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BIOTECNOLOGIA: ENSINO E DIVULGAÇÃO (http://bteduc.com) C A P Í T U L O 6 BIOPROCESSOS BIOPROCESSOS, PROCESSOS FERMENTATIVOS E INDÚSTRIA A produção de vinhos e cervejas é o primeiro processo fermentativo desenvolvido em escala industrial. Ao longo do século XX, a expansão da Microbiologia Industrial possibilitou, mediante o desenvolvimento de processos baseados no metabolismo microbiano, a produção de diversas substâncias (acetona, butanol, etanol, ácido cítrico, antibióticos etc.). Atualmente, as fermentações encontram aplicações novas, tanto no tratamento ambiental como na produção de alimentos e aditivos, de produtos químicos e de medicamentos. Tradicionais ou revigorados pelas possibilidades oferecidas pela manipulação gênica, os bioprocessos ou "fermentações" visam um dos seguintes objetivos: o A multiplicação de microrganismos para a obtenção de biomassa (leveduras, rizobios, proteína de célula única); o A obtenção de produtos microbianos (antibióticos, aditivos, álcool, enzimas etc.); o A conversão de um substrato em outro, por ação de microrganismos ou de enzimas (transformação de esteroides, isomerização de glicose em frutose) ou o A purificação de um solvente (tratamento de efluentes, transformação de algum poluente em alguma substância facilmente degradável etc.). Por motivos históricos, os biotecnólogos ainda utilizam o termo processos fermentativos para qualquer processo microbiano operado em grande escala, independentemente de ser ou não uma fermentação. O recipiente onde ocorre o processo é chamado de biorreator ou fermentador (Figura 6.1). Células animais e vegetais também podem ser cultivadas em escala, como será visto no próximo capítulo sobre cultura de tecidos. OS MICRORGANISMOS INDUSTRIAIS NOÇÕES SOBRE O METABOLISMO PRIMÁRIO E SECUNDÁRIO Denominamos metabolismo o conjunto de reações químicas de degradação (catabolismo) e de síntese (anabolismo) de substâncias em um organismo. As primeiras liberam energia, as outras a consomem. As células e a maioria dos microrganismos retiram dos compostos orgânicos a energia que precisam, para a manutenção de sua estrutura e para suas atividades. Nas vias catabólicas, a degradação de compostos orgânicos em moléculas menores libera energia; uma parte desta será acumulada sob a forma de ATP (trifosfato de adenosina), e a restante dissipada como calor. OS BIOPROCESSOS 59 Respiração e fermentação são as principais vias catabólicas (Figura 6.2). A quantidade de energia liberada e os produtos finais diferem se a oxidação do composto orgânico for total ou parcial. Na glicólise, a glicose é degradada até uma molécula de três carbonos, o piruvato. Em presença de oxigênio, a entrada do piruvato no ciclo de Krebs e a fosforilação oxidativa permitem a quebra total da glicose em CO2 e H2O, liberando uma grande quantidade de energia sob a forma de ATP (respiração aeróbia). Mediante a redução do piruvato ou de algum de seus derivados (fermentação), vários microrganismos geram outras substâncias orgânicas: acetona, butanol, etanol, ácido láctico, ácido acético, glicerol etc. Estas reações ocorrem geralmente em ambientes onde o substrato é abundante, sendo pequena a quantidade de energia obtida. Dependendo das condições ambientais, isto é, da presença ou ausência de oxigênio, algumas leveduras e bactérias (assim como as células musculares) podem respirar ou fermentar. A respiração e algumas fermentações são representadas mediante equações, como a seguir: o Respiração aeróbia: C6H12O6 + 6 O2 +38 ADP + 38Pi 6 CO2 + 6 H2O + 38 ATP Glicose o Fermentação alcoólica (leveduras como S. cerevisiae e algumas bactérias): C6H12O6 + 2 ADP + 2Pi CH3 CH2OH + CO2 + 2 ATP Glicose Etanol o Fermentação láctica (bactérias como Streptococcus e Lactobacillus): C6H12O6 + 2 ADP + 2Pi CH3 CHOH COOH + 2 ATP Glicose Ácido láctico No metabolismo, os caminhos de degradação e de síntese se entrecruzam. Em determinados pontos da via catabólica da glicose, outras moléculas (aminoácidos, ácidos graxos) convergem para a produção de energia e de pequenas moléculas simples (CO2, H2O e NH3). Inversamente, alguns dos compostos intermediários do catabolismo são os pontos de partida para vias anabólicas. Entretanto, as vias metabólicas não são reversíveis: o caminho seguido na degradação de uma substância é parcial ou totalmente diferente do caminho de síntese correspondente, podendo inclusive ocorrer em compartimentos celulares diferentes. Esta separação facilita a regulação enzimática do metabolismo, que ocorre com menor desperdício de matéria e energia. AS FASES DE CRESCIMENTO DA POPULAÇÃO MICROBIANA De um modo geral, quando os microrganismos se desenvolvem em um meio com uma quantidade limitada de nutrientes, a população passa por diversas fases (Figura 6.3A). o Fase lag: período de adaptação em que, apesar de não se multiplicar, os microrganismos sintetizam enzimas e constituintes celulares. o Fase log: a população cresce de maneira exponencial, sendo sintetizados numerosos metabólitos primários. o Fase estacionária: devido ao esgotamento dos nutrientes e à acumulação de excretas, algumas células morrem, enquanto outras se dividem. No fim da fase log e início da fase estacionária começam a ser sintetizados os metabólitos secundários. o Fase de declínio: sem a renovação dos nutrientes, as células morrem em um tempo variável. M.A.MALAJOVICH - BIOTECNOLOGIA (2016) http://bteduc.com 60 FIGURA 6.1. O processo fermentativo genérico FIGURA 6.2. Respiração e fermentação Na respiração, onde o último aceptor de elétrons é o oxigênio, a oxidação de glicose se completa até chegar a CO2 e H2O, produzindo 36-38 moléculas de ATP. Na fermentação, o último aceptor de elétrons é o piruvato ou algum outro derivado, produzindo 2 ATP. Glicose GLICÓLISE (2 ATP) Citoplasma Ácido pirúvico Substância orgânica Sem O2 (etanol, ácido láctico) Com O2 Citoplasma (procariontes) Mitocôndria (eucariontes) CO2 , H2O e 36-38 ATP RESPIRAÇÃO Ciclo de Krebs e cadeia respiratória FERMENTAÇÃO FASE DE LABORATÓRIO Preparação do inóculoFASE INDUSTRIAL Preparação do meio Esterilização Ar Controles (temperatura, pH) Esterilização Tratamento final Subprodutos Produtos Resíduos OS BIOPROCESSOS 61 Além das vias metabólicas primárias, que são comuns a todos os microrganismos, existem outras vias metabólicas secundárias específicas. A ativação de umas e/ou de outras depende do microrganismo e das condições em que ele se desenvolve em seu ambiente natural ou em que irá ser cultivado. Os metabólitos primários estão relacionados com o crescimento dos microrganismos e a transformação de nutrientes em biomassa; sendo os principais exemplos o etanol, o ácido láctico ou os aminoácidos. Mesmo não sendo essenciais, os metabólitos secundários permitem a sobrevivência em ambientes extremamente competitivos e com escassos nutrientes. São metabólitos secundários os antibióticos, os alcaloides, os pigmentos, algumas enzimas e toxinas. Com vistas ao desenvolvimento de um bioprocesso, a escolha do microrganismo terá que ser feita em função de suas vias metabólicas; e as condições de cultivo dependerão do objetivo da fermentação, um metabólito primário ou um metabólito secundário (Figura 6.3B). --------------- FIGURA 6.3. As diversas fases do crescimento de uma população microbiana e a produção de metabólitos A. As fases de crescimento de uma população B. A produção de metabólitos primários e secundários Os nutrientes do meio permitem a multiplicação celular e a formação do metabólito primário, que pode ser utilizado pelas células para sintetizar o metabólito secundário (a); este pode também ser sintetizado diretamente a partir de alguma substância do meio (b). a b Meio nutriente Metabólito secundário Metabólito primário Células Log do número de células Tempo Fase lag Fase log Fase estacionária Fase de declínio M.A.MALAJOVICH - BIOTECNOLOGIA (2016) http://bteduc.com 62 MEIOS DE CULTURA E MATÉRIA-PRIMA A composição do meio de cultura depende das necessidades metabólicas do microrganismo escolhido. Este deve conter todos os nutrientes necessários nas concentrações adequadas, que variam em função do microrganismo e do objetivo do processo. Em geral, os meios de cultura utilizados no laboratório incluem: o Água. o Uma fonte de energia e de carbono: glicose, amido etc. o Uma fonte de nitrogênio: inorgânica (sulfato de amônia, nitrato de potássio etc.), orgânica (asparagina, succinato de amônia, glutamato, ureia etc.) ou complexa (farinha de soja, peptona etc.). o Sais minerais, tais como fosfato de potássio (K2HPO4 ou KH2PO4), sulfato de magnésio (MgSO4 7H2O), cloreto de cálcio (CaCl2) etc. o Elementos-traço: ferro, zinco, manganês, cobre, cobalto, molibdênio. Com vistas a uma exploração comercial, os meios definidos são substituídos na indústria por matérias- primas de baixo custo como, por exemplo, soro de leite, melaço de cana ou de beterraba, amido de milho etc. Em alguns casos, a matéria-prima passa por um tratamento prévio com métodos físicos e/ou químicos. No caso de se tratar de um processo enzimático, o meio deverá levar, além do substrato adequado, os elementos necessários para que a enzima possa desenvolver sua atividade catalítica (precursores, cofatores etc.). A OBTENÇÃO DAS LINHAGENS De um modo geral, para que o cultivo em um fermentador resulte economicamente viável, o microrganismo deve ser capaz de se multiplicar rapidamente, sintetizando grande quantidade do produto a partir de uma matéria-prima barata. Existem Bancos e Coleções de Cultura que vendem esse tipo de linhagens de microrganismos como culturas puras, geneticamente estáveis e aptas para o cultivo em grande escala. Apesar de terem sido isoladas do meio ambiente, as linhagens industriais diferem substancialmente das linhagens originais, em virtude de uma série de alterações genéticas (mutações, recombinações) obtidas no laboratório. Atualmente, as grandes empresas selecionam os microrganismos mais eficientes mediante um processo de evolução dirigida, miniaturizado em plataformas robóticas (Figura 6.4). A triagem de alta produtividade (HTS, do inglês high throughput screening) permite a seleção em paralelo de milhares de linhagens e a realização dos ensaios biológicos básicos, em menos tempo e com menor consumo de reagentes que os métodos tradicionais. Testes com centenas de milhares de amostras diárias tornam-se rotineiros e acessíveis, graças aos recentes avanços em métodos fluorescentes e sistemas robóticos que colocam líquidos em quantidades nanométricas. Nas linhagens industriais, algumas vias metabólicas, especialmente as do metabolismo secundário, podem ter sido alteradas, de maneira a aumentar ao máximo a síntese do produto desejado e evitar a produção de algumas substâncias desnecessárias. Em geral, por estar tão selecionadas geneticamente, tendo inclusive algumas vias metabólicas anuladas ou desbalanceadas, estas linhagens sobrevivem pouco tempo no meio ambiente. Porém, como norma geral, as linhagens industriais não devem ser patogênicas nem produzir toxinas. A produção de medicamentos ou de vacinas é um caso crucial, porque exige medidas de segurança estritas. OS BIOPROCESSOS 63 Os microrganismos constituem um grupo biológico muito diversificado e, ainda, pouco conhecido, por isso existem muitas expectativas em relação à prospecção de linhagens em ambientes extremos ou pouco usuais. Não se precisa desenvolver um processo novo para cada microrganismo que apresente alguma característica comercial interessante. A tendência atual é transferir os genes correspondentes, por engenharia genética, a algum dos microrganismos conhecidos, adaptados às condições industriais. --------------- FIGURA 6.4. A metodologia HTS para triagem e evolução dirigida de linhagens bacterianas OS DIFERENTES TIPOS DE BIOPROCESSOS OS PROCESSOS TRADICIONAIS Algumas fermentações se desenvolvem sobre resíduos agroindustriais ou florestais, como grãos, palha, bagaço, serragem etc. Este tipo de fermentação em meio sólido umedecido é utilizada na produção de alimentos como, por exemplo,o levedo da massa na panificação, a maturação de queijos por ação de fungos (roquefort, gorgonzola), o cultivo de fungos, a fermentação do cacau, do café e do chá etc. Na Ásia, a preparação do koji, soja fermentada, é a base de alimentos tradicionais como o tofu, o missô, o shoyu e o sakê. Em alguns lugares, estas fermentações ainda ocorrem artesanalmente, dentro de folhas de bananeira e cestas de bambu ou mesmo em montões; também existem hoje equipamentos sofisticados com bandejas, colunas, frascos e tambores rotativos, alguns totalmente automatizados (Figura 6.5 A). Outra variante interessante do processo fermentativo é a produção tradicional de vinagre (processo francês ou de Orléans) em barris de carvalho. O vinho é inoculado com bactérias do gênero Acetobacter que formam na superfície a "mãe do vinagre", uma película que flutua, presa a um quadriculado de madeira que a impede de afundar. Deste modo, o microrganismo cresce na superfície de um meio líquido, em contato simultâneo com o ar e com o meio. O processo fornece excelentes vinagres, mas é lento e exige muito espaço, sendo a capacidade de cada barril de 200 litros (Figura 6.5 B). Existem outros processos semelhantes, conduzidos por fungos, que formam uma película de micélio na superfície do líquido. Biblioteca de mutantes 106 – 1010 de variantes Gene parental Mutação bacterianas Transformação Próxima rodada seletiva Mutante mais eficiente Triagem Transferência das colônias Triagem por métodos colorimétricos, a microplacas fluorescentes ou por luminescência M.A.MALAJOVICH - BIOTECNOLOGIA (2016) http://bteduc.com 64 FIGURA 6.5. Modelos de biorreatores utilizados em processos tradicionais C. Biorreator para fermentações em fase sólida D. A produção de vinagre (Método de Orléans) FIGURA 6.6. Modelo de biorreator utilizado em fermentações submersas Motor Vapor Entrada de ácido ou de base Bomba Indicador de pressão Sonda de pH (controle) Misturador Saída de gases Sonda de temperatura (controle) Vapor Entrada de ar Saída do produto Tubo para adicionar o vinho Entrada de ar Mãe do vinagre Mosto Retirada do vinagre Controles Injeção de ar Saída de ar Umidade Bandejas com a matéria-prima para o cultivo de microrganismos OS BIOPROCESSOS 65 OS PROCESSOS SUBMERSOS O desenho do biorreator deve se adequar ao objetivo do processo, respondendo eventualmente a diversos imperativos, tais como a esterilização do sistema, a aeração e homogeneização do meio, o acréscimo de nutrientes e de aditivos antiespumantes, a manutenção do pH etc. A maioria dos processos industriais se desenvolve em cubas de vidro ou de aço. Os agentes biológicos submersos no meio de cultivo ocupam somente 75% da cuba porque, se for necessário injetar ar, formará espuma. --------------- FIGURA 6.7. Fermentações, agentes biológicos e biorreatores Reatores em torre ou de leito fluidizado Livres Imobilizadas FERMENTAÇÕES SUBMERSAS Podem ser conduzidas por CÉLULAS E ENZIMAS Reatores de fibra oca Reatores de leito fixo Em suportes inertes Reatores com agitação mecânica Entre membranas Reatores com agitação pneumática Coluna de bolhas Reatores air-lift Reatores STR ou com membranas planas M.A.MALAJOVICH - BIOTECNOLOGIA (2016) http://bteduc.com 66 LABORATÓRIO PILOTO INDÚSTRIA Os modelos de fermentadores mais utilizados com microrganismos contam com aeração e agitação mecânica. Esta facilita a distribuição dos nutrientes, mas o calor gerado deve ser eliminado mediante a circulação de água fria (Figura 6.6). Se o processo exigir assepsia, esta será conseguida mediante: o A esterilização do meio, dentro ou fora do fermentador. o A desinfecção ou esterilização do equipamento, por injeção de vapor ou mediante o calor gerado por serpentinas, sendo esta medida extensiva a todos os dutos de entrada e saída e às válvulas correspondentes. o A esterilização do ar, mediante filtros adequados. Existem fermentadores adaptados às necessidades de cada agente biológico e de cada tipo de processos. Nos biorreatores em coluna ou torre, a homogeneização depende da injeção de ar (Figura6.7). Os tanques podem chegar a 3.000 m3 de capacidade como, por exemplo, os fermentadores para a produção de proteínas de célula única, da Imperial Chemical Industries (ICI), no Reino Unido. O monitoramento do processo acompanha o crescimento da população microbiana, ou a quantidade do produto, nas amostras extraídas ao longo da fermentação. Os sistemas submersos são apropriados para o cultivo de microrganismos livres, mas resultam pouco econômicos quando se trabalha com células ou enzimas caras. Neste caso, é preferível a imobilização do agente biológico a um suporte inerte ou sua inclusão dentro de um polímero que permita o contato com o meio de cultura. Além de facilitar a reutilização das células ou das enzimas que permanecem dentro do biorreator, os sistemas imobilizados simplificam a purificação do produto (Figura 6.7). --------------- FIGURA 6.8. A mudança de escala, do laboratório à indústria A mudança de escala entre o processo laboratorial e o processo industrial cria vários problemas de índole tecnológica. Fermentador de laboratório Fermentador piloto Fermentador industrial 1 - 10 litros 50 – 200 – 500 litros 5.000 – 50.000 – 200.000 litros 5 – 50 – 200 m3 Bancada OS BIOPROCESSOS 67 DO LABORATÓRIO À INDÚSTRIA A MUDANÇA DE ESCALA Uma operação simples de laboratório pode ser impraticável, ou pouco econômica, quando realizada em grande escala. No laboratório, após a triagem das linhagens mais eficientes ou das primeiras experiências realizadas na bancada, o processo passa a ser estudado em um biorreator de até 10 litros de capacidade, onde se analisam o rendimento da linhagem selecionada e as variáveis físico-químicas em outra escala. A capacidade de uma cuba varia entre 1 e 10 L para um fermentador de laboratório, chegando a 5.000 l em uma planta piloto e 100.000 l em uma planta industrial. Ao aumentar o tamanho do equipamento, altera-se a relação superfície/volume, de modo que as condições de operação do fermentador na planta piloto deverão ser ajustadas até se aproximar das correspondentes a um processo comercial. Se a experiência na planta piloto for bem-sucedida, o processo poderá ser desenvolvido em um fermentador industrial (Figura 6.8). A automatização do monitoramento e do controle da fermentação permite que a informação relativa aos parâmetros físicos e químicos (pH, temperatura, oxigênio, velocidade de agitação, o nível do meio etc.) seja recolhida on-line por sondas e sensores. Para que o processo se aproxime das condições ideais, a informação é analisada em relação a um modelo previamente estabelecido. Como este se elabora a partir da experiência obtida com cubas menores (laboratório, piloto), os ajustes à mudança de escala são de grande complexidade. A CONDUÇÃO DO PROCESSO O processo fermentativo pode ser conduzido de maneira contínua ou descontínua (batelada), sendo que ambas as formas apresentam vantagens e inconvenientes. Em um sistema descontínuo de produção, uma vez que o fermentador é carregado com a matéria-prima e o inóculo correspondentes, a fermentação prossegue até o esgotamento dos nutrientes. Concluído o processo e extraído o produto, o fermentador é esvaziado, limpo e esterilizado antes de receber outra carga. Apesar do tempo improdutivo entre uma batelada e a seguinte, o sistema é relativamente flexível, já que o mesmo equipamento pode ser utilizado na fabricação de produtos diferentes. A produção em bateladas é bastante utilizada na indústria farmacêutica porque o risco de contaminação permanece relativamente baixo. Já no sistema contínuo de produção, o acréscimo de nutrientes e a retirada do produto ocorrem simultaneamente ao longo do processo, eliminando-se quase totalmente o tempo improdutivo. Como o risco de contaminação aumenta, o sistema se adapta a processos que não exigem assepsia, como a produção de proteína microbiana e de álcool e, obviamente, o tratamento de água. Entre o sistema em batelada e o sistema contínuo existe um sistema intermediário de batelada alimentada em que, periodicamente, parte do conteúdo (meio de cultivo + produto) é retirada e substituída por meio fresco. A RECUPERAÇÃO DO PRODUTO A recuperação do produto representa uma fração considerável do custo de um processo fermentativo. Se o produto for secretado fora da célula, estará disperso em um volume grande de água e será necessário separá-lo por decantação ou filtração. Mas se o produto permanecer dentro das células, estas terão que ser desintegradas antes de proceder a sua extração. M.A.MALAJOVICH - BIOTECNOLOGIA (2016) http://bteduc.com 68 O produto se concentra por sedimentação, precipitação, filtração, centrifugação, extração por solventes, destilação, evaporação do solvente e secagem. Se a purificação for necessária, esta envolverá outros procedimentos, como a cristalização e os métodos cromatográficos. O acondicionamento final dependerá do tipo de produto. Isto é fundamental no caso das enzimas usadas em cosméticos, onde os problemas técnicos principais são a manutenção da estabilidade do produto e sua ativação pela hidratação da pele. Um problema a considerar é o despejo dos resíduos de uma fermentação, alguns dos quais podem representar um perigo para o meio ambiente como, por exemplo, o vinhoto resultante da produção de etanol ou o soro das indústrias de laticínios. Existem formas de tratamento, como o crescimento de biomassa sobre resíduos industriais, que eliminam o problema e ainda permitem a obtenção de mais um produto. BIOPROCESSOS NA INDÚSTRIA Na produção de bens e serviços, os bioprocessos participam em vários setores produtivos. Os dois exemplos escolhidos referentes à produção de ácido cítrico e de fertilizantes ilustram sua importância em áreas tão diversas como a indústria química e a agricultura. O ÁCIDO CÍTRICO Descoberto no século XVIII no suco de limão, o ácido cítrico é ainda extraído das frutas cítricas em alguns países da África e no México. No entanto, a maior parte da produção atual depende do fungo Aspergillus, do qual tem-se obtido mutantes muito produtivos. Os três procedimentos que garantem atualmente a produção industrial de ácido cítrico são os seguintes: o O processo Koji. A fermentação ocorre na superfície, em meio sólido, com Aspergillus niger como agente biológico. Depois de 80 a 100 horas de fermentação a 280C, o ácido cítrico é extraído com água quente e purificado. Muito desenvolvido nos países asiáticos, este tipo de bioprocesso garante ao Japão uma parte importante da produção anual de ácido cítrico. o Fermentação na superfície do meio líquido. Em meio estéril, incubação a 300C com injeção de ar esterilizado. Inoculação com esporos de Aspergillus niger que germinam e, em 24 horas, cobrem a superfície do líquido, diminuindo o pH a um valor inferior a 2. O processo demora entre 7 e 15 dias e, a seguir, o ácido cítrico é extraído do meio de cultivo. Para recuperar uma quantidade maior de ácido cítrico, o micélio é exprimido e lavado. Este processo responde por 20% da produção anual de ácido cítrico. o Fermentação submersa em meio líquido. Em grandes biorreatoresde acero inoxidável com agitação mecânica ou em torres air-lift. É o procedimento preferido porque resulta fácil de automatizar e fornece rendimentos altos (125 g/L). Responde por 80% da produção anual de ácido cítrico. A figura 6.9 mostra o procedimento de separação downstream do ácido cítrico e sua purificação. A produção de ácido cítrico por fermentação é um exemplo clássico de sucesso na utilização de bioprocessos para a produção de insumos que atendam outras indústrias. O ácido cítrico é um composto muito versátil, utilizado nas indústrias farmacêutica, de alimentos, de cosmética e de detergentes. Devido a facilidade com que forma complexos metálicos, também é usado como antioxidante e na limpeza de metais. OS BIOPROCESSOS 69 FIGURA 6.9. A obtenção de ácido cítrico por fermentação Uma vez retirado o micélio por filtração, acrescenta-se cal no caldo restante para elevar o pH e precipitar o citrato de cálcio. Este último é retirado por filtração e tratado com ácido sulfúrico concentrado, formando-se sulfato de cálcio. Outra filtração retira o sulfato de cálcio, deixando o ácido cítrico dissolvido no líquido. Eliminam-se as impurezas com carvão ativado, e o cálcio residual e outros cátions por intercâmbio iônico. A evaporação do solvente facilita a cristalização do ácido cítrico, que é recuperado por centrifugação e filtração. Uma vez seco, o ácido cítrico é empacotado e distribuído. --------------- OS BIOFERTILIZANTES O termo biofertilizante se aplica aos produtos que contém agentes biológicos vivos capazes de favorecer o desenvolvimento vegetal. Um destes agentes é o Rhizobium, uma bactéria simbionte das raízes de leguminosas que fixa o nitrogênio atmosférico, reduzindo a necessidade de aplicar fertilizantes nitrogenados nas lavouras e permitindo assim a substituição de produtos químicos derivados do petróleo por agentes biológicos, menos prejudiciais para o meio ambiente. Filtração Solução de ácido cítrico impuro + Ca (OH)2 Precipitado de citrato de cálcio Restos do meio nutriente + H2SO4 concentrado Ácido cítrico + precipitado de sulfato de cálcio Filtração Solução de ácido cítrico puro Gipsita Evaporação, cristalização, centrifugação, secagem e empacotamento Ácido cítrico CO2H-CH2-C(OH)(COOH)- CO2H-CH2 20 m3 de cultivo de Aspergillus niger (starter) Controles de pH, temperatura, CO2, O2 BIORREATOR (200 m3) Injeção de ar esterilizado Materiais estéreis: açúcar, melaço, nutrientes, algum agente antiespumante Retirada semanal do meio Micélio Metano Descarte Fermentador anaeróbico Caldeiras M.A.MALAJOVICH - BIOTECNOLOGIA (2016) http://bteduc.com 70 Na América Latina, a produção de biofertilizantes envolve numerosas empresas, pequenas e médias, que contam com um sólido suporte tecnológico originado em universidades e instituições públicas de pesquisa agronômica. Vários países produzem inoculantes agrícolas; entre eles: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, México, Peru e Uruguai. As linhagens bacterianas são estirpes selecionadas por sua eficiência em uma ampla gama de cultivares e amplamente adaptadas às condições locais. O crescimento da população microbiana ocorre em etapas sucessivas, utilizando recipientes cada vez maiores até chegar a biorreatores de 1.500 litros. Os microrganismos recuperados são veiculados em meio líquido ou em turfa estéril e, uma vez empacotados, vendidos aos agricultores. Segundo a legislação do Mercosul, durante o prazo de validade do produto, a concentração deverá ser de 108 microrganismos viáveis por grama de produto. Até o presente, a indústria baseia a produção dos microrganismos na tecnologia clássica, mas com mapeamento do genoma de microrganismos como o Rhizobium etli (México) e o Gluconacetobacter diazotrophicus (Brasil), a biotecnologia moderna começa a se inserir neste campo. Frente as mudanças climáticas e a necessidade de aumentar a produtividade agrícola, os novos métodos de triagem de estirpes são uma ferramenta de incalculável valor para o estudo da relação simbionte entre o microrganismo e a planta hospedeira.