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Uma aula sobre Kant

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Ano V, nº 19 AULA SOBRE KANT — GONZÁLEZ PORTA 245
UMA AULA SOBRE KANT*
Mario Ariel González Porta **
Resumo: O presente artigo procura proporcionar ao público em geral uma idéia sumária da filosofia Kantiana
outorgando para isto atenção especial ao problema que a mesma pretende solucionar.
Palavras-chave: Kant, filosofia, Kantiano
Abstract: This article aims at offering the general public a brief notion of Kant’s philosophy, concentring on the problem
it intends to solve.
Key words: Kant, philosophy, Kantian
1. INTRODUÇÃO
Para quem não se dedicou a um estudo sistemático
da filosofia e, contudo, tem um interesse por esta
disciplina, ela se apresenta como um conjunto desconexo
de temas e de opiniões. A impressão de um certo caos é
inevitável. Mas esta impressão é falsa. Para entendermos
porque está errada, precisamos começar a observar que a
filosofia possui problemas e é a unidade dinâmica interna
destes problemas que está na base da multiplicidade e
mudança de temas e de opiniões. Para entender filosofia
ou, mais concretamente, um filósofo em particular,
devemos começar pela pergunta: qual é o seu problema e,
eventualmente, por que o coloca desta forma? Logo em
seguida temos que prestar atenção no que ele diz, tomando
as suas palavras como a solução argumentada que ele
oferece ao seu problema.
Nas seguintes considerações dedicar-me-ei,
prioritariamente, a tentar explicar qual é o problema
Kantiano. Num segundo momento direi alguma coisa
sobre a solução desse problema.
2. O PROBLEMA CRÍTICO
O problema Kantiano é constituído de fato por
vários problemas articulados e, como veremos, possui uma
clara unidade interna. Este problema tem uma dimensão
teórica e uma prática, ou seja, uma dimensão
epistemológica e uma ética. Chamo a atenção sobre a
unidade da pergunta kantiana e, ao mesmo tempo, sobre
sua dupla dimensão essencial. Inicialmente me ocuparei
com a questão teórica; em seguida, com a questão prática.
Isto não obedece a uma ordem de importâncias ou de
prioridades.
2.1. O problema teórico
Se o problema kantiano tem um duplo aspecto,
teórico e prático, no campo teórico há também uma dupla
dimensão. Este é um dado absolutamente essencial se
 
* Palestra oferecida no marco do curso de Introdução à Filosofia Moderna
e Contemporânea do COGEAE da PUC-SP em 16/09/1999. Data de
recebimento para publicação: 22/09/99.
** Doutor pela Westfálische Wilhelms Universität-Münster, Pós-
Doutorado (Deutsche Forschungsgemeinschaft), Professor da Pós-
Graduação da PUC- SP, Coordenador de Pós-Graduação do Centro de
Pesquisa da USJT.
queremos compreender a Crítica da razão pura
adequadamente. Entender esta obra é, em boa medida,
entender a ligação interna necessária que há entre duas
questões que, a princípio, podem ser formuladas
independentemente:
1. A primeira questão diz: A metafísica é possível como
ciência?
2. A segunda questão: como são possíveis a física e a
matemática como ciências?
2.1.1. A questão das ciências física e matemática
Vou começar pela última questão. A ciência é para
Kant a geometria euclidiana e a mecânica newtoniana. Isto
pode parecer óbvio, mas não é. Para entendê-lo, é
necessário saber algumas coisas.
1. Na primeira metade do século XVIII existiam na
Alemanha duas físicas, a de Descartes e a de Leibniz.
A discussão entre elas caracterizou o momento
científico, não conseguindo nenhuma delas se impor
definitivamente sobre a outra. A física de Newton
aparece como uma nova e poderosa concorrente que as
desloca, embora com lutas e fortes resistências. O
desenvolvimento intelectual de Kant coincide com
este processo. Kant inicia sua formação em física
através do contato com as polêmicas entre cartesianos
e leibnizianos para, em seguida, aderir
progressivamente a Newton, numa época prematura
para a situação intelectual na Alemanha.
2. As físicas de Descartes e de Leibniz são diferentes em
várias questões essenciais. Entretanto, importa não
ignorar que, no marco destas diferenças, elas têm três
pontos básicos em comum:
a. Em primeiro lugar, Descartes e Leibniz (e em
geral todos os racionalistas) compartilham uma
idéia de ciência que tem suas raízes na
antigüidade clássica e, segundo a qual, a ciência é
conhecimento universal e necessário. Para usar
algumas formulações que não são exatamente
idênticas, mas que confluem para o núcleo
essencial da necessidade, digamos que ciência é o
conhecimento pelas causas, ou pelas razões, ou de
natureza demonstrativa; ou que não é o mero
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conhecimento do que, senão do porquê, ou que
não é simplesmente descrever, senão explicar; não
é propriamente investigar os fatos estabelecendo
verdades em relação a eles, mas sim demonstrar
estas verdades.
b. Em segundo lugar, tanto Descartes quanto
Leibniz, trabalham naquele projeto comum da
ciência moderna, de matematizar o universo,
vinculando estreitamente suas físicas com suas
respectivas metafísicas. Se suas físicas são
diferentes é, em boa medida, porque as
metafísicas, a serviço das quais se encontram, são
diferentes.
c. Em terceiro lugar, tanto Descartes quanto Leibniz
fundamentam suas físicas em suas metafísicas.
Dado que ciência é conhecimento necessário,
tanto Descartes quanto Leibniz vinculam a
necessidade que caracteriza suas físicas, como
ciência, a suas metafísicas.
3. Kant, inicialmente interessado pelas polêmicas entre
os físicos cartesianos e leibnizianos, acaba adotando a
física de Newton, sem, no entanto, abandonar a idéia
de ciência como conhecimento universal e necessário,
na qual se havia formado. Kant aceita a física
newtoniana, mas a interpreta através da idéia
racionalista de ciência. Isto é decisivo: para Kant a
física newtoniana é algo mais do que mera
generalização de dados empíricos, uma descrição
matemática feliz e convincente dos fenômenos que
poderia, eventualmente, ser corrigida no futuro: ela é
um conhecimento que implica um caráter universal e
necessário.
Para Kant existem dois tipos de conhecimento.
Chamamos conhecimento empírico aquele que se funda
na experiência. Entendemos por experiência um
conhecimento proporcionado pelos sentidos. Se eu dissesse
agora que a parede é branca, isto seria um conhecimento
empírico, pois a verdade desta minha afirmação está
suficientemente fundada nos dados que os sentidos me
proporcionam. Para saber se o que eu digo é verdade, a
única coisa a ser feita é olhar para a parede. Chamamos
conhecimento a priori aquele conhecimento que não se
funda na experiência, ou melhor, que não pode ser
suficientemente fundado na experiência. Observem que, a
princípio, a noção de a priori é definida de um modo
puramente negativo: conhecimento a priori é aquele que
não é empírico. Ora, a experiência é incapaz de fundar o
conhecimento universal e necessário. Ela pode
eventualmente dizer como são as coisas, mas não dizer
porque, necessariamente, elas são assim e não de outro
modo; ela pode, de outra maneira, eventualmente dizer
como as coisas foram até agora, mas não que sejam assim
sempre. Conseqüentemente, se há um conhecimento que
tenha estas qualidades de necessário e universal então ele
não pode ser empírico e, em conseqüência, é, por oposição,
a priori.
Se pensarmos em todos os elementos apontados até
agora, chegarmos a uma interessante conclusão que é,
realmente, para Kant, um ponto de partida:
a) se a mecânica newtoniana é ciência,
b) e ciência é conhecimento universal e necessário,
c) a mecânica newtoniana é conhecimento universal e
necessário.
d) Não obstante, conhecimento universal e necessário
não pode ser jamais empírico, mas a priori,
e) Conseqüentemente, se a mecânica newtoniana é
possível como ciência, então o conhecimento a
priori é possível.
2.1.2. A questão da metafísica
Se o primeiro elemento do problema kantiano é a
física, o segundo será a metafísica. Mas o que

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