Em primeiro lugar, ele achou que o francês tinha razão. E em segundo, Passepartout continuava de posse do aparelho. Se os chefes capeleanos ainda quisessem se apoderar dele, o que era quase certeza, fariam isso com muito mais facilidade se Passepartout estivesse longe. Aouda estava paralisada de espanto. Ao contrário do que Verne afirma, ela entendeu o que se passava. Mas, como Fix não havia tentado prender Fogg na Irlanda, os três eridaneanos tinham admitido que ele quisera esperar até chegar a Londres. Assim como eles possuíam planos para prendê-lo e deixá-lo na Irlanda, eles também pretendiam cuidar dele em Londres. Chegaram a pensar que ele poderia resolver esperar até que Fogg houvesse ganho a aposta. É evidente que Fogg havia menosprezado essa parte importante da previsão. Aquele cavalheiro, calmo como sempre, sentou-se em uma sala fechada da alfândega e leu o Times de Londres. Entre outros assuntos que lhe chamavam a atenção estava a estória sobre o Mary Celeste. Ela havia sido publicada pela primeira vez pelo Times de dezesseis de dezembro em sua seção Latest Shipping Intelligence. O navio abandonado tinha sido levado para Gibraltar por uma tripulação de captura composta de três homens do bergantim britânico Dei Gratia. Não havia ainda muitas informações sobre o navio, mas ele levava uma carga de setecentos barris de álcool e estava em boas condições de navegar. Verne diz que, enquanto estava na sala, o sr. Fogg colocou com cuidado seu relógio sobre a mesa e olhou em seus ponteiros. Verne gostaria de saber em que pensava Fogg nesse momento. Esse incidente é curioso. Com exceção de uma única vez no livro de Verne, Fogg não possuía relógio para consultar. Ele confiava no relógio de Passepartout. Além disso, se ele tivesse um, por quê teria cometido o mesmo erro que aquele, sobre os fusos horários? Segundo Verne, Fogg pensou que aquele dia fosse o dia vinte e um de dezembro. Na realidade, era o dia vinte. Teria Fogg ignorado o que acontecera quando o navio cruzou o meridiano 180, ele que era altamente educado, e que estivera em toda parte e conhecera tudo? De forma alguma. Verne deve ter sabido disso. Porém ele estava ansioso para proporcionar drama e suspense. Não pode ser culpado por usar esse pequeno truque em sua narrativa. Afinal de contas, ele a tirou de uma declaração pública feita pelo próprio Fogg. O inglês teve que arranjar uma desculpa para os fatos que se seguiram à sua prisão em Liverpool. A sua fértil imaginação conseguiu uma que Verne logo aceitou. Assim, Quando J. Verne diz que Fogg escreveu em seu diário aquele dia 21 de dezembro, sábado, Liverpool, 80.° dia, 11 horas e quarenta minutos da manhã, ele está incluindo a sua própria ficção. De fato, Verne acrescenta detalhes imaginativos escrevendo que Fogg reparou que seu relógio estava duas horas adiantado. Se ele tomasse o trem expresso naquele mesmo instante, ele cumpriria o horário rígido de quinze para as nove. Foi nessa hora que Fix foi informado que o verdadeiro ladrão, um tal James Strand, tinha sido preso há três dias. Fogg estava livre. Fix deu essa notícia a Fogg, gaguejando. Phileas Fogg caminhou em direção a Fix, deu-lhe um olhar firme e frio, e derrubou-o com um soco. Fix, caído no chão, sentiu que ele ainda não fora suficientemente punido. Mas pelo menos ele podia aproveitar algo daquele incidente. É óbvio que Fogg o considerava apenas um detetive medíocre. Esse incidente mostra que Fix ignorava a data real, assim como Passepartout. Do contrário, ele não teria acreditado que Fogg tinha perdido a sua aposta, porque ele o havia prendido. Mas, se Fogg sabia que ainda dispunha de bastante tempo, por que ele agrediu Fix? A resposta é evidente. Phileas Fogg, na qualidade de um cavalheiro inglês, devia ficar contrariado por ser preso por um homem a quem ele havia tratado tão bem. Tinha que desempenhar o seu papel. O grupo todo, com exceção de Fix, tomou um carro e chegou a estação às vinte para as três. Estavam com trinta e cinco minutos de atraso para tomarem o trem expresso. Fogg pediu um trem especial, mas só pode conseguir um, às três horas. Ele desconfiou que Nemo fosse a causa desse atraso, se ele estivesse planejando ter clandestinos no trem. Antes do trem partir às três horas, Fogg revistou inteiramente a locomotiva, o tender, e o seu vagão. Satisfeito por ver que os mesmos não ocultavam ninguém, deu ordem para que o trem partisse. Logo depois, o mesmo avançava a uma velocidade que os levaria a Londres dentro de cinco horas e meia. Entretanto, houve atrasos inesperados. Quando Fogg desceu do carro em Charing Cross, estava com cinco minutos de atraso. (Ou melhor, estaria se fosse o dia vinte e um). Todos os relógios de Londres assinalavam dez minutos para as nove. Capítulo 18 Como se sabe, esse notável fenômeno foi comentado por vários críticos e tradutores. A versão original francesa não contém rodapés sobre isso, portanto é de se presumir que Verne pensou que essa peculiaridade fosse apenas dos relógios dos ingleses, um povo em suma excêntrico. Fogg não cometeu tal erro. Ele sabia que, em alguma parte, em Londres, estava sendo usado um aparelho. Pelo que sabia, os eridaneanos só possuíam um, portanto esse outro devia ser capeleano. É provável que aquele homem chinês o estava usando para se transportar a Londres, o que significava que eles possuíam pelo menos dois no momento. Teria ficado em seu lugar o aparelho fixado embaixo da mesa no Mary Celeste? Teria ele sido roubado por um capeleano que estava em Gibraltar para esse mesmo fim? Na certa, devia haver alguma explicação. Após sair da estação de Charing Cross, Fogg mandou Passepartout comprar algum alimento para a sua estada no n.° 7 de Savile Row, aquela noite. Fogg e Aouda iriam diretamente para a sua casa para o descanso noturno. Havia tempo de sobra para ganhar a aposta. De fato, Fogg planejou fazer a sua entrada no Reform Club apenas alguns minutos antes do tempo se esgotar. Stuart poderia estar zangado com esse atraso porque ele tinha informações importantes e ordens para lhe dar. Porém Fogg precisava muito daquela noite. As ansiedades e os terrores haviam se acumulado nele até o máximo. Ele precisava descarregar pelo menos uma parte delas para evitar a explosão de sua caldeira psíquica. Cerca de seis horas de emissão terapêutica da corrente nervosa o deixaria normal. Entretanto, a caminho ele mudou de idéia a respeito de ^t. Ele lhe contaria que estava no n.° 7 de Savile Row. s capeleanos estavam tramando alguma coisa; os estrondos 0 aparelho indicavam isso. Permitindo tal coisa, ele estaria arruinando seu próprio povo, para não dizer a si mesmo. Ao passarem pela agência telegráfica, ele pediu ao carro para parar. Levou pouco tempo escrevendo um telegrama, pois ele consistia de uma palavra em código com seu nome também em código. Pedindo ao funcionário da agência para mandar um mensageiro imediatamente no caso de chegar uma respostas, ele saiu da agência. O carro chegava logo depois em sua casa. Fogg não entrou na mesma de imediato. A frente da casa estava fechada como ele a deixara. A luz do bico de gás que Passepartout deixara aceso, brilhava através de uma pequena fresta na janela. Fogg conduziu calmamente Aouda para dentro de casa. Ambos empunhavam revólveres. Fogg havia feito essas armas entrarem como contrabando na Inglaterra, acrescentando esse crime ao de pirataria em alto mar. Uma busca completa em cada sala nada revelou de anormal. Nesse instante, Passepartout entrou com os mantimentos. Colocou as sacolas na despensa e subiu apressadamente para o seu quarto. O jato de gás não tinha sido fechado por Fogg, que pensou, que isso seria dever de seu criado. Passepartout, tratou de apagar a chama, mas depois desistiu. Por quê desligá-lo quando iria precisar do mesmo agora? Desceu as escadas e retirou a correspondência da caixa do correio. Vendo a conta da companhia de gás, seus olhos se arregalaram. Ele nunca poderia pagartal débito, a não ser que trabalhasse de graça durante oitenta dias. Fogg, sendo um encrenqueiro, mesmo que se tratasse de um herói, não pagaria sozinho tal despesa. Aouda tentava inutilmente dormir em seu quarto. Fogg sentado em uma cadeira em seu quarto fazia uma introspecção. Tinha que ter tanto cuidado em sua experiência como um eletricista sem um diagrama tentando encontrar a causa de um defeito em um equipamento de alta voltagem com os fios emaranhados. Bastaria um erro, e ele poderia ser morto ou ficar gravemente ferido. De vez em quando, havia um estremecimento em seu corpo. Suas narinas se moviam. Seus ouvidos e couro cabeludo se contraiam. Seus dedos comprimiam os braços da poltrona como se ele fosse arrancar o couro das mesmas. O suor brotava em todo o seu corpo. De vez em quando, ele suspirava. A dor, o ódio, a aversão, o desdém, e o horror faziam o seu rosto contrair-se seguidamente. Ele pronunciava palavras em voz baixa que devia ter pronunciado há muito tempo. As vezes, o seu corpo se tornava rígido e tremia como se ele sofresse de malária. Em outras, ficava tão imóvel como se estivesse morto. O dia clareou enquanto Passepartout vigiava em frente à porta da casa de Fogg. Se ouvisse algum som como se Fogg estivesse se ferindo ou até mesmo se matando, devia entrar depressa. Porém isso não aconteceu, embora houvesse momentos em que ele quase interferiu. Logo depois do amanhecer, Passepartout olhando pelo buraco da fechadura, viu Fogg dormindo em seu leito. As crises haviam passado, pelo menos durante aquela noite. Fogg lhe dissera que isso levaria pelo menos três sessões, para descarregar a maior parte daquela carga pesada. O francês dirigiu-se para o seu quarto para tratar de si próprio. Sendo menos controlado do que Fogg, (e quem seria mais?) possuía um temperamento que descarregava naturalmente as ansiedades muito mais facilmente do que no caso de Fogg, portanto o seu tratamento era mais rápido e oferecia menos perigo. Depois de uma hora, recolheu-se para dormir. Fogg, com aspecto desfigurado e pálido, levantou-se tarde aquela manhã Ao meio dia ele havia recuperado a sua aparência saudável habitual, embora agisse como se possuísse ainda muita energia a sua disposição. Auoda desceu para o almoço às doze horas. Ela também estava pálida e com olheiras. Às sete e meia daquela noite, os moradores do n.° 7 ouviram o ruído dos sinos. Olhando pelas janelas através das cortinas, viram, à luz dos lampiões, muita gente, inclusive seus vizinhos, caminhando pela Savile Row. O som de sinos tornou-se mais forte, e dois carros de bombeiros, cada um puxado por uma parelha de cavalos, passou por ela. Mal acabara de passar o ruído dos sinos quando uma forte explosão quebrou as janelas. Passepartout, cheio de curiosidade, perguntou se podia sair para saber a causa daquela agitação toda. — Não, disse Fogg. — Alguém poderia vê-lo e assim ficaria sabendo que eu estou de volta. Prefiro que se guarde segredo até o último instante. Passepartout achou que isso não seria provável, pois todos, criados e patrões, pareciam ter saído às pressas para ver o incêndio ou coisa parecida. Eles não sabiam com quem ele se parecia, e ele tomaria cuidado para estar de volta antes Que eles retornassem a Savile Row. Porém, ele não insistiu. Entretanto, ele não podia deixar de olhar através das cortinas Por várias vezes. Quando acabava de dar a sua última espiadela, viu um imponente carro parar a uma distância de duas casas do n.° 7. O cavalo que o puxava parou por alguns instantes, enquanto o cocheiro, sentado em um banco na traseira do mesmo, gritava com o animal. O cavalo, todo agitado, deu mais alguns passos para a frente. 0 cocheiro levantou-se para aplicar-lhe umas chicotadas. Logo depois, o cavalo caiu de repente, fazendo o carro inclinar para a frente e lançando o cocheiro fora dele no meio da rua. A pessoa que estava no carro deve ter ficada perplexa, pois não abriu a porta do carro durante pelo menos um minuto. Depois saiu lentamente dele pelo outro lado, onde ele examinou o cocheiro, que não se movera depois de cair na rua. A seguir, ele levantou o cocheiro, olhou à sua volta na rua deserta, e depois dirigiu-se até a casa mais próxima do outro lado da rua. Ele se inclinava em uma grossa bengala, e arrastava um pouco sua perna direita. Vestia um pesado capote para se defender do frio de dezembro. Em sua cabeça usava um quepi militar, provavelmente de oficial. Bateu com tanta força na porta que Passepartout pôde ouvir o ruído. Não recebendo resposta, ele voltou-se e caminhou com o mesmo passo arrastado até a outra casa próxima. Devia ser algum oficial que voltava ferido da índia ou de algum outro lugar distante. Passepartout refletiu. A sua tez bronzeada indicava que havia residido muito tempo nos trópicos. Nesse Ínterim, o cocheiro se sentara e depois tornou a cair. O cavalo ficara imóvel. Passepartout não saiu para auxiliar o homem, pois fora proibido de sair de casa. Entretanto, o oficial iria logo se dirigir ao n.° 7 daquela rua. O que faria ele? pensou Passepartout. O pobre sujeito na rua precisava evidentemente de socorro. Pois bem, ele iria pedir licença a Fogg. 0 oficial acabara de se dirigir à casa de Fogg quando Passepartout viu um homem com o uniforme da agência telegráfica do outro lado da rua. Estaria ele trazendo uma mensagem ao n.° 7? Fogg disse que estava esperando uma. Sim, ele estava atravessando a rua na direção do n.° 7. Isso aliviou os apuros de Passepartout. Ele tinha ordens para abrir a porta apenas no caso de um telegrama. Ele não podia evitar que o oficial chegasse ao mesmo tempo que o mensageiro. Fogg não podia se recusar a socorrer o homem ferido; além disso, pareceria suspeito se não o fizesse. Embora deixasse fechada a corrente da porta, ele a abriu. Viu, então, vindo pela rua, um limpador de chaminés. E, lá embaixo, do outro lado, a porta de uma casa abrindo-se. Um jovem, de cabeça raspada e num robe de chambre, surgiu na porta. É evidente que estivera dormindo e acabara de acordar. Olhando para fora, talvez para saber por quê os criados haviam saído, ele viu o homem caído. Isso era bom, pois passepartout poderia pedir ao oficial para socorrê-lo, dizendo-lhe ao mesmo tempo que não estava autorizado a sair da casa. O oficial chegou primeiro na porta e dirigiu-se a ele pela abertura da mesma com uma voz de barítono. — Houve um acidente, como o senhor pode ver. Parece que o meu cocheiro quebrou o braço e também feriu-se na cabeça. Acho que ele andou bebendo. O senhor poderia chamar um médico? Agora que o oficial estava mais próximo, Passepartout podia ver os seus olhos azuis frios sob grossos cílios. Isso, junto com grossas sobrancelhas, um nariz fino e pontudo, bigodes pretos, lábios grossos e um forte maxilar, formavam um rosto bastante sensual. Passepartout não se importava com ele, pois afinal de contas era o cocheiro que precisava de socorro. — Há um certo doutor Caber a alguns quarteirões daqui, disse o francês, lembrando-se que Fogg lhe dissera isso antes de se recolher. — Não posso sair dessa casa, porém o senhor pode mandar o limpador chamá-lo. Ou talvez o mensageiro lhe faça esse favor. O mensageiro estava a alguns passos dele. Era um sujeito de ombros bem largos com um bigode espesso e cabelos compridos, ambos grisalhos. O seu nariz redondo e vermelho indicava a sua ocupação principal quando não estava em serviço. — Ah, talvez eu possa, meu caro amigo! disse o oficial. Ele apontou a bengala pela abertura na direção de Passepartout. O francês viu que tinha um furo redondo na ponta. — Mas, eu não me importo, disse o oficial. — E não tenho intenções de mudar de idéia. Isso é uma arma de ar comprimido disfarçada de bengala. Ela pode lhe enviar uma bala de fuzil na distância em que estamos. Portanto, abra a porta para nós ou então sofra as conseqüências. O mensageiro devia ter escondido um par de chaves de parafuso embaixo de sua capa. O cabo das mesmas eram visíveis. A porta foi empurrada violentamente para dentro, fazendo Passepartout recuar. Apesar do oficialter pedido silêncio, Passepartout deu um grito. O oficial, não mais mancando, levantou a arma de ar comprimido e abaixou-a sobre a cabeça de Passepartout. Este abaixou-se para não receber o golpe. Atordoado, ainda teve o expediente de atirar-se de lado. Ele pretendera firmar-se em seus pés porém suas pernas não obedeceram. O oficial correu na direção de Passepartout com o mensageiro bem perto atrás dele. Num relance, Passepartout reconheceu-o, sob o cabelo tingido e o nariz postiço, tratava-se de Nemo. Ele tentou levantar-se novamente, mas dessa vez a bengala caiu em cheio sobre sua cabeça. Alguns minutos mais tarde, segundo o relógio sobre a cornija da lareira, ele acordou no chão. A sua cabeça doía. Suas mãos estavam amarradas nas costas, e ele estava amordaçado. A única pessoa na sala fora ele, era o cocheiro, já sem o "braço quebrado". Era um homem alto, encurvado, com cerca de quarenta anos. Ele parecia-se um pouco com Nemo, porém não tinha os olhos espaçados e os seus olhos e a pele eram muito mais escuras. Tinha uma arma especial em uma das mãos. Passepartout pensou que fosse uma arma de ar comprimido. Era bem pequena, podendo ser escondida sob a capa. O tempo passava. Cerca de dez minutos depois, Passepartout ouviu passos na escada. Ele virou a cabeça, sentindo-a dolorida, para ver quem vinha vindo. Ficou chocado. Era um estranho. Quantos outros haviam invadido a sua casa enquanto ele ficara inconsciente? O recém-chegado também usava um revolver de ar. Era alto e também parecia ter mais de quarenta anos. Ele tinha traços aquilinos nos quais havia uma expressão arrogante e rapace. Seus olhos amarelo-esverdeados típicos e um perfil nítido fazia-o parecido com uma águia faminta. — Ainda continuam fechados na sala, disse ele. — Nemo diz que não há pressa para levá-los. Queremos o menor ruído possível. O povo está começando a voltar do incêndio. Moran está estacionado lá atrás com o seu fuzil de ar. Se tentarem sair pela janela do terceiro andar, ele atirará neles. E não errará um tiro. O outro fez uma careta e disse: — Por quê não quebramos a porta e invadimos a casa? Se ouvirem mais alguns tiros, isso não chamará muito a atenção. Os sons ficarão retidos na sala. Mas se Fogg atirar pela janela, o som será ouvido de longe. — O seu irmão diz que não. Há muita gente retornando. É evidente que não tiveram um bom espetáculo. Ele riu alto e disse: — Devíamos ter queimado o quarteirão inteiro. — Nemo sabe o que está fazendo, disse o homem alto de cabelos pretos. Ele olhou para Passepartout. — Enquanto eles estão presos, podemos lidar com esse cara. Gostará disso. Tem tanta prática. — Ótimo, disse o homem de olhos amarelo-esverdeados. — Mas, como impedir os outros dois de se matarem? — Não fazemos nada para impedir. É assim que Nemo quer que se faça. Você faz muitas perguntas. O outro fez cara de quem não gostou. Embora não estivesse em seus elementos ou tivesse sido um soldado, ele irradiava um ar de quem estivera no comando de muita gente e gostaria outra vez de estar. — Além disso, acrescentou ele, como poderemos saber se Fogg não possui saídas secretas para fuga? — Acho que a casa foi examinada enquanto Fogg estava ausente, disse o homem alto. Por quê não pergunta isso a Nemo? — Ficamos sempre tateando, disse o homem de olhar rapace. O homem alto deu de ombros e a seguir caminhou na direção de Passepartout. Olhou para ele. - Gostaria de saber se ele sabe alguma coisa que ignoramos. — A respeito do código? — Ele foi modificado depois que ele iniciou essa viagem, e nós conhecemos o código antigo atualmente. Mas tenho certeza que ele terá alguma coisa interessante para nos contar, tenho certeza disso. — Teremos que deixá-lo com a mordaça, pois não queremos que os vizinhos ouçam os seus gritos. Deixaremos livre a sua mão direita. Ele poderá escrever a informação. — E se ele usar a sua mão esquerda para escrever? — Vamos verificar. — Antes de começarmos, tenho que reanimar o cavalo e tirar o carro do caminho. Parece incrível que ninguém tenha reparado no animal. Onde fica a cozinha. Basta um balde de água. Ele saiu da sala, e o homem de olhos amarelos sentou-se. Carecia desanimado. Estava com ciúmes, pensou Passepartout. Sentia ciúmes da autoridade de Nemo. Se ele tivesse liberdade de ação. Porém isso era uma esperança remota mesmo que Passepartout pudesse falar. E ele não podia. Ouviu-se uma voz familiar lá no alto da escada. O homem de olhos amarelos levantou-se e saiu andando. — Sim? — Sim o que, Vandeleur? — Sim, senhor. — Detenha o coronel por algum tempo. Tenho outra idéia. — Sim, senhor. Vandeleur? pensou Passepartout. Onde tinha ele ouvido esse nome antes? Ouviu-se os passos do coronel, tendo ele entrado carregando um grande balde do qual a água se derramava. — Isso bastará para que o animal se recupere, disse ele, brincando. — Devemos agradecer a Moran por haver descoberto essa droga oriental rara. Basta um comprimido e o animal cai com aparência de morto em um instante preciso. Depois, basta apenas um balde de água para fazê-lo voltar a si em um minuto. — Sei disso, disse Vandeleur. Então Passepartout lembrou-se onde havia ouvido antes o nome de Vandeleur. Ele devia ser o famoso inglês cujo duelo com o duque de Vai d'Orge, um dos melhores espadachins do mundo, tinha aparecido em todos os jornais franceses. O duque havia perdido uma das mãos durante a luta e depois sua mulher, que fugira com Vandeleur. Alguns anos mais tarde, havia se tornado, por pouco tempo, ditador do Paraguai. Ele havia sido obrigado a fugir devido a uma revolta provocada por suas atrocidades. A duquesa havia morrido durante a sua fuga, segundo alguns em circunstâncias que não favoreciam a Vandeleur. Dizia-se também que ele tinha estado a serviço do governo britânico durante o motim indiano, porém o seu trabalho foi de tal ordem que o governo não ousou reconhecê-lo. Havia também uma estória que ele nunca recusara duelar com nenhum homem, com exceção de um, o também notável Capitão Richard Francis Burton. Entretanto, os admiradores de Vandeleur, alegavam que o governo havia interferido porque Vandeleur foi então encarregado da tarefa delicada e de grande importância de recuperar as jóias do baronete, Sir Samuel Levy. O duelo seria reiniciado assim que Vandeleur e Burton tornassem a se encontrar, o que não era provável, pois ambos raramente ficavam na Inglaterra. Passepartout estremeceu. Que chance teria ele com tais homens mantendo-o prisioneiro? — O seu irmão deseja vê-lo, Coronel, disse Vandeleur. O homem alto largou o balde e encaminhou-se para a escada. — Devo subir? - Não, disse Nemo. - Não se esqueça de ficar afastado do cavalo quando ele voltar a si. Essa droga faz o animal as vezes ter acessos. Sustenha a sua cabeça por algum tempo, ficando fora do alcance de seus coices, e ele logo se acalmará. — Tinha me esquecido, disse o coronel. — Não sou nenhum novato. — Além disso, disse Nemo. — Quero que me leve uma mensagem para o Nesse I. Diga-lhe para ficar a escuta de nossos sinais. Poderemos ter de usar o aparelho. É muito provável que os vizinhos ou a policia queira saber o que se passa. Esses porcos do Reform Club podem mandar alguém para verificar se Fogg finalmente voltou mesmo que ele não tenha ainda aparecido. E os colegas de Fogg poderão tentar resgatá-lo. Ele deve com toda certeza tê-los avisado de que estava de volta. — Por quê não pensou nisso antes de virmos aqui? disse o coronel um tanto contrariado. - Porque, meu caro irmão, eu esperava sobrepujar de imediato esses eridaneanos. Não sabia como era ineficiente a minha ajuda. O senhor estava conosco, disse o coronel. — De fato, e devia ter-me encarregado do francês. Ele não teria nunca articulado aquele grito e não teria agora Fogg e aquela mulher causando-nos um problema. E por favor, cale-se, meu irmão, enquanto lhe conto o que você deve fazer. — Está bem, murmurou o coronel. - Após entregar minha mensagem, fique no Nesse I. Não queremos muitas pessoas entrando e saindo daqui. Lembre-se de que Fogg é um homemcélebre, e se nós não afastarmos seus vizinhos, eles ficarão nos escutando. — Vou perder o melhor da festa. Será que Vandeleur não Pode ir em meu lugar? — Será que tenho de repetir tudo? disse Nemo em tom exaltado. — Você está vestido como um cocheiro. O que vão Pensar se virem um cavalheiro guiando uma carruagem? — Pois bem, disse o coronel a contragosto. Virou-se e caminhou em direção ao balde. Ouviu-se claramente a voz de Nemo: — Não pode esperar até eu terminar? Você levará consigo um dos aparelhos. Nesse não possui nenhum, e acho melhor que sejamos transmitidos para lá do que para outro lugar, que fique muito perto do centro de Londres. - Qual deles? disse o coronel. -- O de Passepartout ou o que o senhor fez? Aquele que o senhor fez! pensou Passepartout. Então foi por isso que Nemo ficara em São Francisco! E foi a sua chegada por meio do aparelho que provocara aqueles ruídos. Essa notícia era de fato triste. Nemo era capaz de fabricar aparelhos! Mas como conseguira ele fazer uma coisa que os eridaneanos e capeleanos vinham tentando fazer sem êxito durante duzentos anos? Os primitivos habitantes de seu planeta haviam trazido consigo alguns aparelhos, aqueles que ainda estavam em uso, porém não sabia construir outros novos. E o seu desejo de deixar alguns de lado para serem analisados não tinha se realizado, porque a abertura dos mesmos poderia causar a sua explosão. O aparelho usado por Head seria um dos fabricados recentemente? Teria ele se engajado como simples cozinheiro e garção em um pequeno barco mercante a vela para evitar que os eridaneanos revistassem os navios de carreira? Teria ele feito isso porque o chefe dos eridaneanos sabia que ele estava vindo para a Europa com um aparelho? Onde então havia Nemo aprendido a fazer um novo aparelho? Certamente através de desenhos. Onde os teria conseguido? Seria de Head? Porém Fogg tinha examinado o corpo e as roupas de Head, e Nemo tinha sido revistado por Passepartout e Fogg. E Nemo não tinha sido revistado depois de voltar para o General Grant. Teria Nemo retirado os desenhos do corpo de Head durante o desarmamento e a limpeza do Mary Celeste? A única ocasião em que estivera perto de Head, depois dele ter sido revistado fora quando auxiliou Fogg a lançar o cadáver ao mar. De alguma forma ele havia se apoderado dos desenhos. E tinha construído dois novos aparelhos em São Francisco, enquanto o grupo de Fogg viajava para o leste. Um dos novos aparelhos tinha de ser deixado para trás. Trazia consigo o outro aparelho quando foi transportado, certamente pelo aparelho levado a Londres pelo chinês. E ele levou o novo aparelho até a casa de Fogg somente para o caso em que não conseguisse obter o aparelho de Passepartout. O coronel subiu a escada e voltou logo depois. Saiu da casa, batendo a porta. Nemo reclamou: Esse idiota! Será que nunca aprenderá a não fazer barulho? Vandeleur levantou-se e olhou pela janela. Deu um grito e cerrou as cortinas. Depois disse: Esse idiota! Deu meia volta e correu para o pé da escada, dizendo: — O seu irmão está em apuros! Passepartout ouvia os passos pesados de Nemo atravessado a sala que dava para a rua. Um instante depois, ele voltava e descia a escada. Aproximou-se das cortinas, puxou Vandeleur para o lado e olhou para fora. Praguejou e disse: Eu disse a ele! Ele tinha que ficar longe daqui! Tornou a praguejar, correu até a porta, abriu-a, e tornou a fechá-la. Passepartout ouviu um relincho, o ruído de cavalos trotando, e um grito. Da rua ouviam-se fracos gritos. Vandeleur tornou a praguejar. - O animal derrubou-o e o carro passou sobre ele! Virou-se para Nemo e disse: — O que faremos agora? - Oh, aquele tolo! Ele pagará por isso! - De muitos modos, disse Vandeleur. -- Está inconsciente. — Como ele chegou à patente de coronel só é compreensível se soubermos o grau normal de inteligência dos oficiais de Sua Majestade, disse Nemo. -- Mas, como poderia ser seu irmão e o outro idiota é explicável somente pelo fato de que nós tivemos mães diferentes. - Não sabia disso, murmurou Vandeleur - Isso explica Por quê seu irmão chama-se James também. — E daí resultou muita confusão também, disse Nemo. Ela insistiu em dar a ele o nome de seu pai, mesmo contra a sua vontade! Seu semblante tornou-se ainda mais sombrio. -- Não se faz isso neste planeta nem naquele. Tornou a subir às escadas. Ao que parece, ele estava avisando a todos que paravam na porta do dormitório de Fogg, do que acontecera. Passepartout gemeu, amordaçado. Se o sr. Fogg e Aouda soubessem disso, podiam tentar escapar. Com apenas um homem na porta, eles poderiam se libertar. Capítulo 19 Aouda estava em seu quarto e imaginando se Phileas Fogg iria pedi-la em casamento. Se ela fosse designada para uma outra missão, talvez nunca mais o visse. Se ele não a pedisse logo, ele não teria mais oportunidade, mesmo que quisesse. Talvez ele estivesse hesitando agora só porque ela era uma parsi. No entanto, ela poderia passar por européia, e os seus filhos seriam ainda mais parecidos com europeus do que ela. Porém, ela duvidava que a sua origem oriental tivesse alguma coisa a ver com a sua recusa em se declarar. Por acaso Fogg se importava com a opinião dos outros? Não, a sua dificuldade estava em sua incapacidade para expressar os seus sentimentos mais íntimos. Ele possui auto controle em excesso, o que significava realmente, que em muitas coisas ele não conseguia controlar o seu verdadeiro ego. Em seu quarto, Fogg pensava em pedir Aouda em casamento. Mas, que tipo de vida ele podia oferecer a ela? É verdade que, quando começasse a ter filhos, ela seria dispensada de suas missões. Todavia, não teria paz de espírito. Ele ficaria ausente por longos períodos, em perigo na maior parte do tempo, podendo esperar ser morto a qualquer momento. Além disso, se os capeleanos descobrissem onde ela morava, eles a matariam e talvez aos seus filhos também. Nesse instante, Fogg e Aouda ouviram o grito de Passepartout. Fogg correu para o hall empunhando um revolver. Alguns segundos depois, Aouda saiu do seu quarto. Segurava um revolver de seis tiros. Fogg acenou para ela para que fosse ao outro extremo de onde pudesse controlar a aproximação à escada de serviço. Ele apressou-se em direção a escada central. Ao fazer isso, ouviu passos pesados na escada. Chegou no lance da escada na hora exata. Três homens subiam depressa as escadas do Segundo andar, e todos estavam armados com revólveres de ar comprimido, por ele logo reconhecidos. Também reconheceu dois dos homens. Um deles era um dos vizinhos, o jovem baronete dissoluto, Sir Ector Osbaldistone. O outro era Nemo. Ele havia rasgado a máscara que usava nos olhos que o deixava meio cego, bem como o nariz e o bigode postiços. Os tiros dados por Nemo e Fogg foram quase ao mesmo tempo e ambos erraram o alvo. Os três homens recuaram na escada. Um tiro soou atrás dele. Ele deu meia volta e viu fumaça saindo da arma de Aouda, e depois viu-a cambalear até bater na parede. Ela caiu lentamente, largando a arma e comprimindo o seu ombro direito. O sangue escorria entre os dedos de sua mão esquerda. Gritando — Aouda, Aouda, Fogg atravessou correndo o hall em sua direção. Ela estava pálida, e os olhos tinham uma aparência estranha, porém foi capaz de murmurar: — A bala > me atingiu de raspão. , Ele afastou a mão dela e viu que a bala havia apenas > feito um leve ferimento na pele. Ela passara pela parte superior do seio direito, porém atingira logo abaixo do pescoço. Parece ter saído sem ofender a clavícula, embora ele não tivesse certeza. Ela perdia bastante sangue dos ferimentos e ficaria logo em estado de choque, ou podia até morrer, se não fosse estancada a hemorragia. Mas se ele a socorresse, a escada ficaria desimpedida para o inimigo agir. Ela não podia continuar a defender sua posição aqui, e ele não podia defender ambas as posições. Havia apenas uma coisa a fazer. Ele levantou-a e carregou a pelo hall até o dormitório dele. O sangue escorria dela e deixava um rastro pelo chão. Isso também não podiaser evitado. No dormitório, ele a colocou em seu leito e fechou a porta. Da caixa de remédios no banheiro ele tirou gazes e ataduras, que foram aplicadas rapidamente. Pela primeira vez, ele perdera a calma. Aouda encarou-o e murmurou alguma coisa. Ele disse: — Fique quieta, querida! e pos um dedo nos lábios em sinal de silêncio. Alguns instantes depois, ele terminou o curativo. Ela pareceu recobrar um pouco de sua cor natural, embora isso talvez fosse apenas sugestão sua. Ele passou a deslocar um pesado movei para junto da porta quando ouviu uma porta bater no hall. Eles estava agora no mesmo andar dele e embora pudessem seguir o rastro de sangue, revistavam os outros quartos também. Nessa hora, moveu-se a maçaneta de sua porta. Ele atirou em um ponto logo acima da mesma. Se chegou a atingir alguém, nada ouviu que indicasse isso. Logo depois, ouviu se a voz de Nemo: — Nós o pegamos, Fogg. Há um homem lá fora no jardim com um fuzil de ar comprimido. Ele o atingirá sem errar se você aparecer na janela. Ele é o melhor atirador do este e do oeste também. Já pegamos o francês e o seu aparelho, e podemos abrir o nosso caminho a bala, a qualquer momento. - Mas não sem sofrer perdas, disse Fogg calmamente. Nemo disse algo que Fogg não pôde ouvir com clareza. Soaram passos como se o homem tivesse se afastado. Fogg encostou o movei junto a porta. Ele o deixaria afastado alguns centímetros e colocaria lâmpadas de querosene em cima do mesmo e embaixo. Se eles tentassem arrombar a porta, ele atiraria nas duas lâmpadas. O óleo de parafina (chamado querosene pelos americanos) formaria uma barreira impenetrável, e uma parte dele poderia até espirrar nos invasores e incendiá-los. O lado perigoso disso era que ele e Aouda teriam que sair do quarto para evitar que fossem queimados vivos. Aouda talvez fosse incapaz de sair sozinha, e nesse caso ele teria que fazê-la descer com uma corda feita com lençóis de cama. Isso os tornaria um alvo fácil para os atiradores que estavam no jardim. Deveriam cuidar disso quando acontecesse. Fogg lançaria fora a sua última lâmpada e contava que a sua luz iluminasse o jardim em grau suficiente para que ele visse os atiradores. Além disso, o fogo poderia ser visto pelos vizinhos, e um alarme poderia obrigar os capeleanos a fugir. É verdade que ele podia agora atirar pela janela e tentar atrair a atenção da vizinhança. Porém, ele tinha ouvido os carros de bombeiros e a explosão e compreendera que a mesma era um truque para afastar os vizinhos no momento. Ele colocou a terceira lâmpada, ainda apagada, na janela, espiou entre as cortinas, e depois afastou-se. O céu estava encoberto; o jardim estava mergulhado em uma escuridão total. Se pelo menos houvesse um pouco de neve, ele poderia ver melhor o que havia no jardim. Após ligar a luz de gás, ele arranjou um pouco de brandi Aouda e levantou a sua cabeça para que ela pudesse beber. As ataduras estavam manchadas de sangue, porém a hemorragia cessara. — Você ouviu tudo o que se passou? murmurou ele. — Sim, disse ela. — Ele não tem muito tempo para fazer tudo o que pretende, disse ele. — E os vizinhos estarão logo de volta. Pelo menos, alguns criados terão de voltar; eles não vão querer desagradar seus patrões ficando fora muito tempo. E tenho certeza que meu chefe irá responder ao meu telegrama. Talvez a essa altura a casa já está sendo vigiada pela minha gente. - Tenho confiança que nos livrará a todos, disse Aouda com voz fraca. - De uma forma ou de outra, disse o sr. Fogg. - O senhor chamou-me de Aouda querida? — Está certa, disse ele. — Isso quer dizer que... ? — Poderia dizer. Ela sorriu levemente, e seus olhos ficaram mais brilhantes. - Estive esperando que me dissesse isso. — E então... — Então, o que? — Então, beije-me. Fogg inclinou-se e beijou-a de leve. Endireitando o corpo, ele disse: — Não ouso tornar-me efusivo, Aouda, pois você não está em condições de receber nada a não ser a atenção de uma enfermeira. Mas, quer casar-se comigo? - Se tivéssemos um pastor, imediatamente, disse ela. Nesse ínterim, Passepartout observava Nemo e Vandeleur, enquanto eles olhavam a cenas que se passava na rua. Segundo os seus comentários, que eram freqüentemente intercalados por imprecações, o caso do coronel havia atraído um certo número de pessoas que recobravam a calma. Segundo Vandeleur, o primeiro a se aproximar do coronel, foi um menino da rua, um pivete sujo e maltrapilho. - Ele não o está ajudando, está roubando o coronel! - O que? disse Nemo, e abriu um pouco mais as cortinas. - Ele está roubando o aparelho, disse ele. — Está fugindo com sua carteira e com o relógio! Vandeleur dirigiu-se a seu chefe para receber instruções e viu então que ele não estava em condições de dá-las. Tinha sido acometido de um acesso de tremor. — Caramba! o senhor não está em condições de nos chefiar! Principiou a abrir a porta, porém Nemo, com grande esforço, dominou o tremor. Inclinou-se para a frente e bateu na nuca de Vandeleur com o cano de sua arma. Vandeleur caiu. E Nemo fechou a porta. Embora seu corpo tivesse parado de tremer, a cabeça de Nemo ainda se movia. E quando ele fez as suas recriminações a Vandeleur, deu a Passepartout ainda mais a impressão de uma cobra gigante. - Você acha que poderia de fato apanhar aquele malandro? O que você acha que poderia acontecer quando invade uma casa que supõe estar desabitada? E acha que eu não estou apto a dar ordens? Vandeleur não respondeu. Nemo deu-lhe um golpe violento nas costelas e gritou: - - Levante-se! Vandeleur gemeu mas não fez esforço para se levantar. Nemo colocou as palmas das mãos contra a porta e encostou-se nela por algum tempo. Quando recuou logo depois, os tremores tinham parado. Principiou a voltar-se, quando perdeu novamente a calma. Com sua agilidade e esperteza de um acrobata, Passepartout havia se levantado, embora seus tornozelos estivessem amarrados. Tinha caminhado pelo quarto dando pequenos saltos. Qualquer ruído que fizesse seria abafado pelas vozes dos dois capeleanos. Quando percebeu que Nemo caminhava em sua direção, ele abaixou-se, deu um grande salto no ar, e atingiu-o com os dois pés. Os saltos de seus sapatos atingiram Nemo no maxilar. Nemo bateu de lado na porta e caiu ao solo. Passepartout caiu pesadamente em suas costas, ferindo os braços amarrados e batendo nele. Ele por um momento urrou de dor. Vandeleur gemeu novamente e rolou para perto dele. Nemo, sentado encostado na porta, com a cabeça pendida sobre o peito, parecia completamente inconsciente. Passepartout, tendo recobrado o fôlego, ajoelhou-se com um impulso de seu corpo. Com outra contorsão violenta, ficou de pé. Vandeleur tentou lutar com todos os quatro. Ele sacudiu a cabeça, o que deve ter afetado o seu pescoço ferido, porque ele gemeu. Ouviu-se um pequeno estalido quando o francês soltou os seus braços amarrados. Ele passou com os mesmos sobre a cabeça e tornou a abaixá-los. Se Nemo pudesse vê-lo, teria compreendido como os três eridaneanos vinham tentando libertar-se de suas amarras na cabine do General Grant. Foi nesse instante que alguém bateu com força na porta da frente e que ele ouviu uma voz em algum quarto no fundo da casa. Passepartout revistou desesperadamente as roupas de Nemo procurando uma faca. Continuavam a bater na porta e então ele reconheceu a voz de Moran, a medida que o capitão se aproximava. Ele perguntava qual era o motivo de alguém não lhe ter levado o seu café e brandy? Servido ou não, ele estava saindo um pouco. Suas mãos estavam tão frias que ele não podia nem sequer segurar a arma direito. Passepartout retirou uma faca de uma das botas de Nemo e cortou as cordas que prendiam seus tornozelos. Os passos de Moran foram ficando mais fortes; estava a ponto de entrar na sala. Vandeleur pôs-se em pé e avançou na direção do francês Passepartout virou-se e golpeou-o, atingindo-o no lado esquerdo do rosto. Vandeleur gritou e caiu de costas com uma mão sobre o ferimento. O sangue escorria entre seus dedos e pelo pescoço. Ainda empunhando a faca, Passepartoutatravessou a sala correndo e subiu a escada. Quando estava quase no lance da mesma, ouviu um grito atrás de si e lá embaixo. Acabou de subir e deu um pulo para frente. Abaixou-se e rolou pelo chão, e viu o furo feito pela bala disparada pelo capitão. Pôs-se em pé e desceu na direção do hall. Em seu ponto extremo, ficava a escada de serviço. Se ele pudesse alcançá-la e dali descer, poderia sair da casa. Porém a distância era grande, e Moran não estava muito longe dele, e se ele o descobrisse enquanto ainda estivesse no hall, ele não deixaria de atingi-lo com um tiro. Arriscou olhar para trás. O capitão havia parado a alguns passos do hall e trazia a sua arma em seu ombro. Passepartout jogou-se para um lado com tanta força que bateu em uma porta. A porta em frente estava parcialmente aberta, dando-lhe uma oportunidade de fuga que ele não podia desprezar. Ele virou o corpo de lado e passou pela mesma. Levantou-se depressa e fechou a porta. Colocou a lâmina da faca entre os dentes e cortou a corda em seus pulsos. A maçaneta moveu-se; a porta fazia barulho enquanto Moran forçava-a inutilmente, batendo seu corpo contra a mesma. Passepartout cortou as últimas cordas e levantou-se, com as mãos livres. Ouviu-se a voz de Moran gritando lá embaixo no hall; alguém respondeu. É claro que Moran estava lhes dizendo para vigiarem a porta enquanto ele voltava para o jardim. Passepartout puxou as cortinas e abriu a janela. Ele podia saltar um andar na passagem embaixo e correr através do jardim. Mas Moran sairia também tão depressa quanto ele, tendo bastante tempo para atirar nele, quando estivesse escalando o muro de 2 metros de altura. Não, isso estava fora de cogitação. Praguejou algumas palavras em galés. Ele contava em sair pela porta na qual havia esbarrado e assim chegar em uma janela que dava para a rua. Dali poderia gritar para as pessoas na rua ou até mesmo pular por uma das janelas. Porém, agora estava na mesma situação de Fogg e Aouda. Nemo, recobrando os sentidos, talvez tenha tido outro acesso de tremor. Pode-se admitir que o seu maxilar e a sua cabeça doíam, e que ele vociferava para os seus auxiliares e ameaçava os mesmos com terríveis castigos. A seguir, prestou atenção às batidas na porta. Abriu-a fazendo barulho. Na luz de gás existente, ele divisou Fix. Este estava vestido com o uniforme de um mensageiro. Além, dois homens carregavam o corpo inerte do coronel em uma padiola. A sua frente, caminhava um homem carregando uma pasta de couro. Na certa, tratava-se do doutor Caber que morava próximo de Fogg. Estava trazendo o coronel a sua casa para esperar a chegada da ambulância. - Vá-se embora, disse Nemo pelo postigo. — Vá-se embora, seu tolo! As coisas mudaram! - O que? disse Fix, e depois, em tom hesitante. - Mas, o senhor precisa ler esse telegrama! Nemo podia ver que todos na multidão estavam vendo o coronel ser tirado dali. Ele abriu a porta, saiu, agarrou Fix pela gola do casaco, e puxou para dentro. Fechou a porta e disse: — Preciso mesmo? - Sim, disse Fix. Olhou curioso ao seu redor. -- O que aconteceu? - Não interessa, disse Nemo. Arrancou o envelope do telegrama das mãos de Fix. Tinha sinais de ter sido aberto, e Portanto, Fix o tinha lido. — Exatamente como me dissera, disse Fix. - Detive o mensageiro verdadeiro e disse-lhe que eu era um detetive, e que precisava do telegrama porque era a prova de um caso legal. Dei-lhe dois shillings para garantir a sua cooperação, depois li a mensagem e vim depressa para cá. — Cale-se! disse Nemo. Chegou perto do bico de gás e leu o telegrama em silêncio a primeira vez e depois em voz alta. Era evidente que não havia gostado do que lera em ambas as vezes. SOLTE OS TRÊS ILESOS ÀS '8:30 E PODE IR EMBORA LIVRE. ESTAMOS COM NESSE I. O ANTIGO JÁ NÃO EXISTE. PARABÉNS. VOCÊ É AGORA O CHEFE. PENSE NAS CONSEQÜÊNCIAS DISSO. CHEFE DE ERIDANO Fix pôs as mãos nos bolsos para esconder o seu tremor. — O que significa tudo isso? disse ele. — Está claro, disse Nemo, em tom irônico. — Eles tentaram localizar Nesse I quando eu cheguei, devido ao ruído feito pelo aparelho. Fiquei com eles durante algum tempo sendo por isso que saí antes que eles descobrissem. Teriam morto o nosso chefe, o último... Fez uma pausa, pensando no efeito sobre o seu moral se soubessem que havia morrido o último dos antigos capeleanos. Ele estava muito atrasado. Os outros entenderam o que ele queria dizer com isso. - O Antigo está morto, disse Fix, comovido. Talvez, disse Nemo. -- Esse eridaneano pode estar mentindo, sabe disso, e provavelmente estará. Mas ele não está mentindo sobre o que se passa aqui. Portanto, ele está nos dando o prazo até oito e meia horas para apresentar Fogg, o francês e Aouda, ilesos. Se não o fizermos, seremos atacados, não importando o número de terrestres que sejam atraídos para a luta. Fix dirigiu-se para perto da cortina como se fosse olhar para fora. - Não faça isso, disse Nemo Eles estão lá fora em algum lugar. Parou um momento para refletir, esfregando de leve o seu maxilar, no qual havia aparecido uma inchação. — Tragam Osbaldistone e Vandeleur aqui embaixo. — E os...? — Os outros? Eles não saberão que ficaram desprotegidos. Não abrirão a porta com medo de receberem um tiro. Quero que todos fiquem a par dessa nova situação. Moran pode ser informado mais tarde; se o virem voltando para aquela casa, eles tentarão sair pelas janelas. Depressa! Fix subiu a escada e calmamente chamou Vandeleur e Osbaldistone de suas posições. Ao descerem, ele contou em voz baixa as novidades. Vandeleur nada disse. O baronete ficou pálido. — Morreu o último dos antigos, murmurou ele. — Que faremos agora? — Nemo diz que os eridaneanos podem estar mentindo a esse respeito, disse Fix. - Porém, duvido muito. Eles devem ter se apoderado do Nesse I; do contrário, como poderiam ter sabido que existe isso que chamamos de quartel general? Mas Nemo é o nosso chefe agora. Nemo confirmou tudo o que Fix havia dito. - - Mas não pense que os eridaneanos levem qualquer vantagem sobre nós porque ainda possam ter um dos mais velhos para comandá-los. Pelo que sabemos, eles não tem ninguém. E mesmo que tivessem, de que serviria? Os mais velhos não eram mais inteligentes do que nós. E preciso ser um verdadeiro ser humano para saber como combater outros seres humanos, e agora nós capeleanos temos um deles — ou seja, eu — para comandá-los! Agora podemos guerrear como quisermos e com um objetivo mais realista. Fix gostaria de saber o que Nemo queria dizer com mais realista. Estaria ele querendo abandonar o Grande Plano, para usar o seu povo apenas para seu proveito pessoal? - E a mistura do sangue? Não há mais sangue vindo das estrelas para misturar em nossas veias nas festas da puberdade. - E daí? disse Nemo. - O sangue em si mesmo não tem nenhum valor. O seu único valor é simbólico. — De agora em diante, nas festas será usado sangue de um chefe humano. O capeleanismo é um ideal; o seu objetivo e a conquista da Terra, para bem dos terrestres. Os terrestres devem ser salvos de si mesmos. — Mas, do jeito que as coisas caminham, os eridaneanos Podem ganhar! — Isso já é quase traição, disse Nemo. — É verdade que o fim está próximo, já que tanto nós como nossos inimigos não chegamos a atingir cem de cada. Mas, eu tenho um plano. Faremos uma campanha, que os mais velhos seriam pouco inflexíveis ou inteligentes para conceber. Reunir-nos-emos, traremos nosso povo, que está espalhado pela Terra toda, nos reorganizaremos e lançaremos uma caçada que não cessará até que tenhamos exterminado todos os eridaneanos. E então... — Apenas cem de cada! disse Fix. Nemo parecia ter se arrependido do que dissera. Depois acrescentou: -- Basta de falar no futuro! O presente. é o que interessa e no presente, temos que recuar. O inimigo ganhou esse round, porém será o último em que vencerá. Tirou o relógio de Passepartout de seu bolso do casaco, e abriu a tampa de trás. — Recuaremos, porém só depois de Fogg e seu bando tenha sido eliminado, disse ele. — Depois, usaremos o aparelho para chegaraté o Nesse II. Vandeleur, você está levando a fita para... Ele parou de falar, ficando com a boca aberta. Ficou pálido e depois, vermelho. — Esse não é o relógio do francês! gritou ele. — Este não tem nenhum controle. É apenas um relógio, um simples relógio! Fix ficou paralisado. — O que quer dizer com isso? disse Vandeleur. — Digo que aqueles porcos nos enganaram! disse Nemo. — Aquele Fogg! Ele deve ter levado o aparelho e dado ao francês um outro relógio para usar, para que pensássemos ...ele... ele... Fogg está com o relógio que tem o aparelho! — Então, estamos cercados, não podemos fugir! — Não, de jeito algum! disse Nemo. - Tiraremos o aparelho de Fogg! — Por quê não aceitamos as suas condições e saímos calmamente? disse Fix. Fix, meio atordoado, estava caído no chão. Tentou levantar-se, mas vendo que Nemo estava a ponto de golpeá-lo novamente, resolveu ficar onde estava. — Você pensa que eles manteriam sua palavra, mais do que nós manteríamos a nossa? Ele afastou-se e Fix achou que podia levantar-se. Estava com medo de falar, mas achou que devia. O salvamento deles dependia disso. - Senhor, disse ele, se Fogg deu a sua palavra, podemos ficar tranqüilos. Ele não voltaria atrás. Nemo recuou para encará-lo: -- O que está dizendo? Acha boa a palavra de um eridaneano? — Eridaneano ou não, Fogg não nos trairia, porque então, estaria traindo-se a si mesmo, disse Fix. -- Conheço bem esse homem. - Talvez o conheça bem demais! disse Nemo. - Talvez ele o tenha convencido a tornar-se um traidor. - É exatamente o que estou pensando, disse Vandeleur. Fix tremeu, porém disse: — Porém, estou certo de que Fogg, o que quer que ele seja, é um homem veraz. Ele não quebraria o seu juramento, nem no nosso caso. - Nem para conosco! disse Nemo. - O que quer dizer exatamente com isso? Jogou o relógio com tanta força na lareira que saltou todo o seu maquinismo. - Fix, durante muito tempo tive as minhas dúvidas a seu respeito. Há só uma maneira de me convencer de que não é um traidor; uma só maneira que evitará que morra como um traidor. - Sim, senhor, disse Fix. Tentava evitar contrações em seu rosto. - Precisamos conseguir aquele aparelho e quanto antes. Não há tempo agora para minúcias; precisamos arrombar o quarto de Fogg. Você nos conduzirá até ele. E ele teria que morrer, pensou Fix. Fogg não deixaria escapar o primeiro homem que entrasse. Fix seria o sacrificado, e Nemo o teria, realmente, executado. E por quê? Porque Nemo pensava que Fix fosse um traidor. —E então, Fix, disse Nemo. — Se tem que ser assim, disse Fix. — É assim que tem de ser. - Providenciará para que nada falte a minha família? disse Fix. - Cuidar da família de um traidor...? disse Vandeleur, porém Nemo o interrompeu, dizendo: Fique quieto! — Não sou traidor, disse Fix. A voz de Nemo ficou mais branda. - Vandeleur é muito teimoso. Todos nós estamos perturbados por causa disso, mas agora não é hora de entrar em pânico. Sim, Fix, prometo-lhe Que se algo lhe acontecer, a sua família nada sofrerá. E o que queria dizer aquilo? pensou Fix. Que eles seriam mortos rapidamente? — Pegaremos o francês primeiro, disse Nemo. — Sir Hector, o senhor deve voltar para seu posto na porta de Fogg. Não é provável que nos ouça atacando o francês., mas no caso de ouvir poderá concluir que não existem muitos dos nossos em sua porta, e poderá tentar sair. Fique parado de um lado, junto a parede, para que se ele sair correndo, receba o primeiro tiro. - Ótimo, disse Vandeleur. Mas gostaria de torturá-lo antes que ele morra. - Não temos tempo para isso, disse Nemo - - Deve ser morto rápida e silenciosamente. - Agora, sejam quais forem as nossas perdas, precisamos entrar no quarto de Fogg e sair o mais depressa possível. O rastro de sangue indica que a mulher foi gravemente ferida. Ela está morta ou muito ferida para auxiliar Fogg, e isso é bom, porque ela atira muito bem. Fogg deve ser morto imediatamente, do contrário ele poderá abrir o aparelho e fazê-lo explodir matando-se e a todos nós também. Não creio que ele faça isso a não ser em último recurso, portanto cabe a nós evitar que ele chegue a esse ponto. — Acho que ele colocou alguns móveis junto a porta para servir como barricada. Tiraremos as dobradiças da porta. A um sinal meu, Vandeleur dará um tiro na fechadura. A porta será retirada por mim e Osbaldistone. Você, Fix, correrá pelo hall e pulará contra a barricada. Fogg estará com as luzes de seu quarto apagadas, mas nós desligaremos as luzes do hall antes, a fim de que nossas vistas se acostumem com a falta de luz. Isso tornará também difícil para Fogg ver alguma coisa. Ao passar pela barricada Fix dará um tiro, para que ele atire. Então veja onde vai cair. Veremos o clarão do tiro de seu revolver e saberemos para onde atirar. Fix sabia que não podia retirar aqueles móveis com um único empurrão. E se os móveis estivessem empilhados, ele ficaria preso nos mesmos tornando-se um alvo fácil. Não havia dúvida que Nemo e Vandeleur poderiam atirar em Fogg quando visse o mesmo atirando. Porém, Fix não seria capaz de ver isso. Ele estaria morto. E por quê? Por causa de homem que o tinha utilizado, não no interesse de todos os capeleanos, mas apenas em seu próprio proveito. Apesar disso, ele nada disse. As palavras seriam inúteis. Tirou o seu Webley do bolso e seguiu Nemo até a porta, atrás da qual Passepartout esperava. Nemo usou seu revolver de ar para atirar na fechadura. Fix abriu a porta, e Vandeleur apressou-se em entrar com o revolver em uma das mãos e uma faca na outra. O quarto estava escuro, porém Fix levava uma lâmpada de querosene que iluminava o bastante para ver que o francês não estava no quarto. Também não estava escondido no banheiro, embaixo da cama, no guarda-roupa ou atrás das cortinas. As janelas continuavam fechadas. - O senhor disse que ele não arriscaria abrir a,porta e olhar para fora — disse Vandeleur. - Ele é mais tolo que eu havia pensado, disse Nemo. Eu achei que ele era muito inteligente. Fix, desça e veja se ele não está lá fora! Ele pode ter usado a escada de serviço enquanto usávamos a principal. - Sim, senhor, disse Fix. Mas, acho que ele não usou a outra escada. Começou a correr, porém Nemo chamou-o de volta. — O que quer dizer com isso? - Ele não abandonaria Fogg e a mulher, disse Fix. - Você parece conhecer bem esses eridaneanos, não é verdade? — disse Nemo devagar. - Está bem, desça e certifique-se. Depois me avise no terceiro andar. Fix voltava minutos depois. Encontrou os outros tentando reanimar Osbaldistone, que estava inconsciente. A porta do quarto de Fogg estava aberta. - Você tem razão, Fix, disse Nemo -- Ele subiu até aqui, agrediu Osbaldistone na nuca, e os três foram para algum lugar! Entretanto, não poderiam ter descido. Entretanto, Fogg é tão esperto que pode estar em um quarto desse andar. Que confusão! pensou Fix. Nemo podia ser um grande crânio, um gênio da matemática e da engenharia, porém quando se tratava de um assunto que exigia rápido raciocínio, ele não se saia tão bem. Era também muito arrogante e egoísta. Ele subestimava todo mundo. Talvez aprendesse uma lição com isso e passaria a usar o seu gênio de modo mais correto. A seguir, Nemo disse: - Fix, empilhe os móveis, cortinas, tudo que houver de inflamável, nos lances e os degraus da escada de serviço. Vandeleur, você fará o mesmo na escada Principal. Após estarem prontas as pilhas, molhe-as com querosene. Vamos queimar a casa toda e com ela Fogg, o francês, a mulher, e o aparelho. O incêndio atrairá uma grande multidão, na qual nós desapareceremos. Tornaremos a nos encontrar no Nesse III. Olhou para o seu relógio e disse: - São oito e quinze. Fogg tem trinta minutos para chegar ao Reform Club. Ele vai perder essa aposta, porque estará no inferno antes disso. Fix estremeceu ao pensar em Fogg, Passepartout e a bela e gentil Aouda gritando no meio das chamas. Levou dois minutos para os dois carregarem as mesas, cadeiras, cortinas, lençóis e travesseiros e empilhá-los na escadas e nos lances das mesmas. Vandeleure Nemo começaram a trazer lâmpadas, porém não em quantidade suficiente para satisfazer Nemo. - Ligaremos também os bicos de gás, porém quero evitar que esses três saltem sobre as pilhas. Fix, vá até a adega e veja se existem mais latas de querosene. Ao voltar, conte ao capitão o que esteve fazendo. Diga-lhe para voltar ao seu posto e esperar até que saiamos, antes dele pular o muro. Veja se ele tem escadas de corda ou outro meio de passar pelo muro, pois será perigoso atravessar a casa, depois de acesso o fogo. Os bicos de gás só serão ligados quando estivermos saindo. Porém, as possibilidades de uma explosão são altas. Entendeu tudo? Fix disse: Sim, senhor e saiu apressado. Entrou no porão e voltou logo com duas latas grandes de querosene. Moran formava uma silhueta escura em meio à penumbra. Fix abriu a porta e disse: Capitão, venha aqui depressa! Tenho uma mensagem para o senhor. Nemo tornou a olhar em seu relógio. Daí há pouco, o cavalheiro no Reform Club e a grande multidão lá fora, veriam as chamas subindo e ficariam imaginando qual seria a casa que estava ^e incendiando. Ao ouvir passos se aproximando na direção da escada, ele virou-se. Fix, logo depois, subia na pilha de móveis com uma lata em cada mão. - Ponha uma aí e leve a outra para a pilha de Vandeleur, disse Nemo. -Acenderemos a dele primeiro. Fix colocou um dos vasilhames no chão e andou em direção a Nemo. Este voltou-se para ver Vandeleur, que trazia uma braçada de cortinas para colocar na pilha. Fix tirou o seu revolver, e segurou-o pelo cano. Fogg, Aouda e Passepartout estavam em uma janela do quarto da frente no quarto andar. Os lampiões da rua mostravam que a mesma estava quase deserta. Havia quatro homens parados perto de um dos postes. — Devem ser os homens que Nemo colocou lá para nos deter, no caso de fugirmos, disse Fogg. — Não há um meio de evitá-los. Assim que nos vejam descendo por essa corda de lençóis, virão correndo ao nosso encalço. Precisamos descer depressa e começar a atirar logo assim que toquemos o solo. Aouda, sentada em uma poltrona, disse: -- Ainda acho que devia ficar por aqui. Só posso usar uma das mão, e não tenho forças suficientes para me sustentar com uma só mão. — Nada disso, minha cara, disse Fogg -- Disse que desceremos juntos e terei um braço em sua cintura. Nossas luvas impedirão que as mãos se esquentem pelo atrito. — Mas... Aouda parou. Ouvia-se a voz de Fix lá no hall. - Sr. Fogg! Creia-me, não se trata de nenhuma armadilha! Pus Nemo e os outros fora de combate! Não podia deixar que o queimassem vivo. Por favor, acredite-me, sr. Fogg e venha depressa! - Isso pode bem ser um truque para nos localizar, disse Fogg. - Sr. Fogg! Nemo disse que eu podia ser um traidor, e tenho certeza que ele queria me ver morto. E só Deus sabe o que ele faria à minha família! Por favor, creia em mim. Tenho um revolver mas está em meu casaco, e estou com as mãos para cima. Veja se é verdade. Mas, depressa! — Talvez seja verdade. Não é nenhum imprevisto, disse Fogg. Andou até a porta, abriu-a parcialmente. Lá estava Fix, andando devagar no hall com as mãos levantadas. Fogg abriu um pouco mais a porta, pôs a ponta do cano de seu revolver para fora, e disse: entre, sr. Fix. Fix entrou. Fogg fechou a porta e disse: - - Onde estão seus companheiros? — Todos inconscientes, talvez mortos, disse Fix. Chamei Moran e ataquei-o na cabeça com a coronha de meu revolver. Depois subi a escada e golpeei Nemo, quando estava de costas. Osbaldistone estava desacordado, assim só tive que mandar Vandeleur virar para a parede e ataquei-o também. - E fez isso pelos motivos mencionados? — Sim, mas o senhor terá que me proteger a mim e a minha família daqui por diante. Fará isso? — Pode contar comigo, disse o sr. Fogg. — Vai matá-los então, disse Fix. — Gostaria que eu fizesse isso, sr. Fix, disse Fogg. — Não. Não gosto deles, e Nemo teria me matado sem misericórdia, disse Fix. Porém isso de matá-los a sangue frio... Fogg não respondeu. Estava revistando a roupa de Nemo. Logo depois, tirou dela um pequeno estojo de couro que estava em um dos bolsos, e dele retirou pequenos pedaços de papel com texto e desenhos que só podiam ser lidos com lentes de aumento. — Esperava que ele ainda estivesse com isso, disse ele. — O que é isso, disse Aouda. - Os desenhos do aparelho. Mas como Nemo tirou-os do corpo de Head? — Head os tinha guardados embaixo de seu olho de vidro, disse Fix. Nemo o retirou quando auxiliou a jogar o corpo no mar. — Mas de onde Head conseguiu os desenhos? — Foi um eridaneano americano que descobriu como fabricar aparelhos, disse Fix. Head soube disso, não sei como, e matou-o, queimou o seu laboratório e fugiu com os desenhos que o americano havia feito. — E aqueles homens lá fora? — São curiosos ou então eridaneanos esperando para ver se Nemo se rende a eles. Contou a Fogg do telegrama que recebera do chefe eridaneano. Fogg tornou a consultar seu relógio. Vamos embora, disse ele. — Para onde? disse Aouda. — Para o Reform Club. Temos exatamente dez minutos para chegar lá se eu quiser ganhar a aposta. Eles se apressaram, mas não havia tempo para buscar Vandeleur, Moran e Nemo. Eles haviam voltado a si e fugiram, deixando Sir Hector. Quando os eridaneanos entraram pela porta da frente, o trio pulou pelo muro no fundo do jardim. Osbaldistone era carregado como se estivesse bêbado, e foi posto em um carro. O que aconteceu depois a ele, ninguém sabe. Como todos sabem, Phileas surgiu quando faltavam três segundos para se esgotar o prazo da aposta. Recebeu vinte mil libras, embora tivesse gasto dezenove mil em sua viagem, sendo a sua última despesa cem libras pagas ao cocheiro que o levou ao clube. O dinheiro restante foi dividido entre Fix e Passepartout. Dentro de dois dias, Fogg e Aouda se casaram e Verne finaliza a sua narrativa com um final feliz. Mas o que há oculto na estória de Verne? O outro diário de Fogg termina no dia em que Aouda se casou. Nada foi jamais escrito a esse respeito, portanto, temos de refazer o posfácio. Os eridaneanos e capeleanos, livres de Nemo, e por meio de Fix, devem ter feito uma trégua ou, talvez, mesmo uma aliança. Muitos deles em ambos os lados achavam, como Fix, que não havia sentido em prosseguir com essa guerra secreta e inútil, que só poderia terminar com o extermínio de um dos lados e o quase extermínio do outro. Além disso, a vida como um simples terrestre já era bastante difícil, sem adicionar a ela os perigos dos eridaneanos e capeleanos. Segundo um tal dr. John Watson, Moran voltou para a índia, e permaneceu lá durante anos. Depois de se reformar como coronel, voltou a encontrar seu chefe em Londres. Nemo tornou-se um professor durante algum tempo, e depois de recuperar a saúde, voltou a trabalhar. 0 coronel, irmão de Nemo, ficara tão ferido pelo cavalo, que se reformou do exército. Entretanto, voltou a agir mal quando mais velho, embora não como parceiro de seu irmão. Ele aparece brevemente em livro de semi-ficção de Robert Louis Stevenson, The New Arabian Nights. Fogg retirou-se para Fogg Shaw no interior de Derbyshire, onde trabalhou em seu laboratório e criou vários filhos, todos elegantes e bonitos como a mãe. Fix continuou a ser detetive, embora só servisse agora a Sua Majestade. Passepartout estabeleceu-se como gerente das propriedades de Fogg e casou-se com uma moça do lugar. E o que sucedeu ao Grande Plano? Em vista da situação do mundo atual, podemos admitir Que ele foi abandonado. E os aparelhos (transportadores de pessoas)? Será que os eridaneanos e capeleanos resolveram lançar os Aparelhos restantes, juntamente com seus desenhos, no mar? ^u algum malfeitor roubou-os? O fato de não termos ouvido mais falar dos novos estrondos nada significa. Pode ser que alguém, talvez Fogg, tenha inventado um meio de suprimir aqueles ruídos. Caso em que, alguns dos muitos e quase impossíveis' desaparecimentos de pessoas no mundo, bem como objetos, poderia ser explicado. Seja o que for que tenha acontecido aos aparelhos, o importante é queFogg, Passepartout, Aouda e Fix viveram felizes durante muitos anos. Talvez ainda continuem vivos, ninguém sabe. Fogg pode mesmo ter pensado que, após um século, o público devia ser informado da estória real. Garanto-lhes que é apenas uma coincidência o fato das iniciais de Phileas Fogg e do editor, serem as mesmas.