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Resenha do filme Querô
O filme serve de material documental que retrata a vida em uma cidade grande na beira de um cais. É exposta uma realidade tão violenta de uma forma crua e bastante impactante, o que faz com que o filme além do entretenimento traga uma reflexão, ou até mesmo revolta nos espectadores.
O filme traz a história de Jerônimo, filho de uma prostituta de beira de cais, que logo após parir o garoto é expulsa do prostibulo pela cafetina. Ela embebeda-se, coloca o menino na calada da noite na porta do mesmo prostibulo, toma querosene e morre. A cafetina que havia expulsado a mãe acaba criando Jerônimo, mas sem carinho, atenção, amor, ou pelo menos, um pouco de consideração. Na adolescência vive nas ruas de Santos fazendo pequenos serviços, furtos e roubos para sobreviver, até um dia ser preso e ir para a detenção.
No reformatório ganha seu apelido, que dá nome do filme, Querô, devido sua mãe ter tomado querosene para se matar. A falta de sua mãe é entendida pelo garoto, a fonte dos problemas que passa por toda sua vida. Dentro do reformatório ele tem que conviver com situações bastante delicadas, tanto quanto a vida na rua, se não mesmo pior. Querô se desentende com um grupo de garotos no reformatório, chega até mesmo a ferir um gravemente. Depois de passar um tempo na solitária é jurado de curra pela gangue rival, o que logo se concretiza. Além dos conflitos entre os menores internos, os detentos também estão expostos aos desmandos dos agentes carcerários. Dessa forma é exposta a falta de cuidado do governo frente às instituições reparadoras de jovens infratores.
Após uma rebelião Querô foge e volta às ruas. Tenta estabilizar sua vida, consegue emprego, e um lugar para morar, começa a frequentar uma religião e apaixona-se pela filha do pastor. A garota começa a representar para ele uma possibilidade de vida digna e ainda mais ter o afeto que até então muito pouco obtivera.
Tentado estabilizar sua vida e caminhar para um futuro melhor, é reconhecido pelo policial que lhe prendeu, pois além de não ter cumprido a pena feriu seriamente o agente carcerário. Para mantê-lo solto o policial cobra uma quantia em dinheiro e dá um breve prazo para Querô conseguir a quantia estipulada.
O jovem entende agora que jamais vai conseguir o futuro estável e tranquilo que tanto deseja ao lado da garota por quem está apaixonado. Consegue uma arma, roubando de um antigo colega de internato e vai para um acerto de contas com o policial. Na troca de tiros mata os policiais que queriam lhe extorquir, mas também é ferido gravemente, o que faz ir a óbito logo após.
O filme nos possibilita refletir sobre diferentes pontos do Programa Nacional de Direitos Humanos. Como segurança pública, acesso à justiça e combate a violência, levando em conta a necessidade de modernização do sistema de segurança pública, a promoção dos direitos humanos junto aos profissionais do sistema de segurança pública, assegurando sua formação continuada e compatível com as atividades que exercem.
Jornal O Tempo: maioridade penal no Brasil deve ser reduzida dos 18 para os 16 anos?
Resposta irracional
Assistimos, nos dias atuais, a processos crescentes de espetacularização da violência e judicialização das relações sociais. O debate sobre a redução da Maioridade Penal se insere nesse contexto: embora os movimentos em defesa dos Direitos Humanos de crianças e adolescentes tenham frutificado e alcançado importantes conquistas, como a promulgação do ECA, em 1990, estamos diante do trágico avanço da tramitação de uma lei polêmica, tão retrógrada quanto ineficaz.
Adolescentes que cometem atos infracionais perante a Justiça brasileira, hoje, recebem tratamento diferenciado quando comparados à população de adultos que cometem delitos, por serem considerados sujeitos em condição peculiar de desenvolvimento. Do ponto de vista da Psicologia enquanto ciência, a tese do ser humano em desenvolvimento observa a correlação entre as práticas parentais e a manifestação do comportamento antissocial. À medida que constatamos, entre os adolescentes em conflito com a lei, a ausência de práticas parentais positivas (aquelas em que o afeto e o acompanhamento dos pais estão presentes), sobretudo nas famílias em risco social, nos afastamos da ideia simplista da existência de sujeitos biologicamente predispostos a cometer delitos. Assim, a ciência comportamental aponta que a reversão do comportamento infrator envolve o investimento em práticas educativas que almejem a elevação da autoestima e a preparação das crianças e dos adolescentes para a vida profissional.
O clamor de parte da população pelo aprisionamento de infratores tem ocultado outra parte importante do debate, que é o da reinserção na sociedade quando de sua “liberdade”. Não faltam dados para comprovar o completo fracasso das instituições prisionais no Brasil, que terminam por estimular a identidade infratora e a ampliação do conhecimento de práticas criminosas. De outra parte, não há comprovação de que o rebaixamento da idade penal reduz os índices de criminalidade juvenil.
Nesse sentido, cabe exigir do Estado a efetiva implementação das medidas socioeducativas e o investimento em educação de qualidade, além de medidas que eliminem as desigualdades sociais. A delinquência juvenil é, portanto, um indicador de que o Estado, a sociedade e a família não têm cumprido adequadamente seu dever de assegurar, com absoluta prioridade, os direitos da criança e do adolescente.
Abrir as portas da prisão a jovens menores de 18 anos é fechar as portas não somente para o seu próprio desenvolvimento, mas também para o do país. Atacar o indivíduo, desconsiderando as causas da violência e da criminalidade, é a resposta irracional a um apelo da sociedade de caráter mais amplo por justiça social.
Mariza Monteiro Borges, Presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP); mestre em Psicologia.
A maioridade de um país
Rudá Ricci Sociólogo, Coordenador do Instituto Cultiva
	
 Uma nação não se faz pela irracionalidade. Pode ser levada a aventuras, mas não se constrói por ímpeto, pela angústia ou pela descrença. Um país, pelo contrário, se faz pela esperança e pela utopia de ser fértil e fincar a crença na prosperidade. Este, aliás, é um dos princípios do Estado Moderno: sustentar a crença individual num futuro melhor.
Nestes últimos dias, a ação selvagem de alguns jovens, que nos impele a descrer no projeto humano, parece convidar ao irracionalismo, irmão gêmeo da selvageria. Uma trama que a mente humana, de tempos em tempos, cria e que faz o errado parecer certo.
A discussão, importante e necessária, sobre a redução da maioridade penal está mergulhada em forte comoção e pode servir a interesses não muito claros e inconfessos. Há muita desinformação a respeito. Uma das questões encoberta pela comoção que envolve o debate atual é a tradição latina sobre desenvolvimento humano.
Nossa cultura é oposta à tradição jurídica da Inglaterra e EUA. Para estes dois países (há alterações importantes em curso) crianças e adolescentes acusados de autoria de atos infracionais podem ser punidos. Foi publicado, no Brasil, um importante livro intitulado Gritos no Vazio: a história de Mary Bell, de autoria de Gitta Sereny, que relata os equívocos desta concepção jurídica e sociológica. O livro trata da prisão de uma pré-adolescente que assassinou duas crianças. Um fato real e dramático. A tradição e cultura latina é mais comunitária e menos individualista. Baseia-se na convicção que o processo educacional não é uma virtude individual, mas uma responsabilidade da coletividade. Na prática, isto significa que uma criança não possui responsabilidade sobre o que faz, não tem maturidade intelectual suficiente para compreender a gravidade de seus atos.
Muitos estudos da psicologia comprovam esta tese. Há estudos de anglo-saxões, inclusive, como Lawrence Kohlberg, seguidor de Piaget, que comprovam esta tese. Por este motivo, atos de crianças são imputados aos seus pais ou responsáveis. São eles que assumem a responsabilidadedos seus atos. No caso dos adolescentes, a situação é mais complexa. Eles não são adultos, mas não são mais crianças. Os latinos sugerem que eles sejam considerados responsáveis, mas não imputáveis. Na prática, significa que eles sabem o que fazem, mas ainda estão em processo de amadurecimento. Eles já têm, inclusive, maturidade física para ter filhos e para dirigir carros, mas a sociedade considera que não têm maturidade intelectual para efetivar esta realidade. Seus atos infracionais não são julgados tendo por fim uma pena, mas uma medida socioeducativa, de caráter essencialmente pedagógico. É verdade que parte do sistema judiciário, fundado na lógica criminal, sente dificuldades em compreender a lógica pedagógica. Mas é importante destacar, assim mesmo, que nesta tradição a sociedade adulta entende que há, ainda, uma última ação a ser desenvolvida para com esta pessoa que está em processo de formação.
Os argumentos pela diminuição da maioridade penal incorrem no erro de idealizar a idade e desconsiderar o processo de amadurecimento do ser humano. Desconsidera situações cotidianas, como o julgamento que fazemos sobre um ato incorreto de uma criança e nossa postura sobre o mesmo ato cujo ator é um adulto. A expectativa sobre o comportamento de um é absolutamente distinta em relação ao outro, justamente porque a idade define a compreensão de mundo e de responsabilidade sobre ele.
Jean Piaget, desde os anos 30 do século passado, desenvolveu pesquisas que revelaram que os seres humanos se desenvolvem moralmente por estágios. Demonstrou que uma criança respeita regras não porque compreende sua função e natureza, mas porque teme ser punida ou perder o carinho de quem lhe ensina a regra. Tempos depois, já sabe empregar a regra no convívio com seus pares de idade, mas ainda não tem a compreensão sobre justiça. Na adolescência, já constrói esta noção, mas em fases mais complexas, gradativamente, de compreensão. Enfim, amadurece moralmente aos poucos. E amadurece, como outro psicólogo procurou provar (Lev Vygostsky), a partir de estímulos externos, que devem ser programados, no caso dos educadores. Tratar adolescente como adulto é um erro que coloca em xeque não apenas nossa cultura, mas a própria esperança na vida e na vida social.
[Fonte: INESC - Instituto de Estudos Socioeconomicos]
Há alguns anos, o Brasil iniciou uma discussão calorosa, onde estava em pauta a redução da maioridade penal para 16 anos. Nos últimos anos as ondas de criminalidade, começaram a crescer devido ao aumento na participação de menores em grande parte dos crimes realizados.
Todavia esse é um assunto que devemos abordar desde os princípios de suas raízes. Começando assim, a rever as medidas educacionais, como cultural e familiar!
Em discussão com a sociedade, muitas pessoas estão divididas entre, a favor ou contra. Alguns estudiosos da lei Penal e Infantil concordam com certos pontos, mas acabam discordando com outros. Devido às divergências acarretadas por infinitos problemas presentes em nosso País, podemos destacar: a precariedade e a superlotação dos nossos sistemas presidiários. Onde esses sistemas, são insuficientemente para o total dos presidiários, superlotando assim, todas as celas existentes.
A sociedade brasileira para deter de uma crescente taxa de indícios de criminalidade, deverá começar a fazer longos investimentos fundamentados e baseados na educação, na saúde e na própria família como um só. Podemos começar a agir na base de todas as raízes, que é a família, onde os pais deverão e terão que mostrar ao seu filho, o poder que eles exercem. Certo que não demonstrando poder, batendo ou relativamente espancando o seu filho, e sim, mostrando o que seria certo ou não, para um caminho bem sucedido da nossa sociedade. A criação educacional e cultural de uma pessoa é realizada ao devido transcorrer de sua vida, é partir dela que nos determinamos o nosso futuro, onde sucessivamente repassaremos a nossa criação para todas as gerações que ainda virão...
A instauração de leis para a redução da maioridade será bem-vinda, mas com intuitos e criações, de acordo com o crime, a idade do indivíduo, sendo proporcional ao seu Ato infracional. Outro caso que deveremos colocar em prática é a não colocação desses “menores” junto aos outros indivíduos. E sim, separados, onde poderão ser postos em um sistema carcerário especializados e existente aos adolescentes.

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