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Este livro está disponível gratuitamente no site: www.servicosocialparaconcursos.net 405Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 405-406, jul./set. 2014 Editorial Este número da Revista Serviço Social & Sociedade apresenta, como re‑ ferência analítica, alguns desafios políticos e sociais que interpelam a profissão no atual contexto societário de expansão de “diferentes matizes da extrema‑ ‑direita” cuja presença vem se tornando cada vez mais evidente nos últimos anos, como revela um dos artigos aqui publicados. O que se observa é o agra‑ vamento das intolerâncias, frente ao diferente, o crescimento do desrespeito aos direitos mais elementares do ser humano e processos de degradação da vida humana e da natureza. Conjuntura em que ressurgem processos de remercanti‑ lização de direitos sociais e fortalece‑se a defesa da tese de que cada indivíduo é responsável por seu bem‑estar. A referência ao social, ao campo político e às atuais ameaças aos direitos humanos emerge sob diferentes perspectivas nos artigos que compõem este número. Cabe destacar que essas questões aparecem sempre com suas contra‑ posições e resistências expressas na luta pela liberdade entendida em seu sig‑ nificado ontológico-social que supõe, como nos mostra Barroco, a sociabilida‑ de, a alteridade e a equidade. A profissão (e seu projeto ético-político) é também apresentada como forma de enfrentamento dessas questões que permeiam a sociedade contemporânea. Nesse debate, emerge, do ponto de vista filosófico como outra referência, a análise do pensamento gramsciano sobre ideologia e política. Sabemos que para Gramsci a ideologia não é mera aparência falsa da realidade, mas a compõe. Para ele “não são as ideologias que criam a realidade social, mas é a realidade social, na sua estrutura produtiva, que cria as ideologias [...]” (Gramsci, 1977:1595). Sem dúvida, a contribuição de Gramsci como um pensador dialé‑ tico marxista pode ser apreendida a partir de múltiplas categorias integradas, e que podem ser interpretadas e utilizadas historicamente nas explicações sobre o real. Merece destaque ainda neste número a entrevista realizada por Raquel Raichelis com Rodrigo Castelo: A questão do neodesenvolvimentismo e as políticas públicas, temática relevante e de grande atualidade no debate atual da 406 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 405-406, jul./set. 2014 profissão, a questão do neodesenvolvimentismo vem sendo objeto de polêmicas e análises no âmbito da economia política. Enfim, o presente número da Revista busca trazer aos seus leitores algumas pautas emergentes nos debates atuais, e que confrontam os chamados marcos civilizatórios da sociedade contemporânea, ao colocarem os “direitos humanos em questão”. A todos e a todas, instigantes leituras! 407Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 ARTIGOS A extrema-direita na atualidade* The far right nowadays Adriana Brito da Silva** Cristina Maria Brites*** Eliane de Cássia Rosa Oliveira**** Giovanna Teixeira Borri***** Resumo: Este ensaio objetiva sintetizar elementos teórico‑críticos sobre os diferentes matizes da extrema‑direita na atualidade, situando algumas de suas configurações históricas e tendências contemporâneas no Brasil e em países nos quais sua presença tornou‑se mais evidente nos últimos anos. Resulta de um seminário temático organizado no interior do Nepedh (Núcleo de Estudos e Pesquisa em Ética e Direitos Humanos — PUC‑SP) e, embora não esgote a complexidade do tema, indica elementos relevantes para a agenda política da esquerda em face da barbárie e das manifestações do irracionalismo no interior da so‑ ciabilidade burguesa. Palavras‑chave: Irracionalismo. Extrema‑direita. Política. Ética e di‑ reitos humanos. * Este ensaio é resultado do seminário temático “extrema‑direita na atualidade”, organizado pelas autoras como atividade do segundo semestre de 2013 do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Ética e Direitos Humanos (Nepedh), PUC‑SP, coordenado pela profa. dra. Maria Lucia Silva Barroco. ** Assistente social, docente da União Nacional dos Estudantes de São Paulo (Uniesp), especialista em políticas públicas e direitos humanos (Fama), mestranda do Programa de Estudos Pós‑graduados em Serviço Social da PUC‑SP, Brasil. E‑mail: adri_britosilva@yahoo.com.br. *** Assistente social, doutora em Serviço Social pela PUC‑SP, Brasil; professora da Universidade Federal Fluminense, polo de Rio das Ostras, pós‑doutoranda do Programa de Estudos Pós‑Graduados em Serviço Social da PUC‑SP sob supervisão da profa. dra. Maria Lucia Silva Barroco. E‑mail: crisbrites@uol.com.br. **** Assistente social, agente fiscal do Cress 9ª Região, integrante do Nepedh, do Programa de Estudos Pós‑Graduados em Serviço Social da PUC‑SP, Brasil. E‑mail: elianecress@hotmail.com. ***** Assistente social, mestranda do Programa de Estudos Pós‑Graduados em Serviço Social da PUC‑SP, Brasil. E‑mail: giovannaborri@hotmail.com. 408 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 Abstract: This article aims at summarizing theoretical and critical elements of the different graduations of the far right nowadays, as well as situating some of its historical configurations and contemporary tendencies in Brazil and in countries where its presence has become clearer in the past years. It results from a thematic seminar organized by Nepedh (Núcleo de Estudos e Pesquisa em Ética e Direitos Humanos — PUC‑SP) and, although it does not work out the complexities of the theme, it indicates relevant elements for the political agenda of the left, in the face of the barbarism and manifestations of irrationalism inside bourgeois sociability. Keywords: Irrationalism. The far right. Politics. Ethics and human rights. Introdução Este ensaio objetiva sintetizar elementos teórico‑críticos sobre os diferentes matizes da extrema‑direita na atualidade, situando algumas de suas configurações históricas e tendências contemporâneas no Brasil e em países nos quais sua presença tornou‑se mais evidente nos últimos anos. A relevância deste debate repousa sobre a perspectiva histórica dos di‑ reitos humanos e sua defesa intransigente em face da barbárie contemporânea. Fundamenta‑se na crítica teórica como instrumento primordial para orientar práticas vinculadas à construção de uma nova ordem social que assegure a emancipação humana. Coloca‑se, assim, no campo da esquerda, cuja trajetó‑ ria histórica tem se configurado como força política que procura formular alternativas à ordem burguesa na direção da superação da desigualdade e da opressão. Nesta perspectiva, o debate sobre as configurações atuais da extrema-di‑ reita, e seu crescimento em algumas sociedades, ultrapassa os limites de uma tematização pontual e acadêmica, colocando‑se como pauta central na agenda política de toda esquerda1 interessada em compreender o mundo em sua pro‑ cessualidade objetiva para transformá‑lo no horizonte de uma sociabilidade livre e igualitária. 1. A esquerda como campo político é abordada neste ensaio apenas como contraponto à discussão da direita e extrema-direita; sua análise foi objeto de seminário específico no interior do Nepedh. 409Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 As manifestações de junho de 20132 que tomaram as ruas de inúmeras cidades brasileiras colocaram vários desafios para a intelectualidade, para os movimentos sociais, partidos e sindicatos que historicamente se vincularam às bandeiras de luta dos trabalhadores. Dentre eles: entender a força mobilizadora das novas tecnologias de informação e comunicação; a possibilidade de unifi‑ cação da agenda de lutas — inicialmente em protesto ao aumento das tarifas do transporte coletivo e em defesa do passe livre —; o perfil da juventude vigoro‑ sa e contundente que tomou os espaçospúblicos; o significado da ostensiva (e em algumas situações, violenta) recusa das formas clássicas de organização e participação políticas em torno dos movimentos sociais, partidos e sindicados e, principalmente, a presença de grupos conservadores e de extrema‑direita que do mesmo modo sentiram‑se legitimados para expor em público suas convicções segregadoras, irracionais e autoritárias. A constatação do crescimento da extrema‑direita na atualidade e sua mera condenação ideológica parece-nos insuficiente para apreensão da ma‑ terialidade que lhes dá sustentação e da ação programática necessária para sua superação. Por isso, apreender a persistente, e indesejável, presença do ideário de extrema-direita coloca-se como desafio ético-político fundamental àqueles que recusam o irracionalismo, os discursos e práticas racistas, xenofóbicas, homo‑ fóbicas, sexistas e opressoras. Assim, apresentamos nossas reflexões sobre a extrema-direita na atuali‑ dade, elaboradas com base numa pesquisa bibliográfica e documental que, sem qualquer pretensão de esgotar o tema, procurou delimitá‑lo em torno de alguns eixos estruturantes.3 2. As análises sobre essas manifestações, seus desdobramentos e possível vinculação com outras revoltas ocorridas em finais de 2010 e em 2011 (Primavera Árabe, Occupy Wall Street, Indignados da Espanha entre outras) ainda estão em aberto. Uma aproximação competente com esses acontecimentos pode ser encontrada em Maricato, E. et al. (2013). 3. As referências bibliográficas e o material de pesquisa que serviram de apoio para elaboração deste ensaio estão indicados ao longo do texto em sistema de notas e não devem ser tomados como fontes seminais sobre o tema, mas como guia que orientou as reflexões formuladas pelas autoras. O recurso às citações foi necessário em várias passagens tendo em vista, especialmente, a diversidade das fontes consultadas e a metodologia adotada para realização do seminário que balizou a elaboração deste ensaio. 410 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 1. Direita e extrema-direita como campo político: aproximações A política para alguns pensadores da tradição marxista é considerada como uma modalidade de práxis. Uma ação mediada por uma consciência que se eleva da cotidianidade e voltada para realização de finalidades que visam res‑ ponder a conflitos históricos que envolvem os destinos humanos. Desde os gregos, considerados seus “inventores”, a política é uma ação que supõe o es‑ paço público, que incide sobre comportamentos e escolhas que se articulam a projetos coletivos de sociedade, visando a realização de valores e princípios reguladores da vida social. Para Lukács, no interior da práxis, uma posição teleológica secundária.4 Na tradição marxista não há consenso sobre o caráter genérico ou par‑ ticular da atividade política. Alguns pensadores consideram que se trata de uma atividade universal, um complexo da totalidade social que existe nas diferentes formações históricas. Outros, que se trata de uma atividade particular, existen‑ te apenas na configuração histórica das sociedades de classes pela mediação do Estado. Para nossas reflexões interessa destacar algumas referências mais gerais que contribuam para situar tanto a política como o campo ideológico da direita. Marx e Engels, em Manifesto do Partido Comunista, afirmam que quando “desaparecerem os antagonismos de classes e toda a produção for concentrada nas mãos dos indivíduos associados, o poder público perderá seu caráter político. O poder político é o poder organizado de uma classe para a opressão de outra”.5 Assim considerada, a política é um complexo no interior da totalidade social que visa a disputa de poder em torno de interesses e necessidades de classes. O termo esquerda e direita na política nasce no contexto de emergência da Revolução Francesa, “delegados identificados com igualitarismo e reforma social sentavam-se à esquerda do rei; delegados identificados com aristocracia 4. O trabalho, posição teleológica primária, visa a transformação da natureza. As posições teleológicas secundárias se voltam para a transformação (reprodução) da sociedade. Sobre as elaborações políticas de Lukács ver especialmente Coutinho e Netto (2011). 5. Marx, K.; Engels, F. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Boitempo, 1998. p. 58. 411Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 e conservadorismo, à direita. […] ao longo do século XIX na Europa a distinção entre esquerda e direita passa a ser associada com a distinção entre liberalismo e conservadorismo” O desenvolvimento do ser social e de suas modalidades de práxis introduz novas forças sociais que interferem na configuração e nos limites desses campos ideológicos. A constituição da classe trabalhadora como sujeito político — como classe‑para‑si — e a difusão da crítica marxiana à sociabilidade burguesa — vinculada à sua perspectiva revolucionária de classe — associam os conteúdos de esquerda à defesa dos interesses dos trabalhadores. O crescimento das ideias reformistas da social-democracia em finais do século XIX e a Revolução Rus‑ sa de 1917 marcam a delimitação dos interesses burgueses no campo ideológi‑ co da direita e dos trabalhadores no campo da esquerda. A consolidação da hegemonia burguesa, seus mecanismos de reprodução da ordem do capital, a alienação política e os dilemas estratégicos para responder às configurações históricas das necessidades postas pela luta de classes amplia‑ ram o espaço político no qual esquerda e direita se moveram. A experiência do nazifascismo, a geopolítica mundial durante e no imediato pós‑Segunda Guerra Mundial, a experiência do Estado de Bem‑estar social, a disputa entre os blocos capitalista e socialista são determinações que incidem sobre os campos ideoló‑ gicos da esquerda e da direita de forma diferenciada em cada sociedade.6 No plano político, conservadores e reacionários historicamente se manti‑ veram no campo ideológico da direita, resistindo a mudanças estruturais que levassem a perdas de poder econômico e político. Reformistas, socialistas e comunistas se colocaram em frentes comuns de defesa da democracia política e/ou do projeto civilizatório da modernidade. Essa mobilidade conjuntural num campo político mais amplo, marcada especialmente por coalizões políticas e/ou partidárias, contribui para dificultar a delimitação precisa entre um e outro cam‑ po ideológico, gerando polêmicas analíticas e muitas confusões. No Brasil essa dificuldade é ainda maior, dada as características de nossa formação sócio‑histórica marcada pela(o): colonização; escravismo prolongado; 6. As posições do Partido Comunista do Brasil na era Vargas são emblemáticas nesse sentido. Ver, entre outros, Coutinho (2006); Frederico (1994); Sader (1995). 412 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 herança patrimonialista, coronelista e conservadora de nossas elites; inserção periférica no capitalismo mundial; transição não clássica ao capitalismo; tardia formação do operariado urbano-industrial com forte influência da imigração europeia e pouca tradição de esquerda. No contexto contemporâneo, investe-se na despolitização da vida pública e na recusa da validade ideológica da definição de esquerda e direita na política. Contribuem para essa despolitização a derrocada do socialismo soviético, o atual estágio de acumulação do capital e a ideologia pós‑moderna. Esta última recusando a centralidade do trabalho na vida social, os valores universais e insistindo na perspectiva subjetivista e contingencial de análise da realidade. Partidos, movimentos e políticos profissionais vinculados ao ideário bur‑ guês, portanto, aos interesses dominantes que os situam no campo da direita, recusam tal associação diante da crítica contundente da esquerdarevolucionária sobre os limites da ordem do capital para realizar a igualdade e a emancipação humanas. Por outro lado, segmentos oriundos da esquerda, especialmente aque‑ les que introduzem uma racionalidade instrumental na disputa pelo poder do Estado, secundarizando princípios, valores e interesses à lógica da disputa eleitoral, procuram se desvencilhar das pechas de totalitarismo e radicalismo atribuídos à esquerda. Bobbio e Anderson protagonizaram um fecundo debate teórico sobre o campo político da esquerda e da direita. Bobbio, após extensa análise sobre o tema propõe como critério para distinguir direita e esquerda a ideia de igualda‑ de e para distinguir a ala moderada da extremista, tanto na esquerda quanto na direita, a postura diante da liberdade. Ao final de suas análises, apresenta uma esquematização na qual define extrema-direita, centro-direita, extrema-esquer‑ da e centro‑esquerda.7 Numa apreciação rasa do esquema proposto por Bobbio é possível verifi‑ car a introdução de uma posição de centro, tanto de esquerda quanto de direita, que passa a funcionar como único divisor das posições extremistas. O centro esquerda traduz a própria posição política do filósofo, que ele denomina de 7. Bobbio, N. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. São Paulo: Unesp, 2011. p. 14‑135. 413Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 socialismo liberal, que, embora paradoxal, para ele abarca a social‑democracia. Nota-se que a esquerda clássica, revolucionária, passa a ser identificada com autoritarismo e considerada antidemocrática. Anderson é contundente na sua crítica ao esquema proposto por Bobbio, explorando as concepções de igualdade e liberdade tratadas por esse autor e tomadas como critérios definidores do campo político, além de criticar o papel do centro e a ausência de uma referência à processualidade histórica. A crítica de Anderson se dirige, em suas próprias palavras, “à lógica interna dos argu‑ mentos de Bobbio” e “ao contexto externo”. Revela absoluta simpatia ao apai‑ xonado apelo de Bobbio pela preservação dos conceitos de Direita e Esquerda. No entanto, afirma, não é fechando os olhos para o esvaziamento de seus conteúdos, por obra da tendência que hoje se afirma na política, que teremos como salvá-los. Uma defe‑ sa puramente axiológica da ideia de Esquerda, isolada de qualquer teoria históri‑ ca e de qualquer crítica às instituições em condições de abalar o status quo, não será suficiente para que se consiga a vitória. Os traços gerais da polêmica entre esses dois grandes pensadores por si só indicam as dificuldades atuais de compreender e definir esses campos políticos. Para fins de nossa reflexão, ainda que pesem as transformações ocorridas na sociabilidade burguesa, no Estado e em seu papel na regulação dos antagonismos de classe e os novos desafios no interior da luta de classes, a nosso ver, a dife‑ renciação ideológica entre esquerda e direita não foi superada pela processua‑ lidade histórica. A direita permanece como campo político vinculado aos inte‑ resses de dominação, opressão, apropriação privada da riqueza social e, portanto, à reprodução da ordem do capital. Assim como a esquerda se mantém como campo político vinculado aos interesses da classe que vive do trabalho e à necessidade imperiosa de ultrapassagem da sociabilidade do capital. A extrema‑direita, marcadamente associada às trágicas experiências do nazifascismo, continua apresentando muitos traços originais do contexto de sua emergência: irracionalismo, nacionalismo, defesa de valores e instituições tradi‑ cionais, intolerância à diversidade — cultural, étnica, sexual — anticomunismo, 414 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 machismo, violência em nome da defesa de uma comunidade/raça considerada superior. Compartilhando do ideário político vinculado aos interesses de domi‑ nação, opressão e apropriação privada da riqueza social, distancia‑se da direita tradicional pela intolerância e pela violência de suas ações, embora, quando organizada em partidos ou associações públicas, recuse tais práticas por parte de seus membros. Tomando a realidade histórica como critério de verdade das formulações teóricas, na sequência apresentamos alguns elementos visando assegurar maior concretude à nossa discussão. 2. Matizes da extrema-direita 2.1 Toda direita é fascista? Paxton sustenta que nem todo movimento extremista, de direita ou de esquerda, pode ser denominado fascista e, ao longo de sua extensa pesquisa, procura identificar os condicionantes históricos de sua emergência, os estágios de sua consolidação, sua influência fora da Itália de Mussolini e da Alemanha de Hitler, além de propor características definidoras e possibilidades de repro‑ dução do fascismo na atualidade. Atribui às experiências históricas do fascismo os seguintes estágios: emergência, enraizamento político, tomada de poder, exercício do poder e um período mais longo no qual o regime opta pela radica‑ lização ou entropia. Para Paxton, a preocupação contemporânea com as possibilidades de reedição desse trágico episódio da história humana deve se ater ao estágio de enraizamento político, visto que a emergência de movimentos fascistas pós‑ ‑guerra pode ser observada em todo o mundo sem, no entanto, representar risco efetivo ao projeto civilizatório, uma vez que não encontre uma base social, econômica e política que lhes dê sustentação (enraizamento político). À nossa reflexão sobre a extrema-direita na atualidade interessa reter a definição e a caracterização feita por Paxton sobre o fascismo, procurando 415Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 problematizá‑las em face de outras formas de irracionalismo. Para este autor, o fascismo é uma forma de comportamento político marcada por uma preocupação obsessiva com a decadência e a humilhação da comunidade, vista como vítima, e por cultos compensatórios da unidade, da energia e da pureza, nas quais um partido de base popular formado por militantes nacionalistas engajados, operando em cooperação desconfortável, mas eficaz com as elites tradicionais, repudia as liberdades demo‑ cráticas e passa a perseguir objetivos de limpeza étnica e expansão externa por meio de uma violência redentora e sem estar submetido a restrições éticas ou legais de qualquer natureza. (2007, p. 358‑359) Entre as paixões mobilizadoras indicadas pelo autor, destacamos: senso de crise catastrófica; primazia e vitimização do grupo considerado superior que legitima qualquer ação de extermínio do inimigo; defesa de chefes naturais sempre do sexo masculino, defesa da superioridade dos instintos do líder, di‑ reito do grupo considerado superior de dominar os demais, sem qualquer restrição de lei humana ou divina. Embora a definição e as “paixões mobilizadoras” tratadas por Paxton não autorizem denominar de fascista as práticas de grupos, movimentos, organiza‑ ções e partidos que se situam no campo político da direita e da extrema‑direita, permitem identificar a existência de várias simetrias entre elas e o fascismo, tanto em relação ao comportamento e aos ideais políticos quanto às condições objetivas que contribuem para sua emergência. O fascismo se configurou como uma experiência histórica emblemática da barbárie, uma vez que se concretizou no mesmo solo ocidental que semeou o projeto civilizatório da modernidade, fundado na razão, no Estado laico e no humanismo. Sua reedição tem sido recusada por vários pensadores, tanto pelas feridas traumáticas que o fascismo legou para a humanidade quanto pela compreensão da história como processo irrepetível. No entanto, uma abordagem crítica sobre a totalidade social permite identificar que se a his‑ tória não se repete, uma vez que expressa particularidadesda ação concreta dos homens no atendimento de necessidades também históricas e particula‑ res, sua processualidade contraditória é constituída de momentos de conser‑ 416 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 vação e de superação que só são radicalmente ultrapassados por rupturas revolucionárias. Os momentos revolucionários presentes no processo de desenvolvimen‑ to e complexificação do ser social não foram capazes de ultrapassar as formas históricas de sociabilidade fundadas na desigualdade de classes e na explo‑ ração do homem pelo homem. Desde a superação das sociedades comunais primitivas, a emergência da propriedade privada e do Estado até o capitalis‑ mo contemporâneo, a história da humanidade é a história da luta de classes (Marx). A marca diferencial dessa luta no capitalismo é sua reprodução ampliada num estágio altamente desenvolvido das forças produtivas e do ser social, no qual a desigualdade e a miséria não são determinações colocadas pelo intercâmbio do homem com a natureza, mas condição para reprodução da ordem do capital. Neste sentido, concordamos com Paxton sobre a inviabilidade de reedição do fascismo como experiência particular do contexto entre as duas grandes guerras mundiais, ou seja, um fascismo com as mesmas características, simbo‑ lismo e programática seria uma impossibilidade histórica. Por outro lado, uma vez que não foram superadas, no sentido revolucionário do termo, as determi‑ nações econômicas e políticas que contribuíram para sua emergência e ascensão ao poder, práticas fascistas com outros matizes são plenamente possíveis na atualidade. Nesta perspectiva, tomando o fascismo como uma expressão emblemática da barbárie, as análises de Paxton sobre esse fenômeno, a perspectiva histórica e de totalidade sobre o desenvolvimento do ser social, o reconhecimento onto‑ lógico de que a raiz dos problemas e soluções para as necessidades humanas deve ser buscada no próprio homem, nos propomos a discutir algumas expres‑ sões do fanatismo, do fundamentalismo e do campo político da extrema‑direi‑ ta, considerando‑os como formas de consciência histórica que emergem em contextos de crise de dominação inerentes à reprodução de determinada forma de relação entre os homens — sendo que, no contexto contemporâneo, trata-se de uma crise estrutural do capital — e que jogam um peso diferenciado sobre as potencialidades destruidoras de tais fenômenos em face do projeto civiliza‑ tório inaugurado pela modernidade. 417Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 2.2 Expressões da barbárie: fanatismos e fundamentalismos religiosos e de mercado Perseguições, pilhagens, práticas segregadoras de extrema violência, de extermínio e suicídios coletivos marcam as várias formas de fanatismos e fun‑ damentalismos no interior da luta de classes, ou seja, na história da humanida‑ de. O fundamento comum desses fenômenos, consideradas as particularidades históricas, sintetiza a articulação material de crises de dominação e formas de consciência irracionais. O fundamentalismo religioso, por exemplo, comumente associado ao is‑ lamismo pelas elites dominantes, especialmente após 11 de setembro de 2001,8 pode ser identificado em vários episódios históricos amplamente conhecidos, tanto na Idade Média como na contemporaneidade. As cruzadas cristãs, “expedições militares‑religiosas medievais”, desde sua primeira edição, em 1095, foram convocadas por papas e sempre conjuga‑ ram motivações religiosas e interesses econômicos e políticos visando a domi‑ nação. Foram consideradas como guerras justas, inclusive na teologia de Santo Agostinho. As guerras santas, tanto cristãs como muçulmanas, encontraram na crise de dominação seu fundamento material e no irracionalismo sua forma de consciência. Religião e irracionalismo partem do solo comum da transcendên‑ cia como princípio regulador da vida. Ou seja, um princípio incognoscível que, portanto, escapa aos domínios da razão. Lukács,9 no conjunto de sua monumental produção intelectual, dedicou importantes reflexões à crítica do irracionalismo e do comportamento religioso, identificando na transcendência um princípio que ignora a base ontológica material que fundamenta o ser social e institui formas de consciência que levam à intolerância. 8. Data do ataque da organização Al‑Qaeda aos Estados Unidos da América. Dois aviões comerciais sequestrados pela organização atingiram as torres do World Trade Center, em Nova York, um terceiro atingiu o Pentágono e um quarto avião se dirigia à Casa Branca e supostamente caiu pela intervenção de passageiros e tripulantes. 9. Para Netto, em sua obra A destruição da razão, Lukács se dedica ao confronto das vertentes irracionalistas, considerando‑as opositoras exclusivas do materialismo histórico e dialético. Somente na Ontologia considera os riscos do racionalismo formal das vertentes neopositivistas (Lukács, 1968). 418 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 A ênfase religiosa se orienta pois a algo transcendente por princípio […] entre o homem inteiro concreto e o objeto de sua intenção religiosa se introduz uma transcendência principal; não o mero desconhecido, senão algo por princípio in‑ cognoscível — com os meios normais da vida — que pode, contudo, converter‑se em íntima convicção do homem mediante um correto comportamento religioso. (Lukács, 1966, p. 124) O princípio transcendente é sustentado pela atitude de fé sobre verdades reveladas, superiores e absolutas que determinam toda a vida, [...] a fé não é nesse caso opinar, um estágio prévio do saber, um saber imperfei‑ to, ainda não verificado, senão, ao contrário, um comportamento que abre — o solo — o acesso aos fatos e as verdades da religião [...] que abarca o homem in‑ teiro e o consuma de um modo universal […]. Os fatos estão garantidos por uma superior revelação, e esta prescreve também o modo como reagir a eles. A transcendência obstaculiza o conhecimento racional e, nesse sentido, esvazia o fundamento ontológico material de toda atividade humana, abrindo espaço para incertezas consideradas intransponíveis e experiências históricas que favorecem práticas fanáticas e fundamentalistas. Ainda no plano religioso, podemos lembrar outras faces do fanatismo: a caça às bruxas durante o período inquisidor da Igreja Católica na Idade Média, que fez da mulher sua principal vítima, mas também voltou‑se contra práticas, tradições e conhecimentos divergentes das “verdades” religiosas professadas pelo cristianismo, atingindo minorias étnicas, alquimistas, cientistas e artistas.10 Seitas contemporâneas no mundo ocidental também revelam a face do fanatis‑ mo e são analisadas por Camargo,11 como o Templo do Povo, liderado pelo “reverendo” Jim Jones, que em 1978, na Guiana, levou à morte — por envene‑ namento ou assassinato dos que se recusaram a beber o veneno — 913 pessoas, dentre elas 275 crianças e doze bebês. Camargo também analisa o final trágico 10. Neto, José Alves de Freitas. Caça às bruxas. In: Pinsky, J.; Pinsky, C. B. (Orgs.). Faces do fanatismo. São Paulo: Contexto, 2004. p. 49‑60. 11. Camargo, C. No reino das trevas. In: Pinsky, J.; Pinsky, C. B. (Orgs.). Faces do fanatismo. São Paulo: Contexto, 2004. p. 61‑75. 419Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 da liderança de Vernon Howell (que mudou o nome para David Koresh) da Igreja Davidiana, que resultou, em abril de 1993, na morte de 87 pessoas, entre elas Howell e 25 crianças. Em 1994, três incêndios, dois em vilarejos da Suíça e um no Canadá, vitimaram cerca de 53 pessoas, incluindo crianças. Todos foram associados à seita Templo Solar, liderada pelo médico Luc Jouret. Na contemporaneidade, o extremismo muçulmano torna‑se emblemáti‑ co tanto pela violência de seus vários grupos quanto pelouso ideológico de uma imagem exclusiva do terror que oculta as mazelas provocadas ou ali‑ mentadas pelo fundamentalismo de mercado do Ocidente. Demant,12 ao analisar o fundamentalismo islâmico, considera-o como uma forma particular de fanatismo contemporâneo que não expressa a totalidade histórica do isla‑ mismo — ecumênica na maior parte de sua trajetória — e que revela traços comuns “com outros movimentos totalitários que cresceram e se desenvol‑ veram com a modernidade, mas que lutam contra ela”.13 Para esse autor, o fanatismo islâmico se aproxima de outros movimentos autoritários antimo‑ dernos que “apresentam projetos de uma nova engenharia social, que conde‑ na os rumos tomados pela modernidade”.14 O islamismo, equivocadamente, é associado à práticas terroristas e extre‑ mistas, especialmente após o 11 de setembro. Segundo Chaui, “depois dessa data, islamismo e barbárie identificaram-se e a satanização do bárbaro conso‑ lidou‑se numa imagem universalmente aceita e inquestionável. Fundamentalis‑ mo religioso, atraso, alteridade e exterioridade cristalizaram a nova figura da barbárie e, com ela, o cimento social e político trazido pelo medo”.15 Essa associação, islamismo e barbárie, foi amplamente divulgada pela mídia após a reação do governo estadunidense que “decretou” a existência de um eixo do mal e declarou guerra ao terror. As respostas do governo norte‑ ‑americano de George W. Bush ao atentado de 11 de setembro incluíram: in‑ vasão ao Afeganistão, em ataque ao Talibã, organização que teria abrigado 12. Demant, P. A escorregada rumo ao extremismo muçulmano. In: Pinsky, J.; Pinsky, C. B. (Orgs.). Faces do fanatismo. São Paulo: Contexto, 2004. p. 16‑31. 13. Ibidem, p. 23. 14. Ibidem, p. 23. 15. Chaui, M. Fundamentalismo religioso: a questão do poder teológico‑político. Disponível em: <http:// bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/secret/filopolconbr/Chaui.pdf>. Acesso em: 15 jul. 2013. 420 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 integrantes do Al-Qaeda, recrudescimento da vigilância interna sobre os imi‑ grantes; rigidez para conceder vistos de entrada a estrangeiros aos Estados Unidos da América e a publicação da lei de 2001, conhecida como Patriot Act, que visa “unir e fortalecer a América, fornecendo instrumentos apropriados requeridos para interceptar e obstruir o terrorismo” e autoriza o governo esta‑ dunidense a realizar “invasão de lares, a espionagem de cidadão, interrogatórios e torturas de possíveis suspeitos de espionagem ou terrorismo, sem direito a defesa ou julgamento”.16 As intervenções e cooperações militares lideradas pelos Estados Unidos no imediato pós‑Segunda Guerra, contexto no qual essa potência assume hege‑ monia mundial, sempre foram legitimadas pela defesa abstrata da democracia e dos direitos humanos, ocultando interesses econômicos e políticos de domi‑ nação e contrarrevolucionários, cujas experiências mais dramáticas podem ser exemplificadas pelo apoio econômico, político e técnico às ditaduras empresa‑ rial‑militares que assombraram os países latino‑americanos por mais de duas décadas; financiamento de guerras civis e ações terroristas na África e no Oriente Médio; intervenções militares na América Central; expansão de bases militares norte‑americanas em vários continentes; embargos diplomáticos e econômicos a inúmeros países que resistiam à sua intervenção imperialista.17 No contexto da Guerra Fria, que polarizara o mundo em nações socialistas e capitalistas, tais intervenções e cooperações militares norte‑americanas eram alimentadas ideologicamente pela iminência de uma terceira grande guerra mundial e pela defesa das chamadas liberdades individuais e democráticas fundadas no American way of life, ou seja, no “livre” comércio de mercadorias. A guerra armamentista dava sustentação material à luta ideológica entre as nações consideradas democráticas (capitalistas) e as autoritárias (socialistas), além de alimentar a acumulação privada de capital das indústrias armamentis‑ tas num contexto de crise estrutural. A polarização provocava uma tensão permanente entre as duas grandes potências mundiais (Estados Unidos e União 16. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/USA_PATRIOT_Act>. Para uma análise acurada dessa lei, consultar Teixeira Jr. (2011). 17. Sobre o novo imperialismo, ver Havey, D. O “novo” imperialismo: acumulação por espoliação. Disponível em: <http://biblioteca.clacso.edu.ar/ar/libros/social/2004pt/05_harvey.pdf>. Acesso em: out. 2013. 421Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 Soviética) e ao mesmo tempo um equilíbrio de forças na disputa pelo controle econômico e ideológico de ex‑colônias tornadas independentes e de grupos étnicos situados fora dos limites continentais de suas dominações. Com o fim da Guerra Fria e do socialismo soviético, os limites externos às intervenções militares praticadas ou lideradas pelos Estados Unidos foram afrouxados, favorecendo a prática de guerra como mediação privilegiada para solução de conflitos. A primeira guerra do Golfo, invasão do Iraque em 1990 pelas forças de coalização lideradas pelos Estados Unidos e Grã‑Bre‑ tanha, é um dos símbolos de ostentação da supremacia estadunidense na condução de intervenções militares, tanto que a operação, conhecida como Tempestade no Deserto, foi televisionada pela rede CNN. Do mesmo modo, tal supremacia pode ser identificada nas intervenções da Otan, coordenadas pelos Estados Unidos, na Sérvia e na Bósnia, sem anuência do Conselho de Segurança da ONU. Após o 11 de setembro, a intervenção militar dos Estados Unidos em vários países (Afeganistão, 2001; Iraque, 2003; Líbia, 2012) permanece fiel à defesa abstrata da democracia e dos direitos humanos, ocultando interesses econômi‑ cos e políticos, mas ganhando novos conteúdos em torno da Guerra ao Terror, que inclui a eliminação de grupos extremistas e a manutenção da guerra às drogas. Desse modo, voltam‑se especialmente para as regiões com grandes reservas minerais (petróleo e gás, por exemplo), cuja justificativa sustenta-se no combate ao terrorismo (grupos islâmicos em especial), na instabilidade do Estado que ameaça a democracia (regiões produtoras de substâncias psicoativas condenadas pela ideologia de guerra às drogas), na “restauração” da democra‑ cia, com tentativas ou golpes parlamentares apoiadas pelo Pentágono, nos países nos quais governos de orientação socialista foram eleitos pelas urnas (Venezuela, Honduras, Paraguai e Bolívia) e em defesa dos direitos humanos em face da ameaça de armas de destruição em massa (segunda guerra do Golfo, cuja intervenção se manteve de 2003 a 2011, e ameaças de invasão à Coreia do Norte e Irã, por exemplo). Essas referências às formas da dominação estadunidense visam tomá‑las como expressões particulares de uma totalidade mais ampla que coloca as bases para várias expressões do fundamentalismo, tanto religioso quanto de mercado. 422 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 Num belíssimo artigo, Chaui18 analisa como o contexto da chamada “pós‑ ‑modernidade” abre espaço para um fundamento teológico‑político que também se alimenta da interdição do espaço público às expressões religiosas feita pela modernidade. Baseada nas análises de Harvey19 sobre a compressão espaço‑ ‑tempo produzida pela acumulação flexível do capital, Chaui analisa o signifi‑ cado histórico das experiências fundadas na contingência. Volátil e efêmera, hoje nossa experiência desconhece qualquer sentido de conti‑ nuidade e se esgota num presente vivido como instante fugaz. Essa situação [...] leva ao abandono de qualquer laço com o possível e ao elogio da contingência e de sua incerteza essencial. O contingente não é percebido como uma indetermi‑ nação que a ação humana poderia determinar, mas como o modo de ser doshomens, das coisas e dos acontecimentos. (2006, p. 127‑128) Tal situação, para a autora, não “está separada da crise do socialismo e do pensamento de esquerda, isto é, do enfraquecimento da ideia de emancipação do gênero humano” (Idem, p. 127). A combinação de determinações econômi‑ cas, políticas e ideológicas que favorecem a hegemonia do Estado neoliberal cooperam para o encolhimento do espaço público e alargamento do espaço privado, contribuindo para a despolitização e para o fortalecimento tanto da transcendência divina quanto da autoridade política. Para Chaui, o ressurgimento do fundamentalismo religioso resulta da secularização moderna, do mercado pós‑moderno, do Estado neoliberal e da condição de insegurança, “na qual o medo do efêmero leva à busca do eterno”. Em suas análises sobre o ressurgimento do fundamentalismo religioso, Chaui recupera elementos importantes da crítica marxista à religião que, ao contrário das demais formulações modernas, não se restringe à constatação de seu cará‑ ter alienante, o “ópio do povo”, mas se dirige ao fundamento que a mantém como necessidade. “Em outras palavras, Marx esperava que a ação política do proletariado nascesse de uma outra lógica que não fosse a supressão imediata 18. Chaui, M. Fundamentalismo religioso: a questão do poder teológico‑político. Disponível em: <http:// bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/secret/filopolconbr/Chaui.pdf>. Acesso em: 15 jul. 2013. 19. Harvey, D. A condição pós‑moderna. São Paulo: Loyola, 1992. 423Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 da religiosidade, mas sua compreensão e superação dialética, portanto, um processo tecido com mediações necessárias”20 Em suas análises, a privatização do espaço público, sustentadas pela ló‑ gica do mercado, pelo Estado neoliberal e pela intervenção dos megaorganis‑ mos econômicos privados nas decisões dos governos, resultam na despolitiza‑ ção e na ideologia da competência, “segundo a qual, os que possuem determinados conhecimentos têm o direito natural de mandar e comandar os demais em todas as esferas da existência” (p. 131). Para Chaui, a articulação desses elementos revela os riscos do fim da po‑ lítica e contribuem para a proximidade entre fundamentalismo religioso e de mercado,“a transcendência da competência técnica corresponde à transcendên‑ cia da mensagem divina a alguns eleitos ou iniciados, e não temos por que nos surpreender com o entrecruzamento entre o fundamentalismo do mercado e o fundamentalismo religioso” (Idem). A nosso ver, esses elementos analíticos se aproximam de nossa discussão sobre a articulação entre crise de dominação e irracionalismo,21 permitindo a apreensão dos fundamentos materiais que contribuem para as várias formas de fanatismos e fundamentalismos que, sob diversos matizes, se proliferam na contemporaneidade e colocam em risco o projeto civilizatório da modernidade. Muitas dessas tendências, como veremos a seguir, colocam‑se no campo polí‑ tico da extrema‑direita. 3. Tendências contemporâneas da extrema-direita Há inúmeras expressões da extrema‑direita na contemporaneidade. Algumas organizadas em partidos, outras em associações ou grupos e muitas pulverizadas em práticas violentas não autorais dirigidas a imigrantes, negros, homossexuais e, no caso do Brasil, também a nortistas e nordestinos. 20. Ibidem, p. 129. 21. Ver também Lukács (2009). 424 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 A tendência predominante nesses grupos, inclusive entre formadores de opinião que se autointitulam independentes e compartilham de convicções e valores situados no campo ideológico da extrema‑direita, é de recusa dessa denominação, dada a vinculação histórica desse campo com o nazifascismo e com a decorrente conotação racista e antissemita. No entanto, suas formulações são reveladoras do campo político no qual se situam. O recorte que realizamos não abrange a magnitude dessa realidade, nem em escala mundial tampouco entre nós, mas permite assegurar sua visibilidade que tanto nos preocupa quanto nos desafia. No caso do Brasil, além das tendências contemporâneas, nos detivemos na história da Ação Integralista e da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP). A primeira por sua explícita vinculação com o fascismo italiano e a segunda por sua emergência no contexto do golpe empre‑ sarial‑militar de 1964 como uma das expressões de direita que deram sustenta‑ ção ao golpe. 3.1 A extrema-direita no Brasil Ação Integralista22 O pensamento integralista foi gestado no contexto político‑cultural da década de 1920. Em 1926, Plínio Salgado, principal líder integralista, lançou seu primeiro romance: O estrangeiro, no qual já delineava um projeto político para o Brasil. Plínio teve seu pensamento político influenciado pelo fascismo italiano. A Ação Integralista Brasileira (AIB) surge em 1932, com o lançamen‑ to do Manifesto de Outubro, documento cujo conteúdo expressa os ideários fascistas que nortearam ideologicamente o movimento. 22. A síntese realizada sobre o integralismo foi baseada nas informações disponíveis especialmente em: <http://www.tempopresente.org/>. Acesso em: 23 out. 2013; <http://integralismohistoriaedoutrina.blogspot. com.br/2012/05/concepcao-integralista-da-sociedade.html>. Estudos sistemáticos podem ser encontrados no mateiral disponibilizado pelo Grupo de Estudos de Integralismo (Geint) e outros movimentos nacionalistas. Disponível em: <http://historiaedireita.blogspot.com.br/>. Acesso em: 23 out. 2013. 425Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 No mesmo ano, Plínio Salgado foi redator do jornal A Razão, veículo por intermédio do qual buscou ativar a consciência dos meios políticos e intelectuais em relação à crise econômica e política desencadeada na década de 1930. Fundou a Sociedade de Estudos Políticos que ficou conhecida como a antecâmara da AIB. Durante sua atuação na década de 1930, a AIB aglutinou uma militância estimada entre 500 mil e 800 mil pessoas, e dentre os denominados camisas‑ ‑verdes (uniforme integralista) destacaram‑se: Miguel Reale (jurista e escritor), Gustavo Barroso (romancista e presidente da Academia Brasileira de Letras) e dom Hélder Câmara, que posteriormente se aproximou da esquerda. A trajetória da AIB, que surge como um movimento de caráter “cívico‑ ‑cultural”, é marcada por mudanças, uma das quais é a formação do Partido Ação Integralista, criado após deliberações do II Congresso Integralista, reali‑ zado em 1935, em Santa Catarina. A criação do partido demonstrava a força e o crescimento do integralismo no país. Segundo Neto, era a maior organização fascista fora da Europa e tinha o objetivo de chegar ao poder através da democracia. Os integralistas se aliaram a Getúlio Vargas e apoiaram o golpe que levou à constituição do Estado Novo. A intenção era efetivar um prévio acordo entre o chefe estatal e os líderes integralistas, pois visualizavam possibilidades de inserção ideológica dentro do futuro regime. Entretanto, após a consumação do golpe, o partido foi posto na ilegalidade. A primeira tentativa de reorganização da AIB foi a criação da Associação Brasileira de Cultura (ABC), que visava o retorno às origens não partidárias do integralismo, de caráter “cívico‑cultural”, no entanto, a empreitada também não garantiu legitimidade perante o Estado Novo. Na ocasião, alguns militantes abandonaram as camisas‑verdes e se aliaram ao governo federal. A liderança integralista oscilava entre tentativas de aproximação ao governo, numa pers‑ pectiva de barganha, e críticas públicas contra a traição de Getúlio. Do mesmo modo, surgiam iniciativas que pleiteavam o efetivo rompimento entre remanes‑ centes integralistas e o governo federal. Em 1938, aliados a setores políticos diversos, entre eles liberais,os mili‑ tantes integralistas tentaram tomar de assalto o Palácio da Guanabara, visando a derrubada de Getúlio, o que, consequentemente, poderia proporcionar uma 426 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 investida integralista sobre o poder. A tentativa fracassou, e o Estado Novo reprimiu o movimento, com ações que variaram entre apreensão de materiais, prisão de militantes e uma pressão exercida sobre Plínio Salgado, que foi for‑ çado a exilar‑se em Portugal. Durante o exílio de Plínio Salgado formou‑se o Partido de Representação Popular (PRP), que inicialmente pretendia se desvincular dos movimentos fascistas da década de 1930, especialmente pelo contexto mundial do segundo pós‑Guerra, que impunha limites às manifestações ideológicas análogas à tira‑ nia do fascismo internacional. Esse abandono dos referenciais originários do integralismo (símbolos, uniformes, organizações internas ou mesmo festivas) não foi bem-visto por uma parcela da militância, gerando, inclusive, proposta de rompimento e a criação de um partido genuinamente integralista. Ao retornar do exílio, Plínio Salgado assumiu a presidência do PRP, cuja trajetória foi marcada por constantes tentativas de retomar alguns pressupostos integralistas originários, ao mesmo tempo em que havia a necessidade de se articular com a dinâmica partidária do segundo pós-Guerra. Mantiveram o sigma como símbolo do partido e alguns cerimoniais semelhantes aos existen‑ tes na década de 1930. Durante a primeira metade da década de 1960, a ação integralista teve atuação partidária ou em organizações sob o controle e influência de Plínio Salgado. Assim ocorreu com as Confederações Culturais da Juventude (CCJ), cujo objetivo era a formação intelectual da juventude, os águias brancas. Plínio Salgado e diversos integrantes do PRP apoiaram o golpe empresa‑ rial‑militar de 1964 no Brasil. Naquele contexto, o chefe integralista foi um fervoroso orador da “Marcha da Família, com Deus e pela Liberdade”, realiza‑ da em São Paulo, em março de 1964.23 Após o golpe, o PRP foi extinto, assim como vários outros partidos. Entretanto, Plínio e outros militantes integralistas fizeram parte do governo ditatorial. Plínio foi nomeado deputado federal pela Aliança Renovadora Nacional (Arena). 23. Atestando a importância desse debate, lembramos que após a realização do seminário que deu origem a este ensaio, em 31 de março de 2014, cinquentenário do golpe empresarial‑militar no Brasil, grupos de extrema‑direita reeditaram em várias cidades brasileiras a “Marcha da Família, com Deus e pela Liberdade”. Ver reportagem “A direita sai do armário” (Caros Amigos, ano XVII, n. 205, 2014). 427Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 Com a morte de Plínio Salgado, em 1975, houve uma fragmentação entre os integralistas. Abriu‑se espaço para disputas internas — evidenciadas desde a criação do PRP, no entanto, acomodadas na figura do líder — entre a busca da herança do legado de Salgado e as alianças partidárias. Surge, assim, o neointe‑ gralismo. Nesse contexto, a atuação dos integralistas não almejava ambições partidárias, em função do próprio contexto político do final da década de 1970. Desse modo, optaram por manter viva a memória de Plínio Salgado. Com esse objetivo, fundaram o jornal Renovação Nacional — criado por Jader Medeiros, bem como fundações, associações culturais e espaços de conservação da memó‑ ria, como a Casa Plínio Salgado, criada em 1981 na cidade de São Paulo. A conjuntura política de 1984, marcada pela campanha das Diretas Já, abriu possibilidades para a reorganização de um partido integralista. A emprei‑ tada foi encabeçada por Anésio de Lara Campos Jr., membro do antigo PRP e criador da Ação Nacionalista Brasileira (ANB). No entanto, foi um movimento efêmero, que se extinguiu em 1985, mesmo ano em que Anésio registrou a AIB em seu nome. Essa iniciativa, somada às aproximações de Anésio ao Partido de Ação Nacionalista (PAN) (efêmero), ao movimento dos Carecas do Subúrbio e a outros grupos neonazistas, foram fatores que contribuíram para impedir a formação de um novo partido integralista. Após a morte de Plínio Salgado, houve uma fragmentação dos grupos integralistas, pois não havia uma unidade programática que acomodasse todos os neointegralistas. A primeira tentativa dessa articulação ocorreu no I Congresso Integralista do século XXI, realizado em São Paulo, em 2004. Esse congresso contou com o apoio dos simpatizantes da TFP, da União Nacionalista Demo‑ crática e da União Católica Democrática. Na ocasião, foi criado o Movimento Integralista Brasileiro (MIB), entretanto, não conseguiram registrar a sigla em cartório, pois Anésio Lara, que participara desse evento, já havia registrado anteriormente a sigla em seu nome, sem comunicar aos demais. Uma vez mais fracassou a tentativa de unificação. Essa tentativa frustrada abriu caminho para a criação de três grupos. A Frente Integralista Brasileira, criada para manter o integralismo dos anos 1930, preservando seus símbolos e doutrinas. Embora não apresentasse aspirações partidárias, aproxima-se, por exemplo, do Partido de Reedificação Nacional 428 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 (Prona). O Movimento Integralista e Linearista (MIL‑B) também visa a atuali‑ zação da ideologia integralista da década de 1930. Para isso recorre às análises de autores integralistas e antissemitas. Posiciona‑se contra os partidos políticos e a liberal democracia. Afirma, inclusive, que a democracia é uma farsa que contribui para manter a opressão dos povos. A Ação Integralista Revolucionária (AIR), que tem uma posição “extremamente crítica” em relação ao sistema partidário, inclusive às propostas do período de Plínio Salgado. Considera que a essência do integralismo pode ser encontrada entre os anos 1932 e 1935. Defende uma revolução interior nos costumes, espiritualistas, o que seria um caminho ideal a ser perseguido para uma atuação integralista revolucionária do século XXI. Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP)24 A Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade é uma associação civil fundada em 1960. Seu fundador e líder espiritual, Plínio Côrrea de Oliveira é venerado por seus membros. A TFP tem por fim combater a maré-montante do socialismo e do comu‑ nismo, dois sistemas que reputamos afins entre si. [...]. Assim, a TFP — entre os diversos modos necessários que há para combater o comunismo — se dedi‑ ca primordialmente à ação ideológica. A ação ideológica envolve a venda de livros e oferta de cursos que são destinados a combater a filosofia materialista e evolucionista dos comunistas, bem como a sociologia, a economia e a cultura decorrentes dessa perspectiva. Fundamenta-se na filosofia de Santo Tomás de Aquino e nas encíclicas papais, na defesa de valores considerados naturais e que afirmam de forma positiva a Tradição, a Família e a Propriedade. Referências que dão nome a entidade. A defesa da tradição por parte de seus integrantes está associada a noção de que “o verdadeiro progresso não é destruir, mas somar, não é romper, mas 24. A síntese apresentada sobre a TFP foi organizada com base nas informações disponíveis em: <http:// www.tfp.org.br/>. Acesso em: 23 out. 2013. 429Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 continuar para o alto. [...] Visa impedir que o progresso se torne desumano, odioso”.25 Defendem que “a família gera necessariamente a tradição e a hierarquia social. Depauperar e enfraquecer a família destrói a cultura e a civilização im‑ pregnadas de tradições cristãs”.26 Assim, para os membros dessa entidade, a família é a base que mantém a tradição viva. Portanto, são contrários ao divórcio. A propriedade é considerada umdireito natural, inerente à essência huma‑ na: “o fundamento da propriedade está na própria natureza do ser humano. Os direitos à liberdade, ao trabalho e ao fruto de seu trabalho, isto é, à propriedade nascem da essência do homem”.27 Posicionam‑se claramente contrários à refor‑ ma agrária. A TFP prega que só pela verdade ensinada pela Igreja (é a única) é possí‑ vel construir uma autêntica civilização. Os princípios, objetivos e documentos públicos veiculados pela entidade explicitam concepções nacionalistas e exclu‑ dentes, marcadas pelo anticomunismo, antissocialismo e antiliberalismo. Seu surgimento está ligado à obra Revolução e Contrarrevolução, de Plínio Côrrea de Oliveira, que, em linhas gerais, defende que a revolução (liberal e comunis‑ ta) está voltada para destruição da Igreja Católica. Por seu turno, a contrarre‑ volução se coloca em defesa da Igreja, preservando seus valores tradicionais, num conservadorismo radical e antimoderno. Apesar das simetrias existentes entre as novas organizações integralistas, a TFP e o campo ideológico da extrema‑direita, essas entidades não se consi‑ deram integrantes desse campo político. Outros grupos de extrema-direita no Brasil contemporâneo No Brasil, os grupos neonazistas surgem na década de 1980, especialmente em São Paulo, num contexto no qual “o país passava por um processo de trans‑ formação da classe operária, do crescimento dos movimentos sindicais, em meio 25. Disponível em: <http://www.tfp.org.br/>. Acesso em: 23 out. 2013 26. Idem. 27. Idem. 430 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 à reabertura política, anistia e a redemocratização” (Andrade, 2013, p. 75). Nesse contexto de efervescência política e influenciado pelo punk londrino, que vivia uma new wave (nova onda), surgem Os Carecas do Subúrbio como oposição ao punk considerado comercial. Seus idealizadores criam uma ala radical do punk que procura se distanciar de sua referência inspiradora para compor, na sua visão, um movimento sério e nacionalista com o lema “União, Força e Seriedade”. Os integrantes dos Carecas do Subúrbio eram oriundos das camadas em‑ pobrecidas da classe trabalhadora; a grande maioria provinha da Zona Leste de São Paulo, naquele contexto uma área industrial. De acordo com Almeida (2011), os Carecas se definiam como “jovens conscientes e não alienados, fortes de corpo, puros de mente e com o intuito de formar um exército para salvar o Brasil dos políticos corruptos e das multinacionais”. Defendiam a ideia de “um movimento sério, um estilo de vida, um movimento de trabalhadores, de brasi‑ leiros, sem negócio de fora, de gente que mora nos subúrbios”. Nesse momen‑ to, apesar de recusarem influências externas, os carecas se aproximam e se identificam com o movimento skinhead dos ingleses. Em sua origem, esse movimento era composto por diferentes etnias, não partilhava do conceito de segregação e/ou preconceito racial, não incorporava simbologia nazista. A ideologia era baseada em princípios como o culto ao físico,28 a prática da defesa pessoal e era contrária à utilização de drogas. Segundo An‑ drade, esses são os traços mais marcantes na origem do movimento no Brasil. Uma parte dos Carecas se aproxima das ideias neonazistas e passa a utili‑ zar seus símbolos, cindindo o movimento, já que alguns membros não aceitavam a segregação racial em face da diversidade étnico‑racial brasileira. Surge, assim, um grupo dissidente, os Carecas do ABC, um movimento de extrema‑direita identificado com a ideologia nazista. A mudança ideológica desse grupo influenciará o aparecimento de outros grupos de extrema‑direita pelo Brasil, principalmente no Sul do país. As ideias neonazistas são incorporadas por parte desses grupos que aderem a linha de pensamento da White Power (Força Branca), que tem como características o 28. De acordo com Ana Maria Dietrich (2011), o culto ao físico é um dos preceitos básicos da juventude hitlerista (Dietrich. A. M. Juventude nazista e neonazista no Brasil: objetivos e perspectivas. In: Victor, R. L. (Org.). À direita da direita. Goiânia: Ed. da PUC-Goiás, 2011). 431Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 ultrarracismo e atua como uma “irmandade”. O primeiro grupo dessa corrente surgiu em São Paulo e ficou conhecido como Skinheads White Power. A partir dos anos 1990 há um crescimento desses grupos no Brasil. Pes‑ quisa realizada por Dias revela que de 2002 a 2009 o número de sites que veiculam informações de conteúdo neonazista subiu 170%, saltando de 7.600 para 20.502. No mesmo período, os comentários em fóruns sobre o tema cres‑ ceram 42.585%. Nas redes sociais, os dados são igualmente assustadores. Existem comunidades neonazistas, antissemitas e negacionistas29 em 91% das 250 redes sociais analisadas pela antropóloga. E nos últimos nove anos o nú‑ mero de blogs sobre o assunto cresceu mais de 550%.30 Segundo Dias, aproximadamente 150 mil brasileiros visitam mensal‑ mente mais de cem páginas com conteúdos nazistas ou realizam mais de cem downloads.31 Desses, 15 mil são tidos como líderes e coordenam as incitações de ódio na internet. A pesquisa aponta os estados brasileiros com maior nú‑ mero de internautas que baixaram mais de cem arquivos de sítios neonazistas: Minas Gerais (6 mil); Goiás (8 mil); Paraná (18 mil); São Paulo (29 mil); Rio Grande do Sul (42 mil); Santa Catarina (45 mil). A região Sul é a que mais concentra simpatizantes neonazistas.32 Com base nesses dados, realizamos um breve levantamento na internet para caracterizar alguns movimentos de extrema-direita atuantes no Brasil. Identifi‑ camos oito deles: Kombat Rac; White Power SP; Front 88;33 Ultra Defesa; Ultra Skins; Brigada Integralista; Resistência Nacionalista; Terror Hooligans.34 29. As ideias negacionistas são resultado do negacionismo. Este é definido como a capacidade em negar algo que está aparente na realidade. 30. Disponível em: <http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/04/conheca‑o‑mapa‑neonazista‑no‑ brasil.html>. Acesso em: 20 out. 2013. 31. O número de acesso e de downloads realizados pelos visitantes foi o critério utilizado pela pesquisadora para definir a identificação com o conteúdo divulgado. 32. Existe na região Sul do país o movimento separatista sulista chamado O Meu País É o Sul, cujo objetivo é transformar a região em um país, separando‑se do Brasil. 33. O número 88 é uma forma simbólica que grupos nazista ou neonazistas utilizam para fazer referência ao líder Adolf Hitler. O número 8 representa a oitava letra do alfabeto (H) e para eles significa “Heil Hitler!” (HH). 34. É um movimento neonazista inspirado nos torcedores do time Hooligans, que vão aos estádios especialmente para entrar em conflito com torcedores de outros times. 432 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 De forma ilustrativa, destacamos alguns elementos dos conteúdos dispo‑ nibilizados na internet por dois desses grupos: a Ultra Defesa e a Resistência Nacionalista. A Ultra Defesa, de Mairinque, cidade do interior de São Paulo, de acordo com o seu próprio site,35 “é uma instituição social, política e reivindicatória de cunho nacionalista e patriota”. Defende a moral, e seus participantes são tidos como homens virtuosos e aguerridos que defendem os verdadeiros valores. Prezam a ordem e a disciplina. Utilizam a saudação romana, pois consideram que a antiga Roma é depositária da verdadeira e original tradição do Ocidente. Defendem “um Estado forte, espiritualista e transcendente”, “valores aristo‑ cráticos e guerreiros” de nossa formação cultural e uma “nação viril, coman‑ dada por uma verdadeira elite, virtuosa e viril”. Posicionam‑se abertamente contra o neoliberalismo, o aborto e a homossexualidade. Defendem as forças armadas, a harmonia entre as classes e a terceira via (um Estadoespiritualista e transcendente). A Ultra Defesa, conforme seu site, realiza reuniões semanais, atividades culturais, esportivas e ministra palestras aos jovens com os seguintes conteúdos: O crime do aborto, O mal das drogas, O respeito à família, Ordem e disciplina na rua e no lar, Educação moral e cívica, O direito a propriedade, Direito a le‑ gitima defesa, Filosofia, História, Valorização do que é nacional, bem como outros assuntos pertinentes. A Resistência Nacionalista36 é um movimento/grupo que se autodefine como de extrema‑direita e que recusa a identidade neonazista ou fascista. Con‑ sidera que por “acolherem nordestinos e negros”, segundo seu líder, não pode ser identificado com o nazifascismo. Afirma que o seu ideal é nacionalista e não étnico. Revela a pretensão de montar um partido conservador de direita,37 pois de acordo com seus membros, vivemos numa ditadura de esquerda no Brasil. O movimento defende a família e é contrário às drogas, ao aborto e à homos‑ sexualidade. 35. Disponível em: <http://ultradefesa.blogspot.com.br>. Acesso em: 20 out. 2013. 36. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=4xo-bRSE7GE>. Acesso em: 20 out. 2013. 37. O líder da Resistência Nacionalista, em depoimento disponível na internet, se refere ao filósofo, jornalista e colunista Olavo de Carvalho como um de seus mentores intelectuais. 433Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 Chama atenção a facilidade de acesso aos conteúdos disponibilizados por esses grupos na internet e a dificuldade de se obter informações mais detalhadas sobre seus membros, sedes e formas de funcionamento. Outro elemento que chama a atenção é que esses grupos não se assumem como nazistas ou fascistas. Paxton, mesmo considerando a improvável reedição das características do fascismo clássico, afirma que na década de 1990 o fim do regime fascista foi posto em dúvida. Analisa a proliferação pelo mundo de uma série de grupos fragmentados de extrema‑direita com uma grande variedade de temas e práticas extremistas. E diz que o “medo da decadência e do declínio; afirmação da iden‑ tidade nacional e cultural; a ameaça à identidade nacional e à ordem social re‑ presentada pelos estrangeiros inassimiláveis; e a necessidade de uma autorida‑ de mais forte para lidar com esses problemas” (2007, p. 304), bem como ataques ao liberalismo e ao individualismo econômico, ao comunismo, às instituições democráticas, ao Estado de direito, o princípio da transcendência, devoção ao líder virtuoso e a defesa de uma suposta supremacia racial ou de grupos, são traços que podem ser encontrados explícita ou implicitamente nas ideias defen‑ didas por tais grupos. Ao mesmo tempo que encontramos profundas simetrias com as ideologias fascistas e nazistas, encontramos também o esforço por parte de alguns desses grupos para se diferenciar desse campo ideológico. No entanto, como tendência geral nos grupos pesquisados, identificamos a demonização ou a ideia de eli‑ minação de algum inimigo externo, o anticomunismo e o antiliberalismo. São ultranacionalistas, e sua identidade se constrói em torno de uma liderança forte e de símbolos medievais, religiosos e nacionalistas. Do ponto de vista ético e político, tanto os que defendem quanto a razão de sua existência merecem uma análise mais aprofundada na perspectiva de superação das condições que as favorecem. 3.2 A extrema-direita e o poder do Estado Os elementos até aqui analisados permitem identificar que há movimentos, grupos e entidades de extrema‑direita muito próximos do campo ideológico do 434 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 nazifascismo. Do mesmo modo, analisamos como o capitalismo contemporâneo apresenta traços de esgotamento do projeto civilizatório da ordem do capital. Discutimos também como as crises de dominação e o irracionalismo criam as condições para o florescimento de práticas fanáticas e fundamentalistas. Considerando que na democracia burguesa o exercício do poder é realiza‑ do não apenas, mas hegemonicamente, no âmbito do Estado, pareceu-nos im‑ portante apresentar no cenário mundial,38 ainda que brevemente, como vem ocorrendo o desempenho político dos partidos de extrema‑direita.39 A ascensão dos atuais movimentos de extrema‑direita, principalmente na Europa, não é episódica. Na verdade, essa ideologia nunca deixou de existir, mesmo após a derrota do nazifascismo na Segunda Guerra Mundial. Na França, a extrema‑direita vem crescendo com o fortalecimento do Partido da Frente Nacional, fundado em 1972, por Jean Marine Le Pen, candi‑ dato derrotado por cinco vezes à presidência da República. A atual presidente do partido é sua filha, Marine Le Pen, que conseguiu triplicar o número de militantes (70 mil) e não aceita que o partido seja identificado como sendo de extrema-direita. A Frente Nacional influenciou a criação de novos partidos da extrema‑direita na Europa, em função de seu desempenho nas disputas eleitorais na década de 1980. Sader destaca que Engels apontou este país como “o berço das grandes lutas emancipatórias contemporâneas”, mas que este ciclo se encerra na década de 1960, mais precisamente após as barricadas de 1968. Analisa mudanças na identidade política dos trabalhadores e constata que “a extrema‑direita passou a explorar, de forma intensa e efetiva, a imigração, incentivando as tendências chauvinistas e até mesmo racistas dos trabalhadores franceses”. O jornalista argentino Eduardo Febbro, alerta que “a Frente Nacional deixou de ser um partido de uma minoria para se converter no partido de todos: jovens, trabalhadores, votantes comunistas, eleitores oriundos da direita clás‑ sica, do Partido Socialista, executivos e agricultores”. 38. As informações sobre os partidos de extrema‑direita na Europa foram sintetizadas a partir dos conteúdos de vários sítios da internet e de agências de notícias. 39. No momento de revisão deste ensaio, a Frente Nacional, extrema‑direita da França, ganhava as eleições para o Parlamento Europeu. 435Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 A revista Caros Amigos40 dedica duas páginas para análise do crescimen‑ to da Frente Nacional na França. Apresenta os traços de renovação do discurso do partido pela liderança de Marine Le Pen e dados sobre as preferências do eleitorado que favorecem o partido. O mote político desse desempenho é a questão da imigração, pois “mais de 95% dos eleitores da Frente Nacional acham que há estrangeiros demais no país”. Eduardo Cypel, brasileiro radicado na França, eleito deputado estadual em 2010, foi vítima de discriminação por parte de um deputado da Frente Nacional, o europeu Bruno Gollnisch. A Grécia, mergulhada numa profunda crise recessiva que já dura seis anos, tem sido cenário de ataques violentos contra imigrantes. Em 2013, o rapper Pavlos Fyssas, de 34 anos, ligado ao movimento antifascista de Atenas, foi morto a facadas. Muitas das violências praticadas contra imigrantes estão associadas aos membros do partido Aurora Dourada. O analista político Stan Draenos entende que as autoridades gregas têm sido negligentes na apuração dos crimes.41 O Partido Aurora Dourada, surge na década de 1980, com a queda dos par‑ tidos tradicionais, sobretudo do Partido Socialista. É um partido nazista, militar, masculino, que comete assassinatos. Identificam como seus inimigos principal‑ mente os comunistas, além dos imigrantes. Seu líder Nikólaos Michaloliákos (56 anos), é um puro produto da ditadura de extrema‑direita (1967‑1974). Em entrevista ao Jornal O Globo, o Filósofo Grego Michel Vakaloulis afirma, que “o eleitorado da Aurora Dourada é muito popular” que “voltamos à lógica dos anos 30, com a crise econômica: na França, foi a emergência da Frente Popular, e na Alemanha, do nazismo. O fascismo não é uma fatalidade. Épreciso acabar com ele”.42 Em 2009 o Partido obteve 0,29% dos votos, três anos mais tarde elegeu dezoito deputados para o Parlamento grego, com 7% dos votos. Por outro lado 40. A extrema‑direita se populariza na França (2013, p. 32‑33). 41. Carta, G. Cidadãos gregos expressam sua opinião sobre o Aurora Dourada. Disponível em: <http:// www.esquerda.net/artigo/gr%C3%A9cia-aurora-dourada-outra-face-da-extrema-direita-europeia/28766>. Acesso em: 26 out. 2013. 42. Berlinck, D. “Aurora Dourada é uma organização mafiosa”, diz filósofo grego. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/mundo/aurora-dourada-uma-organizacao-mafiosa-diz-filosofo-grego-1-10047712. Acesso em: 27 out. 2013. 436 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 os partidos tradicionais, os sociais democratas Pasok e a Nova Democracia (direita clássica) que tinham 77% dos eleitores, hoje tem somente 32%. Na Holanda, o destaque no campo da extrema‑direita é o Partido da Li‑ berdade/PVV, fundado em 2006, cujo líder é Geert Wilders, xenófobo e anti‑ muçulmano. O partido considera a imigração muçulmana um desastre para a economia, afetando também a qualidade da educação, aumentando a insegu‑ rança nas ruas, no que se refere aos judeus e homossexuais. O primeiro minis‑ tro Rutte ao se manifestar na Câmara, alegou que não interfere “nas posições particulares de nenhum partido”, o que significa que tem se eximido no com‑ bate de práticas da extrema‑direita, principalmente para manter seus apoios políticos. Em 2010, o Partido da Liberdade elegeu 25 deputados, ficando atrás apenas dos liberais (Mark Rutte), com 31 eleitos, e dos trabalhistas (Job Cohen), com trinta. O jornal Ouronews43 destaca que “a crise econômica, a imigração e o desemprego têm sido o objetivo principal das políticas de direita na Europa, nestes últimos anos. Os resultados em nível regional e mesmo nacional progre‑ diram, mas nos parlamentos, principalmente no Parlamento europeu, a repre‑ sentação continua a ser baixa”.44 Na Alemanha, destacam‑se dois partidos de extrema‑direita. O Partido Nacional Democrata Alemão (NPD) e o partido A Direita. O NPD, fundado em 1964, é uma agremiação antissemita, xenófoba e racista. O Parlamento alemão e o Conselho Federal pediram a cassação da sigla do NPD, a última em 2001, que, após dois anos, sofreu derrota judicial. O partido A Direita foi criado em 2012, e seu nome é uma analogia ao partido alemão A Esquerda. Prega “preservação da identidade alemã” como um dos “pontos cruciais” da nova facção. Entre outras ideias, defende‑se que “a tolerância a estrangeiros que vivem permanentemente na Alemanha” deveria ser cessada”. É presidido por Christian Woch, que já pertenceu ao Partido do Povo Alemão (DVU) que se fundiu em 2011 ao NPD. 43. Partidos de direita unem‑se para fazer coligação para as eleições europeias. Disponível em: <http:// pt.euronews.com/2013/10/23/partidos-de-direita-unem-se-para-fazer-coligacao-para-as-eleices-europeias/>. Acesso em: 28 out. 2013. 44. Quadro que já foi alterado. Ver nota 19. 437Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 Na Hungria, a extrema‑direita é representada pelo Partido Jobbik, que surge em 2002 como uma associação juvenil de direita, criada por estudantes universitários católicos e protestantes, em 2003 torna‑se partido, e, atualmente é o terceiro maior no Parlamento. Naquele ano, houve a realização do Congres‑ so Mundial Judaico. A cidade de Budapeste foi escolhida diante da realidade de que 600 mil judeus foram mortos durante a Segunda Guerra Mundial. Para protestar contra a realização do Congresso Judaico, cerca de mil apoiadores do Jobbik realizaram uma manifestação em Budapeste e segundo o líder do parti‑ do Gabor Vona: “Somos especiais na Europa não porque somos a maior nação antissemita, mas porque mesmo tendo toda a Europa a seus pés, mesmo que a Europa lhes lamba os pés, nós não o vamos fazer”. Na avaliação de Peter Feldmajer, líder da Federação das Comunidades Judaicas da Hungria, “o fortalecimento do Jobbik é apenas um sintoma destas questões; o grande problema é que existe cerca de meio milhão de pessoas que apoiam a extrema‑direita e muitas mais aceitam a atitude negativa com os judeus”. Na Itália de Mussolini, o partido Liga Norte foi criado em 1989, após a união de seis movimentos independentes, e desde 1996 defende a separação das regiões do Norte da Itália. Defende um Estado federativo. É contra a adoção de moeda única no Parlamento europeu. Coloca‑se como defensor das pequenas e médias empresas e contra os grandes capitalistas. Cria o Sindicato Autonomis‑ ta Lombardo, chamado depois de Sindicato Padano, com poucos filiados, que nunca teve muita expressão. Os votos da Liga são tanto dos patrões quanto dos operários. O partido tem destacado a importância das empresas do Norte da Itália e a produção de riquezas (vários operários hoje são patrões) e acusa o Sul de parasitas e os imigrantes de ocuparem seus postos de trabalho, “no entanto, é útil na fábrica para fazer os serviços mais pesados, mais sujos. A Liga dirige‑ ‑se aos trabalhadores nativos instigando sentimentos de ódio contra os imi‑ grantes e se posiciona sempre pela proteção da família constituída pelo homem e pela mulher”. O fundador e secretário do partido é Umberto Bossi, envolvido junto com seu filho em escândalos sobre financiamento público à Liga Norte. Nas 438 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 eleições para o Parlamento na Itália em 2013, o centro esquerda ganha maio‑ ria na Câmara, mas Berlusconi ganha no Senado. Matéria publicada em abril de 2012 trata da proximidade entre a Liga Norte e a Frente Nacional (França): [...] a amizade entre a Frente Nacional francesa e movimentos de extrema‑direita na Itália é antiga. [...] um dos políticos mais extremistas e xenófobos da Itália, Mario Borghezio, em março de 2011 trouxe Marine Le Pen à ilha de Lampedusa, no sul da Itália, para um comício contra os imigrantes. Borghezio [...], anunciou que no próximo 1º de maio vai a Paris participar da manifestação da Frente Na‑ cional em homenagem a Joana D’Arc.45 Em junho de 2013 a vereadora da Liga Norte Dolores Valandro, pergunta no facebook: “Por que ninguém estupra essa mulher?”,46 se referindo à ministra Cecile Kyenge, nascida na República do Congo, responsável pela pasta da In‑ tegração, que tenta implementar medidas aos imigrantes para acesso a cidadania. Nossas breves incursões sobre o panorama dos partidos de extrema‑direi‑ ta em alguns países da Europa revelam tanto sua popularização, pelo crescente desempenho nas urnas, como profundas identidades com a ideologia nazifas‑ cista. Os inimigos desses partidos são os imigrantes de um modo geral, negros, muçulmanos e judeus em especial. A recusa ao comunismo também é uma constante em suas bandeiras, assim como a violência praticada por grupos a eles associados. O cenário é assustador, mas como insistimos desde o início de nossa ex‑ posição, a mera constatação ou recusa ideológica não têm sido suficientes para frear o seu crescimento, o que revela a centralidade do tema para a agenda da esquerda. A título de considerações finais, na última parte desse ensaio esboçamos algumas aproximações com o debate da ética e dos direitos humanos. 45. Marine Le Pen vira ídolo da extrema-direita italiana. Disponível em: <http://www.portugues.rfi.fr/ europa/20120427-marine-le-pen-vira-idolo-da-extrema-direita-italiana>. Acesso em: 28 out. 2013. 46. Carvalho, F. Por que estupra essa mulher. Disponível em: <http://180graus.com/politica/vereadora‑ italiana-fala-sobre-ministra-negra-por-que-ninguem-estupra-essa-mulher>. Acesso em: 28 out. 2013. 439Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 Ética, direitos humanos e a extrema-direita: considerações finais O materialcom o qual tivemos contato nesse breve levantamento sobre os matizes da extrema-direita no contexto contemporâneo revela que os valores, princípios e concepções de homem e sociedade defendidos pelos grupos que integram esse campo ideológico na atualidade utilizam o princípio da transcen‑ dência (irracional e sagrado) para justificar seus discursos e práticas em face de condições de profundas desigualdades, insatisfações, medo e insegurança. Neste sentido, é possível afirmar que a base material que propicia formas de consciência irracionais permanece sendo em seus fundamentos uma crise de dominação, como ocorreu no período de ascensão do nazifascismo. Embora haja uma recusa por parte dos grupos, movimentos e partidos de extrema‑direita ao ideário fascista e nazista, a aproximação de suas convicções e ações com esses fenômenos é latente. Do ponto de vista da ética e dos direitos humanos, quais são os desafios postos pela existência e pelo crescimento da extrema‑direita? Desse mesmo ponto de vista, quais os riscos de ampliação do enraizamento político desse campo ideológico? A sociabilidade burguesa coloca limites concretos para a realização da ética e dos direitos humanos. O caráter desigual e opressor da ordem do capital não assegura a igualdade e a emancipação. Ao contrário, reproduz de forma contraditória as mediações necessárias para sua manutenção. No entanto, a realização tanto da ética quanto dos direitos humanos, em‑ bora suponham escolhas valorativas não alienadas e possibilidades objetivas, inscrevem‑se nas posições teleológicas e alternativas da práxis, uma vez que os indivíduos sociais são dotados — no sentido histórico —, ainda que de forma desigual, de capacidades humano‑genéricas que lhes confere potencialidades para superar as indeterminações postas pela totalidade social. O espectro da extrema‑direita supõe um enfrentamento ético e político, especialmente pela mediação de projetos coletivos capazes de enfrentar de forma autêntica as condições materiais que estão na base das expressões con‑ temporâneas da barbárie. 440 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 A ética, uma modalidade de práxis, visa a transformação de comportamen‑ tos, formas de consciência e de valores que orientam as escolhas dos indivíduos sociais. Seu conteúdo histórico vincula-se às conquistas humanas que afirmam a liberdade como valor ético central e que orientam práticas concretas que, pela mediação da política, concretizam projetos de caráter humanitário e emancipa‑ dor. Os direitos humanos, considerados numa perspectiva histórica, assumem importância estratégica para a constituição da unidade na diversidade para formulação de tais projetos coletivos. O mesmo ocorre com valores conquista‑ dos no interior da luta de classes, como a democracia, a igualdade e a liberdade. Os direitos humanos e os valores éticos que expressam conquistas do gênero não perdem sua validade histórica, mesmo diante da barbárie. Permanecem como horizonte e referência para orientar as determinações da práxis. No entanto, tal defesa não pode ser formal, abstrata, supõe a crítica con‑ tundente e radical sobre as determinações históricas que geram a desumanização. Envolve, portanto, uma crítica radical da ordem do capital e sua forma contem‑ porânea de produção da barbárie e a construção de estratégias coletivas para seu enfrentamento. Outro desafio ético e na perspectiva dos direitos humanos é a crítica do cotidiano. A ultrapassagem da reificação do cotidiano contemporâneo é funda‑ mental para uma consciência crítica sobre as mediações particulares presentes em todos os poros da vida social que contribuem para reprodução ampliada da barbárie. As expressões da extrema‑direita na atualidade encontram na crise estru‑ tural de acumulação do capital sua base material. A barbárie não é fruto de grupos desumanos em sua essência, mas de um modo de organização social que gera uma particular forma de essência humana. A crítica teórica é um instrumento fundamental para superação da barbárie, mas torna‑se inócua se desvinculada da prática social e política. Por isso, insis‑ timos que entender e enfrentar o campo ideológico da extrema‑direita é uma agenda urgente para a esquerda. Os desafios para enfrentar o enraizamento político do ideário de extrema‑ ‑direita são enormes. A favor da ideologia de extrema‑direita jogam um peso diferenciado toda a cultura pós‑moderna e neoliberal, com seus traços consti‑ 441Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 tutivos: efêmera, irracional, fragmentária, contingencial, negadora de valores universais, das formas clássicas de organização e participação política (sindi‑ catos, partidos, movimentos sociais), de militarização da vida social, de produ‑ ção da cultura do medo e da insegurança, de banalização da vida. Vimos como os grupos de extrema‑direita se conectam pela rede virtual que favorece o anonimato e a ausência de controle social democrático. Cotidia‑ namente somos bombardeados pela mídia patronal com mensagens consumis‑ tas, individualistas, sensacionalistas, satanizadoras do Estado, das políticas sociais públicas, do espaço público, dos partidos e da política e sacralizadoras do mercado, do empreendedorismo, da celebridade, do intimismo, do subjeti‑ vismo fútil e rasteiro. A televisão, os blogs, faces e páginas pessoais ou da mídia estão saturados de mensagens e filosofias que dão sustentação ideológica para o campo ideoló‑ gico da extrema‑direita. Os opositores de esquerda, os jovens, os pobres, os negros, mulheres e homossexuais são vandalizados, estigmatizados e caricatu‑ rados diariamente pela mídia patronal nos conteúdos de seus vários programas diários ou editoriais “jornalísticos”. A terceira via, tão propalada pela extrema‑ ‑direita, por meio dos formadores de opinião, reveste‑se de um humanismo abstrato cuja concretização aparece de forma oscilante pela mediação da trans‑ cendência religiosa ou do governante forte. O projeto da extrema‑direita é alimentado por fundações, associações, institutos e grupos que articulam a chamada sociedade civil organizada, empre‑ sários e pensadores de ocasião, como é o caso de âncoras de jornal, comentaris‑ tas e filósofos profissionais que trabalham para a grande mídia patronal. Alguns se autointitulam independentes, vendendo livros e cursos. Pautam a vida social pelos seus interesses de classes. A barbárie que extermina só se torna informação de interesse público quando seu projeto está ameaçado. A barbárie do desem‑ prego, da falta de moradia, do agrotóxico nas nossas mesas, da degradação do meio ambiente, do trabalho escravo e infantil, da ação letal da polícia e das milícias nas periferias urbanas, dos coronéis nas zonas rurais, das privatizações, do sucateamento das políticas sociais não integram o conteúdo de suas análises. Uma análise um pouco mais detida dos princípios, regimentos e documen‑ tos publicados pelas entidades e grupos de extrema-direita indica a afirmação 442 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 do conservadorismo e de valores do humanismo abstrato: defesa da vida, da família, da paz social e da harmonia. No entanto, todos, sem exceção, defendem como direito natural a propriedade privada, que inclui os meios de produção obviamente, fundamento da desigualdade na ordem do capital. Indicam também traços xenofóbicos e segregadores, pois sempre identificam um outro como inimigo desses valores, em sua maioria comunistas, estrangeiros, imigrantes, negros e homossexuais. À mulher não é reservado nenhum papel ou lugar pú‑ blico e de liderança. A mídia patronal e alguns agentes “independentes” cumprem um papel funcional à reprodução de visões que alimentam o campo ideológico da extre‑ ma‑direita. O poder de comunicação — a fala fácil, direta, poucoaprofundada, parcial e saturada de sensacionalismo explorador das mazelas cotidianas — tem grande receptividade num contexto social despolitizado e cindido entre os pro‑ jetos e aspirações individuais e genéricas.47 A mensagem da extrema‑direita, embora faça referência a um nós, procura identificar na mazela comum da barbárie contemporânea aquilo que remete à profundidade do eu, aquilo que permite a identificação imediata entre os anseios, angústias, incertezas e medos produzidos pela realidade comum de todos, aqueles que são intimamente expe‑ rimentados por cada um. O terror produzido pelo fundamentalismo religioso, pelo terrorismo, pelo narcotráfico, pela violência urbana e rural é dissociado do fundamentalismo de mercado, este último sequer considerado como real. Todos esses elementos aparecem no material analisado neste ensaio e colocam o desafio ético e polí‑ tico para sua profunda compreensão e enfrentamento. Recebido em 9/5/2014 ■ Aprovado em 2/6/2014 47. Dois episódios que ocorreram após a realização do seminário que baliza este ensaio merecem destaque: 1) as manifestações de apoio da jornalista Rachel Sheherazade do SBT, em fevereiro de 2014, aos “justiceiros do Flamengo” na cidade do Rio de Janeiro. O grupo espancou um jovem acusado de roubo e, posteriormente, o deixaram nu e preso a um poste, pelo pescoço, com uma trava de bicicleta; 2) em maio de 2014, Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, foi agredida até a morte por dezenas de moradores de uma comunidade na cidade do Guarujá, litoral de São Paulo, depois da publicação de um retrato falado em uma página no Facebook de uma mulher que realizava rituais de magia negra com crianças sequestradas. 443Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014 Referências bibliográficas ALMEIDA, A. Os skinheads brasileiros e os movimentos nacionalistas contemporâneos. In: VICTOR, R. L. (Org.). À direita da direita. 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Direitos humanos. Imperialismo. Criminalização da pobreza. Abstract: This article deals with the attacks to human rights and to social policies, in spite of their discursive power contemporarily. Such attacks were stressed by the end of the bipolarity between the United States (USA) and the ex‑Soviet Union (USSR) at the end of the 1980’s, by the USSR’s * Professora titular e emérita do Departamento de Serviço Social da Universidade de Brasília (UnB)/ Distrito Federal, Brasil. Vice‑coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Política Social (Neppos), do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Ceam) da UnB; pesquisadora do CNPq e líder do Grupo de Estudos Político‑Sociais (Politiza) do Programa de Pós‑graduação em Política Social da UnB, registrado no Diretório dos Grupos de Pesquisas do CNPq. E‑mail: potyamaz@gmail.com. ** Pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Política Social (Neppos/Ceam/UnB); membro do Grupo de Estudos Politiza do Programa de Pós‑Graduação em Política Social (PPGPS) da UnB; mestre e doutorando em política social pelo PPGPS/UnB. E‑mail: mcasiqueira@gmail.com. 447Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014 self‑dissolution in 1991, and by the transformation of the USA into a world superpower. However, when the USA became target of terrorist attacks, supposedly committed by poor countries, poverty was criminalized and became enemy number one. That fact explains the disassembling of the human rights, mainly the social ones, and of the public policies which aim at implementing them. Keywords: Social policy. Human rights. Imperialism. Criminalization of poverty. Introdução Tratar da temática conjugada da política social e dos direitos humanos implica reconhecer que tal política e tais direitos estão seriamente ameaçados, apesar da força discursiva que passaram a ter, desde o final dos anos 1980, com o término da Guerra Fria e do socialismo real. Com efeito, a partir dos anos 1990, generalizou‑se a ideia de que, com o fim da bipolaridade entre Estados Unidos (EUA) e União Soviética (URSS), e com a autodissolução desta, o mundo viveria em paz, sob a hegemonia da de‑ mocracia liberal norte‑americana. No entanto, foi justamente a América do Norte, defensora das liberdades individuais, que, nas palavras de Loïc Wacquant (2006), se transformou na primeira sociedade de “insegurança avançada” da história — uma sociedade que “promoveu a insegurança como princípio de organização da vida coletiva e forma de regulação das trocas socioeconômicas e dos comportamentos individuais” (p. 23). Para tanto, o modo de ser e de fazer negócios norte‑americanos foram estratégica e sistematicamente exportados, tanto para a periferia do capitalismo, da qual o Brasil faz parte, quanto para outros países e regiões capitalistas cen‑ trais. Nestes, é emblemático o caso da Europa que, na sequência da Segunda Guerra Mundial, se tornou dependente da ajuda estadunidense para sair dos escombros produzidos pelo conflito bélico e para compensar a perda de suas antigas e rentáveis colônias (Judt, 2008; Sader, 2003). Consequentemente, a partir daí, os Estados Unidos foram se tornando uma potência dominante, não só no continente europeu, mas em todo o mundo. Esse quadro indica, ademais, que não se pode falar em ameaça aos direitos humanos e à política social de forma abstrata ou pontual; mas, pelo contrário, exige situar tal ameaça no contexto mais amplo das concretas relações de poder 448 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014 econômico, político, cultural, militar e midiático, no qual, desde o fim do se‑ gundo pós‑guerra, os Estados Unidos vêm assumindo liderança inconteste. Por outro lado, é fato empírico que, na ausência de seu mais poderoso oponente — a URSS1 —, os Estados Unidos “elegeram” um novo adversário: a pobreza; ou melhor: os perigos que a pobreza interna e externa ao seu terri‑ tório passaram a representar sob a forma de terrorismo, narcotráfico, guerrilhas, corrupção, migração ilegal, inveja, fundamentalismo religioso, resistência ao consumismo e incapacidade de aceitação do American way of life (Sader, 2003). Indícios desse fato não faltam. Em 2002, em discurso na Conferência Internacional sobre Financiamento ao Desenvolvimento, na cidade mexicana de Monterrey, o então presidente George W. Bush declarou, em meio à emotividade pós‑11 de Setembro do ano anterior, que lutamos contra a pobreza porque a esperança é uma resposta ao terrorismo. Nós lutamos contra a pobreza porque a oportunidade é um direito e uma dignidade humana fundamental. Nós lutamos contra a pobreza porque a fé o exige, e a consciência o pede. E nós lutamos contra a pobreza com a convicção cada vez maior de que progressos importantes estão ao nosso alcance. (Departamento de Estado dos Estados Unidos, 2014) Tal declaração reiterava, sem dúvida alguma, a nova postura maniqueísta dos Estados Unidos de encarar pobreza como contraparte de “condutas desvian‑ tes” (terrorismo, principalmente), como se ambos fossem faces de uma mesma moeda, cujo combate constituiria uma cruzada de fé ou um ato de generosida‑ de de uma nação predestinada a ser a guardiã do planeta. Contudo, na contramão do discurso, os Estados Unidos, como diz Wacquant (2006), apresentam taxas de criminalidade mais altas do que em outras nações 1. Depois de 1945, isto é, com o término da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos da América “estabeleceram com a União Soviética — a outra superpotência da época — uma espécie de condomínio mundial caracterizado por uma furiosa rivalidade que será designada de Guerra Fria” (Ramonet, 1998, p. 43). Entretanto, com a “implosão da União Soviética”, em 1991, os Estados Unidos se viram “colocados em uma situação que nenhuma potência conheceu” no século XIX. Desde então, institui‑se no mundo uma hegemonia única e exclusiva, fato considerado sem igual na história da humanidade (Idem). 449Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014 desenvolvidas e índices alarmantes de homicídios e encarceramentos. Isso, sem falar da sua superioridade na corrida armamentista mundial que, depois da Segunda Grande Guerra e da Guerra Fria que lhe sucedeu, aparentemente não teria por que continuar existindo. Diz‑se aparentemente porque se sabe que a indústria armamentista e o estímulo a guerras é uma das formas de o capitalis‑ mo se reproduzir, ampliar e dissipar riquezas (Mészáros, 2009) — coisa que nenhum país do globo exercitou tão bem como os Estados Unidos. Que o digam as contínuas vitórias econômicas e políticas desse país no plano internacional, incluindo a recuperação da Europa mencionada, as quais tiveram como leitmotiv “a intensificação do comércio de armas” (Ramonet, 1998, p. 45). Com efeito, desde 1945, os Estados Unidos vêm se envolvendo, direta ou indiretamente, em centenas de conflitos armados, movidos, em última instância, por interesses econômicos.Dentre os mais importantes e escancarados (seja por meio da atuação militar efetiva, ajuda logística, financiamentos diretos e indiretos, seja mediante lucrativas vendas de armamentos),2 pode‑se destacar: Irã (1953); Guatemala (1954 e 1993); Baía dos Porcos — Cuba (1961); República Domini‑ cana (1961); Brasil3 (1964); Iraque (1968, 1990 e 2003); Chile (1973); Afeganis‑ tão (1979 e 2001); Turquia (1980); Nicarágua (1981); Granada (1983); Panamá (1989); Bósnia‑Herzegovina (1995); Iugoslávia (1999); Venezuela (2002); Líbia (2011), entre muitos outros4 (Chomsky, 1999; Mitchell e Schoeffel, 2005). Além dessas intervenções, outras dezenas foram e ainda são realizadas com vistas a monitorar os passos de diversas nações. Segundo reportagem de 2. Como no famoso escândalo Irã-Contras, em que os Estados Unidos venderam armas ao Irã (em meio a um embargo internacional sobre a venda de armas para esse país), sendo que parte dos lucros foi utilizada para financiar o movimento anticomunista dos “Contras”, na Nicarágua, a partir de 1979. 3. Que por muito pouco não foi invadido pelos Estados Unidos, como parte da chamada Operação Brother Sam. 4. Como os demais países da América do Sul, a saber: Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai, que (com o Chile e o Brasil) integraram um movimento orquestrado entre todos os regimes militares autoritários deste continente, denominado Operação Condor. Esta iniciativa, chancelada pelos Estados Unidos, tinha como objetivo neutralizar todas as investidas socialistas, comunistas e demais organizações não afinadas com os regimes autoritários dos respectivos países. Justamente por ser uma manobra articulada no âmbito de toda a América do Sul, criou‑se uma rede de informações, investigações e repressão interligada, cooperativamente, entre todos os seus membros. Essa rede facilitou a ocorrência de atrocidades, como assassinatos, torturas, sequestros e extradições ilegais. 450 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014 2013 do site canadense Global Research, os Estados Unidos, até aquele mo‑ mento, interviram (direta ou indiretamente), em nada menos do que 74 países, em especial na África e no Oriente Médio, sendo que o atual presidente Barack Obama ampliou o espectro dessas atuações em relação ao seu antecessor, George W. Bush. Isso confirma o intento autodeclarado dos Estados Unidos de se tornar o grande império global.5 Entretanto, em todas as intervenções estadunidenses a questão dos direitos humanos e da política social foi matematicamente calculada. Em vista disso, tal questão não constituía um assunto da alçada doméstica dos países monito‑ rados, mas algo cujo enfrentamento devia passar pelo crivo dos Estados Unidos, de suas forças armadas, de sua inteligência, de seus políticos e investidores, bem como de órgãos multilaterais sintonizados com a sua ideologia. Tome‑se como exemplo a ajuda financeira concedida pelo Fundo Monetário Internacio‑ nal (FMI), Banco Mundial e suas instituições afiliadas a muitos desses países: tal ajuda era acompanhada de condicionalidades que impunham medidas de ajuste nas economias dos países tomadores de empréstimos (os chamados ajus‑ tes estruturais), as quais contribuíram para o surgimento de nações com poten‑ te capacidade agroexportadora, mas, ao mesmo tempo, com uma população pobre e desfalcada de direitos sociais. Violência institucionalizada contra os direitos humanos a partir do domínio imperial estadunidense Efetivamente, a postura imperial norte‑americana tem estimulado ataques frontais aos direitos humanos, proclamados no século XVIII, na esteira das conquistas iluministas que combatiam as arbitrariedades do Estado absolutista e elegiam o indivíduo como “sujeito da liberdade e da criação” (Touraine, apud Acanda, 2006, p. 52); e responde, consideravelmente, pela disseminação inter‑ 5. Isso pôde ser verificado após os escândalos da rede clandestina de vigilância eletrônica internacional (liderada pelos Estados Unidos), denunciada pelo ex‑técnico da Agência Nacional de Segurança (NSA), Edward Snowden, em 2013. 451Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014 nacional desses ataques e pela prática da violência cotidiana no seio de cada nação, incluindo os Estados Unidos. Como observa David Harvey (2005, p. 40), “[esse] país tem um histórico de intolerância [interna] que nega seu apego à sua Constituição e ao regime de direito”. Porém, é em relação ao mundo externo que a sua intolerância se exa‑ cerba com falsas justificativas. Suas constantes intervenções bélicas em nações menores, identificadas como inimigas, tem‑se feito a pretexto de repressão preventiva, que passa por cima de acordos internacionais e da soberania dessas nações. Seu tradicional apoio e patrocínio a golpes de Estado onde lhe der na telha, já lhe rendeu a pecha de “maior ‘Estado irresponsável’ da terra” (Harvey, 2005, p. 40). Suas numerosas e diversificadas formas de interdição econômica e política em países e instituições internacionais, como os “embargos comerciais ao Iraque e a Cuba”, e ingerências favoráveis à adoção de políticas de austeridade junto ao FMI, têm sido tão deletérias quanto a “força física” (Idem). Contemporaneamente, a exclusiva preponderância do seu poder imperialista tornou-se uma realidade inusitada porque tal poder, conforme Ramonet (1998), não mais se mede, como acontecia nos impérios anteriores, pela influência geográfica e militar, mas “resulta essencialmente da supremacia no controle das redes econômicas, dos fluxos financeiros, das inovações tecnológicas, das trocas comerciais, das ex‑ tensões e projeções (materiais e imateriais) de toda espécie” (p. 45). Daí o seu magnetismo e força em um momento histórico de relativa con‑ solidação de fronteiras geográficas. De fato, desde a Guerra Fria, nenhuma nação capitalista sente‑se imune ao poder de influência norte-americano, seja em que área for. Caso emblemá‑ tico é o da “indústria do imaginário” que, como nenhum outro país, os Estados Unidos souberam capitalizar tão bem. Trata‑se, em linhas gerais, da indústria de filmes, músicas, modas, bebidas e comidas, dentre outros produtos culturais qualitativamente ruins, embora não sem reações de alguns países, como a Fran‑ ça.6 No entanto, tem‑se que admitir que o seu poder de penetração e controle 6. Foi na França, segundo Judt (2008, p. 232), que os planos de expansão internacional da Coca‑Cola “provocaram turbulências públicas. Quando Le Monde revelou que a companhia havia estabelecido a meta 452 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014 de mentes e preferências é inegável. Para ficar apenas com um produto, vale lembrar que, na Europa, entre 1947 e 1949, a Coca‑Cola Company abriu fábricas na Holanda, Bélgica, em Luxemburgo, na Suíça e Itália. Cinco anos após ter sido criada, a Alemanha Oci‑ dental contava com 96 dessas fábricas e se tornara o maior mercado fora dos Estados Unidos. (Judt, 2008, p. 232) Confiante em seu poderio universal, alicerçado em uma economia “flame‑ jante”, no dizer de Ramonet (1998), os Estados Unidos radicalizaram as suas idiossincrasias contra o seu mais novo inimigo: as subclasses (underclasses) perigosas, internas e externas. Em 1990 o governo de George W. Bush criou uma nova doutrina de segurança nacional (ou de guerra), em represália à in‑ vasão do Kuwait pelas tropas do Iraque de Saddam Hussein; e, em 2001, essa doutrina foi consolidada após os ataques terroristas às torres gêmeas de Nova York (Sader, 2003). Tal consolidação instituiu o que foi denominado de guerra infinita contra o terrorismo, a qual passou a ser conhecida como guerra assimé‑ trica, devido à imprevisibilidade dos atos de terror (Sader, 2003, p. 31). E, a partir de então, os pobres, tidos como empecilhos e potenciais agressores a uma sociedade pautada pelo ideárioda acumulação incessante de lucro e riqueza, graças à mecânica exploração do trabalho humano, deveriam sofrer o seguinte enquadramento: trabalhar para prover o seu autossustento ou ser criminalizados. Esta é a lição ou a ética capitalista da “responsabilidade”, atualmente em voga, a qual expressa, segundo Dean (2007), o triunfo do princípio da obrigação do indivíduo pelo seu próprio bem‑estar sobre o direito de ser assistido; ou o que pode ser descrito como retração da responsabilidade pública para com as ne‑ cessidades dos cidadãos. de 240 milhões de garrafas a serem vendidas, em 1950, houve objeções veementes — incentivadas, mas não orquestradas, pelos comunistas, que se limitavam a advertir que os serviços de distribuição da Coca‑Cola funcionariam também como rede de espionagem norte‑americana”. Porém, cabe informar que, a despeito das resistências francesas à “coca‑colonização”, havia, na Europa, de modo geral, noções comuns (à direita e à esquerda) a respeito das evidentes ambições imperialistas por trás da expansão cultural de seus produtos, que iam dos filmes de bang‑bang a refrigerantes. 453Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014 Incremento do processo de criminalização da pobreza e de afrontas aos direitos humanos Como era previsível, o crescimento de crimes cometidos contra segmentos sociais desprotegidos, para além das fronteiras dos Estados Unidos, não se fez tardar. Porém, parafraseando Dean (2007), considera‑se que a proliferação da violência expressa nesse crescimento, atingindo países periféricos como o Brasil, se deu de forma incremental e não abrupta. Além disso, a expansão progressiva do capitalismo em busca de lucros crescentes não criou novas fór‑ mulas de destruição da natureza e da vida humana, mas renovou e intensificou as de sempre. Dados veiculados pelo Relatório Anual da Anistia Internacional, de 2009, revelam que, no bojo da crise sistêmica e estrutural do capital, ressaltam a se‑ guinte realidade: em 2008, 81 países restringiram a liberdade de expressão em seu território; 78% das execuções ocorreram em países do G‑20;7 27 países negaram asilo a pessoas que poderiam morrer se voltassem para sua terra de origem; e, em 47% dos países do G‑20, pessoas sofreram julgamentos injustos. Ainda de acordo com o referido Relatório, o mundo está passando por uma grave e preocupante crise de direitos humanos, que não tem explicação em si mesma, mas faz parte de uma situação calamitosa de desigualdade e inseguran‑ ça sociais prestes a explodir. As agressões aos direitos humanos são também praticadas por setores da sociedade contra cidadãos (nativos ou estrangeiros), e entre concidadãos, mo‑ tivados por preconceitos de classe; ódios raciais, religiosos, ideológicos; into‑ lerâncias a opções sexuais; recrudescimento de nacionalismos, xenofobias, separatismos; moralismos, superexploração do trabalho e criminalização da pobreza (Alves, 2005). Vários estudos, como os de Wacquant, indicam a prevalência contempo‑ rânea de um “Estado penal” que, rejeitando a ética da proteção social, crimina‑ 7. O Grupo dos 20 é formado por representantes governamentais, geralmente ministros das Finanças, e banqueiros das dezenove maiores economias mundiais, mais a União Europeia (UE). Esta, por sua vez, é formada por 28 países que se uniram para realizar parcerias econômicas e políticas. 454 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014 liza e pune os pobres, os diferentes, os desiguais, os estranhos, que não conse‑ guiram se colocar acima ou à parte do vasto sistema de insegurança social capitalista. Nesse sistema, pontua Wacquant, referindo‑se à América do Norte, só escapa “a alta nobreza das empresas e do Estado” (2006, p. 24), o que reve‑ la o paroxismo a que chegou a divisão de classes numa época em que muitos acreditam não mais existir classes sociais. Efetivamente, sob a égide do Estado penal, as políticas de enfrentamen‑ to à pobreza e à desigualdade social tornaram‑se antissociais (Pereira‑Perei‑ ra, 2009). E, como tal, desincumbiram‑se de quaisquer responsabilidades que possam caracterizar deveres do Estado e direitos dos cidadãos. Pautadas por uma ortodoxia moralista burguesa, que contrapõe o mérito ao direito e a autorresponsabilização individual à proteção social pública, tais políticas — a despeito de se manter contraditórias e, por isso, passíveis de reversões — têm apenado a quem mais delas precisam — os cidadãos que vivem do seu trabalho — e privilegiado os interesses do capital. É o que será discutido a seguir. Tendências regressivas da política social sob a égide do Estado penal: da idade de ouro à idade de bronze Se entre os anos 1945 e 1975 as políticas sociais das chamadas democra‑ cias ocidentais conheceram uma “fase de ouro”, que lhes permitiu realizar, mediante intervenções públicas, melhorias nas condições de vida e de trabalho de considerável parcela da população, a partir dos anos 1980 tais políticas in‑ gressaram em outra fase: a de “prata” (Moreno, 2012). Esta começou a romper com a responsabilidade democrática da “idade de ouro” anterior, que prestigia‑ va os direitos humanos. O primeiro grande passo nessa direção foi o desmonte do amplo consen‑ so interclassista, estabelecido após a Segunda Guerra Mundial, em torno da proteção social pública. E isso ocorreu no contexto da crise capitalista do final dos anos 1970 que, a par de produzir o esgotamento do modelo econômico keynesiano‑fordista, sustentáculo do Estado social, expandiu a ideologia 455Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014 neoliberal estadunidense para a Europa e demais países desenvolvidos, a começar pela Grã‑Bretanha. Tal expansão exigiu a adoção de políticas eco‑ nômicas e sociais ortodoxas, que pregavam: cortes nos gastos sociais, retração da intervenção pública, ênfase no controle da inflação, forte disciplina finan‑ ceira e enfraquecimento dos movimentos e organizações trabalhistas ( Moreno, 2012, p. 20). Embora essas políticas não tenham se disseminado uniformemente e nem rendido ativos políticos homogêneos aos diferentes governos nacionais que as promoveram, é fato que, onde quer que elas tenham se realizado, os direi‑ tos humanos perderam força. Coerentemente, “uma inédita aversão à inter‑ venção estatal” (Moreno, 2012, p. 21) foi se robustecendo, no mesmo passo em que uma fé fundamentalista no trabalho assalariado e na capacidade do mercado (inclusive o financeiro) de gerir a vida econômica e social se trans‑ formou em dogma. Em vista disso, as teses neoliberais, enaltecedoras “da eficiência, da cria‑ tividade e da inovação mercantis” (Idem) ressuscitaram antigas doutrinas eco‑ nômicas, como as de Schumpeter, que postulava, entre outras orientações, a destruição criadora e a emergência de empresários audaciosos (Jessop, 2013). Além do mais, a fé fundamentalista e suas teses, consolidadas no chamado Consenso de Washington, de 1989, fortaleceram a convicção neoliberal de substituir o keynesianismo pelo monetarismo. Foi sob a batuta monetarista que a “idade de prata” da política social ganhou consistência e, conforme Moreno (2012), sucumbiu aos ditames do mercado. Desde então, tal política convive com o desmonte gradativo dos direitos humanos, principalmente os sociais; a privatização de bens e serviços sociais; o enaltecimento do trabalho assalariado, remunerado ou autorrentável, como o meio mais digno e eficaz de enfrentamento da pobreza; e a sua foca‑ lização na pobreza extrema, sob a mais estreita forma de “alívio” (relief) as‑ sistencial. Paralelamente, verificou-se o esvaziamento da atribuição primordial dessa política, que é a de concretizar direitos sociais, e o culto à meritocracia; isto é, ocorreu a reificação de uma prática que, ao mesmo tempo em que ne‑ gava ao pobre a proteção social pública, o submetiaao teste seletivo do mere‑ cimento, que, a despeito de se considerar imparcial e moralmente defensável, 456 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014 pautava‑se pelos princípios da hierarquia e da competição. Logo, em vez de direitos, tais políticas passaram a operar mecanismos de triagem entre quem merecia ou não ter as suas necessidades “aliviadas” pelo Estado, sendo que mérito, neste caso, tinha sabor de demérito, visto que o merecedor era tido como fracassado. Tem-se, assim, uma flagrante sucumbência da política social aos impera‑ tivos do mercado, a qual pode ser sucintamente descrita como uma drástica guinada para a extrema‑direita das suas características social‑democratas, vi‑ gentes entre os anos 1945 e 1975. É por isso que se diz que a política social contemporânea, além de se ter tornado “de direita” e se colocado mais a servi‑ ço das necessidades do capital do que das necessidades sociais (Gough, 2003), está sendo impedida de concretizar direitos sociais — estes sim uma relevante conquista civilizatória nos limites do capitalismo. E esse fato, evidentemente, constitui a maior tragédia para as parcelas mais desprotegidas da sociedade porque, sem direitos assegurados, elas ficam sem salvaguardas. Desde então, tornou‑se compulsória uma prática moralista de ativar os pobres para o mercado de trabalho, ou para atividades autossustentáveis, por meio das quais poderiam obter renda para sobreviver e “comprar” benefícios e serviços sociais que antes o Estado tinha o dever de distribuir, incondi‑ cionalmente. Cristalizou‑se, desse modo e à margem dos direitos de cidadania, o prin‑ cípio da autorresponsabilização, já referido, o que em outras palavras quer dizer: autonomia econômica dos indivíduos por meio de sua inclusão ativada pelo Estado nos precários circuitos empregatícios disponíveis (Siis, 2012). Com base nesse princípio — que não é novo e remonta à famigerada Lei dos Pobres inglesa, instituída pelos liberais no século XIX —, reafirma-se a ideologia liberal de que “todos devem ser considerados responsáveis tanto pela sua pobreza quanto pelo seu comportamento” (Sader, 2003, p. 44); e, portanto, a pobreza não deve ser utilizada para desculpar erros ou crimes cometidos pelos seus portadores. Tal tendência se agravou ainda mais com o passar do tempo. No início dos anos 2000, a legitimação da política social como ação punitiva da pobreza fa‑ cilitou a sua entrada na chamada “idade de bronze”, de acordo com Moreno 457Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014 (2012), na trilha do processo de agudização da crise capitalista global e sistê‑ mica, em 2008. Mas antes de tecer comentários sobre essa última fase de decadência da política social, convém trazer à tona os ataques de filiação pós-moderna que, em consonância com o ideário de uma “nova direita”8 emergente, foram des‑ feridos contra a pretensão dessa política de ser uma área de conhecimento. Assim, se no seu período de ouro tal política teve algum estofo teórico, agora o seu perfil é outro. Ela vem sendo obrigada a restringir-se a uma ação que, como tudo o que se baseia em dogmas, palavras de ordem e ideias preconce‑ bidas, recusa a teoria como recurso necessário a um processo de conhecimen‑ to que transcende o senso comum e especulações intuitivas. Daí a reiteração do entendimento, estrategicamente difundido, de que a teoria, no campo da política social, é um luxo intelectual, e não uma necessidade (Bruyne, Herman e Schoutheete, 1977, p. 101). Ou daí o prevalecimento de posturas acríticas e miméticas, adeptas do pragmatismo pós‑moderno, que produzem indagações como essas (Sader, 2003, p. 13): “Para que teoria, se os índices do mercado afirmam o que é e o que pode ser feito; o que vale a pena e o que não adianta; o que é bom, bonito e legítimo?”. Ou, então: para que servem as grandes nar‑ rações teóricas, típicas da era moderna, se estamos vivendo em outra era, a pós‑moderna, que se contenta com o conhecimento de pequeno porte, ou com o que o noticiário da televisão e os colunistas econômicos divulgam? (Sader, 2003; Boron, 2001). Não admira que, em meio a essas mudanças, e certamente por causa delas, a pobreza, que teima em crescer até nas cidades vitrines do chamado Primeiro Mundo, como Nova York, Londres, Paris, seja considerada um delito ou um símbolo da barbárie terceiro‑mundista, que ofende a civilização capitalista. Por isso, a pobreza passou a servir de álibi ao controle punitivo, seja por meio da repressão policial saneadora, seja por meio da educação corretora e adestrado‑ ra para o trabalho impositivo (o workfare), que vem se tornando a forma privi‑ legiada de “inclusão excludente” (Martins, 1997) na atual idade de bronze da política social. 8. Fusão de neoliberais e neoconservadores. 458 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014 Motivos e práticas da atuação crescentemente perversa da política social Segundo Sader (2003, p. 41), depois do atentado às torres gêmeas de Nova York, os Estados Unidos, nas suas relações internacionais, sepultaram antigos conceitos políticos como “dissuasão”, “contenção”, “aliança”, “ajuda interna‑ cional”, “relações entre Estados fortes e fracos”. Em compensação, surgiu não só uma nova linguagem, mas também uma nova filosofia de regulação social, acompanhada de uma crítica radical ao Estado social e de uma firme condena‑ ção dos direitos sociais. E isso não só em relação às pessoas pobres, mas também a países e continentes inteiros, terceiro‑mundistas. Acreditando ser missão sua travar uma guerra infinita entre a civilização e a barbárie, e identificando a pobreza com o caldo cultural desta última, nada mais natural do que utilizar a política social e particularmente a assistência como um dentre outros instrumentos estratégicos nessa guerra. Isso explica a maior ênfase nos projetos correcionais do que sociais; e mais empenho no fomento de medidas que despertem a consciência de cada um acerca de seus atos, do que no resgate social da miséria e do abandono (Sader, 2003) a que muitos condenados pelo sistema estão sujeitos. E, como corolário, tem sido incentivada a substituição do bem‑estar como direito (Welfare) pelo bem‑estar em troca de trabalho (workfare) que, de regra, se confunde com sa‑ crifícios e expiações de culpas morais. Esta tem sido a ortodoxia do momento, na qual, como nunca, a relação entre política social e ética capitalista do trabalho se tornou visceral. Acossada por uma feroz competição, a política social tem sido instada a deixar de ser “passiva” para ser “ativa” pela via da indução dos demandantes da proteção social pública para o exercício de atividades econômicas. Assim, ainda que tal transição se apresente como uma espécie de proteção ao desemprego estrutural e massivo que, desde os anos 1970, se tornou um dos maiores fantasmas dos países capitalistas centrais, ela é francamente funcional à política econômica geral. Seus efeitos sobre a legitimidade do trabalho assalariado como fator primaz de produção, de valorização do capital e de reprodução social da força de trabalho são evidentes, assim como se torna clara a importância desses efei‑ tos para o fortalecimento do credo neoliberal de que o mercado de trabalho 459Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014 seria o melhor agente de bem-estar dos indivíduos. Afinal, não se pode esquecer que é a exploração do trabalho, por meio do mercado laboral, e não a eficiência pura e simples deste mercado, que garante o crescimento capitalista. Consequentemente, o direito à proteção contra os abusos do trabalho as‑ salariado tem se esvanecido porque a conquista do trabalho em si, ou como simples meio de obtenção de rendimentos econômicos, tornou‑se essencial. Poder trabalhar, em conformidade com a lógica capitalista, inclusivena con‑ cepção de setores ditos progressistas, transformou‑se no melhor ganho político e maior “direito de cidadania” conquistado pelos que foram obrigados a depen‑ der das políticas passivas de bem‑estar social (leia‑se incondicionais). Essa é a ilusão de corte schumpeteriano, num primeiro momento de predomínio do modelo monetarista de desenvolvimento capitalista, e de corte ricardiano (tri‑ butário da economia política clássica) da atual idade de bronze da política social, cujo lema é o bem‑estar humano por meio do trabalho remunerado; ou do que foi concebido nos Estados Unidos desde os anos 1970, que é a substituição progressiva e perversa do Welfare pelo workfare. Embora seja difícil definir o workfare, este pode ser descrito, segundo Gough (2000), como um contraponto à política social incondicional e como direito. Constitui uma política compatível com um tipo de intervenção social requerido por uma economia capitalista internacionalizada, de última geração, preponderantemente baseada no conhecimento e na financeirização (Jessop, 2013). Tais formas de funcionamento econômico tem sido associadas a Schum‑ peter e a David Ricardo porque, no que se refere ao primeiro, elas privilegiam o conhecimento de ponta, o empreendimento audaz, o empoderamento e a autossuficiência em relação ao Estado. Em vista disso, as pressões estruturais e políticas para desmantelar direitos, reduzir salários e diminuir gastos sociais são enormes, o que induz ao prevalecimento de medidas sociais ativadoras de mecanismos que reforcem a rentabilidade econômica. A privatização e a mo‑ netarização dos programas sociais, atualmente em voga, são exemplos elo‑ quentes dessa indução. Mas é a associação das políticas sociais atuais às teorias ricardianas que caracterizam a idade de bronze dessas políticas. Nessa asso‑ ciação — cabe ressaltar com base em Jessop (2013) —, transparece a adequa‑ ção das políticas sociais à contemporânea forma de acumulação capitalista 460 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014 ancorada nas finanças — e não só no domínio do conhecimento. Sendo Ri‑ cardo o teórico do comércio internacional e defensor da exploração do fator de produção mais barato e abundante (o trabalho), é nele que a ética capita‑ lista corrente vem se inspirando. E, consequentemente, a ruptura com os di‑ reitos sociais (agora chamados apenas de entitlements) tem radicalizado no rebaixamento dos salários, na flexibilidade do mercado e na diminuição dos custos sociais do Estado. Trata‑se, em suma, do aprofundamento mais acen‑ tuado dos mandamentos neoliberais do livre mercado e da competitividade privada, que se traduzem nas seguintes tendências de extração ricardiana: desregulação, tanto do mercado para liberar a competição, quanto dos orde‑ namentos legais e do controle dos Estados nacionais; privatização do setor público; residualização e focalização da política social com o objetivo de criar condições favoráveis à generalização de uma cultura mercantilista; interna‑ cionalização da economia interna para evitar incompatibilidades com os fluxos econômicos mundiais, precaução contra pressões competitivas e, su‑ postamente, propiciar o aprendizado de boas práticas comerciais e financeiras; e estímulo ao consumismo. É nessa conjuntura que as políticas sociais, especialmente a assistência, tornaram‑se reféns da prédica da ativação e do workfare. E, como tal, se con‑ verteram em estratégias complementares de exploração econômica ricardiana do trabalho, considerado este na sua mais bitolada expressão de insumo‑chave ou mero fator de produção a serviço da reprodução do capital (Jessop, 2013). Eis por que o primeiro compromisso da política de assistência social, transvertida em alívio, passou a ser com o trabalho (seja ele qual for), e não com o atendimento de legítimas necessidades do trabalhador; e, consequen‑ temente, ela não mais funciona como um um colchão de segurança capaz de impedir que as pessoas pobres se afundem na miséria. Ademais, o workfare transforma a assistência social num trampolim que serve apenas para lançar o pobre para fora da sua órbita em direção ao mundo do mercado, onde o trabalho é desprotegido, precário e flexível. Em alguns casos, o workfare prevê educação e treinamento para tornar laboriosos os beneficiários da as‑ sistência social, mas esse expediente faz parte do processo de ativação para mercado de trabalho. 461Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014 Nos Estados Unidos, onde o workfare foi concebido, ele tem relação di‑ reta com o conceito de subclasse (underclasses), para identificar desvios de comportamento ou uma cultura da dependência específica dos pobres, enquan‑ to na Europa, o workfare tem como referência o conceito de exclusão social (Barbier, 2008). Mas em ambas as concepções percebe‑se que, a despeito de algumas diferenciações, eles se distanciam da tradição de análise crítica do sistema que produz a pobreza. A esse respeito, Gough (2000) assinala que tais conceitos expressam um evidente afastamento da análise de tradição marxista, que se centra na categoria classe social; e, para ressaltar a estreita identificação funcionalista desses conceitos, de raiz durkheimiana, Gough lembra que nem o mesmo a categoria status, tributária de Max Weber, é levada em conta. São as categorias anomia, integração, solidariedade, tomadas de empréstimo de Émile Durkheim, que estão em alta. As desventuras dos direitos humanos As implicações das mudanças regressivas das políticas sociais para os direitos humanos têm sido desastrosas e bem conhecidas por aqueles que con‑ seguem enxergar para além da aparência. Todavia, vale listar os principais óbices que essas mudanças vêm impondo a esses direitos nas suas três dimensões: civil, política e social (incluindo‑se na dimensão social os chamados direitos difusos). Começando pelos direitos sociais, cabe ressaltar que, sob o influxo da globalização neoliberal, pós‑moderna e “pelo alto”, como denomina Otávio Ianni (2004), e das aceleradas inovações tecnológicas que requerem menor quantidade de mão de obra — a despeito da ênfase nas políticas de ativação para o trabalho — 2/3 da população mundial continuam drasticamente atin‑ gidos pelo desemprego e insegurança social. Isso quer dizer que apenas 1/3 dos habitantes do planeta foi, e está sendo, contemplado pelos benefícios dessa globalização ou pela oferta de bens, serviços, conhecimentos e infor‑ mações que ela propicia via mercado — mas sem que esse 1/3 esteja livre da possibilidade de marginalização. Isto porque a busca obsessiva de eficiência 462 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014 e lucratividade neoliberal, por meio de feroz competitividade, só faz aumen‑ tar os números dos descartáveis. E, nesse processo, os pobres, seja de que lugar for, são, pela sua própria condição de classe, irremediavelmente tragados pelo chamado “darwinismo social”, isto é, pela atitude expressa no ditado popular de que “quem for pobre que se quebre”, ou aos vencedores o apoio e aos perdedores o extermínio. Diante dessa tendência, a política social deixou de ser universal para se tornar focalizada na indigência, com toda gama de atentados aos direitos sociais que essa orientação provoca. Nessas circunstâncias, ocorre o seguinte círculo vicioso: o desmonte dos direitos sociais tem como consequência a quebra do protagonismo do Estado na provisão e na garantia da política social, ficando essa provisão por conta do mercado e das organizações da sociedade civil, que não têm poderes para garantir direitos. Mas isso, como diz Alves (2005), longe de produzir sentimentos de solidariedade, gera divisões. Em sociedades em que predominam abismos sociais e em que o Estado não está mais incumbido de implementar políticas redistributivas e instituirprincípios de justiça social, “as classes abastadas se isolam em sistemas de segurança privada” (Alves, 2005, p. 27); e a população cobra dos legisladores diminuição da idade penal de adolescentes em conflito com a lei e penas au‑ mentadas para os crimes comuns, aprofundando intolerâncias sociais preexis‑ tentes. Com isso, agridem‑se, também os direitos civis. No Brasil os direitos civis possuem uma história notória de violações. Primeiro, porque eles não funcionam nas ditaduras, e o país já experimentou dois longos períodos de regime ditatorial cujas marcas ainda estão presentes. Nestes casos, a liberdade de ir e vir, de expressão, de imprensa, de organiza‑ ção, de pensamento e de acesso a justiça, é cerceada. Segundo, porque quan‑ do essas liberdades são restabelecidas, durante os períodos denominados de redemocratização, a população não mais acredita nas instituições ou tem medo delas. Na última e atual experiência de redemocratização do país, a Consti‑ tuição federal, promulgada em 1988, resgatou os direitos civis e inovou ao criar outros direitos, como o de habeas data, com base no qual “qualquer pessoa pode exigir do governo o acesso a informações sobre si, existentes nos registros públicos, mesmo as de caráter confidencial” (Carvalho, 2001, 463Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014 p. 209); e o mandado de injunção, “pelo qual se pode recorrer à Justiça para exigir o cumprimento de dispositivos constitucionais ainda não regulamenta‑ dos” (Idem). Além disso, a referida Carta Magna definiu o racismo e a tortura como crimes inafiançáveis e previu a defesa do consumidor. Foi nesse contexto que também foram criados o Programa Nacional dos Direitos Humanos e os Jui‑ zados Especiais de pequenas causas cíveis e criminais, para tornar a justiça mais acessível (Carvalho, 2001). Isso significou inovações legais e institucio‑ nais importantes, mas que, na prática, encontram severas limitações. A falta de garantias desses direitos no que concerne à segurança individual, à integri‑ dade física e ao acesso à justiça responde pela grande abstinência no uso desses recursos legais, seja porque o interessado não quer contato com a polí‑ cia, seja porque a justiça é lenta, cara e seletiva. Poucos são os crimes de ho‑ micídio verdadeiramente investigados, principalmente se a vítima for pobre ou anônima. Por outro lado, a descrença no sistema político e nos políticos em si tem desestimulado o exercício dos direitos políticos por parte de grande parcela da população. Assim, apesar de a Constituição federal de 1988 ter inovado também neste âmbito, facultando o voto ao analfabeto e ao jovem a partir dos dezesseis anos de idade, muitos eleitores quando não votam por obrigação, quase sempre votam contra alguém ou por protesto (Carvalho, 2001). Com isso, agridem‑se os direitos políticos conquistados a duras penas pelos movimentos democráticos e, correlativamente, agridem‑se os demais tipos de direitos. Recentemente, ganharam visibilidade os chamados direitos difusos, que, para vários analistas, são extensões dos direitos sociais num mundo globaliza‑ do e tecnologicamente avançado (Pisón, 1998). Tais direitos refletem ainda as novas realidades que afetam o planeta e as transformações globais, requerendo solidariedades e entendimentos entre os seres humanos, como: o direito à paz, ao meio ambiente saudável, à autodeterminação dos povos, à preservação cul‑ tural da humanidade. Estes são direitos que interpelam o individualismo neoli‑ beral e as fragmentações pós-modernas, ao tempo em que desafiam governos e sociedades a encontrarem saídas supranacionais, mesmo que regionalizadas, para o seu enfrentamento. 464 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014 É nesse ambiente repleto de contradições que a política social se encontra e precisa voltar a estabelecer vínculos orgânicos com a cidadania para que in‑ clusive se justifique como social. Mas para que isso aconteça faz‑se necessária a construção de um projeto contra‑hegemônico pelas forças sociais que acredi‑ tam ser possível construir outro mundo e que nem tudo está perdido. Ponderações finais Um sintoma de que nem tudo está perdido no campo dos direitos e, por‑ tanto, desperta esperanças, é o fato, assinalado por Alves, de o discurso dos direitos humanos permanecer vivo e cada vez mais extenso e conhecido. No curso de seus cinquenta e poucos anos de existência, diz ele, esses direitos ganharam aperfeiçoamentos em meio a velhas e novas violações. Inicialmente declarados como direitos do “homem”, passaram a se denominar direitos “hu‑ manos” para indicar que também as mulheres estavam contempladas. A palavra “universal”, que compõe seu título original, ganhou, em 1993, foro de concei‑ to quando, na Conferência de Viena, tais direitos tiveram como apoiadores “representantes de todas as grandes culturas, religiões e sistemas sociopolíticos, com delegações de todos os países de um mundo já praticamente sem colônias” (2005, p. 25). Disso se conclui que os direitos humanos declarados universalmente e apoiados extensivamente por culturas variadas não perderem prestígio. O pro‑ blema é a sua aplicação como um recurso progressista a serviço dos desprovidos de bens materiais e de poder. Este é o desafio do presente que interpela o futu‑ ro e compromete todos. E mais: exige que se desmitifique a matriz das desven‑ turas desses direitos: os Estados Unidos legitimado como baluarte mundial da democracia e da paz social. Para tanto é preciso ter claro que este é, pelo contrário, um país de profun‑ das incoerências e mistificações. É um país que se apresenta como o paladino da paz, mas que foi o que mais guerreou, que se coloca em uma luta antinuclear, mas obsta planos de países que querem apenas ampliar a sua capacidade ener‑ gética. Além disso, foi o único país que realmente fez uso desses explosivos 465Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014 (em duas ocasiões), dizimando centenas de milhares de vidas inocentes, sob o ingênuo (para dizer o mínimo) pretexto de que seria para poupar a vida de soldados americanos e japoneses. Um país que historicamente apoiou e ainda apoia regimes autoritários. Uma nação que iniciou uma guerra “permanente” e “infinita” ao terror, quando foi, e ainda é, a que mais praticou e pratica atos globais de terrorismo. Enfim, pode-se dizer que o regime de Estado-padrão dos Estados Unidos, desde a Primeira Guerra Mundial, é o do warfare — um constante estado de conflitos e guerras ao redor do mundo, como princípio básico de manutenção do seu modo capitalista de produção, assentado em um colossal complexo in‑ dustrial‑militar. Sobre essa sua característica particular repousa outra contradi‑ ção fundamental, que é o da não intervenção estatal: os Estados Unidos são um país que sempre pregou a não intervenção do Estado em assuntos pertinentes ao mercado. Entretanto, o esforço e o dinheiro empregados pelos seus governos no fortalecimento do seu modelo capitalista causaria acanhamento ao mais totalitário dos Estados. Trata‑se, na verdade, de um país (os Estados Unidos) capaz de, literalmen‑ te, matar para conseguir manter os patamares mínimos de lucratividade de sua indústria. É um país que erigiu, como já salientado, o maior complexo industrial‑ ‑militar que o mundo já viu, composto de uma formidável rede de empresas, indústrias militares e de inteligência, que existem para salvaguardar os interes‑ ses de suas megacorporações e de seus negócios. Na cabeça desse enorme “polvo”, com seus tentáculos espalhados pelo globo, estão os principais nomes do sistema financeiro, midiático, industrial e energético estadunidense. E o principal financiador e “chanceler” desse intrincado sistema é ninguém menos do que o próprio Estado, mesmo que a custa de um colossal endividamento público e do desmontedos direitos de cidadania em larga escala. Recebido em 8/5/2014 ■ Aprovado em 2/6/2014 466 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014 Referências bibliográficas ACANDA, Jorge Luis. 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Em contraposição, resgatamos o significado ontológico-social da liberdade que supõe a sociabilidade, a alteridade e a equidade. Palavras‑chave: Liberdade. Tolerância. Intolerância. Alteridade. Equidade. Abstract: In this article, we discuss about the liberal conception of freedom, and we stress that its individualism leads to intolerant attitudes for social differences; on the other hand, we rescue the ontological and social meaning of freedom presupposing sociability, otherness and equity. Keywords: Freedom. Tolerance. Intolerance. Otherness. Equity. * Essa produção integra a pesquisa Neoconservadorismo e irracionalismo contemporâneo: fundamentos teóricos e manifestações ideoculturais, desenvolvida pela autora entre 2011‑2014, com o apoio do CNPq. ** Assistente social, professora de Ética Profissional e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Ética e Direitos Humanos (Nepedh) do Programa de Estudos Pós‑Graduados em ServiçoSocial da PUC‑SP, Brasil. E‑mail: barroco.lucia@gmail.com. 469Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014 Liberdade e individualismo: a exclusão do outro A liberdade é um valor e uma categoria ético‑política construída historicamente na práxis da humanidade e configurada teórica e ideologicamente de formas diferenciadas em cada momento his‑tórico particular. Na emergência da sociedade moderna, a liberdade objetivou‑se como valor imanente, ocupando lugar de destaque no ideário da burguesia revolucio‑ nária, em seu processo de ruptura com a ordem feudal, na produção filosófica e na cultura humanista desenvolvida na Europa ocidental no período entre o Renascimento e a Revolução Francesa. Nesse contexto, sua forma peculiar de objetivação teórico‑prática corres‑ pondeu às possibilidades abertas ao indivíduo pela dinâmica do novo modo de produção. Superadas as formas limitadas da produção, os limites concretos da comunidade e das relações sociais feudais, com seus laços de dependência, o indivíduo emergiu como sujeito histórico capaz de decidir o seu destino. Entretanto, a produção capitalista criou novos vínculos de dependência que se materializam a partir das relações de produção, determinando a institui‑ ção de uma sociabilidade mediada pelo mercado. A liberdade passa a se confi‑ gurar como sinônimo de autonomia dirigida à realização individual pela apro‑ priação privada de bens materiais e espirituais. Esse modo de ser do indivíduo burguês, ou seja, esse ethos, tem uma base objetiva de sustentação fundada na forma de organização do modo de produção capitalista; atende às necessidades de reprodução dessa ordem social cuja di‑ nâmica supõe a produção incessante e universalizante de novas mercadorias e sua apropriação privada. Cria‑se um modo de vida orientada para o consumo, a competitividade e o individualismo. Os indivíduos passam a valer enquanto proprietários de mer‑ cadorias e por isso são considerados legalmente iguais e livres. Os objetos materiais se expressam como qualidades humanas que, ao serem consumidas, passam a dar sentido à existência, e o próprio indivíduo passa a identificar a sua condição humana à condição de proprietário, consumidor. Para MacPherson, trata‑se da identidade do individualismo possessivo: 470 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014 O indivíduo numa sociedade de mercado possessivo é humano em sua qualidade de proprietário de sua própria pessoa; sua humanidade realmente depende de sua independência de quaisquer relacionamentos contratuais com outros, exceto os que são de seu interesse; sua sociabilidade realmente consiste de uma série de relações de mercado (MacPherson, 1979, p. 283). Na medida em que cada indivíduose reconhece como livre, independente, proprietário potencial de bens e proprietário de si mesmo (de seus desejos, necessidades, preferências), sua existência passa a ter como finalidade a obje‑ tivação de sua liberdade, o que significa a plena satisfação de seus desejos e a instituição social de garantias de que sua autonomia não seja posta em risco. O Estado e a lei garantem que seus bens privados sejam invioláveis, cabendo à ideologia garantir a sua legitimação moral. A ideologia dominante exerce a função de controle social extraeconômico ao influir nas ideias dos homens entre si, motivando-os a se comportar de certo modo, valorado positivamente em função das necessidades de reprodução social da ordem burguesa. A moral se reproduz pelo hábito, pela repetição de normas e comportamentos de valor que moldam o comportamento dos indivíduos sin‑ gulares na vida cotidiana, constituindo‑se num campo favorável de reprodução da ideologia mercantil e da alienação. Nesse sentido, para garantir a legitimidade da propriedade privada e a identidade do individualismo possessivo, são reproduzidas determinadas má‑ ximas que funcionam como normas de convivência, visando à regulação do comportamento dos indivíduos em sua convivência social. Dentre elas, destaca‑ -se a máxima que afirma que “a sua liberdade termina quando começa a do outro”. Ocultando a realidade ao invocar a proteção da liberdade de todos, ou seja, do “bem comum”, difunde a falsa ideia de que a delimitação do espaço de liberdade de cada um equivale a uma atitude de respeito mútuo. (In)tolerância: a face oculta da liberdade burguesa Em geral, costuma-se definir tolerância como uma relação social que supõe a existência de alguma diferença aceita como um direito: o direito de ser dife‑ 471Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014 rente. Entretanto, alguns autores discordam do próprio uso do termo tolerância para retratar essa relação social. Jacquard, por exemplo, chama a atenção para não confundirmos respeito com tolerância, uma vez que “a tolerância é uma atitude muito ambígua (para isso, existem casas..., dizia Claudel). Tolerar é julgar‑se em condições de dominar, julgar; é ter de si mesmo um conceito o bastante positivo para aceitar o outro com todos os seus defeitos” (Jacquard, 1997, p. 4). O autor propõe substituir tolerância por alteridade “é necessário tomar um rumo completamente diferente e tomar consciência da contribuição dos outros, que se torna tanto mais rica quanto maior for a diferença em relação consigo mesmo” (Idem). Para Cortella, o uso corrente do termo tolerância é problemático: [...] Eu venho me rebelando há certo tempo contra a palavra “tolerância” [...] acho que a palavra “tolerância” produz quase um sequestro semântico, pois quando alguém a usa está querendo dizer que suporta o outro. Afinal tolerar é suportar [...] Eu o suporto, aguento. Você não é como eu, aceito isso, mas continuo sendo eu mesmo. Não quero ter contato, só respeito a sua individualidade. Em vez de utilizar a palavra “tolerância”, tenho preferido outra: “acolhimento”. Há uma diferença entre tolerar que você não tenha as mesmas convicções que eu — sejam religiosas, políticas ou outras — e acolher suas convicções. Porque acolher sig‑ nifica que eu recebo na qualidade de alguém como eu. (Cortella, 2005, p. 28-29) Em qualquer caso, seja com o uso do termo ou substituindo‑o por outro, trata‑se sempre de uma relação social mediada pela presença e aceitação de uma diferença. Para Vázquez, não basta a existência da diferença (convicções, pre‑ ferências, modos de vida etc.); é preciso que ela seja consciente, isto é, que seja reconhecida como tal e que nos afete de alguma forma, ou seja, que não fique‑ mos indiferentes a ela (Vázquez, 1999, p. 115). Esse reconhecimento não significa concordar com as opções do outro; não significa nem tentar mudar o modo de ser do sujeito tolerante nem do outro; significa aceitar o direito do outro a ser diferente com suas opções. Portanto, não existe consenso na tolerância; somente o dissenso reclama a tolerância (Idem). 472 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014 Na intolerância, também ocorre uma relação social em que um dos sujei‑ tos (ou um grupo, uma classe social etc.) é diferente ou faz algo diferente, e isso nos atinge. Porém nossa reação é oposta à da tolerância; aqui, diante das dife‑ renças, assumimos atitudes destrutivas, fanáticas, racistas, reacionárias. A di‑ ferença é negada; mais do que isso, buscamos destruí‑la, excluir a identidade do outro por meio da afirmação da nossa, tomada como a única válida (Idem, p. 116). Assim, enquanto na tolerância a diferença é reconhecida e respeitada, embora não seja compartilhada, na intolerância a identidade do outro é recha‑ çada justamente por ser diferente. Enquanto a tolerância exige um horizonte de liberdade, uma reciprocidade objetivadora de relações de comum liberdade e igualdade, a intolerância objetiva uma relação assimétrica em que somente um é livre e quer impor a sua identidade ao outro (Idem, p. 117). Voltamos à questão da liberdade liberal, expressa na máxima que define “a liberdade de um indivíduo termina onde começa a do outro” para considerar o seu caráter intolerante, manifesto no individualismo da sociedade burguesa. Em primeiro lugar, trata‑se de uma liberdade individualista que não suporta a presença do outro com suas escolhas e modos de vida. Por isso, essa máxima só ganha sentido quando divulgada ou reproduzida em situações em que dois ou mais indivíduos têm escolhas diferentes. Vê‑se, então, que a exclusão do outro se refere ao outro que se apresenta como diferente; mais do que excluir o outro, exclui‑se a possibilidade de convivência entre sujeitos que têm escolhas, preferências ou modos de vida diferentes. Sendo assim, além de individualista, trata‑se de uma norma de convivência intolerante. A intolerância que se expressa de forma tão límpida na máxima que defi‑ ne a liberdade burguesa revela‑se cotidianamente no contexto neoconservador atual. Parte da sociedade finge “tolerar” as escolhas alheias desde que elas se objetivem fora do espaço de convivência pública, desde que não perturbem a ordem social e moral, desde que não demande um envolvimento com os seus sujeitos. Isso ocorre também em situações que não derivam de escolhas alheias, mas de determinações sociais que não fazem parte do universo daqueles que são intolerantes: “tolera‑se” a existência da pobreza desde que os pobres este‑ jam presos, longe do convívio social e dos espaços públicos frequentados pela 473Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014 burguesia e pelas classes médias. É como lembrou o autor citado: as “casas de tolerância” foram assim chamadas na medida em que não se podia negar a existência de casas de prostituição e tratou‑se de garantir que elas se estabele‑ cessem nas periferias das cidades. Marcuse se refere a uma “falsa tolerância”, típica da sociedade de classes das democracias existentes no capitalismo; sociedades democráticas com orga‑ nizações totalitárias determinadas pela desigualdade institucionalizada. Nesse contexto ocorre uma “tolerância” falsa e repressiva, especialmente veiculada pela publicidade, pela propaganda e pelo controle ideológico que reprime o impulso à liberdade, passando a falsa ideia de imparcialidade do poder domi‑ nante (Marcuse, apud Vázquez, 1999, p. 119‑120). A intolerância percorre a trajetória da humanidade, destacando-se a reli‑ giosa e a étnica como dois grandes marcos da opressão e injustiça, a exemplo da escravidão, da Inquisição, dos genocídios. No Brasil, em pleno século XXI, práticas que remontam a um estágio histórico pré‑civilizatório têm se apresen‑ tado cotidianamente, desvelando um cenáriode barbárie intolerável, a exemplo do aumento de linchamentos, das práticas de “justiceiros” contra jovens infra‑ tores, das execuções sumárias realizadas pela polícia, da eliminação de grupos e populações indígenas, camponesas, quilombolas pelos latifundiários, entre outros. A intolerância se reproduz ideologicamente no apoio dado a essas prá‑ ticas por parte da sociedade e de certos meios de comunicação, incitando a pena de morte, o rebaixamento da maioridade penal, o armamento da popu‑ lação e o uso da força pelo Estado, respaldadas por uma intelectualidade ir‑ racionalista de direita que encontra espaço para se promover em jornais, em programas de TV, em cursos, em publicações próprias. Os “outros”, os inimi‑ gos que impedem a liberdade da burguesia e das classes médias são os pobres, os favelados, os jovens moradores das periferias, os indígenas, os trabalha‑ dores do campo e da cidade, principalmente quando eles comparecem coleti‑ vamente nas ruas, nas praças, nos espaços de lazer, como os shoppings, entre outros. Para a intelectualidade de direita, “os outros” são as forças organiza‑ das de esquerda, os setores progressistas, os movimentos sociais, os militan‑ tes de direitos humanos. 474 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014 Esse processo de barbárie tem sido contestado por parte da sociedade, resultando nas inúmeras manifestações populares que se espraiam por todo o país desde junho de 2013. Organizando‑se em partidos, associações, movimen‑ tos sociais ou através dos meios virtuais, essa população comparece às passea‑ tas, deflagra greves, para o trânsito de vias públicas e estradas em repúdio às ações de extermínio cometidas pela polícia nas favelas e periferias das cidades, denunciando a barbárie, reivindicando direitos e justiça social. Trata‑se, portanto, da coexistência entre a prática da liberdade e da tole‑ rância e da sua negação, embora essa convivência seja desigual, na medida em que o movimento de negação tem uma base de sustentação objetiva na barbárie promovida pelas determinações conjunturais e estruturais do modo de produção capitalista. Nesse sentido, voltando ao eixo de nossa reflexão, coloca-se uma questão ética e política que interessa àqueles que defendem e praticam a resistência à barbárie: a tolerância tem limites? Uma questão ética e política: a tolerância tem limites? Algumas correntes de pensamento consideram que devemos ser tolerantes em qualquer situação: tendências do relativismo cultural e do relativismo ético, com influências do irracionalismo e do pensamento pós-moderno. Para justifi‑ car o relativismo, apoiam‑se na negação da universalidade dos valores, na de‑ fesa da diversidade, das particularidades e do pluralismo. O relativismo cultural questiona a possibilidade de julgamento de um padrão cultural particular a partir de critérios considerados válidos para toda a humanidade. No âmbito da filosofia, as correntes do relativismo ético defendem a ideia de que “não é possível chegar a um acordo racional universal na discussão dos princípios éticos, sendo impossível discernir — entre juízos morais em conflito — qual é o correto” (Etxberria, 2001, p. 54). A defesa do pluralismo encontra sua razão de ser nessas formas de pensar, pois a afirmação de que não é possível discernir eticamente entre valores e 475Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014 práticas diferentes implica considerar que as práticas e as ideias existentes têm o mesmo valor e, portanto, que todas devem ser respeitadas. No entanto, quando nos deparamos com práticas que representam atos de violência inadmissíveis, cabe a pergunta: devemos tolerar o intolerável? Podemos citar como exemplos de práticas culturais: o genocídio, o etno‑ cídio, o racismo e várias práticas de discriminação e de violência contra a mulher, entre elas a da mutilação sexual e do apedrejamento, sem contar a lista interminável de violações que consta dos documentos de direitos humanos e que não se restringem a práticas culturais, tais como o trabalho escravo, a tor‑ tura, o terrorismo de estado, a guerra, a fome, a prostituição infantil etc. Por isso, é importante salientar que embora os exemplos a respeito das práticas culturais de violação aos direitos humanos acabem recaindo sobre os países não ocidentais, isso não significa afirmar que a civilização ocidental seja um exem‑ plo de não violação. Em nome de quais valores tais práticas são justificáveis? Devemos nos manifestar em oposição a isso ou devemos “respeitar” esses valores? Respon‑ demos a tais indagações afirmando que a tolerância tem limites e que os parâ‑ metros para essa afirmação são teóricos e históricos. Para Bobbio, “a tolerância absoluta é uma pura abstração” (Bobbio, in Vázquez, 1999, p. 120). Vázquez adota como medida a liberdade, afirmando que “deve tolerar‑se o que amplia ou enriquece a liberdade e, ao contrário, não se deve tolerar o que a obstaculiza ou nega” (Vázquez, 1999, p. 121). Entretanto, como já afirmamos, a categoria liberdade pode ser utilizada em diferentes práticas e discursos, com significados opostos. Por isso, é preci‑ so informar quais são os critérios teóricos e históricos, éticos e políticos que orientam nossa defesa dos limites da tolerância. O caráter universal dos valores e os limites da tolerância A ética é aqui concebida como uma forma de práxis: uma ação prática consciente derivada de uma escolha racional entre alternativas de valor que 476 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014 visa produzir uma transformação de valor nos homens entre si. A ética permi‑ te ao indivíduo sair de sua singularidade para estabelecer uma conexão cons‑ ciente com o humano genérico; logo, é uma atividade universalizante, mesmo sendo realizada por um indivíduo singular. A criação de alternativas funda a capacidade de escolha (liberdade), e a valoração das escolhas objetiva a criação de valores e as escolhas de valor, instituindo a possibilidade do agir ético‑moral. Logo, valor e liberdade são fundantes da práxis ética, e seu significado ontológico é dado pela sua objeti‑ vidade na reprodução do ser social: esses componentes da práxis são liberados e liberam pelas/as forças e capacidades humanas essenciais postas em movi‑ mento no processo de (re)produção humana a partir do trabalho: a liberdade, a sociabilidade, a consciência e a universalidade humana. Desse modo, o caráter universalizante dos valores é um dado ontológico historicamente observável. Basta observar a história social da liberdade, em que sua objetividade é dada por todas as situações históricas de emancipação de homens, mulheres, de povos, classes e grupos sociais em face de situações de dominação, exploração, escravidão, de sofrimento material e espiritual provo‑ cado pelo impedimento forçado de liberação das capacidades e forças essenciais humanas. Portanto, negar a universalidade dos valores só tem sustentação em formas de pensar irracionalistas e a‑históricas. Marx trata da riqueza humana1 construída pelo gênero como a base fun‑ dante da livre e múltipla atividade de todo o indivíduo (Heller, 1978, p. 40). Por riqueza humana, ele concebe a universalidade das necessidades e capacidades, o domínio do homem sobre a natureza, a explicitação absoluta de suas faculda‑ 1. “Em todas as formas, ela [a riqueza representada pelo valor] se apresenta sob forma objetiva, quer se trate de uma coisa ou de uma relação mediatizada por uma coisa, que se encontra fora do indivíduo e casualmente a seu lado [...]. Mas, in fact, uma vez superada a limitada forma burguesa, o que é a riqueza se não a universalidade dos carecimentos, das capacidades, das fruições, das forças produtivas etc., dos indivíduos, criada no intercâmbio universal? O que é a riqueza se não o pleno desenvolvimento do domínio dohomem sobre as forças da natureza, tanto sobre as da chamada natureza quanto sobre as da sua própria natureza? O que é a riqueza se não a explicitação absoluta de suas faculdades criativas, sem outro pressuposto além do desenvolvimento histórico anterior, que torna finalidade em si mesma essa totalidade do desenvolvimento, ou seja, do desenvolvimento de todas as forças humanas enquanto tais, não avaliadas segundo um metro já dado?” (Marx, 1970, I, p. 372). 477Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014 des criativas, em suas palavras: “Uma explicitação na qual o homem não se reproduz numa dimensão determinada, mas produz sua própria totalidade...” (Marx, 1970, I, 372). Esses fundamentos fornecem uma medida de valor para julgar as ações humanas: São de valor positivo as relações, os produtos, as ações, as ideias sociais que fornecem aos homens maiores possibilidades de objetivação, que integram sua sociabilidade, que configuram mais universalmente sua consciência e que aumen‑ tam sua liberdade social. Consideramos tudo aquilo que impede ou obstaculiza esses processos como negativo, ainda que a maior parte da sociedade empreste‑lhe um valor positivo. (Heller, 1972, p. 78) Assim, a defesa da existência de limites à tolerância é alicerçada numa concepção ontológica e histórica baseada no nível de desenvolvimento da hu‑ manidade, em termos de suas conquistas emancipatórias e valores. Elas expres‑ sam a autoconsciência emancipatória do gênero humano e tornam‑se conscien‑ tes para os indivíduos em suas lutas políticas particulares. É nesse movimento entre o particular e o humano genérico que as conquistas e os valores se uni‑ versalizam. As conquistas também são traduzidas em documentos, leis, decla‑ rações, em âmbito nacional e internacional que visam obter um consenso em torno de princípios para balizar os limites entre o tolerável e o intolerável, a exemplo da Declaração de Direitos Humanos de 1948, elaborada no pós‑Se‑ gunda Guerra, objetivando um posicionamento universal em face dos crimes praticados pelo nazismo. Uma das questões abordadas pelas correntes do relativismo cultural refe‑ re‑se ao fato de que os padrões utilizados para o julgamento das violações de direitos humanos são marcados pela cultura da civilização ocidental. Esses padrões não podem ser considerados universais, o que não deixa de ter sentido (Diniz, 2001). Entretanto, a questão é muito mais complexa, pois a negação de um posicionamento baseado no argumento de recusa à dominação imperialista tem seus desdobramentos, com implicações éticas e políticas que podem pro‑ duzir um resultado objetivo oposto ao desejado pela sua crítica. 478 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014 Assim, as tendências que defendem a diversidade, considerando que de‑ vemos respeitar a totalidade de práticas e ideias particulares em nome da liber‑ dade, encontra uma contradição insolúvel quando se depara com práticas que negam a própria liberdade, mais do que isso, a humanidade do outro. Na ver‑ dade, acabam propondo um posicionamento neutro em face de crimes e viola‑ ções de direitos humanos. Consideramos que o enfrentamento dessa problemática não se resolve pelo relativismo, mas o inverso — a defesa do universal — também implica muitas mediações. A validade ou a abrangência dos documentos e leis que tratam dos direitos humanos deve ser medida pelo nível de incorporação das diferentes culturas e modos de ser, das reivindicações dos diversos movimen‑ tos e lutas sociais, na construção de um debate orientado pelo horizonte da emancipação humana e pela noção de que, para o humano, a medida de valor é o próprio homem. Quanto ao chamado relativismo ético, com sua defesa da impossibilidade de haver um acordo racional diante de vários códigos morais em conflito, con‑ sideramos uma negação irracionalista e niilista da ética, pois anula a capacida‑ de de escolha do sujeito e a sua responsabilidade em face de situações que demandam escolhas de valor. Na medida em que a ética, com sua exigência de posicionamento; a razão, com sua capacidade de conhecer a essência da reali‑ dade; a ação política, com sua interferência na realidade social, deixam de ter sentido, essa forma de pensar passa a coincidir com a ideia defendida pela ideologia dominante: “cada um na sua”. Pelo exposto, podemos considerar que as diferenças culturais, sociais, políticas, teóricas podem expressar a multiplicidade de capacidades e possibi‑ lidades do gênero humano rico em necessidades e formas de satisfação. Ao mesmo tempo, podem expressar desigualdade, dominação, exploração, discri‑ minação, empobrecimento da humanidade. Isto porque, em sua história de desenvolvimento, a humanidade tem produzido, ao mesmo tempo, a riqueza e a miséria; a humanização e a barbárie. A universalidade histórica dos valores, como construções humanas, for‑ necem parâmetros universais para avaliar o que é barbárie, tendo como medida o nível de humanização do ser social atingido até hoje e documentado em 479Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014 manifestos, acordos, leis, elaborados universalmente. Como seres humanos e sociais, somos dotados de discernimento ético para fazer distinção entre valores, com base nas conquistas já efetuadas historicamente. Os torturadores podem dizer que estavam agindo em nome da “liberdade”; parte da sociedade pode até apoiá‑los. Mas o patamar emancipatório conquistado pela humanidade em termos da autoconsciência da liberdade e dos direitos humanos permite a con‑ testação por parte dos que não toleram o que é intolerável. Isso significa afirmar que a discussão acerca do que é tolerável, nos marcos de uma sociedade cindida pela divisão entre classes e interesses econômicos e políticos, não é somente uma discussão ética filosófica; trata-se de um embate ético‑político prático que envolve referências teóricas, projetos sociais, ideolo‑ gias e valores. Por isso, a questão do pluralismo, assim como a da diversidade, não sig‑ nifica ausência de conflitos e interesses, mas sim o posicionamento diante deles, a possibilidade de todos se manifestarem, a responsabilidade ética de tomar uma posição diante do que não concordamos e a condição política de lutar pela hegemonia do projeto societário que defendemos e pela universalização dos valores a ele conectados. A liberdade liberal, portanto, é enganosa porque divulga uma falsa noção de respeito ao outro, quando, na verdade, exclui o outro porque é diferente. A concepção de liberdade aqui tratada não se separa da sociabilidade. Pressupõe‑ ‑se que indivíduos sejam livres em relação uns com os outros; não podemos ser livres enquanto os outros não o são. Isso supõe o enfrentamento dos con‑ flitos, das contradições, a aceitação consciente dos demais como seres iguais e diferentes. Nesse sentido, o Código de Ética dos(as) Assistentes Sociais (CFESS, 1993) é transparente quando afirma que os assistentes sociais elegem como princípios fundamentais a liberdade, a democracia, a equidade, a justiça social, o empenho na eliminação de todas as formas de preconceito e de discriminação por questões de classe social, gênero, etnia, religião, nacionalidade, opção sexual, idade e condição física, incentivando o respeito à diversidade, à discussão das diferenças e a garantia do pluralismo, por meio do respeito às correntes profis‑ sionais democráticas existentes. 480 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014 De forma explícita, o Código indica uma concepção de pluralismo que limita a tolerância ao campo democrático, negando as práticas, ideias e mani‑ festações que produzem o racismo, a xenofobia, o nacionalismo agressivo, o fascismo, o preconceito, a discriminação por motivos diversos, enfim que negam os valores que dão suporte à ética profissional.Recebido em 9/5/2014 ■ Aprovado em 2/6/2014 Referências bibliográficas BARROCO, M. Lucia S. Lukács e a crítica do irracionalismo; elementos para uma reflexão sobre a barbárie contemporânea. In: ROIO, Del (Org.). Gyorgy Lukács e a emancipação humana. São Paulo: Boitempo; Marília: Oficina Universitária, Unesp, 2013. ______. Direitos humanos ou emancipação humana? Revista Inscrita, Brasília, n. 14, dez. 2013. ______. Ética: fundamentos sócio‑históricos. 3. ed., 4. reed. São Paulo: Cortez, 2013. (Col. Biblioteca Básica para o Serviço Social, v. 4.) ______. Ética, direitos humanos e diversidade. 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Entre la realidad e la utopia: ensayos sobre política, moral y socialismo. México: Fondo de Cultura Económica, 1999. 482 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014 La formación en Derechos Humanos como parte del proyecto ético político del Trabajo Social The education in human rights as part of the ethical and political project of Social Work Cory Duarte Hidalgo* Resumen: La consideración de la formación en Derechos Humanos en tanto elemento primordial del proyecto ético político del trabajo social es el elemento basal de este artículo, el que indaga en los proyec‑ tos curriculares de Trabajo Social en Universidades Estatales Chilenas. El estudio de carácter cualitativo, descriptivo y exploratorio, analiza el contenido de estos proyectos permitiéndonos así elaborar recomen‑ daciones para la inclusión de los Derechos Humanos en la política pública de educación superior en general, y en las carreras de trabajo social en particular. Palabras claves: Formación en Trabajo Social. Derechos Humanos. Educación universitaria. Abstract: The education in human rights as a fundamental element of the ethical and political project of Social Work is the base of this article, related to the curriculum projects of Social Work in state Chilean universities. This qualitative, descriptive and exploratory study analyses the content of such projects, so as to lead to recommendations to include human rights in the public policy for college education in general, as well as in the careers in Social Work Keywords: Background in Social Work. Human rights. College education. * Asistente social, licenciada en Trabajo Social, máster en Trabajo Social Comunitario, máster en Estudios Feministas, máster en Inmigración, refugio y relaciones intercomunitarias, doctoranda en Trabajo Social, Universidad de Atacama, Copiapó, Chile. Email: cory.duarte@uda.cl. 483Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014 1. Presentación El presente artículo revisa la consideración de la formación en derechos humanos en las carreras de trabajo social de instituciones de educa‑ción superior pertenecientes al Consorcio de Universidades Estata‑les Chilenas (CUECH) ubicadas en la Macrozona Norte del país. Así, se planteó como objetivo de investigación el identificar la presencia o ausencia de la formación en derechos humanos en los perfiles de egreso y mallas curriculares, reflexionando sobre la consideración de la formación en derechos humanos como elemento primordial del proyecto ético político del trabajo social. Como marco referencial se presenta una somera revisión respecto de la educación en derechos humanos, basándose en los instrumentos internacionales que versan sobre la temática, para luego dar paso a la exploración de los ante‑ cedentes que hablan de la inclusión de la formación de los derechos humanos en trabajo social. Respecto de la forma en que se desarrolla este estudio, se declara su ca‑ rácter cualitativo, descriptivo y exploratorio, en el cual mediante el análisis de contenido se logran resultados respecto de los objetivos planteados con ante‑ rioridad. El documento finaliza con una serie de recomendaciones para la in‑ clusión de la formación de derechos humanos en la política pública de educa‑ ción superior en general, y en las carreras de trabajo social en particular. En consideración a lo que más adelante se plantea, la educación en derechos humanos, se transforma en un imperativo de primer orden para las escuelas de trabajo social. 2. El contexto del estudio: la educación en Derechos Humanos La educación por la paz y por los Derechos Humanos ha sido construida con base a múltiples esfuerzos internacionales, los que han sido plasmados en diversos instrumentos, conferencias, encuentros y reuniones. Si bien es cierto, la gran mayoría de las declaraciones y convenciones dedican algunos párrafos a 484 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014 la educación en los ámbitos específicos de cada instrumento, existen pactos y declaraciones en las que se plasman en detalle las obligaciones de los Estados al respecto. En este sentido, destaca la Declaración y Programa de acción de Viena (Naciones Unidas, 1993), la cual considera que los Estados partes debie‑ sen incluir “los derechos humanos, el derecho humanitario, la democracia […] como temas de programas de estudio de todas las instituciones de enseñanza académica y no académica” (art. N. 79). Establece además que la educación en materia de derechos humanos “debe abarcar la paz, la democracia, el desarrollo y la justicia social” (art. N. 80), estipulando que los Estados deben elaborar “programas y estrategias específicos para ampliar al máximo el nivel de educa‑ ción y difusión de información pública en materia de derechos humanos, tenien‑ do particularmente en cuenta los derechos humanos de la mujer” (art. N. 81). La Declaración sobre el derecho y el deber de los individuos, los grupos y las instituciones de promover y proteger los Derechos Humanos y las liber‑ tades fundamentales universalmente reconocidos, aprobada por la Asamblea General en su Resolución 53/144, de 9 de diciembre de 1998, establece que Incumbeal Estado la responsabilidad de promover y facilitar la enseñanza de los derechos humanos y las libertades fundamentales en todos los niveles de la edu‑ cación, y de garantizar que los que tienen a su cargo la formación de abogados, funcionarios encargados del cumplimiento de la ley, personal de las fuerzas ar‑ madas y funcionarios públicos incluyan en sus programas de formación elemen‑ tos apropiados de la enseñanza en derechos humanos. (art. N. 15) A su vez, en el Decenio de las Naciones Unidas para la educación en la esfera de los derechos humanos, según consta en la Resolución 49/184 del 23 de diciembre de 1994, de la Asamblea General de Naciones Unidas, se fija como objetivo el fomento de la educación en derechos humanos en todos los niveles de enseñanza, así como el establecimiento y fortalecimiento de programas y capacidades para la educación en derechos humanos, entre otros aspectos. En el caso latinoamericano, se ha exhortado y orientado para que los Es‑ tados elaboren planes de acción y diseñen estrategias de educación en derechos humanos. Ejemplo de esto es la conferencia Regional sobre Educación en 485Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014 Derechos Humanos (DDHH) en América Latina y el Caribe, realizada el 2001 en Ciudad de México, en la que se define un programa de acción sobre DDHH. En este documento los Estados comprometen la introducción temas de Derechos Humanos, paz y democracia en los planes educativos, incluyendo políticas multiculturales, interdisciplinares y multisectoriales sobre Derechos Humanos, así como la articulación de políticas de igualdad, acciones que deberían ser monitoreadas en forma permanente. La declaración estipula entre otras cosas garantizar la libertad de cátedra, la instalación de defensorías y la docencia en derechos humanos. Busca que las Universidades desarrollen los derechos humanos en todas las carreras, a través de metodologías sólidas y de carácter plural, fomenten la educación de posgra‑ do en derechos humanos., y que incentiven investigaciones “sobre la realidad nacional y/o regional desde la perspectiva de la población‑víctima de violacio‑ nes a sus derechos, para conocer las causas que las originan y contribuir en propuestas para su erradicación” (Declaración de México, 2001). Así también, la declaración indica que los Estados deben entregar “la garantía de una forma‑ ción profesional comprometida con los valores y principios de la democracia para que ello forme parte de los perfiles profesionales y las competencias re‑ queridas en el ejercicio de los mismos” (Declaración de México, 2001). Resulta interesante la visión de esta declaración en torno a centrarse en el sujeto, reconociendo que “la educación en derechos humanos debe ser un pro‑ ceso de enseñanza aprendizaje que transforme la vida de las personas e integre lo individual con lo comunitario, lo intelectual con lo afectivo”, pero además ha de considerar “el reconocimiento y valoración de la pluralidad cultural pre‑ sente en la región” (Ramírez, 2004, p. 33). Los informes especializados identifican 13 instrumentos internacionales que tienen disposiciones atingentes respecto de la consideración de los Derechos Humanos en la Educación (Azúa, 2011, p. 33) en lo que ha implicado que, a partir de la década de los noventa, el Estado Chileno adquiriese compromisos concretos respecto de la Educación en derechos humanos en los distintos nive‑ les educativos. En el año 2012, en su informe anual el Instituto Nacional de Derechos Humanos (INDH) consignaba la necesidad de considerar los acuerdos suscritos 486 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014 por el Estado Chileno en los cuales compromete la inclusión de los derechos humanos en la formación educativa en general y con especial énfasis en la formación universitaria. En el mismo informe el INDH manifiesta que las Uni‑ versidades no han sido capaces de declarar el compromiso ciudadano con los derechos humanos en las misiones y visiones institucionales. Así también, en el estudio realizado por dicho Instituto respecto de la inclusión de los derechos humanos en las mallas curriculares de pedagogía, derecho y periodismo, se evidencia la inclusión marginal de los derechos humanos en la formación pro‑ fesional (Azúa, 2011). En 2011, el Dr. Nash, del Centro de Derechos Humanos de la Facultad de Derecho de la Universidad de Chile denunciaba la escasa importancia de los derechos humanos en las misiones y mallas curriculares de las carreras de de‑ recho a nivel nacional. El académico señala las deficiencias en los currículos en torno a materias relacionadas con la teoría general de derechos humanos, los instrumentos internacionales, la jurisprudencia internacional y los grupos en condición de vulnerabilidad (Nash, 2011, p. 63). Como resultado del estudio señalado se recomienda la inclusión en los currículos de las carreras del área, el estudio de los grupos protegidos a nivel internacional a través de convenciones específicas, es decir, la consideración de los derechos de las mujeres, niños, niñas y adolescentes, migrantes, diversi‑ dades sexuales, pueblos originarios, personas privadas de libertad y refugiados (Nash, 2011, p. 63). En el caso de la teoría general de los derechos humanos, el mismo estudio sugiere su abordaje en asignaturas específicas, pero también en cátedras como Derecho Procesal Penal y Derecho Internacional Público. Por no encontrarse material respecto de la incorporación de los derechos humanos en las mallas curriculares de trabajo social se hace relevante estudiar respecto de esto, teniendo en cuenta que el objetivo central de la educación en derechos es empoderar a las personas para sean sujetos de derecho, avan‑ zando hacia la consolidación de la justicia y la paz en nuestras sociedades (Mujica, 2002). La educación en derechos humanos es una propuesta ético política que implica la consideración de la teoría general de derechos humanos, pero también la atención de las desigualdades y los grupos que las sufren. De esta forma, los perfiles de egreso permiten formar profesionales sujetos de 487Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014 derechos, lo que en resumidas cuentas significa entregar las competencias necesarias para que desarrollen su acción profesional siendo capaces de pro‑ mocionar y defender sus derechos y los de las personas, grupos y comunida‑ des con quienes trabajan. 3. Algunas consideraciones sobre la formación en Derechos Humanos en Trabajo Social En el ámbito internacional, la Federación Internacional de Trabajo Social (FITS) reconoce desde sus inicios la estrecha interrelación existente entre de‑ rechos humanos y trabajo social, lo que se ha consolidado al figurar como en‑ tidad consultiva en materias relacionados con derechos sociales, infancia, salud ente otros (Naciones Unidas, 1995). En el año 1992, el Centre for Human Rights de las Naciones Unidas, en conjunto con la International Federation of Social Workers (IFSW/FITS) y la International Association of Schools of Social Work (IASSW), publican por primera vez un manual dedicado a las Escuelas de “Servicio Social”, en el que se considera imperativo “que las personas que participan en la enseñanza y la práctica del servicio social se comprometan claramente y sin reservas en la promoción y la protección de los derechos hu‑ manos y en la satisfacción de las aspiraciones sociales fundamentales” (p. 11). En el mismo documento se insta a las escuelas de trabajo social a introducir los derechos humanos en sus propuestas curriculares: Algunas escuelas podrán ofrecer un curso facultativo separado, otras exigir a sus alumnos que sigan un curso de derechos humanos y otras introducir el estudio de los derechos humanos en todos sus cursos fundamentales obligatorios. Esos mé‑todos no tienen por qué excluirse mutuamente, ya que cada uno de ellos tiene ventajas y desventajas. (p. 12) Así también, en dicho manual, se señala la necesaria coherencia en los programas de trabajo social, los que debiesen reflejar “dimensiones de los de‑ rechos humanos y la justicia social” (p. 12). Considerando lo anterior, se señala 488 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014 la necesidad de contar con misiones y principios en las escuelas que den cuenta de estas dimensiones, así como las instalación de relaciones y procedimientos con base en los derechos humanos. En la Declaración del 2000, la FITS reconoce a los derechos humanos y la justicia social como principios de la profesión, relevando su importancia en el proyecto ético político del trabajo social. Reconocer lo anterior implica pen‑ sar los derechos consignados en la Declaración Universal como mínimos éticos en el desarrollo de los pueblos, constituyéndose en tanto “condiciones de posi‑ bilidad de realización y de transformación con vistas a conseguir una mayor justicia y solidaridad” (Cordero, Palacios y Fernández, 2006, p. 7). Sin embar‑ go, la concepción de derechos de la Declaración Universal resulta problemáti‑ ca en atención a los cuestionamientos sobre la visión universalista, burguesa, androcéntrica y eurocentrista contenida en ella; ante lo cual se hace necesario ligar la idea de dignidad humana con el reconocimiento de múltiples contextos, situados, fundados y multiculturales. Por estas razones, la propuesta de la FITS y la AIETS respecto de la definición de Trabajo Social posee un gran número opositores respecto de la visión etnocéntrica, funcionalista y eurocéntrica de la misma, imponiéndose “los parámetros de principios éticos amplios” (AIETS, 2003), lo que de todas formas, deja a un lado los contextos y especificidades propias de cada región. Las distintas asociaciones regionales, han trabajo en sendas propuestas de modificación de la definición de 2000, las que no han logrado acuerdo ni los consensos necesarios. En el año 2004, la FITS lista siete instrumentos de derechos humanos considerados de especial relevancia para la práctica y acción del trabajo social (FITS / AIETS, 2004, p. 3), entre estos se encuentran la Declaración Universal, el Pacto de Derechos civiles y políticos (PIDCP), el Pacto de Derechos Econó‑ micos, Sociales y Culturales (PIDESC), la Convención por la Eliminación de todas las Formas de Discriminación Racial; la Convención por la Eliminación de todas las formas de discriminación contra la Mujer (CEDAW), la convención de los Derechos del Niño (CDN), y la convención sobre pueblo indígenas y tribales (convenio de la OIT, n. 169). En el mismo año la FITS compromete sus esfuerzos para denunciar y contribuir en la eliminación de toda forma de vul‑ neraciones a los derechos humanos. 489Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014 En el caso chileno, el Consorcio de Escuelas de Trabajo Social compues‑ to por algunas Universidades del CUECH en 20061 trabajó en una propuesta colectiva de perfil académico, proceso en el cual se revisaron los ámbitos dis‑ tintivos de desempeño profesional y los núcleos históricos de formación profe‑ sional. En dicho trabajo se reconoce la pertinencia de las competencias concer‑ nientes a los derechos humanos en los ámbitos relacionados con sujetos y procesos. En la sistematización realizada por Castañeda y Salamé mencionan que los y las profesionales de lo social se enfrentan a desafíos relacionados con transformaciones estructurales relacionadas con la tecnología y la economía, en un sistema social que se ha complejizado, en el que las respuestas a las de‑ mandas corren el riesgo de quedar obsoleta, en lo que las autoras identifican como una crisis de sentido. Así, “la sociedad contemporánea demanda nuevas exigencias a los profesionales del ámbito social, cuestionando los contenidos de su formación y los desempeños laborales que le han sido tradicionales” (Castañeda y Salomé, 2009, p. 3). Esas nuevas exigencia se dan por las características contextuales de cada escuela de trabajo social y su conexión con el medio local en el que estén in‑ sertas; así, materias como migraciones, medio ambientes o movimientos socia‑ les cobran una trascendencia especial debido a las particularidades regionales/ locales, lo que de alguna forma u otra inciden en la formación entregada. Podemos afirmar que los derechos humanos y su incorporación en trabajo social atienden a una visión ético política de la profesión y disciplina, en la que se considera como perspectiva ética la noción de derechos humanos en toda su complejidad. De esta forma, el principal desafío para las escuelas es la forma de implementar esta perspectiva, evitando caer en una concepción mítica, en‑ frentándoles como una realidad efectiva (Martín, Esteban y Ramos, 2006), de alcance y complejidad situada. La consideración de los derechos humanos como marco axiológico de intervención, praxis e investigación en trabajo social, implica adoptarlos en su 1. Este trabajo fue realizado en el marco del proyecto MECESUP UCM 0401, en el cual participaron las siguientes Universidades: Universidad Católica del Maule, Universidad de La Frontera, Universidad de Concepción, Universidad del Bío Bío, Universidad de Antofagasta, Universidad Tecnológica Metropolitana, Universidad Católica de Temuco y Universidad de Los Lagos. 490 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014 complejidad e historicidad, facilitando, a través de ellos, procesos de subjeti‑ vación de las personas y los pueblos, componente esencial del proyecto ético político del trabajo social. Desde este marco, la consideración de los derechos humanos en las acciones transformadoras de los y las trabajadoras sociales implica la realización de investigaciones e intervenciones respetuosas de la diversidad, democráticas, situadas y críticas. Así, los Derechos Humanos cons‑ tituyen el guión emancipatorio de nuestra acciones, en torno a un “diálogo in‑ tercultural sobre la dignidad humana que eventualmente puede conducir a una concepción mestiza de los derechos humanos, una concepción que en lugar de recurrir a falsos universalismos, se organice como una constelación de signifi‑ cados locales” (Santos, 2002, p. 69‑70). 4. ¿A qué apela el proyecto ético político del Trabajo Social? Puesto que somos ciudadanos y ciudadanas y nos desempeñamos como tales, inmersos en un sistema democrático en el cual el derecho a tener derechos debiera de considerarse la consigna primordial, las profesiones de lo social requerimos de un marco ético para nuestro actuar, una ética aplicada, puesto que la cotidianeidad de los complejos escenarios en los que nos situamos nos hacen enfrentar dilemas frente a los cuales no existen soluciones estandarizadas, requiriendo de mínimos éticos, pero también, el ejercicio ético de nuestras vocaciones (Cortina, 2002). De esta forma la consideración de la ética aplicada en profesiones como la nuestra permite “orientar de forma mediata, ofreciendo un marco reflexivo para la toma concreta de decisiones” (Cortina, 1996, p. 121). Considerando esta concepción de ética aplicada, creemos relevante aclarar lo que entendemos en este documento por proyecto ético político del trabajo social. Para esto seguiremos la reflexión de Montaño, respecto de la crisis en la “base de sustentación funcional‑laboral” de la profesión, crisis que obliga a reaccionar a través de propuesta de acción de orden colectivo, entre las que el autor señala la necesidad de “construcción/consolidación […] de un proyecto profesional hegemónico que integre la dimensión ética y la dimensión política” (Montaño, 2005, p. 7), este ha de ser construido en forma democrática por el 491Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507,jul./set. 2014 colectivo profesional, “inspirado y articulado a proyectos societarios”. Como propuesta, Montaño plantea un proyecto profesional progresista fundado en diversos valores y principios, entre los que destacan los derechos humanos (Montaño, 2005, p. 8). Para el desarrollo de dicho proyecto el autor propone una agenda que considera cuatro elementos: la organización profesional; un marco legal profesional en el que se plasme la operatividad del proyecto y la propuesta; en dicho marco han de estar señalados el reglamento de ejercicio profesional y el código de ética (Montaño, 2005, p. 9); la formación profesional, la que procuraría la “unificación de niveles de formación”, “planes de estudios básicos”, posgrados y la “promoción de las condiciones para la producción bibliográfica teórica de calidad”; y por último, Montaño considera la articula‑ ción con las fuerzas vivas de la sociedad. En este sentido, si comprendemos a los y las profesionales del trabajo social como sujetos y sujetas que desde sus contextos, historicidades y diversi‑ dades enfrentan las distintas realidades sociales en las que están inmersos, elementos como la formación profesional darán contenido a su praxis profesio‑ nal (Olaya, 2009). Así, el proyecto ético político exigido por Montaño y otros de similares características implican una propuesta que “garantiza compromiso y responsabilidad social, permitiendo que el sujeto sea crítico frente a los de‑ safíos que impone la propuesta del relativismo y la neutralidad y lo más impor‑ tante, posibilita que se vincule a un proyecto de sociedad radicalmente demo‑ crático” (Olaya, 2009, p. 7). 5. Definición del problema de investigación Concluida la presentación de los elementos referenciales que sustentan el estudio realizado corresponde asentar aquellos que permiten plantear el proble‑ ma de investigación. Entendiendo la conformación tradicional de construcción de este apartado se presentarán el objetivo de investigación, las preguntas guí‑ as y la justificación necesaria. El objetivo principal de este estudio es comparar los perfiles de egreso y mallas curriculares de cuatro carreras de trabajo social pertenecientes al CUECH, 492 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014 ubicadas en la Macrozona norte, en relación a la consideración de la formación en derechos humanos como elemento primordial del proyecto ético‑político de la profesión. Considerado lo anterior, los objetivos específicos tienen relación con la pregunta de investigación que guía el análisis: ¿cuáles son los énfasis identifi‑ cables en los perfiles de egreso y mallas de estudios de las carreras de trabajo social pertenecientes al CUECH en la Macrozona norte, respecto de la formación en derechos humanos? Por tanto, los objetivos específicos fueron: a) Identificar la presencia o ausencia de la formación en derechos huma‑ nos en los perfiles de egreso y mallas curriculares. b) Reflexionar sobre la consideración de la formación en derechos hu‑ manos como parte del proyecto ético del trabajo social. c) Proponer algunas recomendaciones para la inclusión de la formación de derechos humanos en la política pública de educación superior en general, y en las carreras de trabajo social en particular. Dado lo anterior, se configuran como supuestos de este estudio el que los distintos énfasis identificados en la formación en Derechos Humanos afectan a las configuraciones y representaciones sociales de los egresados y egresadas de trabajo social de las universidades consideradas, así, los énfasis formativos influirían de alguna forma en la disposición que tengan los y las profesionales a la hora de realizar investigaciones e intervenciones. De esta forma, si la for‑ mación en derechos humanos se convierte en el contenido valórico explícito en el cual se comprometen las instituciones, la carencia de este contenido afectaría a la construcción de un proyecto ético profesional, de las características esta‑ blecidas por Montaño. La ausencia de la formación en Derechos Humanos afectaría a los y las egresadas, pero también, afectaría directamente a la conformación del proyec‑ to ético político, puesto que perdería las bases fundacionales del mismo. Esta situación resulta de interés profesional, disciplinar y gremial pues‑ to que se requieren de identificar competencias mínimas en la formación de 493Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014 trabajadores y trabajadoras sociales, las que han de estar respaldadas por las discusiones internacionales realizadas en ese orden, pero también por la con‑ textualización y situación de las unidades académicas en función de las nece‑ sidades y demandas locales y regionales. 6. La inclusión de los derechos humanos en los perfiles de egreso y mallas curriculares de las carreras de trabajo social en las universidades del CUECH en la macrozona norte Brevemente mencionaremos que, para lograr conocer y comprender acer‑ ca del tema, se utilizó como base un enfoque metodológico cualitativo. Se optó por este enfoque, por considerarse una perspectiva que genera conocimiento acerca de la realidad social, incorporando en las formas de conocer múltiples perspectivas eminentemente éticas y políticas (Tójar, 2006, p. 145), con las que se pretende comprender una realidad múltiple, dinámica y holística. Siguiendo esta línea, la investigación cualitativa construye conocimientos inclusivos, históricos, contextuales, provisionales, reflexivos, multimetódicos, sistemáticos, subjetivos y holísticos, lo cual potencia y enriquece los procesos de generación y búsqueda de conocimientos emprendidos desde las ciencias sociales, con la finalidad de comprender, investigar (para transformar) interpre‑ tar y reflexionar, realidades de características diversas y divergentes. Dicho esto, expondremos brevemente el método de análisis realizado respecto de la inclusión de los derechos humanos en los planes de estudios de la carrera de trabajo social en las Universidades del Consorcio de Universidades Estatales de Chile, en la macrozona norte, zona comprendida entre las ciudades de Arica y La Serena, analizando la información disponible en las web site de las Universidades de Tarapacá, rturo Prat, de Antofagasta y de Atacama. Para efectos de la reflexión desplegada, se ha tomado como unidad de análisis los perfiles de egreso y mallas de estudio de las casas de estudio antes señalada, los cuáles han sido trabajados a través de la técnica de análisis de contenido. 494 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014 7. Método: el análisis de contenido El análisis de contenido como técnica de investigación en ciencias socia‑ les indaga en la naturaleza de los discursos, permitiendo “formular, a partir de ciertos datos, inferencias reproducibles y válidas que puedan aplicarse a un contexto” (Krippendorff, 1990, p. 82). Esta técnica obliga a quien investiga a situarse desde una triple perspectiva, considerando los datos, su contexto y los marcos interpretativos propios del investigador o investigadora (Porta y Silva, 2003, p. 2). Así, según lo planteado por Raigada, llamamos análisis de conte‑ nido al “conjunto de procedimientos interpretativos de productos comunicativos” (Raigada, 2002, p. 2). Resulta interesante ahondar en la presentación que realiza el mismo autor respecto de los significados de este tipo de análisis: […] su propia denominación de análisis de “contenido”, lleva a suponer que el “contenido” está encerrado, guardado, incluso a veces oculto dentro de un “con‑ tinente” (el documento físico, el texto registrado, etc.) y que analizando “por dentro” ese continente”, se puede desvelar su contenido (su significado, o su sentido), de forma que una nueva “interpretación” tomando en cuenta los datosdel análisis, permitiría un diagnóstico, es decir, un nuevo conocimiento ( gnoscere “conocer” a través de su penetración intelectual. (Raigada, 2002, p. 2) De esta forma, el análisis de contenido logra la emergencia del sentido latente que procede de las prácticas sociales (Raigada, 2002, p. 7), por lo que no sólo interesa indagar respecto de los datos visibles en los documentos co‑ municativos, sino también en aquellos aspectos no dichos en el discurso. En este estudio se utilizaron unidades temáticas de análisis, las que per‑ mitieron conducir la reflexión a partir de los conceptos, temas y referencias utilizadas o enunciadas en los perfiles de egreso y malla analizados. Ahora bien, para efectos de esta investigación sólo se consideraron aquellos conceptos y temas relacionados con el objeto de estudio. De esta forma, se ha elaborado una serie de categorías, las cuales cumplieron con los requerimientos plantea‑ dos por Berelson (1967, apud López Noguero, 2011, p. 176), en la cual quien 495Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014 investiga razona los motivos de categorización observando los criterios de para ellos establecidos. Este tipo de análisis se complementa con el enfoque de análisis de marcos de política los cuales son entendidos por Mieke Verloo como un “principio organizador que transforma la información fragmentaria o incidental en un problema de estructura y sentido, en la que una solución está implícita o explí‑ citamente incluido” (Verloo, 2005, p. 20). En este sentido, el análisis de marcos de política puede contribuir a la identificación de la coherencia entre un proble‑ ma y su solución, y cómo ambos elementos están presentes en los textos polí‑ ticos (Verloo y Lombardo, 2007). Uno de los aspectos relevantes de este enfoque es la identificación de las ausencias en el discurso político, además, permite identificar prejuicios “que pueden, sin proponérselo formar los discursos políticos y, en consecuencia, se puede revelar inconsistencias latentes, o incluso los prejuicios” (Verloo y Lom‑ bardo, 2007). Asimismo, este tipo de análisis permite identificar las exclusiones existentes en la formulación de las políticas, visibilizando la forma en que “las estrategias discursivas pueden modificar el proceso en sí mismo por medio de la exclusión de algunos actores del debate” (Triandafyllidou y Fotiou, 1998, p. 6.4 apud Verloo y Lombardo, 2007, p. 29). Así, y considerando el carácter exploratorio y descriptivo de este estudio, en los apartados siguientes se expondrán los análisis preliminares. 8. Análisis Desconocemos los procesos que configuraron los planes de estudios y respectivas mallas de las escuelas de trabajo social de la macrozona norte, sin embargo, podemos realizar análisis acudiendo a la información que cada casa de estudio ha considerado estratégica de difundir. De esta forma los análisis primarios tienen relación con la consideración de los Derechos Humanos en los perfiles de egreso tal y como se grafica a continuación. 496 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014 Tabla 1. Categorías de contenidos Nivel 1: Consideración Derechos Humanos en los perfiles de egreso. Categorías Universidades 1 2 3 4 Consideración Derechos Humanos en forma explícita (enfoque de derechos) No de forma explícita, pero hace referencia a la calidad de vida de las personas, grupos, organizaciones y comunidades. No. Pero sí hace referencia al empoderamiento y la superación de situaciones conflictivas que afectan a personas, familias, grupos y comunidades. No hace referencia directa. Sin embargo, se pronuncia en el reconocimiento de diversidad, habla de diferentes sujetos y territorios elementos Sí. Declara como sello distintivo el enfoque de derechos Referencia a derechos civiles y políticos No No No No Referencia a derechos económicos, sociales y culturales No No Sí Sí Referencias a personas o colectivos “sujetos de derechos” No No Sí Sí, declara ponerles en el centro. Referencias a vulneraciones de derecho No No No Sí. Se refiere a las desigualdades como efecto de procesos socio históricos Referencias a la ética No No Sí. Habla respecto del compromiso ético y reconocimiento de la diversidad Sí. Se hace referencia al compromiso ético, y al fomento de la autonomía y protagonismo de las personas Elaboración propia con base en los perfiles de egreso de las unidades académicas señaladas. 497Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014 Los perfiles de egreso suelen entenderse como una declaración formal que realizan las instituciones de educación superior, a través de sus carreras profe‑ sionales, en las cuales asumen el compromiso formativo contraído y constituyen los aspectos característicos de la profesión en dicha institución, identificando los principales ámbitos de realización y las competencias claves. De esta forma, estos perfiles se configuran como declaraciones de carácter político en los que se presentan los compromisos asumidos por las universidades en cuanto a los límites de la habilitación profesional y/o académica entregada a los y las egre‑ sadas de las respectivas carreras. En otras palabras, los perfiles de egreso cons‑ tituyen el compromiso social de la institución de educación superior en el logro de las competencias, pero también en una obligación que ha de ser demandada por la sociedad “en un real desplazamiento de poder hacia lasociedad que aho‑ ra puede y debe reclamar el cumplimiento de las promesas hechas‑poner en claro la intencionalidad del programa‑explicitar (..) los itinerarios formativos” (Hawes, 2012, p. 2) Así, y con base en lo anterior, podemos señalar que en las declaraciones realizadas por las Universidades en las carreras de trabajo social, no se hace consideración a la formación en derechos humanos, o a la perspectiva en dere‑ chos, o cualquier otra noción que pueda significar alguna consideración al tema. Resulta interesante analizar esta ausencia, ya que a pesar de que en términos profesionales se reconoce su importancia en el currículo, esta no es una com‑ petencia con las que contarían quienes egresan de estas instituciones. En consideración del compromiso ético, que podría de alguna forma sol‑ ventar la deficiencia anterior, se observa su presencia sólo en dos de estos perfiles, lo que resulta paradójico en cuanto a la consideración de las caracte‑ rísticas propias del trabajo social. Pese a esto, nos encontramos con una dificultad en la realización de este análisis, puesto que entendemos que los perfiles de egreso son documentos más amplios que los mostrados en las web sites, sin embargo, nos interesan estas declaraciones puesto que son las observables por quienes postulan a las casas de estudios. En esa medida, podríamos especular respecto de la estrate‑ gia que pueden asumir las instituciones respecto de los elementos que podrían 498 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014 ser atractivos para quienes “eligen” cada una de las carreras. Los perfiles de egreso revisados entregan especial énfasis en los campos laborales en los que cada egresado o egresada podría situarse, haciendo un guiño a las necesidades de mercado por sobre las competencias éticas que cada trabajador o trabajado‑ ra social pudiese tener. Complementario a lo anterior, es el énfasis puesto en los aspectos metodológicos y técnicos que perfilan la formación, recordándonos los tiempos en que la profesión se caracterizaba por su mirada tecnocrática, aséptica y neutral. De esta forma, cabe preguntarse entre la coherencia entre estos perfiles esbozados y las mallas de estudios definidas, puntoque se tratará a continuación. Tabla 2. Categorías de contenidos Nivel 2: Consideración Derechos Humanos en la malla curricular. Universidades Categorías Presencia ausencia Asig. DDHH Asignaturas relacionadas con derechos civiles y políticos Asignaturas relacionadas con derechos económicos, sociales y culturales 1 Ausente Introducción al Derecho. asignatura derecho de familia y menores Asignaturas sociedad y población indígena/ecología y gestión ambiental/desarrollo local 2 PresenteDDHH y TS Derecho laboral y familia TS Etnias e inmigrantes 3 Ausente Derecho de familia/ Derecho laboral y seguridad Social Teoría del desarrollo social y regional/ Movimientos sociales y ciudadanía/ Pobreza y estrategias de intervención. 4 Presente DDHH y TS Marco jurídico para la intervención social Ciudadanía y movimientos sociales/ Desarrollo local. Optativos temáticos migraciones, género, medio ambiente, etc. Elaboración propia con base en los perfiles en las mallas de estudio de las unidades académicas señaladas. 499Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014 Entendiendo los perfiles de egreso como la proyección de la política edu‑ cativa de cada unidad (Escuela) y sus mallas de estudio como su representación gráfica, podemos señalar que en las unidades analizadas es posible encontrar una representación implícita o explícita de un diagnóstico, conectado a un pro‑ nóstico y a un llamado a la acción (Verloo, 2005). En este sentido, las unidades académicas proyectan su formación como más cercana a los derechos sociales, económicos y culturales que a los de orden civil o político, estableciendo una especial atención hacia ciertos colectivos como migrantes, pero también a los contextos en los cuáles desarrollan su acción formativa. En este sentido, las asignaturas relativas a los derechos civiles y políti‑ cos, son las que tradicionalmente han estado presentes en las configuraciones cu rriculares del trabajo social desde el año 1925, manteniendo incluso la no‑ menclatura relacionadas con “lo laboral” y “lo familiar”. Retomando a Verloo, la inclusión de asignaturas relacionadas con los Derechos Económicos, Sociales y Culturales (DESC) y los Derechos Civiles y Políticos (DCYP) remite a un pronóstico de necesidad de formación en dichos ámbitos. Sin embargo, su presencia es residual en la estructura curricular. Las asignaturas relacionadas con las otras dimensiones del trabajo social absorben la formación explícita en estas materias. Llama la atención la inclusión de asignaturas relacionadas con los movi‑ mientos sociales y las ciudadanías como parte de los currículos formales de las Escuelas, lo que de alguna manera da luces respecto de la formación de traba‑ jadores y trabajadoras sociales con mayores conexiones con su entorno, capaces de adquirir y ejercer competencias actitudinales, cognitivas y procedimentales relacionadas con el respeto de los derechos de los pueblos. Resulta contradictorio el cruce entre los perfiles de egreso y las mallas presentadas, puesto a pesar de contar con formación específica en derechos hu‑ manos, y asumiendo que estos son presentados de forma transversal en asigna‑ turas como las prácticas, ética y otras, este sello profesional, este principio rector no es evidenciado en los perfiles de egreso. De esta forma, podríamos suponer que la ausencia de los derechos humanos, o si quiera el enfoque de derechos en los perfiles a pesar de considerarse en las mallas y planes de estudio, podría de‑ berse a una acción deliberada en pos de atraer perfiles de ingreso altamente 500 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014 sensibles a las conjeturas del mercado. Lo anterior, aclararía la inconsistencia entre el compromiso desplegado en el perfil y su expresión en la malla, puesto que son estos elementos más sensibles, pertenecientes a lo que entendemos como proyecto ético político del trabajo social los que quedan ausentes en las decla‑ raciones suscritas por las instituciones de educación superior. La consideración de los derechos humanos en los perfiles de egreso y estructuras curriculares permite formar profesionales que ejerzan como sujetos de derecho, intencionado de esta forma las competencias y habilidades referi‑ das a la toma de decisiones en escenarios complejos, propios del trabajo social, en especial cuando estas decisiones comprometen la dignidad y libertad de las personas. El apostar por la formación de profesionales que tengan como caracterís‑ ticas el ser sujeto de derechos los convertirá en personas capaces de […] equilibrar los derechos a la igualdad con los derechos a la diferencia y de ser un agente de cambio que combata la exclusión social, cultural y política, la se‑ gregación, el desarraigo, las injusticias e inequidades, las asimetrías sociales, las discriminaciones, los prejuicios y estereotipos, el racismo y la xenofobia, los choques culturales y sociales derivados de la falta de reconocimiento mutuo. (Magendzo, 2011, p. 113) Traemos aquí el gráfico realizado por el mismo autor de la cita anterior respecto de la importancia de las competencias genéricas relacionadas con los derechos humanos para forjar a profesionales ciudadanos y ciudadanas sujetos de derecho. De esta forma, la incorporación de competencias genéricas relacionadas con los derechos humanos permitirá y facilitará la formación de profesionales que sean agentes activos de la democracia, la capacidad de elección, el respeto a la dignidad y diversidad, y corresponsables del bien común. Lo anterior per‑ mite el cumplimiento de visiones que comprometen el reconocimiento de los egresados y egresadas por sus capacidades y compromiso ético, ética que al ser aplicada ve su mayor concreción en el respeto, promoción y defensa de los derechos humanos. 501Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014 El sujeto de derechos Sujeto activo partícipe de la vida democrática Sujeto deliberante Sujeto que conoce y ejerce sus derechos Sujeto respetuoso de la dignidad y los derechos de los otros Sujeto corresponsable del bien común Participar de modo responsable en la vida familiar, comunitaria y nacional, construyendo un sentido de identidad que lo vincula a lo social. Participar activamente en la vida democrática, tomando decisiones como ciudadano. Actuar como ciudadano responsable ante si mismo y ante los demás, autónomo, capaz de ejercer su libertad y respetar la de otros. Valorar la democracia, la tolerancia, la no discriminación, la solidaridad, la responsabilidad y la acogida y reconocimiento del otro/otra. Compartir las concepciones del bien de su comunidad y sociedad y participar en las discusiones y conversaciones públicas. Formular planes de acción y proyectos de vida Tomar decisiones Autorregular social y emocionalmente su conducta Convivir con la diversidad cultural y social Comprender y compartir el capital social y emocional Ciudadano sujeto de derechos Ilustración 1. Competencias genéricas para la formación de un sujeto de derechos En: Magendzo, A., 2011, p. 118. DESARROLLA COMPETENCIAS PARA LO QUE LE PERMITE SE DESARROLLA COMO SE CONSTRUYE COMO 502 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014 9. Conclusiones y reflexiones La educación en Derechos Humanos es un imperativo ético, no sólo para los y las profesionales de lo social, sino también una necesidad tendiente al fortalecimiento de las ciudadanías. Hoy en día, y según nuestra experiencia, los y las estudiantes observan con extrañeza la sola idea de hablar de Derechos Humanos. Extrañeza, puesto que hablamosde jóvenes que en su gran mayoría acceden a bienes y asocian la concepción de derechos a aquellos propios de los consumidores. En este sentido, consideramos relevante la inclusión de asignaturas que expliciten la relación entre la profesión y los Derechos Humanos. Este tipo de asignaturas se configuran como un elemento basal en la formación de los y las trabajadoras sociales, pretendiendo estudiar en profundidad la noción de dere‑ chos humanos y los diversos problemas éticos y prácticos que ésta plantea, vinculándolos con el ejercicio profesional, relacionando la noción de Derechos Humanos con la intervención histórica y situada realizada en trabajo social. Creemos que realizar un reconocimiento explícito respecto de la impor‑ tancia de los derechos humanos como parte fundamental en un proyecto ético político en trabajo social, sentado en la democracia, y en lo que Montaño reco‑ ge como “progresista”, permite formar profesionales con un alto compromiso ético, y protagonistas de sus propios procesos de subjetivación. Los perfiles de egreso y las mallas de estudios constituyen declaraciones políticas de lo que la academia proyecta como definitorio y necesario en la formación de profesionales, encontrándose ante la tensión entre el mercado que condiciona, coarta y seduce; y las definiciones ético políticas esenciales para la formación en trabajo social. Dado lo anterior, cabe preguntarse respecto de quién es la voz proyectada en los perfiles de egreso y mallas curriculares: ¿es la voz del medio?, ¿de los egresados y egresadas, del mercado laboral, de los académicos y académicas, de las organizaciones profesionales? Creemos que responder a estos cuestionamientos, y reflexionar respecto de estas cuestiones permite avanzar hacia la construcción de un proyecto ético en el que los Derechos Humanos tengan un rol principal. 503Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014 Sin intentar apropiarse de una expertise en el tema, se presentan algunas recomendaciones a considerar en el tratamiento de los Derechos Humanos en las políticas públicas de educación superior en general y en las escuelas de trabajo social en particular. Se hace necesario, dado el contexto actual chileno, el fortalecer la política pública de educación superior para que ésta establezca como elemento trans‑ versal en los currículos universitarios la educación en Derechos Humanos, con especial énfasis en la educación para la paz, la ciudadanía y la democracia, difundiendo a la vez, los instrumentos de Derechos Humanos suscritos por el país, con tal de contar con profesionales y técnicos que sean capaces de consi‑ derar el marco de análisis de los derechos humanos en sus actuaciones. Así también, se recomienda considerar en los planes de estudios de las carreras relacionadas con lo social y lo jurídico, asignaturas que consideren los derechos de niños y niñas, la igualdad entre hombres y mujeres, la lucha contra la discriminación y la xenofobia, el derecho a la diversidad, el respeto a los pueblos originarios, y todos aquellos derechos consignados en la carta Interna‑ cional de Derechos Humanos. En el mismo sentido se propone la incorporación del enfoque de derechos, en el diseño, ejecución y evaluación de políticas públicas y sociales ejecutadas por la plataforma estatal, considerando para esto el Pacto Internacional de De‑ rechos Económicos, Sociales y Culturales. En el caso de las escuelas de trabajo social, se recomienda incorporar cursos de Derechos Humanos, explicitando así su importancia y trascendencia para el cumplimiento del perfil profesional, y aportar a la construcción del proyecto ético político del trabajo social. Lo anterior requiere de estipular mi‑ siones y principios institucionales que den cuenta de la relación intrínseca entre derechos humanos y trabajo social, en otras palabras, se requiere declarar con fuerza y convicción la necesaria inclusión de los derechos humanos en los planes de estudios de trabajo social para así formar a profesionales que sean sujetos de derechos y contribuyan a que otros y otras también lo sean. En el plano relacional, es necesario abogar por la instalación de relaciones, procesos y procedimientos con base en los derechos humanos al interior de cada una de las instituciones. 504 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014 En la formación de posgrado es preciso generar planes de formación que entreguen elementos profesionalizantes de profundización en Derechos Huma‑ nos, permitiendo fortalecer la investigación social en esa temática. Finalmente, se requiere acciones que permitan formar a los trabajadores y trabajadoras sociales como sujetos de derechos y promotores de los mismos, incentivándoles a considerar los Derechos Humanos como el marco de actua‑ ción, el guión emancipatorio de las intervenciones, investigaciones y sistema‑ tizaciones realizadas en trabajo social. Recebido em 8/4/2014 ■ Aprovado em 2/6/2014 Referencias bibliográficas AZUA, Enrique. La educación en Derechos Humanos. 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Karl Marx, A miséria da filosofia Resumo: Este artigo trata dos diferentes sentidos que a palavra “social” assumiu à luz de alguns momentos‑chave das lutas de classes desde meados do século XIX. Com base nessa perspectiva histórico‑ ‑crítica, analisamos a substantivação do adjetivo “social” e a imputamos à ascensão do movimento operário e à emergência da “questão social”. Em seguida, discutimos a contraposição entre a “sociedade” e a “co‑ munidade”, cujo pano de fundo é o processo de “decadência ideológi‑ ca da burguesia” e a reabilitação do passado feudal e dos ideais aris‑ tocráticos após 1848 por pensadores como A. de Tocqueville e F. Tönnies. Palavras‑chave: Social. “Questão social”. Decadência ideológica da burguesia. Comunidade. Abstract: This article deals with the different senses the word “social” has taken at some fundamental moments of the class struggles since the middle of the nineteenth century. Based on that historical and * A gestação deste artigo se deu nos marcos do Programa de Pós‑Graduação em Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro e é dedicado aos docentes e colegas que, generosamente, debateram suas premissas e incentivaram sua confecção. ** Graduado em Ciências Sociais pela PUC‑SP, mestre em Serviço Social pela Escola de Serviço Social da UFRJ/Rio de Janeiro/RJ, Brasil, doutorando em Ciência Política na Universidade Livre de Berlim/Alemanha. E‑mail: victorstrazzeri@gmail.com. 509Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014 critical perspective, we analyzed the transformation of the adjective “social” into a noun, and we related it to the rising of the workers’ movement and to the emergence of the “social issue”. Then we discussed the opposition between “society” and “community”. The background of such opposition is the process of “ideological decadence of the bourgeoisie” and the rehabilitation of the feudal past and aristocratic ideals by thinkers as A. de Tocqueville and F. Tönnies after 1848. Keywords: Social. “Social issue”. Ideological decadence of the bourgeoisie. Community. No dizer do jovem Marx: “Ser radical é agarrar as coisas pela raiz. Mas, para o homem, a raiz é o próprio homem” (Marx, 2005, p. 151). E a raiz das palavras? No domínio da gramática ou da linguística tradicionais trata‑se de seu radical. Neste artigo pro‑ curaremos demonstrar como o exame das palavras segundo sua forma de aná‑ lise tradicional pode se mostrar uma iniciativa reveladora, mas que ampliada por uma ida à raiz ontológica, ao ser social, torna‑se ainda mais fecunda. Termo‑chave para o campo do Serviço Social é “questão social” que, a despeito da carga ideológica que a acompanha, é uma categoria fundante. Na bibliografia consagrada à área, essa noção é de difícil tematização, já que se por um lado alguns dos pensadores referência do Serviço Social habilmente a des‑ constroem (José Paulo Netto, Marilda Iamamoto etc.), relegando o termo para a constrição do entre aspas, ainda assim não o descartam. Ao contrário, se apropriam do termo “questão social” e trazem‑no para o campo dos estudos críticos no âmbito de um esforço de apreensão das mediações necessárias para a compreensão histórica do Serviço Social. A lição metodológica é precisa: [...] a apreensão da particularidade da gênese histórico-social da profissão nem de longe se esgota na referência à “questão social” tomada abstratamente; está hi‑ potecada ao concreto tratamento desta num momento muito específico do proces‑ so da sociedade burguesa constituída, aquele do trânsito a idade do monopólio. (Netto, 2001, p. 18; grifos nossos) Há, portanto, uma “questão social” tomada abstratamente e uma “questão social” após sua crítica materialista, que se levada a bom termo desvela o con‑ teúdo efetivo que o termo (liberto das aspas) oculta. Ir à raiz da noção citadaé 510 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014 “tomar a ‘questão social’ como problemática configuradora de uma totalidade processual específica, é remetê-la concretamente à relação capital/trabalho — o que significa, liminarmente, colocar em xeque a ordem burguesa” (Idem, p. 32). Importante questão para o campo do Serviço Social é a difícil posição em que se colocam tanto pensadores quanto operadores desta área ao erguê‑la sobre a sua negação/superação. Estas circunstâncias exigem um esforço permanente de busca das mediações que permitam tematizar o Serviço Social para além de uma adesão irrestrita ao seu sentido conservador, indutor de coesão social, mas igualmente para além de seu rechaço completo como mera negatividade. Pareceu‑nos oportuno produzir uma pequena intervenção que possa com‑ por esse esforço de construção de mediações. Acreditamos que a elucidação do percurso histórico do termo “social” — dotado de caminho relativamente inde‑ pendente, mas intrinsecamente ligado com aquele trilhado pela expressão “questão social” — pode oferecer alguns elementos para compreender a gêne‑ se e o devir histórico desta última. * * * No campo das ciências humanas o vocábulo “social” figura já na denomi‑ nação de alguns de seus principais ramos, como a Ciência e o Serviço Sociais. Nos marcos dessas áreas, conceitos fundantes, como “ação social”, “classe social”, “assistência social” e “política social”, são por ele acompanhados. Se nos ativermos à premissa básica desses domínios científicos — isto é, o estudo e a intervenção sobre a realidade social —, podemos supor que o uso reiterado do termo se justifica pela relação desses saberes com o homem enquanto ser que se reproduz e se desenvolve necessariamente em sociedade. Tal caracterís‑ tica intrínseca emprestaria a toda ciência ou campo do saber relativos ao homem em sua convivência com outros homens a alcunha de “social”. Mas aqui já chegamos a um primeiro impasse. Que o homem vive e se desenvolve em grupos de indivíduos de diversas magnitudes e com caracterís‑ ticas diversas, é difícil negar. Mas que ele é um ser intrinsecamente social, in‑ capaz de viver fora do âmbito coletivo, não constitui um consenso. Desde o princípio da era burguesa — não por acaso — coloca‑se em questão o vínculo 511Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014 necessário homem‑sociedade, não faltando defesas do caráter intrinsecamente autônomo e autocentrado do indivíduo. A mais célebre dessas iniciativas é o Robinson Crusoé (1719), de William Defoe, relato das desventuras de um náu‑ frago em uma ilha deserta, para o qual o convívio com outros seres humanos é tido como desejável, mas inteiramente dispensável. O caráter ficcional da obra de Defoe depõe de forma alguma contra seu estatuto de retrato fiel da concepção de homem que se tornava predominante nos séculos XVII e XVIII na Inglaterra, e que Marx denominou o “ponto de vista da economia política”.1 Trata‑se das “robinsonadas”, isto é, a generaliza‑ ção da competição capitalista entre os indivíduos para uma condição humana intrínseca, desprovida de historicidade. Nas palavras de Marx, tratar‑se‑ia: [...] da antecipação da “sociedade civil”, em preparação desde o século XVI e dando enormes passos rumo a sua maturação no XVIII. Nessa sociedade de livre competição, o indivíduo aparece desligado dos laços naturais etc. que em períodos históricos anteriores faziam dele um apêndice de um conglomerado humano de‑ finido e limitado. (Marx, 1973, p. 83; tradução do autor) No âmbito das ciências humanas, a absolutização da esfera individual ainda se faz presente e com especial força nesta quadra histórica chamada neoliberal, que reabilitou o individualismo possesivo, a competição e a exalta‑ ção do mercado (o que mantém vigente o recurso à “robinsonada” e sua crítica por Marx). Assim, se o momento histórico‑concreto se caracteriza pela ofensi‑ va neoliberal e pelo refluxo do movimento operário, compreende‑se que a noção de uma sociabilidade intrínseca ao homem não deverá ser hegemônica no plano da ideologia e tampouco no da linguagem (supondo aqui que a esfera da linguagem seja, em termos relativos, subalterna à da ideologia). 1. Assim, Hobbes (1994, p. 106) descreve no Leviathan (1651) o homem antes de tudo como um ser antissocial, intrinsecamente competitivo e incapaz de viver em sociedade, senão sob o jugo de um poder superior instituído por um contrato que limite as ambições e demais impulsos violentos e egoístas dos homens. Locke também assevera uma liberdade original irrestrita para o homem no seu Segundo tratado sobre o governo de 1689, de acordo com o qual a sociedade não é condição básica da vida humana. Para ele, a virtude da vida social seria, acima de tudo, assegurar o respeito à propriedade privada, esta sim intrínseca ao homem em seu estado de natureza (cf. Locke, 2001, p. 468). 512 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014 Isto nos leva a crer que o termo “social”, de uso tão frequente, assume necessariamente significados diferentes para aqueles que o empregam, ainda que isto não esteja explícito de imediato. Sustentamos que, de pronto, ao menos dois campos claramente opostos se delimitam a partir das perspectivas ontoló‑ gicas antagônicas que, de um lado, descrevem o homem como intrinsecamente social e, de outro, como mônada autossuficiente (ressaltando que nem toda visão se reduz a uma destas concepções). Assim, quando se utiliza o adjetivo “social” há necessariamente uma cisão de sentido, já que sociedade é, para uns, o meio necessário no qual se dá a vida humana e, para outros, uma construção contingente com um propósito específico de existência. E se há um corte claro no âmbito dos fundamentos ontológicos dos dis‑ cursos, também há outro — que não necessariamente reproduz o primeiro — que opõe campos antagônicos do discurso político. Quando examinamos, ainda que superficialmente, o vocabulário empregado pela literatura crítica (“transforma‑ ção social”, “lutas sociais”, “movimentos sociais”) frente à conservadora (“caos social”, “revolta social”, “convulsão social”), percebemos uma mudança de sentido, mas também um deslocamento valorativo. Nesses usos em particular, devemos atentar para o fato de que nem todo “social” significa “aquilo que é relativo à sociedade”. E isto se dá em ambos os extremos do espectro ideológico, já que se com a expressão “movimento social” não se pretende fazer referência a um movimento da sociedade, “revolta social” tampouco se refere a uma revolta desta. Que o “movimento” e a “revolta” se dão na sociedade é uma tautologia, por que então adjetivá‑los como “sociais”? Ne‑ cessariamente, pois o termo social as qualifica num outro sentido, revestindo os termos com tonalidade política. “Movimento social” é uma ação coletiva de um setor descontente da sociedade com vistas a sua transformação em algum grau; “revolta social”, por sua vez, também não faz referência ao todo da sociedade, já que provavelmente exclui os bons cidadãos que utilizam tal expressão.2 Assim, a forma de adjetivo de que se reveste o termo “social”, em todos os empregos enumerados anteriormente, oculta um outro conjunto de significados 2. É possível até que remeta ao mesmo agrupamento de descontentes pertencentes ao “movimento”, imputando‑lhe, todavia, um caráter negativo em virtude da ruptura com a ordem. 513Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014 que a palavra incorpora, e que se liga a sua manifestação enquanto substantivo. Atentemos para essa diferenciação, pois nos dá a chave para elucidar a polisse‑ mia nem sempre manifesta da palavra “social”. Segundo o Dicionário Houaiss da língua portuguesa, o adjetivo “social” denomina algo “concernente à sociedade” ou que é “relativo à comunidade,ao conjunto dos cidadãos de um país”. É contudo, a segunda classe de uso do vocábulo sob a forma de substantivo que nos dá a chave para a compreensão do termo em questão. O “Social”, ainda segundo o Houaiss, é “o que pertence a todos; público, coletivo” e também “o que diz respeito ao bem‑estar das massas, especialmente as menos favorecidas”. Não bastasse essa mudança semântica considerável, o caráter de substan‑ tivo é por si só revelador, já que para “social” ter se tornado o “social” — refe‑ rindo-se especificamente às “massas menos favorecidas” e não “ao conjunto dos cidadãos” —, significa que ele se tornou, em alguma medida, independen‑ te da sociedade como um todo. Faz‑se necessário examinar, portanto, o percurso histórico que permitiu que “social” deixasse de remeter à “sociedade”, passando a qualificar apenas parte dela. Sustentamos que a substantivação do termo incorpora o caráter reificado que assumem nas ideias da classe dominante, as tais “massas” acima referidas. Parece‑nos, portanto, oportuno analisar a maneira como o “social” tornou‑se um corpo estranho à própria “sociedade” que, enquanto termo, passou ela mesma a ser sujeita a alterações de sentido, bem como a ser preterida por outros termos (em especial pela “comunidade”, o que examinaremos ao final deste texto). Para isso voltaremos ao momento histórico que marca a origem comum tanto desse “social” em sentido restrito quanto da “questão social”, as revoluções europeias da primeira metade do século XIX. * * * A gênese do termo “questão social” se dá num momento‑chave da história europeia, segundo nos informa José Paulo Netto: Todas as indicações disponíveis sugerem que a expressão “questão social” tem história recente: seu emprego data de cerca de 170 anos. Parece que começou a 514 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014 ser utilizada na terceira década do século XIX e foi divulgada até a metade da‑ quela centúria por críticos da sociedade e filantropos situados nos mais variados espaços do espectro político. (Netto, 2001, p. 152) O ano de 1830 é, para todos os efeitos, a data em que o proletariado faz sua primeira aparição histórica enquanto ator político “em si” (o “para si” dar‑ ‑se‑ia apenas em 1848). Decorridas algumas décadas de industrialização em território francês, e dada a constrição imposta à grande burguesia pelo predo‑ mínio político dos grandes possuidores de terra no período da Restauração, a revolução voltava à ordem do dia na França. Os vários setores da burguesia local se unificam e mobilizam o proletaria‑ do para instaurar, por meio de uma revolução, uma nova ordem que se materia‑ lizaria na monarquia constitucional encabeçada por Louis Phillipe de Orléans, a Monarquia de Julho. Para prejuízo de boa parte das forças sociais envolvidas em tal transformação — em especial para o proletariado, que não aufere nenhum benefício da nova situação, o que, em parte, também vale para as camadas médias —, a nova hegemonia instaurada era de um setor burguês restrito ligado à grande indústria e em especial ao embrião de uma classe parasitária ligada ao capital portador de juros, a “aristocracia financeira”. O que subjaz a este pano de fundo político é aquilo que igualmente engen‑ dra a “questão social”. Trata‑se de um período marcado por dois condicionantes principais: Primeiramente, a elevação quantitativa exponencial da miséria e do pauperismo, ressaltada pelo contexto de aumento nunca antes visto das capaci‑ dades produtivas (Netto, 2001, p. 153). E, em segundo lugar, mas não menos importante, na transformação qualitativa das formas de protesto contra essas condições, agora protagonizadas por uma nova classe. Seria este o determinan‑ te‑chave para o cunhar do novo termo. Neste sentido: A designação desse pauperismo pela expressão “questão social” relaciona‑se di‑ retamente aos seus desdobramentos sociopolíticos. [...] Lamentavelmente para a ordem burguesa que se consolidava, os pauperizados não se conformavam com a sua situação: da primeira década até a metade do século XIX, seu protesto assumiu as mais diferentes formas, [...] configurando uma ameaça real às instituições sociais 515Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014 existentes. Foi a partir de uma eversão da ordem burguesa que o pauperismo designou‑se como “questão social”. (Idem, p. 154) A “questão social” nunca foi, portanto, a questão da sociedade ou “refe‑ rente ao conjunto da sociedade”, mas sim, desde seu surgimento, foi a questão de um segmento desta, que, por ser potencialmente revolucionário, punha em risco o projeto de sociedade da burguesia, classe que em 1830 consolidava sua posição hegemônica. São, portanto, as implicações da questão operária que, “em seguida, o pensamento conservador designará com a fórmula aparente‑ mente neutra de ‘questão social’” (Netto, 2004, p. 61), que fundamentam a nova expressão. Oculta sob o adjetivo “social” está a classe operária, sem a qual o termo deixa de fazer sentido, inclusive na maior parte dos usos contem‑ porâneos da palavra. Se “social” e “operário” caminham juntos, e se, sem se confundir, estão intrinsecamente ligados, é possível compreender a razão pela qual “[c]uriosamente, a expressão ‘questão social’ emerge praticamente ao mesmo tempo em que surge, no léxico político, a palavra socialismo” (Netto, 2001, p. 152, n. 3). O “socialismo” é a formalização necessária no âmbito do discurso e das ideias políticas das pretensões do “social” de moldar uma nova sociedade, ou seja, é um reflexo das formas de rebelião política que assume o não conformismo dos setores subalternos da sociedade capitalista. No texto de Marx, Las luchas de clases en Francia de 1848 a 1850, fica patente a natureza socialmente enraizada da flutuação semântica do termo “so‑ cial”. É, sobretudo, nas revoluções de 1848 que o vocábulo deixa de caracteri‑ zar apenas no discurso de uma consternada classe burguesa uma nova forma de pauperismo, sendo apropriado pelas próprias massas trabalhadoras nas suas palavras de ordem e reivindicações após a vitória da revolução de fevereiro: Lo mismo que en las jornadas de julio habían conquistado luchando la monarquía burguesa, en las jornadas de febrero los obreros conquistaron luchando la repú‑ blica burguesa. Y lo mismo que la monarquía de julio se había visto obligada a anunciarse como una monarquía rodeada de instituciones republicanas, la repú‑ blica de febrero se vio obligada a anunciarse como una república rodeada de instituciones sociales. El proletariado de París obligó también a hacer esta con‑ cesión. (Marx, 2005, p. 133) 516 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014 Marx nos mostra que o termo “social” passa, a partir de certo ponto, a se identificar diretamente com as demandas da classe operária assim como “re‑ publicano” remeteria às reivindicações burguesas frente ao Antigo Regime. As “instituições sociais” apontariam, portanto, para além da república meramen‑ te burguesa. Mas o que fundamentaria essa apropriação por parte do proletariado do vocábulo “social”, se esse fora forjado pela classe burguesa? Argumentamos que desde os primórdios de seu uso, a batalha pela reivindicação do verdadeiro significado do “social” reside ora na sua particularização, ora na sua universa‑ lização pelas diferentes classes sociais em luta. À classe burguesa interessava, em um primeiro momento, universalizar abstratamente o significado do adje‑ tivo “social”, isto é, competia pulverizar a referência politicamente perigosa à classe operária num “social” que remetesse ainda ao conjunto da sociedade. Isto se explica, pois entre 1830 e 1848 a burguesia ainda sustenta a pretensão, objetivamente fundada, de incorporar, enquanto ente social particular, os inte‑ resses da sociedade como um todo, como havia feito na grande revolução de1789. Nesse período, a classe burguesa ainda enxerga no avanço de seus inte‑ resses particulares o progresso do todo da sociedade. Isto não constituía falsa consciência, senão o reflexo de uma realidade que colocava na ordem do dia a expansão da revolução burguesa, rumo ao pleno desenvolvimento das relações sociais capitalistas. Se essa utilização inicial do termo “social” no período citado correspondia, no plano do discurso, às pretensões universalizadoras de uma classe burguesa ainda revolucionária, justamente por ocultar o caráter de classe que possuíam os conflitos societários da época no seio do que havia sido o terceiro Estado, a situação se reverte quando o proletariado passa a reivindicar para si o status de classe depositária do interesse geral. Assim, é também da universalidade então inerente ao termo “social” da qual irá se nutrir o proletariado ao fazer deste o complemento de suas principais demandas: as instituições sociais, a emancipa‑ ção social etc. Segundo José Paulo Netto (2004, p. 51): Até então [1848], frequentemente as demandas dos segmentos vinculados ao trabalho apareciam indistintas dos projetos burgueses, subsumidas na aspiração 517Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014 revolucionária da igualdade, da fraternidade, e da liberdade. O trabalho, nos confrontos sociopolíticos, surgia também e ainda subordinado ao capital. É nas jornadas de 1848, que se patenteia o radical antagonismo entre ambos: quando se põe a exigência da república social, explicita‑se o limite do mundo burguês. Para opor as pretensões de classe universal do proletariado, bem como suas reivindicações sociais, a burguesia que no pós‑1848 se revestiu de um ímpeto eminentemente conservador, precisou fazer a operação inversa à que havia realizado antes: se de início competia generalizar abstratamente os interesses das classes trabalhadoras, para que pudesse assumi‑los como seus, agora era imperativo particularizar esses interesses, imputando‑os a um setor pretensamente minoritário da sociedade, restringindo os males prove‑ nientes da “questão social” a anomalias sanáveis dentro da ordem vigente. Com essa viragem nas pretensões políticas da classe burguesa concomitante à entrada revolucionária do proletariado na cena histórica, restringe‑se pro‑ gressivamente o sentido do vocábulo “social”, que não mais se confunde com o que “concerne ao todo da sociedade”, passando a remeter apenas a um setor particular desta. * * * O destino do termo “sociedade” é outro caso digno de nota no percurso histórico do “social”. Pois o progressivo esvaziamento do adjetivo “social” — que naturalmente advém do substantivo “sociedade” — não deixa este úl‑ timo termo incólume. A substantivação do “social”, isto é, o processo que torna o “social” um objeto reificado, torna o uso da palavra “sociedade”, por sua vez, um embaraço terminológico. O processo segundo o qual isso ocorre passa por um fenômeno diretamente relacionado aos acontecimentos de 1848‑49 discutidos acima, isto é, à guinada decisiva que a burguesia dá rumo ao campo conservador. No campo dos conflitos de classe isso equivaleu à opção da classe burgue‑ sa por uma aliança com seus antigos adversários — a aristocracia, os grandes possuidores de terra — para fazer frente às reivindicações do proletariado (muitas das quais estavam, à época, inscritas no programa da revolução burguesa 518 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014 e atendiam aos interesses dessa classe). No campo da ideologia, registram‑se mudanças sensíveis: recorre‑se às ideias sustentadas pelas classes remanescen‑ tes do Antigo Regime ou por aqueles que delas descendem, já que mesmo as ideias sustentadas pela burguesia do século XVIII se provam perigosas porque passíveis de apropriação pelo proletariado revolucionário. A figura emblemáti‑ ca desse câmbio nas pretensões da burguesia que ecoa no domínio ideológico é, sem dúvida, Alexis de Tocqueville. Tocqueville é tido hoje como um dos principais autores liberais do século XIX, uma asserção indiscutível. O que é digno de nota, todavia, é que o pensa‑ dor francês pertenceu à aristocracia e vivenciou o período da Revolução de 1789, “quando seus pais foram aprisionados e seu avô materno, o marquês de Rosambo, morreu na guilhotina em nome da liberdade, da igualdade e da fra‑ ternidade”. (Barbu, Z. “Apresentação”, in Tocqueville, 1997, p. 12) Lembremos que o liberalismo havia sido a expressão máxima da burguesia no campo das ideias enquanto ainda se contrapunha às classes do Antigo Regime. Como é possível, portanto, que um dos grandes continuadores do liberalismo no segun‑ do quartil do século XIX tenha sido um aristocrata? O fenômeno‑chave aqui é, sem dúvida, o esgotamento do papel revolucio‑ nário da burguesia que se revela em um período que já mencionamos, a saber, [...] o ano de 1848 e os dias sangrentos de junho, a primeira ação independente da classe trabalhadora, que marcou de tal forma a ideologia da burguesia fran‑ cesa, que, após este período, a ideologia burguesa deixou de desempenhar um papel progressista na França por um bom tempo. A ideologia se tornou adaptável, caminhando para a mera apologia da burguesia. (Lukács, 1964, p. 85; tradução do autor) Assim, a centralidade que assume Tocqueville para o pensamento burguês é fruto de uma necessidade histórico‑concreta que determinava que a crítica aristocrática da sociedade burguesa era preferível à sua crítica revolucionária por parte da classe operária. Em outras palavras, o imperativo de manutenção do status quo determinava que se estabelecesse uma identificação entre o uni‑ verso feudal e o burguês contra o perigo vindo das massas, que se nutriam dos ideais da própria burguesia revolucionária. 519Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014 Isto se dá, no campo da ideologia, por meio de uma inversão na perspecti‑ va histórica. No período revolucionário, o passado feudal foi julgado com os olhos do novo tempo em construção pela burguesia, e, portanto, era criticado pelo absoluto cerceamento da liberdade do indivíduo, pela forma arbitrária com que o poder era exercido por uma minoria restrita e pelo obscurantismo que dava coesão ao todo social. Em meados do século XIX, fica claro que tais crí‑ ticas são passíveis de apropriação pelos elementos descontentes com a própria sociedade burguesa. A solução encontrada foi a revalidação da era feudal, com a recuperação parcial da ideologia que a sustentava. Assim, a guinada conservadora da burguesia a partir de 1848‑49 inicia‑se com a crítica de seu próprio período revolucionário e dos ideais sem os quais não haveria ela própria rompido as amarras feudais e instaurado uma realidade histórica moldada à sua imagem. Condena‑se de forma irrestrita o Iluminismo e sua incitação ao progresso, bem como o processo revolucionário de 1789, ou seja, instaura‑se a crítica, que perdura até hoje, do progresso, da razão e das sublevações revolucionárias.3 O estatuto ideológico feudal é reabilitado, isto é, a liberdade em seu sentido aristocrático, a naturalização de uma divisão hierárquica da socieda‑ de, bem como a crítica à soberania popular e ao sufrágio universal são todas apropriadas por uma burguesia tornada classe dominante. A ruptura entre a ordem capitalista e a ordem feudal se vê, portanto, escamoteada, o que de‑ manda uma mudança de perspectiva sobre o caminhar da própria história.4 Assim, para a primeira burguesia, houve história, mas com sua chegada ao poder não haveria mais. A burguesia do período da decadência, por sua vez, extirpa por completo o devir da história ao negar a ruptura feudalismo/capi‑ talismo, o que, por extensão, significa a negação de qualquer possibilidade de ruptura futura. 3. Cf. Lukács (2007, cap. 1). 4. O método de Marx já delimitava de maneiraclara uma forma alternativa — efetivamente antagônica à adotada pela burguesia da época da decadência — de contrapor épocas históricas: “Nesta concepção teórica [a de Marx — V.S.], ao contrário das teses positivistas, é o mais complexo que esclarece o menos complexo — donde o estudo da ordem burguesa oferecer elementos para iluminar formações sociais anteriores” (Netto, 2004, n. 36). 520 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014 O recurso à análise da realidade capitalista vista à luz da realidade feudal é especialmente nítido em A. Tocqueville. Sua contribuição à tematização de nosso objeto centra‑se sobre a noção de “associação”, que ele irá analisar tor‑ nando patentes os traços descritos acima quanto ao pensamento da decadência. Em suas considerações, Tocqueville subverte este que é um termo caro à tradi‑ ção revolucionária e à classe trabalhadora, imputando‑lhe uma origem feudal num processo de apropriação e ressignificação que visa neutralizá-lo. Segundo ele, a associação é uma instituição feudal, que quando praticada por aristocratas constituía processo simples e efetivo, já que se tratava da junção de uns poucos homens poderosos que reuniam em torno de si toda uma massa de pessoas a sua disposição para realizar um objetivo comum. Ao contrário do que acontece nas sociedades democráticas, a coesão é um dado imediato nas sociedades que Tocqueville denomina “aristocráticas”, já que “os homens não precisam se unir para agir, porque são mantidos fortemente juntos” ( Tocqueville, 2000, v. 2, p. 132). O pensador francês toca num tema caro àqueles imbuídos da tarefa de reabilitar a ordem feudal, a saber, sua pretensa organicidade e coesão que se contrapõe ao individualismo exacerbado da sociedade capitalista. Ainda segun‑ do o autor: “Cada cidadão rico e poderoso, nelas constitui como que a cabeça de uma associação permanente e forçada, que é composta de todos os que ele mantém em sua dependência e que faz concorrer para a execução de seus pro‑ jetos” (Idem). Essa linha de argumentação faz‑se típica após os esforços iniciais de pen‑ sadores como Tocqueville e se caracteriza pela crítica a uma faceta da socieda‑ de moderna acompanhada pela justificação das contradições da ordem feudal. Neste sentido, ao tomar essas duas realidades sociais como equivalentes para compará‑las, perde‑se o salto qualitativo que marca centralmente a revolução burguesa, isto é, o progresso frente às formações sociais anteriores. Pondera‑se abstratamente prós e contras de cada etapa histórica como se existissem lado a lado: o preço da coesão e harmonia interna da sociedade feudal teria sido a dominação aristocrática; já o preço da liberdade da sociedade burguesa seria o individualismo que, contrariamente aos cânones da tradição liberal pré-deca‑ dência, é tido pelo pensador francês como negativo: “Nos povos democráticos 521Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014 [...] todos os cidadãos são independentes e fracos, não podem quase nada por si mesmos e cada um deles não poderia obrigar seus semelhantes a lhe prestar seu concurso. Assim, caem todos na impotência se não aprendem a se ajudar livremente” (Idem). A alternativa estaria justamente na recuperação da associação, que seria, nas “sociedades democráticas”, um verdadeiro imperativo dada a impotência do indivíduo isolado. O modelo para as associações de tipo novo, Tocqueville encontra nos Estados Unidos: A primeira vez que ouvi dizer nos Estados Unidos que 100 mil homens tinham se comprometido publicamente a não fazer uso de bebidas fortes, a coisa me pareceu mais inconsequente do que séria [...]. Acabei compreendendo que esses 100 mil americanos, assustados com o aumento da embriaguez à sua volta, tinham dese‑ jado patrocinar a sobriedade. Tinham agido precisamente como um grão‑senhor que se vestisse muito singelamente a fim de inspirar aos simples cidadãos o des‑ prezo ao luxo. É de crer que, tivessem esses 100 mil homens vivido na França, cada um deles teria se dirigido individualmente ao governo para pedir que este fiscalizasse os cabarés em toda a superfície do reino. (2000, p. 135) A argumentação de Tocqueville é exemplar no que diz respeito à sugestão subreptícia da continuidade entre sociedade feudal e sociedade burguesa. Ao se associarem, os cidadãos norte‑americanos incorporariam o espírito do grão‑se‑ nhor, isto é, um mal das sociedades democráticas seria sanado pelo recurso — ainda que inconsciente por parte dos 100 mil — a uma forma de organização a qual o pensador francês atribui uma origem aristocrática. O uso dos exemplos é tampouco acidental: o grão‑senhor deseja defender, de todas as coisas, a modés‑ tia; já o vício que a associação deseja contrapor na sociedade democrática é o alcoolismo. Há ainda a crítica irônica à maneira como os franceses lidariam com a questão — o recurso ao Estado — e que avança a noção cara a Tocqueville de que os indivíduos fracos e dispersos da sociedade burguesa estariam à mercê da tirania dos governantes.5 5. Há ainda neste trecho a defesa explícita da organização dada no âmbito da sociedade civil, contraposta favoravelmente ao Estado no que concerne à resolução dos problemas sociais. A atualidade desta argumentação 522 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014 Tocqueville é um dos primeiros representantes da viragem pós‑1848 que faria do pensamento de viés aristocrático ou — guardadas suas diferenças — romântico a principal arma ideológica da burguesia conservadora. Vale dizer que o recurso ao ideário de tipo aristocrático desempenhou sua função tanto mais efetivamente quanto mais pôde apresentar‑se como uma crítica da socie‑ dade capitalista. Assim, a crítica ao individualismo da sociedade burguesa (que parte de fundamentos objetivos) é alvo de soluções conservadoras inspiradas na organicidade e na suposta harmonia da sociedade feudal. Tal é a estratégia adotada de forma reiterada pela burguesia a partir de 1848 para fazer frente às propostas e reivindicações dos setores socialistas. No que diz respeito ao nosso tema central, tanto a caracterização feita por Tocqueville da sociedade burguesa como uma aglutinação de indivíduos isola‑ dos, quanto a solução que advoga — as associações — negam a natureza social dos antagonismos inerentes a tal formação histórica, isto é, dissolvem as classes em uma pluralidade de indivíduos, fazendo do percurso histórico da classe trabalhadora rumo a sua emancipação a ação cega da igualdade transformada em potência abstrata. Se para o materialismo histórico a associação dos traba‑ lhadores repousa sobre a base objetiva da classe, ou seja, é enraizada social‑ mente, para o aristocrata francês o “social” não pertence à sociedade; é antes um artefato contingente que depende da conjugação de interesses na associação. * * * Para encontrarmos os efetivos continuadores da tradição da qual Toc‑ queville é um dos inauguradores — a recuperação do pensamento aristocrá‑ tico enquanto arma ideológica burguesa — devemos remeter à Alemanha. É lá que, não casualmente, a chama do pensamento de viés aristocrático perdu‑ ra século XX adentro. É em terras alemãs onde a “sociedade” receberá o golpe de morte semântico que a relegaria ao segundo plano frente a outro termo, a “comunidade”. é inquestionável se pensarmos na retórica do chamado “terceiro setor” em tempos recentes. Uma análise do caráter premonitório das ideias de Tocqueville para o associativismo contemporâneo pode ser encontrada em Montaño (2007, p. 63‑76). 523Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014 A vocação alemã para produzir o pensamento conservador aristocratizan‑ te não é acidental. Tem como base seu célebre atraso, tematizado por Marx ainda em 1843. Trata‑se do dado mais fundamental da evolução histórica alemã na era moderna,a saber, o fato de que esta não consumou uma revolução bur‑ guesa “clássica” durante a qual teriam sido varridos os principais atores sociais do sistema feudal — a aristocracia — e, com ela, as formas de propriedade, os laços servis de dominação e demais barreiras ao desenvolvimento capitalista. Na via clássica, uma vez restabelecido o devir histórico inteiramente sobre fundamentos burgueses após ter sido consumada a revolução, mesmo os membros restantes da antiga classe dominante que subsistem são inteiramente incorporados à sociedade capitalista. É por essa razão que Tocqueville, um sobrevivente daquela que foi a revolução burguesa por excelência, opõe à ordem capitalista apenas a ideia do Antigo Regime como alternativa, e não sua estrutura social (é isto que o permite enxergar mesmo na mais moderna das nações — os Estados Unidos — características de “tipo” aristocrático). Espe‑ cialmente após a Revolução de Julho de 1830, a presença dos remanescentes da aristocracia na figura dos legitimistas do Partido da Ordem na França não apresenta uma alternativa real à dominação burguesa. Ao contrário, esses estão integralmente incorporados à lógica do sistema capitalista, são uma aristocra‑ cia “aburguesada”. A Alemanha teve uma unificação nacional tardia produzida sem uma ruptura histórica violenta com o passado, o que significou a sobrevivência de uma forte aristocracia representada, sobretudo, pelos grandes possuidores de terra a leste do rio Elba, os junker. Não por acaso, foi solo adequado para a formação de uma ideologia que aponta para o passado, além de ser — graças ao frenético ritmo de desenvolvimento capitalista em solo alemão nas últimas décadas do século XIX — altamente funcionalizável pela ordem capitalista. O mais marcante dos efei‑ tos produzidos por essa trajetória histórica particular é que os traços aristocráti‑ cos não se limitam ao pensamento de autores diretamente ligados à aristocracia — como era o caso de Tocqueville na França. Ao contrário, podem ser encon‑ trados em autores dos mais diversos extratos sociais, mesmo nos mais decidida‑ mente burgueses ou até em pensadores ligados à esquerda operária. É o caso do autor que iremos tematizar logo adiante, Ferdinand Tönnies. 524 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014 Antes, porém, convém abordar uma faceta da língua alemã que oferece um interessante subsídio para as hipóteses deste trabalho. Se nas línguas latinas a mudança semântica do termo “social” foi acompanhada por sua substantiva‑ ção, isto é, uma alteração de classe gramatical que indicou que aquilo que se refere à sociedade se transformou em algo independente desta última, no alemão tal câmbio gerou dois vocábulos diferentes. Há, a exemplo do português, um substantivo Gesellschaft (sociedade) que partilha do radical do adjetivo gesellschaftlich, de forma semelhante à sociedade/social. Todavia, a entrada do movimento operário no palco político das lutas de classes introduz não a substantivação do termo gesellschaftlich, mas uma nova palavra: o adjetivo sozial. A “questão social” em alemão, por exemplo, já nas‑ ceu como “soziale Frage”. Analogamente, nas palavras de Marx, citadas neste trabalho, a república de fevereiro de 1848 “se vio obligada a anunciarse como una república rodeada de instituciones sociales”, isto é, “als eine Republik, umgeben von sozialen Institutionen”.6 Este fenômeno linguístico não se deve à pretensa vocação da língua alemã para a filosofia, como a caracterizou certa vez Heidegger, mas ao atraso alemão segundo o qual as questões de cunho político associadas ao “social” são incor‑ poradas com um novo termo, a despeito da existência de uma palavra passível de traduzi‑lo (gesellschaflich). Assim, o “social” francês é apenas ligeiramente germanizado (no século XIX, apenas na pronúncia, mantendo o “c” original, e posteriormente assumindo uma nova grafia — sozial), o que imputa um caráter exógeno àquilo que é exprimido pelo termo no que diz respeito à realidade alemã. No universo linguístico alemão, os problemas sociais em nenhum mo‑ mento se confundem com os problemas da sociedade, seriam antes fenômenos externos à tradição germânica introduzidos talvez com a chegada da Zivilisation, também ela um fenômeno estrangeiro (cf. Mann, 1975). O que nos leva ao 6. Deve-se ressaltar que não há uma cisão semântica completa entre os adjetivos gesellschaftlich e sozial. O último é admitido para denominar, de acordo com o Dicionário eletrônico da Academia de Ciências de Berlin‑Brandenburg (disponível em: <www.dwds.de>), “aquilo que é relativo à correlação, à vida conjunta dos homens”. Contudo, sozial também diz respeito “à estrutura econômica e política de uma dada sociedade”, “ao pertencimento dos homens a diferentes classes, grupos ou extratos no interior da sociedade” e finalmente, “aos benefícios voltados à melhoria das condições de vida e trabalho, à assistência cultural e de saúde dos trabalhadores ou membros da sociedade sob penúria material”. As referências do texto original de Marx estão disponíveis em: <http://www.mlwerke.de/me/me07/me07_012.htm>. Acesso em: 10 fev. 2014. 525Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014 ponto que discutíamos anteriormente, a saber, a incorporação do pensamento aristocrático pela ideologia burguesa ciosa de frear o devir histórico que apa‑ renta apontar para sua dissolução enquanto classe. Como já dissemos, o progressivo distanciamento entre “social” e “socie‑ dade” resvalou de forma decisiva sobre este último vocábulo. O parentesco etimológico entre o repugnado “social” e a “sociedade” é por demais evidente para ser ignorado, o que pode levar a embaraços para o pensamento burguês: como dizer, por exemplo, que pertencemos à sociedade mas não ao “social”? É Ferdinand Tönnies (1855‑1936) que dará uma solução amplamente uti‑ lizada desde então a esse dilema em seu estudo clássico Comunidade e socieda‑ de, de 1887. Pertencente à primeira geração de sociólogos propriamente ditos da academia alemã, Tönnies abre sua obra enunciando o seguinte propósito: Las distintas voluntades humanas mantienen entre sí múltiples relaciones. [...] Este estudio tendrá por objeto de investigación solamente las relaciones de afir‑ mación recíproca. [...] El grupo formado por el tipo positivo de relación recibe el nombre de ligamen (Verbindung) cuando se concibe en calidad de ser o cosa que actúa como unidad tanto hacia su núcleo como hacia su exterior. La relación misma, así como la asociación resultante, se concibe aquí bien como ida orgánica y real — característica que es esencial en la Gemeinschaft (comunidad) —, bien como estructura imaginaria y mecánica — es decir, el concepto de Gesellschaft (sociedad o asociación). (Tönnies, 1979, p. 27) Eis que o embaraço antes provocado é dissolvido no uso de dois termos, qualitativamente díspares, para denominar a “unidade de distintas vontades humanas”: “comunidade” e “sociedade”, a primeira denotando o vínculo essen‑ cial e orgânico entre os homens e a última uma estrutura meramente artificial e contingente. Já nestas palavras iniciais se faz nítida a contraposição de uma concepção aristocrática de coletividade a uma concepção burguesa desta. À maneira de Tocqueville, essa síntese se reveste de uma crítica à sociedade ca‑ pitalista, o que, no caso de Tönnies envolve o uso, com alguma constância, de linguagem ou de conceitos derivados diretamente de Marx.7 7. Sobre tal procedimento, Lukács afirma o seguinte: “Tönnies es el primer sociólogo alemán que no rechaza a limine a Marx, sino que trata de reelaborarlo, poniéndolo a contribución para sus fines burgueses” (Lukács, 1959, p. 523). 526 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014 Mais uma vez, e também em linha com o pensador francês citado, são os exemplos que traem o juízo positivodo autor acerca da ordem feudal que pau‑ tará toda a obra em questão. Discorrendo sobre as relações forjadas na comu‑ nidade, o autor afirma o seguinte: Y ocurre que esto constituye una tendencia inherente natural: a una fuerza y poder superiores corresponde también una capacidad mayor de ayuda. Si tal intención o voluntad existe, será tanto más fuerte y decidida a causa del sentimiento de poder que conlleve. Con lo que nos encontramos, sobre todo en el terreno de las relaciones físico‑orgánicas, con una ternura instintiva e ingenua del fuerte por el débil, [...] la ternura corresponde a la reverencia, o, en un menor grado de inten‑ sidad, la benevolencia al respeto; representan éstos los dos polos del sentimiento en que se basa la Gemeinschaft [a comunidade — V. S.], en caso de que exista una diferencia definida de poder. (Tönnies, 1979, p. 38-39) Sob a forma de uma tipificação atemporal se oculta uma elegia ao univer‑ so caracteristicamente feudal das relações de dependência e servidão. O que é mais interessante nas análises dotadas deste viés é o fato de que as referências ao passado aristocrático são desprovidas de historicidade, enquanto imputa‑se aos tempos burgueses, isto é, a constituição da sociedade, um caráter contin‑ gente, precário. Desta maneira, tal qual a virtude da associação descrita por Tocqueville estariam presente, ainda que em formas diversas, tanto nas forma‑ ções sociais medievais quanto na sociedade burguesa, a “ternura” e a “benevo‑ lência”, características naturais dos homens em posição de poder através dos tempos. Sob essa luz, o capitalismo aparece como um arranjo antinatural e, portanto, problemático. En el sentido más general podemos hablar de una Gemeinschaft (comunidad) que comprenda el conjunto de la humanidad, tal y como la Iglesia quiere ser conside‑ rada, por ejemplo. Pero la Gesellschaft (sociedad) humana se concibe como mera coexistencia de individuos independientes unos de otros. [...] En oposicion con la Gemeinschaft, la Gesellschaft (asociación) es transitoria y superficial. A este tenor, la Gemeinschaft (comunidad) debiera ser entendida como organismo vivo y la Gesellschaft (asociación) como un artefacto, un añadido mecánico. (Tönnies, p. 28‑29) 527Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014 Essa combinação entre o atemporal e o contingente leva, no entanto, a uma solução conservadora, já que as críticas ao capitalismo em momento algum colocam sua existência em questão. O fato de que comunidade e sociedade existam juntas leva a crer que basta reforçar e ampliar os sentimentos e ações relacionadas à primeira para que sejam parcialmente neutralizados os males trazidos à tona pela segunda. A despeito de seus muitos males, a sociedade, juntamente com o capitalismo, aparece na obra de Tönnies como tendência irrefreável. Na obra Desenvolvimento da questão social — com primeira edição em 1907, ampliada em 1919 — Tönnies se propõe uma análise histórica ampla da “questão social” (que não constringe com aspas) ligando‑a diretamente ao sur‑ gimento e consolidação da sociedade. Eis sua definição: “Entendemos por “cuestión social” el complejo de problemas que derivan de la cooperación y convivencia de classes, estratos y estamentos sociales distintos, que forman una misma sociedad, pero están separadas por hábitos de vida y por sua ideologia y visión de mundo” (Tönnies, 1927, p. 13). Nesse trecho patenteia‑se o sincretismo que caracteriza a produção de Tönnies. A “questão social” adviria dos problemas de “convívio” entre as clas‑ ses, mas também entre estratos e estamentos, os quais estariam opostos não só pela ideologia que sustentam, mas igualmente pela visão de mundo da qual seriam portadores. Nos defrontamos com uma teoria social que procura fundir elementos da sociologia acadêmica alemã de fins do século XIX com as ideias de Karl Marx.8 Trata‑se, evidentemente, de uma mistura instável. No caso de Tönnies, ela é marcada pelas tendências aristocráticas já mencionadas, mas também por sensibilidades de esquerda que remetem à proximidade do autor com a social‑democracia alemã. Assim, a despeito de sua incompatibilidade intrínseca, tal combinação abre espaço, entre outras coisas, para momentos de efetiva crítica da sociedade capitalista. Isto se evidencia no tratamento estendi‑ do pelo autor aos desdobramentos agrários da “questão social”, já que lhe 8. Algo que também se manifesta no seguinte trecho: “Con lo dicho se relaciona la evolución de la cuestión social, cuya fuerza motora es precisamente la contradicción y lucha de clases dentro de la nueva sociedad, del Estado y de la consciencia coletiva [?!]”. (Tönnies, 1927, p. 38; grifos nossos). 528 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014 permite ligar o termo que intitula sua obra à classe trabalhadora,9 e, ao mesmo tempo, criticar o caráter meramente formal da liberdade do trabalhador sob o capitalismo: [...] la explotación latifundiaria necesita disponer de una clase proletaria lo más numerosa posible, y tanto mejor podrá disponer de ésta cuanto más la separe de la propiedad del suelo, y de los restantes medios de producción, convirtiéndola de una clase de pequeños agricultores, en una masa meramente jornalera. Y si bien formalmente la última es libre, cosa que no siempre ocurre en la primera, es lo cierto que económicamente una y otra son materialmente dependientes; más cuando se trata de obreros absolutamente libres, propiamente jornaleros. (Tönnies, 1927, p. 26) Mais uma vez é possível perceber a sutil elegia dos tempos feudais que acompanha a crítica à sociedade capitalista. O proletariado rural, ainda que possivelmente mais livre que o pequeno agricultor preso à terra, é talvez mais dependente materialmente do latifundiário, isto é, do antigo senhor. É importante ressaltar que a crítica produzida não perde necessariamente sua validade por emanar de uma perspectiva aristocrática e que esta nem sem‑ pre vem acompanhada por um olhar nostálgico para épocas anteriores.10 Con‑ tudo, se não são necessariamente elogiosos para o passado, são frequentemen‑ te ambíguos em relação a este, ambiguidade que só se vê reiterada pela ausência de uma proposta clara ou unívoca para a sociedade futura. Não por acaso, e por vezes em franca oposição à postura individual dos teóricos por elas responsáveis,11 tais ideias deram lastro a concepções ultraconservadoras da política e da realidade social. 9. “[...] la cuestión social que hoy nos ocupa [se refiere] especialmente al trabajo industrial. La cuestión social es, pues, principalmente, la cuestión obrera, y sobre todo, la cuestión obrera industrial. Sólo en segundo término viene la cuestión obrera agrícola” (Tönnies, 1927, p. 38; grifos nossos). 10. Cf. Löwy e Sayre (1995) e Löwy (1990). 11. Como já afirmamos, Tönnies é um exemplo nítido de atitude intelectual que possui parentesco com as sínteses conservadoras, mas cuja honestidade e posicionamento político o levaram para o campo oposto. Em meio à ascensão do nacional‑socialismo em terras alemãs, Tönnies se junta ao Partido Social‑Democrata: “[…] em 1930, Tönnies abandona sua concepção anterior de que um acadêmico deveria posicionar‑se perante 529Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014 * * * Se nos concentramos no século XIX e início do XX, não pretendíamos ignorar o fato de que batalhas terminológicas continuam a ser disputadas en‑ carniçadamente nos tempos atuais. Entendemos apenas que se deve atentar para as lições já proferidas pelo pensamento crítico para desafios como esses: como proceder se um termo é cunhado por setores conservadores para abranger um conjunto de fenômenos sob perspectiva enviesada, mistificadora? Tal é a per‑ gunta que se colocaram tanto aqueles que se depararam com a tarefa de des‑ construir a “questão social”quanto aquela com que se defronta os que hoje encaram termos quiçá mais problemáticos como “empreendedorismo”, “res‑ ponsabilidade social”, “situação de risco/vulnerabilidade social” etc. Mas vale aqui uma nova referência as palavras de Marx: “Mudando‑se o nome não se muda a coisa. [...] Falando da oferta e da demanda das coisas, não se fala da oferta e da demanda do nome das coisas” (Marx, 2009, p. 100). Não devemos procurar disputar nem ter a ilusão de poder vencer esses conflitos no plano do discurso. Não podemos, todavia, abandonar esse campo como pura mistificação (é esta, penso, a lição dos pensadores críticos do Ser‑ viço Social). Há que se perguntar a origem e a trajetória dos termos com os quais lidamos, ponderar os desdobramentos políticos de sua utilização e, espe‑ cialmente, retribuir mesmo a peça da mais franca apologética burguesa com uma análise adequada. Este artigo pretendeu ser uma pequena contribuição neste sentido. Recebido em 25/2/2014 ■ Aprovado em 2/6/2014 os problemas sociais e políticos prementes, mas não se envolver com a política partidária: ele aderiu abertamente ao Partido Social‑Democrata” (Cahnman, 1973, p. 285; tradução do autor). 530 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014 Referências bibliográficas CAHNMAN, W. J. Ferdinand Tönnies: a new evaluation. Leiden: Brill, 1973. DIDEROT, D.; D’ALEMBERT, J. L. R. Verbetes políticos da enciclopédia. São Paulo: Discurso/Unesp, 2006. HOBBES, T. [1651] Leviathan. Indianapolis/Cambridge: Hackett, 1994. LOCKE, J. [1689] Dois tratados sobre o governo. São Paulo: Martins Fontes, 2001. LÖWY, M. Romantismo e messianismo. São Paulo: Perspectiva/Edusp, 1990. ______; SAYRE, R. Revolta e melancolia. Petrópolis: Vozes, 1995. LUKÁCS, G. [1938] Marx y el problema de la decadencia ideológica. Mexico: Siglo XXI, 1981. ______. O jovem Marx e outros escritos de filosofia. Rio de Janeiro: Ed. da UFRJ, 2007. ______. Studies in European realism. New York: Grosset & Dunlap, 1964. ______. [1954] El asalto a la razón. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 1959. MANN, T. [1918] Considérations d’un apolitique. Paris: Grasset, 1975. MARX, K. [1867] O capital. 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Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 Três notas sobre o sincretismo no Serviço Social* Three observations about syncretism in Social Work Jamerson Murillo Anunciação de Souza** Resumo: O ensaio visa recuperar algumas indicações ontológicas sobre a estrutura sincrética do Serviço Social, tal como formulada por José Paulo Netto no início da década de 1990, para problematizar o significado social, para a profissão, de determinadas tendências inscri‑ tas na atual dinâmica econômica e política do Brasil. Procura funda‑ mentar a atualidade e o vigor teórico da “tese do sincretismo” para analisar os dilemas contemporâneos do Serviço Social brasileiro. Palavras‑chave: Sincretismo. Ecletismo. Serviço Social. Abstract: This article aims at recovering some ontological indications about the syncretic structure of Social Work, as it was formulated by José Paulo Netto in the beginning of the 1950’s, in order to question the social significance of some tendencies in the current economic and political Brazilian dynamics for the profession. It seeks to base the effective value and the technical vigour of the “thesis of syncretism” to analyze the contemporary dilemmas of the Brazilian Social Work. Keywords: Syncretism. Eclectism. Social Work. * Ensaio construído para avaliação da disciplina de Seminário de Tese I, ministrada pela profa. dra. Ana Elizabete Mota, no Programa de Pós‑Graduação em Serviço Social da UFPE — Doutorado. ** Professor assistente I do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), doutorando do Programa de Pós‑Graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco/ Recife, Brasil, membro do Grupo de Estudos do Trabalho (GET/UFPE), coordenado pela profa. dra. Ana Elizabete Mota. E‑mail: jamersonsouza@ymail.com. 532 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 1. O significado ontológico do sincretismo Realizar um mergulho teórico e sócio‑histórico nos assim chamados fundamentos do Serviço Social parece não ser uma tarefa simples. Muito especialmente no decorrer dos anos 1980 e 1990, esse tema recebeu o empenho investigativo de alguns dos mais talentosos pesquisadores e profissionais da área. Com certeza, decorridas três décadas desde a emergência e a consolidação dos debates sobre os fundamentos do Serviço Social, nossa profissão continua empenhada no sentido do adensamen‑ to crítico e atualização teórico‑metodológica daquelas teses seminais. Outros horizontes surgiram, nem sempre consensuais, particularmente fomentados pela apropriação de autores (e temáticas) clássicos da tradição marxista — para não mencionar os debates profícuos em torno de releituras qualificadas da obra marxiana e da tradição marxista. Esse surgimento não surpreende: decorre das especificidades do pensamento de cada autor clássico, seu contexto sócio-histórico e desafios teórico-políticos, em fina sintonia com o momento histórico das contradições em processo. Seria ingênuo quem espe‑ rasse haver consenso e retilíneas concepções sobre política, teoria, método, filosofia, cultura, sociabilidade, em pensadores tão profundos e mergulhados em particularidades tão distintas, como Lenin, Gramsci, Lukács, Marx, Engels, para mencionar apenas alguns. Evidentemente, aqui não se pretende abrir o flanco ao ecletismo ou ao subjetivismo, mas apenas sublinhar que toda teoria recebe os influxos da histó‑ ria. Sem fazer concessões quanto ao método de análise e a perspectiva da revo‑ lução, cada um desses autores enfrentou os dilemas de seu tempo, deixando às gerações futuras imprescindíveis indicações acerca das especificidades do modo de produção e reprodução do capital. O Serviço Social brasileiro, desde os anos 1980 e da construção da hege‑ monia da teoria social crítica em suas fileiras profissionais, parece ser herdeiro, tanto em suas potencialidades quanto em suas limitações, desses traços da própria tradição marxista. Se, de um lado, operou avanços substanciais quanto ao desvendamento da natureza dessa profissão no interior do circuito de valo‑ rização do valor capitalista, apontando tanto particularidades profissionais 533Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 quanto políticas e sócio‑históricas, por outro, defrontou‑se com as impostações da formação sócio‑histórica brasileira e seu fundamental traço negação de di‑ reitos — a formação social, também aqui, impõe‑se como elemento importan‑ te de determinação. Surge como irredutível a necessidade de elucidação da função contra‑ ditória da política social (por consequência, da estrutura do Estado burguês) no contexto capitalista e brasileiro. Adensam‑se estudos sobre a seguridade social no Brasil, sobre as políticas setoriais,sobre o fundo público, “mundo do trabalho” e sobre o processo de financeirização do capital. As entidades representativas da categoria, do ponto de vista político e institucional, man‑ têm-se atentas, abertas e afinadas (majoritariamente) aos influxos do debate crítico‑dialético. O Serviço Social amplia seu leque de debate teórico‑político, consolida‑se como interlocutor qualificado no âmbito da produção do conhecimento — a tal ponto que, em artigo recentemente publicado, uma das mais destacadas pensa‑ doras do Serviço Social brasileiro, a profa. Ana Elizabete Mota, indica como tendência importante dessa profissão (dentre outras) a sua particularização como área de produção de conhecimento — sinalizando seu amadurecimento no âmbito da pesquisa, mas não só (Mota, 2013). A essa ampliação e qualificação do leque temático acostam-se, também, influências de correntes teóricas distintas. Se a hegemonia do pensamento crítico‑dialético ainda se coloca como direção, parece inquestionável que também marca presença no âmbito da produção de conhecimento (mas não se restringe a essa esfera) do Serviço Social influências teóricas de matizes dife‑ renciadas, tais como estruturalista, funcionalista, weberiana e não poucas ditas “pós-modernas”. Ora, se é componente do pluralismo profissional (e democrá‑ tico) o diálogo aberto, franco e crítico entre diferentes perspectivas ideoteóri‑ cas, a tênue linha do pluralismo é não poucas vezes ultrapassada, quando não desconsiderada em virtude da reprodução de um discurso teórico e político conservador que equaliza os “paradigmas” como meras “construções de lin‑ guagem” descoladas de qualquer sentido ontológico, cujos centros difusores estão no âmbito da universidade e além dela, pois estão imbricados na própria luta de classes. 534 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 Aqui parece residir um problema contemporâneo do Serviço Social brasi‑ leiro: afirmar o pluralismo (imprescindível) mantendo a hegemonia do pensa‑ mento crítico e dialético numa conjuntura histórica e acadêmica cada vez mais conservadora e reativa. Aliás, não foram de outra natureza os dilemas dos auto‑ res clássicos: adensar a perspectiva da revolução em suas dimensões ideoteórica e político‑cultural, mobilizando o máximo de conhecimento das determinações da realidade das classes em disputa. Esse paralelo, apenas sinalizado nessas reflexões primeiras, não pretende equalizar os problemas da tradição marxista com as determinações do Serviço Social como profissão — estamos cientes e somos defensores das especificidades e diferenças históricas substanciais de cada uma. Aqui, visamos tão somente indicar que, reproduzida a lógica do capital como totalidade histórica, as tentativas de sua superação (ainda que particulares) defrontam‑se com o horizonte e com os problemas da luta de classes e da disputa por hegemonia no terreno da política, da ideologia, da cultura, da teoria e da prática. Esse conjunto de questões torna‑se mais complexo quando consideramos que o avanço do Serviço Social como área de conhecimento, como defende Mota, não infirma o seu traço interventivo. Novamente, sem fazer concessão a qualquer perspectiva dicotômica, já solidamente enfrentada por vários autores, sabemos que mediações particulares determinam o exercício profissional (de‑ mandas do mercado de trabalho, divisão social e técnica do trabalho, entre outras). Do mesmo modo, outras determinações, igualmente particulares, de‑ terminam e influenciam a produção de conhecimento (política de educação superior, apropriação cultural das objetivações humano-genéricas, o debate fi‑ losófico predominante em torno da sociedade e da razão, entre outras). Apesar de manterem relação de unidade, pois ambas se inscrevem no âmbito da repro‑ dução da sociabilidade burguesa, não guardam relação de identidade — não são idênticas essas mediações. A divisão social do trabalho e o horizonte institucional que marcam o exercício profissional (entendido como intervenção, que não suprime a dimen‑ são investigativa, porém tem na manipulação de variáveis empíricas seu dado elementar), intensificados na quadra histórica neoliberal, imprimem à dinâmica do exercício profissional características e tensionamentos particulares, confor‑ me apontam diversos estudos que versam sobre a temática do assim chamado 535Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 trabalho profissional. Os elementos de fundo mais essencial dessas caracterís‑ ticas e tensionamentos no âmbito do exercício profissional não parecem conter um conteúdo histórico capaz de sinalizar a superação do sincretismo. Esse dado, é possível sustentar, constitui um dos elementos que sinaliza a atualidade onto‑ lógica e heurística da tese do sincretismo. Os inegáveis avanços do chamado projeto ético‑político do Serviço Social brasileiro no que diz respeito a compromissos de natureza ética, política, teóri‑ ca e metodológica, que incidem sobre o horizonte do aparato legal‑institucional que rege a profissão, se inscrevem como particulares quando vislumbrados à luz da reprodução da totalidade da sociedade burguesa e da lógica que enerva o Estado burguês. Evidencia‑se essa limitação nas colocações da prof. Marilda Iamamoto acerca das contradições que a profissão enfrenta no circuito da valorização do valor como profissão assalariada, ou nas colocações do prof. José Paulo Netto, quando indica que o projeto profissional só tem viabilidade quando conectado a um projeto societário de classe. O reconhecimento dessa limitação não pode ser tomado do ponto de vista moral, mas como uma determinação ontológica da própria reprodução da sociabilidade burguesa, muito mais abrangente e inclusiva. Segundo nosso ponto de vista, é essa reprodução da sociabilidade burguesa, pre‑ sente contraditoriamente nas estruturas do Estado e da sociedade civil‑burguesa, que reproduzem o sincretismo do Serviço Social no âmbito do exercício profis‑ sional. Mas essa determinação não cancela a presença de processos contraditórios no interior do exercício profissional — não transforma a atuação profissional em mera reiteração tautológica. Tais processos, que resultam da própria natureza contraditória da reprodução social na sociedade capitalista, comparecem nessa dimensão e podem ser acionados. Essa determinação tão somente delineia o li‑ mite, a circunscrição histórica da intervenção do Serviço Social (muito embora esse limite, com mediações outras, possa ser identificado em outras profissões). Cumpre frisar que o sincretismo, presente no exercício profissional, tem como contraface teórica o ecletismo. Mas essa contraface não significa que toda produção de conhecimento seja eclética porque espelha o sincretismo prático. Essa dedução, que seria logicamente correta do ponto de vista formal, é falsa do ponto de vista ontológico e histórico. Igualmente, nem todo conhe‑ cimento produzido sob angulação crítico‑dialética consegue se expressar de 536 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 imediato como componente revolucionário. Aqui, a lógica formal dá mostras de suas limitações. Para ser mais específico: o sincretismo da prática aparece no âmbito da produção de conhecimento (como tendência) como ecletismo, ou seja, como coletânea acrítica de teorias, categorias e conceitos por vezes contraditórios, tudo em nome da captura de fragmentos de teoria que sejam capazes de expli‑ car, também fragmentariamente, a realidade setorial com que se defronta o profissional, sem uma preocupação fundamental quanto às suas consequências ideopolíticas. Contudo, a produção de conhecimento não é um reflexo passivo e mecâ‑ nico do sincretismo da prática. Nessa esfera, que é permeada por mediações específicas, mas igualmente contraditórias, a autonomia relativa do pesquisadoré mais elástica (e é essa contradição que o Serviço Social tem explorado de maneira qualificada para adensar-se como área de conhecimento), o que quali‑ fica sua atuação para um confronto mais denso e profundo com os fundamentos do conhecimento produzido sobre a sociedade, tomando como objeto de inves‑ tigação, conhecimento e crítica, não somente objetos particulares e circunscri‑ tos, mas a própria dinâmica contraditória da totalidade das relações sociais burguesas e capitalistas. Essa especificidade da produção de conhecimento coloca a possibilidade de superação (ainda que não o elimine) do ecletismo teórico. Superação, sublinhe-se, não significa cancelamento. O ecletismo mantém‑se, como tendência limiar do pluralismo e do sincretismo da prática, tensionando o sentido e a direção social da produção de conhecimento. Retornar ao tema dos fundamentos do Serviço Social nos permite uma aproximação importante com os avanços da profissão no Brasil, por um lado e, por outro, colocar em perspectiva histórica os subsídios teórico‑metodológicos que sustentaram o chamado projeto ético‑político para adensar suas potencia‑ lidades emancipatórias e enfrentar suas contradições, problematizando‑as. A tese do sincretismo contém, na sua teia categorial complexa (e com certeza não consensual tanto teórica quanto, talvez ainda de forma mais acentuada — po‑ liticamente), uma das mais profícuas indicações ontológicas e investigativas sobre o Serviço Social, e seu significado social, na teia da reprodução social burguesa e capitalista, é o que esperamos conseguir demonstrar. 537Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 2. A formulação clássica: apontamentos para uma recuperação necessária Nosso objetivo nessa seção é recuperar os fundamentos ontológicos do Serviço Social tomado como estrutura sincrética, tal como pioneiramente ex‑ posto pelo prof. José Paulo Netto no início dos anos 1990. Essa recuperação é anteparo para a problematização acerca da atualidade da tese do sincretismo, enfatizando a orgânica e ontológica articulação do Serviço Social com a estru‑ tura administrativa erguida na sociedade burguesa para intervenção na chama‑ da “questão social”. Reside nessa estrutura o momento predominante1 que implica o sincretismo no exercício profissional. A contraface desse sincretismo no exercício (ou, se houver preferência, na prática) se constitui, por meio de complexas mediações, no sincretismo ideoteórico, cuja expressão mais eviden‑ te é o ecletismo. Subsidiando o entendimento da estrutura sincrética do Serviço Social (prática e teórica) estão, de um lado, os processos de formalização operativa presentes nas políticas sociais setoriais (que segmentam e abstraem a totalidade problemática da “questão social”) e, de outro, o padrão de racionalidade formal‑ ‑abstrata típico das constelações de raiz positivista. Sob essa teia, a expansão e espraiamento dos processos de valorização do capital e redesenho da sociabili‑ dade burguesa característicos da passagem ao estágio monopolista do modo de produção capitalista. Esse conjunto de determinações aflui ao Serviço Social laico e profissionalizado. Essa afluência, que encontra novas mediações na con‑ temporaneidade, a saber, a expansiva e intensiva mercantilização da educação 1. A categoria momento predominante, tal como formulada por Gyorgy Lukács, refere‑se à realidade social tomada como totalidade, como complexo de complexos. Alguns complexos, com variações históricas, podem adquirir a função de momento predominante na medida em que se constituam como solo genético imprescindível para o destino de outros complexos, sem o qual a própria existência desses outros complexos pode ser interditada. Para ilustrar: a produção de mercadorias cumpre a função de momento predominante da reprodução do capital. O momento predominante, tal como as demais categorias, também é histórico (portanto passível de mudanças e mesmo deslocamento dessa função) e sofre determinações recíprocas na interação com os demais complexos. Por isso, não determina inexoravelmente as categorias a ele articuladas, é tão somente polo fundamental que tem a prioridade ontológica historicamente situada. Conferir Lukács em Ontologia do ser social (1979), particularmente o capítulo dedicado a Marx: Os princípios ontológicos fundamentais de Marx. 538 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 superior no Brasil das duas últimas décadas, coloca elementos que reatualizam os fundamentos do ecletismo.2 A captação da estrutura sincrética do Serviço Social diz respeito à com‑ preensão da marca nativa de seu processo de gênese histórica e institucionali‑ zação. Por esse motivo, o Serviço Social, tomado como sistema sincrético, equivale à explicitação de um traço singular da sua profissionalização. A tese do sincretismo foi originalmente pensada para refletir a ossatura teórico-prática do Serviço Social “das suas origens aos anos 1960” (Netto, 2009, p. 14). Este não é um detalhe menor: a maior parte das teses que recuperam (para endossar ou polemizar) a discussão sobre a estrutura sincrética do Serviço Social, tomam‑na como elemento interpretativo sem enfatizar essa circunscrição histó‑ rica original. Se o sincretismo continua sendo uma marca importante da profissão, as determinações que reproduzem essa marca precisam ser investigadas, expli‑ citadas, problematizadas. Ou seja, há que se tomar o sincretismo como resultado de um conjunto de dilemas de origem sócio‑histórica em vez de tomá‑lo como conteúdo explicativo em si mesmo. Evidentemente, alguns desses dilemas re‑ metem à própria anatomia contraditória da sociedade burguesa, excedendo o raio de possibilidades da profissão em si mesma e desenhando o “anel de ferro”3 que ata o Serviço Social à reprodução dessas relações sociais: aqui, notoriamente, o campo pleno de contradições do Estado burguês e das políticas sociais. Não há dúvida de que a tese do sincretismo, tomada como impostação ontológica do Serviço Social, extrapola os quadros de referência para os quais foi pensada: o processo de profissionalização do Serviço Social, das origens aos anos 1960. Também é correta a compreensão de que alguns traços do sincretis‑ mo dizem respeito ao Serviço Social na sua própria imanência profissional. Sua reatualização, todavia, não se constitui mera reposição mecânica, autoderivada. Ao contrário, a permanência da estrutura sincrética do Serviço Social precisa ser transformada em objeto de investigação, precisamente porque é reveladora 2. “Em síntese: a ultrapassagem do sincretismo teórico — que se expressa no viés do ecletismo — no Serviço Social, conectada à superação do seu lastro no pensamento conservador, é projeto que não erradica o sincretismo da fenomenalidade do seu exercício profissional” (Netto, 2009, p. 150). 3. A expressão é de autoria do prof. José Paulo Netto, em Capitalismo monopolista e Serviço Social (2009, p. 103). 539Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 de questões e dilemas que se configuram como desafios importantes para a profissão. Explicitamente: a questão do sincretismo no Serviço Social há de ser tematizada crítica e dialeticamente conforme os traços contemporâneos que assumem o capitalismo monopolista e as políticas sociais, particularmente a de educação superior no Brasil. Desde sua formulação no início da década de 1990, no livro que pode ser já tomado como um clássico do Serviço Social no continente latino‑americano, Capitalismo monopolista e Serviço Social, a tese da estrutura sincrética do Serviço Social foi recuperada como fundamento ontológico do Serviço Social por muitos analistas qualificados.4 Sua nervura teórica, substanciada por uma incorporação impenitente da obra e pensamento marxianos e filiada a uma das mais profícuas de suas linhasde continuidade presentes na tradição marxista — a recuperação ontológica realizada por Gyorgy Lukács —, tem fornecido subsídios de análise crítica resistentes à prova do desenvolvimento histórico. Tal nervura, por si só, já constitui um avanço significativo no sentido de superar as leituras esquemáticas provenientes do chamado “marxismo‑leninis‑ mo” e seus “manuais de divulgação” do marxismo, que marcaram o processo de aproximação do Serviço Social à tradição marxista: uma aproximação feita, via de regra, a partir das necessidades de instrumentação da prática político‑ ‑partidária, afastada dos escritos originais de Marx e apreendida fragmentaria‑ mente segundo as recomendações estruturalistas.5 Esse esforço de rigor teórico 4. Recuperam os fundamentos da tese do sincretismo, diferenciadamente e particularizando‑os, dentre outros: Yolanda Guerra, em A instrumentalidade do Serviço Social, publicado em primeira edição em 1995; Carlos Montaño, em A natureza do Serviço Social: um ensaio sobre a gênese, a “especificidade” e sua reprodução, que sai ao público em 2007; Josiane Soares Santos, em Neoconservadorismo pós‑moderno e Serviço Social brasileiro, à luz em 2007; Marilda Iamamoto, em Serviço Social em tempo de capital fetiche: capital financeiro, trabalho e questão social, publicado em 2007. 5. Sobre esse tema se debruça José Paulo Netto, em Ditadura e Serviço Social: uma análise do Serviço Social no Brasil pós‑64, seções 1.7, e, posteriormente, 2.5 a 2.6. Igualmente em “O Serviço Social e a tradição marxista”, em Serviço Social & Sociedade, n. 30, maio/ago. 1989. O processo de empobrecimento e interpretação oportunista do pensamento de Marx, ocorridos principalmente nos debates da Segunda e Terceira Internacional (sociologismo, evolucionismo, mecanicismo e biologismo), é analisado, entre outros, por Leandro Konder em A derrota da dialética: a recepção das ideias de Marx no Brasil até o começo dos anos trinta, seções 1.7 e 1.8, particularmente. Referências mais abrangentes encontram‑se em Eric J. Hobsbawm (Org.) História do marxismo: o marxismo na época da Segunda Internacional (v. 2), especialmente as seções elaboradas por Franco Andreucci, Marek Waldenberg, Iring Fetscher e Massimo L. Salvadori. 540 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 e metodológico na análise da sociabilidade erguida sob o capital, que abrange e inclui o Serviço Social, lançado ao público no primeiro terço da década de 1990, compõe uma das tentativas mais importantes para a superação dos vieses politicistas que balizaram as primeiras experiências de leitura marxista na pro‑ fissão entre as décadas de 1960 e 1970. Na sequência das décadas de 1990 e 2000, todavia, aprofundam‑se as linhas de possibilidade de interlocução fecunda entre o pensamento de Marx, a tradi‑ ção marxista (nos seus suportes renascidos)6 e o Serviço Social. Vicejaram nessa esteira, no cenário intelectual e acadêmico primordialmente, elaborações, desenvolvimentos teóricos e metodológicos abordando desde a dinâmica con‑ creta das contradições de classe na formação sócio‑histórica brasileira, incluin‑ do análises sobre o Estado e as políticas sociais e setoriais, até a recuperação teórico‑categorial de clássicos, como Gramsci, Lukács e Lênin — numa acep‑ ção mais inclusiva, Mandel e Mészáros. Esse movimento lançou as bases indispensáveis para superação histórica do ecletismo teórico que marcou os horizontes do sistema de saber do Serviço Social brasileiro (mas não só). Essa superação foi fortalecida com a construção de um corpo intelectual crítico e com a consolidação dos programas de pós‑ ‑graduação em senso estrito a partir dos anos 1970, responsáveis pela dinami‑ zação e produção de conhecimento de natureza teórica que se junta ao espólio da teoria social. Desde então, o Serviço Social alçou‑se como interlocutor (não mais apenas como receptor passivo) qualificado no debate com as chamadas “ciências sociais”. É possível afirmar que o movimento histórico que resulta no chamado projeto ético‑político, notadamente a partir das escolhas teórico‑po‑ líticas que define — teoria social crítica e o projeto societário do trabalho (em sentido amplo), mesmo sem perder de vista as contradições e impasses nele 6. O termo renascimento do marxismo é de Lukács e faz referência à imperiosa necessidade, que ele aponta já nos anos 1920, de recuperar o pensamento de Marx in natura e estabelecer uma contraposição teórica ao “marxismo‑leninismo”. Não apenas Lukács, mas uma geração de intelectuais militantes desse período também recusou os reducionismos da vulgata marxista, empreendendo esforços para uma crítica radical, dentre outros: o último Lênin, Rosa Luxemburgo e Antonio Gramsci. Lukács teve a oportunidade de sobreviver aos anos 1920 e atravessar os eventos históricos até sua morte. Sua longa e erudita vida (1885‑ 1971), à diferença dos demais, ensejou‑lhe amadurecer e aprofundar até as últimas consequências seu objetivo de renascimento do marxismo, resultando, segundo muitos analistas, na maior reflexão teórico-filosófica marxista do século XX — sua Ontologia do ser social (2012). 541Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 presentes — ensejou a ultrapassagem do ecletismo teórico na profissão7 — mo‑ vimento importantíssimo, porém não irreversível. O ponto de partida formulado pelo prof. José Paulo Netto é em si uma ruptura, uma contraposição crítica às abordagens anteriores que se debruçaram sobre o processo de profissionalização do Serviço Social fazendo derivar da evidente “questão social” os elementos suficientes para a institucionalização da profissão.8 Reside em destacar que a presença marcante dos resultados da acumulação de capital, tal como transcorre a partir da última década do século XIX em seus elementos de luta de classes e pauperização, não se desdobra espontaneamente na elevação das “protoformas” ao estatuto de profissão. Antes que com a “questão social” em si, a articulação genética do Serviço Social profissional deve ser realizada com a dinâmica econômica e política estabelecida com a formação do capitalismo monopolista.9 Ela reconfigura dois eixos fundamentais da sociedade burguesa: a intervenção do Estado na luta de classes, nas relações de produção e acentuadamente no próprio desenvolvimen‑ to das forças produtivas, estabelecendo novos espaços na divisão social do trabalho (evidentemente, subsumido ao capital) e modifica a composição orgâ‑ nica do capital mundialmente. Essa reconfiguração, não é supérfluo destacar, responde pelo objetivo primeiro de acréscimo das taxas de lucro10 capitalistas. 7. “A alternativa de um Serviço Social profissional liberado da tradição positivista e do pensamento conservador não lhe retirará o seu estatuto fundamental: o de uma atividade que responde, no quadro da divisão social (e técnica) do trabalho na sociedade burguesa consolidada e madura, a demandas sociais prático‑empíricas” (Netto, 2009, p. 149). 8. Esse ponto de partida manifesta já o alinhamento da observação precedente acerca do perímetro histórico do qual foi extraída a estrutura sincrética do Serviço Social: dos anos 1930 aos 1960. 9. A categoria capitalismo monopolista, tal como trabalhada pelo prof. José Paulo Netto, é retomada inteira do importantíssimo O capitalismo tardio, de Ernest Mandel. Guarda relação com o período histórico trabalhado (entre outros) por Lênin (1870‑1924) como “estágio imperialista” do capitalismo, sendo conformado e amadurecido entre 1890 a 1940. Nesse trabalho, está fixado o entendimento de que, do final do século XIX até os dias atuais, a categoria capitalismo monopolista mantém intacta sua potência heurística. Os processos de financeirização e acumulação flexível aprofundam as determinações movidas pela monopolização: centralização exponencial de capital e, lado a lado emsíntese dialética, a exacerbação da pauperização — relativa e absoluta. 10. Para um entendimento acessível e qualificado sobre as diferentes formas de extração de mais-valia e a formação das taxas de lucro, bem como sobre as formas de sua distribuição desigual entre os diversos setores do capital monopolista, ver Economia política: uma introdução crítica, da coleção Biblioteca Básica do Serviço Social, de autoria dos professores José Paulo Netto e Marcelo Braz, nomeadamente, capítulos 4, 5 e 6. 542 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 Dois vetores típicos do movimento de monopolização são destacados pelo prof. José Paulo Netto e recuperados aqui, principalmente porque lançam nexos causais que se desdobrarão posteriormente: a supercapitalização do capital e o parasitismo de setores privilegiados da burguesia (2009, p. 22). O primeiro resulta em dificuldades crescentes de valorização, de serem feitos investimentos lucrativos, posta a magnitude do capital concentrado, desdobrando‑se em três outros fenômenos importantes: a emergência da indústria bélica; a fuga de ca‑ pitais dos limites dos Estados nacionais e a consolidação de investimentos “improdutivos”, a exemplo de massivas campanhas publicitárias, da realização de pesquisas de mercado e investigações econométricas. Por sua vez, o parasitismo é atinente à possibilidade de cisão entre a pro‑ priedade e a gestão dos capitais. Sua expressão maior está no assalariamento de funções gerenciais e na aparência de que o capital se valoriza a si próprio. Aos olhos do proprietário privado, sua fortuna se multiplica como que natural‑ mente, não sendo resultado de uma remuneração por atividades de comando, de controle, de administração de seus negócios, mas simplesmente pela sua “renda”. Ocorre como se o capital, investido de determinada forma, a juros, pudesse gerar, automaticamente, mais capital — aos olhos do burguês que se especializa em operações com o capital portador de juros, seu dinheiro tem a potência de produzir mais dinheiro. O primeiro vetor, a supercapitalização, incide como elemento importante para o processo de crise: os desdobramentos citados, eminentemente medidas anticíclicas,11 são também contraditórios e muito limitados, incapazes de rever‑ ter as dificuldades de valorização, mas não sem antes explorar à exaustão nichos 11. Neste particular temos uma diferença importante entre as concepções de Mandel e Mészáros no que tange ao entendimento do processo de crise do capital que se instaura a partir da década de 1970. A concepção cíclica do desenvolvimento capitalista, insígnia tão própria de Mandel, abre a via para noção de novas possibilidades de retomada expansiva do capital (mesmo que profundamente desumanas), sustando a crise e retomando um nível de lucratividade média. Em Mészáros, está interditado o horizonte de saída da crise que se abate sobre o capitalismo desde os anos 1970. Para ele, essa crise ativou aquilo que designa como de “limites absolutos do capital” e, daí para a frente, ao Estado cabe a “gestão da crise”, adiando‑a: de um lado investindo esforços (fundo público) para oferecer outro destino a setores monopolizados que não a bancarrota (mesmo assim sem garantias de êxito) e, de outro, implementando a mais brutal desregulamentação do trabalho. Com possibilidades de valorização cada vez mais reduzidas, a tendência daquilo que ele qualifica como “equalização por baixo da taxa diferencial de exploração” realiza seu alcance máximo: níveis aviltantes de extração de mais‑valia, tal como no período da acumulação primitiva. 543Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 de mercado (de trabalho inclusive) que podem ser temporariamente lucrativos. O segundo, o parasitismo, conforma as “oligarquias financeiras”, cujo principal mecanismo de valorização do valor será o emprego do capital fictício, operan‑ do concretamente a ampliação do sistema de crédito (com ênfase no capital acionário), do sistema bancário e da dívida pública.12 Tudo se passa como se o valor pudesse se valorizar automaticamente — margeando assim o processo de criação do valor na cadeia produtiva. Mas a mediação mais fundamental que opera no concerto da formação dos monopólios é extraeconômica, é o Estado burguês. Sem modificar sua função social mais precípua — o de garantir as condições gerais, externas, de reprodu‑ ção do capital — sob o comando dos monopólios, o Estado passa a condensar funções políticas e econômicas. Essa condensação é ideia‑força no pensamen‑ to nettiano13 e responde pela inserção do Estado em “setores básicos não rentá‑ veis (nomeadamente, aqueles que fornecem aos monopólios, a baixo custo, energia e matérias‑primas fundamentais)” (Netto, 2009, p. 25). Dentre outras funções condensadas destacam‑se a garantia estatal de sobrevivência das empresas em dificuldades (por meio da socialização das perdas), investimentos em complexos produtivos de altíssima composição orgânica de capital (dos mais variados setores: do lazer aos portuários, da malha rodoviária à importação de maquinário e tecnologia) e sua entrega para exploração monopólica, aprovação imediata de linhas de crédito astronômicas para setores monopolizados, lastro de lucro para as empresas — aqui, o Esta‑ do se torna a um só tempo financiador e consumidor dos negócios da burgue‑ sia monopolista —, preparação formal (no mais das vezes, de alta qualificação e competência) de força de trabalho fornecida sem custo ao mercado. Os traços fundamentais do chamado “novo desenvolvimentismo”, em debate no Brasil 12. Referência introdutória para esse tema é O que é capital fictício e sua crise, de Paulo Nakatani e Rosa Maria Marques. Marx elabora pistas investigas sobre os temas do capital portador de juros e do capital fictício no livro III d’O capital. 13. Consideramos que a tese contida do livro Capitalismo monopolista e Serviço Social é portadora de uma chave heurística (porque ontológica) sui generis, o que justifica sua admissão e reconhecimento como pensamento original solidamente imantado na tradição marxista, que ilumina de maneira ímpar o campo temático sobre os fundamentos do Serviço Social. Sendo assim, admitimos os termos nettiano ou nettiana para nos referirmos à linha de análise do autor. 544 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 dos anos 2000, encontram na formação do capitalismo monopolista seu com‑ ponente originário. Se essas funções políticas e econômicas correspondem às mudanças no papel do Estado no estágio do capitalismo monopolista, a principal mediação que se relaciona com o Serviço Social é sua intervenção na reprodução da for‑ ça de trabalho. Esse é um componente novo posto pela ordem dos monopólios, uma vez que, no período concorrencial, a intervenção do Estado dimanava basicamente pelo canal da coerção e da manutenção das relações jurídico‑po‑ líticas que garantem a propriedade privada. Doravante, “a preservação e o controle contínuos da força de trabalho, ocupada e excedente, é uma função estatal de primeira ordem” (Netto, 2009, p. 26; grifos no original). O grifo do prof. Netto sobre a intervenção em dois níveis da força de tra‑ balho: ocupada e excedente, já indica de alguma maneira quais mecanismos ganham notoriedade para instrumentalizar esse processo: o aparato jurídico‑ ‑político para regulamentar a mercantilização da força de trabalho ocupada e sistemas de seguro social para os excedentários. Sublinhe‑se um objetivo adi‑ cional: recondução sazonal do excedente para atendimento imediato das neces‑ sidades de valorização pela via da incorporação ocasional (e precária) ao mercado14 (uma opção que está longe de superar a superpopulação relativa e o lumpemproletariado) e a entrega dos fundos da parcela ativa dos trabalhadores à gestão “gerencial”, pública ou privada. É nessenível que opera uma mediação fundamental: para validar‑se como maestro do concerto dos monopólios, ampliando suas funções econômicas, o Estado burguês opera sua legitimação política reconhecendo, incorporando, generalizando e institucionalizando direitos. Por essa via, enseja completar o ciclo sócio‑histórico mediante o qual obtém o consenso, com sua forma políti‑ ca não coincidindo necessariamente com a democracia política — dependendo da conjuntura das lutas de classes, sistemas autocráticos se impõem sem maio‑ res dilemas com a moralidade burguesa. E aqui cabe recuperar a cristalina asserção nettiana: “o coroamento da conquista da cidadania [...] acompanha, nos seus lances decisivos, o surgimento 14. E aqui se ergue o mercado especializado no discurso da “qualificação profissional”. 545Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 da idade do monopólio” (Netto, 2009, p. 27). A permeabilidade do Estado a parcelas das demandas do trabalho ocorre nesse momento de busca de legiti‑ mação política para orquestrar a conformação dos monopólios na economia, condicionada apenas pelas possibilidades de refuncionalização dessas mesmas demandas em margens de lucros — sua reincorporação pela dinâmica reprodu‑ tiva do capital. Em linhas‑mestras, esse é o cenário da sociabilidade capitalista que se constitui como momento predominante, como solo histórico‑concreto no qual as múltiplas expressões da “questão social” tornam‑se objeto de intervenção do Estado. Dito de forma direta, a “questão social” traduz‑se em demanda legítima ao Estado burguês, a ser “enfrentada” pelas políticas sociais, na medida em que seu reconhecimento político‑institucional contribui para formação do consenso, da hegemonia, em termos gramscianos. O grifo nessas notações acerca do Estado burguês reconfigurado sob os monopólios e o correspondente processo de construção do consenso político mediante o reconhecimento e o atendimento parcial de demandas do trabalho (igualmente ativas na correlação de forças), por intermédio das políticas sociais, tem por objetivo sublinhar a diferença específica em relação ao es‑ tágio concorrencial, em que a “questão social” fora objeto de intervenção apenas quando representava ameaça iminente (e externa) à reprodução do capital — organização política combativa ou revolucionária ou escassez de força de trabalho.15 15. Em função de seu peculiar e afinadíssimo poder de síntese, que se conjuga com o caráter limitado e circunscrito deste trabalho, julgamos importante trazer as palavras do autor, que evidenciam os fundamentos sócio‑históricos da política social: “No capitalismo dos monopólios, tanto pelas características do novo ordenamento econômico quanto pela consolidação política do movimento operário e pelas necessidades de legitimação política do Estado burguês, a “questão social” como que se internaliza na ordem econômico‑ política: não é apenas o acrescido excedente que chega ao exército industrial de reserva que deve ter a sua manutenção “socializada”; não é somente a preservação de um patamar aquisitivo mínimo para as categorias afastadas do mundo do consumo que se põe como imperiosa; não são apenas os mecanismos que devem ser criados para que se dê a distribuição, pelo conjunto da sociedade, dos ônus que asseguram os lucros monopolistas — é tudo isto que, caindo no âmbito das condições gerais para a produção capitalista monopolista (condições externas e internas, técnicas, econômicas e sociais), articula o enlace, já referido, das funções econômicas e políticas do Estado burguês capturado pelo capital monopolista, com a efetivação dessas funções se realizando ao mesmo tempo em que o Estado continua ocultando a sua essência de classe” (Netto, 2009, p. 30; grifos no original). 546 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 O acento em suas contraditórias funções (porque atendem a necessidades do trabalho ao mesmo tempo em que contribuem para a reprodução do capital em sua totalidade), porém, deve recair sobre o subsídio que fornecem à cons‑ trução da hegemonia da classe dominante, aparecendo o Estado como “media‑ dor civilizacional”, em que ganhariam fluidez e encaminhamentos “universais” as correlações de forças em presença (típica visão idealista), contribuindo assim para o obscurecimento do caráter geneticamente de classe do Estado burguês — porque as contradições tendem a serem enfrentadas, no limite, em favor da reprodução do capital como totalidade em processo. Todavia, na forma específica da intervenção do Estado na “questão social”, reside um dos fundamentos do sincretismo no Serviço Social — particular, mas não exclusivamente, no que concerne ao exercício da profissão. A referência é em relação à concretização peculiar da política social no período dos monopó‑ lios: ela se efetiva como políticas sociais, retalhando e fragmentando a “questão social” em núcleos problemáticos autonomizados. É assim que ocorre o escurecimento da “questão social” como resultante global das contradições do sistema do capital. Não poderia ser de outra manei‑ ra: remeter o enfrentamento da “questão social” para sua essência seria pôr em xeque a reprodução da sociedade burguesa (em sua dinâmica de produção amplamente socializada de valor e apropriação privada da riqueza — dinâmica que adquire traços exponenciais a partir da guinada financeiro-rentista do capi‑ tal). O Serviço Social, como profissão medularmente conectada às políticas sociais, herda e reproduz, na sua cotidianidade, essa estrutura interventiva. De um lado, o Estado assume como ente público, pretensamente histórico‑ ‑universal, a tarefa de intervir sistematicamente sobre os desdobramentos da “questão social” e, por outro, mantém e reproduz a determinação liberal‑indivi‑ dualista na estrutura mesma da sua intervenção: a ação tem caráter público, mas seu objeto e objetivo final residem e seriam produzidos na esfera do privado. Essa lógica encontra sustentação, sobretudo, na progressiva opacidade que o capitalismo monopolista imprime na diferenciação entre o público e o priva‑ do: trata‑se da saturação das necessidades de acumulação em todos os níveis das relações sociais — do universo mais íntimo do indivíduo social, das cons‑ telações familiares à “indústria cultural” e de “bens e serviços”. O espaço pri‑ 547Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 vado não desaparece. Antes, reaparece repleto com a lógica mercantil. A esse encurtamento do leque de possibilidades de realização vital do indivíduo social se articula um processo de “fuga ao subjetivismo”, de culto da “personalidade”, do solipsismo, que não entra em contradição com a estruturação da rede inter‑ ventiva do Estado, antes, reforça‑a. O par teórico dessa ambiência social ex‑ pressará essa estreiteza em dois níveis: de um lado, geralmente destacado em períodos de crise, as correntes irracionalistas, que mergulham de cabeça no solipsismo e tem feixes de implicações nos “contemporâneos” pós-modernismos; de outro, as operações de segmentação e formalização da razão e do real, de feição positivista.16 Ambas capitulam ante a pseudoconcreticidade17 da socie‑ dade burguesa. Apenas com a abstração do caráter totalizante a que remete a essência da “questão social” é possível estruturar políticas sociais que atuam liminarmente sobre suas expressões, tomando atomizadamente os problemas sociais (e seus sujeitos) como demandas institucionais — do contrário, sequer haveria possi‑ bilidade de intervenção na sociedade burguesa. Pavimentadas assim a concepção e a forma de enfrentamento da “questão social”, elencam‑se os setores proble‑ máticos: o analfabetismo, a mortalidade infantil, a violência urbana e domésti‑ ca, a desnutrição, a “situação de rua”, a dependência química, a violação de direitos, com a lista podendo ser estendida à exaustão.Efeito concomitante a essa segmentação formal‑abstrata é a transformação, sustentada por uma con‑ cepção teórica e um direcionamento socioinstitucional, de dilemas produzidos pelo contexto sócio‑histórico em problemas individuais. Numa típica formulação liberal e funcionalista (positivista em última análise),18 o centro irradiador dos problemas consiste na incapacidade individual em recolher no mercado as melhores oportunidades, cotidianamente produzidas 16. Sobre esse debate, a importantíssima obra O estruturalismo e a miséria da razão, de Carlos Nelson Coutinho. 17. A categoria é formulada por Karel Kosik, em Dialética do concreto. 18. Com essa referência não estamos propondo uma equalização acrítica entre o liberalismo, o positivismo e o funcionalismo. Antes, a intenção é indicar que, nos seus fundamentos últimos, encontramos o traço comum de conservação da ordem burguesa (e interdição em torno da construção de um conhecimento crítico‑ontológico totalizante), mesmo levando em consideração diferenciações prático‑operativas e teórico‑ conceituais pouco desprezíveis. 548 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 pelo desenvolvimento (linear) dos países capitalistas. Isto porque, nunca é exagerado lembrar, para a tradição do pensamento conservador,19 sobretudo de matiz positivista, estão equalizadas as determinações sociais tais quais os fenô‑ menos da natureza — regidos por leis fixas, imutáveis e inexoráveis, frente às quais há de se aquiescer, resignar (na clássica formulação de Comte). O que importa salientar nesse processo é que a estrutura da divisão social do trabalho modelada (e animada pelo projeto conservador que suporta refor‑ mas desde que permaneça intocada a estrutura da propriedade privada dos meios de produção) pela institucionalidade burguesa para intervir na “questão social” encontra seu calço “teórico-científico” no universo do estrutural‑ ‑funcionalismo, que converte a “questão social” em distúrbios e desvios “sociopáticos”, em patologia social que se torna objeto de reintegração por mecanismos institucionais em nome da coesão social. Discutindo essa questão em particular, o prof. José Paulo Netto avança na caracterização desse traço do pensamento conservador que se converte em elo de articulação entre a concepção de mundo liberal‑burguesa‑positivista e as formas concretas de intervenção do Estado. Segundo ele: O que assim recebe sanção teórica e consagração cultural é a impotência dos sujeitos e protagonistas sociais em face dos rumos do desenvolvimento da socie‑ dade — não só uma legitimação do estabelecido como, principalmente, uma predisposição para aceitar a sua evolução, seja em que sentido for. No entanto, o decisivo é a contraface dessa naturalização do social: ao naturalizar a sociedade, a tradição em tela é compelida a buscar uma especificação do ser social que só pode ser encontrada na esfera moral. Naturalizada a sociedade, o específico do social tende a ser situado nas dimensões ético‑morais — e eis que se franqueia o espaço para a psicologização das relações sociais. (Netto, 2009, p. 45) O centro das preocupações do prof. José Paulo Netto parece ser o estabe‑ lecimento de uma compreensão dialética macroscópica acerca do problema da 19. A profa. Leila Escorsim oferece uma importante contribuição ao debate sobre o conservadorismo e suas variadas tendências, contradições e desenvolvimentos em O conservadorismo clássico: elementos de caracterização e crítica. 549Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 legitimidade do Serviço Social profissional. Trata-se de procurar as respostas para a seguinte pergunta: qual o substrato histórico que atribui legitimidade e requer a atuação de uma profissão como o Serviço Social? As respostas ade‑ quadas a essa pergunta permitem a superação das teses que advogam a profis‑ sionalização do Serviço Social a partir de um processo cumulativo e progres‑ sivo de racionalização das pretéritas e assistemáticas atividades filantrópicas e caritativas. Isto porque o lócus que demanda o Serviço Social profissional não está localizado nele mesmo, não é endógeno e, mais importante que isso, não resulta de uma propensão “natural” à racionalização e sistematização das anti‑ gas práticas. Pelo contrário, o espaço sócio‑ocupacional criado para intervenção do Estado burguês sobre a “questão social” (as políticas sociais), na época do ca‑ pitalismo dos monopólios, estabelece uma ruptura crucial (ainda que com continuidades, sobretudo no que se refere às formas concretas do exercício profissional, manipulando dados e variáveis imediatas, empíricas, alterando, no universo do cotidiano e com requisições no mais das vezes prescritas institu‑ cionalmente) com as chamadas “protoformas” do Serviço Social. Ruptura essa concernente, no fundamental, à alteração do significado social da ação (dora‑ vante, umbilicalmente implicada na reprodução das relações sociais) e à con‑ dição de assalariamento,20 inscrevendo a profissão no circuito do trabalho abstrato (improdutivo),21 da mercadoria e da lei do valor. 20. Discussão seminal, já clássica para a profissão, elaborada por Marilda Iamamoto e Raul de Carvalho, em Relações Sociais e Serviço Social no Brasil: esboço de uma interpretação teórico‑metodológica, publicado em 1982. 21. Parece-nos injustificada a polêmica que tenta afirmar a atividade do assistente social trabalho produtivo (ou trabalho coletivo, que é necessariamente produtivo e realiza o trabalho categoria fundante do ser social). Dentre outras referências, sem nos aprofundarmos em demasia, observe‑se o que menciona cristalinamente o prof. Netto (ainda no início da década de 1990): “Enquanto interveniente nos mecanismos elementares da preservação e do controle da força de trabalho e, simultaneamente, nos ‘serviços’ que o Estado aciona para reduzir o conjunto de óbices que a valorização do capital encontra na ordem monopólica, o Serviço Social não desempenha funções produtivas, mas se insere nas atividades que se tornaram acólitas dos processos especificamente monopólicos da reprodução, da acumulação e valorização do capital” (Netto, 2009, p. 76; grifos nossos). Para uma aproximação substancial sobre as categorias trabalho (categoria fundante), trabalho abstrato produtivo ou improdutivo, trabalho coletivo, trabalho manual, trabalho intelectual no Marx de O capital, conferir Sergio Lessa em Trabalho e proletariado no capitalismo contemporâneo, 2007. 550 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 Sob esta angulação, numa longa e cirúrgica colocação, o prof. José Paulo Netto (2009, p. 74) é inequívoco: A profissionalização do Serviço Social não se relaciona decisivamente à “evo‑ lução da ajuda”, à “racionalização da filantropia” nem à “organização da carida‑ de”; vincula‑se à dinâmica da ordem monopólica. É só então que a atividade dos agentes do Serviço Social pode receber, pública e socialmente, um caráter pro‑ fissional: a legitimação (com uma simultânea gratificação monetária) pelo de‑ sempenho de papéis, atribuições e funções a partir da ocupação de um espaço na divisão social (e técnica) do trabalho na sociedade burguesa consolidada e madura; só então os agentes se reproduzem mediante um processo de socializa‑ ção particular juridicamente caucionada e reiterável segundo procedimentos reconhecidos pelo Estado; só então o conjunto dos agentes (a categoria profis‑ sionalizada) se laiciza, se independentiza de confessionalismos e/ou particula‑ rismos. A emergência profissional do Serviço Social é, em termos histórico‑ -universais, uma variável da idade do monopólio; enquanto profissão, o Serviço Social é indivorciável da ordem monopólica — ela cria e funda a profissionali‑ dade do Serviço Social. É nesse prisma de análise que, à pergunta acimacitada, pode‑se oferecer uma resposta distinta daquela defendida pelas teses “endogenistas”,22 qual seja: que a legitimidade da profissão reside no fundamento científico de que se socorre, na formação e no exercício. A argumentação nettiana fundamenta em outro contexto a questão legitimidade: ela se relaciona ao desempenho das funções e requisições prático‑operativas imantadas pelas políticas sociais setoriais — em segundo plano, ontológica e objetivamente, fica o significado ideal (a representação, a autoimagem) que a essa determinação atribuem os assistentes sociais. Ou seja, desde que ofereçam respostas qualificadas, que se desdobrem em alterações imediatas de realidades microssocietárias (sem‑ pre recortadas) com que se defrontem (em verdade, esse é o objetivo da atuação do Serviço Social), é secundário para a institucionalidade burguesa a 22. O prof. Carlos Montaño formula em termos claros a diferença entre as teses “endogenistas” e a “crítico‑dialética”, sobre os fundamentos sócio‑históricos do Serviço Social em A natureza do Serviço Social (2007). 551Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 questão de qual universo simbólico (teórico‑metodológico) esteja orientando a ação profissional.23 Disso decorre que o exercício profissional não se constitui um desdobra‑ mento automático da(s) referência(s) teórica(s) — o que contradiz muitos equi‑ vocados consensos, destaque feito ao que afirma que de uma referência teórica decorre uma (ou mais) metodologia de ação. Inversamente, o universo teórico‑ -conceitual não pode se constituir como a substância explicativa dos giros e mudanças na profissão. Antes, esses giros e mudanças estão articulados ao “di‑ namismo histórico-social, que recoloca, a cada uma de suas inflexões, a urgência de renovar (e, nalguns casos, de refundar) os estatutos das profissões particulares” (Netto, 2009, p. 89). Significa dizer que as transformações ocorridas na profissão não são resultado de um processo desencadeado “desde dentro”, a partir de mudanças mais ou menos profundas no seu leque teórico‑conceitual. Antes, e inversamente, as matrizes teórico‑metodológicas (localizadas no‑ tadamente nas ciências sociais, mas não só) que lastrearam o sistema de saber do Serviço Social compareceram a partir da necessidade de serem encontrados fundamentos para as respostas (muitas vezes reiterativas e fenomênicas) ofereci‑ das às demandas colocadas pelos espaços sócio‑ocupacionais. Para fazer frente a essas demandas, e de maneira geralmente acrítica, a profissão recorreu predomi‑ nantemente ao conjunto de referências acumulados pelas Ciências Sociais. Neste particular reside um dos traços fundamentais do sincretismo que, no plano teórico, expressa‑se tendencialmente como ecletismo: essa captura mais ou menos indis‑ criminada (e seletiva) de referências teóricas, por vezes contraditórias, para legi‑ timar/justificar/explicar práticas em operação no plano do exercício profissional. Ao abordar mais detidamente os fundamentos da estrutura sincrética no exercício profissional do Serviço Social, o prof. José Paulo Netto aponta três dimensões objetivas: o conjunto de problemas (extremamente variados) em torno da “questão social”; o limite ontológico do exercício profissional: o cotidiano; e 23. Senão vejamos: “O aspecto nuclear de uma intervenção profissional institucional não é uma variável dependente do sistema de saber em que se ancora ou de que deriva; é‑o das respostas com que contempla demandas histórico‑sociais determinadas; o peso dos vetores do saber só se precisa quando inserido no circuito que atende e responde a essas últimas (mesmo que, em situações de rápidas mudanças sociais, a emersão de novos parâmetros do saber evidencie implementações suscetíveis de oferecer inéditas formas de intervenção profissional)” (Netto, 2009, p. 88). 552 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 a forma particular de sua intervenção: manipulação de variáveis empíricas, alte‑ rando, rearranjando demandas sociais e institucionais que requerem respostas imediatas, contudo, restritas ontologicamente ao campo da fenomenalidade. Em primeiro lugar, a estrutura essencialmente multiforme da “questão social” adquire um traçado ainda mais profundo e de complexa captação teórica na dinâmica do capitalismo dominado pelos monopólios. Aqui, consi‑ derando‑se as particularidades regionais da nossa formação sócio‑histórica, 1) orientada desde sua mais tenra idade ao desenvolvimento heterônomo, subordinado e dependente; 2) historicamente marcada por fortes interesses conservadores e alianças oligárquicas de tendências fortemente antidemocrá‑ ticas; 3) os déficits sociais que justificam a qualificação de que o Brasil é um “monumento à desigualdade social”,24 chegamos a um quadro de complexi‑ dade tal que a “questão social” se torna, no limite, um conceito intangível: vai do trabalho escravo à exploração sexual infantil; da vergonhosa e histórica negação de uma reforma agrária aos números assustadores do sistema carce‑ rário; do trabalho informal e precaríssimo aos efeitos da especulação imobi‑ liária (que tem capitaneado um processo que só encontra paralelo histórico com cercamentos na Europa pré‑capitalista). Em segundo lugar, na estrutura sincrética do Serviço Social, o horizonte do cotidiano aparece como limite da intervenção Social que, conectado à lógi‑ ca institucional do Estado, opera alinhada a uma manipulação planejada da reprodução da força de trabalho, cujo traçado marcante é o “disciplinamento da família operária, ordenação de orçamentos domésticos, recondução às normas vigentes de comportamentos transgressores ou potencialmente transgressores, ocupação de tempos livres, processos compactos de ressocialização dirigida” (Netto, 2009, p. 92). Cotidiano tomado aqui como reprodução imediata, super‑ ficial e heterogênea da fenomenalidade — lócus da reificação sistemática que resulta da dinâmica capitalista. Atuando aí, destacam‑se como fundamentais os conhecimentos diretamen‑ te vinculados ao “fazer da prática”, em geral recortados da totalidade teórica de que fazem parte. A prática sincrética, nesse sentido, tende a hipervalorizar como conhecimentos verdadeiramente “úteis” para a prática tão somente aqueles 24. Eric Hobsbawm, em A era dos extremos. 553Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 acumulados com a reiteração das padronizações institucionais ou legais. Seu correlato: uma tendência ao menosprezo pela elaboração teórica dialética que, totalizante, extrapola o campo da empiria — a ele retornando, contudo, satura‑ do com as determinações que o compõem. Relaciona‑se a essa problemática o discurso de que “na prática, a teoria é outra”. Em terceiro lugar, na acepção clássica do sincretismo, a “manipulação de variáveis empíricas de um contexto determinado” (Netto, 2009, p. 96) ofertava a inferência da legitimidade profissional a partir de dados quantitativos extraí‑ dos de mudanças microssocietárias, passíveis de mensuração a partir da razão instrumental. A legitimidade profissional, portanto, tende a ser extraída, ao mesmo tempo em que reforça e requisita, a polivalência profissional. A inter‑ ferência sócio‑institucional em dados imediatos da realidade empírica, em si mesma heteróclita e multifacetada, tende a requerer profissionais “flexíveis”, atentos em dispor seu arsenal teórico‑prático a partir das demandas sociais (difusas) postas como requisições institucionais (reiterativas), também heteró‑ clitas. Nesse contexto, profissionais “que sabem fazer”, com o domínio de um arsenal heurístico repousando em terceiro ou quarto plano, gozam do reforço positivo socioinstitucional. Em poucas palavras, o exercício profissional sincrético opera por meio da formalização e da reiteração de procedimentos; do atendimento imediatode demandas difusas; práticas que estabelecem prioridades a partir de inferências teóricas segmentadas ou necessidades burocrático‑administrativas e políticas (com o intuito de “fundamentar” essas práticas com um discurso científico); recurso eclético aos campos de conhecimento que possam ser instrumentalizá‑ veis e corroborem com as intervenções que já estão sendo realizadas. A prática sincrética demanda e reproduz a elaboração formal‑abstrata de conhecimentos teóricos — a prática sincrética é o momento predominante do ecletismo teórico, embora não o determine definitivamente (o ecletismo é a expressão do sincre‑ tismo no plano teórico — um agregado acrítico de conhecimentos consolidados em circunstâncias outras).25 25. Numa referência quase sempre esquecida nos textos que procuram discutir a estrutura sincrética do Serviço Social, o prof. José Paulo Netto (2009, p. 92) afirma: “[...] a própria natureza socioprofissional do Serviço Social. É desta que decorrem, posta a carência de um referencial teórico crítico‑dialético, as peculiaridades que fazem dele um exercício prático-profissional medularmente sincrético”. 554 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 3. O sentido do sincretismo frente aos problemas do atual tempo histórico É característica do conhecimento de natureza ontológica a preocupação com o ser precisamente assim existente. Isto significa, nos processos de inves‑ tigação e de exposição, a prioridade do movimento objetivo da realidade ante quaisquer projeções subjetivistas, moralistas ou de viés gnosiológico. A razão empregada ontologicamente persegue a estruturação concreta do objeto de in‑ vestigação. Persegue a forma e o conteúdo de sua inserção categorial. Tenta desvendar a trama de mediações que satura de determinações o objeto pesqui‑ sado — mira‑o como complexo inscrito no movimento mais amplo e histórico da totalidade social. Completado (sempre parcialmente) esse momento, a investigação dá se‑ quência à exposição dos resultados. A exposição, por sua vez, não reflete dire‑ tamente todas as dimensões do método de investigação (realizado pelo pesqui‑ sador em seu confronto incessante com o objeto). Antes, seu compromisso é com a reprodução mais próxima possível do movimento do objeto investigado. O que fica em evidência não é, portanto, o percurso teórico-metodológico realizado pelo pesquisador, mas o conteúdo imanente do objeto em sua cadeia complexa de mediações. Na exposição resulta como concreto pensado, como síntese, o que anteriormente era uma realidade abstrata, amorfa, difusa, fragmentária. A expo‑ sição, por isso, carrega um conteúdo adicional de complexidade, pois abre as portas para compreensão do objeto em suas múltiplas determinações.26 Esse é o ângulo teórico-analítico abraçado na construção da tese do sin‑ cretismo. Sua aposta, desde que nossa leitura esteja coerente, é que reside no âmbito da reprodução social, das contradições de classe e do conjunto das alienações próprias da sociabilidade burguesa o momento predominante (por‑ tanto, não o único), a chave ontológica e heurística para o entendimento dos traços e processos que incidem no Serviço Social laico e profissionalizado. Muitas de suas dimensões fazem referência ao Serviço Social profissional em 26. Essas anotações refletem o já maduro debate em torno do método de investigação, o “caminho de ida” e do método de exposição, o “caminho de volta”. Para uma aproximação ao debate clássico, ver Karl Marx, no famoso Pósfácio da 2ª edição alemã de O capital: crítica da economia política. 555Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 seu próprio devir — enredado na dinâmica do capitalismo monopolista (até o presente) e nas formas de atuação jurídico‑políticas do Estado burguês na re‑ produção das relações sociais, ou seja, para além da particularidade da formação sócio‑histórica brasileira e mesmo latino‑americana. Os fundamentos da estrutura sincrética do Serviço Social, tal como foram alicerçados na sua acepção clássica, permitem sustentar sua atualidade e vigor teórico. Tomando como referência o quadro macroscópico da reprodução da sociedade burguesa na contemporaneidade (últimos quarenta anos), observa‑se o aprofundamento das tendências colocadas pelo capitalismo monopolista. Muitas análises têm demonstrado o avanço do processo de centralização do capital, com ênfase para a hipertrofia do capital fictício. O Estado tem dado máximas demonstrações de força no sentido de oportunizar margens de lucro ao capital monopolizado. Dentre outras estratégias, conduzindo pacotes de medidas de minimização dos gastos públicos que se vinculem à reprodução da força de trabalho, justificados com o discurso do ajuste fiscal. De passagem, sinalizamos que a forma democracia burguesa, cânone da organização política para alguns, tem recebido e acomodado plasticamente interesses e necessidades do grande capital monopolista. Em não raras ocasiões, foi substituída sumaria‑ mente por regimes autocráticos — note‑se a história recente da América Latina, do Leste Europeu e de alguns países africanos. Nessa esteira, pavimentou‑se um dos caminhos para a maré privatizante que autores designam como um “assalto ao patrimônio público”.27 Flexibiliza‑ ram‑se os direitos. Desregulamentou‑se a economia. A “questão social” dá mostras inéditas de sua cronificação, e suas expressões marcam presença em territórios e populações inéditos — acentuando o acerto marxiano em torno da superpopulação relativa. A desigualdade social surge mais aguda e diferencia‑ da a despeito dos efêmeros e ultra‑alardeados resultados de pacotes emergenciais de “desenvolvimento”. As políticas sociais tornaram‑se ainda mais focalizadas e seletivas, dessa feita sob o discurso do “desenvolvimento de capacidades humanas”, tem se concentrado sua intervenção em ações assistenciais. Inserido nesse contexto, o 27. Naomi Klein, em A doutrina do choque: ascensão do capitalismo do desastre. 556 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 exercício profissional do Serviço Social encontra uma malha institucional que lhe repõe requisições e demandas tipicamente sincréticas. As três características da estrutura sincrética da profissão se repõem em grau acentuado: a “questão social” assume feições hoje dramáticas e ainda mais heterogêneas e difusas; o universo do cotidiano, limite ontológico em que se situa a atuação profissional e no qual a “questão social” se expressa fragmentariamente, encontra renovados processos alienantes: o culto desmedido do individualismo/solipsismo; o hedo‑ nismo e a falta de perspectivas de futuro (agudizados pela crise estrutural) que acometem populações jovens; o avanço do racismo e da xenofobia; os índices de guerra civil provenientes da violência urbana, doméstica, racial e de gênero; a avalanche ultraconservadora que tem resultado na criminalização da pobreza e na implementação de políticas de “tolerância zero” fazendo explodir a popu‑ lação carcerária; o consumismo e o impulso à cultura da descartabilidade. Quanto ao terceiro traço do sincretismo, a manipulação de variáveis empí‑ ricas também se repõe maximizada frente às tendências de hiperfocalização e assistencialização das ações. Se cruzarmos as duas tendências — cronificação da “questão social” e focalização minimizadora das políticas sociais —, torna‑se evidente que os limites socioinstitucionais do exercício profissional embargam uma atuação que ultrapassa o horizonte da intervenção microscópica, reiterativa e fragmentária — ainda que comprometida com valores emancipatórios. Todavia, o campo de contradições da sociabilidade burguesa atua de for‑ ma diferenciada. Não se revela de maneira idêntica em todas as esferas da re‑ produção social. Por isso, se do ponto de vista do exercício profissionalo sincretismo é componente ineliminável (porque conectado a instâncias e me‑ diações que ultrapassam e circunscrevem a profissão), no âmbito da produção de conhecimento e da formação acadêmico-profissional outras mediações e desdobramentos entram em cena. Particularizando o debate para a história do Serviço Social no Brasil, é possível sustentar que os desdobramentos do mo‑ vimento de intenção de ruptura28 lançou as bases para o processo de superação do ecletismo teórico. 28. O movimento de intenção de ruptura é objeto de rigorosa análise em Ditadura e Serviço Social: uma análise do Serviço Social no Brasil pós‑64, também de autoria do prof. José Paulo Netto. 557Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 Sem desconsiderar os problemas e contradições do processo que aproximou o Serviço Social brasileiro do amplo campo da tradição marxista, é possível afirmar (em traços largos) que os avanços obtidos por essa aproximação, des‑ tacadamente nos últimos 25 anos, nos campos da formação, da pesquisa e da produção de conhecimento de natureza teórica, assumiram uma perspectiva de análise crítica totalizante. Evidentemente, a perspectiva de análise não reverteu a dinâmica da objetividade — nem poderia, salvo para uma perspectiva idea‑ lista‑hegeliana. Contudo, forneceu aos assistentes sociais recursos teórico‑ ‑metodológicos para uma atuação que, ainda que inscrita no circuito de repro‑ dução do sincretismo, pudesse explorar os espaços sócio‑ocupacionais como campos de contradição, com clareza do seu raio de ação e na perspectiva da ampliação das suas possibilidades — sobretudo na defesa tática dos direitos e demandas do trabalho (tomado como antagonista estrutural do capital). Esse é o esforço do chamado “projeto ético-político profissional”. Esses avanços de natureza teórico‑metodológica, representados pelo “pro‑ jeto ético-político profissional”, ao incorporarem a categoria de totalidade como elemento‑chave na compreensão da reprodução social (em seus fundamentos históricos e contraditórios), permitiram a superação do ecletismo teórico. To‑ davia, quando pautados à luz dos processos de mercantilização que têm incidi‑ do sobre a educação superior no Brasil (mas não só), resta manifesto que um dos seus suportes sócio-históricos mais importantes (a formação profissional crítico‑generalista de nível superior) tem sido alvo de intensas investidas pro‑ venientes de interesses do mercado. A lógica do mercado reverte os valores sociocêntricos e a perspectiva emancipatória em nome do imediatismo, do hedonismo, dos saberes prático‑imediatos instrumentais. A contrapartida “teórica” (conservadora em última análise) que tem marcado fundamente o saber produzido no campo da Filosofia e das “Ciências Humanas e Sociais”, histórico universo de interlocução do Serviço Social, a saber: as várias nuances da “pós‑modernidade”, têm repercutido de maneira substancial na formação superior dos assistentes sociais.29 Sua lógica motriz, a pétrea negação da categoria de totalidade, da essência, da razão ontológica em 29. Já se avoluma uma bibliografia substancial, em teses, dissertações e livros, sobre os impactos dos pós-modernismos no Serviço Social. Dentre outros, conferir o didático e qualificado: Neoconservadorismo pós‑moderno e Serviço Social brasileiro, de Josiane Soares Santos. 558 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014 nome da exaltação do fragmentário, do fugaz, efêmero, aparente, da segmentação da realidade e do pensamento, não contradiz a lógica empírica imediata própria da prática sincrética. Mantidas e aprofundadas essas tendências no campo da formação profissional (porque, no campo do exercício, elas têm penetrado sobre‑ maneira), estão colocadas as raízes do processo que tenderá a fragilizar, quando não reverter, o percurso histórico que solidificou a superação do ecletismo. Recebido em 20/2/2014 ■ Aprovado em 2/6/2014 Referências bibliográficas COUTINHO, Carlos Nelson. O estruturalismo e a miséria da razão. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972. ESCORSIM, Leila. 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A ex‑ posição apresenta a relação necessária entre ideologia e práxis histó‑ rica, a concepção de bloco histórico como totalidade social e as condições necessárias e suficientes à superação das relações sociais dominantes. Palavras‑chaves: Ideologia. Práxis social. Bloco histórico. Filosofia da práxis. Abstract: The article seeks to apprehend the category of the ideology in the notes dedicated to the study of philosophy in Antônio Gramsci’s Prison notebooks. The theoretical and methodological fundamentals and the category articulations of the issue of ideology in Gramsci are explained through bibliography research related to that work. The explanation presents the necessary relationship between ideology and historical praxis, the conception of historical block as social totality and the necessary and sufficient conditions to overcome the dominant social relationships. Keywords: Ideology. Social praxis. Historical block. Philosophy of praxis. * Assistente social, mestre em Serviço Social pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), doutorando em Serviço Social pela UFPE, Recife/PE, Brasil. E‑mail: j_r1987@hotmail.com. 561Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 560-581, jul./set. 2014 1. Introdução Entre as investigações e apontamentos mais estritamente voltados ao problema da filosofia, Antônio Gramsci desenvolve nos Cadernos do cárcere um conjunto de notas e passagens nas quais, direta ou indiretamente, contribui para tornar inteligível a categoria da ideolo‑ gia. A elaboração que se desdobra, matizada pela concepção de mundo inerente à “filosofia da práxis”, apreende e explicita fundamentos teórico-metodológicos e históricos imprescindíveis ao desvelamento das relações de hegemonia entre as classes. Por meio de uma síntese aproximativa daquelas formulações que laboram a questão da ideologia nos escritos carcerários, pretendemos contribuir para aprofundar teoricamente, no âmbito da pesquisa sócio-histórica, a apro‑ priação do fecundo arsenal crítico e categorial do comunista sardo. O estudo demandou que enveredássemos por aqueles Cadernos nos quais explicitamente o tema da filosofia foi levado a cabo: principalmente, no Caderno 10 (1932‑35), A filosofia de Benedetto Croce, e no Caderno 11 (1932‑33), Introdução ao estu‑ do da filosofia.1 Além disso, cotejamos os “cadernos miscelânea”, nos quais se encontram as notas de primeira redação posteriormente reformuladas e reescri‑ tas naqueles “cadernos especiais”.2 É evidente que os materiais bibliográficos e os objetivos a partir dos quais pesquisamos impõem alguns limites à proposição de resultados definitivos à análise da ideologia em Gramsci. Porquanto, pretendemos nos debruçar estri‑ tamente sobre as notas em torno do estudo da filosofia, o tratamento mais aprofundado e sistemático de um tema tão abrangente e polêmico — no quadro mesmo dos comentadores de Gramsci, que dirá no âmbito da tradição marxista — não pôde ser levado a cabo. Nossa contribuição consiste tão somente numa 1. Ambos publicados na edição brasileira atual: Gramsci (2011a). 2. Os “cadernos miscelânea” dedicados ao estudo da filosofia são, fundamentalmente: o Caderno 4 (1930‑1932), Apontamentos de filosofia/miscelânea/O canto décimo nono do inferno; o Caderno 7 (1930‑31), Apontamentos de filosofia II e miscelâneas; e o Caderno 8 (1931‑32), Miscelânea e apontamentos de Filosofia II. Como não contamos com uma edição integral dos “cadernos miscelânea” em português, recorremos à versão mexicana, traduzida da edição crítica de Valentino Gerratana. Foram examinados os seguintes volumes: Gramsci (1999b) e Gramsci (1984). Sobre a distinção entre os cadernos miscelânea e especiais, além dos demais recursos atualmente utilizados para referenciar as notas carcerárias, ver Introdução de Gerratana em Gramsci (1999a). 562 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 560-581, jul./set. 2014 aproximação teórica à ideologia no extrato dos Cadernos selecionados — cujo conteúdo possui também um caráter inacabado, provisório e fragmentado3 —, subsidiando a apropriação dos fundamentos filosóficos, articulações categoriais e remissões históricas intrínsecas. É conhecido que as notas dedicadas ao estudo da filosofia foram, mormen‑ te, elaboradas através da crítica ao pensamento idealista do filósofo italiano Benedetto Croce (e também de Giovanni Gentile) e ao livro, de 1921, A teoria do materialismo histórico: manual popular de sociologia marxista (chamado nos Cadernos de “Ensaio Popular”) de Nikolai Ivanovich Bukharin, então dirigente do Partido Comunista russo e da Internacional Comunista. O desen‑ volvimento desse programa de pesquisa filosófica ocorreu, assim, embora não exclusivamente, através dos seus “Anti‑Croce” e “Anti‑Bukharin”: o combate ao revisionismo idealista, de uma parte, e ao materialismo mecanicista, de outra.4 Essa empreitada é seguida em sintonia fina com as concepções e funda‑ mentos da própria obra marxiana, mobilizados original e criativamente para análise concreta das condições históricas da luta das classes subalternas na entrada do século XX. 2. Ideologia e práxis social Iniciemos pela determinação da função da ideologia na reprodução social. Numa nota do Caderno 7 (1930‑31), antes mesmo da reformulação dos textos miscelânea nos “cadernos especiais”, a questão da ideologia é tratada por meio de uma evidente remissão à obra de Marx. O trecho que segue realiza a distin‑ ção entre as “ideologias orgânicas” e as “ideologias arbitrárias”. O § 19 do referido Caderno destaca, inicialmente, o elemento de erro nas concepções que abordam a ideologia enquanto “‘pura’ aparência, inútil, estúpida”, hipostasiada do movimento histórico: 3. Numa nota de advertência, no início do Caderno 11, Gramsci postula explicitamente o caráter aproximativo e inconcluso de suas anotações, afirmando que podem conter, inclusive, inexatidões e tratamentos desatualizados. 4. Detalhes sobre essa elaboração são fornecidos por Bianchi (2008). Também Buci‑Glucksmann (1980) aborda o estudo filosófico de Gramsci nos Cadernos. 563Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 560-581, jul./set. 2014 Um elemento de erro na consideração sobre o valor das ideologias, ao que me parece, deve‑se ao fato (fato que, ademais, não é casual) de que se dê o nome ideologia tanto à superestrutura necessária de uma determinada estrutura, como às elucubrações arbitrárias de determinados indivíduos. O sentido pejorativo da palavra tornou-se exclusivo, o que modificou e desnaturou a análise teórica do conceito de ideologia. O processo deste erro pode ser facilmente reconstituído: 1) identifica-se a ideologia como sendo distinta da estrutura e afirma-se que não são as ideologias que modificam a estrutura, mas sim vice-versa; 2) afirma-se que uma determinada solução política é “ideológica”, isto é, insuficiente para modi‑ ficar a estrutura, enquanto crê poder modificá-la se afirma que ela é inútil, estú‑ pida etc.; 3) passa-se a afirmar que toda ideologia é “pura” aparência, inútil, es‑ túpida etc. (Gramsci, 2011a, p. 237) Duas abordagens comumente fornecidas à questão são apresentadas: uma expressa como acertada, enquanto outra constitui a fonte de erro na considera‑ ção do “valor das ideologias”. Na primeira, é enfatizada a vinculação orgânica entre determinadas ideologias, enquanto superestrutura necessária, e a estru‑ tura social, evidenciando a relação de unidade existente entre ambas. As ideologias e a estrutura social expressam duas dimensões concretas, com suas particularidade e legalidades específicas, constituidoras do devir histórico. O processo de erro descrito — cujo resultado é uma concepção generalizadora da ideologia como “‘pura’ aparência, inútil, estúpida” — inicia precisamente com a orientação metodológica que consiste na cisão entre as ideologias e a estru‑ tura social dada. Sabemosque a concepção da ideologia como “superestrutura necessária de uma determinada estrutura” consiste numa referência às formu‑ lações de Marx no Prefácio à Crítica da economia política, de 1859. Todavia, antes de nos determos na formulação presente nesse manuscrito seminal, con‑ centremo‑nos na relação de necessária unidade entre ideologias e estrutura social. No fragmento seguinte, ainda do § 19, vejamos como Gramsci (2011a) determina a função social específica das “ideologias orgânicas”: É necessário, por conseguinte, distinguir entre as ideologias historicamente orgâ‑ nicas, isto é, que são necessárias a uma determinada estrutura, e ideologias arbi‑ trárias, racionalísticas, “voluntaristas”. Enquanto são historicamente necessárias, as ideologias têm uma validade que é validade “psicológica”: elas “organizam” 564 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 560-581, jul./set. 2014 as massas humanas, formam o terreno no qual os homens se movimentam, adqui‑ rem consciência de sua posição, lutam etc. Enquanto são “arbitrárias”, não criam mais do que “movimentos” individuais, polêmicas etc. (p. 238) Utilizando‑nos da distinção aludida num trecho incompleto dos manuscri‑ tos d’A ideologia alemã,5 vemos que as “ideologias orgânicas” — em contras‑ te com o “aspecto da atividade humana” voltado ao “trabalho dos homens sobre a natureza” — localizam‑se na esfera da “atividade humana” referente ao “trabalho dos homens sobre os homens” (Marx e Engels, 2007, p. 39). Ou seja, constituem parte das atividades humanas que tem por objeto os modos de pen‑ sar e agir dos homens em sociedade, intervindo, portanto, na qualidade das relações que estes estabelecem entre si e com a natureza. As “ideologias orgâ‑ nicas” possuem um papel organizativo e diretivo da atividade humana, confor‑ mando uma consciência social necessária a determinado modo de agir no mundo, vinculada a interesses socioeconômicos situados, condicionados pela estrutura social. Assumem uma orientação prático‑social situada, com efeitos concretos no desenvolvimento histórico, compondo as formas de consciência através das quais os homens tornam inteligível sua posição no mundo, se mo‑ vimentam, lutam. Logo, as “ideologias orgânicas” não são conformadas no vazio, embora estejam distantes de ser tratadas, igualmente, como um subproduto ou epifenô‑ meno de fatores econômicos. Em todo caso, nem derivam do “ventre da ideia que se põe a si mesma” (Marx, 2011, p. 217), tampouco são “‘autodeterminações’ do conceito que se desenvolve na história” (Marx e Engels, 2007, p. 49). Elas se elevam sobre uma estrutura social situada: “[...] a filosofia não se desenvolve a partir de outra filosofia,6 mas é uma contínua solução de problemas colocados 5. Referimo‑nos à seguinte passagem: “Até agora consideramos principalmente apenas um aspecto da atividade humana, o trabalho dos homens sobre a natureza. O outro aspecto, o trabalho dos homens sobre os homens [...]” (Marx e Engels, 2007, p. 39). 6. Cabe-nos assinalar que a distinção assumida por Gramsci entre filosofia e ideologia é estritamente quantitativa, de grau, e não qualitativa ou orgânica. Enquanto a primeira expressa a “a concepção de mundo que representa a vida intelectual e moral (catarse de uma determinada vida prática) de todo um grupo social”, a segunda consiste em “toda concepção particular de grupos internos da classe que se propõem ajudar a re‑ solver problemas imediatos e restritos” (Gramsci, 2011a, p. 302). E acrescenta: “Aliás, as ideologias serão a 565Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 560-581, jul./set. 2014 pelo desenvolvimento histórico” (Gramsci, 2011a, p. 343). Emergem e se afir‑ mam no quadro dos intercâmbios dialéticos estabelecidos entre a estrutura so‑ cioeconômica e a consciência social necessária que dirige a prática dos indiví‑ duos, vinculando suas decisões alternativas cotidianas à reprodução ou à superação das relações sociais em causa. As ideologias constituem as formas de consciência inerentes à atividade dos próprios indivíduos sociais, destinadas a responder às necessidades e pro‑ blemas colocados pela produção social. Nessa perspectiva, a afirmação da historicidade e da caducidade das ideologias parte do fato de que as mesmas são “expressões da estrutura e se modificam com a modificação desta” ( Gramsci, 2011a, p. 131). O autor dos Cadernos reivindica a práxis social como momento predominante da dialética entre teoria e prática, o que não significa a imposta‑ ção de uma hierarquia de valor entre as categorias constitutivas do ser social. Para a determinação das “ideologias orgânicas”, cita, quase com as mesmas palavras, um conhecido trecho do “Prefácio” de 1859. Vamos ao texto do Marx (2008a, p. 46): Quando se considera tais transformações [das superestruturas, provocadas pela base econômica] convém distinguir sempre a transformação material das condições econômicas de produção [...] e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em resumo, as formas ideológicas, sob as quais os homens adquirem consciência desse conflito e o levam até o fim. É relevante constatar que tal citação é também recorrentemente utilizada por Georg Lukács, em sua Ontologia do ser social,7 e, mais tarde, em diversos textos de István Mészáros,8 para o tratamento da questão da ideologia em Marx. Ambos assumindo uma posição bastante aproximada daquela apresentada por ‘verdadeira’ filosofia, já que elas serão as ‘vulgarizações’ filosóficas que levam as massas à ação concreta, a transformação da realidade. Isto é, elas serão o aspecto de massa de toda concepção filosófica” (Gramsci, 2011a, p. 312). 7. Tais referências podem ser identificadas em Lukács (2010, 2012). No artigo de Vaisman (2010) en‑ contramos uma síntese sobre a concepção lukasciana. 8. Esse autor trata reiteradamente da questão da ideologia, nesses termos, em: Mészáros (2011, 2008, 2004). 566 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 560-581, jul./set. 2014 Gramsci.9 Outras importantes menções do mesmo manuscrito marxiano de 1859 são retomadas por nosso autor para aprofundar as reflexões relativas ao estudo da filosofia. Assumindo os termos do “fundador da filosofia da práxis”, o co‑ munista sardo recusa as abordagens que desconsideram o valor histórico das ideologias, ou que as releguem a uma posição estrita de “falsa consciência”. O que está em questão é a função prático‑social de determinadas formas de consciência, não obstante caracterizem falsas ou verdadeiras elaborações, do ponto de vista histórico‑concreto. Tal função se relaciona a conscientização dos conflitos colocados pela produção social, orientando a práxis humana existente. Uma nota daquele Caderno 7, intitulada “Validade das ideologias”, sinaliza precisamente nessa direção: Recordar a frequente afirmação de Marx sobre a “solidez das crenças populares” como elemento necessário de uma determinada situação. Ele diz mais ou menos isto: “quando esta maneira de conceber tiver a força das crenças populares” etc. Outra afirmação de Marx é a de que uma persuasão popular tem, com frequência, a mesma energia de uma forma material, ou algo semelhante, e que é muito sig‑ nificativa. A análise concreta destas afirmações, creio, conduz ao fortalecimento da concepção de “bloco histórico”, no qual, precisamente, as forças materiais são o conteúdo e as ideologias são a forma, distinção entre forma e conteúdo pura‑ mente didática, já que as forças materiais não seriam historicamente concebíveis sem forma e as ideologias seriam fantasias individuais sem as formas materiais. (Gramsci, 2011a, p. 238) Aqui Gramsci recorda uma passagem da Crítica da filosofia do direito de Hegel — Introdução, na qual Marx sinaliza, ainda no início dos anos 1840, que “a teoria também se torna força material quando se apodera das massas” (2010, p. 151). De uma parte,essa remissão — que se repetirá em diversos outros momentos — é empregada para corroborar o poder das ideologias no próprio devir histórico, sendo desenvolvida ainda para o tratamento das relações 9. Coutinho (2011) afirma essa convergência entre Gramsci e Lukács, no que concerne ao entendimento da questão da ideologia em Marx. E Oldrini (1999) informa uma aproximação entre os dois comunistas também na busca pela superação das polarizações idealistas e mecanicistas na tradição marxista, através de um tertium datur fundado na perspectiva teórico‑metodológica de Marx e de Lênin. 567Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 560-581, jul./set. 2014 de hegemonia e da própria ação estatal em sentido “integral”, “orgânico” (Gramsci, 2007). De outra parte, é abordada como indicação fornecida por Marx para evocar a necessidade da formação de uma consciência classista unitária, crítica, autônoma e de massas como momento necessário do processo revolucionário mesmo. De fato, ainda em A ideologia alemã — manuscrito cujo conteúdo Gramsci não chegou a conhecer — Marx e Engels assumem que os “elementos materiais de uma subversão total” são, sobretudo, o desenvolvimento posto pelas “forças produtivas” e a “formação de uma massa revolucionária que revolucione não apenas as condições particulares da sociedade até então existente, como também a própria ‘produção da vida’ que ainda vigora — a ‘atividade total’ na qual a sociedade se baseia [...]”. Se tais condições são inexistentes, não importa “se a ideia dessa subversão total já foi proclamada uma centena de vezes” (2007, p. 43). Em suma, é incontornável a criação em massa de uma consciência comunista,10 enquanto consciência da necessidade de uma revolução radical, por parte da classe trabalhadora. Com efeito, Mészáros (2009) afirma que desde seus primeiros escritos, até os Grundrisse e O capital, Marx insistiu “[...] na necessidade da formação de uma consciência de massa socialista, como exigência sine qua non para envolver a grande maioria dos indivíduos em seu empreendimento coletivo de autoemancipação” (p. 1041). Essa unidade dialé‑ tica entre forças produtivas e consciência social é apreendida por Gramsci por meio da reformulação do conceito de “bloco histórico”. 3. O bloco histórico como totalidade social No estudo da filosofia, Gramsci incorpora aquela noção do teórico francês do sindicalismo Georges Sorel (1874‑1922),11 reelaborando‑a buscando repro‑ 10. Tal requisição aparece de modo explícito também em várias passagens d’A sagrada família (Marx e Engels, 2003), à qual Gramsci teve acesso e pôde utilizar nos seus estudos. 11. Uma exposição sobre a concepção original de Sorel é apresentada por Bianchi (2008). Analistas como Portelli (1977) chegam a considerar que os principais aspectos do pensamento político presente nos Cadernos articulam‑se em torno do conceito de bloco histórico. 568 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 560-581, jul./set. 2014 duzir a unidade ontológica entre a estrutura social e as ideologias. Tal perspecti‑ va encontra‑se nos fundamentos mesmos da concepção de mundo inerente à obra de Marx: “Para a filosofia da práxis o ser não pode ser separado do pensar, o homem da natureza, a atividade da matéria, o sujeito do objeto; se faz se esta separação, cai‑se numa de muitas formas de religião ou na abstração sem sen‑ tido” (Gramsci, 2011a, p. 175). Na reformulação gramsciana da noção de “bloco histórico” está inerente a natureza categorial da práxis social em sua unidade.12 Essa vinculação foi inspirada, fundamentalmente, na interpretação das Teses sobre Feuerbach (Marx e Engels, 2007). A afirmação das Teses sobre Feuerbach, de que “o educador deve ser educado”, não coloca uma relação necessária de reação ativa do homem sobre a estrutura, afirmando a unidade do processo real? O conceito de “bloco histórico”, construí‑ do por Sorel, apreende plenamente essa unidade defendida pela filosofia da práxis. (Gramsci, 2011a, p. 370) Nosso autor não está propondo uma inversão mecânica das perspectivas economicistas, caracterizadas pela determinação unilateral da estrutura social sobre as superestruturas.13 Distancia‑se, consequentemente, da abordagem vo‑ luntarista, segundo a qual os homens atuam livres das cadeias socioeconômicas da estrutura dominante. A ênfase está na unidade dialética, presente na ativi‑ dade humana, entre ser e consciência, entre objetividade e subjetividade: “O homem deve ser concebido como um bloco histórico de elementos puramente subjetivos e individuais e de elementos de massa e objetivos ou materiais, com os quais o indivíduo está em relação ativa” (Gramsci, 2011a, p. 406). Tais im‑ plicações metodológicas são derivadas das relações objetivas que constituem a 12. Em Gramsci, a práxis social encontra‑se fundada na atividade produtiva: “Se este é o ponto de partida da ciência econômica e se assim foi fixado o conceito fundamental de economia, qualquer investigação ulterior não poderá senão aprofundar teoricamente o conceito de ‘trabalho’”, o qual deverá “[...] ser fixado naquela atividade humana que, em qualquer forma social, é igualmente necessária” (2011a, p. 334). 13. O estudo de Martins (2008) apresenta a vinculação orgânica entre a perspectiva teórico-metodológica marxiana e aquela apresentada por Gramsci nos Cadernos. Em seu livro clássico, Buci‑Glucksmann (1980) chama a atenção também para a importância de Lênin na refundação da filosofia marxista realizada por Gramsci. 569Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 560-581, jul./set. 2014 práxis social na história. Por isso mesmo, abordando o complexo das superes‑ truturas em sua interação com o conjunto das relações sociais, Gramsci asse‑ vera que o “raciocínio se baseia sobre a necessária reciprocidade entre estrutu‑ ra e superestrutura (reciprocidade que é precisamente o processo dialético real)” (2011a, p. 251). A concepção da reciprocidade dialética inerente ao processo histórico‑concreto segue as fecundas indicações contidas no referido trecho do “Prefácio” de 1859: O conceito do valor concreto (histórico) das superestruturas na filosofia da práxis deve ser aprofundado, aproximando‑o do conceito soreliano de “bloco histórico”. Se os homens adquirem consciência de sua posição social e de seus objetivos no terreno das superestruturas, isto significa que entre estrutura e superestrutura existe um nexo necessário e vital. (Gramsci, 2011a, p. 389) As relações de determinação recíproca entre aqueles complexos da ativi‑ dade humana são enfatizadas como procedimento fecundo e original da pers‑ pectiva marxiana,14 cujo cerne deve ser evidenciado na luta ideológica contra as tendências idealistas e deterministas mecânicas. Na crítica à vulgata crocia‑ na do “materialismo histórico”, Gramsci informa que: “não é verdade que a filosofia da práxis ‘destaque’ a estrutura das superestruturas; ao contrário, ela concebe o desenvolvimento das mesmas como intimamente relacionado e ne‑ cessariamente inter‑relativo e recíproco” (2011a, p. 369). No Caderno 11, a concepção de “monismo”, que apregoa a unidade da realidade como um todo,15 é retraduzida nesses termos: [...] nem materialista nem idealista, mas identidade dos contrários no ato históri‑ co concreto, isto é, atividade humana (história‑espírito) em concreto, indissolu‑ velmente ligada a uma certa “matéria” organizada (historicizada), à natureza transformada pelo homem. Filosofia do ato (práxis, desenvolvimento), mas não 14. Também Lukács (2012) identifica que o cerne estruturador do pensamento econômico de Marx se funda na concepção de determinação recíproca das categorias que compõem o complexo do ser social, no qual “o econômico e o extra‑econômico convertem‑se continuamente um no outro” (p. 310). 15. Kosik (1976) também apreende e explicita essa perspectiva de unidade presentena concepção dialética de Marx recorrendo a categoria da práxis. 570 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 560-581, jul./set. 2014 do ato “puro”, e sim precisamente do ato “impuro”, real no sentido mais profano e mundano da palavra. (Gramsci, 2011a, p. 209) A unidade referida pela filosofia da práxis não se encontra, com isso, esterilizada das contradições que dinamizam o desenvolvimento histórico: ela mesma é uma teoria das contradições. Essa nova concepção do mundo apreende, no campo das superestruturas, a própria práxis humana socialmen‑ te determinada, a atividade humana como síntese de objetividade e subjetivi‑ dade, conformada pelo mundo socioeconômico e as lutas ideológicas forjadas pelos interesses antagonistas dos sujeitos classistas. A apreensão de interesses contraditórios irreconciliáveis, presentes na estrutura social burguesa — di‑ ferente das tendências idealistas, que buscavam uma reconciliação no plano do espírito, ou das tendências mecanicistas, que restringem as transformações históricas ao plano reificador dos “instrumentos técnicos de produção” — orienta a superação dos antagonismos para a totalidade das relações que consubstanciam a própria atividade humana na civilização do capital. A perspectiva de radicalidade e concreticidade assumida é expressa nos seguin‑ tes termos: “A filosofia da práxis é o historicismo absoluto, a mundanização e terrenalidade absoluta do pensamento, um humanismo absoluto da história. Nesta linha é que deve ser buscado o filão da nova concepção do mundo” (Gramsci, 2011a, p. 155). Segundo Gramsci, o problema que se coloca é o da filosofia como histo‑ ricidade: a implicação prático‑social das formas ideológicas sobre o curso do movimento histórico. Ele considera que o interesse pelo campo das superestru‑ turas, na filosofia da práxis, se coloca precisamente por seus efeitos objetivos sobre a atividade humana inerente à própria reprodução social: Através do conceito mais amplo de historicidade da filosofia, isto é, de que uma filosofia é “histórica”, enquanto se difunde, enquanto se torna uma concepção de uma massa social (com uma ética adequada), compreende-se que a filosofia da práxis, não obstante a “surpresa” e o “escândalo” de Croce, estude “nos filósofos precisamente (!) o que não é filosófico: as tendências práticas e os efeitos sociais e de classe que eles representam. [...]” (Gramsci, 2011a, p. 342) 571Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 560-581, jul./set. 2014 A importância do estudo da filosofia não está hipotecada, portanto, a qual‑ quer pretensão de sumariar uma história hipostasiada do pensamento da huma‑ nidade. A filosofia (ou filosofias) interessa na medida em que é “história”, na medida em que faz parte da “história geral do mundo”, das relações sociais em que vivem os homens, na medida em que possui implicações práticas nas trans‑ formações sociais concretas. A própria história da filosofia é entendida como a história das tentativas e iniciativas ideológicas de determinadas classes para modificar, corrigir e aperfeiçoar as concepções de mundo existentes, bem como alterar as normas de condutas que lhes são relativas e adequadas, voltadas para “mudar a atividade prática em seu conjunto” (Gramsci, 2011a, p. 325). Em síntese, as ideologias importam porquanto assumem a condição de mediação da reprodução social, dirigindo as vontades humanas, por meio da formação de determinada consciência social, para resultar em efeitos práticos específicos na sociedade, correspondente a problemas e interesses socioeconômicos concretos. Essa força objetiva das ideologias é igualmente evidenciada na crítica ao Ensaio popular de Nikolai Bukharin, quando Gramsci se detém sobre a con‑ cepção de “matéria”, inerente à filosofia da práxis. Afirma que a mesma é im‑ possível de ser entendida, seja no significado que resulta das ciências naturais (as propriedades físicas, químicas, mecânicas etc.), seja através das diversas metafísicas materialistas. Para aquela, a “matéria” não é relevante como tal, mas como social e historicamente organizada pela produção, entendida essen‑ cialmente como categoria histórica: uma relação humana. O estudo mesmo dos instrumentos de produção interessa — longe de ser estritamente pelas proprie‑ dades físico-químico-mecânicas dos seus componentes naturais —, porquanto estes constituem um momento das formas materiais de produção, objeto de determinadas forças sociais: enquanto expressam uma relação social e corres‑ pondem a um período histórico situado. Do mesmo modo, na medida em que constituem objeto de forças sociais específicas e organizam a prática social dos homens, orientando o metabolismo social, as formas de consciência possuem uma força material. Esse é o valor histórico a partir do qual uma ideologia assume relevância para a filosofia da práxis: É possível dizer que o valor histórico de uma filosofia pode ser “calculado” a partir da eficácia “prática” que ela conquistou (e “prática” deve ser entendida em sentido 572 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 560-581, jul./set. 2014 amplo). Se é verdade que toda filosofia é expressão de uma sociedade, ela deveria reagir sobre a sociedade, determinar certos efeitos, positivos ou negativos: a medi‑ da em que ela reage é justamente a medida de sua importância histórica, de não ser ela “elucubração” individual, mas sim “fato histórico”. (Gramsci, 2011a, p. 249) A terminologia mesma utilizada por Marx e o recurso metafórico na exposição de sua concepção de mundo apenas podem ser entendidos quando inseridos no horizonte político e cultural da época. A incorporação de termos como “anatomia”, “estrutura” e “superestrutura” constituem, segundo Gramsci, simples metáforas extraídas dos debates em torno das ciências naturais e da clas‑ sificação das espécies animais, que se tornou “científica” precisamente quando partiu dos elementos anatômicos e não mais das características secundárias e acidentais. O conteúdo racional e progressista do pensamento burguês, elaborado na luta contra as antigas classes dominantes, é assumido pela nova concepção de mundo, expressa na filosofia da práxis, mas cum grano salis. Tais expressões não podem obliterar a apreensão das relações de determinação recíproca e o próprio movimento derivado das contradições que caracteriza a esfera do ser social, qualitativamente diversa daquela fundada no mundo estritamente orgânico ou inorgânico. Isso por um lado. De outra parte, a metáfora se justifica, do ponto de vista das relações de hegemonia, também pela sua “popularidade”, ou seja: [...] pelo fato de oferecer, mesmo a um público não refinado intelectualmente, um esquema de fácil compreensão (não se leva quase nunca em devida conta o se‑ guinte fato: que a filosofia da práxis, propondo-se reformar intelectual e moral‑ mente estratos culturais atrasados, recorre a metáforas por vezes “grosseiras e violentas” em seu caráter popular). O estudo da origem linguístico‑cultural de uma metáfora empregada para indicar um conceito ou relação recentemente des‑ cobertos pode ajudar a compreender melhor o próprio conceito, na medida em que esse é relacionado ao mundo cultural, historicamente determinado, do qual surgiu, bem como é útil para determinar o limite da própria metáfora, isto é, para impedir que ela se materialize e mecanicize. (Gramsci, 2011a, p. 191) As metáforas da “anatomia”, da “estrutura” ou da “superestrutura” consistiam, logo, num estímulo para aprofundar as investigações metodoló‑ 573Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 560-581, jul./set. 2014 gicas e filosóficas, sem, com isso, limitar a abrangência e a complexidade das relações analisadas. Utilizando tais noções, a unidade da atividade hu‑ mana sensível é reafirmada: os aspectos “superestruturais” fazem “bloco” com a “estrutura anatômica”, e com