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Orçamento DJAP 2006 ORÇAMENTO – Previsão de receitas ou despesas para um determinado período SUMÁRIO 1. Conceito de orçamento 2. Orçamentos públicos portugueses 3. Orçamento e instituições financeiras 4. Orçamento, política financeira, política orçamental e administração financeira 5. Orçamento e actividade financeira 6. Orçamento e União Económica e Monetária 7. Orçamento e figuras afins 8. Orçamento do Estado (incluindo fundos e serviços autónomos e o orçamento da Segurança social) 8.1. Orçamento e função orçamental 8.2. Regime fundamental do Orçamento do Estado 8.3. Conteúdo do Orçamento 8.4. Estrutura do Orçamento 8.5. Preparação e aprovação do Orçamento. A não aprovação do Orçamento 8.6. Execução do Orçamento 8.7. Controlo orçamental 8.8. Responsabilidades orçamentais 8.9. O orçamento da Segurança Social 9. Orçamentos das regiões autónomas 10. Orçamentos das autarquias locais 11. Orçamentos das empresas públicas Bibliografia 1. Conceito Consideramos orçamento qualquer previsão de receitas ou despesas, definida objectivamente (orçamento de um programa, projecto ou plano, por exemplo) ou subjectivamente (orçamento desta ou daquela entidade, maxime pública), para um determinado período (por exemplo, anual, que é a regra dos orçamentos públicos). Nas entidades públicas modernas, o orçamento tem também uma função autorizadora, com regimes jurídicos específicos. 2. Orçamentos públicos portugueses Os orçamentos públicos portugueses – excluindo, apesar da sua relação íntima mas externa com o orçamento do sector público português, a União Europeia – são hoje: - O Orçamento do Estado (em sentido amplo, incluindo o Orçamento da Segurança Social); - Os orçamentos dos serviços (institutos ou serviços não personalizados; de carácter administrativo ou fundos financeiros) dotados de autonomia financeira; - Os orçamentos das regiões autónomas; - Os orçamentos das autarquias locais (municípios, freguesias e entidades por estes constituídas); 2 - Os orçamentos das empresas públicas (sendo certo que algumas têm um regime orçamental privado, portanto moldado no Direito Comercial, apesar de gerirem dinheiros que são dinheiros públicos). Os orçamentos das entidades e serviços com autonomia financeira, quer se trate de serviços administrativos quer de instituições da Segurança Social, estão relacionados com o Orçamento do Estado por relações de subordinação ou dependência. Os das empresas públicas – devido à razão técnica de estas deverem ter uma gestão empresarial – e os das autarquias locais e das regiões autónomas – por se tratar de orçamentos de entidades cuja legitimidade orgânica provém do sufrágio universal – são independentes do Orçamento do Estado, pelo que se fala então de independência orçamental ou independência financeira em sentido estrito. Dos orçamentos públicos distinguem-se os orçamentos das pessoas privadas, que são meras estimativas racionais sem qualquer poder vinculativo próprio (pelo menos externamente e de Direito); e o orçamento nacional, instrumento da contabilidade nacional que integra a previsão do rendimento nacional de todo o País (incluindo o sector público e o privado). 3. Orçamento e instituições financeiras A vida nas sociedades, a evolução destas, estão intimamente ligadas à necessidade de existência de formas culturais, de estruturas que, em cada momento, assegurem, enquadrem e permitam a realização do bem geral. A estas estruturas, com solidez e dimensão variáveis no tempo e no espaço, designamos por instituições. 3 Estas instituições podem existir nos vários domínios da vida social e, naturalmente, também no campo da actividade financeira, maxime, nos Estados modernos e, de modo especial, nos Estados democráticos das sociedades industriais – neste caso, estamos perante as instituições financeiras. A satisfação das múltiplas necessidades públicas ou colectivas pela forma mais eficiente e eficaz representa, a par de funções extrafinanceiras, o escopo fundamental da actividade financeira, exigindo o exercício desta actividade, por um lado, instituições que a enquadrem, definindo o seu regime fundamental – instituições de enquadramento – e, por outro, instituições que constituam meios ou instrumentos do seu desenvolvimento – instituições instrumentais. É, justamente, a este propósito que nos aparece o orçamento como instituição financeira, ao lado de outras, de que destacamos a constituição financeira, os órgãos de decisão financeira, a administração financeira, o património público, o tesouro público e o crédito público. Por exemplo, no que respeita ao Orçamento do Estado, sendo, na essência, a previsão de receitas e despesas desta entidade, durante um determinado período, e consubstanciando ainda uma autorização política do Poder Legislativo ao Poder Executivo para a cobrança das receitas e realização das despesas prevista, daí podermos concluir tratar-se de uma estrutura ou instituição de enquadramento da actividade financeira do Estado, em certo período, em regra anual. Nestas ideias assenta a natureza institucional, estrutural, do Orçamento do Estado. O mesmo se poderia dizer, com as necessárias adaptações, relativamente aos orçamentos de outras entidades públicas. 4 4. Orçamento, política financeira, política orçamental e administração financeira Dada a noção de Orçamento, é necessário e útil fazer o seu confronto com as expressões política financeira, política orçamental e administração financeira. Não obstante a estreita interligação existente, trata-se de expressões distintas, com conteúdo não inteiramente coincidente. Em primeiro lugar, desde logo se nos depara a necessidade de precisar, tanto quanto possível, e no campo que nos ocupa, o que se entende por política, para, num segundo momento, delimitarmos o conteúdo das expressões política financeira e política orçamental, assim permitindo a final apurar se e em que termos o orçamento se insere ou enquadra no seu âmbito. Em certo sentido, porventura mais rigoroso, «a política (politics)» tem determinantes, ideológicas ou doutrinárias, e corresponde a uma relação entre fins e meios sociais, alterada pelo exercício do poder. Mas a expressão política (policy se chama então) tem um significado mais neutro. Será então uma actividade predominantemente racional e, em certa medida, “técnica”, consistente na formulação de objectivos (que já antes foram “politicamente” escolhidos: em sede de política, no primeiro sentido), de determinada natureza, na sua hierarquização segundo prioridades “dadas”, na escolha racionalizada dos meios mais adequados à produção dos efeitos pretendidos. Neste sentido, a política como actividade racional, dominada por objectivos pré- -seleccionados por uma vontade política e servida por uma vontade executiva, depende do poder ou dos seus instrumentos. É, no essencial, técnica, administração 5 ou gestão – não desfruta do poder ou do seu exercício em escolhas fundamentais (Sousa Franco, Finanças Públicas e Direito Financeiro, cit., Vol. II pág. 218). Ou seja, neste segundo sentido de política, trata-se de uma actividade secundária, mais limitada, nomeadamente pelas opções e valores fundamentais definidos politicamente (no primeiro sentido de política). Nesta base entenderemos as expressões política financeira e política orçamental. Antes de mais, cabe salientar que política nestas expressões tem o conteúdo quedemos à palavra política na segunda acepção, por estarmos a considerá-lo como objecto de um estudo científico. Isto não quer dizer que, noutra sede, não possa ser considerada no primeiro sentido. Como as próprias expressões indiciam, as Finanças Públicas são a referência fundamental da política financeira, enquanto o orçamento está directamente articulado com a política orçamental. No entanto política financeira e política orçamental têm muitos pontos de contacto, um dos quais‚ é o orçamento, principal instrumento e quadro de elaboração da política financeira. Constitui a política financeira uma vertente da política económico-social, traduzindo-se na actividade desenvolvida para a prossecução de determinados fins políticos, económicos e sociais, através da utilização de instrumentos financeiros (despesas, receitas, orçamento). 6 Desta noção podemos inferir que a política orçamental se compreende na noção mais ampla de política financeira, muito embora, por vezes, as expressões sejam usadas em sinonímia, atendendo à função de ordenação que o orçamento ocupa relativamente aos meios financeiros em geral. Mas, efectivamente, política orçamental é uma expressão mais restrita, significando «a articulação global dos instrumentos financeiros no orçamento (...), encarando-se então a estratégia orçamental como um ponto de vista autónomo (...)» (Sousa Franco, op. cit., pág. 225). Com subordinação à Lei, nos termos do princípio da legalidade, o orçamento constitui a principal instituição – e cada orçamento concreto é a respectiva decisão fundamental – de política financeira, expressão das escolhas fundamentais do poder sobre a satisfação de necessidades colectivas (embora o campo político da actividade financeira também inclua a fiscalização política e a responsabilidade política, essencialmente). Por seu lado, a execução do orçamento constitui a parte nuclear da administração financeira – que consiste em levar a política à máxima concretização, jurídica, técnica ou material. São estes, em resumo, os aspectos que distinguem estes quatro conceitos – orçamento, política financeira, política orçamental e administração financeira. 5. Orçamento e actividade financeira A actividade financeira pública corresponde, na essência, à satisfação de necessidades comuns, públicas, colectivas, através da utilização de meios económicos – os dinheiros públicos e os bens que constituem o património de quem desenvolve essa actividade. 7 Como se vê, esta actividade é enquadrada e comandada, em larga medida, pelo orçamento, ao disciplinar a previsão das receitas e a realização das despesas em determinado período, em regra anual. No entanto, a actividade financeira não se confunde com a execução do orçamento, seja no domínio das receitas, seja no da realização das despesas. Com efeito, a actividade financeira abrange ainda outras realidades que, embora conexas com a execução orçamental, têm autonomia: estamos a referir-nos principalmente à actividade patrimonial e à actividade do Tesouro (sem esquecer o crédito e a dívida). No que respeita à actividade patrimonial, esta abrange a prática dos mais diversos actos relativos aos bens que constituem o património de determinada entidade (v.g. compra, venda, locação, cessão...), os quais não são regidos pelo orçamento, embora nele possam ter reflexos (ao nível das receitas – receitas patrimoniais – ou das despesas). Quanto à actividade do Tesouro, os actos e operações que compreende são praticados à margem do Orçamento do Estado, tendo um regime jurídico específico. Concluímos, assim, no sentido de que toda a actividade de execução orçamental é actividade financeira, mas nem toda a actividade financeira é execução orçamental, por abranger outras realidades distintas, de que se destaca a actividade patrimonial e a actividade do Tesouro. 8 6. Orçamento e União Económica e Monetária Apesar de a definição da política orçamental continuar a ser matéria da competência dos Estados-membros, o aprofundamento do processo de integração europeia, que culminou com a adopção de uma moeda única, importou para os Estados aderentes algumas restrições neste domínio. Nos termos do art.º 104.º do Tratado da Comunidade Europeia (TCE), «os Estados-membros devem evitar défices orçamentais excessivos», estabelecendo-se como critérios de disciplina orçamental determinados valores de referência entre o défice orçamental programado ou verificado e o Produto Interno Bruto (PIB) e a dívida pública e o PIB. Os referidos valores de referência foram fixados no Protocolo relativo ao procedimento aplicável em caso de défice excessivo, anexo ao TCE, estabelecendo-se como limites máximos para o défice e a dívida pública os valores correspondentes a 3% e 60% do PIB, respectivamente. A necessidade de assegurar que as políticas orçamentais nacionais apoiassem políticas monetárias orientadas para a estabilidade levou a que o Conselho Europeu aprovasse, em 17 de Julho de 1997, a Resolução relativa ao Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC). O PEC é constituído por esta Resolução e por dois regulamentos do Conselho: o Regulamento (CE) n.º 1466/97, de 7 de Julho de 1997 (alterado pelo Regulamento (CE) n.º 1055/2005, de 27 de Junho), relativo ao reforço da supervisão das situações orçamentais e à supervisão e coordenação das políticas económicas, e o Regulamento (CE) n.º 1467/97, de 7 de Julho de 1997 (alterado pelo Regulamento (CE) n.º 1056/2005, de 27 de Junho), relativo à aceleração e clarificação do procedimento relativo aos défices excessivos. Nos termos deste Pacto, os Estados-membros comprometeram-se a fixar objectivos de médio prazo para a sua situação orçamental e de endividamento, tendo em vista uma progressão tão rápida quanto possível na via da estabilidade e sustentabilidade 9 orçamentais. O Programa de Estabilidade e Crescimento é o documento, de natureza política, elaborado pelo Governo para um período de quatro anos, objecto de actualização anual, que deve reflectir «o objectivo orçamental de médio prazo e uma trajectória de ajustamento que conduza ao objectivo fixado para o excedente/défice orçamental e a evolução prevista da dívida pública» e, bem assim, «uma avaliação quantitativa pormenorizada das medidas orçamentais e de outras medidas de política económica aplicadas e/ou propostas para a realização dos objectivos do programa, incluindo uma análise custo-benefício pormenorizada das reformas estruturais importantes aplicadas que induzam economias directas a longo prazo, inclusive através do reforço do crescimento potencial». O que antecede permite perceber que as finanças públicas nacionais se encontram hoje fortemente condicionadas por um conjunto de obrigações de natureza económica e financeira que, em muito, restringem a autonomia dos governos na definição da política orçamental e que exigem o desenvolvimento de mecanismos que garantam uma efectiva coordenação financeira entre os diversos subsectores do Sector Público. Apesar de se poder discutir a sua conformidade constitucional em face de uma tradição estadual assente nos princípios da descentralização e da autonomia financeira, a Lei de Estabilidade Orçamental (aprovada pela Lei n.º 2/2002, de 28 de Agosto), é precisamente fruto da necessidade de adequar a legislação financeira nacional à realidade económica europeia. No momento actual, essa adequação passa por, entre outros aspectos, limitar o policentrismo financeiro herdado da Constituição da República de 1976.10 7. Orçamento e figuras afins Tendo em atenção o conceito de orçamento que se apresentou, importa distingui-lo das principais figuras afins: conta (por ex., a conta do Estado, as contas das regiões autónomas), balanço (por ex., o balanço do Estado) e plano. No que respeita à conta, trata-se de um instrumento que contém o registo, naturalmente ex post, da execução orçamental. É, pois, o reflexo, o espelho da execução do orçamento (previsão, como o definimos) – cfr. quanto à Conta Geral do Estado, v.g., artºs. 107.º, 162.º, al. d) e 214.º, n.º 1, al. a), da CRP. A conta é sem dúvida, um complemento indispensável do orçamento, estando a sua elaboração igualmente incluída na actividade financeira. Quanto ao balanço, tem um conteúdo diverso do orçamento, constituindo um documento contendo a avaliação do activo e do passivo de uma entidade (v.g. do Estado) em determinado momento, precisando ainda a respectiva situação líquida final (activa ou passiva). Finalmente, os planos distinguem-se do orçamento, na medida em que consubstanciam orientações, opções, objectivos, programas e/ou projectos a desenvolver por determinada entidade, por exemplo pelo Estado, em determinado prazo (longo, médio ou curto prazo). Em especial, fala-se de plano de actividades para designar um plano ou programa que estrutura para o futuro acções materiais (com ou sem o seu financiamento: orçamento) de certa entidade (por exemplo, um município). E designa-se por plano económico-social a previsão da actividade económica, global ou sectorial, material ou financeira, anual ou plurianual, de uma 11 certa comunidade (País, região...), o qual pode conter programas específicos e projectos de acções individuais, em horizontes temporais adequados (anuais ou plurianuais). Plano económico e orçamento são figuras afins, como notámos, pois que o plano económico nacional tem a sua expressão e base de sustentação financeira no orçamento (estadual), tornando-se mesmo desejável e necessário que a elaboração de ambos os instrumentos seja feita articuladamente, sob pena de perderem o seu sentido (relativamente ao Estado, cfr. artºs. 90.º e 91.º e 105.º, n.º 2, da CRP). 8. Orçamento do Estado (incluindo os fundos e serviços autónomos e o orçamento da Segurança Social) 8.1. Orçamento e função orçamental A função ou autoridade orçamental constitui uma das três grandes funções ou actividades financeiras públicas do Estado moderno, a par da actividade patrimonial e da actividade da tesouraria. Ela traduz-se no orçamento como previsão, na sua execução e na responsabilização final pelos resultados da execução (contas e responsabilização jurídica ou política). Como previsão – ou seja, relativamente ao orçamento em sentido estrito – podemos definir orçamento como uma previsão, em regra anual, das despesas a realizar pelo Estado e das receitas que as cobrem, integrando a autorização concedida à Administração financeira para cobrar receitas e realizar despesas e limitando os poderes financeiros da Administração em cada período orçamental (cf. Sousa Franco, Finanças Públicas e Direito Financeiro, cit., p. 336). O orçamento constitui assim o plano financeiro da gestão das receitas e despesas de cada período orçamental (em regra, anual); constituindo então a decisão financeira por excelência, subordinada às regras internas de racionalidade económica, e o quadro de elaboração das mais importantes políticas financeiras – as 12 políticas orçamentais – concebida em termos de eficácia, efectividade ou eficiência macroeconómica, neste caso em coordenação, como plano financeiro, com o plano económico-social. Integra, nos regimes democráticos representativos modernos, uma autorização política para a realização de despesas e a cobrança de receitas, pois estas implicam uma redução, directa ou indirecta, do património dos particulares, constituindo a representação do sacrifício fiscal directo ou indirecto (mediante o desequilíbrio, mesmo financiado monetariamente: imposto do défice e imposto da inflação ou da dívida), uma forma de garantia da esfera da autonomia privada, no domínio económico, tanto no tocante ao património como no tocante ao livre exercício da actividade económica; garante ainda, estabelecendo uma dependência do Executivo, e nomeadamente da Administração, relativamente ao Legislativo, ao qual atribuído na democracia representativa o poder orçamental, uma forma de equilíbrio e separação de poderes; a representação orçamental, modalidade essencial da representação financeira a par da representação tributária, constitui, assim, como forma de representação política e a par da representação política em sentido estrito (representação para a função política e função legislativa) elemento genético e constitutivo das democracias representativas ocidentais (não por acaso a revolução francesa, as revoluções inglesas do século XVII e a independência norte-americana nascem de conflitos fiscais orçamentais). Finalmente, no plano estritamente jurídico, o orçamento é uma forma de limitação jurídica da Administração, a qual apenas pode praticar, em princípio, actos financeiros com base no orçamento (ou, em regimes jurídicos de excepção, se não estiver aprovado orçamento; ou, em regimes como o do Consolidated Fund do Direito inglês, com base em lei que fixe encargos certos e determinados, não carecendo então de orçamentação as respectivas despesas). 13 8.2. Regime fundamental do Orçamento do Estado O Orçamento do Estado rege-se por um conjunto de regras e princípios constitucional e legalmente consagrados, os quais constituem o seu quadro de referência formal (no caso das regras orçamentais) e substancial (no que respeita aos princípios). Às regras e princípios orçamentais designaremos, nesta sede, por regras. Onde estão consagradas estas regras? Podemos encontrá-las, desde logo, na Constituição da República Portuguesa (cfr. art.ºs 105.º e 106.º) e na LEO – Lei de Enquadramento Orçamental (actualmente, a Lei n.º 91/2001, de 20 de Agosto), lei específica reservada à Assembleia da República, com efeito de lei reforçada em relação à lei do orçamento (cfr. art.º 3.º da Lei n.º 91/2001). Nos termos do n.º 1 do art.º 106.º da CRP, «a lei do Orçamento é elaborada, organizada, votada e executada, anualmente, de acordo com a respectiva lei de enquadramento, que incluirá o regime atinente à elaboração e execução dos fundos e serviços autónomos». Com base na Constituição da República Portuguesa e na LEO podemos enunciar os seguintes princípios e regras orçamentais: a) - Regra da anualidade; b) - Princípio da plenitude, abrangendo as regras da unidade e da universalidade; 14 c) - Princípio da discriminação, incluindo as regras da especificação, da não compensação e da não consignação; d) - Regra da publicidade; e) - Regra do equilíbrio; f) - O princípio da equidade inter-geracional. Vejamos, em síntese, em que se traduzem estas regras: a) Regra da anualidade A regra da anualidade significa que o orçamento tem uma vigência anual (votação anual pelo órgão competente, no caso português, a Assembleia da República, e execução anual pelo Governo e pela Administração Pública). A versão originária da Constituição da República não previa expressamente a regra da anualidade. Contudo, ainda que a Constituição não o dissesse, sempre se entendeu tratar-se de um princípio fundamental, decorrente da própria ideia de orçamento e da circunstância de este documento constituir a expressão financeira do plano anual,devendo ser elaborado de harmonia com as grandes opções do plano anual (art.º 108.º, n.º 2, da CRP na sua versão originária). Não obstante ser este o entendimento (vd., por todos, J. J. Gomes Canotilho e Vital Moreira, Constituição da República Portuguesa Anotada, 3ª. Edição, Coimbra Editora, pág. 466), o legislador constituinte, na revisão constitucional de 1997, entendeu por bem consagrar expressamente esta regra, encontrando-se actualmente prevista no art.º 106.º, n.º 1, nos seguintes termos: «A lei do Orçamento é elaborada, organizada, votada e executada, anualmente (…)» 15 De harmonia com o disposto naquele preceito legal, o art.º 4.º da LEO consagra a regra da anualidade, concretizando alguns aspectos essenciais do seu regime. Entre nós, «o ano económico coincide com o ano civil» (n.º 4 do art.º 4.ºda citada Lei n.º 91/2001), sistema introduzido em 1936 pelo Decreto n.º 25299, de 6 de Maio de 1935. Anteriormente, não se verificava a coincidência do ano financeiro com o ano civil, abrangendo o ano financeiro o período de 1 de Julho a 30 de Junho do ano seguinte (como sucede na maior parte dos países democráticos, que tendem a votar o orçamento antes das férias do Verão). Este é um sistema também acolhido em países como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. A opção por um ou outro sistema pode fundamentar-se no esquema de funcionamento dos órgãos envolvidos ou no próprio ritmo da vida económica, social e financeira. Em todo o caso, é unânime a posição dos Autores quanto à necessidade de o orçamento ser anual, quer por razões de natureza política quer de natureza económica (cfr. Sousa Franco, Finanças Públicas e Direito Financeiro, cit., Vol. I, p. 347). A propósito da regra da anualidade, põe-se a questão de saber se no Orçamento apenas se incluem as receitas a cobrar efectivamente e as despesas a realizar efectivamente, independentemente do momento da prática do acto que as originou (orçamento de gerência), ou, pelo contrário, apenas estão abrangidas as receitas e as despesas nascidas de actos praticados no ano a que respeita o orçamento, independentemente do momento em que serão efectivamente cobradas e realizadas (orçamento de exercício). 16 Em Portugal, o Orçamento é, na essência, um orçamento de gerência, havendo, porém, um aspecto particular que é próprio do sistema de orçamento de exercício, traduzido na existência de um período complementar de execução orçamental, quer para as receitas, quer para as despesas, quer ainda para as operações de emissão da dívida pública (cfr. art.º 4.º, n.º 5, da LEO e art.º 7.º do Decreto-Lei n.º 155/92, de 28 Julho; art.º 9.º da Lei n.º 7/98, de 3 de Fevereiro – Lei quadro da dívida pública). Finalmente, deve sublinhar-se que pode suceder que nem todas as normas contidas na Lei do Orçamento do Estado ou nos decretos-leis de execução orçamental sejam normas orçamentais e por isso de vigência anual: a vigência anual é imperativa para as receitas e despesas (orçamento material e formal) e apenas normal ou subsidiária para as restantes normas ou preceitos concretos (orçamento formal, disposições extra-orçamentais do orçamento). Tem-se verificado nos últimos anos em Portugal que nesses diplomas legais são incluídas normas de outra natureza e conteúdo (v.g. relativas ao regime jurídico da função pública ou ao sistema fiscal), pelo que, em tais casos, haverá que obedecer ao regime geral da vigência das normas. Além destes problemas, outros são postos pela anualidade, que tem alcances diversos âmbito da previsão/autorização, regime dos planos/programas/projectos plurianuais, eficácia do orçamento (prorrogável ou não), etc.. b) Princípio da plenitude, incluindo as regras da unidade e da universalidade O princípio da plenitude compreende intrinsecamente a unidade e a universalidade do orçamento, ou seja, «um só orçamento e tudo no orçamento» (cfr. Sousa Franco, op. cit., Vol. I, pág. 351). 17 A unidade e a universalidade do orçamento que no conjunto formam o princípio da plenitude estão claramente previstas no art.º 105.º, nºs. 1 e 3, da CRP, e no art.º 5 da Lei n.º 91/2001: - O Orçamento do Estado é unitário (cfr. art.º 105.º, n.º 3, da CRP e art.º 5.º, n.º 1, da Lei n.º 91/2001), ou seja, apenas deve haver um único orçamento – nisto consiste a sua unidade; - O Orçamento do Estado compreende todas as receitas e despesas dos serviços do Estado, incluindo as dos fundos e serviços autónomos (desde que não tenham natureza, forma e designação de empresa, fundação ou associação públicas), bem como o orçamento do Sistema de Segurança Social (cfr. art.º 105.º, nºs. 1 e 3, da CRP, e art.º 5.º, n.º 1, da Lei n.º 91/2001) – nisto se traduz a sua universalidade. Não obstante a previsão constitucional e legal do princípio da plenitude, o certo é que o mesmo não está plenamente consagrado em Portugal. Na verdade, como dispõe o n.º 2 do art.º 5.º da Lei n.º 91/2001, «os orçamentos das regiões autónomas e das autarquias locais são independentes do Orçamento do Estado (…)» (cfr. tb. artºs. 227.º, n.º 1, al. p) e 238.º da CRP; artºs. 36.º, n.º 1, al. c), 69.º, als. n) e p), 105.º e 109.º, n.º 1, da Lei n.º 13/91, de 5 de Junho – Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma da Madeira; e artºs 30.º, n.º 1, al. c), 60.º, als. v) e aa), 97.º e 107.º da Lei n.º 39/80, de 5 de Agosto – Estatuto Político- Administrativo da Região Autónoma dos Açores). E nem sempre as transferências comunitárias passam – como deveriam – pelo Orçamento do Estado português. 18 c) Princípio da discriminação, incluindo as regras da especificação, da não compensação e da não consignação As regras da especificação, da não compensação e da não consignação, que no seu conjunto decorrem do princípio da discriminação, constituem uma exigência intrínseca da própria instituição orçamental, imprimindo-lhe clareza e veracidade. Em Portugal, tais regras têm igualmente suporte constitucional e legal (art.º 105.º, nºs. 1 e 3, da CRP, e artºs. 6.º a 8.º da Lei n.º 91/2001). Assim, dispõe a al. a) do n.º 1 do art.º 105.º da CRP que o Orçamento do Estado deve conter «a discriminação das receitas e despesas do Estado, incluindo as dos fundos e serviços autónomos». Qual o sentido e o âmbito deste princípio da discriminação? Desde logo, o Orçamento deve especificar as receitas previstas e as despesas fixadas, conforme impõem o n.º 3 do art.º 105.º da CRP e o art.º 8.º da Lei n.º 91/2001 – regra da especificação. Naturalmente, a especificação das receitas e das despesas tem de obedecer a determinados critérios. A Constituição impõe que a especificação das despesas obedeça a uma classificação orgânica e funcional. Em complemento, a Lei de Enquadramento Orçamental exige que as despesas sejam igualmente especificadas de acordo com um classificador económico, o mesmo classificador económico exigindo para as receitas. No actual sistema português, a estrutura dos classificadores orgânico e funcional encontra-se definida, respectivamente, na Lei n.º 91/2001 (art.º 22) e no Decreto-Lei n.º 171/94, de 24 de Junho, enquanto a estrutura do classificador económico das receitas e das despesas no Decreto-Lei n.º 26/2002, de 14 de Fevereiro (cfr. tb. art.º 8.º, n.º 7, da citada Lei n.º 91/2001). 19 Por outro lado, da discriminação resulta também a necessidade de as receitas serem inscritas no Orçamento do Estado «pela importância integral em que foram avaliadas, sem dedução alguma para encargos de cobrança ou de qualquer outra natureza» e, quanto às despesas, a respectivainscrição ser feita «pela sua importância integral, sem dedução de qualquer espécie» (art.º 6.º da Lei n.º 91/2001) – nisto se traduz a regra da não compensação que, como se vê, exige que o Orçamento seja bruto e não com apresentação das receitas e despesas de forma líquida (com deduções). Por último, impõe-se como corolário do princípio da discriminação que não possa «afectar-se o produto de quaisquer receitas à cobertura de determinadas despesas» (n.º 1 do art.º 7.º da Lei n.º 91/2001) – regra da não consignação. Esta Lei prevê, no entanto, no n.º 2 do mesmo preceito, a possibilidade de excepções à regra, destacando-se do seu conjunto as situações em que, por força da lei ou de contrato e em virtude de uma razão especial, se permite a afectação do produto de determinada receita ao pagamento de certa despesa (art.º 7.º, n.º 2, al. f)). Naturalmente que a consignação prevista reveste carácter excepcional e temporário, em termos a definir em legislação complementar que ainda não foi adoptada (art.º 7.º, n.º 3). Vemos, pois, como é importante para a salvaguarda da integridade e das funções próprias do Orçamento, o princípio da discriminação, na tripla dimensão que abrange – especificação, não compensação e não consignação. d) Regra da publicidade A regra da publicidade não tem consagração expressa ao nível da Constituição da República Portuguesa, ao contrário do que sucede com as demais regras orçamentais. 20 No entanto, a publicidade do Orçamento resulta claramente de certos preceitos constitucionais. Na verdade, o Orçamento do Estado é aprovado por Lei da Assembleia da República (artºs. 161.º, al. g) e 166.º, n.º 3, da CRP), a qual deve ser publicada no Diário da República, sob pena de ineficácia jurídica (art.º 119.º, n.º 1, al. c), e n.º 2, da CRP). A Lei de Enquadramento Orçamental prevê expressamente a regra da publicidade (art.º 12.º, n.º 1, da Lei n.º 91/2001), devendo o Governo assegurar «a publicação de todos os documentos que se revelem necessários para assegurar a adequada divulgação e transparência do Orçamento do Estado e da sua execução, recorrendo, sempre que possível, aos mais avançados meios de comunicação existentes em cada momento». Acolheu-se, assim, no nosso sistema esta regra essencial, embora de natureza instrumental, na medida em que só a sua observância possibilita o seu conhecimento por todos os seus destinatários – órgãos políticos, Administração Pública, órgãos de controlo e cidadãos. Ou seja, só com a publicidade é assegurado o cumprimento de todas as funções orçamentais a que já se fez referência. A publicidade é, a par da exactidão, uma importante garantia do valor financeiro da transparência. e) Regra do equilíbrio A regra do equilíbrio constitui certamente uma das regras orçamentais mais importantes, até pela sua natureza verdadeiramente substancial ou material: ela 21 determina o conteúdo do orçamento e a sua articulação global com a economia e a sociedade em geral. O Orçamento deve prever as receitas necessárias para cobrir as despesas (n.º 4 do art.º 105.º da CRP e n.º 1 do art.º 9.º da Lei n.º 91/2001), acrescentando o art.º 23.º da Lei n.º 91/2001 que «as receitas efectivas do orçamento dos serviços integrados têm de ser, pelo menos, iguais às despesas efectivas do mesmo orçamento, excluindo os encargos correntes da dívida pública, salvo se a conjuntura do período a que se refere o Orçamento justificadamente o não permitir». Eis, em síntese, o sentido desta regra orçamental no sistema português, sobre a qual também o Tribunal Constitucional já se pronunciou em vários Acórdãos (cfr. v.g. Acórdão n.º 206/87, in DR, I, n.º 156, de 10-7-87). Mais adiante, a propósito do conteúdo do Orçamento, voltaremos a debruçar-nos sobre a mesma. f) Princípio da equidade inter-geracional O princípio da equidade inter-geracional surge, pela primeira vez, no nosso ordenamento com a Lei n.º 91/2001 (na redacção introduzida pela Lei n.º 48/2004, de 24 de Agosto), passando, assim, a figurar ao lado dos denominados princípios e regras clássicas do direito orçamental (Título II – Princípios e regras orçamentais). Trata-se de um princípio que preconiza uma distribuição equitativa de benefícios e custos entre gerações, cuja apreciação passa pela avaliação da incidência orçamental das responsabilidades contratuais plurianuais, das despesas de investimento, das despesas sociais com pensões e das necessidades de financiamento do sector empresarial do Estado. No fundo, o que se pretende com a consagração deste princípio é assegurar o equilíbrio entre custos e benefícios, de modo a impedir que a 22 política orçamental actualmente definida venha a implicar sacrifício das gerações futuras, desproporcionado em relação às vantagens que a mesma venha a usufruir. Trata-se, pois, de um princípio estreitamente ligado ao carácter plurianual da planificação orçamental. 8.3. Conteúdo do Orçamento As receitas e as despesas orçamentais constituem, como já observámos, o conteúdo do orçamento. Mas, há agora que aprofundar este aspecto, dissecando, ainda que resumidamente, o tipo e a natureza de relações que entre receitas e despesas orçamentais podem estabelecer-se; ou ainda, que equilíbrio ou equilíbrios são possíveis entre receitas e despesas orçamentais. No que respeita às relações entre receitas e despesas orçamentais podemos configurar três situações, a saber: - Receitas superiores às despesas (situação excedentária ou de superavit); - Receitas iguais às despesas (situação de equilíbrio aritmético); - Receitas inferiores às despesas (situação de défice). Lato sensu, podemos considerar de equilíbrio orçamental as duas primeiras situações acabadas de referir. Mas, segundo outro critério, atinente ao momento em que o equilíbrio orçamental é perspectivado, podemos distinguir equilíbrio “ex ante” (reportado ao momento da elaboração e aprovação do orçamento) e equilíbrio “ex post” (registado no momento da elaboração da conta, finda a execução orçamental). 23 Por último, tendo em atenção a natureza intrínseca do equilíbrio orçamental, deve distinguir-se entre equilíbrio formal (equilíbrio contabilístico entre receitas e despesas) e equilíbrio substancial (quando certas receitas cobrem certas despesas). No sistema português actual, acolhe-se o equilíbrio formal do Orçamento (cfr. artºs. 105.º, n.º 4, da CRP, e art.º 9.º, n.º 1, da Lei n.º 91/2001) e o equilíbrio substancial, consagrando a Lei de Enquadramento Orçamental quanto a este último critérios distintos para cada uma das três realidades financeiras subordinadas ao Orçamento do Estado (serviços integrados – art.º 23.º; fundos e serviços autónomos – art.º 25.º; e segurança social – art.º 28.º). Relativamente aos serviços integrados, a Lei consagra o critério do saldo primário. Embora assente na classificação das receitas e das despesas em efectivas e não efectivas (cfr. art.º 23.º, n.º 1, da Lei n.º 91/2001), distingue-se do critério do activo da tesouraria, também assente na mesma classificação, por excluir os encargos correntes da dívida pública (v.g. os juros) do saldo efectivo. Significa que tais encargos poderão ser financiados por recurso ao crédito (receitas não efectivas - cfr. art.º 23.º, n.º 3 da Lei n.º 91/2001), sem que tal ponha em causa o equilíbrio orçamental. No que respeita aos orçamentos dos fundos e serviços autónomos, os mesmos devem apresentar saldo global nulo ou positivo, não se considerando, para efeitos do seu cômputo, «as receitas provenientes deactivos e passivos financeiros, bem como do saldo de gerência anterior, nem as despesas relativas a activos e passivos financeiros» (art.º 25.º da Lei n.º 91/2001). À semelhança do orçamento dos serviços integrados, o critério que permite aferir do equilíbrio do orçamento da segurança social também assenta na classificação das receitas e das despesas em efectivas e não efectivas, com a particularidade de neste 24 caso não se excluírem os juros do cômputo do saldo efectivo e de os saldos anuais do subsistema previdencial reverterem a favor do Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (cfr. art.º 28.º da Lei n.º 91/2001). Note-se, porém, que o orçamento continua a basear-se na distinção entre receitas/despesas correntes e de capital, apenas permitindo a determinação de duas formas de equilíbrio: o equilíbrio/desequilíbrio global (endividamento; necessidades líquidas de financiamento; ou do orçamento primário – sem encargos da dívida) e o equilíbrio/desequilíbrio do orçamento corrente, tornando em rigor inaplicáveis os critérios definidos pelo legislador. A matéria em apreço reveste-se, como se vê, de enorme importância e complexidade, tendo a resposta à questão de saber quando nos encontramos perante um orçamento substancialmente equilibrado sido objecto de grandes discussões doutrinárias e de soluções diversas – cfr., a este propósito, Sousa Franco, op. cit, Vol. I, págs. 366 e segs.. O reconhecimento da importância do equilíbrio orçamental está igualmente bem presente no Tratado da União Europeia e no Pacto de Estabilidade e Crescimento, por força dos quais os Estados membros devem evitar défices orçamentais excessivos (cfr. supra n.º 6). No plano analítico, o conteúdo do orçamento é constituído por receitas e despesas. Muito diversos no seu conteúdo, os principais tipos de receitas são: - Receitas patrimoniais (da alienação ou oneração do património; da venda de frutos do património; de serviços prestados por meio do património); 25 - Receitas tributárias (baseadas no dever geral de financiar os encargos públicos e conforme a princípios, definidos por lei, acto político ou administrativo): impostos e taxas; - Receitas creditícias (geradoras de endividamento: dívida pública financeira ou monetária; o seu efeito económico pode ser comparado ao dos impostos, mas não identificado com ele). Quanto às despesas, podem ser: - Despesas públicas em bens e serviços, nomeadamente de pessoal ou de material; - Despesas de transferência, nomeadamente, transferências administrativas (obrigatórias ou facultativas), subsídios (a particulares ou empresas públicas) ou pensões (transferências permanentes da segurança social). 8.4. Estrutura do Orçamento A estrutura do Orçamento pode ser analisada em duas dimensões: formal e substancial. Do ponto de vista formal, trata-se de saber qual a forma como o Orçamento se nos apresenta e revela, incluindo a organização das receitas e despesas respectivas. Na perspectiva substancial, a nossa preocupação reside no conteúdo ou na matéria que lhe está subjacente. 26 Vejamos: a) Como resulta dos artºs. 105.º, 106.º, 161.º, al. g), e 166.º, n. 3, da CRP, o Orçamento é aprovado por um acto que reveste a forma de lei (cfr. tb. art.º 39.º da LEO) – a Lei do Orçamento do Estado; ele é inovador e geral, embora careça de abstracção: é concreto). E nesta Lei se esgota, desde 1984 – ano em que entrou em vigor, no plano financeiro, a revisão constitucional de 1982 – , a autorização política em matéria orçamental. Anteriormente, no período que mediou entre a entrada em vigor da CRP de 1976 e a sua primeira revisão, em 1982, o Orçamento era também aprovado por uma Lei, mas contendo apenas o articulado e os mapas orçamentais fundamentais. Completava-a o decreto-lei orçamental, consubstanciando o então designado Orçamento Geral do Estado [antes, na vigência da Constituição de 1933, contrapunha-se lei de autorização das receitas e despesas – “lei de meios” – a orçamento geral do Estado – decreto (simples) orçamental]. Assim, no sistema actual, o Orçamento do Estado está traduzido na Lei respectiva, sem prejuízo de o Governo poder/dever aprovar as normas necessárias à sua execução (por acto que se tem designado por decreto-lei de execução orçamental) – cfr. art.º 106.º, n.º 1, da CRP e art.º 43.º da Lei n.º 91/2001. O Governo define igualmente o regime a que se deve subordinar a execução dos orçamentos dos fundos e serviços autónomos e da Segurança Social, de acordo as regras gerais previstas na Lei n.º 91/2001 (cfr. arts. 44.º, 47.º e 48.º). 27 Nos termos do n.º 1 do art.º 106.º da CRP, a Lei do Orçamento é organizada de acordo com a respectiva lei de enquadramento, prevendo ainda o n.º 3 do mesmo preceito constitucional que a proposta de Orçamento é acompanhada de relatórios sobre as matérias aí especificadas. É justamente a Lei n.º 91/2001 (LEO) que prevê nos seus artºs. 31.º e 32.º a forma como deverá ser organizado o Orçamento do Estado, incluindo, como dissemos, os orçamentos dos fundos e serviços autónomos e o orçamento da Segurança Social (articulado e mapas orçamentais), para além de precisar os elementos que deverão acompanhar a correspondente proposta (arts. 34.º a 37.º). Naturalmente, as receitas e despesas orçamentais têm de ser inscritas no Orçamento segundo determinados critérios e de acordo com uma estrutura própria. É assim que os artºs. 8.º e 32.º da Lei n.º91/2001, vindo ao encontro desta necessidade, prevêem, por um lado, que a especificação das receitas e despesas deve reger-se por códigos de classificação a aprovar por decreto-lei (económica, para as receitas, orgânica, funcional e económica para as despesas – cfr. art.º 8.º) e, por outro, a estrutura dos mapas orçamentais (art.º 32.º). Sem prejuízo da sua especificação de acordo com os referidos códigos de classificação, as despesas podem, ainda, estruturar-se, no todo ou em parte, por programas (cfr. art.º 105.º, n.º 3, da CRP e art.º 18.º, n.º 1, da LEO), encontrando-se o regime da orçamentação por programas definido na Lei n.º 91/2001 (cfr. arts. 18.º a 21.º) e no Decreto-Lei n.º 131/2003, de 28 de Junho. Do regime aí contido, destacam-se os seguintes aspectos: 28 • A conceitualização do programa orçamental como instrumento de execução de uma ou mais políticas definidas pelo Governo (art.º 19.º, n.º 1, da LEO); • A programação orçamental é composta por programas, medidas e projectos ou actividades (art.º 18.º, n.º 2, da LEO); • A estruturação do orçamento por programas é obrigatória apenas para as despesas de investimento, para as despesas em execução das leis de programação e para as resultantes de parcerias público-privadas (art.º 18.º, n.º 3, da LEO); • Devem ser incluídos nos programas indicadores que permitam aferir da sua economia, eficiência e eficácia (art.º 19.º, n.º 1 da LEO); • Cada programa deve evidenciar as verbas afectas, os indicadores de avaliação e a repartição regionalizada da despesa (art.º 3.º, n.º 3 do Decreto-Lei n.º 131/2003); • Os procedimentos de elaboração e aprovação dos programas, bem a designação dos ministérios coordenadores de cada programa são da competência do Conselho de Ministros, mediante proposta do Ministro das Finanças (art.º 4.º do Decreto-Lei n.º 131/2003); • A definição das medidas é da competência dos Ministérios (art.º 5.º do Decreto-Lei n.º 131/2003). b) Do ponto de vista da estrutura substancial ou material do Orçamento – que, como já salientámos, contémas receitas e despesas do Estado, incluindo as dos fundos e serviços autónomos, e o orçamento da segurança social (n.º 1 do art.º 105.º da CRP) – é fundamental sublinhar que o seu conteúdo deve respeitar a respectiva lei de enquadramento (art.º 106.º, n.º 1, da CRP, e art.º 1.º da Lei n.º 91/2001), articular-se com as grandes opções em matéria de planeamento (art.º 105.º n.º 2, da CRP, e art.º 17.º, al. c), da Lei n.º 91/2001) e ter em conta as obrigações decorrentes de lei ou de contrato (art.º 105.º, n.º 2, da CRP, e art.ºs 29 16.º, n.º 1, e 17.º, al. a) da Lei n.º 91/2001), bem como as obrigações decorrentes da União Europeia (art.º 17.º, al. c), da mesma Lei). A Lei de Enquadramento Orçamental constitui o padrão, a base de referência, o quadro normativo em que deverá assentar a Lei do Orçamento do Estado e outros actos orçamentais: isto mesmo resulta do n.º 1 do art.º 106.º da CRP. É por esta razão que a Lei de Enquadramento Orçamental reveste a natureza de lei com valor reforçado (cfr. art.º 112.º, n.º 3, da CRP e art.º 3.º da LEO), ficando afectados de ilegalidade – ou, posição também sustentável, de inconstitucionalidade indirecta – os actos que violarem as suas normas. Quanto à Lei do Orçamento, trata-se, pelas razões já apresentadas, de uma lei vinculada (cfr. artºs 105.º, n.º 2, e 109.ºda CRP), reservada à Assembleia da República, no exercício da sua competência política e legislativa (art.º 161.º, al. g) da CRP), que nos parece revestir a natureza de acto-plano (solução que consideramos mais correcta do que outras que têm sido defendidas: acto político, acto administrativo sob a forma de lei, lei meramente formal, lei material ou lei especial). Com isto se pretende dizer que o orçamento é essencialmente uma previsão económica (de receitas e despesas) com graus e modos diversos de vinculação jurídica (determinados pelo regime da sua estrutura, valor e eficácia: eram diversos, impondo caracterizações diversas, os das Constituições de 1933, de 1976 e o da actual Constituição, após as várias revisões constitucionais; como são diversos o Orçamento português, a loi de finances francesa, ou o budget federal norte-americano). Ele fixa as receitas em cada ano, integrando o respectivo bloco de legalidade e tornando ilegal a percepção de receitas não inscritas (embora o valor delas seja o de uma mera estimativa, global e específica); e autoriza as despesas, que são ilegais sem cabimento, isto é sem se enquadrarem em classes e no valor disponível. Quanto 30 aos organismos com autonomia financeira, o Orçamento do Estado habilita os órgãos próprios a aprovar os respectivos orçamentos privativos. O orçamento contém, ainda, numerosas normas qualitativas, que visam regulamentar a lei ou conceder autorizações, adaptar leis gerais, criar regras novas conexas com a matéria orçamental ou a esta estranhas, dela sendo meramente contextuais. O valor e a eficácia destes tipos de preceitos – nem sempre substancialmente extra- orçamentais – podem discutir-se. Para aprofundamento das questões suscitadas, cfr. Sousa Franco, op. cit., I, págs. 397-408, e J.J. Gomes Canotilho, A lei do orçamento na teoria da lei, in “Estudos em Homenagem ao Prof. J.J. Teixeira Ribeiro”, Vol. II, 1979. 8.5. Preparação e aprovação do Orçamento. A não aprovação do Orçamento. Como já referimos, a preparação do Orçamento e a elaboração da respectiva proposta de lei compete ao Governo (artº. 161.º, al. g) da CRP, e art.º 38.º da Lei n.º 91/2001), cabendo à Assembleia da República o poder de aprovar (art.º 161.º, al. g), da CRP, e artº 39.º da Lei n.º 91/2001). Em linhas gerais, pode dizer-se que a Lei do Orçamento do Estado passa pelas fases principais do processo legislativo normal. A Constituição e a lei prevêem, porém, aspectos específicos quanto ao procedimento a observar, tendo em atenção a natureza da lei orçamental (art.º 106.º da CRP e artºs. 31.º a 38.º da Lei n.º 91/2001). 31 Assim: a) «O Governo deve apresentar à Assembleia da República, até 15 de Outubro, a proposta de orçamento para o ano económico seguinte (...)» (n.º 1 do art.º 38.º da Lei n.º 91/2001). A proposta de lei – contendo o articulado e os mapas orçamentais e acompanhada dos anexos informativos (art.º 106.º, n.º 3, da CRP, e artºs. 31.º a 37.º da Lei n.º 91/2001) – deve ser aprovada em Conselho de Ministros (art.º 200.º, n.º 1, al. c), da CRP); ao Governo cabe assim o exclusivo da iniciativa orçamental (art.º 161.º, al. g)). b) Naturalmente, na preparação técnica e administrativa do Orçamento intervêm os membros do Governo e a generalidade dos serviços e organismos da Administração abrangidos, cabendo, por natureza, ao Ministro das Finanças e ao Ministério que dirige, em especial à Direcção-Geral do Orçamento, desempenhar a função de coordenação dos vários projectos de orçamento elaborados pelos serviços, incluindo os fundos e serviços autónomos, e o subsector da Segurança Social. A elaboração destes projectos é feita, normalmente, de acordo com instruções emitidas pela Direcção-Geral do Orçamento, sob orientação do Governo. São estas instruções que fixam o prazo até ao qual os serviços devem apresentar os projectos respectivos à Direcção-Geral do Orçamento. No que respeita ao orçamento das receitas, assumem papel relevante os serviços com atribuições no domínio da cobrança das receitas. Com base nas propostas recebidas dos serviços, a Direcção-Geral do Orçamento organiza e apresenta ao Ministério das Finanças o projecto de Orçamento, e este, 32 por sua vez, apresenta a Conselho de Ministros o projecto de proposta de lei do orçamento para aprovação e posterior apresentação da proposta de lei à Assembleia da República no prazo fixado. Deve salientar-se mais uma vez que a elaboração da proposta de orçamento deve ser feita tendo em conta as vinculações a que está sujeito (cfr. artºs. 105.º e 106.º da CRP e art.ºs 16.º e 17.º da Lei n.º 91/2001). Para além da já aludida harmonização com a actividade de planeamento e consideração, em primeira linha, das obrigações decorrentes de lei e de contrato – que constituem despesas obrigatórias – sublinha-se a observância dos compromissos decorrentes do Tratado da União Europeia (art.º 17.º, al. b) da LEO), na medida em que vem exigindo uma articulação jurídica entre os programas de estabilidade e crescimento e o Orçamento do Estado. Para assegurar essa articulação, o Governo deve proceder à elaboração de planos macro-económicos e de projecção financeira e orçamentais plurianuais, devendo a proposta de orçamento do Estado ser elaborada de acordo com a programação financeira plurianual definida (cfr. art.º 17.º, al. c) da LEO). Observe-se, aliás, que esta programação financeira deverá afigurar em anexo à proposta de Orçamento (art.º 37.º, n.º 1, al. b da LEO), devendo ainda o relatório que acompanha a proposta de OE incluir uma análise sobre a adequação da política orçamental proposta às obrigações decorrentes do Tratado da União Europeia e da União Económica e Monetária (art.º 36.º, n.º 1, al. d) da LEO). Além disso, os orçamentos dos serviços integrados, dos fundos e serviços autónomos devem ser objecto de uma sistematização por objectivos, o que implica: - A fixação de objectivos de produção e de actividades para cada organismo; - A elaboração do orçamento com base na produção ou na actividade acordada e estimada a custos de referência (cfr. arts. 15.º e 64.º da LEO). 33 Deste modo se pretende uma maior responsabilização dos agentes pela concretização dos objectivos e pelo bomuso dos recursos que lhes estão afectos. Por outro lado, na previsão das receitas e despesas há que recorrer a determinados critérios de avaliação – critérios administrativos empíricos, critérios de previsão económica ou critérios de racionalização das escolhas orçamentais. c) Apresentada a proposta de lei de orçamento à Assembleia da República, deve a mesma ser discutida e votada no prazo de 45 dias, naturalmente, para permitir a sua entrada em vigor no início do ano a que se destina. Na discussão e votação do Orçamento do Estado deve observar-se o procedimento previsto no art.º 39.º da Lei n.º 91/2001 e no Regimento da Assembleia da República (artºs. 217.º a 225.º - em anexo à Resolução da Assembleia da República, n.º 4/93, publicada no DR, n.º 51, I-S, de 2 de Março, alterada pela Resolução da Assembleia da República n.º 2/2003, publicada no DR, n.º 14, I-Série A, de 17 de Janeiro). Finalmente, pergunta-se: e se a Assembleia da República não votar ou, tendo votado, não aprovar a proposta de orçamento de modo que possa entrar em execução no início do ano económico a que se destina? Nesta situação de atraso na votação ou na aprovação da proposta de orçamento, aplicar-se-á o regime previsto no art.º 41.º da Lei n.º 91/2001, ou seja, prorroga- se, automaticamente, a vigência do orçamento do ano anterior que abrange «o articulado e os correspondentes mapas orçamentais, bem como os seus desenvolvimentos e os decretos-leis de execução orçamental (n.º 2), e observando-se as demais normas daquele preceito contidas nos números seguintes. Na prática, o mesmo tem sucedido com atrasos de publicação 34 (sanados ou ratificados a posteriori); e resta determinar o regime de uma lei não promulgada até 31 de Dezembro. Trata-se, como se vê, de uma solução que visa salvaguardar a continuidade da actividade do Estado, incluindo os fundos e serviços autónomos e o subsector da Segurança Social, com o indispensável suporte financeiro. 8.6. Execução do Orçamento Tendo em conta as funções e as finalidades do Orçamento, a execução respectiva constitui elemento essencial imprescindível. A execução do Orçamento traduz-se na prática dos actos jurídico-financeiros e operações materiais relativos à cobrança das receitas e à realização das despesas orçamentais, incluindo a administração de tesouraria. Compete ao Governo, no exercício da sua função administrativa «fazer executar o Orçamento do Estado» (alínea b) do art.º 199.º da CRP), estabelecendo, em cada ano, «por decreto-lei, as disposições necessárias à execução da lei do Orçamento do Estado, incluindo o da segurança social respeitante ao ano em causa, sem prejuízo da aplicação imediata das normas desta lei que sejam exequíveis por si mesmas» (art.º 43.º, n.º 2, da Lei n.º 91/2001). O Decreto-Lei de execução orçamental deve ser publicado no prazo máximo de um mês após a aprovação da Lei do Orçamento do Estado (n.º 6 do art.º 43.º da Lei n.º 91/2001). O quadro jurídico fundamental que disciplina a execução do Orçamento do Estado encontra-se definido em vários diplomas legais. 35 Na verdade, para além das disposições constantes da Lei n.º 91/2001 (cfr. arts. 43.º a 48.º), haverá que observar o disposto na Lei n.º 8/90, de 20 de Fevereiro (a Lei de Bases da Contabilidade Pública), no Decreto-Lei n.º 155/92, de 28 de Julho (estabelecendo o regime da administração financeira do Estado), no Decreto-Lei n.º 191/99, de 5 de Junho, e, naturalmente, no decreto-lei de execução orçamental. Neste domínio, importa antes de mais pôr em evidência que a execução do Orçamento do Estado se encontra subordinada a determinados princípios, a saber: - princípio da legalidade: os actos de execução orçamental devem conformar-se com as leis em geral (legalidade genérica) e com a própria Lei do Orçamento (legalidade específica); - princípio da tipicidade orçamental: trata-se de um corolário do princípio da legalidade, significando que só podem ser cobradas receitas e realizadas despesas que tenham sido objecto de inscrição orçamental. Note-se, porém, que a tipicidade orçamental tem uma natureza diferente consoante se trate do orçamento das receitas ou do orçamento das despesas. No que respeita ao orçamento das receitas, estamos perante uma tipicidade de natureza qualitativa (só a espécie de receita está condicionada e não o montante – cfr. art.º42.º, n.º 4, da Lei n.º 91/2001); já quanto ao orçamento das despesas, a tipicidade assume uma dimensão qualitativa e quantitativa (não podem as despesas exceder o montante inscrito ou a dotação prevista na espécie correspondente – cfr. art.º 42.º, n.º 5, da Lei n.º 91/2001); - princípio da boa gestão financeira: «a despesa em causa satisfaça o princípio da economia, eficiência e eficácia» (art.º 42.º, n.º 6, al. c), da Lei n.º 91/2001). 36 Vejamos, agora, em particular, a execução do orçamento das receitas e do orçamento das despesas, à luz do regime jurídico vigente, já delineado. a) Execução do orçamento das receitas Um dos princípios a que está subordinada a execução do orçamento das receitas é, nos termos do n.º 1 do art.º 42.º da Lei n.º 91/2001, o princípio da segregação das funções de liquidação e cobrança: «As operações de execução do orçamento das receitas (…) obedecem ao princípio das funções de liquidação e cobrança (…)». Dispõe ainda aquele preceito legal no n.º 3 que «nenhuma receita pode ser liquidada ou cobrada, mesmo que seja legal, sem que cumulativamente: a) Tenha sido objecto de inscrição orçamental; b) Esteja adequadamente classificada». A isto há que acrescentar o carácter qualitativo da execução do orçamento das receitas, dispondo o n.º 4 que «A liquidação e a cobrança podem, todavia, ser efectuadas para além dos valores previstos na respectiva inscrição orçamental». Neste quadro, os actos e operações principais em que se traduz a execução do orçamento das receitas são os seguintes: - Liquidação – determinação do montante da receita a receber pelo Estado de quem tiver a obrigação de a pagar. É uma atribuição dos serviços liquidadores de receitas, v.g. da Direcção-Geral dos Impostos; - Cobrança ou arrecadação – acto de recebimento efectivo dos meios pecuniários determinados através da liquidação. É uma atribuição tradicional dos serviços do Tesouro (embora a lei permita que possa 37 partilhá-la com outros serviços) – sobre o regime actual da tesouraria do Estado, incluindo o regime das operações de tesouraria, cfr. Decreto-Lei n.º 191/99, de 5 de Junho. b) Execução do orçamento das despesas A execução do orçamento das despesas obedece a um exigente conjunto de princípios e normas, na essência, hoje constantes da Lei n.º 91/2001 (artºs.42.º a 48.º), da Lei n.º 8/90 (bases da contabilidade pública), do Decreto-Lei n.º 155/92 (regime da administração financeira do Estado), do Decreto-Lei n.º 191/99, de 5 de Junho (regime da tesouraria do Estado) para além do decreto-lei de execução orçamental anualmente aprovado. Dos diplomas legais citados, podemos extrair que na realização das despesas deve observar-se os princípios e seguir-se o procedimento a seguir indicados: - Princípio da segregação das funções de autorização da despesa, de autorização de pagamento e do pagamento (art.º 42.º, n.º 1, da Lei n.º 91/2001) - Princípio da legalidade das despesas, ou seja, nenhuma despesa pode ser efectuada se não for permitida por lei e nos termos em que o for (art.º 42.º, n.º 6, al. a), da Lei n.º 91/2001 e artºs. 21.º e 22.º do Decreto-Lei n.º 155/92);- Princípio da tipicidade qualitativa e quantitativa – só pode ser realizada a despesa que tenha sido objecto de inscrição orçamental (tipicidade) e adequada classificação (qualitativa) e que tenha cabimento na 38 correspondente dotação (quantitativa) – (art.º 42.º, nºs. 5 e 6, al. b), da Lei n.º 91/2001, e art.º 22.º do Decreto-Lei n.º 155/92); - Princípio da utilização por duodécimos – em cada mês, os serviços do Estado não podem gastar mais do que 1/12 da dotação global que lhes foi atribuída, acrescida dos créditos vencidos e não gastos, salvas as excepções autorizadas por lei (art.º 42.º, n.º 6, al. b) da Lei n.º 91/2001); As excepções ao regime da utilização por duodécimos são fixadas anualmente no decreto-lei de execução orçamental (cfr. art.º 43.º, n.º 5, al. a), da Lei n.º 91/2001). - Princípio da boa gestão financeira: nenhuma despesa pode ainda ser realizada sem que esteja justificada quanto à sua economia, eficiência e eficácia (art.º 42.º, n.º 6, al. c), da Lei n.º 91/2001, e art.º 22.º do Decreto- Lei n.º 155/92); - Por último, na realização das despesas, deve seguir-se um procedimento próprio, integrando as fases seguintes (cfr. Decreto-Lei n.º 155/92): . autorização da despesa (cfr. artºs. 21.º a 25.º); . conferência (art.º 26.º); . processamento (art.º 27.º); . liquidação (art.º 22.º); . autorização de pagamento (art.º 29.º); . pagamento (artºs. 29.º a 31.º). Na execução do orçamento das despesas assumem uma função principal a Direcção- -Geral do Orçamento e os serviços do Tesouro (cfr., em especial, Lei n.º 8/90 e Decretos-Leis nºs. 155/92 e 191/99, já citados). 39 Eis, em síntese, o quadro jurídico fundamental da realização de despesas. Cabe, por último, fazer uma referência à possibilidade de, no período de execução do Orçamento do Estado, se proceder a alterações orçamentais (aumento de despesa, transferência de verbas, redução ou supressão de dotações). É possível no sistema português proceder a alterações orçamentais, o que se compreende tendo em conta a natureza do orçamento e a eventualidade de, a todo o momento, surgirem situações imprevistas, carecendo de suporte orçamental. Tais alterações não podem, porém, como é evidente, ser feitas arbitrariamente. Daí que a Constituição e a Lei de Enquadramento Orçamental tenham previsto e regulado cuidadosamente esta matéria (cfr. art.º 105.º, n.º 4, e art.ºs. 49.º a 57.º da Lei n.º 91/2001), sem prejuízo de o Governo poder definir as regras que entender necessárias à aplicação do regime aí definido. Do regime traçado pela Lei de Enquadramento Orçamental, cumpre-nos sublinhar alguns aspectos. Desde logo, a consideração das especificidades de que se revestem as três realidades financeiras que se encontram subordinadas ao Orçamento do Estado (serviços integrados, serviços e fundos autónomos e segurança social), definindo a Lei n.º 91/2001 o regime atinente a todas as alterações orçamentais, incluindo assim o regime a que deve obedecer as alterações aos orçamentos dos serviços e fundos autónomos (art.º 56.º) e da segurança social (art.º 57.º). Por outro lado, a circunstância de se distinguir as alterações ao orçamento das receitas (art.º 53.º) das alterações ao orçamento das despesas (arts. 54.º a 57:º), 40 considerando, quanto a estas últimas, as especificidades de que se reveste as alterações ao orçamento por programas (art. 54.º). No que respeita ao orçamento das receitas, estabelece-se, à semelhança do que acontece no âmbito das despesas, o princípio geral da competência da Assembleia da República quando as alterações em causa sejam determinadas por alterações dos respectivos orçamentos das despesas da competência do mesmo Órgão e, bem assim, quando envolvam um acréscimo dos limites de endividamento previsto na Lei do Orçamento (cfr. art.º 53.º). As demais alterações ssão da competência do Governo (art.º 53.º, n.º 2). Quanto ao orçamento das despesas dos serviços integrados em particular, atribui-se à Assembleia da República competência para, em regra, aprovar as alterações orçamentais que se traduzam num aumento das despesas ou na transferência de verbas (cfr. art.º 55.º, n.ºs 1 e 3), sendo essa competência transferida para o Governo nos casos em que o aumento da despesa tenha contrapartida em aumento de receitas efectivas consignadas, em saldos de dotações de anos anteriores, em transferências provenientes dos orçamentos dos serviços e fundos autónomos ou da segurança social ou, por último, na dotação provisional ( art.º 55.º, n.º2). Serão igualmente da competência do Governo as alterações que se traduzam na transferência de verbas que ocorra por força de modificações das leis orgânicas do Governo, dos ministérios ou da transferência ou sucessão de competências entre diferentes serviços ou que sejam efectuadas com contrapartida na dotação provisional. O mesmo regime se aplica às transferências de verbas entre rubricas do mapa da classificação económica das despesas (art.º 55.º, n.º 4). Sublinhe-se, ainda, a competência do Governo para «reduzir ou anular quaisquer dotações orçamentais que careçam de justificação, desde que fiquem 41 salvaguardadas as obrigações do Estado decorrentes de lei ou de contrato» (art.º 51.º, n.º 2). O regime a que deve subordinar-se as alterações orçamentais da competência do Governo encontra-se definido no Decreto-Lei n.º 71/95, de 15 de Abril. c) Operações orçamentais e operações de tesouraria Apesar de autónomo relativamente ao Orçamento – como o são o Património e o Crédito Públicos, que são expressões independentes da actividade financeira, mas todas interligadas ao Orçamento, que nos Estados modernos assume lugar central, o Tesouro contribui para a sua execução. Ele assegura o aspecto monetário ou de caixa das operações orçamentais – pagamentos e recebimentos – e desenvolve ainda outros tipos de operações (autónomas) de tesouraria, que asseguram a gestão do património monetário do Estado. Pela sua própria natureza, as operações orçamentais correspondem à arrecadação de receitas e pagamento de despesas inscritas no orçamento, obedecendo aos procedimentos próprios de execução orçamental, com sujeição ao controlo da Direcção-Geral do Orçamento. As operações de tesouraria, por seu turno, são os movimentos excepcionais de fundos efectuados nos cofres do Tesouro que não se encontram sujeitos à disciplina do Orçamento do Estado, bem como as restantes operações escriturais com eles relacionadas no âmbito das contas do Tesouro (cfr. art.º 30.º do Decreto-Lei n.º 191/99, de 5 de Junho). 42 Actualmente, o regime jurídico das operações de tesouraria encontra-se definido no citado Decreto-Lei n.º 191/99. No entanto, em ambos os casos – operações orçamentais e operações de tesouraria – deve ter-se em atenção o regime da tesouraria do Estado disciplinado pelo Decreto-Lei n.º 155/92, já citado. d) A administração privada de dinheiros públicos A actual tendência para a privatização também se realiza pela organização de instituições privadas – associações, sociedades, fundações – para de modo mais flexível e desburocratizado, prosseguir certos fins públicos, mediante dinheiros e outros recursos públicos, sendo os titulares associativos ou os fundadores exclusiva ou predominantemente público. Estas situações, que já se conhecem do passado, são diferentes das da associação de entidades privadas à realização de fins públicos (v.g., na concessão de serviços ou bens públicos, na concessão de gestão de empresas públicas,na concessão a entidades privadas da execução de programas ou projectos públicos – programas PIDDAC, v.g.) ou na atribuição de recursos públicos para a realização de interesses privados convergentes ou coincidentes com fins públicos (subsídios ou subvenções; do OE ou com cofinanciamento, maxime comunitário). O segundo e o terceiro grupo de situações têm formas próprias de controlo, não apenas da atribuição, da transferência ou da realização do fim público, mas de outros aspectos do respeito da legalidade financeira pelos entes privados que se relacionam com fundos públicos: a legalidade financeira é legalidade geral e os seus critérios, até pela tutela de interesses públicos fortes que visam, também se impõe aos particulares, como é evidente. 43 O controlo financeiro e a tutela jurídica são, porém, mais directos e fortes no primeiro caso (fundações culturais, associações e fundações de investigação científica, instituições sociais ou económicas, sociedades de capitais públicos). Quer quando se trate de empresas públicas (sob a forma pública ou sob a forma de sociedades de capitais públicos) ou controladas (na gestão e/ou no capital), quer quando se trate de associações, sociedades ou fundações privadas, elas e os seus responsáveis devem assegurar a garantia dos princípios, normas e interesses financeiros que regem os dinheiros públicos que lhes são confiados para gerir e disso devem prestar contas como gerentes de facto; a sua actividade, ou é de empresas públicas e está sujeito ao respectivo regime e formas de controlo e responsabilidade no tocante aos fundos empresariais, ou é de administradores privados (de direito ou de facto) de dinheiros públicos, estando então sujeita ao Direito Financeiro e às pertinentes formas de controlo e/ou garantia jurídica. 8.7. Controlo orçamental O controlo orçamental corresponde a uma função ou actividade indissociável de toda a actividade desenvolvida com referência à execução do orçamento. Lato sensu, pode dizer-se que esta função tem uma dimensão social profunda, ao ponto de poder constituir um índice seguro do nível de desenvolvimento das sociedades e das organizações em geral. Os seus fundamentos são jurídico-políticos (assegurar o cumprimento da Constituição e da lei, nomeadamente da Lei do Orçamento aprovada pelo Parlamento) e económicos (garantir a boa gestão dos recursos públicos). 44 Muitas vezes, emprega-se a expressão controlo orçamental em sinonímia com a expressão controlo financeiro, mas têm conteúdo diverso, embora com forte ligação. A expressão controlo financeiro tem um sentido e um conteúdo mais amplo, abrangendo não só a instituição orçamental (e por isso o controlo orçamental), mas também outras instituições e realidades financeiras. Assim, todo o controlo orçamental é um controlo financeiro, mas nem todo o controlo financeiro é controlo orçamental. «Controlar (e, em derivação pós-verbal, controlo) é uma palavra, importada do francês (rôle, contre-rôle), onde designa originariamente um segundo registo (ou verificação) organizado para verificar o primeiro; ou o conjunto de acções destinadas a confrontar uma acção ou actividade (controlada) com os seus objectivos, metas ou resultados e com os princípios e regras a que deve obedecer» (cfr. Sousa Franco, op. cit., pág. 452). 45 Tendo em conta certos critérios, podemos distinguir vários tipos e formas de controlo. Vejamos esquematicamente: 1.1. CONTROLO DAS RECEITAS 1. CRITÉRIO DO OBJECTO 1.2. CONTROLO DAS DESPESAS 2.1. CONTROLO ADMINISTRATIVO (serviços, órgãos e agentes administrativos – ex. Direcção-Geral do Orçamento) 2. CRITÉRIO ORGÂNICO 2.2. CONTROLO JURISDICIONAL (órgão jurisdicional – ex. Tribunal de Contas) 2.3. CONTROLO POLÍTICO (órgãos políticos – ex. Assembleia da República) 2.4. CONTROLO SOCIAL (opinião pública, partidos políticos, imprensa) 3.1. CONTROLO DA LEGALIDADE «STRICTO SENSU» E DA REGULARIDADE 3. CRITÉRIO DO CONTEÚDO 3.2. CONTROLO ECONÓMICO (economicidade, eficiência e eficácia) CONTROLO 4.1. CONTROLO PRÉVIO OU “A PRIORI” 4. CRITERIO DO MOMENTO DO CONTROLO 4.2. CONTROLO CONCOMITANTE (no decurso da execução) 4.3. CONTROLO SUCESSIVO OU “A POSTERIORI” 5.1.1. Auto-controlo – dentro da organização) 5.1. CONTROLO INTERNO 5.1.2. Hetero-controlo (exterior à organização controlada, mas 5. CRITÉRIO DOS NIVEIS DE interno por estar inserido numa organização mais vasta CONTROLO QUANTO AO (v.g. Administração Pública) – órgãos de tutela, inspec- ORGANISMO OU AGENTE -ções-gerais… 5.2. CONTROLO EXTERNO E INDEPENDENTE – Tribunais de Contas e Órgãos congéneres; e órgãos políticos não dependentes das entidades controladas 46 No que respeita ao sistema de controlo orçamental actualmente existente em Portugal, cabe em primeiro lugar referir que a Constituição confere poderes de fiscalização à Assembleia da República (cfr. artºs. 107.º e 162.º, al. d)) e ao Tribunal de Contas (artºs. 107.º, 162.º, al. d) e 214.º); ambos são externos relativamente ao Executivo e à Administração, sendo o primeiro político e o segundo jurisdicional. Por outro lado, dispõe o art.º 58.º da Lei n.º 91/2001, no seu n.º 4, que «o controlo administrativo compete ao próprio serviço ou instituição responsável pela respectiva execução, aos respectivos serviços de orçamento e de contabilidade pública, às entidades hierarquicamente superiores, de superintendência ou de tutela e aos serviços gerais de inspecção e de controlo da Administração Pública». Por seu turno, o n.º 6 do mesmo preceito, prevê que «o controlo jurisdicional da execução do Orçamento do Estado compete ao Tribunal de Contas e é efectuado nos termos da respectiva legislação». Na mesma linha, o citado Decreto-Lei n.º 155/92, de 28 de Julho, dispõe no n.º 1 do seu art.º 53.º (incluído no Capítulo II, sob a epígrafe “Controlo orçamental”) que «a gestão orçamental dos serviços e organismos abrangidos pelo presente diploma será controlada através das seguintes formas: a) Auto-controlo pelos órgãos competentes dos próprios serviços e organismos; b) Controlo interno, sucessivo e sistemático, da gestão, designadamente através de auditorias a realizar aos serviços e organismos; c) Controlo externo, a exercer pelo Tribunal de Contas, nos termos da sua legislação própria» (cfr., em especial, Lei n.º 98/97, de 26 de Setembro); e ainda 47 pela Assembleia da República, no plano político (cfr. art.º 107.º da CRP e art.º 59.º da Lei n.º 91/2001). Estas são as formas de controlo nacional. O controlo comunitárioda UE é cada vez mais importante – seja no campo do controlo interno (administrativo: Comissão) seja no do externo e independente (Tribunal de Contas Europeu) ou político (Conselho e Parlamento Europeu). É evidente que esta nova distinção mantém, no nível dos Estados como no da União Europeia, a diferença entre controlo interno e externo, o qual, no domínio das finanças públicas, tem por critério essencial a integração – ou não – do órgão de controlo no Executivo (como sistema político-administrativo). Eis, em linhas gerais, o sistema existente. 8.8. Responsabilidades orçamentais Num Estado de Direito, o exercício da actividade financeira tem de conformar-se com a Ordem Jurídica. Quando tal não acontece, daí resultam dois tipos de consequências genéricas, uma respeitante ao valor jurídico dos actos financeiros correspondentes, outra relativa ao juízo da ordem jurídica sobre a permissão ou não dos comportamentos financeiros. No que respeita ao valor jurídico dos actos financeiros contrários à Ordem Jurídica, a lei pode prever com o consequência/sanção a inexistência jurídica, a invalidade (por ilegalidade ou por ilicitude), a ineficácia ou a mera irregularidade. 48 Quanto à licitude dos comportamentos financeiros dos agentes, podem eles incorrer em responsabilidade pela prática de actos ou actividades financeiras violadores de deveres ou lesivas de interesses protegidos, a qual pode revestir vários tipos, cumuláveis, a saber: - Responsabilidade política, apreciada por órgãos políticos e segundo critérios de natureza política (ex.: - responsabilidade política do Governo perante a Assembleia da República, resultante da execução do Orçamento do Estado e consubstanciada na Conta Geral do Estado), que deve ser “tomada”, isto é apreciada e votada pela Assembleia da República (art.º 162.º, al. d), da CRP); - Responsabilidade criminal, apurada pelos tribunais competentes, segundo critérios jurídico criminais/penais (ex.: - crime de peculato); - Responsabilidade disciplinar, apreciada pelos órgãos administrativos competentes, de acordo com critérios jurídico-disciplinares (ex: - infracção disciplinar traduzida no desvio de dinheiros públicos); - Responsabilidade civil apurada pelos tribunais competentes, traduzindo-se na obrigação de indemnizar pelos danos causados (cfr. artºs 483.º e segs. do Código Civil); - Responsabilidade financeira, cuja apreciação cabe ao Tribunal de Contas, nos termos de legislação própria (cfr. artºs. 59.º a 65.º da Lei n.º 98/97, com as alterações introduzidas pela Lei n.º 48/2006, de 29 de Agosto). Centremos, então, a nossa atenção no último tipo de responsabilidade – a responsabilidade financeira –, por ser aquela que mais directamente se prende com 49 a matéria que nos ocupa – o orçamento (embora não decorra apenas da execução orçamental, mas de qualquer gestão relativa à despesa, à receita e a outros valores públicos). Em primeiro lugar, há que distinguir, dentro da responsabilidade financeira «lato sensu», entre a responsabilidade financeira propriamente dita ou «stricto sensu» e a chamada responsabilidade financeira meramente sancionatória (também designada responsabilidade administrativa por multa). Trata-se de duas formas de responsabilidade financeira distintas e cumuláveis, emergentes do que a lei designa por infracções financeiras. A responsabilidade financeira propriamente dita ou stricto sensu, traduz-se na obrigação de repor ou reintegrar fundos, valores ou dinheiros públicos, quando se verifique alcance ou desvio de dinheiros ou outros valores, ou pagamentos indevidos (art.º 59.º da Lei n.º 98/97, de 26 de Agosto), ou, ainda, em virtude de não arrecadação de receitas com violação das normas aplicáveis em prejuízo do Estado (art.º 60.º da mesma Lei). Estamos perante uma responsabilidade de natureza subjectiva (artºs 59.º e segs. da Lei n.º 98/97), essencialmente de reposição ou reintegratória e cumulável (art.º 65.º, n.º 5, da Lei n.º 98/97). Nos sistemas financeiros como o nosso (de tipo francês), esta responsabilidade começou por ser puramente objectiva em virtude do desempenho de funções financeiras (comptable ou tesoureiro), nas quais ocorrem ilegalidades ou irregularidades imputáveis ao titular que presta contas por dinheiros públicos (“julgam-se contas, não gerentes/agentes”); no Direito, a lei e a jurisprudência vão introduzindo cada vez mais elementos de personalização e culpa, sendo responsáveis os decisores políticos e administrativos, os gerentes financeiros e os autores dos factos ilícitos. 50 A responsabilidade financeira meramente sancionatória (ou responsabilidade administrativa por multa) traduz-se na aplicação de multas pelo Tribunal de Contas nos casos e nos termos previstos nos art.ºs 65.º e 66.º da Lei n.º 98/97 e em normas especiais. É igualmente uma responsabilidade de natureza subjectiva e cumulável, mas tem carácter exclusivamente sancionatório. 8.9. O orçamento da Segurança Social O sector público financeiro compreende, estruturalmente, um conjunto de subsectores institucionais financeiros resultantes de fenómenos diferenciados, nomeadamente da descentralização (nos diversos graus em que pode traduzir-se, por exemplo, nos níveis político-legislativo – aí nos aparecendo as regiões autónomas – administrativo – no caso das autarquias – e da devolução de poderes – descentralização imprópria, de tipo institucional ou associativo). A segurança social constitui justamente um dos subsectores institucionais financeiros, cuja natureza, dimensão e complexidade exigem um tratamento próprio, designadamente ao nível orçamental. A segurança social representa um direito de todos, traduz uma necessidade pública ou colectiva, exigindo para a sua satisfação o exercício da actividade correspondente, onde se inclui a actividade financeira, a cargo de instituições, serviços e organismos especializados (cfr. artºs. 9.º e 63.º da CRP e Lei n.º 32/2002, de 20 de Dezembro – Lei de Bases da Segurança Social); nisso se distingue da normal actividade seguradora, privada ou até “publicizada”, mas não pública por natureza. 51 É sabido que a evolução da vida em sociedade provoca permanentes mutações no tocante às funções do Estado Social. No século XX, pode dizer-se que a segurança social nasceu como importante função social do Estado, bem patente no seu desenvolvimento e evolução, caracterizados pelo reforço das suas dimensões quantitativa e qualitativa: não pode ignorar-se que o desenvolvimento e o envelhecimento demográfico lhe colocam hoje graves dificuldades financeiras (e isso a “crise do Estado-providência”). Naturalmente, também esta evolução se reflectiu ao nível da organização e gestão financeira da segurança social, tendo sido profundas as alterações introduzidas no passado recente, na vigência da Constituição de 1976 (cfr. artºs. 9.º, 63.º e 105.º da CRP e, em especial, a Lei n.º 32/2002, de 20 de Dezembro, já citada, que define actualmente «nos termos previstos na Constituição da República Portuguesa, as bases gerais em que assenta o sistema de segurança social (…) bem como as atribuições prosseguidas pelas instituições de segurança social e a articulação com entidades particulares de fins análogos» - art.º 1.º). O sistema de segurança social abrange o sistema público de segurança social, o sistema de acção social e o sistema complementar (art.º 5.º, n.º 1, da Lei n.º 32/2002), recaindo sobre o Estado o dever de «criar as condições necessárias à efectivação do direito à segurança sociale de organizar, coordenar e subsidiar o sistema de segurança social (art.º 15.º). A organização administrativa do sistema de segurança social compreende serviços integrados na administração directa do Estado e as instituições de segurança social (por ex:, o Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social), sendo estas instituições pessoas colectivas de direito público, integradas na administração indirecta do Estado (cfr. artº 115.º). 52 Salienta-se ainda outro aspecto previsto na citada Lei de Bases da Segurança Social relativo às fontes de financiamento, as quais são basicamente as contribuições dos beneficiários e das entidades empregadoras e as transferências do Estado (cfr. artºs. 110.º e 112.º e segs.); a combinação entre as fontes de financiamento é outro dos aspectos cruciais da problemática actual. No que respeita ao orçamento da segurança social, sublinhamos agora alguns aspectos já pontualmente referidos nos números anteriores: - Em primeiro lugar, o orçamento da segurança social constitui parte integrante do Orçamento do Estado (art.º 105.º, n.º 1, da CRP; cfr. tb. art.º 114.º, n.º 1, da Lei n.º 32/2002), regime instituído na revisão constitucional de 1992, assim se rompendo com o regime anterior de mera aprovação administrativa dos orçamentos e das contas das instituições de previdência que até então existia. Naturalmente, o novo regime do Orçamento do Estado, incluindo o orçamento da segurança social, repercutiu-se na Conta Geral do Estado que passou a incluir a conta da segurança social (cfr. art.ºs 107.º da CRP e 73.º, n.º 1, da Lei n.º 91/2001); - No entanto, apesar desta integração, não deixa de haver alguma autonomia do orçamento da segurança social bem expressa em várias disposições legais (cfr. art.º 114.º, n.º 2, da Lei n.º 32/2002 e artºs. 27.º, 28.º, 32.º, 48.º e 57.º da Lei n.º 91/2001); ele obedece a normas – e segue práticas – em muitos aspectos diferentes das que regem o OE. A relativa autonomia do orçamento da segurança social reflecte-se igualmente ao nível da conta da segurança social (parte integrante da Conta Geral do Estado – cfr. art.º 107.º da CRP e art.º 73.º, n.º 1, da Lei n.º 91/2001). Daí que também o 53 Tribunal de Contas tenha vindo a autonomizar nos seus Pareceres sobre a Conta Geral do Estado a apreciação da execução do orçamento da segurança social. 9. Orçamentos das Regiões Autónomas Dentro dos orçamentos públicos portugueses estão compreendidos os orçamentos das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, os quais, relativamente ao Orçamento do Estado, não têm quaisquer relações de subordinação ou dependência, configurando uma situação de independência orçamental ou independência financeira «stricto sensu» (separação jurídica entre os orçamentos das regiões autónomas e o Orçamento do Estado; processos próprios de elaboração e aprovação; administração financeira própria, bem como formas próprias de execução, controlo e responsabilidade). Esta independência orçamental assenta ou fundamenta-se na descentralização constitucionalmente consagrada nos níveis político, legislativo e administrativo (cfr. artºs. 6.º, n.º 2, e 225.º a 234.º da CRP). Sobre o regime e a evolução das finanças regionais até à Constituição da República Portuguesa de 1976, cfr. Sousa Franco, op. cit., I, págs. 219-223, e Eduardo Paz Ferreira, As finanças regionais, 1985, passim. No entanto, na elaboração do Orçamento do Estado, a Constituição (art.º 106.º, n.º 3, al. e)) e a Lei n.º 91/2001 (art.ºs 36.º, n.º 2, al. b) e 37.º, n.º 1, al. m)) exigem que a proposta de Orçamento do Estado a apresentar pelo Governo à Assembleia da República seja acompanhada de relatórios sobre a «evolução da situação financeira do sector público administrativo» e as «transferências orçamentais para as regiões autónomas», a fim de justificar a política orçamental apresentada. 54 Vejamos então como se traduz a independência orçamental das regiões autónomas. As regiões autónomas são pessoas colectivas de direito público (art.º 227.º da CRP), com regime político-administrativo próprio (art.º 225.º, n.º 1, da CRP) e dotadas de órgãos de governo próprio – as assembleias legislativas regionais e os governos regionais (art.º 231.º, n.º 1, da CRP). Compete à Assembleia da República aprovar os estatutos político-administrativos das regiões autónomas (art.º 161.º, al. b), da CRP). É, pois, na Constituição e nos Estatutos Político-Administrativos das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira (constantes, respectivamente, da Lei n.º 39/80, de 5 de Agosto, revista pelas Leis n.ºs 9/87, de 26 de Março, e 61/98, de 27 de Agosto; e da Lei n.º 13/91, de 5 de Junho, revista pelas Leis n.ºs 130/99, de 21 de Agosto, e 12/2000, de 21 de Junho) que havemos de encontrar, em primeira linha, o regime fundamental dos orçamentos das regiões autónomas. Vejamos: - Nos termos dos artºs. 227.º, al. p) e 232.º da CRP, é da competência das assembleias legislativas das Regiões Autónomas a aprovação do plano económico regional, do orçamento regional e das contas da região (no mesmo sentido, dispõem o art.º 30.º, als. b) e c), e 32.º, al. b) do Estatuto Político-Administrativo da RAA, e os art.ºs 36.º, n.º 1, als. b) e c), e 38.º, al. b), do Estatuto Político-Administrativo da RAM); - Aos governos regionais compete elaborar as propostas de plano da região e do orçamento bem como apresentar as contas às assembleias legislativas respectivas (art.º 60.º, als. u), v) e x), do Estatuto Político-Administrativo da RAA, e art.º 69.º, als. m), n) e o), do Estatuto Político-Administrativo da RAM); 55 - Aos governos regionais compete ainda velar pela boa execução dos orçamentos regionais (cfr. art.º 227.º, n.º 1, al. g), da CRP, e artºs. 60.º, al. aa) e 69.º, al. p), dos Estatutos Político-Administrativos da RAA e da RAM, respectivamente); - As regiões autónomas dispõem de património próprio e de autonomia patrimonial, bem como de poder tributário próprio, nos termos da lei, podendo dispor das receitas fiscais nelas cobradas e de outras que lhes sejam atribuídas e afectá-las às suas despesas (artºs. 227.º, n.º 1, als. h) e i), da CRP; artºs. 104.º e segs. do Estatuto Político-Administrativo da RAA; art.º 107.º do Estatuto Político-Administrativo da RAM; e art.ºs 32.º e segs. da Lei n.º 13/98, de 24 de Fevereiro – Lei de finanças das Regiões Autónomas); - Como já resultaria das disposições constitucionais e legais citadas (saliente-se que os Estatutos Político-Administrativos constituem leis de valor reforçado – cfr. artºs. 280.º e 281.º da CRP), a Lei de Enquadramento Orçamental – Lei n.º 91/2001 – não deixou de consagrar a independência dos orçamentos das regiões autónomas em relação ao Orçamento do Estado (cfr. n.º 2 do art.º 5.º); - É assim que tem sentido a existência de diplomas legais de enquadramento dos orçamentos das regiões autónomas. E, na verdade, essa legislação foi aprovada, contendo, em geral, um regime muito idêntico ao do enquadramento do Orçamento do Estado (cfr. quanto à RAA, Lei n.º 79/98, de 24 de Novembro, e, no que respeita à RAM, Lei n.º 28/92, de 1 de Setembro). 56 De quanto se expôs, podemos concluir que o regime orçamental das regiões autónomas é, com as necessárias adaptações, em tudo semelhante ao do Estado, sem esquecermos que igualmente inclui a Administração Regional indirecta. 10. Orçamentos das autarquias locais Ao tratarmos os orçamentos das autarquias locais daremos à expressão autarquias locais o sentido e o âmbito que hojetem em Portugal, ou seja, «pessoas colectivas territoriais dotadas de órgãos representativos, que visam a prossecução de interesses próprios das populações respectivas» (art.º 235.º, n.º 2, da CRP). A Constituição prevê como categorias de autarquias locais as freguesias, os municípios e as regiões administrativas (nas regiões autónomas, apenas freguesias e municípios), podendo a lei estabelecer, nas grandes áreas urbanas e nas ilhas, outras formas de organização territorial autárquica (cfr. art.º 236.º da CRP). Salienta-se que as regiões administrativas ainda não foram concretamente instituídas (cfr. art.º 256.º da CRP). De entre as autarquias locais, assumem (sempre assumiram) especial relevo em Portugal os municípios (a sua existência é mesmo anterior à do Estado), cuja evolução ao longo da História não deixou de ser conturbada, perdendo força intrínseca sempre que os regimes políticos revestiram uma natureza mais centralizadora. Com a Constituição da República Portuguesa de 1976, os municípios e, em geral, as autarquias locais, foram dinamizados, em virtude da ideia de descentralização então consagrada. 57 É, pois, este o sentido e o âmbito que nesta sede damos à expressão autarquias locais, como emanação do poder local, corolário da descentralização ao nível administrativo (cfr. artºs. 6.º, n.º 1, e 235.º, n.º 1 da CRP), podendo também designar-se por Administração Local Autárquica. Excluímos, pois, as regiões autónomas, os distritos (que ainda subsistem - cfr. art.º 291.º da CRP), a Administração regional e local desconcentrada do Estado... Como se salientou, as autarquias locais são pessoas colectivas públicas de população e território, dotadas de órgãos representativos (ou seja, legitimadas pelo sufrágio universal - cfr. art.º 239.º da CRP) e que prosseguem fins próprios das populações respectivas (assim se assemelhando, no plano administrativo, ao Estado e às regiões autónomas). As autarquias locais dispõem de poder regulamentar próprio (art.º 241.º da CRP), estando sujeitas à tutela inspectiva de legalidade por parte do Governo da República e dos governos regionais (cfr. artºs 227.º, n.º 1, al. m), e 242.º da CRP; art.º 2.º, n.º 2, da Lei n.º 42/98, de 6 de Agosto; e Lei n.º 27/96, de 1 de Agosto). No âmbito dos orçamentos públicos portugueses estão compreendidos os orçamentos das autarquias locais, os quais são independentes do Orçamento do Estado, configurando assim mais um caso de independência orçamental, justificado pela sua própria natureza. No entanto, o conteúdo da independência orçamental no caso das regiões autónomas‚ é mais forte, uma vez que também existe descentralização aos níveis político e legislativo; daí também a inexistência de tutela. 58 É assim que o art.º 238.º da CRP prevê que «as autarquias locais têm património e finanças próprios» (n.º 1), devendo o regime das finanças locais ser estabelecido por lei, assegurando «a justa repartição dos recursos públicos pelo Estado e pelas autarquias locais e a necessária correcção de desigualdades entre autarquias locais do mesmo grau» (n.º 2), especificando, por último, que «as receitas próprias das autarquias locais incluem obrigatoriamente as provenientes da gestão do seu património e as cobradas pela utilização dos seus serviços» (n.º 3). É também no sentido da independência orçamental das autarquias locais que o n.º 2 do art.º 5.º da Lei n.º 91/2001 dispõe que os seus orçamentos são independentes do Orçamento do Estado. No entanto, relações existem entre o Orçamento do Estado e os orçamentos das autarquias locais. Com efeito, por um lado, o Orçamento do Estado contém normas sobre a repartição dos recursos públicos entre o Estado e as autarquias locais (cfr. artºs. 5.º e 10.º a 15.º da Lei n.º 42/98, de 6 de Agosto) e, além de outros, dois mapas orçamentais (cfr. art.º 32.º da Lei n.º 91/2001) onde são especificados os montantes das transferências correspondentes aos quatro Fundos existentes: Fundo de Base Municipal (art.º 10-A da Lei n.º 42/98); Fundo Geral Municipal (art.ºs 11.º e 12.º da Lei n.º 42/98); Fundo de Coesão Municipal (arts. 13.º e 14.º da mesma Lei) e o Fundo de Financiamento de Freguesias (art.º 15.º da mesma Lei) (cfr., sobre a matéria, Acórdão do Tribunal Constitucional n.º 358/92, in DR, I Série-A, n.º 21, de 26-1-93). Estas relações, cuja importância é inegável, não prejudicam porém, na sua essência, a independência orçamental das autarquias locais. 59 É, pois, neste quadro fundamental que havemos de inserir o regime financeiro específico das autarquias locais, em especial no que ao orçamento respectivo diz respeito. No período de vigência da Constituição da República Portuguesa de 1976, tal regime foi definido por sucessivas leis das finanças locais, começando pela Lei n.º 1/79, de 2 de Janeiro, a que se seguiram o Decreto-Lei n.º 98/84, de 29 de Março (aprovado ao abrigo de autorização legislativa conferida pela Lei n.º 19/83, de 6 de Setembro), a Lei n.º 1/87, de 6 de Janeiro, e a Lei n.º 42/98, de 6 de Agosto, actualmente em vigor. Quais são, então, em resumo, os traços fundamentais do regime orçamental das autarquias locais, resultantes, basicamente, da Constituição e da Lei das Finanças Locais (Lei n.º 42/98)? Vejamos: - Os orçamentos das autarquias locais são independentes, na sua elaboração, aprovação e execução do Orçamento do Estado (art.º 238.º da CRP; art.º 5.º, n.º 2, da Lei n.º 91/2001; e art.º 2.º, n.º 3, al. a) da Lei n.º 42/98); - Os orçamentos das autarquias locais devem respeitar as regras da anualidade, unidade, universalidade, especificação, não consignação, não compensação, equilíbrio e publicidade (art.º 3.º da Lei n.º 42/98); - As autarquias locais têm património próprio e autonomia patrimonial (art.º 238.º, n.º 1, da CRP, e art.º 2.º, n.º 3, al. d), da Lei n.º 42/98), bem como finanças próprias, compreendendo a autonomia financeira (cfr. artº. 238.º, n.º 1, da CRP, e artº. 2.º da Lei n.º 42/98); 60 - Em relação às receitas, põem-se em evidência as resultantes das transferências do Orçamento do Estado (art.º 238.º, n.º 2, da CRP; artºs. 5.º, 10.º a 15.º da Lei n.º 42/98) e as de natureza fiscal (artº. 16.º, als. a) e b), da Lei n.º 42/98). Finalmente, deve dizer-se que a competência orçamental no âmbito das autarquias locais encontra algum paralelismo com o que se passa com o Orçamento do Estado e os orçamentos das Regiões Autónomas, competindo aos órgãos deliberativos (v.g. à assembleia municipal, no caso do município) a aprovação do orçamento e a tomada das contas e aos órgãos executivos (v.g. à Câmara Municipal) a respectiva execução e prestação de contas; a fiscalização externa e independente cabe ao Tribunal de Contas (fiscalização prévia, auditoria e julgamento da responsabilidade financeira). 11. Orçamentos das empresas públicas As empresas públicas são pessoas colectivas de direito público dotadas de autonomia administrativa, financeira e patrimonial, regendo-se por estatuto próprio – o Decreto-Lei n.º 558/99, de 17 de Dezembro, que define o regime jurídico do Sector Empresarial do Estado, e a Lei n.º 58/98, de 18 de Agosto, que regula o Sector Empresarial Municipal. O substrato das empresas públicas é o exercício de uma actividade económica (produção de bens e serviços), com fins lucrativos, nisto se distinguindo das pessoas colectivas públicas que compõem o sector público administrativo. 61 Por força desta natureza, as empresas públicas fazem parte do sector público, mas caracterizadopelo exercício de actividades empresariais – integram, pois, o sector público empresarial. O sector público empresarial é composto por três subsectores: o subsector empresarial do Estado, o subsector empresarial regional e o subsector empresarial autárquico. Do universo das empresas públicas estaduais há que distinguir as entidades públicas empresariais, por um lado, e as sociedades de capitais públicos e as sociedades/empresas mistas ou participadas (que, porém, com excepção das participações minoritárias, são também empresas públicas – cfr. art.º 3.º do Decreto- -Lei n.º 558/99. Quanto às sociedades de capitais públicos, trata-se de pessoas colectivas com capitais exclusivamente públicos (do Estado ou de outras entidades públicas) e por isso subordinadas, em regra, ao direito privado (cfr. artºs. 7.º do Decreto-Lei n.º 558/99) – em bom rigor, são empresas públicas sob forma privada, integrando o sector público empresarial. No que respeita às sociedades/empresas mistas ou participadas, são igualmente pessoas colectivas associando capitais públicos e privados nacionais ou estrangeiros. Fazem parte do universo das empresas públicas aquelas em que a participação pública confira à parte pública uma posição dominante, em virtude da detenção da maioria do capital ou dos direitos de voto ou do direito de designar ou de destituir a maioria dos membros dos órgãos de administração ou de fiscalização (cfr. art.º 3, n.º 1 do Decreto-Lei n.º 558/99). Estão também, em regra, subordinadas ao direito privado, embora as empresas controladas tenham, no plano jurídico- financeiro como no comunitário, muitos caracteres comuns às empresas públicas. 62 Por essa razão, têm de observar alguns pontos importantes do regime contido no Decreto-Lei n.º 558/99 (cfr. artº.s 11.º e segs). Reportando-nos agora tão só ao regime orçamental das entidades públicas empresariais, desde logo deve evidenciar-se estarmos perante outro caso de independência orçamental (relativamente ao Orçamento do Estado), embora com fundamentação diferente da invocada quanto às regiões autónomas e às autarquias locais – trata-se aqui de uma independência orçamental de natureza essencialmente técnica, o que se compreende pois as empresas públicas estatais prosseguem fins que originariamente são do Estado, do qual não podem ser desligados. Ao invés, as regiões autónomas e as autarquias locais prosseguem fins próprios. Daí também que a tutela sobre as empresas públicas seja muito mais forte (nas autarquias locais é uma tutela inspectiva de legalidade; quanto às regiões autónomas não existe, como já observámos) – cfr. artºs. 29.º e segs. do Decreto-Lei n.º 558/99. Na realidade prática, a tutela integra uma espécie de corresponsabilização pela gestão – que gera uma quase total irresponsabilidade dos gestores pelos maus resultados, que são tratados como actos políticos, não empresariais. Neste quadro, os traços fundamentais do regime orçamental das entidades públicas empresariais definidos no Decreto-Lei n.º 558/99 são os seguintes: - Os orçamentos anuais, juntamente com os planos de actividades, devem ser elaborados com respeito pelos pressupostos macroeconómicos, pelas orientações estratégicas e pelas directrizes definidas pelo Governo e, quando for caso disso, por contratos de gestão ou por contratos-programa; (cfr. art.º 31.º/2); 63 - Os orçamentos anuais deverão ser completados com os desdobramentos necessários para permitir a descentralização de responsabilidades e o adequado controlo de gestão (art.º 31.º, n.º 1); - Os projectos de orçamento são aprovados pelos conselhos de administração respectivos, após o que deverão ser enviados, até 30 de Novembro, aos Ministérios das Finanças e da tutela para aprovação (cfr. art.º 31.º, n.º 2); - Elaboram e prestam contas, remetendo-as à Inspecção-Geral de Finanças que, após parecer, as submeterá à apreciação dos Ministros das Finanças e da tutela (art.º 32.º); - Prestam igualmente contas ao Tribunal de Contas, estando sujeitas aos seus poderes de controlo financeiro, nos termos da Lei de Organização e Processo do Tribunal de Contas (cfr. art.º 12.º do Decreto-Lei n.º 558/99, e Lei n.º 98/97, de 26 de Agosto). No que respeita ao sector empresarial das Regiões Autónomas aplica-se, na falta de Lei específica, o regime contido no Decreto-Lei n.º 558/99, de 17 de Dezembro (cfr. art.º 5.º). Reportando-nos agora ao sector empresarial autárquico, desde logo se deve evidenciar o facto de a sua constituição, bem como o seu regime jurídico, se pautar por critérios próprios, que diferem um pouco dos que observámos a propósito das empresas estaduais. De acordo com o previsto no art.º 1º da Lei n.º 58/98, o sector empresarial autárquico é composto pelas seguintes entidades empresariais: 64 - empresas públicas (aquelas cujo capital é na totalidade detido por municípios, associações de municípios ou regiões administrativas); - empresas de capitais públicos (aquelas cujo capital é detido por um ou mais municípios, associações de municípios ou regiões administrativas, em associação com outras entidades públicas – v.g. o Estado); - empresas de capitais maioritariamente públicos (aquelas cujo capital é detido maioritariamente por um ou mais municípios, associações de municípios ou regiões administrativas, em associação com entidades privadas). Tais empresas regem-se, em primeira linha, pelo regime contido na Lei n.º 58/98 e pelos respectivos estatutos e, subsidiariamente, pelo regime das empresas do Estado e pelo direito comercial (art. 3.º). Quanto ao regime orçamental em especial, cumpre observar que a gestão económica das empresas autárquicas é disciplinada, no mínimo, pelos seguintes instrumentos de gestão previsional: a) Planos plurianuais e anuais de actividades, de investimento e financeiros; c) Orçamento anual de investimento; d) Orçamento anual de exploração, desdobrado em orçamentos de proveitos e orçamentos de custos; e) Orçamento anual de tesouraria; f) Balanço previsional (art. 30º da Lei n.º 58/98). No caso das empresas públicas, tais instrumentos são aprovados pelas câmaras municipais, conselhos de administração das associações de municípios ou pelas juntas regionais, consoante o âmbito da empresa (art.º 16º, al. c) da Lei n.º 58/98); no caso das empresas de capitais públicos ou maioriatariamente públicos, os 65 referidos instrumentos são aprovados pelas respectivas assembleias gerais (art. 20º, n.º 1, al. a) da Lei n.º 58/98). Estão igualmente obrigadas à elaboração e prestação de contas (art. 34º da Lei n.º 58/98), devendo as empresas públicas remetê-las, para aprovação, às câmaras municipais, conselhos de administração das associações de municípios ou às juntas regionais, consoante o caso (art.º 16º, al. d) da Lei n.º 58/98), e as empresas de capitais públicos ou maioritariamente públicos às respectivas assembleias gerais (art. 20º, n.º 1, al.b) da Lei n.º 58/98). Prestam igualmente contas ao Tribunal de Contas, estando sujeitas aos seus poderes de controlo financeiro nos termos da respectiva Lei de Organização e Processo (cfr. art. 35.º da Lei n.º 58/98 e Lei n.º 98/97, de 26 de Agosto). Eis, em resumo, os aspectos que se afigura fundamental pôr em relevo. 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