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NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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Noções De Psiquiatria 
Conceitos Fundamentais De Psicopatologia Descritiva 
 "O que a alma é, não nos cabe saber; com o que ela se parece, quais são suas manifestações, é de 
grande importância." (Juan Luis Vives - 1538 - De Anima et Vita) 
A aplicação precisa da psicopatologia descritiva na prática da psiquiatria é necessária, no mínimo, 
pelas três razões seguintes: 
 
1. A psicopatologia descritiva é a ferramenta profissional fundamental do psiquiatra; ela é 
possivelmente, a única ferramenta diagnóstica exclusiva do psiquiatra. 
2. A psicopatologia descritiva diz respeito mais do que à simples realização de uma entrevista clínica 
com o paciente, ou, até mesmo, ter que escutá-lo, embora deva envolver ambos, necessariamente. 
3. A psicopatologia descritiva tem utilidade e aplicação clínica. 
 É claro que, para a prática racional da psiquiatria, é necessário o conhecimento de neurociências 
básicas; o conhecimento factual apropriado da psicologia, da sociologia e da antropologia social 
também é necessário. Com estes, há uma necessidade de um conhecimento operacional abrangente 
de medicina geral, especialmente neurologia e endocrinologia. Esta poderia ser considerada a base 
mínima de conhecimentos, essencial para a prática da psiquiatria. 
 
 As bases acadêmicas fundamentais de psiquiatria, no entanto, não são as descritas aqui, e sim a 
epidemiologia psiquiátrica e a psicopatologia descritiva. A epidemiologia é o estudo da distribuição da 
doença ou transtorno em uma população definida; na psiquiatria, portanto, ela refere-se ao 
conhecimento da incidência e da prevalência de diferentes condições psiquiátricas dentro de distintos 
grupos de pessoas. A psicopatologia descritiva, como ferramenta exclusiva do psiquiatra, pode ser 
comparada à anamnese e ao exame médico, ferramentas exclusivas do profissional médico. O 
psiquiatra acrescenta a essas ferramentas gerais da prática médica, de anamnese e exame, os 
conhecimentos únicos adicionais da psicopatologia descritiva. 
O Que É Psicopatologia? 
 A psicopatologia é o estudo sistemático do comportamento, da cognição e da experiência anormais; 
o estudo dos produtos de uma mente com um transtorno mental. Isto inclui as 
psicopatologias explicativas, nas quais existem supostas explicações, de acordo com conceitos 
teóricos (p. ex., a partir de uma base psicodinâmica, comportamental ou existencial, e assim por 
diante), e a psicopatologia descritiva, que consiste da descrição e da categorização precisas de 
experiências anormais , como informadas pelo paciente e observadas em seu comportamento (figura 
1.1). 
 
 
Figura 1.1 - As Psicopatologias. 
A psicopatologia descritiva consiste, portanto de duas partes distintas: a observação do 
comportamento e a avaliação empática da experiência subjetiva. A observação acurada é 
extremamente importante e um exercício muito mais útil do que simplesmente contar os sintomas; às 
vezes o uso servil de listas de sintomas, para a verificação de sua presença ou ausência, tem 
impedido a observação clinica genuína. A objetividade é crucial, mas existe também a necessidade 
de observar-se mais do que apenas o comportamento. 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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 A outra parte da psicopatologia descritiva - e a mais difícil - avalia a experiência subjetiva. Empatia, 
como termo psiquiátrico, significa literalmente "sentir-se como". Ela é usada ocasionalmente por 
certos profissionais que cuidam de pacientes como um sentimento caloroso e afável em relação às 
adversidades de outras pessoas. É louvável sentir-se desta maneira em relação às dificuldades de 
nossos pacientes, mas isto não é empatia, mas simpatia, que significa "sentir com". De certo modo, 
surpreende-nos saber que no grego moderno empatia significa "manter seus sentimentos 
internamente", que significa guardar rancor . Este não é, absolutamente, o sentido em que o termo é 
usado na psiquiatria! 
 
 Na psicopatologia descritiva o conceito de empatia é um instrumento clínico que precisa ser utilizado 
com habilidade para medir o estado subjetivo interno de outra pessoa usando a capacidade do 
próprio observador para a experiência emocional e cognitiva como um critério de medida. Isto é 
alcançado por um questionamento preciso, pleno de insight, persistente e informado, até que o 
médico seja capaz de oferecer um relato sobre a experiência subjetiva do paciente que este possa 
reconhecer como sendo realmente seu. Se a descrição do médico sobre a experiência interna do 
paciente não é reconhecida por este como sendo sua, o questionamento deve continuar até que a 
experiência interna seja reconhecidamente descrita. Ao longo de todo este processo, o sucesso 
depende da capacidade do médico como ser humano, de experimentar algo como a experiência 
interna de outra pessoa, o paciente; não se trata de uma avaliação que pode ser realizada por meio 
de um microfone ou computador. Ela depende absolutamente da capacidade compartilhada entre 
médico e paciente para a experiência e sentimentos humanos. 
Fenomenologia E Psicopatologia 
 Um dos métodos mais freqüentes de classificação de doença mental é pela categorização de 
experiências descritas por pessoas mentalmente doentes e da definição dos termos utilizados, tais 
como "depressão" ou "ansiedade". Para o progresso no prognóstico e no tratamento, tal classificação 
é essencial. Ao tentar entender as experiências subjetivas de uma pessoa que sofre, o terapeuta 
demonstra um envolvimento e o paciente provavelmente terá maior confiança no tratamento. 
 
 Os sintomas agregam-se em determinados padrões e podemos, portanto, falar de diferentes 
doenças mentais ou psiquiátricas. Os métodos precisos de diagnóstico ou a definição da natureza do 
problema continuam sendo importantes. Para que a nosologia psiquiátrica possa ser melhorada, é 
necessária uma observação acurada dos fenômenos com os quais nos confrontamos. 
 
 O que uma pessoa obviamente afetada por uma doença mental está realmente sentindo? De que 
forma suas próprias experiências assemelham-se ou diferem da experiência dos outros - tanto 
daqueles que estão bem quanto dos que estão doentes? É importante haver um esquema para 
organizar os fenômenos que ocorrem. 
 
 A psicopatologia refere-se a toda experiência, cognição e comportamento anormais. A psicopatologia 
descritiva evita explicações teóricas para eventos psicológicos. Ela descreve e categoriza a 
experiência anormal como relatada pelo paciente e observada pelo seu comportamento. Em seu 
contexto histórico, Berrios (1984) a descreve como um sistema cognitivo constituído por termos, 
suposições e regras para a sua aplicação - "a identificação de classes de atos mentais anormais". 
Fenomenologia é o estudo de eventos , psicológicos ou físicos, sem "enfeitá-los" com explicação de 
causa ou função. Quando usada em psiquiatria, a fenomenologia envolve a observação e 
categorização de eventos psíquicos anormais, as experiências internas do paciente e seu 
comportamento conseqüente. O terapeuta tenta observar e entender o evento ou fenômeno psíquico 
para que possa saber por ele mesmo, na medida do possível, como o paciente provavelmente se 
sente. 
 
 Como podemos usar a palavra observador com relação à experiência interna de outra pessoa? É 
exatamente aqui que o processo de empatia torna-se relevante. A psicopatologia descritiva, portanto, 
inclui aspectos subjetivos (fenomenologia) e objetivos (descrição do comportamento). 
 
 Preocupa-se com a variedade da experiência humana, mas limita deliberadamente seu âmbito àquilo 
que é clinicamente relevante; por exemplo, ela pode não dizer nada sobre a validade religiosa do que 
James (1902) chamou de "saintliness" (qualidade relativa ao indivíduo que leva uma vida pia, com 
pureza de um santo). 
 
NOÇÕES DE NOSOLOGIAPSIQUIÁTRICA 
 
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 Como isso funciona na prática? A Sra. Jenkins reclama que é infeliz. É tarefa da psicologia descritiva 
tanto obter os pensamentos e ações da paciente sem tentar explicá-los quanto observar e descrever 
o comportamento da mesma - seus ombros caídos, o tenso retorcer e remexer de suas mãos. A 
fenomenologia exige uma descrição muito precisa de como exatamente ela sente-se internamente - 
"este horrível sentimento de não existir realmente" e "não ser capaz de sentir nenhuma emoção". 
 
 Alguns psiquiatras consideram a fenomenologia com desdém, vendo-a como um pedantismo 
arcaico, exageradamente minucioso, mas a avaliação diagnóstica dos sintomas é uma tarefa que o 
psiquiatra omite por conta própria e em prejuízo do paciente. O estudo da fenomenologia "afia" as 
ferramentas diagnósticas, aguça a perspicácia clínica e melhora a comunicação com o paciente. O 
paciente e suas queixas merecem nossa escrupulosa atenção. Se "o estudo adequado da 
humanidade diz respeito ao homem", o estudo correto da sua doença mental começa com a 
descrição de como ele pensa e sente-se internamente – “caos de pensamento e paixão, tudo 
confuso" (Pope,1688-1744). 
 
 Uma negligência desdenhosa da fenomenologia pode ter sérias repercussões para o cuidado do 
paciente. Oito pessoas foram enviadas separadamente para 12 unidades de internação em hospitais 
psiquiátricos americanos queixando-se que ouviam estas palavras sendo ditas em voz alta: "vazio, 
fundo, surdo" (Rosenhan, 1673). Em todos os casos, com exceção de um, foi diagnosticada 
esquizofrenia. Após a internação no hospital, eles não produziram sintomas psiquiátricos posteriores, 
agindo tão normalmente quanto podiam, respondendo a questões com sinceridade, exceto pelo fato 
de ocultarem seu nome e ocupação. A ética e o bom-senso do experimento podem certamente ser 
questionados, mas o que fica claro não é que os psiquiatras devem deixar de fazer um diagnóstico, 
mas que devem fazê-lo em uma base psicopatológica sólida. Nem Rosenhan e colaboradores e nem 
os psiquiatras deram qualquer informação sobre que sintomas poderiam ser considerados para fazer 
um diagnóstico de esquizofrenia ; isto requer um método baseado na psicopatologia (Wing, 1978). 
Com o uso adequado da psicopatologia fenomenológica esta falha de diagnóstico não teria ocorrido. 
 
 Jaspers (1963) escreveu: "A fenomenologia, apesar de ser uma das pedras fundamentais da 
psicopatologia, é ainda muito tosca". Um dos grandes problemas da utilização deste método é a 
natureza confusa da terminologia. Idéias quase idênticas podem receber diferentes nomes por 
pessoas de diferentes bases teóricas- por exemplo, a abundância de descrições acerca de como uma 
pessoa pode conceituar a si mesma: auto-imagem, percepção do corpo, catexia, etc. 
 
 Há uma confusão considerável a respeito do significado do termo fenomenologia. Berrios (1992) 
descreveu quatro significados em psiquiatria : "P1 refere-se ao seu uso clínico mais comum, como um 
mero sinônimo para ‘sinais e sintomas’ (como em psicopatologia fenomenológica); este é um uso que 
se degenerou e, portanto é conceitualmente desinteressante. P2 refere-se a um sentido 
pseudotécnico freqüentemente utilizado em dicionários e que alcança uma falsa unidade de 
significado ao simplesmente catalogar usos sucessivos em ordem cronológica; esta abordagem é 
equivocada, já que sugere linhas evolutivas falsas e deixa em aberto questões importantes 
relacionadas à história da fenomenologia. P3 refere-se ao uso idiossincrásico iniciado por Karl 
Jaspers que dedicou seus primeiros escritos clínicos à descrição de estados mentais de uma maneira 
que (de acordo com ele) era empática e teoricamente neutra. Finalmente, P4 refere-se a um sistema 
filosófico completo iniciado por Edmund Husserl e continuado por autores coletivamente incluídos no 
chamado "Movimento Fenomenológico". Dentre estes significados, este artigo estará voltado 
inteiramente para o significado jaspersiano de fenomenologia, o P3 de Berrios. Jaspers em seus 
escritos define a fenomenologia talvez 30 a 40 vezes, de maneiras sutilmente distintas, mas sempre 
implicando-a ao estudo da experiência subjetiva. Walker (1993) demonstrou, de um modo muito 
elegante, que, apesar de Jaspers considerar ter sido influenciado por Husserl e seu sistema de 
fenomenologia, tal não é realmente o caso, pois sua psicopatologia é mais por conceitos kantianos, 
tais como forma conteúdo. 
 
 A fenomenologia é um método empático que evidencia os sintomas, mas que não pode ser 
aprendida por meio de livro. Os pacientes são os melhores professores, mas é bom saber o que se 
está procurando, os aspectos práticos, clínicos, pelos quais o paciente descreve a si mesmo, seus 
sentimentos e seu mundo. O médico tenta interpretar a natureza da experiência do paciente – 
entendê-la suficientemente bem e senti-la tão intensamente a ponto de que o relato de seus achados 
permita o reconhecimento do paciente. O método fenomenológico em psiquiatria é inteiramente 
voltado para idéia de tornar a experiência do paciente compreensível (esta é uma palavra técnica em 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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fenomenologia; no entanto, aqui queremos dizer "a capacidade de colocar-se no lugar do paciente"), 
de modo a permitir classificá-lo e tratá-lo. 
 
 "A barreira ao avanço da psiquiatria não reside na avareza ou no preconceito daqueles que decidem 
se um projeto de pesquisa submetido à apreciação deve viver ou morrer; nem tem sido a falta de 
habilidade daqueles que estão engajados em pesquisas psiquiátricas: ela reside na dificuldade 
inerente dos problemas” (Lewis, 1963). A maior dificuldade na fenomenologia não é assimilação de 
fatos obscuros ou acúmulo de epônimos estrangeiros, embora tais aspectos sejam difíceis. A maior 
dificuldade está na compreensão do método de investigação e na capacidade de usar novos 
conceitos. Na tentativa para evitar o obscuro e o óbvio, descrevemos alguns desses conceitos aos 
pares. 
 
Saúde Normal 
 Algumas palavras são usadas comumente, mas de um modo inconsistente; portanto, apesar de 
sabermos o que pretendemos dizer com elas, somos incapazes de supor que outras pessoas as 
utilizam da mesma maneira. Duas dessas palavras são normal e saudável. Em uma discussão sobre 
a doença mental elas ocorrem tão freqüentemente que devem ser examinadas brevemente antes de 
uma excursão adicional à psicopatologia. 
 
Saúde / Doença 
 A psicopatologia preocupa-se com a doença da mente. O que é doença, porém? Trata-se de um 
tema vasto, que tem sido discutido por filósofos, teólogos, administradores e advogados, assim como 
por médicos. Os profissionais que passam a maior parte do tempo de seu trabalho em meio à saúde 
e à doença raramente fazem esta pergunta, e com menos freqüência tentam respondê-la. 
 
1 - A definição da Organização Mundial de Saúde afirma: "Saúde é um estado de completo bem-estar 
físico, mental e social e não somente a ausência de doença ou enfermidade" (1946). Se o total bem-
estar é um requisito, talvez praticamente todos estejamos excluídos. 
 
2 - A doença pode ser considerada em termos físicos, como na afirmação de Griesinger (1845), de 
que "doenças mentais são doenças do cérebro". Embora esta alegação ajuste-se aos estados 
psiquiátricos orgânicos e possa abranger a deficiência de aprendizagem (retardo mental), não é muito 
simples tentar incluir nesta definição todos os transtornos "neuróticos" e os psicóticos; por outro lado, 
de forma alguma os transtornos de personalidade não se encaixam aqui. 
 
3 - De modo semelhante, as doenças podem ser descritas como aquelas condições que o médico 
trata. Ao definir isto Kräupl Taylor (1980) declarou: "Para ser paciente é necessário e suficiente a 
experiência vivida por uma pessoa ao sentir a necessidade de tratamento, ou, no seu meio, que deve 
receber tratamento".Doença mental torna-se, então, um termo para descrever os sintomas e a 
condição daquelas pessoas que são encaminhadas a um psiquiatra. Esta descrição tautológica de 
doença tem alguma vantagem prática, já que não impede que ferramentas terapêuticas sejam 
utilizadas com relação a um amplo espectro de problemas humanos. Ela apresenta, no entanto, a 
desvantagem de permitir que a sociedade escolha quem ela chamará de "doente mental", e, em um 
sistema social totalitário, o estado pode decidir quais indivíduos com desvios deverão ser 
considerados doentes (Bloch e Reddaway,1977). 
 
4 - A doença pode ser considerada como uma variação estatística da norma, trazendo em si mesma 
desvantagem biológica. Isto foi formulado por Scadding (1967) para a doença física e desenvolvido 
para a doença psiquiátrica por Kendell (1975). Desvantagem biológica implica fertilidade reduzida 
e/ou vida mais curta. Este estado de desvantagem torna-se difícil de aplicar ao homem moderno, uma 
vez que ele aprendeu a controlar seu ambiente e sua reprodução de tal maneira que o próprio 
termo desvantagem biológica torna-se questionável. O que é uma vantagem biológica para o 
indivíduo pode ser uma desvantagem para a espécie, e vice-versa. 
 
5 - A doença tem implicações legais. Por exemplo, as circunstâncias que resultam em doença podem 
dar direito à compensação legal; se o comportamento resulta da doença, isto pode reduzir a pena. Da 
mesma maneira, a doença mental é um conceito que pode justificar detenção compulsória em um 
hospital (Lei da Saúde Mental, 1983; Blugass, 1983) e criminosos mentalmente enfermos são 
tratados pela lei de uma maneira diferente de outros criminosos (Bluglass e Bowden, 1990). 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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 Esta distinção entre normalidade e doença, saúde e enfermidade, nada tem de trivial. "Uma grande 
parte da ética médica e muito de toda a base da política médica atual, privada e pública, estão 
baseadas precisamente na noção de doença e normalidade. Por si mesmo, o médico (dando-se 
conta ou não) pode fazer seu trabalho muito bem sem uma definição formal de doença... Infelizmente, 
o médico não pode trabalhar tranqüilamente usando seu bom-senso. Ele é atingido por dois ângulos: 
pelos consumidores vorazes e pelos conselheiros pretensiosos" (Murphy, 1979). 
Normalidade/Anormalidade 
 A palavra normal é usada corretamente no mínimo em quatro sentidos na língua inglesa (Mowbray, 
Rodger e Mellor, 1979). Estes consistem das normas de valor, estatística, individual e tipológica. O 
termo "normal" passa a ser usado indevidamente quando substitui injustificavelmente as 
palavras usual ou usualmente. 
 
 A norma de valor tem o ideal como seu conceito de normalidade. Assim, a afirmação "é normal ter 
dentes perfeitos" está usando a palavra normal em sentido de valor - na prática, a maioria das 
pessoas tem, no mínimo, algum problema com seus dentes. 
 
 A norma estatística, naturalmente, é o uso preferencial que a palavra retém no vocabulário científico. 
O anormal é considerado aquele que fica fora da faixa média. Se um inglês normal mede 1m80cm, 
ter 1m60cm ou 1m90cm é estatisticamente anormal. 
 
 A norma individual é o nível consistente de funcionamento que um indivíduo mantém ao longo do 
tempo. Após uma lesão cerebral, uma pessoa pode experimentar um declínio na inteligência, que é 
certamente uma deterioração de seu nível individual prévio, mas tal diminuição pode não representar 
qualquer anormalidade estatística (p.ex; uma diminuição no QI de 125 para 105). 
 
 A anormalidade tipológica é um termo necessário para descrever-se a situação em que uma 
condição é considerada como normal em todos os três significados anteriormente citados e, contudo 
representa anormalidade, talvez mesmo uma doença. O exemplo dado por Mowbray e colaboradores 
é a doença infecciosapinta. As manchas cutâneas causadas por esta doença são altamente 
valorizadas pelos índios sul-americanos, a tal ponto que os que não têm esta doença são excluídos 
da tribo. Assim, possuir a doença é considerado normal em sentido de valor, estatístico em individual, 
e ainda assim é patológico. 
 
Amostra Psiquiátrica: População Geral 
 
 Na discussão de saúde e normalidade, é importante apontar as generalizações perigosas que 
surgem quando o psiquiatra, normalmente contra sua vontade, é colocado na posição de perito na 
conduta total da vida. Não podemos extrapolar do anormal para o normal; eles tendem a não estar 
situados em uma linha contínua, mais em vez disso, são qualitativamente diferentes. Devido ao 
conhecimento detalhado dos processos psíquicos anormais e sintomas e seu manejo, o psiquiatra 
não é necessariamente, também, um perito em educar filhos ou em dar uma receita para uma mente 
tranqüila. 
 
 A amostra de pessoas que vai a um psiquiatra é diferente, em muitos aspectos, daquela que 
consulta seu médico de família com sintomas psicológicos, sendo que esta população da clínica geral 
também difere da população em geral (Goldberg e Huxley,1980). Embora seja muito necessário 
concentrar-se no indivíduo e em seus sintomas, é também útil ter em mente as características do 
restante da população da qual ele provém. Seu comportamento e seu entendimento do mundo têm 
raízes dentro da sua própria psicopatologia individual, mas também de seu meio social geral. 
 
 Normalmente, existe um desejo de se raciocinar do particular para o geral. Com base em nossa 
experiência com pacientes esquizofrênicos jovens em um hospital-escola, fazemos generalizações 
sobre esquizofrenia. Para sermos capazes de fazer isto devemos saber que os pacientes que 
estamos atendendo (nossa amostra da população) são representativos da população-alvo 
(esquizofrênicos). Somente poderemos fazer está afirmação se nossa amostra foi selecionada 
aleatória na população total dos esquizofrênicos, de modo que todos os esquizofrênicos tenham tido 
uma probabilidade conhecida, igual e maior do que zero de entrar em nossa amostra. Na prática, 
certamente, isto nunca pode ser feito desta maneira; assim, devemos restringir nossa população-alvo 
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a um grupo mais limitado (uma amostra). Nossas alegações sobre o conhecimento a respeito do 
mesmo também devem ser limitadas. Vale a pena repetirmos o axioma: diferentes populações têm 
diferentes características. 
O Comum/O Esotérico 
 A psicopatologia descritiva às vezes corre o risco de cair no esotérico, com um interesse excessivo 
por síndromes raras. A fim de ter uso prático, é necessário que se concentre nas manifestações de 
anormalidade que são comuns a muitos pacientes: 
1. A observação de um fenômeno sem teoria preconcebida é útil para a conciliação entre diferentes 
escolas de psicopatologia. 
2. O requisito de uma definição precisa formar uma base para uma pesquisa sólida. Síndromes raras 
têm seu valor para o aprendizado de habilidades psicopatológicas, mas o interesse nelas não deve 
ocorrer em detrimento de seu uso mais importante – ainda que mais corriqueiro na prática clínica 
(Sims, 1982). 
Compreendendo Sintomas Dos Pacientes 
 O entendimento, tanto no sentido cotidiano quanto no fenomenológico, não pode ser completo, a não 
ser que o médico tenha um conhecimento detalhado da base cultural do paciente e de informações 
específicas sobre sua família e seu ambiente imediato. A fenomenologia também não pode 
concentrar-se somente no indivíduo isolado, observado em um determinado momento de sua vida. 
Deve-se preocupar com a pessoa em um contexto social: acima de tudo, a experiência de uma 
pessoa é amplamente determinada por suas interações com os outros. Ela também deve considerar 
o estado mental e o ambiente do indivíduo antes do evento de interesse imediato e com o que ocorre 
após o mesmo. 
 
 O método fenomenológico facilita a comunicação; seu uso faz comque seja mais fácil para o médico 
entender o paciente. Isto também ajuda o paciente a ter mais confiança no médico, pois percebe que 
seus sintomas são entendidos e, portanto, aceitos como “reais”. A descrição precisa e a avaliação 
dos sintomas auxilia na comunicação entre os médicos. 
Sintoma/Sinal 
 A medicina clínica faz uma clara distinção entre sinais e sintomas. O paciente queixa-se de sintomas, 
como se sentir agitado e desconfortável no calor, com hipertireoidismo. Sinais físicos são detectados 
no exame: um leve bócio com ruído audível, perda de peso, pulso rápido e exoftalmia. 
 
 Esta distinção não é normalmente feita com os fenômenos do estado mental. A descrição do 
paciente de um fenômeno mental anormal é geralmente chamada de sintoma, quer ele queixe-se de 
algo que o perturba, ou simplesmente descreva sua experiência mental, que parece patológica para 
um observador. Em seu relato acerca de suas experiências, ambos são, portanto, considerados 
sintomas. Quando agregados, esses sintomas podem ser considerados como sinais de qualquer 
diagnóstico indicado. 
 
 O sintoma, pois, considerado como incluindo o sinal, pode ser uma queixa (p.ex., um sentimento de 
infelicidade) ou um item de descrição fenomenológica que pode não representar queixa do paciente 
(p.ex., ouvir vozes que discutem baixinho sobre o paciente, com perplexidade e admiração). O 
sentimento de infelicidade pode ser um sinal de doença depressiva; as alucinações auditivas podem 
ser um sinal de esquizofrenia. Há, também, sintomas ou sinais comportamentais, como no paciente 
que grita para o teto – isto pode ser considerado como um sinal que sugere alucinação auditiva. 
Shneider (1959) considera que um sintoma, na esquizofrenia, é uma “característica freqüente e, 
portanto, importante, deste estado”. Para que um sintoma seja usado no diagnóstico, sua ocorrência 
deve ser típica desta condição e deve ocorrer com relativa freqüência na mesma. 
O Método De Empatia: O Método De Observação E Experimentação 
 O método clássico na medicina, de obter informações sobre o paciente, ocorre a partir da anamnese 
e do exame físico. O uso da fenomenologia em psiquiatria é uma extensão da anamnese, no sentido 
de que amplia a descrição da queixa presente para dar informação mais detalhada. É, também, um 
exame, já que revela o estado mental. Não é possível para mim, o médico, observar a alucinação de 
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meu paciente, nem medi-la de maneira direta. No entanto, para compreendê-lo, posso utilizar as 
características humanas que tenho em comum com ele, isto é, minha habilidade para perceber e usar 
a linguagem que compartilho com ele. Posso esforçar-me para criar em minha própria mente uma 
idéia de como deve ser sua experiência. Então, testo para ver se estou correto em minha 
reconstrução de sua experiência, pedindo que ele confirme ou negue minha descrição. Também 
utilizo minha observação de seu comportamento – a expressão triste de seu rosto ou o ato de bater 
com o punho na mesa – para reconstruir suas experiências. 
 
 Ouvir e observar são cruciais para o entendimento. Deve-se tomar muito cuidado ao se fazerem 
perguntas. Os médicos muitas vezes identificam sintomas incorretamente e fazem o diagnóstico 
errado pois fizeram perguntas capciosas com as quais o paciente, por meio de sua submissão 
ao status do médico e ansiedade para cooperar, está completamente disposto a concordar. 
 
 O método de empatia significa usar a habilidade de sentir-se na situação de outra pessoa, 
avançando através de séries organizadas de perguntas; repetindo e reiterando onde for necessário 
até que se tenha certeza do que está sendo descrito pelo paciente. A seqüência poderia ser a 
seguinte: 
 Pergunta - “Você diz que seus pensamentos estão mudando; o que acontece com eles?” 
 Resposta – O paciente descreve seus pensamentos recorrentes sobre matar pessoas e a afirmação 
de que isto se origina de uma dor em seu estômago. 
 Pergunta – (Tentando isolar os elementos de sua experiência) “Como é este seu pensamento de 
matar pessoas?” (obsessão, delírio, fantasia, chance de se transformar em atuação, etc.) “Você 
acredita que seu estômago afeta seu pensamento?; É diferente de uma pessoa que sabe que fica 
irritada quando está com fome?; De que maneira isto é diferente?; O que causa sua dor no 
estômago?” 
 Resposta – O paciente descreve os detalhes, que incluirão, entre o material irrelevante, o tipo de 
informação essencial para a determinação dos sintomas presentes. 
 Pergunta – (O convite à empatia) “Estou certo ao pensar que você está descrevendo uma 
experiência na qual raios estão causando dor em seu estômago, e que este, de alguma maneira 
bastante independente de você, causa este pensamento que o assusta, de que você deve matar 
alguém com uma faca?” Isto é um relato dos sintomas relevantes que ele descreveu na linguagem 
que pode reconhecer como sua. 
 Resposta – “Sim” (nós, então, alcançamos nosso objetivo); “Não” (portanto, devo tentar evocar 
novamente os sintomas, experimentá-los por mim mesmo e descrevê-los outra vez ao paciente). 
 Para dar exemplos do que isto significa na prática: Como eu, um médico, decido se um determinado 
paciente está deprimido ou não? Isto não é feito pela imitação de uma máquina que poderia registrar 
unidades de tom vocal ou de expressão facial, chegando a um diagnóstico de depressão. Para a 
avaliação clínica, sigo o seguinte processo: 
 
1. Eu sou capaz de sentir-me infeliz, miserável, deprimido e saber como é este sentimento dentro de 
mim. 
2. Se eu estivesse me sentindo como vejo o paciente se sentindo, falando, atuando, etc, também me 
sentiria miserável, deprimido, infeliz. 
3. Portanto, eu avalio o humor do paciente como sendo de depressão. É claro que este processo 
mental de diagnóstico não é geralmente verbalizado. 
 Em outro exemplo, um paciente diz: “Os marcianos estão me fazendo dizer palavrões, não sou eu 
que estou dizendo isto.” O questionamento empático revela a falsa crença do paciente de que quando 
palavrões vêm de sua boca ele acredita que a causa está fora de si mesmo (marcianos), em vez de 
dentro de si. O questionamento incluiria: “Você realmente ouve os marcianos? Como você sabe que 
são marcianos e ninguém mais?”, etc. 
 
 Um outro exemplo não-psicótico seria o de uma garota de 20 anos de idade que desmaia quando 
criticada em seu trabalho. O médico precisa colocar-se, mesmo sendo um homem de 55 anos, de 
uma diferente formação, na posição da paciente, com um conhecimento não somente de sua história 
social, mas também da maneira como ela, no presente, percebe a história. Somente depois disto o 
desenvolvimento de seus sintomas pode se tornar compreensível. Quando tomamos conhecimento, 
por exemplo, de seu pai com abuso de álcool, das discussões deste com a mãe epiléptica da 
paciente, da experiência cultural restrita da família em uma aldeia de pescadores isolada; quando 
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sabemos que a mãe tinha um ataque quando as discussões com o marido tornavam-se intoleráveis – 
podemos começar a entender alguma coisa sobre o desenvolvimento do sintoma da própria paciente. 
Isto não é alcançado somente por explicação, como um observador externo, mas pelo entendimento 
empático e pela capacidade de experiência subjetiva por parte do médico. 
 
 Talvez uma analogia da medicina geral fosse útil aqui. O médico experiente apalpa um rim 
aumentado no abdome de seu paciente (Figura 1.2). Ele convida os estudantes de medicina a 
apalparem o abdome bimanualmente para que possam aprender a experimentar esta sensação 
quase imperceptível, mas ainda assim significativa. O método fenomenológico de empatia empregado 
em psiquiatria é mais difícil de ensinar do que este. É como se o médico tivesse que realizar este 
exame sem as mãos (Figura 1.3)! Primeiro,ele precisa treinar o paciente a apalpar seu próprio 
abdome bimanualmente de maneira correta e, depois, descrever de forma precisa o que sente. O 
médico, então, interpreta a descrição do paciente para decidir se o rim está dilatado sem poder ele 
próprio colocar a mão no abdome. 
 
 
 
Figura 1.2 - Palpação bimanual para verificação 
de um rim aumentado. 
Figura 1.3 - Apalpação bimanual, sem as 
mãos 
 A proposta do método fenomenológico, portanto, é a seguinte: 
(1) descrever experiências internas; 
(2) ordená-las e classificá-las; e 
(3) criar uma terminologia confiável. 
 A empatia também é de grande valor terapêutico no estabelecimento de uma relação com o 
paciente. Saber que o médico entende, e que é capaz de compartilhar de seus sentimentos, dá ao 
paciente confiança e sensação de alívio. Esta empatia é também útil como uma maneira de estender 
o conhecimento mais genericamente no campo da psiquiatria, permitindo o desenvolvimento de uma 
terminologia diagnóstica. 
O Todo Não-Diferenciado – A Parte Significativa 
 Geralmente, uma classificação de qualquer espécie requer o exame detalhado de uma grande 
quantidade de material, para a identificação do indício, pequeno, mas significativo. Isto se aplica à 
fenomenologia, na qual a parte significativa do material psicológico para avaliação fenomenológica 
pode ocorrer dentro de uma longa anamnese e exame, onde a maior parte da conversa do paciente 
não revela qualquer evidência de doença. Um paciente falou por vários minutos sobre várias coisas 
que considerava bastante estranhas, mas não pude ter certeza sobre seu estado psicótico. No 
entanto, quando ele disse: “Eu raspei minhas sobrancelhas porque eram ruivas, e quando as pessoas 
viam sobrancelhas ruivas, elas sabiam que eu era bicha” (na verdade, ele não era homossexual); 
com isto, ficou óbvio que tinha delírios, e este sintoma foi explorado em maiores detalhes. 
 
 O uso da fenomenologia para a avaliação no estado mental pode ser comparado com o exame do 
campo no microscópio. Não se pode esperar extrair algum sentido da amostra de sangue apenas 
olhando e focalizando. Deve-se mover a lâmina e conseguir um bom exemplo para demonstrar o 
ponto de interesse da massa não-diferenciada. Assim, a conversa do paciente pode ter demonstrado 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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muitas idéias estranhas e delírios bizarros, mas talvez somente uma vez o entrevistador possa obter 
uma descrição totalmente satisfatória de determinado sintoma psicopatológico de particular 
importância diagnóstica. 
Comportamento Aleatório/Significado 
 Um homem andando de bicicleta ao redor de um canal encontrou outro homem, robusto, 
caminhando na direção oposta e carregando um tubo de borracha. Este levantou o tubo e o bateu no 
ombro do ciclista, quase o empurrando para dentro do canal. Ao chegar na cidade mais próxima, o 
ciclista registrou a agressão na polícia local, que prendeu o agressor. A polícia considerou seu 
comportamento sem sentido e, portanto, solicitou a opinião de um psiquiatra. Quando questionado a 
respeito da razão pela qual havia agredido o ciclista, o homem respondeu que tinha sentido uma dor 
em seu estômago e ouviu uma voz dizendo: “Bata no homem da bicicleta e a dor irá passar”; e foi o 
que ele fez. 
 
 Um leigo qualquer, comentando o “comportamento maluco”, pode dizer que este não tem sentido; 
mas, como o significado não é sempre aparente para um observador ou mesmo para a vítima, não se 
pode negar que não é real, apesar de psicótico, para o paciente: “Uma ação é, a princípio, 
intencional” (Sartre, 1943). 
 
 É importante tentar alcançar o significado subjetivo do paciente e não somente ficar satisfeito porque 
a resposta é anormal. O significado fenomenológico é, algumas vezes, revelado no tipo de resposta; 
por exemplo, quando se pediu a um paciente esquizofrênico que explicasse a diferença entre 
uma parede e uma cerca, ele respondeu: “Você pode ver através de uma cerca, mas as paredes têm 
ouvidos” (Rawnsley, 1985, comunicação pessoal). Da mesma maneira que os eventos externos têm 
causas que podem ser explicadas, os eventos psicológicos internos podem originar-se uns dos outros 
em um encadeamento significativo, se o estado interno do paciente puder ser entendido 
empaticamente. 
Compreensão/Explicação 
 Iniciamos com a premissa de que o comportamento significa algo, isto é , que surge com 
consistência interna, a partir de eventos psíquicos. Embora o comportamento de um paciente possa 
ser significativo para ele, pode não ser possível para nós, os observadores externos, entendê-lo. 
Existem muitos níveis nos quais podemos entender. Por exemplo, podemos ter algum entendimento 
das dificuldades sexuais de um exibicionista reincidente ao saber sobre sua infância perturbada; mas 
isto ainda não se explica por que ele regularmente repete o comportamento que o faz entrar em 
conflito com a lei, prejudicando-o socialmente e à sua família. Wittgenstein (1953) afirmou: “Nós 
explicamos comportamentos humanos dando razões, não causas”. 
 
 Jaspers contrastou compressão (verstehen) com explicação (erklären) e mostrou como estes termos 
podem ser usados no sentido tanto estático quanto genético. Estático significa compreender ou 
explicar a presente situação a partir das informações disponíveis; genético, como atingiu este estado 
pelo exame de seus antecedentes. Isto é mostrado na Tabela 1.1. 
 Tabela 1.1 – Diagrama de entendimento e explicação. 
 Compreensão Explicação 
Estático (1) Descrição Fenomenológica (3) Observação através da percepção 
sensorial externa 
Genético (2) Empatia estabelecida a partir do 
que emerge 
(4) Causa e efeito do método científico 
Compreensão é a percepção do significado pessoal da experiência subjetiva do paciente: 
 
1. Se quisermos encontrar significado em um determinado momento no tempo, o método da 
fenomenologia é apropriado. A experiência subjetiva do paciente é dissecada formando-se um quadro 
estático do que tal pensamento ou tal evento significaram para ele naquele determinado momento. 
Não é feito qualquer comentário de como o evento surgiu e nem alguma previsão ao que acontecerá 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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depois. O significado é simplesmente extraído como uma descrição do que o paciente está 
experimentando e o que isto significa para ele agora. Um homem sente-se zangado: a compreensão 
estática usa a empatia para descrever em detalhes exatamente como é para ele sentir-se zangado. 
Eu, o examinador, já experimentei fenômenos como estes? Eles são conhecidos por mim pelas 
experiências que tive em minha vida? 
 
2. A compreensão genética, em oposição à compreensão estática, preocupa-se com um processo. 
Entende-se que, quando insultado, este homem reage com violência; quando esta mulher ouve vozes 
comentando sobre suas ações, ela fecha as cortinas de sua casa. Para compreender a maneira como 
os acontecimentos psíquicos originam-se um dos outros na experiência do paciente, o terapeuta usa 
a empatia como um método ou ferramenta. Ele coloca-se na situação do paciente. Se este primeiro 
acontecimento tivesse ocorrido com ele nas circunstâncias totais do paciente, o segundo evento, que 
foi a reação do paciente ao primeiro, ocorreu dentro do esperado, com alguma margem de certeza. 
 
Ele compreende os sentimentos atribuídos ao paciente a partir da ação que deles resulta. Então, se 
eu fosse o paciente com a mesma história, será que teria as mesmas experiências e o mesmo 
comportamento? Um exemplo ajudaria a demonstrar a humanidade desta abordagem e a 
universalidade da experiência humana: eu devo me colocar no lugar de uma jovem mulher de 19 
anos, criada em uma comunidade pesqueira isolada, a mais velha de oito filhos, que se torna 
estuporosa durante sua segunda gravidez. Ela é casada com um homem alcoólatrade 35 anos, e seu 
pai também é alcoolista. Devo compreender como ela lidou com o comportamento de seu pai quando 
criança; o que sua gravidez significou para ela; como ela viu o comportamento de sua mãe durante 
suas gestações, etc. A explicação trata do registro de eventos de um ponto de observação fora 
destes; a compreensão, de dentro deles. Compreende-se a raiva de uma pessoa e suas 
conseqüências; explica-se a ocorrência da neve no inverno. Explicações também podem ser 
descritas como estáticas ou genéticas. 
 
3. A explicação estática refere-se à percepção sensorial externa, à observação de um acontecimento. 
 
4. A explicação genética consiste na descoberta de conexões causais: ela descreve uma cadeia de 
eventos e por que eles seguem esta seqüência. Compreender e explicar são partes necessárias da 
investigação psiquiátrica. 
 Jaspers faz uma distinção importante entre o que é significativo e permite empatia, e o que é, em 
última instância, incompreensível – a essência da experiência psicótica. Apesar de o observador 
possivelmente empatizar com o conteúdo de um delírio de um paciente em qualquer situação 
particular, ele não pode compreender ou ver uma conexão significativa na ocorrência do delírio por si 
só. O delírio como um evento não é compreensível: para o médico, parece incompreensível e irreal. 
Podemos compreender pelo conhecimento do passado da paciente porque, caso seu pensamento 
tiver um transtorno na forma, o conteúdo deste pensamento refere-se à perseguição pelos nazistas – 
talvez porque seus pais escaparam da Alemanha em 1937. Mas não podemos compreender a razão 
pela qual ela deve acreditar em algo que é claramente falso: que os perseguidores estão colocando 
uma substância sem gosto em sua bebida que a faz sentir-se doente. O delírio, em si mesmo, como 
forma psicopatológica, é incompreensível. Conexões significativas, então, mostram o vínculo entre 
diferentes eventos psicológicos, pela compreensão de como tais eventos surgem um dos outros, por 
um processo de empatia. 
Primário: Secundário 
 Jaspers discute os diferentes significados que podem ser atribuídos aos 
vocábulos primário e secundárioquando aplicados a sintomas. A distinção pode ser em termos de 
compreensão, no sentido de que o primário não pode ser reduzido adicionalmente pelo entendimento; 
por exemplo, nas alucinações, na medida em que o secundário é o que surge do primário de uma 
maneira que possa ser compreendida; por exemplo, a elaboração delirante que surge da parte 
saudável da psique em resposta a alucinações que surgem da parte não-saudável da psique. 
Novamente, a distinção entre primário e secundário pode ser feita em termos de causalidade , no 
sentido de que o que é primário é a causa, enquanto o que é secundário é o efeito: a afasia sensorial 
é primária, a perturbação resultante das relações com outras pessoas é secundária. 
 
 Estes dois significados distintos do termo primário obscurecem a distinção crucial entre conexões 
significativas e conexões causais. Para evitar dúvidas em física e química, fazemos observações por 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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meio de experimentos e então formulamos conexões e leis causais, ao passo que, em psicopatologia, 
experimentamos outro tipo de conexão, na qual eventos psíquicos emergem uns dos outros de uma 
maneira que pode ser compreendida – as chamadas conexões significativas (Robinson, 1984, 
comunicação pessoal). 
A Análise De Experiência 
 O que o paciente considera importante ao oferecer a história de seus sintomas e causas de aflição 
pode não ser necessariamente idêntico ao que o médico ou examinador considera importante. O 
médico pode muito bem estar tentando determinar as entidades psicopatológicas que estão 
presentes, talvez para fazer um diagnóstico, enquanto o paciente está preocupado em comunicar a 
agonia que vive, sua intensidade e a forma como esta é percebida como uma ameaça. 
Predição/Quantificação 
 Na acusação feita à psiquiatria – de não ser científica por não ser quantificável – existem duas 
percepções incorretas. Em primeiro lugar, a quantificação não é fundamental para a ciência, mas 
secundária. O fundamental, para o conhecimento fatual ou ciência, é que esta tenha uma qualidade 
suficientemente boa para ser preditiva. Por exemplo, saber que a maçã, solta no ar, cairá, é o 
princípio essencial da ciência: medir e, portanto, quantificar sua velocidade depende da observação e 
da previsão inicial. Em segundo lugar, é possível quantificar a psicologia subjetiva que tem usado a 
fenomenologia no estágio de formação de hipóteses. Exemplos disto serão descritos em maiores 
detalhes posteriormente, incluindo auto-avaliações para a depressão, localização do self dentro do 
espaço semântico na Grade de Repertório; automedições de peso na anorexia nervosa e assim por 
diante. São necessários métodos indiretos e criativos para a quantificação da psicopatologia, mas isto 
é possível e, com freqüência, vantajoso. 
 
 Popper (1959) introduziu o teste de falsificabilidade para a ciência: uma teoria pode ser falsificável 
como um critério de definição. A fenomenologia, a descrição do estado subjetivo do indivíduo, é 
falsificável: está disponível para a refutação, e parte do método empático diz respeito a convidar o 
paciente a refutar o relato do entrevistador sobre a experiência anterior do primeiro. Portanto, as 
teorias fenomenológicas podem ser falsificadas a partir das argumentações do próprio paciente. 
Forma: Conteúdo 
 Como a urdidura e a trama, a forma e o conteúdo são essencialmente diferentes, mas estão 
inextricavelmente entrelaçados. É claro que o conceito filosófico de forma e conteúdo constitui uma 
ferramenta didática, um auxílio para o entendimento, e não deve ser usado de uma maneira concreta 
ou absoluta. O que é forma a um nível de classificação torna-se conteúdo em outro, como, por 
exemplo, artefatos de madeirapodem incluir móveis como um dos muitos “conteúdos”, mas mobília, 
quando utilizada como uma “forma” pode também incluir outros artigos diferentes. A forma de uma 
experiência psíquica é a descrição de sua estrutura em termos fenomenológicos, como, por exemplo, 
um delírio. Visto assim, o conteúdo é o colorido da experiência. O paciente está preocupado pois 
acredita que estão roubando seu dinheiro. Sua preocupação é que “pessoas estão tirando meu 
dinheiro”, não que “eu mantenho uma falsa crença apoiada em razões inaceitáveis de que pessoas 
estão tirando meu dinheiro”. Ele está preocupado com o conteúdo. Claramente, forma e conteúdo são 
importantes, mas em contextos diferentes. O paciente está somente preocupado com o conteúdo, 
“que estou sendo perseguido por 10.000 tacos de hóquei”. O médico preocupa-se com a forma e com 
o conteúdo, mas, como fenomenologista, só com a forma; neste caso, uma falsa crença de estar 
sendo perseguido. No que se refere à forma, os tacos de hóquei são irrelevantes. O paciente, por sua 
vez, acha este interesse do médico pela forma incompreensível e um desvio do que ele considera 
importante, acabando por demonstrar irritação com o fato. 
 
 Uma paciente que disse: “Quando giro a torneira, ouço uma voz sussurrando no cano: ‘Ela está a 
caminho da lua. Vamos torcer para que ela faça uma aterrissagem suave’”. A forma desta experiência 
é o que exige a atenção do fenomenologista e é útil em termos de diagnóstico. Ela está descrevendo 
uma percepção: é uma falsa percepção auditiva e uma percepção auditiva falsa ou perturbada. Tem 
as características de uma alucinação e, especificamente, de uma alucinação funcional. Esta é a 
forma. Enquanto o psiquiatra preocupa-se em esclarecer a forma, a paciente fica muito irritada 
porque “ele não está anotando nada do que estou dizendo”. Ela está preocupada por talvez ser 
mandada para a lua. O que acontecerá quando chegar lá? Como voltará? Portanto, o conteúdo é 
NOÇÕES DE NOSOLOGIAPSIQUIÁTRICA 
 
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tudo o que importa para ela e a preocupação do médico com a forma é incompreensível e frustrante 
ao extremo. 
 
 A forma depende da doença mental da qual o paciente sofre, constituindo-se, portanto, uma chave 
diagnóstica da mesma. Por exemplo, percepções delirantes ocorrem na esquizofrenia, e quando 
demonstradas como a forma da experiência elas indicam esta condição. O achado de uma 
alucinação visual sugere a probabilidade de uma psicossíndrome orgânica. A natureza do conteúdo 
destes dois exemplos é irrelevante para se chegar a um diagnóstico. O conteúdo pode ser entendido 
em termos da situação de vida do paciente com relação à cultura, ao grupo de pares, ao status, à 
sofisticação, à idade, ao sexo, aos eventos de vida e à localidade geográfica. Um outro paciente, por 
exemplo, disse que havia sido enviado à lua e retornado durante a noite duas semanas após a 
primeira aterrissagem da descida do homem na lua. Descrever os pensamentos de uma pessoa 
como sendo controlados pela televisão é necessariamente restrito àquelas partes do mundo onde 
esta invenção é conhecida. Um colega informou-me que duas semanas após a morte de Elvis 
Presley, três reencarnações autoconfessas do famoso cantor formam atendidas em seu setor de 
emergência. 
 
 A hipocondria é uma doença de conteúdo, mais do que de forma. A forma pode ser variada. Ela 
poderia tomar a forma de uma alucinação auditiva, na qual o paciente ouve uma voz dizendo: “Você 
tem câncer”; pode ser um delírio, quando ele acredita falsamente e com evidência delirante que tem 
câncer; pode ser, também, uma idéia supervalorizada, quando ele passa a maior parte do dia 
checando sua saúde, pois acredita que está doente; pode ser uma anormalidade de afeto, que se 
manifesta em extrema ansiedade hipocondríaca ou um desânimo hipocondríaco de fundo depressivo. 
De modo semelhante, o ciúme mórbido é um transtorno do conteúdo, no qual a forma expressa-se de 
várias maneiras: alucinatória, delirante, através de uma idéia supervalorizada, como um 
comportamento compulsivo ou um pensamento obsessivo; mas o conteúdo é compreensível em 
termos da situação de vida do paciente. 
Subjetivo/Objetivo 
 A objetividade na ciência passou a ser reverenciada como o ideal, de modo que somente o que é 
externo à mente é considerado real, mensurável e válido. Trata-se de um erro, porque 
necessariamente avaliações objetivas são subjetivamente carregadas de valor naquilo que o 
observador escolhe medir; e é possível tornar este aspecto subjetivo mais preciso e confiável. Há 
sempre julgamentos de valor associados a avaliações subjetivas e objetivas. O processo de fazer 
uma avaliação científica consiste de vários estágios: receber um estímulo sensorial, perceber, 
observar (tornar significativas as impressões), anotar, codificar e formular hipóteses. Este é um 
processo progressivo de se descartar informações, e é o julgamento subjetivo do que é válido que 
determina a pequena quantidade de cada estágio que é retido para transmissão à próxima parte do 
processo. “Não existe algo como uma observação sem idéias preconcebidas” (Popper, 1974). 
 
 As avaliações objetivas na psiquiatria têm coberto muitos aspectos da vida. Alguns exemplos, além 
das muitas medições fisiológicas, são a medição de movimentos corporais, expressão facial, escritos 
do paciente, capacidade de aprendizagem, respostas a um programa de condicionamento operante, 
extensão da memória, eficiência ocupacional e avaliação do conteúdo lógico das afirmações do 
paciente. Tudo isto pode ser quantificado e analisado objetivamente. Podem ser feitas análises 
subjetivas; por exemplo, a partir da expressão facial, da descrição do paciente sobre si mesmo, de 
sua própria escrita ou de seus acontecimentos internos. Quando um médico fala sobre um paciente: 
“Ela parece triste”, ele não está medindo objetivamente a expressão facial da mesma em “unidades 
de tristeza” por algum gabarito objetivo. Ele segue estes estágios: “Eu associo sua expressão facial 
com o afeto que reconheço em mim como um sentimento de tristeza: ver sua expressão faz-me sentir 
triste”. Rapport é a qualidade que o paciente estabelece com o médico durante sua entrevista clínica. 
Para que isto aconteça, o médico precisa ser receptivo à sua comunicação. Ele deve ser capaz de 
estabelecer também um rapport, de ter uma capacidade para o entendimento humano. Esta é 
necessariamente uma experiência subjetiva para o médico, mas isto não significa que não seja real 
ou mesmo que não possa ser medido. O método fenomenológico tenta aumentar nosso 
conhecimento de eventos subjetivos, de modo que possam ser classificados e, finalmente, 
quantificados. 
 
 Aggernaes (1972) definiu subjetividade e objetividade por experiências diárias imediatas: 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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 Quando alguma coisa vivida tem uma qualidade de “sensação”, diz-se também que tem uma 
qualidade de “objetividade” se a pessoa que a vive sente que, sob circunstâncias favoráveis, ele seria 
capaz de viver a mesma coisa com outra modalidade de sensação que aquela que provocou a 
qualidade de sensação. Quando algo que se experimentou tem uma qualidade de “ideação”, isto é, 
não está sendo diretamente percebido no momento, é também dito que tem uma qualidade de 
“objetividade” se o experimentador sente que, sob circunstancias favoráveis, ele seria capaz, ainda 
assim, de viver a mesma coisa com, no mínimo, duas ou mais modalidades de sensação. 
 Algo experimentado tem uma qualidade de “subjetividade” se quem o vive sente que sob 
circunstâncias favoráveis ele seria capaz de viver esta coisa com duas ou mais modalidades de 
sensação. 
 Assim, olho para a mesa à minha frente como uma percepção visual ou posso virar minha cabeça e 
ainda fantasiá-la como uma imagem visual. Enquanto “vejo a mesa”, em qualquer destas formas, o 
fato de eu poder imaginar ouvir um som se eu batesse na mesa com uma colher e machucar meus 
dedos se desse um soco nela, confirma sua qualidade de objetividade. Se eu usar minha imaginação 
para criar em minha mente uma imagem visual de uma cadeira que nunca realmente vi, mas que é 
um composto de objetos e quadros que vi, sei que nunca serei capaz de sentir ou ouvir esta cadeira 
de fato – esta é uma imagem subjetiva sem realidade externa, objetiva. 
Processo/Desenvolvimento 
 Da mesma maneira que o entendimento e a explicação dependem da perspectiva do entrevistador – 
empaticamente de dentro ou observando de fora - , assim processo ou desenvolvimento dependem 
do modo pelo qual a pessoa vivencia um acontecimento dentro de seu padrão usual de vida, ou fora 
do mesmo. O desenvolvimento significa que uma experiência é compreensível em termos da 
constituição e da história da pessoa; transtornos de personalidade seriam vistos como alterações do 
desenvolvimento. O processo é visto como a imposição de um evento “de fora”; a epilepsia seria 
experimentada como uma ocorrência da doença separada do desenvolvimento normal – o processo 
da doença interrompeu o curso normal da vida. De maneira similar, o início de uma doença 
esquizofrênica freqüentemente produz uma “ruptura” definitiva na história de vida de um adolescente. 
Posições Teóricas Da Psicopatologia 
 Existe uma multiplicidade de psicopatologias. Qualquer explicação para o comportamento anormal 
tem o germe de uma teoria da psicopatologia. A psicopatologia descritiva tenta evitar os inúmeros 
argumentos etiológicos, satisfazendo-se com uma descrição do que ocorre, sem solicitar explicações 
adicionais. Já discutimos o pressuposto de que os fenômenos da doença mental têm significados 
próprios. Uma opinião radicalmente oposta afirma que qualquer experiência subjetiva é desprovida de 
significados. Pensamentos, incluindo o humor e os impulsos, são considerados como epifenômenos, 
isto é, o pensar não tem significadoou objetivo, sendo como a espuma da cerveja na parte de cima 
de um copo. Pensamentos são considerados como subprodutos acidentais das atividades químicas 
que ocorrem no cérebro: não são causas de comportamento, mas meros produtos. O significado que 
a pessoa que pensa vincula a eles é puramente ilusório. Tal posição extrema nega qualquer 
possibilidade de investigação ou tratamento psicológico. 
Psicopatologia Dinâmica Descritiva 
 A psicopatologia é o estudo dos processos psíquicos anormais. A psicopatologia descritiva 
preocupa-se em descrever as experiências subjetivas e também o comportamento resultante durante 
a doença mental. Ela não arrisca explicações para tais experiências ou comportamentos, nem 
comenta sobre a etiologia ou o processo de desenvolvimento. 
 
 Esta abordagem para o fenômeno psíquico anormal contrasta de forma acentuada com outras 
molduras teóricas da psicopatologia, como a psicanalítica. Na psicanálise, no mínimo um de vários 
mecanismos supostamente ocorre, e o estado mental torna-se compreensível dentro deste 
referencial. Explicações do que ocorre no pensamento ou no comportamento baseiam-se nestes 
processos teóricos subjacentes, como transferência ou mecanismos de defesa do ego. Por exemplo, 
no caso de um delírio, a psicopatologia descritiva tenta descrever aquilo em que a pessoa acredita, 
como ela descreve sua experiência de acreditar, que evidências dá para sua veracidade e qual é o 
significado desta crença para sua situação de vida. Tenta-se avaliar se sua crença tem as 
características exatas de um delírio e, se tiver, de que tipo de delírio. Após esta avaliação 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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fenomenológica, a informação obtida pode ser utilizada de maneira diagnóstica, prognóstica e, como 
conseqüência, terapêutica. Alguns dos contrastes entre psicopatologia descritiva e dinâmica são 
resumidos na Tabela 1.2. 
Tabela 1.2 – Psicopatologia – descritiva versus psicanalítica. 
 Descritiva Psicanalítica 
Resumo Avaliação empática da experiência 
subjetiva do paciente. 
Estudo das raízes do comportamento 
atual e experiência consciente por 
meio de conflitos inconscientes. 
Terminologia Descrição de fenômenos. Processos teóricos demonstrados. 
Métodos Entendimento do estado subjetivo do 
paciente por intermédio da entrevista 
empática. 
Associação livre, sonhos, 
transferência. 
Diferenças na 
aplicação prática 
1. Faz distinção entre atendimento e 
explicação: entendimento pela 
observação e empatia. 
Entendimento em termos de noções de 
processos teóricos. 
2. A forma e o conteúdo são 
claramente separados: a forma tem 
importância para o diagnóstico. 
Não é feita distinção; envolvida com o 
conteúdo. 
3. Processo e desenvolvimento 
diferenciados: o processo interfere 
com o desenvolvimento. 
Não é feita distinção; sintomas vistos 
como tendo uma base psicológica 
inconsciente. 
A psicopatologia analítica ou dinâmica, no entanto, mais provavelmente tentaria explicar o delírio em 
termos de conflitos precoces reprimidos no inconsciente e que somente agora são capazes de ganhar 
expressão na forma psicótica, talvez com base na projeção. O conteúdo do delírio seria considerado 
uma chave importante para a natureza do conflito subjacente que tem suas raízes no 
desenvolvimento precoce. A psicopatologia descritiva não tenta dizer por que um delírio está 
presente: ela somente observa, descreve e classifica. A psicopatologia dinâmica ajuda a descrever 
como o delírio ocorreu e por que se trata deste delírio em particular, com base nas evidências da 
experiência no início da vida desta pessoa. Isto está relacionado com a compreensão genética, 
conforme descrito, e chamada de entendimento presciente por Mellor (1985, comunicação pessoal), 
indicando um suposto conhecimento prévio sobre como os eventos da vida mental devem se 
desenrolar, pois eles necessariamente terão de se adaptar às postulações teóricas. 
Consciente/Inconsciente 
 A fenomenologia não pode estar envolvida com o inconsciente, visto que o paciente não pode 
descrevê-lo, e, portanto, o médico não pode sentir empatia. A psicopatologia descritiva não possui 
uma teoria do inconsciente, nem nega sua existência. A mente inconsciente está simplesmente fora 
de seus termos de referência, e eventos psíquicos são descritos sem se recorrer a explicações que 
envolvam o inconsciente. Os sonhos, os conteúdos do transe hipnótico e os deslizes da língua (atos 
falhos) são descritos de acordo com o modo como o paciente experienciou-os, isto é, de acordo com 
a forma como se manifestam na consciência. 
Orgânico: Sintomático 
 A psicopatologia é essencialmente uma abordagem não-biológica aos processos mentais anormais, 
de modo que, mesmo quando as causas orgânicas de uma condição são conhecidas, a 
psicopatologia está envolvida na ordenação dos sintomas e na experiência do paciente, mas não tem 
em sua patologia orgânica. Há agora muitas conexões conhecidas entre diferentes doenças 
psiquiátricas e uma patologia orgânica identificável. No entanto, não é com estas ligações que a 
psicopatologia preocupa-se, e sua utilidade não é dependente da localização de um delírio ou de 
qualquer outro evento psíquico no cérebro. No início, psiquiatras de orientação organicista, como 
Griesinger e Wernicke, não se preocupavam com o psicopatológico na psiquiatria, mas muito mais 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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em mapear o cérebro do doente. Isto trouxe excelentes contribuições, como por exemplo, para a 
elucidação da natureza e para o tratamento da sífilis cerebral. De modo similar, os behavioristas 
modernos geralmente não se interessam pela fenomenologia. A fenomenologia não trata da patologia 
orgânica ou do comportamento em si mesmo, mas da experiência subjetiva do paciente em relação 
ao seu mundo. 
 
 Não contrastamos orgânico com o funcional de forma convencional, pois funcional é um termo muito 
sujeito a confusões. Ele provoca dificuldades conceituais em vez de trazer esclarecimentos: uma 
pessoa lógica que desconhece o jargão médico, ficaria perplexa ao saber que uma perturbação 
humana decorrente de um problema psicológico é chamada de funcional, enquanto que uma 
perturbação similar, causada por uma doença orgânica, não é mais chamada de funcional. São os 
elementos sintomáticos da doença que a fenomenologia pode explorar: a natureza dos sintomas e ao 
que eles estão associados. 
Cérebro/Mente 
 René Descartes (1596 – 1650) examinou, formulou e reafirmou pontos de vista sobre a separação 
entre corpo e mente. Ele descreveu “L’âme raisonable” – a alma que pensa está alojada na máquina, 
tendo sua sede principal no cérebro. Ele descreveu a alma como o engenheiro que alterava os 
movimentos da máquina, o corpo (1649). Descartes foi um homem de seu tempo, refletindo e 
desenvolvendo concepções dicotômicas da relação cérebro-mente. Um exemplo deste dualismo 
cartesiano, que ocorreu antes mesmo de Descartes, é a seguinte inscrição obituária para Lady 
Doderidge, que morreu em 1614: 
Como quando um relógio estragado é desmontado um relojoeiro toma suas pequenas peças e 
consertando o que encontra fora de ordem reúne tudo e o faz novamente operar também Deus esta 
dama tomou e suas duas partes separou demasiado cedo – sua alma e seu pobre corpo mortal. Mas 
por Sua vontade seu corpo totalmente são será novamente unido à sua alma agora coroada. Até 
então, os dois repousam na terra e no céu separados com o que reuniu tudo o que tem vida nós 
então nos regozijamos. 
 Esta clara afirmação de uma absoluta separação entre corpo e alma encontra-se em seu túmulo, que 
pode ser visitado na Catedral de Exerter. 
 
 É proveniente deste dualismo a nossa tendência de pensarmos em termos do corpo e da mente – 
doença mental e física. A disciplina total da psiquiatria aceita tacitamenteuma base dualística para 
sua própria existência, apesar de se ressentir disto e tentar duramente ensinar uma medicina da 
pessoa como um todo. Nossa linguagem continuamente nos leva de volta a palavras e expressões 
dualísticas, e estamos constantemente sob o perigo de uma psiquiatria “descerebrada” ou então “sem 
mente” (Eisenberg, 1986). 
 
 Neste aspecto, o método fenomenológico apresenta a vantagem de ser uma ponte sobre este 
abismo, de outro modo intransponível. Uma vez que se preocupa com a experiência subjetiva, está 
envolvido com a mente e não com o corpo, mas a mente pode somente perceber os estímulos que o 
corpo recebeu, e não pode haver percepção sem a consciência da mente. “O corpo não é somente 
um mecanismo causado, mas essencialmente uma entidade intencional sempre dirigida a um 
objetivo. O corpo vivido é a experiência de nosso corpo que não pode ser objetivada” (Gold, 1985; 
grifos de Gold). O termo mente não pretende representar algum homúnculo psicológico dentro do 
homem, talvez virado de cabeça para baixo, como no córtex cerebral. Ela é puramente uma 
abstração, que se refere a um aspecto de nossa humanidade. Como qualquer outro aspecto ou 
perspectiva, o que é mantido em foco é razoavelmente claro, mas as margens do campo são 
indefinidas e, portanto, não podemos dizer o que, precisamente, quais são os confins da mente, 
assim como nem podemos discriminar completamente o corpo e a mente, nem diríamos que a 
humanidade é completamente explicável em termos de corpo e mente (Sims, 1994). 
 
 Popper e Eccles (1977) desenvolveram o dualismo cartesiano ainda além e elaboraram um conceito 
tríplice – mente, corpo e self. As teorias de corpo-mente e suas relações com a psiquiatria foram bem 
resumidas por Granville-Grossman (1983). A mente é usada, daqui por diante, como uma abstração, 
um modo de observarmos parte dos fenômenos do homem. Esses temas são abordados 
resumidamente neste artigo, onde a finalidade foi a de um olhar sobre a doença, e não a dissecação 
da mente – “o estudo das características distintivas pelas quais se manifestam” (Pinel, 1801). Este 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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artigo descreveu o que é a fenomenologia e por que ela é útil na psiquiatria clínica. O método 
concentra-se na experiência subjetiva do paciente – tentar compreender seu próprio estado interno. 
Várias constelações de idéias foram discutidas, e os conceitos foram listados em pares, como 
construtores; assim como o modo pelo qual a população psiquiátrica difere de uma população normal. 
 
 As idéias básicas para o atendimento dos sintomas do paciente são elaboradas usando-se o método 
de empatia e significado do comportamento, ou seja, a compreensão e a explicação dos eventos 
psíquicos. O comportamento do paciente é analisado, adicionalmente, em termos de forma e 
conteúdo, avaliação subjetiva e objetiva. As posições teóricas da psicopatologia descritiva foram 
discutidas e comparadas com métodos psicanalíticos e com o enfoque biológico da doença mental. O 
conceito de mente foi brevemente discutido. 
Modelo De Anamnese E Exame Psíquico Para Avaliação E Planejamento Em Psicoterapia 
Breve. 
 Este trabalho surgiu da percepção da dificuldade que alguns profissionais da área da saúde mental, 
notadamente os psicólogos, têm em colher e organizar dados que auxiliem a reconstituição da 
história do paciente por meio da elaboração da chamada técnica de anamnese. 
 Com este trabalho tentamos auxiliar aqueles que pouco ou nenhum contato tiveram na realização 
dessa técnica, explicando seus vários itens e, na medida do possível, contribuindo com 
esclarecimentos que subsidiem a inclusão ou não de determinados fatos ou naquele item constante 
do roteiro. 
 
 Como também foi observada a necessidade de mais esclarecimentos práticos que permitissem ao 
profissional em treinamento maior facilidade e autonomia na elaboração escrita de seu trabalho, 
tentamos acrescentar, ao final de cada item, exemplos de redação. 
 As bases deste trabalho estão firmadas nos apontamentos das aulas ministradas pelo Dr. Anchyses 
Lopes para o curso de Psicopatologia I, bem como na apostila preparada pela Dra. Vera Lemgruber e 
em suas aulas para o curso de Psicopatologia II, ambos da PUC-RJ, e também no trabalho do Prof. 
Leme Lopes – “Técnica do Diagnóstico”. 
 
 O modelo de anamnese aqui usado é o biomédico clássico e esperamos que, efetivamente, torne 
mais fácil a organização e a realização desta técnica por aqueles que desejam obter, de seus 
pacientes, dados que possibilitem um ponto de partida mais claro para a reconstrução de suas 
histórias e complemento à compreensão psicodinâmica. 
Anamnese 
 O termo vem do grego ana (remontar) e mnesis (memória). Para nós, a anamnese é a evocação 
voluntária do passado feita pelo paciente, sob a orientação do médico ou do terapeuta. 
 
 O objetivo dessa técnica é o de organizar e sistematizar os dados do paciente, de forma tal que seja 
permitida a orientação de determinada ação terapêutica com a respectiva avaliação de sua eficácia; o 
fornecimento de subsídios para previsão do prognóstico; o auxílio no melhor atendimento ao 
paciente, pelo confronto de registros em situações futuras. 
 
 Não podemos deixar de lado o fato de que essa técnica advém de uma relação interpessoal, na qual 
ao terapeuta cabe, na medida do possível, não cortar o fluxo da comunicação com seu paciente, 
assim como, paralelamente, não deixar de ter sob sua mira aquilo que deseja saber. 
 
 Para tanto, faz-se necessário que um esquema completo do que perguntar esteja sempre presente 
em sua mente. Assim, diante de um paciente que se apresente prolixo ou lacônico, estes não serão 
fatores de empecilho para que se possa delinear sua história. 
 
 Ao entrevistador inexperiente cabe lembrar o cuidado em não transformar coleta de dados em 
“interrogação policial”. Um equilíbrio entre neutralidade, respeito e solidariedade ao paciente deve ser 
mantido. O paciente deve perceber o interesse do entrevistador e não o seu envolvimento emocional 
com a sua situação. 
 
 Muitas vezes, não se consegue ter todo o material em uma única entrevista, principalmente em 
instituições em que o número de pacientes e a exigüidade do tempo de atendimento tornam-se 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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fatores preponderantes. 
 
 É aconselhável que a entrevista seja conduzida de uma maneira informal, descontraída, com termos 
acessíveis à compreensão do paciente, porém bem estruturada. 
 
Em uma anamnese, acaba-se por fazer dois cortes na vida do paciente: um longitudinal ou biográfico 
e outro transversal ou do momento. 
 
 No corte longitudinal, podemos localizar os registros das histórias pessoal, familiar e patológica 
pregressas. 
 
No corte transversal, enquadraríamos a queixa principal do sujeito, a história da sua doença atual e o 
exame psíquico que dele é feito. 
 
 O roteiro para sua execução pode sofrer algumas poucas variações, em função daquilo a que se 
propõe, porém a estrutura básica que aqui será colocada é aquela da anamnese médica clássica. 
Nele constam: a identificação do paciente; o motivo da consulta ou queixa que o traz ao médico ou 
terapeuta; a história da doença atual; a história pessoal; a história familiar (estas duas poderão vir sob 
o mesmo título – “História Pessoal e Familiar”); a história patológica pregressa; um exame psíquico; 
uma súmula psicopatológica; uma hipótese de diagnóstico nosológico. 
 
 Além disso, é de nosso interesse que, após a anamnese propriamente dita, conste uma proposição 
de uma hipótese psicodinâmica, um planejamento para que se conduza o caso e uma breve 
descrição da atuação terapêutica junto ao paciente em questão. 
 
 Alguns cuidados terão que ser tomados ao se fazer uma anamnese: 
- As informações fornecidas pelo paciente devem constar como de sua responsabilidade.Daí, na 
redação, serem usados verbos como relatar, declarar, informar, tendo o paciente como sujeito deles. 
Ex: Paciente informa ter medo de sair à rua sozinho... Outras expressões como: “conforme relato do 
paciente...”, “de acordo com declarações do paciente...” são usadas, sempre com o intuito de aclarar 
que o que estiver sendo registrado é baseado no que é informado pelo entrevistado. 
 
- Sempre que forem usadas expressões do entrevistado, estas virão entre aspas. 
 
- Depois de identificado o paciente, no item I da anamnese, aparecerão apenas as suas primeiras 
iniciais ao longo do registro. 
 Na medida do possível, ao longo deste trabalho, tentaremos apontar outros cuidados. 
 Cabe lembrar que não é objetivo deste trabalho um curso de psicopatologia, mas sim, a tentativa de 
uniformizar as informações colhidas nas entrevistas iniciais com os pacientes, para que delas se tire 
maior proveito no auxílio terapêutico a tais pacientes. 
 
 A próxima etapa será o desenvolvimento da anamnese propriamente dita. 
I. Identificação 
 Os dados são colocados na mesma linha, em seqüência (tipo procuração).Dela constam os 
seguintes itens: 
 
- Somente as iniciais do nome completo do paciente, uma vez que, por extenso, constará o mesmo 
do seu prontuário ou ficha de triagem (ex: R.L.L.P.); 
- Idade em anos redondos (ex. “35 anos”); 
- Sexo; 
- Cor: branca, negra, parda, amarela; 
- Nacionalidade; 
- Grau de instrução: analfabeto, alfabetizado, primeiro, segundo ou terceiro grau completo ou 
incompleto; 
- Profissão; 
- Estado civil – não necessariamente a situação legal, mas se o paciente se considera ou não casado, 
por exemplo, numa situação de coabitação; 
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- Religião; 
- Número do prontuário. 
II. Queixa Principal (QP) 
 Neste item, explicita-se o motivo pelo qual o paciente recorre ao Serviço em busca de atendimento. 
Caso o paciente traga várias queixas, registra-se aquela que mais o incomoda e, preferencialmente, 
em não mais de duas linhas. 
 Deve-se colocá-la entre aspas e nas palavras do paciente. 
Ex: “Tô sem saber o que faço da minha vida. Acho que é culpa do governo”. 
III. História Da Doença Atual (HDA) 
 Aqui se trata apenas da doença psíquica do paciente. Registram-se o sintomas mais significativos, a 
época em que começou o distúrbio; como vem se apresentando, sob que condições melhora ou 
piora. 
 
 Indaga-se se houve instalação súbita ou progressiva, se algum fato desencadeou a doença ou 
episódios semelhantes que pudessem ser correlacionados aos sintomas atuais. 
 
 Alguma coisa fazia prever o surgimento da doença? 
 
 Houve alguma alteração nos interesses, hábitos, comportamento ou personalidade? 
 
 Quais as providências tomadas? 
 
 Averigua-se se já esteve em tratamento, como foi realizado e quais os resultados obtidos, se houve 
internações e suas causas, bem como o que sente atualmente. Pede-se ao paciente que explique, o 
mais claro e detalhado possível, o que sente. 
 
 É importante lembrar que ao se fazer o relato escrito deve haver uma cronologia dos eventos 
mórbidos (do mais antigo para o mais recente). 
 
 Aqui também são anotados, se houver, os medicamentos tomados pelo paciente (suas doses, 
duração e uso). Caso não tome remédios, registra-se: “Não faz uso de medicamentos”. 
 
 Neste item busca-se, com relação à doença psíquica, “como” ela se manifesta, com que freqüência e 
intensidade e quais os tratamentos tentados. 
IV. História Pessoal (HP) 
 Coloca-se, de forma sucinta, separando-se cada tópico em parágrafos, dados sobre a infância, 
educação, escolaridade, relacionamento com os pais, relacionamento social, aprendizado sobre 
sexo..., enfim, tudo o que se refere à vida pessoal do paciente. Não se titulam esses tópicos, apenas 
relata-se a que se refere cada um deles. 
 Apreciam-se as condições: 
- De nascimento e desenvolvimento: gestação (quadros infecciosos, traumatismos emocionais ou 
físicos, prematuridade ou nascimento a termo), parto (normal, uso de fórceps, cesariana), condições 
ao nascer. Se o paciente foi uma criança precoce ou lenta, dentição, deambulação (ato de andar ou 
caminhar), como foi o desenvolvimento da linguagem e a excreta (urina e fezes). 
Ex: “Paciente declara ter nascido de gestação a termo, parto normal...”. 
- Sintomas neuróticos da infância: medos, terror noturno, sonambulismo, sonilóquio (falar dormindo), 
tartamudez (gagueira), enurese noturna, condutas impulsivas (agressão ou fuga), chupar o dedo ou 
chupeta (até que idade), ser uma criança modelo, crises de nervosismo, tiques, roer unhas. 
Ex: “A.F. informa ter tido muitos pesadelos e insônia, além de ser uma criança isolada até os 9 
anos...”. 
- Escolaridade: anotar começo e evolução, rendimento escolar, especiais aptidões e dificuldades de 
aprendizagem, relações com professores e colegas, jogos mais comuns ou preferidos, divertimentos, 
formação de grupos, amizades, popularidade, interesse por esportes, escolha da profissão. 
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Ex: “Afirma ter ido à escola a partir dos 10 anos, já que não havia escolas próximas à sua casa...” ou 
“Afirma ter freqüentado regularmente a escola, sempre com idade e aprendizado compatíveis...”. 
- Lembrança significativa: perguntar ao paciente qual sua lembrança antiga mais significativa que 
consegue recordar. O objetivo é observar a capacidade de estabelecer vínculos, além do auxílio à 
compreensão da ligação passado-presente. 
 
Ex: “Foi quando minha mãe estava limpando uma janela, bateu com a cabeça e caiu no chão. Era 
tanto sangue que pensei que ela estava morta. Nessa época, eu tinha 3 anos”. 
- Puberdade: época de aparição dos primeiros sinais; nas mulheres, a história menstrual (menarca: 
regularidade, duração e quantidade dos catamênios; cólicas e cefaléias; alterações psíquicas, como 
nervosismo, emotividade, irritabilidade, depressão; menopausa, última menstruação). 
 
Ex: “Paciente relata que os primeiros sinais da puberdade ocorreram aos onze anos e que obteve 
informações sobre menstruação...”. 
- História sexual: aqui se registram as primeiras informações que o paciente obteve e de quem; as 
primeiras experiências masturbatórias; início da atividade sexual; jogos sexuais; atitude ante o sexo 
oposto; intimidades, namoros; experiências sexuais extraconjugais; homossexualismo; separações e 
recasamentos; desvios sexuais. 
 
Ex: “Teve sua primeira experiência sexual aos 18 anos com seu namorado, mantendo, desde então, 
relacionamentos heterossexuais satisfatórios com outros namorados...”. 
- Trabalho: registrar quando o paciente começou a trabalhar, diferentes empregos e funções 
desempenhadas (sempre em ordem cronológica), regularidade nos empregos e motivos que levaram 
o paciente a sair de algum deles, satisfação no trabalho, ambições e circunstâncias econômicas 
atuais, aposentadoria. 
 
Ex: “Conta que aos 20 anos obteve seu primeiro trabalho como contador numa empresa 
transportadora...”. 
 
- Hábitos: uso do álcool, fumo ou quaisquer outras drogas. Caso não faça uso, assinalar: “Não faz 
uso de álcool, fumo ou quaisquer outras drogas”. 
V. História Familiar (HF) 
 O item deve abrigar as relações familiares (começa-se pela filiação do paciente). 
- Pais: idade; saúde; se mortos; causa e data do falecimento; ocupação; personalidade; 
recasamentos, se houver, de cada um deles. Verificar se há caso de doença mental em um deles ou 
ambos. 
 
Ex: “A.F. é o quinto filho de uma prole de dez. Seu pai, J.C., falecido, em 1983, aos 70 anos, de 
infarto...”. 
- Irmãos: idade; condições maritais; ocupação; personalidade. Indagar se há caso de doença mental. 
Apenas referir-se por iniciais. 
 
Ex: “Seus irmãos são: A.M., 34 anos, solteiro, desempregado, descrito como violento, não se dá com 
ele”. 
- Cônjuge: idade, ocupaçãoe personalidade; compatibilidade; vida sexual; frigidez ou impotência; 
medidas anticoncepcionais. 
 
Ex: A.F. coabita maritalmente com G., 39 anos, do lar, descrita como carinhosa e “boazinha”. 
- Filhos: número; idades; saúde; personalidade. Também referir-se apenas pelas iniciais. 
 
Ex: “Tem dois filhos: J., de 8 anos, cursando a 2ª série do 1º grau, apontado como “carinhoso, mas 
cobra demais de mim e da minha mulher”. 
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- Lar: neste quesito, descreve-se, em poucas palavras, a atmosfera familiar, os acontecimentos mais 
importantes durante os primeiros anos e aqueles que, no momento, estão mobilizando toda a família; 
as relações dos parentes entre si e destes com o paciente. 
 
Ex: “Quanto ao seu lar, diz não se adaptar muito bem à filha mais velha, que é muito desobediente...” 
ou “Não gosta do ambiente familiar, pois nele há muitas pessoas doentes...”. 
 Nunca é demais lembrar que se evite o estilo romanceado e opiniões pessoais por parte de quem faz 
a anamnese. Frases curtas e objetivas, contendo dados essenciais, facilitarão a apreensão do caso. 
 
A utilização das palavras do paciente será produtiva na medida em que se queira explicitar, de 
maneira objetiva e clara, alguma situação ou característica relevante. 
VI. História Patológica Pregressa (HPP) 
 Nesta etapa, investigam-se os antecedentes mórbidos do paciente. Devem constar somente 
as doenças físicas. 
 Viroses comuns da infância, desmaios, convulsões e sua freqüência, doenças, operações, acidentes, 
traumatismos (sintomas, datas, duração), internações e tratamentos. 
VII. Exame Psíquico (EP) 
 Até aqui, tivemos um relato feito pelo paciente e, em alguns casos, outros dados colhidos por 
familiares ou pessoa que o acompanha à entrevista. Nosso trabalho foi o de registrar e organizar tais 
informações. 
 
 Neste ponto da anamnese, cessa esse relato do paciente e passa-se a ter o registro da observação 
do entrevistador ou terapeuta, no momento da(s) entrevista(s). 
 
 No exame psíquico, as anotações deverão ser feitas de forma que alguém de fora da área “Psi” 
possa compreendê-las. 
 
 A sua organização deve obedecer a determinados quesitos que, obrigatoriamente, serão 
respondidos pelo entrevistador. 
 
 Nunca é demais lembrar que tudo o que não é observado no momento da entrevista ficará na HDA 
ou HPP. Exemplo: se o paciente diz ter insônia, isso constará da HDA. 
 
 Os tópicos seguintes apontam para os diferentes aspectos da vida psíquica do indivíduo e devem ser 
investigados. A coleta desses dados, bem como a de todos os outros, poderá ser feita na ordem em 
que melhor parecer ao entrevistador. Porém, no texto final, será mantida uma ordem preestabelecida, 
com a finalidade de facilitar o acesso ao material. 
 
 Para melhor organização, usa-se a forma de parágrafo para cada um dos assuntos, sem porém 
titulá-los. 
 
 No exame psíquico, não se usam termos técnicos; o que se espera que seja registrado aqui são 
aspectos objetivos que justifiquem os termos técnicos que serão empregados posteriormente na 
súmula. 
 
Ex: “Paciente apresenta-se inquieto, demonstrando desassossego, mas podendo ainda controlar sua 
agitação.” Isso corresponde ao que se chama de “hipercinesia moderada”. Esse termo não será aqui 
utilizado. Ele aparecerá somente na súmula quando se estiver apontando o termo técnico indicativo 
da psicomotricidade do paciente. 
 
Em seguida, apontamos os diversos aspectos que integram o exame psíquico. 
1. Apresentação 
 Refere-se à impressão geral que o paciente causa no entrevistador. Compreende: 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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a. Aparência: tipo constitucional, condições de higiene pessoal, adequação do vestuário, cuidados 
pessoais. Não confundir com a classe social a que pertence o indivíduo. 
 
Ex: “Paciente é alto, atlético e apresenta-se para a entrevista em boas condições de higiene pessoal, 
com vestes adequadas, porém sempre com a camisa bem aberta...”. 
b. Atividade psicomotora e comportamento: mímica – atitudes e movimentos expressivos da 
fisionomia (triste, alegre, ansioso, temeroso, desconfiado, esquivo, dramático, medroso, etc.); 
gesticulação (ausência ou exagero); motilidade – toda a capacidade motora (inquieto, imóvel, 
incapacidade de manter-se em um determinado local); deambulação – modo de caminhar (tenso, 
elástico, largado, amaneirado, encurvado, etc.). 
 
Ex: “Sua mímica é ansiosa, torce as mãos ao falar, levando-as à boca para roer as unhas...” ou “Seu 
gestual é discreto...”. 
c. Atitude para com o entrevistador: cooperativo, submisso, arrogante, desconfiado, apático, superior, 
irritado, indiferente, hostil, bem-humorado, etc. 
 
Ex: “Mostra-se cooperativo, mas irrita-se ao falar de sua medicação...”. 
d. Atividade verbal: normalmente responsivo às deixas do entrevistador, não-espontâneo (tipo 
pergunta e resposta), fala muito, exaltado ou pouco e taciturno. 
 
Ex: “É normalmente responsivo às deixas do entrevistador, mas torna-se hostil quando algo é 
anotado em sua ficha...”. 
2. Consciência 
 Não se trata de consciência como capacidade de ajuizar valores morais, mas, sim, num sentido 
amplo, uma referência a toda atividade psíquica, ou seja, é a capacidade do indivíduo de dar conta do 
que está ocorrendo dentro e fora de si mesmo. 
 
 Consciência, aqui, será a indicação do processo psíquico complexo, que é capaz de integrar 
acontecimentos de um determinado momento numa atividade de coordenação e síntese. Na prática, 
a consciência se revela na sustentação, coerência e pertinência das respostas dadas ao 
entrevistador. 
 
 A clareza dessa consciência é traduzida pela lucidez. Quando o paciente está desperto, recebendo e 
devolvendo informações do meio ambiente, ele está lúcido, não importando, para esta classificação, o 
teor de sua integração com o meio. 
 
 Os distúrbios da consciência geralmente indicam dano cerebral orgânico. As informações sensoriais 
chegam amortecidas ou nem chegam à consciência. 
 
 Os estados de rebaixamento da consciência podem ser: rebaixamento ou embotamento, turvação ou 
obnubilação (que é um rebaixamento geral da capacidade de perceber o ambiente) e estreitamento 
(perda da percepção do todo com uma concentração em um único objetivo paralelo à realidade (ex. 
estados de hipnotismo e sonambulismo). 
 
 Cabe ao entrevistador avaliar o grau de alteração da consciência, observando se o paciente faz 
esforço para manter o diálogo e levar a entrevista a termo, se a confusão mental interfere na exatidão 
das respostas, que se fazem com lentidão, ou se o paciente chega mesmo a cochilar, adormecer no 
curso da entrevista. 
 
 O paciente que exibe estado alterado da consciência, com freqüência mostra algum prejuízo também 
de orientação, embora o contrário não seja verdadeiro. 
 
 Exemplo de como descrever paciente lúcido nas entrevistas: “Paciente apresenta-se desperto 
durante as entrevistas, sendo capaz de trocar informações com o meio ambiente...”. 
3. Orientação 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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 Pode-se definir orientação como um complexo de funções psíquicas, pelo qual tomamos consciência 
da situação real em que nos encontramos a cada momento de nossa vida. 
 
 A orientação pode ser inferida da avaliação do estado de consciência e encontra-se intimamente 
ligada às noções de tempo e de espaço. 
 
 Em geral, o primeiro sentido de orientação que se perde é o do tempo, depois o do espaço, que 
envolve deslocamento e localização e, num estado mais grave, a desorientação do próprio eu 
(identidade e corpo). 
 
 A Orientação Divide-Se Em: 
a. Autopsíquica: paciente reconhece dados de identificação pessoal e sabe quem é; 
b. Alopsíquica: paciente reconhece os dados fora do eu; no ambiente: 
 
- Temporal: dia, mês, ano em que está;em que parte do dia se localiza (manhã, tarde, noite); 
- Espacial: a espécie de lugar em que se encontra, para que serve; a cidade onde está; como chegou 
ao consultório; 
- Somatopsíquica: alterações do esquema corporal, como, por exemplo, os membros fantasmas dos 
amputados, negação de uma paralisia, a incapacidade de localizar o próprio nariz ou olhos... 
Ex: “Sabe fornecer dados de identificação pessoal, informar onde se encontra, dia, mês e ano em que 
está...”. 
4. Atenção 
 A atenção é um processo psíquico que concentra a atividade mental sobre determinado ponto, 
traduzindo um esforço mental. É resultado de uma atividade deliberada e consciente do indivíduo – 
foco da consciência – a fim de inserir profundamente nossa atividade no real. 
 
 Essa energia concentrada sobre esse foco está intimamente ligada ao aspecto da afetividade. 
 
Destaca-se aí a vigilância (consciência sem foco, difusa, com atenção em tudo ao redor) e a 
tenacidade (capacidade de se concentrar num foco). O paciente não pode ter essas duas funções 
concomitantemente exaltadas (o paciente maníaco, por exemplo, é hipervigil e hipotenaz), porém, 
pode tê-las rebaixadas, como no caso do sujeito autista, esclerosado ou esquizofrênico catatônico. 
 Investiga-se assim: 
- atenção normal: ou euprossexia; normovigilância; 
- hipervigilância: ocorre num exagero, na facilidade com que a atenção é atraída pelos 
acontecimentos externos; 
- hipovigilância: é um enfraquecimento significativo da atenção, onde é difícil obter a atenção do 
paciente; 
- hipertenacidade: a atenção se adere em demasia a algum estímulo ou tópico; concentração num 
estímulo; 
- hipotenacidade: a atenção se afasta com demasiada rapidez do estímulo ou tópico. 
 
Ex: “Concentra-se intensamente no entrevistador e no que lhe é dito, abstendo-se completamente do 
que se passa à sua volta...”. 
5. Memória 
 “É o elo temporal da vida psíquica (passado, presente, futuro). A memória permite a integração de 
cada momento. Há cinco dimensões principais do seu funcionamento: percepção (maneira como o 
sujeito percebe os fatos e atitudes em seu cotidiano e os reconhece psiquicamente), fixação 
(capacidade de gravar imagens na memória), conservação (refere-se tudo que o sujeito guarda para 
o resto da vida; a memória aparece como um todo e é um processo tipicamente afetivo), 
evocação (atualização dos dados fixados – nem tudo pode ser evocado). Cabe ressaltar aqui que 
nada é fixado e evocado de maneira anárquica: há dependência das associações que estabelecem 
entre si (semelhança, contraste, oposição, contigüidade e causalidade), e reconhecimento 
(reconhecimento do anagrama (imagem recordada) como tal – é o momento em que fica mais difícil 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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detectar onde e quando determinado fato aconteceu no tempo e no espaço). 
 
 A função mnésica pode ser avaliada pela rapidez, precisão e cronologia das informações que o 
próprio paciente dá, assim como a observação da capacidade de fixação. 
 
 O exame da memória passada (retrógrada) faz-se com perguntas sobre o passado do paciente, data 
de acontecimentos importantes. Contradições nas informações podem indicar dificuldades. 
 
 Com relação à memória recente (anterógrada), podem ser feitas perguntas rápidas e objetivas, como 
“O que você fez hoje?” ou dizer um número de 4 ou 5 algarismos ou uma série de objetos e pedir 
para que o paciente repita após alguns minutos, se houver necessidade. 
 
 Para o exame da memória de retenção pode-se pedir ao paciente que repita algarismos na ordem 
direta e depois inversa. 
 
 A maior parte das alterações da memória é proveniente de síndromes orgânicas (amnésia, hiper ou 
hipomnésia). 
 
Ex: “A.F. é capaz de fornecer dados com cronologia correta; consegue lembrar de informações 
recentes, como a próxima consulta com seu psiquiatra...”. 
6. Inteligência 
 
O que se faz nessa avaliação da inteligência não é o que chamamos “uma avaliação fina”, realizada 
por meio de testes. É mais para se constatar se o paciente está dentro do chamado padrão de 
normalidade. Interessa a autonomia que o paciente tenha, a sua capacidade laborativa. 
 
 Quando houver suspeita de déficit ou perda intelectiva, as informações podem ser obtidas pedindo-
se-lhe que explique um trabalho que realize, alguma situação do tipo: “Se tiver que lavar uma escada, 
começará por onde?”, que defina algumas palavras (umas mais concretas, como “igreja”, outras mais 
abstratas, como “esperança”), que estabeleça algumas semelhanças, como, por exemplo, “o que é 
mais pesado, um quilo de algodão ou de chumbo?”. 
 
 A consciência, a inteligência e a memória estão alocadas entre as funções psíquicas de base. 
Ex: “Durante as entrevistas percebe-se que o paciente tem boa capacidade de compreensão, 
estabelecendo relações e respostas adequadas, apresentando insights...”. 
 
 Um déficit intelectivo (oligofrenia) é diferente de uma perda intelectiva, onde após o desenvolvimento 
psíquico ter atingido a plenitude ocorre uma baixa, indicando síndromes organocerebrais crônicas. 
 Uma alteração de consciência pode indicar um quadro organocerebral agudo. Uma alteração de 
inteligência e memória pode indicar uma síndrome organocerebral crônica. 
7. Sensopercepção 
 É o atributo psíquico, no qual o indivíduo reflete subjetivamente a realidade objetiva. Fundamenta-se 
na capacidade de perceber e sentir. 
 
 Neste ponto, investigam-se os transtornos do eu sensorialmente projetados, simultâneos à 
percepção verdadeira, ou seja, experiências ilusórias ou alucinatórias que são acompanhadas de 
profundas alterações do pensamento. 
 
 Ilusão é a percepção deformada da realidade, de um objeto real e presente, uma interpretação 
errônea do que existe. 
 
 Alucinação é uma falsa percepção, que consiste no que se poderia dizer uma “percepção sem 
objeto”, aceita por quem faz a experiência como uma imagem de uma percepção normal, dadas as 
suas características de corporeidade, vivacidade, nitidez sensorial, objetividade e projeção no espaço 
externo. 
 
 São significativas as alucinações verdadeiras (aquelas que tendem a todas as características da 
percepção em estado de lucidez), as pseudo-alucinações (mais representação do que realmente 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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percepção; os relatos são vagos), as alucinações com diálogo em terceira pessoa, fenômenos de 
repetição e eco do pensamento, sonorização, ouvir vozes. 
 
 As alucinações podem ser auditivas, auditivo-verbais (mais comuns), visuais, olfativas, gustativas, 
cenestésicas (corpórea, sensibilidade visceral), cinestésicas (movimento). 
 
As perguntas que esclareçam essa análise poderão ser feitas à medida que a oportunidade apareça. 
Porém, não se pode deixar de investigar completamente esse item. 
 
 Algumas perguntas são sugeridas: “Acontece de você olhar para uma pessoa e achar que é outra?”; 
“Já teve a impressão de ver pessoas onde apenas existam sombras ou uma disposição especial de 
objetos?; “Você se engana quanto ao tamanho dos objetos ou pessoas?”; “Sente zumbidos nos 
ouvidos?”; “Ouve vozes?”; “O que dizem?”; “Dirigem-se diretamente a você ou se referem a você 
como ele ou ela?”; “Falam mal de você?”; “Xingam?”; “De quê?”; “Tem tido visões?”; “Como são?”; 
“Vê pequenos animais correndo na parede ou fios”; “Sente pequenos animais correndo pelo corpo?”; 
“Tem sentido cheiros estranhos?”. 
 
Ex: Relata sentir um vazio na cabeça, mas que “é bom, pois não ligo pros problemas da vida” e “ouvir 
uma voz que lhe diz ser um deus...”. 
 
 Caso o paciente não apresente nenhuma situação digna de nota neste item, pode-se registrar: “Não 
apresenta experiências ilusórias ou alucinatórias”. 
8. Pensamento 
 Por meio do pensamento ou do raciocínio, o ser humano é capaz de manifestar suas possibilidades 
de adaptar-se ao meio. É por eleque se elaboram conceitos, articulam-se juízos, constrói-se, 
compara-se, solucionam-se problemas, elaboram-se conhecimentos adquiridos, idéias, transforma-se 
e cria-se. 
 
 Este item da anamnese é destinado à investigação do curso, forma e conteúdo do pensamento. Aqui 
se faz uma análise do discurso do paciente. 
a. Curso: Trata-se da velocidade com que o pensamento é expresso e pode ir do acelerado ao 
retardado, passando por variações. 
 
· Fuga de idéias: paciente muda de assunto a todo instante, sem concluí-los ou dar continuidade, 
numa aceleração patológica do fluxo do pensamento; é a forma extrema do taquipsiquismo (comum 
na mania). 
 
· Interceptação ou bloqueio: há uma interrupção brusca do que vinha falando e o paciente pode 
retomar o assunto como se não o tivesse interrompido (comum no esquizofrenia). 
 
· Prolixidade: é um discurso detalhista, cheio de rodeios e repetições, com uma certa 
circunstancialidade; há introdução de temas e comentários não-pertinentes ao que se está falando. 
 
· Descarrilamento: há uma mudança súbita do que se está falando. 
 
· Perseveração: há uma repetição dos mesmos conteúdos de pensamento (comum nas demências). 
b. Forma: Na verdade, é um conceito difícil de se explicar. Porém, pode-se dizer que a forma é a 
maneira como o conteúdo do pensamento é expresso. O pensamento abriga um encadeamento 
coerente de idéias ligadas a uma carga afetiva, que é transmitida pela comunicação. Há um caráter 
conceitual. 
 As desordens da forma podem ocorrer por: perdas (orgânicas) ou deficiência (oligofrenia) qualitativas 
ou quantitativas de conceitos ou por perda da intencionalidade (fusão ou condensação, desagregação 
ou escape do pensamento, pensamento imposto ou fabricado), onde pode se compreender as 
palavras que são ditas, mas o conjunto é incompreensível, cessando-se os nexos lógicos, comum na 
esquizofrenia. 
 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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 É importante lembrar que a velocidade do pensamento (curso) pode ser normal, porém a forma pode 
estar alterada por conter idéias frouxas com o fluxo quebrado. 
 
Ex: “Paciente apresenta um discurso com curso regular, porém não mantém uma coerência entre as 
idéias, que se apresentam frouxas e desconexas”. 
c. Conteúdo: As perturbações no conteúdo do pensamento estão associadas a determinadas 
alterações, como as obsessões, hipocondrias, fobias e especialmente os delírios. 
 Para se classificar uma idéia de delirante tem-se que levar em conta alguns aspectos: a 
incorrigibilidade (não há como modificar a idéia delirante por meio de correções). 
 
A ininfluenciabilidade (a vivência é muito intensa no sujeito, chegando a ser mais fácil o delirante 
influenciar a pessoa dita normal). A incompreensibilidade (não pode ser explicada logicamente). O 
delírio é uma convicção íntima e inemovível, contra a qual não há argumento. 
 
 Os delírios podem ser primários (núcleo da patologia) ou secundários (são conseqüentes a uma 
situação social, a uma manifestação afetiva ou a uma disfunção cerebral). 
Uma distinção faz-se importante: 
a. delirium: rebaixamento da consciência (delirium tremens; delirium febril); 
b. delírio: alteração do pensamento (alteração do juízo); 
- b.1 idéia delirante: também chamada de delírio verdadeiro; é primário e ocorre com lucidez de 
consciência; não é conseqüência de qualquer outro fenômeno. É um conjunto de juízos falsos, que 
não se sabe como eclodiu. 
- b.2 idéia deliróide: é secundária a uma perturbação do humor ou a uma situação afetiva traumática, 
existencial grave ou uso de droga. Há uma compreensão dos mecanismos que a originaram. 
 As idéias delirantes podem ser agrupadas em temas típicos de: 
 
- expansão do eu: (grandeza, ciúme, reivindicação, genealógico, místico, de missão salvadora, 
deificação, erótico, de ciúmes, invenção ou reforma, idéias fantásticas, excessiva saúde, capacidade 
física, beleza...). 
- retração do eu: (prejuízo, auto-referência, perseguição, influência, possessão, humildades, 
experiências apocalípticas). 
- negação do eu: (hipocondríaco, negação e transformação corporal, auto-acusação, culpa, ruína, 
niilismo, tendência ao suicídio). 
 O exame do conteúdo do pensamento poderá ser feito por meio da conversa, com a inclusão hábil 
por parte do entrevistador de algumas questões que conduzam à avaliação. Pode-se perguntar se o 
paciente tem pensamentos dos quais não consegue se livrar (explicar quais), se acha que quando 
está andando na rua as pessoas o observam ou fazem comentários a seu respeito (explicitar); se os 
vizinhos implicam; se existe alguém que lhe queira fazer mal, alguma organização secreta; se acha 
que envenenam sua comida; se possui alguma missão especial na Terra (qual), se é forte e 
poderoso, rico; se freqüenta macumba; se sofre de “encosto”; se espíritos lhe falam; se há alguma 
comunicação com Deus e como isso se processa. Aqui vale apontar para o fato cultural-religioso. 
Dependendo da religião que professa (espiritismo, umbanda, candomblé), algumas dessas situações 
podem ser observadas, sem, no entanto, a priori, fazerem parte de patologias. 
 
Ex: “A.F. muda de assunto a todo instante e subitamente. Reconhece que já ficou “bem ruim, mas 
nunca fiz sadomasoquismo, porque isso é coisa de judeu de olhos azuis. Mas, graças a Deus, nunca 
pisei numa maçonaria. Não influencio ninguém, mas sou influenciado. Sou o deus A., defensor dos 
fracos e oprimidos...”. 
9. Linguagem 
 A comunicação é o meio que permite ao indivíduo transmitir e compreender mensagens. A 
linguagem é a forma mais importante de expressão da comunicação. A linguagem verbal é a forma 
mais comum de comunicação entre as pessoas. 
 
 A linguagem é considerada como um processo mental predominantemente consciente, significativo, 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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além de ser orientada para o social. É um processo dinâmico que se inicia na percepção e termina na 
palavra falada ou escrita e, por isso, se modifica constantemente. 
 
 Neste tópico, o que irá nos interessar é o exame da linguagem falada e escrita. Sua normalidade e 
alterações estão intimamente relacionadas ao estudo do pensamento, pois é pela linguagem que ele 
passa ao exterior. Abaixo, enumeramos alguns tipos mais comuns de patologias que, não custa 
lembrar, poderão ser apenas descritos no exame psíquico e não denominados tecnicamente. 
- disartrias (má articulação de palavras), afasias (perturbações por danos cerebrais que implicam na 
dificuldade ou incapacidade de compreender e utilizar os símbolos verbais), verbigeração (repetição 
incessante de palavras ou frases), parafasia (emprego inapropriado de palavras com sentidos 
parecidos), neologismo(criação de palavras novas), jargonofasia (“salada de palavras”), mussitação 
(voz murmurada em tom baixo), logorréia (fluxo incessante e incoercível de palavras), para-
respostas (responde a uma indagação com algo que não tem nada a ver com o que foi perguntado), 
etc. 
Ex: “Expressa-se por meio de mensagens claras e bem articuladas em linguagem correta...”. 
10. Consciência Do Eu 
 Este item refere-se ao fato de o indivíduo ter a consciência dos próprios atos psíquicos, a percepção 
do seu eu, como o sujeito apreende a sua personalidade. 
 
 As características formais do eu são: 
 
- sentimento de unidade: eu sou uno no momento; 
- sentimento de atividade: consciência da própria ação; 
- consciência da identidade: sempre sou o mesmo ao longo do tempo; 
- cisão sujeito-objeto: consciência do eu em oposição ao exterior e aos outros. 
 
 O terapeuta orientará sua entrevista no sentido de saber se o paciente acha que seus pensamentos 
ou atos são controlados por alguém ou forças exteriores, se se sente hipnotizado ou enfeitiçado, se 
alguém lhe rouba os pensamentos, se existe eletricidade ou outra força que o influencie, se pode 
transformar-seem pedra ou algo estático, se sente que não existe ou se é capaz de adivinhar e 
influenciar os pensamentos dos outros. 
11. Afetividade 
 A afetividade revela a sensibilidade intensa da pessoa frente à satisfação ou frustração das suas 
necessidades. 
 
 Interessa-nos a tonalidade afetiva com que alguém se relaciona, as ligações afetivas que o paciente 
estabelece com a família e com o mundo, perguntando-se sobre: filhos, pai, mãe, irmãos, marido ou 
esposa, amigos, interesse por fatos atuais. 
 
 Pesquisa-se estados de euforia, tristeza, irritabilidade, angústia, ambivalência e labilidade afetivas, 
incontinência emocional, etc. Observa-se, ainda, de maneira geral, o comportamento do paciente. 
Ex: É sensível frente à frustração ou satisfação, apresentando ligações afetivas fortes com a família e 
amigos...”. 
12. Humor 
 O humor é mais superficial e variável do que a afetividade. É o que se pode observar com mais 
facilidade numa entrevista; é uma emoção difusa e prolongada que matiza a percepção que a pessoa 
tem do mundo. É como o paciente diz sentir-se: deprimido, angustiado, irritável, ansioso, apavorado, 
zangado, expansivo, eufórico, culpado, atônito, fútil, autodepreciativo. 
 
 Os tipos de humor dividem-se em: 
 
- normotímico: normal; 
- hipertímico: exaltado; 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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- hipotímico: baixa de humor; 
- distímico: quebra súbita da tonalidade do humor durante a entrevista; 
 No exame psíquico, descreve-se o humor do paciente sem, no entanto, colocá-lo sob um título 
técnico. Ex: “O paciente apresenta uma quebra súbita de humor, passando de um estado de 
exaltação a um de inibição...”. 
13. Psicomotricidade 
 Todo movimento humano objetiva satisfação de uma necessidade consciente ou inconsciente. 
 
 A psicomotricidade é observada no decorrer da entrevista e se evidencia geralmente de forma 
espontânea. Averigua-se se está normal, diminuída, inibida, agitada ou exaltada, se o paciente 
apresenta maneirismos, estereotipias posturais, automatismos, flexibilidade cérea, ecopraxia ou 
qualquer outra alteração. 
 
Ex: “Apresenta tique, estalando os dedos da mão direita...”. 
14. Vontade 
 Está relacionada aos atos voluntários. É uma disposição (energia) interior que tem por princípio 
alcançar um objetivo consciente e determinado. 
 
 O indivíduo pode se apresentar normobúlico (vontade normal) ter a vontade rebaixada (hipobúlico), 
uma exaltação patológica (hiperbúlico), pode responder a solicitações repetidas e exageradas 
(obediência automática), pode concordar com tudo o que é dito, mesmo que sejam juízos 
contraditórios (sugestionabilidade patológica), realizar atos contra a sua vontade (compulsão), duvidar 
exageradamente do que quer (dúvida patológica), opor-se de forma passiva ou ativa, às solicitações 
(negativismo), etc. 
 
Ex: “Apresenta oscilações entre momentos de grande disposição interna para conseguir algo e 
momentos em que permanece sem qualquer tipo de ação...”. 
15. Pragmatismo 
 Aqui, analisa-se se o paciente exerce atividades práticas como comer, cuidar de sua aparência, 
dormir, ter autopreservação, trabalhar, conseguir realizar o que se propõe e adequar-se à vida. 
 
Ex: “Exerce suas tarefas diárias e consegue realizar aquilo a que se propõe...”. 
16. Consciência Da Doença Atual 
 Verifica-se o grau de consciência e compreensão que o paciente tem de estar enfermo, assim como 
a sua percepção de que precisa ou não de um tratamento. 
 
 Observa-se que considerações os pacientes fazem a respeito do seu próprio estado; se há perda do 
juízo ou um embotamento. 
 
Ex: “Compreende a necessidade de tratamento e considera que a terapia pode ajudá-lo a encontrar 
melhores soluções para seus conflitos...”. 
VIII. Súmula Psicopatológica 
 Uma vez realizado e redigido o exame psíquico, deverão constar na súmula os termos técnicos que 
expressam a normalidade ou as patologias observadas no paciente. Trata-se de um resumo técnico 
de tudo o que foi observado na entrevista. 
 
 Aconselha-se seguir-se uma determinada ordem, assim como na redação do exame psíquico. A 
disposição da súmula deverá constar de um único parágrafo, com cada item avaliado limitado por 
ponto. 
 
 Costuma-se não usar a palavra “normal” para qualificar qualquer um dos itens, evitando-se, assim, 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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possíveis distorções com relação ao conceito de normalidade. 
 
 Com o objetivo de melhor esclarecer, apresentamos um exemplo de súmula de um paciente que 
apresentava uma hipótese diagnóstica de “quadro maníaco com sintomas psicóticos”. 
 
 “Lúcido. Vestido adequadamente e com boas condições de higiene pessoal. Orientado auto e 
alopsiquicamente. Cooperativo. Normovigil. Hipertenaz. Memórias retrógrada e anterógrada 
prejudicadas. Inteligência mantida. Sensopercepção alterada com alucinação auditivo-verbal. 
Pensamento sem alteração de forma, porém apresentando alteração de curso (fuga de idéias e 
descarrilamento) por ocasião da agudização do quadro e alteração de conteúdo (idéias deliróides de 
perseguição, grandeza e onipotência). Linguagem apresentando alguns neologismos. Consciência do 
eu alterada na fase aguda do quadro. Nexos afetivos mantidos. Hipertimia. Psicomotricidade alterada, 
apresentando tiques. Hiperbúlico. Pragmatismo parcialmente comprometido. Com consciência da 
doença atual”. 
 
 Com a súmula, é possível a outro profissional da área, em poucos minutos, inteirar-se da situação do 
paciente. 
IX. Hipótese Diagnóstica 
 “Diagnóstico” é uma palavra de origem grega e significa “reconhecimento”. No ato médico, refere-se 
ao reconhecimento de uma enfermidade por meio de seus sinais e sintomas. Trata-se aqui de 
diagnóstico nosológico a ser seguido em conformidade com a CID-10. 
 
 De acordo com o que pode ser observado durante a entrevista, propõe-se uma hipótese de 
diagnóstico, que poderá ser esclarecida, reforçada ou contestada por outro profissional ou exames 
complementares, se houver necessidade. Não é demais lembrar que poderá haver um diagnóstico 
principal e outro(s) secundário(s), em comorbidade. 
Ex: F 30.2 – Mania com sintomas psicóticos. 
X. Hipótese Psicodinâmica 
 A hipótese psicodinâmica e a atuação terapêutica deverão constar em outra folha à parte. Um 
entendimento psicodinâmico do paciente auxilia o terapeuta em seu esforço para evitar erros 
técnicos. Há que se ter uma escuta que vá além do que possa parecer à primeira vista. A 
compreensão da vida intrapsíquica do paciente é de fundamental importância no recolhimento de 
dados sobre ele. 
 
 Uma avaliação psicodinâmica não prescinde da avaliação realizada na anamnese. Pode ser 
considerada, inclusive, como uma extensão valiosa e significativa dela. 
 
É na busca do funcionamento psicodinâmico do paciente que se tem um melhor entendimento do 
quanto ele está doente, de como adoeceu e como a doença o serve. 
 
 Estabelecido um bom rapport entre entrevistador e paciente, é de fundamental importância que este 
último seja compreendido como alguém que em muito contribui para o seu próprio entendimento, 
além de ajudar na precisão de um diagnóstico. O paciente não é uma planta sendo observada por um 
botânico. É uma pessoa que, por não conseguir mais se gerenciar sozinho, busca auxílio em outro 
ser humano. Sente medo, ansiedade, desconfiança, alegria e está diante de uma outra pessoa que 
ele julga poder auxiliá-lo. 
 
 À medida que esse entendimento vai se estruturando, o entrevistador pode começar a formular 
hipóteses que liguem relacionamentos passados e atuais do paciente, assim como a repetição de 
seus padrões de relação e comportamento. Deve haver, portanto, uma interpretação global da 
problemática desse paciente a respeito do que pode estar causando suas dificuldades atuais, motivo 
da busca de ajuda profissional.Fica evidente que uma hipótese psicodinâmica vai além do que o paciente diz. Alcança, também, o 
estilo de relação que ele estabelece com o terapeuta e que dá indícios de sua demanda latente. 
Também é preciso ressaltar que a hipótese psicodinâmica está sempre baseada num referencial 
teórico seguido pelo terapeuta, que deverá circunscrever o funcionamento psicodinâmico do paciente, 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
29 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR 
formulando uma hipótese que resuma, da melhor maneira possível, a psicodinâmica básica do 
paciente. 
 
 No Setor de Psicoterapia do Serviço de Psiquiatria da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, 
atendendo às exigências técnicas da P.B. que utilizamos, há que se estabelecer, ainda, para melhor 
avaliação da condição psicodinâmica do paciente atendido, o triângulo do conflito (I – impulso; A – 
ansiedade; D – defesa), o foco (isto é, a prioridade a ser estabelecida como trabalho terapêutico) e 
o planejamento (onde se coloca aquilo que se pretende fazer na condução do caso, além do objetivo 
a ser atingido pelo terapeuta ao final de seu trabalho com o paciente). 
 
 É ainda importante lembrar que a hipótese psicodinâmica formulada serve apenas como uma 
compreensão maior do funcionamento do paciente para o terapeuta e deve conter em seu bojo o foco 
e o conflito nuclear. 
A Perícia Psicológica 
Este artigo visa sensibilizar os psicólogos para um espaço profissional pouco ocupado até o presente 
momento. Trata-se da área da perícia judicial, área onde venho atuando há quatro anos. A palavra 
perícia vem do latim peritiaque significa: detreza, habilidade. Conforme Caldas Aulete (1964), o 
adjetivo perito refere-se a douto, versado, hábil, experimentado, prático, e também o que procede 
oficialmente a um exame médico, a uma avaliação, a uma vistoria etc. 
Considerada uma prova judicial, a perícia tem a peculiaridade de ser produzida mediante intervenção 
de uma pessoa encarregada de expressamente certificar-se dos fatos para dar conhecimento deles 
ao Julgador. Essa prova, que abrange todo tipo de exame, constitui-se em espécie probatória distinta 
das demais porque é realizada mediante intervenção do especialista ou "expert". 
As Atribuições Do Psicólogo 
A lei 4.112 de 27 de agosto de 1962, que dispõe sobre a profissão de psicólogo, afirma que no 
exercício profissional, entre outras atribuições, cabe ao psicólogo: "Realizar perícias e emitir 
pareceres sobre a matéria de psicologia" (Art. 4º, n° 6). Por sua vez, o nosso Código de Ética 
Profissional estabelece, em seus artigos de 18 a 22, os limites que norteiam a relação do psicólogo 
com a Justiça. Portanto, esta é uma área de atuação legítima do psicólogo. Cabe a ele desenvolver o 
estudo da personalidade dos litigantes e demais envolvidos nos litígios judiciais. Caso as ilações 
periciais sejam baseadas em psicodiagnósticos, cabe-lhe também concluir o laudo. 
Existem, hoje, equipes multiprofissionais, contando também com a presença de curadores, 
assistentes sociais, psicólogos e outros, que prestam inestimáveis serviços à Justiça nas Varas de 
Menores de São Paulo. 
Valeria lembrar que — por ser a perícia psiquiátrica mais amplamente divulgada e os médicos 
contarem com a matéria específica em seu currículo, a Medicina Legal — os peritos psiquiatras são 
nomeados, mesmo nos casos que exigiriam a atuação dos psicólogos. Às vezes, a distorção chega a 
ser tão marcante que, ainda quando é solicitada especificamente a perícia psicológica, os psiquiatras 
são chamados a intervir, ficando os psicólogos restritos à condição de "ajudantes", a fim de 
simplesmente fornecerem os resultados dos psicodiagnósticos que embasarão conclusões dos 
médicos. 
Os assistentes sociais também invadem a nossa área, procedendo a diagnósticos "psicológicos" 
baseados apenas em dados objetivos aos quais têm acesso. Tal fato se verifica especialmente 
porque a presença do psicólogo é recentíssima nos Juizados de Menores e praticamente ausente nas 
Varas da Família e das Sucessões. 
A partir de tais dados, pode-se concluir que as próprias faculdades de Psicologia negligenciaram a 
formação de seus alunos e não possibilitaram a abertura desse campo de trabalho aos profissionais 
de nossa área. Se as invasões ocorrem, isto se verifica apenas e tão-somente porque nós, 
psicólogos, permitimos que tal fato aconteça. 
As Perícias Nas Varas Da Família 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
30 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR 
Em verdade, os psicólogos já são uma realidade nos Juizados de Menores da Capital de São Paulo, 
onde atuei no início da implantação do Serviço de Psicologia, primeiramente na condição de 
voluntária e, posteriormente, como contratada. Após esta enriquecedora experiência, passei a ser 
nomeada para proceder perícias psicológicas nos processos que correm nas Varas da Família e das 
Sucessões de São Paulo. Tenho elaborado laudos em ações de disputa de guarda de filho(s) 
menor(es), interdições, emancipações, enfim em todas as oportunidades em que se exige a perícia 
psicológica para melhor instruir o processo, oferecendo elementos de convicção ao Julgador para 
bem decidir as questões judiciais pendentes. 
As perícias, especialmente as do Juizado de Menores e as das Varas da Família e das Sucessões, 
requerem a atuação do psicólogo. A título de exemplo, os casos trazidos ao Juizado de Menores, 
onde são atendidos especialmente os menores carentes, verifica-se que os fatores ambientais são as 
principais causas dos desajustamentos tanto afetivos quanto emocionais. Já nas Varas da Família e 
das Sucessões, pode-se constatar que a atual fase de transição social, do ponto de vista da 
contestação de valores tradicionais, tem trazido conseqüente e considerável aumento de separações 
de casais, com as desadaptações esperáveis, quer nos separandos, quer na prole envolvida nos 
litígios, resultantes dos desajustes familiares. 
Assim, os problemas que emergem dessas situações geralmente não envolvem patologias, mas 
qualificam-se como distúrbios de ordem psicológica que são decorrentes da elaboração, nem sempre 
satisfatória, da perda do objeto de afeto pelos separandos. 
Por outro lado, a prole provinda dos lares desfeitos encontra, via de regra, grande dificuldade de 
ajustamento às novas situações vivenciais, existenciais e, em alguns casos, até ambientais. Às 
vezes, um e/ou outro ex-cônjuge "responsabiliza" o(s) filho(s) pela falência do casamento e a 
decorrente perda afetivo-objetal. 
 
Em outras oportunidades, as crianças provindas do casamento desfeito tornam-se empecilhos à 
liberação dos pais, uma vez que permanecem como vínculo inamovível entre os separandos. 
Acrescente-se a todos estes aspectos o fato de que, em muitas ocasiões, os filhos são utilizados 
pelos genitores enquanto símbolo fálico — entenda-se nesta acepção a expressão falo como arma, 
poder — dos quais valem-se os litigantes enquanto aríetes para atingirem-se mutuamente, ou 
mesmo, para extorquir vantagens de toda ordem para si mesmos. Como não poderia deixar de ser, 
tais fatores geram graves distúrbios no desenvolvimento psicológico dos menores envolvidos nos 
litígios entre os pais. Valeria ainda lembrar os conflitos edípicos que geralmente afloram nestas 
situações, decorrentes do sentimento de culpa pela separação do casal parental. 
O Que É O Diagnóstico Situacional 
Especialmente quando a disputa pela guarda do(s) filho(s) menor(es) encontra-se em pauta, a 
presença do psicólogo faz-se imprescindível para a verificação dos fatores subjetivos que, na maior 
parte das vezes, predominam nas mútuas acusações em que se constituem as alegações dos 
litigantes. Isso, todavia, não significa dizer que, em causas de outra natureza, não se faça também 
útil, o estudo psicológico. Mas, quando a luta pela guarda do(s) filho(s) se encontra mais acirrada e as 
acusações de ambas as partes são menos objetivas,uma vez que, permeadas por fatores, 
psicodinâmicos inconscientes, as intransigências e as animosidades de parte a parte atingem seu 
auge, o Julgador nomeia o especialista para, através de seu parecer equidistante e técnico, "tentar 
restabelecer a ordem processual" e mesmo para reposicionar-se em relação às alegações dos 
litigantes. 
Consegue-se, em verdade, chegar a bom termo nos estudos psicológicos visando à perícia, a partir 
da análise dos diferentes elementos disponíveis para o exame da situação, aos quais o perito tem 
acesso. Explicando melhor. Forma-se uma perspectivaabrangente e nítida da situação e podendo-se 
mesmo distinguir, em detalhes, toda a dinâmica familiar, quando se utilizam os dados processuais 
(onde serão privilegiados os laudos de áreas afins da psicologia), o estudo pormenorizado das 
entrevistas (tanto em relação ao que se pode extrair delas como dados objetivos ou subjetivos), os 
fatos constatados nas anamneses e o próprio comportamento expresso pelos analisandos na fase de 
coleta de dados. 
De fato, a síntese dos elementos disponíveis para análise, ao serem confrontados com os dados 
aflorados nos psicodiagnósticos, permite estabelecer um Diagnóstico Situacional, assunto ainda não 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
31 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR 
abordado na psicologia, pelo menos nessa concepção explicitada aqui. Entretanto, diferentes autores, 
entre os quais Landry (1981) e Foucault (1983), alertam que o prévio conhecimento do processo 
judicial poderá contaminar as conclusões do perito. A fim de dar o devido apoio pericial, torna-se 
indispensável a presença do especialista em psicodiagnóstico e, como se verificará a seguir, do 
rorschachista, para que o perito não incorra em ilações e correlações precipitadas e, muitas vezes, 
fantasiosas. 
Além disso, a abrangência de um estudo psicológico somente será possível numa perícia caso o 
técnico disponha de uma perspectiva flexível e ampla de enfoques teóricos em diferentes abordagens 
da psicologia. Na complexidade de um laudo, distinguem-se muitos aspectos mobilizadores do 
comportamento expresso pelos analisandos, além dos fatores psicodinâmicos inconscientes já 
apontados, que um Psicodiagnóstico Situacional só poderá chegar a bom termo se enfocado o estudo 
numa perspectiva lógica e não conflitante, levando em conta os diferentes ângulos da dinâmica 
familiar específica. Exemplificando: meus laudos, em geral, seguem uma linha fenomenológica-
existencial, com substrato psicanalítico. Todavia, as questões colocadas na forma de quesitos por 
certos casos específicos poderão conduzir a necessidade de conhecimento sobre o Behaviorismo, 
levando em conta, no entanto, os aspectos psicodinâmicos que envolvem o caso específico. 
Um desses casos pode ser citado e verificado aqui. Em dada oportunidade, discutia-se a guarda do 
filho menor, de cinco anos de idade. O genitor alegava que a genitora, psicóloga e com excelente 
formação behaviorista, estaria manipulando comportamentalmente a criança contra o pai através de 
pareamento de estímulos, ou seja, da associação da figura paterna com os estímulos aversivos. 
Depois de exaustivos exames, chegou-se à conclusão de que tal alegação do genitor não só carecia 
de fundamento como também a própria personalidade da genitora e sua relação afetiva e emocional 
com a criança não permitiriam a execução de plano tão maquiavélico. Assim, o laudo necessitou 
reportar-se a explicações teóricas tanto referentes ao Behaviorismo quanto aos aspectos 
psicodinâmicos inconscientes daquela relação mãe-filho. Mais ainda, exigiu-se a explicitação dos 
reais problemas determinantes do afastamento do menor de seu genitor. 
A Redação Do Laudo 
A transcrição e a redação do laudo será tão explícita quanto possível, considerando-se que os 
processos das Varas da Família e das Sucessões e das Varas de Menores correm em "segredo da 
Justiça". Tal fato tranqüiliza o psicólogo em relação à Ética Profissional. 
Não se poderá, contudo, esquecer que a perícia psicológica será destinada a leitura leiga, ou seja, de 
juízes, curadores e advogados. Mesmo levando-se em conta esse aspecto, não se deverá jamais 
prescindir das expressões técnicas e da análise teórica que nortearão as conclusões do Diagnóstico 
Situacional. Assim, tanto os termos técnicos quanto a análise teórica serão "traduzidos" para o não 
versado em psicologia. Se esse aspecto não for observado, o relatório ficará ininteligível ao leigo. Por 
outro lado, também não se poderá abrir mão da consulta bibliográfica necessária em certos casos e, 
evidentemente, citar-se-ão nos rodapés as obras consultadas, tal como se verifica em qualquer 
trabalho científico. Nestas ocasiões, os textos poderão mesmo se constituir em anexos do laudo. 
Deve-se também levar em conta que apenas a síntese dos dados poderá levar a ilações 
interpretativas. Esse fato é característico do Diagnóstico Situacional que evidencia a pluralidade e a 
abrangência dos elementos disponíveis ao técnico para a análise. Leve-se em conta, no entanto, que 
diferentes autores, entre os quais Landry (1981), enfatizam que, tanto quanto possível, evitar-se-ão 
na perícia as interpretações psicanalíticas, pois o entendimento destas escapam à compreensão 
leiga. 
A redação do laudo, além de explícita e clara, não poderá deixar de ser também assertiva, para que 
não ocorram distorções interpretativas pelos não versados no assunto. 
O Papel Do Especialista Em Psicodiagnóstico 
Levando-se em conta especialmente o problema da "contaminação", já levantado na seção anterior 
sobre o Diagnóstico Situacional, pode-se apreender a indispensabilidade do(s) especialista(s) em 
psicodiagnóstico numa perícia. Mas a auto-suficiência, no sentido de prescindir do trabalho de 
outrem, poderá levar o perito a interpretações descabidas em termos de Diagnóstico Situacional. Isso 
pode vir a ocorrer, quando se considera que o psicólogo na sua formação básica recebe de um a dois 
anos de aprendizado em Rorschach e outras técnicas projetivas. Tal fato o habilita, quando muito, a 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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aplicá-las em seus próprios clientes, pois quaisquer erros diagnósticos poderão ser facilmente 
corrigidos durante o processo terapêutico. 
Entre as muitas peculiaridades de uma perícia, encontramos ainda situações específicas que exigem 
uma intervenção técnica, segura e imediata, que possa levar a soluções confiáveis. Nessas 
condições, os psicodiagnósticos precários conduzirão, sem qualquer sombra de dúvida, um trabalho 
pericial a conclusões errôneas. O problema agravar-se-á consideravelmente se o instrumento 
utilizado for o Rorschach,por sua complexidade e pela peculiaridade em termos de aplicação, 
avaliação e riqueza diagnostica. Contudo, em mãos experientes e competentes, a prova de 
Rorschach tem-se mostrado, na prática, como um profícuo instrumental único para o diagnóstico de 
adultos. 
De fato, o Rorschach revela aspectos psíquicos não passíveis de observação direta, mesmo a 
psicanalítica. Nos muitos casos em que tive a oportunidade de atuar com a profa. Lília de Muzio 
Piccinelli, comprovou-se sua eficácia, no Diagnóstico Situacional; o que também foi confirmado por 
Tarules (1982). Apesar da linguagem e do método, na concepção de Silveira (1961), serem baseados 
em pressupostos positivistas, os dados aferidos podem ser compreendidos, manejados e traduzidos 
tanto em orientação positivista quanto fenomemológica. 
Não se deve esquecer que os psico-diagnósticos constituir-se-ão em anexos do laudo e, mesmo as 
folhas de respostas embora não sejam acrescentadas ao relatório, ficarão à disposição dos 
assistentes técnicos para possível verificação e conferência da classificação das respostas. 
Se é viável e mesmo profícuo prescindir de outros instrumentos de avaliação, com exceção do 
Rorschach, no psicodiagnóstico deadultos, a mesma coisa não ocorrerá em relação aos menores. É 
fato consabido que as crianças possuem vocabulário limitado e dificuldades para o estabelecimento 
de associações livres, dado constatado e apontado por Anna Freud e Melanie Klein, entre outros 
autores. Isto não significa dizer que o Rorschach não deva fazer parte de qualquer "bateria de testes" 
selecionada para o psicodiagnóstico de crianças. Em certos casos, é também de grande valia a 
utilização do ludodiagnóstico, dependendo da faixa etária e/ou dos bloqueios verificados. 
É de se levar em conta, ainda, que existem casos em que os litigantes negam-se a se submeter ao 
psicodiagnóstico. Nesses casos, o perito-psicólogo deverá trabalhar com esse dado analisando, no 
contexto específico, considerando-se: (1) a recusa sugere uma forma de "proteção" do sujeito, ou 
seja, de não se expor psicologicamente; (2) ou se por impossibilidade real de arcar com as despesas 
do profissional que procederá aos exames psicológicos. Mesmo quando não se realiza o 
psicodiagnóstico, os demais elementos de análise, especialmente as entrevistas e os dados de 
anamne-se, se forem profundamente esmiuçados, fornecerão subsídios suficientes para instruir o 
Diagnóstico Situacional. Todavia, as alegações processuais deverão ser deixadas pelo técnico "entre 
parênteses" para que possa, tanto quanto possível, evitar a "contaminação". 
A Função Do Assistente Técnico 
No que diz respeito à perícia psicológica, verifica-se (felizmente) na prática que existe uma 
interpretação quase unânime de que os assistentes técnicos devem aguardar a juntada do laudo do 
perito oficial (nomeado pelo Juiz), para então elaborarem seu laudo crítico, verificando se as 
conclusões do perito oficial foram adequadas do ponto de vista metodológico, técnico, teórico e 
prático, e levando em conta o caso objetivo em questão. 
Se houver divergências conclusivas no caso em que o estudo realizado é considerado inadequado ou 
insuficiente, o assistente técnico pode solicitar que os litigantes se submetam não apenas a novas 
entrevistas, como também aplicar ou encaminhá-los para que especialistas apliquem e avaliem outros 
testes que não sejam conflitantes com aqueles já utilizados. Contudo, só se justificarão reaplicações 
de testes e/ou aplicação de novas provas se muitíssimo bem fundamentada esta pretensão pelo 
assistente técnico. Não seria demais lembrar que o psicodiagnóstico é estressante, uma vez que 
obtém dados dos examinados sem lhes dar o devido retorno. 
Deve-se lembrar que existem provas psicológicas que demandam um prazo mínimo para sua 
reaplicação no mesmo sujeito. Esse procedimento deve ser respeitado, se o profissional busca 
resultados fidedignos e corretos. No caso do Rorschach, Piccinelli (em um Parecer que permanece 
inédito) informa que um prazo de três a quatro meses, mediando entre duas aplicações, é mais do 
que suficiente para a reaplicação. Mesmo que os examinados se lembrassem dos perpectos, ou seja, 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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das respostas dadas anteriormente, estas já viriam transformadas pela memória e também 
acrescidas de novas associações. Esse procedimento ampliaria o campo de pesquisa, enriquecendo, 
portanto, a análise, e assim poderia redundar em benefício para os litigantes. 
E também prática usual, lícita e profícua — quando por algum motivo relevante não se puder reaplicar 
o Rorschach — solicitar os dados técnicos da prova já aplicada por outro profissional a fim de realizar 
a conferência da classificação das respostas ou mesmo para reavaliação. 
No caso de menor (es), procuro tanto quanto possível poupá-los de novo (s) psicodiagnóstico (s), 
reexaminando os já existentes no (s) laudo (s) anterior (s) e buscando nos estudos realizados por 
outro (s) profissional (is) novas interpretações teóricas e implicações práticas. Em muitas ocasiões, 
chego a diferentes ilações que poderão ter passado despercebidas ao perito oficial e, não raras 
vezes, concluo diferentemente do laudo oficial. 
Em recente painel sobre a qualidade das perícias, realizada pela Ordem dos Advogados do 
Brasil/Seção de São Paulo, ponderava-se muito oportunamente que a primeira função do assistente 
técnico seria, além da leitura do processo, a de aconselhar ou desaconselhar a solicitação da perícia. 
Tenho por norma profissional, ao assumir uma assistência técnica, proceder a prévio e minucioso 
exame da parte que busca minha assessoria profissional. Este exame inclui entrevista (s) e aplicação 
do Rorschach, realizada, como sempre,'às cegas" por especialista que desconheça os dados 
processuais. A respeito desse assunto, Piccinelli (em seu Parecer) afirmou: "Cabe lembrar que a 
análise será realizada 'às cegas', ou seja, o especialista do Rorschach deverá interpretar os 
psicogramas, que é como Silveira (1964) denomina os elementos já estudados nos índices e 
comparações, sem saber da história, ou da patologia ou problema,de vida do examinando. Importa é 
sabermos idade, sexo, escolaridade, profissão e, evidentemente, o contexto da prova ou a que se 
destina o exame" (Parecer elaborado para fundamentar trabalho pericial, p.4). 
Tendo garantido o procedimento descrito acima, o assistido e o seu patrono estarão também cientes, 
desde o início de seu contato comigo, de que só contarão com a minha assistência se estiverem 
perfeitamente convencidos da posição que assumirei. Em caso contrário, pedirei minha substituição 
no processo. 
Aceita a tarefa, o profissional na condição de assessor pericial deverá conscientizar-se de que lhe 
cabe prestar todo tipo de auxílio ao cliente e ao advogado no que concerne à psicologia. Inclusive 
orientará e mesmo se responsabilizará pelos quesitos necessários para a elaboração do Diagnóstico 
Situacional. 
O Psicólogo E A Justiça 
A perícia psicológica não difere das demais perícias, em termos gerais. Assim, os prazos processuais 
serão rigorosamente cumpridos e, apenas, quando muito bem justificada a impossibilidade de cumpri-
los, poderá o perito solicitar a prorrogação a ser aceita ou não, segundo o critério do Meretíssimo 
Juiz, conforme observou Altavilla (1982). Dessa forma, o perito-psicólogo deverá dispor de tempo 
para priorizar o trabalho pericial, levando em conta a necessária agilização da Justiça, imposta por 
situações aflitivas. 
Todavia, existem os procedimentos preconizados pelos Artigos 429 a 431 do Código de Processo 
Civil, que não apenas previu, como também regulamentou a forma de realização das perícias, de 
modo geral, referentes a objetos materiais, engenharia, agrimensura etc. Embora preconizados em lei 
para outras áreas profissionais, tais procedimentos não podem ser literalmente cumpridos na perícia 
psicológica, pois o legislador não levou em conta que a Psicologia possui também suas próprias 
normas técnicas e princípios éticos, que não podem ser desconsiderados na realização das perícias. 
Levando em consideração as normas citadas, a perícia psicológica deveria ser realizada em conjunto 
ou individualmente, mas todos os peritos poderiam — se assim o desejassem — instruir seu laudo 
com os mesmos referenciais, ou seja, com os mesmos testes. Nestes termos, seria possível proceder 
a psicodiagnósticos simultâneos com o mesmo sujeito e realizados por dois ou mais peritos 
diferentes. Mesmo o iniciante em Psicologia perceberia o absurdo que significaria realizar uma 
entrevista ou um teste concomitantemente com o mesmo sujeito por dois ou mais profissionais de 
Psicologia e/ou áreas afins. 
NOÇÕES DE NOSOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
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Em certas oportunidades, exige-se que estas normas preconizadas por lei sejam seguidas. Tais 
exigências, por vezes bem-intencionadas, demonstram apenas o zelo desejoso das partes litigantes, 
manifestado através de seus patronos, de que a lei seja cumprida com todo rigor. Entretanto,demonstram também, através destas exigências sem fundamentação, o desconhecimento dos limites 
técnicos e éticos da Psicologia. 
Vale também lembrar que tais exigências atendem, por vezes, a situações em que os causídicos, 
visando à defesa de seus clientes, se utilizam desse estratagema tumultuário e protelatório. Embora 
este seja um recurso legalmente aceito, traz somente prejuízos psicológicos e outros, especialmente 
aos menores envolvidos nos litígios. 
Transtornos Mentais 
Transtornos mentais (ou doenças mentais, transtornos psiquiátricos ou psíquicos, entre outras 
nomenclaturas) são condições de anormalidade, sofrimento ou comprometimento de ordem 
psicológica, mental ou cognitiva. Em geral, um transtorno representa um significativo impacto na vida 
do paciente, provocando sintomas como desconforto emocional, distúrbio de conduta e 
enfraquecimento da memória. 
Dentre os fatores causadores, a genética, a química cerebral (problemas hormonais ou uso de 
substâncias tóxicas que afetam o cérebro) e o estilo de vida são tidos como os principais 
desencadeadores dos diversos transtornos existentes. Doenças em outras partes do corpo podem 
afetar a mente, e inversamente, transtornos ou doenças mentais podem também desencadear outras 
doenças pelo corpo, produzindo sintomas somáticos. 
Uma doença ou transtorno mental pode ser tratado através de medicamentos, ou várias formas de 
psicoterapia. O diagnóstico envolve o exame do estado mental confrontando seu histórico clínico, 
utilizando-se também de testes psicológicos, exames neurológicos, de imagem e exames físicos. 
12 Principais Tipos De Transtornos Mentais 
1) Depressão 
O transtorno Depressivo é classificado como um transtorno do humor que pode durar meses ou anos, 
afetando a forma como a pessoa se sente, pensa e age. Há presença de tristeza e perda de vontade 
nas atividades que eram prazerosas. 
Dentre os principais sintomas estão: sentimentos de fracasso; incapacidade de concentração e 
atenção; sentir-se inferior aos outros; diminuição da auto-estima; dores sem motivos aparentes; perda 
ou ganho de peso; insônia; e podem até ocorrer pensamentos suicidas. 
2) Transtorno Bipolar 
O Transtorno Bipolar é também considerado um transtorno de humor. Nele estão presentes dois 
pólos opostos: a mania e a depressão. Ocorrem alterações de humor exageradas que seguem entre 
esses dois extremos e podem durar dias, semanas ou meses. 
Nos episódios de mania, a pessoa apresenta euforia, agitação, insônia, desinibição e vontade de 
fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Já nos episódios depressivos, ela se encontra triste, sem 
energia e vontade, e muitas vezes se isola. 
3) Transtornos de Ansiedade 
Quando vários sintomas ansiosos causam desconforto e comprometem a vida da pessoa, 
classificam-se como um transtorno de ansiedade. Existem vários tipos de transtorno de ansiedade, 
como por exemplo: transtorno de ansidade generalizada (preocupação e ansiedade crônica), ataque 
de pânico (medo intenso associado com sentimentos de morte iminente), fobia social (medo irracional 
de situações de interação social), agorafobia (medo irracional de ter uma crise de ansiedade em 
espaços abertos e achar que não vai conseguir escapar). 
Nos transtornos de ansiedade em geral há presença de sintomas como: falta de ar, palpitações, 
tonturas, sensação de desmaio, fadiga, enjôos, dor de cabeça, mal estar, etc. 
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4) Transtorno Do Pânico (Ou Síndrome Do Pânico) 
Sendo um tipo de transtorno de ansiedade, o Transtorno do Pânico é caracterizado pelos ataques 
freqüentes de ansiedade em circunstâncias que não dão para prever. 
A pessoa tem a sensação de morte iminente, medo de perder o controle de si ou de “ficar louca”. 
Vem acompanhada de dor no peito, falta de ar, vertigem, calor excessivo ou calafrios, boca seca, 
náuses, etc. Com isso, poderá desenvolver fobias, como, por exemplo, a agorafobia e a fobia social. 
5) Transtorno De Estresse Pós-Traumático (TEPT) 
O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) é um tipo de transtorno de ansiedade e 
caracteriza-se pela exposição da pessoa a um evento traumático, causando uma experiência muito 
estressante ou até ficando incapacitada após este acontecimento. 
A pessoa começa a ficar irritada, se isola, tem pesadelos, sentimentos de raiva, cansaço emocional, 
principalmente se ela revive o trauma ocorrido. 
6) Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) 
Considerado também um tipo de transtorno de ansiedade, o TOC, ou Transtorno Obsessivo-
Compulsivo, ocorre quando pensamentos que causam sofrimento (as obsessões) fazem com que a 
pessoa realize repetidamente certas ações (compulsões) para se sentir melhor e reduzir a ansiedade, 
tendo sentimentos de medo, angústia e estresse. 
A pessoa pode, por exemplo, lavar as mãos várias vezes ao pensar que vai se contaminar, ou que vai 
machucar alguém, checar várias vezes se trancou a porta ao sair de casa, organizar repetidamente 
as coisas, etc. 
7) Transtornos Alimentares (Anorexia e Bulimia) 
Existem diferentes tipos de transtorno alimentar. Porém, os mais comuns são a Anorexia nervosa e a 
Bulimia nervosa. 
Na anorexia, a pessoa fica obsessiva ao controlar a quantidade de comida que ela consome. Ela se 
vê diferentemente do que o espelho realmente mostra, ou seja, há uma distorção da imagem 
corporal, e acaba restringindo a ingestão de alimentos importantes, fazendo dietas, jejuns e até 
exercícios físicos de forma exagerada. O pouco alimento que a pessoa come já faz com que ela se 
sinta desconfortável. 
Na bulimia, a pessoa possui um padrão alimentar anormal, ingerindo alimentos em excesso e 
induzindo formas de eliminar as calorias, como, por exemplo, provocar o vômito, usar laxantes. Após 
isso, ela se sente triste, mal humorada e culpada por ter ingerido aqueles alimentos. 
8) Esquizofrenia 
A Esquizofrenia se enquadra nos transtornos psicóticos, com presença de sintomas como anomalias 
da percepção, da comunicação, do comportamento, da atenção, das emoções e da motricidade, 
isolando a pessoa de atividades sociais. 
É uma doença psicopatológica grave, em que a pessoa perde o contato com a realidade. Há 
presença de ideias delirantes (crenças falsas) e alucinações (percepções falsas), e a pessoa não as 
reconhece como anormais. Ela pode, por exemplo, achar que tem alguém a seguindo, ouvir ou ver 
algo que não existe. 
9) Transtorno de Personalidade Múltipla 
No Transtorno de Personalidade Múltipla, a pessoa possui duas ou mais personalidades, se 
alternando uma de cada vez. 
As personalidades criadas podem ter idade, raça, sexo ou comportamentos diferentes e cada uma 
tem suas próprias memórias, comportamentos e gostos, bem complexas e elaboradas. 
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10) Transtorno de Personalidade Anti-Social 
Neste tipo de transtorno de personalidade, também chamado de psicopatia ou sociopatia, ocorre uma 
tendência da pessoa não interagir com a sociedade. A pessoa pode isolar-se, cometer furtos, roubos, 
agressões, mentir constantemente, manipular pessoas, sentir-se rejeitada, etc. 
Normalmente ouvimos muitas pessoas chamando de “anti-social” aquelas que são tímidas, 
reservadas, que não gostam conhecer pessoas novas ou que não conseguem se encaixar em algum 
grupo. Isso é muito comum principalmente nas escolas entre os alunos. Porém, esse “anti-social” que 
a sociedade nomeia não é aquele que realmente tem o Transtorno de Personalidade Anti-Social. Esta 
é uma doença grave e que precisa de tratamento, principalmente de psicoterapia. 
11) Transtorno por Uso de Substâncias (Abuso de Drogas) 
Este transtorno engloba o abuso e dependência de drogas, que frequentemente está associado a 
outras patologias psiquiátricas. A pessoa perde o controle do uso da substância e sua vidavai se 
deteriorando gravemente. 
É uma doença química e física (já que a reação química provoca dependência e as modificações 
físicas são perceptíveis) e uma doença interna e psicológica (onde quem usa o produto é a própria 
pessoa e há uma sensação de satisfação para evitar o mal estar). 
 
No Transtorno por Uso de Substâncias é sempre importante investigar se existe outra doença mental 
ou se ela ocorreu por conseqüência do uso de drogas. 
12) Hipocondria 
A hipocondria é considerada um tipo de transtorno somatoforme, ou seja, que envolve sintomas 
físicos, porém não existe uma causa física. 
Nesse distúrbio ocorre uma preocupação persistente e não realista de ter algum sintoma ou uma 
doença grave que ainda nem foi diagnosticada. A pessoa pode ter certos sintomas que para nós 
seriam normais, mas ela acaba os interpretando de forma errônea. 
Por exemplo, ela poderá apresentar uma dor de cabeça e ter a certeza que é um tumor cerebral. 
Assim, a pessoa começa a apresentar sintomas de ansiedade, procura médicos repetidamente, 
realiza exames complexos com freqüência, podendo acarretar até uma depressão. 
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