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AULA 2 EPIDEMIOLOGIA Profª Ivana Maria Saes Busato 02 CONVERSA INICIAL Nesta aula vamos estudar a pesquisa epidemiológica iniciando pelos conceitos sobre as observações e os registros de indivíduos e populações e a distribuição das doenças no espaço e no tempo, importantes para realizar análise de situação de saúde de uma população. Os fundamentos de pesquisa epidemiológica e os desenhos de estudo epidemiológico serão estudados nesta aula, que será finalizada com ética em pesquisa e bioética. CONTEXTUALIZANDO Kuhlmann Jr. (2015, p. 848) aponta em seu estudo: ... sobressai o alto índice de artigos submetidos aos periódicos em que ocorre a rejeição, ou mesmo de artigos publicados em que se identificam problemas quanto a questões teóricas e metodológicas, bem como com implicações que ferem os procedimentos éticos. Situação também não pouco comum em projetos submetidos a agências de fomento... Como buscar a qualidade e a confiabilidade nas pesquisas? TEMA 1 – OBSERVAÇÕES E REGISTROS DE INDIVÍDUOS E POPULAÇÕES Estudos epidemiológicos observam e registram as pessoas e populações por meio de diversas características ou atributos individuais, informações que são de interesse à saúde para o conhecimento das pessoas, individualmente ou de grupos populacionais. Estudaremos algumas características que se destacam para a epidemiologia. Os modelos explicativos do processo saúde-doença sempre trabalharam com as características específicas ou atributos individuais que são essenciais para a observação e o registro de indivíduos e populações, buscando a causa das doenças e/ou agravos. Estudos epidemiológicos estratificam as pessoas em gênero e sexo. Gênero é um construto social que determina como homens e mulheres se diferenciam na sociedade na dimensão social. O sexo é um marcador biológico de aspectos anatômicos e fisiológicos, masculino e feminino, na dimensão biológica. Ambos são importantes para estudos de grupos populacionais e do conhecimento das pessoas, têm influência no processo saúde-doença. A etnia ou raça é característica importante para a estratificação biológica e social e tem profunda implicação na saúde. A idade é um dos principais 03 determinantes do estado de saúde e do perfil de morbimortalidade em uma população, situa os sujeitos de pesquisa nos ciclos de vida que impactam no processo saúde-doença. Todos os eventos de saúde distribuem diferentemente nos ciclos de vida. A migração é um dos processos demográficos e sociais de grande relevância para o estado de saúde de indivíduos e populações. Estudos de migrantes têm como objetivo determinar o risco de adoecer entre os migrantes que são oriundos de uma região se há alteração (aumento ou diminuição de risco) após a migração para outra região. A classe social condiciona o acesso aos recursos produtivos e molda as experiências de vida na esfera da produção e do consumo (Barata et al., 2013). As variáveis socioeconômicas, isoladas ou combinadas em indicadores, classificam as pessoas ou grupos populacionais em posição socioeconômica, as variáveis utilizadas geralmente são: renda, ocupação, escolaridade, acesso a eletrodomésticos, entre outros. Ambas, classe social e posição socioeconômica, apresentam associação com o nível de saúde e são de interesse epidemiológico. O estudo dos comportamentos individuais e do estilo de vida são fundamentais para a compreensão do processo saúde-doença, e na formulação de políticas de promoção da saúde. Alguns comportamentos são bastante estudados: consumo de álcool, drogas, hábito de fumar, alimentação saudável e atividade física. O modelo explicativo do processo saúde-doença da determinação social da saúde abrange as principais características ou atributos a serem estudados na epidemiologia. 1.1 Conceitos epidemiológicos É importante diferenciar alguns conceitos epidemiológicos para compreender a extensão da investigação epidemiológica. Uma epidemia é considerada quando há ocorrência de determinada doença ou evento relacionado com a saúde que tem uma elevação brusca e temporária, um aumento expressivo em relação ao que seria esperado para determinada população, em determinado período de tempo e espaço geográfico. O termo pandemia é usado quando uma epidemia atinge todo o mundo ou grandes áreas geográficas, atravessando fronteiras internacionais e atingindo um grande número de pessoas. 04 A endemia, em oposição à epidemia, é definida como presença usual de uma doença, dentro dos limites esperados, em determinada área geográfica, por um período de tempo ilimitado, enfim, uma ocorrência contínua e esperada de uma doença ou agravo. Epizootia é um termo usado para epidemias em populações de animais. Surto é a ocorrência epidêmica de uma doença ou agravo, com um número baixo de atingidos, em pequena e delimitada área geográfica, como vilas, bairros etc., ou para população institucionalizada, como colégios, creches, quartéis e outros. Importante diferenciar outros conceitos muito usados em epidemiologia: o caso autóctone é o caso oriundo do mesmo local do contágio ou no qual foi observada sua ocorrência, e acontece no mesmo local em que é diagnosticado (apareceu); e o caso alóctone é quando o caso é importado, portanto, o contágio ou ocorrência se dá numa localidade e o diagnóstico em outra. TEMA 2 – DISTRIBUIÇÃO DAS DOENÇAS NO ESPAÇO E NO TEMPO A análise espacial em saúde é o estudo quantitativo da distribuição das doenças ou serviços de saúde e deve ser usada para identificar padrões espaciais de morbidade e mortalidade, com fatores associados a esses padrões. Objetiva mostrar os processos de difusão de doenças, eventos ou agravos, pode gerar conhecimento sobre sua etiologia visando sua predição e controle. A análise espacial é um instrumento importante na avaliação do impacto de processos e estruturas sociais na determinação da saúde. A distribuição das doenças no espaço objetiva contextualizar territorialmente a ocorrência de uma doença, agravo ou evento de interesse da saúde, visando a formulação de hipóteses etiológicas com a associação de fatores ambientais, da urbanização, das condições, avaliação em diferentes períodos de tempo, entre outros. Para o conceito de espaço, devem-se considerar as características geográficas, naturais e sociais do lugar, importante também observar a sociedade em movimento, construída nos processos históricos. 2.1 Geoprocessamento Uma das primeiras análises de uma doença geograficamente para estudo etiológico foi realizada por John Snow, em 1854, em Londres, no mapeamento de 05 óbitos por cólera para análise epidemiológica, já estudada na história da epidemiologia. Uma ferramenta importante na análise da distribuição das doenças no espaço e no tempo é o uso do geoprocessamento. Conforme descrito por Almeida Filho e Barreto (2012, p. 146), o geoprocessamento é um “conjunto de técnicas computacionais de coleta, tratamento, manipulação e apresentação de dados espaciais, visando organizar informações espacialmente referidas num território”. O geoprocessamento aplicado à epidemiologia permite o mapeamento de doenças, agravos ou eventos de interesse da saúde, na avaliação de riscos, no planejamento de ações de saúde e na avaliação de redes de atenção. Tem a participação de diversas disciplinas, como Cartografia, Computação, Geografia e Estatística. O geoprocessamento é realizado com ajuda de tecnologias computacionais para o tratamento e manipulação de dados geográficos, como o sensoriamento remoto, a digitalização de dados, a automação das tarefas cartográficas, a utilizaçãode Sistemas de Posicionamento Global (GPS) e os Sistemas de Informação Geográfica (SIG ou GIS de Geographic Information System). (Brasil, 2007, p. 15) 2.2 Distribuição no tempo A distribuição das doenças no tempo pode fornecer várias informações para compreensão, previsão, busca etiológica, prevenção de doenças e avaliação do impacto de intervenções em saúde. Conforme apontado por Almeida Filho e Barreto (2012, p. 133), as informações temporais são apresentadas por três diferentes períodos temporais ou tempo calendário. O primeiro tipo é caracterizado por períodos relativamente curtos como horas, dias, meses e anos como observado nas situações epidêmicas. O segundo é descrito por longos períodos de tempo chamados de tendência secular ou histórica e mostra as variações nas frequências de uma doença por um longo período de tempo, em geral anos ou décadas. Os autores completam O terceiro tipo são apontadas pelas variações cíclicas e variações sazonais. As variações cíclicas são caracterizadas por flutuações na incidência de uma doença ocorrida em um período maior que um ano. Enquanto a variação sazonal mostra a variação na incidência de uma doença coincidindo com as estações do ano. (Almeida Filho e Barreto, 2012, p. 133) 06 TEMA 3 – FUNDAMENTOS DE PESQUISA EPIDEMIOLÓGICA A ocorrência e distribuição dos eventos relacionados à saúde não se dão por acaso, existem fatores determinantes das doenças e agravos da saúde que, uma vez identificados, precisam ser eliminados, reduzidos ou neutralizados. O fundamento de toda pesquisa é o método científico, que se baseia na elaboração de hipótese e a busca de evidências empíricas que possam contribuir para negá- las ou confirmá-las. O método científico é organização de procedimentos racionais utilizados para investigar e explicar os fatos e fenômenos da natureza, por meio da observação empírica e da formulação de leis científicas. Alguns conceitos são fundamentais para o planejamento em pesquisas epidemiológicas: população, amostragem, mensuração, variáveis, estimação, objetivos, hipótese e testes de hipótese. O conceito de população em pesquisa é o número total de pessoas em determinado espaço geográfico, no período considerado, e expressa a magnitude do contingente demográfico e sua distribuição relativa. Amostra é um subconjunto de elementos pertencentes a uma população. Para que os resultados retirados da amostra possibilitem inferências válidas, ela deve ser representativa da população. Os objetivos do estudo são separados em geral e específicos. Os objetivos devem estar coerentes com a justificativa e o problema proposto. O objetivo geral deve mostrar a síntese do que se pretende alcançar, e os objetivos específicos explicitam os detalhes, um desdobramento do objetivo geral. Os objetivos informam para que a pesquisa será realizada, isto é, quais os resultados que pretende alcançar ou qual a contribuição que a pesquisa poderá proporcionar. Os enunciados dos objetivos devem começar com um verbo no infinitivo e este verbo deve indicar uma ação passível de mensuração. (Busato, 2016, p. 101-102) Variável é uma característica de interesse que se pode medir. Variáveis independentes são aquelas manipuladas, enquanto variáveis dependentes são apenas medidas ou registradas. Existem dois grandes grupos de variáveis: categóricas ou qualitativas e numéricas ou quantitativas. Hipótese deve estar fundamentada em uma boa questão de pesquisa, a priori, deve ser simples e específica, é uma suposição que se faz a respeito de alguma coisa. Ao emitir uma hipótese, o cientista tenta explicar os fatos já conhecidos, importante deduzir da hipótese formulada uma série de conclusões lógicas e planejar experiências para verificá-las. Para testar a significância 07 estatística, a hipótese de pesquisa deve ser formulada de modo que categorize a diferença esperada entre grupos do estudo. 3.1 Classificação das pesquisas epidemiológicas pelos objetivos As pesquisas são classificadas por meio de vários critérios. O primeiro se refere aos objetivos gerais da pesquisa, que se divide em: exploratória, descritiva e explicativa. A pesquisa exploratória visa à descoberta, o achado, a elucidação de fenômenos ou a explicação daqueles que não eram aceitos apesar de evidentes. A pesquisa exploratória oportuniza a obtenção de patentes nacionais e internacionais, a geração de riquezas e a redução da dependência tecnológica (Busato, 2016, p. 103) Segundo explica Busato (2016, p. 103), na pesquisa descritiva a “finalidade é observar, registrar e analisar os fenômenos ou sistemas técnicos, sem, contudo, entrar no mérito dos conteúdos”. O pesquisador não interfere, explora a frequência com que o fenômeno acontece ou como se estrutura e funciona um sistema, método, processo ou realidade operacional. A pesquisa explicativa registra fatos, analisa-os, interpreta-os e identifica suas causas. Essa prática visa ampliar generalizações, definir leis mais amplas, estruturar e definir modelos teóricos, relacionar hipóteses em uma visão mais unitária do universo ou âmbito produtivo em geral e gerar hipóteses ou ideias por força de dedução lógica. (Busato, 2016, p. 103) 3.2 Classificação das pesquisas epidemiológicas pela natureza da informação e natureza das pesquisas “As pesquisas diferenciam-se em qualitativa e quantitativa. A pesquisa qualitativa responde a questões específicas em especial nas ciências sociais, preocupa-se com a realidade que não pode ser quantificado, trabalha com um universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes” (Minayo, 2004). As bases do processo de pesquisa qualitativa estão na interpretação dos fenômenos e na atribuição de significados, não usa métodos e técnicas estatísticas, utiliza-se a descrição dos achados. “A pesquisa quantitativa considera que tudo pode ser quantificável, o que significa traduzir em números opiniões e informações para classificá-las e analisá- las. Requer o uso de recursos e de técnicas estatísticas (percentagem, média, 08 moda, mediana, desvio-padrão, coeficiente de correlação, análise de regressão, etc.)” (Dalfovo; Lana; Silveira, 2008, p. 4). Podemos classificar as pesquisas quanto à sua natureza, podendo ser: básica e aplicada. Na pesquisa básica o objetivo é gerar conhecimentos novos e úteis para o avanço da ciência sem aplicação prática prevista. E, na pesquisa aplicada o objetivo é gerar conhecimentos para aplicação prática dirigidos à solução de problemas específicos. (Dalfovo; Lana; Silveira, 2008, p. 4) TEMA 4 – DESENHOS DE ESTUDO EPIDEMIOLÓGICO A pesquisa epidemiológica é realizada por meio de desenhos de estudo, a escolha do melhor desenho cabe ao pesquisador diante da necessidade de elucidar sua hipótese do estudo e alcançar seus objetivos. Os desenhos de estudo podem ser diferenciados por meio de várias características: Quanto ao método em descritivos e analíticos. Os descritivos são estudos que apresentam a caracterização de aspectos semiológicos, etiológicos, fisiopatológicos e epidemiológicos de uma doença. São utilizados para conhecer uma nova ou rara doença, ou agravo à saúde, estudando a sua distribuição no tempo, no espaço e conforme peculiaridades individuais (Hochman et al., 2017, p. 4) “Os analíticos são estudos utilizados para verificar uma hipótese. O investigador introduz um fator de exposição ou um novo recurso terapêutico, e avalia-o utilizando ferramentas bioestatísticas” (Hochman et al., 2017, p. 4). Quanto à unidade de observação, podem ser diferenciados em individuado e agregado. Os estudos com observação individuada estudam o indivíduo ouparte do indivíduo. Os estudos com observação de agregado, estudam populações. Quanto à manipulação da exposição, são divididos em observacionais e de intervenção. Os estudos observacionais são caracterizados pela posição do pesquisador de não influenciar os eventos. Há somente a coleta de informações sobre os atributos ou medidas de interesse. Estudos de intervenção são aqueles nos quais o pesquisador deliberadamente influencia os eventos e investiga os efeitos da intervenção. Quanto à estratégia de observação, são apresentados em longitudinais e transversais. Os longitudinais são aqueles que investigam mudanças no tempo, ou seja, indivíduos são observados em mais de uma ocasião ao longo de um período de tempo. Os transversais são aqueles em que indivíduos são observados apenas uma vez. Quanto ao momento de análise da exposição e do desfecho, em prospectivos e retrospectivos. Os estudos prospectivos são aqueles em que os 09 dados são coletados no tempo a partir do início do estudo, e os retrospectivos são aqueles em que os dados se referem a eventos passados e podem ser adquiridos de fontes já existentes (fontes secundárias). 4.1 Tipologia dos desenhos de investigação em epidemiologia Ensaios clínicos são estudos de intervenção por meio da qual o investigador introduz algum elemento crucial para a transformação do estado de saúde dos indivíduos do estudo, visa testar hipóteses etiológicas ou avaliar a eficácia ou a efetividade de procedimentos diagnósticos, preventivos ou terapêuticos. Experimento clínico é um experimento com pacientes e seu objetivo é avaliar novos tratamentos para uma doença ou condição. Pesquisa experimental são os estudos que envolvem modelos experimentais como animais experimentais, cadáver e cultura de células e tecidos. Esses desenhos de estudo são diferenciados pelo grau de controle experimental. (Hochman et al., 2017, p. 4) Nos ensaios clínicos, quando há controle sobre a variável independente, podem ser diferenciados em controlados e não controlados, dada a presença ou ausência de um grupo de controle. Quando ao controle da composição dos grupos, podem assumir as seguintes modalidades segundo Hochman et al. (2017, p. 5-6): Randomizados – são realizados com a inclusão aleatória dos sujeitos da pesquisa tanto no grupo de estudo quanto no grupo controle, com identidade comum na distribuição de características iniciais relevantes. Não randomizados – consistem na seleção de grupo com determinadas características para comporem o grupo de estudo e o grupo controle de forma não aleatória. Bloquedo – estudo com grupos formados exclusivamente de uma dada categoria da variável de confundimento a se controlar, bloqueando-se o efeito às outras classes da variável. Pareado – é constituído por pareamento, garantindo uma composição rigorosamente equivalente em termos de algumas variáveis selecionadas. Rotativo – estudo com estrutura baseada na alternância de grupos, num dado momento da pesquisa o grupo experimental passa a ser controle. Quanto ao controle, vieses de mensuração podem ser: 010 Duplo-cego – a seleção e a mensuração referente à variável dependente (variáveis dependentes são apenas medidas ou registradas) são feitas às cegas (nem avaliador nem participantes tem conhecimento da alocação dos grupos). Simples – cego, somente o participante não sabe a qual grupo pertence. Aberto – todos têm conhecimento da alocação dos grupos e da variável dependente. Estudos de caso consistem de um cuidadoso e detalhado relato por um ou mais profissionais do perfil de um único caso. E estudos de série de casos consistem de um cuidadoso e detalhado relato da experiência de um grupo de pessoas com um diagnóstico comum. Relato de casos ou série de casos tipo de estudo descritivo é um relato detalhado de um caso ou mais, ou mesmo de uma série de casos, minuciosa descrição de uma manifestação da doença, relatando em profundidade as características de interesse que podem sugerir hipótese etiológica e representam interface entre a clínica e a epidemiologia. Os estudos de coorte são os únicos capazes de abordar hipóteses etiológicas, consistem na observação de grupos comprovadamente expostos a um fator de risco como causa da doença a ser detectada no futuro, ou seja, um grupo de indivíduos é selecionado por presença ou ausência de exposição a um fator particular e, então, são acompanhados por um período de tempo específico (follow-up) para determinar o desenvolvimento de uma doença ou condição, são os prospectivos, chamados também de coorte concorrente. Outro tipo de coorte é a coorte histórica, com característica retrospectiva, envolve grupos selecionados por ter sido expostos a fatores de risco em potencial e por dispor de registros sistemáticos da exposição e do efeito são analisados os dados disponíveis antes do momento da realização da pesquisa, estudo individuado e com grupos de indivíduos com características específicas que contêm registros, por exemplo, em prontuários. Estudos de caso-controle têm as características de serem observacional, longitudinal, retrospectivo, analítico, em que um grupo de casos (indivíduos com a doença ou fator protetivo) é comparado quanto à exposição a um ou mais fatores, a grupo de indivíduos semelhantes ao grupo de casos, chamado de controle (sem a doença ou sem fator protetivo). Os estudos ecológicos são estudos em que a observação e a análise são feitas sobre determinadas características da população localizada em certas 011 áreas geográficas, abordam áreas geográficas ou blocos de população bem delimitados. As unidades de medida não são individuais, mas grupos populacionais. Os estudos ecológicos analisam dados globais de populações inteiras, comparando a frequência de doença entre diferentes grupos populacionais durante o mesmo período ou a mesma população em diferentes momentos, geralmente correlação entre indicadores de condições de vida e indicadores de situação de saúde. Podem ser classificados em subtipos: investigações de base territorial (ex.: bairro, município, países); e estudos de agregados institucionais (ex.: escolas, fábricas, prisões). Estudos de séries temporais são estudos de agregados, observacionais e longitudinais, em que uma mesma área ou população é investigada em momentos distintos no tempo. Alguns autores classificam os estudos de série temporal como uma subdivisão dos estudos ecológicos. Experimentos de intervenção comunitária e estudo de intervenção envolvem intervenções coletivas, comunidades inteiras ou grupos populacionais são selecionados e a exposição é coletiva, ou seja, são investigações com estudo de agregados que tomam como unidade de observação e análise de dados os agregados ecológicos ou institucionais, e que incorporam alguma intervenção de alcance coletiva. 4.2 Validade em estudos epidemiológicos Todo pesquisador, ao realizar um estudo epidemiológico, pode estar sujeito a erros que interferem ou alteram seu resultado. Os erros podem ser sistemáticos ou aleatórios e deturpar o resultado do estudo. Para dar maior confiabilidade ao trabalho, o pesquisador deve estar atento para que não ocorram esses erros, que são chamados de vieses. Segundo Medronho (2009, p. 282), “o viés refere-se ao tamanho da discrepância entre o valor verdadeiro de uma medida na população alvo, e o valor de sua estimativa na população real”. Os vieses podem ser viés de seleção, de informação e confundimento. O Viés de seleção ocorre quando o problema do estudo é causado por fatores envolvidos na seleção dos participantes ou por fatores quepodem influenciar na participação dos selecionados. O viés de Informação é referente as distorções nos resultados decorrentes de erros na mensuração, ou captação dos dados, ocorrem por erros de classificação. E o confundimento refere-se à situação em que exista uma falta de condição de comparação entre as populações exposta e não 012 exposta, em relação ao risco de adoecer, decorre da existência de uma ou mais variáveis, denominadas variáveis de confundimento, confundidoras, ou de confusão. (Medronho, 2009, p. 282) Estudos que exijam a participação dos sujeitos de pesquisa por um longo período de tempo podem sofrer com problemas de perdas de seguimento e não cooperação, resultando no abandono dos sujeitos de pesquisa. TEMA 5 – ÉTICA EM PESQUISA E BIOÉTICA As pesquisas com seres humanos geram preocupações éticas porque podem impor riscos físicos, psicológicos e invasão de privacidade inaceitáveis aos participantes da pesquisa. Na elaboração de um estudo ou pesquisa, diversos pontos devem ser considerados que envolvem aspectos éticos, morais e legais. A ética é um conjunto de normas que regulamentam o comportamento de um grupo de pessoas ou de uma sociedade. As categorias profissionais regulamentam suas profissões por meio do Código de Ética. A ética é fundamentada em três requisitos: o que se pode, o que se deve e o que se quer. Os aspectos éticos relacionados às pesquisas devem ser considerados sob quatro diferentes perspectivas: o envolvimento de seres humanos, o uso de animais, a relação com outros pesquisadores e a relação com a sociedade. Pesquisas com seres humanos implicam responsabilidades dos pesquisadores para com as pessoas que são objeto de estudo, devem ser relevantes cientificamente, ter responsabilidade social e ser moralmente justificadas. As pesquisas com animais devem prever sempre tratamento humanitário, evitando dor e sofrimento. Nesses projetos deve-se buscar o máximo de informação com o mínimo de animais, calculando-se adequadamente o número da amostra a ser utilizada. 5.1 Bioética A bioética surgiu no início dos anos 1970, nos Estados Unidos, a partir de uma publicação do cancerologista Van Rensselaer Potter, em 1971, cujo livro Bioética: Ponte para o Futuro, propiciou a divulgação da Bioética. Rapidamente foi reconhecida internacionalmente, alcançando a Europa e, em seguida, o restante do mundo. A bioética inicialmente teve suas preocupações voltadas para o futuro do planeta, uma bioética global. A partir da constatação de novas descobertas e suas implicações nas pessoas, descobriu-se preocupação em vez de benefícios para a 013 espécie humana e para o futuro da humanidade. Após os horrores da II Guerra Mundial, a humanidade passou a conviver com outros dilemas no campo da tecnologia, do direito e da medicina. A bioética tem suas raízes baseadas em quatro princípios: autonomia, beneficência, não maleficência e justiça. Princípio da Autonomia visa reconhecer o direito de cada qual em decidir acerca da utilização de determinado procedimento ou tratamento médico, livre de gerência ou pressão externa, levando em conta seus valores mais íntimos. Princípio da beneficência é aquele em que qualquer intervenção deve ser direcionada sempre em benefício do seu paciente. Princípio da justiça consiste em promover, dentro do possível, igualitário acesso dos cidadãos aos serviços públicos de saúde de boa qualidade. Princípio da não maleficência assegura que sejam minorados ou evitados danos físicos aos sujeitos da pesquisa ou pacientes. “A discussão bioética nos países do Hemisfério Sul propõe estudar a ética em diferentes situações de vida, ampliando seu campo de influência do âmbito biomédico/biotecnológico até o campo ambiental, passando, pelo campo da bioética social” (Garrafa et al., 2006). Nesse início de século XXI, a questão ética adquire identidade pública na responsabilidade do Estado ante os cidadãos, principalmente aqueles sujeitos às iniquidades, como também na preservação da biodiversidade e do próprio ecossistema. 5.2 Comissão Nacional de Ética em Pesquisa No Brasil, a avaliação das pesquisas que envolvem seres humanos tem início no Código de Deontologia Médica de 1984. Em 1988, o Conselho Nacional de Saúde elaborou a primeira regulamentação de pesquisas em saúde, a Resolução n. 1/1988 do Conselho Nacional de Saúde (CNS). A Resolução CNS n. 1/1988 foi atualizada em 1996 na Resolução CNS n. 196/1996, tornando-se um marco na bioética brasileira. Essa resolução determinou “as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa Envolvendo Seres Humanos, e instituiu a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa – CONEP. O CONEP é vinculado ao Conselho Nacional de Saúde e tem a responsabilidade de coordenação dos Comitês de Ética em Pesquisa no Brasil”. 014 A Resolução n. 466, de dezembro de 2012 (Brasil, 2012), atualizou essas Diretrizes alinhando-as aos documentos internacionais, em especial à Declaração de Helsinque, adotada em 1964, e suas diversas versões, até 2000; o Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, de 1966; o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos, de 1966; a Declaração Universal sobre o Genoma Humano e os Direitos Humanos, de 1997; a Declaração Internacional sobre os Dados Genéticos Humanos, de 2003; e a Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos, de 2004 (CNS, 2012). Os Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) possuem funções de avaliar protocolos de pesquisa envolvendo seres humanos, com prioridade nos temas de relevância pública e de interesse estratégico da agenda de prioridades do Sistema Único de Saúde, com base nos indicadores epidemiológicos, emitindo parecer devidamente justificado, além de desempenhar papel consultivo e educativo em questões de ética. Os CEP vieram para resguardar a integridade e que os direitos dos voluntários participantes sejam garantidos, acompanhar o desenvolvimento da pesquisa e receber denúncias de abusos ou notificação de fatos adversos que possam alterar o curso normal do estudo. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), exigido nas pesquisas envolvendo seres humanos, é em sua essência derivado do princípio da autonomia, que deve ser respeitado antes de qualquer ou participação como voluntário numa pesquisa, mesmo que seja somente com questionário. O respeito devido à dignidade humana exige que toda pesquisa se processe com consentimento livre e esclarecido dos participantes, indivíduos ou grupos que, por si e/ou por seus representantes legais, manifestem a sua anuência à participação na pesquisa. A Resolução n. 466/2012 define que o TCLE como documento no qual é explicitado o consentimento livre e esclarecido do participante e/ou de seu responsável legal, de forma escrita, devendo conter todas as informações necessárias, em linguagem clara e objetiva, de fácil entendimento, para o mais completo esclarecimento sobre a pesquisa a qual se propõe participar. E, o Termo de Assentimento como documento elaborado em linguagem acessível para os menores ou para os legalmente incapazes, por meio do qual, após os participantes da pesquisa serem devidamente esclarecidos, explicitarão sua anuência em participar da pesquisa, sem prejuízo do consentimento de seus responsáveis legais. (Brasil, 2012) 015 No caso de realização de pesquisa com dados secundários, há necessidade da autorização formal da instituição responsável pela informação, sempre respeitando o anonimato. FINALIZANDO A constatação de Kuhlmann Jr. (2015, p. 848) sobre os problemas metodológicos éticos e teóricos de artigoscientíficos submetidos a publicação, perguntamos – como buscar a qualidade e a confiabilidade nas pesquisas? A pesquisa epidemiológica que estudamos nesta aula mostra a importância de entendermos como acontecem as observações e os registros de indivíduos/ populações e a distribuição das doenças no espaço e no tempo. Compreendemos que os fundamentos de pesquisa epidemiológica e os desenhos de estudo epidemiológico devem respeitar as questões éticas e bioéticas, que contemplem o alcance dos objetivos e a conferição da hipótese de pesquisa. 016 REFERÊNCIAS ALMEIDA FILHO, N.; BARRETO, M. L. Epidemiologia & Saúde: fundamentos, métodos, aplicações. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. 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