Prévia do material em texto
Projeto Gráfico:
Autor
Montagem e Impressão:
Editora Universitária
Revisão ortográfica:
Ângela Santos
Imagem da cobertura:
5-Minute Gridded Global Relief Data Collection (ETOPO5).
Globo terrestre mostrando o relevo continental e a batimetria do assoalho oceânico. As feições
fisiográficas mais marcantes são: o sistema de cadeias de montanhas Himalaia-Tibete (centro); o
rifte proto-oceânico entre a África e a Arábia (Golfo de Aden e Mar Vermelho; esquerda); os
traços de hotspots Reunião e Ninetyeast, no oceano Índico (abaixo); e os arcos de ilhas e fossas
oceânicas relacionados com subducção das placas do Pacífico e das Filipinas (direita). Este
material não é sujeito à proteção de direitos autorais e pode ser acessado através do site
www.ngdc.noaa.gov
ii
Dedicado à
Jandira e Olga
iii
Sumário
Prefácio .........................................................................................................................................ix
1. Petrologia e Geoquímica: Revisão de Alguns Conceitos
1.1. Introdução ...........................................................................................................................................1
1.2. Elementos maiores e traço ..................................................................................................................1
1.3. Fusão parcial, compatibilidade e incompatibilidade ..........................................................................1
1.4. Empobrecimento e enriquecimento; fertilidade e infertilidade ..........................................................2
1.5. Minerais e rochas ................................................................................................................................3
1.6. Classificação de rochas ígneas e séries magmáticas ..........................................................................3
1.7. Rochas e fácies metamórficas ............................................................................................................4
Referências selecionadas ...........................................................................................................................5
2. Geocronologia
2.1. Introdução ...........................................................................................................................................7
2.2. Conceitos básicos ...............................................................................................................................7
2.3. Método Rb-Sr .....................................................................................................................................8
2.4. Método Sm-Nd ...................................................................................................................................9
2.5. Método U-Pb .................................................................................................................................... 11
2.5.1. Generalidades ............................................................................................................................ 11
2.5.2. Curva concórdia ........................................................................................................................ 11
2.5.3. Métodos ..................................................................................................................................... 12
2.5.4. Aplicações ................................................................................................................................. 13
2.6. Termocronologia .............................................................................................................................. 14
2.6.1. Método 40Ar – 39Ar .................................................................................................................... 14
2.6.2. Datação por traços de fissão ...................................................................................................... 15
2.6.3. Aplicações ................................................................................................................................. 15
2.7. A escala do tempo geológico ............................................................................................................ 15
Referências Selecionadas ........................................................................................................................ 16
3. Estrutura e Composição do Interior da Terra
3.1. Introdução ......................................................................................................................................... 17
3.2. Ondas sísmicas ................................................................................................................................. 17
3.3 Características sísmicas das camadas da Terra ................................................................................. 18
3.4. Composição da crosta ....................................................................................................................... 20
3.4.1. Crosta continental ...................................................................................................................... 20
iv
3.4.2. Crosta oceânica .......................................................................................................................... 21
3.5. Tipos e províncias crustais ............................................................................................................... 21
3.5.1. Tipos crustais ............................................................................................................................. 21
3.5.2. Províncias crustais ..................................................................................................................... 23
3.6. Composição do manto ...................................................................................................................... 24
3.6.1. Manto superior .......................................................................................................................... 25
3.6.2. Zona de baixa velocidade .......................................................................................................... 25
3.6.3. Zona de transição e manto inferior ............................................................................................ 26
3.6.4. Camada D’’ ............................................................................................................................... 27
3.7. Composição do núcleo ..................................................................................................................... 27
Referências selecionadas ......................................................................................................................... 28
4. Convecção Mantélica e Tectônica de Placas
4.1. Introdução ......................................................................................................................................... 31
4.2. Características térmicas e mecânicas da litosfera ............................................................................. 31
4.3. Tectônica de Placas .......................................................................................................................... 32
4.4. Evidências indicando atuação da tectônica de placas ....................................................................... 34
4.4.1. Distribuição de hipocentros de terremotos ................................................................................ 35
4.4.2. Terremotos e mecanismos focais............................................................................................... 36
4.4.3. Tomografia sísmica ...................................................................................................................37
4.4.4. Reversões do campo magnético e faixas de anomalias magnéticas no assoalho oceânico ....... 40
4.4.5. Idades do assoalho oceânico ...................................................................................................... 44
4.4.6. Paleomagnetismo ....................................................................................................................... 44
4.4.7. Sedimentos oceânicos, fluxo térmico e batimetria do assoalho oceânico ................................. 45
4.4.8. Movimento de placas no presente ............................................................................................. 46
4.5. Descrevendo o movimento das placas tectônicas ............................................................................. 46
4.6. Forças responsáveis pela tectônica de placas ................................................................................... 48
4.7. Simulações numéricas ...................................................................................................................... 49
Referências selecionadas ......................................................................................................................... 50
5. Convecção Mantélica, Plumas e Hotspots
5.1. Introdução ......................................................................................................................................... 53
5.2. Evidências indicando a existência de plumas ................................................................................... 54
5.2.1. Tomografia sísmica ................................................................................................................... 54
5.2.2. Anisotropia sísmica ................................................................................................................... 55
5.2.3. Superdomos e anomalias do geóide .......................................................................................... 55
5.2.4. Argumentos petrológicos .......................................................................................................... 56
5.2.5. Argumentos geoquímicos .......................................................................................................... 58
5.2.6. Argumentos isotópicos .............................................................................................................. 58
v
5.3. Hotspots sem relação com plumas ................................................................................................... 59
5.4. Traços de hotspots e velocidades absolutas de placas ...................................................................... 60
5.5. Plumas e tectônica de placas ............................................................................................................ 60
5.6. Uma visão global da dinâmica e evolução do manto ....................................................................... 62
Referências selecionadas ......................................................................................................................... 63
6. Ambientes Tectônicos: Estrutura e Associações Petrotectônicas
Características
6.1. Introdução ......................................................................................................................................... 65
6.2. Riftes continentais ............................................................................................................................ 65
6.2.1. Características gerais e mecanismos de formação ..................................................................... 65
6.2.2. Controles na formação e evolução de riftes continentais .......................................................... 67
6.2.3. Associações petrotectônicas ...................................................................................................... 68
6.3. Margens passivas e assoalho oceânico ............................................................................................. 68
6.4. Dorsais oceânicas ............................................................................................................................. 69
6.4.1. Classificação e morfologia ........................................................................................................ 69
6.4.2. Magmatismo .............................................................................................................................. 70
6.4.3. Petrologia e geoquímica ............................................................................................................ 71
6.4.4. Hidrotermalismo e metamorfismo ............................................................................................. 72
6.5. Margens ativas e arcos de ilhas ........................................................................................................ 73
6.5.1. Características gerais ................................................................................................................. 73
6.5.2. Início do processo de subducção ............................................................................................... 74
6.5.3. Vulcanismo ................................................................................................................................ 75
6.5.4. Petrologia e geoquímica ............................................................................................................ 76
6.5.5. Deformação e metamorfismo .................................................................................................... 77
6.5.6. Associações petrotectônicas em arcos: síntese .......................................................................... 78
Referências selecionadas ......................................................................................................................... 78
7. Orogênese
7.1. Introdução ......................................................................................................................................... 81
7.2. Tipos de orógenos ............................................................................................................................ 82
7.3. Ofiolitos ............................................................................................................................................ 83
7.4. Orógenos relacionados a zonas de subducção .................................................................................. 84
7.4.1. Orógenos acrescionários ............................................................................................................ 84
7.4.2. Orógenos do tipo Andino .......................................................................................................... 85
7.4.3. Orógenos do tipo Laramide ....................................................................................................... 85
7.4.4. Orógenos extensionais-contracionais ........................................................................................ 86
7.4.5. Convergência oblíqua e transpressão ........................................................................................ 86
7.5. Orógenos colisionais ........................................................................................................................ 87
felipe
Marcador de texto
vi
7.5.1. Fatores que tornam complexo o fenômeno da colisão continental ............................................ 87
7.5.2. Subducção continental, metamorfismo de pressão alta e ultra-alta e slab break-off ................. 88
7.5.3. Domínios em um orógeno colisional maduro ........................................................................... 89
7.5.4. Platôs orogênicos, fluxo canalizado e extrusão ......................................................................... 90
7.5.5. Escapelateral ............................................................................................................................. 91
7.6. Orógenos intracontinentais ............................................................................................................... 92
7.7. Extensão sin- a pós-orogênica .......................................................................................................... 93
7.7.1. Colapso orogênico ..................................................................................................................... 93
7.7.2. Complexos de núcleo metamórfico ........................................................................................... 94
7.7.3. Domos gnaissicos ...................................................................................................................... 95
7.7.4. Vulcanismo ................................................................................................................................ 95
7.8. Plutonismo sinorogênico .................................................................................................................. 96
7.9. Metamorfismo regional .................................................................................................................... 97
7.9.1. Tipos de metamorfismo e ambientes tectônicos ........................................................................ 97
7.9.2. Trajetórias P-T-t ........................................................................................................................ 98
7.10. Distinção entre os diferentes tipos de orógenos: síntese ................................................................ 98
Referências selecionadas ......................................................................................................................... 99
8. Origem e Diferenciação da Terra
8.1. Introdução ....................................................................................................................................... 103
8.2 Meteoritos e a formação do sistema Solar ....................................................................................... 103
8.2.1. Tipos de meteoritos ................................................................................................................. 103
8.2.2. Formação do Sistema Solar ..................................................................................................... 104
8.3. Diferenciação primária da Terra ..................................................................................................... 105
8.4. Formação do Sistema Terra-Lua .................................................................................................... 106
8.5. Formação da atmosfera e hidrosfera ............................................................................................... 106
8.5.1. Origem da atmosfera ............................................................................................................... 106
8.5.2. Origem da hidrosfera ............................................................................................................... 108
8.5.3. Atmosfera rica em oxigênio .................................................................................................... 108
8.6. Formação e crescimento da crosta continental ............................................................................... 109
8.6.1. A crosta e o manto primitivos ................................................................................................. 109
8.6.2. Crescimento da crosta continental ........................................................................................... 111
8.7. Os primeiros 700 Ma: síntese ......................................................................................................... 112
Referências selecionadas ....................................................................................................................... 113
9. O Arqueano: Geologia e Regimes Tectônicos
9.1. Introdução ....................................................................................................................................... 115
9.2. Distribuição dos terrenos arqueanos ............................................................................................... 116
9.3. Geologia dos terrenos arqueanos .................................................................................................... 117
vii
9.3.1. Terrenos de alto grau ............................................................................................................... 117
9.3.2. Terrenos granito-greenstone .................................................................................................... 118
9.4. Regimes tectônicos arqueanos ........................................................................................................ 119
9.4.1. Evolução térmica do manto ..................................................................................................... 119
9.4.2. Tectônica de placas no Arqueano? .......................................................................................... 119
9.4.3. Ausência de tectônica de placas no Arqueano? ....................................................................... 120
9.4.4. Regimes mistos, avalanches no manto, crescimento continental episódico ............................ 121
9.5. TTGs e greenstone belts: ambientes tectônicos .............................................................................. 122
9.5.1. TTGs ........................................................................................................................................ 122
9.5.2. Greenstones ............................................................................................................................. 122
9.5.3. Associações TTG/greenstone .................................................................................................. 123
9.6. Cratonização ................................................................................................................................... 123
Referências selecionadas ....................................................................................................................... 124
10. Cinturões Orogênicos Proterozóicos, Supercontinentes e Superplumas
10.1. Introdução ..................................................................................................................................... 127
10.2. A transição Arqueano-Proterozóico e os primeiros continentes .................................................. 127
10.3. Distribuição e geologia de províncias orogênicas proterozóicas .................................................. 128
10.4. Eventos orogênicos proterozóicos ................................................................................................ 129
10.4.1. Paleoproterozóico .................................................................................................................. 130
10.4.2. Mesoproterozóico .................................................................................................................. 132
10.4.3. Neoproterozóico .................................................................................................................... 132
10.5. Reconstituições paleogeográficas ................................................................................................. 133
10.6. Magmatismo anorogênico ............................................................................................................ 135
10.7. Superplumas e supercontinentes................................................................................................... 136
Referências selecionadas .......................................................................................................................137
11. Cinturões Orogênicos Fanerozóicos e o Supercontinente Pangéia
11.1. Introdução ..................................................................................................................................... 139
11.2. Reconstruções paleogeográficas para o Paleozóico ..................................................................... 139
11.3. Cinturões orogênicos paleozóicos ................................................................................................ 141
11.3.1. Orógenos colisionais ............................................................................................................. 141
11.3.2. Orógenos relacionados a zonas de subducção ....................................................................... 143
11.3.3. Orógenos intracontinentais .................................................................................................... 143
11.4. Reconstruções paleogeográficas para o Meso-Cenozóico ............................................................ 144
11.5. Cinturões orogênicos mesozóicos ................................................................................................ 144
11.5.1. Orógenos colisionais ............................................................................................................. 144
11.5.2. Orógenos relacionados a zonas de subducção ....................................................................... 144
11.5.3. Orógenos intracontinentais .................................................................................................... 147
viii
11.6. Cinturões orogênicos cenozóicos ................................................................................................. 147
11.6.1. Orógenos colisionais ............................................................................................................. 147
11.6.2. Orógenos relacionados a zonas de subducção ....................................................................... 150
11.6.3. Orógenos intracontinentais .................................................................................................... 152
11.7. O futuro ........................................................................................................................................ 152
Referências selecionadas ....................................................................................................................... 153
Fontes das Figuras .................................................................................................................................... 157
Índice remissivo ..........................................................................................................................163
ix
Prefácio
O rápido esgotamento da primeira edição deste livro tornou patente o anseio da
comunidade geológica pela publicação de textos didáticos de Geologia. Embora a
estruturação geral da edição original tenha sido mantida, de certa forma este é outro
livro: o texto foi totalmente reescrito, a maioria das figuras substituída ou redesenhada e
outras figuras e tabelas adicionadas. Como é inevitável, isto resultou em um volume
com um número maior de páginas que o original. De qualquer maneira, acredita-se que
os assuntos abordados possam ser cobertos numa disciplina normal de graduação com
45 ou 60 horas de aula. O livro foi escrito tendo em mente o estudante de graduação,
embora possa servir como introdução para cursos mais avançados. Para tornar a leitura
o mais simples possível, optou-se pela não citação de referências bibliográficas no texto,
como é usual em livros mais avançados ou artigos em periódicos científicos. Ao invés
disto, ao final de cada capítulo, uma série de artigos ou livros é listada. As referências
selecionadas obedeceram a dois critérios: (1) livros, capítulos de livros ou artigos de
revisão foram escolhidos para proporcionar uma visão mais abrangente dos tópicos
tratados no capítulo e/ou fornecerem um histórico da evolução das idéias que levaram
ao desenvolvimento dos modelos mais aceitos atualmente; (2) artigos recentes (a
maioria publicados nos últimos dez anos) foram selecionados para ilustrar o estado da
arte de um tema particular. A partir dessas fontes, o estudante poderá complementar ou
avançar no estudo de tópicos específicos.
O livro tem como objetivo apresentar, de maneira sucinta, as idéias atuais sobre a
dinâmica interna da Terra, correlacionando a formação de cinturões orogênicos com o
mecanismo mais geral de convecção mantélica, do qual o movimento relativo das placas
tectônicas é apenas a expressão superficial. Ele está dividido em onze capítulos. Os dois
primeiros apresentam uma revisão breve de alguns conceitos de Geoquímica e
Petrologia (Capítulo 1) e dos principais métodos de datação geocronológicos (Capítulo
2), conhecimento prévio requerido para a compreensão dos capítulos subseqüentes. As
informações contidas nos capítulos 3 a 5 refletem o conhecimento atual sobre a
estrutura (Capítulo 3) e a dinâmica da Terra, enfocando a tectônica de placas (Capítulo
4) e a formação de plumas mantélicas (Capítulo 5) no contexto da atuação de convecção
no manto. Os dois capítulos seguintes são devotados à dinâmica da litosfera. O Capítulo
6 descreve as principais características dos diferentes ambientes relacionados com a
tectônica de placas e o Capítulo 7 é dedicado à descrição e discussão dos processos que
levam à formação de cadeias de montanhas orogênicas.
A formação da Terra, sua diferenciação primária em manto e núcleo, a origem da
hidrosfera e da atmosfera, e o debate sobre a existência ou não de continentes no
período pré-Arqueano constituem o objeto do Capítulo 8. Os capítulos finais são
dedicados à evolução dos continentes no decorrer do tempo. No Capítulo 8, são
descritas as principais características geológicas dos terrenos arqueanos. Com base
nestes dados e em modelos teóricos e numéricos, são discutidos os possíveis regimes
tectônicos vigentes no Arqueano e a questão da formação e preservação da crosta
continental. O Capítulo 10 começa apresentando os principais fatores que diferenciam o
Arqueano do Proterozóico e prossegue com a descrição dos principais eventos
orogênicos proterozóicos. No final do capítulo, são discutidas a existência de
supercontinentes proterozóicos, suas possíveis configurações e as causas do
magmatismo anorogênico que caracteriza o Mesoproterozóico. O leitor deve ter em
mente, ao ler os capítulos 8-10, a ausência de registro geológico para os primeiros 500
x
milhões de anos da Terra e as incertezas quanto à interpretação de eventos
precambrianos. Estes fatores fazem com que modelos para a evolução dos continentes
ou de orógenos individuais contenham uma boa dose de especulação. Assim, modelos
consensuais ou quase consensuais no presente podem vir a ser descartados no futuro.
Finalmente, o Capítulo 11 apresenta e discute, com base em reconstituições
paleogeográficas, os eventos orogênicos paleozóicos que resultaram na formação do
supercontinente Pangéia, a fragmentação do supercontinente e a formação de cinturões
orogênicos meso/cenozóicos.
O autor é grato aos colegas Gorki Mariano, José Maurício Rangel da Silva, Otaciel de
Oliveira Melo, Ignez de Pinho Guimarães, Adejardo Francisco da Silva Filho e
Hermanilton Azevedo Gomes por sugestões ao manuscrito original, pela leitura critica
de partes do texto atual e/ou pelo constante encorajamento. Agradecimentos são
também devidos ao CNPq porque, ao rejeitar sistematicamente todos os projetos de
pesquisa submetidos nos últimos dez anos, permitiu que parte do tempo e energia
requerida para a execução dos mesmos fosse canalizada para esta obra.
1. Petrologia e Geoquímica: Revisão de Alguns Conceitos
1.1. Introdução
Os deslocamentos e deformaçõessofridos pela crosta e pela porção mais
superior do manto terrestre, bem como
fenômenos superficiais (vulcanismo,
terremotos, formação de cadeias de
montanhas, etc.), estão relacionados com
processos que ocorrem em profundidade. Um
conhecimento sobre a estrutura, o estado
físico e a composição do interior da Terra é
fundamental para a compreensão dos
mecanismos responsáveis por esses
processos. Para tanto, uma abordagem
multidisciplinar se faz necessária,
combinando-se as ferramentas das disciplinas
clássicas da Geologia (Sedimentologia,
Estratigrafia, Geologia Estrutural, Tectônica,
Petrologia) com o uso de métodos geofísicos
(particularmente sismológicos), geodésicos,
geoquímicos e da física dos minerais.
Igualmente importante é quantificar as
diferentes escalas de tempo nas quais os
processos geológicos ocorrem, o que é
possível através dos diversos métodos
geocronológicos atualmente disponíveis.
Adicionalmente, modelos analógicos e
simulações em computador (Geodinâmica)
permitem a investigação dos processos
dinâmicos em atuação no interior da Terra.
Este capítulo introduz alguns termos e
conceitos de Petrologia e Geoquímica que
serão necessários para a compreensão dos
capítulos subseqüentes. As técnicas de
datação mais comuns são descritas no
capítulo 2. Métodos geofísicos, modelos
geodinâmicos e experimentos sob condições
elevadas de pressão e temperatura são
abordados nos capítulos 3, 4 e 5.
1.2. Elementos maiores e traço
Elementos maiores são aqueles que
constituem os principais minerais formadores
de rochas. Os demais elementos (chamados
de traço) têm de se ajustar à estrutura desses
minerais ou formar minerais acessórios.
Elementos maiores são medidos em
percentagem enquanto os elementos-traço
normalmente são expressos em partes por
milhão (ppm). Os elementos maiores são O,
Si, Al, Fe, Mg, Ca, Na e K, embora este
último seja um elemento traço no manto.
Como o oxigênio é o elemento mais
abundante na crosta e no manto, a
composição química das rochas normalmente
é expressa em forma de óxidos de elementos
maiores (SiO2, Al2O3, FeO, MgO, etc.). Uma
maneira usual de representar graficamente a
composição química de um grupo de rochas é
através dos diagramas de Harker, nos quais a
porcentagem dos óxidos dos elementos
maiores e a concentração dos elementos-
traço são projetadas versus o teor de sílica
(Fig. 1.1).
1.3. Fusão parcial, compatibilidade e
incompatibilidade
Uma vez que a maioria dos minerais
formadores de rocha são soluções sólidas, a
fusão de uma rocha se dá em um intervalo de
temperatura. Isto significa que rochas no
interior da Terra sofrem apenas fusão parcial,
já que a temperatura exigida para fusão total
é muito elevada para ser atingida durante
processos geológicos normais. A temperatura
necessária para que uma rocha comece a
sofrer fusão parcial depende da pressão. O
solidus de uma rocha é a curva, em um
diagrama pressão-temperatura, unindo todos
os pontos que marcam o inicio da fusão
parcial (Fig. 1.2). Da mesma maneira, outra
curva (chamada de liquidus) marca o inicio
da cristalização de um magma.
Fusão parcial pode resultar de três
mecanismos (Fig. 1.2): (a) diminuição de
pressão (descompressão), (b) elevação de
temperatura, e (c) rebaixamento do solidus (o
que pode ser causado pela adição de fluidos).
Processos geológicos que podem acarretar
uma (ou mais de uma) dessas situações são
discutidos no Capítulo 6.
2
Um elemento traço é incompatível se
sua tendência é entrar na fase líquida durante
eventos de fusão parcial, enquanto que os
elementos compatíveis tendem a permanecer
no resíduo da fusão. A partição de um
elemento entre as fases sólida e líquida
depende de seu grau de ajustamento à
estrutura cristalina dos minerais, o que, em
boa parte, é condicionado pelo raio e carga
iônica do elemento. Elementos com raio
iônico grande são incompatíveis. Eles são
chamados de elementos litófilos de raio
iônico grande (ou LILE, da sigla em inglês
para large ion lithophile element). Estes
incluem Cs, Rb, Th, U e os elementos terras
raras leves. Elementos compatíveis que têm
afinidade com o ferro são chamados
siderófilos (p.ex., Ni, Co, Au).
1.4. Empobrecimento e enriquecimento;
fertilidade e infertilidade
Uma rocha é dita empobrecida
quando apresenta uma pequena concentração
de elementos incompatíveis. Isto pode ser
devido à extração desses elementos durante
processos de fusão parcial ou migração de
uma fase fluida. Uma rocha enriquecida é
obviamente o contrário.
O empobrecimento ou
enriquecimento é expresso relativamente a
um padrão e representado em diagramas
chamados aranhagramas (spiderdiagrams,
em inglês). Nestes diagramas os elementos-
traço são colocados na abscissa em ordem
decrescente de incompatibilidade (da
esquerda para a direita) e suas concentrações
normalizadas na ordenada (Fig. 1.3). Um
caso particular é o dos elementos terras raras
(Fig. 1.4). Padrões comumente utilizados são
o condrito (um tipo de meteorito pétreo; ver
Capítulo 8), o manto primitivo (manto
superior+crosta continental; ver Capítulo 6) e
basaltos oceânicos (N-MORB na figura 1.3;
ver Capitulo 6).
Figura 1.2. Solidus e liquidus. O solidus é a curva
que marca o início da fusão parcial de uma rocha,
enquanto o liquidus corresponde a uma fusão
completa. No caso de um magma, o liquidus
representa o início da cristalização e o solidus
uma cristalização completa. Para que haja fusão
parcial, uma rocha situada a uma determinada
profundidade deve ser levada a uma profundidade
menor, ter sua temperatura elevada, ou ter seu
solidus rebaixado (linha tracejada).
Figura 1.1. Diagramas de Harker para rochas
graníticas (círculos) e dioríticas (quadrados) do
batólito Caruaru-Arcoverde, Pernambuco.
3
A fertilidade de uma rocha é sua
capacidade de produzir magmas por fusão
parcial e depende dos elementos maiores.
Uma rocha pode ser empobrecida e fértil ao
mesmo tempo. Uma pequena percentagem de
fusão parcial pode deixar um resíduo
bastante empobrecido em elementos
incompatíveis, mas esta rocha mantém sua
capacidade de produzir magmas se for sujeita
a uma temperatura suficientemente alta em
um evento futuro. Por outro lado, rochas que
passaram por episódios de fusão parcial
elevadas podem ser posteriormente
enriquecidas em elementos incompatíveis
pela percolação de fluidos. Casos específicos
onde estas situações podem ocorrer são
discutidos no Capítulo 6.
1.5. Minerais e rochas
Os principais minerais formadores de
rocha são silicatos (olivina, piroxênios,
anfibólios, feldspatos, quartzo). Minerais
máficos ou ferromagnesianos são escuros.
Eles são os principais constituintes das
rochas máficas (gabros, anortositos, etc.) e
ultramáficas (dunito, peridotito, etc.). Rochas
félsicas (granitos, granodioritos, etc.), por
outro lado, são formadas dominantemente
por minerais claros (quartzo, feldspatos).
Rochas formadas próximas à
superfície da Terra (sedimentares, vulcânicas
e subvulcânicas) são chamadas de
supracrustais. Este termo é empregado
mesmo no caso de elas terem sido
metamorfizadas. Rochas supracrutais
compostas por argilas são chamadas de
pelitos e por quartzo e/ou feldspatos de
psamitos. Os termos metapelito e
metapsamito são empregados para os
equivalentes metamórficos. Rochas
paraderivadas e ortoderivadas são aquelas
resultantes do metamorfismo de rochas
sedimentares e ígneas, respectivamente
(p.ex., paragnaisse, ortoanfibolito).
1.6. Classificação de rochas ígneas e séries
magmáticas
Rochas ígneas podem ser
classificadas de acordo com sua mineralogia
ou composição química. Esta última
abordagem é particularmente útil no caso de
rochasvulcânicas. Como todos os minerais
formadores de rocha são silicatos (com raras
exceções, como em carbonatitos) o principal
componente destas rochas é SiO2. Assim,
uma primeira classificação é baseada no teor
de sílica. Rochas ácidas, intermediárias,
básicas e ultrabásicas têm teores de SiO2,
respectivamente: acima de 66%; entre 52% e
66%; entre 45% e 52%; e abaixo de 45%.
Exemplos de cada uma destas categorias são
riolito, andesito, basalto e komatiito.
Basaltos constituem o tipo de lava
mais abundante na Terra e são subdivididos
Figura 1.4. Padrão de elementos terras raras para
dioritos do batólito Caruaru-Arcoverde, Estado de
Pernambuco.
Figura 1.3. Aranhagrama ilustrando a variação
composicional de granitóides do batólito Caruaru-
Arcoverde, Estado de Pernambuco.
4
em quartzo toleítos, olivina toleítos e álcali-
olivina basaltos de acordo com seus minerais
normativos. A composição normativa de uma
rocha (ou norma CIPW, acrônimo formado
pelas iniciais do sobrenome dos petrólogos
que propuseram o procedimento de cálculo) é
derivada a partir da composição química. Ela
fornece os minerais que a rocha teria caso
tivesse sido completamente cristalizada sob
condições anidras. Quartzo toleítos, olivina
toleítos e álcali-olivina basaltos têm como
minerais normativos, respectivamente:
quartzo+hiperstênio; olivina+hiperstênio; e
nefelina.
Na maioria das rochas, o óxido mais
abundante, depois de SiO2, é Al2O3. Uma
classificação muito empregada,
principalmente para rochas graníticas, utiliza
as razões Al2O3/(Na2O+K2O+CaO), chamado
índice de saturação em alumina, e
Al2O3/(Na2O+K2O):
Rochas peraluminosas
Al2O3/(Na2O+K2O+CaO)>1
Rochas metaluminosas
Al2O3/(Na2O+K2O+CaO)<1<Al2O3/(Na2O+
K2O)
Rochas peralcalinas
Al2O3/( Na2O+K2O)<1
Nestas razões, as percentagens em
peso de cada óxido são convertidas em massa
molecular dividindo-se pelo seu peso
molecular.
Outro modelo de classificação
considera os teores de Na2O+K2O em uma
suíte de rochas (Fig. 1.5a). Rochas ricas em
álcalis são chamadas de alcalinas e
caracterizadas petrograficamente pela
presença de feldspatóides, anfibólio sódico
e/ou piroxênio sódico (p.ex., nefelinito,
fonolito, sodalita sienito, riebeckita granito).
Rochas subalcalinas são bem mais comuns
que rochas alcalinas e subdivididas nas suítes
toleítica, cálcio-alcalina e shoshonítica (Fig.
1.5b). A suíte cálcio-alcalina para rochas
vulcânicas inclui basaltos, andesitos, dacitos
+/- riolitos, sendo andesito a rocha
característica. A suíte cálcio-alcalina pode
ainda ser subdividida de acordo com o teor
de K2O numa série de médio-K e numa série
de alto-K. Rochas básicas a intermediárias
com valores elevados de K2O são incluídas
na série shoshonítica. A suíte toleítica
geralmente apresenta uma variação
composicional mais restrita em comparação
com a suíte cálcio-alcalina.
1.7. Rochas e fácies metamórficas
Fácies metamórficas são campos de
pressão e temperatura caracterizados por
associações minerais típicas (Fig. 1.6). As
principais fácies do metamorfismo regional
(a)
(b)
Figura 1.5. (a) Diagrama (Na2O+K2O)-sílica
mostrando os campos das suítes alcalinas e
subalcalinas. (b) Diagrama K2O-sílica mostrando a
subdivisão da suite subalcalina. Triângulos e
quadrados correspondem, respectivamente, a
amostras de rochas dioríticas e graníticas do
batólito Caruaru-Arcoverde, Pernambuco.
5
para condições de temperatura e pressão de
moderadas a altas (>300ºC e >200 MPa) são
xisto-verde, anfibolito e granulito. As fácies
xisto-azul (ou glaucofana-lawsonita) e
eclogito são típicas de pressão elevada (>1
GPa). Rochas máficas metamorfizadas sob
condições das fácies anfibolito e eclogito
consistem, dominantemente, de anfibólio e
plagioclásio, no primeiro caso, e de
clinopiroxênio e granada, no segundo. Estas
rochas recebem a mesma denominação das
fácies que elas caracterizam, isto é, anfibolito
e eclogito, respectivamente. A rocha
metamórfica da fácies granulito também
recebe este nome, podendo ser paraderivada
ou ortoderivada, máfica ou félsica. A
associação característica é ortopiroxênio,
clinopiroxênio, plagioclásio ± granada.
Rochas formadas a pressões ou
temperaturas extremamente elevadas têm
sido descritas com cada vez mais freqüência
e estendem o campo do metamorfismo para
pressões superiores a 2 GPa e temperaturas
de até 1150ºC. Rochas de pressão ultra-alta
são caracterizadas pela presença de coesita
e/ou diamante. As associações minerais em
granulitos de temperatura ultra-alta incluem
ortopiroxênio aluminoso-sillimanita-quartzo,
safirina-quartzo e espinélio-quartzo.
Referências selecionadas
Best, M.G., 2003. Igneous and Metamorphic
Petrology, Blackwell Publishing, 2ª Ed.
Philpotts, A.R., 1990. Principles of Igneus and
Metamorphic Petrology, Prentice-Hall.
Winter, J.D., 2001. An Introduction to Igneus and
Metamorphic Petrology. Prentice-Hall.
(disponível gratuitamente on-line na página do
autor: http://people.whitman.edu/~winterj/).
Figura 1.6. Diagrama P-T esquemático mostrando as
principais fácies do metamorfismo regional,
ressaltando em sombreado os campos para
metamorfismo de pressão e temperatura ultra-altas.
Linhas tracejadas correspondem a condições não-
metamórficas (esquerda) e ao início de fusão parcial
em sistemas graníticos na presença de água (direita).
Também são mostradas as curvas de reação quartzo-
coesita e grafita-diamante.
6
7
2. Geocronologia
2.1. Introdução
O princípio da datação de rochas por
métodos geocronológicos reside no fato de
alguns elementos possuírem um ou mais
isótopos instáveis. Estes isótopos, chamados
de radioativos, sofrem desintegração para
gerar isótopos radiogênicos pela emissão de
partículas α, β ou γ. A taxa de desintegração
radioativa (λ) é característica para cada
isótopo e, geralmente, expressa em termos de
sua meia-vida (t1/2), definida como o tempo
necessário para que o número de átomos do
isótopo radioativo originalmente presente
seja reduzido à metade.
Os métodos de datação
geocronológicos podem ser utilizados para:
(a) determinar idades de cristalização de
minerais e rochas; (b) estudar a história
térmica de rochas (métodos
termocronológicos); (c) estabelecer a idade
de exposição de superfícies; (d) determinar a
idade de morte de organismos.
No primeiro grupo, incluem-se os
métodos Rb-Sr, Sm-Nd e U-Pb.
Conhecendo-se o tempo de meia-vida e as
concentrações dos isótopos radiogênico e
radioativo em uma rocha ou mineral é
teoricamente possível calcular a idade de sua
formação. Quando a idade obtida
corresponde à idade de cristalização de
rochas ou minerais a partir de um magma,
esta é uma idade ígnea. Quando os minerais
em uma rocha são produtos de cristalização
ou recristalização no estado sólido, obtém-se
uma idade metamórfica.
Os métodos termocronológicos
baseiam-se no fato de que, a temperaturas
elevadas, o sistema pode ser aberto com
respeito ao isótopo radiogênico. Nestas
situações, a idade obtida corresponde ao
tempo decorrido após os minerais ou rochas
terem resfriado até uma temperatura
suficientemente baixa para permitir a
retenção do isótopo radiogênico na estrutura
cristalina dos minerais. Neste grupo incluem-
se os métodos Ar-Ar e de traços de fissão em
apatita.
Os dois últimos grupos diferem dos
dois primeiros porque resultam da produção
de isótopos radioativos pela interação de
raios cósmicos com a atmosfera ou a
superfície da Terra (sendo, por isso,
igualmente referidos como métodos de
datação por nuclídeos cosmogênicos). A
idade de exposição de superfícies a raios
cósmicos pode ser estimada pela quantidadedos isótopos cosmogênicos 26Al, 10Be e 36Cl
produzidos in situ. Um exemplo do quarto
caso é a colisão de raios cósmicos com
núcleos de nitrogênio para produzir carbono
através de uma reação (n, p), onde n é um
nêutron e p é um próton:
14N + n → 14C + p
O 14C produzido decai para o 14N com
uma meia vida de cerca de 5700 anos. A
quantidade de 14C na atmosfera é o resultado
de um equilíbrio entre produção cosmogênica
e decaimento radioativo. Cada organismo
mantém um equilíbrio com a atmosfera ou o
oceano enquanto vivo, mas após sua morte
esta troca cessa e o 14C começa a diminuir.
Assim, a idade da morte pode ser
determinada pela quantidade de 14C
remanescente.
Os isótopos com tempos de meia vida
longos, representados pelos dois primeiros
grupos, são os de maior utilidade em estudos
tectônicos e de evolução crustal. Os isótopos
mais comuns empregados, com suas
respectivas constantes de decaimento e
tempos de meia-vida, são mostrados na
Tabela 2.1.
2.2. Conceitos básicos
A taxa de desintegração de um
elemento radioativo é dada por:
dN/dt = -λN → dN/N = -λdt
8
onde N é o número de átomos do elemento
radioativo no tempo t. Por integração,
obtém-se:
lnN = - λt + c
Para t = 0, c = lnN0, onde N0 é o número de
átomos do isótopo radioativo originalmente
presente. Substituindo-se c por lnN0 na
equação acima, tem-se:
lnN-lnN0 = -λt → lnN/N0 = -λt → N0 =
Neλt
Se, depois de decorrido um tempo t,
o número de átomos do isótopo radiogênico
produzido é F, o número de átomos do
isótopo radioativo restante é N = N0 – F.
Logo:
F = N0 – N → F = Neλt – N, ou
F = N (eλt – 1)
A equação acima é a fórmula geral
que permite a datação de rochas e/ou
minerais. A partir dela, pode-se ver que o
tempo de meia vida (isto é, quando F = N) é
dado por:
1 = (eλt1/2 – 1) → eλt1/2 = 2 → t1/2 = ln2/λ
2.3. Método Rb-Sr
No caso do decaimento de 87Rb para
87Sr, a equação fundamental da
geocronologia se torna:
87Sr = 87Rb (eλt – 1)
87Sr ocorre naturalmente em rochas
independentemente do Rb. Portanto, o
número de átomos de 87Sr inicialmente
presente [(87Sr)o] tem de ser adicionado ao
número de isótopos produzidos por
decaimento radioativo. Assim, o número
total de átomos de 87Sr é dado por:
87Sr = (87Sr)o + 87Rb (eλt – 1)
Esta equação pode ser modificada
dividindo-se cada termo pelo número de
átomos de 86Sr, o qual é constante, uma vez
que este isótopo é estável e não resulta do
decaimento de isótopos de outros elementos.
A razão deste procedimento é que a
determinação das razões isotópicas de
elementos por espectrometria de massa é
mais precisa que suas concentrações
absolutas. Fazendo-se isto, obtém-se:
87Sr/ 86Sr = (87Sr/ 86Sr)o + 87Rb/ 86Sr (eλt – 1)
A equação acima constitui a base da
determinação de idades pelo método Rb-Sr.
Ela é uma equação da linha reta da forma Y
= Ro + mX, onde m (o declive da reta ) é
igual a (eλt – 1). Esta reta é chamada de
isócrona e o valor de Ro de razão inicial
(Fig. 2.1).
Considere um grupo de rochas ígneas
cogenéticas ou minerais comagmáticos (1, 2
e 3 na Fig. 2.1). Na época de formação, a
razão 87Sr/ 86Sr deveria ser a mesma para
todas as rochas (ou minerais) porque a
cristalização de um magma não fraciona os
isótopos de Sr, já que a diferença de massa
entre eles é muito pequena. As razões Rb/Sr
(e, portanto 87Rb/86Sr), por outro lado,
podem variar devido à diferença de
Tabela 2.1. Sistemas de decaimentos radioativos mais comuns usados na datação de rochas e minerais.
Isótopo radioativo Isótopo radiogênico λ (a-1) Meia vida
87Rb 87Sr 1,42 X 10-11 48,8 Ga
238U 206Pb 1,55 X 10-10 4,47 Ga
235U 207Pb 9,85 X 10-10 0,70 Ga
232Th 208Pb 4,95 X 10-11 14,0 Ga
147Sm 143Nd 6,54 X 10-12 106 Ga
40K 40Ar 5,81 X 10-11 11,93 Ga
9
comportamento geoquímico entre o Rb e o
Sr. Como o Rb é mais incompatível que o
Sr, devido ao seu maior raio iônico,
amostras mais ácidas normalmente têm
valores mais elevados da razão 87Rb/86Sr.
Igualmente, a razão Rb/Sr é diferente em
diferentes minerais (por exemplo, é bem
mais baixa em plagioclásio que em
ortoclásio). Após a cristalização e
resfriamento do magma, a razão 87Rb/86Sr
nas amostras ou minerais começa a diminuir
enquanto a razão 87Sr/86Sr aumenta na
mesma proporção (Fig. 2.1). Assim, se as
razões 87Sr/86Sr e 87Rb/ 86Sr forem
projetadas umas contra as outras, o tempo t e
a razão inicial podem ser determinados pelo
declive da reta de melhor ajuste aos pontos e
pela interseção com o eixo das ordenadas,
respectivamente. Um exemplo de datação
por rocha total é mostrado na Figura 2.2.
A razão inicial é um indicador da
derivação crustal ou mantélica de uma
rocha. Rb é extraído preferencialmente do
manto e incorporado na crosta durante
episódios de fusão parcial. Assim, razões
iniciais elevadas refletem protólitos crustais.
Por exemplo, enquanto muitos basaltos
recentes têm razões iniciais no intervalo
0,702-0,705, granitos crustais podem
apresentar valores superiores a 0,710-0,720.
O 87Sr resultante do decaimento de
87Rb ocupa posições instáveis na rede
cristalina de minerais ricos em Rb, como
ortoclásio e biotita, e tende a ser expulso
desses minerais durante eventos térmicos.
Por esta razão, eventos metamórficos podem
perturbar o sistema Rb-Sr e, assim, este
método é cada vez menos empregado para
obter idades de cristalização. No entanto, em
circunstâncias favoráveis, o sistema pode ser
aberto na escala do mineral, mas fechado na
escala de amostra de mão. Nestes casos, o Sr
liberado pelas fases ricas em Rb será
incorporado nas fases minerais vizinhas
ricas em Sr, como plagioclásio e apatita.
Uma isócrona construída com minerais
pobres e ricos em Rb pode, portanto,
fornecer a idade do metamorfismo. Nos
casos mais favoráveis, tanto a idade de
cristalização quanto a do metamorfismo
podem ser determinadas.
2.4. Método Sm-Nd
Figura 2.1. Ilustração do princípio de aplicação do
método Rb-Sr usando a mesma escala para os eixos
x e y. Amostras cogenéticas ou minerais
comagmáticos (1, 2, 3) movem-se ao longo de
linhas retas com declividade -1. A idade de
cristalização será tanto mais antiga quanto maior o
declive da isócrona. Na prática, como o decaimento
do Rb87 é muito lento, o eixo y é expandido para
poder mostrar o declive da isócrona num formato
adequado.
Figura 2.2. Isócrona Rb-Sr (rocha total) para o
plúton Queimadas (Estado da Paraíba). Notar que a
escala vertical é expandida em relação à escala
horizontal. Sem este exagero, a isócrona seria
quase horizontal. MSWD (mean squared weighted
deviates) representa a dispersão dos pontos com
respeito à linha de regressão calculada pela técnica
dos mínimos quadrados. Em princípio, quanto
menor este valor mais confiável é a idade obtida.
10
A equação para o cálculo de idades
pelo método Sm-Nd é similar à empregada
para o método Rb-Sr, utilizando-se o isótopo
estável 144Nd como isótopo de referência:
143Nd/144Nd =
(143Nd/144Nd)o + 147Sm/144Nd (eλt – 1)
Ao contrário do Rb e Sr, que exibem
comportamento geoquímico contrastantes,
Sm e Nd têm propriedades químicas
similares. Isto torna difícil a obtenção de
amostras de rocha total com variações
significativas na razão Sm/Nd,
impossibilitando uma aplicação ampla do
método. No entanto, ele é muito útil para
rochas que têm baixas concentrações de Rb
e/ou não contêm zircão, não podendo ser
datadas pelos métodos Rb-Sr ou U-Pb. Este
é o caso de algumas classes de meteoritos e
de rochas máficas. Além disso, Sm e Nd são
imóveis durante eventos metamórficos que
podem perturbar mesmo o sistema U-Pb.Nesses casos, o método Sm-Nd pode ser o
único a fornecer a idade de cristalização de
rochas metamorfizadas em alto grau. Um
exemplo é mostrado na Figura 2.3.
Como no caso do método Rb-Sr, a
razão inicial 143Nd/144Nd também indica a
origem crustal ou mantélica de uma rocha.
Porém, como a variação desta razão é muito
pequena em rochas terrestres, o parâmetro
epsilon Nd (εNd) é mais utilizado para
comparar rochas com diferentes razões
iniciais. Esta notação é definida
matematicamente como:
εNd = {[(143Nd/144Nd)0/(143Nd/144Nd)CHUR] -
1} x 104
onde (143Nd/144Nd)CHUR corresponde ao
valor da razão 143Nd/144Nd em meteoritos
condríticos para a idade considerada (CHUR
= chondritic uniform reservoir).
Como se assume que a Terra foi
formada por material semelhante ao de
meteoritos condríticos, rochas com valores
εNd próximos a zero teriam sido derivadas do
manto primitivo. No entanto, como a crosta
continental cresceu à custa do manto (ver
Cap. 8) e o Nd é mais incompatível que o
Sm, por ter raio iônico um pouco maior,
com o decorrer do tempo o manto adquire
razões Sm/Nd maiores que o CHUR (Fig.
2.4). Este manto é chamado empobrecido
devido à perda de elementos litófilos.
Razões Sm/Nd (e, portanto, 143Nd/144Nd)
mais elevadas que o CHUR implicam
valores εNd positivos. Assim, rochas com εNd
positivo são interpretadas como derivadas
do manto empobrecido. A crosta
continental, por outro lado, tem valores
Sm/Nd menores que o CHUR e, assim,
magmas formados por sua fusão parcial têm
valores negativos de εNd.
A idade modelo de uma rocha (TDM,
DM = depleted mantle) corresponde ao
tempo no qual seu εNd era igual ao do manto
empobrecido. Por exemplo, a Fig. 2.4
mostra que as rochas do Complexo Itapetim
e do Batólito Fazenda Nova têm idades-
modelo, respectivamente, em torno de 1,4
Ga e entre 1,8 e 2,0 Ga. Estas idades são
consideravelmente mais velhas que as
idades de cristalização dos plútons (em torno
de 0,6 Ga).
Apenas rochas crustais derivadas do
manto (ou de protólitos derivados do manto)
têm idades-modelo idênticas à sua idade de
cristalização (esta última normalmente
0,5133
0,5131
0,5129
0,5127
0,5125
0,5123
147 144Sm/ Nd
143 144Nd/ Nd
Idade = 782 +/- 100 Ma
MSWD = 5,2
0,10 0,14 0,18 0,22 0,24
Figura 2.3. Isócrona Sm-Nd (rocha total) para
anfibolitos da seqüência metavulcanossedimentar
Mara Rosa, Goiás.
11
obtida pelo método U-Pb em zircão). Estas
rochas são chamadas de juvenis e suas
idades correspondem a eventos de formação
crustal.
Rochas derivadas de fontes
exclusivamente crustais ou de fontes
híbridas têm idades-modelo sempre mais
antigas que sua idade de formação, podendo,
ou não, ter um componente juvenil. Isto é
ilustrado na Figura 2.5. Granitóides
arqueanos e proterozóicos, derivados direta
ou indiretamente do manto, têm valores εNd
positivos e idades-modelo idênticas à idade
de cristalização. Como essas rochas têm
razões Sm/Nd menores que o CHUR, com o
passar do tempo, elas adquirem εNd negativo.
Fusão parcial dessas rochas, num evento
posterior, vai gerar granitos com valores εNd
negativos e TDM arqueano ou proterozóico.
Se o magma gerado contiver um
componente juvenil por mistura com
magmas máficos (caso a), os valores εNd
podem ser positivos ou negativos e o TDM
será intermediário entre a idade de
cristalização da rocha e a idade do protólito
granítico. Se houver mistura com magmas
de origem crustal (caso b), o εNd será
negativo.
2.5. Método U-Pb
2.5.1. Generalidades
Para o decaimento do 238U para 206Pb
e do 235U para 207Pb, tem-se as seguintes
equações:
206Pb = 206Pb0 + 238U (eλt – 1)
207Pb = 207Pb0 + 235U (eλt – 1)
Em princípio, essas equações podem
ser utilizadas para construir isócronas U-Pb,
como nos métodos Rb-Sr e Sm-Nd,
utilizando-se 204Pb como isótopo de
referência. Esta abordagem tem sido
empregada no caso de carbonatos marinhos,
os quais são de difícil datação por outros
métodos. No entanto, como urânio é um
elemento extremamente móvel, isócronas
construídas com amostra de rocha total são
pouco confiáveis.
Minerais acessórios que contenham
U, mas não Pb, na sua estrutura (como é o
caso de zircão, monazita e titanita) são
ideais para datação pelo método U-Pb.
Nestes casos, a razão inicial é igual a zero e
as equações acima são simplificadas para:
206Pb = 238U (eλt – 1)
207Pb = 235U (eλt – 1)
2.5.2. Curva concórdia
Figura 2.5. Diagrama ilustrando como idades
modelo podem não corresponder a eventos de
formação crustal. Granitos arqueanos e
proterozóicos têm TDM igual à idade de
cristalização, mas granitos de fontes híbridas
(crosta+manto; caso a) ou inteiramente crustais
(caso b) têm TDM mais antigo que a idade de
cristalização.
Figura 2.4. Diagrama de evolução isotópica de Nd
para amostras do Complexo Itapetim (IG) e do
Batólito Fazenda Nova (FN) (Província Borborema,
NE Brasil).
12
A vantagem do método U-Pb sobre
os demais métodos de datação reside no fato
de o urânio possuir dois isótopos
radioativos, o que permite o cálculo de
idades pelas duas expressões seguintes:
t = 1/λ238 ln (206Pb/238U + 1)
t = 1/λ235 ln (207Pb/235U + 1)
Projetando-se as razões 206Pb/238U
versus 207Pb/235U para diferentes valores de
t, obtém-se uma curva chamada concórdia
(Fig. 2.6). Minerais que se comportam como
um sistema fechado para U e Pb desde a sua
formação devem fornecer idades 238U-206Pb
e 235U-207Pb idênticas e, portanto, cair sobre
a concórdia. Estas idades são chamadas de
concordantes.
Em alguns casos, análises isotópicas
de zircões derivados de uma mesma amostra
definem uma linha, ao invés de se
projetarem sobre a concórdia. Esta linha é
chamada de discórdia e as idades obtidas de
discordantes. Apesar disso, os interceptos
superior e inferior da discórdia com a
concórdia podem fornecer informações
geológicas importantes.
2.5.3. Métodos
O método mais comum para
determinação de idades U-Pb em minerais
acessórios (usualmente chamado método
convencional) envolve a dissolução de grãos
de zircão por métodos químicos. A
determinação das abundâncias isotópicas de
urânio e chumbo é feita por ionização
térmica em um espectrômetro de massa. O
acrônimo TIMS (das iniciais em inglês para
espectrometria de massa por ionização
térmica) também é frequentemente
empregado para descrever este método.
Atualmente, é possível obter idades pela
dissolução de apenas um ou de uns poucos
grãos de zircão.
Datação in situ de domínios no
interior de grãos individuais de zircão pode
ser realizada com o uso de microssonda
iônica, cujo instrumento mais sensível é
denominado SHRIMP (de Sensitive High
Resolution Ion Microprobe), e por
espectrometria de massa com plasma
indutivamente acoplado com ablasão a laser
(LA-ICP-MS, das iniciais de laser ablation
inductively coupled plasma mass
spectrometry). Com estes dois
equipamentos, em combinação com imagens
obtidas por microscopia eletrônica de
varredura ou catoluminescência, é possível
determinar a idade de domínios no interior
de grãos complexos. Nestes casos, idades
diferentes podem estar presentes (Fig. 2.7) e
datação pelo método convencional
forneceria uma média das idades.
Uma técnica distinta das descritas
acima é a chamada datação química de Pb.
Assumindo-se que todo o chumbo presente
em um mineral seja radiogênico, a
concentração total do chumbo (CPb) é
relacionada às concentrações de urânio (CU)
e de tório (CTh). Essas concentrações podem
Figura 2.6. Diagrama concórdia U-Pb mostrando
a linha concórdia calibrada em milhões de anos.
Figura 2.7. Idades U-Pb por LA-ICP-MSno
interior de um grão de zircão de uma amostra de
paragnaisse pelítico do Complexo Surubim, Estado
de Pernambuco.
13
ser determinadas por microssonda eletrônica
(em ppm) e utilizadas para a obtenção de
uma idade aproximada pela equação:
CPb ~ 0,897 CTh(eλ232t – 1) +
0,006 CU(eλ235t – 1) + 0,589 CU(eλ238t – 1)
onde λ232, λ235 e λ238 são as taxas de
decaimento radioativo de 232Th, 235U e 238U,
respectivamente.
2.5.4. Aplicações
Se um mineral é fechado com
respeito à perda ou ganho dos isótopos
radioativos e radiogênicos desde sua
formação, as idades obtidas devem ser
concordantes e correspondem a idades de
cristalização. No caso de rochas ígneas, isto
permite a datação de eventos magmáticos
(Fig. 2.8).
Em rochas metamórficas
ortoderivadas, os zircões presentes
comumente são zircões ígneos e fornecem a
idade de cristalização do protólito. No
entanto, zircões metamórficos também
podem ser encontrados em rochas
metamórficas (tanto paraderivadas como
ortoderivadas) ou como sobrecrescimentos
em torno de cristais ígneos. Zircões ígneos
podem ser distinguidos de zircões
metamórficos pela presença de faces
cristalinas, zonação oscilatória (Fig. 2.7) e
razão Th/U > 0,1. Monazita é mais comum
como mineral metamórfico que zircão e está
se tornando o mineral padrão para a
determinação de idades de metamorfismo
pela técnica de datação química de Pb.
Idades discordantes, normalmente,
resultam da perda de Pb durante eventos
metamórficos. Neste caso, análises de
zircões (ou outros minerais apropriados)
derivados de uma mesma amostra caem
sobre a discórdia. Os interceptos superior e
inferior da discórdia são interpretados como
as idades de cristalização e do evento
metamórfico, respectivamente (Fig. 2.9).
Discórdias também podem resultar
da presença de zircões herdados da fonte ou
de perda contínua de Pb. No primeiro caso,
o intercepto inferior fornece a idade da
rocha e o superior dá a indicação da idade de
seu protólito (Fig. 2.10). No segundo caso, o
intercepto superior corresponde à idade da
rocha e o inferior é forçado para zero.
Um grande número de análises pode
ser realizado em tempo relativamente curto
por SHRIMP e LA-ICP-MS. Isto tem feito
com que estes métodos sejam cada vez mais
utilizados em estudos de proveniência de
seqüências supracrustais, permitindo inferir
as possíveis áreas fontes que forneceram
Figura 2.9. Idades discordantes resultantes de
perda de Pb durante a orogênese brasiliana em
ortognaisse paleoproterozóico. Idades obtidas por
LA-ICP-MS.
Figura 2.8. Diagrama concórdia U-Pb para zircões
do plúton Cachoeirinha, Estado de Pernambuco.
Idades obtidas por LA-ICP-MS.
14
detritos para a bacia sedimentar (Fig. 2.11).
Estes estudos também fornecem a idade
máxima de deposição, que deve ser mais
jovem que a do zircão mais novo analisado.
2.6. Termocronologia
2.6.1. Método 40Ar – 39Ar
Os três isótopos naturais do argônio
são 36Ar, 38Ar e 40Ar. Este último é o mais
abundante (99,6%) e resulta do decaimento
do 40K:
40Ar = 40K (eλt – 1)
O 40K também produz 40Ca por decaimento
radioativo e a equação acima deve ser
corrigida para levar este fato em
consideração. No entanto, sendo a meia vida
do 40Ca muito menor que a do 40Ar, a
equação é válida como uma primeira
aproximação e constitui a base do cálculo de
idades pelo método K-Ar. O problema com
este método reside no fato do Ar ser um gás
e, assim, facilmente perdido do sistema,
fazendo com que as idades obtidas sejam,
em geral, imprecisas. Atualmente, o método
K-Ar só é empregado para rochas
relativamente jovens e inalteradas, tendo
sido suplantado pelo método Ar-Ar.
O método de datação Ar-Ar depende
do bombardeamento de 39K por nêutrons em
um reator nuclear para produzir 39Ar. A
reação é:
39K + n → 39Ar + p
Onde n é um nêutron e p um próton. A
proporção de 39Ar produzido é proporcional
à quantidade de 39K presente na amostra
antes da irradiação:
39Ar = c39K
Combinando-se esta equação com a primeira
obtém-se:
40Ar/39Ar = 40K/c39K (eλt – 1) = (eλt – 1)/D
Se uma amostra de idade conhecida tS for
irradiada juntamente com a amostra
estudada, o termo D pode ser determinado:
D = (eλts – 1) 39Ars/40Ars
Logo:
40Ar/39Ar = (eλt – 1)/(eλts – 1) 40Ars/39Ars
Figura 2.10. Discórdia resultante da presença de
grãos de zircão herdados da fonte no Granito
Cabanas, Estado de Pernambuco. Idades obtidas
por LA-ICP-MS.
Figura 2.11. Diagrama mostrando a distribuição
de idades concordantes de zircões (obtidas por
LA-ICP-MS) de um paragnaisse pelítico do
Complexo Surubim, Pernambuco. As análises
mostram que o gnaisse foi derivado de fontes com
idades paleoproterozóicas, mesoproterozóicas e
neoproterozóicas e que a deposição da seqüência
ocorreu após 665 Ma.
15
Uma idade t pode ser obtida a partir da
equação acima para diferentes temperaturas.
Para datar uma rocha ou mineral pelo
método Ar-Ar, a amostra é aquecida passo a
passo a diferentes temperaturas. A razão
40Ar/39Ar do gás liberado em cada etapa é
medido em um espectrômetro de massa. Os
resultados são apresentados em um gráfico,
onde as idades calculadas são projetadas
contra a percentagem de gás liberado (Fig.
2.12). Idealmente, as idades determinadas a
cada temperatura deveriam ser idênticas,
mas considera-se que o resultado é
satisfatório se as idades forem coincidentes
para três ou mais passos correspondendo a
mais de 70% do gás liberado. Esta idade é
chamada idade platô. Na técnica 40Ar/39Ar
clássica é utilizada uma população de
numerosos grãos de um mineral, os quais
são aquecidos em um forno. O método
40Ar/39Ar por sonda laser, introduzido mais
recentemente, permite a datação de grãos
individuais (Fig. 2.12) e mesmo de zonas
locais no interior do grão.
O argônio não pode ser retido no
interior de um mineral até que uma
temperatura suficientemente baixa, chamada
temperatura de fechamento, tenha sido
atingida. A temperatura de fechamento
depende de vários fatores, dentre os quais os
mais importantes são a estrutura do mineral,
a granulação e a taxa do resfriamento. As
temperaturas de fechamento para
hornblenda, muscovita e biotita (minerais
mais comumente utilizados para datação
pelo método Ar-Ar) são, respectivamente,
da ordem de 530º, 380º e 300ºC.
2.6.2. Datação por traços de fissão
A fissão espontânea do 238U produz
nuclídeos que se movimentam em direções
opostas. Isto causa um dano na estrutura
cristalina do mineral, deixando um traço que
pode ser observado ao microscópio. Se a
temperatura é elevada, este traço é
rapidamente cicatrizado. No caso da apatita,
os traços de fissão têm cerce de 14 µm e
podem ser, em boa parte, preservados para
temperaturas abaixo de cerca de 100ºC.
Assim, a densidade de traços de fissão em
um cristal é proporcional ao tempo
decorrido após a rocha ter atingido essa
temperatura.
2.6.3. Aplicações
O método Ar-Ar pode ser utilizado
para obter idades de cristalização de rochas
ígneas que tenham resfriado rapidamente ou
de rochas metamórficas de baixo grau. No
caso de rochas ígneas e metamórficas de alto
grau que sofreram resfriamento lento, a
idade (ou idades) 40Ar/39Ar não corresponde
à idade de cristalização, mas sim ao tempo
que a rocha foi resfriada abaixo da
temperatura de fechamento do mineral
analisado (note a diferença de idade entre
grãos de anfibólio e biotita na Fig. 2.12). Em
combinação com o método U-Pb e/ou de
traços de fissão em apatita, isto permite que
estimativas de taxas de resfriamento crustal
sejam feitas, o que é muito importante em
estudos metamórficos.O método de traços
de fissão é ainda empregado em estudos de
denudação e erosão.
2.7. A escala do tempo geológico
Para o Fanerozóico, as subdivisões
da escala do tempo geológico são baseadas
em critérios paleontológicos e
estratigráficos. Ela é numericamente
Figura 2.12. Espectro de idades aparentes
40Ar/39Ar para grãos de anfibólio e biotita de um
ortognaisse diorítico na região de Taquaritinga do
Norte, Estado de Pernambuco. P = idade platô.
16
calibrada pela datação de rochas apropriadas
e tem sido continuamente refinada à medida
que progressos nas técnicas geocronológicas
permitem a obtenção de idades com precisão
e exatidão cada vez maior.
Para o Precambriano, a subdivisão do
tempo geológico é puramente cronológica.
O limite entre os éons Arqueano e
Proterozóico é colocado a 2,5 Ga e eles
correspondem, respectivamente, a mais de
um terço e à quase metade da história
geológica da Terra. O Arqueano é
subdividido em Paleoarqueano,
Mesoarqueano e Neoarqueano, e o
Proterozóico, em Paleoproterozóico,
Mesoproterozóico e Neoproterozóico. O éon
pré-arqueano é conhecido como Hadeano.
Uma divisão das eras do
Proterozóico em períodos foi proposta pela
União Internacional das Ciências Geológicas
(International Union of Geological
Sciences; IUGS), mas não tem sido
amplamente empregada e não será utilizada
neste livro. Quando necessário, termos
informais como Paleoproterozóico inferior e
Mesoproterozóico superior, por exemplo,
serão utilizados e não os períodos
equivalentes propostos pela IUGS
(Sideriano, Esteniano). Uma escala do
tempo geológico simplificada é mostrada na
Figura 2.13.
Referências Selecionadas
Dickin, A.P., 2005. Radiogenic Isotope Geology, 2ª
Ed., Cambridge University Press.
Faure, G., 1986. Principles of Isotope Geology, 2ª
Ed., Wiley.
Foster, G., Parrish, R.R., Horstwood, M.S.A.,
Chenery, S., Pyle, J.Gibson, H.D., 2004. The
generation of prograde P-T-t points and paths: a
textural, compositional, and chronological study
of metamorphic monazite. Earth and Planetary
Science Letters 228, 125-142.
Hanchar, J.M., Hoskin, P.W.O. (eds.), 2003. Zircon.
Reviews in Mineralogy and Geochemistry 59,
469-500.
Hodges, K.V., 2005. Geochronology and
thermochronology in orogenic systems. In:
Rudnick, R.L. (ed.) The Crust. Treatise on
Geochemistry 3, 263-292, Elsevier.
Jackson, S.E., Pearson, N.J., Griffin, W.L.,
Belousova, E.A., 2004. The application of laser
ablation-inductively coupled plasma-mass
spectrometry to in situ U-Pb zircon
geochronology. Chemical Geology 211, 47-69.
Patchett, P.J., Samson, S.D., 2005. Ages and growth
of the continental crust from radiogenic isotopes.
In: Rudnick, R.L. (ed.) The Crust. Treatise on
Geochemistry 3, 321-348, Elsevier.
Silva, L.C., 2006. Geocronologia aplicada ao
mapeamento regional, com ênfase na técnica U-
Pb SHRIMP e ilustrada com exemplos
brasileiros. Publicações Especiais do Serviço
Geológico do Brasil 1, 1-132.
Figura 2.13. Esquema mostrando as principais
subdivisões do tempo geológico.
17
3. Estrutura e Composição do Interior da Terra
3.1. Introdução
O principal método para determinar a
estrutura interna da Terra é o estudo da
propagação de ondas elásticas através do seu
interior. O ramo da geofísica que se ocupa
desse estudo é chamado de Sismologia. A
determinação da composição das diferentes
camadas da terra revelada pela sismologia é
feita por uma combinação de métodos.
Dentre estes, destacam-se estudos
geoquímicos e petrológicos de rochas
presentes na superfície ou transportadas para
a superfície durante eventos magmáticos ou
tectônicos, e a determinação das
propriedades físicas dos minerais em
laboratório sob condições variáveis de
pressão e temperatura.
3.2. Ondas sísmicas
Uma rocha submetida a um esforço
sofre, inicialmente, uma deformação elástica.
Terremotos são gerados quando o esforço
aplicado supera a resistência da rocha,
levando à sua ruptura. Quando isto ocorre, a
energia elástica armazenada é subitamente
liberada e se propaga em todas as direções
por meio de ondas sísmicas. Existem vários
tipos de ondas sísmicas. As mais importantes
para o estudo da estrutura do interior da
Terra são as ondas P e S (Fig. 3.1).
As ondas P são chamadas primárias,
porque sua velocidade de propagação é maior
que a das ondas S (secundárias) e, assim, elas
chegam mais rapidamente a uma estação de
registro sismológico. A direção de
propagação das ondas P é paralela à direção
de vibração, como no caso das ondas
sonoras. Por isso, elas são também
conhecidas como ondas longitudinais ou
compressionais (Fig. 3.1). Nas ondas S, a
direção de vibração é perpendicular à direção
de propagação, sendo elas, também,
chamadas de transversais ou cisalhantes (Fig.
3.1).
As ondas P podem se propagar em
meios sólidos, líquidos ou gasosos. As ondas
S só se propagam em meios sólidos porque
líquidos não apresentam resistência se
submetidos a esforços cisalhantes. Quando
uma onda em propagação passa de um meio
para outro com propriedades físicas
diferentes, ela pode sofrer refração e/ou
reflexão e aumentar ou diminuir a
velocidade. São essas variações de direção e
de velocidade que permitem a determinação
da estrutura interna da Terra. Regiões
caracterizadas por um aumento ou
diminuição brusca na velocidade de
propagação das ondas sísmicas são chamadas
de descontinuidades sísmicas.
Os estudos sismológicos podem
utilizar ondas sísmicas produzidas por fontes
passivas ou ativas. No primeiro caso, as
ondas sísmicas são provenientes de
terremotos naturais distantes e registradas em
estações sismológicas. No segundo caso, as
fontes de energia são geradas artificialmente
e medidas em receptores espalhados ao longo
de linhas sísmicas. Os tremores podem ser
causados por explosões com tempo
controlado ou por vibrações produzidas por
caminhões especialmente equipados para este
fim.
Figura 3.1. Diagrama em duas dimensões
ilustrando a diferença entre ondas P e S.
18
3.3 Características sísmicas das camadas
da Terra
A Figura 3.2 mostra um modelo da
variação das velocidades sísmicas com o
aumento da profundidade obtido a partir da
análise de um grande número de medidas. A
partir dela, infere-se que as principais
divisões sismológicas da Terra são a crosta, o
manto e o núcleo, sendo o manto subdividido
em três camadas e o núcleo em duas (Fig.
3.3). A crosta é separada do manto pela
descontinuidade de Mohorovicic (ou
simplesmente Moho), a qual se situa,
tipicamente, entre 30 e 50 km de
profundidade, em regiões continentais, e a 10
km de profundidade, em regiões oceânicas. A
espessura da crosta é tão pequena quando
comparada com raio da Terra, que ela quase
não é visível na Figura 3.2. O manto é
separado do núcleo por uma descontinuidade
que ocorre a 2890 km de profundidade, a
qual é, às vezes, chamada descontinuidade de
Gutenberg. Ondas S não se propagam através
do núcleo externo, indicando que o mesmo é
líquido.
A divisão da camada mais externa da
Terra em crosta continental e crosta oceânica
é baseada, primariamente, na profundidade
da Moho, com a espessura da primeira
variando de 14 a 80 km e, a da segunda,
tipicamente de 6 a 8 km. Em algumas regiões
continentais, é observado um contato
gradual, ocorrendo a profundidades entre 12
e 20 km, dependendo do local, chamado
“descontinuidade” de Conrad, que separa a
crosta superior da crosta média/inferior. Na
maioria das regiões, porém, a crosta
continental é mais bem descrita como
constituída por uma estrutura com três
camadas. Um exemplo é mostrado na Figura
3.4. Na crosta superior (<15 km),
velocidades de ondas P (VP ou α)entre 6,0 e
6,3 km/s são características; valores entre 6.8
e 7.2 km/s predominam na crosta inferior
(abaixo de 30 km). A crosta oceânica
consiste de três camadas sísmicas: a camada
1 tem baixos valores de VP (em torno de 2
km/s), na camada 2 os valores de VP são
ainda baixos, mas atingem até 6 km/s, e a
camada 3 tem VP entre 6,8 e 7,3 km/s (Fig.
3.5).
A descontinuidade de Mohorovicic é,
geralmente, bem definida, tanto em regiões
continentais como oceânicas, e marcada pelo
Figura 3.2. Variação de velocidades sísmicas (α -
ondas P, β - ondas S) e de densidade (ρ) com o
aumento da profundidade no interior da Terra.
Figura 3.3. Principais subdivisões do interior da
Terra de acordo com a terminologia mais
freqüentemente utilizada.
19
aumento de velocidade das ondas P de 7,2-
7,3 km/s na base da crosta para 8,0-8,1 km/s
no manto.
Duas descontinuidades bem marcadas
ocorrem dentro do manto a profundidades de
410 e 660 km (Figs. 3.2 e 3.3). A região
acima da descontinuidade de 410 km
corresponde ao manto superior. Neste, uma
zona de atenuação das ondas sísmicas,
estendendo-se de profundidades entre 50-100
km até 150-200 km, é observada em muitas
regiões oceânicas, mas nem sempre
encontrada abaixo de regiões continentais,
especialmente de suas partes mais antigas.
Esta região é chamada zona de baixa
velocidade ou simplesmente LVZ (das
iniciais em inglês para low velocity zone). A
região entre as descontinuidades de 410 e
660 km é chamada zona de transição e,
abaixo dela, tem-se o manto inferior. Os
gradientes de velocidades na porção inferior
do manto indicam que esta região, chamada
de camada D´´, é lateral e verticalmente
heterogênea, com espessuras variando de
menos de 150 km até mais de 300 km.
Na base do manto, a velocidade das
ondas P decresce bruscamente de 14 km/s
para 8 km/s e as ondas S deixam de se
Figura 3.4. Perfis de velocidades de ondas P e S (acima) e modelo 2D de velocidades de ondas P (abaixo) para a
Faixa Brasília e porção ocidental do cráton São Francisco ao longo da linha sísmica mostrada no mapa da
esquerda.
Figura 3.5. Correlação entre a estrutura sísmica da
crosta oceânica e os tipos litológicos presentes a
diferentes profundidades em uma seqüência
ofiolítica completa.
20
propagar. Uma descontinuidade a 5150 km
de profundidade separa o núcleo externo
líquido do núcleo interno sólido. Alguns
autores intitulam esta descontinuidade de
Lehmann, mas outros utilizam este termo
para a base da LVZ.
3.4. Composição da crosta
3.4.1. Crosta continental
A composição da crosta continental
superior é bem conhecida, porque seções
representando níveis crustais diferentes estão
expostas na superfície, podendo ser
estudadas diretamente no campo. Galerias e
furos de sonda estendem a observação direta
das rochas até 13 km de profundidade. Estes
estudos mostram que a crosta continental
superior é constituída predominantemente de
rochas ígneas e metamórficas capeadas por
uma cobertura de rochas sedimentares que
representam apenas uma pequena fração de
seu volume. Os seguintes métodos são
empregados para estimar a composição
química da crosta continental superior: (a)
determinação de médias ponderadas da
composição de rochas expostas na superfície;
(b) determinação das composições médias de
elementos insolúveis em sedimentos clásticos
finos (argilitos); (c) determinação da
composição química média de depósitos
glaciais e loess. Diferentes estimativas
mostram que a composição média aproxima-
se da de um granodiorito (Tabela 3.1).
A composição da crosta continental
mais profunda é inferida a partir de dados
sísmicos e daqueles provenientes da
petrologia experimental e do estudo de
xenólitos encontrados em algumas rochas
vulcânicas. Embora existam discrepâncias
entre diferentes estimativas, a combinação
dos resultados provenientes desses diferentes
campos mostra que, em geral, a crosta
continental torna-se mais máfica com o
aumento da profundidade. A crosta inferior
consiste de rochas na fácies granulito e é
quimicamente equivalente a gabro, enquanto
a crosta média é composta de rochas na
fácies anfibolito e tem composição
intermediária (Tabela 3.1).
Tabela 3.1. Estimativa para a composição química da
crosta continental (Rudnick e Gao, 2005). Óxidos em
%; elementos em ppm.
Óxido/
Elemento
Crosta
superior
Crosta
média
Crosta
inferior
Crosta
total
SiO2 66,6 63,5 53,4 60,6
TiO2 0,64 0,69 0,82 0,72
Al2O3 15,4 15,0 16,9 15,9
FeOT 5,04 6,02 8,57 6,71
MnO 0,10 0,10 0,10 0,10
MgO 2,48 3,59 7,24 4,66
CaO 3,59 5,25 9,59 6,41
Na2O 3,27 3,39 2,65 3,07
K2O 2,80 2,30 0,61 1,81
P2O5 0,15 0,15 0,10 0,13
Sc 14,0 19 31 21,9
V 97 107 196 138
Cr 92 76 215 135
Co 17,3 22 38 26,6
Ni 47 33,5 88 59
Cu 28 26 26 27
Zn 67 69,5 78 72
Ga 17,5 17,5 13 16
Rb 82 65 11 49
Sr 320 282 348 320
Y 21 20 16 19
Zr 193 149 68 132
Nb 12 10 5 8
Ag 53 48 65 56
Sn 2,1 1,30 1,7 1,7
Sb 0,4 0,28 0,10 0,2
Ba 628 532 259 456
La 31 24 8 20
Ce 63 53 20 43
Pr 7,1 5,8 2,4 4,9
Nd 27 25 11 20
Sm 4,7 4,6 2,8 3,9
Eu 1,0 1,4 1,1 1,1
Gd 4,0 4,0 3,1 3,7
Tb 0,7 0,7 0,48 0,6
Dy 3,9 3,8 3,1 3,6
Ho 0,83 0,82 0,68 0,77
Er 2,3 2,3 1,9 2,1
Tm 0,30 0,32 0,24 0,28
Yb 2,0 2,2 1,5 1,9
Lu 0,31 0,4 0,25 0,30
Hf 5,3 4,4 1,9 3,7
Ta 0,9 0,6 0,6 0,7
W 1,9 0,60 0,60 1
Re 0,198 0,18 0,188
Os 0,031 0,05 0,041
Ir 0,022 0,05 0,037
Pt 0,5 0,85 2,7 1,5
Au 1,5 0,66 1,6 1,3
Hg 0,05 0,0079 0,014 0,03
Pb 17 15,2 4 11
Th 10,5 6,5 1,2 5,6
U 2,7 1,3 0,2 1,3
21
As velocidades das ondas sísmicas em
rochas félsicas, intermediárias e máficas,
medidas em laboratório sob condições de
pressão e temperatura apropriadas para a
crosta continental, coincidem,
respectivamente, com aquelas determinadas
pela sismologia para a crosta superior, média
e inferior. Assim, existe uma boa
correspondência entre as estimativas da
composição da crosta, obtidas pela
geoquímica, com os resultados experimentais
e sismológicos. Em vista disto, é amplamente
aceito que a composição global da crosta
continental é andesítica (diorítica).
Embora o volume da crosta
continental corresponda a, apenas, cerca de
0,6 % do volume total da Terra, ela concentra
uma proporção significativa dos elementos-
traço incompatíveis (35-55% de Rb, Ba, K,
Th e U).
3.4.2. Crosta oceânica
A composição da crosta oceânica é
estimada a partir de amostras dragadas do
assoalho oceânico; de testemunhos colhidos
através de perfurações; de amostras obtidas
com o uso de submersíveis em zonas de
fratura, onde porções mais profundas da
crosta podem ser observadas; e por
comparação com a composição de ofiolitos.
Ofiolitos são seqüências interpretadas como
fragmentos da crosta oceânica e da porção
mais superior do manto, posicionadas nos
continentes como resultado de esforços
tectônicos (ver Capítulo 7).
A combinação desses métodos mostra
que as três camadas definidas pelo estudo das
ondas sísmicas consistem de (Fig. 3.5): (a)
sedimentos inconsolidados (chert, argila
vermelha e calcáreo) ricos em
microorganismos planctônicos (Camada 1);
(b) derrames de basaltos toleíticos com
estruturas em almofada (pillow lavas), na
posição superior, e enxames de diques de
diabásio verticais (interpretados como os
condutos para os basaltos sobrejacentes), na
porção inferior (Camada 2); (c) gabros e
metagabros com intercalações de
plagiogranito, serpentinito e cumulados
ultramáficos (Camada 3). Assim, a
composição química média da crosta
oceânica é máfica, similar, portanto, à da
crosta continental inferior.
3.5. Tipos e províncias crustais
3.5.1. Tipos crustais
Um tipo crustal é um segmentocontínuo da crosta com características
geológicas e geofísicas similares. Os
principais parâmetros utilizados para
diferenciar tipos crustais são a espessura e
estrutura sísmica (Fig. 3.7), mas tipos
crustais geralmente coincidem com feições
fisiográficas maiores na superfície da Terra
(Fig. 3.6).
O tipo crustal mais extenso é
representado pelas bacias oceânicas, cuja
estrutura é mostrada na Figura 3.5. Bacias
oceânicas têm 6 a 8 km de espessura,
superfície aplainada, e uma cobertura de
lâmina d’água com 5 a 7 km (Fig. 3.6).
Cadeias ou dorsais oceânicas são cadeias de
montanhas submarinas que se elevam 2 a 3
km acima do fundo oceânico, podendo,
eventualmente, emergir, a exemplo da
Islândia. Seu comprimento total é superior a
65.000 km (Fig. 3.6) e espessuras entre 3 e 6
km. A Camada 1 é ausente ou muito delgada
nas dorsais oceânicas e aumenta de espessura
em direção aos continentes. Também
presentes em regiões oceânicas são os arcos
de ilhas, cadeias de ilhas vulcânicas com
formas arqueadas. A espessura da crosta em
arcos de ilhas varia de 10 a 40 km (Fig. 3.7).
Além da espessura maior, arcos de ilhas
podem ser distinguidos das dorsais oceânicas
por serem margeados, de um lado, por fossas
oceânicas, sulcos profundos no assoalho que
podem atingir até 11 km de profundidade, e,
do lado oposto, por bacias marginais ou
retro-arco (Fig. 3.6). A crosta oceânica nas
bacias retro-arco é mais espessa que nas
bacias oceânicas (10 km, em média) devido a
uma maior espessura da camada sedimentar.
Em contraste com os arcos de ilhas, ilhas
oceânicas marcam a terminação de cadeias
lineares de vulcões extintos. Finalmente, são,
ainda, encontradas nos oceanos feições não
22
lineares representadas por platôs submarinos
(ou oceânicos). A estrutura, bem como a
origem, desses diferentes tipos crustais
oceânicos é discutida com mais detalhes nos
capítulos 5 e 6.
Figura 3.7. Estrutura sísmica de diferentes tipos crustais continentais e de arcos de ilhas.
Figura 3.6. Topografia da Terra mostrando as feições principais abaixo dos oceanos e nos continentes.
23
Quatro tipos crustais principais são
reconhecidos nos continentes. Escudos e
plataformas são regiões estáveis compostas
de rochas precambrianas. Escudos possuem
pouca ou nenhuma cobertura sedimentar,
enquanto as plataformas têm uma cobertura
de rochas supracrustais, tipicamente com 1 a
3 km de espessura. Escudos e plataformas
têm relevo pouco acentuado e espessura
média de 42 km (Fig. 3.7). Uma plataforma
pode envolver vários escudos. Por exemplo,
na plataforma Sul-Americana, ou seja, na
região a leste dos Andes, são reconhecidos
os escudos Atlântico, Brasil Central e da
Guiana.
Cinturões orogênicos paleozóicos
são cinturões alongados e curvilineares
formados por deformação e metamorfismo
durante o Paleozóco. Exemplos incluem os
Apalaches, no leste da América do Norte, e
os Pirineus, entre a Espanha e a França. A
espessura desse tipo crustal é um pouco
menor que a de escudos e plataformas,
variando de 30 a 40 km (Fig. 3.7), e sua
expressão superficial é o de cadeias de
montanhas erodidas, geralmente com 1 a 2
km de altitude. Cinturões orogênicos meso-
cenozóicos, por outro lado, formam cadeias
de montanhas com relevo bastante
acentuado e podem apresentar espessuras de
até 70-80 km (Fig. 3.7). Exemplos incluem
os Andes, no oeste da América do Sul; o
Himalaia, na Índia e Paquistão; e os Alpes,
na Europa.
Riftes continentais são regiões
caracterizadas pela presença de um vale
(tipicamente com 30-75 km de largura)
limitado por falhas extensionais, comumente
com 25 a 35 km de espessura (Fig. 3.7).
Embora presentes em regiões de crosta
continental atenuada, como resultado de
deformação extensional, as altitudes não são
necessariamente baixas. Por exemplo,
altitudes acima de 3 km são comuns ao
longo do sistema de riftes do leste da África,
o mais extenso sistema de riftes
continentais, com um comprimento de 6.500
km (Fig. 6.2). Espessuras similares à de
riftes continentais são observadas ao longo
de margens rifte ou margens continentais
passivas. Apesar de situadas abaixo do nível
do mar, a estrutura e composição das
margens rifte indicam que elas são formadas
por crosta continental. A passagem de uma
margem passiva para a crosta oceânica típica
pode ser gradual ou relativamente brusca.
3.5.2. Províncias crustais
Províncias crustais são segmentos da
crosta que possuem o mesmo intervalo de
idades geocronológicas e histórias
geológicas similares. Os limites entre
províncias podem ser marcados por falhas
ou zonas de cisalhamento, inconformidades,
rápidas mudanças no grau metamórfico ou
por contatos intrusivos. Províncias crustais
podem ser orogênicas ou anorogênicas.
Estas últimas podem ser ígneas ou
sedimentares, como exemplificados,
respectivamente, pelas bacias do Paraná e
Parnaíba e por grandes derrames basálticos.
Províncias orogênicas são resultantes de
deformação e metamorfismo. Exemplos,
com idades variando do Arqueano até o
presente, são discutidos nos capítulos 9 a 11.
O termo cráton normalmente é empregado
para províncias orogênicas tectonicamente
estabilizadas pelo menos desde o início do
Neoproterozóico, mas alguns autores
preferem restringir o termo para escudos ou
plataformas de idade arqueana. Províncias
orogênicas são, também, chamadas cinturões
orogênicos ou faixas móveis.
Os termos tipo crustal e província
crustal não são sinônimos, embora possam
coincidir em algumas situações, como no
caso de cinturões orogênicos fanerozóicos.
No entanto, uma província pode apresentar
variações de espessura e não
necessariamente consiste de um segmento
de crosta contínuo. Por exemplo, vulcões de
mesma idade distribuídos em uma região
relativamente grande compõem uma
província crustal, como é o caso da
província alcalina de Poços de Caldas. Por
outro lado, um tipo crustal pode englobar
24
vários segmentos de crosta com idades
diferentes, isto é, várias províncias. Por
exemplo, um escudo pode englobar um ou
mais crátons e faixas móveis proterozóicas,
como no caso do escudo canadense.
3.6. Composição do manto
Várias linhas de evidência são
utilizadas para a determinação da
composição química e mineralógica do
manto. Evidências diretas provêem de
exposições do manto superior no assoalho
oceânico, de xenólitos em magmas
kimberlíticos e basálticos, e da seção basal
de seqüências ofiolíticas. A parte mais
superficial do manto pode aflorar no
assoalho oceânico como resultado de
exumação por falhas normais ou
transformantes ou devido à ausência de
crosta oceânica. Se as rochas se soerguem
acima do nível do mar, como é o caso das
ilhas de São Paulo e São Pedro, uma
observação direta é possível. Caso contrário,
amostras podem ser obtidas por dragagem
ou perfurações. Estudos termobarométricos
indicam a extração de xenólitos mantélicos
de fontes situadas até cerca de 250 km,
permitindo a caracterização das rochas
presentes até esta profundidade.
A parte acessível do manto tem
composição química comparável à de certos
tipos de meteoritos. Assumindo-se que esses
meteoritos são remanescentes do material a
partir do qual a Terra foi formada, sua
composição química reflete a composição
global da Terra. As composições do manto e
do núcleo podem, então, ser calculadas a
partir da composição global levando-se em
consideração seus volumes relativos. A
composição do manto derivada dessa forma
corresponde à do manto primitivo, isto é,
antes da formação da crosta continental (ver
capítulos 2, 6 e 8).
Finalmente, a composição química
das rochas requerida para fornecer os
magmas basálticos erupcionados na
superfície da Terra pode sercalculada por
modelagem geoquímica. A rocha hipotética
derivada por este procedimento é chamada
de pirólito.
A Tabela 3.2 mostra estimativas da
composição química do manto, utilizando
diferentes metodologias. Os resultados são
similares e mostram que os óxidos SiO2,
MgO e FeO representam mais de 90% de
seu peso.
Tabela 3.2. Estimativas para a composição química
do manto segundo diferentes metodologias (óxidos
em %; elementos em ppm). (1) Pirólito
(McDonough, 1995); (2) xenólitos em vulcões
continentais intraplaca (Pearson et al., 2005); (3)
Manto empobrecido (Salters e Stracke, 2004); (4)
Manto primitivo (Palme e O’Neil, 2005).
Óxido/
Elemento
(1) (2) (3) (4)
SiO2 45,0 44,33 44,87 45,4
TiO2 0,20 0,10 0,20 0,16
Al2O3 4,45 2,41 4,33 4,49
FeO 8,05 8,07 8,09 8,1
MnO 0,13 0,13 0,15 0,14
MgO 37,8 41,84 38,13 36,77
CaO 3,55 4,85 3,52 3,65
Na2O 0,36 0,29 0,42
K2O 0,03 0,01 0,02
P2O5 0,02 0,03 0,01
Sc 16,2 12 16,3 16,5
V 82 59 79 86
Cr 2625 2819 2500 2520
Co 105 102 106 102
Ni 1960 2147 1960 1860
Cu 30 30 20
Zn 55 56 53,5
Ga 4 3,2 4,4
Rb 0,6 0,09 0,6
Sr 19,9 9,8 20,3
Y 4,3 4,1 4,37
Zr 10,2 7,94 10,81
Nb 0,66 0,21 0,59
Sn 0,13 0,1 0,14
Ba 6,6 1,2 6,75
La 0,65 0,23 0,69
Nd 1,25 0,71 1,32
Sm 0,41 0,27 0,43
Eu 0,15 0,11 0,16
Gd 0,54 0,39 0,57
Dy 0,67 0,53 0,71
Ho 0,15 0,12 0,16
Er 0,44 0,37 0,46
Yb 0,44 0,4 0,46
Hf 0,28 0,2 0,04
Pb 0,15 0,02 0,18
Th 0,08 0,01 0,08
U 0,02 0,005 0,02
25
As possíveis rochas presentes no
manto devem ter propriedades físicas
condizentes com aquelas obtidas a partir de
estudos sismológicos. Atualmente, já é
possível reproduzir em laboratório as
condições de pressão e temperatura
correspondentes até a base do manto.
Comparando-se os dados provenientes da
física dos minerais com os dados
sismológicos é possível predizer as fases
minerais presentes a diferentes
profundidades (Fig. 3.8).
3.6.1. Manto superior
As linhas de evidência acima
indicam que a descontinuidade de
Mohorovicic resulta de uma mudança de
composição, de rochas máficas na crosta
inferior para rochas ultramáficas no manto
superior. A mineralogia do manto superior
corresponde, portanto, à de um peridotito,
com olivina sendo o mineral mais abundante
(Fig. 3.8). Além dos constituintes normais
de um peridotito (olivina, clinopiroxênio,
ortopiroxênio), outra fase mineral deve estar
presente para incorporar o Al2O3, que
representa cerca de 4% do manto (Tabela
3.2). A natureza desta fase depende da
pressão (Fig. 3.9). Plagioclásio é a fase
estável em pressões baixas (<1 GPa), sendo
substituído por espinélio entre 1 e 2 GPa. A
pressões mais elevadas que 2 GPa, ocorre a
formação de granada. As reações
simplificadas que descrevem a
transformação de plagioclásio peridotito
para espinélio peridotito e, daí, para granada
peridotito são:
CaAl2Si2O8 (An) + 2Mg2SiO4 (Fo) =
MgAl2O4 (Sp) + Mg2Si2O6 (Opx) +
CaMgSi2O6 (Cpx)
MgAl2O4 (Sp) + 2Mg2Si2O6 (Opx) =
Mg3Al2Si3O12 (Py) + Mg2SiO4 (Fo)
onde An, Fo, Cpx, Opx, Sp e Py são,
respectivamente, anortita, forsterita,
clinopiroxênio, ortopiroxênio, espinélio e
piropo.
3.6.2. Zona de baixa velocidade
A existência da zona de baixa
velocidade no manto superior pode resultar
da presença de água, de fusão parcial
Figura 3.8. Proporções relativas dos minerais
presentes no manto a profundidades superiores a 80
km. (Mg, Fe)O – magnesiowüstita; MgPv – Mg-
perovskita; CaPv – Ca-perovskita.
Figura 3.9. Diagrama P-T mostrando as transições
de fase entre plagioclásio peridotito, espinélio
peridotito e granada peridotito.
26
incipiente, ou da orientação preferencial de
cristais de olivina. As duas últimas
explicações são as mais aceitas e
possivelmente atuam em conjunto.
Resultados experimentais mostram
que água livre não pode coexistir com os
minerais anidros presentes no manto
superior. Para pressões correspondentes a
profundidades inferiores a 100 km, água é
incorporada na estrutura de minerais
hidratados, como anfibólio ou flogopita. Em
profundidades maiores, a presença de água
rebaixa o solidus do peridotito e causa fusão
parcial incipiente (Fig. 3.10). Mesmo se a
percentagem de fusão é muito baixa
(<0,1%), isto pode causar uma redução
substancial na velocidade das ondas
sísmicas.
Além de composição, temperatura e
estado físico, a velocidade de propagação
das ondas sísmicas é, ainda, influenciada
pela microestrutura das rochas presentes em
profundidade. No caso da olivina, o mineral
mais abundante no manto superior (Fig.
3.8), a velocidade é máxima paralelamente
ao comprimento maior do grão. Este efeito é
chamado de anisotropia sísmica. Uma menor
velocidade de propagação das ondas
sísmicas na LVZ pode, portanto, refletir a
existência de um alinhamento horizontal dos
cristais de olivina.
3.6.3. Zona de transição e manto inferior
Estudos experimentais mostram que,
com o aumento da profundidade, piroxênio
entra progressivamente em solução sólida na
estrutura da granada. Assim, a base do
manto superior consiste essencialmente de
olivina e granada. O mineral resultante da
solução sólida completamente
homogeneizada de granada+piroxênio é
denominado majorita e é uma fase estável na
zona de transição (Fig. 3.8). Sob as
condições de pressão e temperatura
correspondentes à descontinuidade de 410
km, olivina sofre uma alteração na sua
estrutura e é convertida para um polimorfo
chamado de fase β ou wadsleyita (Fig. 3.8).
Esta transformação resulta em um aumento
de densidade de cerca de 8%, suficiente para
explicar o aparecimento da descontinuidade
sísmica. Assim, embora mudanças
composicionais possam contribuir para a
descontinuidade de 410 km, o principal fator
responsável pela mesma é uma transição de
fase.
A transição de olivina para a fase β é
causada pelo empacotamento mais denso
dos átomos de oxigênio com o aumento da
pressão. Isto faz com que o Si mude de uma
coordenação tetraédrica para octaédrica. Na
fase β, parte dos átomos de Si têm número
de coordenação 4 e parte número de
coordenação 6. A transformação completa
da fase β para a fase γ (ou ringwoodita),
onde todos os átomos de Si têm coordenação
6, dá-se a profundidades entre 510 e 540 km.
A metade inferior da zona de transição
consiste, portanto, de majorita+ringwoodita
(Fig. 3.8).
A descontinuidade de 660 km é
atribuída a outra mudança de fase, desta vez
envolvendo a transformação de ringwoodita
((Mg,Fe)2SiO4) para Mg-perovskita
((Mg,Fe)SiO3) e magnesiowüstita (ou
ferropericlásio) ((Mg,Fe)O) (Fig. 3.8):
(Mg,Fe)2SiO4 = (Mg,Fe)SiO3 + (Mg,Fe)O
Figura 3.10. Presença de água no manto rebaixa
o solidus do peridotito. A geoterma cruza o
solidus hidratado (o que resulta em fusão
parcial) numa profundidade equivalente àquela
detectada sismicamente para o topo da LVZ.
27
Embora seja consenso que a
descontinuidade de 660 km resulta da
transição de fase acima, ainda é debatido se
o manto inferior tem ou não a mesma
composição do manto superior. Em
particular, tem sido sugerido que o manto
inferior é relativamente enriquecido em
ferro ou em sílica em comparação com o
manto superior. No entanto, devido à
consistência entre observações sismológicas
e resultados experimentais, a opinião
dominante é que o manto inferior tem uma
composição similar à do manto superior.
No manto inferior, a maior parte do
Al2O3 contido na majorita é acomodada na
estrutura da Mg-perovskita, enquanto CaO
forma outro silicato também com a estrutura
da perovskita (Ca-perovskita; CaSiO3).
Na2O, NiO e Cr2O3, os três outros óxidosmais abundantes no manto, entram na
estrutura da magnesiowüstita.
Algumas inclusões encontradas em
diamantes e em xenólitos em rochas
vulcânicas foram interpretadas como
consistindo de majorita, Mg-perovskita, Ca-
perovskita e Fe-periclásio. Isto representaria
uma confirmação direta da mineralogia da
zona de transição e do manto inferior
determinada em laboratório, mas estas
observações ainda são disputadas.
Em contraste com o manto superior e
o manto inferior, a solubilidade de H2O nos
minerais presentes na zona de transição é
elevada (1-3%). O manto superior é
praticamente anidro (0,01% H2O) e a
concentração de H2O no manto inferior é
muito baixa (0,05% H2O), mas estimativas
para a concentração de água na zona de
transição variam de 0,1 a 2%.
3.6.4. Camada D’’
Mg-perovskita é estável até
profundidades de 2550-2750 km,
correspondentes ao topo da camada D´´, o
que o torna o mineral mais abundante na
Terra (Fig. 3.11). Uma transição de
perovskita para uma fase denominada pós-
perovskita foi, recentemente, observada em
laboratório. Esta descoberta sugere que a
pós-perovskita é o mineral preponderante na
camada D´´ (Fig. 3.11).
Na base da camada D´´, foi, também,
recentemente detectada uma região
descontínua, com 7-8 km de espessura,
apresentando uma redução de, pelo menos,
10% na velocidade de propagação das ondas
sísmicas. A presença desta região de ultra-
baixa velocidade (ULVZ, das iniciais em
inglês para ultra-low velocity zone) indica a
existência de mais de 15% de fusão parcial.
Estas descobertas têm importantes
implicações para a dinâmica do manto e
serão abordadas nos próximos capítulos.
3.7. Composição do núcleo
Uma série de evidências indica que
ferro metálico deve ser o principal
constituinte do núcleo: (a) analogias com
meteoritos (ver Capítulo 8); (b)
disponibilidade durante o crescimento da
Terra, já que ferro é o elemento pesado mais
abundante no Sol e, portanto, existiria em
quantidades significativas no início de
formação do sistema solar; (c) similaridade
entre a densidade do núcleo e a velocidade
de propagação das ondas P para o ferro
determinadas experimentalmente em
laboratório ou inferidas a partir de estudos
teóricos; (d) o requerimento de um núcleo
Figura 3.11. Proporções minerais relativas no
manto. Cpx+Opx – clino- e ortopiroxênio, Ol –
olivina, Mj – majorita, CaPv – cálcio-perovskita,
MgPv – magnésioperovskita, Mw – magnésio-
wüstita, Post-Pv – pós-perovskita.
28
líquido metálico para gerar o campo
magnético da Terra. Devido à abundância de
Ni e de seu caráter siderófilo, este elemento
também deve ser um elemento maior no
núcleo (cerca de 5%). Pela mesma razão,
quantidades substanciais de Cr, Co, Mn e Cu
também são prováveis (Tabela 3.3).
A densidade do núcleo externo é
cerca de 10% inferior à do ferro nas
condições de pressão e temperatura
correspondentes. Isto requer a presença de
elementos mais leves em quantidades
razoáveis (10-15%). Os elementos leves
propostos como componentes principais são
O, Si, C, P e S (Tabela 3.3). Embora alguns
resultados experimetnais recentes sugiram
que O e Si possam coexistir, a maioria dos
estudos sugerem que eles são mutuamente
excludentes. Dessa maneira, atualmente, Si é
favorecido como o principal elemento leve
no núcleo. Como o núcleo externo, o núcleo
interno também deve conter um elemento de
número atômico baixo para explicar suas
propriedades físicas, porém a quantidade
requerida é menor (3-7%).
Referências selecionadas
Allègre, C.J., Poirier, J.P., Humler, E.,Hofmann,
A.W., 1995. The chemical composition of the
Earth. Earth and Planetary Science Letters 134,
515-526.
Badro, J., Fiquet, G., Guyot, F., Gregoryanz, E.,
Occelli, F., Antonangeli, D., d’Astuto, M., 2007.
Effect of light elements on the sound velocities
in solid iron: implications for the composition of
Earth’s core. Earth. Earth and Planetary Science
Letters 254, 233-238.
Bina, C.R., 2005. Seismological constraints upon
mantle composition. In: Carlson, R.W. (ed.) The
Mantle and Core. Treatise on Geochemistry 2,
39-59.
Bercovici, D., Karato, S.-I., 2003. Whole-mantle
convection and the transition-zone water filter.
Nature 425, 39-44.
Bodinier, J.L., Godard, M., 2005. Orogenic,
ophiolitic, and abyssal peridotites. In: Carlson,
R.W. (ed.) The Mantle and Core. Treatise on
Geochemistry 2, 103-170.
Christensen, N.I., Mooney, W.D., 1995. Seismic
velocity structure and composition of the
continental crust: a global view. Journal of
Geophysiacl Research 100, B7, 9761-9788.
Collerson, K.D., Hapugoda, S., Kamber, B.S.,
Williams, Q., 2000. Rocks from the mantle
transition zone: majorite-bearing xenoliths from
Malaita, southwest Pacific. Science 288, 1215-
1223.
Drake, M.J., Righter, K., 2002. Determining the
composition of the Earth. Nature 416, 39-44.
Hayman, C.P., Kopylova, M.G., Kaminsky, F.V.,
2005. Lower mantle diamonds from Rio Soriso
(Juina area, Mato Grosso, Brazil). Contributions
to Mineralogy and Petrology 149, 430-445.
Helffrich, G.R., Wood, B.J., 2001. The Earth’s
mantle. Nature 412, 501-507.
Hirose, K., 2006. Postperovskite phase transition and
its geophysical implications. Reviews of
Geophysics 44, doi: 2005RG000186.
Li, J., Fei, Y., 2005. Experimental constraints on core
composition. In: Carlson, R.W. (ed.) The Mantle
and Core. Treatise on Geochemistry 2, 521-546.
McDonogh, W.F., 2005. Compositional model of the
Earth’s core. In: Carlson, R.W. (ed.) The Mantle
and Core. Treatise on Geochemistry 2, 547-568.
McDonogh, W.F., Sun, S.S., 1995. The composition
of the Earth. Chemical Geology 120, 223-253.
McLennan, S.M., 2001. Relationships between the
trace element composition of sedimentary rocks
and upper continental crust. Geochemistry
Geophysics Geosystems 2, doi: 2000GC000109.
Nguyen, J.H., Holmes, N.C., 2004. Melting of iron at
the physical conditions of the Earth's core.
Nature 427, 339-342.
Palme, H., O’Neill, H.St.C., 2005. Cosmochemical
estimates of mantle composition. In: Carlson,
R.W. (ed.) The Mantle and Core. Treatise on
Geochemistry 2, 1-38.
Pearson, D.P., Canil, D., Shirey, S.B., 2005. Mantle
samples included in volcanic rocks: xenoliths
and diamonds. In: Carlson, R.W. (ed.) The
Mantle and Core. Treatise on Geochemistry 2,
171-275.
Tabela 3.3. Estimativas para a composição química
do núcleo externo. (1) Allègre et al. (1995); (2)
McDonough (2005); (3) Badro et al. (2007).
Óxido/
Elemento
(1) (2) (3)
Fe (%) 79,4 85,5
Ni (%) 4,9 5,2
Si (%) 7,3 6 2,8
S (%) 2,3 1,9 0
O (%) 4,1 0 5,3
C (%) 0 0,2
P (%) 0,11 0,2
Cr (%) 0,78 0,9
Co (%) 0,28 0,25
Mn
(ppm)
5820 300
29
Romanowickz, B., 2008. Using seismic waves to
image Earth’s internal structure. Nature 451,
266-268.
Rudnick, R.L., Fountain, D.M., 1995. Nature and
composition of the continental crust: a lower
crustal perspective. Reviews of Geophysics 33,
267-309.
Rudnick, R.L., Gao, S., 2005. Composition of the
continental crust. In: Rudnick, R.L. (ed.) The
Crust. Treatise on Geochemistry 3, 1-64,
Elsevier.
Salters, J.M., Stracke, A., 2004. Composition of the
depleted mantle. Geochemistry, Geophysics,
Geosystems 5, doi:10.1029/2003GC000597
.Shim, S.H., 2005. Stability of MgSiO3 perovskite in
the lower mantle. In: van der Hilst, R.D., Bass,
J.D., Matas, J., Trampert, J. (eds.) Earth’s Deep
Mantle: Structure, Composition, and Evolution.
Geophysical Monograph Series 160, 261-280.
Taylor, S.R., McLennan, S.M., 1995. The
geochemical evolution of the continental crust.
Reviews of Geophysics 33, 241-265.
Thybo, H., 2006. The heterogeneousupper mantle
low velocity zone. Tectonophysics 416, 53-79.
Thybo, H., Ross, A.R, Egorkin, A.V., 2003.
Explosion seismic reflexions from the Earth's
core. Earth and Planetary Science Letters 216,
693-702.
Williams, Q., Knittle, E., 2005. The uncertain major
element bulk composition of the Earth’s mantle.
In: van der Hilst, R.D., Bass, J.D., Matas, J.,
Trampert, J. (eds.) Earth’s Deep Mantle:
Structure, Composition, and Evolution.
Geophysical Monograph Series 160, 187-199.
30
31
4. Convecção Mantélica e Tectônica de Placas
4.1. Introdução
O manto é aquecido por condução de
calor proveniente do núcleo e pelo calor
resultante da desintegração de elementos
radioativos (K, Th, U), e é resfriado por
perda de calor para a superfície (Fig. 4.1).
Embora o manto seja sólido (o que permite a
transmissão de ondas S através do seu
interior), as temperaturas elevadas (Fig. 4.2)
fazem com que ele se comporte como um
fluido numa escala de tempo geológico.
Fluidos tendem a entrar em convecção
quando a diferença de temperatura entre o
topo e a base do sistema ultrapassa um valor
crítico. Cálculos teóricos e modelos
numéricos e analógicos mostram que esta
diferença é mais que suficiente para induzir
convecção no manto terrestre.
Fortes gradientes de temperatura
estão presentes nas porções superiores e
inferiores do manto (Figs. 4.1 e 4.2). Estas
regiões são chamadas, na terminologia da
mecânica dos fluidos, de camadas
termicamente limitadas. Em corpos
planetários, a camada termicamente limitada
superior é denominada litosfera. A região
situada abaixo da litosfera, onde as rochas
são quentes o suficiente para se deformar
por fluxo dúctil, constitui a astenosfera. Pelo
fato de a temperatura média da litosfera ser
relativamente baixa, ela apresenta um
comportamento rígido. Isto pode,
eventualmente, resultar em sua imobilidade,
mas o aumento de densidade resultante das
temperaturas mais baixas pode
contrabalançar este efeito. Se a densidade da
litosfera supera a da astenosfera, ela se torna
gravitacionalmente instável. Este é o caso da
Terra, onde a litosfera é dividida em uma
série de placas chamadas placas tectônicas ou
litosféricas. É a descida dessas placas na
astenosfera que, dominantemente, controla a
ocorrência de convecção no manto. Assim,
tectônica de placas e convecção mantélica são
diferentes expressões de um mesmo processo.
Outro estilo de convecção no manto é
representado pela subida de material de sua
base em direção à superfície por meio de
plumas. Estes dois modos de convecção são,
em grande parte, independentes.
4.2. Características térmicas e mecânicas
da litosfera
A litosfera se estende abaixo da
descontinuidade de Mohorovicic,
compreendendo a crosta e a porção mais
superior do manto. Do ponto de vista
reológico, o limite entre a litosfera e a
astenosfera, normalmente, é considerado
como a profundidade equivalente à isoterma
de 1280ºC. A esta temperatura, olivina (o
principal mineral no manto superior; ver Fig.
3.8) se deforma exclusivamente por
plasticidade intracristalina. Como a
transmissão de calor na astenosfera se dá por
Figura 4.2. Diagrama mostrando a distribuição de
temperatura no interior da Terra. A largura da faixa
sombreada corresponde à incerteza associada com
a estimativa.
Figura 4.1. Esquema mostrando a distribuição de
temperatura com a profundidade em um fluido
aquecido internamente.
32
convecção, seu gradiente geotérmico é
aproximadamente adiabático, isto é, a
elevação de temperatura com a profundidade
decorre, apenas, da diminuição de volume
causada pelo aumento de pressão (Fig. 4.3).
Na litosfera, ao contrário, a transmissão de
calor se dá por condução. Assim, sua base é
marcada por um rápido decréscimo no
gradiente da temperatura com a
profundidade. A parte superior da litosfera,
mais fria e resistente, é chamada de litosfera
mecânica (Fig. 4.3).
Em regiões oceânicas, a base da
litosfera é definida por uma redução brusca
na velocidade de propagação das ondas S,
coincidindo com o topo da zona de baixa
velocidade. Sua espessura, tipicamente,
varia de 60 a 100 km. Nos continentes, esta
redução, em geral, é mais sutil. No entanto,
o cálculo de geotermas e, por extrapolação,
da espessura da litosfera, pode ser feito a
partir do fluxo térmico medido na superfície
e por estudos termobarométricos de
xenólitos de peridotitos em rochas
vulcânicas. Observa-se uma correlação entre
a idade das rochas expostas na superfície e a
espessura da litosfera continental. Valores
típicos são: 180 a 250 km para crátons
arqueanos, 180 a 140 km para terrenos
proterozóicos e 100 a 140 km para regiões
fanerozóicas (Fig. 4.4).
Além de suas características sísmicas,
térmicas e reológicas, o manto litosférico
continental também difere da astenosfera
mineralogicamente e geoquimicamente. A
litosfera continental é bem menos fértil que a
astenosfera, indicando que ela foi modificada
pela extração de magmas resultantes de sua
fusão parcial. Petrologicamente, isto se reflete
em percentagens modais menores de granada
e clinopiroxênio, pela ocorrência comum de
harzburgitos (peridotitos sem clinopiroxênio)
entre os xenólitos de derivação litosférica, e
por teores mais baixos de CaO, Al2O3 e FeO.
Um resultado disso é que, para uma mesma
temperatura, a litosfera continental é menos
densa que a astenosfera, onde a razão
FeO/MgO é maior.
4.3. Tectônica de Placas
A tectônica de placas descreve os
deslocamentos relativos entre as placas
litosféricas, as interações entre elas, e as
conseqüências dessas interações. No modelo
mais recente, quatorze placas maiores e trinta
e oito placas menores são reconhecidas (Fig.
4.5). As placas maiores são as do Pacífico,
Africana (ou Núbica), Antártica, Sul-
Americana, Norte Americana, Australiana,
Eurasiática, Índica, Arábica, Caribenha, de
Cocos, de Juan de Fuca, de Nazca e das Filipinas.
Uma placa tectônica pode consistir, na sua
porção superior, apenas de crosta oceânica,
como é o caso da placa do Pacífico, ou de
Figura 4.3. Estrutura térmica da litosfera
assumindo uma temperatura potencial (Tp) de
1280ºC na astenosfera. A linha tracejada
corresponde à diminuição de temperatura, caso a
astenosfera suba adiabaticamente (isto é, sem
perda de calor) para a superfície. A espessura da
litosfera depende do gradiente geotérmico de cada
região.
Figura 4.4. Diagrama esquemático mostrando a
correlação entre espessura litosférica e idade de
regiões continentais. N.M.: nível do mar.
33
crosta oceânica e continental, como nos demais casos de placas maiores.
Existem três tipos de contatos de
placas (Fig. 4.6). O contato onde duas placas
adjacentes estão se separando é chamado de
divergente. Nestes locais, a ascensão de
material do manto, para preencher o espaço
que está sendo criado, gera nova litosfera
oceânica. Devido a isto, este tipo de contato
é chamado, também, de construtivo.
Contatos divergentes são representados
pelas dorsais oceânicas (Fig. 3.6); riftes
continentais podem caracterizar contatos
divergentes incipientes.
Contatos ao longo dos quais duas
placas estão se aproximando são chamados
de convergentes. Para que o processo
continue é necessário que uma placa
mergulhe sob a outra e desça para a
astenosfera (Fig. 4.6). Locais onde isto
ocorre são chamados de zonas de subducção
e marcados por depressões no assoalho
oceânico (fossas oceânicas).
Ambientes onde ocorre apenas
deslocamento relativo de placas adjacentes ao
longo de falhas transformantes (Fig. 4.6), sem
que haja nem criação nem destruição da
litosfera, são chamados de contatos
conservativos.Falhas transformantes diferem
de falhas de rejeito direcional, porque o
sentido de movimento relativo aos segmentos
de cadeias rejeitados é o oposto do predito
pelo movimento transcorrente (Fig. 4.7).
As placas tectônicas estão
continuamente mudando de forma e
dimensão. Uma placa pode aumentar ou
diminuir de tamanho de acordo com os tipos
de contato que a limitam (Fig. 4.8). As placas
Africana e Antártica, que são, em grande
parte ou na totalidade, circundadas por
Figura 4.5. Mapa mostrando as cinqüenta e duas placas tectônicas. As áreas hachuradas correspondem a
regiões que estão sofrendo deformação e, nesse sentido, não podem ser consideradas parte de placas rígidas.
AF – Africana, AM – Amar, AN – Antarctica, AP – Altiplano, AR – Arábica, AS – Mar Egeu, AT – Anatólia,
AU – Australiana, BH – Birds Head, BR – Balmoral Reef, BS – Banda, BU – Burma, CA – Caribenha, CL –
Carolina, CO – Cocos, CR – Conway Reef, EA – Páscoa, EU – Eurasiática, FT – Futuna, GP – Galápagos, IN
– Índica, JF – Juan de Fuca, JZ – Juan Fernandez, MA – Mariana, MN – Manus, MO – Maoke, MS – Moluca,
NA – Norte-Americana, NB – Norte Bismarck, ND – Norte Andes, NH – Nova Hébridas, NI – Niuafo’ou, NZ
– Nazca, OK – Okhotsk, ON – Okinawa, PA – Pacífico, PM – Panamá, PS – Filipinas, RI – Rivera, AS – Sul-
Americana, SB – Sul Bismarck, SC – Escósia, SL – Shetland, SO – Somália, SS – Mar de Salomão, SU –
Sunda, SW – Sandwich, TI – Timor, TO – Tonga, WL – Woodlark, YA – Yangtze.
34
cadeias oceânicas, estão crescendo,
enquanto a placa do Pacífico é limitada em
toda sua extensão norte e oeste por zonas de
subducção e está diminuindo de tamanho.
4.4. Evidências indicando atuação da
tectônica de placas
A teoria da tectônica de placas foi
precedida pelas hipóteses da deriva dos
continentes e da expansão do assoalho
oceânico. A idéia da migração dos
continentes (proposta nas primeiras décadas
do século vinte) foi baseada no pressuposto de
que, antes do Mesozóico, todos os continentes
estavam reunidos em uma massa continental
única, chamada de Pangéia. Os principais
argumentos utilizados em favor dessa
hipótese foram: (a) o ajuste geométrico dos
continentes, em particular das linhas de costa
da África e América do Sul; (b) a presença de
sedimentos, cuja deposição é sensível ao
clima, em latitudes inesperadas (por exemplo,
depósitos glaciais próximos ao equador ou
recifes de corais em latitudes superiores a
30º); (c) a presença de plantas e animais
fósseis de um mesmo gênero em continentes
separados por grandes oceanos; (d) estruturas
e províncias orogênicas similares em
continente opostos que se ajustam, caso o
oceano entre eles seja fechado.
Um dos principais problemas
enfrentados pela hipótese da deriva
continental foi encontrar um mecanismo
plausível para explicar a migração dos
continentes. Pensava-se que estes se moviam
sobre um substrato basáltico ou sobre a
descontinuidade de Mohorovicic. Os
principais empecilhos foram: (a) a
demonstração geofísica que os continentes
têm raízes no manto (Capítulo 3 e Fig. 4.4), e
(b) cálculos numéricos, mostrando a
impossibilidade de gerar os esforços
requeridos para mover os continentes sobre o
manto ou a crosta oceânica. Estas objeções
foram removidas quando se reconheceu que
são as placas litosféricas, e não os
continentes, que se deslocam.
O conceito da expansão do assoalho
oceânico foi formulado no início dos anos
sessenta para explicar a fisiografia (Fig. 3.6) e
as propriedades físicas recém-descobertas das
bacias oceânicas e margens continentais. O
alto fluxo térmico observado acima das
dorsais oceânicas, em combinação com o
ambiente tectônico extensional, foi
interceptado como resultado de subida de
material do manto para formar nova crosta
oceânica nestes locais.
Um grande número de evidências tem
sido acumulado desde a proposição da
(a)
(b)
Figura 4.6. (a) Bloco-diagrama ilustrando o
modelo da tectônica de placas. (b) Visão em
planta dos três tipos possíveis de contato entre
duas placas litosféricas.
Figura 4.7. Comparação entre falhas
transformante (esquerda) e transcorrente (direita).
A separação entre dois segmentos de uma cadeia
oceânica permanece constante no primeiro caso e
o rejeito é o oposto daquele observado ao longo
de uma falha transcorrente.
35
tectônica de placas, em meados da década de
sessenta, confirmando a existência do
deslocamento relativo das placas
litosféricas. As mais decisivas são revistas nas
próximas seções.
4.4.1. Distribuição de hipocentros de
terremotos
Os terremotos são classificados
quanto à profundidade do hipocentro (ou
foco, o local onde o terremoto é gerado) em
rasos (<70 km), intermediários (70-300 km)
e profundos (>300 km). A distribuição dos
epicentros dos terremotos (o local na
superfície imediatamente acima do
hipocentro) mostra que a quase totalidade da
atividade sísmica atual situa-se ao longo de
arcos de ilhas, de margens continentais
bordejadas pelo Pacífico, de riftes
continentais, do sistema de cadeias
oceânicas, e do sistema de montanhas
Alpino-Himalaiano (compare a Fig. 4.9 com
a Fig. 4.8). Quando somente terremotos com
hipocentros superiores a 70 km são
analisados, constata-se que os mesmos estão
concentrados, apenas, nas proximidades de
fossas oceânicas e de cadeias de montanhas
jovens, com terremotos profundos
praticamente restritos à região do Pacífico.
A profundidade dos focos dos
terremotos em contatos de placas
convergentes aumenta da fossa em direção ao
continente ou arco de ilha. Note-se, por
exemplo, na Figura 4.9, que, na placa sul-
americana, epicentros de terremotos com
focos cada vez mais profundos situam-se
mais para o interior do continente. Seções
verticais através de arcos de ilhas e margens
ativas mostram que os hipocentros ocorrem
em uma faixa relativamente estreita,
chamada zona de Wadati-Benioff (Fig. 4.10).
Zonas de Wadati-Benioff são interpretadas
como a porção superior da placa subduzida.
Elas têm mergulhos muito variáveis (5º a
90º) e suas profundidades podem atingir até
700 km (Fig. 4.10).
A origem dos terremotos mais
profundos ainda é controversa. Terremotos
são produzidos quando o esforço aplicado
excede a resistência das rochas presentes a
uma dada profundidade, provocando sua
ruptura. No entanto, esse mecanismo é
fortemente inibido por aumentos de pressão e
temperatura. A hipótese mais aceita é que
olivina persiste de forma meta-estável no
centro da placa subduzida, enquanto sua
temperatura estiver abaixo de cerca de
600ºC. Quando ocorre um pequeno
aquecimento adicional, ela sofre uma rápida
transformação para a fase-β. Os terremotos
profundos seriam frutos da súbita redução de
Figura 4.8. Mapa mostrando as placas tectônicas maiores, suas velocidades relativas e os tipos de contatos entre
elas.
36
volume resultante desse processo. Isto sugere
que esses terremotos, ao contrário daqueles
mais rasos, são gerados no centro e não na
porção superior da placa subduzida.
4.4.2. Terremotos e mecanismos focais
O método sismológico que permite
determinar a orientação e o sentido de
deslocamento ao longo de planos de falhas,
denominado solução de mecanismo focal ou
solução de plano de falha, é ilustrado na
Figura 4.11. Quando um terremoto ocorre, a
falha e o plano perpendicular a ela e próximo
ao foco (chamado de plano auxiliar) dividem
o espaço em quatro regiões: duas que estão
sofrendo contração e duas que estão sofrendo
extensão (Fig. 4.11a). Se as ondas sísmicas
emitidas nestas regiões alternadas forem
registradas em várias estações sismológicas
(S1, S2, S3 e S4) e os dados projetados em um
estereograma, é possível traçardois planos
perpendiculares, dividindo o estereograma
em quatro quadrantes. A partir dessa análise,
não é possível dizer qual dos dois planos
corresponde à falha e qual é o plano auxiliar.
No entanto, observações de campo,
normalmente, permitem superar esta
ambigüidade. Uma vez estabelecido o plano
de falha, é possível determinar o seu tipo
(Fig. 4.11b): o arranjo dos quadrantes
contracionais e extensionais indica o sentido
de deslocamento.
Terremotos rasos nas dorsais
oceânicas são limitados a uma estreita zona
ao longo da crista da cadeia. Soluções de
mecanismos focais indicam que estes
terremotos são associados com falhas
normais. Por outro lado, terremotos rasos em
zonas de subducção têm mecanismos focais
indicando falhas de empurrão. Estas
observações são consistentes com os
ambientes extensional e convergente,
Figura 4.9. Distribuição de epicentros de terremotos com magnitude superior a 6 ocorridos entre 1990 e 2006.
As cores correspondem à profundidade do foco mostrado na escala do lado direito.
37
respectivamente, postulado pela tectônica de
placas, para estas duas regiões.
Os terremotos ao longo de falhas
transformantes ocorrem quase que
exclusivamente na porção da falha que
conecta dois segmentos de cadeia, indicando
que apenas esta porção é sismicamente ativa.
Soluções de plano de falha mostram que o
movimento ao longo do segmento ativo é
transcorrente. No entanto, o sentido é oposto
ao do predito analisando-se a separação entre
os segmentos de cadeia (Fig. 4.12). Esta
observação é, portanto, consistente com o
modelo proposto para a formação das falhas
transformantes (Fig. 4.7).
4.4.3. Tomografia sísmica
Uma conseqüência esperada da
atuação da tectônica de placas é o
desenvolvimento de heterogeneidades
laterais no manto. Como a temperatura da
litosfera é inferior à da astenosfera (Fig. 4.3)
e silicatos são mal condutores de calor, a
diferença de temperatura entre placas
subduzidas e o manto profundo deve persistir
por longos períodos de tempo. Da mesma
forma, temperaturas mais elevadas são
esperadas abaixo das cadeias oceânicas, onde
material mais profundo e, portanto, mais
quente, sobe para preencher o espaço criado
pela separação entre as placas. Tais variações
de temperatura podem ser detectadas através
do estudo de ondas sísmicas, uma vez que a
velocidade de propagação das mesmas é
inversamente proporcional à temperatura.
A técnica utilizada para mapear
variações de temperatura é chamada de
tomografia sísmica e fornece uma visão
tridimensional do manto. As imagens são
Figura 4.10. Distribuição de hipocentros de terremotos abaixo de alguns sistemas de arcos modernos. T - fossa;
V - cadeia vulcânica recente.
38
produzidas a partir da análise de milhares de
medidas do tempo decorrido entre a
produção de ondas P ou S, causadas por
terremotos ou explosões artificiais, até sua
chegada às estações de registro sismológico
mundiais.
(a) (b)
Figura 4.11. (a) Representação esquemática mostrando a divisão do espaço em regiões contracionais (em cinza)
e extensionais (em branco) produzidas durante um terremoto causado por uma falha sinistral. (b) Soluções de
mecanismos focais para os principais tipos de falhas. As setas indicam o sentido do movimento (do quadrante
extensional para o quadrante compressivo).
Figura 4.12. Exemplo de soluções de planos de falhas para terremotos ocorridos entre 1992 e 1998 nas falhas
transformantes Romanche e Chain (dorsal mesoatlântica). Notar que o rejeito aparente sinistral dos segmentos da
dorsal (realçados pelas linhas) é o oposto daquele determinado pelas soluções de mecanismos focais (dextral).
39
Estudos de tomografia sísmica
mostram que a estrutura abaixo dos
continentes difere daquela presente abaixo da
crosta oceânica. Escudos e plataformas são
marcados por velocidades mais altas até
profundidades de 250 km (Fig. 4.13). No
manto mais superior, velocidades baixas são
associadas com dorsais oceânicas. Essas
anomalias desaparecem para profundidades
maiores que 250-400 km (Fig. 4.13). Em
contraste, anomalias de velocidades altas são
dominadas por feições lineares longas que
podem ser correlacionadas com locais onde
subducção ocorre no presente ou ocorreu no
passado (compare as Figuras 4.13 e 4.8). As
imagens tomográficas mostram claramente
que placas subduzidas podem atingir o manto
inferior. Isto pode ser observado melhor em
perfis verticais através de zonas de
subducção atuais (Fig. 4.14). Assim, a
ausência de terremotos a profundidades
acima de 700 km resulta apenas das elevadas
condições de pressão e temperatura vigentes
no manto inferior, e não de uma interrupção
na subducção da placa.
Figura 4.13. Modelo tomográfico mostrando variações laterais na velocidade de propagação de ondas S a
diferentes profundidades no manto. Azul e vermelho correspondem, respectivamente, a velocidades acima e
abaixo da média.
40
Devido ao aumento da densidade e
viscosidade que acompanha a transformação
de olivina para perovskita, é possível que
uma placa seja retida, em alguns casos, pela
descontinuidade de 660 km antes de
mergulhar no manto inferior (perfis BB’ e
CC' na Fig. 4.14). Além disso, devido ao
aumento de viscosidade com a profundidade
e ao progressivo aquecimento, uma placa
pode se deformar antes de atingir a base do
manto. As placas podem, portanto, ser
defletidas e dobradas. Isto é sugerido pela
grande largura (> 400 km) das anomalias de
velocidade altas nos perfis DD’, EE’ e FF’
(Fig. 4.14), quando comparadas com a
espessura típica de 100 km para a litosfera
oceânica.
4.4.4. Reversões do campo magnético e
faixas de anomalias magnéticas no assoalho
oceânico
Historicamente, a descoberta das
faixas de anomalias magnéticas e sua
interpretação, em termos de expansão do
assoalho oceânico, foi o principal suporte que
levou à aceitação da tectônica de placas. Esta
Figura 4.14. Perfis tomográficos verticais através de algumas zonas de subducção atuais. AA’ – arco helênico,
BB’ – arco Curila, CC’ – arco Izu Bonin, DD’ – arco de Sunda (Java) EE’ – Arco de Tonga, FF’ -– arco
centro-americano. CMB: contato manto/núcleo (core/mantle boundary).
41
evidência é bastante forte. Seu entendimento
requer algumas considerações prévias sobre o
campo magnético terrestre e o magnetismo
de rochas.
A existência do campo magnético
terrestre faz com que os minerais de ferro
presentes em uma rocha ígnea adquiram uma
magnetização espontânea, denominada
termoremanescente, quando a temperatura da
mesma cai abaixo de um determinado valor.
Esta temperatura crítica é chamada ponto de
Curie. Ela varia de acordo com o mineral
(580ºC, no caso da magnetita) e é inferior à
temperatura de cristalização, implicando que
uma rocha só se torna magnetizada depois de
decorrido algum tempo de sua formação. A
magnetização termoremanescente tem a
mesma orientação do campo magnético
existente na época em que a rocha foi
resfriada abaixo do ponto de Curie e é maior
que aquela induzida pelo campo atual. Dessa
forma, ela pode persistir indefinidamente, a
não ser que a rocha seja submetida a
temperaturas elevadas durante um evento
metamórfico subseqüente.
O campo magnético terrestre é
causado por correntes de convecção no
núcleo externo, embora o mecanismo preciso
ainda não seja conhecido. Ele é bastante
próximo ao campo que seria gerado por um
dipolo localizado no centro da Terra, mas
com seu eixo ligeiramente deslocado em
relação ao eixo de rotação (Fig 4.15). As
linhas de força do campo magnético são,
aproximadamente, paralelas à superfícienas
proximidades do equador, e apontam para o
exterior no hemisfério sul e para o interior no
hemisfério norte (Fig. 4.15). O ângulo
formado entre as linhas de força e a
horizontal é a inclinação magnética, que
varia de 0º (próximo ao equador) a 90º
(próximo aos pólos). O ângulo entre a
projeção horizontal das linhas de força e as
linhas de longitude geográficas é a
declinação magnética (Fig. 4.16).
A magnetização termoremanescente
em rochas de diferentes idades, provenientes
de uma única localidade, pode ter a mesma
inclinação ou uma inclinação oposta à do
campo magnético atual (Fig. 4.17). No
primeiro caso, diz-se que a rocha apresenta
uma polaridade normal; no segundo, uma
polaridade inversa. A ocorrência de rochas
com polaridade inversa indica que o campo
Figura 4.16. Orientação do campo magnético total
(H), inclinação (I) e declinação (D) para um ponto
localizado no hemisfério norte.
Figura 4.15. O campo magnético da Terra é
próximo ao gerado por um dipolo magnético no
seu centro. Como as linhas de força são
dirigidas de sul para norte, o pólo norte do
dipolo situa-se no hemisfério sul. Por
convenção, a interseção do eixo do dipolo com a
superfície no hemisfério norte é o norte
geomagnético (NM). I – inclinação magnética.
42
magnético sofreu reversões com o decorrer
do tempo geológico. Estudos detalhados em
seqüências de rochas vulcânicas mostram que
mudanças de polaridade são quase
instantâneas numa escala de tempo geológico
(1000-2000 anos).
Combinando-se a escala do tempo
geológico e dados estratigráficos e
paleontológicos com intervalos de tempo de
polaridade normal e inversa, foi possível a
construção de uma escala do tempo de
polaridades geomagnéticas para o período
Cenozóico e parte do Mesozóico (Fig. 4.18).
Cada intervalo de tempo de polaridade
magnética é denominado chron (abreviatura
da palavra inglesa chronology).
Os chrons mais importantes de
polaridade normal até 125 Ma atrás são
numerados de um a trinta e quatro. O chron
atual (1) estende-se até 700.000 anos atrás e
o chron mais longo (34) vai de 83 Ma a 125
Ma. Para idades mais antigas que 125 Ma, os
chrons de polaridade inversa são numerados
como M0, M1,..., M29 (M de Mesozóico). A
imprecisão nas idades absolutas aumenta
com o tempo. Ela é de algumas dezenas de
milhares de anos para rochas com menos de
5 Ma a vários milhões de anos para rochas
mais antigas que o Cretáceo. Dado que, com
exceção do chron 34, intervalos de
polaridade tipicamente têm duração de
centenas de milhares a alguns milhões de
anos, uma escala do tempo de polaridades
geomagnéticas para idades mais antigas que
150 Ma é bem menos refinada que para o
Cenozóico e o Cretáceo.
Levantamentos magnetométricos ao
longo de perfis perpendiculares às dorsais
oceânicas mostram que o campo magnético
ou é mais forte ou mais fraco que o esperado,
indicando a presença de rochas magnetizadas
no assoalho oceânico. Estas anomalias
resultam da presença de magnetita na crosta
oceânica máfica. As anomalias são
arranjadas segundo um padrão, com faixas
alternadas de anomalias magnéticas positivas
e negativas, simétricas com respeito ao eixo
das dorsais (Fig. 4.19). A interpretação mais
óbvia é a de que anomalias magnéticas
positivas resultam da presença de rochas
formadas em períodos de polaridade normal,
o que reforça o campo atual. Inversamente,
anomalias negativas indicam a presença de
rochas formadas em épocas de polaridade
inversa.
Figura 4.17. Perfil hipotético de uma seqüência de
derrames de lava mostrando a orientação da
magnetização termoremanescente (setas) em
amostras coletadas em diferentes níveis. Rochas
com polaridades normal e inversa são mostradas,
respectivamente, em preto e em branco.
Figura 4.18. Escala do tempo de polaridades
geomagnéticas. Chrons de polaridade normal em
preto e de polaridade inversa em branco.
43
A interpretação das faixas de
anomalias magnéticas, em termos de
expansão do assoalho oceânico, é ilustrada na
Figura 4.20. A crosta oceânica produzida
numa cadeia oceânica gera uma faixa de
assoalho oceânico magnetizada numa direção
que registra a direção do campo magnético
da época (Fig. 4.20a). Se o campo sofre uma
reversão e a expansão continua, uma nova
faixa se forma no meio da antiga (Fig.
4.20b). Reversões subseqüentes constroem,
sucessivamente, um padrão de faixas
positivas e negativas que é simétrico com
respeito ao eixo da cadeia (Fig. 4.20c). Em
Figura 4.20. Esquema ilustrando a formação de faixas de anomalias magnéticas no hemisfério norte. As setas
representam a inclinação magnética. A. Separação continental e formação de um segmento de crosta oceânica.
B. Reversão do campo magnético durante a continuação da expansão. Uma nova faixa com polarização inversa
se forma no meio da faixa antiga. C. Nova reversão e geração de uma faixa com polarização normal.
Figura 4.19. Campo magnético produzido pelas rochas do assoalho oceânico ao longo da dorsal meso-atlântica ao sul
da Islândia. (a) Faixas de anomalias magnéticas (polaridade normal em preto). Notar a simetria das faixas mais largas
(B e C) com respeito à faixa central A. (b) Perfis ao longo de diferentes linhas magnéticas (numeradas 7, 12, etc.).
44
placas limitadas, de um lado, por um contato
divergente e, do outro, por um contato
convergente, esta simetria é perdida. Ao
longo de contatos convergentes, a ausência
de faixas de anomalias magnéticas que estão
presentes do outro lado da dorsal indica que
parte da placa sofreu subducção abaixo da
fossa.
4.4.5. Idades do assoalho oceânico
A descoberta das faixas de anomalias
magnéticas, a elaboração da escala do tempo
de polaridades geomagnéticas, a datação de
sedimentos oceânicos por métodos
paleontológicos e estratigráficos, bem como
a obtenção de idades absolutas em basaltos
do fundo oceânico permitem determinar com
relativa precisão a distribuição de idades no
assoalho oceânico. Como previsto pela
tectônica de placas, as rochas mais jovens
são encontradas próximas às dorsais
oceânicas e sua idade aumenta
progressivamente ao se afastar delas (Fig.
4.21). As rochas mais antigas, com cerca de
180 Ma, são encontradas ao longo das
margens passivas opostas do oeste da África
e do leste da América do Norte, e na porção
noroeste da placa do Pacífico.
4.4.6. Paleomagnetismo
Estudos paleomagnéticos assumem
que o campo magnético da Terra pode ser
aproximado por um dipolo com eixo
paralelo ao eixo de rotação. Assim, medidas
da inclinação e da declinação magnética em
amostras de rochas com idades conhecidas
fornecem indicações sobre deslocamentos e
rotações sofridos pelos continentes: a
declinação magnética dá a direção do pólo
magnético na época de formação da rocha,
enquanto a inclinação permite calcular sua
paleolatitude. Se o paleopólo determinado não
coincide com o pólo atual, isto implica que,
ou o pólo magnético ou o continente, onde a
amostra foi coletada, migrou com o tempo. A
linha unindo os pólos paleomagnéticos
calculados para rochas de diferentes idades de
um mesmo continente é chamada de curva de
deriva polar aparente (Fig. 4.22).
Figura 4.21. Mapa de idades do assoalho oceânico.
45
Caso as trajetórias de deriva polar
aparente em um dado intervalo de tempo
fossem as mesmas para todos os continentes,
isto implicaria ausência de movimentos
relativos entre eles e, conseqüentemente,
migração polar verdadeira. No entanto,
continentes distintos (ou mesmo segmentos
de um mesmo continente) têm diferentes
curvas de deriva polar aparentes. Isto
demonstra que são os continentes, e não ospólos magnéticos, que se movem. Por
exemplo, a Figura 4.23 mostra que as curvas
de deriva polar para o norte da América do
Norte e a Europa, nos últimos 300 Ma, são
semelhantes, mas não coincidentes. Isto
implica que as placas das quais estas massas
continentais fazem parte deslocaram-se
relativamente uma à outra.
4.4.7. Sedimentos oceânicos, fluxo térmico e
batimetria do assoalho oceânico
De acordo com a da tectônica de
placas, afastando-se das dorsais oceânicas, o
assoalho oceânico se torna mais antigo (Fig.
4.20). Isto é consistente com a inexistência
de sedimentos ao longo do eixo das dorsais,
com o aumento em sua espessura ao afastar-
se delas, e com a relação direta entre a idade
dos sedimentos imediatamente acima da
crosta basáltica e sua distância do eixo da
cadeia.
Medições batimétricas mostram que a
profundidade do assoalho oceânico aumenta
com a distância de uma dorsal (Fig. 4.24a),
ou seja, varia com a idade. Este
comportamento é explicado pelo
resfriamento da litosfera por condução de
calor. Ao se afastar do eixo da dorsal, onde
ela é gerada, a litosfera oceânica se resfria,
sofre contração e aumenta de densidade,
causando, assim, subsidência da superfície do
assoalho oceânico. Usando as equações de
condução de calor, é possível demonstrar que
a profundidade (d) é proporcional à raiz
quadrada da idade (t): d ~ t1/2. As medições
Figura 4.22. Paleopólos (abaixo) e trajetórias de
deriva polar aparente (acima) para a América do
Norte durante o Mesozóico e Cenozóico. As
elipses em torno dos pólos são os limites de
confiança a 95%.
Figura 4.23. Curvas de migração polar aparente
para a Europa e América do Norte. Em cinza
escuro são mostradas as regiões de proveniência
das amostras analisadas. Os pólos só coincidem no
tempo presente, indicando o movimento relativo
dos continentes. NG: norte geográfico.
46
batimétricas ajustam-se razoavelmente bem à
curva predita teoricamente (Fig. 4.24a).
Da mesma forma que a profundidade,
o fluxo térmico nos oceanos também é
relacionado com a raiz quadrada da idade,
decrescendo com o aumento da distância
para o eixo da dorsal (Fig. 4.24b). Acima da
dorsal, o fluxo térmico é superior a 300
mW/m2 e decresce para cerca de 50 mW/m2
acima do assoalho oceânico mais antigo. O
valor médio (100 mW/m2) é cerca de duas
vezes maior que o encontrado em regiões
continentais, o qual se situa tipicamente entre
40 e 60 mW/m2. Esta observação é o oposto
do esperado, uma vez que a crosta
continental é muito mais rica em elementos
radioativos (K, Th, U) que a crosta oceânica
(Capítulo 3). Isto pode ser explicado pelo
transporte de calor do interior em direção à
superfície pelos movimentos verticais de
massa envolvidos na expansão do assoalho
oceânico (Figs. 4.6 e 4.20).
4.4.8. Movimento de placas no presente
A localização de pontos na superfície
da Terra pode ser feita atualmente de forma
bastante precisa, por meio de três métodos
geodésicos (Geodésia é a ciência que estuda
o tamanho e forma da Terra). O primeiro,
chamado interferometria de linha de base
muito longa (Very Long Baseline
Interferometry, VLBI), usa radiotelescópios
como fontes receptoras de ondas de rádio
emitidas por quasares. O segundo utiliza
pulsos de laser emitidos por satélites
(Satellite Laser-Ranging, SRL). No terceiro
método, chamado sistema de posicionamento
global (Global Positioning System, GPS),
vários satélites posicionados a uma altitude
de 20.000 km transmitem continuamente
sinais de radio para a superfície.
Medindo-se a variação da distância
entre dois pontos, em certo intervalo de
tempo, por qualquer dos métodos acima é
possível determinar as taxas e direções do
deslocamento das placas litosféricas (Fig.
4.25). Os resultados confirmam o movimento
relativo das placas no presente e indicam que
as velocidades atuais são comparáveis com
aquelas determinadas por métodos geofísicos
para os últimos milhões de anos (compare as
figuras 4.25 e 4.8).
4.5. Descrevendo o movimento das placas
tectônicas
O local onde três placas tectônicas se
encontram é chamado ponto ou junção
tríplice. Quando a litosfera consiste de mais
de duas placas, a ocorrência de junções
tríplices é inevitável porque, devido à
geometria de uma esfera, esta é a única
maneira com que um contato de placas pode
terminar. Na notação usada para classificar
os diferentes tipos de junções tríplices, uma
cadeia oceânica é escrita como R (de ridge,
dorsal), uma falha transformante como F (de
fault, falha) e uma zona de subducção como
T (de trench, fossa). Dessa forma, o encontro
de três dorsais oceânicas é uma junção RRR,
(a)
(b)
Figura 4.24. Batimetria (a) e valores médios do
fluxo térmico (b) nos oceanos Pacífico Norte
(círculos) e Atlântico Norte (quadrados) versus
idade do assoalho oceânico. Linhas
cheias são curvas teóricas preditas pela
teoria de condução do calor. hfu: heat
flow unit (= 41,84 mW/m2).
47
de uma cadeia oceânica, uma fossa e uma
falha transformante é uma junção RTF, e
assim por diante. Existem dezesseis
combinações possíveis de R, T e F, mas
apenas seis são comuns: RRR, TTR, TTF,
FFR, FFT e RTF. Alguns exemplos incluem
o encontro das seguintes placas (ver Figs. 4.8
e 4.25): RRR - Antártica, do Pacífico e de
Nazca; TTR - Antártica, Sul Americana e de
Nazca; FFR – Norte Americana, Sul
Americana e Africana; FFT - Cocos, Nazca e
Caribe (Fig. 11.14); RTF – Juan de Fuca,
Norte Americana e Pacífico (Fig. 11.12). A
configuração das placas tectônicas muda
continuamente e junções tríplices podem
migrar geograficamente, passando de um tipo
a outro (Fig. 4.26).
.
O movimento relativo de duas placas
em uma esfera pode ser descrito como uma
rotação angular em torno de um eixo que
passa pelo centro da Terra (teorema de
Euler). A interseção do eixo de rotação com
a superfície é chamado de pólo e a
velocidade angular ω em torno do eixo
define a magnitude do movimento relativo
entre as duas placas (Fig. 4.27a). Assim, a
velocidade tangencial entre elas varia de um
mínimo próximo ao pólo de rotação até um
máximo para pontos localizados a 90º do
pólo. A determinação do pólo de rotação
para placas em lados opostos de dorsais
oceânicas pode ser feita utilizando-se falhas
transformantes, uma vez que estas devem
representar pequenos círculos em torno do
pólo: os grandes círculos perpendiculares a
duas ou mais falhas transformantes devem
se interceptar no pólo de rotação (Fig.
4.27b).
Uma maneira de quantificar o
movimento das placas, nos últimos 200 Ma,
é correlacionar faixas de anomalias
Figura 4.25. Velocidades relativas para as placas litosféricas determinadas por GPS para o período 1993-2000. A
sigla REVEL-2000 denota Recent velocities e a data do último ano incluído no modelo. A abreviatura das placas
é ligeiramente diferente da mostrada na Figura 4.28. A placa Africana é designada aqui de Núbica (Nu).
48
magnéticas do assoalho oceânico (Fig. 4.19
e 4.20) com a escala do tempo de
polaridades geomagnéticas (Fig. 4.18).
Comparando-se a idade de uma anomalia
com sua distância da cadeia oceânica, é
possível calcular a taxa de expansão do
assoalho oceânico. Por exemplo, as
anomalias magnéticas de número 5 (≈ 10
Ma) de um lado e outro da dorsal
mesoatlântica na Figura 4.19 estão separadas
por uma distância de cerca de 220 km. Isto
corresponde a uma velocidade média de 2,2
cm/ano para os últimos milhões de anos.
Numa escala global, as taxas de
expansão para os diferentes oceanos podem
ser calculadas a partir do padrão de idades
mostrado na Figura 4.21. Ela varia de 1
cm/ano, na dorsal Ártica, até 18 cm/ano, na
cadeia do PacíficoLeste. As velocidades
medidas ao longo de riftes continentais são
cerca de duas vezes menores que as
encontradas nas cadeias oceânicas mais
lentas. Por exemplo, o rifte Leste Africano
está dividindo a placa Africana da placa
Somaliana a uma taxa de 6 mm/ano.
4.6. Forças responsáveis pela tectônica de
placas
Em modelos de convecção térmica
do manto, a camada termicamente limitada
superior representa a litosfera. O
deslocamento das placas tectônicas é
causado por gradientes horizontais de
pressão nesta camada (Fig. 4.28). Estes
gradientes se desenvolvem em conseqüência
de contrastes de densidade entre a litosfera e
a astenosfera. A litosfera é mais fria e densa
longe das dorsais oceânicas do que nas suas
proximidades. Placas jovens e, portanto,
quentes têm densidade similar ou menor que
a astenosfera, mas placas com idades
superiores a 10-20 Ma são mais densas. O
contraste de densidade aumenta com a idade
e, eventualmente, atinge um valor suficiente
para iniciar o processo de subducção. Esta
força é, freqüentemente, chamada em inglês
de slab-pull (puxão da placa, em tradução
livre).
Uma vez que uma placa subduzida
atinge certa profundidade, as transições de
Figura 4.26. Evolução da configuração entre três
placas. Em (b) duas junções tríplices (FFT e RTF)
são formadas. Em (c), outra junção tríplice (TTR)
aparece e o ponto entre A, C e B1 migrou para sul
e tornou-se uma junção tríplice FFT.
(a)
(b)
Figura 4.27. (a) O movimento relativo entre duas
placas pode ser descrito como uma rotação em
torno de um eixo. (b) O pólo de rotação entre duas
placas oceânicas ocorre na interseção entre
grandes círculos perpendiculares ás falhas
transformantes.
49
gabro para eclogito na crosta oceânica e de
olivina para a fase-β na porção mantélica
contribuem para aumentar o efeito
gravitacional negativo. A conversão de
olivina para wadsleyita na placa ocorre a
uma profundidade consideravelmente menor
que a descontinuidade de 410 km (Fig.
4.28). Isto acontece porque a reação olivina
→ wadsleyita é exotérmica (libera calor),
diminuindo a energia interna do sistema.
Assim, o declive da curva de reação em um
diagrama pressão-temperatura, calculado
pela equação de Clausius-Clapeyron (dP/dT
= ∆S/∆V, onde ∆S é a variação de entropia e
∆V a variação de volume) é positivo, desde
que ∆S e ∆V são negativos (Fig. 4.29). A
natureza mais rasa da conversão aumenta a
densidade relativa da litosfera subduzida,
favorecendo seu contínuo afundamento. Esta
força é denominada em inglês de slab
suction (sucção da placa em tradução livre).
Outra força agindo sobre as placas
resulta da subida de material abaixo das
dorsais oceânicas e da diferença de
topografia entre a dorsal e o assoalho
oceânico. Esta força, chamada em inglês de
ridge push (empurrão da dorsal, em tradução
livre) contribui com menos de 10% para o
balanço de forças que promovem o
movimento das placas (Fig. 4.28). Assim, as
forças mais importantes responsáveis pela
tectônica de placas são representadas pelas
próprias placas, quando elas mergulham no
manto em zonas de subducção. Isto é
consistente com a observação de que a
velocidade de placas que estão atualmente
sofrendo subducção é, aproximadamente,
quatro vezes maior que a de placas não
limitadas por contatos convergentes. Neste
cenário, a subida da astenosfera, ao longo
das dorsais oceânicas, é meramente passiva,
consistente com a observação que a
anomalia térmica associada com elas não se
estende a profundidades muito maiores que
300 km (Fig. 4.13).
Placas que não são limitadas por
zonas de subducção, como no caso da placa
Sul Americana, aparentemente contradizem
a dedução que o excesso de densidade da
litosfera em zonas de subducção
proporciona a maior parte da força requerida
para mover as placas. No entanto, a
geometria atual das placas não reflete
necessariamente sua configuração passada.
Uma possibilidade é que a fragmentação do
supercontinente Pangéia e a abertura do
oceano Atlântico tenham sido causadas por
esforços oriundos de zonas de subducção
com mergulho para oeste no oceano que
precedeu o oceano Pacífico.
4.7. Simulações numéricas
Figura 4.28. Esquema ilustrando como o
movimento descendente da placa subduzida
dominantemente controla o deslocamento
horizontal das placas e o fluxo do manto (linha
tracejada). O tamanho das setas corresponde à
contribuição relativa das forças de ridge push
(RP), slab pull (SP) e slab suction (SS). A figura
não está em escala.
Figura 4.29. Diagrama P-T esquemático mostrando que
reações exotérmicas (abaixo) e endotérmicas (acima)
têm declives positivos e negativos, respectivamente. A
transição olivina → wadsleyita é exotérmica, enquanto
a transformação de ringwoodita para perovskita e
magnesiowüstita é endotérmica. Em uma placa
subduzida, a distribuição de temperatura situa-se à
esquerda da geoterma. Já materiais ascendendo
adiabaticamente do manto profundo têm temperaturas
mais elevadas que a da geoterma a uma dada
profundidade.
50
Modelos numéricos visando
reproduzir o comportamento mecânico da
Terra têm sido continuamente aperfeiçoados
nos últimos anos. Os resultados mostram
que, mesmo quando a densidade de uma
placa supera a da astenosfera, regiões de
baixa viscosidade (correspondentes a falhas,
no mundo real) são necessárias para induzir
o processo de subducção (Fig. 4.30).
A placa mantém a forma tabular ao
descer e começa a exibir dobramentos ao se
aproximar da base do sistema (Fig. 4.30),
num comportamento similar ao revelado por
tomografia sísmica para placas subduzidas
(Fig. 4.14). O tempo estimado, nos modelos
numéricos, para que uma placa atinja a base
do manto (várias dezenas até algumas
centenas de milhões de anos; Fig. 4.30) é
consistente com as velocidades das placas
tectônicas. Por exemplo, assumindo-se uma
velocidade de 5 cm/ano, o tempo requerido
seria de cerca de 60 Ma. Os resultados
mostram ainda que a mudança de fase
correspondente à descontinuidade de 660
km, não impede a penetração da placa para o
manto mais profundo, embora ela possa
ficar temporariamente retida nessa
descontinuidade.
Embora muitos dos modelos
numéricos sejam bidimensionais, resultados
obtidos com modelos tridimensionais
revelam características semelhantes.
Modelos levando em conta a esfericidade da
Terra também têm sido produzidos, mas
argumentos teóricos demonstram que os
efeitos impostos pela esfericidade (por
exemplo, uma assimetria das células de
convecção, já que a largura da base será
menor que a do topo) são bem menos
importantes que aqueles resultantes do calor
interno da Terra e de variações de
viscosidade com a profundidade.
Referências selecionadas
Artemieva, I.M., 2006. Global 1º x 1º thermal model
TC1 for the continental lithosphere:
implications for lithospheric secular evolution.
Tectonophysics 416, 245-277.
Bercovici, D., Karato, S.-I., 2003. Whole-mantle
convection and the transition-zone water filter.
Nature 425, 39-44.
Bercovici, D., Ricard, Y., Richards, M.A., 2000. The
relation between mantle dynamics and plate
tectonics: a primer. In: Richards, M.A., Gordon,
R.G., van der Hilst, R.D. (eds.) The history and
dynamics of global plate motions. Geophysical
Monograph Series 121, American Geophysical
Union, 5-46.
Bird, P., 2003. An updated digital model of plate
boundaries. Geochemistry, Geophysics,
Geosystems 4, doi: 10.1029/2001GC000252.
Butler, R.F., 1992. Paleomagnetism:
Magnetic domains to
geologic terranes. Blackwell Scientific
Publications (disponível gratuitamente em
edição eletrônica no site http:
//www.geo.arizona.edu/Paleomag/).
Bunge,H.P., Grand, S.P., 2000. Mesozoic plate-
motion history below the northeast Pacific
Ocean from seismic images of the subducted
Farallon slab. Nature 405, 337-340.
Chu, D., Gordon, R.G., 1999. Evidence for motion
between Nubia and Somalia along the
Southwest India ridge. Nature 398, 64-87.
Figura 4.30. Modelo numérico simulando o início e
desenvolvimento de uma zona de subducção. Uma
zona de baixa viscosidade foi introduzida na
camada superior para facilitar o início do processo.
51
Condie, K.C., 1997. Plate Tectonics and Crustal
Evolution. Butterworth-Heinemann.
Conrad, C.P., Lithgow-Bertelloni, C., 2004. The
temporal evolution of plate driving forces:
importance of "slab suction" verus "slab pull"
during the Cenozoic. Journal of Geophysical
Research 109, doi: 10.1029/2004JB002991.
Davies, G.F., 1999. Dynamic Earth: Plates, Plumes
and Mantle Convection. Cambridge University
Press.
Forte, A.M., Mitrovica, J.X., 2001. Deep mantle
high-viscosity flow and thermochemical
structure inferred from seismic and geodynamic
data. Nature 410, 1049-1056.
Gurnis, M., Hall, C., Lavier, L., 2004. Evolving force
balance during incipient subduction.
Geochemistry, Geophysics, Geosystems 5, doi:
10.1029/2003GC000681.
Kárason, H., van der Hilst, R.D., 2000. Constraints
on mantle convection from seismic tomography.
In: Richards, M.A., Gordon, R.G., van der Hilst,
R.D. (eds.) The history and dynamics of global
plate motions. Geophysical Monograph Series
121, American Geophysical Union, 277-288.
Hutko, A.R., Lay, T., Garnero, E.J., Revenaugh, J.,
2006. Seismic detection of folded, subducted
lithosphere at the core–mantle boundary. Nature
441, 333-336.
Maggi, A., Jackson, J.A., McKensie, D., Priestley,
K., 2000. Earthquake focal depths, effective
elastic thickness, and the strength of the
continental lithosphere. Geology 28, 495-498.
Maruyama, S., Santosh, M., Zhao, D., 2007.
Superplume, supercontinent, and post-
perovskite: Mantle dynamics and anti-plate
tectonics on the Core–Mantle Boundary.
Gondwana Research 11, 7-37.
Muller, R.D., Roest, W.R., Royer, J.Y., Gahagan,
L.M., Sclater, J.G., 1997. Digital isochrons of
the world’s ocean floor. Journal of Geophysical
Research 102, 3211-3214.
Priestley, K., McKenzie, D.P., 2006. The thermal
structure of the lithosphere from shear wave
velocities. Earth and Planetary Science Letters
244, 285-301.
Richards, M.A., Gordon, R.G., van der Hilst, R.D.
(eds), 2000. The history and dynamics of global
plate motions. Geophysical Monograph Series
121, American Geophysical Union.
Ribe, N.M., Stutzmann, E., Rena, Y. and van der
Hilst, R., 2007. Buckling instabilities of
subducted lithosphere beneath the transition
zone. Earth and Planetary Science Letters 254,
173-179.
Sella, G.F., Dixon, T.H., Mao, A., 2002. REVEL: A
model for Recent plate velocities from space
geodesy. J. Geophys. Res. 107.
Simmons, N.A., Forte, A.M., Grand, S.P., 2006.
Constraining mantle flow with seismic and
geodynamic data: a joint approach. Earth and
Planetary Science Letters 246, 109-124.
Steiner, S.A., Conrad, C.P., 2007. Does active mantle
upwelling help drive plate motions? Physics of
the Earth and Planetary Interiors 161, 103-114.
Stevenson, D.J., 2003. Styles of mantle convection
and their influence on planetary evolution.
Comptes Rendus Geoscience 335, 99-111.
Trampert, J., van der Hilst, R.D., 2005. Towards a
quantitative interpretation of global seismic
tomography. In: van der Hilst, R.D., Bass, J.D.,
Matas, J., Trampert, J. (eds.) Earth's deep
mantle: Structure, composition, and evolution.
Geophysical Monograph Series 160, American
Geophysical Union, 47-62.
Zhao, D., 2004. Global tomographic images of
mantle plumes and subducting slabs: insight
into deep Earth dynamics. Physics of the Earth
and Planetary Interiors 146, 3-34.
52
53
5. Convecção Mantélica, Plumas e Hotspots
5.1. Introdução
Subducção de placas litosféricas e
ascensão de material a partir de camadas
termicamente limitadas quentes (Fig. 4.1) são
feições complementares de convecção no
manto. Experimentos de laboratório e
modelos numéricos mostram que o fluxo
ascendente se dá através de condutos
cilíndricos (Fig. 5.1). Isto contrasta com o
estilo de convecção representado pela
tectônica de placas, o qual é controlado pela
subducção de placas tabulares. O material
ascendente é denominado pluma e sua forma
típica é a de uma esfera (a cabeça da pluma)
ligada através de uma cauda estreita (o
pescoço) à região fonte (Fig. 5.1).
Geralmente, se assume que plumas
são originadas na base do manto, embora
plumas geradas na interface da zona de
transição com o manto inferior também
sejam plausíveis (Fig. 5.2). Outra
possibilidade é a de que plumas profundas
sejam detidas pela descontinuidade de 660
km e dêem origem a plumas menores no
manto superior. De acordo com os
experimentos, plumas geradas na base do
manto devem ter um diâmetro (em torno de
1000 km) aproximadamente quatro vezes
maior que o daquelas originadas na
descontinuidade de 660 km (cerca de 250
km). Ao chegar à base da litosfera, a cabeça
da pluma se achata e seu diâmetro duplica
(Figs. 5.1 e 5.2). Estimativas do diâmetro de
caudas de plumas variam de 100 a 400 km.
O termo hotspot (ponto quente) é
empregado para centros vulcânicos ativos
que não estão associados com limites entre
placas tectônicas, como no caso do Havaí, e
para segmentos de dorsais oceânicas
caracterizados por um volumoso vulcanismo,
como no caso da Islândia. Hotspots ocorrem
tanto nas bacias oceânicas quanto nos
continentes (Fig. 5.3). Estimativas do número
total de hotspots são variáveis, com cerca de
quarenta sendo bem documentados.
Figura 5.2. Diferentes modelos de plumas
mantélicas.
(a)
(b)
(c)
Figura 5.1. Plumas produzidas em experimentos
de laboratório (a) e em simulações numéricas
bidimensionais (b) e tridimensionais (c). λ é o
contraste de viscosidade entre o material da
pluma e o manto.
54
5.2. Evidências indicando a existência de
plumas
Embora plumas sejam facilmente
produzidas em experimentos de laboratório
e em simulações numéricas de convecção no
manto, sua forma, dimensão e, mesmo sua
existência, são tópicos bastante debatidos.
Isto resulta, principalmente, de dois fatores:
(1) condutos cilíndricos são mais difíceis de
detectar por métodos geofísicos que placas
frias tabulares; (2) muitos hotspots são
localizados em regiões oceânicas, onde
poucas estações sísmicas estão disponíveis.
Apesar disso, vários argumentos sugerem
fortemente que plumas existem e que a
maioria é proveniente do manto inferior.
5.2.1. Tomografia sísmica
A temperatura de plumas geradas na
base do manto deve ser mais alta que a do
manto adjacente. É de se esperar, portanto,
que nelas as mudanças de fase que
produzem as descontinuidades de 410 km e
660 km se processem a profundidades
maiores e menores, respectivamente, que as
profundidades normais (Figs. 4.29 e 5.4). O
efeito pode ser suficientemente grande para
ser detectado sismicamente e foi observado
em alguns locais. Por exemplo, a espessura
da zona de transição abaixo da Islândia, do
Havaí e do hotspot de Afar é,
respectivamente, cerca de 20 km, 40-50 km
e 20-30 km menor que a média para o
manto.
Amplas regiões (superplumas) com
anomalias de velocidades baixas
(implicando temperaturas mais elevadas que
Figura 5.3. Batimetria residual do assoalho oceânico (diferença entre a profundidade real e seu valor médio),
distribuição de hotspots (estrelas), e valores 87Sr/86Sr em basaltos (círculos). Notar a correlação entre hotspots e
locaiscom batimetria residual positiva. Abreviaturas: hotspots centrados em dorsais ou nas suas proximidades.
Af, Afar; As, Ascensão; Az, Açores; Ba, Balleny; Bo, Bowie; Bv, Bouvet; Co, Cobb; Cr, Crozet; ES, Páscoa;
Ga, Galápagos; Go, Gough; Gu, Guadalupe; Ic, Islândia; JM, Jan Mayen; Ke, Kerguelen; Lo, Louisville; Ma,
Marion; Re, Reunião; SA, São Paulo-Amsterdã; Sh, Shona; SH, Santa Helena; Tr, Tristão da Cunha.
55
a média) são observadas no manto mais
profundo (>2200-2800 km) em praticamente
todos os modelos de tomografia sísmica (por
exemplo, Fig. 4.13). Duas superplumas
maiores estão presentes abaixo do sul da
África e do centro do oceano Pacífico (Fig.
4.13). Uma comparação entre as figuras 4.13
e 5.3 mostra que superplumas situam-se
imediatamente abaixo de locais onde
numerosos hotspots são encontrados. Elas
são, portanto, interpretadas como o local
onde plumas são geradas.
Até recentemente, a resolução dos
modelos tomográficos era insuficiente para
detectar condutos de plumas no manto
inferior, mas esta limitação está começando
a ser superada. Nos últimos anos, modelos
sísmicos mais sofisticados permitiram uma
visualização de plumas através de todo o
manto. Como exemplo, a Figura 5.5 mostra
seções tomográficas a diferentes
profundidades abaixo dos hotspots do Taiti e
da Ilha Cook. As ilhas são vizinhas, mas
resultam de anomalias separadas emanando
da região central da superpluma do Pacífico.
Plumas profundas foram também
identificadas abaixo dos hotspots de
Ascensão, Açores, Canárias, Cabo Verde,
Crozet, Páscoa, Kerguelen, Havaí e Samoa.
Nas imagens tomográficas, apenas as
plumas de Seychelles e Eifel são
indiscutivelmente limitadas ao manto
superior.
5.2.2. Anisotropia sísmica
Estudos de anisotropia de ondas
sísmicas indicam a existência de uma trama
horizontal amplamente distribuída na
camada D’’. Abaixo do Havaí, foi detectada
a mudança dessa trama horizontal para uma
trama vertical. Isto sugere o fluxo lateral de
material para alimentar um conduto de
pluma na base do manto. No manto superior,
igualmente, em geral, observa-se uma trama
horizontal e uma forte correlação entre
direções de anisotropias rápidas na
astenosfera e a direção do movimento das
placas. Este padrão é perturbado nas
proximidades de hotspots, proporcionando
evidência indireta da presença de plumas.
5.2.3. Superdomos e anomalias do geóide
Hotspots geralmente são centrados
em regiões dômicas (swells) com 1000-2000
Figura 5.5. Visão tridimensional mostrando
anomalias negativas de velocidade de ondas S
abaixo do Taiti (TH) e da ilha Cook (CI).
Fig. 5.4. A espessura da zona de transição é
menor na vizinhança de um conduto de pluma
porque a profundidade para as descontinuidades
de 410 e 660 km aumentam e diminuem
respectivamente, com a elevação de temperatura.
56
km de diâmetro, elevadas cerca de 1 km em
relação a regiões vizinhas. Superdomos
(superswells) com milhares de quilômetros
de diâmetro estão presentes no sul da África
e no Pacífico, onde o maior número de
hotspots é encontrado (Fig. 5.3). A
existência de plumas proporciona uma
explicação para estas feições. A chegada de
material menos denso e aquecido na base da
litosfera, ou nas proximidades de dorsais
oceânicas, ocasiona soerguimento da
superfície e vulcanismo. Este efeito é,
também, detectado por anomalias do geóide,
a superfície equipotencial do campo
gravitacional terrestre coincidente com a
superfície dos oceanos. Anomalias do
geóide resultam de variações de densidade
no interior da Terra. Anomalias positivas
coincidem com a localização de superdomos
e com regiões de baixas velocidades
sísmicas em modelos tomográficos do
manto.
5.2.4. Argumentos petrológicos
Muitos hotspots oceânicos marcam a
terminação de cadeias lineares de vulcões
extintos, cujas idades aumentam
progressivamente afastando-se deles. O
exemplo clássico é o da cadeia havaiana,
mas muitos outros são visíveis em mapas
batimétricos dos oceanos. Estes traços de
hotspots podem ser unidos, em muitos casos,
a derrames continentais de platô e a platôs
oceânicos (Fig. 5.6). Basaltos continentais
de platô (CFB, de continental flood basalts)
e platôs oceânicos são depósitos espessos de
basaltos, acumulados, respectivamente, nos
continentes e em bacias oceânicas. Suas
áreas podem atingir dois milhões de
quilômetros quadrados. Eles constituem as
chamadas grandes províncias ígneas (LIPs,
de large igneous provinces). Os principais
derrames continentais de platô são: Paraná
(Brasil e Paraguai), Etendeka e Karoo (sul
da África), Decão (sul da Índia), e Sibéria
(Fig. 5.6). Platôs oceânicos cobrem cerca de
dez por cento da superfície dos oceanos e
Figura 5.6. Distribuição de grandes províncias ígneas e traços de hotspots.
57
elevam-se 2 a 4 km acima do assoalho
oceânico adjacente. A crosta oceânica nestes
locais tem 20 a 40 km de espessura,
consideravelmente maior que a espessura
típica de 7 km. Os maiores platôs oceânicos
são os de Kerguelen, ao norte da Antártica, e
Ontong Java, no oeste do oceano Pacífico
(Fig. 5.6).
Estudos geocronológicos detalhados
mostram que, na maioria dos casos, o
vulcanismo associado a LIPs ocorreu em um
curto intervalo do tempo geológico (alguns
milhões a menos de um milhão de anos). A
taxa de produção de magmas, nestes casos,
é, assim, bem maior que em ambientes
relacionados a limites de placas (ver
Capítulo 6). Essas taxas elevadas e a
associação espacial entre LIPs e traços de
hotspots podem ser explicadas pela ascensão
e fusão parcial de plumas. Ao chegar à base
da litosfera, a cabeça de uma pluma sofre
fusão parcial por descompressão,
produzindo um volumoso vulcanismo
basáltico (Fig. 5.7a, b). Com o deslocamento
da placa, será agora a vez da cauda da pluma
sofrer fusão parcial, gerando um volume
bem menor de magma e um hotspot (Fig.
5.7c). Com a continuação do movimento, o
vulcanismo cessa neste hotspot e um novo
centro vulcânico se forma. Eventualmente,
um traço de vulcões extintos, ligando um
hotspot ativo a um LIP, é formado (Fig.
5.7d).
Os magmas dominantes, tanto nos
LIPs, quanto em ilhas oceânicas, são
basaltos toleíticos. Álcali-basaltos e rochas
alcalinas (nefelinitos, fonolitos, etc.) podem
estar presentes em CFBs e em ilhas
oceânicas e são atribuídos a uma menor
porcentagem de fusão parcial, em
combinação, ou não, com cristalização
fracionada. Basaltos picríticos (basaltos
ricos em MgO) presentes em alguns CFBs
são interpretados como fusão parcial da
porção central, e, portanto, mais quente, da
cabeça de plumas. Estimativas da diferença
de temperatura de basaltos em LIPs e
hotspots oceânicos e de basaltos
erupcionados nas dorsais oceânicas variam
de 150º a 400ºC. Isto é consistente com a
origem profunda assumida para plumas.
A formação de kimberlitos,
carbonatitos e rochas relacionadas é
atribuída, também, à fusão parcial de plumas
mantélicas. Inclusões encontradas em alguns
diamantes de kimberlitos (majorita,
magnesiowüstita) indicam uma origem no
manto inferior. A composição peculiar de
magmas kimberlíticos e carbonatíticos
(teores elevados de MgO e de elementos
incompatíveis, como K, elementos terras
raras, Nb e Ti) parece ser adquirida pela
assimilação de porções metassomatizadas da
litosfera por magmas ultramáficos.
Figura 5.7. Estágios sucessivos da interação entre
uma pluma gerada na base do manto, o
deslocamento da litosfera (seta) e convecção
mantélica (elipses com setas).
58
Kimberlitos ocorrem apenas em regiões
continentais estáveis antigas (> 1,7 Ga),
onde a litosfera é bastante espessa (200-250
km), mas carbonatitos estão também
presentesem riftes continentais.
5.2.5. Argumentos geoquímicos
Devido ao crescimento da crosta
continental, o manto tem sido
progressivamente empobrecido em
elementos incompatíveis com o decorrer do
tempo geológico (Capítulo 8). Magmas
derivados por fusão parcial do manto
superior, como aqueles extravasados nas
dorsais oceânicas, têm concentrações
extremamente baixas desses elementos (Fig.
5.8 e Capítulo 6). Em contraste, basaltos de
ilhas oceânicas (OIBs, de ocean island
basalts) e de derrames continentais de platô
têm concentrações bem mais elevadas,
particularmente dos elementos mais
incompatíveis (Rb, Ba, Th, Nd, La; Fig.
5.8). Isto indica derivação de uma fonte que
foi menos afetada pela formação da crosta
continental e reteve, assim, uma maior
proporção de seus elementos incompatíveis.
Esta fonte, presumivelmente, deve ser mais
profunda, consistente com a derivação de
plumas a partir do manto inferior.
Comparado com OIBs, basaltos
continentais de platô tendem a ter
concentrações mais baixas de elementos
incompatíveis (Fig. 5.8), refletindo a maior
percentagem de fusão parcial em cabeças de
plumas que em suas caudas. Variações
composicionais mais acentuadas também
são esperadas em basaltos continentais,
devido à maior espessura da litosfera
continental, o que dificulta a ascensão dos
magmas. Isto favorece a atuação de
processos de cristalização fracionada e uma
maior interação dos magmas com a litosfera,
o que pode resultar em sua contaminação,
seja por assimilação de material crustal, seja
por mistura com magmas derivados de fusão
parcial do manto litosférico e/ou da crosta.
5.2.6. Argumentos isotópicos
Estudos isotópicos corroboram a
distinção entre OIBs e basaltos de dorsais
oceânicas. Lavas de hotspots tendem a ser
enriquecidas nos isótopos radiogênicos de Sr
e Pb e empobrecidas no isótopos
radiogênico de Nd. Por exemplo, a variação
da razão 87Sr/86Sr em basaltos de dorsais
oceânicas é, tipicamente, 0,702-0,703,
enquanto em hotspots é 0,703-0,705 (Fig.
5.3).
As variações isotópicas observadas
em diferentes hotspots requerem a existência
de, pelo menos, três reservatórios com
características isotópicas distintas (Fig. 5.9):
(1) HIMU (de high µ; onde µ é a razão
238U/204Pb) caracterizado por altas razões
206Pb/204Pb; (2) EM1 (de enriched mantle,
tipo 1), com razões relativamente baixas de
206Pb/204Pb e moderadas de 87Sr/86Sr; (3)
EM2 (de enriched mantle, tipo 2), com
razões 206Pb/204Pb moderadas e 87Sr/86Sr
elevadas. Algumas ilhas têm composições
próximas da composição de um desses
componentes extremos, mas a maioria
mostra uma dispersão de valores, sugerindo
mistura de dois ou mais componentes e/ou
com o manto fonte dos MORBs (Fig. 5.9).
Geograficamente, as composições EM1 e
EM2 estão concentradas em hotspots
localizados ao sul do equador. Esta feição é
freqüentemente referida como anomalia
DUPAL.
Figura 5.8. Diagrama de elementos traço
(normalizados em relação ao manto) comparando
composições médias de basaltos de cadeias
oceânicas (MORB), de hotspots (OIB) e de
derrames continentais de platô (Paraná, Decão e
Rio Columbia).
59
Uma possível explicação para o valor
elevado da razão 238U/204Pb no componente
HIMU é sua proveniência de porções do
manto que não foram afetadas pela extração
de U para a crosta continental, isto é, manto
primitivo. No entanto, a razão 87Sr/86Sr
desse componente é semelhante à de
basaltos em dorsais oceânicas (Fig. 5.9),
sugerindo, ao contrário, fonte similar à dos
MORBs, isto é, manto empobrecido. Por
isso, a explicação mais aceita é a presença
de crosta oceânica subduzida na região fonte
dos hotspots dominados pelo componente
HIMU. Nesta interpretação, a alta razão
238U/204Pb é atribuída à perda preferencial de
Pb nos fluidos liberados durante a
subducção da placa oceânica (Capítulo 6).
A origem do componente EM1 é
atribuída à introdução na região fonte dos
OIBs de sedimentos pelágicos subduzidos
ou de porções da litosfera continental
delaminadas durante eventos orogênicos
(Capítulo 7). A elevada razão 87Sr/86Sr no
componente EM2 é interpretada como
resultado da introdução de sedimentos
continentais, via subducção, na região fonte
dos OIBs.
Muitos hotspots são, ainda,
caracterizados isotopicamente por razões
3He/4He mais elevadas que em MORBs.
Uma vez que 4He é produzido pelo
decaimento radioativo de U e Th, razões
3He/4He elevadas podem ser interpretadas
pela proveniência de plumas de uma fonte
profunda, menos afetada pela perda de
voláteis durante a evolução da Terra.
Em síntese, os dados sugerem que a
diversidade isotópica observada em hotspots
resulta da derivação de plumas de porções
do manto afetadas pelo crescimento da
crosta continental, como no caso de
MORBs, mas que foram variavelmente
reenriquecidas por subducção de
componentes litosféricos, tanto continentais
quanto oceânicos. Em vista da evidência
geofísica indicando a descida de placas até a
base do manto, isto suporta a origem
profunda das plumas.
5.3. Hotspots sem relação com plumas
Nem todos hotspots estão
relacionados a plumas provenientes do
manto inferior. Isto é o caso do vulcanismo
no Maciço Central (França) e do hotspot
Eifel (Alemanha), os quais resultam de
plumas relativamente pequenas no manto
superior. Outros hotspots, aparentemente,
não têm relação com plumas, como no caso
de pequenos vulcões submarinos isolados e
do vulcanismo associado com alguns riftes
continentais. Nestas situações, o mecanismo
mais comumente invocado para a produção
do magmatismo intraplaca é a concentração
de esforços extensionais na litosfera,
ocasionando seu fraturamento e fusão
parcial por descompressão da astenosfera.
Concentrações de esforços podem ocorrer,
por exemplo, pelo encurvamento da litosfera
na proximidade de uma zona de subducção.
Outros mecanismos, comumente
invocando para a formação de hotspots, são
o aquecimento espontâneo do manto abaixo
de grandes continentes/supercontinentes e
Figura 5.9. Razões isotópicas de Sr e Nd em
basaltos de dorsais oceânicas (MORB) e de
hotspots (OIB). Amostras dominadas pelos
componentes HIMU, EM1 e EM2 são mostradas
em vermelho, laranja e amarelo, respectivamente.
PRIMA é a composição inferida para o manto
primitivo. Em diagramas isotópicos ternários Sr-
Nd-Pb as composições de ilhas individuais podem
convergir para um ponto. FOZO (abreviatura de
focal zone, zona focal) e C (abreviatura de
common, comum) são as projeções de dois desses
pontos neste diagrama binário.
60
convecção em pequena escala. Neste
segundo caso, variações de espessura
litosférica, como observada entre um cráton
arqueano e litosfera mais jovem (Fig. 4.4),
produzem diferenças laterais de temperatura
na astenosfera. A instabilidade gravitacional
resultante pode fazer com que a astenosfera
mais fria, próxima ao cráton, desça e induza
um fluxo contrário da astenosfera mais
profunda e quente, a qual pode sofrer fusão
por descompressão ao se aproximar da
superfície.
Finalmente, a formação de algumas
LIPs tem sido atribuída ao alívio de pressão
subseqüente ao impacto de meteoritos.
5.4. Traços de hotspots e velocidades
absolutas de placas
Modelos numéricos sugerem que o
local onde uma pluma é produzida
permanece fixo com o decorrer do tempo. Se
hotspots são também relativamente fixos, a
trilha deixada pela passagem da litosfera
sobre um hotspot (Fig. 5.7) fornece um
referencial para se determinar as velocidades
absolutas do movimento das placas. Isto tem
uma grande vantagem sobre os métodos
geofísicos e geodésicos descritos no capítulo
anterior, porque todos eles fornecem,
apenas, velocidades relativas.
Nomodelo de hotspot, a direção e a
velocidade do movimento de uma placa são
obtidas, respectivamente, pela direção da
trilha e pela progressão de idades ao longo
dela. Por exemplo, vulcões ao longo da
cadeia do Havaí têm idades aumentando
progressivamente para noroeste de zero até
43 Ma (Fig. 5.11). Como o comprimento da
trilha é cerca de 3600 km, isto indica que a
placa do Pacífico tem se movido para
noroeste a uma velocidade média de
aproximadamente 80 km/Ma (= 8 cm/ano)
durante este intervalo de tempo. O ângulo de
120º entre as cadeias do Havaí e Imperador
(Fig. 5.11), por sua vez, indica uma
mudança na direção do movimento da placa
do Pacífico, a qual seria quase N-S entre 43
e 80 Ma.
Estudos paleomagnéticos mostram
que alguns hotspots não são fixos. No
entanto, o movimento relativo entre hotspots
localizados numa mesma placa é
insignificante. Numa escala global, a
magnitude do movimento entre hotspots
localizados nos oceanos Atlântico e Índico e
aqueles localizados no oceano Pacífico tem
sido estimada em uns poucos milímetros por
ano até cerca de 1 cm/ano.
5.5. Plumas e tectônica de placas
O fato de a localização de hotspots
não apresentar uma correlação forte com a
configuração atual dos limites entre as
diferentes placas tectônicas indica que os
modos de convecção do manto,
representados pela tectônica de placas e por
plumas, são, em grande parte,
Figura 5.10. Esquema ilustrativo de como a
descontinuidade vertical de temperatura ao longo
do limite entre um cráton e a litosfera mais fina
adjacente pode induzir instabilidades
gravitacionais e convecção na astenosfera
Figura 5.11. Idade versus distância para a trilha
de hotspot Havaí-Imperador.
61
independentes. No entanto, interações entre
plumas e placas podem acontecer em várias
situações. As mais comuns são descritas
abaixo:
1. Numa escala global, modelos
tomográficos mostram que plumas formam-
se preferencialmente afastadas de locais
onde ocorre subducção profunda (Fig. 4.13).
Este efeito é esperado, porque a descida de
placas litosféricas para a base do manto
provoca um resfriamento da camada
termicamente limitada inferior, diminuindo
o contraste de viscosidade e densidade
requerido para o desenvolvimento de
plumas.
2. Plumas podem ser afetadas pela
convecção em larga escala do manto
resultante do movimento das placas
tectônicas, causando uma curvatura do
conduto para a direção do deslocamento da
litosfera (Fig. 5.7d-e). Uma deflexão mais
acentuada é esperada na porção mais
superior do manto (onde o fluxo cisalhante
resultante do deslocamento horizontal das
placas é maior) e abaixo de placas rápidas.
3. Plumas podem coincidir
espacialmente com dorsais oceânicas, como
no caso da Islândia. Isto afeta a morfologia
da dorsal, que tende a apresentar uma
batimetria positiva (Fig. 5.3), bem como o
volume e a composição dos magmas
produzidos nestes locais. A chegada de uma
pluma nas proximidades de uma dorsal
pode, ainda, provocar mudanças na sua
geometria, induzindo uma relocalização do
eixo para a proximidade do hotspot, onde as
temperaturas são mais elevadas.
4. A coincidência temporal, em
alguns casos, entre o quebramento de
continentes e a atividade de plumas sugere
que elas podem influenciar a localização do
rompimento e, talvez, causar a separação de
pequenos blocos. Três causas, atuando em
conjunto, podem ser responsáveis por isto.
Primeiro, ao chegar à base da litosfera, uma
pluma exerce um esforço normal, forçando a
mesma a se deslocar horizontalmente.
Segundo, o soerguimento da superfície
causado pela pluma gera esforços
extensionais na porção superior da litosfera,
os quais podem provocar o desenvolvimento
de falhas normais. Finalmente, o
amolecimento (softening) reológico, causado
pela elevação da temperatura, facilita a
deformação extensional da litosfera.
5. Erosão térmica por plumas pode
produzir uma redução na espessura da
litosfera continental, facilitando o
deslocamento da placa na qual ela está
situada. A rápida migração da Índia para o
norte, a velocidades de até 20 cm/ano,
subseqüente à sua separação do
supercontinente Gondwana (Capítulo 11) é
atribuída a este fator.
6. No caso de plumas chegando
abaixo de regiões continentais, fusão parcial
e formação de basaltos continentais de platô
é condicionada pela espessura da litosfera.
No modelo de impacto, fusão parcial da
cabeça da pluma se dá concomitantemente
com sua chegada na base da litosfera. O
resultado é a produção de um grande volume
de magma em curto intervalo de tempo (< 1
Ma) e uma influência limitada da litosfera
na sua composição. No modelo de
incubação, a presença de uma litosfera
espessa, abaixo dos continentes, inibe fusão
por descompressão. Nestes casos, a litosfera
deve ser adelgaçada e removida por
condução antes que fusão parcial ocorra, o
que requer certo tempo, resultando em
magmatismo mais prolongado (≥10 Ma).
Neste último caso, a própria litosfera pode
Figura 5.12. Esquema ilustrando a interação de
uma pluma com a litosfera continental. Em
regiões onde a litosfera é espessa, fusão parcial
ocorre apenas imediatamente acima do conduto,
onde a temperatura é mais elevada.
62
sofrer fusão parcial, especialmente se fluidos
e elementos incompatíveis foram
adicionados a ela durante eventos
geológicos pretéritos. Assim, os magmas
extravasados podem conter uma mistura de
componentes da pluma e da litosfera
continental. Finalmente, interação de plumas
com heterogeneidades da litosfera, em
particular variações de espessura, pode
provocar uma dispersão do magmatismo na
superfície (Fig. 5.12).
5.6. Uma visão global da dinâmica e
evolução do manto
Existe, agora, ampla evidência
geofísica de que a descontinuidade de 660
km não constitui uma barreira intransponível
para a descida de placas em direção ao
manto inferior. Embora com menos
segurança, os dados geofísicos também
sugerem que muitas plumas são geradas na
base do manto. Estas informações implicam
que convecção envolve todo o manto (Fig.
5.13). Em contraste, argumentos
geoquímicos favorecem um manto
estratificado, com ocorrência de convecção
em duas camadas isoladas, uma acima e
outra abaixo da descontinuidade de 660 km.
A defesa de um manto estratificado é
baseada em cálculos de balanço de massa
que permitem estimar a fração do manto
afetada pelo crescimento da crosta
continental. Isto pode ser feito, em tese,
conhecendo-se a concentração de um
elemento incompatível no manto primitivo
(normalmente obtida a partir de estudos de
meteoritos; ver Capítulo 8) e suas
concentrações atuais na crosta e no manto.
Alternativamente, razões elementais ou
isotópicas também podem ser empregadas.
Os resultados obtidos variam de 40% a 94%.
Os valores mais baixos requerem, apenas, a
participação da porção do manto acima da
descontinuidade de 660 km no processo de
criação da crosta continental. Isto apoiaria o
modelo de convecção em duas camadas
porque, se a convecção fosse global, o
contraste composicional entre o manto
superior e o manto inferior revelado pelas
diferenças entre MORBs e OIBs tenderia a
desaparecer com o passar do tempo. As
estimativas mais recentes favorecem, no
entanto, os valores mais elevados, indicando
que uma fração significativa do manto não
possui mais uma composição primitiva (Fig.
5.13).
Mesmo que uma quantidade
significativa de material primordial ainda
esteja presente no manto, ocorrência de
convecção global não é invalidada. Modelos
Figura 5.13. Modelo esquemático ilustrando um possível cenário para a estrutura e dinâmica do manto onde
fragmentos de placas subduzidas antigas e porções remanescentesdo manto primitivo persistem em uma matriz
empobrecida em elementos incompatíveis.
63
numéricos recentes sugerem que até 50% de
material primitivo pode estar presente no
manto. Ele ocorreria na forma de pequenos
domínios espalhados, fortemente cisalhados
e dobrados (Fig. 5.13). Os cálculos sugerem
que estas heterogeneidades geoquímicas
podem sobreviver por períodos de tempo
maiores que a idade da Terra.
Enquanto movimentos de convecção
tendem a homogeneizar o manto, a
reciclagem da litosfera oceânica, por
subducção, introduz heterogeneidades no
manto inferior. Plumas profundas podem,
assim, conter proporções variáveis de manto
primitivo, de manto empobrecido e de
diversos componentes litosféricos. É,
portanto, de se esperar que os produtos de
sua fusão parcial apresentem uma grande
variabilidade geoquímica e isotópica, como
observado em basaltos de ilhas oceânicas e
LIPs.
Em síntese, embora ainda não haja
consenso sobre diversos aspectos da
estrutura, dinâmica e evolução do manto,
uma convergência de dados geofísicos,
geoquímicos e isotópicos, de experimentos
numéricos e laboratoriais, e de modelos
teóricos sugere um cenário similar ao
ilustrado na Figura 5.13.
Referências selecionadas
Albarède, F., 2005. The survival of mantle
geochemical heterogeneities. In: van der Hilst,
R.D., Bass, J.D., Matas, J., Trampert, J. (eds.)
Earth’s Deep Mantle: Structure, Composition,
and Evolution. Geophysical Monograph Series
160, 27-46.
Boschi, L., Becker, T.W., Steinberger, B., 2007.
Mantle plumes: Dynamic models and seismic
images. Geochemistry, Geophysics, Geosystems
8. doi:10.1029/2007GC001733.
Burke, K., Torsvik, T.H., 2004. Derivation of Large
Igneous Provinces of the past 200 million years
from long-term heterogeneities in the deep
mantle. Earth and Planetary Science Letters
227, 531-538.
Campbell, I.H., Davies, G.F., 2006. Do mantle
plumes exist? Episodes 29, 162-168.
Class, C., Goldstein, S.L., 2005. Evolution of helium
isotopes in the Earth's mantle. Nature 436,
1107-1112.
Davies, G.F., 1999. Dynamic Earth: Plates, Plumes
and Mantle Convection. Cambridge University
Press.
Davies, J.H., 2005. Steady plumes produced by
downwellings in Earth-like vigor spherical
whole mantle convection models.
Geochemistry, Geophysics, Geosystems 6, doi:
10.1029/2005GC001042.
Davies, J.H., Bunge, H.P., 2006. Are splash plumes
the origin of minor hotspots? Geology 34, 349-
352.
Eldholm, O., Coffin, M.F., 2000. Large igneous
provinces and plate tectonics. In: Richards,
M.A., Gordon, R.G., van der Hilst, R.D. (eds)
The history and dynamics of global plate
motions. Geophysical Monograph Series 121,
309-326.
Ernst, R.E., Buchan, K.L., Campbell, I.H., 2005.
Frontiers in Large Igneous Province research.
Lithos 79, 271-297.
Farnetani, C.G., Samuel, H., 2005. Beyond the
thermal plume paradigm. Geophysical Research
Letters 32, doi: 10.1029/2005GL022360.
Helmberger, D.V., Wen, L.X., 1998. Seismic
evidence that the source of the Iceland hotspot
lies at the core-mantle boundary. Nature 396,
251-255.
Jellinek, A.M. Manga, M., 2004. Links between long-
lived hot spots, mantle plumes, D’’, and plate
tectonics. Reviews of Geophysics 42, doi:
10.1029/2003RG000144.
Ito, G., Lin, I., Graham, D., 2003. Observational and
theoretical studies of the dynamics of mantle
plume-mid-ocean ridge interaction. Reviews of
Geophysics 41, doi: 10.1029/2002RG000117.
Jurine, D., Jaupart, C., Brandeis, G., 2005.
Penetration of mantle plumes through depleted
lithosphere. Journal of Geophysical Research
110, doi: 10.1029/2005JB003751.
Kerr, A.C., 2005. Oceanic plateaus. In: Rudnick, R.L.
(ed.) The Crust. Treatise on Geochemistry 3,
537-565, Elsevier.
Kumar, P., Yuan, X., Kumar, M.R., Kind, R., Li, X.,
Chadha, R.K., 2007. The rapid drift of the
Indian tectonic plate. Nature 449, 894-897.
Li, X., Kind, R., Priestley, K., Sobolev, S.V.,
Tilmann, F., Yuan, X., Weber, M., 2000.
Mapping the Hawaiian plume conduit with
converted seismic waves. Nature 405, 938-941.
McNamara, A., van Keken, P.E., Karato, S.I., 2002.
Development of anisotropic structure in the
Earth's lower mantle by solid-state convection.
Nature 416, 310-314.
Montelli, R., Nolet, G., Dahlen, F.A., Masters, G.,
2006. A catalogue of deep mantle plumes: new
results from finite frequency tomography.
Geochemistry, Geophysics, Geosystems 7, doi:
10.1029/2006GC001248.
64
Putirka, K.D., 2005. Mantle potential temperatures at
Hawaii, Iceland, and the mid-ocean ridge
system, as inferred from olivine phenocrysts:
evidence for thermally driven mantle plumes.
Geochemistry, Geophysics, Geosystems 6, doi:
10.1029/2005GC000915.
Russel, S.A., Lay, T., Garnero, E.J., 1998. Seismic
evidence for small-scale dynamics in the
lowermost mantle at the root of the Hawaiian
hotspots. Nature 396, 255-258.
Shen, Y., Solomon, S.C., Bjarnason, I.T, Wolfe, C.J.,
1998. Seismic evidence for a lower-mantle
origin of the Iceland plume. Nature 395, 62-65.
Sleep, N.H., 2006. Mantle plumes from top to
bottom. Earth-Science Reviews 77, 231-271.
Steinberger, B. Antretter, M., 2006. Conduit diameter
and buoyant rising speed of mantle plumes:
implications for the motion of hot spots and
shape of plume conduits. Geochemistry,
Geophysics, Geosystems 7, doi:
10.1029/2006GC001409.
Storey, B.C., 1995. The role of mantle plumes in
continental breakup: case histories from
Gondwanaland. Nature 377, 301-377.
van Thienen, P., van Summeren, J., van der Hilst,
R.D., van den Berg, A.P., Vlaar, N.J., 2005.
Numerical study of the origin and stability of
chemically distinct reservoirs deep in Earth’s
mantle. In: van der Hilst, R.D., Bass, J.D.,
Matas, J., Trampert, J. (eds.) Earth’s Deep
Mantle: Structure, Composition, and Evolution.
Geophysical Monograph Series 160, 117-136.
Zhao, D., 2007. Seismic images under 60 hotspots:
search for mantle plumes. Gondwana Research
12, 335-355.
65
6. Ambientes Tectônicos: Estrutura e Associações
Petrotectônicas Características
6.1. Introdução
A constatação da inexistência de
crosta oceânica mais antiga que 200 Ma
(Capítulo 4) levou à proposição de que a
abertura e fechamento de oceanos ocorrem
ciclicamente na história da Terra. Este
conceito é agora conhecido como o ciclo de
Wilson (Fig. 6.1).
O ciclo de Wilson tem início com a
formação de um rifte continental, sendo
seguido pela abertura de uma bacia oceânica
com margens continentais passivas de ambos
os lados (Fig. 6.1a-d). Com a progressiva
expansão do assoalho oceânico, a litosfera
oceânica se torna mais velha e,
conseqüentemente, mais densa e
gravitacionalmente instável. Eventualmente,
zonas de subducção se desenvolvem de um
ou de ambos os lados do oceano recém
formado (Fig. 6.1e). Se a taxa com que a
litosfera é consumida na(s) zona(s) de
subducção supera a taxa com que ela é criada
na dorsal oceânica, a bacia oceânica começa
a se fechar, culminando na colisão de dois
continentes (Fig. 6.1f,g). O continente
resultante pode, posteriormente, sofrer
rifteamento e dar início a um novo ciclo.
Associações de rochas supracrustais
(sedimentares e vulcânicas) que caracterizam
os diferentes ambientes tectônicos
relacionados com o ciclo de Wilson são
chamadas de associações petrotectônicas.
Neste capítulo, são descritas as associações
petrotectôncias formadas durante as fases de
divergência e convergência de placas
litosféricas, bem como suas principais
características morfológicas, estruturais e
metamórficas. Feições relacionadas com a
fase de colisão são abordadas no próximo
capítulo.
6.2. Riftes continentais
6.2.1. Características gerais e mecanismos
de formação
Riftes e sistemasde riftes continentais
são cinturões da litosfera continental sujeitos
à extensão. Sistemas de riftes comumente são
estreitos (<100 km) e alongados (>1000 km),
como no caso do sistema de riftes do leste da
África (Fig. 6.2), mas, também, podem
resultar de extensão difusa de grandes áreas,
algumas com larguras superiores a 1000 km.
Isto é o caso da província Basin and Range
(Fig. 11.12), no oeste dos Estados Unidos, e
do Platô Tibetano (Fig. 7.2). Esta segunda
situação, normalmente, resulta do
adelgaçamento de uma crosta previamente
espessada durante eventos orogenéticos e
será detalhada no próximo capítulo.
Dependendo do mecanismo de
formação, riftes continentais podem ser
Figura 6.1. Seqüência idealizada de eventos em
um ciclo de Wilson. (a) Cráton; (b) Rifte
continental; (c) Rifte oceânico incipiente; (d)
Rifte oceânico e margens continentais passivas;
(e) Formação de uma zona de subducção; (f)
Fechamento oceânico, com subducção da dorsal;
(g) Colisão continental.
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
66
classificados como ativos ou passivos (Fig.
6.3).
Figura 6.2. Mapa esquemático do sistema de riftes do
leste da África e rochas vulcânicas cenozóicas
associadas.
Riftes ativos (também chamados de
termicamente ativados) são produzidos em
resposta à subida de plumas do manto (Fig.
6.3). Isto causa, inicialmente, domeamento e,
subseqüentemente, fraturamento da litosfera.
Neste caso, grandes volumes de derrames
continentais de platô são erupcionados antes
da ocorrência de extensão significativa. No
rifteamento ativo, tipicamente, três riftes
formando um ângulo de 120º entre si se
desenvolvem (Fig. 6.4). Os três ramos podem
evoluir até a formação de uma bacia
oceânica, porém, mais comumente, dois
ramos se conectam para formar uma margem
passiva, enquanto o outro é abandonado. Este
último é chamado de rifte abortado. O termo
aulacógeno é empregado para um rifte
abortado que sofreu contração em ângulo
elevado com a direção do rifte durante um
evento deformacional posterior. Em regiões
antigas, rifteamento ativo pode ser
reconhecido pela ocorrência de enxames de
diques radiais com raio superior a 1000 km
(Fig. 6.4).
Riftes passivos são produzidos por
fraturamento da litosfera, em resposta a
esforços resultantes do movimento das placas
tectônicas. Neste caso, extensão significativa
é necessária antes que fusão por
descompressão da astenosfera seja possível
(Fig. 6.3). Um exemplo é o Rifte Baikal, na
parte central da Eurásia, o qual,
provavelmente, formou-se como uma
resposta distal da colisão Índia-Ásia. Entre as
zonas ativas no presente, este rifte é o que
está associado com o menor volume de
rochas vulcânicas na superfície.
A formação de bacias
intracontinentais (também chamadas bacias
intracratônicas ou sinéclises) pode estar
associada com uma fase inicial de
Figura 6.3. Estágios sucessivos na evolução de
riftes ativos e passivos. No primeiro caso,
domeamento (A) e vulcanismo (B) ocorrem antes
de extensão significativa (C). No segundo,
extensão (A, B) precede soerguimento (B) e
magmatismo (C).
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
67
rifteamento. Durante esta fase, a maior
proximidade da astenosfera da superfície
causa uma elevação regional da temperatura.
Uma vez cessada a extensão, a contração
térmica subseqüente pode desenvolver
depressões amplas. O efeito será tanto maior
quanto maior o volume de magma
acompanhando a extensão. Se a atividade
magmática for intensa, a intrusão de magmas
máficos na crosta inferior (Fig. 6.3C) pode
manter a espessura da crosta mais ou menos
constante. Com o preenchimento das
depressões com sedimentos, o processo de
subsidência é acentuado, devido ao peso da
coluna sedimentar, até que uma situação de
equilíbrio é atingida.
6.2.2. Controles na formação e evolução de
riftes continentais
O rifteamento da litosfera pode dar-se
por cisalhamento puro ou por cisalhamento
simples (Fig. 6.5). No primeiro caso, horsts e
grábens múltiplos simétricos são produzidos
durante extensão rúptil da crosta superior,
enquanto a crosta inferior e o manto
litosférico sofrem extensão dúctil. No
segundo caso, o rifteamento é assimétrico.
Uma falha de descolamento grada a uma
zona de cisalhamento em profundidade, a
qual pode penetrar toda a litosfera. O
descolamento separa uma placa superior
sujeita a ruptura e desenvolvimento de falhas
lístricas ou em dominó de uma placa inferior
deformada ductilmente.
Estruturas prévias na litosfera
continental exercem um grande controle na
orientação e localização da deformação
extensional em sistemas de rifte. Por
exemplo, o sistema de riftes do leste da
África segue a orientação das estruturas
formadas durante a orogênese Pan-Africana
do Neoproterozóico Superior e a presença do
cráton da Tanzânia, mais rígido, condicionou
a formação dos ramos leste e oeste (Fig. 6.2).
Quando estruturas preexistentes não são
perpendiculares à direção de estiramento
regional, rifteamento oblíquo pode ocorrer.
Nestes casos, falhas com rejeitos oblíquos
podem ser formadas (Fig. 6.6a).
Alternativamente, pode ocorrer uma partição
da deformação entre regiões sujeitas à
extensão e regiões sujeitas a um regime
transcorrente (Fig. 6.6b). Ambientes onde
ocorre divergência oblíqua de blocos são
chamados transtrativos.
A formação de um sistema de riftes se
inicia com uma série de falhas desconectadas
que começam a interferir umas com as outras
durante seu crescimento. Isto, tipicamente,
produz segmentos de rifte com traçados
sinuosos. Regiões onde dois segmentos de
rifte se conectam são chamadas zonas de
acomodação. Em alguns casos, zonas de
acomodação são formadas unicamente por
Figura 6.5. Modelos simplificados de extensão da
litosfera continental por (a) cisalhamento puro e
(b) cisalhamento simples.
Figura 6.4. Evolução de uma junção tríplice
formada por rifteamento ativo com intrusão de
enxames de diques radiais. Uma dorsal oceânica
incipiente se forma pela conexão de dois ramos e
término de extensão no terceiro.
felipe
Marcador de texto
felipe
Riscado
felipe
Sublinhado
felipe
Marcador de texto
68
falhas de rejeito direcional. Estas são
chamadas de falhas de transferência e podem
evoluir para falhas transformantes, se o rifte
chegar ao estágio oceânico.
6.2.3. Associações petrotectônicas
Riftes continentais são caracterizados
por sedimentos clásticos terrígenos imaturos
(arcósios, quartzitos feldspáticos e
conglomerados) derivados da erosão de
blocos falhados soerguidos. Sedimentos
lacustres finos também podem ser
encontrados. Quando a subsidência é
suficiente para trazer o assoalho do rifte
abaixo do nível do mar, evaporitos são
depositados. Com a continuaçãoda extensão,
o rifte é progressivamente inundado por água
do mar, e arenitos, argilitos e carbonatos
marinhos são depositados.
Rochas ígneas em riftes continentais
são caracterizadas por suítes vulcânicas
bimodais, com rochas de composição
intermediária (andesitos, por exemplo) sendo
raras. Os membros máficos consistem
dominantemente de basaltos toleíticos e
basaltos alcalinos. Estas rochas podem ser
derivadas de plumas mantélicas, do manto
litosférico, ou da astenosfera (Fig. 6.3) e
exibem graus variados de contaminação pela
crosta continental. Os membros félsicos são,
comumente, menos abundantes que os
máficos e incluem fonolitos, nefelinitos e
riolitos. Embora essas rochas possam, em
alguns casos, ser produzidas por cristalização
fracionada dos membros máficos, dados
geoquímicos e isotópicos indicam que a
maioria é de origem crustal, sendo gerados
por fusão parcial da crosta inferior,
promovida pelos magmas basálticos.
Com o decorrer da abertura de um
rifte continental, rochas máficas derivadas da
astenosfera mudam de dominantemente
alcalinas a dominantemente toleíticas, até
que, com a formação de assoalho oceânico,
sua composição começa a se aproximar da
dos basaltos de dorsais oceânicas (seção 6.4).
A sigla BVAC (da abreviação em
inglês para bimodal volcanics, arkose,
conglomerate) é comumente usada para se
referir à associação petrotectõnica
característica de riftes continentais.
6.3. Margens passivas e assoalho oceânico
Margens continentais passivas são
formadas com a separação completa de dois
continentes. A largura e estrutura de margens
continentais dependem de vários fatores. Elas
podem conter uma grande abundância ou
serem carentes em rochas vulcânicas (Fig.
6.7). No último caso, seções do manto
superior podem aflorar no assoalho oceânico.
Devido à reação com a água do mar, os
peridoditos mantélicos mostram,
freqüentemente, um grau avançado de
serpentinização. Um exemplo de tal situação
é a margem continental da Ibéria. Quando o
rifteamento é assimétrico (Fig. 6.5b), a
margem que se desenvolve na placa inferior é
bem mais larga e apresenta uma seqüência
sedimentar mais espessa que a margem da
placa superior. Margens evoluídas de regiões
transtrativas tendem a ser mais estreitas que
margens formadas por extensão ortogonal.
Três regiões são reconhecidas em
margens continentais da linha de costa para o
Figura 6.6. Esquema mostrando que a
deformação em zonas de divergência oblíqua
pode ser acomodada por falhas de rejeito oblíquo
(A) ou por uma partição da deformação (B).
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Riscado
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
69
oceano: a plataforma continental, o talude
continental e a elevação continental. As
rochas sedimentares típicas da plataforma
continental são sedimentos clásticos maturos
de águas rasas (arenitos, siltitos e argilitos) e
carbonatos. Estas rochas também
predominam em bacias intracratônicas, com
os carbonatos sendo depositados durante
ciclos transgressivos, que resultam na
formação de mares rasos extensos. A sigla
QPC (da abreviação em inglês para quartzite,
pelite, carbonate) é comumente usada para se
referir a esta associação. Espessas
acumulações de turbiditos ocorrem no talude
e na elevação continental. Turdiditos
caracteristicamente apresentam estratificação
gradacional, com camadas de granulação
mais grossa na base e mais fina no topo. Este
ordenamento interno é chamado seqüência de
Bouma.
O estiramento da crosta continental
cessa quando o assoalho oceânico é formado.
No entanto, falhas extensionais continuam a
se desenvolver na seqüência sedimentar da
plataforma continental. Estes falhamentos
resultam apenas de forças gravitacionais e
ocorrem devido ao declive da margem
passiva. Tipicamente, os níveis evaporíticos
na base da seqüência servem como
descolamentos basais para as falhas normais
(geralmente com geometria lístrica) que se
desenvolvem durante o deslizamento dos
sedimentos para o lado oceânico. Diápiros de
sal podem ascender devido ao alívio de carga
que acompanha o movimento nas falhas
extensionais.
Sedimentos depositados em bacias
oceânicas afastadas de regiões continentais
são chamados de sedimentos pelágicos. Eles
incluem sedimentos abissais (siltitos e
argilitos) de origem terrígena, que são, em
parte, eólicos, bem como calcários
fossilíferos e cherts. Estes dois últimos
resultam, respectivamente, do acúmulo de
microorganismos com carapaças carbonáticas
(predominantemente foraminíferos) e
silicosas (diatomáceas e radiolários).
6.4. Dorsais oceânicas
6.4.1. Classificação e morfologia
A taxa de expansão é a principal
variável observada ao longo do sistema de
dorsais oceânicas. De acordo com este
critério, elas são classificadas em rápidas (>
7 cm/ano), intermediárias (5-7 cm/ano),
lentas (2-5 cm/ano) e ultralentas (< 2
cm/ano). Dados geofísicos mostram que a
espessura da crosta oceânica é mais ou
menos constante para taxas de expansão
iguais ou superiores a 2 cm/ano. Para valores
inferiores a este, ela decresce rapidamente
com a diminuição da taxa de expansão.
Ainda se discute se a taxa de expansão global
média permaneceu relativamente constante
nos últimos 180 Ma de anos ou se ocorreram
variações significativas. Por exemplo, alguns
estudos sugerem que a taxa de expansão
durante o Cretáceo foi maior que durante o
Cenozóico (Fig. 6.8).
Dorsais rápidas, como no caso da
cadeia do leste do Pacífico, elevam-se
suavemente a partir do assoalho oceânico e
podem atingir larguras de até 1500 km (Fig.
6.9a, b), enquanto cadeias lentas, como a
dorsal meso-Atlântica, são, relativamente,
estreitas (algumas centenas de quilômetros de
largura; Fig. 6.9a, c). Estas diferenças
morfológicas acontecem porque, para uma
mesma distância do eixo da dorsal, a litosfera
oceânica em uma dorsal lenta é mais velha e,
portanto, mais densa que em uma dorsal
rápida. Dorsais lentas apresentam uma
topografia bastante acidentada e são
Figura 6.7. Esquema ilustrando diferenças na
estrutura de margens continentais amagmáticas
(acima) e magmáticas (abaixo).
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Seta
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de textofelipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
70
caracterizadas por um vale axial com 20 a 40
km de largura e 1 a 2 km de profundidade
(Fig. 6.9c). No entanto, esta morfologia pode
ser modificada nas proximidades de hotspots,
como no caso da Islândia, o que,
freqüentemente, resulta em dorsais com
forma em V, onde o vale axial torna-se mais
aberto e elevado em direção ao centro do
hotspot.
Dorsais com velocidades de expansão
intermediárias, como alguns segmentos da
dorsal do Pacífico, têm características
também intermediárias, apresentando um
vale axial não tão bem desenvolvido como no
caso de dorsais lentas. Em outros casos,
dorsais intermediárias apresentam segmentos
com morfologias alternadas, apresentando
características sejam de dorsais rápidas,
sejam de dorsais lentas.
Peridotitos serpentinizados afloram,
ocasionalmente, ao longo de vales axiais e de
falhas transformantes associadas com cadeias
lentas. É o caso do arquipélago São Pedro e
São Paulo, ao longo da falha transformante
São Paulo, no Atlântico equatorial. Estas
exposições do manto são interpretadas como
resultantes de produção insuficiente de
magma para gerar crosta oceânica contínua
nestes locais. Tal situação se torna mais
comum nas dorsais ultralentas, como na
dorsal Ártica e no segmento sudoeste da
dorsal Índica. Nestes locais, vulcanismo
intermitente faz com que grandes segmentos
amagmáticos contínuos, formados por
exposições do manto, ocorram por distâncias
de até 50 km.
6.4.2. Magmatismo
Dorsais oceânicas são responsáveis
pela produção de mais de 85% de todo o
volume de magma produzido na Terra. Com
base em estudos geofísicos de dorsais
oceânicas atuais e no estudo estrutural de
ofiolitos, este magmatismo é explicado pela
subida passiva do manto, em resposta à
separação entre as placas litosféricas (Fig.
6.10a). Fusão parcial por descompressão
começa entre 60 e 80 km de profundidade e
aumenta com a diminuição da profundidade.
Estimativas recentes sugerem que a
percentagem de fusão parcial média seja
relativamente baixa (6-10%).
Com a progressão da fusão parcial,
magma começar a se separar do resíduo
sólido, convergindo de uma zona bastante
larga para a região axial da dorsal (Fig.
6.10a). A segregação e transporte dos
magmas podem ocorrer por fluxo poroso ou
canalizado. O primeiro processo refere-se à
migração de magmas ao longo dos contatos
de grãos, enquanto o outro envolve a
formação de condutos tabulares.
Uma câmara magmática estável rasa
(1-2 km de profundidade) está presente
abaixo de segmentos de cadeia rápidos (Fig.
Figura 6.8. Estimativas da taxa de expansão
média global com a idade.
Figura 6.9. (a) Perfis esquemáticos de dorsais
rápidas (cinza claro) e lentas (cinza escuro). (b,
c) Detalhe do eixo da dorsal. Dorsais rápidas
apresentam um alto axial (b) enquanto dorsais
lentas têm um vale axial (c)
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
71
6.10b). Esta câmara superpõe uma zona
mush, onde magma e cristais coexistem,
estendendo-se até a base da crosta.
Lateralmente a esta região, ocorre uma zona
de transição, separando rochas parcialmente
e totalmente solidificadas (Fig. 6.10b).
Embora uma câmara magmática tenha
sido recentemente identificada abaixo de um
segmento da dorsal meso-Atlântica, é pouco
provável que câmaras magmáticas estáveis
sejam uma feição comum em dorsais lentas.
Mais comumente, a estrutura da dorsal deve
consistir de uma zona mush tabular abaixo do
vale axial, circundada por uma zona de
transição bem mais estreita que em dorsais
rápidas (Fig. 6.10c), com bolsões discretos de
magma se formando episodicamente. Falhas
penetram profundamente na crosta oceânica e
podem ser enraizadas na zona parcialmente
fundida.
6.4.3. Petrologia e geoquímica
Como no caso de LIPs e de ilhas
oceânicas (Capítulo 5), os produtos
magmáticos característicos de cadeias
oceânicas são basaltos toleíticos. Estes
basaltos são denominados de MORB (de
mid-ocean ridge basalt) e têm composições
bastante uniformes em termos de elementos
maiores, sendo caracterizados por valores
relativamente constantes de SiO2 (≈ 50%),
baixas concentrações de potássio (K2O
geralmente menor que 0,2%) e baixas razões
K/Na (Tabela 6.1). MORBs em cadeias
lentas têm razões Mg/Fe tipicamente mais
elevadas (são mais primitivas no jargão
geoquímico) que em cadeias rápidas. Isto é
devido à possibilidade de cristalização
fracionada mais acentuada em dorsais
rápidas, durante a residência dos magmas em
câmaras magmáticas rasas (Fig. 6.10b).
Grande parte da variação
composicional observada em MORBs resulta
de processos de cristalização fracionada,
envolvendo olivina, plagioclásio cálcico e
clinopiroxênio. Como o fracionamento
desses minerais tem efeito menos acentuado
Tabela 6.1. Composições médias de elementos
maiores de basaltos de dorsais oceânicas: (1) Dorsal
meso-Atlântica; (2) dorsal do Pacífico leste; (3)
dorsais no oceano Índico.
Óxido/
Elemento
(1) (2) (3)
SiO2 50,68 50,19 50,93
TiO2 1,49 1,77 1,19
Al2O3 15,60 14,86 15,15
FeO 9,85 11,36 10.32
MgO 7,69 7,10 7,69
CaO 11,44 11,44 11,84
Na2O 2,71 2,66 2,32
K2O 0,17 0,16 0,14
P2O5 0,12 0,14 0,10
(a)
(b)
(c)
Figura 6.10. (a) Subida passiva de magmas abaixo
de uma dorsal oceânica (linhas cheias) em
resposta ao movimento divergente das placas
tectônicas (linhas tracejadas). (b, c) Modelos
esquemáticos da estrutura da crosta oceânica
abaixo de dorsais rápidas (b) e lentas (c).
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
72
sobre a concentração de sílica que sobre a
concentração de magnésio, a variação
composicional de MORBs é, normalmente,
representada projetando-se os óxidos dos
elementos maiores versus MgO (Fig. 6.11).
O valor de MgO nos magmas parentais é
estimado em torno de 8%.
Em termos de elementos-traço, a
principal característica de MORBs são as
baixas concentrações de elementos
incompatíveis, como K, Rb, Ba, Cs, U e Th
(Fig. 5.8). Isto se reflete em baixas razões
iniciais Sr87/Sr86 e elevadas razões
Nd143/Nd144 (Fig. 5.9).
Os MORBs resultam de fusão parcial
da astenosfera (Fig. 6.10a), mas em
segmentos de cadeia centrados em hotspots,
como na Islândia, pode ocorrer contaminação
por plumas. Esses basaltos são chamados de
E- ou P-MORBs (E de enriquecidos, P de
pluma) em oposição aos MORBs normais
(N-MORBs). Eles apresentam concentrações
mais elevadas de elementos terras raras leves
(Fig. 6.12) e demais elementos
incompatíveis, bem como razões 87Sr/86Sr
mais altas (Fig. 5.3). Basaltos com
características intermediárias entre E- e N-
MORBS são chamadosde T-MORBs (T de
transicionais).
6.4.4. Hidrotermalismo e metamorfismo
Sistemas hidrotermais em dorsais
oceânicas são responsáveis por,
aproximadamente, 20% do calor perdido pela
Terra. Ao longo do eixo ou dos flancos das
dorsais, água fria penetra através de fissuras
na crosta oceânica, é aquecida e retorna para
o oceano em fontes térmicas. Durante este
percurso, a crosta oceânica é alterada,
incorporando alguns dos constituintes da
água do mar, como Na, Mg e sulfatos,
enquanto outros componentes como Si, Fe e
outros metais (Mn, Ag, Zn, Cu) são extraídos
(Fig. 6.13). Quando o fluido aquecido retorna
para o oceano, os metais dissolvidos se
combinam rapidamente com enxofre para
formar sulfetos. Se a temperatura do fluido é
muito alta (podendo atingir até 350ºC), a
mistura se dá acima da crosta oceânica,
dando ao fluido a aparência de uma fumaça
negra. Estas fontes hidrotermais são
chamadas fumarolas negras (black smokers).
Quando a temperatura é mais baixa, a
mistura do fluido com a água do mar ocorre
abaixo do assoalho oceânico e o fluido
extravasado tem coloração clara, sendo
chamado de fumarola branca (white smoker).
Os metais precipitados (pirita, calcopirita,
esfalerita, galena) formam importantes
depósitos minerais chamados de sulfetos
maciços.
O metamorfismo resultante da
alteração da crosta oceânica causada pela
circulação de fluidos hidrotermais depende
da profundidade. Em níveis mais superficiais,
onde a temperatura é baixa (< 100ºC),
carbonatos, zeólitas e argilas são formadas e
a alteração comumente não é penetrativa. Na
porção mais inferior dos derrames basálticos
Figura 6.11. Diagrama de variação para mais de
11000 amostras de taquilitos (vidros de
composição basáltica) de dorsais oceânicas.
Figura 6.12. Padrões de elementos terras raras
para N-MORBs e E-MORBS.
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
73
e nos enxames de diques, os minerais
primários são, tipicamente, substituídos por
associações minerais da fácies xisto-verde
(clorita, epidoto, albita). Basaltos e diabásios,
onde quase todo o cálcio foi substituído por
sódio, são convertidos em rochas ricas em
albita chamadas de espilitos. Na porção
plutônica, gabros são convertidos para
anfibolitos. Fusão parcial desses anfibolitos
gera tonalitos extremamente empobrecidos
em elementos incompatíveis, denominados
plagiogranitos. Isto pode ocorrer devido à
chegada de magmas primários na base da
crosta oceânica ou num evento bem
posterior, associado ao alojamento de
ofiolitos (Capítulo 7). Em dorsais lentas,
água do mar pode atingir o manto,
promovendo a substituição de olivina e
piroxênio por serpentina e/ou talco.
6.5. Margens ativas e arcos de ilhas
6.5.1. Características gerais
Margens continentais ativas e arcos
de ilhas resultam, respectivamente, da
subducção de uma placa oceânica sob um
continente ou sob outra placa oceânica. Um
perfil ao longo de um arco de ilha ativo típico
é mostrado na Figura 6.14. Do oceano para o
continente tem-se: a elevação externa; a
fossa; o complexo da zona de subducção
(também chamado prisma de acresção), com
bacias ante-arco (forearc) sobrejacentes; o
arco magmático; e a bacia retro-arco (back-
arc).
A formação da fossa e da elevação
externa é uma resposta à flexão da litosfera,
quando a placa inferior se encurva para
mergulhar no manto. Para um referencial fixo
no manto, o local onde isto ocorre migra em
direção ao oceano com o decorrer do tempo
(Fig. 6.1e, f). Este processo é chamado de
recuo (roll-back). Quando o recuo da fossa é
mais rápido que o deslocamento da placa
superior, a região atrás do arco entra em
extensão, ocasionando a formação de uma
bacia retro-arco. Estas zonas de subducção
extensionais são denominadas de tipo
Mariana. Se o recuo da fossa é mais lento
que o avanço da placa superior, esforços
compressivos se desenvolvem, provocando
contração na região atrás do arco e a
formação de um cinturão de empurrões e
dobramentos. Zonas de subducção, nas quais
o arco está sob compressão, são chamadas de
tipo Chileno (ou Andino).
A formação de zonas de subducção
do tipo Mariana é favorecida quando a placa
subduzida é antiga e fria. Zonas de
subducção do tipo Chileno resultam da
subducção de litosfera oceânica jovem e
quente, de segmentos de dorsais ou, ainda, de
segmentos litosféricos com crosta oceânica
anomalamente espessa, como platôs
oceânicos, ilhas vulcânicas e arcos de ilhas.
Em todos estes casos, a densidade média da
litosfera é diminuída, dificultando a
subducção e reduzindo o ângulo de mergulho
da placa. Em conseqüência, zonas de
subducção rasas, com mergulhos inferiores a
10-20º, são formadas.
O nome arco de ilha resulta do fato de
que vulcões ativos na superfície se dispõem
em forma arqueada. A curvatura de arcos de
ilhas pode ter várias causas. Ela pode ser uma
Figura 6.13. Etapas esquemáticas envolvidas na
atividade hidrotermal associada com dorsais
oceânicas. (1) Água fria penetra na crosta através
de fraturas. (2, 3) Remoção de oxigênio e potássio
(2) e de cálcio, sulfato e magnésio (3) da água do
mar. (4) O fluido aquecido remove sódio, cálcio e
potássio da crosta oceânica. (5, 6) Metais (Cu, Zn,
Fe) e enxofre entram no fluido e este começa a
subir. (7) Black smoker.
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
74
feição formada desde o começo da
subducção, devido à própria esfericidade da
Terra, ou resultar do encurvamento de um
arco originalmente retilíneo. Situações onde
este último caso pode ocorrer incluem a
chegada de traços de hotspots a uma zona de
subducção, o que reduz a velocidade de
recuo da fossa na sua proximidade; a
presença de heterogeneidades dentro da
litosfera resultantes de diferenças de idade,
novamente causando variações na velocidade
do recuo; e deslocamentos causados porfalhas transformantes.
6.5.2. Início do processo de subducção
Quando a litosfera oceânica
envelhece e esfria ao afastar-se de uma
dorsal oceânica, sua densidade também
aumenta, eventualmente, superando a
densidade da astenosfera. A partir daí, ela
torna-se gravitacionalmente instável. No
entanto, a resistência da litosfera oceânica
também aumenta com a diminuição da
temperatura. Assim, para que o processo de
subducção tenha início, é necessária uma
localização da deformação em regiões de
baixa resistência, onde uma instabilidade
pode se desenvolver e propagar (Fig. 4.30).
Estes locais incluem (Fig. 6.15): a transição
crosta oceânica/crosta continental, ao longo
de margens passivas; dorsais oceânicas;
falhas transformantes; e bacias retro-arco.
A nucleação de zonas de subducção
pode dar-se espontaneamente ou ser
induzida por esforços compressivos (Fig.
6.15). Estão incluídas, na primeira categoria,
zonas de subducção iniciadas ao longo de
margens continentais passivas e de falhas
transformantes. Modelos numéricos sugerem
que o início de subducção em margens
passivas requer uma carga sedimentar da
ordem de 10 km de espessura e hidratação
do manto litosférico. Falhas transformantes
podem colocar lado a lado litosferas
oceânicas de idades bastante diferentes.
Assim, a litosfera mais velha e espessa pode
começar a descer para a astenosfera, ao
longo dessa descontinuidade.
No caso de nucleação induzida, uma
zona de subducção preexistente é bloqueada
Figura 6.14. Seção esquemática de um arco de ilha do tipo Mariana mostrando suas principais divisões
tectônicas.
75
pela chegada na fossa de material de baixa
densidade (continentes, microcontinentes,
platôs oceânicos). A Figura 6.15 mostra
duas situações possíveis. No caso de
transferência, a continuação da convergência
faz com que uma nova zona de subducção se
forme no lado oceânico do bloco colidente.
No outro caso, um arco oceânico colide com
uma margem passiva. Como a litosfera do
arco é quente e, portanto, menos resistente,
uma zona de subducção com sentido de
mergulho oposto ao da zona de subducção
precedente pode ser nucleada.
6.5.3. Vulcanismo
O vulcanismo em zonas de
subducção começa, em geral, abruptamente
em uma frente vulcânica situada 150 a 350
km de distância da fossa oceânica associada
(Fig. 6.14). Estimativas da profundidade
onde fusão parcial ocorre para produzir estes
magmas variam de 60 a 170 km. Estas
variações refletem diferenças no ângulo de
mergulho, na idade da placa subduzida, na
velocidade de convergência e na estrutura
térmica da placa superior, embora a
contribuição relativa de cada um desses
fatores ainda seja debatida. A largura do
arco magmático apresenta uma correlação
positiva com o ângulo de mergulho e o
volume de magma erupcionado decresce,
afastando-se da frente vulcânica.
Modelos térmicos indicam que a
crosta oceânica subduzida não atinge uma
temperatura suficiente para sofrer fusão
parcial em zonas de subducção normais
(Fig. 6.16a). Assim, a geração de magmas
em zonas de subducção, geralmente, é
atribuída à fusão parcial da cunha do manto
acima da placa subduzida (Fig. 6.14).
Estudos experimentais mostram que
hornblenda, a principal fase mineral presente
em metabasaltos, é estável até cerca de 100
km de profundidade. A partir daí, ela sofre
desidratação e a água liberada migra em
direção à superfície. A adição de fluidos à
astenosfera rebaixa seu solidus, promovendo
fusão parcial e geração de magmas
basálticos ricos em água.
Figura 6.16. Estrutura térmica de zonas de
subducção normais (a) e quentes (b).
Figura 6.15. Possíveis situações responsáveis pelo
início do processo de subducção.
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
76
Fusão da crosta oceânica só é
esperada quando: (a) a litosfera é muito
jovem (menos de 5 Ma) e, portanto, quente
(Fig. 6.16b); (b) a subducção é suborizontal,
permitindo que a placa subduzida seja
aquecida pelo manto sobrejacente (Fig.
6.17); (c) segmentos de dorsais oceânicas
são subduzidos. Zonas de subducção rasas
podem ser provocadas pela chegada à fossa
de crosta oceânica espessada (platôs
oceânicos, por exemplo), o que reduz a
densidade média da litosfera e dificulta a
subducção (Fig. 6.17).
6.5.4. Petrologia e geoquímica
Em contraste com MORBs e basaltos
de ilhas oceânicas, basaltos em zonas de
subducção são, comumente, quartzo
normativos e hidratados (contendo até 6%
de H2O), e possuem valores elevados de
Al2O3 (16-20%) e de K2O (Fig. 6.18). Eles
são dominantemente da suíte cálcio-alcalina,
mas basaltos pertencentes à suíte toleítica
podem predominar em alguns arcos de ilhas
intraoceânicos. Basaltos em zonas de
subducção normais podem sofrer grandes
variações composicionais subseqüentemente
à sua formação, em conseqüência de
cristalização fracionada e contaminação com
sedimentos subduzidos. Adicionalmente, em
margens continentais ativas, assimilação de
rochas da crosta continental e mistura com
magmas crustais também pode ocorrer.
Devido a estes diferentes processos, as lavas
extravasadas em ambientes de zonas de
subducção são bem mais diversificadas que
aquelas encontradas em ilhas e cadeias
oceânicas (Fig. 6.18).
As rochas vulcânicas dominantes em
arcos de ilhas intraoceânicos são basaltos e
basaltos andesíticos. Andesitos e rochas
mais félsicas dominam em margens
continentais ativas, refletindo o maior
envolvimento da crosta continental e/ou a
maior percentagem de cristalização
fracionada. Embora andesitos sejam, via de
regra, produtos de cristalização fracionada
de basaltos, é possível que alguns andesitos
ricos em magnésio tenham sido formados
diretamente por fusão parcial do manto.
Quando fusão parcial da crosta
oceânica é possível, são gerados magmas
andesíticos e dacíticos. Estas rochas,
chamadas de adakitos, apresentam
características geoquímicas distintas de
lavas intermediárias e félsicas, resultantes da
cristalização fracionada de basaltos. Em
particular, um empobrecimento acentuado
em elementos terras raras pesados e em Y é
observado (Fig. 6.19a). Isto resulta em
padrões de elementos terras raras
extremamente fracionados e altas razões
Sr/Y (Fig. 6.19b). Estas feições são
atribuídas à retenção dos elementos terras
raras pesados e de Y em anfibólio e/ou
granada na rocha fonte.
Em bacias retro-arco, fusão por
descompressão da astenosfera pode ocorrer,
se a extensão for suficientemente acentuada
(Fig. 6.14). Os basaltos gerados neste
ambiente são menos contaminados pelos
Figura 6.17. Modelo de subducção rasa para fusão
parcial da crosta oceânica.
Figura 6.18. Diagrama K2O x SiO2 mostrando a
variação composicional de lavas em arcos
oceânicos (Izu-Bonin e Mariana) e continentais
(Andes). Lavas cálcio-alcalinas de médio a alto
potássio são típicas. O triângulo corresponde à
composição média de MORBs.
felipe
Sublinhado
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
77
fluidos liberados durante a subducção da
placa oceânica e adquirem composições
semelhantes à de MORBs com a progressão
daextensão.
Basaltos de arco exibem anomalias
de Ti, Zr, Hf, Ta e Nb em diagramas de
elementos traço normalizados, com a
anomalia negativa de Nb sendo,
particularmente, bem marcada (Fig. 6.19c).
Os processos responsáveis pelo
desenvolvimento dessas anomalias ainda são
debatidos. A opinião dominante é que elas
resultam da retenção desses elementos na
placa subduzida. Isto seria causado, no caso
do Ti, pela presença de ilmenita e, no caso
do Nb, pelo aumento da compatibilidade
deste elemento quando uma fase fluida está
presente, fazendo com que ele seja, também,
preferencialmente retido na placa subduzida.
Em comparação com MORBs,
rochas de arcos de ilhas são enriquecidas e
empobrecidas, respectivamente, nos
isótopos radiogênicos de Sr e Nd. Isto indica
que, como regra geral, elas não são
derivadas de fusão parcial de crosta
oceânica. Os valores mais elevados de Sr em
relação aos basaltos de ilhas oceânicas
refletem interação com água do mar e
envolvimento de um componente
continental na gênese dessas rochas.
6.5.5. Deformação e metamorfismo
Durante o processo de subducção, a
superfície da placa inferior é cisalhada
contra a borda da placa superior. Em
conseqüência, os sedimentos adicionados ao
prisma de acresção são deformados por
falhas reversas, cujo mergulho aumenta em
direção ao continente (Fig. 6.14). O material
acrescido consiste de sedimentos pelágicos,
de sedimentos derivados da erosão do arco
magmático e de depósitos piroclásticos,
podendo, também, conter fragmentos da
litosfera oceânica. O material intensamente
cisalhado, contendo fragmentos de rochas de
tamanho e origens diversas, é chamado de
(a)
(b)
(c)
Figura 6.19. (a, b) Comparação entre lavas cálcio-
alcalinas e adakíticas em termos de elementos
terras raras (a) e da razão Sr/Y (b). (c)
Aranhagrama comparando composições de
basaltos em arcos de ilhas oceânicos (OAB;
oceanic arc basalt) e continentais (CAB;
continental arc basalt) e em dorsais oceânicas (N-
MORB).
Figura 6.20. Diagrama esquemático comparando a
composição isotópica de arcos magmáticos, ilhas
oceânicas e MORBs.
felipe
Sublinhado
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
78
mélange. Além da adição lateral de material,
em algumas zonas de subducção ocorre,
ainda, acresção basal, com adição de
material para a base do arco. Em alguns
casos, quando o prisma torna-se bastante
espesso, a energia gravitacional pode
superar a resistência do material,
provocando a formação de falhas normais na
porção mais superficial do prisma.
Em alguns arcos, pouco ou nenhum
crescimento ocorre. Isto pode ser causado
seja por sedimentação insuficiente na fossa
seja porque houve erosão causada por
subducção. Este último caso, normalmente,
ocorre quando anomalias batimétricas (ilhas
e platôs oceânicos, dorsais oceânicas, etc.)
provocam abrasão mecânica da porção basal
da placa superior. O material erodido pode
ser transportado, juntamente com
sedimentos pelágicos, para o manto mais
profundo em grábens presentes na placa
subduzida.
O aumento de temperatura e pressão,
à medida que uma placa mergulha para o
interior da Terra, provoca metamorfismo da
própria placa e do manto sobrejacente. O
manto litosférico da placa superior pode ser
extensivamente serpentinizado em
profundidades rasas pela liberação da água
contida em poros ou em minerais hidratadas
de baixa estabilidade, como zeólitas,
presentes em sedimentos e na porção
superior da placa oceânica subduzida (Fig.
6.14). Na placa inferior, basaltos hidratados
formados em conseqüência de circulação
hidrotermal nas dorsais oceânicas (seção
6.4.4) são convertidos para xistos azuis em
profundidades relativamente baixas (<30
km) e, em seguida, para eclogitos. Os
minerais hidratados presentes em
metapelitos (principalmente biotita, fengita,
talco, cloritóide e clorita) podem persistir até
pressões iguais ou superiores a 2,5-3,0 GPa.
No entanto, devido à sua baixa densidade,
apenas uma pequena fração de sedimentos
pode ser subduzida a grandes profundidades.
Anfibolitos resultantes da alteração de
gabros na porção plutônica da crosta
oceânica podem persistir até profundidades
de cerca de 100 km. A partir daí, anfibólio
começa a sofrer desidratação e eclogitos são
formados. Como a temperatura da placa
permanece relativamente fria até
profundidades significativas (Fig. 6.16), o
metamorfismo é do tipo alta P/baixa T.
A adição contínua de magmas ao
arco vulcânico resulta em seu crescimento
vertical, fazendo com que as rochas
vulcânicas e plutônicas alojadas inicialmente
sejam progressivamente soterradas. Com o
aumento da pressão, associações minerais
típicas das fácies xisto-verde, anfibolito e,
dependendo do caso, granulito ou eclogito
são formadas. Devido ao elevado gradiente
geotérmico, o metamorfismo é do tipo baixa
P/alta T. O termo metamorfismo
emparelhado é empregado para as
associações minerais contrastantes
encontradas na fossa e no arco magmático.
6.5.6. Associações petrotectônicas em
arcos: síntese
Várias associações litológicas são
características de arcos de ilhas e margens
ativas, embora não exclusivamente limitadas
a estes ambientes. As rochas vulcânicas
típicas pertencem à associação cálcio-
alcalina, com andesitos dominantes em
margens continentais ativas. Boninitos
[andesitos ricos em magnésio e pobre em
titânio (<0,5% TiO2)], shoshonitos (basaltos
e andesitos ricos em potássio) e adakitos são
também distintivos. Dentre as rochas
sedimentares, um componente significativo
consiste de grauvacas e sedimentos
vulcanoclásticos de composição andesítica a
dacítica. Em mélanges, estas rochas ocorrem
imbricadas com sedimentos pelágicos e
abissais e fragmentos de litosfera oceânica
(basaltos, gabros e peridotitos variavelmente
serpentinizados). Finalmente, rochas
supracrustais máficas metamorfizadas nas
fácies xisto azul e eclogito são diagnósticas
de ambientes de zonas de subducção.
Referências selecionadas
Asimow, P.D., Langmuir, C.H., 2003. The
importance of water to oceanic mantle melting
regimes. Nature 421, 815-820.
felipe
Sublinhado
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
79
Chorowicks, J., 2005. The East African rift system.
Journal of African Earth Sciences 43, 379-410.
Cogné, J.P., Humler, E., 2004. Temporal variation of
oceanic spreading and crustal production rates
during the last 180 My. Earth and Planetary
Science Letters 227, 427-439.
Conrad, C.P., Lithgow-Bertelloni, C., 2007. Faster
seafloor spreading and lithospheric production
during the mid-Cenozoic. Geology 35, 29-32.
Dick, H.J.B., Lin, J., Schouten, H., 2003. An
ultraslow-spreading class of ocean ridge. Nature
426, 405-412.
Eichelberger, J.C., Izbekov, P.E., Bowne, B.I., 2006.
Bulk chemical trends in arc volcanoes are not
liquid lines of descent. Lithos 87, 135-154.
Ernst, W.G., 1999. Hornblend, the continent maker –
evolution of H2O during circumpacific
subduction versus continental collision.
Geology 27, 675-678.
Faul, U.H., 2001. Melt retention and segregation
beneath mid-ocean ridges. Nature 410, 920-923.
Gurnis, M., Hall, C., Lavier, L., 2004. Evolving force
balance during incipient subduction.
Geochemistry, Geophysics,Geosystems 5, doi:
10.1029/2003GC000681.
Hellebrand, E., J.E., Dick, H.J.B., Hofmann, A.W.,
2001. Coupled major and trace elements as
indicators of the extent of melting in mid-ocean-
ridge peridotites. Nature 410, 677-681.
Hudec, M.R., Jackson, M.P.A., 2007. Terra infirma:
understanding salt tectonics. Earth-Science
Reviews 82, 1-28.
Ito, G., 2001. Reykjanes 'V'-shaped ridges originating
from a pulsing and dehydrating mantle plume.
Nature 411, 681-684.
Kelemen, M.W., Hanghoj, K., Greene, A.R., 2005.
One view of the geochemistry of subduction-
related magmatic arcs, with an emphasis on
primitive andesite and lower crust. In: Rudnick,
R.L. (ed.) The Crust. Treatise on Geochemistry
3, 593-659, Elsevier.
Klein, E.M., 2005. Geochemistry of the igneous
oceanics crust. In: Rudnick, R.L. (ed.) The
Crust. Treatise on Geochemistry 3, 433-463,
Elsevier.
Morra, G., Regenauer-Lieb, K., Giardini, D., 2006.
Curvature of oceanic arcs. Geology 34, 877-
880.
Muller, R.D., Sdrolias, M., 2008. Age, spreading
rates, and spreading asymmetry of the world’s
ocean crust. Geochemistry, Geophysics,
Geosystems 9, doi: 10.1029/2007GC001743.
Peacock, S.M., 1993. Large-scale hydration of the
lithosphere above subducted slabs. Chemical
Geology 108, 49-59.
Prouteau, G., Scaillet, B., Pichavant, M., Maury., R.,
2001. Evidence for mantle metasomatism by
hydrous silicic melts derived from subducted
oceanic crust. Nature 410, 197-200.
Regenauer-Lieb, K., Yuen, D.A., Branlund, J., 2001.
The initiation of subduction: criticality by
addition of water? Science 294, 578-580.
Schmidt, M.W., Poli, S., 2005. Generation of mobile
components during subduction of oceanic crust.
In: Rudnick, R.L. (ed.) The Crust. Treatise on
Geochemistry 3, 567-591, Elsevier.
Singh, S.C. et al., 2006. Discovery of a magma
chamber and faults beneath a Mid-Atlantic
Ridge hydrothermal field. Nature 442, 1029-
1032.
Spiegelman, M., Reynolds, J.R., 1999. Combined
dynamic and geochemical evidence for
convergent melt beneath the East Pacific Rise.
Nature 402, 282-285.
Stern, R.J., 2002. Subduction zones. Reviews of
Geophysics 40, doi: 10.1029/2001RG000108.
Stern, R.J., 2004. Subduction initiation: spontaneous
and induced. Earth and Planetary Science
Letters 226, 275-292.
Syracuse, E.M., Abers, G.A., 2006. Global
compilations of variations in slab depth beneath
arc volcanoes and implications. Geochemistry,
Geophysics, Geosystems 7. doi:
10.1029/2005GC001045.
Thybo, H., Sandrin, A., Nielsen, L., Lykee-Andersen,
H., Keller, G.R., 2006. Seismic velocity
structure of a large mafic intrusion in the crust
of central Denmark from project ESTRID.
Tectonophysics 420, 105-122.
van Wijk, J.W., 2005. Role of weak zone orientation
in continental lithosphere extension.
Geophysical Research Letters 32, doi:
10.1029/2004GL022192.
Workman, R.K.; Hart, S.R., 2005. Major and trace
element composition of the depleted MORB
mantle (DMM). Earth and Planetary Science
Letters 231, 53-72.
80
81
7. Orogênese
7.1. Introdução
Orogênese (ou orogenia) significa,
literalmente, criação de cadeias de
montanhas. Este termo é, freqüentemente,
empregado nesse sentido porque os processos
tectônicos que ocorrem em regiões
orogênicas geralmente também produzem
elevações topográficas. Isto é uma resposta
ao espessamento crustal causado pela atuação
de esforços compressivos e pela adição de
magmas à crosta continental. Como rochas
crustais são menos densas que rochas do
manto, o espessamento causa um
soerguimento da superfície (este processo é
chamado de isostasia). No entanto:
(1) cadeias de montanhas podem se formar
na ausência de esforços compressivos, como
no caso de domeamento crustal associado
com plumas do manto (Capítulo 5). A
topografia, neste caso, não é resultante de
anomalias de massa na litosfera, sendo
chamada de topografia dinâmica.
(2) os esforços podem não ser suficientes
para produzir relevo significativo, como no
caso do prisma de acresção em alguns arcos
de ilhas (Capítulo 6).
(3) regiões orogênicas antigas podem não
apresentar mais qualquer expressão
topográfica, devido à atuação de processos
erosivos.
Devido aos fatores acima, o termo
orogênese é, normalmente, restringido para
regiões afetadas, no presente ou no passado,
por deformação contracional intensa
(indicando que elas são ou foram sujeitas a
esforços compressivos), independentemente
de apresentarem expressão geomorfológica.
Deformação orogênica é caracterizada por
dobramentos e falhamentos de amplas
regiões, sendo, em geral, acompanhada de
vulcanismo, plutonismo e metamorfismo
regional. As regiões sujeitas a estes processos
são chamadas de faixas ou cinturões
orogênicos, faixas ou cinturões orogenéticos,
orógenos ou faixas móveis.
Dois mecanismos principais são
responsáveis pelo suporte isostático de
cinturões orogênicos (Fig. 7.1). No primeiro,
o excesso na topografia é compensado pela
presença de raízes crustais no manto (modelo
de Airy). No segundo, o peso da cadeia de
montanhas é compensado pela flexão da
litosfera, repartindo a carga sobre uma região
bem mais ampla (modelo de Vening-
Meinesz). Neste último caso, isto resulta na
formação de depressões laterais ao orógeno.
O predomínio de um mecanismo
sobre o outro depende dominantemente da
rigidez da litosfera, a qual por sua vez, é
função de sua idade média (Capítulo 3).
Assim, quando a litosfera é muito rígida,
cadeias de montanhas elevadas podem se
formar sem o desenvolvimento de raízes
profundas. Este é o caso do Himalaia, onde a
crosta tem uma espessura de
aproximadamente 55 km, isto é, apenas 15
km a mais que a crosta continental em
regiões estáveis. Os Andes, por outro lado,
apresentam uma espessura crustal de até 80
km, indicando que sua elevação é controlada
dominantemente pela baixa resistência da
litosfera.
Uma orogênese pode compreender
vários episódios deformacionais discretos ou
Figura 7.1. Mecanismos de compensação isostática
segundo Airy (a) e Vening-Meinesz (b).
82
ser produto de um evento único, produzido
durante deformação progressiva. No primeiro
caso, fala-se de deformação polifásica. Uma
mesma região pode ser afetada por mais de
uma orogênese e, neste caso, diz-se que ela
apresenta uma evolução policíclica.
Orogêneses têm, tipicamente, duração de
algumas dezenas de milhões até uma centena
de milhão de anos. Regiões policíclicas
afetadas por uma orogênese, em certa época,
podem permanecer centenas de milhões de
anos a alguns bilhões de anos sem sofrer
deformação até serem novamente envolvidas
em uma nova orogênese.
7.2. Tipos de orógenos
Cinturões orogênicos são formados
em resposta à convergência entre blocos
litosféricos maiores. Eles podem ser
classificados em três grandes grupos:
orógenos relacionados com subducção;
orógenos produzidos por colisão continental;
e orógenos resultantes de deformação
intracontinental (Fig. 7.2).
Para que ocorra orogênese em
associação com zonas de subducção, é
necessário que esforços compressivos
significativos sejam transmitidos para a placa
superior. Assim, nem todo arco de ilha ou
margem continental ativa é um cinturão
orogênico. Eventos deformacionais, nestes
ambientes, ocorrem durante mudanças
bruscas na velocidade ou no mergulho das
placas ou quando terrenos oceânicos
relativamente grandes ou microcontinentes
chegam à fossa oceânica.
Figura 7.2. Mapas mostrando o relevo de exemplos atuais de cinturões orogênicos. (a) Orógeno relacionado
com subducção de placa oceânica (Andes). (b) Orógeno colisional (Himalaia) e orógenos intracontinentais (Tien
Shan, Altai, Gobi-Altai).
83
Orógenos colisionaissão aqueles
formados pelo choque entre dois continentes
anteriormente separados por um oceano (Fig.
6.1) ou, em menor escala, pela colisão entre
um arco de ilha e um continente. Estes
orógenos, portanto, são subseqüentes ao
consumo de litosfera oceânica em uma zona
de subducção.
Em contraste com orógenos
colisionais, orógenos intracontinentais são
formados na ausência de consumo
significativo de litosfera oceânica. Eles
podem se desenvolver quando a
convergência entre dois blocos continentais
começa antes da formação expressiva de
crosta oceânica, ou seja, sem que haja uma
separação completa entre as placas antes da
orogênese. Deformação intracontinental
pode, ainda, resultar da transmissão de
esforços para o interior de um continente,
causada por um contato convergente de
placas situado a centenas ou mesmo milhares
de quilômetros de distância. Este é o caso dos
orógenos Tien Shan e Altai (Fig. 7.2b).
Cinturões orogênicos raramente são
retilíneos. Os termos encurvamento oroclinal
(oroclinal bending) ou oroclíneo (orocline)
são empregados para se referir a uma
mudança na direção do orógeno ao longo de
seu comprimento. Se o encurvamento é
superior a 90º, o termo sintaxe (syntaxis) é
empregado. Por exemplo, o encurvamento do
Andes em torno da latitude 20ºS (Fig. 7.2a) e
do noroeste do Himalaia (Fig. 7.2b) são
conhecidos, respectivamente, como oroclíneo
boliviano e sintaxe de Nanga-Parbat.
7.3. Ofiolitos
Uma característica distintiva de
orógenos relacionados tanto com subducção
como com colisão é a ocorrência de ofiolitos,
fragmentos de litosfera oceânica colocados
sobre rochas continentais. Uma seqüência
ofiolítica completa consiste de (da base para
o topo): rochas ultramáficas (lherzolitos,
harzburgitos, dunitos, comumente
serpentinizados), gabros, enxames de diques
básicos, rochas basálticas extrusivas
(comumente derrames em almofada), e uma
cobertura de sedimentos oceânicos pelágicos
(Fig. 3.5). O processo de alojamento de
ofiolitos é chamado de obducção, em
oposição à situação mais comum
representada por zonas de subducção, onde a
litosfera oceânica mergulha sob a litosfera
continental.
Ofiolitos são colocados, mais
freqüentemente, sobre margens continentais
passivas (Fig. 7.3a, b) que sobre margens
ativas (Fig. 7.3c). No primeiro caso, uma
zona de cisalhamento basal, apresentando
metamorfismo inverso (ver seção 7.9), separa
a base do ofiolito dos sedimentos
plataformais subjacentes. Rochas de origem
Figura 7.3. Mecanismos de alojamento de
ofiolitos. (a) Ofiolito do tipo MOR transportado a
uma margem continental passiva por um empurrão
originalmente intraoceânico. (b) Ofiolito de
suprasubducção formado pelo transporte de
litosfera de arco sobre uma margem passiva. (c)
Ofiolito do tipo MOR alojado sobre uma margem
ativa.
felipe
Marcador de texto
felipe
Marcador de texto
84
oceânica metamorfizadas na fácies anfibolito
ou mesmo granulito passam, estruturalmente,
para baixo, para rochas sedimentares
metamorizadas na facies xisto-verde. Alguns
ofiolitos são alojados em margens ativas,
particularmente, durante o início de colisão
continental (Fig. 7.3c). Neste caso, uma falha
de empurrão antitética desenvolve-se na
placa oceânica e transporta uma lasca da
litosfera oceânica sobre a margem
continental.
Ofiolitos são classificados, quanto ao
local de geração, em dois tipos. Ofiolitos do
tipo MOR (de mid-ocean ridge) são gerados
em dorsais oceânicas. Durante uma fase de
convergência, empurrões intraoceânicos se
desenvolvem e a placa superior é
transportada até uma margem passiva (Fig.
7.3a). Obducção pode estar relacionada a um
aumento na velocidade de convergência das
placas durante períodos de atividade de
plumas. Isto colocaria as margens em
compressão e induziria a flambagem e
ruptura da placa oceânica, produzindo um
empurrão intraoceânico.
Ofiolitos gerados acima de zonas de
subducção intraoceãnicas são referidos como
do tipo SSZ (de supra-subduction zone; Fig.
7.3b). Estes ofiolitos são bem mais comuns e
melhor preservados que aqueles do tipo
MOR. Eles apresentam características
geoquímicas de arcos de ilhas juntamente
com uma estrutura típica de crosta oceânica.
Isto é interpretado como resultado de
expansão oceânica na região ante-arco no
início de formação de uma zona de
subducção. Em alguns casos, obducção pode
ocorrer antes que a placa subduzida atinja
uma profundidade suficiente para formar um
arco magmático maduro e um ofiolito do tipo
SSZ pode passar gradualmente a um ofiolito
do tipo MOR (Fig. 7.3b3).
7.4. Orógenos relacionados a zonas de
subducção
Orógenos relacionados com
subducção podem ser subdivididos nos tipos
acrescionário (ou Cordilheirano), Andino,
Laramide e extensional-contracional.
7.4.1. Orógenos acrescionários
Orógenos acrescionários são
formados pela adição (colagem) de
fragmentos oceânicos (platôs oceânicos,
segmentos de dorsais oceânicas, arcos de
ilhas) ou continentais (microcontinentes)
para uma margem continental ativa. Estes
segmentos litosféricos, de origem diversa,
são chamados de terrenos
tectonoestratigráficos, exóticos ou alóctones.
O termo terreno suspeito é empregado
quando sua origem não pode ou ainda não foi
estabelecida com segurança.
A acresção de platôs oceânicos, de
arcos de ilhas e de ofiolitos é resultado seja
da maior espessura da crosta oceânica nestes
locais (platôs e arcos), seja porque a litosfera
oceânica é jovem e, portanto, quente
(ofiolitos do tipo MOR), o que dificulta a
subducção. Se a acresção é frontal, os
diferentes terrenos são separados por falhas
inversas (Fig. 7.4), mas quando a
convergência é oblíqua eles são separados
por falhas transcorrentes, cujo rejeito pode
superar várias centenas de quilômetros ou
mesmo atingir alguns milhares de
quilômetros. As feições fundamentais de
terrenos são, portanto, que seus limites são
definidos por falhas maiores e que eles
possuem histórias geológicas distintas
daquelas de terrenos adjacentes. Terrenos
são, comumente, também separados por
Figura 7.4. Bloco diagrama esquemático
mostrando a estrutura de um orógeno
acrescionário hipotético formado pela colagem de
um ofiolito, um arco de ilhas e um platô oceânico
a uma margem continental ativa.
85
faixas estreitas de rochas ofiolíticas ou de
alta pressão, chamadas de suturas.
Orógenos acrescionários podem
terminar sua história pelo fechamento de um
oceano entre dois continentes. Neste caso, o
termo orógeno do tipo túrquico é, às vezes,
empregado. No entanto, outros orógenos
acrescionários não apresentam evidências
para uma colisão continente-continente
terminal.
7.4.2. Orógenos do tipo Andino
Em contraste com orógenos do tipo
Cordilheirano, pouca ou nenhuma adição
lateral de material ocorre durante a formação
de orógenos do tipo Andino. Inclusive, um
prisma de acresção pode ser inexistente. A
carência de sedimentos na fossa pode ser
causada por falta de sedimentação, devido a
fatores climáticos, ou pela subducção do
prisma de acresção. Espessamento crustal
não é restrito ao arco magmático (Fig. 7.5),
indicando que o encurtamento horizontal
responsável pela formação de platôs elevados
é de origem tectônica e não magmática. No
entanto, em alguns casos, adição de magmas
pode contribuir significativamente para o
espessamento.
Em contraste com orógenos
colisionais (seção 7.5), grandes
deslocamentos horizontais ao longo de
cavalgamentos não estão presentes na região
interna da montanha (chamada de
hinterlândia ou além-país). No entanto,
cinturões de empurrões e dobramentos
ocorrem entre a hinterlândia e a região
continental estável (chamada de antepaís). Os
empurrõesafetam essencialmente a porção
sedimentar, com pouco ou nenhum
envolvimento do embasamento. Este tipo de
deformação é denominado de tectônica
pelicular delgada (thin-skinned tectonics).
Grandes volumes de ignimbritos
podem estar presentes na hinterlândia. Este
magmatismo félsico pode estar relacionado
com processos de fusão parcial em
profundidade. De fato, regiões de baixas
velocidades sísmicas abaixo dos Andes são
observadas a profundidades entre 15 e 25 km
e interpretadas como resultado de fusão
parcial, indicando metamorfismo de alta
temperatura e baixa pressão na crosta média.
A origem do elevado gradiente geotérmico
na hinterlândia pode ser devido a processos
de delaminação litosférica (ver seção 7.7).
7.4.3. Orógenos do tipo Laramide
Cadeias de montanhas, às vezes, são
encontradas a uma distância da fossa bem
superior que as esperadas durante períodos
de subducção normal. Isto é o caso das
Montanhas Rochosas no oeste dos Estados
Unidos (Fig. 11.12), formadas durante a
orogênese Laramide (80-50 Ma atrás), e das
Serras Pampeanas no oeste da Argentina.
Orógenos do tipo Laramide são,
usualmente, atribuídos à subducção rasa.
Quando o mergulho de uma placa muda de
um ângulo normal para um ângulo pequeno
(5-10º), a astenosfera é deslocada e
comprimida na direção da subducção. Em
Figura 7.5. Bloco diagrama esquemático mostrando a estrutura de um orógeno do tipo Andino.
86
conseqüência, a litosfera na região do antigo
arco aumenta de resistência devido ao
resfriamento resultante de sua justaposição
com a litosfera oceânica mais fria. Ao
mesmo tempo, o magmatismo se propaga na
mesma direção da cunha da astenosfera (Fig.
6.17), aumentando a temperatura e
diminuindo a resistência do antepaís. Os
esforços cisalhantes na base da placa
superior, juntamente com a transmissão de
esforços para o interior do continente,
induzem compressão e espessamento crustal
na região atrás do arco. A deformação, nesse
caso, envolve tanto o embasamento quanto a
cobertura e é referida como tectônica
pelicular espessa (thick-skinned tectonics).
Falhas reversas têm mergulhos variáveis (5º-
80º) e podem cruzar toda a crosta.
7.4.4. Orógenos extensionais-contracionais
Este tipo de orógeno, reconhecido
mais recentemente, resulta de períodos
alternados de extensão e contração na região
retro-arco. Durante a fase distensiva, nova
crosta oceânica é criada na bacia retro-arco.
Durante a fase compressiva, a bacia é
fechada e o material, dominantemente de
origem mantélica, é deformado e incorporado
à crosta continental, podendo sofrer fusão
parcial e gerar magmas graníticos. Eventos
sucessivos de extensão e contração podem,
assim, resultar em crescimento continental
significativo, analogamente ao caso de
orógenos acrescionários. No entanto, neste
caso, rochas de alta pressão, típicas de zonas
de sutura, não são encontradas. Ao contrário,
o metamorfismo deve ser dominantemente de
alta temperatura e baixa pressão.
7.4.5. Convergência oblíqua e transpressão
Uma observação comum em orógenos
relacionados com subducção é a ocorrência
de falhas de rejeito direcional na região do
arco magmático ou nas suas proximidades,
enquanto contração ocorre no prisma de
acresção e na região retro-arco. (Fig. 7.7).
Isto é atribuído à convergência oblíqua entre
a placa oceânica e a placa continental. A
partição da deformação em componentes
paralelos e perpendiculares à margem
continental tipifica um regime transpressivo.
A localização da deformação em falhas de
rejeito direcional é facilitada pelo trend
linear e paralelo à margem do arco
Figura 7.6. Perfis esquemáticos mostrando o início do desenvolvimento de um orógeno do tipo Laramide. (a)
Subducção rasa causa a extinção do magmatismo de arco e compressão na região do antepaís. (b) Detalhe
mostrando o término da deformação na região do arco e retro-arco e o desenvolvimento de falhas reversas
afetando o embasamento no antepaís.
87
magmático e pelo aquecimento causado pelo
suprimento contínuo de magmas.
Quando a formação de falhas
transcorrentes resulta de uma mudança na
geometria das placas (ver Fig. 4.26), elas são
posteriores ao desenvolvimento do arco e,
portanto, podem truncar estruturas
desenvolvidas previamente.
7.5. Orógenos colisionais
7.5.1. Fatores que tornam complexo o
fenômeno da colisão continental
Orógenos colisionais resultam do
comportamento reológico contrastante entre
as litosferas oceânica e continental. A
litosfera oceânica normal consiste de uma
crosta com apenas alguns quilômetros de
espessura e, assim, sua reologia é controlada
pela porção mantélica. À medida que a
litosfera oceânica resfria ao afastar-se de uma
dorsal, sua densidade aumenta,
eventualmente ultrapassando a densidade da
astenosfera. A partir desse ponto, ela torna-se
passível de subducção. No caso da litosfera
continental, a presença de uma crosta espessa
(~40 km) faz com que sua densidade média
seja sempre inferior à da astenosfera. Dessa
forma, a litosfera continental é
intrinsecamente não submergível. Quando
duas placas continentais colidem em resposta
ao fechamento de uma bacia oceânica, elas
resistem à subducção e os esforços
compressivos desenvolvidos provocam
deformação contracional e espessamento
crustal (Fig. 6.1).
A dimensão, a forma e as estruturas
internas de um orógeno formado por colisão
continental dependem de vários fatores,
sendo os mais importantes o tamanho das
massas continentais colidentes, a velocidade
de convergência entre as placas, o ângulo de
convergência, a geometria das margens
continentais e as propriedades mecânicas das
duas placas.
Os dois primeiros fatores
condicionam a dimensão da área afetada pela
deformação. Esta será tanto maior quanto
maiores forem o tamanho dos blocos e suas
velocidades relativas (Fig. 7.8). O ângulo de
convergência determina se a colisão será
frontal ou oblíqua. No segundo caso,
normalmente se observa uma partição da
deformação entre falhas transcorrentes e
empurrões que acomodam, respectivamente,
o deslocamento paralelo ao orógeno e o
encurtamento normal a ele (Fig. 7.9).
Figura 7.8. Comparação entre a posição dos limites
de placas e a elevação da topografia (em cinza)
resultante da colisão Índia-Ásia (a) e da colisão da
placa adriática com a placa européia (b).
Figura 7.7. Transpressão resultante da
convergência oblíqua (indicada pela seta) entre
uma placa oceânica e uma placa continental.
88
Se as margens continentais dos
continentes colidentes não forem retilíneas,
como normalmente é o caso, as
irregularidades presentes (reentrâncias e
saliências) podem ocasionar variações
laterais no estilo estrutural e/ou na
intensidade de deformação. Sintaxes, como
aquele observado no caso do Himalaia (Fig.
7.2b), ocorrem quando as dimensões laterais
das placas são diferentes.
O contraste reológico entre a placa
superior e a placa inferior irá determinar se
apenas a primeira sofrerá deformação
significativa ou se ambas serão afetadas.
Como regra geral, a placa superior é sempre
menos resistente que a placa inferior, devido
ao aquecimento provocado pelo magmatismo
de arco durante seu estágio prévio como uma
margem ativa. No caso da colisão Índia-Ásia,
a maior parte do encurtamento horizontal (e
conseqüente soerguimento) é compensada
pela deformação da placa asiática (Fig. 7.8a).
Nos Alpes, em contraste, tanto a placa
européia superior quanto a placa adriática
inferior exibem deformação significativa e
topografia elevada (Fig. 7.9b).
7.5.2. Subducção continental, metamorfismo
de pressão alta e ultra-alta e slab break-off
Durante uma colisãodominantemente
frontal, a placa contendo a antiga margem
continental passiva pode ser parcialmente
empurrada abaixo da zona de sutura entre as
duas placas (Fig. 7.10a). Este processo de
subducção continental é possível porque, no
início da colisão, a litosfera continental da
placa inferior ainda está acoplada com a
litosfera oceânica.
A ocorrência, em zonas de sutura, de
coesita e diamante em gnaisses demonstram
que materiais continentais podem ser
subduzidos até profundidades superiores a
120 km, atingindo, talvez, até 200-300 km.
Com o aumento da profundidade, no entanto,
o esforço requerido para continuar a afundar
o material crustal pouco denso é maior que
sua resistência. Assim, ele se destaca do
manto litosférico e começa a retornar
rapidamente em direção à superfície,
incorporando fragmentos da crosta oceânica
e da cunha do manto sobrejacente (Fig.
7.10b).
Quando a litosfera oceânica se separa
da litosfera continental, a ascensão da crosta
continental prossegue, mas, agora, o manto
litosférico continental também tende a subir
Figura 7.10. Esquema ilustrando subducção da
crosta continental (a) e seu retorno em direção à
superfície devido à baixa densidade (b). (c)
Ruptura litosférica: com a separação da porção
oceânica, a placa inferior também tende a subir.
Figura 7.9. Transpressão resultante da colisão
oblíqua entre duas placas continentais.
89
(Fig. 7.10c). Subducção continental pode
continuar, mas ao longo de uma superfície de
mergulho baixo separando a placa superior
da placa inferior. O processo de separação
das litosferas continental e oceânica é
chamado de slab break-off (ruptura da placa
ou ruptura litosférica). A ascensão da
astenosfera para preencher o vazio decorrente
da separação pode resultar em fusão parcial.
7.5.3. Domínios em um orógeno colisional
maduro
Nos estágios avançados de uma
colisão frontal, os seguintes componentes
tectônicos podem ser reconhecidos (da placa
inferior para a placa superior; Fig. 7.11): uma
bacia de antepaís (foredeep ou foreland
basin); um cinturão de cavalgamentos e
dobras de antepaís (foreland fold-and-thrust
belt); nappes e empurrões, imbricando
sedimentos plataformais metamorfizados;
uma zona de sutura; e nappes e empurrões,
envolvendo sedimentos pelágicos e
seqüências de arco metamorfizadas. O termo
nappe é empregado para se referir a corpos
rochosos tabulares transportados de seu local
de origem. Eles podem ser originados como
dobras isoclinais recumbentes, ou como uma
falha de empurrão. Um caso particular é o
das nappes ofiolíticas (Fig. 7.3).
A bacia de antepaís contém
sedimentos clásticos derivados da erosão da
cadeia de montanhas em soerguimento. Estes
sedimentos sinorogênicos, às vezes
denominados de molassa, podem ser
subseqüentemente deformados pela
progressão da deformação no cinturão de
dobras e empurrões adjacente. Este consiste,
predominantemente, de sedimentos da
margem continental passiva, podendo conter,
ainda, sedimentos continentais mais antigos.
Estas rochas preorogênicas apresentam um
aumento no grau metamórfico em direção ao
núcleo da cadeia de montanhas
(hinterlândia), onde a temperatura pode ser
suficiente para provocar fusão parcial. A
sutura é uma zona de cisalhamento dúctil
separando rochas da margem continental
passiva daquelas derivadas do arco
magmático. Ela contém fragmentos de rochas
das duas placas continentais, restos da bacia
oceânica (ofiolitos) e rochas continentais de
pressão alta e ultra-alta.
Cinturões orogênicos podem ter uma
vergência única, como no caso ilustrado na
Figura 7.11, ou apresentar uma simetria
bilateral, com empurrões dirigidos para lados
opostos da sutura (Fig. 7.12a). Mesmo
orógenos originalmente monovergentes
Figura 7.11. Perfil esquemático de um cinturão orogênico colisional.
90
podem ter sua geometria modificada pelo
desenvolvimento de retro-empurrões (back-
thrusts) e retrodobras (back-folds) nos
estágios mais avançados da colisão. Em
alguns casos, fatias podem ser cisalhadas do
topo da placa inferior e empurradas sobre a
placa superior (Fig. 7.12b). Essas fatias são
chamadas flacas (flakes) ou alóctones e
podem se deslocar por centenas de
quilômetros. Perfis sísmicos mostram que
estruturas semelhantes podem estar presentes
em níveis profundos, indicando o
imbricamento da litosfera continental por
empurrões com vergências opostas (Fig.
7.12c).
7.5.4. Platôs orogênicos, fluxo canalizado e
extrusão
Em cinturões orogênicos maiores, um
platô orogênico pode se desenvolver na placa
superior. Platôs orogênicos são
caracterizados por uma topografia elevada
(até 5 km de altitude), mas relativamente
plana, como no caso do Platô Tibetano (Fig.
7.2b). Sua formação é atribuída a um dos
seguintes fatores ou a uma combinação deles
(Fig. 7.13): (a) mergulho subhorizontal
(underthrusting) da placa inferior sob a placa
superior, em seguida ao processo de ruptura
litosférica (Fig. 7.10c); (b) espessamento
crustal homogêneo, resultante da baixa
resistência da placa superior; (c) subducção
intracontinental de porções mais resistentes
da placa superior. Em qualquer caso, uma
crosta com cerca do dobro da espessura
normal (60-80 km) é produzida, com o
equilíbrio isostático subseqüente causando o
soerguimento da superfície. Também tem
sido sugerido que o soerguimento pode ser
resultante, em parte, da conversão de eclogito
para granulito na raiz da crosta espessada,
uma vez que granulitos têm densidade menor
que eclogitos.
Uma vez desenvolvidos, platôs têm
uma grande influência sobre a evolução
posterior do sistema orogênico. Devido à
elevação de temperatura com a profundidade,
a resistência da crosta atinge um mínimo na
sua base. Assim, a crosta inferior pode
formar uma camada de baixa viscosidade
entre o manto mais rígido e a crosta média
mais fria. Se a viscosidade é suficientemente
baixa, a crosta inferior pode fluir em resposta
a variações laterais na carga litostática. Este
processo é chamado fluxo canalizado ou
fluxo em condutos (channel flow). O termo
tunelamento (tunneling) é usado quando o
fluxo de material é dominantemente
horizontal. Uma camada de baixa
viscosidade pode, também, ocorrer na crosta
média, se a temperatura for suficiente para
Figura 7.13. Modelos esquemáticos propostos para
explicar a formação de platôs orogênicos. (a)
Underthrusting. (b) Encurtamento homogêneo. (c)
Subducção intracontinental.
Figura 7.12. Perfis esquemáticos mostrando outras
estruturações possíveis em cinturões orogênicos
colisionais (a) Orógeno bivergente. (b) Tectônica
de flacas. (c) Imbricamento subcrustal.
91
causar fusão parcial de litologias férteis,
como metapelitos.
Quando o tunelamento ocorre
afastando-se da hinterlândia, isto resulta no
crescimento periférico do platô pela injeção
de material na zona de transição entre ele e a
crosta com espessura normal (Fig. 7.14a).
Este crescimento será condicionado pela
reologia da crosta circundante, podendo dar-
se dominantemente em uma direção ou de
forma mais difusa. Quando o deslocamento é
na direção da hinterlândia, o canal pode ser
exumado em uma frente de denudação
localizada na cadeia de montanhas (Fig.
7.14b). Este processo é chamado de extrusão
(extrusion) e é um dos processos
responsáveis pela ocorrência de rochas
metamórficas de alto grau no núcleo de
cadeias de montanhas. O canal é limitado,
acima e abaixo, por zonas de cisalhamento. A
zona de cisalhamento basal é sempre um
cavalgamento, mas a zona de cisalhamento
superior pode ter uma geometria normal ou
de empurrão, dependendo da velocidade
relativa entre a crosta superior e omaterial
extrudido.
7.5.5. Escape lateral
Grandes zonas de cisalhamento
transcorrentes podem ser encontradas em
orógenos colisionais, mesmo quando a
convergência é dominantemente frontal,
como no caso da colisão Índia-Ásia. O papel
atribuído a essas transcorrências na tectônica
continental é polarizado entre dois modelos
antagônicos.
No modelo de endentação, também
chamado tectônica de escape ou de extrusão,
deslocamentos laterais de blocos ocorrem ao
longo de zonas de cisalhamento litosféricas
com rejeitos da ordem de centenas ou,
mesmo, milhares de quilômetros. Nessa
interpretação, os blocos entre as falhas são
considerados relativamente rígidos, e sua
expulsão lateral pelas zonas de cisalhamento
é responsável pelo avanço continuado da
placa inferior em direção à placa superior
(Fig. 7.15).
No segundo modelo, as zonas de
cisalhamento são interpretadas como
descontinuidades em um campo de
deformação regional contínuo. Nessa visão, o
avanço da placa inferior é acomodado por
fluxo canalizado na crosta inferior (Fig. 7.14)
ou por underthrusting (Fig. 7.13a), e as
falhas são restritas à crosta e acomodam
deslocamentos relativamente modestos,
Figura 7.14. Mapa e perfis esquemáticos ilustrando
o conceito de fluxo canalizado, levando a um
crescimento do platô para nordeste (a), e à extrusão
do canal na cadeia orogênica (b).
Figura 7.15. Esquema ilustrando como o escape de
blocos ao longo de falhas transcorrentes pode criar
espaço para o avanço de um bloco convergente
rígido.
92
inferiores a umas poucas centenas de
quilômetros.
7.6. Orógenos intracontinentais
Para que deformação orogênica
ocorra afastada de limites de placas é
necessário que: (a) esforços compressivos se
desenvolvam no interior de um continente;
(b) haja uma localização da deformação em
locais onde a resistência da litosfera é menor.
O desenvolvimento de esforços
compressivos pode ou não estar relacionado
com processos de tectônica de placas. Neste
segundo caso, os esforços podem resultar do
desenvolvimento e propagação de
instabilidades causadas, por exemplo, por
variações na topografia da base da litosfera.
A amplificação dessas instabilidades pode,
em seguida, promover encurtamento
litosférico e a conseqüente formação de um
cinturão orogênico (Fig. 7.16). Mais
comumente, deformação resulta da
transmissão de esforços para o interior de um
continente, a partir de contatos de placas
distantes, que podem ser convergentes ou
colisionais. A Figura 7.17 mostra o caso de
uma colisão continental, em que um dos
continentes apresenta uma região de baixa
resistência, levando a uma localização da
deformação.
Como temperatura é o principal fator
que controla a resistência da litosfera, a
localização da deformação é favorecida em
regiões nas quais o gradiente geotérmico é
mais elevado que em regiões vizinhas.
Gradientes geotérmicos elevados podem
resultar de vários processos, dentre eles: (1)
elevada produção de calor, em conseqüência
do soterramento de embasamento granítico
rico em elementos radioativos abaixo de
sedimentos mal condutores de calor; (2)
aquecimento causado por uma fase distensiva
imediatamente precedendo a fase de
compressão, como no caso de fechamento de
riftes continentais ou oceânicos imaturos e de
bacias retro-arco; (3) condução de calor
devido à chegada de uma pluma mantélica na
base da litosfera; (4) elevada produção de
calor no manto litosférico, resultante de
metassomatismo e enriquecimento em
elementos radioativos em um evento prévio.
Como nos demais tipos, a geometria
interna de orógenos intracontinentais
depende do ângulo de convergência entre os
blocos crustais. Por exemplo, enquanto o
orógeno Tian Shan (Fig. 7.2b) apresenta uma
Figura 7.17. Formação de um orógeno
intracontinental pela transmissão de esforços a
partir de uma colisão continental e localização da
deformação em uma região de baixa resistência.
Figura 7.16. Diagrama esquemático ilustrando que
variações na espessura da litosfera (a) podem ser
amplificadas, induzindo espessamento crustal (b).
93
estruturação controlada por empurrões com
vergência para sul, os orógenos Altai e Gobi-
Altai (Fig. 7.2b) são transpressivos.
7.7. Extensão sin- a pós-orogênica
7.7.1. Colapso orogênico
Quando as forças tectônicas são
removidas ao término de uma orogênese, a
topografia associada é reduzida, ao longo do
tempo, por erosão e/ou colapso extensional.
No entanto, extensão pode ter início mesmo
quando o regime ainda é dominantemente
contracional. Nesse caso, empurrões e zonas
de cisalhamento extensionais podem atuar
sincronicamente. O termo colapso orogênico
é empregado para se referir ao conjunto de
processos que levam a redução na elevação
do orógeno.
Na maioria dos casos, extensão ocorre
numa direção paralela à da convergência,
mas, também, pode dar-se numa direção
perpendicular. Por exemplo, falhas normais
norte-sul indicam que o Platô Tibetano está
atualmente sofrendo extensão leste-oeste, isto
é, ortogonal à direção de convergência Índia-
Ásia (Fig. 7.2b).
Existem várias hipóteses para explicar
a formação de estruturas extensionais em
orógenos. No modelo de colapso
gravitacional, espessamento crustal por
contração progride até que a diferença de
topografia entre o orógeno e as regiões
adjacentes gere esforços que não podem mais
ser suportados pela resistência das rochas na
crosta superior. A partir deste ponto, ela entra
em extensão, decrescendo a topografia e a
espessura. Outro modelo sugere que extensão
na crosta superior é resultante de fluxo
canalizado na crosta média ou inferior. Estes
dois processos podem atuar em conjunto
(Fig. 7.18).
Nos dois casos acima, as forças
responsáveis pela extensão estão localizadas
na crosta continental. Outros modelos
atribuem extensão a processos no manto
subcontinental. Pelo mecanismo de
delaminação (delamination), parte ou a
totalidade do manto litosférico espessado é
removido e substituído pela astenosfera
(Figs. 7.19a, b). Remoção convectiva da
litosfera (lithospheric convective removal),
por sua vez, envolve a erosão térmica da raiz
litosférica pela astenosfera adjacente (Fig.
7.19c). Em ambos os casos, a substituição da
litosfera fria e densa pela astenosfera quente
pode promover um soerguimento da
superfície antes que o orógeno seja rebaixado
devido à extensão resultante do aumento na
elevação e no potencial gravitacional do
orógeno.
Quando a crosta inferior espessada é
removida juntamente com o manto
litosférico, o processo é chamado de
afundamento (foundering; Fig. 7.20). Esta
situação é esperada em orógenos do tipo
andino nos quais uma proporção significativa
do espessamento é devido à adição de
magmas máficos à crosta inferior. Com a
cristalização dos magmas e subseqüente
conversão para eclogito, ocorre um aumento
expressivo da densidade da raiz crustal,
tornando-a gravitacionalmente instável.
Embora colapso extensional seja
comum, sua ocorrência não é universal.
Observações geológicas indicam que apenas
Figura 7.18. (a) Perfil esquemático mostrando os
estágios iniciais de colapso orogênico por uma
combinação de fluxo dúctil na crosta inferior e
falhamentos normais na crosta superior. (b) Bloco
diagrama esquemático ilustrando um estágio mais
avançado, resultando na exumação de rochas de
alta temperatura. Note que falhas de empurrão
podem se desenvolver na periferia do orógeno.
94
cinturões orogênicos largos sofrem
afinamento pós-colisional. Isto é,
provavelmente, devido ao fato de orógenos
estreitos (< 300 km de largura) serem mais
eficientemente resfriados. Assim, eles têm
uma resistênciamaior e não sofrem
delaminação (ou outro processo de remoção
da litosfera).
Uma possibilidade para explicar a
ausência de extensão em alguns orógenos
maiores é a interrupção da convergência
entre os blocos crustais antes que uma
espessura crítica, necessária para causar
remoção da litosfera continental, seja
atingida. Outra possibilidade é a conversão
incompleta de rochas máficas para eclogito
na crosta inferior porque eclogitização da
base da crosta tem um papel importante no
processo de delaminação. Como presença de
fluidos é requerida para que as reações
metamórficas que levam à produção de
eclogitos prossigam, sua disponibilidade
pode determinar se um orógeno irá ou não
sofrer colapso extensional.
7.7.2. Complexos de núcleo metamórfico
Colapso extensional em combinação
com erosão são mecanismos pelos quais
rochas de alta temperatura e pressão são
expostas na superfície (Fig. 7.18b). Quando a
extensão é extrema, rochas não-
metamórficas, deformadas ruptilmente, são
encontradas superpostas a rochas plutônicas e
metamórficas de alto grau. Separando as duas
regiões, ocorre uma zona de cisalhamento
dúctil extensional apresentando uma trama
milonítica (Fig. 7.21). Estas estruturas são
denominadas complexos de núcleo
metamórfico (metamorphic core complexes)
porque, freqüentemente, apresentam uma
estrutura dômica, com as rochas de alto grau
ocorrendo no núcleo. O domeamento da
estrutura na região mais distendida pode
resultar unicamente de soerguimento
isostático. No entanto, sua formação pode ser
auxiliada por ascensão diapírica, se fusão
parcial tornar as rochas presentes em
Figura 7.20. Perfil sísmico mostrando que parte da
raiz crustal abaixo da Serra Nevada (EUA) foi
removida e substituída pela astenosfera.
Figura 7.19. (a, b) Delaminação litosférica
completa (a) e parcial (b). (c) Estágios sucessivos
envolvidos na remoção convectiva da litosfera
provocada por aquecimento pela astenosfera
quente adjacente.
95
profundidade menos densas que rochas mais
superficiais.
7.7.3. Domos gnaissicos
Complexos de núcleo metamórfico
ditos do tipo cordilheirano resultam de
extensão pós-orogênica. Eles fazem parte da
categoria mais geral de domos gnaissicos,
que incluem ainda complexos de núcleo
metamórfico formados durante extensão
sinorogênica e domos gnaíssicos manteados
por rochas metassedimentares de alto grau.
Estes últimos podem ser formados por vários
outros mecanismos além de extensão. Entre
eles, incluem-se: diapirismo (Fig. 7.22a),
concomitante ou não com esforços
compressivos ou extensionais; exumação
contracional de rochas da crosta
média/inferior por imbricação de empurrões
e rápida denudação (Fig. 7.22b); e
interferência de dobras (Fig. 7.22c).
7.7.4. Vulcanismo
O magmatismo relacionado com
extensão sin- a pós-orogênica é
dominantemente potássico a ultrapotássico
(Fig. 7.23), incluindo andesitos e basaltos
cálcio-alcalinos de alto K, shoshonitos, e
lavas ultrabásicas (lamproítos, lamprófiros).
Como os teores de K2O no manto são,
normalmente, muito baixos, a origem dessas
rochas está relacionada com fusão parcial de
porções do manto que foram sujeitas a
processos metassomáticos, levando a seu
enriquecimento em elementos incompatíveis.
Uma fonte no manto litosférico continental é,
geralmente, assumida, porque estudos
isotópicos mostram que muitas vezes o
enriquecimento é antigo, e não relacionado
com processos em zonas de subducção
contemporâneas.
Modelagem geoquímica e estudos
experimentais mostram que uma pequena
percentagem de fusão parcial (< 5%) de uma
fonte peridotítica, contendo flogopita e/ou
pargasita, fornece líquidos com a composição
adequada para gerar magmas
potássicos/ultrapotássicos. Um possível
cenário para sua geração é mostrado na
Figura 7.19c, onde o aquecimento da
litosfera pela astenosfera resulta em fusão
parcial. O mesmo efeito pode ser produzido
por delaminação parcial (Fig. 7.19b) ou slab
break-off (Fig. 7.10). Se a extensão é
suficientemente grande a astenosfera pode,
também, sofrer fusão parcial por
descompressão num estágio posterior,
Figura 7.22. Possíveis mecanismos para formação
de domos gnáissicos manteados. (a) Diapirismo.
(b) Empurrões. (c) Redobramento.
Figura 7.21. Seções esquemáticas mostrando uma
possível seqüência de eventos durante a formação
de um complexo de núcleo metamórfico.
96
gerando magmas alcalinos ricos em Na (Fig.
7.19c).
Adakitos também podem ser
encontrados em associação com rochas
potássicas/ultrapotássicas (Fig. 7.23). Sua
formação é atribuída à fusão parcial da crosta
inferior máfica espessada, a qual, por sua
vez, pode ser devida ao aquecimento causado
pela passagem dos magmas potássicos
através da crosta continental.
7.8. Plutonismo sinorogênico
Rochas plutônicas são comuns em
cinturões orogênicos nos quais níveis mais
profundos foram expostos por erosão ou
colapso orogênico. Em margens continentais
ativas, este magmatismo é caracterizado por
grandes batólitos cálcio-alcalinos,
constituídos por proporções variáveis de
rochas máficas (gabros), intermediárias
(dioritos) e félsicas (dominantemente
tonalitos e granodioritos). Os membros
félsicos são metaluminosos (Fig. 7.24) e
interpretados como derivados,
dominantemente, da fusão parcial de rochas
máficas na crosta inferior.
Granitos peraluminosos (Fig. 7.24)
também são encontrados em orógenos do
tipo Andino. Sua origem pode estar
relacionada com fusão parcial de protólitos
metassedimentares e/ou metaigneos,
formados num estágio anterior, ou do
embasamento continental antigo do arco
magmático. Estes granitóides são, às vezes,
referidos como granitos cordilheiranos.
Granitos cuja gênese inferida é fusão parcial
de rochas metaigneas são ditos do tipo I, em
oposição aos granitos do tipo S (Fig. 7.24),
cujo protólito é metassedimentar.
Em orógenos colisionais, os batólitos
cálcio-alcalinos do estágio andino precursor
podem ser deformados, metamorfizados e
convertidos para ortognaisses, constituindo
intrusões pré-tectônicas. Normalmente, toda
atividade ígnea cessa nos estágios iniciais de
uma colisão devido à perda do magmatismo
associado com a zona de subducção. Com a
continuação da convergência entre os
continentes e o conseqüente aumento na
espessura crustal, o orógeno começa a se
aquecer espontaneamente pelo aumento na
radioatividade interna e pela condução de
calor do manto adjacente. Assim,
temperaturas suficientemente elevadas para
ocasionar fusão parcial de metapelitos com
muscovita podem ser atingidas. Embora o
tempo requerido normalmente seja da ordem
de 20 a 30 Ma, os granitos produzidos neste
estágio são chamados de sincolisionais.
Tipicamente, são leucogranitos a duas micas,
podendo conter também granada e/ou
turmalina, e fortemente peraluminosos, como
exemplificado pelos leucogranitos
himalaianos (Fig. 7.24). Estes granitos são
Figura 7.23. Diagrama K2O versus SiO2
mostrando a variação composicional de adakitos e
rochas vulcânicas potássicas/ultrapotássicas
formadas durante extensão do platô tibetano.
Figura 7.24. Diagrama mostrando a variação
composicional de alguns grupos de granitos.
97
geoquimicamente distintos dos granitos tipo
S (Fig. 7.24), que incluem dominantemente
biotita cordierita granitos. A gênese destes
últimos ainda é debatida, embora,
provavelmente, envolva fusão parcial de
fontes contendo uma proporção significativa
de metagrauvaca.
O maior volume de rochas plutônicas
em muitos cinturões orogênicos colisionais
pertence às associações cálcio-alcalinas de
alto potássio e shoshonítica.Em contraste
com os batólitos cálcio-alcalinos de margens
ativas, os membros félsicos dominantes são
monzogranitos e sienogranitos. Estas rochas
são intrudidas em um ambiente claramente
intraplaca e, por isso, são chamadas de pós-
colisionais, estando, freqüentemente,
associadas com zonas de cisalhamento
transcorrentes. No entanto, pode haver uma
superposição no tempo com a intrusão de
granitos peraluminosos sincolisionais.
O magmatismo peraluminoso pode
ser retomado durante a fase de colapso
orogênico, enquanto granitos relativamente
alcalinos e de alta temperatura podem ser
intrudidos num estágio pós-orogênico
avançado. A proximidade da astenosfera
(Fig. 7.19c) da base da crosta explica a
ocorrência de fusão parcial de uma crosta
previamente submetida à extração de
magmas e, portanto, menos fértil.
No caso de orógenos intracontinentais
formados por inversão de riftes, intrusões
pré-tectônicas são caracterizadas por granitos
peraluminosos ou alcalinos formados durante
o estágio rifte. Plútons sin- a pós-orogênicos
podem ter características bastante variáveis,
mas os membros máficos, quando presentes,
normalmente refletem derivação litosférica,
enquanto os membros félsicos têm fontes
metassedimentares ou são derivados de
metagranitóides antigos ou de protólitos
ígneos do tipo cálcio-alcalino de alto
potássio.
7.9. Metamorfismo regional
7.9.1. Tipos de metamorfismo e ambientes
tectônicos
Metamorfismo de alta pressão a
temperaturas relativamente baixas é típico de
zonas de subducção (seção 6.5.5). Xistos
azuis e eclogitos são as rochas diagnósticas
deste ambiente, sendo caracterizadas,
respectivamente, pelas associações
glaucofana+lawsonita e granada+onfacita.
Este tipo de metamorfismo é, portanto,
ausente ou limitado em orógenos
intracontinentais.
Em orógenos colisionais, o
metamorfismo de alta pressão precede a fase
de metamorfismo de pressão ultra-alta e a
fase principal de metamorfismo regional. Um
cinturão metamórfico de pressão ultra-alta
consiste tipicamente de lentes de eclogito
envoltos por gnaisses quartzo-feldspáticos.
Embora os gnaisses apresentem associações
minerais da fácies anfibolito, inclusões de
coesita e diamante em zircões indicam
subducção da crosta continental para
profundidades superiores a 100 km. Dessa
forma, a associação de pressão mais baixa
reflete reequilíbrio durante o retorno do
material para a superfície.
O metamorfismo regional relacionado
a espessamento crustal dá-se, tipicamente,
sob condições de média pressão e
temperatura (metamorfismo barroviano).
Uma vez que, caminhando-se na direção da
hinterlândia, rochas de temperatura mais
elevada são encontradas acima de rochas de
temperatura mais baixa (Fig. 7.11), o
metamorfismo é dito inverso.
Metamorfismo de baixa pressão-alta
temperatura pode ocorrer nos estágios mais
avançados de uma colisão em associação
com colapso orogênico. Este tipo de
metamorfismo também acontece em
orógenos intracontinentais, quando a fase
rifte é seguida imediatamente por
convergência de blocos ou pelo fechamento
de bacias retro-arco em ambientes de
subducção.
Metamorfismo de temperatura ultra-
alta (> 900ºC) tem sido documentado em um
número cada vez maior de cinturões
orogênicos. Paragêneses minerais
diagnósticas incluem safirina+quartzo,
98
ortopiroxênio+sillimanita+quartzo, espinélio
+quartzo e osumilita+granada. Embora ainda
seja debatido como temperaturas
extremamente elevadas podem ser atingidas a
pressões relativamente baixas, isto
provavelmente requer uma grande
proximidade da crosta continental e da
astenosfera. Circunstâncias que podem levar
a esta situação incluem a remoção da
litosfera, durante colapso orogênico, e a
formação e rápido fechamento de bacias
retro-arco.
7.9.2. Trajetórias P-T-t
Estudos termobarométricos e
geocronológicos são essenciais para se
entender a evolução de cinturões orogênicos.
Os resultados são, normalmente, sintetizados
como curvas, chamadas trajetórias P-T-t, em
diagramas pressão versus temperatura
(curvas 1-5; Fig. 7.25). Para isto, é necessário
que diferentes paragêneses, representando
momentos de tempo distintos (t1, t2, t3 na Fig.
7.25), estejam presentes na amostra
analisada. As idades das paragêneses de alta
temperatura, normalmente, são determinadas
por datação U-Pb de zircão e/ou monazita,
enquanto as de mais baixa temperatura são
estabelecidas pela datação Ar-Ar de
anfibólios ou micas (Capítulo 2).
As trajetórias P-T-t em orógenos
colisionais (curva 1) são tipicamente
horárias, porque pressões máximas são
atingidas antes das temperaturas máximas, as
quais podem continuar a se elevar durante a
descompressão. O oposto (trajetórias P-T-t
anti-horárias) ocorre em orógenos
intracontinentais (curva 2), resultantes da
inversão de riftes continentais, ou em bacias
retro-arco invertidas, pois o aquecimento da
crosta pelo manto se dá antes do
espessamento crustal.
Em zonas de subducção (curva 3), as
trajetórias são horárias, mas com um declive
bem mais acentuado que no caso de colisão
continental, porque as rochas começam a
voltar em direção à superfície antes que
temperaturas elevadas sejam atingidas. A
Figura 7.25 mostra, ainda, possíveis
trajetórias associadas com metamorfismo de
pressão ultra-alta (curva 4) e de temperatura
ultra-alta (curva 5).
Gradientes geotérmicos inferidos para
a porção das curvas correspondentes ao
aumento progressivo de pressão e
temperatura variam de 4-10ºC/km para o
metamorfismo de pressão alta/ultra-alta a
>30ºC/km para o metamorfismo de
temperatura ultra-alta.
7.10. Distinção entre os diferentes tipos de
orógenos: síntese
A distinção entre cinturões
orogênicos acrescionários, colisionais e
intracontinentais pode ser estabelecida, em
princípio, pelo estudo de associações de
rochas que caracterizam ambientes tectônicos
específicos. Deve-se, no entanto, ter em
mente que um sistema orogênico colisional
maior pode conter faixas intracontinentais, e
que muitos orógenos de acresção apresentam
uma fase colisional terminal. A distinção é
mais fácil no caso de cinturões jovens ou que
não sofreram erosão muito acentuada,
tornando-se progressivamente mais
Figura 7.25. Diagrama mostrando trajetórias P-T-t
esquemáticas construídas pela combinação de
dados termobarométricos e geocronológicos em
três momentos distintos (t1 > t2 > t3). Ver
discussão no texto e Fig. 1.6 para a definição dos
diferentes campos mostrados.
99
complicada em cinturões mais antigos, onde
apenas a infra-estrutura do sistema pode ser
analisada. Neste último caso, estudos mais
aprofundados, envolvendo métodos
geocronológicos, isotópicos, sísmicos e
paleomagnéticos, são requeridos e, nem
sempre, são conclusivos.
A geologia de orógenos
intracontinentais é caracterizada por
sequências de rifte deformadas e
metamorfizadas (metaconglomerados,
quartzitos, paragnaisses arcosianos,
metabasaltos e metariolitos), apresentando
volumes significativos, mas variáveis, de
rochas crustais mais antigas retrabalhadas e
de metassedimentos derivados de associações
cratônicas.
Em sistemas de zonas de subducção,
sedimentos pelágicos e abissais, juntamente
com turbiditos grauváquicos resultantes da
erosão do arco vulcânico e da crosta
preexistente, acumulam-se na fossa e são
progressivamente incorporados ao complexo
da zona de subducção. As rochas vulcânicas
e plutônicas típicas deste ambiente pertencem
à associação cálcio-alcalina. Um orógeno
pode ser caracterizado como de acresção se
falhas separam terrenos com histórias
geológicas contrastantes. Isto é o caso, por
exemplo, de seqüências supracrustais de um
lado e outro de uma falha que apresentam
conteúdos fossilíferosdiferentes e
incompatíveis com as latitudes atuais, ou de
terrenos oceânicos e continentais justapostos.
Orógenos relacionados com subducção
continuada, que passaram por estágios
sucessivos de formação e fechamento de
bacias retro-arco, podem ser confundidos
com orógenos acrescionários.
Em um orógeno colisional,
sedimentos plataformais pertencentes à placa
que estava sofrendo subducção são separados
pela zona de sutura de prismas de acresção
telescopados contra seqüências de arco.
Metamorfismo de pressão ultra-alta é
diagnóstico deste ambiente.
Referências selecionadas
Agard, P., Jolivet, L., Vrielynck, B., Burov, E., Monié,
P., 2007. Plate acceleration: the obduction
trigger? Earth and Planetary Science Letters 258,
428-441.
Beccaluva, L., Coltorti, M., Giunta, G., Siena, F.,
2004. Tethyan vs. Cordilleran ophiolites: a
reappraisal of distinctive tectono-magmatic
features of supra-subduction complexes in
relation to the subduction mode. Tectonophysics
393, 165-174.
Bellot, J.P., 2007. Pre- to syn-extension melt-assisted
nucleation and growth of extensional gneiss
domes: the western French Massif Central
(Variscan belt). Journal of Structural Geology
29, 863-880.
Bonin, B., 2004. Do coeval mafic and felsic magmas
in post-collisional to within-plate regimes
necessarily imply two contrasting, mantle and
crustal, sources? Lithos 78, 1-24.
Burg, J.-P., Sokoutis, D., Bonini, M., 2002. Model-
inspired interpretation of seismic structures in the
Central Alps: crustal wedging and buckling at
mature stage of collision. Geology 300, 643-646.
Cawood, P.A., Buchan, C., 2007. Linking accretionary
orogenesis with supercontinent assembly Earth-
Science Reviews 82, 217-256.
Collins, W.J., 2002. Hot orogens, tectonic switching,
and creation of continental crust. Geology 30,
535-538.
Cunningham, D., 2005. Active intracontinental
transpressional mountain building in the
Mongolian Altai: defining a new class of orogen.
Earth and Planetary Science Letters 240, 436-
444.
Darby, B.J., Ritts, B.D., Yue, Y., Meng, Q., 2005. Did
the Altyn Tagh fault extend beyond the Tibetan
Plateau? Earth and Planetary Science Letters
240, 425-435.
Dickerson, P.W., 2003. Intraplate mountain building
in response to continent-continent colision - the
Ancestral Rocky Mountains (North America)
and inferences from the Tien Shan (Central
Asia). Tectonophysics 365, 129-142.
Dilek, Y., Furnes, H., Shallo, M., 2007. Supra-
subduction zone ophiolite formation along the
periphery of Mesozoic Gondwana. Gondwana
Research 11, 453-475.
English, J.M., Johnston, S.T., 2004. The Laramide
Orogeny: what were the driving forces?
International Geology Review 46, 833-838.
Hodges, K.V., 2005. Geochronology and
thermochronology in orogenic systems. In:
Rudnick, R.L. (ed.) The Crust. Treatise on
Geochemistry 3, 263-292, Elsevier.
Gilbert, H., Jones, C., Owens, T.J., Zandt, G., 2007.
Imaging Sierra Nevada lithospheric sinking. Eos
88, 225-229.
Guo, Z., Wilson, M., Liu, J., 2007. Post-collisional
adakites in south Tibet: products of partial
melting of subduction-modified lower crust.
Lithos 96, 205-224.
100
Harris, N., 2007. Channel flow and the Himalayan-
Tibetan orogen: a critical review. Journal of the
Geological Society 164, 511-523.
Jadamec, M.A., Turcotte, D.L., Howell, P., 2007.
Analytic models for orogenic collapse.
Tectonophysics 435, 1-12.
Johnston, S.T., Borel, G.D., 2007. The odyssey of the
Cache Creek terrane, Canadian Cordillera:
implications for accretionary orogens, tectonic
setting of Panthalassa, the Pacific superswell,
and break-up of Pangea. Earth and Planetary
Science Letters 253, 415-428.
Keep, M., 2000. Models of lithospheric-scale
deformation during plate collision: effects of
indentor shape and lithospheric thickness.
Tectonophysics 326, 203-216.
Kelsey, D.E., 2008, On ultrahigh temperature crustal
metamorphism. Gondwana Research 13, 1-29.
Kohn, M.J., Parkinson, C.D., 2002. Petrologic case for
Eocene slab breakoff during the Indo-Asia
collision. Geology 30, 591-594.
Lamb, S., Davis, P., 2003. Cenozoic climate change as
a possible cause for the rise of the Andes. Nature
425, 792-797.
Law, R.D., Searle, M.P. (Eds.), 2006. Channel Flow,
Ductile Extrusion and Exhumation in
Continental Collision Zones. Geological Society,
London, Special Publications 268.
Li, Z.X., Li, X.H., 2007. Formation of the 1300-km-
wide intracontinental orogen and postorogenic
magmatic province in Mesozoic South China: a
flat-slab subduction model. Geology 35, 179-
182.
Liégeois, J.-P., Navez, J., Hertogen, J., Black, R.,
1998. Contrasting origin of post-collisional high-
K calc-alkaline and shoshonitic versus alkaline
and peralkaline granitoids. The use of sliding
normalization. Lithos 45, 1-28.
Lucassen, F., Franz, G., 2005. The early Palaeozoic
Orogen in the Central Andes: a non-collisional
orogen comparable to the Cenozoic high plateau?
Geological Society, London, Special
Publications 246, 257-273.
McLaren, S., Sandiford, M., Powell, R., 2005.
Contrasting styles of Proterozoic crustal
evolution: a hot-plate tectonic model for
Australian terranes. Geology 33, 673-676.
Moore, V.M., Vendeville, B.C., Wiltschko, D.V.,
2005. Effects of buoyancy and mechanical
layering on collisional deformation of
continental lithosphere: results from physical
modelling. Tectonophysics 403, 193-222.
Neves, S.P., Mariano, G., 2004. Heat-producing
elements-enriched continental mantle lithosphere
and Proterozoic intracontinental orogens:
insights from Brasiliano/Pan-African belts.
Gondwana Research 7, 427-436.
Nicolas, A., Boudier, F., 2003. Where ophiolites come
from and what they tell us. Geological Society of
America Special Paper 373, 137-152.
Phillips, R.J., Parrish, R.R., Searle, M.P., 2004. Age
constraints on ductile deformation and long-term
slip rates along the Karakoram fault zone,
Ladakh. Earth and Planetary Science Letters 226,
305-319.
Pysklywec, R.N., Cruden, A.R., 2004. Coupled crust-
mantle dynamics and intraplate tectonics: two-
dimensional numerical and three-dimensional
analogue modeling. Geochemistry, Geophysics,
Geosystems 5, doi: 10.1029/2004GC000748.
Ramos, V.A., Cristallini, E.O., Pérez, D.J., 2002. The
Pampean flat-slab of the Central Andes. Journal
of South American Earth Sciences 15, 59-78.
Ranalli, G., Martin, S., Mahatsente, R., 2005.
Continental subduction and exhumation: an
example from the Ulten Unit, Tonale Nappe,
Eastern Austroalpine. Geological Society,
London, Special Publications 243, 159-174.
Rey, P., Vanderhaeghe, O., Teyssier, C., 2001.
Gravitational collapse of the continental crust:
definition, regimes and modes. Tectonophysics
342, 435-449.
Robertson, A.H.F., 2002. Overview of the genesis and
emplacement of Mesozoic ophiolites in the
Eastern Mediterranean Tethyan region. Lithos
65, 1-67.
Robl, J., Stüwe, K., 2005. Continental collision with
finite indenter strength: 1. Concept and model
formulation. Tectonics 24, doi:
10.1029/2004TC001727.
Rumble, D., Liou, J.G., Jahn, B.M., 2005. Continental
crust subduction and ultrahigh pressure
metamorphism. In: R.L. Rudnick (ed.) The
Crust. Treatise on Geochemistry 3, 293-319,
Elsevier.
Saint-Blanquat, M., Tikoff, B., Teyssier, C.,
Vigneresse, J.L., 1998. Transpressional
kinematics and magmatic arcs. Geological
Society, London, Special Publications 135, 327-
340.
Searle, M.P., 2006. Role of the Red River shear zone,
Yunnan and Vietnam, in the continental
extrusion of SE Asia. Journal of the Geological
Society 163, 1025-1036.
Sengör, A.M.C., Natal’in, B.A., 1996. Turkic-type
orogeny and its role in the making of continental
crust. Annual Review of Earth and PlanetarySciences 24, 263-337.
Simpson, G.D.H., 2006. How and to what extent does
the emergence of orogens above sea level
influence their tectonic development? Terra
Nova 18, 447-451.
Sisson, T.W., Ratajeski, K., Hankins, W.B., Glazner,
A.F., 2005. Voluminous granitic magmas from
common basaltic sources. Contributions to
Mineralogy and Petrology 148, 635-661.
101
Teyssier, C., Whitney, D.L., 2002. Gneiss domes and
orogeny. Geology 30, 1139-1142.
Vaughan, A.P.M., Scarrow, J.H., 2003. Ophiolite
obduction pulses as a proxy indicator of
superplume events? Earth and Planetary Science
Letters 213, 407-416.
Williams, H.M., Turner, S.P., Pearce, J.A., Kelley,
S.P., Harris, N.B.W., 2004. Nature of the source
regions for post-collisional, potassic magmatism
in southern and northern Tibet from geochemical
variations and inverse trace element modelling.
Journal of Petrology 45, 555-607.
Willingshofer, E., Sokoutis, D., Burg, J.P., 2005.
Lithospheric-scale analogue modelling of
collision zones with a pre-existing weak zone.
Geological Society, London, Special
Publications 243, 277-294.
102
103
8. Origem e Diferenciação da Terra
8.1. Introdução
As rochas mais antigas encontradas
na Terra, até o presente, têm cerca de quatro
bilhões de anos, mas idades bem mais antigas
são obtidas em meteoritos e rochas lunares,
indicando que a formação do sistema solar
teve inicio centenas de milhões de anos
antes. Assim, a reconstituição dos processos
que levaram à formação e à aquisição da
estrutura concêntrica atual da Terra, com um
núcleo rico em ferro, um manto silicático e
uma crosta envolta pela hidrosfera e
atmosfera, é feita com base em analogias
com meteoritos e outros corpos planetários e
modelos geoquímicos e isotópicos. A
descoberta de zircões com idades de até 4,4
Ga sugere, ainda, que algum tipo de crosta
continental pode ter estado presente na
superfície do planeta 100-200 Ma após sua
formação.
8.2 Meteoritos e a formação do sistema
Solar
O estudo da origem e evolução do
Sistema Solar é baseado, principalmente, no
estudo de meteoritos e em observações
astronômicas de regiões onde estrelas estão
se formando no presente. A maior parte dos
meteoritos tem sua fonte no cinturão de
asteróides entre Marte e Júpiter, embora
alguns possam ser fragmentos das superfícies
de Marte ou da Lua.
8.2.1. Tipos de meteoritos
Os meteoritos são classificados em
pétreos, pétreo-ferrosos e ferrosos,
dependendo da proporção de silicatos para a
fase metálica Fe-Ni. Os meteoritos pétreos
são compostos, principalmente, de olivina e
ortopiroxênio e são subdivididos em
condritos e acondritos. Alguns acondritos
apresentam texturas ígneas, assemelhando-se
a rochas terrestres máficas e ultramáficas
comuns, indicando cristalização a partir de
magmas. Os condritos são caracterizados
pela presença de côndrulos, pequenos objetos
esféricos com diâmetros de 1 mm, compostos
de olivina e/ou piroxênio (Fig.8.1). A textura
porfirítica de muitos côndrulos indica
formação por cristalização de magmas a
temperaturas 50º-200º C abaixo do liquidus.
Os condritos são classificados em enstatita
condritos, condritos ordinários (ou comuns) e
condritos carbonosos. A distinção entre eles é
baseada na proporção de ferro metálico para
Fe+2, com os condritos carbonosos
representando os termos mais oxidados.
Os condritos carbonosos sofreram
apenas processos geológicos menores após
sua formação e são considerados materiais
primitivos remanescentes da formação do
sistema solar. Como o nome indica, eles têm
um teor de carbono maior que os condritos
comuns. Estes meteoritos tipicamente contêm
argilas e óxidos e podem ser cortados por
veios de carbonatos e sulfatos, indicando
Figura 8.1. Fotomicrografias em nicóis cruzados
de condritos carbonosos com côndrulos de olivina
(a) e de piroxênio (b).
104
alteração por fluidos ricos em água. Apesar
da alteração, eles têm concentrações de
elementos não-voláteis similares às
estimativas feitas para o Sol. Isto indica sua
natureza primitiva, já que o Sol contém a
quase totalidade da matéria do sistema solar.
Assim, a alteração é atribuída à fusão de gelo
pelo calor produzido por desintegração de
elementos radioativos de meia-vida curta no
corpo parental, e não por interação com a
atmosfera ou com a hidrosfera terrestre.
8.2.2. Formação do Sistema Solar
Condritos carbonosos não podem ter
sido aquecidos a temperaturas superiores a
200º C após sua formação, caso contrário os
minerais hidratados presentes teriam sido
desestabilizados. Estima-se que a
temperatura não superou 50ºC no caso dos
condritos CI, o tipo mais primitivo. Por outro
lado, a textura ígnea e estudos petrológicos
mostram que côndrulos são formados por
cristalização de magmas, cujas temperaturas,
provavelmente, eram superiores a 1300º C. A
presença de côndrulos em condritos
carbonosos pode ser explicada pelo estudo de
outro tipo de inclusão comum neste tipo de
meteorito. Estas inclusões (chamadas CAIs,
de Ca-Al inclusions) são objetos milimétricos
a centimétricos ricos em cálcio e alumínio,
cujas idades (4,566 Ga) são as mais antigas
encontradas no Sistema Solar.
CAIs contêm um isótopo de Mg
(26Mg) que é produzido pelo decaimento
radioativo de 26Al. Como a meia vida do 26Al
é de apenas 0,7 Ma, a formação dos CAIs
não deve ter demorado mais do que cerca de
um milhão de anos após a produção deste
isótopo. A teoria mais aceita para a formação
dos CAIs é uma elevação transitória de
temperatura, causada pela explosão de uma
supernova vizinha à nuvem de gás e poeira
precursora do sistema solar. Este aumento de
temperatura teria sido suficiente para
produzir fusão instantânea de sólidos
preexistentes, com a conseqüente formação
dos CAIs e dos côndrulos com idades mais
antigas. Côndrulos continuaram a ser
produzidos por aquecimento causado pelo
decaimento de 26A durante 1-4 Ma, sendo,
posteriormente, incorporados aos corpos
parentais dos meteoritos carbonosos. A onda
de choque resultante da explosão teria
forçado a nuvem de gás e poeira primitiva a
entrar em colapso gravitacional (Fig. 8.2a).
Modelos teóricos e modelagem
numérica mostram que o colapso produz um
objeto central (o proto-Sol) circundado por
um disco achatado (chamado nebulosa solar)
em apenas 0,1 Ma (Fig. 8.2b). O tempo
necessário para o início de reações
termonucleares no proto-Sol é estimado em
40 Ma. A formação do proto-Sol é
acompanhada pela condensação de matéria,
sua agregação em corpos cada vez maiores e
pela migração para o plano médio da
nebulosa (Fig. 8.2b). A formação dos
planetas ocorre por um processo de
fragmentação gravitacional da nebulosa, da
qual resultam regiões ricas em corpos sólidos
(Fig. 8.2c). Estes objetos, chamados de
planetesimais, têm dimensões variando de 1 a
10 km na zona dos planetas terrestres e de 10
a 100 km na zona dos planetas gigantes.
O tempo para a acumulação de
planetesimais em protoplanetas e, daí, em
planetas é estimado em cerca de cem milhões
Figura 8.2. Estágios envolvidos na formação do
Sistema Solar. (a) Colapso da nuvem de gás e
poeira primitiva. (b) Nebulosa solar. (c) Disco
protoplanetário.
105
de anos no caso da Terra, mas com boa parte
do crescimento ocorrendo nos primeiros 25
Ma. A formação de Júpiter e de Saturno foi
bem mais rápida (alguns milhões a uma
dezena de milhões de anos). A atração
gravitacional exercida por Júpiter perturbou a
acumulação planetesimal na região dos
asteróides, impedindo a formação de um
planeta neste local. Observação de estrelas
próximas mostra que a remoção completa do
disco de poeira ocorre em escalas de tempo
da ordem de 300a 400 Ma.
8.3. Diferenciação primária da Terra
O tipo específico de material que deu
origem à Terra ainda é debatido. O modelo
com maior aceitação é o de acresção
homogênea de planetesimais com
composição semelhante à dos condritos
carbonosos do tipo CI. Variantes do modelo
de acresção homogênea sugerem, no entanto,
que condritos ordinários, enstatita condritos
ou côndrulos seriam mais prováveis como
materiais parentais. Outros modelos propõem
ainda acresção heterogênea, com a
composição dos planetesimais mudando, com
o decorrer do tempo, de enstatita condritos
para condritos comuns e, finalmente, para
condritos carbonosos.
Meteoritos condríticos são
caracterizados quimicamente por
abundâncias similares de sílica, magnésio e
ferro (Fig. 8.3). O teor de ferro no manto
(~8%; Tabela 3.2) é bem menor que em
condritos. Assim, independentemente do tipo
específico de material a partir do qual a Terra
foi formada, é consensual que sua
diferenciação primária em manto e núcleo
envolveu a separação de ferro da porção
silicática.
Devido à grande quantidade de
energia liberada pelo impacto de
planetesimais, é provável que uma porção
significativa da Terra tenha sido totalmente
fundida durante seu crescimento, dando
origem a um oceano magmático profundo.
Como magmas metálicos são imiscíveis e
bem mais densos que magmas silicáticos, o
modelo preferido para a origem do núcleo
advoga a acumulação de metal entre o
oceano magmático e o manto parcialmente
fundido abaixo e sua subseqüente segregação
para o centro da Terra (Fig. 8.4).
A avaliação mais recente é de que a
formação do núcleo foi muito rápida, com
boa parte do crescimento ocorrendo em 10
Ma e estando, praticamente, concluído em 30
Ma. Isto significa que o núcleo se formou
concomitantemente com a acresção da Terra.
A principal linha de evidência para o rápido
crescimento do núcleo é proporcionada pelo
sistema Hf-W. 182Hf sofre decaimento
radioativo para 182W com uma meia vida de
Figura 8.3. Diagrama ternário MgO-FeO-SiO2
mostrando a variação composicional de
meteoritos condríticos.
Figura 8.4. Modelo sumarizando os processos de
separação silicato-metal durante a formação do
núcleo.
106
apenas 9 Ma. Uma vez que Hf é um elemento
litófilo enquanto W é um elemento siderófilo,
a remoção de W para o núcleo aumenta a
razão Hf/W. O manto apresenta um excesso
de 182W em comparação com condritos,
indicando que a separação do núcleo ocorreu
quando ainda havia 182Hf em quantidade
suficiente no manto, caso contrário, a
composição isotópica do manto e de
condritos seria similar.
A formação do núcleo resultou no
empobrecimento de elementos siderófilos
(cobalto, níquel, ouro, platina, irídio, cósmio,
paládio, etc.) no manto da Terra. No entanto,
apesar da baixa abundância desses
elementos, ela ainda é maior que a esperada.
Isto é atribuído à adição de 0,4 a 1% de
material condrítico (cuja abundância em
elementos siderófilos é 150 a 300 vezes
superior àquela presente no manto atual)
após a formação do núcleo.
8.4. Formação do Sistema Terra-Lua
A hipótese mais popular para a
origem da Lua, o Modelo do Impacto
Gigante, é que ela se formou quando um
corpo aproximadamente com o tamanho de
Marte (chamado, por alguns, de Teia) atingiu
a Terra cerca de 60 Ma de anos após o
colapso da nebulosa solar (Fig. 8.5). Um
impacto de tal ordem inevitavelmente levaria
à fusão de grande parte do manto e à
amálgama do núcleo do corpo impactante
com o núcleo da Terra. A Lua seria formada
subseqüentemente pela condensação dos
silicatos vaporizados, em grande parte
derivados do impactante (~80%), que
ficaram circundando a órbita da Terra. A
estimativa de que o impacto ocorreu nos
estágios finais de diferenciação da Terra é
consistente com a pequena dimensão do
núcleo lunar (340 km de raio).
A Lua tem uma crosta
dominantemente anortosítica, cuja existência
só pode ser explicada pela flotação de
plagioclásio sobre um magma de extensão
global. Uma vez que esta crosta tem 30 a 60
km de espessura, isto indica que a Lua
também passou por um estágio de fusão total,
com um oceano magmático profundo.
8.5. Formação da atmosfera e hidrosfera
8.5.1. Origem da atmosfera
A Terra é significativamente
empobrecida nos gases nobres (Ar, Ne, Xe e
Kr) em comparação com o Sol e com os
meteoritos carbonosos. Como estes gases são
muito grandes e pesados, é improvável que
suas baixas concentrações sejam devidas a
Figura 8.5. Simulação numérica do impacto que deu origem à Lua. Cores correspondem à energia interna do
sistema.
107
uma perda gradual para o espaço. Logo, a
atmosfera atual não pode ter sido formada
pela retenção de elementos voláteis da
nebulosa solar nos estágios finais de acresção
da Terra. Embora uma atmosfera primordial
deva ter existido, a energia liberada pelo
impacto que formou a Lua deve ter causado
não só a perda dessa atmosfera primordial,
mas também da quase totalidade dos
elementos voláteis no manto. Uma pequena
fração dos gases primitivos pode ter ficado
retida no manto mais profundo e ser
responsável pelas razões elevadas 3He/4He
em magmas relacionados com plumas.
O modelo preferido para a formação
da atmosfera envolve o transporte de gases
para a superfície por magmas de derivação
mantélica. Isto implica que o manto foi
reenriquecido pela adição tardia de material
dominantemente condrítico (0,4-1% da
massa da Terra, como estimada a partir da
concentração de elementos siderófilos no
manto; seção 8.3). A quantidade de
nitrogênio e água suprida por esta
contribuição tardia é consistente com as
concentrações estimadas para a Terra. Outro
modelo, menos aceito, advoga que a
atmosfera foi formada diretamente pela
vaporização do material tardio antes de seu
impacto com a superfície.
A taxa com que elementos voláteis
são liberados do manto para a atmosfera pode
ser estimada com base em medidas da
composição isotópica atual dos gases nobres
nos diferentes reservatórios terrestres. Isto
será exemplificado pelo caso do argônio. O
argônio representa cerca de 1% do volume da
atmosfera, sendo que a maior parte dele
(99,6%) consiste do isótopo 40Ar, produzido
pela desintegração radioativa de 40K
(Capítulo 2). Como a meia-vida do 40K é
muito longa, a concentração de 40Ar deveria
ser muito baixa logo após a formação da
Terra. A razão 40Ar/36Ar nos MORBs pode
chegar a 44000, indicando valores também
elevados no manto, enquanto na atmosfera
atual ela é relativamente baixa (295,5). Isto
implica que a formação da atmosfera ocorreu
antes da produção de quantidades
significativas de 40Ar, indicando rápida
liberação de voláteis pelo manto nas
primeiras dezenas de milhões de anos
subseqüentes ao impacto gigante. A liberação
de gases pelo manto continua até o presente,
porém a uma taxa bem menor. A idade média
da atmosfera estimada pela sistemática dos
gases raros é de 4,4 Ga.
Por comparação com a composição
do manto em elementos voláteis, a atmosfera
primitiva deveria ser composta
predominantemente de H2O, CO2, N2 e CO.
NH3 e CH4 também deviam estar presentes,
mas estes gases são prontamente destruídos
por radiação ultravioleta e sua concentração
não deveria ser grande. No entanto,
concentrações de metano de até 1000 ppm
podem ter persistido até a formação de uma
atmosfera rica em oxigênio. Uma atmosfera
rica em CO2 é atestada pelos enormes
volumes de carbonatos, depositados desde o
Arqueano, e de carvão e petróleo produzidos
durante o Fanerozóico. Se todo o carvão
contido nestes depósitos fosse convertido
para CO2, a concentração desse gás na
atmosfera aumentaria várias centenas de
vezes (Figura 8.7).
Uma elevadaconcentração de CO2 na
atmosfera primitiva explica o ‘paradoxo do
Sol fraco’. Modelos para a evolução do Sol
Figura 8.6. Modelos para a liberação de Ar do
manto para a atmosfera. As curvas superiores são
as mais condizentes com os dados atuais. O tempo
é contado a partir da formação da Terra.
108
indicam que durante o Arqueano sua
luminosidade correspondia apenas a 75-80%
do valor atual e, assim, a temperatura média
da superfície da Terra deveria ser bem menor
que no presente. O paradoxo consiste no fato
de que registros de glaciação no arqueano são
esparsos, indicando que o efeito estufa
provocado pelo CO2 contrabalançou a menor
luminosidade solar.
8.5.2. Origem da hidrosfera
Por comparação com a evolução da
atmosfera, é provável que uma grande fração
dos oceanos também tenha sido formada nos
100 Ma seguintes à acresção da Terra. O
efeito estufa, resultante das elevadas
concentrações de CO2 na atmosfera e o alto
fluxo térmico interno logo após a formação
da Lua, contribuíram para manter a superfície
da Terra aquecida. No entanto, convecção
intensa no manto e reação de CO2 com
basalto para formar carbonatos rapidamente
reduziram a importância desses dois fatores.
Estimativas para o tempo requerido a fim de
manter a superfície aquecida acima do ponto
de ebulição da água variam de menos de 1
Ma de anos até no máximo 20 Ma. Assim, a
Terra já deveria estar coberta por oceanos
logo após sua formação. Devido à maior
pressão atmosférica, água na forma líquida
pode ter existido a temperaturas
consideravelmente superiores a 100ºC. Ainda
se discute quando a temperatura declinou
para valores similares às atuais. Este ponto
está intimamente relacionado com modelos
de formação da crosta continental e será
abordado na seção 8.6.1.
A química do oceano primitivo não
deveria diferir muito daquela do oceano
atual. Tanto Cl como Na são voláteis em
magmas de alta temperatura e devem ter sido
incorporados ao oceano quando o manto
ainda estava total ou parcialmente fundido.
NaCl é a espécie estável de cloreto porque
HCl é extremamente reativo. Assim, NaCl,
na fase sólida ou em solução, devia estar
presente no oceano primitivo. Por reação
com rochas aquecidas próximas da
superfície, Na e Cl são incorporados na
estrutura de minerais hidratados, como
anfibólio, o que deve ter contribuído para
rebaixar a salinidade do oceano no decorrer
do Hadeano.
Atualmente, a maior parte das
substâncias dissolvidas na água do mar é
resultante do intemperismo nos continentes e
deve ter sido assim desde que continentes
tornaram-se emersos. O balanço entre a
adição de NaCl por intemperismo e sua
remoção em sistemas hidrotermais em
dorsais oceânicas (Fig. 6.13) ou sistemas
equivalentes são os principais mecanismos
reguladores para manter a salinidade do mar
aproximadamente constante. Isto explica
porque seqüências minerais e estratigráficas
são similares em evaporitos de todas as
idades, sugerindo que a salinidade do mar
não variou por fatores superiores a dois ou
três com o decorrer do tempo geológico.
8.5.3. Atmosfera rica em oxigênio
A atmosfera primitiva deve ter
contido pouco ou nenhum oxigênio, porque,
na ausência de fotossíntese, a única maneira
de produzir este gás é por fotodissociação:
2H2O + radiação ultravioleta = 2H2 +O2.
Como hidrogênio é um gás leve, pode se
difundir para o espaço, deixando uma
atmosfera enriquecida em oxigênio. Este
processo é, no entanto, autolimitado porque
Figura 8.7. Estimativa para a variação da
concentração de CO2 na atmosfera (relativa ao
valor atual) com o decorrer do tempo.
109
parte do O2 produzido combina-se para
formar ozônio (O3), o que protege contra a
radiação ultravioleta. Dessa forma, a
produção de oxigênio em grande escala só
começou com o surgimento de organismos
capazes de realizar fotossíntese.
É amplamente aceito que oxigênio só
começou a se acumular na atmosfera entre
2,45 e 2,2 Ga atrás (Fig. 8.8). Antes disso,
grande parte do oxigênio disponível deve ter
sido utilizada para oxidar o Fe+2 presente nos
oceanos para Fe+3. Isto explica os enormes
volumes de formações de ferro bandadas
(BIFs) depositados durante o Arqueano e o
Paleoproterozóico e seu desaparecimento,
juntamente com o de depósitos de pirita e
uraninita (cuja formação requer um ambiente
redutor), após 1,9 Ga. Por outro lado, isto
coincide com o aparecimento de sedimentos
formados como resultado de oxidação
subaérea, como redbeds, e sulfatos.
A partir de 2,0 Ga, a concentração de
oxigênio na atmosfera começou a aumentar
gradativamente, mas uma rápida elevação,
provavelmente, ocorreu apenas no
Neoproterozóico, atingindo 10% a 20% do
valor atual no inicio do Fanerozóico (Fig.
8.8). A expansão das plantas terrestres e a
formação de grandes depósitos de carvão,
durante o Paleozóico Superior, provocaram
um rápido aumento de O2 e uma diminuição
de CO2 na atmosfera. Valores de oxigênio
similares aos atuais foram atingidos no
Cretáceo/Terciário Inferior.
8.6. Formação e crescimento da crosta
continental
8.6.1. A crosta e o manto primitivos
A crosta é definida como a porção
mais externa dos corpos planetários, podendo
ser classificada como primária, secundária, e
terciária. Uma crosta primária é aquela
formada pela cristalização de um oceano
magmático, como no caso da crosta
anortosítica da Lua. Crostas secundárias
resultam de fusão parcial nos mantos
planetários e têm, tipicamente, composição
basáltica, como a crosta oceânica terrestre, os
basaltos lunares e grande parte da crosta de
Marte e de Vênus. Uma crosta terciária é
aquela que não resulta diretamente de fusão
parcial do manto, seu crescimento
envolvendo o retrabalhamento e
diferenciação de crostas primárias e/ou
secundárias. A crosta continental terrestre é o
exemplo típico (e provavelmente único no
nosso Sistema Solar) deste tipo de crosta.
Alguns autores sugerem que uma
crosta primária de composição anortosítica
ou andesítica pode ter se formado na Terra.
No entanto, a opinião dominante é de que
isto não foi possível. O manto lunar é
praticamente anidro, enquanto o oceano
magmático terrestre devia conter uma
proporção significativa de água. Estudos
experimentais mostram que a densidade de
magmas ultramáficos hidratados é inferior à
densidade do plagioclásio, o que impediria o
acúmulo desse mineral na superfície. Uma
crosta primária de composição máfica pode,
no entanto, ter sido produzida pela
segregação do magma residual resultante da
cristalização do oceano magmático.
Metassedimentos paleoarqueanos
derivados do intemperismo e erosão de
protólitos mantélicos exibem razões
142Nd/144Nd elevadas. Isto indica um episódio
de fracionamento Sm/Nd logo após a
formação da Terra, uma vez que 142Nd é
produzido pelo decaimento radioativo do
146Sm, cuja meia-vida é de apenas 103 Ma.
Fig. 8.9. Concentração de oxigênio na atmosfera
com o decorrer do tempo relativamente ao valor
atual (PAL = present atmospheric level). Notar a
escala logarítmica.
110
No entanto, este dado não pode distinguir
entre crostas derivadas da cristalização de um
oceano magmático, de fusão parcial do
manto ou geração de crosta continental.
O tempo necessário para a
cristalização do oceano magmático lunar é
estimado em 45 Ma, a partir da idade das
rochas lunares mais antigas e de estudos
isotópicos. Estimativas para a duração desse
processo na Terra variam de menos de 1 Ma
até 100 Ma. As discrepâncias resultam de
considerações térmicas. Se, por um lado, a
Terra é bem maior que a Lua, implicando que
o tempo de cristalização também deveria ser
maior, a possível ausência de uma crosta
primária facilita a perda de calorpara a
superfície, levando a uma cristalização mais
rápida. No entanto, a radiação para o espaço
é drasticamente reduzida pela formação de
serpentina e anfibólio por reações entre o
manto e a hidrosfera. Assim, um oceano
magmático pode ter persistido por várias
dezenas de milhões de anos, mesmo na
ausência de uma crosta primária.
Existem três modelos antagônicos
sobre qual seria a feição da Terra durante o
Hadeano. No primeiro (Fig. 8.9a), o exterior
do planeta estaria coberto por uma crosta
máfica/ultramáfica fina e instável, contendo
minerais hidratados. O manto estaria
sofrendo forte convecção, talvez mesmo
turbulenta. No segundo (Fig. 8.9b), a Terra
seria coberta por uma crosta máfica espessa
separada de um manto estável e inativo. No
terceiro (Fig. 8.9c), a temperatura da Terra
teria caído suficientemente 4,4 Ga atrás para
permitir a atuação de processos similares aos
atuais (proto-tectônica de placas), levando à
produção de uma crosta siálica. Convecção
no manto seria intensa, mas não a ponto de
reciclar totalmente a crosta recém-formada.
Este último modelo se baseia em
estudos detalhados de zircões hadeanos e
paleoarqueanos, em particular na composição
isotópica de oxigênio. Embora zircão seja um
mineral tipicamente crustal, ele também pode
ser formado por cristalização de baixas
percentagens de fusão no manto ou nos
estágios finais de cristalização de magmas
basálticos. Zircões derivados do manto têm
valores δO18 em torno de 5,3‰ (por mil).
Rochas sedimentares que reagiram com água
à baixa temperatura, por sua vez, são
enriquecidas em O18.
Valores de δO18 acima de 5,3‰
foram encontrados em zircões com idades
superiores a 4 Ga (Fig. 8.10). Estes dados
foram interpretados como resultado da
cristalização dos zircões em magmas gerados
por fusão parcial de rochas
metassedimentares ou contaminados por
rochas supracrustais. De acordo com esta
interpretação, a Terra teria oceanos com
temperaturas não muito diferentes das atuais
há 4,3-4,4 Ga. Em adição, estudos
geotermométricos nesses zircões antigos
sugerem cristalização em torno de 700ºC,
condizentes com as temperaturas esperadas
em magmas graníticos hidratados.
Finalmente, a descoberta de inclusões de
diamante em zircões com até 4,25 Ga, e sua
semelhança mineralógica com diamantes
resultantes de metamorfismo de pressão
Figura 8.9. Modelos para a Terra após a
cristalização do oceano magmático (4,4-4,3 Ga
atrás). (a) Inexistência de crosta estável. (b) Crosta
máfica espessa. (c) Proto-tectônica de placas.
111
ultra-alta, implicaria a existência de uma
litosfera continental espessa.
O ponto de vista de que continentes
com composição similar à atual já existiam
no Hadeano (Fig. 8.9c) começa a
preponderar. Porém, os argumentos
favoráveis a esse modelo têm sido
questionados, de tal forma que cautela ainda
é requerida. Por exemplo: (a) valores
elevados de δO18 poderiam ser explicados
pela assimilação de carbonatos por magmas
basálticos; (b) temperaturas de cristalização
baixas foram também obtidas em zircões da
crosta oceânica recente; (c) zircões mais
antigos que 4,0 Ga apresentam
microestruturas indicativas de múltiplos
eventos de crescimento, sugerindo um
regime tectônico instável; (d) diamantes em
zircões hadeanos poderiam resultar da
conversão de inclusões de grafita em um
evento bem posterior à cristalização dos
zircões hospedeiros (e) zircões herdados
ainda não foram encontrados em rochas
paleoarqueanas.
A ausência de registro geológico para
rochas pré-arqueanas é atribuída, geralmente,
a uma vigorosa convecção do manto,
provocando a reincorporarão, quase
completa, para ele de qualquer material
siálico produzido. Outra possibilidade é a
destruição da crosta continental primitiva
pelo impacto de grandes planetesimais entre
4,0 e 3,8 Ga. Este evento, conhecido como o
Intenso Bombardeio Tardio (Late Heavy
Bombardment), formou a maior parte das
crateras observadas na Lua. A causa desse
evento, mais de 600 Ma após a formação do
Sistema Solar, ainda é debatida, mas pode
estar ligada a uma rápida migração dos
planetas gigantes, o que teria desestabilizado
a órbita do cinturão de asteróides.
8.6.2. Crescimento da crosta continental
Vários modelos têm sido propostos
para o crescimento da crosta continental com
o decorrer do tempo (Fig. 8.11). Os modelos
mais antigos foram baseados, principalmente,
na distribuição geográfica de idades
geocronológicas nos continentes, sugerindo
rápido crescimento crustal após o Arqueano
(curva 5 na Fig. 8.11). Estes modelos não são
mais considerados válidos porque a maioria
dos dados foi obtida por datações K-Ar e Rb-
Sr, as quais fornecem apenas a idade do
último evento térmico experimentado pelas
rochas, e não sua idade de formação.
Outros modelos propõem que
crescimento substancial pode ter ocorrido no
Hadeano (curvas 1, 2 e 3). No modelo mais
extremo, um volume praticamente idêntico
ao da crosta continental atual teria sido
produzido logo após a formação da Terra
Figura 8.10. Isótopos de oxigênio em zircões com
idades superiores a 4 Ga.
Figura 8.11. Modelos esquemáticos propostos para
o crescimento da crosta continental. 1 – Rápido
crescimento pós-acresção da Terra. 2 –
Crescimento inversamente proporcional ao
resfriamento do manto. 3 – Crescimento
aproximadamente linear. 4 - Crescimento
episódico. 5 – Rápido crescimento pós-Arqueano.
112
(curva 1). Taxas equivalentes de criação de
nova crosta e reciclagem de crosta antiga
teriam contribuído para que esta proporção
permanecesse mais ou menos constante com
o decorrer do tempo. Curvas de crescimento
aproximadamente linear (curva 3) ou
inversamente proporcional ao decaimento do
fluxo térmico da Terra (curva 2), também
foram propostas, porém os modelos mais
aceitos atualmente são os de crescimento
episódico (curva 4).
Modelos de crescimentos episódicos
são baseados na distribuição de idades da
crosta continental, utilizando-se uma
combinação dos métodos U-Pb e Sm-Nd.
Quando as idades U-Pb coincidem com as
idades modelo Sm-Nd isto indica que a
crosta foi recém-extraída do manto, ou seja,
ela representa adição de material juvenil para
a crosta continental. Idades U-Pb mais jovens
que idades Sm-Nd implicam em
retrabalhamento de material crustal mais
antigo e, portanto, que crescimento
continental significativo pode não ter
ocorrido (seção 2.4). A aplicação desta
sistemática sugere que períodos de lento
crescimento são intercalados por períodos
onde as taxas de criação de crosta continental
são bem mais rápidas.
Curvas cumulativas de crescimento
crustal são construídas considerando-se a
distribuição areal de províncias juvenis (Fig.
8.12). Numa escala global, tem sido sugerido
que períodos maiores de crescimento crustal
ocorreram há 2,7, 1,9 e 1,2 Ga atrás. No
entanto, com respeito ao pico de 1,9 Ga, a
contribuição da América do Sul e do centro e
oeste da África pode ter sido subestimada, já
que resultados recentes indicam que o
período principal de crescimento ocorreu
entre 2,2 e 2,0 Ga (Capítulo 10).
8.7. Os primeiros 700 Ma: síntese
A Figura 8.13 apresenta um sumário
da cronologia de eventos, inferida a partir
dos estudos mais recentes, para os primeiros
700 milhões de anos de história do Sistema
Solar e da Terra.
A formação do Sistema Solar, o início
de reações termonucleares no Sol e a
diferenciação primária da Terra ocorreram,
muito provavelmente, nos 30-40 Ma
subseqüentes ao colapso da nuvem de gás
primitiva. A Lua desenvolveu-se apenas 60
Ma após o nascimento do Sistema Solar
(~4,5 Ga), quando a Terra já tinha
praticamente adquirido toda sua massa.Figura 8.13. Cronologia de eventos nos primeiros
700 milhões de anos do Sistema Solar e da Terra.
Figura 8.12. Comparação da área do embasamento
(acima) estimada a partir dos mapas geológicos da
América do Norte (a) e da América do Sul (b) com
idades U-Pb (abaixo) de zircões detríticos nos rios
MacKenzie e Amazonas.
113
Ainda é incerto se uma crosta
primária, formada pela cristalização do
oceano magmático, e/ou uma crosta siálica
estável existiram durante o Hadeano.
Igualmente, é incerto se a alta produção de
calor interno e a presença de uma atmosfera
rica em CO2 contribuíram para manter a
superfície do planeta a temperaturas elevadas
ou, alternativamente, se a baixa luminosidade
solar tornou possível a existência de oceanos
com temperaturas não muito diferentes das
atuais. Se uma crosta primitiva existiu, ela
deve ter sido completamente reciclada (seja
como resultado de convecção bem mais
intensa no manto, ou do Intenso Bombardeio
Tardio) ou, simplesmente, ainda não foi
descoberta. 700 Ma após a formação da
Terra, as condições tornaram-se propícias
para a geração e preservação, pelo menos
parcial, de crosta continental siálica,
marcando o início da história geológica da
Terra.
Referências selecionadas
Bekker, A., Holland, H.D., Wang, P.-L., Rumble III,
D., Stein, H.J., Hannah, J.L., Goetzee, L.L.,
Beukes, N.J., 2004. Dating the rise of
atmospheric oxygen. Nature 427, 117-120.
Berner, R.A., 2003. The long-term carbon cycle, fossil
fuels and atmospheric composition. Nature 426,
323-326.
Bruhn, D., Groebner, N., Kohlstedt, D.L., 2000. An
interconnected network of core-forming melts
produced by shear deformation. Nature 403, 883-
886.
Canup, R.M., Asphaug, E., 2001. Origen of the Moon
in a giant impact near the end of the Earth’s
formation. Nature 412, 708-712.
Caro, G., Bourdon, B., Wood, B.J., Corgne, A., 2005.
Trace-element fractionation in Hadean mantle
generated by melt segregation from a magma
ocean. Nature 436, 246-249.
Cohen, B.A., Hewins, R.H., Yu, Y., 2000.
Evaporation in the young solar nebula as the
origin of ‘just-righ’ melting of chondrules.
Nature 406, 600-602.
Condie, K.C., 2000. Episodic continental growth
models: afterthoughts and extensions.
Tectonphysics 322, 153-162.
Coogan, L.A., Hinton, R.W., 2006. Do the trace
element compositions of detrital zircons require
Hadean continental crust? Geology 34, 633-636.
Crowley, J.L., Myers, J.S., Sylvester, P.J., Cox, R.A.,
2005. Detrital zircon from the Jack Hills and
Mount Narryer, Western Australia: evidence for
diverse >4.0 Ga source rocks. Journal of
Geology 113, 239-263.
Day, J.M.D., Pearson, D.G., Taylor, L.A., 2007.
Highly siderophile element constraints on
accretion and differentiation of the Earth-Moon
System. Science 315, 217-219.
Gomes, R., Levison, H.F., Tsiganis, K., Morbidelli,
A., 2005. Origin of the cataclysmic Late Heavy
Bombardment period of the terrestrial planets.
Nature 435, 466-469.
Habing, H.J., Dominik, C., Jourdain de Muizon, M.,
Kessler, M.F., Laureijs, R.J. Leech, K., Metcalfe,
L., Salama, A., Siebenmorgen, R., Trams, N.,
1999. Disappearence of stellar debris disks
around main-sequence stars after 400 million
years. Nature 401, 456-458.
Halliday, A.N., 2000. Terrestrial accretion rates and
the origin of the Moon. Earth and Planetary
Science Letters 176, 17-30.
Hawkesworth, C.J., Kemp, A.I.S., 2006. The
differentiation and rates of generation of the
continental crust. Chemical Geology 226, 134-
143.
Hawkesworth, C.J., Kemp, A.I.S., 2006. Evolution of
the continental crust. Nature 443, 811-817.
Holzheid, A., Sylverster, P., O’Neill, H. St C., Rubie,
D.C., Palme, H., 2000. Evidence for a late
chondritic veneer in the Earth’s mantle from
high-pressure partitioning of palladium and
platinum. Nature 406, 396-399.
Jacobsen, S.B., 2005. The Hf-W isotopic system and
the origin of the Earth and Moon. Annual
Review of Earth and Planetary Sciences 33, 531-
570.
Kah, L.C., Lyons, T.W., Frank, T.D., 2004. Low
marine sulphate and protracted oxygenation of
the Proterozoic biosphere. Nature 431, 834-838.
Kamber, B.S., Whitehouse, M.J., Bolhar, R.,
Moorbath, S., 2005. Volcanic resurfacing and the
early terrestrial crust: zircon U-Pb and REE
constraints from the Isua Greenstone Belt,
southern West Greenland. Earth and Planetary
Science Letters 240, 276-290.
Kumper, L.R., 2008. The rise of atmospheric oxygen.
Nature 451, 277-278.
Martin, H., Albarède, F., Claeys, P., Gargaud, M.,
Marty, B., Morbidelli, A., Pinti, D.L. 2006.
Building of a habitable planet. Earth, Moon, and
Planets 98, 97-151.
Melezhik, V.A., Fallick, A.E., Hanski, E.J., Kump,
L.R., Lepland, A., Prave, A.R., Strauss, H., 2005.
Emergence of an aerobic biosphere during the
Archean-Proterozoic transition: challenges of
future research. GSA Today 15, 4-11.
Menneken, M., Nemchin, A.A., Geisler, T., Pidgeon,
R.T., Wilde, S.A., 2007. Hadean diamonds in
zircon from Jack Hills, Western Australia.
Nature 448, 917-921.
114
Nemchin, A.A., Pidgeon, R.T., Whitehouse, M.J.,
2006. Re-evaluation of the origin and evolution
of >4.2 Ga zircons from the Jack Hills
metasedimentary rocks. Earth and Planetary
Science Letters 244, 218-233.
Rino, S., Komiya, T., Windley, B.F., Katayama, I.,
Motoki, A., Hirata, T., 2004. Major episodic
increases of continental crustal growth
determined from zircon ages of river sands:
implications for mantle overturns in the Early
Precambrian. Physics of the Earth and Planetary
Interiors 146, 369-394.
Rubie, D.C., Melosh, H.J., Reid, J.E., Liebske, C.,
Righter, K., 2003. Mechanisms of metal–silicate
equilibration in the terrestrial magma ocean
Earth and Planetary Science Letters 205, 239-
255.
Scott, R.D., 2007. Chondrites and the protoplanetary
disk. Annual Review of Earth and Planetary
Sciences 35, 577-620.
Stevenson, D.J., 2008. A planetary perspective on the
deep Earth. Nature 451, 261-265.
Trail, D., Mojzsis, S.J., Harrison, T.M., Schmitt, A.K.,
Watson, E.B., Young, E.D., 2007. Constraints on
Hadean zircon protoliths from oxygen isotopes,
Ti-thermometry, and rare earth elements.
Geochemistry, Geophysics, Geosystems 8, doi:
10.1029/2006GC001449.
Valley, J.W., Peck, W.H., King, E.M., Wilde, S.A.,
2002. A cool early Earth. Geology 30, 351-354.
Valley, J.W., Lacley, J.S., Cavosie, A.J., Clechenko,
C.C., Spicuzza, M.J., Basei, M.A.S., Bindeman,
I.N., Ferreira, V.P., Sial, A.N., King, E.M., Peck,
W.H., Sinha, A.K., Wei, C.S., 2005. 4.4 billion
years of crustal maturation: oxygen isotope ratios
of magmatic zircon. Contributions to Mineralogy
and Petrology 150, 561-580.
Watson, E.B., Harrison, T.M., 2005, Zircon
thermometer reveals minimum melting
conditions on earliest Earth. Science 308, 841–
844.
115
9. O Arqueano: Geologia e Regimes Tectônicos
9.1. Introdução
O início do tempo geológico é
marcado pela idade das rochas mais antigas.
No momento, estas são os gnaisses Acasta,
na Província Slave (noroeste do Canadá),
com idades U-Pb em zircão de 4,00-4,03 Ga
(Fig. 9.1). Depois destes, as idades mais
antigas (3,93 Ga) foram obtidas em um
ortognaisse no leste da Antártica. A área de
exposição dessas rochas, nestes dois casos, é
de poucas dezenas de quilômetros quadrados.
O segmento crustal contínuo mais antigo e
extenso é representado pelos gnaisses
Amîtsok (também denominados Itsaq), no
oeste da Groenlândia, com idades de até 3,87
Ga. No Brasil, as idades U-Pb mais velhas
(3,4-3,5 Ga) foram obtidas em ortognaisses
nos estados do Rio Grande do Norte
(Província Borborema) e Bahia (Cráton do
São Francisco).
As associações de rochas
supracrustais mais antigas (cinturão Isua)também foram descritas no oeste da
Groenlândia (Fig. 9.1), ocorrendo como
lentes nos gnaisses Amîtsoq. A idade
principal de deposição/vulcanismo do
cinturão Isua é 3,81 Ga, mas diques com
idade de 3,87 Ga, cortando formações de
ferro bandadas, indicam que a deposição
começou antes desta data. Parte das
supracrustrais consiste de sedimentos
clásticos. Isto indica a atuação de processos
de intemperismo, erosão e transporte por
águas superficiais e, portanto, a existência de
continentes emersos desde o princípio do
Arqueano.
Zircões detríticos com até 4,3-4,4 Ga
sugerem a existência de crosta continental no
Hadeano (Capítulo 8) e as rochas mais
antigas exibem evidência de retrabalhamento
de crosta continental ainda mais antiga.
Dessa maneira, a possibilidade da descoberta
de segmentos crustais com idades superiores
a 4 Ga não pode ser completamente
descartada, de tal forma que o início do
Precambriano permanece em aberto.
Figura 9.1. Mapa mostrando a distribuição de idades nos continentes, a localização das rochas mais antigas
(estrelas) e o contorno aproximado de alguns dos principais crátons arqueanos/paleoproterozóicos.
116
9.2. Distribuição dos terrenos arqueanos
Rochas arqueanas ocorrem em
crátons pouco afetados por eventos
orogênicos posteriores ou formando o
embasamento de cinturões orogênicos mais
jovens (Fig. 9.1). Embora a área total das
províncias arqueanas preservadas represente
apenas 16% das áreas continentais emersas, a
maioria das estimativas aponta para um
volume de produção de crosta continental
durante este éon próximo ou superior a 50%
(Fig. 8.11).
Crátons arqueanos preservados de
eventos tectônicos posteriores são
encontrados em todos os continentes (Fig.
9.1). Os crátons mais antigos, com idades
dominantemente paleo- a mesoarqueanas
(3,6-3,0 Ga), são os de Pilbara (noroeste da
Australia; Fig. 9.2) e Kaapvaal (sul da
Àfrica; Fig. 9.3). Crátons com idades
neoarqueanas são bem mais comuns e, em
geral, maiores que esses crátons mais
antigos. O maior de todos eles é a Província
Superior, no Canadá (Fig. 9.4). Embora os
crátons Slave e Wyoming (Fig. 9.1)
contenham rochas paleo- a mesoarqueanas,
sua consolidação ocorreu apenas no
Neoarqueano. Na Austrália, além de Pilbara,
ocorrem ainda os crátons Yilgarn (Fig. 9.2) e
Gawler (Fig. 9.1). Os zircões mais antigos
são provenientes do Complexo Gnáissico
Narryer (localidades Mount Narryer e Jack
Hills), no Cráton Yilgarn (Fig. 9.2). Na placa
Eurasiática, tem-se os crátons Karelia/Kola
(Finlândia e Rússia), Siberiano e Dharwar
(sul da Índia); na África, o Cráton da
Tanzânia e o bloco Angola-Kasai (parte sul
do Cráton do Congo).
Na América do Sul, apenas a
Província Amazônica Central (parte do
Cráton Amazônico; Fig. 9.5) pode ser
considerado um cráton arqueano genuíno.
Embora o Cráton do São Francisco seja
formado dominantemente por rochas de
idade mesoarqueana (Fig. 9.1), sua
consolidação ocorreu apenas no
Paleoproterozóico. O mesmo pode ser dito
Figura 9.3. Localização do cráton Kaapvaal e mapa
geológico simplificado mostrando o greenstone belt
Barberton e ortognaisses/granitóides adjacentes
(idades em Ma).
Figura 9.2. Mapa esquemático mostrando os
crátons Yilgarn e Pilbara e a localização do
Complexo Gnaíssico Narryer.
117
com respeito aos crátons Oeste-Africano, do
Congo e do Norte da China (Fig. 1).
9.3. Geologia dos terrenos arqueanos
As províncias arqueanas podem ser
divididas em dois tipos de terrenos: (a)
cinturões dominados por ortognaisses
metamorfizados em alto grau (terrenos
gnáissicos de alto grau); (b) sucessões
dominantemente vulcânicas, metamorfizadas
em baixo grau, envolvidas por granitos e
gnaisses (terrenos granito-greenstone). Um
exemplo clássico deste último tipo é
representado pelo greenstone belt Barberton,
na África do Sul (Fig. 9.3).
Os terrenos de alto grau representam
de 80 a 85% da área de muitos crátons, mas
em alguns deles, como na Província Superior
(Fig. 9.4), os terrenos granito-greenstone
podem dominar.
9.3.1. Terrenos de alto grau
Ortognaisses com composição
tonalítica, trondhjemítica e granodiorítica
constituem o tipo petrográfico dominante nos
terrenos arqueanos de alto grau. Esta
associação é, freqüentemente, referida como
TTG (de trondhjemito-tonalito-granodiorito)
e, embora ocorra em períodos mais jovens, é
típica do Arqueano. Trondhjemitos são
leucotonalitos ricos em Na e Al,
caracterizados por conter plagioclásio sódico
(oligoclásio), em oposição aos tonalitos
comuns, onde o plagioclásio é mais cálcico
(dominantemente andesina). Os membros da
associação TTG são caracterizados,
geoquimicamente, por padrões de elementos
terras raras extremamente fracionados,
normalmente sem anomalias de Eu (Fig. 9.6).
Isto se reflete nas elevadas razões La/Yb de
TTGs quando comparadas com a de outros
granitóides (Fig. 9.6).
Numerosos estudos experimentais
mostram que TTGs são gerados por fusão
Figura 9.6. Comparação entre padrões de
elementos terras raras para TTGs e granitóides pós-
arqueanos e os campos para estes dois grupos de
rochas num diagrama La/Yb versus Yb.
Figura 9.5. Províncias do Cráton Amazônico.
Figura 9.4. Mapa geológico simplificado da
Província Superior (Canadá), com os nomes de
algumas subprovíncias.
118
parcial de metabasaltos no campo de
estabilidade da granada, indicando pressões
elevadas. Granada anfibolito é considerada a
principal rocha fonte, mas eclogito também é
uma possibilidade. O padrão extremamente
fracionado de terras raras nos TTGs pode ser
explicado pela fusão parcial de eclogito ou
granada anfibolito, já que os elementos terras
raras pesados são retidos na estrutura da
granada
Uma grande variedade de rochas
supracrustais e de rochas metabásicas e
metaultrabásicas pode ser encontrada como
intercalações nos ortognaisses da associação
TTG. A maioria dessas rochas não apresenta
grandes disparidades quando comparadas
com aquelas encontradas em terrenos mais
jovens. Dois casos, no entanto, merecem
menção: (1) grafita é bem mais comum em
micaxistos arqueanos, refletindo o ambiente
redutor resultante da ausência de oxigênio na
atmosfera (seção 8.5); (2) anortositos
arqueanos são associados com rochas
máficas e ultramáficas e têm plagioclásio
com teores elevados de anortita (80-100%),
enquanto anortositos pós-arqueanos são mais
comumente associados com granitos
anorogênicos e seu plagioclásio é andesina
ou labradorita.
O metamorfismo nos terrenos de alto
grau varia de anfibolito alto a granulito e
corresponde ao tipo de baixa/média pressão
do metamorfismo regional. Pressões e
temperaturas da ordem de 800 a 1200 MPa e
700 a 900ºC são típicas.
9.3.2. Terrenos granito-greenstone
Greenstone belts (cinturões de rochas
verdes) são sucessões de rochas supracrustais
dominadas por rochas vulcânicas,
deformadas e metamorfizadas,
dominantemente, sob condições da fácies
xisto-verde. Como resultado do
metamorfismo, rochas máficas são
convertidas para xistos-verdes caracterizados
pela associação mineral clorita-epidoto-
actinolita-albita. No entanto, o grau de
alteração raramente é tão elevado a ponto de
obscurecer todas as características primárias
das rochas.
Greenstone belts ocorrem como
faixas alongadas ou irregulares, bordejadas
ou intrudidas por granitóides variavelmente
gnaissificados. Uma estrutura em domos e
quilhas é típica em muitos terrenos granito-
greenstone, com os greenstones formando
sinformes envoltos por domos batolíticos.
Este é o caso do greenstone belt Barberton,
na África do Sul (Fig. 9.3). No entanto,
outros terrenos apresentamestruturação com
faixas lineares alternadas de rochas
metassedimentares, rochas metavulcânicas e
ortognaisses, como é o caso da Província
Superior (Fig. 9.4).
Greenstone belts são caracterizados
pela presença de derrames de rochas
vulcânicas máficas (toleítos) e ultramáficas
(komatiitos). Komatiitos são lavas ricas em
magnésio, típicas do Arqueano, sendo
incomuns em seqüências vulcânicas
proterozóicas e muito raras no Fanerozóico.
Os elevados teores de MgO (>18%) nessas
rochas requerem, pelo menos, 30-40% de
fusão parcial do manto. Petrograficamente,
komatiitos são caracterizados pela textura
spinifex, um arranjo paralelo ou radial de
cristais extremamente alongados de olivina
ou piroxênio, com até alguns decímetros de
comprimento. O crescimento exagerado
desses cristais é atribuído ao grande intervalo
de temperatura (> 500ºC) entre o solidus e o
liquidus de magmas ultramáficos.
Komatiitos e toleítos arqueanos são
enriquecidos em elementos incompatíveis,
quando comparados com N-MORBs, tendo
uma composição mais próxima às de E-
MORBS (Fig. 9.7), sugerindo derivação de
um manto menos diferenciado.
Os greenstone belts mais antigos (>3
Ga) contêm, em geral, um volume maior de
komatiitos e uma dominância de sedimentos
de águas rasas na seqüência sedimentar,
quando comparados com greenstone belts
neoarqueanos. Nestes últimos, normalmente,
basaltos toleíticos a cálcio-alcalinos e dacitos
dominam na seqüência vulcânica, enquanto
felipe
Marcador de texto
119
grauvacas são dominantes na seqüência
sedimentar.
9.4. Regimes tectônicos arqueanos
9.4.1. Evolução térmica do manto
O regime tectônico atual é dominado
por dois estilos de convecção: um
representado por plumas mantélicas, e outro,
pela tectônica de placas (Caps. 4 e 5). A
formação de plumas é condicionada pela
condução de calor do núcleo para o manto e,
portanto, não depende muito da temperatura
absoluta deste último. Por outro lado, a
subducção de placas oceânicas, considerado
o principal motor da tectônica de placas
(seção 4.6.), depende da estrutura térmica,
mecânica e composicional da litosfera; estes
fatores, por sua vez, são fortemente
condicionados pela temperatura do manto.
A produção de calor no interior da
Terra foi duas a quatro vezes maior no
Arqueano do que no presente (Fig. 9.8),
porque a concentração dos isótopos
radioativos decresce exponencialmente com
o tempo. Assim, seria de se esperar
temperaturas bem mais elevadas no manto
arqueano que no manto atual (Fig. 9.8). No
entanto, este modelo implicitamente
considera que uma produção de calor mais
elevada resulta em um aumento homogêneo
da temperatura em todas as partes do manto.
Alternativamente, a maior produção de calor
poderia ser acomodada por convecção mais
intensa e por uma dissipação mais eficiente
de calor. De fato, estudos petrológicos de
toleítos arqueanos sugerem que a temperatura
do manto foi apenas 50º-100ºC mais elevada
no Arqueano que no presente (e não centenas
de graus Celsius, como predito teoricamente;
Fig. 9.8).
Uma dissipação de calor mais efetiva
pode ser conseguida por um dos seguintes
processos (ou uma combinação deles): (1)
velocidade maior das placas tectônicas; (2)
comprimento maior das dorsais oceânicas;
(3) maior percentagem de fusão parcial nas
dorsais para produzir MORBs. Em qualquer
um desses casos, a obtenção de uma
flutuabilidade negativa crítica necessária para
iniciar o processo de subducção é dificultada.
Isto se dá, nos dois primeiros casos, porque a
temperatura da litosfera ainda seria elevada
quando da chegada da placa a uma zona de
subducção, e, no terceiro, porque a crosta
oceânica seria mais espessa e, portanto, a
densidade média da litosfera, menor.
Adicionalmente, uma maior temperatura do
manto implica numa espessura menor da
litosfera para qualquer idade considerada.
9.4.2. Tectônica de placas no Arqueano?
Apesar da dificuldade de subducção
de placas litosféricas inerentemente menos
densas, uma maior temperatura do manto no
Arqueano também reduz a viscosidade da
astenosfera, o que, por sua vez, facilita a
Figura 9.8. Estimativas para o fluxo térmico (H) e a
temperatura interna do manto com o decorrer do
tempo.
Figura 9.7. Padrões de elementos terras raras
(normalizados pelo E-MORB) para toleítos e
komatiitos arqueanos.
120
penetração das placas para o manto mais
profundo. Neste cenário, a evolução para um
regime tectônico similar ao atual poderia ter
sido gradual, com uma dominância inicial de
zonas de subducção rasas até que a
temperatura das placas foi suficientemente
rebaixada para permitir a formação de zonas
de subducção de alto ângulo (Fig. 9.9a).
Várias observações geológicas
sugerem a atuação da tectônica de placas no
Arqueano, particularmente após 3,2 Ga. Os
principais argumentos são descritos abaixo.
Uma trama suborizontal é dominante
em muitos terrenos arqueanos. Isto sugere
deslocamentos causados por forças tectônicas
horizontais e, presumivelmente, interações
entre placas. Dobras normais e zonas de
cisalhamento transcorrentes/transpressivas
regionais também são comuns. Falhas
extensionais e complexos de núcleo
metamórfico são mais raros, mas também são
descritos. O estilo estrutural é, portanto,
similar ao de orógenos modernos
relacionados com colisões entre placas
litosféricas. Esta interpretação é reforçada
por perfis sísmicos, exibindo reflexões com
mergulhos baixos, similares aos encontrados
em orógenos recentes. Em alguns casos,
reflexões cruzam a Moho e podem
representar suturas ou contatos entre terrenos
alóctones (Fig. 9.10).
Muitos komatiitos e basaltos em
greenstone belts têm afinidades geoquímicas
com o magmatismo basáltico associado com
plumas. No entanto, uma proporção
significativa exibe afinidades cálcio-
alcalinas, sugerindo geração em ambientes de
arcos de ilhas. A descoberta de um complexo
de enxames de diques no cinturão Isua (Fig.
9.1), sua associação com basaltos em
almofada, gabros e rochas ultramáficas, bem
como afinidades geoquímicas com MORBs e
boninitos, foi interpretada como indicativo de
expansão oceânica e subducção em arcos
intraoceânicos 3,8 Ga atrás. A ausência de
outros ofiolitos arqueanos é atribuída à maior
espessura da crosta oceânica, de tal maneira
que, normalmente, apenas a porção vulcânica
mais superficial seria obduzida.
Finalmente, dados paleomagnéticos
para os crátons Pilbara e Kaapvaal sugerem
deslocamentos relativos entre eles,
requerendo geração e consumo de litosfera
oceânica entre esses blocos.
9.4.3. Ausência de tectônica de placas no
Arqueano?
Argumentos contrários à atuação da
tectônica de placas no Arqueano incluem: (a)
inexistência de rochas de pressão ultra-alta,
xistos azuis e ofiolitos; (b) diferenças entre
associações de rochas modernas e antigas,
em particular a raridade de komatiitos em
seqüências supracrustais pós-arqueanas; (c) a
estrutura em domos e quilhas típica de
muitos greenstone belts. Os dois primeiros
argumentos são explicados, pelos defensores
de uma tectônica mobilista, como resultado
de temperaturas mais elevadas no manto
arqueano.
Figura 9.9. Cenários para o regime tectônico no Arqueano. (a) Tectônica de placas, com geração de magmas
félsicos por fusão parcial de crosta oceânica normal ou espessada. (b) Tectônica vertical, com geração de
magmas félsicos pela fusão parcial da base de platôs acima de plumas do manto ou de regiões espessadas acima
de células de convecção descendentes na astenosfera
121
Se a tectônica de placas não era
possível ou era limitada no Arqueano, a
superfície do planeta deveria ser coberta por
uma camada relativamente rígida e imóvel.Convecção ainda seria possível no manto,
mas o regime tectônico e a formação de
crosta continental seriam dominados pela
tectônica vertical de plumas (Fig. 9.9b).
Neste cenário, tramas suborizontais são
explicadas pelo fluxo dúctil da crosta
média/inferior devido à menor resistência
das rochas resultante do gradiente
geotérmico mais elevado.
9.4.4. Regimes mistos, avalanches no manto,
crescimento continental episódico
Um terceiro comportamento possível
no Arqueano é aquele no qual o modo de
convecção alternaria entre o regime móvel
da tectônica de placas e o regime estagnado.
Devido ao imbricamento de placas
oceânicas convergentes (resultante de sua
baixa densidade) e à maior atividade de
plumas, extensas regiões de crosta oceânica
anormalmente espessada e, portanto, de
difícil subducção, poderiam ser produzidas
episodicamente. A redução no comprimento
das zonas de subducção resultaria numa
diminuição no vigor da tectônica de placas
e, eventualmente, em sua interrupção. O
retorno ao regime móvel ocorreria por
delaminação da porção inferior dos platôs,
causada pela conversão de basalto para
eclogito, ou pelo aumento na intensidade de
convecção no manto sublitosférico.
Uma situação como a descrita acima
poderia explicar o rápido crescimento
continental ocorrido no final do Arqueano
(seção 8.6.2). Outra possibilidade, mais
aceita, é que o pico na produção de crosta
continental entre 2,75 e 2,65 Ma, observado
em muitos crátons, seria conseqüência de
um evento global de plumas do manto. Este
evento tem sido relacionado ao acúmulo de
litosfera oceânica na descontinuidade de 660
km, seguido de sua descida catastrófica para
o manto inferior, um processo chamado de
avalanche mantélica (Fig. 9.11). O modelo é
baseado no pressuposto de que um manto
mais quente favoreceria convecção em duas
camadas. No entanto, simulações numéricas
recentes sugerem que a penetração de placas
para o manto inferior pode ocorrer sem
Figura 9.10. (a) Perfil sísmico de reflexão entre o greenstone belt Abitibi e o terreno de alto grau Opatica,
sudeste da Província Superior (Fig. 9.4). (b) Interpretação sugerindo existência de dobras normais, empurrões e a
possível subducção da subprovíncia Abitibi sob a subprovíncia Opatica.
122
dificuldade nas condições do manto
arqueano.
9.5. TTGs e greenstone belts: ambientes
tectônicos
9.5.1. TTGs
Existe um consenso de que a
associação TTG é produzida por fusão
parcial de crosta oceânica metamorfizada.
No entanto, o ambiente tectônico onde isto
ocorre é bem mais controverso. Existem,
pelo menos, cinco cenários propostos para a
formação de TTGs. Uma das principais
hipóteses é sua geração em arcos
magmáticos pela fusão parcial de crosta
oceânica quente, com o mergulho da placa
inferior podendo variar de baixo a forte (Fig.
9.9a). Outra hipótese popular é fusão parcial
da base de platôs basálticos formados acima
de plumas do manto ou de células de
convecção descendentes (Fig. 9.9b). Outras
possibilidades incluem: (a) fusão parcial da
base de platôs oceânicos formados pelo
imbricamento de crosta oceânica; (b) fusão
parcial de underplating basáltico na base de
crosta continental preexistente ou de arcos
oceânicos; (c) fusão parcial de crosta
oceânica delaminada.
9.5.2. Greenstones
Greenstone belts dominados por
basaltos e komatiitos são convencionalmente
interpretados como produtos de fusão
parcial, a pressões e temperaturas elevadas,
de plumas do manto (Fig. 9.9b). Este parece
ser o caso de komatiitos extravasados em
crosta siálica mais antiga. No entanto,
estimativas para o teor de H2O em alguns
komatiitos são bem mais elevadas (>2-3%)
que em basaltos relacionados com plumas
(CFBs, OIBs; Capítulo 6), os quais contêm
menos de 0,5% H2O. Para explicar estes
casos, uma interpretação proposta é a fusão
parcial do manto nos estágios iniciais de
formação de zonas de subducção (Fig.
9.12a). Nesta situação, o rápido mergulho da
placa causaria a subida da astenosfera e
introduziria um grande volume de água na
região ante-arco, induzindo elevadas
percentagens de fusão parcial sob condições
hidratadas.
Figura 9.11. Modelo esquemático do processo de
avalanche mantélica. A descida catastrófica de
litosfera oceânica acumulada na descontinuidade
de 660 km (a) induz o influxo de material do
manto inferior para o manto superior (b),
resultando numa intensa atividade de plumas.
Figura 9.12. Modelos para explicar a coexistência
de komatiitos e magmas cálcio-alcalinos em
greenstone belts. (a) Fusão em larga escala do
manto nos estágios iniciais de subducção. (b)
Maturação da zona de subducção, com formação
de um arco vulcânico. (c) Chegada de uma pluma
abaixo de uma zona de subducção preexistente.
123
Greenstone belts consistindo,
dominantemente, de basaltos toleíticos a
cálcio-alcalinos e de dacitos são
caracterizados por anomalias negativas de
Ta, Nb, Ti e P. Eles são, portanto,
correlacionados, por muitos, com zonas de
subducção intraoceânicas (Fig. 9.12b).
Bacias retro-arco constituem outro ambiente
possível para a geração de greenstone belts
dominados por rochas vulcânicas cálcio-
alcalinas. Porém, se zonas de subducção rasa
dominaram a tectônica no Arqueano,
extensão na região retro-arco é inibida,
tornando este ambiente desfavorável, como
caso geral, para a produção de magmas.
A ocorrência conjunta das
associações basalto-komatiito e basalto-
dacito é observada em vários greenstone
belts. Isto poderia resultar da maturação de
zonas de subducção (Figs. 9.12a e 9.12b).
Outra possibilidade para explicar esta
coexistência é a interação de plumas e zonas
de subducção (Fig. 9.12c). Esta influência
mútua deve ter sido mais freqüente no
Arqueano, devido a uma atividade de
plumas mais intensa e/ou ao maior número
de placas que no presente. Ainda, outra
possibilidade é a acresção de platôs
oceânicos gerados sobre plumas do manto a
um arco magmático.
9.5.3. Associações TTG/greenstone
A associação de greenstone belts e
terrenos de alto grau lineares (Fig. 9.4) é
interpretada, pela maioria dos autores, como
resultante da colisão de arcos, platôs
oceânicos e microcontinentes durante
tectônica de acresção. No entanto, alguns
greenstone belts, particularmente os mais
antigos, como aqueles presentes nos crátons
Pilbara, Kaapvaal e Dharwar, apresentam
uma estrutura em domos e quilhas (Fig. 9.3)
e a atuação de uma tectônica compressiva
horizontal não é documentada neles. Um
modelo popular para a formação destes
últimos envolve a inversão convectiva
parcial de crosta continental ou crosta
oceânica espessada, devido à sobreposição
de basaltos e komatiitos densos produzidos
pela fusão parcial de plumas (Fig. 9.13a).
Esta inversão de densidade e o
amolecimento térmico da crosta subjacente
permitiriam o afundamento de parte da
seqüência vulcânica (este processo é
denominado ‘sagducção’) e a conseqüente
subida diapírica de domos gnássicos
produzidos por fusão parcial da crosta (Fig.
9.13b).
Os diferentes modelos propostos para
a geração de TTGs e greenstone belts não
são todos mutuamente excludentes. Na
realidade, o mais provável é que vários dos
processos discutidos tenham estado
envolvidos na consolidação de crátons
arqueanos, seja ao mesmo tempo ou em
diferentes épocas. Isto é exemplificado, na
Fig. 9.14, com o caso do cráton Pilbara.
9.6. Cratonização
O processo responsável pela
estabilização de vastos segmentos crustais é
chamado de cratonização. A cratonização
dos continentes arqueanos envolveu a
formação de uma litosfera bastante espessa
(> 200 km) abaixo deles (Fig. 4.4). Existem
Figura 9.13. Modelo de inversão parcialda crosta,
resultando na formação de terrenos granito-
greenstone com estrutura em domos e quilhas. (a)
Derrames basáltico-komatiíticos espessos são
extravasados sobre crosta continental ou platôs
oceânicos. (b) A elevação de temperatura da crosta,
por aquecimento provocado pela pluma e por
radioatividade interna, resulta em amolecimento
térmico, fusão parcial, afundamento da cobertura
vulcânica e ascensão de domos gnaíssicos.
124
três modelos concorrentes, mas não
necessariamente mutuamente excludentes,
para explicar como isto ocorreu. No
primeiro, o manto litosférico constituiria o
resíduo da fusão parcial de grandes plumas
(Fig. 9.14; meio). No segundo, a formação
de uma litosfera espessa envolveria a
acresção e imbricamento de litosfera
oceânica. Finalmente, no terceiro, o
espessamento resultaria da colisão de arcos e
continentes (Fig. 9.14; topo). De acordo com
o primeiro modelo, peridotitos cratônicos
seriam o resíduo sólido deixado pela
extração de magmas formados por elevadas
percentagens de fusão parcial a altas
temperaturas e pressões. Nos dois últimos
cenários, fusão parcial ocorreria a
temperaturas e pressões mais baixas, seguida
pelo transporte dos peridotitos residuais para
profundidades maiores.
Em orógenos fanerozóicos, o
espessamento da litosfera pode resultar em
delaminação porque o manto litosférico frio
pode tornar-se mais denso que a astenosfera
(Capítulo 7). O manto litosférico arqueano é,
no entanto, mais empobrecido em Ca, Al e
Fe (devido às percentagens mais elevadas de
fusão parcial), fazendo com que ele seja
menos denso que a astenosfera (Fig. 9.15),
independentemente de sua espessura. Dessa
maneira, o desenvolvimento de raízes
litosféricas profundas deve ter protegido a
crosta continental arqueana sobrejacente,
dificultando seu envolvimento em eventos
orogênicos subseqüentes, o que explica sua
persistência até os dias atuais.
Referências selecionadas
Aulbach, S., Griffin, W.L., Pearson, N.J., O"Reilly,
S.Y., Doyle, B.J., 2007. Lithosphere formation
in the central Slave Craton (Canada): plume
subcretion or lithosphere accretion?
Figura 9.14. Diagrama esquemático mostrando uma
possível seqüência de eventos envolvida na
formação do cráton Pilbara.
Figura 9.15. Diagrama CaO versus Al2O3 exibindo
a variação composicional para o manto litosférico,
estimada com base em estudos de xenólitos de
peridotito de várias idades. São mostradas, ainda,
as proporções relativas médias de olivina (Oliv),
ortopiroxênio (Opx), clinopiroxênio (Cpx) e
granada (Gnt), e o teor do componente forsterita
(Fo) da olivina.
125
Contributions to Mineralogy and Petrology 154,
409-427.
Bailey, R.C., 1999. Gravity-driven continental
overflow and Archean tectonics. Nature 398,
413-417.
Bédard, J.H., 2006. A catalytic delamination-driven
model for coupled genesis of Archaean crust
and sub-continental lithospheric mantle.
Geochimica et Cosmochimica Acta 70, 1188-
1214.
Benn, K., Mareschal, J.C., Condie, K.C. (eds.), 2006.
Archean geodynamics and environments,
Geophysical Monograph Series 164.
Brown, M., 2006. Duality of thermal regimes is the
distinctive characteristic of plate tectonics since
the Neoarchean. Geology 34, 961-964.
Cawood, P.A., Kröner, A., Pisarevsky, S., 2006.
Precambrian plate tectonics: criteria and
evidence. GSA Today 16, 4-11.
Chardon, D., Choukroune, P., Jayananda, M., 1998.
Sinking of the Dharwar Basin (South India):
implications for Archaean tectonics.
Precambrian Research 91, 15-39.
Collins, W.J., van Kranendonk, M.J., Teyssier, C.,
1998. Partial convective overturn of Archaean
crust in the east Pilbara Craton, Western
Australia: driving mechanisms and tectonic
implications. Journal of Structural Geology 20,
1405-1424.
Condie, K.C., 1998. Episodic continental growth and
supercontinents: a mantle avalanche
connection? Earth and Planetary Science Letters
163, 97-108.
de Wit, M.J., 1998. On Arquean granites,
greenstones, cratons and tectonics: does the
evidence demand a verdict? Precambrian
Research 91, 181-226.
Faure, F., Arndt, N., Libourel, G., 2006. Formation of
spinifex texture in komatiites: an experimental
study. Journal od Petrology 47, 1591-1610.
Foley, S., Tiepolo, M., Vannucci, R., 2002. Growth
of early continental crust controlled by melting
of amphibolite in subduction zones. Nature 417,
837-840.
Foley, S.F., Buhre, S., Jacob, D.E., 2003. Evolution
of the Archean crust by delamination and
shallow subduction. Nature 421, 249-252.
Furnes, H., de Wit, M., Staudigel, H., Rosing, M. and
Muehlenbachs, K., 2007. A vestige of Earth’s
oldest ophiolite. Science 315, 1704-1707.
Grove, T.L., Parman, S.W., 2004. Thermal evolution
of the Earth as recorded by komatiites. Earth
and Planetary Science Letters 219, 173-187.
Hawkesworth, C.J., Kemp, A.I.S., 2006. Evolution of
the continental crust. Nature 443, 811-817.
Iizuka, T., Komiya, T., Ueno, Y., Katayama, I.,
Uehara, Y., Maruyama, S.,Hirata, T., Johnson,
S.P., Dunkley, D.J., 2007. Geology and zircon
geochronology of the Acasta Gneiss Complex,
northwestern Canada: new constraints on its
tectonothermal history. Precambrian Research
153, 179-208.
Kerrich, R., Polat, A., 2006. Archean greenstone-
tonalite duality: thermochemical mantle
convection models or plate tectonics in the early
Earth global dynamics? Tectonophysics 415,
141-165.
King, S.D., 2005. Archean cratons and mantle
dynamics. Earth and Planetary Science Letters
234, 1-14.
Michaut, C., Jaupart, C., 2007. Secular cooling and
thermal structure of continental lithosphere.
Earth and Planetary Science Letters 257, 83-96.
Nelson, D.R., Trendall, A.F., Altermann, W., 1999.
Chronological correlations between the Pilbara
and Kaapval cratons. Precambrian Research 97,
165-189.
O'Neil, C.J., Lenardic, A., Griffin, W.L., O"Reilly,
S.Y., 2007. Dynamics of cratons in an evolving
mantle. Lithos 102, 12-24.
O’Reilly, S.Y., Griffin, W.L., Djomani, Y.H.P.,
Morgan, P., 2001. Are lithospheres forever?
Tracking changes in subcontinental lithospheric
mantle through time. GSA Today 11, 4-10.
Percival, J.A., Stern, R.A., Skulski, T., 2001. Crustal
growth through successive arc magmatismo:
reconnaissance U-Pb SHRIMP data from the
northeastern Superior Province, Canada.
Precambrian Research 109, 203-238.
Peltonen, P., Brügmann, G., 2006. Origin of layered
continental mantle (Karelian craton, Finland):
geochemical and Re-Os isotope constraints.
Lithos 89, 405-423.
Rapp, R.P., Shimizu, N., Norman, M.D., 2003.
Growth of early continental crust by partial
melting of eclogite. Nature 425, 605-609.
Rey, P.F., Philippot, P., Thébaud, N., 2003.
Contribution of mantle plumes, crustal
thickening and greenstone blanketing to the
2.75-2.65 Ga global crisis. Precambrian
Research 127, 43-60.
Rino, S., Komiya, T., Windley, B.F., Katayama, I.,
Motoki, A., Hirata, T., 2004. Major episodic
increases of continental crustal growth
determined from zircon ages of river sands:
implications for mantle overturns in the Early
Precambrian. Physics of the Earth and Planetary
Interiors 146, 369-394.
Smithies, R.H., Van Kranendonk, M.J., Champion,
D.C., 2007. The Mesoarchean emergence of
modern-style subduction. Gondwana Research
11, 50-68.
Van Kranendonk, M.J., Smithies, R.H., Hickman,
A.H., Champion, D.C., 2007. Review: secular
tectonic evolution of Archean continental crust:
interplay between horizontal and vertical
processes in the formation of the Pilbara Craton,
Australia. Terra Nova 19, 1-38.
126
van Thienen, P., van der Berg, A.P., Vlaar, N.J.,
2004. On the formation of continental silicic
melts in thermochemicalmantle convection
models: implications for early Earth.
Tectonophysics 394, 111-124.
Wyman, D.A., Kerrich, R., 2002. Formation of
Archean continental lithospheric roots: the role
of mantle plumes. Geology 30, 543-546.
Xiong, X.L., 2006. Trace element evidence for
growth of early continental crust by melting of
rutile-bearing hydrous eclogite. Geology 34,
945-948.
127
10. Cinturões Orogênicos Proterozóicos, Supercontinentes e
Superplumas
10.1. Introdução
Ao contrário do limite Proterozóico-
Fanerozóico, e das demais subdivisões do
Fanerozóico, que são baseados em eventos
específicos, o limite Arqueano-Proterozóico,
bem como as subdivisões do Precambriano, é
puramente cronométrico. Embora não exista
nenhum evento geológico de escala global
ocorrido exatamente há 2,5 Ga atrás, vários
fatores foram levados em consideração para
se arbitrar esta idade como limite entre os
éons Arqueano e Proterozóico. Diferenças
entre a geologia dos terrenos arqueanos e
proterozóicos são atribuídas, direta ou
indiretamente, ao processo de cratonização, e
conseqüente estabilização dos continentes,
ocorrido no Neoarqueano; ao declínio na
temperatura do manto com o decorrer do
tempo; e ao advento de uma atmosfera rica
em oxigênio.
10.2. A transição Arqueano-Proterozóico e
os primeiros continentes
O grande volume de crosta
continental produzido no Neoarqueano
contrasta com a escassez de rochas juvenis
no período entre 2,6 e 2,4 Ga (Fig. 10.1). Isto
é, geralmente, interpretado como indicativo
da existência de um, ou mais, grandes
continentes estáveis, sujeitos apenas a
eventos de rifteamento. No entanto, é
possível, também, que a limitada produção
de crosta juvenil, neste período, resulte de
processos orogênicos colisionais, durante os
quais ocorre, dominantemente,
retrabalhamento de crosta preexistente.
Em vista da similaridade geológica e
de idades entre os terrenos TTG e granito-
greenstone nos crátons Kaapvaal e Pilbara,
eles podem ter feito parte do primeiro grande
continente (denominado Vaalbara). No
entanto, diques máficos, seqüências de rifte,
vulcanismo bimodal, e seqüências
plataformais com idades entre 2,78 a 2,60
Ga, indicam que, se isto ocorreu, eles foram
separados ainda no Arqueano. É possível
que, no final do Arqueano, os crátons
existentes tenham sido agregados em um
único supercontinente (denominado
Kenorlândia) ou em vários crátons maiores.
Por exemplo: Superia (formado pela junção
dos crátons Superior e Karelia); Sclavia (do
qual o cráton Slave seria remanescente); e
Kalahari (formado pela colisão dos crátons
Kaapvaal e Zimbabwe; embora seja debatido
se isto ocorreu no Arqueano ou, apenas, no
Paleoproterozóico).
A existência de massas continentais
lateralmente extensas no final do Arqueano
possibilitou a deposição de vastas seqüências
(a)
(b)
Figura 10.1. (a) Histograma de crescimento
continental, com base em idades U-Pb em zircão
de rochas juvenis, no intervalo 3,0-1,0 Ga. (b)
Histograma de crescimento continental para a
América do Sul, baseado em idades modelo Sm-
Nd, no período 3,7-0,7 Ga. Notar o pico em 2,1 Ga.
128
de rochas supracrustais. Grandes bacias
sedimentares remanescentes desse período
incluem aquelas de Witwatersrand e Pongola,
no Cráton Kaapvaal, Hamersley, no Cráton
Pilbara, e Carajás, no Cráton Amazônico.
Coberturas sedimentares do
Paleoproterozóico inferior são comuns em
todos os demais crátons arqueanos.
As seqüências supracrustais
neoarqueanas e paleoproterozóicas
consistem, caracteristicamente, de
sedimentos maturos, como quartzitos e
pelitos, indicando um ambiente tectônico
estável, presumivelmente representado por
bacias intracratônicas e plataformas
continentais. Quartzitos são comumente
intercalados com formações de ferro
bandadas. A ausência de depósitos de pirita e
uraninita, após 2,4 Ga, coincide com o
declínio na deposição de BIFs, indicando o
início do acúmulo de oxigênio na atmosfera.
Embora enxames de diques máficos
ocorram no Arqueano (como é o caso do
Grande Dique do Zimbábue, com idade de
2575 Ma, o maior dique máfico conhecido,
com 480 km de comprimento), eles são bem
mais freqüentes no Proterozóico. O grande
volume de diques máficos intrudidos entre
2,4 e 2,0 Ga, indicativos de tentativas de
fragmentação continental, argumentam a
favor da existência de grandes continentes
estáveis no final do Arqueano/início do
Proterozóico. Tem sido sugerido, ainda, que
o período 2,5-2,45 Ga foi marcado por uma
intensa atividade de plumas. Derrames
basálticos com estas idades, encontrados em
vários crátons, seriam remanescentes de
CFBs.
Intrusões ígneas estratiformes são
típicas do Proterozóico, embora meta-
anortositos e rochas metabásicas e
mataultrabásicas arqueanas possam ser
fragmentos de corpos ígneos maiores
deformados e metamorfizados. O Complexo
Stillwater (Montana), com idade de 2,7 Ga, é
o único exemplo arqueano bem preservado.
O Complexo Bushveld, na África do Sul,
com 2,05 Ga, aflorando em uma área com
cerca de 66 000 km2, é o maior corpo ígneo
do mundo, sendo também o maior depósito
de mineralizações magmáticas (associação
Cr-Ni-Pt-Cu). Da mesma maneira, granitos
potássicos (monzogranitos e sienogranitos),
embora também ocorram no Arqueano, só se
tornam abundantes no Proterozóico.
10.3. Distribuição e geologia de províncias
orogênicas proterozóicas
Províncias orogênicas proterozóicas
ocorrem, caracteristicamente, circundando
crátons arqueanos, ou como faixas,
separando terrenos arqueanos (Figs. 9.1, 9.2,
9.5, 10.2-10.5). O primeiro caso é bem
ilustrado pelo Cráton Amazônico, onde a
Província Amazônia Central, arqueana, é
circundada, no norte, pela Província Maroni-
Itacaiunas (2,2-2,0 Ga) e, no sul e sudoeste,
por províncias que se tornam
progressivamente mais jovens para o sul
(Fig. 9.5). Na América do Norte, igualmente,
províncias progressivamente mais jovens são
observadas ao sul da Província Superior (Fig.
10.2). Províncias mais jovens podem manter
o mesmo trend ou truncar aqueles de
províncias mais antigas, como no caso do
cinturão Grenville (Fig. 10.2).
A geologia das províncias crustais
proterozóicas é bastante variada. Algumas
consistem dominantemente de rochas
juvenis, enquanto outras resultam quase
exclusivamente de retrabalhamento de rochas
mais antigas. Em geral, as rochas presentes
podem ser grupadas nos seguintes tipos, com
sua proporção variando de um orógeno para
outro:
(a) Complexos arqueanos reativados
(ortognaisses e rochas associadas dos
terrenos de alto grau e greenstone belts
desmembrados e deformados).
(b) Ortognaisses juvenis da associação TTG.
Estas rochas são mais comuns nos
orógenos proterozóicos mais antigos e
refletem uma continuação de processos
associados com colisão de platôs
oceânicos e/ou subducção rasa no
Paleoproterozóico.
129
(c) Ortognaisses cálcio-alcalinos. Estas
rochas são dominantes em orógenos
caracterizados por uma tectônica
acrescionária, envolvendo a colisão de
arcos de ilhas, ou subducção do tipo
andino.
(d) Seqüências supracrustais. Estas são
bastante variadas e um mesmo orógeno
pode incluir rochas metassedimentares e
metavulcânicas indicativas de deposição
em ambiente tectônico estável, como
plataformas continentais e bacias
intracratônicas, em riftes continentais, e
em margens continentais ativas.
(e) Rochas plutônicas variadas. Em
comparação com o Arqueano, o
magmatismo, em muitas províncias
proterozóicas, é caracterizado por
volumes significativos de granitóides
potássicos, implicando que diferenciação
crustal pode ter sido mais importante que
crescimento continental. Isto é
particularmente válido para os cinturõesmais jovens.
10.4. Eventos orogênicos proterozóicos
Numerosos eventos orogênicos,
muitos dos quais podem ser correlacionados
com um dos diferentes tipos de orogêneses
discutidas no Capítulo 7, são reconhecidos no
Proterozóico. Quatro destes eventos são
registrados em vários ou em todos os
continentes, dois datando do
Paleoproterozóico, um do final do
Mesoproterozóico e outro do final do
Neoproterozóico. Os três mais antigos foram
Figura 10.2. Províncias crustais arqueanas e proterozóicas na América do Norte e sua extensão para a
Groenlândia e Escandinávia.
130
responsáveis por substancial crescimento
continental pós-arqueano (Fig. 10.1).
10.4.1. Paleoproterozóico
Registros esparsos de orogêneses
ocorridas entre 2,5 e 2,2 Ga são encontrados
em vários continentes, mas o evento
orogênico importante mais antigo é o Ciclo
Transamazônico/Eburneano (2,2-2,0 Ga).
Este evento foi responsável pela formação de
uma proporção significativa da Plataforma
Sul-Americana e do centro e noroeste da
África. Dele, resultaram a consolidação dos
crátons São Francisco, Congo e Oeste
Africano, e o crescimento do Cráton
Amazônico, pela adição da Província
Maroni-Itacaiunas à Província Amazônia
Central (Fig. 9.5). Exposições menores de
crosta paleoproterozóica na América do Sul,
representando a parte aflorante de províncias
crustais maiores, são os crátons São Luís,
Luís Alves e Rio de la Plata (Fig. 10.5).
Adicionalmente, uma proporção significativa
do embasamento das províncias orogênicas
neoproterozóicas no Brasil e no oeste da
África também consiste de rochas de idade
paleoproterozóica.
Os crátons São Francisco e Congo são
formados por rochas dominantemente de
idade arqueana (cerca de 80%), mas no
Cráton Oeste-Africano e na Província
Maroni-Itacaiunas dominam rochas juvenis
do paleoproterozóico. Modelos tectônicos
para a evolução dessas províncias invocam a
atuação da tectônica de placas. Colisão entre
blocos arqueanos com adição local de crosta
juvenil parece ter sido o processo dominante
no caso dos crátons São Francisco e Congo,
enquanto os crátons Amazônico e Oeste-
Africano teriam crescido pela colagem de
arcos magmáticos juvenis e blocos arqueanos
menores.
Os eclogitos mais antigos descobertos
até agora foram encontrados no orógeno
Usagarano, no leste da África (Fig. 10.3),
cuja idade (2,0 Ga) corresponde à do evento
Eburneano no oeste desse continente. A
ocorrência desses eclogitos é uma evidência
direta de litosfera oceânica e, portanto, da
atuação da tectônica de placas no
Paleoproterozóico. No entanto, o ambiente de
formação ainda é debatido. Os modelos mais
recentes favorecem rifteamento da margem
leste do cráton da Tanzânia e o subseqüente
Figura 10.3. Crátons e cinturões orogênicos
proterozóicos no centro e sul da África.
Figura 10.4. Crátons arqueanos e bacias e orógenos
proterozóicos na Austrália.
131
fechamento da pequena bacia oceânica
formada. Nesta interpretação, o orógeno
Usagarano seria essencialmente
intracontinental.
O segundo grande período orogênico
proterozóico ocorreu entre 2,0 e 1,8 Ga.
Orogêneses nesse intervalo de idades são
documentadas em todos os continentes,
recebendo denominações locais. Na América
do Sul, ele é representado pela Província
Ventuari-Tapajós, no sudoeste do cráton
Amazônico (Fig. 9.5). A ocorrência de
associações petrotectônicas típicas e o estilo
estrutural/metamórfico dos orógenos melhor
estudados desse período evidenciam a
atuação de processos de tectônica de placas
semelhantes aos atuais. Exemplos de
orógenos interpretados como resultantes da
colagem de arcos de ilhas e prismas de
acresção incluem o orógeno Wopmay (Fig.
10.6), no Canadá, o cinturão Ketilidiano, na
Groenlândia, e o orógeno sueco-finlandês
(Fig. 10.2).
Talvez o melhor exemplo de um
orógeno colisional, similar em escala ao
sistema Himalaia-Tibete, seja o cinturão
Trans-Hudsoniano (Figs. 10.3, 10.8), onde
acresção pré-colisional de blocos crustais foi
seguida pelo desenvolvimento de uma
margem do tipo andino e, finalmente, pela
colisão entre a Província Superior (placa
inferior) e as províncias Wyoming e Rae-
Hearne (placa superior).
Ao contrário dos exemplos acima,
crescimento crustal significativo não ocorreu
durante o desenvolvimento dos orógenos
Thelon, no Canadá (Fig. 10.2), e Capricórnio
e Paterson, na Austrália (Fig. 10.4). O
primeiro é interpretado, por alguns, como um
orógeno colisional e, por outros, como um
orógeno intracontinental. O Orógeno
Capricórnio é atribuído à colisão oblíqua
entre os crátons Pilbara e Yilgarn, tendo sido
retrabalhado durante uma orogênese
intracontinental ocorrida no final do
Paleoproterozóico (Orogenia Mongaroon).
Figura 10.6. Evolução inferida para o orógeno
Wopmay, Canadá: (a, b) Colagem do terreno
Hottah; (c) desenvolvimento de uma margem
continental ativa; (d) colagem do terreno Fort
Simpson.
Figura 10.5. Crátons arqueanos/paleoproterozóicos
e cinturões Brasilianos/Pan-Africanos na América
do Sul e África. Crátons: AM – Amazônico, CC –
Congo, LA – Luís Alves, SF – São Francisco, SL –
São Luís, WA – Oeste-Africano. Províncias
neoproterozóicas: A – Araguaia, BP – Borborema,
CA - Camarões, M – Mantigueira, N – Nigeria, T –
Tocantins.
132
10.4.2. Mesoproterozóico
Orogêneses ocorridas do final do
Paleoproterozóico ao Mesoproterozóico
médio podem ser importantes em um
determinado continente (como por exemplo,
no sudoeste da Amazônia (Fig. 9.5) e sudeste
da América do Norte (Fig. 10.2)), mas não
constituem eventos de escala global.
O terceiro grande evento orogênico
proterozóico é denominado, na América do
Norte, de orogênese Grenville. Ele culminou
com uma série de colisões continentais entre
1,2 e 1,0 Ga atrás, tendo afetado o sudoeste
do cráton Amazônico (Província Sunsás; Fig.
9.5), todo o leste da América do Norte (Fig.
10.2), o centro e sul da África (orógenos
Kibarano, Namaqua-Natal, Irumide; Fig.
10.3) e partes da Austrália (orógenos Albany-
Fraser e Musgrave; Fig. 10.4) e do escudo
báltico (orógeno sueco-norueguês). O
sistema orogênico como um todo tem mais
de 10 000 km de comprimento (Fig. 10.8) e
parte dele foi continuamente formado pela
adição progressiva de orógenos
acrescionários entre 1,8 e 1,0 Ga. Os dois
grandes continentes formados pelos crátons
arqueanos e cinturões paleoproterozóicos
norte-americanos e do norte da Eurásia são
chamados, respectivamente, Laurentia (ou
Laurência) e Báltica (Fig. 10.8).
10.4.3. Neoproterozóico
O quarto grande evento orogênico
proterozóico, a orogênese Brasiliana/Pan-
Africana, do final do Neoproterozóico, afetou
grande parte dos continentes africano e sul
americano (Fig. 10.5). Embora seja
dominante nos continentes do hemisfério sul,
registros de uma tectônica do final do
Precambriano são, também, encontrados no
noroeste da Europa, onde é chamada
orogênese Cadomiana.
Muitos orógenos Brasilianos/Pan-
africanos consistem, dominantemente, de
rochas mais antigas retrabalhadas, como a
Província Borborema, no nordeste do Brasil,
e as províncias Nigeriana e Camaronesa, no
oeste da África. Uma evolução em ambiente
intracontinental tem sido proposta para
alguns orógenos, enquanto em outros casos a
ocorrência de colisão continental é bem
documentada. Em outros casos, crescimento
Figura 10.7. Mapas esquemáticos ilustrando as
similaridades estruturais e de escala entre o
cinturão Trans-Hudsoniano e o sistema Himalaia-
Tibete.
Figura 10.8. Mapa esquemático mostrando, em
verde, as áreas afetadas pela orogênese Grenville,
numa possível reconstituição do supercontinente