Prévia do material em texto
E BOOK CRIMINOLOGIA PARA CONCURSOS Professor: Rodolfo Laterza1 1Delegado da Polícia Civil do ES. Mestre em Segurança Pública pela UVV. Coordenador do Curso Avançado de Combate às Organizações Criminosas e à Corrupção, ministrado em 11 Estados. Especialista em Direito Penal, Processo Penal e em Políticas e Gestão em Segurança Pública. Docente em Ensino Policial pelo Instituto de Segurança Pública. Foi Professor de cursos de Graduação e Pós-Graduação e da Academia da Polícia Civil do ES. Presidente da Fed. Nac. dos Delegados de Polícia Civil – FENDEPOL, do Sind. dos Delegados de Polícia do Espírito Santo - SINDEPES e da ADEPOL-ES. Coautor e revisor do livro “Manual do Delegado: Teoria e Prática" - Editora Forense. Coautor do livro “Temas Atuais de Polícia Judiciária". Instagram: rodolfolaterza 2 Sumário CRIMINOLOGIA ............................................................................................................................5 Conceito .......................................................................................................................................5 Teorias Biológicas .........................................................................................................................8 Teorias Psicológicas ......................................................................................................................9 Teorias sociológicas ...................................................................................................................10 Criminologia Ambiental: quando o ambiente influencia o crime ...............................................11 Foco no Meio Ambiente .............................................................................................................11 Mapeamento de Crimes .............................................................................................................12 Identificação de Padrões ............................................................................................................12 Questão Aplicada _____________________________ .........................................................13 Teoria Da Tensão: A Pressão Da Sociedade Para Vencer E A Tensão Decorrente Do Fracasso ..14 Questão Aplicada _____________________________ .........................................................15 O Terrorismo à luz do pensamento criminológico contemporâneo ...........................................16 Questão Aplicada _____________________________ ........................................................19 Teoria da Atividade Rotineira: as oportunidades criadas para o crime a partir de situações específicas ..................................................................................................................................20 Questão Aplicada _____________________________ ............................................................23 Teoria da Associação Diferencial: Edwin Sutherland e o Poder das influências sociais e do processo de aprendizagem ........................................................................................................24 Questão Aplicada _____________________________ ........................................................25 Controle Social Formal: regras e mecanismos de orientação do comportamento em uma sociedade ...................................................................................................................................25 Questão Aplicada ...................................................................................................................26 Teoria da Escolha Racional: quando o criminoso é visto como alguém que age pensando em si e em prol de atingir seus objetivos plenos .................................................................................27 A abordagem da criminologia para o crime estatal ....................................................................30 Questão Aplicada ...................................................................................................................32 A síntese da prevenção criminal para a criminologia .................................................................33 Questão Aplicada ...................................................................................................................33 O tipo ideal genético do positivismo criminológico ...................................................................34 Questão Aplicada ...................................................................................................................35 A correlação entre fatores biológicos e ambientais com o crime: a criminologia biossocial ......36 Introdução ..................................................................................................................................36 Ambiente....................................................................................................................................36 Genética .....................................................................................................................................36 Neurofisiologia ...........................................................................................................................37 3 Psicologia evolutiva ....................................................................................................................37 Aplicações concretas e críticas ...................................................................................................38 Questão Aplicada ...................................................................................................................39 Marxismo e Criminologia: o crime como expressão da luta de classes ......................................39 Questão Aplicada ...................................................................................................................42 O fenômeno da “cifra negra” .....................................................................................................43 Questão Aplicada ...................................................................................................................44 A expressão “cifra negra” ou oculta, refere-se: ...................................................................45 A Escola de Chigago (parte 1): ecologia social e o ambiente como relevâncias conceituais ......46 Histórico .....................................................................................................................................46 Características principais ............................................................................................................46 Críticas e Legado ........................................................................................................................48 Questão Aplicada ...................................................................................................................50 Escola de Chicago (parte 2): principais abordagens teóricas ......................................................50 Questão Aplicada ...................................................................................................................54 A Teoria da não-subordinação como reação à violência de gênero ...........................................54 Questão Aplicada ...................................................................................................................57 Skinheads, Satanistas, Hoolingans: as subculturas de delinquência ..........................................57 Principais estudos teóricos das subculturas ...............................................................................58Questão Aplicada ...................................................................................................................60 O polêmico movimento ‘law and order” ....................................................................................61 Questão Aplicada ...................................................................................................................63 O crime como desobediência a uma decisão política da elite: a teoria do conflito....................64 Tipos de Teoria do Conflito ........................................................................................................65 Significado ..................................................................................................................................65 História .......................................................................................................................................65 Função ........................................................................................................................................66 Efeitos ........................................................................................................................................66 Questão Aplicada ...................................................................................................................67 Lombroso e sua tipologia de criminosos ....................................................................................67 Tipologia de criminosos na definição de Lomboso .....................................................................68 Questão Aplicada ...................................................................................................................68 Garofalo e seus conceitos de “mala in se” e “mala prohibita” ...................................................69 Questão Aplicada ...................................................................................................................70 A TEORIA DA FACILITAÇÃO DA VÍTIMA COMO EXPRESSÃO DA VITIMOLOGIA ...........................71 Questão Aplicada ...................................................................................................................72 4 O crime político na visão da criminologia...................................................................................73 Questão Aplicada ...................................................................................................................75 A prevenção criminal na visão da criminologia ..........................................................................76 Questão Aplicada ...................................................................................................................76 Questão Aplicada ...................................................................................................................78 5 CRIMINOLOGIA O estudo das principais teorias da Criminologia é essencial para que o candidato não seja surpreendido na prova e não perca pontos importantes para sua aprovação. Diversos concursos públicos para a carreira de Delegado de Polícia, Ministério Público e Magistratura exigem conhecimentos cada vez mais intercalados desta disciplina, infelizmente desconsiderada nas universidades. Não deixe de dar relevância a este estudo, pois é uma disciplina pouco enfatizada e cujo conhecimento gera um diferencial ao candidato no momento da aprovação. Ao estudar Criminologia, vale uma dica fundamental: não se baseie em uma abordagem teórica positivista ou de construção doutrinária estritamente jurídico-penal, pois a Criminologia tem uma abordagem multidisciplinar com interpenetração em outras áreas do conhecimento, como a sociologia, a antropologia, a arquitetura, a psicologia, a ciência política e a filosofia. Vale frisar que a criminologia é uma ciência social mais vinculada à Sociologia, não sendo caracterizada como uma ciência social independente. Em relação ao seu objeto — a criminalidade — a criminologia é ciência geral porque cuida dela de um modo geral. No seio da Sociologia e sob sua égide, trata, particularmente, da criminalidade e do criminoso. Conceito A criminologia é o conjunto ordenado de conhecimento empírico do crime , o criminoso , a conduta socialmente desviante e controle de tal conduta e da vítima. Do ponto de vista histórico, o primeiro alvorecer da criminologia é o surgimento da cultura das Iluminações no século XVIII e, em particular, o jurista intelectual italiano CesareBeccaria e seu tratado " Dei delitti e delle pene ". A chamada escola clássica, baseada nos conceitos liberais do direito penal, nasce nesse contexto . Posteriormente, no século XIX , com o desenvolvimento das ciências empíricas ( psicologia , sociologia , antropologia ), nasceu a escola positiva , que se divide em duas direções: o estudo do homem que delineia de acordo com a abordagem médico-biológica da antropologia criminoso ( CesareLombroso ) e o estudo sociológico das condições que favorecem a comissão "diferencial" de crimes de acordo com a classe social a que pertencem. 6 Mais tarde, com a multiplicação da pesquisa e do conhecimento psicológico, a escola positiva assume uma orientação psicopatológica e psiquiátrica . A decepção resultante das expectativas excessivas que se formaram em relação à possibilidade de abordar cientificamente os problemas da criminalidade levará ao surgimento de abordagens de criminologia crítica (de abordagem marxista ) e "anticriminologia", por um lado, e, por outro, ao ressurgimento da escola clássica na área agora chamada "neoclássica": esta na Itália, caracterizada, como é sabido, pela aversão às ciências sociais pelas ideologias politicamente dominantes. No EstadosUnidos e em países de língua Inglês, ao contrário da Itália, Criminologia, desde os anos vinte do século XX , ela se qualifica como principalmente a disciplina sociológica. Em última análise, pode-se dizer que a criminologia constitui o ponto de encontro e o debate de todas as contribuições científicas para o problema do delinquente como pessoa e da criminalidade como fenômeno social, bem como das formas mais adequadas para fins de prevenção , tratamento e controle de crime. A criminologia moderna não pode ser definida, portanto, como uma ciência em sentido estrito, mas como um conjunto de disciplinas definidas por seu objeto comum, o agressor e / ou o crime. Na realidade, está esgotado nas disciplinas que, por diversas razões, lidam com cada objeto de acordo com próprio ponto de vista, tais como a sociologia , a psicologia, a psiquiatria , a biologia , a genética , a Neurociências em geral (embora sua contribuição para a criminologia tenha sido amplamente superestimada), além de o direito penal das ciências normativas e o direito penitenciário . A criminologia é hoje uma disciplina bastante eclética em termos metodológicos , precisamente porque não constitui uma ciência unitária, mas o lugar de aplicação do conhecimento adquirido em vários contextos e pertencendo a diferentes campos disciplinares ao problema do crime . A criminologia tradicionalmente tratou do estudo da personalidade do ofensor, ao qual as principais escolas desenvolvidas no campo psicológico-clínico contribuíram, desde o nascimento da psicologia como ciência no século XIX ( psicologia experimental , antropologia criminal, psicanálise e principaisescolas psicodinâmicas , escolas escolas cognitivistas comportamentais e maisrecentemente cognitivistas , escolas psicológicas, escolas sistêmicas e dinâmicas familiares , estudo da delinquência através dos principais reagentes psicodiagnósticos).7 Também foram importantes as contribuições das escolas sociológicas desenvolvidas principalmente nos Estados Unidos: por um lado, a sociologia da escola de Chicago , com os desenvolvimentos subsequentes ( teoria das associações diferenciais , teoria da subcultura , teorias de estratificação social , até a "criminologia radical"); por outro lado, na sequência da psicologia social de George Herbert Mead , sociologia interacionista e fenomenológica , com as contribuições da teoria da rotulageme o estudo de carreiras criminais. Outras pesquisas investigaram a percepção do fenômeno criminoso e as emoções conectadas (medo do crime) na comunidade em geral. Para obter esses resultados, a criminologia usou técnicas de investigação quantitativa e técnicas qualitativas (atualmente em desenvolvimento após a onda quantitativa dos anos setenta e oitenta do século passado), que estão mais tensas para estudar casos individuais ou profundos pequenos grupos de autores. As metodologias ligadas às escolas interacionistas não devem ser esquecidas . " observação participante ", na qual o estudioso participa diretamente do fenômeno que ele pretende estudar. Do ponto de vista descritivo, criminologia trata tanto de " epidemiologia de grandes crimes, ou seja, a forma como eles se manifestam concretamente: assassinato , estupro , crimes relacionados ao uso de substâncias entorpecentes, crimes económicos e de colarinho branco , crime comum e organizado , terrorismo , etc. tanto as características dos próprios perpetradores quanto a sua maior ou menor propensão a cometer crimes e os fatores de risco relacionados ao comportamento criminoso. A análise epidemiológica da criminalidade mostrou, por exemplo, que a tendência para a ação criminal é muito mais frequente (cerca de dez vezes mais) em homens do que em mulheres e está concentrada em grupos de jovens de 20 a 35 anos. Muitas teorias foram propostas para explicar fenômenos criminais. Eles podem ser divididos em: • teorias neurobiológicas e neuropsicológicas; • teorias psicológicas; • teorias sociológicas. 8 Teorias Biológicas Entre as primeiras teorias biológicas, devemos lembrar os estudos de CesareLombroso sobre o delinquente nascido e sobre o conceito de atavismo , bem como as investigações sobre fatores genéticos, hormonais, psicopatológicos e neurológicos da ação criminal. Posteriormente, várias teorias sobre as origens biológicas da delinquência foram avançadas. Nos últimos anos foi apresentada a teoria do cromossomo Y supranumerário. No patrimônio genético humano normal há dois cromossomos sexuais: XX no caso das fêmeas e XY no caso dos machos. O cromossomo Y é, portanto, aquele que determina a aquisição do sexo masculino. Em vários casos de indivíduos admitidos em asilo criminoso ou presos por crimes graves, observou-se a presença de trissomia XYY , ou seja, a presença de um cromossomo Y adicional. Uma vez que a freqüência estatística da anomalia XYY apareceu bastante elevada entre os sujeitos internados e caracterizada por comportamento violento, pensou-se que essa anomalia poderia estar na base da conduta criminal. De fato, do ponto de vista metodológico , houve um grande problema nesses estudos: não houve comparação com um grupo controle de não internados. Quando este estudo foi realizado, verificou-se que a freqüência dos indivíduos XYY entre os delinquentes não era maior do que a da população geral. Mais tarde, argumentou que os sujeitos que apresentavam essa anomalia estavam presentes em maior número nas instalações da prisão, porque seu maior desenvolvimento em altura e massa muscular os tornou mais visíveis para a polícia que estava operando as prisões. Outro campo amplamente estudado foi o de temperamento (especialmente o conceito de "busca de sensações" por Robert Cloninger ), juntamente com o da relação entre neurotransmissores e agressividade (em particular, pesquisas sobre o metabolismo da serotonina). Posteriormente, no campo da neurociência , novas linhas de pesquisa foram desenvolvidas sobre características genéticas, mesmo que em um contexto profundamente modificado, no contexto dos chamados. " epigenética ", ou seja, o estudo da interação entre genes e características do ambiente que podem ou não estimular o desenvolvimento de comportamentos antissocial ou pro-social. 9 Teorias Psicológicas No campo psicológico, devemos primeiro mencionar as contribuições da psicanálise , como a teoria da culpa-delinquente, que remonta a uma incursão freudiana rara no campo, e a teoria da deficiência do superego, por sua vez, relacionada ao conceito de "policial interno". Neste contexto, devemos também considerar as contribuições da escola Kleinian (em torno dos anos trinta e cinquenta do século passado) e as do famoso psicanalista britânico Donald W. Winnicott, famoso por seu conceito de "tendência antisocial", segundo ele estimulado pela perda precoce do objeto do amor materno, o que levaria à tentativa compensatória composta por atos desviantes e criminosos. Ao mesmo tempo, no campo de pesquisa menos diretamente clínico e experimental, as idéias de Winnicott foram desenvolvidas com a contribuição de Sir John Bowlby , que encontrou em uma primeira fase de sua pesquisa a presença de uma privação materna nos assuntos que seriam tornam-se delinquentes; e depois desenvolveu a teoria do anexo , que também leva em consideração a agressividade e a anti-socialidade, fazendo com que voltem a uma forma particular de apego (anexo desorganizado) trazido pelo autor e seus alunos ( Mary Ainsworth , Mary Main , Peter Fonagy ) a situações traumáticas que produziriam estados dissociativos nos assuntos. As contribuições da derivação comportamental , baseadas no conceito de condicionamento e aquelas ligadas à teoria da "frustração-agressão" de Charles Dollard e Kelly Miller, também foram mencionadas : estudos experimentais mostraram que a frustração (isto é, impedir que um sujeito alcançar um objetivo ou objetivo importante para ele) tende a gerar agressão , que pode ser baixada diretamente na causa ou fonte de frustração, ou indiretamente em outros assuntos, por assim dizer, mais acessível. De acordo com essa teoria, portanto, na base do comportamento criminal, pode haver uma acumulação de agressão pela frustração . Por outro lado, uma série adicional de contribuições destinadas a trazer de volta à psiquiatria os problemas relacionados às ações anti-sociais, que os manuais diagnósticos-estatísticos descrevem de forma exageradamente comportamental e não descritiva das características psíquicas dos criminosos. Deste ponto de vista, destacam- se os nomes de Robert D. Hare , revivendo o conceito de psicopatia , cunhado pelo psiquiatra alemão Kurt Schneider e Otto Kernberg , que por seu treinamento cosmopolita (alemão, chileno, americano ) foi capaz de introduzir o pensamento kleiniano na psicanálise americana e unido entre si, no conceito de "organização 10 de personalidade limítrofe ",as contribuições daprópria psicanálise , psicologia e psiquiatria da era do desenvolvimento . Em particular, as vicissitudes do narcisismo , de acordo com Kernberg , produzem os problemas do comportamento anti-social. Kernberg fala mesmo de um continuum que, no sentido de aumentar a gravidade, do transtorno narcisista (variante da organização borderline ), do narcisismo maligno e da psicopatia ou desordem antissocial propriamente dita, caracterizada pela ausência de uma "boa relação de objeto" internalizada.Teorias sociológicas Finalmente, entre as teorias sociológicas, lembremos de ambientes ou contextos criminais (teorias ecológicas da criminalidade), a teoria das associações diferenciais de Edwin Sutherland ( ver acima ), a das identificações diferenciais , a teoria do conflito cultural , teorias baseadas no conceito de anomia (quanto maior a tendência anômala de uma empresa , maior a freqüência de crimes nessa empresa). O comportamento criminal muitas vezes se manifesta no contexto de subculturas criminosas que transmitem aos valores de seus membros , que revelam a conduta do indivíduo como os da cultura geral não-criminal de que as mesmas subculturas fazem parte. Os sociólogos também destacaram a importância dos processos de estigmatização na formação da identidade criminal e na consolidação de um projeto real de vida desviante. Em outras palavras, às vezes é a mesma reação social desqualificante e marginalizadora contra o desvio e a criminalidade para atuar como fator criminal. A teoria do etiquetamento ( rotulagem ) destaca as consequências negativas do estigma, e é a abordagem básica para o crime juvenil, que se baseia em evitar tanto quanto possível a prisão de menores e a sua consequente exclusão do circuito normais das relações sociais . 11 Criminologia Ambiental: quando o ambiente influencia o crime A criminologia ambiental é um campo crescente de estudo dentro da disciplina de criminologia. Em essência, o termo descreve a relação dos ambientes individuais em que os crimes ocorrem e como eles influenciam ou contribuem para a atividade criminosa e comportamento. Em geral, os criminólogos insistem que há quatro elementos necessários para um crime a ocorrer. Se um desses elementos não estiver presente, então nenhum crime ocorreu. ✓ Lei: Primeiro, deve haver uma lei a ser quebrada. Se a atividade não é ilegal, então, obviamente, não pode ser criminoso. ✓ Ofensor: Em segundo lugar, alguém deve ter violado a lei. Se não há nenhum ofensor, não há crime. ✓ Vítima ou Alvo: Terceiro, para que um ato seja criminoso, deve haver uma vítima. Nos supostos crimes "sem vítimas", diz-se que o estado ou comunidade como um todo é vítima por causa dos problemas que se acredita serem resultado do comportamento. ✓ Lugar: Em quarto lugar, a atividade ou comportamento deve ter ocorrido em um lugar. Não pode haver crime no vácuo Foco no Meio Ambiente Para os criminologistas ambientais, o quarto elemento, o lugar, é o foco principal de seus estudos. Este campo de estudo começou a se desenvolver no início dos anos 80 e foca nos fatores ambientais como determinantes para o surgimento do crime como fenômeno social, posto que eles acreditam que podem levar a influenciar o crime em suas etapas de execução e ao comportamento criminoso quanto a suas condições de emergência e surgimento. Ao estudar o lugar, os criminologistas ambientais não se concentram tanto na localização geográfica, mas nos elementos ambientais de natureza urbana que e apresentam no local, como as condições de iluminação, o estado de reparação ou de degradação que os edifícios podem expor, bem como outras condições de vizinhança. 12 A criminologia ambiental examinaportanto dados como a hora e o local dos crimes, a fim de ajudar os agentes da lei a entender melhor onde os crimes estão ocorrendo. Isso ajuda os policiais a concentrar suas patrulhas, a fim de tomar uma abordagem mais preventiva para a resolução de crimes, em oposição a uma abordagem reativa. Desta forma, a criminologia ambiental é complementar ao policiamento orientado para a comunidade. Mapeamento de Crimes Um dos reflexos práticos mais notórios da criminologia ambiental é o mapa do crime. Sem dúvida, quem já viu programas de televisão ou filmes, ou talvez tenha ido até um centro de comando e controle de alguma Secretaria de Segurança Pública viu um grande mapa afixado em uma parede com pinos e outras marcas nele (atualmente são digitalizados e totalmente informatizados). Esses pinos ou marcas indicam áreas onde ocorreram crimes e são um exemplo muito básico do que os criminologistas chamam de "mapeamento do crime". Os criminologistas ambientais levam em extrema consideração este mapeamento, debruçando-se sobre os dados para procurar padrões. Identificação de Padrões O objetivo final é usar todos os padrões que localizados para ajudar a identificar as causas originárias dos crimes e ajudar a desenvolver soluções viáveis para o problema. Por exemplo, se um grande número de roubos está ocorrendo em um local específico em um momento específico, criminologistas ambientais vão querer olhar para esse local naquele momento para determinar quais os fatores contribuintes podem ser os mais notórios. Para os criminologistas ambientais, vige o pensamento de que as pessoas agem de acordo com o que elas percebem como as normas sociais de seu ambiente. Como reflexo político-criminal da Criminologia Ambiental, a "Teoria das Janelas Quebradas" sugere que o estado físico e visível dos edifícios, gramados, casas e empresas 13 fornecem pistas importantes sobre como as pessoas se comportam nessa área. A idéia é que quanto mais janelas quebradas houver no bairro, maior a probabilidade de haver crime na área. Questão Aplicada A Criminologia Ambiental se tornou um dos principais focos de estudos da Criminologia Moderna. Assinale a alternativa incorreta quanto a sua concepção dogmática desse campo de estudo: A A teoria das janelas quebradas é um desdobramento de seu estudo. B O local do crime é o foco essencial na análise das causas do crime. C A localização geográfica do criminoso e do fato em si são aspectos determinantes de análise para esta teoria. D São considerados como elementos relevantes de análise fatores urbanos como as condições da vizinhança, o estado das estruturas de iluminação pública e o estado de degradação dos edifícios do local. E Para este vertente da criminologia, o mapeamento de crime pelas forças de segurança se torna relevante para a prevenção e repressão aos comportamentos delituosos. A transformação de um perfil delinqüente decorre da predominância de um conjunto de fatores favoráveis à violação da lei em detrimento de sua observância. RESPOSTA: No caso da questão acima, a alternativa “c” está errada ao inferir que a localização geográfica é um aspecto determinante a ser considerado na Criminologia Ambiental, pois é justamente a conjunção de elementos presentes no local de crime como as características da vizinhança, a iluminação pública, o nível de reparação dos edifícios que influenciam os fatores causais do crime mais que a localização em si da área. Todas as demais alternativas correspondem ao que aborda esta vertente da Criminologia. GABARITO: letra “c”. 14 Teoria Da Tensão: A Pressão Da Sociedade Para Vencer E A Tensão Decorrente Do Fracasso O conceito de teoria da tensão ganha bastante relevância no estudo da criminologia a partir dos anos 70. Acaba sendo necessária sua compreensão, porque muitas questões de concurso público exploram a influência da pobreza e da baixa escolaridade nas respostas, usando do senso comum que jornalistas em geral exploram na formação de uma opinião vaga sobre as causas da criminalidade. Dada a profundidade do tema, faremos a explicação de modo único, para fins puramente didáticos. A teoria da tensão é uma teoria da sociologia e da criminologia desenvolvida em 1938 por Robert K. Merton. A teoria afirma que a sociedade exerce pressão sobre osindivíduos para alcançar objetivos socialmente aceitos (como o sonho americano), embora eles não tenham muitas vezes os meios para tal, o que leva a uma situação de tensão que pode levar os indivíduos a cometer crimes. Exemplos disso são a venda de drogas ou o envolvimento na prostituição para ganhar segurança financeira. A estirpe desta teoria pode ser: ✓ Estrutural: refere-se aos processos a nível societário que filtram e afetam o modo como o indivíduo percebe as suas necessidades, isto é, se certas estruturas sociais são inerentemente inadequadas ou se há regulação inadequada, isso pode alterar as percepções do indivíduo quanto aos meios e oportunidades; ✓ Individual: refere-se às fricções e dores experimentadas por um indivíduo à medida que procura formas de satisfazer as suas necessidades, ou seja, se os objetivos de uma sociedade se tornam significativos para um indivíduo, efetivamente consegui-los pode ser mais importante do que os meios adotados para atingir tai fins, o que leva a transgressões diversas. Robert King Merton argumentou que a sociedade pode incentivar o desvio em grande medida. Merton acreditava que os objetivos socialmente aceitos pressionavam as pessoas a se conformarem. As pessoas são forçadas a trabalhar dentro do sistema ou tornar-se membros de uma subcultura desviante para alcançar a meta desejada. Merton continuou a dizer quando os indivíduos são confrontados com uma lacuna entre seus objetivos (geralmente finanças / dinheiro relacionado) e seu status atual, a tensão ocorre. Quando confrontados com a tensão, as pessoas têm cinco maneiras de se adaptar: ✓ Conformidade: perseguir metas culturais através de meios socialmente aprovados. 15 ✓ Inovação: usando meios socialmente não aprovados ou não convencionais para obter metas culturalmente aprovadas. Exemplo: lidar com drogas ou roubar para alcançar segurança financeira. ✓ Ritualismo: usar os mesmos meios socialmente aprovados para atingir metas menos elusivas (mais modestas e humildes). Ocorre com aqueles que compram em um sistema de meios socialmente aprovados, mas perdem de vista os objetivos. Merton acreditava que os usuários de drogas estão nesta categoria ✓ Retreatismo: rejeitar os objetivos culturais e socialmente aprovados , bem como os meios para obtê-lo, encontrando assim uma maneira de escapar dele. ✓ Rebelião: rejeitar os objetivos e os meios culturais, trabalhando para substituí-los. As pessoas negam objetivos e meios socialmente aprovados criando um novo sistema de metas e meios aceitáveis para sua realidade, muitas vezes a partir de transgressões e práticas antissociais. ✓ Em seus estudos, observou que existem caminhos institucionalizados para o sucesso na sociedade. A teoria da tensão sustenta que o crime é causado pela dificuldade que aqueles em pobreza têm em conseguir objetivos socialmente avaliados por meios legítimos. Um de suas ênfases está no argumento de que aqueles que têm, por exemplo, uma escolaridade pobre têm dificuldade em obter riqueza e status ao obterem um emprego bem remunerado, sendo, pois, mais propensos a usar meios criminosos para alcançar esses objetivos. Crítica Uma dificuldade com a teoria da tensão é que ela não explora por que as crianças de famílias de baixa renda teriam escolaridade pobre em primeiro lugar. Mais importante ainda é o fato de que muitos crimes juvenis não têm uma motivação econômica. A teoria da tensão não, portanto, explica o crime violento, o tipo de crime juvenil que causa mais ansiedade para o público. Questão Aplicada A respeito da teoria da tensão e sua influência no surgimento da criminalidade, assinale a alternativa incorreta. 16 A O crime surge em função da dificuldade de pessoas inseridas em um contexto de pobreza de atingir objetivos socialmente legítimos. B Uma baixa escolaridade de uma pessoa a torna propensa a usar meios ilegais para atingir objetivos profissionais quando adquire certo nível social e profissional. C Indivíduos que negam meios socialmente aceitáveis criam um sistema com objetivos e metas aceitáveis em sua realidade. D Para esta teoria, a baixa escolaridade determina crimes violentos no seio da juventude. E O crime emerge em uma dissociação entre a aquisição de algo por meios socialmente legítimos e os objetivos alcançados, como no caso do tráfico de drogas. RESPOSTA: A única alternativa correta é a letra “d”, pois esta teoria justamente não explica o surgimento de crimes violentos em segmentos sociais não necessariamente pobres ou de baixa escolaridade. As demais alternativas se apresentam como características desta teoria. GABARITO: letra “d”. O Terrorismo à luz do pensamento criminológico contemporâneo O estudo do terrorismo conexo à criminologia moderna está ganhando cada vez mais relevância, face a atualidade do tema e as inúmeras abordagens teóricas usadas pela Criminologia Moderna para estudá-lo. Diante da atualidade do tema, esta questão ganha importante relevância e ainda servirá como meio de revisão de algumas teorias já estudadas nos módulos anteriores. Para melhor compreensão, faremos a explicação de modo único. Em geral, as ciências sociais contêm uma série de explicações sobre o terrorismo. Mais especificamente, no entanto, nem todas as disciplinas das ciências sociais contêm perspectivas igualmente bem desenvolvidas do estudo do terrorismo. Em particular, as elucidações criminológicas do terrorismo são menos desenvolvidas do que os esclarecimentos oferecidos em outras disciplinas de ciências sociais, como a ciência política e a história Tipicamente, os criminologistas se baseiam em algumas teorias gerais da violência para gerar hipóteses sobre o terrorismo. Geralmente, as hipóteses são 17 extraídas da privação relativa ou de teorias subculturais da violência (papel das idéias em causar comportamentos terroristas / ilícitos). A privação relativa tem sido usada na literatura para expressar situações em que os cidadãos através de medidas de padrões econômicos, políticos ou sociais mantiveram sentimentos de privação quando equilibrados com outros cidadãos em seus postos comparáveis na sociedade . De fato, a frustração gerada por sentimentos de privação relativa tem sido representada como um antecedente provável de violência política, como terrorismo, desrespeitos políticos e movimentos sociais. Deve-se enfatizar que os criminologistas estão fazendo contribuições importantes para a literatura do terrorismo, recorrendo a outras teorias, mesmo as de outras disciplinas no estudo do crime e do terrorismo. Por exemplo, Laqueur (1999)2 aludiu a este ponto quando observa que o estudo do terrorismo, bem como o foco criminológico no crime, tem sido amplamente interdisciplinar. Laqueur (1999) insiste ainda que este foco interdisciplinar estimulou a pesquisa e empurrou o estudo do terrorismo e do crime para além dos limites de uma única disciplina. Na sua explicação sobre o terrorismo, a criminologia ainda não abraçou questões históricas como o colonialismo, o imperialismo e o neocolonialismo como sistemas de dominância econômica, política, social e cultural. Essas questões são fundamentais na busca da criminologia para fornecer explicações sobre o terrorismo e articular contramedidas importantes contra ele. Na verdade, como resultado do reconhecimento de que as pessoas econômicas, políticas, sociais e culturalmente colonizadas (dominadas e controladas) têm a capacidade de adotar o uso da força ou de encetar lutas armadas em suas tentativas de alcançar ou alcançar a libertação, o terrorismo internacional pode surgir como força de subversão. Por outro lado, osEstados podem usar o terrorismo oficial para manter seus interesses econômicos, políticos, sociais e culturais vitais sobre as sociedades dominadas ou oprimidas para manter o poder e a influência. O terrorismo, portanto, tem duas faces. Uma representa indivíduos e grupos dentro de uma nação que estão tentando manter seus recursos econômicos e manter a independência; a outra reflete o interesse dos Estados, que querem dominar e controlar as vidas dos subjugados. Cada esfera adota o terrorismo para alcançar a libertação através da ação política. Durante a Guerra Fria, para combater a opressão colonial, os movimentos de resistência praticavam por vezes ações terroristas como meio de alcançar visibilidade internacional na tentativa de serem ouvidos. Alguns também adotam táticas e estratégias terroristas para alcançar seu lugar político e econômico na distribuição econômica mundial. Em contrapartida, os poderes que detêm a chave para a economia mundial 2Walter Laqueur, The New Terrorism: FanaticismandtheArmsof Mass Destruction, Oxford University Press, US, 1999 18 podem combater o terrorismo, resultando nos dois rostos do terrorismo. É também através da violência que as massas podem ser suprimidas. As teorias prévias do crime e da violência não se concentraram nas estruturas do colonialismo, imperialismo e neocolonialismo. No entanto, algumas das perspectivas existentes sobre criminalidade e justiça estão inseridas em implicações não desenvolvidas para o terrorismo. Os pesquisadores biológicos do terrorismo acreditam que indivíduos envolvidos na natureza cíclica da violência caracterizam-se por desequilíbrios hormonais e variações neuroquímicas em suas funções cerebrais (Hubbard 1993). Eles afirmam que os terroristas têm níveis anormais de compostos de norepinefrina, acetilcolina e endorfinas na química corporal ( Hubbard 1993)3. Eles também observam que a norepinefrina está mais intimamente associada com o terrorismo do que os outros compostos, porque trata de vôo ou luta (um estado de excitação sob o estresse em que os órgãos operam mais proficientemente) na química do corpo individual. A aceitação do vínculo com doença mental do terrorismo centra-se na premissa de que indivíduos doentios não observam regras e regulamentos estabelecidos pela sociedade, são erráticos e são incapazes de controlar suas emoções. Tendo em vista que eles estão dispostos a agir de forma irracional em qualquer momento, as pessoas loucas são, portanto, potencialmente perigosas. Se também assumimos que as pessoas que cometem atos violentos estão loucas e doentes, também estamos supondo a visão de que os doentes mentais são inseguros e os indivíduos que cometem atos bizarros são psicologicamente indispostos. Alguns estudiosos argumentaram que a relativa impotência é um fator estrutural significativo associado à evolução dos padrões de comportamento que os atores poderosos podem definir como criminosos, incluindo atos de violência terroristas. Em seu livro, The Social Reality of Crime, Quinney (1970) insiste em que o crime é uma definição de conduta humana que é criada por agentes autorizados em uma sociedade politicamente organizada. A visão de que existe um preconceito na definição criminológica do crime , que favorece apenas os ricos e castiga os pobres também foi expressado por Chambliss (1999)4. Ele afirma que o foco da criminologia tradicional em crimes predatórios é o favoritismo da classe média da disciplina. Assim, junto com agências de aplicação da lei e políticos, os criminologistas de tendência de classe média refletem o viés da classe média em seus próprios contextos sociais. Apesar de uma preponderância de evidência da 3Hubbard, R. S., & Power, B. M. (1993). Finding and framing a research question. In L. Patterson, C. M. Santa, K. G. Short, & K. Smith (Eds.), Teachers are researchers: Reflection and action (pp. 19-25). Newark, DE: International Reading Association. 4Power, Politics, and Crime. Contributors: William J. Chambliss - Author. Publisher: Westview Press. Place of publication: Boulder, CO. Publication year: 1999. 19 frequência e seriedade dos crimes de colarinho branco, corporativo e estadual, os criminologistas da classe média continuam acreditando que os "problemas reais do crime" são os crimes que são desproporcionalmente (embora não exclusivamente) cometidos por membros do menor escalão da sociedade, tais como roubo, roubo, assassinato, estupro e roubo. Além disso, a teoria da privação relativa não é principalmente uma teoria do crime, mas pode ser usada para explicar o comportamento terrorista em um ambiente urbano (Shelley, 1985). A privação relativa ocorre em sociedades industrializadas, onde homens jovens de classe baixa ou minorias étnicas se sentem economicamente discriminados. Também pode existir nas sociedades em desenvolvimento, onde novos residentes metropolitanos procuram adquirir bens materiais que nunca foram disponibilizados para eles devido a políticas externas e internas que negaram seu orgulho humano Portanto, a privação relativa combina a desigualdade econômica com os sentimentos de ressentimento e injustiça entre os grupos que têm menos em tais sociedades. Isso foi demonstrado com os terroristas suicidas palestinos, onde tais sentimentos de ressentimento caracterizados pela pobreza e desigualdade podem levar a atos terroristas de violência. A criminologia precisa de novas ideias e perspectivas que incentivem a diversidade no estudo da criminalidade e do terrorismo. Como revela esta breve revisão da história e das teorias do terrorismo, a criminologia oferece uma visão monolítica que tipicamente obstrui seu objeto de estudo a partir do contexto em que está enredado. A criminologia deve fornecer um contexto apropriado no qual o terrorismo pode ser situado e compreendido. Questão Aplicada O terrorismo um fenômeno complexo com profundas implicações na definição de estratégias de controle e no direcionamento de uma Política Criminal sob certa abordagem, também com influência sobre as esferas econômicas, sociais e culturais de uma sociedade. Assinale a alternativa incorreta quanto aos fatores causais do comportamento terrorista estudados pela criminologia moderna: a) A privação relativa e as subculturas de violência são consideradas como fontes causais do comportamento terrorista. b) Estados podem usar estruturas institucionais para promover terrorismo como meio de manutenção de equilíbrio de poder e continuidade de um sistema de dominância social, econômica, política ou cultural. 20 c) O terrorismo não é considerado um método tático ou estratégico de conflito entre sistemas estatais antagônicos, por caracterizar violação a ordem constitucional e a todo um sistema de normas de direito internacional que regem os Estados Modernos. d) Pesquisadores biológicos consideram que terroristas usualmente sofrem de desequilíbrios hormonais ou variações neuroquímicas em suas funções cerebrais. e) Terrorismo pode ser característico de indivíduos com doenças mentais que os tornem incapazes de atender a regras sistematizadas em uma ordem jurídica- política e de controlar suas emoções em um contexto de dificuldade de integração pessoal em dada comunidade. RESPOSTA: No caso da questão acima, a alternativa “c” está errada ao inferir os Estado não utilizam o terrorismo como método de projeção de poder ou de alcance de objetivos políticos, na medida em que o que se verifica é justamente o contrário em tempos modernos, os quais estratégias de guerra híbridacombinam ações ilegais de subversão e de terrorismo patrocinados por instituições estatais, independentemente de limites de ordem constitucional ou legal. As demais alternativas são abordagens adotadas pela Criminologia moderna. Teoria da Atividade Rotineira: as oportunidades criadas para o crime a partir de situações específicas O estudo da teoria da atividade rotineira é relevante pra se compreender como o crime de desenvolve por contextos situacionais propícios não atrelados a elementos de ordem econômica e social puramente. Dada a profundidade do tema, faremos a explicação de modo único, para fins puramente didáticos. A teoria da atividade de rotina é um sub-campo da teoria da oportunidade do crime que se concentra em situações de crimes. Foi desenvolvido por Marcus Felson e Lawrence E. Cohen. A premissa da teoria da atividade rotineira é que o crime não é afetado por causas sociais como pobreza, desigualdade e desemprego. Por exemplo, após a Segunda Guerra Mundial, a economia dos países ocidentais estava crescendo e os estados 21 de bem-estar estavam se expandindo. Apesar disso, o crime aumentou significativamente durante esse período. De acordo com Felson e Cohen, o motivo do aumento é que a prosperidade da sociedade contemporânea oferece mais oportunidades de crime; ou seja, há muito mais para roubar. A teoria da atividade de rotina é controversa entre os sociólogos que acreditam nas causas sociais do crime. Mas vários tipos de crime são muito bem explicados pela teoria da atividade de rotina. Por exemplo, violação de direitos autorais relacionada ao compartilhamento de arquivos digitais; desvios de recursos públicos por servidores bem qualificados; os distintos tipos de crime corporativo. Os infratores motivados são indivíduos que não são apenas capazes de cometer atividades criminosas, mas estão dispostos a fazê-lo. Alvos adequados podem ser uma pessoa ou objeto que os infratores consideram vulneráveis ou particularmente atraentes. Os fatores que tornam atraente um determinado alvo são específicos da situação e do crime. O foco analítico das atividades de rotina tem uma visão em nível macro e enfatiza as mudanças em grande escala nos padrões de comportamento da vítima e do agressor. Ele se concentra em eventos específicos de criminalidade e comportamentos / decisões dos infratores. A teoria da atividade de rotina baseia-se no pressuposto de que o crime pode ser cometido por qualquer pessoa que tenha a oportunidade. A teoria também afirma que as vítimas recebem escolhas sobre se devem ser vítimas principalmente por não se colocarem em situações em que um crime pode ser cometido contra elas. Como exemplos desta análise, citemos os estudos em que Holtfreter, Reisig e Pratt [1] encontraram apoio para a premissa de que a falta de autocontrole produz resultados de vitimização. Os seus estudos demonstraram que os indivíduos com baixo autocontrole perceberam um risco aumentado, mas demonstraram uma diminuição nas estratégias projetadas para proteger e / ou evitar a vitimização na Internet. Os teóricos Marcus Felson e Lawrence E. Cohen [7] estabelecem que aqueles que vivem sozinhos são mais propensos a estar sozinhos e a ter pouca ajuda para proteger seus bens, eles provavelmente enfrentam taxas mais altas de vitimização para crimes pessoais e de propriedade. O aumento de 30,6% nas taxas de participação das mulheres empregadas e casadas não só sujeita essas mulheres a um maior risco de ataque de e para o trabalho, mas também deixa suas casas e o carro menos protegidos da entrada ilegal. O aumento de 118% na proporção da população, composta por estudantes universitários, coloca mais 22 mulheres em risco de ataque ao realizar atividades diárias como estudantes, uma vez que podem ser menos efetivamente protegidas por familiares ou amigos. A descoberta mais importante é que tanto a criminalidade violenta como as formas de fraude na internet de vitimização ainda compartilham o mesmo mecanismo causal subjacente associado às atividades rotineiras de possíveis alvos criminosos. O teórico do criminologista Lynch usa a teoria da rotina para explicar que as pessoas no trabalho eram um importante determinante do risco de vitimização entre pessoas ocupadas, mesmo quando a periculosidade da área de trabalho era constante. Além disso, os atributos específicos das atividades prosseguidas na exposição ao trabalho, na tutela e na atratividade estavam todos relacionados à vitimização de acordo com as previsões da teoria da atividade. À vítima é geralmente atribuída ao descuido da pessoa que desempenha um papel ocupacional específico. Essas descobertas indicam que as diferenças no risco de vitimização no trabalho são mais determinadas pela tarefa realizada que a pessoa propriamente em determinada função ocupacional. Além disso, esses achados identificam atributos específicos de profissões que poderiam ser modificados para reduzir o risco de vitimização no trabalho. A vitimização dos trabalhadores em suas rotinas laborais diminuirá se a mobilidade, a acessibilidade pública e o manejo do dinheiro como parte do papel ocupacional forem reduzidos. Os indivíduos envolvidos em padrões de rotina enfrentaram pouco controle social e têm taxas mais altas de crime. Para esta teoria, o envolvimento no padrão de rotina com níveis mistos de visibilidade e padrões instrumentais, sociais e atléticos tem pouco efeito na delinquência. Críticas A teoria da atividade de rotina é principalmente uma macro-teoria da vitimização. Ele nos diz quem é mais provável que seja vítima. Mas quem são os infratores? Existe uma correlação entre vítimas criminosas e infratores? Portanto, os padrões encontrados pelos teóricos da atividade rotineira podem ser enganadores. Além disso, as taxas de criminalidade são geralmente proporcionais ao número de infratores motivados, como adolescentes e desempregados, na população. Claro, a motivação pode ser reduzida quando os meios legítimos estão disponíveis para os infratores alcançar seus objetivos. A motivação pode aumentar, quando a opção de crime é a única opção viável disponível para um infrator atingir seus objetivos. Outra dissuasão 23 que influencia as atividades de rotina que produz o crime é a crença moral e a socialização do ofensor. Se uma pessoa foi socializada para realizar crenças convencionais, mesmo na presença de oportunidades criminosas, os infratores se absteriam de crime, quando tal é a força dos laços sociais que servem de amortecedor para contrariar a atração de atividades criminosas. Questão Aplicada A respeito da teoria da atividade rotineira e suas implicações para o estudo das causas do comportamento criminoso, assinale a alternativa correta que configura uma de suas premissas de estudo: a) A pobreza e a desigualdade de renda são fatores que propiciam um contexto de criminalidade e violência. b) O maior controle dos índices de criminalidade após a Segunda Guerra Mundial indicou que uma melhor distribuição de renda e menores taxas de desemprego foram elementos preponderantes para sua concretização nas sociedades capitalistas avançadas. c) O crime pode ser cometido por qualquer pessoa desde que haja um contexto favorável de oportunidade. d) O comportamento da vítima em um contexto situacional propício para ser afetada por um comportamento criminoso é um critério determinante. e) As atividades rotineiras em determinado trabalho e os mecanismos de autocontrole não são abordados pela Teoria da Atividade Rotineira. A única alternativa correta é a letra “c”, pois para esta teoria o crime pode ser praticado por umaquestão de oportunidade em convergência com fatores situacionais propícios de vitimação, conforme acima explicado, sem considerações de elementos sócio-econômicos como fatores primordiais, como pobreza, miséria ou desigualdade de renda. GABARITO: letra “c”. 24 Teoria da Associação Diferencial: Edwin Sutherland e o Poder das influências sociais e do processo de aprendizagem Edwin Sutherland, um dos maiores estudiosos de Criminologia do século XX, desenvolveu a Teoria da Associação Diferencial, com uma abordagem metodológica próxima àquelas firmadas por outras teorias científicas. Sutherland reconheceu que, embora alguns tipos de crimes sejam mais prevalentes nas comunidades minoritárias, muitos indivíduos nessas comunidades respeitam a lei e possuem um grau de observância conformista muito maior que comunidades com maior renda. Da mesma forma, entre os poderosos e privilegiados, alguns são violadores da lei recorrentes, enquanto que outros não o são. Esta teoria tem a intenção de discriminar no nível individual entre aqueles que se tornam transgressores da lei e aqueles que não desenvolvem comportamento transgressor, qualquer que seja sua raça, classe ou origem étnica. A Teoria da Associação Diferencial dá prioridade ao poder das influências sociais e experiências de aprendizagem, podendo ser expressa em termos de uma série de proposições, a seguir resumidas didaticamente: 1. O comportamento criminoso é assimilado em um processo de aprendizagem na interação com outras pessoas em um processo de comunicação. A semiótica e a linguagem são elementos considerados na constituição de um processo de aprendizagem evolutivo. 2. O processo de aprendizagem ocorre principalmente em grupos pessoais íntimos e inclui não só as técnicas e práticas típicas do cometimento de certos crimes, mas leva em conta os motivos, as racionalizações e as atitudes que acompanham o crime. 3. As associações diferenciais podem variar em freqüência, duração, prioridade e intensidade, sendo que uma pessoa torna-se delinqüente devido a um excesso de condições favoráveis à violação da lei que prevalecem sobre aquelas desfavoráveis à violação da lei. Os fatores transgressores são mais fortes que os fatores conformistas e de obediência. 4. O processo de aprendizagem envolve os mesmos mecanismos quando uma pessoa desenvolve a assimilação de comportamentos tipicamente criminosos ou inerentes a uma atitude de conformidade perante à lei e às convenções sociais. Assim, não é a ausência de uma organização social que caracteriza comunidades (ricas ou pobres) em situação de intensa criminalidade, mas uma organização social diferenciada - um conjunto de práticas e definições culturais que estão em desacordo com a lei e que emergem favoravelmente aos receptores dos conceitos comportamentais criminosos. Um exemplo interessante se verifica quando em uma região onde a taxa de delinqüência é alta, é muito provável que um garoto sociável, ativo e atlético entre em contato com outros meninos do bairro e aprenda o comportamento delinqüente deles e se torne um integrante de uma gangue. Tais condições propícias ao processo de aprendizagem dos valores criminosos podem ser contidos quando instituições de prevenção primária, como família, igreja e escola determinam um conjunto de práticas comportamentais conformistas. Para a Teoria da Associação Diferencial a maioria das comunidades é organizada para o comportamento criminoso ou anticriminoso, dirigindo-nos para a rede de relações sociais chave que diferencia o indivíduo desviante e o sujeito conformista. 25 Questão Aplicada A Teoria da Associação Diferencial enfatiza o poder das influências dos fatores sociais e o aprendizado de experiências desviantes em um contexto de criminalidade consolidado. Assinale a alternativa que não configura uma abordagem dogmática desta teoria: a) O comportamento criminoso se desenvolve em um processo e interação com outros delinqüentes. b) O processo de assimilação do comportamento criminoso inclui os motivos, racionalizações e atitudes próprias da cultura delinqüente. c) A transformação de um perfil delinqüente decorre da predominância de um conjunto de fatores favoráveis à violação da lei em detrimento de sua observância. d) Os fatores étnicos são conceitos relevantes para o aprendizado do processo criminoso. e) O processo de construção do comportamento delinqüente no indivíduo envolve as mesmas condições que determinam uma conduta conformista e de obediência. No caso da questão acima, a alternativa “d” está errada ao inferir que os fatores étnicos são determinantes para a associação diferencial do comportamento criminoso, pois é justamente o contrário: analisa-se o processo de construção de um comportamento criminoso no indivíduo sem considerar a raça, etnia ou a classe social a qual ele está inserido. GABARITO: letra “d”. Controle Social Formal: regras e mecanismos de orientação do comportamento em uma sociedade O conceito de controle social formal, muito adotado pela Criminologia a partir de estudos próprios da Sociologia é importante para explicar a capacidade de projeção de adequação social de indivíduos e grupos sociais perante um conjunto de regras e convenções. Os controles sociais formais são baseados em torno da idéia de mecanismos formais, legais e moldados por normas de comportamento convencionadas. Baseiam-se na imposição de regras de comportamento cogentes, definidas por instâncias sociais superiores, com aplicação igualitária a todos os indivíduos destinatários em sociedades submetidas a Estados Democráticos de Direito (não são todas as sociedades aplicam regras formais igualmente). Nas sociedades modernas, por exemplo, a principal instância de controle social formal é a polícia e o judiciário (tribunais), embora as Forças Armadas podem, em certas ocasiões, servirem a tal missão. 26 No entanto, nem todas as normas derivadas de controles formais são propriamente leis editadas por uma instância legislativa ou por um órgão institucionalizado pelo Estado. Quando alguém é aceito e contextualizado em uma organização social (como uma escola ou faculdade, por exemplo), o indivíduo concorda em cumprir as regras formais que regem o comportamento nestas instituições. Neste exemplo, se o aluno não participar das aulas, haverá variados tipos de punição, como reprovação, exclusão, etc.. Em termos gerais, existem regras formais e controles sociais para orientar a todos dentro de uma sociedade ou grupo social o que é e não é aceitável em termos de comportamento. Esses controles formais geralmente existem quando um grupo humano é muito grande e seus membros não estão em contato cotidiano um com o outro, necessitando-se de previsão normativa e socialmente definida de regras de comportamento para controle comportamental. O controle social formal é considerado em termos existenciais até mesmo por aqueles que se opõem ou não os aceitam, já que de alguma forma são ou serão sancionados. Questão Aplicada A respeito do controle social formal em uma determinada sociedade, assinale a alternativa correta. a) As Forças Armadas não são consideradas uma instância de controle social formal. b) Um agrupamento humano situado em uma região não controlada por instituições de um Estado mas sujeito a regras de uma organização paraestatal subversiva não se sujeita a nenhum sistema de controle social formal. c) Apenas comandos normativos genéricos definem a eficácia de um sistema de controle social formal. d) Organizações sociais como escolas e associações estabelecem mecanismos de controle social formal.e) O controle social formal não tem relevância para grupos com comportamento social desviante. A única alternativa correta é a letra “d”, pois as associações, como os sindicatos, a igreja e as escolas exercem controle social formal ao ditarem regras de conduta aos participantes e destinatários. 27 GABARITO: letra “d”. Teoria da Escolha Racional: quando o criminoso é visto como alguém que age pensando em si e em prol de atingir seus objetivos plenos A escolha racional baseia-se em inúmeros pressupostos, um dos quais é o individualismo. O ofensor vê-se como um indivíduo. O segundo pressuposto é que os indivíduos têm que maximizar seus objetivos, e o terceiro é que os indivíduos são movidos por interesse. Dessa forma, os infratores estão pensando em si mesmos e em como avançar para atingir seus objetivos pessoais. Os pontos centrais da teoria são descritos da seguinte forma5: a) O ser humano é um ator racional. b) A racionalidade envolve cálculos finais / significativos. c) As pessoas (livremente) escolhem o comportamento, ambos conformistas ou desviantes, com base em seus cálculos racionais. d) O elemento central de cálculo envolve uma análise de custo-benefício bem utilitária: prazer versus dor. e) A escolha será direcionada para a maximização do prazer individual. f) A escolha pode ser controlada através da percepção e compreensão da potencial dor ou punição que advirá a partir de uma sanção aplicável a um ato julgado por violar o bem social e o contrato social. g) O Estado é responsável por manter a ordem e preservar o bem comum através de um sistema de leis. h) A rapidez, a gravidade e a certeza do castigo são os elementos-chave na compreensão da capacidade dissuasória de uma lei para controlar o comportamento humano. A teoria da escolha racional decorreu de coleções mais antigas e mais experimentais de hipóteses que envolvem o que foram essencialmente os achados 5Gul, S. (2009). An evaluation of rational choice theory in criminology. Sociology and applied science, 4(8), 36-44. 28 empíricos de muitas investigações científicas sobre o funcionamento da natureza humana. A teoria toma emprestado conceitos de teorias econômicas, para dar maior peso a motivos não-instrumentais para o crime, bem como perante a natureza "ilimitada" ou "limitada" do processo racional envolvido. A teoria está relacionada com a teoria da “deriva anterior” (David Matza, Delinquency e Drift, 1964), onde, em suma, as pessoas usam as técnicas de neutralização para entrar e sair do comportamento delinquente, e a Teoria do Crime Sistemático (um aspecto da Teoria da Desorganização Social desenvolvido pela Escola de), onde Edwin Sutherland6 propôs que o fracasso das famílias e dos grupos de parentes expande o domínio das relações que não são mais controladas pela comunidade e prejudica os controles governamentais. Isso leva a um crime e uma delinquência "sistemática" persistentes. Ele também acreditava que tal desorganização causa e reforça as tradições culturais e os conflitos culturais que apoiam a atividade anti-social. A qualidade sistemática do comportamento foi uma referência a eventos repetitivos, padronizados ou organizados em oposição a eventos aleatórios. Ele descreveu a cultura respeitadora da lei como dominante e mais extensa do que as opiniões culturais criminogênicas alternativas e capaz de superar o crime sistemático se organizado para esse fim. A teoria das atividades de rotina relaciona o padrão de infração com os padrões cotidianos de interação social. Entre 1960 e 1980, as mulheres deixaram a casa para o trabalho, o que levou à desorganização social, ou seja, a rotina de deixar a casa sem vigilância e a ausência de uma figura de autoridade aumentou a probabilidade de atividade criminosa. A teoria evita a especulação sobre a fonte da motivação dos infratores, que a distingue imediatamente da maioria das outras teorias criminológicas. Muitas características da perspectiva de escolha racional tornam-no particularmente adequado para servir como uma "metateoria" criminológica com um papel amplo na explicação de uma variedade de fenômenos criminológicos. Uma vez que a escolha racional pode explicar muitos componentes diferentes, é suficientemente ampla para ser aplicado não só ao crime, mas às circunstâncias da vida cotidiana. Os estudos envolvem ofensores entrevistados sobre motivos, métodos e escolhas alvo. A teoria da escolha racional insiste que o crime é calculado e deliberado. Todos os criminosos são atores racionais que praticam a tomada de decisões conscientes, que simultaneamente trabalham para obter o máximo benefício de sua situação atual. Outro 6Simpson, S. (2000). Of crime and criminality: The use of theory in everyday life. Thousand Oaks, CA: Pine Forge Press. 29 aspecto da teoria da escolha racional é o fato de que muitos infratores tomam decisões baseadas em racionalidade limitada / limitada. As idéias de racionalidade limitada enfatizam até que ponto os indivíduos e os grupos simplificam uma decisão devido às dificuldades de antecipar ou considerar todas as alternativas e toda a informação. A racionalidade limitada se relaciona com dois aspectos, uma parte decorrente de limitações cognitivas e a outra de extremos nos casos de excitação emocional. Às vezes, a excitação emocional no momento de um crime pode ser aguda, portanto, os infratores se acham fora de controle e as considerações racionais são muito menos salientes O crime, portanto, pode ser influenciado pela oportunidade. A oportunidade de um crime pode ser relacionada a benefícios de custo, status socioeconômico, risco de detecção, relação com o contexto situacional, tipo de infração e acesso a benefícios externos. Além disso, as oportunidades dependem do ambiente atual do indivíduo e dos fatores conseqüentes disso. Esta teoria explica melhor os crimes instrumentais em vez de crimes expressivos. Os crimes instrumentais envolvem o planejamento e a pesagem dos riscos com uma mente racional. Um exemplo de um crime instrumental pode incluir: evasão fiscal, violações de trânsito, beber e dirigir, crime corporativo, roubo e agressão sexual. Por outro lado, o crime expressivo inclui crimes envolvendo emoção e falta de pensamento racional sem se preocupar com as consequências futuras. Os crimes expressivos podem incluir: assassinatos não pré-meditados, como homicídio culposo e assalto. Como resultado, a punição só é eficaz para dissuadir o crime instrumental, em vez de crime expressivo. De acordo com O'Grady (2011)7, as três principais críticas da RationalChoiceTheory incluem: - Assume que todos os indivíduos têm a capacidade de tomar decisões racionais, o que não é o caso. Falha portanto em explicar a complexidade da inimputabilidade penal e fracassa em dar uma solução para casos de ausência de entendimento e determinação psíquica do criminoso. Choca-se com os fundamentos da teoria biopsicológica da culpabilidade. - A teoria não explica por que o ônus da responsabilidade é dispensado de jovens infratores em oposição a infratores adultos 7O'Grady, William (2011). Crime in Canadian Context (2nd edition). Don Mills: Oxford University Press. pp. 127–130. ISBN 978-0-19-543378-4. 30 - Essa teoria contradiz as premissas de funcionamento de nosso Sistema de Justiça Criminal. Esta teoria não suporta a idéia de que nem todos os indivíduos são atores racionais por causa da incapacidade cognitiva. Um exemplode indivíduos que não possuem uma mente racional inclui aqueles que não são responsáveis por crimes na conta por transtorno mental. Questão Aplicada Assinale a alternativa incorreta quanto à abordagem criminológica teoria da escolha racional, surgida no século XX a partir de estudos do utilitarismo: a) O ser humano não é um ser racional, mas movido por fatores emocionais e passionais. b) As pessoas escolhem livremente seus comportamentos, por cálculos inclusive não racionais no cometimento de ações desviantes. c) A escolha não é maximizada para a satisfação individual, mas para a formação de uma pretensão interindividual. d) A escolha pode ser controlada através da percepção e compreensão da potencial dor ou punição que se seguirá a um ato ilícito que venha violar o bem social. e) A gravidade do castigo não é um elemento fundamental na aplicação da lei como instrumento de controle do comportamento humano. Resposta: Correta somente a letra “d”, pois conforme a teoria da escolha racional, a escolha de um comportamento transgressor pode ser sim neutralizada ou contida a partir de uma avaliação da dor e sofrimento causado pela aplicação de uma sanção ao comportamento desviante. As demais alternativas são claramente erradas, por contradizerem os fundamentos da teoria. GABARITO: letra “d”. A abordagem da criminologia para o crime estatal O conceito de crime estatal ou “crime de Estado” se relaciona profundamente com o estudo de Direitos Humanos e é uma das vertentes mais enfocadas pela criminologia contemporânea. 31 Na criminologia, o crime estatal ou de “Estado” é resultante de uma atividade ou falha de ação que viola a Constituição e o direito penal do próprio Estado, ou o direito internacional público. Para esses propósitos, definamos aqui um "Estado" como uma super estrutura pública que inclua os funcionários eleitos e nomeados, a burocracia e as instituições, os órgãos e as organizações que compõem o aparelho do governo. Inicialmente, o estado era a agência de dissuasão, usando a ameaça de punição como uma ferramenta utilitária para moldar o comportamento de seus cidadãos. Depois tornou-se o mediador, interpretando os desejos da sociedade quanto à resolução de conflitos. Agora, examina-se o papel do Estado como um dos possíveis perpetradores do crime seja diretamente ou no contexto do crime corporativo estadual. Os critérios para determinar se um Estado é "desviante" se basearão em normas internacionais e padrões de comportamento para alcançar os objetivos operacionais usuais do estado. Um desses padrões será se o Estado respeita os direitos humanos no exercício de seus poderes. Mas, uma das dificuldades de definição é que os próprios Estados definem o que é criminoso em seus próprios territórios no exercício de suas jurisdições e, como poderes soberanos, não são responsáveis perante a comunidade internacional, a menos que se submetam à jurisdição internacional em geral ou a jurisdição penal em particular, algo difícil de ocorrer em sua plenitude. Em crimes internacionais, um Estado pode se envolver em terrorismo estatal, tortura, crimes de guerra e genocídio. Tanto a nível internacional como nacional, pode haver corrupção, crime corporativo e crime organizado. Dentro de suas fronteiras territoriais, alguns crimes são o resultado de situações em que o Estado não é o ator criminoso direto, por exemplo, decorrentes de catástrofes naturais ou através da de órgãos como a polícia e a Justiça, mas geralmente o Estado está diretamente envolvido no segredo excessivo e práticas de encobrimentos, desinformação e falta de responsabilização que muitas vezes refletem interesses da classe alta e não-pluralista e violam os direitos humanos. Muitas vezes, os crimes do Estado são revelados por uma agência de notícias de investigação que resulta em escândalos, mas, mesmo entre os estados democráticos do primeiro mundo é difícil manter um controle genuinamente independente sobre os mecanismos de execução criminal. Quando os cidadãos dos países menos desenvolvidos, que são muitas vezes de natureza mais autoritária, buscam responsabilizar seus líderes, os problemas se tornam mais agudos. A opinião pública, a atenção da mídia e os protestos públicos, violentos ou não violentos, podem ser criminalizados como crimes políticos e suprimidos, enquanto os comentários internacionais críticos são de pouco valor real. 32 No contexto do crime estatal e corporativo, Green and Ward (2004)8 examina como os esquemas de reembolso da dívida nos países em desenvolvimento colocam um fardo financeiro nos estados que eles geralmente concordam com as empresas que oferecem perspectivas de crescimento do capital. Tal colusão freqüentemente implica o amolecimento das regulamentações ambientais e outras. A obrigação do serviço da dívida também pode exacerbar a instabilidade política em países onde a legitimidade do poder do Estado é questionada. Essa volatilidade política leva os estados a adotar padrões de governança clientelistas ou patrimonialistas, promovendo o crime organizado, a corrupção e o autoritarismo. Em alguns países do terceiro mundo, essa atmosfera política incentivou a repressão e o uso da tortura. Questão Aplicada Para a criminologia contemporânea, o Estado pode vir a ser um dos principais catalisadores das atividades criminosas, naquilo que se conceitua como “crimes de Estado” ou crimes estatais. Assinale a alternativa incorreta quanto aos seus aspectos criminológicos: a) Os Estados devem ser avaliados de acordo com parâmetros definidos no Direito Internacional e outras convenções. b) Uma de suas dificuldades de aplicação decorre da soberania do próprio Estado na definição do que é criminoso no âmbito de sua jurisdição. c) São exemplos comuns de crimes estatais o terrorismo, genocídio e crimes de guerra. d) Ações da polícia e do aparato judiciário não se relacionam intrinsecamente com crimes praticados pelo Estado. e) A supressão de funções democráticas pelo Estado pode desencadear cenários de crimes estatais. A única alternativa incorreta é a letra “d”, pois certamente que para a criminologia na definição dos crimes de Estado as aços do aparato policial e judiciário se relacionam sim com crimes perpetrados pelo próprio Estado. Fácil questão. 8Green, Penny & Ward, Tony. (2004) State Crime: Governments, Violence and Corruption. London: Pluto Press. 33 GABARITO: letra “d”. A síntese da prevenção criminal para a criminologia O sistema de prevenção criminal é qualquer abordagem que causa uma redução no nível de criminalidade, com foco na causa do crime em detrimento de seus efeitos e na redução e eliminação dos fatores que podem eliminar a criminalidade. A prevenção criminal pode ser escalonada em três estágios ou fases: prevenção primária, secundária ou terciária. A prevenção primária busca impedir o problema de natureza criminal antes que ele ocorra. Foca em fatores sociais e situacionais. Fundamenta-se em programas e atuação baseados na redução de oportunidades para o crime e em fortalecer a comunidade e as estruturas sociais. A prevenção secundária atua sobre pessoas em situação propícia para a delinquência, com alto de risco de adotarem um comportamento criminoso. O foco pode ser intervenções iniciais efetivas e rápidas, como programas para a juventude, bem como ações tópicas em vizinhança de alto risco, normalmente situadas em comunidades conflagradas. Já a prevenção terciária focaliza a atuação do sistema de justiça criminal, seu modo de operaçãoe atuação, além de agir sobre o criminoso após o cometimento do crime. Assim, sua atuação em programas sobre a população carcerária ganha alta relevância. Seu escopo é agir sobre criminosos conhecidos e identificados, impedindo-os de cometer novos crimes. Exemplos de operação do sistema de prevenção terciária incluem programas focados na juventude em situação de risco e mecanismos de contenção individual sobre o delinqüente através de sanções integradas com a comunidade e intervenções para tratamentos pontuais e específicos sobre delinqüentes delimitados. Questão Aplicada Assinale a alternativa incorreta quanto à prevenção terciária do crime e seus aspectos fundamentais: a) Um de seus principais focos é a atuação do sistema de justiça criminal. 34 b) Seu escopo é a intervenção sobre conhecidos criminosos para que não cometamnovos crimes. c) Programas de conferência com juventude e mecanismos de contenção individual são exemplos de prevenção terciária. d) Estratégias específicas de intervenção sobre certas categorias de criminososcorrespondem a uma abordagem da prevenção terciária. e) A ordenação urbana e a população carcerária são focos específicos de atuação. Incorreta a letra “e”, pois a ordenação urbana não é foco de atuação da prevenção terciária,embora a população carcerária o seja, conforme já analisado. GABARITO: letra “e”. O tipo ideal genético do positivismo criminológico A teoria do positivismo criminológico, que se relaciona com CesareLombroso, Garofolo e Ferri como maiores contribuintes, é uma das teorias mais influentes no estudo das causas da criminalidade. Para facilitar o estudo e a compreensão, faremos a explanação em bloco único. A escola do positivismo criminológico é uma das duas principais escolas de criminologia. Em contraste com a escola clássica, que pressupõe que os atos criminosos são o produto da livre escolha e do cálculo racional, o positivista vê as causas do crime em fatores fora do controle do agressor. Estes fatores devem ser identificados utilizando métodos empíricos, em particular a análise de estatísticas. A primeira forma de positivismo, que surgiu no final do século XIX, envolveu uma tentativa de correlacionar o comportamento criminoso com certas características fisiológicas. Isso levou à identificação de um "tipo criminal" genético - uma idéia que agora está totalmente desacreditada, assim como a eugenia, que buscava aplicar a biologia e o conhecimento humano na configuração de seres humanos superores em perfis raciais. Posteriormente, os positivistas psicológicos usaram estudos detalhados para relacionar traços de personalidade com crimes específicos e para identificar aquelas experiências formativas (por exemplo, negligência de pais) que poderiam produzir uma 35 predisposição geral para quebrar a lei. Alternativamente, os positivistas sociológicos buscaram as causas do crime em fatores externos ao agressor, como pobreza, alienação, alta densidade populacional e exposição a subculturas desviantes (por exemplo, gangues ou consumidores de drogas). Uma abordagem particularmente influente foi aquela tomada pela Escola de Chicago de meados do século XX, que usou métodos ecológicos para estudar o colapso da ordem social em bairros do centro da cidade. Outras abordagens do positivismo social incluem a criminologia marxista, que vê o crime como um produto inevitável do conflito de classes e do sistema capitalista, ea criminologia crítica, que se concentra no papel das elites de poder na definição do que e que é considerado criminoso. Mais recentemente, houve um retrocesso geral da teoria social e uma ênfase mais pragmática na prevenção do crime. Questão Aplicada A respeito da teoria do positivismo criminológico, assinale a alternativa correta. a) Leva em consideração métodos empíricos e estatísticos para avaliação da criminalidade. b) Busca correlacionar o crime com certos traços psicológicos do indivíduo. c) O tipo genético do criminoso foi uma de suas contribuições doutrinárias. d) O livro arbítrio e a escolha racional são atributos fundamentais desta escola de pensamento. e) Sua abordagem psicológica relaciona traços de personalidade com tipos específicos de crimes. A única alternativa incorreta é a letra “d”, pois o livre-arbítrio e a escolha racional são atributos considerados na escola tradicional de criminologia. GABARITO: letra “d”. 36 A correlação entre fatores biológicos e ambientais com o crime: a criminologia biossocial Introdução A criminologia biossocial é um campo interdisciplinar que visa explicar o crime e o comportamento antissocial explorando fatores biológicos e fatores ambientais. Embora a criminologia contemporânea tenha sido dominada por teorias sociológicas, a criminologia biossocial também reconhece as potenciais contribuições de campos como genética, neuropsicologia e psicologia evolutiva. Seu enfoque teórico se alicerça em três fatores correlatos: Ambiente; Neuropsicologia; Psicologia Evolutiva. Ambiente O ambiente tem um efeito significativo na expressão genética. Os ambientes desfavorecidos aumentam a expressão gênica antissocial, eliminam a ação genética pro-social e impedem a realização do potencial genético. Os genes e os ambientes que operavam em conjunto (interagindo) eram necessários para produzir um comportamento antissocial significativo, enquanto que nenhum dos dois era suficientemente poderoso para produzi-lo independentemente do outro. Ou seja, crianças geneticamente ameaçadas de comportamento anti-social criadas em ambientes familiares positivos não apresentaram comportamento anti-social, e as crianças que não apresentam risco genético não se tornaram anti-sociais em ambientes familiares desfavoráveis. Genética Uma abordagem para estudar o papel da genética para o crime é calcular o coeficiente de hereditariedade, que descreve a proporção da variância que é devido aos efeitos genéticos atualizados para algum traço em uma determinada população em um ambiente específico em um momento específico. O coeficiente de hereditariedade para o comportamento anti-social é estimado entre 0,40 e 0,589. 9Kevin M. Beaver and Anthony Walsh. 2011. Biosocial Criminology. Chapter 1 in The Ashgate Research Companion to Biosocial Theories of Crime. 2011. Ashgate. 37 Neurofisiologia Outra abordagem é examinar a relação entre neurofisiologia e criminalidade. Um exemplo é que os níveis medidos de neurotransmissores, como serotonina e dopamina, foram associados a comportamentos criminosos. Outro é que os estudos de neuroimagem dão fortes evidências de que a estrutura e a função do cérebro estão envolvidas em comportamentos criminosos. O sistema límbico cria emoções como raiva e ciúme que, em última instância, podem causar comportamentos criminosos. O córtex pré-frontal está envolvido no atraso na gratificação e no controle de impulsos e modera os impulsos do sistema límbico. Se esse equilíbrio for deslocado em favor do sistema límbico, isso pode contribuir para o comportamento criminoso10. Por exemplo, a teoria do desenvolvimento do crime de TerrieMoffitt argumenta que os "infratores persistentes no curso da vida" compõem apenas 6% da população, mas comprometem mais de 50% de todos os crimes e que isso se deve a uma combinação de déficits neurofisiológicos e um ambiente adverso que cria uma trajetória criminal que é muito difícil de romper uma vez que começou11. Psicologia evolutiva Os homens podem potencialmente ter muitas crianças com pouco esforço; mulheresapenas algumas com grande esforço. Assim, por esta premissa, os homens têm um sucesso reprodutivo mais variável do que as mulheres. Isso levaria ao argumento dedutivo de que os machos são mais agressivos e inclusive mais agressivos do que as mulheres, pois enfrentam uma maior concorrência reprodutiva do seu próprio sexo do que as mulheres. Em particular, os machos de baixo status podem ter mais chances de permanecer completamente sem filhos. Sob tais circunstâncias, pode ter sido evolutivamente útil tomar riscos muito elevados e usar agressões violentas para tentar aumentar o status e o sucesso reprodutivo ao invés de se tornarem geneticamente extintos. Isso pode explicar por que os homens têm taxas de criminalidade mais elevadas do que as mulheres e por que o status baixo e não casado está associado à criminalidade. Também poderia explicar por que o grau de desigualdade de renda de uma sociedade é um melhor indicador do que o nível de renda absoluta da sociedade para homicídios masculinos e masculinos; a desigualdade de renda cria disparidade social, enquanto que os níveis de renda média diferentes podem não fazê-lo. Além disso, a concorrência sobre as mulheres é argumentada ter sido particularmente intensiva no final da adolescência e na 10Ob.cit. 11 Liddle, J. R.; Shackelford, T. K.; Weekes–Shackelford, V. A. (2012). "Why can't we all just get along? Evolutionary perspectives on violence, homicide, and war". Review of General Psychology. 16: 24 38 idade adulta jovem, o que é teorizado para explicar por que as taxas de criminalidade são particularmente altas durante este período12. A "teoria neuroandrogênica evolutiva" concentra-se no hormônio testosterona como um fator que influencia a agressão e a criminalidade e é benéfico durante certas formas de competição. Na maioria das espécies, os machos são mais agressivos do que as fêmeas. A castração de machos geralmente tem um efeito pacificador sobre o comportamento agressivo nos machos. Nos seres humanos, os machos praticam especialmente crimes mais violentos do que mulheres. O envolvimento no crime geralmente aumenta no início da adolescência até meados dos adolescentes em correlação com o aumento dos níveis de testosterona. A pesquisa sobre a relação entre testosterona e agressão é difícil, uma vez que a única medida confiável da testosterona cerebral é por punção lombar, o que não é feito para fins de pesquisa. Alguns estudos até apoiam uma ligação entre a criminalidade adulta e a testosterona, embora o relacionamento seja modesto se examinado separadamente para cada sexo. Não foi estabelecida uma ligação significativa entre a delinquência juvenil e os níveis de testosterona em termos conclusivos, portanto. Alguns estudos também encontraram testosterona associada a comportamentos ou traços de personalidade ligados à criminalidade, como comportamento antissocial e alcoolismo. Muitos estudos também foram feitos sobre a relação entre comportamentos / sentimentos agressivos mais gerais e a testosterona, porém sem conclusão definitiva. Aplicações concretas e críticas Os pesquisadores de psicologia evolutiva propuseram diversas explicações evolutivas para a psicopatia. Uma delas é que a psicopatia representa uma estratégia socialmente parasitária dependente da freqüência de sua ocorrência. Isso pode beneficiar o psicopata, desde que haja alguns outros psicopatas na comunidade, já que mais psicopatas significa aumentar o risco de encontrar outro psicopata, relativizando seu livre arbítrio e deficiência de caráter por questões ético-morais. As teorias sociobiológicas do estupro são teorias que exploram em que medida, se houver, as adaptações evolutivas influenciam a psicologia dos estupradores. Tais teorias são altamente controversas, já que as teorias tradicionais normalmente não consideram a violação como uma adaptação comportamental. Alguns se opõem a tais teorias sobre razões éticas, religiosas, políticas, bem como científicas. Outros argumentam 12Buss, D. M. (2009). "How Can Evolutionary Psychology Successfully Explain Personality and Individual Differences?". Perspectives on Psychological Science. 4 (4): 359–366. 39 que é necessário um conhecimento correto das causas da violação para desenvolver medidas preventivas efetivas. Questão Aplicada Como vertente contemporânea cada vez mais relevante, a criminologia biossocial vem criando forte impacto na explicação das causas do comportamento criminoso, ultrapassando a os conceitos tradicionalmente definidos pelas teorias sociológicas. Assinale a alternativa incorreta quanto aos preceitos adotados pela teoria biossocial: A Leva em consideração as contribuições científicas da genética, neuropsicologia e psicologia evolutiva para a compreensão do crime e do criminoso. B Ambientes vulneráveis e com condições desfavorecias anulam o potencial genético pró- social e ampliam as tendências genéticas antissociais. C Alterações de neurotransmissores, como a dopamina e a serotonina podem desencadear comportamentos criminosos. D A capacidade evolutiva reprodutora do homem pode determinar um comportamento naturalmente mais agressivo que as mulheres. E Há correlação causal entre altos níveis de testosterona e elevados índices de delinquência juvenil masculina. A alternativa incorreta é a letra “e”, pois não há condição científica segura para se correlacionar elevados níveis de testosterona com altos índices de delinquência juvenil. As demais alternativas estão corretas, pois estão enquadradas em nossa explicação. GABARITO: letra “e”. Marxismo e Criminologia: o crime como expressão da luta de classes Estudar a influência do marxismo na Criminologia é fundamental para entender outras teorias, como a “labelling approach”, que rotula certas categorias como indesejáveis e tipicamente criminosas. A criminologia marxista é uma das escolas de criminologia. Paralisou o trabalho da escola de funcionalismo estrutural que se concentra no que produz estabilidade e continuidade na sociedade, mas, ao contrário dos funcionalistas, adota uma filosofia política predefinida. Como uma “criminologia de conflito”, ele se concentra no motivo pelo qual as coisas mudam, identificando as forças disruptivas nas sociedades industrializadas e descrevendo como a sociedade é dividida pelo poder, riqueza, prestígio 40 e as percepções do mundo. Está preocupada com as relações causais entre a sociedade e o crime, ou seja, estabelecer uma compreensão crítica de como o ambiente social imediato e estrutural dá origem a crimes e condições criminogênicas. Karl Marx argumentou que a lei é o mecanismo pelo qual uma classe social, geralmente referida como a "classe dominante", mantém todas as outras classes em uma posição desfavorecida. Assim, esta escola usa uma lente marxista através do qual considera o processo de criminalização, por meio do qual explicam por que alguns atos são definidos como desviantes enquanto outros não são. Por isso, interessa-se pelo crime político e o crime estatal. O marxismo fornece uma base teórica sistemática sobre a qual podemos interrogar quais são os arranjos estruturais sociais, e a hipótese de que o poder econômico se traduz em poder político responde substancialmente ao “desempoderamento” geral da maioria que vive no Estado Moderno e as limitações do discurso político. Assim, direta ou indiretamente, informa muito sobre os fenômenos sociais, não só na criminologia, mas também na semiótica e nas demais disciplinas que exploram as relações estruturais de poder, conhecimento,significado e interesses posicionais dentro da sociedade. Muitos criminologistas concordam que, para uma sociedade funcionar de forma eficiente, a ordem social é necessária e a conformidade é induzida através de um processo de socialização. "Lei" é o rótulo dado a um dos meios utilizados para impor os interesses do Estado.Portanto, como cada estado é soberano, a lei pode ser usada para qualquer propósito. Também é pacífico que, se a sociedade é meritocrática, democrática ou autocrática, um pequeno grupo emerge para liderar. A razão para o surgimento deste grupo pode ser a sua capacidade de usar o poder de forma mais eficaz, ou uma simples oportunidade em que, à medida que o tamanho da população cresça, a delegação de poderes de decisão a um grupo representativo da maioria leva a mais eficiência. Os marxistas criticam as ideias, os valores e as normas da ideologia capitalista e caracterizam o Estado Moderno como estando sob o controle do grupo que possui os meios de produção. Por exemplo, Chambliss (1973) examinou a forma como as leis de “vagabundagem” foram alteradas para refletir os interesses da elite dominante. Ele também analisou como a lei colonial britânica foi aplicada na África Oriental, de modo que a "classe dominante" capitalista poderia lucrar com as plantações de café, e a lei na Inglaterra medieval beneficiou os proprietários feudais. Similarmente, Pearce (2003) analisa a evidência de que o crime corporativo (como corrupção e os crimes de colarinho- branco) é generalizado, mas raramente é processado. 41 Esses pesquisadores afirmam que o poder político é usado para reforçar a desigualdade econômica ao incorporar os direitos de propriedade individuais na lei e que a pobreza resultante é uma das causas da atividade criminosa como meio de sobrevivência. Os marxistas argumentam que uma sociedade socialista com propriedade comunitária dos meios de produção teria muito menos crime. Na verdade, Milton Mankoff afirma que há muito menos crime na Europa Ocidental do que nos Estados Unidos porque a Europa é mais "socialista" do que a América. A implicação de tais pontos de vista é que a solução para o "problema do crime" é se envolver em uma revolução socialista. Uma questão diferente surge ao aplicar a teoria da alienação de Marx. Uma proporção do crime é dito ser o resultado da sociedade, oferecendo apenas trabalho humilhante com pouco senso de criatividade. No entanto, a caracterização de algum crime como típico "crime da classe trabalhadora" e retratá-lo como resposta à opressão é problemática. Ele classifica seletivamente o crime cometido por pessoas simplesmente com base na sua vinculação a uma classe, sem se envolver em vitimologia para identificar se alguma classe ou grupo particular é mais provável de ser vítima de tal crime (porque muitos criminosos não estão dispostos a tentar ir tão longe em seus alvos, o crime da classe trabalhadora é muitas vezes dirigido a pessoas da classe trabalhadora que vivem no mesmo bairro). De fato, a diferenciação social do crime pode variar de acordo com a idade, classe, etnia, gênero e localidade. CRÍTICAS Em sua pesquisa, o marxismo tende a se concentrar nas forças sociais, em vez dos motivos dos indivíduos e sua capacidade dualista tanto para o certo como para o errado, moral e imoral. Isso pode levar a uma explicação menos abrangente de por que as pessoas exercem sua autonomia optando por agir de maneiras particulares. Em comparação, na sociologia do desvio, Robert K. Merton toma emprestado o conceito de anomia de Durkheim para formar a Teoria da Depressão. Merton argumenta que o verdadeiro problema da alienação não é criado por uma súbita mudança social, como proposto por Durkheim, mas sim por uma estrutura social que mantém os mesmos objetivos para todos os seus membros sem lhes dar meios iguais para alcançá-los. É essa falta de integração entre o que a cultura exige e o que a estrutura permite que provoca comportamentos desviantes. O desvio é então um sintoma da estrutura social. 42 O poder de rotular o comportamento como "desviante" surge em parte da distribuição desigual do poder dentro do Estado, porque o julgamento possui a autoridade soberana do estado, atribuindo maior estigma ao comportamento proibido. Para a criminologia marxista isso é uma verdade absoluta, não importa qual seja a orientação política do Estado. Todos os Estados estabelecem leis que, em maior ou menor medida, protegem a propriedade. Isso pode assumir a forma de tipificação do roubo, dano ou furto. Embora uma lei que criminalize o roubo possa não parecer rotuladora a princípio, uma análise marxista das taxas de punição pode detectar desigualdades na forma como a lei é aplicada. Assim, a decisão de processar ou condenar pode ser distorcida quando quem sofre a punição tem menos recursos para contratar um bom advogado. A mesma análise também pode mostrar que a distribuição de punição para qualquer crime pode variar de acordo com a classe social do perpetrador. Mas, uma lei que criminalize o comportamento de “roubar” existe para proteger os interesses de todos os que possuem propriedade; Não discrimina por referência a classe do proprietário como elemento jurídico isoladamente. Na verdade, poucas leis dos Estados Modernos são elaboradas para proteger os interesses da propriedade tomando por referência aclasse social.Portanto a aceitação e a aplicação das leis geralmente dependem de um consenso dentro da comunidade de que essas leis atendem às necessidades locais. Nessa comparação, a comparação das taxas de criminalidade entre Estados mostra pouca correlação por referência à orientação política. As correlações que existem tendem a refletir disparidades entre ricos e pobres e características que descrevem o desenvolvimento do ambiente social e econômico. Assim, as taxas de crimes são comparáveis nos Estados onde há maiores disparidades de distribuição de riqueza, independentemente de serem primeiro, segundo ou terceiro mundo. Questão Aplicada O marxismo se tornou uma filosofia política de múltiplas conseqüências teóricas na economia, cultura, sociologia, ciência política e também na Criminologia. Com o fim da Guerra Fria, suas implicações se remodelaram em outros campos de conhecimento, com profunda influência metodológica. Assinale a alternativa correta quanto a seu foco teórico e analítico para a compreensão do crime: 43 a) Tal como o funcionalismo estrutural, se baseia em uma filosofia política pré- definida para explicar a influência de fatores estruturais de uma sociedade na eclosão da criminalidade. b) Fundamenta-se na estratificação social como principal explicação para o crime e suas condições de ocorrência. c) Não considera o crime político como expressão real da criminalidade. d) A prerrogativa de se rotular ou definir um comportamento como crime é reflexo da distribuição desigual de poder no âmbito do Estado, o que influencia a valoração do comportamento incriminado. e) Considera certas categorias individuais como mais propensas à vitimização. A única alternativa correta é a letra “d”, pois para a criminologia marxista a definição do crime é uma prerrogativa do Estado que reflete uma distribuição desigual de poder, o que influencia na rotulação do que vem a ser definido ou não como crime. As demais alternativas estão evidentemente erradas, pois se contrapõem aos fundamentos acima explicados desta abordagem teórica. GABARITO: letra “d”. O fenômeno da “cifra negra” O fenômeno denominado “cifra negra” representa o número de crimes que são efetivamente praticados e que não aparecem nas estatísticas oficiais,demonstrando que apesar de potencialmente todos os integrantes de certa sociedade ou comunidade terem, em algum momento, praticado algum crime, verifica-se que apenas uma pequena parcela dos delitos serão investigados e resultarão em processo judicial que se desdobre em uma condenação criminal. Com isto, o risco de ser etiquetado, ou seja, “aparecer no claro das estatísticas”, não depende da conduta, mas da situação do indivíduo na pirâmide social. Por isso o sistema penal é considerado por vertentes da Criminologia como sendo seletivo, pois funciona segundo os estereótipos do criminoso, os quais são confirmados pelo próprio sistema. A ideia das “cifras negras” surgiu com o belga Adolphe Jacques Quetelet, (1796- 1874) considerado um dos precursores da sociologia moderna, da criminologia de bases 44 sociológicas, pertencente à denominada escola cartográfica. Quetelet era um matemático e estatístico e trabalhava em pesquisas censitárias. Em seu trabalho, formulou a idéia de “homem médio” (depois apropriado pelos estudos de Direito Penal) entendendo ser um tipo ideal e abstrato de sujeito, visto como um padrão para diversas análises sociológicas. Assim, como peculiar em sua época, conseguia estabelecer certa regularidade aos fenômenos sociais, relacionando a criminologia clássica com a positivista. Como inerente ao seu escopo de abordagem, esse autor estudava o delito de forma peculiar, assim, considerava que os delinqüentes se limitavam a executar os fatos preparados pela sociedade. Desse modo, a criminalidade, detalhadamente, poderia ser representada por uma função matemática em decorrência dos estados econômicos e sociais do momento objeto do estudo. Especificamente, conseguiu caracterizar esse conceito de “cifra negra” ao relacionar, de forma constante, a criminalidade real, aparente e a criminalidade legal, que acabava levando a julgamentos. Assim, Adolphe Quetelet, anunciava as bases do conceito: “Todo conhecimento sobre estatísticas de delitos e ofensas não será de nenhuma utilidade, se não admitirmos tacitamente que existe uma relação quase invariavelmente a mesma entre as ofensas conhecidas e julgadas e a soma total desconhecida dos delitos cometidos” (MAÍLLO, Afonso Serrano. Introdução à criminologia. Tradução de Luiz Regis Prado. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007. p. 69) Todo este acúmulo e desenvolvimento da estatística, embora possa ser reducionista se utilizado isoladamente, permite um diagnóstico do problema da criminalidade e a adoção de um prognóstico da intervenção estatal (preventiva ou repressiva).Em tempos atuais, inúmeras políticas públicas se instrumentalizam em dados e estatísticas, originados dos estudos de Quetelet. O Prof. Juarez Cirino do Santos, bem define este fenômeno como “a diferença entre aparência (conhecimento oficial) e a realidade (volume total) da criminalidade convencional, constituída por fatos criminosos não identificados, não denunciados ou não investigados (por desinteresse da polícia, nos crimes sem vítima, ou por interesse da polícia, sobre pressão do poder econômico e político), além de limitações técnicas e materiais dos órgãos de controle social”. (SANTOS, Juarez Cirino. A Criminologia radical. Curitiba: IPCP: Lumen Juris, 2006. p. 13) Questão Aplicada 45 A expressão “cifra negra” ou oculta, refere-se: A ao grupo de egressos do sistema prisional que retorna à delinqüência sem previsão estatística. B ao fracasso das medidas de política criminal na prevenção primária do crime. C à porcentagem de presos que evadidos que não retornam cárcere. D à porcentagem de crimes não solucionados ou punidos porque, num sistema seletivo, não caíram sob a égide da polícia ou da justiça ou da administração carcerária, porque nos presídios “não estão todos os que são”. E à porcentagem de criminalização da pobreza e à globalização, pelas quais o centro exerce seu controle sobre a periferia, cominando penas e criando fatos típicos de acordo com seus interesses econômicos. A alternativa correta é a letra “d”, que tem relação exata com o sentido do termo “cifra negra”. As demais alternativas são misturam conceitos de outras teorias com temos adotados nos estudos da cifra negra, justamente para confundir o candidato. Dessa forma, nas alternativas “a”, “b”, “c”, embora haja relação pelo senso comum entre a falta de estatísticas adequadas sobre a população carcerária e os indicadores de reincidência e evasão do sistema penitenciário, não se relaciona com a cifra negra em si, atrelada à desconsideração estatística de fatos criminosos em si devido a deficiências so aparato repressivo estatal e sua seletividade intrínseca. Quanto à alternativa “e”, trata-se de explicação própria dos conceitos da criminologia contemporânea, que estuda a exclusão inerente aos processos de globalização e a marginalização de segmentos da sociedade. GABARITO: letra “d”. 46 A Escola de Chigago (parte 1): ecologia social e o ambiente como relevâncias conceituais Histórico A Escola de Chicago teve sua base no Departamento de Sociologia da Universidade de Chicago, que é a mais antiga dos Estados Unidos e foi criada em 1892. Chicago foi um grande centro ferroviário e tornou-se um enorme centro industrial por direito próprio, notadamente sua indústria de embalagem de carne Além disso, Chicago era um excelente lugar para realizar trabalhos de campo sociológicos porque exemplificava a concentração pós-industrial da população em áreas urbanas. A cidade cresceu de um milhão para dois milhões de pessoas entre 1890 e 1910), fornecendo uma plataforma ideal para o estudo da Escola de Chicago sobre o comportamento humano. A concentração da indústria e, por conseguinte, a oportunidade económica provocaram um afluxo de imigrantes e conduziram a rápidas mudanças nos padrões de vida. A urbanização foi uma das principais características da Revolução Industrial, e muitas cidades cresceram muito rapidamente, de modo que os criminologistas de outras cidades poderiam facilmente generalizar a partir do trabalho da Escola de Chicago. Características principais A contribuição mais significativa da Escola de Chicago é a idéia de ecologia social. Por este conceito, considera que o crime é uma resposta ao ambiente instável e condições anormais de vida. Esta não é mais uma idéia particularmente radical, que é um indicador da proeminência continuada da Escola de Chicago. Durante séculos, o crime foi visto como um fracasso moral na tradição judaico-cristã. Os criminosos eram pecadores. O que a Escola de Chicago reconhecia era que a vida urbana era distinta da vida rural e sua natureza agitada e anônima influenciava o comportamento das pessoas. Os criminologistas da escola de Chicago foram rápidos em estabelecer um elo entre a delinqüência juvenil e os padrões econômicos e geográficos do desenvolvimento urbano. Graças ao boom demográfico, eles puderam estudar em detalhe, em um curto espaço de tempo, os deslocamentos do centro da cidade para os subúrbios e as diferenças nos índices de criminalidade entre os subúrbios afluentes e os pobres das cidades pobres. Ainda é possível ler observações de primeira mão nas monografias da Escola de Chicago escritas por sociólogos como Beirne e Thomas, sobre temas como vagabundos, prostitutas, salões de dança e crime organizado. Estes livros são um testemunho permanente da 47 influência da Escola de Chicago, bem como oferecer um relato histórico contemporâneo do desenvolvimento da criminologia. As teorias desenvolvidas pela Escola de Chicago ainda são princípios centrais da criminologia – ainda que os pesquisadoresmodernos por vezes tentem desacreditá-los. Uma de suas principais afirmações foi que a ruptura, a migração, mudanças econômicas e instabilidade familiar, são fatores que tendem a causar o crime, o que foi afirmado por estudos modernos mostrando que a desordem social, redes de amizade fraca e baixo envolvimento da comunidade produzem índices de criminalidade mais altos A influência de Emile Durkheim, que acreditava que o crime é um fenômeno inevitável e necessário da sociedade, está subjacente ao foco em identificar onde o crime está localizado - geográfica e socialmente. Esta ideologia naturalmente tende a identificar o crime e suas causas, ao invés de acreditar que ele pode ser eliminado. A influência contínua da Escola de Chicago induziu estudos sociológicos adicionais com um ethos similar de identificar de onde viria o crime. Nas décadas de 1930 e 1940, a sociologia da psicologia social, um estudo de comportamento de grupo que enfatiza a dinâmica de grupo e a socialização, desenvolveu-se baseado em princípios de ecologia social da Escola. Uma das principais contribuições da Escola de Chicago para a criminologia são seus métodos de pesquisa qualitativa. Esse padrão de estudo ofereceu às pessoas marginalizadas o relato de suas próprias vidas. Posteriormente, a pesquisa tende a gravitar em torno de métodos pioneiros da Escola de Chicago, como entrevistas diretas com sujeitos. Porém, isso também foi interpretado como uma fraqueza da escola, , com os críticos argumentando que a natureza qualitativa de seus estudos pode resultar na influência indevida do viés pessoal do pesquisador. Embora isso tenha inspirado outros sociólogos a dedicar mais atenção às técnicas de pesquisa, o método escolar subjetivista de Chicago ainda é amplamente utilizado na criminologia. Com base na abordagem do fator geográfico, os pesquisadores vinculados à Escola de Chicago identificaram o que se tornou conhecido como "vôo branco" - o fenômeno de pessoas ricas e bem-educadas (normalmente brancas) saindo de centros urbanos para subúrbios mais afluentes, deixando cidades (no caso do Brasil, bairros da periferia e favelas em locais de pior acesso e mobilidade) com concentrações de pobres, normalmente menos educados e concentrados em grupos étnicos ou sociais específicos. Este padrão de movimento e separação ajuda a explicar a observação de que certas áreas são mais propensas ao crime. Não é o resultado pura e simples de mais criminosos reunindo-se em determinadas áreas, mas sim que as más condições de vida e infra- 48 estrutura pobre criam barreiras comunitárias e oferecem oportunidades ou mesmo incentivos para o comportamento criminoso. Um de seus maiores expoentes, Edwin Sutherland apresentou a teoria de que o comportamento criminoso é aprendido e assimilado, como qualquer outro tipo de comportamento. A aprendizagem ocorre dentro de grupos, e inclui aprender a cometer atos criminosos, e desenvolver justificativas para fazê-lo. Isto é, baseado na idéia de que se as pessoas estão concentradas em áreas com oportunidades limitadas e / ou proximidade com criminosos, eles são mais propensos a aprender comportamento desviante. No entanto, uma linha igualmente válida de raciocínio seria – se todas as pessoas em uma área particular são igualmente pobres, então elas se voltam para o crime não como um comportamento aprendido, mas como uma resposta individual às condições econômicas. Graças à Escola de Chicago, no entanto, a noção de comportamento criminoso aprendido ganhou primazia. Isso pode ser visto no entretenimento, como na série de TV Prison Break, cujas parcelas envolvem grupos de criminosos reunidos na prisão, que então planejam e cometem mais crimes juntos. Apesar de fazer sua sociologia de foco principal a Escola de Chicago reconhece que a economia é a raiz de um grande número de comportamento criminoso. Para esta escola de pensamento criminológico, argumenta-se que a "cultura da pobreza" leva à apatia, ao cinismo, uma análise sociológica de uma situação econômica. Dessa forma, os extensos estudos da Escola de Chicago envolvendo classes marginalizadas, como prostitutas e gangues, ofereceram dados ricos e padrões estabelecidos para estudo posterior. Críticas e Legado Apesar de sua importância, não se deve exagerar a importância da Escola de Chicago. Como observado anteriormente, Chicago no início do século XX sofreu mudanças rápidas graças a uma combinação de fatores geográficos e econômicos que é improvável que nunca seja repetido. O resultado é que algumas das conclusões da Escola de Chicago, embora interessantes, são claramente limitadas em sua utilidade. Por exemplo, a teoria dos anéis concêntricos do crescimento, que se baseia em observações sobre o desenvolvimento de Chicago com um centro industrial com camadas de pobres e, em seguida, cada vez mais afluentes em torno dele, embora seja padrão de desenvolvimento se aplica a muitas cidades americanas, não é igualmente válido na Europa e, até mesmo, no Brasil, onde bairros com maiores problemas de criminalidade ficam muitas vezes distantes dos grandes centros industriais (caso de algumas comunidades da Biaxada Fluminense no Rio de Janeiro). As principais cidades europeias, como Londres, Paris, 49 Barcelona e Amesterdão têm bairros extremamente ricos e desejáveis perto do coração da cidade, com bairros mais pobres espalhados aleatoriamente pelos arredores. A Escola de Chicago, trabalhando a partir de seu ponto de vista histórico específico, não conseguiu levar em conta diferentes padrões de crescimento urbano. Ainda mais crítica é a consideração de inovações em tecnologia e comunicações, que tem implicações importantes sobre como o ambiente é definido. A Escola de Chicago ofereceu um forte contraponto às explicações que culpavam os indivíduos por sua criminalidade, justamente por ser focada na influência do ambiente. No entanto, eles estavam estudando uma área urbana antes da era da comunicação de massa. A aplicação contemporânea das idéias da Escola de Chicago deve levar em conta que a natureza da tecnologia - e, portanto, a ecologia social - mudou. A urbanização ainda é uma poderosa força motriz e ainda há uma extensa migração econômica, mas não ocorre na mesma taxa que na Chicago e outras metrópoles no início do século XX. A tecnologia moderna permite que as pessoas constantemente se comuniquem em rede e fora de seu ambiente físico, que necessariamente muda a definição do que constitui a sua comunidade. Um imigrante que vive em Londres pode ser isolado de seu próprio grupo cultural - o que a Escola de Chicago argumentaria que é um risco para o aumento do comportamento criminoso -, mas eles podem ir a um cyber café e trocar idéias em um vídeo-chat com amigos no país de origem. Assim, de uma maneira importante eles estão mantendo um vínculo com a comunidade, e eles não são interrompidos da mesma forma que um imigrante dos anos 1930 teria sido. Onde a influência da Escola de Chicago ainda pode ser sentida é que ela continua a definir termos de estudo, como "ambiente", mesmo se a natureza do que está sendo estudado mudou. Outra área onde a Escola de Chicago é menos útil é em termos de elaboração de planos para a prevenção do crime. Baseado na crença de que o crime é um comportamento aprendido, causado pelo ambiente, argumentou-se que ele pode ser, em grande parte, impedido por programas sociais, porém observam que a Escola de Chicago observou que um dos fatores da desorganização social e, portanto, do crime, era a falta de respeito pela autoridade e pouca fé nas organizações sociais. Todavia, é óbvio que as organizações sociais (igreja, associações, escolas, clubes) não podemefetivamente combater o crime cometido por pessoas com algum grau de convivência com eles. A Escola de Chicago não oferece nenhuma solução firme para este problema. Sem dúvida que organizações sociais informais, como igrejas, associações entre pais e professores e programas esportivos, sugerem uma maneira de chegar às comunidades, e esses grupos desempenham um papel importante na redução do comportamento criminoso, entretanto, o controle social formal sob a forma de policiamento também é essencial para prevenir o crime com eficácia mais 50 imediata, por vezes. Em conclusão, Chicago foi uma potência de estudo social e intelectual ao longo do século XX e influenciou muito a formulação de políticas nos Estados Unidos e em muitas outras partes do mundo, porém, como toda teoria, sofre influência das mudanças sociais. Questão Aplicada A contribuição da Escola de Chicago para o desenvolvimento da Criminologia permitiu compreender como a confluência da geografia, da urbanização, da economia, da imigração criaram novas formas de olhar para a sociedade. Assinale a alternativa que não identifica uma de suas características: a) Sua maior contribuição foi a idéia de ecologia social. b) O crime vem a ser uma conseqüência de um ambiente instável e das condições anormais de vida. c) O ambiente urbano é um fator que impulsiona a criminalidade dependendo de certas condições econômicas e geográficas. d) Um de seus enfoques principais relaciona-se ao perfil delinqüente de certas categorias de indivíduos em certos grupos sociais. e) A Escola de Chicago considera a migração e a instabilidade familiar como um dos fatores causais do crime. A única alternativa incorreta é a letra “d”, pois a Escola de Chicago teve como premissa maior justamente ser um contraponto às explicações que culpavam os indivíduos por sua criminalidade, focada na influência do ambiente GABARITO: letra “d”. Escola de Chicago (parte 2): principais abordagens teóricas A Escola de Chicago é uma das vertentes mais badaladas da Criminologia e é muito enfatizada naquela ciência multidisplicinar. No Brasil lamentavelmente é muito invocada por “policiólogos” de modo deturpado, sem consistência com suas bases teóricas. Na sociologia e depois na criminologia, a Escola de Chicago (às vezes descrita como Escola Ecológica) foi o primeiro grande conjunto de trabalhos que surgiram durante os anos 1920 e 1930, baseados em estudos de sociologia urbana e em pesquisas focadas no meio ambiente urbano, combinando teoria e trabalho de campo com objeto etnográfico 51 em Chicago, porém com aplicação geral de suas bases e premissas em outros lugares. Enquanto envolve estudiosos de várias universidades da área de Chicago, o termo é freqüentemente usado indistintamente para se referir ao departamento de sociologia da Universidade de Chicago. Após a Segunda Guerra Mundial, surgiu uma "Segunda Escola de Chicago" cujos membros usaram o interacionismo simbólico combinado com métodos de pesquisa de campo (hoje, muitas vezes referida como etnografia), para criar um novo campo de estudo e conhecimento. Osprincipaispesquisadores da primeiraescola de Chicago incluíramNels Anderson, Ernest Burgess, Ruth ShonleCavan, Edward Franklin Frazier, Everett Hughes, Roderick D. McKenzie, George Herbert Mead, Robert E. Park, Walter C. Reckless, Edwin Sutherland, WI Thomas , Frederic Thrasher, Louis Wirth, Florian Znaniecki. A Escola de Chicago é mais conhecida pela sua sociologia urbana e pelo desenvolvimento da abordagem interacionista simbólica, nomeadamente através do trabalho de Herbert Blumer. Concentrou-se no comportamento humano como moldado por estruturas sociais e fatores ambientais físicos, ao invés de características genéticas e pessoais. Biólogos e antropólogos aceitaram a teoria da evolução demonstrando que os animais se adaptam aos seus ambientes e ecossistemas. Aplicado aos seres humanos que são considerados responsáveis por seus próprios destinos, os membros da Escola de Chicago acreditavam que o ambiente natural, que a comunidade habita, é um fator importante na formação do comportamento humano e que a cidade funciona como um microcosmo. Para esta vertente de estudo, nas grandes cidades, onde todas as paixões, todas as energias da humanidade são liberadas, estamos em condições de investigar o processo da civilização, por assim dizer, como um microscópio. O trabalho de Frederic E. Clements (1916) foi particularmente influente13. Ele propôs que uma comunidade de vegetação é um superorganismo e que as comunidades desenvolvem um padrão fixo de estágios sucessionais desde o início até um estado clímax único ou um estado de equilíbrio auto-regulável. Por analogia, um indivíduo nasce, cresce, amadurece e morre, mas a comunidade que o indivíduo habitou continua a crescer e exibir propriedades maiores que a soma das propriedades das partes. 13Bulmer, Martin. (1984). The Chicago School of Sociology: Institutionalization, Diversity, and the Rise of Sociological Research. Chicago: University of Chicago Press. 52 Os membros da Escola concentraram-se na cidade de Chicago como objeto de seu estudo, procurando evidências de que a urbanização e o aumento da mobilidade social foram as causas dos problemas sociais contemporâneos. Inicialmente, Chicago era uma cidade limpa, com um ambiente físico vazio. Em 1860, Chicago era uma pequena cidade com uma população de 10.000 habitantes. Houve um grande crescimento após o incêndio de 1871. Em 1910, a população já superav dois milhões de habitantes. A rapidez do aumento deveu-se a um influxo de imigrantes e produziu um significativo número de sem- teto, condições precárias de habitação e condições de trabalho também precárias baseadas em baixos salários e longas horas. Mas, igualmente, Thomas e Znaniecki (1918) enfatizam que a súbita liberdade de imigrantes liberada dos controles da Europa para a competição irrestrita da nova cidade foi uma dinâmica de crescimento. Os estudos ecológicos consistiram em fazer mapas “spot” de Chicago para o local de ocorrência de comportamentos específicos, incluindo alcoolismo, homicídios, suicídios, psicoses e pobreza e, em seguida, taxas de computação com base em dados do censo. Uma comparação visual dos mapas pode identificar a concentração de certos tipos de comportamento em algumas áreas. Burgess estudou a história do desenvolvimento da cidade e concluiu que ela não havia crescido nas bordas. Embora a presença do Lago Michigan tenha impedido o cerco completo, ele postulou que todas as principais cidades seriam formadas por expansão radial do centro em anéis concêntricos que ele descreveu como zonas, ou seja, a área de negócios no centro, a área da favela (chamada zona em transição) em torno da área central, a zona das casas de trabalhadores mais adiante, a área residencial além desta zona, e depois a área do bangalô e a zona do viajante na periferia . Sob a influência de Albion Small, a pesquisa na Escola extraiu a massa de dados oficiais, incluindo relatórios de censos, registros de habitação / bem-estar e índices de crime, e relacionou os dados espacialmente com diferentes áreas geográficas da cidade. Shaw e McKay criaram mapas com a seguinte finalidade14: ➢ Detectar mapas para demonstrar a localização de uma série de problemas sociais com foco primário na delinquência juvenil; ➢ Tipos de mapas que dividiram a cidade em bloco de uma milha quadrada e mostrou a população por idade, sexo, etnia, etc; ➢ Mapas de zonas que demonstraram que os principais problemas foram agrupados no centro da cidade.14 Cavan, Ruth Shonle (January 1983). "The Chicago School of Sociology, 1918-1933". Urban Life. 53 Três grandes temas caracterizaram esse período dinâmico de estudos de Chicago15: ✓ Contato cultural e conflito: Isso surge de Thomas e Znaniecki (1918) e estuda como os grupos étnicos interagem e competem em um processo de sucessão comunitária e transformação institucional (Hughes e Hughes: 1952). Uma parte importante desse trabalho diz respeito a afro-americanos. ✓ Sucessão em instituições comunitárias como partes interessadas e atores no refluxo e fluxo de grupos étnicos. A Escola é talvez mais conhecida pelas Teorias de Subcultura de Thrasher, Frazier e Sutherland, e pela aplicação dos princípios da ecologia para desenvolver a Teoria da Desordem Social que se refere às causas do crime como um fracasso de: ✓ Instituições sociais ou organizações sociais, incluindo a família, as escolas, a igreja, as instituições políticas, o policiamento, os negócios, etc. em comunidades e / ou bairros identificados, ou na sociedade em geral; e ✓ Relações sociais que tradicionalmente incentivam a cooperação entre pessoas. Thomas definiu a desorganização social como "a incapacidade de um bairro para resolver seus problemas juntos", o que sugeriu um nível de patologia social e desorganização pessoal, pelo que o termo "organização social diferencial" foi preferido por muitos e pode ter sido a fonte de Sutherland (1947) na constituição da Teoria da associação diferencial. Os pesquisadores forneceram uma análise clara de que a cidade é um lugar onde a vida é superficial, onde as pessoas são anônimas, onde os relacionamentos são transitórios e a amizade e os laços familiares são fracos. O Chicago Area Project (CAP) foi uma tentativa prática de sociólogos de aplicar suas teorias em um laboratório da cidade. Pesquisas subsequentes mostraram que as ligas de atletismo juvenil, os programas de recreação e o acampamento de verão funcionaram melhor juntamente com o planejamento urbano e como alternativas ao encarceramento e como política de controle de crime. Tais programas são não empresariais e não são auto- sustentáveis, de modo que eles falham quando o governo local ou central não faz um compromisso financeiro sustentável. Embora em retrospectiva crítica possa se afirmar que as tentativas da escola de mapear o crime podem ter produzido algumas distorções, o 15McKenzie, R. D. "The Ecological Approach to the Study of the Human Community". American Journal of Sociology 30 (1924) 54 trabalho foi valioso na medida em que se afastou de um estudo padrão e deu lugar para um estudo mais sistemático em dados e escalas. Questão Aplicada A Escola de Chicago emergiu nas décadas de 20 e 30 do século XX a partir de estudos baseados na influência do ambiente urbano e das variáveis etnográficas observadas na cidade de Chicago, que vieram a ser consideradas em sua aplicação para qualquer outro local social. Assinale a alternativa incorreta quanto aos seus fundamentos teóricos: A Considera que o comportamento humano é determinado por estruturas sociais e fatores ambientais físicos. B Adota pressupostos extraídos da teoria da evolução quanto à adaptabilidade de animais ao ecossistema. C O conflito é influenciado pela interação entre os grupos étnicos e pela competição decorrente de um processo de sucessão na comunidade. D A maior mobilidade social em uma cidade influencia menores índices de criminalidade. E Refletiu uma tentativa prática de se aplicar a sociologia tomando a cidade como um laboratório. Incorreta a letra “d”, pois de acordo com a Escola de Chicago é justamente o contrário: quanto maior a mobilidade social, maior as taxas de crime em determinada cidade. As demais alternativas são conceitos e abordagens adotadas pelas Escola de Chicago. GABARITO: “D”. A Teoria da não-subordinação como reação à violência de gênero Trata-se de uma teoria que extrai aspectos estruturais da desigualdade de gêneros, levando em consideração as relações de poder e de dominação que são observadas em sociedades patriarcais ou com forte histórico de subjugação da mulher perante o homem. Como inspira a política criminal da Lei 11.340/06 (Lei Maria da Penha), deve ser bem estudada e compreendida. 55 A teoria da não-subordinação, às vezes chamada de teoria do domínio, é uma área da teoria jurídica feminista que se concentra no diferencial de poder entre homens e mulheres. A teoria da não-subordinação assume a posição de que a sociedade, e mais especialmente os homens na sociedade, usam as diferenças de sexo entre homens e mulheres para perpetuar esse desequilíbrio de poder. Ao contrário de outros tópicos dentro da teoria jurídica feminista, a teoria da não- subordinação se concentra especificamente em certos comportamentos sexuais, incluindo o controle da sexualidade das mulheres, o assédio sexual, a pornografia e a violência contra as mulheres em geral.Catharine MacKinnon argumenta que a teoria da não-subordinação aborda melhor essas questões particulares porque elas afetam mulheres "quase exclusivamente"16. MacKinnon defende a teoria da não-subordinação em relação a outras teorias, como a igualdade formal, a igualdade substantiva e a teoria das diferenças, porque a violência sexual e outras formas de violência contra as mulheres não são uma questão de "semelhança e diferença", mas sim são melhor vistas como desigualdades estruturais para as mulheres. Embora a teoria da não-subordinação tenha sido discutida amplamente na avaliação de várias formas de violência sexual contra as mulheres, ela também serve como base para a compreensão da violência doméstica e por que ela ocorre. A teoria da não-subordinação aborda a questão da violência doméstica como um subconjunto de um problema mais amplo da violência contra as mulheres porque as vítimas da violência doméstica são esmagadoramente femininas.17 Os proponentes da teoria da não-subordinação propõem várias razões pelas quais melhor explica a violência doméstica. Primeiro, existem certos padrões recorrentes de violência doméstica que indicam que não é o resultado de raiva ou argumento intenso, mas é uma forma de subordinação.Isto é evidenciado em parte pelo fato de que as vítimas de violência doméstica são tipicamente abusadas em uma variedade de situações e por uma variedade de meios. Por exemplo, as vítimas às vezes são espancadas depois de terem dormido ou foram separadas do agressor e, muitas vezes, o abuso assume uma forma financeira ou emocional além do abuso físico. Os defensores da teoria da não-subordinação usam esses exemplos para dissipar a noção de que a agressão é sempre o resultado do calor do momento, da raiva súbita ou por causa de discussões intensas. Além disso, os agressores muitas vezes empregam táticas manipuladoras e deliberadas ao abusar de suas vítimas, podendo atacá-la em áreas de seu 16Bartlett et al., citing Mahoney, Martha R. (1991). "Legal Images of Battered Women: Redefining the Issue of Separation". Michigan Law Review. 90: 1. JSTOR 1289533 17Karmen, Andrew (2010), "Victims of rapes and other sexual assaults", in Karmen, Andrew, Crime victims: an introduction to victimology (7th ed.), Belmont, California: Cengage Learning 56 corpo que não mostram contusões (por exemplo, seu couro cabeludo) ou em áreas onde ela ficaria envergonhada de mostrar aos outros suas contusões. Esses comportamentos podem ser ainda mais úteis para um autor do fato quando o agressor e a vítima compartilham filhos, porque o agressor muitasvezes controla os recursos financeiros da família, tornando a vítima menos resiliente, já que é provável que vá colocar seus filhos em risco. A professora Martha Mahoney, da Faculdade de Direito da Universidade de Miami, também aponta para a noção de "assalto à separação"18 - um fenômeno em que um agressor violenta ainda mais uma vítima que está tentando ou tentou deixar uma relação abusiva - como evidência adicional de que a violência doméstica é usada para subordinar vítimas aos seus agressores. A falta de vontade de um agressor para permitir que a vítima abandone a relação sustenta a idéia de que a violência é usada para forçar a vítima a continuar cumprindo os desejos do agressor de que ela lhe obedece e lhe pertence. Os teóricos da não-subordinação argumentam que todas essas ações - a variedade de comportamentos abusivos em várias configurações, a exploração dos filhos da vítima e o ataque contra a separação - sugerem um problema maior do que apenas uma incapacidade de gerenciar adequadamente a raiva, embora a raiva possa ser um subproduto desses comportamentos. O objetivo dessas ações é manter a vítima, e às vezes toda a família, subordinada ao agressor, de acordo com a teoria da não-subordinação19. Os teóricos da não-subordinação argumentam que outras formas de teoria jurídica feminista não oferecem nenhuma explicação para o fenômeno da violência doméstica em geral ou a freqüência com que ela ocorre. Já os críticos da teoria da não-subordinação afirmam que ela não oferece soluções para os problemas que aponta. Por exemplo, os proponentes da teoria da não- subordinação criticam certas abordagens que foram tomadas para abordar a violência doméstica no sistema legal, como as sanções obrigatórias de prisão. Essas políticas demandam o controle das forças policiais em focos específicos e selecionados, forçando os policiais a prender supostos delinquentes e perpetradores de violência doméstica. Há muitos discursos críticos em torno da prisão obrigatória, quando ela é considerada por teorias diversas, como o garantismo penal, como uma exceção. Os oponentes argumentam que o encarceramento como único meio de prevenção/repressão mina a autonomia da vítima, desencoraja o empoderamento das mulheres, desconsiderando outros recursos 18 Bartlett et al, ob.cit. 19Sanders, Cynthia K.; Schnabel, Meg (June 2006). "Organizing for economic empowerment of battered women: women's savings accounts". Journal of Community Practice. 57 disponíveis e colocando as vítimas em maior risco de abuso doméstico. Nos Estados Unidos, os Estados que implementaram leis de prisão obrigatórias têm taxas de homicídio 60% maiores, o que mostrou ser consistente com o declínio nas taxas de notificação dos casos de violência doméstica. Os defensores dessas políticas de encarceramento de suspeitos afirmam que o sistema de justiça criminal às vezes é o único meio de chegar às vítimas de violência doméstica e que, se um agressor sabe que ele será preso, deterá a futura conduta de violência doméstica. Questão Aplicada Assinale a alternativa correta que indica uma causa da violência doméstica de gênero para a teoria da não subordinação : a) Não leva em consideração a diferença potencial ou existencial entre homem e mulher. b) Diferente de outras teorias feministas foca especialmente em certos comportamentos sexuais, como o controle da sexualidade da mulher. c) Adota como abordagem principal a desigualdade formal e substantiva entre gêneros. d) A variação de situações, circunstâncias e meios de violência não é considerada como relevante para explicar a dinâmica de uma agressão doméstica a mulheres. e) As reações somáticas de fúria e descontrole do agressor são um dos aspectos principais para a determinação das causas da violência doméstica. A única alternativa correta é a letra “b”, pois para a Teoria da Não-Subordinação, o controle projetado sobre a mulher enfoca especificamente a subjugação de sua sexualidade pelo homem, o que explica os índices esmagadoramente maiores de assédio sexual, estupro e outros delitos sexuais cujas vítimas são mulheres. As demais alternativas estão incorretas, pois confrontam a lógica da teoria. GABARITO: letra “b”. Skinheads, Satanistas, Hoolingans: as subculturas de delinquência As Teorias de Subcultura são estudos criminológicos relevantes para a compreensão das causas do crime, pois se expressam através de agrupamentos humanos que se baseiam em convicções firmes em comum. 58 A teoria subcultural explica o desvio em termos de um grupo desviante, separado do resto da sociedade que incentiva o desvio As teorias de Subcultura são estudos criminológicos com abordagens metodológicas específicas, que estudam o delito como opção coletiva, sendo considerado crime apenas as manifestações em condutas legitimadas por determinado grupo através da exteriorização dos princípios e valores que carregam em comum, mas que sofrem rejeição da maioria da sociedade. São exemplos mais notórios de subculturas de delinqüência estudadas os hooligans, as torcidas organizadas de futebol, jovens praticantes de determinada arte marcial que espaçam desafetos ou pessoas aleatoriamente durante a noite, gangues de bailes “funk”, skinheads, grupos violentos de fãs de black metal com abordagem satanista. Muitos destes crimes praticados por grupos que carregam subculturas são multitudinários (praticados em multidões) e apresentam valores específicos que unem seus integrantes, que buscam projetar externamente através do culto à força física. Critica-se esta escola por ser muito reducionista, já que não justifica os crimes provocados fora das subculturas e não considera que nem sempre há coesão de valores dentro do mesmo grupo, ou seja, é possível que membros do grupo não comunguem com todos os princípios lá desenvolvidos. Por exemplo, nem todos os lutadores de jiu-jitsu se tornarão um “pitboy” ou nem todos os fãs de hardcore punk com cabeças raspadas serão adeptos da subcultura “skinhead” ou nem todo fã de black metal satânico atacará igrejas ou grupos rivais. Diferentemente é o conceito de contracultura, que é desenvolvida em determinados grupos mais articulados, questionadores e, na maioria das vezes, pacíficos, formados, por exemplo, por hippies, intelectuais, artistas e ambientalistas. Enquanto a subcultura não se importa em convencer os demais membros da sociedade sobre seus valores (eles simplesmente agem segundo suas convicções), a contracultura, ainda que passivamente, deseja mudar conceitos, ou pelo menos, que se respeitem os valores desenvolvidos pelo grupo como expressão de mudança social. Principais estudos teóricos das subculturas Albert Cohen: Frustração de status como fator de formação das subculturas 59 ✓ Os meninos da classe trabalhadora tentam ganhar o status dentro da escola e falham, assim sofrem a frustração do status ✓ Alguns desses rapazes encontram um ao outro e formam uma subcultura ✓ Status é obtido dentro da subcultura, quebrando regras mainstream. Cloward e Ohlin: Estrutura da Oportunidade Ilegítima (IOS) ✓ Uma combinação de teoria da tensão e teoria subcultural ✓ O tipo de subcultura que um indivíduo junta depende das subculturas existentes (que formam um IOS) ✓ Existem três tipos de subcultura: Criminal (áreas de classe trabalhadora / pequeno crime organizado), Conflito (menos populações vulneráveis) e (por exemplo, subculturas de drogas) que Cloward e Ohlin viam como sendo formadas por pessoas que não tinham as habilidades para se juntarem às outras duas). Walter Miller: PreocupaçõesFocais ✓ Viu a classe trabalhadora inferior como uma subcultura com seu próprio conjunto de valores únicos ✓ A cultura da classe trabalhadora enfatizou seis preocupações focais (ou valores fundamentais) que encorajavam o comportamento criminoso entre os jovens da classe trabalhadora. ✓ Três exemplos dessas preocupações focais onde a dureza (proeza física), a excitação (assunção de riscos) e a inteligência (ser inteligente na rua) Charles Murray: Teoria da subclasse ✓ Na década de 1980, uma subclasse havia surgido na Grã-Bretanha. ✓ Principais características = desemprego de longa duração, taxas elevadas de gravidez na adolescência e famílias monoparentais 60 ✓ Significa que as crianças não são socializadas em normas e nos valores mainstream (socialmente considerados superiores na sociedade) e se tornaram NEET20 ✓ A subclasse é 20 vezes mais criminosa do que o resto da sociedade. Questão Aplicada As Teorias Subculturais surgiram a partir dos anos 40 e criaram um conceito novo na Criminologia, estudando o delito como opção coletiva de grupos com exteriorizações em comum. Assinale a alternativa que não corresponda aos seus fundamentos teóricos: A Focaliza as condutas criminosas exteriorizadas por um determinado grupo como expressão de seus valores. B São exemplos que a identificam a atuação das torcidas organizadas de futebol, grupos de skinheads e o hooliganismo. C A manifestação dos valores de um grupo pela força física corresponde a uma característica de uma subcultura. D Em uma subcultura grupal, seus integrantes procuram impor seus valores a outros membros da sociedade através da força e da coerção. E A frustração do status social é um dos aspectos relevantes da formação de uma subcultura. Resposta: A alternativa incorreta é a letra “d”, pois a subculturas grupais não procuram modificar a opinião de uma sociedade a partir da projeção de seus valores; ao contrário, afirmam seus valores contrariamente à maioria e normalmente pela coerção pura. As demais alternativas são conceitos e abordagens adotadas pelas Teorias Subculturais. GABARITO: “D”. 20NEET, jovens (15-24 ou 15-29) sem emprego e que não estão a frequentar qualquer ação de educação ou formação, englobam uma gama variada de situações pelo que deve ser decomposto em várias categorias/ subgrupos. São os “nem-nem” do Brasil, ou seja, não trabalham nem estudam. No Brasil, de acordo com índice do IBGE de 2016, atinge a proporção assustadora de 22,5% da população jovem (e viva o funk ostentação, sertanejo universitário, balada da pegação...) 61 O polêmico movimento ‘lawandorder” O movimento “LAW AND ORDER” (não confundir com a famosa série televisiva ambientada em Nova York) é um dos temas mais abordados na Criminologia contemporânea, sendo uma vertente de política criminal muito criticada pela doutrina penal no Brasil. Assim pode vir a ser abordado esse tema em concursos públicos. Vamos à explicação em bloco único para facilitar sua compreensão. O movimento de política criminal intitulado “lei e a ordem” refere-se a um conjunto de exigências de adoção de um sistema de justiça penal mais rigoroso, especialmente em relação ao crime violento e patrimonial,através de penalidades criminais mais rigorosas. Essas penalidades podem incluir marcos maiores de penas abstratamente cominadas, sentença condenatórias com encarceramento já em primeira ou segunda instância, e, em alguns países, a pena de morte.21 Os defensores do movimento da "lei e da ordem" argumentam que o encarceramento é o meio mais eficaz de prevenção da criminalidade. Já os oponentes do movimento da “lei e da ordem” argumentam que um sistema de punição criminal severa é, em última instância, ineficaz porque não aborda causas subjacentes ou sistêmicas do crime. "Lei e ordem" tornou-se um poderoso tema conservador nos EUA na década de 1960.Os principais defensores do final da década de 1960 foram os republicanos Ronald Reagan (como governador da Califórnia) e Richard Nixon (como candidato presidencial em 1968). Eles usaram isso para dissolver um consenso liberal sobre crime que envolvia decisões judiciais federais mais flexíveis quanto ao encarceramento em massa e um foco maior contra drogas ilegais e atividades violentas de gangues. As etnias brancas nas cidades do norte se voltaram contra o então Partido Democrata no poder, culpando-o por ser “manso” com o crime. Os políticos e intelectuais mais liberais teriam segundo críticos ignorado a crise do crime que eclodia na época, pois alegavam que a lei e a ordem eram uma artimanha “racista”, ou sustentavam que os programas sociais resolveriam as "causas profundas" do transtorno civil e da criminalidade urbana, que em 1968 parecia cada vez mais improvável e contribuía para a perda de fé na capacidade do governo de fazer o que foi creditado- proteger a segurança pessoal e a propriedade privada. Os conservadores rejeitaram as noções liberais e adotaram o discurso de fortalecimento do aparato policial e criminal. Como os conservadores construíram uma 21"The Politics of Law and Order" by Platt, Anthony M. - Social Justice, Vol. 21, Issue 3, Fall 1994 | Online Research Library: Questia Reader". 62 mensagem persuasiva que argumentava que o Movimento dos Direitos Civis tinha contribuído para o conflito racial e a Grande Sociedade de Bem Estar do Governo de Lyndon Johnson recompensou em vez de punir os perpetradores da violência, os conservadores exigiram que o governo nacional promovesse o respeito pela lei e a ordem e o desprezo por aqueles que a violaram, independentemente da causa.22 A demanda política por "lei e ordem" foi feita por John Adams e Thomas Jefferson nos anos 1780 e 1790. Era um slogan político no Kentucky em torno de 1900 após o assassinato do governador William Goebel. O termo foi usado por Barry Goldwater em sua corrida para presidente dos EUA em 1964. Depois que Reagan assumiu o cargo em 1981 e começou a nomear juízes conservadores difíceis, “a lei e a ordem” tornou-se uma arma contra o crime. O número de prisioneiros triplicou de 500 mil em 1980 para 1,5 milhões em 1994. Os conservadores no nível estadual construíram muitas mais prisões, com mais privação de liberdade nas condenações e menos livramento condicional. Adotou-se a premissa que no momento em que foram libertados, os egressos eram muito mais velhos e, portanto, muito menos violentos. Os defensores de políticas mais rigorosas para o crime e os acusados de crime ganharam muitas vitórias desde que a questão se tornou importante. Os destaques incluem leis rigorosas que tratam da venda e uso de drogas ilícitas. Por exemplo, as leis de drogas de Rockefeller passaram no estado de Nova York em 1973 - e mais tarde, as leis que exigem penalidades mais duras para os reincidentes, além da retomada da legalização da pena de morte em vários estados. Grupos de direitos civis se opuseram firmemente à tendência em relação a medidas mais severas em geral. A questão da lei e da ordem causou uma fenda profunda dentro do Partido Democrata no final da década de 1960 e 1970, e essa fenda foi vista por muitos cientistas políticos como um dos principais fatores contribuintes nas duas corridas presidenciais de Ronald Reagan em 1980 e 1984. Em ambas eleições milhões de democratas registrados votaram em favor de Reagan, e eles coletivamente se tornaram conhecidos como "Reagan Democrats". Muitos desses eleitores finalmente mudaram seu registro de filiação e se tornaram republicanos, especialmente no sul.Embora os crimes violentos sejam o foco principal dos defensores da lei e da ordem, os crimes relacionados à qualidade de vida às vezes também estão incluídos sob o 22Michael W. Flamm, Law and Order: Street Crime, Civil Unrest, and the Crisis of Liberalism in the 1960s (2005). 63 guarda-chuva do movimento. Uma posição difícil sobre este assunto ajudou bastante Rudy Giuliani a ganhar dois mandatos como prefeito de Nova York na década de 1990, e também foi amplamente citada como impulsionando Gavin Newsom para a vitória sobre um adversário mais liberal na eleição de prefeito de São Francisco de 2003. Richard Riordan também se tornou o novo prefeito de Los Angeles em 1993 pela primeira vez em 20 anos depois que Tom Bradley se aposentou. O movimento da “lei e da ordem” influenciou profundamente a América Latina, com a militarização do combate às drogas através do “Plano Colômbia” e criminalização mais gravosa do tráfico de drogas na região, ampliando maciçamente o encarceramento por tais delitos, notadamente pequenos traficantes de entorpecentes. Questão Aplicada Assinale a alternativa incorreta que não corresponde a uma das características do movimento de política criminal “Lei e Ordem”, surgido no Estados Unidos após a década de 70 do século XX: A O encarceramento em massa é identificado como uma das medidas mais eficazes de prevenção criminal. B Considera que o rigor no sistema de justiça criminal e a aplicação de penalidades mais rigorosas são medidas determinantes para o controle da criminalidade. C Tem maior atuação sobre crimes corporativos, violentos e patrimoniais. D Emergiu nos Estados Unidos da América como uma reação política conservadora ao crescimento vertiginoso da criminalidade a partir do final da década de 60 do século XX. E A intensificação da quantidade de encarcerados foi uma de suas conseqüências principais. Resposta: A alternativa incorreta é a letra “c”, pois este movimento não foca prioritariamente nos crimes “corporativos”, relacionados com o poder econômico e político, focando-se realmente nos crimes violentos, patrimoniais e no confronto às drogas. GABARITO: “C”. 64 O crime como desobediência a uma decisão política da elite: a teoria do conflito A Teoria do Conflito parte da premissa de que o crime é um fato político, ou seja, o crime não existe como fato natural, mas sim pela desobediência a uma norma elaborada através de decisões políticas, as quais geralmente refletem ou defendem os interesses da classe dominante, sendo a lei um instrumento de controle social que visa satisfazer os interesses das camadas superiores da sociedade. Tal teoria desmistifica o conceito de que, por vivermos numa democracia, as leis produzidas e as decisões tomadas por nossos governantes são a princípio legítimas, por representarem a vontade e os interesses do povo.Assim, verifica-se uma relação de conflito permanente, onde a lei e a pena seria tão- somente um novo grau deste mesmo conflito de poder, onde as autoridades agem mediante a criação, interpretação e aplicação coativa das normas. A lei de Crimes Hediondos (Lei 8072/90), em alguns tipos penais, como o de latrocínio, para a Teoria do Conflito seria o reflexo da prevalência da importância do patrimônio como bem jurídico maior de nossa sociedade capitalista, com preceito sancionatório superior a crimes como o próprio homicídio. 65 Tipos de Teoria do Conflito A teoria do conflito baseada em raças postula que o sistema de justiça criminal é distorcido em favor dos membros da raça branca socialmente dominante, enquanto se mostra preconceituoso contra membros de grupos raciais e étnicos hispânicos, negros ou indígenas. A criminologia "radical" é uma teoria de conflito que segue as idéias marxistas que sustentam a idéias segundo a qual a sociedade está dividida ao longo de linhas de prosperidade econômica, com os ricos usando leis criminais e punição para oprimir as classes pobres e operárias. Outros tipos de teorias de conflito da justiça criminal incluem a percepção dos conflitos subjacentes ao que constitui um crime como decorrentes de diferenças acadêmicas e filosóficas quanto ao que se compreende como o melhor curso de ação para a sociedade, bem como os conflitos de valores sobre percepções de propriedade privada ou de direitos e quais seriam as condições necessárias para uma vida pacífica. Significado As teorias do conflito da justiça criminal fornecem um argumento significativo para avaliar a funcionalidade e os objetivos de todo o sistema de justiça criminal. Por exemplo, de acordo com um documento de política da Sociedade Americana de Criminologia, um terço de todos os homens negros nos Estados Unidos será encarcerado em algum momento de sua vida, um número que é significativamente desproporcional à taxa de encarceramento de homens brancos ou de fêmeas de qualquer raça. A teoria do conflito racial apresenta uma explicação potencial a ser considerada na avaliação desses dados. História Embora os crimes e as punições tenham sido prescritos pelos sistemas sociais desde os tempos pré-bíblicos, a criminologia como uma instituição social envolvendo policias, tribunais e prisões, é um desenvolvimento moderno com sementes de desenvolvimento no século XVIII e um crescimento significativo no século XIX até os dias atuais. Escrevendo em meados do século XIX, Karl Marx desenvolveu uma teoria do conflito econômico aplicável à justiça penal, bem como a muitas outras instituições sociais, postulando que a industrialização levou ao excesso de população, que foi social e politicamente oprimido por aqueles que se beneficiaram do sistema capitalista em desenvolvimento . Max Weber, escrevendo na virada do século 20, via a cultura humana como mais benéfica do que Marx, vendo os conflitos subjacentes à justiça criminal como valores concorrentes e não como uma opressão intencional. George Simmel observou 66 conceitos de crime decorrentes de confrontos entre grupos culturais que entraram em contato uns com os outros abruptamente, aumentando assim os padrões de imigração. Função As teorias de conflitos funcionam como um meio de explicar as filosofias abrangentes por trás de diferentes políticas e sistemas de justiça criminal. Como um ramo da filosofia social, as teorias de conflitos de justiça criminal não procuram ditar o que é certo ou errado, ou declarar qual o sistema de justiça penal é superior. Em vez disso, as teorias de conflito são um modo de descrever e analisar as intenções e os impactos de diferentes sistemas e eventos de justiça criminal. Por exemplo, uma análise normativa da pena de morte pode levar em conta os custos, efeitos de dissuasão e salvaguardas sistêmicas contra condenações impróprias para descrever se a pena de morte funciona para impedir o crime. Uma análise da teoria de conflitos raciais examinaria a composição racial de réus, vítimas, jurados e juízes para determinar se a pena de morte funciona como um meio para os caucasianos oprimir os negros americanos. Efeitos A popularização das teorias de conflitos da justiça criminal tem vários efeitos. Um efeito entre o público em geral pode ser, ironicamente, exacerbar as tensões raciais. A publicação de relatórios apontando a desproporcionalidade do encarceramento de certas raças pode resultar em uma severa reação pública e da mídia, afirmando que os dados são devidos a certas raças com maior propensão para participar de atividades criminosas, em detrimento de outros grupos étnicos ou definidos pela co da pele ou mesmo origem geográfica. Outro efeitopode ser encorajar a classe política a mudar as leis com impactos obviamente distorcidos. Por exemplo, o Congresso dos Estados Unidos está atualmente sob pressão para mudar as diretrizes onerosas de condenação para o crack, uma droga menos cara, favorecida por jovens de status socioeconômico inferior, com maior equivalência ao castigo mais tolerante para a cocaína em pó, mais adotada por jovens ricos, estudantes universitários e pessoas de negócios. 67 Questão Aplicada Assinale a alternativa incorreta que caracteriza a Teoria do Conflito no estudo da Criminologia Radical: a) O crime é considerado essencialmente um fato político, decorrente da imposição de um grupo que exerce o poder. b) A lei é considerada como um instrumento de controle social de grupos dominantes na sociedade. c) A pena e a lei são instrumentos sociais que refletem um conflito permanente de poder. d) Alguns tipos penais, como alguns definidos pela lei de crimes hediondos, são indicações do domínio de uma classe sobre outra considerada como marginal. e) A representatividade popular na elaboração das leis por um órgão legislativo é um mecanismo de resolução do conflito entre classes nas sociedades. Resposta: A única alternativa incorreta é a letra “e”, pois para a Teoria do Conflito as leis elaboradas por um órgãos legislativo do Estado, ainda que com representantes eleitos, nada mais que refletem os interesses de uma classe superior no exercício do poder, em um contexto permanente de conflito com outras categorias sociais oprimidas e desfavorecidas. GABARITO: letra “d”. Lombroso e sua tipologia de criminosos A ideia central do trabalho de Lombroso veio para ele quando realizava a autópsia do corpo de um notório criminoso italiano chamado Giuseppe Villela. Ao contemplar o crânio de Villela, Lombroso observou que certas características físicas (especificamente, uma depressão na região occipital que ele chamou de fossa occipital mediana) lembravam o crânio de "raças inferiores" e "os tipos mais baixos de macacos, roedores e pássaros ". O termo usado por Lombroso para descrever o aparecimento de organismos que se assemelham a formas de vida ancestrais (pré-humanas) é o atavismo. Os criminosos natos (ou por natureza) foram assim vistos por Lombroso em seus primeiros escritos como uma espécie de subespécie humana (em seus escritos 68 posteriores, ele os viu menos como retrocessos evolutivos e mais em termos de desenvolvimento e degeneração). Lombroso acreditava que o atavismo poderia ser identificado por uma série de estigmas físicos mensuráveis, que incluíam mandíbulas salientes, olhos caídos, orelhas grandes, nariz torcido, braços longos em relação aos membros inferiores, ombros inclinados e um cóccix semelhante a uma cauda. O conceito de atavismo se relevou incrivelmente errado, mas, como tantos outros de seu tempo, Lombroso procurou compreender fenômenos comportamentais com referência aos princípios da evolução como eram entendidos na época. Se a humanidade estava apenas em uma extremidade da evolução contínua da vida animal fazia sentido para muitas pessoas que os criminosos - que agiam "bestialmente" e que careciam de consciência racional – seriam seres biologicamente inferiores. Tipologia de criminosos na definição de Lomboso Além do "criminoso nato atávico", Lombroso identificou dois outros tipos: o "criminoso insano" e o "criminoso". Embora os criminosos insanos tenham algum estigma, eles não eram "criminosos natos"; em vez disso, eles se tornam criminosos como resultado "de uma alteração do cérebro, o que perturba completamente sua natureza moral". Entre as fileiras de "criminosos insanos" estavam os alcoólatras, os cleptómaníacos, os ninfomaníacos e os agressores de crianças. "Criminalóides" (os “delinqüentes por profissão”) não tinham nenhuma das peculiaridades físicas do "nato" ou do "criminoso insano", mas se envolviam no crime mais tarde ao longo da vida e tenderiam a cometer crimes menos graves. Os "criminosos" foram categorizados como "criminosos habituais", que se tornam assim por contato com outros criminosos, abuso de álcool ou motivados por outras "circunstâncias angustiantes". Esta categoria incluiu "criminosos jurídicos", que afligem a lei por acidente; e as pessoas identificadas como "criminosas por paixão", os tipos excitantes e impulsivos que cometem atos violentos quando provocados. Questão Aplicada Os estudos de CesareLombroso marcaram profundamente a Criminologia, com influências em distintos movimentos de política criminal e na composição de diversas escolas penais. Assinale a alternativa incorreta que não caracteriza sua abordagem de estudo quanto ao criminoso: 69 A O criminoso era identificado como uma subespécie humana com regressão atávica. B Caracteres físicos eram determinantes para a propensão do comportamento criminoso. C Estabelecia uma diferença entre criminosos insanos e por natureza. D Exames do crânio por critérios biológicos e físicos indicariam criminosos por natureza. E Não estabelecia estigmas raciais ou físicos mensuráveis. Resposta : A alternativa incorreta é a letra “e”, pois esta abordagem teórica claramente se utilizava de critérios raciais e de estigmas físicos específicos como identificação de um indivíduo com propensão criminosa. GABARITO: “E”. Garofalo e seus conceitos de “mala in se” e “mala prohibita” Garofalo se tornou conhecido na Criminologia por seus esforços destinados a formular uma definição "natural" de crime. Os pensadores clássicos aceitaram a definição legal do crime de forma acrítica; para eles, o crime é o que a lei diz que é. Uma definição com foco jurídico-formal, portanto. Isso parecia ser bastante arbitrário e "não científico" para Garofalo (como o sistema britânico-americano de medição linear) que queria ancorar a definição de crime em algo natural. Garofalo sentiu que as definições de crime deveriam estar ancoradas na natureza humana, pelo que ele quis dizer que um determinado ato seria considerado como um crime se fosse condenado universalmente e seria universalmente condenado se ofendesse os sentimentos altruístas naturais de probidade (integridade, honestidade) e pena ( no sentido de compaixão, simpatia). Os crimes naturais são maus em si mesmos (mala in se), enquanto outros tipos de crimes (mala prohibita) são errôneos apenas porque eles foram definidos como tal pela lei. Garofalo rejeitou o princípio clássico de que o castigo deveria caber ao crime, argumentando que deveria caber ao criminoso. Como um bom positivista, ele acreditava que os criminosos têm pouco controle sobre suas ações. Este repúdio ao livre- arbítrio (e, portanto, à responsabilidade moral) e a adequação do castigo ao infrator acabaria por levar a sentenças destinadas a objetivos humanos e liberais de tratamento e reabilitação. Para Garofalo, no entanto, a única questão a ser considerada na sentença 70 foi o perigo que o ofensor representava para a sociedade, que deveria ser julgado pelas "peculiaridades" de um delinquente. Por "peculiaridades", Garofalo não estava se referindo a estigmas de Lombroso, mas sim às características particulares que colocam os infratores em risco de comportamento criminoso. Ele desenvolveu quatro categorias de criminosos, cada um merecendo diferentes formas de punição: "extremo", "impulsivo", "profissional" e "endêmico". A sociedade só poderia ser defendida contra criminosos extremos, executando-os rapidamente, independentemente do crime pelo qual eles são punidos. Aqui Garofalo partiu de Lombroso e Ferri, os dois que estavam contra a pena de morte, embora Lombrosogradualmente a aceitasse para criminosos natos e por aqueles que cometiam crimes particularmente hediondos. Criminosos impulsivos, uma categoria que incluiu alcoólatras e os insanos, deveriam ser presos. Os criminosos profissionais eram indivíduos psicologicamente normais que utilizam o cálculo hedonístico antes de cometer seus crimes e, portanto, exigem "eliminação", seja por prisão perpétua ou mediante transporte para uma colônia penal no exterior. "Crime endêmico" foi o conceito pelo qual Garofalo caracterizou os crimes peculiares a um determinado local ou região (mala prohibita), podendo ser melhor controlados por mudanças na lei e não impondo severas punições aos infratores. Questão Aplicada A respeito da escola criminológica de Garofalo, assinale a alternativa correta: a) Buscou formular uma definição jurídico-formal de crime. b) Definiu o crime como o comportamento humano que viola a lei e seus princípios.] c) O castigo deveria ser aplicado ao crime praticado e não ao criminoso. d) O elemento determinante de uma sanção penal deve ser o perigo que o criminoso oferece à sociedade levando-se em conta suas particularidades. e) Considerou o livre-arbítrio como fator relevante no comportamento criminoso. Resposta: A única alternativa correta é a letra “d”, pois para Garofalo a sanção penal deveria justamente considerar o perigo causado pelo criminoso de acordo com suas particularidades examinadas. As demais alternativas se opõem totalmente aos seus conceitos, pois em relação à alternativa “a”, seus estudos contrariam justamente a definição jurídico-formal do que é um crime; quanto à alternativa “b”, Garofalo estendeu o conceito de crime muito além de ser um comportamento violador de alguma legislação; 71 em relação à alternativa “c”, o castigo deveria cingir-se ao criminoso e não ao crime; quanto à alternativa “e”, é justamente o contrário: Garofalo como positivista repudiava a noção do livre-arbítrio como elemento definidor da responsabilidade penal. GABARITO: letra “D”. A TEORIA DA FACILITAÇÃO DA VÍTIMA COMO EXPRESSÃO DA VITIMOLOGIA A facilitação da vítima, um subtópico altamente controverso, encontra suas raízes nos escritos de criminologistas como Marvin Wolfgang. A escolha de usar a facilitação da vítima em oposição à "propensão da vítima" ou algum outro termo é que a facilitação da vítima não está culpando a vítima propriamente, mas sim as interações da vítima que o tornam vulnerável a um crime. Ao contrário do senso comum, não se atribui a uma prostituta ou “periguetefunkeira ostentação” parcela de responsabilidade causal pelo ato criminoso; analisa-se, isto sim, fatores externos intrínsecos ao comportamento da vítima que a tornam mais vulnerável a determinadas modalidades de ofensas delituosas. A teoria da facilitação da vítima requer o estudo dos elementos externos que tornam uma vítima mais acessível ou vulnerável a um ataque . Em um artigo que resume os principais movimentos em vitimologia internacionalmente, Schneider23 expressa a facilitação vítima como um modelo que, em última instância, descreve apenas a interpretação errônea do ofensor do comportamento da vítima . Baseia-se na teoria de uma interação simbólica e não alivia o infrator de sua responsabilidade exclusiva. Como estudo de caso bem documentado de Hickey24, uma análise principal de 329 assassinos em série nos Estados Unidos classificou as vítimas como altas, baixas ou misturadas em relação à facilitação da vítima do assassinato. A categorização baseou-se no risco de estilo de vida (exemplo, quantidade de tempo gasto em interagir com estranhos), tipo de emprego e sua localização no momento do assassinato (exemplo, bar, casa ou local de trabalho). Hickey descobriu que 13-15% das vítimas tinham alta facilitação, 60-64% das vítimas tinham baixa facilitação e 23-25% das vítimas tinham uma combinação de alta e baixa facilitação. Hickey também observou que, entre as vítimas de assassinos em série após 1975, uma em cada cinco vítimas correm maior risco de fazer carona, trabalhar como 23Schneider, H. J. (2001). "Victimological developments in the world during the past three decades (I): A Study of comparative victimology". International journal of offender therapy and comparative criminology. 45: 449–468. 24Hickey, Eric W. (2006). The Male serial murderer. In Serial murderers and their victims (4th ed., pp. 152–159). Belmont, CA: Wadsworth Group 72 prostituta ou se envolver em situações em que muitas vezes entraram em contato com estranhos. Há uma importância em estudar e compreender a teoria de facilitação da vítima, bem como continuar a pesquisá-la como um sub-tópico de vitimização. Por exemplo, um estudo sobre a facilitação das vítimas aumenta a conscientização pública, leva a mais pesquisas sobre a relação vítima-infrator e promove a etiologia teórica do crime violento. Um dos propósitos fundamentais desse tipo de conhecimento é informar o público e aumentar a consciência para que menos pessoas se tornem vítimas. Outro objetivo do estudo da facilitação da vítima é auxiliar nas investigações. Isso (o auxílio às investigações) pode ser ligado à facilitação da vítima porque as redes sociais da vítima são os locais em que a vítima é mais vulnerável a certas tipologias de crimes e a determinados criminosos contumazes. Usando este processo, os investigadores podem criar um perfil de lugares onde, por exemplo, o assassino em série e vítima se situam com freqüência. Questão Aplicada No campo da vitimologia, a facilitação da vítima dos fatores que levaram ao cometimento do crime é um dos subtópicos mais controversos de estudo da Criminologia. Assinale a alternativa incorreta que não caracteriza esta abordagem de estudo: A As interações e comportamentos prévios da vítima contribuem para o surgimento do ato criminoso. B A vítima tem co-responsabilidade pela causalidade do crime. C São considerados os elementos externos que tornam as vítimas mais acessíveis ou propensas a uma ofensa criminosa. A manifestação dos valores de um grupo pela força física corresponde a uma característica de uma subcultura. D O estilo de vida associado a fatores de risco, a modalidade de emprego exercida a localização no momento da ofensa são fatores criminógenos vinculados ao comportamento da vítima. E Um dos enfoques sociais práticos é a prevenção para diminuição de vítimas de certos tipos de crimes e conscientizações públicas de caráter preventivo. 73 Resposta: A alternativa incorreta é a letra “b”, pois esta abordagem teórica não relaciona a vítima à responsabilidade, ainda que parcial, pelo surgimento do ato criminoso contra si, mas focaliza os fators externos que a tornam mais propensa a sofrer ofensas. GABARITO: “B”. O crime político na visão da criminologia Na criminologia, um crime político ou delito político é uma ofensa que envolve atos ou omissões manifestas (onde há um dever de agir), que prejudicam os interesses do Estado, do seu governo ou do sistema político. É para ser distinguido do crime de Estado, em que são os próprios Estados que quebram tanto suas próprias leis criminais ou normas de direito internacional público. Os Estados usualmente definem como crimes políticos qualquer comportamento percebido como uma ameaça, real ou imaginária, à sobrevivência do Estado, incluindo crimes violentos e não violentos de oposição. Uma conseqüência dessa criminalização pode ser que uma série de direitos humanos, direitos civis e liberdades sejam restringidos em circunstâncias de tempo, espaço e contexto histórico, no qual certas modalidades deconduta que normalmente não seriam consideradas criminosa em si (ou seja, que não é anti-social de acordo com aqueles que a praticam nem em uma ontologia definida por critérios morais ou éticos socialmente padrões) são criminalizadas na conveniência de manutenção de um sistema de poder constituído (que pode ou não ser socialmente legitimado). Assim, enquanto a maioria dos que apóiam o atual regime pode considerar a criminalização de um comportamento politicamente motivado como uma resposta aceitável quando o agressor é conduzido por crenças mais extremas de matizes políticas, ideológicas, religiosas ou outras, pode haver um questionamento de moralidade de uma lei que criminaliza simplesmente a dissidência política ordinária. Em um extremo, crimes como traição e terrorismo são políticos porque representam um desafio direto ao Governo no poder. A espionagem é geralmente considerada um ato criminoso. Mas os infratores não têm como objetivo derrubar o governo ou depor seus líderes para agir de uma forma percebida como "política". Um Estado pode perceber que isso o ameaça se os indivíduos defendem a mudança para a ordem estabelecida, ou argumentam a necessidade de reformas de políticas estabelecidas há muito tempo, ou envolvem-se em atos que significam algum grau de deslealdade, como 74 por exemplo, queimar a bandeira da nação em público. Mas o alcance de tais crimes pode ser bastante menos direto. Os criminologistas funcionais estruturais reconhecem que os Estados investem seus recursos na manutenção da ordem através da conformidade social, isto é, uma cultura particular é incentivada e mantida através dos discursos sociais primários, que podem incluir preocupações religiosas, econômicas, sociais ou outras menos formais. Qualquer interferência com os meios de comunicação ou os conjuntos de sentidos embutidos nas próprias comunicações pode ser percebida como uma ameaça à autoridade política do Estado. Portanto, seja em cópia impressa ou eletronicamente, se os indivíduos distribuírem material contendo informações não censuradas que minam a credibilidade dos meios de comunicação controlados pelo Estado, isso pode ser considerado ameaçador. Além disso, até mesmo uma ofensa contra instituições, pessoas ou práticas não- governamentais pode ser considerada política. Violência ou até mesmo discriminação contra um grupo étnico ou racial, bem como greves sindicais ou piquetes contra empregadores privados, pode ser percebida como um crime político quando aqueles no poder vêem tal conduta como minando a estabilidade política (e econômica) do Estado. Neste contexto, note que o Código de Conduta dos Encarregado de Aplicação da Lei aprovado pela Associação Internacional de Chefes de Polícia diz em parte: "Os deveres fundamentais de um policial incluem servir a comunidade, salvaguardar vidas e propriedade, proteger os inocentes, manter a paz, garantindo os direitos de todos à liberdade, igualdade e justiça ". Este código exige que a polícia se comporte de maneira cortês e justa, que trate todos os cidadãos de forma respeitável e decente, e que eles nunca usem força desnecessária. Quando o fazem, argumenta-se que isso constitui um crime (por exemplo, como um assalto) e que se for institucionalizado, com o passar do tempo, o uso de força desnecessária, vem a se tornar um crime de Estado. Os criminologistas marxistas argumentam que a maior parte do crime político surge dos esforços do Estado para reproduzir as estruturas de desigualdade: racismo, sexismo, preferência étnica e vantagens de classe. Assim, os Estados protegerão os direitos de propriedade e reduzirão os direitos dos sindicatos de representar os interesses dos pobres. Até mesmo a guerra deve se basear nos problemas dos capitalistas locais em países ricos no esforço de mover matérias-primas, lucros e empregos em uma economia política globalizada, e se opor a tal guerra será para esta abordagem um crime político. Os marxistas não discutem que, para que uma sociedade funcione eficientemente, a ordem social é necessária. Mas eles consideram que, em todas as sociedades, uma classe, 75 geralmente caracterizada como a "classe dominante", ganha muito mais do que outras classes. Os marxistas concordam com os funcionalistas que a socialização desempenha um papel crucial na promoção da conformidade e da ordem. No entanto, ao contrário dos funcionalistas, eles são altamente críticos das idéias, valores e normas da "ideologia capitalista". Os marxistas modernos apontam a educação e os meios de comunicação como agências socializadoras, que iludem ou "mistificam" a classe operária para se conformarem a uma ordem social prevalente. Questão Aplicada A respeito do crime político e suas variáveis criminológicas, assinale a alternativa correta: a) O terrorismo como construção de um tipo penal não é considerado como crime político. b) Abrange apenas ações que atentam contra os poderes constituídos e a organização estatal. c) Os crimes de natureza étnica ou religiosa se enquadram como crimes políticos apenas quando afetam número indeterminado de pessoas. d) Podem ser enquadrados os comportamentos não violentos de oposição ao sistema estatal. e) A espionagem é considerada um crime político pela sua essência. Resposta: A única alternativa correta é a letra “d”, pois o crime político pode categorizar condutas não violentas de oposição a um sistema estatal de Governo ou aos poderes constituídos vigentes. Em relação à alternativa “a”, o terrorismo é uma das principais construções dogmáticas do gênero crime político; quanto à alternativa “b”, também ofensas contra pessoas e instituições não governamentais podem ser esquematizadas como crimes políticos; em relação à alternativa “c”, ainda que focalizado em grupo específico e limitado de pessoas, crimes praticados com direcionamento étnico ou religioso podem ser enquadrados como crimes políticos; quanto à alternativa “e”, a espionagem não se destina a derrubar regimes de governo ou mudar formas de Estado necessariamente; portanto, nem sempre é um crime político em sua essência, normalmente se situa em crimes contra a segurança nacional, como no caso da Lei 7170/83. GABARITO: letra “d”. 76 A prevenção criminal na visão da criminologia O sistema de prevenção criminal é qualquer abordagem que causa uma redução no nível de criminalidade, com foco na causa do crime em detrimento de seus efeitos e na redução e eliminação dos fatores que podem eliminar a criminalidade. A prevenção criminal pode ser escalonada em três estágios ou fases: prevenção primária, secundária ou terciária. A prevenção primária busca impedir o problema de natureza criminal antes que ele ocorra. Foca em fatores sociais e situacionais. Fundamenta-se em programas e atuação baseados na redução de oportunidades para o crime e em fortalecer a comunidade e as estruturas sociais. A prevenção secundária atua sobre pessoas em situação propícia para a delinqüência, com alto de risco de adotarem um comportamento criminoso. O foco pode ser intervenções iniciais efetivas e rápidas, como programas para a juventude, bem como ações tópicas em vizinhança de alto risco, normalmente situadas em comunidades conflagradas. Já a prevenção terciária focaliza a atuação do sistema de justiça criminal, seu modo de operação e atuação, além de agir sobre o criminoso após o cometimento do crime. Assim, sua atuação em programas sobre a população carcerária ganha alta relevância. Seu escopo é agir sobre criminosos conhecidos e identificados, impedindo-os de cometer novos crimes. Exemplos de operação do sistema de prevenção terciária incluem programasfocados na juventude em situação de risco e mecanismos de contenção individual sobre o delinqüente através de sanções integradas com a comunidade e intrvenções para tratamentos pontuais e específicos sobre delinqüentes delimitados. Questão Aplicada Assinale a alternativa incorreta quanto à prevenção secundária do crime e seus aspectos fundamentais: a) Programas com foco em jovens em situação de risco é uma das medidas consideradas na política de prevenção secundária. b) Atua sobre pessoas com propensão à delinquência. 77 c) Ações voltadas à redução de oportunidades para a criminalidade e no fortalecimento dos laços da comunidade determinam o êxito desta política de prevenção. d) Estratégias específicas de intervenção sobre comunidades conflagradas são relevantes para o êxito destas medidas . e) Vizinhança de alto risco é um dos fatores determinantes para a prevenção secundária. Resposta: Incorreta a letra “c”, pois trata-se de uma característica própria da prevenção primária. GABARITO: letra “C”. A escola do positivismo criminológico é uma das duas principais escolas de criminologia. Em contraste com a escola clássica, que pressupõe que os atos criminosos são o produto da livre escolha e do cálculo racional, o positivista vê as causas do crime em fatores fora do controle do agressor. Estes fatores devem ser identificados utilizando métodos empíricos, em particular a análise de estatísticas. A primeira forma de positivismo, que surgiu no final do século XIX, envolveu uma tentativa de correlacionar o comportamento criminoso com certas características fisiológicas. Isso levou à identificação de um "tipo criminal" genético - uma idéia que agora está totalmente desacreditada. Posteriormente, os positivistas psicológicos usaram estudos detalhados para relacionar traços de personalidade com crimes específicos e para identificar aquelas experiências formativas (por exemplo, negligência de pais) que poderiam produzir uma predisposição geral para quebrar a lei. Alternativamente, os positivistas sociológicos buscaram as causas do crime em fatores externos ao agressor, como pobreza, alienação, alta densidade populacional e exposição a subculturas desviantes (por exemplo, gangues ou consumidores de drogas). Uma abordagem particularmente influente foi aquela tomada pela Escola de Chicago de meados do século XX, que usou métodos ecológicos para estudar o colapso da ordem social em bairros do centro da cidade. Outras abordagens do positivismo social incluem a criminologia marxista, que vê o crime como um produto inevitável do conflito de classes e do sistema capitalista, ea criminologia crítica, que se concentra no papel das elites de poder na definição do que e que é considerado criminoso. 78 Mais recentemente, houve um retrocesso geral da teoria social e uma ênfase mais pragmática na prevenção do crime. Questão Aplicada A respeito da teoria do positivismo criminológico, assinale a alternativa incorreta. a) Os atos criminosos são produtos do livre-arbítrio e do cálculo racional do ser humano. b) A causa do crime relaciona-se a fatores fora do controle do agressor. c) A definição de traços de personalidade inerentes a crimes específicos explicam a causalidade de delitos. d) Análises estatísticas são consideradas como método de análise. e) Pobreza, alienação e alta densidade populacional são exemplos de fatores externos que contribuem para a criminalidade. Resposta: A única alternativa incorreta é a letra “a”, pois o livre-arbítrio e a escolha racional são atributos considerados na escola tradicional de criminologia, não no positivismo clássico. GABARITO: letra “A”. 79 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARATTA, Alessandro. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal. Introdução à Sociologia do Direito Penal. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1999. Bartlett et al., citing Mahoney, Martha R. (1991). "Legal Images of Battered Women: Redefining the Issue of Separation". Michigan Law Review. 90: 1. JSTOR 1289533 Beaver M. Kevin and Anthony Walsh. 2011. Biosocial Criminology. Chapter 1 in The Ashgate Research Companion to Biosocial Theories of Crime. 2011. Ashgate. Bulmer, Martin. (1984). The Chicago School of Sociology: Institutionalization, Diversity, and the Rise of Sociological Research. Chicago: University of Chicago Press. Buss, D. M. (2009). "How Can Evolutionary Psychology Successfully Explain Personality and Individual Differences?". Perspectives on Psychological Science. 4 (4): 359–366. Cavan, Ruth Shonle (January 1983). "The Chicago School of Sociology, 1918-1933". Urban Life. ELBERT, Carlos Alberto. Criminologia Latinoamericana. Teoria y propuestas sobre el control social del tercer milenio. Segunda Parte. Buenos Aires: Editorial Universidad, 1999. FERNANDES, Newton; FERNANDES, Valter. Criminologia integrada. 2. ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002. Flamm, Michael W. Law and Order: Street Crime, Civil Unrest, and the Crisis of Liberalism in the 1960s (2005). Gul, S. (2009). An evaluation of rational choice theory in criminology. Sociology and applied science, 4(8), 36-44. Green, Penny & Ward, Tony. (2004) State Crime: Governments, Violence and Corruption. London: Pluto Press. 80 Hickey, Eric W. (2006). The Male serial murderer. In Serial murderers and their victims (4th ed., pp. 152–159). Belmont, CA: Wadsworth Group Hubbard, R. S., & Power, B. M. (1993). Finding and framing a research question. In L. Patterson, C. M. Santa, K. G. Short, & K. Smith (Eds.), Teachers are researchers: Reflection and action (pp. 19-25). Newark, DE: International Reading Association. Karmen, Andrew (2010), "Victims of rapes and other sexual assaults", in Karmen, Andrew, Crime victims: an introduction to victimology (7th ed.), Belmont, California: Cengage Learning Laqueur, Walter, The New Terrorism: Fanaticism and the Arms of Mass Destruction, Oxford University Press, US, 1999 Liddle, J. R.; Shackelford, T. K.; Weekes–Shackelford, V. A. (2012). "Why can't we all just get along? Evolutionary perspectives on violence, homicide, and war". Review of General Psychology. 16: 24 McKenzie, R. D. "The Ecological Approach to the Study of the Human Community". American Journal of Sociology 30 (1924) O'Grady, William (2011). “Crime in Canadian Context” (2nd edition). Don Mills: Oxford University Press. pp. 127–130. ISBN 978-0-19-543378-4. Platt, Anthony M. – “Social Justice”, Vol. 21, Issue 3, Fall 1994 | Online Research Library: Questia Reader". Sanders, Cynthia K.; Schnabel, Meg (June 2006). "Organizing for economic empowerment of battered women: women's savings accounts". Journal of Community Practice. Schneider, H. J. (2001). "Victimological developments in the world during the past three decades (I): A Study of comparative victimology". International journal of offender therapy and comparative criminology. 45: 449–468. Simpson, S. (2000). “Of crime and criminality: The use of theory in everyday life”. Thousand Oaks, CA: Pine Forge Press. 81