Prévia do material em texto
Ana Carolina Gradowski Cagliari PROCESSO PENAL – 1º BIMESTRE Professor: Rodrigo Chemim INTRODUÇÃO Nós temos dois grandes grupos de doutrinadores: • Grupo mais tradicional. • Grupo mais moderno. O que diferencia um grupo do outro é primeiro, nós temos duas leituras do Processo Penal e esse grupo mais tradicional costuma muitas vezes dar mais preferência para interpretar o Processo a partir do Código, da Legislação infraconstitucional e o grupo mais moderno prefere a Constituição e parte de uma compreensão mais circular da Constituição para o Código e do Código para a Constituição, só por isso se pode dizer que esse grupo tem uma melhor percepção da importância Constitucional. Mesmo assim os dois grupos estão convivendo juntos no dia a dia. Porque os dois estão convivendo até hoje no dia a dia? Ocorre talvez pelo fato dessa lei infraconstitucional (Código de Processo Penal Brasileiro), ela colide ideologicamente falando com a Constituição. O Código de Processo Penal brasileiro ele é de 1941, é o mesmo Código que ainda usamos hoje. O Presidente da República em 1941 era o Getúlio Vargas (na versão ditador, Estado Novo). Normalmente os ditadores não se autoproclamam ditadores. Se dizem ser democratas apesar de agirem de maneira totalitária. Para se dizer democrata ele vai usar muito fortemente o Direito, ele vai dizer que está só usando a lei, lei que foi aprovada no parlamento. E que tipo de lei interessa a um ditador? Uma lei que permita o agir totalitariamente. Dentro de um universo legislativo (CC; CPC; CT...), o Código de Processo Penal é muito importante para quem pretende exercer poder de maneira a ser um sujeito que diminua suas liberdades individuais e que atue de forma mais totalitária. O Código Penal, o Direito Penal material ele seleciona condutas e prevê sanções. Só que ele só se efetiva no fim de um processo. Só no fim do processo que o Direito Penal vai aparecer de verdade na prática. O processo ao contrário chega antes. Ana Carolina Gradowski Cagliari É através das regras do Processo Penal, que alguém pode bater na porta da sua casa às 6 horas da manhã dizendo que você está preso. Não adianta discutir nessa hora, no momento você está preso. Então isso é poder. O processo invade a esfera de autonomia privada de liberdade, antes mesmo de você ter uma chance de arrolar definitiva de culpa. Portanto, a um ditador interessa o Processo Instrumental Legislativo que facilite isso. O Getúlio quando assume o poder, ele se depara com um “problema” para ele. Quando ele assume o poder nós tínhamos no Brasil autonomia dos Estados muito mais definitivo do que é hoje, inclusive no Plano Legislativo Processual Penal. Então, quando Getúlio assume o poder, cada Estado da Federação tinha o seu Código de Processo Penal. Nós tínhamos aqui o Código do Estado do Paraná que era diferente do Código do Estado do Rio de Janeiro, que era diferente do da Bahia. Então imagine um ditador que quer centralizar poder, quer exercitar esse poder no país inteiro, dá uma ordem e seus subalternos dizem que não deu porque lá no Estado do Paraná não fazem como o nosso. Então como ele quer uma legislação para que possa usar no país inteiro, ele faz um Código de Processo Penal para o país inteiro. Isso diminui a autonomia dos Estados. O grande inspirador de Getúlio Vargas era o Mussolini, na Itália. O Mussolini na Itália já tinha antecipado em tempo cronológico de Getúlio e não à toa o Mussolini encomendou um Novo Código de Processo Penal para a Itália. Encomendou para seu Ministro da Justiça a elaboração desse Código. Então o Código de 1930 da Itália, ele é um Código que servia do regime fascista de Mussolini. Então Getúlio diz para o seu Ministro da Justiça, Francisco Campos que precisa de um Código do modelo italiano aqui. Então, Francisco Campos, em certa medida, faz uma “cópia” mal feita do Código Italiano de 1930. O nosso Código de Processo Penal brasileiro de 1941, ele tem uma base ideológica fascista. Houveram já 2 grandes modificações em nosso processo, uma em 2008 e a outra em 2011. Várias vezes dentro do próprio Código de Processo Penal você tem uma situação de desarmonia, porque uma regra colide com a outra, além de colidir com a Constituição Federal também. A CF/88 já nasce com um modelo de garantias onde o discurso de Processo Penal e as garantias de Processo Penal, elas aparecem com toda sua potencialidade no texto da CF/88 (art. 5º.). Então é possível dizer que o nosso processo hoje também é constitucionalizado. Quando eu tenho uma regra infraconstitucional que colide com a regra constitucional, qual prevalece? A constitucional. Isso é óbvio, porém não tão óbvio assim em parte da doutrina ou não é tão óbvio assim muitas vezes na jurisprudência. Ana Carolina Gradowski Cagliari Como essa pergunta tão óbvia as vezes não se efetiva nem na doutrina (boa parte dela à tradicional) e nem tão pouco na jurisprudência? Qual é a dificuldade de entender isso que é tão óbvio? A dificuldade decorre muitas vezes da natureza humana. O ser humano tem dificuldades de olhar para o novo com os olhos do novo. Tem dificuldade de abrir mão daquilo que estava acostumado a fazer em nome de um novo modelo que lhes obrigue a ajustar e adaptar. Então, as vezes, o interprete que estudou naquele modelo anterior da Constituição de 88, que aprendeu a partir das regras do Código e que desde 1941 estava aplicando às regras do Código daquele mesmo jeito sempre, quando vem a Constituição e trás aquilo como princípio que colide com as regras, dá um jeito de continuar fazendo isso. Ele tem dificuldade de ajustar-se ao novo. Nós somos capazes de torturar nosso semelhante por prazer. Exemplo: Era medieval, Idade Média. O ser humano ainda continua com as dificuldades de olhar o novo com os olhos do novo. Exemplo contemporâneo: nós tivemos uma grande mudança no Código de Processo Penal em 2008. E dentre uma das regras que foram alteradas diz respeito a forma de inquirição da testemunha no Processo Penal. Era de um jeito que se fazia e passou a ser de outro, a partir da mudança no Código em 2008. à REGRA VELHA: como se fazia a inquirição de uma testemunha do Processo Penal brasileiro desde 1941 (quando o código foi feito) até 2008 quando mudou a regra. Funcionava assim na sala de audiência. O juiz fazia o comprometimento legal da testemunha dizer a verdade e começava a inquirição. SÓ quem perguntava para a testemunha era o juiz. O juiz era a única pessoa autorizada pela lei a formular perguntas a testemunha. O juiz começa a inquirir, ele perguntava, perguntava, perguntava. Fazia o escrivão anotar as respostas. Esgotou toda a curiosidade dele, ele não tem mais nada para perguntar. Aí ele vira para as partes (advogado e promotor) e pergunta quem foi que arrolou a testemunha. Ah, foi o promotor. Dr. Promotor diz o juiz, tem alguma repergunta para fazer além das que eu já fiz? Aí o promotor vira para o juiz e diz: tenho excelência, GOSTARIA que fosse reperguntado isso. O juiz então diz que é uma boa pergunta. Pega para ele a pergunta, reformula e com as suas palavras formula a pergunta para a testemunha que só então está autorizada a responder. Mais alguma pergunta diz o juiz ao promotor. Não, estou satisfeito excelência. O advogado tem alguma pergunta para fazer? No mesmo modelo responde o advogado a excelência: GOSTARIA que fosse reperguntado isso. O juiz diz boa pergunta, reformula e ele juiz com as suas palavras faz a pergunta para a testemunha a qual agora está autorizada a responder. Mais alguma pergunta Dr. Advogado? GOSTARIA que fosse perguntado isso também. Ojuiz diz que é impertinente esta pergunta, tem mais alguma? Não, estou satisfeito diz o advogado. Ana Carolina Gradowski Cagliari Juiz senhor absoluto da produção probatória. Tudo passa por ele, as partes não perguntam para a testemunha, quando muito elas sugerem uma pergunta complementar ao final. Testemunha e juiz são os dois únicos que conversam na produção probatória. Parte (advogado e promotor) não conversam com testemunha. à REGRA NOVA: em 2008 muda a lei (lei 11.690/2008). Nova redação do artigo 212. Art. 212 – As perguntas serão formuladas pelas partes diretamente à testemunha, não admitindo o juiz aquelas que puderem induzir a resposta, não tiverem relação com a causa ou importarem na repetição de outra já respondida. Parágrafo único: sobre os pontos não esclarecidos, o juiz poderá complementar a inquirição. As partes perguntam direto, o juiz indefere as que achar impertinentes e ele pode complementar sobre os pontos não esclarecidos. De acordo com a nova regra quem pergunta primeiro são as partes. Porém, está cheio de juiz que ainda continua perguntando primeiro. Para esses juízes não mudou nada, apenas que as partes perguntam direto para a testemunha, para ele não mudou, ele continua perguntando primeiro. Vários promotores e advogados entraram com recurso desta postura de alguns juízes, mencionando que está violando a regra. E a coisa chegou lá no Supremo. O Supremo disse que violou a regra, não pode, a regra nova não fala que o juiz pergunta primeiro, quem pergunta primeiro são as partes. Só que o Supremo fez o seguinte: “virgula” mas, não vejo prejuízo no fato do juiz perguntar primeiro. Então o Supremo disse que não havia prejuízo e legitimou dizendo que tanto faz. Como assim não tem prejuízo? Como assim, tanto faz? Como assim não tem problema? Veja a dificuldade do interprete brasileiro. Porque o legislador mudou essa regra? Tem uma razão de ser. E porque o Supremo não enxergou isso? O supremo são 11 pessoas que julgam HC, incompetência originária, ação penal originária do país inteiro. No ano de 2015 o Supremo julgou 93 mil processos só no ano passado (11 pessoas julgaram 93 mil processos). Por esse motivo o Ministro para de estudar. Mudou a lei e eles não tem tempo de estudar. E se não tem tempo de estudar como faz para decidir a interpretação de uma regra nova. Saiu uma lei nova, e daí? Vê alguém aí que tem tempo para estudar, escrever um livro e ver o que o cara diz, nós vamos por aí. Ana Carolina Gradowski Cagliari Nesse caso aqui, o Supremo usou uma doutrina que permitiu dizer o que ele diz. Eles pegaram o Guilherme de Souza Nucci para sustentar esta tese lá no Supremo. E logo que saiu a nova lei em 2008, o Nucci começou a dar palestras convidado pelos Tribunais para explicar o que mudou na nova lei. E nessa palestra o que Nucci disse a respeito desse art. 212, que a única coisa que tinha mudado era que agora as partes perguntavam direto para a testemunha, mas que o juiz continuava perguntando primeiro. Até porque disse ele: “Se o juiz não puder perguntar primeiro, seria como transformar o juiz numa samambaia de sala de audiência”. Essa foi uma expressão que foi incorporada nos acórdãos. O problema do juiz perguntar primeiro é que tem que entender que um modelo anterior ele facilitava o exercício de um poder mais arbitrário de um juiz em comparação com o modelo novo que diminui a possibilidade de um arbítrio não necessariamente consciente do juiz. O ser humano, qualquer um de nós quando detêm poder tende a buscar, até inconscientemente, em qualquer esfera, inclusive em relações de micro poder (exemplo: professor – aluno). Então o modelo anterior facilitava o abuso. A doutrina tradicional não trabalha com a compreensão da complexidade, das relações interpessoais lidas a partir de uma transdisciplinaridade. E isso a doutrina moderna já faz. Para estudar o direito, não basta ficar lendo o Código, tem que estudar o ser humano, tem que entender outras coisas que sustentam, que dão base, que fundamentam os discursos legislativos. Hoje, tudo o que fazemos na vida tem uma regra tutelando, difícil alguma situação no nosso dia a dia que não tenha um regramento dizendo como fazer, se pode ou não pode fazer. Por uma questão didática se resolveu organizar esses regramentos em pequenos grupos (direito civil, direito empresarial, direito ambiental). Foi se organizando por grupos de regras que vão tentando dizer o que se faz, o que não se faz, qual é a sanção do desvio de comportamento. E tem um pequeno grupo de regras que está lá no cantinho e a gente criou para tentar atuar como dizia Nelson Hungria: “Esse conjunto de regras ao qual damos o nome de Direito Penal, ele atua como se fosse um soldado de reserva. Só vai para a linha de frente em último caso”. Ele está para estabelecer a pior sanção prevista em todo o conjunto de regras quando os demais conjuntos de regras não foram capaz de dar conta, de organizar a relação interpessoal. O ser humano tem uma condição própria de não ser muito fácil na convivência. Kant dizia que o ser humano é de uma sociabilidade insociável, ao mesmo tempo eu que dependo para viver, porque viver isolado é para poucos, a maioria precisa de outras pessoas por sermos seres sociáveis, ao mesmo tempo somos egoístas, primeiro eu e depois o outro. Ana Carolina Gradowski Cagliari A natureza humana faz com que a gente seja refratário quando qualquer coisinha possa ser diferente daquilo que a gente acha que deva ser. Somos naturalmente conflitivos, e somos agressivos por natureza, em maior ou menor medida. Para Freud, nós somos constituídos por uma grande falta que a gente não sabe bem o que é. Freud chamava isso de “a coisa” que seu discípulo vai chamar de “objeto A”, ou seja, “a coisa” ou “objeto A” tanto um quanto o outro dizem que nós temos uma grande falta constitutiva do nosso ser, que a gente não sabe o que é. E como nós não sabemos o que é, isso nos angustia. E para tentar viver nós substituímos essa grande falta por pequenas faltas no cotidiano. Essas pequenas faltas geram desejos que precisam ser gozados. E na medida em que são gozados imediatamente em seguida ressurge uma nova falta que gera um novo desejo e que precisa ser gozado, e assim por diante. É isso que faz a gente viver, a levantar e ir para a faculdade cedo, por exemplo. Se fomos até a faculdade é porque alguma coisa falta para nós. Para uns o que motiva é aprender, para outros receber apenas o diploma, para outros porque o pai manda. É isso que faz a gente viver. O dia em que acordarmos e não sentirmos falta de nada, a tendência é entrar em depressão. (Depressão é a ausência de falta). Então nós somos constituídos de uma grande falta, dizia Freud, que nós substituímos por pequenas faltas que geram desejos e precisam ser gozados. Freud diz que o ser humano é agressivo instintivamente por natureza. E daí que na primeira infância ele começa a constituir uma capa de contenção de sua instintividade agressiva que faz com que ele não queira gozar sem limites. Quando o pai diz para o filho “não”, e o filho começa a entender que não é o único ser do mundo, que tem outras pessoas que existem, que são importantes, que interferem na sua liberdade de gozar na sua plenitude. Este pai castrador vai moldando e dizendo ao filho pode fazer, não pode fazer. E o resultado entre o “id” e o “ego” é o “EU”. Quantos mais “não” você receber na sua primeira infância, mais contensão de gozo absoluto você terá, mais sociável você será. Quanto menos “não” você receber na primeira infância,mais facilmente você violará as normas de convivência social. No segundo momento vai ser já adulto, se você não recebeu os suficientes “não” na primeira infância, talvez você não queira desviar do comportamento nas relações interpessoais levando em conta o colega e a possível vergonha que você possa ter do colega em relação ao seu comportamento. O colega não atura o seu tipo de comportamento. Para a sociologia seria um controle social interno, vergonha do colega. Isso eu não vou fazer porque as pessoas com quem eu convivo já me deixaram claro que não toleram esse meu comportamento. Então eu me contenho mesmo que na infância eu não tenha recebido “não” o suficiente, eu vou procurar construir uma capa de conduta para mim nas relações interpessoais. Ana Carolina Gradowski Cagliari Se você não se conteve suficientemente pelos “não” recebidos na primeira infância e não tem mais vergonha do seu colega, nada te segura a não ser o direito. O direito vem com a tentativa de organizar aqueles que não receberam os suficientes “não” da vida e que perderam totalmente a vergonha do colega. Freud explica que são 3 fatores que causam o desconforto do homem (3 fatores que geram tristeza e angustia no homem). 1- Incapacidade humana em relação a natureza. Nós não somos capazes de conter os fenômenos da natureza (tsunami, terremoto, vulcão) e isto nos angustia. 2- Incapacidade relacionada a fragilidade dos próprios corpos. Somos seres finitos, temos uma única certeza, que é que todos vamos morrer. E a fragilidade dos próprios corpos também nos incomoda. 3- Regra: o ser humano não gosta de regra, de ser tutelado. Mas segundo Freud, se não houvesse regra pela natureza humana instintiva o ser humano mataria que quisesse matar, estupraria quem quisesse estuprar, roubaria quem quisesse roubar. Tudo para ele, pensando só nele. Nós somos contidos pelos “não” que recebemos e pelas regras da sociedade. O conjunto de regras que organiza a vida em sociedade ele provoca um mal-estar no ser humano mas ao mesmo tempo ele é necessário. Dentro desse universo de regras a coisa tem que ser organizada de uma forma tal qual que nos permita viver de uma forma mais ou menos harmônica em sociedade. E aí o Direito Penal está ali para servir de auxilio para isso. O Direito Penal material, ele olha para essa vida toda em sociedade, procura identificar quais são os comportamentos mais graves, o que diz por em risco a convivência social, comportamentos estes que os demais ramos jurídicos não estão dando conta de minimizar sua incidência. E aí o Direito Penal seleciona aquele comportamento, desvalora aquele comportamento e prevê uma sanção para ele. Quando se diz que desvalora não é no sentido de retirar valor, é ao contrário, é no sentido de agregar, acrescentar uma carga de valor negativa para aquele comportamento (não mate, não furte, não estupre). Ele desvalora, atribui uma carga de valor negativo, seleciona e prevê a pior sanção de todo o conjunto de regras. Isso faz o Direito Penal. Só que o Direito Penal não é autoaplicável. Não basta verificar que alguém realizou aquele comportamento que foi selecionado pelo Direito Penal para que automaticamente aquela pena prevista ali seja aplicada. Por exemplo: matar alguém é o comportamento selecionado pelo Direito Penal. Ele diz que se alguém matar outra pessoa ela receberá uma sanção que começa com 6 anos de reclusão ou então eu verifico uma pessoa que acabou de matar outra pessoa. Automaticamente vem o Estado e diz: recebe 6 anos já, vai começar a cumprir. Não! Porque se fosse assim o poder punitivo seria muito forte, muito Ana Carolina Gradowski Cagliari perigoso. Então para tentar conter esse poder punitivo que é necessário por um lado mas que deve ser contido por outro para que não se abuse, porque afinal de contas quem vai exercer esse poder é um ser humano em relação ao se semelhante. Nós precisamos ter um conjunto de regras que nos permita fazer toda uma verificação das circunstâncias em que aquele fato ocorreu (circunstâncias, tudo que está ao redor de alguma coisa). Então eu verifico o comportamento matar alguém. Eu quero saber quem foi. Será que foi mesmo aquela pessoa que estão dizendo que foi? De repente foi outra pessoa. Se foi ela, matou em que circunstância? Porque dependendo da circunstância o próprio direito vai legitimar. O Direito Penal diz que posso matar alguém em legítima defesa. Há um regramento que exclui a licitude do comportamento. Ou outro regramento que exclui a culpabilidade. Será que ele era capaz de entender o caráter ilícito do fato? Será que era exigido dele um comportamento diverso? Eu tenho que fazer toda uma verificação das circunstâncias que envolvem aquele comportamento. Como fazer isso? Eu creio um segundo conjunto de regras ao lado desse primeiro chamado Direito Penal e este segundo conjunto de regras damos a ele um nome chamado Direito Processual Penal. O Direito Processual Penal vem então como um instrumental de permitir fazer uma verificação do comportamento de uma determinada pessoa. Saber tudo que envolve aquela situação permitindo a essa pessoa (a acusada de ter praticado tal comportamento) de se defender, de mostrar o seu lado da história. De fazer com que se consiga ter uma melhor compreensão. Para que se possa finalmente decidir se a pena prevista no Direito Penal será ou não será aplicada aquele sujeito. E mais que isso, em qual medida ela será aplicada porque a pena prevista é de 6 a 30 anos. Para fazer essa verificação toda, eu vou precisar de um ritual de verificação. É um conjunto de regras vai disciplinar como isso vai acontecer. Nós chamamos esse conjunto de regras de Direito Processual Penal. Como deve atuar o Direito Penal e como deve atuar o Direito Processual Penal na coletividade? Hoje em dia temos variados discursos que procuram ou legitimar ou procuram desvelar funções escondidas tanto da própria razão do Estado quanto função do Direito Penal, quanto também do processo. Tudo vai depender agora da forma a qual você vai entender a razão de ser do Estado e pena. Existem diversas maneiras de pensar no que vai ser falado a partir daqui. Tem alguns doutrinadores que trabalham com teorias abolicionistas, muitas vezes vinculadas as Teorias da Pena. O Zaffaroni, por exemplo, tem uma forma de entender a pena como o que ele chama de Teoria Agnóstica da Pena. Ana Carolina Gradowski Cagliari As funções da pena são retributiva, preventiva e para o Zaffaroni não tem função nenhuma, seria uma Teoria Agnóstica. Teorias preventivas da pena. - Geral Positiva (reafirmação da lei na norma): fazer com que toda vez que eu aplique a pena eu comunique a sociedade que a norma foi observada. Para que a sociedade tenha mais confiança na norma. Porque a confiança é um valor importante na vida em sociedade. - Geral Negativa (intimidação): visa evitar que as pessoas cometam crime. Não faça porque você será punido. - Especial Positiva (ressocialização) - Especial Negativa (neutralização) Zaffaroni diz que não acredita em nenhuma dessas funções. Diz que isso tudo é coisa furada, por afinal de contas as pessoas continuam cometendo crimes. Toda vez que uma pessoa comete um crime, eu diria que função geral não adotou para ela, a função especial não vai ressocializá-la, por que prender alguém não socializa ninguém e sim desocializa tirando-a da sociedade e jogando numa jaula. Ele (Zaffaroni) vai criticando uma a uma das funções, dizendo que não tem razão de ser, por isso ele não acredita em nada e por isso ele é agnóstico (não acredita nas funções da pena). Então se elas são funcionam porque eles punem,Zaffaroni diz que é porque isso é assim desde que o homem é homem, ele é vingativo por natureza e ele quer se vingar das pessoas. Mas para que ele se vingue invidualmente o Estado substitui e acaba sendo o Estado vingador. Mas aí dentro dessa leitura é preciso conter o poder do Estado. Então, toda a preocupação do Zaffaroni e de quem segue a linha dele, Teoria Agnóstica, é enxergar o Direito Penal e o Direito Processual Penal como instrumento de contenção do poder política, só. Só para isso que ele serviria. Professor acha pensamento do Zaffaroni muito exagerado. Claro que o Direito Penal tem que ter essa função, mas não é só isso. Ele discorda um pouco dos radicalismos de não chegar a função preventiva da pena, principalmente a preventiva geral negativa. O Zaffaroni diz que toda vez que alguém comete um crime é porque a função preventiva geral negativa não atuou sobre esse cara. Tanto não atuou que ele cometeu esse crime. Não atuou em relação a ele, mas em quantas outras pessoas não atuou, que não cometeram o crime. Por isso o professor acha um pouco exagerado dizer que não tem função de prevenção geral negativa. Daí Zaffaroni diz que você não precisa do Direito Penal para formatar na cabeça das pessoas ideia de que elas não podem ter desvio de comportamento, basta dar educação. A educação resolve. Professor acha importante a educação e entende que a educação é fundamental. Mas para ele, mesmo assim, uma coisa não afasta a outra, porque Isolar indivíduo da sociedade Ana Carolina Gradowski Cagliari por mais que você tenha educação com as pessoas coletivamente falando e isso vai diminuir a criminalidade (principalmente se essa educação vier da primeira infância como falava Freud.). Vai diminuir o desvio de comportamento, mas não vai evitar que pessoas cometam. Toda vez que você pensar “não vou fazer porque vai dar merda” é a função preventiva geral negativa atuando. Se Zaffaroni e seguidores dizem assim: a única função do Direito Penal e do Processo Penal é conter o poder punitivo. Nesta fase está presente a necessidade da existência do poder punitivo. Porque a frase não é “preciso eliminar o poder punitivo”, “é preciso conter o poder punitivo”. E se eu digo que preciso conter o poder punitivo é porque na leitura as avessas dessa frase eu estou legitimando o poder punitivo. Se ela está dizendo que precisa conter o poder punitivo então ele precisa existir. E aí se ele tem que existir ele tem que ter alguma finalidade. É a partir daqui que o professor discorda um pouco. Ele acha que deve conter o poder punitivo, porem, sem esse poder tem que ter alguma efetividade, porque senão não haveria motivo para sua própria existência. E aí vem o outro lado da moeda, que é a dificuldade de estabelecer um equilíbrio entre razão de ser do poder punitivo e a necessidade da existência do poder punitivo, e a contenção deste poder punitivo. Efetividade contida. Por isso o professor acha que não dá para trabalhar só de um lado, enxergar só freio do exercício do poder. Ele acha que também tem uma função de orgazinar a vida em sociedade. Ele acredita na função de prevenção negativa da pena no momento da cominação. Porque aí você pode trabalhar a função de prevenção na cominação, função de repressão na aplicação e função de ressocialização na execução. São momentos diferentes. O Estado comina na lei, o Estado o aplica, o Estado executa. Basta olhar para nossa sociedade complexa hoje sem que exista alguém exercitando um poder para tentar organizar a bagunça? Dá para viver nessa sociedade sem exercício do poder? Professor acha que não, é muito complexa, cada vez mais complexa. Quão complexa ficou a vida depois da internet, do Google, do Facebook. Se não tiver alguém, por exemplo, no Facebook para dizer e organizar imagine o que não seria. Se mesmo assim tem gente que viola imagine se não tivesse gente cuidando e organizando. Então o exercício do poder ele é necessário. Como funciona a razão de ser do Estado? Nós tivemos 3 grandes momentos pós revolução francesa que vão repercutir na nossa Constituição de 88. A CF/88 é o resultado de uma somatória histórica, uma sucessão de modelos de Estado que deságua nela. E muita fortemente pós revolução francesa. Porque esta revolução francesa como dizia era o poder absoluto do monarca. O rei dizia o mundo. Aí vem a revolução francesa patrocinada em grande parte pela burguesia, classe comerciante burguesa, detentora do poder econômico, pega o povão, chega para o rei e diz: chega, chega de se Ana Carolina Gradowski Cagliari intrometer na nossa vida. Não queremos mais. Está se intrometendo demais e a gente não consegue nem se organizar aqui. Está exagerado o negócio. Sai fora você. E o que se coloca no lugar? Simbolicamente o povo. E aí passam a dizer que não é mais vontade do rei e sim vontade popular. Não é mais o rei que dita a regra, é o povo. O fato é que tiro alguém e coloco outra pessoa para exercer o poder. Vai ter um exercício de poder, só que um exercício de poder contido. Então, Estado fica na tua você só vai ser chamado aqui para algumas coisinhas bem pontuais. O resto fica na tua, não se meta. Então vem o Estado Liberal de Direito, que é o que acontece depois da revolução francesa. Estado Liberal a proposta é “deixa fazer, deixa passar”. Não se mete. Deixa que a gente dá conta aqui, só precisamos para dar uma organizada basicona, o resto a gente se vira aqui. Isso durou um tempo até que vai girar uma situação perversa em relação a classe mais economicamente desfavorecida. O que facilita a vida do comerciante, mas o comerciante explora até o limite e gera uma pobreza toda generalizada, uma classe privilegiada e uma classe desfavorecida. Então não é a toa que já vem em seguida, que o Marx surge aí. Não é a toa que o discurso Marxista vem e diz: Precisamos repensar nisso aí, isso aí está complicado. Todos os discursos socialistas vem da sociedade econômica, para fazer com que o Estado regularize esse negócio para favorecer a classe desfavorecida. Precisamos de um Estado Social de Direito, não mais em Estado Liberal. Percebemos com o passar do tempo que o direito não conseguiu segurar duas grandes guerras. Precisando então de um novo modelo de Direito, nem um Estado Social, mas sim um Estado Democrático. Democracia onde a vontade da maioria prevalece, porém que ela não aniquile a minoria. Que mantenha a vontade da maioria desde que a minoria seja também protegida. Por isso vem as cláusulas pétreas da CF, para que as gerações seguintes não elimine tudo que foi conquistado pela geração antecedente, porque não viveu tudo que foi vivido. Vai ter na CF aquilo que existia de importante no Estado Liberal, contenção do poder punitivo, mas vai ter também aquilo de importante que existia no estado social, que é a atuação positiva do estado em favor da população. A Constituição brasileira vai trazer não só uma única baliza de contenção, mas duas balizas. A razão de ser do Estado, e aí a razão do direito Penal e Processo Penal estão também relacionadas e orientadas e só são legitimadas a partir disso. Proibição de excesso de um lado (evidente que decorre do estado liberal), proibição de proteção insuficiente do outro lado. Não adianta ter poder se não tiver o mínimo de efetividade. A proteção que o Estado me dá não pode ser insuficiente ao ponto que eu não possa viver sem ter que me preocupar de ser morto ali na esquina, por exemplo. Punir acaba sendo um ato civilizatório em certa medida. Ana Carolina Gradowski Cagliari Se vende muito na academia a ideia de que aumentar pena não resolve para nada. Os crimes e as razões pelas quais aspessoas cometem crimes variam dependendo do tipo de crime. O que leva alguém a matar uma pessoa não tem nada que vê com alguém que recebe o dinheiro para vender uma sentença. São razões completamente diferentes. Então aumentar a pena do crime de homicídio talvez não tenha muita efetividade, mas aumentar a pena, por exemplo, para punir um desvio de comportamento de um juiz que vendeu sua própria sentença em troca de dinheiro, de um prefeito que frauda uma licitação que era destinada a construir escola para as crianças, de um médico que forja um dedo de silicone e dá para o colega fraudar sua presença no postinho de saúde para ele atender no particular. Para esses caras a racionalidade deles é diferente para aquele que comete um homicídio. Para esses caras, eles não tem medo do direito penal hoje. Do jeito que está hoje no Brasil o Direito Penal não os alcança. Nesses casos tem que aumentar a pena. E não adianta pegar no bolso. É uma falácia dizer: “siga o dinheiro que você chegará no dono”. Prescrição retroativa favorece quem tem poder. E só existe no Brasil. ANÁLISE DAS NORMAS DE PROCESSO PENAL EM COMPARAÇÃO COM AS NORMAS DE DIREITO PENAL MATERIAL v Jorge de Figueiredo Dias. Ø Direito Penal Material: - Lícito - Punível - Ilícito - Não punível Ø Direito Processual Material: - Existência - Validade - Inexistência - Não validade Figueiredo Dias trabalha com critério axiológico quanto a observar ou não observar a regra e a consequência que daí decorre. Ele diz mais ou menos o seguinte: regras de Direito Penal, o que o Direito Penal faz, do que o Direito Penal se ocupa. Ana Carolina Gradowski Cagliari O Direito Penal ele acaba selecionando determinados comportamentos em sociedade, ele recruta comportamentos mais gravosos que o restante do ordenamento não deu conta de resolver, desvalora esse comportamento (atribui uma carga de valor negativa para esse comportamento) e prevê sanções estabelecendo as regras que permitirão punir ou não punir esse sujeito. Então ele seleciona esse comportamento, classifica esse comportamento como um ilícito. Então uma das coisas que ele faz é separar o que é ilícito do que é lícito, por exclusão. Que não foi selecionado por exclusão ele é lícito. Então Figueiredo diz: observar ou não observar uma regra do ponto de Direito Penal Material depende de dizer se a conduta é lícita ou ilícita. Então um dos planos de valoração, de observância ou não observância, uma regra de Direito Penal, trabalha com essa dicotomia lícita e ilícita. Então se a regra está regulamentando uma discussão em torno disso, comportamento é lícito ou é ilícito esta regra é uma regra de Direito Penal Material. No mesmo plano o Direito Penal também se ocupa de regrar as situações nas quais eu posso ou não posso punir o sujeito. Então regras que regulamentam uma possibilidade de punir ou não punir alguém também são regras de Direito Penal Material. Então o segundo plano de análise é verificar se a regra está discutindo se a conduta é punível ou não punível. Então, de acordo com Figueiredo Dias regras que discutem licitude ou ilicitude no comportamento; punição ou não punição no comportamento são regras de Direito Penal Material. O Direito Processual Penal ele não está preocupado em selecionar condutas ou criar hipóteses punitivas ou não. O Processo Penal está preocupado em construir um ritual através do qual nós vamos poder esclarecer, construir um fato, instruindo um juiz que não conhece, para que esse juiz então conheça e possa tomar uma decisão ao final estabelecendo mecanismos que deem efetividade a aplicação da jurisdição. Então o Processo Penal está preocupado em estabelecer uma sequência pré-ordenada de atos que ritualize essa mecânica de verificação do fato e permita que se tome uma decisão ao final de todas as garantias do cidadão sendo preservadas. Está discutindo o que eu tenho que fazer para que as garantias processuais sejam observadas para que o Estado não exceda, para que ao mesmo tempo a coisa chegue ao fim, qual é o ritual, qual ato tem que fazer primeiro e depois, como fazer cada ato, então ele está discutindo o ritual. Regras que regulamentam o ritual, observância ou não observância dessas regras gera um tipo de análise em termos de consequência. Num primeiro momento observar ou não observar uma regra do Processo Penal permite dizer se o ato processual existiu ou não existiu. Ana Carolina Gradowski Cagliari O primeiro plano de análise trabalha com a dicotomia de existência ou inexistência do ato. Observei a regra e o ato realizado existiu, não observei, não realizei o ato, não existiu. Quando se fala de existência aqui, ele não esta falando apenas de uma existência física, mas também de uma existência jurídica. O ato deve existir juridicamente falando, e não apenas fisicamente falando. Se pudéssemos imaginar que haveria um portal que nos separa do mundo real, do mundo virtual das regras. O ato processual deve existir tanto aqui quanto lá, desse mundo virtual. Como é que faz para existir também do mundo virtual, do jurídico, do mundo das regras do Direito Processual Penal. Eu tenho que passar esse portal. Para passar esse portal eu preciso observar uma determinada regra, que serviria como se fosse uma chave de passagem, que me permitisse abrir esse portal e passar para lá também. Então determinadas regras de processo servem para permitir que o ato exista no mundo jurídico, e não apenas no mundo físico. Essas regras me permitem dizer que o ato existente no mundo jurídico sem observadas permitirão concluir pela existência do ato juridicamente falando. Se não observadas permitem dizer a inexistência do ato juridicamente falando. Então uma regra que regulamenta ritual será uma regra processual quando a observância ou não observância desta regra permitir dizer se o ato existe juridicamente ou não existe juridicamente. Exemplo: Júri simulado da faculdade. Como é que funciona geralmente um júri simulado da faculdade. Normalmente o professor que vai organizar o júri, ele escolhe um caso verídico, de preferência de um processo já encerrado. Fotocopia esse processo inteiro, entrega um jogo de cópias para os alunos que fará as vezes de Ministério Público, o outro jogo de cópias para os alunos que farão a defesa, um terceiro jogo de cópias para o aluno que fará as vezes de juiz. A ideia do júri simulado é treinar na prática as regras que regulamentam o ritual do júri. Vamos por exemplo no júri simulado observar a regra que diz que para começar o júri tem que ter pelo menos 15 jurados presentes na sessão. Se tiver 14 presentes o júri não sai, essa é uma regra. Aí desses 15 ou mais, ate 25 jurados que devem estar presentes nós vamos sortear 7. Porque 7? Porque 7 é uma regra do júri que diz que o nosso júri é composto no seu conselho de sentença por 7 jurados. Esses jurados serão compromissados. Porque compromissados? Porque essa é uma regra que regulamenta o rito que deve ser observado. Depois disso acontece instrução processual. Vamos ouvir testemunhas, interrogar o réu dentro de um conjunto de regras que regulamentam isso. Depois vamos para os debates orais, 1 hora e meia para o promotor falar, 1 hora e meia para o advogado falar. Porque 1 hora e meia? Porque a regra diz que é 1 hora e meia. Depois o promotor tem oportunidade de réplica por mais 1 hora e a defesa de tréplica por mais 1 hora. Encerrados os debates o juiz lê um questionário para os jurados. Como é a Ana Carolina GradowskiCagliari ordem das perguntas? Tem uma regra que diz que a primeira pergunta é da materialidade do crime, a segunda pergunta da autoria, a terceira pergunta é se o réu absolve quarta pergunta eventual qualificadora. Tem uma ordem. Tudo isso é observado no júri simulado. Então vamos imaginar que esse júri simulado na faculdade, que todas essas regras de processo são observadas. No caso verídico o réu foi condenado a 20 anos de reclusão e está cumprindo pena na Penitenciária Central do Estado. E o caso dele é reapreciado no júri da Faculdade de Direito, e vamos imaginar que o resultado do júri simulado seja que o réu foi absolvido. Aí os alunos filmaram esse júri simulado e jogaram na internet (youtube, facebook) e aquilo circulou tanto que bateu no ouvido do nosso amigo que está cumprindo pena de 20 anos de reclusão porque foi condenado no caso concreto. Imagine o cara preso lá e ele fique sabendo que o caso dele foi “reapreciado” pela Faculdade de Direito e o resultado é que ele foi absolvido. O cara pira lá, “finalmente entenderam o meu caso”, “finalmente alguém entendeu que sou inocente, eu sou inocente” “agora o meu caso foi reapreciado na Faculdade de Direito e não por qualquer um”. Ele documenta isso tudo, faz uma petição de próprio cunho, pede uma revisão criminal ao Presidente do Tribunal de Justiça do Paraná, anexando todas as provas, que no caso dele foi reapreciado na Faculdade de Direito tendo como resultado a absolvição, requerendo que ele seja colocado imediatamente em liberdade já que ele foi absolvido na Faculdade de Direito. Protocoliza isso que virá um pedido revisão criminal no Tribunal de Justiça do Paraná. E esse pedido chega ao Presidente do Tribunal de Justiça. O que faz o Presidente? Arquiva, porque o júri simulado que está embasando o pedido observou várias regras de Processo Penal, esta é a razão do júri simulado. Só que observou quase todas as regras menos uma regra que é essencial para que aquilo que aconteceu na faculdade pudesse ingressar no mundo jurídico. O que ficou faltando? Qual regra não foi observada? Faltou poder. Quem está sentado na cadeira do juiz não é o juiz, é um estudante de direito. Quem está sentado na cadeira do promotor, não é promotor, é um estudante de direito. Quem está sentado na cadeira do advogado não é advogado, é um estudante de direito. As pessoas não são, do verbo “ser”. Elas não existem como tais. Então se elas não são, os atos que elas realizam, mesmo que observem todas as outras regras de processo, não conseguem ingressar no universo jurídico do Processo Penal. Ficam só no plano da realidade física. Afinal de contas as pessoas estavam lá, falaram, observaram as regras, o júri simulado aconteceu. Só que ele ficou só no plano físico, ele não ingressou no mundo jurídico do Direito Processual Penal, porque a chave para ingressar nesse universo paralelo era a exigência que fosse tudo aquilo precedido por um juiz com jurisdição, que o promotor tivesse poder para atuar no caso concreto e que o advogado fosse um bacharel inscrito na OAB. Como nada disso aconteceu, aquilo foi uma simulação de algo que juridicamente é um nada.Não tem efeito nenhum a Ana Carolina Gradowski Cagliari realização de um júri simulado no universo jurídico. Por isso o Presidente diz que o pedido está embasado em ato juridicamente inexistente. Então a não observância de uma regra de processo (regra que exige que o processo seja conduzido por um juiz com poder jurisdicional, que o promotor tenha prestado concurso e recebeu o poder para atuar ali e o advogado a mesma coisa), o ato realizado por pessoas que não tenham poder é um ato juridicamente inexistente. A violação dessa regra implica na inexistência do ato. A observância dessa regra implica na existência do ato. Por isso Figueiredo Dias diz: regras que regulamentam a possibilidade de se discutir se o ato existe ou não existe são regras de Processo Penal. Tem um segundo plano de análise que é o plano da validade, do aproveitamento ou não do ato. Não basta existir, é preciso ser válido. Não basta então que o ato exista no mundo jurídico. É preciso que ele seja aproveitável. Para ser aproveitável tem que observar as demais regras. A não observância em outro grupo de regras permite ser que o ato não é válido. A observância das outras regras permitirá dizer que o ato é válido. Então observar ou não observar as regras que discutem validade ou não validade do ato, esse tipo e regra é uma regra de Processo Penal. Em síntese, regras de Direito Penal material discutem no plano da licitude, ilicitude, da punição ou não punição do sujeito. Regras do Direito Processual Penal discutem o ritual de existência, não existência, validade ou não validade. Isso é importante porque dependendo da análise que você faça ao se deparar com uma regra nova, se você disser que essa regra nova é uma regra do Direito Penal material, como é que você vai interpretá-la. Como se interpreta uma nova regra do Direito Penal material? Tem que analisar se ela é mais benéfica ou não em comparação a lei velha. Se for mais benéfica retroage para alcançar fatos que ocorreram antes da vigência da lei. Se ela for mais gravosa ela só se aplica para novos fatos, novos crimes. No processo, se a regra for processual a análise num primeiro momento não é feita nestes termos. Se a regra for processual do art. 2º do CPP dá outro tipo de orientação. Art 2º. A lei processual penal aplicar-se-á desde logo, sem prejuízo da validade dos atos realizados sob a vigência da lei anterior. Então daqui se extraem 2 princípios de interpretação: à Princípio da imediatidade – 1ª parte. àPrincípio da irretroatividade – 2ª parte. Ana Carolina Gradowski Cagliari É diferente interpretar uma regra nova do Direito Penal material e do Direito Processual Penal. No entanto algumas regras vão se misturar. v Regra de Conteúdo Misto ou Variado. Essa regra indica que ela trás no mesmo artigo uma parte de Direito Penal material e outra parte de Processo Penal, só que a regra é uma só. Regra Exemplo art. 366, CPP. Art. 366. Se o acusado, citado por edital, não comparecer, nem constituir advogado, ficarão suspensos o processo e o curso do prazo prescricional, podendo o juiz determinar a produção antecipada das provas consideradas urgentes e, se for o caso, decretar prisão preventiva, nos termos do discurso no art. 312. Essa regra foi alterada em 1996. A regra velha regulamentava a seguinte situação. O processo começa quando o promotor oferece a denúncia (petição inicial). Protocoliza a petição inicial chamada Denúncia. E daí o juiz decide se recebe ou não essa denúncia. Recebida a denúncia, o próximo passo é o juiz determinar a citação do acusado (citação serve para informar e chamar). Eu informo que existe um processo contra ele e chamo para que ele venha a se defender. Essa citação tem que ser a principio pessoal. Emite-se um mandado de citação, entrega-se esse documento na mão do oficial de justiça que irá então no endereço do indicado bater na porta, buscar a pessoa e formalizar essa citação entregando uma cópia da citação onde consta que ele deve comparecer num determinado dia, num determinado horário por exemplo na 4ª Vara Criminal. Então o oficial de justiça vai no endereço, vamos imaginar que ele chegue no endereço, bata na porta e a pessoa que atende na porta não é o acusado. Então ele pergunta a respeito do acusado e o morador do endereço diz: olha, eu não conheço essa pessoa, mas eu sei da existência dela porque muita gente vem atrás dela aqui, e eu fui me informare ele é o antigo morador daqui. Esse imóvel eu aluguei fazem 6 meses. Ele não D.P D.P.P Ana Carolina Gradowski Cagliari reside aqui já há 6 meses e eu não faço a menor ideia do seu paradeiro até porque eu não conheço esse sujeito. O oficial de justiça através dessa informação vira o mandado no verso e escreve o seguinte: Certifico que compareci no endereço indicado e fui informado pelo atual morador que o acusado não reside ali a mais de 6 meses e que não se sabe do seu paradeiro estando para mim em local incerto e não sabido. Devolve este documento e o MP vai tentar localizar o endereço dele atualizado. O endereço que vem é sempre o velho, não tem mais o que fazer, enfim, o que a lei dizia nesse caso: bom: se esgotaram as tentativas de citação pessoal resta a citação por edital, que é uma citação ficta. Fica fixado no edital por 60 dias. Para dar mais publicidade o juiz publica também no Diário da Justiça. Isso faz com que na prática a possibilidade do sujeito ficar sabendo que tem um processo contra ele. A possibilidade do sujeito saber que tem um processo contra ele é zero, probabilidade nula. Não várias vezes o processo chega ao fim sem o réu saber da existência dele. Na prática funcionava assim, citado por edital, quando do dia marcado para o comparecimento do réu, o juiz abria formalmente a audiência, perguntava para o escrivão, tá presente o réu? Não. Aí o juiz dizia, vamos aguardar 15 minutos. Passou 15 minutos, compareceu? Não. Bom, então dizia a lei velha, decreto a revelia do acusado, nomeio um advogado para ele e toco o barco. O advogado nomeado assim sem ter contato com o réu vai fazer uma defesa com limitações próprias de quem nunca conversou com o réu. Fará uma defesa com menor potencia se tivesse conversado com o réu. Então várias vezes o processo caminhava e no final tinha uma sentença condenatória, e muitas vezes o advogado nem recorria, deixava transitar em julgado. Cadê o réu que ninguém achou ele. Ele está condenado à 15 anos de reclusão, expeça-se mandado de prisão, e ficava o mandado de prisão aberto. Vamos imaginar que o nosso amigo réu mudou de endereço porque ficou desempregado e não tinha condição de pagar aluguel, então foi morar com a irmã na mesma rua. Mas como ele foi morar com a irmã o endereço dele não apareceu em lugar nenhum. Ele estava desempregado, passa um tempo e ele finalmente consegue um emprego. Como burocracia da empresa sempre é pedido uma certidão negativa, mesmo que você já tenha dito que nunca respondeu a processo criminal e tal. Aí ele vai ao cartório do distribuidor, pede uma certidão negativa de antecedentes criminais. O cartório o manda voltar em 48 horas. Então dois dias depois ele retorna, se apresenta no balcão para o funcionário. O funcionário percebe que é ele, diz para ele esperar um pouco. Nisso chega à polícia militar, algema ele, ele pergunta o que está acontecendo. Dizem para ele que ele está preso. Aí ele diz como assim? O senhor não é fulano, filho de beltrano? Sim, sou eu mesmo. Então não há dúvidas, o senhor está condenado a 15 anos de pena de reclusão. Por favor, o senhor nos acompanhe até a penitenciária. Não tem o que discutir, o senhor tem que cumprir a pena, o seu tempo de discutir já passou à Era assim até 1996. Ana Carolina Gradowski Cagliari A partir de 1996 a lei passou a ser como é hoje. Até 96 o réu não aparecia, o juiz decretava a revelia, nomeava um advogado e tocava o processo. Na lei nova, ficarão suspensos o processo e o curso do prazo prescricional podendo o juiz determinar a produção antecipada das provas consideradas urgentes, se fosse o caso, decretar prisão preventiva, nos termos do disposto no art. 312. Agora mudou a história. Se o réu não compareceu e não ficou sabendo da existência do processo, suspende o processo até que o Estado ache o réu. Enquanto não achar o processo não segue. Porque o princípio constitucional da ampla defesa que pressupõe ampla defesa exige que o réu pelo menos saiba formalmente que existe um processo contra ele, para evitar uma surpresa à Agora suspende o processo. Essa regra nova, quando ela fala que ficará suspenso o processo, esse pedaço da regra “ficará suspenso o processo” tem natureza processual. Se o juiz quiser fazer mesmo assim a audiência, está violando a regra, portanto como consequência não haverá validade do ato à a regra diz, fica suspenso o processo, o juiz diz, mas eu vou fazer. O que fizer não será válido porque violou a regra. Então se violar a regra implica em dizer que eu não aproveito o ato, a regra é de processo. Agora o art. prossegue dizendo que fica suspenso também o curso do prazo prescricional. Regras que regulamentam prescrição tem natureza de Direito Penal material. Se esta regra é de natureza Penal material parcela que diz que fica suspenso o prazo prescricional, esse pedaço é de direito penal material. Então percebe-se que o art. 366 do CPP tem um pedaço que fala em Processo Penal quando diz que ficará suspenso o processo e o outro pedaço do mesmo artigo que é de direito penal material quando diz que suspende o prazo prescricional àexemplo clássico de uma regra de conteúdo misto ou variado. Se nós olharmos para a parcela de direito penal desse dispositivo o que a gente vai perceber que suspender o curso do prazo prescricional é melhor ou pior para o réu? É pior, porque vou ter mais tempo para punir (o Estado vai ter mais tempo para me punir). Então a lei é mais grave do que eu tinha antes. Na parte do direito penal material eu posso dizer que suspender o prazo é uma lei mais gravosa do que a lei velha. Se ela é mais gravosa, eu posso retroagir? Eu posso aplicar para um processo que está em curso? Não. Ela só pode ser aplicada para novos fatos. No dia que a lei entrou em vigor aplica o art. 366 ou não? Os juízes aplicaram de tudo. Teve juiz que aplicou o artigo por inteiro, teve juiz que não aplicou nada e teve juiz que cortou a regra no meio (aplicou a parte processual e não aplicou a parte de direito material) à depois de muita discussão o que prevaleceu no STJ, prevaleceu o seguinte critério de interpretação da regra. O primeiro critério de uma regra de conteúdo misto e variado disse o STJ é manter a unidade do dispositivo (do artigo). Ana Carolina Gradowski Cagliari O STJ disse que devo manter o dispositivo, por que ele entendeu que o juiz é ser humano e ser humano é criativo por natureza. E se deixar que um juiz pegue uma regra e diga que vai aplicar um pedaço dela e outro não, se dá para imaginar o que vem depois disso aí. Abriu a porteira ninguém segura mais. Se eu tenho que manter a unidade do dispositivo, eu não posso separar uma coisa da outra, o que vai prevalecer na interpretação? Evidente que vai prevalecer a parcela de direito penal material, porque ela é mais severa que as regras de processo. O Direito Penal material ele é o principal e o processo é o acessório. Como é que vou interpretar uma regra de conteúdo misto ou variado? Eu vou olhar só para a parcela de direito penal, vou desconsiderar a parcela de direito processual. Olhando só para a parcela de direito penal material eu vou verificar se é melhor ou pior para o réu em relação a matéria, e vou aplicar o critério de interpretação de uma lei nova de direito pena material. Se for melhor ela retroage e o processo aplica junto. Se for pior, só para novos fatos e o processo também. Para onde for o direito penal vai o processo junto. Então nesse art. 366 do CPP, a parcela do direito penal ela é mais gravosa para o réu, porque amplia o prazo prescricional. Se é mais gravosaquem acertou lá em 96 foi o juiz que não aplicou e continuou aplicando a lei velha. A lei velha tinha um problema, ela era inconstitucional, mas aí a solução era outra. A solução era declarar a inconstitucionalidade daquela regra e dizer que ela violava a ampla defesa e resolve por ali, mas eu não podia aplicar a lei nova. Acertaram os juízes que só aplicaram esse art. 366 na nova redação para novos crimes que ocorreram a partir de sua vigência, e continuaram aplicando até os processos que já estavam em curso, nos crimes que ocorreram antes de 17/04/1996. Em síntese podemos dizer assim, regra de conteúdo misto ou variado interpretam como se fosse regra de direito penal material. v Regra Processual com Conteúdo Material. Regra A regra aqui inteira é de direito processual penal, só que ela tem conteúdo de direito penal. D.P.P D.P Ana Carolina Gradowski Cagliari Exemplo: regras que regulamentam a prisão preventiva. Regras que regulamentam prisão preventiva são regras de processo. Porque prisão preventiva não decorre de uma sentença, decorre de uma necessidade. Visa a cautelar uma situação de momento. Então ela é uma medida cautelar processual. E ela é cheia de regras. Para decretar a prisão preventiva o juiz tem que observar regras que regulamentam que dizem quando pode fazer isso. Se ele viola a regra que prevê a prisão preventiva a consequência é a não validade da decretação da prisão. Então observar ou não observar uma regra que regulamenta a prisão preventiva gera a validade ou não validade da prisão em si. O critério de Figueiredo Dias nos permite dizer que esta é uma regra processo penal. Mas o cara vai preso, não está punindo o cara de certa forma? É uma regra processual, só que tem um conteúdo material. 2011 no Brasil foi alterado o código de processo penal justamente neste ponto, naquela regra que dizia qual tipo de crime eu posso decretar prisão preventiva e qual não posso. Porque a prisão preventiva não cabe para qualquer caso. O critério até 2011 era um, a partir de 2011 passou a ser outro critério. Mudou a lei. Qual era o critério mínimo para decretar prisão preventiva na lei de 1941 até 2011? Só caiba prisão preventiva em crime doloso punido com reclusão. Crimes mais graves à punidos com reclusão. Crimes menos graves à punidos com detenção. Na cadeia reclusão e detenção é tudo igual. Qual a diferença então? A diferença é mais processual do que penal. O processo penal usa o critério reclusão e detenção para estabelecer algumas possibilidades processuais para um tipo de crime para outro não. Por exemplo, intercepção de comunicação telefônica, não cabe para todo crime. Só cabe para crime punido com reclusão. Nos crimes punidos com detenção eu não posso nem com autorização judicial fazer interceptação de comunicação telefônica, gravar uma conversa de duas pessoas sem que elas saibam. Mas se é punido com reclusão então pode. Esse era o critério da lei até 2011, tinha que ser doloso punido com reclusão. Em 2011 muda a lei. O critério que passa ser agora é que o continua sendo doloso (aqui não mudou), porém agora eu não discuto mais reclusão ou detenção. O critério novo é que o crime tem que ter uma pena máxima prevista em abstrato na lei superior a 4 anos. Até 4 anos tanto faz reclusão ou detenção, não cabe prisão preventiva. Acima de 4 anos tanto faz pena de reclusão ou detenção cabe prisão preventiva. Então vários crimes que permitiam prisão preventiva até 2011 porque a pena era de reclusão, não permitem mais porque a pena máxima é igual ou menor do que 4 anos. Ana Carolina Gradowski Cagliari à Regras de processo penal com conteúdo material devem ser interpretadas como se fosse direito penal material (posição dominante) Ø Como saber se eu estou diante de uma regra com conteúdo material. Tem dois doutrinadores de leitura mais moderna que usam critérios que não dá para usar, estão errados. - Aury Lopes Jr à para ele não tem diferença nenhuma, regra de direito penal e regra de processo, para ele é tudo igual. Para ele toda regra de processo tem conteúdo material à toda regra de processo deve ser interpretada de direito material (não dá para usar esse critério). - Luiz Flávio Gomes à para ele toda regra de processo cujo conteúdo toque em direitos e garantias do cidadão, do art. 5º da CF, tem conteúdo material. O problema do critério de Luiz Flávio está na própria frase, direito e garantia. Direito é material e garantia é processual. ü Rito Comum Ordinário. • Lei Velha. 1. MP fornecendo a denúncia. 2. Juiz recebe. 3. Citação. 4. Interrogatório. 5. Defesa prévia. 6. Audiência inquirição MP. 7. Audiência inquirição testemunha defesa. 8. Alegações finais. 9. Sentença. • Lei Nova. 1. MP fornecendo a denúncia. 2. Juiz recebe. 3. Citação. 4. Resposta técnica. 5. Absolvição sumária (possibilidade). 6. Audiência de Instrução e Julgamento: a) Ouvir vítima. b) Ouvir testemunhas do MP. c) Ouvir testemunhas defesa. Ana Carolina Gradowski Cagliari d) Interrogatório do réu. 7. Alegações finais. 8. Sentença. No rito da lei velha o interrogatório do réu é o primeiro ato de instrução. Já na lei nova o interrogatório do réu está lá no fim. Na velha lei interrogava o réu e depois ouvia as testemunhas. Na lei nova primeiro ouço as testemunhas para depois interrogar o réu. A lei nova ao deslocar o interrogatório de primeiro ato de instrução para o último ato de instrução, ela ampliou a defesa. Para o réu é melhor falar depois. A lei nova é mais benéfica para o réu, ela ampliou a defesa. Agora usa o critério do Aury e usa o critério do Luiz Flávio e vê o que acontece na prática. Na prática significa dizer, vamos anular todos os processos que existiram na história do país. Então como é que eu sei que estou diante de uma regra com conteúdo material? Uso o critério do Figueiredo Dias. Se o conteúdo de fato tocar no direito punitivo é direito penal, se não, não. INTERPRETAÇÃO DA REGRA DE PROCESSO NO ESPAÇO E UTILIZAÇÃO DO CÓDIGO DE PROCESSO O art. 1º. do CPP trás uma regra que decorre do problema que Getúlio Vargas enfrentava que era o fato de cada Estado da Federação tinha o seu código de processo penal. E ele então unifica a legislação. Art. 1º O processo penal reger-se-á, em todo território brasileiro, por este código. Este código aplica-se em todo território brasileiro, com algumas ressalvas, diz o legislador relacionadas: I – Os tratados, as convenções e regras de direito internacional. Ana Carolina Gradowski Cagliari Então o Brasil é signatário de vários tratados, de várias convenções que submete a regra do direito internacional. Vários desses tratados tratam inclusive de matéria processual penal. E um deles é bastante importante para o processo que é a: ü Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de San José da Costa Rica) – Decreto 678/92. Essa convenção trás várias regras de processo penal, por isso ela é bastante destacada. O STF interpreta a Convenção dizendo que a Convenção Americana, ela está entre a Constituição e o Código de Processo Penal, hierarquicamente falando em termos de importância. Então está acima do Código de Processo Penal e um degrau abaixo da Constituição. Então nós podemos fazer em relaçãoao Código de Processo Penal tanto um controle de constitucionalidade como um controle de convencionalidade. Um exemplo prático para a importância da convenção e como ela se sobrepõe até o código de processo é a Audiência de Custódia. Se for procurar no código de processo penal sobre audiência de custódia não vai achar nada a respeito dela. Não existe uma regra no código de processo. Já na Convenção Americana de Direitos Humanos está lá um disciplinado que quem foi preso em flagrante delito tem o direito de ser apresentado a um juiz, imediatamente apresentado a um juiz. Então até o final do ano passado, começo desse ano (2016), nunca demos muita bola para a Convenção Americana no Brasil nesse ponto. E era da tradição interpretativa brasileira não exigir que o preso em flagrante delito fosse imediatamente apresentado a um juiz. O código trabalha com a interpretação a um delegado de polícia. E o delegado quando muito comunica ao juiz em 24 horas que alguém foi preso. Mas a pessoa que foi presa não era apresentada para se entrevistar com o juiz. Então o Pacto de San José diz que as pessoas tem o direito de serem apresentadas a um juiz. Por isso começou um movimento há mais ou menos um ano e meio para fazer valer a Convenção. Ainda que eu não tenha uma regra no Código a Convenção diz isso a respeito e portanto se começou um movimento nesse sentido, que foi acolhido pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça) que resolveu disciplinar como é que esse negócio vai ser feito. Cada Estado da Federação está criando regras a respeito disso aí, o que é perigoso, o ideal seria ter uma lei. Já estão fazendo a audiência de custódia porém com uma dificuldade de ajuste para fazer funcionar, pois não foi feito um cargo de juiz só para fazer isso. Ana Carolina Gradowski Cagliari Falta estrutura mas tem que fazer. O Código não se aplica quando colide com uma convenção de natureza internacional com a qual o Brasil é signatário à isso que está dizendo o art. 1º do CPP em última análise. O Código também não se aplica. II - As prerrogativas constitucionais do Presidente da República, dos ministros de estado, nos crimes conexos com os do Presidente da República, e dos ministros do supremo tribunal federal, nos crimes de responsabilidade. Isso aqui na verdade é infração política, não é crime propriamente dito. Quando ele fala de crime de responsabilidade ali está se referindo a ação de natureza política, é o famoso processo de impeachment, regulado por uma lei da década de 50. Então no processo de impeachment você não usa o código de processo penal, você usa a lei especial que regulamenta o processo de impeachment. O inciso III também excepciona o uso do código de processo penal para: III – Os processos da competência da justiça militar. Essa é uma regra de 1941, permanece vigente ainda hoje porque saindo de ditadura militar, lá na década de 80, caminhamos para uma redemocratização do país um dos acordos que foi feito para que a coisa fosse uma transição não bélica, foi que os militares não abriram mão de manter a sua justiça. Então esse acordo vai afrontar. A constituição brasileira manteve a Idea de uma justiça militar à existe um código de processo militar. Os processos de competência da justiça militar você não usa o código de processo penal, você usa o código de processo penal militar. O inciso V, regra lá de 1941 fala que eu não uso o código de processo penal para: V – Os processos por crime de imprensa. Esse inciso V tem que ser hoje em conjunto do parágrafo único do art. 1º. Parágrafo único – aplicar-se-á, entretanto, este código aos processos referidos nos ns. IV e V, quando as leis especiais que os regulam não dispuserem de modo diverso. Ana Carolina Gradowski Cagliari Na conjugação do inciso V com o parágrafo único interpreta-se esse inciso V hoje como relacionado a qualquer lei especial preveja um rito especial que não apenas a belíssima lei de imprensa. Então qualquer lei especial hoje traga um regramento de processo penal, a lei especial prepondera sobre o código de processo penal e poderá ser usado subsidiariamente naquilo que não conflitar com o código de processo penal. Então, se tem várias leis especiais que trazem regramentos de processo penal e elas estão então são usadas preferencialmente em relação ao código. àExemplo: Lei 9.099/95 – Lei que regulamenta os juizados especiais criminais. Trás todos um regramento diferente de como funciona o processo no juizado especial. Lá tem a chamada transação penal, a possibilidade do promotor fazer um acordo com um autor do delito e não processá-lo. Tem também regras da suspensão do processo. Enfim, tudo isso está naquela lei, no código não vai achar. Usa aquela lei e o código só se aplica subsidiariamente. Art. 3º. A lei processual penal admitirá interpretação extensiva e aplicação analógica, bem como o suplemento dos princípios gerais do direito. v Regras de interpretação quanto ao alcance. • Interpretação Declarativa. É aquela que não exige nenhum esforço do interprete, é a regra clara. Exemplo: no futebol, a bola caiu dentro da área é pênalti, caiu fora da área não é pênalti. • Interpretação Extensiva. Amplia o alcance da regra na hora de interpretar, porque o legislador acabou sendo de certa forma econômico na redação da lei. Esqueceu de regrar alguma coisa que deveria ter regrado. Como ele não lembrou e aquilo que ele não lembrou é igual aquilo que ele lembrou, você que está interpretando a lei pode fazer uma interpretação que amplie, estenda o alcance da regra para que ela venha tutelar também aquela situação que ela não regrou. Então na hora de interpretar você amplia o alcance da regra. Exemplo: no art. 581 do CPP trata de um recurso chamado Recurso em sentido estrito e diz: “caberá recurso, no sentido estrito, da decisão, despacho ou sentença: I – que não receber a denúncia ou a queixa.” Se a gente lembrar da aula passada foi passado um rito comum ordinário. E ali como é que funcionava então o processo à O promotor oferece a denúncia. O Ana Carolina Gradowski Cagliari próximo passo é o juiz decidir se recebe ou não recebe essa denúncia. Se ele recebe ele começa o processo, citação e vai para frente. Se ele não recebe acaba ali. O juiz pode não receber a denúncia? Pode. O que o juiz vai analisar para decidir se recebe ou não recebe a denúncia? Ele vai analisar se o promotor observou as condições para o exercício da ação (denúncia é a materialização da ação). A ação direito de evocar a tutela do Estado tem condições para fazer isso. Se ele não observou essas condições, o juiz diz: bom, você não poderia ter exercitado a ação porque você não observou as condições. Você não tinha condições para fazer isso. Então eu não recebo a denúncia. O promotor pode querer discutir isso, e como discutir? Através de um recurso do Tribunal de Justiça. Então se o juiz não recebe a denúncia, o que entende ele juiz? Promotor não tinha as condições exigidas para fazer. E o promotor entende ao contrário, que o juiz errou na análise, que na verdade tinha essas condições. Promotor recorre dessa decisão, de não receber a denúncia. E quem vai dizer quem tem razão é o Tribunal de Justiça. Nós temos uma situação agora no processo que é a possibilidade do promotor tendo oferecido uma denúncia, o juiz ter recebido essa denúncia. O processo está em curso e o promotor no meio do processo (desde que antes da sentença) atravessa uma petição fazendo um aditamento a denúncia (aditamento vem do verbo aditar que é somar, acrescentar).Então o promotor ele pode (a lei permite) que ele atravesse uma petição a qualquer momento desse para acrescentar alguma coisa que ficou faltando da denúncia por variadas razões. Por exemplo, ele sabe que foram duas pessoas que cometeram o crime, mas até agora só foi identificada uma delas, a outra pessoa ninguém sabe o nome dela, nem identificação dela, nem nada. Então o promotor ofereceu a denúncia apenas aquela que ele sabia quem era. Dizendo que o crime foi cometido por duas pessoas, a outra não identificada. Passa um tempo e se descobre quem era essa outra pessoa. Aí o promotor atravessa uma petição no meio do processo e diz: olha, vim aditar a denúncia para dizer que aquela outra pessoa que eu não sabia quem era, é fulano e denuncia ele também. Pode acrescentar um novo fato, pode acrescentar um novo réu, pode reescrever o fato... Quando ele faz isso ele submete a uma apreciação do juiz. E o juiz vai decidir se recebe ou não recebe o aditamento a denúncia. Que tipo de análise o juiz vai fazer para decidir se recebe ou não o aditamento à denúncia? A mesma análise que ele fez quando resolveu decidir pelo recebimento da denúncia. Se a natureza da decisão, que decide receber ou não receber o aditamento à denúncia é exatamente igual a natureza da decisão que decide não receber eventualmente a própria denúncia, ainda que não esteja escrito na lei que cabe recurso da decisão que não receber o aditamento à denúncia, que não esta escrita ali porque o legislador esqueceu, você pode usar essa regra para interpor um recurso em sentido estrito da decisão que eventualmente não recebeu o aditamento. Fazendo uma interpretação extensiva do inciso I. Você vai ler o inciso Ana Carolina Gradowski Cagliari primeiro de uma maneira a dizer que ele alcança também a decisão que não recebeu o aditamento ainda. Interpretar extensivamente, portanto é pegar uma regra e aplicar uma situação que não está nela expressamente regrada, que deveria estar. • Interpretação restritiva. Nessa interpretação você tem o legislador que acabou exagerando na hora de regrar. Ele regrou de forma tal que a regra ficou muito ampla. Na hora de interpretar essa regra vai diminuir o alcance da regra pela via de interpretação. Nesse caso o legislador disse mais do que deveria ter dito. Na interpretação vai restringir o alcance de aplicação daquela regra. Exemplo: o art. 312 do CPP diz que eu posso decretar prisão preventiva como garantia da ordem pública. Já vimos que tinha que ser crime doloso, pena superior a 4 anos e agora tem que ter além disso ser também por uma finalidade. Qual finalidade? Garantia da ordem pública. O que é ordem pública? Então, é uma expressão muito aberta. O Mirabete quando vai falar de ordem pública ele não faz interpretação restritiva, ao contrário, ele encaixa tudo e mais um pouco nesse conceito, que é um conceito aberto do tamanho de um bonde. Dizendo Mirabete que eu posso decretar prisão preventiva como forma de dar credibilidade à justiça. Essa não é uma interpretação restritiva, e aí o que a jurisprudência recomenda é que, pera aí, isso aí não dá. O legislador aqui exagerou, a expressão é muito aberta. Então, você que está interpretando isso vai ter que dar um jeito de diminuir o alcance disso aí porque senão você encaixa tudo, vai prender todo mundo. É um conceito muito aberto. Então na interpretação você restringe o alcance não admitindo a interpretação que Mirabete dá. O que se admite muito hoje jurisprudencialmente falando é que quando você tem um dado concreto no processo e evidencia o sujeito em liberdade com destinos para reinterar o comportamento antigo. A lei não diz quando usar interpretação extensiva e interpretação restritiva. Há alguns critérios de orientação para quando usar uma e quando usar outra. Um desses critérios, que parece bem interessante para o professor, e é dado pelo código canônico da igreja católica. A igreja católica tem um código que regulamenta como é que funciona o processo penal canônico. Lá eles punem padre. E lá tem uma regra dizendo assim: “Toda vez que você estiver diante de uma regra que regulamente um direito, você pode interpretá-la extensivamente.” “Toda vez que você estiver diante de uma regra que limite o direito, você deve interpretá-la restritivamente.” Não resolve tudo, mas organiza . Ana Carolina Gradowski Cagliari O art. 3º do CPP, ele só faz menção a interpretação extensiva. Mesmo não estando escrito ali você pode fazer tanto uma interpretação declarativa como restritiva. O art. 3º também faz menção a aplicação analógica. Aplicação analógica que engloba tanto a analogia o que é bem parecida com a interpretação extensiva. Interpretação extensiva eu tenho uma regra e eu pego essa regra e estendo o alcance dela. Interpretação analógica eu não tenho regra, não está regrado o assunto. Mas tem uma regra em outro lugar, não ali. Então você pode buscar lá e aplicar aqui. Você tem uma lacuna, a ideia é de preencher a lacuna interpretativa. Por exemplo, nós temos o art. 621 do CPP que trata da chamada Revisão Criminal. A Revisão Criminal é uma ação que pode usar depois de esgotado todos os recursos, dentro de alguns critérios para tentar desconstituir coisa julgada. Acabou o processo, o sujeito foi condenado. Cabe Revisão Criminal em alguns casos. Por exemplo, inciso III, art. 621. Art. 621, III – Quando após a sentença, se descobrirem novas provas de inocência do condenado ou de circunstância que determine ou autorize diminuição especial da pena. Exemplo: então o sujeito foi condenado, acabou o processo, esgotado os recursos, está cumprindo pena. Imagine que você é o advogado e uma família inteira vai te procurar no seu escritório contando a seguinte história. A mulher lá do sujeito condenado diz que eles foram procurá-lo porque o marido foi condenado injustamente diz ela. Mas já foi condenado? Já. Mas está em fase de recurso o processo? Não senhor. Acabou tudo, nós perdemos tudo, fomos até Brasília não teve jeito. Acabou tudo e agora ele está cumprindo pena. Então porque vocês só me procuraram agora? Porque aconteceu o seguinte doutor, nós trouxemos aqui essas pessoas, essas 4 pessoas aqui para o doutor ouvir porque essas pessoas elas sabem na verdade que meu marido é inocente porque elas viram o crime quando ocorreu, inclusive elas sabem dizer quem foi que cometeu esse crime, e não foi o meu marido. E elas querem falar agora. Mas elas não falaram durante o processo? Não, porque tinham medo, não queriam se envolver. Mas daí viram que meu marido foi condenado e aí não conseguiam dormir mais com peso na consciência, porque eles sabem que meu marido é inocente. Então eu trouxe eles aí para o doutor dá um jeito nesse negócio. Então você lembra das aulas da faculdade e sabe que a saída é a Revisão Criminal. Porque surgiu uma prova nova, melhor do que aquelas que foram usadas, capaz de alterar o quadro probatório e reverter a condenação. Só que você abre o código de processo e está escrito nele que você tem que ter uma nova prova de inocência. Aí tem um problema técnico, que é como transformar a palavra dessas 4 pessoas que estão ali no meu escritório em prova testemunhal pré-constituída (pré-constituída porque a ação de Revisão Criminal, ela não admite instrução probatória). Eu não posso peticionar no tribunal Ana Carolina Gradowski Cagliari dizendo, reintero que se sejam ouvidas as testemunhas arroladas... ou você tem a prova pronta já na mão ou então nem perca seu tempo. E aí você vai ler o código inteiro tentando achar onde que está a saída, e você não encontra. O Código não diz como fazer paratransformar a palavra dessas pessoas, de um processo que já está encerrado. Será que seu eu gravar as testemunhas em meu escritório não vale? Se ele levar na delegacia para o delegado ouvir, formalizar e juntar isso que foi produzido será que vale? Não vale. Será que se eu levar num cartório para ouvir por instrumento público, e juntar as declarações recolhidas em cartório, será que resolve? Não resolve. O problema de todas essas alternativas é que falta a judicialidade. Falta a presença do juiz, falta a presença da parte contrária, falta o contraditório, falta a ampla defesa. Todas essas eu to colhendo de forma unilateral, to gravando no meu escritório, to levando na delegacia, to levando no cartório, não tem juiz e não tem contraditório. Então não é prova tecnicamente falando. Ainda não tem o peso de uma prova valorada judicialmente. Bom, e aí o que você faz, você procura no código e não tem regra. O que você faz? O código é omisso nesse ponto, tem uma lacuna legislativa. Mas você lembra do código de processo civil. E lá no código de processo civil tem um processo chamado de Processo de Justificação. Um Processo de Justificação serve para justificar ouvida dessas pessoas perante um juiz na presença da parte contrária. Sem que o juiz julgue, valore o depoimento dessas pessoas. Serve só para formalizar. Então, você vai pegar todo o regramento do código de processo civil, que trata da ação de justificação, vai combinar esse regramento com o art. 3º do código de processo penal que permite a interpretação analógica e vai peticionar a um juiz criminal de 1º grau, pedindo a este juiz que marque uma data para poder ouvir essas pessoas e que intime o promotor para comparecer no ato. Porque você quer fazer com que a palavra dessas pessoas seja justificada perante o judiciário na presença de um contraditório e ampla defesa. Então o juiz marca a data, ouve as testemunhas, observa todo o regramento de inquirição de testemunha, o promotor tá lá, ele faz perguntas também e ao final da audiência o juiz não valora, não diz se a testemunha é boa. Ele só diz que foram observadas as regras formais exigidas para a inquirição de testemunhas, entregue-se os autos desse processo fisicamente ao referente e faça o que quiser com esse negócio. Aí você pega os autos do processo de justificação, faz uma petição de Revisão Criminal em cima e diz ao tribunal que tem provas pré-constituídas. Mas para fazer isso teve que fazer uma aplicação analógica das regras do processo civil no processo penal. Bom, então o art. 3º fala que eu posso fazer no processo penal uma interpretação extensiva fala da aplicação analógica e fala no suplemento dos princípios gerais de direito. Ana Carolina Gradowski Cagliari Art. 3º - A lei processual penal admitirá interpretação extensiva e aplicação analógica, bem como o suplemento dos princípios gerais do direito. A grande maioria da doutrina, inclusive da doutrina moderna de processo penal, quando vai tratar desse tema diz que no processo penal pode fazer interpretação extensiva, pode fazer aplicação analógica e pode também fazer o suplemento dos princípios gerais do direito, repetindo o texto da lei, como se fosse tudo normal. Que por princípio geral do direito entende aquilo que sustenta a ideia de justiça, igualdade, fraternidade e blá blá blá. Veja, não dá mais para admitir no século XXI, no atual estagio, que nós continuemos admitindo que princípios gerais do direito sejam um norte de interpretação das regras do processo penal. Mas porque professor, não está na lei? Está, mas primeiro que essa lei é de 1941. Mas professor, também está na introdução do código civil... Permanecem ainda por uma defasagem de compreensão do que isso significa e do que isso pode provocar. Mas professor, toda doutrina diz que pode. É uma doutrina pobre em termos de compreensão do que significa a possibilidade de se ter como norte interpretativo a ideia de princípios gerais do direito. E tudo isso está relacionado a todo esforço que vem sendo feito. Ainda desde o final da Revolução Francesa até hoje na tentativa de saber como interpretar a lei. Ø A Revolução Francesa representa um marco divisor do que eu tinha antes e o que eu tinha depois. O que eu tinha antes era o absolutismo monárquico onde o rei era o soberano absoluto e o juiz era um mero interprete da vontade do rei. A vontade do rei prevalecia na interpretação do direito. O juiz fazia essa vontade do rei. Quando veio a Revolução Francesa, que veio justamente com o intuito de tirar do comando o rei (rei abusa do seu poder). Então os revolucionários franceses tiraram o rei e colocaram a vontade do povo. E aí a lei passa a ser a expressão da vontade popular. E começam a surgir também expressões como vontade da lei, que decorre da vontade popular. E eles tinham um problema desses artífices da Revolução Francesa. O problema é que não dava tempo de formar novos juízes. E não dá para ficar muito tempo sem exercício de poder na anomia vem um maluco e já assume o negócio aí. E o maluco que veio foi o Napoleão. Então não dava tempo nem para Napoleão também de construir novos juízes, precisavam usar os mesmos juízes, pessoas físicas que até ontem faziam a vontade do rei prevalecer na interpretação da norma, der repente a mesma pessoa agora diz para o povo: fiquem tranquilos porque agora esse cara não faz mais a vontade do rei, faz a vontade tua. Fica sossegado porque agora esse juiz é neutro, ele não tem vontade nenhuma, ele é um sujeito escravo da lei. E esse discurso foi vendido após a Revolução Francesa naquilo que se denomina Positivismo Exegético. O positivismo exegético francês, pós Revolução Francesa, juiz boca da lei, onde a única interpretação possível é a interpretação Ana Carolina Gradowski Cagliari gramatical. Vê o que está escrito aí e é isso aí. Logo em seguida vão descobrir que essa interpretação gramatical, onde o juiz é amarrado pela letra da lei e ele sente dificuldades porque o legislador não consegue prever tudo na lei. E a casuística do dia-a-dia fazem, e aí agora? Agora azar. O sujeito não tem lei. Aí começa um movimento em paralelo para tentar responder a essas situações todas, algumas escolas de interpretação vão surgir, principalmente na Alemanha, como a Escola Histórica do Direito de Savigny. Savigny vai procurar abrir um pouco a interpretação para que os usos, costumes, a tradição histórica da construção em determinado modelo possa ajudar na interpretação da lei. Ele vai tentar buscar uma tradição histórica dos costumes, interpretação uma solução para as lacunas interpretativas. E vai sugerir então um método de interpretação que é a interpretação histórica. Ao lado da interpretação histórica também vai surgir uma interpretação sistemática, lógica de direito comparado. Ihering na mesma época, preocupado também com a interpretação do interesse do legislador, ele acrescenta a interpretação teleológica. E aí você passa a ter a partir da Escola Histórica um cabedal de técnicas interpretativas, além da interpretação gramatical. Vai se ampliando, e vai surgir uma outra escola que é a Escola do Direito Livre, que vai buscar soluções em valores. A ideia dos Princípios Gerais do Direito como instrumento de solução de interpretação vai surgir justamente aqui neste reboliço no século XIX, que visava tentar solucionar o problema que o Positivismo Exegético tinha apresentado que era o que fazer diante das lacunas da lei, do conflito. Savigny propõe diversos métodos e Ihering outro. Vem também a jurisprudência dos conceitos na jurisprudência alemã. Partindo da forma de Savigny vem a jurisprudência dos interesses. A partir de Ihering vem também a EscolaLivre do Direito dizendo: podemos também buscar solução em Princípios Gerais do Direito. O que é isso? São os valores fundantes da sociedade. Por exemplo, a ideia de justiça. Justiça é um Princípio Geral do Direito. Bacana, só que o reflexo disso é tão forte, que tem um jurista uruguaio bastante famoso e importante Eduardo Couture, que escreveu o Decalogo Del Abogado (Decalogo do Advogado), os mandamentos do advogado. E um dos mandamentos diz assim: “Quando você se deparar no conflito entre o Direito e a Justiça, opte pela Justiça.” Claro, tem que entender que isso era um momento histórico em que a codificação de Napoleão amarrava demais o negócio, que era uma tentativa. Para o momento histórico lá atrás vá lá. O problema é que a gente sabe o reflexo desse discurso hoje. O reflexo do discurso em que um juiz pode dizer: eu não aplico a regra, eu interpreto de acordo com a justiça. O que ele pensa a respeito da justiça pode ser que não bata com o que eu pense a respeito de justiça. E aí é meio salve-se quem puder. Tomara que o conceito do juiz bata com o teu, por que daí estamos bem. Mas, se der errado, ele pensa diferente de você, aí você está ferrado, porque por mais que a lei diga uma coisa se ele acha que aquilo é injusto, você não tem como controlar esse cara. E ai começa Ana Carolina Gradowski Cagliari todo um problema. Vários autores que vieram depois de todas essas escolas no século XIX na tentativa de diminuir a discricionariedade do juiz. Quando a Escola do Direito Livre e coloca esses Princípios Gerais do Direito vira uma droga, uma merda, pois é um conceito aberto. E aí você tem primeiro importante autor em 1920 que foi o Hans Kelsen com sua obra famosa Teoria Pura do Direito. A ideia do Kelsen diante desse cenário todo, qualquer um diz qualquer coisa e qualquer assunto, ele procura criar uma teoria da ciência do direito, porque toda a discussão era científica no século XIX começou do século XX, pretensão de organização científica do mundo. Os valores universais difusos a partir de uma ciência onde o racionalismo do ser humano na sua maior expressão consegue fazer com que o ser humano explique o mundo. No Direito não era diferente, por isso Kelsen deu o nome de Teoria Pura do Direito, mas na verdade uma Teoria da Ciência do Direito, onde ele procura afastar o Direito da moral. Tira todos os valores, tudo o que você pensa não me interessa, interessa o que você construiu como Teoria Pura da Ciência do Direito. Ele organiza isso numa estrutura piramidal dizendo que as normas se justificam porque acima delas existe uma outra que a legítima e acima dessa uma outra até chegarmos na Norma Fundamental da qual decorre todas as outras. E se perguntassem a Kelsen da onde veio a Norma Fundamental, diria Kelsen, se uma norma se fundamenta na outra para chegar a Norma Fundamental pergunta-se, e dá onde vem essa Norma Fundamental? Kelsen diria não encha o saco, a regra é minha, eu que inventei então vem daí, porém aceite. Dá para dizer que a Norma Fundamental e Deus são parecidos. Deus está para a religião assim como a Norma Fundamental está para Kelsen. No último capítulo (8º), Kelsen diz que se tiver conflito, tiver problema, a vontade do juiz resolve. Em última análise a vontade do juiz prevalece. Então voltamos ao problema da discricionariedade. Isto é tão forte que se pegam acórdãos do STF, do Barroso, os atuais ministros e vai encontrar eles fundamentando decisões dizendo que aqui decide conforme a sua consciência. E a lei? E a Constituição? Bacana, mas a minha consciência fala mais alto. Se for desse jeito para que estudar Direito. Só que o Direito não pode ser isso. Não podemos ficar na dependência da consciência do ministro. Vários outros autores vieram tentar diminuir isso. Hart na Inglaterra construiu uma teoria na qual separava casos fáceis, casos difíceis. Ele parte até da ideia de Kelsen mas já separa em casos fáceis e difíceis, e aí já temos um problema, afinal de contas quem vai dizer se o caso é fácil ou difícil, o juiz, é aí você acha que é fácil ou que é difícil, ponto. Deu problema de novo. Ele vai ter uma polêmica como Dworkin o Hart. Os dois discutem o paradigma Common Law do Direito. Na Common Law o que é mais importante é o precedente de julgamento do que propriamente a lei. Diferente do modelo de Civil Law (que nos influencia aqui) onde a lei vale mais que o precedente. Mesmo assim vai ter uma importância muito grande na discussão de Hart com Dworkin. Dworkin tenta organizar as críticas a Hart e tenta dizer que o juiz dentro do modelo de Common Law ele não pode ser Ana Carolina Gradowski Cagliari alguém que desconsidere tudo o que se decidiu em termos de tradição. Ele usa duas expressões para construir a sua ideia de interpretação. Ele diz que o juiz deve atuar dentro de uma coerência mantendo a integridade e compreensão da norma. O Dworkin usa uma metáfora que é a metáfora do Romance em Cadeia da interpretação da norma. Esse romance em cadeia é como se fossemos escrever um livro, onde uma pessoa vai escrever o primeiro capítulo, então ela tem liberdade total, escreve o que ela quiser, já deixando alguma coisa engatilhada para quem for escrever o segundo capítulo. Ele que vai escrever o segundo capitulo, quando for escrever, não pode desconsiderar o que foi escrito no primeiro. Não pode simplesmente desconsiderar os personagens do primeiro capítulo. Tem que levar em conta esses personagens, tem que levar em conta o cenário por onde se passava. Você até matar uns personagens, pode até acrescentar outros personagens, mas tem que ter coerência com que o primeiro escreveu para que a obra seja uma coisa íntegra, uma. E assim, deve ocorrer com os seguintes capítulos. E escrever os Romances em cadeia é como o juiz deve interpretar a lei. O juiz não pode interpretar a lei como se fosse o primeiro caso do mundo. Ele tem que levar em conta os precedentes que vieram antes do caso dele. A forma de compreensão hermenêutica tradicional de interpretação daquilo, no caso concreto pode apresentar alguma coisa de diferente. O juiz então a partir do que se escreveu sobre aquilo no passado, estrutura num caso concreto, porem o caso concreto servirá de paradigma para a interpretação dos casos similares que vierem, mantendo coerência e integridade interpretativa. Robert Alexy parte também do que Hart propunha, da divisão de casos fáceis e casos difíceis. E só por isso já vimos que tem um problema aí. Alexy diz casos fáceis o juiz interpreta apenas com a regra e casos difíceis o juiz tem que buscar a solução nos princípios. Essa teoria tem problemas muito sérios, porque está dizendo que tem um critério diferente de interpretação se o caso é fácil ou difícil, aí então volta aquela situação se para uma pessoa o caso é fácil ela não precisa do princípio para interpretar, basta a regra, aplica a regra por subsunção. Mas ele acha que o caso é difícil, ele vai buscar a solução no princípio. Se ele parte do princípio, o mesmo caso uma pessoa vai interpretar de uma forma e a outra pessoa de outra forma. Essa divisão de caso fácil e caso difícil já é por si só um problema. O problema na teoria Alexyana ele vai muito além. Porque Alexy diz, nos casos difíceis onde você busca o princípio pode haver colisão de princípios. Como resolver uma colisão de princípios diz ele, fazendo ponderação. E aí ele até cria uns critérios para fazer a ponderação. E o ultimo critério é a proporcionalidade em sentido estrito à você vê qual que pesa mais. Porém, para uma pessoa pesa mais de um lado e para a outra pessoa pesa mais de outro lado. E de novo estamos no campo da discricionariedade. Só que na teoria de Alexy tem um problema adicional no Brasil.Nós temos uma mania aqui no Brasil de importar essas teorias sem ler essas teorias. A teoria de Alexy já tem problemas em si, e no Brasil teve uma má recepção, o que Lenio Streck chama Ana Carolina Gradowski Cagliari no Brasil de pan principiologismo brasileiro. O pan principiologismo é quando o cara vai resolver um caso difícil e vai buscar a solução num princípio e não encontra um princípio para ponderar, ele inventa um princípio. No Brasil nós inventamos princípios à Princípios tabajara – você não tem principio para se ponderar, crie o seu, pronto. Soluções tabajara para os princípios de Direito. Para Alexy, princípio é mandamento de otimização, e que abre a possibilidade de interpretar. Imagine onde vamos parar à vou além da imaginação. Ele deveria ser para fechar e não abrir. Só que para Alexy o princípio abre. E aqui no Brasil quando os caras não tem princípios eles criam um princípio que não é princípio. Princípio é norma e se é norma é dever ser. Tem uma melhor forma de fechar a discricionariedade hoje que é a dada por Lênio Streck. Para o professor ele acha que não resolve tudo, porém, e a melhor tentativa, a melhor solução. O drama hoje é como diminuir a discricionariedade do juiz. - Heidegger / Gadamer - Dworkin O Lênio trabalha a partir da fusão de dois horizontes de interpretação no âmbito da filosofia. Parte de que Heidegger faz uma compreensão filosófica do mundo, hermenêutica filosófica do mundo e por um outro lado ele também pega contribuição do Dworkin que constrói a sua crítica hermenêutica do direito v Heidegger Heidegger é um filósofo da primeira metade do século XX. Ele tem uma mancha séria na sua vida, ele foi nazista. Auxiliou e foi reitor da Universidade no auge do nacional socialismo. Portanto, bem ou mal, ele estava ao lado do nacional socialismo que é um problema por um lado, mas em termos de compreensão filosófica não há uma contaminação. Ele representa uma ruptura, toda história da filosofia desde os gregos antigos até ele, o que diz respeito a compreensão do ser. Para entender porque isso vai ocorrer a partir de Heidegger é preciso entender rapidamente o que estava acontecendo no século XIX em que gerou o ser humano, modelo de compreensão de mundo do século XIX. O século XIX foi um século do auge do racionalismo, o auge do processo de industrialização, o auge do ser humano entender que ele é capaz de explicar o mundo a partir de si, racionalmente. Substituindo a explicação do mundo divino. Nietzsche já tinha um pouco antes declarado a “morte” de Deus na compreensão do mundo, mas ainda faltava Crítica Hermenêutica do Direito Lênio Streck Ana Carolina Gradowski Cagliari fechar um elo que era a explicação de quem somos, de onde viemos e para onde vamos. E a “solução” racional vem apresentada por Darwin no século XIX com a Teoria da Evolução da Espécie. Então esse positivismo naturalista é esta pretensão de construir discursos universais, científicos e somado a construção teórica Darwiniana de que somos o resultado de uma seleção da espécie, da evolução e seleção natural das espécies como homem proveniente do macaco e tal. E com isso fecha o que faltava. Eu não preciso de Deus nem para explicar de onde venho. Se eu tenho a explicação racional de que diz que somos o resultado de uma seleção natural evolutiva da espécie, eu não preciso mais de Deus. Só que isso gera uma angústia, porque quando eu tinha explicação religiosa, eu tinha uma explicação inclusive para o que vem depois. Sim, e se eu morrer? Fica tranquilo diz a religião católica que você terá uma vida eterna, que depois da morte é bem melhor do que aqui, diz a religião. Se eu não tenho mais religião uma explicação racional diz que isso é uma brincadeira momentânea e que eu sou só um elo nessa cadeia evolutiva sem muito sentido. E isso gera uma angústia para o ser humano, que passa a se sentir meio deslocado. Não é à toa que vão surgir alguns discursos nacionalistas, dar a vida pela pátria passa a ser mais importante, porque a tua vida passa a ter um sentido pela pátria, não mais um sentido pela religião. Mas angustia ao mesmo tempo. E é interessante de analisar esse período na arte. A arte ela costuma antecipar essas compreensões filosóficas. Você olha para uma obra de arte e sabe dizer a data dela só pelo estilo da obra, porque dependendo do estilo aquilo é de uma época. Se você olha para um quadro que parece ser uma fotografia a pintura de tão perfeita que ela é, aquilo é próprio do século XVIII até a primeira metade do século XIX, que é justamente o homem conseguindo reproduzir na arte a perfeição, como se fosse um retrato mesmo da natureza, que é fruto desse momento histórico. Depois vem o momento expressionista, essa angústia gera na arte um movimento francês, expressionismo francês (obras de Monet), já não tem nada de desenho, é tudo borrado. Tudo borrado porque a realidade incomoda. Aquela realidade crua, racional demais passa a incomodar o homem. E se sentindo incomodado com aquilo expressa essa angustia numa pintura borrada. O mundo, não quero enxerga-lo mais com essa crueza racional, desensibilizada. E isso vai repercutir na filosofia, vai repercutir num movimento existencialista, vai repercutir na fenomenologia de Edmund Husserl, que é professor de Heidegger. Heidegger é discípulo de Husserl, e vai então desencadear ao mesmo tempo em que Heidegger está iniciando os seus estudos, uma primeira grande guerra. E a primeira grande guerra que vem no começo do século XX vem para mostrar de fato quão problemático foi o sucesso da tecnologia. Porque o homem inventou um maquinário capaz de matar o seu semelhante em larga escala. Isso vai provocar em Heidegger uma tentativa de tentar entender que alguma coisa Ana Carolina Gradowski Cagliari está diferente aí. E ele vai então tentar entender essa forma racional, exagerada de querer estudar e compreender o mundo e chega à conclusão de que o homem não pode ser objeto de estudo de si mesmo. Eu não tenho como estudar a mim mesmo sendo eu como um ser ente. Heidegger consegue dizer, olha, se eu estudo a mim mesmo é porque algo tem além de mim. O homem não é só coisa, o homem não é só ente. Então ele consegue ter uma sacada de que há algo que vem antes do ente, que é o ser. Ser na filosofia sempre foi usado para tratar do ente. E Heidegger diz, não, o ser vem antes do ente. Se eu for estudar o homem como um ente, eu vou tentar identificar o quanto ele tem de altura, o quanto ele pesa, qual a cor dos olhos, do cabelo, enfim... isso é estudar o Homem no plano ôntico. Mas o homem no não é só isso, ele é mais que isso, vem antes disso. Porque quando eu sou apresentado à alguém, eu não fico analisando quanto você te de altura, etc. Eu sou apresentado a uma pessoa que antecede a sua própria natureza biológica. Ele muda o significado da palavra ontologia. A ontologia para Heidegger é algo diferente que se falava desde sempre a respeito de ontologia. Então, ôntico ontológico, o ser vem antes do ente. E isso serve para tudo dizia Heidegger. à “A linguagem é a casa do ser. Nela mora o homem. Os poetas e escritores são os guardiões dessa morada” “A linguagem passa a ser (para Heidegger) condição de possibilidade de compreensão do mundo” à você não consegue entender o mundo sem linguagem. Você não consegue pensar sem linguagem. A linguagem é condição de possibilidade para compreender o mundo. Essa linguagem é compartilhada e é dada antes. Quando você nasceu já existia a linguagem. Heidegger diz que o homem é um ser no mundo, um ser aí, um ser jogado, lançado numa determinada certeza (única certeza), de quevai morrer, e isso leva a uma angústia. A possibilidade de saber que eu vou morrer me angustia. Sua maior capacidade de linguagem faz você entender melhor o mundo. Heidegger trabalha com essa ideia de que o ser vem antes do ente e esse ser mora na linguagem. A linguagem é a condição de possibilidade de se compreender o ser. v Gadamer O discípulo de Heidegger, Gadamer, viveu 102 anos, ao longo do século XX. Ele vai dar segmento a uma das facetas discutidas na obra Ser e Tempo do Heidegger, e vai desenvolver a discussão relacionada hermenêutica. Gadamer vai aproveitar tudo o que Heidegger trabalhou, vai também buscar uma inspiração num outro filósofo do século XIX, que era um filósofo de compreensão hermenêutica, e quem melhor organizou a hermenêutica até ele foi Shirley Magger. A hermenêutica é usada para o Ana Carolina Gradowski Cagliari Direito Romano Antigo e pela igreja. A igreja usava a hermenêutica para a interpretação da bíblia. Shirley Magger fala em hermenêutica circular. Gadamer pega Heidegger e Magger e passa a chamar de hermenêutica filosófica. Na hermenêutica filosófica o Gadamer inverte toda a lógica que se compreendia de hermenêutica até então. A ideia de hermenêutica até Gadamer era trabalhada da seguinte forma: você interpreta para compreender e daí aplica. Historicamente era esta metodologia. Gadamer diz que não dá para fazer isso desse jeito, primeiro não é nessa ordem e segundo que é tudo ao mesmo tempo. Ele diz que a ordem é invertida, você não interpreta para compreender, pelo contrário, você compreende para interpretar. E isso se dá num momento único porque se dá a partir da linguagem que antecede, linguagem é pré-compreensão. Pré-compreensão à Linguagem compartilhada/pública. Não é particular. ≠ Pré-conceito à Sentido negativo. Pensamos o mundo diferente. Gadamer diz, você compreende para interpretar e não interpreta para compreender, porque o sentido é dado antes. à Você olha e entende, porque o sentido é dado antes. Na hora de interpretar o texto, como você não conhece o texto ele (Gadamer) diz que: 1º) Identifique e suspenda seus pré-conceitos (em sentido negativo). 2º) Olhe para o texto e deixe que o texto te diga algo primeiro. à As palavras que ali constam tem significados. 3º) Depois que ele te dizer algo, então faça perguntas para depois conseguir as respostas. à Deixe que o texto te diga primeiro algo. Para daí numa circularidade tenha o melhor sentido. Tem uma falha nessa teoria, eu não tenho como suspender os pré-conceitos se eu não sei que tenho. Heidegger vai influenciar Lacan. E Lacan influenciado pelo Heidegger vai dizer o seguinte a respeito do conceito de Freud, ele vai dizer que esse inconsciente ele também é constituído como linguagem, já que o ser é linguagem, o inconsciente também é constituído como linguagem. O problema é que a gente usa a todo instante na linguagem metáforas e metonímias. - Metáfora: associação de ideias. - Metonímia: tomar a parte de um todo. Existem pré-conceitos inconscientes. Ana Carolina Gradowski Cagliari v Lênio Streck Quando Lênio pega tudo isso que é filosofia e joga para o Direito, ele vai dizer que além de dizer que o texto te diga algo, de fazer essa fusão do interprete com o texto é também importante levar em conta que tudo aquilo que é valor, que é moral, só pode ser aceito na interpretação hoje, no atual estágio da evolução, no atual Direito Democrático se esse valor for um valor selecionado no momento da Constituição do Estado pelo legislador. Valor selecionado na Constituição do Estado à Ali se discute quais os valores da Constituição. à Valores são também princípios. Hoje os valores pessoais que o juiz tem não pode ser o norte de interpretação. à Na hora de julgar a opinião pessoal do juiz não tem valor. O juiz tem responsabilidade jurídica. Quem diz o que é e o que não é crime é o legislador. Lênio diz que não há mais como fazer uma divisão de casos fáceis e casos difíceis. à Todo caso é caso. E sendo assim terá sempre que se partir de um princípio. Princípio não serve para abrir e sim para fechar interpretação, diz Lênio. Felicidade não é princípio. Princípio é norma, é dever ser, e tem uma carga histórica que permite dizer que aquilo é princípio. Os Princípios Gerais do Direito hoje eles representam uma má recepção. Juiz não escolhe, ele decide. à Escolher ≠ Decidir. PRINCÍPIOS DO DIREITO PROCESSUAL PENAL v Princípio do Devido Processo Legal Está acima dos demais princípios. “Ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal” – art. 5º, LIV da CF. No sentido formal a ideia do devido processo legal relaciona-se a observância de um rito previsto em lei. Então a lei prevê um rito, uma sequência pré-ordenada de atos que se você fizer diferente daquilo você viola o devido processo legal. à Uma leitura pobre do princípio mas também feita. Tem uma leitura mais densa que envolve a compreensão histórica da utilização desse princípio tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos. Ana Carolina Gradowski Cagliari Isso se desenvolve historicamente da seguinte forma: A história remonta um período que vai num primeiro momento do século XI ao século XIII, primeiro documento da história que registra a ideia do devido processo legal é a Magna Carta (1215), só que vem antes, desde o início do século XI por conta do reinado do rei Eduardo I, Eduardo o confessor, que era um rei que o povo gostava muito e enxergavam esse rei na Inglaterra como o rei taumaturgo (taumaturgo é quem tem o poder curativo pelo toque) e o povo acreditava naquilo mesmo. Então todas as leis do Eduardo que permitiam manter tradições e julgamento pelo próprio povo, acabaram sendo mantidas pelo próprio sucessor dele que era Guilherme o conquistador, que era Francês. Como ele não sabia falar inglês acabou mantendo as leis de Eduardo. Então ali é o início da própria Common Law. Então você tem um momento em que o rei sucede o outro e mantêm as tradições, isso vai sendo feito até que chega no João. O rei João, o rei sem terra é um sujeito que era o caçula de uma família de cinco, o mais velho era rei na sucessão do trono do pai que era o rei Ricardo I, conhecido na história como Ricardo Coração de Leão, os irmãos do meio tinham todos morrido. O Ricardo resolve sair em direção a Jerusalém nas Cruzadas patrocinado pela igreja e deixam o João como rei sem nada no bolso. Quando ele assume o poder sem exercito, sem dinheiro, sem nada, resolve recompor o exército e para fazer isso ele cria impostos etc, e cometeu um erro estratégico que foi cobrar imposto dos barões ingleses, que era quem dava sustentação para o rei. Os barões se recusaram a pagar os impostos, pegaram o povão insatisfeito, elaboraram um documento chamado Petição dos Barões, chegaram para o João e disseram para assinar esse documento porque ele não era mais o rei. E esse é o documento que entra para a história como a Carta Magna Libertatum escrita em latim para que o povão não entendesse a língua, e dentre outras coisas estava regrado ali o chamado Leis da Terra, mantém as tradições pelo julgamento da terra. Era um documento que diminuía o poder do rei. Quando a Magna Carta é traduzida do latim para o inglês, ainda no século XIII, essa expressão em latim que significa pela Lei da Terra, ela vira em inglês, traduzido para o português Devido Processo Legal. Então a origem do princípio na história da Inglaterra se dá nesse momento. E aí passa a ser a ideia de se manter os direitos e garantiasjá consolidados. Essa ideia na tradição inglesa acaba de alguma forma se mantendo e depois com a colonização dos Estados Unidos, com a independência dos Estados Unidos, eles se reúnem para constituir o país. Cada um sai do seu estado membro para chegar em Virgínia e fazer a discussão de como será o texto da Constituição dos Estados Unidos da América. Eles ficam discutindo durante 6 meses e não conseguem chegar num consenso. E depois de 6 meses de discussão chegaram a um acordo de 7 coisas, então é isso aí, cada um leva para seu Estado para aprovar lá e depois que fizer isso vê o resto. Então fizeram isso e já em seguida perceberam que isso era pouco, então seria necessário complementar. Então veio já em Ana Carolina Gradowski Cagliari seguida 10 primeiras emendas de uma vez só. As 10 primeiras emendas da Constituição Americana eles chamam lá de Bill of Rights, Carta de Direitos. Só que aí cada um tem que levar para seu Estado para que cada Estado aprove. Isso vai demorar para acontecer. Enquanto isso vêm a 11ª emenda, a 12ª emenda, vem a Guerra da Secessão (norte contra o sul), 13ª emenda e nada de consolidar a Bill off Rights, ela virou um papel não aplicável e aí eles resolvem então fazer uma 14ª emenda a Constituição com o intuito entre outras coisas de forçar os Estados membros a seguir as 10 primeiras emendas. Na 14ª emenda aparece pela primeira vez na Constituição Americanas o Devido Processo Legal, com o propósito de fazer com que a partir da obrigatoriedade de se seguir o Devido Processo Legal, se seguir também a Bill of Rights, a carta de direito das 10 primeiras emendas da Constituição. Então eles usam o devido processo legal como um instrumento que força a observância das garantias, das regras. Só que começa uma discussão nos EUA se essa 14ª emenda tinha força toda de obrigar automaticamente esses Estados Membros a seguirem as 10 primeiras emendas. E a discussão é levada para a Suprema Corte Americana. Na Suprema Corte Americana surgem diferentes correntes (2 radicais e 1 intermediária). Uma que diz que não aplica automaticamente, outra diz que aplica automaticamente e uma que diz que vai se aplicar ou não caso a caso. Prevaleceu esse último entendimento. O fato é que o devido processo legal é usado então lá nos EUA pela Suprema Corte Americana. Com esse peso histórico de fazer obrigar os Estados a seguirem cartas de direito. A ideia do devido processo legal tem um peso de compulsoriedade em relação aos demais princípios relacionados aos direitos e garantias. à Não se pode diminuir direitos e garantias. São 3 pilares que sustentam a Teoria Geral do Processo: ü AÇÃO à DIREITO: Direito de invocar a tutela jurisdicional. ü JURISDIÇÃO à PODER: O Estado tem o poder de dizer o direito. ü PROCESSO à MEIO / INSTRUMENTO: Exercitado meu direito de ação que eu obtenha a tutela do Estado. Ana Carolina Gradowski Cagliari PRINCÍPIOS JURISDIÇÃO v Princípio da Imparcialidade. Se nós outorgamos simbolicamente poder ao Estado para que ele exerça poder sobre a solução dos conflitos, como é que nós que fizemos isto queremos que o Estado atue? Como é que a gente deseja que esse poder seja exercitado? Será que é conveniente que ele favoreça uns em detrimento de outros, ou será que o poder tem que atuar a partir da ideia de tratamento equitativo, um tratamento que considere à todos iguais? É evidente que ele deve atuar nessa segunda forma. Então a ideia da imparcialidade da condição do exercício de poder é um poder que atue de forma equidistante em relação as partes. Que guarde a mesma distância de uma parte em relação a outra. Que não favoreça uma parte e queira prejudicar a outra. No contexto do exercício do poder atuando portanto de maneira equilibrada na condição do processo. É importante não confundir a questão da neutralidade com imparcialidade. Muitos doutrinadores ainda afirmam que o juiz deve ser neutro. Mas como já foi visto em aulas passadas, este discurso que foi vendido da ideia de neutralidade judicial é um discurso que é sucessivo a Revolução Francesa, naquele primeiro momento do positivismo exegético onde se vendia a ideia de que o juiz era neutro, um mero aplicador democrata da lei, como se não tivesse nada além do que o influenciasse. Nós sabemos hoje, e principalmente depois de Freud que nenhum de nós é neutro. Que nenhum ser humano é neutro em relação a tudo o que se ocorre ao seu redor. Todos nós temos as nossas cargas de pré-conceito, de prejuízo de valor em relação a uma série de questões, e portanto nós não somos neutros. Nós não ficamos alheios aquilo que tá ocorrendo. Então não há como se confundir ou querer tornar sinônimo imparcialidade de neutralidade, ou neutralidade como equivalente a imparcialidade. A ausência de neutralidade é a regra. Porém dependendo do grau da ausência de neutralidade o sujeito pode quebrar até mesmo aquilo que se pretende em termos de forma de atuação, de modelo de comportamento do juiz, que é o modelo de comportamento que premie uma imparcialidade. É até um pouco contraditório dizer que ele não é neutro mas deve ser imparcial. É difícil mesmo na prática do juiz ter essa compreensão de que ele não é neutro (por uma razão simples, de que ele é um ser humano) mas que ele deve ter cuidado de atuar de forma a não deixar que essa ausência de neutralidade faça com que ele quebre aquilo que se espera dele que é guardar uma equidistância de tratamento em relação as partes. A ausência de neutralidade é um fato, nenhuma pessoa é neutra, mas ao mesmo tempo ele deve ser imparcial. Ana Carolina Gradowski Cagliari O legislador ciente de que determinadas situações de vida e de relação pessoal do juiz podem comprometer de tal forma que ele não consiga controlar a sua ausência de neutralidade, e como consequência tem uma grande tendência de quebrar a imparcialidade, o próprio legislador ciente disso se antecipa e regulamenta algumas situações nas quais o legislador diz que quando acontecer tal e tal coisa, esse juiz não pode atuar. Não pode atuar porque essa situação concreta faz com que a ausência de neutralidade seja de um tal grau que não vou esperar que ele atue e quebre a imparcialidade. Eu de antemão antecipo na lei e digo que não vá porque a probabilidade de quebrar a imparcialidade aqui é grande. Essas hipóteses estão regradas no Código de Processo Penal. Nós temos 3 artigos no CPP que vão tratar desse tema e eles recebem uma terminologia específica a respeito disso. ü Hipóteses de Impedimento. Art. 252. O juiz não poderá exercer jurisdição no processo em que: I - tiver funcionado seu cônjuge ou parente, consangüíneo ou afim, em linha reta ou colateral até o terceiro grau, inclusive, como defensor ou advogado, órgão do Ministério Público, autoridade policial, auxiliar da justiça ou perito; II - ele próprio houver desempenhado qualquer dessas funções ou servido como testemunha; III - tiver funcionado como juiz de outra instância, pronunciando-se, de fato ou de direito, sobre a questão; IV - ele próprio ou seu cônjuge ou parente, consangüíneo ou afim em linha reta ou colateral até o terceiro grau, inclusive, for parte ou diretamente interessado no feito. ü Hipóteses de Incompatibilidade. Art. 253. Nos juízos coletivos, não poderão servir no mesmo processo os juízes que forem entre si parentes, consangüíneos ou afins, em linha reta ou colateral até o terceiro grau, inclusive. ü Hipóteses de Suspeição. Art. 254. O juiz dar-se-á por suspeito, e, se não o fizer, poderá ser recusado porqualquer das partes: I - se for amigo íntimo ou inimigo capital de qualquer deles; Ana Carolina Gradowski Cagliari II - se ele, seu cônjuge, ascendente ou descendente, estiver respondendo a processo por fato análogo, sobre cujo caráter criminoso haja controvérsia; III - se ele, seu cônjuge, ou parente, consangüíneo, ou afim, até o terceiro grau, inclusive, sustentar demanda ou responder a processo que tenha de ser julgado por qualquer das partes; IV - se tiver aconselhado qualquer das partes; V - se for credor ou devedor, tutor ou curador, de qualquer das partes; Vl - se for sócio, acionista ou administrador de sociedade interessada no processo. v Princípio da Inércia. Além de ser imparcial o juiz também deve ser impatial. Ser impatial implica em não ser parte. à O juiz não pode ser parte na relação processual. Não pode ser parte ativa. Não se pode fundir numa mesma pessoa aquele que acusa e aquele que julga. Num primeiro sentido, inércia no sentido de não se auto provocar dando início a um processo, ele não pode fazer isto. O juiz tem que ser inerte, aguardando que alguém provoque. Isso se extrai da Constituição Federal no art. 129, I à Trata das funções do MP. Diz a Constituição: “Uma das funções institucionais do MP é promover, privativamente, a ação penal pública, na forma da lei”. à Quer dizer que a ação pública só quem pode praticá-la é o MP, o juiz não acusa ninguém, o juiz não decide acusar. O juiz não pode provocar-se dando inicio a um processo. No que diz respeito a iniciar um processo, o juiz não pode fazê-lo. Há um segundo momento em que a discussão de inércia judicial é bastante polêmica. Se o processo já iniciou, a discussão que surge é: Será que o juiz pode tomar iniciativas de ofício (de ofício significa dizer, sem provocação da parte) ao longo do processo? 3 perguntas: 1) Um processo iniciado pelo MP, o juiz pode tomar iniciativas de ofício, determinando medidas cautelares de ofício? 2) Um processo iniciado pelo MP, o juiz pode determinar a produção de provas que não foram requeridas pelas partes, de ofício? 3) Numa prova requerida pela parte, ouvida de uma testemunha, o juiz pode formular perguntas a esta testemunha? à Respostas a partir da lei (CPP). 1) Art. 282, §2º, CPP à Sim, o juiz pode decretar de ofício medidas cautelares. Ana Carolina Gradowski Cagliari 2) Art. 156, I, II, CPP à Sim. 3) Art. 212, p.u, CPP à Sim. à Doutrina tradicional: mesmo entendimento. Se a lei diz que pode, então pode. à Jurisprudência dominante: mesmo entendimento. à Doutrina moderna: há uma divergência, não é unânime. Alguns doutrinadores modernos dizem “não” para as 3 perguntas. Outros doutrinadores dizem “sim” para algumas perguntas e “não” para outras. à Opinião do professor: Essa doutrina mais moderna ela tem razão em parte. Quanto a relação das medidas cautelares, ele está de acordo com a possibilidade do juiz determinar a produção de provas novas, que os autores não requereram, até aqui ele está de acordo. Agora quando se diz que o juiz não pode nem fazer perguntas complementares a testemunha com o intuito de esclarecer alguma coisa, com isso o professor não consegue concordar, porque apostam todas as fichas no Princípio do in dúbio pro reo. v Princípio in dúbio pro reo. (na dúvida o juiz absolve) É um princípio que tem um dos registros mais antigos da história da humanidade. De origem mítica grega relacionado ao resultado matemático. Idade Média – Inglaterra à Você pode condenar o seu semelhante na dúvida, desde que não seja uma dúvida para além do razoável. Hoje, na prática, nem sempre esse in dúbio pro reo vai aparecer. Aparece com a tragédia "Oresteia", através da decisão de Atena no julgamento de um caso de parricídio, matricídio e fratricídio, em convocar o Areópago, ou seja, o colegiado de cidadãos, para fazer o papel de órgão julgador, como um embrião de júri. O personagem de Orestes é interrogado, em um julgamento no qual dá empate entre os que queriam a condenação e a absolvição. Portanto, Atenas decide que, "se deu empate, Orestes está absolvido". Há uma regra de proporção matemática nesse preceito. Com a idade média, a percepção do princípio do in dubio pro reo na Inglaterra acaba sendo modificada. Na Inglaterra, desenvolve-se o júri de maneira mais ampla do que na Europa continental. Assim, na alta idade média, próxima à modernidade, havia um jurado temente a deus, cristão devoto, que temia as consequências de seus atos. Passagens bíblicas que dizem: "não julgueis para não seres julgados", ou ainda, "assim como julgas teu Ana Carolina Gradowski Cagliari semelhante, serás julgado no final dos tempos" sempre inspiravam os jurados cristãos dessa época. Dizia-se que sempre havia uma dúvida, diante da eterna negação do réu de ter cometido aquele fato. Angústia dos jurados diante do temor de condenar injustamente um inocente; a Igreja orientava os jurados a julgar os semelhantes, condenando-os mesmo em dúvida, apenas absolvendo-os quando a dúvida fosse além do razoável (beyond unreseanable doubt, na expressão britânica). Ocorre uma repaginação do in dubio pro reo, sob a ótica do temor reverencial cristão de arder no inferno. Absolver-se-ia em dúvida, mas não em qualquer dúvida. Em relação ao princípio da inércia, o juiz nem sempre será inerte; ou seja, o juiz nem sempre absolverá, podendo condenar além da dúvida razoável. Há uma possibilidade de o juiz condenar independentemente da produção probatória, desde que a dúvida vá além do critério de razoabilidade. Logo, de acordo com a doutrina moderna, juiz é ser humano; constrói hipóteses mentais sobre o mesmo fato, e pode se contaminar psicologicamente durante esse processo, indo atrás de provas que visem legitimar seu "prévio acerto mental", sendo melhor que ele fique inerte. Contudo, esse argumento pode ser criticável, pois as próprias partes podem produzir provas contrárias aos quadros mentais paranóicos do juiz; e, além disso, de acordo com o professor, o juiz não apenas PODE, mas DEVE interferir na instrução probatória, com a possibilidade não apenas de construir quadros paranóicos, mas também quadros parafrásicos (distorcendo palavras). Não é o comportamento - ativo ou passivo - do juiz que fará com que ele evite o surgimento de paranoias, e há divergências na doutrina quanto à necessidade de inércia absoluta do juiz. Há doutrinadores que acreditam que a inércia é adequada; mas o professor acha que a proatividade na atuação do juiz ajuda a garantir o contraditório e a ampla defesa, por meio de uma intersubjetividade, através da realização de condutas complementares ao final da instrução probatória. v Princípio da Unidade. O poder jurisdicional ele é uno à quem tem poder, tem todo poder. Esse poder é outorgado ao Estado na hora que se constitui o Estado. Alguns autores vão esmiuçar e trazer os elementos que compõe esse poder. 1º elemento: “NOTIO” ou “COGNITIO” à poder de tomar conhecimento, conhecer as questões que são apresentadas no judiciário. 2º elemento: “VACATIO” à poder de instruir-se, poder de chamar, ilustrar-se a respeito daquilo. Toma conhecimento, poder de chamamento (convoca testemunhas, determina busca e apreensão...). 3º elemento: “COERTIO” à poder de dar efetividade as providências jurisdicionais. Ana Carolina Gradowski Cagliari 4º elemento (o principal): “JUDITIO” à poder de julgar e decidir. 5º elemento: “EXECUTIO” à poder de executar as suas próprias decisões. Quem vai exercitar essepoder é um ser humano, e estamos no Brasil, não dá para ser uma única pessoa exercitando este poder. O Brasil é um território gigantesco, por isso temos em torno de 17 mi pessoas exercitando este poder por dia. Por isso vamos criar os critérios de organização de limitação. Não organização do poder em si, mas da limitação do exercício do poder. Critérios / regras que limitam o exercício do poder à COMPETÊNCIA. - Comarca / Seção à critério geográfico, territorial à competência territorial. - Competência material Regras de competência limitam o exercício do poder por vários critérios. v Princípio do Juiz Natural Esse princípio é constituído a partir de dois dispositivos da CF: - Art. 5º, XXXVII, CF à proibido juízo ou tribunal de exceção à tribunal de exceção é um juízo ou tribunal criado depois do fato. Você cria um tribunal posterior a prática do delito, já com finalidade de julgar um delito anterior a sua criação. Exemplo: Tribunal de Nuremberg. - Art. 5º, LIII, CF à ninguém será julgado senão pela pessoa competente. Art. 5º, XXXVII + art. 5º, LIII à Conceito de juiz natural. “Juiz natural é o juiz com competência previamente estabelecida em lei, em relação ao fato que irá julgar.” Juiz natural é o juízo, a vara, a competência. Tem uma regra de competência e ela deve ser observada antes mesmo da prática de um delito. à Quando alguém for praticar um crime, já deve ter de antemão definido por lei qual será o juízo competente para julgar esse crime que nem ocorreu ainda. As regras de competência estão espalhadas pela legislação. v Princípio da Identidade Física do Juiz. A pessoa física do juiz é o Pedro, o José, o João, é a pessoa física, é aquele juiz. A ideia desse princípio é que aquele juiz que presidiu a instrução probatória (ouviu as testemunhas, produziu as provas...), este juiz deve ser o mesmo que profira a sentença (decisão). CPP à deve ser o mesmo juiz, salvo se entrar em férias, salvo se estiver de licença, salvo tudo... ou seja, não sobra quase nada do princípio. Ana Carolina Gradowski Cagliari O art. 399, § 2º, CPP à O juiz que presidiu a instrução deverá proferir a sentença. v Princípio da Improrrogabilidade. O juiz não pode exercer o seu poder para além dos limites definidos na regra de competência. Improrrogabilidade à não possibilidade de ir além. O juiz não pode ultrapassar o seu exercício do limite do poder. v Princípio da Indeclinabilidade. O juiz não pode declinar / transferir do exercício do poder. à dizer que não quer julgar determinado fato. Não pode transferir o seu poder para outra pessoa. v Princípio da Indelegabilidade. Juiz não pode delegar, transferir poder para outra pessoa. Existem algumas situações em que o juiz permite à art. 93, XIV, CF à juiz pode delegar ao servidor a condição de atos de administração (atos administrativos) e atos de mero expediente (não tem decisão, conteúdo decisório). Carta de ordem à delega poderes. v Princípio da Indefectibilidade (necessidade). O exercício do poder jurisdicional é indefectível, é necessário, é inafastável. Se eu quero impor uma sanção criminal a alguém eu dependo do poder jurisdicional. Não tem como me impor uma sanção criminal a alguém senão através do exercício do poder jurisdicional. A imposição de uma sanção criminal é monopólio do Estado de jurisdição à Só o juiz pode impor uma pena criminal a alguém. v Principio da correlação (Principio da Proibição de Julgamento). - ULTRA = além processo civil - EXTRA = fora PETITA à pedido - CITRA = aquém Processo Penal No Processo Civil o pedido é a chave, e o pedido que vincula o juiz. Se você pede errado o juiz fica amarrado num pedido errado. O juiz não pode ir além do pedido, fora do pedido ou aquém fez o pedido. FATO Ana Carolina Gradowski Cagliari à No Processo Penal é um pouco diferente, o pedido em si não muda, não oscila. Ele está relacionado a possibilidade ou não de se aplicar uma sanção criminal. Então o pedido muitas vezes é feito genericamente na petição inicial. à O pedido em si não muda, a causa de pedir que vai oscilar, e a causa de pedir para nós é o fato que vai se amputar ao réu. à No Processo Penal o fato que é importante, o juiz não pode julgar além do fato, fora do fato ou aquém o fato narrava. O MP quando vai oferecer a denúncia (nome técnico que se dá a petição inicial). Ele estrutura essa petição narrando um fato. E imputa esse fato ao réu. Depois que ele imputa o fato na óptica dele, o MP acolhe a classificação jurídica desse fato (classificação jurídica é indicar o artigo de lei, que na óptica dele MP o fato se amolda). É o fato que baliza toda a discussão até se chegar na sentença. E aí a sentença deve guardar correlação com o fato narrado na denúncia ou na queixa. Princípio da correlação, então o juiz não pode julgar além do fato, fora do fato ou aquém do fato. Exemplo 1: O promotor oferece uma denúncia e narra um crime de furto (conta uma história) o juiz não pode chegar na sentença e dizer: “fiquei sabendo que não foi um crime só naquele dia. O réu cometeu três crimes de furto em quantidade delitiva, então aproveito e condeno ele nos três. à Está narrado um, portanto o juiz não pode julgar, condenar, por outros dois que não estão narrados. Não pode ir além do fato narrado. Exemplo 2: O promotor narra um homicídio simples, o juiz não pode querer condenar depois por um homicídio qualificado. Ele não pode acrescentar algo que não conste na denúncia, indo além do fato narrado. Ele também não pode julgar fora do fato. O juiz é amarrado pelo fato narrado, ele tem que julgar no limite do fato narrado. O juiz não define que fato ele julgará, quem define é o MP quando apresenta a denúncia. à A possibilidade de alterar a narrativa do fato seja para acrescentar um novo fato, para acrescentar um novo réu, para mudar a forma como está redigido, enfim, para refazer tudo, isso chama-se MUTATIO LIBELLI. - MUTATIO LIBELLI = mudança da petição, do fato. - LIBELLI = petição. O juiz (ele juiz) não pode mudar o fato narrado, portanto não existe a possibilidade do juiz fazer uma MUTATIO LIBELLI (obs: cuidado porque até 2008 podia). Ana Carolina Gradowski Cagliari Não existe MUTATIO LIBELLI em grau recursal. Não posso depois da sentença mudar o fato. Chegando para sentença e o juiz percebendo que o fato era diferente daquele que estava narrado e percebendo que o promotor não fez o adiamento o juiz não pode mudar o fato, mas é permitido a ele que ele provoque o MP (isso é possível) à Chegou para a sentença, o promotor não mudou o fato, o juiz percebendo que o fato é outro (percebendo pela prova) ele não pode mudar o fato, mas ele pode provocar o MP. Ao invés de sentenciar, ele faz um despacho. Juiz pode provocar o MP mudar o fato fazendo um despacho. O promotor uma vez provocado pelo juiz pode aditar ou manter o fato. - MP pode: - aditar à concordar - manter à discordar O juiz pode utilizar analogicamente o art. 28 do CPP, o qual diz: “Se o órgão do MP, ao invés de apresentar a denúncia, requerer o arquivamento do inquérito policial ou de quaisquer peças de informação, o juiz, no caso de considerar improcedentes as razões invocadas, fará remessa do inquéritoou peças de informação ao procurador-geral, e este oferecerá a denúncia, designará outro órgão do MP para oferecê-la, ou insistirá no pedido de arquivamento, ao qual só então estará o juiz obrigado a atender”. à O promotor se manifestou pelo arquivamento do inquérito policial, quando o promotor se manifesta pelo arquivamento do inquérito policial ele submete esta manifestação ao controle do juiz. O juiz pode concordar com o promotor, arquivar o inquérito, ou pode discordar do promotor. O juiz não pode se auto- provocar, quem teria que ter feito isso era o promotor. O que sobra para o juiz é remeter o inquérito policial ao procurador-geral que terá a última palavra, se é caso de manter ou arquivar o inquérito. Promotor não fez aditamento e foi para a sentença. Juiz provoca o promotor. Volta para a juiz e o juiz diz que aplica analogicamente o art. 28, remete ao procurador-geral para que ele (procurador-geral) avalie se não é o caso de aditar. E a última palavra é do procurador-geral. Esfera decisória do MP à juiz pode recorrer ao procurador-geral. Fato narrado Ana Carolina Gradowski Cagliari Esfera decisória do juiz à promotor recorre ao tribunal - “IURA NOVIT CURIA” à o juiz conhece o direito. - “NARRA MIHI FACTUM DABO TIBI IUS” à narra-me os fatos e eu te darei o direito. Se o juiz entender que o promotor errou na classificação jurídica do fato na indicação do artigo de lei. O juiz diz assim: “O fato do jeito que está narrado, eu juiz entendo que ele se amolda a outro artigo de lei, diferente daquele que o promotor usou na denúncia. Diante desta situação, admite-se que o juiz na sentença altere a classificação jurídica do fato. Isso ele pode fazer mesmo sem aditamento, mesmo sem provocação. Alterar a classificação jurídica do fato é admissível de ofício pelo juiz sem mexer no fato, só alterando o artigo de lei. E isso chama-se EMENDATIO LIBELLI”. - EMENDATIO LIBELLI à emendar classificação jurídica do fato. Também pode ser feita em grau de recurso (grau recursal) à tribunal pode mudar classificação jurídica. O exercício do poder é limitado e amarrado ao fato imputado pelo MP. v Princípio da Indisponibilidade (ação penal pública). Aqui o promotor já exercitou a ação. Ele não pode desistir / dispor da obtenção da tutela jurisdicional, desistindo do processo. Mesmo quando ele pede para sair, desistir, o processo vai até o fim de qualquer jeito. Ana Carolina Gradowski Cagliari PRINCÍPIOS DA AÇÃO Existem 2 grandes grupos de ação penal: ü Ação penal pública à regra (maioria dos crimes) ü Ação penal privada à exceção (é a vítima, que querendo contrata um advogado). A regra é que os crimes sejam de ação penal pública. Na maioria dos casos a iniciativa é do Estado. v Ação penal pública. ü Princípio da Oficialidade Art. 129, I, CF. Existe um órgão oficial do Estado incumbido da promoção da ação penal pública. O próprio Estado através de um órgão oficial exercitará uma ação penal de ordem pública. O MP é o órgão oficial do Estado incumbido da promoção da ação penal pública. ü Princípio da Obrigatoriedade Promotor não tem discricionariedade no exercício da ação. Ele não pode escolher se exerce ou não exerce a ação. Toda vez que estiverem preenchidas as condições da ação o promotor é obrigado a agir à obrigado a agir por força de lei. Temos duas situações de mitigação ao princípio da obrigatoriedade. E a mitigação ela é chamada doutrinariamente de OPORTUNIDADE REGRADA. A Oportunidade Regrada é uma mitigação ao princípio da obrigatoriedade. Essa oportunidade não é livre, ela é regrada. Tem duas situações em que a lei permite que o promotor mesmo tendo as condições da ação pode deixar de oferecer a denúncia (a ação). 1ª hipótese: Regrada na Lei 9.099/95 – art. 76 à é a lei que regulamenta os juizados especiais criminais. O art. 76 trata da transação penal à transação penal só é possível para as infrações penais de menor potencial ofensivo (igual ou menor de 2 anos). - Infração penal de menor potencial ofensivo à pena máxima igual ou menor de 2 anos à aí vai para o juizado especial. A transação penal é o segundo passo no juizado quando não houve acordo. Ana Carolina Gradowski Cagliari Art. 76. Havendo representação ou tratando-se de crime de ação penal pública incondicionada, não sendo caso de arquivamento, o Ministério Público poderá propor a aplicação imediata de pena restritiva de direitos ou multas, a ser especificada na proposta. § 1º Nas hipóteses de ser a pena de multa a única aplicável, o Juiz poderá reduzi-la até a metade. § 2º Não se admitirá a proposta se ficar comprovado: I - ter sido o autor da infração condenado, pela prática de crime, à pena privativa de liberdade, por sentença definitiva; II - ter sido o agente beneficiado anteriormente, no prazo de cinco anos, pela aplicação de pena restritiva ou multa, nos termos deste artigo; III - não indicarem os antecedentes, a conduta social e a personalidade do agente, bem como os motivos e as circunstâncias, ser necessária e suficiente a adoção da medida. Então preencheu as regras o promotor chega para o sujeito e diz: “Meu amigo, eu tenho condições da ação, estão preenchidas as condições da ação, eu deveria oferecer ação penal contra você, porque o principio maior é o da obrigatoriedade, porém aqui a lei faculta que eu não faça. Como a lei permite que eu não faça, que você preenche os requisitos para que ocorra, eu vou te propor um negócio, mas você não é obrigado a aceitar.” O sujeito tem que necessariamente estar acompanhado de um advogado nessa hora. O advogado vai orientar tecnicamente se vale ou não vale aceitar a proposta do promotor. 2ª hipótese: Regrada na Lei 12.850/13 – art. 4º, § 4º à é a lei que combate o crime organizado à colaboração premiada. Essa lei regulamenta uma série de questões envolvendo a organização criminosa. Art. 4o O juiz poderá, a requerimento das partes, conceder o perdão judicial, reduzir em até 2/3 (dois terços) a pena privativa de liberdade ou substituí-la por restritiva de direitos daquele que tenha colaborado efetiva e voluntariamente com a investigação e com o processo criminal, desde que dessa colaboração advenha um ou mais dos seguintes resultados: § 4o Nas mesmas hipóteses do caput, o Ministério Público poderá deixar de oferecer denúncia se o colaborador: I - não for o líder da organização criminosa; II - for o primeiro a prestar efetiva colaboração nos termos deste artigo. Ana Carolina Gradowski Cagliari Se ele não é o líder e é o primeiro que se apresenta, a lei permite que o MP nem ofereça a denúncia, num acordo de colaboração premiada. v Ação penal privada ü Princípio da Oportunidade A vítima decide agir se quiser, não é obrigada a se manifestar, a agir. ü Principio da Disponibilidade A vítima não é obrigada agir, mas se agiu pode desistir a qualquer momento pela disponibilidade. Não é obrigatório seguir com o processo. Se a vítima desiste antes de exercer a ação, desistiu, maravilha, perdoou o autor do delito sem menor problema. Se ela no entanto desiste depois de ter exercitado a ação, essa desistência equivale a um perdão e esse perdão posterior ao exercício da ação é um perdão condicionado a aceitação por parte do acusado (querelado) - Querelante à vítima, autor da ação. - Querelado à réu. O querelado tem que aceitar o perdão do querelante. Tem que haver umperdão formal da pessoa física do querelado. Se ele não aceitar o processo segue e não extingui a punibilidade do sujeito. O efeito do perdão aqui é extinguir o processo e extinguir a punibilidade, mas precisa dessa aceitação (é obrigatória). Existe uma “válvula” de escape para evitar ter que esperar aceitar e tal. Que é simplesmente a vítima (querelante) abandonar o processo. Só que aí o juiz é que sanciona a vítima. É uma sanção que parte do juiz pondo fim ao processo, extinguindo a punibilidade, tem o mesmo efeito do perdão, que é uma sanção chamada de perempção. - PEREMPÇÂO à art. 60, CPP, incisos I, II, III e IV à são situações em que o juiz sancionará a vítima autora da ação com a extinção do processo e extinção da punibilidade do querelado. Quando se fala “somente se procede mediante queixa” é um caso de ação penal privada. - QUEIXA à ação penal privada - DENÙNCIA à ação penal pública - Art. 31, CPP. Ana Carolina Gradowski Cagliari Querelante, vítima da ação é intimado para uma audiência e não comparece. Não comparece e não justifica à juiz diz que perdeu o interesse, portanto julga extinto esse processo, julga extinta a punibilidade do querelado. O mesmo ocorre se o querelante (a vítima) não pedir a condenação do réu nas alegações finais (alegações finais é aquele momento antedecente a sentença. É o último momento em que a parte fala antes do juiz sentenciar). ü Principio da Indivisibilidade Quando se discute indivisibilidade se parte do pressuposto que eu tenho um delito praticado por mais de uma pessoa. Então o delito praticado por mais de uma pessoa é de ação privada. A vítima quer exercitar a ação. Se a vítima quer exercitar uma ação penal privada, um delito praticado por mais de uma pessoa, ela deve exercitar a ação contra todos os autores, coautores ou partícipes desse delito, não podendo deixar ninguém de fora (ninguém que ela saiba que existe). Se o autor achar um cara bacana e o outro (ou outros) não bacana, não dá. Quer exercitar a ação, exercite contra todos os possíveis autores, coautores ou partícipes. Você não pode dividir responsabilidade, por isso indivisibilidade. O juiz não conhece da ação se ele perceber que a vítima deixou alguém de fora. Se perdoou um, perdoou todos à o perdão concedido a um, à todos se estende, a todos se aproveita. Quer exercitar a ação, então entra contra todos, se deixar alguém de fora você quebra a indivisibilidade, o juiz considera que você perdoou aquele que ficou de fora, então perdoou um, perdoou todos, então o juiz não conhece da ação. Pode ser que um aceite o perdão e o outro não, então segue uma relação a quem não aceitou e extingue em relação a quem aceitou. Cuidado com esse princípio, pois boa parte da doutrina quando vai tratar dessa matéria, acaba dizendo que o princípio da indivisibilidade também orienta a ação penal pública. Porém, a jurisprudência diz que não orienta. A jurisprudência diz em sentido contrário. A doutrina diz que orienta e a jurisprudência diz que não orienta ação penal pública, na verdade não chega a ser um conflito de fundamentos entre a doutrina e a jurisprudência, mas há um conflito de conclusão, porque a jurisprudência olha a questão por um ângulo e a doutrina olha por outro ângulo, e aí eles concluem diferente. A doutrina diz que num crime de ação penal pública o promotor também não pode escolher quem ele vai denunciar. Se tem o crime praticado por mais de um autor ele deve oferecer a denúncia contra todos. Está certo isso, a doutrina diz isso e conclui que a indivisibilidade cabe dentro da ação penal pública. Essa afirmação da doutrina de que o promotor não pode escolher é uma afirmação correta, mas a jurisprudência diz que isso não significa dizer que eu Ana Carolina Gradowski Cagliari tenho o princípio da indivisibilidade. Que o principio da indivisibilidade não permite ao juiz conhecer da ação quando você quebra a indivisibilidade. Então o que acontece na ação penal pública se o promotor deixou alguém de fora, este que ficou de fora, que não foi denunciado mas que deveria ter sido, significa dizer que o promotor perdoou esse que ficou de fora? Não, porque o promotor não tem o poder de perdoar. A vítima pode perdoar, a vítima na ação penal privada ela pode perdoar, perdoar à todos. O promotor não pode perdoar, ele não tem esse poder de perdoar. Então o que acontece com esse que ficou de fora? Ele foi perdoado? Não, ele foi esquecido. E o juiz percebendo que eram dois os autores, que o promotor ofereceu a denúncia contra um só, o juiz recebe a denúncia contra esse aqui, extrai fotocópia do feito e usa aquele artigo 28 do CPP que remete os autos ao procurador geral, que terá a última palavra para um eventual aditamento e acrescentar aquilo que ficou de fora. Por isso a jurisprudência diz, a indivisibilidade não é um princípio que orienta a ação penal pública já que o promotor não pode perdoar e a qualquer tempo posso fazer um aditamento para acrescentar aquele que ficou de fora. O princípio da indivisibilidade (como principio) não atua na ação penal pública à todos os tribunais, jurisprudência concordam com isso. § Ação penal pública e ação penal privada Existe um princípio que atua nas duas esferas. ü Princípio da Intranscedência Transcender é ir além, intranscedência é não poder ir além. Esse é um princípio que é mais do direito material do que de processo. A pena a ser aplicada não pode ultrapassar a pessoa que praticou o delito. Eu não posso condenar para além daquele que tenha alguma relação com a prática delitiva. Não se pode punir além daquele que realizou o comportamento. Não existe responsabilidade solidária em direito penal. Ana Carolina Gradowski Cagliari PRINCÍPIOS DO PROCESSO v Princípio do Contraditório Art 5º, LV, CF. A ideia do contraditório vai se estabelecer sob a ótica que as partes devem ter igual oportunidade de manifestação e contrapor os argumentos que a parte adversária está trazendo. Elio Fazzalari à constrói a ideia de que o processo e contraditório se confundem. Não existe para ele processo sem contraditório. Ele diz que existe um gênero chamado procedimento e uma espécie chamada processo. Para que o procedimento seja um processo é preciso que ele tenha contraditório. O contraditório é da essência do processo. É composto pelo direito de ser informado sobre tudo o que está ocorrendo, e o direito de reagir à toda manifestação da parte contrária. Tem direito de informação e reação. Alguns autores falam em paridade de armas à essa expressão nem sempre é verdadeira. Em penal, as vezes o réu tem mais “armas” que o Ministério Público, ou dependendo do momento o MP tem mais “armas” do que o réu à dependerá muito do momento. v Princípio da Ampla Defesa Esse principio vale para qualquer processo até para o tribunal do júri. - Art. 5º, LV, CF. A ampla defesa é aplicada em duas vertentes: 1ª) Aos litigantes à ampla defesa das teses que cada um vai sustentar. 2ª) Aos acusados em geral à auto defesa + defesa técnica simultaneamente. ü Auto defesa: É a defesa patrocinada pela pessoa física do réu. É o réu, pessoa física, se auto defendendo. O momento mais importante de autodefesa é o interrogatório do réu à réu vai dizer para o juiz qual a sua visão dos fatos. Porém não se esgota no interrogatório do réu, essa é apenas a fase mais importante. Ela está presente em todo o rito. O réu tem exercícios de autodefesa ao longo da instrução.Ana Carolina Gradowski Cagliari Essa autodefesa é renunciável à o réu não é obrigado a se autodefender, ele tem direito ao silêncio. O Estado juiz é obrigado a oportunizar a autodefesa, mas o réu exercitará se quiser. ü Defesa técnica: É patrocinada por um advogado (obrigatório). à sempre a necessidade de ter um advogado. É uma garantia do cidadão, mesmo que o réu diga que não quer porque sabe se autodefender à mesmo assim vai ter, porque não é uma escolha sua. A defesa técnica é irrenunciável. O único que pode recusar advogado é se o próprio réu for advogado. Porém, não basta ele ser apenas advogado, ele tem que ser advogado e manifestar o desejo de fazer a própria defesa técnica (única hipótese cabível). à Jurisprudência do Supremo diz o seguinte: A ausência de advogado gera nulidade absoluta. v Princípio plenitude de defesa (júri) Esse princípio é específico do tribunal do júri. Para tribunal do júri a CF trás um artigo específico à art. 5º, XXXVIII, a. Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: XXXVIII - é reconhecida a instituição do júri, com a organização que lhe der a lei, assegurados: a) a plenitude de defesa; Plenitude de defesa não é a mesma coisa que a ampla defesa. No júri tem essa plenitude de defesa. Essa plenitude é algo há mais que a ampla defesa. Plenitude lembra defesa plena, completa. No júri vai se exigir mais do advogado. à O que se exige a mais à no júri não precisa apenas ter um bom conhecimento técnico jurídico. Além de ter um bom conhecimento técnico jurídico ele tem que ter o poder de persuasão junto com uma boa oralidade à persuasão na oratória à plenitude de defesa. Advogado à conjunção de qualidades a mais (conhecimento técnico + poder de persuasão + boa oratória). Ana Carolina Gradowski Cagliari A plenitude de defesa ela também autoriza a possibilidade de se usar teses conflitantes entre si no plenário. (Teses que até num primeiro momento se anulariam). No júri é válido porque são 7 pessoas que se tem que convencer (na verdade 4 pessoas, maioria de 7). à 4 pessoas decidem o julgamento, que é a maioria absoluta de 7. à Se 4 pessoas disserem sim, o réu é absolvido. Advogado convence 2 pessoas com uma tese e outras 2 pessoas com outra tese à pronto, réu absolvido. São também aceitos argumentos não jurídicos. v Princípio da verdade do processo penal Não é bem um princípio, mas é tratado como se fosse à é uma discussão relacionada a verdade. A doutrina tradicional ela costuma a referir essa questão da verdade no processo penal como se fosse um princípio, tratando desse tema como sendo a busca da verdade real. Aí varia um pouco de doutrinador para doutrinador. Como sendo sinônimos. - real Busca da verdade - material - absoluta Essa doutrina mais tradicional ao referir a ideia de processo penal seria a busca da verdade real, costuma fazer um contraponto com o processo civil num primeiro momento. Numa síntese bastante frequente na doutrina dizendo: Enquanto no Processo Civil vige uma verdade formal, no Processo Penal vige uma verdade material. É uma forma de colocar as coisas bem usual em parcela da doutrina, fazer esse contra ponto. Querendo dizer mais ou menos assim, por exemplo, lá no Processo Civil o autor da ação quando peticiona ele narra a história, o fato e se este fato não for contestado pelo requerido, é lido como se fosse verdadeiro, ganha ares de veracidade. É uma verdade formal porque aceita-se como verdadeiro aquilo pelo simples fato de não ter sido contestado. No Processo Penal é diferente. É narrado um fato na petição inicial mas não é a ausência de contestação que transforma esse fato numa verdade. É necessário demonstrar por meios probatórios, etc. à Esse é um primeiro aspecto. Porém existe um outro aspecto mais problemático desta forma de compreender a ideia do Processo Penal é orientado pela busca da verdade ideal é que nessa perspectiva estaríamos orientando o raciocínio do Processo Penal como uma pretensão de alcançar uma verdade real que se sucede no passado, uma verdade absoluta que se sucedeu no passado. Isso que é problemático, isso que é criticado pela doutrina mais moderna de variadas formas. Ana Carolina Gradowski Cagliari Quando a doutrina mais moderna vai falar desse assunto as vezes usa outro tipo de adjetivação como por exemplo: - possível - processual Busca da verdade - judicial - analógica Há uma variação terminológica mas que não é a ideia da verdade ideal, mas que também não é esse discurso da verdade formal. É algo diferente querendo dizer que o discutir, o pensar, o raciocinar o Processo Penal a partir da ideia de que ele seria orientado para alcançar uma verdade real, absoluta, material que é até equivocado sob diversos aspectos, nos quais dois são fundamentais. A crítica muitas vezes ela tem uma conotação histórica (o que esse discurso já representou) e por outro lado tem uma crítica de parecer filosófica. 2 pontos críticos que se dá ao ponto da busca da verdade real como Princípio do Processo Penal: - natureza histórica - natureza filosófica • Crítica de Natureza Histórica Observações quanto ao papel da igreja católica (não é uma crítica de natureza religiosa). Início na Roma antiga à 3 grandes momentos. 800 a.c fundação da cidade de Roma. Nos primeiros 400 a.c. foram monarquia, próximos 400 a.c até 4 a mais ou menos antes do nascimento de Jesus era República e aí começa a transição para a ditadura, para o império e isso vai durar mais ou menos 400 anos para frente. O que interessa para nós é esse último pedaço, a partir do nascimento de Jesus quando o Império está nascendo junto. A religião católica cristã no inicio foi ignorada. Depois sentimos ameaçados politicamente pelo movimento do discurso de Jesus e os seguidores da religião passam a ser oficialmente perseguidos pelo império romano. A religião perseguida no início, por curto espaço de tempo, passa a ser a religião oficial do império romano. O império romano não tinha religião oficial, você rezava para quem quisesse, era livre. De repente, em 300 anos de pregação religiosa, você tem a primeira conversão de um imperador romano ao cristianismo. E isso ocorreu com o imperador Constantino, que se converte ao Ana Carolina Gradowski Cagliari cristianismo no ano de 312. Então de religião perseguida passa a ser adotada pelo próprio imperador (1º imperador que se converte é o Constantino). Aí vai ter um segundo momento importante no ano de 380 d.c que é quando outro imperador chamado Teodósio, não apenas se converte ao cristianismo, mas ele baixa um decreto determinando que todo o povo do império romano passe a adotar a partir daquele dia a religião católica cristã como a religião oficial do Império Romano. Nesse decreto dizia que quem não aderir a religião será considerado herege (herege é aquele que elege uma opção diferente da minha, isso significa que é contra mim, e sendo contra mim, será perseguido). Isso faz com que o povo na sua grande maioria se converta. 380 d.c o império romano ocupava uma imensa área, concentrado e conduzido a partir da cidade de Roma. Então você tem um império gigantesco convertido ao cristianismonuma canetada. A insatisfação que existia na fronteira desse império, dos povos recém conquistados era uma insatisfação absoluta porque acabaram de ser subjulgados ao império e acabaram de ter que dar ao império boa parte do produziram de riqueza através de impostos que Roma cobrava e ao mesmo tempo tinha que proteger as fronteiras. Além das fronteiras tinham outros povos chamados pelos romanos de bárbaros (bárbaro é aquele que não fala a minha língua e que tem uma cultura diferente da minha). Esses bárbaros queriam entrar porque também queriam conquistar território. Então tinha uma pressão para que quem tava na fronteira tinha que conter eles (estes que estão fora do império). Havia uma insatisfação muito forte entre as fronteiras. Uma oscilação e uma constância de poder muito forte. Eles não conseguem conter e a cobrança de impostos cada vez mais pesados, faz com que a insatisfação fique de tal ordem que eles não seguram mais a fronteira e começa haver uma invasão paulatina, lenta desses povos que estão fora do império para dentro do império. E o império vai aos poucos recuando nas suas balizas de proteção. Por volta do ano 408/410 d.c, nós temos a primeira invasão bárbara na cidade de Roma. Os caras chegaram na cidade de Roma para invadir a cidade de Roma é porque o império nessa altura do campeonato já tinha ido para o beleleu. Se deu assim a queda do Império Romano. O Império poder laico, ele vai ser trocado pelo poder laico dos bárbaros que invadem estes territórios. A religião no entanto já era oficial e imposta à todo povo e em 30 anos ela se consolida de forma a permanecer predominantemente mesmo com a invasão dos bárbaros que trazem as suas religiões, mas a religião católica se mantém. Então há uma ruptura do poder laico, uma troca do poder laico e uma manutenção do poder religioso. É interessante de analisar que a igreja católica, ela de certa forma copia a estrutura organizacional do império romano. Ana Carolina Gradowski Cagliari O império romano fez sucesso mais de mil anos porque organizou a distribuição do poder. Os romanos dividiam os territórios e competências territoriais, e aí a igreja faz igual. Na igreja católica a paróquia é a divisão de competência territorial eclesiástica do padre. Ele tem poder e exerce poder num determinado espaço territorial que é a sua paróquia. Então você tem uma única figura centralizada, com divisão de competências territoriais. O próprio tipo potinfice era o título do imperador romano. E funciona, tanto que esta aí até hoje. Então, o poder laico vai ruir porque há uma invasão mas o poder religioso se mantêm. E é tão forte que em curto espaço de tempo, em termos históricos, os reis bárbaros que invadiram começam a aderir essa nova religião. O primeiro a aderir é Clóvis – Rei dos Francos, no ano de 498 d.c. Ele se converte porque ele casou com uma mulher que era católica. E o papa sabendo disso ele se aproxima da mulher do Clóvis e influencia ela a fazer o Clovis parar com as religiões dele e fazer ele seguir as palavras de Jesus. E a mulher do Clovis incentivada pelo Papa começa a atormentar o Clóvis literalmente. E o Clóvis chega num ponto em que ele está tentando unificar o reino franco dele. Como ele estava tentando unificar o reino e estava difícil, ele tinha perdido várias batalhas. Ele chega para a mulher dele e fala o seguinte: “eu vou lutar em nome desse teu Deus aí que você diz que é poderoso, se ele for realmente poderoso ele vai me ajudar a unificar o reino que eu não estou conseguindo. Mas eu vou lutar em nome desse teu Deus. Se ele me ajudar a unificar é porque realmente ele é poderoso e aí eu vou concordar com você, vou aderir a essa religião. Mas se eu não conseguir unificar você para de me atormentar porque não aguento mais.” E assim foi, não se sabe se houve intervenção divina, o que importa é que o Clóvis unifica o reino. E como ele tinha prometido para a mulher, se converte ao cristianismo. Clóvis é o primeiro rei da França. Os demais reis viram o Clóvis conquistar o que conquistou através desse novo Deus, eles também se interessam e há uma conversão em cascata, fazendo com que a igreja seja protegida pelos reis e vice-versa. Consolidando portanto a hegemonia da igreja católica (jogo do poder). A igreja vai ficar tranquila, favorável nos próximos séculos. Com o passar do tempo vão começar as cruzadas em direção a Jerusalém. Para bancar as cruzadas rumo a Jerusalém e para sustentar tudo aquilo, custava muito dinheiro. Então a igreja para de pregar a religião e começa a haver um momento histórico da igreja de elevado índice de corrupção moral. A igreja passa a se preocupar em angariar patrimônio, muito mais que pregar a religião. Então vendiam indulgências em praça pública (quer um lugar no céu? Custa tanto. Eu te dou um documento e você fica resolvido com Deus), etc. Os padres pararam de estudar e pararam de pregar a religião. Ana Carolina Gradowski Cagliari Isso gerou uma insatisfação dentro da própria igreja, gerando dissidência da igreja católica. Principalmente entre o século X e o século XIII. Várias dissidências na igreja católica começam acontecer, todas elas pregando desapego material. Pregavam a palavra de Jesus com desapego material. É do século XIII também, São Francisco de Assis, que pregava a mesma coisa, desapego material. Vem depois São Domingos, que vai ter um papel importantíssimo em termos de Processo Penal. Essas dissidências da igreja começam a preocupar o Papa. O Papa vê e começa a perseguir essas dissidências, começa a ser criticado por alguns. Ouvindo que ele estava perseguindo os caras só porque eles estavam pregando o desapego material; só porque eles são pobres, começou haver uma crítica sobre o Papa. E o Papa ainda usa São Francisco como uma moeda para dizer que ele não perseguia a pobreza, que o problema não era esse. Qual era a diferença de São Francisco para os outros? Se todos eles pregavam a palavra de Jesus e todos eles pregavam desapego material? A diferença é que Chico antes de pregar foi pedir autorização para o Papa: “Papa, você me autoriza a pregar?” e o Papa diz que autoriza. Então a ordem Franciscana, ela é autorizada pelo Papa e reconhecia a autoridade do papa, as outras não. Elas romperam com a igreja e não reconheciam mais o Papa como uma liderança. O problema é que eles não reconheciam o Papa por isso ele passa a persegui-los. Uma dessas dissidências da igreja vai ganhar muita força no sul da França, que é a Seita dos Cátaros, também chamados de Albigenses, estavam situados numa cidade pequena Albino no sul da França. Os Cátaros eram profundos conhecedores de teologia. Estudavam religião à fundo, conheciam bastante todos os ditames da religião. Os Cátaros pregavam em praça pública na língua do povo e não cobravam nada em troca. O padre em vários lugares parou de lesar, de falar. E aí quando rezava, rezava em latim, língua que o povo não entendia e ainda cobrava. Os dois pregavam a palavra de Jesus, só que não dava nada em troca, cobrava e falava numa língua que ninguém entendia. Quando havia debates orais sobre religião em praça pública entre um padre e um Cátaro, como o padre tinha parado de estudar, e o Cátaro sabia muito literalmente, ele humilhava nos debates orais em praça pública. Então o povo assistindo era evidente que o povo ia seguir os Cátaros. Primeiro o povão seguia os Cátaros e depois a nobreza. E aí acende uma luz amarela lá no Vaticano. Está havendo um problema lá no sul da França, quem o Papa vai mandar para tentar reverter esse quadro lá no sul da França? Ele vai mandar Dominique de Guzman, que depois vai virar o SãoDomingues da igreja católica. O Dominique vai ao sul da França com uma perspectiva de tentar entender esse quadro, não consegue, volta ao Papa e Ana Carolina Gradowski Cagliari diz que a coisa está muito feia lá. Os Cátaros dominaram totalmente a região, eles (Papa) perderam todo o espaço, e mais, eles estão avançando a passos largos ao norte da França e que se não for feito algo rapidamente em grande espaço de tempo os caras vão dominar toda a Europa continental e quando você (Papa) se der conta, você perdeu totalmente o poder e hegemonia da Europa. Esse Papa era o chamado Inocêncio III, foi um dos papas mais importantes para a estrutura da igreja, porque ele vai patrocinar momentos da história cruciais, divisores de água mesmo o nosso modo de enxergarmos o nosso mundo ainda hoje. Nós somos o que somos em grande parte em decorrência do que aconteceu no século XIII pelas mãos do Inocêncio III. O mundo seria outro se Inocêncio não tivesse feito o que fez. Seríamos adeptos da religião Cártamo provavelmente. Inocêncio III primeiro vai organizar exércitos no norte da França com os senhores feudais, vai eliminar os cargos primeiro pela força. Eles são convencidos por dois motivos, primeiro o Papa diz, olha, vocês vão lutar em nome de Deus e isso já deveria bastar, mas como Deus é benevolente, tudo o que vocês conquistarem de patrimônio desta vez a igreja não quer para ela. A igreja abre mão do patrimônio e vocês podem ficar para vocês. Aí rapidinho os caras se organizam e vão ao sul da França. E quando vão partir para o sul da França, um desses generais franceses pergunta ao Papa como eles fariam para identificar quem é Cartago. Aí a frase que entra para a história é a seguinte: “Não se preocupe, mate todos, Deus salvará os seus”. Então com esse tipo de incentivo imagine o que os caras não fizeram. Os caras foram para o sul da França e durante 20 anos, diversas batalhas praticamente exterminaram a população do sul da França matando homens, mulheres e crianças indistintamente. A última resistência Cártara na cidade de Cartasomia no sul da França. Foi a ultima resistência cártama, ali acabou os cártamos. Ali a história da humanidade foi para o que é hoje. Talvez dois momentos importantes para a história da igreja, esse e depois a Guerra dos 100 anos. Só que matar as pessoas põe freio mas não mata a ideologia. A ideologia mais dias ou menos dias ela resurge. O Inocêncio III muito mais esperto do que os americanos usou da força e depois da polícia (que já era anterior a este momento) que foram acabando com a ideologia. Um dos problemas que a igreja enfrenta é que toda base filosófica que sustentavam a religião da igreja até o século XIII era pautado no discurso de Santo Agostinho que era de embasamento filosófico platônico. Santo Agostinho viveu o século V bem naquela época da invasão dos bárbaros na Europa, bem na queda do império romano. Santo Agostinho nasce no norte da África, vai estudar em Milão, vai estudar religião com o Frei Ambrosio e começa a filosofar em cima de tudo aquilo que ele está vivenciando ali. Com Ana Carolina Gradowski Cagliari embasamento platônico, platônico porque só conheciam Platão. As obras de Aristóteles estavam desaparecidas da Europa porque os muçulmanos tinham pego essas obras e levado com eles. Então se ignorava a existência de Aristóteles na Europa continental. Até o século VIII ninguém sabia da existência de Aristóteles. E Aristóteles é um contra ponto a Platão. Era discípulo de Platão mas a forma de raciocinar era diferente. Então a base filosófica de Santo Agostinho é Platônica. Santo Agostinho estrutura filosoficamente a religião a partir de Platão com essa ideia de que a confissão é algo absolutamente importante para que a verdade divina que está dentro de você seja pra você revelada para a salvação da tua alma. Então, isso depois vai ser usado agora no século XIII. A igreja preocupada porque quando os muçulmanos no século VIII ocupam a região onde hoje é a Espanha e Portugal, os muçulmanos trazem com eles as obras de Aristóteles. Então a Europa continental é por assim dizer, apresentada a Aristóteles. O Aristóteles “tira o chão” daquela religião porque a base era platônica, era Santo Agostinho. A igreja só vai conseguir ajustar filosoficamente o seu discurso religioso com São Tomás de Aquino já na passagem do século XIII para o século XIV. Até lá era proibido ler Aristóteles. Mas a igreja também não era louca de queimar, porque era genial. Então veja o problema que a igreja tinha nas mãos. Não posso destruir aquilo que é genial, mas também não posso deixar livre porque me põe em cheque. Então faz o seguinte, pega todas as obras de Aristóteles que estão circulando aí, guarda e só a igreja terá acesso. Enquanto a gente não decifrar esse negócio e ajustar o papo aqui, ninguém tem acesso ao Aristóteles. Além disso a igreja edita um rol de livros proibidos porque tudo aquilo que pudesse por em cheque a religião esse sim deveria ser queimado em praça pública. A última vez que a igreja editou o rol de livros proibidos foi em 1966. Então Inocêncio usou da força, ampliou a proteção das esculturas, concentrou o conhecimento dos seus limites e vai usar do processo penal. E daí que vem a importância tanto do São Agostinho quanto do Inocêncio nessa conversa toda. No ano de 1215, Inocêncio III convoca o IV Concílio de Latrão para rediscutir os paradigmas da igreja e regrar a obrigatoriedade da confissão. Porque até então a confissão era uma tradição judaica, anterior a Santo Agostinho. A partir de 1215 o resultado do IV Concílio de Latrão fica determinado que todo cristão deve se confessar uma vez por ano e para o padre. Tem que ser para o padre porque se todo mundo vier confessar para o padre, o padre vai ficar sabendo tudo o que acontece na comunidade, na paróquia dele. Então ele controla toda a comunidade e pode dizer o que fazer e não fazer. Tem todo o controle, mais poder. Ana Carolina Gradowski Cagliari Mas e se alguém não vier confessar espontaneamente entra o Processo Penal Canônico. Vai ser baixada uma bula papal chamada de AD ESTIPANDA à vem regularizar o uso da tortura. Se eu tenho um Processo Penal que é orientado pela busca da confissão, no qual eu posso legalmente usar da tortura para chegar nessa confissão para salvar a tua alma. Isso faz com que o modelo da tortura perdure por cinco séculos. Só vai formalmente acabar com a Revolução Francesa. (até hoje se vê a tortura feita pela polícia). No pós Revolução Francesa vai haver um mecanismo de dessacralização que faz com que o homem pela razão usando da metodologia inquirial, agora aplique esta metodologia para construir verdades universais no mundo científico. A ideia de ciência substitui a ideia de religião, a forma de compreensão do mundo. Ela vai contribuir para reforçar os discursos da verdade real. Só que agora sob o manto do racionalismo. O homem dizendo eu racionalmente chego na verdade das coisas, chego na verdade do mundo só com a razão. Então eu substituo uma verdade absoluta de conotação divina, religiosa, por uma outra pretensão de alcançar verdades absolutas, só que agora pela razão. Então não é a toa que você encontra até hoje em manuais de Processo Penal autores dizendo que o Processo Penal se orienta pela busca da verdade real, porque isso esteve presente séculos a fio como discurso. O problema é que o discurso da verdade real é o que legitimou a regra autorizadora da tortura. A ideia de proibição de prova ilícita é por um freio nessa sanha de buscar uma verdade absoluta. Então quando a gente diz que o Processo Penal eleé orientado pela busca da verdade real, a gente acaba desconsiderando um risco desse discurso que trás historicamente falando, uma possibilidade de se retomar modelos e práticas autoritárias, abusivas, por parte de quem detém poder. • Crítica de Natureza Filosófica As primeiras tentativas do homem de explicar o mundo lá na Grécia antiga, como não se conseguia racionalizar a respeito do mundo a tentativa primeira de se explicar acaba sendo sob a ótica da mitologia, onde os deuses explicam. Deus explica tudo, Deus explica o mundo. Quando o homem começa a querer se desvincular dessa explicação mística, dessa explicação por crença, ele começa a tentar explicar do que as coisas são feitas, do que o mundo é feito, essa é uma das primeiras preocupações, dos primeiros filósofos, 500 a.a.c mais ou menos. E a explicação começa na tentativa de identificar do que que todas as coisas são feitas. Então uma busca pela identificação do princípio de todas as coisas, que eles chamavam de Arché. Então Ana Carolina Gradowski Cagliari depois da mitologia vem uma busca de Arché, que é um princípio de todas as coisas. Tales de Mileto foi o primeiro pensador tentando explicar o mundo, dizendo que tudo era feito com o princípio da água. A água era Arché de todas as coisas. Aí outros pensadores passaram a dizer que não era a água, que era o fogo. Tentando sempre explicar a partir da natureza. Para outro não era nem a água e nem o fogo, era a terra. Para outro era o ar. Uma explicação da busca da essência de todas as coisas, isto está envolvido na busca de toda mitologia grega, a busca da essência das coisas. Os gregos acreditavam num mundo finito e que era composto de alguma coisa, seja pela água, pelo fogo, pela terra, pelo ar. Até que Demócrito encerra essa fase “primitiva” da filosofia dizendo que as coisas todas são compostas de uma determinada partícula, que é a menor partícula de todas as determinadas coisas que ele chama de átomo. Ele dizia que se ele dividir uma coisa numa metade e depois na metade e depois na metade... até encontrar esta partícula mínima que é o que compõe todas as coisas, e que deve existir uma partícula mínima. Ele dizia que obrigatoriamente deve existir. Porque não se pode chegar ao ponto que se divida a mínima das partículas e chegue ao nada, porque aí as coisas seriam compostas de nada e não teríamos as coisas. Então para que elas existam deve existir uma partícula mínima que compõe todas as coisas que ele chamou de átomo. Encerrado esse momento tentativa de explicação da essência das coisas por uma Arché, por uma partícula mínima como princípio que fundaria todas as coisas, começa uma corrente filosófica que começa a duvidar de todas as coisas, duvidar de todas as verdades. Temos muito pouco sobre esses filósofos, porque digamos assim, foi uma corrente “perdedora”. Os caras eliminaram as obras desses pensadores, que são classificados como sofistas. O que eles puderam eliminar das obras dos sofistas eles eliminaram, apagaram da história. Então o que a gente sabe é muito pouco, pouco fragmento, mas se compreende ali como sabe mais pela crítica de quem era contra o pensamento sofista, do que propriamente pela palavra dos sofistas em si. Mas é possível dizer que esse grupo de pensadores enxergavam o mundo sempre como uma dúvida, sempre tinha sua verdade e questionava as demais. Algumas verdades que ele impunha e as outras que ele questionava. Então esse grupo chamado de sofistas vão finalizar e compor o que doutrinariamente se catalogou como sendo pensadores pré-socráticos (pré-socráticos porque eles antecedem a Sócrates e eram críticos dos sofistas). Só que Sócrates não escreveu nenhuma única linha, nós não sabemos nada de Sócrates a partir da boca dele. Sabemos de Sócrates a partir de Platão, que é discípulo de Sócrates. Platão refere a Sócrates, usando Sócrates como personagem para explicar como as coisas eram. Então o contra ponto é junto Sócrates e Platão em relação aos sofistas. Platão entendia do mundo, também daquela busca de um ideal de compreensão do mundo, uma essência. Ele entendia que essa essência do mundo era dada antes de nós por um plano Ana Carolina Gradowski Cagliari ideal, que existe um ideal de todas as coisas e que o homem porque não é perfeito tem esse ideal como algo aproximado, enxerga e compreende as coisas fazendo referências e comparações com os modelos ideais. Por exemplo, quando você olha para um cachorro na rua, não interessa o cachorro, você olha para o cachorro e vê o que? Um cachorro. Você sabe que é um cachorro, porque existe um ideal de cachorro que você tem na cabeça, que basta que você olhe para um cachorro sem nunca ter visto aquela raça, aquele tipo de cachorro, para saber e dizer que ali é um cachorro. Então a verdade do cachorro não está nele. Para Platão, a verdade do cachorro está em você, num conceito ideal de cachorro que existe e que te faz compreender que aquilo é um cachorro. Então a verdade do mundo para Platão está na sua cabeça e não nas coisas. A verdade do mundo para Platão está no sujeito e não no objeto. Então uma verdade que está no sujeito. Você olha para as coisas, entende as coisas porque existe um ideal de cada coisa que você trás com você, e isto que te faz compreender o mundo. Fazendo sempre um ajuste da coisa ao modelo de essência de ideal que você tem dado antes pelo simples fato de você ser humano. O discípulo de Platão é Aristóteles. E Aristóteles vai desenvolver uma forma diferente de compreender a verdade das coisas. Para Aristóteles a verdade das coisas não está na ideia, nessa essência ideal, mas está na própria coisa. Para Aristóteles eu tenho que ajustar a minha cabeça à coisa e não ela a mim, é o inverso. Tem uma máxima de Aristóteles em latim, que não é dele é de São Tomas de Aquino, que diz: “veritas est adaequatio intellectus et rem”, que quer dizer, “a verdade é a adequação do intelecto à coisa”. Quando você ajusta a tua cabeça à coisa, chegando nela, você alcança a verdade que está nela, na coisa e não em você. Então assim, a frase: “este copo é de plástico?”. É uma frase verdadeira porque eu estou ajustando a minha cabeça à verdade da coisa, a coisa é de plástico. Agora, se eu disser: “este copo é de vidro”, essa frase é falsa, é mentirosa porque o copo não sendo de vidro eu não consegui ajustar a minha cabeça a coisa e eu estou errado na minha compreensão da verdade. Então ele inverte a lógica. Porque para Platão eu olho para o copo e existe um ideal de copo na minha cabeça que eu posso, que eu consigo entender. Sócrates é ao contrário, não tem ideal nenhum. A verdade é da coisa, você só consegue enxergar nela quando você ajustar sua cabeça a ela, e a verdade é dela, não tua. Então para Aristóteles a verdade esta no objeto e não no sujeito. Aristóteles desenvolve um método para alcançar a verdade. Um método analítico silogístico (silogismo, premissa maior, premissa menor – síntese). Então para Aristóteles para chegar na verdade das coisas se utiliza o método silogístico que alcança a verdade das coisas. Tem um exemplo de silogismo que diz ser dele, mas não é dele que é o exemplo assim: “Todo Ana Carolina Gradowski Cagliari homem é mortal” – premissa maior. “Sócrates é homem” - premissa menor. Logo, “Sócrates é mortal” – síntese. Isso é um exemplo de silogismo. Isso é tão forte, tão constitutivo no nosso modo ocidental de se entender o mundo, que é possível dizer que nós somos ainda fortemente um grande resultado dessa forma grega antiga de compreender o mundo. Nós em boa parte somos gregos na origem. A nossa forma de entender tudo isso ela é grega, cristã. Mas é fortementegrega, a gente faz silogismo o tempo inteiro, toda hora. Você raciocina silogisticamente o tempo todo. Muitos juízes são fortemente orientados por esta lógica aristotélica. Por isso chamamos de metafísica clássica, porque é o primeiro paradigma importante que busca uma verdade por correspondência, que é o fundamento filosófico do discurso do principio da verdade real. Quando se fala que o Processo Penal é orientado pela busca da verdade real, o que funda filosoficamente esse discurso é a pretensão de querer chegar na essência do que aconteceu. A busca de uma essência. A busca da verdade de uma coisa em si, de uma verdade absoluta. Como boa parte dos operadores de direito (ex: juízes) não estuda filosofia, não compreende nem qual é a base do seu próprio pensamento, dá para dizer que temos modelos de juizes hoje. Uma boa parte é um juiz orientado pela metafísica clássica, busca de uma essência. Entendendo que a verdade está nas coisas e que eu preciso chegar nela de qualquer jeito. Para chegar nela vou usar de metodologia silogística. E por isso você dá como certa algumas premissas maiores. Dar como certa algumas premissas maiores no raciocínio silogístico é o que Aristóteles chamava de Entimema. O entimema ocorre quando eu estou tão acostumado com uma coisa, que não me preocupo mais em me certificar da premissa maior. Eu dou a premissa maior como certa. Hoje nós damos várias coisas como certas. Porém o que hoje é muito certo para nós, nem sempre foi assim. As verdades que se tem hoje, no passado não eram as mesmas verdades. A verdade grega antiga de um mundo finito, perfeito, estanque dura até Copérnico, até o século XV. Quando Copérnico vem e diz: “O mundo não é finito, a terra não é o centro do universo, não é o sol que gira em torno da terra, é a terra que gira em torno do sol...” ele só não morreu na fogueira porque não deu tempo. Mas quem veio sustentar o que ele falou depois, ou teve que voltar atrás (Galileu), ou morreu queimado (Giordano Bruno), porque não é possível que você desdiga aquilo que é uma verdade dita como certa desde os gregos até hoje (naquela época não se admitia algo diferente da compreensão de que o mundo era finito e que a terra era o centro do universo). O problema de racionalismo partindo de Entimemas é que as vezes você dá por certo algumas coisas que hoje não são exatamente certas, mas que você dá como certa e raciocina a partir delas. As tuas verdades do mundo, os teus pré-conceitos podem ser premissas Ana Carolina Gradowski Cagliari maiores que você dá como certo. E aí se você está partindo de um pré-conceito, que não é correspondente a nada, a não ser a tua forma de enxergar o mundo é bem provável que seu raciocínio seja torto no fim. Só que isso é tão forte que tem manuais de Processo Penal que quando vão referir a sentença, explicar o que é a sentença, diz com todas as letras que o juiz faz uma sentença silogismo. Dizem que o juiz na sentença pega uma premissa maior, que é a lei, uma premissa menor que é o fato e faz o ajuste, formando a síntese. Então se ensina assim nos manuais, a sentença é um ato de silogismo. É perigoso pensar assim. Depois dos gregos antigos, vemos Santo Agostinho num primeiro momento. Como falado na aula passada, as obras de Aristóteles estavam desaparecidas, então o pensamento vai ser o mesmo pensamento de Platão, a verdade está no sujeito. Contrapondo Santo Agostinho, dentro deste movimento escolástico da igreja católica está São Tomás de Aquino que faz o pensamento contrário, dizendo que a verdade está no objeto. Esse discurso onde Deus e a igreja explicam o mundo perdura fortemente até o século XVII quando na Europa Continental, Descartes no movimento racionalismo vai usar da razão para explicar o mundo. Quando o homem finalmente compreende que não precisa de Deus para explicar o mundo, ele sozinho consegue compreender o mundo. Descartes funda uma compreensão dualista do mundo. Ele divide em “res extensa” – corpo, e “res cogitans” – alma. Esse é o dualismo cartesiano, ele divide você em dois. Você é corpo e alma, mas o que é o verdadeiro é a alma e não o corpo. O corpo é enganador, os sentidos são enganadores da alma. Ele diz, por exemplo, o tamanho dessa garrafa é assim, mas quando eu me aproximo vejo que estava errado. Então a visão é enganadora dos sentidos. A audição é enganadora. Tudo é enganador, eu não sei nem se você existe, não sei se você é fruto da minha imaginação. Descartes dizia: “Se os sentidos são enganadores da razão, tudo o que eu percebo pelos meus sentidos é falso”. Ele vai eliminando tudo o que ele não consegue provar. O fato que ele vai filosofando sobre isso e se questiona como ele vai se provar as coisas se os sentidos são enganadores da razão. A única certeza que eu tenho, diz ele, a respeito da minha própria existência é que eu estou pensando a respeito disso tudo. E daí vem a síntese cartesiana que diz “Penso logo existo”. Porque se a única coisa que me faz provar que eu existo é o fato de eu estar pensando a respeito disso tudo, porque o resto é enganador. Só a razão que de fato faz eu ter certeza que eu existo, por isto penso logo existo. Ou seja, só existo porque penso. Então o que eu penso é o que importa. O que você pensa não importa porque eu não sei nem se você existe. Interessa só o que eu penso, e aqui se funda praticamente o que a gente chama filosofia do sujeito Solipsista (quer dizer “só eu”). Eu me basto, eu digo o mundo a partir de mim, dane-se o resto. A única Ana Carolina Gradowski Cagliari verdade é minha. O sujeito solipsista é o sujeito centrado em si mesmo. Um sujeito que a sujeita todas as coisas a si. Um sujeito egocêntrico. Este é o segundo paradigma filosófico importante de ser compreendido. É a filosofia da consciência, onde a verdade esta de novo no sujeito, mas está no sujeito como nunca esteve antes. É o sujeito centrado em si mesmo, que sozinho diz o mundo, e isso nos influência fortemente ainda hoje. É outro modelo de juiz, é o juiz fundado na filosofia da consciência (ex: no julgado está assim: a doutrina diz isso, a jurisprudência diz isso, mas a minha consciência acha isso e vou por aqui à Este é um juiz que a filosofia dele é cartesiana). Ao mesmo tempo que Descartes na Europa Continental está desenvolvendo o racionalismo, praticamente no mesmo ano se tem um movimento que inaugura na Inglaterra no sentido de se dar valor ao contrário disso, à toda empiria que vem de Francis Bacon, John Locke, David Hume. Locke dizia que o homem nasceu como uma tabula rasa, sem nada na cabeça. E vai aprender com as experiências de vida. Vai depender inclusive para além desse experimento que ele faz os experimentos dos seus antepassados. Para esse movimento empirista o raciocínio acaba sendo invertido do racionalismo cartesiano. Porque Descartes não acredita nada de experiência, tudo que é experimental é não confiável. Para os empiristas, para os ingleses, eu dependo da experiência, portanto eu dependo da tradição também. David Home além de ser empirista era cético, não acreditava nas coisas, duvidava de tudo. Duvidando de tudo, influenciado pelo empirismo ele vai também ter uma importância muito grande porque ele vai dizer o seguinte, ele diz assim, quando você entra numa sala e vê uma mesa de sinuca e vê uma bola em movimento, o que você pensa? Que esta bola está em movimento porque alguém deu uma tacada. Como é que você sabe? Por experiência. Eu sei do jogo, me explicaram como é, funciona assim, dá uma tacada e a bola vai... ou deram uma tacada na bola e ela está em movimento ou essa bateu em uma outra e está em movimento. Você deduz do efeito bola em movimento, qualé a causa desse efeito, uma tacada. Mas você deduz. É certo que foi uma tacada que fez com que a bola estivesse em movimento? Provável, mas não é certo. E não é certo porque você não enxerga no efeito a causa. A causa não é identificável pelo efeito, se deduz por experiência, tradição. Você não identifica no efeito a causa. Isso é muito importante para o Processo Penal. Porque não obstante você não consiga identificar no efeito a causa, você não raras vezes raciocina ou de forma intuitiva ou dedutiva. Olhando apenas para o efeito. E tentando extrair dele a causa. É tão forte esse negócio que está no Código de Processo Penal brasileiro à (art. 239). Isso é perigoso. Se eu estou andando na rua e escuto o barulho de um tiro, não vi nada, caminho mais um pouco e percebo que em um beco sem saída, tem uma pessoa agonizando no chão com um tiro e uma outra pessoa com uma arma em punho, o que você deduz? Você deduz que este sujeito que está em pé deu um tiro para matar aquele que está no chão. E a tendência Ana Carolina Gradowski Cagliari é esse cara ser condenado. Mas é certeza que foi ele que deu o tiro? Não. Você viu a cena do cara no chão com o outro segurando a arma, você não viu o tiro, é certeza que foi ele o atirador? Não. Mas o teu raciocínio tão bem influenciado por essa forma de compreender o mundo, pode afirmar que claro que foi ele. Enfim, quem vai tentar harmonizar isso tudo é Kant. Kant era alemão, fortemente influenciado por Descartes. Kant influenciado por Descartes achou que tinha entendido toda a parada, razão é pura, é isso aí. Aí veio John Locke, David Hume e quebraram as pernas. O Kant ele dedica a Crítica da Razão Pura para John Locke e diz que o David Hume despertou-o de um sono dogmático (que quer dizer mais ou menos que quebrou as minhas pernas). Kant é um cara genial e vai tentar fazer o ajuste das duas correntes. Ele se sente absolutamente incomodado, ele era totalmente cartesiano, de repente puxaram o tapete dele, dizendo, olha eu tenho um treco diferente aí. E aí ele vai tentar fazer este ajuste dizendo o seguinte: existem na verdade duas verdades dependendo de como enxergar isso aqui. Existe o Noumeno e o Fenômeno. O Noumeno é a verdade da coisa em si. E o Fenômeno é a verdade da coisa em mim. E os dois são importantes, dependendo do que você vai analisar. Existe uma verdade da coisa em si, mas também existe uma verdade da coisa em mim. A verdade pode tanto estar na coisa em si, no objeto, quanto no sujeito, a depender do que você vai trabalhar. Exemplo, se eu quiser saber quantos solteiros existem no mundo, eu não consigo saber só pensando, eu vou ter que experimentar. Você vai ter que fazer um gigantesco inquérito investigando no mundo para ir contando quantos sujeitos solteiros existem no mundo para chegar a um resultado no final, isto é empirismo. Mas se eu quiser saber quantos solteiros são casados no mundo, basta eu pensar que esta frase é absurda e dizer nenhum solteiro é casado, porque se fosse casado não era solteiro. Então eu não preciso de nenhum experimento para chegar a conclusão racional de que nenhum solteiro é casado. Esta é uma verdade da coisa em mim, independente de qualquer experimento. Enfim, Kant vai inaugurar o movimento filosófico chamado de Idealismo Alemão. Diversos pensadores aqui e um com grande importância é Hegel. Até aqui a verdade ou tá na coisa ou tá em mim, ou tá em mim ou tá na coisa. Positivismo naturalista vai ter uma influência muito grande nas pesquisas sobre a natureza. Aqui já é o auge do racionalismo empirista, com Darwin e sua obra A Evolução das Espécies, dizendo que nós somos resultados de uma seleção natural das espécies. Isso faz com que o homem passe a acreditar que de fato ele não precisa mais de Deus para explicar nada. Nietzsche chega a dizer que Deus está morto, isso filosoficamente falando, eu não preciso mais de Deus para explicar nada. Eu sou capaz de explicar tudo racionalmente, empiricamente, enfim, misturando as duas coisas, mas eu chego nas verdades e transformo Ana Carolina Gradowski Cagliari essas verdades em verdades universais. Tudo passa a ser objeto de estudo do homem, inclusive a linguagem. Quando o homem começa a estudar a linguagem como objeto de estudo, isso vai provocar o início de uma nova forma de compreender o novo paradigma que é a Filosofia da Linguagem. O primeiro giro linguístico que se chama “Giro linguístico”, se dá no final do século XIX, principalmente por um sujeito chamado de Ferdinand de Saussure. Saussure vai estudar, fazer análises da linguagem, estruturando, compreendendo que a linguagem é estruturada em signo – significante – significado. As coisas são signos mas elas são representadas por significantes. Significante é uma imagem acústica do signo. Por exemplo, coloco C no quadro. O que significa? A letra C. Como você sabe? Porque isso é dado antes. A linguagem é dada antes de eu falar. Sem que eu falasse veio na sua cabeça o som da letra C. Se eu não desenhasse nada e falasse: “pensa na letra C”, você pensaria na imagem. Então o significante é a imagem acústica do signo da letra C, e tem um significado que é a letra C. “C” é o significante, vem o som + imagem. Então Saussure diz, que a linguagem é estruturada assim, tem um símbolo, significante que esta ali e ele tem um significado. Acontece que a linguagem é composta em cadeias de significantes, sequências de significantes. A letra C é o significante 1 (C – sign.1), o segundo significante é A (A – sign.2), e esse significante altera o que estava escrito no significante 1. O segundo significante resignifica e assim por diante. C (sign.1) C (sign.1) – A (sign. 2) C (sign.1) – A (sign. 2) – S (sign.3) C (sign.1) – A (sign. 2) – S (sign.3) – A (sing. 4). Outro exemplo: símbolo do banheiro (significante na porta M F H à Dependendo do que estiver escrito numa porta você entra na outra. A partir do segundo significante você compreendeu o significado do primeiro significante. Só passou a ter seu completo significado com o significado do segundo significante. Dependendo de qual for o segundo significante, o significado do primeiro significante fica alterado. Pensando em termos de Processo Penal agora. O que é o Processo Penal? É um mecanismo de recognição de um fato pretérito onde um juiz que não conhece e precisa conhecer, se instruir para poder julgar. Ele vai conhecer, porque eu vou levar até esse juiz provas. Cada prova que eu levar é um significante. Ana Carolina Gradowski Cagliari O que eu tenho em Processo Penal em termos probatórios é uma cadeia de significantes, da qual ao final, e só ao final, o juiz extrairá o significado. Qual significado que ele vai extrair? Não sei, dependerá de quantos significantes e quais significantes vão ser colocados para ele. Quanto mais significantes eu colocar pode ser que a compreensão e o significado que ele está extraindo até um determinado momento se redirecione para outro lugar. Dependendo de qual testemunha eu coloque, o juiz decidirá para lá ou para cá. Pode condenar ou absolver. Dependerá da compreensão que ele extrair dessa cadeia de significantes onde cada novo significante eu tenho a chance de resignificar toda a cadeia de significantes. Então não é da verdade absoluta, da verdade real que se trata, mas é de uma compreensão a partir de um significado que eu abstraio de uma cadeia de significantes. Só que a complexidade não para aqui, vai longe. Até aqui falamos do final do século XIX. No mesmo momento que Saussure e outros estão estudando cientificamente a linguagem, provocando esse primeiro giro linguístico. Também decorrente doPositivismo Naturalista, o homem passa a ser objeto de estudo. No século XIX surge a Psicologia e depois surge a Psicanálise Freudiana. Freud começa a estudar o homem como se fosse objeto de estudo. Freud faz o conflito do princípio do prazer com o princípio da realidade. Pelo princípio do prazer que é extinto puro, nós faríamos tudo (mas aí vem a figura do pai castrador que diz não ao filho, como visto lá atrás). O princípio do prazer é o princípio apresentado à realidade. Tudo isso faz compreender que o homem é movido a essa oscilação do princípio do prazer e o princípio da realidade que fazem ele adiar gozos muitas vezes. Lakan vai ser influenciado pelo que ocorre no segundo giro linguístico com Heidegger e Gadamer, quando Heidegger vem na primeira metade do século XX e a partir da compreensão da linguagem como condição de possibilidade de compreensão do mundo. Isso influência Heidegger a dizer, bom, a linguagem é constitutiva do ser humano. O ser humano é constituído por linguagem. Ele dizia que “A linguagem é a casa do ser, nela habita o homem”. Quer dizer que o ser antecede o homem (homem ente). O homem é o ser que chega antes do ente (nós aqui). E nós nos entendemos e entendemos o mundo porque existe uma linguagem que nós compartilhamos. Esse é o segundo giro linguístico da filosofia da linguagem à a linguagem é condição de possibilidade de compreensão do mundo. Só entendemos o mundo porque temos a linguagem. Se não tivéssemos a linguagem não entenderíamos o mundo. E esta linguagem é compartilhada, não pode ser privada tua. Você precisa da linguagem para pensar. Sem linguagem você não fala, você não se comunica, você não entende o mundo, o mundo não existe. O teu mundo é do tamanho da sua capacidade linguística. Ana Carolina Gradowski Cagliari Se a linguagem não é só minha, ela é compartilhada, eu preciso do outro para entender o mundo. Com o segundo giro da linguagem que se dá com Heidegger, dá linguagem sendo compreendida como condição de possibilidade de entender o mundo, sendo compartilhada, eu passo a depender do outro para entender o mundo, a relação passa a ser agora sujeito-sujeito e não mais sujeito-objeto. E isso muda tudo. Eu dependo do outro para entender o mundo. A verdade é construída compartilhadamente e não silogisticamente como era a verdade cartesiana, onde eu sozinho digo o mundo. E muito menos uma verdade aristotélica. A verdade real é inatingível na mecânica do processo, mas pode acontecer. Lakan, discípulo de Freud, quando lê Heidegger diz que entendeu, que o inconsciente freudiano também é constituído como linguagem. O inconsciente é constituído por linguagem, só que as vezes ele fala como linguagem metafórica, metonímica, metáfora. Então quando se fala que o Processo Penal é orientado pelo princípio da busca da verdade real, eles estão desconsiderando tudo isso. Não é de verdade real que se trata o Processo Penal. Eu posso até chegar por coincidência na verdade real, mas não é isso que impulsiona. O que eu quero na verdade é convencer o juiz através de uma série de limitações próprias nossa, para que o juiz tenha então uma compreensão, que extraia um significado dessas cadeias significantes para poder decidir. v Princípio da presunção da inocência Art. 5º, LVII, CF à ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória. Esse princípio tem gerado uma discussão bastante acerrada nos últimos tempos, relacionada a uma decisão recente do Supremo Tribunal Federal, que decorre da interpretação da redação que está no artigo 5º, LVII, CF. Se chama presunção de inocência, mas você não vê escrito no texto presunção de inocência. Essa forma redacional que foi utilizada na Constituição brasileira, só tem paralelo em outras duas Constituições no mundo inteiro. No mundo inteiro somente o Brasil e mais dois países adotam essa forma redacional que joga a compreensão da presunção de inocência para uma terminologia técnica que é o transito em julgado. A esmagadora maioria dos países não utiliza essa redação e quando vai tratar do assunto fala que você não será considerado culpado se não após um duplo grau de jurisdição, algo mais ou menos nesse sentido. Assegura-se um duplo grau de jurisdição e uma vez que o órgão colegiado confirme a condenação o juiz Ana Carolina Gradowski Cagliari singular cessa a compreensão da presunção de inocência. Isso para os esmagadores países do mundo. Salvo Brasil, Itália e Portugal à Somente esses três países utilizam essa redação. A redação remete a uma expressão “trânsito em julgado”, só tem paralelo na Constituição portuguesa e na Constituição Italiana. A nossa Constituição ela se inspirou na Constituição de Portugal que é de 1976. A nossa é de 1988. A nossa copiou, quase que igual, literalmente a redação da Constituição portuguesa. E daí que na interpretação do que se compreende do transito em julgado é que está justamente esta polêmica de hoje em dia, como é que se compreende o sentido dessa expressão. Há uma tradição doutrinária de dizer que transito em julgado é um fato que corresponde ao esgotamento de todas as vias recursais. No Brasil nós temos não apenas um duplo grau de jurisdição, nós temos quatro graus de jurisdição (juiz de 1º grau; tribunal de justiça no âmbito do Estado ou tribunal regional federal no âmbito da União; Superior tribunal de justiça e supremo tribunal federal). Então nós temos quatro graus para discutir o processo. E dentro de cada grau você tem uma série de recursos internos que são possíveis de serem interpostos. E aí que vem uma situação em que certa medida tenha provocado a discussão do Supremo agora. Não que o Supremo tenha se debruçado só agora sobre esse tema. Se nós olharmos a interpretação da ideia de presunção de inocência na história da Suprema Corte da Constituição de 88 para cá, nós temos três momentos. 1º momento: Quando dá edição da Constituição até o ano de 2009 (1998 – 2009), o Supremo Tribunal Federal interpretou isso aqui como ele está interpretando agora, ou seja, até o segundo grau de jurisdição. Eu mantenho a presunção de inocência até o julgamento dado pelo órgão colegiado dado em segundo grau, tribunal de justiça, justiça estadual, justiça federal, tribunal regional federal. Dali para cima recurso especial para STJ e recurso extraordinário para o STF. Até 2009 não impedia a execução da pena. Até 2009 o Supremo Tribunal Federal brasileiro entendia que você mantinha a presunção de inocência até a discussão operada em 2º grau de jurisdição e que os recursos lato sensu chamado de extraordinários são recursos para o STJ e STF não faziam com que a decisão pudesse ser executada, ao contrário, se executava a decisão, ele iniciava o cumprimento da pena, ainda que pendente recursos dos tribunais superiores. 2º momento: Em 2009 muda a interpretação do Supremo, que passa a dizer o que a doutrina dizia a respeito da expressão transito em julgado. Se transito em julgado é o esgotamento de todas as vias recursais, ordinárias e extraordinárias, enquanto estiver pendente os embargos de declaração, dos embargos infringentes, que foi interposto a decisão que julgou o recurso Ana Carolina Gradowski Cagliari extraordinário, não transitou em julgado ainda. O sujeito mantêm o seu status técnico-jurídico de inocente. Esta foi a interpretação que o Supremo passou a falar a partir de 2009. E ele volta agora atrás em 2016. Então de 2009 ao comecinho de 2016 a interpretação do Supremo foi interpretar a expressão trânsito em julgado como historicamente ela sempre foi considerada na doutrina. Uma expressão que remete aoesgotamento de todas as vias recursais. 3º momento: Agora em 2016 voltou-se a interpretar como estava interpretando até 2009. Agora então o Supremo volta a jurisprudência anterior dizendo, olha, na verdade mantida a condenação de apelação que é no 2º grau de jurisdição, mesmo que caiba recurso especial extraordinário eu permito a execução imediata da pena e portanto, inverte-se o polo da compreensão de inocência. Isto está gerando muito problema. É da tradição da presunção de inocência manter-se essa presunção até a confirmação da condenação por órgão colegiado, mas não é da tradição vincular a expressão trânsito em julgado. Só que a nossa Constituição adotou essa expressão, como a Constituição portuguesa e italiana também fizeram. Em Portugal se interpreta como o Supremo está se interpretando agora, não é esgotamento de todas as vias recursais. Os portugueses também não consideram que o sujeito mantenha presunção de inocência até o fim de todos os recursos. Eles consideram até o 2º grau também. Já na Itália a interpretação é outra, ela interpreta até o fim. A Itália interpreta como o Supremo interpretava entre 2009 e até o começo de 2016. O professor diria que tecnicamente a expressão “trânsito em julgado” remonta ao esgotamento de todas as vias recursais. Então uma interpretação técnica a respeito do que está escrito na Constituição, nós temos que de fato criticar o Supremo Tribunal Federal Brasileiro quando diminui o alcance de sentido de expressão “trânsito em julgado”. Para o professor parece que nesse ponto o Supremo está errado. Ele também queria demonstrar que o Supremo está preocupado com uma situação que é um problema concreto da realidade processual penal do Brasil. Que é a absoluta inefetividade da justiça criminal quando você consegue utilizar toda a mecânica recursal. Os exemplos estão aí, nós tivemos o processo do senador Luiz Estevão. O Luiz Estevão (nem era senador ainda), quando cometeu um crime, o juiz do trabalho, o famoso Lalau, ele era presidente do TRT/SP e na reforma, construção do novo prédio do TRT eles fizeram uma bandalheira, super faturamento, desvio de verba e o escambal. E o Luiz Estevão junto. Esse crime foi cometido em 1992, e ainda está tramitando continuaria tramitando se o Supremo não tivesse mudado a posição dele. Porque ele ainda quando o Supremo agora em 2016 resolveu voltar aquela interpretação de 2009 para trás, o processo ainda estava tramitando do Luiz Estevão. Ele interpôs 34 recursos defensivo. Detalhe, ele foi Ana Carolina Gradowski Cagliari absolvido em 1º grau, foi condenado de recurso do MP e daí que começaram os recursos de defesa. Ele não chegou a nem usar o recurso de apelação porque não foi preciso. Mas daí ele foi condenado em grau recursal e começou então a interpor recurso a partir daí, a partir do 2º grau. E ainda não tinha transitado em julgado agora em 2016, quando o Supremo mudou a interpretação, e ainda iria um tempo. Alguns crimes já prescreveram, outros iam prescrever agora em 2017, 2018. Então a vida inteira da maioria da sala aqui é o tempo que esse processo tramitou. Isso é inacreditável, no entanto, é verdadeiro. Não é minimamente razoável que um processo criminal tramite 24 anos, sem ter uma decisão definitiva. Alguma coisa tá errada aí. É imprescindível que se tenha a possibilidade de recorrer. É uma garantia do cidadão. É preciso recorrer. Recurso é importante porque diminui possibilidade de arbítrio por parte do juiz, diminui possibilidade de erro, diminui possibilidade de corrupção na justiça. Então é imprescindível que se tenha a possibilidade de recorrer, mas não é aceitável num país que pretenda ser civilizado que você discuta um caso penal com a possibilidade do réu interpor 34 recursos, fazendo o processo tramitar por mais de 24 anos. Isto não é civilizatório, não é democrático. A culpa não é do advogado, o advogado está na obrigação dele. Ele tem o recurso então vai usar. A culpa está na estrutura legislativa, primeiro que permite que eu interponha 34 recursos. 1/3 do Congresso Nacional responde a processo criminal. Então para eles interessa que o processo não chegue ao fim. E quando chegar que esteja prescrito. No Brasil tem uma média de 600 mil presos, e quem são esses presos? A grande maioria pobre, que não utiliza toda a mecânica recursal porque custa dinheiro. O advogado cobra por etapa, por recursos muitas vezes. Quem tem dinheiro para bancar isso vai longe, exemplo do Luiz Estevão. Mas a maioria esmagadora dos réus não tem poder econômico para recorrer tanto. Na apelação basta o réu dizer que quer recorrer, só que dali para cima não basta dizer quero. Dali para cima o recurso tem toda uma questão de grana. Para julgar cada recurso leva um tempo, porque não tem estrutura para julgar toda uma demanda. Aí muitos advogados dizem que tem que aumentar a estrutura. Desde que existe o Brasil não teve estrutura adequada e nunca vai ter. Não vai ter porque custa muito caro essa estrutura. Um juiz é caro. E não é só um juiz, é um juiz, é promotor, é cartório, é toda uma cadeia de instâncias formais da criminalidade que tem que ser aumentada. Desde a polícia civil, polícia militar, judiciário, Ministério Público, defensoria, sistema penitenciário... é toda a cadeia que tem que ser aumentada. Nunca vai ser aumentada, mas mesmo que aumente nunca vai chegar ao patamar de uma celeridade mínima razoável. Ana Carolina Gradowski Cagliari A Suprema corte brasileira julgou ano passado 93 mil processos. Quantos ministros na Suprema Corte eu tenho que ter para que isso ocorra de forma minimamente célere. Se eu pegar 93 mil e dividir por 11, porque são 11 ministros (um time de futebol), contados os dias do ano, descontar sábados, domingos, feriados, recesso forense, férias de cada ministro, quanto sobra? Quantos ministros precisaria para trabalhar e ter uma celeridade ? Dá para ter uma corte com 1.500 ministros? Claro que não. Então essa história de aumentar a estrutura é uma falácia discursiva, uma falácia de quem não quer enxergar o problema. O Supremo trocou os pés pelas mãos, porque ele não é legislador, ele enxerga o problema e vive o drama de não conseguir escapar do problema. A maioria faz o que dá a partir de certo momento ou literalmente morre abraçado nos processos. O Supremo quis resolver esse problema com essa nova interpretação. Então quando vai discutir a Suprema Corte não pode só criticar a Suprema Corte, tem que analisar todo um conjunto. Mexer na estrutura ajuda, é importante, é bacana, mas não vai resolver o problema porque mesmo assim existirá 600 mil presos, que na maioria são pobres. Há um mito também, esses 600 mil presos é muito ou é pouco? Se houver sempre o discurso de que é um absurdo o Brasil ser a quarta maior população carcerária do mundo. Professor diria que 600 mil presos é muito, é claro. Mas quando a gente compara com a quantidade de crimes que se pratica no país ele diria que é pouco. Se pegar só o crime de homicídio doloso, quantos homicídios dolosos são praticados por ano no Brasil? A média é de 54 mil por ano. Em 20 anos dá 1 milhão de pessoas. Meia Curitiba morre a cada 20 anos dolosamente. Isso só no crime de homicídio doloso. Estupro tem em média também 54 mil por ano no Brasil. Se eu pegar só estupro e homicídio doloso cujas penas pressupõe uma pena de privação de liberdade, a cada 10 anos eu tenho 1 milhão de crimes (sem contar latrocínio). Então é muita gente presa ou muito crime cometido. Se começar a ver quantos crimes são cometidos no país a coisa é assustadora. Se eu pegar só homicídio doloso, estupro, roubo e tráfico de drogas, só essescrimes, no Paraná nos últimos 8 anos, dá 600 mil crimes, que é a quantidade de pessoas presas no país. Então nós estamos vivendo uma guerra civil não declarada faz algum tempo já. É assustador. O fato é que nós temos um problema, mais de um na verdade, que é uma quantidade de crimes absurda no país e que precisa ser revertida no país de alguma forma. Para o professor, a solução primordial é a educação. A educação de verdade, ensinar a moral para a gurizada. Ensinar maciçamente, utilizar a mídia. Ensinar o povo a entender inclusive que o político ele não é dono do dinheiro em si. Ensinar o povo que quando o cara frauda uma licitação da Ana Carolina Gradowski Cagliari prefeitura isso explica o fato de faltar o médico no postinho de saúde. Que ele consiga fazer um ele das duas ligações e que quando chegue novamente as eleições ele não vote na tranqueira que está lá. Tem que educar o povo para dizer não a corrupção. Tem que treinar o povo. Isso parece fundamental para o professor. Mas também parece para ele imprescindível que se tenha mecanismos de repressão e prevenção geral negativa através do Direito Penal principalmente neste setor (desvio de verba pública). O Direito Penal existe neste ponto mas ele tem falácia. As coisas não são tratadas com seriedade. Tudo isso para explicar o do porque o Supremo ter dito lá que transito em julgado não é o que significa transito em julgado. O professor é crítico do Supremo nessa decisão, ele acha que o Supremo errou.Errou querendo acertar, mas errou porque ele não tem essa legitimidade para dizer algo diferente do que diz a Constituição. Se está escrito que é transito em julgado, é transito em julgado que é o esgotamento de todas as vias recursais. Agora, isso implica num problema, e esse problema deve ser discutido e não está sendo discutido. Ninguém discute isso, ninguém tem interesse de discutir isso a não ser quem está enxergando o problema que é o Supremo, os juízes e os promotores, os advogados não querem discutir isso, eles saem pela tangente, dizendo que tem que aumentar a estrutura, que o processo ficou parado na mão do juiz. à Curiosidade! Mãos limpas na Itália. Os italianos já viveram o que estamos vivendo aqui. As mãos limpas na Itália começaram em 1992, mesmo ano que o Lalau estava desviando verba do TRT. Lá na Itália o processo já acabou faz anos, aqui no Brasil ainda estava tramitando o processo. Mas o fato é que 24 anos depois das mãos limpas na Itália começou a operação Lava Jato aqui no Brasil. A Lava Jato tem 133 mandados de prisão ao longo dos 2 anos de operação. Na Itália, nas mãos limpas foram mais de 900. Investigaram 4.500 pessoas. Foram condenadas 2 mil e poucas. Aí prescreveu quase 500. E foram absolvidas quase 500. Porque essas 500 que foram absolvidas e porque que houve prescrição de quase 500 na Itália? Porque a operação Mãos Limpas começa nos dois primeiros anos com apoio popular forte (olhe como é igual). De repente o sistema político começa a vir com toda a sua potência e a ação política dizendo que os juízes que são os promotores da toga vermelha. E começa o ataque ao acusador (no caso aqui do Brasil seria o juiz Sergio Moro). A estratégia que foi usada na Itália é a mesma estratégia que está sendo usada aqui no Brasil. Como eu não consigo constatar a prova eu vou atacar o acusador. As mesmas teses dos advogados italianos são as mesmas teses usadas pelos advogados aqui. Ana Carolina Gradowski Cagliari Depois de 24 anos a Itália continuou a ser tão corrupta como há 24 anos atrás. Como será o futuro do Brasil há 24 anos? - Presunção da Inocência é importante, é fundamental, é uma garantia, tem que ter direito ao recurso, mas tem que ter uma coisa equilibrada. v Princípio do Ônus da Prova Tem relação com o Princípio da Presunção de Inocência. Art. 156 do CPP à a prova da alegação incubirá a quem a fizer. O ônus da prova pode ser visto de duas formas à aquela divisão da doutrina: • Doutrina mais tradicional: - Interpretação gramatical dessa regra. - Está escrito na lei à incube o ônus da prova a quem alega. - Quem alegou uma coisa que prove o que alegou. - Ministério Público precisa provar a materialidade do crime. - A defesa teria que provar o que alegar. • Doutrina mais moderna: - Faz uma filtragem constitucional do ônus da prova, partindo da presunção de inocência. E aí muda de figura a forma de interpretar. - Se eu parto da presunção de inocência, quando for discutir de quem é o ônus da provar, eu tenho que levar em conta se eu presumo que o réu é inocente e o réu não precisa provar a sua inocência já que ela é presumida. - Réu não precisa provar nada. - Quem tem que provar é quem está acusando. - O ônus da prova é todo ele jogado para o Ministério Público à ônus da prova passa a ser integral do Ministério Público. - Ônus da prova é de quem acusa (MP) e não do réu. - Essa forma de interpretar é constitucionalmente adequada. Hoje o que temos no âmbito da jurisprudência é uma oscilação, a gente vê as duas correntes aparecendo (doutrina tradicional e doutrina mais moderna) à uma tendência de prevalecer a posição mais moderna, mas ainda se encontra as duas. Ana Carolina Gradowski Cagliari à Quando estou dizendo aqui que a doutrina moderna é melhor, que o ônus da prova é integral do Ministério Público, que o réu não precisa provar que é inocente, que ele é presumidamente inocente, com isso eu não quero dizer que o advogado de defesa não tenha que se preocupar com o problema. Tem que ter um pouco de cuidado ao compreender isso porque alguns advogados acham que eles não tem que fazer nada. As vezes o advogado faz uma leitura errada do que tem no processo, as vezes ele acha que o promotor ta indo bem, mas quem tem que achar isso é o juiz. E as vezes ele (advogado) é surpreendido na sentença quando o juiz condena. Então se você pode produzir provas em favor do seu cliente, é evidente que você tem que fazer um esforço nesse sentido. Não ficar esperando as coisas acontecerem e ser surpreendido na sentença. Alexandre Moraes da Rosa à Teoria dos Jogos à Ele explica bem essa importância do advogado compreender que sendo um jogo muitas vezes o processo, ele perde uma chance probatória se ele acha que não tem que fazer nada ótimo, mas que se ele puder fazer melhor. Ele acaba perdendo uma chance probatória de demonstrar que seu argumento é consistente, e aí é que é arriscado perder essa chance. De repente o juiz entendeu que o promotor foi bem e vai acabar condenando. O ônus da prova à luz de uma doutrina moderna filtrada pela presunção de inocência é todo do MP, o encargo, o dever de provar. v Princípio do “in dúbio pro reo”. Também decorrente da presunção de inocência e do ônus da prova. Já foi falado anteriormente. Problema mítico cristão que a construção do princípio remonta. Alcançar juízo de valor para uma dúvida além do razoável. v Princípio “Nemo tenetur se deterege” – Princípio da não autoincriminação – Princípio do Direito de não produzir prova conta si. Ainda decorrente da presunção de inocência. Esse princípio não está previsto em lugar nenhum, ele é uma construção. Se tentarmos extrair da CF, e alguns autores fazem isso, o princípio ele é objeto da conjugação de alguns dispositivos da Constituição. A CF brasileira fala da presunção de inocência, ela fala no direito ao silêncio do preso e ela fala na dignidade da pessoa humana. Na conjugação desses três dispositivos é que se constrói uma conclusão retórica em certa medida para completar o sentido do princípio. O raciocínioé mais ou menos assim: eu sou inocente (presunção da inocência), tenho o direito ao silencia quando estou preso, estaria ferida a minha dignidade de ser humano Ana Carolina Gradowski Cagliari (dignidade da pessoa humana) toda vez que alguém exigir que eu produza uma prova contra mim. Essa parte final é que é uma conclusão da conjugação desses três dispositivos. Se eu sou inocente e tenho o direito ao silêncio quando for preso estaria ferida a minha dignidade de ser humana toda vez que o Estado exigisse que eu tivesse que produzir uma prova contra mim. De forma um pouco mais direta, o principio também pode ser extraído do Pacto de San Jose da Costa Rica, também conhecido como Convenção Americana de Direitos Humanos à prevê no seu artigo 8º, II, g à “direito de não ser obrigado a depor contra si mesma, nem a declarar- se culpada”. Seja pela conjunção da Constituição, seja pelo Pacto de San Jose, é inquestionável, é plenamente aceito hoje a ideia que o direito brasileiro se organiza a partir desse princípio. O réu pode produzir prova contra si (pode confessar por exemplo). Não há nada que vede que o réu produza prova contra si, se ele quiser ele produz. O que eu não posso é ter o Estado exigindo do réu ou investigado, que ele tenha um comportamento ativo que possa implicar na produção de uma prova contra ele, isso não é possível. No Brasil a interpretação brasileira que a Suprema Corte brasileira faz do principio da não autoincriminação, é uma interpretação bastante elastecida. Nós fazemos uma leitura bem extensiva desse princípio, coisa que lá fora não se costuma fazer. Por exemplo, questão do bafômetro no trânsito. Você não é obrigado a se submeter ao exame do bafômetro, porque estaria ferindo o seu direito a não produzir prova contra si. Se quiser você pode fazer o bafômetro. O Estado é que não pode te constranger e exigir de você fazer esse exame. Nós também interpretamos o direito de não autoincriminação dizendo que o suspeito ou investigado não podem ser obrigados a ceder padrão gráfico da sua letra para realização do exame grafotécnico. Se ele quiser ele pode me dar, mas não se pode exigir dele. Também está inserido no exame de autoincriminação de acordo com alguns tribunais (não é unânime aqui) que eu também não poderia exigir de um suspeito que ele fique enfileirado com pessoas com mesmo caráter físico para ser reconhecido (para ser realizado um exame de reconhecimento pessoal). Alguns tribunais dizem que esse ato de ficar enfileirado violaria esse princípio. Também está inserido nesse princípio o direito do sujeito de não ceder padrão sanguíneo para realização de exame de DNA. O direito ao silêncio também está aqui, eu não sou obrigado a falar, eu falo seu eu quiser. Eu não posso exigir que ele faça coisas, mas eu posso me utilizar de outros meios probatórios. Tem sempre uma alternativa probatória diante da recusa. Ana Carolina Gradowski Cagliari O direito ao silencio tem que ser usado com muito cuidado, com cautela. O silêncio é um direito que o réu tem, eu não posso obrigá-lo a falar, porém, o silêncio comunica culpa. O silêncio não é natural se o réu é acusado injustamente. O natural é reagir para se defender e não silenciar. O silêncio pode ser uma “resposta” para a culpa. As vezes o melhor é falar. v Princípio da livre apreciação da prova (livre convencimento; convicção íntima; persuasão racional; livre apreciação motivada) Ao longo da Idade Média, nós tivemos vários modelos de Processo Penal e que a prova era tarifada. A lei dava o valor da prova antes mesmo de ocorrer, tinha uma tarifa, um valor dado pela lei. Eu tinha uma espécie de escalonamento valorativo dado pela lei. Isso praticou abuso pelo Estado, formas de torturar, etc. Então quando vem a Revolução Francesa, naquela ideia de diminuir excessos por parte do Estado, uma das coisas que se preocuparam logo que começaram a estabelecer novas regras, adota-se o modelo que a prova não é tarifada mais e na França eles adotam a expressão que o juiz julgará de acordo com a sua convicção íntima. Convicção íntima quer dizer que a lei não dá o valor da prova, eu é que decido de acordo com o que eu entendi. Na Itália, quando os italianos começaram a regrar isso aí, ao invés de utilizar a expressão convicção íntima, usaram a expressão livre convencimento do juiz. Na Alemanha usaram a expressão livre apreciação da prova. Convicção íntima = livre convencimento = livre apreciação da prova à são expressões que no início tem o mesmo significado. Já em seguida no século XIX começa a se perceber que isso gerou uma abertura muito ampla de discricionariedade para o juiz e a tentativa para reverter isso implicou em passar a exigir que os juízes tivessem que fundamentar as suas decisões. Então da livre apreciação da prova passa para livre apreciação motivada ou livre convencimento motivado. Isso para diminuir a mecânica de discricionariedade do juiz. Por isso também passaram a falar em persuasão racional. Essa persuasão racional vem também com a necessidade do juiz quando for decidir, ele tem que persuadir (persuadir = convencer) quem for ler a sua decisão, racionalmente que ele fez a melhor escolha dentro da sua liberdade de escolha probatória. Persuasão racional = livre convencimento motivado à eu digo qual prova é melhor e explico racionalmente. Isto é o que o princípio comunica. Há uma má recepção desse princípio no Brasil, má recepção hermenêutica à deturpa o significado da livre apreciação. Os juízes e tribunais passaram a dizer que como eles tem livre convencimento ou livre apreciação, eles não são obrigados a analisar todos os votos, ou não são obrigados a analisar todas as teses das partes. E aí deturpam o significado do princípio. O Ana Carolina Gradowski Cagliari juiz mata o princípio da ampla defesa. Isso virou uma praga no Brasil, os caras não param mais de interpretar desse jeito. É um princípio que tem: - leitura importante e um lado; - perigo de interpretação de outro lado (perigosa interpretação). v Princípio da Publicidade Art. 5º, LX da CF – “a lei só poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a defesa da intimidade ou o interesse social o exigirem”. Como regra os processos são públicos, excepcionalmente pode se impor um sigilo. Esse sigilo seria para proteger a intimidade do réu, ou a intimidade da vítima. E sob a ótica do interesse social também em um determinado caso a intimidade do julgador. Para proteger o réu, o investigado, o mais comum seria evidenciar em termos de sigilo, como exceção da regra da publicidade, ocorre nos casos em que você tem produções de prova de caráter invasivo da intimidade (ex: quebra do sigilo bancário; quebra do sigilo fiscal; interceptação de comunicação telefônica). Para preservar a vítima o Código estabelece todo um regramento no art. 201, §6º , CPP à preservação da intimidade, vida privada, honra e imagem do ofendido. É muito utilizado em crimes que envolvem criança e adolescente; crimes de cunho sexual. Para proteger o julgador (júri) à art. 5º, XXXVIII, b – sigilo das votações. Como no júri tenho 7 jurados a ideia é que ninguém saiba o voto do outro à com a reforma de 2008 aumentou o sigilo. Quanto mais sigiloso o processo, mais fácil o juiz abusar, mais fácil do juiz se corromper à quanto mais livre, mais ele se controla. A regra do júri agora diz: quando da revelação dos votos, se os quatro primeiros votos forem idênticos, o juiz cessa a revelação dos outros votos. Ele só vai prosseguir na revelação se não forem quatro votos idênticos.Ana Carolina Gradowski Cagliari PROCESSO PENAL – 2º BIMESTRE Professor: Rodrigo Chemim INQUÉRITO POLICIAL (Investigação Criminal) Ø É o principal instrumento de investigação que o Estado possui. v CARACTERÍSTICAS DO INQUÉRITO POLICIAL 1. Procedimento 2. Administrativo 3. Preliminar 4. Preparatório 5. Provisório 6. Sigiloso 7. Escrito ou datilografado 8. Dispensável • PROCEDIMENTO - É um procedimento e não um processo, porque não tem partes (não tem uma parte acusando e não tem uma parte se defendendo). - O que se tem no inquérito policial na verdade é uma notícia de possível delito e que deve ser verificada. - Não é orientado pelos princípios do contraditório e nem da ampla defesa. Ana Carolina Gradowski Cagliari “No inquérito policial eu não tenho a presença dos princípios do contraditório e da ampla defesa, mas isso não significa que o advogado do investigado não possa interferir na investigação com os exercícios de contraditório e de ampla defesa”. - Os princípios não operam como princípios, mas eu tenho possibilidades defensivas, possibilidades de contra argumentação. “Se eu tivesse os princípios, o delegado não poderia realizar nenhum ato de investigação sem antes notificar o advogado do investigado, aguardar a presença dele e somente realizar o ato com a possibilidade de intervenção direta do advogado, sob pena de não o fazendo, ocasionar a nulidade do ato respectivo”. - Se eu tenho os princípios e não os observo, o ato que eu realizo sempre será nulo, não vale. - Se eu tivesse os princípios como tais operando com toda potência nessa fase, ao invés de chegar no fim da investigação e eu ter uma decisão do promotor pelo oferecimento ou não da denúncia para iniciar o processo, eu teria o juiz sentenciando, não teria o porque fazer o processo depois. - O procedimento é administrativo. • ADMINISTRATIVO - O procedimento é administrativo, quem conduz a investigação é o delegado de polícia. Portanto, não é jurisdicional, pois não é o juiz que conduz a investigação. -- Delegado de polícia: órgão da administração pública -- Chefe do delegado de polícia: governador do Estado. - Nesse contexto, o juiz age de forma como um juiz de garantias. O Juiz não investiga, não preside a investigação, não realiza atos de investigação. O juiz atua nessa fase de fora, apenas quando necessário uma verificação, com medidas necessárias. - O juiz só decide quando provocado, pois ele é inerte (Princípio da inércia). • PRELIMINAR - É preliminar porque é feito antes do processo (antes da fase processual) à é uma fase pré- processual. • PREPARATÓRIO - É preparatório da formação chamada “opinio delicti” (opinião do delito). - O titular da ação é geralmente o Ministério Público. Ana Carolina Gradowski Cagliari - Quem precisa formar uma opinião é o promotor, porque é ele quem vai tomar uma decisão com base na investigação. (a investigação não é um fim em si mesmo) - A polícia investiga para o Ministério Público, ou seja, o MP é o destinatário da investigação policial. - A polícia é o órgão de apoio do titular da investigação, ou seja, a polícia é o órgão de apoio do Ministério Público. • PROVISÓRIO - Em certa medida ele é provisório, ao que diz respeito ao valor probatório que se atribui aos depoimentos colhidos nessa fase. - Quem vai prestar depoimento nessa fase é a vítima / próprio suspeito e as testemunhas. - Esses depoimentos colhidos nessa fase não tem uma característica, sendo considerados com toda potência, o conceito de prova. - Depoimentos não tem característica como prova capaz de ser valorada pelo juiz na sentença. Justamente porque ele não tem o princípio do contraditório e da ampla defesa. É por isso que tenho que repetir em juízo o depoimento que as pessoas prestaram na delegacia. Tenho que repetir na frente do juiz com a presença das partes. Às vezes dá divergência no depoimento que contou na delegacia e no depoimento que contou em juízo, aí o que vale é o que foi contado em juízo. - Então é provisório quanto aos depoimentos, mas é definitivo quanto as documentos, perícias e provas irrepetitíveis. - Documentos que são juntados na fase do inquérito tem a potencialidade plena de prova. - Definitividade: documentos, provas não repetitíveis, perícias não precisam ser repetidas. -- Por exemplo: tem perícias que você faz na hora ou não faz mais, porque ela se perde, ela some. • SIGILO - O inquérito é sigiloso. - Existe uma regra no CPP que é o art. 20, que diz: Art. 20. A autoridade assegurará no inquérito o sigilo necessário à elucidação do fato ou exigido pelo interesse da sociedade. -- Autoridade = delegado de polícia à quem preside a investigação no inquérito policial. - Essa regra do art. 20 do CPP está dizendo que o delegado pode impor um sigilo. à A coisa funciona de várias formas. Há uma divisão que se pode fazer entre sigilo interno e sigilo externo. Ana Carolina Gradowski Cagliari ü Sigilo interno: para dentro do inquérito, para as pessoas que estão diretamente interessadas na investigação. A regra é a publicidade da investigação no plano interno. Então você praticamente não tem sigilo interno, salvo diligências em andamento, ainda não documentadas. Por exemplo, o delegado não pode por sigilo interno ao promotor, ao juiz e também não pode por sigilo como regra aos advogados. Ao advogado enquanto ocorre à diligência, é sigilosa (Lei 13.245/16). Enquanto está em curso à diligência é sigilosa, encerrou a diligência, o advogado terá acesso. ü Sigilo externo: é para o público externo, curiosos de plantão. Para os curiosos em geral, pode até ser apresentado, vai do delegado querer ou não. O art. 20 do CPP, mencionado anteriormente, vale para o público externo. Por exemplo, a imprensa. à Se o juiz disser que tem que ter sigilo, nem o advogado pode ver. • ESCRITO OU DATILOGRAFADO - O art. 9º do CPP fala: Art. 9º - Todas as peças do inquérito policial serão, num só processado, reduzidas a escrito ou datilografadas e, neste caso, rubricadas pela autoridade. - Essa regra é de 1941, hoje você digita e assina. à O que se faz aqui é uma interpretação progressiva da regra, ou seja, é você atualizar o sentido da norma (se não faz mais sentido usar datilografia hoje porque as pessoas utilizam o computador, você atualiza o sentido dizendo que vai aceitar digitado). • DISPENSÁVEL - O inquérito policial é dispensável, eu não preciso fazer necessariamente ele para somente depois exercitar a ação. Promotor, para oferecer a ação, para invocar a tutela estado-juiz, ele precisa apresentar ao juiz um conjunto prévio de elementos probatórios de convicção, que permita a ele promotor imputar aquele crime à aquela pessoa. É preciso ter esse embasamento probatório. O promotor normalmente consegue esse embasamento através do inquérito policial. O inquérito policial é sem dúvida alguma, o principal instrumento que o Estado possui para dar ao promotor as provas, os documentos probatórios preliminares que ele precisa para tomar a decisão de oferecer ou não a denúncia. Mas o inquérito policial não é o único instrumento, nem mesmo o necessário. Por isso que se fala que ele é dispensável. Ana Carolina Gradowski Cagliari O promotor pode obter esses dados por outras fontes que não seja o inquérito policial. - A atividade investigativa não é exclusividade de polícia. O promotor pode ter, por exemplo, essas informações através de uma CPIdo Poder Legislativo (CPI = comissão parlamentar de inquérito). Então eu tenho um inquérito parlamentar, o inquérito feito pelo parlamento, não pela polícia. (inquérito = investigação). O parlamento investiga delitos. O resultado da CPI investigando delitos, o parlamento envia ao Ministério Público. Se a CPI estiver investigando um crime, o resultado vai para o promotor. O promotor não precisa pegar o resultado da CPI, transformar em inquérito, para só depois entrar com a ação. Se o promotor já tem todos os dados, já pode entrar direto com a ação, baseado na CPI. - Se pode ter essas informações numa CPI, posso ter através de um órgão do Poder Executivo, pelo inquérito policial militar por exemplo (nos crimes militares), pela guarda municipal (apesar dela não ter essa função), pode obter por exemplo pelo COAF (Conselho de Controle de Atividade Financeira) que é um órgão vinculado ao Ministério da Fazenda, no âmbito da União é que centraliza informações relacionadas a lavagem de dinheiro, etc. à Tudo vai cair para o Ministério Público (para fins criminais). - Investigar geralmente é ouvir pessoas, coletar documentos, realizar perícia, excepcionalmente vai ter uma medida invasiva (quebra de sigilo; interceptação telefônica... isso é exceção à regra). v “NOTITIA CRIMINIS” - É uma expressão usual cuja tradução literal é notícia do crime. - “Notitia Criminis” (noticia do crime) significa alguém noticiando ao Estado a prática de um possível delito. É como o Estado toma contato/conhecimento da notícia do delito. - Quando você vai numa delegacia, você não vai prestar uma queixa/queixa crime, porque queixa se remete a ação penal privada; além de que ação é perante a um juiz. Você vai a delegacia prestar uma notícia anônima, notitia criminis, notícia do crime. Eu não posso oferecer uma queixa ao delegado. Perante ao delegado é notitia criminis/notícia anônima/notícia do crime, do delito. à Existe uma classificação de doutrina quanto a forma de cognição (como é que eu tomo contato da notícia). -- Cognição = conhecimento. • “Notitia criminis” de cognição direta - O estado-policia tomou contato com a notícia do delito decorrente de uma atividade própria sua de investigação. - O Estado está investigando determinado delito, no curso da investigação desse delito ele toma contato com a notícia de outro delito. Ele tomou o conhecimento (de outro delito) através de sua própria investigação. - Decorre da atividade direta da investigação da própria polícia. Ana Carolina Gradowski Cagliari - Se a noticia desse novo delito tiver relação com o que se está investigando, se tiver alguma conexão com o fato do que está sendo o objeto de investigação, o delegado amplia a investigação para alcançar também esta nova noticia. à se ela é conexa, se amplia o objeto de investigação. - Se ela não é conexa, não tem nenhuma relação, se instaura um novo inquérito policial para tratar especificamente deste caso. • “Notitia criminis” de cognição indireta - É a mais comum. - É quando alguém vai procurar a polícia para informá-la da prática de um ilícito. É quando alguém procura a policia para comunicar que houve um delito. Esta forma de contato que a polícia tem, que ela toma conhecimento da noticia do delito, é de forma indireta, porque não é ela que está indo atrás, é alguém que trouxe para ela. - Se for a vítima que procurou a polícia para comunicar o delito, costuma-se se chamar também a notitia criminis, ela também é chamada de “delatio criminis”. - “Delatio criminis” é uma espécie do gênero “notitia criminis”. É a noticia do crime dada pela vítima (a mais comum). Obs: para alguns doutrinadores seria considerado “delatio criminis” qualquer pessoa que desse a noticia para a polícia. - A notitia criminis de cognição indireta, ou seja, aquela que a pessoa vem e trás a noticia para a polícia, pode vir também de outras fontes que não seja a vítima ou a testemunha, ela pode vir, por exemplo, do Ministério Público, pode vir do juiz, ou pode vir do superior hierárquico do próprio delegado. - Quando a notitia criminis vem do Ministério Público, ou do juiz, ou do superior hierárquico do delegado, ela pode ganhar outra terminologia, e aí se fala em “requisição” (é ordem, determinação). O MP requisita a instauração de inquérito, e isso implica em duas coisas. Ao mesmo tempo que ele noticia, ele determina a intimação. A palavra requisição tem conotação coercitiva, é diferente de requerimento. Requisição implica então em duas coisas, noticiar e determinar. - O Ministério Público tem poder coercitivo em relação a polícia. - Ação penal pública condicionada a vítima se chama “representação”. - Ação penal privada também depende de manifestação de vontade da vítima, só que a terminologia é “requerimento”. • “Notitia criminis” de cognição coercitiva - É relacionada ao flagrante delito. Ana Carolina Gradowski Cagliari - Qualquer situação de flagrante, o estado-polícia é obrigado a agir, deve agir, deve tomar iniciativa, - Não pode prender em flagrante o Presidente da República; Diplomatas estrangeiros cujo os país de origem sejam signatários do Tratado de Viena e Embaixador. Cônsul pode! Algumas profissões só vão permitir prender em flagrante tecnicamente crimes inafiançáveis, são eles: Membros do Congresso Nacional, Deputados Federais, Senadores da República, Deputados Estaduais, Membros do Poder Judiciário, Membros do Ministério Público. à Esses todos só podem ser presos em flagrante se o crime for tecnicamente inafiançável. Salvo, se for crime tecnicamente inafiançável. - Crime inafiançável (tecnicamente inafiançável): art. 323, CPP: crimes de racismo, crimes de tortura, tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, terrorismo e nos definidos como crimes hediondos, crimes cometidos por grupos armados, civis ou militares, contra ordem constitucional e o Estado Democrático. (matéria semestre que vem!) Art. 323. Não será concedida fiança: I - nos crimes de racismo; II - nos crimes de tortura, tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, terrorismo e nos definidos como crimes hediondos; III - nos crimes cometidos por grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático; - A fiança hoje é considerada uma medida cautelar. - O advogado no exercício da profissão não pode ser preso em flagrante delito. Ele pode ser preso, porém fora do exercício da função. - Quem não pode também ser preso em flagrante delito: -- Quem comete crime de trânsito e está prestando socorro à vitima. -- Quem se apresenta espontaneamente na delegacia (delegado pode pedir outro tipo de prisão, por exemplo, prisão temporária). -- Quem comete infração penal de menor potencial ofensivo se assumir o crime. - Em hipótese alguma se pode prender em flagrante: -- Quem for surpreendido em flagrante de porte para consumo pessoal de drogas. Mesmo se o sujeito se recuse a comparecer ao juizado. - Tem que tomar cuidados em flagrante quando o crime depende de vontade da vítima. Crime a ação penal pública condicionada à vontade da vítima ou crime de ação penal privada, você só pode agir se a vítima autorizar. à Dependendo da forma que o Estado de Polícia toma contato com a notícia do delito, ele vai inaugurar a investigação, formalizar a investigação, com um determinado documento. Ana Carolina Gradowski Cagliari Se ele toma contato de uma notícia de um delito de menor potencial ofensivo, ele lavra o chamado Termo Circunstanciado, ele não vai instaurar inquérito policial. ü Termo Circunstancial: é um registro do que está sendo noticiado, o resumo do fato, os dados dequem noticiou, os que se tiver de quem está sendo apontado como possível autor do delito, nomes das eventuais testemunhas que possam dizer a respeito daquilo e só. -- É um boletim de ocorrência metido a besta, com um pouco mais de informações. - Se não for uma notícia de um delito de menor potencial ofensivo, vai se fazer então, dar-se inicio ao inquérito policial e o ato inaugural do inquérito policial nas duas primeiras hipóteses (“notitia criminis” de cognição direta e de cognição indireta) será uma Portaria. O delegado baixa uma portaria inaugurando o inquérito policial. Nessa portaria que vai explicar porque está se instaurando o inquérito policial, e já inclusive determinar as diligências preliminares de investigação. A importância dessa portaria é primeiro formalizar a investigação (deve ser registrada), também tem por finalidade a portaria delimitar o objeto da investigação. - O inquérito policial é importante para que se investiguem fatos em tese delituosos que já ocorreram. - Eu não posso instaurar inquérito para investigar as pessoas (investigar a vida de alguém). Você investiga um fato praticado por uma pessoa. Fato em tese, aparentemente delituoso. Eu posso ter um fato não delituoso e aí eu não posso investigar. - Se for uma situação de flagrante delito aí você pode registrar e dar inicio a peça inaugural do inquérito, será o auto de prisão em flagrante delito. Aí substitui a Portaria, você já tem o auto processual de prisão em flagrante como a peça inaugural. - Até um tempo atrás o registro do flagrante delito era feito através de uma peça única, uma documentação única que começava a terminava registrando documentos tudo junto. E a regra velha dizia que a figura do condutor do preso tinha que aguardar toda lavratura do auto, para que no final, que ele ouvisse a leitura do outro e assinasse o termo somente sendo liberado o condutor do preso. Normalmente o condutor é um policial militar. Na regra velha esse policial tinha que ficar esperando lá na delegacia a lavratura do termo para assinar, para aí ser liberado. Na regra nova, diz que o primeiro ato, trouxe o preso, ouve o condutor (1º ato), termo de ouvida do condutor. Ouve o condutor, passa um recibo do preso para ele e libera ele (condutor) – art. 304, CPP. Art. 304. Apresentado o preso à autoridade competente, ouvirá esta o condutor e colherá, desde logo, sua assinatura, entregando a este cópia do termo e recibo de entrega do preso. Em seguida, procederá à oitiva das testemunhas que o acompanharem e ao interrogatório do acusado sobre a imputação que lhe é feita, colhendo, após cada oitiva suas respectivas assinaturas, lavrando, a autoridade, afinal, o auto. § 1o - Resultando das respostas fundada a suspeita contra o conduzido, a autoridade mandará recolhê-lo à prisão, exceto no caso de livrar-se solto ou de prestar fiança, e prosseguirá nos atos do inquérito ou processo, se para isso for competente; se não o for, enviará os autos à autoridade que o seja. Ana Carolina Gradowski Cagliari § 2o - A falta de testemunhas da infração não impedirá o auto de prisão em flagrante; mas, nesse caso, com o condutor, deverão assiná-lo pelo menos duas pessoas que hajam testemunhado a apresentação do preso à autoridade. § 3o - Quando o acusado se recusar a assinar, não souber ou não puder fazê-lo, o auto de prisão em flagrante será assinado por duas testemunhas, que tenham ouvido sua leitura na presença deste. § 4o - Da lavratura do auto de prisão em flagrante deverá constar a informação sobre a existência de filhos, respectivas idades e se possuem alguma deficiência e o nome e o contato de eventual responsável pelos cuidados dos filhos, indicado pela pessoa presa. - É imprescindível que conste nos autos de prisão em flagrante sob pena de nulidade do auto, que o preso foi informado dos seus direitos. Os direitos do preso são o direito ao silêncio, o direito de entrar em contato com o advogado, direito de entrar em contato com a família, direito de saber o nome da pessoa que o prendeu e o motivo da prisão. Isso é passado para o preso através de um documento chamado Nota de Culpa, e deve ser entregue ao preso no máximo 24 horas a partir de sua prisão. - O ideal é que no termo não conste apenas que foi informado os seus direitos, mas que conste também o que ele respondeu quando foi informado (isso é o ideal). Quanto mais detalhado for, menos chance de dizer que foi abusado na delegacia. - Se o réu não tiver dinheiro para pagar advogado, for hipossuficiente, o delegado tem 24 horas para entrar em contato com a Defensoria Pública. - Hoje temos a novidade que está sendo implantada no Brasil inteiro que é a Audiência de custódia. Depois de lavrado o flagrante o delegado deve apresentar o preso ao juiz na chamada audiência de custódia. Essa audiência de custódia vem do Pacto de San José da Costa Rica. v DILIGÊNCIAS DE INVESTIGAÇÃO - art. 6º, CPP. - Na investigação não existe uma sequência pré-ordenada de atos, você tem a necessidade de fazer o esclarecimento do que ocorreu. Diferente no Processo que tem uma sequência pré-ordenada. - No inquérito não existe uma sequência, existem coisas que devem ser feitas, com o intuito de buscar compreensão, esclarecimento. - O at. 6º do CPP nos dá essas providências de investigação. Art. 6o - Logo que tiver conhecimento da prática da infração penal, a autoridade policial (delegado) deverá: - Destinado não a todos os crimes, mas aqueles que deixem vestígios. Ana Carolina Gradowski Cagliari I - dirigir-se ao local, providenciando para que não se alterem o estado e conservação das coisas, até a chegada dos peritos criminais; - A primeira providência é dirigir-se ao local à muito relacionado a crimes de homicídio; crimes onde se tenha uma cena de crime que deva ser objeto de uma perícia. Então, a ideia é que a polícia vá ao local em crimes dessa natureza para preservar a cena do crime, pois quanto menos ela for alterada mais fiel será a perícia, mais propensa a esclarecer o acontecido. - Sempre que estiver escrito “autoridade policial”, está se referindo ao delegado de polícia. Se ele não for ao local, não tem consequência alguma, por isso a maioria não vai. II - apreender os objetos que tiverem relação com o fato, após liberados pelos peritos criminais; - Apreender objetos que estiverem ali a disposição na cena do crime. Por exemplo, no crime de homicídio eu posso ter ali junto ao corpo uma faca. Ela só poderá ser mexida e removida depois que o perito fizer o trabalho relacionado a ela. - Uma boa perícia, uma perícia bem feita, ela pode esclarecer muito em relação ao crime. Por exemplo, o caso da Isabela Nardoni. Ali ficou muito claro como uma perícia bem feita ela é capaz de dizer o que aconteceu. - Se os objetos relacionados ao crime não estiverem a disposição e estiver por exemplo na casa de alguém. Para ingressar na casa do sujeito tem que primeiro ir ao juiz e pedir mandado de busca e apreensão. - Um detalhe importante sobre o mandado de busca e apreensão é que ele deve ser o mais delimitado possível, tanto no que diz respeito ao local quanto aquilo que se pretende buscar e apreender. à Deve ser delimitado, no máximo delimitável. O mandado de busca e apreensão deve ser cumprido durante o dia. O Código diz que deve ser cumprido durante o dia, mas ele não diz o que é dia (a doutrina discute o que é dia). Alguns autores trabalham com o critério do Código Civil, que trabalha com o conceito do que é noite. No CC, noite é das 20 horas ate as 6 horas. Então o dia seria das 6 horas às 20 horas. Um outro critério (que é o mais usado) é que dia é das 6 horas até as 18 horas, por isso que se vê lá no LavaJato a polícia federal batendo na porta do sujeito as 6 horas. Pode ser que se avance o horário, isso é possível, desde que se comece no horário que é permitido (6 horas as 18 horas). Antes das 6 horas não pode em hipótese alguma. Também houve a discussão se pode cumprir o mandado de busca em escritório de advocacia. Porém, essa discussão já foi superada e é possível sim cumprir mandado de busca e apreensão em escritório de advocacia, desde que o advogado tenha de ver com o delito. Não é o fato dele ser advogado que livre ele de cometer delitos. Cumprir validamente mandado de busca e apreensão em escritório de advocacia, a polícia tem que primeiro passar na OAB (antes de cumprir o mandado). Durante a diligência a OAB tem que indicar um representante da Ordem dos Advogados para acompanhar a diligência de busca e apreensão. Ana Carolina Gradowski Cagliari III - colher todas as provas que servirem para o esclarecimento do fato e suas circunstâncias; - A doutrina espanhola (parte da doutrina brasileira tem aplicado) diz que na investigação se visam colher provas de cargo e de descargo. -- Provas de cargo à posso incriminar o sujeito, carregar. -- Provas de descargo à posso aliviar, absolver. - A ideia é esclarecer o fato em sua inteireza. IV - ouvir o ofendido; - O ofendido é a vítima. Se tivermos uma vítima direta (que nem sempre temos) ela vai ser ouvida. Normalmente essa é uma das primeiras providências que se faz, que é para tentar entender o que aconteceu. V - ouvir o indiciado, com observância, no que for aplicável, do disposto no Capítulo III do Título Vll, deste Livro, devendo o respectivo termo ser assinado por duas testemunhas que Ihe tenham ouvido a leitura; - Entrou uma lei em 2013 que passou a exigir da polícia que faça uma fundamentação prévia ao ato de indiciamento (Lei nº 12.830 de 20 de junho de 2013). Quando eu vou indiciar alguém, para fazê-lo eu devo estar antes explicar os motivos que me levaram a entender que aquela pessoa deve ser indiciada. Indicionamento é indicar formalmente uma pessoa como suspeita de uma prática de ilícito penal. É registrar nos anais da polícia aquela pessoa da formal suspeita da prática de um delito. Eu indicio, eu aponto e eu registro aquela pessoa com formal suspeita da prática de um delito. Para fazer isso hoje o delegado tem que explicitar as razões que o levaram a entender que aquela pessoa é suspeita e não outra. Se ele não fundamentar gera a nulidade do ato de indiciamento. O inquérito por ser administrativo os atos que se realizam no inquérito são atos administrativos. O delegado então quando decide indiciar alguém ele tem que fundamentar, porque se não fundamentar a decisão é nula. Por consequência se tem que apagar o registro dos arquivos oficiais da polícia. A pessoa deixa formalmente de estar registrada como suspeita da prática do ilícito, mas não significa que o promotor não possa denunciar aquela pessoa. O inquérito inteiro é dispensável. O promotor pode oferecer denúncia a partir de outras fontes. Então essa nulidade pontual do ato de indiciamento apaga o registro, mas ela não impede que o Ministério Público realize a denúncia. O ato de indiciamento não é um ato vinculante da atividade do promotor (do membro do Ministério Público). Não é porque o delegado indiciou o fulano que necessariamente este fulano será denunciado pelo promotor. Ana Carolina Gradowski Cagliari è Resumindo: o ato de indiciamento é um registro formal, é considerar alguém formalmente como suspeito da prática de um ilícito. Tem que registrar isso. Tem que ter fundamentação porque não tendo o ato é nulo e apaga o registro. Mas de uma forma ou de outra ele não é condicionante da atividade do membro do Ministério Público. - O Estatuto da Ordem dos Advogados foi alterado agora recentemente em 2016, para também permitir que o advogado acompanhe o ato de indiciamento, que acompanhe o interrogatório do suspeito, sob pena de ter nulidade absoluta caso ele não acompanhe. Ø Estatuto da OAB – art. 7º, XXI. Art. 7º São direitos do advogado: XXI - assistir a seus clientes investigados durante a apuração de infrações, sob pena de nulidade absoluta do respectivo interrogatório ou depoimento e, subsequentemente, de todos os elementos investigatórios e probatórios dele decorrentes ou derivados, direta ou indiretamente, podendo, inclusive, no curso da respectiva apuração: a) apresentar razões e quesitos. - Então se tem advogado e o advogado quer assistir o depoimento, é obrigatório que o delegado aguarde o advogado, porque se ele fizer sem a presença do advogado gera nulidade. VI - proceder a reconhecimento de pessoas e coisas e a acareações; - Acareações podem ocorrer quando duas ou mais pessoas estiverem divergindo sobre algum ponto relevante na investigação, e você queira esclarecer qual das duas versões é a correta. Você vai colocar essas duas pessoas cara a cara para fazer com que os pontos da fala conflitantes possa esclarecer qual dos dois é correto. Porém, nem sempre você vai ter o esclarecimento. Se for possível dizer com segurança que alguém está mentindo, irá responder por crime de falso testemunho (demonstração da mentira e da persistência da mentira). Se disser que é mentira antes da sentença, apaga o crime. Acareação não tem limite nem quantitativo e nem qualitativo. Eu posso fazer acareação entre testemunhas e vítimas, entre testemunhas, entre vítimas, entre suspeitos, entre testemunha e suspeito, entre vítimas e suspeito... então não tem limitação qualitativa (qualidade da pessoa que vai acarear não interessa). Nem quantitativa, posso ter três pessoas falando num sentido, a outra falando em outro sentido. Testemunha é obrigada a falar. Se mentir ou omitir responde por crime de falso testemunho. VII - determinar se for caso, que se proceda a exame de corpo de delito e a quaisquer outras perícias; Ana Carolina Gradowski Cagliari - Normalmente crimes que deixam vestígios no plano físico, a estes vestígios, resultado da prática delitiva no plano físico se dá o nome de corpo de delito. -- Corpo de delito: uma expressão que ilustra o resultado físico da prática de um delito. Conjunto de elementos materiais ou vestígios que indicam a existência / prática de um crime / delito. Se o crime deixou vestígios, deixou corpo de delito, o policial como regra geral deve realizar uma perícia neste corpo de delito. A perícia é a princípio obrigatória. Se o perito que for fazer a perícia for um perito oficial do Estado, basta apenas um perito. Pode ocorrer, portanto que você não tenha um perito oficial do Estado, por variadas razões (falta no quadro de funcionários; pela especificidade da perícia), portanto, se eu não tenho perito oficial do Estado, eu vou fazer a perícia com peritos não oficiais, mas aí a lei exige que sejam pelo menos dois peritos com formação na área em que vão periciar. Laudos preliminares não valem para sentença. Para sentenciar precisa do laudo oficial do Instituto de Criminalística. Então como regra tem que ser feita a perícia por um perito oficial, se não tiver um perito oficial, tem que ser dois compromissados com formação específica na área que a vai ter que atuar. Em alguns casos, mesmo eu tendo vestígios, se dispensa a realização de perícia, quando o que eu quero constatar é “icto primo oculi”. -- “Icto primo oculi” = à primeira vista, sem dificuldade. Se eu não tenho dificuldade nenhuma para compreender aquilo que eu pretendia periciar, eu não preciso de um perito para me dizer o óbvio, então nesse caso se dispensa a pericia (não precisa de perito). à exemplo: sonegação fiscal (corpo de delito é o papel); nota fiscal calçada.VIII - ordenar a identificação do indiciado pelo processo datiloscópico, se possível, e fazer juntar aos autos sua folha de antecedentes; - Este inciso vai tratar da Identificação Criminal. A Constituição Federal vai tratar desse tema no art. 5º, LVIII no qual diz: LVIII - o civilmente identificado não será submetido a identificação criminal, salvo nas hipóteses previstas em lei; - Identificação criminal é ir à delegacia colher impressões digitais, tirar fotografia. Se você tem documento de identidade válido em território nacional e por ventura você for indiciado a um inquérito policial, você não precisa submeter-se a chamada identificação criminal, como regra. Tem hipóteses de exceção previstas numa lei que regulamenta a Constituição (Lei 12.037/09 à esta lei regulamenta a chamada Identificação Criminal). -- Art. 3º, Lei 12.037/09 - hipóteses de exceção. Art. 3º Embora apresentado documento de identificação, poderá ocorrer identificação criminal quando: I – o documento apresentar rasura ou tiver indício de falsificação; Ana Carolina Gradowski Cagliari II – o documento apresentado for insuficiente para identificar cabalmente o indiciado; III – o indiciado portar documentos de identidade distintos, com informações conflitantes entre si; IV – a identificação criminal for essencial às investigações policiais, segundo despacho da autoridade judiciária competente, que decidirá de ofício ou mediante representação da autoridade policial, do Ministério Público ou da defesa; V – constar de registros policiais o uso de outros nomes ou diferentes qualificações; VI – o estado de conservação ou a distância temporal ou da localidade da expedição do documento apresentado impossibilite a completa identificação dos caracteres essenciais. -- Art. 5º, p.u, Lei 12.037/09 – coleta de material biológico. Art. 5º A identificação criminal incluirá o processo datiloscópico e o fotográfico, que serão juntados aos autos da comunicação da prisão em flagrante, ou do inquérito policial ou outra forma de investigação. Parágrafo único. Na hipótese do inciso IV do art. 3o, a identificação criminal poderá incluir a coleta de material biológico para a obtenção do perfil genético. IX - averiguar a vida pregressa do indiciado, sob o ponto de vista individual, familiar e social, sua condição econômica, sua atitude e estado de ânimo antes e depois do crime e durante ele, e quaisquer outros elementos que contribuírem para a apreciação do seu temperamento e caráter. - Uma amarração com o art. 59, CP- fixação da pena. X - colher informações sobre a existência de filhos, respectivas idades e se possuem alguma deficiência e o nome e o contato de eventual responsável pelos cuidados dos filhos, indicado pela pessoa presa. - Além disso, tudo podemos fazer a Reprodução Simulada dos Fatos – art. 7º, CPP (Reconstituição do Crime) Art. 7o - Para verificar a possibilidade de haver a infração sido praticada de determinado modo, a autoridade policial poderá proceder à reprodução simulada dos fatos, desde que esta não contrarie a moralidade ou a ordem pública. - Às vezes auxilia muito no entendimento do caso. - Posso também ter provas por interceptação de comunicação telefônica; quebra do sigilo bancário; quebra do sigilo fiscal. Ø Interceptação de comunicação telefônica está regrada em uma lei específica (Lei 9296/1996). Só posso fazer uma investigação criminal (só cabe em procedimento de natureza criminal) Ana Carolina Gradowski Cagliari -- Art. 2º desta lei diz quando é que não posso fazer. Art. 2° Não será admitida a interceptação de comunicações telefônicas quando ocorrer qualquer das seguintes hipóteses: I - não houver indícios razoáveis da autoria ou participação em infração penal; II - a prova puder ser feita por outros meios disponíveis; III - o fato investigado constituir infração penal punida, no máximo, com pena de detenção. - A interceptação é deferida por 15 dias, podendo ser prorrogada por quantas vezes for necessária. Precisa fundamentação para pedir inicialmente e também para prorrogação. v INCOMUNICABILIDADE DO PRESO – art. 21, CPP. Art. 21. A incomunicabilidade do indiciado dependerá sempre de despacho nos autos e somente será permitida quando o interesse da sociedade ou a conveniência da investigação o exigir. Parágrafo único. A incomunicabilidade, que não excederá de três dias, será decretada por despacho fundamentado do Juiz, a requerimento da autoridade policial, ou do órgão do Ministério Público, respeitado, em qualquer hipótese, o disposto no artigo 89, inciso III, do Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil. - Incomunicabilidade do preso até 3 dias. O preso pode ficar incomunicável com outros presos em até 3 dias da investigação (pode falar com advogado, família). - Há uma discussão doutrinária quanto a constitucionalidade disso, porque a Constituição em seu artigo 136, trata do chamado Estado de Defesa (Estado de Defesa é um estado excepcional onde alguma coisa de anormal na vida pública nacional está pondo em risco as instituições e tal, e o Presidente da República pode decretar o estado de defesa onde os direitos do cidadão ficam diminuídos, onde o Poder Executivo pode decretar a sua prisão sem ordem do juiz, sem ser em flagrante, onde pode entrar em sua casa sem ordem judicial, para tentar colocar ordem na bagunça). A Constituição diz no art. 136, §3º, que durante o estado de defesa é vedada a incomunicabilidade do preso, essa é a regra da Constituição. Com base nessa regra, alguns autores dizem então que a incomunicabilidade do preso no art. 21do CPP, também seria inconstitucional. Há outros autores que dizem em sentido contrário, que não tem nada de inconstitucional. Este assunto não é resolvido, não tem uma posição dominante, e por isso é importante conhecer os argumentos de lado a lado. Quem sustenta que há uma inconstitucionalidade no art. 21 do CPP, argumenta dizendo que se no estado de defesa, que é o momento em que os direitos e garantias são diminuídos, eu proíbo a incomunicabilidade, com mais razão também deveria proibir no estado de normalidade, onde os direitos e garantias são plenos. Ana Carolina Gradowski Cagliari Quem sustenta no sentido contrário, quem diz que não tem nada de inconstitucional, dizem que se fosse intenção do constituinte brasileiro proibir a incomunicabilidade em todas as situações teria criado uma regra nesse sentido no art. 5º da CF, que é o artigo que trata dos direitos e garantias, inclusive dos direitos e garantias do preso. E lá no art. 5º da CF você não tem nenhuma regra proibindo a incomunicabilidade. A única regra que fala na Constituição da incomunicabilidade é esta posta no art. 136, §3º, que trata do estado de defesa. Então porque é que o constituinte proibiu lá no estado de defesa e não falou nada diretamente no art. 5º da CF. Porque ele tinha o receio que no estado de defesa , justamente porque o poder executivo tem mais poder (porque ele pode te prender inclusive sem ordem judicial). Justamente por conta deste poder ser muito exarcebado é que uma coisa ele não pode fazer, deixar incomunicável. Estes são os argumentos. v PRAZOS PARA ENCERRAR O INQUÉRITO POLICIAL - Os prazos vão depender de alguns fatores. - Há uma diferença de prazos em se tratando de indiciado solto e de indiciado preso. • Indiciado solto - Regra geral do CPP, art. 10. à o prazo é de 30 dias podendo ser renovado. - O prazo na verdade acaba sendo o prazo prescricional do crime calculado pela pena em abstrato. Art. 10. O inquérito deverá terminar no prazo de 10 dias, se o indiciado tiver sido preso em flagrante, ou estiver preso preventivamente, contadoo prazo, nesta hipótese, a partir do dia em que se executar a ordem de prisão, ou no prazo de 30 dias, quando estiver solto, mediante fiança ou sem ela. Ø Indiciado solto por tráfico de drogas - O prazo é de 90 dias podendo ser renovado. - O prazo de verdade acaba sendo o prazo prescricional. • Indiciado preso à tem algumas situações que vão variar. - Depende se a competência é estadual ou federal. Ø Indiciado preso à competência estadual à regra geral, o prazo é de 10 dias - Se eu quiser manter o sujeito preso (legalmente preso) eu tenho que encerrar o inquérito no prazo de 10 dias. Ana Carolina Gradowski Cagliari Se eu não conseguir, se eu extrapolar o prazo, a consequência que vai caracterizar o excesso do prazo que gera um constrangimento legal, vai exigir a soltura do sujeito (excesso de prazo à constrangimento legal à soltura do preso. Soltura do preso = relaxamento da prisão. Eu ainda posso investigar o sujeito, porém tenho que investigar com ele solto. Ø Indiciado preso à competência federal à o prazo é de 15 dias prorrogável por mais 15 dias (até 30 dias) - A justiça federal tem até 30 dias para encerrar o inquérito mantendo o sujeito preso. ü Em se tratando de tráfico de drogas, tanto faz estadual ou federal, o prazo é de 30 dias, podendo ser prorrogado por mais 30 dias. Para encerrar a investigação mantendo o sujeito preso. à Prorrogado é sempre por decisão do juiz - Ninguém fica preso mais hoje só pelo flagrante (flagrante é uma medida pré-cautelar). Vai para audiência de custódia, ou solta ou manda para a prisão preventiva (ele não fica preso pelo flagrante). - Regra é responder o inquérito policial em liberdade, a exceção é decretar prisão preventiva. à Prisão temporária (está prevista numa lei especial, não no código). - É por um tempo à regra geral – 5 dias, podendo ser prorrogado por mais 5 dias. à Prisão temporária em crime hediondo à prazo de 30 dias podendo prorrogar por mais 30 dias. - O prazo contado para indiciado preso, conta-se levando em conta o dia da prisão (o dia da prisão é o dia 1). Mesmo que eu tenha prendido o sujeito 23:30, esse é o dia 1. (o dia da prisão é considerado na contagem e os dias são corridos). - Quando o delegado entende que a investigação está encerrado (na ótica dele, delegado) ele elabora um relatório à O relatório significa que para o delegado a investigação está encerrada. Ele relata, historicisa o que fez ao longo da investigação (o relatório não é opinativo, vinculativo...). Quem vai analisar o que fazer com aquilo é o promotor (nessa fase o titular da ação é o MP). Então o delegado faz o relatório e o código diz que encaminha para o juiz, mas na verdade é para o promotor. Delegado à investigação encerrada à relatório à promotor (MP). Ana Carolina Gradowski Cagliari - Quando o delegado entende então que está encerrada a investigação, ele faz esse relatório e encaminha a inquérito ao Ministério Público. Quando o promotor recebe esse inquérito policial relatado pelo delegado a primeira possibilidade é o promotor avaliar que ele já tem as condições da ação, diante da obrigatoriedade (princípio da obrigatoriedade), ele é obrigado a oferecer a denúncia. A segunda possibilidade é, ele recebe o inquérito policial relatado, analisa e vê que não tem ainda as condições da ação (se ele não tem as condições da ação, ele não pode oferecer a denúncia) mas ele avalia a possibilidade de aprofundar a investigação realizando novas diligências complementares, e a partir daí quem sabe vira preencher as condições que estão ainda pendentes. Então em vista de um cenário que ele visa a possibilidade de aprofundar a investigação e a partir disso colher os dados que estão faltando para o preenchimento das condições da ação, o promotor devolve o inquérito policial à delegacia e requisita diligências complementares. A terceira possibilidade é o promotor avalia o inquérito e percebe que ele não tem as condições da ação, mas também não tem mais o que fazer. Então nesse caso o promotor manifesta-se pelo arquivamento. - O delegado não tem poder de arquivar o inquérito policial, ele só tem poder de instalar inquérito (isso ninguém discute). - Quem é que decide então (aí há uma discussão) é o juiz ou é o promotor. A doutrina mais tradicional costuma-se fazer uma interpretação mais gramatical do Código. Numa interpretação gramatical a decisão é do juiz (está escrito na lei) – art. 28, CPP + art. 18, CPP. Art. 28. Se o órgão do Ministério Público, ao invés de apresentar a denúncia, requerer o arquivamento do inquérito policial ou de quaisquer peças de informação, o juiz, no caso de considerar improcedentes as razões invocadas, fará remessa do inquérito ou peças de informação ao procurador-geral, e este oferecerá a denúncia, designará outro órgão do Ministério Público para oferecê-la, ou insistirá no pedido de arquivamento, ao qual só então estará o juiz obrigado a atender. Art. 18. Depois de ordenado o arquivamento do inquérito pela autoridade judiciária, por falta de base para a denúncia, a autoridade policial poderá proceder a novas pesquisas, se de outras provas tiver notícia. A doutrina mais moderna diz que não é bem assim, que depende na verdade o motivo que está se arquivando. Quando o motivo do arquivamento está relacionado com a insuficiência probatória, a decisão de arquivar não e do juiz e sim do Ministério Público – promotor. - Quem decide se vai arquivar ou não é o MP (promotor) à juiz julga na medida que é provocado. - Quando o arquivamento está relacionado a falta de prova, quem decide arquivar é o MP. - Se é o MP que decide arquivara natureza jurídica dessa decisão é administrativa. Ana Carolina Gradowski Cagliari - Quando o promotor decide, por ser uma decisão administrativa, ela não faz coisa julgada e pode ser revista a qualquer momento, desde que eu mude o cenário probatório. Se aparecem novas provas eu posso desarquivar o inquérito (desde que não tenha ocorrido a prescrição) – art. 18, CPP. - Quando o arquivamento está motivado não pela insuficiência de prova, mas pela atipicidade da conduta ou pela presença de uma excludente de ilicitude, ou por uma causa extintiva da punibilidade, aí tem que ter uma decisão do juiz. E aí a decisão é do juiz e não do promotor. Porque eu dependo do juiz declarar extinta a punibilidade e a decisão dele fará coisa julgada material. Eu não posso reabrir o inquérito quando o motivo do arquivamento esta relacionado alguma das hipóteses acima mencionadas. Ana Carolina Gradowski Cagliari AÇÃO PENAL à AÇÃO à toda a construção teórica de que se compreenda por ação remota meados do século XIX (século com pretensões científicas). Ø Savigny é o primeiro a tentar compreender o que é ação. Como a Escola que ele trabalhava era uma Escola Histórica, buscava da compreensão da construção histórica o que se compreendia por ação, ele vai olhar lá para os textos romanos antigos e vai tentar entender o que os romanos entendiam por “actio”. A Teoria de Savigny vai ser chamada de Teoria Civilista ou Imanentista da Ação. Dizia Savigny que ele compreendia que os romanos usavam a palavra “actio” como algo equivalente ao próprio direito material, imanente ao direito material. Savigny olhando os textos romanos antigos dizia que os romanos usavam a palavra “actio” como algo imanente (por isso Teoria Imanentista) ao próprio direito material. Ele (Savigny) tem uma frase que diz mais ou menos assim: “ação é o direito material em movimento”. Todo o racionismo é civilista. Para Savigny só tem ação quem é odono da coisa. Ação é imanente ao direito material, sendo eu proprietária tenho ação contra terceiros, os terceiros não tem ação contra mim. Essa era a leitura que Savigny fazia que os romanos antigos entendiam por “actio”. Savigny recebeu críticas lá na Alemanha, e uma das críticas mais importantes que ele recebeu foi de um profissional chamado Windscheidt. Windscheidt criticou Savigny dizendo que ele (Savigny) estava errado. Que os romanos não diziam o que Savigny dizia o que eles diziam. Os romanos antigos não usavam a “actio” dessa forma que Savigny queria transmitir. Na verdade, dizia Windscheidt, os romanos usavam a palavra “actio” como os alemães do século XIX usavam a palavra pretensão. Então ele Windscheidt criticando Savigny dizia que olha, eu não preciso ser de acordo com os romanos, eu não preciso ser dono da coisa para ter “actio”. Porque “actio” não é relacionado ao direito material, a “actio” é relacionada com o que eu quero quando invoco a tutela do Estado, o que eu pretendo. Então para ele (Windscheidt) os romanos antigos usavam a palavra “actio” como equivalente a ideia de pretensão, o que eu quero. Aí, portanto eu não preciso ser dono da coisa, basta querer ser. O Windscheidt vai se meter numa polêmica com o Müther. – Polêmica Windscheidt x Müther. Müther dizia que estava de acordo com Windscheidt quando ele dizia que Savigny estava errado ao exigir e vincular a “actio” ao direito de propriedade, ao direito material. Só que você (Windscheidt) também está errado quando fala que “actio” é igual a pretensão, pois não é, são coisas diferentes, dizia Müther. Na verdade os romanos antigos primeiro não vinculavam a “actio” com o direito de propriedade e segundo, não tratavam da “actio” como equivalente a pretensão. “Actio” para os romanos antigos era simplesmente o direito de invocar a tutela do Estado, pretensão é outra coisa. Pretensão é o que eu quero quando invoco. Eu posso exercitar a ação e pretender várias coisas diferentes. Ação é o direito de invocar a tutela do Estado para Müther. Ana Carolina Gradowski Cagliari O que resulta da polêmica Windscheidt x Müther, são as Teorias Abstratas da Ação e resultou o aperfeiçoamento conceitual do que é a ação e a diferença entre ação e pretensão. -- Ação: direito de invocar a tutela do Estado. -- Pretensão: o que eu quero quando invoco a tutela do Estado. (pretendo o que). A partir da polêmica Windscheidt x Müther (ainda dentro desse conjunto de autores que depois se agrupam na ideia de Teorias Abstratas da Ação) você terá dois autores importantes, um chamado Degenkolb e o outro chamado de Plózs. O Degenkolb e o Plózs, sem se conhecerem, acabam chegando na mesma construção teórica de aperfeiçoamento da compreensão, do que se entenda por ação. A partir da polêmica Windscheidt x Müther, eles aperfeiçoam o conceito de ação. E a ação passa a ser Direito Público Subjetivo Abstrato de invocar a tutela jurisdicional do Estado (que é o conceito até hoje mais usado em Processo Civil). Tiveram outras teorias depois, mas que não vem ao caso aqui porque não são tão relevantes. Prevalece ainda hoje no Processo Civil este conceito, mas que não vale para o Processo Penal (só que ainda tem vários autores que trabalham com ele). Não é possível continuar trabalhando a partir de uma Teoria Geral Unitária do Processo. v TEORIA GERAL UNITÁRIA. Essa teoria foi construída por um autor italiano chamado Francesco Carnelutti. Carnelutti era um gênio, só que vai ter alguns problemas. Em 1920, Carnelutti tentou construir uma Teoria Geral Unitária do Processo (1º autor que pensou nisso). Ele disse que era possível construir uma Teoria Geral Unitária a partir da compreensão do conceito de lide. Sendo a lide a razão de ser da jurisdição. Carnelutti entendia ser possível construir uma Teoria Geral Unitária, compreendendo que o conceito de lide, como razão de ser da jurisdição, estava presente em todos os ramos do Processo (Civil; Penal; Trabalhista...). Então ele entendia que era possível construir uma Teoria Geral que servia para todos esses ramos (Civil; Penal; Trabalhista...) à Teoria Geral Unitária. -- Lide: conflito de interesses sobre a mesma coisa. -- Lide no conceito carneluttiano: conflito de interesses pela mesma coisa, acrescido, somado, qualificado por uma pretensão resistida de lado a lado. A lide pode ser resolvida de duas formas: amigavelmente ou através da tutela jurisdicional. Invoquei, exerci o meu direito de ação, começa um processo. Carnelutti dizia que enquanto existia uma lide, faz sentido autuar a jurisdição. Quando cessa a lide, cessa a razão de ser da jurisdição. Então para Carnelutti, a lide era a razão de ser da jurisdição, para todos os processos (civil; penal; trabalhista...). E a partir dessa ideia central, ele diz que é possível construir uma Teoria Geral do Processo que vale para todos os ramos. Na Itália os caras caíram de pau em cima de Carnelutti, dizendo que ele estava louco, que não era assim, que o Processo Penal não era assim que funciona. Essa lide no Processo Penal nem sempre existe. As vezes mesmo não tendo conflito de interesse (lide) persiste a jurisdição. Papo de Carnelutti é furado no Processo Penal, porque nem sempre terei esse raciocínio que só atua a jurisdição enquanto houver lide, porque tem casos que não tem lide mas há jurisdição. Ele tenta resolver a questão dizendo que quando pensou em lide no Processo Penal, diz Carnelutti, não estava pensando numa lide entre o Ministério Público e o réu. Estava pensando Ana Carolina Gradowski Cagliari em uma lide entre o autor e a vítima. Só piorou a situação. Tem crimes por exemplo, em que não há vítima direta. Está cheio de crime de mera conduta que não há vítima direta. Também tem casos que ha vítima direta, mas que ela não quer faça nada, mas mesmo assim o Estado toma providências. Estado toma decisão independentemente da vontade da vítima. Criticam tanto Carnelutti que ele diz que tá bom, que convenceram ele, que ele estava errado, que não dá para trabalhar com Teoria Geral Unitária no Processo Penal. (Processo Penal ≠ Processo Civil) Porem ele diz isso lá no inicio da 1ª Guerra Mundial, período em que muita gente se demanda da Itália. Uma dessas pessoas que vai embora da Itália é Liberman. Ele se manda da Itália em 1938 e Carnelutti muda sua posição em 1941, ele (Liberman) não pega a mudança de Carnelutti, e trás com ele aquele discurso de Teoria Geral Unitária. Ele vai para a Argentina, porem no meio do caminho ele acaba ficando em São Paulo, onde ele vai começar a dar aula na USP. Ele vai discutir na USP em reuniões tudo o que ele trouxe da Itália. Vários professores iam até a casa de Liberman para discutir sobre esses assuntos. Lá pela década de 70 eles vão criar uma nova disciplina na USP, que não existia, chamada Teoria Geral do Processo. Não tinha nenhum livro, escrito sobre o assunto, então Antonio Carlos de Araújo Cintra; Ada Pellegrini Grinover e Cândido Rangel Dinamarco, criam uma apostila para ajudar os alunos. A apostila fez tanto sucesso que virou um livro chamado Teoria Geral do Processo. Meados da década de 60 para frente houve a ditadura. Então quando eles estão consolidando este discurso de Teoria Geral Unitária no Brasil vem a ditadura, onde era proibido se fazer criticas (eram infiltrados em sala de aula pessoas para vigiar o que o professor falava. Se ele fizesse um discurso que fosse contra o pensamento do Estado, ele era cassado e proibido de dar aula). Então durante 20 anos foi proibido qualquer análise crítica e se consolida o discurso de Teoria Geral Unitária. Até hoje é tentado se mostrar que Processo Penal é diferente de Processo Civil, e que se deve olhar com outros olhos, e portanto não dá para se usar Teoria Geral Unitária.Por isso que alguns autores mais tradicionais ainda não entenderam isso. Por isso que o conceito de ação, que era um conceito historicamente construído a partir do Processo Civil, não serve para o Processo Penal. • PROCESSO PENAL - Quem exercita a ação é o Ministério Público através do Princípio da Obrigatoriedade. - Se vem do Estado, é muito mais poder do que direito, é um poder dever. - É mais público que o Processo Civil. O Processo Penal é exercido pelo Estado e perante o Estado. - Não é subjetivo, só o MP tem esse direito e as vezes a vítima. - Mais concreto do que abstrato (não é abstrato). - Não basta fazer petição seca, tem que mostrar materialidade. - Ação à tenho que mostrar o direito material. - Processo Penal ≠ Processo Civil, em relação a ação. Ana Carolina Gradowski Cagliari v CLASSIFICAÇÃO DA AÇÃO PENAL • AÇÃO PENAL PÚBLICA INCONDICIONADA - É a regra geral. - Na maioria dos crimes a ação penal é pública e incondicionada, isso quer dizer que o Ministério Público ele é titular da ação, e ele exercita a ação através do que se chamada tecnicamente denúncia. - Como ela é chamada de ação penal pública incondicionada significa dizer que o Estado e o Ministério Público exercita a ação independentemente da vontade de quem quer seja. à independe da vontade da vítima, independe da vontade de quem quer que seja. à Mesmo que a vitima não queira, mesmo assim o MP exercita. - A maioria do delitos, a iniciativa da ação penal pública é incondicionada. - Em alguns casos, por causa de política criminal, o legislador passou a estabelecer que a condição da ação continua pública, porém condicionada a vontade da vítima. • AÇÃO PENAL PÚBLICA CONDICIONADA - Em alguns casos, por causa de política criminal (vontade do legislador), o legislador passou a estabelecer que a condição da ação continua pública, porém condicionada a vontade da vítima. - Então se é pública continua o MP como o titular, continua sendo através de denúncia, só que ela é condicionada à condicionada a representação. - A representação é a autorização da vítima ou seu representante legal ou ainda dos herdeiros do art. 31, CPP. Então a ação penal pública condicionada depende dessa ação de vontade ou da vítima, ou de seu representante legal ou dos seus herdeiros do art. 31,CPP. à Sem essa manifestação de vontade o MP não pode agir (ele depende dessa manifestação de vontade). Art. 31. No caso de morte do ofendido ou quando declarado ausente por decisão judicial, o direito de oferecer queixa ou prosseguir na ação passará ao cônjuge, ascendente, descendente ou irmão. - Por exemplo, no crime de violência doméstica contra a mulher, lesão corporal dolosa leve contra a mulher em sede de violência doméstica, se teve uma grande discussão logo que saiu a Lei Maria da Penha, se esse crime seria crime de ação penal pública condicionada a vontade da vítima ou não. Porque normalmente crimes de lesão corporal dolosa leve são crimes que o legislador condicionou a vontade da vítima. Se eu te der um soco no olho aqui agora, vou te provocar uma lesão (crime de lesão corporal dolosa leve). Nesse caso você vai querer que eu seja responsabilizado então você vai representar. Se você não representar, não vai acontecer nada comigo. Agora se eu agredir a minha mulher dentro de casa, será que o Estado depende da vontade dela para agir? Essa era a discussão. Bastante acirrada a situação, acabou que Supremo entendeu que a ação é penal pública incondicionada. Porque o interesse da coletividade se sobrepõe ao interesse da vítima. Aí foi uma interpretação jurisprudencial até. Porque a lei era dúbia, a lei não era muito clara nessa matéria, ela podia ensejar interpretação de um lado e do outro. E aí o Supremo acabou firmando entendimento que é pública incondicionada, então mesmo que a vítima não queira, o Estado vai se movimentar ainda assim à Em crimes de ação corporal leve em sede de violência doméstica contra a mulher. Ana Carolina Gradowski Cagliari - Essa representação (que é o nome técnico que se dá a essa manifestação da vontade) ela não precisa ser feita mediante advogado (a vítima não precisa contratar advogado para representar), ela não precisa fazer uma petição formal, basta que de alguma forma se documente que a vontade da vítima é no sentido de ter o Estado tomar providencias, em relação ao seu dever. Então ela é um relação informal. Tem que estar registrada e documentada em algum lugar, mas sem nenhum formalismo que seja um simples registro da intenção/vontade da vítima. - O simples fato de a vítima ir a delegacia de polícia, procurar a polícia para noticiar o delito já é a representação. Do registro da noticia no boletim de ocorrência, por exemplo, aquilo já é a representação. Porque se a vítima procurou a polícia para notificar, é que porque ela quer que a polícia tome providências. Então não exige esse formalismo, apenas esse registro da vontade da vítima. - Há um prazo de 6 meses para a vítima representar contado a partir da ciência pela vitima de quem é o possível autor do delito. Então a vítima tem 6 meses para manifestar a sua vontade, para representar, contado a partir do dia em que se possa dizer que ela sabe quem é o possível autor do delito. Obs: tomar cuidado, não é necessariamente da data do fato. Porque pode ser que eu tenha um fato que aconteceu num dia, mas que eu só venha a conhecer quem é o autor desse delito no outro dia. É a partir do dia em que eu sei quem é o autor que começa a contar 6 meses para representar. Por exemplo, crime de ameaça. Crime de ameaça é crime de ação penal pública condicionada a representação. Alguém está ligando para sua casa te ameaçando todo dia. Os crimes estão acontecendo a todo momento que os caras ligam para sua casa. Quem está ligando eu não sei quem é, eu preciso descobrir. Então é necessário se investigar. A partir do momento que é informado à vitima quem é que está ligando, a partir daquele dia começa a se contar 6 meses, para que ela querendo represente. Esse prazo se não observado, se a vítima deixa passar do prazo de 6 meses ela decai do direito de representação. Ela não poderá mais representar, logo o Estado também não poderá tomar mais providências criminais. Como consequência você tem a extinção da punibilidade do autor do delito à Não observância no prazo de 6 meses gera decadência e a decadência gera extinção da punibilidade. A vítima pode também mudar de ideia, ela pode representar e retratar-se da representação. Ela pode retratar-se dessa representação, desde que, essa nova manifestação de vontade, (agora no sentido de retratar-se), ocorra até o momento anterior ao oferecimento da denúncia. A retratação da representação é possível até o momento anterior ao oferecimento da denúncia. Quem oferece a denúncia é o MP. Na hora que ele oferece a denúncia ele protocola a petição inicial. O protocolo da petição inicial é a materialização do oferecimento da denúncia. Até o momento anterior a isso, se a vítima quiser, ela volta a delegacia e diz que não quer mais, que está desautorizando o Estado a agir, que está se retratando da representação. Se o promotor já ofereceu, mesmo que a vítima mude de ideia, não surte efeito, o processo segue e ela não tem a força de impedir que o Estado se movimente. Se ela quer voltar atrás ela tem um prazo para fazer isso, é o momento anterior ao oferecimento da denúncia. Obs: crime de menor potencial ofensivo é de pena até 2 anos, e pode ser de ação penal pública incondicionada, como de ação penal pública condicionada. - Eu sei se é pública condicionada ou não a lei vai dizer, a lei vai dizer assim: esse crime somente se concede mediante representação (a lei dizendo isso já se sabe que trata de um crime de ação penal condicionada). Ana Carolina GradowskiCagliari - Se a vítima for indecisa, não sabe o que quer da vida, uma hora ela quer, outra ela não quer, outra ela quer novamente. Ela pode representar, retratar e representar novamente desde que esta nova representação seja feita dentro do lapso temporal de 6 meses que ela tem para representar. Então dentro do lapso de 6 meses é permitido que ela se represente, se retrate e represente de novo. Quantas vezes a paciência do delegado permitir. Nos casos contra violência doméstica contra a mulher, tem uma regra um pouco diferente. A Maria da Penha trata dessa retratação de forma um pouco diferente, ela tem um prazo um pouco mais elástico para retratar-se da representação. A retratação da representação em violência doméstica é até o momento anterior ao recebimento da denúncia pelo juiz (até o momento anterior ao recebimento da denúncia pelo juiz a vítima pode se retratar). São coisas diferentes, promotor oferece a denúncia, juiz decide se recebe ou não. Então, regra geral, eu posso me retratar até o momento anterior ao oferecimento da denuncia pelo promotor, regra de exceção, eu posso nos casos de violência doméstica contra a mulher, eu posso me retratar até o momento anterior ao recebimento da denúncia pelo juiz. O tempo demora dependendo da agilidade do juiz. Outro caso nos casos da Maria da Penha é que a retratação (o normal da retratação é que ela seja feita na delegacia de policia) da representação tem que ser feita na presença do juiz, ouvido o promotor inclusive. Não basta que a vítima volte a delegacia, o delegado deve encaminhar a vítima ao juiz. A retratação da representação nos casos de violência doméstica contra a mulher, para ter efeito precisa ser feita na presença do juiz ouvido o promotor. O juiz não pode dizer que indefere a retração, isso depende da vontade da vítima. A vitima tem 6 meses para representar, isso significa que a vítima tem 6 meses para dizer que quer que o estado tome providencias – ir até a delegacia. A vítima na ação penal publica condicionada não exercita a ação, quem exercita a ação é o MP, no prazo prescricional do crime. Quem tem 6 meses é a vítima para dizer que quer. • AÇÃO PENAL EXCLUSIVAMENTE PRIVADA - Em alguns casos o legislador joga tudo para a vítima, inclusive o exercício da ação, dizendo que ali o Estado não vai nem se movimentar. É crime, mas você que tome a iniciativa inclusive para exercitar a ação. Então a ação é privada e exclusivamente privada. - Quem vai exercitar (tomar a iniciativa) a ação é a vítima, representante legal ou herdeiros do art. 31, CPP através do que se chama queixa ou queixa crime. (ação é em relação ao juiz). Aqui a vítima tem que contratar um advogado para isso, é necessária a representação por advogado. A procuração que será outorgada pela vítima ao advogado deve ser uma procuração com poderes específicos para o caso. (especificando na procuração contra quem que vai entrar a ação, por qual delito e dizendo que é ação penal exclusivamente privada). Não se admite portanto aquela procuração genérica. Admite-se, no entanto alternativamente a isso mencionado acima, que a vítima assine junto com o advogado no corpo da petição inicial, chancelando o texto da petição inicial, nesse caso até vale uma procuração genérica. Das duas uma, ou a procuração com poderes específicos ou assinatura do corpo da petição inicial chancelando o texto. Se faltar alguma dessas duas coisas, o juiz não conhece da ação. E aí a vítima dança. Dá até para arrumar dentro do prazo de 6 meses, também contado a partir da ciência de quem é o possível autor do delito e também é decadencial. Se não entrar em 6 meses extingue a punibilidade do autor do crime. Ana Carolina Gradowski Cagliari A ação penal é da vítima, a ação (petição inicial, protocolizar...). Aqui a vítima tem 6 meses para entrar com a ação, protocolizar a petição inicial, não é 6 meses para ir na delegacia. Mesmo que o inquérito policial não esteja encerrado se não entrar com a ação em 6 meses, dança. Ou mete ação a partir do dia em que a vítima sabe quem é o autor do delito, ou esqueça, não vai ser conhecida a ação, extingue a punibilidade do autor do crime. Ação penal privada o que mais se vê é crime contra a honra, e geralmente vai para o juizado porque é crime de menor potencial ofensivo. Só que no juizado tem uma audiência preliminar a ação. Dependendo de volume no juizado, as vezes o juiz está ali marcando audiência para 8,9 meses essa audiência preliminar. O prazo para entrar com a ação é de 6 meses, e o juiz jogou a audiência preliminar para 9 meses. Se você esperar essa audiência você perde o prazo de 6 meses que tinha para entrar com a ação. Então você vai ter que atravessar a audiência e protocolar a petição. Se você não protocolar no prazo de 6 meses vai chegar a data da audiência e você não poderá nem participar dela porque perdeu o prazo e não protocolou nos 6 meses. Já extinguiu a punibilidade e não tem mais o que fazer. • AÇÃO PENAL PRIVADA SUBSIDIÁRIA DA PÚBLICA - O crime é de ação penal pública. Mas a lei permite que a vitima exercite uma ação penal privada no lugar da ação penal pública. Para que isso seja possível, deve ser evidenciado que o promotor ficou inerte durante um período. O exercício de uma ação penal privada subsidiária da pública, quer dizer, no lugar da ação penal pública dependerá da inércia do promotor. Funciona da seguinte forma: imagine que o inquérito policial foi encaminhado ao MP. A lei diz que o promotor tem um prazo para oferecer a denúncia. (prazo mais para a vítima exercitar essa ação do que para o MP. Porque o prazo de verdade do MP é o prazo prescricional do crime). Só que a lei fala em um prazo diferente, um prazo de 15 dias para oferecer denuncia se o indiciado está solto ou em 5 dias se o indiciado está preso. Esse prazo de 5 dias para oferecer denúncia (no caso de indiciado preso) ou 15 dias para oferecer denúncia em caso de indiciado solto, não é um prazo peremptório, definitivo, que se não for observado o promotor não pode mais oferecer denúncia, ele pode, ele continua com o prazo prescricional. Esse é o prazo prescricional de verdade). Então esses 5 ou 15 dias são prazos para a vítima. A vítima, se o promotor ficar inerte. Por exemplo, no caso do indiciado solto, ele teria o prazo de 15 dias para oferecer a denúncia. Se o promotor não agiu em 15 dias, desde quando o inquérito chegou para ele, por qualquer caso ele não se manifestou, a partir do 16º dia passa haver uma legitimidade ativa concorrente entre a vítima e o MP. A partir do 16º tanto a vítima como o promotor, qualquer um dos dois pode exercitar a ação. Até o 15º só o promotor porque o crime é de ação penal pública. Então eu posso meter uma ação penal subsidiária pública, ou seja, no lugar da pública diante da inércia do promotor. É uma atividade em que a vítima controla a atividade do promotor (controle do princípio da obrigatoriedade da ação). É a vítima exercitando o controle externo da atividade do MP. A lei fala que a vítima poderá exercitar a ação penal privada no lugar da pública por um prazo de 6 meses. Se o promotor não fizer em 6 meses, nem a vítima, aí volta a ser o promotor que tem a legitimidade quando não estiver prescrito. Já a jurisprudência fala diferente, para a jurisprudência esse prazo de 6 meses não vale, e a vítima mantém a legitimidade até quando prescrever. Do mesmo jeito o promotor. Ana Carolina Gradowski Cagliari Quando a vítima exerce ação penal privada subsidiária da pública, o juiz antes de decidir se recebe ou não a queixa crime subsidiária, ele abre os autos ao promotor. Aí o promotor tem 4 possibilidade diferentes de atuação: 1) Ele simplesmente toma ciência da ação penal privada à diz que vai acompanhar como custos legis (fiscal da lei). Vou acompanhar como fiscal da lei,não como autor da ação. 2) Promotor analisa a queixa crime subsidiária da ação penal pública e percebe que a vítima foi açodada, foi apressada. Tá certo que ele perdeu o prazo, mas ele não tinha ainda as condições da ação. Se não tinhas as condições da ação, a vítima não poderia ter exercitado a ação. Então ele se manifesta pela rejeição da queixa crime por falta das condições da ação. 3) Promotor verifica que na queixa crime deixou de fazer menção a algum detalhe que é importante ou errou na classificação jurídica, ou alguma coisa assim que possa ser arrumada, então ele faz um aditamento a queixa crime. O promotor adita, arruma a queixa crime. 4) O promotor apresenta uma denúncia integralmente substitutiva da queixa crime subsidiária. Nesse caso ele afasta a vítima e reassume a titularidade. • AÇÃO PENAL PERSONALÍSSIMA - É uma espécie do gênero ação penal exclusivamente privada, com apenas um detalhe diferenciando. A diferença é que na ação penal exclusivamente privada quem tem a legitimidade para representar é a vítima, ou o representante legal ou herdeiros do art. 31, CPP. Na categoria chamada ação penal personalíssima, a legitimidade é apenas da vítima, só a vítima tem legitimidade. Eu sei se o crime é de ação penal personalíssima quando a lei disser: esse crime somente se procede por queixa de fulano, ela acrescenta esse dado, ela personaliza a legitimidade, então é uma ação penal personalíssima. Só existe um único crime em toda a legislação brasileira que encaixa nessa ideia de ação penal personalíssima, que é o crime do art. 236, CPP. Esse é o crime de induzimento a erro essencial ou ocultação de impedimento para o casamento. Somente se procede mediante queixa e so poderá ser executada... Ela condiciona algo a mais. v CONDIÇÕES DA AÇÃO OU CONDIÇÕES GENÉRICAS DA AÇÃO - No processo Civil costuma se falar em: 1) Possibilidade jurídica do pedido; 2) Interesse de agir 3) Legitimidade de parte. - No processo Penal se fala em 1) Tipicidade aparente (criminosidade aparente) 2) Punibilidade Concreta 3) Legitimidade da parte 4) Justa causa Ana Carolina Gradowski Cagliari - O problema é transportar essas categorias que foram elaboradas no Processo Civil para o Processo Penal como se fosse tudo igual. Porém não é tudo igual. No Processo Civil, como regra, da possibilidade jurídica do pedido eu posso pedir, só não posso pedir quando a lei veda (lei proíbe). Porem no Processo Penal, não dá para usar esse raciocínio. No Processo penal, o que está em jogo, não é propriamente o pedido, pois o pedido é sempre o mesmo – o pedido, minha pretensão no Processo Penal é sempre que o juiz sentencie aplicando uma pena ou não. O que eu pretendo é ter uma sentença de mérito, não sabendo se ainda é condenatória ou absolutória, o MP vai decidir isso do meio para o fim do processo, nas alegações finais, depois que as provas foram apresentadas. Então o pedido lá no começo do exercício da ação é um pedido relacionado da decisão de mérito, o que eu quero é que o juiz decida, sentencie apenas. O que vai mudar é a causa de pedido, o fato imputado ao réu. Esse fato tem que ser pelo menos na aparência, um fato definido como um delito (tipificar). Então se raciocina no Processo Penal justamente o contrário do que se raciocina no Processo Civil, porque no Processo Civil como regra eu posso pedir, só não posso pedir quando a lei veda. No Processo Penal eu só posso pedir quando a lei seleciona aquele comportamento que diz que é um delito. Então é ao contrário o raciocínio, é só quando a lei estabelece que ali, aquela conduta é tipificada, foi selecionada pelo legislador é que eu posso pedir em relação a ela. Condutas que não são tipificadas eu não posso pedir nada em relação a elas. Por isso que no Processo Penal alguns autores de leitura mais moderna quando vão trabalhar esse tema preferem até não adotar essa preferência terminológica, essa categoria chamada possibilidade jurídica do pedido. Preferem adotar uma outra expressão, para justamente não vincular o raciocínio civilista. Então se adota outros tipos de expressão, alguns autores preferem falar ao invés da possibilidade jurídica do pedido, preferem falar em Tipicidade Aparente (Criminosidade Aparente). Aparente aqui no sentido de que ela não é definitiva. Não é definitiva porque eu ainda não tenho um processo. Então eu vou imputar um fato a alguém, vou dizer que alguém cometeu um comportamento criminoso, esse fato que eu vou imputar ao sujeito pelo menos na sua aparência deve se ajustar a um tipo penal. O fato deve ser lido como delito. Professor diria mais do que amoldar-se um tipo penal, o fato deve ser lido como delito. (crime = conduta típica, antijurídica, culpável). Então não basta ser típico, por isso ele acha que tipicidade aparente diz pouco. Por isso talvez a expressão melhor seja criminosidade aparente, você vai imputar um fato que pelo menos na sua aparência tem que se ajustar a ideia de um delito, de um crime. - No raciocínio do Processo Civil (civilista) o interesse de agir trabalha com o binômio necessidade e utilidade. Se eu não resolvo amigavelmente, passo a ter interesse de invocar a tutela do estado já que não consegui resolver por outras vias. Esse raciocinio não tem como ser usado no Processo Penal, o que eu pretendo no Processo Penal em ultima ratio, a sentença e em ultimo caso a condenação e aplicação de uma sanção criminal. Não se tem como aplicar uma sanção criminal fora do processo. Então se eu quero punir alguém, eu sempre vou precisar do juiz, sempre vou precisar do processo. O raciocínio no Processo Penal é outro, não se fala necessariamente no interesse de agir, no sentido da necessidade e utilidade, mas sim no sentido da possibilidade de se efetivar uma punição. Então alguns Ana Carolina Gradowski Cagliari autores mais modernos ao invés de falar interesse de agir, vão falar em punibilidade concreta. O que eu tenho que analisar é se ainda é possível punir o sujeito (vão ter situações em que não se poderá mais punir). Não se pode mais punir alguém, por exemplo, numa causa extintiva da punibilidade – art. 107, CP. Se já tiver prescrito, eu não posso mais punir. A legitimidade em parte ela persiste, em que pese aqui seja bem mais restrita. (a legitimidade ou é do MP – regra geral – ou excepcionalmente é da vítima ou seu representante legal ou seus herdeiros). Uma legitimidade bem mais restrita do que ocorre no Processo Civil, onde como regra do Processo Civil as pessoas tem legitimidade de agir, só não tem quando a lei estabelece limitações. Já no Processo Penal isso só ocorre quando a lei diz que tem. No Processo Penal, diferente do Processo Civil, você tem uma quarta condição da ação que a doutrina majoritária passa a denominar de justa causa. Justa causa, digamos assim, não é uma coisa uniforme na doutrina e na jurisprudência, mas há uma predominância de entendimento do que se seja justa causa e ela é lida como uma quarta condição da ação, principalmente a partir de um doutrinador carioca chamado Afrânio Silva Jardim, “Justa causa é a necessidade de verificação de um lastro probatório mínimo que de suporte ao fato narrado na denuncia ou na queixa”. O promotor vai imputar o fato a alguem, ele vai contar uma historia na petição inicial e vai emputar este fato a alguem. A questão que surge é da onde que o promotor tirou essa história (tem que ter tirado de algum lugar). Ele tem que apresentar junto com a petição inicial um lastro probatório mínimo, ou seja, um conjunto de elementos probatórios preliminares que permitam ao promotor contar aquela história que ele está contanto na denuncia do jeito que ele esta contando. Então a historia que vai ser contada na petição inicial não pode ser fruto da imaginação do promotor. Ou tem base probatóriamínima para contar a história do jeito que está contando e conta ou não tem e não conta. O juiz fará o controle disso se recebe ou não a denuncia, o juiz verifica as condições da ação, uma delas justa causa. Tirou da onde esta história? Tirei daqui, to apresentando em anexo o conjunto de elementos preliminares que foram colhidos na investigação. Por isso se investiga antes, se investiga, faz o inquérito para colher esses dados, para daí dar o suporte probatório para forma que vou contar a história. Se eu não tenho isso, eu não tenho condição da ação ainda. Eu não tenho como exercitar a ação. Eu tenho que investigar melhor. Este talvez seja uma das principais condições da ação, aquela mais importante, porque serve de filtro para acusações infundadas. Aqui eu mostro as provas antes. (art. 18, CPP – daí que se extrai a ideia de justa causa). Art. 18. Depois de ordenado o arquivamento do inquérito pela autoridade judiciária, por falta de base para a denúncia, a autoridade policial poderá proceder a novas pesquisas, se de outras provas tiver notícia. Estas são as condições da ação ou também chamadas de condições genéricas da ação. Porque existem outras condições que alguns autores chamam de condições de procedibilidade e outros chamam de condições específicas da ação. As condições da ação ou as condições genéricas da ação são exigidas para qualquer caso, em determinados delitos no entanto a lei vai exigir algo a mais, que os autores chamam de condições de procedibilidade (condições para proceder) ou condições específicas da ação. Então além dessas genéricas eu tenho que verificar em alguns casos outras condições para exercitar a ação. v CONDIÇÕES DE PROCEDIBILIDADE OU CONDIÇOES ESPECÍFICAS DA AÇÃO O exemplo mais comum de se encontrar no dia a dia é a exigência de uma representação da vitima. Ana Carolina Gradowski Cagliari A representação é uma condição ou condição de procedibilidade ou condição específica da ação, nos crimes em que a lei exige, sem ela o MP não pode oferecer a ação. Além da representação, temos outras espalhadas na legislação brasileira. A lei especifica em determinados casos, ou outras condições para permitir o exercício da ação. Por exemplo, o crimes contra a honra, se o Presidente da República se sentir ofendido em sua honra, ele pode querer responsabilizar criminalmente quem o ofendeu. A ação é exercitada pelo MP. Só que para o MP possa agir, depende segundo a lei de uma requisição do Ministro da Justiça, ele tem que autorizar o MP agir. Outro exemplo está no art. 7º. do CP. Onde se trata da extraterritorialidade da lei penal brasileira. La diz que para se considerar crime aqui no Brasil precisa observar algumas coisas, algumas condições de procedibilidade ou específicas da ação. Por exemplo, que o crime lá fora seja punido tanto quanto aqui. Tem uma série de condições para proceder aqui no Brasil em relação a quem procedeu crime fora do território brasileiro. Outro exemplo é o artigo 236 – induzimento a erro essencial ou ocultação de impedimento para o casamento. Ela condiciona o exercício da ação penal ao resultado de uma ação de natureza cível anulatória do casamento. Então se ela condiciona algo a mais, isso é uma condição de procedibilidade. Tem dois exemplos que já foram tratados como condição de procedibilidade e que não são mais regras de processo. Hoje elas são tratadas como outra categoria do direito e do direito material, elas são chamadas hoje de condição objetiva de punibilidade, que completamente diferente de condição de procedibilidade. v CONDIÇÃO OBJETIVA DE PUNIBILIDADE. - tema de Direito Penal Material, não de Processo. Tem autores que dizem que essa categoria chamada de condição objetiva de punibilidade não existe. Quem diz isso por exemplo é o Zafaronni, Pierangi, Francisco de Assis Toledo. Porem vários outros autores dizem que existe sim, essa categoria chamada de condição objetiva de punibilidade. E dos autores que dizem que existe, há uma discussão do que seja já que existe, eles não se entendem. Para uns é um elemento a mais que eu tenho que verificar para que o crime exista. (condição a mais para que o crime exista). Para esses autores seria conduta típica, antijurídica, culpável e punível. Tem um elemento a mais para analisar para dizer que o crime existe. (sem o punível, o crime não existe). Já outros autores dizem que não, que não tenho que verificar essa condição para que o crime exista, o crime continua sendo conduta típica, antijurídica, culpável, e já existe só com isso, você só não pode punir o sujeito enquanto não se verificar essa condição objetiva de punibilidade, mas o crime já existe. A diferença em dizer que o crime depende deste elemento para que o crime exista ou dizer não, que o crime já existe sem ele só que não posso punir enquanto não se verificar a condição objetiva de punibilidade, é se o crime só existe a partir dessa condição subjetiva, se ela é um elemento a mais para que o crime exista, enquanto ela não acontecer não existe o crime, e se não existe o crime eu não posso investigar. E a prescrição não acontece porque ela só começa a correr da data do fato. Só quando se verificar a condição objetiva de punibilidade. Agora se se diz que não depende dessa condição para que o crime exista, se ele já existe posso investigar, posso processar, posso tocar o barco, só não posso punir. Ana Carolina Gradowski Cagliari O exemplo usado na doutrina é a sentença declaratória de falência nos crime falimentares. Era lida como uma regra de processo, hj não é mais. Hoje é lida como condição objetiva de punibilidade, porque a lei diz isso. É a única lei que existe no Brasil com essa expressão. O legislador adotou que é um elemento a mais para que o crime exista. O legislador escreveu na lei que a prescrição só começa a correr a partir da sentença declaratória de falência, ele adotou a teoria de que o crime so existe a partir do momento em que eu verifico essa condição objetiva de punibilidade que é a sentença declaratória de falência. v PRESSUPOSTOS DE VALIDADE DA DENÚNCIA OU DA QUEIXA – Art. 41, CPP. Art. 41. A denúncia ou queixa conterá a exposição do fato criminoso, com todas as suas circunstâncias, a qualificação do acusado ou esclarecimentos pelos quais se possa identificá- lo, a classificação do crime e, quando necessário, o rol das testemunhas. - Pressupostos de validade – art. 41 – (4 temas – sendo 2 deles sendo de fato pressupostos de validade e os outros 2 não chegam a ter esse status): 1º pressuposto de validade: A denúncia ou a queixa conterá a descrição do fato criminoso com todas as suas circunstancias (pressuposto de validade). 2º pressuposto de validade: Conterá também a qualificação do acusado ou esclarecimentos pelos quais se possa identifica-lo (pressuposto de validade). - É necessário se ter o mínimo para conseguir identificar a pessoa. Estes são os dois pressupostos de validade do art. 41, CPP. O que tem a mais no art. 41 é que ele fala também que conterá a denúncia ou queixa. Classificação jurídica do crime e o rol das testemunhas quando necessário. - Rol das testemunhas, momento procedimental que o promotor tem para indicar as testemunhas que quer que sejam ouvidas. (nome e endereço) - Classificação jurídica do crime – indicação do art. de lei. Errar na classificação jurídica não é - Descrição do fato criminoso com todas as suas circunstâncias. Existem circunstâncias essenciais e acidentais da narrativa. As essenciais se não fizer constar, ela é nula. Circunstâncias acidentais, se não estiverem presentes não gera nulidade. Circunstâncias essenciais – próprias elementares do tipo penal. Tipo tem um núcleo e circunstancias. São circunstancias essenciais da narrativa. - A lei diz que devo descrevero fato com todas as suas circunstâncias. - Circunstância = tudo que está ao redor de alguma coisa. - Quando você vai imputar um crime a alguém, vai narrar um fato, esse fato em tese delituoso, você tem que estar atento a estrutura do tipo para fazer o ajuste do caso concreto ao tipo penal identificado como correspondente aquela conduta. Portanto o verbo do tipo deve aparecer na narrativa do fato. Ana Carolina Gradowski Cagliari àHá uma diferença entre circunstâncias essenciais e circunstâncias acidentais na narrativa do fato. à O que deve constar são as circunstâncias ditas essenciais, sem elas a denúncia é inepta, é nula. As circunstancias acidentais não são essenciais, se não constarem não geram inépcia da denúncia. - O verbo do tipo é uma circunstância essencial. A estrutura do tipo, a conduta deve aparecer na narrativa. Mas além disso, existem outras circunstâncias da narrativa do tipo / estrutura do tipo, mas que são também essências. MACETE – na hora que vai descrever o fato tem que responder mentalmente algumas perguntas básicas. -- Quando? -- Onde? -- Quem? -- Fez o que? -- De que forma? -- Por que? -- Contra quem? à QUANDO - A data é uma circunstância essencial da narrativa. - É importante dizer quando devido a prescrição. à o tempo começa a contar a partir do dia que ocorreu o delito. - Existe o modelo ideal que tem na narrativa e tem o que é o mínimo necessário. -- O ideal é que quando você vai imputar o fato a alguém no diz respeito ao tempo, que você diga o dia, o mês, o ano e a hora. à Porém nem sempre a investigação de determinados delitos dará esses elementos todos. Promotor na narrativa do fato não pode inventar, ou tem elementos probatórios que lhe permitam dizer a data precisa e ele diz ou não tem e ele não diz. -- O mínimo que se exige para a denúncia é que se tenha pelo menos o ano em que ocorreu o delito à ano: mínimo necessário para fazer a narrativa. Sem o ano não dá para denunciar. (ano é essencial). Se não tem a data, será usado o dia 1 de janeiro daquele ano, que é a data mais distante de que favorece o réu na leitura da prescrição. - O mínimo que se exige como pressuposto de validade é o balizador de tempo. à ONDE - É importante para o juiz saber se ele é competente territorialmente (o juiz tem limitações do seu exercício de poder a luz de regras territoriais – comarca). - Se tem o ideal que seria dizer o endereço preciso de onde ocorreu o delito. à dizer o local mais preciso possível de onde ocorreu o delito. - Se não tem como dizer com precisão de onde ocorreu o delito, se dizer o que tiver para dizer. à dá para denunciar mesmo sem saber o lugar preciso. - Dá para dizer que é uma circunstância acidental, se não souber se tem outra saída. Tipo objetivo e subjetivo Ana Carolina Gradowski Cagliari à QUEM - O ideal é o nome completo, mas se não tiver o nome completo pelo menos que se tenha condições de dizer quem é o sujeito de fato. à FEZ O QUE; DE QUE FORMA; POR QUE; CONTRA QUEM - São misturados com o tipo objetivo e subjetivo. - Cada tipo penal tem uma particularidade de interpretação na jurisprudência, na doutrina e se tem que ter o cuidado de estudar e saber para poder fazer a denúncia bem feita. - 1ª. providência: identificar o artigo de lei à identificar em qual artigo de lei que se compreenda que o fato se amolda. Sem fazer isso, não dá para fazer a narrativa do fato. - 2ª. providência: identificou o artigo, abre o código ao lado para estudar o artigo (não confiar na memória). - 3ª. providência: descrever fazendo ajuste necessário (não dá para fazer “recorta e cola”) à a denúncia para ter uma narrativa bem feita deve fazer com que o réu ao ler a denúncia entenda o porque está sendo acusado. à Se eu tenho crimes dolosos e culposos, tipos penais que as vezes descrevem figuras dolosas e culposas as vezes é importante descrever o dolo (o que caracterizou), principalmente se for dolo eventual. - A narrativa é muito importante para levar o processo no caminho certo. • Art. 395, CPP. Art. 395. A denúncia ou queixa será rejeitada quando: I - for manifestamente inepta; à nula à violação de pressuposto processual de validade (falta de pressuposto de validade). II - faltar pressuposto processual ou condição para o exercício da ação penal; à violação do pressuposto processual de existência. III - faltar justa causa para o exercício da ação penal. Parágrafo único. (Revogado). - Se tem dois tipos de pressupostos, de existência e de validade. - Art. 43, CPP à dava as condições da ação, era o único que se tratava das condições da ação e das avessas. Hoje não se tem no Código de Processo Penal uma regra que diga quais são as condições da ação. à Hoje as condições da ação não são dadas na lei, elas são dadas pela doutrina e pela jurisprudência. Ana Carolina Gradowski Cagliari v REGRAS DE COMPETÊNCIA FUNCIONAL OU “RATIONE PERSONE” OU FORO POR PRERROGATIVA DE FUNÇÃO OU FORO PRIVILEGIADO. (variadas formas de denominar o mesmo assunto). - “Ratione persone” à não é da pessoa propriamente e sim da função pública exercida por aquela pessoa. - Se tem que definir qual é o juiz competente. - Competência é a regra que limita o exercício do poder jurisdicional - (princípio do juiz natural). - O juiz tem o poder e ele vai exercitar o poder dentro de determinados limites. - Para raciocinar essa matéria primeiramente se tem que olhar o caso concreto e tentando identificar se algum dos envolvidos na prática do delito (algum autor, coautor, partícipe do delito) possui prerrogativa de ser julgado originariamente nos tribunais em razão de uma eventual razão pública que ele ocupe. à o primeiro passo é esse. (sai uma noticia no jornal ou houve um delito, a primeira coisa que se olha é se alguém tem prerrogativa de foro de ser julgado no tribunal? Porque se a resposta for sim, você não vai discutir competência territorial, material... pois nada disso prevalece, prevalece a prerrogativa de foro). - A explicação que a doutrina dá é que determinadas funções públicas pela importância que representam em termos de estrutura de estado fazem com que as pessoas que ocupem essas funções para a preservação da função e não das pessoas tem uma prerrogativa de serem julgadas originariamente nos tribunais e não no juiz de primeiro grau. à justificativa bacaninha. - Na prática os tribunais não são feitos para instruir processo, são feitos para julgar recurso. à Regras de foro são de âmbito constitucional. Ø Competência do Supremo Tribunal Federal. Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda da Constituição, cabendo-lhe: I - processar e julgar, originariamente: à originariamente porque começa no tribunal. a) a ação direta de inconstitucionalidade de lei ou ato normativo federal ou estadual e a ação declaratória de constitucionalidade de lei ou ato normativo federal; b) nas infrações penais comuns, o Presidente da República, o Vice-Presidente, os membros do Congresso Nacional, seus próprios Ministros e o Procurador-Geral da República; c) nas infrações penais comuns e nos crimes de responsabilidade, os Ministros de Estado e os Comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, ressalvado o disposto no art. 52, I, os membros dos Tribunais Superiores, os do Tribunal de Contas da União e os chefes de missão diplomática de caráter permanente; - Todas essas funções as pessoas que ocupam essas funções, se cometerem crime (qualquer crime) serão julgadas originariamente no STF. à qualquer uma dessas funções começa a ser julgada no STF. Ana Carolina GradowskiCagliari Ø Competência do Superior Tribunal Federal. Art. 105. Compete ao Superior Tribunal de Justiça: I - processar e julgar, originariamente: a) nos crimes comuns, os Governadores dos Estados e do Distrito Federal, e, nestes e nos de responsabilidade, os desembargadores dos Tribunais de Justiça dos Estados e do Distrito Federal, os membros dos Tribunais de Contas dos Estados e do Distrito Federal, os dos Tribunais Regionais Federais, dos Tribunais Regionais Eleitorais e do Trabalho, os membros dos Conselhos ou Tribunais de Contas dos Municípios e os do Ministério Público da União que oficiem perante tribunais; - Aqui há uma diferença de trato, desembargador de cometer um delito é julgado no STJ e o procurador de justiça é julgado no tribunal de justiça estadual. à única diferença. Ø Competência dos Tribunais de Justiça. Art. 96. Compete privativamente: I - aos tribunais: III - aos Tribunais de Justiça julgar os juízes estaduais e do Distrito Federal e Territórios, bem como os membros do Ministério Público, nos crimes comuns e de responsabilidade, ressalvada a competência da Justiça Eleitoral. Ø Municípios. à serve para dar prerrogativa de foro aos prefeitos. Art. 29. O Município reger-se-á por lei orgânica, votada em dois turnos, com o interstício mínimo de dez dias, e aprovada por dois terços dos membros da Câmara Municipal, que a promulgará, atendidos os princípios estabelecidos nesta Constituição, na Constituição do respectivo Estado e os seguintes preceitos: X - julgamento do Prefeito perante o Tribunal de Justiça. Ø Deputados Estaduais à não chegam a ter uma regra expressa, mas tem uma regra de equivalência. Art. 27. O número de Deputados à Assembléia Legislativa corresponderá ao triplo da representação do Estado na Câmara dos Deputados e, atingido o número de trinta e seis, será acrescido de tantos quantos forem os Deputados Federais acima de doze. § 1º Será de quatro anos o mandato dos Deputados Estaduais, aplicando- sê-lhes as regras desta Constituição sobre sistema eleitoral, inviolabilidade, imunidades, remuneração, perda de mandato, licença, impedimentos e incorporação às Forças Armadas. Ana Carolina Gradowski Cagliari à Imunidades: pode ser material ou formal. -- Imunidade material: quando há palavras / gestos. à não respondem criminalmente por palavras e gestos no exercício do mandato. -- Imunidade formal: natureza processual. à prerrogativa de foro à direito de ser julgado originariamente nos tribunais. à Por uma simetria de tratamento os deputados federais, o deputado estadual também tem prerrogativa de foro nos tribunais. à simetria de tratamento dada pelo artigo 27, §1º, da CF. * As Constituições dos Estados (Estaduais) também dão aos deputados estaduais a prerrogativa de foro. à tribunal de justiça. As competências irão variar de Estado para Estado. • Constituição do Estado do Paraná à Para além do que já foi mencionado acima, quem mais tem prerrogativa de foro previsto agora no âmbito da Constituição do Estado do Paraná: à serão julgados originariamente no tribunal de justiça do Paraná. -- Secretários de Estado (todos os secretários). -- Deputados Estaduais. -- Vice-governador. (o governador é no STJ) - No Paraná vereador não tem prerrogativa de foro à juiz de primeiro grau como qualquer pessoa. è Segundo passo: verificar Competência Territorial ou “Ratione Loci” ou Pelo Lugar da Infração. à regras no CPP a partir do art. 70 e seguintes. Art. 70. A competência será, de regra, determinada pelo lugar em que se consumar a infração, ou, no caso de tentativa, pelo lugar em que for praticado o último ato de execução. § 1o Se, iniciada a execução no território nacional, a infração se consumar fora dele, a competência será determinada pelo lugar em que tiver sido praticado, no Brasil, o último ato de execução. § 2o Quando o último ato de execução for praticado fora do território nacional, será competente o juiz do lugar em que o crime, embora parcialmente, tenha produzido ou devia produzir seu resultado. § 3o Quando incerto o limite territorial entre duas ou mais jurisdições, ou quando incerta a jurisdição por ter sido a infração consumada ou tentada nas divisas de duas ou mais jurisdições, a competência firmar-se-á pela prevenção. Ana Carolina Gradowski Cagliari - Se tem que verificar diante de um caso concreto se está diante de um crime consumado ou de um crime tentado. -- Crime consumado: verificar o local do crime em que ocorreu a consumação. -- Crime tentado: verificar o lugar que foi praticado o último ato de execução. à Art. 83, CPP. – define o que se entende por prevenção. -- Prevenção: o juiz prevento é aquele que primeiro toma contado oficialmente da notícia do delito. à 1º juiz que toma contato oficial da notícia. (1º juiz e não 1º a polícia) Art. 83. Verificar-se-á a competência por prevenção toda vez que, concorrendo dois ou mais juízes igualmente competentes ou com jurisdição cumulativa, um deles tiver antecedido aos outros na prática de algum ato do processo ou de medida a este relativa, ainda que anterior ao oferecimento da denúncia ou da queixa (arts. 70, § 3o, 71, 72, § 2o, e 78, II, c). à Art. 71, CPP. Art. 71. Tratando-se de infração continuada ou permanente, praticada em território de duas ou mais jurisdições, a competência firmar-se-á pela prevenção. - Se lavra o ato de prisão em flagrante no local, só que a competência continua do 1º juiz que tomou contato. - Crime permanente juiz torna-se prevento. à Art. 72, CPP. Art. 72. Não sendo conhecido o lugar da infração, a competência regular-se-á pelo domicílio ou residência do réu. § 1o Se o réu tiver mais de uma residência, a competência firmar-se-á pela prevenção. § 2o Se o réu não tiver residência certa ou for ignorado o seu paradeiro, será competente o juiz que primeiro tomar conhecimento do fato. à qualquer juiz do país que tomar conhecimento do fato por primeiro. à Art. 73, CPP. Art. 73. Nos casos de exclusiva ação privada, o querelante poderá preferir o foro de domicílio ou da residência do réu, ainda quando conhecido o lugar da infração. - Esse art. 73 é a única regra que em certa medida permite uma relativa discricionariedade da definição da competência. Ana Carolina Gradowski Cagliari - Querelante = vítima, autora da ação. - Só é possível fazer essa escolha se for diferente o local de residência do réu e o local em que o crime ocorreu, a vítima (autora da ação), poderá propor a ação tanto no local em que o crime se consumou, alternativamente se for diferente o lugar, no local de endereço do réu. à Só é possível isso em crimes de ação penal exclusivamente privada. v REGRAS DE COMPETÊNCIA MATERIAL OU “RATIONE MATERIAE” OU PELA NATUREZA DA INFRAÇÃO. - Quando se definiu o território o próximo passo é verificar quem dentro do território tem competência pela matéria, porque se pode ter mais de um juiz competente no âmbito territorial, por esse motivo se divide por matéria. Art. 74. A competência pela natureza da infração será regulada pelas leis de organização judiciária, salvo a competência privativa do Tribunal do Júri. § 1º - Compete ao Tribunal do Júri o julgamento dos crimes previstos nos arts. 121, §§ 1º e 2º, 122, parágrafo único, 123, 124, 125, 126 e 127 do Código Penal, consumados ou tentados. § 2o - Se, iniciado o processo perante um juiz, houver desclassificação para infração da competência de outro, a este será remetido o processo, salvo se mais graduada for a jurisdição do primeiro,que, em tal caso, terá sua competência prorrogada. à promotor narra a denuncia e classifica juridicamente aquele fato (indica o artigo de lei). Pelo artigo de lei se tem a matéria definida. O juiz pode desclassificar, alterar a classificação jurídica. Ao alterar a classificação jurídica ele pode alterar a matéria do crime e isso poderá alterar a matéria de competência do juiz. (não necessariamente pode ocorrer). - Se houver uma desclassificação que altere a matéria o crime passa a ser outro. E essa alteração implica as vezes em alteração da competência. - A partir da parte “salvo”, ela está vigente, não foi formalmente revogada, mas ela não tem aplicação prática. E não tem aplicação prática porque não se tem hoje na legislação brasileira nenhuma regra que estabeleça competência originária nos tribunais em razão da matéria. - Cada Estado da Federação tem uma Lei Estadual denominada Código de Organização de Divisão Judiciária do Estado. Esse Código organiza e divide competências territoriais e materiais. Eu sei a partir do Código de Organização de Divisão Judiciária do Estado quantas comarcas se tem em cada Estado, quantas varas se tem em cada comarca. Ele definirá a matéria inclusive. No Paraná, a Lei Estadual ela cria essa matéria genérica – vara criminal – e delega ao tribunal a definição mais específica de qual matéria criminal tratará aquela vara. O tribunal define por resolução a especificidade da matéria criminal daquela vara criminal criado por lei. Só não há possibilidade de se alterar a competência material do Tribunal do Júri porque a competência material do Tribunal do Júri é definida pela Constituição (art. 5º, XXXVIII, CF), para os crimes dolosos contra a vida. Ana Carolina Gradowski Cagliari • Competência material do Tribunal do Júri. - A competência material do Tribunal do Júri e definida Júri é definida pela Constituição (art. 5º, XXXVIII, CF), para os crimes dolosos contra a vida. Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: XXXVIII - é reconhecida a instituição do júri, com a organização que lhe der a lei, assegurados: a) a plenitude de defesa; b) o sigilo das votações; c) a soberania dos veredictos; d) a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida; - O Júri nem sempre teve competência material para os crimes dolosos contra à vida. A primeira vez que aparece no Brasil o Tribunal do Júri é em 1824, com Dom Pedro I. Ele cria o Tribunal do Júri no Brasil copiando o modelo inglês para julgar crimes de imprensa. No Brasil é uma competência bem restrita, é só para matéria criminal e dentro só para crimes dolosos contra a vida (homicídio doloso; infanticídio; induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio; aborto à crimes dolosos contra a vida e que vão a júri no Brasil). Art. 75. A precedência da distribuição fixará a competência quando, na mesma circunscrição judiciária, houver mais de um juiz igualmente competente. Parágrafo único. A distribuição realizada para o efeito da concessão de fiança ou da decretação de prisão preventiva ou de qualquer diligência anterior à denúncia ou queixa prevenirá a da ação penal. - Pode ocorrer de um ter o mesmo juiz igualmente competente tanto territorial quanto materialmente. Nesse caso, eu sei qual vara irá por distribuição, por sorteio. Por sorteio se define a vara para onde irá. Ana Carolina Gradowski Cagliari Ø RITO DO JÚRI - (dentro da matéria de competência) - É um rito bifásico. - A 1ª fase é praticamente idêntica ao rito comum ordinário. à 1ª fase – Fase de formação da culpa. (não aparece o povo) O Ministério Público oferece a denúncia. O juiz recebe a denúncia e determina a citação do acusado para que apresente uma resposta técnica. A denúncia é o momento adequado para que o promotor arrole testemunhas. (art. 41, CPP). O momento adequado para a defesa apresentar o rol de testemunhas que ela pretende ouvir é na resposta. A resposta tem dupla finalidade, pretende atacar a denúncia ou com a resposta eu pretendo ter do juiz até mesmo uma absolvição sumária e é também o momento para arrolar testemunhas (se a defesa quiser que se ouçam testemunhas este é o momento procedimental para o advogado arrolá-las.) Nesta fase pode se arrolar 8 testemunhas para o Ministério Público e 8 testemunhas para a defesa por fato imputado ao réu. (1 fato – 8 testemunhas; 2 fatos – 16 testemunhas...). Apresentada a resposta há a possibilidade do juiz absolver sumariamente (absolvição sumária – onde o juiz analisa apenas a denúncia e o inquérito que veio instruindo a denúncia). à difícil isso ocorrer porque não foram apresentadas provas nenhuma ainda, mas é possível. Não havendo absolvição sumária, se segue para uma audiência de instrução e julgamento. Onde o primeiro ato é ouvir a vítima (caso esteja viva). Na sequencia ouvir as testemunhas arroladas pelo Ministério Público, depois as testemunhas arroladas pela defesa, seguindo o interrogatório do réu, depois alegações finais orais (20 minutos podendo prorrogar por mais 10 minutos) sendo primeiro o Ministério Público e depois a defesa. Aí o juiz tem quatro possibilidades decisórias ao final dessa primeira fase do rito do júri. Essas quatro possibilidades decisórias são: pronúncia; impronúncia; absolvição sumária (agora a partir da prova produzida em juízo) ou desclassificação. ü Pronúncia. - A pronúncia não é uma decisão de mérito, é uma mera decisão de admissibilidade da acusação. Tem uma natureza jurídica muito parecida com a decisão que recebeu a denúncia. A diferença é que quando o juiz recebeu a denuncia, ele recebeu analisando apenas o que tinha da produção de prova da investigação, sem contraditório, sem ampla defesa. Agora o juiz está aceitando a acusação a partir de uma prova produzida na presença dele, em juízo, com contraditório e com ampla defesa. Então é uma reapreciação da aceitação da acusação, é um segundo filtro, sendo o primeiro filtro na decisão de recebimento da denúncia, segundo filtro decisão de pronuncia, tenho ou não tenho elementos capazes de aceitar a acusação e submeter o réu em julgamento a plenário. - A pronúncia ela coloca fim a 1ª fase do rito do júri e dá inicio a 2ª fase, submeto o réu a julgamento em plenário do Tribunal do Júri. - No Brasil são 7 jurados, sendo decidido por maioria portando basta 4. - A pronúncia é uma decisão que encaminha ao júri à aceita a acusação. - Como não é um juízo de mérito, o juiz não está julgando o caso, o juiz vai avaliar na pronúncia então se estão presentes indícios mínimos de autoria e prova da materialidade do Ana Carolina Gradowski Cagliari crime, é o que basta para este momento. à se tem essas dois é caso de pronunciar o réu e submetê-lo a julgamento e plenário. -- Materialidade: vestígio de que o crime existiu, prova de que houve um delito. - Nesta decisão de pronúncia o juiz tem que tomar muito cuidado com a linguagem ao fazer a fundamentação, pois pode haver nulidade da decisão tanto pelo exagero de linguagem quanto pela falta (carência) da mesma. - A pronúncia (decisão de pronúncia) limita a tese acusatória do Ministério Público em plenário. à não existe surpresa para a defesa no plenário em relação a tese acusatória. Pode até pedir por menor (ex: pedir a absolvição), mas ultrapassar o limite posto na pronuncia não pode jamais. Se a prenuncia reconheceu uma qualificadora é só aquela ali que pode sustentar, mas tem outra, mas não está na pronuncia portanto não pode ser sustentada. - A defesanão tem limitação de tese, ela pode falar o que ela quiser. Já o promotor é amarrado pela pronuncia. ü Impronúncia. - A impronúncia vai ocorrer quando faltar a demonstração ou da materialidade (não tem prova da materialidade) ou indícios mínimos de autoria. Sem que haja a possibilidade de uma absolvição imediata. - A impronuncia equivale há um juízo de não aceitação da acusação, sem equivaler a uma absolvição. (ex: o juiz diz que com o que tem ali não dá para discutir o caso). - Ela põe fim ao processo, mas não julga o mérito. Portanto ela não impede que o promotor amanha ou depois ofereça uma nova denúncia contra o mesmo réu e pelo mesmo fato (desde que ele tenha novas e melhores provas para apresentar). - Não equivale há uma absolvição, equivale há um juízo de não aceitação da acusação por insuficiência probatória. ü Absolvição sumária. - Se fala sumariamente porque não é o júri que está fazendo isso, é o juiz togado que está antecipando a decisão. - Para que o juiz togado nessa 1ª fase possa absolver o réu sumariamente, nem envia-lo ao júri, é preciso que todos os elementos de prova que foram produzidos até este momento permitam dizer que ou não foi o réu que cometeu o delito ou que ele cometeu e agiu com alguma excludente de ilicitude. - A jurisprudência costuma a usar a expressão dizendo que é possível absolver sumariamente quando tiver estreme de dúvida. Porém, se tiver uma provinha que diga em sentido contrário por menor que seja, tem que pronunciar, porque o juiz togado aqui não é o juiz natural do caso. O juiz natural do caso é o Tribunal do Júri. -- Estreme de dúvida: quando não tiver a menor sombra de dúvida. ü Desclassificação. - O estreme de dúvida também vale para a desclassificação, que é a ultima hipótese decisória. - O juiz pode desclassificar o crime nessa primeira fase do rito do júri quando todos os elementos de convicção, sem sombra de dúvida, permitirem dizer que não se trata de um crime doloso contra a vida. Ana Carolina Gradowski Cagliari - Se o juiz desclassificou ele remete o processo a um juiz que seja competente. - É uma primeira hipótese de desclassificação com deslocamento de competência. à 2ª fase – Fase de julgamento - O começo da 2ª fase pressupõe que o réu tenha sido pronunciado. - A pronuncia dá fim a 1ª fase e da início a 2ª fase. - Depois da pronúncia é apresentada uma petição simples, primeiro pelo Ministério Público e depois pela defesa no prazo de 5 dias. à depois de transitada a denuncia aí vão 5 dias para apresentar a petição simples. - Essa petição simples ela serve para tanto o Ministério Público quanto a defesa requererem eventuais diligencias complementares e também é o momento procedimental para arrolar testemunhas para serem ouvidas agora em plenário perante os jurados. - Aqui o número que se pode arrolar de testemunhas para serem ouvidas em plenário é um pouco menor, para ouvir no júri são 5 testemunhas por fato imputado ao réu. - Arrolar testemunhas para depor em plenário é um tema delicado, pois testemunha é gente e gente é complicada. - No caso do júri se tem duas opções, mostrar os depoimentos ao jurado em vídeo das testemunhas ou convocá-la para depor pessoalmente em plenário. O ideal para arrolar uma testemunha em plenário é você sentir ela muito segura lá no outro depoimento que fez. Se ela estiver nervosa já na primeira fase nem arrole a testemunha pois será um desastre. - Após a decisão das testemunhas arroladas, haverá um sorteio de 25 jurados para compor o Tribunal do Júri. “O Tribunal do Júri é composto de 25 jurados e 1 juiz presidente” à 7 é o Conselho de Sentença. - O juiz ao final de cada ano tem que publicar a Lista Geral dos Jurados, com nomes que variam de 300 pessoas até 1.500 pessoas, sendo possível aumentar esse número se o juiz achar necessário. à dessa lista geral são sorteadas 25 pessoas para compor o Tribunal do Júri. - Convocados os 25 jurados e instaurado o Tribunal do Júri na comarca, vai se fazer a intimação para a seção de julgamento. Intimam-se as partes, os jurados, as testemunhas. Dada o inicio a seção de julgamento, ela começa com o oficial de justiça indo até a porta e fazendo o apregoamento das partes, que nada mais é que anunciar em voz alta quem é que vai participar do júri. Feito isso, o juiz togado faz a chamada nominal dos 25 jurados que foram sorteados para compor o tribunal do júri que se encontram na plateia. Os que faltaram podem apresentar uma justificativa. Se ele der uma justificativa religiosa ou justificativa de natureza ideológica, não fazem o júri, mas terão que prestar um serviço a comunidade e se não forem serão multados. E aqueles que não foram e não justificarem nada também serão multados (multa em dinheiro). Então não é uma escolha, se é convocado tem que fazer e participar. No mínimo devem estar presentes 15 dos 25 jurados para que o júri saia, nesse início, nessa chamada nominal. Ana Carolina Gradowski Cagliari “15 jurados é o número mínimo de jurados presentes para que o júri saia” - Com os 15 jurados mínimos presentes, começa o júri com o sorteio de 7 jurados que irão compor o Conselho de Sentença. Esses 7 que irão julgar o caso. - Na hora de sortear esses 7 jurados, tanto o promotor quanto o advogado de defesa podem recusar até 3 jurados sem dar motivo. - Após essa decisão referente aos jurados, forma-se o Conselho de Sentença, fazem o compromisso, fazem um juramento, e a partir desse momento (compromisso assumido) passam a ter poder, eles (jurados) passam a ser juízes de fato. - No júri, a competência do Conselho de Sentença se dá para a matéria de fato. O Conselho de Sentença vai dizer se o crime ocorreu, se foi o réu que praticou, se ele merece ser condenado, se tem qualificadora ou não tem... Então o Conselho de Sentença tem competência para julgar o fato, decidir até pela condenação ou absolvição. E o juiz presidente vai elaborar sentença a partir do que decidiu o Conselho de Sentença. Quem elabora o texto da sentença é o juiz a partindo da decisão dos jurados. Ao juiz incumbe a interpretação do direito no que diz respeito a fixação da pena no caso de condenação. Quem vai atribuir valor para as circunstancias judiciais do artigo 59 é o juiz presidente, ele que vai estabelecer o quanto de pena o réu vai pegar. Mas não foi ele que decidiu condenar, quem decidiu condenar foi o Conselho de Sentença. Juiz outorgado não tem competência para julgar o caso. (com base no que decidiu o Conselho de Sentença o juiz fixa a pena). à Instrução em plenário - Se foram arroladas as testemunhas agora é hora de ouvi-las. Será feita a inquirição das testemunhas em plenário e depois será feito o interrogatório do réu. Encerrada essa instrução em plenário vamos para os debates orais. Aí o Ministério Público tem 1 hora e meia para sustentar a sua tese, a defesa terá também 1 hora e meia. Primeiro fala o promotor e depois fala a defesa. Depois que a defesa fala, o juiz indaga ao promotor se ele fará uso da replica por mais 1 hora de fala. Se o promotor fizer o uso da réplica, direito de falar por mais 1 hora, a defesa tem automaticamente a treplica por mais 1 hora também. Resumindo: promotor fala 1h e meia, defesa fala 1h e meia. Promotor pode usar da replica por mais 1 hora e a defesa fará a treplica por mais 1 hora. Se for mais de um réu, pode acrescentar mais 1 hora em cada momento de fala dessas (2h e meia para o MP, 2h e meia para a defesa, 2h de réplica e 2h de treplica). Nesses debates orais tanto o MP quanto a defesa tentaram convencer os jurados que sua tese deve prevalecer. Existem diversas técnicas para trabalhar com os jurados. Tem que saber falar, tem que saber como fazer, pois senão os jurados viajam mesmoe tudo é uma questão de prender eles. - Incomunicabilidade: o júri brasileiro trabalha com a ideia de que o jurado deve ser incomunicável. Ele não deve conversar nem com o outro jurado a respeito do caso. Se ele troca com uma ideia com outro jurado, o júri se torna nulo e terá que ser realizado com outros jurados. (os jurados podem até conversar entre si, porem nada relacionado ao caso que está sendo julgado). Ana Carolina Gradowski Cagliari - Encerrado os debates orais o juiz lê em plenário os quesitos que serão formulados aos jurados (ele lê em plenário ainda). E indaga ao promotor e ao advogado se eles estão de acordo com a redação que foi proposta. A lei trás uma ordem desses quesitos, porém é importante também para a forma de redação de como está escrito. A redação não pode ser feita numa estrutura linguística negativa, a pergunta não pode ser estrutura de forma de pergunta negativa como porque o jurado podendo apenas responder sim ou não a esta pergunta ficaria com dificuldades de responder a resposta em relação a pergunta. Por exemplo, não se pode perguntar para o jurado da seguinte forma: “o jurado não absolve o acusado?” – pergunta com estrutura negativa. Se eu responder “não” significa dizer que eu “não, não absolvo” ou se responder “não” eu absolvo. Não com não pode dar sim na resposta. Teria que ser formulada da seguinte forma: “o jurado absolve o acusado? Sim ou não”. Feito essa pronuncia se vai para a chamada sala secreta. à Sala secreta - É o local onde vão estar presentes apenas os jurados, o juiz, o promotor, o advogado, um escrivão e dois oficiais de justiça. - O réu não vai para essa sala, ou ele vai para uma sala isolada ou então se esvazia o plenário. - A ordem das perguntas se encontra no artigo 483, CPP. -- 1ª pergunta: quanto a materialidade do fato à ex: no dia tal, em tal hora e local, a vítima recebeu o disparo da arma de fogo que lhe provocaram as lesões corporais descritas no laudo de exame de necropsia de folhas tal? Sim ou não. (estou perguntando se a vítima sofreu lesões corporais decorrente de um disparo à materialidade). Se a maioria dos 7 jurados responder “sim” para essa pergunta se prossegue no questionário. Se a maioria responder “não” acabou o júri, o réu está absolvido. Só vai para a segunda pergunta se a maioria responder “sim”. -- 2ª pergunta: sobre a autoria ou participação. à o réu, foi autor desses disparos? Sim ou não. Respondeu maioria “não” está absolvido, por negativa de autoria. Se a maioria responder “sim” para o primeiro quesito e “não” para o segundo quesito, os jurados estão dizendo que a vítima morreu por disparos de fogo mas que não foi o réu que atirou, foi outra pessoa que não se sabe quem. O réu está absolvido. Responderam “sim” para o segundo quesito, sim foi o réu que promoveu os disparos, querem dizer que a vitima morreu por disparos que foram dados pelo réu. Não está condenado ainda, só foi dito que houve uma situação em que a vítima recebeu os disparos e quem efetuou esses disparos foi o réu. -- 3ª pergunta: “o jurado absolve o acusado?” - essa terceira pergunta engloba as teses que podem gerar absolvição para além da discussão da materialidade e autoria. Se a maioria responder “sim” está absolvido. Se responderam não é porque está condenado. Ao responder “não”, dependendo do caso concreto, podemos ter outros quesitos adicionais a serem feitos. Porque se respondeu “não”, condenou, mas agora precisa saber se condenou em homicídio simples ou homicídio qualificado, se tem alguma situação diferente... Condenou tem uma 4ª pergunta. -- 4ª pergunta: existe alguma causa ou diminuição da pena? -- 5ª pergunta: tem circunstancia qualificadora, causa de aumento...? - Só se faz esses dois quesitos em caso de condenação. (pergunta = quesito). Ana Carolina Gradowski Cagliari - Ocorre uma outra situação que se encontra no §4º, que ocorre quando a defesa sustenta uma tese de desclassificação - alterar a classificação jurídica, dizer que não se trata de um crime doloso contra a vida. Isso funciona da seguinte forma, tese de defesa (essa tese de desclassificação) ela pode ser tese alternativa ou pode ser tese principal. Essa tese de desclassificação pode ser uma tese principal ou uma tese alternativa. Se ela for a principal tese defensiva, a pergunta tem que vir após o segundo quesito, ou seja, tem que vir antes do quesito que pergunta se condena ou absolve. Porque primeiro tem que se definir se o júri é competente ou não, para daí permitir que ele julgue definitivamente. Se a principal tese de defesa pretende sustentar que não se trata de um crime doloso contra a vida, a pergunta deve ser feita após o segundo quesito. A pergunta só permite dizer se é doloso ou não contra a vida, só permite dizer que não é do júri a competência. Aí quem vai definir é o juiz presidente. Nesse caso, o jurado cessa a sua competência e transfere a competência para o juiz presidente. Isso é chamado doutrinariamente de Desclassificação Própria no Rito do Júri. -- Desclassificação Própria no Rito do Júri à o jurado cessa sua competência sem definir o crime, só diz que ele não é doloso contra a vida. Então qual é não sei, quem vai decidir é o juiz presidente que passa a ser competente para dizer que crime foi. à cessa competência do jurado e passa a competência para o juiz presidente, que define o delito. Se o advogado de defesa no plenário sustenta uma tese principal, uma tese que gere absolvição, e como tese alternativa uma tese que possa gerar desclassificação o quesito de desclassificação não vai após o segundo quesito, vai após o terceiro quesito. Porque primeiro eu preciso perguntar se o jurado absolve, e somente em caso de não absolvição é que a tese de desclassificação aparece. -- Desclassificação Imprópria no Rito do Júri à o jurado desclassifica definindo o crime e mantendo a sua competência caso haja outros casos para julgar. Define o crime porque a pergunta conjugada com a resposta me diz qual é o crime, e ele mantém a sua competência. Essa desclassificação acontece quando a tese é alternativa e você joga uma pergunta conjugada com a resposta que te da a definição do delito. Encerrada a votação dos quesitos o juiz presidente elabora a sentença (a competência do juiz presidente é elaborar a sentença) e em caso de condenação faz toda a fixação da pena, volta ao plenário, lê a sentença em plenário e está encerrado o julgamento. Art. 483. Os quesitos serão formulados na seguinte ordem, indagando sobre: I – a materialidade do fato; II – a autoria ou participação; III – se o acusado deve ser absolvido; IV – se existe causa de diminuição de pena alegada pela defesa; V – se existe circunstância qualificadora ou causa de aumento de pena reconhecidas na pronúncia ou em decisões posteriores que julgaram admissível a acusação. § 1o A resposta negativa, de mais de 3 (três) jurados, a qualquer dos quesitos referidos nos incisos I e II do caput deste artigo encerra a votação e implica a absolvição do acusado. Ana Carolina Gradowski Cagliari § 2o Respondidos afirmativamente por mais de 3 (três) jurados os quesitos relativos aos incisos I e II do caput deste artigo será formulado quesito com a seguinte redação: O jurado absolve o acusado? § 3o Decidindo os jurados pela condenação, o julgamento prossegue, devendo ser formulados quesitos sobre: I – causa de diminuição de pena alegada pela defesa; II – circunstância qualificadora ou causa de aumento de pena, reconhecidas na pronúncia ou em decisões posteriores que julgaram admissível a acusação. § 4o Sustentada a desclassificação da infração para outra de competênciado juiz singular, será formulado quesito a respeito, para ser respondido após o 2o (segundo) ou 3o (terceiro) quesito, conforme o caso. § 5o Sustentada a tese de ocorrência do crime na sua forma tentada ou havendo divergência sobre a tipificação do delito, sendo este da competência do Tribunal do Júri, o juiz formulará quesito acerca destas questões, para ser respondido após o segundo quesito. § 6o Havendo mais de um crime ou mais de um acusado, os quesitos serão formulados em séries distintas. v REGRAS DE COMPETÊNCIA POR CONEXÃO OU CONTINÊNCIA O Código fala que a competência será determinada pela conexão. * CONEXÃO: relação, ligação, junção – conexão pressupõe então uma coisa ligada a outra ou seja, necessariamente pressupõe mais de uma coisa. Não pode haver conexão de você com você mesma, você se conecta com alguma coisa. E essa coisa que tratamos aqui são crimes, ou seja, um crime ligado a outro, um crime conexo a outro. Toda vez que se falar em conexão necessariamente estamos falando de mais de um crime, não de um crime só – um crime conexo a outro crime, um crime ligado a outro. Existem hipóteses que vão exigir que eu reúna esses crimes em um único e mesmo processo, com um único juiz competente para julga-los. A conexão pode ser: 1) Intersubjetiva: a. por simultaneidade. b. por concurso de pessoas. c. por reciprocidade. 2) Objetiva 3) Instrumental ou probatória Ana Carolina Gradowski Cagliari Art. 76. A competência será determinada pela conexão: I - se, ocorrendo duas ou mais infrações, houverem sido praticadas, ao mesmo tempo, por várias pessoas reunidas, ou por várias pessoas em concurso, embora diverso o tempo e o lugar, ou por várias pessoas, umas contra as outras. - O art. 76 do CPP que fala em conexão, ele trás no inciso I, três situações diferentes. E elas têm um ponto em comum entre elas. 1ª situação: se, ocorrendo duas ou mais infrações, houverem sido praticadas, ao mesmo tempo, por várias pessoas reunidas. 2ª situação: por várias pessoas em concurso, embora diverso o tempo e o lugar. 3ª situação: por várias pessoas, umas contra as outras. O ponto em comum entre elas é “duas ou mais pessoas” – várias pessoas. * CONEXÃO INTERSUBJETIVA. Inter = entre Intersubjetiva então quer dizer entre sujeitos, entre pessoas, várias pessoas. Falou em conexão falou em mais de um crime. Falou em intersubjetiva falou em mais de uma pessoa. Toda vez que se falar em conexão intersubjetiva está se dando as seguintes informações: mais de um crime e mais de uma pessoa. Existem três situações de conexão intersubjetiva. -- CONEXÃO INTERSUBJETIVA POR SIMULTANEIDADE. 1ª situação do inciso I: se, ocorrendo duas ou mais infrações, houverem sido praticadas, ao mesmo tempo, por várias pessoas reunidas. Ao mesmo tempo a doutrina vai chamar isso de conexão intersubjetiva por simultaneidade. Temos aqui 2 ou mais infrações praticadas ao mesmo tempo por várias pessoas reunidas. Essa reunião de várias pessoas aqui é uma reunião ocasional, circunstancial – as pessoas não combinaram de estar ali, estão reunidas pelas circunstâncias. - Por exemplo: nós na sala estamos reunidos, mas ninguém ligou para minha casa de manhã dizendo vamos nos reunir hoje para assistir uma aula de Processo Penal. Ninguém combinou, vieram. Ana Carolina Gradowski Cagliari - Um exemplo comum é torcida de futebol, a torcida revoltada com o fracasso do clube resolve invadir o gramado, tendo aí já um crime, de invadir o gramado. Bateram nos jogadores, tentaram matar um policial, quebraram o estádio... tendo assim crime de invasão, crime de lesão corporal, crime de tentativa de homicídio... vários crimes praticados por várias pessoas reunidas ao mesmo tempo. Esses vários crimes eu vou juntá-los, reuni-los num único processo. Um único juiz competente para julgar. Essa é a regra. A ideia é reunir tudo num processo só e um único juiz competente para julgar. -- CONEXÃO INTERSUBJETIVA POR CONCURSO. 2ª situação do inciso I: ou por várias pessoas em concurso, embora diverso o tempo e o lugar. Temos aqui 2 ou mais infrações praticadas por várias pessoas (bastam duas ou mais) em concurso embora diverso tempo e lugar. Concurso de pessoas pressupõe vinculo subjetivo entre as pessoas. Aqui elas estão combinando a prática de crimes. As pessoas ajustadas entre si resolvem cometer delitos, mesmo que o tempo e o lugar dos crimes sejam diferentes, elas vão responder por esses crimes no mesmo processo. Por exemplo: A, B, C e D – 4 pessoas. Elas combinam entre elas o seguinte, o A e o B vão até o local x e cometem um crime de roubo lá. E o C e D vão até o local y e cometem outro crime de roubo. São crimes que se forem vistos isoladamente não existe ligação nenhuma entre eles, porque duas pessoas lá, duas pessoas aqui, lugares diferentes, tempos diferentes. Mas por que junto tudo? Porque os 4 combinaram isso, houve um liame subjetivo entre os 4. É isso que faz com que esses crimes mesmo cometidos em tempos e lugares diferentes sejam reunidos no mesmo e único processo com apenas um juiz competente para julgar. -- CONEXÃO INTERSUBJETIVA POR RECIPROCIDADE. 3ª situação do inciso I: ou por várias pessoas, umas contra as outras. Umas contras as outras é por reciprocidade. Temos aqui 2 ou mais infrações praticadas por várias pessoas umas contra as outras. Por exemplo: antigamente o exemplo mais visível era briga de família (novela Rei do Gado, briga entre os Mezenga e Berdinazzi). Hoje o exemplo mais visível é briga de gangue e traficante. O traficante ataca o grupo rival que em revide ataca o primeiro. Ou briga de torcida também. Há uns dois anos atrás o Atlético jogando com o Esporte, a torcida do Atlético lá agride a torcida do Esporte. No jogo de volta aqui a torcida do Esporte vem para atacar a torcida do Atlético que se esconde na torcida do Paraná Clube. E aí deram um tiro e mataram um torcedor do Paraná aqui. O fato é que aquele crime praticado lá gerou um revide de crime praticado aqui e identificada essa reciprocidade seria o caso de reunir num mesmo processo com um unico juiz competente. Há uma necessidade de reunir nesses tres casos em um único processo com um único juiz competente. Ana Carolina Gradowski Cagliari Essas tres hipoteses tem esses pontos em comum: 2 ou mais infrações, várias pessoas. O que tem de diferente é que na conexão intersubjetiva por simultaneidade se tem ao mesmo tempo; na conexão insterbujetiva por concurso se tem o concurso de pessoas e na conexão por intersubjetividade por reciprocidade se tem umas contra as outras. * CONEXÃO OBJETIVA. O inciso II do art. 76 do CPP, também trata de conexão. II - se, no mesmo caso, houverem sido umas praticadas para facilitar ou ocultar as outras, ou para conseguir impunidade ou vantagem em relação a qualquer delas. No inciso II não está escrito várias pessoas, então já não é mais intersubjetiva. Se você chamou de intersubjetiva a hipótese do inciso I, o nome que vai se dar no inciso II que não fala em várias pessoas é conexão objetiva. Eu pratico um crime e para que ninguém descubra que eu pratiquei esse crime eu pratico um segundo crime. Se eu cometer um segundo crime com a intenção de obter a impunidade em relação ao primeiro, há uma relação de conexão entre esses dois crimes, por isso tenho que juntar no mesmo processo com um único juiz competente. Por exemplo: homicídio doloso com ocultação de cadáver. Caso do goleiro Bruno, o qual foi acusado de matar a Elisa e ocultar o cadáver. Esse crime de ocultação de cadáver foi praticado com intento de que ninguém descobrisse que ele tinha matado. * CONEXÃO INSTRUMENTALOU PROBATÓRIA. O inciso III do art. 76 do CPP, também trata de conexão. III - quando a prova de uma infração ou de qualquer de suas circunstâncias elementares influir na prova de outra infração. Também há conexão no inciso III quando a prova de uma infração ou de qualquer de suas circunstâncias elementares influir na prova de outra infração, sendo chamada de conexão instrumental ou probatória. Quer dizer que a prova de um crime influencia na demonstração da prova de outro crime. Por exemplo: crime de furto e crime de receptação. O crime de receptação ele pressupõe um objeto receptado por uma prática de um crime antecedente. Vamos imaginar que você sai da faculdade e na esquina um moleque maltrapilho te ofereça um Iphone 6 plus por R$ 100,00. Se você comprar um Iphone 6 plus de um moleque maltrapilho na esquina da faculdade por R$ 100,00 você acabou de cometer um crime de receptação. Porque pelas condições de quem está oferecendo, pelo valor do objeto, pela absoluta desproporção que vale, é produto de crime, só pode ser. Pois um Iphone 6 plus está custando em média R$ 3.000,00. Então se eu estou investigando o crime de furto e também o crime de receptação a prova do crime de furto influencia na demonstração do crime de receptação. Por isso eu vou juntar esses dois crimes no mesmo processo com um único juiz competente para julgar. O mesmo ocorre com o crime Ana Carolina Gradowski Cagliari de lavagem de dinheiro. Lavagem de dinheiro pressupõe um crime antecedente. Para ocorrer o crime de lavagem tem de haver ocorrido um crime anterior, e a prova deste influencia na demonstração daquele. E aí junto os dois no mesmo processo e um único juiz competente para julga-los. - O art. 77 do CPP, fala em continência. * CONTINÊNCIA: significa uma coisa contida na outra, algo dentro da outra. Art. 77. A competência será determinada pela continência quando: * CONTINÊNCIA POR CUMULAÇÃO SUBJETIVA. I - duas ou mais pessoas forem acusadas pela mesma infração. Duas ou mais pessoas contidas numa infração é a primeira hipótese de continência que nós temos na lei, e é chamada de conexão subjetiva. Subjetiva é o sujeito, o sujeito acumulado, então tem dois sujeitos acumulados na mesma infração, por isso continência por cumulação subjetiva. Por exemplo: crime de coautoria. Duas pessoas vão assaltar alguém. Porque não faço um processo para o réu A e outro processo para o réu B, faço um único processo para os dois? Pela regra da continência por cumulação subjetiva. * CONTINÊNCIA POR CUMULAÇÃO OBJETIVA. II - no caso de infração cometida nas condições previstas nos arts. 51, § 1o, 53, segunda parte, e 54 do Código Penal. – hoje seria o art. 70 do CP. Duas ou mais infrações contidas na mesma conduta implica no caso do inciso II do art. 77 do CPP. Por exemplo: o sujeito embriagado em velocidade excessiva bate no carro e mata duas pessoas. Uma conduta, dois resultados morte, dois crimes em concurso formal. Porque não faço um processo para o crime que vitimou a vítima A e outro processo que vitimou a vítima B? Pela regra da continência da cumulação objetiva. Eu reúno esses dois crimes num único processo, pois eles resultam de uma única conduta, contidos/cumulados em uma única conduta. Reúno em um púnico processo com um único juiz competente. Todas essas regras de conexão e continência agora precisam ser compreendidas a luz de qual juiz julgará os casos. - O art. 78 do CPP, ele vai tratar de regras chamas de regras de “fórum atractionis” – Atração de foro, qual juízo atrai em relação a outro. Ana Carolina Gradowski Cagliari Art. 78. Na determinação da competência por conexão ou continência, serão observadas as seguintes regras: I - no concurso entre a competência do júri e a de outro órgão da jurisdição comum, prevalecerá a competência do júri. O júri é competente por crimes dolosos contra a vida. Eu tenho um crime doloso contra a vida por conexo, ligado a outro que não é doloso contra a vida. Se eles estão conexos tem que ser um juiz só, qual juiz? O do júri ou da vara? O júri atrai para si e julga os dois. Por exemplo: a ocultação de cadáver conexo com homicídio doloso. Ocultação de cadáver não é crime doloso contra a vida. Então se tem um crime que não é contra a vida sendo atraído e sendo julgado no júri também. Então vou fazer uma série de perguntas, quesitos para os jurados relacionados ao homicídio doloso e depois uma série de quesitos relacionados ao crime conexo. O jurado julga os dois. Um jurado poderia julgar um crime de furto? Se conexo a um homicídio doloso sim. Ele pode julgar qualquer crime desde que seja conexo ao crime doloso contra a vida que vai a júri. Il - no concurso de jurisdições da mesma categoria: Aqui são 3 critérios: “a”, “b”, “c”. Esses critérios são orientados por uma ordem de preferência, sendo primeiro a letra “a” que tentará resolver o conflito, se não resolver vou para a letra “b” e só se a letra “b” também não resolver é que vou para a letra “c”. a) preponderará a do lugar da infração, à qual for cominada a pena mais grave. Esse é o primeiro critério. Por exemplo: imagine aqui que eu tenho duas comarcas vizinhas, comarca A e comarca B. Imagine que na comarca A foi praticado um crime de furto, ele ocorreu territorialmente na comarca A. Na comarca B ocorreu um crime de roubo. Os dois crimes conexos entre si por qualquer dos critérios. Se eles estão conexos, se o furto está conexo com o roubo, tem que ser um único juiz competente para julgar os dois. Qual juiz? O primeiro critério é preponderará a lugar da infração a qual for cominada a pena mais grave. Qual tem pena mais grave, furto ou roubo? O roubo, então o juiz da comarca B julga os dois. O furto é atraído para ser julgado também pelo juiz da comarca B. b) prevalecerá a do lugar em que houver ocorrido o maior número de infrações, se as respectivas penas forem de igual gravidade. Por exemplo: imagine dois crimes de furto na comarca A e um crime de furto na comarca B. Agora tenho três crimes conexos, os três estão ligados entre si, só pode um juiz competente para julgá-los. Qual deles, o da comarca A ou da comarca B? Sempre começa a raciocinar do primeiro critério, letra “a”, ou seja, quantidade de pena. Nesse caso tem algum que tem pena maior que o outro? Não, todos tem a mesma pena, são três furtos. Então esse primeiro critério não me resolveu. Ana Carolina Gradowski Cagliari Agora vou para o segundo critério, letra “b”, prevalecerá o lugar que tiver ocorrido o maior número de infrações se as respectivas penas forem de igual gravidade. Neste caso, temos dois furtos na comarca A e um crime de furto na comarca B, todos tem a mesma pena então vou para o critério da quantidade de infração. Como tem maior quantidade de crime na comarca A, o juiz da comarca A vai julgar os três crimes de furto. O crime ocorrido na comarca B é atraído para ser julgado também na comarca A. c) firmar-se-á a competência pela prevenção, nos outros casos. Por exemplo: se for tudo igual, dois furtos na comarca A e dois furtos na comarca B, sendo os quatro crimes conexos entre si. O primeiro critério é o de maior quantidade de pena, não resolveu porque é tudo igual, todos furtos. O segundo critério é a quantidade de crimes, também não resolveu porque dois na comarca A e dois na comarca B está igual. A terceira hipótese é o critério de prevenção, então qualquer dos dois juízes, da comarca A ou da comarca B, o primeiro juiz que tomar contato com qualquer um dos quatro crimes (nesse exemplo) será o juiz competente para julgar os quatro crimes. III - no concurso de jurisdições de diversas categorias, predominará a de maior graduação. Graduação: juiz de 1º grau; Tribunal -2º grau; STJ - 3º grau e STF - 4º grau. Maior grau, maior a preferência. Se eu tiver uma discussão entre o juiz de 1º grau competente para julgar um determinado réu e o Tribunal de Justiça competente para julgar o outro réu, qual que vai prevalecer? O juiz do Tribunal de Justiça. Exemplo 1: o prefeito desvia verba pública com o auxilio de um funcionário da prefeitura (o funcionário ajudou o prefeito a desviar). Os dois cometeram o crime peculato de desvio – continência por cumulação subjetiva (2 autores e 1 crime). O prefeito tem a prerrogativa de ser julgado no Tribunal de Justiça do seu Estado. O funcionário não tem essa prerrogativa, o funcionário teria que ser julgado pelo juiz de 1º grau. No concurso entre jurisdições de diversas categorias predominará a de maior graduação, sendo assim, o funcionário ele é atraído para ser julgado também junto com o prefeito no Tribunal de Justiça. Exemplo 2: no caso do mensalão eram 40 réus. Vários deles não tinham prerrogativa de foro. Marcos Valério. Marcos Valério era um empresário, portanto não tinha prerrogativa de foro. Porém ele foi julgado pelo Supremo porque ele foi atraído porque praticou crimes em coautoria com deputado federal. O deputado federal tem prerrogativa de foro no Supremo. O Supremo separou os processos? Não, manteve a unidade, todos eles foram julgados lá. Exemplo 3: no caso do Lava Jato. O Lava Jato tem um pedaço que está com o Teori Zavascki e tem um pedaço que está com o Sérgio Moro. Mas tudo é junto, o caso é um só, porque os deputados cometeram crimes junto com o Alberto Youssef, Paulo Roberto... deputados, senadores, prerrogativa de foro no Supremo. O Youssef é doleiro, deveria ter sido atraído porque ele praticou crime junto com um deputado. Deveria estar tudo lá com o Teori Zavascki. No começo foi enviado tudo para o Teori Zavascki, ele que entendeu que aquilo é um monstro, Ana Carolina Gradowski Cagliari uma investigação absolutamente gigantesca e que não obstante haja a conexão e continência entre tudo aquilo não era conveniente que ficasse tudo lá porque ninguém entendeu o negócio. Então ele decidiu que ficaria com ele só quem tem prerrogativa de foro, e o resto ele mandou para o primeiro grau. Por isso que o Sergio Moro está atuando aqui. Não se tem aqui com Sergio Moro deputados federais... essa é a discussão do Lula. O Lula vai lá para cima, fica aqui para baixo, nomeia ministro porque ministro tem prerrogativa de foro, aí tira ele da mão do Sergio Moro e joga ele para cima com o Teori Zavascki. IV - no concurso entre a jurisdição comum e a especial, prevalecerá esta. Exemplo 1: foi falado do prefeito que desviou verba junto com o funcionário, os dois são julgados no TJ, até aí tranquilo. Imagine esse prefeito do interior do Paraná indo para Natal no Rio Grande do Norte de férias. Ele se envolve numa briga de bar e mata dolosamente alguém. Onde será julgado o prefeito? Nesse caso se tem um conflito com o júri. Onde está prevista a regra de competência material do Tribunal do Júri? Na Constituição Federal, art. 5º, inciso XXXVIII. Onde está prevista a regra do prefeito ser julgado no Tribunal de Justiça? Na Constituição Federal, art. 29, inciso X. Eu tenho duas regras de competência na Constituição Federal, uma dizendo que o júri é competente para julgar crimes dolosos contra a vida e outra dizendo que o prefeito tem prerrogativa de ser julgado no Tribunal de Justiça. Nesse caso, tenho um conflito aparente de normas. Qual vai prevalecer? A regra do júri serve para todos que matarem dolosamente alguém, portanto é uma regra geral. A regra do prefeito serve só para quem for prefeito, sendo assim uma regra especial. Entre uma regra geral e uma regra especial qual prevalece? A especial. Então se o prefeito mata dolosamente alguém lá na briga de bar em Natal no Rio Grande do Norte, ele vai a júri ou é julgado pelo Tribunal de Justiça? Será julgado pelo Tribunal de Justiça porque é a regra especial, e a do júri é regra geral. O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte onde o crime ocorreu ou Tribunal de Justiça do Estado do Paraná de onde ele é originário? No Tribunal de Justiça do Estado do Paraná. Porque a justificativa teoria da prerrogativa de foro é proteger a função. Nesse caso preservar a função de prefeito do Paraná, e quem protege a função de prefeito do Paraná é o Tribunal de Justiça do Paraná, mesmo que ele tenha cometido um crime lá em Natal no Rio Grande do Norte. Exemplo 2: imagine que esse prefeito foi para Natal junto com aquele funcionário. E os dois se envolveram numa briga de bar e os dois juntos mataram dolosamente um terceiro. O funcionário quando ajudou o prefeito a desviar a verba ele foi atraído para ser julgado junto com o prefeito no Tribunal de Justiça. E nesse caso que ele matou dolosamente alguém junto com o prefeito, será que ele vai ser atraído também para ser julgado no Tribunal de Justiça? Nesse caso não. Nesse caso vai ter que separar os processos porque a regra que fala da competência material do júri está na Constituição Federal, art. 5º, inciso XXXVIII. Se o funcionário matar dolosamente alguém a principio não tem essa regra a seu favor, o funcionário não é prefeito, então ele não tem prerrogativa de foro. Mas ele é atraído para ser julgado com o prefeito normalmente porque o art. 78 do Código de Processo Penal diz isso. Então você tem aqui uma regra que diz que na Constituição Federal se tem o direito de ir a júri quando matar dolosamente alguém. E tem uma regra de atração de foro que está no Código de Processo Penal. Aqui a discussão é qual que prevalece, a regra constitucional ou a regra de atração de foro do Código? Pela hierarquia a Constituição prevalece sobre a regra infraconstitucional. Então ele não é atraído. No caso concreto tem que separar os processos, prefeito vai ser julgado pelo Tribunal de Justiça do Estado do Paraná e o funcionário pelo Tribunal do Júri na comarca de Natal, que onde foi onde o crime ocorreu. Ana Carolina Gradowski Cagliari Exemplo 3: imagine o prefeito indo para Brasília agora, tentar liberar uma verba para o município. Ele marca uma audiência com o ministro da fazenda. E vai lá ser atendido pelo ministro, toma um clássico chá de cadeira. Ele agendou com o ministro as 13h e já são 16h e nada do ministro chegar. Ele já bateu boca com o chefe de gabinete, já disse que aquilo é um absurdo, que ele é prefeito lá de Rebimboca no interior do Paraná e aquilo é um desrespeito não só para ele, mas para o povo de Rebimboca que ele representa naquele momento, e já fez um discurso na antessala do ministério, o chefe de gabinete já disse o senhor de acalme que o senhor não está lá em Rebimboca, aqui em Brasília é diferente. E ficam batendo boca os dois lá. O ministro chega e nada de atender o prefeito, e ele continua aguardando, se irrita no limite e vai tirar satisfação novamente com o chefe do gabinete dizendo que vai entrar de qualquer jeito na sala do ministro e o chefe do gabinete diz que ele não vai entrar de jeito nenhum. Começa a entrar numa causa de terror e tensão e o chefe de gabinete ameaça querer bater no prefeito, e o prefeito pega um enfeite que tem lá na mesa do chefe de gabinete e da na cabeça dele, e mata dolosamente o chefe de gabinete do ministro da fazenda, na antessala do ministro da fazenda. Onde será julgado o prefeito que matou dolosamente um funcionário público federal em razões das funções públicas exercidas por esse funcionário em Brasília? Quando ele matou alguém lá na briga de bar em Natal ele foi julgado pelo Tribunal de Justiça do Estado do Paraná. Bom, matou um lá, matou outro aqui, vai para o mesmo lugar. Só que ele matou agora um funcionário público federal em razão das funções públicas exercidas por esse funcionário, tem interesse da União nesse caso. Então vou ter que deslocarpara a Justiça Federal. Qual é o equivalente na Justiça Federal ao Tribunal de Justiça na Justiça Estadual? TRF, o Tribunal Regional Federal é o equivalente do caso da nossa região Tribunal Regional Federal da 4ª Região com sede em Porto Alegre. Então se o prefeito do interior do Paraná vai a Brasília e mata dolosamente um funcionário público federal em razão das funções públicas por ele exercidas ele vai ser julgado em Porto Alegre. E se o funcionário dele tivesse ajudado a matar, por exemplo, ia ter que fazer o júri, só que o júri federal. O júri prevalece sobre as regras de atração do foro. Vítima não define foro, o que define foro é só o autor do delito. Exemplo 4: se um deputado estadual desvia verba ele vai ser julgado originariamente no Tribunal de Justiça do seu Estado. E se ele matar dolosamente alguém? Aqui tem uma discussão porque se tem uma súmula do STF, que é a súmula vinculante 45 (mesma que a súmula 721) a qual diz que a competência constitucional do Tribunal do Júri prevalece sobre o foro por prerrogativa de função estabelecido exclusivamente pela Constituição Estadual. Aqui a discussão é qual que prevalece a Constituição Federal ou Constituição Estadual, qual que prevalece? A Constituição Federal. Então se a prerrogativa de foro está definida apenas na Constituição Estadual e o cara mata dolosamente alguém, o júri que está na Constituição Federal prevalece sobre a prerrogativa de foro prevista apenas na Constituição do Estado. Onde está prevista a prerrogativa de foro do deputado estadual? Na Constituição do Estado. Na Federal portanto, onde temos aquela regra de simetria de tratamento do deputado estadual com o deputado federal, art. 27, §1º da Constituição Federal, que fala da imunidade, e imunidade uma delas é processual – prerrogativa de foro. Só que a definição está na Constituição do Estado. A Constituição Federal só diz que o deputado estadual terá o mesmo tratamento que o deputado federal. A onde vai ser julgado é a Constituição do Estado que vai Ana Carolina Gradowski Cagliari dizer. A Constituição do Estado do Paraná diz que o deputado estadual tem prerrogativa de foro no Tribunal de Justiça do Estado. Então numa leitura apressada na súmula 45, nós poderíamos concluir que o deputado estadual se matar dolosamente alguém vai a júri. Já que a regra que define a competência com prerrogativa de foro dele está prevista apenas na Constituição do Estado. E a súmula está dizendo que se a regra é só da Constituição do Estado prevalece o júri e não a prerrogativa de foro. Porém essa regra, esse raciocínio não serve para o deputado estadual por conta da simetria de tratamento. Então o Supremo tem uma interpretação dizendo que pela simetria de tratamento com deputado federal o deputado estadual se matar dolosamente alguém não vai a júri e eu não aplico a súmula 45 ou 721 para deputado estadual. Ele, portanto continua sendo julgado no Tribunal de Justiça e não no Tribunal do Júri. Portanto, a súmula 45 não se aplica para deputados estaduais, se aplica apenas para secretário de estado e o vice-governador. Então se um secretário de estado do Paraná matar dolosamente alguém ele vai a júri ou é julgado pelo Tribunal de Justiça? Vai a júri por conta da súmula vinculante 45, que diz que o júri prevalece sob a prerrogativa de foro prevista pela Constituição do Estado. -- Vice-governador e Secretário de estado vão a júri – conforme súmula vinculante 45. * Ex-autoridade. Até 2001 o Supremo tinha uma súmula dizendo que ex-autoridade mantinha prerrogativa de foro. Em 2001 o Supremo cancela essa súmula formalmente. Quando o Supremo faz isso, ex prefeito, ex deputado, ex senador, ex tudo que estavam nos tribunais vão para o primeiro grau no Estado que se encontrava o processo. Em 2001 o Presidente da República era o Fernando Henrique Cardozo. E ele teria contra si e contra seu filho também ações de improbidade administrativa tramitando no país. Mas a ação de improbidade não é penal, é de matéria civil, portanto não tem prerrogativa de foro. Só tem prerrogativa de foro para crime, na matéria penal. O segundo mandato do Fernando Henrique encerraria no dia 31 de dezembro de 2002. Portanto quando o Supremo cancela a súmula em 2001 estava chegando na reta final do segundo mandato de Fernando Henrique e ele deixaria de ser presidente dali a um ano mais ou menos. Preocupado com isso, ele encaminha para o Congresso Nacional uma proposta de emenda a Constituição (PEC) para fazer inserir na Constituição Federal a regra que garantisse a ex-autoridade a prerrogativa de foro na matéria penal e garantisse também a prerrogativa de foro nas ações de improbidade administrativa. Proposta então para ampliar a prerrogativa de foro de ex-autoridade. Na época Fernando Henrique dependeria da oposição para mudar a Constituição. E quem era a oposição naquela época era o PT. O discurso do PT naquela época era: somos todos contra privilégio, imagine, privilégio era um absurdo... Portanto não conseguiu mudar a Constituição porque o PT não aderiu. Fernando Henrique pensou que não conseguia mudar a Constituição, porém conseguiria mudar qualquer lei ordinária. Porque lei ordinário o quorum é menor e com a base que se tinha no parlamento mudaria qualquer lei. E tem o art. 84 do CPP que fala alguma coisa da prerrogativa de foro, mas que está lá morto. Então ele resolveu mexer nesse art. tentando Ana Carolina Gradowski Cagliari fazer a mesma coisa que queria fazer na Constituição no Código de Processo. E fizeram, já que não passou a proposta de emenda a Constituição, com o mesmo tempo mandamos um projeto de lei ordinária para mudar o art. 84 do Código de Processo Penal para inserir no CPP a prerrogativa de foro para ex-autoridade e já que se esta mexendo colocar também para improbidade administrativa. E eles conseguiram colocaram no Código de Processo Penal. Essa foi literalmente uma regra de encomenda para salvar o Fernando Henrique Cardozo. Logo que a lei sai o MP entra com uma ADIN (2797) pedindo a declaração de inconstitucionalidade porque o argumento era formal, inconstitucionalidade formal, querem ampliar a prerrogativa de foro o parlamento é livre para fazer o que quiser, só que tem que fazer pela Constituição e não pela via da lei ordinária. Então pediu-se uma liminar e o Supremo indeferiu a liminar e a coisa ficou como geralmente fica no Supremo, ou seja, casos não tramitando. Começou o Ministério Público brasileiro a questionar a constitucionalidade. Começou a se criar uma jurisprudência nos tribunais dizendo que era inconstitucional, acolhendo a tese do MP. O Tribunal do Paraná consolidou o entendimento inconstitucional, então ex-autoridade no Paraná ia para primeiro grau, não ficava no tribunal. Começou a pipocar Brasil a fora esse tipo de decisão, até que o TRF da 4ª região interpretou diferente, e disse que tem uma ação direta de inconstitucionalidade no Supremo? Tem. Foi pedida uma liminar lá? Foi. Foi negada? Foi. Então se o Supremo negou a liminar é porque entendeu que a lei é válida. Então enquanto o Supremo não julgar o mérito da ADIN, vale a lei, portanto ex- autoridade mantém prerrogativa de foro. Improbidade mantém a prerrogativa de foro. Isso foi a interpretação do TRF. O STJ achou legal e copiou essa interpretação. E o Supremo achou legal e copiou. Aí os tribunais tiveram que reverter. A sensação é que ficaria assim, até que se estourou o caso do mensalão. Quando estourou o escândalo do mensalão cassa o Roberto Jeferson e um outro deputado. Logo em seguida que o próximo ia ser cassado, ele renuncia o cargo. Nesse momento, durante uns 15 dias mais ou menos, houve uma sensação coletiva de que ia se fazer uma limpa no Congresso Nacional, ou iam cassar todo mundo envolvido no mensalão ou ia haver uma renuncia coletiva porque a pressão era grande.Vendo que um foi cassado, com medo de serem cassados alguns pediram a renuncia. Mas por coincidência ou não o Supremo julgou o mérito a ADIN dizendo que é inconstitucional ex-autoridade ter prerrogativa de foro. Os caras não renunciaram e não foram cassados, ficando o Supremo com esse pepino. Hoje ex-autoridade não mantém prerrogativa de foro, porém tem uma proposta tramitando pedindo pela prerrogativa de foro para ex-autoridade, pedida pelo PT. -- Súmula vinculante: obrigam o juiz de primeiro grau a seguir (é quase como força de lei). -- Súmula normal: é uma orientação, o juiz poderá ou não seguir. Art. 79. A conexão e a continência importarão unidade de processo e julgamento, salvo: Crime comum conexo com crime militar, separa-se os processos. I - no concurso entre a jurisdição comum e a militar; Crime comum vai para a justiça comum e crime militar vai para a justiça militar. Ana Carolina Gradowski Cagliari II - no concurso entre a jurisdição comum e a do juízo de menores. Separam-se os processos. Não existe mais juízo de menores, é justiça de infância. Um adulto imputável comete crime na companhia de um adolescente, que não responde na justiça comum, responde na justiça da infância e da juventude. § 1o Cessará, em qualquer caso, a unidade do processo, se, em relação a algum co-réu, sobrevier o caso previsto no art. 152. Aqui também é causa de separação de processo quando é uma situação do art.152, o qual se trata de doença mental superveniente. Exemplo: eu tenho dois réus. Um deles adquire uma doença mental posterior à prática do delito, se ele admite uma doença mental superveniente, posterior ao crime eu tenho que suspender o processo em relação a ele na esperança que ele retome a sanidade mental um dia. Enquanto ele não retomar a sanidade mental eu não retomo o processo. Então se eu estou discutindo a questão de uma doença mental superveniente ou se foi constata uma doença mental superveniente para um réu e para outro não, eu vou ter que separar os processos porque o processo do réu com doença mental superveniente eu vou ter que suspender, porém o outro caminha. Então separo e faço dois processos em paralelo. § 2o A unidade do processo não importará a do julgamento, se houver co-réu foragido que não possa ser julgado à revelia, ou ocorrer a hipótese do art. 461. Esse § 2o hoje permite uma leitura mais ampliada do que se costa em seu texto e poderia dizer o seguinte: toda vez que você tiver uma hipótese de suspensão de processo para um réu e para outro não, você separa os processos. O § 2o hoje tem seguido a luz do art. 366 que foi alterado em 1996, que é uma das hipóteses de suspensão do processo quando eu não localizo o réu para ser citado pessoalmente, cita por edital e se ele não comparece eu suspendo o processo para ele. São dois réus, um eu citei, o outro não. Então para um vou suspender, para o outro não. O outro se eu citei, o processo prossegue, tenho que separar os dois processos. Art. 80. Será facultativa a separação dos processos quando as infrações tiverem sido praticadas em circunstâncias de tempo ou de lugar diferentes, ou, quando pelo excessivo número de acusados e para não Ihes prolongar a prisão provisória, ou por outro motivo relevante, o juiz reputar conveniente a separação. A regra do art. 80 é uma regra de separação dos processos genérica e facultativa a critério do juiz. Em qualquer caso que o juiz repute conveniente à separação, ele pode separar. A lei dá dois exemplos e depois abre bastante isso para qualquer caso. O normal as vezes de separar é quando se tem um réu preso e outro solto. Esse caso costuma-se separar o processo porque o processo de réu preso tem que tramitar mais celeremente para evitar que se caracterize o excesso de prazo na prisão. Então quando tem um réu preso preventivamente e outro solto, costuma-se se separar o processo. Exemplo 1: Caso do mensalão - no mensalão os advogados queriam que separassem os processos. Porém, o Supremo manteve a unidade do processo. Os advogados brigaram para separar os processos, mas o Supremo manteve a unidade do processo. Ana Carolina Gradowski Cagliari Exemplo 2: Caso da Lava – Jato. – os processos foram separados. O réu com prerrogativa de foro está no Supremo e os que não tem prerrogativa estão com o Sergio Moro em primeiro grau. Os advogados querem juntar os processos. A critério do julgador eu posso manter a unidade ou separar convenientemente dependendo do caso concreto. Art. 81. Verificada a reunião dos processos por conexão ou continência, ainda que no processo da sua competência própria venha o juiz ou tribunal a proferir sentença absolutória ou que desclassifique a infração para outra que não se inclua na sua competência, continuará competente em relação aos demais processos. Isso se chama “perpetuatio jurisdictionis”, regra de prorrogação de competência ou de perpetuação da competência. Exemplo: eu tenho dois crimes conexos, um crime eleitoral conexo a um crime comum. E os dois estão conexos entre si, portanto tem um juiz só para julgar. Qual juiz julga? A justiça eleitoral. Então vem o juiz eleitoral julgando esses dois casos no processo, chega na sentença e diz que não houve crime eleitoral. Que ele absolve o réu porque não ficou evidenciado o crime eleitoral. Ao absolver pelo crime que provocou a atração de foro para ele (juiz eleitoral), o que ele faz com o outro crime? A regra diz que julga, que ele continua competente para julgar o crime conexo. Parágrafo único. Reconhecida inicialmente ao júri a competência por conexão ou continência, o juiz, se vier a desclassificar a infração ou impronunciar ou absolver o acusado, de maneira que exclua a competência do júri, remeterá o processo ao juízo competente. O parágrafo único trata do júri. No júri nós já vimos que existem momentos e situações diferentes de desclassificação. O rito do júri é um rito de duas fases. Ao final da primeira fase o juiz pode pronunciar impronunciar, absolver sumariamente ou desclassificar. Se ele desclassifica aqui, dois crimes, um doloso contra a vida e o outro conexo não doloso contra a vida. Ele desclassifica o doloso contra a vida, nesse caso ele remete os dois crimes para o juiz que seja competente. Se o processo for até o fim, chegar na votação dos quesitos pelos jurados nós temos duas hipóteses diferentes de desclassificação. A primeira chamada de desclassificação própria e a segunda chamada de desclassificação imprópria. Na desclassificação própria, a pergunta que eu faço para o jurado combinado com a resposta que ele me dá, ele diz que não é doloso contra a vida, mas ele não define o crime, cessa a competência dele e ele remete para o juiz presidente resolver o crime doloso contra a vida junto com o crime conexo. O juiz presidente julga os dois. Então na desclassificação própria o jurado desclassifica, cessa a sua competência, remete para o juiz presidente e o processo de crime conexo vai junto. Na desclassificação imprópria a pergunta que eu faço ao jurado conjugada com a resposta que ele me dá define o crime e não altera a competência dele. Nesse caso ele disse qual é o crime. Ele permanece competente para julgar o crime conexo. Na desclassificação própria o crime vai para o juiz presidente e o conexo também. Na desclassificação imprópria ele (o jurado) define o crime e julga o conexo também. Ana Carolina Gradowski Cagliari Art. 82. Se, não obstante a conexão ou continência, forem instaurados processos diferentes, a autoridade de jurisdição prevalente deverá avocar os processos que corram perante os outros juízes, salvo se já estiverem com sentença definitiva. Neste caso, a unidade dos processos só se dará, ulteriormente, para o efeito de soma ou de unificação das