Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

1948 14 D E M A I O 1948 2 6 D E M A I O 
Nasce o Estado de Israel A supremacia branca 
A criação de Israel leva à escalada da 
violência no Oriente Médio. 
A vitória do Partido Nacional Africâner 
abre a porta para o apartheid. 
A segurança era rigorosa no Rothschild Boulevard e a 
l II ilu I,I militar Haganah vigiava todos os presentes no 
salão do Museu de Tel Aviv. A nação judia aguardara 
600 gerações por esse dia. No salão lotado fazia muito 
i ali II. As 16h, David Ben-Gurion entrou c balou i om um 
martelo na mesa pedindo atenção. Depois de cantar a 
/ lativah, o hino nacional, ele leu a declaração de inde-
I II 'i H IriK i,i de Israel, firmada cm seguida por V mem-
I I H I S do ( onselho Nacional. O Estado de Israel existia 
i ilu i.ilmente, sendo Ben-Gurion o seu primeiro-minis-
n bjetivo de criar na Palestina um "lar na< ional" 
i I I i os judeus fora proclamado em 1917 pela Grã-Bre-
l.n il i.i, i |in 'adquiriu o território depois da Primeira (>uei 
"...assim, pois, nós 
proclamamos a fundação 
do Estado de Israel." 
Foi uma das eleições gerais mais disputadas da história 
da África do Sul. De um lado, o Partido Unido, de fala in-
glesa, liderado por Jan Christian Smuts, primeiro-minis-
tro desde 1939 e africâner pró-Grã-Bretanha. Do outro, o 
Partido Nacional Unificado, de fala alikãner, lidei,ido 
polo 1 )r. I )aniel Malan, um dei larado pró na/isla< lutai ile 
a guerra e agora icpublk ano. Ambos os pai lidos delen 
diam a supiemai i,i biani a, mas Malan era o paladino do 
"nativismo" e do apartheid (separação), acreditando gue 
só aos I liam os | II «leiia sei ( om edid idiçái i de 
membro do Estado. 
Os nacionalistas conquistaram a maioria das ca-
deii.is numa eleição quase i|iie ex< usivamcnle bian 
"No passado nos sentíamos 
estrangeiros... mas hoje a 
África do Sul nos pertence." 
D a v i d B e n - G u r i o n Dr. M a l a n , p r i m e i r o - m i n i s t r o e m 1948 
ia Mundial. Preocupados, porém, com a população 
árabe local e seus aliados, os britânk os olisl.n uli/aram 
B Imigração de um número ilimitado de judeus mes 
i iii 11 lepois do Holocausto. Quando a violem ia irrom 
I >eu entre as duas comunidades, a questão foi delegada 
a (liganização das Nações Unidas, cuja recomendação 
ei n prol da partição do território foi aceita pelos judeus, 
mas não pelos árabes. O nascimento de Israel foi, por-
i, II iii >, altamente traumático. 
( ) presidente Truman reconheceu o novo Estado, 
no que foi logo seguido pela União Soviética, mas não 
I ii ili is | i.iíses árabes do Oriente Médio. Durante gera-
ções, a guerra iria determinar a geografia política de 
Israel e deixar profundas cicatrizes na região. R P 
ca. Smuts perdeu o cargo de primeiro-ministro. O Par-
tido Nai ional < onquislata uma maioiia de apenas 
(in< o ( adeitas, uma virada siqniÍK aliva. 
Formou-se um governo exclusivamenii i africâner, 
Foram feitos grandes esforços para "africanerizar" o 
exército, a polícia, o judiciário e o serviço público, para 
assegurar que suas novas leis não fossem sabotadas. 
A legislação de 1949, reminiscente de algumas das Leis 
de Nuremberg (1935) contra os judeus, foi comple-
mentada e m 1951 com a criação de bantustões (terri-
tórios) para 10 tribos negras. A segregação racial fora 
então estendida à totalidade da União Sul-Africana. 
Malan morreu em 1959, mas a era do apartheid se es-
tenderia até as eleições multirraciais de 1994. R P 
1948 2 2 D E J U N H O 
Os jamaicanos desembarcam na Grã-Bretanha 
A chegada do Empire Windrush a Tilbury, Inglaterra, gera ansiedade e anuncia o 
nascimento da Grã-Bretanha multicultural. 
Era um antigo navio alemão de transporte de tropas, 
adaptado e rebatizado Empire Windrush. Sua viagem 
começara na Palestina, com paradas no México, Ja -
maica, Trinidad, Cuba e Bermudas. Agora ele chegava 
ao seu destino. Ao entrar no estuário do Tâmisa, vários 
passageiros clandestinos saltaram do navio, que não 
obstante seguiu MM rot.i alé I ilbuiy paia uma .itr.x a 
ção inusitadamente concorrida. Uma flotilha de bar-
cos o acompanhou levando curiosos e a imprensa - a 
chegada de um navio transportando 492 jamaicanos 
era, naturalmente, matéria de jornal. Muito a propósi-
to, as câmeras dos cinejornais se moviam ao som do 
último calipso de lorde Kitchener: "London is the Place 
lor Me " (Londres agora é o meu lugar), 
Os imigrantes vieram das índias Ocidentais por vá-
i ias razões: alguns eram pilotos da força aérea retornan-
do de licença; outros, jovens e otimistas, esperavam 
conseguir empregos bem remunerados. Mas vieram 
iodos como cidadãos britânicos desejosos de conhecer 
.i "mãe-pátria". Muitos políticos, no entanto, se mostra-
vam aflitos com o que parecia uma inversão da ordem 
natural das coisas: os britânicos brancos tradicional-
mente emigravam para as colônias; agora, eram os ne -
gros das colônias que imigiavam para a (iia liiolanha. 
Foi essa tendência que levou, em 1962, à suspensão do 
i lireito automático de entrada no país para todos os ci-
i ladãos da Comunidade Britânica (Commonwealth). 
Os jamaicanos se empregaram rapidamente, e m -
bora nem sempre nas atividades para as quais estavam 
i lualifkados, e o alvoroço criado logo arrefeceu. RP 
O O navio alemão de transporte de tropas Empire Windrush 
chega a Tilbury Docks com 492 imigrantes jamaicanos a bordo. 
O Imigrantes das índias Ocidentais pensam no futuro depois de 
desembarcar do Empire Windrush no cais de Tilbury. 
I<)48 2 4 D E J U N H O 
Ponte aérea aliada abastece Berlim Ocidental 
Uma gigantesca ponte aérea aliada garante a sobrevivência de Berlim Ocidental, 
submetida ao blogueio soviético, e abre caminho para a OTAN. 
Calcinhas tremulavam nas antenas dos veículos milita-
res na quinta-feira 24 de junho de 1948. A Operação 
Calcinha (knickers) foi a resposta anglo-americana ao 
bloqueio rodoíerroviário de Berlim ()< idonlal imposto 
pela União Soviética. Tratava-se de abastecer a cidade 
por meio de nr iu "| loule" formada pela operação inin 
terrupta de aviões de carga nas três rotas aéreas dispo-
níveis aos aliados ocidentais em 1945. Mas seria viável? 
Os 2,5 milhões de habitantes de Berlim Ocidental, que 
já importavam 12 mil toneladas diálias de su| iiiinenlos, 
ii('<< asilavam de, no um limo, .' mil 1< melada', de ali 
mentos por dia. Mas os únicos aviões disponíveis eram 
uma centena de C-47 norte-americanos e seis Dakotas 
biilânii os, < ada um c um < ,ip,i< idade paia Iranspoilai 
somente 2,5 toneladas. E os combustíveis? E o carvão? 
Os estoques disponíveis só durariam alguns meses. 
0 ministro britânico das Relações Exteriores Er-
nest Bevin fez pé firme na manutenção da ponte aé -
rea. E assim foi feito. No fim de julho, os aliados trans-
portaram uma média de 2 mil toneladas diárias; em 
al ii il i li • l')49, essa i ilra < heqou a fí mil toneladas, 
com cerca de mil aviões voando ininterruptamente 
pelos corredores aéreos. Até que Stalin desistiu. O 
bloqueio foi suspenso em maio de 1949. 
Stalin impusera o bloqueio para dissuadir o Oci-
dente de criar uma Alemanha Ocidental democrática. 
Em 1949 ele teve de aceitar a fundação da República 
Federal da Alemanha. O Ocidente não se deixou vencer 
pela pressão e nesse mesmo ano foi criada a Organiza-
ção do Tratado do Atlântico Norte <) [AN. R P 
O Em meio a ruínas, cidadãos de Berlim Ocidental aguardam a che-
gada dos suprimentos trazidos por um C-47 norte-americano. 
O Vestido de Papai Noel, o tenente John Konop, de Astoria, traz 
presentes de Natal aos habitantes de Berlim Ocidental. 
1948 5 D E J U L H O 
Grã-Bretanha saudável 
Serviço Nacional de Saúde assegura 
assistência médica gratuita. 
A lei havia recebido a sanção real em novembro de 
1946.Em pouco tempo, todos os cidadãos britânicos 
teriam direito a assistência médica gratuita - clínicos, 
hospitais, dentistas e oculistas. Os custos seriam co -
bertos pelos impostos. Consegüentemente, a pobre-
za não mais seria um obstáculo à boa saúde. Cônsul 
tas, tratamentos, internações, remédios, dentaduras 
e óculos - seria tudo de graça. 
A criação do Serviço Nacional de Saúde (NHS) 
em 5 de julho fez uma enorme diferença na vida das 
pessoas. Anles, o atendimento médico era fragmen-
"O NHS deve melhorar 
sempre; deve sempre 
parecer inadequado." 
A n e u r i n B e v a n , 25 d e j u n h o d e 1948 
tário e desigual. O seguro estatal atendia a maioria 
dos trabalhadores, mas não os seus dependentes, e o 
atendimento médico era gratuito, mas não as inter-
nações hospitalares, que dependiam de seguros pri-
vados, autoridades locais e instituições beneficentes. 
0 ministro da Saúde Aneurin Bevan teve de fazer con -
cessões para conseguira participação dos médicos - a 
medicina privada existiria paralelamente à provisão 
1 istatal, com "leitos pagos" nos hospitais do NI IS. 
A Grã-Bretanha foi a primeira sociedade ocidental a 
oferecer tratamento médico amplo e gratuito. O país 
clamava por esse serviço, que geralmente custa mais 
do que o previsto. Algumas cobranças foram impostas 
a partir de 1951. Mas a suposição de Bevan de que a 
medicina privada da Grã-Bretanha "definharia" devido à 
superioridade do NHS revelou-se equivocada. RP 
1948 10 D E D E Z E M B R O 
Os Direitos Humanos 
A ONU proclama a Declaração Universal 
dos Direitos Humanos. 
Uma das primeiras realizações da ONU foi a consolida 
ção de documentos históricos como a Declaração i f is 
Direitos do Homem francesa de 1789 e a Declaração 
dos Direitos norte-americana de 1791 numa única ratia 
internacional. Depois da Segunda Guerra Mundial, o 
mundo tinha necessidade de uma declaração e a Carta 
das Nações Unidas não definia os direitos individuais. 
A declaração foi criação do diretor da divisão de 
direitos humanos do Secretariado da ONU, J ohn Pe-
ters I lumphrey, e de I leanor Roosevelt, presidente da 
comissão de díieitos humanos da mesma organi/a 
"Uma das mais elevadas 
expressões da consciência 
humana em nossa época." 
P a p a J o ã o P a u l o I I , 1995 
ção. I m seus 30 arligos ela prevê o direito à ígualda 
de perante a lei, ã l iberdade, à educação e à libei 
dade de consciência. Escrita como um conjunto de 
objetivos e princípios a serem seguidos pelos gover-
nos, ela i onstitui uma forma de pressão moral a ser 
aplicada sobre governos transgressores. 
A declaração foi aprovada sem nenhum voto coi I 
trário (seis países do bloco soviético, além de Arábi.i 
Saudita e África do Sul, se abstiveram) e adotada como 
lei internacional em 1976. Uma das críticas a que está 
sujeita é sua pouca flexibilidade em face da diversidade 
cultural, como em relação à Sharia islâmica, por exem 
pio. Não obstante, como um marco da aceitação global 
dos direitos dos indivíduos contra regimes opressivos, 
ela provou ser uma conquista vital e positiva, que levou 
ao desenvolvimento da lei dos direitos humanos. P F 
1948 2 3 D E D E Z E M B R O 
Criminosos de guerra julgados no Japão 
O general Tojo e outros líderes japoneses da Segunda Guerra são executados. 
O Na sala de audiências lotada, o general Hitleki Tojo é acusado de atrozes crimes de guerra 
Ele era conhecido como "A navalha" por sua consuma-
da crueldade. Como chefe da facção extremista Tosei, 
lli leki lojo defendeu a expansão do Japão para a China 
na década de 1930, aliou-se à Alemanha e à Itália no 
l\i< to Iripartitee, depois que se tornou primeiro-minis-
tro em 1941, ordenou o bombardeio de IVai I l.ubor e 
uma selvagem guerra de agressão. Reveses militares 
obrigaram-no a renunciar em julho de 1944. Talvez a 
única coisa que se salvou em Tojo foi o fato de não ter 
se eximido de culpa perante o tribunal. Em 23 de de -
zembro de 1948, ele e outros seis criminosos de guerra 
loram enforcados na prisão de Sugamo, em Tóquio. 
A ocupação aliada havia começado e m setem-
bro de 1945, depois da rendição do Japão, eosju lga-
MI . '•• inii iados em maio de 194<>. Vinte e oito < ri-
mini ISI is de queria i lasse A li uain pi ,sai l< is. Seus 
crimes incluíam "assassinato, mutilação e maus-tra-
tos" de prisioneiros de guerra e civis, "destruição d e -
sumana de cidades, vilas e aldeias a lém de toda justi-
ficativa de necessidade militar" e "massacre, estupro, 
pilhagem, banditismo o oulias < moldados". O pro 
motor americano Joseph Kenan descreveu os acusa-
dos como "meros assassinos comuns". Dois deles 
morreram durante o julgamento, um terceiro sofreu 
um colapso mental , sete foram condenados à mor-
te, dezesseis à prisão perpétua e dois outros à pri -
são. Quando acabou a ocupação, e m 1952, o J apão 
tinha uma Constituição democrát ica, o imperador 
renunciara à sua div indade e o militarismo era coisa 
do passado. R P 
1949 1 ° D E O U T U B R O 
Nasce a República Popular da China 
A vitória de Mao, em 1949, faz da China o segundo Estado comunista do mundo. 
O No balcão cio Palácio Imperial, em Pequim, MaoTsé-Tung faz uma pausa na leitura de sua proclamação. 
Em I a de outubro de 1949, na Praça Tiananmen, em Pe-
quim, Mao Tsé-Tung proclamou a fundação da Repúbli-
ca Popular da China. O acontecimento foi celebrado 
com um gigantesco pôster em que o líder sorridente 
estende a mão esquerda para o céu riscado por moder-
nos aviões cuja passagem é saudada por homens, mu -
lheres e crianças imaculadamente vestidos. Mas a reali-
dade era mais prosaica. A China estava de joelhos após 
duas décadas de uma guerra sangrenta, com sua popu-
lação empobrecida e o inimigo ainda não derrotado -
os nacionalistas de Chiang Kai-shek haviam se retirado 
para a ilha de Taiwan. 0 1 u de outubro era, pois, só uma 
i lata arbitrariamente escolhida para as comemorações. 
Mas um novo Estado passara a existir. Vinte e oito 
anos depois de ajudar a fundar o Partido Comunista 
Chinês, Mao era o líder máximo da China comunista. Se 
fosse um marxista ortodoxo, a história poderia ter sido 
diferente, pois os especialistas de Moscou o haviam ad-
vertido de que os camponeses eram pequeno-burgue-
ses, uma força quase contra-revolucionária. Se fosse um 
líder menos apto na condução de tropas guerrilheiras, o 
comunismo chinês não teria sobrevivido, pois os nacio-
nalistas fizeram o possível para erradicá-las. Os dois la-
dos colaboraram na luta contra os japoneses, mas de 
pois da derrota do Japão a guerra civil recrudesceu. 
Mesmo depois de outubro de 1949, algumas áreas da 
China ainda permaneciam nacionalistas. 
A União Soviética e, logo em seguida, a Grã-Bre-
tanha foram os primeiros países a reconhecerem a 
nova república. R P 
ro oo 
ro 
CD 
CO 
O 
CO 
ro 
ro 
ro ro 
ro oo 
ro 
ro 01 
ro 
ro 
CJl 
00 
ro 
o 
oo 
ro 
co 
O 
00 
O) 
c 
3 
o 
O 
co ro | o 
o 
O" 
a . 
ro 
o 
o 
' Um calendário que pode ser acessado instantaneamente é um dos recursos básicos dos smanphones do século XXI. 
CXI 
1 9 5 O - DIAS ATUAIS 
A lista de McCarthy A Coréia do Norte ataca 
Discurso anticomunista do senador McCarthy 
em Wheeling dá início à caça às bruxas, 
0 jovem Joseph McCarthy saiu de uma fazenda de 
Illinois para abraçar o Direito e a política republicana. 
1 m 1946, foi eleito senador dos Estados Unidos: aos 
•18 anos, era o mais jovem membro do Senado. Num 
discurso de 1950 para um grupo de mulheres repu-
blicanas em Wheel ing, Virgínia ()< idenlal, ele bian 
diu o que disse ser uma lista de agentes comunistas 
que trabalhavamnum dos ministérios. U m comitê 
do Senado investigou a denúncia, mas não encon-
iiou provas das alegações de McCarthy. 
Os sucessos comunistas e m outras partes do globo, 
a China, por exemplo, vinham alimentando suspeitas 
cada vez mais histéricas de que a política do governo 
americano estaria sendo influenciada por simpatizantes 
do comunismo. O Comitê de Atividades Anti-america-
nas da Câmara dos Deputados, que existia desde 1938, 
ter uperou o ânimo e organizou audiências, lorlemenle 
apoiadas em informantes duvidosos e em "culpa por as-
sociação". Suas ações se transformaram numa caça às 
bruxas em gue organizações e indivíduos liberais e de 
i M |iierda levaram a pecha de Iraiilotes "veimelhr >s". I m 
janeiro de 1950, umex-fum ionái iodode| >ai lamento do 
I stado, Alger Hiss, foi condenado por perjúrio por negar 
ao comitê, sob juramento, que havia sido agente russo. 
Em 1953, McCarthy se tornou presidente do sub-
i omite permanente para investigações e usou essa 
I n isição para relançar a caça às bruxas contra os simpa-
tizantes do comunismo. Embora algumas de suas sus-
IH iltas fossem mais bem fundadas do que seus críticos 
(|< istariam de admitir, ele e o promotor-chefe do comitê, 
o advogado Roy Cohn, não se detinham ante a falta de 
provas, destruindo sem piedade a reputação de pes-
soas inocentes. Até gue ponto McCarthy acreditava em 
sua cruzada ou não compreendia o mal que fazia ao 
seu | >aís é ainda uma questão controversa. RC 
As Nações Unidas têm uma 
oportunidade única para agir. 
Nas primeiras horas da manhã de 25 de junho, forças 
norte-coreanas deram início à invasão total da Coréia 
do Sul com um devastador fogo de artilharia. O líder do 
Norte, Kim ll-sung, disse estar respondendo a uma 
aqiessão i piovor ada do Sul, governado polo pri 
meiro-ministro Syngman Rhee. O tamanho da ofensiva, 
noenlanlo, e i a u m a i Iara evidôm ia de uma i ampanha 
longamente planejada visando à reuniíu ação da Co 
réia. A divisão de 1945 fora concebida como um expe-
diente temporário, até que Estados Unidos e União So-
viólii a c In 'i I.ISSI 'in ,i um ai otdo si il ire o futuro dl i pais. 
Dois governos distintos haviam surgido, ambos reivin-
dii andoa lei |ílim,i auloiii lai le si ibioa ( i néia. ()s < omu 
nislas governavam o Noite, e no Sul uma diladuia ooi 
rupta e impopular era apoiada pelos Estados Unidos. 
Washington, que não podia permitir que sua 
i i ia li ti.i losse i li ",l i uida, eslav.i em uma | nisiçao úni-
ca para agir. A União Soviética boicotava o Conselho 
de Segurança da ONU porque os americanos haviam 
se recusado a dar assento permanente ao regime 
comunista. Dev ido à abstenção soviética, po r tan -
to à sua impossibilidade de usar seu poder de veto, 
Washington conseguiu aprovar no Conselho de Se -
gurança resoluções condenando a invasão norte-
coreana e conclamando os Estados-membros a en -
viar forças para derrotá-la. Com graus variados de 
relutância e motivados mais por sua dependência 
dos Estados Unidos do que por seu entusiasmo pela 
Coréia do Sul, 15 países contribuíram com suas for-
ças. Cinco outros enviaram unidades médicas a uma 
coalizão liderada pelos Estados Unidos. Foi o primei-
ro conflito aberto da Guerra Fria. J S 
O Dois soldados sul-coreanos arrastam um norte-coreano 
enquanto se acautelam contra a presença de atiradores. 
1950 2 2 D E O U T U B R O 1951 2 5 D E M A I O 
A China invade o Tibete 
Forças da China comunista irrompem 
num território isolado e pouco conhecido. 
Reivindicando exercer seus direitos de soberania e 
trazer a libertação do povo, o F xército Popular de 1 i 
bertação da China invadiu o l ibelo no outono de 
1950. Os imperadores chineses reclamavam o con -
trole do Tibete desde o século XIII, pretexto suficien-
te para que a recém-fundada República Popular da 
< hina invadisse o país. O regime de Mao Tsé-Tung 
buscava legitimar seu poder consumando o que consi 
derava a reunificação da China. Embora independente, 
o Tibete, uma teocracia governada pelo Dalai Lama, era 
liaeo demais para resistir. 
"Pedimos respeitosamente que 
sejam enviadas tropas... [para] 
libertar o povo tibetano." 
Suposto ape lo a M a o Tsé-Tung e m jane i ro de 1950 
De início houve entre os progressistas certa espe-
lança de que a ocupação pudesse sei vantajosa para o 
Tibete. Acabar com o feudalismo poderia ser benéfico 
para as camadas mais pobres do povo e trazer desen-
volvimento econômico. Mas essas esperanças logo se 
desfizeram. Os chineses construíram pontes, estradas, 
escolas, mas trouxeram também uma firme campanha 
para solapar a autoridade da hierarquia budista, segui-
da de ataques contra a cultura tradicional e a elite nacio-
nal, além de graves violações dos direitos humanos. Em 
l'i')9 o ressentimento se transformou em revolta, bru-
talmente reprimida, forçando a fuga do Dalai Lama. Os 
chineses se esforçaram para reformara sociedade tibe-
lana, a começar pelo ataque à religião budista. Esta, po-
i 'iu, (ontinua sendo o símbolo das aspirações nacionais 
libetanas e de sua rejeição ao domínio chinês. J S 
0 escândalo dos espiões 
Os "Espiões de Cambridge" desertam 
para a União Soviética. 
Naquela sexta-feira, como de costume, Donald Madean 
passou o dia no Ministério das Relações Exteriores, em 
Whitehall, Londres, e saiu às 17h30 para pegar o trem 
de ( haring t ross a latsíiold. Mas era uma sexta feira 
excepcional. Não só porque completava 38 anos de 
idade, mas também porque tinham vindo à luz infoi 
mações de que Madean era, com quase toda a certeza, 
"Homero", o espião que vinha passando segredos britâ-
nk os para os soviélk os, I Io sei ia íi ilei rogado na segui i 
da-feira de manhã. Por isso, agentes do MI5 o seguiram 
aló( haring ( ross, mas não além. ( om a esposa grávida 
de nove meses, supunha-se que Madean não iria de -
sertar. Mas naquela mesma manhã um outro espião, 
(iiiy Burgess, [oi à casa de Mai lean e se apresentou à 
Sra. Madean como Roger Styles. Donald então contou à 
esposa que fora convocado para um importante com-
promisso e por isso levaria uma bolsa de viagem para o 
caso de não conseguir voltar a tempo. Os dois homens 
correram para a costa, atravessaram o canal até a França 
e desapareceram. Logo se soube que eles haviam de -
sertado para a União Soviética. 
Burgess e Madean foram recrutados como agen -
tes soviéticos na Universidade de ( ambridge, na dé 
cada de 1930, junto com um terceiro homem, Kim 
Philby. Mac lean trabalhou de I944 a 1948 na embai -
xada de Washington, de onde vazou informações 
que permitiram a Stalin estimar a força do arsenal nu-
clear ocidental. Foi Philby, em Washington, quem 
descobriu que a cobertura de Madean estava pres-
tes a ser descoberta e enviou Burgess para alertá-lo. 
A Grã-Bretanha passou a investigar com maiot 
rigor o passado de seu pessoal em posições-chave. 
Mas Phiiby só desertou em 1963, e em 1979 outro es-
pião, Anthony Blunt, foi desmascarado. Madean e 
Burgess morreram na Rússia. R P 
A morte de Evita 
Morre Eva Perón, a queridinha da Argentina, junto com o apoio popular ao seu 
marido, o presidente Juan Perón. 
Maria Eva Duarte de Perón, carinhosamente chamada 
de Evita, ainda estava na casa dos 30 anos quando mor-
reu de câncer. Irresistivelmente charmosa e atraente, ela 
exerceu enorme influência na política argentina como 
esp< isa do diladoi luan Perón. Mas já era lamosa c orno 
atriz de rádio e < inema quando, em 1943, conheceu O 
coronel Perón e se tornou sua amante, antes de vir a ser 
a sua segunda esposa em 1945. Ao seu lado quando ele 
foi eleito presidente em 1946, ela criou a sua própria or-
ganização de assistênciasocial, a Federação do Bem-Es-
tar Social, um generoso distribuidor de recursos que 
convenceu os argentinos pobres de sua sincera preocu-
pação com o bem-estar deles, além do indispensável 
apoio que dava ao marido. Sob sua influência, as mulhe-
res argentinas conquistaram o direito de voto em 1950. 
Imensamenle populai e sempre em viagem pelo inle 
rior do país, ela foi um canal de lomunk ação funda 
mental entre Perón e seus apoiadores nas províncias. 
Evita foi a primeira pessoa a fazer quimioterapia na 
Argentina. Depois de sua morte, seu corpo foi embalsa-
mado e seus fiéis adeptos pediram em vão ao Vaticano 
gue a canonizasse. Sem ela, Perón perdeu apoio rapida-
mente e foi obrigado a fugir do país em 1955.0 corpo 
de Evita desaparer eu e seu paiadoim loi um mislério 
durante anos. Algumas versões diziam que ele fora dei-
xado num caminhão ou estaria guardado em algum 
sótão. Em 1971, ele foi entregue por uma caminhonete 
na casa onde vivia Perón na Espanha. Em 1976 foi final-
mente devolvido à Argentina e hoje está enterrado no 
Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires. RC 
O Um cartaz de Evita afixado na parede de uma casa, decla-
rando que ela estará para sempre na alma de seu povo. 
O De luto, os argentinos velam o corpo embalsamado de Eva 
Duarte Perón. 
1952 L2 D E N O V E M B R O 
Bomba de hidrogênio explode no Pacífico 
A bomba de hidrogênio é testada numa ilha desabitada do atol de Eniwetok. 
O A primeira explosão de uma bomba de hidrogênio - conhecida 
0 projeto norte-americano de desenvolver uma bom-
ba de hidrogênio foi aprovado pelo presidente Truman 
em 1950, depois que a União Soviética começou a tes-
tar as suas próprias armas atômicas. Uma das figuras-
chave do programa foi o físico Edward Teller, que havia 
ii.ibalhado na primeira bomba atômica. Aquele que é 
(onsiderado o primeiro experimento bem-sucedido 
com a nova arma foi objeto da Operação Ivy, no atol de 
1 1 iiwetok(hoje Enewatek), um grupo de ilhotas do Pací-
lu o cuja população fora evacuada anos antes. 
O apavorante teste, que envolveu mais de 11 mil 
militares e civis, realizou-se às 7h15, hora local, na 
ilhota de Elugelab, que simplesmente deixou de 
existir. A explosão liberou uma energia equivalente a 
10,4 megatons , com uma bola de fogo de mais de 
c orno Operação Ivy Mikc eliminou do mapa a ilhota de Fluqelab. 
5km de largura e um cogumelo nuclear que atingiu a 
altitude de 37km, com 161 km de largura no topo. Pe-
daços de coral caíram sobre navios situados a 48km 
de distância e o atol foi pesadamente contaminado 
por precipitações radioativas. 
A Comissão de Energia Atômica dos Estados Uni-
dos divulgou, em 16 de novembro, uma cuidadosa de -
claração relatando a realização de um teste bem-suce-
dido: "Na presença de ameaças à paz mundial, e na 
ausência de arranjos efetivos e aplicáveis para o contro-
le de armamentos, o governo dos Estados Unidos deve 
continuar seus estudos visando ao desenvolvimento 
dessas vastas energias para a defesa do mundo livre." 
O atol foi purificado e, e m 1980, alguns de seus 
habitantes tiveram permissão para retomar. RC 
1953 5 D E M A R Ç O 
Stalin: morre o tirano 
Morre um dos personagens mais importantes do mundo, para tristeza dos soviéticos. 
O Milhões foram prestar a última homenagem a Stalin; a multidão era tão grande que algumas pessoas morreram pisoteadas. 
Em 28 de fevereiro, depois de assistir a um filme ao lado 
de colaboradores próximos, losef Stalin recolheu-se a 
seus aposentos com ordens de não ser perturbado. 
Ao verificar seu quarto no dia seguinte, os guardas en -
contraram-no caído no chão. Convocaram os médicos, 
mas em 5 de março Stalin morreu, desencadeando a 
disputa pela sucessão sob rumores de que ele havia 
sido envenenado. Milhões de pessoas foram ver seu 
corpo, num velório preparado com toda a pompa. 
Para a maioria dos cidadãos soviéticos, a notícia 
da morte de Stalin depois de 25 anos de poder in-
contestado significou incerteza profunda e medo do 
futuro. Diz-se que até alguns prisioneiros dos c a m -
pos de "reeducação" siberianos choraram. Na luta 
pelo poder que se seguiu, Nikita Khrushchev saiu ven -
cedor. Coube-lhe a tarefa de restabelecer a legitir 
dade de um Estado que por um tempo longi) dei i 
dependera dos caprichos e desejos de um únii i > I 
mem. O culto de Stalin e o mito de sua infalibllii Ia 
precisavam ser desmantelados. 
Seguiu-se um período de relativa liberalização 
regime, em gue libertaram-se muitos prisioneiros p 
íticos e relaxou-se a regulação da cultura. Seu poi 
culminante foi o discurso secreto de Khrushchev 
congresso do Partido Comunista, em 1956, em q 
denunciou Stalin, a quem ele próprio servira durai 
30 anos, como criminoso e assassino. Khrushi hev 1 1 
mencionou os crimes em que ele próprio esteve e 
volvido, mas o discurso foi uma "bomba" que não p 
deria ser mantida em segredo. J S 
Decifrada a estrutura da vida 
Crick e Watson apresentam um modelo da estrutura molecular do DNA. 
O James Watson e Francis Crick mostram seu modelo da estrutura molecular do DNA, em 1953. 
Em 25 de abril de 1953, dois cientistas, o britânico 
Francis Crick e o americano James Watson, anuncia-
ram um imenso passo à frente no entendimento de 
como são herdadas as funções da vida. Eles apresen-
laram um modelo da estrutura molecular do ácido 
desoxirribonucléico (DNA), consistindo e m duas fitas 
helicoidais entrelaçadas, que explicava como as ca-
iai terísticas genéticas podiam ser copiadas e trans-
mitidas de uma geração a outra. 
Crick tinha, então, 35 anos e Watson apenas 22. 
Crick começou a carreira como físico, depois passou à 
bioquímica; Watson começou como ornitólogo, de -
pois passou a estudar os vírus. A descoberta aconte-
ceu quando Watson estudava a imagem da molécula 
do DNA por meio da cristalografia por raios X. 
Assim nascia a biotecnologia, pode-se dizer. As pes-
quisas subseqüentes se desenvolveram a partir do tra-
balho de Cricke Watson. Na década de 1970, Paul Berg e 
Herbert Boyer conceberam um método para "cortar e 
colar" diferentes partes de DNA animal, o que pavimen-
tou o caminho para o corte-e-colagem de DNA de es-
pécies diferentes. O trabalho de Crick e Watson abriu 
caminho também para a posterior decodificação de ge-
nomas inteiros (a seqüência genética de uma espécie), 
inicialmente bactérias e finalmente, uma vez preenchi-
das as lacunas da tecnologia disponível, seres humanos. 
Vem daí o mapeamento genético, usado para identi-
ficar os genes responsáveis por doenças herdadas e, 
quem sabe um dia, os genes que influenciam as doen-
ças comuns e o comportamento humano. J S 
1953 2 9 D E M A I O 
A conquista do Everest 
Hillary e Tensing escalam a montanha mais alta do mundo. 
S \ ' V I S 1-' * 
O Tensinçi Norgay e Edmund Hillary descai sua barraca no monte Everest. 
Eles passaram tantas horas escavando degraus na 
neve da vertente final que mal podiam m< ivei as per-
nas. O ânimo original se fora, tudo o que restava era 
um doloroso esforço. Até que I lillary perc ebeu que 
logo à frente a montanha, em vez de subir, descia 
abruptamente. Alguns golpes mais com o martelo e 
eles chegaram lá. Eram I1h30 da manhã. Hillary pôde 
ver no rosto de lénsing, por trás da balaclava, dos 
óculos de proteção e da máscara de oxigênio, um 
"contagiante sorriso de pura felicidade". Os dois aper-
taram-se as mãos e se abraçaram, trocando tapas nas 
costas até quase perderem o fôlego. Passaram apro-
ximadamente 15 minutos tirando fotografias antes 
de fincar no alto da montanha as bandeiras do Reino 
Unido, do Nepal e da ONU. 
Os tibetanos o chamam de Chomolungma, e OS 
nepaleses,deSagamatha, o que nos dois casos siiinlfica 
"I )eusa Mãe da ferra". Os britânicos o chamavam ongi 
nalmente de Pico XV, mas o rebatizaram em homena 
gem a sirGeorge Everest, cartógrafo-geral da índia. ( om 
seus 8.848m de altitude, variáveis conforme o nivi 1 da 
camada de neve em seu topo, o Everest era tido como 
a montanha mais alta do mundo e um permai ici ite d< • 
safio para os alpinistas. Uma dezena de bem preparadas 
missões já haviam fracassado. Embora usando o mar. 
moderno equipamento de oxigênio e trajes com Isi ria 
mento especial, uma tentativa empreendida poucos 
dias antes fora rechaçada por fortes ventos. Felizmente 
para o neozelandês Hillary e oxerpa Tensing Non H , I 
tempo esteve perfeito durante a sua escalada. RP 
1953 17 D E J U N H O 
Levante na Alemanha 
Por toda a Alemanha Oriental, 
trabalhadores em greve protestam. 
<) levante dos trabalhadores contra o regime c o m u -
nista na Alemanha Oriental em junho de 1953 foi a 
primeira de uma série de revollas similares Hungria, 
1956;Tchecoslováquia, 1968;e Polônia, 1970-decor-
rentes do descontentamento com os Estados-fanto-
ches dos soviéticos na Europa Oriental. 
O levante começou quando a liderança do parti-
do governamental SED (Partido da Unidade Socialista) 
impôs um aumento de 10% nas normas de produtivi-
dade ao mesmo tempo que congelava os salários 
como "presente pelo 60" aniversário" do líder comu-
iiisi,i Walther Ulbricht. Em 16 de junho de 1953, cerca 
de A) trabalhadores de um canteiro de obras de Ber-
lim uuzaram os braços espontaneamente contra as 
novas medidas. A notícia do protesto se espalhou ra-
pii lamente. No dia seguinte, I00 mil grevistas se reuni 
iam na capital, alguns gritando "Moite ao comunis 
mo". Houve protestos em mais de 400 cidades. 
A reação das autoridades foi rápida e brutal. Dezes-
seis divisões do exército e 10 mil membros da Polícia do 
Povo da Alemanha Oriental receberam ordens para es-
magar a revolta. Os tangues saíram às ruas de Berlim 
Oriental e os soldados e a polícia abriram fogo contra 
manifestantes nos bairros de Unter den Lindou e Pot/ 
damer Platz, deixando pelo menos 55 mortos. Reprimi 
do o levante, mais de 106 penas capitais foram aplica-
das e milhares de pessoas condenadas a longas penas 
em prisões e campos de trabalhos forçados. 
Ocorrido apenas três meses após a morte de Stalin, 
num momento e m que a luta para preencher o vazio 
de poder ainda estava e m curso na União Soviética, o 
levante de Berlim abalou seriamente os líderes da Ale-
manha Oriental. A repressão foi a sua resposta - levan-
do à fuga de cérebros para o Ocidente e à conseqüen-
te construção do Muro de Berlim em 1961. N J 
A queda de Mossadegh 
CIA maquina golpe no Irã fazendo-o passar 
por demonstração da vontade do povo. 
i 11 hele de |ii ilíi ia do Irã já iora assassh sido na < as, i de 
um c longo loi al, atingiria por um alentado a bomba. 
Agora, multidões iradas se manifestavam nas ruas de 
Teerã. Parecia de fato uma revolução. O xá optara pela 
segurança, trocando por Roma a sua residência de ve -
rão no mar Cáspio - sabiamente, quem sabe, pois suas 
estátuas estavam sendo derrubadas pela turba. Em 19 
de agosto de 1953, veio a notícia de que ele demitira o 
primeiro-ministro, Dr. Mohamed Mossadegh, e indica-
la o general I a/ollah /ahedi em seu lugar ( ) ódio < Ias 
massas encontrou imediatamente um novo foco. Exi-
i li i se a saíi Ia de Mi issai legh e a lula se n ilei isifii i n i, 
causando 300 mortes. Mossadegh acabou fugindo, 
Zahedi emergiu da Embaixada dos Estados Unidos 
i i i m o primeiro ministro e o xá retornou em triunfo. 
Aparentemente, Iora leita a vontade do povo. Na ver 
dade, fez-se a vontade dos governos dos Estados Uni-
dos e da Grã-Bretanha. 
Os americanos chamaram-na de Operação Ájax. 
Para Winston Churchill, era a Operação Coturno. Suas 
origens remontam a 1951, guando o xá, curvando-se a 
pressões, nomeou Mossadegh como primeiro-ministro 
e este nacionalizou a formidável Companhia Anglo-lra-
niana de Petróleo. Passou-se então a tramar uma cons-
piração com a ajuda da CIA, cujos agentes temiam a in-
filtração soviética no Irã. Grandes somas de dinheiro 
compraram a cumplicidade de vários iranianos, dentre 
os quais o próprio Zahedi. A CIA referia-se ao xá como 
"um homem indeciso, assombrado pela dúvida e pelo 
medo", que "precisa ser induzido a desempenhar seu 
papel". Foi o que fez a CIA. O novo regime foi agraciado 
com 5 milhões de dólares, a Companhia Anglo-lraniana 
de Petróleo devolvida aos britânicos e Mossadegh con-
denado à prisão por traição. O xá reinou até sua deposi-
ção em 1979, em favor do aiatolá Khomeini. R P 
O grande sucesso do rock-and-roll 
"Rock Around the Clock", com Bill Haley e Seus Cometas, fica oito semanas 
no topo da parada de sucessos. 
O rock-and-roll, expressão surgida no início da década 
de 1950, tinha raízes na country music e no rhythmand 
blues americ anos. i mbora originalmente destinado ao 
públíi o negro, eleai abou atraindo laml létn a juventu-
de branca, com sua nova cultura de rebeldia. Em 1951,0 
cantor e guitarrista Bill Haley, acompanhado de sua 
banda, os Saddlemen, gravou o que considerava ser o 
primeiro disco de rock-and-roll, com a canção "Rock the 
Joint". Em 1952, a banda mudou o nome para os Come-
tas e em 1953 gravou o primeiro rock-and-roll a chegar 
aos rop 20 das paradas de sucesso, "Crazy, Man, Crazy", 
que lhes rendeu um contrato com a Decca. 
"Rock Around the Clock" não causou a princípio 
grande n nessái >, mas decolou depois de aparei ei 
no filme Sementes da violência, de 1955, que despertou 
enorme 1 atenção < uni o lema da alien.u,ao da juvenil i 
de. Compacto simples mais vendido nos Estados Uni -
dos durante oito semanas, "Rock Around the Clock" 
tornou-se um ícone da juventude. Em meados da dé -
cada de 1950, Bill Haley e seus Cometas lançaram su-
cesso atrás de sucesso, e, e m 1956, apareceram em 
dois filmes, No balanço das horas e Ritmo alucinante. 
De fins da década de 1950 em diante, Haley caiu no 
ostracismo. Jovens estrelas como Elvis Presley e Little 
Richards o sucederam na música popular - o firmamen-
toda cultura jovem. Imprevidente e atolado em dívidas, 
Haley começou a beber e acabou morrendo de um ata-
que cardíaco em 1981. Por essa época, as vendas de 
"Rock Around the Clock" já haviam ultrapassado a mar-
ca dos 25 milhões de cópias. RC 
O Os Cometas: Joey D'Ambrose, Johnny Grande, Bill Haley 
(atrás), Bill Williamson, Marshall Lytle e Dick Richards. 
O Sementes do violência foi dirigido por Richard Brooks e indi-
cado para quatro Oscars. 
1954 6 D E M A I O 
A milha em menos de quatro minutos 
O atleta britânico Roger Bannister se torna a primeira pessoa a correr a milha em 
menos de quatro minutos em competição na Universidade de Oxford. 
Havia anos que correr a milha e m menos de quatro 
minutos era a meta dos atletas de meia distância. Em 
1923, o grande finlandês Paavo Nurmi fez a distância 
e m 4 minutos e 10 segundos. Nas dé< adas de 1930 e 
1940 o tempo foi caindo até que, e m 1945, o sueco 
Gunder Haag ficou a uma fração de segundo de que-
I uai a I i.uieiia, < oirendo em -Iminl, is. 
Numa lar de de muilo venlo em maio de 19.54, em 
Oxford, a notíc ia de que a bauoiia dos qualio minutos 
|»)(li Mia i riii nilliiii i lis| mia enl ie a I li liveisii lade e a 
Associação de Atletas Amadores (AAA) atraiu ao está-
dio de atletismo de Oxloul um público muito maiot 
do que de < oslumo. Na prova < Ia milha, os tiês prin< í 
pais competidores pela AAA eram Roger Bannister, 
Chris Chataway e Chris Brasher, que haviam planejado 
metii ulosamenle a sua látii a I litando 0 l i lmo nas 
duas primeiras voltas, Brasherfez a primeira metade 
da piova em IminSíis. Na mel,ide ria leu eiia volta, o 
baixinho ( iialaway saltou a liente o ali permancr eu 
até a melado da última volla, quando Bannistei au 
montou a passada, ultrapassou ( hataway com apa 
rente facilidade e iniciou uma emocionante arrancada 
na curva final até romper a fita, com Chataway em se-
gundo lugar, um pouco atrás. 
Ansiosa, a torcida aguardava a confirmação do re-
sultado, que o locutor da prova retardava deliberada-
mente para aumentar a emoção. Ele disse: "Tempo..." e 
fez uma pausa: "Três minutos..." e o resto da frase foi aba-
fado por uma enxurrada de gritos e aplausos. Bannister 
havia completado a milha cm 1min59,4s, naguela que 
foi, provavelmente, uma das provas mais emocionantes 
de toda a história do atletismo. RC 
O Roger Bannister fotografado no momento em que quebrava 
o recorde da milha, correndo abaixo de quatro minutos. 
1954 7 D E M A I O 
A derrocada da França 0 ocaso de McCarthy 
A vitória comunista sobre os franceses 
arrasta os Estados Unidos para a Ásia. 
Ho Chi Minh comparava a luta entre o poder colonial 
francês o a sua guerrilha Viel Minh a um < ombate entre 
"um elefante e um gafanhoto". C) general francês Henri 
Navarre parecia estar de acordo com ele ao empreender, 
em novembro de 1953, a fortificação da aldeia de Dien 
Bien Phu, situada no coração do território inimigo. O ob-
jetivo era atrair a guerrilha para uma inusitada batalha de 
tipo clássico, na qual o poder de fogo francês faria a di -
ferença. O general Giapac eitou o <lesado. ( om '>() mil 
camponeses formando uma cadeia de abastecimento 
para trazer do norte armamento chinês, seus homens 
"Um pobre país feudal 
derrotou uma grande 
potência colonial..." 
G e n e r a l V o N g u y e n G i a p 
cercaram a aldeia, bombardearam as duas [listas de 
pouso edizimaram impiedosamenteas tropas inimigas. 
O cerco durou 55 dias, até a queda do último bastião 
francês, em 7 de maio. De uma guarnição de 16 mil sol-
dados, só 3 mil sobreviveram. 
A derrota marcou o fim de oito anos de luta dos 
franceses para recuperar sua antiga colônia. Eles, que 
haviam tido pouco entusiasmo por Ia sale guerre (a 
guerra suja) na Indochina, decidiram que a Argélia era 
agora o seu interesse prioritário. Em Genebra, seus ne-
gociadores concordaram em se retirar do Sudeste Asiá-
tico e o Vietnã foi dividido: os comunistas de Ho e Giap 
controlavam o Norte e uma república anticomunista, 
patrocinada pelos Estados Unidos, foi estabelecida 
no Sul. Lançavam-se assim as sementes da sangrenta 
Guerra do Vietnã, da década de 1960. 
O senador Joseph McCarthy é condenado 
pelo Senado dos Estados Unidos. 
Joseph McCarthy inspirou o que nos Estados l Inli li H 
se tem chamado de "o grande medo". Sua ação era 
prejudicial ao governo americano e uma dádiva | sua 
a propaganda soviética. Mas o que acabou poi dei 
rubá-lo foi seu ataque contra o exército amerii am > 
Em 1953, seu < omite investigava um suposto i n 
culo de espionagem no Corpo de Comunicações do 
Exército. Mas, além de não conseguir provas convln 
centes da sua existência, o senador ofendeu os pa 
triotas americanos, entre os quais o próprio I isen 
l iowei, com o tratamento desprezível dispensado • 
"O macarthismo é o 
americanismo de mangas 
arregaçadas." 
S e n a d o r J o s e p h M c C a r t h y , 1952 
um herói de guerra, o general Ralph Zwicker. 
I m março de 1954, o respeitado jornalista Idw.m I 
lv M U I I O W desfechou um furioso ataque radiofônico 
contra McCarthy. Entre abril e junho, em audiências 
transmitidas pela TV, o advogado do exército Joseph N. 
Welch destroçou McCarthy mostrando-o como um 
provocador, perverso e mentiroso. Sua célebre censura 
"O senhor não tem nenhum senso de decência?" gian 
jeou o <i| ilausc > < los telos| iec tadores e acabou por det 
truii o que restava da reputação do senador. 
Em setembro, o relatório de um comitê do Senai li i, 
aprovado por unanimidade, classificou o comporta 
mento de McCarthy como "indesculpável" e "repri«n isl 
vel". Em dezembro, o Senado o condenou por 67 vc >ii >s 
a 22. Ele continuou senador, mas sua hora havia chega 
do. McCarthy morreu em 1957, de hepatite aguda. RC 
1 955 17 D E J U L H O 
Inauguração da Disneylândia 
Walt Disney inaugura seu primeiro parque temático na Califórnia. 
Bi !« ; f ' 
í í " . ; , , ' i 
O A construção de um sonho - ainda em obras, o hoje famoso castelo da Disneylândia, em Anaheim, Califórnia. 
Rei do desenho animado norte-americano e interna-
cional, e também uma potência dos quadrinhos, livros 
e televisão, Walt Disney havia tempos pensava em 
construir um Parque do Mickey Mouse perto de seus 
estúdios, em Los Angeles, onde os visitantes e seus fi-
lhos pudessem experimentar ao vivo o universo Dis-
ney e a "magia Disney". Começou a construí-lo em 
1954 em Anaheim, ao sul de Los Angeles. A conclusão 
t Io projeto, que custou 1 / milhões do dólares, loi mui 
cada por uma "pré-estréia para a imprensa internacio-
nal" e m 17 de julho de 1955. Ronald Reagan, mais tarde 
presidente dos Estados Unidos, foi um dos apresenta-
dores da cobertura da inauguração pela TV, que teve 
(lefeitos técnicos e falta de água potável sob tempera-
turas elevadíssimas (boa parte do asfalto derreteu). 
A Disneylândia foi aberta ao público no dia seguin-
te. Uma multidão fez fila até as duas da tarde. O primei-
ro freguês comprou o ingresso de n B 2 - o irmão de 
Walt, Roy, já havia arrematado o n u 1. Em pouco tempo 
o pargue já era famoso e imensamente popular, tendo 
atraído mais de 500 milhões de visitantes, No centro 
do parque fica o Castelo da Bela Adormecida. Mickey 
Mouse, Pato Donald e outros personagens aparecem 
fantasiados com grande fregüência. Na época da inau-
guração, o pargue tinha cinco setores principais: Main 
Street USA, uma aldeia do Velho Oeste; Terra da Aventu-
ra, onde o tema é a floresta; Terra de Fronteira; Terra da 
Fantasia; eTerra do Amanhã. A fórmula vingou e Disney 
abriu outros parques, primeiro na Flórida e mais tarde 
em Paris, Tóquio, Hong Kong, etc. RC 
1955 3 0 D E S E T E M B R O 
A morte de James Dean 
James Dean, astro do cinema e ícone cultural, morre em acidente de automóvel. 
À 
5 £ M 
lado por James Dean ao seu Porsche 550 prateado. 
James Byron Dean morreu aos 24 anos de idade. Úni -
co ator a ganhai poslumamonto o ()sc ai de Melhor 
Ator, o taciturno Dean encarnou e m si mesmo a cultu-
ra da juventude rebelde da década de 1950 com sua 
atuação como um jovem problemático em Rebelde 
sem causa, de 1955. Com cenas de gangues adoles-
centes, alcoolismo entre menores e perigosas corridas 
de automóvel, o lilme íty imenso sue esso enlre o pú -
blico jovem. Dean fez o papel principal em outros dois 
filmes somente, Vidas amargas (EastofEden), de 1954,e 
Assim caminha a humanidade (Giant), de 1956. 
Dean amava carros esporte velozes e corridas de 
automóveis. Em setembro de 1955, ele partiu com seu 
mecânico num novo e potente Porsche 550 Spyder 
para correr em Salinas. Durante a viagem, Dean foi 
multado por dirigir a 65 milhas por hora (105km h) 
numa estrada onde a velocidade máxima peimind. 
era 55 milhas por hora (90km/h). Mas foi na Rodovia 
466 que um Ford 1950, dirigido por um rapaz de .' 1 
anos com o improvável nome de Donald Turnupseed, 
tentou cruzar à frente do Porsche para entrar numa 
estrada secundária. Os dois carros bateram pratli a 
mente de frente. Dean ainda respirava quando a ain 
bulância chegou. O mecânico, arremessado paia p n i 
do carro, fraturou o maxilar. Turnupseed sobreviveu 
com cortes e escoriações superficiais e não foi proc < 's 
sado pelo acidente. Dean foi declaradomorto quain l< i 
a ambulância chegou ao hospital, em Paso Robles, 
pouco antes das 18h. Foi enterrado em Faírmouni, 
Indiana, cidade de sua infância. RC 
Desafio às leis raciais Stalin é denunciado 
Rosa Parks se recusa a abrir mão de seu 
assento, provocando o boicote dos ônibus. 
( ) movimento peios direitos < ivis dos negros ameri-
i anos exercia certa influência em cidades sulistas 
i orno Montgomery, no Alabama, onde passageiros 
"de cor" não podiam sentai na parle da frente dos 
ônibus. Foi lá que, em dezembro de 1955, uma res-
peitável mulher negra de meia-idade chamada Rosa 
Parks, ativista do movimento, resolveu ignorar a re-
gra: recusou-se a ceder seu assento a um h o m e m 
branco no ônibus da Avenida Cleveland porque, co -
mo disse, tinha os pés cansados. O ônibus parou e ela 
foi presa e multada. 
Tenha sido ou não planejado, o efeito desse gesto 
t letrizante. Um obs< uro ministro da igreja batista, o 
levorendo Martin Luther King Jr, foi então indicado pe-
li r. In leres negros de Montgomery para liderai um boi 
cote aos ônibus da cidade, com um máximo de pu -
blicidade - uma escolha inspirada, cujo resultado 
justificou plenamente o prin< ípio da resistem ia nao 
violenta. Mais de 9 0 % dos negros de Montgomery 
aderiram ao boicote, adotando formas alternativas de 
c hegar ao trabalho. A empresa de ônibus e as lojas do 
centro da cidade se queixaram de perdas comerciais. 
Em abril de 1956, a Suprema Corte decidiu contra a se-
i negação nos ônibus, mas a empresa lo< al loi oi >ii< |a< Ia 
pelo chefe de polícia de Montgomery a <les< umprii a 
decisão. Em junho, a corte federal de Montgomery de -
cidiu que os regulamentos segregacionistas da cidade 
et.im inconstitucionais, decisão que loi mantida pela 
•i iprema Corte em novembro. Sem alternativa, a cida-
(Io obedeceu. Rosa Parks acabou posando para osfotó-
(jialos na frente de um ônibus urbano. 
Além de um signifk ativo impulso ao movimento 
pelos direitos civis nos Estados Unidos, a vitória em 
Montgomery serviu para dar projeção internaciona 
.i figura de Martin Luther King. RC 
Khrushchev tenta romper com o passado 
denunciando Stalin. 
Os 1.355 delegados votantes e 81 sem direito a voto 
presentes ao Grande Palácio do Kremlin em fevereiro 
de 1956 não sabiam o que esperar do XX Congresso 
do Partido Comunista, o primeiro desde a morte de 
Stalin, em 1953. Uma indicação gerai fora dada no dia 
d.i abertura, quando o primeiro-secretário Nikita 
Khrushchev pediu aos delegados que se levantassem 
em memória dos líderes comunistas (no plural) que 
haviam morrido recentemente - colocando Stalin no 
mesmo plano do tcheco Gottwald e do japonês Toku-
da. Mas ninguém estava preparado para o discurso de 
quatro horas proferido na sessão secreta de 25 de fe-
voroiro, e m que Khrushi hev censurou o culto à perso-
nalidade que Stalin criara em torno de si, revelou a 
lios lil idade do I enin para c om e l e em 192-1 e d e i um 
r i ou o p a p e l d e Sl.ilin na i leslruiçai i d e um g i a n d e 
número de inocentes por meio dos expurgos. Culmi-
n o u ahi m a l i d o i |i le o lidei < o m fama de in la l í ve l loi a 
um déspota culpado de crimes contra o povo soviéti-
( o. ()s i li 'li '< jai li is In a l a i n t x 'l | >li 'Xi is. 
Seguiu-se a libertação de milhares de prisionei-
ros dos Gulags e a remoção de estátuas de Stalin. 
Mas essa aparente nova aurora foi logo eclipsada por 
um retrocesso. Muitos viram o discursode Khrushchev 
como uma tentativa cínica e desonesta de se promo-
v e i . O p o n t o de i n l l e x a n loi o e n v i o de tropas à Hun -
gria, oportunidade em que Khrushchev declarou-se 
um stalinista e m sua determinação de lutar contra os 
inimigos de classe. Ele, que dera dois passos à frente, 
estava dando larga passada para trás. 
O discurso de Khrushchev foi enganoso. Os líderes 
ocidentais, que esperavam um alívio na Guerra I ria, vi 
ram o clima diplomático congelar em Berlim e Cuba. 
Mas a reputação de Stalin jamais se recuperou do mas-
sacre de 1956. RP 
1956 21 D E A B R I 
Elvis no topo da parada de sucessos 
O sucesso de "Heartbreak Hotel" transforma o cantor de sensação local em fenômeno 
nacional e põe o rock-and-roll no mapa da música. 
"Heartbreak Hotel" foi a canção que colocou Elvis Pres-
ley no mapa da música popular. Escrita por Mae Axton, 
ela chegou ao primeiro lugar da parada de sucessos em 
21 de abril de 1956 e lá permaneceu por seis semanas. 
Axton teria dito a Elvis: "Você precisa de um sucesso de 
um milhão de t ópias; eu vou < tiú Io para voe ê." O < om 
pacto simples foi lançado em 27 de janeiro. 
I Ivis Aaron Presley nasceu em 8 de janeiro de 
1935. Suas primeiras influências foram a música gospel 
da igreja lo< al, o ihylhmiinilhhu i le seus vi/inhos no 
gros, o (oantryc o wcslcin br ai Io rádio e da esc ola. 
Em 1954, quando Irai>alhava < orno motorista do cami-
nhão, ele gravou seu primeiro disco uma performan 
ce particular para o aniversário de sua mãe. Em 1956, 
dois dias depois de fazer 21 anos, Elvis teve as suas pri-
meiras sessões de gravação nos estúdios da RCA e m 
Nashville. Colonel'Tom Parker, seu empresário manipu-
lador, pagou 40 mil dólares para tirá-lo de sua grava-
dora original. Elvis batia às portas do sucesso. 
"I loiitbrcak I lotei" foi inspirada em uma reporia 
gem de jornal sobre um jovem suicida. Em 3 de abril, 
Elvis se apresentou para um público gigantesco (25% 
da população dos Estados Unidos, talvez) no The Milton 
BerleShow. Em pouco tempo converteu-se em ícone de 
um novo e agitado público adolescente, predominan-
temente branco, com um gosto nascente para o rock-
and-roll. Apesar de arrumadinho e louco para agradar, 
Elvis não era sério e careta como os demais artistas de 
televisão da época, todos de meia-idade e vestidos 
de smoking ou roupa de vaqueiro. Seus trejeitos, rebo-
lados e biquinhos lhe renderam a fama de obsceno e 
vulgar. "Elvis thepelvis" chocou a nação. J J H 
O Elvis, em abril de 1956, com o disco de ouro por "Heartbreak 
Hotel" emoldurado. 
1956 2 6 D E J U L H O 
Nasser nacionaliza o canal de Suez 
A nacionalização do canal de Suez cria conflito com a Grã-Bretanha e a França. 
O i i soldado indiano das Nações ünid, :>to<jialado em l')S<>, VKJÍ.I 
C erca de 50 mil pessoas se reuniram na praça principal 
de Alexandria para ouvir o discurso do presidente Nas-
ser no quarto aniversário do exílio do rei Farouk. Mui-
tas mais o acompanhavam pelo rádio. Alguns espera-
vam vê-lo "abaixar o tom" já que a Represa de Assuã, 
seu grande projeto, talvez não pudesse mais ser cons-
truída. Mas foi, na verdade, um discurso extremamen-
le < onfiante. Nasser disse que a Companhia do Canal 
de Suez, de Ferdinand de Lesseps, roubara dos egíp-
i ios uma riqueza que lhes pertencia por direito. Mas 
ludo isso era passado - ele nacionalizaria o canal e, 
i os lucros, construiria a represa. Se os imperialistas 
não gostassem, concluiu, "eles que se sufocassem de 
Ódio". Quando acabou de falar, a sorte estava lançada: 
as palavras "Ferdinand de Lesseps" eram a senha para 
que as forças egípcias ocupassem o canal e os escritó-
rios da companhia. 
Concluído em 1869, o canal de Suez revolucionou 
0 tráfego marítimo entre o Mediterrâneo e a Ásia. A 
Grã-Bretanha, seu maior acionista e m 1875, invadiu o 
1 qilo e m I ' paia p i o l e g e i s e u investimento. Mas 
depois que os oficiais nacionalistas egípcios tomaram 
o poder, e m 1952, a presença da guarnição britânica 
na zona do canal tornou-se objeto de acirrada disputa. 
Em junho de 1956 a amizade de Nasser com a União 
Soviética levou os Estados Unidos a suspenderem a 
ajuda econômica para a construção de Assuã. O an-
líimperialismo de Nasser provocou a oposição da Grã-
Bretanha e da França, que no mesmo ano tentaram 
invadir o país, semsucesso. R P 
1956 2 3 D E O U T U B R O 
A Hungria se insurge contra a União Soviética 
O levante húngaro de outubro de 1956 suscita falsas esperanças de fim do controle. 
O Exultantes, cidadãos húngaros cm luta pela liberdade agitam a bandeira de seu país em cima de um tanque soviético capturado 
A expressa proibição de manifestações públicas de -
terminada pelo ( jovem» na» impediu que, em o u l u 
bro de 1956, estudantes, trabalhadores e soldados hún-
garos saíssem às ruas pedindo: "Exército Vermelho, 
volte para o seu país" e "Queremos eleições". Pelo rá-
dio, o novo ditador Erno Gero denunciou os manifes-
tantes, o que levou ao cerco da estação local. Depois 
foi a vez da estátua de Stalin ser derrubada. Seria a au-
rora de uma nova época para a Hungria, talvez para 
toda a Europa Oriental sob controle soviético? 
O Exército Vermelho de Stalin havia colocado a 
Hungria sob rígido controle soviético depois da Se -
gunda Guerra Mundial, A denúncia dos crimes de 
Stalin por Khrushchev, em fevereiro, e a introdução 
de reformas progressistas por iniciativa do primeiro-
minislio húngaro mro Nagy pareciam signiíu ai que 
eslava em curso um processo de distensão. Mas, m i 
enfrentamento que se seguiu, Nagy acabou pxpur 
gado do partido. Foi o caos. Khrushchev retirou as 
tropas soviéticas de Budapeste na esperança de aca-
bar com os distúrbios. Nagy formou um novo gover 
no, mas o anúnt io da iminente saída da Hungua • li i 
Pacto de Varsóvía entornou o caldo: em 4 de novem -
bro, Moscou enviou 200 mil soldados e 2.500 lan 
ques para restabelecer a dominação soviética. 
O levante húngaro resultou em pelo menos ires 
mil mortos e 13 mil feridos. Nagy foi preso pela K( ÍB, 
ju lgado e fuzilado. O 23 de outubro foi um eir.ar-
para a derrubada do comunismo na Hungria em 
1989-1990. R P 
Conflito no canal de Suez 
Invasão do Egito por Israel é parte de um plano montado para tirar Nasser do poder. 
O Soldados da ONU chegam a Port Said numa tentativa de restaurar a ordem na região. 
Protegidas pela escuridão, tropas israelenses entraram 
na península do Sinai na noite de 19dooutubiodo l')S(> 
com a missão de destruir bases terroristas. Mas logo to-
maram o rumo oeste, a caminho do canal de Suez. 
Mais tarde naquele dia, o primeiro-ministro britânico 
Anthony Eden alertou o seu gabinete sobre a gravidade 
da situação. Se ao nacionalizar o canal, em junho da-
quele ano, Nasser "nos segurara pelo gasganete", o pre-
sente estado de guerra no Egito era uma ameaça muito 
maior - para os britânicos e para a navegação interna-
< ional. Como a Grã-Bretanha se reservara o direito de 
pioleger o canal caso a segurança dele se encontrasse 
em risco, era uma obrigação inadiável enviarforças mi-
litares para separar as partes em conflito e restabelecer 
a ordem. A França se associaria à Grã-Bretanha nesse 
justificado ato de imposição da lei internacion.il. 
Depois do bombardeio dos campos de pouso 
egíp< ii)1, | rela [orça aérea brilânir a, em 5 de m iv iml in i 
mais de 8 mil soldados britânicos e franceses entraram 
no país. Mas, embora a situação militar fosse promisso-
ra, os americanos intervieram na ONU pedindo um 
cessar-fogo e Nasser bloqueou o canal afundando na-
vios cheios de concreto. Eden garantiu não saber do 
ataque israelense, mas muitos suspeitaram que a Grã-
Bretanha, a França e Israel haviam montado um pretex-
to para a invasão. A intenção de Eden era derrubar Nas-
ser e assestar um golpe contra o novo movimento 
nacionalista árabe que se alastrava pelo Oriente Médio. 
Uma crise de grandes proporções levou a Grã-Bre-
tanha a suspender a empreitada e retirar suas forças. R P 
1957 6 D E M A R Ç O 
A independência de Gana 
A criação da República de Gana prenuncia a debandada dos europeus da África. 
O Fiint ionários do governo carregam em triunfo o primeiro-ministro Kwame Nkrumah quando Gana se torna independente daGra itn-l.inh. 
Representantes de lodo o mundo esl.iv.im presen 
tes no Castelo de Christiansborg, em At ia, para a c e -
rimônia desse grande dia. A meia-noite foi arriada a 
bandeira blilãnir a e hasteada a I sliela Negra. A ( os 
ta do Ouro deixava de existir. Gana, a primeira colô-
nia africana a conquistar a independência, havia nas-
cido. "Uma alegria incontida", noticiou a imprensa. 
"Para júbilo de cinco milhões de ganenses triunfan-
tes, uma dominação imperial de 113 anos foi sepulta-
da sob o alegre bulício de uma multidão delirante." 
Um conjunto de eleições democráticas antece-
deu a transferência pacífica do poder. 0 último gover-
nador, sir Charles Arden-Clarke, felicitou o primeiro-
ministro Kwame Nkrumah dizendo: "Eis aqui o resultado 
pelo qual vocês tanto lutaram", e foi por ele corrigido: 
I 11ii o ri -saltai Io peloqual nos tanto temos li lt3i li 
sii ( hailes." I ia, sem dúvida, um modelo paia i > n ".h i 
d a Aíiii a, talvez [rara o resto do mundo. 
u d o muito diferente da Costa do Ouro de an 
tes da Segunda Guerra Mundial. Muito dlferenti 
também, de fevereiro de 1948, quando disluil ims 
ocorridos e m Acra levaram à prisão de Nkrumah t 
outros nacionalistas. Desde então o progressi i poli 
tico fora impressionante. Infelizmente foi t ambém 
muito diferente de 1966. Nessa época, a maioria das 
colônias da África já havia tomado o caminho da 
independência, mas Gana era um país empobrec I 
do pela corrupção - o que levou à derrubada de 
seu ditador, Nkrumah, pelo próprio povo que um 
dia o elegera. R P 
1957 2 5 D E M A R Ç O 
0 livre comércio na Europa 
O Tratado de Roma lança as bases da Comunidade Econômica Européia. 
O A delegação alemã assina o Tratado de Rom.i 
Apesar de suas profundas raízes no passado, o mov i -
mento pela unidade européia estava, e m 1957, mais 
interessado na experiência do que no estudo abstra-
to da História. Ainda dolorosamente conscientes da 
carnificina da Segunda Guerra Mundial, mas decidi-
dos a exorcizar o passado, representantes da França, 
Alemanha Ocidental, Itália, Bélgica, Holanda e Lu -
xemburgo firmaram um tratado cuja finalidade era a 
"união cada vez mais estreita" dos povos da Europa, 
gue culminasse numa Comunidade Econômica Eu -
ropéia. Seriam abolidas as tarifas alfandegárias e ha-
veria livre circulação de mercadorias, capitais e pes-
soas entre os seis Estados-membros. 
O Tratado de Roma foi a culminação de uma sé-
rie de eventos iniciados em 1944, quando Bélgica, 
Holanda e Luxemburgo criaram a União Benelux 
paia n ih 'i lia si ia ii n lúsliia o < omóic io. I m 1951, o Ira 
tado de Paris criou a Comunidade Européia dcTCar-
vão e do Aço, além de um conselho de ministros, 
iii 1 1 1 1 assi in l ili Ti parlamenl.il c uma < ol Io de iusliça. 
Em 1955, e m Messina, Sicília, lançaram-se as bases do 
Tratado de Roma. Seus objetivos eram abolir a guerra 
e fomentar a prosperidade entre os Estados-mem-
bros. O sacrifício de alguns elementos de soberania 
nacional parecia um pequeno preço a pagar. 
Em pouco tempo, outros países vieram se juntar 
aos seis iniciais. Em 2004, a instituição hoje conheci -
da como União Européia tinha 27 Estados-membros. 
Seu futuro é uma das questões mais fascinantes da 
política mundial. RP 
1957 4 D E O U T U B R O 
Lançado o Sputnik 7 
Façanha soviética surpreende o mundo. 
OMCOMOflbCKflfl 
3praH UeHTpa^bHoro KoMMTeia B/1KCM 
trajetória do líder soviético Nikita Khrushchev. 
A Terra ganhara o seu primeiro satélite artificial, o Spuf-
nik 1, cortesia da União Soviética. Seu lançamento, um 
imenso iriunfo do lidei soviélico Nikila Khrushchev, 
causou grande consternação no Ocidente ao abalar se-
riamente a certeza da supremacia tecnológica dos Esta-, 
dos Unidos. As implicações estratégicas pareciam ser 
desastrosasa União Soviética teria assumido uma am-
pla liderança no desenvolvimento de mísseis balísticos 
intercontinentais. ( ) presidente I isenhowei íoi a< usado 
de malbaratar a superioridade científica do país. 
Baseado e m informações colhidas pelo avião es-
pião U-2, Eisenhower sabia, porém, que a balança estra-
tégica ainda era amplamente favorável aos Estados Uni 
dos. Mas não podia anunciá-lo ao mundo sem revelar o 
programa U-2. Suas garantias de que os Estados Unidos 
não estavam em perigo o de que a pesquisa de togue 
tes se desenvolvia a contento não eram convini 1 1 iti", 
Khrushchev, por sua vez, usava a suposta superioi Idade 
soviética para obter vantagens em suas tratativas c o m u 
Ocidente. Embora desejasse a coexistência pacífir a e a 
redução dos gastos militares, ele não resistia à tentação 
de exagerai a íorça de seus mísseis. Promovei ali | 
novo lançamento espacial toda vez que viajava ao extr < 
rior tornou-se um procedimento padrão. Era um 1I i 
que acabaria se transformando num tiro no prój irlo pé 
Convencidos de que as defesas dos Estados Unidos 
eram inadequadas e de que os soviéticos tinham al M I 
to vantagem na corrida aos mísseis, os americarn is' ixl 
giram dinheiro para corrigira situação - o que resulti iu 
em uma vantagem a favor dos Estados Unidos. JS 
A China tenta o Grande Salto à Frente 
Mao decreta a industrialização imediata pela força do povo. 
O O Grande Salto à Frente de Mao causou uma imensa pobreza, principalmente nas comunidades rurais, e uma fome devastadora. 
A nova política econômica anunciada pelo presiden-
te chinês Mao Tsé-Tung em 1958 era sobretudo a m -
bígua. Conhecida como o Grande Salto à Frente, 
eqüivalia a uma segunda revolução para industriali-
zai a ( hina por meio da mobilização das massas. Na 
verdade, era a admissão de que o caminho soviético 
I >ain a industrialização - o custeio do maquinário in 
dir.tiial com a exportação de excedentes agrícolas 
. I I I . I I K ados dos camponeses - não podia funcionar 
ti,i i hina. A população chinesa era tão grande que 
i onsumia tudo o que se produzia. Sem acesso à tec-
noloqia, o único recurso que restava ao país era o 
próprio campesinato. Houve, de início, um conside-
lável entusiasmo, baseado na crença de que a China 
mudaria da noite para o dia. 
Infelizmente, a idéia de que o entusiasmo poderia 
substituir a tecnologia revelou-se uma fantasia. Espe-
rava-se que fornalhas de fundo de quintal produzis-
sem vastas quantidades de aço. Isso aconteceu, mas o 
aço era o mais da vezes imprestável. Houve importan-
tes aperfeiçoamentos na produção de cimento, algo-
dão e químicos, mas a qualidade era em geral muito 
baixa. Muitos recursos, sobretudo força de trabalho, 
foram desviados da agricultura, o gue, somado ao mau 
tempo, causou uma grande fome em conseqüência 
da qual 20 milhões de pessoas já haviam morrido em 
1960, quando Mao foi obrigado a abandonar o projeto 
- um rude golpe em seu prestígio que o levou, em 
1966, a buscar a reconquista de sua autoridade por 
meio da Revolução Cultural. J S 
1959 8 D E J A N E I R O 
Fidel, primeiro-ministro de Cuba 
O exército de Fidel Castro entra em Havana saudado pela maioria dos cubanos. 
O Fidel Castro e outros líderes de seu exército guerrilheiro percorrem as ruas de Havana depois da tomada do poder. 
Fidel Castro tornou-se primeiro-ministro de Cuba em 
janeiro de 1959. Mas sua ascensão ao poder começou 
em circunstâncias bastante adversas. No fim de 1956, 
ao desembarcar na costa sudoeste de Cuba com uma 
força de apenas 80 homens, havia tropas do governo à 
sua espera. A maioria dos invasores foi morta ou captu-
rada. Alguns poucos, entre eles Fidel, seu irmão Raul e 
Ernesto "Che" Guevara, conseguiram escapar para um 
esconderijo nas montanhas de Sierra Maestra, onde 
Castro lhes disse: "Agora nós vamos vencer." 
Contra todas as probabilidades, ele estava certo. 
Os revolucionários fizeram um eficaz uso propagan-
dístico de seu transmissor de rádio para atacaro regi-
me de Batista e granjear simpatia para a sua causa no 
exterior. Sua campanha de guerrilhas foi acompa-
nhada de um aumento considerável do sentimento 1 
contra o regime dentro do país. Em julho de l'i',n, 
grupos de oposição reunidos em Caracas e leqeiam 
Castro seu líder. Fracassada a tentativa do governo 
de destruir os rebeldes e m Sierra Maestra, Castn dai i 
çou uma contra-ofensiva. Quando o governo dos 
Estados Unidos se voltou contra Batista, o exéii íto 
revolucionário já havia reunido 50 mil homens i 
quistado o apoio da população cubana. 
Na noite de ano-novo, Batista fugiu. Uma |unta 
militar o substituiu, mas caiu rapidamente. Unii lai les 
do exército pararam de lutar e os homens de I astri > 
entraram em Havana. Como primeiro-ministro, l as 
tro instalou um regime marxista-leninista e íez de 
Cuba um aliado da União Soviética. RC 
1959 3 D E F E V E R E I R O 
Buddy Holly morre em acidente aéreo 
Acidente aéreo em lowa mata o astro de rock Buddy Holly e sua banda. 
Um monumento de aço inoxidável representando uma 
(juliana e nês disros mau um o lugar onde a primeira 
grande lenda do rock-and-roll teve sua curta carreira cei-
fada por um acidente de avião. Falecido aos 22 anos, 
Buddy I lolly deixou uniu ohm gue inllueni iou os Boa 
tles, Bob Dylan e Bruce Springsteen. 
Num fevereiro terrivelmente frio do fim da déca-
da de 1950, a Winter Dance Party Tour reuniu mil pes-
soas no Surf Ballroom em Clear Lake, lowa. A primeira 
gol ação do KX k anil IOII linha < i >mo aslto Buddy I lolly, 
sei um lado poi I. I'. Kii hurdson (" I he Biq Bopper") e 
Ritchie Valens. 
Cansado de viajar de ônibus, Holly alugara um pe -
queno avião particular para transportar sua banda (o 
baixista Waylon Jennings e o guitarrista Tommy Allsop) 
ao local da apresentação si 'quinto. Mus Valei iselíic h.nd 
son se adiantaram e ocuparam os lugares. Decolaram à 
uma da tarde sob uma tempestade de neve, com Holly 
sentado ao lado do piloto (um novato sem habilitação). 
Em poucos minutos, perdeu-se contato visual com o 
aparelho. Todos a bordo morreram no acidente. 
Assim como Elvis, que conheceu na abertura de 
um showem Lubbock, Texas, em 1955, Holly foi influen-
i i.ii 1) | n 'li i / I/I/I -,, iliylhm and hhn s o |» i i mi isii a lonn 
iry and western.Em 1957,1 lolly partiu fiara o Novo Méxi-
co com sua banda The Crickets para gravar com o 
produtor em ascensão Norman Petty, relacionamento 
que o fez desabrochar e criar uma série de canções pop. 
A balada "It Doesn'1 Mattet Any More" tornou-se um 
imenso sucesso póstumo em todo o mundo. J H 
O Um dos passageiros caído na neve junto aos destroços do 
avião de Holly. 
O Com sua curta carreira de 18 meses, Holly teve uma 
duradoura influência no rock-and-roll. 
A fuga do Dalai Lama Ventos de mudança 
O líder político e espiritual do Tibete é 
obrigado a se exilar na índia. 
No primeiro semestre de 1959, crescia a inquietação 
com a ocupação c hinesa do l ibuto. Rumores de que 
os chineses estavam prestes a prender o Dalai Lama 
levaram milhares de tibetanos a cercar o palácio para 
protegê-lo. O confronto e m Lhasa foi violento, cau -
sando a morte de cerca de 2.000 soldados chineses. 
Determinados a reprimir qualquer oposição, os chi -
neses enviaram reforços e esmagaram a revolta. 
O Dalai Lama foi obrigado a fugir, com cerca de 
100 mil de seus compatriotas. A índia concedeu-lhe 
asilo. De Dharmsala, no Himalaia indiano, onde esta-
"A reencarnação do Dalai 
Lama se dará num país livre, 
não por mãos chinesas" 
D e c l a r a ç ã o d o Da l a i L a m a e m j u l h o d e 1999 
beleceu seu governo no exílio, o Dalai Lama apelou à 
ONU, que aprovou uma série de resoluções exortando 
a China a respeitar os direitos humanos no Tibete.Nada, 
porém, foi feito para garantir o seu cumprimento. O 
Dalai Lama dedicou-se então a viajar pelo mundo di -
vulgando as vicissitudes de seu país. Em 1989, ele foi 
agraciado com o Prêmio Nobel da Paz por sua campa-
nha não-violenta contra o domínio chinês no Tibete. 
O governo chinês tentou dividir os tibetanos exaltan-
do as virtudes do décimo sétimo Karmapa (um buda 
vivente de igual status). Mas este também fugiu em 
2000, causando à China um grande constrangimento. 
Enquanto o Dalai Lama estiver fora do alcance da Chi-
na, pode-se dizer que seu domínio sobre o Tibete 
nunca estará garantido. É remota, no entanto, a pers-
pectiva de eles deixarem o país. J S 
O discurso de Macmillan na Cidade do 
Cabo indica uma mudança radical. 
Apesar da fama de imperturbável, até o primeiro 
ministro britânico Harold Macmillan moshou se In 
quieto como convidado do primeiro-ministro sul 
africano. O Dr. Verwoerd tinha "idéias terríveis", via o 
aparthcid c omo uma religião e achava que "só ele 
estava certo". Mesmo assim, nesse dia Macmillan dls 
cursou no Parlamento sul-africano em aberto d>"., 111< > 
ao regime africâner. Estava tão nervoso que ( h e q o u 
a passar mal. Mas o discurso foi bem preparado. I Ia 
via "ventos de mudança" na África, ele disse. A consci-
ência nacional era um fato que a política tinha de Io 
var em conta. Elogiou o nacionalismo africâner como 
pioneiro em toda a África mas advertiu que não seria 
o último e que, se os negros não tivessem um ir.it,i 
mento justo, acabariam sendo levados para o comu -
nismo. Não fez nenhuma referência direta ao aparthcid, 
mas afirmou que os governos deviam respeitai os 
direitos individuais. A política britânica estava mu 
dando em outros lugares da África e poderia " uai 
dificuldades para vocês", observou com agudeza. 
O discurso de 50 minutos foi aplaudido, mas os 
sul-africanos deploraram os acontecimentos que se 
seguiiam. Mac millan prenunciou o fim da I edei.n,ao 
Centro-Africana dominada por colonos brancos; dls 
túrbios e um relatório oficial desfavorável de 1971 
haviam convencido a Grã-Bretanha de que a Niassa-
landia (Malaui) e a Rodésia do Norte (Zâmbia) etn I m-
ve teriam governos negros autônomos. A Áfrii a do 
Sul saiu voluntariamente da Comunidade Brii.nia a 
e m 1961 para evitar sua expulsão. 
O discurso de Macmillan foi um reconhecinient. i 
algo tardio de que as coisas estavam mudando rápida 
mente na África. Mas suas palavras tanto fomentai. H n a s 
ambições dos africanos negros quanto cimenlaiam a 
mentalidade defensiva dos africâneres brancos. R P 
1960 2 1 D E M A R Ç O 1960 2 D E N O V E M B R O 
Massacre brutal 
Assassinatos em Sharpeville recebem 
condenação mundial. 
A tensão racial e a violência não eram desconhecidas 
na época do apartheid. Mesmo assim, os aconteci -
mentos e m Sharpeville, a sudoeste de Joanesburgo, 
foram extraordinários, fudo começou com uma 
manifestação contra a Lei do Passaporte de 1950, 
que exigia que os não-brancos andassem com 
cartões de identidade e os proibia de passar a noite 
numa área "branc a", mesmo que losse seu lo< al de 
trabalho. Não há dúvida de que se recorreu à intimi-
dação, da qual alguns africanos foram obrigados a 
tomar parte, e que houve t ambém violência e van-
dalismo. Mas n inquém esperava um massac re. 
No auge do protesto, uma multidão cercou a 
delegacia de políc ia local, I s lavam desarmados, o 
que não era o caso dos 75 policiais do lado de dentro, 
que tinham armas auloni.ilic as. Mesmo a toe usa da 
multidão a se dispersar não era motivo de alarme. 
Ainda assim, a polícia abriu fogo, matando 69 e fe-
rindo guase 200 pessoas. Homens, mulheres e (rian-
ças foram baleados pelas costas enquanto fugiam. 
0 governo a legou que o incidente fora causado 
pelo Congresso Pan-Africano (CPA), formado e m 
1959, uma organização muito mais radical do que o 
Congresso Nacional Africano (CNA): 20 mil africanos 
armados haviam cercado a delegacia e disparado 
primeiro. N inguém acreditou. Em 1 u d e abril, o C o n -
selho de Segurança das Nações Unidas exortou a 
África do Sul a acabar com a segregação racial. 
C o m o reagiu o governo? "Ficaremos firmes como 
muros de granito" foi a resposta do primeiro-minis-
tro Verwoerd. O governo baniu o CNA e o CPA, ex-
pulsou o bispo d e Joanesburgo e abandonou a 
Comun idade Britânica. Isolados, os sul-africanos 
brancos sobreviveram pagando o preço da radica-
lização da luta. R P 
Lady Chatterley julgada 
Júri decide que o livro de D. H. Lawrence 
não é obsceno e pode ser publicado. 
As testemunhas de delcsa foiam até longo demais, qua-
lificando O amante de lady Chatterley de "sadio" e 
"limpo". O bispo de Woolwic h chegou a chamar o adul-
léiic i de lady ( hallcrley com o c |uan Ia c aça do "ali i de 
comunhão sagrada". Mas o promotor público, Mervyn 
Griftith-Jones, conseguiu ser ainda mais absurdo: não 
convocou nenhuma testemunha espec ializada e, gesti-
c ulando muito, tentou mostrar que o livro não tinha ne-
nhum mérito literário. O júri levou três horas para decidir 
que o romance não era obsceno e que a Penguin Books 
havia c omotide > nenhum < rimeac ipublii á li i, 
"Vocês gostariam que este 
livro fosse lido por suas 
esposas e empregadas?" 
O p r o m o t o r M e r v y n Gr i f f i th- Jones a o j ú r i 
I). 11. I awieiic c c onc luiu a veisáo final do livio em 
1928, descrevendo-o como "o romance mais impróprio 
que já foia esc rilc >". N ta |«unoqialiu, apenas "uma 
declaração da realidade fálica" uma distinção fora do 
ali at ic i o Ias ai iloric Lu li 's da (iia Hiotai il ia, onde o livro 
foi proibido. Fm 195S, um livreiro foi preso por estocá-lo. 
Quando, em 1959, a Penguin fez uma tiragem de 200 
mil exemplares para marcar o trigésimo aniversário da 
morte de Lawrence, o chefe da promotoria organizou o 
que acabou se tornando um espetáculo judicial. 
A publicidade em torno do julgamento transfor-
mou O amante de lady Chatterley e m um sucesso de 
vendas: mais de três milhões de exemplares em dois 
anos. Numa Grã-Bretanha onde as atitudes e compor-
tamentos sexuais já vinham mudando, o julgamento e 
o livro ajudaram a criar "os alegres anos 1960". R P 
1961 11 D E A B R I 
Eichmann é julgado por crimes de guerra 
Muito depois do fim da guerra, criminosos nazistas ainda enfrentariam os tribunais. 
Todos os olhos estavam voltados para o nazista tido 
como a encarnação do mal - mas E ichmann não 
parecia à altura do papel. Ainda na casa dos 50 anos, 
baixo e calvo, esse h o m e m acusado de crimes c o n -
tra o povo judeu , crimes contra a humanidade e 
crimes de guerra era decepc ionantemente comum. 
Foram 15 acusações e, para cada uma delas, a c o n -
denação significava a pena capital. Suas alegações? 
Em todos os casos ele a legou "não ser culpado no 
sentido da acusação". 
O julgamento tardou tanto porque Adolf I ichmann 
fugiu da prisão em 1946 e só foi recapturado em 1960 
por agentes secretos israelenses. Finalmente, a justiça 
poderia ser feita pela corte de três juizes instalada na 
Beth Ha'am (Casa do Povo) de Israel. Seria um julga-
mento público: da sala do tribunal, jornalistas faziam a 
cobertura ao vivo para o mundo inteiro. O clima de 
espetáculo judicial não impediu que os juizes respei-
tassem escrupulosamente todos os procedimentos 
legais. O procurador-geral da República era o promo-
tor e o acusado tinha um advogado de defesa. Cerca 
de 1.500 documentos foram examinados e mais de 
uma centena de testemunhas ouvidas, a maioria so-
breviventes de campos de concentração para lá en -
viadas como resultado da atividade de Eichmann. 
Eichmann insistiu quesó havia "cumprido ordens" 
- uma defesa inadequada, pois foi considerado cul -
pado de todas as acusações e enforcado em maio de 
1962. A mensagem era alta e clara: os criminosos 
de guerra nazistas seriam caçados até o fim. R P 
O Com o julgamento de Eichmann, o mundo tomou conheci-
mento da extensão do programa nazista para os judeus. 
O Do lado de fora do tribunal onde Eichmann é julgado, judeus 
se reúnem para escutar notícias sobre seu perseguidor. 
O homem no espaço 
Com Yuri Gagarin, o União Soviética passa 
os Estados Unidos na corrida espacial. 
Levando a bordo aquele que viria a ser o primeiro astro-
nauta da História, a navoespar íal l/os/o/s / foi lançada de 
Baikonur, no Cazaquistão. Yuri Gagarin faria uma única 
volta ao redor do planeta, em 89 minutos, à altitude má-
xima de 301 km. A nave não foi projetada para aterrissar. 
Gagarin saltou de pára-quedas depois de entrar na at-
mosfera e provou aquilo que já se suspeitava, ou seja, 
que o vôo no espaço não era fatal para o homem. Com 
sua cara bonita e seu sorriso franco, Gagarin deixou de 
ser um soviético a mais para ser tornar, instantaneamen-
te, um superstar internacional. 
A façanha de Gagarin loi motivo de grandes do 
res de cabeça paia o presidente amerk ano lolin I. 
Kennedy. Desde o lançamento do Sputnik 1, em 1957, 
havia um forte sentimento de que os Estados Unidos 
estavam perigosamente atrasados em relação à União 
Soviética em matéria espacial. Surgiam temores de que 
o controle do espaço pudesse significar o controle do 
planeta, por meio, quem sabe, da promoção de m u -
danças climáticas. Kennedy, que em sua campanha pre-
sidencial acusara seus adversários republicanos de ficar 
para trás nesse campo, era então pressionado a respon-
der. Ele o fe/ cm maio, anuiu iando um pioqtama ame 
ricano para levar uni homem a I ua tio ano de 19/0. 
Havia dúvidas sobre o valor científico de tal missão e 
chegou-se a sugerir que era melhor gastar o dinheiro 
do contribuinte em outra coisa. Mas era inegavelmente 
espetacular. Resumindo: o valor político da missão era 
muito maior do que o científico. E havia também a van-
tagem inestimável de que uma missão à Lua nunca fi-
zera parte do programa soviético. Era uma corrida para 
os Estados Unidos vencerem. J S 
O A bordo da Vostok 3KA, Yuri Gagarin se prepara para o lança-
mento na base de Baikonur. 
Cuba rechaça invasores 
Tropas de Fidel derrotam a invasão da baía 
dos Porcos financiada pelos Estados Unidos. 
O triunfo de Fidel Castro em Cuba rendera à União ' . i > 
viética um aliado confiável nas Américas. A perspecti-
va de uma base militar soviética em lugar tão próximo 
não podia ser tolerada por nenhum governo amem a 
no, sem falar da preocupação dos Estados Unidos 
com a possibilidade de o exemplo de Castro ser segui 
do em outros países da América Latina. 
Muitos cubanos haviam se refugiado nos Esta-
dos Unidos, que romperam relações diplomáticas 
com Cuba e m janeiro de 1961. Em abril, o recém-
eleito presidente Kennedy consentiu em financiar 
uma invasão de Cuba por exilados anticastristas, 
apresentada como um ataque contra o moderno 
equipamento militar cubano importado da União 
Soviética apesar de não haver soldados americanos 
diretamente envolvidos. Planejada pela CIA durante 
o governo anterior, a invasão foi um vergonhoso fra-
casso. Os cubanos já esperavam o atague. O b o m -
bardeio de aeródromos cubanos por aviões ameri -
canos pilotados por exilados, em 15 de abril, não 
surtiu nenhum de i to , assim como o desembarque; 
dois dias depois, de uma brigada vinda da Nicará-
gua nas praias da baía dos Porcos, na costa meridio-
nal de ( uba. O imaginado levante anticastrista não 
se materializou. Em 48 horas, as tropas cubanas pes 
soai e energicamente comandadas por Fidel Castrt i 
derrotaram os invasores. Foram feitos mais de mil 
prisioneiros, enviados de volta aos Estados Unidos 
no fim de 1962. 
O completo fracasso da invasão foi um severo cons-
trangimento para Kennedy, no mínimo porque tort K )l i 
Fidel ainda mais popular e o aproximou ainda mais de 
Moscou. No fim das contas, o ataque pode ter incenti-
vado o líder soviético Nikita Khrushchev a aumentar a 
aposta colocando ogivas nucleares na ilha. RC 
1961 13 D E A G O S T O 
Começa a construção do Muro de Berlim 
O Muro de Berlim é erguido para impedir a fuga de alemães orientais. 
O Soldados da Alemanha Oriental começam a construir o muro que deixaria Berlim Ocidental totalmente cercada. 
I l r , primeiras horas do dia 13 de agosto, os últimos 
(e .loiros descobriram que os trens não funcionavam; 
moradores da Bernauer Strasse foram acordados 
peio barulho de caminhões militares; em vários luga-
n's ouviam-se operários com britadeiras abrindo bu -
racos nas ruas. Logo ficou claro que uma cerca de 
arame farpado estava sendo erguida nas ruas de Ber-
lim. "DieGrenzeistgeschlossen" (A fronteira está fecha-
da), anunc iavam soldados armados com metralha-
doras. Berlim Ocidental foi cercada com 182km de 
arame farpado. Começava a construção do Muro de 
Bi 'rlim. Seu traçado passava por dentro de conjuntos 
habitacionais, deixando portas se abrindo para um 
setor e janelas para outro - até serem definit ivamen-
te emparedadas. 
Em 1958, o líder soviético Nikita Khrushchev cha-
mou Berlim de "os testículos do Ocidente. Toda vez que 
quero fazer o Ocidente gritar eu aperto Berlim". Em 1949 
o Ocidente de fato berrou quando Stalin bloqueou o 
setor ocidental da cidade, mas agora era a vez dos sovié-
ticos. Três milhões de cidadãos haviam deixado a Ale 
manha Oriental entre 1949 e 1960 e o fluxo vinha se 
transformando em enxurrada. Khrushchev pediu que o 
muro fosse construído para impedir a espionagem oci-
dental, mas o real motivo era deter o êxodo dos insatis-
feitos com o comunismo. 
O Ocidente pouco podia fazer além de protestar. 
Com o tempo, os dois lados aprenderam a conviver com 
a situação. O muro simbolizou a Guerra Fria, tanto em 
sua construção como em sua derrubada, em 1989. R P 
Bob Dylan estréia em Nova York 
O garoto de Minnesota se firma como artista solo na cidade grande. 
O Ao lado dos Greenbriar Boys, Bob Dylan (centro) se apresenta como coadjuvante antes de sua auspiciosa estréia solo. 
No iníc io dói ,1(1,1 do l l)f)(), o (iroonwii li V Í I L k j o já 
se estabelecera como a "Rive Gaúche" de Nova York. 
Seus folkdubs ou "bares do passa-chapéu", assim 
chamados devido à maneira como eram pagos os 
artistas que lá se apresentavam - eram freqüentados 
por poetas beat e militantes dos direitos civis e con -
tra a Guerra do Vietnã. I oi no Gaslight, um dos pri-
meiros e mais importantes dubs nova-iorquinos, 
inaugurado num porão em 1958, que Bob Dylan veio 
cantar, tocar harmônica e guitarra acústica, apurar 
sua figura cênica e mostrar novas canções. Em 6 de 
setembro, Dylan apresentou um repertório que in-
cluía quatro canções de sua autoria: "Man on the 
Street", "He Was a Friend of Mine", "Taking Bear Moun-
tain Picnic Massacre Blues" e "Song to Woody". 
Segui k li i os relatos disponíveis (além de uma gra 
vação pirata), Dylan cantou com grande emoção, es 
pecialmente "Song to Woody", uma homenagem sua 
ao cantor de baladas da época da Grande Depressão 
Woody Guthrie. lira seu desejo encontrar-se com 
aquele que o havia atraído do remoto Minnesota para 
o agitado ambiente dos dubs e das gravadoras. No 
começo, Dylan imitava conscientemente Guthrie, mas 
logo começou a absorver outras influências e a apurar 
sua figura cênica e sua característica voz anasalada. 
Bola Dylan passou de artista do Village a astro de 
fama nacional graças a uma crítica de Robert Shelton 
no New York limes, em setembro de 1961. Essa matéria 
ajudou-oa obter seu primeiro contrato com a Colum-
bia Records, importante catalisador de sua carreira. J J H 
1961 18 D E S E T E M B R O 
Explosão misteriosa 
A morte de Dag Hammarskjõld priva as 
Nações Unidas de seu líder. 
O DC-6 ainda estava próximo do aeroporto de Ndola, 
na moderna Zâmbia, quando aconteceu a explosão. 
Ele caiu imediatamente, matando 14 das 15 pessoas 
a bordo, dentre elas o mais ilustre e controverso se-
cretário-geral que a O N U já leve. I )elensoi dos diiei 
tos dos pequenos países, I )aq propunha que a O N U 
fosse um instrumento construtivo da paz e que seu 
se< retário-geral fosse um exec utivo atuante. ( orno a 
União Soviética havia pedido a sua renúncia pouco 
antes, foram inevitáveis as especulações de que o 
avião fora sabotado. 
I )aq Hjalmar Agne Carl Hammarskjõld era doutor 
| >ela Universidade de I sto< olmo e tinha vários diplo 
mas honorários. Poliglota dotado de múltiplos lalen 
tos, Hammarskjõld era um renascentista moderno 
que havia trabalhado como acadêmico, banqueiro e 
funcionário público antes de entrar para o Gabinete 
sueco e m 1951. Esteve presente na primeira Assem-
bléia Geral da O N U em 1949 e foi eleito secretário-
geral e m abril de 1953. Extremamente ativo e bem-
sucedido, foi reeleito por unanimidade e m setembro 
de 1957. Em 1955, negociou pessoalmente a liberta-
ção de soldados americanos capturados durante a 
Guerra da Coréia e foi t ambém o primeiro a usar as 
forças de Emergência e os Grupos de Observação 
das Nações Unidas. Intensamente envolvido com a 
guerra civil do Congo a partir de 1960, morreu duran-
te sua quarta visita ao país. 
I m novembro de 1961, Hmmarskjòld foi agracia-
do i om o Prêmio Nobel da Paz "em agradecimento 
por tudo o que fez, pelo que realizou, pelo que lutou: 
criar paz e boa vontade entre as nações e entre os 
homens". Monumentos conservaram viva a sua m e -
mória, mas a O N U se viu, daí em diante, privada de 
sua liderança. R P 
1962 3 D E J U L H O 
Argélia independente 
Depois de 132 anos, a Argélia se torna 
independente da França. 
A França invadiu a Argélia e m 1830 e a incorporou 
mais tarde como parte do Estado francês, sem no en -
tanto conceder quaisquer direitos políticos às popu -
lações nativas. As primeiras manifestações do senti-
mento nacionalista árabe na Argélia aconteceram 
entre as duas guerras mundiais e se multiplicaram 
depois de 1945, assumindo proporções de insurrei-
ção, pela primeira vez, e m 10 de novembro de 1954, 
sob liderança da I i cn tede I ibertação Na< ion . i l (I I N). 
Na França, socialistas e comunistas apoiavam as aspi-
rações árabes, ao passo que os partidos de direita 
"Os argelinos terão 
livre escolha de seu 
destino..." 
Cha r l e s d e G a u l l e , 29 d e j a n e i r o d e 1960 
i li li 'i idium a | 'i 'i 1 1 iam 'lu ia da unidade enl ie a An | i • 
lia e a França Continental. A campanha de pacifica-
rão levada a i alio p o l o exoh ilo Iluni ês duiou oito 
anos, com crescente brutalidade d e ambos os lados, 
culminando na guerra aberta contra a ala militar da 
I I N. Apesai do amplo rontrole conquistado pelo 
exército, a batalha política não podia ser ganha. 
I m 1958, o general Charles de Gaulle deixou a apo-
sentadoria para resolver a crise argelina e trazer estabili-
dade ao governo francês. Reconhecendo que a inde-
pendência da Argélia era inevitável, De Gaulle negociou 
com a FLN e m Evian. Depois que 1,25 milhão de cida-
dãos franceses deixaram a Argélia para se instalar na 
França metropolitana, o novo governo argelino tratou 
de se vingar dos compatriotas que haviam lutado a fa-
vor ou colaborado com os antigos governantes. NK 
1962 10 D E J U L H O 
Televisão via satélite 
O lançamento do Telstar 1 faz o mundo parecer um pouco menor. 
A comun icação via satélite, hoje a base d e uma 
próspera indústria e fator crítico das operações m i -
litares, foi pela primeira vez sugerida por Arthur C. 
Clarke e m 1945. U m dos primeiros a levar a idéia 
adiante, ainda na década de 1950, foi o engenhei ro 
J ohn R. Pierce, da Bell Telephones, q u e teve um 
papel de proa no trabalho que levou ao l ançamen -
to dos satélites de comunicações Echo, e m 1960, e 
Telstar 1, e m 1962. 
O tcho refletia sinais de microondas de rádio de 
volta à Terra por meio de sua superfície de alumínio; 
o Telstar. um aparato mais sofisticado, transmitia de 
volta à lerra sinais de IV. I le íoi lançado pela Ameri-
can le lephone and leleqiaph em so< iodado com a 
Bell le lophones e os ( one ios bii lánii o e Iram ês. 
Uma oii!<'ir,i qiqanlc de las l ieamenlo de salólile 
construída no Maine, perto de Andover, propiciava 
a transmissão transatlântica de imagens de TV para a 
Inglaterra e a França. 
As primeiras imagens do Telstar foram a bandeira 
da estação de Andover, um jogo de beisebol entre o 
Chicago Cubs e o Philadelphia Phillies e uma entre-
vista ao vivo do piosidenlo Kennedy. Alelado, quem 
sabe, pela radiação emanada dos testes nucleares, o 
Telstar I saiu d e serviço e m fevereiro de 1963 e foi 
substituído pelo Telstar2. Em 1964, o satélite Syncom 3 
transmitiu imagens dos Jogos Ol ímpicos de Tóguio 
através do Pacífico. RC 
O Projetado para ser lançado por um foguete Delta, o Telstar 1 
tinha 880mm de comprimento e pesava 77kg. 
O 0 vice-presidente Lyndon Johnson assiste à primeira trans-
missão de TV trazida da França pelo satélite Telstar. 
1962 5 D E A G O S T O 
A morte da diva 
Marilyn Monroe morre de overdose de 
remédios em sua casa em Los Angeles. 
Depois de uma Infâm ia i lassada e m lares adotivos e 
um orfanato, Norma Jean Baker veio a se tornai uma 
das maiores celebridades mundiais. Descoberta por 
um fotógrafo quanto trabalhava numa l.ibik a da ( a 
lifórnia, Norma foi contratada pela Twentieth Century 
Fox em 1946. Depois de vários papéis menores de 
loura burra, ela mudou sou nome para Marilyn M o n -
roe e chegou ao estrelato e m uma série de filmes d e 
sucesso como Nunca fui santa (1956), O príncipe en-
cantado (1957) e Quanto mais quente melhor (1959). 
Sua beleza, sensualidade e vulnerabilidade fizeram 
dela o modelo internacional da mulher desejável. 
Mas o oxc esso de ptossào ttansloimou sua vida pri-
vada em um desastre. 
Depois de um breve primeiro matrimônio, Mari-
lyn casou-se com o jogador de beisebol J o e DiMaggio 
e depois com o autor teatral Arthur Miller, que escre-
veu paia ela o seu último filme, ()s desajustados (1961). 
Sua última aparição pública de alguma importância 
foi cantando "I Inppy Uirlhday, Ml. Presk lenl" paia lohn 
Kennedy, e m 1962, vestida com uma bata colante sem 
nada poi baixo. Na época, Marilyn fora contratada 
para estrelar um filme chamado Something's Got to 
Give. Presença sempre difícil no sef de filmagem, seu 
comportamento nessa época era tão inadeguado -
ela vivia à base de doses cavalares de barbitúricos -
que acabou despedida. Dias depois, foi encontrada 
morta na cama, e m sua casa em Brentwood, Los 
Angeles. Tinha 36 anos. Se foi suicídio ou overdose 
acidental é assunto debatido até hoje. Não faltaram 
também teorias de que fora assassinada pelo FBI ou 
pela CIA por ordem dos Kennedy. RC 
O O corpo de Marilyn Monroe chega ao necrotério. 
1962 11 D E O U T U B R O 
0 Papa pede reformas 
O Concilio Vaticano II revela tensões 
dentro da Igreja Católica. 
Os tempos estavam mudando, até para a Igreja ( alóli 
ca. Em janeiro de 1959, o Papa João XXIII disse que que-
ria "abrir as janelas da Igreja para gue nós possam,-' 
olhar para fora e as pessoas possam olhar para dentro". 
Para isso,em 11 deoutubrode 1962, ele abriu o Concilio 
Vaticano II com um discurso intitulado Gaudet Matei 
Ecclesia (A Mãe Igreja se Regozija), dirigido aos 2.400 
bispos da Igreja CatólicaRomana, dignitários da Igreja, 
observadores do outias denominações e representar! 
les de íi(> i |i iveitn »• ir tal li/açi les internacionais pre 
sentes à Basílica de São Pedro, em Roma. Rejeitou os 
"profetas da | uvdiçáo", sempre a prever desastres para o 
mundo e a Iqieja. i ta pre< iso mudar o velho pensamei i 
Io, ieloimul.il a vdha doutrina e |iromover a unidade 
cristã. A questão essencial era a pastoral - como ensinar 
melhoi a mensagem intemporal de Cristo no mundo 
moderno em < < instante mu< lança. 
( ) Valíi ano II foi o vigésimo primeiro concilio ei u 
mônico, o jirimeiro desde 1870 e o maior da historiada 
Igreja. Durou até dezembro de 1965, quando foi encer-
rado já não mais por João XXIII, que faleceu emjunho 
de 1963, mas por Paulo VI. (Os Papas João Paulo I, João 
Paulo II e Bento XVI também estiveram envolvidos em 
seus trabalhos.) Mas suas reformas não foram tão mo-
mentosas quanto alguns esperavam como resultado 
do embate entre conservadores e progressistas. 
Os Pais da Igreja promulgaram quatro constitui 
ções, nove decretos e três declarações. Lamentaram-
se erros passados, admitiu-se que "muitos elementos 
de santificação e de verdade" podiam ser encontrados 
fora do catolicismo e decidiu-se pela tradução de par-
tes da missa do latim para os idiomas locais. 0 Concilio 
Vaticano II mostrou que o catolicismo havia abando 
nado o espírito defensivo presente desde a Reforma 
protestante no século XVI. R P 
1962 14 D E O U T U B R O 
A crise dos mísseis 
A descoberta de mísseis soviéticos em Cuba provoca bloqueio naval. 
O Em uma loja de departamentos, americanos vêem pela TV o 
presidente Kennedy anunciar o bloqueio do Cuba. 
O Passada a crise, um avião-patrulha americano observa a partida 
do Potzunov, navio soviético de transporte de mísseis. 
"Eu conclamo o presidente 
Khrushchev a deter esta 
ameaça à paz mundial." 
J o h n F. K e n n e d y e m d i s cu rso pe l a TV , e m 1962 
Rumores circulavam havia algum tempo. Na manhã 
de domingo M de outubro veio a prova, obtida por 
aviões espiões-americanos U-2. As fotografias da re-
gião de San Cristóbal deixavam claro que os soviéti-
cos estavam construindo bases de onde se poderiam 
lançar mísseis balísticos de médio alcance. Não era 
na União Soviética, tampouco em algum dos satéli-
tes europeus orientais, mas e m Cuba, a ilha governa-
da pelo inimigo número I dos I slados Unidos no 
hemisfério ocidental, o comunista Fidel Castro. Mís-
seis com poder de fogo equiva lente a um milhão 
de lonoladas de I NI loqo se I orna riam operar ionais 
a 145km da costa dos Estados Unidos e a pouca dis-
tâncla das principais cidades americanas. 
0 presidente Kennedy ficou pasmo quando ou 
viu as notícias. Era como se os Estados Unidos tives-
sem dec id ido instalar mísseis na Turquia - o que 
aliás eles haviam acabado de fazer, como Kennedy 
bem sabia. Mesmo assim, muitas pessoas acredita-
vam que Kennedy deveria acabar com os mísseis 
lançando um ataque aéreo preventivo, mesmo sob 
o risco de retaliação soviética. 0 m u n d o prendeu a 
respiração. 
1 m M de outubro, Kennedy der i et ou um blo 
queio naval, jogando o ônus do início da guerra so-
bre os soviéticos. Três dias depois, navios soviéticos 
carregados de equipamento militar retornavam de 
Cuba; em 28 de outubro, Nikita Khrushchev concor-
dou < om ,i completa retirada dos mísseis. No ano 
seguinte, como secretamente acordado, os mísseis 
americanos foram retirados da lurquiu. A quase ca-
tástrofe nuclear ensinou às superpotências que, em 
nome da sobrevivência, era preciso equilíbrio entre 
dureza e compromisso. RP 
Libertação dos escravos Primeira dama espacial 
A Arábia Saudita foi o último grande país 
a abolir formalmente a escravidão. 
Valentina Tereshkova se torna a primeira 
mulher astronauta. 
0 decreto do príncipe Faiçal abolindo a escravidão 
na Arábia Saudita foi produto de um período de mo -
dernização que introduziu t ambém a educação para 
meninas. Cerca de 10 mil escravos lotam libertados 
um terço dos que existiam no país , / ( )% dos quais 
propriedade de membros da família real e o restante 
de outras famílias ricas. A maioria trabalhava em ser-
viços domésticos. 
Os primeiros a serem libertados foram 32 ho -
m e n s e 50 concubinas mantidos pelo príncipe Talai. 
1 alçai, que havia libertado seus próprios escravos e m 
"A Sharía exige a libertação dos 
escravos e o fim da escravidão 
nos tempos modernos..." 
P r í n c i p e F a i ç a l , n o v e m b r o d e 1962 
l')'>ò, qastou dezenas de milhões em < ompensaçòes 
ai is demais proprietários. 
A escravidão ainda existia no golfo depois da Se -
gunda Guerra Mundial . O Qatar aboliu a escravidão 
com compensações em 1952, ao contrário dos Emira-
i li >s Árabes Unidos, gue não pagaram indenizações. No 
li 'itien ela foi abolida pelo regime comunista que se se-
guiu à retirada britânica. Omã aboliu a escravidão em 
I1)/(), depois de um golpe apoiado pela Grã-Bretanha. 
I loje, na Arábia Saudita, muitos migrantes traba-
lham e m regime de semi-escravidão. Em 2005, este e 
outros 14 países de todo o mundo foram declarados, 
pelo Helatório sobre o Tráfico Humano do governo dos 
I st,idos Unidos, "países cujos governos não cum-
piom com os padrões mínimos e não fazem esforços 
Slt jniík ativos nesse sentido". P F 
Em 16 de junho de 1963, depois de embarcar na Vostok 
6 e checar os dispositivos de comunicações e apoio v i -
tal, Valentina Tereshkova foi lançada ao espaço para se 
tornai a primeira mulhei astronauta, lereshkova, < njo 
indicativo de chamada era Chayka (gaivota), passou três 
dias no espaço e orbitou a Terra 48 vezes, completando 
mais tempo de vôo do que gualquer astronauta ameri-
cano - um belo golpe de propaganda da União Sovié-
li( a no auge da (iiieiiu I ria. 
O interesse pelo pára-quedismo trouxe Tereshko-
va ao programa espacial soviético, que em 1961 deci-
"Depois de ir ao espaço é que 
se consegue apreciar quão 
pequena e frágil é a Terra." 
Valent ina Tereshkova 
nu I I i s ao spaço. 
foram selecionadas entre mais de 400 candidatas, to-
das ligadas pela | laixíio polo paia quci lismo. lereshko-
va loi i onsideiadíi uma boa < andidata devido á sua 
origem operária e porque seu pai havia morrido como 
lietói de qiioita na I inlândia, em 1919. 
I oram vários meses do treinamento intensivo, du 
rante o qual todas as cinco potenciais cosmonautas 
enfrentaram a microgravidade, o isolamento prolon-
gado, testes de centrifugação, mais de 120 saltos de 
pára-quedas e treinamento de pilotagem em caças 
Mig. Ao final, Tereshkova foi selecionada. As outras 
candidatas nunca foram ao espaço. Dezenove anos 
depois, Svetlana Savitskaya foi enviada ao espaço em 
resposta aos planos americanos de ter uma mulher 
astronauta a bordo do ônibus espacial. T B 
1963 2 6 D E J U N H O 
"Ich bin ein Berliner" 
O firme apoio de Kennedy a Berlim Ocidental encerra as tentativas soviéticas de 
tomar a cidade inteira. 
Foram horas de espera até o presidente Kennedy 
ap.nei ei no bali ,'io da Kalhaus St hôneboi<| (i 'ie(eilu 
ra) de Berlim Ocidental. Mas seu discurso, música 
para os ouvidos berlinenses, despertou entusiásticos 
aplausos das cerca de 120 mil pessoas presentes. A 
cidade, siliada havia 18 anos, linha ac|oia um muro 
que dividia os cidadãos e separava as famílias. Era 
uma ofensa, disse Kennedy - contra a História e c o n -
tra a humanidade. Mas o povo de Berlim não fora 
esquecido. A sua ilha de liberdade era parte do país e 
sua luta, o símbolo da lula de lodo o mundo livre 
conlia a tirania do < omunismo. A liberdade ora indi 
visível; por isso todos os homens livres, a começar 
por ele, Kennedy,tinham ori julho de poder dizei "Ich 
bin ein Berliner" (Eu sou berlinense). Não havia forma 
mais clara de dizer que o Ocidente estaria ao lado de 
Berlim até que a cidade e o país fossem reunificados. 
À fala de Kennedy seguiram-se um discurso do pre-
feito de Berlim Ocidental e o toque do Sino da Liber-
dade. Ao final, a multidão fez silêncio. 
Foi umas das melhores atuações de Kennedy, 
que só decid iu incluir a frase " Ich bin ein Berliner" 
(escrita fonet i camente n u m lembrete) pouco a n -
tes do discurso. 
O apoio moral de Kennedy foi decisivo para 
Berlim Ocidental e pós fim às tentativas soviéticas 
de tomar a c idade inteira. Não foi, é certo, a causa 
direta da reunificação de 1990; mas, sem essa reso-
lução pública do Ocidente, a reunificação teria sido 
menos provável. R P 
O John F. Kennedy dirige seu apaixonado apelo em favor da liber-
dade política a milhares de berlinenses sedentos de mudança. 
O Ficha de Kennedy com sua famosa declaração escrita foneti-
camente para ajudá-lo a evitar erros de pronúncia. 
1963 2 8 D E A G O S T O 
Eu tenho um sonho 
Martin Luther King e ativistas dos direitos civis marcham em Washington. 
O Martin Luther King Jr. faz seu histórico discurso em frente ao 
Memorial de Lincoln. 
O Milhares de participantes da Marcha sobre Washington por 
Empregos e pela Liberdade cercam o Espelho d'Água. 
"O homem que não sabe pelo 
que está disposto a morrer não 
está preparado para viver." 
M a r t i n L u t h e r K i n g J r . , 1963 
0 avanço do movimento pelos direitos civis nos Esta-
dos Unidos foi literalmente demonstrado quando 
/>()() mil manilestantes se reunir,im em Washinqlon, 
D. C. 0 evento fora cuidadosamente preparado pela 
liderança do movimento para alia ir o apoio de bian 
cos e negros e evitar, por outro lado, que o Partido 
Comunista e outras organizações de esquerda se 
aproveitassem da situação. A convocação partiu "so-
mente das oiganizaçõos pró direitos c ivis eslabelei i 
das, grandes grupos religiosos e fraternais e sindica-
tos". 0 plano previa que Martin Luther King Ir. e os 
outros líderes, seis negros e quatro brancos, cami -
nhassem ,i f ienle dos manileslantes até o Memorial 
de Lincoln, onde fariam seus discursos antes de se 
1 lii igiiem à ( asa Hiam a | >aia um eiu onl io i om o pie 
sidenle Kennedy. 
Cópias dos discursos haviam sido previamente 
distribuídas , ' i imprenso, mas no último momento 
King deixou do lado as palavras que havia preparado 
e falou de improviso aos manifestantes usando um 
bordão:"/ have a dream" (Eu tenho um sonho), que a 
cada vez era ovacionado pela multidão. "Eu hoje 
digo a vocês, meus amigos, por maiores que sejam as 
dificuldades de hoje ou de amanhã, eu ainda tenho 
um sonho. Um sonho profundamente enraizado no 
sonho amerk ano. I u lenho um sonho de que um dia 
este país se erguerá para viver o verdadeiro significa-
do de seu credo - a verdade, evidente por si mesma, 
de que todos os homens nascem iguais." Kiiu| pieviu 
um país e m que brancos e negros seriam irmãos e 
onde todos os filhos de Deus seriam "finalmente li-
vres, f inalmente livres, graças a Deus todo-poderoso, 
finalmente somos livres". 
Foi um dos mais célebres discursos do século, ou -
vido com fervor crescente pela multidão. Para o bem 
ou para o mal, King havia deixado sua marca. RC 
I % 3 2 2 D E N O V E M B R O 
0 assassinato de Kennedy 
O presidente John Kennedy é assassinado durante um cortejo por Dallas, Texas. 
O Três dias após o assassinato, o corpo do presidente Kennedy 
é sepultado pela família em Washington. 
O Um agente do serviço secreto protege os Kennedy de outras 
balas enquanto a límusine do presidente agonizante acelera. 
"Sentir a esperança 
ser extinta de repente 
em pleno ar." 
I s a i ah B e r l i n a A r t h u r S c h l e s i n g e r , 1963 
Desde aque le longo e sinistro dia e m Dallas, suces-
sivas teorias de conspiração atribuíram o < rime à 
Máfia, à CIA, à União Soviética e ao regime cubano 
de Fidel Castro. Mas a investigação oficial c o m a n -
dada polo presidente da Suprema ( or le I arl Wa i 
ren conclu iu que, c o m o todos os outros pres iden-
tes americanos assassinados, J o h n F. Kennedy foi 
morto por um fanático. Resta reconhecer que a 
teoria de que houve mais de um assassino tem a l -
guns apoios ilustres. 
0 presidente e sua esposa, Jacqueline, desfila-
vam e m carro aberto pelo centro de Dallas acompa-
nhados pelo governador do Texas John B. Conally e 
sua esposa quando se ouviram três tiros de fuzil, apa-
ronlomonlo disparados do I )e| lósilo de I ivios I sco-
lares do Texas. O presidente foi atingido nas costas e 
na cabeça; o governador Conally t ambém foi ferido. 
Enquanto o público se dispersava, aos gritos, em 
I nisi a de abiiqo, a os| >( isa do | nesii li 'irle, i lesi 'spi sa 
da, aninhava-lhe a cabeça em seu colo no carro que 
corria e m disparada para o Parkland Memorial Hospi-
tal, a 5km de distância. Às 13h, Kennedy foi declarado 
morto. Numa impressionante demonstração da for-
ça do sistema norte-americano, o vice-presidente 
Lyndon B. Johnson, que t ambém estivera no cortejo, 
prestou juramento como presidente às 14h41, a bor-
do do avião presidencial que retornava a Washington, 
D. C. Ao seu lado, Jackie Kennedy ainda vestia a rou-
pa manchada pelo sangue do marido. 
1 oi um luto na< ional sem precedemos. Muitas 
pessoas dizem se lembrar exatamente de onde esta-
vam quando ouviram a notícia. O corpo do presidente 
foi enterrado em 25 de novembro no Cemitério Nacio-
nal de Arlington, perto de Washington. Nesse ínterim, 
a polícia de Dallas prendeu Lee Harvey Oswald, que 
acabou morto por outro fanático, Jack Ruby. RC 
1963 2 4 D E N O V E M B R O 
Ruby mata Lee Oswaid 
Lee Harvey Oswaid é assassinado na 
frente de milhões de telespectadores. 
O único direito de Lee Harvey Oswaid à fama era 
como assassino do presidente Kennedy, e talvez t e -
nha sido essa a sua motivação. Gazeteiro contumaz, 
Oswaid abandonou a escola aos 16 anos, passou 
uma temporada entre os fuzileiros navais e desenvol 
veu uma paixão pelo marxismo. Em 1959 foi à União 
Soviélii a, onde tenlou em vão oi >lei i idadania. ( om 
sua esposa russa, retornou aos Estados Unidos em 
1962 e foi morar em Nova Orleans, onde não fazia 
segredo de seu apoio ao regime comunista cubano. 
Em março de 1963, comprou um fuzil Mannlic hei 
Carcano com enlrega pelo c oireio. 
I m outubro de 1963, Oswaid arranjou emprego 
no Depósito de Livros Escolares de Dallas. De acordo 
com o c omito de investigação < omandado pelo pre-
sidente da Suprema Corte Earl Warren, foi da janela 
do sexto andar desse edifício gue, às 12h30, ele dis-
parou os tiros que mataram o presidente Kennedy e 
feriram o governador Conally. Seu fuzil foi encontra-
do no c hão do depósito. i Vpo is cie matar um policial 
de Dallas que tentou prendê-lo, foi capturado às 
duas da tarde num < inema. 
Em 24 de novembro, quando era transferido en 
tre presídios, ( )swald foi baleado à queima-roupa na 
frente dos policiais que o escoltavam, além de repór-
teres e milhões de telespectadores, por Jack Ruby, 
proprietário de uma boate local, e morreu mais tarde 
naquele mesmo dia. Ruby foi preso, mas morreu 
pouco tempo depois, em 1967. Especulou-se que 
Oswaid, que não chegou a confessar o assassinato 
de Kennedy, teria sido morto para não revelar gue 
fazia parte de uma conspiração. RC 
O Mesmo sem chance de escapar da cena, Ruby investe e atira 
em fee Harvey Oswaid. 
1964 5 D E J A N E I R O 
Abraço de Jerusalém 
O Papa tenta dissipar séculos de 
ressentimento católico ortodoxo. 
O abraço do Papa Paulo VI no patriarca ecumênii c > 
Atenágoras I, no monte da Oliveiras, em Jerusalém, 
foi um gesto simbólico da reconciliação entre as Igiojas Católica e Ortodoxa, separadas desde o Grande 
Cisma de 1054 e o saque de Constantinopla pelos 
cruzados cristãos e m 1204. Conservador, Paulo VI re 
afirmou a primazia papal em questões como a i oi i 
Irac opção, o < c Jil silo <l< >•> sai c 'ídolos e o pa| n 'I da 
mulher na Igreja, mas foi um pioneiro em questões 
ecumênicas: sua peregrinação à Terra Santa fez dele 
o primeiro Papa a deixar a Itália em 150 anos, aguele 
"Estão determinados a 
superar as divergências 
para voltar a serem um só." 
D e c l a r a ç ã o c o n j u n t a c a t ó l i c o - o r t o d o x a , 1965 
que estendeu a mão ao judaísmo e à ortodoxia. Pau 
10 VI visitou o rei I lussein da Jordânia em Amã e t e n 
lou c hegar a acordos doutrinários com anglicanos e 
11 Metanos. Mais tarde, visitou a África e o Sudeste Asia 
tico e promoveu a melhoria das relações de Roma 
c o m o mundo comunista. 
O encontro significou a aproximação espiritual i • 
simbólica entre católicos e ortodoxos depois de sé-
culos de afastamento. Revogou-se a excomunhão 
do patriarca ecumênico e de vários proeminentes 
eclesiásticos romanos. Em dezembro de 1965, uma 
declaração conjunta católico-ortodoxa prometeu 
aparar as divergências entre as igrejas. Não acabou 
com o cisma, e até deixou alguns cristãos ortodoxos 
insatisfeitos, mas mostrou o desejo de reconciliação 
entre as igrejas. J S 
1964 9 D E F E V E R E I R O 
Os Beatles ao vivo na TV americana 
Canções da banda lideram as paradas de sucesso nos dois lados do Atlântico. 
Imensamente populares na maior parte da Europa 
graças ao seu genuíno talento e seu humor autode-
preciativo, no íim de 1963 os Beatles ainda tinham os 
Estados Unidos por conquistar. Como a Capitol, o selo 
americano da banda, se recusasse a Irabalhai com 
gravações britânicas, o empresário Brian Epstein < ru-
zou o Atlântico no fim de 1963 para quebrar o impas-
ses "i Wani lo i lold Your l land", o quarto compacto dos 
Beatles, já vinha sendo ouvido nos Estados Unidos 
depois que um DJ americano arranjara uma cópia 
com uma aeromoça britânica. Epstein conseguiu 56 
mil dólares em publicidade da Capitol Records e, o 
que foi decisivo, duas apresentações ao vivo no pro-
grama de Ed Sullivan para 9 e 16 de fevereiro do ano 
seguinte. A demanda obrigou a Capitol a lançar o dis-
co antes do desembarque da banda e m Nova York, 
em 7 de fevereiro de 1964, na presença de três mil fãs. 
Dois dias depois, os Beatles cantavam para um 
público estimado e m 73 milhões de pessoas. Houve 
50 mil pedidos para os 728 lugares do estúdio. Foi a 
maior apresentação dos Beatles nos Estados Unidos. 
Os Beatles trouxeram um pouco de diversão e caos 
para compensar a tristeza causada pelo assassina-
to de Kennedy e pela Guerra do Vietnã. 
I m abril, "I Want to Hold Your Hand" tornou-se o 
primeiro compacto simples a ocupar simultanea-
mente o primeiro lugar das paradas de sucesso dos 
Estados Unidos e da Grã-Bretanha e lançamentos an -
teriores da banda assumiram outras quatro posições 
n o T o p T e n americano. J J H 
O O diálogo inteligente e divertido com Ed Sullivan ajudou a 
consolidar o sucesso dos Beatles nos Estados Unidos. 
O A apresentação dos Beatles no programa de Ed Sullivan, em 
9 de fevereiro, deu início à "invasão" das bandas britânicas. 
1964 12 D E J U N H O 
Mandela condenado 
Nelson Mandela é condenado à 
prisão perpétua. 
Não se aplicou a pena de morte naquele dia em Pretó-
ria, África do Sul, mas os oito homens, entre os quais 
Nelson Mandela, ex-secretário-geral do proscrito Con-
gresso Nacional Africano (CNA), foram declarados cul -
pados de sabolaqem e < onspiraçáo para a derrul >ada 
do Estado pot meios violentos e condenados à prisão 
perpétua. Mandela, um antigo opositor do sistema de 
apartheid, defendeu originalmente a resistência não-
violenta, mas mudou de atitude depois do massacre 
de Sharpeville, em 1960, quando a polícia matou a t i -
ros 69 inanileslanles desarmados. Mandela íundou a 
"Não é verdade que o direito 
de voto para todos resultará 
em dominação racial." 
N e l s o n M a n d e l a , a o t r i b u n a l 
ala militar do CNA, Umkhonto weSizwe (A Lança da Na-
ção), que desencadeou uma campanha de sabota-
gem. Ele já estava na prisão por deixar ilegalmente o 
país quando uma batida da polícia em Rivonia, nas 
cercanias de Joanesburgo, descobriu o depósito de 
armas que o levou a julgamento. 
Mandela manteve uma digna atitude de desafio 
durante o julgamento, alegando que a resistência à 
opressão era inevitável. Na prisão, tornou-se o símbolo 
das aspirações de todos os sul-africanos negros, cres-
cendo e m estatura ao longo dos 27 anos que lá passou 
por recusar qualquer concessão que comprometesse 
suas crenças. De sua cela, tornou-se um líder internacio-
nal dos oprimidos. O nome de Mandela esteve no cen-
tro da campanha mundial contra o apartheid, que der-
rubaria o regime sul-africano e sua política racista. J S 
1965 4 D E J A N E I R O 
A Grande Sociedade 
O discurso anual do presidente Lyndon 
Johnson sobre o Estado da União. 
Texano de origem humilde, Lyndon Baynes Johnson 
foi líder democrata no Senado antes de ser indicado 
candidato a vice-presidente de Kennedy nas eleições 
de 1960. Com a morte de Kennedy, Johnson o suce-
deu pretendendo dar continuidade à sua polítir a de 
"Nova Fronteira", em especial o combate à pobreza e 
ao racismo, I m 1964, ele anunciou seu desejo o in 
tenção de "empreender nossa caminhada em dlre 
ção à Grande Sociedade". 
Na campanha presidencial daquele ano, Johnson 
foi eleito com ampla maioria de 6 1 % dos votos popula 
"O mais difícil para um presi-
dente não é fazer o que é cer-
to, mas saber o que é certo." 
P res iden te J o h n s o n , E s t ado da Un i ão , 1965 
res. Em seu discurso ao Congresso sobre o Estado da 
União, ele afirmou seu ideal de que "a Grande Socieda-
de repousa sobre a abundância de liberdade paia ti > 
dos. I Ia exige o fim da pobreza e da injustiça ra< ial 
com o que estamos totalmente comprometidos". 
Até que ponto Johnson foi bem-sucedído é um 
tema até hoje controverso. Americanos negros e fn 
dios foram beneficiados por suas leis de direitos civis 11 
bilhões de dólares foram investidos na guerra contra a 
pobreza, no apoio federal à educação e na criação dos 
programas de saúde Medicare e Medicaid, atacados 
por alguns como equivalentes à introdução do soe ia 
lismo. Mas a Guerra do Vietnã, além de obstáculo ao 
investimento governamental em programas da Gran-
de Sociedade, tornou Johnson impopular. Desiludido, 
ele desistiu de concorrer à reeleição em 1968. RC 
1965 2 D E M A R Ç O 
Bombas sobre o Vietnã do Norte 
Os EUA tentam evitar o colapso do Vietnã do Sul bombardeando o Vietnã do Norte. 
A campanha de bombardeio do Vietnã do Norte 
(Operação Rolling Thunder) foi concebida para im-
pedir que abastecimento e reforços chegassem à 
guerrilha vietcongue. Inicialmente prevista para d u -
rar oito semanas, a Rolling rhundei duraria três anos, 
com o objetivo de obrigar o governo do Vietnã do 
Norte a terminar a guerra nos termos dos Estados 
Unidos. Na realidade, a lote, a do viok onguo não pro-
vinha dos suprimentos do Norte, mas do apoio dos 
camponeses do Sul. Os Estados Unidos ignoraram a 
tese de que o bombardeio aéreo não fora capaz de 
quebrar o moral de nenhum país na Segunda Guerra 
Mundial, o que indicava a sua crescente frustração 
r om a tonar idade da resistem ia viole onque, 
No Vietnã do Norte, um complexo sistema de defe-
sa civil e defesas antiaéreas cada vez mais formidáveis 
(construídas com ajuda soviética) custaram caro aos Es-
tados Unidos: cerca de 700 aviões americanos foram 
derrubados. O moral do Norte continuousólido e suas 
forças armadas, cujas necessidades materiais eram 
mínimas, eficazes. No Sul, o vietcongue respondia ata-
cando as bases aéreas americanas, cuja proteção de -
mandava grandes contingentes de tropas de terra. 
A guerra não apenas se intensificou em um ritmo ines-
perado - ela se tornou rada vez mais americanizada. 
Quanto mais os Estados Unidos assumiam o ônus cia 
luta, mais o Vietnã do Sul gueria ficar de fora. Durante a 
Rolling rhunder, um milhão de toneladas de explosivos 
foi lançado, incluindo napalm e bombas antipessoais. 
A r arnificina mudou a opinião pública nos Estados Uni-
dos e em todo o mundo e contribuiu decisivamente 
para minar o apoio popular à guerra. J S 
O Vista aérea dos estragos e crateras deixados pelos 
bombardeios americanos ao norte de Dai Teng. 
1965 11 D E N O V E M B R O 
A Rodésia declara independência 
Independência para a minoria branca provoca sanções diplomáticas e 
econômicas da Grã-Bretanha. 
A Declaração Unilateral de Independência do gover-
no rodesiano de lan Smith foi cuidadosamente pla-
nejada para coincidir com as comemorações britâni-
cas do Dia do Armistício, quando a metrópole estaria 
homenageando seus mortos de duas guerras mun 
diais. Foi um lembrete nada sutil da velha lealdade da 
colônia, especialmente destinado àqueles que, na 
Grã-Bretanha, simpatizavam com a recusa dos colo 
nialistas brancos - de origem majoritariamente britâ-
nica - a aceitar um governo da maioria negra. 
Masa posição do governo trabalhista britânico.e 
de boa parte da população, era de que se tratava de 
um ato de rebelião e que a independência da Rodé-
sia não seria jamais reconhecida até que prevaleces-
se a democracia. Impuseram-se imediatamente san-
ções diplomáticas e econômicas, t ambém adotadas 
pelo C onselho de Segurança das Nações Unidas. Mas 
a intervenção militar britânica, pela qual i lamaram 
muitos nacionalistas africanos, nunca esteve na or-
dem do dia, 
As sanções surtiram pouco efeito. A Rodésia l i -
nha o apoio (te Portugal, que estava determinado a 
desafiar os nacionalistas africanos para conservar 
Moçambique, e do governo sul-africano, que via a Ro-
désia t o m o um baluarte do seu regime de apartheid 
em face do nacionalismo africano. Mas em 1975 M o -
çambique tornou-se independente e a África do Sul, 
submetida a sanções e à oposição interna africana, 
foi incapaz de continuar subvencionando a Rodésia. 
Em 1979, a minoria branca da Rodésia, isolada e 
exposta, não teve alternativa senão negociar sua 
submissão ao governo da maioria. P F 
O lan Smith assina a polêmica Declaração Unilateral de 
Independência observado porfuncionários rodesianos. 
Começa a Revolução Cultural 
Mao mobiliza a juventude comunista contra os que têm idéias burguesas. 
Ao conclamar a juventude chinesa a criticar as autoridai 
des c integrar as unidades da Guarda Vermelha, o presi-
dente Mao fsé-fung desencadeou uma guerra dentro 
do próprio Partido ( omunista Chinês (PCC). Humilhado 
e enfraquecido pelo tremendo fracasso do Grande Sal-
to a Frente em 1958, Mao concluiu que o motivo fora a 
falta de espírito revolucionário dentro do PCC. O partldej 
teria acolhido um excesso de elementos burgueses e, 
tal como o Partido Comunista da União Soviética, vinha 
perdendo contato com os operários e camponeses e 
cuidando mais de seus privilégios do que de suas res-
ponsabilidades. Na certeza de que os jovens ainda eram 
vi 'H Lu li 'iii is I I v i ih II ii II lárii is, M 1 0 di •• ir liu mol u li.-', i los. 
A ( mania Vermelha íoi < onvoi ada a donunr iai profes-
sores, escritores, artistas e membros do partido por de -
fenderem idéias burguesas. Em pouco tempo, as de -
núncias se traduziram em humilhações, prisões, torturas 
e assassinatos. A China foi levada ao caos. 
O PCC tentou se defender, mas quem tentasse res-
tabelecer a disciplina entre os jovens era denunciado 
como cor ura revolur ionário. ( ) resultar Io íoi a mobiliza-
ção, pelo partido, de sua própria Guarda Vermelha. Bata-
lhas campais entre facções de guardas vermelhos sinali-
zavam o risco de uma guerra civil. O PCC e toda a China 
pareciam à beira da catástrofe. Só o exército seria capaz 
de acabar com o caos. Mao reivindicou-lhe o apoio para 
a sua Guarda Vermelha, mas a partir de 1967 ele come-
çou a restaurar a ordem. A Revolução Cultural só termi-
nou depois da morte de Mao, em 1976, quando o entu-
siasmo revolucionário chinês havia sido extinto. J S 
O Mao aperta a mão de um jovem guarda vermelho no 
chamado à retomada da revolução chinesa. 
O Estudantes e guardas vermelhos empunham exemplares do 
Livro Vermelho durante uma manifestação em Pequim. 
Verwoerd assassinado Nasce Biafra 
Punhalada fatal mata o homem forte do 
regime sul-africano do apartheid. 
Hendrick Frensch Verwoerd, membro do Partido Na 
cionalista Unificado e primeiro ministro da África do 
Sul, foi apunhalado durante uma sessão do Parlamen-
to, na t idade d o ( abo, à vista de centenas de testemu-
nhas. Ministro dos assuntos nativos a partit de 1950 e 
primeiro ministro em 1958, Verwoerd supervisionou a 
elaboração de boa parte da legislação segregacionis-
ta do país, ra/áo pela qual íoi < onsiderado o arquiteto 
do moderno apartheid na África do Sul. Foi também 
responsável pelo toíorondo exclusivamente branco 
que criou a República Sul Aíric ana, motivo da expul 
são do país da Comunidade Britânica. Sua campanha 
contra a oposição inteina insultou no massacre de 
Sharpeville, em 1960, na proscrição do Congresso Na-
cional Africano o na < ondenaçáode Nelson Mandela à 
prisão poipétua em junho de 1964. 
É irônico, tendo em vista a quantidade de seus 
inimigos, que o assassinato de Verwoerd não tenha 
sido uma ação diretamente política. As motivações 
de seu assassino, o mensageiro parlamentar Deme-
trio Tsafendas, são obscuras. Filho de pai grego e 
mãe Swazi, Is.ilendas era oficialmente branco, o que 
tornava ilegal o seu casamento com a mulher que 
escolhera, classificada c orno negra, a menos que ele 
próprio fosse racialmente reclassificado. Embora t i -
vesse um bom motivo para questionar o apartheid, 
Isafendas afirmou que um grande verme em seu es-
tômago o havia compel ido a matar. 
Dado gue um assassinato político teria sido e m -
baraçoso para o Estado, Tsafendas foi declarado in-
sano e recolhido a um hospício até sua morte e m 
1999. Independentemente , porém, das reais mot i -
vações, seu ato foi um claro aviso de que o regime 
i Io apartheid tinha muitos adversários e jamais esta-
i ia seguro. J S 
Anúncio da nova república provoca 
choques na Nigéria. 
O coronel Emeka Ojukwu, chefe militar da região 
oriental da Nigéria, foi o artífice da declaração mula 
lera de independência do país gue chamava Bialia 
Mas como essa área era a fonte do único produto i |i > 
exportação importante da Nigéria, o petróleo, seria 
inevitável a oposição do governo central. 
As origens do conflito têm raízes no passado co 
loníal da Nigéria. Ao dividirem o território, os britam 
cos não levaram em conta aspectos étnicos. Na inde-
pendência, em 1960, a Nigéria era uma mistura de 
povos muçulmanos, cristãos e animistas com um his-
"Deus abençoe Biafra... 
Nós triunfamos sobre todos 
os inimigos..." 
Da c a n ç ã o pa t r i ó t i c a " S a u d e m o s B i a f r a " 
tórico de tensões étnicas. O governo civil não di inm 
muito: em 1966 os militares tomaram o podei. Mas t iS 
problemas econômicos se agravaram, bem como i is 
conflitos étnicos. O pior deles surgiu entre a etnia 
muçulmana Hausa, do norte, e a cristã Ibo, do sui l i " , 
te. Foi esta última gue;, reivindicando ser vítima de 
muitos anos de discriminação e atrocidades, tentou 
criar Biafra como seu país. 
Foi umasdas primeiras e mais sangrentas guerras 
africanas pós-independência. Em dois anos e meio ela 
produziu um milhão de refugiados e se estima que en-
tre um e três milhões de mortos em conseqüência da 
luta e da fome. Biafra foi derrotada, mas os problemas 
gue provocaram o conflito permanecem. Depois de 
décadas, o povo Ibo ainda se queixa de discriminação, 
tornando clara a possibilidade de novos conflitos. J S 
1967 7 D E J U N H O 
Israel toma Jerusalém Oriental 
O mundo fica atônito com as vitórias israelenses na Guerra dos Seis Dias. 
O Um comboio militar israelense passa por um caminhão lotado de prisioneiros de guerra egípcios. 
No terceiro dia de luta de sua reiterada batalha ; onlra 
os vizinhos árabes, as forças israelenses esmagaram os 
|i ndanianos e tomaram a Cidade Velha de Jerusalém, 
onde estão o Domo da Rocha e o Muro Ocidental, 
i tste o único remanescente do antigo Templo judeu. 
Uma coalizão árabe aparentemente invencível se ha-
via esfacelado ante o assalto israelense. Ao perceber 
g u e um ataque combinado era iminente, os israelen-
ses desfecharam um ataque surpresa que destruiu em 
lona boa parte da força aérea inimiga, obtendo as-
s im u m a vantagem decisiva. Naguela que se tornaria 
i onhecida como a Guerra dos Seis Dias, Israel i rrom-
p e u por três fronteiras, t o m a n d o da Jordânia a 
( isjordânia, da Síria as colinas d e Golan e do Egito 
,i íaixa de Gaza e toda a península do Sinai. 
Foi uma vitória decisiva, gue teve recompensas. 
A declaração americana de neutralidade marcou, na 
verdade, uma parceria estratégica que daria a Israel o 
apoio incondicional dos Estados Unidos. Egípcios e 
sírios lutariam novamente na Guerra do Yom Kippur, 
em 1973, mas o novo líder do Egito, Anwar Sadat, esta-
va disposto a negociar a devolução do Sinai e m troca 
de abandonar seu sonho de destruir o Estado de Israel. 
Israel, porém, gue agora governava um grande núme-
ro de palestinos numa Cisjordânia conguistada pela 
força das armas e vista como parte inalienável do país, 
tinha pouco interesse em buscar um acordo. Mas a 
ocupação israelense enfrentaria resistência e a escala-
da da violência se consolidaria em um conflito aparen-
temente impossível de terminar. J S 
A morte de um revolucionário 
Herói comunista "Che" Guevara é caçado e morto na Bolívia. 
O O cadáver de Guevara é exibido para as câmeras após sua execução pelo exército boliviano. 
Ernesto "Che" Guevara tinha 39 anos quando foi 
morto por um sarqenlo boliviano na lo< alidade (ir1 
La Higuera. Argentino de nascimento, Guevara fez 
residência médica e formou-se em Buenos Aires, 
mas estava mais interessado na revolução. Depois de 
conhecer Fidel Castro no México, ajudou a estabele-
cer o comunismo em Cuba em 1959 e ocupou pos-
tos importantes no governo de Castro. Na crise dos 
mísseis, porém, desaprovou o recuo da União Sovié-
tica, que, por sua vez, desaprovava suas simpatias 
maoístas. Em 1965, Guevara trocou Cuba por uma 
fracassada tentativa de exportar seu modelo de co -
munismo para o Congo. De volta à América do Sul 
em 1966, estabeleceu, com um pequeno grupo de 
guerrilheiros, um campo de treinamento na região 
boliviana de Nancahuaza, deslocando-se mais lan li ' 
para a região de Vallegrande. 
Não foi, porém, bem-sucedido em seus esforços 
de recrutamento entre a população local, desconl i, i< I, i 
e hostil. O pequeno grupo foi encurralado perto de I a 
Higuera pelo exército boliviano, que teve o apoio, ali i 
da que sem envolvimento direto, dos Estados Unidos. 
Guevara foi ferido e aprisionado na escola local. Três 
soldados bolivianos decidiram por sorteio qual deles 
o executaria. Diz-se que suas últimas palavras foram: 
"Saibam que vocês estão matando um homem." 
Seu corpo foi levado de helicóptero a Vallegrande e 
sua morte anunciada aos meios de comunicação. Seu 
mais visível legado talvez seja a sua própria imagem 
estampada em camisetas por todo o mundo. RC 
1967 3 D E D E Z E M B R O 
0 primeiro transplante de coração 
O cirurgião sul-africano Christiaan Barnard vira celebridade depois de realizar o 
primeiro transplante bem-sucedido de um coração humano. 
( hiisliaan Barnard ('Mudou medk in.i nu Universidade 
da Cidade do Cabo e cirurgia cardíaca na Universidade 
de Minnesota. Depois de vários anos de experiências 
com transplantes de órgãos em animais, achou que 
havia chegado o momento de colocá-los em prática 
com humanos. A doadora foi Denise Darvall, de 25 
anos de idade, morta num acidente de trânsito; o re-
r eplor, I ouis Washkansky. A opeiação durou nove ho-
ras e envolveu uma equipe de 30 pessoas. Achando 
que a operação não despertaria grande interesse, Bar-
nard sequer informara o diretor do hospital de suas 
intenções. Mas, numa época em que toda cirurgia car-
díaca era considerara de alto risco, o seu feito foi obje-
lo de imensa publii idade. Barnan I In ou inleinai ional • 
mente famoso da noite para o dia e foi festejado por 
aitistas de i ilu sua, | » ilílu < is i 'a té rm ••.nu > o Papa, 
Washkansky sobreviveu apenas 18 dias. A dro-
ga utilizada para evitar a rejeição do novo órgão 
reduziu t a m b é m a sua resistência a infecções e ele 
contraiu pneumonia . Somente e m 1974 um pesgui-
sadoi norueguês criou uma droga ( a paz de evitar 
tais compl icações - a ciclosporina. O trabalho pio-
neiro de Barnard abriu caminho para o aperfeiçoa-
mento das técnicas de transplante do coração. Em 
segu imentoa suas pesquisas, e m 1974 ele realizou o 
primeiro transplante duplo de coração. Vinte anos 
depois de sua operação pioneira, essa cirurgia tor-
nou-se usual. Barnard aposentou-se e m 1983 devido 
à artrite e morreu e m 2001, ironicamente de doença 
cardíaca. J S 
O Christiaan Barnard explica, em entrevista coletiva, como 
realizou seu transplante pioneiro de coração. 
O Barnard monitora o progresso de Louis Washkansky depois 
do primeiro transplante de coração. 
1968 31 D E J A N E I R O 1968 21 D E M A R Ç O 
A Ofensiva do Tet 
A Ofensiva do Tet no Vietnã do Sul faz 
cambalear as forças dos Estados Unidos. 
Massacre no Vietnã 
O massacre de My Lai reforça o repúdio 
internacional à Guerra do Vietnã. 
O ano-novo vietnamita, ou Tet, foi celebrado pela 
guerrilha vietcongue com ataques coordenados 
contra todas as cidades do Vietnã do Sul. As forças 
americanas ficaram atônitas com a escala e ferocida-
de da luta, que causou a morte de milhares de civis e 
teve até uma batalha travada no recinto da Embaixa-
da dos Estados Unidos, e m Saigon. Longa e cuidado-
samente planejada, a Ofensiva do Tet tinha por objo 
tivo abalar decisivamente o Vietnã do Sul. Até então 
os líderes militares americanos pensavam que a 
guerra podia ser vencida e se sentiam seguros nas 
"Está cada vez mais claro 
que a única saída racional é 
a negociação." 
W a l t e r C r o n k i t e , j o rna l i s t a a m e r i c a n o 
cidades, ainda que não no campo. O general norte-
vietnamila Vo Nquyen Giap pretendia mostrai que 
eles estavam errados. Esperava, e m todo caso, obri-
gar os americanos a negociar. 
Militarmente, os Estados Unidos triunfaram na 
Ofensiva do Tet. O vietcongue sofreu grandes perdas e 
daí em diante o exército norte-vietnamita teve de assu-
mir o ônus maior da luta. Politicamente, no entanto, as 
conseqüências foram outras: nos Estados Unidos, onde 
a Ofensiva do Tet foi percebida como uma derrota, a 
opinião pública do país voltou-se contra o que agora 
via como uma causa perdida. Embora o banho de san-
gue continuasse até o acordo de paz de 1973, desse 
momento em diante os americanos passaram clara-
mente a buscar uma forma de se desembaraçar do 
conflito sem perder demasiada credibilidade. J S 
Sob o comando do tenenteWilliam Calley, tropas 
americanas enviadas a My Lay para desalojar gueni 
lheiros vietcongues e simpatizantes que se supunha 
estar escondidos na aldeia promoveram uma verda 
deira carnificina, imotivada e indiscriminada, que não 
poupou velhos nem crianças. Investigações militares 
posteriores concluíram que 347 pessoas foram assas 
sinadas; os vietnamitas contabilizaram 504. O Ifii i 
dente foi inic ialmente relatado como uma ação mili 
t a r e m que 128 combatentes inimigos foram mortos, 
mas logo começaram a < ire ular rumores de um mas 
sacre. Um soldado, Ron Ridenhour, relatou o ocorri -
do a figuras políticas importantes, entre as quais o 
próprio presidente Nixon. As atrocidades vieram a 
público, mas Calley foi o único condenado. Eml u ira 
sentenciado à prisão perpétua por assassinato pre 
meditado, ele só cumpriu três anos e meio de pu 
são domiciliar. 
O uso de bombardeios maciços, desfolhantes e 
napalm fazia crer a muitos vietnamitas que os I sla 
dos Unidos estavam destruindo o Vietnã do Sul gaia 
salvá-lo. A presença americana era amplamente re 
pudiada, A cada passo, suas tropas eram recebidas 
com forte hostilidade. Incapazes de encontrar seus 
inimigos invisíveis e suspeitando de todos os campo 
neses, os soldados dos Estados Unidos passaram a 
odiar todos os vietnamitas e a ver automaticamente, 
e m qualquer vietnamita morto, um vietcongue, ra-
zão pela qual um massacre como o de My Lai nao 
constituiu surpresa. A terrível notícia não apenas gal-
vanizou e unificou o movimento contra a guerra 
dentro dos Estados Unidos como também, pode-se 
dizer, convenceu muitos sul-vietnamitas de que tal-
vez fosse preferível um regime comunista a continu-
ar sendo o campo de batalha dos Estados Unidos. J S 
O assassinato de Martin Luther King 
A perda de um grande líder americano provoca uma onda de ódio. 
O Cinco dias depois do assassinato, mais de 50 mil pessoas participam do cortejo fúnebre em Atlanta, na Geórgií 
O mais famoso e efetivo líder do movimento e m prol 
dos direitos civis nos Estados Unidos, seguidor do 
princípio da resistência não-violenta de Gandhi e ga-
nhador do Prêmio Nobel da Paz e m 1964, foi morto a 
tiros e m Memphis, Tennessee, onde viera apoiar uma 
greve dos trabalhadores negros dos serviços de sa-
neamento. Na véspera de sua morte, ao falar e m uma 
assembléia sobre rumores de que sua vida estaria 
ameaçada, Luther King disse: "Como todo mundo, eu 
gostaria de viver uma longa vida. A longevidade tem 
0 seu lugar. Mas não estou preocupado c o m isso. 
1 1 1 só guero fazer a vontade de Deus." 
Na noite seguinte, King estava na sacada do se-
gundo andar do Motel Lorraine quando se ouviu um 
1 no de fuzil, disparado da janela de uma casa próxima. 
Momentos depois, King foi encontrado caído na saca-
da, ainda vivo, com um ferimento na cabeça. Seus 
amigos o cobriram com uma colcha, mas ele não re-
sistiu até a chegada da ambulância. Morreu aos 39 
anos de Idade, 
A notícia da morte de Luther King provocou uma 
onda d e pesar e ódio. Bairros negros reagiram c o m 
violência, promovendo sagues e incêndios. Foram ne -
cessários milhares de soldados para restabelecer a or-
dem. O próprio King não teria aprovado a violência. 
O assassino foi um sulista branco, autor de p e -
quenos delitos, ( hamado lames Earl Hay. Lie conse -
guiu fugir para a Inglaterra, mas foi preso e devolv i -
do a Memphis , onde, em 1969, recebeu a sentença 
de 99 anos de prisão. Ray morreu e m 1998. RC 
Distúrbios em Paris 
Uma vez mais, a capital da França é palco de explosões revolucionárias. 
O Estudantes protestam nas ruas de Paris a revolta abriu caminho para uma greve geral que durou duas semanas. 
Uma nova Revolução Francesa parecia iminente. De -
pois de vários dias de batalhas campais entre os estu-
dantes e a força antimotins de Paris, a situação ficou 
ainda mais perigosa para o governo quando trabalha-
dores em greve se juntaram aos protestos. A crise se 
iniciara em março com uma série de confrontos entre 
estudantes e autoridades universitárias e do ensino mé -
dio a propósito dos regulamentos repressivos e dos va-
lores arcaicos e burgueses ensinados nas escolas. O 
governo endureceu, mandando a polícia cercar a Sor-
bonne. Os estudantes foram atacados com gás lacrimo-
gêneo, espancados e presos. As batalhas de rua no 
Quartier Latin de Paris provocaram a indignação gene-
ralizada da classe operária, dando ensejo a uma greve 
geral não oficial que acabou envolvendo mais de 10 
milhões de trabalhadores e paralisando a França por 
duas semanas. O governo parecia à beira do colapso. 
Avaliando a lealdade de suas tropas ao mesmo 
tempo que posicionava tanques na periferia de Paris, o 
governo claramente se preparava para o pior. Mas o pe 
rigo se dissipou tão rapidamente quanto havia surgido. 
Os trabalhadores franceses tinham pouca simpatia pela 
retórica revolucionária dos estudantes. Importantes con-
cessões salariais, de condições de trabalho e de direitos 
sindicais encerraram a greve geral e neutralizaram a In 
surreição. Agindo rapidamente, Charles de Gaulle con-
vocou eleições gerais, das quais os estudantes saíram 
isolados e o governo fortalecido. A contestação das atl 
tudes tradicionais para com a educação e a juventude 
deixou um legado de mudanças em toda a Euroj >a. J S 
Morre Robert Kennedy 
0 senador Robert Kennedy é assassinado 
em Los Angeles, Califórnia. 
1 m cinco anos, assassinatos tiraram a vida de três im-
portantes líderes americanos: John F . Kennedy, Martin 
Luther King e Robert F. Kennedy. Este último presidiu, 
e m 1957, o comitê do Senado gue investigou a mani-
pulação de sindicatos; em 1960, dirigiu a bem-sucedi-
da campanha do irmão à presidência dos Estados 
Unidos; como procurador-geral da República no go-
v i i i i o de John Kennedy, apoiou a ( ampanha cm prol 
dos direitos civis e liderou uma vigorosa luta contra o 
i n i n o organizado; em 1964, depois da morte de John, 
foi eleito senador democrata pelo estado de Nova 
"Meu irmão não deve ser 
idealizado na morte além 
daquilo que foi em vida..." 
S e n a d o r E d w a r d K e n n e d y 
Y o i k , lornando-se rapidamenle uma liguia p o l í l k a de 
I n o a e grande opositor da Guerra do Vietnã. 
Robert Kennedy anuiu iou sua candidatura à pre-
sidência em 1968. Em 4 de junho, ganhou cinco de 
seis primárias democratas, inclusive a daquela dia, n a 
, ilifórnia, quando deu aos simpatizantes que ouviram 
s o u (Jiscurso no Hotel Ambassador de Los Angeles a 
I I ' i i o / a de que viria a ser o segundo membro de sua 
lauiilia a ocupar a Casa Branca. Mas foi baleado ao sair 
I n >i um corredor cheio do gente o moriou num hospi-
t a l n o dia seguinte, aos 42 anos de idade. 
O assassino, um imigrante de origem palestina de 
nome Sirhan Sirhan, era adversário das simpatias por Is-
rael i Io Kennedy. Sirhan foi condenado à morte em 1969, 
mas teve sua pena comutada para prisão perpétua de-
I ii lis de um apelo do senador Edward Kennedy. RC 
1968 2 5 D E ) U L H O 
Discurso retrógrado 
Condenação do controle da natalidade 
pelo Papa provoca crise de autoridade. 
Para consternação dos liberais católicos da época, a 
encíclica / lumanac Vilae (Vida I lumana), do Papa Pau 
Io VI, condenou enfaticamente todos os meios artifi-
ciais de controle da natalidade. Alegando tratar-se de 
algo intrinsecamente mau, uma violação da lei natural, 
0 Papa advertiu que elos aumentariam a infidelidade 
conjugai, rebaixariam os padrões morais e reduziriam 
a mulher a mero instrumento de prazer. O sexo no ca-
samento seria antinatural, segundo ele, se excluísse 
,u l i l i i ialni isito o | n o | l ó s i t o I > , i s i < o da p i o i riação. 
Essa posição foi um choque considerável para 
muita genteque esperava que a Igreja tomasse uma 
1 I I isiçár) mais liberal em í, roo do surgi monto da pílula 
anlii o m op< ional. O < onlrole da fertilidade e ra víslo 
como vital para a redução d o s níveis de pobreza no 
mundo, em especial nos países menos desenvolvi-
d o s , A | IOS IO I ÍO I disseminação da Aids daria um < ar.i 
le i d e i l i g ê i K ia à questão. N o mundo o< idenlal, mais 
e mais pessoas passariam a ver o controle da natali-
dade como uma questão de consciência pessoal, 
fora da alçada do Vaticano. A procriação, se dizia, não 
era o único propósito do casamento. O veredicto do 
Papa seria cada vez mais ignorado. 
Embora muitos católicos concordassem com o 
Papa o tivessem concluído, do c rose imento dos índic es 
de abortos e filhos ilegítimos, que suas advertências 
eram corretas, em geral a reação foi tão hostil gue Paulo 
VI, i li",. ili i itac li i, num a mais | n il ilii ou net il luma i n i< íc li 
ca. Mas João Paulo II reafirmou seu julgamento em 1984. 
Os argumentos a favor do controle da natalidade vi -
nham ao encontro das demandas de obediência à auto-
ridade católica. Na realidade, a Igreja perdeu credibili-
dade como professora de ética sexual e a divergência 
seletiva com a I lumanae Vitae alimentaria uma discor-
dância mais ampla com a autoridade do Vaticano. J S 
1968 2 0 D E A G O S T O 
Tanques soviéticos contra a Primavera de Praga 
Forças do Pacto de Varsóvia reprimem as reformas de Alexander Dubcek. 
A invasão daTchecoslováquia por uma coalizão dirigi-
da pela União Soviética pôs fim à Primavera de Praga, 
o período de reformas liberais do governo tcheco de 
Alexander Dubcek. A estagnação econômica e a aspi-
ração generalizada por reformas políticas haviam leva 
do à deposição, em janeiro, do empedernido líder 
stalinista da Tchecoslováquia, Antonin Novotny. Dub-
cek o substituiu anunciando um (on juntode reformas. 
Embora não íosse sua intenção permitir que o pari ido 
perdesse o < ontrole da R hecoslováquia, ameaçasse a 
União Soviética e abandonasse o Pacto de Varsóvia, 
ele dizia que o socialismo precisava de uma face hu-
mana. Para isso, propôs que fossem permitidos parti 
dos legais de oposição, acabou com a censura e quis 
normalizar as relações diplomáticas e comerciais com 
a Alemanha Oc idental. A Irai|éilia de Dubcek foi não 
entender o impacto das reformas na Tchecoslováquia 
sobre o mundo comunista. 
Na Polônia, manifestações exigiram reformas simi-
lares, remendo que a agitação transbordasse para a 
Ucrânia, Moscou exigiu de Dubcek que pusesse um 
freio às lelonnas. I )ubc ek não se abalou, na expectativa 
de que as garantias de lealdade que dera na reunião de 
cúpula dos líderes do Pacto de Varsóvia fossem sufi-
cientes para aplacar as preocupações soviéticas. A inva-
são foi a resposta. O Ocidente protestou, mas nada fez. 
Uma mensagem fora enviada ao mundo comunista: 
comunismo e mudanças verdadeiras eram incompatí-
veis. F, se o comunismo era incapaz de reformar a si 
mesmo, as reformas só poderiam vir com o seu fim. J S 
O Ávidos pelas políticas mais liberais de Dubcek, jovens de 
Praga reagem à invasão militar. 
O Tanques do Pacto de Varsóvia entram em Praga para assumir 
o controle da Tchecoslováquia de Dubcek. 
1968 2 4 D E D E Z E M B R O 
A Terra vista da Lua 
Fofo do nascer da Terra é tirada oito meses antes do primeiro desembarque na Lua. 
O A Terra vista da Lua, na impressionante fotografia de William Anders. 
A missão Apollo 8 levou os astronautas Frank Borman, 
William Anders e Jim I ovell â órbita da I ua. Cola pii 
meira vez, humanos passavam do campo gravitacio-
nal da Terra para o de outro corpo celeste. Sua tarefa 
era fotografar a super!ir ie lunar. Mas, guando a espa-
çonave saiu do lado escuro da i ua, eles viram a Terra 
distante surgindo acima da vasta superfície inerte do 
satélite. Borman, o comandante da missão, e Anders 
fotografaram o momento. Borman capturou a Terra 
em monocromo no momento e m que ela surgia no 
horizonte lunar; Anders registrou-a colorida, um re-
< lemoinho azul e branco contra o céu negro alguns 
giaus mais acima. Essa foto mostrava, pela primeira 
vez, a Terra vista do espaço distante, um pequeno 
planeta parcialmente encoberto pela escuridão; um 
mundo Ir ágil, fluido e integrado, fas< inante e alraen 
le, em < onlraste c om o < in/a monolítk o e inerte ria 
Lua, descrito por Lovell como "parecido com gesso, 
ou areia de praia, acinzentado". E acrescentou: "Uma 
vasta solidão impressionante, que faz a gente se dar 
conta do que tem lá na Terra." 
C o m o a Lua mantém sempre a mesma face vo l -
tada para a Terra, esta na verdade não "nasce" nem 
"se põe": fica o tempo todo parada no mesmo p o n -
to do espaço. 
A loto do "nascer da Terra" foi apropriada pelo 
movimento ambiental então nascente, revelando-se 
uma poderosa representação da idéia, proposta por 
James Lovelock, de "Gaia" - a Terra como um organis-
mo capaz de se autocorrigir, quase inteligente. P F 
1969 2 D E M A R Ç O 
0 primeiro vôo do Concorde 
O primeiro supersônico de passageiros chega aos céus. 
O Pilotado por André Turcat, o Concorde decola do aeroporto de Tolouse para o seu primeiro vôo. 
Numa tarde gelada de março de 1969, o piloto de testes 
André Turcat decolou de Tolouse, França, levando o 
avião anglo-francês Concorde para o seu primeiro vôo 
um vôo < urto, em que o avião não atingiu velocidade 
supersônk a. 0 mais ambicioso projeto tecnológico da 
liuropa até então, o aparelho foi saudado com enorme 
entusiasmo. A pesquisa para a construção de um avião 
i omercial supersônico havia começado na década de 
1950, mas logo ficou claro que o custo seria imenso, tor-
nando imprescindível a cooperação internacional. Em 
i lovembro de 1962, os governos francês e britânico as-
inaram um tratado para dividir o projeto. O mar de 
publicidade gue precedeu o primeiro vôo teve porfina-
lidade assegurar aos contribuintes franceses e britâni-
os que seu dinheiro estava sendo bem gasto. 
0 projeto acabou estourando várias vezes seu or 
çamento o deu um enorme prejuízo. Meros 14 aviões 
foram construídos para uso comercial, e a British Airways 
só conseguiu comprar suas sete unidades (a Air Franco 
ficou com as demais) com subsídio do governo. Atrasos 
na produção fizeram com gue eles não entrassem em 
serviço antes de 1976. Mesmo assim, o Concorde, capaz 
de sobrevoar o Atlântico em menos de 3 horas e meia, 
tornou-se um ícone da indústria aeronáutica. Infeliz-
mente, sua limitada autonomia de vôo o impedia de 
cobrir as lucrativas rotas do Pacífico. Além disso, os am-
bientalistas se opuseram a que ele pousasse em vários 
aeroportos dos Estados Unidos devido à poluição so-
nora produzida. O Concorde permaneceu em serviço 
até outubro de 2003. J S 
1969 2 1 D E J U L H O 
Um gigantesco salto para a humanidade 
Neil Armstrong é o primeiro ser humano a pisar na Lua. 
• y 
T f 
O Pegada do piloto do módulo lunar Buzz Aldrin na superfície 
da Lua. 
O Buzz Aldrin caminha na superfície da lua. Foto tirada por Neil 
Armstrong. 
"Houston, aqui fala 
Base Tranqüilidade. 
O Eagle pousou." 
Ne i l A r m s t r o n g , a o pousa r c o m o m ó d u l o lunar 
Às 2h56 GMT, uma audiência de cerca de 450 milhões 
de pessoas em iodo o mundo viu, pela I V ( e m preto-
o branc o), o aslronaula des< ei vagarosamente ,i os 
cada até o solo. Pelo rádio, uma voz metálica disse: "É 
um pequeno passo paia um homem, mas um gran-
de passo para a humanidade." 
Neil Armstrong, 38 anos, piloto de testes da NASA, 
havia colocado o pé esquerdo na Lua. Era o primeiro 
homem a pisar um objeto natural fora da Terra. Arms 
trong fez fotografias e coletou amostras de poeira. 
Vinte minutos depoisfoi a vez de Buzz Aldrin, que ex-
clamou: "Lindo. Lindo. Magnífica desolação." Os dois 
praticaram saltos na baixa gravidade antes de fincar 
no solo da Lua uma bandeira americana e uma placa, 
assinai Ia polo piesidenle Nixon, i om a insi iic,áo: TV u 
homens do planeta lerra pisaram a I ua pela | irimeira 
voz o m julho d i 1 1969 d,( . V iemos e m paz por toda 
a humanidade." Pouco depois, Aunstioncj atendeu a 
uma chamada telefônica de Nixon. 
A Apollo 11 partiu do Centro Espacial Kennedy em 
16 de julho e levou três dias para alcançar a órbita lunar. 
Armstrong o Aldrin operaram o módulo lunai M g / r a l e 
O pouso n o mai da tranqüilidade enquanto o terceiro 
membro da lri| ml. tçac», Mu hael < i illít is, | n T ina i iei ia e m 
órbita no módulo de comando, o Columbia. A ultrapas-
sagem do local previsto para o pouso obrigou Arms-
trong a pousar a nave manualmente, com apenas 30 
segundos de combustível restantes. 
I )epois de 21 horas na I ua, o / ag/eai ionou os mo-
tores uma vez mais para juntar-se ao Columbia na órbita 
lunar e começar a jornada de volta. Os astronautas caí-
ram no Pacífico em 24 de julho. Armstrong passou boa 
parte do resto de sua carreira no Departamento de En -
genharia Aeroespacial da Universidade de Cincinnati, 
furtando-se a usar sua experiência singular para obter 
celebridade pessoal ou poder político. P F 
1969 15 D E A G O S T O 
0 Festival de Woodstock 
Mais de 450 mil pessoas comparecem ao mais badalado acontecimento da década. 
•A: 
O Terminado o festival, um casal do sobre a mala do carro enquanto a multidão se dirige para a saída. 
Fm 1967, o Festival Pop Internacional de Monterey 
levara os ideais hippies do "Verão do Amor" a um nl 
vel mais elevado; Woodstock consolidou essa "pilha" 
na consciência nacional. A "Nação Woodstock" rcu 
niu-se num clima de esperança e otimismo contra a 
maldição reinante dos distúrbios raciais, dos assassi-
natos políticos e da Guerra do Vietnã. 
Seus organizadores, todos na casa dos 20 anos, 
foram Artie Kornfeld, Michael Lang e John Roberts. 
Eles trouxeram do Novo México a comunidade hippie 
"Wavy Gravy Hog Farm" para prestar serviços discretos 
de segurança, dar maus conselhos sobre LSD e organi-
zar o fornecimento de barracas para atendimento mé-
dico, banheiros portáteis eágua. Além disso, construí-
lam o maior palco ao ar livre do mundo até então, que 
deveria girar, mas falhou, assim como boa parte do 
planejamento, levando os organizadores a declará-lo 
um (estivai aberto (cerca de 186 mil ingressos haviam 
sido vendidos antecipadamente). 
Para alguns artistas, o salto para o estrelato, pa -
ra outros, a validação de suas credenciais rogueiras; 
para todos, no entanto, o festival foi um triunfo sobre 
o sistema de som precário, o tempo ruim e a má pro-
gramação, e marcou um dos momentos decisivos da 
história do rode. Apesar de um quase desastre duran-
te todo o fim de semana - lama até os tornozelos, 
27km de engarrafamento, falta de água e de serviços 
sanitários e três nascimentos e mortes relatados -| 
Woodstock foi um sucesso em sua pretensão de ofe-
recer "três dias de paz e música". J J H 
1970 13 D E A B R I L 
"Houston, temos um problema." 
A Apollo 13 é obrigada a abortar sua missão lunar depois de uma explosão a bordo. 
O Os astronautas Fred Haise, John Swigert e James Lovell aguardam o resgate depois de descerem no oceano Pacífico. 
0 primeiro desembarque na Lua, e m 1969, foi segui-
do de outras missões espaciais bem-sucedidas que 
exploraram a superfície do satélite e trouxeram 
.imostras de solo e rochas. Um qrave problema ocor-
leu, porém, com a missão Apollo 13, que partiu do 
cabo Kennedy e m 11 de abril de 1970. Dois dias d e -
pois, a 322.000km da Terra, quando a nave já se apro-
ximava da Lua, houve o que o comandante chamou 
de "um estrondo". Um tanque de oxigênio explodiu 
no módulo de comando, reduzindo drasticamente o 
estoque de oxigênio, eletricidade e água. O controle 
da missão em Houston decidiu, então, abortar o d e -
sembarque na Lua. 
A nave permaneceu na órbita da Lua até iniciar a 
|i irnada de 400.000km de volta à Terra. Os três astro-
nautas a bordo usaram o módulo lunar como célula 
de sobrevivência. A reentrada na atmosfera terrestre 
ocorreu em 17 de abril e, para alívio de todos, a nave 
desceu corretamente no Pacífico a 6,5km do navio 
de resgate, o USS IwoJirna. 
As missões à Lua foram determinadas por razoes 
fundamentalmente políticas, num momento em gue 
os Estados Unidos pareciam estar sendo vergonho-
samente ultrapassados pela União Soviética na ex-
ploração do espaço. No entanto, a melhoria das rela 
ções americano-soviéticas - para não falar dos custos 
crescentes - levou os Estados Unidos a reavaliarem 
seu programa espacial. As missões lunares foram en 
cerradas depois do retorno bem-sucedido da Apollo 17, 
em 1972. RC 
Morre Jimi Hendrix 
Guitarrista deixa uma concepção absolutamente original do blues elétrico e uma 
imagem que marcou a década de 1960. 
Hendrix foi um guitarrista negro, canhoto, que criou 
ao longo da carreira um completo vocabulário de 
efeitos sonoros. Mas jamais esteve à vontade tentan-
do conciliar sua imagem e seu séquito ligados ao 
rock branco com uma relativa falta de ligação com 
seu público de origem negra. 
lames Marshall Hendrix nasceu em 27 de novem-
bro de 1942 em Seattle, Washington, e ganhou sua pri-
meira guitarra aos 12 anos de idade. Em suas primeiras 
gravações e apresentações esteve ao lado de bluesmen 
do Sul e de bandas negras urbanas de rhythm and bli u is 
c Sou/ (dentre os guais B. B. King, The Isley Hrolhors e 
Little Richard). Sobre essas raízes, Hendrix desenvolveu 
um estilo de rock nunca ouvido, hipnótico e floreado, 
para um público fundamentalmente branco. 
Depois de ouvi-lo numa boate de Nova York, Chas 
Chandler, ex-baixista do The Animais, levou-o à Ingla-
terra, onde ele se juntou ao baterista Mitch Mitchell e 
0 baixista Noel Reading para formar o trio Jimi Hendrix 
1 xpurioni o.O númi 'h >ao vivi >om que I lendrix li i< ava 
a guitarra até com os dentes e atrás da cabeça deixou 
embasbacados seus colegas guitarristas ingleses. Seu 
jeito fluido de tocar, com muita improvisação e uma 
sonoridade singular que buscava muitas vezes o feed-
backáo próprio amplifkador, transformou i ompleta-
mente a paisagem sonora do rock. 
Sua morte prematura foi causada por uma mistura 
fatal de drogas e álcool. Ele morreu a caminho do hos-
I iii.il sufocado por seu vômito. Um fim decepcionante 
para o guitarrista mais inovador da era do rock. J J H 
O Hendrix ficou insatisfeito com sua lendária apresentação no Fes-
tival da Ilha de Wight, Inglaterra, duas semanas antes de morrer. 
O Miles Davis, que também tocou no festival, comparece ao 
enterro de Hendrix com sua esposa (à esquerda) e uma amiga. 
7 D E D E Z E M B R O 
Ciclone 
Ciclone seguido de grandes enchentes provoca 
imensas perdas no Paquistão Oriental. 
Brandt faz homenagem 
A Alemanha expia seu passado nazista por 
meio de um ato simbólico de seu chanceler. 
Com ventos de 185km/h, um ciclone equivalente a 
um furacão de categoria 3 varreu o Paquistão Orien-
tal. Fortes tempestades inundaram a região densa-
mente povoada do delta do Ganges, fazendo mais 
de 300 mil vítimas. Um alerta fora transmitido pelo 
rádio, mas não falava de inundação. Estima-se que 
4 5 % dos habitantes do distrito de Tazumin tenham 
morrido na tragédia. 
Ao todo, 3,6 milhões de pessoas foram afetadas 
pelo ciclone. Boa parte da frota pesqueira que abaste-
cia o Paquistão Oriental de sua principal fonte de pro-
"Vejo, com satisfação, 
que tudo está sendo e 
será feito."P r e s i d e n t e Y a h y a K h a n , n o v e m b r o de 1970 
teínas foi destruída. Num desastre dessa escala, uma 
rápida operação de socorro era decisiva, razão pela 
i lual o governo paquistanês, sediado na seção ociden-
lal do país, foi duramente criticado. Havia apenas um 
helicóptero disponível e só muito lentamente outros 
'oram mobilizados. O governo paquisianês culpou a 
i ibstrução da (ndia pelo atraso - acusação veemente-
i nente negada pelo governo indiano - e não permitiu 
gue ajuda indiana chegasse ao país por via aérea, 
•'wiões agrícolas do Paquistão Oriental foram ofereci-
i los para tarefas de resgate, mas o governo levou dois 
dias para aceitá-los. Tanta incompetência propiciou 
um rápido e decisivo impulso aos partidos separatis-
las locais, como a Liga Awami, que acabariam condu-
zindo o Paguistão Oriental à guerra de independência 
à criação da República de Bangladesh. J S 
A genuflexão de Willi Brandt e m homenagem às víti 
mas do nazismo na capital polonesa, Varsóvia, mar 
cou uma decisiva ruptura da Alemanha com a era de 
Hitler. Embora muito controversa no país, ela deu Iní-
cio a urna reaproximação que i ulminou na reunifica-
ção da Alemanha em 1989. 
Nascido Herbert Frahm,em Lübeck.em 1913, o jo-
vem socialista Brandt era opositor do nazismo. Quando 
Hitler assumiu o poder em 1933, ele fugiu para a Norue-
ga, , n loiai ii Io a i ii I, ii I, ii lia norueguesa e um novo nomi'. 
De volta a seu país de origem depois da guerra, e tendo 
recuperado a cidadania, Brandt ascendeu rapidamente 
na hierarquia do Partido Social-Democrata. Como pre-
feito de Berlim, recebeu o presidente Kennedy durante 
sua visita à cidade dividida em 1961. 
Chanceler da Alemanha Ocidental em 1969, Brandt 
adotou uma controversa Ostpolitik (política para o Les-
te) para abrir diálogo com a Alemanha Oriental e outros 
países comunistas, processo que via como benéfico 
para a disseminação da democracia. A Ostpolitik levou à 
queda do seu governo. Acredita-se que, numa votação 
parlamentai decisiva, os votos de que Brandt precisava 
só foram obtidos mediante propinas distribuídas pela 
Stasi, o serviço secreto da Alemanha Oriental. 
O ápice da Ostpolitik foi um tratado que amenizou 
as relações entre os dois Estados alemães. Simbolica-
mente, Brandt expiou os crimes nazistas ao se ajoelhar 
ante o memorial das vítimas do levante de Varsóvia de 
1944 - uma revolta de patriotas poloneses que foi afo-
gada em sangue pelos nazistas. Alguns alemães viram 
esse ato como uma humilhação nacional. Até a re-
vista de centro-esquerda DerSpiegel indagou: "Deve-
ria Brandt ter se ajoelhado?" Mas o gesto rendeu-lhe o 
título de Homem do Ano de 1970 da revista Time e, no 
ano seguinte, o Prêmio Nobel da Paz. N J 
Bangladesh declara independência 
Secessão do Paquistão Oriental provoca resposta militar do governo central. 
O Tropas indianas são saudadas om Dacca pelo povo da recém-criada República de Bangladesh. 
Ninguém se surpreendeu quando lídeies poiíl i ios 
do Paquistão Oriental divulgaram a declaração de 
independência dessa parte do país. Desde a sua cria-
ção e m 1947, o Paguistão foi uma entidade política 
problemática, com dois territórios separados por 
mais de 1.600km de torras indianas. A parto a religião 
islâmica, os dois segmentos t inham pouca coisa em 
( o m u m . 0 Paquistão Ocidental tinha o controle polí-
tico do Estado. Embora mais populoso, o Paquistão 
Oriental recebia muito menos da metade do gasto 
governamental , era sub-representado no exército, 
enfrentava discriminação na concessão de contratos 
públicos e tinha sua liderança política marginalizada. 
A reação inepta do governo central aos efeitos do 
ciclone de 1970 foi, para muitos, a gota d'água. Nas 
eleições seguintes, o partido separatista Liga Awami 
obteve uma vitória esmagadora e, com ela, maioria 
na Assembléia Nacional. Os militares se recusaram a 
aceitar o resultado. A resposta, previsível, foi a decla-
ração d e independência. 
I oi uma doe isáo inaceitável para o governo cen-
tral, gue já começara a preparar uma brutal campanha 
de repressão. A primeira vítima foi a minoria hindu. 
A recém-formada Mukti Bahini (Força de Libertação) 
respondeu com ações guerrilheiras. A questão seria 
finalmente decidida pela índia, que, inflamada pelos 
ataques contra os hindus e pela mobilização militar no 
Paquistão Oriental, interveio em dezembro, tomando 
a capital Dacca em poucos dias. A nova República de 
Bangladesh se tornava realidade. J S 
Banho de sangue na Irlanda do Norte 
Fuzilaria das forças britânicas no "Domingo Sangrento"provoca clamor internacional. 
O Jovens apedrejam um veículo militar britânico durante os confrontos do "Domingo Sangrento". 
Na c idade norte-irlandesa de Derry (Londonderry 
liara os unionistas do Ulster), pára-quedistas do exérci-
lo britânico entraram no bairro republicano de Bogsi-
• ie e abriram fogo contra manifestantes pró-direitos 
ivis, matando 14 pessoas. O exército declarou gue 
< 'stivera sob fogo constante e ataque de granadas por 
parte do Exército Republicano Irlandês (IRA) e só abriu 
logo em autodefesa. Mas nenhum soldado ficou feri-
i Io e ativistas locais pró-direitos civis garantiram gue 
i is manifestantes estavam desarmados e gue a fuzila-
da foi assassinato não provocado. Um relatório oficial 
do chefe da Suprema Corte, lorde Widgery, em abril, 
eximindo de culpa os pára-guedistas, foi recebido 
i om grande ceticismo até mesmo na Grã-Bretanha. 
Enviadas à Irlanda do Norte em 1969 para reprimira 
violência sectária, as tropas britânicas foram de início 
bem recebidas pelos republicanos católicos. Mas as re-
lações haviam azedado. No começo de 1972, as muni 
festações pró-direitos civis apoiadas pelos católicos 
terminaram em confrontos. Em Derry, os confrontos vi -
nham diminuindo guando os pára-guedistas foram 
enviados para fazer prisões. Embora advertidos de que 
o IRA usava essas manifestações como cobertura para 
atiradores, eles lançaram mão de uma violência jamais 
explicada, com desastrosas conseqüências: a ação bri-
tânica foi condenada em todo o mundo, uma multidão 
incendiou a Embaixada Britânica em Dublin, as hostili 
dades sectárias se agravaram, o IRA recebeu grande 
impulso político e instaurou-se um quadro de impasse 
e atrocidades terroristas que persistiu por décadas. J S 
1972 21 D E F E V E R E I R O 
Nixon visita Mao 
0 presidente americano opera um 
surpreendente golpe diplomático. 
Quando o presidente Richard Nixon foi se encontrar 
com o presidente Mao Isé fung, os Estados Unidos 
sequer reconheciam diplomaticamente a República 
Popular da China. Anticomunista ferrenho, Nixon pa 
recia o menos indicado para uma missão de boa von -
tade junto à China Continental. Mas ele tinha uma 
vantagem sobre os demais presidentes do tempo da 
Guerra Fria: sabia que o mundo comunista não era o 
bloco monolítico comandado por Moscou que mui-
tos supunham. Tensões entre Moscou e Pequim ha-
viam sido expostas por choques de fronteira no rio 
1 Issiri, em março de 1969, conflito que os Estados Uni -
dos poderiam explorar. Mao, cie sua parte, via a ami/a 
de com a superpotência ocidental como uma vanta-
gem capaz de contrabalançar a hostilidade soviólic a. 
Em abril de 1971, veio o primeiro sinal de uma mudai i 
ça de atitude: Pequim convidou, de surpresa, a equipe 
de tênis de mesa dos Estados Unidos para visitar a Chi-
na. Os porta-vozes americanos não perderam tempo 
para insinuar que o presidente ficaria encantado de 
receber ele próprio um convite. 
A aproximação não foi imediata, é claro. O conse-
lheiro de segurança nacional Henry Kissinger cumpriu 
um intenso programade conversações preparatórias 
com os chineses. O grande problema era Taiwan, para 
Mao apenas uma província rebelde cujos dirigentes 
eram, no entanto, reconhecidos pelos Estados Unidos 
i orno o legítimo governo da China. Como nenhuma 
das partes podia fazer concessões nessa questão, era 
preciso encontrar um modo de evitá-la. Na verdade, es-
se processo pavimentou o caminho para o reconheci-
mento oficial da República Popular da China pelos Esta-
c los Unidos, que rendeu ao país um assento permanente 
i I O Conselho de Segurança das Nações Unidas. Moscou 
foi o grande perdedor nesse jogo diplomático. J S 
' 1 
1972 17 D E J U N H O 
Escândalo de Watergate 
Watergate foi o início da queda do 
presidente Nixon. 
A apertada vitória de Richard Nixon nas eleições pre-
sidenciais de 1968 foi recebida com consternação 
por liberais e opositores da Guerra do Vietnã. Nixon e 
seus colaboradores próximos eram paranóicos a res-
peito da oposição. Em 1971, uma unidade especial 
conhecida como "Os encanadores" foi criada para 
espionar e frustrar as maquinações dos inimigos do 
regime. Entre os espiões estavam Gordon Liddy e 
I loward I lunt, dois ex-funcionários da CIA. Em junho 
i li • 197 ', i is I st,K li is 1 Inii li is mi ' i g i i l h u i a n numa I I I M I I 
sa crise interna quando vários "encanadores" foram 
"Jogue duro. É assim que 
eles jogam e é assim que nós 
vamos jogar." 
O p r e s i d e n t e N i x o n a H. R. H a l d e m a n 
[ i l e s o s na s e d o d o ( omite Nac ional cio Partido De -
mocrata, no complexo de Watergate, Washington, 
D. C , onde haviam instalado equipamentos de escu-
ta. Liddy e I lunt estavam culto e l e s . 
Supunha se que o presidente nada soubesse a 
respeito. Em novembro, Nixon foi reeleito por ampla 
maioria. Porém as investigações do Washington Post 
começaram a gerar informações perturbadoras so-
bre as imposturas do governo. Depois de se confes-
sarem culpados de arrombamento, os "encanadores" 
de Watergate foram condenados e m janeiro de 1973, 
mas um deles escreveu ao juiz para denunciar que a 
Casa Branca estava encobrindo o seu papel no caso. 
Era cada vez mais claro o envolvimento da Casa Bran-
ca no escândalo que acabaria por derrubar o presi-
dente Nixon. RC 
1972 6 D E S E T E M B R O 
Massacre em Munique 
Celebração da paz nos Jogos Olímpicos termina em horror, com morte de 
reféns e um resgate desastroso. 
A carnificina dos Jogos Olímpicos de Munique che -
gou ao auge guando um tiroteio entre a polícia de 
Munique e terroristas palestinos matou todos os nove 
atletas israelenses que haviam sido tomados como 
reféns. Dois outros atletas já haviam sido mortos quan-
do oito membros da organização Setembro Negro 
entraram na Vila Olímpica e invadiram as residências 
israelenses. Os terroristas exigiam a libertação de mais 
de 200 palestinos mantidos e m prisões israelenses. 
Horrorizadas com a perspectiva de derramamen-
to de mais sangue judeu em solo alemão, as autori-
dades da Alemanha Ocidental estavam inicialmente 
propensas a oferecer aos seqüestradores uma rota 
de fuga. Mas decidiram, ao final, fazer uma tentativa 
de resgate. Foi uma decisão fatídica, porgue a polícia 
de Munique tinha pouca experiência com terrorismo 
e menos ainda com o resgate de reféns. A tentativa 
foi mal conduzida, com atiradores mal posicionados, 
comunicações ruins e uma equipe de policiais num 
avião que veio a abandonar sua missão. Morreram os 
reféns, um policial e cinco terroristas. Três terroristas 
foram capturados, mas: poucas semanas depois fo-
ram libertados e m troca de um avião alemão seqües-
trado por seus colegas. 
Os Jogos prosseguiram, mas a tragédia foi um 
alerta ao Ocidente sobre os perigos do terrorismo mo-
derno e as contramedidas necessárias. Foi t ambém 
o momento em gue a guestão palestina passou a 
ocupar o centro das relações entre o Ocidente e o 
inundo árabe, onde permanece até hoje. J S 
O Um membro da Organização para a Libertação da Palestina 
na sacada do dormitório dos atletas israelenses. 
O Parentes dos 11 atletas assassinados chegam a Munique para 
receber seus caixões. 
T973 2 D E J A N E I R O 1973 2 8 D E J A N E I R O 
Aborto legalizado 
Sentença da Suprema Corte no caso 
Roex Wade legaliza o aborto nos EUA. 
Na esteira do movimento pelos direitos i ivis, iam 
bém o movimento feminista ganhou bastante terre-
no nos Estados Unidos na década de 1960. Um fator 
era a crescente independência das mulheres, que já 
em grande número trabalhavam fora de casa. Outro 
era o clima mais permissivo que propiciava discus-
sões mais abertas de temas como o aborto, o estu-
pro e a homossexualidade. 
Em 1971 e 1972, a Suprema Corte sustentou a 
igualdade legal da mulher com base na Lei dos D i -
reitos Civis de 1964. No ano seguinte, a mesma cor-
te expediu uma sentença altamente controversa no 
caso Roe x Wade . No Texas, como na maioria dos 
estados, a lei proibia o aborto exceto por motivos 
médicos de salvaguarda da vida da mao. lane Roe 
era o pseudônimo de urna jovem de I )allas, solteira 
e grávida, que contestou a constitucionalidade da 
lei texana. Ela e outras reclamantes apelaram à S u -
prema Corte contra a decisão do procurador do 
distrito de Dallas, Henry Wade , de mover ações pe -
nais e m casos de aborto. I mbora reconhecendo a 
sensibilidade e o forte conteúdo emocional da 
questão, a Suprema Corte decidiu, com base na Dé-
< ima Quarta Emenda, que uma mulher não podia 
ser legalmente impedida de abortar durante os pri-
meiros seis meses de gravidez pelo mero fato de a 
sua vida não correr perigo. 
O presidente Carter afirmou mais tarde que, ape -
sar de pessoalmente contrário ao aborto, opunha-se 
a contestara decisão da Suprema Corte. Por isso, teve 
de enfrentar pesados ataques por parte daqueles 
que, nos Estados Unidos, denunciavam o aborto 
i orno uma forma de assassinato. A questão acabou 
pesando no triunfo eleitoral do republicano Ronald 
Reagan.em 1980. RC 
Cessar-fogo no Vietnã 
Estados Unidos e Vietnã do Norte 
chegam a um acordo. 
Cinco longos anos foram necessários para que frutifi-
cassem as conversações de paz entre os Estados Uni -
dos e o Vietnã do Norte visando encerrar a Guerra do 
Vietnã. Nesse período, os americanos lançaram maci-
ças campanhas de bombardeio e registraram-se pesa-
das baixas nos dois lados. Dentro dos Estados Unidos, 
protestos contra a guerra exerciam pressões adicio-
nais sobre o presidente Nixon para que se chegasse a 
um acordo. O objetivo dos Estados Unidos sempre 
(ora loliiai se, deixando porém para Iras um Vietnã 
do Sul independente e estável. Os norte-vietnamitas 
"Firmamos um acordo para 
encerrar a guerra e trazer 
uma paz honrosa." 
P r e s i d e n t e R i c h a r d N i x o n , j a n e i r o d e 1973 
queriam que os americanos partissem, deixando-os 
livres para decidir o destino de todo o Vietnã. O acor-
do final pareceu, inicialmente, favorecer a posição de 
Washington. Um cessar-fogo imediato entrou em vi -
gor. Os dois lados concordaram que o povo do Vietnã 
do Sul era detentor do direito absoluto de autodeter-
minar seu sistema de governo. A reunificação do Nor-
te e do Sul só seria tratada mediante negociações. 
O acordo não mencionava as forças norte-vietna-
mitas estacionadas no Vietnã do Sul, o que significava 
que elas podiam permanecer ali, como uma ameaça à 
sua estabilidade e segurança. Dada a certeza de que 
nada convenceria os americanos a retornarem ao Su -
deste Asiático, os norte-vietnamitas se sentiram livres 
para pôr de lado seus compromissos e reunificar o país 
pela força. Foi o que aconteceu em abril de 1975. J S 
1973 11 D E S E T E M B R O 
íolpe brutal derruba Allende 
O presidentesocialista Salvador Allende é deposto e a ditadura de Pinochet 
cai sobre o Chile. 
Marxista desde a juventude, Salvador Allende foi fun-
dador do Partido Socialista Chileno em 1933. Concor-
reu à presidência várias vezes nas décadas de 1950 e 
1960, até vencer finalmente, em 1970, como candidato 
de um grupo autodenominado Unidade Popular, 
apoiado principalmente por socialistas e comunistas. 
Allende governou o Chile em termos amistosos com 
os regimes (omunislas de ( uba e da ( hina, c ulminan-
do com uma longa visita de Fidel Castro ao Chile em 
1971. Mas os esforços de Allende para fazer do Chile um 
país socialista enfraqueceram seriamente a economia 
e suscitaram uma feroz e violenta oposição. Em agos-
to de 1973, o presidente declarou que o país se encon-
trava À beira de uma guenu i ivil. Ali'- que ponto os Es-
tados Unidos contribuíram para a queda de Allende é 
um tema controverso, mas a CIA foi, certamente, auto-
rizada a gastar milhões de dólares para derrubá-lo. 
No começo de setembro, a cidade de Santiago vi-
nha sendo sacudida por imensas manifestações rivais 
até que os líderes do exército, marinha, aeronáutica e 
guarda nacional chilenos decidiram < lai i im golpe bru-
tal. Anuni lando a "libertação da pátria do jugo marxis-
ta", eles prenderam inúmeros líderes esguerdistas, to-
maram o controle militar das fábricas e bairros operários 
e decretaram lei marcial. Aprisionado no palácio presi-
dencial, Allende ordenou que a bandeira branca fosse 
içada em sinal de rendição. Ouviram-se dois tiros. Seu 
cadáver foi encontrado ao lado de uma metralhadora. 
Toda a resistência no palácio cessou e Augusto Pino-
chet foi proclamado presidente do país. RC 
O O presidente Allende fotografado em fevereiro de 1973, sete 
meses antes de seu assassinato. 
O Salvador Allende em seu último dia como presidente, 
fotografado durante o golpe que o derrubou. 
1973 6 D E O U T U B R O 
A Guerra do Yom Kippur 
Ataque surpresa durante feriado religioso abala Israel. 
O Soldados egípcios apris lados pelas trop, lurante a Guerra do Yom Kippur. 
Forças egípcias e sírias usaram o feriado religioso ju -
deu do Yom Kippur (Dia do 1'erdão) para lançai um 
ataque surpresa contra Israel. Enquanto as forças sírias 
irrompiam nas colinas de Golan, os egípcios cruzavam 
o canal de Suez rumo ao Sinai. Nos primeiros dias, a 
situação israelense pareceu desesperadora, com pesa-
das baixas e frenéticos esforços para mobilizar suas 
reservas. O país acabaria sendo salvo pela má coorde-
nação de seus inimigos, por um maciço envio de equi-
pamentos americanos e pelo pronto fornecimento de 
informações sobre as forças inimigas por parte dos 
Estados Unidos. Os sírios foram derrotados e um 
contra-ataque pelo canal de Suez deixou cercado o 
Terceiro Exército egípcio. Em menos de três semanas 
chegou-se a um cessar-fogo favorável a Israel. 
Apesar de curta, a Guerra do Yom Kippur teve gran-
de importância. Para Israel, foi uma advertência de que 
os dias das vitórias fáceis estavam contados. Para os ára-
bes, que esperavam recuperar os territórios perdidos 
em 1967, foi um doloroso fracasso que, no entanto, ser-
viu para romper o impasse estratégico e diplomático 
em que se encontrava a região desde 1967. A guerra 
ameaçara causar um grande confronto entre Moscou e 
Washington, levando-os a trabalhar contra o risco de 
novas hostilidades na região. A Organização dos Países 
Exportadores de Petróleo (OPEP) impôs pesadas san-
ções ao Ocidente, convencendo os europeus da neces-
sidade da paz. Até a linha-dura israelense reconheceu 
que um acordo, pelo menos com o Egito, seu mais for-
midável inimigo, teria de ser negociado. J S 
1973 17 D E O U T U B R O 
0 embargo do petróleo 
OPEP faz o Ocidente pagar caro pelo apoio a Israel. 
O Carros fazem fila num posto de gasolina do Brooklyn, Nova York, durante o embargo do petróleo. 
O mundo árabe reagiu à vitória de Israel sobre seus vizi-
nhos na Guerra do Yom Kippur. A Organização dos Paí-
ses Exportadores de Petróleo (OPEP), cartel internacio-
nal dominado pelos países do Oriente Médio, usou pela 
primeira vez os seus recursos petrolíferos como arma, 
anunciando um embargo total do abastecimento de 
petróleo bruto aos Estados Unidos. A extensão do e m -
bargo aos aliados ocidentais impôs um imediato au-
mento de 70% no preço da gasolina, levando-os à 
recessão econômica. Na realidade, a ação da OPEP não 
era mera demonstração de solidariedade ao Egito e à 
Síria, mas o resultado do profundo ressentimento con-
tra a exploração ocidental. O crescimento econômico 
do Ocidente se baseara em energia barata. Pagava-se 
uma ninharia pelo gue era praticamente o único produ-
to de exportação dos países árabes. A OPEP foi criada 
para seus membros poderem resistir em bloco à pres-
são ocidental pela manutenção dos baixos preços 
Foram tremendas as conseqüências a curto prazo 
da decisão da OPEP. O Ocidente foi assolado pela infla-
ção e pela estagnação econômica, os preços da gasoli 
na quadruplicaram e o desemprego cresceu. Os expor-
tadores ganharam uma imensa riqueza, boa parte da 
qual permaneceu nas mãos da elite política ou foi gasta 
em armamentos. Mas os Estados Unidos, que não dei-
xaram de apoiar Israel, buscaram fontes alternativas. Em 
um mês, o Congresso americano aprovou a construção 
do oleoduto Trans-Alasca, capaz de transportar dois mi-
lhões de barris de petróleo por dia. Em uma década, a 
OPEP teve o seu poder bastante reduzido. J S 
1974 2 5 D E A B R I L 
A Revolução dos Cravos 
Um golpe militar de esquerda encerra a era do governo autoritário em Portugal. 
IV 
O Três dias depois do golpe, tropas do Mf-A em l isboa Ira/em c ravos vermelhos na lapela como símbolo da revolução pac ilu a em Portugal. 
Pouco depois da meia-noite de 25 de abril de 1974, a 
rádio estatal portuguesa tocou "Grândola, Vila More-
n.i", uma canção do compositor populai /o< a Afon-
so. Os ouvintes devem ter se surpreendido, porque o 
governo direitista do primeiro-ministro Marcelo Cae-
I . I I I O proscrevera Afonso como suposto comunista. 
Mas para os jovens oficiais das forças armadas portu-
guesas tratava-se de um momento muito esperado: 
"i iiãndola, Vila Morena" era a senha para o início de 
um golpe revolucionário. 
No transcurso da noite, o Mov imento das Forças 
Armadas (MFA) ocupou pontos-chave em todo o 
país. O povo português acordou com o anúncio do 
q o l p e e um apelo à calma. Desobedecendo as ins-
truções do MFA, multidões se reuniram no centro de 
I Isboa. Muitos ostentavam cravos vermelhos, trazi-
dos do mercado de flores, que acabaram nos canos 
dos fuzis dos soldados. Os cravos vieram a simbolizar 
a revolução, e m que praticamente não houve v iolên-
cia. Caetano fugiu para o Brasil e um respeitado ofi-
cial, general Antônio Spínola, foi guindado ao poder. 
Portugal passara mais de 40 anos estagnado sob 
o Estado Novo instituído e presidido por Antônio 
Salazar, v ivendo de um império africano gue lhe ren-
dia custosas guerras contra movimentos de inde-
pendência em Angola, Moçambigue e Guiné-Bissau. 
A transição para o novo regime não foi fácil. Spínola 
cedo se desentendeu com o esguerdista MFA, mas, 
depois de um período turbulento, o país emergiu 
e m 1976 como uma democracia liberal. R G 
1974 9 D E A G O S T O 
Nixon é forçado a renunciar 
O presidente americano Richard Nixon renuncia em face do impeachment iminente. 
O O presidente Richard Nixon apresenta sua 
O comitê do Senado instituído para investigar o caso 
Watergate havia descoberto que o presidente Nixon 
possuía gravações comprometedoras que comprova-
vam seu envolvimento pessoal. Embora Nixon tenha se 
recusado a entregar as fitas e tentado impedir que 
funcionários fossem interrogados, J ohn Dean, um de 
seus conselheiros,disse o que sabia e implicou dois dos 
mais próximos colaboradores do presidente, John D. 
Ehrlichmanne 11. R. Haldeman. Eles tentaram negar seu 
envolvimento e o do presidente, mas ficou claro que 
Nixon estava mentindo. Em julho de 1974, o Comitê J u -
diciário da Câmara dos Deputados aprovou uma reco-
mendação de impeachment com base em três artigos. 
O jogo terminou com a renúncia do presidente. 
Seu sucessor, o vice-presidente Gerald Ford, conce -
deu-lhe o perdão total. Mas as investigações do Con 
gresso,do FBI e da imprensa implicaram funcionários 
e agências do governo e m uma série de atividades 
ilegais - de cambalachos eleitorais a fraudes e escu-
tas telefônicas ilegais - envolvendo o uso do FBI, da 
CIA e das autoridades fiscais contra os "inimigos" do 
regime. Atividades ilegais passadas foram também 
trazidas à luz. Descobriu-se que a CIA havia conspira-
do para o assassinato de políticos estrangeiros, entra 
os quais Fidel Castro, e mant ido relações estreitas 
com a Máfia. Ficou claro que havia muito os altos es-
calões do governo dos Estados Unidos comandavam 
operações clandestinas ilegais. A crescente hostilida-
de pública a tais atividades contribuiu para a derrota de 
Ford para J immy Carter na eleição de 1976. RC 
197 Í 975 4 D E A B R I L 
É fundada a Microsoft 
O começo de uma imensa fortuna e da maior acumulação de poder da história. 
Hlsai 
O Paul Allen e Bill Gates, em 1981, depois de assinarem contrato com a IHM. 
ludo começou e m 1975, quando um estudante de 
I larvard, de 19 anos, e seu colega de escola criaram o 
interpretador BASIC para um computadoi recém-
lançado conhecido como Altair 8800. Para se con -
centrar e m sua produção, os dois se mudaram para 
Albuquerque, Novo México, e fundaram uma empre -
sa, a Micro-soft. A marca (sem o hífen) foi registrada 
e m novembro de 1976. 
Mas o grande salto se deu em 1980, quando a gi -
gante dos computadores IBM procurou a Microsoft 
para que produzisse um interpretador para seu novo 
i omputador pessoal (PC). A Microsoft acabou contra-
tada para fornecer seu sistema operacional, conheci -
do como MS-DOS. A popularidade do IBM PC e de 
seus clones fizeram da Microsoft uma potência e m 
software, posição confirmada pelo lançamento da pri-
meira versão do Windows, em 1985. Muitos de seus 
produtos eram vendidos "embutidos" nos PCs. Em 
pouco tempo , a Mii rosoft i ontrolava uma enorme 
fatia do mercado mundial de sistemas operacionais 
de computação e softwares para computadores pes-
soais e comerciais. Apesar das queixas contra seu do -
mínio quase absoluto do mercado de software, além 
dos defeitos de seus produtos, a Microsoft construiu 
uma onipresença mundial sem paralelo. 
Seus fundadores foram Bill Gates e Paul Allen. Em 
meados dos anos 1980, Allen se afastou por problemas 
de saúde, mas continuou acionista majoritário. Gates se 
tornou o homem mais rico do mundo e Allen, o segun-
do mais rico dos Estados Unidos, atrás de Gates. P F 
1975 17 D E A B R I L 
Pol Pot toma o poder no Camboja 
O Khmer Vermelho toma Phnom Penh e começa a se vingar de seus adversários. 
O Guerrilheiros do Khmer Vermelho circulam de jipe pelas ruas de Phnom Penh após assumirem o controle do Camboja. 
O fim da ajuda americana subseqüente ao cessar-fo-
go no Vietnã, e m 1973, e o bombardeio maciço do 
país pelas forças americanas que tentavam cortar as 
rotas de abastecimento vietcongues no Vietnã do 
Sul haviam desestabilizado seriamente o Camboja. 
Quando a guerrilha comunista do Khmer Vermelho 
iniciou sua ofensiva contra a capital, Phnom Penh, 
e m janeiro d e 1975, a resistência sucumbiu rapida-
mente. Em fevereiro, o Khmer tomou o controle das 
margens do rio Mekong e cortou o abastecimento 
da capital. Sem alimentos nem munições, a resistên-
cia governamental entrou em colapso. 
Esperava-se, de início, gue o Khmer Vermelho 
governasse c o m moderação . Mas a esperança d u -
rou pouco. Seu líder, Pol Pot, anunc iou o advento 
do A n o Zero, gue significava uma completa rupiu 
ra com o passado. 0 povo cambo jano criaria a per-
feita soc iedade revolucionária, que para Pol Pot 
era uma soc iedade camponesa . As c idades foram 
esvaziadas de seus habitantes, escravizados e man 
tidos à mingua e m imensas fazendas coletivas. (> 
dinheiro, a educação, a propr iedade privada e a 
religião foram banidos. Em sua curta vida, o regi 
m e d e Pol Pot assassinou entre um e três milhões 
d e seus compatriotas. Mas não foi por seus crimes 
gue o regime foi derrubado, e sim por sua hostili-
d ade e m relação aos vietnamitas. Uma invasão, 
e m dezembro de 1978, obr igou o Khmer Vermelho 
a se refugiar nas montanhas, o n d e iniciou uma 
nova at iv idade guerrilheira. J S 
1975 3 0 D E A B R I 1975 l e D E O U T U B R O 
Retirada americana Tira-teima em Manila 
Os americanos evacuam Saigon, dei-
xando o Vietnã do Sul à sua própria sorte. 
Mohamed Ali entra para a história do 
boxe profissional. 
A maior operação de evacuação por helicópteros da 
História foi a retirada dos americanos de sua E m -
baixada em Saigon enquanto as forças norte-vietna-
mitas convergiam sobre a cidade. Milhares de cidadãos 
sul-vietnamitas que haviam apoiado a presença ame -
ricana no Vietnã do Sul foram também evacuados, 
mas milhares d e outros foram deixados para trás. 
A bem da verdade, a hora do Vietnã do Sul já havia 
soado. Desde o cessar-fogo de 1973, que permitiu a 
permanência das tropas do Vietnã do Norte estacio-
nadas no Sul, somente a ameaça de um retorno dos 
"Temos poucas opções... 
Não podemos abandonar 
nossos amigos." 
P r e s i d e n t e G e r a l d F o r d , abr i l d e 1975 
Estados Unidos poderia impedir o seu avanço final 
para reunificar o país. Quando, em 1974, a ajuda ame -
ricana ao Vietnã do Sul foi substancialmente reduzida, 
ficou claro que não existia tal compromisso. A ofensiva 
do Norte foi lançada e m dezembro de 1974, deixando 
as forças do Sul em posição desesperadora. 
Não obstante os apelos do presidente Gerald Ford, 
estava claro que o Congresso não aprovaria o retorno 
das forças americanas. Essa declarada deserção foi em si 
mi 'sma suficiente para destruir o moral dos sul-vietna-
1 1 M i as. l-mbora as forças do Vietnã do Norte não tenham 
leito nenhum esforço para impedir a evacuação ameri-
i ana, as imagens das turbas sul-vietnamitas tentando 
desesperadamente entrar na Embaixada dos Estados 
Unidos para conseguir lugar nos últimos vôos tornou-
si 1 o símbolo da humilhação da superpotência. J S 
Uma das mais famosas lutas de boxe de todos os 
tempos foi a revanche entre os ex-campeões m u n -
diais J o e Frazier e M o h a m e d Ali e m outubro de 
1975, quando este contava 33 anos. Nas duas oca -
siões anteriores, e m 1971 e 1974, cada um havia v e n -
cido uma luta, 
Ali era reconhecido como um boxeador excep-
cional desde 1960, quando conquistou a medalha de 
ouro olímpica ainda como Cassius Clay. Mas seu jeito 
convencido e seu estilo direto levaram-no a ser con -
denado por segmentos sociais brancos e ainda o u -
tros quando se converteu ao Islamismo e abandonou 
seu "nome de escravo". Para culminar, Ali se recusou 
a servir no Exército dos Estados Unidos, o que lhe 
causou a perda do cinturão e m 196/. 
A rivalidade entre os dois lutadores começou 
ainda antes da primeira lula, quando Ali represi srtava 
os que se opunham à ( iiieua do Vietnã, e I lu/ier a 
ordem estabelecida, pró-guerra. Ali chegou para o 
tira-teima um tanto dospropuiado. Pra/ier, irritado 
com as ofensas verbais de Ali (que o chamou de 
"campeão dos brancos" e sugeriu que ele não passa-
va de um gorila), havia treinado com determinação. 
A luta começou com um massacre deAli, mas 
Frazier resistiu e seguiu atacando enquanto Ali co-
meçava a cansar. Mas depois do déc imo assalto, com 
os dois lutadores exaustos, Ali conseguiu reafirmar 
sua autoridade. Frazier se recusou obstinadamente a 
jogar a toalha, mas perdeu por nocaute técnico no 
fim do déc imo guarto assalto, guando já não conse-
guia ver praticamente nada. O próprio Ali desabou, 
sem forças, depois de sua histórica vitória. P F 
O Frazier recebe um golpe na cabeça durante o pesado ataque 
de Ali, que acabou pondo f imà luta. 
1975 2 2 D E N O V E M B R O 
A democracia chega à Espanha 
Juan Carlos I é coroado rei da Espanha com o fim da ditadura. 
O Madrllenhos lêem sobre a morte de Franco. Em seu leito de mor-
1 1 ' , o ditador pediu ao povo espanhol que apoiasse o novo rei. 
"[Restabelecer a democracia 
e tornar-me] rei de todos os 
espanhóis, sem exceção." 
J u a n Carlos, pr imeiro discurso ao Par lamento, 1975 
A Espanha, que desde o fim da guerra vivia numa fenda 
do tempo graças à longevidade de seu ditador, Francis-
( i ) I r.iiuo, enfrenlava sérios problemas quando luan 
Carlos subiu ao trono, em 1975. A centralizada econo-
mia espanhola, em situação muito vulnerável devido à 
recessão econômica global, recebeu um golpe adicio-
nal quando a Grã-Bretanha, principal parceiro comercial 
do país, juntou-se à União Européia em 1973. Uma infla-
ção galopante atingiu duramente a sua classe média 
normalmente impassível e a insatisfação emergiu com 
estridência entre estudantes universitários e operários : 
industriais. Os trabalhadores tentavam criar novos sindi-
catos à margem da estrutura sindical controlada pelo 
Estado e suas reivindicações eram abertamente apoia-
das por urna parle imporlanle do < leio, que seguia os 
ensinamentos do papa João XXIII. Aumentava, também, 
a oposição à presença das bases americanas na Espa-
nha (era do interesse dos Estados Unidos sustentar o 
status quo fascista contra o comunismo), ao passo que a 
ETA, facção militante do movimento separatista basco, 
intensificava sua campanha de violência: supõe-se que 
tenha sido a responsável pelo assassinato do vice-presi-
dente do l iani o, < aiiino I3l.ii it o, em !<)/',. A derrubada 
li i tei |imi 1 lasi ísla amii |o de 1'otlui |al, em I >74,11 intri 
buiu para abalar ainda mais a saúde de Franco. 0 primei-
ro-ministro Carlos Árias Navarro, um arquiconservador, 
agravou a situação com sua hesitação ante as reformas. 
A morte de Franco em 20 de novembro de 1975 foi, 
em certo sentido, um mero prelúdio. Seis anos antes ele 
havia indicado Juan Carlos de Bourbon para sucedê-lo. 
Juan Carlos, que era considerado defensor das políticas 
de Franco e havia jurado fidelidade ao partido fascista 
(El Movimiento Nacional), também aspirava às reformas. 
Mas a mudança não aconteceria da noite para o dia, 
apesar da abertura do debate político e da vida partidá-
ria pela primeira vez desde a década de 1930. J J H 
1976 1 - D E A B R I L 
É fundada a Apple 
A Apple desafia o domínio mundial da Microsoft. 
A Apple Computer Co. foi fundada em abril de 1976 
por Stovo Wozniak, um entusiasta da eletrônica que 
trabalhava para a Hewlett-Packard, no Vale do Silício, 
perto de São Francisco, e Steve Jobs, na época cria-
dor de v ideogames. Wozniak havia projetado um 
computador para seu uso pessoal sobre uma placa 
de circuito integrado; Jobs o convenceu a produzir, 
em pau oi ia, um mo< li I o 11 m i r n ial. 
O nome foi escolhido para figurar no início da lista 
das firmas de computação, à frente da Atari, uma e m -
presa muito maior. Seu primeiro produto, fabricado no 
quarto e na garagem de Jobs, foi o Apple I, um dos pri-
meiros computadores pessoais a chegar ao mercado. 
Tendo como inovações uma tela d e T V e um teclado, o 
Apple I i uslava 066,66 (lólaies. Uma versão atualizada, 
o Apple II, saiu no ano seguinte, com gráficos de alta 
resolução que permitiam a exibição de figuras. 
Em janeiro de 1984 eles lançaram a primeira ver-
são do Apple Macintosh, um computador com um 
monitor num único console. Ele trouxe o conceito de 
"interface gráfica do usuário" e o mouse, numa época 
em que os PCs usavam o sistema operacional menos 
amigável MS-DOS. 0 Apple Macintosh entrou no mer-
cado como concorrente direto e mais sofisticado do 
PC, mais barato; desse momento em diante, a Apple 
criou e manteve uma sólida reputação de produtos 
bem projetados - embora destinados a um mercado 
mais restrito -, empregando a integração vertical de 
hardware e software que os tornou especialmente 
atraentes para as atividades da área de criação. 
Em abril de 1981, uma amnésia temporária d e -
corrente de um acidente aéreo obrigou Wozniak a 
renunciar à posição de diretor-chefe de desenvolvi-
mento de produtos da Apple. Em 1986, ele deixou de 
trabalhar em tempo integral na empresa, retornando 
ao posto de diretor-executivo e m 1997. P F 
O Steve Jobs mostra um jogo de xadrez no monitor de um 
computador Apple I I , em 1979. 
"...tudo o que uma apple 
representa dentro de casa, 
de saudável e de pessoal." 
S t e v e W o z n i a k 
1976 16 D E J U N H O 
Protesto estudantil em Soweto 
Polícia sul-africana reprime a tiros manifestação estudantil contra a obrigatoriedade 
do idioma africâner nas escolas. 
0 que pretendia ser uma pacífica manifestação estu-
dantil no distrito de Soweto acabou em violência, com 
23 mortos, O motivo do protesto foi o decreto do ensi-
no médio em africâner, de 1974. Alarmado com o declí-
nio do uso do africâner - idioma dos colonos brancos 
de origem holandesa -, o governo sul-africano decidiu 
que metade das matérias deveriam ter aulas minis-
tradas no idioma oficial, em todas as escolas secun-
dárias do país. Mas o africâner não apenas tinha pouco 
uso prático como era amplamente visto como o idioma 
do opressor. Uma greve dos alunos da Orlando West 
Júnior S< hool, om abril, dou ink io a uma onda do pro-
testos. O comício de junho, secretamente planejado, 
pegou de surpresa a polícia. O uso de bombas de gás 
lacrimogêneo foi respondido com pedradas, ao que a 
polícia reagiu atirando a esmo. 
Era de esperar o surgimento de novas formas de 
r oniosiac.áo do aparthckl. Vitórias do movimentos 
nacionalistas como a Frelimo, em Moçambique, em 
1975, mostraram que os africanos podiam derrotar os 
governantes coloniais. Por toda a África do Sul, um 
novo espírito de desafio e autoconfiança se difundia 
entre os jovens. A questão do idioma, que represen-
tava as frustrações e os ressentimentos da juventude 
africana, mobilizou politicamente toda uma geração. 
As forças de segurança da África do Sul nunca mais 
conseguiram impor a paz e a estabilidade anteriores. 
A luta pela libertação havia começado para valer. Em 
1976, mais de 700 pessoas foram mortas em distúr-
bios civis. A África do Sul se via diante da condenação 
mundial, da intensificação dos boicotes e de urna 
crescente instabilidade econômica. J S 
O Com pedras na mão, estudantes de Soweto saem às ruas para 
se juntará revolta. 
1976 4 D E J U L H O 9 7 7 31 D E J A N E I R O 
Vitória em Entebbe Viva a modernidade! 
Comandos israelenses mostram ao 
mundo como lidar com seqüestradores. 
0 Centro Pompidou abre as portas 
em Paris. 
Numa espetacular demonstração de técnica militar, 
comandos israelenses acabaram < om um seqüestro 
de judeus no aeroporto da capital de Uganda. 0 
drama começou uma semana antes, guando guatro 
militantes, dois dos guais da Frente Popular para a 
Libertação da Palestina (FPLP) e dois da Fração do 
Exército Vermelho da Alemanha, sogüosiraiam um 
avião da Air France num vôo entre Israel e Paris. 
Ao chegar a Entebbe, foram recebidos pelo ditador 
de Uganda, IdiAmin, gue fez um discurso em apoio 
à FPLP. Os seqüestradores libertaram a maioria dos 
"Essa operação com certeza 
ficará registrada nos anais 
da história militar..." 
Y i tzhak R a b i n , pr imei ro-min is t ro de Israel , 1976 
passageiros, mas mantiveram os cidadãos israelen-
ses e todos os que t inham nomes judeus. Eles exi-
giam a libertação de 53 militantes aprisionados e m 
cinco países diferentes e ameaçavam matar os re-
féns. Os militares israelenses rapidamente planeja-
ram sua resposta. 
Três aviões pousaram no aeroporto com cerca 
de 200 soldados, que atacaram imediatamente o 
edifício principal, Todos os militantes e cerca de 20 
soldados ugandenses foram mortos. Os israelenses 
sofreram uma única baixa, o comandante da opera-
ção. Depois de destruir 17 caças no solo para impe -
dir a perseguição, eles voaram de volta a Israel via 
Nairóbi, onde alguns dos feridos foram hospitaliza-
dos. O sucesso do atague se transformaria num m o -
tivo de orgulho para os israelenses. J S 
O longamente aguardado o também muito critíi adi > 
Centro Pompidou, localizado na área do Beaubouig 
de Paris, foi uma iniciativa de Georges Pompidou, 
presidente da França de 1969a 1974. Ele quis criar um 
espaço moderno onde artes visuais, música, teatro, 
c inema e literatura pudessem ser reunidos e desfruta 
dos por todos. Seus principais arquitetos, Renzo Piano 
e Richard e Susan Rogers, eram desconhecidos, mas o 
projeto foi definitivamente inovador. 
Para maximizar o espaço no edifício, de sete pavi-
mentes, os cabos elétricos, encanamentos e demais 
instalações foram acondicionados em dutos de cores 
vivas, externos ao edifício. As escadas rolantes, igual-
mente externas e instaladas dentro de tubos de plásti-
co < olor ido, propor c ionam magníficas vistas de Paris 
Seus críticos descreveram-no como um edifício "vira 
do ao avesso", ao passo que seus admiradores se der-
ramaram em elogios à visão e audácia do projeto. 
O Centro abriga uma imensa biblioteca pública, 
gue ocupa três pavimentes, um museu de arte modi i 
na com 50 mil obras, um centro de música e um cenin > 
de conferências, além de restaurantes e áreas de rei roa 
ção infantil. A praça externa se converteu em um pc >| >i i 
lar local de encontro dos parisienses e um ponto prefe-
rencial de artistas de rua. Construído para gue pessc ias 
de todas as idades e origens pudessem experimentar c > 
contato com a cultu ra moderna, o Centro deve ser c < >i i 
siderado um grande sucesso: seus 25 mil visitantes dlá 
rios fazem dele a mais popular atração turística de Paris 
Tão popular gue na década de 1990 precisou ser ie ha 
do durante mais de dois anos para reformas gue pie 
viam, dentre outras coisas, a eliminação de escritor ii >s 
para ampliação da área de exposição. Ainda que muitos 
continuem a detestá-lo, o Centro Pompidou se tornou 
um símbolo internacional do mundo moderno. J S 
1977 2 5 D E M A I O 
Guerra nas estrelas 
Primeiro filme da saga épica de George 
Lucas é lançado nos Estados Unidos. 
A morte de Elvis 
O "Rei do Rock" morre em casa, de 
ataque cardíaco. 
George Lucas, um dos "pirralhos" de Holywood (a nas-
(ente geração de ambiciosos cineastas que também 
incluía Steven Spielbcrg o Frant is Ford Coppola), escre-
veu e dirigiu essa aventura espacial que veio a se tomar 
uma das mais bem-sucedidas e influentes idéias cine-
matográficas de todos os tempos. Foi também o pri 
meiro dos seis filmes da série, embora o quarto na se-
qüência narrativa. Os filmes luiam lançados em duas 
liilogias, a primeira das quais i ompieendia f i i ie i ranu\ 
estrelas, rebatizado Guerra nas estrelas: Uma nova espe-
rança (1977), Guerra nas estrelas: O Império contra-ataca 
(1980) e Guerra nas estrelas: O retorno de Jedi (1983). A se-
gunda trilogia foi lançada entre 1999 e 2005. 
Inspirando-se em uma variada coleção de histó-
rias mitológicas e de ação saídas de gibis e filmes, Lu-
cas concebeu Guerra nas estrelas e m 1974, mas teve 
dificuldade de om onlrar om 1 lollywood um estúdio 
disposto a investir no projeto - até a Twentieth Cen-
tury Fox decidir bancá-lo. Guerra nas estrelas é, essen-
cialmente, uma série de aventura, com histórias pseu-
domitológicas traveslidas de psicologia pop. O conflito 
épico entre o bem (ene amado pelo personagem piin 
cipal Luke Skywalker) e o mal (encarnado por Darth 
Vader, que é na verdade o pai de Luke) mobiliza uma 
misteriosa força onipresente e o culto dos cavaleiros 
ledi, uma entidade cósmica a serviço do bem. 
A expressão Guerra nas estrelas passou da cultura 
popular à política internacional em março de 1983, 
quando o presidente americano Ronald Reagan anun 
ciou o plano futurista de um sistema de defesa baseado 
no espaço, chamado Iniciativa de Defesa Estratégica, 
r ontra a ameaça dos mísseis soviéticos. Exigindo muita 
loi nologia jamais testada, o plano foi batizado Guerra 
nas estrelas por aqueles que acreditavam que ele só 
I roderia existir no reino da ficção científica. P F 
O "Rei do Rock" - ou simplesmente "O Rei" - teve uma 
morte aviltante no banheiro do sua suíte, inloxicado 
com (ornida ordinária, anali jósic os, pílulas pata dormir 
e sedativos. A causa mortis foi arritmia cardíaca. Havia 
anos Elvis sofria de vários problemas de intestino e fí-
gado. Ele tinha 42 anos e vivia em Graceland, sua pro-
priedade e m Memphis, Tennessee. 
No dia seguinte, 50 mil fãs acorreram à sua casa, 
de cujo vestíbulo se podia ver o corpo dentro de um 
caixão de cobre. Nesse mesmo dia, 20 milhões de 
cópias de seus discos foram vendidas. Seu corpo foi 
"A morte de Elvis Presley 
priva nosso país de uma 
parte de si mesmo." 
P r e s i d e n t e J i m m y Car te r , 1977 
enterrado ao lado do de sua mãe, mas seu túmulo foi 
violado no mês seguinte - o que levou à decisão de 
transferi-lo para Graceland. Alguns fãs diziam que ele 
não estava morto, mas escondido, razão pela qual 
durante anos se relataram aparições de Elvis e m to -
dos os Estados Unidos. 
I Ivis gravou e se apresentou cont inuamente até 
pouco antes de morrer. Símbolo acabado da rebelião 
adolescente e da liberdade sexual na década de 
1950, o garoto do Mississippi trouxe a música negra à 
atenção de milhões de adolescentes brancos e se 
tornou um ícone da América conservadora ao fazer 
campanha contra a influência dos Beatles, que consi-
derava perigosa. Diz-se que uma apresentação sua 
na IV, em 1973, teve uma audiência global maior que 
a do pouso na Lua. P F 
1977 12 D E S E T E M B R O 
Steve Biko morre sob custódia da polícia 
A polícia sul-africana nega ter matado o ativista onf;'-apartheid Steve Biko, sob 
custódia em Pretória. 
A morte de Steve Biko, ativista anti-apartheid inter-
nac iona lmente respeitado, (oi a vigésima e m 18 
meses em < ir< unslâncias similares. Biko iniciara-se 
na vida política quando era estudante de medicina na 
Universidade d e Natal, da qual a cabou expulso. 
E loqüente orador e escritor, Biko pregava a resistên-
cia não-violenta ao apartheid, mas nem assim esca-
pou ao raio de ação dos serviços de segurança. Sua 
proscrição, e m março de 1973, implicava restrição 
de movimentos, proibição de publk ar, de íalar para 
mais de uma pessoa ao mesmo t empo e até de ser 
citado. Mas sua influência, e m vez de diminuir, aju-
dou a inspirar os protestos que levaram à revolta de 
Sowe lo , em 19/0. 
Em agosto de 1977, Biko foi preso num bloqueio 
rodoviário e acusado de crimes de terrorismo. Manti 
veram-no nu e acorrentado numa cela, e m Port Eliza-
beth, até o dia e m que foi levado às pressas para tra-
tamento médico em Pretória, onde morreu. A polícia 
disse que sua morte fora causada por uma greve de 
fome, mas se descobriu que ele tinha diversos feri-mentos na cabeça, compatíveis com uma violenta 
surra. A polir ia alegou que os ferimentos tinham sido 
auto-infligidos. O procurador-geral da África do Sul 
considerou que, à falta de testemunhas, não havia 
base para acusar nenhum policial por sua morte - o 
que não livrou o país da condenação internacional. O 
mais importante, porém, é que as tentativas sul-afri-
canas de intimidar a oposição fracassaram. A princi-
pal mensagem de Biko, a afirmação do orgulho afri-
cano, serviu para inspirar a resistência ao apartheid 
até muito depois de sua morte. J S 
O Protesto na entrada do Palácio da Justiça, em Pretória, onde 
se realizava o inquérito judicial sobre a morte de Biko. 
1977 2 5 D E O U T U B R O 
Erradicada a varíola 
O último caso de ocorrência natural de 
varíola é isolado e curado. 
A varíola, um dos maiores flagelos da humanidade, foi a 
primeira doença a sei olt< ialmente onadic nda do mim 
do - ao menos como ocorrência natural -, fato por mui-
tos considerado como a maior conquista isolada da 
medicina em um século do extraordinários avanços. 
Vinte anos antes, a varíola era endêmica em cerca 
de 25 países, com 10 milhões de casos anuais registra-
dos em todo o mundo, metade deles na índia. Em 
1958, a Organização Mundial da Saúde (OMS) convo-
cou uma i , impanhu mundial < ontta a doença. Mas o 
projeto só começou para valer em 1967, com vigilância 
para localizar rapidamente novos surtos, confinamen-
to ou isolamento dos portadores e vacinação genera-
lizada. Houve rápidos progressos na América Latina e 
África Ocidental e Central, mas o Sul da Ásia e especial-
mente a (ndia se mostraram inicialmente relutantes, 
em parte devido aos custos envolvidos. Os obstáculos 
foram superados no começo da década de 1970 e já 
em 1975 mi ti Ias autor i< Lides se suiptoeiu leiam ao vei 
que a índia adquirilu sluius de "vai ir >la /eir >". I m oulll 
bro de 1977 registrou-se o último caso de varíola. A 
vítima foi Ali Maow Maalin, cozinheiro de um hospital 
somali (África), de 23 anos. Quase 55 mil pessoas foram 
vacinadas nas duas semanas seguintes ao diagnóstico; 
o surto foi contido e Maalin, curado. 
A declaração da OMS dando como erradicada a 
varíola em todo o mundo foi feita em maio de 1980.0 
programa custou pouco mais de 300 milhões de dóla-
res, mas gerou imensa economia em custos médicos. 
Ironicamente, vários países mantiveram peguenos es-
togues do vírus, em parte para produzir vacinas em 
( aso de recorrência da doença, em parte para fabricar 
armas biológicas. O temor de gue esses estogues vies-
sem a cair nas mãos de organizações terroristas prolife-
rou-se na primeira década do século XXI. P F 
1978 17 D E S E T E M B R O 
Os acordos de Camp David 
Conversações de paz apontam solução 
para conflito no Oriente Médio. 
Ao assumir a presidência dos Estados Unidos em janei-
ro d e 19//, limmy ( ai lei <leu máxima prioridade a paz 
no Oriente Médio. Mas o grande salto foi dado < om a 
visita do presidente egípcio Anwar Sadat a Israel, em 
novembro de 1977, gue implicou o reconhecimento 
diplomático do Estado judeu e abriu caminho para 
n e g o r iaç , bilaterais. As i o n v i r . a i , .subseqüentes 
aconteceram em Camp David, Estados Unidos, em se-
tembro de 1978.0 maior obstáculo ao avanço das ne-
g o i i . i ç ü o s e i . i . i M i i l e d o s t o i i i l ( ' ) M o s p a l e s t i n o s d a ( isjor-
dânia e da faixa de Gaza. O primeiro-ministro israelense 
"...a região pode se tornar 
um modelo de coexistência e 
cooperação entre Nações." 
A c o r d o s d e C a m p D a v i d , s e t e m b r o d e 1978 
Mei I,IÍ l iem Hegin eslava dis| xisto a devolver ao I gilo a 
península do Sinai em troca de um tratado de paz, mas 
recusava-se a sair dos territórios ocupados. Ao final, Sa-
dat decidiu colocar os interesses nacionais egípcios à 
frente dos interesses árabes mais amplos. Dois do -
cumentos foram então produzidos: o primeiro estabe-
ler ia um marco para a paz entre Egito e Israel, pelo qual 
o Sinai seria devolvido ao I glto em 1979 em troca de 
um tintado de paz. O segundo estabelecia um marco 
mais geral para o Oriente Médio, com alguma forma de 
autonomia palestina a ser criada no futuro. 
Os israelenses ganharam muito - sem o Egito, ne-
nhuma coalizão hostil poderia ameaçar sua sobrevivên-
cia -, mas não o suficiente para garantir a paz em outras 
fronteiras. Acusado de trair a causa árabe, Sadat foi morto 
por muçulmanos descontentes em outubro de 1981. J S 
1978 18 D E N O V E M B R O 
Suicídio em massa em Jonestown 
0 suicídio em massa dos seguidores deJim Jones choca os americanos. 
No maior suicídio coletivo da história moderna, 913 
cidadãos americanos, seguidores de J im Jones, aten-
taram contra a própria vida em lonestown, Guiana 
Inglesa. Os mortos, entre eles 276 crianças, eram a 
quase totalidade da Igreja ( rislá do lemplo do l'ovo. 
A seita estava e m declínio até ser transferida para São 
Francisco, e m 1972, por iniciativa de J im Jones. Ela 
então mesclou-se racialmente e ampliou significati-
vamente suas obras de caridade. Mas a nova proemi-
nência veio acompanhada de escândalos que resul-
taram e m uma investigação por sonegação de 
impostos. Em resposta, Jones alugou um pedaço de 
floresta na Guiana Inglesa e construiu Jonestown. 
Iiubalho eslaíanle o alimentai,,K) inadequada 
causaram descontentamento no seio do culto. Dizia-
se que Jones aplicava uma combinação de drogas, 
intimidação e castigos brutais para submeter os insa-
tisfeitos; circulavam rumores de assassinatos de d e -
sertores. Foi então que Leo Ryan, um parlamentar 
americano, deu iníi Io a uma investigação que levou 
a Jonestown um grupo de representantes da mídia e 
do governo, além de familiares. 
Os relatos dos acontecimentos subseqüentes são 
confusos. Aparentemente, vários membros do culto 
quiseram fugir com Ryan, mas o grupo foi atacado, re-
sultando na morte do deputado e de outras quatro 
pessoas. Foi então que os seguidores do culto entra-
ram documente em fila para receber, um a um, o seu 
coquetel de Valium com cianureto. Alguns consegui-
ram fugir; outros foram mortos na tentativa. J S 
O Larry Layton, adepto do Templo do Povo, é levado pela 
polícia após ser preso pelo tiroteio na pista de pouso local. 
O A morte em circunstâncias bizarras: Jonestown foi o maior 
suicídio em massa da história moderna. 
1979 12 D E F E V E R E I R O 
Khomeini retorna ao Irã 
O aiatolá Khomeini retorna do exílio para liderar a revolução iraniana. 
O O aiatolá Ruhollah Khomeini retorna a Teerã depois de 15 anos de exílio. 
Uma delirante recepção aguardava o aiatolá Ruhollah 
Khomeini em seu retorno a Teerã. Líder, havia muito, da 
i iposição islâmica ao xá Mohamed Reza Pahlevi, ele de -
nunciou a "revolução branca" do xá que, em 1963, trou-
xe a reforma agrária, o voto feminino o a possibilidade 
de não-islâmicos ocuparem cargos governamentais. 
I xilado em novembro de 1964, Khomeini fixou residên-
cia em Paris, de onde promoveu um incessante bom-
bardeio de panfletos e sermões contra o xá. Apesar de 
pioibidos no Irã, eles circulavam amplamente e eram 
t ada vez mais populares. No fim da década de 1970, o 
<a, c onfrontado com uma oposição política generaliza-
i Ia, se apoiava guase que exclusivamente na repressão 
para sobreviver. Até que, em janeiro de 1979, nem re-
pressão foi capaz de deter a onda de protestos de mas-
sa e o caos crescente, o que levou o xá a anunciar que 
ei ,ua família estavam saindo do Irá om íérias. I ra, na 
realidade, a sua abdicação. 
Os rumos da revolução iraniana não estavam cla-
ros, A oposição islâmica fora, certamente, decisiva, mas 
havia também liberais, socialistase até comunistas que 
desejavam a democracia no marco de um Estado secu-
lar ( ) vazio deixado pela fuga do xá fora <x upudo por 
um governo provisório dirigido pelo secularista Shapur 
Bakhtiar. Determinado, porém, a ser o único árbitro do 
destino do Irã, Khomeini indicou seu seguidor Mehdi 
Bazargan para o posto de primeiro-ministro e declarou 
que quem o desafiasse estaria desafiando o próprio Alá. 
Bakhtiar foi afastado e o Irã firmemente alinhado à pers-
pectiva de tornar-se um Estado teocrático islâmico. J S 
Acidente nuclear em Three Mile Island 
Acontece o mais alarmante acidente nuclear da história dos Estados Unidos. 
O Em meio a informações desencontradas sobre uma possível evacuação, algumas mulheres e crianças foram alojadas em um ginásio. 
Embora não se tenha descoberto as causas exatas, o 
fato é que às 4h da manhã as bombas de água prin-
cipais do reator da Unidade 2 da usina nuclear de 
Three Mile Island, nas cercanias de Middletown, Pen-
silvânia, pararam de funcionar. As bombas de emer-
gência l ambem lalhaiam e o abastec imento de água 
para transferência de calor da água circulante no n ú -
cleo do reator foi c ortado, 0 núcleo parou de operar 
automaticamente, mas uma sucessão de falhas de 
eguipamentos e erros humanos causou uma perda 
substancial da água que o resfriava. O núcleo come -
çou, então, a fundir e a liberar gases radioativos. 
Por incrível que pareça, pouca radioatividade esca-
pou para a atmosfera e o acidente não causou efeitos 
nocivos imediatos. Nenhum dos trabalhadores da usina 
nem dos 25 mil residentes num raio de 8km do local 
sofreu qualquer dano e os planos de evacuação foram 
suspensos por serem desnecessários. Mesmo assim, 11 
acidente foi assustador. Sete outros reatores similares 
foram logo fechados, temporariamente. O presidente 
Carter e a Câmara de Deputados da Pensilvânia ordena-
ram investigações. As licenças para novas instalações 
nucleares foram suspensas e o incidente fez pairar, riu 
rante anos, uma sombra sobre a indústria nuclear ame-
ricana. O reator da Unidade 1 de Three Mile Island, que 
não havia sido afetado, só foi religado em 1985, e a ten 
tativa de reparar o da Unidade 2 abandonada em 1990 
porque ainda era muito inseguro entrar nela. 
O acidente aumentou o temor da energia nuclear 
nos Estados Unidos como em toda parte. RC 
1979 3 D E M A I O 
Thatcher é eleita primeira-ministra 
Margaret Thatcher se torna a primeira mulher a ocupar o cargo de primeiro-ministro 
do Reino Unido. 
Ao superar seus colegas na luta pela chefia do Parti-
do ( onservador, e m 1975, Margaret Thatcher se tor-
nou • ! primeira mulher a liderar um partido na políti-
ca britânica. Quatro anos depois, aos 53 anos, ela 
comandou a vitória conservadora que a tornou a pri-
meira mulher a ocupar o cargo de primeiro-ministro 
na história da Europa. 
Apoiada polo marido Dennis lhatrher, Margaret 
investiu desde i edo na < urieha polílk a, a< abando eleita 
paia o I'.r11.1r r n - I i l . i em 1959. A| 'sai • Ia asi o u v i . » i |ue a 
levou, na década de 1970, ao cargo de ministra da Edu-
cação e Ciência no governo de Edward Heath, não se 
diria gue ali estava uma futura estadista. 
O s adversados seguintes de Ih. i l íhei foram O 
primeiro ministro t ullaghan o o Pail ido trabalhista. 
Inteligentemente, ela c anali/ou o desespero da clas-
so n i o d i a i -r11 l.n i • i Io | , i I I | i s i li is sim In a l i is, i Ia infla-
ção e do desemprego crescentes e do visível declínio 
da Grã-Bretanha como superpotência. Sua grande 
< ampanha i o m um ou/c/oor que mosliava uma lon-
ga ítla cio desempregados lac turnos sob a frase "0 
Trabalhismo Não Está Dando Certo" revelou-se parti-
cularmente eficaz. Ela prometeu t ambém reduzir o 
imposto de renda e o gasto público, facilitar a c o m -
pra da casa própria e conter o poder dos sindicatos. 
Apesar da brilhante campanha, seus índices de 
aprovação não se sustentariam. Especulou-se, então, 
que ela não teria vencido a eleição devido à sua popu-
laridade, mas apenas ocupado o vazio deixado pela 
imensa impopularidade do Partido Trabalhista. J J H 
O A "Dama de Ferro" é toda sorrisos ao chegar ao novo lar. 
O Em Chelsea, Londres, Thatcher comemora a primeira de suas 
três vitórias em eleições gerais. 
L979 4 D E N O V E M B R O 
Embaixada atacada 
1979 2 D E J U N H O 
0 Papa em sua pátria 
João Paulo II retorna em triunfo à 
Polônia. 
Primeiro não-italiano a ocupar o posto desde 1522, o 
Papa João Paulo II ajoelhou-se e beijou o chão ao de -
sembarcar na base aérea de Okecie, em sua terra na-
tal. Extasiados, dois milhões de poloneses se puse-
ram a < aminho de Varsóvia, onde o Papa celebrou 
uma missa campal para 2,25 milhões de fiéis. 
Nascido em Wadowice , nas cercanias de Cracó-
vía, om 1920, Karol Josef Wojtyla foi na juventude um 
talentoso desportista com aspirações a ator e drama-
turgo. A O Í upac.áo alemã, em I9Í9, Iransformou sua 
vida. Ele encontrou sua vocação e começou seus es-
"Foi um verdadeiro carnaval, 
uma campanha, uma cruzada, 
um casamento polonês." 
Rev i s t a Time, j u n h o d e 1979 
tudos teológicos, secretamente, em 1942. Ordenado 
padre em 1946, tornou-se cardeal já em 196/. 
A eleição de um Papa polonês nesse momento 
histórico foi crucial. Cada vez mais impacientes com 
a estagnação econômica e política do regime comu -
nista, os povos da Europa Oriental alimentavam for 
tes desejos de mudança, razão pela qual as boas-
vindas do governo polonês ao Papa foram carregadas 
de ambigüidade: ele não queria dar a esse duro críti-
co do regime uma recepção de herói, mas não a pô -
de recusar. Embora assegurasse que sua visita era 
puramente espiritual, o Papa sabia de seu significado 
político. A popularidade e a confiança da Igreja Cató-
lica receberam poderoso impulso. A visita foi consi-
derada uma fonte de inspiração para a criação do sin-
dicato Solidariedade em agosto de 1980. J S 
Seguidores do aiatolá Khomeini invadem a 
Embaixada dos Estados Unidos em Teerã. 
Uma turba de estudantes iranianos, seguidores do aia-
tolá Khomeini, invadiu a Embaixada dos Estados Uni 
dos em Teerã e tomou como reféns 66 diplomatas e 
funcionários. O estopim da crise foi a permissão do 
governo limmy Carter ao xá deposto Mohamed Reza 
Pahlevi, fiel aliado de Washington, para ir aos Estadi >s 
Unidos se tratar de câncer. Essa decisão incendiou a 
opinião pública iraniana, que exigia a deportação do 
xá para julgamento e execução. 
Public armente apoiados pelo aiatolá logo gue fi 
cou claro que não haveria retaliação, os estudantes 
exigiam a repatriação do xá e de sua riqueza, a admis-
são dos abusos passados dos Estados Unidos no Irã, 
um pedido formal de desculpas e o compromisso dt • 
não mais repeti-los. A maioria dos reféns afro-americ a 
nos e do sexo feminino foi libertada, mas outros 52 
foram mantidos por 444 dias. 
lo i uma terrível humilhação para Carter, que 
pouco podia fazer além de congelar os bens irania-
nos nos Estados Unidos. Em abril de 1980, as Forças 
Especiais americanas desencadearam a Operação 
Garras de Águia, uma mal concebida tentativa de res 
gate que terminou em confusão e tragédia, com a 
colisão entre um helicóptero e um avião e oito milita 
res americanos mortos. 
Khomeini usou a crise para se livrar dos adver 
sários e implantar uma teocracia islâmica no Irã. 
Para Carter, foi o golpe final e m sua credibilidade, 
que o levou, poucos meses depois, a uma acacha-
pante derrota nas eleições presidenciais. Para obter 
a l ibertação dos reféns, os americanos foram obri -
gados a jurar não-interferência nos assuntos inter-
nos do Irã e a descongelar os bens do país em solo 
americano. Os reféns foram libertados no último dia 
de Cartercomo presidente. J S 
Intervenção soviética no Afeganistão 
A invasão soviética do Afeganistão dá início a uma perigosa aventura. 
O Mujahedin sobem num helicóptero soviético abandonado. 
A invasão soviética cio Alogunisláo aluiu um novo 
campo de batalha na Guerra Fria. O envolvimento da 
URSS começou e m 1978, quando o Partido Popular 
Democrático do Afeganistão (PPDA), pró-soviético, 
tomou o poder com um golpe de Estado. Determina-
do, porém, a liquidar o feudalismo, o PPDA passou por 
cama das sensibilidades e tradições religiosas dos c am-
poneses afegãos. A reação islâmica e m pouco tempo 
levou o país ao caos. Tudo indicava que o PPDA não 
conseguiria sobreviver, o que constituía um sério pro-
blema para Moscou: a revolução iraniana de 1979 ad -
vertira claramente para os perigos do fundamentalis-
mo islâmico, que, se não fosse enfrentado, poderia se 
espalhar para as repúblicas soviéticas de maioria islâ-
mica como o Uzbequistão e o Turcomenistão. Apesar 
cios risc os envolvidos na inleivonoio, um regime pró-
soviético no Afeganistão poderia servir de amortece-
dor contra o Islã. A URSS decidiu invadir, instalar Babrak 
Karmal no poder e retirar-se. 
As operações militares foram bem-sucedidas, mas 
os cálculos políticos de Moscou estavam errados. Logo 
surgiram os primeiros grupos militantes de resistência, 
com os Estados Unidos ávidos por armá-los. Voluntá-
rios de todo o mundo islâmico (entre os quais Osama 
bin Laden) foram lutar essa Jihad (Guerra Santa). As for-
ças soviéticas se perderam numa guerra de guerrilhas. 
O fracasso de suas forças armadas desacreditou o regi-
me de Moscou e teve papel decisivo na derrocada da 
União Soviética. A guerra se espalhou, contribuindo 
para unificar o fundamentalismo islâmico. J S 
1980 14 D E A G O S T O 
A greve dos estaleiros de Gdansk 
Solidariedade dos trabalhadores poloneses lança um sensacional desafio ao comunismo. 
O Lech Walesa fala aos grevistas no portão dos estaleiros Lenin, em Gdansk, Polôni. 
Ressentimentos havia muito latentes na Polônia v ie-
ram à tona na greve ilegal dos estaleiros Lenin, em 
Gdansk. Os trabalhadores exigiam aumento de salá-
rios e melhoria dos benefícios. O eletricista Lech Wa le -
sa, líder do movimento, convenceu seus companhei -
ros a ocupar os estaleiros e, com a ajuda da Igreja 
Católica, transformou a greve em uma campanha na-
cional com .i fundação de um novo sindicato inde-
pendente, o Solidarnosc (Solidariedade). Desenca-
deou-se, a partir daí, uma greve geral em que, ao lado 
das reivindicações econômicas, se expressaram tam-
bém exigências de liberdade política. Com a Polônia 
em ebulição, o governo decidiu negociar. 
A mera existência do Solidariedade constituía, po -
rém, uma ameaça ao regime. 0 Partido Comunista, que 
se declarava defensor da classe trabalhadora, era então 
repudiado por ela - o que para Moscou era inaceitável. 
Os líderes soviéticos deixaram claro que, se as autorida 
des polonesas não restaurassem a ordem, eles o fariam. 
Temendo uma invasão, o comandante do exército, ge-
neral Wojciech Jaruzelski, tornou-se primeiro-ministro 
em dezembro e impôs a lei marcial. 0 Solidariedade foi 
proscrito, milhares de pessoas foram presas e outras 
mortas em chogues com o aparato de segurança. Mas 
um movimento clandestino sobreviveu - o Solidarieda 
de. Em 1989, o governo Jaruzelski, com fraco apoio po-
pular e incapaz de implementar as reformas necessá-
rias, começou a negociar com o Solidariedade, sem 
saber gue com isso estava dando início ao processo de 
desmantelamento do regime comunista na Polônia. J S 
John Lennon é assassinado 
fx-beatle, notável ativista pela paz mundial, é morto a tiros em Nova York. 
O Milhares de fãs e ativistas pela paz se reúnem em Nova York em vigília por John Lennon. 
J o h n Lennon foi assassinado por um fã quando 
lutava para libertar-se de a lgumas das frustrações 
de sua parceria com Paul McCartney, ded icando-
se a c ampanhas pela paz, à terapia d o grito primai 
e à vida domést ica . Me tade da mais bem-sucedida 
I larceria da história da música popular, que com os 
Beatles t ransformou a música pop e m um f e n ô m e -
no g lobal , J o h n Lennon se pôs a destruir suas c o n -
quistas fo rmando uma nova parceria c o m a per-
formática nipo-americana Yoko Ono. 0 Clube do 
Bolinha não suportou essa intrusa exigente. Q u a n -
do da separação oficial dos Beatles, e m 1970, L e n -
non e O n o já haviam se casado e formado uma 
nova soc iedade criativa e domést ica sediada e m 
Nova York. 
Às 22h50 de 8 de dezembro de 1980, Lennon re-
tornava ao Edifício Dakota, e m Nova York, quando foi 
al M >i< lai Io poi nu i Ia, Mal k I i, ivh 1 1 hapman, a i |uem 
dera um autógrafo poucas horas antes. Chapman o 
chamou pelo nome e deu-lhe quatro tiros nas costas 
- Lennon já chegou morto ao hospital. 
Chapman, que disse ter ouvido vozes ordenan-
do-lhe matar J ohn Lennon, aguardou a chegada da 
polícia lendo O apanhador no campo de centeio, de J . 
D. Salinger. Mais tarde ele declarou que se identifica-
va muito com o personagem principal do livro, Hol-
den Caulfield. Admitindo a própria culpa, foi conde -
nado à prisão perpétua. Três semanas depois da 
morte de Lennon, "(Just Like) Starting Over" chegou 
ao topo das paradas de sucessos. P F 
1981 25 D E J A N E I R O 
0 julgamento da Camarilha dos Quatro 
Julgamento de quatro seguidores de Mao marca o fim da Revolução Cultural na China. 
O Wang Hongwen admitiu seus crimes no tribunal, ao passo que Jiang Qing sustentou sua inocência. 
A Camarilha dos Quatro, levada a julgamento em 
1981 por "atividades antipartido", era formada pela 
viúva de Mao, Jiang Qing, e seus colaboradores Wang 
Hongwen, Zhang < hunquiao e Yao Wenyuan. Eles 
ganharam proeminência como fiéis seguidores de 
Mao durante a Revolução Cultural chinesa iniciada 
em 1966, ficando estreitamente vinculados à violên-
cia e ao caos por ela gerados. Entre os hierarcas do 
partido por eles perseguidos estavam Deng Xiao-
ping, expurgado, e seu filho Deng Pufang, torturado. 
Deng, que se revelou um homem vingativo, retor-
nou à hierarquia em 1973 quando a saúde de Mao 
começou a declinar. Na confusa luta interna que se 
seguiu, Deng saiu vitorioso. Os quatro foram presos 
em outubro de 1976, depois da morte de Mao, sob a 
acusação de tentar tomar o poder. Em seu ju lgamen-
to, Jiang adotou uma atitude notavelmente desafia-
dora e, assim como Zhang, negou todas as acusa-
ções. W a n g e Yao confessaram e se arrependeram. 
Mas fez pouca diferença. Foram todos condenados, i 
longas penas de prisão, embora libertados poucos 
anos mais tarde, com seu poder destruído. 
O julgamento marcou a rejeição da revolução pei 
manente na China. Reconhecendo que o país precisav, i 
de estabilidade e prosperidade, Deng introduziu, a pai 
tir de 1978, a "economia socialista de mercado" - o que 
significava a renúncia de fato à ideologia de Mao, em 
bora sem admiti-lo, mas com o poder sob firme contro 
le do Partido Comunista Chinês. A China passou a ser. i 
economia que mais cresce no mundo. J S 
1981 12 D E A G O S T O 1982 12 D E A B R I L 
0 primeiro PC 
IBM lança o computador pessoal 5150, 
que se torna sucesso imediato. 
Invasão das Malvinas 
Invasão da possessão britânica se revela 
um golpe desesperado da Argentina. 
<) computador foi, sem dúvida, uma das mais impor-
tantes inovações do século XX. Pouco a pouco, ele 
foi deixando de ser uma máquina enorme e de difícil 
manejo para se converter em uma pequena máqui -
na de uso pessoal, igualmente útil no escritório e em 
casa. Um passo decisivo nesse sentido foi a criação, 
e m 1981, do novo computador pessoal da Internatio-nal Business Machines (IBM). Embora o 5150 não fos-
se o primeiro de seu gênero, a sólida reputação de 
gualidade da IBM garantiu as vendas, dando um po 
deroso impulso ao uso generalizado desse tipo de 
produto: já não se tratava de um modismo, mas de 
uma utilidade que se fazia necessária para uma quan -
tidade cada vez maior de pessoas. 
A IBM tinha a sua própria história nesse c a m -
po. Em 1967 ela criou o primeiro disco flexível e 
e m 1975 trouxe à luz o computador 5100, prova-
ve lmente o primeiro PC. Por volta de 1980, a e m -
presa co locou no mercado o P( Datamasle i m m 
editor de texto. Assim c o m o o 5100, ele era caro 
(cerca de 15 mil dólares) e v endeu pouco . O 5150 
íoi diferente: era razoavelmente barato (3 mil dóla-
ics) e t inha mais memór ia que seus concorrentes, 
cujos fabricantes logo passaram a copiá-lo, p rodu -
zindo o gue de início era referido c o m o clones da 
IBM, mais tarde PCs. 
O primeiro 5150, cr iado pelo engenhe i ro Don 
I stridge, operava c o m uma CPU Intel 8088, um 
Único drive de disco flexível e 64 KB de RAM. A d e -
cisão de fornecê-lo já com o sistema operac ional 
MS-DOS está na raiz do domín io do mercado de 
software pela Microsoft. RC 
Para a junta militar chefiada pelo general Leopoldo 
Galtieri, a invasão das ilhas Malvinas parecia uma rara 
oportunidade de desviar a atenção dos graves pro-
blemas econômicos e da crescente insatisfação exis-
tentes no país. A soberania das Malvinas, possessão 
no Atlântico Sul gue os britânicos conhecem como 
ilhas I alkland, era disputada < Icsde o sei ulo XIX. Em 
1965 foram abertas negociações entre os dois países, 
mas os britânicos não mostraram nenhum interesse 
em chegar a uma solução. Em 1981, porém, o que 
restava da presença naval britânica nas ilhas foi em-
bota e uma nova lei do P,II lamento indicava a supres-
são da cidadania britânica plena para seus 1.800 ha-
bitantes. Galtiere acreditava que a reconquista das 
Malvinas pela Argentina renderia à junta imensa po -
pularidade e acabaria sendo aceita pelos britânicos 
como um fato militar consumado. Mas foi um tre-
mendo erro de cálculo. A primeira-ministra britânica 
Maiguiel I hal< hei enfrentava, na époc a, sóiios pro-
blemas de popularidade devido a suas reformas eco -
nômicas desagregadoras. I Ia também cta i andidata 
a recuperar sua popularidade por meio de uma bem-
sucedida operação militar. Instigada por uma mari-
nha ávida por provar seu valor, a primeira-ministra 
enviou uma força naval para reconguistar as ilhas. 
Os 74 dias de conflito terminaram em uma derrota 
decisiva da Argentina, com mais de 900 mortos e 2 mil 
feridos. Cerca de 11 mil soldados argentinos se rende-
ram. A junta argentina não sobreviveu à humilhação e 
a democracia foi restabelecida em 1983. J S 
O Explosão no navio HMS Antelope em 24 de maio, durante a 
tentativa de desarmar uma bomba a bordo. 
Massacre em Beirute 
Israel nega cumplicidade na matança de palestinos em um campo de refugiados. 
O Cadáveres de inocentes impiedosamente assassinados apodrecem no calor causticante. 
0 horror da guerra civil libanesa iniciada e m 1975 che -
gou a níveis insuspeitados quando o exército israelen-
se, que interviera e m junho de 1982 para expulsar a 
Organização para a Libertação da Palestina (OLP), cer-
1 ou o campo de refugiados de Chatila e o bairro vizi-
nho de Sabra enquanto milicianos da Falange Cristã 
perpetravam uma orgia de atrocidades e genocídio 
que durou três dias. Cerca de três mil e quinhentos ci -
vis indefesos foram massacrados. Os falangistas acre-
ditavam que os palestinos haviam assassinado seu lí-
der, Bashir Gemayel, cuja morte fora, na verdade, 
maquinada na Síria. O ministro da Defesa de Israel, 
Ariel Sharon, disse que a OLP se retirara de Beirute dei -
tam Io para trás guerrilheiros disfarçados. Os militares 
israelenses negaram ter tido ciência de que um mas-
sacre estava e m curso, mas os sobreviventes os acusa-
ram de cumplicidade ativa. Especulou-se que Sharon 
queria expulsar do Líbano não somente a OLP, mas 
toda a população de refugiados palestinos. 
Qualquer que seja a verdade, houve um clamor in-
ternacional contra os massacres, especialmente na Eu-
ropa. Em Tel Aviv, 300 mil israelenses saíram às ruas para 
manifestar seu horror. Em dezembro, a Assembléia 
Geral da ONU condenou o massacre como um ato de 
genocídio. Em fevereiro de 1983, a Comissão Kahan, 
constituída em Israel, eximiu de culpa os soldados israe-
lenses, mas considerou Sharon responsável por negli-
gência. Ele foi obrigado a renunciar, mas retornou à 
política israelense como primeiro-ministro em 2001. Em 
2002, uma tentativa de processá-lo fracassou. J S 
1983 2 3 D E M A R Ç O 
A "Guerra nas Estrelas" de Reagan 
Os Estados Unidos se lançam numa sofisticada política de defesa. 
O A proposta de Reagan de lançar mísseis do espaço obrigou Gorbachev a abrir negociações para acabar com a Guerra Fria. 
A Iniciativa de defesa estratégica de Ronald Reagan, 
popularmente conhecida como Guerra nas Estrelas, 
propunha o uso de mísseis baseados no espaço. Ex-
ator de cinema de I lollywood, mas também eficiente 
ex-governador da Califórnia, Reagan vencera a eleição 
presidencial de 1980 concorrendo pelo Partido Repu-
blicano numa época em que os Estados Unidos pare-
ciam, a muitos eleitores, preocupantemente fracos. 
Uma sofisticada política de defesa era vital. 
O novo governo acreditava que algo parecido 
com uma guerra não declarada estava em curso con-
tra o que Reagan chamava de "império do mal": a 
União Soviética e seus aliados. Estava, pois, determina-
do a dar assistência às forças anticomunistas de todo o 
mundo e a catapultar o crescimento do poderio mili-
tar americano. O orçamento do Departamento de De-
fesa, que fora de 136 bilhões de dólares em 1980, subiu 
para 244 bilhões cinco anos mais tarde. Uma nova < i> • 
ração de mísseis nucleares imensamente poderosos 
foi criada e alguns deles instalados na Europa. Apesar 
de sua duvidosa viabilidade técnica, o novo sistema 
Guerra nas Estrelas alarmou a liderança soviética. O 
mundo parecia se aproximar de uma guerra nuclear. 
Mas a ameaça de Reagan funcionou: os soviéticos ri! 
cuaram. Percebendo que a URSS não mais poderia ar-
car com as imensas despesas da corrida armamentista, 
o novo premier Mikhail Gorbachev abriu negociações 
bem-sucedidas com Reagan. A Guerra Fria terminava, 
ao mesmo tempo que o sistema soviético cambalea 
va rumo ao colapso. RC 
1983 2 2 D E O U T U B R O 1983 2 3 D E O U T U B R O 
Protestos na Europa Atentados suicidas 
Em toda a Europa, manifestações conde-
nam a instalação de mísseis de cruzeiro. 
Milhões de europeus saíram às ruas para protestar 
contra a decisão de se instalarem mísseis americanos 
Pershing 2 no continente. Na Alemanha, cerca de 1,2 
milhão de pessoas formaram uma corrente humana 
de 102km de comprimento, de Stuttgart a Neu-Ulm. 
I m Londres, a marcha reuniu um milhão, segundo os 
manifestantes. Houve protestos também em Roma, 
Viena, Estocolmo, Paris, Bruxelas, Madri e Dublin. 
A oposição aos mísseis começou e m 1982 quan-
do a decisão de se instalarem 96 deles em Greenham 
Common, na Inglaterra, levou à criação do lado de fora 
d a base de um a< ampamonlo permanente pu la pa/, 
só para mulheres e crianças - para irritação do gover-
no britânico. 0 problema com os Pershing 2 era serem 
peguenos (10m de comprimento), portanto facilmen-
te transportáveis e m bases móveis de lançamento, e 
baratos (cerca de 52 milhões de dólares sem a ogiva 
nuclear) - um pesadelo para os protocolos de contro-
le de armamentos devido à dificuldade de se verificar 
• •ii número e localização (previa-se que572 deles fi-
(ariam estacionados na Europa). Além disso, o presi-
dente americano Ronald Reagan e sua fiel parceira 
britânica Margaret Thatcher eram vistos pelos ativistas 
da paz como linhas-duras da Guerra Fria, "falcões" 
nada confiáveis como guardiães dessas armas. 
As manifestações na Europa mostraram a intensi-
d a d e do sentimento contra a escalada da Guerra Fria. 
Mas os governos não se abalaram. Os Pershing 2 foram 
instalados e somente removidos em março de 1991, 
i o r n o resultado do Tratado de Forças Nucleares de Al-
i anos Intermediário firmado entre os Estados Unidos e 
a União Soviética, negociado, ironicamente, por Rea-
gan. O acampamento pela paz de Greenham Common 
permaneceu, porém, até o ano 2000, como inspiração 
P II a ( is ativistas pela paz de todo o mundo. J S 
Ataques de homens-bomba libaneses em 
Beirute solapam os esforços ocidentais. 
Dois homens-bomba libaneses xiitas perpetraram uma 
matança de soldados americanos e franceses, m e m -
bros de uma força multinacional enviada ao Líbano 
para ajudar a acabar com uma ruinosa guerra civil e dar 
estabilidade ao país. Para o grupo de militantes xiitas 
que mais tarde viria a ser o Hezbollah, as tropas estran-
geiras eram imperialistas, defensoras do inimigo mortal 
Israel. Um suicida jogou um caminhão contra o saguão 
do edifício principal da base de fuzileiros navais ameri-
canos instalada no Aeroporto Internacional de Beirute, 
onde a maioria deles dormia, e detonou uma poderosa 
"Uma força incapaz de prote-
ger a si mesma. Era um de-
sastre prestes a acontecer." 
C a s p a r W e i n b e r g e r , s e t e m b r o d e 2001 
bomba. O edifício inteiro desabou, matando 242 milita-
res. Foi a maior perda sofrida pelos marines em um único 
dia desde a Segunda Guerra Mundial. Simultaneamente, 
uma bomba similar era detonada no porão da garagem 
da base francesa, matando 58 pára-quedistas. 
O secretário americano de Defesa, Caspar Weinber-
ger, declarou que os Estados Unidos não se deixariam 
intimidar por terroristas e que sua política para o Oriente 
Médio não mudaria. O mesmo sentimento foi expresso 
pelo presidente francês François Mitterrand. Mas os fuzi-
leiros americanos foram retirados em fevereiro de 1984, 
seguidos do restante da força multinacional em abril. 
Uma resposta dura dos americanos teria provocado ain-
da mais hostilidade contra os Estados Unidos no mundo 
árabe. Em 2003, um tribunal americano decidiu que o 
governo iraniano era responsável pelas mortes. J S 
1984 6 D E J U N H O 
Ataque ao Templo Dourado 
Um violento ataque contra um santuário no estado do Punjab ameaça gerar uma 
perigosa reação dos siques na índia e em outros lugares. 
Em busca de militantes separatistas siques da organi-
zação Damdami Taksal e seu líder, Jarnail Singh Bhin-
dranwale, o exército indiano invadiu o Templo Doura-
do de Amritsar, o mais importante santuário da religião 
sique no estado indiano do Punjab. Bhindranwale de -
fendia a criação de um Estado independente e sua 
popularidade e influência vinham crescendo entre os 
siques. Mas o governo indiano não estava disposto a 
aceitar tal ameaça à unidade do Estado. A Operação 
Estrela Azul, nome com que se batizou a ação, foi a u -
torizada pela primeira-ministra Indira Gandhi depois 
de vários dias de assédio contra o templo, com corte de 
suprimentos para os militantes e os milhares de pere-
grinos siques que ficaram presos do lado de dentro. O 
assalto do exército foi seguido de uma luta feroz que 
resultou e m muitas mortes e considerável destruição. 
Como os jornalistas haviam sido retirados da área, 
detalhes do episódio viraram objeto de uma acalorada 
controvérsia. O exército reconheceu a morte de 83 sol-
dados e 492 pessoas, Bhindranwale entre elas, no re-
cinto do templo. Fontes siques garantem, porém, que a 
maioria dos que estavam dentro foi massacrada e que 
partes do complexo, incluindo a insubstituível bibliote-
ca de referência sique e o Akal Takhat (sede do tradicio-
nal poder secular sique adjacente ao Templo Dourado) 
foram deliberadamente destruídas - o que enfureceu os 
siques de todas as partes. Muitos indianos moderados 
ficaram horrorizados com a ação, que, como se viu, po-
deria exacerbar o extremismo. Seguiu-se um ciclo de 
terrorismo e repressão que durou anos, mas que a pró-
pria Indira não viveu para ver, pois foi assassinada por 
dois siques membros de sua guarda pessoal. J S 
O A revolta sique atinge o paroxismo depois do ataque ao 
Templo Dourado. 
Jr / í M 
W 
1984 31 D E O U T U B R O 
0 assassinato de Indira Gandhi 
Primeira-ministra da índia paga o preço do sacrilégio contra santuário sique. 
"íil-sSEP' 
O O funeral de Indira Gandhi foi solene e digno, apesar da onda de violência gerada pelo seu assassinato. 
A primeira-ministra da índia, Indira Gandhi, foi assassi-
nada por dois membros de sua própria guarda pessoal, 
Beant Singh e Satwant Singh, pertencentes à comuni-
dade sique. 0 crime foi motivado pela revolta contra a 
autorização dada por Indira, em junho daquele ano, 
para que o exército invadisse o Templo Dourado de 
Amritsar, o mais importante santuário da religião sigue. 
Um golpe arriscado, mas de cuja necessidade Gandhi 
estava convencida, dado que os separatistas do Dam-
d.imi Taksal, incluindo o seu líder Jarnail Singh Bhin-
' liiinwale, que vinham defendendo a criação de uma 
II 'pública teocrática sique, haviam se refugiado no tem-
plo. Tal desafio à unidade nacional indiana não poderia 
ser tolerado. Como era de esperar, a operação resultou 
om muitas mortes e destruição. No entanto, para boa 
paito da comunidade sique o exército indiano havia 
massacrado milhares de pessoas e destruído delibera-
damente partes do complexo. O enfrentamento com o 
separatismo sique alimentou um ciclo de terrorismo e 
represálias. Mas Indira Gandhi encarava com sereno fa-
talismo quaisquer ameaças a ela: quando indagada 
a respeito de seus guarda-costas siques, ela apontava 
para Beant Singh, que a servia havia 10 anos, dizendo 
que ele era merecedor de sua total confiança. 
Indira passeava em seu jardim quando os dois a 
mataram com 31 tiros. Beant Singh foi baleado e mor-
reu ali mesmo. Satwant Singh foi ferido e mais tarde 
executado. Quando se anunciou o assassinato, distúr-
bios sectários sacudiram a (ndia, tornando ainda mais 
áspera a crise gerada pelo separatismo sigue. J S 
1984 3 D E D E Z E M B R O 
Envenenamento em massa em Bhopal 
Um vazamento de gás numa fábrica da Union Carbide mata milhares de indianos. 
O Os trabalhadores que recolhiam corpos para sepultamento e cremação perderam a conta do número de vítimas. 
Um vazamento de gás venenoso em uma fábrica de 
pesticidas da multinacional americana Union Carbide 
matou milhares de pessoas em uma única noite na ci-
dade indiana de Bhopal. Enquanto a cidade dormia, 
cerca de 39 toneladas de metil isocianato misturado, 
talvez, com gás cianídrico e fosgênio (o mais letal dos 
gases usados na Primeira Guerra Mundial), foram aci-
dentalmente liberadas para a atmosfera. O número fi-
nal de vítimas é controverso, mas 30 mil pessoas po-
dem ter morrido nesse que foi o pior acidente industrial 
da História. Cerca de 150 mil pessoas ficaram incapaci-
tadas e um número estimado em 500 mil sofreu algum 
tipo de envenenamento. A contaminação dos estoques 
de água potável gerou altos índices de câncer, proble-
mas respiratórios e defeitos congênitos. A Union Carbi-
de teria se recusado a construir a fábrica longe da cida-
de devido ao custo adicional. A queda da demanda de 
pesticidas na década de 1980 estaria impondo à e m -
presa cortes drásticos de custos que comprometiam a 
manutenção e os padrões de segurança.A Union Carbide travou uma longa batalha para 
não ser obrigada a pagar indenizações. Só em 1989 
chegou-se a um acordo. A maioria das famílias atín 
gidas recebeu meros 2.200 dólares. Boa parte dos 
incapacitados recebeu pouco ou nada. Em 1992, a 
Corte de Justiça de Bhopal expediu um mandado do 
prisão por homicídio culposo contra Warren Andei 
son, diretor-executivo da Union Carbide à época do 
acidente, mas as autoridades americanas se recusaram 
a extraditá-lo. J S 
Mineiros reconhecem a derrota 
Sindicato Nacional dos Mineiros vota o fim da greve na Grã-Bretanha. 
O O líder mineiro Arthur Scargíll, quando acabava de anunciar o fracasso da greve por um acordo sobre o fechamento das minas. 
Depois de 51 semanas, um,] < onferênr ia es|)ei ial de 
delegados do Sindicato Nacional dos Mineiros apro-
vou, por 98 votos a 92, o fim da greve nacional. Em 
muitas minas, os Itab.ilhadoios pior uia iam eniren 
lar com dignidade 1 a volla ao Irabalho marchando ao 
som de bandas de música. Mas isso não serviu para 
abafar o tamanho da derrota do mais poderoso 
sindicato da Grã-Bretanha, aquele que e m 1974 havia 
derrubado o governo conservador. 
Na realidade, o novo governo conservador de Mar 
i |aret Thatcher não apenas se preparara e como dera as 
boas-vindas ao confronto. Uma vitória esmagaria toda 
resistência sindical efetiva às drásticas reformas indus-
triais promovidas pelo governo. Os estoques de carvão 
li iram ampliados e recursos ilimitados colocados à dis-
posição da polícia para derrotar a tática sindical dos pi-
quetes volantes, com bloqueios súbitos e maciços de 
alvos selecionados. A causa do governo recebeu tam-
bém a ajuda do líder dos mineiros, Arthur Scargill, que, 
temendo perder unia votação sobre a greve, havia se 
recusado ilegalmente a convocá-la. 
As conseqüências da derrota foram graves. Em 20 
anos, essa imensa indústria, que empregava 187 mil 
pessoas, foi reduzida a seis minas com menos de quatro 
mil empregados. Nem nas modernas e lucrativas minas 
de East Midlands, onde o entusiasmo pela greve foi 
pequeno, os mineiros foram poupados. Por todo o país, 
comunidades inteiras que dependiam das minas para 
existir foram devastadas. Thatcher pôde comemorar 
uma vitória decisiva sobre todos os sindicatos. P F 
1985 10 D E J U L H O 
0 afundamento do Rainbow Warríor 
Sabotagem francesa afunda também o programa de testes nucleares do país. 
O O afundamento do Rainbow IMimorsegundo o primeiro-ministro da Nova Zelândia: "Um sórdido ato de terrorismo internacional." 
Às 23h45, um clarão azulado seguido de duas explo-
sões foi percebido na baía de Auckland, Nova Zelân-
dia. Quatro minutos depois, um antigo rebocador de 
40m de comprimento afundava no mar. Dez tripulan-
tes conseguiram se salvar, mas o fotógrafo português 
Fernando Pereira afogou-se em sua cabine, aonde 
fora buscar seu equipamento. O Rainbow Warríor per-
tencia ao grupo ambientalista Greenpeace, naquele 
momento envolvido em um protesto contra a iniciati-
va francesa de testar uma ogiva nuclear no atol poli-
nésiode Mururoa. O plano era partir da Nova Zelândia, 
país aliado da França, mas defensor de políticas anti-
nucleares, para Mururoa e impedir o teste. 
Poucos dias antes, dois agentes secretos france-
ses haviam visitado o Rainbow Warríor e tramado 
afundá-lo com duas minas afixadas em seu casco 
de modo a nào ameaçai vidas. Mesmo declarando-
se responsáveis de homicídio culposo, eles tentaram 
alegar que o Rainbow Warríor transportava equipa-
mento de espionagem e que Pereira era agente da 
KGB. Foram condenados a 10 anos de prisão. 
Em meio ao clamor que se seguiu ao afunda-
mento do Rainbow Warríor, barcos particulares cum 
priram o trajeto da Nova Zelândia ao atol de Mururi a, 
O programa francês de testes nucleares foi suspenso 
por 10 anos, a política antinuclear da Nova Zelândia 
viu-se sancionada e a visibilidade e o prestígio inter-
nacionais do Greenpeace aumentaram. Mais tarde, 
revelou-se que o presidente Mitterrand havia autoti 
zado a sabotagem. P F 
1 9 8 5 13 D E J U L H O 
Live Aid ajuda a Etiópia 
Músicos se apresentam de graça no evento global convocado por Bob Geldorf. 
O Uma multidão foi ao Estádio de Wembley, em Londres, para assistir ao histórico concerto. 
Às 12h de um domingo de sol, Francis Rossi, da ban-
i Ia Status Quo, abriu o espetáculo no Estádio de W e m -
bley, e m Londres, para um público de 72 mil pessoas. 
Do outro lado do Atlântico, no Estádio JFK, na Filadél-
fia, outras 90 mil assistiam ao início da versão ameri-
< ana do evento. U m número estimado e m 1,5 bilhão 
de telespectadores de 160 países viram os espetá-
culos ao vivo pela TV. Era o Live Aid, uma promoção 
destinada a arrecadar fundos e chamar a atenção do 
mundo para a forpe que devastava a Etiópia. 
O clima era de total euforia. Bono, do U2, mistu-
rou-se à multidão e tirou uma jovem para dançar. 
I inddie Mercury e o Queen atacaram com seus gran-
des sucessos. Momentos não musicais ficaram tam-
I H ' i i i gravados na memória coletiva - os vídeos das 
crianças etíopes famintas (a razão de ser do evento) e 
os apelos emocionados do irlandês Bob Geldorf exor-
tando as pessoas a dar sua contribuição. 
Sem Geldorf, o Live Aid não teria acontecido. Em 
outubro de 1984, as impressionantes imagens de 
crianças etíopes moribundas, mostradas pela TV, des-
pertaram no líder do The Boomtown Rats uma preo-
cupação social e m geral ausente tanto da política in-
ternacional guanto da cena musical. Governos até 
então indiferentes acabaram se curvando aos insisten-
tes apelos e perorações de Geldorf para "fazer alguma 
coisa". A iniciativa foi um imenso sucesso: gente de 
todo o mundo colocou seu talento e serviço à disposi-
ção do Live Aid, que arrecadou 62 milhões de dólares 
em doações para os necessitados etíopes. P F 
1985 2 D E O U T U B R O 
Morre Rock Hudson 
A morte do astro de cinema chama a atenção do público para a ameaça crescente daAids. 
O O nome de Rock Hudson api numa cok ha de retalhos < riada 
Rock Hudson era um ator bonitão e, até onde indica-
vam as aparências, heterossexual. Sua bem-sucedida 
carreira de galã de Hol lywood fora, em boa medida, 
criação de seu agente e dos estúdios. Até seu nome 
fora especialmente escolhido - Rock do rochedo 
(rock) de Gibraltar, e Hudson do rio Hudson. Dizem 
que Hudson precisou de 38 tomadas para fazer uma 
única fala em seu primeiro filme, Sangue, suor e lágri-
mas, de 1948; mas destacou-se, nas décadas de 1950 
e 1960, em uma série de comédias românticas, várias 
delas ao lado de Doris Day. 
Tímido e reservado, Hudson costumava dizer 
que não gostava de sua imagem na tela. Muito pou -
cas pessoas, e certamente não o público em geral, 
sabiam que ele era homossexual e que o casamento 
ashington, em 1996, em homenagem às vítimas da Aids. 
c o m a secretária de seu agente, e m 1955, fora um 
simulacro organizado pelo estúdio para desviar o 
olhai dos abelhudos. A união durou três anos. As 
inclinações sexuais de Hudson só foram reveladas 
pouco antes de sua morte, vítima de Aids, na digni 
dade de sua casa e m Beverly Hills, às vésperas de 
completar 60 anos. 
I ludson foi a primeira figura importante da indús 
tria do entretenimento a morrer de Aids. Apesar da 
crueldade de boa parte da cobertura da mídia, a notícia 
contribuiu para promover a aceitação social da homos-
sexualidade - estimulou o movimento em prol dos di 
reitos dos gays, que vinha ganhando força desde a dé-
cada de 1970, e chamou a atenção do público para o 
crescente número de vítimas da doença. RC 
1986 2 8 D E J A N E I R O 
A explosão do Challenger 
Missão do ônibus espacial Challenger termina em tragédia. 
O O Challengerélançado do Centro Espacial Kennedy. 
O Setenta e três segundos depois do lançamento, os foguetes 
propulsores e o tanque externo de combustível do Challenger 
se desintegraram. 
"...eles deram adeus e 
se soltaram da Terra para 
tocar a face de Deus." 
Ftonald R e a g a n , c i t a n d o o p o e m a " H i g h F l ight 
0 ônibus espacial Challenger foi lançado do Centro 
Espacial Kennedy, no litoral da Flórida, por volta das 
l lhBO da manhã, hora local, e se desintegrou cerca 
de 70 segundos depois, a uma altitude de 14,5km e 
velocidade de cerca de 3.220km/h. Todos os sete 
membros da tripulação morreram. Foram os primei-
ros astronautas americanos a morrer depois do lan-
çamento. (Em 1967, três astronautas perderam a vida 
om um incêndio na plataforma de lançamento.) 
O aspecto mais notório da tragédia foi, talvez, a 
presença entre as vítimas da professora Christa McAu-
liffe, a primeira pessoa selecionada por um programa 
de envio de civis ao espaço; e o mais pungente, sem 
dúvida, a presença de seu marido e filhos, assim como 
das famílias dos demais astronautas, na base de lança-
mento. O desastre causou um profundo impacto na 
mídia e no público. Um estudo relatou que 8 5 % dos 
americanos entrevistados já sabiam do trágico desti-
no do ônibus espacial uma hora depois do ocorrido. 
O lançamento fora adiado várias vezes devido ao 
mau tempo e a problemas mecânicos. Naguele dia, a 
baixíssima temperatura exigira a retirada do gelo da fu-
selagem da nave, atrasando o lançamento em duas 
horas. Assim gue o Challenger foi lançado surgiram la-
baredas e fumaça em um dos foguetes propulsores 
externos, guefoi imediatamente tomado pelas chamas, 
transformando o ônibus espacial numa bola de fogo 
vermelha, laranja e branca. A tripulação não chegou a 
perceber nada de errado. Uma investigação constatou 
gue os foguetes propulsores não tinham sensores de 
alerta e gue o problema começou no lançamento, com 
uma falha num dos anéis do propulsor direito. 
O desastre foi um duro golpe para o programa 
espacial, já em dificuldades devido aos custos exces-
sivos. Os lançamentos dos ônibus espaciais ficaram 
suspensos durante quase três anos. RC

Mais conteúdos dessa disciplina