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Manual de handebol InstItuto Phorte educação Phorte edItora Diretor-Presidente Fabio Mazzonetto Diretora-Executiva Vânia M. V. Mazzonetto Editor-Executivo Tulio Loyelo Manual de handebol Da iniciação ao alto nível Pablo Juan Greco Juan J. Fernández Romero (orgs.) São Paulo, 2010 Manual de handebol: da iniciação ao alto nível Copyright © 2010 by Phorte Editora Rua Treze de Maio, 596 CEP: 01327-000 Bela Vista – São Paulo – SP Tel./fax: (11) 3141-1033 Site: www.phorte.com E-mail: phorte@phorte.com Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida ou transmitida de qualquer forma ou por quaisquer meios eletrônico, mecânico, fotocopiado, gravado ou outro, sem autorização prévia por escrito da Phorte Editora Ltda. Impresso no Brasil Printed in Brazil concepção pedagógica para a formação de joga- dores de Handebol no Brasil, criar uma “Escola de Handebol Brasileiro”. Analisaram-se diferentes propostas e escolas de formação, tais como a es- cola espanhola, a escola francesa, a escola alemã. Surge assim, com renovada ansiedade, a ideia de se publicar uma obra que refletisse em seus temas a realidade do handebol brasileiro, um handebol ligado à cultura, aos costumes e caracterizado pela filosofia de vida do brasileiro. Assim, conforme debatido no VI Encontro de Professores de Handebol das Instituições de Ensino Superior em Educação Física (2007) orga- nizado pela Confederação Brasileira de Handebol (CBHb), considerou-se importante referenciar a concepção pedagógica do processo da criação da escola brasileira de handebol no modelo de forma- ção proposto pela Escola Espanhola de Balonma- no, respeitando nossa idiossincrasia, característi- cas culturais e, principalmente, as potencialidades de desenvolvimento da modalidade em todas as suas formas de expressão, ou seja, sem ser dire- cionada somente à concepção do esporte de ren- dimento e alto rendimento. Assim, as duas obras citadas anteriormente e um conjunto de textos já publicados no Brasil como, por exemplo, Manual de handebol – treinamento de base para crianças e Apresentação o Ponto de PartIda... Este livro é uma adaptação e ampliação em língua portuguesa da publicação do livro Ba- lonmán: Manual Básico (1999), organizado por Juan J. Fernández Romero, Luis Casais Martinez, Helena Vila Suárez e José María Canela Carral, publicado na Espanha, em galego, pela editora Lea. Também se tornou como referência o texto Balonmano, organizado por Javier Garcia Cuesta,1 (1991) que, na época, era treinador da Real Fede- ración Española de Balonmano, e publicado por essa federação, com patrocínio da empresa Corte Inglés, em razão das Olimpíadas de Barcelona, com o intuito de popularizar o esporte nesse país. Os motivos que levaram a decisão de con- siderar essas obras como ponto de partida para a concepção de um texto de referência para a área apoiam-se, por um lado, na falta de publicações sobre handebol em língua portuguesa direciona- das a estudantes de Educação Física, professores e treinadores que desenvolvem a modalidade nos diferentes campos de atuação e, por outro lado, na decisão da Confederação Brasileira de Han- debol (CBHb) presidida pelo professor Mano- el Luiz Oliveira, que objetivava consolidar uma 1 Cuesta J. G. Livro Manoel Luiz de Oliveira adolescentes (autoria de Ehret, Späte, Schubert & Roth) (inserir nota de rodapé: 2Ehret, A.; Späte, D. Schubert & Roth, K. Livro Manual),2 servi- ram de ponto de partida para conceber este livro. Assim, Balomman, considerado referência básica para este livro, foi traduzido do galego para o por- tuguês. A obra foi ampliada e incorporaram-se novos capítulos, inovadores em seu conteúdo, que abrangem a modalidade handebol nos diferentes campos de atuação do professor e profissional de Educação Física. Neste livro, reúnem-se aportes de diferentes autores, pesquisadores, professores universitários, treinadores, enfim, personalidades que atuam na modalidade em suas diferentes vertentes, todos com ampla experiência na área, sejam jogadores ou militantes na beira da quadra nos diferentes níveis de expressão e organizacionais da modali- dade. Reitera-se que, neste livro, procura-se reunir o conhecimento da modalidade handebol em suas diferentes formas de expressão do rendimento. Por esse motivo, este livro está dividido em oito partes (História, Perfil do Atleta, Técnica, Tática, Go- leiro, Tática Coletiva, Sistemas de Jogo, Sistema de Formação de Jogadores, Formas de Manifes- tação do Esporte), cada uma delas versando sobre diferentes aspectos relacionados com o handebol. Assim, em cada área, são apresentados diferentes capítulos que levam ao leitor, gradativamente, o conhecimento específico produzido no handebol, ao mesmo tempo que o convida a pesquisar de forma mais aprofundada sobre eles. Este livro se constitui em uma referência geral, em um com- pêndio ou manual específico sobre o handebol. A concepção dos textos permite, após a leitura, a busca de outras referências (algumas citadas), de forma a conseguir, posteriormente, organizar e aprofundar sua formação profissional e, enfim, saciar a sede de conhecimentos do handebol. Destaca-se que este livro não esgota todos os temas relacionados ao handebol, porém, re- úne grande parte desses temas em um só volu- me. Possibilita-se, assim, a orientação do leitor na matéria, direcionando de forma pedagógica o processo de aprendizagem e otimizando sua formação profissional. Mas este livro se consti- tui em testemunho principal da constante busca pelo conhecimento de todos aqueles que gostam da modalidade. Todo professor responsável de sua função social no exercício da sua práxis sabe da necessidade de contar com obras que reúnam te- mas importantes da modalidade e da importância de contribuir com mais leituras e com ações con- cretas de investigação e práxis para seu aperfeiço- amento profissional. O handebol como uma das modalidades es- portivas de quadra mais praticadas por crianças e jovens não delimita sua presença somente aos diferentes níveis e categorias de competição. Pelo contrário, neste livro as diferentes facetas da mo- dalidade handebol, desde suas origens históricas a uma concepção pedagógica de sua prática nos diferentes níveis de expressão do rendimento, são relacionadas de forma didática. Nesta obra, reúnem-se os esforços da Con- federação Brasileira de Handebol (CBHb), enti- dade que rege o esporte de competição no Brasil, mas o texto perpassa essa fonte de informação e visa contribuir nos diferentes níveis da concretude da práxis do handebol. São tratados os diferentes aspectos que ca- racterizam a modalidade. As oito partes do livro reúnem um total de 28 capítulos, com 41 figuras, 126 desenhos e 47 quadros que visam fornecer informação de qualidade. As oito partes deste livro são as seguintes: I) Handebol: sua história e sua evolução (ou seja, do passado e da história pro- jeta-se o futuro) II) O perfil motor do atleta de handebol (preparação física aplicada ao hande- bol) III) Técnica (fundamentos técnico-táticos individuais de ataque, defesa e goleiro) IV) Tática coletiva (tática de grupo de ata- que e defesa) V) Sistemas de jogo no handebol (ataque, defesa e contra-ataque) VI) O sistema de formação e treinamento esportivo: por uma pedagogia da ini- ciação ao alto rendimento esportivo (da iniciação ao campeão) VII) Parâmetros de análise do rendimento (detecção de talentos e observação de jogo) VIII) As diferentes formasde manifestação do handebol Na parte I, o capítulo 1 oferece uma in- trodução sobre o esporte e sua interação com o handebol. No capítulo 2, procura-se descrever o processo histórico da modalidade handebol com a “gênese do handebol: primeiras aproximações” e, posteriormente, a explanação do desenvolvi- mento do handebol no Brasil, com o tema “Me- mórias do handebol no Brasil: construindo uma história”. Ambos os capítulos foram escritos pela Prof.ª Dr.ª Heloisa Baldi dos Reis (UNICAMP). A seguir, apresenta-se o capítulo 3: a “História do handebol de praia no Brasil”, um aporte da Prof.ª Claudia Monteiro do Nascimento (ex-treinadora da CBHb) e Arline Porto Ribeiro (CBHb), uma das precursoras sobre essa forma de manifestação do jogo de handebol no Brasil. Seguidamente, no capítulo 4, aborda-se o tema “Caracterização e classificação do jogo de handebol”, de autoria dos professores Pablo J. Greco, do acadêmico Fernan- do L. Greco (ambos da UFMG) e da Prof.ª Ms. Siomara A. Silva (UFOP). O capítulo é comple- tado com o aporte que destaca a importância de considerar “o handebol em uma visão sistêmica”, de autoria do Prof. Ms. Rudney Uezu (sub-item 4.2). A caracterização da modalidade leva a com- preender melhor as necessidades do esporte e de- terminar princípios para os processos de ensino- aprendizado e treinamento que se relacionem com elas (parte VI), bem como tratar de compreender “O jogo no ataque” e “O jogo na defesa”, de auto- ria do Prof. Juan J. Fernández Romero e Pablo J. Greco. Destacam-se os aspectos que corroboram o processo de caracterização do jogo de handebol. Nesses dois aportes, apresentam-se as caracterís- ticas gerais do jogo em suas fases ou momentos, bem como, sucintamente, quais os fundamentos técnicos (de ataque e defesa, respectivamente) e os meios táticos coletivos da defesa e ataque necessá- rios a prática do handebol com sucesso. Na parte II, trata-se sobre o perfil motor do atleta de handebol. Inicia-se com o capítulo sínte- se, desenvolvido pelo professor Rudney Uezu, so- bre o perfil motor do atleta de handebol. A seguir, no capítulo 6, apresenta-se uma inovadora forma de concepção da preparação física no handebol, de autoria dos professores Francisco Seirul-lo (Univ. Barcelona) e Juan J. Fernández Romero (Univ. A Corunha). Relacionam a metodologia do treina- mento com as teorias cognitivas, o que se consti- tui em uma rica forma de considerar o processo de formação e desenvolvimento das capacidades biomotoras do atleta de handebol. Continua-se com o capítulo 7, direcionado ao treinamento de coordenação, redigido pelos professores Pablo J. Greco (UFMG), Siomara A. Silva (UFOP) e o acadêmico Fernando L. Greco (UFMG). Na parte III, são abordadas as capacidades técnicas do handebol. No capitulo 8, descrevem- se os fundamentos técnico-táticos individuais comuns ao ataque e à defesa, a partir das posi- ções de base e os deslocamentos, redigidos pelo professor Juan J. Fernández Romero (Univ. A Corunha). A seguir, no capítulo 9, são descritos os fundamentos técnico-táticos individuais no ataque, começando com a recepção da bola até as fintas. No capítulo 10, são relacionados e expli- cados os fundamentos técnico-táticos individuais de defesa, da marcação à tomada da posse da bola. Todos esses temas foram escritos pelo professor Juan J. Fernández Romero (Univ. A Corunha) e colaboradores, com aportes do professor Pablo J. Greco e do acadêmico Fernando L. Greco (ambos UFMG). Já no capítulo 11 são explanados os as- pectos das ações técnico-táticas do goleiro, da sua técnica defensiva às técnicas ofensivas, de autoria do professor Pablo J. Greco (UFMG), Siomara A. Silva (UFOP) e do acadêmico Fernando L. Greco (UFMG). Na parte IV, que se inicia com o capítulo 12, são relacionados os meios técnico-táticos de grupo de ataque, das tabelas à ponte aérea, e, no capítulo 13, são relatados e explicados os meios técnico-táticos de grupo de defesa, desde a bas- culação ao contrabloqueio. Os textos foram redi- gidos pelo professor Juan J. Fernández Romero (Univ. A Corunha) e colaboradores, com aportes de Pablo J. Greco (UFMG), Siomara A. Silva (UFOP) e Fernando L. Greco (UFMG). Na parte V, o professor Juan J. Fernández Romero (Univ. A Corunha) e colaboradores apre- sentam os sistemas de jogo no handebol. Assim, o capítulo 14 e seus sub-itens referem-se aos siste- mas de ataque. Já no capítulo 15, explicam-se os sistemas defensivos individuais, zonais e mistos, com especial ênfase na evolução recomendada para o ensino da defesa, proposta defendida por autores como Klaus Feldmann, da escola alemã, e Pablo J. Greco, pesquisador na área dos jogos esportivos coletivos (pedagogia e metodologia de ensino). Apresenta-se também uma clara concei- tuação das vantagens e desvantagens de cada um dos sistemas defensivos zonais. Esses capítulos contam com o aporte no sistema defensivo 3:2:1 do professor Pablo J. Greco (UFMG), da Prof.ª Siomara Silva (UFOP) e do acadêmico Fernando L. Greco (UFMG). No capítulo 16, são expla- nados os conceitos relacionados com as fases de transição no jogo (contra-ataque e retorno defen- sivo), que são importantíssimas no handebol de alto nível de rendimento (autoria de Pablo J. Gre- co, Siomara A. Silva e Fernando L. Greco). A parte VI se inicia com o capítulo 17, de- senvolvido pelo professor Pablo J. Greco (UFMG) e pela prof.ª Siomara A. Silva (UFOP), com a colaboração do acadêmico Fernando L. Greco (UFMG), no qual se descreve a concepção peda- gógica do sistema de formação e treinamento es- portivo, que serve de orientação para a formação de jogadores e de praticantes da modalidade no Brasil. Assim, são tratados os aspectos inerentes ao sistema de formação e treinamento esportivo e a necessidade de sua concepção pedagógica, na visão das estruturas temporal-metodológica-subs- tantiva. O capítulo 18 apresenta uma síntese dos métodos de ensino do handebol para diferentes alternativas e ambientes pedagógicos. No capítulo 19, a prof.ª Siomara A. Silva (UFOP) trata dos jo- gos de iniciação e do aprendizado das regras e, no capítulo 20, os professores Claudia Nascimento, Philipe Matos e Antônio Lara Junior explanam sobre a estrutura do ensino de handebol de praia. A parte VII se inicia com o capítulo 21, no qual se descrevem os diferentes caminhos do pro- cesso de seleção de talentos. Esse importante tema foi pesquisado e escrito pelos professores Juan J. Fernández (Univ. A Corunha) e Randeantoni do Nascimento (UFS). No capítulo 22 é tratado um tema direcionado à análise de jogos e dos núme- ros que destes surgem para o planejamento do treinamento, aspectos pesquisados pelo Prof. Dr. Lucidio Rocha Santos (UFAM) em sua tese de doutorado, reunindo a informação de forma clara e consistente. A parte VIII começa com o capítulo 23, em que vários autores apresentam sua colaboração para explanar as diferentes formas de manifesta- ção da práxis do handebol. Neste capítulo se des- taca o texto “Valores, valoração e educação: uma necessidade na pratica do handebol”, do professor Dourivaldo Teixeira (UEM), que tem ampla ex- periência em projetos sociais e projetos de forma- ção de atletas relacionados com o handebol. No capítulo 24, o professor Francisco de Assis Faria (UFAL), ex-treinador das seleções femininas do Brasil por mais de uma década, apresenta sua con- tribuição relatando sua criação, o handebol mas- ter, o jogo para os ex-atletas de todos os níveis de rendimento, comentando sobre o regulamen-to do jogo. No capítulo 25, os professores Décio Callegari, José Irineu Gorla e Paulo Araújo rela- tam sobre a criação e a divulgação do handebol em cadeira de rodas, tema inclusive apresentado nas paraolimpíadas de Pequim e incluído no pro- grama dos jogos, sendo um aporte do handebol brasileiro para o contexto internacional. No capí- tulo 26 se apresentam os projetos mini-handebol e caça-talentos, oferecidos em todo Brasil pela CBHb com apoio de diferentes patrocinadores. Assim, o leitor poderá compreender e aplicar em seu cotidiano essas ações da CBHb. No capitulo 27, o professor Marcos Valentim traz sua criação, registrando os objetivos e regras do handebol na terceira idade. Fechando o bloco, o capítulo 28 trata sobre o handebol de areia, escrito pelos pro- fessores Claudia M. Nascimento, Alexandre Almeida e Clodoaldo Dechechi (ex-treinadores da seleção de Handebol Beach da CBHb). Muitos outros capítulos serão escritos, desta vez pelos leitores, aos quais fica o desafio de conti- nuar desenvolvendo cada vez mais esta modalidade. Desta forma, os autores desejam que a leitura seja agradável, que este livro seja fonte renovada de consulta e que muitas sugestões sejam enviadas à CBHb para incentivar a criação de uma nova coleção de textos direcionados à modalidade. Boa leitura, muito sucesso e bom trabalho! Sumário Parte I – Handebol: Sua história e evolução 13 1 Introdução 15 2 A gênese do handebol: primeiras aproximações 17 3 Memórias do handebol no Brasil: construindo uma história 19 4 Identificação, caracterização e classificação do jogo de handebol 27 Parte II – Perfil motor do atleta de handebol 47 5 Caracterização do perfil Físico-motor do atleta de handebol 49 6 Preparação física aplicada aos esportes coletivos: exemplo para o handebol 7 O treinamento da coordenação no handebol 73 Parte III – Técnica 89 8 Fundamentos técnico-táticos individuais comuns de ataque e defesa 91 9 Fundamentos técnico-táticos individuais no ataqueI 101 10 Fundamentos técnico-táticos 125 11 Fundamentos técnico-táticos do goleiro* 133 Parte IV – Tática 147 12 Meios técnico-taticos de grupo no ataque 149 13 Meios tecnicos táticos de grupo na defesa 165 14 Sistemas de jogo no ataque 175 15 Sistemas de jogo na defesa 187 16 Fases de transição 213 Parte VI – O sistema de formação e treinamento esportivo: por uma pedagogia da iniciação ao alto rendimento esportivo 219 17 O sistema de formação e treinamento esportivo no handebol brasileiro (SFTE-HB) 221 18 Métodos de ensino no handebol: do incidental ao intencional 237 19 O ensino das regras do handebol: da necessidade à compreensão 251 20 Proposta de um processo pedagógico de aprendizagem do handebol de areia 257 Parte VII – Parâmetros de análise de rendimento 267 21 A detecção do talento esportivo no handebol 269 22 Análise e observação de jogos no handebol: dos números ao treinamento 275 Parte VIII – As diferentes formas de manifestação do handebol 287 23 Valores, valoração e educação: uma necessidade na prática do handebol 289 24 Handebol master para ex-atletas: uma proposta de inclusão 309 25 Handebol em cadeira de rodas 317 26 Projeto mini-handebol e caça-talentos no Brasil 323 27 Handebol na terceira idade 327 28 O handebol de areia 337 Manual de handebol 13 Parte I Handebol: Sua história e evolução O esporte é considerado, hoje, como um dos fenômenos sociais mais importantes da hu- manidade. Sua presença na mídia, seja escrita, ra- dial, televisiva, internet etc. desperta o interesse e a curiosidade no mundo todo. Grandes eventos, como as Olimpíadas e Campeonatos Mundiais, atraem multidões. Os protagonistas nesses even- tos abrangem, além dos atletas e/ou equipes par- ticipantes (treinador, preparador físico, médico/ fisioterapeuta etc.), as confederações, federações, clubes, os espectadores, os voluntários e pessoas que trabalham na teia do esporte. Enfim, pessoas que se “vestem” de festa imbuídas do espírito do esporte. O esporte é indicado para todos os indi- víduos, independentemente de classe, condição física, crença ou religião. O esporte se constitui em fator de educação, ou, de acordo com as palavras de Bento,1 qualificação da cidadania e da vida (...) O esporte é pedagógico e edu- cativo quando proporciona oportu- nidades, coloca obstáculos, desafios e exigências para se experimentar, observando regras e lidando com os outros, quando fomenta a pro- cura do rendimento na competição e para isso se exercita, se treina e reserva-se um pedaço da vida. (...) Nas raízes do esporte – o fenômeno espor- tivo –, sua essência vincula-se à ética da humani- dade relacionando-se com a cultura, com a plura- lidade ideológica e religiosa, com a compreensão das variadas acepções das classes econômicas e so- ciais. O esporte tem, no entanto, particularmente para nós, professores, enorme potencialidade pe- dagógica. Sua prática oportuniza seu mais preza- do dom: as opções pedagógicas. Aproveitando as opções pedagógicas que se apresentam na prática ou em situações criadas pelo professor, o esporte desenvolve o conhecimento da pessoa em relação aos outros e permite que a pessoa se conheça. No esporte, a pessoa desenvolve suas capacidades, habilidades, competências. A práxis solicita com- portamento, atitudes, valores, ética, moral, ou seja, aspectos de personalidade que contribuem para formar o conceito de cidadania. Através da prática do esporte, a pessoa aprende a ser, a co- nhecer, a fazer, a conviver; em síntese, aprende-se a aprender para ser um cidadão ativo e compreen- der o seu destino. Introdução1 Pablo Juan Greco; Juan J. Fernandez Manual de handebol16 O esporte pode ser concebido, conforme Bento1,2,3 e também Gaya,4 como um fenômeno cultural, global, plurívoco e polissêmico. Cultu- ral, pois o esporte faz parte da cultura dos povos desde as mais antigas civilizações. O esporte fun- damenta-se pela e na cultura. Global, pois se en- contra nos mais distintos pontos do planeta. Os campeonatos de handebol são disputados em di- versos países, estando presente também nas Olim- píadas. É plurívoco, pois apresenta pluralidade de sentidos e é integrador, permitindo diferentes for- mas de recordação. É polissêmico, pois apresenta muitos significados para seus participantes, sejam estes ativos praticantes ou os mais distantes espec- tadores. O handebol se integra no conjunto das mo- dalidades esportivas coletivas, nos denominados esportes de invasão. No Brasil, é comum nas aulas de Educação Física. No esporte e, particularmen- te, no handebol, apresentam-se diferentes formas de expressão, isto é, diferentes níveis de rendi- mento – esporte escolar (de, para e na escola), reabilitação, saúde, lazer-recreação, rendimento, alto nível de rendimento e esporte profissional. O handebol é um dos esportes mais praticados nas escolas no Brasil. É jogado na praia, em cadeira de rodas, na terceira idade, no máster; logo, é um es- porte no qual todos os que o praticam encontram um grupo que tenha seus interesses e vocações. Esse é um dos fatores que fazem do handebol um dos esportes mais populares no Brasil. Pesquisas recentes apresentam dados irre- futáveis em relação à falta de atividade física das crianças e jovens nos dias de hoje, e prognosticam, também, as consequências no deterioramento de suas saúdes. A falta de movimento, de atividade esportiva, as pressões de tempo e o tipo de vida moderno indicam a necessidade de se pensar o esporte de forma global, reclamando flexibilida- de, inovação e variabilidade nas concepções me- todológicasvigentes. Nesse sentido, o handebol se apresenta como uma excelente alternativa, pois é um jogo simples, que reúne habilidades moto- ras simples como correr, saltar, lançar, passar. Sua prática possibilita a aproximação dos jovens à mo- dalidade, oportunizando sua inclusão social, sua aderência a programas de prática, sua identificação com grupos, pessoas, enfim, sua interação social, sua compreensão da cidadania plena. Sem dúvida, a incubação do “vírus” de jogar handebol é um desafio para professores e treinadores da modali- dade, bem como um caminho, uma opção para se vencer as dificuldades reconhecidas na sociedade contemporânea. Neste livro, espera-se contribuir com aqueles que gostam da modalidade para uma melhor qualidade de prática, para uma formação de jogadores de handebol, de cidadãos plenos e que sejam exemplos em nosso Brasil. O handebol é originário de diversos passa- tempos (jogos) dos séculos XIX e XX. Um des- tes tornou-se esporte no século XX, recebendo o nome de handebol de salão, designação que per- durou enquanto coexistiu com outro esporte de- nominado handebol de campo. Fortes indícios indicam que a Suécia foi o país “criador” do handebol (contemporâneo) em razão da semelhança das regras atuais com o jogo praticado na década de 1930 naquele país. Coro- nado e González6 afirmam que foi na Dinamarca, com a fundação da IHF em 1946 sob presidência do sueco Gösta Björk,1 que se aprovaram as regras do handebol. As informações a esse respeito, no entanto, contradizem as encontradas em Ferreira.7 Segundo Ferreira (p. 16),7 os primeiros campeonatos suecos de handebol ocorreram en- tre 1931 e 1932, com regras bastante similares ao handebol praticado atualmente, como a permis- são da posse de bola sem drible por, no máximo, cinco segundos; a existência de uma área circular medindo seis metros; sete jogadores por equipe; e a permissão do drible. Para ele, o handebol de salão surgiu antes do de campo, porém sua prática ficou limitada aos países escandinavos, com regras 1 Gösta Björk comandou a entidade de 1946 a 1950 e já havia sido presidente da Federação em 1939.9 próprias e que foram internacionalizadas e unifi- cadas no Congresso, as quais a Federação Interna- cional celebrou em 1934, em Estocolmo, inician- do, assim, o movimento internacional, único no handebol de salão.2,7 A Sociologia do Esporte tem como para- digma para a definição dos esportes modernos a institucionalização do jogo. Assim, para que um jogo se torne esporte, é necessária a criação de uma instituição responsável pela sua regulamen- tação, normatização, divulgação e supervisão da sua prática. Esse tipo de instituição é, em geral, denominado Federação Internacional (em âmbi- to mundial) e de Federação ou Confederação (em âmbito nacional). As principais características, segundo Dun- ning,8 dos denominados esportes modernos são: a diminuição da violência por parte dos jo- gadores e espectadores; o aumento do autocontrole; a forte regulamentação – regras escritas (delimitação do campo de jogo, número de jogadores, tempo de jogo). 2 Esta informação é a mais provável de ser correta (em contra- posição a Coronado e González)6 por ter havido um primeiro campeonato mundial de handebol masculino na Alemanha, em 1918. 2 Heloisa Helena Baldy dos Reis A gênese do handebol: primeiras aproximações Manual de handebol18 Todas essas características estão presentes no handebol em relação aos jogos que o antecederam. Handebol de salão foi o nome dado ao esporte pra- ticado em quadra (coberta/ginásio), que ficou até 1946 sob supervisão da International Handball Amauteur Federation (IHAF). Após esta data, esteve sob supervisão da recém-criada Internatio- nal Handball Federation (IHF).3 O handebol4 é o mais jovem dos esportes coletivos tradicionais. Em analogia à história do futebol,5 pode-se inferir que o handebol foi uma invenção sueca em virtude do pioneirismo da sua federação quanto à normatização e à organização do handebol. Outro indício que sustenta essa tese é a presença da Sué- cia na fundação da IHF e o fato de a primeira pre- sidência ter sido exercida pelo sueco Gösta Björk. Quase todos os esportes coletivos são ori- ginários de jogos que, em algum momento his- tórico, foram institucionalizados e, portanto, receberam o nome de esportes. Isso significa que passaram a ter instituições responsáveis pela sua regularização, normatização, divulgação e su- pervisão de prática. Essas instituições são geral- mente denominadas federações internacionais no âmbito mundial e federações ou confederações no âmbito nacional. 3 Fundada em 12 de abril em 1946 em Copenhague (Dinamar- ca) para reger os dois esportes (handebol de salão e de campo), onde permaneceu até 1956, quando sua sede foi transferida para Basileia (Suíça). Ambos eram, anteriormente, de respon- sabilidade da Federación International de Balonmano Amateur (FIHA).6,8 4 Denominação que prevaleceu após o término (a partir de 1976) das competições internacionais de handebol de campo. 5 A Sociologia do Esporte atribui a origem do futebol como um esporte moderno a partir da fundação, na Inglaterra, da Football Association em 1863, entidade pioneira na publicação das regras do futebol. O primeiro campeonato mundial de hande- bol ocorreu na Alemanha em 19386 apenas para a categoria masculina e teve a anfitriã como cam- peã7 (Coronado e González,6 p. 23). O primeiro mundial na categoria feminina foi realizado em 1957,8 apenas 19 anos depois da masculina, na Iugoslávia, sagrando-se campeã a seleção da Tchecoslováquia (Coronato e Gonzá- lez, p. 23).6 A organização técnica do desenvolvimento da competição de handebol9 nos Jogos Olímpi- cos é de responsabilidade da IHF. O handebol foi introduzido nos Jogos Olímpicos de Muni- que em 1972 apenas na categoria masculina. Em seguida, nos Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976, foi introduzida, também, a categoria feminina. Entende-se que, atualmente, a definição do país criador do handebol não seja de interesse po- lítico da entidade internacional, porém é dever dos estudiosos do esporte e, particularmente, de historiadores e sociólogos esportivos pesquisarem e apontarem caminhos para a compreensão da gê- nese dos esportes modernos. 6 O último campeonato de handebol de campo masculino foi em 1966. 7 Este foi organizado pela IHFA, já que a IHF foi fundada ape- nas em 1946. Por isso, são necessários mais estudos para cotejar a informação de Coronado e González sobre a normatização do handebol apenas pela IHF em 1946. 8 O último campeonato de handebol de campo feminino foi realizado em 1960. 9 Estamos nos referindo ao handebol jogado em ginásio por sete jogadores titulares, pois o jogo praticado em campo (por onze jogadores) foi introduzido nos Jogos Olímpicos de Ber- lim, em 1936. Memórias do handebol no Brasil: construindo uma história3 Heloisa Helena Baldy dos Reis O handebol é um jogo relativamente jovem se comparado a outros esportes coletivos tradicio- nais, e sua prática no Brasil é recente. Essa pesqui- sa comprovou que foi trazido ao Brasil por Au- guste Listello em 1952, ano em que o professor francês lecionou para a APEF-SP (Associação dos Professores de Educação Física) na cidade de San- tos, em São Paulo.I O esporte se disseminou pelo país predo- minantemente por meio de seu ensino nas es- colas. Esse esporte despertou nos adolescentes uma grande atração e interesse, fazendo que fos- se incluído como uma modalidade esportiva no III Jogos Estudantis Brasileiros (JEBs), realiza- do,em 1971, em Belo Horizonte. A partir desse ano, os JEBs tornaram-se o principal propagador do handebol.II Em 1975, um grupo de 19 professores brasi- leirosIII foi enviado para um curso técnico de han- I O curso de aperfeiçoamento técnico-pedagógico foi sobre o ensino dos esportes coletivo, e o professor Listello utilizou o handebol como modelo. II Sob a coordenação do professor José Maria Teixeira (do remo), que, posteriormente, se tornou o segundo presidente da CBHb. Um dos responsáveis pela inclusão do handebol nos referidos jogos foi Ari Façanha de Sá, juntamente com três mineiros que foram os responsáveis técnicos.9 III Os integrantes do grupo eram: Otávio Catanete Fanali (AM); Sérgio Guimarães da Costa Flórido (PE); Oliveiro Gomes da Silva (RN); Antônio Luiz Cabral (PB); Wilson de Matos (RJ); William Felippe (RJ); Athaíde Lacerda (MG); Wilson Bonfim (MG); Arcílio Tavares (SP); Waldir de Castro Gomes Ribeiro – SP (Indicado por Darcymires do Rêgo Barros no momento da digitação da lista por Ary Façanha de Sá, no RJ); Roberto de debol na Romênia. Esse grupo foi apontado pelos especialistas entrevistados como o impulsionador da qualidade técnica do handebol brasileiro.IV A seleção brasileira juvenil excursionou com os pro- fessores como equipe de aplicação.V Os campeonatos brasileiros adultos de han- debol iniciaram-se com a categoria de handebol masculino em 1974. Em 1978, ocorreu o primei- ro campeonato de handebol feminino, enquan- to os campeonatos nacionais de outros esportes coletivos tradicionais iniciaram-se em 1905, com o futebol masculino. Em 2007, inicia-se o campe- onato de futebol feminino (Copa do Brasil); em 1925, basquetebol masculino; em 1940, o cam- peonato de basquetebol feminino; e, em 1944, iniciam-se os campeonatos de voleibol masculino e feminino. O I Torneio Aberto de Handebol foi realizado pela Federação Paulista de Handebol, em 1954. Lima Rosa (SP); Santo Baldacin (SP); Mauro Rodinski (PR); Nivaldo (o padre); Luiz Celso Giacomini (RS); José Maria Tei- xeira (AL – 2º Pres. da CBHb e 1º Pres. da Federação de Han- debol do Estado do Rio de Janeiro, fundada em 1978); Manoel Luiz – SE (atual presidente da CBHb); Homero José Alcântara Ribeiro (SE). IV Ary Façanha de Sá foi o idealizador da viagem e o responsável pela elaboração da lista dos integrantes da comitiva. V Minas Gerais: Ricardo Avelino Trade – Baka, Carlos Eustaquio Brum da Silveira – Jamanta, Guilherme Angelo Raso – Toco, Gilberto – Boi; São Paulo: Luiz – Luizinho, Manoel – Mane- zinho, Paulo – Paulinho, Roni; Rio de Janeiro: Sergio – Sergi- nho; Paraiba: Denilson Bonates Galvão; Paraná: Kusmam, Julio, Eniel Carazzai – Peninha; Rio Grande do Sul: Luis Osório – Li- gadão, Otto; Maranhão: Gilson – Gilsinho; Amazonas: Bosco. Manual de handebol20 O handebol foi institucionalizado no Bra- sil em âmbito nacional em 1979, com a criação, em 11 de junho, da Confederação Brasileira de Handebol (CBHb). Seu 1º presidente foi Jamil André,VI eleito em assembleia em 22 de agosto de 1979, fixando sua primeira sede na cidade de São Paulo. Antes da fundação da CBHb, o handebol era organizado em âmbito nacional pelo Conse- lho Técnico de Assessores para o Handebol, da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), conselho presidido pelo professor Jamil André e do qual fazia parte o professor Eurípedes Mattos Carmo e, mais tarde, os professores Darcymires do Rêgo Barros e Pedro Moraes Sobrinho (Silva).9 Atualmente, o handebol no Brasil é de res- ponsabilidade da Confederação Brasileira de Han- debol (CBHb), com sede em Aracaju. Em outros Estados, o handebol é organizado pelas federações estaduais (totalizando 27), e, em algumas cidades ou regiões, existem Ligas de handebol. As memórias do handebol nos Estados e no Brasil começou a ser elaborada por mim como um projeto de pesquisa na Unicamp em 2005. Em 2007, a CBHb manifestou o interesse em recons- truir o caminho percorrido pelo esporte no país durante o V Encontro Nacional de Professores de Handebol das Instituições de Ensino Superior Brasileiras,VII em Florianópolis. Nessa ocasião, tive a incumbência de sistematizar os dados coletados pelos outros colegas em seus Estados, o que possi- bilitou o resgate de alguns fatos importantes para a compreensão da expansão do handebol no Brasil. VI Professor da Escola de Educação Física e Esporte da Universi- dade de São Paulo – EEFE/USP. VII Evento promovido anualmente pela CBHb a partir de 2002. Todas as evidências apontam São Paulo como o Estado pioneiro no handebol, denomi- nado, à época, de handebol de salão, a partir da exposição feita pelo professor francês Auguste Listello no curso de aperfeiçoamento técnico-pe- dagógico promovido pela APEF-SP em 1952, na cidade de Santos. A Federação Paulista de Hande- bol (FPHb) havia sido criada em 1940 para gerir apenas o handebol de campoVIII e, já em 1954, antes mesmo da fundação da CBHb, já organiza- va o primeiro torneio de handebol (de salão). Em virtude da inexistência de uma federação nacional e do interesse da FPHb, o Brasil filiou-se à Inter- national Handball Federation (IHF) em 1954, por meio da FPHb. O handebol foi incluído como disciplina no curso da Escola de Educação Física do Estado de São Paulo – USP por volta de 1959.IX O Estado também foi pioneiro no ofereci- mento da disciplina para alunos do curso de for- mação de professores de Educação Física. No Estado de São Paulo, considera- se que um dos principais impulsionadores do handebol foi o Trófeu Bandeirantes de Handebol,X criado em 1973.7 Segundo Silva,9 em 1954, os professores Eu- rípedes Mattos Carmo (que iniciou o ensino em VIII Esporte praticado em campo por 11 jogadores em cada equipe. IX Informação prestada pelo ex-aluno e ex-professor da EEFE/ USP, professor Antônio Boaventura da Silva, em entrevista a Sil- va, 1995. Antes da criação da cadeira de handebol, a modalidade era ensinada na disciplina de Educação Física Geral desde 1951.9 Inicialmente, a disciplina foi oferecida apenas para homens; para mulheres, a inclusão ocorreu apenas alguns anos depois. (Infor- mação prestada pelo ex-aluno e professor aposentado da EEFE/ USP Emedio Bonjardim). X O I Trófeu Bandeirantes de Handebol foi disputado em São José do Rio Preto. Segundo Ferreira,7 a competição foi criada para incentivar a prática da modalidade no interior do estado. MeMórIas do handebol no brasIl 21 Campo Grande, RJ), Cássio Rothier do Amaral e Enéas da Silva (Niterói – Centro Educacional) participaram de um curso em Santos. Estes foram os divulgadores do handebol nas escolas em que lecionavam no Estado do Rio de Janeiro. Em 1966, o handebol foi incluído como modalidade no I Campeonato Intercolegial do Estado da Guanabara (denominação do atual Es- tado do Rio de Janeiro até 1976), o que estimulou os professores a procurarem cursos de handebol. Porém, o primeiro curso oficial de handebol no Estado foi em 1967, ministrado por Darcymi- res do Rêgo Barros (especialista em ginástica) e Eurípedes Mattos Carmo, que já lecionavam handebol como conteúdo de outros cursos no Departamento de Educação Física do Ministério da Educação e Cultura DEF/MEC.9 No ano de 1972, o handebol foi incluído como disciplina na grade curricular da Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Ja- neiro EEFD/UFRJ. A Federação de Handebol do Estado do Rio de Janeiro foi fundada apenas em 1978. Em 1981, o Rio de Janeiro recebeu o professor alemão Horst Käsler para ministrar um curso.XI Em 23 de setembro de 1960, no Maranhão, os professores Luiz Gonzaga Braga e José Rosa da Escola TécnicaFederal do Maranhão (ETFM, hoje denominada de CEFET) promoveram um jogo para demonstração de handebol no aniver- sário da escola. Porém, credita-se a Antonio Maria Za- charias Bezerra de Araújo, conhecido como XI Autor do livro Handebol, publicado pela editora Ao Livro Técnico. professor Dimas, a introdução do handebol no Maranhão após este assistir à modalida- de no JEBs de 1971, em BH, e ter levado bolas doadas por Ary Façanha de Sá para o Maranhão. O desenvolvimento no Maranhão também é atribuído ao professor Dimas e ao professor Laércio Elias Pereira, paulista de São Caetano do Sul que se radicou naquele Estado no ano de 1973.XII Tem-se notícia de que, em 1967, em Pal- meira dos Índios (AL), o professor Luiz Freire e a pedagoga e diretora de escola (Colégio Cristo Redentor), irmã Marcelina Dantas, promoveram o handebol. Em Maceió, o handebol foi praticado em 1968 nas escolas em que lecionavam os pro- fessores Belmiro Alves (Colégio Sagrada Família) e Josefa Alves (Colégio Bom Conselho). Foi pela coordenação do professor alagoano José Maria Teixeira que o handebol foi incluído no JEBs realizado na cidade de Belo Horizonte em 1971. No ano seguinte, a cidade de Maceió foi sede do 4º JEBs. Porém, apenas em 25 de mar- ço de 1980 foi criada a Federação Alagoana de Handebol. No Estado do Piauí, os registros apontam que, entre os dias 15 de fevereiro e 5 de março de 1970, realizou-se em Teresina o primeiro cur- so de avaliação básica em handebol. O primeiro jogo realizou-se em 15 de maio de 1970 entre duas equipes do Colégio Helvídio Nunes, que tinham como treinadores os professores Antônio Sarmento de Araújo Costa e o professor Péricles Freitas Avelino. XII Formado pela EEFE/USP em 1970 e preparador físico da seleção brasileira comandada por seu ex- professor, Jamil André. Manual de handebol22 Em julho de 1971, o professor Péricles Frei- tas Avelino ministrou o primeiro Curso Básico de Educação Física em Handebol para professores da capital e do interior do Piauí. Esse curso foi promovido pela Inspetoria Seccional de Educação Física do Piauí, em convênio com a Secretaria de Educação e Cultura. A primeira participação do Piauí em JEBs foi em 1972 em Maceió, e teve como técnicos os professores Péricles Freitas Avelino (masculino) e Jovita Maria Ayres Lima Cavalcante (feminina). Em 21 de novembro 1980, foi criada a Federação de Handebol do Estado do Piauí. O handebol em Santa Catarina foi implan- tado na década de 1970 na área de Florianópolis, e, no 1º semestre de 1971, realizou-se o 1º cam- peonato regional escolar. A Federação Catarinen- se de handebol foi criada em 27 de setembro de 1974. O Brasil começou a participar de competi- ções internacionais em 1958 (na República De- mocrática Alemã) no 3º Campeonato Mundial (iniciado em 1938). A seleção convocada para era formada apenas por jogadores paulistas.XIII Em 1966, por iniciativa do Conselho Técnico de As- sessores para o handebol da CBD, deu-se a 1ª par- ticipação brasileira nos III Jogos Luso-Brasileiros em Angola (Silva).9 Em 1970, o Brasil participou pela primeira vez da III Taça Latina realizada em Portugal (Ferreira).7 Em 1992, a seleção brasileira masculina par- ticipou pela primeira vez dos Jogos Olímpicos em XIII Provavelmente porque quem representava o Brasil no âmbito internacional era a FPBh. Barcelona, conseguindo a 11ª colocação; a estreia da seleção brasileira de handebol feminina em Olimpí- adas se deu apenas no ano de 2000, nos Jogos Olím- picos de Sidney, classificando-se em 8o lugar. Os principais resultados obtidos pela seleção adulta masculina brasileira em certames interna- cionais foram: vice-campeão masculino, em 1981, da Taça Latina e do Campeonato Sul-Americano; terceiro colocado nos jogos Pan-Americanos, em 1987; segundo colocado em 2002; campeão sul- americano em 2000, 2001 e 2003; e primeiro co- locado nos Jogos pan-americanos de 2000, 2001, 2003, 2006 e 2008. Os principais resultados obtidos pelo Brasil em certames internacionais na categoria adulta fe- minina foram: campeão pan-americano em 1997, 1999, 2000, 2003, 2005 e 2007; e campeão sul- americano em 1998. Os melhores resultados de ambas as seleções nacionais em Jogos Olímpicos foram em Atenas, em 2004, quando a equipe masculina conquistou a 10ª colocação, e a seleção feminina, a 7ª colocação. Os resultados dos Jogos Olímpicos têm servido para impulsionar o handebol no Bra- sil. A partir do ano 2000, as TVs ESPN Brasil e SPORTV têm dado apoio ao handebol trans- mitindo jogos, e, mais recentemente, também a Bandeirantes, fato que consideramos fundamen- tal para o incentivo e crescimento no número de praticantes do handebol. Em julho de 2005, pela primeira vez, um jogo de handebol foi transmiti- do pela Rede Globo em cadeia nacional, porém a emissora exigiu que o tempo de jogo fosse re- duzido para 20 minutos. A CBHb e a Petrobrás, MeMórIas do handebol no brasIl 23 principal patrocinadora do handebol nacional e do evento, aceitaram essa exigência, o que rendeu ao esporte, ainda, uma participação de destaque no Jornal Nacional, com a inclusão de uma en- trevista com um atleta. Essas informações são im- portantes, porque registram acontecimentos mar- cantes do handebol nacional. Essas transmissões contribuem para que, em um futuro próximo, o handebol receba a mesma atenção da mídia que os outros esportes coletivos de quadra. Isso, em nosso modo de ver, contribuirá para a populariza- ção da sua prática. Esses registros datados são interessantes para comprovar o pouco tempo de prática desse esporte no Brasil, em relação a outros esportes coletivos. 3.1 História do handebol de praia no Brasil Arline Pinto Ribeiro; Cláudia Monteiro do Nascimento O handebol de areia (beach handball) teve origem no início da década de 1990, na Itália, com adaptações de regras do handebol de quadra, visando tornar o jogo na areia mais dinâmico. Po- rém, essas regras não foram publicadas oficialmen- te. Já em 1992, as primeiras partidas e torneios foram disputados também na Itália, obedecendo a essas regras não oficiais. Entretanto, no mesmo ano, esse jogo também era praticado nas praias francesas, sob a denominação de Sandball, e, na Holanda, como handball on the beach. Em janei- ro de 1994 ocorre, na Faculdade de Ciência do Desporto e Educação Física do Porto (FADEUP), um encontro para refletir sobre as regras do beach handball. Nesse evento, estavam presentes os pro- fessores Antônio Luiz “Lula” Cabral, então técni- co do Estado da Paraíba, e o Prof. Almir Liberato da Silva (UFAM), que cursava doutorado naquela instituição. Em setembro do mesmo ano, ocorre o XXV Congresso da Federação Internacional de Handebol (IHF), em Noordwijik, Holanda, com a apresentação do handebol de areia para os par- ticipantes de todo o mundo, e foi realizada uma partida de demonstração entre Holanda e Itália (Ribeiro e Ribeiro).10 O presidente da Confederação Brasileira de Handebol (CBHb), o professor Manoel Luiz Oliveira, participou do XXV Congresso da IHF e interessou-se pela modalidade e angariou recur- sos junto ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB) para, em 1995, no Brasil, realizar o I Torneio In- ternacional de Handebol de Areia entre seleções masculinas, com a participação de Brasil (cam- peão), Argentina, Itália e Portugal (Ribeiro e Ri- beiro).10 No mesmo ano, uma resolução do Con- selho da IHF adota oficialmente o handebol de areia. As primeiras regras oficiais foram apresen- tadas em 1996, no XXVIICongresso da IHF, em Hilton Head, Estados Unidos, e divulgadas em uma publicação da IHF (Beach Handball – Rules of the Game). Em 2001, o Handebol de Areia foi incluído no “World Games” de Akita, Japão, com- petição organizada pelo Comitê Olímpico Inter- nacional (COI). Os campeões foram a Bielorrús- sia, no masculino, e a Ucrânia, no feminino. O Manual de handebol24 primeiro Campeonato Mundial de Handebol de Areia, organizado pela IHF, foi realizado no Egi- to, em 2004, sendo vencido por Egito e Rússia, no masculino e no feminino, respectivamente. No handebol de areia, os Campeonatos do Mundo adulto são realizados a cada dois anos, e as competições para homens e mulheres acontecem no mesmo local e data, simultaneamente. A Cro- ácia é a atual campeã mundial tanto no masculino como no feminino, em 2008. O mesmo destaque teve o Brasil quando conquistou títulos mundiais nos dois naipes em 2006 (Quadro 3.1). Quadro 3.1 – Os campeões mundiais de hande- bol de areia (IHF) Ano País Campeão Masculino Feminino 2004 Egito Egito Rússia 2006 Brasil Brasil Brasil 2008 Espanha Croácia Croácia O handebol de areia não é esporte olímpi- co, porém já fez parte das três últimas edições do “World Games” (2001, 2005 e 2009), competição organizada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI). Em Duisburg, Alemanha, a Rússia con- quistou, em 2005, a medalha de ouro no mascu- lino e o Brasil, no feminino. 3.1.1 O Handebol de Areia no Brasil O handebol era jogado nas praias brasi- leiras desde a década de 1980, nos Estados da Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro e Espírito Santo. No en- tanto, tratava-se de um jogo com as mesmas re- gras da quadra. Porém, oficialmente, o hande- bol de areia tem início com sua introdução no Festival Olímpico de Verão, em 1995 (Ribeiro e Ribeiro).10 Nessa competição, surgiu a primei- ra Seleção Brasileira, comandada pelo professor Leoni Nascimento, que venceu o então Torneio Internacional de Handebol de Praia. De 10 a 15 de setembro de 1996, na Praia do Forte, Rio de Janeiro, foi realizado o I Cam- peonato Brasileiro de Handebol de Areia, dispu- tado entre seleções estaduais masculinas, tendo como campeão o Paraná. Em dezembro do mes- mo ano, foi disputada a primeira edição dessa competição para mulheres, e o Estado campeão foi o Rio de Janeiro. Em 2001, o Brasil participou da estreia do handebol de areia no “World Games”, em Akita, Japão, e ficou com a medalha de bronze tanto no masculino quanto no feminino. Em 2005, em Duisburg, Alemanha, o Brasil ficou em 9º colocado no masculino e conquistou a medalha de ouro no feminino. Em 2009, na cidade de Kaohsiung, China, a equipe masculina do Bra- sil sagrou-se campeã desse torneio pela primeira vez, enquanto a equipe feminina ficou em ter- ceiro lugar (Quadro 3.2). Assim, o Brasil figura como uma potência mundial, pois foi a única equipe a conquistar títulos nas duas competi- ções mais importantes da modalidade. MeMórIas do handebol no brasIl 25 Quadro 3.2 – O handebol de areia nos “World Games” (COI) Ano Cidade – País Medalha de Ouro Masculino Feminino 2001 Akita – Japão Bielorrússia Ucrânia 2005 Duisburg – Alemanha Rússia Brasil 2009 Kaohsiung – China Brasil Itália No I Campeonato Mundial de Handebol de Areia no Egito, em 2004, o Brasil esteve presen- te com as seleções masculina e feminina, ficando com a 9ª e a 6ª colocação, respectivamente. Em 2006, jogando em casa, o Brasil sagrou-se cam- peão no masculino e no feminino. Na edição de 2008, na Espanha, o masculino foi vice-campeão e o feminino ficou em 3º lugar. O handebol de areia é uma modalidade nova, porém conquistou muitos adeptos ao redor do mundo pela dinâmica apresentada pelo jogo. Tal dinâmica é possibilitada pelas suas regras, que foram cuidadosamente discutidas e desenvolvidas ao longo do tempo por seus praticantes organi- zadores. Apesar do pouco investimento, o Brasil, assim como em outros esportes de praia, é con- siderado potência mundial e vem se mantendo, desde as primeiras competições, entre os primei- ros colocados nos mais importantes eventos inter- nacionais. O caráter lúdico e criativo valorizado pelas regras do handebol de areia faz dela uma moda- lidade cada vez mais atrativa e praticada ao redor do mundo. Basta pensar no handebol de areia não apenas como uma modalidade competitiva, mas como uma possibilidade de lazer, recreação e saú- de, que pode ser praticado na praia, na areia, na escola, na praça, no gramado de casa etc. Identificação, caracterização e classificação do jogo de handebol4 Pablo Juan Greco, Siomara A. Silva, Fernando Lucas Greco Uma compreensão ampla do fenômeno es- porte inicia-se com a consideração das caracterís- ticas da modalidade. Assim, observam-se espor- tes individuais, de conjunto, de rede, de parede, de invasão, em espaço específico, de rebatida, de campo, de sala etc. Segundo Guia, Ferreira e Pei- xoto11, um jogo esportivo coletivo “apresenta um conjunto de indivíduos em interação mútua, com relações e interrelações coerentes e consequentes, com objetivos convencionados e funções especí- ficas definidas”. O handebol se encaixa nessas ca- racterísticas, apresentando elementos comuns às outras modalidades esportivas coletivas: um ter- reno de jogo, onde se desenvolvem ações individu- ais, em grupo e coletivas direcionadas a uma meta, que deve ser atacada ou defendida pelos compa- nheiros de equipe. Um objeto de jogo a bola, que é movimentada com as mãos pelos integrantes da equipe, que cooperam buscando alcançar os obje- tivos do jogo: fazer o gol, o que lhes que solicita a superação das ações de oposição dos adversários, considerando as regras do jogo (Bayer; Gargan- ta).12,13 A movimentação pelo terreno de jogo ocorre de forma particular, nas denominadas fases ou ciclo do jogo (uma alternância do poder no jogo: quem está com a bola ataca e procura fazer o gol) na busca pela vitória. Essas fases do jogo, de- finidas pela posse ou não da bola, estão relaciona- das e inseparavelmente ligadas, assim como a atu- ação dos jogadores/equipes. Dessa forma, quando a posse de bola muda de um time para outro, os jogadores trocam imediatamente de função, pas- sando de atacantes a defensores e vice-versa. Em uma partida de handebol, o comporta- mento dos atletas se fundamenta nos princípios do jogo, que podem ser conforme a fase ofensi- va: conservar a posse de bola, progredir até o alvo e, por último, buscar a finalização; e defensiva: recuperar a posse da bola, evitar a progressão do adversário e evitar a finalização do adversário (Moreno).15 O handebol apresenta outras carac- terísticas específicas, por meio de uma estrutura organizacional conhecida pelos jogadores a partir das regras do jogo que expõem o que é ou não permitido. Os conteúdos e ações (individuais ou coletivas) acontecem em um contexto de elevada variabilidade, imprevisibilidade e aleatoriedade, o que dificulta sua antecipação dos fatos e, parale- lamente, exige dos atletas uma permanente atitu- de tático-estratégica (Garganta).13,14,16 Em termos práticos, essa atitude pode ser representada na so- licitação de respostas variadas, velozes, precisas e complexas, realizadas, muitas vezes, sob uma ele- vada pressão de tempo (Greco).17 Por esse motivo, Manual de handebol28 é de suma importância que, nos processos de ensi- no-aprendizagem-treinamento (EAT), as ações dos jogadores sejam orientadas para resoluções velozes e adequadas de situações de jogo, quese apresentam ininterruptamente. Essas situações exigem compor- tamento tático flexível, variado repertório motor, com diversas soluções técnicas, entre os quais os atle- tas devem escolher, no menor tempo possível, a so- lução que considerar mais adequada. Essas escolhas são efetuadas por meio do desenvolvimento dos pro- cessos cognitivos subjacentes à tomada de decisão, que estão intimamente ligados à capacidade tática que o atleta detém. No jogo, as decisões dos joga- dores são velozes, parecem intuitivos, pois o tempo para “pensar” é muito escasso. Para se conseguir essa forma de ação, é necessário um adequado processo de EAT, de forma a automatizar a descoberta dos sinais relevantes para a situação e, assim, decidir de forma intuitiva, ou seja, antecipando o resultado. Graça e Oliveira18 sugerem que, para me- lhor compreensão de uma modalidade, seja tra- çado seu perfil, observando o conjunto de cate- gorias que determinam, a posteriori, a possível forma de classificação/divisão da modalidade no marco dos jogos esportivos coletivos. Essas categorias e sua classificação se relacionam e dependem muito dos espaços de que o jogador dis- põe no terreno de jogo, que, no caso do handebol, representam 57 m2 por jogador para desenvolver suas ações, totalizando 800 m2 do campo de jogo. Outra consideração surge dos conteúdos que se apresentam nos planos regulamentares, energéti- cos, técnicos e táticos constitutivos de uma modali- dade, conforme descritos no Quadro 4.2, a seguir. Quadro 4.1 – Relação de categorias e formas de classificação da modalidade (Graça e Oliveira)18 Categorias Classificação Handebol Fontes energéticas Aeróbico, anaeró- bico, misto Aeróbico, anaeró- bico, misto Ocupação do espaço De invasão, de não invasão. De invasão Disputa de bola De disputa direta, de disputa indireta De disputa direta Trajetórias predo- minantes De troca de bola, de circulação de bola De circulação de bola Quadro 4.2 – Síntese das características do han- debol (com base em Graça e Oliveira)18 Plano Características Regula- mentar O espaço disponível por jogador é de 80 m2, com restrição (área do goleiro) O regulamento prevê existência de faltas acu- mulativas, individuais e por equipe Descontos de tempo e um número ilimitado de substituições de jogadores Tempo de jogo contínuo (cronometrado) Energético Esforço de natureza intermitente e aleatória Mudanças de direção e sentido muito frequentes Número ilimitado de substituições, permitin- do a recuperação dos atletas e possibilitando a manutenção ou aumento do ritmo do jogo conforme necessidade tática Técnico Elevada velocidade de execução de gestos técnicos Controle da bola com a mão Elevado número de contatos com a bola por jogador, assim como de situações de finaliza- ção em uma partida Tático Utilização do goleiro como um elemento in- tegrante do processo ofensivo Rápida alternância entre as situações de ata- que e defesa Crescente exigência de jogadores polivalentes, com uma elevada capacidade e rapidez de decisão IdentIfIcação, caracterIzação e classIfIcação do jogo de handebol 29 Nessas categorias, ainda se inter-relacionam um conjunto de parâmetros: situação, objetivo, características, formas de comportamento tático, características e tipo de ações individuais, grupais e coletivas, que compõe o marco de perspectivas das decisões (táticas) e perspectiva de comunica- ção entre os jogadores (técnica). Considerando essas características do jogo, pode-se tomar, inicialmente, como refe- rência para classificar o handebol no conjunto dos esportes a proposta de Parlebas,19 comple- mentada com os estudos realizados por More- no,15 incluindo dois importantes elementos na compreensão do handebol: um com relação à forma com que os participantes utilizam o es- paço e outro com relação à participação dos jo- gadores. Dessa forma, é possível diferenciar o grupo dos jogos esportivos coletivos nos quais se joga em um espaço padronizado (separado/ comum) com participação (simultânea/alter- nada) (vide Figura 4.1). Para Moreno,15 os es- portes de cooperação/oposição são aqueles nos quais a ação de jogo é produto das interações entre os participantes, realizadas de maneira que uma equipe coopere entre si para se opor a outra que atua também em cooperação e que, por sua vez, se opõe à anterior. Segundo esse autor, o handebol se insere no grupo dos jogos esportivos coletivos ou esportes de equipe de cooperação/oposição em que os jogadores de- senvolvem suas ações em um espaço comum. FIgura 4.1 – Classificação dos esportes de cooperação/ oposição, segundo Moreno.15 É necessário, além disso, fazer constar a esse respeito o estudo de Favre,20 que demonstra que, em todos os jogos esportivos, existe uma constan- te entre: intensidade da carga autorizada pelo regu- lamento (pelas regras); possibilidade de progredir com a bola se- gundo o regulamento (as regras). A possibilidade de carga e seu “grau de vio- lência” foi proposta pela primeira vez por Parle- bas19 em uma análise, na qual se faz referência ao espaço que cada jogador comporta com os outros, depois de uma correlação de distintas variáveis e de seu tratamento estatístico com ajuda do índice de Kendall. Assim, parece que: Espaço Separado Squash Voleibol/Tênis Badminton HANDEBOL BB/FB/FS Hockey Comum Simultânea Alternada Participação CAM Companheiro - Adversário - Meio Ambiente Manual de handebol30 quanto mais espaço dispõe o jogador, mais violenta é a carga; quanto mais próxima a carga, mais violenta é; quanto mais próxima a carga e, portanto, mais violenta, mais fácil é controlar tecni- camente a bola (Parlebas).19 Sendo assim, apresentamos, a seguir, as ca- racterísticas das principais modalidades esportivas de acordo com as considerações realizadas por Parlebas (Quadro 4.3).19 Quadro 4.3 – Características dos jogos esporti- vos coletivos de acordo com a carga permitida e o transporte da bola (adaptado de Bayer, p. 52).12 Modalidade Tipo de carga Possibilidade de pro- gressão Voleibol Não há carga Não existe progressão com a bola. Basquetebol Pequena carga Progressão com a bola delicada. Handebol Carga mais forte (severa) Progressão com a bola mais fácil. Futebol Carga viril Progressão com a bola de forma livre, mas com esta sempre junto ao pé. Rúgbi Carga máxima Progressão com a bola de forma livre, sendo que esta pode ser elevada. A lógica do jogo de handebol é semelhan- te aos jogos esportivos coletivos de invasão/ oposição simultânea. Conforme Bayer,12 (p. 53) caracteriza-se pela progressão do ataque e a oposição defensiva. Quadro 4.4 – Características do ataque e defesa nos jogos esportivos coletivos de invasão (adapta- do de Bayer, p. 53).12 Ataque Defesa Conservação da bola Recuperação da bola Progressão dos jogadores e da bola para a meta adversária. Impedir a progressão dos joga- dores e da bola até meu gol. Atacar à meta contrária, ou seja, marcar um ponto. Proteger a meta ou o campo. A participação para a obtenção da posse de bola é simultânea, ou seja, as duas equipes podem atuar simultaneamente pela posse sem esperar a ação final do adversário. A partir do momento em que uma das equipes tem o controle da bola, tem-se em vista atingir o objetivo final do jogo (marcar ponto). Caso não tenha a posse da bola, objetiva-se recuperar seu controle, tirando-a da outra equipe e, dessa forma, marcar o ponto. Apartir dessa concepção do jogo, pode ser consi- derado o ciclo do jogo nas duas fases de ataque e defesa e seus respectivos conteúdos (Figura 4.2). Considerando os procedimentos de ataque e defesa com ou sem pose de bola, as ações dos jogadores podem ser agrupadas em ações táticas individuais, de grupo ou de conjunto, como pode ser observado na Figura 4.3. IdentIfIcação, caracterIzação e classIfIcação do jogo de handebol 31 fIgura 4.3 – Integração de ações como elemento de formação da equipe e sua relação com os sistemas de jogo (Greco).21 Sequencia do jogo no Handebol Equipe em posse da bola Equipe sem posse da bola Defesa Ataque Objetivo Objetivo Gol Evitar Fazer Meios técnico-táticos Meios técnico-táticos Individual Grupal Coletivo Individual Grupal Coletivo Jogador Tática Individual Tática Individual Tática Individual Jogador+Jogador Sistema de Jogo Ofensivo Defensivo Organização Distribuição de Responsabilidades Jogador+Jogador+Jogador Equipe Por sua vez, deve-se observar que o jogo de handebol se desenvolve conforme princípios tá- ticos gerais que as equipes apresentam dentro do terreno de jogo, que estão descritos na Figura 4.4 (segundo Bayer, p. 144):12 FIgura 4.2 – A sequência do jogo nos jogos esportivos coletivos (Greco).21 Manual de handebol32 na interação ataque-defesa, na qual se apoia a estrutura funcional que destaca a relação espa- ço-temporal, relações entre colegas, adversários e bola, e as regras, limitando e condicionando essa interação. A lógica funcional dos jogos esportivos (García)22 mostra as relações entre os sistemas de jogo, os meios táticos para alcançá-los, as inten- ções dos atletas, que são subordinadas aos prin- cípios do jogo e estes, por sua vez, determinados com base nas regras do esporte em seus objetivos. fIgura 4.4 – Interações do jogo de handebol (Bayer, p. 144).12 4.1 Características do jogo de handebol Pablo Juan Greco, Siomara A. Silva, Fernando Lucas Greco O handebol apresenta-se como uma disci- plina esportiva na qual elementos próprios dos âmbitos cognitivos, físicos, técnicos, táticos e psicológicos se relacionam de forma dinâmi- ca e complexa. As principais características do jogo de handebol assentam-se nomeadamente Equipe em posse de bola Ataque Defesa Equipe sem posse de bola Um companheiro consegue(Re) Posiciono (Ruptura de alinhamento) Ajudar Se um companheiro a recebe Se um adversário a recupera Se eu a recebo Depois de ter me informado Procuro Passá-la Tirar Desdobrar (1x1) Ataco o portador da bola ou o controlo para dar facilidade à minha equipe Não consigo e minha equipe também não Crio alinhamento defensivo para recuperá-la em Ajudo Eu consigo Procuramos repurerá-la ou dissuadir os passes• Para receber a bola: Correndo para o gol Em um espaço livre • Levando em conta: os compamnheiros os adversários o gol ou ou ou ou ou ou ou ou ou e e e e e e e e e e e IdentIfIcação, caracterIzação e classIfIcação do jogo de handebol 33 fIgura 4.5 – As relações entre os componentes que constituem a lógica do jogo de handebol (García).22 Tais classificações servem como auxilio para identificarmos o handebol como um jogo espor- tivo coletivo que solicita uma visão sistêmica dos FIgura 4.6 – Fases do jogo de handebol e seus objetivos, com base em Coronado.23 Por sua vez, Coronado23 apresenta uma ex- plicação mais detalhada dos objetivos do jogo de handebol nas duas diferentes fases. Sistemas de jogo Intenções Princípios Objetivos DefesaAtaque Ataque X defesa Meios táticos Defesa Impedir Obter Ataque Lançamento da melhor posição Organizar o ataque Conservar a bola Contra-ataque Progredir para a portaria contrária Gol Evitar progressão da outra equipe Lançar nas piores condições Intervenção do goleiro RE-organizar a defesa RE-organizar o ataque Retorno defensivo Retorno da bola Manual de handebol34 seus componentes, o que gera consequências para os processos de EAT. 4.2 O handebol em uma visão sistêmica Rudney Uezu O handebol é caracterizado pela aplicação de técnicas de movimentos específicas da moda- lidade, que precisam ser adequadas às diferentes situações encontradas no jogo. Nesse sentido, faz-se necessário o entendimento da modalidade segundo uma perspectiva integrada relacionando os aspectos físicos, psicológicos, técnicos e táticos independentemente do nível de desempenho es- portivo, ou seja, faz-se necessária uma mudança no paradigma de entendimento da modalidade. A palavra paradigma apresenta-se como um termo bastante difundido em nosso cotidiano, podendo ser utilizada em diversas áreas do conhe- cimento. Ao longo de nossa história, os paradig- mas do conhecimento foram sendo substituídos conforme as inquietações de algumas pessoas in- conformadas com as regras e normas de conduta vigentes na época. Porém, como será que esse paradigma atu- al e o que está emergindo podem influenciar o entendimento do esporte e, mais especificamente, do handebol? Quais são as possíveis implicações práticas? Será que a mudança de paradigmas em relação à conceituação do handebol pode aportar uma visão diferenciada dos processos de ensino- aprendizagem e treinamento do handebol? A leitura deste texto representa um convite para que se evite, sem prévia análise, a aceitação de verdades absolutas ou certezas (paradigmas) “confirmadas”, considerando que a verdade pode ser relativa à representação individual das pessoas e que seus alicerces relacionam-se com as justifi- cativas que fundamentam o estímulo que induz a estarmos sempre com nossa mente aberta a novas ideias e mudanças de paradigmas. Os paradigmas podem ser entendidos como conjunto de regras, modelos, padrões, visões de mundo. O tempo todo percebemos o mundo conforme nossos paradigmas, que acabam sele- cionando o que percebemos e reconhecemos. As- sim, eles nos levam a recusar ou distorcer os dados que não combinam com as expectativas criadas previamente em nossa mente. Os paradigmas de uma sociedade, por exemplo, influenciam nossa vida de forma direta, levam-nos a fazer acreditar que a forma como entendemos os fatos são “cor- retos” ou o “único jeito de fazer”, impedindo, as- sim, que outras ideias possam ser aceitas de forma a nos tornar resistentes a mudanças e com pouca flexibilidade comportamental. Hoje, em pesquisa cientifica, o paradigma denominado “sistêmico” vem sendo a referência para substituir a chamada “modernidade” pela “pós-modernidade”. Esse paradigma sistêmico parte do princípio de que não é possível fragmen- tar a totalidade em partes isoladas para entendê-la, já que, desse modo, as interações entre as partes são desconsideradas, impossibilitando, assim, sua compreensão. O termo sistêmico vem de sistema, que foi conceituado como “complexo de elemen- IdentIfIcação, caracterIzação e classIfIcação do jogo de handebol 35 tos em interação” ou “conjunto de componentes em estado de interação”. A existência das intera- ções ou relações entre os componentes represen- tam o aspecto central que identifica a existência do sistema como entidade, diferenciando-o de um aglomerado de partes independentes. Portanto, os fenômenos são analisados de maneira globalizada, sem a fragmentação das partes que o compõem, considerando, assim, as interações existentes entre as partes na composição da totalidade. Segundo Tani e Correa,26as modalida- des esportivas coletivas podem ser classificadas como sistemas abertos e complexos, incluindo, assim, o handebol. Portanto, para se compre- ender e analisar o jogo de handebol, pode-se recorrer à visão sistêmica, pois o handebol é sistema aberto e complexo: aberto porque as partes que o constituem interagem com o meio ambiente; e complexo porque existem muitas características que nele influem, além do gran- de número de interações (aspectos físicos in- fluenciam a realização de uma técnica no final do jogo, ou táticos, quando o defensor chega a fechar o espaço) que podem ocorrer entre as partes que o compõem. Os sistemas abertos trocam matéria/energia e informação com o meio ambiente. Já os com- plexos apresentam grande número de fatores que nele influem, assim como o grande volume de interações que podem ocorrer. A Figura 4.7 apre- senta uma análise que considera duas equipes, o número de jogadores envolvidos e as possibilida- des de ações ofensivas que cada atacante pode re- alizar individualmente. fIgura 4.7 – Análise de duas equipes, do número de jogadores envolvidos e das possibilidades de ações ofensivas que cada atacante pode realizar individualmente. Deslocamento Drible Recepção Passe Finta Arremesso Jog. 1 Jog. 2 Jog. 3 Jog. 4 Jog. 5 Jog. 6 Jog. 7 Equipe A Equipe B Jogos Coletivos Manual de handebol36 No processo de ensino-aprendizagem do handebol, as habilidades motoras especializa- das da modalidade, também chamadas de fun- damentos, técnicas ou elementos, ou, na visão sistêmica, de meios técnico/táticos individuais, podem ser consideradas e analisadas segundo as duas concepções. Por sua vez, os meios técnico/ táticos individuais (os de grupo e os de conjun- to seguem a mesma lógica) poderão ser treina- dos a partir da concepção teórica que se adota e do referencial que lhes dá sustentação, isto é, o processo de ensino-aprendizagem resultante será escolhido conforme a visão de mundo (sis- têmica ou cartesiana, no exemplo aqui exposto) em que o treinador acredita. Tomemos como exemplo o ensino do pas- se com salto conforme uma abordagem carte- siana, que se expressa no uso do método analí- tico. Ao aluno seriam ensinadas, inicialmente, a corrida e as três passadas. Após o domínio da forma “correta” da corrida e das passadas, vem, a seguir, o ensino do salto, a questão da busca de altura, o não impulsionamento para frente etc. Somente quando esses aspectos estiverem “mecanizados”, serão estimuladas e oportuni- zadas as situações de passe com exercícios que combinem esse fundamento, ou meio técnico- tático individual, com outras ações (fintas sem bola etc.). Por fim, após trabalhar cada compo- nente isoladamente, serão realizadas as combi- nações necessárias até que os três movimentos constitutivos – a corrida, o salto e, finalmente, o passe – sejam possíveis de se concretizar com fluência pelo aprendiz. Provavelmente, a principal dificuldade que o aluno apresentará será na coordenação entre os três movimentos, ou seja, nas intera- ções existentes entre eles na realização do passe com salto e na interação com outros elementos que sejam agregados em sequência (anteriores ou a posteriori). Já na abordagem sistêmica, o passe com salto seria estimulado desde o início para ser re- alizado na sua totalidade gestual; seriam obser- vadas as modificações nos graus de liberdade do movimento conforme a situação que se apre- senta no ambiente e colocada ênfase em cada etapa da aprendizagem. Nesse sentido, teríamos combinações entre a corrida e o passe, a corrida e o salto e o salto e o passe, considerando, dessa forma, as interações entre os três componentes. Em uma partida de handebol, atacantes e defensores, no campo de jogo, se organizam ta- ticamente para obter o gol, ou evitá-lo. Assim, a equipe em posse de bola, ou que apresenta condições de obter sua posse, está no ataque e a outra, em defesa. Ocorre, consequentemente, uma série de ações de oposição entre atacantes e defensores e de colaboração entre colegas da mesma equipe. Essa característica do handebol oferece um importante papel educacional, pois os jogadores aprendem a cooperar uns com os outros e, também, a se superar de forma cons- tante, superando os obstáculos que os adversá- rios, momentaneamente, lhes colocam, na bus- ca também da vitória. Durante o processo de ensino-aprendiza- gem e treinamento do handebol, a estimulação IdentIfIcação, caracterIzação e classIfIcação do jogo de handebol 37 de aspectos táticos (quando e por que fazer) e técnicos (como fazer) deve ocorrer concomi- tantemente, já que, ao mesmo tempo que o praticante entende a lógica do jogo e se com- porta com autonomia e independência, preci- sa aprender os diferentes procedimentos que podem ser realizados durante o jogo. A partir do momento em que o aprendiz entende o que fazer, são impostas as decisões de quando e por que aplicar os procedimentos técnico-táticos. Esse aspecto leva a afirmar que os fundamentos ou técnicas do handebol devem ser denomina- dos ações técnico-táticas individuais, já que a execução de um passe, por exemplo, depende da decisão de o que fazer (se passar ou lançar), isto é, o aprendiz considera primeiro o que fa- zer e, assim, conclui o como executar, quando, para quem e em qual momento ele será realiza- do. Ações em esporte se orientam pelos objeti- vos táticos e requerem a técnica para sua con- cretude, ou seja, no handebol a ação é tática e técnica simultaneamente. Pode ser considerado que, mentalmente, primeiro se decide o que fa- zer (tática) e, depois, como fazer (técnica), mas ambas as decisões ocorrem simultaneamente na execução. Gréghaine e Goudbout26 sugeriram que, na lógica de um jogo coletivo onde ocorra opo- sição entre duas equipes, faz-se necessário con- siderar diferentes níveis de organização: jogo, equipes, parcial e primário. O nível jogo representa o confronto dire- to entre as duas equipes que se opõem durante a partida. Tal oposição pode ser expressa pela dinâmica de movimentação de um gol a ou- tro, conforme discutido nas diferentes fases do jogo. O nível organizacional equipe é constitu- ído pelos jogadores que compõem as equipes e sua respectiva distribuição espacial pela quadra de jogo, segundo os conceitos de largura e pro- fundidade, na criação e ocupação de espaços e suporte ao jogador com bola. Já o nível parcial considera os jogadores diretamente envolvidos nas ações, conforme conceitos de tática grupal e tática coletiva, nos quais são consideradas as opções de interações que podem ocorrem entre dois a três jogadores, seja no ataque ou na de- fesa. Para finalizar, o nível primário considera a unidade mínima de oposição entre dois jo- gadores, ou seja, um atacante com bola e seu correspondente na defesa. O jogo pode ser entendido como o nível de organização mais complexo, e seu resultado depende das interações ocorridas nos demais níveis de organização. Seu entendimento pode explicar o resultado de uma partida. A Figura 4.8 ilustra as possibilidades de interação entre um jogador com bola e seus companheiros de equipe, assim como com seu adversário direto. Manual de handebol38 fIgura 4.8 – Interação do jogador com bola no handebol dentro do sistema de jogo. (aspecto técnico), caso ele não saiba o momento e o local mais adequado para tal ação. Ao se considerar o nível parcial, podemos entender as interações que podem ocorrem entre dois ou três jogadores, e a Figura 4.9 ilustra as possibilidadesentre dois atacantes. Para que as possibilidades de interações pos- sam ocorrer de forma organizada, existe a necessi- dade de considerar, de maneira integrada, as ações técnicas e táticas do handebol. Por exemplo, em situações de jogo, não basta que um atleta domine somente a forma de execução de um arremesso fIgura 4.9 – Possibilidade entre dois atacantes dentro do jogo de handebol. Deslocamentos Criação e ocupação de espaços Após desmarque Superar um adversário Superar um adversário Manter a posse de bola Companheiro desmarcado Recepção Arremessos Fintas Dribles Passes Atacante Tabelas Cruzamentos Pantalhas Ponte Aérea Permutas Bloqueios 2 Atacantes IdentIfIcação, caracterIzação e classIfIcação do jogo de handebol 39 Acredita-se que o processo de ensino-apren- dizagem e treinamento do handebol deva conside- rar uma integração entre aspectos técnicos (como fazer) e táticos (quando e por que fazer), que, por sua vez, são influenciados pelos aspectos de cons- tituição corporal e aptidão física dos praticantes. Nesse sentido, para a prática do handebol, não basta apenas que o praticante tenha domínio dos aspectos técnicos da modalidade e como rea- lizar adequadamente o movimento do arremesso, por exemplo, se ele não souber o momento mais adequado ou o local mais indicado para cada situa- ção de arremesso. Conforme citado anteriormente, o jogo de handebol apresenta alta complexidade, e sua dinâmica consiste em uma série de situações praticamente imprevisíveis pelas quais os jogadores têm que se adaptar constantemente para conseguir seus objetivos, seja no ataque ou na defesa. Assim, deve-se buscar a formação de joga- dores com autonomia para analisar as diferentes situações de jogo, interpretá-las, tomar as deci- sões corretas e utilizar as técnicas adequadas em função de cada situação específica de jogo. 4.3 O jogo no ataque Juan J. Fernández, Pablo Juan Greco, Helena Vila 4.3.1 Características gerais O jogo de handebol é um todo coberto pela dupla vertente: o ataque e a defesa. Entre ambos, apresenta-se a mudança de compor- tamento do jogador, por exemplo, da defesa saindo para o ataque e, no caso do ataque para a defesa ao perder a bola, realizando-se o re- torno defensivo. O primeiro é a parte do jogo mais espetacular e atraente para o fã apaixo- nado, pois seu objetivo é conseguir o gol na meta adversária, superando as ações defensivas do rival. O ataque, aparentemente, começa quando se entra em posse de bola. Entretanto, os jogadores já mudam seu comportamento ao anteciparem a perda ou a tomada da bola da posse adversária. Como todo jogo coletivo, baseia-se no ga- nho da posição e na ocupação de espaços úteis para ganhar a maior vantagem possível; os espaços ofensivos dividem-se: segundo a profundidade, estabelecendo- -se duas linhas de ataque; a primeira li- nha a contar do meio do campo, que, geralmente, é ocupado pelos armadores do jogo, e uma segunda linha de ataque, ocupada pelos jogadores nas funções de pontas e pivôs; segundo a largura, estabelecendo-se três zonas: central, lateral esquerda e lateral direita. Manual de handebol40 A ocupação dos espaços deve se realizar uti- lizando as zonas que se correspondem com postos específicos. Para isso, no ataque, conformam-se duas linhas de jogo. A primeira linha ofensiva é contada a partir do meio do campo de ataque. Nela se posicionam os jogadores responsáveis pela armação do jogo. Na segunda linha ofensiva, situada entre as linhas de 6 e 9 metros, posicio- nam-se os pontas e o pivô. No sistema padrão de ataque, definido como 3:3, representa-se, na sua primeira linha, por um central e dois laterais e, na segunda, por um pivô e dois pontas (extremos), estabelecendo-se zonas de lançamento próximas (6 a 9 m), que incluem lançamentos no ar dentro da área de 6 m, e zonas de lançamento afastadas (7,5 – 14 m). 4.3.2 Fases e formas de jogo No jogo de ataque distinguem-se, basica- mente, dois tipos de situações para um jogador: Com a posse de bola: deve-se manter a pos- se desta, progredir até o objetivo, dar con- tinuidade ao ataque habilitando, mediante um passe, outro companheiro ou finalizar a ação por meio do lançamento; Sem a posse de bola: a missão principal é apoiar o companheiro com a bola, saindo da marcação, e, também, atuar procurando espaços livres úteis; Com respeito ao jogo em conjunto, distin- guem-se várias fases: Contra-ataque: fase rápida de ataque, aprovei- tando-se a surpresa e desorganização defensiva com o objetivo de aproveitar a superioridade numérica que supõe um grande espaço que se deve ocupar. Distinguem-se em duas subfases: contra-ataque propriamente dito (1a e 2a on- das) e contra-ataque sustentado (3a onda); Ataque posicional: fase na qual os jogadores atuam em seus postos específicos, aprovei- fIgura 4.10 – Linhas ofensivas no handebol. Lateral Central Lateral Segunda linha ofensiva Segunda linha: pontas de pivô Primeira linha: armadores Primeira linha ofensiva IdentIfIcação, caracterIzação e classIfIcação do jogo de handebol 41 tando os espaços do campo na largura e profundidade e graças a seus movimentos objetivam o lançamento a gol (subfase de organização e execução). Em todo caso, o jogo de ataque deve seguir uma série de princípios táticos específicos do handebol: garantir a posse de bola ate encontrar es- paços livre; entrar nos espaços entre dois jogadores; reconhecer espaços; buscar a superioridade numérica; manter a largura e a profundidade, utili- zando todo o espaço de jogo; variedade e alternância nas ações; trocar de velocidade e de ritmo no trans- porte da bola. O jogo de ataque apresenta-se de várias formas: Jogo livre: não se define previamente a cir- culação de jogadores nem da bola. Jogo dirigido (orientado): as circulações ou deslocamentos dos jogadores estão definidos em algumas zonas, apesar de a movimenta- ção da bola ser livre. Pode-se desenvolver por meio de jogo posicional (os jogadores não mudam os seus postos específicos) ou em circulação (mudam de posição). Jogo estruturado: os deslocamentos dos jo- gadores e da bola estão perfeitamente de- finidos. Por exemplo, as “jogadas ensaia- das” predefinem o percurso da bola e dos jogadores, assim como o local de definição do ataque estão previamente acordados. O que mais ocorre no jogo atual são as equi- pes se apoiarem em “conceitos de ataque” nos quais a movimentação dos jogadores e a forma de ocupação de espaços seguem a lógica da troca de número de atacantes nos espaços da primeira linha para ocupar na segunda linha de ataque. Isso ocorre pela troca de passes e conforme a situação na qual se realiza a definição. 4.3.3 Fundamentos técnico-táticos do jogador em ataque Para levar a cabo com êxito o jogo no ataque, o jogador deve ser capaz de conseguir os seguintes objetivos ligados aos fundamentos técnicos: desmarcar-se para receber (deslocamento sem bola, usando-se da troca de velocidade e/ou de direção); receber a bola (recepção e adaptação da bola); passar ao companheiro desmarcado (ma- nejo e posse de bola); dominar o dribling; dominar as distintas formas de lançamento; decidir: passar ou progredir (avançar), pas- sar ou penetrar, passar ou lançar etc.; ser capaz de se desmarcar com a bola (fin- ta), ou seja, superar o adversário; ser capaz de colaborar com o companheiro (fixação, bloqueio etc.).Manual de handebol42 4.3.4 Meios básico-táticos coletivos em ataque O êxito do jogo em ataque passa por uma estreita colaboração e interação entre todos os companheiros em busca do gol. Para isso, o joga- dor deve dominar meios básico- táticos de ataque, que são estruturas simples de colaboração, quase sempre entre dois jogadores, e que constituem o pilar para a construção do jogo coletivo. Entre eles, encontram-se: tabela ou passa-e-vai (give and go); apoios sucessivos; cruzamentos; permutas; bloqueios; pantalhas; cortinas; ponte aérea. 4.4 O jogo na defesa Juan J. Fernández, Pablo Juan Greco, Helena Vila 4.4.1 Características gerais A defesa é uma ação do jogador de oposi- ção ao ataque encaminhada para recuperar a bola e evitar o gol. Começa no momento em que se perde a posse da bola. Atualmente, é uma parte do jogo que está adquirindo cada vez maior im- portância e relevância. Também se centra na co- laboração e na ocupação dos espaços (situação) e deveria se basear em uma filosofia de ação e iniciativa dos jogadores, para a qual se deveria ensinar a defender atacando (atacar a posição do rival); segundo Bárcenas e Roman-Seco,27 “ata- car ao atacante”. Desde o momento em que não se pode recuperar a bola, os jogadores dispõem- se segundo um sistema defensivo, sendo o jogo defensivo uma tarefa permanente e coletiva, res- guardando sempre a zona na qual se encontra a bola e sua relação com o gol. Os espaços defensivos que teremos em conta são: Zona de atraso: quando se tenta impedir ou dificultar o contra-ataque. Nesta zona, tem de se deixar um jogador o mais próximo possível à situação da bola. Zona de balance defensivo: em torno do meio do campo, onde se deve situar, pelo menos, um jogador a mais que os que há na equipe adversária. Zona de adaptação: o objetivo é o equilíbrio do espaço, rompendo (evitando), a todo custo, a situação de progressão da bola. Zona proibitiva: é a zona central mais pró- xima do gol. Sempre deve estar ocupada. Zona preventiva: está nas laterais, é a de menor ângulo de lançamento e à qual deve ser forçada a equipe adversária, ainda que também devêssemos ocupá-la. Outros conceitos importantes em quanto ao espaço defensivo são: IdentIfIcação, caracterIzação e classIfIcação do jogo de handebol 43 fIgura 4.11: linhas defensivas no handebol. Lateral linhas defensivas Lateral Segunda linha Terceira linha Primeira linha Central fIgura 12: Distribuição dos espaços defensivos em re- lação à profundidade e à largura. Largura: distinguindo-se uma zona central, duas laterais e duas externas. Profundidade: refere-se ao distanciamento da área de meta, distinguindo-se em uma zona de tiro próxima (até 8 m) e uma zona de tiro afastada (até 14 m). Em ge- ral, considera-se que as defesas podem ter três linhas ou barreiras para confrontar o ataque. As linhas se contam a partir da li- nha de gol. A primeira linha próxima aos 6 metros, a segunda, entre 7 e 9 metros e a terceira, entre 8 e 10 metros. Durante o jogo, os jogadores de campo atu- am conjuntamente e se relacionam entre as linhas de jogo. Por exemplo, no sistema defensivo 6:0, existem dois defensores centrais, dois laterais, dois extremos (pontas), unidos, em todo caso, em co- laboração com o goleiro. fIgura 13: Distribuição dos jogadores em sistema de- fensivo 6:0 contra o ataque 3:3. 4.4.2 Fases e formas de jogo Em defesa, podemos distinguir diferentes comportamentos quando o adversário direto do D C A E F E DD C A FF D C B A F Manual de handebol44 defensor possui ou não a bola. No primeiro caso, o defensor deverá evitar o lançamento, tentando o bloqueio da bola ou tomá-la, evitando a progres- são do atacante. No segundo caso, deve-se vigiá- lo, dissuadi-lo para que não receba a bola, colocá- lo em situação de pressão para que, caso a receba, não tenha opções de passe ou fi nta. As fases da ação defensiva podem-se consi- derar como: Fase de recuperação: imediatamente depois de perder a bola, tentando recuperar a si- tuação defensiva o mais rápido possível, ainda que seja em zonas de ataque. Fase de temporalização: já no meio campo, com o objetivo de resguardar a zona central da defesa. Fase de organização defensiva: busca-se o equilíbrio dos jogadores, que passam a ocupar os postos específi cos na defesa. Fase de desenvolvimento do sistema defensivo: os jogadores dispõem-se a executar os meios tá- ticos específi cos do sistema de jogo defi nido. Durante o jogo, a ação defensiva pode dife- renciar-se em: Balance defensivo: fase na qual se tenta difi - cultar o contra-ataque e formar a defesa no menor tempo possível. Defesa estabelecida: na qual se tenta exe- cutar (efetivar) os objetivos básicos do jogo defensivo. Pode desenvolver-se de três formas: Defesa em zona: o defensor responsabiliza- se por uma zona e do atacante que nela se encontra. Defesa individual: o defensor responsabili- za-se do jogador que se emparelha de for- ma constante no jogo defensivo. fIgura 4.14 – Defesa individual. Defesa mista: é uma combinação das op- ções anteriores nas quais uns jogadores de- fendem individualmente e outros em zona. fIgura 4.15 – Defesa mista. IdentIfIcação, caracterIzação e classIfIcação do jogo de handebol 45 4.4.3 Fundamentos técnico-táticos do jogador em defesa Cada jogador em defesa tem alguns objeti- vos básicos ligados estreitamente aos fundamen- tos defensivos, como: dominar os deslocamentos defensivos (des- locamentos); desenvolver a posição e a atitude defensiva (posição básica); efetivar sua responsabilidade de marcação sobre o oponente que lhe corresponde; atuar sobre o jogador sem bola (dissuasão, interceptação, pressão); atuar sobre o jogador com bola (bloqueio do lançamento, toma da bola, evitar a progressão); colaborar com os companheiros na defesa (fechar os espaços, cobertura, ajuda, dobra). 4.4.4 Meios básico-táticos coletivos em defesa O jogo defensivo solicita dos jogadores da equipe uma ação comum e plural para conseguir êxito. Sem dúvida, sem uma boa colaboração e uma atitude positiva com o jogo defensivo, é di- fícil obter o objetivo. Entre os meios coletivos, de grupo ou grupais, que o jogador deve dominar, encontram-se: basculações; dobras (2x1); troca de oponentes; deslocamentos; contrabloqueios etc. Referências 1 bento, J. O. Desporto para crianças e jovens. In: Gaya, A. C.; Marques, A.; Tani, G. Des- porto para crianças e jovens: razões e finalida- des. Porto Alegre: Editora UFRGS, 2004. 2 ______. Contextos e perspectivas. In: bento, j. o.; garcIa, r. P.; graça, a. (Org.) Con- textos da pedagogia do desporto. Lisboa: Livros Horizonte, 1999. p. 19-112. 3 bento, J. O.; tanI, g.; Petersen, R. D. S. Pedagogia do desporto. Rio de Janeiro: Guana- bara Koogan, 2006. 4 gaya A. C.; Marques, A.; tanI G. Despor- to para crianças e jovens: razões e finalidades. Porto Alegre: Editora UFRGS, 2004. 5 bourdIer, P. The field of cultural production, or the economic world reversed. 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Paris: Edu- cation Physique et Sport, p. 14, n. 26, mar- ço-abril 1974. 20 favre, J. P. Remarques sur les sports colleficts. Paris: Education Physique et Sport, p. 33, n. 43, jun. 1959. 21 greco, P. J. O ensino do comportamento tático nos jogos esportivos coletivos: aplicação no han- debol. Tese (doutorado), Unicamp, SP, 1995. 22 garcía, J. L. Balonmano: metodología y alto rendimiento. Barcelona: Paidotribo, 1995. 23 coronado, J. F. O. Curso de Solidariedade Olímpica. São Paulo: s. e., 2002. 24 bertalanffy, L. von. Teoria Geral dos Siste- mas. Petrópolis: Vozes, 2008. 25 Tani G. & Correa (2006) 26 gréghaIne, j. f.; goudbout P. Tactical Kno- wledge in Team Sports From a Constructivist and Cognitivist Perspective. n. 41. London: Quest, 1995. p. 490-505. 27 bárcenas, d.; roMán, J. Balonmano: técni- ca, tática y metodologia. Madrid: Gymnos, 1991. caracterIzação do PerfIl físIco-Motor do atleta de handebol 47 Parte II Perfil motor do atleta de handebol 5 Rudney Uezu Os aspectos de constituição corporal (biotipo- logia, somatotipologia, entre outros) e de aptidão física influenciam diretamente o desempenho espor- tivo nas diferentes modalidades esportivas. As carac- terísticas específicas em relação ao tipo de solicita- ções de cada modalidade, suas regras e especificidade dos contextos ambientais parecem determinar um padrão corporal mais adequado para que os atletas obtenham cada vez mais melhores rendimentos. Assim, a observação de padrões de referên- cia específicos em função da modalidade espor- tiva representa um aspecto que pode auxiliar na formação das futuras gerações esportivas. Ao se identificar um perfil específico de características de constituição corporal e aptidão física de atletas de diferentes modalidades esportivas, os técnicos esportivos teriam um banco de dados para auxi- liar em sua prática profissional. Nesse sentido, a comparação dos jovens atle- tas com padrões específicos podem representar um aspecto relevante na identificação e promoção de talentos esportivos no handebol, na planifica- ção do processo de treinamento, na adaptação das cargas de treinamento, entre outros fatores. O Quadro 5.1 apresenta os trabalhos de inves- tigação que buscaram descrever aspectos antropo- métricos e de aptidão física em atletas de handebol Caracterização do perfil Físico-motor do atleta de handebol nas categorias júnior e adulto. Por meio da análise das informações deste quadro, observa-se que a maioria dos estudos buscou descrever o padrão an- tropométrico dos atletas participantes de diversas competições nacionais, e o somatotipo foi a estraté- gia mais utilizada para a descrição do perfil corporal do atleta de handebol, sendo que o predomínio da mesomsorfia foi evidente em todas as investigações. Entretanto, ao se considerar as características antropométricas e de aptidão física para tentar encontrar diferenças significativas entre atletas de níveis competitivos distintos, não foi encontrada uma tendência de determinadas variáveis, ou seja, as características relevantes na diferenciação entre os grupo variavam conforme a amostra adotada. Com relação a aspectos fisiológicos relacio- nados à prática do handebol, os estudos de Eleno, Barela e Kokubun1 e Barbosa e Oliveira2 sugeri- ram que componentes aeróbicos e anaeróbicos são relevantes para o desempenho no handebol, fato evidenciado empiricamente no trabalho de Paes Neto,3 que encontrou frequência cardíaca média entre 158 e 167 durante jogos oficiais. Um aspecto que chama a atenção se refere à predominância de investigações que analisaram atle- tas do sexo masculino, fato que sugere a necessidade e relevância de estudos com atletas do sexo feminino. Manual de handebol50 Quadro 5.1 – Resumo dos estudos com atletas das categorias júnior e adulto Autor Objetivo Conclusões André4 Verificar a influência do handebol na aptidão física. Aumentos na força de preensão manual e nos períme- tros de braço e antebraço. Profeta5 Analisar o somatotipo de atletas da Taça Brasil de clubes e seleção brasileira júnior masculina. Perfil mesomorfo balanceado, não sendo encontradas diferenças significativas entre os postos específicos. Pires Neto,6 Pires Neto e Profeta7 Descrição de características antropométricas da seleção brasileira júnior masculino. Elaboração de padrões de referência e sugestão de no- vas investigações. Silva8 Analisar o somatotipo de universitários das re- giões Norte, Nordeste e Centro-sul do Brasil. Perfil endomesomórfico, não sendo encontradas diferenças significativas entre as posições de jogo e região geográfica. Maia9 Analisar o somatotipo de atletas da primeira divisão portuguesa. Predominância mesomórfica. Gonçalves e Dourado10 Descrever o somatotipo e a composição cor- poral de participantes dos jogos abertos pa- ranaenses. Predominância endo-mesomórfica em todos os postos específicos e não foram encontradas diferenças signifi- cativas na composição corporal. Gonçalves, Osiec, Tsuneta e Zamberlan11 Determinar o perfil cineantropométrico da seleção brasileira feminina de 1989. Perfil endomesomórfico, não sendo encontradas dife- renças significativas entre os postos específicos. Araújo, Andrade e Matsudo12 Comparação de aspectos cineantropométricos de universitários com a média populacional. Valores superiores dos atletas em todas as característi- cas e sugestão de importância das variáveis na seguinte ordem: força de membros superiores, inferiores e ab- dominal, potência aeróbica e agilidade. Glaner13 Comparação do perfil morfológico de atletas participantes do x jogos Pan-Americanos por posto específico. Os melhores atletas do campeonato apresentaram maiores valores em relação aos demais atletas, espe- cialmente na estatura, envergadura, comprimento de membros inferiores e menores valores de percentual de gordura e massa corporal magra. Paes Neto3 Determinação da intensidadede esforço a partir da frequência cardíaca em atletas do sexo mas- culino participantes do Jogos Regionais de SP. Caracterização do esforço como misto aeróbico-anae- róbico com a média da frequência cardíaca entre 157 a 168 durante três jogos oficiais. Gorostiaga, Granados, Ibañes e Izquierdo14 Verificar as diferenças na antropometria e ap- tidão física entre atletas profissionais e ama- dores da segunda divisão da Liga Espanhola. Identificação de valores superiores dos atletas profissio- nais na massa corporal, massa magra, potência muscu- lar, potência de arremesso parado e apos a progressão. Vasques, Antunes, Duarte e Lopes15 Comparação morfológica de atletas partici- pantes dos Jogos Abertos de SC. Os atletas das equipes melhores classificadas apresen- taram valores superiores na na estatura, envergadura, altura troncocefálica e diâmetro palmar. Cunha Junior, Cunha, Schneider e Dantas16 Caracterização dermatoglífica, somatotípica, fisiológica e psicológicas de atletas da seleção feminina adulta. Somatotipo mesomorfo balanceado, limiar ventilató- rio a 90% do consumo máximo de oxigênio e tempe- ramento sanguíneo. Bezerra e Simão17 Caracterização antropométrica de atletas da Taça Amazônica adulto masculino e compa- rar os valores com a seleção do torneio. Os atletas da seleção do torneio não apresentaram per- fil antropométrico conforme sugerido pela literatura, com exceção dos extremas esquerda e direita e arma- dor central no percentual de gordura. continua caracterIzação do PerfIl físIco-Motor do atleta de handebol 51 Autor Objetivo Conclusões Vasques, Mafra, Gomes, Fróes e Lopes18 Caracterização antropométrica de atletas da Liga Petrobrás 2006 e comparar as equipes conforme sua classificação Os extremas apresentaram valores inferiores nas carac- terísticas (massa corporal, comprimentos, diâmetros e perímetros), e os goleiros apresentaram maior percen- tual de gordura corporal. Pelegrini e Silva19 Caracterização antropométrica e do somatoti- po da seleção júnior masculina. Somatotipo meso-ectomorfo e baixo percentual de gordura (9,98%). O Quadro 5.2 apresenta os trabalhos de in- vestigação que buscaram descrever aspectos antro- pométricos e de aptidão física em atletas de han- debol nas categorias de base. Quadro 5.2 – Resumo dos estudos com atletas das categorias de base Autor Objetivo Conclusões Gaya, Cardoso, Torres e Siqueira20 Analisar características antropométricas e de aptidão física de atletas participantes dos Jo- gos da Juventude. Identificação da estatura, altura troncocefálica, peso e resistência abdominal como características relevantes para o handebol. Szmurchrowski; Menzel21 Avaliar a aptidão física de participantes dos Jogos da Juventude de ambos os sexos. Estabeleceram padrões de referência nas medidas con- sideradas. Menzel22 Avaliar características antropométricas de partici- pantes dos Jogos da Juventude de ambos os sexos. Estabeleceram padrões de referência nas medidas con- sideradas. Raso, França e Matsudo23 Acompanhar a estabilidade de características antropométricas e de aptidão física de jovens atletas do sexo feminino. Identificação do peso, estatura, agilidade, velocidade e potencia aeróbica como variáveis que apresentaram estabilidade, e, por esse fato, os autores sugeriram que o talento no handebol feminino pode ser predito a partir de idades precoces. Rannou24 Avaliar aspectos metabólicos de atletas france- ses do sexo masculino. Determinação de valores da potência aeróbica, limiar de lactato e potência anaeróbica, com destaque para a rele- vância do componente anaeróbico para o handebol. Eleno e Kokubun25 Avaliar a frequência cardíaca e o lactato san- guíneo durante a execução do drible. O drible não representou sobrecarga fisiológica adi- cional ao deslocamento, independentemente do nível competitivo. Vasques, Antunes, Silva e Lopes26 Comparação do perfil morfológico em fun- ção dos postos específicos ofensivos e defensi- vos de atletas juvenis de SC. Os extremas apresentaram menor estatura, perímetro de antebraço, massa corporal e massa corporal magra. Já nos postos defensivos, foram observados aumentos nas variáveis quando os atletas atuam nas regiões cen- trais da quadra (posição 3). Lidor, Falk, Arnon, Cohen e Segal27 Verificar a importância das características mo- toras, físicas e técnicas na formação de jovens talentos de 13 e 14 anos do sexo masculino. Críticas à utilização das características consideradas na comparação de níveis competitivos diferentes, e os autores ressaltaram a necessidade de procedimento com maior validade ecológica e considerar o nível de maturação biológica dos jovens atletas. continuação continua Manual de handebol52 Autor Objetivo Conclusões Farto, Perez e Alvarez28 Analisar características antropométricas de atletas cadetes masculino portugueses. Valorização de um perfil antropométrico em função do posto específico, com a necessidade de pivôs e late- rais altos, sendo os extremas os jogadores mais baixos. Uezu, Paes, Böhme e Massa29 Verificar quais características antropométri- cas, de aptidão física e nível de conhecimento tático poderiam discriminar atletas federados de escolares na categoria infantil masculino. Identificação da estatura como fator mais relevante, porém em combinação com a força de membros infe- riores, inferiores e agilidade. Os estudos realizados com atletas das cate- gorias de base buscaram identificar característi- cas antropométricas e de aptidão física relevantes para o handebol, assim como uma caracterização geral e em função dos postos específicos. Lidor et al.27 criticaram a maneira como as medidas antropométricas vêm sendo utilizadas e reforçaram a necessidade de procedimentos com maior validade ecológica, destacando a importân- cia dos aspectos de maturação biológica e sua in- fluência nos resultados encontrados. Já Uezu et al.29 destacaram a importância de procedimentos multidisciplinares para o entendi- mento dos fatores que podem discriminar jovens atletas de níveis competitivos diferentes, ao com- parar atletas federados com escolares que disputa- vam competições escolares oficiais. Os federados eram mais altos do que os esco- lares, o que pode sugerir que, quanto maior o ní- vel competitivo, maior a estatura dos atletas. Esses resultados corroboram Glaner,13 que realizou um estudo com 96 atletas adultos que disputaram um campeonato pan-americano de seleções e compa- rou a média das equipes com os valores dos atletas considerados os melhores da competição, ou seja, a seleção do campeonato. Os resultados obtidos indicaram que os jogadores da seleção do campe- onato (189,51 ± 6,38) eram mais altos do que a média das equipes (184,42 ± 6,78). Foram verificados valores de estatura acima da média tanto na escola (valor máximo de 182 cm) quanto no clube (valor máximo de 187,50 cm). Em relação aos valores mínimos, o escore apresentado pelo clube (154,40 cm) foi inferior ao da escola (155,60 cm), ou seja, o menor atle- ta da escola era maior do que o menor atleta do clube. Esse fato questiona a afirmação de que a es- tatura representa um fator relevante na seleção de jovens para o esporte de rendimento, uma vez que a média do clube foi significativamente diferente. Ao analisar sua amostra, foram encontrados atletas na escola com estatura mais elevada quan- do comparados aos atletas federados. Porém, pa- rece que a estatura considerada de maneira isolada pode levar a tomadasde decisão equivocadas ao padronizar um perfil dessa variável na seleção de seus praticantes. Já a análise do somatotipo classificou os federados como ectomesomorfos (3,25 – 4,42 – 3,79) e os escolares como endomesomorfos (3,37 – 5,07 – 3,14), ou seja, com características corpo- rais diferenciadas quando observado o conjunto. continuação caracterIzação do PerfIl físIco-Motor do atleta de handebol 53 Nesse sentido, quando as características dos in- divíduos foram analisadas de forma isolada, não foram encontradas diferenças significativas; en- tretanto, quando ao se analisar maneira integra- da, como no somatotipo, a constituição corporal passou a ser diferente. Hoje, um dos grandes desafios dos pesquisa- dores da área do talento e desempenho esportivo e dos técnicos consiste a compreensão da natureza heterogênea do padrão apresentado por atletas de alto desempenho esportivo, ao se considerar que não existe necessariamente um padrão ideal, mas, talvez, vários padrões ou até mesmo a inexistência de um perfil, já que os atletas não apresentam ne- cessariamente as mesmas características. Nesse sentido, cabe ressaltar que grandes atletas de handebol, como Vranjes, ou Swensson (Suécia), Balic (Croácia), Duschebaiev (Rússia, naturalizado espanhol posteriormente) e Richards- son, ou Gille, ou Karabatic (França), Kehrmann, Schwarzer, ou Lenz (Alemanha), entre outros atletas, não apresentavam características físicas e motoras acima da média encontrada em atletas de handebol, porém sempre se destacaram por suas atuações em competições internacionais, sendo alguns deles considerados os melhores do mundo em suas posições. Acredita-se que, por mais que sejam enten- didos os fatores que diferenciam níveis competi- tivos diferentes na combinação das variáveis que seriam relevantes, não apresentam um padrão en- tre si, existindo, assim, várias composições indi- viduais a partir de características individuais dis- tintas. Escores individuais considerados inferiores podem ser compensados por outras variáveis de maneira individual ou integrada. Por se tratar de um esporte coletivo, existe ainda um agravante referente ao ajuste dos dife- rentes padrões de composição e comportamento para a montagem de uma equipe, que apresenta a necessidade de uma interação entre as caracte- rísticas pessoais para um desempenho individual, além da necessidade de integração com os outros indivíduos que compõem o grupo. Preparação física aplicada aos esportes coletivos: exemplo para o handebol6 Francisco Seirul-lo Apresenta-se, agora, uma filosofia inovadora sobre o treinamento nos esportes de equipe e nos esportes coletivos, incluindo o handebol. Trata- mos dos esportes de equipe, pois, até o presente momento, estes não tinham uma filosofia própria para o treinamento das capacidades físicas. Em geral, procedia-se a uma adaptação dos conceitos utilizados nos esportes individuais. A seguir, será demonstrada a diferença existente entre os mode- los de treinamentos que devem e têm de existir, basicamente, em virtude de dois conceitos fun- damentais que diferenciam ambas as formas de modalidades esportivas: Interação grupal; Incerteza espacial. Até hoje, a filosofia de treinamento utiliza- da era aquela que tinha como referencial as te- orias conductistas, behavioristas, provavelmente porque as primeiras disciplinas que estudaram o fenômeno esportivo (Psicologia, Pedagogia, Teo- logia etc.) se fundamentavam no conductismo. As características específicas dessa teoria psicológica que servem para avaliar os fenômenos esporti- vos são adequadas para modalidades nas quais se apresenta uma situação estável, claramente defini- da e com pouco grau de incerteza entre os parti- cipantes. A seguir, apresenta-se uma revisão geral do que a corrente conductista tem aportado ou pode aportar ao esporte, para, assim, a partir dessa base, criticá-las, oportunizando a construção de um modelo alternativo sobre outra base teórica (cognitivismo). 6.1 O treinamento esportivo com base no conductismo Até os anos 1980, o sujeito tem sido con- siderado como uma globalidade composta por partes. Assim, cada disciplina atuava por conta própria e não existia quase comunicação entre elas, ou seja, na prática não existia globalidade. Aportavam-se conhecimentos do ponto de vista das “pluridisciplinas”; seguidamente, encontra-se a “interdisciplinariedade”, que é a fonte de ori- gem do problema de que não somos capazes de ver mais longe, além de nossos horizontes, pen- sando na possibilidade de aparição de novas áreas. O conductismo remete a um tipo de esporte que está altamente organizado e que solicita o es- tabelecimento de um modelo ideal de jogo. Nes- Manual de handebol56 sa concepção, o treinamento global de um esporte se entende como treinamento físico, técnico, táti- co e psicológico. Todo o problema do treinamen- to está atomizado em distintas áreas concretas (pluridisciplinariedade). Como consequência, no conductismo: observa-se o comportamento do esportista e se avalia o que ele é capaz de fazer na si- tuação (conduta observada); criam-se situações concretas, bem defini- das, para realizar as observações (técnicas de observação que, cumpridas pelo atleta, apresentem fiabilidade científica); comprovam-se os tipos de comportamen- tos que são mais úteis, aqueles que permi- tem melhor rendimento (definem-se a efi- ciência e, conforme o estímulo-resposta, se tiram as conclusões); definem-se e se desenvolvem “técnicas” para o atleta ser mais eficaz e obter o me- lhor resultado nessas situações estáveis (en- sino por modelos); o sujeito submete-se ao processo de apren- der essas técnicas (constrói-se um modelo pedagógico para aprender mais rapidamente e que permita, paralelamente, a estabilidade e os resultados: progressões, reforços positi- vos e reforço negativo, transferências etc.); o homem adapta-se ao “modelo” construído segundo as necessidades do esporte e sua es- pecialidade (adaptar as potencialidades); conduz a “modelos” preestabelecidos que exigem e solicitam a adaptação do atleta; é válido para os esportes em que o entor- no apresenta-se estável e os elementos que o compõem não contam ou apresentam pouca interação; predominam nos jogadores as motivações extrínsecas: prêmios, dinheiro, reconhe- cimento social etc. (imitar um modelo ini- be a liberdade motriz do indivíduo); os modelos modificam-se de forma utópica; quando um indivíduo quebra o modelo e elabora outro mais pessoal, precisa ser, poste- riormente, justificado cientificamente e cons- tituído como outro modelo a ser imitado. De tal forma, a aprendizagem conductista consta no seguinte: segundo as últimas teorias conductistas dos anos 1980, uma aprendizagem motriz consiste em se mudar da atitude ao hábito motriz. Como se muda? A chave é: repetição este- reotipada de movimentos, um estereótipo em que os parâmetros motrizes-espaciais-temporais se re- petem exatamente igual. Assim, dessa repetição homogênea e invariável se muda de uma atitude motriz para um hábito motriz. Na área da pre- paração física, o conductismo desencadeia uma condição física específica: Elaboram-se exercícios analíticos para o desenvolvimento dos grupos musculares que participam no modelo que é conheci- do pelo treinador; Descrevem-se os exercícios e a situação em que se deve praticar, e o esportista os exe- cuta. A modificação dos exercícios realiza- PreParação físIcaaPlIcada aos esPortes coletIvos 57 se em função da situação: diferentes exercí- cios, diferentes formas de aplicação; Constata-se o progresso na qualidade com que se realiza o exercício, aplicando-se testes de controle (observa-se a conduta). Avaliam- se, assim, aspectos concretos do modelo; Desenvolvem-se sistemas de treinamento válidos para determinada qualidade, que se aplicam indiscriminadamente a todos os esportistas que necessitem dessa qualidade em seu modelo; Cada treinador tem seu “método”, apoiado em sua própria interpretação do modelo da técnica, e o esportista deve adaptar-se a ele; A evolução do treinamento está em relação com as formas em que o esportista pode se adaptar em maior ou menor medida. O maior problema desse modelo é que ele so- mente é perfeito caso, nessa modalidade esportiva, o ambiente não mude, não varie e seja constante, e se os elementos não interagem entre si. Portan- to, quanto mais aportes das ciências ocorram, mais difíceis apresentam-se as alternativas de determina- ção do modelo. Ou seja, nos esportes de equipe, os modelos conductistas não são válidos 6.2 O treinamento esportivo com base em uma concepção cogni- tiva: novas alternativas Contrapondo-se ao conductismo com base nos princípios estímulo-resposta, que visam so- mente ao resultado final, aparecem as teorias cognitivas, preocupadas com os processos que de- correm dentro do indivíduo para que este consiga reproduzir o modelo necessário à ação esportiva, um modelo mais situacionalmente pensado. Nas teorias cognitivas, o sujeito atua depen- dendo, isto é, relacionando com o que se sucede no seu entorno. As teorias cognitivas, portanto, permitem analisar como o indivíduo processa a informação que se reflete do ambiente e da tarefa a realizar. A isso se agrega e se relaciona o estrutura- lismo, que nos diz que a inteligência humana se constitui de uma estrutura composta por uma sé- rie de fatores, e a modificação de um deles altera todos os outros, fazendo que o efeito que se dese- java não se apresente de forma isolada, mas como outro mais global. O próprio indivíduo pode se autoestruturar para fazer que aquilo que antes possuía determinado significado tenha, agora, um significado diferente. Por isso, a aprendizagem cognitiva é mais adequada do que a conductista no que se refere à aprendizagem dos diferentes movimentos que compõem a técnica dos esportes de equipe, apre- sentando-se com maior validade. 6.2.1 Características do cognitivismo Interessa-se pelo que sucede no interior do esportista depois de analisar as condições do ambiente em que ele deve realizar sua atividade competitiva: como processa a in- Manual de handebol58 formação, o que observa do oponente, do espaço, suas motivações, como se relaciona com o objeto de jogo etc. Modificando a organização dos acon- tecimentos e as situações do ambiente, estimula-se o esportista a elaborar novos comportamentos, que são o produto da interpretação pessoal daqueles aconteci- mentos (não são situações padronizadas nem comportamentos homogêneos). O que se tenta melhorar é a interpre- tação do sujeito, para que isso ocasione a modificação da conduta externa (não se centra no produto, mas no processo, para conseguir uma maior disponibilida- de motora). Conseguem-se atitudes motrizes que são “esquemas motores”, aplicáveis a situa- ções variáveis, não adquirindo modelos estereotipados de conduta. Assim, cria- se uma motricidade mais coerente com a situação interpretada. A evolução da aprendizagem está centrada na capacidade que o esportista tem para analisar sinais do ambiente, saber inter- pretá-las e tomar decisões motrizes varia- das, sendo estas cada vez mais ajustadas à suas necessidades e interesses particulares. Deve-se ter em conta muito mais as neces- sidades do esportista, pois a pessoa é prio- ritária à atividade desportiva. É mais válido para os esportes em que as situações de competição não são estáveis e apresenta-se grande interação. Predominam nos atletas as motivações in- trínsecas: a satisfação pessoal pela tarefa bem realizada, afinco de investigar o que se passa, a autoestima etc. Essas motivações são mais perduráveis do que as extrínsecas e produzem outro tipo de fenômenos na personalidade. As relações professor-aluno, treinador- esportista permitem obter resultados da pessoa que compete e não do modelo de competição em que se joga. O esportista vai se autoformando nessa determinada especialidade segundo seus próprios interesses e não como o treinador entende que deve ser. Conforme colocado, no handebol é funda- mental procurar por uma forma de preparação física integrada, globalizada, pois não se melhora apenas uma única capacidade condicional, coor- denativa ou cognitiva. Quando a treinamos, deve- se relacioná-la com as outras capacidades, ao invés de treiná-la isoladamente. 6.2.2 Construção do modelo de treina- mento cognitivista Apresenta-se a necessidade de otimizar as capacidades de rendimento que o esportista possui, porém considerando a estrutura hu- mana de forma homogênea. Por isso, temos de diferenciar, no modelo cognitivo, os seguintes fatores: PreParação físIca aPlIcada aos esPortes coletIvos 59 fIgura 6.1 – Fatores que diferenciam o modelo cogni- tivo de treinamento. Ao se elaborar determinado modelo com determinada estrutura, ou seja, quando se modi- ficam aspectos condicionais, deve-se considerar que também se modificam os componentes co- ordenativos e cognitivos. É necessário conhecer os diferentes parâmetros que constituem cada elemento condicional, coordenativo e cognitivo. O preparador físico de uma equipe tem de saber como potencializar os fenômenos condicionais, porém nunca se esquecer dos outros dois (coor- denativos e cognitivos). O treinamento terá uma estrutura conforme a Figura 6.3: fIgura 6.2 – Interação das estruturas que compõem o modelo cognitivo de treinamento. Portanto, sempre que se tenha intenção de enfatizar um aspecto qualquer – seja condicional, coordenativo ou cognitivo –, não se pode se es- quecer de trabalhar de forma homogênea com os outros dois aspectos. Fundamental, e mais importante no pro- cesso dessa concepção, para estruturar o treina- mento, consiste na necessidade de coerência entre os três elementos anteriormente citados. Nesse aspecto é que reside, na realidade, o grande pro- blema da transferência que existia nos modelos conductistas, pois não se consideravam as inte- rações dos três elementos fundamentais do jogo: condicional, coordenativo, cognitivo. fIgura 6.3 – Estrutura do treinamento no modelo cognitivo. Isso significa que metade ou mais da metade da necessidade de treinamento tem de estar cen- trada no aspecto condicional, porém sem se es- quecer da parte coordenativa e da cognitiva. Nas fases iniciais de uma atividade de aper- feiçoamento da condição física, teria de ser algo como na Figura 6.4: fIgura 6.4 – Sequência inicial de treinamento para o aperfeiçoamento da condição física. Cognitivas Capacidades psicológicas CoordenativasCondicionais Tarefa Gesto MovimentoTrabalho Diferente orientação espacial Coordenação Resistência Flexibilidade Força Velocidade Condicional Coordenativo Cognitivo Condicional Coordenativo/Cognitivo Condicional/Cognitivo Coordenativo Manual de handebol60 Ao longo do processo de treinamento, mo- dificar-se-ão em distintas proporcionalidades de acordo com cadacaso, mas sempre combinando os três componentes, já que são o fundamento dessa estrutura, que é a estrutura complexa dos sistemas de treinamento. Por isso, é muito im- portante que o preparador físico e o treinador, ao tratar de terminologia conductista, sintonizem com essa mesma forma de entender a preparação física dos esportes de equipe, porque, do contrá- rio, o treinador estará, continuamente, alegando que o preparador físico se intromete em assuntos que não são exclusivamente do campo físico, e isto é totalmente negativo. Portanto, a filosofia do treinador e do preparador físico tem de coincidir com a Teoria Cognitivista. 6.2.2.1 Elementos a ter em conta para a) Melhorar as capacidades condicionais: Tabela 6.1 – Elementos que compõem a melhora das capacidades condicionais na abordagem cognitivista Recursos do am- biente Naturais Instrumentais Próprio corpo Lugar Grupo de treinamento Caracte- rísticas da atividade muscular Tipo de contração Número de grupos musculares Ângulo e localização Velocidade de contração Aspectos de sobrecarga Quantidade de quilos deslocados Situação em relação à carga geral Forma de contato Condições quantita- tivas de tempo de prática Número de tentativas Repetições Séries Pausa Micropausa (-2 s) Macropausa (+2 s) Sem pausa b) Melhorar as capacidades coordenativas: Tabela 6.2 – Como melhorar as capacidades co- ordenativas, segundo abordagem cognitivista do treinamento Variações na execução do movimento Nuances (mais forte, mais fraco, mais rápido, mais devagar etc.) Amplitude (encadeados, não en- cadeados etc.) Simetrização (localização quanto ao eixo corporal) Combinação de movimentos Sucessivos Alternados Simétricos Variações espaciais na execução Orientação Direcionados Móveis Variações temporais na execução Antecipação Adaptação Variações de ritmo Tarefas em estado de fadiga Por excesso de informação Cansaço fisiológico Acúmulo de tarefas continuação continua PreParação físIca aPlIcada aos esPortes coletIvos 61 6.3 Treinamento da força 6.3.1 Níveis de aproximação Para fazer que uma capacidade básica (força) seja aplicada pelo jogador naquilo que ele quer (por exemplo: lançamento em suspensão), o joga- dor deve ter passado por uma série de fases, cujo processo denominaremos a seguir. 6.3.1.1 Distintos níveis de aproximação Localizar as investigações e a avaliação. Primeiro nível – força geral Quadro 6.2 – Detalhes do primeiro nível de trei- namento de força (força geral) Tarefa: trabalho de carga Recursos do ambiente Instrumentos não similares aos do jogo Próprio corpo Lugar não específico Grupos variados Caracte- rísticas da contração muscular Todo tipo de contrações Todos os grupos musculares 0% de trabalho semelhante Distintas velocidades de contração Aspectos de sobrecarga Peso (kg) de acordo com as possibilidades pessoais Variadas colocações da C.G. Formas de contato semelhante Condições Quantitativas Nº de tentativas segundo as possibilidades pessoais Pausas variadas segundo necessidade dos sistemas Gesto: mo- vimento Variações na execução Amplitude Simetrização Coor- denação Combinação de Movi- mentos Sucessivas uniões, específi- cas e não específicas Movimentos simultâneos específicos e não específicos Variações espaciais Equipamentos distintos Modificações na orientação Os exercícios gerais podem ser: compensatórios; orientados; não orientados (atividades coordenativas não próprias ao esporte praticado). fIgura 6.5 – Níveis de aproximação. Existem quatro níveis de aproximação que permitirão, no momento da planificação, progra- mar e organizar: Quadro 6.1 – Níveis de aproximação da força no plano de treino Força Geral Força Específica Força Dirigida Força de Competição Em cada nível de aproximação, dão-se as três categorias de força do handebol: força de luta, força de salto e força de lançamento. Esses níveis de aproximação permitirão: Desenvolver os aspectos, condicionais e co- ordenativos Alcançar estados de forma Efeito específicoQualidade básica Manual de handebol62 Segundo nível – força dirigida Permite melhorar o rendimento da ação téc- nico-táctica geral da capacidade. Quadro 6.3 – Detalhes do segundo nível de trei- namento de força (força dirigida). Tarefa: trabalho da carga Recursos do ambiente Instrumentos parecidos Lugares específicos Grupo estável Caracte- rísticas da contração muscular Contrações parecidas Grupos musculares prota- gonistas da ação 0% de trabalho parecido Velocidades similares Aspectos de sobre- carga Peso (kg) de acordo com as necessidades do gesto Colocação ajustada da C.G. Formas de contato adequadas Condições quantita- tivas do tempo Tentativas ajustadas às necessidades do esporte Pausas ajustadas ao sistema de adaptação ao esporte Gesto: movimento e coordena- ção Variações na execução Diferenciação Amplitude Simetrização (bilateralidade) Combina- ção de mo- vimentos Sucessivos específicos Simultâneos específicos Alternativos específicos e não específicos Variações espaciais e temporais Equipamentos semelhantes Orientação preferencial (em função da posição específica) Variações no ritmo de execução (nos permite di- ferenciação e bilateralidade de uma vez) Adaptação a um ritmo Os exercícios dirigidos podem ser: de ação indireta (somente combinam um elemento coordenativo e um condicional); de ação direta (combinam vários); de situação parcializada (criamos uma situ- ação que simula uma situação real de jogo). Terceiro nível – força especial Quadro 6.4 – Detalhes do terceiro nível de treina- mento de força (força especial) Tarefa: trabalho com carga Recursos do ambiente Instrumentos desenhados Lugares específicos de prática Caracte- rísticas da contração muscular Contrações idênticas Grupos específicos Objetos idênticos reforçados Velocidade específica Aspectos de sobrecarga Peso (kg) de acordo com a qualidade específica Colocação da C.G. idêntica Contatos específicos Condições quantita- tivas do tempo Recuperação conjugando sistema e participação específica Gesto: movimento e coordenação Variações na execução Complexidade aumentada do nível 2 (força dirigida) Combina- ção de mo- vimentos Complexidade aumentada do nível 2 (força dirigida) Variações espaciais e temporais Variações rítmicas criativas Antecipação Tarefas em estado de fatiga Por acumulação de tarefas específicas ou não específicas Cansaço fisiológico PreParação físIca aPlIcada aos esPortes coletIvos 63 Os exercícios especiais podem ser: de variação espacial; de controle tátil-cinestésico (relação entre o tato e a cinestesia, aproveitando a força adversária para próprio benefício); de hiperestimulação setorial (relação força- -peso do instrumento). Quarto nível – força de competição É aquele que tem de desenvolver, por sua vez, o preparador físico e o treinador, já que se necessitam de componentes táticos. Quadro 6.5 – Detalhes do quarto nível de treina- mento de força (força de competição) Tarefa, carga, trabalhoComo os exercícios especiais, mas dificul- tando as condições do ambiente. Gesto: Movimento coordenação Iguais às do terceiro nível, incluindo-se: fadiga por excesso de informação, que se necessita para o jogo; dificuldade crescen- te mesclando dois ou três fatores por vez (combinação + tempo + espaço). Os exercícios competitivos podem ser: competitivos “especiais” (porque tem uma sucessão de jogo que não se pode categori- zar nas três categorias de força); de ação “diferencial” (possibilidade de tro- car em maior ou menor rapidez os dese- nhos do jogo); de supercomplexidade tática. 6.3.1.2 Aplicação prática do trabalho de força O quadro seguinte é um resumo dos distin- tos trabalhos que devem ser realizados para chegar aos níveis de aproximação das diferentes manifes- tações da força. Quadro 6.6 – Detalhes dos distintos trabalhos de treinamento de força Força Geral Dirigida Especial Competição Lança- mento Pull over Variações de press Tríceps Munhecas Dedos Multilançamentos Estáticos-Dinâmicos Apoio-suspensão (2 kg + 2 mãos) Multilançamentos Estático-Dinâmico Apoio-Suspensão (2 mãos - 1 kg; 1 mão - 800 g) Lançamentos específicos Distância Velocidade Act. diferencial (400 g) Salto Variações do squat 1\2 squat + salto Pliometria Multissaltos Multissaltos Encadeados + tarefas específicas Simultâneos + tarefas específicas Lançamentos em suspensão Saltos, bloqueios sucessivos Modificação da trajetória Luta Arrancada Dois tempos Giros em desloca- mento Rosca Leves (-10 kg) Pesadas (-25 kg) Estático-dinâmico Exercícios de simulação com sobrecarga (mais ou menos 8-10 kg de acordo com o peso dos jogadores 10%-15% p.c) Jogo específico: Diferencia do princípio defesa-ataque Defender sucessivamente Manual de handebol64 Os que se encontram na parte final de sua carreira esportiva eliminam o traba- lho de força geral e de competição, re- alizando um suporte de força dirigida e específica exclusivamente. 6.4 Treinamento da resistência 6.4.1 Categorias de resistência O trabalho de resistência que propomos está construído igual a todo trabalho de força já visto. A partir das necessidades específicas do jogador, desenvolvemos uma forma de treinamento que satisfaça às necessidades energéticas necessárias para um jogador de handebol em todas as catego- rias e manifestações da resistência. No Quadro 6.7, da escola italiana, vemos a denominação de diferentes categorias da capaci- dade ou potência de resistência, ou potência-ca- pacidade nessa sequência, e as condições em que se manifesta: Quadro 6.7 – Denominação das diferentes cate- gorias da resistência Via energética Potência Capacidade Anaeróbica alática De 0 a 7- 8 s Repetições de 7 s ou de 7 a 15 s Anaeróbica lática Entre 15 - 45 s Repetições de 25 - 30 s ou de 45 s a 2 min Aeróbica De 2 a 3 min Repetições de 3 min ou mais de 15 min 6.3.1.3 Uma aproximação da planificação do trabalho de força ao longo de uma temporada A distribuição do trabalho de força deve ser feito em função da temporada e da equipe. Divide- se em meses todo o período competitivo, e cada mês em semanas. Em função de como for a competição, periodiza-se o trabalho de força, planificando dois ou mais picos de forma ao longo da temporada. FIgura 6.6 – Distribuição do trabalho de força. Todo o trabalho de força estará relacionado com o trabalho técnico-tático e em função dos sis- temas a serem utilizados, sobretudo os defensivos. A força de competição se manifesta nos jo- gos desde o princípio da temporada, e isso é algo que se deve levar em conta. O trabalho sempre se faz em função do jogador: Os indivíduos que iniciam este tipo de tra- balho não devem trabalhar em treinamen- tos da força de competição (que será visto nas competições), somente um pouco de força específica. Os que estão em pleno apogeu de sua car- reira realizam todo tipo de trabalho de for- ça nos treinamentos. Planificação do Trabalho de Força Força Geral Força Dirigida Força Específica Força Competição PreParação físIca aPlIcada aos esPortes coletIvos 65 a) Ciclo anaeróbico alático No trabalho puro de velocidade, da potência anaeróbica alática, não se produz ácido lático, o que acontece em condições de anaerobiose. Está- -se no limite máximo de 7 a 8 s, obtendo-se a máxima velocidade de deslocamento. Quando fa- zemos repetições nesse período, ou realizamos um trabalho de duração entre 8 e 15 s (em indivíduos treinados; em jogadores não treinadores, seria de 10 a 11 s) à velocidade máxima, estamos traba- lhando no limite do trabalho alático. Esse método se denomina capacidade anaeróbica lática. b) Ciclo do acido lático Entre 15 e 45 s, trabalhamos a potência ana- eróbica lática. Trabalha-se quase ao mesmo tempo da velocidade máxima. Acumula-se uma quan- tidade de ácido lático no sangue. O trabalho de capacidade anaeróbica lática se levará com séries repetidas de 25 a 30 s ou realizar trabalhos com uma duração de 45 s a 2 min. Nesse tipo de traba- lho, obteremos os picos de lactato mais elevados. c) Ciclo aeróbico O período entre 2 a 3 min é o limiar final, quando aparece o limiar anaeróbico, chamado po- tência aeróbica. Quando realizamos séries de 2 a 3 min, ou passamos de 4 a 5 min e até 15 min ou mais, chamamos esse ciclo de capacidade aeróbica. Essa classificação dos distintos estados ener- géticos que suportam a participação do jogador, quando se exige trabalhar a velocidade máxima durante esses tempos, sucede esses tipos de re- sistências, assim denominadas: com duas opções anaeróbicas aláticas, duas opções anaeróbicas láti- cas e duas opções aeróbicas. Isso foi pesquisado na escola italiana sobre indivíduos que correm na máxima velocidade possível. Entretanto, devemos imaginar que um indivíduo, além de correr, move os braços, desloca uma bola etc. Esses tempos devem se modificar ou reduzir. Por quê? Em 15 a 20 s correndo, o trabalho é pura- mente anaeróbico alático; de 10 a 11 s é o limite de capacidade anaeróbica alática, em que, fre- quentemente, aparece entre 4,5 a 5 mmol de con- centração de ácido lático. É a partir dessa taxa que passamos a considerá-lo no âmbito de lactademia. Evidentemente, devemos estar por baixo, porque o volume da atividade muscular que gera a prática de handebol é muito mais do que somente correr, já que ativamos os braços, realizamos trabalhos 1 x 1, deve-se saltar etc. Logo, o que foi investiga- do sobre as atividades de corrida não valem para esse esporte, mas apenas para determinar algumas bases. Porém, os tempos de participação em cada uma delas, para nós, sempre serão modificados em função da atividade, já que há maior número de solicitação muscular. Assim, centrando-se no handebol, podemos dizer que o primeiro e o último dos grupos defi- nidos anteriormente não existem, já que não reali- zamos uma ação de 8 s ao máximo e não voltamos a intervir até que se tenham passados 3 min, e, também, não podemos pensar que um jogador Manual de handebol66 atuará a uma velocidade média durante mais de 15 min ou repetições de 3 min. O jogador de handebol na competição está exposto a tempos de trabalho nos quais sua con- centração de ácido lático aumenta muito, o que dificulta a atividade motora. Nessa ação, entramos com uma dívida. Entretanto, a capacidade anae- róbica lática é necessária porque dependemos dos momentos de participação, e se o oponente,por sua vez, não tiver participado da ação anterior, ne- cessariamente deve-se responder a níveis suficientes de oposição, luta etc. e suportar o trabalho lático, ainda que não deseje. Necessitamos bastante da po- tência como uma capacidade, mais a potência do que a capacidade. Também devemos potencializar em um joga- dor, de preferência, a capacidade anaeróbica aláti- ca, ou seja, podem-se repetir muitas vezes partici- pações de 6 a 7 s com um alto nível de velocidade, com tempos de trabalho e de pausa de forma quase nunca homogênea. Além disso, a potência anaeró- bica servirá para ressintetizar mais rapidamente os resíduos láticos de uma atividade que se pode dar. Na prática dos sistemas de treinamento de resistência, devemos planificar tipos de resistência anaeróbica alática, componente lático e, também, potência aeróbica, que é o oxigênio de que se necessi- ta para manter uma prática anaeróbica lática, que é o metabolismo que prevalece nesta prática esportiva sobre o resto. Para resumir, deve-se desenvolver: sistemas de capacidade anaeróbica alática. potência e capacidade lática. potência aeróbica. 6.4.2 Tipos de trabalho de resistência a) Capacidade anaeróbica alática Quadro 6.8 – Trabalho de resistência para capaci- dade anaeróbica alática Estrutura condicional Componente cognitivo Estrutura coordenativa 8 a 10 s (máxi- ma velocidade de execução - 90% ou +) 1 a 1min30s de recuperação ativa Nº de vezes em função da posi- ção específica e do momento da temporada Pode-se asso- ciar ao tempo de trabalho ou ao de recu- peração (mais aconselhável para se centrar no elemento coordenativo durante o trabalho) Gesto específico Corrida de recuperação Tarefa com- plementar de recuperação 6.4.2.1 Estrutura condicional Como temos visto, deve-se ampliar o tempo de trabalho até 8 a 10 s, quase sempre ao topo, de 90% a 100%, com uma recuperação máxima de 1min30s. Nessas condições, a PC (fosfocreatina), que é o substrato orgânico que permite trabalho alático, regenera-se em 80% do que fora gasto em nível muscular, segundo os grupos musculares que participam. Assim, asseguramos o trabalho seguinte neste âmbito metabólico. O número de repetições variará em função da posição específica, do peso do jogador e do momento da temporada. Não depende de nenhum dos sistemas tradicio- nais de treinamento, mas do que foi exposto anterior- PreParação físIca aPlIcada aos esPortes coletIvos 67 mente, já que cada posição específica solicitará mais o trabalho de alguns grupos musculares concretos para essa posição específica; no entanto, o momento da tem- porada em que nos encontramos também é decisivo. 6.4.2.2 Estrutura coordenativa Consiste em realizar sempre o gesto específico durante o trabalho. Durante o tempo de recupera- ção ativa, existem duas opções: realizar corrida de recuperação ou uma tarefa complementar, poden- do ser o quique da bola, passes em duplas etc. 6.4.2.3 Componente cognitivo Neste sistema, o componente cognitivo é asso- ciado tanto ao trabalho quanto ao tempo de recupe- ração ativa. De preferência, deve-se fazê-lo no tempo de recuperação ativa e menos durante o trabalho, já que este é um sistema no qual devemos localizar, fundamentalmente, o gesto coordenativo específico. b) Potência anaeróbica lática Quadro 6.9 – Trabalho de potência anaeróbica lática Estrutura condicional Componente cognitivo Estrutura coordenativa Ações na maior velo- cidade possível Tempo de execução: 20 a 35 s Repetições: de 4 a 8 Recuperação: 4 a 5 min Ativa De pouco significado Passar de tarefas inespecíficas a tarefas específicas, progressiva- mente. 6.4.2.4 Estrutura condicional A potência anaeróbica lática melhora a condição das enzimas glicolíticas dos grupos musculares que participam, sobretudo das per- nas. Essas enzimas favorecem a destruição do ácido lático. As ações que faremos serão mais específicas e deverão fazer-se na mais alta velocidade possível. Desse modo, estaremos, continuamente, media- dos pela estrutura coordenativa. Entre 20 e 35 s, à máxima velocidade, deve- -se realizar não mais que 4 a 8 repetições, com re- cuperações entre 4 a 5 min. Esse tipo de trabalho suporta altas concentrações de ácido lático: de 6,5 a 8 mmol/mL. 6.4.2.5 Estrutura coordenativa Passará progressivamente de tarefas inespecí- ficas à específicas. Não se pode chegar a uma alta velocidade específica se não se dispõem do gesto coordenativo específico. Devem-se levar sempre tarefas conhecidas pelos jogadores para poder realizá-las na máxima velocidade, do contrário, não se estaria trabalhan- do a potência anaeróbica lática. A recuperação se realizará sempre de forma ativa. 6.4.2.6 Componente cognitivo De pouco significado. Manual de handebol68 c) Capacidade anaeróbica lática Quadro 6.10 – Trabalho de capacidade anaeró- bica lática Estrutura condicional Componente cognitivo Estrutura coordenativa A: Alta velocidade Tempo de execução: 1 a 2 min. Repetições: de 2 a 6. Recuperação: mais de 6 min. Trabalha-se durante a pré-temporada para criar a capa- cidade para logo fazer. B: Velocidade submá- xima. Tempo de execução: 30 a 45 s. Repetições: de 3 a 7. Recuperação: menos de 3 min, diminuin- do progressivamente. Mantém-se durante todo o período de competição. De pouca relevância. Se fizermos inter- pretar e elabo- rar respostas alternativas a essas situações, a velocidade de execução diminui mui- to, e o que nos interessa é a capacidade fisiológica. Isso significa que não existe, ainda que esta seja elementar e de pouca relevância. Componentes específicos, de menos a mais, encadeados (força de luta, de salto, de lançamento) O trabalho A pode e deve ser prévio ao B, porque o tempo total de realização é maior. 6.4.2.7 Estrutura condicional Apresentam-se duas opções: 1. Pode ser prévio a B, porque o tempo total de realização é maior. Utiliza-se durante a pré- -temporada. Velocidade alta, com 1 a 2 min. Realizam-se de 2 a 6 repetições com recuperação suficiente, de mais de 6 min. Nesse primeiro nível, já se deve criar a capacidade de tamponar a acidose meta- bólica para que, durante o treinamento específico da temporada, já se tenham os recursos metabóli- cos suficientes para suportar esse tipo de trabalho. Um dos erros mais cometidos na preparação física na pré-temporada é que, enquanto ela acontece, não se trabalha nada da capacidade anaeróbica lá- tica, mas tão somente a potência aeróbica (correr, correr e correr); quando chegam os primeiros dias em que se trabalha com bola, os jogadores se en- contram esgotados. Na pré-temporada, também se devem ter em conta trabalhos específicos de campo e, inclusive, podem-se fazer trabalhos de técnica com muitas repetições e trabalhos de ele- mentos da tática básica, que serão utilizados nesta temporada. 2. Velocidade muito próxima da máxima, tem- po de realização menor que 1 min: entre 30 e 45 s, aumenta-se o número de repetições até 8, sendo, normalmente, de 3 a 7, e a recupe- ração ocorre de 3 min para menos. O ideal é que a distribuição dessas repetições possa ser feita em blocos, por exemplo, 2 blocos de 3 repetições. No primeiro bloco, 3 min de recuperação e, no segundo 3, 2 e 1 minuto de recuperação para aumentar,ao máximo, a reatividade orgânica do sujeito, para que provoque mais substâncias tampões do ácido lático. Nesse tipo de treinamento, chega-se aos 10 mmol/mL. PreParação físIca aPlIcada aos esPortes coletIvos 69 6.4.2.8 Estrutura coordenativa Componentes específicos de menos a mais. 6.4.2.9 Componente cognitivo Devem-se apresentar poucas complicações para evitar que a atenção e a concentração para manter altas velocidades não se reduzam. Mas isso não significa que não existam, pois, nos passes com bola, por exemplo, deverão ser usados quatro tipos de passes distintos. Logo, já há certo compo- nente cognitivo, que é elementar. Outro exemplo: se se deve desviar de cones, o deslocamento entra cada cone se realizará de forma distinta. É muito importante fazer que esse pequeno elemento de tomada de decisão não seja esquecido pelos jogadores. d) Potência aeróbica Quadro 6.11 – Trabalho de potência aeróbica Estrutura condicional Componente cognitivo Estrutura coordenativa Corrida ou deslo- camentos contí- nuos (em período preparatório, cor- rida; a medida que se avança a tempo- rada, cada vez mais deslocamentos específicos). Tempo de execução: 2 a 3 min. Associado. Tarefas específicas, progresiva- mente ajus- tadas. Material específico do jogo. Espaço es- pecífico nas trajetórias de postos específicos. Estrutura condicional Componente cognitivo Estrutura coordenativa Repetições: nº de vezes de acordo com o tempo real do jogo. Recuperação: 30 s a 1 min. Ativa. 6.4.2.10 Estrutura condicional O trabalho de potência aeróbica será funda- mentado em forma de corrida ou deslocamentos. Serão realizados, no início, trabalhos de corrida que logo passarão a ser desenvolvidos junto com os deslocamentos. Terão duração de 2 a 3 minu- tos, recuperação ativa de 30 segundos a 1 minu- to e número de vezes de acordo com o tempo de jogo, porque a potência aeróbica será utiliza- da como via de ressíntese dos restos de lactato e outros resíduos. Portanto, é necessário superar o tempo real de jogo. 6.4.2.11 Estrutura coordenativa As tarefas são específicas e progressivamente ajustadas. No princípio da temporada, 80% do trabalho será corrida, em distintas velocidades de execução, mas, progressivamente, se transforma em uma tarefa específica do jogador (quicar, pas- sar e driblar, fundamentalmente): trabalho especí- fico do jogo. Nesse tipo de sistema, nas pré-tem- poradas, podem-se usar jogos de basquetebol, continuação continuação Manual de handebol70 futebol etc. para, posteriormente, como última aproximação coordenativa, utilizar o espaço espe- cífico dentro da quadra com as trajetórias mais utilizadas nas posições específicas de cada jogador (no caso de correr por toda a quadra, os pontas o farão pelas laterais, o central e o pivô pelo centro etc.), realizando tarefas de acordo com estas posi- ções específicas. 6.4.2.12 Componente cognitivo Está associado às tarefas específicas. 6.5 Periodização da resistência Graças a essas três categorias, podemos ela- borar, ao longo da temporada, um espectro de meios de treinamento da resistência. Na planificação do nosso esporte, dividimos a temporada em dois períodos: um período pre- paratório, com duração de 4 a 5 semanas; e um período competitivo, que se estende por 7 meses. Tabela 6.1 – planejamento do treinamento de re- sistência ao longo de uma temporada competitiva Período preparatório Período competitivo Capacidade anaeróbica alática Potência aeróbica Potência anaeróbica lática Capacidade anaeróbica lática “a” Capacidade anaeróbica lática “b” Portanto, devem-se utilizar diferentes meios ao longo dos períodos, dois deles, fundamental- mente, ao longo do período preparatório: Aquele que permite ressintetizar os altos níveis de ácido lático, no nível de trabalho aeróbico. A potência aeróbica será a resis- tência preferencialmente utilizada durante o período de preparação; A fase lática: a capacidade “a” dentro da ca- pacidade anaeróbica lática. Uma vez que temos, basicamente, desenvol- vidas essas duas vias (potência aeróbica e capaci- dade anaeróbica lática “a”) de resistência, devem aparecer e continuar ao longo de toda temporada de competições as outras vias que faltavam, a po- tência anaeróbica lática e as capacidades anaeróbi- cas alática e lática “b”. Assim, existe um momento final da cha- mada pré-temporada, que é crítico na troca dos meios de treinamento da resistência e o mais di- fícil, porque, além disso, teremos de incluir as primeiras competições, e, em função da posição específica e de como cada um tenha assumido es- ses treinamentos de resistência, cada um vai usar mais um tipo de metabolismo que outro. Nes- sas primeiras competições, se tiverem assumido muito bem o trabalho aeróbico, irão muito bem na 1a parte; na 2a parte, não poderão se mover, pois haverá muito ácido lático acumulado. Isso se vê claramente nas partidas anteriores ao início da temporada competitiva oficial. PreParação físIca aPlIcada aos esPortes coletIvos 71 Quando vão se equilibrando as quatro vias de resistência, elas irão se homogeneizando, che- gando-se à forma ótima na competição. Entretanto, devemos observar a sequência em que vamos utilizá-la e em todo o momento que elevam, no início do período de competição, as quatro vias. É praticamente a partir desse instante que desaparece a potência aeróbica, aparecendo aos poucos nos momento em que houver muita carga de competições. O fundamento será ca- pacidade anaeróbica alática e potência anaeró- bica lática como suporte da opção “b” da capa- cidade anaeróbica alática, e, de vez em quando, potência aeróbica. Ao longo da temporada, sobretudo na po- tência anaeróbica lática, trabalhar-se-á mais no treinamento técnico e tático. Assim, basicamen- te, os trabalhos de ataque-defesa e contra-ataque podem ser classificados como físico-táticos. Desse modo, a proposta tem de ser comum entre ambos os treinadores, para que, dessa forma, possamos assegurar que é um treinamento de potência ana- eróbica lática. O treinamento da coordenação no handebol7 O nível de conhecimento das capacidades co- ordenativas não é tão diferenciado e teoricamente comprovado como o das capacidades condicionais força e resistência. As dúvidas são determinadas fundamentalmente na dificuldade de se obter pro- gressos sobre aspectos neurofisiológicos e seus res- pectivos correlatos em níveis corticais (por meio de um procedimento dedutivo de pesquisa). Observa- -se também que as pesquisas no plano de observa- ção do comportamento coordenativo (por meio de um procedimento indutivo de pesquisa) têm apon- tado resultados contraditórios.30 Assim, os conheci- mentos adquiridos até hoje na área das capacidades coordenativas apresentam várias dúvidas e muitas hipóteses, sendo alguns deles somente gerais. A execução de uma ação, em especial a esportiva, é compreendida como um processo sistêmico e inte- grado, organizado e relacionado ao contexto situa- cional (pessoa – ambiente – tarefa). Nesse sentido, existe um conjunto de capacidades que interage mutua e complexamente, na busca de um objetivo. O termo capacidade deriva das bases teóri- cas da psicologia diferencial, que observa fatores como a inteligência e a personalidade do sujeito. São traços (traits) latentes, disposições ou, ainda, construtos que são herdados, definidos por meio deum processo de constante construção para, assim, poder explicar melhor as diferenças inte- rindividuais de rendimento.31 As capacidades são entendidas como a característica que torna possí- vel o desempenho de alta qualidade, nas diversas atividades humanas, propiciando o alcance do sucesso. As capacidades coordenativas traduzem a organização e o controle de movimentos por meio das propriedades dinâmicas do sistema efetor. A análise de ações coordenadas como soluções nas tarefas motoras práticas contribui com possíveis respostas às “controvérsias entre a teoria motora e a da ação”,32 com uma visão dos velhos problemas em um novo contexto. No marco das capacidades inerentes ao ren- dimento esportivo, as capacidades coordenativas possuem caráter geral, ou seja, elas são pré-requi- sitos de ordenamento e estruturação para deter- minada classe de tarefas motoras, que, em certos momentos ou situações no esporte, colaboram na execução de uma técnica específica da modalida- de. Ou seja, as capacidades coordenativas servem de base para as habilidades técnicas e estas, por sua vez, para a aprendizagem da técnica, isto é, do gesto específico da modalidade (por exemplo, o lançamento em suspensão ou a realização de uma “rosca” no lançamento do ponta, na parada de uma bola com uma técnica de side-quick do golei- Pablo Juan Greco, Siomara A. Silva, Fernando Lucas Greco Manual de handebol74 ro e muitas outras). Na presente proposta, o con- ceito de habilidade é ajustado aos jogos esportivos coletivos e se distancia do conceito comumente utilizado nos estudos de aprendizagem motora. 7.1 Revisão teórica As capacidades coordenativas estão com- postas por um conjunto de processos e subpro- cessos que provoca bastante controvérsia acadê- mica quanto a seus alcances, limites e conteúdos. Conforme o ponto de vista em que é considera- da, toma-se um plano de análise diferente. Os trabalhos de pesquisa mais importantes sobre as capacidades coordenativas são, entre outros, os de Bernstein,33 Hirtz,34,35 Neumaier e Mechling,36,37 Roth,38,40 Schmidt,41,43 Zimmermann,44 entre ou- tros autores. Coordenar significa, etimologicamente, ordenar junto. No handebol, essa característica se agrega à função de direcionar, regular e har- monizar os processos parciais do movimento, os quais, tendo em vista o objetivo da ação, permi- tem que este seja alcançado com o menor gasto energético possível. As capacidades coordenati- vas estão em princípio determinadas pelos pro- cessos de regulação e orientação do movimento, oportunizam que o atleta domine, de forma se- gura e econômica, ações motoras em situações previsíveis (estereótipos) e imprevisíveis (adap- tação), sendo fundamentais para aprender movi- mentos esportivos. Do ponto de vista da “Teoria da Ação”,45,46 a coordenação de movimentos é sempre um complexo rendimento da persona- lidade como um todo, que abrange todos os processos de regulação do comportamento nos níveis de controle do movimento – intelectual, emocional, automático –, que são necessários para a organização e obtenção do objetivo.48 As capacidades coordenativas são propriedades qualitativas do nível de rendimento de um ser humano e pré-requisitos de rendimento que ca- pacitam o atleta para realizar ações. As capacida- des coordenativas são consideradas como equi- valentes ao construto inteligência, isto é, como representantes da inteligência motora. O treinamento da coordenação, portanto, se relaciona com o desenvolvimento da capa- cidade de realizar movimentos, de adaptá-los à situação, de contribuir no aprimoramento da imagem corporal, de uma percepção sensorial diferenciada, da melhora dos processos de pro- priocepção (necessários à condução ou à adapta- ção de movimentos). Lamentavelmente, obser- va-se, na prática do professor, que o treinamento das capacidades coordenativas e da coordenação é esquecido ou “sacrificado” na errada procura por uma performance ou aperfeiçoamento do ní- vel técnico de forma veloz. Um processo de ensino-aprendizagem-trei- namento em longo prazo na formação de joga- dores de handebol inteligentes e criativos solicita que a coordenação se relacione com o treinamen- to da percepção geral e, posteriormente, à percep- ção específica, com atividades que possibilitem o desenvolvimento do conhecimento tático e da tomada de decisão, seguindo três princípios: o treInaMento da coordenação no handebol 75 Modificar a dificuldade/aumentar a difi- culdade. Modificar a complexidade/aumentar a complexidade. Esses princípios mencionados, simultane- amente. Considera-se de fundamental importância que as atividades a serem oferecidas às crianças para aprimorar a coordenação tenham uma es- truturação didática em que seja considerado um processo de aumento gradativo e permanente na exigência de organização interna do movimento. Portanto, recomendamos uma progressão em que se exploram todas as possibilidades que cada ele- mento oferece e desenvolve nas faixas etárias, de acordo com a sequência proposta a seguir: 6-8 anos: atividades com um elemento (exemplo corda, bastão ou bola). 8-10 anos: atividades com dois elementos (exemplo: corda e bola). 10-12 anos: atividades com três elementos (exemplo: corda, bola e bastão). Na fórmula para se treinar as capacidades co- ordenativas, sugere-se aplicar a proposta apresenta- da por Neumaier e Mechling,36,37 Roth47 e Kröger e Roth,31,48 já experimentada com sucesso pelos autores deste aporte no Brasil. As faixas etárias des- critas são sugeridas como elemento de referência. Assim, para o ensino-aprendizagem-treina- mento das capacidades coordenativas, sugere-se uma alternativa metodológica e didática extrema- mente fértil, relacionando tais exigências à realiza- ção de movimentos. Os aspectos inerentes aos pro- cessos de recepção da informação nas vias aferentes são caracterizados pela recepção de informação por meio dos diferentes órgãos dos sentidos: visual, acústico, tátil, cinestésico, vestibular ou de equilí- brio, bem como os processos eferentes (parâmetros de pressão da motricidade) por meio da motricida- de ampla e fina (caracterizadas pelo volume e pela quantidade dos agrupamentos musculares necessá- rios à ação), que é submetida a diferentes condicio- nantes de pressão: tempo, precisão, complexidade, organização, variabilidade e carga, que constituem a base teórica para organizar um modelo de treina- mento da coordenação no handebol. Na parte inferior do modelo (vide Figura 7.1), os condicionantes da ação, isto é, as restrições típicas da ação esportiva, permitem estabelecer os parâmetros perante os quais o desempenho coorde- nativo deve ser treinado. Os parâmetros de pressão das capacidades coordenativas são variáveis confor- me a situação específica que se pretende resolver na prática esportiva. Esses parâmetros foram determi- nados a partir da comparação de mais de 20 for- mas de abstrações de utilização do conceito de ca- pacidade coordenativa (Neumaier e Mechling).36,37 Os seis parâmetros de pressão – tempo, precisão, organização, complexidade, carga e variabilidade – constituem as dimensões das capacidades co- ordenativas relacionadas a motricidade, execução motora, elementos característicos da motricidade no momento da realização do movimento coorde- nado, isto é a execução de uma técnica especifica (lançamento em suspensão, passe, “rosca” etc.) Manual de handebol76 fIgura 7.1 – Exigências coordenativas.31 Exigências Coordenativas nas Tarefas deMovimentos Elaboração de Informação Eferente Motricidade grossa e �na Aferente Ótico, acústico, tátil, cinéstesico, vestibular Baixa Alta Pressão do Tempo Pressão da Precisão Pressão da complexidade Pressão da organização Pressão da variabilidade Pressão da carga O Quadro 7.1 esclarece quais são os parâ- metros de pressão conforme colocados por Kröger e Roth,32 o que representa o ponto de vista da exi- gência motora e um exemplo prático. Quadro 7.1 – Elementos de pressão da motricidade31,36 Parâmetros de pressão Tarefas coordenativas nas quais é necessário Exemplos Tempo Minimizar o tempo ou maximizar a velocidade de execução. No contra-ataque, receber e fazer o passe ao colega que corre no espaço livre. Precisão A maior exatidão possível. Lançamento a gol fora do alcance do goleiro. Complexidade Resolver sequências de exigências su- cessivas, uma depois de outra. Realizar uma finta dupla, com câmbio de direção e posterior salto em suspensão, fingir lançamento e pas- sar ao pivô. Organização Superar exigências simultâneas, ao mes- mo tempo. Receber a bola fintando a linha de corrida e, paralela- mente, saltar. Variabilidade Superar exigências ambientais variá- veis e situações diferentes. Realizar diferente tipo de fintas caindo com dois pés, com um pé, giro. Carga Superar exigências de tipo físico-con- dicionais ou psíquicas. Lançamento em suspensão no final do jogo. o treInaMento da coordenação no handebol 77 7.2 O treinamento da coordenação no handebol A fórmula para treinar a coordenação in- clusive no handebol parte das habilidades básicas correr, saltar, empurrar, tracionar etc., que podem ser agrupadas em manuais: lançar (arremessar), driblar, receber, rebater etc.; pedais: chutar, con- duzir, receber com os pés; e com elementos (raque- te ou bastão). Na realização das habilidades, suge- re-se combiná-las com elementos diversos, como, por exemplo, a bola junto das habilidades pedáli- cas e manuais, a bola e um bambolê, um manual (girar o bambolê no braço) e, simultaneamente, um pedálico (condução da bola). A fórmula para o treinamento da coordenação no handebol deve priorizar as atividades com bola e sua combina- ções com outros elementos, ou seja: Portanto, deve-se observar, ao se oferecer exercícios (que depois são integrados em jogos e formas jogadas de aplicação do aprendido), que a recepção de informação por meio dos analisadores (tátil, acústico, visual, cinestési- co, vestibular ou de equilíbrio) seja colocada em situação de pressão motora (tempo, preci- são, organização, complexidade, variabilidade e carga). A proposta expressa na fórmula de trei- namento da coordenação na qual se combi- na a recepção de informação com a pressão na motricidade nas atividades, nos exercícios propostos, leva a criança à execução de tare- fas que, sistematizadas pelo professor, visam oportunizar a melhora do seu desempenho motor, otimizando o desenvolvimento das ca- pacidades de coordenação. Treinamento da coordenação com bola Habilidade básica com bola Variabilidade (exigências aferentes e eferentes) Situação de pressão (do tempo, da precisão, da complexidade, da organização, da variabilidade, da carga) FIgura 7.2 – Fórmula básica do treinamento da coordenação.31 Manual de handebol78 7.3 Atividades sugeridas para o de- senvolvimento da coordenação com bola para a iniciação (não somente) ao handebol A seguir se apresentam atividades para o treinamento da coordenação já descritas em outra publicação,49 que podem ser exemplo para a orga- nização de diferentes programas de treinamento. Em geral, recomenda-se que o treinamento da coordenação não seja realizado somente pelos go- leiros, mas por todos os jogadores, de preferência após um jogo, no início do treinamento, consi- derando-se, assim, a realização de um jogo para o desenvolvimento da capacidade tática como ele- mento de motivação e de aquecimento no início da aula e, posteriormente, realizar um trabalho de aproximadamente 15 minutos de treinamento da coordenação. Não é recomendado, na faixa etária da pré-adolescência e no treinamento com ini- ciantes, trabalhar a coordenação quando os parti- cipantes estão cansados. 7.3.1 Idade: 6-8 anos, 1 elemento Material: bola Quadro 7.2 – exemplo de atividades para a faixa etária de 6-8 anos Analisador Condicionantes Exercício Cinestésico Tempo Rolar a bola no chão, correr, ultrapassá-la, detê-la com a testa. Tátil Precisão Conduzir a bola, rolando-a com a mão (utilizar as duas mãos) no chão, em diversas direções e em determi- nados percursos. Visual Tempo Lançar a bola para o alto com as mãos, simultaneamente, e segurá-la após um quique no chão e, posteriormente, sem tocar no chão. Tátil Tempo Rolar a bola no chão, enquanto o compa- nheiro tenta chegar à frente dela, correndo. o treInaMento da coordenação no handebol 79 Material: bambolê Quadro 7.3 – Exemplo de atividades para a faixa etária de 6-8 anos utilizando o bambolê Analisador Condicionantes Exercício Cinestésico Precisão Andar quicando uma bola e, simul- taneamente, puxar o companheiro que está dentro de um bam- bolê o com os olhos fechados. Material: pneu Quadro 7.4 – Exemplo de atividades para a faixa etária de 6-8 anos utilizando o material pneu Analisador Condicionantes Exercício Tátil Complexidade Passar por dentro do pneu de várias formas. Vestibular Carga Os companheiros, segurando-se mutua- mente por um bambo- lê, devem andar pisan- do acima de uma fi leira de pneus, quicando uma bola, saltando sobre o pneu que se encontra no chão até que o último do grupo chegue à “terra fi rme”. Manual de handebol80 Material: banco sueco, bola, arcos ou bambolês Quadro 7.5 – Exemplo de atividades para a faixa etária de 6-8 anos utilizando os materiais banco sueco, bola, arcos ou bambolês Analisador Condicionantes Exercício Vestibular Precisão Andar acima de um banco sueco invertido e quicar uma bola dentro de bambolês colocados no chão. Vestibular Complexidade Amarrar o pé direito de um companheiro ao pé esquerdo do ou- tro e fazer que, juntos, corram e driblem cada um uma bola. Vestibular Complexidade Amarrar o pé direito de um companheiro ao pé esquerdo do ou- tro e fazer que, juntos, corram e driblem cada um uma bola. o treInaMento da coordenação no handebol 81 7.3.2 Idade: 8-10 anos, 2 elementos Material: bolas Quadro 7.6 – Exemplo de atividades para a faixa etária de 8-10 anos utilizando bolas Analisador Condicionantes Exercício Visual Tempo Rolar duas bolas iguais no chão, correr, ultra- passá-las e segurá-las. Cinestésico Organização Quicar duas bolas diferentes, simultanea- mente, caminhando e correndo em diferentes direções. Material: bola e arco Quadro 7.7 – Exemplo de atividades para a faixa etária de 8-10 anos utilizando bola e arco Analisador Condicionantes Exercício Cinestésico Precisão Quicar a bola uma vez dentro e outra fora de um arco no chão, variando o braço alea- toriamente. Visual Precisão Enquanto o compa- nheiro rola o arco no chão, quicar a bola, passando por dentro do arco de um lado para o outro. Manual de handebol82 7.3.3 Idade: 10-12 anos, 3 elementos Material: bola, bastão e arco Quadro 7.8 – Exemplo de atividades para a faixa etária de 10-12 anos utilizando bola, bastão e arco Analisador Condicionantes Exercício Cinestésico Complexidade Puxarum arco por um bastão (um de cada lado), enquanto quica uma bola com a outra mão. Cinestésico Complexidade Puxar um pneu por uma corda (um de cada lado), enquanto passa a bola entre si, com as mãos desocu- padas. Material: bola, bastão e pneu Quadro 7.9 – Exemplo de atividades para a faixa etária de 10-12 anos utilizando bola, bastão e pneu Analisador Condicionantes Exercício Cinestésico Complexidade Puxar um pneu por um bastão (um de cada lado), enquanto se conduz uma bola com os pés. o treInaMento da coordenação no handebol 83 Quadro 7.10 – exemplo de atividades para a faixa etária de 10-12 anos utilizando bola, corda e arco Analisador Condicionantes Exercício Visual Organização Pendurar um arco, com uma corda no gol. Balançar o arco e lan- çar bolas para acertar no alvo móvel. Depois colocar dois arcos que balancem em sentidos contrários 7.4 Conclusões O processo de aprendizagem motora no handebol se apoia no desenvolvimento da co- ordenação e nas capacidades inerentes à reali- zação das ações motoras basicas para a melhora da motricidade. Portanto, é necessário formular uma adequada sistematização do processo de ensino-aprendizagem das capacidades coorde- nativas. Assim, para melhorar as capacidades coordenativas, é necessária a adequada sequ- ência de exercícios que focalizam os diferentes condicionantes de pressão (são seis) da motri- cidade. O processo de aprendizagem motora se complementa com jogos a serem propostos nas denominadas estruturas funcionais, nas quais o esporte é vivenciado a partir de formas de jogo reduzidas, com menos jogadores, mas que, pela sua manipulação didática em relação à quanti- dade de jogadores, uso do espaço, do curinga etc., é possível aumentar o desenvolvimento das capacidades perceptivas e de tomada de decisão específi cas para resolver as situações de jogo, destacando que estas são semelhantes às que se encontram no jogo formal. Essas ati- vidades solicitam dos alunos a alternância da atenção e da dissociação de segmentos muscu- lares, ou ambos simultaneamente, no momento da realização das suas ações motoras, que é um dos aspectos fundamentais no handebol (por exemplo, como se observam nas exigências do movimento de engajamento). Deve-se destacar o potencial de combina- ções possíveis nas atividades a serem realizadas, por exemplo: analisador visual, com pressão de tempo, de precisão e assim por diante. As ativida- des devem ser realizadas, em todas as faixas etárias, com mãos, pés e com raquete-bastão, resultando, assim, em uma fabulosa combinação. Um analisador (exemplo visual) x 6 condi- cionantes de pressão x 3 formas de realizar a ação (pé-mão, raquete/bastão) signifi ca que se têm 18 Manual de handebol84 possibilidades de realizar a mesma atividade, de forma igual, porém sempre de forma diferente... Quando se combinam dois analisadores (por exemplo, visual e vestibular), encontramos um maior número de atividades plausíveis de se- rem pensadas. O resultado final é quase infinito, pois se pode usar, ainda, materiais como bolas, bastões, arcos, pneus, entre outros. Em relação às exigências coordenativas que se apresentam no handebol, observa-se que estas são gerais para as diferentes modalidades cole- tivas de invasão, ou seja, são gerais em relação aos esportes e influenciam o nível de condução e regulação dos movimentos voluntários, tanto nos esportes quanto na vida cotidiana. As capa- cidades coordenativas apresentam alto nível de treinabilidade e, para as crianças e adolescentes, constituem uma base para o desenvolvimento da inteligência motora31 e das técnicas especí- ficas do esporte posteriormente. São altamente dependentes da herança genética, porém, são modificadas por meio do processo de ensino- -aprendizagem e do treinamento. As capacidades coordenativas constituem o pré-requisito para mais de uma estrutura de diferentes movimen- tos e apresentam uma amplitude e generalização variada. Diferentes fatores limitam o desenvol- vimento das capacidades coordenativas. Entre estes, os mais importantes são: a quantidade de coordenações intra e intermusculares solicitadas no movimento, a condição dos analisadores, ou seja, o estado dos órgãos dos sentidos no mo- mento de receber a informação do próprio cor- po e do ambiente, a situação da aprendizagem, a experiência e o repertório de movimentos ad- quiridos anteriormente, bem como as condições ambientais do processo de aprendizagem. Qualquer processo pedagógico não se resu- me, simplesmente, ao ato de ensino-aprendizado, bem como o ensino-aprendizado não constitui, isoladamente, o processo pedagógico. O ato de ensinar e treinar implica oportunizar o desenvol- vimento do indivíduo, potencializar suas capaci- dades, habilidades, competências e, paralelamen- te, compreender as formas de manifestação do comportamento, atitudes e valores implícitos em suas ações. Portanto, é fundamental a orientação pedagógica da práxis educativa em qualquer con- teúdo que se proponha trabalhar. Em todas as for- mas de manifestação do esporte, o eixo norteador da ação do professor situa-se, por excelência, no rol pedagógico. o treInaMento da coordenação no handebol 85 Referências 1 eleno, t. g.; barela, j. a.; KoKubun, E. Ti- pos de esforço e qualidades físicas no hande- bol. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 24, n. 1, p. 83-98, Campinas, 2002. 2 barbosa, l. f., olIveIra, M. B. Handebol e exercício intermitente: caracterização do esforço. Buenos Aires: EF Deportes, v. 12, n. 116, 2008. 3 Paes neto, P. P. Estudo da frequência cardíaca de atletas de handebol segundo situação de jogo, durante 3 partidas oficiais dos 42º Jogos Re- gionais da Zona Leste do Estado de São Paulo. Dissertação (Mestrado). Faculdade e Educa- ção Física, Unicamp, SP, 1999. 4 andré, J. Estudo da influência do handebol no desenvolvimento muscular dos membros superio- res. Tese (Livre Docência). Escola de Educação Física, Universidade de São Paulo, SP, 1968. 5 Profeta, G. W. 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Porto Alegre: UFRGS, 2008. p. 81-111. v. 1 fundaMentos técnIco-tátIcos IndIvIduaIs coMuns de ataque e defesa 89 Parte III Técnica 8 Fundamentos técnico-táticos individuais comuns de ataque e defesa 8.1 Posições de base 8.1.1 Definição Considera-se como posição de base “o ges- to que o jogador adota para desenvolver, a par- tir dele, qualquer ação técnica” (Bárcenas e Ro- mán Seco);1 “é a gesto-forma que devem adotar os jogadores de campo para a sua predisposição diante das intervenções futuras” (Falkowski e En- ríquez);2 “a postura que o jogador adota, a partir da qual atua ou intervém, permitindo fazê-lo o mais rápido possível, como ponto de partida de qualquer intervenção” (VVAA).3 Uma vez assumida a posição básica, começa para o jogador a responsabilidade de assumir in- tenções táticas, sejam elas ofensivas ou defensivas. As posições de base que se adotam antes e depois de todos os deslocamentos são de grande impor- tância para as ações posteriores. 8.1.2 Princípios fundamentais Segundo Bárcenas e Román Seco,4 os princí- pios fundamentais são: adotar uma posição equi- Juan J. Fernández, José M. Miragaya, Randeantony do Nascimento libradae cômoda, que facilite intervenções em ações posteriores de forma continuada, à veloci- dade conveniente e no momento oportuno. A posição de base necessita de uma tensão regulada que favoreça a contração da musculatu- ra. A atenção à situação da bola e aos jogadores deve manter-se de forma contínua, predispondo (antecipando) o jogador para a jogada posterior (implica o princípio da responsabilidade). A aquisição de uma técnica básica ofere- ce melhores possibilidades no que diz respeito à velocidade de reação e à velocidade contrátil do músculo, facilitando, assim, a entrada em ação do jogador no jogo. 8.1.3 Descrição do gesto técnico No ataque, existem duas posições: Estática: a) Cabeça: erguida com naturalidade; b) Tronco: ligeiramente inclinado para frente; c) Pernas: ligeiramente flexionadas, as- simétricas e em situação cômoda, se- guindo o princípio da perna contrária ao braço de lançamento à frente; Manual de handebol92 d) Braços: com os cotovelos flexionados a 90o e com a parte radial girada acima e ligeiramente separados do corpo; e) Mãos: com os dedos estendidos e sepa- rados, em atitude apropriada para rece- ber a bola. Dinâmica: a) Pernas: simétricas, em suspensão alternada; b) Pés: com apoios alternados sobre o metatarso. Na defesa: Cabeça: erguida, permitindo uma boa vi- são periférica; Tronco: ligeiramente flexionado; Pernas: colocadas simétricas ou assimétri- cas, segundo a necessidade do momento do jogo; Braços: com os cotovelos flexionados a 120o e com a parte radial girada acima e ligeiramente separados do corpo; Mãos: com a face palmar dando frente ao opo- nente e com os dedos abertos e estendidos. O objetivo da posição de base consiste em oportunizar, a partir da antecipação corporal, a ação a ser concretizada e, portanto, beneficiar a rapidez de execução do movimento posterior. Encontramo-nos com dois inconvenientes para a realização desse gesto técnico: Paradas súbitas depois dos deslocamentos; Caso se adote a posição durante muito tempo, esta produz diminuição do rendi- mento em razão do cansaço produzido pela tensão muscular. 8.2 Os deslocamentos 8.2.1 Deslocamentos sem bola 8.2.1.1 Definição Pode-se definir o deslocamento como “todo o percurso corporal de um lugar ao outro do cam- po utilizando como meio o movimento” (Antón)5 ou “a ação de se deslocar (mover-se) de um lugar a outro pelo espaço de jogo sem estar em posse de bola” (Lasierra, Ponz e Andrés).6,7 Os deslocamentos são o suporte do resto das ações, tanto de ataque quanto de defesa, já que uma alta porcentagem dessas ações é realizada em movimento. Devem ser efetuados de forma equi- librada para obter êxito nas ações posteriores. Os deslocamentos são formas de movimen- to que o jogador, sem estar em posse da bola, uti- liza para se deslocar de um lugar a outro do cam- po, tanto ofensiva quanto defensivamente. Seu objetivo principal é tratar de ocupar e abandonar espaços, assim como alcançar uma antecipação postural: chegar antes que o adversário. Iniciam- se depois de ter adotada uma posição de base. O tipo e a forma de deslocamento determinam o fundaMentos técnIco-tátIcos IndIvIduaIs coMuns de ataque e defesa 93 momento do jogo em que nos encontramos. As paradas estão diretamente relacionadas a isso. 8.2.1.2 Princípios fundamentais Para a realização dos deslocamentos, o jogador tem de adotar posições equilibradas que facilitem: a iniciação do deslocamento (arrancadas); as mudanças de direção e sentido; as mudanças de ritmo (aceleração – desa- celeração); os equilíbrios – desequilíbrios; as paradas. A visão periférica mantém-se em todo momento durante os deslocamentos, procurando obter um gran- de campo visual para facilitar a tomada de decisão. Deve-se buscar a orientação e o equilíbrio nos deslocamentos. De preferência, o jogador não deve cruzar as pernas nos deslocamentos para tro- car de direção. 8.2.1.3 Classificação Segundo as propostas de Bárcenas e Román Seco:4 (1) Pela trajetória escolhida: Frontais para frente: dando frente (de frente) à trajetória adotada (escolhida, realizada); fIgura 8.1 – Deslocamento para frente. Frontais para trás: dando as costas à traje- tória adotada (escolhida, realizada); fIgura 8.2 – Deslocamento para trás. Laterais para o lado direito e esquerdo: de lado à trajetória escolhida. fIgura 8.3 – Deslocamento para o lado. Manual de handebol94 (2) Pela técnica de execução: Em forma de marcha: quando há suspen- são da perna de impulso, a outra perna está em contato com o chão; Em forma de corrida: cada impulso rea- lizado pela perna gera suspensão no jo- gador. Depende da amplitude (influen- ciada pela força e direção do impulso) e da frequência (dependente da coordena- ção neuromuscular). Em forma de deslizamento: os impulsos sucedem-se sem que os pés percam o con- tato com o chão. As pernas aproximam-se e separam-se sem chegar a se cruzar em ne- nhum momento. Este tipo de deslocamen- to garante a máxima estabilidade, sendo, portanto, muito utilizado nos deslocamen- tos defensivos. fIgura 8.4 – Recepção de bola correndo para frente. (3) Pela trajetória adotada: Retilínea: fIgura 8.5 – Trajetória retilínea. Curvilíneas: FIgura 8.6 – Trajetória curvilínea. fundaMentos técnIco-tátIcos IndIvIduaIs coMuns de ataque e defesa 95 Também podemos considerar dentro dos deslocamentos: a mudança de direção: utilização de traje- tórias distintas sem paradas (interrupções); a troca (mudança) de sentido: utilização da mesma trajetória na direção adotada para voltar à posição inicial; as paradas: com elas, é necessário baixar o centro de gravidade, flexionando os mem- bros inferiores e, se o deslocamento é em grande velocidade, levar o tronco ligeira- mente atrás. Os pés podem tomar contato no chão simultânea ou alternadamente. 8.2.1.4 Descrição do gesto técnico (4) Deslocamento frontal para frente e parada Se a posição de pernas é assimétrica, levanta- -se o calcanhar da perna de trás para impulsiona-se com a parte do pé que continua apoiada no chão. Em deslocamentos em forma de marcha e deslizando, assim como nos deslocamentos curtos correndo, é conveniente que os braços se colo- quem na posição de base recomendada de acordo com a fase ofensiva ou defensiva em que se encon- tre o jogador. Em deslocamentos longos, convém mudar a posição dos braços indicada nas trajetórias longas pelas posições de base correspondentes, quando o jogador se encontra próximo do objetivo, ou seja, com a proximidade (possibilidade) de receber a bola. Trata-se de obter a maior eficácia levando à prática o conceito fundamental da antecipação postural. Quando a posição das pernas é simétrica, cumpre, para começar o ciclo de iniciação do des- locamento, suspender e projetar à frente a perna contrária à de impulso. Para interromper o deslocamento e ado- tar uma posição de base, o jogador apoiará uma perna no chão com a força suficiente como se tentasse realizar um deslocamento para trás, di- minuindo, ao mesmo tempo, a inclinação do tronco para frente. A perna que tentar deter o impulso da pro- gressão deve ser: A que no momento do impulso esteja em suspensão; FIgura 8.7 – Recepção em suspensão. Manual de handebol96 Se o jogador está em suspensão, tomará contato com o chão de forma alternada, sendo a perna mais adiantada (à frente), cor- respondente ao último passo, a que inter- vém, necessitandotentar parar o percurso; a separação entre ambas as pernas ficar exagerada, modifica-se imediatamente a situação da perna de trás, para obter uma posição equilibrada. (5) Deslocamento frontal para trás e parada Se a posição das pernas é assimétrica, freia-se totalmente com o pé correspondente à perna de trás, tanto na forma de marcha quanto na corrida e no deslizamento. O começo dos outros ciclos determina- -se por um novo impulso da perna de trás. O tronco projeta-se muito ligeiramente na posi- ção do deslocamento, adotando, praticamente a posição vertical que facilite a velocidade e evite a perda de equilíbrio. Essas possibilidades não poderão ser alcançadas tentando-se man- ter a postura do tronco para trás, acentuando o abandono da vertical. O deslocamento em questão se realiza em forma de deslizamento; convém pontualizar que o grau de inclinação do tronco para frente é o mesmo preconizado para a posição de base. Na posição simétrica das pernas, é neces- sário, para iniciar o ciclo de deslocamento, sus- pender e projetar para trás a perna contrária à de impulso. Com referência aos braços, devem manter-se as mesmas recomendações indicadas no deslocamento frontal para frente. Para interromper o deslocamento e adotar a posição de base, o jogador freará o seu impulso, apoiando no chão com suficiente força a perna correspondente, como se na tentativa de se rela- cionar a uma progressão para frente. FIgura 8.8 – Recepção da bola alta na corrida. Nos casos em que o deslocamento seja des- lizando e, portanto, não exista nenhuma perna em suspensão, a ação da parada será efetuada, logicamente, com a perna mais próxima à direção de transição. Nas posições indicadas, se a força de impulso não permite obter a parada imediata com o apoio recomendado, deve-se conseguir definitivamente após mais um passo de um novo contato com o chão da perna que não interveio no princípio. Se fundaMentos técnIco-tátIcos IndIvIduaIs coMuns de ataque e defesa 97 De modo sincronizado se efetuará uma re- ação regulada no sentido contrário à trajetória adotada anteriormente. O apoio indicado será realizado com o tornozelo levantado. Com respeito à perna que intervém na de- tenção da progressão, é necessário observar as se- guintes normas: Deve-se utilizar a perna que, no momento da ação, se encontra em suspensão (deslo- cando-se em forma de marcha ou corrida); a perna indicada deve colocar-se para trás da situada em contato com o chão; Estando o jogador em suspensão (corrida), tomará contato com o chão de forma al- ternada, sendo a perna adiantada à frente, correspondente ao último passo, a que in- tervém em primeiro lugar para tentar deter a progressão. Quando o deslocamento é deslizante, a para- da tentará ser igualmente com a perna mais adiantada (à frente) na direção do deslocamen- to. Deverão ser levadas em conta as recomen- dações específicas no deslocamento frontal para a frente, fazendo as correções oportunas na colocação das pernas, para tentar a deten- ção (parada) definitiva, supondo não conse- guir no primeiro momento (tentativa). (6) Deslocamento lateral e parada Tanto na posição simétrica como na assimé- trica, eleva-se ligeiramente o tornozelo da perna de trás, impulsionando com a parte do pé que se encontra apoiada no chão; é igual na forma de marcha, de corrida ou de deslizamento. Novos impulsos sucessivos sobre a perna de trás supõem o começo de outros ciclos para conti- nuar o deslocamento. Seja qual seja a direção escolhida, a perna de trás situa-se à altura daquela que está à frente (adiantada), mas sempre sem se cruzarem. Com respeito à perna que intervém na de- tenção do deslocamento, é recomendado que: se a perna adiantada estiver em contato com o chão, apoia-se a outra perna à al- tura da primeira, ampliando, seguidamen- te, a abertura mediante uma retificação da perna à frente. Se a perna situada em sus- pensão é a que estiver à frente, esta deverá tomar contato com o chão energicamente; Se o jogador se encontrar em fase de suspen- são no deslocamento, a tomada de contato com o chão efetuar-se-á alternadamente; No deslocamento deslizante, a tentativa de parada efetua-se com a perna adiantada com respeito à direção empreendida. (7) Troca de sentido sem mudar a orientação Em qualquer deslocamento, deve-se impul- sionar-se com a perna mais adiantada (à frente), respeitando a direção seguida antes de produzir a mudança de direção, em forma de marcha, de corrida como deslizante. No deslocamento para frente e para trás, a perna de impulso será a direita ou a esquerda, in- Manual de handebol98 distintivamente. Nos deslocamentos laterais, será a perna esquerda para o lado direito e a direita para a esquerda. (8) Troca de direção sem mudar a orientação Realiza-se igualmente impulsionando com a perna mais à frente (adiantada) com respeito à direção escolhida antes de se produzir a troca de direção, tanto nos deslocamentos frontais quanto nos laterais. É necessário levar em conta a força do impulso para facilitar a aceleração. (9) Troca de direção e mudança de sentido varian- do a orientação No deslocamento, seja frontal ou lateral, impul- siona-se com a perna que está adiantada mais à frente respeitando a direção adotada, antes de se produzir mudança de direção, tanto em deslocamentos em for- ma de marcha quanto nos de corrida ou deslizamen- to. Coincidindo com o impulso, tem de se realizar um giro com o pé correspondente para trocar (mudar) a orientação de que se trata, coordenando tudo com o resto do corpo. A nova orientação origina, logicamen- te, um deslocamento frontal ou lateral. 8.2.2 Deslocamentos com bola 8.2.2.1Definição São “os movimentos que o jogador que está em posse de bola realiza” ou a “ação de se mover de um lugar a outro do campo de jogo, de forma regu- lamentada, estando em posse de bola, tanto dentro quanto fora do local específico e sem utilizar o qui- que como recurso” (Falkowski e Enríquez).2 O objetivo principal será a penetração, o en- gajamento, ou, na sua impossibilidade, manter a posse da bola, mas tendo sempre que considerar a característica do jogo em profundidade. A técnica de deslocamento em posse de bola está limitada pelo que marca o regulamento do jogo, em parte, pelo número máximo de passos e, finalmente, pelo uso do dribling e a sua repercus- são no ciclo de passadas. Portanto, pode-se dizer que, depois do terceiro passo, não é permitido realizar um novo contato com o chão se, previa- mente, o jogador não se desprender da bola ou não utilizou a ação de bote. Ainda que o princípio da técnica deter- mine que o final do deslocamento com bola a perna à frente deve ser a contrária ao braço que controla a bola (deslocamentos fundamentais), as possibilidades do jogador devem ser mais nu- merosas para poder atender a qualquer exigência do jogo de ataque (deslocamentos especiais). Por consequência, os movimentos escolhidos podem terminar com a perna do lado do braço que con- trola a bola adiantada, mesmo com as pernas em posição simétrica. Definição do ciclo de passos: Ciclo = 3 passos para o jogador com bola. Utiliza-se o dribling em qualquer momento, possibilitando um novo ciclo de passadas. Exemplo da possibilidade máxima: 3 passos - bote - 3 passos fundaMentos técnIco-tátIcos IndIvIduaIs coMuns de ataque e defesa 99 Inicialmente, resultam válidas as classifica- ções realizadas para os deslocamentos sem bola, exceto por duas pequenas diferenças: Os deslocamentosse realizam estando em posse de bola, sendo permitidos três passos com ela; Em alguns momentos concretos, para ga- nhar mais espaço ou velocidade, alguns passos podem converter-se em saltos. 8.2.2.2 Descrição do gesto técnico Deslocamento frontal para frente: Deslocamento lateral: fIgura 8.9 – Deslocamento frontal. fIgura 8.10 – Deslocamento lateral. 2 11 0 3 2 22 0 0 0 2 0 0 0 0 3 3 1 01 0 2 01 1 0 0 0 21 2 02 1 1 02 0 9 Juan J. Fernández, Pablo Juan Greco, Helena Vila, Luis Casáis, José M. Cancela Fundamentos técnico-táticos individuais no ataque I 9.1.2 Princípios fundamentais Não se deve olhar de forma contínua para quem possui a bola, mas se deve manter o contato visual com a bola quando se dirigir ao receptor. Em qualquer circunstância, deve-se asse- gurar o máximo a posse de bola e, se necessário, perder possibilidades de êxito ou retificar a po- sição inicial. Sempre se deve colocar o corpo entre a bola e o adversário, particularmente logo após recep- cioná-la, iniciando-se o dribling. Deve-se manter a atenção dividida entre a bola e o campo visual do jogo. 9.1.3 Classificação Segundo a direção do passe e do receptor: Frontais. Diagonais para frente. Laterais. Diagonais para trás. Por trás. Segundo a altura do passe: Intermediárias. 9.1 A recepção da bola 9.1.1 Definição Define-se como “a ação de tomada de conta- to com a bola com o objetivo de apoderar-se dela, controlando-a para realizar na continuação outra ação”. (Falkowski e Enríquez).2 É a ação específica e o efeito de receber a bola, assim como o gesto/ forma empregado para fazê-la. A recepção supõe um dos elementos técnicos mais importantes, já que possibilita a posse de bola. É, pois, um ponto-chave para desenvolver todo o processo técnico seguinte, posto que seu domínio permite o êxito em intervenções posteriores, no momento oportuno e na velocidade conveniente. O seu trabalho deve centrar-se no princípio da segurança, relacionado diretamente com a ve- locidade do passe e a de deslocamento do receptor. Este meio técnico está intimamente ligado ao passe, pelo qual se desenvolverão conjunta- mente e, se possível, também com diferentes des- locamentos. A trajetória, a altura e o tipo de passe, assim como a posição dos jogadores e ações posteriores, determinarão o tipo de recepção. Manual de handebol102 Altas. Baixas. Especiais: Rodadas. De bate-pronto. 9.1.4 Descrição do gesto técnico Recepção frontal alta: os braços elevam-se estendidos à altura da cabeça, de tal forma que a bola se encontre dentro do campo visual do re- ceptor. Sem interrupção, acompanhando a bola no seu percurso, segue-se elevando os braços até alcançar praticamente a vertical. A colocação das mãos será com os dedos orientados com a face para cima e na posição recomendada para rece- ber a bola. A tomada de contato com a bola será produzida, aproximadamente, no centro da tra- jetória compreendida entre a primeira elevação dos braços e a posição vertical (movimento de flexão-extensão). Recepção frontal intermediária: os braços estendem-se para frente. De forma contínua, o receptor os flexionará, acompanhando o percurso da bola. A colocação das mãos faz-se com os de- dos orientados para cima e na posição recomen- dada para receber a bola. A tomada de contato com a bola será realizada, aproximadamente, no centro da trajetória compreendida entre os movi- mentos de flexão-extensão dos braços. FIgura 9.1 – Recepção frontal alta. FIgura 9.2 – Recepção frontal intermediária. Recepção frontal baixa: os braços estendem- -se para baixo. De maneira continuada, o recep- tor irá flexioná-los, acompanhando a bola e sua trajetória. A colocação das mãos far-se-á com os fundaMentos técnIco-tátIcos IndIvIduaIs no ataqueI 103 dedos orientados para baixo e na posição reco- mendada para receber a bola. O contato com a bola realiza-se no centro aproximado da tra- jetória compreendida entre os movimentos de extensão-flexão dos braços. As posições indicadas nas recepções frontais, seja qual for a sua altura, são aplicadas também para as recepções: diagonais. laterais. por trás. Mais que isso, incorpora-se um novo gesto: rotação do tronco para o lado de onde vem a bola, movimento do qual se acentuará progressivamen- te até alcançar o nível máximo das recepções por trás. Dessa forma, não se modifica a força do des- locamento e melhora-se a disposição para intervir na ação posterior. Sobre as recepções por trás, e concretamente sobre a tomada de contato com a bola, convém ter presente as seguintes considerações: Alturas altas, intermediárias e baixas: Lado do braço executor: recebe com a mão contrária ao braço executor; a outra assegura a posse da bola. Lado contrário ao braço executor: re- cebe com a mão do braço executor; a outra assegura a posse da bola. Nas recepções diagonais, laterais e por trás, o movimento de rotação que tem de ser realizado pelo jogador para não modificar o gesto normal do deslocamento e a velocidade da corrida fron- tal, com o fim de não perder a força dos objeti- vos sucessivos e alcançá-los o quanto antes, deve considerar-se transcendental, se queremos aplicar o princípio fundamental básico da técnica: o jogador deve estar disposto, em cada momento, para inter- vir de forma imediata na ação posterior mais eficaz. Recepções com a bola no chão: Bola e jogador estáticos: devem ser aplicadas as normas indicadas no capí- tulo de adaptação da bola, assegurando a sua posse com uma ou duas mãos. FIgura 9.3 – Recepção com a bola no chão. Bola parada e jogador em deslo- camento frontal: deve utilizar-se o procedimento chamado de “colher”, impulsionando a bola para frente no momento de adaptá-la com a mão do Manual de handebol104 braço executor. A outra mão, situada frontalmente à primeira, deve assegu- rar a posse da bola tomando o contato com ela imediatamente depois da pri- meira ação. Bola e jogador em movimento, na mesma direção e sentido: deve uti- lizar-se o procedimento igual ao da “colher”. No entanto, neste caso, para assegurar a posse da bola, a ação do impulso deve ser realizada para trás, adaptando-a com a mão contrária ao braço executor. A outra mão assegu- rará a posse da bola imediatamente depois da primeira ação. A utilização do procedimento de “co- lher” leva implícita, ainda mais, a pos- sibilidade de manter a velocidade má- xima do jogador no seu deslocamento. Para colher a bola nas recepções com a bola no chão, tendo em conta a distância até o chão, é melhor fazê-lo com uma flexão de tronco ao invés de flexão de pernas. Recepção com quique: Em algumas ocasiões, o jogador vê-se obri- gado a receber bolas quando se encontra no ar e muito próximas do chão, não havendo tempo praticamente de recebê-las nas devidas condições até depois que as quiquem. A este tipo de recep- ção denomina-se de “bote-pronto” e os movimen- tos que se recomendam para efetuá-la são: Bolas não controladas: a mão do bra- ço executor acompanha a bola na sua trajetória descendente, logicamente coma a face palmar orientada para baixo. Depois do quique, a bola não retrocederá ligeiramente, tomando contato com a bola imediatamente depois, reduzindo, consequentemen- te, a força da reação do impacto. A ou- tra mão, com a palma orientada para cima, assegurará a posse da bola. FIgura 9.4 – Recepção compasse quicado/indireto. Bolas controladas procedentes de pas- ses indiretos: a mão do braço executor, com a face palmar para a bola, chega praticamente ao local de impacto so- fundaMentos técnIco-tátIcos IndIvIduaIs no ataqueI 105 bre o chão para acompanhá-la na sua trajetória. A outra mão, com a face palmar para baixo, assegurará a posse da bola. Nas recepções de quique pronto (rápi- do), convém flexionar o tronco, como nas recepções com a bola no chão, para poder intervir com prontidão na ação posterior. Até agora, tratamos das recepções com o jo- gador em apoio. Só faltam, para finalizar as recep- ções, aquelas nas quais o jogador se encontra em suspensão, dada a altura do passe, que denomina- remos de salto. Finalmente, como normas comuns para re- alizar a recepção, concordamos com Bárcenas e Román Seco:1 Em recepções estáticas, a perna con- trária ao braço executor deve estar adiantada, posição que favorece a con- tinuidade imediata para intervir na ação posterior. Nas recepções estáticas e em relação à posição das pernas e do tronco, é con- veniente cumprir as indicações expos- tas na posição de base ofensiva. Nas recepções em deslocamento, a posição de pernas e do tronco está re- lacionada com gestos técnicos de qui- que, passe e lançamento. A orientação do jogador não está con- dicionada à trajetória do passe. Quando os passes não são corretos em rela- ção à situação do receptor, o que obriga a realizar uma postura forçada, o jogado deve retificar a sua situação, mesmo perdendo eficácia, em benefício da segurança. 9.2 Adaptação à bola 9.2.1 Definição A adaptação da bola é um conceito de or- dem técnica dentro da relação jogador-bola: “É a forma específica de colher e receber a bola com o objetivo de abranger a maior parte dela” (Falko- wski e Enríquez).2 Trata-se do domínio que possibilita a rapi- dez dos gestos técnicos posteriores, e seu objetivo é dar segurança à ação posterior. 9.2.2 Princípios fundamentais Não olhar a bola; A face palmar da mão não deve tocar a bola; Utilizar, preferencialmente, as duas mãos para realizar a adaptação da bola. Manual de handebol106 FIgura 9.5 – Adaptação à bola. 9.2.3 Descrição do gesto técnico A bola é recebida com a face palmar mé- dia e as últimas falanges (pontas dos dedos). Os dedos estão estendidos e abertos para abranger a maior superfície da bola. O polegar e o mínimo estão em oposição; o polegar forma, por sua vez, os lados de um triângulo com o indicador, que toma essa forma com o polegar e o indicador da outra mão. Tem de ficar, entre a superfície da bola e da mão, um espaço (a face palmar nunca toca a bola). Deve-se pressionar a bola com os dedos e mantê-los com firmeza para assegurar a posse, mas sem rigidez para facilitar o manejo posterior. FIgura 9.6 – Recepção da bola. fundaMentos técnIco-tátIcos IndIvIduaIs no ataqueI 107 Não se deve confundir adaptação com re- cepção (tomada de contato com a bola), já que, mais propriamente, a adaptação é a fase final da recepção. Tudo isso deve facilitar os movimentos naturais e coordenados do pulso para dar sequência ao gesto técnico seguinte, que é o manejo (quando estariam implicados o antebraço e o braço). 9.3 Manejo da bola 9.3.1 Definição É o uso geral do braço executor (o braço que adaptou a bola). Pode-se definir como “o conjun- to de todos os movimentos que o jogador tem que realizar com o braço executor desde o momento de controle da bola até que se desprende dela” (Bárcenas e Román Seco).4 A partir do momento em que se recepciona a bola, todo o manejo se realiza com um só braço. Com a adaptação, evitamos que a bola caia; com manejo, realizamos as ações técnicas posteriores. Dado que, no jogo, se utiliza preponderantemen- te com uma só mão, o manejo da bola é um fator essencial da técnica que permite aumentar a efi- cácia ofensiva e a qualidade das ações do jogador. 9.3.2 Objetivos Um bom manejo apresenta maior des- treza e domínio da bola; Obter facilidade para trocar o tipo de gesto; Fazer possíveis mudanças de ritmo no jogo (rápido-lento/lento-rápido); Variedade das ações técnicas; Permitir um movimento natural e continuado. 9.3.3 Princípios fundamentais Devem-se realizar os movimentos jus- tos e necessários; Realizar os movimentos com destreza e espontaneidade; Todas as ações devem ser contínuas (coordenar ações técnicas). 9.3.4 Descrição do gesto técnico O manejo da bola permite todas as possibi- lidades de movimento e amplitude do braço; as- sim, depois de executar um controle com o braço, pode-se realizar: elevação do braço (anterior, posterior, lateral direita e lateral esquerda); flexão - extensão do cotovelo; pronação - supinação do antebraço; flexão, extensão, abdução e adução do pulso; giro do braço e pulso; circundução completa etc. Manual de handebol108 FIgura 9.7 – Manejo da bola alta. Um bom manejo consegue-se: sem que o braço esteja rígido ou esten- dido; mantendo-se o ângulo no cotovelo e o braço “armado” para o lançamento; não deixando o pulso rígido. No plano frontal, pode-se falar dos estereó- tipos de manejo denominados armação do braço, diferenciando-se quatro posições: Alto: o braço segue a prolongação da linha do corpo e mantém um ângu- lo em relação ao cotovelo; braço não estendido (braço com ligeira flexão). Adaptação da mão com os dedos vira- dos para cima. FIgura 9.8 – Posicionamento alto para o manejo da bola. fundaMentos técnIco-tátIcos IndIvIduaIs no ataqueI 109 Clássico: é o mais utilizado tanto em passes quanto em lançamentos. É o mais fácil de assimilar em crianças. Adaptação com a mão virada para cima e o braço e o antebraço formam um ângulo de 90o. Altura intermediária: o braço prepara-se como continuação da linha dos ombros. Adap- tação com os dedos virados para fora e ângulo de 180o no cotovelo. FIgura 9.9 – Posicionamento clássico para o manejo da bola. FIgura 9.10 – Posicionamento intermediário para o manejo da bola. Manual de handebol110 Altura do quadril: é mais baixo que o inter- mediário. Adaptação com os dedos virados para baixo. Dar o passe caracteriza este tipo pelo fato de ter que ser realizado na altura do quadril. jogador o máximo de possibilidades de progressão espacial com a bola, que amplia as oportunidades de realizar deslocamentos rápidos e de culminar este tipo de ação. Marca a estreita relação sujeito- -bola, tanto em habilidades e destrezas como em recursos fundamentais, em função das faltas re- gulamentares e dos encadeamentos com outros conteúdos técnicos. FIgura 9.11 – Posicionamento na altura do quadril para o manejo da bola. Quando se falar em coordenação, é importan- te levar em conta a cadeia cinética, já que, no mo- mento de lançar, grande parte da força que damos à bola sai dos impulsos coordenados de todo o corpo. 9.4 O dribling 9.4.1 Definição O dribling define-se como “a ação de lançar a bola contra o chão sem que exista perda de con- trole sobre ela”.3 É a ação técnica que oferece ao FIgura 9.12 – Dribling. 9.4.2 Princípios fundamentais O uso de ambas as mãos, de forma alterna- da, é imprescindível no quicar da bola, atendendo ao princípio do afastamento da bola com respeito ao defensor. Basicamente, o jogador não deve olhar a bola; fundaMentos técnIco-tátIcos IndIvIduaIs no ataqueI 111 Mantém-se o princípio permanente do “campo visual”; Em nenhumcaso, o uso do quique deve provocar a diminuição desneces- sária do ritmo coletivo. Deve-se proteger a bola ante a um adversário próximo, para o qual o jogador tem que se colocar entre a bola e o adversário. Este recurso técnico só deve ser executado quando estiver plenamen- te justificado, já que seu uso indevido supõe um freio em determinados momentos próprios do es- porte coletivo no qual a velocidade de transição da bola é o nexo mais eficaz entre os atacantes; ou seja, não se pode progredir quicando a bola se existe um companheiro desmarcado e em boa posição para receber a bola. Não obstante, aparecem situações concretas que requerem a execução e a oportuna utilização do quique usados contextualmente com outros recursos técnicos do jogador para: saídas de fintas; atrair o adversário; se afastar do oponente; evitar a perda da bola, uma vez dados os três passos regulamentares; evitar a retenção da bola; mudanças (trocas) de ritmo; cadenciar o jogo em algumas circuns- tâncias; desdobrar (superar) o adversário; se aproximar à distância de lançamen- to (tiro); dar tempo para que os companheiros se situem e organizem o ataque; progredir dentro de uma distância es- timada maior que a dos três passos. FIgura 9.13 – . 9.4.3 Classificação Adotando as propostas de Bárcenas e Ro- mán,4 deverá ser: Em função da distância que tem de percorrer: unitário (um só quique ou bote): apli- ca-se para unir dois ciclos de passos; continuado (vários quiques). Em função da altura: alto; baixo. Manual de handebol112 Em função da trajetória da bola: vertical; oblíqua. 9.4.4 Descrição do gesto técnico Dribling alto vertical: Cabeça: erguida, obtendo em todo momento o campo visual útil; Tronco: em posição natural ou ligeira- mente flexionado (se o quique é baixo, a flexão se acentua mais); Braço executor: antebraço ligeiramen- te flexionado sobre o braço e separado do corpo; Pernas: flexionadas, tanto simétrica como assimetricamente; neste caso, adiantar a perna contrária ao braço executor; Controle do dribling: o contato da bola efetua-se com a mão aberta, sendo os dedos e a face média da palma a superfície de contato, com movimento coordenado do braço executor efetuando uma elevação do antebraço e uma flexão-extensão do pulso. É utilizado para deslocamen- tos em forma de marcha ou em caso de botes unitários. Dribling baixo: FIgura 9.14 – Dribling baixo. Cabeça: tentando obter um campo vi- sual amplo; Tronco: semiflexionados; Pernas: em posição assimétrica, adian- tando a perna contrária ao braço exe- cutor. Em comparação com o bote alto oblíquo, a flexão acentua e am- plia, de forma regulada, a separação das pernas, pois, ao se chegar o tronco no chão colocando o peso do corpo na perna adiantada, produz-se certa descompensação que deve ser corrigi- da abrindo-se o compasso das pernas para manter o equilíbrio; fundaMentos técnIco-tátIcos IndIvIduaIs no ataqueI 113 FIgura 9.15 – . Controle do dribling: se a ação é con- tinuada, devemos manter o indica- do para o bote vertical oblíquo, mas com trajetória menos acentuada, ou se efetua o bote com menor altura e mantém-se reduzida a trajetória da bola. A força do golpe deve diminuir consecutivamente. No bote baixo, em que existe uma grande inclinação do tronco, deve-se evitar um aumento exagerado da fle- xão das pernas, já que isso atrapalharia a velocidade de deslocamento. FIgura 9.16 – . Dribling oblíquo: Cabeça: ligeiramente flexionada; Braço executor: produz-se uma maior extensão do antebraço e a bola proje- ta-se para frente; Pernas: de acordo com a corrida; Controle do dribling: o impulso da bola deve ser elevado para assegurar uma trajetória suficientemente oblí- qua e regulada, na direção em que se desloca o jogador e que melhor permi- ta a progressão; Este tipo de dribling pode regularizar- -se em benefício da velocidade, com intervalos amplos que permitam in- tercalar vários passos entre cada con- tato com a bola. Manual de handebol114 Mudança de direção no dribling: Jogador destro que modifica sua dire- ção para o lado direito: toma impul- so com a perna esquerda, muda de orientação, dirige a bola para a nova direção, mantendo o dribling. Segui- damente, volta a utilizar a mão do princípio; Jogador destro que modifica sua di- reção para o lado esquerdo: impulso dado com a perna direita, mudando de orientação e dirigindo a bola para a nova direção sem trocar de mão. Mudança de sentido no dribling: Giro para o lado direito: impulso com a mão esquerda mudando de orien- tação, dirigindo a bola para a nova trajetória, ajudando-se com a mão esquerda e golpeando em ação de dri- bling contínuo. Seguidamente, volta a utilizar a mão do início; Giro para o lado esquerdo: impul- so sobre a perna direita trocando de orientação e dirigindo a bola para a nova trajetória sem trocar de mão; As indicações específicas anteriores são válidas para os jogadores canho- tos, tendo em conta que o bote se rea- liza com a mão esquerda. 9.5 O desmarque (jogar sem bola) 9.5.1 Definição O desmarque define-se como a “ação suces- siva que persegue a ocupação de um espaço eficaz antes que o defensor eluda sua marcação” (Trosse).8 Desmarcar-se é “escapar” das possibilidades de intervenção dos defensores, com o fim de se encontrar livre para atuar, mas, também, deve resultar acessível a outro colega para participar na conservação e na pro- gressão da bola ou na realização de um gol. Esta ação está intimamente ligada à recepção, já que o desmar- que é fundamental para poder receber a bola. Para se desmarcar, o jogador realiza duas ações: oferecer-se no espaço e se orientar em relação à situação de jogo, gol adversário, companheiros de time. 9.5.2 Objetivos Esquivar-se da marcação ou, em seu efeito, reduzi-la para eficácia pela ob- tenção de uma ligeira vantagem den- tro dos espaços de manobra mais vari- áveis em função da distância. Superar a vigilância de um ou vários adversários para provocar, coletiva- mente, uma situação de superiorieda- de numérica que facilite a conclusão do ataque e crie as condições favorá- veis para a ação final. fundaMentos técnIco-tátIcos IndIvIduaIs no ataqueI 115 Buscar espaços livres no jogo de ata- que, bem como para receber a bola ou facilitar a ação dos companheiros. Oferecer-se como opção de passe ao colega com bola. 9.5.3 Princípios fundamentais O desmarque terá êxito se conseguirmos certa vantagem sobre o defensor para poder re- ceber a bola, para o qual devemos nos afastar da zona de atuação deste. O campo visual deve concentrar-se em um lugar alheio ao objetivo previsto, com o fim de conseguir maior informação global do jogo e não dar pistas ao oponente. Realizá-lo no momento oportuno e à velo- cidade conveniente; recomenda-se a realização de troca de direção e de velocidade da ação. A chave do desmarque reside em observar a distância adequada, evitando o contato físico com o defensor. 9.5.4 Classificação Em função da situação do defensor: desmarque direto, buscando-se a pene- tração ante ao desequilíbrio do defensor. desmarque com mudança de direção, quando o desequilíbrio inicial do defensor não é tão grande e, portanto, insuficiente. Em função da trajetória empregada: desmarque em profundidade: deslo- car-separa o objetivo, o gol, ou espa- ços vários próximos a este, utilizando-se trajetórias retilíneas e curvilíneas; FIgura 9.17 – Desmarque em profundidade com tra- jetória retilínea. desmarque em apoio: deslocando-se para assegurar a conservação da bola e criar espaços para os companheiros, utilizando-se trajetórias retilíneas e cur- vilíneas, mas com mudanças de direção. FIgura 9.18 – Desmarque em apoio. Manual de handebol116 9.5.5 Descrição do gesto técnico A realização do desmarque depende, fun- damentalmente, dos deslocamentos sem bola do possível atacante receptor; para isso, deve situar-se oportunamente sobre o campo de jogo, fazer pos- síveis transmissões e facilitar, assim, a circulação da bola e sair das zonas possíveis de interceptação e de oposição ocorridas pela vigilância dos adver- sários. Não se deve adotar a imobilidade, mas, com seus deslocamentos, tem de se situar em uma zona favorável para a transmissão da bola. Deve consegui-lo descentrando-se, momentaneamente, da bola para se informar sobre as zonas nas quais ele poderá desenvolver a sua ação (espaços livres). A esse conjunto de ações prévias ao recebimento da bola denomina-se corrida de desmarcação. Es- tas dependerão de uma trajetória específica que o atacante sem bola empregue para ocupar as possí- veis zonas de recepção e ajustar-se aos princípios dos deslocamentos. 9.6 O passe 9.6.1 Definição O passe é “a ação de transladar ou enviar a bola de um jogador a outro” (Trosse),8 assim como “o gesto/forma apropriado que se pode empregar” para transportar a bola de um local a outro da quadra. É considerado uma das habilidades funda- mentais para o jogo, já que permite a comunicação entre jogadores que estão realizando ações coleti- vas. Este elemento é fundamental ou se concreti- za no vínculo de relação entre os jogadores. Deve realizar-se sempre com as máximas garantias de se- gurança para alcançar a continuidade no jogo. 9.6.2 Princípios fundamentais Deve ser realizado sobre o jogador situado nas condições mais favoráveis para que a ação pos- terior adquira a maior eficácia. Deve-se dominar o maior número de tipos de passe, selecionando o mais adequado a cada situação de jogo. Tem de ser realizado com suficientes garan- tias de posse. Recomenda-se ao jogador com posse de bola que comprove previamente e com rapidez a situação dos oponentes mais próximos ao recep- tor e suas possibilidades de cortar a trajetória do passe. Antes de se realizar um passe deficiente ou inútil, em que a bola não chegará ao seu destino, é preferível trocar sua direção, ainda que esta nova ação não tenha maior transcendência. Durante a sua execução, não se fixa o olhar para o possível receptor, ainda que previamente tenha de se estabelecer contato visual com ele. Deve realizar-se com tensão adequada. A força deve regular-se em função da distância exis- tente entre o passador e o receptor. Não devemos nos esquecer de que a bola no ar não prejudica o defensor e é totalmente necessário que, além do fundaMentos técnIco-tátIcos IndIvIduaIs no ataqueI 117 seu translado, chegue ao seu destino no tempo mais breve possível. Deve fazer-se com precisão. Um passe mal- dirigido obriga a modificar posições adotadas, atrasando a intervenção do jogador e, como con- sequência, a da equipe. Geralmente, se o receptor é marcado próximo, a direção é ao ombro do bra- ço executor. Se for marcado à distância, o passe será feito ao espaço livre de marcação. Se o recep- tor está em deslocamento, a direção será sempre ligeiramente por diante do receptor. Com oponente próximo, deve-se proteger a bola colocando-se entre ela e o adversário. A utilização de um tipo de passe ou outro está determinado pelo(a): altura da recepção; situação do adversário; tipo de ação posterior; velocidade de execução coletiva; posição do corpo em relação ao braço dominante. 9.6.3 Classificação Em contato com chão (com uma mão): clássico (frontal e lateral). altura intermediária ombro-quadril (frontal e dorsal). altura baixa (frontal e lateral). em pronação (frontais, laterais, e para trás). por trás do corpo (frontais e laterais). por cima do ombro do braço executor. deixada. retificado. entre as pernas. Em contato com o chão (com as duas mãos): de peito; por cima da cabeça. Em suspensão (com uma mão): frontal; lateral. 9.6.4 Descrição do gesto técnico Suporemos que o jogador executante seja destro. Passes em com contato com o chão (Com uma mão) ou passe em apoio: Clássico frontal (altura do ombro do braço executor): o braço coloca-se em posição horizon- tal (altura do ombro) e o antebraço, semiflexio- nado, em posição vertical orientado para cima. O braço e o antebraço formam, praticamente, um ângulo reto. A face palmar da mão que controla a bola situa-se dando frente à direção do passe com os dedos orientados para cima. Ligeira rotação do tronco ao mesmo tempo que se projeta o braço executor na direção do lançamento. Manual de handebol118 FIgura 9.16 – Passe clássico frontal. (FOTO PÁGINA 75, Livro Balonmán) Clássico lateral para o lado direito (altura do ombro do braço executor): igual disposição da uti- lizada para o passe clássico frontal, mas acentuando a rotação do tronco. Não se realiza desrotação. Clássico lateral para o lado esquerdo (altura do ombro do braço executor): posição igual à do passe clássico frontal. A partir deste momento, ro- tação, desrotação e nova rotação do tronco para o lado do lançamento, projetando o braço executor na direção do passe. Altura intermediária, ombro-quadril (fron- tal): o antebraço coloca-se ligeiramente flexionado sobre o braço, com a extremidade radial orientada para cima. A face palmar deve estar em direção ao passe, com os dedos orientados lateralmente. O tronco deve estar ligeiramente inclinado e roda- do para o lado do braço executor. A continuação desfaz a rotação do tronco e projeta-se o braço na direção do passe. Altura intermediária, ombro-quadril (lateral para o lado direito): com exceção da inclinação do tronco, a posição corresponde ao passe clássico frontal, altura intermediária, mas aumentando a rotação do tronco para o lado do braço executor. Não se desfaz a rotação do tronco. Projeção do braço executor na direção do passe. Altura intermediária, ombro-quadril (lateral para o lado esquerdo): posição igual à do passe clássico frontal, altura intermediária. A partir des- te momento, efetua-se uma rotação, desrotação e uma nova rotação do tronco para o lado do lan- çamento, projetando o braço executor na direção do passe. Altura baixa (frontal): a posição correspon- de ao passe clássico frontal, altura intermediária, com lógica variação na altura de iniciação do gesto que obriga uma maior inclinação do tron- co. Este movimento converte-se em semiflexão à medida que a posição de início se aproximada do chão, uma vez que o braço executor perde horizontalidade. Altura baixa (lateral para a direita): acentu- ando a inclinação do tronco para o lado do braço executor, a posição corresponde à do passe clássi- co lateral para o lado direito, altura intermediária. Diferencia-se pela altura da posição inicial, que, neste caso, por ser mais baixa em relação ao braço executor, descende perdendo a horizontalidade. Altura baixa (lateral para a esquerda): par- tindo da posição do passe clássico frontal, altura baixa, produz-se rotação, desrotação e nova rota- ção do troncopara o lado de lançamento, proje- tando o braço executor na direção do passe. De pronação frontal (altura intermediária): a bola adapta-se às duas mãos (altura do abdô- men, aproximadamente). Os antebraços colo- cam-se ligeiramente flexionados sobre os braços, com a extremidade radial virada para cima. O tronco se mantém ligeiramente inclinado para frente. No momento em que a mão contrária ao braço executor perde contato com a bola, aquele se estende na direção do passe, efetuando-o, ao mesmo tempo que se produz um movimento de pronação para facilitar a impulsão do lançamento. fundaMentos técnIco-tátIcos IndIvIduaIs no ataqueI 119 Na altura baixa, realiza-se da mesma forma. Neste caso, a bola parte de uma posição mais próxima do chão e, em conseqüência, a inclinação do cor- po é maior (pronunciada). De pronação lateral para a direita (altura in- termediária): a posição de início é similar à indi- cada no passe de pronação frontal, por exceção do braço executor na direção do passe. Realiza-se da mesma forma na altura baixa e, consequentemen- te, a inclinação do tronco é maior. De pronação lateral para trás (altura interme- diária): a posição de início é similar à indicada no passe de pronação frontal. Devemos realizar um movimento de rotação do tronco para o lado do braço executor no momento em que se efetua a ex- tensão e a pronação do braço na direção do passe. FIgura 9.17 – Passe pronado lateral para trás. (FOTO PÁGINA 77, Livro Balonmán) Por trás, lateral para a esquerda: orientado para baixo, o antebraço coloca-se ligeiramente fle- xionado sobre o braço e à altura do quadril. A pal- ma da mão controla a bola de frente para o corpo. O tronco mantém-se ligeiramente inclinado para frente. Coincidindo com uma rotação e ligeira in- clinação do tronco para o lado contrário do braço executor, projeta-se este por trás, como se tentás- semos abraçar o próprio corpo. Neste momento, o jogador, com a linha dos ombros orientada na direção do passe, culminará a ação do lançamento com movimento de supinação. Este passe realiza- -se, também, frontalmente. Neste caso, a rotação do tronco é mais articulada e o movimento de su- pinação, mais acentuado. Por cima do ombro do braço executor: o bra- ço executor, em semiflexão, coloca-se à altura da cabeça, aproximadamente. A palma da mão que controla a bola fica orientada para cima. Ligeira ro- tação do tronco, para o lado do braço executor, com uma suave inclinação. Efetua-se o passe mediante impulso dado pelo braço executor, acentuando-se, neste momento, a rotação do tronco e orientando a face palmar da mão na direção do passe. Neste lançamento, pode fazer-se lateral ou frontal. Disso dependerá o grau de rotação do tronco. Deixada (vaselina): efetua-se uma rotação do tronco para o lado do braço executor, que se estende para trás com a palma da mão que con- trola a bola orientada para cima. Seguidamente, abre-se a mão, com a qual a bola fica sem susten- tação sobre a face palmar modelada como ban- deja, efetuando-se ligeiro impulso para cima ao tempo em que se retira, de forma súbita, a mão. Retificado: efetua-se uma flexão de tronco para o lado contrário ao braço executor, e este rea- liza um movimento de flexão por trás da cabeça e a posterior extensão para se desfazer da bola. FIgura 9.18 – Passe retificado. (FOTO PÁGINA 78, Livro Balonmán) Entre as pernas: realiza-se com o último pas- so mais longo do que o habitual; quando se apoia o pé no chão, o braço oscila para o centro, entre as pernas, efetuado o passe. Manual de handebol120 Passe em contato com o chão (com as duas mãos) De peito frontal: os braços semiflexionados e recolhidos próximos ao corpo adotam a técnica de adaptação da bola com as duas mãos. O tron- co mantém-se ligeiramente inclinado para frente. Estendem-se os braços para frente na direção do passe, efetuando, ao mesmo tempo, o impulso da bola mediante um movimento de pronação simultânea com ambos os braços. Se o passe for lateral, será necessário acrescentar uma rotação do tronco para o lado do passe. Por cima da cabeça: os braços ficam ligeira- mente flexionados e dirigidos para cima. As mãos colocam-se na posição recomendada na técnica de adaptação da bola com as duas mãos. O tronco mantém-se erguido. Impulsiona-se a bola na di- reção do passe, projetando os braços para frente e inclinando, às vezes, o tronco, na mesma direção. No caso de passe lateral, deverá haver uma rota- ção do tronco para o lado do passe. Passe em suspensão (com uma mão) Frontal: o impulso começa na perna contrá- ria do braço executor, flexionando-a ligeiramente para incrementar o impulso; eleva-se o corpo e o braço que controla a bola verticalmente até alcan- çar a máxima extensão do braço, ou, também, se pode alcançar mediante um movimento de cir- culação. A superfície palmar da mão orienta-se na direção do passe. No momento do impulso, a perna do braço executor flexiona-se para cima para favorecer a rapidez da suspensão (do salto) e alcançar a máxima altura. O gesto total deverá ser acompanhado de uma desrotação do tronco para o lado do braço executor. O lançamento efetua-se projetando o braço na direção do passe, coincidin- do com uma desrotação do tronco. Pode estabele- cer-se igualmente a suspensão impulsionando-se simultaneamente com as duas pernas, ainda que, neste caso, a disposição do braço executor deva conseguir-se mediante uma trajetória vertical. Lateral para a direita: mantêm-se as mesmas indicações especificadas no passe clássico frontal, mas, na execução, devemos acrescentar um mo- vimento de pronação do braço. Não se desfaz a rotação do tronco. Lateral para a direita: mantêm-se as mesmas indicações especificadas no passe clássico frontal, mas, na execução, devemos acrescentar um mo- vimento de pronação do braço. No momento do passe, produz-se uma ligeira rotação para o lado oposto do braço executor. 9.7 O lançamento ao gol 9.7.1 Definição Define-se como “a ação de aplicar um im- pulso à bola de forma que percorra uma distância determinada em direção ao gol, procurando supe- rar o goleiro e conseguir o gol”.3 É a ação técnica com a qual culmina o jogo no ataque. Resulta da coordenação de ações indi- viduais, grupais ou coletivas e das contribuições fundaMentos técnIco-tátIcos IndIvIduaIs no ataqueI 121 técnicas dos jogadores no ataque que dirigem os seus esforços para conseguir o gol, considerado objetivo fundamental. Encontrar a situação ide- al para o lançamento ao gol é a tarefa básica do jogo ofensivo, que finaliza com essa ação e que, de certa forma, supõe o fracasso ou êxito do jogo anteriormente elaborado. 9.7.2 Princípios fundamentais O lançamento deve ser realizado quando se conseguir trajetórias livres de marcação. Conside- ra-se que o jogador obteve estas possibilidades: quando entre o atacante e o gol não existem mais obstáculos que o goleiro; quando entre o atacante e o gol se en- contram vários jogadores de campo, oponentes à distância, mas existem trajetórias livres de marcação; quando entre o atacante e o gol se encontra um oponente em marcação próxima, mas se obtêm trajetórias li- vres de marcação modificando a altu- ra ou o tipo de lançamento e, como consequência, a situação primária do braço executor. O lançamento deve ser rápido nas suas duas vertentes fundamentais: Mínimo de espaço de tempo na sua execução. Que a bola percorra a trajetória esco- lhida no mínimo espaço de tempo. O lançamento deve responder ao denomi-nador comum da precisão, não isento de rapidez, escolhendo a trajetória adequada dentro do ângu- lo de tiro que se apresenta. 9.7.3 Classificação Em função da altura do lançamento, para efeitos de localização das zonas onde se dirige a bola, divide-se a altura do gol em três partes: Zona número 1: altura superior; Zona número 2: altura intermediária; Zona número 3: altura baixa. FIgura 9.19 – Divisões do gol. A altura do lançamento pode ser determi- nada por: Manual de handebol122 características antropométricas do goleiro; características físicas do goleiro; situação e posição do goleiro. Nos lançamentos desde a linha da área de gol, é recomendável escolher a trajetória corres- pondente ao lado em que se encontra apoiada uma perna do goleiro se a outra estiver em sus- pensão. Deve proceder-se da mesma forma se o lan- çamento se realiza desde um posto específico da ponta. Neste caso, não importa se a perna que está apoiada pelo goleiro é a correspondente ao ângulo menos amplo sempre e quando exista en- tre ela e o poste mais próximo a distância mínima para que passe a bola. Se o goleiro, além de intervir em suspensão, realiza uma progressão de fechamento ao executor do lançamento, convém escolher uma trajetória parabólica. É imprescindível que o jogador domine a ação de retardar o lançamento ao gol quando existirem tais circunstâncias. Não devemos nos esquecer de que o goleiro tenta sempre intuir, antecipadamente, a trajetória da bola escolhida, tanto em direção como em altura. Isso oferece a possibilidade de mudar ime- diatamente a trajetória pensada no início, circuns- tância que se torna fundamental na observação específica, no domínio da bola, manejando-a com destreza, na coordenação de movimentos que im- plicitamente apresentam as mudanças súbitas de gesto/forma. Com base na linha de jogo, os motivos de interpretação do jogador que se consideram lan- çamentos importantes são os seguintes: Quadro 9.1 – Tipos de lançamentos no handebol Tipo de lançamento / linha ofensiva Primeira linha (Armadores) Segunda linha (pontas e pivô) Clássico Altura do ombro Altura do quadril Altura do quadril Altura baixa Altura baixa Retificado Lado contrário do braço sem queda Lado contrário do braço sem queda Lado contrário do braço com queda Lado contrário do braço com queda Mesmo lado do braço com queda Mesmo lado do braço com queda Suspensão Adquirindo a maior altura possível Adquirindo a maior altura possível Salto Sem queda, ad- quirindo a máxi- ma profundidade Sem queda, ad- quirindo a máxi- ma profundidade Salto com queda Salto sem queda Caindo sem salto Caindo com salto Além desses lançamentos durante o jogo posicional, ainda existe o lançamento de sete me- tros, que ocorre quando o atacante sofre uma falta quando está em clara chance de gol. 9.7.4 Descrição do gesto técnico Primeira linha fundaMentos técnIco-tátIcos IndIvIduaIs no ataqueI 123 Clássico (altura do ombro do braço executor): realiza-se da mesma forma que o passe clássico fron- tal, mas com uma armação mais ampla, a rotação do tronco mais acentuada e uma desrotação instantânea. Foto 9.20 – Lançamento clássico. (FOTO PÁGINA 84, Livro Balonmán) Altura intermediária: dão-se as mesmas con- siderações que para o passe, com as observações expostas anteriormente. Foto 9.21 – Lançamento da altura quadril. (FOTO PÁGINA 84, Livro Balonmán) Altura baixa: idem. FIgura 9.22 – Lançamento de altura baixa. (FOTO PÁGINA 84, Livro Balonmán) Retificado pelo lado contrário ao braço exe- cutor (sem queda): partindo de uma posição de lançamento clássico ao gol, efetua-se uma incli- nação do tronco ao mesmo tempo que se produz uma abdução do braço executor com a extremi- dade cubital virada para cima e situando-se por trás da cabeça. Finalmente, produz-se, desde essa posição, uma rotação e desrotação do tronco. FIgura 9.23 – Lançamento retificado sob o braço. (FOTO PÁGINA 85, Livro Balonmán) Retificado pelo lado contrário do braço exe- cutor (com queda): dá-se uma inclinação maior, colocando o corpo quase na horizontal. Depois do lançamento, a mão contrária à do braço execu- tor coloca-se no chão. Foto 9.24 – Lançamento retificado pelo lado contrá- rio ao braço executor. (FOTO PÁGINA 85, Livro Ba- lonmán) Retificado pelo mesmo lado do braço execu- tor (com queda): partindo de uma posição de lan- çamento com armação para o lançamento interme- diário, produz-se uma flexão e rotação do tronco para o lado do braço executor, que, no momento da armação, se projeta para trás. O lançamento produz-se por meio de uma desrotação do tronco, e o corpo fica sobre o chão em contato dorsal. Primeira e segunda linha Em suspensão: a sua execução corresponde- -se com a do passe frontal em suspensão, mas com uma rotação mais acentuada. A armação pode produzir-se igual ou bem no que se denomina “armação em aspas”, elevando o braço mediante um movimento de circundunção. No momento do lançamento, produz-se uma flexão e rotação do tronco. Em salto (sem queda): impulsiona-se com a perna mais adiantada, buscando profundidade. Coincidindo com salto, produz-se uma rotação de tronco e correspondente armação. Este tipo de lançamento sofre modificações segundo o posto específico de que se trata. Desde a ponta e com lado bom, deve ampliar-se o ângulo de lançamen- Manual de handebol124 to e, desde o lado mal, produzir uma inclinação do tronco e uma armação por trás da cabeça. Segunda linha (pontas) Em salto (com queda): é um lançamento ca- racterístico dos pontas. A sequência de execução é a seguinte: Recepção: o mais próximo da linha de 6 metros, com uma aproximação rápida a ela. Batida: o mais próximo da linha, de forma explosiva e enérgica, com tra- jetória para a linha de 7 metros e ga- nhando profundidade e altura no salto. Voo: o mais longo possível para au- mentar o ângulo de lançamento. A armação do braço produz-se o mais tarde possível para que a bola não seja interceptada pelos defensores e o go- leiro a veja durante pouco tempo. Armação: não há estereótipos. Depen- de da posição do goleiro. Trajetória: normal, parabólica ou em rosca (com efeito). Queda: rodando (rolamento) ou des- lizando. Segunda linha (pivôs) Em queda (sem salto): é um lançamento característico dos pivôs, com apoio em um pé ou nos dois, flexionando as pernas e com a bola controlada na altura do abdômen, dando frente ao gol. Seguidamente, o jogador deixa-se cair ao mesmo tempo que eleva ligeiramente o braço exe- cutor para lançar. Em queda (com salto): efetua-se de forma idêntica, ainda que com maior impulso de pernas para obter maior penetração. De acordo com as exigências do jogo, em muitas ocasiões o jogador não pode nem deve atender aos princípios básicos de colocação das pernas. Em consequência, o lançamento deve ser realizado com posições especiais de pernas; ou seja, efetuando o lançamento ao gol com a per- na do braço executor adiantada (lançamento em apoio) ou depois impulsionar com a perna corres- ponde à do braço executor (lançamento em sus- pensão ou salto). Os lançamentos que partem de uma posi- ção baixa realizam-se mediante uma inclinação do tronco, sem aumentar a flexão das pernas ou abrindo o compasso normal destas para chegar-se ao chão. Trata-se de evitar que as possibilidades de intervenção posterior do lançador sejam negati- vas, já que umamaior flexão de pernas dificultaria a intervenção imediata do jogador em outra ação consecutiva. Para cumprir o princípio fundamental de intervenção oportuna à velocidade conveniente, é necessário que o jogador, depois de realizar o lançamento, adquira uma postura equilibrada o quanto antes, para poder responder, no momento preciso, a posteriores exigências do jogo. O jogador deve dedicar uma atenção espe- cial a não pisar na linha da área de gol quando fundaMentos técnIco-tátIcos IndIvIduaIs no ataqueI 125 executar o lançamento nas suas proximidades. O esforço realizado individual e coletivamente pode se reduzir a uma perda da bola. Desde as proximi- dades da área de gol, antes de realizar o lançamen- to, o jogador deve olhar a situação da linha. Quanto à forma de estabelecer as quedas no lançamento, a experiência demonstrou que cada jogador adapta seu corpo para amortecer o cho- que. Não obstante, o deslizamento peitoral pela área ou queda com rolamento dorsal com contato no chão representam as formas mais usuais para reduzir os impactos que nos ocupam. Em geral, o lançamento ao gol deve estar dominado pela potência. O jogador deve desen- volver a sua força à máxima velocidade, mediante realização explosiva do gesto total de cada lança- mento. Em comparação com o passe, a projeção do braço executor para trás tem de ser mais aguda para obter um movimento uniformemente acele- rado, mais amplo na execução do lançamento, e, assim, incrementar a velocidade da bola na sua trajetória. Como em definitivo se trata de que a exe- cução do lançamento e a trajetória da bola sejam rápidas, tem de se buscar o equilíbrio na projeção do braço executor ao se realizar a armação para o lançamento. O executor de um lançamento ao gol deve concentrar a sua atenção nos movimentos e nos deslocamentos na intervenção do goleiro. Temos de pensar que, uma vez obtidas as possibilidades de lançamento, é lógico concentrar todos os es- forços em surpreender o goleiro, que constitui o único obstáculo para que o jogador em posse de bola possa tratar de alcançar o gol. Lançamento de 7 metros Partindo das limitações regulamentadas, a execução deste lançamento vai acompanhada de movimentações e fintas para enganar o goleiro. 9.8 A finta 9.8.1 Definição A finta define-se como “uma ação realizada pelo jogador com bola que, por meio de um en- gano, tenta iludir uma marcação em proximidade do oponente direto”.5 É “um gesto mediante o qual o atacante com bola tenta superar um defen- sor, realizando uma ação prévia de engano e uma posterior para aproveitar o dito engano”.3d O seu objetivo mecânico é provocar um desequilíbrio corporal do rival (contrapé).9 É um elemento técnico muito utilizado no jogo um contra um, observando que sempre é o que se encontra atrás do adversário fintado. No jogo um contra dois, utiliza-se para alcançar um deslocamento de engano entre dois defensores. É importante diferenciar de outros elemen- tos técnicos como a desmarcação (que se realiza sem bola), ou a troca de direção (não possui fase de freada, se realiza sem a bola). Como elemento diferenciador, uma finta exige: Manual de handebol126 Estar em posse da bola: Proximidade do defensor. Deslocamento de engano: com uma fase de freada acompanhada de uma flexão de tronco e orientação frontal para a tra- jetória de saída, protegendo a bola com as duas mãos na altura do abdômen. Se o defensor não “cai” na finta, continua- -se a trajetória inicial (lado falso). Fase de saída, já com o braço armado. O aspecto perceptivo é de grande importân- cia, para o qual, antes de realizá-lo, devemos ana- lisar a situação periférica. A ordem de observação dos espaços é a seguinte: Possível posição de lançamento. Passe a um jogador desmarcado. Finta. Lançamento. Devemos observar ainda: espaço entre o jogador fintador e o defensor; espaço atrás do defensor; relação do gol e do goleiro: ângulo de lançamento, situação do goleiro, posi- ção de lançamento etc. O objetivo fundamental da finta é superar o defensor mediante um engano para posteriormen- te penetrar, mas, além disso, também se busca: uma progressão que permita pelo me- nos igualar em profundidade a situa- ção do defensor; fixar o defensor; desequilibrar o defensor; iludir/esquivar a oposição ou contato de um adversário. 9.8.2 Princípios fundamentais A trajetória de engano deve oferecer uma possibilidade eficaz que resulte perigosa para o defensor. A finta tem de ser determinante para o de- fensor, pelo qual não se deve repetir de forma exa- gerada. Deve adaptar-se às possíveis respostas do de- fensor ante a finta, para o qual o atacante deve possuir: velocidade de reação, troca de ritmo e campo visual útil. Outros pontos que se devem ter em conta são: A finta é uma opção tática dentro do jogo geral do 1 x 1. Não realizar se as possibilidades obser- vadas são nulas. Não buscar o contato com o oponen- te. Atacar o espaço. Forçar o defensor a se desdobrar no espaço. A proteção da bola realiza-se sempre com o braço na posição de lançamen- to e não à altura do abdômen. fundaMentos técnIco-tátIcos IndIvIduaIs no ataqueI 127 A coordenação dos passos no deslo- camento é dada pelo resultado do en- gano (fintar sem bola), procurando-se sempre não ir sobre outro defensor. A perna de freio deve ser sempre con- trária à de saída. 9.8.3 Classificação Segundo Bárcenas & Román2: Segundo o momento da recepção: em contato com o chão. em suspensão. segundo a orientação prévia: de frente para o oponente. de costas. de lado. combinado. Segundo a trajetória de saída: normal. falsa. Segundo o número de trocas de direção: simples. dupla. Segundo o momento da troca de direção: no ponto certo. no primeiro passo. no segundo passo. no terceiro passo. Outra forma de classificar as fintas é dada por Greco:10 FIgura 9.25 – Tipos de fintas no handebol. As fintas de queda sobre um pé são utiliza- das quando o defensor está a uma distância que não lhe é possível fazer contato com o atacante. São mais rápidas e têm semelhança com a troca de direção e velocidade. Pode ser realizada com- binando as passadas e saindo sobre ou contra o braço de lançamento. As fintas de queda de re- cepção e de queda com os dois pés paralelos são utilizadas quando o defensor está próximo e na frente do atacante, em uma distância que seja pos- sível o contato corporal entre atacante e defen- sor. Podem ser realizadas com uma, duas ou três passadas, saindo contra ou a favor do braço de lançamento. Os giros são fintas pouco utilizadas atualmente no handebol, porém uma boa técnica para pontas e pivôs. Manual de handebol128 9.8.4 Descrição do gesto técnico O movimento global de uma finta consta de várias fases ou momentos: Deslocamento de engano: realiza-se um deslocamento para algum lugar deter- minado, afastado do defensor e, usu- almente, para o lado contrário pelo qual se tenta sair da finta. Fase de freada: produz-se uma flexão de tronco, com orientação frontal do corpo para a trajetória de saída, prote- gendo a bola e levando o braço à posi- ção de lançamento (“armar o braço”). Se o defensor não cai na finta, isto é, não varia a sua posição para o lado do deslocamento de engano, continua-se pela trajetória inicial. É o que deno- minamos de finta pelo lado falso. Fase de saída: uma vezsuperado o de- fensor, aproveita-se a vantagem, com o braço armado, pronto para lança- mento ou passe tudo isto realizado com a máxima velocidade. 10 Juan J. Fernández, Pablo Juan Greco, Helena Vila, Luis Casáis, José M. Cancela Fundamentos técnico-táticos individuais na defesa 10.1 A marcação 10.1.1 Definição É a ação individual defensiva na qual, utili- zando como base os deslocamentos e as posições básicas na defesa, se pretende, como conceito ge- ral, responder à ação ofensiva do atacante e limi- tar suas possibilidades de intervenção. 10.1.2 Objetivos Cortar a progressão do atacante sem bola; Evitar o lançamento ao gol; Em último caso, levar a situação para o blo- queio contra um lançamento já efetuado. 10.1.3 Princípios fundamentais Adquirir a posição de base aceitável, procurando, com isso, predispor-se da posição postural correta para realizar uma intervenção oportuna com máxi- ma velocidade. A marcação produz-se ganhando a ação do atacante, atuando de forma antecipativa. A antecipação tampouco deve ser muito exagerada, pois o ata- cante poderá trocar de direção e evitar a marcação. Controlar os mínimos movimentos do oponente em ataque com a máxi- ma atenção, para poder reagir de for- ma contínua e com gesto adequado. Estudar as características do oponente em ataque para poder contra-atacar os seus pontos fortes. Dominar o maior campo visual possível. 10.1.4 Classificação Segundo a distância: Marcação à distância. Marcação em proximidade. Segundo a posse ou não da bola: Marcação ao oponente com a bola. Marcação ao oponente sem a bola. Manual de handebol130 10.1.5 Descrição do gesto técnico a) Marcação ao oponente sem a bola. Marcação à distância: Controle: controlar o atacante por meio de contatos visuais, visando a todos os movimentos do oponente para decidir sobre o momento correto de intervenção. Situação: sempre entre o oponente e o gol. Posição de base na defesa. Deslocamentos: em função das trocas de situação do atacante, a resposta do defensor se realiza em deslocamen- tos suaves e deslizantes, tanto laterais quanto frontais, e dentro das trajetó- rias eficazes de cada posição. Marcação em proximidade. Para impedir uma progressão perigosa: Situação: o defensor deve colocar-se entre o atacante e o gol, mas com uma ligeira inclinação de situação para um dos lados do oponente, geralmente para o lado forte, para o lado do bra- ço de lançamento, tentando reduzir as suas possibilidades, impedindo ou retardando a ação ofensiva. Posição: de base defensiva com a per- na correspondente ao lado de inclina- ção adiantada. Deslocamentos: em qualquer caso, é necessária a antecipação das intenções do ataque e o defensor tem de se en- contrar próximo ao atacante para evi- tar as progressões posteriores ou, em último caso, retardar tais ações. Para impedir a recepção e uma posterior progressão: Atacante fora da linha da área de gol e de frente para o adversário e defensor posicionado entre o atacante e o gol. Diante dessa situação, a marcação realiza-se da seguinte forma: Perna: adianta-se aquela que está do lado onde se situa a bola; Braço do mesmo lado: colocada entre o oponente e a bola; Braço do lado contrário: em contato, contra o quadril do atacante, altura da crista ilíaca. Atacante posicionado na linha de 6 m de costas para o adversário e o defensor posicionado entre o atacante e o gol: Perna: adianta-se aquela que está do lado onde se situa a bola; Braço do mesmo lado: colocada entre o oponente e a bola; Braço do lado contrário: em contato, contra as costas do atacante na altura do quadril. fundaMentos técnIco-tátIcos IndIvIduaIs na defesa 131 FIgura 10.1 – Posicionamento do defensor, posicionado entre o atacante e o gol, quando aquele está posicionado na linha de 6 m de costas para o adversário. Atacante posicionado na linha de 6 m de costas ou de lado para o gol e o defensor posicio- nado entre o atacante e a bola: Perna: posição assimétrica, estando mais para trás aquela que corresponde ao lado onde se encontra a bola; Braço do mesmo lado: estendido para trás, situando-o entre o atacante e a bola. Atacante posicionado na linha de 6 m per- pendicular ao defensor (em linha) e o defensor posicionado à sua frente: Perna: posição assimétrica; Braços: ligeiramente estendidos para trás. Atacante posicionado na linha de 6 m per- pendicular ao defensor (em linha) e o defensor posicionado atrás do mesmo: Perna contrária do braço executor: li- geiramente adiantada; Braço do mesmo lado: colocado entre o adversário e a bola; Braço do lado contrário: em contato com o adversário. b) Marcação ao oponente sem a bola Atacante posicionado frontalmente ou de lado para o defensor, em contato com o chão: O defensor deve adiantar a perna cor- respondente ao braço executor do ata- cante. Situar-se entre o oponente e o gol, mas com uma ligeira inclinação para o lado da bola; O braço correspondente à perna adianta- da projeta-se para cima do braço executor do atacante, obtendo a máxima aproxi- Manual de handebol132 mação, tratando de reduzir ou evitar sua trajetória frontal com a mão estendida para cima e os dedos abertos e a mão con- trária em contato com o abdômen. Atacante posicionado de costas para o de- fensor, em contato com o chão: Colocação simétrica das pernas; Posicionar-se entre o atacante e o gol, com predisposição para se inclinar e mudar de situação para o lado contrá- rio do lado executor; Os braços estendidos para frente, atacando de forma decisiva a bola, controlando, ao mesmo tempo, os possíveis deslocamentos laterais do atacante. Atacante posicionado frontalmente e em suspensão: Colocação em suspensão, situando-se entre o atacante e o gol; Braço correspondente ao do atacante com a bola estendido para cima e para a bola, com a mão aberta e os dedos separados de frente para a bola; Braço contrário tendo controle sobre o quadril do oponente. Atacante posicionado frontalmente e em contato com o chão: tronco do defensor entre o ombro do braço executor do atacante e o gol. Atacante em suspensão: tronco do defensor em linha com o do atacante. Atacante posicionado na linha de 6m em suspensão: O defensor posicionado do lado do braço executor do atacante: interven- ção em suspensão com uma só mão, atacando a bola com a mesma esten- dida e os dedos abertos; O defensor posicionado no lado con- trário ao braço executor do atacante; A intervenção do defensor será em suspensão com as duas mãos, ten- tando alcançar a trajetória do lan- çamento. Atacante posicionado frontalmente: apoia- do no chão, em atitude de lançamento baixo: tronco do defensor entre o ombro de braço exe- cutor e o gol. 10.2 O bloqueio do lançamento 10.2.1 Definição É a ação de cortar, em última instância, a trajetória da bola lançada ao gol, utilizando uma ação com os braços do defensor em dire- ção à bola para evitar seu objetivo de alcançar o gol. fundaMentos técnIco-tátIcos IndIvIduaIs na defesa 133 10.2.2 Objetivos Cortar a trajetória da bola; Desviar a trajetória da bola suficien- temente para impedir que esta chegue ao gol. 10.2.3 Princípios fundamentais O bloqueio depende da posição específica do lançador ou do procedimento de lançamento, podendo ser em apoio ou em suspensão, ou retifi-cado, devendo-se adotar uma posição dinâmica e de rápida intervenção. Em qualquer caso, sempre colocaremos o nosso tronco entre o gol e o ombro do braço de lançamento do executor. O domínio do blo- queio exigirá, por um lado, rapidez para modifi- car a posição e situação adquirida diante de uma mudança súbita do gesto do lançamento ao gol, tanto em apoio quanto em suspensão, e, por ou- tro lado, controle visual reduzido à bola, com atenção especial ao movimento da articulação do pulso que a controla. Não se deve esquecer de que é o último movimento que precede o tiro. 10.2.4 Classificação Em função da posição do lançador: Bloqueio em apoio, quando o lança- dor realizar um lançamento com os pés em contato com o chão, igual o defensor que realizará o bloqueio; Bloqueio em salto, quando o lançador realiza um lançamento em salto, para o qual o defensor deverá coordenar a sua ação com o salto. 10.2.5 Descrição do gesto técnico Para sua realização, devemos partir da posi- ção de base, a partir da qual se levantam os bra- ços juntos e estendidos, sempre sem cruzá-los no momento do lançamento, ou antes, dirigindo-se frontalmente para a bola. A perna do defensor que corresponde ao lado forte do atacante deve estar ligeiramente adiantada, levantando o calca- nhar da perna contrária, ao mesmo tempo, para se obter uma maior aproximação com o braço exe- cutor do atacante. Para os lançamentos em suspensão, o de- fensor deve impulsionar-se imediatamente depois que o atacante o fizer, e não antes. Em todos os casos, o bloqueio da bola reali- za-se com as duas mãos, com exceção dos lança- mentos baixos, que serão feitos com apenas uma mão no momento de lançar. É conveniente que o defensor domine uma mudança rápida de posição das mãos, em respos- ta às mudanças de trajetória que adote o atacante com seu braço executor. Deve-se esperar na posição básica até que se esteja seguro de que o atacante lançará. Manual de handebol134 10.3 A interceptação da bola 10.3.1 Definição Pode-se definir a interceptação como o ato de cortar um envio da bola em determinado es- paço livre, atuando sobre a possível trajetória da bola entre o passador e o possível receptor. A in- terceptação é um gesto técnico defensivo derivado diretamente da marcação. Nela se destaca o prin- cípio defensivo da antecipação, tanto em sentido temporal como espacial. Mediante a interceptação, consegue-se a ocupação do espaço, que coincidirá com a trajetó- ria da bola quando esta se desloca. Esse gesto pode interpretar-se desde uma dupla vertente: intercep- tando-se bem a linha de passe, quando o defensor atua mais próximo do passador que do receptor, bem próximo à linha de recepção, quando a atu- ação se desenvolve mais próxima do receptor que do passador, sempre ocupando a linha de passe (mais comum). 10.3.2 Objetivos Recuperar a bola (ação prioritária); Dificultar a progressão ou a circulação da bola; Proteger o gol. 10.3.3Princípios fundamentais Para facilitar a interceptação, é recomenda- do que se prolongue a duração da trajetória da bola e, assim que possível, interceptá-la o mais próximo possível do receptor. Para poder interceptar, deve-se perceber a possível trajetória da bola, buscando uma orienta- ção que permita ter focalizados, dentro do campo visual, o passador e o receptor. Para que a interceptação tenha êxito, o de- fensor deve realizar uma boa avaliação do tempo, de forma que, se atuar demasiadamente rápido, provocará uma dissuasão do passe, e, se o fizer de- masiadamente tarde, não evitará o passe. Antes de realizar a interceptação, é conve- niente um controle sobre o possível receptor, para que não se possa realizar um desmarque. Se a in- terceptação não obtiver êxito e o receptor alcan- çar a bola, o defensor deve ocupar rapidamente a sua posição defensiva e encadear outros gestos técnicos defensivos como a marcação, a tomada da bola etc. 10.3.4 Descrição do gesto técnico Sua realização técnica é mais singela que a dos outros gestos defensivos. Podemos entender duas ações ao mesmo gesto defensivo: correr para a bola, buscando-a com as pernas e não com o tronco, o que implica risco de uma projeção do corpo para frente e um mau controle da ação dos braços, com o tronco fundaMentos técnIco-tátIcos IndIvIduaIs na defesa 135 fixo, por intermédio da pelve sobre as extremida- des inferiores na recepção da bola. Utilizam-se duas formas de se apoderar da bola quando está em trajetória aérea: desviá-la para continuar quicando ou fazer o controle da bola com as mãos e, depois, continuar qualquer gesto de ataque. Essa interpretação dá-se comu- mente no espaço próximo ao receptor e, para sua realização, é necessário um bom conhecimento das capacidades motrizes próprias, já que um dos princípios que se deve seguir é “não chegar tarde”. Se isso ocorrer, devemos adotar uma conduta de dissuasão, controlando a bola e o receptor. 10.4 A tomada da posse da bola (roubar a bola) 10.4.1 Definição A tomada (ou roubo) da bola refere-se às ações precisas que se devem realizar para desviar ou tirar a bola do adversário, dentro das margens estritamente regulamentadas. Tradicionalmente, interpreta-se essa ação como definitiva, com os gestos ou movimentos precisos para roubar a bola do adversário em plena fase de lançamento quando este se realiza nas proximidades da linha de 6 m. No entanto, existem outros diversos movimentos durante o jogo, nos quais é preciso desviar ou tirar a bola do oponente caso se queira conseguir eficácia no jogo defensivo. Temos, quando o atacante abusa do quique, uma situação vantajosa ou quando, esgotado o ci- clo de passos regulamentados, utiliza o bote como recurso imprescindível para obter uma situação benéfica, ou, simplesmente, diante de uma per- seguição do adversário que se escapa driblando. Assim, vemo-nos obrigados a ampliar as fronteiras de interpretação deste recurso técnico e podemos determinar que a tomada da posse da bola não se relaciona somente com a possibilidade de evitar um lançamento ao gol, mas, também, com a pretensão de evitar uma progressão, o meio de desenvolvimento do qual se utiliza o quique. 10.4.2 Objetivos Evitar o lançamento. Impedir a progressão perigosa. 10.4.3 Princípios fundamentais Na tomada de bola, durante o quique, a ação será mais efetiva se tentarmos realizá-la na trajetória descendente da bola, já que teremos mais tempo, e o controle posterior da bola será mais fácil. 10.4.4 Descrição do gesto técnico É importante ter em conta o que diz a re- gra: “É permitido tirar a bola do adversário com Manual de handebol136 a mão aberta e a partir qualquer direção, sem violência.” Para uma realização correta dos mo- vimentos e gestos específicos da tomada de bola, é importante uma preparação para todas as ações para não infringir as regras do jogo, pois a téc- nica que irá se empregar é realmente peculiar e difícil de executar. Quando o atacante tem a bola adaptada, o defensor deverá aproximar a mão suficientemen- te estendida, próxima à bola, que está presa por ele, e evitar a utilização de golpes (movimentos) violentos. Quando a bola não está em contato com o atacante ou está em ação de quique, tenta-se tirá- la no momento ascendente ou descendente do quique com a mão aberta, suficientemente esten- dida e o mais próxima do lugar do quique. 11 Pablo Juan Greco, Siomara A. Silva, Fernando Lucas Greco Fundamentos técnico-táticos do goleiro* 11.1 IntroduçãoNo jogo de handebol, existe uma posição que exige um atleta de especiais características, ocupando o principal posto específico dentro da equipe. Sua tarefa fundamental como último defensor é, basicamente, evitar o gol, corrigindo, com suas defesas, os erros de seus companheiros e, como iniciador do ataque, organizar e facilitar a possibilidade de contra-atacar de forma eficaz. Cada bola defendida deve ser um momento de alegria ao goleiro e cada gol sofrido deverá passar de forma natural para a equipe. O trabalho do goleiro é difícil e de enorme responsabilidade. Por meio de seu desempenho, comportamento e in- tervenções seguras, principalmente nos momen- tos difíceis, fortalece sua equipe, favorecendo a segurança e o rendimento de seus companheiros, estimulando e consolidando a combatividade da equipe e influenciando, decididamente, no resul- tado do jogo. Suas falhas são irreparáveis, pois ele não tem ajuda ou alguém que possa cobrir sua falha ou erro. A diferença em relação aos outros jogadores é que não pode se permitir ao erro, pois será castigado com o gol. Deverá atuar sem titu- beios, devendo estar sempre vigilante e atento, tendo domínio do seu corpo e das suas emoções e concentração absoluta sobre o atacante que está de posse de bola a fim de que tenha capacidade de responder ao lançamento, inclusive antes do momento que o atacante solta a bola. Necessita de intuição para jogar, possuindo conhecimento sobre o adversário, com informações sobre os ti- pos de lançamentos que realiza e a situação por zona predileta do gol, trabalhando sempre com muita segurança (confiança) e disposição, visando obrigar o adversário a lançar com pouca precisão, permitindo-lhe maiores chances de defesa ou, mesmo, desencorajar o lançamento por medo de falhas. Um goleiro de handebol se vê submetido a seguidos esforços durante o jogo (violência do lançamento, bola pequena e dura, proximidade das ações em relação ao adversário, chão duro etc.); entretanto, possui vantagens e privilégios aos quais deve ter conhecimento e dos quais deve saber tirar proveito: utilização de todo o corpo para a realização de seu trabalho e área de restrita de atuação. A disposição para ser goleiro, aliada ao treinamento dos gestos específicos da técnica, leva ao sucesso. A condição para a aquisição da técnica é a prática, e esta, aliada à qualidade do treino, leva à otimização das capacidades e habilidades específicas de um bom goleiro. A sorte não é obra do acaso, pois quem deseja ser goleiro deve desen- * Texto modificado com base so livro Caderno de rendimento do goleiro de handebol. Greco, P. J. Org., 2002. Manual de handebol138 volver todas as capacidades necessárias à função e assim terá sorte. 11.2 Características Conforme as regras do jogo, o goleiro de handebol executa, em sua área específica, tarefas diferentes em relação aos seus companheiros. Entre todas as características necessárias para realizar com êxito suas funções, o goleiro deve ter o domínio dos gestos técnicos, e a inteligência tática merece uma especial atenção. No processo de treinamento da antecipação e percepção, assim como da velocidade de pensamento para decidir e executar prontamente, sem hesitação, a resposta para a situação de jogo, a visão global de jogo, a atenção múltipla, por meio da observação da bola, a movimentação dos atacantes e dos pró- prios companheiros, facilitando as possibilidades de uma intervenção segura e precisa, fazem que o goleiro seja quem lidera tanto a defesa quanto a saída para o contra-ataque. Isso ocorre pelo fato de ele ter todo o campo de jogo sobre seu coman- do, colaborando de forma primordial com sua equipe. A capacidade de concentração para acom- panhar o jogo e ordenar rapidamente suas respos- tas está presente nos sessenta minutos de jogo. O desenvolvimento das capacidades de fle- xibilidade e alongamento, velocidade de desloca- mentos, reação e ação, força explosiva e resistência são fundamentais e imprescindíveis para o sucesso do goleiro, influenciando diretamente na técnica específica a ser trabalhada. No processo de trei- namento de base, dentro do trabalho de aprendi- zagem motora, os pontos fundamentais a serem trabalhados são o equilíbrio dinâmico, a destre- za e a manipulação com bola, a dissociação de membros, a coordenação dinâmica geral, a noção espaço-temporal e a coordenação com pressão de tempo e com pressão de organização (duas ações simultâneas). 11.3 Aspectos gerais da técnica A técnica específica em relação à posição de base deverá ser equilibrada, cômoda e deve facili- tar a chegada a todas as zonas do gol com eficiência e velocidade. Deverá, também, ser ajustada às suas características biotipológicas, psicológicas e físi- cas, respeitando seu estilo e individualidade. Em geral, o apoio é sobre a planta dos pés, com os calcanhares ligeiramente levantados e os pés ali- nhados com a largura dos ombros. É necessário adotar uma técnica definida e específica para poder ter o efeito adequado às exi- gências do jogo. A técnica do goleiro se divide em defensiva e ofensiva. Nas ações defensivas, o golei- ro deve interceptar ou cortar a trajetória da bola, depois controlá-la e realizar o passe aos seus com- panheiros. Nas técnicas ofensivas, deve ser um grande passador de longa distância. Conhecer e treinar as técnicas individuais de cada jogador de campo, com passes rápidos, curtos e executados com qualidade e precisão, pode iniciar ataques de muito êxito, garantindo um contra-ataque rápido e efetivo para sua equipe. fundaMentos técnIco-tátIcos do goleIro 139 11.3.1 Técnica defensiva Considerado o primeiro e o último defensor, o goleiro atua coordenando e colaborando com os joga- dores de quadra, organizando e orientando a defesa em relação ao seu posicionamento, trabalhando em con- junto com o bloqueio e com o marcador dos pontas. Posições e situações em função da cir- culação de bola, ante o deslocamento dos atacantes. Momento da intervenção: ante os lança- mentos entre 6 m e 9 m (pontas, pivô, infiltração dos armadores), fora dos 9 m, nos 7 m e na iniciação do contra-ataque. Atuação fora da área de 6 m, inter- ceptação do contra-ataque (dissuadir, retardar ou interceptar) partindo ve- lozmente sem indecisão, procurando chegar primeiro ou ao mesmo tempo, criar indecisão. Realizar a intercepta- ção do contra-ataque, pois a bola de gol a gol vale 1 gol, e se o atacante receber a bola livre e o goleiro não sair, as suas chances são poucas. Essa antecipação visa não só cortar o passe, mas, também, evitá-lo e retardá-lo, ou forçar o erro de passe do adversário. 11.3.2 Posição de base De modo geral, esta posição será ao centro do gol, um pouco adiantado da linha de gol, con- forme sua estatura, variando de 0,5 a 1,5 metro. Deve-se manter a cabeça erguida com naturalida- de, orientação frontal ao portador da bola, com total controle do campo visual da bola, olhos em sua trajetória, tronco ligeiramente inclinado à frente, pernas simétricas, afastadas à largura dos ombros, ligeiramente flexionadas e peso do corpo dividido uniformemente; pés totalmente apoiados no solo (base firme de sustentação), des- locamentos curtos, rápidos e deslizantes, com lar- gura cômoda propiciando possibilidades de ação posterior rápida; braços de acordo com a postura adotada, devendo se sentir à vontade. As mãos se mantêm naturalmente abertas e voltadas para o objetivo. Toda a atitude deve ser relaxada e des- contraída. Nunca deve segurara bola, mas, sem- pre que possível, utilizar as duas mãos nos movi- mentos, assegurando o sucesso e a continuidade de ações. FIgura 11.1 – Posição de base. Na Figura 11.1, observam-se três cones co- locados de forma que o goleiro se desloque entre eles, mantendo a posição básica. Manual de handebol140 11.3.3 Situação de posição na ação É a posição assumida pelo goleiro em rela- ção ao lançamento. É o lugar que o goleiro ocupa em cada momento, devendo estar situado no eixo entre a bola e o gol, no centro da bissetriz entre os postes e a bola. Sua atenção e concentração devem estar volta- das para o atacante de posse de bola e sua circulação. A situação do goleiro poderá variar de acor- do com a distância em relação à linha de gol. Para diminuir ângulos de lançamento, o goleiro sai do gol, diminuindo sua distância em relação ao ata- cante, com o intuito de prejudicar a qualidade do seu lançamento, surpreendendo-o, induzindo-o a fim de tirar proveito. Quando sair? No momento do lançamento. Zona central (1,5 m). Zona lateral (1,0 m). Zona extrema (0,5 m). Tiro de 7 m (até 4 metros, até a linha demarcatória). 2 a 3m 0,5 1,5 2 a 3m 0,5 1,5 fIgura 11.2 – Situação do goleiro em relação à linha de gol. fundaMentos técnIco-tátIcos do goleIro 141 Para favorecer sua ação e sua velocidade de reação e de movimento, o goleiro toma a posição coincidindo com a linha de gol. 11.3.4 Deslocamentos Estão determinados em função da situação e da atitude do jogador atacante. Os específicos são curtos, rápidos e deslizantes, com a finalidade de estar em posição de base o maior tempo possível. Poderão ser executados com os pés em movimen- tos alternados ou simultâneos, de forma semicir- cular e frontalmente para frente e para trás, para obter a situação ótima de intervenção. O raio da trajetória é definido em função de qualidades an- tropométricas. O goleiro se desloca procurando anteceder aos movimentos e estabilizar-se antes do lançamento, avaliando as possibilidades do ataque, a posição do atacante segundo seu setor de eficácia, a qualidade do seu lançamento e a si- tuação da defesa para reposição de bola e contra- -ataque. 11.3.5 Formas de intervenção 11.3.5.1 Em relação aos diferentes segmen- tos do corpo Defesa com a mão Para lançamentos aos ângulos superiores, se elevará rapidamente uma mão, executando um pequeno passo com o pé do mesmo lado. Para maior segurança, poderão ser utilizadas ambas as mãos para bolas com menor potência e maior dis- tância. Em nenhum caso deve se segurar a bola, FIgura 11.3 – Posição do goleiro no momento de che- gar à trave, na situação de lançamento do ponta. fIgura 11.4 – Deslocamento do goleiro para chegar à bola. No deslocamento para se chegar à bola, o goleiro deve estar preparado para defender; por- tanto, a perna do lado do deslocamento deve ser a que chega à bola, e a outra serve como apoio, conforme demonstrado na Figura 11.4. Manual de handebol142 ela deve ser rebatida na área de onde pode ser recuperada ou por cima da linha do gol. Desta maneira além de se evitar o gol, se impede que a bola possa cair em posse do adversário. O corpo e os braços devem formar uma linha direta com os pés e a perna de apoio. FIgura 11.6 – Posicionamento do goleiro para defesa com os pés no ângulo inferior. Defesa com o tronco Para os lançamentos dirigidos diretamente ao tronco do goleiro, quando não existe outra pos- sibilidade, deve-se defender com o tronco. Ocor- re normalmente ou por erro no lançamento feito pelo adversário, desvio da bola pelos defensores ou ainda pelo mal-posicionamento no momen- to de defesa do lançamento por parte do goleiro. Além de uma boa condição muscular abdominal, são recomendáveis espumas de proteção e outros componentes que completam a vestimenta do go- leiro, principalmente no handebol feminino. 11.3.5.2 Em relação à trajetória da bola Defesa de bola alta Arremesso de cima para baixo, em suspen- são. A bola vem de uma altura superior à trave. fIgura 11.5 – Posicionamento do goleiro para defesa com as mãos no ângulo superior. Defesa com o pé Para lançamentos baixos nos ângulos inferio- res, o goleiro defende com o pé, acompanhado com a mão. Para este ato, deve realizar um passo lateral com a perna do lado do lançamento (espacato), gi- rando o pé de maneira que sua parte interna esteja na direção da bola, para opor a ela a maior superfície possível de contato. Durante a extensão da perna, o pé não deve ser elevado do solo excessivamente. O regulamento permite a possibilidade de defender o lançamento com pernas, joelhos e coxas. fundaMentos técnIco-tátIcos do goleIro 143 Impulsão no pé contrário (o pé mais afastado da trajetória da bola, sem deslocamento). A outra perna, em suspensão, se deslocará lateral- mente para atingir o ponto de contato com a bola, juntamente com a elevação do braço cor- respondente à altura adequada, projetando-o ligeiramente para frente. Cobertura maior do ângulo. Não girar o tronco. Posicionar de fren- te para a bola. Pés direcionados para frente. Na elevação de um braço na bola, o ganho de altu- ra é maior, porque o deslocamento da cintura escapular, elevando-se do lado que elevamos o braço, permite isso. Se levantarmos a perna do lado, deslocamos, também, a cintura pélvica, e esse ganho em alcance aumentará, favorecendo, também, a intervenção para defesas em qual- quer altura. Em qualquer sentido do movimen- to a situação é a mesma, sobretudo em sentido diagonal, em que, para se levar os dois braços, tornam-se necessários uma torção do tronco e um ligeiro atraso de movimentos. A diferença talvez não vá além de um palmo, mas é o bas- tante para defender certas bolas que de outra maneira entrariam. A defesa deve ser realizada apenas no sentido de desviar a bola. Deve-s es- perar e não sair para frente. Defesa de bola de média altura Braço e perna correspondentes, realizan- do a impulsão na perna contrária (a fundo ou elevação). O braço contrário ao da defesa atua- rá como ponto de equilíbrio no contato com a bola. Braços sempre à frente dos joelhos, a fim de propiciar o ataque à bola. Para defesas a meia altura altas e longas, utilizam-se os dois braços, não havendo elevação da perna, mas um ataque em diagonal à fundo com inclinação do tronco e para defesas curtas, com um braço só. É necessá- rio muito trabalho de mobilidade na articulação coxo-femoral. FIgura 11.7 – Posicionamento do goleiro para defesa de bola de média altura com as duas mãos. Manual de handebol144 FIgura 11.8 – Posicionamento do goleiro para defesa de bola de média altura com uma mão. Defesa de bola baixa A característica principal é realizar a defesa com auxílio das pernas e dos pés. Olha-se para a bola, desloca-se o corpo todo, o trabalho de pernas é em diagonal, dando-se preferência ao trabalho com as mãos, deixando-se o braço livre à frente das pernas e visando-se atacar a bola. Para os goleiros com dificuldades em defesas bai- xas, deve-se utilizar maior afastamento dos pés, mantendo o posicionamento entre eles igual, va- riando, ainda, com movimento de flexão do joe- lho lateral para bolas entre as pernas. Os goleiros não muito altos devem flexionar um pouco mais as pernas para, por meio de um pequeno salto, realizar o movimento com maior amplitude e melhor impulsão. A mão faz parte do movimen- to de defesa, trabalhando como recurso para au- mentar o contato e a superfície de defesa da bola. O equilíbrio ao movimentoé dado com o braço contrário quando da utilização de um só braço no movimento, senão é com a projeção e incli- nação do tronco à frente. FIgura 11.9 – Posicionamento do goleiro para defesa de bola baixa. Movimentos de espacato e queda com meio rolamento para trás são também muito utilizados nesse tipo de defesa. FIgura 11.10 – Posicionamento do goleiro para defesa de bola baixa (final da ação). Defesa de bola quicada Quando se trata de lançamentos à meia al- tura ou de quadril do atacante, especialmente nos casos de bolas picadas na frente do goleiro, é ab- solutamente conveniente combinar a defesa com o pé e com a mão. O alcance da bola deve ser o mais próximo possível do solo, em razão da maior dificuldade de controlar as trajetórias ascenden- fundaMentos técnIco-tátIcos do goleIro 145 tes. Olhar para a bola é fundamental, bem como fazer a flexão e a queda do corpo. FIgura 11.12 – Posicionamento do goleiro para defesa na posição central. Posições externas (pontas) O goleiro se posiciona no poste correspon- dente, cobrindo completamente o primeiro poste, com o braço levantado deste lado. Os lançamen- tos executados no segundo poste serão defendidos com o outro braço, tronco ou pés. O corpo do go- leiro estará direcionado permanentemente para o lançador, e os movimentos são executados para o outro lado lateral, ou seja, para o centro da quadra e não para trás ou para a largura da linha de gol. Uma corrida para frente produz êxito, no caso de lançamentos potentes, pois reduz mais ainda o escasso ângulo de lançamento. Movimentos de pés são caracterizados por passos curtos, acom- panhando o salto do arremessador dos extremos. O movimento de defesa é curto e rápido, pois o goleiro não sai muito. Situado no momento do lançamento, tranquilo, calmo, sem movimento. Deve mover-se antes e se posicionar, pois o ata- cante quer que o goleiro tome a iniciativa. No tra- balho em conjunto com o defensor, não permitir o lançamento; realizar o lançamento com menor FIgura 11.11 – Posicionamento do goleiro para defesa de bola quicada. 11.3.5.3 Em relação à distância dos lançamentos Defesa dos lançamentos de curta distância Posições centrais São os mais difíceis de deter, pois oferecem o maior ângulo de lançamento. Neste caso, é van- tajoso reduzir o ângulo mediante uma corrida para frente, encurtar a distância, ficando de 1 a 3 metros de distância do lançador, e, no momento do lançamento, o movimento para frente deve ser parado e estar na posição fundamental de defesa. Sair com o corpo, deixar os braços abertos e voltar a atacar; saída pelo lado contrário, ataca com o tronco a bola, naturalmente voltar e atacar. Obri- ga o pivô a retificar o lançamento, não permitin- do o lançamento reto (mais forte). Manual de handebol146 ângulo; não tocar no arremessador (muda a traje- tória do salto e conseqüentemente o lançamento). de salto. A movimentação dos braços é de bai- xo para cima e acompanha a perna flexionada. Quanto o adversário estiver mais próximo do gol, os movimentos deverão ser mais amplos e, quanto mais à frente, mais curtos e próximos do corpo. Deve o goleiro ter a capacidade de reagir no ar para qualquer movimento variado em re- lação à trajetória da bola realizado pelo ataque. Neste tipo de defesa, o goleiro perde a condição futura de uma nova reação rápida e sequencial. Não deve ser utilizada como técnica básica, re- petindo-a em cada ação. A tática defensiva do goleiro na defesa do contra-ataque é a mesma dos lançamentos de 6 metros, o movimento se inicia com uma saída para a frente e defesa late- ral, fechando o ângulo. fIgura 11.13 – Posicionamento do goleiro para defesa de lançamento dos pontas. Defesa dos lançamentos de contra-ataque O recurso utilizado, o qual denominamos defesa em “Y”, é realizado com ou sem execução FIgura 11.14 – Posicionamento do goleiro para defesa de lançamento de contra-ataque. fundaMentos técnIco-tátIcos do goleIro 147 Defesa dos lançamentos de sete metros Para defender, o goleiro deve estar preparado para o jogo sabendo para quem e onde lançar. O goleiro pode ou não realizar uma pré- -defesa, em função do nível de dificuldade de sua intervenção. Sua posição fundamental poderá di- minuir ou não a distância com o atacante, deslo- cando-se ou posicionando-se à sua frente. O posicionamento inicial mais utilizado, antes da autorização do árbitro, é de 4 a 5 metros do executante. No primeiro caso, o executante se dá conta da posição imediatamente e, no segundo caso, é perturbado em sua concentração, distrain- do-se naquilo que previa realizar. O importante é que, no momento do lançamento, o goleiro obte- nha a sua posição fundamental básica para poder reagir rápido o suficiente em todas as direções e movimentos. O conhecimento do jogador adversário em relação às suas características e possibilidades pode favorecer e determinar ao goleiro a escolha da me- lhor forma defensiva de sua atuação, relacionadas com diferentes distâncias e posições iniciais. Na cobrança realizada por jogadores armadores, o goleiro poderá sair mais e, no caso de lançadores pontas ou pivô, poderá esperar mais. Por exem- plo, para lançamentos precisos e não potentes, permanecer na linha de gol e esperar o lançamen- to; permanecer na posição básica e no momento do lançamento saltar contra o lançador; perma- necer 1 a 2 metros à frente do lançador de forma passiva e com uma posição básica; lançar-se sobre o lançamento; estar a 3 metros da linha de gol e saltar contra o lançador; estar a 4 metros da linha de gol e deixar lançar ou provocar um lançamento de cobertura; preparar armadilhas, obrigando ou induzindo o atacante ao lançamento. Estar tranqui- Até 4 metros FIgura 11.15 – Posicionamento do goleiro para defesa de lançamento de 7 metros. O jogador tem, no máximo, 3 ou 4 tipos de lançamentos e locais em que gosta de lançar (1 ou 2 é o normal). O goleiro tem opções de: deixar o atacante lançar onde ele pre- fere; enganar o atacante, levantando uma perna e retornando; levantando uma perna e um braço junto com o pé de apoio; e levantando uma perna e tro- car saltando, saindo à frente. FIgura 11.16 – Opções do goleiro para defesa de lan- çamento de 7 metros. Manual de handebol148 lo e não fintar com demasiada antecipação é funda- mental, além de observar que, nos lançamentos com queda, deve reagir ao braço do lançamento e não so- bre o corpo. No jogo psicológico com o atacante, ter uma tática, buscar a sua forma de comportamento, encontrar a melhor forma de atuar. 11.3.6 Fintas Nem sempre o goleiro deve esperar tranqui- lo ou passivo pelas possíveis ações dos adversários. Poderá provocar determinada direção do lança- mento do jogador adversário, escolher o ângulo e a altura com a utilização de fintas. É muito prová- vel a obtenção do êxito se utilizar estas fintas. Es- tas não devem ser realizadas com demasiada ante- cipação, pois simulam ações e atitudes, induzindo ao lançamento para provocar erros do atacante. A finta será tática e tecnicamente perfeita quando for obtida depois do movimento de engano, con- dição de voltar à posição inicial correta, e a partir daí, reagir. Prioritariamente, deverá ser utilizada nos lançamentos de 7 m e 6 m das zonas centrais (de curta distância). A mesma finta não deve ser repetida, ou, pelo menos, não imediatamente. No duelo goleiro x atacante, triunfará o jogador psi- cologicamente mais forte. 11.3.6.1 Tipos de fintas Fintas para eleger um ângulo: Direitapara a esquerda. De cima para baixo. Em cima de um lado para o outro. Fintas para eleger a altura do lançamento: Saída e retorno. Definição de um pé de apoio. 11.3.7 Técnicas ofensivas Logo após uma defesa com êxito, o goleiro deve colocar a bola em jogo em diferentes veloci- dades, conforme o placar do jogo. Se a equipe está perdendo, realiza-se o mais rapidamente possível, ou lentamente, quando a equipe está “curtindo” o momento se se encontrar à frente do marcador. Deve realizar, de preferência, passes longos, ao meio campo, possibilitando um ataque rápido. Somente realizará um passe curto quando o lon- go for taticamente inadequado ou arriscado pela posição de defensores que possam interceptá-los. É considerado o iniciador do ataque e, também, o último atacante, pois é responsável pela reposição de bola e início do contra-ataque, podendo tam- bém atuar como sétimo jogador. Recuperação da Bola a) recepcionar – controle total da bola; b) amortecer – médio controle; c) deslocar/rebater – difícil controle. Reposição da Bola fundaMentos técnIco-tátIcos do goleIro 149 Rápido controle da bola após o lançamento, realizando o passe ao companheiro mais próximo de sua área desmarcado e, a seguir, o apoio ime- diato saindo da área para jogar 2 x 1. Lançamento de contra-ataque O passe deve ser feito ao jogador livre, des- marcado e mais adiantado, de qualquer local da área. São feitos passes longos, de meia distância, e lançamentos diretos ao gol adversário. Participação no ataque Como jogador de quadra, auxilia a equipe no apoio na saída de bola, no caso de bolas perdi- das, na cobrança de tiros livres e lateral próximos de seu gol, em superioridade e inferioridade nu- mérica, ou defesas individuais. Também deve ser treinada a saída de bola rápida com passes curtos, geralmente para a lateral perto da área de 9 m, para organizar o contra-ataque sustentado. 11.4 Considerações finais Deverá o goleiro ter consciência clara de que a função de defesa de lançamentos apenas inicia o trabalho a ser realizado por ele e que a mudança de defensor para atacante deverá ser rápida: de- fesa – posse de bola – equilíbrio – passe potente, preciso para saída da bola da área conforme a si- tuação com passes curtos ou longos. Os deslocamentos realizados deverão ser com movimentos de passo normal, para se posi- cionar o mais rápido possível com duplo apoio. Os saltos poderão ser realizados com impulso em uma ou duas pernas. As quedas, em algumas situ- ações de jogo, são empregadas como recursos, não sendo fundamentais. Nos casos de inferioridade numérica e finais de partida, o goleiro, se for um bom jogador e com extraordinária prudência, po- derá intervir na circulação de bola, participando do jogo ofensivo. De maneira geral, a maior preocupação do goleiro deverá ser a de adequar a técnica a ser utilizada na defesa do lançamento e planejar o trabalho a ser desenvolvido durante os treinos para, de acordo com os conhecimentos sobre o adversário e, principalmente, atender às ca- racterísticas próprias de se organizar estruturas para o próximo jogo. Busca-se, cada vez mais, enriquecer a gama de movimentos, aumentan- do suas possibilidades de intervenção e trabalhar paralelamente com as tendências e inovações dentro do handebol, principalmente em rela- ção aos sistemas ofensivos e aos atacantes. Tais afirmações são preocupações inerentes a relação goleiro-treinador. Independentemente do conhecimento das técnicas apresentadas, parte-se do princí- pio de que “o que não se quer melhorar deixa de ser bom”. Devemos estar atentos, de olhos bem abertos, abrindo novos horizontes, ob- servando novos goleiros, novas tendências e influências. Manual de handebol150 Referências 1 bárcenas, d.; roMán seco, j. d. r. Técni- cas de balonmano. Madri: Gymnos, 1995. 2 falKowsKI, M. M.; enríquez, e. Estudio mo- nográfico de los jugadores de campo: aspectos técnicos. Madri: Esteban Sanz, 1982. v. 1. 3 VVAA. Balonmano. Colección de los depor- tes olímpicos. Madri: Comité Olímpico Es- pañol, 1991. 4 bárcenas, d.; roMán seco, j. d. r. Balon- mano: técnica y metodología. Madri: Gym- nos, 1991. 5 antón, j. L. Balonmano: metodología y alto rendimiento. Barcelona: Paidotribo, 1994. 6 lasIerra, g.; Ponz, j. M.; andrés, f. 1013 Ejercicios y juegos aplicados al balonmano: fun- damentos y ejercicios individuales. Barcelo- na: Paidotribo, 1992. v. 1. 7 lasIerra, g.; Ponz, j. M.; andrés, f. 1013 Ejercicios y juegos aplicados al balonmano: fun- damentos y ejercicios individuales. Barcelo- na: Paidotribo, 1992. v. 2. 8 trosse, h. d. Balonmano: entrenamiento, técnica y tática. Barcelona: Martínez Roca, 1993. 9 greco, P. j.; Maluf, e. Handbol: de la escue- la al club. Buenos Aires: Ediciones Lidium, 1989. 10 greco, P. j. Caderno de rendimento do atleta de handebol. Belo Horizonte: Health, 2000. 11 ______. Caderno de Rendimento do Goleiro de handebol. Belo Horizonte: Health, 2002. fundaMentos da tátIca coletIva no ataqueI 151 Parte IV Tática 12 Juan J. Fernández, Pablo Juan Greco, Simonara Silva, Fernando Greco Meios técnico-taticos de grupo no ataque O handebol é um esporte que se caracteri- za pela presença simultânea de ações de ataque e defesa, em espaços comuns que determinam a sua luta. Assim, durante o jogo, as ações individuais se concatenam com as ações de grupo e de conjunto, tanto de ataque quanto de defesa. As ações técnico- -táticas a serem realizadas para resolver as situações de jogo são denominadas meios técnico-táticos, que, conforme a situação, são considerados de ata- que ou defesa, nas diferentes fases do jogo. uma intenção tática; portanto, os níveis das capacida- des técnicas de um jogador e, também, de uma equi- pe se manifestam por meio das ações dos jogadores, conforme as intenções táticas no momento do jogo. Os meios táticos de grupo se caracterizam pela solicitação do apoio do colega na realização da ação; somente serão finalizadas com sucesso caso essas con- dutas estejam concatenadas entre os jogadores. Os atacantes sem a bola devem favorecer, em todo mo- mento, o jogo daquele que possui a bola, oferecendo- lhe ocasiões e condições para um passe eficaz após um desmarque ou criando espaços para ele ou para outros que possam ser beneficiados por sua movimentação sem bola. Como se observa, no handebol é funda- mental organizar as ações de jogo, observando os parâ- metros da conduta individual no tempo e no espaço. Trata-se da aplicação dos deslocamentos por parte de todos os jogadores na ação ofensiva coletiva, com o objetivo de obter situações favoráveis de recep- ção distribuídas equilibradamente ao redor da bola em qualquer fase do ataque. Nesta situação, o jogador com a bola tem de ir para as zonas nas quais se encon- tram mais apoios e melhores possibilidades de passe. Os fatores que se deve ter em conta para ob- ter o êxito nesta criação são: as mudanças de dire- ção e de ritmo de corrida ou da velocidade, além da distância com o defensor. FIgura 12.1 – Meios táticos de grupo no handebol (modificado de Antón).1,2 Os meios táticos de ataque e defesa solicitam de ações técnico-táticas. Como fora anteriormente colo- cado, no handebol, a técnica sempre está a serviço de Manual de handebol154 12.1 Tabela (give and go – passe e vai) 12.1.1 Definição A tabela é uma ação que se realiza visando oportunizar ao atacante em posse de bola a supe- ração de seu defensor direto. Este meio tático grupal inclui várias formasde realização e procedimento: Passe e vai: é a estrutura básica de inte- ração entre dois atacantes. É utilizado quando o possuidor da bola não con- segue superar o seu oponente no jogo 1 x 1 e passa a um companheiro. Este, em seguida, se desmarca para, poste- riormente, voltar a receber a bola em melhores condições. Passe e volta: é uma sequência do jogo com um duplo passe de ida e volta entre dois jogadores, com o ob- jetivo de assegurar a posse da bola e dar continuidade ao jogo de ataque. Passe e segue: estabelece-se para dar continuidade ao jogo por meio da cir- culação da bola. Encadeiam-se, assim, vários passes entre atacantes, dando início ao jogo posicional. 12.1.2 Objetivos Conseguir superar o defensor direto; Buscar, de forma secundária, a penetra- ção e aproximação da meta adversária; 12.1.3 Terminologia específica e classifi- cação Participam de uma ação de tabela dois joga- dores, sendo: um jogador com bola: aquele que ini- cia a ação da tabela com um passe para um segundo jogador; um jogador sem bola: também deno- minado jogador resposta, este é o res- ponsável por se deslocar sem bola se desmarcar e receber o passe do joga- dor com bola, para devolver o 12.1.4 Considerações Para se realizar a tabela, deve-se levar em con- sideração que ambos os jogadores envolvidos em tal ação ofensiva devem realizar deslocamentos sem bola, oferecendo-se para receber e orientando-se no espaço e com os colegas livres da ação do defensor, para que se inicie e se termine a ação. Além disso, eles devem garantir a continuidade das ações. Po- rém, os demais atletas da equipe devem estar aten- tos e devem, também, se oferecer para receber um possível passe e dar continuidade ao ataque quando o jogador iniciador da tabela não puder concluir ou receber a devolução do jogador resposta. fundaMentos da tátIca coletIva no ataqueI 155 O jogador com bola deve realizar determi- nadas ações para o sucesso da tabela, tais como: fixar o defensor e ver a proximidade com ele; passar a bola ao colaborador; sair da marcação após passar a bola; fintar sempre na direção de corrida; usar a troca de velocidade na ação de sair da marcação; apresentar qualidade e variação no tipo de passe. O jogador com bola deve realizar determi- nadas ações para o sucesso da tabela, tais como: oferecer-se para receber; perceber a ação do colega; receber em espaço que permita a sequ- ência de ações; fixar o adversário; apresentar qualidade e variação no tipo de passe na devolução. É importante, todavia, que os demais atle- tas da equipe estejam atentos à situação criada pela tabela entre esses dois jogadores e fixem a atenção de seus defensores diretos, realizando ações sem a bola. Além disso, devem observar a proximidade com o jogador que realiza a tabela para evitar que se feche o espaço deste, realizar fintas e mudanças de direção e sentido em suas linhas de corrida. 12.2 engajamento, as progressões, pe- netrações ou apoios sucessivos, em ataque no intervalo Juan J. Fernández, Helena Vila, Randeantoni do Nascimento 12.2.1Definição Por meio de uma estrutura de jogo com base nas progressões ou penetrações sucessivas, podem-se estabelecer conceitos como os de am- plitude e profundidade em ataque, conseguindo a máxima utilização do espaço possível regula- mentado. Podemos conceitualizá-los como sendo a soma dos pontos de apoios dinâmicos. Penetrar é “entrar por” e realiza-se pelos espaços livres. Quando um atacante penetra entre dois defen- sores e atrai a atenção dos deles, um compa- nheiro atacante fica sozinho. Esta é a base das progressões sucessivas, já que, a partir daqui, a sequência se repete até esgotar as possíveis ajudas da defesa e obter a superioridade numérica que dê lugar a um possível 1 x 0. 12.2.2 Objetivos Conseguir a penetração na defesa quando se está em igualdade de nú- mero de jogadores no campo; Melhorar a distância do lançamento; Manual de handebol156 Organizar o jogo posicional com o in- tuito de deslocar a defesa para aprovei- tar a ação na sua sequência. 12.2.3 Considerações Realiza-se de forma frontal à meta ou ao gol adversário e de modo escalonado, ou seja, um joga- dor após o outro, sempre em corrida e em progres- são para o gol. Quando o jogador com a bola chega à metade de sua trajetória, o companheiro do posto específico começa a sua corrida. Este é o meio mais difícil de ser aprendido, pois exige muita colabora- ção e timing entre os jogadores participantes. Para estabelecer e aplicar os princípios do ataque a intervalos encadeados, ou engajamento, devemos considerar o seguinte: O possuidor da bola (jogador iniciador) deve atacar sempre o espaço vazio entre dois defensores e sem buscar o contato, tentando fazer que o defensor, que não é seu oponente direto, realize um des- locamento para oferecer uma ajuda ao defensor par do atacante. Quando isso acontece e fica anulada a possibilida- de de penetração do atacante iniciador com a bola, deve-se efetuar um passe para o companheiro, de modo a manter a circulação da bola. Esse passe é funda- mentalmente clássico lateral, devendo- -se evitar os passes de pronação. O jo- gador com bola tem de proteger a bola soltando-a no momento certo antes do seu contato com o defensor. O receptor (jogador resposta) deve tentar receber o passe em corrida de forma gradual, com mudança de dire- ção e velocidade prévia e um desloca- mento paralelo ao do seu antecessor. A premissa seguinte é a mesma. Alcança-se, assim, o conceito de amplitude e profundidade no ataque por meio da “recepção e vou”, ou seja, o jogador que recebe desmarca-se novamente com a bola até obter a superioridade numérica (1 x 0). FIgura 12.2 – Progressões sucessivas em busca de uma superioridade numérica iniciada pelo jogador C, que engaja e atrai o seu defensor par. A ação de B inicia com troca de direção e aproveitamento do bloqueio realizado pelo jogador E; ao entrar entre o defensor 5 e 6, cria es- paço para o jogador A. Caso o defensor 7 feche o espaço na ajuda de 6, o jogador F fica livre de marcação, e o jo- gador A deve passar-lhe a bola; caso contrário, o jogador A estará em condições de lançar ao gol sem oposição. fundaMentos da tátIca coletIva no ataqueI 157 12.3 A noção par-ímpar 12.3.1 Definição Pode-se definir como a situação básica entre atacantes e defensores com a finalidade de conseguir um espaço para penetração ou, pelo menos, liberar um espaço que seja suscetível de ser utilizado por um companheiro. A partir da menor unidade do jogo, construímos o resto dos procedimentos coletivos. O conceito ímpar significa que um atacante conseguiu a oposição do defensor que não é o seu direto, ou seja, centrar a atenção ou conseguir a fixação do oponente não direto. em linha de lançamento, ou seja, dá-se um empa- relhamento do atacante e defensor bem definido. FIgura 12.3 – Ataque com base no conceito ímpar com finalização da zona exterior esquerda ao se conseguir su- perioridade. No conceito ímpar, a resposta do jogador beneficiado pela ação do jogador iniciador é atacar em paralelo, ou em engajamento ou apoio sucessivo. O conceito par significa que um atacante conseguiu uma situação frontal com seu oponente FIgura 12.4 – Ataque utilizando o conceito par com finalização. No conceito par, a resposta do jogador be- neficiado pela ação do jogador iniciador é realizar o cruzamento com ele. 12.3.2 ObjetivosPretende-se a fixação dos defensores para obter superioridade numérica e alcançar, na continuação: a penetração; a progressão, por falta de êxito do pri- meiro objetivo. 12.3.3 Considerações Esta noção ofensiva demonstra as condu- tas fundamentais que têm de se desenvolver em Manual de handebol158 uma situação 2 x 2, 3 x 3 etc. O jogador, ao ini- ciar a ação ofensiva, deve atacar sempre o espa- ço compreendido entre dois defensores (também denominado ataque ao intervalo), procurando ser perigoso na busca da penetração para chamar a atenção dos defensores mais próximos. Aparece, assim, o conceito de fixação. Não podemos nos esquecer de que o handebol é, fundamentalmen- te, uma luta pelos espaços de penetração. Nesta luta, o beneficiado pode ser o jogador iniciador, mas, na maioria das vezes, será o jogador resposta que se beneficia da nossa ação. Portanto, devemos tentar, na ação coletiva, liberar espaço que possa ser aproveitado pelo nosso companheiro. O joga- dor resposta deve observar e atuar no momento oportuno para aproveitar a fixação do iniciador. Quando o jogador iniciador fixa o ímpar, o jogador resposta aproveita a situação mediante uma mudança de direção, dando lugar às progres- sões sucessivas. Quando o jogador iniciador fixa o par, a resposta ofensiva é o cruzamento. FIgura 12.6 – Ataque utilizando o conceito par com finalização mediante um cruzamento. 12.4 Os cruzamentos 12.4.1 Definição Define-se como a ação de troca entre dois ou mais jogadores de forma escalonada, premeditada ou encontrada, para que, por meio da fixação realizada pelo primeiro atacante em posse da bola, possa-se originar um erro na defesa e, assim, um companhei- ro possa aproveitar essa circunstância passando atrás do colega de posse da bola, liberando, desse modo, com mais facilidade o seu braço de lançamento. 12.4.2 Objetivos Conseguir a penetração; Melhorar a distância e a condição do lançamento;FIgura 12.5 – Ataque utilizando o conceito ímpar. fundaMentos da tátIca coletIva no ataqueI 159 Fixar ao máximo o oponente; Buscar o erro ou o atraso na ação de- fensiva, objetivando a superioridade numérica em um local específico. 12.4.3 Classificação Cruzamento com bola: a) Simples: é o cruzamento gradual e premeditado entre dois jogadores com trajetórias específicas. FIgura 12.7 – Cruzamento simples. b) Duplo: quando não se obtêm resul- tados com o simples, o jogador que atacou por último emenda um segun- do cruzamento para tentar obter um espaço livre. FIgura 12.8 – Cruzamento duplo. c) Múltiplo: quando se realizam mais de duas trajetórias de cruzamento. Cruzamento sem bola: Ocorre quando o jogador que inicia não está em posse da bola, mas o jogador que responde ou recebe de um terceiro. FIgura 12.9 – Cruzamento sem bola. Manual de handebol160 12.4.4 Considerações Os cruzamentos tendem a se realizar entre joga- dores de primeira linha, mas podem ser utilizados por qualquer jogador em qualquer linha de jogo entre elas. São empregados para romper a relação de marcação dos defensores, de forma que os atacan- tes cruzam as suas trajetórias e, deste modo, um dos dois fica mediante a fixação dos defensores. O jogador que inicia fixa o oponente par mediante uma trajetória que o desloque para o posto específico defensivo colidente. Como con- sequência desta trajetória, provoca-se uma dú- vida defensiva entre o oponente direto e o opo- nente do atacante no posto específico defensivo colidente. O continuador aproveita o espaço de penetração criado pelo iniciador e deve progre- dir por ele até melhorar a distância de arremesso. Inicia-se com uma trajetória retilínea e, a partir da observação que o oponente direto mantém em sua posição, muda-se de direção e cruza-se por detrás do iniciador, uma vez que este invada seu setor. O espaço entre ambos será mínimo e o passe pode ser em largada, pronação para trás ou, até mesmo, com as duas mãos girando como na pantalha. Um princípio básico é que o jogador atacan- te com a bola deve iniciar a ação de cruzamento (com exceção do cruzamento sem bola): Os jogadores em ação premeditada ou em ações improvisadas buscam a fixa- ção de seu oponente direto, mas ata- cando o espaço entre dois defensores. As ações devem ser coordenadas em es- paço e tempo por todos os jogadores. Se for alcançado o objetivo, não são necessárias situações de troca. O segundo jogador busca a ocupação do setor do iniciador. O cruzamento é mais aconselhado quando os defensores estão em linha. 14.5 As permutas 12.5.1 Definição A permuta é um cruzamento sem bola, no qual os atacantes trocam de posições em postos próximos, entre dois ou mais jogado- res. Existe uma invasão de espaço no posto específico do colega, que ocupará o espaço li- vre. Tais ações oportunizam uma mobilidade maior do ataque. 12.5.2 Objetivos Participam de uma ação de permuta: jogador iniciador: é o responsável por iniciar a ação com um passe para um colega; jogador resposta: é quem realiza a ação de cruzamento sem bola com o joga- dor iniciador; fundaMentos da tátIca coletIva no ataqueI 161 jogador colaborador: realiza a recep- ção do passe do jogador iniciador e dá sequência ao jogo. 12.5.3 Terminologia específica e classificação As permutas podem ocorrer de acordo com o posicionamento dos atletas em relação à defesa: frente à defesa; através da defesa; por dentro da defesa. Participam de uma ação de permuta: jogador iniciador: é o responsável por iniciar a ação com um passe para um colega; jogador resposta: é quem realiza a ação de cruzamento sem bola com o joga- dor iniciador; jogador colaborador: realiza a recep- ção do passe do jogador iniciador e dá sequência ao jogo. 12.5.4 Considerações Para se realizar a permuta, são necessárias ca- pacidades técnico-táticas individuais dos partici- pantes dessa ação, tais como variedade de desloca- mentos, eficácia e variedade de lançamentos, uma boa movimentação sem bola, uma boa decisão em posse da bola e qualidades na fixação e continui- dade do jogo de ataque. 12.6 O bloqueio Pablo Juan Greco, Siomara A. Silva, Fernando Lucas Greco 12.6.1 Definição O bloqueio define-se quase exclusivamente como a interrupção da trajetória do defensor por parte de um atacante sem/com a posse da bola. Realiza-se sobre qualquer defensor, ainda que sua maior utilização se proceda no jogo estático e quase de forma única pelo(s) pivô(s), podendo e devendo ser feito por qualquer jogador sem restrições. 12.6.2 Objetivos Conseguir a penetração; Melhorar a distância de lançamento; Quebrar a coordenação do sistema de- fensivo; Buscar o erro ou o atraso na ação de- fensiva, objetivando-se a superiorida- de numérica em um setor específico. 12.6.3 Terminologia específica e classificação Ao denominar os jogadores que intervêm no bloqueio, distinguem-se: Manual de handebol162 bloqueador: jogador que realiza o blo- queio (1); beneficiado: jogador atacante, com opo- nente em defesa que é bloqueado (2); bloqueado: jogador de defesa que so- fre o bloqueio (3); colaborador direto defensivo: defensor que participa no contrabloqueio (4). FIgura 12.10 – Bloqueio. Quadro 12.1 – Tipos de classificação dos bloqueios Tipo Modo de ação Imagem Segundo a trajetória da bola/defensor Frontal (para frente e para trás). Lateral (pela esquerda e pela direita). Diagonal (pela frente e por trás). Segundo alinha defensiva em que ocorre Primeira linha. Segunda linha. Os bloqueios podem se classificar sobre vá- rios parâmetros (Román; Petkovic; Teixeira):3-7 fundaMentos da tátIca coletIva no ataqueI 163 Tipo Modo de ação Imagem Segundo a linha defensiva em que ocorre Terceira linha. Segundo a ação posterior Bloqueio direto ou estático, quando o beneficia- do é quem finaliza a ação. Bloqueio indireto ou dinâmico, quando o bene- ficiado passa a bola ao bloqueador para que este finalize a ação. Segundo o número de jogadores Bloqueio simples (um atacante atua sobre um defensor). Bloqueio duplo (dois atacantes atuam sobre um defensor). Manual de handebol164 Tipo Modo de ação Imagem Segundo o número de jogadores Duplo bloqueio (dois atacantes atuam sobre dois defensores). Segundo a saída Bloqueio com saída para seu lado. Bloqueio com saída para o lado falso, ou seja, lado contrário àquele realizado pelo bloqueador. 12.6.4 Considerações Para realizá-lo, o regulamento permite a antecipação espaço-temporal sobre o defensor, em forma de choque simultâneo e com resistên- cia mútua. Recomenda-se que o bloqueador se posicione fechando a saída do defensor bloquea- do a 50-70 cm dele e não indo sobre ele, a fim de evitar a falta de ataque. A respeito disto, o blo- queador não pode empurrar, mas somente ofere- cer resistência corporal. O regulamente prevê a impossibilidade de utilizar os braços estendidos ou pernas afastadas. A orientação do bloqueador pode ser fron- tal ou, até mesmo, dando as costas ao defensor, mas, em todo caso, não deve nunca perder a bola de vista. Somente se deve realizá-lo perante um defensor que se encontra em uma linha de jogo distinta para se ter maior garantia de êxito, já que a coordenação defensiva ficaria mais difícil em ra- zão da surpresa da ação. Devemos levar em conta: fundaMentos da tátIca coletIva no ataqueI 165 um bloqueio será eficaz se houver coincidência espaço-temporal nas ações dos atacantes. perante um bloqueio frontal, bloque- ador e beneficiado devem coincidir no mesmo eixo. uma vez produzido o bloqueio, o blo- queador deve se desmarcar o mais rá- pido possível no espaço livre. O bloqueio constitui uma série de fases: 1. Iniciação: quando o principal proble- ma está na sincronização da ação do atacante com o restante da jogada de ataque, que estará em função da dis- tância e da situação dos jogadores en- tre si. 2. Realização: o bloqueador é o jogador que começa a ação, mas em função da bola, e é o primeiro que deve chegar ao ponto escolhido. O beneficiado deve passar lateralmente o defensor, na hora em que acontece o bloqueio, e o bloqueador se coloca pelo lado em que pretende passar o beneficiado. 3. Finalização: se dá quando o beneficia- do ultrapassa lateralmente a linha de bloqueio (formada entre o bloqueador e o jogador com a bola) e implica um lançamento ao gol, uma continuação com um passe ao bloqueador (blo- queio dinâmico) ou uma possibili- dade de superioridade numérica nas ações seguintes. FIgura 12.11 – Desenvolvimento de bloqueio dinâ- mico. 12.7 A pantalha Pablo Juan Greco, Siomara A. Silva, Fernando Lucas Greco 12.7.1 Definição É um meio tático coletivo pelo qual dois ou mais atacantes cortam simultaneamente a trajetória de um defensor (ou defensores) em profundidade para facilitar o lançamento de um companheiro. A pantalha é um muro que se interpõe entre os defensores e um atacante para facilitar a este o lan- çamento à distância. Pode-se considerar, também, como a soma de dois ou mais bloqueios frontais. 12.7.2 Objetivos Conseguir uma situação ótima para o lançamento eficaz da primeira linha; Manual de handebol166 geralmente envolve um especialista que possui grande qualidade no lan- çamento de média e longa distância; Buscar, de forma secundária, a penetra- ção pela ruptura da pantalha, ou pela liberação do espaço do lado contrário. 12.7.3 Classificação As pantalhas são denominadas segundo o número de jogadores que as compõem: a) Pantalhas de dois ou duplas. b) Pantalhas de três ou trios. c) Pantalha múltipla: normalmente uti- lizadas em situações especiais, como no caso dos lançamentos em tiro livre ou nos instantes finais da partida. Também podemos classificá-las em função do momento do jogo em que elas acontecem: a) Pantalha dinâmica: aquela que acon- tece dentro da ação normal do jogo com mais um procedimento tático. b) Pantalha estática ou estratégica: tem seu início em uma situação de inter- rupção do jogo (tiro livre). 12.7.4 Considerações Seu emprego é muito efetivo contra defesas fechadas e de uma só linha ou, também, em ações estratégicas do jogo (lançamento em um tiro li- vre). Contudo, exige opções de continuação dian- te da possibilidade de fracasso da pantalha. Devemos levar em conta que: envolve uma boa estruturação espaço- -temporal: ocupar o espaço da panta- lha no momento em que o lançador recebe a bola. deve ser adequado ao lugar em que se en- contra o lançador, em consideração à tra- jetória do lançador e dos bloqueadores. os jogadores estarão próximos e não em graduação. se não houver êxito na pantalha (não se chegara executar o lançamento), um dos bloqueadores deve continuar o jogo de pivô, aproveitando o jogo em profundidade (bloqueio dinâmico). buscar a maior profundidade por par- te dos integrantes da pantalha para conseguir maior efetividade e melho- rar a distância em relação ao gol. FIgura 12.12 – Desenvolvimento da pantalha. fundaMentos da tátIca coletIva no ataqueI 167 12.8 Cortina Pablo Juan Greco, Siomara A. Silva, Fernando Lucas Greco 12.8.1 Definição As cortinas são ações táticas de grupo de ataque que objetivam interromper, momentaneamente, a trajetória de um defensor, evitando sua progressão na profundidade da quadra, para beneficiar o colega com ou sem a posse da bola. É uma ação simultânea de dois atacantes, sendo que um protege a corrida do lançador e outro se beneficia da ação do colega. O jogador sem bola deve realizar uma corrida pela frente da defesa, obstruindo a saída a frente do defensor direto do colega, facilitando, assim, a ação de progressão para o lançamento ou a superioridade deste que se beneficia da movimentação do iniciador da ação. 12.8.2 Objetivos Conseguir uma situação ótima para o lançamento; Conseguir uma situação de superiori- dade do ataque; Atrasar ou evitar a saída à frente do de- fensor direto do jogador beneficiado; 12.8.3 Considerações Seu emprego é muito efetivo contra defesas fechadas em situações de saída do defensor direto acompanhando o movimento da bola. A movi- mentação do jogador sem bola, segundo Cuesta,9 deve ocorrer de forma que o defensor direto do colega não perceba, ou seja, deve ser realizada por meio de uma surpresa do adversário. Entretanto, tal movimentação deve ser rea- lizada observando-se alguns aspectos técnico-táti- cos e regulamentares do jogo, tais como: O jogador sem bola não pode realizar um bloqueio faltoso no defensor dire- to daquele que estará sendo beneficia- do pela ação dele; O atacante deve chegar ao espaço an- tes que o defensor, realizando uma pequena parada para “segurá-lo”, de forma tal a dar “tempo” e “espaço” ao colega; Quem se beneficia do bloqueio deve perceber as melhores alternativas para finalizar ou dar sequência ao jogo ofensivo; Deve-se ajustar o timing da ação entre os dois jogadores de ataque, sendoque a trajetória do jogador deve ter sua “chegada” de forma simultânea com a do companheiro no local de definição da ação. 12.9 Ponte aérea (ou fly, ou kempa-trick) Pablo Juan Greco, Siomara A. Silva, Fernando Lucas Greco Manual de handebol168 12.9.1 Definição A ponte aérea é uma ação tática de grupo que exige interação de dois atacantes, com traje- tórias diferentes. O primeiro, também chamado de jogador iniciador, deve passar a bola no espa- ço da área para um segundo atacante, também chamado de jogador resposta, evitando a ação de interceptação do defensor direto de ambos os jo- gadores e do goleiro. 12.9.2 Objetivos Liberar braço de lançamento; Utilizar o espaço nas costas da defesa (realizando uma progressão com salto de fora da área de 6 metros). 12.9.3 Considerações A utilização da ponte aérea, ou “fly”, deve acon- tecer observando-se a movimentação dos defensores e determinando o melhor momento tanto do passe quanto do deslocamento do jogador sem bola. As responsabilidades dos atletas durante uma ação de ponte aérea estão apresentadas no Quadro 12.1: Quadro 12.2 – Responsabilidades dos atletas durante uma ação de ponte aérea Jogador iniciador Jogador receptor Jogador sem bola Fixar o defensor direto. Perceber a ação do colega. Fixar a atenção dos seus defensores diretos, realizando ações sem bola. Passar a bola ao colega que salta para a área. Oferecer-se para receber. Observar a proximidade com o jogador que realiza o fly, não fechar espaço deste. Sair da marcação após passar a bola. Saltar de fora da área. Não se aproximar em demasia. Fintar sempre a direção de corrida, desviando atenção da defesa para o local do passe. Recepção no ar no espaço da área, nas costas da defesa. Desmarcar-se para ser opção de passe e para ser um possível receptor. Fixar e passar com qualidade. Observar o goleiro, tipo de ação, saída etc. Fintar sempre a direção de corrida e trabalhar sem bola para atrair defen- sores. Usar a troca de velocidade na ação de sair da marcação. Usar a troca de velocidade na ação de sair da marcação. Qualidade e Variação no tipo de passe. Qualidade e variabilidade no tipo de lançamento. Qualidade e variação no tipo de ação. Assegurar a continuidade do jogo. Assegurar a continuidade do jogo caso não possa definir. Assegurar a continuidade. 13 Meios tecnicos táticos de grupo na defesa “triângulo defensivo”. Esse nome se deve a sua similaridade geométrica com essa fi gura. Sua mis- são fundamental é reforçar as zonas defensivas correspondentes à posição da bola, isto é, formar superioridade numérica defensiva em torno da bola (densidade). Juan J. Fernández, Jose M. Miragarjo, Rondeantoni do Nascimento, Helena Vila 13.1 Basculação, fl utuação e forma- ção do triângulo defensivo 13.1.1 Defi nição Por basculação entende-se uma série de deslocamentos laterais defensivos determinados pela posição da bola e do jogador (amplitude defensiva), com o objetivo de se obter superio- ridade numérica defensiva no setor em que se encontra a bola. Unido ao conceito de basculação defensiva, encontramos, também, o de fl utuação, que se defi ne como a ação de aproximação-afastamento de um defensor frente ao seu oponente. A dis- tância que os separa pode ser maior ou menor dependendo da ação ou não contra o oponen- te (profundidade defensiva). A missão funda- mental da fl utuação é jogar com espaços que se deixam disponíveis para o atacante. Por meio da redução, aproximamo-nos do oponente, em uma zona efi caz de deslocamento, ou pelo seu aumento, retrocedendo para bloquear a bola na direção que ela fosse. O exercício que combina fl utuação e bas- culação possibilita a formação do denominado fIgura 13.1 – Triângulo defensivo. 13.1.2 Objetivos Impedir penetrações e progressões. Buscar a ocupação antecipada de es- paços livres. Reduzir a zona de ação efi caz do ata- cante no lançamento à distância. Manual de handebol170 Reforçar as zonas defensivas onde se encontra a bola (formar igualdade ou superioridade numérica defensiva). Jogar com espaços, aproximando- nos ou afastando-nos de nosso opo- nente. Poder efetuar com a maior precisão a defesa de nosso gol. 13.1.3 Considerações A disposição tática do triângulo defensivo nos permite também colaborar melhor com o goleiro. Dessa forma, podem-se estabelecer como critérios básicos de colaboração: o jogador que ataca seu oponente di- reto cobre o ângulo curto do gol; o jogador da base interior do triângulo defensivo cobre o ângulo longo. Esses meios táticos, levando em conta a ti- pologia do sistema defensivo, utilizam-se: em defesas por zona: Perante procedimentos táticos coleti- vos ofensivos que buscam penetração ou a melhora do parâmetro de pro- fundidade. Especialmente eficaz contra procedi- mentos táticos coletivos ofensivos que buscam superioridade ofensiva no se- tor em que encontra a bola. em defesas mistas: As mesmas considerações do caso an- terior para aqueles que defendem em zona. Realizam-se os ajustes necessários se o jogador que recebe a defesa individual a supera. Em defesas individuais, este conceito não tem cabimento. Recorre-se às ajudas defensivas em caso de superação do defensor, ou, se for o caso, pode-se chegar à troca de função defensiva que é conhecida como troca na marcação. FIgura 13.2 – Troca na marcação. 13.2 A dobra 13.2.1Definição É um meio tático coletivo defensivo com base na intenção técnico-tática defensiva de con- trole da distância do oponente, que busca evitar a fundaMentos de tátIca coletIva na defesa 171 progressão de um jogador adversário em posse da bola que superou um companheiro em um posto específico ao lado do seu. Também é conhecida como ajuda ou “fechamento”. A dobra implica atuar sobre um adversário em posse da bola que não seja nosso oponente di- reto, o qual se torna perigoso por ter superado seu defensor direto no setor defensivo. 13.2.3 Considerações A superação de um defensor implica uma série de ajustes coletivos, mas, também, facilita as iniciativas e a valorização de riscos nas tomadas de decisão, sabendo que o companheiro vencido será capaz, por sua vez, de acudir em ajuda defensiva. Em definitivo, dobrar supõe que a defesa se adapta em inferioridade numérica, ou seja, ao se eliminar um defensor, há mais atacantes. Para fechar este buraco na defesa e impedir a sua utili- zação imediata, o defensor que cobre deve neutra- lizar completamente o atacante em posse da bola para evitar o lançamento e permitir, assim, que a defesa se reagrupe e se reorganize (principalmente o companheiro vencido). A dobra, tendo em conta a tipologia do sis- tema defensivo, é pertinente: a) em defesas por zona: Superação de um companheiro em um contra um: o companheiro que está ao lado pelo qual foi vencido seu colega realiza a cobertura. Em defesa de duas ou três linhas pe- rante erro na interceptação ou supe- ração pela zona externa (a dobra é um deslizamento). b) em defesas mistas: As mesmas considerações do caso ante- rior para aqueles que defendem em zona. As mesmas situações e cadências, ou seja, superação do homem que foi à FIgura 13.3 – Ação de dobra por parte de um central defensivo. 13.2.2 Objetivos Ajudar a resolver as dificuldades de um companheiro superado por um adver- sário com bola e ocupar o seu lugar. Neutralizar uma situação de superio- ridade numérica ofensiva com perigo iminente. Permitir a reorganização de ações de- fensivas com posterioridade. Manual de handebol172 individual e realização da dobra (mes- mo que não tinha a bola, pois está des- marcado). Em defesas individuais, seguem os princí- pios de colaboração coletiva para se fazer a dobra. 13.3 A troca de oponentes e o desli- zamento 13.3.1 Definição Ambos os meios táticos defensivos coletivos podem resumir de forma simples a ideia básica do jogo defensivo coletivo. Essas interações defensi- vas se dão como resposta a movimentos ofensivos com a finalidade de abortá-los ou diminuir sua efetividade ou consequência. A troca do oponente é uma permuta de fun- ções de marcação como consequência de ações dos atacantes com a finalidade de não romper a estru- tura espacial de uma organização defensiva. Esse meio tático requer que os defensores encontrem- se na mesma linha defensiva para poder realizar a troca de oponentes. Se isso não for possível, a resposta defensiva seria mediante o deslizamento, elemento que podemos conceituar como uma res- posta defensiva às trocas de posicionamento dos atacantes, e cada defensor acompanha o seu ad- versário marcando-o de perto. Em casos em que não é possível a troca do oponente, mas a amplia- ção do posto defensivo específico, o deslizamento se apresenta como a ação técnico-tática defensiva indicada para a sequência da marcação do opo- nente com bola. 13.3.2 Objetivos Manter a estrutura e o bom funciona- mento do sistema defensivo utilizado. Abortar os meios táticos coletivos ofensivos que impliquem trocas ou permutas de postos específicos. Utilizar corretamente o conceito de ajuda defensiva. 13.3.3 Classificação A troca de oponentes pode classificar-se sob vários parâmetros: a) Pela ocupação de espaços livres: Troca do oponente por abandono do posto específico, o qual leva a um au- mento do espaço do posto específico defensivo. Troca do oponente como resposta a cruzamentos ou invasão do posto de- fensivo de outro defensor. b) Em função da distância a qual se realiza a ação ofensiva: Troca de oponente perante ações em proximidade, na qual podemos distin- guir três fases: fundaMentos de tátIca coletIva na defesa 173 1. Interceptação do atacante. 2. Acompanhamento do atacante. 3. Entrega ao companheiro e troca do oponente propriamente dito. Troca do oponente perante ações a dis- tância, também conhecida como troca do oponente visual. Tem objetivo tático, pois, como defensor, só posso ampliar meu posto e meu contato visual com meu atacante. Como regra geral, depen- derá da profundidade de nossos defen- sores e dos movimentos dos atacantes. O defensor há de manter a marcação em uma zona, sem se importar com qual atacante a está ocupando. Se este abandonar esta zona, então o defensor deve deixá-lo, conservar seu posto específico e marcar outro oponente. Nesse caso, estabelece-se um combinado ou uma co- municação com seus companheiros para indicar esta ação, frequentemente por meio da ação ver- bal “troca”, e, inclusive, chegar a fazer contato corporal com o companheiro continuando seu deslocamento anterior. Sem impedimento, o deslizamento é uma resposta defensiva perante trocas de posiciona- mentos dos atacantes, nos quais não seja possível a troca de oponentes. Perante defesa homem a homem, os emparelhamentos são feitos de forma nominal. Por essa razão, quando o atacante se des- loca para outros espaços, o defensor deve segui- lo. Perante defesas zonais, quando os atacantes se cruzam e os defensores não se encontram em mes- ma altura ou profundidade, a resposta defensiva se realiza com o deslocamento em forma de desli- zamento (daí vem sua denominação) para evitar a superioridade da equipe atacante. Terá prioridade o defensor que está adiantado, já que é responsá- vel pelo atacante com bola. Portanto, os requisitos são: a) Câmbio ou troca de oponente Os defensores devem estar em mes- ma linha. Nunca deve ser realizado quando um dos defensores está atuando decisiva- mente contra seu oponente com bola. fIgura 13.4 – Troca do oponente. 13.3.4 Considerações A troca de oponente funciona perfeitamente quando o sistema defensivo é de natureza zonal, se bem que, nas primeiras fases da iniciação, tam- bém deve ser utilizado dentro das organizações de funções individuais na marcação. Manual de handebol174 Quando um dos jogadores atacantes possui a bola, decidirá pela realização do câmbio do oponente o defensor do jogador que não tem a bola. b) Deslizamento No momento de realizá-lo, os defen- sores deverão estar escalonados. O defensor que o realiza deve fazê-lo o mais próximo possível do seu com- panheiro, para poder neutralizar o seu oponente assim que possível. Em consequência, realizaremos o câmbio de oponentes (VVAA):12 perante uma ação de cruzamentos dos atacantes; durante o deslocamento de um atacante que supere os limites da ação de outro. Em qualquer uma das situações anteriores, pode-se atuar ante o oponente com ou sem a bola. Optaremos por deslizamento: quando os defensores não estão à mes- ma altura; quando um dos defensores está atu- ando decisivamente contra o seu opo- nente com a bola; quando existir um acordo prévio. FIgura 13.5 – Câmbio do oponente. fIgura 13.6 – Defesa mediante deslizamento. 13.4 O contrabloqueio 13.4.1 Definição O contrabloqueio é uma situação típica de troca de oponente como resposta defensiva à ação ofensiva do bloqueio, geralmente em situações de marcação zonal e espaços próxi- mos aos nove metros e linha de lançamento eficaz de um atacante. Consiste em uma troca de marcação específica para a situação de blo- queio ofensivo. fundaMentos de tátIca coletIva na defesa 175 13.4.2 Objetivos Abortar a utilização do jogo de blo- queios por parte dos atacantes. Solucionar uma desigualdade defensi- va ou um acerto ofensivo. 13.4.3 Considerações O jogador bloqueado realiza uma manobra que consiste em um deslocamento para frente pri- meiro e para trás depois, para se situar na linha de passe do bloqueador. O defensor oponente do bloqueador vai para o jogador com a bola, benefi- ciário do bloqueio. Se o beneficiário sai pelo lado falso, é o defensor bloqueado que deve responder. fensores se encontram em diferentes planos, não será feito o câmbio de oponente. Outra possibilidade de solução é que o opo- nente do bloqueador o acompanhe até o lugar do bloqueio, ajudando o bloqueado a ganhar a situa- ção, deslocando-se para trás. fIgura 13.7 – Contrabloqueio mediante deslocamen- to para frente do jogador bloqueado. Uma regra geral é que, quando os defensores estão na mesma altura, a situação se resolve por meio de um câmbio do oponente. Mas, se os de- fIgura 13.8 – Contrabloqueio mediante deslocamen- to diante do jogador bloqueado. Manual de handebol176 Referências 1 antón, J. Balonmano: tática grupal ofensiva. Madri: Gymnos, 1998. 2 ______. Balonmano: tática grupal defensiva: concepto, estructura y metodología. Madrid: Grupo Editorial Universitario, 2002. 3 roMán, J. El ataque en superioridad numérica. Conferencia pronunciada no Curso Especial de Actualización para entrenadores de Balon- mano. Bilbao: Real Federación Española de Balonmano e Escuela Nacional de Entrena- dores, 1986. 4 ______. El entrenamiento individual y de grupo como base de los sistemas defensivos. Conferencia pronunciada no Curso Especial de Actualización para entrenadores de Balon-mano. Bilbao: Real Federación Española de Balonmano e Escuela Nacional de Entrena- dores, 1986. 5 ______. El juego entre líneas: entrenamiento del pivote. El juego técnico como base de los desplazamientos. Conferencia pronunciada no Curso Especial de Actualización para en- trenadores de Balonmano. Bilbao: Real Fe- deración Española de Balonmano e Escuela Nacional de Entrenadores, 1986. 6 roMán, J. El juego del pivote. V Jornadas Unisport para entrenadores de balonmano. Málaga: Unisport, 1993. 7 PetKovIc, V. La passe dans la surface de but. Eurohand. France: Euro-Hand, 1990. 8 teIxeIra, F. Cuadernos de balonmano: bloqueos. Vigo: Federación Galega de Balonmán, 1993. 9 ______. Cuadernos de balonmano: el juego entre dos. Vigo: Federación Galega de Balon- mán, 1995 10 R.F.E.B.M. Reglas del juego. Madri: Real Fe- deración Española de Balonmano, 1997. 11 cuesta, J. G. (org.) Balonmano. Madri: Co- mité Olímpico Español y Real Federación Española de Balonmano, 1991. 12 VVAA. Balonmano. Colección de los depor- tes olímpicos. Madrid: Comité Olímpico Es- pañol, 1991. sIsteMas de jogo no ataque 177 Parte V Sistemas de jogo no handebol 14 Sistemas de jogo no ataque Juan J. Fernández, Pablo Juan Greco, Helena Vila, Rondeantony do Nascimento 14.1 Introdução aos sistemas de jogo em ataque 14.1.1 Definição Entende-se por sistema de jogo no ataque o conjunto de medidas (técnico-táticas individu- ais e táticas coletivas) que o treinador seleciona e ordena pra serem colocadas em prática por parte dos jogadores, com a finalidade de impedir a pro- gressão da equipe atacante ou a execução do gol. Quando se fala de um sistema de jogo no ataque, faz-se referência a: determinada situação ou distribuição, mais ou menos equilibrada no espaço, dos jogadores na zona de ataque (idéia estratégica); uma organização das ações táticas que serão colocadas na prática (idéia dinâmica). Com base nisso, podemos redefinir um sis- tema de jogo ofensivo como determinada organi- zação espacial e das ações dos jogadores de uma equipe. Esta organização acontecerá em razão: das características dos jogadores da sua equipe; das características dos jogadores da equipe adversária; do sistema de jogo utilizado pela equi- pe adversária; das situações decisivas no decorrer da partida. 14.1.2 Sistema 3:3: a estrutura básica do ataque 14.1.2.1 Definição e estrutura O ataque em 3:3 (um pivô) é um sistema de ataque básico, no qual os jogadores realizam uma divisão equilibrada na zona de ataque com a finalidade de diminuir os espaços e assegurar uma continuidade do ataque. A partir deste sistema, ocorrem variações estruturais que dão lugar a ou- tros sistemas de ataque ou modificações destes. Em suma, sua estrutura é formada por duas linhas, nas quais se distribuem três jogadores em cada uma delas. As posições específicas de cada linha são as do Quadro 14.1: Manual de handebol180 Quadro 14.1 – Posições específicas de cada linha ofensiva Primeira linha de ataque Segunda linha de ataque Armação central (B) Ponta esquerda (F) Lateral esquerdo (A) Ponta direita (D) Lateral direito (C) Pivô (E) FIgura 14.2 – sistema 3-3 normal ou fechado. 3:3 (um pivô) aberto: nesta variação do sistema 3:3, os dois pontas se posicio- nam mais abertos, próximos à linha de fundo. FIgura 14.1 – Sistema 3-3 clássico. 14.1.2.2 Classificação Como em qualquer outro sistema, existe uma estrutura básica e uma divisão de funções por posição específica. A partir desta posição inicial, pode-se ter uma série de modificações no sistema, o que oportuniza as seguintes va- riações. 3:3 (um pivô) normal ou fechado: ca- racteriza-se pela situação de os dois pontas se posicionarem na mesma li- nha do pivô FIgura 14.3 – sistema 3-3 aberto. 14.1.2.3 Posssibilidades de atuação A posição dos jogadores na quadra deve ser ativa e dinâmica, com constantes movimentos para receber a bola, buscar se desmarcar, preparar para infiltração, ou, para passar a bola, atuando sempre sIsteMas de jogo no ataque 181 em direção ao gol e colaborando constantemente com o restante dos companheiros da sua equipe. 14.1.2.4 Função dos jogadores Em geral, e em razão da quantidade de pos- sibilidades de desenvolvimento que se tem neste sistema, poderíamos dizer que cada jogador deve dominar o maior número de ações a partir da sua posição específica. Primeira linha Ataque direto e perpendicular em di- reção ao gol. Domínio de fintas com e sem bola para os dois lados (ponto forte e ponto fraco). Domínio de lançamento. Domínio do jogo com pivô. Só devemos fazer uma observação particular no caso do jogador central (B), quando se busca: sintetizar as duas zonas de ataque. ser perigoso (ofensivo) em ambas as trajetória. ser capaz de jogar para os dois lados com o pivô. dominar pelo menos o lançamento entre 8 e 9 m. Segunda linha Pivô: Mudança rápida de ritmo. Capacidade de dificultar a movimen- tação defensiva por meio de bloqueios. Atitude constante de colaboração e ajuda com os jogadores da segunda e da primeira linha. Pontas: Realizar todas as recepções em movi- mento e não em posição estática. Domínio de várias movimentações com o seu companheiro (F-A/C-D). Domínio eficaz das trajetórias dentro da sua posição específica. Capacidade de atrair a atenção, mes- mo de dois defensores. 14.1.2.5 Utilização Pode ser utilizada diante de qualquer tipo de defesa. A experiência nos mostra que é mais eficaz diante de defesas em 6:0, tanto em bloco defensi- vo quanto em linha de tiro. Também é válido em situações de superioridade numérica. Devemos nos lembrar, de todas as formas, de que a equipe deve conhecer procedimentos táticos específicos, tanto contra defesas abertas (bloqueio em segunda linha, cruzamentos etc.), quanto contra defesas fechadas (progressões su- cessivas, mudanças no sentido da bola, bloqueios em primeira linha defensiva etc.).1 A utilização deste sistema ofensivo tem van- tagens e desvantagens, entre as quais podemos destacar: Manual de handebol182 Vantagens: É um sistema seguro (a distância entre os passes é curta). Há equilíbrio na ocupação do espaço (largura e profundidade). Desvantagens: Facilita a adaptação do sistema defen- sivo em razão de sua estrutura (sem transformações). 14.2 Sistemas de transformação 14.2.1 Definição e estrutura Podemos entender os sistemas de transforma- ção como sendo as mudanças de um sistema de um jogo a outro, por modificação das linhas de jogo ou das posições específicas. Esta evolução dos sistemas de ataque faz com que a defesa se reorganize buscando: aumento da iniciativa defensiva (maior antecipação); ocupação espacial em várias linhas (maior profundidade); aumento da movimentação defensiva (espaços mais amplos). Contra isso, aparecem as transformações do sistema 3:3 (um pivô). Uma das movimentações básicas dos sistemas de jogo ofensivo é o desdo- bramento. Este é um procedimento tático coleti- vo que consiste no deslocamento de um jogador de uma posição específica, o de pivô, mediante o qual se transforma o sistema de jogo ofensivo. Entre os desdobramentos mais usuais, pode- mos citar o da primeira linha e o do ponta, transfor- mando, por exemplo, o sistema 3:3 (um pivô) a 2:4, no primeiro caso, ou a 3:3 (2 pivôs), no segundo. 14.2.2 Classificação Segundo a zona de procedência do jogador ondese realiza a transformação, podemos distin- guir as seguintes variantes do sistema: Sistema de ataque 3:3 (um pivô) - 3:3 (dois pivôs) Acontece quando, partindo do sistema 3:3 (um pivô), um ponta abandona a sua posição e se converte em segundo pivô, geralmente do lado contrário que correu. Assim, a equipe passaria a atuar com dois pivôs e ficaria sem um ponta, inicialmente. Os armadores la- terais ficam em suas posições, ou seja, apresenta-se um 3:3 com uma ponta livre, sem ocupação por jogador. FIgura 14.4 – Transformação do sistema 3:3 (um pivô) para o sistema 3:3 (dois pivôs). sIsteMas de jogo no ataque 183 Partindo de um sistema 3:3 (um pivô), um dos jogadores da primeira linha abando- na a sua posição para se converter em segundo pivô, e serão realizados os ajustes necessários para que os pontas se mantenham ocupados e a posição deixada por aquele que penetrou como pivô seja preenchida por um dos jogadores da primeira linha. Um bloco de 3 x 3, outro de 2 x 2 e o central. O bloco de 3 x 3 estaria for- mado pelo ponta, o lateral e o pivô, e o de 2 x 2 estaria formado pelo lateral e o segundo pivô. Em ambos os casos, deve estar assegurada a união das diferentes zonas de ataque mediante o central, o que provocará, em muitas situações, que se forme um triângulo na zona do centro en- tre o central e os dois pivôs. Sistema de ataque 3:3 (um pivô) - 2:4 O sistema deve ter agilidade suficiente para se transformar de um 3:3 (um pivô) sem perder opções no ataque, o qual causaria um problema grave de adaptação para a defesa. As possibilida- des de realização seriam: Transformação do central. Transformação de um lateral. O cen- tral pode ou não ocupar o espaço do lateral em função das suas próprias ca- racterísticas (mais ou menos lançador, maior ou menor qualidade técnica- -tática individual). Na atualidade, também se usa, com certa as- siduidade, a transformação de 3:3 (um pivô) - 3:3 (dois pivôs) - 2:4. Neste caso, parte-se do desdo- bramento do ponta e dobra o pivô. Geralmente, o lateral ocupará o seu lugar, e o central abre em amplitude (2:4). FIgura 14.5 – Transformação do sistema 3:3 (um pivô) para o sistema 2:4. 14.2.3 Possibilidades de atuação Sistema de ataque 3:3 (um pivô) - 3:3 (dois pivôs) Existem duas possibilidades de atuação em função da distribuição dos blocos de trabalho dos jogadores: Dois blocos de 3 x 3 formados da se- guinte maneira: de um lado o central, o lateral e o pivô; de outro, o ponta, o lateral e o pivô; Manual de handebol184 14.2.4 Funções dos jogadores Em geral os jogadores devem dominar o momento do passe e a coordenação com os pi- vôs. Além do mais, dependendo da posição, as necessidades provocadas pelas modificações do sistema seriam: O central: Deve coordenar totalmente o sistema. Deve jogar em profundidade com 2 pivôs. O lateral do lado em que se encontra a ponta livre deve ter: Domínio tático do jogo em profun- didade, dificultado por ter um pivô constante na sua zona, já que tem me- nos apoio do seu ponta. capacidade de penetrar com efetivida- de para a ponta. O pivô: O pivô fixo tem a responsabilidade de coordenar corretamente os dois pivôs. O jogador que se desdobra a pivô: Deve ter grande inteligência tática, sobre todo o domínio do ritmo e dos momentos de intervenção. Deve conhecer o jogo do pivô, em geral, e o trabalho entre as linhas em particular. 14.2.5 Utilização Em geral, pode-se utilizar contra todos os sistemas defensivos, mas é especialmente eficaz contra defesas avançadas, porque a adaptação de- fensiva, neste caso, é mais complicada. Em particular, deve-se utilizar, sobretudo, contra defesas abertas, por exemplo, 5:1 em linha de lançamento, 3:3 e, também, contra 3:2:1. 14.3 Ataque contra defesa individual (da iniciação ao alto nível) Klaus Feldmann, Pablo Juan Greco, Fernando Lucas Greco 14.3.1 Definição e estrutura O jogo de handebol caracteriza-se pela oposi- ção e cooperação simultânea dos jogadores em ata- que e defesa, com posse de bola, alternando sistema ofensivo e defensivo utilizado pelas equipes. A marcação individual é considerada como uma das mais relevantes no processo de ensino- -aprendizagem-treinamento de crianças e jovens, sendo muito utilizada na iniciação e, em poucas si- tuações, mas presentes, no alto nível de rendimento. Equipes asiáticas e africanas, por exemplo, utilizaram o sistema de marcação individual por muito tempo em competições de alto nível de rendimento. Isso ocorreu em razão das características apresentadas por seus jogadores em relação aos jogadores europeus. sIsteMas de jogo no ataque 185 O ataque contra a marcação individual deve apresentar alguns princípios para facilitar o transporte da bola até o objetivo final do jogo, ou seja, o gol. Ataque contra marcação individual define- -se como sendo um sistema de ataque livre sem obrigações de ocupação de posições no qual os jogadores movimentam-se pela quadra a fim de proporcionar situações de passe ou infiltração para o portador da bola. Sua estrutura modifica-se em função do posicionamento da bola e do joga- dor que a possui, relacionando-se com o tempo e espaço da quadra de jogo. Os jogadores devem iniciar o ataque con- tra a marcação individual conforme os seguintes princípios, visualizados na figura abaixo no mo- mento de saída da bola: 3. Dois jogadores com mais habilidade, tecnicamente, se colocam um atrás do outro no meio do campo. 4. Conforme a situação e de acordo com o trabalho da defesa, os jogadores 1 e 2 podem realizar o “corte” para o meio, ou cruzar com o colega. 14.3.2 Classificação O ataque contra marcação individual tem como característica a presença de duas funções, sendo: Jogador com bola: é aquele que possui a bola e a preferência para penetrações e lançamentos ao gol. Jogador sem bola: são os apoios e tem a responsabilidade de auxiliar o jogador com bola para sua movimentação e con- seqüente infiltração, lançamento ou passe. 14.3.3 Possibilidades de atuação Os jogadores em ataque podem realizar diversas ações técnico-táticas a fim de facilitar o transporte da bola ao objetivo e, consequente- mente, o gol. Podem ser subdivididas em dois momentos, podendo ser realizadas movimentações sem bola com mudança de direção e/ou sentido ou movi- mentações de apoio e de ajuda. FIgura 14.6 – Estrutura do ataque contra marcação individual.2 1. Dois jogadores ocupam a posição de ponta em espera. 2. Dois jogadores ocupam a posição no meio do campo junto à linha lateral e aguardam. Manual de handebol186 Movimentações sem bola com mudança de direção e/ou sentido Sair da marcação 1. Passe no espaço livre, utilizando as costas do defensor (passe ao espaço futuro). 3. Deve haver, por parte do jogador sem bola, uma troca de direção prévia para poder ganhar a posição de saída do defensor. Vai e volta 1. Passe ao espaço em linha paralela. 2. Deve ter por parte do jogador sem bola uma troca de direção previa para poder ganhar a posição de sa- ída do defensor. FIgura 14.7 – Saída da marcação a partir de uma mu- dança de direção.2 Na primeira figura, observa-se a ação de sair para entrar; na segunda, observa-se a ação de entrar para sair. FIgura 14.8 – Mudança de direção e sentido (vai e volta).2 “Saio para entrar” 1. Passe no espaço livre. Para sair da “sombra” do defensor, deve-se des- marcar na mesma linha. 2. Passe ao espaço em linha paralela.3. Deve haver, por parte do jogador sem bola, uma troca de direção prévia para poder ganhar a posição de saída do defensor. FIgura 14.9 – Mudança de direção e sentido (“saio para entrar”).2 sIsteMas de jogo no ataque 187 Sair para receber 1. Pivô: passe no espaço livre, para sair da marcação do defensor e se ofere- cer, deslocando-se lateralmente. 2. Passe ao espaço em linha de pro- fundidade. 3. Deve haver, por parte do jogador sem bola, uma troca de direção previa para poder ganhar a posição de saída do defensor. FIgura 14.11 – Mudança de direção e sentido (entro para sair).2 Movimentações sem bola de apoio e de ajuda Entrar entre dois defensores 1. O atacante em posse de bola entra no meio de dois defensores para chamar a marcação de ambos. 2. O colega deve se abrir em linha diagonal para a lateral para rece- ber, após troca de direção e de ve- locidade sem bola. FIgura 14.10 – Mudança de direção e sentido (sair para receber).2 Entro para sair 1. O jogador realiza uma troca de direção saindo primeiro para logo voltar rápido para receber. 2. Passe ao espaço em linha de pro- fundidade. 3. Deve ter por parte do jogador sem bola uma troca de direção previa para poder ganhar a posição de sa- ída do defensor. FIgura 14.12 – Movimentações sem bola de apoio e de ajuda (passar entre dois).2 Cruzamento e ataque em paralelo 1. O atacante em posse de bola fixa seu defensor direto. O conceito de ajuda é realizado pelos dois colegas; um deles (1) cruza por trás do joga- dor com bola, sempre priorizando sobre o braço de lançamento. 2. O colega (2) deve se abrir em linha diagonal para a lateral para receber, após troca de direção e de ritmo. FIgura 14.14 – Movimentações do jogador sem bola de apoio e de ajuda (cruzamento).2 Ajuda (novo início da ação) 1. O atacante que vai receber a bola deve ter sempre as opções de pas- se. Quando ele, eventualmente, fixar seu defensor, a ajuda é reali- zada pelos dois colegas. 2. O jogador próximo se prepara para o cruzamento por trás do jo- gador com bola. 3. O jogador mais distante corre para atrair a marcação e abrir es- paços. FIgura 14.13 – Movimentações sem bola de apoio e de ajuda (cruzamento e ataque em paralelo).2 Cruzamento 1. O atacante em posse de bola fixa seu defensor direto. O conceito de ajuda é realizado pelos dois colegas cruzando por trás do jo- gador com bola. 2. O colega deve se abrir em linha diagonal para a lateral para receber. Recebe quem chega primeiro do lado fácil para passar. sIsteMas de jogo no ataque 189 FIgura 14.15 – Movimentações sem bola de apoio e de ajuda (cruzamento).2 14.3.4 Funções dos jogadores Em geral, os jogadores devem dominar o momento do passe e a coordenação espaço-tem- poral para decidir entre progressão com a bola ou sem ela e o uso do dribling. No ataque contra a marcação individual, definem-se princípios de ação dos jogadores para que se alcance o gol de forma mais eficiente, tais como: O jogador em posse de bola sempre tem a preferência de utilizar o espaço central da largura da quadra quando progride usando o dribling. Os jogadores sem bola devem abrir os espaços centrais e servir de apoio/aju- da para o jogador com bola. FIgura 14.16 – Movimentação dos jogadores sem bola para criar o espaço na área central da quadra.2 Nenhum jogador deve ficar parado, ou seja, aceitar passivamente a mar- cação do adversário. Pelo contrário, devem realizar trocas e mudanças de direção e/ou sentido em suas trajetó- rias de corrida, bem como mudanças na velocidade de deslocamento. Levar o jogo para um canto da quadra, atraindo a atenção da defesa e crian- do espaços livres na outra metade do campo. Usar a profundidade. Trabalhar de poste (pivotar). Passar ao espaço futuro. “Passe e vai”. 15 Sistemas de jogo na defesa Impedir a construção de ações ofen- sivas. Anular ou evitar ações de finalização. Impedir a finalização com êxito. 15.1.2 Classificação Para diferenciar e classificar os sistemas de- fensivos, devemos ter claros os seguintes concei- tos: amplitude, profundidade e densidade. A amplitude define-se como a distribuição espacial dos jogadores da equipe defensora com a finalidade de evitar lançamentos de 6 m. Em função disso, podemos classificar os sistemas em: Defesa em bloco defensivo: seu objetivo é conseguir superioridade numérica defensiva no lugar da bola; para isso, os jogadores se deslocam seguindo o movimento da bola (basculação de- fensiva). Defesa em linha de tiro: quando os jogadores são responsáveis por deter- minada zona e pelo jogador que ali se encontra, sem realizar deslocamentos laterais importantes e definidos. Juan J. Fernández, Helena Vila, Luis Casáis, José M. Cancela 15.1 Introdução aos sistemas de jogo na defesa 15.1.1 Definição e características Sabemos que a defesa é uma fase do jogo de handebol, que se caracteriza pela ausência da pos- se de bola, e a equipe adversária com a posse de bola tem a possibilidade de conseguir o objetivo principal do handebol: o gol. Para evitar isso, a defesa possui alguns princípios gerais de atuação universalmente re- conhecidos:3 Recuperação da bola. Impedir a progressão dos jogadores adversários em profundidade e o lan- çamento ao gol. Proteger o gol (evitá-lo). Os sistemas de jogo defensivos caracterizam configurações espaço-temporais que uma equipe adota para impedir a progressão da equipe atacan- te e, consequentemente, o gol.4 Os sistemas defensivos acontecem para con- trapor o ataque, buscando:3 Manual de handebol192 A profundidade define-se como a distribui- ção espacial dos jogadores defensivos com o pro- pósito de evitar lançamentos de longa distância, pois a sua condição será afastada em relação à li- nha dos 6 m. Em função da profundidade, pode- mos classificar os sistemas em: Sistemas abertos, nos quais os defen- sores estão situados longe da própria linha dos 6 m, estruturando-se em vá- rias linhas de jogo. Sistemas fechados, nos quais se pro- duz uma aglomeração de jogadores perto da linha dos 6 m, evitando, assim, a penetração dos jogadores adversários. A densidade pode ser definida como a ca- pacidade para acumular jogadores em uma zona de espaço com a finalidade de recuperar a bola ou evitar a progressão do ataque. Atendendo aos três critérios anteriores, po- demos diferenciar os seguintes tipos de sistemas de defesa: Sistema 3:2:1 É uma defesa em três linhas estruturada, fundamentalmente em função da bola. É uma defesa mais profunda e densa, mas pouco ampla. Em virtude do posicionamento de defensores avançados, favorece o desenvolvimento do con- tra-ataque. FIgura 15.1 – Sistema 3:2:1. Sistema 3:3 Organiza-se um adiantamento dos defensores laterais, estabelecendo-se duas linhas defensivas. A pressão sobre a primeira linha do ataque adversário é máxima, acarretando uma situação de desvanta- gem posicional em torno da linha dos 6 m, já que o espaço para defender é maior. Podemos considerar essa defesa mais profunda, pouco ampla e densa. D B C A F 2 5 7 6 4 3 E D B C A F 2 5 7 6 4 3 E FIgura 15.2 – Sistema 3:3. Sistema 4:2 São estabelecidas duas linhas defensivas, a primeira com quatro jogadores perto da linha dos sIsteMas de jogo na defesa 193 6 m e a segunda com dois defensores perto da linha dos 8-9 m.Como defesa por zona, sua uti- lização é mais reduzida e limitada. Podemos con- siderá-la profunda, densa e de média amplitude. Sistema 6:0 É o sistema defensivo considerado por mui- tos como o principal ou padrão. Consiste só de uma linha defensiva, muito próxima da linha dos 6 m. É um sistema muito fechado. Tem como ob- jetivo evitar, fundamentalmente, a penetração do adversário com a bola, permitindo o lançamento de longa distância. Os deslocamentos utilizados são, principalmente, os laterais, saindo a marcar o adversário direto. Podemos considerá-la profun- da, densa e ampla.D B C A F 2 5 7 6 3 E4 FIgura 15.3 – Sistema 4:2. Sistema 5:1 São estabelecidas duas linhas defensivas, sendo a segunda formada por apenas um jogador, denomi- nado avançado, que tem como principal função difi- cultar a circulação da bola na primeira linha ofensiva, assim como a responsabilidade de marcar o central. Podemos considerá-la profunda, densa e ampla. D B C A F 2 5 7 6 3 E4 FIgura 15.4 – Sistema 5:1. D BC A F 2 5 7 63 E4 FIgura 15.5 – Sistema 6:0. 15.2 Evolução dos sistemas defensivos Klaus Feldmann, Pablo Juan Greco, Fernando Lucas Greco Para uma melhor realização de um sistema defensivo no alto nível de rendimento no hande- bol, é importante seguir uma lógica de ensino- -aprendizagem-treinamento visando favorecer o aprendizado completo dos componentes técnico- Manual de handebol194 -táticos individuais, de grupo e coletivos. O ensino dá-se na sequência de defesas abertas para defesas fechadas. Sendo assim, Feldmann5 propõe o ensi- no dos sistemas defensivos de acordo com as faixas etárias dos alunos/atletas, os quais, em princípio, decorrem de forma paralela à sua experiência. Nas ações defensivas, é importante que os iniciantes (principalmente as crianças entre 6-10/12 anos) compreendam o denominado “sentido da defesa” (posicionamento defensivo, tomada da marcação, organização defensiva, jogo no sistema defensivo), bem como dominem os fundamentos técnico-táticos que permitem recuperar a posse da bola (antecipação/intercep- tação/dissuasão/pressão; recuperação da bola, seja no drible ou no momento do lançamento do adversário, bloqueio de lançamentos). Os ele- mentos necessários à compreensão individual do jogo defensivo na iniciação técnico-tática podem ser didaticamente divididos em atividades para compreender. Sentido da defesa: posicionamento defensivo, tomada da marcação, organização defensiva, jogar aprendendo as regras táticas de troca de marcação (passo por trás do colega “acompanhado”, passo pela frente do colega “troco a marcação”), que serão solicitadas nas marcações zonais em idades posteriores. Recuperar a posse de bola: ações de antecipa- ção, interceptação, dissuasão, pressão, recuperar a bola no momento do dribling ou do lançamento do adversário, bloqueio de lançamentos. Marcação individual Marcação Zonal 12-14 14-16 16-18 Mini individual 08-10 menores 1-5 júnior e adulto cadete 3-3 juvenil 3-2-1 Marcação Zonal Mini individual Mini individual 12-14 FIgura 15.6 – Evolução do ensino dos sistemas defensivos no handebol.5 sIsteMas de jogo na defesa 195 FIgura 15.7 – Componentes do ensino dos meios técnico-táticos individuais . Sentido da defesa • Posicionamento defensivo • Deslocamentos defensivos • Posições de base • Uso do corpo • Organização defensiva • Jogo no Sistema defensivo Recuperar a posse da bola • Antecipação • Interceptação • Dissuasão • Pressão • Flutuação • Recuperar/lutar a posse de bola o drible, no lançamento • Bloqueios de lançamentos Tática individual Ações defensivas 15.3 Sistemas zonais, mistos e indi- viduais 15.3.1 Defesa individual 15.3.1.1 Definição e características Atualmente, no handebol de alto nível de rendimento, as equipes tendem a praticar as defesas zonais, adotando as defesas individuais em poucas ocasiões. Em momentos muito concretos ou sobre um jogador de grande qualidade, seja de lança- mento ou de armação de jogo o uso de sistemas de- fensivos mistos também é praticado no handebol. No processo de EAT, ao experimentar a de- fesa individual, em geral, observa-se uma série de carências técnico-táticas individuais que permi- tem justificar a utilização de defesas zonais que, por terem um caráter estrutural mais defensivo, permitem mais ajuda e, desse modo, diminuem-se os erros e as responsabilidades individuais, mas também se criam novas. Em sua dissertação no congresso internacio- nal para técnicos de handebol em agosto de 1970, em Estocolmo, Werner Vick, técnico da seleção alemã na época, relatou que não se deve deixar de realçar a importância que possui o trabalho de marcação individual na formação técnica do jo- gador, sua formação em relação ao jogo limpo e ao correto trabalho defensivo, fundamentalmente em relação a aspectos didáticos como: Defender sempre sobre o braço de lançamento. A concentração sobre a bola. A correta apreciação e evolução da capa- cidade de deslocamento (timing) do rival. É um sistema no qual cada defensor se encarrega de um atacante e não de uma zona Manual de handebol196 concreta, como ocorre nos demais sistemas tra- tados.1 A sua finalidade pode-se resumir nos se- guintes pontos: Dificultar a criação e o ritmo do ataque. Levar o ataque para zonas não pe- rigosas. Recuperar a posse da bola mediante o roubo da bola ou a finalização rápida do ataque em zonas desvantajosas. Por isso, é imprescindível o trabalho de marcação individual nas divisões inferiores, nos mini e nos infantis. Atualmente, todo jogador de handebol sabe que as formações defensivas zonais são a base do sistema defensivo. Mas de que serve “um perfeito sistema defensivo se a técnica individual não é realizada com perfei- ção”? Com essa definição, estão praticamente claros e com absoluta precisão o valor, o sentido e a tática da marcação individual. Restaria dei- xar claro, com caráter didático-metodológico, os seguintes aspectos: Formas de marcação individual. Princípios da marcação individual. Aspectos táticos a levar em conta. Capacidades táticas básicas do defensor. Formas de marcação individual. Pode realizar marcação individual em: Todo o campo. A partir da metade da quadra. Na própria linha de nove metros (por exemplo, em situações padrões como nos tiros laterais e tiros livre ao realizar o chamado pressing ou, por exemplo, ao aplicar um sistema 1-5 que é, por suas características, um sistema de marcação individual em zona). 15.3.1.2 Classificação Podemos apresentar diferentes tipos de defesa individual em função do espaço no qual se utiliza: Defesa individual na quadra inteira Os defensores têm de encontrar o seu oponente rapidamente e realizar uma marca- ção muito estrita por todo o terreno, indepen- dentemente da zona que ocupa o adversário e mantendo, além disso, certa atenção sobre a bola. O objetivo estrito é abalar a colaboração do ataque e provocar erros, seja por andadas, três se- gundos, passes ruins etc., ou seja, que o adversá- rio cometa um erro técnico-tático no controle da bola, logo, um erro regulamentado. sIsteMas de jogo na defesa 197 FIgura 15.8 – Defesa individual quadra inteira. Defesa individual na metade da quadra A diferença com a anterior é escassa, deven- do fazer-se o emparelhamento partindo de uma defesa zonal ou sobre meia quadra. A marcação deve ser mais estrita, pelo maiorgrau de proximidade com o gol, diminuindo-a quando o atacante retrocede ao seu próprio cam- po defensivo. Os objetivos são os mesmos que na defesa individual quadra inteira. FIgura 15.9 – Defesa individual na metade da quadra. Manual de handebol198 Defesa individual por aglomeração A defesa parte da zona e não se arrisca além dos 10-11 m para, deste modo, não se separar uns dos outros e poder garantir ajuda, assim como evitar as penetrações. Uma vez estabelecido o emparelhamento, as marcações são mais estritas sobre o jogador com a bola e igualmente sobre os jogadores perigosos (geralmente aqueles mais habilidosos ou com melhor eficiência de lançamento), e a marcação é em linha de passe e vigi- lância quando a bola está mais afastada. Geralmente se utiliza quando a bola se encontra nos pontas e a e equipe contrária está em inferioridade numérica. Nominal: cada jogador deve saber qual adversário defenderá de forma concre- ta e direta. Zonal: a responsabilidade estabelece- -se em função do posto que o jogador ocupa no ataque, organizando-se um sistema de contagem que se inicia si- multaneamente pelos pontas e que se finaliza no centro. 15.3.1.3 Funcionamento do sistema O funcionamento deste sistema carac- teriza-se por marcar os seus defensores cor- respondentes a todos ou vários jogadores da equipe adversária de forma individual. O tipo de marcação realizada pelos defensores estará relacionado com o sistema de defesa individual utilizado. 15.3.1.4 Função dos jogadores As funções que têm de desempenhar os jo- gadores da defesa estarão relacionadas com a va- riante do sistema defensivo individual eleito; em geral, as prioridades de atuação defensiva são: Oponente direto (evitar ser superado por ele). Bola (evitar o passe, a recepção e bus- car a interceptação ou tomada da pos- se da bola. 5 2 3 7 6 4 F A B C D E FIgura 15.10 – Defesa individual por aglomeração ou defesa individual fechada. O objetivo fundamental encontra-se em anular os homens mais perigosos, ilhar as coordenações de ataque, garantir as ajudas e impedir as penetrações. A forma de marcação que será utilizada e seu desenvolvimento se baseiam em duas formas de emparelhamento, previamente definidas e que serão aplicadas: sIsteMas de jogo na defesa 199 Deslocamentos dos outros atacantes (dissuadir o jogador com bola, evitar bloqueios etc.). Eventuais apoios que possas surgir (dobra e ajuda). 15.3.1.5 Aspectos táticos É comum a aplicação da marcação individual quando, nos últimos minutos, uma equipe procura, por meio de retenção de jogo, manter a vantagem no marcador. A equipe na defesa está pressionada pelo tempo e procura, por meio dessa medida, ob- ter a bola. O risco é evidente, a abertura da defesa oferece grandes buracos ao rival, que pode condu- zir ao gol. A vantagem surge na surpresa que pode ocasionar esta medida tática, provocando erros téc- nicos do ataque que aumentam a ansiedade pela posse da bola. Os aspectos que o técnico deverá ter em conta para ordenar a marcação individual são: Qualidade individual da equipe para essa ação. O momento: isto depende da relação en- tre o resultado e o tempo de jogo restante. As reservas físicas da equipe. O tipo de marcação individual que deverá fazer: por exemplo, faltam pou- cos minutos, com os seis jogadores, e se está em desvantagem por um gol ou dois. Com cinco jogadores e um líbero, fica-se em superioridade numérica dei- xando livre o rival menos habilidoso. A característica dos jogadores que es- tão no campo e quais são necessárias para a marcação dos adversários. A reação que se espera do rival, refletir se este tem jogadores habilidosos, se tem experiência contra esse tipo de marcação, como se comportaria o goleiro rival etc. A reação dos juízes: apitam mais seve- ramente? Param o jogo? Com base nesses e muitos outros conceitos, deverá decidir-se desde o banco até a ordem de marcação individual em alguma de suas variantes. Capacidades táticas do defensor Para a aplicação da marcação individual, o defensor deve possuir, entre outras, as seguintes capacidades táticas de base: Capacidade de percepção de jogo. Capacidade de antecipação à ação do rival e a situação do jogo. Visão periférica da situação de jogo. Capacidade de decisão: tomar deci- sões em velocidade. 15.3.1.6 Princípios para a utilização da mar- cação individual Apesar de existirem critérios táticos diferen- tes, de acordo com a forma de marcação individual, existem princípios gerais que devem ser respei- Manual de handebol200 tados para a conquista do êxito. Esses princípios devem ser transmitidos ao jogador em forma sis- temática, pois fazem a didática e a metodologia da educação. Devem ser exercitados sistemática e metodologicamente por meio de trabalhos espe- ciais em treinamento. Eles são: posição frente ao atacante: entre ele e o gol e orientado sobre seu braço de lançamento. atitude frente ao rival: em possessão da bola, pressionando-o; sem posses- são da bola, em pré-ação. adaptar-se à corrida do rival e às suas mudanças de direção. forçar a corrida do rival para posições desfavoráveis. combater a possessão da bola, por meio do trabalho de braços e pernas, antecipar, interceptar ou pressionar na recepção do rival. 15.3.2 Síntese da estrutura do sistema 1:5 Klaus Feldmann, Pablo Juan Greco, Fernando Lucas Greco 15.3.2.1 Definição e características Pode ser considerado um sistema defensi- vo ideal para se fazer a transição entre as defesas ofensivas, individuais e os sistemas zonais. É um sistema defensivo misto, pois existe um jogador que marca individual ao pivô, seus colegas maram em zona avançadas nos 9 metros. 15.3.2.2 Funcionamento do sistema É um sistema ideal para a iniciação. A passagem da marcação individual para a zonal é facilitada. Sistema em que se combate o atacante. É uma defesa ativa. O iniciante descobre regras de com- portamento tático ao longo do jogo. 15.3.2.3 Função dos jogadores Todos os jogadores são responsáveis por um adversário, sempre em um setor. FIgura 15.11 – Responsabilidades de cada jogador na defesa 1:5. Defender de forma ativa, atacar o ata- cante! Evitar o jogo de passes rápido. sIsteMas de jogo na defesa 201 FIgura 15.12 – Defesa ativa dos jogadores no sistema 1:5. Dificultar as linhas de passe, provocar os passes longos. FIgura 15.14 – Ações de deslizamento no sistema 1:5. Quando alguém da defesa errar, ou quando for superado pelo atacante, todos marcam em função da bola (re- alizar a dobra ou ajuda). FIgura 15.13 – Ações de dissuasão no sistema 1:5. Acompanhar o atacante no setor de seis metros, lembrando-se sempre da regra de troca e deslizamento, ou seja, quando o atacante passa por trás do colega na defesa, deve-se acompanhá-lo. Caso contrário, quando o atacante passar pela frente do colega em defesa, realiza-se a troca. FIgura 15.15 – Movimentação de ajuda e cobertura quando um defensor é superado no sistema 1:5. 15.3.2.4 Utilização É recomendada para equipes infantis e iniciantes; Utiliza-se como forma de transição para os sistemas zonais. Manual de handebol202 15.3.3 Síntese da estrutura do sistema 3:3 Juan J. Fernández, Helena Vila 15.3.3.1 Definição e características O sistema 3:3 clássico foi jogado pela pri- meira vez pelas equipes da Romênia e da Iugos- lávia. Um dos objetivosera evitar os lançamentos de fora dos 9 metros. É um sistema defensivo de duas linhas, muito flexível, apresentando boa profundidade e “densi- dade” no setor da bola, mas não tem muita largura. Apresenta boas alternativas para a saída em contra-ataque, pois tem duas linhas defensivas. Foi reintroduzido principalmente pelas equipes femininas asiáticas perante equipes euro- peias. As equipes masculinas africanas, principal- mente (Egito e Argélia), têm aplicado variações interessantes para evitar o armado de jogo e a ve- locidade de bola das equipes europeias. 15.3.3.2 Função dos jogadores As funções dos jogadores se consideram a partir da posição da bola e do jogador com bola. Sempre deve haver dois joga- dores perto para oferecer a cobertura. Solicita dos defensores muita discipli- na tática, deslocamentos, trabalho de braços bem como coesão tática. 15.3.3.3 Utilização É um sistema defensivo muito utilizado por equipes de baixa estatura e grande mobilidade pe- rante adversários com bons lançadores. 15.3.4 Síntese da estrutura do sistema 4:2 No sistema 4:2, estabelecem-se duas linhas defensivas, assim como no sistema 3:3. A primei- ra com quatro jogadores perto da linha dos 6 m e a segunda com dois defensores perto da linha dos 8-9 m. Os princípios de utilização, objetivos e função dos jogadores assemelham-se aos presentes no sistema 3:3. A grande diferença desta variante defensiva encontra-se em sua escolha dentro de um jogo. A sua utilização é recomendada contra equipes que tenham dois bons lançadores de nove metros, geralmente os armadores laterais, e um armador passador, ou quando a equipe desdobra- -se de uma formação ofensiva 3:3 para 2:4, princi- palmente quando se marca no sistema 3:3. FIgura 15.16 – Estrutura do sistema defensivo 3:3. sIsteMas de jogo na defesa 203 Sua utilização é mais reduzida e limitada que a do sistema 3:3. Podemos considerá-la profunda, densa e de média amplitude. sempre adaptada às possibilidades técnico-táticas da própria equipe ou equipe adversária. É um sistema que está constituído por três linhas, das quais a primeira se encontra formada por três jogadores, a segunda linha compõe-se de dois jogadores entre as linhas e a terceira é cons- tituída por um só jogador que se situa diante da linha de lançamento franco. Basicamente é uma defesa muito profunda e densa, mas pouco ampla. 2 3 7 5 6 F A B C D E4 FIgura 15.17 – Sistema 4:2. 15.3.5 Síntese da estrutura do sistema 3:2:1 Pablo Juan Greco, Siomara A. Silva, Fernando Lucas Greco 15.3.5.1 Definição e características Desde a chegada desta defesa em zona gra- dual, surgida nos anos 1970, jogada pela equipe nacional iugoslava de Vlado Stenzel com grande êxito, muito se escreveu e, sem dúvida, se escreve- rá por múltiplos autores de todos os países sobre este tema. Este sistema defensivo apresenta eficácia contra adversários com jogadores de bom lança- mento de 9 m e é empregada conforme múltiplos arranjos táticos (mais passiva ou mais agressiva) e 2 3 7 5 6 F A B C D E 4 FIgura 15.18 – Estrutura do sistema 3:2:1. O sistema defensivo 3:2:1 é um sistema zo- nal que se estrutura em função da bola, distin- guindo-se três linhas de ações básicas: 1ª linha Constitui-se por três jogadores na zona de 6 m, cuja missão principal é neutralizar a segunda li- nha de ataque (pontas e pivô). 2ª linha Constituída pelos dois jogadores situados sobre 8-9 m, a atividade deles consiste em impe- Manual de handebol204 dir os lançamentos desde a linha dos 8-10 m dos laterais atacantes, criar obstáculos com os deslo- camentos dos atacantes da primeira e da segunda linha ofensiva e evitar passes sobre os jogadores situados na segunda linha ofensiva (pivôs). 3ª linha Trata-se do avanço na defesa. A sua tarefa principal é impedir passes, lançamentos, desloca- mentos e penetrações do jogador central e, assim mesmo, colaborar para fechar as linhas de passe dos jogadores em 6 m. O objetivo principal desta defesa é im- pedir o adversário de organizar e conduzir um ataque coletivo, deslocando-se o conjunto sem- pre em relação com a posição na qual está a bola e em virtude do seu possuidor. Baseia-se em uma grande atividade e exige uma perfei- ta coesão dos jogadores, implicando domínio exemplar dos fundamentos técnico-táticos in- dividuais defensivos. 15.3.5.2 Funcionamento do sistema Esta defesa implica grande atividade e exige uma perfeita coesão dos jogadores com o fim de adotar uma posição adequada em relação com a posição e situação da bola. Esta estrutura defensiva origina-se da im- portância de, no handebol atual, se possuir capa- cidade de lançamento da primeira linha de ata- que; portanto, dá-se menor importância a todos aqueles espaços que se produzam em uma zona mais afastada do lugar onde se está desenvolven- do o jogo com a bola. Normalmente, estes espa- ços serão criados nas zonas mais externas da área (pontas). 15.3.5.3 Função dos jogadores As funções de cada jogador estão definidas, pelo que se reduzem as tomadas de decisão e, por- tanto, o desgaste psíquico. De todas as formas, tem de se indicar que, na atualidade, algumas variantes do sistema e, sobretudo, alguns pontos concretos, requerem mais capacidade de decisão que antes. Pelo contrário, ao existir muita ajuda, o des- gaste físico é bastante elevado. Esta é uma das razões pelas quais não se recomenda manter essa defesa ao longo da partida. Atualmente, essa afirmação é mais discutível em razão, fundamentalmente, da maior qualidade físico-tática dos defensores e da possibi- lidade de utilizar trocas contínuas de ataque-defesa. Em relação às três linhas de ataque do sistema, podemos dizer que as funções dos jogadores são: 2 3 7 5 6 F AC D E 4 B FIgura 15.19 – Linhas defensivas no sistema 3:2:1. sIsteMas de jogo na defesa 205 1ª linha Os jogadores que se encontram sobre a linha de 6 m (2, 3, 4), executam tarefas similares e deslo- cam-se de forma análoga. Trata-se, na maior parte do tempo, de deslocamentos laterais que impeçam, na medida do possível, o trabalho de ataque do pivô e dos pontas e seus possíveis lançamentos ao gol. 2ª linha Encontram-se próximos à linha de 8-9 m e também há tarefas análogas entre eles. Realizam deslocamentos em profundidade (9-10 m) neu- tralizando as ações dos lançadores a distância, assim como intervenções eventuais sobre o pivô, recuando até a linha de 6-7 m. 3ª linha O jogador avançado opõe-se aos lançamen- tos a distância e tenta impedir os passes para o pivô. Os deslocamentos vão desde uma profun- didade máxima de 11 m até uma mínima de 8 m, quando a bola está situada em um dos pontas. 15.3.5.4 Vantagens da defesa 3:2:1 clássica O sistema 3:2:1 é recomendado contra equi- pes que não mudam a formação de ataque é o sistema que mais se adapta a de jogadores mudan- ças, mantendo um equilíbrio entre a largura e a profundidade defensiva. O possuidor da bola, em exceção dos pontas, é tomado sempre entre os defensores, no raio de ação destes. A distribuição de tarefas é clara e os desloca- mentos são curtos e muito esquemáticos. Os movimentos básicos dentro do sistema são de fácil automatização e não requerem gran- des esforços a nível cognoscitivo dos jogadores. É um sistema extremamente ofensivo e com- bativo que, por isso, possui a vantagem de saída veloz ao contragolpe. 15.3.5.5 Desvantagens da defesa 3:2:1 clássica Requer uma excelente condição física dos