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UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA
INSTITUTO DE ARTES E DESIGN
DEPARTAMENTO DE ARTES E DESIGN
DISCIPLINA: Estética e Crítica da Arte (ART203)
Profª: Raquel Quinet Pifano
EMENTA:
Estudo da estética e crítica de arte sob uma perspectiva histórica. Fundamentos
filosóficos da antiguidade. Humanismo e o surgimento da teoria da arte. Estética e
crítica de arte na modernidade.
PROGRAMA:
INTRODUÇÃO
I A ANTIGUIDADE
Platão: a crítica da imitação
Aristóteles: as regras da arte
II O HUMANISMO
Alberti: a teoria da arte
Vasari: vida dos pintores
Lomazzo: a representação da Idéia
Bellori: Idéia e natureza
III – O SÉCULO XVIII
O belo clássico: Winckelmann
Lessing: pintura, arte do espaço
IV – A MODERNIDADE
Baudelaire e a modernidade
A pureza dos meios artísticos: Clement Greemberg
Harold Rosenberg e a pintura de ação
Rosalind Krauss e o campo ampliado da arte
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BIBLIOGRAFIA:
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Ed. da UNICAMP, 1992.
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ARGAN, Giuluio0 Carlo; FAGIOLO, Maurizio. Guia de Historia da Arte. Lisboa:
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GUINSBURG, J. (org.) O Classicismo. São Paulo: Perspectiva, 1999.
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Paulo, 1998. (Clássicos; 13)
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PANOFSKY, Erwin. Idea: a evolução do conceito de belo. São Paulo, Martins
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ROSENBERG, Harold. A tradição do novo. São Paulo: Perspectiva, 1974.
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VASARI, Giorgio. Vida dos Artistas. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011. (Edição
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PLATÃO. Fedro. (Tradução Jean Melville). São Paulo: Martin Claret, 2002.
ARISTÓTELES. Arte Poética. (Tradução: Pietro Nassetti). São Paulo: Martin Claret,
2003.
ALBERTI, Leon Batista. Da Pintura. (Trad.: Antônio da Silva Mendonça) Campinas:
Ed. da UNICAMP, 1992 cap. 2 e 3: pp 95 – 140
LICHTENSTEIN, Jacqueline (org.). A Pintura: textos essenciais (14 volumes). São
Paulo: Ed. 34, 2004 (data 1º volume). vol 1: pp 100 – 114; vol 9: pp 19 – 22
LOMAZZO, G. P. Que a beleza é algo espiritual; Do modo de conhecer e de construir
as proporções conforme a beleza. In: PANOFSKY, Erwin. Idea: a evolução do conceito
de belo. [Tradução Paulo Neves] São Paulo: Martins Fontes, 1994. (Coleção Tópicos)
pp. 125 141
BELLORI, Giovanni Pietro. A Idéia do pintor, do escultor e do arquiteto, obtida das
belezas naturais e superior à natureza. In: PANOFSKY, Erwin. Idea: a evolução do
conceito de belo. [Tradução Paulo Neves] São Paulo: Martins Fontes, 1994. (Coleção
Tópicos) pp. 143 – 158
WINCKELMANN, Johann Joachim. Reflexoes Sobre a Arte Antiga. São Paulo:
Movimento, 1975.
LESSING, G. E. Laocoonte ou sobre as fronteiras da pintura e da poesia. São Paulo:
Iluminuras, 1998. pp 8398; pp 193 – 202
BAUDELAIRE, Charles. O pintor da vida moderna. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
GREENBERG, Clement. A pintura moderna. In: BATTCOCK, Gregory (org.). A nova
arte. São Paulo, Perspectiva, 1986. (coleção Debates) pp 95106
ROSENBERG, Harold. Os “Action Painting” americanos; in: A tradição do novo. São
Paulo: Perspectiva, 1974.
KRAUSS, Rosalind E. Escultura no campo ampliado; in: Artes & Ensaios 17. Rio de
Janeiro: PPGAV/EBA/UFRJ, 2008. Pp 128137
KRAUSS, Rosalind. Introdução. In: Caminhos da escultura moderna. São Paulo:
Martins Fontes, 1998. pp17
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INTRODUÇÃOESTÉTICA: A palavra estética vem do grego aesthesis, que significa conhecimento
sensorial ou sensibilidade, e foi adotada pelo filósofo alemão Alexander Baumgarten
(17141762) para nomear o estudo das obras de arte como criação da sensibilidade,
tendo por finalidade o belo. Estética é a área da filosofia que estuda racionalmente o
belo aquilo que desperta a emoção estética por meio da contemplação e o sentimento
que ele suscita nos homens.
HUMANISMO
O Humanismo foi um movimento intelectual que repercutiu profundamente na
formação cultural do ocidente.
O pensamento católico medieval insistiu no tema da miséria e da indignidade do
homem, orientado pela noção de que o pecado marca fundamentalmente a condição
humana, como estigma degradante e que este mundo material é apenas lugar de
perdição ou lugar de penas regeneradoras. Indignidade resultante da Queda e que,
sozinho, o homem não conseguiria superar, necessitando, assim, da ação mediadora da
Igreja, seus clérigos, seus sacramentos. Apesar de contradições internas, como o caso
dos Franciscanos, a tese que prevalece na Idade Média, como concepção “oficial” da
Igreja, é aquela da degradação do homem em decorrência do pecado original e a
natureza como reino da perigosa e tentadora materialidade . 1
Renascimento inverte a imagem homem medieval. O homem se reconhece
afirmado e engrandecido por seu trabalho, como ser que inventa, cria, descobre.
Reconhecese na posse de uma altíssima dignidade, que se expressa nas construções
filosóficas, artísticas científicas. Por isso, o tema da dignidade humana ocupa o centro
do humanismo renascentista. O homem é apresentado como superior a todos os demais
seres da natureza, superioridade que pode ser transformada em excelência quando
equipada com sabedoria e eloquência.
1 Pessanha, José Américo Motta. Humanismo e Pintura; In: Artepensamento. São Paulo: Companhia
das Letras, 1994.
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Na Antigüidade Clássica o conceito de humanitas significava a qualidade que
distingue o homem não apenas dos animais, mas também, e principalmente, daqueles
homens que não merecem o nome de Homo Humanus: o bárbaro ou o indivíduo vulgar
que não respeita valores morais e não tem “cultura” (mistura de erudição e urbanidade) 2
.
Já na Idade Média, o conceito de humanitas é substituído pela idéia de
humanidade como algo oposto à divindade, mais do que à animalidade ou barbarismo.
À idéia de humanidade eram associadas as qualidades de fragilidade e transitoriedade.
No Renascimento, o novo interesse pelo ser humano baseavase tanto na
renovação da antítese clássica entre “humanidade e barbarismo”, quanto na aparição da
antítese medieval entre “humanidade e divindade”. Foi dessa concepção ambivalente de
humanitas que o Humanismo nasceu. Não tanto um movimento, como uma atitude que
pode ser definida como a convicção da dignidade do homem, baseada, ao mesmo
tempo, na insistência sobre os valores humanos (racionalidade e liberdade) e na
aceitação das limitações humanas (falibilidade e fragilidade); daí, resultou dois
postulados: responsabilidade e tolerância.
O Humanismo rejeitou a autoridade, mas respeitou a tradição, algo real e
objetivo que era preciso estudar e, se necessário, reintegrar. A Idade Média aceitou e
desenvolveu mais do que estudou e restaurou a herança do passado. Não tentou
interpretála do ponto de vista histórico. Nenhum homem do medievo poderia ver a
civilização da Antigüidade como um fenômeno completo em si mesmo e historicamente
desligado do mundo de sua época.
Do prisma humanístico, tornouse razoável e até inevitável distinguir, dentro do
campo da criação, entre a esfera da natureza e a esfera da cultura; e definir natureza
com referência à cultura. Natureza foi definida como a totalidade do mundo acessível
aos sentidos, excetuandose os registros deixados pelo homem.
O homem é o único animal que deixa registros, pois é o único animal cujos
produtos “chamam à mente” uma idéia que se distingue da existência material destes.
Esses registros possuem a qualidade de emergir da corrente do tempo e, neste sentido,
são estudadas pelos humanistas. O humanista é um historiador.
2 PANOFSKY, Erwin. A história da arte como disciplina humanística; In: Significado nas artes visuais.
São Paulo: Perspectiva, 1991.
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I A ANTIGUIDADE
I.1 PLATÃO: A CRÍTICA DA IMITAÇÃO
Platão: (428348 a.C.) Atenas
Platão: revelou à humanidade a esfera da transcendência e a possibilidade de construir
um sistema metafísico.
Não há na obra de Platão discurso especificamente dedicado à arte.
O BELO, O BEM E O VERDADEIRO: O belo, para Platão, é o rosto do bem e da
verdade. São três princípios intimamente ligados: nada pode ser considerado belo se não
for verdadeiro; nenhum bem pode existir fora da verdade. Essa tríade é o princípio da
ordem que dá acesso à inteligibilidade e sem a qual o mundo seria apenas caos. Esse
princípio único (e de unicidade) que dá aos seres sua consistência não pode ser
encontrado no diverso, no heterogêneo, no misturado, no sensível, nos fenômenos nem,
evidentemente, na arte tal como é praticada. Só o exercício do intelecto permite
distinguilo.
Um belo corpo, uma bela coisa, uma bela imagem podem dar o impulso necessário à
busca do princípio que governa o universo. Mas em si esse germe nada é caso não seja
seguido de uma 'busca' da verdade, do bem e do belo, as formas ou Idéias que são a
fonte e ao mesmo tempo o fim de toda presença no mundo.
A condenação platônica da pintura pesou de forma considerável sobre toda a história
das artes visuais. O ataque mais violento foi desenvolvido em A república, que leva à
exclusão do pintor e do poeta dramático da cidade. A cidade ideal, aquela onde os
filósofos serão reis ou os reis filósofos, não inclui nem pintores nem autores de teatro.
Com efeito, a pintura só diz respeito à aparência das coisas, não à sua essência. Diz
Platão que ela está afastada da verdade em três graus, uma vez que o pintor imita um
objeto que já é por sua vez uma imitação, uma imagem da Idéia (é o célebre exemplodas três camas: a Idéia da cama, a cama fabricada pelo artesão que contempla a Idéia, e
a cama do pintor que imita a do artesão). Ao mesmo tempo mentirosa e sedutora, a
pintura é portanto uma atividade inútil e perigosa, em todos os pontos semelhante à dos
retóricos e dos sofistas.
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A mimese pictórica, constata Platão, apresenta a particularidade de não ser uma cópia
fiel, uma imagem parecida com a coisa, mas sim um simulacro enganador. Com efeito,
o pintor é forçado a se afastar das proporções reais para produzir uma imagem que
pareça verdadeira, isto é, que dê ao espectador a ilusão de ver a própria coisa.
I.2 ARISTÓTELES: AS REGRAS DA ARTE
Aristóteles: (384 – 322 a. C.) Estagira/ Macedônia
Enquanto Platão busca a verdade em um mundo das idéias, Aristóteles a procura no
plano do contato prático e perceptivo com a realidade.
Tal como seu mestre Platão, Aristóteles também pretende alcançar a
inteligibilidade do mundo, isto é, estabelecer as condições de um conhecimento racional
que vá além das aparências ou do contato imediato com as coisas. Mas, diferentemente
de Platão, Aristóteles não busca atingir esse objetivo por meio da separação entre
aparências sensíveis e idéias inteligíveis, existências contingentes e essências
absolutas; opta por um outro caminho que é o de tentar encontrar o que há de essencial
e de inteligível no próprio âmbito da realidade que nos é dada. Podemos dizer,
simplificando bastante, que Platão busca a verdade em um mundo transcendente (o
mundo das idéias, distinto do mundo sensível) e Aristóteles a procura em uma ordem
imanente ao mundo percebido, isto é, no mesmo plano em que desenvolvemos nosso
contato prático e perceptivo com a realidade.
Essa diferença, decisivamente importante para entender os dois autores e as
vertentes filosóficas a que dão origem, não nos deve fazer esquecer, no entanto, que
ambos consideram que há uma nítida distinção entre o conhecimento sensível e o
intelectual, e que o segundo é hierarquicamente superior ao primeiro. O que Aristóteles
rejeita em Platão é a interpretação dessa diferença como separação e a conseqüente
duplicação da realidade em dois mundos, o que faz do processo de conhecimento uma
ascensão metódica do mundo sensível ao mundo inteligível e, no limite, o abandono dos
conteúdos sensíveis em prol da intuição das formas inteligíveis.
Para Aristóteles, o conhecimento consiste em descobrir no sensível as condições
de sua própria inteligibilidade. Pressupõese, então, que é possível passar de um
primeiro contato com a multiplicidade contingente das coisas percebidas ao
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conhecimento intelectual da ordem e da estrutura, ou seja, é possível transformar a
experiência imediata em compreensão teórica mediada por categorias e princípios que
nos permitem saber não apenas que as coisas existem, mas também como e por que elas
são tais como se apresentam aos nossos sentidos e ao nosso intelecto.
Dentre as condições ou requisitos de inteligibilidade destacase a causalidade:
quando entendemos que a gênese e a estrutura de tudo que existe depende de causas,
atingimos um patamar de ordem e de articulação em que todos os elementos das coisas
tornamse explicáveis.
Entendemos que algo existe porque é feito de uma determinada matéria; que
obedece a uma certa forma; que o fato de algo vir a existir depende de uma ação e de
um agente e que se destina a alguma finalidade. Assim podemos articular a imensa
variedade do real com a unidade intelectual de uma noção que nos permite
compreender a pluralidade e a composição pela unidade e pela simplicidade. Da mesma
maneira compreendemos que a variedade das qualidades que apreendemos nas coisas
articulase em torno da substância ou essência, o atributo principal que confere à
multiplicidade qualitativa, em muitos aspectos acidental e passageira, a unidade de uma
coisa, uma realidade dotada de permanência.
A visão dessa ordem é também o impulso para que procuremos seu princípio e
sua razão de ser, o elemento primeiro que dá origem ao universo dos fenômenos e que
deve ser entendido como Causa na acepção mais elevada, porque sua posição o coloca
como absoluto, isto é, uma existência que deve ser pensada como independente de
qualquer outra condição. Passando assim da Filosofia Natural à Filosofia Primeira,
realizamos o conhecimento no mais alto grau que o ser humano possa alcançar;
realizamos o propósito implicado na Filosofia como amor ao saber ou como o desejo de
saber que anima naturalmente, segundo Aristóteles, todo ser racional.
E por que nos deixamos levar por esse amor e esse desejo? Certamente não nos
move qualquer motivação utilitária; a Filosofia nada acrescenta à nossa prática natural, à
nossa vida estritamente cotidiana. Aristóteles diz mesmo que a filosofia começa quando
já estão estabelecidos os meios de satisfazer as necessidades imediatas.
A questão é que, quando já temos tudo de que aparentemente necessitamos, um
outro desejo nos assola, um outro objeto de amor; e a ele nos dirigimos não movidos por
necessidades práticas, mas simplesmente pela admiração, um estado de ânimo que abre
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a nossa mente para investigar não aquilo de que precisamos, mas aquilo que admiramos
e diante do que nos colocamos como que perplexos e tomados por um sentimento de
ignorância infinitamente maior do que tudo que já sabemos. Tratase de um espanto
proveniente de que sentimos que tudo que sabemos é nada frente ao que há para saber.
A ignorância filosófica é, portanto, o fundamento da liberdade de saber; pois se
trata de um conhecimento que procuramos movidos pela admiração, que é algo como
uma espontaneidade gratuita quando comparado à necessidade, à urgência de saber
aquilo de que precisamos para viver. Quando submetidos à necessidade, somos menos
do que homens, somos escravos; quando movidos pela admiração, quase superamos a
condição humana, pois nos colocamos na via de um saber divino: mesmo que não o
alcancemos, diz Aristóteles, nossa dignidade está em buscálo.
(Franklin Leopoldo e Silva USP)
Da mesma maneira que os gêneros e as espécies biológicas têm seus traços próprios,que podem ser descritos, os gêneros (genos) e espécies (eide) literários têm os seus, que
permitem que sejam reconhecidos. O método de classificação adotado na biologia pode
aqui também servir para distinguir dentro do gênero narrativo a espécie 'tragédia'.
Aristóteles coloca como princípio o fato de a arte fazer parte das atividades humanas,
sem a submeter a um a priori desfavorável.
A arte é, então, 'uma disposição de produzir (poiésis) acompanhada de regras'. Produzir
é "trazer à existência uma das coisas que são suscetíveis de ser ou de não ser e cujo
princípio de existência reside no artista“.. (Ética a Nicômaco)
Nessa ótica, uma produção é julgada por sua conformidade às regras 'verdadeiras' que
foram seguidas. Caso tenha seguido as regras falsas, a produção terá falhado. Nenhuma
pretensão de se comparar a um ideal, de visar à transcendência, que não compete à
atividade produtiva.
O que importa ao teórico da arte (filósofo) é, então, enunciar essas regras verdadeiras e,
diante isso, avaliar os meios e a matéria da produção de acordo com os fins que ela se
dispõe a alcançar. Daí o interesse em classificar os fins e ver como se articulam os
gêneros e as espécies.
Percebese portanto que, dentro do gênero 'discurso', a espécie 'filosofia', por exemplo,
tem como fim a tríade 'bemverdadeirobelo'. A espécie 'retórica', por sua vez, visa
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decerto ao bem, mas já o verdadeiro está um tanto afastado de seu objetivo; é o
verossímil que ela procura na maioria das vezes. Já a história tem em vista o verdadeiro,
mas se preocupa pouco com o bem e o belo. A arte da mimesis também deve ter algum
traço a mais ou a menos por intermédio do qual seus fins se distingam das outras
espécies e a definam. Não se trata nem do bem nem do verdadeiro, mas do verossímil e
do prazer, o que de fato a diferencia de tudo o mais.
Se temos em mente que toda arte é produção acompanhada de regras, compreendemos
de imediato que a mimesis não é cópia de um modelo, pálido decalque da idéia,
afastada da verdade em muitos graus, como era o caso para Platão. Ela é antes de tudo
fabricadora, afirmativa, autônoma. Se ela repete ou imita, o que repete não é um objeto,
mas um processo: a mimesis produz do mesmo modo como a natureza produz, com
meios análogos, com vista a dar existência a um objeto ou a um ser; a diferença se deve
ao fato de que esse objeto será um artefato, que esse ser será um ser de ficção.
O produto de uma ficção é tão real quanto o gerado pela natureza, apenas não pode ser
avaliado de acordo com os mesmos critérios. Para a natureza, os seres que ela produz
são como eles são: ela sabe o que faz, e o faz bem, suas regras de produção são
imanentes. Não acontece a mesma coisa com os seres de ficção; o que é processo
interior na natureza está, no artefato, submetido à exterioridade e, portanto, à
contingência.
O afastamento. Há, pois, um afastamento necessário em toda ficção, pois a produção
não pode ser senão um analogon do processo natural. Como a natureza, a produção
dispõe de elementos, de meios e de um objetivo ou fim: fazer com que, de algum modo,
os objetos ou seres que ela vai produzir possam 'funcionar' no universo para o qual estão
destinados.
Comparação com a História: a história que procura permanecer o mais fiel possível
aos acontecimentos produzidos não manifesta esse afastamento que constitui a essência
da poesia. A história repete o mais exatamente possível, é guiada pela preocupação com
a verdade. A ficção, por sua vez, 'não repete, ela compõe, e sua preocupação é com o
verossímil, não com a verdade.
A mimesis aristotélica em nada se assemelha à cópia de Platão: ela é ativa, tem sua
própria natureza, e não pretende de modo algum mudála para procurar o verdadeiro.
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O afastamento, longe de ser um defeito, é, pois, uma qualidade; melhor: ele é
constitutivo de qualquer atividade artística. Assim, há afastamento na pintura
("Polignoto pintava os homens mais bonitos; Pauson, os menos bonitos"...), mas
também quando se toca flauta, na prosa e no verso (por exemplo "Homero faz os
homens superiores à realidade...").
O que o afastamento anuncia é a possibilidade de as coisas serem diferentes do que
elas são. Em outras palavras, é um universo do possível instaurado pela ficção.
Aristóteles usa a História como contraexemplo: quer seja em verso, quer em prosa,
ela só fala do que já aconteceu, ao passo que a poesia (a ficção) fala do que vai
acontecer, do possível. Com isso, há mais filosofia na ficção pois esta trata do geral, de
uma soma de ações possíveis do que na história, a qual versa apenas sobre o singular, o
particular, e faz a descrição dos acontecimentos (Arte Poética).
tudo o que é possível não é forçosamente acreditável: o possível deve, portanto, ser
'verossímil' para que os espectadores acreditem nele. É então o verossímil que se
encontra no cerne do prazer estético proporcionado pela ficção.
A arte da mimesis poderia caber nesta fórmula: "Devese preferir o impossível
verossímil ao possível inacreditável" (Poética).
O prazer, a catarse fim último dessa produção de ficção, a finalidade da arte: o prazer
que ela proporciona. Como uma atividade se define por seu fim, é na definição da
tragédia (livro 6) que esse fim é evocado. E, como se não pairasse nenhuma dúvida de
que a arte da mimesis busca provocar o prazer, Aristóteles indica apenas de que maneira
esse prazer advém.
Não se trata nem da utilidade, que era um dos critérios de avaliação da arte por Platão,
nem de educação moral, nem sequer de um meio de se aproximar da verdade, mesmo
que de longe. A arte é unicamente voltada para o deleite estético.
Antes de mais nada, tratase de um prazer garantido de ver adornada a natureza tal como
ela nos é apresentada, prazer que coroa qualquer atividade de produção artística. A arte,
com efeito, completa a natureza, ela a engrandece por intermédio dessa grande
quantidade de possibilidades, dessa virtualidade que a ficção acrescenta às coisas comoelas são. Em seguida, o prazer, próprio da arte da mimesis, da tragédia, mais sutil para
ser descrito, que consiste em interromper por um momento as afecções da alma, das
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quais ela padece a maior parte do tempo, tais como o assombro, o medo ou a piedade, e
de que somos cotidianamente acometidos diante do espetáculo das desgraças do mundo.
Experimentar essas emoções ao mesmo tempo não as experimentando verdadeiramente:
tal é o efeito da ficção. As peripécias, os golpes da sorte, as desgraças, os crimes e as
lágrimas dos personagens da tragédia nos comovem, decerto, mas ao mesmo tempo
sabemos que são fictícios: o afastamento desejado pela mimesis age nesse caso sobre
nossos sentimentos como se fosse um remédio, um alívio. O termo catarse um termo
médico que designa depuração do mal (como a purgação alivia o estômago) exprime
com exatidão a ação executada pelo afastamento: devolver, no espaço de um momento,
qualquer destino trágico à sua ilusão.
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II O HUMANISMO
II.1 ALBERTI: A TEORIA DA ARTE
Leon batista Alberti (1404 1472) Itália
grande humanista e um dos maiores artistasteóricos da sua época.
Da Pictura, 1435 (latim), 1436 (italiano); De Statua, 1450; De re aedificatoria 1452.
mérito de Alberti: pela primeira vez, fazer da pintura, escultura e arquitetura objetos
de teoria e doutrina sistematizados; transferiu para a pintura, pela primeira vez,
esquemas abstratos e a noção de retórica.
Alberti construiu um pensamento artístico fundado na geometria e na retórica (e
poética).
inaugurou uma nova compreensão da pintura onde o autor, o pintor, deixou de ser o
simples artesão para ser um culto imitador e recriador da natureza.
No prólogo do tratado Da pintura, , Alberti se refere à cúpula de Santa Maria das
Flores em Florença, obra (ainda inacabada, pois faltavalhe a lanterna) de seu admirado
amigo, Brunelleschi: compreensão da perspectiva.
Afirmar que a cúpula, um objeto arquitetônico, se elevava acima do céu, era
compreender que ela estabelecia um limite visível para o infinito, o céu. A afirmação de
que a cúpula cobre com sua sombra os povos da Toscana, não correspondia somente a
uma figura literária, correspondia a afirmar que aquele objeto representava o espaço em
sua totalidade (perspectiva: invenção do renascimento, método de representação do
espaço)
para Alberti, o objeto de representação da pintura era a história, ou seja, a ação
dramática considerada como a forma mais alta de representação. (Poética aristotélica).
Alberti aplicou à representação artística as categorias da retórica clássica: invenção,
disposição (composição) e elocução (recepção de luz).
reintroduziu na teoria das artes o que chegaria a constituir o conceito central da
estética renascentista, o velho princípio de convenienza ou concinnitas cuja tradução
mais aproximada seria o termo “harmonia”.
Essa doutrina propunha os postulados da seleção estética e racionalização matemática
(compreendendo o princípio de proporção).
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O tratado Da Pintura apresenta o mesmo esquema tripartido da “Arte Poética” de
Horácio. O primeiro livro trata dos rudimentos, o segundo livro trata da pintura e o
terceiro livro trata do pintor.
Os rudimentos referemse à matemática.
Alberti alerta o leitor que escreve não como matemático, mas como pintor; o
compromisso da pintura é com a visão: queremos que as coisas sejam postas bem diante
dos olhos.(Alberti, p.71)
A visão é o fundamento primeiro da teoria matemática da perspectiva: O pintor só se
esforça por representar aquilo que se vê. (Alberti p.71)
distinção aristotélica entre arte e natureza, ars e natura, na divisão do tratado de
Alberti. O primeiro e o segundo livro correspondem especificamente à atividade
artística (no sentido de oposição ao natural) entendida como “estudo”, estudium.
O segundo livro se dedica a ensinar como tornar eloqüente a imagem pictórica,
devolvendolhe assim o poder de contar a história.
seguindo a proposição de que a visão é o fundamento da pintura e por isso esta é a
figuração da natureza, Alberti divide a pintura em conceitos fundamentais:
circunscrição, composição e recepção de luzes.
No elenco das categorias da retórica, disposição é convertida em circunscrição e
composição; e elocução, em recepção de luzes:
“Dividese a pintura em três partes; essa divisão nós a tiramos da própria natureza.
Como a pintura se dedica a representar as coisas vistas, procuremos notar como são
vistas as coisas. Em primeiro lugar, ao ver uma coisa dizemos que ela ocupa um lugar.
Neste ponto, o pintor, descrevendo um espaço, dirá que percorrer uma orla com linha é
uma circunscrição. Logo em seguida, olhando esse espaço, fica sabendo que muitas
superfícies desse corpo visto convêm entre si, e então o artista, marcandoas em seus
lugares, dirá que está fazendo uma composição. Por último, discernimos mais
distintamente as cores e as qualidades das superfícies e, como toda diferença se origina
da luz, com propriedade podemos chamar sua representação de recepção de luzes”. (p.
101)
a circunscrição é o delineamento da coisa vista, é o desenho. A composição referese á
relação de cada objeto visto no conjunto do espaço a ser projetado. E por fim, a
16
17
recepção de luz referese à distribuição do claroescuro e de seus efeitos sobre as
superfícies coloridas de cada objeto visto, assim como no conjunto.
A composição tem papel importante na pintura. Como interseção da geometria e da
retórica, é ela que garante à pintura o poder de representar a história, a grande obra do
pintor.
“Composição é o processo de pintar pelo qual as partes das coisas vistas se ajustam na
pintura. A maior obra do pintor não é um colosso, mas a história. A história
proporciona maior glória ao engenho do que o colosso. Os corpos são parte da
história, os membros são partes dos corpos, a superfície é parte dos membros, portanto
as primeiras partes da pintura são as superfícies. Da composição das superfícies nasce
aquela graça nos corpos a que chamamos beleza. [...] A seguir falaremos dos membros.
Convémsobretudo empenharse para que todos os membros se convenham bem. Serão
convenientes quando o tamanho, o ofício, a espécie, a cor e outras coisas semelhantes
corresponderem a uma beleza”. 107108
a composição da pintura envolve quatro requisitos (tamanho, ofício, espécie e cor)
subordinados à conveniência.
É da conveniência que se obtém a beleza. Aí se encontra o conceito de harmonia tão
caro ao Renascimento.
a analogia entre pintura e poesia: como o discurso do orador, a história ensina, deleita
e move – docere, delectare e movere: “A história comoverá a alma dos espectadores se
os homens nela pintados manifestarem especialmente seu movimento de alma. [...] Mas
os movimentos da alma são conhecidos pelos movimentos do corpo.” (p. 114)
terceiro livro, Alberti trata da formação do pintor. Alberti aconselha os pintores a
companhia dos poetas e oradores:
“A companhia de poetas e oradores traria aos pintores muita satisfação. Eles tem
muitos recursos em comum com os pintores; dotados de vasto conhecimento sobre
muitas coisas, serão de grande ajuda para uma bela composição da história, cujo
maior mérito consiste na invenção que, como veremos costuma ser de tal força que,
mesmo sem a pintura, agrada por si mesma. Não se lê sem louvor a famosa descrição
da Calúnia que Luciano diz ter sido pintada por Apeles. [...] Essa história, se contada,
já agrada, imaginese a graça e o encanto que teria se a víssemos pintada por
Apeles”.(p. 129)
17
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O enunciado ut pictura poesis permeia toda a reflexão sobre pintura de Alberti.
exemplo da história da Calúnia narrada por Luciano, um autor grego desconhecido na
Idade Média, Alberti situa na invenção a afinidade entre pintura e poesia.
um ponto central na arte renascentista e presente na teoria da arte de Alberti é a
imitação da natureza, meio para se apreender a beleza.
Alberti prescreve a observação da natureza, mas recomenda ao artista que a corrija.
Assim expõe os conceitos de imitatio e electio:
“Não se tenha a menor dúvida de que a cabeça e o princípio desta arte, bem como
todas as etapas para se tornar mestre nela, devem ser buscadas na natureza. [...] Todas
essas coisas o pintor dedicado conhecerá pela natureza [...]. E de tudo não apenas lhe
será do agrado aterse à semelhança, mas também acrescentarlhe beleza, porque na
pintura, a formosura, além de ser grata, é uma exigência. [...] Por isso, será útil retirar
de todos os corpos belos as partes mais apreciadas e devemos nos aplicar com empenho
e dedicação para apreender toda a formosura. É verdade que isso é bastante difícil
porque em um só corpo não se encontra a beleza acabada que está dispersa e rara em
muitos corpos.” 131132 3
II.2 VASARI: VIDA DOS PINTORES
Giorgio Vasari: (1511 – 1574) Arezzo/ Italia
As vidas dos mais excelentes pintores, escultores e arquitetos. 1ª publicação em 1550,
republicado em 1568 em edição aumentada.
artista predileto dos Medici.
projeto da obra resulta de sua participação em Roma, em 1543, do círculo de estudos
humanistas do Cardeal Farnese, futuro Paulo II.
Em seus escritos deu atenção para a trajetória de vida, formação e “maneiras” dos
artistas.
Arco edificado por Vasari: Início da perfeição na Antiguidade Clássica – Declínio
com Barbárie maniera greca/bizantina e Idade Média (maniera tedesca) –
Ressurgimento em Cimabue e Giotto – Apogeu em Michelangelo (maniera perfetta).
Sua classificação cronológica é ordenada a partir da ausência de beleza, própria à arte
3 ALBERTI (1992) pp.131132
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bizantina, que representa a infância, à consagração soberana de Miguel Ângelo, símbolo
da maturidade, do progresso e da perfeição.
Para Vasari, todas as artes visuais – arquitetura, escultura e pintura – procedem do
desenho. Jogando com o duplo sentido da palavra disegno, que significa ao mesmo
tempo a concepção e o contorno, o projeto e a execução manual do traçado, Vasari
define desenho segundo dois aspectos, teórico e prático. Expressão sensível da ideia,
fonte da invenção pictórica, o desenho confere à pintura a dignidade de uma atividade
intelectual.
Ao basearse na premissa de que o desenho é mais importante do que a cor, Vasari o
utiliza como critério para avaliar o talento dos artistas e enfatizar a arte florentina, sem
deixar de considerar as normativas do classicismo para julgar as suas obras. Como
Alberti, ele enfatiza a qualidade não só do desenho, mas também a capacidade de
imitação da natureza, mesmo tendo consciência de que a arte pode suplantála.
Uma das principais razões de Vasari para recomendar o estudo cuidadoso da natureza
é porque entendia ser esse o único meio pelo qual o artista poderia atingir um estágio em
que seria capaz de desenhar qualquer coisa de memória com facilidade e sem referência
ao modelo.
“A melhor coisa é desenhar homens e mulheres a partir do nu e assim fixar na
memória por meio do exercício constante os músculos do torso, das costas, dos braços e
dos joelhos, com ossos sob eles. Desse modo se poderá ter certeza de que , graças a
muito estudo, é possível desenhar poses em qualquer postura com a ajuda da
imaginação e sem que se tenha à vista as formas vivas.”
O estudo da natureza não é portanto um fim em si, mas um meio para atingir a
eficiência no desenho executado de memória.
II.3 LOMAZZO: A REPRESENTAÇÃO DA IDÉIA
séc. XVI: dois grupos de maneiristas:
1) Academia del Disegno em Roma (Federico Zuccaro e Giovanni Battista Armenini)
2) Academia della Valle di Bregno em Milão (Lomazzo)
Enquanto para os teóricos do Renascimento, a natureza era a fonte de que toda beleza
derivava, por mais que fosse transformada pela imaginação do artista, para os
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maneiristas, a beleza era algo diretamente instilado na mente do homem pela mente de
Deus, e existia lá independentemente de qualquer impressão dos sentidos.
Gian Paolo Lomazzo: 15381600 Italia
pintor, poeta e teórico lombardo (Milão)
perdeu a visão e dedicouse à redação de vários escritos, entre outros o Trattato della
pittura (1587 – Tratado de Pintura) e a Idea del tempio della pittura (1590 – Idéia dotemplo da pintura)
Idéia do templo da pintura: parte teórica dividese em sete noções que correspondem
aos sete governadores do templo da pintura (Michelangelo, Gaudenzio Ferrari,
Polidoro, Leonardo, Rafael, Mantegna e Ticiano), o qual não é nada menos do que uma
construção cosmológica.
As sete partes da pintura:
1) proporção – proportione
2) movimento moto: movimento, expressão, fisionomia, caráter, paixão.
3) cor – colore
4) luz lume
5) perspectiva – prospettiva
6) composição – compositione (arranjo)
7) forma – forma (iconografia, invenção, vocabulário das formas das coisas)
O exercício da pintura requer um dom natural (la fúria): “Esse dom divino que
acompanha somente aqueles que nasceram com essa arte, isto é, que não a adquiriram
apenas por meio do estudo, mas dela foram dotados pela natureza de maneira
privilegiada.”
Na esteira de Marsílio Ficino, em que se inspira, Lomazzo vê na luz uma “imagem do
espírito divino” que, na pintura, se torna uma “qualidade sem corpo”. (...) os conceitos
de proporção, modo, espécie e forma, que, com Ficino, constituíam um conhecimento
analógico da luz divina, penetram a teoria de Lomazzo até tornar inteligíveis todos os
graus da criação pictórica.
Para o neoplatônico Lomazzo, a beleza é a manifestação visível do bem. A beleza é
uma graça espiritual, uma “certa graça viva e espiritual”, que brota de Deus e surge de
três maneiras: nos anjos, onde forma idéias; na alma, onde é chamada de razão ou
conhecimento; na matéria, onde cria imagens ou forma.
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II.4 BELLORI: IDÉIA E NATUREZA
Giovanni Pietro Bellori: (16131689) Itália
teve contato com pintores da pequena “colônia” francesa em Roma, em particular com
Nicolas Poussin.
Teoria da arte de meados século XVII combatia de um lado, um “modo amaneirado de
pintar”, e por outro, na vertente oposta, o “naturalismo” excessivo de Caravaggio.
Condenase a arte “maneirista” pela ausência de um estudo sistemático da natureza;
resultando em uma arte distanciada do real, não baseada no estudo sério nem na visão
concreta, mas simplesmente na prática e na imaginação.
Condenase o “naturalismo” – Caravaggio, embora imitasse a natureza, por outro lado,
parece ter cometido falta ainda mais imperdoável: pobre de imaginação e privado de
espírito (Bernini), completamente submisso aos modelos tomados na natureza, ele teria
se contentado em reproduzir, sem praticar nenhuma escolha, a aparência sensível e no
entanto defeituosa das coisas: “Um grande tema, mas não um Ideal”, conforme
Scaramuccia.
Definição do termo Maneira na teoria da arte do século XVII e surgimento do
termo “estilo”:
Quanto ao termo "maniera":
Além das declarações de Bellori, temos:
Baldinucci: "em todos os pintores (exceto Miguel Ângelo, Rafael e Andrea del Sarto),
podese entrever às vezes algo desse defeito que chamamos 'maneira' ou modo
'amaneirado' de pintar, e que constitui uma espécie de fraqueza da inteligência e
sobretudo da mão, que deveriam 'obedecer ao verdadeiro";
Marquês de Giustiniani: "O décimo modo de pintar é chamado pintar 'di maniera', o
que significa que o pintor, graças à sua longa prática do desenho e da cor, representa
em sua pintura aquilo que tem em sua imaginação, pautandose por essa própria
imaginação e sem utilizar nenhum modelo...; esse modo de pintar é praticado em nossa
época por Barocci, Romanelli, Passignano e Giuseppe d'Arpino...; vários outros
21
22
pintores serviramse igualmente desse modo para pintar a óleo obras muito belas e
muito dignas de elogio".
Esta definição específica da expressão "maniera", no sentido de uma prática artística
estranha ou exterior à natureza, não foi sua primeira definição (significava somente um
modo de trabalhar). As declarações de Bellori, de Baldinucci e de Giustiniani revelam
que, a partir do século XVII, começouse a dar um sentido próprio e definitivo ao termo
"maniera"; "dipingere di maniera" significa desde então pintar de memória; e é
somente essa profunda emancipação em relação ao modelo natural, mais do que uma
referência qualquer a outros mestres, que caracteriza, segundo os "maneiristas", o
sentido originário da palavra.
É portanto no próprio cerne da teoria do Neoclassicismo que a expressão "maniera",
agora portadora de uma significação específica e encarregada de designar qualquer
criação estranha à natureza, poderia receber o sentido pejorativo que conservou quase
até nossos dias. E a inversão num sentido negativo do conceito de "maniera", que
parece terse realizado no círculo de Bellori (BelIori e Baldinucci usam já
expressamente os qualificativos "vicioso", "defeituoso", "afetado", enfim,
"amaneirado"), explica talvez a necessidade que sentiam os teóricos da arte de encontrar
um outro termo que pudesse designar apenas a maneira artística peculiar às épocas, às
nações e aos indivíduos. É também no círculo de Bellori, que justamente havia dado à
expressão "maniera" um sentido depreciativo, que se começou (o que parece hoje
natural, mas que não o era até a metade do século XVII) a tomar emprestado da poética
e da retórica o termo "estilo" e aplicálo às obras das artes plásticas.
“O estilo constitui uma maneira e uma habilidade particulares de pintar e de
desenhar, que vem do gênio próprio de cada um para realizar e utilizar suas idéias;
esse estilo, essa maneira ou esse gosto provêm da natureza e do talento". (Máximas de
Poussin, reunidas por Bellori)
Quanto ao naturalismo de Caravaggio, Beloria airmava: “é incontestável que
Caravaggio praticou a arte numa época em que, sem grande consideração pela
natureza, o tratamento das formas baseavase apenas na prática e na ‘maneira’,
fazendose mais pelo sentido da beleza do que pelo da verdade” (Belori “A idéia do
pintor, do escultor e do arquiteto...).
Giovani Bellori
22
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Segundo Panofsky, não se trata mais de um artista escrevendo sobre as coisas da arte,
mas de um “crítico de arte” (PANOFSKY, Idea, p102).
Tratado: “Le Vite de Pittori, Scultori et Architetti Modern”, 1672
“A ideia do pintor, do escultor e do Arquiteto, obtida das belezas naturais e superior à
natureza”, umaintrodução de Vidas, é um discurso proferido na Academia Romana de
São Lucas em 1664.
Tratado começa por uma introdução de inspiração neoplatônica. Essa metafísica
neoplatônica atribui ao artista a seguinte missão:
“a exemplo do artista supremo”, o artista deve ter dentro de si a representação da beleza
sem mistura, sobre cujo modelo pode “corrigir” a natureza.
Até aqui, pode ser confundido com Lomazzo. Mas, adiante opera uma ruptura:
a idéia que se encontra no interior do espírito do artista não tem validade metafísica; a
própria idéia artística provém da intuição sensível, mas com a capacidade de
conferirlhe uma forma mais pura e mais sublime: “originada na natureza, supera sua
origem e constitui o original da arte” (Belori).
Assim, após uma partida neoplatônica, a teoria das Idéias de Belori volta a afirmar que
a idéia não reside a priori no homem, mas deriva a posteriori da intuição da natureza.
missão do artista: tendo a beleza em si, “corrigir” a natureza.
Pela 1ª vez dáse a transformação da Idéia em Ideal “originada na natureza, supera
sua origem e constitui o original da arte.”
condenação de Bellori aos naturalistas por não formarem neles próprios absolutamente
nenhuma idéia e, “obedecendo somente ao modelo”, copiarem, sem submetêlos á
crítica, todos os defeitos que apresentam os objetos da natureza.
condenação aos maneiristas: “sem nada conhecer da verdade”, exercem sua arte em
razão de uma simples prática e, desprezando o estudo da natureza, procuram trabalhar
num estilo “amaneirado” ou a partir de uma simples “idéia da imaginação”.
Combatendo os maneiristas e os naturalistas, indicava a salvação num justo equilíbrio
entre esses dois extremos igualmente condenados. Esse justo equilíbrio encontravase
nas obras da arte antiga, considerada como arte “natural” mais do que naturalista,
justamente porque se limitava a uma realidade “depurada” ou “enobrecida”.
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24
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III – O SÉCULO XVIII
III.1 O BELO CLÁSSICO: WINCKELMANN
Tanto o clássico quanto o romântico foram teorizados entre a metade do século XVIII
e a metade do século seguinte: o clássico, sobretudo por Winckelmann e Mengs, o
romântico, pelos defensores do renascimento do Gótico e pelos pensadores e literatos
alemães. (ARGAN, Arte Moderna)
Teorizar períodos históricos significa transpôlos da ordem dos fatos para a ordem das
idéias ou modelos; com efeito é a partir da metade do século XVIII que os tratados e
preceitísticas do Renascimento e do Barroco são substituídos, a um nível teórico mais
elevado, por uma filosofia da arte (estética). (ARGAN, Arte Moderna)
Segundo Venturi, a Historia da Arte segundo os Antigos (17171718) de Winckelmann
foi considerada obra prima e teve profunda influência sobre a estética idealista.
Johan Joachim Winckelmann: (17171768) Stendal, Prússia
Além de ser considerado o fundador da arqueologia moderna, em função de seus
estudos das escavações de Pompéia e Herculano, Winckelmann estabeleceu novos
parâmetros para a história da arte, influenciando todo o seu desenvolvimento posterior.
W: escultura se impõe como caminho mais segura para voltar à fonte pura de Atenas.
Cai o ideal barroco de arte total.
Antes da Renascença a arte é dominada pela, usando uma_expressão da escolástica
medieval, intentio recta: a função criadora do artista tornase anônima diante dos
valores objetivos (as exigências do culto, por exemplo), e a arte é manifestação da glória
divina. Na Renascença, as coisas começam a mudar de figura. Descobrese a arte antiga,
ou se lhe dá ao menos uma nova dimensão, integrandoa ingenuamente no próprio clima
espiritual da época. Põese, por exemplo, um violino nos braços de Apolo e disso
queixase revoltado Winckelmann e o deus grego se torna o espírito protetor das
festas.
Assim, aos poucos, esvaise a integração em um ideal objetivo e introduzse uma
intentio obliqua. Com outras palavras, começase a descobrir sentido na atividade
25
26
criadora do gênio artístico. Surgem as biografias e mesmo as autobiografias. Le Vite de
piu eccellenti pittori scultori ed architettori, de Vasari, é um excelente indício dessa
mudança de acento tônico, pois a biografia do artista começa a imporse como algo tão
ou mais importante do que a própria obra realizada.
Tornase cada vez mais secundário saber o que produz o artista, e sublinhase o como
ele produz. Windkelmann deu nesta orientação, de modo consciente, um passo decisivo.
Quando descreve uma estátua grega, busca um ideal humano que vale por si,
independentemente da estátua; persegue o ideal da “nobre simplicidade e da calma
grandeza". Se os gregos são importantes é porque nos podem ensinar o excelente, nos
podem dar a "visão do elevado e do sublime": a arte adquire uma nova função
educativa, presa ao estético, que passa a ser considerado o alicerce e o caminho para
uma nova sabedoria. Daí a idéia que se introduz de uma dignidade e de uma santidade
próprias do artista.
O conceito de imitação
Winckelmann: "A imitação do belo na natureza concerne ou bem a um objeto único ou
então reúne as notas de diversos objetos particulares e faz delas um único todo. O
primeiro processo implica fazer uma cópia semelhante, um retrato; é o caminho que
conduz às formas e figuras dos holandeses. O segundo é o caminho que leva ao belo
universal e suas imagens ideais; esse foi o seguido pelos gregos".
O que interessa, pois, não está simplesmente na cópia, e sim no eidos, na idéia ou na
forma universal. O sentido da imitação não é naturalista ou realista, mas platônico. O
importante, quando se faz arte, não consiste simplesmente em copiar os antigos, e sim
em pensar como os gregos, em comportarse como eles, exigindo da arte uma missão
semelhante à dos gregos. Só desse modo a imitação pode ser criadora e evitar o impasse
do servilismo.
A educação e o condicionamento geral da cultura grega ofereciam ao artista um tal
esplendor da natureza, que o seu ato criador se processava em condições
excepcionalmente felizes. O entusiasmo de Winckelmann radica precisamente nessa
coincidência entre a natureza e o eidos; assim ele compreende a natureza grega.
2627
A diferença entre o grego e o moderno reside em que, naquele, a natureza já se
apresentava ao artista em seu estado de perfeição, ao passo que para o moderno e aqui
vai implícita uma crítica ao cristianismo a perfeição da natureza perdeuse. Desse
modo, o que para o grego era realizado sem esforço maior, para o moderno deverseia
tornar objeto de uma laboriosa conquista, de um trabalho paciente e teimoso.
Excluise, portanto, a obtusidade da arte entendida como cópia, e acedese ao sentido
de uma frase como a seguinte: "O estudo da natureza deve ser, ao menos para o
conhecimento do belo perfeito, um caminho mais longo e mais penoso que o estudo das
obras da antigüidade". Daí a sua oposição a Bernini, que recomendava o estudo direto
da natureza. Segundo Winckelmann, este caminho é penoso, se não impossível, devido à
deficiência da natureza moderna. Os gregos, pelo contrário, "tinham, quotidianamente, a
ocasião de observar o belo na natureza; uma ocasião que, para nós, não se oferece
todos os dias e raras vezes se mostra tal como o artista a deseja".
Tornase claro, assim, que quando Winckelmann prega a imitação da arte grega, não se
refere simplesmente a uma cópia, mas à captação da natureza em seu estado de
perfeição, o que só pode ser conseguido em nível exemplar através dos gregos. Em
última análise, não se trata de imitar a natureza a isso está confinada a cópia e sim
uma presença na natureza que a transcende. "Estas numerosas ocasiões de observar a
natureza levaram os artistas gregos a ir ainda mais longe: começaram a formar certos
conceitos universais tanto a partir de partes isoladas do corpo, como de suas
proporções de conjunto que se erguiam acima da própria natureza; o seu modelo
original, ideal, era a natureza espiritual concebida tão só pelo entendimento".
O artista realiza uma obra bela, apenas na medida em que o seu trabalho manifesta
sensivelmente o divino na natureza. A arte deve, conseqüentemente, apresentar através
do sensível aquilo que o transcende; tratase, portanto, de fazer coincidir o plano "físico"
da realidade com o metafísico; a arte tem por finalidade um processo recíproco, de
transcendentalizar a imanência e de imanentizar a transcendência.
Essa idéia é expressa por Winckelmann em sua frase mais famosa e que condensa a
sua doutrina: o ideal da arte é "a nobre simplicidade e a calma grandeza". Nesta frase,
contudo, nada é novo. De fato, já na Renascença italiana encontramos a exigência de um
archetypus humanitatis, cujo nervo seria constituído pela sancta simplicitas. Do seicento
italiano, os franceses vão aceitar a idéia de uma simplicité, naturelle, de uma noble
27
28
simplicité, chave para compreender o verdadeiro homem, o verus homo. Shaftesbury
também já falara na accurate simplicity of the ancients. A idéia, portanto, não é nova.
Mais do que italiano, francês ou inglês, o ideal da "nobre simplicidade e calma
grandeza" deve ser entendido como manifestação de uma tendência básica e constante
do Humanismo Ocidental: a crença de que o divino, o digno, o nobre, estão aliados ao
imóvel, ao simples, ao calmo, ao repouso. A primeira expressão vigorosa dessa
estaticidade encontrase no présocrático Xenófanes, quando diz, por exemplo, em um
de seus fragmentos, que "nem é próprio de Deus moverse". O reverso dessa concepção
implica asseverar que a mobilidade está unida à ausência de perfeição, a insuficiência, a
um certo deficit da realidade. O movimento acentua a finitude, está preso ao sentido da
morte e traz consigo até mesmo certa vulgaridade.
A tentativa de transportar o sensível ao divino constituirá a alma daquilo que o
classicismo alemão vai batizar com o nome de "bela alma"; e que implica a suspensão
de todo o conflituoso em uma harmonia superior de “nobre simplicidade e calma
grandeza".
Característica de Winckelmann é a crença de que a "bela alma" encontra o seu modelo
original na Grécia antiga, razão pela qual a imitação dos gregos afiançase como sendo
um caminho insubstituível. "Quem não conhece as obras da antiguidade não creia
saber o que é verdadeiramente belo".
A visão da Grécia defendida por Winckelmann concretizase através de suas análises
de peças da escultura antiga, de modo especial do Laocoonte e, sobretudo, do ApoIo
Belvedere. O grupo do Laocoonte é analisado não como manifestação do patológico
que era a tese de Berníni ou da violência, um estado efêmero e indigno da arte, mas a
partir da idéia do triunfo da alma, de um extremo da dor que se sabe vitoriosa e que, por
isso mesmo, é plenamente compatível com a perenidade do divino. O interesse
principal que oferece, contudo, a análise do Laocoonte é que a calma grandeza não se
confunde para Winckelmann com uma estaticidade morta; a famosa escultura seria a
personificação da vitória da vida, o triunfo da nobreza e da medida sobre a dor e a
imperfeição.
Mas é no Apolo Belvedere que Winckelmann vê a suprema síntese da arte e do
homem gregos, o mais alto ideal antigo e a máxima vitória da divinização do humano.
Diante dessa estátua, o seu comportamento transformase em religioso e ele a descreve
28
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com tal entusiasmo que as suas palavras se tornam um hino. Ergue o Apolo à condição
de critério supremo para compreender a arte grega e inaugura, assim, a visão apolínea
da cultura antiga; contemplandoo, "acreditava ver o próprio deus, tal como aparece aos
mortais". Apolo passa a ser a epifania, a manifestação divina, do sentido último da
Grécia.
III.2 LESSING: PINTURA, ARTE DO ESPAÇO
Gotthold Ephraim Lessing: (17291781) Kamenz, Alemanha
Ut pictura poesis non erit (a pintura não é como a poesia): estas foram palavras de
Diderot no Salão de 1767. Apesar da aparente oposição ao enunciado horaciano sobre a
analogia entre pintura e poesia, Diderot não nega o princípio fundamental daquele
enunciado: a imitação. Diderot partia do princípio de que todas as artes imitavam a
natureza, mas o faziam de acordo com leis próprias. Para o filósofofrancês, a distinção
entre o pintor e o poeta residia no tempo: enquanto o pintor tinha à sua disposição um
único momento, o poeta operava com momentos sucessivos.
Salvo pequenas diferenças, a idéia das diferentes temporalidades da pintura e da poesia
é o fundamento do argumento de Lessing. Podemos apontar como um ponto em comum
entre os estetas do século XVIII a tentativa de aclarar a natureza de cada arte e suas
relações entre si. O “Laocoonte ou sobre as fronteiras da pintura e da poesia” de
Lessing, como explicita o título, foi escrito com a finalidade de demarcar os limites da
pintura e da poesia. Inserido num amplo debate cujo eco se ouvia em toda a Europa,
Lessing abordou questões que “estavam no ar” (palavras de Peter Gay), mas lhe coube o
mérito de sintetizar tais questões e “de ter posto termo ao debate sobre o paralelo entre
as artes.”
Já no Prefácio de sua obra, Lessing procura corrigir aquilo que ele entendia ser uma
interpretação incorreta realizada pela teoria da arte humanista da frase de Simônides, “a
pintura é uma poesia muda e a poesia, uma pintura falante”. Para Lessing, a
semelhança entre a pintura e a poesia anunciada pelos antigos encontravase nos seus
efeitos e não nos meios de obtêlos como concluíram os humanistas. Ancorandose no
29
30
mesmo porto dos humanistas, a autoridade da Antigüidade, Lessing inverte o sentido do
enunciado e defende a diferença entre as duas artes:
Antes, restringindo o dito de Simônides ao efeito das duas artes [pintura e poesia], eles
[os antigos] não se esqueceram de precisar que apesar da completa semelhança desse
efeito, elas [pintura e poesia] ainda assim são diferentes, tanto quanto aos objetos como
também no modo de imitação deles (...). 4
O efeito da arte, fosse pintura ou poesia, era o mesmo, a ilusão estética, mas os meios
de se obtêlos eram específicos ou intransferíveis. Lessing argumentava que a única
garantia de assegurar tal efeito era, ao contrário daquilo que a teoria da arte humanista
pregava, a distinção precisa entre os campos de cada arte. Daí sua condenação à 5
tendência da poesia de descrever e da pintura de fazer alegorias, pois estes não lhes
eram meios próprios.
Concordando tanto com os antigos, quanto com os humanistas que o fim da pintura e
da poesia e o elemento unificador de ambas era a imitação, Lessing as distinguiu
definindo a poesia como arte do tempo e a pintura como arte do espaço. O poeta deveria
imitar a ação, ou seja, objetos que se desdobram no tempo, já o pintor deveria imitar os
corpos, restritos a um momento. Para tal, o poeta deve evitar a prosa e pintor deve evitar
a alegoria.
(...) a pintura utiliza nas suas imitações um meio ou signos totalmente diferentes dos da
poesia; aquela, a saber, figuras e cores, já esta, sons articulados no tempo; (...) são os
corpos com suas qualidades visíveis que constituem o objeto próprio da pintura. (...) as
ações constituem o objeto próprio da poesia. 6
Através da análise do grupo escultórico Laocoonte, datado do século I a.C., Lessing
construiu seu argumento sobre as especificidades da pintura e da poesia. A escultura
representa Laocoonte, filho de Príamo e Hécuba, sufocado junto com seus filhos por
duas gigantescas serpentes. Na verdade, o ponto central da discussão é a cavidade que
corresponde à boca de Laocoonte. Segundo Lessing, se o tema de Laocoonte fosse
narrado exatamente como o fez Virgilio, tal obra seria feia. Para representar o grito, a
boca de Laocoonte teria que estar aberta, mas Laocoonte não grita ele apenas suspira. O
4 LESSING (1998) p. 76
5 SELIGMANNSILVA (1998)
6 LESSING (1998) p. 193
30
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Laocoonte exprime a dor, não à maneira de um poeta ao narrar um episódio de monstros
hediondos, mas sim ao dobrarse às leis específicas de sua arte, sendo a primeira delas a
da beleza. 7
(...) essa dor, eu dizia, exteriorizase no entanto sem nenhuma feiúra na face e em todo
posicionamento. Ele não brada nenhum grito terrível, como Virgílio canta do seu
Laocoonte; a abertura da boca não o permite: tratase muito mais de um gemido
medroso e oprimido (...). 8
Como o belo, para Lessing, era a mais alta lei das artes visuais, Laocoonte não poderia
ser esculpido gritando e com a face contorcida, o que seria visualmente repulsivo. Para
evitar o feio nas artes visuais, os gregos, reduziram a fúria à severidade, à angustia e à
tristeza, e deixaram à cargo da imaginação do espectador completar a impressão que a
arte deve somente sugerir. Esta seria a correta interpretação das concepções artísticas da
Antigüidade. Partindo deste princípio e de que a pintura é uma arte do espaço, Lessing
concebeu o “momento fecundo”:
A pintura pode utilizar apenas um único momento da ação nas suas composições
coexistentes e deve, portanto, escolher o momento mais expressivo a partir do qual
tornase mais compreensivo o que já se passou e o que se seguirá. 9
O momento fecundo era uma concessão à imaginação temporal, sendo uma sugestão
de ações passadas e futuras. Como a pintura (ou escultura) se apresentava de uma só vez
ao espectador, por isso ela ser uma arte do espaço, o seu tempo deveria ser o mais
expressivo o possível, afim de se obter o efeito desejado, o da ilusão estética. Este era o
medium da pintura.
A pintura enquanto imitação poderia exprimir a feiúra, mas não enquanto arte. Sendo
a beleza a maior finalidade da pintura, era ela que qualificava a obra como arte:
(...) eu gostaria que nós reservássemos o nome de obra de arte apenas para aquelas nas
quais o artista pode verdadeiramente mostrarse como artista, nas quais a beleza
constituía a sua primeira e última intenção. Todo o resto onde mostramse de modo por
7 JIMENEZ (1999) p.100
8 LESSING (1998) p. 83
9 LESSING (1998) p. 194
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demais perceptível os traços de convenções de serviço religioso não merece esse nome
porque a arte não era trabalhada aqui por ela mesma, mas antes era um mero meio de
auxílio da religião que vianas representações sensíveis, que ela lhe dava, mais o
significado do que a beleza.
Lessing inverte a fórmula humanista do “ut pictura poesis” sobrepondo o medium da
pintura ao tema. Como demostrou SeligmannSilva em seu estudo introdutório do
Laocoonte de Lessing, foi “graças à valorização da recepção e do elemento material
das artes” que a pintura iniciou seu processo de “autonomização”.
IV – A MODERNIDADE
IV.1 BAUDELAIRE E A MODERNIDADE
Charles Baudelaire: (18211867) França
O Romantismo
Segundo Harold Osborne, a palavra “romântico” firmouse na crítica literária e
artística durante o século XVIII, a partir dos “romances” da Idade Média, referindose à
princípio a algo fantástico e mesmo estranho.
O século XIX vê semelhanças com a Idade Média, principalmente devido à
consciência da formação do Estado que os une. “À descoberta das origens medievais do
Estado moderno seguese imediatamente a descoberta da poesia do tempo dos
cavaleiros e trovadores, divulgada tanto por pesquisas eruditas quanto por edições
populares”.
É no Romantismo, ainda, que temos a identificação entre os termos moderno e
romântico. “A relação da arte com a atualidade é fortemente acentuada: romântico é
aquele que se mostra fiel ao mundo atual”. (COMPAGNON, 1996, p. 22)
– Idéias fundamentais que assumiram nova significação no curso desse movimento:
gênio, imaginação criadora, originalidade, expressão, emoção e sentimento.
O surgimento da estética romântica no século XIX trouxe à tona outra dicotomia:
classicismo e romantismo.
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Delacroix x Ingres (ou romantismo x classicismo)
Em 1824, Eugene Delacroix (17981863) escrevera:
“Penso que é apenas a imaginação ou, melhor, o que vem dar ao mesmo, esta
delicadeza do sentir, que faz ver onde os outros não vêem.” A missão do artista é de
“tirar da sua imaginação os meios de produzir a natureza e as sensações e de as
produzir segundo o seu próprio temperamento.” “Uma mãocheia de ingênua
inspiração é preferível a tudo.” “As mais belas obras de arte são aquelas que exprimem
a mais pura fantasia do artista.” Delacroix exalta “as transgressões de estilo: o
inacabado de Rembrandt, o desmedido de Rubens”.
Admira, naturalmente, a arte antiga, mas opõena à arte neoclássica; entende por
composição a distribuição das massas cromáticas, independentemente do tema. A
subordinação dos pormenores ao conjunto deve ser completo.
A cor, considerada em si mesma, nos seus efeitos, na sua variedade, ocupa sobretudo
Delacroix:
“Sei muito bem que esta qualidade cromática é mais impertinente do que recomendável
junto das escolas modernas que consideram apenas o desenho como qualidade e que a
ele sacrificam tudo o resto.” Confirma a ironia desta verificação estudando a cor, que é,
para ele, o antídoto necessário contra o neoclassicismo, e que é até o elemento essencial
para chegar à imaginação.
Os aspectos da cor são, para ele, infinitos:
“Quanto mais reflito sobre a cor, mais descubro quanto esta meiatinta espelhada é o
princípio que deve dominar, por ser o que de fato dá o verdadeiro tom, a tonalidade que
representa o valor, que é importante no objeto e o faz existir.” As sombras azuis, a
preferência pela sobreposição das tintas, pela síntese das luzes derivadas das tintas, que
substitui a mistura das próprias tintas, o estudo dos diferentes modos de utilizar a cor em
Tiziano, Veronese, Rubens ou Rembrandt: tudo isto era essencial na teoria de Delacroix.
Ao trabalho complexo, apaixonado, sem medida e sem limites, cheio de sensibilidade,
que era o de Delacroix, opõese a tranquilidade, cheia de firmeza, a precisão de lngres
(17801867).
“A principal e mais importante tarefa da pintura é saber o que a natureza produziu de
mais belo e de mais útil a esta arte, para depois fazer uma escolha segundo o gosto e o
sentir dos antigos.
O desenho é a honestidade da arte.
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O desenho engloba tudo, exceto a tinta.
Se tivesse que escrever um dístico sobre a minha porta escreveria: escola de desenho e
estou certo de que formaria pintores.
A cor acrescenta ornamentos à pintura; mas ela é apenas a "aia", pois só ajuda a
realçar as verdadeiras perfeições da arte.
Nada de cores muito brilhantes; é antihistórico. Insistam mais no cinzento do que no
ardente.
Os finos reflexos na sombra ou os que acentuam os contornos são indignos da grandeza
da arte. A dúvida, só por si, é vitupério (insulto) da maravilha dos antigos. Depois de
Fídias e de Rafael não há nada de essencial a encontrar na arte; todavia há sempre
algo a fazer, mesmo depois deles, para manter o culto do verdadeiro e para perpetuar a
tradição do belo.
Baudelaire
Baudelaire foi um dos primeiros a denunciar o pesado academismo de seu tempo.
Ele tem 24 anos quando publica seu primeiro Salão, em 1845. Estamos em plena era
de ouro da imprensa periódica. Da Revue des Deux Mondes [Revista dos Dois Mundos]
à La Presse [A Impressa], passando por L'Artiste ou L'I/lustration, a crítica de arte é um
gênero em expansão e muito em voga.
Nutre grande admiração por Eugene Delacroix. O que Rubens fora para Roger de
Piles, e Chardin para Diderot, Delacroix seria para Baudelaire. Com a diferença de que
nem Rubens nem Chardin precisaram ser defendidos por esses escritores para assegurar
sua glória e obter o reconhecimento oficial, pois já o haviam conquistado. Não se pode
dizer o mesmo de Delacroix. Considerado, desde Os massacres de Seio (1824), o líder
dos românticos, ele vê as obras que apresenta no Salão provocarem sempre conflitos
violentos.
Encarnando a figura moderna do crítico militante, Baudelaire lançase na batalha logo
no primeiro texto sobre o Salão de 1845, que começa com a seguinte frase: "O Sr.
Delacroix é decididamente o pintor mais original dos tempos antigos e modernos". Esse
primeiro texto será seguido por outro bem mais extenso, o do Salão de 1846.
Baudelaire celebra o nascimento de um novo mito, o do artista revolucionário,
inspirado tanto na política como na religião católica. Mártir dos tempos modernos,
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portador de uma grande notícia que os fariseus, inimigos da arte, não podem nemquerem ouvir, e crucificado pelos burgueses, o pintor adquire a dimensão de um
verdadeiro herói cristão adaptado à modernidade.
A cor x o desenho
Da admiração por Rubens à exaltação da pintura de Delacroix, passando pelo elogio da
maquiagem, pela idéia de correspondência ou pelas referências à música, a crítica
baudelairiana desenvolve todos os aspectos de uma estética colorista que culmina na
própria definição do Romantismo, vale dizer, da modernidade.
"Quem diz romantismo", escreve Baudelaire, "diz arte moderna isto é, intimidade,
espiritualidade, cor, aspiração pelo infinito, expressas por todos os meios de que
dispõem as artes. Que há de surpreendente no fato de a cor desempenhar um papel tão
importante na arte moderna? O romantismo é filho do Norte, e o Norte é colorista; os
sonhos e as fantasias são filhos da bruma." (O que é Romantismo? Salão de 1846)
Se Baudelaire distingue nitidamente os desenhistas e os coloristas, está longe de ser
indiferente às qualidades dos primeiros, e a crítica extremamente severa que faz ao
colorido de Ingres não o impede de homenagear o desenho admirável desse artista.
Mas, paradoxalmente, a novidade da análise baudelairiana talvez resida menos no
modo como ele concebe a cor do que na idéia que tem sobre o desenho. Para ele, os
verdadeiros desenhistas são os coloristas: eles desenham "porque colorem". A oposição
entre o desenho e a cor deixou de ser pertinente: na arte moderna, o próprio desenho
nasce da cor.
O pintor da vida moderna (1863)
é um dos textos de estética mais conhecidos de Baudelaire.
dedicado ao aquarelista Constantin Guys (M.G.).
pretexto que permite ao autor desenvolver uma concepção radicalmente nova da arte e
do belo.
Baudelaire, além de inventar a idéia de modernidade, exige da arte que seja moderna,
isto é, que represente as cenas e os atores da vida moderna. Com isso, inventa
simultaneamente o belo moderno, artificial, efêmero, convulsivo, nervoso e transitório.
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A nova Helena do pintorflâneur é uma transeunte, uma imagem fugidia vislumbrada
por um instante no meio da multidão e perdida para sempre.
– nos termos “transitório” e “fugitivo” que caracterizam a época moderna, residem as
inumeráveis rupturas que conferem, provisoriamente, uma coerência original à
modernidade. A beleza não se define somente por sua tendência para o eterno ou o
imutável, ela surge a qualquer momento da realidade mais prosaica do mundo presente.
Baudelaire é considerado como o primeiro a ter definido a modernidade e a têla
experimentado em sua própria criação poética.
Sensível ás rupturas: rupturas com as convenções acadêmicas, com a grande burguesia
negocista, com o poder econômico e político que exige a submissão da ordem estética à
ordem estabelecida.
Baudelaire: idéia de modernidade, idéia presente através da legitimação da
subjetividade e da relação da arte com a sociedade, com seu tempo.
O ponto central da modernidade, desenvolvido de forma precisa por Baudelaire, é a
capacidade de o artista expressar sua própria temporalidade, ou seja, expressar sua
consciência enquanto consciência da vida contemporânea. Ao expressar sua própria
temporalidade, manifestase o sentimento de que os padrões de gosto, os valores
julgados superiores e universais já não se impõem sobre uma produção;
Diferentemente do que acontecia com a arte clássica, que era vista como manifestação
única e servia a uma lei exterior, na modernidade a arte é vista como uma linguagem
que interpreta o estado de uma época. Se a arte clássica tem como base o fato de a idéia
de representação de um modelo implicar a presença do referente, a arte moderna tem
como fundamento a consciência de que a representação do mundo é o resultado da ação
da imaginação sobre seu referencial – o tempo presente;
condena a imitação da natureza.
importância da imaginação.
A especificidade das artes
A estética baudelairiana marca uma ruptura definitiva com a maneira tradicional de
conceber as relações entre as diferentes artes. Quer se trate de pintura, música, escultura
ou literatura, Baudelaire denuncia constantemente as doutrinas que querem abolir as
fronteiras entre as artes.
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Todas as suas críticas se baseiam num mesmo postulado: o da especificidade das artes.
Essa especificidade, reafirmada ao longo de todas as suas análises de modo bastante
insistente, não impede que se estabeleça entre as artes uma outra forma de aproximação,
a que nasce da correspondência.
Ao contrário da comparação clássica, que pressupõe que as diferenças sejam reduzidas
a um critério comum, a correspondência baudelairiana mantém a singularidade
irredutível dos termos comparados, na medida em que se ocupa somente dos efeitos. A
relação que estabelece entre as artes baseiase exclusivamente na analogia dos
sentimentos que elas despertam, nos devaneios que sugerem, nas sensações que
provocam no espectador, no leitor, no ouvinte.
Escreve em seu texto sobre Richard Wagner: "Com freqüência ouvi dizer que a música
não se podia orgulhar de transmitir o que quer que seja com certeza, como o fazem a
palavra ou a pintura. Isso é verdade até certo ponto, mas não é totalmente verdade. Ela
transmite à sua maneira e pelos meios que lhe são próprios... O que seria realmente
surpreendente é que o som não conseguisse sugerir a cor, que as cores não
conseguissem dar a idéia de uma melodia e que o som e a cor fossem impróprios para
transmitir idéias, já que as coisas sempre se exprimiram por uma analogia recíproca
desde o dia em que Deus proclamou o mundo como uma complexa e indivisível
totalidade."
Aos textos voltados para a comparação entre as artes tradicionais pintura, escultura,
literatura e música , acrescentamos o texto de Baudelaire sobre a fotografia. A arte
fotográfica estava passando por uma profunda transformação: novos processos com
vidro e papel haviam sido desenvolvidos e aos poucos suplantariam o daguerreótipo.
Como indica o título de seu artigo, a crítica de Baudelaire trata essencialmente do
problema da recepção. Mas o escritor pressentiu a influência que a invenção da
fotografia iria exercermais tarde sobre a pintura, especialmente "libertandoa" de um
certo ideal de semelhança. Ele percebeu, principalmente, a ruptura radical introduzida
por essa nova espécie de imagem ligada às técnicas industriais.
IV .2 GREEMBERG E A PUREZA DOS MEIOS
Clement Greenberg (1909 1994) Nova York, EUA
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Afirmações como a pintura é “a principal vítima da literatura” ou “a influência
corruptora da literatura” são freqüentes na obra de Clement Greenberg. (Rumo a um
mais novo Laocoonte)
Um dos críticos de arte mais importantes do século XX, segundo JeanPierre Criqui,
ele foi “Ator preponderante e incontornável da arte em geral e mais especificamente da
arte americana a partir de 1940”. (Greenberg, um crítico na história da arte –
entrevista com JeanPierre Criqui; Glória Ferreira)
ferrenha defesa da “pureza” dos meios artísticos.
Já em 1940, em Rumo ao mais novo Laocoonte, um de seus primeiros textos,
Greenberg acusava a pintura dos erros do passado:
“Do ponto de vista do artista, absorto nos problemas de seu meio (...), o purismo é o
extremo de uma reação salutar contra os erros cometidos na pintura e na escultura,
decorrentes dessa confusão nos vários séculos passados.” (Rumo a um mais novo
Laocoonte, p45)
A confusão a que o crítico se refere é a identidade da pintura com a literatura, que
resultou na valorização do tema e impediu a apreciação justa da arte do passado.
– Para Greenberg, uma das grandes contribuições do modernismo foi ter mostrado que
“embora o passado tivesse valorizado esses mestres [Leonardo, Rafael, Ticiano,
Rubens, Rembrandt, ...] com justiça, freqüentemente alegava razões erradas ou
irrelevantes para tal.” (Pintura Modernista, p.108)
A Arte Moderna
Num rápido olhar sobre a trajetória da arte ocidental, podemos caracterizála como um
processo de conquista de um espaço legítimo de saber específico.
Conquista que gerou a inexorável consciência da arte contemporânea de que o
pensamento plástico é indissociável de sua inteligência conceitual. Consciência que
permite a arte transpor as fronteiras entre outros campos de saber, sem que isso gere
qualquer desconfiança quanto à legitimidade de seu saber.
Para tal, foi necessário em um dado momento excluir qualquer afinidade com o campo
do discurso escrito, incluindo aí a poesia, e afirmar a arte como produtora de um
pensamento artístico de comunicação não conceitual – argumento de Greenberg apoiado
em Kant.
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Na verdade, foi a reivindicada analogia entre o campo do visual e o do verbal que
permitiu a “arte do passado” – arte do século XV ao XVIII – incluir a artes visuais na
ordem da razão teórica. Momento em que a literatura se tornou uma espécie de
redentora das artes visuais.
Para se estabelecer como campo de conhecimento legítimo, a pintura moderna (a arte)
renunciou a ser representação do mundo, recusou o ponto de fuga que organizava o
espaço perspectivado da representação pictórica, ou seja, que organizava
hierarquicamente o visível do quadro. Dissociouse da poesia para buscar sua
“identidade” inequívoca: cumprir seu destino planar, realizar sua “pureza”, sua
abstração absoluta, em direção ao espaço bidimensional que não partilha com nenhuma
outra forma de arte (tese de Greenberg).
Voltandose para seus próprios meios, a arte poderia se autoconhecer e conquistar
assim um espaço crítico legítimo.
A arte conquistava assim o reconhecimento externo, ao mesmo tempo que se
autoreconhecia como portadora de uma inteligência própria. Para sustentar sua
diferença diante dos outros campos de Saber, não apenas a Filosofia, mas agora
principalmente a Ciência, a arte precisava afastarse deles e acirrar sua própria
racionalidade. Segundo Brito, a arte moderna surgiu como um saber a mais diante da
razão do século XIX e acabou por chocar pelo excesso de inteligência. (O moderno e o
contemporâneo o novo e o outro novo).
A planaridade
Se Alberti pode ser considerado o grande teórico da perspectiva, método matemático
de representação pictórica que conferia à mimesis pictórica uma estrutura literária,
Greenberg, por sua vez, pode ser considerado o grande teórico da “planaridade”.
“Planaridade” não pode ser definida como um método, o termo indica a exigência de
evidência na pintura de um elemento específico: a superfície plana. Opõese
frontalmente ao espaço perspectivado da Renascença e exclui qualquer possibilidade
narrativa.
Greenberg reconhecia na pintura de Courbet o primeiro embate com a literatura, e
identifica uma nova atenção ao quadro, ao plano da pintura que o crítico chamou de
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“nova planaridade” (flatness). Planaridade que será identificada na obra de Manet,
Picasso e Braque, e “coroada” com Pollock.
Greenberg argumentava que enquanto os antigos mestres se esforçaram em dissimular
os meios (superfície plana, forma dos suportes, propriedades das tintas) da arte para
ocultar a arte, os artistas modernistas, ao contrário, se empenharam em revelar a arte.
(Pintura Modernista)
Aquilo que no passado era um “obstáculo”, a superfície plana da pintura que precisava
ser contornada com a perspectiva, tornouse, na modernidade, seu maior valor.
Greenberg apreciava nas pinturas de Manet a “franqueza com que declaravam as
superfícies planas em que estavam pintadas”. (Pintura Modernista, p. 102)
Em “Rumo a um mais novo Laocoonte”, Greenberg afirma que: “a história da
pintura de vanguarda é a de uma progressiva rendição à resistência de seu meio.”
Para o crítico, a afirmação do meio levou a pintura a recusar a transformar o plano do
quadro em um espaço perspectivorealista. Como tal transformação ocultava o meio
específico da pintura para confundila com a literatura, a evidência do plano
correspondia a recusar não apenas a noção de plano pictórico como plano em projeção,
mas a idéia de pintura como imitação, e portanto da pintura como idêntica à poesia.
Entre a defesa da representação em perspectiva e da “planaridade”, entre a afirmação
da analogia entre pintura e poesia e a recusa da estrutura literária das artes plásticas há
um ponto intermediário: a estética do século XVIII. A tentativa de aclarar a natureza decada arte e suas relações entre si, pode ser indicada como um ponto em comum entre os
estetas do século XVIII.
Greenberg e a modernidade
Vinte anos depois de publicar “Rumo a um mais novo Laocoonte”, Greenberg
publicou “Pintura Modernista”.
Segundo YvesAlain Bois, este artigo “fixou de uma vez por todas (...) o pensamento
de Greenberg.” (As emendas de Greenberg)
Apoiandose na autocrítica Kantiana, Greenberg afirmou que a essência do o
modernismo residia no método de autocrítica, ou seja, a crítica de determinada
disciplina realizarseia a partir de meios específicos que operam no sentido de
entrincheirala em sua área de competência. Tal método estendiase também à arte.
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A modernidade desconfiava da antiga função atribuída à pintura de duplicar a
realidade e ao fazêlo realizar a Unidade. Questionavase a arte enquanto atividade
mimética portadora de uma função de duplicar a realidade.
crise a idéia da arte como representação.
Uma vez questionada a função da arte como meio de conhecimento do real
identificavase aí um limite: segundo Brito, “a arte passava por uma estranha espécie
de conhecimento que não se autoconhecia”. (O moderno e o contemporâneo o novo e
o outro novo)
Para sobreviver, as artes demandaram a “pureza” de seus meios: “pureza’ significava
autodefinição”, afirmou Greenberg. (Pintura Modernista)
“As artes só podiam se preservar (...) demonstrando que o tipo de experiência que
propiciavam era válido em si mesmo e não podia ser obtido a partir de nenhum outro
tipo de atividade. (...) Foi a ênfase conferida à planaridade inelutável da superfície que
permaneceu, porém, mais fundamental do que qualquer outra coisa para os processos
pelos quais a arte pictórica criticouse e definiuse a si mesma no modernismo. Pois só
a planaridade era única e exclusiva da arte pictórica.” (Pintura Modernista, p.103)
Clement Greenberg teve um papel importante na elucidação de algumas questões da
arte moderna.
IV. 3 HAROLD ROSENBERG E A PINTURA DE AÇÃO
Harold Rosenberg: 19061978 (EUA)
em 1959 publicou seleção de artigos sob o título A Tradição do Novo, em 1964
publicou Objeto Ansioso, entre outros.
artigo “Desestetização” publicado pela primeira vez na revista The New Yorker em
janeiro de 1970.
foi um dos críticos mais importantes do Expressionismo Abstrato, batizandoo de
actionpainting em 1952.
"Prefiro atacar a tela não esticada, na parede ou no chão... no chão fico mais à
vontade. Me sinto mais próximo, mais uma parte da pintura, já que desse modo posso
andar em volta dela, trabalhar dos quatro lados, e literalmente estar na pintura...
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Quando estou em minha pintura, não tenho consciência do que estou fazendo." 1947,
Jackson Pollock (1912 1956)
Rosenberg entendeu a tela não como uma superfície sobre a qual se pinta uma
imagem, e sim como uma superfície onde ocorre um evento, uma ação – o encontro
expressionista do pintor com a tela.
em 1952 publicou o ensaio “Os pintores de ação americanos” (republicado em 1959
em A Tradição do Novo)
este ensaio interpretou a nova arte americana ao longo de amplas linhas existenciais.
Segundo Rosemberg, agora os pintores tratam a tela como uma “arena sobre a qual se
age; o que passa para a tela não é uma imagem, mas uma ação/ um evento”.
Rosenberg x Greenberg:
Dentre os contemporâneos de Greenberg, Harold Rosenberg disputa com o crítico a
analise dos fundamentos do Expressionismo Abstrato, assim como a própria etiqueta do
movimento.
Em seu famosos ensaio “Os pintores de ação americanos” (in:A tradição do Novo)
Rosenberg propõe a noção de action painting em oposição ao que Greenberg defendia
como “abstração pictórica”. A discussão é centrada em Pollock:
. Greenberg vê no entrelaçamento das linhas viscosas e fluidas do pintor uma síntese
entre planaridade física da tela e o ilusionismo espacial da pintura.
. Rosenberg parte da ideia de uma reversibilidade entre arte e vida, segundo a qual a
tela não seria dissociada do gesto que a criou.
ao ensaio “Os pintores de ação americanos” (1952) de Rosenberg, Greenberg
responde com “Pintura tipoamericano” (1955). “Action Painting: crise e distorções”
(1961) de Rosenberg e “Abstração póspictórica” (1964) de Greenberg são ensaios que
mostram a extensão das divergências entre os dois autores.
Greenberg vê no Expressionismo Abstrato (ou abstração pictórica, como prefere) uma
afirmação do pictórico em reação ao rigor linear do cubismo sintético. Já Rosenberg,
opondose radicalmente á filosofia da história que perpassa os escritos de Greenberg,
defende a ideia da action paiting de que ele surge como uma arena aberta para a ação
do artista: “O que passa para a tela não é uma imagem, mas um fato, uma ação.”
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A crítica de Greenberg valorizou Pollock acima dos outros pintores, a de Rosenberg
celebrou de Kooning tanto quanto Motherwell e Franz Kline.
Rosenberg acusou de acadêmica a ênfase de Greenberg sobre o caráter histórico do
modernismo. E ao contrário de Greenberg, que via uma continuidade entre a jovem arte
americana e a velha pintura moderna, Rosenberg acreditava que o expressionismo
abstrato tinha produzido uma ruptura radical com tudo que havia sido feito antes ao
tratar a tela de um novo jeito (“uma arena sobra a qual se age”).
Actionpaiting e happening
Rosenberg deixou uma das mais úteis e persuasivas descrições do Expressionismo
Abstrato, mostrando caminho para uma nova compreensão da pintura. Suas formulações
sobre a actionpainting seriam decisivas nas leituras posteriores da obra de Pollock
por artistas como a de Allan Kaprow. Refletindo sobre como artistas como de Kooning
havia transformado a tela numa “uma arena sobra a qual se age”, encorajou uma revisão
do ato de pintar. Em 1958, Allan Kaprow sugeriu que Pollock havia deixado um legado
importante para a arte da performance e, em tempos mais recentes, iria ecoar nas
tentativas de artistas contemporâneos de expandir o meio da pintura para além dos
limites da tradicional tela.
IV.4 ROSALIND KRAUSS E O CAMPO AMPLIADO DA ARTE
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