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Este livro está disponível gratuitamente no site: 
www.servicosocialparaconcursos.net 
405Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 405-406, jul./set. 2014
Editorial
Este número da Revista Serviço Social & Sociedade apresenta, como re‑
ferência	analítica,	alguns	desafios	políticos	e	sociais	que	interpelam	a	profissão	
no atual contexto societário de expansão de “diferentes matizes da extrema‑
‑direita” cuja presença vem se tornando cada vez mais evidente nos últimos 
anos, como revela um dos artigos aqui publicados. O que se observa é o agra‑
vamento	das	intolerâncias,	frente	ao	diferente,	o	crescimento	do	desrespeito	aos	
direitos mais elementares do ser humano e processos de degradação da vida 
humana e da natureza. Conjuntura em que ressurgem processos de remercanti‑
lização de direitos sociais e fortalece‑se a defesa da tese de que cada indivíduo 
é responsável por seu bem‑estar.
A referência ao social, ao campo político e às atuais ameaças aos direitos 
humanos emerge sob diferentes perspectivas nos artigos que compõem este 
número. Cabe destacar que essas questões aparecem sempre com suas contra‑
posições e resistências expressas na luta pela liberdade entendida em seu sig‑
nificado	ontológico-social	que	supõe,	como	nos	mostra	Barroco,	a	sociabilida‑
de,	a	alteridade	e	a	equidade.	A	profissão	(e	seu	projeto	ético-político)	é	também	
apresentada como forma de enfrentamento dessas questões que permeiam a 
sociedade	contemporânea.
Nesse	debate,	emerge,	do	ponto	de	vista	filosófico	como	outra	referência,	
a análise do pensamento gramsciano sobre ideologia e política. Sabemos que 
para Gramsci a ideologia não é mera aparência falsa da realidade, mas a compõe. 
Para ele “não são as ideologias que criam a realidade social, mas é a realidade 
social, na sua estrutura produtiva, que cria as ideologias [...]” (Gramsci, 
1977:1595). Sem dúvida, a contribuição de Gramsci como um pensador dialé‑
tico marxista pode ser apreendida a partir de múltiplas categorias integradas, e 
que podem ser interpretadas e utilizadas historicamente nas explicações sobre 
o real.
Merece destaque ainda neste número a entrevista realizada por Raquel 
Raichelis com Rodrigo Castelo: A questão do neodesenvolvimentismo e as 
políticas públicas, temática relevante e de grande atualidade no debate atual da 
406 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 405-406, jul./set. 2014
profissão,	a	questão	do	neodesenvolvimentismo	vem	sendo	objeto	de	polêmicas	
e	análises	no	âmbito	da	economia	política.
Enfim,	o	presente	número	da	Revista	busca	trazer	aos	seus	leitores	algumas	
pautas emergentes nos debates atuais, e que confrontam os chamados marcos 
civilizatórios	da	sociedade	contemporânea,	ao	colocarem	os	“direitos	humanos	
em questão”. 
A todos e a todas, instigantes leituras!
407Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
 ARTIGOS
A extrema-direita na atualidade*
The far right nowadays
Adriana Brito da Silva** 
Cristina Maria Brites*** 
Eliane de Cássia Rosa Oliveira**** 
Giovanna Teixeira Borri*****
Resumo: Este ensaio objetiva sintetizar elementos teórico‑críticos 
sobre os diferentes matizes da extrema‑direita na atualidade, situando 
algumas	de	suas	configurações	históricas	e	tendências	contemporâneas	
no Brasil e em países nos quais sua presença tornou‑se mais evidente 
nos últimos anos. Resulta de um seminário temático organizado no 
interior do Nepedh (Núcleo de Estudos e Pesquisa em Ética e Direitos 
Humanos — PUC‑SP) e, embora não esgote a complexidade do tema, 
indica elementos relevantes para a agenda política da esquerda em face 
da barbárie e das manifestações do irracionalismo no interior da so‑
ciabilidade burguesa.
Palavras‑chave: Irracionalismo. Extrema‑direita. Política. Ética e di‑
reitos humanos.
* Este ensaio é resultado do seminário temático “extrema‑direita na atualidade”, organizado pelas autoras 
como atividade do segundo semestre de 2013 do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Ética e Direitos Humanos 
(Nepedh), PUC‑SP, coordenado pela profa. dra. Maria Lucia Silva Barroco.
** Assistente social, docente da União Nacional dos Estudantes de São Paulo (Uniesp), especialista em 
políticas públicas e direitos humanos (Fama), mestranda do Programa de Estudos Pós‑graduados em Serviço 
Social da PUC‑SP, Brasil. E‑mail: adri_britosilva@yahoo.com.br.
*** Assistente social, doutora em Serviço Social pela PUC‑SP, Brasil; professora da Universidade Federal 
Fluminense, polo de Rio das Ostras, pós‑doutoranda do Programa de Estudos Pós‑Graduados em Serviço 
Social da PUC‑SP sob supervisão da profa. dra. Maria Lucia Silva Barroco. E‑mail: crisbrites@uol.com.br.
****	Assistente	social,	agente	fiscal	do	Cress	9ª	Região,	integrante	do	Nepedh,	do	Programa	de	Estudos	
Pós‑Graduados em Serviço Social da PUC‑SP, Brasil. E‑mail: elianecress@hotmail.com.
***** Assistente social, mestranda do Programa de Estudos Pós‑Graduados em Serviço Social da 
 PUC‑SP, Brasil. E‑mail: giovannaborri@hotmail.com.
408 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
Abstract: This article aims at summarizing theoretical and critical elements of the different 
graduations	of	the	far	right	nowadays,	as	well	as	situating	some	of	its	historical	configurations	and	
contemporary tendencies in Brazil and in countries where its presence has become clearer in the past 
years. It results from a thematic seminar organized by Nepedh (Núcleo de Estudos e Pesquisa em Ética 
e Direitos Humanos — PUC‑SP) and, although it does not work out the complexities of the theme, it 
indicates relevant elements for the political agenda of the left, in the face of the barbarism and 
manifestations of irrationalism inside bourgeois sociability.
Keywords: Irrationalism. The far right. Politics. Ethics and human rights.
Introdução
Este ensaio objetiva sintetizar elementos teórico‑críticos sobre os diferentes matizes da extrema‑direita na atualidade, situando algumas de	suas	configurações	históricas	e	 tendências	contemporâneas	no	Brasil e em países nos quais sua presença tornou‑se mais evidente 
nos últimos anos.
A	relevância	deste	debate	repousa	sobre	a	perspectiva	histórica	dos	di‑
reitos	humanos	e	sua	defesa	intransigente	em	face	da	barbárie	contemporânea.	
Fundamenta‑se na crítica teórica como instrumento primordial para orientar 
práticas vinculadas à construção de uma nova ordem social que assegure a 
emancipação humana. Coloca‑se, assim, no campo da esquerda, cuja trajetó‑
ria	histórica	 tem	se	 configurado	como	 força	política	que	procura	 formular	
alternativas à ordem burguesa na direção da superação da desigualdade e da 
opressão.
Nesta	perspectiva,	o	debate	sobre	as	configurações	atuais	da	extrema-di‑
reita, e seu crescimento em algumas sociedades, ultrapassa os limites de uma 
tematização pontual e acadêmica, colocando‑se como pauta central na agenda 
política de toda esquerda1 interessada em compreender o mundo em sua pro‑
cessualidade objetiva para transformá‑lo no horizonte de uma sociabilidade 
livre e igualitária.
1. A esquerda como campo político é abordada neste ensaio apenas como contraponto à discussão da 
direita	e	extrema-direita;	sua	análise	foi	objeto	de	seminário	específico	no	interior	do	Nepedh.
409Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
As manifestações de junho de 20132 que tomaram as ruas de inúmeras 
cidades	brasileiras	colocaram	vários	desafios	para	a	intelectualidade,	para	os	
movimentos sociais, partidos e sindicatos que historicamente se vincularam às 
bandeiras de luta dos trabalhadores. Dentre eles: entender a força mobilizadora 
das	novas	tecnologias	de	informação	e	comunicação;	a	possibilidade	de	unifi‑
cação da agenda de lutas — inicialmente em protesto ao aumento das tarifas do 
transporte	coletivo	e	em	defesa	do	passe	livre	—;	o	perfil	da	juventude	vigoro‑
sa	e	contundente	que	tomou	os	espaçospúblicos;	o	significado	da	ostensiva	(e	
em algumas situações, violenta) recusa das formas clássicas de organização e 
participação políticas em torno dos movimentos sociais, partidos e sindicados 
e, principalmente, a presença de grupos conservadores e de extrema‑direita que 
do mesmo modo sentiram‑se legitimados para expor em público suas convicções 
segregadoras, irracionais e autoritárias.
A constatação do crescimento da extrema‑direita na atualidade e sua 
mera	condenação	ideológica	parece-nos	insuficiente	para	apreensão	da	ma‑
terialidade que lhes dá sustentação e da ação programática necessária para 
sua superação.
Por isso, apreender a persistente, e indesejável, presença do ideário de 
extrema-direita	coloca-se	como	desafio	ético-político	fundamental	àqueles	que	
recusam o irracionalismo, os discursos e práticas racistas, xenofóbicas, homo‑
fóbicas, sexistas e opressoras.
Assim,	apresentamos	nossas	reflexões	sobre	a	extrema-direita	na	atuali‑
dade,	elaboradas	com	base	numa	pesquisa	bibliográfica	e	documental	que,	sem	
qualquer pretensão de esgotar o tema, procurou delimitá‑lo em torno de alguns 
eixos estruturantes.3
2. As análises sobre essas manifestações, seus desdobramentos e possível vinculação com outras revoltas 
ocorridas	em	finais	de	2010	e	em	2011	(Primavera	Árabe,	Occupy	Wall	Street,	Indignados	da	Espanha	entre	
outras) ainda estão em aberto. Uma aproximação competente com esses acontecimentos pode ser encontrada 
em Maricato, E. et al. (2013).
3.	As	referências	bibliográficas	e	o	material	de	pesquisa	que	serviram	de	apoio	para	elaboração	deste	
ensaio estão indicados ao longo do texto em sistema de notas e não devem ser tomados como fontes seminais 
sobre	o	tema,	mas	como	guia	que	orientou	as	reflexões	formuladas	pelas	autoras.	O	recurso	às	citações	foi	
necessário em várias passagens tendo em vista, especialmente, a diversidade das fontes consultadas e a 
metodologia adotada para realização do seminário que balizou a elaboração deste ensaio.
410 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
1. Direita e extrema-direita como campo político: aproximações
A política para alguns pensadores da tradição marxista é considerada como 
uma modalidade de práxis. Uma ação mediada por uma consciência que se 
eleva	da	cotidianidade	e	voltada	para	realização	de	finalidades	que	visam	res‑
ponder	 a	 conflitos	 históricos	 que	 envolvem	os	 destinos	 humanos.	Desde	os	
gregos, considerados seus “inventores”, a política é uma ação que supõe o es‑
paço público, que incide sobre comportamentos e escolhas que se articulam a 
projetos coletivos de sociedade, visando a realização de valores e princípios 
reguladores da vida social. Para Lukács, no interior da práxis, uma posição 
teleológica secundária.4
Na tradição marxista não há consenso sobre o caráter genérico ou par‑
ticular da atividade política. Alguns pensadores consideram que se trata de uma 
atividade universal, um complexo da totalidade social que existe nas diferentes 
formações históricas. Outros, que se trata de uma atividade particular, existen‑
te	apenas	na	configuração	histórica	das	sociedades	de	classes	pela	mediação	
do Estado.
Para	nossas	reflexões	interessa	destacar	algumas	referências	mais	gerais	
que contribuam para situar tanto a política como o campo ideológico da direita.
Marx e Engels, em Manifesto do Partido Comunista,	afirmam	que	quando	
“desaparecerem os antagonismos de classes e toda a produção for concentrada 
nas mãos dos indivíduos associados, o poder público perderá seu caráter político. 
O poder político é o poder organizado de uma classe para a opressão de outra”.5 
Assim considerada, a política é um complexo no interior da totalidade social que 
visa a disputa de poder em torno de interesses e necessidades de classes.
O termo esquerda e direita na política nasce no contexto de emergência da 
Revolução	Francesa,	 “delegados	 identificados	 com	 igualitarismo	 e	 reforma	
social	sentavam-se	à	esquerda	do	rei;	delegados	identificados	com	aristocracia	
4. O trabalho, posição teleológica primária, visa a transformação da natureza. As posições teleológicas 
secundárias se voltam para a transformação (reprodução) da sociedade. Sobre as elaborações políticas de 
Lukács ver especialmente Coutinho e Netto (2011).
5. Marx, K.; Engels, F. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Boitempo, 1998. p. 58.
411Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
e conservadorismo, à direita. […] ao longo do século XIX na Europa a distinção 
entre esquerda e direita passa a ser associada com a distinção entre liberalismo 
e conservadorismo”
O desenvolvimento do ser social e de suas modalidades de práxis introduz 
novas	forças	sociais	que	interferem	na	configuração	e	nos	limites	desses	campos	
ideológicos. A constituição da classe trabalhadora como sujeito político — como 
classe‑para‑si — e a difusão da crítica marxiana à sociabilidade burguesa — 
vinculada à sua perspectiva revolucionária de classe — associam os conteúdos 
de esquerda à defesa dos interesses dos trabalhadores. O crescimento das ideias 
reformistas	da	social-democracia	em	finais	do	século	XIX	e	a	Revolução	Rus‑
sa de 1917 marcam a delimitação dos interesses burgueses no campo ideológi‑
co da direita e dos trabalhadores no campo da esquerda.
A consolidação da hegemonia burguesa, seus mecanismos de reprodução 
da ordem do capital, a alienação política e os dilemas estratégicos para responder 
às	configurações	históricas	das	necessidades	postas	pela	luta	de	classes	amplia‑
ram o espaço político no qual esquerda e direita se moveram. A experiência do 
nazifascismo, a geopolítica mundial durante e no imediato pós‑Segunda Guerra 
Mundial, a experiência do Estado de Bem‑estar social, a disputa entre os blocos 
capitalista e socialista são determinações que incidem sobre os campos ideoló‑
gicos da esquerda e da direita de forma diferenciada em cada sociedade.6
No plano político, conservadores e reacionários historicamente se manti‑
veram no campo ideológico da direita, resistindo a mudanças estruturais que 
levassem a perdas de poder econômico e político. Reformistas, socialistas e 
comunistas se colocaram em frentes comuns de defesa da democracia política 
e/ou do projeto civilizatório da modernidade. Essa mobilidade conjuntural num 
campo político mais amplo, marcada especialmente por coalizões políticas e/ou 
partidárias,	contribui	para	dificultar	a	delimitação	precisa	entre	um	e	outro	cam‑
po ideológico, gerando polêmicas analíticas e muitas confusões.
No	Brasil	essa	dificuldade	é	ainda	maior,	dada	as	características	de	nossa	
formação sócio‑histórica marcada pela(o): colonização; escravismo prolongado; 
6. As posições do Partido Comunista do Brasil na era Vargas são emblemáticas nesse sentido. Ver, 
entre outros, Coutinho (2006); Frederico (1994); Sader (1995).
412 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
herança patrimonialista, coronelista e conservadora de nossas elites; inserção 
periférica no capitalismo mundial; transição não clássica ao capitalismo; tardia 
formação	do	operariado	urbano-industrial	com	forte	 influência	da	 imigração	
europeia e pouca tradição de esquerda.
No	contexto	contemporâneo,	investe-se	na	despolitização	da	vida	pública	
e	na	recusa	da	validade	ideológica	da	definição	de	esquerda	e	direita	na	política.	
Contribuem para essa despolitização a derrocada do socialismo soviético, o 
atual estágio de acumulação do capital e a ideologia pós‑moderna. Esta última 
recusando a centralidade do trabalho na vida social, os valores universais e 
insistindo na perspectiva subjetivista e contingencial de análise da realidade.
Partidos,	movimentos	e	políticos	profissionais	vinculados	ao	ideário	bur‑
guês, portanto, aos interesses dominantes que os situam no campo da direita, 
recusam tal associação diante da crítica contundente da esquerdarevolucionária 
sobre os limites da ordem do capital para realizar a igualdade e a emancipação 
humanas. Por outro lado, segmentos oriundos da esquerda, especialmente aque‑
les que introduzem uma racionalidade instrumental na disputa pelo poder do 
Estado, secundarizando princípios, valores e interesses à lógica da disputa 
eleitoral, procuram se desvencilhar das pechas de totalitarismo e radicalismo 
atribuídos à esquerda.
Bobbio e Anderson protagonizaram um fecundo debate teórico sobre o 
campo político da esquerda e da direita. Bobbio, após extensa análise sobre o 
tema propõe como critério para distinguir direita e esquerda a ideia de igualda‑
de e para distinguir a ala moderada da extremista, tanto na esquerda quanto na 
direita,	a	postura	diante	da	liberdade.	Ao	final	de	suas	análises,	apresenta	uma	
esquematização	na	qual	define	extrema-direita,	centro-direita,	extrema-esquer‑
da e centro‑esquerda.7
Numa	apreciação	rasa	do	esquema	proposto	por	Bobbio	é	possível	verifi‑
car a introdução de uma posição de centro, tanto de esquerda quanto de direita, 
que passa a funcionar como único divisor das posições extremistas. O centro 
esquerda	 traduz	a	própria	posição	política	do	filósofo,	que	ele	denomina	de	
7. Bobbio, N. Direita e esquerda:	razões	e	significados	de	uma	distinção	política.	São	Paulo:	Unesp,	
2011. p. 14‑135.
413Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
socialismo liberal, que, embora paradoxal, para ele abarca a social‑democracia. 
Nota-se	que	a	esquerda	clássica,	revolucionária,	passa	a	ser	identificada	com	
autoritarismo e considerada antidemocrática.
Anderson é contundente na sua crítica ao esquema proposto por Bobbio, 
explorando as concepções de igualdade e liberdade tratadas por esse autor e 
tomadas	como	critérios	definidores	do	campo	político,	além	de	criticar	o	papel	
do centro e a ausência de uma referência à processualidade histórica. A crítica 
de Anderson se dirige, em suas próprias palavras, “à lógica interna dos argu‑
mentos de Bobbio” e “ao contexto externo”. Revela absoluta simpatia ao apai‑
xonado apelo de Bobbio pela preservação dos conceitos de Direita e Esquerda. 
No	entanto,	afirma,
não é fechando os olhos para o esvaziamento de seus conteúdos, por obra da 
tendência	que	hoje	se	afirma	na	política,	que	teremos	como	salvá-los.	Uma	defe‑
sa puramente axiológica da ideia de Esquerda, isolada de qualquer teoria históri‑
ca e de qualquer crítica às instituições em condições de abalar o status quo, não 
será	suficiente	para	que	se	consiga	a	vitória.
Os traços gerais da polêmica entre esses dois grandes pensadores por si só 
indicam	as	dificuldades	atuais	de	compreender	e	definir	esses	campos	políticos.	
Para	fins	de	nossa	reflexão,	ainda	que	pesem	as	transformações	ocorridas	na	
sociabilidade burguesa, no Estado e em seu papel na regulação dos antagonismos 
de	classe	e	os	novos	desafios	no	interior	da	luta	de	classes,	a	nosso	ver,	a	dife‑
renciação ideológica entre esquerda e direita não foi superada pela processua‑
lidade histórica. A direita permanece como campo político vinculado aos inte‑
resses de dominação, opressão, apropriação privada da riqueza social e, 
portanto, à reprodução da ordem do capital. Assim como a esquerda se mantém 
como campo político vinculado aos interesses da classe que vive do trabalho e 
à necessidade imperiosa de ultrapassagem da sociabilidade do capital.
A extrema‑direita, marcadamente associada às trágicas experiências do 
nazifascismo, continua apresentando muitos traços originais do contexto de sua 
emergência: irracionalismo, nacionalismo, defesa de valores e instituições tradi‑
cionais,	intolerância	à	diversidade	—	cultural,	étnica,	sexual	—	anticomunismo,	
414 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
machismo, violência em nome da defesa de uma comunidade/raça considerada 
superior. Compartilhando do ideário político vinculado aos interesses de domi‑
nação, opressão e apropriação privada da riqueza social, distancia‑se da direita 
tradicional	pela	 intolerância	e	pela	violência	de	suas	ações,	embora,	quando	
organizada em partidos ou associações públicas, recuse tais práticas por parte 
de seus membros.
Tomando a realidade histórica como critério de verdade das formulações 
teóricas, na sequência apresentamos alguns elementos visando assegurar maior 
concretude à nossa discussão.
2. Matizes da extrema-direita
2.1 Toda direita é fascista?
Paxton sustenta que nem todo movimento extremista, de direita ou de 
esquerda, pode ser denominado fascista e, ao longo de sua extensa pesquisa, 
procura	identificar	os	condicionantes	históricos	de	sua	emergência,	os	estágios	
de	sua	consolidação,	sua	influência	fora	da	Itália	de	Mussolini	e	da	Alemanha	
de	Hitler,	além	de	propor	características	definidoras	e	possibilidades	de	repro‑
dução do fascismo na atualidade. Atribui às experiências históricas do fascismo 
os seguintes estágios: emergência, enraizamento político, tomada de poder, 
exercício do poder e um período mais longo no qual o regime opta pela radica‑
lização ou entropia.
Para	Paxton,	 a	 preocupação	 contemporânea	 com	 as	 possibilidades	 de	
reedição desse trágico episódio da história humana deve se ater ao estágio de 
enraizamento político, visto que a emergência de movimentos fascistas pós‑
‑guerra pode ser observada em todo o mundo sem, no entanto, representar risco 
efetivo ao projeto civilizatório, uma vez que não encontre uma base social, 
econômica e política que lhes dê sustentação (enraizamento político).
À	nossa	reflexão	sobre	a	extrema-direita	na	atualidade	interessa	reter	a	
definição	 e	 a	 caracterização	 feita	 por	Paxton	 sobre	 o	 fascismo,	 procurando	
415Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
problematizá‑las em face de outras formas de irracionalismo. Para este autor, o 
fascismo é uma
forma de comportamento político marcada por uma preocupação obsessiva com 
a decadência e a humilhação da comunidade, vista como vítima, e por cultos 
compensatórios da unidade, da energia e da pureza, nas quais um partido de base 
popular formado por militantes nacionalistas engajados, operando em cooperação 
desconfortável,	mas	eficaz	com	as	elites	tradicionais,	repudia	as	liberdades	demo‑
cráticas e passa a perseguir objetivos de limpeza étnica e expansão externa por 
meio de uma violência redentora e sem estar submetido a restrições éticas ou 
legais de qualquer natureza. (2007, p. 358‑359)
Entre as paixões mobilizadoras indicadas pelo autor, destacamos: senso 
de crise catastrófica; primazia e vitimização do grupo considerado superior 
que legitima qualquer ação de extermínio do inimigo; defesa de chefes naturais 
sempre do sexo masculino, defesa da superioridade dos instintos do líder, di‑
reito do grupo considerado superior de dominar os demais, sem qualquer 
restrição de lei humana ou divina.
Embora	a	definição	e	as	“paixões	mobilizadoras”	tratadas	por	Paxton	não	
autorizem denominar de fascista as práticas de grupos, movimentos, organiza‑
ções e partidos que se situam no campo político da direita e da extrema‑direita, 
permitem	identificar	a	existência	de	várias	simetrias	entre	elas	e	o	fascismo,	
tanto em relação ao comportamento e aos ideais políticos quanto às condições 
objetivas que contribuem para sua emergência.
O	fascismo	se	configurou	como	uma	experiência	histórica	emblemática	
da barbárie, uma vez que se concretizou no mesmo solo ocidental que semeou 
o projeto civilizatório da modernidade, fundado na razão, no Estado laico e 
no humanismo. Sua reedição tem sido recusada por vários pensadores, tanto 
pelas feridas traumáticas que o fascismo legou para a humanidade quanto 
pela compreensão da história como processo irrepetível. No entanto, uma 
abordagem	crítica	sobre	a	totalidade	social	permite	identificar	que	se	a	his‑
tória não se repete, uma vez que expressa particularidadesda ação concreta 
dos homens no atendimento de necessidades também históricas e particula‑
res, sua processualidade contraditória é constituída de momentos de conser‑
416 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
vação e de superação que só são radicalmente ultrapassados por rupturas 
revolucionárias.
Os momentos revolucionários presentes no processo de desenvolvimen‑
to	e	complexificação	do	ser	social	não	foram	capazes	de	ultrapassar	as	formas	
históricas de sociabilidade fundadas na desigualdade de classes e na explo‑
ração do homem pelo homem. Desde a superação das sociedades comunais 
primitivas, a emergência da propriedade privada e do Estado até o capitalis‑
mo	contemporâneo,	a	história	da	humanidade	é	a	história	da	luta	de	classes	
(Marx). A marca diferencial dessa luta no capitalismo é sua reprodução 
ampliada num estágio altamente desenvolvido das forças produtivas e do ser 
social, no qual a desigualdade e a miséria não são determinações colocadas 
pelo	intercâmbio	do	homem	com	a	natureza,	mas	condição	para	reprodução	
da ordem do capital.
Neste sentido, concordamos com Paxton sobre a inviabilidade de reedição 
do fascismo como experiência particular do contexto entre as duas grandes 
guerras mundiais, ou seja, um fascismo com as mesmas características, simbo‑
lismo e programática seria uma impossibilidade histórica. Por outro lado, uma 
vez que não foram superadas, no sentido revolucionário do termo, as determi‑
nações econômicas e políticas que contribuíram para sua emergência e ascensão 
ao poder, práticas fascistas com outros matizes são plenamente possíveis na 
atualidade.
Nesta perspectiva, tomando o fascismo como uma expressão emblemática 
da barbárie, as análises de Paxton sobre esse fenômeno, a perspectiva histórica 
e de totalidade sobre o desenvolvimento do ser social, o reconhecimento onto‑
lógico de que a raiz dos problemas e soluções para as necessidades humanas 
deve ser buscada no próprio homem, nos propomos a discutir algumas expres‑
sões do fanatismo, do fundamentalismo e do campo político da extrema‑direi‑
ta, considerando‑os como formas de consciência histórica que emergem em 
contextos de crise de dominação inerentes à reprodução de determinada forma 
de	relação	entre	os	homens	—	sendo	que,	no	contexto	contemporâneo,	trata-se	
de uma crise estrutural do capital — e que jogam um peso diferenciado sobre 
as potencialidades destruidoras de tais fenômenos em face do projeto civiliza‑
tório inaugurado pela modernidade.
417Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
2.2 Expressões da barbárie: fanatismos e fundamentalismos religiosos e de mercado
Perseguições, pilhagens, práticas segregadoras de extrema violência, de 
extermínio e suicídios coletivos marcam as várias formas de fanatismos e fun‑
damentalismos no interior da luta de classes, ou seja, na história da humanida‑
de. O fundamento comum desses fenômenos, consideradas as particularidades 
históricas, sintetiza a articulação material de crises de dominação e formas de 
consciência irracionais.
O fundamentalismo religioso, por exemplo, comumente associado ao is‑
lamismo pelas elites dominantes, especialmente após 11 de setembro de 2001,8 
pode	ser	identificado	em	vários	episódios	históricos	amplamente	conhecidos,	
tanto na Idade Média como na contemporaneidade.
As cruzadas cristãs, “expedições militares‑religiosas medievais”, desde 
sua primeira edição, em 1095, foram convocadas por papas e sempre conjuga‑
ram motivações religiosas e interesses econômicos e políticos visando a domi‑
nação. Foram consideradas como guerras justas, inclusive na teologia de Santo 
Agostinho.
As guerras santas, tanto cristãs como muçulmanas, encontraram na crise 
de dominação seu fundamento material e no irracionalismo sua forma de 
consciência. Religião e irracionalismo partem do solo comum da transcendên‑
cia como princípio regulador da vida. Ou seja, um princípio incognoscível que, 
portanto, escapa aos domínios da razão.
Lukács,9 no conjunto de sua monumental produção intelectual, dedicou 
importantes	reflexões	à	crítica	do	irracionalismo	e	do	comportamento	religioso,	
identificando	 na	 transcendência	 um	princípio	 que	 ignora	 a	 base	 ontológica	
material que fundamenta o ser social e institui formas de consciência que levam 
à	intolerância.
8. Data do ataque da organização Al‑Qaeda aos Estados Unidos da América. Dois aviões comerciais 
sequestrados pela organização atingiram as torres do World Trade Center, em Nova York, um terceiro atingiu 
o Pentágono e um quarto avião se dirigia à Casa Branca e supostamente caiu pela intervenção de passageiros 
e tripulantes.
9. Para Netto, em sua obra A destruição da razão, Lukács se dedica ao confronto das vertentes 
irracionalistas, considerando‑as opositoras exclusivas do materialismo histórico e dialético. Somente na 
Ontologia considera os riscos do racionalismo formal das vertentes neopositivistas (Lukács, 1968).
418 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
A ênfase religiosa se orienta pois a algo transcendente por princípio […] entre o 
homem inteiro concreto e o objeto de sua intenção religiosa se introduz uma 
transcendência principal; não o mero desconhecido, senão algo por princípio in‑
cognoscível — com os meios normais da vida — que pode, contudo, converter‑se 
em íntima convicção do homem mediante um correto comportamento religioso. 
(Lukács, 1966, p. 124)
O princípio transcendente é sustentado pela atitude de fé sobre verdades 
reveladas, superiores e absolutas que determinam toda a vida,
[...] a fé não é nesse caso opinar, um estágio prévio do saber, um saber imperfei‑
to,	ainda	não	verificado,	senão,	ao	contrário,	um	comportamento	que	abre	—	o	
solo — o acesso aos fatos e as verdades da religião [...] que abarca o homem in‑
teiro e o consuma de um modo universal […]. Os fatos estão garantidos por uma 
superior revelação, e esta prescreve também o modo como reagir a eles.
A transcendência obstaculiza o conhecimento racional e, nesse sentido, 
esvazia o fundamento ontológico material de toda atividade humana, abrindo 
espaço para incertezas consideradas intransponíveis e experiências históricas 
que favorecem práticas fanáticas e fundamentalistas.
Ainda no plano religioso, podemos lembrar outras faces do fanatismo: a 
caça às bruxas durante o período inquisidor da Igreja Católica na Idade Média, 
que fez da mulher sua principal vítima, mas também voltou‑se contra práticas, 
tradições e conhecimentos divergentes das “verdades” religiosas professadas 
pelo cristianismo, atingindo minorias étnicas, alquimistas, cientistas e artistas.10 
Seitas	contemporâneas	no	mundo	ocidental	também	revelam	a	face	do	fanatis‑
mo e são analisadas por Camargo,11 como o Templo do Povo, liderado pelo 
“reverendo” Jim Jones, que em 1978, na Guiana, levou à morte — por envene‑
namento ou assassinato dos que se recusaram a beber o veneno — 913 pessoas, 
dentre	elas	275	crianças	e	doze	bebês.	Camargo	também	analisa	o	final	trágico	
10. Neto, José Alves de Freitas. Caça às bruxas. In: Pinsky, J.; Pinsky, C. B. (Orgs.). Faces do fanatismo. 
São Paulo: Contexto, 2004. p. 49‑60.
11. Camargo, C. No reino das trevas. In: Pinsky, J.; Pinsky, C. B. (Orgs.). Faces do fanatismo. São 
Paulo: Contexto, 2004. p. 61‑75.
419Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
da liderança de Vernon Howell (que mudou o nome para David Koresh) da 
Igreja Davidiana, que resultou, em abril de 1993, na morte de 87 pessoas, entre 
elas Howell e 25 crianças. Em 1994, três incêndios, dois em vilarejos da Suíça 
e um no Canadá, vitimaram cerca de 53 pessoas, incluindo crianças. Todos 
foram associados à seita Templo Solar, liderada pelo médico Luc Jouret.
Na contemporaneidade, o extremismo muçulmano torna‑se emblemáti‑
co tanto pela violência de seus vários grupos quanto pelouso ideológico de 
uma imagem exclusiva do terror que oculta as mazelas provocadas ou ali‑
mentadas pelo fundamentalismo de mercado do Ocidente. Demant,12 ao 
analisar	o	fundamentalismo	islâmico,	considera-o	como	uma	forma	particular	
de	fanatismo	contemporâneo	que	não	expressa	a	totalidade	histórica	do	isla‑
mismo — ecumênica na maior parte de sua trajetória — e que revela traços 
comuns “com outros movimentos totalitários que cresceram e se desenvol‑
veram com a modernidade, mas que lutam contra ela”.13 Para esse autor, o 
fanatismo	islâmico	se	aproxima	de	outros	movimentos	autoritários	antimo‑
dernos que “apresentam projetos de uma nova engenharia social, que conde‑
na os rumos tomados pela modernidade”.14
 O islamismo, equivocadamente, é associado à práticas terroristas e extre‑
mistas, especialmente após o 11 de setembro. Segundo Chaui, “depois dessa 
data,	islamismo	e	barbárie	identificaram-se	e	a	satanização	do	bárbaro	conso‑
lidou‑se numa imagem universalmente aceita e inquestionável. Fundamentalis‑
mo	religioso,	atraso,	alteridade	e	exterioridade	cristalizaram	a	nova	figura	da	
barbárie e, com ela, o cimento social e político trazido pelo medo”.15
Essa associação, islamismo e barbárie, foi amplamente divulgada pela 
mídia após a reação do governo estadunidense que “decretou” a existência de 
um eixo do mal e declarou guerra ao terror. As respostas do governo norte‑
‑americano de George W. Bush ao atentado de 11 de setembro incluíram: in‑
vasão ao Afeganistão, em ataque ao Talibã, organização que teria abrigado 
12. Demant, P. A escorregada rumo ao extremismo muçulmano. In: Pinsky, J.; Pinsky, C. B. (Orgs.). 
Faces do fanatismo. São Paulo: Contexto, 2004. p. 16‑31.
13. Ibidem, p. 23.
14. Ibidem, p. 23.
15. Chaui, M. Fundamentalismo religioso: a questão do poder teológico‑político. Disponível em: <http://
bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/secret/filopolconbr/Chaui.pdf>.	Acesso	em:	15	jul.	2013.
420 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
integrantes	do	Al-Qaeda,	recrudescimento	da	vigilância	interna	sobre	os	imi‑
grantes; rigidez para conceder vistos de entrada a estrangeiros aos Estados 
Unidos da América e a publicação da lei de 2001, conhecida como Patriot Act, 
que visa “unir e fortalecer a América, fornecendo instrumentos apropriados 
requeridos para interceptar e obstruir o terrorismo” e autoriza o governo esta‑
dunidense a realizar “invasão de lares, a espionagem de cidadão, interrogatórios 
e torturas de possíveis suspeitos de espionagem ou terrorismo, sem direito a 
defesa ou julgamento”.16
As intervenções e cooperações militares lideradas pelos Estados Unidos 
no imediato pós‑Segunda Guerra, contexto no qual essa potência assume hege‑
monia mundial, sempre foram legitimadas pela defesa abstrata da democracia 
e dos direitos humanos, ocultando interesses econômicos e políticos de domi‑
nação e contrarrevolucionários, cujas experiências mais dramáticas podem ser 
exemplificadas	pelo	apoio	econômico,	político	e	técnico	às	ditaduras	empresa‑
rial‑militares que assombraram os países latino‑americanos por mais de duas 
décadas;	 financiamento	 de	 guerras	 civis	 e	 ações	 terroristas	 na	África	 e	 no	
Oriente Médio; intervenções militares na América Central; expansão de bases 
militares norte‑americanas em vários continentes; embargos diplomáticos e 
econômicos a inúmeros países que resistiam à sua intervenção imperialista.17
No contexto da Guerra Fria, que polarizara o mundo em nações socialistas 
e capitalistas, tais intervenções e cooperações militares norte‑americanas eram 
alimentadas ideologicamente pela iminência de uma terceira grande guerra 
mundial e pela defesa das chamadas liberdades individuais e democráticas 
fundadas no American way of life, ou seja, no “livre” comércio de mercadorias. 
A guerra armamentista dava sustentação material à luta ideológica entre as 
nações consideradas democráticas (capitalistas) e as autoritárias (socialistas), 
além de alimentar a acumulação privada de capital das indústrias armamentis‑
tas num contexto de crise estrutural. A polarização provocava uma tensão 
permanente entre as duas grandes potências mundiais (Estados Unidos e União 
16.	Disponível	em:	<http://pt.wikipedia.org/wiki/USA_PATRIOT_Act>.	Para	uma	análise	acurada	dessa	
lei, consultar Teixeira Jr. (2011).
17. Sobre o novo imperialismo, ver Havey, D. O “novo” imperialismo: acumulação por espoliação. 
Disponível	em:	<http://biblioteca.clacso.edu.ar/ar/libros/social/2004pt/05_harvey.pdf>.	Acesso	em:	out.	2013.
421Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
Soviética) e ao mesmo tempo um equilíbrio de forças na disputa pelo controle 
econômico e ideológico de ex‑colônias tornadas independentes e de grupos 
étnicos situados fora dos limites continentais de suas dominações.
Com	o	fim	da	Guerra	Fria	e	do	socialismo	soviético,	os	limites	externos	
às intervenções militares praticadas ou lideradas pelos Estados Unidos foram 
afrouxados, favorecendo a prática de guerra como mediação privilegiada 
para	solução	de	conflitos.	A	primeira	guerra	do	Golfo,	invasão	do	Iraque	em	
1990 pelas forças de coalização lideradas pelos Estados Unidos e Grã‑Bre‑
tanha, é um dos símbolos de ostentação da supremacia estadunidense na 
condução de intervenções militares, tanto que a operação, conhecida como 
Tempestade no Deserto, foi televisionada pela rede CNN. Do mesmo modo, 
tal	supremacia	pode	ser	identificada	nas	intervenções	da	Otan,	coordenadas	
pelos Estados Unidos, na Sérvia e na Bósnia, sem anuência do Conselho de 
Segurança da ONU.
Após o 11 de setembro, a intervenção militar dos Estados Unidos em vários 
países	(Afeganistão,	2001;	Iraque,	2003;	Líbia,	2012)	permanece	fiel	à	defesa	
abstrata da democracia e dos direitos humanos, ocultando interesses econômi‑
cos e políticos, mas ganhando novos conteúdos em torno da Guerra ao Terror, 
que inclui a eliminação de grupos extremistas e a manutenção da guerra às 
drogas. Desse modo, voltam‑se especialmente para as regiões com grandes 
reservas	minerais	(petróleo	e	gás,	por	exemplo),	cuja	justificativa	sustenta-se	
no	combate	ao	terrorismo	(grupos	islâmicos	em	especial),	na	instabilidade	do	
Estado	que	ameaça	a	democracia	(regiões	produtoras	de	substâncias	psicoativas	
condenadas pela ideologia de guerra às drogas), na “restauração” da democra‑
cia, com tentativas ou golpes parlamentares apoiadas pelo Pentágono, nos 
países nos quais governos de orientação socialista foram eleitos pelas urnas 
(Venezuela, Honduras, Paraguai e Bolívia) e em defesa dos direitos humanos 
em face da ameaça de armas de destruição em massa (segunda guerra do Golfo, 
cuja intervenção se manteve de 2003 a 2011, e ameaças de invasão à Coreia do 
Norte e Irã, por exemplo).
Essas referências às formas da dominação estadunidense visam tomá‑las 
como expressões particulares de uma totalidade mais ampla que coloca as bases 
para várias expressões do fundamentalismo, tanto religioso quanto de mercado.
422 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
Num belíssimo artigo, Chaui18 analisa como o contexto da chamada “pós‑
‑modernidade” abre espaço para um fundamento teológico‑político que também 
se alimenta da interdição do espaço público às expressões religiosas feita pela 
modernidade. Baseada nas análises de Harvey19 sobre a compressão espaço‑
‑tempo produzida pela acumulação flexível do capital, Chaui	analisa	o	signifi‑
cado histórico das experiências fundadas na contingência. 
Volátil e efêmera, hoje nossa experiência desconhece qualquer sentido de conti‑
nuidade e se esgota num presente vivido como instante fugaz. Essa situação [...] 
leva ao abandono de qualquer laço com o possível e ao elogio da contingência e 
de sua incerteza essencial. O contingente não é percebido como uma indetermi‑
nação que a ação humana poderia determinar, mas como o modo de ser doshomens, 
das coisas e dos acontecimentos. (2006, p. 127‑128)
Tal situação, para a autora, não “está separada da crise do socialismo e do 
pensamento de esquerda, isto é, do enfraquecimento da ideia de emancipação 
do gênero humano” (Idem, p. 127). A combinação de determinações econômi‑
cas, políticas e ideológicas que favorecem a hegemonia do Estado neoliberal 
cooperam para o encolhimento do espaço público e alargamento do espaço 
privado, contribuindo para a despolitização e para o fortalecimento tanto da 
transcendência divina quanto da autoridade política.
Para Chaui, o ressurgimento do fundamentalismo religioso resulta da 
secularização moderna, do mercado pós‑moderno, do Estado neoliberal e da 
condição de insegurança, “na qual o medo do efêmero leva à busca do eterno”. 
Em suas análises sobre o ressurgimento do fundamentalismo religioso, Chaui 
recupera elementos importantes da crítica marxista à religião que, ao contrário 
das demais formulações modernas, não se restringe à constatação de seu cará‑
ter alienante, o “ópio do povo”, mas se dirige ao fundamento que a mantém 
como necessidade. “Em outras palavras, Marx esperava que a ação política do 
proletariado nascesse de uma outra lógica que não fosse a supressão imediata 
18. Chaui, M. Fundamentalismo religioso: a questão do poder teológico‑político. Disponível em: <http://
bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/secret/filopolconbr/Chaui.pdf>.	Acesso	em:	15	jul.	2013.
19. Harvey, D. A condição pós‑moderna. São Paulo: Loyola, 1992.
423Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
da religiosidade, mas sua compreensão e superação dialética, portanto, um 
processo tecido com mediações necessárias”20
Em suas análises, a privatização do espaço público, sustentadas pela ló‑
gica do mercado, pelo Estado neoliberal e pela intervenção dos megaorganis‑
mos econômicos privados nas decisões dos governos, resultam na despolitiza‑
ção e na ideologia da competência, “segundo a qual, os que possuem 
determinados conhecimentos têm o direito natural de mandar e comandar os 
demais em todas as esferas da existência” (p. 131).
Para	Chaui,	a	articulação	desses	elementos	revela	os	riscos	do	fim	da	po‑
lítica e contribuem para a proximidade entre fundamentalismo religioso e de 
mercado,“a transcendência da competência técnica corresponde à transcendên‑
cia da mensagem divina a alguns eleitos ou iniciados, e não temos por que nos 
surpreender com o entrecruzamento entre o fundamentalismo do mercado e o 
fundamentalismo religioso” (Idem).
A nosso ver, esses elementos analíticos se aproximam de nossa discussão 
sobre a articulação entre crise de dominação e irracionalismo,21 permitindo a 
apreensão dos fundamentos materiais que contribuem para as várias formas de 
fanatismos e fundamentalismos que, sob diversos matizes, se proliferam na 
contemporaneidade e colocam em risco o projeto civilizatório da modernidade. 
Muitas dessas tendências, como veremos a seguir, colocam‑se no campo polí‑
tico da extrema‑direita.
3. Tendências contemporâneas da extrema-direita
Há inúmeras expressões da extrema‑direita na contemporaneidade. Algumas 
organizadas em partidos, outras em associações ou grupos e muitas pulverizadas 
em práticas violentas não autorais dirigidas a imigrantes, negros, homossexuais 
e, no caso do Brasil, também a nortistas e nordestinos.
20. Ibidem, p. 129.
21. Ver também Lukács (2009).
424 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
A tendência predominante nesses grupos, inclusive entre formadores de 
opinião que se autointitulam independentes e compartilham de convicções e 
valores situados no campo ideológico da extrema‑direita, é de recusa dessa 
denominação, dada a vinculação histórica desse campo com o nazifascismo e 
com a decorrente conotação racista e antissemita. No entanto, suas formulações 
são reveladoras do campo político no qual se situam.
O recorte que realizamos não abrange a magnitude dessa realidade, nem 
em escala mundial tampouco entre nós, mas permite assegurar sua visibilidade 
que	tanto	nos	preocupa	quanto	nos	desafia.
No	caso	do	Brasil,	além	das	tendências	contemporâneas,	nos	detivemos	
na história da Ação Integralista e da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, 
Família e Propriedade (TFP). A primeira por sua explícita vinculação com o 
fascismo italiano e a segunda por sua emergência no contexto do golpe empre‑
sarial‑militar de 1964 como uma das expressões de direita que deram sustenta‑
ção ao golpe.
3.1 A extrema-direita no Brasil
Ação Integralista22
O pensamento integralista foi gestado no contexto político‑cultural da 
década de 1920. Em 1926, Plínio Salgado, principal líder integralista, lançou 
seu primeiro romance: O estrangeiro, no qual já delineava um projeto político 
para	o	Brasil.	Plínio	teve	seu	pensamento	político	influenciado	pelo	fascismo	
italiano. A Ação Integralista Brasileira (AIB) surge em 1932, com o lançamen‑
to do Manifesto de Outubro, documento cujo conteúdo expressa os ideários 
fascistas que nortearam ideologicamente o movimento.
22. A síntese realizada sobre o integralismo foi baseada nas informações disponíveis especialmente em: 
<http://www.tempopresente.org/>.	Acesso	em:	23	out.	2013;	<http://integralismohistoriaedoutrina.blogspot.
com.br/2012/05/concepcao-integralista-da-sociedade.html>. Estudos sistemáticos podem ser encontrados no 
mateiral disponibilizado pelo Grupo de Estudos de Integralismo (Geint) e outros movimentos nacionalistas. 
Disponível em: <http://historiaedireita.blogspot.com.br/>.	Acesso	em:	23	out.	2013.
425Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
No mesmo ano, Plínio Salgado foi redator do jornal A Razão, veículo por 
intermédio do qual buscou ativar a consciência dos meios políticos e intelectuais 
em relação à crise econômica e política desencadeada na década de 1930. Fundou 
a	Sociedade	de	Estudos	Políticos	que	ficou	conhecida	como	a	antecâmara	da	AIB.
Durante	sua	atuação	na	década	de	1930,	a	AIB	aglutinou	uma	militância	
estimada entre 500 mil e 800 mil pessoas, e dentre os denominados camisas‑
‑verdes (uniforme integralista) destacaram‑se: Miguel Reale (jurista e escritor), 
Gustavo Barroso (romancista e presidente da Academia Brasileira de Letras) e 
dom	Hélder	Câmara,	que	posteriormente	se	aproximou	da	esquerda.
A trajetória da AIB, que surge como um movimento de caráter “cívico‑
‑cultural”, é marcada por mudanças, uma das quais é a formação do Partido 
Ação Integralista, criado após deliberações do II Congresso Integralista, reali‑
zado em 1935, em Santa Catarina.
A criação do partido demonstrava a força e o crescimento do integralismo 
no país. Segundo Neto, era a maior organização fascista fora da Europa e tinha 
o objetivo de chegar ao poder através da democracia.
Os integralistas se aliaram a Getúlio Vargas e apoiaram o golpe que levou 
à constituição do Estado Novo. A intenção era efetivar um prévio acordo entre 
o chefe estatal e os líderes integralistas, pois visualizavam possibilidades de 
inserção ideológica dentro do futuro regime. Entretanto, após a consumação do 
golpe, o partido foi posto na ilegalidade.
A primeira tentativa de reorganização da AIB foi a criação da Associação 
Brasileira de Cultura (ABC), que visava o retorno às origens não partidárias do 
integralismo, de caráter “cívico‑cultural”, no entanto, a empreitada também não 
garantiu legitimidade perante o Estado Novo. Na ocasião, alguns militantes 
abandonaram as camisas‑verdes e se aliaram ao governo federal. A liderança 
integralista oscilava entre tentativas de aproximação ao governo, numa pers‑
pectiva de barganha, e críticas públicas contra a traição de Getúlio. Do mesmo 
modo, surgiam iniciativas que pleiteavam o efetivo rompimento entre remanes‑
centes integralistas e o governo federal.
Em 1938, aliados a setores políticos diversos, entre eles liberais,os mili‑
tantes integralistas tentaram tomar de assalto o Palácio da Guanabara, visando 
a derrubada de Getúlio, o que, consequentemente, poderia proporcionar uma 
426 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
investida integralista sobre o poder. A tentativa fracassou, e o Estado Novo 
reprimiu o movimento, com ações que variaram entre apreensão de materiais, 
prisão de militantes e uma pressão exercida sobre Plínio Salgado, que foi for‑
çado a exilar‑se em Portugal.
Durante o exílio de Plínio Salgado formou‑se o Partido de Representação 
Popular (PRP), que inicialmente pretendia se desvincular dos movimentos 
fascistas da década de 1930, especialmente pelo contexto mundial do segundo 
pós‑Guerra, que impunha limites às manifestações ideológicas análogas à tira‑
nia do fascismo internacional. Esse abandono dos referenciais originários do 
integralismo (símbolos, uniformes, organizações internas ou mesmo festivas) 
não	foi	bem-visto	por	uma	parcela	da	militância,	gerando,	inclusive,	proposta	
de rompimento e a criação de um partido genuinamente integralista.
Ao retornar do exílio, Plínio Salgado assumiu a presidência do PRP, cuja 
trajetória foi marcada por constantes tentativas de retomar alguns pressupostos 
integralistas originários, ao mesmo tempo em que havia a necessidade de se 
articular	 com	a	 dinâmica	 partidária	 do	 segundo	pós-Guerra.	Mantiveram	o	
sigma como símbolo do partido e alguns cerimoniais semelhantes aos existen‑
tes na década de 1930.
Durante a primeira metade da década de 1960, a ação integralista teve 
atuação	partidária	ou	em	organizações	 sob	o	controle	e	 influência	de	Plínio	
Salgado. Assim ocorreu com as Confederações Culturais da Juventude (CCJ), 
cujo objetivo era a formação intelectual da juventude, os águias brancas.
Plínio Salgado e diversos integrantes do PRP apoiaram o golpe empresa‑
rial‑militar de 1964 no Brasil. Naquele contexto, o chefe integralista foi um 
fervoroso orador da “Marcha da Família, com Deus e pela Liberdade”, realiza‑
da em São Paulo, em março de 1964.23 Após o golpe, o PRP foi extinto, assim 
como vários outros partidos. Entretanto, Plínio e outros militantes integralistas 
fizeram	parte	do	governo	ditatorial.	Plínio	foi	nomeado	deputado	federal	pela	
Aliança Renovadora Nacional (Arena).
23.	Atestando	a	importância	desse	debate,	lembramos	que	após	a	realização	do	seminário	que	deu	origem	
a este ensaio, em 31 de março de 2014, cinquentenário do golpe empresarial‑militar no Brasil, grupos de 
extrema‑direita reeditaram em várias cidades brasileiras a “Marcha da Família, com Deus e pela Liberdade”. 
Ver reportagem “A direita sai do armário” (Caros Amigos, ano XVII, n. 205, 2014).
427Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
Com a morte de Plínio Salgado, em 1975, houve uma fragmentação entre 
os integralistas. Abriu‑se espaço para disputas internas — evidenciadas desde a 
criação	do	PRP,	no	entanto,	acomodadas	na	figura	do	líder	—	entre	a	busca	da	
herança do legado de Salgado e as alianças partidárias. Surge, assim, o neointe‑
gralismo. Nesse contexto, a atuação dos integralistas não almejava ambições 
partidárias,	em	função	do	próprio	contexto	político	do	final	da	década	de	1970.	
Desse modo, optaram por manter viva a memória de Plínio Salgado. Com esse 
objetivo, fundaram o jornal Renovação Nacional — criado por Jader Medeiros, 
bem como fundações, associações culturais e espaços de conservação da memó‑
ria, como a Casa Plínio Salgado, criada em 1981 na cidade de São Paulo.
A conjuntura política de 1984, marcada pela campanha das Diretas Já, 
abriu possibilidades para a reorganização de um partido integralista. A emprei‑
tada foi encabeçada por Anésio de Lara Campos Jr., membro do antigo PRP e 
criador da Ação Nacionalista Brasileira (ANB). No entanto, foi um movimento 
efêmero, que se extinguiu em 1985, mesmo ano em que Anésio registrou a AIB 
em seu nome. Essa iniciativa, somada às aproximações de Anésio ao Partido de 
Ação Nacionalista (PAN) (efêmero), ao movimento dos Carecas do Subúrbio 
e a outros grupos neonazistas, foram fatores que contribuíram para impedir a 
formação de um novo partido integralista.
Após a morte de Plínio Salgado, houve uma fragmentação dos grupos 
integralistas, pois não havia uma unidade programática que acomodasse todos 
os neointegralistas. A primeira tentativa dessa articulação ocorreu no I Congresso 
Integralista do século XXI, realizado em São Paulo, em 2004. Esse congresso 
contou com o apoio dos simpatizantes da TFP, da União Nacionalista Demo‑
crática e da União Católica Democrática. Na ocasião, foi criado o Movimento 
Integralista Brasileiro (MIB), entretanto, não conseguiram registrar a sigla em 
cartório, pois Anésio Lara, que participara desse evento, já havia registrado 
anteriormente a sigla em seu nome, sem comunicar aos demais. Uma vez mais 
fracassou	a	tentativa	de	unificação.
Essa tentativa frustrada abriu caminho para a criação de três grupos. A 
Frente Integralista Brasileira, criada para manter o integralismo dos anos 1930, 
preservando seus símbolos e doutrinas. Embora não apresentasse aspirações 
partidárias,	 aproxima-se,	por	exemplo,	do	Partido	de	Reedificação	Nacional	
428 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
(Prona). O Movimento Integralista e Linearista (MIL‑B) também visa a atuali‑
zação da ideologia integralista da década de 1930. Para isso recorre às análises 
de autores integralistas e antissemitas. Posiciona‑se contra os partidos políticos 
e	a	liberal	democracia.	Afirma,	inclusive,	que	a	democracia	é	uma	farsa	que	
contribui para manter a opressão dos povos. A Ação Integralista Revolucionária 
(AIR), que tem uma posição “extremamente crítica” em relação ao sistema 
partidário, inclusive às propostas do período de Plínio Salgado. Considera que 
a essência do integralismo pode ser encontrada entre os anos 1932 e 1935. 
Defende uma revolução interior nos costumes, espiritualistas, o que seria um 
caminho ideal a ser perseguido para uma atuação integralista revolucionária do 
século XXI.
Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP)24
A Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade é 
uma associação civil fundada em 1960. Seu fundador e líder espiritual, Plínio 
Côrrea de Oliveira é venerado por seus membros.
A	TFP	tem	por	fim	combater	a	maré-montante	do	socialismo	e	do	comu‑
nismo,	dois	sistemas	que	reputamos	afins	entre	si.	[...].	Assim,	a	TFP	—	entre	
os diversos modos necessários que há para combater o comunismo — se dedi‑
ca primordialmente à ação ideológica.
A ação ideológica envolve a venda de livros e oferta de cursos que são 
destinados	a	combater	a	filosofia	materialista	e	evolucionista	dos	comunistas,	
bem como a sociologia, a economia e a cultura decorrentes dessa perspectiva. 
Fundamenta-se	na	filosofia	de	Santo	Tomás	de	Aquino	e	nas	encíclicas	papais,	
na	defesa	de	valores	considerados	naturais	e	que	afirmam	de	forma	positiva	a	
Tradição, a Família e a Propriedade. Referências que dão nome a entidade.
A defesa da tradição por parte de seus integrantes está associada a noção 
de que “o verdadeiro progresso não é destruir, mas somar, não é romper, mas 
24. A síntese apresentada sobre a TFP foi organizada com base nas informações disponíveis em: <http://
www.tfp.org.br/>.	Acesso	em:	23	out.	2013.
429Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
continuar para o alto. [...] Visa impedir que o progresso se torne desumano, 
odioso”.25 Defendem que “a família gera necessariamente a tradição e a hierarquia 
social. Depauperar e enfraquecer a família destrói a cultura e a civilização im‑
pregnadas de tradições cristãs”.26 Assim, para os membros dessa entidade, a 
família é a base que mantém a tradição viva. Portanto, são contrários ao divórcio.
A propriedade é considerada umdireito natural, inerente à essência huma‑
na: “o fundamento da propriedade está na própria natureza do ser humano. Os 
direitos à liberdade, ao trabalho e ao fruto de seu trabalho, isto é, à propriedade 
nascem da essência do homem”.27 Posicionam‑se claramente contrários à refor‑
ma agrária.
A TFP prega que só pela verdade ensinada pela Igreja (é a única) é possí‑
vel construir uma autêntica civilização. Os princípios, objetivos e documentos 
públicos veiculados pela entidade explicitam concepções nacionalistas e exclu‑
dentes, marcadas pelo anticomunismo, antissocialismo e antiliberalismo. Seu 
surgimento está ligado à obra Revolução e Contrarrevolução, de Plínio Côrrea 
de Oliveira, que, em linhas gerais, defende que a revolução (liberal e comunis‑
ta) está voltada para destruição da Igreja Católica. Por seu turno, a contrarre‑
volução se coloca em defesa da Igreja, preservando seus valores tradicionais, 
num conservadorismo radical e antimoderno.
Apesar das simetrias existentes entre as novas organizações integralistas, 
a TFP e o campo ideológico da extrema‑direita, essas entidades não se consi‑
deram integrantes desse campo político.
Outros grupos de extrema-direita no Brasil contemporâneo
No Brasil, os grupos neonazistas surgem na década de 1980, especialmente 
em São Paulo, num contexto no qual “o país passava por um processo de trans‑
formação da classe operária, do crescimento dos movimentos sindicais, em meio 
25.	Disponível	em:	<http://www.tfp.org.br/>.	Acesso	em:	23	out.	2013
26. Idem.
27. Idem.
430 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
à reabertura política, anistia e a redemocratização” (Andrade, 2013, p. 75). Nesse 
contexto	de	efervescência	política	e	influenciado	pelo	punk londrino, que vivia 
uma new wave (nova onda), surgem Os Carecas do Subúrbio como oposição ao 
punk considerado comercial. Seus idealizadores criam uma ala radical do punk 
que procura se distanciar de sua referência inspiradora para compor, na sua visão, 
um movimento sério e nacionalista com o lema “União, Força e Seriedade”.
Os integrantes dos Carecas do Subúrbio eram oriundos das camadas em‑
pobrecidas da classe trabalhadora; a grande maioria provinha da Zona Leste de 
São Paulo, naquele contexto uma área industrial. De acordo com Almeida (2011), 
os	Carecas	se	definiam	como	“jovens	conscientes	e	não	alienados,	fortes	de	
corpo, puros de mente e com o intuito de formar um exército para salvar o 
Brasil dos políticos corruptos e das multinacionais”. Defendiam a ideia de “um 
movimento sério, um estilo de vida, um movimento de trabalhadores, de brasi‑
leiros, sem negócio de fora, de gente que mora nos subúrbios”. Nesse momen‑
to,	 apesar	 de	 recusarem	 influências	 externas,	 os	 carecas	 se	 aproximam	e	 se	
identificam	com	o	movimento	skinhead dos ingleses.
Em sua origem, esse movimento era composto por diferentes etnias, não 
partilhava do conceito de segregação e/ou preconceito racial, não incorporava 
simbologia nazista. A ideologia era baseada em princípios como o culto ao físico,28 
a prática da defesa pessoal e era contrária à utilização de drogas. Segundo An‑
drade, esses são os traços mais marcantes na origem do movimento no Brasil.
Uma parte dos Carecas se aproxima das ideias neonazistas e passa a utili‑
zar seus símbolos, cindindo o movimento, já que alguns membros não aceitavam 
a segregação racial em face da diversidade étnico‑racial brasileira. Surge, assim, 
um grupo dissidente, os Carecas do ABC, um movimento de extrema‑direita 
identificado	com	a	ideologia	nazista.
A	mudança	ideológica	desse	grupo	influenciará	o	aparecimento	de	outros	
grupos de extrema‑direita pelo Brasil, principalmente no Sul do país. As ideias 
neonazistas são incorporadas por parte desses grupos que aderem a linha de 
pensamento da White Power (Força Branca), que tem como características o 
28. De acordo com Ana Maria Dietrich (2011), o culto ao físico é um dos preceitos básicos da juventude 
hitlerista (Dietrich. A. M. Juventude nazista e neonazista no Brasil: objetivos e perspectivas. In: Victor, R. 
L. (Org.). À direita da direita.	Goiânia:	Ed.	da	PUC-Goiás,	2011).
431Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
ultrarracismo e atua como uma “irmandade”. O primeiro grupo dessa corrente 
surgiu	em	São	Paulo	e	ficou	conhecido	como	Skinheads	White	Power.
A partir dos anos 1990 há um crescimento desses grupos no Brasil. Pes‑
quisa realizada por Dias revela que de 2002 a 2009 o número de sites que 
veiculam informações de conteúdo neonazista subiu 170%, saltando de 7.600 
para 20.502. No mesmo período, os comentários em fóruns sobre o tema cres‑
ceram 42.585%. Nas redes sociais, os dados são igualmente assustadores. 
Existem comunidades neonazistas, antissemitas e negacionistas29 em 91% das 
250 redes sociais analisadas pela antropóloga. E nos últimos nove anos o nú‑
mero de blogs sobre o assunto cresceu mais de 550%.30
Segundo Dias, aproximadamente 150 mil brasileiros visitam mensal‑
mente mais de cem páginas com conteúdos nazistas ou realizam mais de cem 
downloads.31 Desses, 15 mil são tidos como líderes e coordenam as incitações 
de ódio na internet. A pesquisa aponta os estados brasileiros com maior nú‑
mero de internautas que baixaram mais de cem arquivos de sítios neonazistas: 
Minas Gerais (6 mil); Goiás (8 mil); Paraná (18 mil); São Paulo (29 mil); Rio 
Grande do Sul (42 mil); Santa Catarina (45 mil). A região Sul é a que mais 
concentra simpatizantes neonazistas.32
Com base nesses dados, realizamos um breve levantamento na internet para 
caracterizar	alguns	movimentos	de	extrema-direita	atuantes	no	Brasil.	Identifi‑
camos oito deles: Kombat Rac; White Power SP; Front 88;33 Ultra Defesa; Ultra 
Skins; Brigada Integralista; Resistência Nacionalista; Terror Hooligans.34
29.	As	ideias	negacionistas	são	resultado	do	negacionismo.	Este	é	definido	como	a	capacidade	em	negar	
algo que está aparente na realidade.
30. Disponível em: <http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/04/conheca‑o‑mapa‑neonazista‑no‑
brasil.html>.	Acesso	em:	20	out.	2013.
31. O número de acesso e de downloads realizados pelos visitantes foi o critério utilizado pela 
pesquisadora	para	definir	a	identificação	com	o	conteúdo	divulgado.
32. Existe na região Sul do país o movimento separatista sulista chamado O Meu País É o Sul, cujo 
objetivo é transformar a região em um país, separando‑se do Brasil.
33. O número 88 é uma forma simbólica que grupos nazista ou neonazistas utilizam para fazer 
referência	ao	líder	Adolf	Hitler.	O	número	8	representa	a	oitava	letra	do	alfabeto	(H)	e	para	eles	significa	
“Heil Hitler!” (HH).
34. É um movimento neonazista inspirado nos torcedores do time Hooligans, que vão aos estádios 
especialmente	para	entrar	em	conflito	com	torcedores	de	outros	times.	
432 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
De forma ilustrativa, destacamos alguns elementos dos conteúdos dispo‑
nibilizados na internet por dois desses grupos: a Ultra Defesa e a Resistência 
Nacionalista.
A Ultra Defesa, de Mairinque, cidade do interior de São Paulo, de acordo 
com o seu próprio site,35 “é uma instituição social, política e reivindicatória de 
cunho nacionalista e patriota”. Defende a moral, e seus participantes são tidos 
como homens virtuosos e aguerridos que defendem os verdadeiros valores. 
Prezam a ordem e a disciplina. Utilizam a saudação romana, pois consideram 
que a antiga Roma é depositária da verdadeira e original tradição do Ocidente. 
Defendem “um Estado forte, espiritualista e transcendente”, “valores aristo‑
cráticos e guerreiros” de nossa formação cultural e uma “nação viril, coman‑
dada por uma verdadeira elite, virtuosa e viril”. Posicionam‑se abertamente 
contra o neoliberalismo, o aborto e a homossexualidade. Defendem as forças 
armadas, a harmonia entre as classes e a terceira via (um Estadoespiritualista 
e transcendente).
A Ultra Defesa, conforme seu site, realiza reuniões semanais, atividades 
culturais, esportivas e ministra palestras aos jovens com os seguintes conteúdos: 
O crime do aborto, O mal das drogas, O respeito à família, Ordem e disciplina 
na rua e no lar, Educação moral e cívica, O direito a propriedade, Direito a le‑
gitima	defesa,	Filosofia,	História,	Valorização	do	que	é	nacional,	bem	como	
outros assuntos pertinentes.
A Resistência Nacionalista36	 é	 um	movimento/grupo	que	 se	 autodefine	
como de extrema‑direita e que recusa a identidade neonazista ou fascista. Con‑
sidera que por “acolherem nordestinos e negros”, segundo seu líder, não pode 
ser	identificado	com	o	nazifascismo.	Afirma	que	o	seu	ideal	é	nacionalista	e	não	
étnico. Revela a pretensão de montar um partido conservador de direita,37 pois 
de acordo com seus membros, vivemos numa ditadura de esquerda no Brasil. 
O movimento defende a família e é contrário às drogas, ao aborto e à homos‑
sexualidade.
35. Disponível em: <http://ultradefesa.blogspot.com.br>.	Acesso	em:	20	out.	2013.
36.	Disponível	em:	<http://www.youtube.com/watch?v=4xo-bRSE7GE>.	Acesso	em:	20	out.	2013.
37.	O	líder	da	Resistência	Nacionalista,	em	depoimento	disponível	na	internet,	se	refere	ao	filósofo,	
jornalista e colunista Olavo de Carvalho como um de seus mentores intelectuais.
433Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
Chama atenção a facilidade de acesso aos conteúdos disponibilizados por 
esses	grupos	na	internet	e	a	dificuldade	de	se	obter	informações	mais	detalhadas	
sobre seus membros, sedes e formas de funcionamento. Outro elemento que 
chama a atenção é que esses grupos não se assumem como nazistas ou fascistas.
Paxton, mesmo considerando a improvável reedição das características do 
fascismo	clássico,	afirma	que	na	década	de	1990	o	fim	do	regime	fascista	foi	
posto em dúvida. Analisa a proliferação pelo mundo de uma série de grupos 
fragmentados de extrema‑direita com uma grande variedade de temas e práticas 
extremistas.	E	diz	que	o	“medo	da	decadência	e	do	declínio;	afirmação	da	iden‑
tidade nacional e cultural; a ameaça à identidade nacional e à ordem social re‑
presentada pelos estrangeiros inassimiláveis; e a necessidade de uma autorida‑
de mais forte para lidar com esses problemas” (2007, p. 304), bem como ataques 
ao liberalismo e ao individualismo econômico, ao comunismo, às instituições 
democráticas, ao Estado de direito, o princípio da transcendência, devoção ao 
líder virtuoso e a defesa de uma suposta supremacia racial ou de grupos, são 
traços que podem ser encontrados explícita ou implicitamente nas ideias defen‑
didas por tais grupos.
Ao mesmo tempo que encontramos profundas simetrias com as ideologias 
fascistas e nazistas, encontramos também o esforço por parte de alguns desses 
grupos para se diferenciar desse campo ideológico. No entanto, como tendência 
geral	nos	grupos	pesquisados,	identificamos	a	demonização	ou	a	ideia	de	eli‑
minação de algum inimigo externo, o anticomunismo e o antiliberalismo. São 
ultranacionalistas, e sua identidade se constrói em torno de uma liderança forte 
e de símbolos medievais, religiosos e nacionalistas.
Do ponto de vista ético e político, tanto os que defendem quanto a razão 
de sua existência merecem uma análise mais aprofundada na perspectiva de 
superação das condições que as favorecem.
3.2 A extrema-direita e o poder do Estado
Os	elementos	até	aqui	analisados	permitem	identificar	que	há	movimentos,	
grupos e entidades de extrema‑direita muito próximos do campo ideológico do 
434 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
nazifascismo.	Do	mesmo	modo,	analisamos	como	o	capitalismo	contemporâneo	
apresenta traços de esgotamento do projeto civilizatório da ordem do capital. 
Discutimos também como as crises de dominação e o irracionalismo criam as 
condições	para	o	florescimento	de	práticas	fanáticas	e	fundamentalistas.
Considerando que na democracia burguesa o exercício do poder é realiza‑
do	não	apenas,	mas	hegemonicamente,	no	âmbito	do	Estado,	pareceu-nos	im‑
portante apresentar no cenário mundial,38 ainda que brevemente, como vem 
ocorrendo o desempenho político dos partidos de extrema‑direita.39
A ascensão dos atuais movimentos de extrema‑direita, principalmente na 
Europa, não é episódica. Na verdade, essa ideologia nunca deixou de existir, 
mesmo após a derrota do nazifascismo na Segunda Guerra Mundial.
Na França, a extrema‑direita vem crescendo com o fortalecimento do 
Partido da Frente Nacional, fundado em 1972, por Jean Marine Le Pen, candi‑
dato derrotado por cinco vezes à presidência da República. A atual presidente 
do	partido	é	 sua	filha,	Marine	Le	Pen,	que	conseguiu	 triplicar	o	número	de	
militantes	(70	mil)	e	não	aceita	que	o	partido	seja	identificado	como	sendo	de	
extrema-direita.	A	Frente	Nacional	influenciou	a	criação	de	novos	partidos	da	
extrema‑direita na Europa, em função de seu desempenho nas disputas eleitorais 
na década de 1980.
Sader destaca que Engels apontou este país como “o berço das grandes 
lutas	emancipatórias	contemporâneas”,	mas	que	este	ciclo	se	encerra	na	década	
de 1960, mais precisamente após as barricadas de 1968. Analisa mudanças na 
identidade política dos trabalhadores e constata que “a extrema‑direita passou 
a explorar, de forma intensa e efetiva, a imigração, incentivando as tendências 
chauvinistas e até mesmo racistas dos trabalhadores franceses”.
O jornalista argentino Eduardo Febbro, alerta que “a Frente Nacional 
deixou de ser um partido de uma minoria para se converter no partido de todos: 
jovens, trabalhadores, votantes comunistas, eleitores oriundos da direita clás‑
sica, do Partido Socialista, executivos e agricultores”.
38. As informações sobre os partidos de extrema‑direita na Europa foram sintetizadas a partir dos 
conteúdos de vários sítios da internet e de agências de notícias.
39. No momento de revisão deste ensaio, a Frente Nacional, extrema‑direita da França, ganhava as 
eleições para o Parlamento Europeu.
435Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
A revista Caros Amigos40 dedica duas páginas para análise do crescimen‑
to da Frente Nacional na França. Apresenta os traços de renovação do discurso 
do partido pela liderança de Marine Le Pen e dados sobre as preferências do 
eleitorado que favorecem o partido. O mote político desse desempenho é a 
questão da imigração, pois “mais de 95% dos eleitores da Frente Nacional acham 
que há estrangeiros demais no país”. Eduardo Cypel, brasileiro radicado na 
França, eleito deputado estadual em 2010, foi vítima de discriminação por 
parte de um deputado da Frente Nacional, o europeu Bruno Gollnisch.
A Grécia, mergulhada numa profunda crise recessiva que já dura seis anos, 
tem sido cenário de ataques violentos contra imigrantes. Em 2013, o rapper 
Pavlos Fyssas, de 34 anos, ligado ao movimento antifascista de Atenas, foi 
morto a facadas. Muitas das violências praticadas contra imigrantes estão 
associadas aos membros do partido Aurora Dourada. O analista político Stan 
Draenos entende que as autoridades gregas têm sido negligentes na apuração 
dos crimes.41
O Partido Aurora Dourada, surge na década de 1980, com a queda dos par‑
tidos tradicionais, sobretudo do Partido Socialista. É um partido nazista, militar, 
masculino,	que	comete	assassinatos.	Identificam	como	seus	inimigos	principal‑
mente os comunistas, além dos imigrantes. Seu líder Nikólaos Michaloliákos 
(56 anos), é um puro produto da ditadura de extrema‑direita (1967‑1974). Em 
entrevista	ao	Jornal	O	Globo,	o	Filósofo	Grego	Michel	Vakaloulis	afirma,	que	
“o eleitorado da Aurora Dourada é muito popular” que “voltamos à lógica dos 
anos 30, com a crise econômica: na França, foi a emergência da Frente Popular, 
e na Alemanha, do nazismo. O fascismo não é uma fatalidade. Épreciso acabar 
com ele”.42
Em 2009 o Partido obteve 0,29% dos votos, três anos mais tarde elegeu 
dezoito deputados para o Parlamento grego, com 7% dos votos. Por outro lado 
40. A extrema‑direita se populariza na França (2013, p. 32‑33).
41. Carta, G. Cidadãos gregos expressam sua opinião sobre o Aurora Dourada. Disponível em: <http://
www.esquerda.net/artigo/gr%C3%A9cia-aurora-dourada-outra-face-da-extrema-direita-europeia/28766>.	
Acesso em: 26 out. 2013.
42.	Berlinck,	D.	“Aurora	Dourada	é	uma	organização	mafiosa”,	diz	filósofo	grego.	Disponível	em:	
<http://oglobo.globo.com/mundo/aurora-dourada-uma-organizacao-mafiosa-diz-filosofo-grego-1-10047712.	
Acesso em: 27 out. 2013.
436 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
os partidos tradicionais, os sociais democratas Pasok e a Nova Democracia 
(direita clássica) que tinham 77% dos eleitores, hoje tem somente 32%.
Na Holanda, o destaque no campo da extrema‑direita é o Partido da Li‑
berdade/PVV, fundado em 2006, cujo líder é Geert Wilders, xenófobo e anti‑
muçulmano. O partido considera a imigração muçulmana um desastre para a 
economia, afetando também a qualidade da educação, aumentando a insegu‑
rança nas ruas, no que se refere aos judeus e homossexuais. O primeiro minis‑
tro	Rutte	ao	se	manifestar	na	Câmara,	alegou	que	não	interfere	“nas	posições	
particulares	de	nenhum	partido”,	o	que	significa	que	tem	se	eximido	no	com‑
bate de práticas da extrema‑direita, principalmente para manter seus apoios 
políticos.	Em	2010,	o	Partido	da	Liberdade	elegeu	25	deputados,	ficando	atrás	
apenas dos liberais (Mark Rutte), com 31 eleitos, e dos trabalhistas (Job Cohen), 
com trinta. O jornal Ouronews43 destaca que “a crise econômica, a imigração e 
o desemprego têm sido o objetivo principal das políticas de direita na Europa, 
nestes últimos anos. Os resultados em nível regional e mesmo nacional progre‑
diram, mas nos parlamentos, principalmente no Parlamento europeu, a repre‑
sentação continua a ser baixa”.44
Na Alemanha, destacam‑se dois partidos de extrema‑direita. O Partido 
Nacional Democrata Alemão (NPD) e o partido A Direita. O NPD, fundado em 
1964, é uma agremiação antissemita, xenófoba e racista. O Parlamento alemão 
e o Conselho Federal pediram a cassação da sigla do NPD, a última em 2001, 
que, após dois anos, sofreu derrota judicial.
O partido A Direita foi criado em 2012, e seu nome é uma analogia ao 
partido alemão A Esquerda. Prega “preservação da identidade alemã” como um 
dos “pontos cruciais” da nova facção. Entre outras ideias, defende‑se que “a 
tolerância	a	estrangeiros	que	vivem	permanentemente	na	Alemanha”	deveria	
ser cessada”. É presidido por Christian Woch, que já pertenceu ao Partido do 
Povo Alemão (DVU) que se fundiu em 2011 ao NPD.
43. Partidos de direita unem‑se para fazer coligação para as eleições europeias. Disponível em: <http://
pt.euronews.com/2013/10/23/partidos-de-direita-unem-se-para-fazer-coligacao-para-as-eleices-europeias/>.	
Acesso em: 28 out. 2013.
44. Quadro que já foi alterado. Ver nota 19.
437Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
Na Hungria, a extrema‑direita é representada pelo Partido Jobbik, que 
surge em 2002 como uma associação juvenil de direita, criada por estudantes 
universitários católicos e protestantes, em 2003 torna‑se partido, e, atualmente 
é o terceiro maior no Parlamento. Naquele ano, houve a realização do Congres‑
so Mundial Judaico. A cidade de Budapeste foi escolhida diante da realidade 
de que 600 mil judeus foram mortos durante a Segunda Guerra Mundial. Para 
protestar contra a realização do Congresso Judaico, cerca de mil apoiadores do 
Jobbik realizaram uma manifestação em Budapeste e segundo o líder do parti‑
do Gabor Vona: “Somos especiais na Europa não porque somos a maior nação 
antissemita, mas porque mesmo tendo toda a Europa a seus pés, mesmo que a 
Europa lhes lamba os pés, nós não o vamos fazer”.
Na avaliação de Peter Feldmajer, líder da Federação das Comunidades 
Judaicas da Hungria, “o fortalecimento do Jobbik é apenas um sintoma destas 
questões; o grande problema é que existe cerca de meio milhão de pessoas 
que apoiam a extrema‑direita e muitas mais aceitam a atitude negativa com 
os judeus”.
Na Itália de Mussolini, o partido Liga Norte foi criado em 1989, após a 
união de seis movimentos independentes, e desde 1996 defende a separação das 
regiões do Norte da Itália. Defende um Estado federativo. É contra a adoção de 
moeda única no Parlamento europeu. Coloca‑se como defensor das pequenas e 
médias empresas e contra os grandes capitalistas. Cria o Sindicato Autonomis‑
ta	Lombardo,	chamado	depois	de	Sindicato	Padano,	com	poucos	filiados,	que	
nunca teve muita expressão. Os votos da Liga são tanto dos patrões quanto dos 
operários.
O	partido	tem	destacado	a	importância	das	empresas	do	Norte	da	Itália	e	
a produção de riquezas (vários operários hoje são patrões) e acusa o Sul de 
parasitas e os imigrantes de ocuparem seus postos de trabalho, “no entanto, é 
útil na fábrica para fazer os serviços mais pesados, mais sujos. A Liga dirige‑
‑se aos trabalhadores nativos instigando sentimentos de ódio contra os imi‑
grantes e se posiciona sempre pela proteção da família constituída pelo homem 
e pela mulher”.
O fundador e secretário do partido é Umberto Bossi, envolvido junto 
com	seu	filho	em	escândalos	sobre	financiamento	público	à	Liga	Norte.	Nas	
438 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
eleições para o Parlamento na Itália em 2013, o centro esquerda ganha maio‑
ria	na	Câmara,	mas	Berlusconi	ganha	no	Senado.
Matéria publicada em abril de 2012 trata da proximidade entre a Liga 
Norte e a Frente Nacional (França):
[...] a amizade entre a Frente Nacional francesa e movimentos de extrema‑direita 
na Itália é antiga. [...] um dos políticos mais extremistas e xenófobos da Itália, 
Mario Borghezio, em março de 2011 trouxe Marine Le Pen à ilha de Lampedusa, 
no sul da Itália, para um comício contra os imigrantes. Borghezio [...], anunciou 
que no próximo 1º de maio vai a Paris participar da manifestação da Frente Na‑
cional em homenagem a Joana D’Arc.45
Em junho de 2013 a vereadora da Liga Norte Dolores Valandro, pergunta 
no facebook: “Por que ninguém estupra essa mulher?”,46 se referindo à ministra 
Cecile Kyenge, nascida na República do Congo, responsável pela pasta da In‑
tegração, que tenta implementar medidas aos imigrantes para acesso a cidadania.
Nossas breves incursões sobre o panorama dos partidos de extrema‑direi‑
ta em alguns países da Europa revelam tanto sua popularização, pelo crescente 
desempenho nas urnas, como profundas identidades com a ideologia nazifas‑
cista. Os inimigos desses partidos são os imigrantes de um modo geral, negros, 
muçulmanos e judeus em especial. A recusa ao comunismo também é uma 
constante em suas bandeiras, assim como a violência praticada por grupos a 
eles associados.
O cenário é assustador, mas como insistimos desde o início de nossa ex‑
posição,	a	mera	constatação	ou	recusa	ideológica	não	têm	sido	suficientes	para	
frear o seu crescimento, o que revela a centralidade do tema para a agenda da 
esquerda.
	A	título	de	considerações	finais,	na	última	parte	desse	ensaio	esboçamos	
algumas aproximações com o debate da ética e dos direitos humanos.
45.	Marine	Le	Pen	vira	ídolo	da	extrema-direita	italiana.	Disponível	em:	<http://www.portugues.rfi.fr/
europa/20120427-marine-le-pen-vira-idolo-da-extrema-direita-italiana>.	Acesso	em:	28	out.	2013.
46. Carvalho, F. Por que estupra essa mulher. Disponível em: <http://180graus.com/politica/vereadora‑
italiana-fala-sobre-ministra-negra-por-que-ninguem-estupra-essa-mulher>.	Acesso	em:	28	out.	2013.
439Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
Ética, direitos humanos e a extrema-direita: considerações finais
O materialcom o qual tivemos contato nesse breve levantamento sobre os 
matizes	da	extrema-direita	no	contexto	contemporâneo	revela	que	os	valores,	
princípios e concepções de homem e sociedade defendidos pelos grupos que 
integram esse campo ideológico na atualidade utilizam o princípio da transcen‑
dência	(irracional	e	sagrado)	para	justificar	seus	discursos	e	práticas	em	face	de	
condições de profundas desigualdades, insatisfações, medo e insegurança.
Neste	sentido,	é	possível	afirmar	que	a	base	material	que	propicia	formas	
de consciência irracionais permanece sendo em seus fundamentos uma crise de 
dominação, como ocorreu no período de ascensão do nazifascismo.
Embora haja uma recusa por parte dos grupos, movimentos e partidos de 
extrema‑direita ao ideário fascista e nazista, a aproximação de suas convicções 
e ações com esses fenômenos é latente.
Do	ponto	de	vista	da	ética	e	dos	direitos	humanos,	quais	são	os	desafios	
postos pela existência e pelo crescimento da extrema‑direita? Desse mesmo 
ponto de vista, quais os riscos de ampliação do enraizamento político desse 
campo ideológico?
A sociabilidade burguesa coloca limites concretos para a realização da 
ética e dos direitos humanos. O caráter desigual e opressor da ordem do capital 
não assegura a igualdade e a emancipação. Ao contrário, reproduz de forma 
contraditória as mediações necessárias para sua manutenção.
No entanto, a realização tanto da ética quanto dos direitos humanos, em‑
bora suponham escolhas valorativas não alienadas e possibilidades objetivas, 
inscrevem‑se nas posições teleológicas e alternativas da práxis, uma vez que os 
indivíduos sociais são dotados — no sentido histórico —, ainda que de forma 
desigual, de capacidades humano‑genéricas que lhes confere potencialidades 
para superar as indeterminações postas pela totalidade social.
O espectro da extrema‑direita supõe um enfrentamento ético e político, 
especialmente pela mediação de projetos coletivos capazes de enfrentar de 
forma autêntica as condições materiais que estão na base das expressões con‑
temporâneas	da	barbárie.
440 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
A ética, uma modalidade de práxis, visa a transformação de comportamen‑
tos, formas de consciência e de valores que orientam as escolhas dos indivíduos 
sociais.	Seu	conteúdo	histórico	vincula-se	às	conquistas	humanas	que	afirmam	
a liberdade como valor ético central e que orientam práticas concretas que, pela 
mediação da política, concretizam projetos de caráter humanitário e emancipa‑
dor. Os direitos humanos, considerados numa perspectiva histórica, assumem 
importância	 estratégica	 para	 a	 constituição	 da	 unidade	 na	 diversidade	 para	
formulação de tais projetos coletivos. O mesmo ocorre com valores conquista‑
dos no interior da luta de classes, como a democracia, a igualdade e a liberdade. 
Os direitos humanos e os valores éticos que expressam conquistas do gênero 
não perdem sua validade histórica, mesmo diante da barbárie. Permanecem 
como horizonte e referência para orientar as determinações da práxis.
No entanto, tal defesa não pode ser formal, abstrata, supõe a crítica con‑
tundente e radical sobre as determinações históricas que geram a desumanização. 
Envolve, portanto, uma crítica radical da ordem do capital e sua forma contem‑
porânea	de	produção	da	barbárie	e	a	construção	de	estratégias	coletivas	para	
seu enfrentamento.
Outro	desafio	ético	e	na	perspectiva	dos	direitos	humanos	é	a	crítica	do	
cotidiano.	A	ultrapassagem	da	reificação	do	cotidiano	contemporâneo	é	funda‑
mental para uma consciência crítica sobre as mediações particulares presentes 
em todos os poros da vida social que contribuem para reprodução ampliada da 
barbárie.
As expressões da extrema‑direita na atualidade encontram na crise estru‑
tural de acumulação do capital sua base material. A barbárie não é fruto de 
grupos desumanos em sua essência, mas de um modo de organização social que 
gera uma particular forma de essência humana.
A crítica teórica é um instrumento fundamental para superação da barbárie, 
mas torna‑se inócua se desvinculada da prática social e política. Por isso, insis‑
timos que entender e enfrentar o campo ideológico da extrema‑direita é uma 
agenda urgente para a esquerda.
Os	desafios	para	enfrentar	o	enraizamento	político	do	ideário	de	extrema‑
‑direita são enormes. A favor da ideologia de extrema‑direita jogam um peso 
diferenciado toda a cultura pós‑moderna e neoliberal, com seus traços consti‑
441Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
tutivos: efêmera, irracional, fragmentária, contingencial, negadora de valores 
universais, das formas clássicas de organização e participação política (sindi‑
catos, partidos, movimentos sociais), de militarização da vida social, de produ‑
ção da cultura do medo e da insegurança, de banalização da vida.
Vimos como os grupos de extrema‑direita se conectam pela rede virtual 
que favorece o anonimato e a ausência de controle social democrático. Cotidia‑
namente somos bombardeados pela mídia patronal com mensagens consumis‑
tas, individualistas, sensacionalistas, satanizadoras do Estado, das políticas 
sociais públicas, do espaço público, dos partidos e da política e sacralizadoras 
do mercado, do empreendedorismo, da celebridade, do intimismo, do subjeti‑
vismo fútil e rasteiro.
A televisão, os blogs, faces e páginas pessoais ou da mídia estão saturados 
de	mensagens	e	filosofias	que	dão	sustentação	ideológica	para	o	campo	ideoló‑
gico da extrema‑direita. Os opositores de esquerda, os jovens, os pobres, os 
negros, mulheres e homossexuais são vandalizados, estigmatizados e caricatu‑
rados diariamente pela mídia patronal nos conteúdos de seus vários programas 
diários ou editoriais “jornalísticos”. A terceira via, tão propalada pela extrema‑
‑direita, por meio dos formadores de opinião, reveste‑se de um humanismo 
abstrato cuja concretização aparece de forma oscilante pela mediação da trans‑
cendência religiosa ou do governante forte.
O projeto da extrema‑direita é alimentado por fundações, associações, 
institutos e grupos que articulam a chamada sociedade civil organizada, empre‑
sários	e	pensadores	de	ocasião,	como	é	o	caso	de	âncoras	de	jornal,	comentaris‑
tas	e	filósofos	profissionais	que	trabalham	para	a	grande	mídia	patronal.	Alguns	
se autointitulam independentes, vendendo livros e cursos. Pautam a vida social 
pelos seus interesses de classes. A barbárie que extermina só se torna informação 
de interesse público quando seu projeto está ameaçado. A barbárie do desem‑
prego, da falta de moradia, do agrotóxico nas nossas mesas, da degradação do 
meio ambiente, do trabalho escravo e infantil, da ação letal da polícia e das 
milícias nas periferias urbanas, dos coronéis nas zonas rurais, das privatizações, 
do sucateamento das políticas sociais não integram o conteúdo de suas análises.
Uma análise um pouco mais detida dos princípios, regimentos e documen‑
tos	publicados	pelas	entidades	e	grupos	de	extrema-direita	indica	a	afirmação	
442 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
do conservadorismo e de valores do humanismo abstrato: defesa da vida, da 
família, da paz social e da harmonia. No entanto, todos, sem exceção, defendem 
como direito natural a propriedade privada, que inclui os meios de produção 
obviamente, fundamento da desigualdade na ordem do capital. Indicam também 
traços	xenofóbicos	 e	 segregadores,	 pois	 sempre	 identificam	um	outro	 como	
inimigo desses valores, em sua maioria comunistas, estrangeiros, imigrantes, 
negros e homossexuais. À mulher não é reservado nenhum papel ou lugar pú‑
blico e de liderança.
A mídia patronal e alguns agentes “independentes” cumprem um papel 
funcional à reprodução de visões que alimentam o campo ideológico da extre‑
ma‑direita. O poder de comunicação — a fala fácil, direta, poucoaprofundada, 
parcial e saturada de sensacionalismo explorador das mazelas cotidianas — tem 
grande receptividade num contexto social despolitizado e cindido entre os pro‑
jetos e aspirações individuais e genéricas.47 A mensagem da extrema‑direita, 
embora faça referência a um nós, procura	 identificar	 na	mazela	 comum	da	
barbárie	contemporânea	aquilo	que	remete	à	profundidade	do	eu,	aquilo	que	
permite	a	identificação	imediata	entre	os	anseios,	angústias,	incertezas	e	medos	
produzidos pela realidade comum de todos, aqueles que são intimamente expe‑
rimentados por cada um.
O terror produzido pelo fundamentalismo religioso, pelo terrorismo, pelo 
narcotráfico,	pela	violência	urbana	e	rural	é	dissociado	do	fundamentalismo	de	
mercado, este último sequer considerado como real. Todos esses elementos 
aparecem	no	material	analisado	neste	ensaio	e	colocam	o	desafio	ético	e	polí‑
tico para sua profunda compreensão e enfrentamento.
Recebido em 9/5/2014 ■ Aprovado em 2/6/2014
47. Dois episódios que ocorreram após a realização do seminário que baliza este ensaio merecem 
destaque: 1) as manifestações de apoio da jornalista Rachel Sheherazade do SBT, em fevereiro de 2014, aos 
“justiceiros do Flamengo” na cidade do Rio de Janeiro. O grupo espancou um jovem acusado de roubo e, 
posteriormente, o deixaram nu e preso a um poste, pelo pescoço, com uma trava de bicicleta; 2) em maio de 
2014, Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, foi agredida até a morte por dezenas de moradores de uma 
comunidade na cidade do Guarujá, litoral de São Paulo, depois da publicação de um retrato falado em uma 
página no Facebook de uma mulher que realizava rituais de magia negra com crianças sequestradas.
443Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 407-445, jul./set. 2014
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446 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014
Política social e Direitos Humanos sobo jugo imperial dos Estados Unidos
Social policies and human rights under the imperial rule of the United States
Potyara Amazoneida P. Pereira* 
Marcos César Alves Siqueira**
Resumo: Este ensaio versa sobre ataques aos direitos humanos e à 
política social, apesar da força discursiva que, contemporaneamente, 
ambos	passaram	a	ter.	Tais	agressões	se	acentuaram	com	o	fim	da	bi‑
polaridade entre Estados Unidos (EUA) e ex‑União Soviética (URSS), 
no	final	dos	anos	1980,	com	a	autodissolução	da	URSS,	em	1991,	e	
com a transformação dos EUA em superpotência mundial. Contudo, 
ao se transformar, os Estados Unidos, em alvo de atos terroristas, su‑
postamente praticados por países pobres, a pobreza foi criminalizada 
e transformada em inimigo número um. Isso explica o desmonte dos 
direitos humanos, notadamente os sociais, e das políticas publicas que 
visam concretizá‑los.
Palavras‑chave: Política social. Direitos humanos. Imperialismo. 
Criminalização da pobreza.
Abstract: This article deals with the attacks to human rights and to social policies, in spite of 
their discursive power contemporarily. Such attacks were stressed by the end of the bipolarity between 
the United States (USA) and the ex‑Soviet Union (USSR) at the end of the 1980’s, by the USSR’s 
* Professora titular e emérita do Departamento de Serviço Social da Universidade de Brasília (UnB)/
Distrito Federal, Brasil. Vice‑coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Política Social (Neppos), 
do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Ceam) da UnB; pesquisadora do CNPq e líder do Grupo 
de Estudos Político‑Sociais (Politiza) do Programa de Pós‑graduação em Política Social da UnB, registrado 
no Diretório dos Grupos de Pesquisas do CNPq. E‑mail: potyamaz@gmail.com.
** Pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Política Social (Neppos/Ceam/UnB); membro do 
Grupo de Estudos Politiza do Programa de Pós‑Graduação em Política Social (PPGPS) da UnB; mestre e 
doutorando em política social pelo PPGPS/UnB. E‑mail: mcasiqueira@gmail.com.
447Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014
self‑dissolution in 1991, and by the transformation of the USA into a world superpower. However, 
when the USA became target of terrorist attacks, supposedly committed by poor countries, poverty 
was criminalized and became enemy number one. That fact explains the disassembling of the human 
rights, mainly the social ones, and of the public policies which aim at implementing them.
Keywords: Social policy. Human rights. Imperialism. Criminalization of poverty.
Introdução
Tratar da temática conjugada da política social e dos direitos humanos implica reconhecer que tal política e tais direitos estão seriamente ameaçados,	apesar	da	força	discursiva	que	passaram	a	ter,	desde	o	final	dos anos 1980, com o término da Guerra Fria e do socialismo real.
Com efeito, a partir dos anos 1990, generalizou‑se a ideia de que, com o 
fim	da	bipolaridade	entre	Estados	Unidos	(EUA)	e	União	Soviética	(URSS),	e	
com a autodissolução desta, o mundo viveria em paz, sob a hegemonia da de‑
mocracia liberal norte‑americana. No entanto, foi justamente a América do 
Norte, defensora das liberdades individuais, que, nas palavras de Loïc Wacquant 
(2006), se transformou na primeira sociedade de “insegurança avançada” da 
história — uma sociedade que “promoveu a insegurança como princípio de 
organização da vida coletiva e forma de regulação das trocas socioeconômicas 
e dos comportamentos individuais” (p. 23).
Para tanto, o modo de ser e de fazer negócios norte‑americanos foram 
estratégica e sistematicamente exportados, tanto para a periferia do capitalismo, 
da qual o Brasil faz parte, quanto para outros países e regiões capitalistas cen‑
trais. Nestes, é emblemático o caso da Europa que, na sequência da Segunda 
Guerra Mundial, se tornou dependente da ajuda estadunidense para sair dos 
escombros	produzidos	pelo	conflito	bélico	e	para	compensar	a	perda	de	suas	
antigas e rentáveis colônias (Judt, 2008; Sader, 2003). Consequentemente, a 
partir daí, os Estados Unidos foram se tornando uma potência dominante, não 
só no continente europeu, mas em todo o mundo.
Esse quadro indica, ademais, que não se pode falar em ameaça aos direitos 
humanos e à política social de forma abstrata ou pontual; mas, pelo contrário, 
exige situar tal ameaça no contexto mais amplo das concretas relações de poder 
448 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014
econômico,	político,	cultural,	militar	e	midiático,	no	qual,	desde	o	fim	do	se‑
gundo pós‑guerra, os Estados Unidos vêm assumindo liderança inconteste.
Por outro lado, é fato empírico que, na ausência de seu mais poderoso 
oponente — a URSS1 —, os Estados Unidos “elegeram” um novo adversário: 
a pobreza; ou melhor: os perigos que a pobreza interna e externa ao seu terri‑
tório passaram a representar sob a forma de terrorismo, narcotráfico, guerrilhas, 
corrupção, migração ilegal, inveja, fundamentalismo religioso, resistência ao 
consumismo e incapacidade de aceitação do American way of life (Sader, 2003). 
Indícios desse fato não faltam.
Em 2002, em discurso na Conferência Internacional sobre Financiamento 
ao Desenvolvimento, na cidade mexicana de Monterrey, o então presidente 
George W. Bush declarou, em meio à emotividade pós‑11 de Setembro do ano 
anterior, que
lutamos contra a pobreza porque a esperança é uma resposta ao terrorismo. Nós 
lutamos contra a pobreza porque a oportunidade é um direito e uma dignidade 
humana fundamental. Nós lutamos contra a pobreza porque a fé o exige, e a 
consciência o pede. E nós lutamos contra a pobreza com a convicção cada vez 
maior de que progressos importantes estão ao nosso alcance. (Departamento de 
Estado dos Estados Unidos, 2014)
Tal declaração reiterava, sem dúvida alguma, a nova postura maniqueísta 
dos Estados Unidos de encarar pobreza como contraparte de “condutas desvian‑
tes” (terrorismo, principalmente), como se ambos fossem faces de uma mesma 
moeda, cujo combate constituiria uma cruzada de fé ou um ato de generosida‑
de de uma nação predestinada a ser a guardiã do planeta.
Contudo, na contramão do discurso, os Estados Unidos, como diz Wacquant 
(2006), apresentam taxas de criminalidade mais altas do que em outras nações 
1. Depois de 1945, isto é, com o término da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos da América 
“estabeleceram com a União Soviética — a outra superpotência da época — uma espécie de condomínio 
mundial caracterizado por uma furiosa rivalidade que será designada de Guerra Fria” (Ramonet, 1998, p. 43). 
Entretanto, com a “implosão da União Soviética”, em 1991, os Estados Unidos se viram “colocados em uma 
situação que nenhuma potência conheceu” no século XIX. Desde então, institui‑se no mundo uma hegemonia 
única e exclusiva, fato considerado sem igual na história da humanidade (Idem). 
449Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014
desenvolvidas e índices alarmantes de homicídios e encarceramentos. Isso, sem 
falar da sua superioridade na corrida armamentista mundial que, depois da 
Segunda Grande Guerra e da Guerra Fria que lhe sucedeu, aparentemente não 
teria por que continuar existindo. Diz‑se aparentemente porque se sabe que a 
indústria armamentista e o estímulo a guerras é uma das formas de o capitalis‑
mo se reproduzir, ampliar e dissipar riquezas (Mészáros, 2009) — coisa que 
nenhum país do globo exercitou tão bem como os Estados Unidos. Que o digam 
as contínuas vitórias econômicas e políticas desse país no plano internacional, 
incluindo a recuperação da Europa mencionada, as quais tiveram como leitmotiv 
“a	intensificação	do	comércio	de	armas”	(Ramonet,	1998,	p.	45).
Com efeito, desde 1945, os Estados Unidos vêm se envolvendo, direta ou 
indiretamente,	em	centenas	de	conflitos	armados,	movidos,	em	última	instância,	
por interesses econômicos.Dentre os mais importantes e escancarados (seja por 
meio	da	atuação	militar	efetiva,	ajuda	logística,	financiamentos	diretos	e	indiretos,	
seja mediante lucrativas vendas de armamentos),2 pode‑se destacar: Irã (1953); 
Guatemala (1954 e 1993); Baía dos Porcos — Cuba (1961); República Domini‑
cana (1961); Brasil3 (1964); Iraque (1968, 1990 e 2003); Chile (1973); Afeganis‑
tão (1979 e 2001); Turquia (1980); Nicarágua (1981); Granada (1983); Panamá 
(1989); Bósnia‑Herzegovina (1995); Iugoslávia (1999); Venezuela (2002); Líbia 
(2011), entre muitos outros4 (Chomsky, 1999; Mitchell e Schoeffel, 2005).
Além dessas intervenções, outras dezenas foram e ainda são realizadas 
com vistas a monitorar os passos de diversas nações. Segundo reportagem de 
2.	Como	no	famoso	escândalo	Irã-Contras,	em	que	os	Estados	Unidos	venderam	armas	ao	Irã	(em	meio	
a um embargo internacional sobre a venda de armas para esse país), sendo que parte dos lucros foi utilizada 
para	financiar	o	movimento	anticomunista	dos	“Contras”,	na	Nicarágua,	a	partir	de	1979.
3. Que por muito pouco não foi invadido pelos Estados Unidos, como parte da chamada Operação 
Brother Sam.
4. Como os demais países da América do Sul, a saber: Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai, que (com 
o Chile e o Brasil) integraram um movimento orquestrado entre todos os regimes militares autoritários deste 
continente, denominado Operação Condor. Esta iniciativa, chancelada pelos Estados Unidos, tinha como 
objetivo	neutralizar	todas	as	investidas	socialistas,	comunistas	e	demais	organizações	não	afinadas	com	os	
regimes	autoritários	dos	respectivos	países.	Justamente	por	ser	uma	manobra	articulada	no	âmbito	de	toda	a	
América do Sul, criou‑se uma rede de informações, investigações e repressão interligada, cooperativamente, 
entre todos os seus membros. Essa rede facilitou a ocorrência de atrocidades, como assassinatos, torturas, 
sequestros e extradições ilegais. 
450 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014
2013 do site canadense Global Research, os Estados Unidos, até aquele mo‑
mento, interviram (direta ou indiretamente), em nada menos do que 74 países, 
em	especial	na	África	e	no	Oriente	Médio,	sendo	que	o	atual	presidente	Barack	
Obama ampliou o espectro dessas atuações em relação ao seu antecessor, 
George	W.	Bush.	Isso	confirma	o	intento	autodeclarado	dos	Estados	Unidos	
de se tornar o grande império global.5
Entretanto, em todas as intervenções estadunidenses a questão dos direitos 
humanos e da política social foi matematicamente calculada. Em vista disso, 
tal questão não constituía um assunto da alçada doméstica dos países monito‑
rados, mas algo cujo enfrentamento devia passar pelo crivo dos Estados Unidos, 
de suas forças armadas, de sua inteligência, de seus políticos e investidores, 
bem como de órgãos multilaterais sintonizados com a sua ideologia. Tome‑se 
como	exemplo	a	ajuda	financeira	concedida	pelo	Fundo	Monetário	Internacio‑
nal	(FMI),	Banco	Mundial	e	suas	instituições	afiliadas	a	muitos	desses	países:	
tal ajuda era acompanhada de condicionalidades que impunham medidas de 
ajuste nas economias dos países tomadores de empréstimos (os chamados ajus‑
tes estruturais), as quais contribuíram para o surgimento de nações com poten‑
te capacidade agroexportadora, mas, ao mesmo tempo, com uma população 
pobre e desfalcada de direitos sociais.
Violência institucionalizada contra os direitos humanos a partir do domínio 
imperial estadunidense
Efetivamente, a postura imperial norte‑americana tem estimulado ataques 
frontais aos direitos humanos, proclamados no século XVIII, na esteira das 
conquistas iluministas que combatiam as arbitrariedades do Estado absolutista 
e elegiam o indivíduo como “sujeito da liberdade e da criação” (Touraine, apud 
Acanda, 2006, p. 52); e responde, consideravelmente, pela disseminação inter‑
5.	Isso	pôde	ser	verificado	após	os	escândalos	da	rede	clandestina	de	vigilância	eletrônica	internacional	
(liderada pelos Estados Unidos), denunciada pelo ex‑técnico da Agência Nacional de Segurança (NSA), 
Edward Snowden, em 2013.
451Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014
nacional desses ataques e pela prática da violência cotidiana no seio de cada 
nação, incluindo os Estados Unidos.
Como observa David Harvey (2005, p. 40), “[esse] país tem um histórico 
de	intolerância	[interna]	que	nega	seu	apego	à	sua	Constituição	e	ao	regime	de	
direito”.	Porém,	é	em	relação	ao	mundo	externo	que	a	sua	intolerância	se	exa‑
cerba	com	falsas	justificativas.
Suas	 constantes	 intervenções	bélicas	 em	nações	menores,	 identificadas	
como inimigas, tem‑se feito a pretexto de repressão preventiva, que passa por 
cima de acordos internacionais e da soberania dessas nações. Seu tradicional 
apoio e patrocínio a golpes de Estado onde lhe der na telha, já lhe rendeu a 
pecha de “maior ‘Estado irresponsável’ da terra” (Harvey, 2005, p. 40). Suas 
numerosas	e	diversificadas	formas	de	interdição	econômica	e	política	em	países	
e instituições internacionais, como os “embargos comerciais ao Iraque e a Cuba”, 
e ingerências favoráveis à adoção de políticas de austeridade junto ao FMI, têm 
sido tão deletérias quanto a “força física” (Idem). Contemporaneamente, a 
exclusiva	preponderância	do	seu	poder	 imperialista	 tornou-se	uma	realidade	
inusitada porque tal poder, conforme Ramonet (1998), não mais se mede, como 
acontecia	 nos	 impérios	 anteriores,	 pela	 influência	 geográfica	 e	militar,	mas	
“resulta essencialmente da supremacia no controle das redes econômicas, dos 
fluxos	financeiros,	das	inovações	tecnológicas,	das	trocas	comerciais,	das	ex‑
tensões e projeções (materiais e imateriais) de toda espécie” (p. 45).
Daí o seu magnetismo e força em um momento histórico de relativa con‑
solidação	de	fronteiras	geográficas.
De fato, desde a Guerra Fria, nenhuma nação capitalista sente‑se imune 
ao	poder	de	influência	norte-americano,	seja	em	que	área	for.	Caso	emblemá‑
tico é o da “indústria do imaginário” que, como nenhum outro país, os Estados 
Unidos souberam capitalizar tão bem. Trata‑se, em linhas gerais, da indústria 
de	filmes,	músicas,	modas,	bebidas	e	comidas,	dentre	outros	produtos	culturais	
qualitativamente ruins, embora não sem reações de alguns países, como a Fran‑
ça.6 No entanto, tem‑se que admitir que o seu poder de penetração e controle 
6. Foi na França, segundo Judt (2008, p. 232), que os planos de expansão internacional da Coca‑Cola 
“provocaram turbulências públicas. Quando Le Monde revelou que a companhia havia estabelecido a meta 
452 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014
de	mentes	e	preferências	é	inegável.	Para	ficar	apenas	com	um	produto,	vale	
lembrar que, na Europa,
entre 1947 e 1949, a Coca‑Cola Company abriu fábricas na Holanda, Bélgica, em 
Luxemburgo, na Suíça e Itália. Cinco anos após ter sido criada, a Alemanha Oci‑
dental contava com 96 dessas fábricas e se tornara o maior mercado fora dos 
Estados Unidos. (Judt, 2008, p. 232)
Confiante	em	seu	poderio	universal,	alicerçado	em	uma	economia	“flame‑
jante”, no dizer de Ramonet (1998), os Estados Unidos radicalizaram as suas 
idiossincrasias contra o seu mais novo inimigo: as subclasses (underclasses) 
perigosas, internas e externas. Em 1990 o governo de George W. Bush criou 
uma nova doutrina de segurança nacional (ou de guerra), em represália à in‑
vasão do Kuwait pelas tropas do Iraque de Saddam Hussein; e, em 2001, essa 
doutrina foi consolidada após os ataques terroristas às torres gêmeas de Nova 
York (Sader, 2003). Tal consolidação instituiu o que foi denominado de guerra 
infinita contra o terrorismo, a qual passou a ser conhecida como guerra assimé‑
trica, devido à imprevisibilidade dos atos de terror (Sader, 2003, p. 31). E, a 
partir de então, os pobres, tidos como empecilhos e potenciais agressores a uma 
sociedade pautada pelo ideárioda acumulação incessante de lucro e riqueza, 
graças	à	mecânica	exploração	do	trabalho	humano,	deveriam	sofrer	o	seguinte	
enquadramento: trabalhar para prover o seu autossustento ou ser criminalizados. 
Esta é a lição ou a ética capitalista da “responsabilidade”, atualmente em voga, 
a qual expressa, segundo Dean (2007), o triunfo do princípio da obrigação do 
indivíduo pelo seu próprio bem‑estar sobre o direito de ser assistido; ou o que 
pode ser descrito como retração da responsabilidade pública para com as ne‑
cessidades dos cidadãos.
de 240 milhões de garrafas a serem vendidas, em 1950, houve objeções veementes — incentivadas, mas não 
orquestradas, pelos comunistas, que se limitavam a advertir que os serviços de distribuição da Coca‑Cola 
funcionariam também como rede de espionagem norte‑americana”. Porém, cabe informar que, a despeito das 
resistências francesas à “coca‑colonização”, havia, na Europa, de modo geral, noções comuns (à direita e à 
esquerda) a respeito das evidentes ambições imperialistas por trás da expansão cultural de seus produtos, que 
iam	dos	filmes	de	bang‑bang a refrigerantes. 
453Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014
Incremento do processo de criminalização da pobreza e de afrontas aos 
direitos humanos
Como era previsível, o crescimento de crimes cometidos contra segmentos 
sociais desprotegidos, para além das fronteiras dos Estados Unidos, não se fez 
tardar. Porém, parafraseando Dean (2007), considera‑se que a proliferação da 
violência expressa nesse crescimento, atingindo países periféricos como o 
Brasil, se deu de forma incremental e não abrupta. Além disso, a expansão 
progressiva do capitalismo em busca de lucros crescentes não criou novas fór‑
mulas	de	destruição	da	natureza	e	da	vida	humana,	mas	renovou	e	intensificou	
as de sempre.
Dados veiculados pelo Relatório Anual da Anistia Internacional, de 2009, 
revelam que, no bojo da crise sistêmica e estrutural do capital, ressaltam a se‑
guinte realidade: em 2008, 81 países restringiram a liberdade de expressão em 
seu território; 78% das execuções ocorreram em países do G‑20;7 27 países 
negaram asilo a pessoas que poderiam morrer se voltassem para sua terra de 
origem; e, em 47% dos países do G‑20, pessoas sofreram julgamentos injustos. 
Ainda de acordo com o referido Relatório, o mundo está passando por uma 
grave e preocupante crise de direitos humanos, que não tem explicação em si 
mesma, mas faz parte de uma situação calamitosa de desigualdade e inseguran‑
ça sociais prestes a explodir.
As agressões aos direitos humanos são também praticadas por setores da 
sociedade contra cidadãos (nativos ou estrangeiros), e entre concidadãos, mo‑
tivados por preconceitos de classe; ódios raciais, religiosos, ideológicos; into‑
lerâncias	 a	 opções	 sexuais;	 recrudescimento	 de	 nacionalismos,	 xenofobias,	
separatismos; moralismos, superexploração do trabalho e criminalização da 
pobreza (Alves, 2005).
Vários estudos, como os de Wacquant, indicam a prevalência contempo‑
rânea	de	um	“Estado	penal”	que,	rejeitando	a	ética	da	proteção	social,	crimina‑
7. O Grupo dos 20 é formado por representantes governamentais, geralmente ministros das Finanças, 
e banqueiros das dezenove maiores economias mundiais, mais a União Europeia (UE). Esta, por sua vez, é 
formada por 28 países que se uniram para realizar parcerias econômicas e políticas. 
454 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014
liza e pune os pobres, os diferentes, os desiguais, os estranhos, que não conse‑
guiram se colocar acima ou à parte do vasto sistema de insegurança social 
capitalista. Nesse sistema, pontua Wacquant, referindo‑se à América do Norte, 
só escapa “a alta nobreza das empresas e do Estado” (2006, p. 24), o que reve‑
la o paroxismo a que chegou a divisão de classes numa época em que muitos 
acreditam não mais existir classes sociais.
Efetivamente, sob a égide do Estado penal, as políticas de enfrentamen‑
to à pobreza e à desigualdade social tornaram‑se antissociais (Pereira‑Perei‑
ra, 2009). E, como tal, desincumbiram‑se de quaisquer responsabilidades que 
possam caracterizar deveres do Estado e direitos dos cidadãos. Pautadas por 
uma ortodoxia moralista burguesa, que contrapõe o mérito ao direito e a 
autorresponsabilização individual à proteção social pública, tais políticas 
— a despeito de se manter contraditórias e, por isso, passíveis de reversões 
— têm apenado a quem mais delas precisam — os cidadãos que vivem do 
seu trabalho — e privilegiado os interesses do capital. É o que será discutido 
a seguir.
Tendências regressivas da política social sob a égide do Estado penal: da 
idade de ouro à idade de bronze
Se entre os anos 1945 e 1975 as políticas sociais das chamadas democra‑
cias ocidentais conheceram uma “fase de ouro”, que lhes permitiu realizar, 
mediante intervenções públicas, melhorias nas condições de vida e de trabalho 
de considerável parcela da população, a partir dos anos 1980 tais políticas in‑
gressaram em outra fase: a de “prata” (Moreno, 2012). Esta começou a romper 
com a responsabilidade democrática da “idade de ouro” anterior, que prestigia‑
va os direitos humanos.
O primeiro grande passo nessa direção foi o desmonte do amplo consen‑
so interclassista, estabelecido após a Segunda Guerra Mundial, em torno da 
proteção	social	pública.	E	isso	ocorreu	no	contexto	da	crise	capitalista	do	final	
dos anos 1970 que, a par de produzir o esgotamento do modelo econômico 
keynesiano‑fordista, sustentáculo do Estado social, expandiu a ideologia 
455Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014
neoliberal estadunidense para a Europa e demais países desenvolvidos, a 
começar pela Grã‑Bretanha. Tal expansão exigiu a adoção de políticas eco‑
nômicas e sociais ortodoxas, que pregavam: cortes nos gastos sociais, retração 
da	intervenção	pública,	ênfase	no	controle	da	inflação,	forte	disciplina	finan‑
ceira e enfraquecimento dos movimentos e organizações trabalhistas ( Moreno, 
2012, p. 20).
Embora essas políticas não tenham se disseminado uniformemente e nem 
rendido ativos políticos homogêneos aos diferentes governos nacionais que 
as promoveram, é fato que, onde quer que elas tenham se realizado, os direi‑
tos humanos perderam força. Coerentemente, “uma inédita aversão à inter‑
venção estatal” (Moreno, 2012, p. 21) foi se robustecendo, no mesmo passo 
em que uma fé fundamentalista no trabalho assalariado e na capacidade do 
mercado	(inclusive	o	financeiro)	de	gerir	a	vida	econômica	e	social	se	trans‑
formou em dogma.
Em	vista	disso,	as	teses	neoliberais,	enaltecedoras	“da	eficiência,	da	cria‑
tividade e da inovação mercantis” (Idem) ressuscitaram antigas doutrinas eco‑
nômicas, como as de Schumpeter, que postulava, entre outras orientações, a 
destruição criadora e a emergência de empresários audaciosos (Jessop, 2013). 
Além do mais, a fé fundamentalista e suas teses, consolidadas no chamado 
Consenso de Washington, de 1989, fortaleceram a convicção neoliberal de 
substituir o keynesianismo pelo monetarismo.
Foi sob a batuta monetarista que a “idade de prata” da política social 
ganhou consistência e, conforme Moreno (2012), sucumbiu aos ditames do 
mercado. Desde então, tal política convive com o desmonte gradativo dos 
direitos humanos, principalmente os sociais; a privatização de bens e serviços 
sociais; o enaltecimento do trabalho assalariado, remunerado ou autorrentável, 
como	o	meio	mais	digno	e	eficaz	de	enfrentamento	da	pobreza;	e	a	sua	foca‑
lização na pobreza extrema, sob a mais estreita forma de “alívio” (relief) as‑
sistencial.	Paralelamente,	verificou-se	o	esvaziamento	da	atribuição	primordial	
dessa política, que é a de concretizar direitos sociais, e o culto à meritocracia; 
isto	é,	ocorreu	a	reificação	de	uma	prática	que,	ao	mesmo	tempo	em	que	ne‑
gava ao pobre a proteção social pública, o submetiaao teste seletivo do mere‑
cimento, que, a despeito de se considerar imparcial e moralmente defensável, 
456 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014
pautava‑se pelos princípios da hierarquia e da competição. Logo, em vez de 
direitos, tais políticas passaram a operar mecanismos de triagem entre quem 
merecia ou não ter as suas necessidades “aliviadas” pelo Estado, sendo que 
mérito, neste caso, tinha sabor de demérito, visto que o merecedor era tido 
como fracassado.
Tem-se,	assim,	uma	flagrante	sucumbência	da	política	social	aos	impera‑
tivos do mercado, a qual pode ser sucintamente descrita como uma drástica 
guinada para a extrema‑direita das suas características social‑democratas, vi‑
gentes entre os anos 1945 e 1975. É por isso que se diz que a política social 
contemporânea,	além	de	se	ter	tornado	“de	direita”	e	se	colocado	mais	a	servi‑
ço das necessidades do capital do que das necessidades sociais (Gough, 2003), 
está sendo impedida de concretizar direitos sociais — estes sim uma relevante 
conquista civilizatória nos limites do capitalismo. E esse fato, evidentemente, 
constitui a maior tragédia para as parcelas mais desprotegidas da sociedade 
porque,	sem	direitos	assegurados,	elas	ficam	sem	salvaguardas.
Desde então, tornou‑se compulsória uma prática moralista de ativar os 
pobres para o mercado de trabalho, ou para atividades autossustentáveis, por 
meio das quais poderiam obter renda para sobreviver e “comprar” benefícios 
e serviços sociais que antes o Estado tinha o dever de distribuir, incondi‑
cionalmente.
Cristalizou‑se, desse modo e à margem dos direitos de cidadania, o prin‑
cípio da autorresponsabilização, já referido, o que em outras palavras quer 
dizer: autonomia econômica dos indivíduos por meio de sua inclusão ativada 
pelo Estado nos precários circuitos empregatícios disponíveis (Siis, 2012).
Com base nesse princípio — que não é novo e remonta à famigerada Lei 
dos	Pobres	inglesa,	instituída	pelos	liberais	no	século	XIX	—,	reafirma-se	a	
ideologia liberal de que “todos devem ser considerados responsáveis tanto pela 
sua pobreza quanto pelo seu comportamento” (Sader, 2003, p. 44); e, portanto, 
a pobreza não deve ser utilizada para desculpar erros ou crimes cometidos pelos 
seus portadores.
Tal tendência se agravou ainda mais com o passar do tempo. No início dos 
anos 2000, a legitimação da política social como ação punitiva da pobreza fa‑
cilitou a sua entrada na chamada “idade de bronze”, de acordo com Moreno 
457Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014
(2012), na trilha do processo de agudização da crise capitalista global e sistê‑
mica, em 2008.
Mas antes de tecer comentários sobre essa última fase de decadência da 
política	social,	convém	trazer	à	tona	os	ataques	de	filiação	pós-moderna	que,	
em	consonância	com	o	ideário	de	uma	“nova	direita”8 emergente, foram des‑
feridos contra a pretensão dessa política de ser uma área de conhecimento. 
Assim, se no seu período de ouro tal política teve algum estofo teórico, agora 
o	seu	perfil	é	outro.	Ela	vem	sendo	obrigada	a	restringir-se	a	uma	ação	que,	
como tudo o que se baseia em dogmas, palavras de ordem e ideias preconce‑
bidas, recusa a teoria como recurso necessário a um processo de conhecimen‑
to que transcende o senso comum e especulações intuitivas. Daí a reiteração 
do entendimento, estrategicamente difundido, de que a teoria, no campo da 
política social, é um luxo intelectual, e não uma necessidade (Bruyne, Herman 
e Schoutheete, 1977, p. 101). Ou daí o prevalecimento de posturas acríticas e 
miméticas, adeptas do pragmatismo pós‑moderno, que produzem indagações 
como essas (Sader, 2003, p. 13): “Para que teoria, se os índices do mercado 
afirmam	o	que	é	e	o	que	pode	ser	feito;	o	que	vale	a	pena	e	o	que	não	adianta;	
o que é bom, bonito e legítimo?”. Ou, então: para que servem as grandes nar‑
rações teóricas, típicas da era moderna, se estamos vivendo em outra era, a 
pós‑moderna, que se contenta com o conhecimento de pequeno porte, ou com 
o que o noticiário da televisão e os colunistas econômicos divulgam? (Sader, 
2003; Boron, 2001).
Não admira que, em meio a essas mudanças, e certamente por causa delas, 
a pobreza, que teima em crescer até nas cidades vitrines do chamado Primeiro 
Mundo, como Nova York, Londres, Paris, seja considerada um delito ou um 
símbolo da barbárie terceiro‑mundista, que ofende a civilização capitalista. Por 
isso, a pobreza passou a servir de álibi ao controle punitivo, seja por meio da 
repressão policial saneadora, seja por meio da educação corretora e adestrado‑
ra para o trabalho impositivo (o workfare), que vem se tornando a forma privi‑
legiada de “inclusão excludente” (Martins, 1997) na atual idade de bronze da 
política social.
8. Fusão de neoliberais e neoconservadores. 
458 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014
Motivos e práticas da atuação crescentemente perversa da política social
Segundo Sader (2003, p. 41), depois do atentado às torres gêmeas de Nova 
York, os Estados Unidos, nas suas relações internacionais, sepultaram antigos 
conceitos políticos como “dissuasão”, “contenção”, “aliança”, “ajuda interna‑
cional”, “relações entre Estados fortes e fracos”. Em compensação, surgiu não 
só	uma	nova	linguagem,	mas	também	uma	nova	filosofia	de	regulação	social,	
acompanhada	de	uma	crítica	radical	ao	Estado	social	e	de	uma	firme	condena‑
ção dos direitos sociais. E isso não só em relação às pessoas pobres, mas também 
a países e continentes inteiros, terceiro‑mundistas.
Acreditando	ser	missão	sua	travar	uma	guerra	infinita	entre	a	civilização 
e a barbárie, e	identificando	a	pobreza	com	o	caldo	cultural	desta	última,	nada	
mais natural do que utilizar a política social e particularmente a assistência como 
um dentre outros instrumentos estratégicos nessa guerra.
Isso explica a maior ênfase nos projetos correcionais do que sociais; e mais 
empenho no fomento de medidas que despertem a consciência de cada um 
acerca de seus atos, do que no resgate social da miséria e do abandono (Sader, 
2003) a que muitos condenados pelo sistema estão sujeitos. E, como corolário, 
tem sido incentivada a substituição do bem‑estar como direito (Welfare) pelo 
bem‑estar em troca de trabalho (workfare) que, de regra, se confunde com sa‑
crifícios e expiações de culpas morais.
Esta tem sido a ortodoxia do momento, na qual, como nunca, a relação 
entre política social e ética capitalista do trabalho se tornou visceral. Acossada 
por uma feroz competição, a política social tem sido instada a deixar de ser 
“passiva” para ser “ativa” pela via da indução dos demandantes da proteção 
social pública para o exercício de atividades econômicas. Assim, ainda que tal 
transição se apresente como uma espécie de proteção ao desemprego estrutural 
e massivo que, desde os anos 1970, se tornou um dos maiores fantasmas dos 
países capitalistas centrais, ela é francamente funcional à política econômica 
geral. Seus efeitos sobre a legitimidade do trabalho assalariado como fator 
primaz de produção, de valorização do capital e de reprodução social da força 
de	trabalho	são	evidentes,	assim	como	se	torna	clara	a	importância	desses	efei‑
tos para o fortalecimento do credo neoliberal de que o mercado de trabalho 
459Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014
seria	o	melhor	agente	de	bem-estar	dos	indivíduos.	Afinal,	não	se	pode	esquecer	
que	é	a	exploração	do	trabalho,	por	meio	do	mercado	laboral,	e	não	a	eficiência	
pura e simples deste mercado, que garante o crescimento capitalista.
Consequentemente, o direito à proteção contra os abusos do trabalho as‑
salariado tem se esvanecido porque a conquista do trabalho em si, ou como 
simples meio de obtenção de rendimentos econômicos, tornou‑se essencial. 
Poder trabalhar, em conformidade com a lógica capitalista, inclusivena con‑
cepção de setores ditos progressistas, transformou‑se no melhor ganho político 
e maior “direito de cidadania” conquistado pelos que foram obrigados a depen‑
der das políticas passivas de bem‑estar social (leia‑se incondicionais). Essa é a 
ilusão de corte schumpeteriano, num primeiro momento de predomínio do 
modelo monetarista de desenvolvimento capitalista, e de corte ricardiano (tri‑
butário da economia política clássica) da atual idade de bronze da política social, 
cujo lema é o bem‑estar humano por meio do trabalho remunerado; ou do que 
foi concebido nos Estados Unidos desde os anos 1970, que é a substituição 
progressiva e perversa do Welfare pelo workfare. 
Embora	seja	difícil	definir	o	workfare, este pode ser descrito, segundo 
Gough (2000), como um contraponto à política social incondicional e como 
direito. Constitui uma política compatível com um tipo de intervenção social 
requerido por uma economia capitalista internacionalizada, de última geração, 
preponderantemente	baseada	no	conhecimento	e	na	financeirização	(Jessop,	
2013). Tais formas de funcionamento econômico tem sido associadas a Schum‑
peter e a David Ricardo porque, no que se refere ao primeiro, elas privilegiam 
o conhecimento de ponta, o empreendimento audaz, o empoderamento e a 
autossuficiência	em	relação	ao	Estado.	Em	vista	disso,	as	pressões	estruturais	
e políticas para desmantelar direitos, reduzir salários e diminuir gastos sociais 
são enormes, o que induz ao prevalecimento de medidas sociais ativadoras de 
mecanismos que reforcem a rentabilidade econômica. A privatização e a mo‑
netarização dos programas sociais, atualmente em voga, são exemplos elo‑
quentes dessa indução. Mas é a associação das políticas sociais atuais às teorias 
ricardianas que caracterizam a idade de bronze dessas políticas. Nessa asso‑
ciação — cabe ressaltar com base em Jessop (2013) —, transparece a adequa‑
ção	das	políticas	 sociais	 à	 contemporânea	 forma	de	acumulação	capitalista	
460 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014
ancorada	nas	finanças	—	e	não	só	no	domínio	do	conhecimento.	Sendo	Ri‑
cardo o teórico do comércio internacional e defensor da exploração do fator 
de produção mais barato e abundante (o trabalho), é nele que a ética capita‑
lista corrente vem se inspirando. E, consequentemente, a ruptura com os di‑
reitos sociais (agora chamados apenas de entitlements) tem radicalizado no 
rebaixamento	dos	salários,	na	flexibilidade	do	mercado	e	na	diminuição	dos	
custos sociais do Estado. Trata‑se, em suma, do aprofundamento mais acen‑
tuado dos mandamentos neoliberais do livre mercado e da competitividade 
privada, que se traduzem nas seguintes tendências de extração ricardiana: 
desregulação, tanto do mercado para liberar a competição, quanto dos orde‑
namentos legais e do controle dos Estados nacionais; privatização do setor 
público; residualização e focalização da política social com o objetivo de criar 
condições favoráveis à generalização de uma cultura mercantilista; interna‑
cionalização da economia interna para evitar incompatibilidades com os 
fluxos	econômicos	mundiais,	precaução	contra	pressões	competitivas	e,	su‑
postamente,	propiciar	o	aprendizado	de	boas	práticas	comerciais	e	financeiras;	
e estímulo ao consumismo.
É nessa conjuntura que as políticas sociais, especialmente a assistência, 
tornaram‑se reféns da prédica da ativação e do workfare. E, como tal, se con‑
verteram em estratégias complementares de exploração econômica ricardiana 
do trabalho, considerado este na sua mais bitolada expressão de insumo‑chave 
ou mero fator de produção a serviço da reprodução do capital (Jessop, 2013).
Eis por que o primeiro compromisso da política de assistência social, 
transvertida em alívio, passou a ser com o trabalho (seja ele qual for), e não 
com o atendimento de legítimas necessidades do trabalhador; e, consequen‑
temente, ela não mais funciona como um um colchão de segurança capaz de 
impedir que as pessoas pobres se afundem na miséria. Ademais, o workfare 
transforma a assistência social num trampolim que serve apenas para lançar 
o pobre para fora da sua órbita em direção ao mundo do mercado, onde o 
trabalho	 é	 desprotegido,	 precário	 e	 flexível.	 Em	 alguns	 casos,	 o	workfare 
prevê	educação	e	treinamento	para	tornar	laboriosos	os	beneficiários	da	as‑
sistência social, mas esse expediente faz parte do processo de ativação para 
mercado de trabalho.
461Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014
Nos Estados Unidos, onde o workfare foi concebido, ele tem relação di‑
reta com o conceito de subclasse (underclasses),	para	 identificar	desvios	de	
comportamento ou uma cultura da dependência	específica	dos	pobres,	enquan‑
to na Europa, o workfare tem como referência o conceito de exclusão social 
(Barbier, 2008). Mas em ambas as concepções percebe‑se que, a despeito de 
algumas diferenciações, eles se distanciam da tradição de análise crítica do 
sistema que produz a pobreza. A esse respeito, Gough (2000) assinala que tais 
conceitos expressam um evidente afastamento da análise de tradição marxista, 
que se centra na categoria classe social;	e,	para	ressaltar	a	estreita	identificação	
funcionalista desses conceitos, de raiz durkheimiana, Gough lembra que nem 
o mesmo a categoria status, tributária de Max Weber, é levada em conta. São 
as categorias anomia, integração, solidariedade, tomadas de empréstimo de 
Émile Durkheim, que estão em alta.
As desventuras dos direitos humanos
As implicações das mudanças regressivas das políticas sociais para os 
direitos humanos têm sido desastrosas e bem conhecidas por aqueles que con‑
seguem enxergar para além da aparência. Todavia, vale listar os principais 
óbices que essas mudanças vêm impondo a esses direitos nas suas três dimensões: 
civil, política e social (incluindo‑se na dimensão social os chamados direitos 
difusos).
Começando	pelos	direitos	sociais,	cabe	ressaltar	que,	sob	o	influxo	da	
globalização neoliberal, pós‑moderna e “pelo alto”, como denomina Otávio 
Ianni (2004), e das aceleradas inovações tecnológicas que requerem menor 
quantidade de mão de obra — a despeito da ênfase nas políticas de ativação 
para o trabalho — 2/3 da população mundial continuam drasticamente atin‑
gidos pelo desemprego e insegurança social. Isso quer dizer que apenas 1/3 
dos habitantes do planeta foi, e está sendo, contemplado pelos benefícios 
dessa globalização ou pela oferta de bens, serviços, conhecimentos e infor‑
mações que ela propicia via mercado — mas sem que esse 1/3 esteja livre da 
possibilidade	de	marginalização.	Isto	porque	a	busca	obsessiva	de	eficiência	
462 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014
e lucratividade neoliberal, por meio de feroz competitividade, só faz aumen‑
tar os números dos descartáveis. E, nesse processo, os pobres, seja de que 
lugar for, são, pela sua própria condição de classe, irremediavelmente tragados 
pelo chamado “darwinismo social”, isto é, pela atitude expressa no ditado 
popular de que “quem for pobre que se quebre”, ou aos vencedores o apoio e 
aos perdedores o extermínio.
Diante dessa tendência, a política social deixou de ser universal para se 
tornar focalizada na indigência, com toda gama de atentados aos direitos sociais 
que	essa	orientação	provoca.	Nessas	circunstâncias,	ocorre	o	seguinte	círculo	
vicioso: o desmonte dos direitos sociais tem como consequência a quebra do 
protagonismo	do	Estado	na	provisão	e	na	garantia	da	política	social,	ficando	
essa provisão por conta do mercado e das organizações da sociedade civil, que 
não têm poderes para garantir direitos. Mas isso, como diz Alves (2005), longe 
de produzir sentimentos de solidariedade, gera divisões.
Em sociedades em que predominam abismos sociais e em que o Estado 
não está mais incumbido de implementar políticas redistributivas e instituirprincípios de justiça social, “as classes abastadas se isolam em sistemas de 
segurança privada” (Alves, 2005, p. 27); e a população cobra dos legisladores 
diminuição	da	idade	penal	de	adolescentes	em	conflito	com	a	lei	e	penas	au‑
mentadas	para	os	crimes	comuns,	aprofundando	intolerâncias	sociais	preexis‑
tentes. Com isso, agridem‑se, também os direitos civis.
No Brasil os direitos civis possuem uma história notória de violações. 
Primeiro, porque eles não funcionam nas ditaduras, e o país já experimentou 
dois longos períodos de regime ditatorial cujas marcas ainda estão presentes. 
Nestes casos, a liberdade de ir e vir, de expressão, de imprensa, de organiza‑
ção, de pensamento e de acesso a justiça, é cerceada. Segundo, porque quan‑
do essas liberdades são restabelecidas, durante os períodos denominados de 
redemocratização, a população não mais acredita nas instituições ou tem medo 
delas. Na última e atual experiência de redemocratização do país, a Consti‑
tuição federal, promulgada em 1988, resgatou os direitos civis e inovou ao 
criar outros direitos, como o de habeas data, com base no qual “qualquer 
pessoa pode exigir do governo o acesso a informações sobre si, existentes 
nos	registros	públicos,	mesmo	as	de	caráter	confidencial”	(Carvalho,	2001,	
463Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014
p. 209); e o mandado de injunção, “pelo qual se pode recorrer à Justiça para 
exigir o cumprimento de dispositivos constitucionais ainda não regulamenta‑
dos” (Idem).
Além	disso,	a	referida	Carta	Magna	definiu	o	racismo	e	a	tortura	como	
crimes	inafiançáveis	e	previu	a	defesa	do	consumidor.	Foi	nesse	contexto	que	
também foram criados o Programa Nacional dos Direitos Humanos e os Jui‑
zados Especiais de pequenas causas cíveis e criminais, para tornar a justiça 
mais	acessível	(Carvalho,	2001).	Isso	significou	inovações	legais	e	institucio‑
nais importantes, mas que, na prática, encontram severas limitações. A falta 
de garantias desses direitos no que concerne à segurança individual, à integri‑
dade física e ao acesso à justiça responde pela grande abstinência no uso 
desses recursos legais, seja porque o interessado não quer contato com a polí‑
cia, seja porque a justiça é lenta, cara e seletiva. Poucos são os crimes de ho‑
micídio verdadeiramente investigados, principalmente se a vítima for pobre 
ou anônima. 
Por outro lado, a descrença no sistema político e nos políticos em si tem 
desestimulado o exercício dos direitos políticos por parte de grande parcela da 
população. Assim, apesar de a Constituição federal de 1988 ter inovado também 
neste	âmbito,	facultando	o	voto	ao	analfabeto	e	ao	jovem	a	partir	dos	dezesseis	
anos de idade, muitos eleitores quando não votam por obrigação, quase sempre 
votam contra alguém ou por protesto (Carvalho, 2001). Com isso, agridem‑se 
os direitos políticos conquistados a duras penas pelos movimentos democráticos 
e, correlativamente, agridem‑se os demais tipos de direitos.
Recentemente, ganharam visibilidade os chamados direitos difusos, que, 
para vários analistas, são extensões dos direitos sociais num mundo globaliza‑
do	e	tecnologicamente	avançado	(Pisón,	1998).	Tais	direitos	refletem	ainda	as	
novas realidades que afetam o planeta e as transformações globais, requerendo 
solidariedades e entendimentos entre os seres humanos, como: o direito à paz, 
ao meio ambiente saudável, à autodeterminação dos povos, à preservação cul‑
tural da humanidade. Estes são direitos que interpelam o individualismo neoli‑
beral	e	as	fragmentações	pós-modernas,	ao	tempo	em	que	desafiam	governos	e	
sociedades a encontrarem saídas supranacionais, mesmo que regionalizadas, 
para o seu enfrentamento.
464 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014
É nesse ambiente repleto de contradições que a política social se encontra 
e	precisa	voltar	a	estabelecer	vínculos	orgânicos	com	a	cidadania	para	que	in‑
clusive	se	justifique	como	social. Mas para que isso aconteça faz‑se necessária 
a construção de um projeto contra‑hegemônico pelas forças sociais que acredi‑
tam ser possível construir outro mundo e que nem tudo está perdido.
Ponderações finais
Um sintoma de que nem tudo está perdido no campo dos direitos e, por‑
tanto, desperta esperanças, é o fato, assinalado por Alves, de o discurso dos 
direitos humanos permanecer vivo e cada vez mais extenso e conhecido. No 
curso de seus cinquenta e poucos anos de existência, diz ele, esses direitos 
ganharam aperfeiçoamentos em meio a velhas e novas violações. Inicialmente 
declarados como direitos do “homem”, passaram a se denominar direitos “hu‑
manos” para indicar que também as mulheres estavam contempladas. A palavra 
“universal”, que compõe seu título original, ganhou, em 1993, foro de concei‑
to quando, na Conferência de Viena, tais direitos tiveram como apoiadores 
“representantes de todas as grandes culturas, religiões e sistemas sociopolíticos, 
com delegações de todos os países de um mundo já praticamente sem colônias” 
(2005, p. 25).
Disso se conclui que os direitos humanos declarados universalmente e 
apoiados extensivamente por culturas variadas não perderem prestígio. O pro‑
blema é a sua aplicação como um recurso progressista a serviço dos desprovidos 
de	bens	materiais	e	de	poder.	Este	é	o	desafio	do	presente	que	interpela	o	futu‑
ro	e	compromete	todos.	E	mais:	exige	que	se	desmitifique	a	matriz	das	desven‑
turas desses direitos: os Estados Unidos legitimado como baluarte mundial da 
democracia e da paz social.
Para tanto é preciso ter claro que este é, pelo contrário, um país de profun‑
das	incoerências	e	mistificações.	É	um	país	que	se	apresenta	como	o	paladino	
da paz, mas que foi o que mais guerreou, que se coloca em uma luta antinuclear, 
mas obsta planos de países que querem apenas ampliar a sua capacidade ener‑
gética. Além disso, foi o único país que realmente fez uso desses explosivos 
465Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014
(em duas ocasiões), dizimando centenas de milhares de vidas inocentes, sob o 
ingênuo (para dizer o mínimo) pretexto de que seria para poupar a vida de 
soldados americanos e japoneses. Um país que historicamente apoiou e ainda 
apoia regimes autoritários. Uma nação que iniciou uma guerra “permanente” e 
“infinita”	ao	terror,	quando	foi,	e	ainda	é,	a	que	mais	praticou	e	pratica	atos	
globais de terrorismo.
Enfim,	pode-se	dizer	que	o	regime	de	Estado-padrão	dos	Estados	Unidos,	
desde a Primeira Guerra Mundial, é o do warfare — um constante estado de 
conflitos	e	guerras	ao	redor	do	mundo,	como	princípio	básico	de	manutenção	
do seu modo capitalista de produção, assentado em um colossal complexo in‑
dustrial‑militar. Sobre essa sua característica particular repousa outra contradi‑
ção fundamental, que é o da não intervenção estatal: os Estados Unidos são um 
país que sempre pregou a não intervenção do Estado em assuntos pertinentes 
ao mercado. Entretanto, o esforço e o dinheiro empregados pelos seus governos 
no fortalecimento do seu modelo capitalista causaria acanhamento ao mais 
totalitário dos Estados.
Trata‑se, na verdade, de um país (os Estados Unidos) capaz de, literalmen‑
te, matar para conseguir manter os patamares mínimos de lucratividade de sua 
indústria. É um país que erigiu, como já salientado, o maior complexo industrial‑
‑militar que o mundo já viu, composto de uma formidável rede de empresas, 
indústrias militares e de inteligência, que existem para salvaguardar os interes‑
ses de suas megacorporações e de seus negócios. Na cabeça desse enorme 
“polvo”, com seus tentáculos espalhados pelo globo, estão os principais nomes 
do	 sistema	financeiro,	midiático,	 industrial	 e	 energético	 estadunidense.	E	 o	
principal	financiador	e	“chanceler”	desse	intrincado	sistema	é	ninguém	menos	
do que o próprio Estado, mesmo que a custa de um colossal endividamento 
público e do desmontedos direitos de cidadania em larga escala.
Recebido em 8/5/2014 ■ Aprovado em 2/6/2014
466 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 446-467, jul./set. 2014
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Reflexões sobre liberdade e (in)tolerância*
Reflections upon freedom and (in)tolerance
Maria Lucia S. Barroco**
Não se pode tolerar o intolerável. Pode‑se, con‑
tudo, ser tolerante em relação a muita coisa, pode‑
‑se conviver com divergências e evitar “castigos”.
Leandro Konder
Resumo: Neste	texto,	refletimos	sobre	a	concepção	liberal	de	li‑
berdade sinalizando que seu individualismo leva a atitudes de intole‑
rância	frente	às	diferenças	sociais.	Em	contraposição,	resgatamos	o	
significado	ontológico-social	da	liberdade	que	supõe	a	sociabilidade,	
a alteridade e a equidade.
Palavras‑chave:	 Liberdade.	Tolerância.	 Intolerância.	Alteridade.	
Equidade.
Abstract: In this article, we discuss about the liberal conception of freedom, and we stress that its 
individualism leads to intolerant attitudes for social differences; on the other hand, we rescue the 
ontological and social meaning of freedom presupposing sociability, otherness and equity.
Keywords: Freedom. Tolerance. Intolerance. Otherness. Equity.
* Essa produção integra a pesquisa Neoconservadorismo e irracionalismo contemporâneo: fundamentos 
teóricos e manifestações ideoculturais, desenvolvida pela autora entre 2011‑2014, com o apoio do CNPq. 
**	Assistente	social,	professora	de	Ética	Profissional	e	coordenadora	do	Núcleo	de	Estudos	e	Pesquisa	
em Ética e Direitos Humanos (Nepedh) do Programa de Estudos Pós‑Graduados em ServiçoSocial da PUC‑SP, 
Brasil. E‑mail: barroco.lucia@gmail.com.
469Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014
Liberdade e individualismo: a exclusão do outro
A liberdade é um valor e uma categoria ético‑política construída historicamente	na	práxis	da	humanidade	e	configurada	teórica	e	ideologicamente de formas diferenciadas em cada momento his‑tórico particular.
Na emergência da sociedade moderna, a liberdade objetivou‑se como 
valor imanente, ocupando lugar de destaque no ideário da burguesia revolucio‑
nária,	em	seu	processo	de	ruptura	com	a	ordem	feudal,	na	produção	filosófica	
e na cultura humanista desenvolvida na Europa ocidental no período entre o 
Renascimento e a Revolução Francesa.
Nesse contexto, sua forma peculiar de objetivação teórico‑prática corres‑
pondeu	às	possibilidades	abertas	ao	indivíduo	pela	dinâmica	do	novo	modo	de	
produção. Superadas as formas limitadas da produção, os limites concretos da 
comunidade e das relações sociais feudais, com seus laços de dependência, o 
indivíduo emergiu como sujeito histórico capaz de decidir o seu destino.
Entretanto, a produção capitalista criou novos vínculos de dependência 
que se materializam a partir das relações de produção, determinando a institui‑
ção	de	uma	sociabilidade	mediada	pelo	mercado.	A	liberdade	passa	a	se	confi‑
gurar como sinônimo de autonomia dirigida à realização individual pela apro‑
priação privada de bens materiais e espirituais.
Esse modo de ser do indivíduo burguês, ou seja, esse ethos, tem uma base 
objetiva de sustentação fundada na forma de organização do modo de produção 
capitalista; atende às necessidades de reprodução dessa ordem social cuja di‑
nâmica	supõe	a	produção	incessante	e	universalizante	de	novas	mercadorias	e	
sua apropriação privada.
Cria‑se um modo de vida orientada para o consumo, a competitividade e 
o individualismo. Os indivíduos passam a valer enquanto proprietários de mer‑
cadorias e por isso são considerados legalmente iguais e livres. Os objetos 
materiais se expressam como qualidades humanas que, ao serem consumidas, 
passam	a	dar	sentido	à	existência,	e	o	próprio	indivíduo	passa	a	identificar	a	sua	
condição humana à condição de proprietário, consumidor. Para MacPherson, 
trata‑se da identidade do individualismo possessivo:
470 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014
O indivíduo numa sociedade de mercado possessivo é humano em sua qualidade 
de proprietário de sua própria pessoa; sua humanidade realmente depende de sua 
independência de quaisquer relacionamentos contratuais com outros, exceto os 
que são de seu interesse; sua sociabilidade realmente consiste de uma série de 
relações de mercado (MacPherson, 1979, p. 283).
Na medida em que cada indivíduose reconhece como livre, independente, 
proprietário potencial de bens e proprietário de si mesmo (de seus desejos, 
necessidades,	preferências),	sua	existência	passa	a	ter	como	finalidade	a	obje‑
tivação	de	sua	liberdade,	o	que	significa	a	plena	satisfação	de	seus	desejos	e	a	
instituição social de garantias de que sua autonomia não seja posta em risco. O 
Estado e a lei garantem que seus bens privados sejam invioláveis, cabendo à 
ideologia garantir a sua legitimação moral.
A ideologia dominante exerce a função de controle social extraeconômico 
ao	influir	nas	ideias	dos	homens	entre	si,	motivando-os	a	se	comportar	de	certo	
modo, valorado positivamente em função das necessidades de reprodução social 
da ordem burguesa. A moral se reproduz pelo hábito, pela repetição de normas 
e comportamentos de valor que moldam o comportamento dos indivíduos sin‑
gulares na vida cotidiana, constituindo‑se num campo favorável de reprodução 
da ideologia mercantil e da alienação.
Nesse sentido, para garantir a legitimidade da propriedade privada e a 
identidade do individualismo possessivo, são reproduzidas determinadas má‑
ximas que funcionam como normas de convivência, visando à regulação do 
comportamento dos indivíduos em sua convivência social. Dentre elas, destaca‑
-se	a	máxima	que	afirma	que	“a	sua	 liberdade	termina	quando	começa	a	do	
outro”. Ocultando a realidade ao invocar a proteção da liberdade de todos, ou 
seja, do “bem comum”, difunde a falsa ideia de que a delimitação do espaço de 
liberdade de cada um equivale a uma atitude de respeito mútuo.
(In)tolerância: a face oculta da liberdade burguesa
Em	geral,	costuma-se	definir	tolerância	como	uma	relação	social	que	supõe	
a existência de alguma diferença aceita como um direito: o direito de ser dife‑
471Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014
rente.	Entretanto,	alguns	autores	discordam	do	próprio	uso	do	termo	tolerância	
para retratar essa relação social. Jacquard, por exemplo, chama a atenção para 
não	confundirmos	respeito	com	tolerância,	uma	vez	que	“a	tolerância	é	uma	
atitude muito ambígua (para isso, existem casas..., dizia Claudel). Tolerar é 
julgar‑se em condições de dominar, julgar; é ter de si mesmo um conceito o 
bastante positivo para aceitar o outro com todos os seus defeitos” (Jacquard, 
1997, p. 4).
O	autor	propõe	substituir	tolerância	por	alteridade	“é	necessário	tomar	um	
rumo completamente diferente e tomar consciência da contribuição dos outros, 
que se torna tanto mais rica quanto maior for a diferença em relação consigo 
mesmo” (Idem).
Para	Cortella,	o	uso	corrente	do	termo	tolerância	é	problemático:
[...]	Eu	venho	me	rebelando	há	certo	tempo	contra	a	palavra	“tolerância”	[...]	acho	
que	a	palavra	“tolerância”	produz	quase	um	sequestro	semântico,	pois	quando	
alguém a usa está querendo dizer que suporta	o	outro.	Afinal	tolerar	é	suportar	
[...] Eu o suporto, aguento. Você não é como eu, aceito isso, mas continuo sendo 
eu mesmo. Não quero ter contato, só respeito a sua individualidade. Em vez de 
utilizar	 a	 palavra	 “tolerância”,	 tenho	preferido	 outra:	 “acolhimento”.	Há	uma	
diferença entre tolerar que você não tenha as mesmas convicções que eu — sejam 
religiosas, políticas ou outras — e acolher suas convicções. Porque acolher sig‑
nifica	que	eu	recebo	na	qualidade	de	alguém	como	eu.	(Cortella,	2005,	p.	28-29)
Em qualquer caso, seja com o uso do termo ou substituindo‑o por outro, 
trata‑se sempre de uma relação social mediada pela presença e aceitação de uma 
diferença. Para Vázquez, não basta a existência da diferença (convicções, pre‑
ferências, modos de vida etc.); é preciso que ela seja consciente, isto é, que seja 
reconhecida	como	tal	e	que	nos	afete	de	alguma	forma,	ou	seja,	que	não	fique‑
mos indiferentes a ela (Vázquez, 1999, p. 115).
Esse	reconhecimento	não	significa	concordar	com	as	opções	do	outro;	
não	 significa	nem	 tentar	mudar	o	modo	de	 ser	do	 sujeito	 tolerante	nem	do	
outro;	 significa	 aceitar	 o	 direito	 do	 outro	 a	 ser	 diferente	 com	 suas	 opções.	
Portanto,	 não	 existe	 consenso	 na	 tolerância;	 somente	 o	 dissenso	 reclama	 a	
tolerância	(Idem).
472 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014
Na	intolerância,	também	ocorre	uma	relação	social	em	que	um	dos	sujei‑
tos (ou um grupo, uma classe social etc.) é diferente ou faz algo diferente, e isso 
nos	atinge.	Porém	nossa	reação	é	oposta	à	da	tolerância;	aqui,	diante	das	dife‑
renças, assumimos atitudes destrutivas, fanáticas, racistas, reacionárias. A di‑
ferença é negada; mais do que isso, buscamos destruí‑la, excluir a identidade 
do	outro	por	meio	da	afirmação	da	nossa,	tomada	como	a	única	válida	(Idem,	
p. 116).
Assim,	 enquanto	 na	 tolerância	 a	 diferença	 é	 reconhecida	 e	 respeitada,	
embora	não	seja	compartilhada,	na	intolerância	a	identidade	do	outro	é	recha‑
çada	justamente	por	ser	diferente.	Enquanto	a	tolerância	exige	um	horizonte	de	
liberdade, uma reciprocidade objetivadora de relações de comum liberdade e 
igualdade,	a	intolerância	objetiva	uma	relação	assimétrica	em	que	somente	um	
é livre e quer impor a sua identidade ao outro (Idem, p. 117).
Voltamos	à	questão	da	liberdade	liberal,	expressa	na	máxima	que	define	
“a liberdade de um indivíduo termina onde começa a do outro” para considerar 
o seu caráter intolerante, manifesto no individualismo da sociedade burguesa. 
Em primeiro lugar, trata‑se de uma liberdade individualista que não suporta a 
presença do outro com suas escolhas e modos de vida. Por isso, essa máxima 
só ganha sentido quando divulgada ou reproduzida em situações em que dois 
ou mais indivíduos têm escolhas diferentes. Vê‑se, então, que a exclusão do 
outro se refere ao outro que se apresenta como diferente; mais do que excluir o 
outro, exclui‑se a possibilidade de convivência entre sujeitos que têm escolhas, 
preferências ou modos de vida diferentes. Sendo assim, além de individualista, 
trata‑se de uma norma de convivência intolerante.
A	intolerância	que	se	expressa	de	forma	tão	límpida	na	máxima	que	defi‑
ne a liberdade burguesa revela‑se cotidianamente no contexto neoconservador 
atual.	Parte	da	sociedade	finge	“tolerar”	as	escolhas	alheias	desde	que	elas	se	
objetivem fora do espaço de convivência pública, desde que não perturbem a 
ordem social e moral, desde que não demande um envolvimento com os seus 
sujeitos. Isso ocorre também em situações que não derivam de escolhas alheias, 
mas de determinações sociais que não fazem parte do universo daqueles que 
são intolerantes: “tolera‑se” a existência da pobreza desde que os pobres este‑
jam presos, longe do convívio social e dos espaços públicos frequentados pela 
473Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014
burguesia e pelas classes médias. É como lembrou o autor citado: as “casas de 
tolerância”	 foram	assim	chamadas	na	medida	 em	que	não	 se	podia	negar	 a	
existência de casas de prostituição e tratou‑se de garantir que elas se estabele‑
cessem nas periferias das cidades.
Marcuse	se	refere	a	uma	“falsa	tolerância”,	típica	da	sociedade	de	classes	
das democracias existentes no capitalismo; sociedades democráticas com orga‑
nizações totalitárias determinadas pela desigualdade institucionalizada. Nesse 
contexto	ocorre	uma	“tolerância”	falsa	e	repressiva,	especialmente	veiculada	
pela publicidade, pela propaganda e pelo controle ideológico que reprime o 
impulso à liberdade, passando a falsa ideia de imparcialidade do poder domi‑
nante (Marcuse, apud Vázquez, 1999, p. 119‑120).
A	intolerância	percorre	a	trajetória	da	humanidade,	destacando-se	a	reli‑
giosa e a étnica como dois grandes marcos da opressão e injustiça, a exemplo 
da escravidão, da Inquisição, dos genocídios. No Brasil, em pleno século XXI, 
práticas que remontam a um estágio histórico pré‑civilizatório têm se apresen‑
tado cotidianamente, desvelando um cenáriode barbárie intolerável, a exemplo 
do aumento de linchamentos, das práticas de “justiceiros” contra jovens infra‑
tores, das execuções sumárias realizadas pela polícia, da eliminação de grupos 
e populações indígenas, camponesas, quilombolas pelos latifundiários, entre 
outros.
A	intolerância	se	reproduz	ideologicamente	no	apoio	dado	a	essas	prá‑
ticas por parte da sociedade e de certos meios de comunicação, incitando a 
pena de morte, o rebaixamento da maioridade penal, o armamento da popu‑
lação e o uso da força pelo Estado, respaldadas por uma intelectualidade ir‑
racionalista de direita que encontra espaço para se promover em jornais, em 
programas de TV, em cursos, em publicações próprias. Os “outros”, os inimi‑
gos que impedem a liberdade da burguesia e das classes médias são os pobres, 
os favelados, os jovens moradores das periferias, os indígenas, os trabalha‑
dores do campo e da cidade, principalmente quando eles comparecem coleti‑
vamente nas ruas, nas praças, nos espaços de lazer, como os shoppings, entre 
outros. Para a intelectualidade de direita, “os outros” são as forças organiza‑
das de esquerda, os setores progressistas, os movimentos sociais, os militan‑
tes de direitos humanos.
474 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014
Esse processo de barbárie tem sido contestado por parte da sociedade, 
resultando nas inúmeras manifestações populares que se espraiam por todo o 
país desde junho de 2013. Organizando‑se em partidos, associações, movimen‑
tos sociais ou através dos meios virtuais, essa população comparece às passea‑
tas,	deflagra	greves,	para	o	trânsito	de	vias	públicas	e	estradas	em	repúdio	às	
ações de extermínio cometidas pela polícia nas favelas e periferias das cidades, 
denunciando a barbárie, reivindicando direitos e justiça social.
Trata‑se, portanto, da coexistência entre a prática da liberdade e da tole‑
rância	e	da	sua	negação,	embora	essa	convivência	seja	desigual,	na	medida	em	
que o movimento de negação tem uma base de sustentação objetiva na barbárie 
promovida pelas determinações conjunturais e estruturais do modo de produção 
capitalista.
Nesse	sentido,	voltando	ao	eixo	de	nossa	reflexão,	coloca-se	uma	questão	
ética e política que interessa àqueles que defendem e praticam a resistência à 
barbárie:	a	tolerância	tem	limites?
Uma questão ética e política: a tolerância tem limites?
Algumas correntes de pensamento consideram que devemos ser tolerantes 
em qualquer situação: tendências do relativismo cultural e do relativismo ético, 
com	influências	do	irracionalismo	e	do	pensamento	pós-moderno.	Para	justifi‑
car o relativismo, apoiam‑se na negação da universalidade dos valores, na de‑
fesa da diversidade, das particularidades e do pluralismo.
O relativismo cultural questiona a possibilidade de julgamento de um 
padrão cultural particular a partir de critérios considerados válidos para toda a 
humanidade.	No	âmbito	da	filosofia,	as	correntes	do	relativismo	ético defendem 
a ideia de que “não é possível chegar a um acordo racional universal na discussão 
dos princípios éticos, sendo impossível discernir — entre juízos morais em 
conflito	—	qual	é	o	correto”	(Etxberria,	2001, p. 54).
A defesa do pluralismo encontra sua razão de ser nessas formas de pensar, 
pois	 a	 afirmação	de	que	não	é	possível	discernir	 eticamente	 entre	valores	 e	
475Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014
práticas diferentes implica considerar que as práticas e as ideias existentes têm 
o mesmo valor e, portanto, que todas devem ser respeitadas.
No entanto, quando nos deparamos com práticas que representam atos de 
violência inadmissíveis, cabe a pergunta: devemos tolerar o intolerável?
Podemos citar como exemplos de práticas culturais: o genocídio, o etno‑
cídio, o racismo e várias práticas de discriminação e de violência contra a 
mulher, entre elas a da mutilação sexual e do apedrejamento, sem contar a lista 
interminável de violações que consta dos documentos de direitos humanos e 
que não se restringem a práticas culturais, tais como o trabalho escravo, a tor‑
tura, o terrorismo de estado, a guerra, a fome, a prostituição infantil etc. Por 
isso, é importante salientar que embora os exemplos a respeito das práticas 
culturais de violação aos direitos humanos acabem recaindo sobre os países não 
ocidentais,	isso	não	significa	afirmar	que	a	civilização	ocidental	seja	um	exem‑
plo de não violação.
Em	nome	de	quais	valores	tais	práticas	são	justificáveis?	Devemos	nos	
manifestar em oposição a isso ou devemos “respeitar” esses valores? Respon‑
demos	a	tais	indagações	afirmando	que	a	tolerância	tem	limites	e	que	os	parâ‑
metros	para	essa	afirmação	são	teóricos	e	históricos.
Para	Bobbio,	“a	 tolerância	absoluta	é	uma	pura	abstração”	(Bobbio,	 in	
Vázquez,	1999,	p.	120).	Vázquez	adota	como	medida	a	liberdade,	afirmando	
que “deve tolerar‑se o que amplia ou enriquece a liberdade e, ao contrário, não 
se deve tolerar o que a obstaculiza ou nega” (Vázquez, 1999, p. 121).
Entretanto,	como	já	afirmamos,	a	categoria	liberdade	pode	ser	utilizada	
em	diferentes	práticas	e	discursos,	com	significados	opostos.	Por	isso,	é	preci‑
so informar quais são os critérios teóricos e históricos, éticos e políticos que 
orientam	nossa	defesa	dos	limites	da	tolerância.
O caráter universal dos valores e os limites da tolerância
A ética é aqui concebida como uma forma de práxis: uma ação prática 
consciente derivada de uma escolha racional entre alternativas de valor que 
476 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014
visa produzir uma transformação de valor nos homens entre si. A ética permi‑
te ao indivíduo sair de sua singularidade para estabelecer uma conexão cons‑
ciente com o humano genérico; logo, é uma atividade universalizante, mesmo 
sendo realizada por um indivíduo singular.
A criação de alternativas funda a capacidade de escolha (liberdade), e a 
valoração das escolhas objetiva a criação de valores e as escolhas de valor, 
instituindo a possibilidade do agir ético‑moral. Logo, valor e liberdade são 
fundantes	da	práxis	ética,	e	seu	significado	ontológico	é	dado	pela	sua	objeti‑
vidade na reprodução do ser social: esses componentes da práxis são liberados 
e liberam pelas/as forças e capacidades humanas essenciais postas em movi‑
mento no processo de (re)produção humana a partir do trabalho: a liberdade, a 
sociabilidade, a consciência e a universalidade humana.
Desse modo, o caráter universalizante dos valores é um dado ontológico 
historicamente observável. Basta observar a história social da liberdade, em que 
sua objetividade é dada por todas as situações históricas de emancipação de 
homens, mulheres, de povos, classes e grupos sociais em face de situações de 
dominação, exploração, escravidão, de sofrimento material e espiritual provo‑
cado pelo impedimento forçado de liberação das capacidades e forças essenciais 
humanas. Portanto, negar a universalidade dos valores só tem sustentação em 
formas de pensar irracionalistas e a‑históricas.
Marx trata da riqueza humana1 construída pelo gênero como a base fun‑
dante da livre e múltipla atividade de todo o indivíduo (Heller, 1978, p. 40). Por 
riqueza humana, ele concebe a universalidade das necessidades e capacidades, 
o domínio do homem sobre a natureza, a explicitação absoluta de suas faculda‑
1. “Em todas as formas, ela [a riqueza representada pelo valor] se apresenta sob forma objetiva, quer 
se trate de uma coisa ou de uma relação mediatizada por uma coisa, que se encontra fora do indivíduo e 
casualmente a seu lado [...]. Mas, in fact, uma vez superada a limitada forma burguesa, o que é a riqueza se 
não a universalidade dos carecimentos, das capacidades, das fruições, das forças produtivas etc., dos indivíduos, 
criada	no	intercâmbio	universal?	O	que	é	a	riqueza	se	não	o	pleno	desenvolvimento	do	domínio	dohomem	
sobre as forças da natureza, tanto sobre as da chamada natureza quanto sobre as da sua própria natureza? O 
que é a riqueza se não a explicitação absoluta de suas faculdades criativas, sem outro pressuposto além do 
desenvolvimento	histórico	anterior,	que	torna	finalidade	em	si	mesma	essa	totalidade	do	desenvolvimento,	
ou seja, do desenvolvimento de todas as forças humanas enquanto tais, não avaliadas segundo um metro já 
dado?” (Marx, 1970, I, p. 372).
477Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014
des criativas, em suas palavras: “Uma explicitação na qual o homem não se 
reproduz numa dimensão determinada, mas produz sua própria totalidade...” 
(Marx, 1970, I, 372).
Esses fundamentos fornecem uma medida de valor para julgar as ações 
humanas:
São de valor positivo as relações, os produtos, as ações, as ideias sociais que 
fornecem aos homens maiores possibilidades de objetivação, que integram sua 
sociabilidade,	que	configuram	mais	universalmente	sua	consciência	e	que	aumen‑
tam sua liberdade social. Consideramos tudo aquilo que impede ou obstaculiza 
esses processos como negativo, ainda que a maior parte da sociedade empreste‑lhe 
um valor positivo. (Heller, 1972, p. 78)
Assim,	a	defesa	da	existência	de	limites	à	tolerância	é	alicerçada	numa	
concepção ontológica e histórica baseada no nível de desenvolvimento da hu‑
manidade, em termos de suas conquistas emancipatórias e valores. Elas expres‑
sam a autoconsciência emancipatória do gênero humano e tornam‑se conscien‑
tes para os indivíduos em suas lutas políticas particulares. É nesse movimento 
entre o particular e o humano genérico que as conquistas e os valores se uni‑
versalizam. As conquistas também são traduzidas em documentos, leis, decla‑
rações,	em	âmbito	nacional	e	internacional	que	visam	obter	um	consenso	em	
torno de princípios para balizar os limites entre o tolerável e o intolerável, a 
exemplo da Declaração de Direitos Humanos de 1948, elaborada no pós‑Se‑
gunda Guerra, objetivando um posicionamento universal em face dos crimes 
praticados pelo nazismo.
Uma das questões abordadas pelas correntes do relativismo cultural refe‑
re‑se ao fato de que os padrões utilizados para o julgamento das violações de 
direitos humanos são marcados pela cultura da civilização ocidental. Esses 
padrões não podem ser considerados universais, o que não deixa de ter sentido 
(Diniz, 2001). Entretanto, a questão é muito mais complexa, pois a negação de 
um posicionamento baseado no argumento de recusa à dominação imperialista 
tem seus desdobramentos, com implicações éticas e políticas que podem pro‑
duzir um resultado objetivo oposto ao desejado pela sua crítica.
478 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014
Assim, as tendências que defendem a diversidade, considerando que de‑
vemos respeitar a totalidade de práticas e ideias particulares em nome da liber‑
dade, encontra uma contradição insolúvel quando se depara com práticas que 
negam a própria liberdade, mais do que isso, a humanidade do outro. Na ver‑
dade, acabam propondo um posicionamento neutro em face de crimes e viola‑
ções de direitos humanos.
Consideramos que o enfrentamento dessa problemática não se resolve 
pelo relativismo, mas o inverso — a defesa do universal — também implica 
muitas mediações. A validade ou a abrangência dos documentos e leis que 
tratam dos direitos humanos deve ser medida pelo nível de incorporação das 
diferentes culturas e modos de ser, das reivindicações dos diversos movimen‑
tos e lutas sociais, na construção de um debate orientado pelo horizonte da 
emancipação humana e pela noção de que, para o humano, a medida de valor 
é o próprio homem.
Quanto ao chamado relativismo ético, com sua defesa da impossibilidade 
de	haver	um	acordo	racional	diante	de	vários	códigos	morais	em	conflito,	con‑
sideramos uma negação irracionalista e niilista da ética, pois anula a capacida‑
de de escolha do sujeito e a sua responsabilidade em face de situações que 
demandam escolhas de valor. Na medida em que a ética, com sua exigência de 
posicionamento; a razão, com sua capacidade de conhecer a essência da reali‑
dade; a ação política, com sua interferência na realidade social, deixam de ter 
sentido, essa forma de pensar passa a coincidir com a ideia defendida pela 
ideologia dominante: “cada um na sua”.
Pelo exposto, podemos considerar que as diferenças culturais, sociais, 
políticas, teóricas podem expressar a multiplicidade de capacidades e possibi‑
lidades do gênero humano rico em necessidades e formas de satisfação. Ao 
mesmo tempo, podem expressar desigualdade, dominação, exploração, discri‑
minação, empobrecimento da humanidade. Isto porque, em sua história de 
desenvolvimento, a humanidade tem produzido, ao mesmo tempo, a riqueza e 
a miséria; a humanização e a barbárie.
A universalidade histórica dos valores, como construções humanas, for‑
necem	parâmetros	universais	para	avaliar	o	que	é	barbárie,	tendo	como	medida	
o nível de humanização do ser social atingido até hoje e documentado em 
479Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014
manifestos, acordos, leis, elaborados universalmente. Como seres humanos e 
sociais, somos dotados de discernimento ético para fazer distinção entre valores, 
com base nas conquistas já efetuadas historicamente. Os torturadores podem 
dizer que estavam agindo em nome da “liberdade”; parte da sociedade pode até 
apoiá‑los. Mas o patamar emancipatório conquistado pela humanidade em 
termos da autoconsciência da liberdade e dos direitos humanos permite a con‑
testação por parte dos que não toleram o que é intolerável.
Isso	significa	afirmar	que	a	discussão	acerca	do	que	é	tolerável,	nos	marcos	
de uma sociedade cindida pela divisão entre classes e interesses econômicos e 
políticos,	não	é	somente	uma	discussão	ética	filosófica;	trata-se	de	um	embate	
ético‑político prático que envolve referências teóricas, projetos sociais, ideolo‑
gias e valores.
Por isso, a questão do pluralismo, assim como a da diversidade, não sig‑
nifica	ausência	de	conflitos	e	interesses,	mas	sim	o	posicionamento	diante	deles,	
a possibilidade de todos se manifestarem, a responsabilidade ética de tomar uma 
posição diante do que não concordamos e a condição política de lutar pela 
hegemonia do projeto societário que defendemos e pela universalização dos 
valores a ele conectados.
A liberdade liberal, portanto, é enganosa porque divulga uma falsa noção 
de respeito ao outro, quando, na verdade, exclui o outro porque é diferente. A 
concepção de liberdade aqui tratada não se separa da sociabilidade. Pressupõe‑
‑se que indivíduos sejam livres em relação uns com os outros; não podemos 
ser livres enquanto os outros não o são. Isso supõe o enfrentamento dos con‑
flitos,	das	contradições,	a	aceitação	consciente	dos	demais	como	seres	iguais	
e diferentes.
Nesse sentido, o Código de Ética dos(as) Assistentes Sociais (CFESS, 
1993)	é	 transparente	quando	afirma	que	os	assistentes	 sociais	 elegem	como	
princípios fundamentais a liberdade, a democracia, a equidade, a justiça social, 
o empenho na eliminação de todas as formas de preconceito e de discriminação 
por questões de classe social, gênero, etnia, religião, nacionalidade, opção sexual, 
idade e condição física, incentivando o respeito à diversidade, à discussão das 
diferenças	e	a	garantia	do	pluralismo,	por	meio	do	respeito	às	correntes	profis‑
sionais democráticas existentes.
480 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 468-481, jul./set. 2014
De forma explícita, o Código indica uma concepção de pluralismo que 
limita	a	tolerância	ao	campo	democrático,	negando	as	práticas,	ideias	e	mani‑
festações que produzem o racismo, a xenofobia, o nacionalismo agressivo, o 
fascismo,	o	preconceito,	a	discriminação	por	motivos	diversos,	enfim	que	negam	
os	valores	que	dão	suporte	à	ética	profissional.Recebido em 9/5/2014 ■ Aprovado em 2/6/2014
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482 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014
La formación en Derechos Humanos como parte 
del proyecto ético político del Trabajo Social
The education in human rights as part of the 
ethical and political project of Social Work
Cory Duarte Hidalgo*
Resumen: La consideración de la formación en Derechos Humanos 
en tanto elemento primordial del proyecto ético político del trabajo 
social es el elemento basal de este artículo, el que indaga en los proyec‑
tos curriculares de Trabajo Social en Universidades Estatales Chilenas. 
El estudio de carácter cualitativo, descriptivo y exploratorio, analiza 
el contenido de estos proyectos permitiéndonos así elaborar recomen‑
daciones para la inclusión de los Derechos Humanos en la política 
pública de educación superior en general, y en las carreras de trabajo 
social en particular.
Palabras claves: Formación en Trabajo Social. Derechos Humanos. 
Educación universitaria.
Abstract: The education in human rights as a fundamental element of the ethical and political 
project of Social Work is the base of this article, related to the curriculum projects of Social Work in 
state Chilean universities. This qualitative, descriptive and exploratory study analyses the content of 
such projects, so as to lead to recommendations to include human rights in the public policy for college 
education in general, as well as in the careers in Social Work
Keywords: Background in Social Work. Human rights. College education.
* Asistente social, licenciada en Trabajo Social, máster en Trabajo Social Comunitario, máster en Estudios 
Feministas, máster en Inmigración, refugio y relaciones intercomunitarias, doctoranda en Trabajo Social, 
Universidad de Atacama, Copiapó, Chile. Email: cory.duarte@uda.cl.
483Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014
1. Presentación
El presente artículo revisa la consideración de la formación en derechos humanos en las carreras de trabajo social de instituciones de educa‑ción superior pertenecientes al Consorcio de Universidades Estata‑les Chilenas (CUECH) ubicadas en la Macrozona Norte del país. 
Así,	 se	 planteó	 como	objetivo	 de	 investigación	 el	 identificar	 la	 presencia	 o	
ausencia	de	la	formación	en	derechos	humanos	en	los	perfiles	de	egreso	y	mallas	
curriculares,	reflexionando	sobre	la	consideración	de	la	formación	en	derechos	
humanos como elemento primordial del proyecto ético político del trabajo social.
Como marco referencial se presenta una somera revisión respecto de la 
educación en derechos humanos, basándose en los instrumentos internacionales 
que versan sobre la temática, para luego dar paso a la exploración de los ante‑
cedentes que hablan de la inclusión de la formación de los derechos humanos 
en trabajo social.
Respecto de la forma en que se desarrolla este estudio, se declara su ca‑
rácter cualitativo, descriptivo y exploratorio, en el cual mediante el análisis de 
contenido se logran resultados respecto de los objetivos planteados con ante‑
rioridad.	El	documento	finaliza	con	una	serie	de	recomendaciones	para	la	in‑
clusión de la formación de derechos humanos en la política pública de educa‑
ción superior en general, y en las carreras de trabajo social en particular.
En consideración a lo que más adelante se plantea, la educación en derechos 
humanos, se transforma en un imperativo de primer orden para las escuelas de 
trabajo social.
2. El contexto del estudio: la educación en Derechos Humanos
La educación por la paz y por los Derechos Humanos ha sido construida 
con base a múltiples esfuerzos internacionales, los que han sido plasmados en 
diversos instrumentos, conferencias, encuentros y reuniones. Si bien es cierto, 
la gran mayoría de las declaraciones y convenciones dedican algunos párrafos a 
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la	educación	en	los	ámbitos	específicos	de	cada	instrumento,	existen	pactos	y	
declaraciones en las que se plasman en detalle las obligaciones de los Estados 
al respecto. En este sentido, destaca la Declaración y Programa de acción de 
Viena (Naciones Unidas, 1993), la cual considera que los Estados partes debie‑
sen incluir “los derechos humanos, el derecho humanitario, la democracia […] 
como temas de programas de estudio de todas las instituciones de enseñanza 
académica y no académica” (art. N. 79). Establece además que la educación en 
materia de derechos humanos “debe abarcar la paz, la democracia, el desarrollo 
y la justicia social” (art. N. 80), estipulando que los Estados deben elaborar 
“programas	y	estrategias	específicos	para	ampliar	al	máximo	el	nivel	de	educa‑
ción y difusión de información pública en materia de derechos humanos, tenien‑
do particularmente en cuenta los derechos humanos de la mujer” (art. N. 81).
La Declaración sobre el derecho y el deber de los individuos, los grupos 
y las instituciones de promover y proteger los Derechos Humanos y las liber‑
tades fundamentales universalmente reconocidos, aprobada por la Asamblea 
General en su Resolución 53/144, de 9 de diciembre de 1998, establece que
Incumbeal Estado la responsabilidad de promover y facilitar la enseñanza de los 
derechos humanos y las libertades fundamentales en todos los niveles de la edu‑
cación, y de garantizar que los que tienen a su cargo la formación de abogados, 
funcionarios encargados del cumplimiento de la ley, personal de las fuerzas ar‑
madas y funcionarios públicos incluyan en sus programas de formación elemen‑
tos apropiados de la enseñanza en derechos humanos. (art. N. 15)
A su vez, en el Decenio de las Naciones Unidas para la educación en la 
esfera de los derechos humanos, según consta en la Resolución 49/184 del 23 
de	diciembre	de	1994,	de	la	Asamblea	General	de	Naciones	Unidas,	se	fija	como	
objetivo el fomento de la educación en derechos humanos en todos los niveles 
de enseñanza, así como el establecimiento y fortalecimiento de programas y 
capacidades para la educación en derechos humanos, entre otros aspectos.
En el caso latinoamericano, se ha exhortado y orientado para que los Es‑
tados elaboren planes de acción y diseñen estrategias de educación en derechos 
humanos. Ejemplo de esto es la conferencia Regional sobre Educación en 
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Derechos Humanos (DDHH) en América Latina y el Caribe, realizada el 2001 
en	Ciudad	de	México,	en	la	que	se	define	un	programa	de	acción	sobre	DDHH.	
En este documento los Estados comprometen la introducción temas de Derechos 
Humanos, paz y democracia en los planes educativos, incluyendo políticas 
multiculturales, interdisciplinares y multisectoriales sobre Derechos Humanos, 
así como la articulación de políticas de igualdad, acciones que deberían ser 
monitoreadas en forma permanente.
La declaración estipula entre otras cosas garantizar la libertad de cátedra, 
la instalación de defensorías y la docencia en derechos humanos. Busca que las 
Universidades desarrollen los derechos humanos en todas las carreras, a través 
de metodologías sólidas y de carácter plural, fomenten la educación de posgra‑
do en derechos humanos., y que incentiven investigaciones “sobre la realidad 
nacional y/o regional desde la perspectiva de la población‑víctima de violacio‑
nes a sus derechos, para conocer las causas que las originan y contribuir en 
propuestas para su erradicación” (Declaración de México, 2001). Así también, 
la declaración indica que los Estados deben entregar “la garantía de una forma‑
ción profesional comprometida con los valores y principios de la democracia 
para	que	ello	forme	parte	de	los	perfiles	profesionales	y	las	competencias	re‑
queridas en el ejercicio de los mismos” (Declaración de México, 2001).
Resulta interesante la visión de esta declaración en torno a centrarse en el 
sujeto, reconociendo que “la educación en derechos humanos debe ser un pro‑
ceso de enseñanza aprendizaje que transforme la vida de las personas e integre 
lo individual con lo comunitario, lo intelectual con lo afectivo”, pero además 
ha de considerar “el reconocimiento y valoración de la pluralidad cultural pre‑
sente en la región” (Ramírez, 2004, p. 33).
Los	informes	especializados	identifican	13	instrumentos	internacionales	
que tienen disposiciones atingentes respecto de la consideración de los Derechos 
Humanos en la Educación (Azúa, 2011, p. 33) en lo que ha implicado que, a 
partir de la década de los noventa, el Estado Chileno adquiriese compromisos 
concretos respecto de la Educación en derechos humanos en los distintos nive‑
les educativos.
En el año 2012, en su informe anual el Instituto Nacional de Derechos 
Humanos (INDH) consignaba la necesidad de considerar los acuerdos suscritos 
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por el Estado Chileno en los cuales compromete la inclusión de los derechos 
humanos en la formación educativa en general y con especial énfasis en la 
formación	universitaria.	En	el	mismo	informe	el	INDH	manifiesta	que	las	Uni‑
versidades no han sido capaces de declarar el compromiso ciudadano con los 
derechos humanos en las misiones y visiones institucionales. Así también, en 
el estudio realizado por dicho Instituto respecto de la inclusión de los derechos 
humanos en las mallas curriculares de pedagogía, derecho y periodismo, se 
evidencia la inclusión marginal de los derechos humanos en la formación pro‑
fesional (Azúa, 2011).
En 2011, el Dr. Nash, del Centro de Derechos Humanos de la Facultad de 
Derecho de la Universidad de Chile denunciaba la escasa importancia de los 
derechos humanos en las misiones y mallas curriculares de las carreras de de‑
recho	a	nivel	nacional.	El	académico	señala	las	deficiencias	en	los	currículos	
en torno a materias relacionadas con la teoría general de derechos humanos, los 
instrumentos internacionales, la jurisprudencia internacional y los grupos en 
condición de vulnerabilidad (Nash, 2011, p. 63).
Como resultado del estudio señalado se recomienda la inclusión en los 
currículos de las carreras del área, el estudio de los grupos protegidos a nivel 
internacional	a	través	de	convenciones	específicas,	es	decir,	la	consideración	
de los derechos de las mujeres, niños, niñas y adolescentes, migrantes, diversi‑
dades sexuales, pueblos originarios, personas privadas de libertad y refugiados 
(Nash, 2011, p. 63). En el caso de la teoría general de los derechos humanos, 
el	mismo	estudio	sugiere	su	abordaje	en	asignaturas	específicas,	pero	también	
en cátedras como Derecho Procesal Penal y Derecho Internacional Público.
Por no encontrarse material respecto de la incorporación de los derechos 
humanos en las mallas curriculares de trabajo social se hace relevante estudiar 
respecto de esto, teniendo en cuenta que el objetivo central de la educación 
en derechos es empoderar a las personas para sean sujetos de derecho, avan‑
zando hacia la consolidación de la justicia y la paz en nuestras sociedades 
(Mujica, 2002). La educación en derechos humanos es una propuesta ético 
política que implica la consideración de la teoría general de derechos humanos, 
pero también la atención de las desigualdades y los grupos que las sufren. De 
esta	forma,	los	perfiles	de	egreso	permiten	formar	profesionales	sujetos	de	
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derechos,	 lo	que	en	 resumidas	 cuentas	 significa	 entregar	 las	 competencias	
necesarias para que desarrollen su acción profesional siendo capaces de pro‑
mocionar y defender sus derechos y los de las personas, grupos y comunida‑
des con quienes trabajan.
3. Algunas consideraciones sobre la formación en Derechos Humanos en 
Trabajo Social
En el ámbito internacional, la Federación Internacional de Trabajo Social 
(FITS) reconoce desde sus inicios la estrecha interrelación existente entre de‑
rechos	humanos	y	trabajo	social,	lo	que	se	ha	consolidado	al	figurar	como	en‑
tidad consultiva en materias relacionados con derechos sociales, infancia, salud 
ente otros (Naciones Unidas, 1995). En el año 1992, el Centre for Human Rights 
de las Naciones Unidas, en conjunto con la International Federation of Social 
Workers (IFSW/FITS) y la International Association of Schools of Social Work 
(IASSW), publican por primera vez un manual dedicado a las Escuelas de 
“Servicio Social”, en el que se considera imperativo “que las personas que 
participan en la enseñanza y la práctica del servicio social se comprometan 
claramente y sin reservas en la promoción y la protección de los derechos hu‑
manos y en la satisfacción de las aspiraciones sociales fundamentales” (p. 11). 
En el mismo documento se insta a las escuelas de trabajo social a introducir los 
derechos humanos en sus propuestas curriculares:
Algunas escuelas podrán ofrecer un curso facultativo separado, otras exigir a sus 
alumnos que sigan un curso de derechos humanos y otras introducir el estudio de 
los derechos humanos en todos sus cursos fundamentales obligatorios. Esos mé‑todos no tienen por qué excluirse mutuamente, ya que cada uno de ellos tiene 
ventajas y desventajas. (p. 12)
Así también, en dicho manual, se señala la necesaria coherencia en los 
programas	de	trabajo	social,	los	que	debiesen	reflejar	“dimensiones	de	los	de‑
rechos humanos y la justicia social” (p. 12). Considerando lo anterior, se señala 
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la necesidad de contar con misiones y principios en las escuelas que den cuenta 
de estas dimensiones, así como las instalación de relaciones y procedimientos 
con base en los derechos humanos.
En la Declaración del 2000, la FITS reconoce a los derechos humanos y 
la justicia social como principios de la profesión, relevando su importancia en 
el proyecto ético político del trabajo social. Reconocer lo anterior implica pen‑
sar los derechos consignados en la Declaración Universal como mínimos éticos 
en el desarrollo de los pueblos, constituyéndose en tanto “condiciones de posi‑
bilidad de realización y de transformación con vistas a conseguir una mayor 
justicia y solidaridad” (Cordero, Palacios y Fernández, 2006, p. 7). Sin embar‑
go, la concepción de derechos de la Declaración Universal resulta problemáti‑
ca en atención a los cuestionamientos sobre la visión universalista, burguesa, 
androcéntrica y eurocentrista contenida en ella; ante lo cual se hace necesario 
ligar la idea de dignidad humana con el reconocimiento de múltiples contextos, 
situados, fundados y multiculturales. Por estas razones, la propuesta de la FITS 
y	la	AIETS	respecto	de	la	definición	de	Trabajo	Social	posee	un	gran	número	
opositores respecto de la visión etnocéntrica, funcionalista y eurocéntrica de la 
misma, imponiéndose “los parámetros de principios éticos amplios” (AIETS, 
2003),	lo	que	de	todas	formas,	deja	a	un	lado	los	contextos	y	especificidades	
propias de cada región. Las distintas asociaciones regionales, han trabajo en 
sendas	propuestas	de	modificación	de	 la	definición	de	2000,	 las	que	no	han	
logrado acuerdo ni los consensos necesarios.
En el año 2004, la FITS lista siete instrumentos de derechos humanos 
considerados de especial relevancia para la práctica y acción del trabajo social 
(FITS / AIETS, 2004, p. 3), entre estos se encuentran la Declaración Universal, 
el Pacto de Derechos civiles y políticos (PIDCP), el Pacto de Derechos Econó‑
micos, Sociales y Culturales (PIDESC), la Convención por la Eliminación de 
todas las Formas de Discriminación Racial; la Convención por la Eliminación 
de todas las formas de discriminación contra la Mujer (CEDAW), la convención 
de los Derechos del Niño (CDN), y la convención sobre pueblo indígenas y 
tribales (convenio de la OIT, n. 169). En el mismo año la FITS compromete sus 
esfuerzos para denunciar y contribuir en la eliminación de toda forma de vul‑
neraciones a los derechos humanos.
489Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014
En el caso chileno, el Consorcio de Escuelas de Trabajo Social compues‑
to por algunas Universidades del CUECH en 20061 trabajó en una propuesta 
colectiva	de	perfil	académico,	proceso	en	el	cual	se	revisaron	los	ámbitos	dis‑
tintivos de desempeño profesional y los núcleos históricos de formación profe‑
sional. En dicho trabajo se reconoce la pertinencia de las competencias concer‑
nientes a los derechos humanos en los ámbitos relacionados con sujetos y 
procesos. En la sistematización realizada por Castañeda y Salamé mencionan 
que los y las profesionales de lo social se enfrentan a desafíos relacionados con 
transformaciones estructurales relacionadas con la tecnología y la economía, 
en un sistema social que se ha complejizado, en el que las respuestas a las de‑
mandas	corren	el	riesgo	de	quedar	obsoleta,	en	lo	que	las	autoras	identifican	
como una crisis de sentido. Así, “la sociedad contemporánea demanda nuevas 
exigencias a los profesionales del ámbito social, cuestionando los contenidos 
de su formación y los desempeños laborales que le han sido tradicionales” 
(Castañeda y Salomé, 2009, p. 3).
Esas nuevas exigencia se dan por las características contextuales de cada 
escuela de trabajo social y su conexión con el medio local en el que estén in‑
sertas; así, materias como migraciones, medio ambientes o movimientos socia‑
les cobran una trascendencia especial debido a las particularidades regionales/
locales, lo que de alguna forma u otra inciden en la formación entregada.
Podemos	afirmar	que	los	derechos	humanos	y	su	incorporación	en	trabajo	
social atienden a una visión ético política de la profesión y disciplina, en la que 
se considera como perspectiva ética la noción de derechos humanos en toda su 
complejidad. De esta forma, el principal desafío para las escuelas es la forma 
de implementar esta perspectiva, evitando caer en una concepción mítica, en‑
frentándoles como una realidad efectiva (Martín, Esteban y Ramos, 2006), de 
alcance y complejidad situada.
La consideración de los derechos humanos como marco axiológico de 
intervención, praxis e investigación en trabajo social, implica adoptarlos en su 
1. Este trabajo fue realizado en el marco del proyecto MECESUP UCM 0401, en el cual participaron 
las siguientes Universidades: Universidad Católica del Maule, Universidad de La Frontera, Universidad de 
Concepción, Universidad del Bío Bío, Universidad de Antofagasta, Universidad Tecnológica Metropolitana, 
Universidad Católica de Temuco y Universidad de Los Lagos.
490 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014
complejidad e historicidad, facilitando, a través de ellos, procesos de subjeti‑
vación de las personas y los pueblos, componente esencial del proyecto ético 
político del trabajo social. Desde este marco, la consideración de los derechos 
humanos en las acciones transformadoras de los y las trabajadoras sociales 
implica la realización de investigaciones e intervenciones respetuosas de la 
diversidad, democráticas, situadas y críticas. Así, los Derechos Humanos cons‑
tituyen el guión emancipatorio de nuestra acciones, en torno a un “diálogo in‑
tercultural sobre la dignidad humana que eventualmente puede conducir a una 
concepción mestiza de los derechos humanos, una concepción que en lugar de 
recurrir	a	falsos	universalismos,	se	organice	como	una	constelación	de	signifi‑
cados locales” (Santos, 2002, p. 69‑70).
4. ¿A qué apela el proyecto ético político del Trabajo Social?
Puesto que somos ciudadanos y ciudadanas y nos desempeñamos como 
tales, inmersos en un sistema democrático en el cual el derecho a tener derechos 
debiera de considerarse la consigna primordial, las profesiones de lo social 
requerimos de un marco ético para nuestro actuar, una ética aplicada, puesto 
que la cotidianeidad de los complejos escenarios en los que nos situamos nos 
hacen enfrentar dilemas frente a los cuales no existen soluciones estandarizadas, 
requiriendo de mínimos éticos, pero también, el ejercicio ético de nuestras 
vocaciones (Cortina, 2002). De esta forma la consideración de la ética aplicada 
en profesiones como la nuestra permite “orientar de forma mediata, ofreciendo 
un	marco	reflexivo	para	la	toma	concreta	de	decisiones”	(Cortina,	1996,	p.	121).
Considerando esta concepción de ética aplicada, creemos relevante aclarar 
lo que entendemos en este documento por proyecto ético político del trabajo 
social.	Para	esto	seguiremos	la	reflexión	de	Montaño,	respecto	de	la	crisis	en	la	
“base de sustentación funcional‑laboral” de la profesión, crisis que obliga a 
reaccionar a través de propuesta de acción de orden colectivo, entre las que el 
autor señala la necesidad de “construcción/consolidación […] de un proyecto 
profesional hegemónico que integre la dimensión ética y la dimensión política” 
(Montaño, 2005, p. 7), este ha de ser construido en forma democrática por el 
491Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507,jul./set. 2014
colectivo profesional, “inspirado y articulado a proyectos societarios”. Como 
propuesta, Montaño plantea un proyecto profesional progresista fundado en 
diversos valores y principios, entre los que destacan los derechos humanos 
(Montaño, 2005, p. 8). Para el desarrollo de dicho proyecto el autor propone 
una agenda que considera cuatro elementos: la organización profesional; un 
marco legal profesional en el que se plasme la operatividad del proyecto y la 
propuesta; en dicho marco han de estar señalados el reglamento de ejercicio 
profesional y el código de ética (Montaño, 2005, p. 9); la formación profesional, 
la	que	procuraría	la	“unificación	de	niveles	de	formación”,	“planes	de	estudios	
básicos”, posgrados y la “promoción de las condiciones para la producción 
bibliográfica	teórica	de	calidad”;	y	por	último,	Montaño	considera	la	articula‑
ción con las fuerzas vivas de la sociedad.
En este sentido, si comprendemos a los y las profesionales del trabajo 
social como sujetos y sujetas que desde sus contextos, historicidades y diversi‑
dades enfrentan las distintas realidades sociales en las que están inmersos, 
elementos como la formación profesional darán contenido a su praxis profesio‑
nal (Olaya, 2009). Así, el proyecto ético político exigido por Montaño y otros 
de similares características implican una propuesta que “garantiza compromiso 
y responsabilidad social, permitiendo que el sujeto sea crítico frente a los de‑
safíos que impone la propuesta del relativismo y la neutralidad y lo más impor‑
tante, posibilita que se vincule a un proyecto de sociedad radicalmente demo‑
crático” (Olaya, 2009, p. 7).
5. Definición del problema de investigación
Concluida la presentación de los elementos referenciales que sustentan el 
estudio realizado corresponde asentar aquellos que permiten plantear el proble‑
ma de investigación. Entendiendo la conformación tradicional de construcción 
de este apartado se presentarán el objetivo de investigación, las preguntas guí‑
as	y	la	justificación	necesaria.
El	objetivo	principal	de	este	estudio	es	comparar	los	perfiles	de	egreso	y	
mallas curriculares de cuatro carreras de trabajo social pertenecientes al CUECH, 
492 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014
ubicadas en la Macrozona norte, en relación a la consideración de la formación 
en derechos humanos como elemento primordial del proyecto ético‑político de 
la profesión.
Considerado	lo	anterior,	los	objetivos	específicos	tienen	relación	con	la	
pregunta	de	investigación	que	guía	el	análisis:	¿cuáles	son	los	énfasis	identifi‑
cables	en	los	perfiles	de	egreso	y	mallas	de	estudios	de	las	carreras	de	trabajo	
social pertenecientes al CUECH en la Macrozona norte, respecto de la formación 
en derechos humanos?
Por	tanto,	los	objetivos	específicos	fueron:
a)	 Identificar	la	presencia	o	ausencia	de	la	formación	en	derechos	huma‑
nos	en	los	perfiles	de	egreso	y	mallas	curriculares.
b)	 Reflexionar	sobre	la	consideración	de	la	formación	en	derechos	hu‑
manos como parte del proyecto ético del trabajo social.
c) Proponer algunas recomendaciones para la inclusión de la formación 
de derechos humanos en la política pública de educación superior en 
general, y en las carreras de trabajo social en particular.
Dado	lo	anterior,	se	configuran	como	supuestos	de	este	estudio	el	que	los	
distintos	énfasis	identificados	en	la	formación	en	Derechos	Humanos	afectan	a	
las	configuraciones	y	representaciones	sociales	de	los	egresados	y	egresadas	de	
trabajo social de las universidades consideradas, así, los énfasis formativos 
influirían	de	alguna	forma	en	la	disposición	que	tengan	los	y	las	profesionales	
a la hora de realizar investigaciones e intervenciones. De esta forma, si la for‑
mación en derechos humanos se convierte en el contenido valórico explícito en 
el cual se comprometen las instituciones, la carencia de este contenido afectaría 
a la construcción de un proyecto ético profesional, de las características esta‑
blecidas por Montaño.
La ausencia de la formación en Derechos Humanos afectaría a los y las 
egresadas, pero también, afectaría directamente a la conformación del proyec‑
to ético político, puesto que perdería las bases fundacionales del mismo.
Esta situación resulta de interés profesional, disciplinar y gremial pues‑
to	que	se	requieren	de	identificar	competencias	mínimas	en	la	formación	de	
493Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014
trabajadores y trabajadoras sociales, las que han de estar respaldadas por las 
discusiones internacionales realizadas en ese orden, pero también por la con‑
textualización y situación de las unidades académicas en función de las nece‑
sidades y demandas locales y regionales.
6. La inclusión de los derechos humanos en los perfiles de egreso y mallas 
curriculares de las carreras de trabajo social en las universidades del 
CUECH en la macrozona norte
Brevemente mencionaremos que, para lograr conocer y comprender acer‑
ca del tema, se utilizó como base un enfoque metodológico cualitativo. Se optó 
por este enfoque, por considerarse una perspectiva que genera conocimiento 
acerca de la realidad social, incorporando en las formas de conocer múltiples 
perspectivas eminentemente éticas y políticas (Tójar, 2006, p. 145), con las que 
se pretende comprender una realidad múltiple, dinámica y holística.
Siguiendo esta línea, la investigación cualitativa construye conocimientos 
inclusivos,	históricos,	contextuales,	provisionales,	reflexivos,	multimetódicos,	
sistemáticos, subjetivos y holísticos, lo cual potencia y enriquece los procesos 
de generación y búsqueda de conocimientos emprendidos desde las ciencias 
sociales,	con	la	finalidad	de	comprender,	investigar	(para	transformar)	interpre‑
tar	y	reflexionar,	realidades	de	características	diversas	y	divergentes.
Dicho esto, expondremos brevemente el método de análisis realizado 
respecto de la inclusión de los derechos humanos en los planes de estudios de 
la carrera de trabajo social en las Universidades del Consorcio de Universidades 
Estatales de Chile, en la macrozona norte, zona comprendida entre las ciudades 
de Arica y La Serena, analizando la información disponible en las web site de 
las Universidades de Tarapacá, rturo Prat, de Antofagasta y de Atacama.
Para	efectos	de	 la	 reflexión	desplegada,	 se	ha	 tomado	como	unidad	de	
análisis	los	perfiles	de	egreso	y	mallas	de	estudio	de	las	casas	de	estudio	antes	
señalada, los cuáles han sido trabajados a través de la técnica de análisis de 
contenido.
494 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014
7. Método: el análisis de contenido
El análisis de contenido como técnica de investigación en ciencias socia‑
les indaga en la naturaleza de los discursos, permitiendo “formular, a partir de 
ciertos datos, inferencias reproducibles y válidas que puedan aplicarse a un 
contexto” (Krippendorff, 1990, p. 82). Esta técnica obliga a quien investiga a 
situarse desde una triple perspectiva, considerando los datos, su contexto y los 
marcos interpretativos propios del investigador o investigadora (Porta y Silva, 
2003, p. 2). Así, según lo planteado por Raigada, llamamos análisis de conte‑
nido al “conjunto de procedimientos interpretativos de productos comunicativos” 
(Raigada, 2002, p. 2).
Resulta interesante ahondar en la presentación que realiza el mismo autor 
respecto	de	los	significados	de	este	tipo	de	análisis:
[…] su propia denominación de análisis de “contenido”, lleva a suponer que el 
“contenido” está encerrado, guardado, incluso a veces oculto dentro de un “con‑
tinente” (el documento físico, el texto registrado, etc.) y que analizando “por 
dentro”	 ese	 continente”,	 se	 puede	desvelar	 su	 contenido	 (su	 significado,	 o	 su	
sentido), de forma que una nueva “interpretación” tomando en cuenta los datosdel análisis, permitiría un diagnóstico, es decir, un nuevo conocimiento ( gnoscere 
“conocer” a través de su penetración intelectual. (Raigada, 2002, p. 2)
De esta forma, el análisis de contenido logra la emergencia del sentido 
latente que procede de las prácticas sociales (Raigada, 2002, p. 7), por lo que 
no sólo interesa indagar respecto de los datos visibles en los documentos co‑
municativos, sino también en aquellos aspectos no dichos en el discurso.
En este estudio se utilizaron unidades temáticas de análisis, las que per‑
mitieron	conducir	 la	 reflexión	a	partir	de	 los	conceptos,	 temas	y	referencias	
utilizadas	o	enunciadas	en	los	perfiles	de	egreso	y	malla	analizados.	Ahora	bien,	
para efectos de esta investigación sólo se consideraron aquellos conceptos y 
temas relacionados con el objeto de estudio. De esta forma, se ha elaborado 
una serie de categorías, las cuales cumplieron con los requerimientos plantea‑
dos por Berelson (1967, apud López Noguero, 2011, p. 176), en la cual quien 
495Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014
investiga razona los motivos de categorización observando los criterios de para 
ellos establecidos.
Este tipo de análisis se complementa con el enfoque de análisis de marcos 
de política los cuales son entendidos por Mieke Verloo como un “principio 
organizador que transforma la información fragmentaria o incidental en un 
problema de estructura y sentido, en la que una solución está implícita o explí‑
citamente incluido” (Verloo, 2005, p. 20). En este sentido, el análisis de marcos 
de	política	puede	contribuir	a	la	identificación	de	la	coherencia	entre	un	proble‑
ma y su solución, y cómo ambos elementos están presentes en los textos polí‑
ticos (Verloo y Lombardo, 2007).
Uno	de	los	aspectos	relevantes	de	este	enfoque	es	la	identificación	de	las	
ausencias	en	el	discurso	político,	además,	permite	identificar	prejuicios	“que	
pueden, sin proponérselo formar los discursos políticos y, en consecuencia, se 
puede revelar inconsistencias latentes, o incluso los prejuicios” (Verloo y Lom‑
bardo,	2007).	Asimismo,	este	tipo	de	análisis	permite	identificar	las	exclusiones	
existentes en la formulación de las políticas, visibilizando la forma en que “las 
estrategias	discursivas	pueden	modificar	el	proceso	en	sí	mismo	por	medio	de	
la exclusión de algunos actores del debate” (Triandafyllidou y Fotiou, 1998, p. 
6.4 apud Verloo y Lombardo, 2007, p. 29).
Así, y considerando el carácter exploratorio y descriptivo de este estudio, 
en los apartados siguientes se expondrán los análisis preliminares.
8. Análisis
Desconocemos	 los	 procesos	que	 configuraron	 los	 planes	de	 estudios	 y	
respectivas mallas de las escuelas de trabajo social de la macrozona norte, sin 
embargo, podemos realizar análisis acudiendo a la información que cada casa 
de estudio ha considerado estratégica de difundir. De esta forma los análisis 
primarios tienen relación con la consideración de los Derechos Humanos en los 
perfiles	de	egreso	tal	y	como	se	grafica	a	continuación.
496 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014
Tabla 1. Categorías de contenidos Nivel 1: Consideración Derechos Humanos en los 
perfiles de egreso.
Categorías
Universidades
1 2 3 4
Consideración 
Derechos Humanos 
en forma explícita 
(enfoque de 
derechos)
No de forma 
explícita, pero 
hace referencia a 
la calidad de vida 
de las personas, 
grupos, 
organizaciones y 
comunidades. 
No. Pero sí hace 
referencia al 
empoderamiento y 
la superación de 
situaciones 
conflictivas	que	
afectan a personas, 
familias, grupos y 
comunidades.
No hace referencia 
directa. Sin 
embargo, se 
pronuncia en el 
reconocimiento de 
diversidad, habla 
de diferentes 
sujetos y territorios 
elementos
Sí. Declara como 
sello distintivo el 
enfoque de 
derechos
Referencia a 
derechos civiles y 
políticos
No No No No
Referencia a 
derechos 
económicos, 
sociales y 
culturales
No No Sí Sí
Referencias a 
personas o 
colectivos “sujetos 
de derechos”
No No Sí
Sí, declara 
ponerles en el 
centro.
Referencias a 
vulneraciones de 
derecho No No No
Sí.	Se	refiere	a	
las desigualdades 
como efecto de 
procesos socio 
históricos
Referencias a la 
ética
No No
Sí. Habla respecto 
del compromiso 
ético y 
reconocimiento de 
la diversidad
Sí. Se hace 
referencia al 
compromiso 
ético, y al 
fomento de la 
autonomía y 
protagonismo de 
las personas
Elaboración	propia	con	base	en	los	perfiles	de	egreso	de	las	unidades	académicas	señaladas.
497Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014
Los	perfiles	de	egreso	suelen	entenderse	como	una	declaración	formal	que	
realizan las instituciones de educación superior, a través de sus carreras profe‑
sionales, en las cuales asumen el compromiso formativo contraído y constituyen 
los	aspectos	característicos	de	la	profesión	en	dicha	institución,	identificando	
los principales ámbitos de realización y las competencias claves. De esta forma, 
estos	perfiles	se	configuran	como	declaraciones	de	carácter	político	en	los	que	
se presentan los compromisos asumidos por las universidades en cuanto a los 
límites de la habilitación profesional y/o académica entregada a los y las egre‑
sadas	de	las	respectivas	carreras.	En	otras	palabras,	los	perfiles	de	egreso	cons‑
tituyen el compromiso social de la institución de educación superior en el logro 
de las competencias, pero también en una obligación que ha de ser demandada 
por la sociedad “en un real desplazamiento de poder hacia lasociedad que aho‑
ra puede y debe reclamar el cumplimiento de las promesas hechas‑poner en 
claro la intencionalidad del programa‑explicitar (..) los itinerarios formativos” 
(Hawes, 2012, p. 2) 
Así, y con base en lo anterior, podemos señalar que en las declaraciones 
realizadas por las Universidades en las carreras de trabajo social, no se hace 
consideración a la formación en derechos humanos, o a la perspectiva en dere‑
chos,	o	cualquier	otra	noción	que	pueda	significar	alguna	consideración	al	tema.	
Resulta interesante analizar esta ausencia, ya que a pesar de que en términos 
profesionales se reconoce su importancia en el currículo, esta no es una com‑
petencia con las que contarían quienes egresan de estas instituciones.
En consideración del compromiso ético, que podría de alguna forma sol‑
ventar	 la	 deficiencia	 anterior,	 se	 observa	 su	 presencia	 sólo	 en	 dos	 de	 estos	
perfiles,	lo	que	resulta	paradójico	en	cuanto	a	la	consideración	de	las	caracte‑
rísticas propias del trabajo social.
Pese	a	esto,	nos	encontramos	con	una	dificultad	en	la	realización	de	este	
análisis,	puesto	que	entendemos	que	 los	perfiles	de	egreso	son	documentos	
más amplios que los mostrados en las web sites, sin embargo, nos interesan 
estas declaraciones puesto que son las observables por quienes postulan a las 
casas de estudios. En esa medida, podríamos especular respecto de la estrate‑
gia que pueden asumir las instituciones respecto de los elementos que podrían 
498 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014
ser	atractivos	para	quienes	“eligen”	cada	una	de	las	carreras.	Los	perfiles	de	
egreso revisados entregan especial énfasis en los campos laborales en los que 
cada egresado o egresada podría situarse, haciendo un guiño a las necesidades 
de mercado por sobre las competencias éticas que cada trabajador o trabajado‑
ra social pudiese tener. Complementario a lo anterior, es el énfasis puesto en 
los	aspectos	metodológicos	y	técnicos	que	perfilan	la	formación,	recordándonos	
los tiempos en que la profesión se caracterizaba por su mirada tecnocrática, 
aséptica y neutral. De esta forma, cabe preguntarse entre la coherencia entre 
estos	perfiles	esbozados	y	las	mallas	de	estudios	definidas,	puntoque	se	tratará	
a continuación.
Tabla 2. Categorías de contenidos Nivel 2: Consideración Derechos Humanos en la malla 
curricular.
Universidades Categorías
Presencia 
ausencia 
Asig. DDHH
Asignaturas relacionadas 
con derechos civiles y 
políticos
Asignaturas relacionadas 
con derechos económicos, 
sociales y culturales
1
Ausente Introducción al Derecho. 
asignatura derecho de 
familia y menores
Asignaturas sociedad y población 
indígena/ecología y gestión 
ambiental/desarrollo local
2 PresenteDDHH y TS
Derecho laboral y familia TS Etnias e inmigrantes 
3
Ausente Derecho de familia/
Derecho laboral y 
seguridad Social
Teoría del desarrollo social y regional/
Movimientos sociales y ciudadanía/
Pobreza y estrategias de intervención.
4
Presente
DDHH y TS
Marco jurídico para la 
intervención social
Ciudadanía y movimientos sociales/
Desarrollo local.
Optativos temáticos migraciones, 
género, medio ambiente, etc.
Elaboración	propia	con	base	en	los	perfiles	en	las	mallas	de	estudio	de	las	unidades	académicas	señaladas.
499Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014
Entendiendo	los	perfiles	de	egreso	como	la	proyección	de	la	política	edu‑
cativa de cada unidad (Escuela) y sus mallas de estudio como su representación 
gráfica,	podemos	señalar	que	en	las	unidades	analizadas	es	posible	encontrar	
una representación implícita o explícita de un diagnóstico, conectado a un pro‑
nóstico y a un llamado a la acción (Verloo, 2005). En este sentido, las unidades 
académicas proyectan su formación como más cercana a los derechos sociales, 
económicos y culturales que a los de orden civil o político, estableciendo una 
especial atención hacia ciertos colectivos como migrantes, pero también a los 
contextos en los cuáles desarrollan su acción formativa.
En este sentido, las asignaturas relativas a los derechos civiles y políti‑
cos,	son	las	que	tradicionalmente	han	estado	presentes	en	las	configuraciones	
cu rriculares del trabajo social desde el año 1925, manteniendo incluso la no‑
menclatura relacionadas con “lo laboral” y “lo familiar”.
Retomando a Verloo, la inclusión de asignaturas relacionadas con los 
Derechos Económicos, Sociales y Culturales (DESC) y los Derechos Civiles y 
Políticos (DCYP) remite a un pronóstico de necesidad de formación en dichos 
ámbitos. Sin embargo, su presencia es residual en la estructura curricular. Las 
asignaturas relacionadas con las otras dimensiones del trabajo social absorben 
la formación explícita en estas materias.
Llama la atención la inclusión de asignaturas relacionadas con los movi‑
mientos sociales y las ciudadanías como parte de los currículos formales de las 
Escuelas, lo que de alguna manera da luces respecto de la formación de traba‑
jadores y trabajadoras sociales con mayores conexiones con su entorno, capaces 
de adquirir y ejercer competencias actitudinales, cognitivas y procedimentales 
relacionadas con el respeto de los derechos de los pueblos.
Resulta	 contradictorio	 el	 cruce	 entre	 los	perfiles	de	 egreso	y	 las	mallas	
presentadas,	puesto	a	pesar	de	contar	con	formación	específica	en	derechos	hu‑
manos, y asumiendo que estos son presentados de forma transversal en asigna‑
turas como las prácticas, ética y otras, este sello profesional, este principio rector 
no	es	evidenciado	en	los	perfiles	de	egreso.	De	esta	forma,	podríamos	suponer	
que la ausencia de los derechos humanos, o si quiera el enfoque de derechos en 
los	perfiles	a	pesar	de	considerarse	en	las	mallas	y	planes	de	estudio,	podría	de‑
berse	 a	una	 acción	deliberada	en	pos	de	 atraer	perfiles	de	 ingreso	 altamente	
500 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014
sensibles a las conjeturas del mercado. Lo anterior, aclararía la inconsistencia 
entre	el	compromiso	desplegado	en	el	perfil	y	su	expresión	en	la	malla,	puesto	
que son estos elementos más sensibles, pertenecientes a lo que entendemos como 
proyecto ético político del trabajo social los que quedan ausentes en las decla‑
raciones suscritas por las instituciones de educación superior.
La	consideración	de	 los	derechos	humanos	en	 los	perfiles	de	egreso	y	
estructuras curriculares permite formar profesionales que ejerzan como sujetos 
de derecho, intencionado de esta forma las competencias y habilidades referi‑
das a la toma de decisiones en escenarios complejos, propios del trabajo social, 
en especial cuando estas decisiones comprometen la dignidad y libertad de las 
personas.
El apostar por la formación de profesionales que tengan como caracterís‑
ticas el ser sujeto de derechos los convertirá en personas capaces de
[…] equilibrar los derechos a la igualdad con los derechos a la diferencia y de ser 
un agente de cambio que combata la exclusión social, cultural y política, la se‑
gregación, el desarraigo, las injusticias e inequidades, las asimetrías sociales, las 
discriminaciones, los prejuicios y estereotipos, el racismo y la xenofobia, los 
choques culturales y sociales derivados de la falta de reconocimiento mutuo. 
(Magendzo, 2011, p. 113)
Traemos	aquí	el	gráfico	realizado	por	el	mismo	autor	de	la	cita	anterior	
respecto de la importancia de las competencias genéricas relacionadas con los 
derechos humanos para forjar a profesionales ciudadanos y ciudadanas sujetos 
de derecho.
De esta forma, la incorporación de competencias genéricas relacionadas 
con los derechos humanos permitirá y facilitará la formación de profesionales 
que sean agentes activos de la democracia, la capacidad de elección, el respeto 
a la dignidad y diversidad, y corresponsables del bien común. Lo anterior per‑
mite el cumplimiento de visiones que comprometen el reconocimiento de los 
egresados y egresadas por sus capacidades y compromiso ético, ética que al ser 
aplicada ve su mayor concreción en el respeto, promoción y defensa de los 
derechos humanos.
501Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014
El sujeto de derechos
Sujeto activo 
partícipe de la 
vida democrática
Sujeto deliberante
Sujeto que conoce y 
ejerce sus derechos
Sujeto respetuoso 
de la dignidad 
y los derechos 
de los otros
Sujeto 
corresponsable 
del bien común
Participar de modo 
responsable en la vida 
familiar, comunitaria 
y nacional, 
construyendo un 
sentido de identidad 
que lo vincula a lo 
social.
Participar 
activamente en 
la vida democrática, 
tomando decisiones 
como ciudadano.
Actuar como 
ciudadano responsable 
ante si mismo y ante 
los demás, autónomo, 
capaz de ejercer su 
libertad y respetar 
la de otros.
Valorar la democracia, 
la tolerancia, la no 
discriminación, la 
solidaridad, la 
responsabilidad y 
la acogida y 
reconocimiento 
del otro/otra.
Compartir las 
concepciones del bien 
de su comunidad y 
sociedad y participar 
en las discusiones 
y conversaciones 
públicas.
Formular planes 
de acción y 
proyectos de vida
Tomar decisiones
Autorregular social 
y emocionalmente 
su conducta
Convivir con la 
diversidad cultural 
y social
Comprender y 
compartir el capital 
social y emocional
Ciudadano sujeto de derechos
Ilustración 1. Competencias genéricas para la formación de un sujeto de derechos
En: Magendzo, A., 2011, p. 118.
DESARROLLA COMPETENCIAS PARA
LO QUE LE PERMITE
SE DESARROLLA COMO
SE CONSTRUYE COMO
502 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014
9. Conclusiones y reflexiones
La educación en Derechos Humanos es un imperativo ético, no sólo para 
los y las profesionales de lo social, sino también una necesidad tendiente al 
fortalecimiento de las ciudadanías. Hoy en día, y según nuestra experiencia, los 
y las estudiantes observan con extrañeza la sola idea de hablar de Derechos 
Humanos. Extrañeza, puesto que hablamosde jóvenes que en su gran mayoría 
acceden a bienes y asocian la concepción de derechos a aquellos propios de los 
consumidores.
En este sentido, consideramos relevante la inclusión de asignaturas que 
expliciten la relación entre la profesión y los Derechos Humanos. Este tipo de 
asignaturas	se	configuran	como	un	elemento	basal	en	la	formación	de	los	y	las	
trabajadoras sociales, pretendiendo estudiar en profundidad la noción de dere‑
chos humanos y los diversos problemas éticos y prácticos que ésta plantea, 
vinculándolos con el ejercicio profesional, relacionando la noción de Derechos 
Humanos con la intervención histórica y situada realizada en trabajo social.
Creemos que realizar un reconocimiento explícito respecto de la impor‑
tancia de los derechos humanos como parte fundamental en un proyecto ético 
político en trabajo social, sentado en la democracia, y en lo que Montaño reco‑
ge como “progresista”, permite formar profesionales con un alto compromiso 
ético, y protagonistas de sus propios procesos de subjetivación.
Los	perfiles	de	egreso	y	las	mallas	de	estudios	constituyen	declaraciones	
políticas	de	 lo	que	 la	academia	proyecta	como	definitorio	y	necesario	en	 la	
formación de profesionales, encontrándose ante la tensión entre el mercado que 
condiciona,	coarta	y	seduce;	y	las	definiciones	ético	políticas	esenciales	para	la	
formación en trabajo social.
Dado lo anterior, cabe preguntarse respecto de quién es la voz proyectada 
en	los	perfiles	de	egreso	y	mallas	curriculares:	¿es	la	voz	del	medio?,	¿de	los	
egresados y egresadas, del mercado laboral, de los académicos y académicas, 
de las organizaciones profesionales?
Creemos	que	responder	a	estos	cuestionamientos,	y	reflexionar	respecto	
de estas cuestiones permite avanzar hacia la construcción de un proyecto ético 
en el que los Derechos Humanos tengan un rol principal.
503Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014
Sin intentar apropiarse de una expertise en el tema, se presentan algunas 
recomendaciones a considerar en el tratamiento de los Derechos Humanos en 
las políticas públicas de educación superior en general y en las escuelas de 
trabajo social en particular.
Se hace necesario, dado el contexto actual chileno, el fortalecer la política 
pública de educación superior para que ésta establezca como elemento trans‑
versal en los currículos universitarios la educación en Derechos Humanos, con 
especial énfasis en la educación para la paz, la ciudadanía y la democracia, 
difundiendo a la vez, los instrumentos de Derechos Humanos suscritos por el 
país, con tal de contar con profesionales y técnicos que sean capaces de consi‑
derar el marco de análisis de los derechos humanos en sus actuaciones.
Así también, se recomienda considerar en los planes de estudios de las 
carreras relacionadas con lo social y lo jurídico, asignaturas que consideren los 
derechos de niños y niñas, la igualdad entre hombres y mujeres, la lucha contra 
la discriminación y la xenofobia, el derecho a la diversidad, el respeto a los 
pueblos originarios, y todos aquellos derechos consignados en la carta Interna‑
cional de Derechos Humanos.
En el mismo sentido se propone la incorporación del enfoque de derechos, 
en el diseño, ejecución y evaluación de políticas públicas y sociales ejecutadas 
por la plataforma estatal, considerando para esto el Pacto Internacional de De‑
rechos Económicos, Sociales y Culturales.
En el caso de las escuelas de trabajo social, se recomienda incorporar 
cursos de Derechos Humanos, explicitando así su importancia y trascendencia 
para	 el	 cumplimiento	del	 perfil	 profesional,	 y	 aportar	 a	 la	 construcción	del	
proyecto ético político del trabajo social. Lo anterior requiere de estipular mi‑
siones y principios institucionales que den cuenta de la relación intrínseca entre 
derechos humanos y trabajo social, en otras palabras, se requiere declarar con 
fuerza y convicción la necesaria inclusión de los derechos humanos en los 
planes de estudios de trabajo social para así formar a profesionales que sean 
sujetos de derechos y contribuyan a que otros y otras también lo sean.
En el plano relacional, es necesario abogar por la instalación de relaciones, 
procesos y procedimientos con base en los derechos humanos al interior de cada 
una de las instituciones.
504 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 482-507, jul./set. 2014
En la formación de posgrado es preciso generar planes de formación que 
entreguen elementos profesionalizantes de profundización en Derechos Huma‑
nos, permitiendo fortalecer la investigación social en esa temática.
Finalmente, se requiere acciones que permitan formar a los trabajadores 
y trabajadoras sociales como sujetos de derechos y promotores de los mismos, 
incentivándoles a considerar los Derechos Humanos como el marco de actua‑
ción, el guión emancipatorio de las intervenciones, investigaciones y sistema‑
tizaciones realizadas en trabajo social.
Recebido em 8/4/2014 ■ Aprovado em 2/6/2014
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508 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
A trajetória histórica do “social”
The historical pathway of the word “social”*
Victor Strazzeri**
A sociedade pretende ‘eliminar todos os incon‑
venientes’ que a atormentam? Muito bem: basta‑
‑lhe eliminar os termos inconvenientes, alterar a 
linguagem e dirigir‑se à Academia, encomen‑
dando‑lhe uma nova edição do seu dicionário!
Karl Marx, A miséria da filosofia
Resumo: Este artigo trata dos diferentes sentidos que a palavra 
“social” assumiu à luz de alguns momentos‑chave das lutas de classes 
desde meados do século XIX. Com base nessa perspectiva histórico‑
‑crítica, analisamos a substantivação do adjetivo “social” e a imputamos 
à ascensão do movimento operário e à emergência da “questão social”. 
Em seguida, discutimos a contraposição entre a “sociedade” e a “co‑
munidade”, cujo pano de fundo é o processo de “decadência ideológi‑
ca da burguesia” e a reabilitação do passado feudal e dos ideais aris‑
tocráticos após 1848 por pensadores como A. de Tocqueville e F. 
Tönnies.
Palavras‑chave: Social. “Questão social”. Decadência ideológica da 
burguesia. Comunidade.
Abstract: This article deals with the different senses the word “social” has taken at some fundamental 
moments of the class struggles since the middle of the nineteenth century. Based on that historical and 
* A gestação deste artigo se deu nos marcos do Programa de Pós‑Graduação em Serviço Social da 
Universidade Federal do Rio de Janeiro e é dedicado aos docentes e colegas que, generosamente, debateram 
suas premissas e incentivaram sua confecção. 
** Graduado em Ciências Sociais pela PUC‑SP, mestre em Serviço Social pela Escola de Serviço Social 
da UFRJ/Rio de Janeiro/RJ, Brasil, doutorando em Ciência Política na Universidade Livre de Berlim/Alemanha. 
E‑mail: victorstrazzeri@gmail.com.
509Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
critical perspective, we analyzed the transformation of the adjective “social” into a noun, and we related 
it to the rising of the workers’ movement and to the emergence of the “social issue”. Then we discussed 
the opposition between “society” and “community”. The background of such opposition is the process 
of “ideological decadence of the bourgeoisie” and the rehabilitation of the feudal past and aristocratic 
ideals by thinkers as A. de Tocqueville and F. Tönnies after 1848.
Keywords: Social. “Social issue”. Ideological decadence of the bourgeoisie. Community.
No dizer do jovem Marx: “Ser radical é agarrar as coisas pela raiz. Mas, para o homem, a raiz é o próprio homem” (Marx, 2005, p. 151). E a raiz das palavras? No domínio da gramática ou da linguística tradicionais trata‑se de seu radical. Neste artigo pro‑
curaremos demonstrar como o exame das palavras segundo sua forma de aná‑
lise tradicional pode se mostrar uma iniciativa reveladora, mas que ampliada 
por uma ida à raiz ontológica, ao ser social, torna‑se ainda mais fecunda.
Termo‑chave para o campo do Serviço Social é “questão social” que, a 
despeito da carga ideológica que a acompanha, é uma categoria fundante. Na 
bibliografia	consagrada	à	área,	essa	noção	é	de	difícil	tematização,	já	que	se	por	
um lado alguns dos pensadores referência do Serviço Social habilmente a des‑
constroem (José Paulo Netto, Marilda Iamamoto etc.), relegando o termo para 
a constrição do entre aspas, ainda assim não o descartam. Ao contrário, se 
apropriam do termo “questão social” e trazem‑no para o campo dos estudos 
críticos	no	âmbito	de	um	esforço	de	apreensão	das	mediações	necessárias	para	
a compreensão histórica do Serviço Social. A lição metodológica é precisa:
[...]	a	apreensão	da	particularidade	da	gênese	histórico-social	da	profissão	nem	de	
longe se esgota na referência à “questão social” tomada abstratamente; está hi‑
potecada	ao	concreto	tratamento	desta	num	momento	muito	específico	do	proces‑
so	da	sociedade	burguesa	constituída,	aquele	do	trânsito	a	idade	do	monopólio.	
(Netto, 2001, p. 18; grifos nossos)
Há, portanto, uma “questão social” tomada abstratamente e uma “questão 
social” após sua crítica materialista, que se levada a bom termo desvela o con‑
teúdo efetivo que o termo (liberto das aspas) oculta. Ir à raiz da noção citadaé 
510 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
“tomar	a	‘questão	social’	como	problemática	configuradora	de	uma	totalidade	
processual	específica,	é	remetê-la	concretamente	à	relação	capital/trabalho	—	o	
que	significa,	liminarmente,	colocar	em	xeque	a	ordem	burguesa”	(Idem,	p.	32).
Importante questão para o campo do Serviço Social é a difícil posição 
em que se colocam tanto pensadores quanto operadores desta área ao erguê‑la 
sobre a sua negação/superação.	 Estas	 circunstâncias	 exigem	 um	 esforço	
permanente de busca das mediações que permitam tematizar o Serviço Social 
para além de uma adesão irrestrita ao seu sentido conservador, indutor de 
coesão social, mas igualmente para além de seu rechaço completo como mera 
negatividade.
Pareceu‑nos oportuno produzir uma pequena intervenção que possa com‑
por esse esforço de construção de mediações. Acreditamos que a elucidação do 
percurso histórico do termo “social” — dotado de caminho relativamente inde‑
pendente, mas intrinsecamente ligado com aquele trilhado pela expressão 
“questão social” — pode oferecer alguns elementos para compreender a gêne‑
se e o devir histórico desta última.
* * *
No	campo	das	ciências	humanas	o	vocábulo	“social”	figura	já	na	denomi‑
nação de alguns de seus principais ramos, como a Ciência e o Serviço Sociais. 
Nos marcos dessas áreas, conceitos fundantes, como “ação social”, “classe 
social”, “assistência social” e “política social”, são por ele acompanhados. Se 
nos	ativermos	à	premissa	básica	desses	domínios	científicos	—	isto	é,	o	estudo	
e a intervenção sobre a realidade social —, podemos supor que o uso reiterado 
do	termo	se	justifica	pela	relação	desses	saberes	com	o	homem	enquanto	ser	
que se reproduz e se desenvolve necessariamente em sociedade. Tal caracterís‑
tica intrínseca emprestaria a toda ciência ou campo do saber relativos ao homem 
em sua convivência com outros homens a alcunha de “social”.
Mas aqui já chegamos a um primeiro impasse. Que o homem vive e se 
desenvolve em grupos de indivíduos de diversas magnitudes e com caracterís‑
ticas diversas, é difícil negar. Mas que ele é um ser intrinsecamente social, in‑
capaz	de	viver	fora	do	âmbito	coletivo,	não	constitui	um	consenso.	Desde	o	
princípio da era burguesa — não por acaso — coloca‑se em questão o vínculo 
511Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
necessário homem‑sociedade, não faltando defesas do caráter intrinsecamente 
autônomo e autocentrado do indivíduo. A mais célebre dessas iniciativas é o 
Robinson Crusoé (1719), de William Defoe, relato das desventuras de um náu‑
frago em uma ilha deserta, para o qual o convívio com outros seres humanos é 
tido como desejável, mas inteiramente dispensável.
O	caráter	ficcional	da	obra	de	Defoe	depõe	de	forma	alguma	contra	seu	
estatuto	de	retrato	fiel	da	concepção	de	homem	que	se	tornava	predominante	
nos séculos XVII e XVIII na Inglaterra, e que Marx denominou o “ponto de 
vista da economia política”.1 Trata‑se das “robinsonadas”, isto é, a generaliza‑
ção da competição capitalista entre os indivíduos para uma condição humana 
intrínseca, desprovida de historicidade. Nas palavras de Marx, tratar‑se‑ia:
[...] da antecipação da “sociedade civil”, em preparação desde o século XVI e 
dando enormes passos rumo a sua maturação no XVIII. Nessa sociedade de livre 
competição, o indivíduo aparece desligado dos laços naturais etc. que em períodos 
históricos anteriores faziam dele um apêndice de um conglomerado humano de‑
finido	e	limitado.	(Marx,	1973,	p.	83;	tradução	do	autor)
No	 âmbito	das	 ciências	 humanas,	 a	 absolutização	da	 esfera	 individual	
ainda se faz presente e com especial força nesta quadra histórica chamada 
neoliberal, que reabilitou o individualismo possesivo, a competição e a exalta‑
ção do mercado (o que mantém vigente o recurso à “robinsonada” e sua crítica 
por Marx). Assim, se o momento histórico‑concreto se caracteriza pela ofensi‑
va neoliberal e pelo refluxo do movimento operário, compreende‑se que a noção 
de uma sociabilidade intrínseca ao homem não deverá ser hegemônica no 
plano da ideologia e tampouco no da linguagem (supondo aqui que a esfera da 
linguagem seja, em termos relativos, subalterna à da ideologia).
1. Assim, Hobbes (1994, p. 106) descreve no Leviathan (1651) o homem antes de tudo como um ser 
antissocial, intrinsecamente competitivo e incapaz de viver em sociedade, senão sob o jugo de um poder 
superior instituído por um contrato que limite as ambições e demais impulsos violentos e egoístas dos homens. 
Locke também assevera uma liberdade original irrestrita para o homem no seu Segundo tratado sobre o 
governo de 1689, de acordo com o qual a sociedade não é condição básica da vida humana. Para ele, a virtude 
da vida social seria, acima de tudo, assegurar o respeito à propriedade privada, esta sim intrínseca ao homem 
em seu estado de natureza (cf. Locke, 2001, p. 468).
512 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
Isto nos leva a crer que o termo “social”, de uso tão frequente, assume 
necessariamente	significados	diferentes	para	aqueles	que	o	empregam,	ainda	
que isto não esteja explícito de imediato. Sustentamos que, de pronto, ao menos 
dois campos claramente opostos se delimitam a partir das perspectivas ontoló‑
gicas antagônicas que, de um lado, descrevem o homem como intrinsecamente 
social	 e,	 de	outro,	 como	mônada	 autossuficiente	 (ressaltando	que	nem	 toda	
visão se reduz a uma destas concepções). Assim, quando se utiliza o adjetivo 
“social” há necessariamente uma cisão de sentido, já que sociedade é, para uns, 
o meio necessário no qual se dá a vida humana e, para outros, uma construção 
contingente	com	um	propósito	específico	de	existência.
E	se	há	um	corte	claro	no	âmbito	dos	fundamentos	ontológicos	dos	dis‑
cursos, também há outro — que não necessariamente reproduz o primeiro — que 
opõe campos antagônicos do discurso político. Quando examinamos, ainda que 
superficialmente,	o	vocabulário	empregado	pela	literatura	crítica	(“transforma‑
ção social”, “lutas sociais”, “movimentos sociais”) frente à conservadora (“caos 
social”, “revolta social”, “convulsão social”), percebemos uma mudança de 
sentido, mas também um deslocamento valorativo.
Nesses usos em particular, devemos atentar para o fato de que nem todo 
“social”	significa	“aquilo	que	é	relativo	à	sociedade”.	E	isto	se	dá	em	ambos	os	
extremos do espectro ideológico, já que se com a expressão “movimento social” 
não se pretende fazer referência a um movimento da sociedade, “revolta social” 
tampouco se refere a uma revolta desta. Que o “movimento” e a “revolta” se dão 
na sociedade é uma tautologia, por que então adjetivá‑los como “sociais”? Ne‑
cessariamente, pois o termo social as qualifica num outro sentido, revestindo os 
termos com tonalidade política. “Movimento social” é uma ação coletiva de um 
setor descontente da sociedade com vistas a sua transformação em algum grau; 
“revolta social”, por sua vez, também não faz referência ao todo da sociedade, 
já que provavelmente exclui os bons cidadãos que utilizam tal expressão.2
Assim, a forma de adjetivo de que se reveste o termo “social”, em todos os 
empregos	enumerados	anteriormente,	oculta	um	outro	conjunto	de	significados	
2. É possível até que remeta ao mesmo agrupamento de descontentes pertencentes ao “movimento”, 
imputando‑lhe, todavia, um caráter negativo em virtude da ruptura com a ordem.
513Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
que a palavra incorpora, e que se liga a sua manifestação enquanto substantivo. 
Atentemos para essa diferenciação, pois nos dá a chave para elucidar a polisse‑
mia nem sempre manifesta da palavra “social”.
Segundo o Dicionário Houaiss da língua portuguesa, o adjetivo “social” 
denomina algo “concernente à sociedade” ou que é “relativo à comunidade,ao 
conjunto dos cidadãos de um país”.
É contudo, a segunda classe de uso do vocábulo sob a forma de substantivo 
que nos dá a chave para a compreensão do termo em questão. O “Social”, ainda 
segundo o Houaiss, é “o que pertence a todos; público, coletivo” e também “o 
que diz respeito ao bem‑estar das massas, especialmente as menos favorecidas”.
Não	bastasse	essa	mudança	semântica	considerável,	o	caráter	de	substan‑
tivo é por si só revelador, já que para “social” ter se tornado o “social” — refe‑
rindo-se	especificamente	às	“massas	menos	favorecidas”	e	não	“ao	conjunto	
dos	cidadãos”	—,	significa	que	ele	se	tornou,	em	alguma	medida,	independen‑
te da sociedade como um todo.
Faz‑se necessário examinar, portanto, o percurso histórico que permitiu que 
“social”	deixasse	de	remeter	à	“sociedade”,	passando	a	qualificar	apenas	parte	
dela.	Sustentamos	que	a	substantivação	do	termo	incorpora	o	caráter	reificado	
que assumem nas ideias da classe dominante, as tais “massas” acima referidas. 
Parece‑nos, portanto, oportuno analisar a maneira como o “social” tornou‑se um 
corpo estranho à própria “sociedade” que, enquanto termo, passou ela mesma a 
ser sujeita a alterações de sentido, bem como a ser preterida por outros termos 
(em	especial	pela	“comunidade”,	o	que	examinaremos	ao	final	deste	texto).
Para isso voltaremos ao momento histórico que marca a origem comum 
tanto desse “social” em sentido restrito quanto da “questão social”, as revoluções 
europeias da primeira metade do século XIX.
* * *
A gênese do termo “questão social” se dá num momento‑chave da história 
europeia, segundo nos informa José Paulo Netto:
Todas as indicações disponíveis sugerem que a expressão “questão social” tem 
história recente: seu emprego data de cerca de 170 anos. Parece que começou a 
514 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
ser utilizada na terceira década do século XIX e foi divulgada até a metade da‑
quela	centúria	por	críticos	da	sociedade	e	filantropos	situados	nos	mais	variados	
espaços do espectro político. (Netto, 2001, p. 152)
O ano de 1830 é, para todos os efeitos, a data em que o proletariado faz 
sua primeira aparição histórica enquanto ator político “em si” (o “para si” dar‑
‑se‑ia apenas em 1848). Decorridas algumas décadas de industrialização em 
território francês, e dada a constrição imposta à grande burguesia pelo predo‑
mínio político dos grandes possuidores de terra no período da Restauração, a 
revolução voltava à ordem do dia na França.
Os	vários	setores	da	burguesia	local	se	unificam	e	mobilizam	o	proletaria‑
do para instaurar, por meio de uma revolução, uma nova ordem que se materia‑
lizaria na monarquia constitucional encabeçada por Louis Phillipe de Orléans, 
a Monarquia de Julho. Para prejuízo de boa parte das forças sociais envolvidas 
em tal transformação — em especial para o proletariado, que não aufere nenhum 
benefício da nova situação, o que, em parte, também vale para as camadas 
médias —, a nova hegemonia instaurada era de um setor burguês restrito ligado 
à grande indústria e em especial ao embrião de uma classe parasitária ligada ao 
capital	portador	de	juros,	a	“aristocracia	financeira”.
O que subjaz a este pano de fundo político é aquilo que igualmente engen‑
dra a “questão social”. Trata‑se de um período marcado por dois condicionantes 
principais: Primeiramente, a elevação quantitativa exponencial da miséria e do 
pauperismo, ressaltada pelo contexto de aumento nunca antes visto das capaci‑
dades produtivas (Netto, 2001, p. 153). E, em segundo lugar, mas não menos 
importante, na transformação qualitativa das formas de protesto contra essas 
condições, agora protagonizadas por uma nova classe. Seria este o determinan‑
te‑chave para o cunhar do novo termo. Neste sentido:
A designação desse pauperismo pela expressão “questão social” relaciona‑se di‑
retamente aos seus desdobramentos sociopolíticos. [...] Lamentavelmente para a 
ordem burguesa que se consolidava, os pauperizados não se conformavam com a 
sua situação: da primeira década até a metade do século XIX, seu protesto assumiu 
as	mais	diferentes	formas,	[...]	configurando	uma	ameaça	real	às	instituições	sociais	
515Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
existentes. Foi a partir de uma eversão da ordem burguesa que o pauperismo 
designou‑se como “questão social”. (Idem, p. 154)
A “questão social” nunca foi, portanto, a questão da sociedade ou “refe‑
rente ao conjunto da sociedade”, mas sim, desde seu surgimento, foi a questão 
de um segmento desta, que, por ser potencialmente revolucionário, punha em 
risco o projeto de sociedade da burguesia, classe que em 1830 consolidava sua 
posição hegemônica. São, portanto, as implicações da questão operária que, 
“em seguida, o pensamento conservador designará com a fórmula aparente‑
mente neutra de ‘questão social’” (Netto, 2004, p. 61), que fundamentam a 
nova expressão. Oculta sob o adjetivo “social” está a classe operária, sem a 
qual o termo deixa de fazer sentido, inclusive na maior parte dos usos contem‑
porâneos	da	palavra.	Se	“social”	e	“operário”	caminham	juntos,	e	se,	sem	se	
confundir, estão intrinsecamente ligados, é possível compreender a razão pela 
qual “[c]uriosamente, a expressão ‘questão social’ emerge praticamente ao 
mesmo tempo em que surge, no léxico político, a palavra socialismo” (Netto, 
2001,	p.	152,	n.	3).	O	“socialismo”	é	a	formalização	necessária	no	âmbito	do	
discurso e das ideias políticas das pretensões do “social” de moldar uma nova 
sociedade,	ou	seja,	é	um	reflexo	das	formas	de	rebelião	política	que	assume	o	
não conformismo dos setores subalternos da sociedade capitalista.
No texto de Marx, Las luchas de clases en Francia de 1848 a 1850,	fica	
patente	a	natureza	socialmente	enraizada	da	flutuação	semântica	do	termo	“so‑
cial”. É, sobretudo, nas revoluções de 1848 que o vocábulo deixa de caracteri‑
zar apenas no discurso de uma consternada classe burguesa uma nova forma 
de pauperismo, sendo apropriado pelas próprias massas trabalhadoras nas suas 
palavras de ordem e reivindicações após a vitória da revolução de fevereiro:
Lo mismo que en las jornadas de julio habían conquistado luchando la monarquía 
burguesa, en las jornadas de febrero los obreros conquistaron luchando la repú‑
blica burguesa. Y lo mismo que la monarquía de julio se había visto obligada a 
anunciarse como una monarquía rodeada de instituciones republicanas, la repú‑
blica de febrero se vio obligada a anunciarse como una república rodeada de 
instituciones sociales. El proletariado de París obligó también a hacer esta con‑
cesión. (Marx, 2005, p. 133)
516 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
Marx nos mostra que o termo “social” passa, a partir de certo ponto, a se 
identificar	diretamente com as demandas da classe operária assim como “re‑
publicano” remeteria às reivindicações burguesas frente ao Antigo Regime. As 
“instituições sociais” apontariam, portanto, para além da república meramen‑
te burguesa.
Mas o que fundamentaria essa apropriação por parte do proletariado do 
vocábulo “social”, se esse fora forjado pela classe burguesa? Argumentamos 
que desde os primórdios de seu uso, a batalha pela reivindicação do verdadeiro 
significado	do	“social”	reside	ora	na	sua	particularização, ora na sua universa‑
lização pelas diferentes classes sociais em luta. À classe burguesa interessava, 
em um primeiro momento, universalizar abstratamente	o	significado	do	adje‑
tivo “social”, isto é, competia pulverizar a referência politicamente perigosa à 
classe operária num “social” que remetesse ainda ao conjunto da sociedade. 
Isto se explica, pois entre 1830 e 1848 a burguesia ainda sustenta a pretensão, 
objetivamente fundada, de incorporar, enquanto ente social particular, os inte‑
resses da sociedade como um todo, como havia feito na grande revolução de1789. Nesse período, a classe burguesa ainda enxerga no avanço de seus inte‑
resses particulares o progresso do todo da sociedade. Isto não constituía falsa 
consciência,	senão	o	reflexo	de	uma	realidade	que	colocava	na	ordem	do	dia	a	
expansão da revolução burguesa, rumo ao pleno desenvolvimento das relações 
sociais capitalistas.
Se essa utilização inicial do termo “social” no período citado correspondia, 
no plano do discurso, às pretensões universalizadoras de uma classe burguesa 
ainda revolucionária, justamente por ocultar o caráter de classe que possuíam 
os	conflitos	societários	da	época	no	seio	do	que	havia	sido	o	terceiro	Estado,	a	
situação se reverte quando o proletariado passa a reivindicar para si o status de 
classe depositária do interesse geral. Assim, é também da universalidade então 
inerente ao termo “social” da qual irá se nutrir o proletariado ao fazer deste o 
complemento de suas principais demandas: as instituições sociais, a emancipa‑
ção social etc. Segundo José Paulo Netto (2004, p. 51):
Até então [1848], frequentemente as demandas dos segmentos vinculados ao 
trabalho apareciam indistintas dos projetos burgueses, subsumidas na aspiração 
517Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
revolucionária da igualdade, da fraternidade, e da liberdade. O trabalho, nos 
confrontos sociopolíticos, surgia também e ainda subordinado ao capital. É nas 
jornadas de 1848, que se patenteia o radical antagonismo entre ambos: quando se 
põe a exigência da república social, explicita‑se o limite do mundo burguês. 
Para opor as pretensões de classe universal do proletariado, bem como 
suas reivindicações sociais, a burguesia que no pós‑1848 se revestiu de um 
ímpeto eminentemente conservador, precisou fazer a operação inversa à que 
havia realizado antes: se de início competia generalizar abstratamente os 
interesses das classes trabalhadoras, para que pudesse assumi‑los como seus, 
agora era imperativo particularizar esses interesses, imputando‑os a um 
setor pretensamente minoritário da sociedade, restringindo os males prove‑
nientes da “questão social” a anomalias sanáveis dentro da ordem vigente. 
Com essa viragem nas pretensões políticas da classe burguesa concomitante 
à entrada revolucionária do proletariado na cena histórica, restringe‑se pro‑
gressivamente o sentido do vocábulo “social”, que não mais se confunde com 
o que “concerne ao todo da sociedade”, passando a remeter apenas a um 
setor particular desta.
* * *
O destino do termo “sociedade” é outro caso digno de nota no percurso 
histórico do “social”. Pois o progressivo esvaziamento do adjetivo “social” 
— que naturalmente advém do substantivo “sociedade” — não deixa este úl‑
timo termo incólume. A substantivação do “social”, isto é, o processo que 
torna	o	“social”	um	objeto	reificado,	torna	o	uso	da	palavra	“sociedade”,	por	
sua vez, um embaraço terminológico. O processo segundo o qual isso ocorre 
passa por um fenômeno diretamente relacionado aos acontecimentos de 1848‑49 
discutidos acima, isto é, à guinada decisiva que a burguesia dá rumo ao campo 
conservador.
No	campo	dos	conflitos	de	classe	isso	equivaleu	à	opção	da	classe	burgue‑
sa por uma aliança com seus antigos adversários — a aristocracia, os grandes 
possuidores de terra — para fazer frente às reivindicações do proletariado 
(muitas das quais estavam, à época, inscritas no programa da revolução burguesa 
518 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
e atendiam aos interesses dessa classe). No campo da ideologia, registram‑se 
mudanças sensíveis: recorre‑se às ideias sustentadas pelas classes remanescen‑
tes do Antigo Regime ou por aqueles que delas descendem, já que mesmo as 
ideias sustentadas pela burguesia do século XVIII se provam perigosas porque 
passíveis	de	apropriação	pelo	proletariado	revolucionário.	A	figura	emblemáti‑
ca	desse	câmbio	nas	pretensões	da	burguesia	que	ecoa	no	domínio	ideológico	
é, sem dúvida, Alexis de Tocqueville.
Tocqueville é tido hoje como um dos principais autores liberais do século 
XIX, uma asserção indiscutível. O que é digno de nota, todavia, é que o pensa‑
dor francês pertenceu à aristocracia e vivenciou o período da Revolução de 
1789, “quando seus pais foram aprisionados e seu avô materno, o marquês de 
Rosambo, morreu na guilhotina em nome da liberdade, da igualdade e da fra‑
ternidade”. (Barbu, Z. “Apresentação”, in Tocqueville, 1997, p. 12) Lembremos 
que o liberalismo havia sido a expressão máxima da burguesia no campo das 
ideias enquanto ainda se contrapunha às classes do Antigo Regime. Como é 
possível, portanto, que um dos grandes continuadores do liberalismo no segun‑
do quartil do século XIX tenha sido um aristocrata?
O fenômeno‑chave aqui é, sem dúvida, o esgotamento do papel revolucio‑
nário da burguesia que se revela em um período que já mencionamos, a saber,
[...] o ano de 1848 e os dias sangrentos de junho, a primeira ação independente 
da classe trabalhadora, que marcou de tal forma a ideologia da burguesia fran‑
cesa, que, após este período, a ideologia burguesa deixou de desempenhar um 
papel progressista na França por um bom tempo. A ideologia se tornou adaptável, 
caminhando para a mera apologia da burguesia. (Lukács, 1964, p. 85; tradução 
do autor)
Assim, a centralidade que assume Tocqueville para o pensamento burguês 
é fruto de uma necessidade histórico‑concreta que determinava que a crítica 
aristocrática da sociedade burguesa era preferível à sua crítica revolucionária 
por parte da classe operária. Em outras palavras, o imperativo de manutenção 
do status quo	determinava	que	se	estabelecesse	uma	identificação	entre	o	uni‑
verso feudal e o burguês contra o perigo vindo das massas, que se nutriam dos 
ideais da própria burguesia revolucionária.
519Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
Isto se dá, no campo da ideologia, por meio de uma inversão na perspecti‑
va histórica. No período revolucionário, o passado feudal foi julgado com os 
olhos do novo tempo em construção pela burguesia, e, portanto, era criticado 
pelo absoluto cerceamento da liberdade do indivíduo, pela forma arbitrária com 
que o poder era exercido por uma minoria restrita e pelo obscurantismo que 
dava	coesão	ao	todo	social.	Em	meados	do	século	XIX,	fica	claro	que	tais	crí‑
ticas são passíveis de apropriação pelos elementos descontentes com a própria 
sociedade burguesa. A solução encontrada foi a revalidação da era feudal, com 
a recuperação parcial da ideologia que a sustentava.
Assim, a guinada conservadora da burguesia a partir de 1848‑49 inicia‑se 
com a crítica de seu próprio período revolucionário e dos ideais sem os quais 
não haveria ela própria rompido as amarras feudais e instaurado uma realidade 
histórica moldada à sua imagem. Condena‑se de forma irrestrita o Iluminismo 
e sua incitação ao progresso, bem como o processo revolucionário de 1789, ou 
seja, instaura‑se a crítica, que perdura até hoje, do progresso, da razão e das 
sublevações revolucionárias.3
O estatuto ideológico feudal é reabilitado, isto é, a liberdade em seu 
sentido aristocrático, a naturalização de uma divisão hierárquica da socieda‑
de, bem como a crítica à soberania popular e ao sufrágio universal são todas 
apropriadas por uma burguesia tornada classe dominante. A ruptura entre a 
ordem capitalista e a ordem feudal se vê, portanto, escamoteada, o que de‑
manda uma mudança de perspectiva sobre o caminhar da própria história.4 
Assim, para a primeira burguesia, houve história, mas com sua chegada ao 
poder não haveria mais. A burguesia do período da decadência, por sua vez, 
extirpa por completo o devir da história ao negar a ruptura feudalismo/capi‑
talismo,	o	que,	por	extensão,	significa	a	negação	de	qualquer	possibilidade	de	
ruptura futura.
3. Cf. Lukács (2007, cap. 1).
4. O método de Marx já delimitava de maneiraclara uma forma alternativa — efetivamente antagônica 
à adotada pela burguesia da época da decadência — de contrapor épocas históricas: “Nesta concepção teórica 
[a de Marx — V.S.], ao contrário das teses positivistas, é o mais complexo que esclarece o menos complexo 
— donde o estudo da ordem burguesa oferecer elementos para iluminar formações sociais anteriores” (Netto, 
2004, n. 36).
520 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
O recurso à análise da realidade capitalista vista à luz da realidade feudal 
é especialmente nítido em A. Tocqueville. Sua contribuição à tematização de 
nosso objeto centra‑se sobre a noção de “associação”, que ele irá analisar tor‑
nando patentes os traços descritos acima quanto ao pensamento da decadência. 
Em suas considerações, Tocqueville subverte este que é um termo caro à tradi‑
ção revolucionária e à classe trabalhadora, imputando‑lhe uma origem feudal 
num	processo	de	apropriação	e	ressignificação	que	visa	neutralizá-lo.
Segundo ele, a associação é uma instituição feudal, que quando praticada 
por aristocratas constituía processo simples e efetivo, já que se tratava da junção 
de uns poucos homens poderosos que reuniam em torno de si toda uma massa 
de pessoas a sua disposição para realizar um objetivo comum. Ao contrário do 
que acontece nas sociedades democráticas, a coesão é um dado imediato nas 
sociedades que Tocqueville denomina “aristocráticas”, já que “os homens não 
precisam se unir para agir, porque são mantidos fortemente juntos” ( Tocqueville, 
2000, v. 2, p. 132).
O pensador francês toca num tema caro àqueles imbuídos da tarefa de 
reabilitar a ordem feudal, a saber, sua pretensa organicidade e coesão que se 
contrapõe ao individualismo exacerbado da sociedade capitalista. Ainda segun‑
do o autor: “Cada cidadão rico e poderoso, nelas constitui como que a cabeça 
de uma associação permanente e forçada, que é composta de todos os que ele 
mantém em sua dependência e que faz concorrer para a execução de seus pro‑
jetos” (Idem).
Essa linha de argumentação faz‑se típica após os esforços iniciais de pen‑
sadores como Tocqueville e se caracteriza pela crítica a uma faceta da socieda‑
de	moderna	acompanhada	pela	justificação	das	contradições	da	ordem	feudal.	
Neste sentido, ao tomar essas duas realidades sociais como equivalentes para 
compará‑las, perde‑se o salto qualitativo que marca centralmente a revolução 
burguesa, isto é, o progresso frente às formações sociais anteriores. Pondera‑se 
abstratamente prós e contras de cada etapa histórica como se existissem lado a 
lado: o preço da coesão e harmonia interna da sociedade feudal teria sido a 
dominação aristocrática; já o preço da liberdade da sociedade burguesa seria o 
individualismo	que,	contrariamente	aos	cânones	da	tradição	liberal	pré-deca‑
dência, é tido pelo pensador francês como negativo: “Nos povos democráticos 
521Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
[...] todos os cidadãos são independentes e fracos, não podem quase nada por 
si mesmos e cada um deles não poderia obrigar seus semelhantes a lhe prestar 
seu concurso. Assim, caem todos na impotência se não aprendem a se ajudar 
livremente” (Idem).
A alternativa estaria justamente na recuperação da associação, que seria, 
nas “sociedades democráticas”, um verdadeiro imperativo dada a impotência 
do indivíduo isolado. O modelo para as associações de tipo novo, Tocqueville 
encontra nos Estados Unidos:
A primeira vez que ouvi dizer nos Estados Unidos que 100 mil homens tinham se 
comprometido publicamente a não fazer uso de bebidas fortes, a coisa me pareceu 
mais inconsequente do que séria [...]. Acabei compreendendo que esses 100 mil 
americanos, assustados com o aumento da embriaguez à sua volta, tinham dese‑
jado patrocinar a sobriedade. Tinham agido precisamente como um grão‑senhor 
que	se	vestisse	muito	singelamente	a	fim	de	inspirar	aos	simples	cidadãos	o	des‑
prezo ao luxo. É de crer que, tivessem esses 100 mil homens vivido na França, 
cada um deles teria se dirigido individualmente ao governo para pedir que este 
fiscalizasse	os	cabarés	em	toda	a	superfície	do	reino.	(2000,	p.	135)
A argumentação de Tocqueville é exemplar no que diz respeito à sugestão 
subreptícia da continuidade entre sociedade feudal e sociedade burguesa. Ao se 
associarem, os cidadãos norte‑americanos incorporariam o espírito do grão‑se‑
nhor, isto é, um mal das sociedades democráticas seria sanado pelo recurso — 
ainda que inconsciente por parte dos 100 mil — a uma forma de organização a 
qual o pensador francês atribui uma origem aristocrática. O uso dos exemplos é 
tampouco acidental: o grão‑senhor deseja defender, de todas as coisas, a modés‑
tia; já o vício que a associação deseja contrapor na sociedade democrática é o 
alcoolismo. Há ainda a crítica irônica à maneira como os franceses lidariam com 
a questão — o recurso ao Estado — e que avança a noção cara a Tocqueville de 
que os indivíduos fracos e dispersos da sociedade burguesa estariam à mercê da 
tirania dos governantes.5
5.	Há	ainda	neste	trecho	a	defesa	explícita	da	organização	dada	no	âmbito	da	sociedade	civil,	contraposta	
favoravelmente ao Estado no que concerne à resolução dos problemas sociais. A atualidade desta argumentação 
522 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
Tocqueville é um dos primeiros representantes da viragem pós‑1848 que 
faria do pensamento de viés aristocrático ou — guardadas suas diferenças — 
romântico	a	principal	arma	ideológica	da	burguesia	conservadora.	Vale	dizer	
que o recurso ao ideário de tipo aristocrático desempenhou sua função tanto 
mais efetivamente quanto mais pôde apresentar‑se como uma crítica da socie‑
dade capitalista. Assim, a crítica ao individualismo da sociedade burguesa (que 
parte de fundamentos objetivos) é alvo de soluções conservadoras inspiradas 
na organicidade e na suposta harmonia da sociedade feudal. Tal é a estratégia 
adotada de forma reiterada pela burguesia a partir de 1848 para fazer frente às 
propostas e reivindicações dos setores socialistas.
No que diz respeito ao nosso tema central, tanto a caracterização feita por 
Tocqueville da sociedade burguesa como uma aglutinação de indivíduos isola‑
dos, quanto a solução que advoga — as associações — negam a natureza social 
dos antagonismos inerentes a tal formação histórica, isto é, dissolvem as classes 
em uma pluralidade de indivíduos, fazendo do percurso histórico da classe 
trabalhadora rumo a sua emancipação a ação cega da igualdade transformada 
em potência abstrata. Se para o materialismo histórico a associação dos traba‑
lhadores repousa sobre a base objetiva da classe, ou seja, é enraizada social‑
mente, para o aristocrata francês o “social” não pertence à sociedade; é antes 
um artefato contingente que depende da conjugação de interesses na associação.
* * *
Para encontrarmos os efetivos continuadores da tradição da qual Toc‑
queville é um dos inauguradores — a recuperação do pensamento aristocrá‑
tico enquanto arma ideológica burguesa — devemos remeter à Alemanha. É 
lá que, não casualmente, a chama do pensamento de viés aristocrático perdu‑
ra século XX adentro. É em terras alemãs onde a “sociedade” receberá o 
golpe	de	morte	semântico	que	a	 relegaria	ao	segundo	plano	 frente	a	outro	
termo, a “comunidade”.
é inquestionável se pensarmos na retórica do chamado “terceiro setor” em tempos recentes. Uma análise do 
caráter	premonitório	das	ideias	de	Tocqueville	para	o	associativismo	contemporâneo	pode	ser	encontrada	em	
Montaño (2007, p. 63‑76).
523Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
A vocação alemã para produzir o pensamento conservador aristocratizan‑
te não é acidental. Tem como base seu célebre atraso, tematizado por Marx 
ainda em 1843. Trata‑se do dado mais fundamental da evolução histórica alemã 
na era moderna,a saber, o fato de que esta não consumou uma revolução bur‑
guesa “clássica” durante a qual teriam sido varridos os principais atores sociais 
do sistema feudal — a aristocracia — e, com ela, as formas de propriedade, os 
laços servis de dominação e demais barreiras ao desenvolvimento capitalista.
Na via clássica, uma vez restabelecido o devir histórico inteiramente 
sobre fundamentos burgueses após ter sido consumada a revolução, mesmo os 
membros restantes da antiga classe dominante que subsistem são inteiramente 
incorporados à sociedade capitalista. É por essa razão que Tocqueville, um 
sobrevivente daquela que foi a revolução burguesa por excelência, opõe à 
ordem capitalista apenas a ideia do Antigo Regime como alternativa, e não sua 
estrutura social (é isto que o permite enxergar mesmo na mais moderna das 
nações — os Estados Unidos — características de “tipo” aristocrático). Espe‑
cialmente após a Revolução de Julho de 1830, a presença dos remanescentes 
da	aristocracia	na	figura	dos	legitimistas	do	Partido	da	Ordem	na	França	não	
apresenta uma alternativa real à dominação burguesa. Ao contrário, esses estão 
integralmente incorporados à lógica do sistema capitalista, são uma aristocra‑
cia “aburguesada”.
A	Alemanha	teve	uma	unificação	nacional	tardia	produzida	sem	uma		ruptura	
histórica	violenta	com	o	passado,	o	que	significou	a	sobrevivência	de	uma	forte	
aristocracia representada, sobretudo, pelos grandes possuidores de terra a leste do 
rio Elba, os junker. Não por acaso, foi solo adequado para a formação de uma 
ideologia que aponta para o passado, além de ser — graças ao frenético ritmo de 
desenvolvimento capitalista em solo alemão nas últimas décadas do século XIX 
— altamente funcionalizável pela ordem capitalista. O mais marcante dos efei‑
tos produzidos por essa trajetória histórica particular é que os traços aristocráti‑
cos não se limitam ao pensamento de autores diretamente ligados à aristocracia 
— como era o caso de Tocqueville na França. Ao contrário, podem ser encon‑
trados em autores dos mais diversos extratos sociais, mesmo nos mais decidida‑
mente burgueses ou até em pensadores ligados à esquerda operária. É o caso do 
autor que iremos tematizar logo adiante, Ferdinand Tönnies.
524 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
Antes, porém, convém abordar uma faceta da língua alemã que oferece 
um interessante subsídio para as hipóteses deste trabalho. Se nas línguas latinas 
a	mudança	semântica	do	termo	“social”	foi	acompanhada	por	sua	substantiva‑
ção, isto é, uma alteração de classe gramatical que indicou que aquilo que se 
refere à sociedade se transformou em algo independente desta última, no 
alemão	tal	câmbio	gerou	dois	vocábulos	diferentes.	Há,	a	exemplo	do	português,	
um substantivo Gesellschaft (sociedade) que partilha do radical do adjetivo 
gesellschaftlich, de forma semelhante à sociedade/social.
Todavia, a entrada do movimento operário no palco político das lutas de 
classes introduz não a substantivação do termo gesellschaftlich, mas uma nova 
palavra: o adjetivo sozial. A “questão social” em alemão, por exemplo, já nas‑
ceu como “soziale Frage”. Analogamente, nas palavras de Marx, citadas neste 
trabalho, a república de fevereiro de 1848 “se vio obligada a anunciarse como 
una república rodeada de instituciones sociales”, isto é, “als eine Republik, 
umgeben von sozialen Institutionen”.6
Este fenômeno linguístico não se deve à pretensa vocação da língua alemã 
para	a	filosofia,	como	a	caracterizou	certa	vez	Heidegger,	mas	ao	atraso	alemão	
segundo o qual as questões de cunho político associadas ao “social” são incor‑
poradas com um novo termo, a despeito da existência de uma palavra passível 
de traduzi‑lo (gesellschaflich). Assim, o “social” francês é apenas ligeiramente 
germanizado (no século XIX, apenas na pronúncia, mantendo o “c” original, e 
posteriormente	assumindo	uma	nova	grafia	—	sozial), o que imputa um caráter 
exógeno àquilo que é exprimido pelo termo no que diz respeito à realidade 
alemã. No universo linguístico alemão, os problemas sociais em nenhum mo‑
mento se confundem com os problemas da sociedade, seriam antes fenômenos 
externos	à	tradição	germânica	introduzidos	talvez	com	a	chegada	da	Zivilisation, 
também ela um fenômeno estrangeiro (cf. Mann, 1975). O que nos leva ao 
6.	Deve-se	 ressaltar	que	não	há	uma	cisão	semântica	completa	entre	os	adjetivos	gesellschaftlich e 
sozial. O último é admitido para denominar, de acordo com o Dicionário eletrônico da Academia de Ciências 
de Berlin‑Brandenburg	(disponível	em:	<www.dwds.de>),	“aquilo	que	é	relativo	à	correlação,	à	vida	conjunta	
dos homens”. Contudo, sozial também diz respeito “à estrutura econômica e política de uma dada sociedade”, 
“ao	pertencimento	dos	homens	a	diferentes	classes,	grupos	ou	extratos	no	interior	da	sociedade”	e	finalmente,	
“aos benefícios voltados à melhoria das condições de vida e trabalho, à assistência cultural e de saúde dos 
trabalhadores ou membros da sociedade sob penúria material”. As referências do texto original de Marx estão 
disponíveis	em:	<http://www.mlwerke.de/me/me07/me07_012.htm>.	Acesso	em:	10	fev.	2014.
525Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
ponto que discutíamos anteriormente, a saber, a incorporação do pensamento 
aristocrático pela ideologia burguesa ciosa de frear o devir histórico que apa‑
renta apontar para sua dissolução enquanto classe.
Como já dissemos, o progressivo distanciamento entre “social” e “socie‑
dade” resvalou de forma decisiva sobre este último vocábulo. O parentesco 
etimológico entre o repugnado “social” e a “sociedade” é por demais evidente 
para ser ignorado, o que pode levar a embaraços para o pensamento burguês: 
como dizer, por exemplo, que pertencemos à sociedade mas não ao “social”?
É Ferdinand Tönnies (1855‑1936) que dará uma solução amplamente uti‑
lizada desde então a esse dilema em seu estudo clássico Comunidade e socieda‑
de, de 1887. Pertencente à primeira geração de sociólogos propriamente ditos 
da academia alemã, Tönnies abre sua obra enunciando o seguinte propósito:
Las distintas voluntades humanas mantienen entre sí múltiples relaciones. [...] 
Este	estudio	tendrá	por	objeto	de	investigación	solamente	las	relaciones	de	afir‑
mación recíproca. [...] El grupo formado por el tipo positivo de relación recibe el 
nombre de ligamen (Verbindung) cuando se concibe en calidad de ser o cosa que 
actúa como unidad tanto hacia su núcleo como hacia su exterior. La relación 
misma, así como la asociación resultante, se concibe aquí bien como ida orgánica 
y real — característica que es esencial en la Gemeinschaft (comunidad) —, bien 
como estructura imaginaria y mecánica — es decir, el concepto de Gesellschaft 
(sociedad o asociación). (Tönnies, 1979, p. 27)
Eis que o embaraço antes provocado é dissolvido no uso de dois termos, 
qualitativamente díspares, para denominar a “unidade de distintas vontades 
humanas”: “comunidade” e “sociedade”, a primeira denotando o vínculo essen‑
cial	e	orgânico	entre	os	homens	e	a	última	uma	estrutura	meramente	artificial	e	
contingente. Já nestas palavras iniciais se faz nítida a contraposição de uma 
concepção aristocrática de coletividade a uma concepção burguesa desta. À 
maneira de Tocqueville, essa síntese se reveste de uma crítica à sociedade ca‑
pitalista,	o	que,	no	caso	de	Tönnies	envolve	o	uso,	com	alguma	constância,	de	
linguagem ou de conceitos derivados diretamente de Marx.7
7.	Sobre	tal	procedimento,	Lukács	afirma	o	seguinte:	“Tönnies	es	el	primer	sociólogo	alemán	que	no	
rechaza a limine a	Marx,	sino	que	trata	de	reelaborarlo,	poniéndolo	a	contribución	para	sus	fines	burgueses”	
(Lukács, 1959, p. 523).
526 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
Mais uma vez, e também em linha com o pensador francês citado, são os 
exemplos que traem o juízo positivodo autor acerca da ordem feudal que pau‑
tará toda a obra em questão. Discorrendo sobre as relações forjadas na comu‑
nidade,	o	autor	afirma	o	seguinte:
Y ocurre que esto constituye una tendencia inherente natural: a una fuerza y poder 
superiores corresponde también una capacidad mayor de ayuda. Si tal intención 
o voluntad existe, será tanto más fuerte y decidida a causa del sentimiento de 
poder que conlleve. Con lo que nos encontramos, sobre todo en el terreno de las 
relaciones físico‑orgánicas, con una ternura instintiva e ingenua del fuerte por el 
débil, [...] la ternura corresponde a la reverencia, o, en un menor grado de inten‑
sidad, la benevolencia al respeto; representan éstos los dos polos del sentimiento 
en que se basa la Gemeinschaft [a comunidade — V. S.], en caso de que exista 
una	diferencia	definida	de	poder.	(Tönnies,	1979,	p.	38-39)
Sob	a	forma	de	uma	tipificação	atemporal	se	oculta	uma	elegia	ao	univer‑
so caracteristicamente feudal das relações de dependência e servidão. O que é 
mais interessante nas análises dotadas deste viés é o fato de que as referências 
ao passado aristocrático são desprovidas de historicidade, enquanto imputa‑se 
aos tempos burgueses, isto é, a constituição da sociedade, um caráter contin‑
gente, precário. Desta maneira, tal qual a virtude da associação descrita por 
Tocqueville estariam presente, ainda que em formas diversas, tanto nas forma‑
ções sociais medievais quanto na sociedade burguesa, a “ternura” e a “benevo‑
lência”, características naturais dos homens em posição de poder através dos 
tempos. Sob essa luz, o capitalismo aparece como um arranjo antinatural e, 
portanto, problemático.
En el sentido más general podemos hablar de una Gemeinschaft (comunidad) que 
comprenda el conjunto de la humanidad, tal y como la Iglesia quiere ser conside‑
rada, por ejemplo. Pero la Gesellschaft (sociedad) humana se concibe como mera 
coexistencia de individuos independientes unos de otros. [...] En oposicion con 
la Gemeinschaft, la Gesellschaft (asociación)	es	transitoria	y	superficial.	A	este	
tenor, la Gemeinschaft (comunidad) debiera ser entendida como organismo vivo 
y la Gesellschaft (asociación) como un artefacto, un añadido mecánico. (Tönnies, 
p. 28‑29)
527Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
Essa combinação entre o atemporal e o contingente leva, no entanto, a uma 
solução conservadora, já que as críticas ao capitalismo em momento algum 
colocam sua existência em questão. O fato de que comunidade e sociedade 
existam juntas leva a crer que basta reforçar e ampliar os sentimentos e ações 
relacionadas à primeira para que sejam parcialmente neutralizados os males 
trazidos à tona pela segunda. A despeito de seus muitos males, a sociedade, 
juntamente com o capitalismo, aparece na obra de Tönnies como tendência 
irrefreável.
Na obra Desenvolvimento da questão social — com primeira edição em 
1907, ampliada em 1919 — Tönnies se propõe uma análise histórica ampla da 
“questão social” (que não constringe com aspas) ligando‑a diretamente ao sur‑
gimento e consolidação da sociedade.	 Eis	 sua	 definição:	 “Entendemos	por	
“cuestión social” el complejo de problemas que derivan de la cooperación y 
convivencia de classes, estratos y estamentos sociales distintos, que forman una 
misma sociedad, pero están separadas por hábitos de vida y por sua ideologia 
y visión de mundo” (Tönnies, 1927, p. 13).
Nesse trecho patenteia‑se o sincretismo que caracteriza a produção de 
Tönnies. A “questão social” adviria dos problemas de “convívio” entre as clas‑
ses, mas também entre estratos e estamentos, os quais estariam opostos não só 
pela ideologia que sustentam, mas igualmente pela visão de mundo da qual 
seriam portadores. Nos defrontamos com uma teoria social que procura fundir 
elementos	da	sociologia	acadêmica	alemã	de	fins	do	século	XIX	com	as	ideias	
de Karl Marx.8 Trata‑se, evidentemente, de uma mistura instável. No caso de 
Tönnies, ela é marcada pelas tendências aristocráticas já mencionadas, mas 
também por sensibilidades de esquerda que remetem à proximidade do autor 
com a social‑democracia alemã. Assim, a despeito de sua incompatibilidade 
intrínseca, tal combinação abre espaço, entre outras coisas, para momentos de 
efetiva crítica da sociedade capitalista. Isto se evidencia no tratamento estendi‑
do pelo autor aos desdobramentos agrários da “questão social”, já que lhe 
8. Algo que também se manifesta no seguinte trecho: “Con lo dicho se relaciona la evolución de la 
cuestión social, cuya fuerza motora es precisamente la contradicción y lucha de clases dentro de la nueva 
sociedad, del Estado y de la consciencia coletiva [?!]”. (Tönnies, 1927, p. 38; grifos nossos).
528 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
permite ligar o termo que intitula sua obra à classe trabalhadora,9 e, ao mesmo 
tempo, criticar o caráter meramente formal da liberdade do trabalhador sob o 
capitalismo:
[...] la explotación latifundiaria necesita disponer de una clase proletaria lo más 
numerosa posible, y tanto mejor podrá disponer de ésta cuanto más la separe de 
la propiedad del suelo, y de los restantes medios de producción, convirtiéndola 
de una clase de pequeños agricultores, en una masa meramente jornalera. Y si 
bien formalmente la última es libre, cosa que no siempre ocurre en la primera, es 
lo cierto que económicamente una y otra son materialmente dependientes; más 
cuando se trata de obreros absolutamente libres, propiamente jornaleros. (Tönnies, 
1927, p. 26)
Mais uma vez é possível perceber a sutil elegia dos tempos feudais que 
acompanha a crítica à sociedade capitalista. O proletariado rural, ainda que 
possivelmente mais livre que o pequeno agricultor preso à terra, é talvez mais 
dependente materialmente do latifundiário, isto é, do antigo senhor.
É importante ressaltar que a crítica produzida não perde necessariamente 
sua validade por emanar de uma perspectiva aristocrática e que esta nem sem‑
pre vem acompanhada por um olhar nostálgico para épocas anteriores.10 Con‑
tudo, se não são necessariamente elogiosos para o passado, são frequentemen‑
te ambíguos em relação a este, ambiguidade que só se vê reiterada pela 
ausência de uma proposta clara ou unívoca para a sociedade futura. Não por 
acaso, e por vezes em franca oposição à postura individual dos teóricos por elas 
responsáveis,11 tais ideias deram lastro a concepções ultraconservadoras da 
política e da realidade social.
9.	“[...]	la	cuestión	social	que	hoy	nos	ocupa	[se	refiere]	especialmente	al	trabajo	industrial.	La	cuestión	
social es, pues, principalmente, la cuestión obrera, y sobre todo, la cuestión obrera industrial. Sólo en segundo 
término viene la cuestión obrera agrícola” (Tönnies, 1927, p. 38; grifos nossos).
10. Cf. Löwy e Sayre (1995) e Löwy (1990). 
11.	Como	já	afirmamos,	Tönnies	é	um	exemplo	nítido	de	atitude	intelectual	que	possui	parentesco	com	
as sínteses conservadoras, mas cuja honestidade e posicionamento político o levaram para o campo oposto. 
Em meio à ascensão do nacional‑socialismo em terras alemãs, Tönnies se junta ao Partido Social‑Democrata: 
“[…] em 1930, Tönnies abandona sua concepção anterior de que um acadêmico deveria posicionar‑se perante 
529Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
* * *
Se nos concentramos no século XIX e início do XX, não pretendíamos 
ignorar o fato de que batalhas terminológicas continuam a ser disputadas en‑
carniçadamente nos tempos atuais. Entendemos apenas que se deve atentar para 
as	lições	já	proferidas	pelo	pensamento	crítico	para	desafios	como	esses:	como	
proceder se um termo é cunhado por setores conservadores para abranger um 
conjunto	de	fenômenos	sob	perspectiva	enviesada,	mistificadora?	Tal	é	a	per‑
gunta que se colocaram tanto aqueles que se depararam com a tarefa de des‑
construir a “questão social”quanto aquela com que se defronta os que hoje 
encaram termos quiçá mais problemáticos como “empreendedorismo”, “res‑
ponsabilidade social”, “situação de risco/vulnerabilidade social” etc.
Mas vale aqui uma nova referência as palavras de Marx: “Mudando‑se o 
nome não se muda a coisa. [...] Falando da oferta e da demanda das coisas, não 
se fala da oferta e da demanda do nome das coisas” (Marx, 2009, p. 100).
Não devemos procurar disputar nem ter a ilusão de poder vencer esses 
conflitos	no	plano	do	discurso.	Não	podemos,	todavia,	abandonar	esse	campo	
como	pura	mistificação	(é	esta,	penso,	a	lição	dos	pensadores	críticos	do	Ser‑
viço Social). Há que se perguntar a origem e a trajetória dos termos com os 
quais lidamos, ponderar os desdobramentos políticos de sua utilização e, espe‑
cialmente, retribuir mesmo a peça da mais franca apologética burguesa com 
uma análise adequada. Este artigo pretendeu ser uma pequena contribuição 
neste sentido.
Recebido em 25/2/2014 ■ Aprovado em 2/6/2014
os problemas sociais e políticos prementes, mas não se envolver com a política partidária: ele aderiu 
abertamente ao Partido Social‑Democrata” (Cahnman, 1973, p. 285; tradução do autor).
530 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 508-530, jul./set. 2014
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531Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
Três notas sobre o sincretismo no Serviço Social*
Three observations about syncretism in Social Work
Jamerson Murillo Anunciação de Souza**
Resumo: O ensaio visa recuperar algumas indicações ontológicas 
sobre a estrutura sincrética do Serviço Social, tal como formulada por 
José Paulo Netto no início da década de 1990, para problematizar o 
significado	social,	para	a	profissão,	de	determinadas	tendências	inscri‑
tas	na	atual	dinâmica	econômica	e	política	do	Brasil.	Procura	funda‑
mentar a atualidade e o vigor teórico da “tese do sincretismo” para 
analisar	os	dilemas	contemporâneos	do	Serviço	Social	brasileiro.
Palavras‑chave: Sincretismo. Ecletismo. Serviço Social.
Abstract: This article aims at recovering some ontological indications about the syncretic structure 
of Social Work, as it was formulated by José Paulo Netto in the beginning of the 1950’s, in order to 
question	the	social	significance	of	some	tendencies	in	the	current	economic	and	political	Brazilian	
dynamics for the profession. It seeks to base the effective value and the technical vigour of the “thesis 
of syncretism” to analyze the contemporary dilemmas of the Brazilian Social Work.
Keywords: Syncretism. Eclectism. Social Work.
* Ensaio construído para avaliação da disciplina de Seminário de Tese I, ministrada pela profa. dra. Ana 
Elizabete Mota, no Programa de Pós‑Graduação em Serviço Social da UFPE — Doutorado.
** Professor assistente I do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), 
doutorando do Programa de Pós‑Graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco/
Recife, Brasil, membro do Grupo de Estudos do Trabalho (GET/UFPE), coordenado pela profa. dra. Ana 
Elizabete Mota. E‑mail: jamersonsouza@ymail.com.
532 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
1. O significado ontológico do sincretismo
Realizar um mergulho teórico e sócio‑histórico nos assim chamados fundamentos do Serviço Social parece não ser uma tarefa simples. Muito especialmente no decorrer dos anos 1980 e 1990, esse tema recebeu o empenho investigativo de alguns dos mais talentosos 
pesquisadores	 e	 profissionais	 da	 área.	Com	certeza,	 decorridas	 três	 décadas	
desde a emergência e a consolidação dos debates sobre os fundamentos do 
Serviço	Social,	nossa	profissão	continua	empenhada	no	sentido	do	adensamen‑
to crítico e atualização teórico‑metodológica daquelas teses seminais.
Outros horizontes surgiram, nem sempre consensuais, particularmente 
fomentados pela apropriação de autores (e temáticas) clássicos da tradição 
marxista — para não mencionar os debates profícuos em torno de releituras 
qualificadas	 da	 obra	marxiana	 e	 da	 tradição	marxista.	Esse	 surgimento	 não	
surpreende:	decorre	das	especificidades	do	pensamento	de	cada	autor	clássico,	
seu	contexto	sócio-histórico	e	desafios	teórico-políticos,	em	fina	sintonia	com	
o momento histórico das contradições em processo. Seria ingênuo quem espe‑
rasse haver consenso e retilíneas concepções sobre política, teoria, método, 
filosofia,	cultura,	sociabilidade,	em	pensadores	tão	profundos	e	mergulhados	
em particularidades tão distintas, como Lenin, Gramsci, Lukács, Marx, Engels, 
para mencionar apenas alguns.
Evidentemente,	aqui	não	se	pretende	abrir	o	flanco	ao	ecletismo	ou	ao	
subjetivismo,	mas	apenas	sublinhar	que	toda	teoria	recebe	os	influxos	da	histó‑
ria. Sem fazer concessões quanto ao método de análise e a perspectiva da revo‑
lução, cada um desses autores enfrentou os dilemas de seu tempo, deixando às 
gerações	futuras	imprescindíveis	indicações	acerca	das	especificidades	do	modo	
de produção e reprodução do capital.
O Serviço Social brasileiro, desde os anos 1980 e da construção da hege‑
monia	da	teoria	social	crítica	em	suas	fileiras	profissionais,	parece	ser	herdeiro,	
tanto em suas potencialidades quanto em suas limitações, desses traços da 
própria tradição marxista. Se, de um lado, operou avanços substanciais quanto 
ao	desvendamento	da	natureza	dessa	profissão	no	interior	do	circuito	de	valo‑
rização	 do	 valor	 capitalista,	 apontando	 tanto	 particularidades	 profissionais	
533Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
quanto políticas e sócio‑históricas, por outro, defrontou‑se com as impostações 
da formação sócio‑histórica brasileira e seu fundamental traço negação de di‑
reitos — a formação social, também aqui, impõe‑se como elemento importan‑
te de determinação.
Surge como irredutível a necessidade de elucidação da função contra‑
ditória da política social (por consequência, da estrutura do Estado burguês) 
no contexto capitalista e brasileiro. Adensam‑se estudos sobre a seguridade 
social no Brasil, sobre as políticas setoriais,sobre o fundo público, “mundo 
do	trabalho”	e	sobre	o	processo	de	financeirização	do	capital.	As	entidades	
representativas da categoria, do ponto de vista político e institucional, man‑
têm-se	atentas,	abertas	e	afinadas	(majoritariamente)	aos	influxos	do	debate	
crítico‑dialético.
O Serviço Social amplia seu leque de debate teórico‑político, consolida‑se 
como	interlocutor	qualificado	no	âmbito	da	produção	do	conhecimento	—	a	tal	
ponto que, em artigo recentemente publicado, uma das mais destacadas pensa‑
doras do Serviço Social brasileiro, a profa. Ana Elizabete Mota, indica como 
tendência	importante	dessa	profissão	(dentre	outras)	a	sua	particularização	como	
área de produção de conhecimento — sinalizando seu amadurecimento no 
âmbito	da	pesquisa,	mas	não	só	(Mota,	2013).
A	essa	ampliação	e	qualificação	do	leque	temático	acostam-se,	também,	
influências	 de	 correntes	 teóricas	 distintas.	 Se	 a	 hegemonia	 do	 pensamento	
crítico‑dialético ainda se coloca como direção, parece inquestionável que 
também	marca	presença	no	âmbito	da	produção	de	conhecimento	(mas	não	se	
restringe	a	essa	esfera)	do	Serviço	Social	influências	teóricas	de	matizes	dife‑
renciadas, tais como estruturalista, funcionalista, weberiana e não poucas ditas 
“pós-modernas”.	Ora,	se	é	componente	do	pluralismo	profissional	(e	democrá‑
tico) o diálogo aberto, franco e crítico entre diferentes perspectivas ideoteóri‑
cas, a tênue linha do pluralismo é não poucas vezes ultrapassada, quando não 
desconsiderada em virtude da reprodução de um discurso teórico e político 
conservador que equaliza os “paradigmas” como meras “construções de lin‑
guagem” descoladas de qualquer sentido ontológico, cujos centros difusores 
estão	no	âmbito	da	universidade	e	além	dela,	pois	estão	imbricados	na	própria	
luta de classes.
534 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
Aqui	parece	residir	um	problema	contemporâneo	do	Serviço	Social	brasi‑
leiro:	afirmar	o	pluralismo	(imprescindível)	mantendo	a	hegemonia	do	pensa‑
mento crítico e dialético numa conjuntura histórica e acadêmica cada vez mais 
conservadora e reativa. Aliás, não foram de outra natureza os dilemas dos auto‑
res clássicos: adensar a perspectiva da revolução em suas dimensões ideoteórica 
e político‑cultural, mobilizando o máximo de conhecimento das determinações 
da realidade das classes em disputa. Esse paralelo, apenas sinalizado nessas 
reflexões	primeiras,	não	pretende	equalizar	os	problemas	da	tradição	marxista	
com	as	determinações	do	Serviço	Social	como	profissão	—	estamos	cientes	e	
somos	defensores	das	especificidades	e	diferenças	históricas	substanciais	de	
cada uma. Aqui, visamos tão somente indicar que, reproduzida a lógica do 
capital como totalidade histórica, as tentativas de sua superação (ainda que 
particulares) defrontam‑se com o horizonte e com os problemas da luta de 
classes e da disputa por hegemonia no terreno da política, da ideologia, da 
cultura, da teoria e da prática.
Esse conjunto de questões torna‑se mais complexo quando consideramos 
que o avanço do Serviço Social como área de conhecimento, como defende 
Mota,	não	infirma	o	seu	traço	interventivo.	Novamente,	sem	fazer	concessão	a	
qualquer perspectiva dicotômica, já solidamente enfrentada por vários autores, 
sabemos	que	mediações	particulares	determinam	o	exercício	profissional	(de‑
mandas do mercado de trabalho, divisão social e técnica do trabalho, entre 
outras). Do mesmo modo, outras determinações, igualmente particulares, de‑
terminam	e	 influenciam	a	 produção	de	 conhecimento	 (política	 de	 educação	
superior,	apropriação	cultural	das	objetivações	humano-genéricas,	o	debate	fi‑
losófico	predominante	em	torno	da	sociedade	e	da	razão,	entre	outras).	Apesar	
de	manterem	relação	de	unidade,	pois	ambas	se	inscrevem	no	âmbito	da	repro‑
dução da sociabilidade burguesa, não guardam relação de identidade — não são 
idênticas essas mediações.
A divisão social do trabalho e o horizonte institucional que marcam o 
exercício	profissional	(entendido	como	intervenção,	que	não	suprime	a	dimen‑
são investigativa, porém tem na manipulação de variáveis empíricas seu dado 
elementar),	intensificados	na	quadra	histórica	neoliberal,	imprimem	à	dinâmica	
do	exercício	profissional	características	e	tensionamentos	particulares,	confor‑
me apontam diversos estudos que versam sobre a temática do assim chamado 
535Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
trabalho profissional. Os elementos de fundo mais essencial dessas caracterís‑
ticas	e	tensionamentos	no	âmbito	do	exercício	profissional	não	parecem	conter	
um conteúdo histórico capaz de sinalizar a superação do sincretismo. Esse dado, 
é possível sustentar, constitui um dos elementos que sinaliza a atualidade onto‑
lógica e heurística da tese do sincretismo.
Os inegáveis avanços do chamado projeto ético‑político do Serviço Social 
brasileiro no que diz respeito a compromissos de natureza ética, política, teóri‑
ca e metodológica, que incidem sobre o horizonte do aparato legal‑institucional 
que	rege	a	profissão,	se	inscrevem	como	particulares	quando	vislumbrados	à	
luz da reprodução da totalidade da sociedade burguesa e da lógica que enerva 
o Estado burguês.
Evidencia‑se essa limitação nas colocações da prof. Marilda Iamamoto 
acerca	das	contradições	que	a	profissão	enfrenta	no	circuito	da	valorização	do	
valor	como	profissão	assalariada,	ou	nas	colocações	do	prof.	José	Paulo	Netto,	
quando	indica	que	o	projeto	profissional	só	tem	viabilidade	quando	conectado	a	
um projeto societário de classe. O reconhecimento dessa limitação não pode ser 
tomado do ponto de vista moral, mas como uma determinação ontológica da 
própria reprodução da sociabilidade burguesa, muito mais abrangente e inclusiva. 
Segundo nosso ponto de vista, é essa reprodução da sociabilidade burguesa, pre‑
sente contraditoriamente nas estruturas do Estado e da sociedade civil‑burguesa, 
que	reproduzem	o	sincretismo	do	Serviço	Social	no	âmbito	do	exercício	profis‑
sional. Mas essa determinação não cancela a presença de processos contraditórios 
no	interior	do	exercício	profissional	—	não	transforma	a	atuação	profissional	em	
mera reiteração tautológica. Tais processos, que resultam da própria natureza 
contraditória da reprodução social na sociedade capitalista, comparecem nessa 
dimensão e podem ser acionados. Essa determinação tão somente delineia o li‑
mite, a circunscrição histórica da intervenção do Serviço Social (muito embora 
esse	limite,	com	mediações	outras,	possa	ser	identificado	em	outras	profissões).
Cumpre	frisar	que	o	sincretismo,	presente	no	exercício	profissional,	tem	
como	contraface	teórica	o	ecletismo.	Mas	essa	contraface	não	significa	que	
toda produção de conhecimento seja eclética porque espelha o sincretismo 
prático. Essa dedução, que seria logicamente correta do ponto de vista formal, 
é falsa do ponto de vista ontológico e histórico. Igualmente, nem todo conhe‑
cimento produzido sob angulação crítico‑dialética consegue se expressar de 
536 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
imediato como componente revolucionário. Aqui, a lógica formal dá mostras 
de suas limitações.
Para	ser	mais	específico:	o	sincretismo	da	prática	aparece	no	âmbito	da	
produção de conhecimento (como tendência) como ecletismo, ou seja, como 
coletânea	acrítica	de	teorias,	categorias	e	conceitos	por	vezes	contraditórios,	
tudo em nome da captura de fragmentos de teoria que sejam capazes de expli‑
car, também fragmentariamente, a realidade setorial com que se defronta o 
profissional,	sem	uma	preocupação	fundamental	quanto	às	suas	consequências	
ideopolíticas.
Contudo,	a	produção	de	conhecimento	não	é	um	reflexo	passivo	e	mecâ‑
nico do sincretismo da prática. Nessa esfera, que é permeada por mediações 
específicas,	mas	igualmente	contraditórias,	a	autonomia	relativa	do	pesquisadoré mais elástica (e é essa contradição que o Serviço Social tem explorado de 
maneira	qualificada	para	adensar-se	como	área	de	conhecimento),	o	que	quali‑
fica	sua	atuação	para	um	confronto	mais	denso	e	profundo	com	os	fundamentos	
do conhecimento produzido sobre a sociedade, tomando como objeto de inves‑
tigação, conhecimento e crítica, não somente objetos particulares e circunscri‑
tos,	mas	 a	 própria	 dinâmica	 contraditória	 da	 totalidade	das	 relações	 sociais	
burguesas	 e	 capitalistas.	Essa	 especificidade	 da	 produção	de	 conhecimento	
coloca a possibilidade de superação (ainda que não o elimine) do ecletismo 
teórico.	 Superação,	 sublinhe-se,	 não	 significa	 cancelamento.	O	 ecletismo	
mantém‑se, como tendência limiar do pluralismo e do sincretismo da prática, 
tensionando o sentido e a direção social da produção de conhecimento.
Retornar ao tema dos fundamentos do Serviço Social nos permite uma 
aproximação	importante	com	os	avanços	da	profissão	no	Brasil,	por	um	lado	e,	
por outro, colocar em perspectiva histórica os subsídios teórico‑metodológicos 
que sustentaram o chamado projeto ético‑político para adensar suas potencia‑
lidades emancipatórias e enfrentar suas contradições, problematizando‑as. A 
tese do sincretismo contém, na sua teia categorial complexa (e com certeza não 
consensual tanto teórica quanto, talvez ainda de forma mais acentuada — po‑
liticamente), uma das mais profícuas indicações ontológicas e investigativas 
sobre	o	Serviço	Social,	e	seu	significado	social,	na	teia	da	reprodução	social	
burguesa e capitalista, é o que esperamos conseguir demonstrar.
537Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
2. A formulação clássica: apontamentos para uma recuperação necessária
Nosso objetivo nessa seção é recuperar os fundamentos ontológicos do 
Serviço Social tomado como estrutura sincrética, tal como pioneiramente ex‑
posto pelo prof. José Paulo Netto no início dos anos 1990. Essa recuperação é 
anteparo para a problematização acerca da atualidade da tese do sincretismo, 
enfatizando	a	orgânica	e	ontológica	articulação	do	Serviço	Social	com	a	estru‑
tura administrativa erguida na sociedade burguesa para intervenção na chama‑
da “questão social”. Reside nessa estrutura o momento predominante1 que 
implica	o	sincretismo	no	exercício	profissional.	A	contraface	desse	sincretismo	
no exercício (ou, se houver preferência, na prática) se constitui, por meio de 
complexas mediações, no sincretismo ideoteórico, cuja expressão mais eviden‑
te é o ecletismo.
Subsidiando o entendimento da estrutura sincrética do Serviço Social 
(prática e teórica) estão, de um lado, os processos de formalização operativa 
presentes nas políticas sociais setoriais (que segmentam e abstraem a totalidade 
problemática da “questão social”) e, de outro, o padrão de racionalidade formal‑
‑abstrata típico das constelações de raiz positivista. Sob essa teia, a expansão e 
espraiamento dos processos de valorização do capital e redesenho da sociabili‑
dade burguesa característicos da passagem ao estágio monopolista do modo de 
produção	capitalista.	Esse	conjunto	de	determinações	aflui	ao	Serviço	Social	
laico	e	profissionalizado.	Essa	afluência,	que	encontra	novas	mediações	na	con‑
temporaneidade, a saber, a expansiva e intensiva mercantilização da educação 
1. A categoria momento predominante, tal como formulada por Gyorgy Lukács, refere‑se à realidade 
social tomada como totalidade, como complexo de complexos. Alguns complexos, com variações históricas, 
podem adquirir a função de momento predominante na medida em que se constituam como solo genético 
imprescindível para o destino de outros complexos, sem o qual a própria existência desses outros complexos 
pode ser interditada. Para ilustrar: a produção de mercadorias cumpre a função de momento predominante 
da reprodução do capital. O momento predominante, tal como as demais categorias, também é histórico 
(portanto passível de mudanças e mesmo deslocamento dessa função) e sofre determinações recíprocas na 
interação com os demais complexos. Por isso, não determina inexoravelmente as categorias a ele articuladas, 
é tão somente polo fundamental que tem a prioridade ontológica historicamente situada. Conferir Lukács em 
Ontologia do ser social (1979), particularmente o capítulo dedicado a Marx: Os princípios ontológicos 
fundamentais de Marx.
538 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
superior no Brasil das duas últimas décadas, coloca elementos que reatualizam 
os fundamentos do ecletismo.2
A captação da estrutura sincrética do Serviço Social diz respeito à com‑
preensão da marca nativa de seu processo de gênese histórica e institucionali‑
zação. Por esse motivo, o Serviço Social, tomado como sistema sincrético, 
equivale	à	explicitação	de	um	traço	singular	da	sua	profissionalização.	A	tese	
do	sincretismo	foi	originalmente	pensada	para	refletir	a	ossatura	teórico-prática	
do Serviço Social “das suas origens aos anos 1960” (Netto, 2009, p. 14).
Este não é um detalhe menor: a maior parte das teses que recuperam (para 
endossar ou polemizar) a discussão sobre a estrutura sincrética do Serviço Social, 
tomam‑na como elemento interpretativo sem enfatizar essa circunscrição histó‑
rica	original.	Se	o	sincretismo	continua	sendo	uma	marca	importante	da	profissão,	
as determinações que reproduzem essa marca precisam ser investigadas, expli‑
citadas, problematizadas. Ou seja, há que se tomar o sincretismo como resultado 
de um conjunto de dilemas de origem sócio‑histórica em vez de tomá‑lo como 
conteúdo explicativo em si mesmo. Evidentemente, alguns desses dilemas re‑
metem à própria anatomia contraditória da sociedade burguesa, excedendo o raio 
de	possibilidades	da	profissão	em	si	mesma	e	desenhando	o	“anel	de	ferro”3 que 
ata o Serviço Social à reprodução dessas relações sociais: aqui, notoriamente, o 
campo pleno de contradições do Estado burguês e das políticas sociais.
Não há dúvida de que a tese do sincretismo, tomada como impostação 
ontológica do Serviço Social, extrapola os quadros de referência para os quais 
foi	pensada:	o	processo	de	profissionalização	do	Serviço	Social,	das	origens	aos	
anos 1960. Também é correta a compreensão de que alguns traços do sincretis‑
mo	dizem	respeito	ao	Serviço	Social	na	sua	própria	imanência	profissional.	Sua	
reatualização,	todavia,	não	se	constitui	mera	reposição	mecânica,	autoderivada.	
Ao contrário, a permanência da estrutura sincrética do Serviço Social precisa 
ser transformada em objeto de investigação, precisamente porque é reveladora 
2. “Em síntese: a ultrapassagem do sincretismo teórico — que se expressa no viés do ecletismo — no 
Serviço Social, conectada à superação do seu lastro no pensamento conservador, é projeto que não erradica 
o	sincretismo	da	fenomenalidade	do	seu	exercício	profissional”	(Netto,	2009,	p.	150).
3. A expressão é de autoria do prof. José Paulo Netto, em Capitalismo monopolista e Serviço Social 
(2009, p. 103).
539Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
de	questões	 e	dilemas	que	 se	 configuram	como	desafios	 importantes	para	 a	
profissão.	Explicitamente:	a	questão	do	sincretismo	no	Serviço	Social	há	de	ser	
tematizada	 crítica	 e	dialeticamente	 conforme	os	 traços	 contemporâneos	que	
assumem o capitalismo monopolista e as políticas sociais, particularmente a de 
educação superior no Brasil.
Desde sua formulação no início da década de 1990, no livro que pode ser 
já tomado como um clássico do Serviço Social no continente latino‑americano, 
Capitalismo monopolista e Serviço Social, a tese da estrutura sincrética do 
Serviço Social foi recuperada como fundamento ontológico do Serviço Social 
por	muitos	analistas	qualificados.4 Sua nervura teórica, substanciada por uma 
incorporação	impenitente	da	obra	e	pensamento	marxianos	e	filiada	a	uma	das	
mais profícuas de suas linhasde continuidade presentes na tradição marxista 
— a recuperação ontológica realizada por Gyorgy Lukács —, tem fornecido 
subsídios de análise crítica resistentes à prova do desenvolvimento histórico.
Tal	nervura,	por	si	só,	já	constitui	um	avanço	significativo	no	sentido	de	
superar as leituras esquemáticas provenientes do chamado “marxismo‑leninis‑
mo” e seus “manuais de divulgação” do marxismo, que marcaram o processo 
de aproximação do Serviço Social à tradição marxista: uma aproximação feita, 
via de regra, a partir das necessidades de instrumentação da prática político‑
‑partidária, afastada dos escritos originais de Marx e apreendida fragmentaria‑
mente segundo as recomendações estruturalistas.5 Esse esforço de rigor teórico 
4. Recuperam os fundamentos da tese do sincretismo, diferenciadamente e particularizando‑os, dentre 
outros: Yolanda Guerra, em A instrumentalidade do Serviço Social, publicado em primeira edição em 1995; 
Carlos Montaño, em A natureza do Serviço Social: um ensaio sobre a gênese, a “especificidade” e sua 
reprodução, que sai ao público em 2007; Josiane Soares Santos, em Neoconservadorismo pós‑moderno e 
Serviço Social brasileiro, à luz em 2007; Marilda Iamamoto, em Serviço Social em tempo de capital fetiche: 
capital financeiro, trabalho e questão social, publicado em 2007.
5. Sobre esse tema se debruça José Paulo Netto, em Ditadura e Serviço Social: uma análise do Serviço 
Social no Brasil pós‑64, seções 1.7, e, posteriormente, 2.5 a 2.6. Igualmente em “O Serviço Social e a tradição 
marxista”, em Serviço Social & Sociedade, n. 30, maio/ago. 1989. O processo de empobrecimento e 
interpretação oportunista do pensamento de Marx, ocorridos principalmente nos debates da Segunda e Terceira 
Internacional (sociologismo, evolucionismo, mecanicismo e biologismo), é analisado, entre outros, por 
Leandro Konder em A derrota da dialética: a recepção das ideias de Marx no Brasil até o começo dos anos 
trinta, seções 1.7 e 1.8, particularmente. Referências mais abrangentes encontram‑se em Eric J. Hobsbawm 
(Org.) História do marxismo: o marxismo na época da Segunda Internacional (v. 2), especialmente as seções 
elaboradas por Franco Andreucci, Marek Waldenberg, Iring Fetscher e Massimo L. Salvadori. 
540 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
e metodológico na análise da sociabilidade erguida sob o capital, que abrange 
e inclui o Serviço Social, lançado ao público no primeiro terço da década de 
1990, compõe uma das tentativas mais importantes para a superação dos vieses 
politicistas que balizaram as primeiras experiências de leitura marxista na pro‑
fissão	entre	as	décadas	de	1960	e	1970.
Na sequência das décadas de 1990 e 2000, todavia, aprofundam‑se as linhas 
de possibilidade de interlocução fecunda entre o pensamento de Marx, a tradi‑
ção marxista (nos seus suportes renascidos)6 e o Serviço Social. Vicejaram 
nessa esteira, no cenário intelectual e acadêmico primordialmente, elaborações, 
desenvolvimentos	teóricos	e	metodológicos	abordando	desde	a	dinâmica	con‑
creta das contradições de classe na formação sócio‑histórica brasileira, incluin‑
do análises sobre o Estado e as políticas sociais e setoriais, até a recuperação 
teórico‑categorial de clássicos, como Gramsci, Lukács e Lênin — numa acep‑
ção mais inclusiva, Mandel e Mészáros.
Esse movimento lançou as bases indispensáveis para superação histórica 
do ecletismo teórico que marcou os horizontes do sistema de saber do Serviço 
Social brasileiro (mas não só). Essa superação foi fortalecida com a construção 
de um corpo intelectual crítico e com a consolidação dos programas de pós‑
‑graduação em senso estrito a partir dos anos 1970, responsáveis pela dinami‑
zação e produção de conhecimento de natureza teórica que se junta ao espólio 
da teoria social. Desde então, o Serviço Social alçou‑se como interlocutor (não 
mais	apenas	como	receptor	passivo)	qualificado	no	debate	com	as	chamadas	
“ciências	sociais”.	É	possível	afirmar	que	o	movimento	histórico	que	resulta	no	
chamado projeto ético‑político, notadamente a partir das escolhas teórico‑po‑
líticas	que	define	—	teoria	social	crítica	e	o	projeto	societário	do	trabalho	(em	
sentido amplo), mesmo sem perder de vista as contradições e impasses nele 
6. O termo renascimento do marxismo é de Lukács e faz referência à imperiosa necessidade, que ele 
aponta já nos anos 1920, de recuperar o pensamento de Marx in natura e estabelecer uma contraposição 
teórica ao “marxismo‑leninismo”. Não apenas Lukács, mas uma geração de intelectuais militantes desse 
período também recusou os reducionismos da vulgata marxista, empreendendo esforços para uma crítica 
radical, dentre outros: o último Lênin, Rosa Luxemburgo e Antonio Gramsci. Lukács teve a oportunidade de 
sobreviver aos anos 1920 e atravessar os eventos históricos até sua morte. Sua longa e erudita vida (1885‑
1971), à diferença dos demais, ensejou‑lhe amadurecer e aprofundar até as últimas consequências seu objetivo 
de renascimento do marxismo,	 resultando,	 segundo	muitos	analistas,	na	maior	 reflexão	 teórico-filosófica	
marxista do século XX — sua Ontologia do ser social (2012).
541Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
presentes	—	ensejou	a	ultrapassagem	do	ecletismo	teórico	na	profissão7 — mo‑
vimento importantíssimo, porém não irreversível.
O ponto de partida formulado pelo prof. José Paulo Netto é em si uma 
ruptura, uma contraposição crítica às abordagens anteriores que se debruçaram 
sobre	o	processo	de	profissionalização	do	Serviço	Social	fazendo	derivar	da	
evidente	“questão	social”	os	elementos	suficientes	para	a	institucionalização	
da	profissão.8 Reside em destacar que a presença marcante dos resultados da 
acumulação de capital, tal como transcorre a partir da última década do século 
XIX em seus elementos de luta de classes e pauperização, não se desdobra 
espontaneamente	na	elevação	das	“protoformas”	ao	estatuto	de	profissão.
Antes que com a “questão social” em si, a articulação genética do Serviço 
Social	 profissional	 deve	 ser	 realizada	 com	a	dinâmica	 econômica	 e	 política	
estabelecida com a formação do capitalismo monopolista.9	Ela	reconfigura	dois	
eixos fundamentais da sociedade burguesa: a intervenção do Estado na luta de 
classes, nas relações de produção e acentuadamente no próprio desenvolvimen‑
to das forças produtivas, estabelecendo novos espaços na divisão social do 
trabalho	(evidentemente,	subsumido	ao	capital)	e	modifica	a	composição	orgâ‑
nica	do	capital	mundialmente.	Essa	reconfiguração,	não	é	supérfluo	destacar,	
responde pelo objetivo primeiro de acréscimo das taxas de lucro10 capitalistas.
7.	“A	alternativa	de	um	Serviço	Social	profissional	liberado	da	tradição	positivista	e	do	pensamento	
conservador não lhe retirará o seu estatuto fundamental: o de uma atividade que responde, no quadro da 
divisão social (e técnica) do trabalho na sociedade burguesa consolidada e madura, a demandas sociais 
prático‑empíricas” (Netto, 2009, p. 149).
8. Esse ponto de partida manifesta já o alinhamento da observação precedente acerca do perímetro 
histórico do qual foi extraída a estrutura sincrética do Serviço Social: dos anos 1930 aos 1960.
9. A categoria capitalismo monopolista, tal como trabalhada pelo prof. José Paulo Netto, é retomada 
inteira do importantíssimo O capitalismo tardio, de Ernest Mandel. Guarda relação com o período histórico 
trabalhado (entre outros) por Lênin (1870‑1924) como “estágio imperialista” do capitalismo, sendo conformado 
e	amadurecido	entre	1890	a	1940.	Nesse	trabalho,	está	fixado	o	entendimento	de	que,	do	final	do	século	XIX	
até os dias atuais, a categoria capitalismo monopolista mantém intacta sua potência heurística. Os processos 
de	financeirização	 e	 acumulação	flexível	 aprofundam	 as	 determinações	movidas	 pela	monopolização:	
centralização exponencial de capital e, lado a lado emsíntese dialética, a exacerbação da pauperização — 
relativa e absoluta. 
10.	Para	um	entendimento	acessível	e	qualificado	sobre	as	diferentes	formas	de	extração	de	mais-valia	e	
a formação das taxas de lucro, bem como sobre as formas de sua distribuição desigual entre os diversos setores 
do capital monopolista, ver Economia política: uma introdução crítica, da coleção Biblioteca Básica do Serviço 
Social, de autoria dos professores José Paulo Netto e Marcelo Braz, nomeadamente, capítulos 4, 5 e 6.
542 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
Dois vetores típicos do movimento de monopolização são destacados pelo 
prof. José Paulo Netto e recuperados aqui, principalmente porque lançam nexos 
causais que se desdobrarão posteriormente: a supercapitalização do capital e o 
parasitismo de setores privilegiados da burguesia (2009, p. 22). O primeiro 
resulta	em	dificuldades	crescentes	de	valorização,	de	serem	feitos	investimentos	
lucrativos, posta a magnitude do capital concentrado, desdobrando‑se em três 
outros fenômenos importantes: a emergência da indústria bélica; a fuga de ca‑
pitais dos limites dos Estados nacionais e a consolidação de investimentos 
“improdutivos”, a exemplo de massivas campanhas publicitárias, da realização 
de pesquisas de mercado e investigações econométricas.
Por sua vez, o parasitismo é atinente à possibilidade de cisão entre a pro‑
priedade e a gestão dos capitais. Sua expressão maior está no assalariamento 
de funções gerenciais e na aparência de que o capital se valoriza a si próprio. 
Aos olhos do proprietário privado, sua fortuna se multiplica como que natural‑
mente, não sendo resultado de uma remuneração por atividades de comando, 
de controle, de administração de seus negócios, mas simplesmente pela sua 
“renda”. Ocorre como se o capital, investido de determinada forma, a juros, 
pudesse gerar, automaticamente, mais capital — aos olhos do burguês que se 
especializa em operações com o capital portador de juros, seu dinheiro tem a 
potência de produzir mais dinheiro.
O primeiro vetor, a supercapitalização, incide como elemento importante 
para o processo de crise: os desdobramentos citados, eminentemente medidas 
anticíclicas,11 são também contraditórios e muito limitados, incapazes de rever‑
ter	as	dificuldades	de	valorização,	mas	não	sem	antes	explorar	à	exaustão	nichos	
11. Neste particular temos uma diferença importante entre as concepções de Mandel e Mészáros no que 
tange ao entendimento do processo de crise do capital que se instaura a partir da década de 1970. A concepção 
cíclica do desenvolvimento capitalista, insígnia tão própria de Mandel, abre a via para noção de novas 
possibilidades de retomada expansiva do capital (mesmo que profundamente desumanas), sustando a crise e 
retomando um nível de lucratividade média. Em Mészáros, está interditado o horizonte de saída da crise que 
se abate sobre o capitalismo desde os anos 1970. Para ele, essa crise ativou aquilo que designa como de 
“limites absolutos do capital” e, daí para a frente, ao Estado cabe a “gestão da crise”, adiando‑a: de um lado 
investindo esforços (fundo público) para oferecer outro destino a setores monopolizados que não a bancarrota 
(mesmo assim sem garantias de êxito) e, de outro, implementando a mais brutal desregulamentação do 
trabalho.	Com	possibilidades	de	valorização	cada	vez	mais	reduzidas,	a	tendência	daquilo	que	ele	qualifica	
como “equalização por baixo da taxa diferencial de exploração” realiza seu alcance máximo: níveis aviltantes 
de extração de mais‑valia, tal como no período da acumulação primitiva.
543Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
de mercado (de trabalho inclusive) que podem ser temporariamente lucrativos. 
O	segundo,	o	parasitismo,	conforma	as	“oligarquias	financeiras”,	cujo	principal	
mecanismo	de	valorização	do	valor	será	o	emprego	do	capital	fictício,	operan‑
do concretamente a ampliação do sistema de crédito (com ênfase no capital 
acionário), do sistema bancário e da dívida pública.12 Tudo se passa como se o 
valor pudesse se valorizar automaticamente — margeando assim o processo de 
criação do valor na cadeia produtiva.
Mas a mediação mais fundamental que opera no concerto da formação dos 
monopólios	é	extraeconômica,	é	o	Estado	burguês.	Sem	modificar	sua	função	
social mais precípua — o de garantir as condições gerais, externas, de reprodu‑
ção do capital — sob o comando dos monopólios, o Estado passa a condensar 
funções políticas e econômicas. Essa condensação é ideia‑força no pensamen‑
to nettiano13 e responde pela inserção do Estado em “setores básicos não rentá‑
veis (nomeadamente, aqueles que fornecem aos monopólios, a baixo custo, 
energia e matérias‑primas fundamentais)” (Netto, 2009, p. 25).
Dentre outras funções condensadas destacam‑se a garantia estatal de 
sobrevivência	 das	 empresas	 em	dificuldades	 (por	meio	da	 socialização	das	
perdas), investimentos em complexos produtivos de altíssima composição 
orgânica	 de	 capital	 (dos	mais	 variados	 setores:	 do	 lazer	 aos	 portuários,	 da	
malha rodoviária à importação de maquinário e tecnologia) e sua entrega para 
exploração monopólica, aprovação imediata de linhas de crédito astronômicas 
para setores monopolizados, lastro de lucro para as empresas — aqui, o Esta‑
do	se	torna	a	um	só	tempo	financiador	e	consumidor	dos	negócios	da	burgue‑
sia	monopolista	—,	preparação	formal	(no	mais	das	vezes,	de	alta	qualificação	
e competência) de força de trabalho fornecida sem custo ao mercado. Os traços 
fundamentais do chamado “novo desenvolvimentismo”, em debate no Brasil 
12. Referência introdutória para esse tema é O que é capital fictício e sua crise, de Paulo Nakatani e 
Rosa Maria Marques. Marx elabora pistas investigas sobre os temas do capital portador de juros e do capital 
fictício	no	livro	III	d’O capital.
13. Consideramos que a tese contida do livro Capitalismo monopolista e Serviço Social é portadora de 
uma chave heurística (porque ontológica) sui generis,	o	que	justifica	sua	admissão	e	reconhecimento	como	
pensamento original solidamente imantado na tradição marxista, que ilumina de maneira ímpar o campo 
temático sobre os fundamentos do Serviço Social. Sendo assim, admitimos os termos nettiano ou nettiana 
para nos referirmos à linha de análise do autor.
544 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
dos anos 2000, encontram na formação do capitalismo monopolista seu com‑
ponente originário.
Se essas funções políticas e econômicas correspondem às mudanças no 
papel do Estado no estágio do capitalismo monopolista, a principal mediação 
que se relaciona com o Serviço Social é sua intervenção na reprodução da for‑
ça de trabalho. Esse é um componente novo posto pela ordem dos monopólios, 
uma vez que, no período concorrencial, a intervenção do Estado dimanava 
basicamente pelo canal da coerção e da manutenção das relações jurídico‑po‑
líticas que garantem a propriedade privada. Doravante, “a preservação e o 
controle contínuos da força de trabalho, ocupada e excedente, é uma função 
estatal de primeira ordem” (Netto, 2009, p. 26; grifos no original).
O grifo do prof. Netto sobre a intervenção em dois níveis da força de tra‑
balho: ocupada e excedente, já indica de alguma maneira quais mecanismos 
ganham notoriedade para instrumentalizar esse processo: o aparato jurídico‑
‑político para regulamentar a mercantilização da força de trabalho ocupada e 
sistemas de seguro social para os excedentários. Sublinhe‑se um objetivo adi‑
cional: recondução sazonal do excedente para atendimento imediato das neces‑
sidades de valorização pela via da incorporação ocasional (e precária) ao 
mercado14 (uma opção que está longe de superar a superpopulação relativa e o 
lumpemproletariado) e a entrega dos fundos da parcela ativa dos trabalhadores 
à gestão “gerencial”, pública ou privada.
É nessenível que opera uma mediação fundamental: para validar‑se como 
maestro do concerto dos monopólios, ampliando suas funções econômicas, o 
Estado burguês opera sua legitimação política reconhecendo, incorporando, 
generalizando e institucionalizando direitos. Por essa via, enseja completar o 
ciclo sócio‑histórico mediante o qual obtém o consenso, com sua forma políti‑
ca não coincidindo necessariamente com a democracia política — dependendo 
da conjuntura das lutas de classes, sistemas autocráticos se impõem sem maio‑
res dilemas com a moralidade burguesa.
E aqui cabe recuperar a cristalina asserção nettiana: “o coroamento da 
conquista da cidadania [...] acompanha, nos seus lances decisivos, o surgimento 
14.	E	aqui	se	ergue	o	mercado	especializado	no	discurso	da	“qualificação	profissional”.
545Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
da idade do monopólio” (Netto, 2009, p. 27). A permeabilidade do Estado a 
parcelas das demandas do trabalho ocorre nesse momento de busca de legiti‑
mação política para orquestrar a conformação dos monopólios na economia, 
condicionada apenas pelas possibilidades de refuncionalização dessas mesmas 
demandas	em	margens	de	lucros	—	sua	reincorporação	pela	dinâmica	reprodu‑
tiva do capital.
Em linhas‑mestras, esse é o cenário da sociabilidade capitalista que se 
constitui como momento predominante, como solo histórico‑concreto no qual 
as múltiplas expressões da “questão social” tornam‑se objeto de intervenção do 
Estado. Dito de forma direta, a “questão social” traduz‑se em demanda legítima 
ao Estado burguês, a ser “enfrentada” pelas políticas sociais, na medida em que 
seu reconhecimento político‑institucional contribui para formação do consenso, 
da hegemonia, em termos gramscianos.
O	grifo	nessas	notações	acerca	do	Estado	burguês	reconfigurado	sob	os	
monopólios e o correspondente processo de construção do consenso político 
mediante o reconhecimento e o atendimento parcial de demandas do trabalho 
(igualmente ativas na correlação de forças), por intermédio das políticas 
sociais,	tem	por	objetivo	sublinhar	a	diferença	específica	em	relação	ao	es‑
tágio concorrencial, em que a “questão social” fora objeto de intervenção 
apenas quando representava ameaça iminente (e externa) à reprodução do 
capital — organização política combativa ou revolucionária ou escassez de 
força de trabalho.15
15.	Em	função	de	seu	peculiar	e	afinadíssimo	poder	de	síntese,	que	se	conjuga	com	o	caráter	limitado	
e circunscrito deste trabalho, julgamos importante trazer as palavras do autor, que evidenciam os fundamentos 
sócio‑históricos da política social: “No capitalismo dos monopólios, tanto pelas características do novo 
ordenamento econômico quanto pela consolidação política do movimento operário e pelas necessidades de 
legitimação política do Estado burguês, a “questão social” como que se internaliza na ordem econômico‑
política: não é apenas o acrescido excedente que chega ao exército industrial de reserva que deve ter a sua 
manutenção “socializada”; não é somente a preservação de um patamar aquisitivo mínimo para as categorias 
afastadas do mundo do consumo que se põe como imperiosa; não são apenas os mecanismos que devem ser 
criados para que se dê a distribuição, pelo conjunto da sociedade, dos ônus que asseguram os lucros 
monopolistas	—	é	tudo	isto	que,	caindo	no	âmbito	das	condições	gerais para a produção capitalista monopolista 
(condições externas e internas, técnicas, econômicas e sociais), articula o enlace, já referido, das funções 
econômicas e políticas do Estado burguês capturado pelo capital monopolista, com a efetivação dessas funções 
se realizando ao mesmo tempo em que o Estado continua ocultando a sua essência de classe” (Netto, 2009, 
p. 30; grifos no original).
546 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
O acento em suas contraditórias funções (porque atendem a necessidades 
do trabalho ao mesmo tempo em que contribuem para a reprodução do capital 
em sua totalidade), porém, deve recair sobre o subsídio que fornecem à cons‑
trução da hegemonia da classe dominante, aparecendo o Estado como “media‑
dor	civilizacional”,	em	que	ganhariam	fluidez	e	encaminhamentos	“universais”	
as correlações de forças em presença (típica visão idealista), contribuindo assim 
para o obscurecimento do caráter geneticamente de classe do Estado burguês 
— porque as contradições tendem a serem enfrentadas, no limite, em favor da 
reprodução do capital como totalidade em processo.
Todavia,	na	forma	específica	da	intervenção	do	Estado	na	“questão	social”,	
reside um dos fundamentos do sincretismo no Serviço Social — particular, mas 
não	exclusivamente,	no	que	concerne	ao	exercício	da	profissão.	A	referência	é	
em relação à concretização peculiar da política social no período dos monopó‑
lios: ela se efetiva como políticas sociais, retalhando e fragmentando a “questão 
social” em núcleos problemáticos autonomizados.
É assim que ocorre o escurecimento da “questão social” como resultante 
global das contradições do sistema do capital. Não poderia ser de outra manei‑
ra: remeter o enfrentamento da “questão social” para sua essência seria pôr em 
xeque	 a	 reprodução	 da	 sociedade	 burguesa	 (em	 sua	 dinâmica	 de	 produção	
amplamente	socializada	de	valor	e	apropriação	privada	da	riqueza	—	dinâmica	
que	adquire	traços	exponenciais	a	partir	da	guinada	financeiro-rentista	do	capi‑
tal).	O	Serviço	Social,	 como	profissão	medularmente	conectada	às	políticas	
sociais, herda e reproduz, na sua cotidianidade, essa estrutura interventiva.
De um lado, o Estado assume como ente público, pretensamente histórico‑
‑universal, a tarefa de intervir sistematicamente sobre os desdobramentos da 
“questão social” e, por outro, mantém e reproduz a determinação liberal‑indivi‑
dualista na estrutura mesma da sua intervenção: a ação tem caráter público, mas 
seu	objeto	e	objetivo	final	residem	e	seriam	produzidos	na	esfera	do	privado.
Essa lógica encontra sustentação, sobretudo, na progressiva opacidade que 
o capitalismo monopolista imprime na diferenciação entre o público e o priva‑
do: trata‑se da saturação das necessidades de acumulação em todos os níveis 
das relações sociais — do universo mais íntimo do indivíduo social, das cons‑
telações familiares à “indústria cultural” e de “bens e serviços”. O espaço pri‑
547Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
vado não desaparece. Antes, reaparece repleto com a lógica mercantil. A esse 
encurtamento do leque de possibilidades de realização vital do indivíduo social 
se articula um processo de “fuga ao subjetivismo”, de culto da “personalidade”, 
do solipsismo, que não entra em contradição com a estruturação da rede inter‑
ventiva do Estado, antes, reforça‑a. O par teórico dessa ambiência social ex‑
pressará essa estreiteza em dois níveis: de um lado, geralmente destacado em 
períodos de crise, as correntes irracionalistas, que mergulham de cabeça no 
solipsismo	e	tem	feixes	de	implicações	nos	“contemporâneos”	pós-modernismos;	
de outro, as operações de segmentação e formalização da razão e do real, de 
feição positivista.16 Ambas capitulam ante a pseudoconcreticidade17 da socie‑
dade burguesa.
Apenas com a abstração do caráter totalizante a que remete a essência da 
“questão social” é possível estruturar políticas sociais que atuam liminarmente 
sobre suas expressões, tomando atomizadamente os problemas sociais (e seus 
sujeitos) como demandas institucionais — do contrário, sequer haveria possi‑
bilidade de intervenção na sociedade burguesa. Pavimentadas assim a concepção 
e a forma de enfrentamento da “questão social”, elencam‑se os setores proble‑
máticos: o analfabetismo, a mortalidade infantil, a violência urbana e domésti‑
ca, a desnutrição, a “situação de rua”, a dependência química, a violação de 
direitos, com a lista podendo ser estendida à exaustão.Efeito concomitante a 
essa segmentação formal‑abstrata é a transformação, sustentada por uma con‑
cepção teórica e um direcionamento socioinstitucional, de dilemas produzidos 
pelo contexto sócio‑histórico em problemas individuais.
Numa típica formulação liberal e funcionalista (positivista em última 
análise),18 o centro irradiador dos problemas consiste na incapacidade individual 
em recolher no mercado as melhores oportunidades, cotidianamente produzidas 
16. Sobre esse debate, a importantíssima obra O estruturalismo e a miséria da razão, de Carlos Nelson 
Coutinho.
17. A categoria é formulada por Karel Kosik, em Dialética do concreto.
18. Com essa referência não estamos propondo uma equalização acrítica entre o liberalismo, o 
positivismo e o funcionalismo. Antes, a intenção é indicar que, nos seus fundamentos últimos, encontramos 
o traço comum de conservação da ordem burguesa (e interdição em torno da construção de um conhecimento 
crítico‑ontológico totalizante), mesmo levando em consideração diferenciações prático‑operativas e teórico‑
conceituais pouco desprezíveis.
548 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
pelo desenvolvimento (linear) dos países capitalistas. Isto porque, nunca é 
exagerado lembrar, para a tradição do pensamento conservador,19 sobretudo de 
matiz positivista, estão equalizadas as determinações sociais tais quais os fenô‑
menos	da	natureza	—	regidos	por	leis	fixas,	imutáveis	e	inexoráveis,	frente	às	
quais há de se aquiescer, resignar (na clássica formulação de Comte).
O que importa salientar nesse processo é que a estrutura da divisão social 
do trabalho modelada (e animada pelo projeto conservador que suporta refor‑
mas desde que permaneça intocada a estrutura da propriedade privada dos 
meios de produção) pela institucionalidade burguesa para intervir na “questão 
social”	 encontra	 seu	 calço	 “teórico-científico”	 no	 universo	 do	 estrutural‑
‑funcionalismo, que converte a “questão social” em distúrbios e desvios 
“sociopáticos”, em patologia social que se torna objeto de reintegração por 
mecanismos institucionais em nome da coesão social. Discutindo essa questão 
em particular, o prof. José Paulo Netto avança na caracterização desse traço 
do pensamento conservador que se converte em elo de articulação entre a 
concepção de mundo liberal‑burguesa‑positivista e as formas concretas de 
intervenção do Estado. Segundo ele:
O que assim recebe sanção teórica e consagração cultural é a impotência dos 
sujeitos e protagonistas sociais em face dos rumos do desenvolvimento da socie‑
dade — não só uma legitimação do estabelecido como, principalmente, uma 
predisposição para aceitar a sua evolução, seja em que sentido for. No entanto, o 
decisivo é a contraface dessa naturalização do social: ao naturalizar a sociedade, 
a tradição em tela é compelida a buscar uma especificação do ser social que só 
pode ser encontrada na esfera moral. Naturalizada	a	sociedade,	o	específico	do	
social tende a ser situado nas dimensões ético‑morais — e eis que se franqueia o 
espaço para a psicologização das relações sociais. (Netto, 2009, p. 45)
O centro das preocupações do prof. José Paulo Netto parece ser o estabe‑
lecimento de uma compreensão dialética macroscópica acerca do problema da 
19. A profa. Leila Escorsim oferece uma importante contribuição ao debate sobre o conservadorismo 
e suas variadas tendências, contradições e desenvolvimentos em O conservadorismo clássico: elementos de 
caracterização e crítica.
549Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
legitimidade	do	Serviço	Social	profissional.	Trata-se	de	procurar	as	respostas	
para a seguinte pergunta: qual o substrato histórico que atribui legitimidade e 
requer	a	atuação	de	uma	profissão	como	o	Serviço	Social?	As	respostas	ade‑
quadas	a	essa	pergunta	permitem	a	superação	das	teses	que	advogam	a	profis‑
sionalização do Serviço Social a partir de um processo cumulativo e progres‑
sivo	de	racionalização	das	pretéritas	e	assistemáticas	atividades	filantrópicas	e	
caritativas. Isto porque o lócus	que	demanda	o	Serviço	Social	profissional	não	
está localizado nele mesmo, não é endógeno e, mais importante que isso, não 
resulta de uma propensão “natural” à racionalização e sistematização das anti‑
gas práticas.
Pelo contrário, o espaço sócio‑ocupacional criado para intervenção do 
Estado burguês sobre a “questão social” (as políticas sociais), na época do ca‑
pitalismo dos monopólios, estabelece uma ruptura crucial (ainda que com 
continuidades, sobretudo no que se refere às formas concretas do exercício 
profissional,	manipulando	dados	e	variáveis	imediatas,	empíricas,	alterando,	no	
universo do cotidiano e com requisições no mais das vezes prescritas institu‑
cionalmente) com as chamadas “protoformas” do Serviço Social. Ruptura essa 
concernente,	no	fundamental,	à	alteração	do	significado	social	da	ação	(dora‑
vante, umbilicalmente implicada na reprodução das relações sociais) e à con‑
dição de assalariamento,20	 inscrevendo	 a	 profissão	 no	 circuito	 do	 trabalho	
abstrato (improdutivo),21 da mercadoria e da lei do valor.
20.	Discussão	seminal,	já	clássica	para	a	profissão,	elaborada	por	Marilda	Iamamoto	e	Raul	de	Carvalho,	
em Relações Sociais e Serviço Social no Brasil: esboço de uma interpretação teórico‑metodológica, publicado 
em 1982.
21.	Parece-nos	 injustificada	 a	 polêmica	 que	 tenta	 afirmar	 a	 atividade	 do	 assistente	 social	 trabalho 
produtivo (ou trabalho coletivo, que é necessariamente produtivo e realiza o trabalho categoria fundante do 
ser social). Dentre outras referências, sem nos aprofundarmos em demasia, observe‑se o que menciona 
cristalinamente o prof. Netto (ainda no início da década de 1990): “Enquanto interveniente nos mecanismos 
elementares da preservação e do controle da força de trabalho e, simultaneamente, nos ‘serviços’ que o Estado 
aciona para reduzir o conjunto de óbices que a valorização do capital encontra na ordem monopólica, o Serviço 
Social não desempenha funções produtivas, mas se insere nas atividades que se tornaram acólitas dos processos 
especificamente	monopólicos	da	reprodução,	da	acumulação	e	valorização	do	capital”	(Netto,	2009,	p.	76;	
grifos nossos). Para uma aproximação substancial sobre as categorias trabalho (categoria fundante), trabalho 
abstrato produtivo ou improdutivo, trabalho coletivo, trabalho manual, trabalho intelectual no Marx de O capital, 
conferir	Sergio	Lessa	em	Trabalho	e	proletariado	no	capitalismo	contemporâneo,	2007.
550 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
Sob esta angulação, numa longa e cirúrgica colocação, o prof. José Paulo 
Netto (2009, p. 74) é inequívoco:
A	profissionalização	do	Serviço	Social	não	se	relaciona	decisivamente	à	“evo‑
lução	da	ajuda”,	à	“racionalização	da	filantropia”	nem	à	“organização	da	carida‑
de”; vincula‑se à dinâmica da ordem monopólica. É só então que a atividade dos 
agentes do Serviço Social pode receber, pública e socialmente, um caráter pro‑
fissional:	a	legitimação	(com	uma	simultânea	gratificação	monetária)	pelo	de‑
sempenho de papéis, atribuições e funções a partir da ocupação de um espaço 
na divisão social (e técnica) do trabalho na sociedade burguesa consolidada e 
madura; só então os agentes se reproduzem mediante um processo de socializa‑
ção particular juridicamente caucionada e reiterável segundo procedimentos 
reconhecidos	pelo	Estado;	só	então	o	conjunto	dos	agentes	(a	categoria	profis‑
sionalizada) se laiciza, se independentiza de confessionalismos e/ou particula‑
rismos.	A	 emergência	 profissional	 do	Serviço	Social	 é,	 em	 termos	 histórico‑
-universais,	uma	variável	da	idade	do	monopólio;	enquanto	profissão,	o	Serviço	
Social	é	indivorciável	da	ordem	monopólica	—	ela	cria	e	funda	a	profissionali‑
dade do Serviço Social.
É nesse prisma de análise que, à pergunta acimacitada, pode‑se oferecer 
uma resposta distinta daquela defendida pelas teses “endogenistas”,22 qual 
seja:	que	a	legitimidade	da	profissão	reside	no	fundamento	científico	de	que	
se socorre, na formação e no exercício. A argumentação nettiana fundamenta 
em outro contexto a questão legitimidade: ela se relaciona ao desempenho das 
funções e requisições prático‑operativas imantadas pelas políticas sociais 
setoriais	—	em	segundo	plano,	ontológica	e	objetivamente,	fica	o	significado	
ideal (a representação, a autoimagem) que a essa determinação atribuem os 
assistentes	sociais.	Ou	seja,	desde	que	ofereçam	respostas	qualificadas,	que	
se desdobrem em alterações imediatas de realidades microssocietárias (sem‑
pre recortadas) com que se defrontem (em verdade, esse é o objetivo da 
atuação do Serviço Social), é secundário para a institucionalidade burguesa a 
22. O prof. Carlos Montaño formula em termos claros a diferença entre as teses “endogenistas” e a 
“crítico‑dialética”, sobre os fundamentos sócio‑históricos do Serviço Social em A natureza do Serviço Social 
(2007).
551Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
questão de qual universo simbólico (teórico‑metodológico) esteja orientando 
a	ação	profissional.23
Disso	decorre	que	o	exercício	profissional	não	se	constitui	um	desdobra‑
mento automático da(s) referência(s) teórica(s) — o que contradiz muitos equi‑
vocados	consensos,	destaque	feito	ao	que	afirma	que	de uma referência teórica 
decorre uma (ou mais) metodologia de ação. Inversamente, o universo teórico‑
-conceitual	não	pode	 se	constituir	 como	a	 substância	explicativa	dos	giros	e	
mudanças	na	profissão.	Antes,	esses	giros	e	mudanças	estão	articulados	ao	“di‑
namismo	histórico-social,	que	recoloca,	a	cada	uma	de	suas	inflexões,	a	urgência	
de	renovar	(e,	nalguns	casos,	de	refundar)	os	estatutos	das	profissões	particulares”	
(Netto,	2009,	p.	89).	Significa	dizer	que	as	transformações	ocorridas	na	profissão	
não são resultado de um processo desencadeado “desde dentro”, a partir de 
mudanças mais ou menos profundas no seu leque teórico‑conceitual.
Antes, e inversamente, as matrizes teórico‑metodológicas (localizadas no‑
tadamente nas ciências sociais, mas não só) que lastrearam o sistema de saber 
do Serviço Social compareceram a partir da necessidade de serem encontrados 
fundamentos para as respostas (muitas vezes reiterativas e fenomênicas) ofereci‑
das às demandas colocadas pelos espaços sócio‑ocupacionais. Para fazer frente a 
essas	demandas,	e	de	maneira	geralmente	acrítica,	a	profissão	recorreu	predomi‑
nantemente ao conjunto de referências acumulados pelas Ciências Sociais. Neste 
particular reside um dos traços fundamentais do sincretismo que, no plano teórico, 
expressa‑se tendencialmente como ecletismo: essa captura mais ou menos indis‑
criminada (e seletiva) de referências teóricas, por vezes contraditórias, para legi‑
timar/justificar/explicar	práticas	em	operação	no	plano	do	exercício	profissional.
Ao abordar mais detidamente os fundamentos da estrutura sincrética no 
exercício	profissional	do	Serviço	Social,	o	prof.	 José	Paulo	Netto	aponta	 três	
dimensões objetivas: o conjunto de problemas (extremamente variados) em torno 
da	“questão	social”;	o	limite	ontológico	do	exercício	profissional:	o	cotidiano;	e	
23.	Senão	vejamos:	“O	aspecto	nuclear	de	uma	intervenção	profissional	institucional	não	é	uma	variável	
dependente do sistema de saber em que se ancora ou de que deriva; é‑o das respostas com que contempla 
demandas histórico‑sociais determinadas; o peso dos vetores do saber só se precisa quando inserido no circuito 
que atende e responde a essas últimas (mesmo que, em situações de rápidas mudanças sociais, a emersão de 
novos	parâmetros	do	saber	evidencie	implementações	suscetíveis	de	oferecer	inéditas	formas	de	intervenção	
profissional)”	(Netto,	2009,	p.	88).
552 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
a forma particular de sua intervenção: manipulação de variáveis empíricas, alte‑
rando, rearranjando demandas sociais e institucionais que requerem respostas 
imediatas, contudo, restritas ontologicamente ao campo da fenomenalidade.
Em primeiro lugar, a estrutura essencialmente multiforme da “questão 
social” adquire um traçado ainda mais profundo e de complexa captação 
teórica	na	dinâmica	do	capitalismo	dominado	pelos	monopólios.	Aqui,	consi‑
derando‑se as particularidades regionais da nossa formação sócio‑histórica, 
1) orientada desde sua mais tenra idade ao desenvolvimento heterônomo, 
subordinado e dependente; 2) historicamente marcada por fortes interesses 
conservadores e alianças oligárquicas de tendências fortemente antidemocrá‑
ticas;	3)	os	déficits	sociais	que	justificam	a	qualificação	de	que	o	Brasil	é	um	
“monumento à desigualdade social”,24 chegamos a um quadro de complexi‑
dade tal que a “questão social” se torna, no limite, um conceito intangível: vai 
do trabalho escravo à exploração sexual infantil; da vergonhosa e histórica 
negação de uma reforma agrária aos números assustadores do sistema carce‑
rário; do trabalho informal e precaríssimo aos efeitos da especulação imobi‑
liária (que tem capitaneado um processo que só encontra paralelo histórico 
com cercamentos na Europa pré‑capitalista).
Em segundo lugar, na estrutura sincrética do Serviço Social, o horizonte 
do cotidiano aparece como limite da intervenção Social que, conectado à lógi‑
ca institucional do Estado, opera alinhada a uma manipulação planejada da 
reprodução da força de trabalho, cujo traçado marcante é o “disciplinamento da 
família operária, ordenação de orçamentos domésticos, recondução às normas 
vigentes de comportamentos transgressores ou potencialmente transgressores, 
ocupação de tempos livres, processos compactos de ressocialização dirigida” 
(Netto, 2009, p. 92). Cotidiano tomado aqui como reprodução imediata, super‑
ficial	e	heterogênea	da	fenomenalidade	—	lócus	da	reificação	sistemática	que	
resulta	da	dinâmica	capitalista.
Atuando aí, destacam‑se como fundamentais os conhecimentos diretamen‑
te vinculados ao “fazer da prática”, em geral recortados da totalidade teórica de 
que fazem parte. A prática sincrética, nesse sentido, tende a hipervalorizar como 
conhecimentos verdadeiramente “úteis” para a prática tão somente aqueles 
24. Eric Hobsbawm, em A era dos extremos.
553Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
acumulados com a reiteração das padronizações institucionais ou legais. Seu 
correlato: uma tendência ao menosprezo pela elaboração teórica dialética que, 
totalizante, extrapola o campo da empiria — a ele retornando, contudo, satura‑
do com as determinações que o compõem. Relaciona‑se a essa problemática o 
discurso de que “na prática, a teoria é outra”.
Em terceiro lugar, na acepção clássica do sincretismo, a “manipulação de 
variáveis empíricas de um contexto determinado” (Netto, 2009, p. 96) ofertava 
a	inferência	da	legitimidade	profissional	a	partir	de	dados	quantitativos	extraí‑
dos de mudanças microssocietárias, passíveis de mensuração a partir da razão 
instrumental.	A	 legitimidade	 profissional,	 portanto,	 tende	 a	 ser	 extraída,	 ao	
mesmo	tempo	em	que	reforça	e	requisita,	a	polivalência	profissional.	A	inter‑
ferência sócio‑institucional em dados imediatos da realidade empírica, em si 
mesma	heteróclita	e	multifacetada,	tende	a	requerer	profissionais	“flexíveis”,	
atentos em dispor seu arsenal teórico‑prático a partir das demandas sociais 
(difusas) postas como requisições institucionais (reiterativas), também heteró‑
clitas.	Nesse	contexto,	profissionais	“que	sabem	fazer”,	com	o	domínio	de	um	
arsenal heurístico repousando em terceiro ou quarto plano, gozam do reforço 
positivo socioinstitucional.
Em	poucas	palavras,	o	exercício	profissional	sincrético	opera	por	meio	da	
formalização e da reiteração de procedimentos; do atendimento imediatode 
demandas difusas; práticas que estabelecem prioridades a partir de inferências 
teóricas segmentadas ou necessidades burocrático‑administrativas e políticas 
(com	o	intuito	de	“fundamentar”	essas	práticas	com	um	discurso	científico);	
recurso eclético aos campos de conhecimento que possam ser instrumentalizá‑
veis e corroborem com as intervenções que já estão sendo realizadas. A prática 
sincrética demanda e reproduz a elaboração formal‑abstrata de conhecimentos 
teóricos — a prática sincrética é o momento predominante do ecletismo teórico, 
embora	não	o	determine	definitivamente	(o	ecletismo	é	a	expressão	do	sincre‑
tismo no plano teórico — um agregado acrítico de conhecimentos consolidados 
em	circunstâncias	outras).25
25. Numa referência quase sempre esquecida nos textos que procuram discutir a estrutura sincrética 
do	Serviço	Social,	o	prof.	José	Paulo	Netto	(2009,	p.	92)	afirma:	“[...]	a	própria	natureza socioprofissional 
do Serviço Social. É desta que decorrem, posta a carência de um referencial teórico crítico‑dialético, as 
peculiaridades	que	fazem	dele	um	exercício	prático-profissional	medularmente	sincrético”.
554 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
3. O sentido do sincretismo frente aos problemas do atual tempo histórico
É característica do conhecimento de natureza ontológica a preocupação 
com o ser precisamente assim existente.	Isto	significa,	nos	processos	de	inves‑
tigação e de exposição, a prioridade do movimento objetivo da realidade ante 
quaisquer projeções subjetivistas, moralistas ou de viés gnosiológico. A razão 
empregada ontologicamente persegue a estruturação concreta do objeto de in‑
vestigação. Persegue a forma e o conteúdo de sua inserção categorial. Tenta 
desvendar a trama de mediações que satura de determinações o objeto pesqui‑
sado — mira‑o como complexo inscrito no movimento mais amplo e histórico 
da totalidade social.
Completado (sempre parcialmente) esse momento, a investigação dá se‑
quência à exposição dos resultados. A exposição,	por	sua	vez,	não	reflete	dire‑
tamente todas as dimensões do método de investigação (realizado pelo pesqui‑
sador em seu confronto incessante com o objeto). Antes, seu compromisso é com 
a reprodução mais próxima possível do movimento do objeto investigado. O que 
fica	em	evidência	não	é,	portanto,	o	percurso	teórico-metodológico	realizado	
pelo pesquisador, mas o conteúdo imanente do objeto em sua cadeia complexa 
de mediações. Na exposição resulta como concreto pensado, como síntese, o que 
anteriormente era uma realidade abstrata, amorfa, difusa, fragmentária. A expo‑
sição, por isso, carrega um conteúdo adicional de complexidade, pois abre as 
portas para compreensão do objeto em suas múltiplas determinações.26
Esse	é	o	ângulo	teórico-analítico	abraçado	na	construção	da	tese	do	sin‑
cretismo. Sua aposta, desde que nossa leitura esteja coerente, é que reside no 
âmbito	 da	 reprodução	 social,	 das	 contradições	 de	 classe	 e	 do	 conjunto	 das	
alienações próprias da sociabilidade burguesa o momento predominante (por‑
tanto, não o único), a chave ontológica e heurística para o entendimento dos 
traços	 e	 processos	 que	 incidem	no	Serviço	Social	 laico	 e	 profissionalizado.	
Muitas	de	suas	dimensões	fazem	referência	ao	Serviço	Social	profissional	em	
26.	Essas	anotações	refletem	o	já	maduro	debate	em	torno	do	método de investigação, o “caminho de 
ida” e do método de exposição, o “caminho de volta”. Para uma aproximação ao debate clássico, ver Karl 
Marx,	no	famoso	Pósfácio	da	2ª	edição	alemã	de	O capital: crítica da economia política. 
555Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
seu próprio devir	—	enredado	na	dinâmica	do	capitalismo	monopolista	(até	o	
presente) e nas formas de atuação jurídico‑políticas do Estado burguês na re‑
produção das relações sociais, ou seja, para além da particularidade da formação 
sócio‑histórica brasileira e mesmo latino‑americana.
Os fundamentos da estrutura sincrética do Serviço Social, tal como foram 
alicerçados na sua acepção clássica, permitem sustentar sua atualidade e vigor 
teórico. Tomando como referência o quadro macroscópico da reprodução da 
sociedade burguesa na contemporaneidade (últimos quarenta anos), observa‑se 
o aprofundamento das tendências colocadas pelo capitalismo monopolista. 
Muitas análises têm demonstrado o avanço do processo de centralização do 
capital,	com	ênfase	para	a	hipertrofia	do	capital	fictício.	O	Estado	tem	dado	
máximas demonstrações de força no sentido de oportunizar margens de lucro 
ao capital monopolizado. Dentre outras estratégias, conduzindo pacotes de 
medidas de minimização dos gastos públicos que se vinculem à reprodução da 
força	de	trabalho,	justificados	com	o	discurso	do	ajuste	fiscal.	De	passagem,	
sinalizamos que a forma democracia burguesa,	cânone	da	organização	política	
para alguns, tem recebido e acomodado plasticamente interesses e necessidades 
do grande capital monopolista. Em não raras ocasiões, foi substituída sumaria‑
mente por regimes autocráticos — note‑se a história recente da América Latina, 
do Leste Europeu e de alguns países africanos.
Nessa esteira, pavimentou‑se um dos caminhos para a maré privatizante 
que autores designam como um “assalto ao patrimônio público”.27 Flexibiliza‑
ram‑se os direitos. Desregulamentou‑se a economia. A “questão social” dá 
mostras	inéditas	de	sua	cronificação,	e	suas	expressões	marcam	presença	em	
territórios e populações inéditos — acentuando o acerto marxiano em torno da 
superpopulação relativa. A desigualdade social surge mais aguda e diferencia‑
da a despeito dos efêmeros e ultra‑alardeados resultados de pacotes emergenciais 
de “desenvolvimento”.
As políticas sociais tornaram‑se ainda mais focalizadas e seletivas, dessa 
feita sob o discurso do “desenvolvimento de capacidades humanas”, tem se 
concentrado sua intervenção em ações assistenciais. Inserido nesse contexto, o 
27. Naomi Klein, em A doutrina do choque: ascensão do capitalismo do desastre.
556 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
exercício	profissional	do	Serviço	Social	encontra	uma	malha	institucional	que	
lhe repõe requisições e demandas tipicamente sincréticas. As três características 
da	estrutura	sincrética	da	profissão	se	repõem	em	grau	acentuado:	a	“questão	
social” assume feições hoje dramáticas e ainda mais heterogêneas e difusas; o 
universo	do	cotidiano,	limite	ontológico	em	que	se	situa	a	atuação	profissional	
e no qual a “questão social” se expressa fragmentariamente, encontra renovados 
processos alienantes: o culto desmedido do individualismo/solipsismo; o hedo‑
nismo e a falta de perspectivas de futuro (agudizados pela crise estrutural) que 
acometem populações jovens; o avanço do racismo e da xenofobia; os índices 
de guerra civil provenientes da violência urbana, doméstica, racial e de gênero; 
a avalanche ultraconservadora que tem resultado na criminalização da pobreza 
e	na	implementação	de	políticas	de	“tolerância	zero”	fazendo	explodir	a	popu‑
lação carcerária; o consumismo e o impulso à cultura da descartabilidade.
Quanto ao terceiro traço do sincretismo, a manipulação de variáveis empí‑
ricas também se repõe maximizada frente às tendências de hiperfocalização e 
assistencialização	das	ações.	Se	cruzarmos	as	duas	tendências	—	cronificação	
da “questão social” e focalização minimizadora das políticas sociais —, torna‑se 
evidente	que	os	limites	socioinstitucionais	do	exercício	profissional	embargam	
uma atuação que ultrapassa o horizonte da intervenção microscópica, reiterativa 
e fragmentária — ainda que comprometida com valores emancipatórios.
Todavia, o campo de contradições da sociabilidade burguesa atua de for‑
ma diferenciada. Não se revela de maneira idêntica em todas as esferas da re‑
produção	 social.	 Por	 isso,	 se	 do	 ponto	 de	 vista	 do	 exercício	 profissionalo	
sincretismo	é	componente	ineliminável	(porque	conectado	a	instâncias	e	me‑
diações	que	ultrapassam	e	circunscrevem	a	profissão),	no	âmbito	da	produção	
de	conhecimento	e	da	 formação	acadêmico-profissional	outras	mediações	e	
desdobramentos entram em cena. Particularizando o debate para a história do 
Serviço Social no Brasil, é possível sustentar que os desdobramentos do mo‑
vimento de intenção de ruptura28 lançou as bases para o processo de superação 
do ecletismo teórico.
28. O movimento de intenção de ruptura é objeto de rigorosa análise em Ditadura e Serviço Social: 
uma análise do Serviço Social no Brasil pós‑64, também de autoria do prof. José Paulo Netto.
557Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
Sem desconsiderar os problemas e contradições do processo que aproximou 
o Serviço Social brasileiro do amplo campo da tradição marxista, é possível 
afirmar	(em	traços	largos)	que	os	avanços	obtidos	por	essa	aproximação,	des‑
tacadamente nos últimos 25 anos, nos campos da formação, da pesquisa e da 
produção de conhecimento de natureza teórica, assumiram uma perspectiva de 
análise crítica totalizante. Evidentemente, a perspectiva de análise não reverteu 
a	dinâmica	da	objetividade	—	nem	poderia,	salvo	para	uma	perspectiva	idea‑
lista‑hegeliana. Contudo, forneceu aos assistentes sociais recursos teórico‑
‑metodológicos para uma atuação que, ainda que inscrita no circuito de repro‑
dução do sincretismo, pudesse explorar os espaços sócio‑ocupacionais como 
campos de contradição, com clareza do seu raio de ação e na perspectiva da 
ampliação das suas possibilidades — sobretudo na defesa tática dos direitos e 
demandas do trabalho (tomado como antagonista estrutural do capital). Esse é 
o	esforço	do	chamado	“projeto	ético-político	profissional”.
Esses avanços de natureza teórico‑metodológica, representados pelo “pro‑
jeto	ético-político	profissional”,	ao	incorporarem	a	categoria	de	totalidade	como	
elemento‑chave na compreensão da reprodução social (em seus fundamentos 
históricos e contraditórios), permitiram a superação do ecletismo teórico. To‑
davia, quando pautados à luz dos processos de mercantilização que têm incidi‑
do sobre a educação superior no Brasil (mas não só), resta manifesto que um 
dos	seus	suportes	sócio-históricos	mais	importantes	(a	formação	profissional	
crítico‑generalista de nível superior) tem sido alvo de intensas investidas pro‑
venientes de interesses do mercado. A lógica do mercado reverte os valores 
sociocêntricos e a perspectiva emancipatória em nome do imediatismo, do 
hedonismo, dos saberes prático‑imediatos instrumentais.
A contrapartida “teórica” (conservadora em última análise) que tem 
marcado	fundamente	o	saber	produzido	no	campo	da	Filosofia	e	das	“Ciências	
Humanas e Sociais”, histórico universo de interlocução do Serviço Social, a 
saber: as várias nuances da “pós‑modernidade”, têm repercutido de maneira 
substancial na formação superior dos assistentes sociais.29 Sua lógica motriz, a 
pétrea negação da categoria de totalidade, da essência, da razão ontológica em 
29.	Já	se	avoluma	uma	bibliografia	substancial,	em	teses,	dissertações	e	livros,	sobre	os	impactos	dos	
pós-modernismos	no	Serviço	Social.	Dentre	outros,	conferir	o	didático	e	qualificado:	Neoconservadorismo 
pós‑moderno e Serviço Social brasileiro, de Josiane Soares Santos.
558 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 531-559, jul./set. 2014
nome da exaltação do fragmentário, do fugaz, efêmero, aparente, da segmentação 
da realidade e do pensamento, não contradiz a lógica empírica imediata própria 
da prática sincrética. Mantidas e aprofundadas essas tendências no campo da 
formação	profissional	(porque,	no	campo	do	exercício,	elas	têm	penetrado	sobre‑
maneira), estão colocadas as raízes do processo que tenderá a fragilizar, quando 
não	reverter,	o	percurso	histórico	que	solidificou	a	superação	do	ecletismo.
Recebido em 20/2/2014 ■ Aprovado em 2/6/2014
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560 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 560-581, jul./set. 2014
A filosofia como historicidade: 
a ideologia no estudo filosófico dos Cadernos do cárcere
Philosophy as historicity: ideology in the philosophical study of Prison notebooks
Adilson Aquino Silveira Júnior*
Resumo: O artigo busca apreender a categoria da ideologia nas 
notas	dedicadas	ao	estudo	da	filosofia	dos	Cadernos do cárcere de 
Antônio	Gramsci.	Por	meio	de	uma	pesquisa	bibliográfica	dessa	obra,	
são explicitados os fundamentos teórico‑metodológicos e as articula‑
ções categoriais inerentes à questãoda ideologia em Gramsci. A ex‑
posição apresenta a relação necessária entre ideologia e práxis histó‑
rica, a concepção de bloco histórico como totalidade social e as 
condições	necessárias	e	suficientes	à	superação	das	relações	sociais	
dominantes.
Palavras‑chaves:	Ideologia.	Práxis	social.	Bloco	histórico.	Filosofia	
da práxis.
Abstract: The article seeks to apprehend the category of the ideology in the notes dedicated to the 
study of philosophy in Antônio Gramsci’s Prison notebooks. The theoretical and methodological 
fundamentals and the category articulations of the issue of ideology in Gramsci are explained through 
bibliography research related to that work. The explanation presents the necessary relationship between 
ideology and historical praxis, the conception of historical block as social totality and the necessary 
and	sufficient	conditions	to	overcome	the	dominant	social	relationships.
Keywords: Ideology. Social praxis. Historical block. Philosophy of praxis.
* Assistente social, mestre em Serviço Social pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), 
doutorando em Serviço Social pela UFPE, Recife/PE, Brasil. E‑mail: j_r1987@hotmail.com.
561Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 560-581, jul./set. 2014
1. Introdução
Entre as investigações e apontamentos mais estritamente voltados ao problema	da	filosofia,	Antônio	Gramsci	desenvolve	nos	Cadernos do cárcere um conjunto de notas e passagens nas quais, direta ou indiretamente, contribui para tornar inteligível a categoria da ideolo‑
gia. A elaboração que se desdobra, matizada pela concepção de mundo inerente 
à	“filosofia	da	práxis”,	apreende	e	explicita	fundamentos	teórico-metodológicos	
e históricos imprescindíveis ao desvelamento das relações de hegemonia entre 
as classes. Por meio de uma síntese aproximativa daquelas formulações que 
laboram a questão da ideologia nos escritos carcerários, pretendemos contribuir 
para	aprofundar	teoricamente,	no	âmbito	da	pesquisa	sócio-histórica,	a	apro‑
priação do fecundo arsenal crítico e categorial do comunista sardo. O estudo 
demandou que enveredássemos por aqueles Cadernos nos quais explicitamente 
o	tema	da	filosofia	foi	levado	a	cabo:	principalmente,	no	Caderno 10 (1932‑35), 
A filosofia de Benedetto Croce, e no Caderno 11 (1932‑33), Introdução ao estu‑
do da filosofia.1	Além	disso,	cotejamos	os	“cadernos	miscelânea”,	nos	quais	se	
encontram as notas de primeira redação posteriormente reformuladas e reescri‑
tas naqueles “cadernos especiais”.2
É	evidente	que	os	materiais	bibliográficos	e	os	objetivos	a	partir	dos	quais	
pesquisamos	impõem	alguns	limites	à	proposição	de	resultados	definitivos	à	
análise da ideologia em Gramsci. Porquanto, pretendemos nos debruçar estri‑
tamente sobre as notas em torno do estudo da filosofia, o tratamento mais 
aprofundado e sistemático de um tema tão abrangente e polêmico — no quadro 
mesmo	dos	comentadores	de	Gramsci,	que	dirá	no	âmbito	da	tradição	marxista	
— não pôde ser levado a cabo. Nossa contribuição consiste tão somente numa 
1. Ambos publicados na edição brasileira atual: Gramsci (2011a).
2.	Os	“cadernos	miscelânea”	dedicados	ao	estudo	da	filosofia	são,	fundamentalmente:	o	Caderno 4 
(1930‑1932), Apontamentos de filosofia/miscelânea/O canto décimo nono do inferno; o Caderno 7 (1930‑31), 
Apontamentos de filosofia II e miscelâneas; e o Caderno 8 (1931‑32), Miscelânea e apontamentos de Filosofia 
II.	Como	não	contamos	com	uma	edição	integral	dos	“cadernos	miscelânea” em português, recorremos à 
versão mexicana, traduzida da edição crítica de Valentino Gerratana. Foram examinados os seguintes volumes: 
Gramsci	(1999b)	e	Gramsci	(1984).	Sobre	a	distinção	entre	os	cadernos	miscelânea	e	especiais,	além	dos	
demais recursos atualmente utilizados para referenciar as notas carcerárias, ver Introdução de Gerratana em 
Gramsci (1999a).
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aproximação teórica à ideologia no extrato dos Cadernos selecionados — cujo 
conteúdo possui também um caráter inacabado, provisório e fragmentado3 —, 
subsidiando	a	apropriação	dos	fundamentos	filosóficos,	articulações	categoriais	
e remissões históricas intrínsecas.
É	conhecido	que	as	notas	dedicadas	ao	estudo	da	filosofia	foram,	mormen‑
te,	elaboradas	através	da	crítica	ao	pensamento	 idealista	do	filósofo	 italiano	
Benedetto Croce (e também de Giovanni Gentile) e ao livro, de 1921, A teoria 
do materialismo histórico: manual popular de sociologia marxista (chamado 
nos Cadernos de “Ensaio Popular”) de Nikolai Ivanovich Bukharin, então 
dirigente do Partido Comunista russo e da Internacional Comunista. O desen‑
volvimento	desse	programa	de	pesquisa	filosófica	ocorreu,	assim,	embora	não	
exclusivamente, através dos seus “Anti‑Croce” e “Anti‑Bukharin”: o combate 
ao revisionismo idealista, de uma parte, e ao materialismo mecanicista, de 
outra.4 Essa empreitada é seguida em	sintonia	fina	com	as	concepções	e	funda‑
mentos da própria obra marxiana, mobilizados original e criativamente para 
análise concreta das condições históricas da luta das classes subalternas na 
entrada do século XX.
2. Ideologia e práxis social
Iniciemos pela determinação da função da ideologia na reprodução social. 
Numa nota do Caderno 7 (1930‑31), antes mesmo da reformulação dos textos 
miscelânea	nos	“cadernos	especiais”,	a	questão	da	ideologia	é	tratada	por	meio	
de uma evidente remissão à obra de Marx. O trecho que segue realiza a distin‑
ção	entre	as	“ideologias	orgânicas”	e	as	“ideologias	arbitrárias”.	O	§	19	do	
referido Caderno destaca, inicialmente, o elemento de erro nas concepções que 
abordam a ideologia enquanto “‘pura’ aparência, inútil, estúpida”, hipostasiada 
do movimento histórico:
3. Numa nota de advertência, no início do Caderno 11, Gramsci postula explicitamente o caráter 
aproximativo	e	inconcluso	de	suas	anotações,	afirmando	que	podem	conter,	inclusive,	inexatidões	e	tratamentos	
desatualizados.
4. Detalhes sobre essa elaboração são fornecidos por Bianchi (2008). Também Buci‑Glucksmann 
(1980)	aborda	o	estudo	filosófico	de	Gramsci	nos	Cadernos.
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Um elemento de erro na consideração sobre o valor das ideologias, ao que me 
parece, deve‑se ao fato (fato que, ademais, não é casual) de que se dê o nome 
ideologia tanto à superestrutura necessária de uma determinada estrutura, como 
às elucubrações arbitrárias de determinados indivíduos. O sentido pejorativo da 
palavra	tornou-se	exclusivo,	o	que	modificou	e	desnaturou	a	análise	teórica	do	
conceito de ideologia. O processo deste erro pode ser facilmente reconstituído: 
1)	identifica-se	a	ideologia	como	sendo	distinta	da	estrutura	e	afirma-se	que	não	
são	as	ideologias	que	modificam	a	estrutura,	mas	sim	vice-versa;	2)	afirma-se	que	
uma	determinada	solução	política	é	“ideológica”,	isto	é,	insuficiente	para	modi‑
ficar	a	estrutura,	enquanto	crê	poder	modificá-la	se	afirma	que	ela	é	inútil,	estú‑
pida	etc.;	3)	passa-se	a	afirmar	que	toda	ideologia	é	“pura”	aparência,	inútil,	es‑
túpida etc. (Gramsci, 2011a, p. 237)
Duas abordagens comumente fornecidas à questão são apresentadas: uma 
expressa como acertada, enquanto outra constitui a fonte de erro na considera‑
ção	do	“valor	das	ideologias”.	Na	primeira,	é	enfatizada	a	vinculação	orgânica	
entre determinadas ideologias, enquanto superestrutura necessária, e a estru‑
tura social, evidenciando a relação de unidade existente entre ambas. As 
ideologias e a estrutura social expressam duas dimensões concretas, com suas 
particularidade	e	legalidades	específicas,	constituidoras	do	devir	histórico.	O	
processo de erro descrito — cujo resultado é uma concepção generalizadora da 
ideologia como “‘pura’ aparência, inútil, estúpida” — inicia precisamente com 
a orientação metodológica que consiste na cisão entre as ideologias e a estru‑
tura social dada. Sabemosque a concepção da ideologia como “superestrutura 
necessária de uma determinada estrutura” consiste numa referência às formu‑
lações de Marx no Prefácio à Crítica da economia política, de 1859. Todavia, 
antes de nos determos na formulação presente nesse manuscrito seminal, con‑
centremo‑nos na relação de necessária unidade entre ideologias e estrutura 
social.	No	fragmento	seguinte,	ainda	do	§	19,	vejamos	como	Gramsci	(2011a)	
determina	a	função	social	específica	das	“ideologias	orgânicas”:
É	necessário,	por	conseguinte,	distinguir	entre	as	ideologias	historicamente	orgâ‑
nicas, isto é, que são necessárias a uma determinada estrutura, e ideologias arbi‑
trárias, racionalísticas, “voluntaristas”. Enquanto são historicamente necessárias, 
as ideologias têm uma validade que é validade “psicológica”: elas “organizam” 
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as massas humanas, formam o terreno no qual os homens se movimentam, adqui‑
rem consciência de sua posição, lutam etc. Enquanto são “arbitrárias”, não criam 
mais do que “movimentos” individuais, polêmicas etc. (p. 238)
Utilizando‑nos da distinção aludida num trecho incompleto dos manuscri‑
tos d’A ideologia alemã,5 vemos	que	as	“ideologias	orgânicas”	—	em	contras‑
te com o “aspecto da atividade humana” voltado ao “trabalho dos homens sobre 
a natureza” — localizam‑se na esfera da “atividade humana” referente ao 
“trabalho dos homens sobre os homens” (Marx e Engels, 2007, p. 39). Ou seja, 
constituem parte das atividades humanas que tem por objeto os modos de pen‑
sar e agir dos homens em sociedade, intervindo, portanto, na qualidade das 
relações	que	estes	estabelecem	entre	si	e	com	a	natureza.	As	“ideologias	orgâ‑
nicas” possuem um papel organizativo e diretivo da atividade humana, confor‑
mando uma consciência social necessária a determinado modo de agir no 
mundo, vinculada a interesses socioeconômicos situados, condicionados pela 
estrutura social. Assumem uma orientação prático‑social situada, com efeitos 
concretos no desenvolvimento histórico, compondo as formas de consciência 
através das quais os homens tornam inteligível sua posição no mundo, se mo‑
vimentam, lutam.
Logo,	as	“ideologias	orgânicas”	não	são	conformadas	no	vazio,	embora	
estejam distantes de ser tratadas, igualmente, como um subproduto ou epifenô‑
meno de fatores econômicos. Em todo caso, nem derivam do “ventre da ideia 
que se põe a si mesma” (Marx, 2011, p. 217), tampouco são “‘autodeterminações’ 
do conceito que se desenvolve na história” (Marx e Engels, 2007, p. 49). Elas se 
elevam	sobre	uma	estrutura	social	situada:	“[...]	a	filosofia	não	se	desenvolve	a	
partir	de	outra	filosofia,6 mas é uma contínua solução de problemas colocados 
5. Referimo‑nos à seguinte passagem: “Até agora consideramos principalmente apenas um aspecto da 
atividade humana, o trabalho dos homens sobre a natureza. O outro aspecto, o trabalho dos homens sobre 
os homens [...]” (Marx e Engels, 2007, p. 39).
6.	Cabe-nos	assinalar	que	a	distinção	assumida	por	Gramsci	entre	filosofia	e	ideologia	é	estritamente	
quantitativa,	de	grau,	e	não	qualitativa	ou	orgânica.	Enquanto	a	primeira	expressa	a	“a	concepção	de	mundo	
que representa a vida intelectual e moral (catarse de uma determinada vida prática) de todo um grupo social”, 
a segunda consiste em “toda concepção particular de grupos internos da classe que se propõem ajudar a re‑
solver problemas imediatos e restritos” (Gramsci, 2011a, p. 302). E acrescenta: “Aliás, as ideologias serão a 
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pelo	desenvolvimento	histórico”	(Gramsci,	2011a,	p.	343).	Emergem	e	se	afir‑
mam	no	quadro	dos	intercâmbios	dialéticos	estabelecidos	entre	a	estrutura	so‑
cioeconômica e a consciência social necessária que dirige a prática dos indiví‑
duos, vinculando suas decisões alternativas cotidianas à reprodução ou à 
superação das relações sociais em causa.
As ideologias constituem as formas de consciência inerentes à atividade 
dos próprios indivíduos sociais, destinadas a responder às necessidades e pro‑
blemas	 colocados	 pela	 produção	 social.	Nessa	 perspectiva,	 a	 afirmação	 da	
historicidade e da caducidade das ideologias parte do fato de que as mesmas 
são	“expressões	da	estrutura	e	se	modificam	com	a	modificação	desta”	(	Gramsci,	
2011a, p. 131). O autor dos Cadernos reivindica a práxis social como momento 
predominante da	dialética	entre	teoria	e	prática,	o	que	não	significa	a	imposta‑
ção de uma hierarquia de valor entre as categorias constitutivas do ser social. 
Para	a	determinação	das	“ideologias	orgânicas”,	cita,	quase	com	as	mesmas	
palavras, um conhecido trecho do “Prefácio” de 1859. Vamos ao texto do Marx 
(2008a, p. 46):
Quando se considera tais transformações [das superestruturas, provocadas pela 
base econômica] convém distinguir sempre a transformação material das condições 
econômicas de produção [...] e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas 
ou	filosóficas,	em	resumo,	as	formas	ideológicas,	sob	as	quais	os	homens	adquirem	
consciência	desse	conflito	e	o	levam	até	o	fim.
É relevante constatar que tal citação é também recorrentemente utilizada 
por Georg Lukács, em sua Ontologia do ser social,7 e, mais tarde, em diversos 
textos de István Mészáros,8 para o tratamento da questão da ideologia em Marx. 
Ambos assumindo uma posição bastante aproximada daquela apresentada por 
‘verdadeira’	filosofia,	já	que	elas	serão	as	‘vulgarizações’	filosóficas	que	levam	as	massas	à	ação	concreta,	a	
transformação	da	realidade.	Isto	é,	elas	serão	o	aspecto	de	massa	de	toda	concepção	filosófica”	(Gramsci,	
2011a, p. 312). 
7.	Tais	referências	podem	ser	identificadas	em	Lukács	(2010,	2012).	No	artigo	de	Vaisman	(2010)	en‑
contramos uma síntese sobre a concepção lukasciana. 
8. Esse autor trata reiteradamente da questão da ideologia, nesses termos, em: Mészáros (2011, 2008, 
2004).
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Gramsci.9 Outras importantes menções do mesmo manuscrito marxiano de 1859 
são	retomadas	por	nosso	autor	para	aprofundar	as	reflexões	relativas	ao	estudo	
da	filosofia.	Assumindo	os	termos	do	“fundador	da	filosofia	da	práxis”,	o	co‑
munista sardo recusa as abordagens que desconsideram o valor histórico das 
ideologias, ou que as releguem a uma posição estrita de “falsa consciência”. O 
que está em questão é a função prático‑social de determinadas formas de 
consciência, não obstante caracterizem falsas ou verdadeiras elaborações, do 
ponto de vista histórico‑concreto. Tal função se relaciona a conscientização dos 
conflitos	colocados	pela	produção	social,	orientando	a	práxis	humana	existente.	
Uma nota daquele Caderno 7, intitulada “Validade das ideologias”, sinaliza 
precisamente nessa direção:
Recordar	a	frequente	afirmação	de	Marx	sobre	a	“solidez	das	crenças	populares”	
como elemento necessário de uma determinada situação. Ele diz mais ou menos 
isto: “quando esta maneira de conceber tiver a força das crenças populares” etc. 
Outra	afirmação	de	Marx	é	a	de	que	uma	persuasão	popular	tem,	com	frequência,	
a mesma energia de uma forma material, ou algo semelhante, e que é muito sig‑
nificativa.	A	análise	concreta	destas	afirmações,	creio,	conduz	ao	fortalecimento	
da concepção de “bloco histórico”, no qual, precisamente, as forças materiais são 
o conteúdo e as ideologias são a forma, distinção entre forma e conteúdo pura‑
mente didática, já que as forças materiais não seriam historicamente concebíveis 
sem forma e as ideologias seriam fantasias individuais sem as formas materiais. 
(Gramsci, 2011a, p. 238)
Aqui Gramsci recorda uma passagem da Crítica da filosofia do direito de 
Hegel — Introdução, na qual Marx sinaliza, ainda no início dos anos 1840, 
que “a teoria também se torna força material quando se apodera das massas” 
(2010, p. 151). De uma parte,essa remissão — que se repetirá em diversos 
outros momentos — é empregada para corroborar o poder das ideologias no 
próprio devir histórico, sendo desenvolvida ainda para o tratamento das relações 
9.	Coutinho	(2011)	afirma	essa	convergência	entre	Gramsci	e	Lukács,	no	que	concerne	ao	entendimento	
da questão da ideologia em Marx. E Oldrini (1999) informa uma aproximação entre os dois comunistas 
também na busca pela superação das polarizações idealistas e mecanicistas na tradição marxista, através de 
um tertium datur fundado na perspectiva teórico‑metodológica de Marx e de Lênin.
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de	 hegemonia	 e	 da	 própria	 ação	 estatal	 em	 sentido	 “integral”,	 “orgânico”	
(Gramsci, 2007). De outra parte, é abordada como indicação fornecida por 
Marx para evocar a necessidade da formação de uma consciência classista 
unitária, crítica, autônoma e de massas como momento necessário do processo 
revolucionário mesmo.
De fato, ainda em A ideologia alemã — manuscrito cujo conteúdo Gramsci 
não chegou a conhecer — Marx e Engels assumem que os “elementos materiais 
de uma subversão total” são, sobretudo, o desenvolvimento posto pelas “forças 
produtivas” e a “formação de uma massa revolucionária que revolucione não 
apenas as condições particulares da sociedade até então existente, como também 
a própria ‘produção da vida’ que ainda vigora — a ‘atividade total’ na qual a 
sociedade se baseia [...]”. Se tais condições são inexistentes, não importa “se 
a ideia dessa subversão total já foi proclamada uma centena de vezes” (2007, 
p. 43). Em suma, é incontornável a criação em massa de uma consciência 
comunista,10 enquanto consciência da necessidade de uma revolução radical, 
por	 parte	 da	 classe	 trabalhadora.	Com	efeito,	Mészáros	 (2009)	 afirma	que	
desde seus primeiros escritos, até os Grundrisse e O capital, Marx insistiu “[...] 
na necessidade da formação de uma consciência de massa socialista, como 
exigência sine qua non para envolver a grande maioria dos indivíduos em seu 
empreendimento coletivo de autoemancipação” (p. 1041). Essa unidade dialé‑
tica entre forças produtivas e consciência social é apreendida por Gramsci por 
meio da reformulação do conceito de “bloco histórico”.
3. O bloco histórico como totalidade social
No	estudo	da	filosofia, Gramsci incorpora aquela noção do teórico francês 
do sindicalismo Georges Sorel (1874‑1922),11 reelaborando‑a buscando repro‑
10. Tal requisição aparece de modo explícito também em várias passagens d’A sagrada família (Marx 
e Engels, 2003), à qual Gramsci teve acesso e pôde utilizar nos seus estudos.
11. Uma exposição sobre a concepção original de Sorel é apresentada por Bianchi (2008). Analistas 
como Portelli (1977) chegam a considerar que os principais aspectos do pensamento político presente nos 
Cadernos articulam‑se em torno do conceito de bloco histórico. 
568 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 560-581, jul./set. 2014
duzir a unidade ontológica entre a estrutura social e as ideologias. Tal perspecti‑
va encontra‑se nos fundamentos mesmos da concepção de mundo inerente à 
obra	de	Marx:	“Para	a	filosofia	da	práxis	o	ser	não	pode	ser	separado	do	pensar,	
o homem da natureza, a atividade da matéria, o sujeito do objeto; se faz se esta 
separação, cai‑se numa de muitas formas de religião ou na abstração sem sen‑
tido” (Gramsci, 2011a, p. 175). Na reformulação gramsciana da noção de 
“bloco histórico” está inerente a natureza categorial da práxis social em sua 
unidade.12 Essa vinculação foi inspirada, fundamentalmente, na interpretação 
das Teses sobre Feuerbach (Marx e Engels, 2007).
A	afirmação	das	Teses sobre Feuerbach, de que “o educador deve ser educado”, 
não coloca uma relação necessária de reação ativa do homem sobre a estrutura, 
afirmando	a	unidade	do	processo	real?	O	conceito	de	“bloco	histórico”,	construí‑
do	por	Sorel,	apreende	plenamente	essa	unidade	defendida	pela	filosofia	da	práxis.	
(Gramsci, 2011a, p. 370)
Nosso	autor	não	está	propondo	uma	inversão	mecânica	das	perspectivas	
economicistas, caracterizadas pela determinação unilateral da estrutura social 
sobre as superestruturas.13 Distancia‑se, consequentemente, da abordagem vo‑
luntarista, segundo a qual os homens atuam livres das cadeias socioeconômicas 
da estrutura dominante. A ênfase está na unidade dialética, presente na ativi‑
dade humana, entre ser e consciência, entre objetividade e subjetividade: “O 
homem deve ser concebido como um bloco histórico de elementos puramente 
subjetivos e individuais e de elementos de massa e objetivos ou materiais, com 
os quais o indivíduo está em relação ativa” (Gramsci, 2011a, p. 406). Tais im‑
plicações metodológicas são derivadas das relações objetivas que constituem a 
12. Em Gramsci, a práxis social encontra‑se fundada na atividade produtiva: “Se este é o ponto de 
partida	da	ciência	econômica	e	se	assim	foi	fixado	o	conceito	fundamental	de	economia,	qualquer	investigação	
ulterior	não	poderá	senão	aprofundar	teoricamente	o	conceito	de	‘trabalho’”,	o	qual	deverá	“[...]	ser	fixado	
naquela atividade humana que, em qualquer forma social, é igualmente necessária” (2011a, p. 334). 
13.	O	estudo	de	Martins	(2008)	apresenta	a	vinculação	orgânica	entre	a	perspectiva	teórico-metodológica	
marxiana e aquela apresentada por Gramsci nos Cadernos. Em seu livro clássico, Buci‑Glucksmann (1980) 
chama	a	atenção	 também	para	a	 importância	de	Lênin	na	refundação da filosofia marxista realizada por 
Gramsci. 
569Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 560-581, jul./set. 2014
práxis social na história. Por isso mesmo, abordando o complexo das superes‑
truturas em sua interação com o conjunto das relações sociais, Gramsci asse‑
vera que o “raciocínio se baseia sobre a necessária reciprocidade entre estrutu‑
ra e superestrutura (reciprocidade que é precisamente o processo dialético real)” 
(2011a, p. 251). A concepção da reciprocidade dialética inerente ao processo 
histórico‑concreto segue as fecundas indicações contidas no referido trecho do 
“Prefácio” de 1859:
O	conceito	do	valor	concreto	(histórico)	das	superestruturas	na	filosofia	da	práxis	
deve ser aprofundado, aproximando‑o do conceito soreliano de “bloco histórico”. 
Se os homens adquirem consciência de sua posição social e de seus objetivos no 
terreno	das	 superestruturas,	 isto	 significa	 que	 entre	 estrutura	 e	 superestrutura	
existe um nexo necessário e vital. (Gramsci, 2011a, p. 389)
As relações de determinação recíproca entre aqueles complexos da ativi‑
dade humana são enfatizadas como procedimento fecundo e original da pers‑
pectiva marxiana,14 cujo cerne deve ser evidenciado na luta ideológica contra 
as	tendências	idealistas	e	deterministas	mecânicas.	Na	crítica	à	vulgata	crocia‑
na do “materialismo histórico”, Gramsci informa que: “não é verdade que a 
filosofia	da	práxis	‘destaque’	a	estrutura	das	superestruturas;	ao	contrário,	ela	
concebe o desenvolvimento das mesmas como intimamente relacionado e ne‑
cessariamente inter‑relativo e recíproco” (2011a, p. 369). No Caderno 11, a 
concepção de “monismo”, que apregoa a unidade da realidade como um todo,15 
é retraduzida nesses termos:
[...] nem materialista nem idealista, mas identidade dos contrários no ato históri‑
co concreto, isto é, atividade humana (história‑espírito) em concreto, indissolu‑
velmente ligada a uma certa “matéria” organizada (historicizada), à natureza 
transformada	pelo	homem.	Filosofia	do	ato	(práxis,	desenvolvimento),	mas	não	
14.	Também	Lukács	(2012)	identifica	que	o	cerne	estruturador	do	pensamento	econômico	de	Marx	se	
funda na concepção de determinação recíproca das categorias que compõem o complexo do ser social, no 
qual “o econômico e o extra‑econômico convertem‑se continuamente um no outro” (p. 310).
15. Kosik (1976) também apreende e explicita essa perspectiva de unidade presentena concepção 
dialética de Marx recorrendo a categoria da práxis. 
570 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 560-581, jul./set. 2014
do ato “puro”, e sim precisamente do ato “impuro”, real no sentido mais profano 
e mundano da palavra. (Gramsci, 2011a, p. 209)
A	unidade	referida	pela	filosofia	da	práxis	não	se	encontra,	com	isso,	
esterilizada das contradições que dinamizam o desenvolvimento histórico: ela 
mesma é uma teoria das contradições. Essa nova concepção do mundo 
apreende, no campo das superestruturas, a própria práxis humana socialmen‑
te determinada, a atividade humana como síntese de objetividade e subjetivi‑
dade, conformada pelo mundo socioeconômico e as lutas ideológicas forjadas 
pelos interesses antagonistas dos sujeitos classistas. A apreensão de interesses 
contraditórios irreconciliáveis, presentes na estrutura social burguesa — di‑
ferente das tendências idealistas, que buscavam uma reconciliação no plano 
do espírito, ou das tendências mecanicistas, que restringem as transformações 
históricas	 ao	plano	 reificador	dos	 “instrumentos	 técnicos	de	produção”	—	
orienta a superação dos antagonismos para a totalidade das relações que 
consubstanciam a própria atividade humana na civilização do capital. A 
perspectiva de radicalidade e concreticidade assumida é expressa nos seguin‑
tes	termos:	“A	filosofia	da	práxis	é	o	historicismo	absoluto,	a	mundanização	
e terrenalidade absoluta do pensamento, um humanismo absoluto da história. 
Nesta	 linha	é	que	deve	ser	buscado	o	filão	da	nova	concepção	do	mundo”	
(Gramsci, 2011a, p. 155).
Segundo Gramsci, o problema que se coloca é o da filosofia como histo‑
ricidade: a implicação prático‑social das formas ideológicas sobre o curso do 
movimento histórico. Ele considera que o interesse pelo campo das superestru‑
turas,	na	filosofia	da	práxis,	se	coloca	precisamente	por	seus	efeitos	objetivos	
sobre a atividade humana inerente à própria reprodução social:
Através	do	conceito	mais	amplo	de	historicidade	da	filosofia,	isto	é,	de	que	uma	
filosofia	é	“histórica”,	enquanto	se	difunde,	enquanto	se	torna	uma	concepção	de	
uma	massa	social	(com	uma	ética	adequada),	compreende-se	que	a	filosofia	da	
práxis,	não	obstante	a	“surpresa”	e	o	“escândalo”	de	Croce,	estude	“nos	filósofos	
precisamente	(!)	o	que	não	é	filosófico:	as	tendências	práticas	e	os	efeitos	sociais	
e de classe que eles representam. [...]” (Gramsci, 2011a, p. 342)
571Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 119, p. 560-581, jul./set. 2014
A	importância	do	estudo	da	filosofia	não	está	hipotecada,	portanto,	a	qual‑
quer pretensão de sumariar uma história hipostasiada do pensamento da huma‑
nidade.	A	filosofia	(ou	filosofias)	interessa	na	medida	em	que	é	“história”,	na	
medida em que faz parte da “história geral do mundo”, das relações sociais em 
que vivem os homens, na medida em que possui implicações práticas nas trans‑
formações	sociais	concretas.	A	própria	história	da	filosofia	é	entendida	como	a	
história das tentativas e iniciativas ideológicas de determinadas classes para 
modificar,	corrigir	e	aperfeiçoar	as	concepções	de	mundo	existentes,	bem	como	
alterar as normas de condutas que lhes são relativas e adequadas, voltadas para 
“mudar a atividade prática em seu conjunto” (Gramsci, 2011a, p. 325). Em 
síntese, as ideologias importam porquanto assumem a condição de mediação 
da reprodução social, dirigindo as vontades humanas, por meio da formação de 
determinada	consciência	social,	para	resultar	em	efeitos	práticos	específicos	na	
sociedade, correspondente a problemas e interesses socioeconômicos concretos.
Essa força objetiva das ideologias é igualmente evidenciada na crítica ao 
Ensaio popular de Nikolai Bukharin, quando Gramsci se detém sobre a con‑
cepção	de	“matéria”,	inerente	à	filosofia	da	práxis.	Afirma	que	a	mesma	é	im‑
possível	de	ser	entendida,	seja	no	significado	que	resulta	das	ciências	naturais	
(as	propriedades	físicas,	químicas,	mecânicas	etc.),	seja	através	das	diversas	
metafísicas materialistas. Para aquela, a “matéria” não é relevante como tal, 
mas como social e historicamente organizada pela produção, entendida essen‑
cialmente como categoria histórica: uma relação humana. O estudo mesmo dos 
instrumentos de produção interessa — longe de ser estritamente pelas proprie‑
dades	físico-químico-mecânicas	dos	seus	componentes	naturais	—,	porquanto	
estes constituem um momento das formas materiais de produção, objeto de 
determinadas forças sociais: enquanto expressam uma relação social e corres‑
pondem a um período histórico situado. Do mesmo modo, na medida em que 
constituem	objeto	de	forças	sociais	específicas	e	organizam	a	prática	social	dos	
homens, orientando o metabolismo social, as formas de consciência possuem 
uma força material. Esse é o valor histórico a partir do qual uma ideologia 
assume	relevância	para	a	filosofia	da	práxis:
É	possível	dizer	que	o	valor	histórico	de	uma	filosofia	pode	ser	“calculado”	a	partir	
da	eficácia	“prática”	que	ela	conquistou	(e	“prática”	deve	ser	entendida	em	sentido	
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amplo).	Se	é	verdade	que	toda	filosofia	é	expressão	de	uma	sociedade,	ela	deveria	
reagir sobre a sociedade, determinar certos efeitos, positivos ou negativos: a medi‑
da	em	que	ela	reage	é	justamente	a	medida	de	sua	importância	histórica,	de	não	ser	
ela “elucubração” individual, mas sim “fato histórico”. (Gramsci, 2011a, p. 249)
A terminologia mesma utilizada por Marx e o recurso metafórico na 
exposição de sua concepção de mundo apenas podem ser entendidos quando 
inseridos no horizonte político e cultural da época. A incorporação de termos 
como “anatomia”, “estrutura” e “superestrutura” constituem, segundo Gramsci, 
simples metáforas extraídas dos debates em torno das ciências naturais e da clas‑
sificação	das	espécies	animais,	que	se	tornou	“científica”	precisamente	quando	
partiu dos elementos anatômicos e não mais das características secundárias e 
acidentais. O conteúdo racional e progressista do pensamento burguês, elaborado 
na luta contra as antigas classes dominantes, é assumido pela nova concepção de 
mundo,	expressa	na	filosofia	da	práxis,	mas	cum grano salis. Tais expressões não 
podem obliterar a apreensão das relações de determinação recíproca e o próprio 
movimento derivado das contradições que caracteriza a esfera do ser social, 
qualitativamente	diversa	daquela	fundada	no	mundo	estritamente	orgânico	ou	
inorgânico.	Isso	por	um	lado.	De	outra	parte,	a	metáfora	se	justifica,	do	ponto	
de vista das relações de hegemonia, também pela sua “popularidade”, ou seja:
[...]	pelo	fato	de	oferecer,	mesmo	a	um	público	não	refinado	intelectualmente,	um	
esquema de fácil compreensão (não se leva quase nunca em devida conta o se‑
guinte	fato:	que	a	filosofia	da	práxis,	propondo-se	reformar	intelectual	e	moral‑
mente estratos culturais atrasados, recorre a metáforas por vezes “grosseiras e 
violentas” em seu caráter popular). O estudo da origem linguístico‑cultural de 
uma metáfora empregada para indicar um conceito ou relação recentemente des‑
cobertos pode ajudar a compreender melhor o próprio conceito, na medida em 
que esse é relacionado ao mundo cultural, historicamente determinado, do qual 
surgiu, bem como é útil para determinar o limite da própria metáfora, isto é, para 
impedir que ela se materialize e mecanicize. (Gramsci, 2011a, p. 191)
As metáforas da “anatomia”, da “estrutura” ou da “superestrutura” 
consistiam, logo, num estímulo para aprofundar as investigações metodoló‑
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gicas	e	filosóficas,	sem,	com	isso,	limitar	a	abrangência	e	a	complexidade	
das relações analisadas. Utilizando tais noções, a unidade da atividade hu‑
mana	sensível	é	 reafirmada:	os	aspectos	“superestruturais”	 fazem	“bloco”	
com	a	“estrutura	anatômica”,	e	com

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