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GEOGRAFIA Geografia Geral: a) Localizando-se no Espaço: orientação e localização: coordenadas geográficas e fusos horários; cartografia: a carto- grafia e as visões de mundo, as várias formas de representação da superfície terrestre, projeções cartográficas, escalas e convenções cartográficas. ...................................................................................................................................................................... ..........01 b) O Espaço Natural: estrutura e dinâmica da Terra: evolução geológica, deriva continental, placas tectônicas, dinâmica da crosta terrestre, tectonismo, vulcanismo, intemperismo, tipos de rochas e solos, formas de relevo e recursos mi- nerais; as superfícies líquidas: oceanos e mares, hidrografia, correntes marinhas – tipos e influência sobre o clima e a atividade econômica, utilização dos recursos hídricos e situações hidroconflitivas; a dinâmica da atmosfera: camadas e suas características, composição e principais anomalias – El Niño, La Niña, buraco na camada de ozônio e aquecimento global: elementos e fatores do clima e os tipos climáticos; os domínios naturais: distribuição da vegetação e caracte- rísticas gerais das grandes paisagens naturais; e os impactos ambientais: poluição atmosférica, erosão, assoreamento, poluição dos recursos hídricos e a questão da biodiversidade. ........................................................................................................... 17 c) O Espaço Político e Econômico: indústria: o processo de industrialização, primeira, segunda e terceira revolução indus- trial, tipos de indústria, a concentração e a dispersão industrial, os conglomerados transnacionais, os novos fatores de localização industrial, as fontes de energia e a questão energética, impactos ambientais; agropecuária: sistemas agríco- las, estrutura agrária, uso da terra, agricultura e meio ambiente, produção agropecuária, comércio mundial de alimen- tos e a questão da fome; globalização e circulação: os fluxos financeiros, transportes, os fluxos de informação, o meio tecnocientífico-informacional, comércio mundial, blocos econômicos, conflitos étnicos e as migrações internacionais; a Divisão Internacional do Trabalho (DIT) e as trocas desiguais; a Nação e o Território, os Estados territoriais e os Estados nacionais: a organização do Estado Nacional; e o poder global, nova ordem mundial, fronteiras estratégicas ................. 57 d) O Espaço Humano: demografia: teorias demográficas, estrutura da população, crescimento demográfico; transição demográfica e migrações; urbanização: processo de urbanização, espaço urbano e problemas urbanos; e os principais indicadores socioeconômicos.............................................................................................................................................................................86 Geografia do Brasil: a) O Espaço Natural: características gerais do território brasileiro: posição geográfica, limites e fusos horários; geo- morfologia: origem, formas e classificações do relevo: Aroldo de Azevedo, Aziz Ab’Saber e Jurandyr Ross e a estrutura geológica; a atmosfera e os climas: fenômenos climáticos e os climas no Brasil; domínios naturais: distribuição da ve- getação, características gerais dos domínios morfoclimáticos, aproveitamento econômico e problemas ambientais; e os recursos hídricos: bacias hidrográficas, aquíferos, hidrovias e degradação ambiental. ......................................................107 b) O Espaço Econômico: a formação do território nacional: economia colonial e expansão do território, da cafeicultura ao Brasil urbano-industrial e integração territorial; a industrialização pós Segunda Guerra Mundial: modelo de subs- tituição das importações, abertura para investimentos estrangeiros, dinâmica espacial da indústria, pólos industriais. A indústria nas diferentes regiões brasileiras e a reestruturação produtiva; o aproveitamento econômico dos recursos naturais e as atividades econômicas: os recursos minerais, fontes de energia e meio ambiente, o setor mineral e os grandes projetos de mineração; agricultura brasileira: dinâmicas territoriais da economia rural, a estrutura fundiária, relações de trabalho no campo, a modernização da agricultura, êxodo rural, agronegócio e a produção agropecuária brasileira; e o comércio: globalização e economia nacional, comércio exterior, integração regional (Mercosul e América do Sul), eixos de circulação e custos de deslocamento. ........................................................................................................................130 c) O Espaço Político: formação territorial – território, fronteiras, faixa de fronteiras, mar territorial e ZEE; estrutura po- líticoadministrativa, estados, municípios, distrito federal e territórios federais; a divisão regional, segundo o IBGE, e os complexos regionais; e políticas públicas. ...................................................................................................................................................168 d) O Espaço Humano: demografia: transição demográfica, crescimento populacional, estrutura etária, política demográ- fica e mobilidade espacial (migrações internas e externas); mercado de trabalho: estrutura ocupacional e participação fe- minina; desenvolvimento humano: os indicadores socioeconômicos; e a urbanização brasileira: processo de urbanização, rede urbana, hierarquia urbana, regiões metropolitanas e RIDEs, espaço urbano e problemas urbanos. .............................179 Exercícios - Provas Anteriores ...........................................................................................................................................................................199 1 GEOGRAFIA A) LOCALIZANDO-SE NO ESPAÇO: ORIENTAÇÃO E LOCALIZAÇÃO: COORDENADAS GEOGRÁFICAS E FUSOS HORÁRIOS; CARTOGRAFIA: A CARTOGRAFIA E AS VISÕES DE MUNDO, AS VÁRIAS FORMAS DE REPRESENTAÇÃO DA SUPERFÍCIE TERRESTRE, PROJEÇÕES CARTOGRÁFICAS, ESCALAS E CONVENÇÕES CARTOGRÁFICAS. CARTOGRAFIA Orientar-se no espaço terrestre, do ponto de vista geo- gráfico a astronômico, sempre foi uma das preocupações básicas do ser humano. Nos primórdios da humanidade, justificava-se pela necessidade de localização de alimento e abrigo. Com o passar do tempo, veio a necessidade de traçar rotas comerciais, rotas de navegação, evoluções no campo de batalha, localização de recursos no subsolo, etc. E, cada vez mais, as necessidades iam se multiplicando. É por isso que, desde o homem paleolítico, passando pelos egípcios, babilônios, chineses, gregos, árabes, pelos nave- gadores europeus, até a época atual, marcada pela existên- cia de grandes grupos econômicos e poderosos Estados, a localização dos fenômenos geográficos sempre foi, muito mais que uma curiosidade, uma verdadeira necessidade. Em nosso cotidiano, estamos constantemente em bus- ca de orientação no espaço. Quantas vezes alguém nos pergunta: “Por favor, você saberia me informar onde fica a rua...?” Ou então: “Poderia me informar onde fica ... o ban- co, a escola, a loja, o hospital, etc.?” Ou ainda: “Qual é o melhor caminha para se chegar a... um logradouro urbano, uma cidade, uma fazenda, etc...?”. Quantas vezes respon- demos a essas perguntas? Quantas vezes as fizemos? Os mais precavidos recorrem ao guia da cidade onde estão “perdidos” ou, no caso de uma estrada, a um guia rodoviá- rio. Assim, “se oriente, rapaz...” LINHAS IMAGINÁRIAS E FUSOS HORÁRIOS Linhas Astronômicas Não se sabe exatamente quando o homem descobriu que a Terra é redonda. Filósofos gregos chegaram a essa conclusão a partir de observações astronômicas. O desa- parecimento progressivo das embarcações no mar, em um horizonte uniformemente circular, também fornecia argu- mentos aos defensores da ideia. Esse fato, tão familiar nos diasde hoje, é o responsável pela existência das diferentes zonas climáticas em nosso planeta – polares, temperadas e tropicais –, segundo uma lógica fácil de ser compreendida: quanto mais nos afasta- mos do Equador, maior a inclinação com que os raios sola- res incidem na superfície terrestre e maior, portanto, a área aquecida pela mesma quantidade de energia, o que torna as temperaturas mais baixas. Desde os primeiros anos da escola, aprendemos que a Terra é inclinada em relação a seu próprio eixo, no plano da sua órbita ao redor do Sol (translação), conforme se pode ver na figura. A primeira consequência desse fato é a ocorrência das es- tações do ano. Por volta de 21 de dezembro, o hemisfério sul está recebendo os raios solares perpendicularmente ao tró- pico de Capricórnio, que nessa data – o solstício de verão no 2 GEOGRAFIA hemisfério Sul – é o centro do hemisfério voltado para o Sol, quando se inicia o verão. No hemisfério norte, onde os raios estão incidindo com inclinação máxima, é inverno. Por volta de 21 de junho, após seis meses a metade do movimento de translação, as posições se invertem, já que só o trópico de Câncer que recebe os raios solares perpendicularmente e se transforma no centro da face da Terra iluminada pelo Sol. Ainda como se pode observar na figura, entre os dias 21 e 23 de março ou de setembro, os raios solares incidem sobre a su- perfície perpendicularmente ao Equador. Essa situação caracteriza os equinócios, e é quando se iniciam a primavera ou o outono. Podemos concluir, pelas observações anteriores que os raios solares só incidem perpendicularmente em pontos localizados na zona intertropical (entre os trópicos) do planeta. A segunda consequência da inclinação do eixo terrestre é a diferença de duração do dia e da noite durante o ano. Em dias de equinócio, quando o Equador se encontra no centro da face da Terra iluminada pelo Sol, o dia e a noite têm 12 horas de duração em qualquer ponto do planeta. Em dias de solstício de verão, temos o dia; mais longo e a noite mais curta; em solstícios de inverno, a noite mais longa e o dia mais curto. A diferença do fotoperíodo aumenta à medida que nos afastamos do Equador. A partir dos círculos polares, temos o dia e a noite polares, que duram meses. Considere o movimento de rotação do planeta e observe que, ao norte do círculo polar Ártico, só irá raiar o dia à medida que o planeta for avançando em seu movimento de translação; enquanto ao sul do círculo polar Antártico, ocorrerá o anoitecer. 3 GEOGRAFIA Coordenadas Geográficas O globo terrestre, como se pode ver na figura, é cor- tado por linhas imaginárias que têm a função de localizar qualquer ponto em sua superfície. Para isso, determinam- se as coordenadas geográficas, a latitude e a longitude, com base nos princípios do círculo trigonométrico. O procedimento é bastante simples: o Equador corres- ponde ao círculo máximo, perpendicular ao eixo terrestre, o que determina a divisão do globo em dois hemisférios (do grego hemi, ‘metade’, e sphaera, ‘esfera’): norte e sul. A partir do Equador, podemos traçar infinitos círculos pa- ralelos que, conforme se afastam para o norte ou para o sul, diminuem de tamanho. A distância dos paralelos ao Equador é dada em graus. Assim, a latitude é a distância, em graus, de um ponto qualquer da superfície terrestre ao Equador, variando de 0 a 90oN ou de 0 a 90oS. Conhecer apenas a latitude de um ponto, porém, não é suficiente para localizá-lo. Se procurarmos um ponto lo- calizado a 32oS, daremos a volta ao redor do planeta sem encontrá-lo. Há a necessidade do cruzamento de duas coordenadas: a latitude e a longitude. O meridiano 0o ou de referência – que passa pelo ob- servatório astronômico de Greenwich, uma cidade vizinha a Londres – divide a Terra nos hemisférios ocidental (oeste) e oriental (leste). Todos os meridianos se encontram nos polos e, portanto, têm o mesmo comprimento. Assim, a longitude é as distancia, em graus, de qualquer ponto da superfície terrestre ao meridiano de Greenwich, variando de 0 a 180o para leste ou para oeste. Conhecendo as coordenadas geográficas, podemos procurar qualquer “endereço” em nosso planeta. Na guer- ra do Golfo, em 1991, o primeiro alvo atingido em Bagdá pelos Estados Unidos foi a torre de comunicações, desar- ticulando completamente a comunicação entre as forças armadas e o sistema de defesa iraquiano. Foi a partir de fotos de satélite que foram determinadas as coordenadas geográficas do alvo para a programação computadorizada do avião responsável pelo ataque. A precisão da localiza- ção é dada em graus, minutos e segundos de latitude e de longitude. Fusos Horários Em decorrência do movimento de rotação da Terra, te- mos os dias e as noites, além da diferença de horário entre os diversos pontos longitudinais da esfera terrestre. Ao dividir os 360 graus da esfera terrestre pelas 24 ho- ras de duração do movimento de rotação, o resultado é 15 graus. A cada 15 graus que a Terra gira, passa-se uma hora. Assim, cada uma das 24 divisões da Terra correspon- de a um fuso horário (veja o mapa). Desde o Encontro de Washington, no ano de 1884, todas as localidades dentro de um mesmo fuso adotam o mesmo horário. Convencio- nou-se também que o meridiano que cruza Greenwich é considerado o meridiano de referência para as longitudes, a partir do qual se acertam os relógios em todo o planeta. As horas mudam à medida que nos dirigimos de um fuso a outro. Para determinarmos a diferença de horário entre duas localidades, basta sabermos a distância longitu- dinal entre elas e dividi-la por 15, que é a medida de cada fuso. O JET LAG (também conhecida por doença do fuso ho- rário) é a perda de ritmo e concentração ao se passar por fusos horário diferentes em pouco tempo. Seus sintomas consistem em irritabilidade, cefaleia, taquicardia e altera- ção dos padrões de sono e fome. Esse tipo de alteração ocorre devido às mudanças de hábitos (hora de comer e de dormir, por exemplo). Os efeitos do jet lag são mais evi- dentes quando a diferença de horário entre o ponto de saí- da e o destino é superior a quatro horas. São necessários, em média, um dia de descanso para cada hora de diferença Veja que as horas aumentam para leste e diminuem para oeste, a partir de qualquer referencial adotado. Isso ocorre parque a Terra gira de oeste para leste. A hora oficial do Brasil, por exemplo, está três horas atrasadas em relação a Greenwich. 4 GEOGRAFIA FUSOS BRASILEIROS O Senado federal aprovou um novo fuso horário na região Norte, dias depois de entrar em vigor a Portaria 1.220/07, determinando que as emissoras de TV devem adaptar suas transmissões aos diferentes fusos horários vi- gentes no país, em função da classificação indicativa dos programas. Esta classificação obriga as emissoras a informar a partir de que idade uma programação é recomendável. A Portaria 1.220/07 tem por objetivo atender ao Estatuto da Criança e do Adolescente, evitando a apresentação de pro- gramas inadequados para determinadas faixas etárias. A mudança de fuso horário vai conflitar com os hábitos culturais daquelas populações. A lei ainda precisa ser san- cionada pelo presidente da República. Mas se o presidente Lula concordar, os estados da Região Norte adotariam o horário de Brasília. A mudança foi defendida no Congresso Nacional pelo senador Tião Viana (PT), por meio da lei nº 11.662, de 24 de abril de 2008. AS ESCALAS Para a representação da realidade no mapa, é neces- sário estabelecer uma correspondência entre as dimensões do terreno e as do papel. Isso é feito através da escala, que expressa o quanto a realidade foi reduzida para caber no mapa, em uma folha de papel. A escala é considerada pequena quando se reduz muito uma informação.Imagine quantas vezes o planeta terra foi reduzido para que cou- besse em um planisfério do tamanho dessa folha. Por outro lado, a escala é considerada grande quando se reduz pou- co uma informação. É impossível encontrarmos uma rua da cidade de São Paulo no mapa-múndi, porque nessa escala a cidade é apenas um ponto. É preciso, portanto, usar uma escala adequada para tal finalidade, por exemplo, 1: 10000 (veja o quadro usando a escala). Modelos de Escalas São três Modelos de escalas: Escala natural: Temos uma escala natural quando o tamanho físico do objeto representado no plano coincide com a realidade. Própria para representações onde se faz necessário uma alta fidelidade de representação da região a ser reproduzida. A escala natural é representada numeri- camente E1:1. Escala reduzida: A escala reduzida representa uma área que é maior na realidade do que na própria representação. Tal escala é geralmente utilizada em plantas de habitações e mapas físicos de territórios de tamanho extenso onde fa- z-se necessário a redução por motivos práticos, que che- gam a E1:50000 ou E1:100000. Para se conhecer o valor real e uma dimensão é necessário multiplicar a medida do plano pelo valor do denominador. Escala ampliada: A escala ampliada, por sua vez, é utili- zada quando é necessária a representação de detalhes mí- nimos de uma determinada área, ou então a representação 5 GEOGRAFIA de territórios de tamanho muito reduzido. Em tal caso o valor do numerador é mais alto que o valor do denomi- nador, sendo que, deverá dividir-se pelo numerador para conhecer o valor real da peça. Exemplos de escalas ampliadas são E2:1 ou E10:1. De acordo com a norma UNE EN ISO 5455:1996 “Dese- nhos técnicos – Escalas” recomenda-se utilizar as seguin- tes escalas normatizadas: Escalas reduzidas 1:2, 1:5, 1:10, 1:20, 1:50, 1:100, 1:200, 1:500, 1:1000, 1:2000, 1:5000, 1:20000 Escala natural 1:1 Qual é a distância real aproximada entre São Paulo e Belo Horizonte? Sabe-se que no mapa de escala 1:25 000 000, essas cidades medem 2 centímetros em linha reta. E = 1: 25 000 000 Logo: 1 cm = 25 000 000 cm 1 cm = 250 km d = 2 cm D = ? 1 – 250 2 – D D = 2 . 250 D = 500 km Resposta: A distância real entre São Paulo e Belo Hori- zonte é de aproximadamente 500 quilômetros. Exemplo: TIPOS DE ESCALA Escala Numérica Indica a relação entre os comprimentos de uma linha na carta e o correspondente comprimento no terreno, em forma de fração com a unidade para numerador. OBS: O Tamanho da Escala está representado pela pro- porção de vezes que a paisagem foi reduzida, isto é, quan- to maior a redução da paisagem, menor será escala. (A) E = 1:80.000.000 é maior que (B) E = 1:160.000.000 Escala Gráfica É a representação gráfica de várias distâncias do ter- reno sobre uma linha reta graduada. É constituída de um segmento à direita da referência zero, conhecida como es- cala primária. Consiste também de um segmento à esquerda da ori- gem denominada de Talão ou escala de fracionamento, que é dividido em submúltiplos da unidade escolhida gra- duadas da direita para a esquerda. A Escala Gráfica nos permite realizar as transformações de dimensões gráficas em dimensões reais sem efetuarmos cálculos. Para sua construção, entretanto, torna-se neces- sário o emprego da escala numérica. O seu emprego consiste nas seguintes operações: 1º) Tomamos na carta a distância que pretendemos medir (pode-se usar um compasso). 2º) Transportamos essa distância para a Escala Gráfica. 3º) Lemos o resultado obtido. 6 GEOGRAFIA Escala de Área A escala numérica refere-se a medidas lineares. Ela in- dica quantas vezes foi ampliada ou reduzida uma distância. Quando nos referimos à superfície usamos a escala de área, podendo indicar quantas vezes foi ampliada ou redu- zida uma área. Enquanto a distância em uma redução linear é indica- da pelo denominador da fração, a área ficará reduzida por um número de vezes igual ao quadrado do denominador dessa fração. GRANDE E PEQUENA ESCALA Para a elaboração de mapas de superfícies muito ex- tensas é necessário que sejam utilizadas escalas que redu- zam muito os elementos representados. Esses mapas não apresentam detalhes e são elaborados em pequena escala. Portanto, quanto maior o denominador da escala, maior é a redução aplicada para a sua elaboração e menor será a escala. As escalas grandes são aquelas que reduzem me- nos o espaço representado pelo mapa e, por essa razão, é possível um maior detalhamento dos elementos existentes. Por isso, são aquelas cujo denominador é menor. As esca- las maiores normalmente são denominadas de plantas que podem ser utilizadas num projeto arquitetônico ou para representar uma cidade. De acordo com os exemplos já ci- tados a escala 1: 300 é maior do que a escala 1: 300 000. A escolha da escala é fundamental ao propósito do mapa e ao tipo de informação que se pretende destacar. Numa pequena escala o mais importante é representar as estruturas básicas dos elementos representados e não a exatidão de seu posicionamento ou os detalhes que apre- sentam. Aliás, o detalhamento neste tipo de mapa compro- mete a sua qualidade e dificulta a sua leitura. Numa grande escala, como plantas de uma casa ou de uma cidade, existe uma maior preocupação com os detalhes, mas assim mes- mo as informações devem ser selecionadas para atender apenas o objetivo pelo qual foram elaboradas. TIPOS DE REPRESENTAÇÃO CARTOGRÁFICA 1.1 - POR TRAÇO GLOBO - representação cartográfica sobre uma super- fície esférica, em escala pequena, dos aspectos naturais e artificiais de uma figura planetária, com finalidade cultural e ilustrativa. MAPA (Características): - representação plana; - geralmente em escala pequena; - área delimitada por acidentes naturais (bacias, planal- tos, chapadas, etc.), político-administrativos; - destinação a fins temáticos, culturais ou ilustrativos. A partir dessas características pode-se generalizar o conceito: “ Mapa é a representação no plano, normalmente em escala pequena, dos aspectos geográficos, naturais, cultu- rais e artificiais de uma área tomada na superfície de uma Figura planetária, delimitada por elementos físicos, políti- coadministrativos, destinada aos mais variados usos, temá- ticos, culturais e ilustrativos.” CARTA (Características): - representação plana; - escala média ou grande; - desdobramento em folhas articuladas de maneira sis- temática; - limites das folhas constituídos por linhas convencio- nais, destinada à avaliação precisa de direções, distâncias e localização de pontos, áreas e detalhes. Da mesma forma que da conceituação de mapa, pode- se generalizar: “ Carta é a representação no plano, em escala média ou grande, dos aspectos artificiais e naturais de uma área to- mada de uma superfície planetária, subdividida em folhas delimitadas por linhas convencionais - paralelos e meridia- nos - com a finalidade de possibilitar a avaliação de por- menores, com grau de precisão compatível com a escala.” PLANTA - a planta é um caso particular de carta. A re- presentação se restringe a uma área muito limitada e a es- cala é grande, consequentemente o nº de detalhes é bem maior. “Carta que representa uma área de extensão suficien- temente restrita para que a sua curvatura não precise ser levada em consideração, e que, em consequência, a escala possa ser considerada constante.” OS MAPAS A necessidade de se orientar na superfície do planeta levou os homens, ao longo da história, a elaborar vários tipos de mapas, desde as rústicas representaçõesbabi- lônicas até as mais modernas, feitas a partir da coleta de informações obtidas por sensoriamento remoto e proces- sadas pela informática. O mapa é, na verdade, a mais an- 7 GEOGRAFIA tiga forma de comunicação, precedendo mesmo a própria escrita. Nele estão usados signos convencionais, próprios da cartografia. Mas, por mais perfeito e detalhado que seja um mapa, ela sempre será uma representação da realidade, nunca a própria. Seu objetivo fundamental é facilitar a se- leção e o manuseio de informações, o que é mais fácil num papel plano do que num globo esférico. O globo oferece, no entanto, a única visão fiel de conjunto que se pode ter da Terra e das propriedades relacionadas à sua esfericida- de. Diante da complexidade da realidade, algumas infor- mações sempre são priorizadas em detrimento de outras. Seria impossível representar todos os fenômenos físicos, econômicos, humanos e políticos em um único mapa. Por isso, além dos mapas topográficos, há os mapas temáticos, nos quais se selecionam temas que interessam ao usuário, entre as infinitas possibilidades de representação. É importante lembrar que uma projeção cartográfica nada mais é do que o resultado de um conjunto de ope- rações que permite colocar no plano fenômenos inscritos numa esfera ou, no caso da Terra, num geoide, que é a for- ma específica do nosso planeta. Entretanto, ao realizar essa transferência de informações, surge um problema insolúvel para os cartógrafos: qualquer que seja a projeção adotada, sempre haverá algum tipo de distorção, seja nas áreas, nas formas ou nas distancias da superfície terrestre. De acordo com as propriedades geométricas apresentadas na relação globo-mapa, as projeções podem ser conformes, equiva- lentes ou equidistantes (veja o boxe de tipos de projeção). Ainda, elas podem ser classificadas em três categorias prin- cipais, dependendo da figura geométrica empregada em sua construção: cilíndrica, cônica ou plana (azimutal). Legendas Para que o mapa seja simples de ler e facilmente com- preensível, várias cores e símbolos são utilizados. Não é possível representar no mapa todas as caracte- rísticas e objetos do terreno, senão teria demasiados por- menores e tornar-se-ia difícil de ler. Os símbolos utilizados num mapa representam, tanto quanto é possível, as carac- terísticas do terreno. Como já referimos atrás, existem muitos tipos de ma- pas com várias escalas e utilizando cores e símbolos dife- rentes. Existem mapas desenhados para as mais variadas utilizações, desde atividades recreativas até aos mapas es- pecíficos para fins militares, meteorológicos, geológicos ou levantamentos. Vamos aqui falar apenas dos mapas utiliza- dos para a prática da Orientação. Uma boa regra quando se observa um novo mapa, é começar por estudar a legenda, que contém os símbolos utilizados e sua descrição. A simbologia existente na legenda dos mapas de Orientação, permite que qualquer pessoa, independente- mente do seu país de origem, possa ler qualquer mapa. Uma vantagem destes mapas é que os símbolos, cores, escalas, espessura das linhas, etc., respeitam uma norma mundial. Esta simbologia é determinada pela Federação Inter- nacional de Orientação (International Orienteering Federa- tion - I.O.F.). Outra vantagem destes mapas é que eles, normalmen- te, estão à escala 1:10.000 ou 1:15.000. Isto significa que contêm bastantes detalhes, o que se torna bastante úteis a quem os utiliza para a prática de Orientação Pedestre. A escala mais comum utilizada em mapas produzidos pelas organizações cartográficas é de 1:25.000. As seguintes cores (geralmente seis ou sete) são as uti- lizadas em mapas de Orientação: - A CASTANHO temos tudo o que está relacionado com diferenças de altitude: montanhas, ravinas, depres- sões, pontos de cota, etc; - As áreas a BRANCO representam Floresta Limpa (ár- vores, mas sem vegetação rasteira); - O AMARELO representa áreas abertas: campos aber- tos, clareiras, etc; - O VERDE representa áreas ou objetos relacionados com vegetação; - A AZUL aparecem as áreas ou objetos relacionados com água; - PRETO é a cor mais utilizada e representa variados objetos e características do terreno, geralmente artificiais ou rochosos: estradas, caminhos, linhas de alta-tensão, edi- fícios, rochas e precipícios. PROJEÇÕES CARTOGRÁFICAS Qualquer projeção expressa a perspectiva de quem a construiu, sendo, portanto, uma visão particular do mun- do, ou seja, uma ideologia. Essa imagem, dessa forma, nem sempre foi a representação mais usual da Terra. 8 GEOGRAFIA É interessante ressaltar que existem mais de duzentos tipos de projeções, embora poucas sejam usadas normal- mente. Observe as mais significativas, tendo em vista os aspectos ideológicos e técnicos. QUANTO AO MÉTODO a) Geométricas - baseiam-se em princípios geométri- cos projetivos. Podem ser obtidos pela interseção, sobre a superfície de projeção, do feixe de retas que passa por pontos da superfície de referência partindo de um centro perspectivo (ponto de vista). b) Analíticas - baseiam-se em formulação matemática obtidas com o objetivo de se atender condições (caracte- rísticas) previamente estabelecidas (é o caso da maior parte das projeções existentes). QUANTO À SUPERFÍCIE DE PROJEÇÃO a) Planas - este tipo de superfície pode assumir três po- sições básicas em relação a superfície de referência: polar, equatorial e oblíqua (ou horizontal). b) Cônicas - embora esta não seja uma superfície pla- na, já que a superfície de projeção é o cone, ela pode ser desenvolvida em um plano sem que haja distorções , e fun- ciona como superfície auxiliar na obtenção de uma repre- sentação. A sua posição em relação à superfície de referên- cia pode ser: normal, transversal e oblíqua (ou horizontal). c) Cilíndricas - tal qual a superfície cônica, a superfície de projeção que utiliza o cilindro pode ser desenvolvida em um plano e suas possíveis posições em relação a superfície de referência podem ser: equatorial, transversal e oblíqua (ou horizontal). d) Polissuperficiais - se caracterizam pelo emprego de mais do que uma superfície de projeção (do mesmo tipo) para aumentar o contato com a superfície de referência e, portanto, diminuir as deformações (plano-poliédrica; cone -policônica; cilindro-policilíndrica). TIPOS DE PROJEÇÃO Conformes: quando os ângulos no planisfério são mantidos idênticos aos da esfera terrestre. Assim, conser- vam-se as formas terrestres à custa da distorção de suas áreas. Nesse tipo de projeção, não é usada apenas uma escala para o mapa, mas várias. Só existe correspondência com a escala nas proximidades do centro de projeção, o Equador. Quanto maior a distância desse centro, maior a distorção. Por isso, geralmente só aparecem as terras até 80 graus de latitude. Equivalentes: quando os ângulos no planisfério são deformados em relação à esfera terrestre. Assim, as áreas mantêm-se idênticas, ou seja, há uma escala constante para todo o mapa. As formas da superfície terrestre, no en- tanto, são distorcidas. Equidistantes: há uma distorção nas áreas e nas formas terrestres. Entretanto, mantêm-se com precisão as direções e as distâncias a partir do centro de projeção. 9 GEOGRAFIA PROJEÇÕES Qualquer projeção expressa a perspectiva de quem a construiu, sendo, portanto, uma visão particular do mun- do, ou seja, uma ideologia. Essa imagem, dessa forma, nem sempre foi a representação mais usual da Terra. É interessante ressaltar que existem mais de duzentos tipos de projeções, embora poucas sejam usadas normal- mente. Observe as mais significativas, tendo em vista os aspectos ideológicos e técnicos. Perspectiva Teocêntrica O mapa construídopor Richard de Bello, padre de Haldinghan (Inglaterra), é o mapa medieval mais bem pre- servado. Situa o leste “acima” do oeste e é centrado em Jerusalém. Expressava uma visão de mundo impregnada de religiosidade, típica da Idade Média. O paraíso, localizado no leste, em direção a Jerusalém, segundo a crença da épo- ca, aparece no alto, em destaque. Assim, as almas perdidas deveriam buscar a salvação, o leste, o oriente, vindo daí o termo “orientação”. Esse mapa não é preciso, sendo abso- lutamente impróprio, por exemplo, para a navegação. Perspectiva Mercantil Era normal, no século XV e meados do século XVI, pla- nisférios invertidos, ou seja, que mostravam o sul acima do norte. Como exemplo, temos o mapa-múndi elaborado em 1512 pelo cartógrafo italiano Jerônimo Marini. Essa forma de representação indicava o interesse dos comerciantes da época nas possibilidades econômicas do Índico, pois no mapa esse oceano aparece em destaque. Era grande nesse período a influência da cartografia árabe, que costumava colocar a cidade de Meca no centro da projeção. Tratava-se de uma perspectiva mercantil para os europeus e religiosa para os árabes. A forma de representação que conhecemos hoje, ou seja, o norte acima do sul, seria tomada como padrão ape- nas a partir de Mercator. Perspectiva Eurocêntrica: a projeção de Mercator Em 1569, o cartógrafo e matemático belga Gerhard Kremer fundou a cartografia moderna, ao construir uma projeção cilíndrica conforme que imortalizaria seu codino- me: Mercator. Essa perspectiva do planeta era perfeitamente ade- quada à navegação, pois possibilitava a orientação pelas coordenadas geográficas. Consolidou-se exatamente no momento em que os europeus comandavam a expansão marítimas, conquistando novos territórios e dominando outros povos. É compreensível que, durante a expansão ul- tramarina, a Europa aparecesse no planisfério, pela primei- ra vez, numa posição central e superior aos demais conti- nentes e, por razões técnicas, maior do que era na verdade. Essa perspectiva nada mais é do que a materialização cartográfica do etnocentrismo europeu. Trata-se de uma visão eurocêntrica do mundo que não é verdadeira nem 10 GEOGRAFIA falsa, mas simplesmente mais uma visão. Entretanto, por conta da hegemonia econômica e geopolítica da Europa, a partir do século XVI, ela foi tomada muitas vezes como se fosse a única, a verdadeira. Durante séculos, foi uma das projeções mais usadas na confecção de planisférios. Atual- mente, no entanto, cada vez mais se utilizam projeções com menores índices de distorção, como a de Mollweide, elaborada no século XIX, comumente usada nos Atlas mo- dernos para representar o mundo. Trata-se de uma proje- ção afilática, ou seja, distorce as áreas e as formas, mas sem os exageros das projeções de Mercator ou Peters. Projeção de Peters Essa projeção foi elaborada em 1952, pelo historiador alemão Arno Peters e publicada pela primeira vez em 1973. Trata-se de uma projeção cilíndrica equivalente e, embora continue expressando uma visão eurocêntrica do mundo, acabou dando um destaque relativo aos países de baixa latitude, que na projeção de Mercator tinham suas áreas subestimadas. Essa perspectiva se adequou perfeitamente aos Estados subdesenvolvidos recém-independentes após a Segunda Guerra. Buscando afirmar-se como nações, tais Estados vi- ram na projeção de Peters a materialização cartográfica de suas aspirações: serem tratados como iguais pelos Estados desenvolvidos. Quando mostrada de forma invertida, com o Sul em destaque, evidencia claramente o planeta na pers- pectiva dos países subdesenvolvidos ou do Sul. Projeção Azimutal Equidistante Elaborada em 1946, a projeção azimutal equidistante representa com precisão as distancias em qualquer direção a partir de um centro, pode ser qualquer ponto da superfí- cie terrestre. Serve principalmente para definir rotas aéreas, para o transporte de pessoas, mercadorias, soldados ou ar- mamentos. Daí ser essa a projeção mais interessante do ponto de vista dos grandes grupos econômicos, que tem interesses em todos os continentes, ou do ponto de vista dos Estados, particularmente das grandes potencias, para a elaboração de sua geopolítica. No centro da projeção, po- de-se situar a cidade-sede de uma multinacional, a capital de um país, uma base militar, etc. Nesta projeção os paralelos são linhas retas e os me- ridianos, linhas curvas. Sua área é proporcional à da esfera terrestre, tendo a forma elíptica. As zonas centrais apresen- tam grande exatidão, tanto em área como em configura- ção, mas as extremidades apresentam grandes distorções. Projeção de Goode, que modifica a de Moolweide É uma projeção descontínua, pois tenta eliminar várias áreas oceânicas. Goode coloca os meridianos centrais da projeção correspondendo aos meridianos quase centrais dos continentes para lograr maior exatidão. Projeção de Holzel Projeção equivalente, seu contorno elipsoidal faz re- ferência à forma aproximada da Terra que tem um ligeiro achatamento nos polos. Anamorfose A anamorfose é uma técnica utilizada na cartografia e responsável pela maioria dos mapas estilizados que vemos com frequência atualmente. Essa técnica não se preocupa exatamente com a forma e o tamanho do espaço a ser re- presentado: os fenômenos em si que recebem maior aten- 11 GEOGRAFIA ção. Assim, procura-se demonstrar proporcionalmente dado relevante a que se propõe o mapa. Abole-se, portanto, a ortodoxia da representação consagrada pela geometria espacial euclidiana. Projeção em Curva de Nível 12 GEOGRAFIA AEROFOTOGRAMETRIA Aerofotogrametria é a cobertura aerofotográfica exe- cutada para fins de mapeamento. Uma aeronave equipa- da com câmaras fotográficas métricas percorre o território fotografando-o verticalmente, seguindo alguns preceitos técnicos como: ângulo máximo de cambagem 3º, sobre- posição frontal entre as fotos de 60%, sobreposição lateral de 30%. A Fotogrametria é a ciência que permite executar medições precisas utilizando fotografias métricas. Embo- ra apresente uma série de aplicações nos mais diferentes campos e ramos da ciência, como na topografia, astro- nomia, medicina, meteorologia e tantos outros, tem sua maior aplicação no mapeamento topográfico. Tem por finalidade determinar a forma, dimensões e posição dos objetos contidos numa fotografia, através de medidas efetuadas sobre a mesma. Inicialmente a fotografia tinha a única finalidade de de- terminar a posição dos objetos, pelo método das interse- ções, sem observar ou medir o relevo, muito embora des- de 1732 se conhecessem os princípios da estereoscopia; o emprego desta tornou possível apenas observar (sem medir), o relevo do solo contido nas fotografias analisadas estereoscopicamente. Em 1901, o alemão Pulfrich, apoiando-se em princí- pios estabelecidos por Stolze, introduziu na Fotogrametria o chamado índice móvel ou marca estereoscópica. Então, não só foi possível observar o relevo, como medir as varia- ções de nível do terreno. Pulfrich construiu um primeiro aparelho que denomi- nou “estereocomparador”, e com ele iniciou os trabalhos dos primeiros levantamentos com base na observação es- tereoscópica de pares de fotografias utilizados em fotogra- metria terrestre. A partir de então uma série de outros aparelhos foram construídos e novos princípios foram estabelecidos, porém, para tomada de fotografias era necessário que os pontos de estação que referenciavam o terreno continuassem no solo, com todos os seus inconvenientes. SENSORIAMENTO REMOTO Sensoriamento remoto ou detecção remota ou telede- tecção é uma técnica de obtenção de informações sobre um objeto, uma área ou fenômeno no Planeta Terra,sem que haja contato físico, atualmente essas informações são obtidas sensores em satélites que geram imagens. A NASA é uma das maiores captadoras de imagens recebidas por seus satélites. O Sensoriamento Remoto é composto ativamente de diferentes maneiras por diversos autores, sendo a definição mais usual a adotada por Avery e Berlin (1992) e Meneses (2001): uma técnica para obter informações sobre objetos através de dados coletados por instrumentos que não este- jam em contato físico como os objetos investigados. Por não haver contato físico, a forma de transmissão dos dados (do objeto para o sensor) só pode ser realizada pela Radiação Eletromagnética, por ser esta a única forma de energia capaz de se propagar pelo vácuo. Considerando a Radiação Eletromagnética como uma forma de energia, o Sensoriamento Remoto pode ser de- finido com maior rigor como uma medida de trocas de 13 GEOGRAFIA energia que resulta da interação entre a energia contida na Radiação Eletromagnética de determinado comprimen- to de onda e a contida nos átomos e moléculas do objeto de estudo. Sistema de Posicionamento Global (GPS) O sistema GPS foi criado e é controlado pelo De- partamento de Defesa dos Estados Unidos da América, DoD, e pode ser utilizado por qualquer pessoa, gratuita- mente, necessitando apenas de um receptor que capte o sinal emitido pelos satélites. O DoD fornece dois tipos de serviços GPS: Standard e Precision. Contrariamente ao que inicialmente acontecia, atualmente os dois serviços estão disponíveis em regime aberto em qualquer parte do mundo. O sistema está dividido em três partes: espacial, de controlo e utilizador. O segmento espacial é composto pela constelação de satélites. O segmento de controlo é formado pelas estações terrestres dispersas pelo mundo ao longo da Zona Equa- torial, responsáveis pela monitorização das órbitas dos sa- télites, sincronização dos relógios atômicos de bordo dos satélites e atualização dos dados de almanaque que os satélites transmitem. O segmento do utilizador consiste num receptor que capta os sinais emitidos pelos satélites. Um receptor GPS (GPSR) decodifica as transmissões do sinal de código e fase de múltiplos satélites e calcula a sua posição com base nas distâncias a estes. A posição é dada por latitude, longitude e altitude, coordenadas geo- désicas referentes ao sistema WGS84. Sistema de Vigilância da Amazônia Sistema de Vigilância da Amazônia ou SIVAM é um projeto elaborado pelas forças armadas do Brasil com a finalidade de monitorar o espaço aéreo da Amazônia. Este projeto vinha a atender um antigo anseio das forças armadas que desejavam garantir a presença das forças armadas brasileira na Amazônia, com a finalidade de fazer frente a certas manifestações no exterior sobre os direitos dos brasileiros sobre esta região. Seria construída uma infraestrutura de apoio, neces- sária para suportar a fixação de enormes antenas parabó- licas de uso em radar bem como de modernas aparelha- gens eletrônicas. O SIVAM tem como finalidade a monitoramento da Amazônia Legal (que compreende a Região Norte do Bra- sil, o estado do Mato Grosso e parte do estado do Mara- nhão). Para tanto, foram criados subsistemas de monito- ramento com os seguintes objetivos: Monitoramento da atividade aérea - cuja responsabi- lidade é do Comando da Aeronáutica, envolvendo a FIR Amazônica. Inclui no seu acervo de sensores, radares bidi- mensionais e tridimensionais, bem como a capacidade de integrar informações de aviões de alarme aéreo antecipa- do AEW, integrados por meio de enlace de dados. Monitoramento da região amazônica - cuja respon- sabilidade é da Casa Civil da Presidência da República, através do SIPAM. Suas capacidades vão desde o moni- toramento da mata amazônica, unidades de conservação, meteorologia, vigilância do espectro eletromagnético, vi- gilância terrestre e célula de comando e controle de ope- rações. O equipamento necessário para a montagem do sis- tema foi fornecido pela empresa estadunidense Raytheon e pelas empresas brasileiras Atech e Embraer. O SIVAM troca informações com o Sistema de Prote- ção da Amazônia – SIPAM e com o Sistema de Controle do Espaço Aéreo, trabalhando de maneira integrada entre si. CBERS CBERS é a sigla para China-Brazil Earth-Resources Sa- tellite; em português, Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres. Estes satélites fazem parte do INPE, Intituto Nacio- nal de Pesquisas Espaciais, subordinado ao Ministério da Ciência e Tecnologia. O INPE é o responsável no Brasil pelo programa em parceria com a China, em vigor desde 1988 e que prevê o desenvolvimento quatro satélites até 2010. Estes satélites se destinam a monitoração do clima, projetos de sistematização e uso da terra, gerenciamen- to de recursos hídricos, arrecadação fiscal, imagens para licenciamento e monitoramento ambiental, entre outras aplicações. Suas imagens são utilizadas por empresas pri- vadas e instituições como Ibama, Incra, Petrobras, Aneel, Embrapa e secretarias de Fazenda e Meio Ambiente. Desde 2001 foi estabelecida uma política de distribui- ção gratuita das imagens CBERS para todos os usuários brasileiros, essa significância é atestada pelos mais de 15.000 usuários de mais de 1.500 instituições cadastrados como usuários ativos do CBERS, e também nas mais de 300.000 imagens do CBERS distribuídas à razão aproxima- da de 250 por dia entre órgãos públicos, universidades, instituições, centros de pesquisa e ONGs. Sistema de Informação Geográfica (SIGs) Um Sistema de Informação Geográfica (SIG ou GIS - Geographic Information System, do acrónimo inglês) é um sistema de hardware, software, informação espacial e procedimentos computacionais, que permite e facilita a análise, gestão ou representação do espaço e dos fenô- menos que nele ocorrem. 14 GEOGRAFIA Um exemplo bem conhecido de um protoSIG é o trabalho desenvolvido pelo Dr. John Snow em 1854 para situar a fonte causadora de um surto de cólera na zona do Soho em Londres, cartografando os casos detectados. Esse protoSIG permitiu a Snow localizar com precisão um poço de água contaminado como fonte causadora do surto. Convenções Cartográficas As convenções cartográficas envolvem uma série de símbolos, desenhos, cores e códigos utilizados internacionalmente em cartografia para se estabelecer uma padronização para a confecção de mapas. Isso serve para que um mapa possa ser lido e compreendido em qualquer lugar no mundo. As convenções envolvem não somente o uso de símbolos, figuras, cores ou linhas, mas também o uso de outros elementos cartográficos como o título do mapa, a escala e a rosa dos ventos. Para facilitar nosso entendimento, vamos dividir essas convenções cartográficas em quatros partes fundamentais que devem existir em todo mapa: o título, a legenda, a orientação e a escala. Título: tem a função de apresentar o tema ou a informação principal que será tratada pelo mapa. Geralmente aparece em destaque, centralizado e no alto do mapa ou então junto da legenda. Ex.: Climas do Brasil. O título é fundamental para facilitar a compreensão de um mapa Legenda: geralmente presente ao lado dos mapas, a legenda tem a finalidade de apresentar o significado das cores e dos símbolos neles utilizados. 15 GEOGRAFIA Legenda com exemplos de símbolos e cores que podem aparecer em um mapa com seus respectivos significados. Orientação: serve para indicar a direção dos pontos cardeais na representação cartográfica. Na maioria das vezes é indicada somente a direção norte, já que esta informação basta para que se possa descobrir os demais pontos cardeais (sul, leste e oeste) e os pontos colaterais (nordeste, sudeste, sudoeste e noroeste). 16 GEOGRAFIA A Rosa dos Ventosé o símbolo usado para indicar a direção dos pontos cardeais Escala: é utilizada nos mapas para informar a proporcionalidade das distâncias medidas no mapa e as distâncias reais. Caso não seja indicada, fica impossível fazer os cálculos de distâncias entre dois pontos com base somente no mapa. Ela pode ser: Numérica: é a escala que é apresentada na forma de uma fração, sem definição prévia de uma unidade de medida. Ex.: 1:1.000.000 ou 1/1.000.000. Essa escala quer dizer que o mapa é 1.000.000 de vezes menor que a realidade; ou seja, se 1 cm for medido no mapa, isso equivalerá a 1.000.000 centímetros no espaço real. Gráfica: é apresentada utilizando-se uma reta, geralmente graduada em centímetros, com as reais distâncias (em km) indicadas a cada centímetro medido no mapa. No exemplo seguinte, cada centímetro medido no mapa será equivalente a 10 quilômetros na realidade. Equivalente: esse tipo de representação de escala é considerado o de mais fácil interpretação, pois o mapa apresenta a equivalência real de cada centímetro medido no mapa. A escala equivalente é apresentada da seguinte maneira: Saiba Mais! Em mapas turísticos, pode aparecer um tipo de escala chamada de escala verbal, que, em algum canto do mapa, pode ser apresentada da seguinte forma: “Cada quarteirão corresponde a aproximadamente 150 metros”. Esse recurso é adotado para facilitar a interpretação do mapa pelo turista. Nos exercícios que envolvam o cálculo de escalas, utilize a seguinte fórmula: Nessa fórmula, E é a escala, d é a distância medida no mapa e D é a distância medida no espaço real. Na hora de fazer a conversão das unidades de medida, lembre-se da seguinte sequência. Para se converter centímetros para quilômetros, por exemplo, deve-se mover a vírgula cinco casas para a esquerda. Fonte: http://grupopreparaenem.com.br/wp-content/uploads/2017/03/Cartografia-apostila.pdf http://www.universiaenem.com.br/sistema/faces/pagina/publica/conteudo/texto-html.xhtml?redi- rect=1303797822791075642772451064 17 GEOGRAFIA B) O ESPAÇO NATURAL: ESTRUTURA E DINÂMICA DA TERRA: EVOLUÇÃO GEOLÓGICA, DERIVA CONTINENTAL, PLACAS TECTÔNICAS, DINÂMICA DA CROSTA TERRESTRE, TECTONISMO, VULCANISMO, INTEMPERISMO, TIPOS DE ROCHAS E SOLOS, FORMAS DE RELEVO E RECURSOS MINERAIS; AS SUPERFÍCIES LÍQUIDAS: OCEANOS E MARES, HIDROGRAFIA, CORRENTES MARINHAS – TIPOS E INFLUÊNCIA SOBRE O CLIMA E A ATIVIDADE ECONÔMICA, UTILIZAÇÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS E SITUAÇÕES HIDROCONFLITIVAS; A DINÂMICA DA ATMOSFERA: CAMADAS E SUAS CARACTERÍSTICAS, COMPOSIÇÃO E PRINCIPAIS ANOMALIAS – EL NIÑO, LA NIÑA, BURACO NA CAMADA DE OZÔNIO E AQUECIMENTO GLOBAL: ELEMENTOS E FATORES DO CLIMA E OS TIPOS CLIMÁTICOS; OS DOMÍNIOS NATURAIS: DISTRIBUIÇÃO DA VEGETAÇÃO E CARACTERÍSTICAS GERAIS DAS GRANDES PAISAGENS NATURAIS; E OS IMPACTOS AMBIENTAIS: POLUIÇÃO ATMOSFÉRICA, EROSÃO, ASSOREAMENTO, POLUIÇÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS E A QUESTÃO DA BIODIVERSIDADE. O planeta Terra se formou a cerca de 4,5 bilhões de anos, formado por vários materiais incandescentes que foram se resfriando ao longo do tempo, o material mais pesado mergulhou e ficou concentrado no interior, como, por exemplo, o ferro, já os materiais mais leves (gases) ficaram na superfície. A partir daí a Terra se formou em camadas distintas. As camadas da Terra apresentam densidades diferentes que vão aumentando gradativamente da superfície para o interior, o calor vai aumentando à medida que se dirige ao interior do planeta; O grau interior da Terra é medido através do grau geotérmico com média de 1ºc a cada 30-35m Estrutura da Terra, Fonte: http://rusoares65.pbworks.com/f/modelo%20geoquimico.jpg Com o tempo a Terra foi se resfriando de forma desigual, originando três camadas principais, com características pró- prias; CROSTA Fina camada sólida que recobre a Terra e varia de 4 a 60 km. No continente a crosta é formada por duas zonas: a su- perficial ou sial e a zona inferior, onde predomina silício e magnésio, de onde vem o nome sima. 18 GEOGRAFIA MANTO 83% do volume do planeta, situada entre 60 e 3 mil km de profundidade e divide-se em manto superior e inferior. A consistência do manto superior e inferior é pastosa e influencia a crosta através de fenômenos geológicos diversos NÚCLEO Camada mais interna do globo e divide-se em núcleo externo e interno. Atinge até mais de 6 mil km de profundidade e 5.000ºc. Em sua consistência predominam os metais pesados como o níquel e o ferro, nife. Para se entender a estrutura da Terra é necessário também, o conhecimento do tempo geológico. A escala geológica do Tempo está dividida em Eras, que se dividem em Períodos, e estes se dividem em Épocas. A primeira Era é a chamada Pré-cambriana, que se divide em três períodos: - Azoica: por volta de 4,5 bilhões de anos atrás, esse período é marcado pela não existência de vida, esse período durou bilhões de anos. - Arqueozoica e Proterozoica: nesse período passaram a surgir os seres unicelulares e invertebrados (algas e bactérias). Formação das rochas magmáticas. Existência de dois continentes: Árqueo-ártico e Indo-afro-brasileiro. A Era Paleozoica está dividida nos períodos: Permiano, Carbonífero, Devoniano, Siluriano, Ordoviciano e Cambriano. Nestes períodos houve a existência de rochas sedimentares e metamórficas. Existência de cinco continentes: Indo, Afro, Brasileiro (Gondwana), Terra Canadense e Terra Siberiana. Surgiram os peixes e os primeiros répteis. A próxima Era foi a Mesozoica, dividida pelos períodos Cretáceo, Jurássico e Triássico. Surgiram mamíferos e aves; répteis gigantescos (dinossauros); grandes florestas; e rochas sedimentares e vulcânicas. Já na Era Cenozoica existem dois períodos, Quaternário e Terciário. Este último tem cinco épocas: Plioceno, Mioceno, Oligoceno, Eoceno e Paleoceno. Neste período houve o desenvolvimento dos mamíferos e fanerógamos. Os répteis gigan- tes foram extintos, formou-se as bacias sedimentares. No período do Quaternário existem duas épocas: Holoceno e Pleistoceno. Houve neste período a glaciação no hemis- fério norte; delineamento dos atuais continentes; formação das bacias sedimentares recentes; aparecimento do homem. Fonte: http://fossil.uc.pt/imags/Historia_Terra.jpg 19 GEOGRAFIA A superfície do planeta não possuía a mesma forma de hoje entre as teorias sobre o movimento da crosta destacam-se a Deriva continental e a tectônica de placas. Através da observação do cientista alemão Alfred Wegener, em 1912, percebeu que no passado a África e a América do Sul poderiam ter estado juntas, isso porque na sua observação, Wegener achou estranho o contorno do litoral leste brasileiro e do contorno do litoral oeste africano. A evolução da cartografia foi essencial para compor essa teoria, pois foi quando o ele pôde concluir que os continentes se encaixam que tal teoria foi considerada. Alfred Wegener propôs a Teoria da Deriva Continental. Ele afirmou que a 300 milhões de anos os continentes formavam a Pangeia e um gigantesco Oceano formava a Pantalassa. A Pangeia dividiu-se e os fragmentos ficaram à deriva desde então até a posição atual. Wegener apresentou provas como a semelhança no contorno dos continentes, fósseis encontra- dos em diferentes continentes, grandes jazidas carboníferas em áreas que outrora, estavam juntas e espécies de animais semelhantes e existentes em diferentes continentes. Fonte: http://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2010/07/deriva_continental.gif Então, uma pergunta surgiu: Como os continentes se moviam? Como resposta Wegener afirmava que era um processo semelhante um iceberg a se deslocar em meio a camadas de gelo. O mesmo também cometeu falhas ao sugerir que a América do Norte e a Europa afastavam-se a uma velocidade de 250 cm por ano (cem vezes mais rápido do que realmente acontece), por isso foibastante hostilizado. Os cientistas chegaram à conclusão que a crosta terrestre não era uma camada sólida, mas sim um grande conjunto de placas da litosfera que ao se deslocarem exerciam muita pressão umas sobre as outras e por fim foram chamadas de placas tectônicas. 20 GEOGRAFIA Fontes: http://animalderuta.files.wordpress.com/2011/03/placas-tectonicas.png Em regiões de contato situam-se áreas de ocorrência de terremotos, vulcões e maremotos. No Brasil, não ocorrem vulcões e nem terremotos porque estamos no centro de uma placa tectônica. A teoria da deriva continental foi justificada diante da explicação da separação continental, além de explicar os grandes tremores de terra, a existência de vulcões e o surgimento de montanhas e falhas geológicas. As zonas encontro entre placas podem gerar transformações sobre a crosta terrestre ou oceânica. A cordilheira dos Andes e os seus vulcões são os maiores exemplos de vulcanismos associados ao fenômeno. Fossas oceânicas como a das Marianas são formadas também dessa forma; Tais zonas são potenciais focos sísmicos, pois a fricção das duas placas pode provocar a libertação repentina de energia gerando o terremoto. Rochas A rocha (ou popularmente pedra) é um agregado natural composto de alguns minerais ou de um único mineral. As rochas são classificadas conforme sua composição química, sua forma estrutural, ou sua textura, mas é mais comum classi- ficá-las de acordo com os processos de sua formação. Podem ser: - Rochas ígneas As rochas magmáticas ou ígneas resultam da solidificação do magma e são, portanto, rochas primárias. - Rochas sedimentares As rochas sedimentares ou secundárias originam-se dos sedimentos de outras rochas. O sedimento se forma pela ação do intemperismo (processos físico-químicos que desintegram as rochas). Os grãos fragmentados são transportados da área fonte e, finalmente, se acumulam em bacias sedimentares. As bacias sedimentares são compostas, em sua maioria, por arenitos, argilitos e conglomerados. - Rochas metamórficas São formadas quando, no interior da Terra, a temperatura e a pressão modificam rochas preexistentes (ígnea, sedimen- tar, ou outra rocha metamórfica). 21 GEOGRAFIA Os gnaisses, quartzitos e mármores são as principais rochas metamórficas. Fonte:http://www.notapositiva.com/trab_estudantes/trab_estudantes/cienciasnaturais/9rochas/9rochas13.jpg São essas rochas que vão dar origem ao relevo que pode se dizer que é toda forma assumida pelo terreno (montanhas, serras, depressões, etc.) que sofreu mudanças com os agentes internos e externos sobre a crosta terrestre. Os agentes externos são chamados também de agentes erosivos (chuva, vento, rios, etc.) eles atuam sobre as formas definidas pelos agentes internos. As forças tectônicas (movimentos orogenéticos, terremotos e vulcanismo) que se originam do movimento das placas tectônicas são os agentes internos. AGENTES ENDÔGENOS (INTERNOS) Ocorrem no interior do planeta associadas a tectônica de placas, vulcanismos, abalos sísmicos e maremotos. Podem ser: - Tectônismo Conhecidos como diastrofismos, resultam de pressões vindas do interior da Terra que agem na crosta. Se são verticais, os blocos sofrem levantamentos/rebaixamentos ou fraturas ou falhas quan- do atingem as rochas mais rígidas. Quando as pressões são horizontais formam-se dobramentos ao atingir rochas de pe- quena resistência originando montanhas. - Vulcanismo Diversas formas pelas quais o magma do interior da Terra chega até a superfície. Os materiais podem ser sólidos, líqui- dos ou gasosos. Esses materiais acumulam-se em um depósito sob o vulcão até que a pressão gerada entre em erupção. As lavas escorrem pelo edifício vulcânico, alterando e criando novas formas de paisagem. A maioria se concentra no Círculo de Fogo do Pacífico e o Círculo de Fogo do Atlântico - Abalos sísmicos Todos os movimentos naturais resultantes de movimentos subterrâneos de placas rochosas, de atividade vulcânica, ou por deslocamentos de gases no interior da Terra, principalmente metano; 22 GEOGRAFIA Causado por liberação rápida de grandes quantidades de energia sob a forma de ondas sísmicas que se propagam por meio de vibrações, a maioria ocorre na fronteira de placas ou em falhas entre dois blocos rochosos. Como consequência temos, a vibração do solo, a abertura de falhas, deslizamentos de terra, tsunamis, mudança de ro- tação da Terra, efeitos destrutivos sobre construções, perda de vida, ferimentos e prejuízos financeiros e sociais. O maior já registrado foi no Chile em 1960 que atingiu 9.5 graus na escala Richter, seguido pelo da Indonésia que atingiu 9.3, em 2004. Fonte: Acervo pessoal AGENTES EXÓGENOS (EXTERNOS) A radiação solar, juntamente com os fenômenos meteorológicos, atua como um agente externo do relevo. O calor do sol e as águas são os grandes modeladores das paisagens e fazem essa modelagem em toda a superfície criada por algum agente interno. A radiação que vem do Sol faz com que haja o intemperismo físico das rochas, ou seja, elas se desagregam. Já as águas, agem primeiramente com o intemperismo químico, que altera os minerais da rocha, transformando em minerais de solo, fazendo com que o relevo tome a forma que deve tomar, de acordo com a proporção que estes intem- perismos agem na Terra. Após o intemperismo agir, os processos erosivos começam a acontecer, fazendo com que o relevo terrestre ganhe a sua forma. Estes processos são fundamentais para deixar o relevo mais aplainado, mais baixo, agindo concomitantemente com os agentes endógenos. Outra característica das forças externas é que elas podem agir por meio do Intemperismo e da Erosão, mas afinal, você sabe o que eles querem dizer? Intemperismo: Processo de desagregação ou decomposição das rochas que são ocasionados por fatores físicos e químicos respectiva- mente. A desagregação acontece quando as rochas ou a água que se encontra em suas fissuras dilatam fazendo com que essa se fragmente. Já a decomposição é causada pela ação de água e outras substâncias que funcionam como um solvente, decompondo as rochas. Erosão: Processo de desgaste causado pela água ou pelo vento no qual são removidas substâncias da camada superficial do solo e transportados para outros locais. Assim eles se depositam ou se sedimentam. Um exemplo de erosão é o alargamen- to das margens de um rio, causado pela ação da água. Esses agentes acabam criando estruturas maiores, porções maiores do relevo, ou seja, a base onde as formas serão produzidas. Chamamos essas bases de: Estrutura geológica do relevo ou bases geológicas do relevo. Nas áreas emersas da crosta terrestre, pode haver três tipos de estruturas geológicas: dobramentos modernos, os maciços antigos e as bacias sedimentares. Dobramentos Modernos – são os trechos da crosta terrestre de formação recente, situadas próximas às zonas de con- tato entre as placas tectônicas. Nessas regiões da crosta a pressão de uma placa sobre a outra, parte da crosta rochosa dobra-se, num processo lento e contínuo, dando origem às montanhas. Maciços Antigos ou Escudos Cristalinos – são os terrenos mais antigos da crosta terrestre, são constituídos basicamente por rochas magmáticas e metamórficas. Sua importância econômica reside no fato de nesses maciços ocorrerem as jazidas de minerais metálicos, como, Ferro, ouro, manganês, prata, cobre, alumínio, estanho. Bacias Sedimentares – são áreas com tendência a concavidade (forma de bacia) que através do tempo geológico foram e continuam sendo preenchidas pela acumulação de sedimentos proveniente do desgaste das rochas, e matéria orgânica (vegetal e animal). É nesse tipo de estrutura geológica que se formam importantes recursos minerais energéticos, como o petróleo e o carvão mineral. 23 GEOGRAFIA Sendoassim, a altitude do relevo é medida com referência no nível do mar, em metros. O relevo em função das alti- tudes e dos planos, pode se apresentar em diversas formas. Essas formas são: as montanhas, os planaltos, as planícies e as depressões. Montanhas As montanhas são formações geográficas originadas do choque (encontro) entre placas tectônicas. Quando ocorre este choque na crosta terrestre, o solo das regiões que sofrem o impacto acaba se elevando na superfície, formando assim as montanhas. Estas são conhecidas como montanhas de dobramentos. Grandes partes deste tipo de montanhas formaram- se na era geológica do Terciário. Existem também, embora menos comum, as montanhas formadas por vulcões. As altitudes das montanhas são superiores as das regiões vizinhas. Quando ocorre um conjunto de montanhas, cha- mamos de cordilheira. Exemplos: Aconcágua (Argentina), Pico da Neblina (Brasil), Logan (Canadá), Kilimanjaro (Tanzânia), Monte Everest (Nepal, China), Monte K2 (Paquistão, China), Monte Blanco (França, Itália). Planaltos Os planaltos, também chamados de platôs, são áreas de altitudes variadas e limitadas, em um de seus lados, por su- perfície rebaixada. Os planaltos são originários das erosões provocadas por água ou vento. Os cumes dos planaltos são ligeiramente nivelados. Exemplo: Planalto Central no Brasil, localizado em território dos estados de Goiás, Minas Gerais, Tocantins, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Planícies É uma área geográfica caracterizada por superfície relativamente plana (pouca ou nenhuma variação de altitude). São encontradas, na maioria das vezes, em regiões de baixas altitudes. As planícies são formadas por rochas sedimentares. Nestas áreas, ocorre o acúmulo de sedimentos. Exemplos: Planície Litorânea, Planície Amazônica e Planície do Pantanal. Depressões As depressões são regiões geográficas mais baixas do que as áreas em sua volta. Quando esta região situa-se numa altitude abaixo do nível do mar, ela é chamada de depressão absoluta. Quando são apenas mais baixas do que as áreas ao redor, são chamadas de depressões relativas. As crateras de vulcões desativados são consideradas depressões. É comum a formação de lagos nas depressões. Exemplo: Depressão Sul Amazônica 24 GEOGRAFIA Tipos de Solo O Solo é a camada superficial da crosta terrestre. Tra- ta-se de um complexo composto de materiais minerais e orgânicos. Formação e Composição do Solo O solo é resultado da ação de vários elementos: água, clima, organismos vivos, relevo, tipo de rocha e o tempo de atuação desses fatores. Em função da ação conjunta dos diversos fatores, originam-se diversos tipos de solo. A decomposição das rochas por ação dos agentes físi- cos, químicos ou biológicos dão origem aos componentes minerais. A incorporação e a decomposição de elementos orgânicos animais e vegetais (húmus), dão fertilidade ao solo. Classificação dos Solos Com relação a cor a maior parte dos solos podem ser agrupadas em três tipos: Tipos de Solo - avermelhados e amarelos - indicam forte presença de óxido de ferro - escuros - indicam forte presença de materiais orgâ- nicos - claros - indicam a fraca presença ou ausência de ma- teriais orgânicos. Com relação a textura os solos pedem se apresentar: Tipos de Solo - arenoso - retém pouca água e nutrientes, pois pos- suem grandes poros, facilitando o escoamento da água - argiloso - o solo argiloso retém mais água e nutrien- tes (cálcio, potássio, ferro) - orgânico - é composto de materiais orgânicos em processo de decomposição, além de areia e argila Entre os solos mais comuns encontrados no Brasil, des- tacam-se o massapê e a terra roxa: - Massapê - é um solo escuro, argiloso e orgânico, ori- ginado da desagregação e decomposição da rocha gnais- se. Aparece em grande trecho do Nordeste Brasileiro, na região chamada de Zona da Mata, onde desde o século XVI se cultiva a cana-de-açúcar, que se adapta muito bem a esse tipo de solo. - Terra roxa - é um solo avermelhado e vulcânico, ori- ginado da decomposição do basalto. Aparece no oeste do estado de São Paulo e no norte do Paraná. É excelente para a agricultura e, desde o século passado é utilizado para a cultura do café. Recursos Minerais Chamamos de recursos minerais as concentrações de minério que possuem características que fazem com que sua extração seja técnica e viável em questões econômicas. Esses recursos podem ser metálicos, como o estanho, o fer- ro e o cobre, por exemplo, ou não metálicos, como o már- more, o calcário e o quartzo. Pode-se dizer que recursos minerais são, ainda, aquelas substâncias inorgânicas que são extraídas da terra e podem ser usadas como matéria prima, fazendo parte da formação da terra. No planeta, existem muitos recursos minerais que po- dem ser encontrados em estado puro, como a prata e o ouro, por exemplo, mas em sua maioria, são encontrados associados a outros minerais, sendo necessária a divisão para a extração da matéria prima desejada. Recursos minerais metálicos são, como mencionamos anteriormente, o ferro, urânio, prata, ouro, estanho, chum- bo, mercúrio, cromo, cobre, magnésio, manganês, alumínio e o ferro, entre outros. E os recursos minerais não metáli- cos envolvem alguns como carvão mineral, petróleo, água, amianto, cascalho, argila, areia, nitratos, fosfatos, enxofre, cloreto de sódio, entre outros. Existem ainda os recursos minerais energéticos, que podem ser usados para a produção de energia elétrica, mecânica ou calorífica, como por exemplo o petróleo, o urânio, o carvão, o gás e o xisto, entre outros. Esses re- cursos minerais são usados como matéria prima para a fa- bricação de diversas coisas, desde objetos usados por nós diariamente e bastante simples, como um pote de plástico, por exemplo, até veículos, foguetes espaciais, entre outros. Principais recursos minerais Entre os recursos minerais metálicos mais usados, es- tão o ferro, que é a principal composição do aço e pode ser usado, por exemplo, para a fabricação de ferramentas; o alumínio que, oriundo da bauxita, é usado para fabrica- ção de automóveis, panelas, aviões, entre outros; o cobre, que é comumente usado para a fabricação de cabos elétri- cos. Além disso, entre os recursos minerais não metálicos mais usados, estão o diamante, usado para a fabricação de joias, mas também para fabricação de brocas que são usadas para perfurar poços artesianos; a areia, que é usada para fabricação de concreto e de vidro; e o calcário, que é usado para fabricar cimento, giz, cal e ainda para corrigir solos e tratar água. Depois, temos os recursos energéticos fósseis, que envolvem o petróleo, usado para fabricação de produtos de plástico e para a extração de combustí- veis, como querosene, diesel e gasolina; gás natural, que é usado em residências e indústrias como combustível; e o carvão mineral, que tem seu uso agregado na indústria química, além de servir de fonte de energia. Recursos minerais no Brasil Existem muitas indústrias de transformação mineral que cumprem importante papel na economia do Brasil, como por exemplo o ferro que é o principal minério extraí- do no Brasil no que se refere à exportação, perdendo, no ranking de exportações do Brasil, somente para a soja. O país é um dos principais produtores mundiais de minérios, contando, inclusive, com algumas das maiores reservas geológicas do mundo. Entre elas, estão o Quadrilátero Ferrífero, que está lo- calizado em Minas Gerais, e a Província Mineral de Carajás, que está localizada no Pará e é fonte de extração de ferro, ouro, cobre e manganês. O Brasil conta com aproximada- 25 GEOGRAFIA mente 8% das reservas mundiais de ferro em seu territó- rio, tendo, portanto, importante papel neste setor mundial. Do Quadrilátero Ferrífero saicerca de 60% do ferro e 40% do ouro extraído no Brasil, enquanto na Província Mineral de Carajás, pode-se encontrar tungstênio, estanho, zinco, bauxita, cobre, manganês, cromo, níquel, prata, ouro, en- tre outros minerais. O nióbio, um mineral extremamente importante para os setores nuclear, eletrônico, químico e metalúrgico, mas pouco conhecido por aqueles que não são da área, tem uma de suas maiores reservas do mundo ocidental também em território brasileiro. Na Constituição Federal Brasileira ficam instituídas al- gumas regras no que se trata da concessão de áreas para a extração mineral, já que, segundo o Art. 176, “As jazidas, em lavra ou não, e demais recursos minerais e os poten- ciais de energia hidráulica constituem propriedade distinta da do solo, para efeito de exploração ou aproveitamento, e pertencem à União, garantida ao concessionário a pro- priedade do produto da lavra”. Até o ano de 1995, eram restritas as concessões e autorizações para a exploração com capital estrangeiro, porém, por meio de uma Emen- da Constitucional, isso foi removido, o que proporcionou um crescimento no setor, além de investimentos de mul- tinacionais. Além disso, os prejuízos ambientais que forem causados pela exploração de minérios, são de responsabili- dade das concessionárias, estando previsto na Constituição que é de responsabilidade obrigatória dessas recompor as áreas atingidas pela mineração. Em decorrência da falta de fiscalização, entretanto, é difícil que a legislação seja cum- prida. O Brasil conta com uma enorme variedade de minerais explorados, sendo que, atualmente, o número vai além dos 55 minerais diferentes. Os principais minerais encontrados nos territórios brasileiros são o potássio, zinco, manganês, níquel, estanho, ouro, cromo, cobre, ferro, petróleo, bauxi- ta, entre outros. Além do Brasil, os países com maiores po- tenciais minerais são os Estados Unidos, China, Federação Russa, Austrália e Canadá. Riscos Apesar da sua importância para a economia do Brasil, a atividade de extração de recursos minerais traz muitos ris- cos, não somente ambientais, mas também sociais, já que ocasiona o desmatamento de áreas, além da destruição e contaminação de ecossistemas e da agressão da sociedade ao haver invasões nas regiões indígenas ou ainda terras particulares. Há ainda a exploração ao trabalhador que, neste setor, não raramente, trabalha em péssimas condi- ções, com poucos recursos de proteção e saúde e ganhan- do baixos salários. Hidrografia: Águas superficiais (continentais e oceânicas) e subterrâneas 1. INTRODUÇÃO O estudo das águas é bastante abrangente, dentre eles se destacam as águas oceânicas, águas subterrâneas e as bacias hidrográficas. A água é um assunto de grande re- levância pois a mesma faz parte do nosso cotidiano em inúmeras atividades. Neste trabalho veremos as principais características sobre os mais diversificados usos que faze- mos deste importante recurso mineral que é a água. As águas oceânicas influenciam no clima e em nosso sustento como ser humano através do oxigênio e da pesca. As águas subterrâneas são encontradas expandidas no solo, no ar e nas rochas; ambos os temas estudados em geologia e pre- sentes neste trabalho. As bacias hidrográficas por sua vez, são nosso principal contato com esse elemento vital para nossas vidas seja através da agricultura, pecuária, consumo direto, industrial entre outros inúmeros usos. 2. CONCEITO DE BACIAS HIDROGRAFICAS Bacias Hidrográficas ou Bacias de drenagem, são o conjunto de terras que fazem a drenagem da precipitação de uma determinada área. Sendo medida dentro de tais limites é uma área geográfica medida em Km². A bacia hidrográfica é comumente definida como a área onde ocorre a drenagem de água para um rio princi- pal e seus afluentes, devido às suas características geográ- ficas e topográficas. A formação da bacia hidrográfica acontece em fun- ção do desnível do terreno que orienta determinado curso d’água sempre das áreas mais altas para as mais baixas. Essa área é limitada por um divisor de águas que a se- para das bacias adjacentes, e que pode ser determinado nas cartas topográficas. Podemos então concluir, que bacia hidrografia é uma are a drenada por um rio ou um sistema concentrado de cursos d’água (riachos e córregos), tal que toda a vazão efluente é descarregada a partir de uma simples saída. 2.1 TIPOS DE BACIAS HIDROGRAFICAS As Bacias Hidrográficas podem ser classificadas, se- gundo especialistas em geografia como: - Exorreica, quando as águas são drenadas para o mar. - Endorreica, as águas caem em um mar fechado ou um lago. - Arreica, quando as águas alimentam aquíferos e len- çóis freáticos. - Criptorreica, quando a água evapora ou infiltra-se no solo. 26 GEOGRAFIA Ás vezes, as regiões hidrográficas são confundidas com “bacias hidrográficas”. Entretanto, as bacias hidrográficas são menores, porém passam a se fragmentar em sub-bacias, e as regiões hidrográficas podem englobar mais de uma bacia. 2.2 O CICLO HIDROLÓGICO EM UMA BACIA HIDROGRÁFICA O ciclo hidrológico dentro de uma bacia hidrográfica dá-se pela precipitação da água que evapora dos leitos dos rios, lagos, lagoas, e toda a água superficial pertencente a mesma. A água precipitada, em parte infiltra-se no solo, e por sua vez abastece os aquíferos, que por sua vez fazem com que a água flua novamente para a superfície através das nascentes. A água presente nas bacias hidrográficas tende sempre a irem dos locais mais altos, nos morros, onde se encontram a maioria das nascentes, para os locais mais baixos, como o leito e posteriormente a foz dos rios, sempre se deslocando para um rio maior, com o desígnio de chegar ao oceano. Abreviações: P = Precipitação R = Escoamento superficial ou chuva excedente B = Fluxo subterrâneo F = Infiltração E = Evapotranspiração T = Transpiração S = Alterações do armazenamento na zona saturada – solo ou água subterrânea 2.3 PARTES DE UMA BACIA HIDROGRÁFICA Nascente: Segundo resolução do CONAMA nº 04, de 18.09.85, olho d’água ou nascente é o local onde se verifica o apa- recimento de água por afloramento de um lençol freático, entretanto a resolução nº 303 de março de 2002, que substitui a precedente caracteriza o olho d’água como “local onde aflora naturalmente, mesmo que de forma intermitente, a água subterrânea.” 27 GEOGRAFIA As nascentes localizam-se em encostas ou depressões de terrenos, podendo ser permanentes, de fluxo continuo, tem- porárias, de fluxo nas estações chuvosas, ou ainda efêmeras, que duram apenas algumas horas durante a chuva. Pode-se ainda, dividir as nascentes em dois tipos quanto à sua formação. Segundo Linsley e Franzini (1978), “Quando a descarga de um aquífero se localiza em uma pequena área localizada, tem-se a nascente ou olho d’água”. E quando “A superfície freática ou um aquiferp artesianp interceptar a superfície do terreno e o escoamento for espraiando numa área o afloramento será difuso, formando um grande número de pequenas nascentes”. Divisores de Água: Podendo também ser conhecidos como espigões, são linhas imaginarias que separam as águas pluviais. Entende-se por uma linha de cumeada, ou seja, uma linha formada por altas montanhas. Fundos de Vale: Ponto mais baixo de um relevo acidentado, por onde escoam as águas das chuvas. O fundo de vale forma uma calha, que recebe a água proveniente de todo seu entorno e de calhas secundárias. Sub-Bacias: Sub-bacias: São áreas de drenagem dos tributários do curso d’água principal, entretanto pode levar con- ceitos diferentes que dependem da literatura. “Segundo Faustino (1996), por exemplo, são “- bacias com áreas maiores que 100 km2” e menores que 700 km2”. Já segundo Rocha (1997, apud Martins et al., 2005), caracteriza as bacias com áreas entre 20.000 ha e 30.000 ha (200 km2a 300 km2). 2.4 BACIAS HIDROGRAFICAS E AS PRIMEIRAS CIVILIZAÇÕES Desde as primeiras civilizações o ser humano tende por suas necessidades de consumo e pelo conforto que ela impri- me ocupar regiões próximas a locais com água em abundância. Os sumérios se desenvolveram na Mesopotâmia, banhada pelos rios Tigre e Eufrates, local onde hoje se encontra o Iraque. O Egito, também floresceu ao longo do vale do rio Nilo, uma vez que o povo tinha características agropastoris, e o rio, nas cheias fertilizava as terras da bacia. A China, outra grande civilização milenar, estabeleceu-se na bacia do rio Huang He, também sendo bastante desen- volvida em comparação as demais de sua época em relação ao uso da roda, seda, além das técnicas de criação de animais e agricultura. Sendo assim podemos concluir que os povos desde o início das primeiras comunidades sedentárias, e posteriormente as primeiras cidades, procuram bacias hidrográficas e locais que tenham quantidades significativas de água para se esta- belecer. 2.5 AS PRINCIPAIS BACIAS HIDROGRAFICAS DO MUNDO 28 GEOGRAFIA Atualmente a maior bacia hidrográfica fluvial do mundo é a Bacia do Rio Amazonas, entretanto, ao redor do mundo existem várias outras bacias hidrográficas, que se encontram em todos os cinco continentes. 3. AS BACIAS HIDROGRAFICAS BRASILEIRAS 3.1 BACIA DO AMAZONAS: Está localizada no norte do Brasil, com uma área de aproximadamente 5.846.100km2. Corresponde a maior bacia hi- drográfica do mundo, assim como o rio que ela comporta, o Rio Amazonas, e possui diversos divisores de águas, como a Cordilheira dos Andes, O Planalto da Guianas e o Planalto Central Brasileiro. A Bacia deságua no atlântico, e sua nascente encontra-se na Cordilheira dos Andes, que forma o Rio Solimões, que por sua vez encontra-se com o Rio Negro e forma o Amazonas propriamente dito. 29 GEOGRAFIA 3.2 BACIA DO SÃO FRANCISCO Tem presença marcante na história do território brasileiro. Foi através do São Francisco que ocorreu a ocupação das terras mais distantes do litoral. Em sua nascente e foz o rio recebe muita água das chuvas, mas, na maior parte do seu curso, flui por áreas secas do sertão nordestino e mineiro. Daí a sua importância para a população sertaneja que vive perto da sua margem. Além da pesca, bastante comprometida com a construção de barragens para a produção de energia, as margens do São Francisco garantem à população sertaneja a prática da agricultura de subsistência. Quando chega a estiagem (período mais seco) é feito o cultivo e a colheita é programada antes da nova cheia. Esse ciclo se repete a cada ano. 3.3 BACIA DO TOCANTINS Compreende todos os recursos hídricos que deságuam nos rios Tocantins e Araguaia, ocupando uma superfície de 967.059 km2, o que a torna a maior entre aquelas que se encontram totalmente dentro do território brasileiro. 30 GEOGRAFIA Envolve os estados de Goiás, Mato Grosso, Tocantins, Maranhão, Pará e o Distrito Federal. Diversos lugares nos quais os rios Tocantins e Araguaia percorrem possuem um baixo povoamento, por isso os mesmos são de grande relevância para as pessoas, prin- cipalmente para a comunicação, apesar de não serem na bacia existe a Hidroelétrica do Tucuruí, de que se tornou a segunda maior usina hidrelétrica do Brasil. Para que fosse executada, houve grandes impactos ambientais, como as represas e o lago de Tucuruí. 3.4 BACIA DO PARANÁ Abastece o reservatório da Itaipu Binacional, abrange seis Estados brasileiros e o Distrito Federal, com uma área 820.000 km² inclui a região mais industrializada e urbani- zada do Brasil. Concentra um terço da população brasileira em cen- tros urbanos como São Paulo. É a bacia hidrográfica com a máxima capacidade ins- talada de energia elétrica do país e também a de maior demanda. As usinas com maior capacidade instalada são Itaipu, Furnas e Porto Primavera. Seus principais afluentes são os rios Grande, Paranaíba, Tietê, Paranapanema e Iguaçu. Há um grande consumo de água para abastecimento, e também para indústria e irrigação. Já a poluição orgâ- nica e inorgânica, efluentes industriais e agrotóxicos, e a eliminação da mata ciliar contribuem para a deterioração da qualidade da água de grandes extensões dos principais afluentes. 3.5 BACIA PLATINA Com cerca de 3,1 milhões de quilômetros quadrados de superfície, quase metade em território brasileiro produz a maior parte da energia consumida no país. As nascentes dos principais rios pertencem ao Bra- sil. Aqui, três bacias compõem a Bacia Platina: Paraguai, Uruguai e Paraná. Os nomes das bacias correspondem aos três principais rios que a formam. A Bacia do Paraguai corre pelas terras planas no Panta- nal. É navegável e tem como destaque o porto de Corum- bá, no Mato Grosso do Sul que, combinado a outros meios de transporte, leva ferro e manganês explorado no Maciço de Urucum e é porta de entrada de outros produtos dos demais países da bacia platina. 3.6 BACIAS COSTEIRAS Bacia Hidrográfica do Parnaíba: está presente nos es- tados do Piauí, Maranhão e na porção extremo oeste do Ceará, totalizando uma área de 344.112 quilômetros qua- drados. Bacia Hidrográfica do Atlântico Nordeste Oriental: com extensão de 287.348 quilômetros quadrados, a bacia hi- drográfica do Atlântico Nordeste Oriental está presente em cinco estados nordestinos: Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas. Bacia Hidrográfica Atlântico Nordeste Ocidental: seus principais rios são o Gurupi, Pericumã, Mearim, Itapecuru Munim e Turiaçu. Essa bacia de drenagem possui 254.100 quilômetros quadrados, compreendendo áreas do Mara- nhão e Pará. Bacia Hidrográfica Atlântico Leste: com extensão de 374.677 quilômetros quadrados, essa bacia hidrográfica engloba os estados de Sergipe, Bahia, Minas Gerais e Espí- rito Santo. Em sua região é possível encontrar fragmentos de Mata Atlântica, Caatinga, Cerrado e vegetação costeira. Bacia Hidrográfica Atlântico Sudeste: presente nos es- tados do Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná, a região hidrográfica Atlântico Sudeste apresenta 229.972 quilômetros quadrados. Ela é formada pelo rio Doce, Itapemirim, São Mateus, Iguape, Paraíba do Sul, entre outros. Bacia Hidrográfica Atlântico Sul: com área de 185.856 quilômetros quadrados, essa bacia hidrográfica nasce na divisa entre os estados de São Paulo e Paraná, percorrendo até o Rio Grande do Sul. Com exceção do Itajaí e Jacuí, os rios que formam essa bacia de drenagem são de pequeno porte. 4. DIVISÕES DO OCEANO O Planeta Terra é, em grande parte, recoberto por água (hidrosfera) e, por isso, é comum que seja denominado Pla- neta Água. A área total da superfície terrestre é de cerca de 510 milhões de quilômetros quadrados, dos quais 361 milhões de quilômetros são ocupados pela massa líquida (oceanos). As águas oceânicas, além de afetar o clima e a renova- ção do oxigênio na atmosfera, são importantes no trans- porte em vias marítimas e na obtenção de alimento por meio da pesca. Na realidade, há somente um único e extenso oceano recobrindo o planeta Terra, o qual está dividido (por linhas imaginárias) em: oceanos Pacífico, Índico, Atlântico. 31 GEOGRAFIA O oceano Pacífico é o mais extenso de todos os ocea- nos, com uma área aproximada de 165 milhões de quilô- metros quadrados, tendo as maiores profundidades co- nhecidas. Localiza-se entre a Ásia, Austrália e as Américas. O oceano Atlântico situa-se entre a Europa, a América e a África, com área de cerca de 82 milhões de quilômetros quadrados, sendo o melhor para a navegação. O oceano Índico possui área aproximada de 73 milhões de quilômetros, estando localizado entre a Oceania, Ásia, África e Antártica. 4.1 TIPOS DE MARES Pode-se dizer que mar é a parte dooceano que está em contato com o continente, pois o primeiro é uma conti- nuação natural do segundo. Os mares são classificados das seguintes formas: - Mares abertos ou costeiros Interagem de maneira ampla com os oceanos. Um exemplo é o Mar da China. - Mares continentais Situam-se dentro dos continentes; sua ligação com os oceanos se dá por meio de canais e estreitos, como, por exemplo, o Mar Vermelho, cuja comunicação com o ocea- no Índico acontece devido ao estreito de Bab-El-Mandeb. - Mares isolados Não possuem qualquer forma de comunicação com os oceanos ou mesmo com outros mares. Como exemplo, po- de-se citar o mar da Galileia. 4.2 CARACTERÍSTICAS DA ÁGUA DOS MARES E OCEANOS 4.2.1 Salinidade Durante bilhões de anos, a ação erosiva das águas so- bre os solos e rochas fez com que sais minerais se aglome- rassem nos mares e oceanos, estando dissolvidos no meio líquido. Os sais podem originar de determinadas fontes antes de aparecerem nos oceanos; há sais que ocasionam após ocorrer o desgaste de rochas da crosta através de fenôme- nos erosivos ou que derivam de gases poluentes; outras substâncias químicas podem surgir através de erupções vulcânicas, após vir à superfície águas antes encontradas em camadas no interior do planeta... processos que en- volvem modificações na atmosfera, em rochas e entre rios e mares, mas que equilibram a concentração de sais nos oceanos. Além do cloreto de sódio, há mais uma série de fatores contribuem para que os mares e oceanos sejam salgados; depende da sua temperatura (que por sua vez depende dos raios de sol), quantidade de chuva e rios da região (que destinam nos mares). A quantidade de sais di- luídos na água está sujeita também a evaporação que há na superfície dos mares e oceanos; onde há mais evapora- ção, maior a quantidade de sais assim como quanto mais alta a temperatura, menos rios e menos chuvas, maior é a salinidade. A concentração de sais na água do mar não é a mesma em todo o planeta. A água do Golfo da Finlândia é a menos salina de todas, enquanto que a do Mar Morto, no Orien- te Médio, possui dez vezes mais salinidade do que a dos outros oceanos. Por esse motivo, as águas do Mar Morto são excelentes no tratamento de problemas respiratórios e doenças de pele, por exemplo. 4.2.2 Densidade Dependendo da quantidade de sais presentes na água do mar, este pode ser mais ou menos denso. Considerando que a água salgada é mais densa do que a doce, se esta última fosse representada com densidade 1, por exemplo, a densidade da água salgada seria 1,3. 4.2.3 Temperatura Pode variar conforme a latitude, as correntes marítimas e a profundidade do oceano. Quando a superfície da água está em contato com a atmosfera, a temperatura de ambos é a mesma. A partir de -2ºC para baixo, a superfície começa a se solidificar e o gelo flutua, sendo chamado de “banqui- sa”, pois é menos denso do que a água. É o que acontece nos mares glaciais. 4.2.4 Cor A coloração das águas oceânicas pode variar em fun- ção da origem e da quantidade de sedimentos presentes nelas. Próximo à foz de grandes rios, pela presença de se- dimentos que se acumulam na água, esta costuma adqui- rir uma coloração amarelo-barrenta ou avermelhada. Em contrapartida, quando em alto mar, não há presença des- ses sedimentos, assim, a água possui uma coloração azul -escura. Quando próxima de costas, a água é de um tom esverdeado, pois ali se encontram sedimentos de origem vegetal e restos animais. 4.3 MOVIMENTOS DAS ÁGUAS OCEÂNICAS As águas oceânicas possuem três formas de movimen- to: ondas, marés e correntes marítimas. 4.3.1 Ondas São movimentos decorrentes, principalmente, de aba- los sísmicos no fundo dos oceanos e da ação eólica, os quais agitam a água, formando ondulações em sua super- fície. As ondas são caracterizadas pela sua altura, por apre- sentarem uma parte mais elevada e outra menos elevada, denominadas, respectivamente, de crista e cavado. A dis- tância entre duas cristas é o comprimento delas. Existem as ondas: Oscilatórias: têm origem no movimento em forma de círculo realizado pelas moléculas de água, devido à ação eólica; ocorrem em alto mar. Transladativas: são formadas quando o cavado da onda se choca com o fundo do mar, gerando um desequilíbrio entre o cavado e a crista, o que, aliado à ação do vento, faz com que as águas sejam “empurradas” para frente, rumo ao litoral. Assim se formam as rebentações. Ondas tsunami: são formadas em maremotos, decor- rentes de vulcanismo, abalos sísmicos, deslocamento de terras submarinas, entre outros fenômenos, os quais po- dem formar ondas gigantes em comprimento, violentas e 32 GEOGRAFIA muito velozes. Em alto-mar, os tsunamis possuem pequenas amplitudes, mas quando se aproximam da costa (onde as águas são mais rasas) podem se tornar maiores; adquirem entre 10 e 500 quilômetros de comprimento de onda em cerca de minutos, podendo durar até meia hora. Outras ondas quaisquer ocorrem em espaços de tempo muito menores, de dezenas de segundos. Na região do oceano Pacífico é muito comum a ocorrência de tsunamis, sendo que, os quinze mais catastróficos regis- trados desde os últimos vinte séculos mataram cerca de 330 mil pessoas, no período anterior a 26 de dezembro de 2004. Ao todo, têm-se o registro de mil e cem tsunamis nessa região. 4.3.2 Marés São resultado da atração que o Sol e a Lua exercem sobre a Terra; por estar menos distante da Terra, a Lua tem maior influência sob as marés, as quais efetuam, diariamente, um movimento de “avanço e recuo” em um intervalo de tempo de cerca de seis horas. Quando as águas oceânicas recuam, diz-se que é maré baixa ou baixa-mar, e quando avançam, é maré alta ou preamar. A diferença entre o nível da maré alta e da maré baixa é chamada de amplitude, sendo que as maiores são observadas nas fases de Lua cheia e nova. 4.3.3 Correntes oceânicas Influenciadas por fatores como a radiação solar e presença de vento, as correntes oceânicas realizam o deslocamento de grandes porções de água a diferentes regiões do globo e, por isso, podem facilitar ou não o curso de navios e outras embarcações marítimas. Além disso, também atuam no clima, alterando a temperatura nas costas e precipitações. A desigual distribuição dos raios solares provoca um maior aquecimento dos oceanos em alguns pontos da Terra e menor em outros. Isso gera variações de densidade da água superficial, o que envolve também temperatura e salinidade e, assim sendo, diz-se que há circulação termoalina. O curso da água na circulação termoalina é, primeiramente, vertical, quando a água mais densa “desce” a médias ou grandes profundidades. Em decorrência do movimento que a Terra faz em torno de si mesma (rotação) e dos ventos, o curso da água acaba seguindo em sentido horizontal. No Hemisfério Norte, vai para a direita e, no Hemisfério sul, para a esquerda. Essas são as correntes de densidade. A ação eólica e a pressão atmosférica também influenciam as correntes oceânicas, porém, diferentemente das cor- rentes de densidade, esses dois fatores provocam apenas o deslocamento em sentido horizontal das águas. A pressão atmosférica atua aumentando ou diminuindo o nível das águas e, por isso, acaba formando correntes, chamadas correntes de descarga. O nível da água aumenta quando a pressão é menor, e diminui quando a pressão é maior. Em profundidades maiores, as correntes sofrem um desvio de 45º e, lentamente, conforme diminui a profundidade, elas perdem velocidade. Isso significa que a intensidade do desvio se faz de acordo com a velocidade de um corpo no oceano e a latitude em que ele se encontra. Na Linha do Equador, é igual a zero e, nos Polos, atinge seu máximo. Se o corpo estiver em repouso ou estiver realizando exatamente o caminho Leste-Oeste no Equador, ele não seráinfluenciado. Esse tipo de corrente, ocasionada pelo vento, chama-se corrente de impulsão. 33 GEOGRAFIA As correntes oceânicas apresentam, em sua trajetória, algumas semelhanças, mesmo em diferentes pontos da Ter- ra. Na superfície, as correntes circulam no sentido horário, tanto no oceano Pacífico Norte, quanto no Atlântico Norte. No Pacífico Sul e no Atlântico Sul, a circulação das correntes é em sentido anti-horário. Esse sistema de circulação recebe o nome de giro, e cada oceano possui seu próprio giro de correntes (Figura 2), localizado nas zonas subtropicais dos hemisférios (aproximadamente 30ºN e 30ºS). De acordo com os oceanógrafos, existem dois tipos de correntes oceânicas de superfície: as verdadeiras corren- tes (ou streams) e as derivas (ou drifts). As streams têm maior profundidade e são semelhantes a rios; já as drifts pos- suem aspecto de lençol de menor profundidade, como é o caso da corrente da região Antártica, que segue em dire- ção oeste-leste. A partir da temperatura desses dois tipos de correntes, pode-se subdividi-las em correntes quentes, que surgem de uma região intertropical e adentram as zo- nas frias e temperadas, como é o caso da corrente do Bra- sil e da corrente do Golfo do México (ou Gulf Stream); e as correntes frias que, a exemplo da corrente do Peru e da do Labrador, surgem em altas latitudes, de onde seguem para regiões tropicais ou de grande profundidade e então emergem na superfície. O intercâmbio de água entre áreas mais quentes e áreas mais frias, devido à circulação geral dos oceanos, possibilita a manutenção do equilíbrio das temperaturas na Terra. 5. ÁGUAS SUBTERRÂNEAS As águas subterrâneas correm abaixo da superfície ter- restre; ocupam os poros presentes nas rochas sedimentares e as falhas, rachaduras ou aberturas de rochas espessas que, devido à ação da gravidade e da capacidade de aderência da água, realizam a manutenção da umidade do solo, do curso dos lagos, rios e até de brejos. Além disso, também desempenham uma etapa importante no ciclo hidrológico, correspondente à precipitação, isto é, à água proveniente da chuva que, consegue se infiltrar no solo, realizando per- colação. Percolação é a denominação para o movimento da água quando esta se encontra em meio subterrâneo. O processo acima citado depende de algumas caracte- rísticas, tais quais: Porosidade do solo: facilita ou não a passagem da água, dependendo do tipo de solo. Por exemplo: o solo arenoso é mais permeável do que o argiloso, pois a areia é muito mais fina do que a argila, portanto, ela permite mais facilmente a passagem da água no primeiro caso. Porosidade entre um solo arenoso e um solo argiloso. Fonte: marianaplorenzo.com - Tipo de chuva: dependendo da intensidade da chuva, isto é, da pressão que a água exerce no solo, maior será a sua capacidade de infiltração. Chuvas mais demoradas e fi- nas tendem a levar mais tempo para se infiltrarem no solo. - Cobertura vegetal: a permeabilidade de um solo com vegetação presente é maior do que a de um solo desmatado. - Inclinação do terreno: quanto maior o declive, mais rápido corre a água e, sendo assim, mais difícil é a sua pas- sagem através do solo. Quando a água se infiltra no solo, passa a receber ou- tro tipo de classificação, que é feita da seguinte forma: - Zona não saturada: também denominada zona de aeração ou vadosa. Nesse caso, por meio de forças de ade- são, parte da água é armazenada no solo e distribuída de maneira uniforme. Acontece a transpiração por meio da fil- tração, da autodepuração da água e das raízes das plantas. - Zona saturada: a água que não foi retida na zona não saturada chega à zona saturada, onde os poros são com- pletamente preenchidos por água, formando um abun- dante reservatório desta. Isso acontece devido à ação da gravidade. Chega determinado ponto em que a água não consegue mais adentrar mais a rocha, pois elas já estão suficientemente saturadas. A água que “sobra” da zona não saturada e chega até a zona saturada se movimenta lentamente para gerar real- mente um manancial subterrâneo. Parte dessa água vai pa- rar na superfície do solo, criando fontes de água, e a outra parte termina nos rios, onde, durante as épocas de estia- gem, se tornam perenes, isto é, constantes, pois mesmo na ausência de chuva, não secam. Da zona não saturada, fazem parte: - Zona de umidade do solo: é a zona mais superficial de todas e ela atua como sustentação da biomassa vegetal e do intercâmbio entre a atmosfera e a litosfera. Grande par- te da água da adesão é perdida para a atmosfera e, quando depois da evaporação há muita concentração de sais que se precipitam para a superfície do solo, formam-se os solos salinizados ou as crostas ferruginosas. - Zona intermediária: encontra-se entre a franja capilar e a zona de umidade do solo, sendo assim, é uma região mais úmida em relação à superfície do solo, porém, em re- lação à franja de capilaridade, é menos úmida. Quando a franja de capilaridade chega à superfície do solo, é possível que a zona intermediária não exista, pois, o nível freático (distância entre a zona saturada e a zona de aeração) tam- bém está perto da superfície. Onde a água subterrânea evapora mais facilmente, há brejos e alagadiços. - Franja de capilaridade: possui maior umidade, pois abaixo desta região há a zona saturada; é a parte mais per- to do nível da água do lençol freático. 34 GEOGRAFIA Infiltração da água no solo a partir da precipitação, passando pela zona não saturada até a zona saturada, onde está o lençol freático. Fonte: ga.water.usgs.gov 5.1 CARACTERIZAÇÃO ESQUEMÁTICA DAS ZONAS NÃO SATURADA E SATURADA NO SUBSOLO Ocorrência e Volume das Águas Subterrâneas Como a distribuição das águas superficiais é muito variável, a das águas subterrâneas também são, sendo que elas se inter-relacionam no ciclo hidrológico e precisam das condições climatológicas. Contudo, as águas subterrâneas são mais ou menos 100 vezes mais fartos que as águas superficiais dos rios e lagos. Especialistas lembram que a quantidade de água subterrânea pode chegar até 60 milhões de km³. A quantidade de água apropriada pelas rochas e pelos materiais não consolidados depende da porosidade das rochas, que pode ser de até 45%, da difusão desses poros entre si ou da quantidade e tamanho das aberturas de fragmentos existentes. No Brasil, as reservas de água subterrânea são estimadas em 112.000 km³. Qualidade das águas subterrâneas Durante o andamento no qual a água passa entre os poros do subsolo e das rochas, acontece a depuração pelo meio de uma série de processos físico-químicos e bacteriológicos que, agindo sobre a água, alteram as suas características apa- nhadas anteriormente, tornando-a particularmente mais adequada ao consumo humano. Assim, a composição química da água subterrânea é o efeito compatível da composição da água que entra no solo e da evolução química influenciada diretamente pelas litologias atravancadas, sendo que o conteúdo de substâncias dissolvidas nas águas subterrâneas aumenta à medida que continua no seu movimento. As águas subterrâneas apresentam algumas propriedades que fazem o seu uso mais benéfico em relação ao das águas dos rios: são filtradas e purificadas naturalmente pelo meio da percolação, não ocupam espaço em superfície, aturam me- nor influência nas variações climáticas, têm temperatura constante e têm maior abundância de reservas. Uso das águas subterrâneas De acordo com o site Portal São Francisco, Leal (1999) concluiu que a água subterrânea é muito explorada por conta de sua qualidade (para compor as rochas e a qualidade do clima), quantidade (para o armazenamento dos terrenos e fa- cilidade com que a água de movimenta) e por conta também de seus fatores econômicos que estão sujeitos às condições do aquífero. Apóster expandido a quantidade de fatores onde essas águas são utilizadas, passou a ser retirada a água em maiores profundidades, o que contribuiu para que tivesse quantidade suficiente para todas as casas, indústrias, entre outros. A uti- lização dessa água vai depender da necessidade da população e que o estado/país deve fornecer para uso na agricultura (a qual expandiu), indústrias, turismo, e regiões de solo excessivamente seco. A quantidade que é empregada para isso, retirada geralmente de poços profundos, poderia ser aproveitada para produção de comida que alimentaria milhões de pessoas a cada ano. De acordo com levantamento de dados do ano de 2000 em média 64% dos brasileiros têm água sub- terrânea para uso doméstico. 5.2 AQUÍFEROS Aquífero é qualquer formação geológica capaz de armazenar águas subterrâneas. As rochas propensas a isso fornecem a água aos poços e rios, a qual o ser humano está apto a consumir. Existem dois tipos de aquíferos: cativo e livre. Os aquíferos cativos são os que estão restritos por duas camadas que impedem a passagem de água e que possuem a pressão atmosférica inferior à pressão da água. 35 GEOGRAFIA Já os aquíferos livres, são os que têm somente a camada de apoio incapaz de ser atravessada pela água, como a argila por exemplo. Esses aquíferos também possuem a pressão atmosférica igual à pressão da água. Quaisquer aquíferos proporcionam vantagens para o ser humano. Por ser capaz de armazenar a água, deixa a circula- ção da mesma de modo que o homem consiga retirá-la sem obter maus impactos ao meio ambiente, mas em condições que alcançarão um lucro economicamente. O aquífero mais conhecido é o Aquífero Guarani que é a maior fonte de água doce subterrânea do mundo com 1,2 milhões de Km2 de área e está situado na América do Sul. 36 GEOGRAFIA Recursos hídricos As perspectivas de escassez e degradação da qualida- de dos recursos hídricos do planeta colocaram no cerne das discussões globais as necessidades de adoção do pla- nejamento e do manejo integrado dos recursos hídricos. As estimativas do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas apontam que até o ano de 2025 o número de pes- soas que vivem em países submetidos a grande pressão sobre os recursos hídricos passará dos cerca de 700 mi- lhões atuais para mais de 3 bilhões. No Brasil, a situação é de maior tranquilidade do que em outras partes do planeta. Apesar de ocupar quase metade da área da América do Sul e de ter em torno de 60% da Bacia Amazônica, que escoa um quinto do volume de água doce do mundo, há áreas críticas, onde a escassez deixou de ser apenas uma ameaça. Com três bacias hidrográficas que contêm o maior volume de água doce do mundo – Amazonas, São Francis- co e Paraná –, o Brasil busca servir de exemplo na eficácia da gestão de seus recursos hídricos. Nas duas últimas décadas, foram desenvolvidos meca- nismos e ações voltadas para tornar a água de boa quali- dade disponível para as gerações atuais e futuras, diminuir os conflitos do uso da água e ampliar a percepção da con- servação da água como um valor social e ambiental de alta relevância. A partir dos anos 1980, a gestão dos recursos hídricos no Brasil passou a abordar três fatores: a sustentabilidade ambiental, social e econômica; a busca de leis mais adequa- das e de espaços institucionais compatíveis; a formulação de políticas públicas que integrassem toda a sociedade. Em 1997, foi sancionada a Lei das Águas, que estabe- leceu a Política Nacional de Recursos Hídricos e criou o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (Singreh). A lei tem como fundamentos a compreensão de que a água é um bem público (não pode ser privatizada), sendo sua gestão baseada em usos múltiplos (abasteci- mento, energia, irrigação, indústria etc.) e descentralizada, com intensa participação de usuários, da sociedade civil e do governo. Pela lei, o consumo humano e de animais é prioritário em situações de escassez. A Lei das Águas estabelece também instrumentos para implementar a Política Nacional de Recursos Hídricos. Entre eles, destacam-se: • Planos de recursos hídricos: os planos nacionais e es- taduais são estratégicos, pois estabelecem diretrizes gerais sobre os recursos hídricos do País ou do estado. É o ins- trumento de planejamento nacional ou local, pelo qual se define como conservar, recuperar e utilizar a água em suas referidas bacias. O Plano Nacional está em vigor desde ja- neiro de 2006, tendo sido aprovado pelo Conselho Nacio- nal de Recursos Hídricos e estando em revisão após esses primeiros quatro anos. Estados estão na fase de desenvol- vimento de seus próprios planos. • Cobrança pelo uso da água: mecanismo educador que reconhece a água como bem econômico e dá ao usuá- rio uma indicação de seu real valor, incentivando a racio- nalização do uso da água e obtendo recursos para o finan- ciamento de programas e intervenções contemplados nos planos de recursos hídricos. Outro ponto prioritário para o Brasil no campo dos re- cursos hídricos são as águas subterrâneas. A reserva esti- mada para o País é de 112 mil km³ e a maior parte deste volume se encontra no Aquífero Guarani, o maior manan- cial de água doce transfronteira do mundo (segundo infor- mações disponíveis até o momento), com uma área de 1,2 milhão de km2, estendendo-se pelo Brasil (840 mil km2), Paraguai (58,5 mil km2), Uruguai (58,5 km2) e Argentina (255 mil km2). Amazônia Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 16% dos municípios brasileiros utilizam exclusivamente a água subterrânea para o abastecimento. A superexplotação, ou seja, a extração de água subterrâ- nea em volumes que ultrapassam os limites de produção das reservas reguladoras do aquífero, pode iniciar um pro- cesso de rebaixamento do nível potencial de fornecimento de água. Outro risco para os mananciais subterrâneos é a contaminação provocada por fossas, esgotos domésticos e industriais, lixões e agroquímicos. Água no Brasil O Brasil ocupa uma posição privilegiada em relação à disponibilidade de recursos hídricos. No mundo, 1,2 bilhão de pessoas não têm acesso a água potável e cerca de 5 milhões morrem a cada ano por doenças simples relacio- nadas à falta de abastecimento. Já o Brasil conta com 12% dos recursos hídricos do planeta. Por isso, o volume distribuído por pessoa é 19 ve- zes superior ao mínimo estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) – de 1.700 m3/s por habitante por ano. No entanto, esse recurso vital não chega para todos os brasileiros na mesma quantidade e regularidade. 37 GEOGRAFIA As características geográficas de cada região e mudan- ças de vazão dos rios, que ocorrem devido às variações climáticas ao longo do ano, acabam afetando a distribuição de água no território nacional. Mesmo assim, o volume de recursos hídricos é suficiente para atender 57 vezes a de- manda atual do país. O consumo humano, na média nacional, equivale a cer- ca de 1/3 do total de água utilizada no Brasil. Já a irrigação consome 46% dos recursos e as atividades industriais, 18%. Otimização do uso de recursos hídricos A água é encontrada no estado líquido, constituindo- se em recurso natural renovável por meio do ciclo hidroló- gico. Os recursos hídricos são caracterizados em função de sua quantidade e qualidade, estando estas características intimamente relacionadas, pois a qualidade da água de- pende diretamente da quantidade existente para dissolver, diluir e transportar as substâncias que serão aproveitadas nas cadeias alimentares (Braga et al., 2002). O total de água doce explorável sob o prisma tecno- lógico e econômico representa menos de 0,5% do total da água disponível (Braga et. al. 2002). A alteração da qualidade da água agrava o problema da escassez. A OMS (Organização Mundial da Saúde) esti-ma que 25 milhões de pessoas no mundo morram anual- mente em função de doenças transmitidas pela água, tais como as gastroenterites, leptospirose, salmonelose, entre outras. A água é uma das raras substâncias inorgânicas a se apresentar no estado líquido nas chamadas Condições Normais de Temperatura e Pressão. A densidade da água diminui com o aumento da temperatura e também é afe- tada pelos sais e demais substâncias químicas dissolvidas. A água apresenta calor específico bastante elevado e por isso pode tamponar a temperatura, absorvendo ou liberando diferentes quantidades de calor. Por isso as va- riações de temperatura nos meios aquáticos costumam ser brandas. Outra característica física muito importante da água é a viscosidade. Isto permite que organismos mais densos, como as algas permaneçam flutuando devido à força de atrito entre a sua superfície e a água. A cor e a turbidez também são características físicas importantes na regulação, pois permitem controlar a en- trada de luz no meio aquático. A cor pode ser real ou apa- rente. A cor real está associada a substâncias dissolvidas na água e pode afetar a penetração de luz. Este é o caso do rio Negro, afluente do Amazonas, cujas águas apresentam coloração escura devido à presen- ça de ácidos húmicos dissolvidos nas águas. A cor aparente do meio aquático está associada a re- flexos originados na paisagem adjacente ou referenciados com a cor de seu fundo, se o mesmo se encontrar visível. Uma última característica física notável é a polarida- de. Cada molécula no meio líquido sofre e exerce atração elétrica das moléculas ao seu redor. Este fenômeno é res- ponsável pela geração da tensão superficial da água, que constitui o “habitat” de muitas espécies de pequenos or- ganismos. Os detergentes podem enfraquecer esta película e al- terar profundamente as populações de microrganismos. A principal característica química da água é a sua propriedade de solvente universal, capaz de dissolver um grande número de substâncias orgânicas e inorgânicas, que podem ser essenciais para a sobrevivência de organis- mos aquáticos. A presença de oxigênio dissolvido, dentre outros ga- ses, é fundamental para que ocorram vida e fotossíntese no meio aquático. Os monitoramentos ambientais devem enfatizar o controle do oxigênio dissolvido, além de carac- terísticas físicas e químicas básicas. Havendo condições físicas e químicas apropriadas a água desenvolve uma importante associação biológica, constituindo cadeias alimentares compostas por produto- res e consumidores de várias ordens e decompositores. O meio aquático hospeda vírus, bactérias, fungos, algas, ma- crófitas, protozoários, rotíferos, insetos aquáticos, vermes, moluscos, peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos. Dentre estes, a avaliação dos microrganismos presen- tes é de extrema importância para caracterização da qua- lidade dos recursos hídricos superficiais ou subterrâneos. As águas são fundamentais para a vida. Por isso torna- se desnecessário enfatizar sua importância. Cerca de 70% do volume total do corpo humano é formado por água, e esta proporção varia nos demais seres vivos. O uso mais nobre da água é o abastecimento humano. A qualidade de vida das populações humanas está direta- mente vinculada com a oferta e qualidade de água, que é usada para higiene pessoal, preparo de alimentos e outros usos como irrigação de jardins, lavagens de veículos e pi- sos e usos cotidianos diversos. Após esta prioridade, vem o uso industrial da água e o uso na agropecuária, para irrigação de culturas e desse- dentação e higiene nas criações extensivas ou intensivas de espécies de pecuária tradicional, avicultura e suinocultura, muito desenvolvidos em grande escala nas últimas déca- das no país, que é um dos grandes atores no comércio e oferta mundial de proteínas. Os maiores riscos nesta área estão na falta de adequa- do tratamento e disposição de resíduos de várias espécies, principalmente aves e suínos, responsáveis por degradação de mananciais hídricos superficiais e poluição de aquíferos subterrâneos. Os dejetos de suínos, por exemplo, produzem índices de DBO (Digestão Biológica de Oxigênio) que chegam a ser dez vezes superiores aos dos excrementos humanos. Vale dizer, 10 vezes mais poluentes ou impactantes. O uso maciço das águas em irrigação também pode trazer conflitos no gerenciamento de bacias hidrográficas. O uso indiscriminado de pesticidas, herbicidas e fungicidas, polui os solos, sendo solubilizados pela água, que acaba transportando e ampliando a contaminação para as drena- gens superficiais e mananciais hídricos subterrâneos. O Brasil tem vocação eminentemente agropecuária. O denominado “agribusiness” não encontra outro local com tanta vocação natural de seu povo, recursos pedológicos, 38 GEOGRAFIA climáticos e hídricos. Logo, mais do que em qualquer ou- tra área, é nossa função preservar os recursos hídricos em condições de exercerem ações sinérgicas com os demais fatores para a preservação da alta produtividade e compe- titividade neste setor. Por isso, talvez fosse aconselhável, que as ações de li- cenciamento fossem mais voltadas a atividades pedagó- gicas e de extensão rural, do que propriamente a ações burocráticas ou punitivas. Está chegando o momento de o país discutir e implan- tar esta nova concepção de forma efetiva, eficiente e eficaz. Sob pena de comprometer seus recursos e a própria fun- ção dos mesmos na obtenção de resultados que favoreçam o país e atinjam sua plena consecução. Outro uso que merece discussão é a geração de ener- gia elétrica. Primeiro a questão das grandes barragens. Se- ria ambientalmente muito mais sustentável, a construção de pequenas e médias barragens, em quantidade muito maior. Estas intervenções geram menores lâminas de água nos depósitos de acumulação, atingem menos áreas e me- nor quantidade de pessoas, produzem impactos ambien- tais muito mais reduzidos sobre os meios físico e biológico, e eventualmente ainda contam com descargas de fundo, capazes de manter a capacidade de acumulação hídrica com o decorrer do tempo. O fato é que temos uma tradição em grandes barra- gens, com todas as consequências, e não temos trabalha- do suficientemente na mudança conceitual, na alteração de paradigmas e padrões, que mais cedo ou mais tarde serão impostos pelo consenso social. Os corpos de água são usados também para o lan- çamento e despejo de esgotos urbanos, tratados ou não, e efluentes industriais dos mais diversos tipos, dentro de padrões aceitáveis ou não. O comportamento dos corpos de água com os despejos varia em função de suas carac- terísticas físicas, químicas e biológicas e da natureza das substâncias lançadas. Outro uso antrópico que deve ser citado é o transporte de cargas e passageiros por via fluvial, lacustre ou marí- tima. A navegação pode causar perturbações ambientais, ao despejar substâncias poluidoras das embarcações, de modo deliberado ou acidental. Também podem necessitar produzir alterações de morfologia ou velocidade de cor- rente, com impactos ambientais. O equilíbrio ecológico do meio aquático deve ser pre- servado, qualquer que sejam os usos que se faça dos re- cursos hídricos. Por isso, monitoramentos e sistemas de controle devem ser incentivados e implantados para que a água nunca contenha substâncias tóxicas além das concen- trações críticas para os organismos aquáticos. Por último, merecem ser citados os usos dos recursos hídricos para aquicultura, ou, seja a criação de organismos aquáticos com finalidade econômica e a utilização para re- creação humana. Atualmente, com o gerenciamento de bacias hidrográ- ficas, cresce a necessidade de compatibilizar este recurso natural com a crescente demanda que tem sofrido, geran- do conflitos. Escassez do “ouroazul” gera tensões hidroconfli- tivas Dentre os graves problemas ambientais do século XXI, dois se destacam: a questão do aquecimento global e a escassez de água. Em relação às questões referentes à água deve-se ressaltar que apesar de cerca de 75% da superfície do planeta ser recoberta por massas líquidas, a água doce representa apenas 2,5% desse total. O problema é que apenas uma minúscula parcela (cerca de 1%) dessa água doce, presente nos rios, lagos, lençóis freáticos superficiais e atmosfera é acessível ao homem. O restante desse “esto- que” está imobilizado nas geleiras, calotas polares e lençóis freáticos profundos. A água potável é um recurso finito, que se reparte de- sigualmente pela superfície terrestre. Por seu ciclo natural a água é um recurso renovável, mas suas reservas não são ili- mitadas. Especialistas têm alertado que, se o consumo con- tinuar crescendo como nas últimas décadas, todas as águas superficiais do planeta estarão comprometidas em 2.100. No século XX, a população mundial foi multiplicada por três, as superfícies irrigadas por seis e o consumo glo- bal de água por sete. Nas últimas cinco décadas a polui- ção dos mananciais reduziu dramaticamente as reservas hídricas em um terço. Atualmente cerca de 50% das terras emersas já enfrentam um estado de penúria em água. Pelo menos 20% da humanidade não tem acesso à água de boa qualidade para consumo e cerca de metade dos habitan- tes do planeta não dispõe de uma rede de abastecimento satisfatória. A carência de água é resultado da combinação de fa- tores naturais, demográficos, socioeconômicos e até cultu- rais. Os estoques de água potável hoje disponíveis para o uso humano dariam para sustentar muito bem pelo menos o dobro da população atual. A questão é que os recursos hídricos não se distribuem equitativamente pela superfície da Terra. Nas áreas desérticas e semiáridas, como o norte da África ou Oriente Médio, as chuvas são inexistentes, escas- sas ou irregulares. Juntando-se a este fator um alto cresci- mento demográfico, poluição de mananciais, má utilização dos recursos hídricos e desperdício surge o “estresse hídri- co”, situação na qual os habitantes de uma determinada área consomem em média menos de 2000 litros de água por ano. A escassez de água tem criado tensões e conflitos en- tre países por conta de disputas pelo controle e utilização de fontes de águas superficiais, especialmente rios, quan- do estes atravessam territórios de duas ou mais nações. As tensas relações entre palestinos e israelenses no vale do Jordão ou entre Síria, Iraque e Turquia nos vales dos rios Tigre e Eufrates, ilustram essas situações denominadas hidroconflitivas. Das 260 bacias hidrográficas consideradas internacio- nais, 75% possuem áreas compartilhadas por dois países e as restantes por grupos de três ou mais países. Como não existe uma legislação internacional suficientemente clara a respeito, são raros os casos em que países estabelecem acordos de utilização comum dos recursos hídricos. Por isso podem ser identificadas atualmente dezenas de áreas com situações reais ou potencialmente hidroconflitivas. 39 GEOGRAFIA Vários índices podem ser utilizados para se fazerem análises dos recursos hídricos superficiais. Um dos que permite estabelecer interessantes conexões geográficas e geopolíticas é o índice denominado “dependência de água”. Ele se refere à porcentagem de água renovável de um país (fundamentalmente de rios), vinda de fora de seu território. De imediato, chega-se a uma série de conclusões ine- vitáveis. Os países localizados à montante têm, a princípio, menor dependência de água do que aqueles situados à ju- sante. Obviamente, países insulares pequenos como os do Caribe ou de média/grande extensão como Madagascar ou a “ilha-continente” da Austrália tem 0% de dependência. Se tomarmos como objeto de análise alguns dos países mais extensos do mundo teremos algumas surpresas. Por exemplo, o índice de dependência da China, apesar dos seus graves problemas hídricos, é de apenas 1%. Afinal o Planalto do Tibete é também estratégico porque se cons- titui numa verdadeira “caixa d’água” dos rios que drenam exclusivamente o território chinês (o Iangtsé, por exemplo), como também daqueles que fluem para o Subcontinente Indiano (o Bramaputra) ou para o Sudeste Asiático (o Me- kong). Outros países de grande superfície como a Rússia, o Canadá e os Estados Unidos com índices de dependência de 4%, 2% e 8%, respectivamente ensejam, quando da ob- servação de um mapa físico e político, análises geográficas e geopolíticas curiosas e, até certo ponto, surpreendentes como no caso brasileiro. O Brasil possui o maior estoque de recursos hídricos do mundo (cerca de 13%) e uma vasta e densa rede hidrográ- fica, mas seu índice de dependência é de 34%. Apesar de grande parte dos rios da Bacia Platina e da totalidade de importantes bacias, como as do São Francisco e a do Tocan- tins-Araguaia, se situarem em território brasileiro, parcela considerável da área da Bacia Amazônica, especialmente os altos vales do rio principal e muitos de seus caudalosos afluentes situam-se fora do espaço nacional do país. Por outro lado, países situados em várias partes do mundo apresentam altos índices de dependência como são os casos do Egito (97%), Hungria (94%), Holanda (88%), Turcomenistão (97%), Síria (80%), Bangladesh (91%), Para- guai (72%) e Argentina (66%). Quase todos eles, em maior ou menor grau, vivem ou viveram recentemente “tensões hidroconflitivas” com seus vizinhos. A Guerra pela Água e o conflito árabe-israelense É interessante notar que existe um senso comum que associa os conflitos no Oriente Médio à disputa em torno dos interesses ligados ao petróleo. Embora isso seja em grande parte verdadeiro, é preciso lembrar que o conflito árabe-israelense ocorre em área onde as reservas petro- líferas são insignificantes. O que a mídia não evidencia – evidentemente atendendo os interesses sionistas – é que a disputa pela água está no cerne de grande parte dos pro- blemas enfrentados na região. Antecedentes históricos Desde o século treze, até 1916, o império turco-oto- mano controlava todo o Oriente Médio. Com sua derrota na Primeira Guerra Mundial, a Grã-Bretanha e a França as- sumem o controle sobre o Oriente Médio, que é dividido em vários Estados separados: Iraque, Síria, Jordânia, Líbano e Palestina. Graças ao Acordo Sykes-Picot a Grã-Bretanha ficou com a área que presentemente constitui a Jordânia, a área entre o Jordão e o Mar Mediterrâneo e o Iraque; a Fran- ça recebeu a Síria e o Líbano. Em 1922 a Liga das Nações estabeleceu formalmente o Mandato Britânico para a Pa- lestina e Transjordânia: todas as terras a leste do Jordão foram, foram entregues ao Emirado da Jordânia, que esta- va sob controle do Reino Unido, deixando a parte a oeste da Jordânia como o Mandato Britânico da Palestina. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a Assembleia Geral da ONU (1947) aprova a chamada “Partilha da Palestina” com a criação de um Estado árabe, um Estado judeu e Jerusalém, que seria internacionalizada sob o comando da ONU. Em maio de 1948 a Grã-Bretanha retira suas forças da Pales- tina e logo a seguir os judeus fundam o Estado de Israel, imediatamente alvo de um ataque militar pelos Estados da Liga Árabe. Ao fim desta guerra (1949), o estado judeu expandiu-se para além dos limites que o plano de partilha lhe havia designado; o Estado Árabe (Palestina) ficou di- minuído e repartido em dois: a Cisjordânia, que em 1950 foi integrada ao reino da Jordânia, e o Território de Gaza, administrado pelo Egito a partir de 1948. Estratégia genocida: Israel controla as fontes de água da Palestina Numa das regiões mais áridas do planeta, as reservas de água representadas pela bacia do Jordão – queinclui as águas superficiais rio Jordão, o mar da Galileia, o rio Yar- muk e o baixo Jordão, além das águas subterrâneas dos grandes sistemas de aqüíferos do Oriente Médio, o aquífe- ro da Montanha (totalmente sob o solo da Cisjordânia), o 40 GEOGRAFIA aquífero de Basin e o aquífero Costeiro que se estende por quase toda faixa litorânea israelense até Gaza – sempre foram consideradas por Israel um elemento de vital importância estratégica, uma vez que a par de uma agressiva política de imi- gração apostou no desenvolvimento de uma indústria agro comercial que utiliza a água de forma intensa. Dessa forma, desde a sua fundação Israel priorizou projetos – inclusive militares – para garantir o controle da água na região. Em 1953 Israel iniciou a construção do Aqueduto Nacional, que viria a desviar o curso de mais da metade dos afluentes do Jordão para os projetos de irrigação do deserto de Neguev. Depois de mais de uma década de escaramuças com seus vizinhos árabes, em junho de 1967 Israel invadiu a Faixa de Gaza, a península do Sinai no Egito, a Cisjordânia e as colinas de Golã na Síria, anexando estas áreas, ricas em fontes de água, ao seu território, obtendo o controle total sobre os afluentes do Rio Jordão. A ONU determinou a devolução das áreas invadidas, mas Israel ignorou os apelos da comunidade internacional e deu início, já em setembro de 1967, à sua política de colonização, fixando milhares de judeus nos territórios ocupados. Em 2002, a construção do “muro de segurança” viabilizou o controle israelense da quase totalidade do aquífero de Basin, um dos três maiores da Cisjordânia, que fornece 362 milhões de metros cúbicos de água por ano. Segundo Noam Chomsky, “o Muro já abarcou algumas das terras mais férteis do lado oriental. E, o que é crucial, estende o controle de Is- rael sobre recursos hídricos críticos, dos quais Israel e seus assentados podem apropriar-se como bem entenderem”. Antes de devolver a Faixa de Gaza, Israel destruiu os recursos hídricos da região (mais de 996 quilômetros de tubulação foram destruídos pelo Exército israelense). E, até hoje, não há infraestrutura hídrica nas regiões palestinas. A estratégia de Israel é clara, e ficou consolidada em polêmica declaração de seu ministro da agricultura ao jornal Je- rusalém Post (1990) para justificar a ocupação do território da Cisjordânia: “é difícil conceber qualquer solução política consistente com a sobrevivência de Israel que não envolva o completo e contínuo controle israelense da água e do sistema de esgotos, e da infraestrutura associada, incluindo a distribuição, a rede de estradas, essencial para sua operação, manu- tenção e acessibilidade” . Nessa época, segundo o professor da Hebrew University, Haim Gvirtzman, dos 600 milhões de metros cúbicos de água retirados anualmente de fontes na Judéia e Samaria, os israelenses usavam quase 500 milhões, satisfazendo cerca de um terço de suas necessidades hídricas. Para ele, isso gerou um “direito adquirido sobre a água”. Questionado sobre o acesso palestino à água, o professor respondeu que “Israel deve somente se preocupar com um padrão mínimo de vida palestino, nada mais, o que significa suprimento de água para eles só para as necessidades urbanas. Isso chega a cerca de cinquenta/cem milhões de metros cúbicos por ano. Israel é capaz de suportar essa perda. Portanto, não deveríamos permitir que os palestinos desenvolvessem qualquer atividade agrícola, porque tal desenvolvimento virá em prejuízo de Israel. Certamente, nunca permitiremos aos palestinos suprir as necessidades hídricas da Faixa de Gaza por meio do aquífe- ro montanhoso. Se purificar a água do mar é uma solução realista, então deixemos que o façam para as necessidades dos residentes da Faixa de Gaza”. 41 GEOGRAFIA E na Guerra pela Água vale tudo: os israelenses bombardeiam tanques d’água, confiscam as bombas d’água, des- troem poços, proíbem que explorem novos poços e novas fontes d’água (a Cisjordânia, em 2003, contava com cerca de 250 fontes ilegais e a Faixa de Gaza, com mais de 2 mil). Israel irriga 50% das terras cultivadas, mas a agricultura na Palestina exige prévia autorização. A regra do jogo é clara: enquanto os palestinos não têm acesso à água para beber, os israelenses acostumaram-se ao seu uso irrestrito. Sendo assim, não é difícil compreender as pretensões palestinas ao exigir a criação de seu Estado tendo por base as fronteiras de 1967 e a retirada dos assentamentos judeus de todos os territórios ocupados desde junho daquele ano. Isso porque não é possível conceber a sobrevivência de qualquer estado e em particular da Palestina sem o controle efetivo do acesso e da distribuição dos recursos hídricos que necessita. Ao exercer através da força e da vergonhosa política de assen- tamentos o domínio destas áreas, a intenção de Israel tem sido claramente o de inviabilizar a existência do Estado Palestino. A chave do conflito entre israelenses e palestinos são os lençóis da Cisjordânia. Até 1967, os palestinos tinham acesso a eles livremente. Mas a ocupação israelense acabou com isso. Israel também ocupou as Colinas de Golã, da Síria, onde ficam as nascentes do rio Jordão. Evidência desta realidade é a localização da maior parte dos assentamentos judaicos em território palestino sempre próximo de reservas aquíferas cuja exploração será ainda mais facilitada com a conclusão da construção do famigerado muro de proteção na fronteira entre Israel e a Cisjordânia e a manutenção da ocupação das Colinas Golan, tomada dos sírios em 1967, onde mais do que razões de natureza militar visa assegurar o acesso e controle dos rios Jordão e Yar- mouk. Atualmente, cerca de 25% da água utilizada em Israel é captada nestas fontes em territórios ocupados. “Para além das manchetes do conflito do Oriente Médio, há uma batalha pelo controle dos limitados recursos hídricos na região. Embora a disputa entre Israel e seus vizinhos se concentre no modelo terra por paz, ”há uma realidade históri- ca de guerras pela água” – tensões sobre as fontes do Rio Jordão, localizadas nas Colinas de Golã, precederam a Guerra dos Seis Dias”. Raymond Dwek – The Guardian. Gestão conjunta, consumo igualitário de água, ética e consenso na água são palavras bonitas prometidas por Israel nas mesas de negociação e na mídia, mas que em nenhum momento refletem a realidade das práticas sionistas. Sobre isso é interessante a percepção de Shaddad Attili, diretor da Autoridade de Água Palestina, que em seu pronunciamento na Semana Mundial da Água em Estocolmo, denunciou o que todos já sabem mas procuram ignorar: a água está sendo usada como arma de guerra por Israel – “Não se enganem, pois não haverá um Estado palestino viável sem que possa acessar, controlar e administrar sufi- cientes recursos hídricos para cobrir suas necessidades internas, presentes e futuras, agrícolas e industriais”. O conflito árabe-israelense só vai ter fim quando forem criadas regras claras e objetivas para punir a violação dos direi- tos dos povos e nações à sua soberania sobre seus recursos e riquezas naturais, o que certamente colocaria Israel no banco dos réus pela tentativa de genocídio contra o povo palestino. O reconhecimento pretendido pela ANP junto à ONU abre caminho e passa a oferecer os recursos políticos necessários para tanto. 42 GEOGRAFIA A dinâmica da atmosfera: camadas e suas caracte- rísticas, composição e principais anomalias – El Niño, La Niña, buraco na camada de ozônio e aquecimento global: elementos e fatores do clima e os tipos climá- ticos Breve história da meteorologia Você já ouviu falar em Meteorologia? Ela está mui- to presente em nossas vidas, não é mesmo? É comum a gente questionar como será o tempo amanhã, se vai chover, se vai fazer Sol e assim por diante. Meteorologia é o estudo da atmosfera e seu comportamento frente às condições de tempo na superfície da Terra.Um pouco da História da Meteorologia O termo Meteorologia vem do filósofo grego Aris- tóteles, que por volta de 340 a.C. escreveu um livro de Filosofia Natural intitulado Meteorológica. Esse trabalho representa a soma do conhecimento sobre o tempo e cli- ma da época, assim como o material astronômico, geo- gráfico e químico. Alguns dos tópicos citados incluem nuvens, chuva, neve, vento, granizo, trovão e furacões. Naquela época, tudo que caía do céu ou era visto no céu era chamado de meteoro, daí o termo “Meteorolo- gia”. Atualmente, diferenciam-se aqueles meteoros que vêm do espaço (meteoroides) dos que são partículas de água e gelo observados em nossa atmosfera (hidrome- teoros). No livro Meteorológica, Aristóteles explica fenôme- nos atmosféricos de uma maneira indagativa, com pou- ca argumentação física. Muitas dessas indagações eram errôneas, mas foram aceitas por quase dois mil anos. Na verdade, o nascimento da Meteorologia como uma ge- nuína Ciência Natural não ocorreu até o surgimento dos primeiros instrumentos meteorológicos: o termômetro (aparelho usado para medir a temperatura ou as varia- ções de temperatura), no final do século XVI, o barômetro (instrumento para medir a pressão atmosférica), em mea- dos do século XVII, e o hidrômetro (instrumento de me- dição da umidade do ar), por volta do século XVIII. Com as observações obtidas dos instrumentos disponíveis, foi possível explicar certos fenômenos usando experiência científica e as leis da física que iam sendo desenvolvidas. Assim que mais e melhores instrumentos foram desenvolvidos nos anos 1800, a ciência da Meteorolo- gia progrediu. Ideias sobre ventos e tempestades foram surgindo – pelo menos parcialmente entendidas – e os primeiros mapas meteorológicos foram desenhados. Por volta de 1920, os conceitos de massas de ar e de frentes foram formulados na Noruega por Bergeron e Bjerknes, respectivamente. No século XX, precisamente nos anos 40, observações diárias de temperatura, umidade e pres- são, através de balões meteorológicos, deram a visão tri- dimensional da atmosfera. Figura 1 – A atmosfera terrestre vista do espaço A Meteorologia deu mais um passo adiante a par- tir do século XX, nos anos 50, quando foram desenvolvi- dos computadores de alta velocidade para solucionar as equações que descrevem o comportamento da atmosfera. Os computadores favoreceram a confecção de mapas de forma otimizada, o que permitiu um avanço na previsão de um estado futuro da atmosfera. Em 1960, foi lançado o primeiro satélite meteorológico, Tiros 1, trazendo infor- mações através de fotos tiradas dia e noite de nuvens e tempestades e dando a ideia visual de como circula o vapor d’água em volta do globo. Nos dias atuais, mais satélites com maior grau de precisão e sofisticação estão sendo de- senvolvidos para atender a computadores com cada vez mais capacidade de processamento de dados. Isso permite previsões de tempo e clima com mais precisão e por períodos mais longos, desde horas até dia (previsão de tempo) ou o comportamento de uma estação do ano (previsão de clima), mostrando, dessa forma, como deve ser o comportamento futuro da atmosfera. A pesquisa científica da atmosfera e as aplicações que dela decorrem definem o Universo e a abrangência da Meteorologia. Um dos principais objetivos operacionais da Meteorologia é a previsão do tempo, entendida aqui como a previsão dos fenômenos atmosféricos que ocorre- rão em um período futuro de até 15 dias. Além da previsão do tempo, há a determinação da tendência das flutuações climáticas, em geral referida simplesmente como tendên- cia climática. Nesse caso, a tendência procura estabelecer as condições das flutuações climáticas do próximo ano ou da próxima estação – se a temperatura, umidade do solo ou precipitação estará acima, abaixo ou próxima do valor esperado. Assim, a previsão do tempo é definida para dife- rentes escalas temporais e espaciais. Muitos dos sistemas atmosféricos apresentam uma combinação complexa nos fenômenos envolvidos, devido às suas diferentes escalas. Os prognósticos ou previsões dos fenômenos do tem- po local, principalmente daqueles fenômenos associados ao tempo severo (como tempestades, ventanias, rajadas, pancada de chuva e granizo), são muito importantes para uma vasta gama de atividades humanas, assim como para o entendimento das transformações rápidas do Meio Am- biente. Por exemplo, nas grandes cidades, os fenômenos meteorológicos mais críticos definem as condições de sa- 43 GEOGRAFIA lubridade e a qualidade ambiental às quais a população está sujeita. Entre esses fenômenos, estão as inundações, as estia- gens, a disponibilidade de água potável, as condições críticas de temperaturas extremas (ondas de calor), em geral asso- ciadas a baixos valores de umidade relativa do ar e os eventos críticos de poluição do ar, associados às concentrações de poluentes atmosféricos acima de valores aceitáveis à saúde humana, animal e vegetal. Assim, a população mundial urbana tem hoje uma percepção crescente quanto à sua vulnerabilidade aos riscos ambientais. Figura 2 – Exemplos de poluição atmosférica e das ações humanas contra o ambiente. A atmosfera é apenas um dos cinco sistemas que determinam o clima na Terra, além da criosfera, biosfera, litosfera e hidrosfera. É, também, um dos componentes do chamado Sistema Ambiental do Planeta, do qual também participam o Oceano, a superfície planetária em geral (solos, vegetação) e o conjunto dos seres vivos. Esse Sistema é caracterizado por uma complexa rede de inter-relações, envolvendo processos de trocas de energia. Sua função é promover a distribuição da energia térmica proveniente do Sol, reduzindo as amplitudes entre as temperaturas diurnas e noturnas; portanto, determi- nando o modo como a energia solar entra e sai do planeta. A fim de estudar a atmosfera terrestre, a Meteorologia faz uma divisão por camadas segundo seu perfil térmico. Trata- remos, então, da composição da atmosfera e das suas diferentes camadas. Composição da atmosfera O ar atmosférico é constituído por diferentes gases que estão agregados à superfície terrestre pela atração da gravida- de. Não existe um limite superior para a atmosfera no sentido físico, verificando-se apenas uma progressiva rarefação do ar com a altitude. Para estudos em Meteorologia, geralmente se considera que a atmosfera terrestre possui entre 80 e 100 km de espessura. Isso significa que ela representa cerca de 1,6% do raio médio do planeta. No entanto, sob o ponto de vista da Meteorologia, a porção mais importante da atmosfera se restringe a apenas 0,3% do raio do planeta, justificando, portanto, a crescente preocupação em preservá-la. A temperatura do ar é a grandeza metrológica utilizada para dividir a atmosfera terrestre em camadas. A relação entre temperatura e altura (assim como os limites entre as diversas camadas) varia, entre outros fatores, em função do local e do período do ano. Sob o ponto de vista termodinâmico, a atmosfera é um sistema aberto (há intercâmbio de massa com a superfície terrestre e com o espaço), multicomponente, com várias fases envolvidas, tais como ganho e perdas de energia, além da dispersão de massa. A fase dispersante é o ar propriamente dito: uma mistura homogênea de Nitrogênio (N2), Oxigênio (O2), Argônio (A), Dióxido de Carbono (CO2) e outros gases que figuram em pequenas porções, chamados constituintes menores, conforme pode ser visto na Tabela I, juntamente com o vapor d’água. As fases dispersas – líquida e sólida – estão representadas por partículas de natureza hídrica ou não, em suspensão ou em queda livre. O estudo das fases dispersas é, por comodidade, feito separadamente. Para entender bem os processos físicos que se produzem na atmosfera, é necessário, primeiramente, conhecer sua composição. Na análise da composição do aré conveniente suprimir o vapor d’água exatamente porque sua concentração varia bastante no espaço e no tempo, alterando as proporções dos demais constituintes. Quando se desumidifica o ar, obtém-se o chamado “ar seco”. A composição média do ar seco é praticamente constante até cerca de 25 km de altitude (Tabela I). Você deve perceber que, como se trata de constituintes encontrados em pequenas proporções, é evidente que essas flutuações não são suficientes para alterar de modo expressivo a composição do ar seco. 44 GEOGRAFIA Importância dos principais gases atmosféricos Nitrogênio: Embora seja o constituinte mais abundante, não de- sempenha nenhum papel relevante, em termos químicos e energéticos, nas vizinhanças da superfície terrestre. Na alta atmosfera, no entanto, esse gás absorve um pouco de energia solar de pequeno comprimento de onda (no domí- nio do ultravioleta), passando à forma atômica. Oxigênio e Ozônio: O Oxigênio desempenha um papel essencial: do ponto de vista biológico, torna possível a vida aeróbica da Terra. A ele se deve a oxigenação de compostos orgânicos, através do processo fi siológico da respiração. Além disso, possibi- lita a formação de Ozônio na atmosfera. Na alta atmosfera, o Oxigênio Molecular (O2) se dis- socia quando absorve energia ultravioleta proveniente do Sol. A energia que provoca a fotodissociação do Oxigênio Diatômico possui comprimento de onda entre 1,3 × 10-4 e 2,0 × 10-4 cm, aproximadamente. A reassociação fotoquí- mica em três átomos de Oxigênio é a maior responsável pela formação do Ozônio (O3) na atmosfera. No entanto, o Ozônio também se forma através das descargas elétricas, mas essa quantidade é insignificante. O Ozônio (O3) é encontrado desde níveis próximos da superfície terrestre até cerca de 100 km de altitude. Por ser a mais rica em Ozônio, a camada compreendida entre 10 e 70 km é conhecida como ozonosfera. A concentração des- se gás varia com a latitude e, em uma dada latitude, com a época do ano, com a hora do dia e ainda com a maior ou menor atividade do Sol. Quando se considera a média es- paço-temporal para todo o planeta, a maior concentração de O3 situa-se em torno de 35 km de altitude. O Ozônio é um gás instável. Ao absorver radiação solar ultravioleta, dissocia-se, produzindo uma molécula e um átomo de Oxigênio. Graças às propriedades radiativas que possui, o Ozônio se torna um dos mais importantes gases da atmosfera ter- restre. Sabe-se que o excesso de radiação solar ultravioleta que passaria a atingir a superfície terrestre caso a concen- tração de ozônio diminuísse causaria grandes queimaduras na epiderme dos seres vivos, aumentando drasticamente a incidência de câncer de pele. Por outro lado, se a con- centração de ozônio aumentasse, ao ponto de absorver toda a radiação ultravioleta solar, não haveria formação de vitamina D no organismo animal; por consequência, a formação óssea fi caria prejudicada. O conhecimento dos perigos causados pela ação humana tem provocado pro- testos e movimentos de alerta em todo o mundo. Diver- sos órgãos governamentais ou não-governamentais têm produzido materiais didáticos e/ou educacionais, em geral baseados em avaliações do Intergovernmental Panel on Climate Change – IPCC (traduzindo, Painel Intergoverna- mental de Mudanças Climáticas). Vapor d’água: A concentração de vapor d’água na atmosfera, em- bora relativamente pequena, ultrapassa 4% em volume, é bastante variável e, em geral, diminui com a altitude. Em regiões tropicais e úmidas, por exemplo, o vapor d’água pode ser encontrado, próximo à superfície, em uma pro- porção tão alta quanto 40 gramas por quilograma de ar seco. Nas zonas polares frias e secas, essa cifra pode cair para 0,5 grama por quilograma de ar. Apesar de sua baixa concentração, o vapor d’água é um constituinte atmosférico importantíssimo por interferir na distribuição da temperatura: em primeiro lugar, porque participa ativamente dos processos de absorção e emissão de calor sensível para a atmosfera; em segundo, atua como veículo de energia ao transferir calor latente de evaporação de uma região para outra, o qual é liberado como calor sensível, quando o vapor se condensa. Além disso, deve-se ressaltar que o vapor d’água é o único constituinte da atmosfera que muda de estado em condições naturais; em consequência disso, é o respon- sável pela origem das nuvens e por uma extensa série de fenômenos atmosféricos importantes (chuva, neve, orvalho etc.), e sua proporção na atmosfera determina o nível de conforto ambiental. Gás Carbônico: Do total de Dióxido de Carbono existente na Terra, cer- ca de 98% se encontra dissolvido na água dos oceanos, sob a forma de bicarbonato. Quase todo o restante está na atmosfera, onde sua concentração oscila muito pouco, em torno de 0,5 g por quilograma de ar., porém, essa concen- tração pode aumentar consideravelmente nas vizinhanças dos grandes parques industriais e dos aglomerados urba- nos de maior porte. Há um intercâmbio contínuo entre o Gás Carbônico, a atmosfera e os seres vivos (respiração e fotossíntese), os materiais da crosta (combustão e oxidação) e os oceanos. Cerca de 90% dos constituintes vegetais não provêm do solo, mas da atmosfera, através da atividade fotossintéti- ca. O Carbono, integrante das moléculas sintetizadas pelos vegetais, provém do Gás Carbônico atmosférico. O CO2 também desempenha um papel de destaque na energéti- ca do sistema globo-atmosfera, absorvendo energia solar e terrestre de determinados comprimentos de onda. Por outro lado, emite energia em direção à superfície terrestre. 45 GEOGRAFIA Camadas da atmosfera A atmosfera é apenas um dos cinco sistemas que de- terminam o clima na Terra, além da criosfera, biosfera, litosfera e hidrosfera. Sua função é promover a distribui- ção da energia térmica proveniente do Sol, reduzindo as amplitudes entre as temperaturas diurnas e noturnas e, portanto, determinando o modo como a energia solar entra e sai do planeta. Atualmente, os meteorologistas sabem que, para prever a futura evolução da atmosfera, devem considerá -la como um todo. Portanto, utilizam cada vez mais saté- lites, foguetes e equipamentos eletrônicos para estudar a alta atmosfera, ampliando, ao mesmo tempo, as redes de estações meteorológicas na superfície da Terra. A temperatura do ar é a grandeza metrológica uti- lizada para dividir a atmosfera terrestre em camadas. A relação entre temperatura e altura e os limites entre as diversas camadas variam, entre outros fatores, em função do local e o período do ano. Segundo o critério técnico, a atmosfera está dividida em quatro camadas aproximadamente homogêneas – a troposfera, estratosfera, mesosfera e termosfera – junto com a ionosfera e a exosfera, sendo as primeiras separa- das por três zonas de transição: tropopausa, estratopausa e mesopausa. No estudo dessas camadas, não se pode perder de vista que se trata de um meio fluido; assim, não se pode esperar que existam limites definidos entre elas. Tampouco pode ser esquecido que o critério térmico se baseia na distribuição vertical média da temperatura do ar, observada em todo o planeta. Isso quer dizer que, em um dado instante e região da atmosfera, as condições reais podem ser bastante diferentes das correspondentes à média planetária. Preste atenção. A seguir, você verá as cinco camadas atmosféricas mais extensas e utilizadas em Meteorologia: Troposfera É a camada atmosférica que se estende da superfície da Terra até a base da estratosfera, e aquela considerada a mais importante sob o ponto de vista meteorológico. Essa camada responde por oitenta por cento do peso atmosférico, e é a única camada em que os seres vivos podem respirar normalmente. Nela também se concentra quase todo o vapor d’água da atmosfera.A sua espessura média é de aproximadamente 12 km, atingindo até 17 km nos trópicos e reduzindo-se para em torno de sete quilômetros nos polos. Em termos médios para todo o planeta, a temperatu- ra do ar diminui com a altitude cerca de -6,5°C por quilô- metro. Esse fato é coerente, pois o aquecimento do ar na superfície se efetua basicamente por condução, devido ao aquecimento pela energia solar. Estratosfera A estratosfera se caracteriza pelos movimentos de ar em sentido horizontal. Fica situada entre 7 e 17 até 50 km de altitude aproximadamente; é a segunda camada da atmosfera, compreendida entre a troposfera e a me- sosfera. A temperatura aumenta à medida que aumenta a altura (de -50 a 10ºC). Apresenta pequena concentração de vapor d’água e temperatura constante até a região limítrofe, denominada estratopausa. Muitos aviões a jato circulam na estratosfera devido à sua estabilidade. É nes- sa camada que começa a difusão da luz solar (que origina o azul do céu) e onde encontramos a camada de Ozônio. Mesosfera É a camada atmosférica onde há uma significativa queda de temperatura, chegando até -90°C em seu topo. Está situada entre a estratopausa (em sua parte inferior) e mesopausa (em sua parte superior), entre 50 e 85 km de altitude. É na mesosfera que ocorre o fenômeno da com- bustão dos meteoritos. A mesosfera é uma região pouco conhecida, mas se sabe que ela concentra a maior parte do Ozônio. Acima da mesosfera, estende-se uma camada apro- ximadamente isotérmica, que pode ultrapassar 10 km de espessura: a mesopausa. Nessa faixa seriam formadas as nuvens noctilucentes, visíveis, em certas ocasiões, nas re- giões próximas ao Polo Norte, quando o Sol se encontra 10 a 15° abaixo do plano do horizonte do observador. Termosfera A termosfera se situa para além dos 90 km de altitu- de, e se caracteriza por um contínuo aumento da tem- peratura média do ar com a altitude. Deve-se ressaltar, porém, que o conceito de média tem significado muito restrito nessa região: entre o dia e a noite, a temperatura do ar pode oscilar várias centenas de graus em torno do valor médio. Essas temperaturas não são medidas dire- tamente, mas estimadas a partir da pressão e da massa específica, já que o grau de rarefação local não possibilita o uso de processos termométricos convencionais. Nessa camada, há uma concentração de íons (plas- ma ionosférico) que aumenta com a altitude; por esse motivo, alguns autores a denominam de ionosfera. A io- nosfera se localiza entre sessenta e mil quilômetros de altitude. Devido à sua composição, reflete ondas de rádio até aproximadamente 30 MHz. A aurora polar é um fenômeno óptico composto de um brilho, observado nos céus noturnos em regiões pró- ximas a zonas polares: quando no hemisfério norte, é chamada de aurora boreal; quando no hemisfério sul, é chamada de aurora austral. Acontece em decorrência do impacto de partículas de vento solar no campo magné- tico terrestre. 46 GEOGRAFIA Figura 4 – Aurora boreal. Exosfera A exosfera é a camada mais externa da atmosfera. Situada acima da ionosfera, mede de 600 a 1600km, e é zona de tran- sição com o espaço exterior. Extremamente rarefeita, composta de 50% de hidrogênio e 50% de hélio, possui temperaturas em torno de 1000ºC, devido à grande presença de plasma. É para atravessar essa camada que as naves espaciais precisam ser construídas com materiais resistentes a altas temperaturas. A Terra possui, ainda, duas camadas exteriores. São os cinturões de radiação de Van Allen; o mais próximo deles situa-se a cerca de 3600 km de altitude acima do Equador magnético terrestre. Esses cinturões se compõem de partículas subatô- micas dotadas de elevada energia, principalmente elétrons. Os cinturões magnéticos de Van Allen protegem a superfície terrestre do incessante bombardeio de raios cósmicos vindos do espaço, altamente nocivos aos seres vivos. Vale salientar que cada camada apresenta suas próprias características termodinâmicas e de escoamento atmosférico. Figura 5 – Camadas Atmosféricas. Perfil térmico A Figura 5 mostra a variação de temperatura com a altitude. As temperaturas mais elevadas são observadas na super- fície terrestre, na proximidade da estratopausa e na termosfera – resultantes da radiação solar. A superfície do globo absorve a maior parte da radiação solar, e, portanto, a troposfera está aquecida por baixo. Ao contrário, a fonte de calor da estratosfera encontra-se em sua parte superior, isto é, nos níveis em que o Ozônio absorve as radiações ultravioletas. A mesosfera é aquecida também por baixo, enquanto que na termosfera as camadas superiores são mais quentes. As elevadas temperaturas próximas da estratopausa e na parte superior da termosfera indicam que as partículas se movem muito rapidamente. Entretanto, não se deve esquecer que, nesses mesmos níveis, a atmosfera tem uma densidade muito pequena. Como o número de partículas é muito maior próximo da superfície terrestre, a maior parte da energia tér- mica da atmosfera se concentra na parte inferior da troposfera. 47 GEOGRAFIA Na troposfera, a temperatura diminui regularmente até o limite da tropopausa. Como esta está mais elevada sob o equador, é precisamente próximo da tropopausa equatorial que se observam as temperaturas mais baixas da atmosfera. As temperaturas nas partes altas da estratosfera são tão elevadas quanto as próximas da superfície da Terra. Nesses ní- veis, a atmosfera é pouco densa; portanto, a radiação solar se transfere a um número relativamente pequeno de moléculas, o que faz com que sua energia cinética aumente muito. Desse modo, a temperatura do ar se eleva. Os fenômenos meteorológicos observados na estratosfera são muito diferentes dos da troposfera. Há menos convec- ção na estratosfera, já que sua parte superior é quente, enquanto a inferior é fria. Praticamente não se formam nuvens na estratosfera, com exceção das nuvens madrepérolas, que são observadas nas altitudes altas, na ordem de 20 a 30 km. Anomalias Os fenômenos atmosféricos podem ser considerados como os eventos climáticos que ocorrem naturalmente, ou seja, não são consequência da ação humana, muito embora a interferência antrópica possa intensificar ou alterar a dinâmica de tais fenômenos. Dentre os principais exemplos, podemos citar os ciclones (furacões, tufões, tornados, etc.), inversão térmi- ca, efeito estufa, El Niña e La Niña, dentre outros. A seguir, você poderá conferir um breve resumo com as principais características de cada um desses fenômenos: Formação de nuvens Consequência direta da umidade do ar, as nuvens são formadas pelo vapor d’água mais leve do que o ar, que se con- densa. Quando essa condensação ocorre próxima aos solos, forma-se a neblina. Neste sentido, há ainda a umidade, que é a quantidade de água que se encontra no ar na forma de vapor ou de pe- quenas gotas. Esta é resultante e integrante dos processos que compõem o ciclo hidrológico: evaporação, condensação e precipitação. 48 GEOGRAFIA Temperatura A temperatura é um fenômeno atmosférico que diz respeito ao maior ou menor calor dos elementos na super- fície da terra. A sua variação depende de vários elementos, como: altitude, latitude, continentalidade, maritimidade e as ações humanas. Pressão Atmosférica Por muito tempo se acreditou que o ar não tinha peso algum. No entanto, após uma experiência do cientista ita- liano Torricelli, constatou-se que a atmosfera exerce uma pressão sobre a superfície. Esse peso pode ser medido por um aparelho chamado barômetro. A tendência é que os lugares mais altos tenham menor pressão atmosférica do que os lugares mais baixos. Dessas variações de pressão surgem os ventos, que se deslocam das zonas de maior pressão para as de menor. Ventos Outro importante fenômeno atmosférico, o vento é definido comoo ar em movimento. Apesar de muitas pes- soas pensarem que os ventos são uma coisa só, eles são divididos em diferentes tipos: locais, periódicos, constan- tes, brisas e monções. Precipitações Além das nuvens, a umidade também é responsável pelas precipitações, ou seja, a formação de chuvas, neves, geadas, orvalhos e granizos. Após a formação das nuvens, as gotículas de água acumulam-se a ponto de ficarem mais pesadas do que o ar, ocorrendo a precipitação. Além dos fenômenos citados acima, há ainda outros elementos que tem se tornado cada vez mais comum no Brasil e no mundo, como Ciclone Tropical – ou Furacão –, Ciclone Extratropical, Tornado, Hidrometeoros – são consi- derados gotas de nuvem, de chuva, cristais, neve, arco-íris, entre outros –, Frentes frias e quentes, linhas de instabilida- de, geada, seca e El Niño. Para especialistas, essa intensificação de acontecimen- tos desses fenômenos tem como principal e única causa as ações humanas, que destroem, cada vez mais, o ecossiste- ma, causando assim um desequilíbrio ambiental. Ciclones e tornados Os ciclones, por definição, são fortes ventos carrega- dos de umidade que giram em sentido circular em razão do efeito coriólis. Geralmente, os ventos provocados apre- sentam velocidade superior a 200 km/h e possuem uma larga extensão, sendo completamente vistos somente por imagens de satélite. Os ciclones tropicais mais comuns for- mam-se em áreas de baixas latitudes, entre 5º e 20º, en- quanto os ciclones extratropicais formam-se em regiões de elevadas latitudes. Quando um ciclone acontece no Ocea- no Pacífico ou no Índico, ele recebe o nome de Tufão. Já quando ele acontece no Oceano Atlântico, recebe o nome de Furacão. Os tornados, por sua vez, são fenômenos também motivados pelo rápido deslocamento do vento em forma circular, porém em menores extensões, mas com uma ca- pacidade destrutiva até maior, haja vista que os seus ven- tos podem chegar a 800 km/h! Eles são muito comuns no interior continental da América do Norte. Inversão térmica A inversão térmica é um fenômeno atmosférico loca- lizado que se caracteriza pela inversão da posição das ca- madas de ar quente e frio, fazendo com que o ar encontre dificuldade para circular. É considerada um problema am- biental quando a sua manifestação acontece em ambientes urbanos, pois impede ou dificulta a dispersão dos poluen- tes enviados à atmosfera, gerando o acúmulo da poluição no espaço das cidades. Sabemos que o ar frio sobe e o ar quente, mais denso, desce. Ao subir, o ar quente esfria, e o ar fio, ao descer, aquece-se e, posteriormente, sobe, provocando a ocorrên- cia de um ciclo de movimentação do ar no sentido circular vertical. O problema é que, em dias mais frios, a superfície não consegue aquecer completamente o ar ao seu redor, por isso ele fica estacionado e não se movimenta, o que impede a circulação atmosférica local. Efeito Estufa O efeito estufa é o fenômeno atmosférico que garante a manutenção do calor na Terra através da reflexão e ab- sorção dos raios solares. Resumidamente, alguns gases na atmosfera refletem parte da radiação solar recebida pelo planeta, e o restante bate na superfície e retorna para o ar, onde é novamente refletido, em partes, para a superfí- cie em um processo contínuo. Caso não existisse o efeito estufa, estima-se que o planeta apresentaria temperaturas inferiores a -15ºC, o que dificultaria a existência de vida em razão da ausência de água na forma líquida. Por ser um evento climático natural, o efeito estufa também pode ser considerado como um fenômeno atmos- férico. No entanto, a sua intensificação vem sendo alvo da preocupação de muitos cientistas, que afirmam que, caso a poluição do ar continue ocorrendo, o efeito estufa poderá intensificar-se e elevar drasticamente as temperaturas da atmosfera no futuro. El Niño e La Niña O El Niño é um fenômeno atmosférico oceânico cau- sado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico nas proximidades da costa oeste do Peru e do Equador. Com isso, há um enfraquecimento dos ventos alíseos na região e um maior acúmulo de águas superficiais mais quentes, que liberam uma massa de ar mais aquecida e interferem no clima de várias partes do mundo. No Brasil, por exemplo, a estiagem do Nordeste eleva-se e as chuvas do Centro-Oes- te e Sudeste são mais intensas. 49 GEOGRAFIA O La Niña também é um fenômeno atmosférico oceânico que, assim como o El Niño, é cíclico, embora sua ocorrência seja menos frequente. Ocorre a partir do resfriamento anômalo das águas, fazendo com que outras resultantes climáticas ocorram, a maioria delas inversa aos efeitos do El Niño. O Buraco na Camada de Ozônio A camada de ozônio é uma “capa” desse gás que envolve a Terra e a protege de vários tipos de radiação, sendo que a principal delas, a radiação ultravioleta, é a principal causadora de câncer de pele. No último século, devido ao desenvolvi- mento industrial, passaram a ser utilizados produtos que emitem clorofluorcarbono (CFC), um gás que ao atingir a camada de ozônio destrói as moléculas que a formam (O3), causando assim a destruição dessa camada da atmosfera. Sem essa camada, a incidência de raios ultravioletas nocivos à Terra fica sensivelmente maior, aumentando as chances de contração de câncer. Raios ultravioletas são ondas semelhantes a ondas luminosas, as quais se encontram exatamente acima do extremo violeta do espectro da luz visível. O comprimento de onda dos raios ultravioletas varia de 4,1 x 10-4 até 4,1 x 10-2 mm, sendo que suas ondas mais curtas são as mais prejudiciais. Os principais responsáveis pelo buraco na camada de ozônio, os gases CFC (clorofluorcarbonetos) – eram utilizados como refrigerantes e gás propulsor de aerosóis– foram proscritos pelo Protocolo de Montreal de 1987, mas ainda podem permanecer na atmosfera durante muitos anos. O Buraco da camada de ozônio A região mais afetada pela destruição da camada de ozônio é a Antártida. Nessa região, principalmente no mês de setembro, quase a metade da concentração de ozônio é misteriosamente sugada da atmosfera. Esse fenômeno deixa à mercê dos raios ultravioletas uma área de 31 milhões de quilômetros quadrados, maior que toda a América do Sul, ou 15% da superfície do planeta. Nas demais áreas do planeta, a diminuição da camada de ozônio também é sensível; de 3 a 7% do ozônio que a com- punha já foi destruído pelo homem. Mesmo menores que na Antártida, esses números representam um enorme alerta ao que nos poderá acontecer, se continuarmos a fechar os olhos para esse problema. A Reação As moléculas de clorofluorcarbono, ou Freon, passam intactas pela troposfera, que é a parte da atmosfera que vai da superfície até uma altitude média de 10.000 metros. Em seguida essas moléculas atingem a estratosfera, onde os raios ultravioletas do sol aparecem em maior quantidade. Esses raios quebram as partículas de CFC (ClFC) liberando o átomo de cloro. Este átom, então, rompe a molécula de ozônio (O3), formando monóxido de cloro (ClO) e oxigênio (O2). A reação tem continuidade e logo o átomo de cloro libera o de oxigênio que se liga a um átomo de oigênio de outra molécula de ozônio, e o átomo de cloro passa a destruir outra molécula de ozônio, criando uma reação em cadeia. Por outro lado, existe a reação que beneficia a camada de ozônio: Quando a luz solar atua sobre óxidos de nitrogênio, estes podem reagir liberando os átomos de oxigênio, que se combinam e produzem ozônio. 50 GEOGRAFIA Estes óxidos de nitrogênio são produzidos continuamente pelos veículos automotores, resultado da queima de com- bustíveis fósseis. Infelizmente, a produção de CFC, mesmo sendo menor que a de óxidos de nitrogênio, consegue, devido à reação em cadeia já explicada, destruir um número bem maior de moléculas de ozônio que as produzidas pelos automóveis.Porque na Antártida? Em todo o mundo as massas de ar circulam, sendo que um poluente lançado no Brasil pode atingir a Europa devido a correntes de convecção. Na Antártida, por sua vez, devido ao rigoroso inverno de seis meses, essa circulação de ar não ocorre e, assim, formam-se círculos de convecção exclusivos daquela área. Os poluentes atraídos durante o verão perma- necem na Antártida até a época de subirem para a estratosfera. Ao chegar o verão, os primeiros raios de sol quebram as moléculas de CFC encontradas nessa área, iniciando a reação. Em 1988, foi constatado que na atmosfera da Antártida, a concentração de monóxido de cloro é cem vezes maior que em qualquer outra parte do mundo. No Brasil ainda há pouco com que se preocupar No Brasil, a camada de ozônio ainda não perdeu 5% do seu tamanho original, de acordo com os instrumentos medi- dores do INPE (Instituto de Pesquisas Espaciais). O instituto acompanha a movimentação do gás na atmosfera desde 1978 e até hoje não detectou nenhuma variação significante, provavelmente pela pouca produção de CFC no Brasil em compa- ração com os países de primeiro mundo. No Brasil apenas 5% dos aerosóis utilizam CFC, já que uma mistura de butano e propano é significativamente mais barata, funcionando perfeitamente em substituição ao clorofluorcarbono. Os Males A principal consequência da destruição da camada de ozônio será o grande aumento da incidência de câncer de pele, desde que os raios ultravioletas são mutagênicos. Além disso, existe a hipótese segundo a qual a destruição da camada de ozônio pode causar desequilíbrio no clima, resultando no efeito estufa, o que causaria o descongelamento das geleiras polares e consequente inundação de muitos territórios que atualmente se encontram em condições de habitação. De qualquer forma, a maior preocupação dos cientistas é mesmo com o câncer de pele, cuja incidência vem aumen- tando nos últimos vinte anos. Cada vez mais aconselha-se a evitar o sol nas horas em que esteja muito forte, assim como a utilização de filtros solares, únicas maneiras de se prevenir e de se proteger a pele. A Poluição do Ar A poluição do ar é definida como sendo a degradação da qualidade do ar como resultado de atividades diretas ou indiretas que: - Prejudiquem a saúde, a segurança e o bem-estar da população; - criem condições adversas às atividades sociais e econômicas; - afetem desfavoravelmente a biota (organismos vivos); - afetem as condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente; - lancem matérias ou energia em desacordo com os padrões ambientais estabelecidos em leis federais [Lei Federal no 6938, de 31 de agosto de 1981, regulamentada pelo decreto no 88 351/83]. 51 GEOGRAFIA Poluição e sua fonte Para facilitar o estudo do assunto, identificamos quatro tipos principais de poluição do ar, segundo as fontes poluidoras. Poluição de origem natural: resultante de processos naturais como poeiras, nevoeiros marinhos, poeiras de origem extraterrestre, cinzas provenientes de queimadas de campos, gases vulcânicos, pólen vegetal, odores ligados à putrefação ou fermentação natural, entre outros. Poluição relacionada aos transportes: resultante da ação de veículos automotores e aviões. Devido a combustão da gasolina, óleo diesel, álcool etc., os veículos automotores eliminam gases como o monóxido de carbono, óxido de enxofre, gases sulfurosos, produtos à base de chumbo, cloro, bromo e fósforo, além de diversos hidrocarbonetos não queimados. Variando de acordo com o tipo de motor, os aviões eliminam para a atmosfera: cobre, dióxido de carbono, monoaldeídos, benzeno etc. Poluição pela combustão: resultante de fontes de aquecimento domésticos e de incinerações, cujos agentes poluen- tes são: dióxido de carbono, monóxido de carbono, aldeídos, hidrocarbonetos não queimados, compostos de enxofre. O anidrido sulfuroso, por exemplo, pode transformar-se em anidrido sulfúrico, e este, em ácido sulfúrico, que precipita jun- tamente com as águas das chuvas. Poluição devida às indústrias: resultante dos resíduos de siderúrgicas, fábricas de cimento e de coque, indústrias quími- cas, usinas de gás e fundição de metais ferrosos. Entre esses resíduos encontram-se substâncias tóxicas e irritantes, poluen- tes fotoquímicos, poeiras etc. Além da poeira de natureza química, com grãos de tamanho dos mais diferentes, os principais poluentes industriais encontram-se no estado gasoso, sendo que os mais frequentes são: dióxido de carbono, monóxido de carbono, óxido de nitrogênio, compostos fluorados, anidrido sulfuroso, fenóis e álcoois de odores desagradáveis. Inversão térmica 52 GEOGRAFIA Um fenômeno interessante na atmosfera é o da inversão térmica, ocasião na qual a ação dos poluentes do ar pode ser bastante agravada. A coisa funciona assim: normalmente, o ar próximo à superfície do solo está em constante movimento vertical, devido ao processo convectivo (correntes de convecção). A radiação solar aquece a superfície do solo e este, por sua vez, aquece o ar que o banha; este ar quente é menos denso que o ar frio, desse modo, o ar quente sobe (movimento vertical ascendente) e o ar frio, mais denso, desce (movimento vertical descendente). Este ar frio que toca a superfície do solo, recebendo calor dele, esquenta, fica menos denso, sobe, dando lugar a um novo movimento descendente de ar frio. E o ciclo se repete. O normal, portanto, é que se tenha ar quente numa camada próxima ao solo, ar frio numa camada logo acima desta e ar ainda mais frio em camadas mais altas, porém, em constantes trocas por correntes de convecção. Esta situação normal do ar colabora com a dispersão da poluição local. Na inversão térmica, condições desfavoráveis podem, entretanto, provocar uma alteração na disposição das camadas na atmosfera. Geralmente no inverno, pode ocorrer um rápido resfriamento do solo ou um rápido aquecimento das ca- madas atmosféricas superiores. Quando isso ocorre, o ar quente ficando por cima da camada de ar frio, passa a funcionar como um bloqueio, não permitindo os movimentos verticais de convecção: o ar frio próximo ao solo não sobe porque é o mais denso e o ar quente que lhe está por cima não desce, porque é o menos denso. Acontecendo isso, as fumaças e os gases produzidos pelas chaminés e pelos veículos não se dispersam pelas correntes verticais. Os rolos de fumaça das chaminés assumem posição horizontal, ficando nas proximidades do solo. A cidade fica envolta numa “neblina” e conse- quentemente a concentração de substâncias tóxicas aumenta muito. O fenômeno é comum no inverno de cidades como Nova Iorque, São Paulo e Tóquio, agravado pela elevada concen- tração de poluentes tóxicos diariamente despejados na atmosfera. Aquecimento Global O Aquecimento Global é um fenômeno de ampla discussão e impacto que, embora não seja de consenso científico, vem gerando uma grande preocupação na sociedade. A maioria dos cientistas acredita que o Aquecimento Global é real e é causado pelo ser humano O aquecimento global designa o aumento das temperaturas médias do planeta ao longo dos últimos tempos, o que, em tese, é causado pelas práticas humanas – embora existam discordâncias quanto a isso no campo científico. A principal causa desse problema climático que afeta todo o planeta é a intensificação do efeito estufa, fenômeno natural responsável pela manutenção do calor na Terra e que vem apresentando uma maior intensidade em razão da poluição do ar resultante das práticas humanas. Sob o ponto de vista oficial, o principal órgão responsável pela sistematização e divulgação de estudos relacionados com o aquecimento global é o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Para o IPCC, o problema em questão não deve sequer ser motivo de discussão em termos de sua existência ou não, pois, segundo ele, é mais do que comprovada a série de mudanças climáticas ocorridas nos últimostempos e a participação do ser humano nesse processo. Dados levantados por cientistas vinculados ao IPCC afirmam que o século XX, em razão dos desdobramentos am- bientais das Revoluções Industriais, foi o período mais quente da história desde o término da última glaciação, com um aumento médio de 0,7ºC nas temperaturas de todo o planeta. Ainda segundo o órgão, as previsões para o século XXI não são nada animadoras, pois haverá a elevação de mais 1ºC, em caso de preservação da atmosfera, ou de 1,8 a 4ºC, em um cenário mais pessimista que apresente maior poluição. 53 GEOGRAFIA Quais são as causas do Aquecimento Global? As principais causas do Aquecimento Global estão re- lacionadas, para a maioria dos cientistas, com as práticas humanas realizadas de maneira não sustentável, ou seja, sem garantir a existência dos recursos e do meio ambiente para as gerações futuras. Assim, formas de degradação ao meio natural como a poluição, as queimadas e o desmata- mento estariam na lista dos principais elementos causado- res desse problema climático. O desmatamento e a poluição são as principais causas do aquecimento global O desmatamento das áreas naturais contribui para o aquecimento global no sentido de promover um desequi- líbrio climático decorrente da remoção da vegetação que tem como função o controle das temperaturas e dos regi- mes de chuva. A floresta amazônica, por exemplo, é uma grande fornecedora de umidade para a atmosfera, pro- vendo um maior controle das temperaturas e uma certa frequência de chuvas para boa parte do continente sul-a- mericano, conforme estudos relacionados com os chama- dos rios voadores. Se considerarmos essa dinâmica em ter- mos mundiais, pode-se concluir que a remoção das flores- tas contribui para o aumento das médias térmicas e para a redução dos índices de pluviosidade em vários lugares. Outra causa para as mudanças climáticas é a emissão dos chamados gases-estufa. Os principais elementos são: o dióxido de carbono (CO2), gerado em maior parte pela queima de combustíveis fósseis; o gás metano (CH4), ge- rado na pecuária, na queima de combustíveis e da biomas- sa e também em aterros sanitários; o óxido nitroso (N2O), produzido pelas fábricas; além de gases com flúor, tais como os fluorhidrocarbonos e os perfluorocarbonos. Além disso, a poluição das águas também é um fa- tor relacionado com o aquecimento global. No caso dos oceanos, existem seres vivos responsáveis pela absorção de gás carbônico e emissão de oxigênio: os fitoplânctons e as algas marinhas. Portanto, a destruição de seu habitat também pode interferir diretamente na dinâmica atmosfé- rica global. As consequências do aquecimento global Os efeitos do aquecimento global são diversos e po- dem estar relacionados com a atmosfera, hidrosfera e tam- bém com a biosfera. Podemos citar como consequência do aquecimento global, primeiramente, o fenômeno do degelo que vem ocorrendo nas calotas polares. Com isso, a área de várias espécies animais, sobretudo no Ártico, está ficando cada vez mais diminuta, o que acarreta problemas ambientais de ordem ecológica. Além disso, para muitos estudiosos, isso vem causando a elevação do nível dos oceanos, embora esse fenômeno esteja mais associado ao degelo que ocorre na Antártida e também na Groenlândia. O degelo é um dos efeitos do aquecimento global Outro efeito ainda mais latente é o aumento das tem- peraturas, conforme já mencionado. Assim, muitas espé- cies podem entrar em extinção, além de a disponibilidade de água em várias partes do globo tornar-se cada vez me- nor em razão da maior ocorrência de secas em períodos mais prolongados. Esse tipo de situação prejudica a oferta de recursos naturais para os seres vivos e a manutenção da cadeia alimentar. Com o aquecimento global, fenôme- nos cíclicos e anomalias climáticas vêm se tornando cada vez mais frequentes, tais como o El Niño, que, entre outras consequências, proporciona secas severas em muitas re- giões do globo. De toda forma, ainda não existe um consenso específi- co sobre a totalidade dos fenômenos causados pelo aque- cimento global, que pode incluir ainda a maior incidência de tufões e furacões ou a presença destes em áreas onde não são comuns. Além disso, os desequilíbrios climáticos também estariam provocando uma maior incidência de tempestades em certas áreas, que passam a sofrer sobre- maneira com esse tipo de problema. Contestações ao aquecimento global Como já salientamos no início do texto, não é consen- so na comunidade científica a ocorrência do aquecimen- to global e, nem mesmo, as suas causas. Para muitos, o Aquecimento Global, que seria uma “farsa”, não se baseia 54 GEOGRAFIA em fatos verdadeiramente científicos, causando certo alarmismo que não se justifica. Em algumas posições, a existência do problema é até admitida, mas não tomada como um efeito das razões antrópicas. Em outras perspectivas, não estaria acontecendo um aquecimento da Terra, mas sim um resfriamento rumo a uma glaciação. Os chamados “céticos de clima” consideram que o gás carbônico não gera efeitos conclusivos sobre o clima, principal- mente no sentido de intensificar o efeito estufa. Além disso, mesmo que esses efeitos climáticos ocorressem pelos gases -estufa, eles seriam mínimos, pois os principais reguladores do clima em ordem global são os raios solares e os oceanos. As linhas de argumentação também se baseiam em contestações de alguns dos elementos acima explicados, como a suposta elevação dos oceanos – que teria se elevado menos do que se pensa e seria causada por outros fatores, tais como a órbita terrestre e lunar – e também os dados fornecidos pelo IPCC, que, segundo alguns autores, teriam um rigor científico questionável. De toda forma, independentemente da existência ou não do aquecimento global, é possível concluir que se deve preservar o meio ambiente ao máximo, principalmente com a redução da poluição e do desmatamento, bem como com a preservação dos recursos hídricos. Afinal, o clima não é o único afetado pelas práticas predatórias geradas pelas atividades antrópicas, que podem acarretar problemas de saúde, falta de água e recursos, entre outras ocorrências. Climas e formações vegetais BIOMAS E BIODIVERSIDADE As formações vegetais são associações específicas de vegetais que se desenvolvem de acordo com o tipo de clima, re- levo e solo do local em que se situam. A influência do clima é a de maior relevância, havendo uma relação entre a formação vegetal e a região climática característica. De acordo com a estratificação ou o tamanho (ou porte) predominante na paisagem, as formações vegetais podem ser: arbóreas ou florestais, arbustivas, herbáceas ou campestres e complexas (reúnem espécies de porte variado). As formações vegetais, especialmente as florestas, desempenham funções importantes: na proteção do solo, minimi- zando os efeitos do escoamento superficial; no equilíbrio ecológico; no abrigo das faunas silvestres, propiciando a preser- vação de espécies; na manutenção dos ecossistemas e dos recursos hídricos. Por bioma entende-se o conjunto de vida (vegetal e animal) definida pelo agrupamento de tipos de vegetação con- tíguos e identificáveis em escala regional, com condições geoclimáticas similares e história compartilhada de mudanças, resultando em uma diversidade biológica própria (IBGE). O mapa abaixo identifica a distribuição da biodiversidade, isto é, a variabilidade de organismos vivos de todos os tipos, abrangendo a diversidade de espécies e a diversidade entre indivíduos de uma mesma espécie. 55 GEOGRAFIA Nível de biodiversidade no mundo (Foto: Reprodução/IBGE) Climas do mundo (Foto: Reprodução/SIMIELLI, M. Geoatlas. São Paulo: Ed Ática, 2010) A confrontação dos mapas sobre biodiversidade e climas identifica e reforça a relação explícita entreo clima (tem- peratura e umidade) e a formação vegetal. Desse modo, a maior diversidade de plantas e animais encontra-se na região equatorial do planeta (maiores temperaturas e índices pluviométricos), enquanto ao nos afastarmos em direção aos polos nota-se a menor diversidade de espécies (área de menor temperatura e índice pluviométrico). Os biomas do mundo Biomas do mundo (Foto: Reprodução/SIMIELLI, M. Geoatlas. São Paulo: Ed Ática, 2010) 56 GEOGRAFIA CLIMAS Clima equatorial – florestas equatoriais Região climática localizada próxima ao Equador com elevadas temperaturas e grande umidade ao longo do ano. Favorecem o desenvolvimento de uma vegetação densa, com árvores de mais de 60 metros de altura. As matas equatoriais abrigam a maior biodiversidade do mundo. Entre as florestas mais importantes estão: a da Ama- zônia (América do Sul); a do Congo (África); e a da Indo- nésia e Malásia (Ásia). Clima tropical – savanas e florestas tropicais Nas regiões de clima tropical predominam as eleva- das temperaturas e a alternância entre estações secas (in- verno) e úmidas (verão). A cobertura vegetal caracteriza- se por duas formações: as savanas e as florestas tropicais. Também aparecem, nas áreas alagadas, pântanos e, junto ao litoral, mangues. As savanas são formações arbustivas que apresentam raízes profundas, folhas grossas e troncos retorcidos. No Brasil, as savanas correspondem ao Cerrado. As florestas tropicais são encontradas próximas ao litoral e possuem algumas características das florestas equatoriais: são densas, ombrófilas (presença de umidade praticamente o ano inteiro), heterogêneas, com espécies latifoliadas, estratificadas, com grande biodiversidade. A floresta tropical original do Brasil, denominada Mata Atlântica, recobria trechos das regiões Sul, Sudeste e Nor- deste. Esse tipo de vegetação também é encontrado na África e no Sul e Sudeste asiáticos (clima de monções). Clima temperado – florestas temperadas e estepes ou pradarias. O clima temperado abrange parte do hemisfério Norte (América do Norte, Europa e centro da Ásia). No Hemisfério Sul, sua ocorrência é restrita (extremo sul da América do Sul). Caracteriza-se por quatro estações bem demarcadas, percebida nos diversos aspectos da vegeta- ção ao longo do ano. As árvores das florestas temperadas perdem todas as folhas ou parte delas no outono/inverno (decíduas ou caducifólias). As formações herbáceas também são típicas dessa re- gião climática e recebem o nome de estepes ou pradarias. São muito presentes nos papas argentinos. No Brasil, esse tipo de vegetação é denominado Campos (Rio Grande do Sul). Os pampas ou campos gaúchos apresentam clima subtropical, de transição entre o tropical e o temperado. Clima mediterrâneo – vegetação mediterrânea O clima mediterrâneo está restrito a pequenos tre- chos, normalmente próximo a desertos como na Califór- nia (EUA); no Chile; no norte e sul da África; e no sul da Europa. É caracterizado por verões quentes e secos e por invernos brandos e úmidos. A vegetação predominante é arbustiva, como as oliveiras. Clima frio – floresta boreal O clima frio manifesta-se em altas latitudes e abran- gendo áreas canadenses, o norte da Europa e a Sibéria (Rússia). As maiores precipitações ocorrem no verão. As temperaturas médias no inverno são inferiores a 0°, inclusi- ve em outros períodos do ano. Nesse clima, desenvolve-se a floresta boreal, cuja vegetação é de grande porte, espaça- da e relativamente homogênea, destacando-se o pinheiro. Os exemplos dessa floresta são a taiga siberiana, a ca- nadense e a escandinava. Clima polar – tundra Nos extremos norte e sul da Terra, o clima é polar. São registradas as mais baixas temperaturas do planeta e a maior parte do solo coberto de gelo permanente, sem vegetação. Durante o verão, o degelo deixa o solo expos- to e nele aparece a tundra, cobertura vegetal de pequeno porte. Clima de montanha – vegetação de altitude Em altas latitudes, o solo permanece coberto por neve durante boa parte do ano, até mesmo em locais situados em baixas altitudes. Em regiões de baixas latitudes (clima tropical e subtropical), as áreas montanhosas apresentam diferentes formações vegetais: no sopé da montanha, a ve- getação é a mesma da região do entorno; já nos locais com mais de 4 mil metros de altitude, a neve recobre o solo durante todo o ano (neves eternas). Clima desértico – xerófilas O clima desértico caracteriza-se pela aridez (escassez de água), com baixas precipitações, havendo pouca ou nenhuma vegetação. Em áreas desertas formam-se vários tipos de vegetais: plantas rasteiras (estepes); arbustos es- pinhosos, quase sem folhas; e cactos. Essas espécies, em conjunto, recebem o nome de xerófilas. Os principais desertos localizam-se no oeste dos EUA, no norte e sul da África, no Oriente Médio, na Ásia central e no oeste da Austrália. 57 GEOGRAFIA C) O ESPAÇO POLÍTICO E ECONÔMICO: INDÚSTRIA: O PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO, PRIMEIRA, SEGUNDA E TERCEIRA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL, TIPOS DE INDÚSTRIA, A CONCENTRAÇÃO E A DISPERSÃO INDUSTRIAL, OS CONGLOMERADOS TRANSNACIONAIS, OS NOVOS FATORES DE LOCALIZAÇÃO INDUSTRIAL, AS FONTES DE ENERGIA E A QUESTÃO ENERGÉTICA, IMPACTOS AMBIENTAIS; AGROPECUÁRIA: SISTEMAS AGRÍCOLAS, ESTRUTURA AGRÁRIA, USO DA TERRA, AGRICULTURA E MEIO AMBIENTE, PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA, COMÉRCIO MUNDIAL DE ALIMENTOS E A QUESTÃO DA FOME; GLOBALIZAÇÃO E CIRCULAÇÃO: OS FLUXOS FINANCEIROS, TRANSPORTES, OS FLUXOS DE INFORMAÇÃO, O MEIO TECNOCIENTÍFICO-INFORMACIONAL, COMÉRCIO MUNDIAL, BLOCOS ECONÔMICOS, CONFLITOS ÉTNICOS E AS MIGRAÇÕES INTERNACIONAIS; A DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO (DIT) E AS TROCAS DESIGUAIS; A NAÇÃO E O TERRITÓRIO, OS ESTADOS TERRITORIAIS E OS ESTADOS NACIONAIS: A ORGANIZAÇÃO DO ESTADO NACIONAL; E O PODER GLOBAL, NOVA ORDEM MUNDIAL, FRONTEIRAS ESTRATÉGICAS ESPAÇO INDUSTRIAL: O PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO NO MUNDO A atividade industrial é sem dúvida uma das mais importantes atividades do planeta, sendo responsável por atrair flu- xos populacionais, influenciar a urbanização e promover a concentração do capital em determinadas porções do território. A indústria moderna, tal como conhecemos hoje, surgiu na Inglaterra, durante a segunda metade do século 18, em um processo que ficou conhecido como Revolução Industrial. O processo de industrialização marcou um período de grandes inovações técnicas e transformações no sistema de pro- dução e transporte, na organização das cidades e das áreas rurais, bem como, na capacidade de transformação da natureza pelo homem. Até então, o artesanato e, mais tarde, a manufatura, eram os meios pelos quais o homem desenvolvia seus objetos, utilizando ferramentas e máquinas simples. Figura 1 – Tecelão, de Van Gogh (1884) Fonte: Van Gogh In: Van Gogh Museum A industrialização tem como um de seus principais pressupostos o aumento da produção, uma vez que a introdução da máquina no processo produtivo permite a produção de mercadorias em larga escala e em série. Assim, a grande vantagem da industrialização foi o aumento da produção em um curto espaço de tempo. As relações de trabalho assalariadas se disseminaram durante a Revolução Industrial, e o lucro estava fundamentado, justamente, na exploração da mão de obra, que se sujeitava a longas jornadas de trabalho em troca de baixos salários. 58 GEOGRAFIA Nessa época, também se intensificou a divisão social do trabalho, uma vez que foi com a industrialização que cada trabalhador, ou grupo de trabalhadores, se especiali- zou em uma determinada tarefa: apertar parafusos, separar peças com defeito, etc. Essa especialização trouxe algumas vantagens aos capitalistas que, além de possuírem a propriedade priva- da dos meios de produção (instrumentos utilizadospara produzir alguma coisa, como uma ferramenta, a terra, uma máquina), aumentaram a produtividade de suas fábricas e viram seus trabalhadores perderem o controle sobre o seu trabalho. Isto é, ao realizarem apenas uma tarefa simples e repetitiva, o trabalhador sequer precisava saber o que es- tava produzindo, perdendo o controle do todo, ou seja, do produto final. De acordo com as características econômicas e soco espaciais, bem como, a própria organização das unidades fabris, a Geografia costuma dividir o processo conhecido como Revolução Industrial em três etapas: a primeira, se- gunda e terceira revolução industrial. Primeira Revolução Industrial A Inglaterra foi palco da Primeira Revolução Industrial, que ocorreu entre meados do século 18 e meados do sé- culo 19. Esse período foi marcado por profundas mudanças socioeconômicas, pela introdução da fábrica em substitui- ção ao artesanato e à manufatura. Nessa época, as máquinas passaram a determinar o ritmo da produção e o ritmo do próprio trabalhador. As máquinas a vapor, movidas a carvão, substituíram a força humana e a tração animal. Figura 2 – Extração de carvão próxima à Neath, no sul do País de Gales (1798) Fonte: Wikimedia Commons Foram criadas novas técnicas de extração de recursos minerais, especialmente ferro e carvão; além de diversas descobertas no campo da siderurgia e da indústria quími- ca. No entanto, a indústria têxtil de algodão exerceu um papel fundamental nesse período de transformação do processo produtivo. Logo após a industrialização, a Inglaterra – que até en- tão concentrava suas exportações de tecido apenas para suas colônias – aumentou sua produção e passou a expor- tar para áreas mais distantes. A Primeira Revolução Industrial provocou um intenso processo de urbanização. Na Inglaterra e demais países do Reino Unido, observou-se nessa época, o surgimento de grandes cidades industriais, como Lancashire, Manchester e Glasgow. Após a Inglaterra, França, Bélgica e Holanda deram iní- cio ao processo de industrialização. A produção em grandes unidades fabris e a exploração da mão de obra criaram as condições necessárias para o barateamento dos preços e a expansão do mercado inglês. As jornadas de trabalho eram longas e as fábricas passaram a contar com a mão de obra infantil e feminina, recebendo remunerações mais baixas do que os homens adultos. Figura 3 – Mulheres e crianças trabalhando em uma mina de carvão (1853) Fonte: Wikimedia Commons A industrialização permitiu que as sociedades produ- zissem mais, em um menor intervalo de tempo, e provocou – ao longo da história – o surgimento de vários objetos técnicos que modificaram intensamente o espaço geográ- fico, tais como: indústrias, hidrelétricas, portos, rodovias, ferrovias, etc. A Revolução Industrial é também o marco da intensa degradação do meio ambiente. Certamente, as constantes melhorias no processo produtivo e as inúmeras inovações tecnológicas trouxeram vários impactos positivos para as sociedades. No entanto, a modernização acelerada, resul- tante dos processos de industrialização e urbanização, em diversos países do mundo, aumentaram a demanda por matérias-primas e agravaram os riscos de esgotamento das reservas de diversos recursos existentes na natureza, tais como a água, o carvão e o petróleo. Além disso, a po- luição do ar, dos mananciais e a retirada da cobertura ve- getal também cresceram. Segunda Revolução Industrial A Segunda Revolução Industrial marca um período da industrialização em que a Inglaterra perde a exclusividade do processo, sendo dominado pela Alemanha e pelos Es- tados Unidos. Nessa época, em meados do século 19, uma série de novas invenções e descobertas científicas foram incorporadas ao processo produtivo criado pelos ingleses. 59 GEOGRAFIA Figura 4 – As fábricas químicas da BASF em Ludwigsha- fen, Alemanha (1881) Fonte: Wikimedia Commons O desenvolvimento da siderurgia, da indústria química e a exploração do petróleo em larga escala, possibilitaram o uso desse combustível fóssil como recurso energético. O desenvolvimento e o aprimoramento dos meios de transporte movidos a combustível também garantiram a expansão das mercadorias e da própria indústria para regiões mais distantes. Nesse período, foram criados os motores de combustão interna e a energia elétrica. Isto é, a industrialização passou a operar de maneira integrada ao desenvolvimento científico, de modo a otimizar ainda mais a produção e os custos e, assim, aumentar os lucros. A produção industrial passou a ser realizada em gran- des unidades fabris e o capital se concentrou em empre- sas cada vez maiores. Nessa época, muitas delas foram, aos poucos, se agrupando, eliminando a concorrência de empresas menores e concentrando o monopólio da produção em suas mãos. Os grandes conglomerados, como ficaram conhecidos, se espalhavam pelo mundo e demonstravam, à época, a força que o capital tinha de se acumular e de, no entanto, permanecer sob controle de poucas empresas. Com as fusões, muitas delas deixaram de ser familiares e se transformaram em sociedades anô- nimas, com inúmeros acionistas – desde bancos a peque- nos investidores. Foi nesse momento, que a produção de bens de con- sumo (vestuários, alimentos, automóveis) ganhou desta- que em relação às indústrias de base (siderurgia, química, metalurgia). Assim, a indústria automobilística tornou-se o carro-chefe dessa fase. O aperfeiçoamento das técnicas de produção, o aproveitamento de outros recursos naturais (como ma- téria-prima e recurso energético), o desenvolvimento dos meios de comunicação (telégrafo e telefone) e, sobretudo, a expansão das indústrias para outros países, são caracte- rísticas da Segunda Revolução Industrial. Nessa época, as potências europeias realizaram a expansão imperialista na África e na Ásia, no século 19, conquistando novos territó- rios e mercados; enquanto, na América, os Estados Unidos despontavam como país industrializado. Após a Primeira Guerra Mundial, que praticamente destruiu a hegemonia e a estrutura econômica europeia, os americanos tornaram-se uma grande potência indus- trial, incorporando novas tecnologias e novas fontes de energia, como o petróleo, no campo produtivo, tornan- do-se notáveis na indústria petroquímica, aeronáutica e automobilística. Nessa cadeia, a Ford inovou com seu novo método de produção em massa, especializando a mão de obra em tarefas simples e repetitivas, além de incorporar a esteira rolante ao processo. Com essa especialização, a produção passou a ser planejada e controlada, separando o traba- lho intelectual do trabalho braçal. Terceira Revolução Industrial Sob uma nova base tecnológica e produtiva, a se- gunda metade do século 20 marcou a mundialização da economia capitalista e da expansão das empresas multi- nacionais. Os avanços científicos tecnológicos trouxeram diver- sas modificações na produção e na distribuição espacial da indústria. Por esse motivo, muitos autores qualificam essas modificações como uma nova fase do processo pro- dutivo, isto é, a Terceira Revolução Industrial. Esses avan- ços dinamizaram os meios de comunicação, tornaram os meios de transporte mais eficientes, potencializando as trocas em âmbito global, afim de aumentar a lucrativida- de. Toda essa dinâmica reestruturou o sistema capitalista, a organização produtiva e as relações de trabalho, tor- nando a flexibilidade um símbolo do período contempo- râneo. Nessa época, o modelo de produção da Ford foi colocado em xeque pelo modelo da empresa japonesa, Toyota, que propunha um processo produtivo mais des- centralizado. Assim, a produção se fragmenta e as uni- dades produtivas passam a se instalar em locais onde os custos são mais vantajosos.A partir de então, a produção de mercadorias se diversifica ainda mais e atinge merca- dos em todas as partes do mundo, antes inimagináveis. A Terceira Revolução Industrial marca uma verdadeira revolução técnico-científica e caracteriza-se pelo desen- volvimento das indústrias química, farmacêutica, aeroes- pacial, de biotecnologia, de tecnologias da informação e robótica. 60 GEOGRAFIA Figuras 5 e 6 – A informática e a robótica caracterizam a reestruturação produtiva da Terceira Revolução Indus- trial Fonte: Georgii Shipin/Shutterstock.com Fonte: Praphan Jampala/Shutterstock.com Contudo, mesmo com a dispersão da produção, a Ter- ceira Revolução Industrial ainda presencia inúmeras desi- gualdades, uma vez que a própria produção tecnológica se distribui de forma desigual. Fatores locacionais A localização de uma indústria, especialmente no iní- cio do processo de industrialização, esteve diretamente relacionada à busca de vantagens econômicas, capazes de conferir, aos capitalistas, melhores condições em relação à concorrência. A essas vantagens competitivas que as indústrias con- quistam, dá-se o nome de fator locacional. Quanto menor o custo com a produção, com o pagamento da mão de obra e com o transporte, maiores são as possibilidades de que o lucro seja alto. Nesse sentido, é importante que a indústria esteja localizada em uma região com concentra- ção de mão de obra (dependendo da mercadoria que se pretende produzir, essa mão de obra deve ser mais ou me- nos qualificada, mais ou menos barata), mercado consumi- dor, matérias-primas, rede de transporte eficiente, recursos energéticos e infraestrutura adequada. Um exemplo bastante conhecido são as indústrias que surgiram com a Primeira Revolução Industrial e se concen- travam próximas à matéria-prima da época: o carvão. Figura 7 – Atividade mineradora. Para algumas in- dústrias, a proximidade com a matéria-prima ainda é um importante fator locacional Fonte: Tobias Arhelger/Shutterstock.com Muitos lugares com fatores locacionais semelhantes disputam a instalação de uma nova indústria mediante a concessão de benefícios, conhecidos como incentivos fis- cais. Esses podem ser desde a redução, ou eliminação, de impostos, financiamentos a juros reduzidos, doação de ter- renos, flexibilização das leis trabalhistas. Por outro lado, alguns fatores locacionais exercem in- fluência negativa sobre a instalação de uma nova planta industrial. Dentre eles, pode-se citar a poluição, a elevação dos impostos, o aumento dos salários e o grau de sindi- calização dos trabalhadores. A carência de infraestrutura e um sistema de transporte ineficiente (com estradas e vias esburacadas, mal iluminadas, pedágios elevados, conges- tionamentos), e que atrapalham o sistema de distribuição e o escoamento das mercadorias, também são fatores fun- damentais que acabam por repelir a instalação de uma em- presa em determinado local. 61 GEOGRAFIA Figura 7 – Atividade mineradora. Para algumas in- dústrias, a proximidade com a matéria-prima ainda é um importante fator locacional Fonte: Tobias Arhelger/Shutterstock.com Muitos lugares com fatores locacionais semelhantes disputam a instalação de uma nova indústria mediante a concessão de benefícios, conhecidos como incentivos fis- cais. Esses podem ser desde a redução, ou eliminação, de impostos, financiamentos a juros reduzidos, doação de ter- renos, flexibilização das leis trabalhistas. Por outro lado, alguns fatores locacionais exercem in- fluência negativa sobre a instalação de uma nova planta industrial. Dentre eles, pode-se citar a poluição, a elevação dos impostos, o aumento dos salários e o grau de sindi- calização dos trabalhadores. A carência de infraestrutura e um sistema de transporte ineficiente (com estradas e vias esburacadas, mal iluminadas, pedágios elevados, conges- tionamentos), e que atrapalham o sistema de distribuição e o escoamento das mercadorias, também são fatores fun- damentais que acabam por repelir a instalação de uma em- presa em determinado local. Figuras 8 e 9 – Uma malha de transporte diversificada e integrada é fundamental para o escoamento e a circulação de mercadorias Fonte: CHAjAMP/Shutterstock.com Fonte: Evlakhov Valeriy/Shutterstock.com O desenvolvimento e a modernização dos sistemas de transporte e comunicação, os avanços da informática, e a dimi- nuição dos custos de deslocamento, de certa forma, alteraram as estratégias locacionais de determinadas indústrias, uma vez que são capazes de, em um curto período de tempo, fazer com que a mercadoria chegue ao seu destino final, isto é, o mercado consumidor. Os intensos avanços tecnológicos reestruturaram a dinâmica econômica mundial, potencializando a comunicação, a velocidade da circulação da informação, o ritmo dos transportes e, sobretudo, o “encurtamento” das distâncias. Com isso, novos fatores locacionais ganham destaque, dentre eles, pode-se citar a proximidade com centros de pesquisa e desenvol- vimento científico – os tecnopolos – universidades e mão de obra altamente especializada, sobretudo, pesquisadores com grande capacidade de inovação. Figura 10 – A pesquisa científica requer mão de obra altamente qualificada Fonte: anyaivanova/Shutterstock.com 62 GEOGRAFIA Fordismo Fordismo e Toyotismo são modelos de produção in- dustrial criados por duas empresas automobilísticas, Ford (norte-americana) e Toyota (japonesa), em momentos dis- tintos, com a intenção de otimizar a produção e aumentar a lucratividade. O Fordismo, modelo criado por Henry Ford no início do século 20, caracterizava-se pela rígida divisão do trabalho e pela racionalização da produção, por meio da implantação de esteiras rolantes nas linhas de montagem dos automó- veis. Figura 11 – Linha de montagem com esteira rolante da Ford (1913) Fonte: Wikimedia Commons Ford acreditava que uma produção em massa, resulta- va em um consumo em massa e, por esse motivo, investiu no aumento da produção. Com a linha de montagem e a esteira rolante, as peças chegavam aos operários sem que precisassem se deslocar, de modo que eles executassem apenas uma tarefa mecânica e repetitiva. Para um consumo em massa, era necessário que os tra- balhadores tivessem salários condizentes ao consumo que se pretendia. Por esse motivo que, para viabilizar a produ- ção fordista, foi necessária uma associação do capital com as políticas econômicas da época, fundamentadas no bem -estar social, no combate ao desemprego e no aumento de salários. Logo, o modelo se espalhou para outras empresas nor- te-americanas e para a Europa, durante a Segunda Revo- lução Industrial, graças à expansão dos meios de comuni- cação e dos sistemas de transportes, permitindo que boa parte das unidades industriais se instalassem distantes das fontes de energia e das matérias primas. Figura 12 – O modelo pautado na linha de montagem conduzida por uma esteira rolante, instituído pela Ford, logo se espalhou por outras indústrias americanas e euro- peias (1936) Fonte: Kalamazoo Public Library O modelo entrou em crise devido aos processos de rees- truturação econômica, política e social, instaladas no mundo a partir da década de 1970 e, sobretudo, após a Guerra Fria. Além disso, o Fordismo exigia uma intensa arrecadação de impostos para arcar com os benefícios concedidos aos trabalhadores. Para tanto, cabia às empresas pagar mais im- postos, reduzindo suas taxas de lucro. As crises do petróleo, que provocaram o aumento dos preços dessa mercadoria, também contribuíram para a obsolescência do modelo. Toyotismo Em resposta à crise do modelo fordista, a empresa ja- ponesa, Toyota, criou um novo modelo de produção indus- trial, também chamado de acumulaçãoflexível, pautado na descentralização da produção e na substituição do homem pelo robô na linha de montagem. Figura 13 – Automação da linha de montagem, típica do modelo toyotista Fonte: Supergenijalac/Shutterstock. com 63 GEOGRAFIA A difusão da informação e da comunicação a distân- cia, bem como o barateamento dos meios de transportes, permitiu que a produção pudesse ser feita em várias uni- dades produtoras menores, reduzindo os encargos tra- balhistas das empresas. A própria robotização provocou uma dispensa crescente de trabalhadores nas fábricas, em prol da dinamização e da redução dos gastos. A produção da Toyota, e das empresas que adotam o modelo, tornou-se cada vez mais descentralizada, em unidades menores, distribuída em diferentes países do mundo. Da mesma forma, a prática da terceirização – que consiste em destinar a outras empresas diferentes ativi- dades, como suporte, manutenção, segurança – tornou-se comum. Enquanto o Fordismo – por produzir em larga escala a partir da linha de montagem, previa uma produção pa- dronizada – o Toyotismo visava uma maior diversificação e customização dos produtos, ou seja, produz-se uma va- riedade de produtos, com alto padrão de qualidade, em pequenos lotes. A estratégia dessas empresas é produzir seguindo as demandas do mercado consumidor e de en- trada de matéria-prima, ou seja, uma produção sem es- toque, muito diferente daquela que ocorria no Fordismo, com a produção em massa. Trata-se do método just in time, ou “no momento certo”. Essas mudanças exigem cada vez mais um trabalha- dor qualificado, conhecedor dos processos produtivos e das novas tecnologias. A automação das fábricas desloca boa parte dos operários da produção, realocando-os nos setores de prestação de serviços, pesquisa e desenvolvi- mento científico. Com isso, quanto menos qualificado for o trabalhador, menor a chance de ele permanecer nesse sistema. É o que acontece com milhões de trabalhadores da periferia da economia capitalista que, diante da reestrutu- ração produtiva, não conseguem se reinserir no mercado de trabalho, engrossando as estatísticas de desemprego. No Toyotismo, entende-se que a eficácia do trabalha- dor, em qualquer etapa da produção, garante a eficiência de todo o sistema produtivo. Por esse motivo, a gestão integrada ganha importância nesse modelo. Na última década do século 20, muitos autores come- çaram a mencionar um modelo de produção, instaurado por uma empresa automobilística sueca, a Volvo. Nesse caso, tal como o Toyotismo, entende-se que a qualificação profissional, em investimentos e programas de aperfei- çoamento, reverte-se em melhorias para a empresa. No Volvismo, tal como esse modelo é chamado, valoriza-se a criatividade e o trabalho coletivo, bem como o bem-estar, físico e mental, dos funcionários da empresa. A marca do Volvismo é, portanto, a flexibilidade cria- tiva, em que os trabalhadores operam em pequenos gru- pos, em um sistema totalmente informatizado e de tecno- logia flexível. Tipos de Indústrias Existem vários tipos de indústria, o processo da ativida- de industrial é classificado conforme seu foco de atuação. As indústrias e seus focos de atuação A atividade industrial consiste no processo de produção que visa transformar matérias-primas em mercadoria atra- vés do trabalho humano e, de forma cada vez mais comum, utilizando-se de máquinas. Essa atividade é classificada con- forme seu foco de atuação, sendo ramificada em três gran- des conjuntos: indústrias de bens de produção, indústrias de bens intermediários e indústrias de bens de consumo. As indústrias de bens de produção, também chamadas de indústrias de base ou pesadas, são responsáveis pela transformação de matérias-primas brutas em matérias-pri- mas processadas, sendo a base para outros ramos indus- triais. As indústrias de bens de produção são divididas em duas vertentes: as extrativas e as de bens de capital. Indústrias extrativas – são as que extraem matéria-pri- ma da natureza (vegetal, animal ou mineral) sem que ocorra alteração significativa nas suas propriedades elementares. Exemplos: indústria madeireira, produção mineral, extração de petróleo e carvão mineral. Indústrias de equipamentos – são responsáveis pela transformação de bens naturais ou semimanufaturados para a estruturação das indústrias de bens intermediários e de bens de consumo. Exemplos: siderurgia, petroquímica, etc. Siderurgia As indústrias de bens intermediários caracterizam-se pelo fornecimento de produtos beneficiados. Elas produ- zem máquinas e equipamentos que serão utilizados nos 64 GEOGRAFIA diversos segmentos das indústrias de bens de consumo. Exemplos: mecânica (máquinas industriais, tratores, moto- res automotivos, etc.); autopeças (rodas, pneus, etc.) As indústrias de bens de consumo têm sua produção direcionada diretamente para o mercado consumidor, ou seja, para a população em geral. Também ocorre a divisão desse tipo de indústria conforme sua atuação no mercado, elas são ramificadas em indústrias de bens duráveis e de bens não duráveis. Indústrias de bens duráveis – são as que fabricam mer- cadorias não perecíveis. São exemplos desse tipo de indús- tria: automobilística, móveis comerciais, material elétrico, eletroeletrônicos, etc. Indústrias de bens não duráveis – produzem mercado- rias de primeira necessidade e de consumo generalizado, ou seja, produtos perecíveis. Exemplos: indústria alimentí- cia, têxtil, de vestuário, remédios, cosméticos, etc. Indústria Alimentícia Concentração e Desconcentração Industrial no Bra- sil O histórico processo de concentração industrial brasi- leiro só recentemente vem se alternando A Geografia Industrial brasileira está marcada, desde a sua constituição ao longo do século XX, por se manifestar a partir de uma concentração espacial, em que a maioria das atividades fabris desenvolveu-se na região Sudeste do país. Posteriormente, em função de uma série de fatores, o país iniciou uma perspectiva inversa, caracterizando uma des- concentração industrial, com migrações de empresas para o interior dos estados e regiões menos industrializadas. Concentração Industrial Durante o período brasileiro do Estado Novo (1937- 1945), em resposta à Grande Depressão iniciada em 1929, iniciaram-se as políticas em favor da implantação de indús- trias no país, que se intensificaram a partir da década de 1950, durante a aplicação do Plano de Metas. Nesse con- texto, instaurou-se no país a chamada industrialização por substituição de importações. Contudo, a infraestrutura nacional, em função da gran- de influência da elite cafeeira do Sudeste brasileiro nos anos anteriores, encontrava-se limitada à região Sudeste do país, o que favoreceu a formação de um processo de concentração industrial. Além disso, nesse período, a in- dústria vivia um período em que se preconizava a produ- ção em massa e as chamadas economias de aglomeração. Graças a esse contexto, o Sudeste brasileiro, com des- taque para a Região Metropolitana de São Paulo, passou a angariar praticamente todos os recursos naturais, con- tando, a partir de então, com uma elevada concentração populacional, ampla mão de obra e mercado consumidor elevado. Desconcentração Industrial Essa dinâmica começou a se alterar apenas a partir da década de 1970, quando o poder público iniciou uma série de planejamentos a fim de gerar uma maior democratiza- ção no espaço industrial do país. Uma das medidas foi a criação da Sudam (Superintendência de desenvolvimento da Amazônia) e da Sudene (Superintendência de desenvol- vimento do Nordeste). Outra ação foi a autorização do Governo Federal dada aos governos estaduais de promoverem incentivos fiscais para a presença de indústrias em seus territórios. Com isso,teve início a chamada Guerra Fiscal ou Guerra dos Luga- res, em que as unidades federativas, por meio de isenções de impostos e outros benefícios, passaram a competir pela manutenção de empresas em suas localidades, a fim de dinamizar suas economias e elevar a quantidade de em- pregos. Soma-se a essas questões políticas o fato de que, com os avanços tecnológicos nos meios de transporte e comu- nicações, não eram mais necessárias uma aglomeração in- dustrial e, tampouco, a proximidade entre indústria e mer- cado consumidor. Por isso, muitas empresas resolveram migrar para regiões interioranas e cidades médias, longe dos problemas relacionados às grandes cidades. Porém, é precipitado afirmar, por exemplo, que cidades como São Paulo deixaram de se industrializar. Na verdade, o que houve foi uma queda no crescimento do número de empresas no Sudeste brasileiro, mas trata-se de algo ainda muito tímido e que tende a intensificar-se nos próximos tempos. Além disso, a capital paulista é um dos exemplos do processo de modernização produtiva, em que as anti- gas fábricas vão sendo gradualmente substituídas por fren- tes tecnológicas de serviços. Conglomerados transnacionais Empresas transnacionais correspondem às corpora- ções industriais, comerciais e de prestação de serviços que atuam em distintos territórios dispersos no mundo. Nesse caso, ultrapassam os limites territoriais dos países de ori- gem das empresas. Grande parte das empresas transnacionais é oriunda de países industrializados e desenvolvidos que detêm um grande capital acumulado; o excedente, nesse caso, é dire- cionado para países em todos os continentes. Os investimentos dessas empresas são altíssimos, uma vez que a matriz emite os recursos para as filiais localizadas em muitos países pobres. Nesses países, as transnacionais exercem funções importantes como acelerar o desenvolvi- mento industrial, além de gerar postos de trabalho. 65 GEOGRAFIA No entanto, essas empresas não têm objetivo social no momento em que se instalam em um determinado país. Pelo contrário, para sua instalação acontecer, o governo oferece uma série de benefícios e incentivos, tais como isenção parcial ou total de tributos, até mesmo dos lucros. Esses países se submetem a essas exigências a fim de atrair novos investimentos estrangeiros e também garantir a per- manência das empresas. As transnacionais estão ligadas à globalização da pro- dução, na qual um único produto pode ter várias origens, isso por que os seus componentes têm origens distintas e são montados em uma determinada localidade do mundo. Esse fluxo produtivo visa unicamente verticalizar os lucros, diminuindo os custos, consolidando-se no mercado como empresas competitivas que buscam alcançar grandes par- celas do mercado internacional. Há pouco tempo essas empresas eram denominadas multinacionais, porém gradativamente esse termo não mais está sendo usado, uma vez que a expressão emite uma ideia de uma empresa que possui diversas naciona- lidades. Dessa forma, empresas com essas características recebem o nome de transnacionais, possuem sede em um país e desempenham atividades em diversos outros. Atualmente, existem em funcionamento cerca de 40 mil empresas transnacionais, muitas originadas de países desenvolvidos, porém existem ainda corporações oriundas da Coreia, Índia, México e Brasil. As transnacionais exercem influência que transcende a economia, pois interfere em governos e nas relações entre países. Essas empresas surgiram efetivamente a partir da Se- gunda Guerra Mundial, quando empresas de países ricos migraram suas atividades para lugares espalhados pelo mundo. Fontes de energia e a questão energética, impactos ambientais Depois da revolução industrial, no final do século XVIII, e especialmente durante o século XX, o impacto da ativida- de humana sobre o meio ambiente tornou-se muito signi- ficativo. O aumento da população e do consumo pessoal, principalmente nos países desenvolvidos, originou pro- blemas ambientais cuja solução é o grande desafio deste início de século para pesquisadores, ambientalistas, gover- nos, organizações não-governamentais e comunidades de todo o mundo. Grande parte dos problemas está relacionada com a exploração e utilização de energia. Poluição, chuva ácida, destruição da camada de ozônio, aquecimento da Terra – por causa da intensificação do efeito estufa – e destruição da fauna e flora são alguns dos efeitos dos processos atual- mente disponíveis para a geração de energia. (Veja tam- bém o capítulo Transportes). Hoje, 75% da energia gerada em todo o mundo é con- sumida por apenas 25% da população mundial, principal- mente nos países industrializados. Prevendo que a popula- ção dos países em desenvolvimento deverá dobrar até que se consiga a estabilização, por volta do ano 2110, e melho- rar seus padrões de consumo, a questão é: como atender à demanda por energia sem que ocorram impactos ambien- tais ainda mais significativos? Energia elétrica Neste capítulo, vamos tratar, principalmente, da ener- gia elétrica, que se tornou um dos bens de consumo mais fundamentais para as sociedades modernas. Usamos ener- gia para gerar iluminação, movimentar máquinas e equipa- mentos, controlar a temperatura produzindo calor ou frio, agilizar as comunicações etc. Da eletricidade dependem a nossa produção, locomoção, eficiência, segurança, confor- to e vários outros fatores associados à qualidade de vida. A contrapartida dos benefícios proporcionados pelo desenvolvimento tecnológico é o crescimento constante do consumo de energia. Para atender à demanda, os go- vernos precisam investir cada vez mais na construção de usinas de geração, linhas de transmissão e distribuição, com sérios prejuízos ambientais. A gravidade dos impactos ambientais vai depender em grande parte da fonte de energia usada na geração da ele- tricidade. O emprego de fontes não renováveis, como o petróleo, o gás natural, o carvão mineral e o urânio, estão associados a maiores riscos ambientais, tanto local (polui- ção do ar e vazamento radioativo) como globais (aumento do efeito estufa). Já as fontes de energia renováveis, como a água, o Sol, os ventos e a biomassa (lenha, bagaço de cana, carvão vegetal, álcool e resíduos vegetais) são con- sideradas as formas de geração mais limpas que existem, embora também possam afetar o meio ambiente, depen- dendo das formas de utilização desses recursos. No campo da produção de energia da biomassa, o Brasil é um país absolutamente privilegiado. Por dispor da incidência da energia solar durante todo o ano, em quase toda a sua extensão territorial, pode se propor a implantar um amplo programa de geração de energia de variados teores e fontes. Para enfrentar o aumento da demanda no futuro pre- cisamos encarar o uso da energia sob a ótica do consumo sustentável, ou seja, aquele que atende às necessidades da geração atual sem prejuízo para as gerações futuras. Isso significa eliminar desperdícios e buscar fontes alternativas mais eficientes e seguras para o homem e o meio ambien- te. O desafio está lançado, não apenas para autoridades governamentais, mas para a sociedade como um todo. Atualmente, boa parte da tecnologia de produção ba- seia-se em derivados de petróleo. Como as reservas de petróleo são finitas e diminuem a cada ano, são enormes as vantagens competitivas dos Países com capacidade de produção de energia a partir de fontes perenes, como o Sol, os ventos e a biomassa. O setor elétrico no Brasil As características físicas e geográficas do Brasil foram determinantes para a implantação de um parque gerador de energia elétrica de base predominantemente hidráulica. Nosso sistema hidrelétrico foi planejado entre 1951 e 1956, dando sustentação ao forte impulso do País rumo à indus- trializaçãoe ao desenvolvimento. Hoje, o Brasil dispõe de um dos maiores parques hidrelétricos do mundo, respon- dendo por quase 90% do total de energia elétrica gerada internamente. 66 GEOGRAFIA Isso, no entanto, não significa que podemos ficar tran- quilos. Nos últimos 40 anos, a população brasileira mais que triplicou, e a demanda por energia elétrica cresceu de forma exponencial. Para garantir o fornecimento de ele- tricidade à população, ao parque industrial e comercial, o País investiu na construção da maior usina do planeta, a Hidrelétrica de Itaipu. Mesmo assim, em meados dos anos 90, o sistema hi- drelétrico começou a não acompanhar o crescimento da demanda, em função do decréscimo de investimentos. Os excedentes de água que davam garantias de abastecimen- to para os cinco anos seguintes passaram a ser consumidos sem a compensação proporcional que deveria ser assegu- rada pelos períodos chuvosos. Nosso consumo de eletricidade tem crescido a uma média de 3% ao ano. A atividade industrial é a que mais consome energia – 46% do total gerado no País. Em segui- da vem o setor residencial, com 23%, e o comercial, com 14%. Na última década, o consumo disparou em todos os setores. O comércio não apenas ganhou novos estabeleci- mentos com alto padrão de consumo (shopping centers, hipermercados) como dinamizou suas atividades com a ampliação do horário de funcionamento. O consumo resi- dencial também não pára de subir. Isso se deve não apenas ao aumento da população, mas também à crescente incor- poração de novos aparelhos e equipamentos eletroeletrô- nicos Estima-se que, projetados os atuais níveis de produção e demanda, as reservas conhecidas de petróleo devem du- rar apenas 40 anos; as de gás natural, pouco mais de 100 anos; e as de carvão, aproximadamente 200 anos. Economia forçada Logo no início do século XXI, a energia elétrica virou assunto de primeira página em todos os jornais do País – os brasileiros estavam sob a ameaça de um apagão, pois a capacidade instalada apresentava-se vulnerável até a pe- quenos períodos de seca. A crise no setor elétrico brasileiro levou o governo a tomar medidas drásticas e urgentes para evitar a interrupção forçada do fornecimento de energia para vários Estados do Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste. Em 2001, o governo estabeleceu a obrigatoriedade de re- dução de 20% no consumo, que durou até o fim daquele ano. Felizmente, com a volta das chuvas e a recuperação dos níveis dos reservatórios que abastecem as usinas hi- drelétricas, o racionamento foi suspenso. No entanto, a ne- cessidade de economizar energia ainda persiste. Para o País, aumentar a participação dos combustíveis fósseis no seu sistema energético representa um passo atrás do ponto de vista ambiental. Afinal, o Brasil tradicio- nalmente produz quase toda a energia elétrica que conso- me a partir da água, que normalmente apresenta impactos ambientais inferiores à geração termelétrica. A geração de energia e o impacto ambiental Existem vários meios de produzir energia elétrica, cada qual com suas vantagens e desvantagens econômicas e ambientais. Pode-se produzir eletricidade a partir de fon- tes renováveis ou não renováveis. As fontes renováveis são aquelas que não se esgotam. Algumas delas são fontes permanentes e contínuas – como o Sol, o vento, a água e o calor da terra – outras podem se renovar – como a biomassa. Ao contrário, as fontes de energia não renováveis, como o petróleo, o carvão mineral, o gás natural e o urâ- nio (usado nas usinas nucleares), tendem a se esgotar. São reservas formadas durante milhões de anos a partir da de- composição natural de matéria orgânica, não podendo ser repostas pela ação do homem. As formas mais limpas de produção de eletricidade estão associadas ao uso de fon- tes de energia renováveis. A formação das bases energéticas dos países sempre resultou de considerações econômicas, como a disponi- bilidade de recursos naturais e viabilidade de exploração. No caso do Brasil, por exemplo, a abundância de recursos hídricos foi fundamental para a formação de um sistema predominantemente hidráulico. Nos últimos anos, a questão ambiental vem ganhando relevância no planejamento energético dos países. Só para citar um exemplo, os riscos ambientais levaram a Alema- nha a estabelecer um plano de desativação de todo o seu sistema energético nuclear. A seguir, você vai conhecer as principais fontes de energia e seus impactos sobre o meio ambiente. Energia hidráulica É a energia produzida a partir de uma fonte contínua, nesse caso, o movimento da água. Nas usinas hidrelétricas, a força da queda de um grande volume de água represa- da é utilizada para movimentar turbinas que acionam um gerador elétrico. A construção de usinas hidrelétricas geral- mente exige a formação de grandes reservatórios de água. Para isso, normalmente é preciso inundar uma vasta área de terra, o que provoca profundas alterações no ecossiste- ma, já que a fauna e a flora locais são completamente des- truídas. Dependendo do tipo de relevo e da região onde se encontra o empreendimento, as hidrelétricas podem tam- bém ocasionar o alagamento de terras e o deslocamento de populações ribeirinhas. Outro tipo de usina hidrelétrica é a usina de fio d’água, que opera sem a necessidade de grandes reservatórios. Até bem pouco tempo defendia-se que a hidreletrici- dade era uma forma de energia não poluente. Hoje se sabe que a decomposição da vegetação submersa dá origem a gases como o metano, o gás carbônico e o óxido nitroso, que causam mudanças no clima da terra. É importante ressaltar que nas emissões de CO2 (gás carbônico) e CH4(metano) de uma barragem existe res- ponsabilidade natural (carga orgânica transportada pelos afluentes da barragem, que naturalmente se decompõem, emitindo CO2 e CH4) e antrópica (de interferência huma- na). No caso da responsabilidade antrópica, há as emissões provenientes do esgoto doméstico despejado no reserva- tório, além das emissões decorrentes da biomassa inunda- da pela barragem da hidrelétrica. 67 GEOGRAFIA Mesmo assim, geralmente as usinas hidrelétricas são menos prejudiciais do que as termelétricas, que emitem outros gases tóxicos, como o dióxido de enxofre e de nitro- gênio, além de material particulado (poeira e fumaça resul- tantes da queima de combustíveis fósseis, especialmente das termelétricas movidas a óleo combustível), prejudiciais à saúde. Energia termelétrica A energia térmica ou calorífica é o resultado da com- bustão de diversos materiais, como carvão, petróleo, gás natural, todas fontes não renováveis, e biomassa (lenha, ba- gaço de cana etc.), que é uma fonte renovável. Ela pode ser convertida em energia mecânica e eletricidade, por meio de equipamentos como a caldeira a vapor e as turbinas a gás. Após a produção de eletricidade, o calor rejeitado pode ainda ser aproveitado em outros processos, princi- palmente na indústria. As usinas que produzem simulta- neamente calor e eletricidade são chamadas de usinas de cogeração. Veja a seguir os combustíveis que podem mo- vimentar as termelétricas. • Gás natural: As reservas de gás natural formaram-se há milhões de anos a partir da sedimentação do plâncton. Sua combustão libera óxido de nitrogênio e também dió- xido de carbono, embora este último em quantidades me- nores que o petróleo e o carvão. • Petróleo: As termelétricas também podem operar a partir da queima de derivados de petróleo, que se formou durante milhões de anos pelas transformações químicas de materiais orgânicos, como os plânctons. Quando queima- dos, os derivados do petróleo (gasolina, óleo combustível, óleo diesel etc.) produzem gases contaminantes, como monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio e dióxido de carbono, que poluem a atmosfera e contribuem para o aquecimentoda Terra e para a formação de chuva ácida, entre outros efeitos nocivos. • Carvão mineral: Outro combustível muito usado em termelétricas é o carvão mineral – que também se formou há milhões de anos a partir de plantas e animais. É o pior combustível não renovável, pois sua combustão emite grandes quantidades de óxidos de nitrogênio e enxofre, que provocam acidificação (chuva ácida), além de agravar doenças pulmonares, cardiovasculares e renais nas popula- ções próximas. A queima do carvão também libera dióxido de carbono, que contribui para o aumento do efeito estufa. Segundo os dados da Agência Internacional de Energia, até 1997, o carvão era a segunda principal fonte de energia mundial. Os mesmos dados apontam a China, os Estados Unidos e a Índia como os maiores produtores mundiais de carvão. Motivos econômicos e ambientais, que relacionam a queima desse combustível com a acidificação das chuvas e outros efeitos da poluição atmosférica, contribuíram para a redução de 5% no consumo durante a década de 90. • Biomassa: A biomassa é matéria de origem orgânica que pode ser usada como combustível em usinas termelé- tricas, com a vantagem de ser uma fonte renovável. Um exemplo de biomassa é a lenha. Podemos dizer que a le- nha é renovável somente quando o ritmo de extração está em equilíbrio com o de reflorestamento. Caso contrário, ela perde seu caráter de renovabilidade, colocando em risco a sobrevivência das florestas. A produção de biomassa pode ocorrer pelo aprovei- tamento de lixo residencial e comercial, ou de resíduos de processos industriais, como serragem, bagaço de cana e cascas de árvores ou de arroz. A biomassa representa um grande potencial energético para o Brasil, que é tradicio- nalmente um grande produtor de cana-de-açúcar, uma matéria-prima que pode ser integralmente aproveitada. Além da produção de açúcar, a cana é amplamente utili- zada para a produção de álcool combustível, uma alter- nativa que contribui para reduzir o consumo de combus- tíveis fósseis. Mais limpo que a gasolina e o diesel, prin- cipalmente quanto à emissão de monóxido de carbono e hidrocarbonetos, o álcool vem sendo empregado no Brasil desde 1974, quando foi implantado o Programa Nacional do Álcool. No final da década de 80, mais de 90% dos au- tomóveis fabricados no País eram movidos a álcool. Porém, devido a vários fatores, o Proálcool estagnou. Segundo a Anfavea, em 2003, 95% dos automóveis fabricados eram movidos à gasolina. Mas, atualmente, mesmo os automó- veis movidos à gasolina poluem menos, pois recebem uma mistura de 25% de álcool para que seja reduzida a emissão de poluentes (veja o capítulo Transportes). Em 2003 surgiu no Brasil a primeira geração de veículos bicombustível, que podem utilizar tanto álcool como gasolina. Como o preço do álcool é menor, a expectativa é de que os bicombustí- veis (flex fluel) se popularizem e o uso do álcool combustí- vel volte a crescer. Itaipu: a maior do mundo A usina hidrelétrica de Itaipu é a maior em operação no mundo. Trata-se de um projeto binacional desenvolvido por Brasil e Paraguai. A usina foi instalada no rio Paraná, no trecho de fronteira entre os dois países, 14 km ao norte da Ponte da Amizade. Com 18 unidades geradoras de 700 megawatts cada, em 2000 a usina bateu o recorde mundial com a produção de cerca de 93,4 bilhões de quilowatts/ hora, o suficiente para suprir 95% da demanda no Paraguai e 24% do mercado brasileiro. Em outubro de 1982, após a conclusão da barragem, formou-se o reservatório de Itaipu, com área de 1.350 km2. Enquanto as águas subiam, equipes da área ambiental percorriam de barco e lanchas toda a área para recolher centenas de animais que tentavam esca- par das águas. Muitos não sobreviveram. Mesmo reconhe- cendo a importância de Itaipu para o Brasil, é inegável que o desaparecimento de Sete Quedas foi mais um silencioso crime contra a fauna, a flora e o patrimônio natural, em nome da geração de energia. Outro subproduto da cana é o bagaço resultante da produção de açúcar e álcool, que pode ser aproveitado nas usinas termelétricas para geração de energia. É um poten- cial enorme, pois a quantidade de bagaço produzida a cada safra representa 30% do volume da cana moída. Isso per- mite que as usinas de cana se tornem autossuficientes em termos de energia, podendo mesmo vender a eletricidade excedente. Estima-se que o potencial da cana-de-açúcar seja equivalente à metade da produção gerada em Itaipu, o que a torna a principal biomassa energética do País. 68 GEOGRAFIA Energia nuclear É a energia liberada por uma reação denominada fis- são nuclear – no reator nuclear, os núcleos dos átomos são bombardeados uns contra os outros, provocando o rompi- mento dos núcleos e a liberação de energia. Esse processo resulta em radiação e calor, que por sua vez transforma a água em vapor. A pressão resultante é usada para produzir eletricidade. A matéria-prima empregada na produção de energia nuclear é o urânio, um metal pesado radioativo. Seu uso é muito questionado, tanto pelos problemas de contami- nação resultantes da extração do urânio, como pelas difi- culdades de depósito final dos dejetos radioativos. Além disso, assim como em outros tipos de usinas termelétri- cas, frequentemente a água empregada nos sistemas de refrigeração, quando lançada nos corpos d’água, aumenta a temperatura e prejudica a biodiversidade local. No caso das usinas nucleares do Brasil, o rejeito de calor é lançado ao mar. As usinas nucleares também estão sujeitas a acidentes, como aconteceu nas usinas de Three Miles Island, nos EUA, em 1979, e Chernobyl, na Ucrânia, em 1986. O vazamento de radiação tem o poder de provocar alterações genéticas e câncer por várias gerações, além dos danos ambientais com consequências incalculáveis em longo prazo. Vários países da Europa foram afetados pelas consequências do vazamento radioativo de um reator em Chernobyl. No Brasil existem duas usinas nucleares em operação (Angra 1 e 2), no município de Angra dos Reis, RJ. Uma terceira usina (Angra 3) teve sua construção paralisada. O sistema fornece apenas 1,3% do total gerado pelo sistema elétrico no País. Em função dos riscos envolvidos, a Alema- nha aprovou, em 2000, um programa de desativação de suas usinas nucleares. A previsão é de que todas as usinas alemãs estarão fechadas no período de dez anos. Boa parte dos equipamentos empregados na Central Nuclear de An- gra foi importada da Alemanha. Economizar energia, além de fazer bem ao bolso, tam- bém contribui para diminuir a exploração de recursos na- turais não renováveis, como o petróleo, e para o adiamento da construção de novas hidrelétricas e de outras instala- ções de geração, transmissão e distribuição de energia, que causam grandes impactos ambientais. Energia eólica É a energia produzida a partir da força dos ventos. Nos aerogeradores, a força do vento é captada por hélices liga- das a uma turbina que aciona um gerador elétrico. A energia eólica é abundante, renovável, limpa e dis- ponível em muitos lugares. A utilização dessa fonte para geração de eletricidade, em escala comercial, começou nos anos 70, quando se acentuou a crise do petróleo no mundo. Os Estados Unidos e alguns países da Europa se interessaram pelo desenvolvimento de fontes alternativas para a produção de energia elétrica, buscando diminuir a dependência do petróleo e do carvão. No Brasil, o potencial de aproveitamento da energia eólica é de 143.000 megawatts. Os Estados do Ceará e do Rio Grande do Norte apresentaram os potenciais mais pro- missores. Considerando que as fontes alternativas ainda têm custos mais elevados do que as convencionais, em abril de 2002 o governo federal criou, pela Lei no 10.438, o Progra- ma de Incentivos às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa),como objetivo de ampliar a inserção da fonte eó- lica, da biomassa e PCH (Pequenas Centrais Hidrelétricas) no sistema elétrico interligado, de uma forma sustentável. Dentre outros benefícios, o Proinfa apresenta: • a diversificação da matriz energética e a consequente redução da dependência hidrológica; • a racionalização de oferta energética por meio da complementaridade sazonal entre os regimes eólico, de biomassa e hidrológico, especialmente no Nordeste e Su- deste; • a possibilidade de elegibilidade para o mercado de carbono, referente ao Mecanismo de Desenvolvimento Lim- po (MDL), pela Comissão Interministerial de Mudança Glo- bal do Clima, criada pelo Decreto Presidencial de 7 de julho de 1999, dos projetos aprovados no âmbito do Proinfa. Nenhuma energia é totalmente limpa. Até mesmo a energia eólica e a solar implicam danos ambientais. A pri- meira pode ocasionar poluição visual e sonora, e a segunda exige a exploração de minério para a fabricação da célula fotovoltaica e o uso de baterias. Portanto, a economia de energia, independentemente de sua fonte, sempre trará be- nefícios para o homem e o meio ambiente. Energia solar O Sol é a fonte primária de energia e, também, de vida. Podemos dizer que o Sol é, em última análise, a fonte res- ponsável pela maior parte da energia existente na superfície da Terra. A radiação eletromagnética do Sol propicia a pro- dução de calor e potência. Assim, podemos obter dois tipos de energia solar: a térmica e a fotovoltaica. • Energia solar térmica: a forma mais comum desse aproveitamento utiliza coletores solares que captam a ener- gia do sol e a transferem para a água, dispensando ou re- duzindo a necessidade de uso de aquecedores e chuveiros elétricos. • Energia solar fotovoltaica: a energia solar também pode ser coletada por meio de lâminas ou painéis chama- dos fotovoltaicos. Eles são recobertos com um material ca- paz de capturar a radiação solar e gerar energia elétrica. Essa energia pode ser utilizada diretamente ou armazenada em baterias para uso nos horários em que não haja sol. A energia solar não polui nem requer o uso de turbinas ou ge- radores, mas seu aproveitamento ainda tem custo elevado. Consumo x desperdício Segundo estimativas do setor elétrico, cada consumidor desperdiça em média 10% da energia fornecida, seja por hábitos adquiridos, seja pelo uso ineficiente de eletrodo- mésticos. Esse quadro, no entanto, parece estar mudando. Ao comprar lâmpadas e aparelhos elétricos, procure aqueles que consomem menos energia. Sempre que pos- sível, dê preferência aos produtos certificados pelo Inmetro e que possuam o selo de Economia de Energia do Procel. 69 GEOGRAFIA Coletores solares Os dispositivos responsáveis pela absorção e transfe- rência da radiação solar para a água sob a forma de energia térmica são os coletores solares. Instalados em casas, edi- fícios, hospitais etc., os coletores solares podem substituir com vantagens o uso dos chuveiros elétricos. A primeira vantagem é uma boa economia para o con- sumidor, já que o chuveiro é um dos equipamentos que mais consomem energia nas residências. A segunda vanta- gem é a economia para o sistema elétrico, que geralmente fica sobrecarregado no início da noite, no horário em que boa parte dos brasileiros está com seus chuveiros ligados. Especialistas do setor acreditam que o chuveiro elétrico seja responsável por 7% de todo o consumo nacional de energia elétrica. A terceira vantagem é para o meio am- biente, que será poupado do impacto gerado pela constru- ção de mais uma usina hidrelétrica. Em 2001 o país inteiro passou por um racionamento de energia elétrica. Os consumidores domésticos tiveram de reduzir o consumo em até 20%. Embora isso tenha exigido uma boa dose de sacrifício, o racionamento acabou sendo útil, na medida em que a população se tornou mais cons- ciente em relação ao desperdício. Para boa parte da população que nunca havia se preo- cupado com o gasto de energia, foi uma oportunidade para identificar e eliminar fontes de desperdício em suas residências e se conscientizar de que o consumo de ener- gia implica custos econômicos, ambientais e sociais. Para outra parte da população, a de menores recursos, a redu- ção do consumo significou algum sacrifício da qualidade de vida, já que, tendo pouco onde cortar consumo, teve de abrir mão do uso de eletrodomésticos. Ao final do raciona- mento, muitas pessoas já estavam habituadas a níveis mais baixos de consumo e continuaram economizando energia, agora não mais de forma compulsória, mas voluntariamen- te. Além de fazer bem ao bolso, essa economia contribui para diminuir a exploração de recursos naturais não re- nováveis e reduzir os impactos ambientais, pois permite o adiamento da construção de novas usinas de geração, linhas de transmissão e distribuição de energia. Evidentemente, as consequências negativas do racio- namento foram muito maiores do que as positivas, pois o desenvolvimento do país foi afetado como um todo. Eficiência energética Em 17 de outubro de 2001, foi sancionada a Lei no 10.295, que versa sobre a eficiência energética dos equi- pamentos que consomem eletricidade ou combustíveis. A partir dessa lei, os equipamentos comercializados no Brasil deverão atender aos índices mínimos de eficiência energé- tica ou níveis máximos de consumo de energia que serão definidos. O Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE), conduzi- do pelo Instituto Nacional de Metrologia e Normalização Industrial (Inmetro), efetua certificação de equipamentos quanto ao consumo de energia, em parceria com o Pro- grama Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Pro- cel). Os equipamentos testados pelo Inmetro trazem uma etiqueta em suas embalagens, indicando sua classificação quanto ao consumo de energia. Alguns produtos, como freezers, geladeiras e aparelhos de ar condicionado, entre outros, já exibem essa identificação. O que o consumidor pode fazer No seu dia-a-dia, o consumidor doméstico pode ado- tar uma série de medidas simples, mas que no final do mês podem se converter numa boa economia de energia. Veja a seguir algumas dicas para baixar o consumo: Chuveiro • O chuveiro elétrico é um dos aparelhos que mais consomem energia. O ideal é evitar seu uso em horários de maior consumo (entre 18 h e 20 h; no horário de verão, entre 19 h e 20h30). • Quando o tempo não estiver frio, procure usar o chuveiro com a chave na posição verão (morno). O consu- mo é 30% menor do que na posição inverno. • Tente limitar seus banhos em aproximadamente cinco minutos. Feche o chuveiro enquanto se ensaboa. Máquinas de lavar e ferro elétrico • Se usar máquinas de lavar louças e roupas, ligue -as somente com toda a sua capacidade preenchida. • Habitue-se a juntar a maior quantidade possível de roupas para passá-las de uma só vez. • Se o ferro for automático, regule sua temperatura. Passe primeiro as roupas delicadas, que precisam de me- nos calor. No final, depois de desligá-lo, você ainda pode aproveitar o calor para passar algumas roupas leves. Geladeira e freezer • De forma geral, esses equipamentos são respon- sáveis por cerca de 30% do consumo de uma residência. Na hora de comprar, leve em conta a eficiência energética certificada pelo selo Procel (Programa Nacional de Conser- vação de Energia Elétrica) e dê preferência aos que utilizam gases inofensivos à camada de ozônio (livres de CFCs). • Evite a proximidade com o fogão, aquecedores ou áreas expostas ao sol; No caso de instalação entre armários e paredes, deixe um espaço mínimo de 15 cm dos lados, acima e no fundo do aparelho. • Evite abrir a porta da geladeira em demasia ou por tempo prolongado. • Deixe espaço entre os alimentos e guarde-os de forma que você possa encontrá-los rápida e facilmente.• Não guarde alimentos e/ou líquidos quentes, nem recipientes sem tampa na geladeira. • Não forre as prateleiras com vidros ou plásticos, pois isso dificulta a circulação interna de ar. • Faça o descongelamento do freezer periodica- mente, conforme as instruções do manual, para evitar que se forme uma camada com mais de meio centímetro de espessura. • No inverno, a temperatura interna do refrigerador não precisa ser tão baixa como no verão. Regule o termos- tato. 70 GEOGRAFIA • Conserve limpas as serpentinas (as grades) que se encontram na parte de trás do aparelho e não as utilize para secar panos, roupas etc.. • Quando você se ausentar de casa por tempo pro- longado, esvazie o freezer e a geladeira e deixe-os desliga- dos. Lâmpadas • Na hora de comprar, dê preferência a lâmpadas fluorescentes, compactas ou circulares, para a cozinha, área de serviço, garagem e qualquer outro lugar da casa que fique com as luzes acesas por mais de quatro horas por dia. Além de consumir menos energia, essas lâmpadas du- ram mais que as comuns. Não se esqueça, porém, de que essas lâmpadas contêm substâncias químicas que podem ser prejudiciais à saúde se não forem descartadas adequa- damente. O melhor é entregar nos locais de venda, quando possível. • Evite acender lâmpadas durante o dia. Aproveite melhor a iluminação natural abrindo bem as janelas, cor- tinas e persianas. Apague as lâmpadas dos ambientes que estiverem desocupados. • Uma boa dica para quem vai pintar a casa é usar cores claras nos tetos e paredes – elas refletem melhor a luz, reduzindo a necessidade de luz artificial. • Periodicamente, faça a manutenção das instala- ções elétricas. Fios mal encapados, desencapados e mal isolados causam fuga de corrente. Televisão • Quando ninguém estiver assistindo, desligue o aparelho. • Não durma com a televisão ligada. Mas se você se acostumou com isso, uma opção é recorrer ao timer (tem- porizador) para que o aparelho desligue automaticamente. Ar-condicionado • Na hora da compra, escolha um modelo adequa- do ao tamanho do ambiente em que será utilizado. Prefira os aparelhos com controle automático de temperatura e dê preferência às marcas de maior eficiência (selo Procel). • Na instalação, procure proteger a parte externa da incidência do sol (mas sem bloquear as grades de ventila- ção). • Quando o aparelho estiver funcionando, mante- nha as janelas e as portas fechadas. • Desligue-o quando o ambiente estiver desocupa- do. • Evite o frio excessivo, regulando o termostato. • Mantenha limpos os filtros do aparelho, para não prejudicar a circulação e a qualidade do ar. Aquecedor (boiler) • Na hora da compra, escolha um modelo com ca- pacidade adequada às suas necessidades e leve em conta a possibilidade de uso da energia solar. • Dê preferência a aparelhos com bom isolamento do tanque e com dispositivo de controle de temperatura. • Ao instalar, coloque o aquecedor o mais próximo possível dos pontos de consumo. • Isole com cuidado as canalizações de água quen- te. • Ao utilizar, ajuste o termostato de acordo com a temperatura ambiente. • Ligue o aquecedor apenas durante o tempo ne- cessário; se possível, coloque um timer para que essa fun- ção se torne automática. Veja quanta energia você pode economizar se usar: Lâmpadas fluorescentes compactas 80% Lava-roupas a frio 80 a 92% Lava-roupas de baixo consumo 45 a 80% Varal em vez de secadora 100% Lava-louças a frio 75% Papel reciclado 50% Alumínio reciclado 90% Compartilhar carro com quatro pessoas 75% Usar ôni- bus em vez de automóvel 80% Andar a pé ou de bicicleta em vez de automóvel 100% Carro de baixo consumo 16 a 25% Dirigir a 90 em vez de 110 km/h 25% Carro pequeno em vez de grande 44% Tampar panelas e ajustar o tamanho da chama 20% Manter ventilado o radiador da geladeira 15% Subir em 1 grau o termostato da geladeira 5% Tostador de pão em vez de forno 65 a 75% Aquecedor de água a gás em vez de elétrico 60% Aque- cedor de água solar com apoio elétrico 70% Aquecedor de água solar com apoio a gás 85% Ventilador de teto em vez de ar-condicionado 98% Ar-condicionado evaporativo em vez de refrigerativo 90% Pneus calibrados 10% Obs.: os valores indicam porcentagens de energia eco- nomizada em relação ao aparelho ou serviço antes da mu- dança. Sistemas agrícolas Os sistemas agrícolas se distinguem a partir do tama- nho da área cultivada e do índice de produtividade alcança- do. Quando falamos em sistemas agrícolas, nos referimos à agricultura, que se apresenta de duas formas: agricultura intensiva e agricultura extensiva. Na agricultura intensiva, é usado em todas as etapas da produção um grande número de insumos. Esse tipo de sistema agrícola é marcado pela aplicação de técnicas e tecnologias. Faz parte da agricultura intensiva: a mecani- zação (tratores, colheitadeiras, plantadeiras, implementos, etc.) aliada ao uso de insumos, que são aplicados na pre- paração do solo, além de sementes selecionadas que são imunes de pragas e adequadas ao tipo de clima, herbicidas, inseticidas, entre outros. Para o desenvolvimento de todas as etapas existe o acompanhamento de um técnico (um agrônomo ou um técnico agrícola). Esse sistema de produção agrícola é conhecido tam- bém como agricultura moderna ou comercial; seus produ- tos têm como destino a exportação. Na agricultura extensiva são usados os elementos dispostos na natureza sem a inserção de tecnologias, por isso possui uma baixa produtividade. A produção depen- 71 GEOGRAFIA de unicamente da fertilidade natural do solo; por não usar insumos agrícolas é necessário ocupar grandes áreas de cultivo. A agricultura extensiva é bastante difundida em di- versos países da América Latina, África e Ásia. Esse sistema agrícola é marcado especialmente pela agricultura itine- rante ou roça tropical. Estrutura agrária Durante a década de 30, portanto no mesmo período em que se intensificou o processo de industrialização, foi que as migrações no sentido campo-cidade se estabele- ceram como fluxo contínuo, orientado para as cidades em rápido desenvolvimento industrial. Essa transferência de mão-de-obra rural para as zonas urbanas era vista não só como essencial para o processo de desenvolvimento, desde que fornecia força de trabalho necessária às atividades industriais, como também desejá- vel, por refletir um aumento da produtividade do sistema. A força de trabalho agrícola excedente ou subutilizada, ou mesmo aquela liberada pelo setor, pelas modificações no sistema de produção, migrariam para as zonas urbanas, atendendo assim às necessidades de crescimento do setor industrial, resultando daí um aumento de produtividade do sistema econômico nacional. Essa abordagem do êxodo rural é parte de uma visão de desenvolvimento que, principalmente após a II Guer- ra Mundial, levou os responsáveis pela orientação política, não só no Brasil, como em muitos países subdesenvolvidos, a adotarem a estratégia de uma rápida industrialização como forma de alcançar seu desenvolvimento econômico. Daí aceitar-se a liberação de mão-de-obra como uma das funções tradicionalmente desempenhadas pelo setor agrí- cola, tomando-se mesmo a redução percentual da popula- ção agrícola na população total como um dos indicadores do arranco do país dentro do processo de desenvolvimen- to econômico. Esse processo de desenvolvimento, baseado sobre a dinâmica do setor industrial, obteve altas taxas de cresci- mento do produto interno bruto, assim como a formação de um amplo e diversificado parque industrial. Mas tem-se revelado incapaz de apresentar um crescimento da taxa de emprego suficiente para resolver o problema de subem- prego e desemprego existente, mostrando que esse con- tinua sendo um dos maiores desafios que o país enfrenta,para diminuir a situação de pobreza em que vive grande parte de sua população. Frente a essa necessidade em que se coloca o sistema em gerar empregos para sua numerosa e crescente força de trabalho subutilizada, torna-se necessário que se recon- sidere a liberação de mão-de-obra agrícola, como sendo um fenômeno social, natural e necessário, sob o argumen- to de ser essa uma função historicamente desempenhada pelo setor agrícola dentro do processo de desenvolvimen- to econômico. Nesse caso, deve-se estudar as causas que provocam o êxodo rural, para que se possa propor opções alternativas para o desenvolvimento do setor agrícola, que o orientem no sentido de aumentar os níveis de absorção de mão-de-obra e, dessa forma, contribua para eliminar o desemprego e subemprego existente. É dentro desse plano que se coloca o presente estudo, em que se pretende analisar alguns aspectos da estrutura agrária que a tornam condição contribuinte (e não causa) do êxodo rural. Portanto, não pretendemos abordar deta- lhadamente a estrutura agrária de São Paulo, mas apenas nos referir a alguns de seus aspectos que contribuem para a ocorrência do êxodo rural. Inicialmente, faremos um breve histórico da estrutura agrária do Brasil e de São Paulo, pois é aí que devemos pro- curar as causas para o regime de posse da terra existente; a seguir, analisaremos a estrutura agrária paulista nas últimas décadas, relacionando-a com a distribuição ocupacional da mão-de-obra rural dela decorrente e a partir daí procura- remos mostrar a relação existente entre a estrutura agrária e o êxodo rural. 1. ORIGENS HISTÓRICAS DA ESTRUTURA AGRÁRIA Façamos um rápido retrospecto na história da agri- cultura brasileira. Ainda que se tenham alterado no tempo seus ciclos de produção, segundo alguns poucos produtos agrícolas, que tinham no mercado externo a variável deter- minante de sua expansão (que refletia não só o ritmo de crescimento da economia, como também, em função de fatores histórico-geográficos, a expansão ou retração de suas economias regionais), ela manteve na base do cha- mado modelo primário-exportador uma estrutura agrária onde os latifúndios sempre se apresentaram como a forma básica de constituição de propriedade. Porém os latifún- dios não se constituíram na única forma de ocupação das terras. Os minifúndios, principalmente na primeira meta- de do século XIX, ganharam importância e firmaram-se na constituição da estrutura agrária brasileira. Durante esse período, conforme assinala Guimarães,1 “desafiando o po- der das grandes oligarquias agrárias, multiplicavam-se as posses, e com elas ganhava largas dimensões e consistên- cia a classe dos pequenos cultivadores”. Contudo, como explica Vinhas de Queiróz,2”em 1850, esse processo - que levado às últimas consequências tor- naria o Brasil um país de estrutura agrária muito diversa da atual - foi drasticamente interrompido e assistimos aí uma nítida opção da classe que usufruía o poder político: podemos denominar essa derradeira etapa do Império a da consolidação da grande propriedade rural ou do sistema de plantations...” E assim, assentado sobre uma estrutura agrária baseada sobre o complexo latifúndio-minifúndio, constituiu-se um sistema produtivo onde setores moder- nos, orientados pára a exportação coexistiriam com econo- mias de subsistência. Inicialmente os latifúndios constituíram-se na forma mais eficiente de organizar um sistema produtivo orienta- do para fornecer alguns poucos produtos (açúcar, tabaco, etc.) para a metrópole. A escassez de mão-de-obra local, os altos custos em transferi-la da Europa, além da escassez da oferta de mão-de-obra que havia em Portugal, impunham a grande propriedade como o meio mais viável de ocupa- ção das extensas áreas que lhe pertenciam.3” Além disso, e sobretudo, existia uma forte pressão política de outras nações europeias que se interessavam pelas terras, o que colocava Portugal frente à necessidade de ocupação da co- 72 GEOGRAFIA lônia de forma rápida, situação em que o latifúndio (capi- tanias) apresentava-se também como a forma mais viável de ocupação.4 O minifúndio, por sua vez, tem suas origens segundo época e/ou região provocadas por diferentes causas, po- rém quase sempre ligadas ao tipo de propriedade domi- nante, ou seja, os latifúndios. Surgem, como se viu, de for- ma definitiva na estrutura agrária brasileira, fundamental- mente, na primeira metade do século XIX. São resultantes da ocupação das grandes áreas de terra que permaneciam inexploradas, ou daquelas que os latifundiários abandona- vam depois de terem exaurido seus solos, ou como resul- tantes de alterações no modo de produção, principalmente após a abolição da escravatura, quando se tornaram con- venientes por, representarem um atrativo à mão-de-obra imigrante, necessária às grandes fazendas.5 Esse tipo de estrutura agrária, herdada dos séculos passados, existe ainda hoje, de maneira relativamente uni- forme em todo o Brasil, ainda que se possa discutir a maior ou menor intensidade em certas regiões ou quanto às ten- dências que se teriam verificado no decorrer do tempo, no sentido de uma maior atomização na posse da terra. Acompanhando o quadro geral espelhado pelo Brasil, no Estado de São Paulo o complexo latifúndio-minifúndio sempre esteve presente. Os latifúndios remontam aos tem- pos das grandes fazendas de cana-de-açúcar, e posterior- mente de café, em meados do século XIX, época em que São Paulo começa a tornar-se o centro de maior expressão econômica do país - levado pela alta cotação do café no mercado externo. Os minifúndios têm suas principais ori- gens ligadas à vicissitude da monocultura de exportação. O abandono das terras cansadas, imprestáveis à lavoura, e as sucessivas crises do café provocaram uma relativa de- sintegração dos latifúndios no sentido de outros tipos de propriedades, particularmente os minifúndios. Essa estrutura agrária, fundamentada sobre o complexo latifúndio-minifúndio, cuja origem histórica sumariamente descrevemos, e que, como veremos, ainda hoje existe no Estado de São Paulo, manteve um desequilíbrio não só quanto à distribuição de posse da terra entre proprietários e trabalhadores, como também em relação à distribuição ocupacional (relação terra/homem) nos diferentes tipos de propriedade. A partir da constatação desse desequilíbrio - assunto que trataremos a seguir - é que formularemos, posteriormente, nossa hipótese desse estudo, onde admi- timos ter a estrutura agrária atuado como condição contri- buinte para ocorrência do êxodo rural em São Paulo. 2. ESTRUTURA AGRÁRIA E DISTRIBUIÇÃO OCUPA- CIONAL DE MÃO-DE-OBRA Para classificação das propriedades agrícolas de São Paulo, utilizaremos um critério adicional que é o número de pessoas ocupadas ou que podem ser ocupadas, pressu- pondo, portanto, existir uma íntima relação entre as condi- ções físicas da propriedade e a população ocupada ou que pode ser ocupada. Utilizaremos esse critério, pois ele permitirá não só mostrar a rigidez da estrutura agrária, como também tirar algumas conclusões quanto, à situação socioeconômica da população rural ativa, dentro dos diferentes tipos de pro- priedade. Utilizando-se esse critério, a classificação teórica é a seguinte:7 • Minifúndio: propriedades agrícolas de tamanho ina- dequado para dar emprego integral, dentro dos níveis tec- nológicos vigentes e de recursos, para duas pessoas duran- te o ano inteiro. • Propriedades agrícolas do tipo familiar: propriedades agrícolas que dão emprego integral para duas a quatro pessoas, presumindo-se que a maior parte do trabalho é realizada por membros da família. • Propriedades agrícolas multifamiliares ou de tama- nho médio: propriedade agrícola suficientemente grande para dar emprego integral para quatro a 12 pessoas. • Latifúndios:propriedades agrícolas multifamiliares, que dão emprego a mais de 21 pessoas. Portanto, considera-se que a unidade de propriedade básica é a familiar, que tem capacidade para permitir a ocu- pação plena da unidade básica de trabalho agrícola que é uma família de dois a quatro trabalhadores, incluindo o chefe de família.8 O termo ocupação plena é utilizado aqui em um sentido amplo, significando que é a quantidade de trabalho de tempo integral que proporciona uma renda adequada para suprir os trabalhadores com suficiente ali- mentação, alojamento, vestuário e alguma poupança.9 A partir dessa classificação teórica, a transposição para a determinação das classes, pelo critério de área (hectare), foi feita utilizando-se os dados agregados dos censos de 1940, 1950, 1960 e 1970. Tomou-se em todas as subclas- ses (em hectare), com base no censo, a população ativa; dividindo-a pelo número de estabelecimentos, achou-se a quantidade média de pessoas dada como em atividade em cada uma dessas subclasses. A partir daí, determinou-se a classe (minifúndio, propriedade familiar, propriedade mul- tifamiliar, latifúndio) segundo o pessoal ocupado, que cada subclasse (em hectare) do censo se enquadraria. Dentro desse critério, achou-se os limites de classe em hectares, para cada tipo de propriedade, assim como a po- pulação ativa média para cada classe. Esses resultados são apresentados no quadro 1. Utilizando essa classificação, a estrutura agrária de São Paulo, segundo os dados dos censos agropecuários de 1940, 1950, 1960 e 1970, é apresentada no quadro 2. Portanto, o fato de que a estrutura agrária não se alte- rou fundamentalmente nas últimas três décadas torna-se evidente nos dados apresentados no quadro 2. Pode-se observar que o minifúndio em todos os anos apresenta uma grande participação quanto ao número de estabelecimentos, porém ocupa uma parte extremamente pequena em relação à área ocupada. Na outra ponta, os latifúndios, que ocupam, nas últi- mas quatro décadas, em média 60% da área, apresentam- se distribuídos em aproximadamente 6% dos estabeleci- mentos, mostrando que durante esse período o latifúndio continuou sendo o tipo de propriedade monopolizadora das terras. • A manutenção de grande parte da população rural que, sem acesso à posse de terra, conta, portanto, apenas com sua força de trabalho como fator de produção e meio de subsistência. 73 GEOGRAFIA • Mantém uma pequena classe de proprietários de lati- fúndios que controlam não só a maior parte da terra, como grande parte da população rural em um status subservien- te, sob forma de relações de trabalho diversas. • Manutenção de grande parte dos proprietários, os chamados camponeses pobres, com áreas de terra insu- ficientes para utilizarem a força de trabalho própria e da família,11 obtendo nessas condições uma renda tão baixa quanto os menores salários. 3. ESTRUTURA AGRÁRIA E O ÊXODO RURAL EM SÃO PAULO Nessas circunstâncias, passa a existir no Estado de São Paulo (e também no Brasil) não só um desequilíbrio quanto à distribuição de terras entre proprietários e trabalhadores, como também na distribuição da população rural em rela- ção à terra que ocupa. A partir dessa constatação é que formularemos nossa hipótese: A estrutura agrária, à medida que manteve grande parte da população ativa como contratada, ao lado de um pequeno número de proprietários que controlam não só a maior parte da terra, como dos trabalhadores assalariados, assim como uma alta densidade ocupacional nos minifún- dios, atuou como condição contribuinte para a ocorrência do êxodo rural. É o que procuraremos mostrar a seguir, analisando os dados dos quadros 3, 4 e 5. Primeiramente, analisaremos a situação dos trabalha- dores assalariados dentro do setor agrícola, mostrando a seguir o alto poder de decisão que os proprietários das propriedades médias e dos latifúndios têm sobre a perma- nência dos assalariados dentro desse setor. Depois, procu- raremos analisar a situação existente nos minifúndios, onde exíguas áreas de terra mantém uma alta concentração de trabalhadores subempregados. Finalmente, analisaremos também a situação das propriedades familiares, como pos- sível condicionante do êxodo rural. Das 1.744.936 e 1.531.658 pessoas, dadas como em ati- vidade na agricultura paulista em 1940 e 1950 respectiva- mente, aproximadamente 60% (quadros 3 e 4) eram cons- tituídos por pessoal contratado que, sem acesso à posse de terra, caracterizava-se, como já dissemos, por possuir apenas sua força de trabalho como fator de produção, com a venda da qual estabelecia o vínculo com a propriedade agrícola. Quaisquer alterações na organização da produção, que resultassem na diminuição das necessidades de mão- de-obra na propriedade, levariam ao rompimento do vín- culo entre o homem e a propriedade, e consequentemente entre o homem e o lugar, obrigando-o a procurar novas oportunidades de trabalho. Se essas modificações na or- ganização da produção passassem a se apresentar como tendência do setor agrícola, acarretariam uma liberação constante de mão-de-obra desse setor, dada a alta per- centagem de trabalhadores sem acesso à posse de terra. Se observarmos mais de perto os dados, notamos que, do total de trabalhadores contratados em 1940 e 1950, aproximadamente 95% estavam vinculados às proprieda- des do tipo médio e aos latifúndios. Considerando-se o baixo poder de barganha e de organização que caracteriza essa classe subserviente, conclui-se que a sua permanência no setor agrícola depende basicamente das decisões to- madas pela classe proprietária, no âmbito desses dois tipos de propriedade. Nessas propriedades, as decisões são orientadas se- gundo o objetivo maximização dos lucros. Novas práticas são adotadas à medida que proporcionam uma receita marginal superior, ao custo marginal decorrente, já que do ponto de vista empresarial esse é o comportamento racio- nal do proprietário. Assim, os possíveis efeitos das decisões sobre a liberação de mão-de-obra são irrelevantes para o proprietário, já que inexistem vínculos que bloqueiem o desemprego da força de trabalho, pois aí predomina o tra- balho assalariado. Tendo-se em conta que o poder de decisão é decor- rente da possa da terra, poderíamos dizer que a estrutura agrária atuaria como condição permanente para a ocor- rência dos fluxos migratórios, à medida que as decisões nesses dois tipos de propriedades fossem orientadas para uma liberação da mão-de-obra ocupada. Os efeitos da orientação das decisões nessas proprie- dades, no que se refere à liberação de mão-de-obra do setor agrícola, podem ser avaliados através de uma rápida análise da relação terra/homem, existente nos latifúndios e propriedades médias no decorrer do tempo. No período 1950-70, observou-se um aumento da re- lação terra/homem de 8,9 (1950) para 9,8 (1960) nas pro- priedades médias e de 21,6 (1950) para 23,4 (1960) nos latifúndios, sendo que em 1970 essa relação era de 12,3 e 39,9 respectivamente. Uma das causas fundamentais desse aumento (principalmente no período 1960-70) foi a introdução de uma tecnologia poupadora de mão-de-o- bra. Realizaram-se investimentos maciços em mecanização agrícola, provocando um aumento na relação capital-tra- balho, que se refletiu em particular na elevação da relação terra/homem e consequentemente numa liberação forçada de mão-de-obra. Portanto, essa estrutura agrária, onde aproximada- mente 90% das terras pertencem aos proprietários médios e aos latifundiários, permitiu que as modificações na orga- nização da produção agrícola, procurando-se um aumen- to da produtividade, fossem realizadas fundamentalmente com a introdução indiscriminada de técnicas quase sempre oriundas de países desenvolvidos e por isso mesmo criadas para condições diferentes. Essastécnicas levaram a uma li- beração contínua de mão-de-obra, não se adaptando, por- tanto, a uma realidade em que grande parte da força de trabalho é subutilizada. É bem verdade que os efeitos da relação terra/homem sobre a liberação de mão-de-obra do setor agrícola, nos tipos de propriedade em questão, poderiam ter sido evita- dos ou atenuados pelo aumento da produção, que na falta de dados específicos pode ser avaliado pelo aumento da área integrada na produção. Passemos então a analisar o grau de utilização das terras no período considerado nes- ses dois tipos de propriedades. 74 GEOGRAFIA Pode-se observar que dos 17 milhões de hectares de terras ocupadas em 1950 16 pelos latifúndios e proprieda- des médias, aproximadamente 28% eram pastagens natu- rais e 27% eram terras não utilizadas, totalizando aproxi- madamente 55% de terras que quase nada representavam em termos de ocupação de mão-de-obra. Portanto, o cul- tivo de apenas 45% da área produtiva refletia diretamente no desequilíbrio ocupacional existente entre os diferentes tipos de propriedade, assim como a sua utilização torna- va-se uma das variáveis determinantes do crescimento da demanda de mão-de-obra. À medida que não houvesse condições para que se in- cluíssem na produção essas terras produtivas inexploradas, de tal forma que gerassem um aumento de empregos pelo menos igual ao acréscimo natural da oferta de trabalha- dores, teríamos um excedente de mão-de-obra que seria forçado a migrar. Poderia ocorrer até mesmo uma dimi- nuição da população ativa contratada, nesses dois tipos de propriedades, à medida que modificações na organização de produção19 provocassem uma liberação de mão-de-o- bra superior aos níveis de empregos gerados pela maior utilização das terras produtivas. Com efeito, em 1960, dos 17 milhões de hectares de terras produtivas ocupadas pelos latifúndios e proprieda- des médias (92% do total) apenas 50% eram terras efeti- vamente utilizadas na produção, enquanto que dos 50% restantes 30% eram utilizadas como pastagens naturais e 20% eram terras produtivas não utilizadas.20 Se compa- rarmos a variação da mão-de-obra do setor agrícola nesse período, notamos que em 1960, apesar da população ativa rural ter aumentado em 13% em relação a 1950, verificou- se uma diminuição em valor absoluto de 36.366 trabalha- dores contratados, com a participação desses reduzindo-se de 60% para 51 % da população ativa total. Entre as classes de propriedade, a redução mais drás- tica ocorreu nos latifúndios e propriedades médias, onde diminuíram em valor absoluto de 87.443, ou seja, cerca de 10% em relação à existente nessas propriedades em 1950. Portanto, ainda que se tenha aumentado em 5% a área efetivamente utilizada na produção, observou-se uma di- minuição na mão-de-obra contratada; em outras palavras, o aumento das terras integradas na produção não foi sufi- ciente para empregar a mão-de-obra liberada pelas modi- ficações na organização da produção. Dessa forma, essa estrutura agrária manteve grande parte da população ativa sem acesso à posse da terra. Por outro lado, deu poder a uma pequena classe de proprietá- rios, cujas decisões tiveram consequências diretas sobre a utilização da mão-de-obra no setor agrícola e, consequen- temente, sobre sua permanência neste setor. Um segundo aspecto a ser considerado dentro da es- trutura agrária, que a torna condição contribuinte para a ocorrência do êxodo rural, é a situação dos minifúndios, cuja participação no número total de estabelecimentos va- riou nas últimas décadas (50 e 60) de 15% e 27% e de 0,6% a 1,6% na área total. Os minifúndios são propriedades de exíguas áreas, onde predomina o trabalho familiar em uma agricultu- ra na maioria das vezes orientada para o autoconsumo e, em pequena escala, para o mercado consumidor. Nessas condições, em 1960 existiam 207.118 pessoas ativas, repre- sentando 12% do total, sendo que dessas, 185.402 eram produtores e seus familiares. Apesar de proprietário da terra, se impossibilitado de participar do mercado, dadas as condições naturais (solo, clima) de funcionamento do mercado de fatores e produ- tos, estruturais e institucionais, volta-se para a agricultura de subsistência, o que, aliado à pequena extensão de sua parcela em relação à mão-de-obra disponível, irá gerar um excedente de trabalho que será pressionado a migrar. É bem verdade que, em função de certas condições favorá- veis, parte desses minifúndios irá organizar sua produção com vistas ao mercado. Nesse caso, podem ser motivados a introduzir técnicas, principalmente aquelas que elevam a produtividade da terra (fertilizantes, corretivos, fungi- cidas, inseticidas, etc.), já que sua baixa relação terra/ho- mem (aproximadamente 1,4 nas últimas quatro décadas) está aquém das exigidas pelos investimentos que elevam a produtividade da mão-de-obra, mediante a substituição da força de trabalho humana pelo animal e/ou mecânica. Além do mais, esse tipo de técnicas iria provocar uma ele- vação da relação terra/homem, aumentando o desequilí- brio econômico, já existente em relação à mão-de-obra, que por ser basicamente de origem familiar (em São Paulo era, em 1960, de aproximadamente 90%) acaba por blo- quear iniciativa nesse sentido. Porém, mesmo organizando sua produção com vistas ao mercado, em virtude da pe- quena extensão de sua parcela em relação à capacidade familiar disponível, obtém uma baixa renda média para o fator trabalho (ainda que a renda média da terra possa ser alta). Frente a essa situação, pode-se dizer que a distribuição desigual de terras leva a uma alta concentração de mão-de -obra nos minifúndios, que não podem utilizar plenamente a força de trabalho existente, passam a gerar um excedente de M.O., que é agravado pelo crescimento natural da força de trabalho (herdeiros). Esse excedente, pressionado por uma baixa renda, mantém-se sob condição permanente a migrar em busca de novas oportunidades de trabalho, e mesmo que as encontre em propriedades rurais maiores, torna-se assalariado, cuja situação analisamos anterior- mente. Estes migrantes, dada as condições que sempre des- frutaram no campo, são pessoas de poucos recursos, sem nenhuma qualificação profissional. Assim, quando se des- tinam para as zonas urbano-industriais, irão se constituir num proletariado de poucos recursos, reproduzindo aí as profundas desfigurações existentes dentro do setor agríco- la, que se traduzem nos baixos níveis de vida da população. Contudo, deve-se notar que, embora se tenha mantido no minifúndio uma relação trabalhador/estabelecimento ao redor de 2,5, o número deste estabelecimento dobrou no período considerado, o que resultou num aumento de igual proporção da população ativa aí empregada. Por- tanto, ainda que suas condições internas o levem a atuar como condição permanente do êxodo rural, sua prolifera- ção operou no sentido de absorver excedentes de mão- de-obra, funcionando assim como depósito de força de trabalho rural, o que atenuou o êxodo rural. 75 GEOGRAFIA Em último lugar, vamos considerar as propriedades fa- miliares quanto à sua possível atuação como condição con- tribuinte para a ocorrência do êxodo rural. As propriedades familiares são unidades de produção, cuja área permite o trabalho em tempo integral, de duas a quatro pessoas durante todo o ano, não existindo, portanto, subutilização da mão-de-obra existente. Por outro lado, cultivam 80% de suas terras produtivas, e como parece mostrar a redu- ção da relação terra/homem de 3,6 (1940) para 3,1 (1960), orientam seus investimentos fundamentalmente para au- mentar a produtividade da terra, e não da mão-de-obra, como ocorre nas propriedades médias e latifúndios. Isto seria explicado pelo fato de que, sendo a mão-de-obra ba- sicamente de origem familiar, portanto não dispensável,as modificações na organização da produção objetivam ba- sicamente aumentar o rendimento da terra, evitando-se assim técnicas e/ou culturas que provoquem a liberação de mão-de-obra. Melhor explicando: se a parcela de ter- ra, ainda que suficiente para produzir renda adequada, é o fator escasso de produção, e a mão-de-obra é fixa e de custo nulo (por ser de origem familiar o proprietário deixa de imputar um salário pelo seu uso - o que significa dar-lhe um custo nulo como fator de produção), as decisões nessas propriedades são orientadas segundo o objetivo de maxi- mizar o rendimento monetário líquido da terra, pois assim estará maximizando a renda líquida da família. Visto que não existindo um excedente de trabalho que mantenha um alto grau de utilização da terra, os in- vestimentos realizados não levam a uma substituição do homem pelo capital, podemos admitir que este tipo de propriedade pode estar contribuindo muito pouco para a liberação forçada de mão-de-obra. Os indivíduos que eventualmente migram destas pro- priedades poderiam, em princípio, continuar no campo. Sendo eles de famílias de proprietários que desfrutam de suficiente nível de renda, apresentam maior nível de quali- ficação, de educação, etc. Nessas condições, quando saem do campo acumulam bons requisitos para enfrentar a vida urbana, e só migram frente às melhores oportunidades que podem alcançar na cidade. Finalmente, deve-se considerar que, no período anali- sado, a propriedade familiar não se constituiu em condição contribuinte para o êxodo rural. Por outro lado, sua prolife- ração, ao mesmo tempo que se reduziu sua relação terra/ homem, operou como fator atenuante do referido proces- so, devido a um sensível aumento da população ativa aí empregada. Pelos dados dos quadros 3 e 5, observamos que em 1940 o número de estabelecimentos (proprieda- des familiares) era de 80.972, para uma população ativa de 271.226, enquanto em 1960 o número de estabelecimentos aumentou para 113.091 e a população ativa passou para 403.861. Agricultura e meio ambiente As atividades agrícolas não-conservacionistas, junto com a revolução industrial são as principais responsáveis por muitos impactos causados na natureza O desmatamento, o aumento das emissões de gases -estufa, a contaminação das águas e do solo são proble- mas que impactam a atualidade, mas cuja origem se dá há algumas décadas, por ocasião da intensificação do pro- cesso de industrialização e a utilização irracional dos re- cursos naturais orientados para atividades agrícolas. Com isso, há uma tendência mundial em adotar medidas de investimento na busca por fontes renováveis de energia. Isso não conta com os impactos da agricultura no meio ambiente. No caso dos biocombustíveis, esse fato oca- siona ainda maior expansão das atividades produtivas na agricultura. No entanto, esse processo pode ser contro- verso. Segundo a Agência Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), a ampliação das cul- turas de cana-de-açúcar, do milho, da mamona, do giras- sol, da soja, do amendoim, associadas à substituição da floresta por áreas de pastagem de gado têm provocado diversos impactos à composição química, e à biodiversi- dade dos corpos d’água. São práticas potencialmente devastadoras ao desgas- te do solo, sem contar os inúmeros problemas ambientais relacionados. No caso da cana-de-açúcar, por exemplo, o uso da vinhaça (subproduto do refino do álcool) como fertilizante pode ser desastroso. A vinhaça é rica em ni- trogênio, elemento químico cujo efeito na forma de fer- tilizantes pode ser grave ofensor ao equilíbrio do efeito estufa, assim como em excesso na água de rios e lagos, pode favorecer o crescimento de algas e o consequente processo, conhecido como eutrofização, que provoca di- minuição do oxigênio na água, a morte e decomposição de muitos organismos, diminuindo a qualidade da água e possivelmente uma considerável alteração do ecossis- tema. Já a fuligem produzida pela queima da cana-de-açú- car durante a colheita contém um tipo de carbono dife- rente, que pode ser assimilado em maior ou menor escala por organismos presentes em um rio. Após o material ser depositado no solo ou em um ecossistema aquático, a fuligem acidifica o solo e a água, e isso também acarreta graves consequências para os ecossistemas, assim como a questão da acidificação dos oceanos provocada pelas emissões deliberadas de CO2 na atmosfera do planeta (veja mais aqui). 76 GEOGRAFIA Consequência Como consequência, os produtos alimentícios estão sofrendo uma alta de preços e a suspensão de novos in- vestimentos em biocombustíveis já foi recomendada pela ONU, pois além, dos fatores até aqui comentados, sua produção requer grandes quantidades de água, recurso cada vez mais escasso em razão da crescente depleção de lençóis freáticos, via consumo ou contaminação, reservas estas de difícil reconstituição. Para produzir 1 litro de com- bustível feito da cana-de-açúcar, por exemplo, são neces- sários 1,4 mil litros de água. Muito se fala sobre as áreas desmatadas pela agricultu- ra, mas o que poucos sabem é que a maioria das florestas derrubadas, como por exemplo na Amazônia, sobretudo o sul desta, que se inicia no território do Mato Grosso, não tem na agricultura o único algoz, mas sim a pecuária, que transforma milhares de quilômetros de mata em pastos e a seguir em áreas degradadas. Isso mostra que a pecuária, mesmo nos tempos atuais ainda é extensiva e carece de muita atenção, seja por parte dos consumidores (veja mais aqui) como em relação a po- líticas públicas, a fim de que a atividade possa ser pratica- da de maneira responsável em suas diversas perspectivas, dentre elas no adequado uso da terra. Pesquisa Um interessante estudo apoiado pela Fapesp foi feito para medir as transferências de nitrogênio e a biodiversida- de de peixes envolvendo duas bacias interligadas em Ron- dônia, com as mesmas condições físicas e 800 metros de extensão cada uma, cuja única diferença residia no fato de que uma das bacias era margeada por áreas de pastagem de gado e a outra possuía mata ciliar. Os pesquisadores observaram que o rio que teve sua cobertura vegetal modificada apresentava apenas uma es- pécie de peixe, enquanto o curso da água cuja mata ciliar foi mantida, possuía 35 espécies. A conclusão dos espe- cialistas aponta que, ao se retirar a vegetação da borda de um rio, mais luz e materiais penetram nos corpos d’água, fazendo com que a água tenha menos oxigênio, o que mo- difica as condições locais e afeta a diversidade biológica do ecossistema. O mundo inteiro entraria em colapso sem a existência de solos férteis, água de boa qualidade e ar limpo. O va- lor dos serviços prestados pela natureza parece ser finito, porém a justificativa para tais abusos do meio ambiente reside no crescente problema ambiental. E com isso, mui- tos países estão tomando medidas de controle para mini- mizar o desequilíbrio do efeito estufa, com investimentos na agroenergia. Porém, embora a grande preocupação com a expansão dos cultivos de soja, de cana-de-açúcar e de milho para produzir biocombustíveis seja saber se as áreas de produ- ção de alimentos serão substituídas por áreas para produ- ção de energia, pouco se tem olhado para a questão da água. A maior parte das áreas de produção de agroenergia não possui água suficiente para manter as culturas com elevada produtividade, no que será necessário irrigá-las. Isso representa outro sério problema que deverá alterar, drasticamente, o ciclo da água, de acordo com a pesquisa. Ou seja, o que pareciam soluções inequívocas - o in- vestimento em biocombustíveis e a expansão das áreas de produção de alimentos - podem significar o oposto em termos ambientais. É preciso debater se os biocombustí- veis podem ser uma alternativarealmente viável, além de se promover a discussão sobre uma expansão agrícola de qualidade, cujos danos ao meio ambiente possam estar sob o necessário controle. A ONU e a alimentação Por duas décadas, a demanda global por alimentos au- mentou de forma constante, juntamente com o crescimen- to mundial da população, safras recordes, melhorias na renda e com a diversificação das dietas. Como resultado, os preços dos alimentos continuaram a declinar até 2000. Mas, a partir de 2004, os preços para a maioria dos grãos começou a subir. Embora tenha havido um aumento da produção, o aumento da procura foi maior. Estoques de alimentos se esgotaram. E então, em 2005, a produção de alimentos foi dramaticamente afetada por incidentes meteorológicos extremos nos principais países produtores de alimentos. Em 2006, a produção mundial de cereais caiu 2,1%. Em 2007, o rápido aumento dos preços do petróleo aumentou os custos de fertilizantes e da pro- dução alimentos. Com os preços internacionais dos alimentos atingindo níveis sem precedentes, os países procuraram maneiras de isolar-se da escassez de alimentos e potenciais choques de preços. Vários países exportadores de alimentos impuse- ram restrições à exportação. Alguns principais importado- res começaram a comprar os grãos a qualquer preço para manter o abastecimento interno. Isto resultou em pânico e volatilidade nos mercados in- ternacionais de grãos. Também atraiu investimentos espe- culativos a mercados futuros e opcionais de grãos. Como resultado, os preços subiram ainda mais. Posteriormente, os preços das commodities alimenta- res pareceram estar se estabilizando. Mas os preços devem continuar elevados em médio e longo prazo, com conse- quências devastadoras para as populações mais vulnerá- veis do mundo. Para resolver a crise crescente, o Secretário-Geral pro- pôs a criação de uma Força-Tarefa, que, em julho de 2008, publicou o seu Quadro de Ação Global. Composto de 20 membros do Sistema da ONU, é presidido pelo Secretário- Geral Ban Ki-moon. O vice-presidente é Jacques Diouf, Di- retor-Geral da Organização das Nações Unidas para Agri- cultura e Alimentação. Segundo a Força-Tarefa, estes preços elevados estão vinculados ao impacto sobre a capacidade do mundo para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Isso se aplica em especial aos objetivos que estabeleceram pa- râmetros para a redução da pobreza, da fome, da mortali- dade infantil, da saúde materna e da educação básica para todos. Seu amplo quadro define ações para atender às ne- cessidades imediatas das populações vulneráveis. Estas incluem a assistência alimentar, as intervenções de nutri- 77 GEOGRAFIA ção, o desenvolvimento de redes de segurança e mudan- ças nas políticas comercial e fiscal. Outras ações visam criar em longo prazo um sistema global de alimentos e nutrição mais resiliente. Estas incluem medidas de proteção social, o apoio ao pequeno agricultor local e a regulação do papel dos investimentos especulativos nos mercados de alimen- tos internacionais. Os membros mais ativos do Sistema da ONU no com- bate a esta crise, bem como as ações que estão tomando, são os seguintes: O Programa Mundial de Alimentos (PMA), através da sua Resposta Global aos Preços Altos de Alimentos, está aumentando a disponibilidade de alimentos nutritivos para crianças, mães e outros grupos particularmente vulnerá- veis. Também está incluindo novos e melhores produtos às suas rações alimentares e promovendo a produção local e a compra de alimentos e produtos alimentares nutritivos. O Novo Acordo na Política Global de Alimentos do Ban- co Mundial trabalha a curto, médio e longo prazo, através de redes de segurança tais como merenda escolar, alimen- tos por trabalho e transferências condicionais de dinhei- ro. Ele promove o aumento da produção agrícola, a com- preensão do impacto dos biocombustíveis e uma redução nos subsídios que distorcem o comércio e as barreiras. Seu novo mecanismo de financiamento rápido de 1,2 bilhão de dólares, o Programa Global de Resposta Alimentar, acelera a assistência aos países mais necessitados. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) direcionou quase 59 milhões de dólares em 2008 para auxiliar os países mais prejudicados durante épocas de plantio. A Iniciativa sobre o aumento dos Preços dos Alimentos da FAO envolve o fornecimento de análises de políticas e assistência, e aumentou o acesso a adubos, sementes e ferramentas. Ela promove a reabilitação da in- fraestrutura, inclusive por meio de irrigação. Também lida com a melhoria da produção, mercados agrícolas, redução da perda de colheitas, gestão de riscos de desastres, apoio à coordenação e assistência técnica. O Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) disponibilizou 200 milhões de dólares, como um primeiro passo, para impulsionar a produção agrícola nos países afetados. Os fundos apoiam o aumento da produ- ção por pequenos produtores e agricultores familiares. E ajudam a fornecer crédito para a compra de insumos agrí- colas, para a distribuição de sementes e para a multiplica- ção de sementes por organizações de agricultores. O FIDA concede assistência para ajudar os agricultores a aumen- tarem a produção de alimentos básicos, incluindo grãos e produtos lácteos básicos. Ele ajuda a melhorar a fertilidade da terra e a gestão sustentável da terra e da água. O Fundo Monetário Internacional (FMI) realizou um es- tudo global sobre as consequências macroeconômicas da crise de alimentos e combustíveis. Suas equipes oferecem assessoria baseada em diagnósticos específicos de cada país, em questões como a política monetária, as taxas de câmbio e as políticas comerciais. O FMI oferece assistên- cia a países na concepção e implementação de respostas políticas, tais como mudanças de tarifas ou programas de transferência de impostos. O objetivo é atenuar o impacto da alta dos preços dos alimentos e combustíveis sobre os pobres. É também prestar assistência financeira a um nú- mero de países de baixa renda através de sua Unidade de Crescimento e Redução da Pobreza. A Organização Mundial da Saúde (OMS) empreende atividades focadas nos problemas relacionados à nutrição e à saúde, causados pela crise mundial de alimentos, em curto, médio e longo prazo. Ajuda os países na avaliação de sua situação sanitária e nutricional e monitora os mais vulneráveis. Ela promove a higiene dos alimentos e ajuda a garantir um abastecimento alimentar seguro. Destina-se a gerir a desnutrição grave ou moderada, promover a ama- mentação materna, melhorar o acesso a suplementos de micronutrientes e implementar a alimentação escolar. Pro- move programas de nutrição de crianças e mães e fornece serviços de saúde de baixo custo ou gratuitos para grupos afetados severamente. Também visa assegurar a continui- dade dos cuidados de saúde e programas de imunização para crianças e mulheres grávidas. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvi- mento (PNUD) trabalha com os governos, as Nações Uni- das e outras agências internacionais para ajudar os gover- nos de países em desenvolvimento a responderem à crise alimentar global. Ele ajuda os governos a elaborar estra- tégias para expandir a produção agrícola sustentável e a produtividade, e ajuda a projetar redes de segurança para os mais vulneráveis. Esclarece questões e opções políticas para promover a tomada de decisão e realiza análises em profundidade sobre o impacto da crise no país e a nível re- gional. Além disso, mobiliza recursos para satisfazer essas necessidades. A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) ajuda os países em desenvol- vimento, especialmente os menos desenvolvidos, a refor- çarem sua segurança alimentar. Também oferece assistên- cia na atraçãode investimentos estrangeiros e domésticos e no desenvolvimento de práticas agrícolas sustentáveis. Ela ajuda a identificar mercados para produtos agrícolas orgânicos e o biocomércio, e promove a remoção de bar- reiras não-tarifárias. Fornece aos agricultores informações de mercado para obter os melhores preços para seus pro- dutos e mobiliza o apoio de novos instrumentos finan- ceiros para gerenciar riscos, reduzir custos de transação e melhorar o acesso aos alimentos. Facilita para pequenos agricultores o acesso ao crédito para sementes e fertilizan- tes, a simplificação dos procedimentos aduaneiros e me- lhor logística de transporte. Dentro do Secretariado das Nações Unidas, o Secretá- rio-Geral estabeleceu uma reserva de 100 milhões de dóla- res no Fundo Central de Resposta a Emergências da ONU que consiste em um fundo humanitário gerido pelo Escri- tório de Coordenação dos Assuntos Humanitários (OCHA) da ONU, em nome da comunidade humanitária. Em setem- bro de 2008, 92 milhões de dólares já haviam sido alocados para responder a atividades imediatas de salvamento de vidas no que diz respeito à segurança alimentar, agricultu- ra, saúde e nutrição para países prioritários. 78 GEOGRAFIA Além disso, o Departamento de Assuntos Econômi- cos e Sociais (DESA) realiza uma análise setorial cruzada da crise alimentar atual. Ele fornece suporte material para as reuniões intergovernamentais, bem como relatórios de estudos, pesquisas e atualizações sobre os vários aspectos desta questão. Os fluxos de capitais No mundo globalizado em que vivemos existe um grande fluxo de capital (transações financeiras, como com- pra e venda de ações de empresas, títulos e moedas), esse tipo de atividade ocorre a partir de evoluções que aconte- ceram nos meios de comunicação. O mundo atualmente está interligado por meio de uma complexa rede de co- municação, como: telefonia móvel e fixa, satélites, internet e etc. Esses permitem que bilhões de dólares sejam trans- feridos entre os mais variados países do mundo em um único dia. Através de um mouse um brasileiro pode inves- tir milhões de reais em outra parte do mundo, isso é um exemplo claro de fluxo de capital. Operações dessa natureza são executadas entre distin- tos países quase que em tempo real, isso é possível entre nações integradas no mercado financeiro internacional. Em minutos vultosos negócios sucedem e inúmeros outros são abertos, e envolvem um volume gigantesco de capitais (di- nheiro), sendo que as negociações movimentam no plane- ta em um único dia aproximadamente 1 trilhão de dólares. O lugar onde grande parte dessas negociações ocorre é nas bolsas de valores espalhadas por diferentes pontos do planeta, e essas se encontram interligadas. Atualmente, as principais bolsas estão localizadas em cidades de países desenvolvidos, entre as quais podemos citar: Nova Iorque (Estados Unidos), Londres (Inglaterra), Paris (França) e Tó- quio (Japão). Além daquelas localizadas em países em de- senvolvimento, como: São Paulo (Brasil), Buenos Aires (Ar- gentina). Incluindo ainda nações subdesenvolvidas indus- trializadas, como: Jacarta (Indonésia) e Seul (Coreia do Sul). Tais cidades abrigam também sedes administrativas ou filiais de multinacionais, principais bancos e instituições financeiras, entre outras de renomes internacionais. Isso quer dizer que essas cidades são centros financeiros, in- cluídas na rota global de capitais, geralmente as mesmas possuem o “status” de cidades globais ou mundiais. Os fluxos de informações Em um único aparelho de celular é possível enviar vá- rios tipos de informações, como transações bancárias, fo- tos, imagens, mensagens, dentre outras. Algumas tecnologias da informação, como computa- dores conectados à internet, teleconferência, telefone fixo e móvel, satélites, além de outros, favorecem de forma di- reta o fluxo de informações, isso em cadeia global. Contamos atualmente com uma complexa rede de co- municação, pela qual as mais diversas informações fluem de maneira acelerada, dessas podemos citar: os noticiá- rios da TV, rádio, jornais, revistas, internet e muitos outros. Diante desses e de outros meios de comunicação, o ho- mem contemporâneo pode assistir uma guerra ou mesmo um atentado através de um aparelho de televisão, como o que aconteceu nos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001, quando bilhões de pessoas puderam visualizar ao vivo esse acontecimento histórico. Os veículos de comunicação em massa são os respon- sáveis por nos transmitir as notícias que acontecem em nossa cidade, nosso Estado, país ou em qualquer outro ponto do planeta. Os fluxos de informações vêm aumentando em todo planeta, isso se deve, principalmente, pelo fato dos custos com as novas tecnologias e serviços (como telefone fixo e móvel, além da internet) estarem gradativamente dimi- nuindo, desse modo, atingindo uma quantidade cada vez maior de pessoas. O custo de uma ligação internacional entre Nova York e Londres custa hoje cerca de US$ 0,35, na década de trinta o valor era de 250 dólares. Tanto a rede de telecomunicação quanto os fluxos de informações não possuem a mesma configuração em to- das as partes do mundo, pelo contrário, são bastante desi- guais. Isso é explicado pelo fato de que os países desenvol- vidos detêm o monopólio das informações que circulam no mundo. A maioria das agências de notícias, como as redes de TV, se encontra nesses países, que possuem domínios sobre os satélites, de onde vêm as principais informações. Somente uma rede de televisão norte-americana pos- sui vinte satélites, esses são usados para transmitir a mi- lhões de pessoas seus programas. Esses satélites permitem que um acontecimento em qualquer parte do planeta pos- sa ser transmitido quase que simultaneamente a bilhões de pessoas no mundo. A desigualdade quanto ao uso das novas tecnologias é provado quando se observa que em países desenvolvidos, como Estados Unidos, Canadá, Japão, Reino Unido, França e Alemanha, cerca de 63% de suas respectivas populações têm acesso à internet. Enquanto que em países da Áfri- ca Subsaariana, somente 1,3% da população tem acesso a essa tecnologia. Transportes na era da Globalização A evolução dos transportes na era da Globalização per- mitiu uma maior integração internacional e o crescimento da dinâmica econômica mundial. Os meios de transporte evoluíram com a Globalização e tornaram-se os seus instrumentos Considerando a evolução do sistema capitalista ao lon- go dos séculos e as transformações que permitiram a inte- gração mundial, podemos dizer que, sob muitos aspectos, a evolução da Globalização é, pois, uma série contínua de evolução nos meios de transporte. Portanto, a questão dos transportes na era da Globalização envolve uma dinâmica de transformações cada vez mais aceleradas e produtoras de uma interdependência. Aliados à evolução nos sistemas de comunicação, os meios de transporte permitiram a ocorrência daquilo que se assinalou como a compressão do tempo e do espaço, em que as distâncias do mundo “encurtaram”, ou seja, po- dem ser mais facilmente percorridas, reduzindo gastos e também tempo em deslocamentos e emissão de mensa- gens. Com isso, a globalização gerou o desencadeamento de uma rede de fluxos de informações e serviços que inter- liga vários pontos do globo entre si. 79 GEOGRAFIA Essa questão da interdependência entre os sistemas de transporte e a globalização explica-se pelo fato de as práti- cas humanas modificarem-se a partir da transformação das técnicas. São as técnicas e os objetos técnicos que atuam no processo de constituição das práticas sociais e na trans- formação do espaço geográfico. Com a evolução do capi- talismo, as técnicas reproduzidas nos meios de transporte foram ganhando novas formas, funções e tecnologias maisavançadas. Inicialmente, nas últimas décadas do século XV até o início do século XVI, os meios de transporte eram limita- dores do alcance das práticas comerciais até mesmo na co- mercialização de produtos perecíveis. O desenvolvimento da navegação marítima permitiu, além da expansão colo- nial europeia, uma maior amplitude em termos comerciais, passando a integrar diferentes regiões do planeta por di- ferentes rotas. A produção de matérias-primas e de pro- dutos manufaturados e o consequente desenvolvimento das sociedades puderam, então, consolidar-se no período chamado de Capitalismo Comercial. Posteriormente, com os avanços promovidos pela Pri- meira e Segunda Revoluções Industriais até o final do sécu- lo XIX, os meios de transporte conheceram um novo salto com a invenção da máquina a vapor e o meio ferroviário, bem como o maior desenvolvimento da navegação. Esses instrumentos permitiram, então, a integração intraterrito- rial em vários países e continentes, além de intensificar as trocas comerciais internacionais. O século XX, por sua vez, foi o século do desenvolvi- mento rodoviário e também do transporte aéreo, sobretu- do com a III Revolução Industrial, também conhecida como Revolução Técnico-Científica Informacional. Com isso, cargas, produtos e pessoas puderam ser mais facilmente deslocados, permitindo a integração com os pontos mais remotos, fator necessário e vital para a atual complexidade da globalização. Se antes uma mercadoria ou mensagem levava dias ou, a depender da distância, até meses para chegar, hoje em dia é possível comunicar-se ou se deslo- car rapidamente mesmo entre os locais de distância mais extrema. Portanto, podemos perceber que os transportes são de fundamental importância para o fluxo de informações da economia moderna, que se estende em uma lógica ma- croespacial. Se hoje temos os acordos internacionais, os blocos econômicos e o deslocamento de produtos e maté- rias-primas na Divisão Internacional do Trabalho, é porque foi possível conceber uma rede de transportes que se tor- na, a cada dia, mais dinâmica e mais vital para o funciona- mento da economia. Meio técnico-científico-informacional Do meio natural ao meio técnico-científico-informa- cional, transformações profundas no espaço ocorreram instrumentalizadas pela evolução das técnicas e dos ob- jetos. Os seres humanos estão sempre utilizando o meio em que vivem, sobretudo os elementos disponíveis na nature- za, seja no seu consumo direto, seja para a sua transforma- ção em mercadorias ou produtos manufaturados. Para isso, ele utiliza as diferentes técnicas, que envolvem as formas e os instrumentos utilizados para melhor produzir e transfor- mar o espaço geográfico. Desse modo, se a utilização das técnicas é uma ques- tão fundamental para a transformação do espaço, a forma como tais técnicas evoluem e modificam-se ao longo do tempo também produz consequências diretas nas estrutu- ras espaciais que envolvem as sociedades. Por esse moti- vo, estabelece-se uma periodização do meio desde a sua gradativa transformação pelas atividades humanas, indo desde o meio natural, passando pelo meio técnico e final- mente alcançando o meio técnico-científico-informacional — classificação concebida pelo finado geógrafo brasileiro Milton Santos em várias de suas obras publicadas. Meio natural O meio natural seria o estágio inicial do processo de produção das atividades humanas. Nesse longo período que marcou o início e a formação das primeiras civiliza- ções, bem como o avanço de todas as sociedades pré-in- dustriais ou não industrializadas, as práticas sociais eram inteiramente dependentes do meio natural. Nesse sentido, a interferência do ser humano sobre o ambiente era de pouco impacto, de forma que era mais a natureza que condicionava as práticas econômicas, e não o contrário. Dessa maneira, a capacidade de recomposi- ção da natureza era maior, haja vista que a capacidade do homem de ocupar e promover alterações em um amplo espaço era relativamente limitada. Mas isso não impediu que práticas importantes ainda hoje utilizadas fossem desenvolvidas. Assim, várias técnicas agrícolas e também pecuárias foram elaboradas, muitas delas ainda vistas como formas de preservar os solos, tais como o terraceamento. As técnicas da pecuária também passaram pelo mesmo ideário. A utilização do meio natural foi marcante em socieda- des tradicionais Meio técnico Com o passar do tempo, as técnicas e os objetos téc- nicos foram sendo mais bem desenvolvidos à medida que o conhecimento humano se expandia, o que propiciou a formação das bases que consolidaram a ascensão do meio técnico, cujo marco principal envolveu as duas primeiras revoluções industriais. Com isso, o espaço transformou-se em um espaço mecanizado, dotado de uma gama cada vez mais ampla de bens artificiais e mecanizados, em vez de simplesmente culturais. Dessa forma, o ser humano ganhou uma renovada ca- pacidade de enfrentar e, em alguns casos, de manter certo controle sobre as leis da natureza, com uma maior possi- bilidade de transformá-la em larga escala. Tal processo foi operacionalizado pelo emprego de instrumentos, estes, se- gundo Milton Santos, “já não são prolongamentos do seu corpo, mas que representam prolongamentos do território, verdadeiras próteses”¹. 80 GEOGRAFIA O meio técnico consolidou-se com o avanço da indus- trialização pelo mundo Meio técnico-científico-informacional Atualmente, diz-se que estamos vivenciando não mais um meio puramente mecanizado ou tecnicista, mas um meio também marcado pela maior presença das desco- bertas científicas e das tecnologias da informação, o meio técnico-científico-informacional. Ele representa, sobretudo, o período que se manifestou de maneira mais acabada a partir dos anos 1970 como consequência da Terceira Revo- lução Industrial, também conhecida como Revolução Téc- nico-Científica-Informacional. O principal marco desse momento é a união entre ciên- cia e técnica pautada sob os auspícios do mercado. Não que já não houvesse uma aproximação entre as produções científicas e as evoluções das técnicas, mas somente agora tal inserção encontra-se em um sentido de complemen- taridade, de extensão de uma em relação à outra. Nesse ínterim, todo objeto é técnico e informacional ao mesmo tempo, pois carrega em si uma ampla estrutura de infor- mações. Tal avanço permitiu a consolidação do processo de globalização, mais bem compreendido como uma mun- dialização da difusão de técnicas e objetos, parâmetro que possui a informação como a principal energia motora de seu funcionamento. Tal fator proporciona alterações não só do espaço geográfico em si, mas da forma como o perce- bemos e lidamos com ele. O meio técnico-científico-informacional envolve a di- fusão de técnicas focadas na informação O meio técnico-científico-informacional envolve a di- fusão de técnicas focadas na informação Por fim, e não menos importante, é importante com- preender que tais transformações não se manifestam pelo mundo de maneira homogênea, isto é, não se consolida- ram em todas as partes do planeta de maneira igualitária. Aliás, o desenvolvimento das diferentes técnicas em um número restrito de localidades permitiu o avanço das desi- gualdades e a intensificação das relações de dependência política e econômica entre os diferentes espaços. Globalização, comércio mundial e formação de blo- cos econômicos Entenda a dinâmica das grandes corporações e veja os efeitos da globalização no mercado. As transformações econômicas mundiais ocorridas nas últimas décadas, sobretudo no pós segunda guerra mun- dial, são fundamentais para entendermos as dinâmicas de poder estabelecidas pelo grande capital e, também, pelas grandes corporações transnacionais. Além delas, não po- demos deixar demencionar a importância crescente das instituições supranacionais, que atuam como verdadeiros agentes neste jogo de interesses, como por exemplo, o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial, entre outros. O cenário que se afigura com a chegada destes novos agentes econômicos é imprescindível para compreender- mos o significado da chamada globalização econômica. Esta tem como características: -A ruptura de fronteiras, ou seja, tal ruptura é atribuída à dinâmica do capital, que circula livremente pelo globo, sem respeitar a delimitação de fronteiras territoriais; -Perda da soberania local, ou seja, países, estados e ci- dades tem que se submeter à lógica do capital para conse- guir gerar lucro em seus orçamentos; -Expansão da dinâmica do capital, fato que se relaciona à ruptura de fronteiras, ou seja, o capital se dirige agora também à periferia do capitalismo, uma vez que as trans- nacionais compreenderam que a exploração (no sentido de explorar a força de trabalho diretamente) dos países sub- desenvolvidos promoveria grandes lucros para estes. Com o crescimento expressivo da atuação do capital em nível mundial, chegou-se a questionar o papel do Es- tado, isto é, o Estado seria de fato um agente importante neste processo ou atuaria como um impeditivo para a livre circulação do capital, uma vez que poderia criar regras ou leis que inviabilizariam a livre circulação do capital? Se- gundo este raciocínio, as transnacionais estariam coman- dando a dinâmica econômica mundial em detrimento dos Estados. Vale destacar que muitas empresas transnacionais passaram a desempenhar papéis que antes eram ofereci- dos pelo Estado, como serviços ligados à infraestrutura bá- sica (exemplo: transporte e saneamento básico). No entanto, as sucessivas crises geradas pelo capita- lismo mostraram que o papel do Estado não se apagou, como pensavam alguns, pelo contrário, em momentos de crise financeira, o Estado é chamado a ajudar as empresas em dificuldade econômica. Portanto, o papel do Estado no contexto de globalização reestruturou-se, passando este a atuar como um salvador dos excessos e econômicos pro- movidos pelas empresas nacionais ou internacionais, con- trolando taxas de juros, câmbios, manutenção de subsídios em setores estratégicos, bem como fiscalizando, direta e indiretamente, os recursos energéticos. A Formação dos Blocos Econômicos O surgimento dos blocos econômicos coincide com a mudança exercida pelo Estado. Em um primeiro momento, a ideia dos blocos econômicos era de diminuir a influência do Estado na economia e comércio mundiais. Mas, a for- mação destas organizações supranacionais fez com que o estado passasse a garantir a paz e o crescimento em perío- dos de grave crise econômica. Assim, a iniciativa de maior sucesso até hoje foi a experiência vivida pelos europeus. A União Europeia iniciou-se como uma simples enti- dade econômica setorial, a chamada CECA (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, surgida em 1951) e depois, expandiu-se por toda a economia como “Comunidade Eco- nômica Europeia” até atingir a conformação atual, que ex- trapola as questões econômicas perpassando por aspectos políticos e culturais. Além da União Europeia, podemos citar o NAFTA (North American Free Trade Agreement, surgido em 1993); o Mercosul (Mercado Comum do Sul, surgido em 1991); o Pacto Andino; a SADC (Comunidade de Desenvolvimento da África Austral, surgida em 1992), entre outros. A bus- ca pela ampliação destes blocos econômicos mostra que o jogo de poder exercido pelas nações tenta garantir as áreas de influência das mesmas, controlando mercados e estabelecendo parcerias com nações que despertem o in- teresse dos blocos econômicos. 81 GEOGRAFIA Além disso, o jogo de poder também está presente internamente aos blocos, ou seja, existem países líderes dentro do bloco, que acabam submetendo os outros paí- ses do acordo aos seus interesses. Assim, nem sempre a constituição de um bloco econômico é benéfica a todos os membros; por exemplo, a constituição do NAFTA (México, Canadá e EUA) fez com que a frágil economia mexicana aumentasse ainda mais sua dependência em relação aos EUA, o Canadá, por sua vez, passou a ser considerado uma extensão dos EUA, dada sua subordinação à economia de seu vizinho. Divisão internacional do trabalho Recebe o nome de Divisão internacional de Trabalho (DIT), a prática de repartir as atividades e serviços entre os inúmeros países do mundo. Trata-se de uma divisão pro- dutiva em âmbito internacional, onde os países emergen- tes ou em desenvolvimento, exportadores de matéria-pri- ma, com mão-de-obra barata e de industrialização quase sempre tardia, oferecem aos países industrializados, eco- nomicamente mais fortes, um leque de benefícios e incen- tivos para a instalação de indústrias, tais como a isenção parcial ou total de impostos, mão-de-obra abundante, leis ambientais frágeis, entre outras facilidades. Um dos principais conceitos da DIT é que nenhum país consegue ser competitivo em todos os setores, e de fato, acabam por se direcionar suas economias. No fundo, o ob- jetivo é o mesmo da divisão de tarefas numa fábrica, o de gerar um elevado grau de especialização para que a produ- ção seja mais eficiente, exatamente como Adam Smith em sua Riqueza das Nações já afirmava no século XVIII. O processo de DIT se expandiu na mesma proporção do capitalismo no mundo moderno, expressando as dife- rentes fases da evolução histórica do capitalismo, desde a ligação entre metrópoles e colônias, chegando às relações em que países desenvolvidos se agregam aos subdesen- volvidos. A é geralmente dividida em três fases, obedecen- do à dinâmica econômica e política do período histórico em que elas existiram. A primeira DIT corresponde ao final do século XV e ao longo do século XVI, no qual o capitalismo estava em fase inicial, chamada de capitalismo comercial. Era caracteriza- do pela produção manual a partir da extração de maté- rias-primas e acúmulo de minérios e metais preciosos por parte das nações (metalismo). A segunda DIT ocorre no século XVI, mas principal- mente a partir do século XVII, com a Primeira e a Segunda Revolução Industrial. As colônias e os países subdesenvol- vidos passaram a fornecer também produtos agrícolas, as- sim como vários tipos de minerais e especiarias. Finalmente, a terceira DIT ou “Nova DIT” surge no sé- culo XX, com a revolução técnico-científica-informacional e a consolidação do capitalismo financeiro, que permite a ex- pansão das grandes multinacionais pelo mundo. Nesse pe- ríodo, os países subdesenvolvidos iniciam seus processos tardios de industrialização, entre eles o Brasil. Tal aconteci- mento foi possível graças à abertura do mercado financeiro desses países e pela instalação de empresas multinacionais ou globais, oriundas, quase sempre, de países desenvolvi- dos. Uma das críticas à DIT é que seu processo se dá de maneira desigual, onde os países industrializados costu- mam levar vantagem no comércio global. Além disso, as empresas transnacionais buscam seus próprios interesses, sem considerar as consequências sociais, econômicas e ambientais nos países onde suas filiais estão instaladas. Indústrias consideradas poluidoras também procu- ram cada vez mais os países subdesenvolvidos, onde seu consumo de grandes quantidades de matéria-prima e de energia é ignorado além da farta e barata mão-de-obra a disposição. Organização do Estado – União, Estados e Municí- pios Estado Sentido Amplo x Estado em Sentido Estrito O Estado em sentido amplo é o Estado Brasileiro, a República Federativa do Brasil. Estado neste caso deve ser entendido como o Estado Nacional (Brasil, EUA, Argentina). O Estado em sentido estrito deve ser entendido como os Estados membros do Estado do Estado Nacional.No Brasil os 26 Estados compõe a federação. O Estado Brasileiro já chegou a se chamar Estados Unidos do Brasil. Composição do Estado Brasileiro Nos termos da Constituição Federal, a República Fe- derativa do Brasil é composta pela união indissolúvel da União, Estados, e Municípios, ou seja, por estas unidades políticas ou unidades de poder. Tais entidades são pessoas jurídicas. O que é uma pessoa jurídica? É uma entidade reconhe- cida pela lei capaz de possuir direitos, deveres, patrimônio e personalidade jurídica. A pessoa jurídica pode ser priva- da, a exemplo de empresas, e pode ser de direito público a exemplo da União, Estados, Municípios e outras entidades públicas. Pessoa Jurídica de Direito Público: É a entidade de na- tureza ou finalidade pública, com personalidade jurídica e patrimônio (bens e direitos), destinada a realizar funções sociais relevantes. A pessoa jurídica de direito público se sujeita a um Regime Jurídico Administrativo, ou seja, um regramento e tratamento especial. União – Entidade Política de Direito Público Interno e Externo A União é o conjunto de órgãos e entidades federais, tais como Presidência da República, INSS, Receita Federal, Procuradoria Geral da Fazenda e etc. A União é pessoa ju- rídica de direito público, interno, porque atua no território nacional e externo porque representa os interesses do país no exterior. As competências e atribuições legais da União estão previstas na Constituição Federal: Art. 21. Compete à União: I – manter relações com Es- tados estrangeiros e participar de organizações internacio- nais; II – declarar a guerra e celebrar a paz; III – assegurar a defesa nacional; IV – permitir, nos casos previstos em 82 GEOGRAFIA lei complementar, que forças estrangeiras transitem pelo território nacional ou nele permaneçam temporariamen- te; V – decretar o estado de sítio, o estado de defesa e a intervenção federal; VI – autorizar e fiscalizar a produção e o comércio de material bélico; VII – emitir moeda; VIII – administrar as reservas cambiais do País e fiscalizar as operações de natureza financeira, especialmente as de cré- dito, câmbio e capitalização, bem como as de seguros e de previdência privada; IX – elaborar e executar planos nacio- nais e regionais de ordenação do território e de desenvol- vimento econômico e social; X – manter o serviço postal e o correio aéreo nacional; XI – explorar, diretamente ou me- diante autorização, concessão ou permissão, os serviços de telecomunicações, nos termos da lei, que disporá sobre a organização dos serviços, a criação de um órgão regulador e outros aspectos institucionais; XII – explorar, diretamente ou mediante autorização, concessão ou permissão: a) os serviços de radiodifusão sonora, e de sons e imagens; b) os serviços e instalações de energia elétrica e o aproveitamen- to energético dos cursos de água, em articulação com os Estados onde se situam os potenciais hidroenergéticos; c) a navegação aérea, aeroespacial e a infraestrutura aeropor- tuária; d) os serviços de transporte ferroviário e aquaviário entre portos brasileiros e fronteiras nacionais, ou que trans- ponham os limites de Estado ou Território; e) os serviços de transporte rodoviário interestadual e internacional de pas- sageiros; f) os portos marítimos, fluviais e lacustres; XIII – organizar e manter o Poder Judiciário, o Ministério Público e a Defensoria Pública do Distrito Federal e dos Territórios; XIII – organizar e manter o Poder Judiciário, o Ministério Público do Distrito Federal e dos Territórios e a Defensoria Pública dos Territórios; XIV – organizar e manter a polícia civil, a polícia militar e o corpo de bombeiros militar do Distrito Federal, bem como prestar assistência financeira ao Distrito Federal para a execução de serviços públicos, por meio de fundo próprio; XV – organizar e manter os serviços oficiais de estatística, geografia, geologia e cartografia de âmbito nacional; XVI – exercer a classificação, para efeito indicativo, de diversões públicas e de programas de rádio e televisão; XVII – conceder anistia; XVIII – planejar e pro- mover a defesa permanente contra as calamidades públi- cas, especialmente as secas e as inundações; XIX – instituir sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos e definir critérios de outorga de direitos de seu uso; XX – ins- tituir diretrizes para o desenvolvimento urbano, inclusive habitação, saneamento básico e transportes urbanos; XXI – estabelecer princípios e diretrizes para o sistema nacional de viação; XXII – executar os serviços de polícia marítima, aeroportuária e de fronteiras; XXIII – explorar os serviços e instalações nucleares de qualquer natureza e exercer mo- nopólio estatal sobre a pesquisa, a lavra, o enriquecimento e reprocessamento, a industrialização e o comércio de mi- nérios nucleares e seus derivados, atendidos os seguintes princípios e condições: a) toda atividade nuclear em terri- tório nacional somente será admitida para fins pacíficos e mediante aprovação do Congresso Nacional; b) sob regime de permissão, são autorizadas a comercialização e a utili- zação de radioisótopos para a pesquisa e usos médicos, agrícolas e industriais; c) sob regime de permissão, são au- torizadas a produção, comercialização e utilização de ra- dioisótopos de meia-vida igual ou inferior a duas horas; d) a responsabilidade civil por danos nucleares independe da existência de culpa; XXIV – organizar, manter e executar a inspeção do trabalho; XXV – estabelecer as áreas e as con- dições para o exercício da atividade de garimpagem, em forma associativa. Art. 22. Compete privativamente à União legislar so- bre: I – direito civil, comercial, penal, processual, eleitoral, agrário, marítimo, aeronáutico, espacial e do trabalho; II – desapropriação;III – requisições civis e militares, em caso de iminente perigo e em tempo de guerra; IV – águas, ener- gia, informática, telecomunicações e radiodifusão; V – ser- viço postal; VI – sistema monetário e de medidas, títulos e garantias dos metais; VII – política de crédito, câmbio, seguros e transferência de valores; VIII – comércio exterior e interestadual; IX – diretrizes da política nacional de trans- portes; X – regime dos portos, navegação lacustre, fluvial, marítima, aérea e aeroespacial; XI – trânsito e transporte; XII – jazidas, minas, outros recursos minerais e metalurgia; XIII – nacionalidade, cidadania e naturalização; XIV – popu- lações indígenas; XV – emigração e imigração, entrada, ex- tradição e expulsão de estrangeiros; XVI – organização do sistema nacional de emprego e condições para o exercício de profissões; XVII – organização judiciária, do Ministério Público do Distrito Federal e dos Territórios e da Defensoria Pública dos Territórios, bem como organização administra- tiva destes XVIII – sistema estatístico, sistema cartográfico e de geologia nacionais;XIX – sistemas de poupança, cap- tação e garantia da poupança popular; XX – sistemas de consórcios e sorteios; XXI – normas gerais de organização, efetivos, material bélico, garantias, convocação e mobili- zação das polícias militares e corpos de bombeiros mili- tares; XXII – competência da polícia federal e das polícias rodoviária e ferroviária federais; XXIII – seguridade social; XXIV – diretrizes e bases da educação nacional; XXV – re- gistros públicos; XXVI – atividades nucleares de qualquer natureza; XXVII – normas gerais de licitação e contratação, em todas as modalidades, para as administrações públicas diretas, autárquicas e fundacionais da União, Estados, Dis- trito Federal e Municípios, obedecido o disposto no art. 37, XXI, e para as empresas públicas e sociedades de economia mista, nos termos do art. 173, § 1°, III; XXVIII – defesa ter- ritorial, defesa aeroespacial, defesa marítima, defesa civil e mobilização nacional;XXIX – propaganda comercial. Parágrafo único. Lei complementar poderá autorizar os Estados a legislar sobre questões específicas das matérias relacionadas neste artigo. Estados – Entidades Políticas de Direito Público Interno O Estado é o conjunto de órgãos e entidades estaduais, tais como as Secretarias Estaduais, a Receita Estadual, O Tri- bunal de Justiça do Estado, o Ministério Público do Estado e etc. É pessoa jurídica de direito público interno. As com- petências e atribuições legais dos Estado Federados estão previstas na Constituição Federal: 83 GEOGRAFIA Art. 25. Os Estados organizam-se e regem-se pelas Constituições e leis que adotarem, observados os princí- pios desta Constituição. § 1º – São reservadas aos Estados as competências que não lhes sejam vedadas por esta Constituição. § 2º – Cabe aos Estados explorar diretamen- te, ou mediante concessão, os serviços locais de gás canali- zado, na forma da lei, vedada a edição de medida provisó- ria para a sua regulamentação. § 3º – Os Estados poderão, mediante lei complementar, instituir regiões metropolita- nas, aglomerações urbanas e microrregiões, constituídas por agrupamentos de municípios limítrofes, para integrar a organização, o planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum. Art. 26. Incluem-se entre os bens dos Estados: I – as águas superficiais ou subterrâneas, fluentes, emergentes e em depósito, ressalvadas, neste caso, na forma da lei, as decorrentes de obras da União; II – as áreas, nas ilhas oceâ- nicas e costeiras, que estiverem no seu domínio, excluídas aquelas sob domínio da União, Municípios ou terceiros; III – as ilhas fluviais e lacustres não pertencentes à União; IV – as terras devolutas não compreendidas entre as da União. Art. 27. O número de Deputados à Assembleia Legis- lativa corresponderá ao triplo da representação do Estado na Câmara dos Deputados e, atingido o número de trinta e seis, será acrescido de tantos quantos forem os Depu- tados Federais acima de doze. § 1º – Será de quatro anos o mandato dos Deputados Estaduais, aplicando- sê-lhes as regras desta Constituição sobre sistema eleitoral, invio- labilidade, imunidades, remuneração, perda de mandato, licença, impedimentos e incorporação às Forças Armadas. § 2º O subsídio dos Deputados Estaduais será fixado por lei de iniciativa da Assembleia Legislativa, na razão de, no máximo, setenta e cinco por cento daquele estabelecido, em espécie, para os Deputados Federais, observado o que dispõem os arts. 39, § 4º, 57, § 7º, 150, II, 153, III, e 153, § 2º, I. § 3º – Compete às Assembleias Legislativas dispor sobre seu regimento interno, polícia e serviços administrativos de sua secretaria, e prover os respectivos cargos. § 4º – A lei disporá sobre a iniciativa popular no processo legislativo estadual. Art. 28. A eleição do Governador e do Vice-Governador de Estado, para mandato de quatro anos, realizar-se-á no primeiro domingo de outubro, em primeiro turno, e no úl- timo domingo de outubro, em segundo turno, se houver, do ano anterior ao do término do mandato de seus ante- cessores, e a posse ocorrerá em primeiro de janeiro do ano subsequente, observado, quanto ao mais, o disposto no art. 77. § 1º Perderá o mandato o Governador que assumir outro cargo ou função na administração pública direta ou indireta, ressalvada a posse em virtude de concurso público e observado o disposto no art. 38, I, IV e V. § 2º Os subsí- dios do Governador, do Vice-Governador e dos Secretários de Estado serão fixados por lei de iniciativa da Assembleia Legislativa, observado o que dispõem os arts. 37, XI, 39, § 4º, 150, II, 153, III, e 153, § 2º. Municípios – Entidades Políticas de Direito Público In- terno O Município é o conjunto dos órgãos e entidades mu- nicipais, tais como a Secretaria Municipal de Saúde, Secre- taria Municipal de Serviços Urbanos, Secretaria Municipal de Planejamento e etc. Assim como União e Estados, os Municípios também são pessoas jurídicas de direito públi- co. As competências e atribuições legais dos Municípios estão previstas na Constituição Federal: Art. 30. Compete aos Municípios: I – legislar sobre assuntos de interesse local; II – suplementar a legislação federal e a estadual no que couber; III – instituir e arre- cadar os tributos de sua competência, bem como aplicar suas rendas, sem prejuízo da obrigatoriedade de prestar contas e publicar balancetes nos prazos fixados em lei; IV – criar, organizar e suprimir distritos, observada a legisla- ção estadual; V – organizar e prestar, diretamente ou sob regime de concessão ou permissão, os serviços públicos de interesse local, incluído o de transporte coletivo, que tem caráter essencial; VI – manter, com a cooperação técnica e financeira da União e do Estado, programas de educação infantil e de ensino fundamental; VII – prestar, com a coo- peração técnica e financeira da União e do Estado, serviços de atendimento à saúde da população; VIII – promover, no que couber, adequado ordenamento territorial, mediante planejamento e controle do uso, do parcelamento e da ocupação do solo urbano; IX – promover a proteção do patrimônio histórico-cultural local, observada a legislação e a ação fiscalizadora federal e estadual. Art. 31. A fiscalização do Município será exercida pelo Poder Legislativo Municipal, mediante controle externo, e pelos sistemas de controle interno do Poder Executivo Mu- nicipal, na forma da lei. § 1º – O controle externo da Câma- ra Municipal será exercido com o auxílio dos Tribunais de Contas dos Estados ou do Município ou dos Conselhos ou Tribunais de Contas dos Municípios, onde houver. § 2º – O parecer prévio, emitido pelo órgão competente sobre as contas que o Prefeito deve anualmente prestar, só deixará de prevalecer por decisão de dois terços dos membros da Câmara Municipal. § 3º – As contas dos Municípios ficarão, durante sessenta dias, anualmente, à disposição de qual- quer contribuinte, para exame e apreciação, o qual poderá questionar-lhes a legitimidade, nos termos da lei. § 4º – É vedada a criação de Tribunais, Conselhos ou órgãos de Contas Municipais. União, Estados e Municípios: Competências Concomi- tantes ou Comuns A Constituição Federal Brasileira também prevê situa- ções em que a União, Estados e Municípios poderão atuar de forma concomitante, comum ou conjunto. Assim pres- creve o art.23 e art.24 da Carta Magna: Art. 23. É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios: I – zelar pela guar- da da Constituição, das leis e das instituições democráti- cas e conservar o patrimônio público; II – cuidar da saúde e assistência pública, da proteção e garantia das pessoas 84 GEOGRAFIA portadoras de deficiência; III – proteger os documentos, as obras e outros bens de valor histórico, artístico e cultural, os monumentos, as paisagens naturais notáveis e os sítios arqueológicos; IV – impedir a evasão, a destruição e a des- caracterização de obras de arte e de outros bens de valor histórico, artístico ou cultural; V – proporcionar os meios de acesso à cultura, à educação e à ciência; VI – proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de suas formas; VII – preservar as florestas, a fauna e a flora; VIII – fomentar a produção agropecuária e organizar o abasteci- mento alimentar; IX – promover programas de construção de moradias e a melhoria das condições habitacionais e de saneamento básico; X – combater as causas da pobreza e os fatores de marginalização, promovendo a integração social dos setores desfavorecidos; XI – registrar, acompanhar e fis- calizar as concessões de direitos de pesquisa e exploração de recursos hídricos e minerais em seus territórios; XII – es- tabelecer e implantar política de educação para a segurança do trânsito. Parágrafo único.Leis complementares fixarão normas para a cooperação entre a União e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, tendo em vista o equilíbrio do desenvolvimento e do bem-estar em âmbito nacional. Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Fe- deral legislar concorrentemente sobre: I – direito tributário, financeiro, penitenciário, econômico e urbanístico; II – or- çamento; III – juntas comerciais; IV – custas dos serviços fo- renses; V – produção e consumo; VI – florestas, caça, pesca, fauna, conservação da natureza, defesa do solo e dos re- cursos naturais, proteção do meio ambiente e controle da poluição; VII – proteção ao patrimônio histórico, cultural, artístico, turístico e paisagístico; VIII – responsabilidade por dano ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico; IX – educação, cultura, ensino e desporto; X – criação, fun- cionamento e processo do juizado de pequenas causas; XI – procedimentos em matéria processual; XII – previdência social, proteção e defesa da saúde; XIII – assistência jurídica e Defensoria pública; XIV – proteção e integração social das pessoas portadoras de deficiência; XV – proteção à infância e à juventude; XVI – organização, garantias, direitos e deveres das polícias civis. § 1º – No âmbito da legislação concorrente, a competência da União limitar-se-á a estabelecer normas gerais. § 2º – A competência da União para legislar sobre normas gerais não exclui a competência suplementar dos Estados. § 3º – Inexistindo lei federal sobre normas gerais, os Estados exercerão a competência legislativa plena, para atender a suas peculiaridades. § 4º – A superveniência de lei federal sobre normas gerais suspende a eficácia da lei esta- dual, no que lhe for contrário. Poder Global Na década de 70, do século XX, discutiu-se muito sobre a “crise da hegemonia americana”. Foi no tempo da derrota dos EUA, no Vietnã, da crise do “padrão dólar”, da subida do preço do petróleo e do fim do crescimento econômico ace- lerado do pós-guerra. E foi também, no tempo da Revolução Sandinista, da Nicarágua, da revolução islâmica, do Irã, e da invasão soviética, do Afeganistão, consideradas, na época, grandes derrotas da política externa norte-americana. Hoje, quase quarenta anos depois, volta-se a falar com insistência, do declínio do poder mundial dos Estados Unidos. O historiador inglês, Eric Hobsbawm, afirmou numa en- trevista recente, que o “projeto americano está falindo”, e que a “superioridade dos Estados Unidos é um fenômeno temporário” . Quase na mesma linha do economista italia- no, Giovanni Arrighi, que defende a tese que a “hegemo- nia americana” está vivendo uma “crise terminal”, depois do “fracasso do projeto neo-conservador no Iraque”, e depois que “os Estados Unidos deixaram de ser um estado hege- mônico que criava ordem, para se tornarem uma força do caos e da desordem” . No caso do sociólogo norte-america- no, Immanuel Wallerstein, a previsão é ainda mais radical: o que está em crise e deve acabar até a metade do Século XXI, não é apenas a hegemonia americana, é o próprio “sistema mundial moderno” que se formou a partir da Europa, depois do século XVI . Mas nenhum destes autores consegue definir com precisão o que seja uma “crise terminal”, do poder e da superioridade americana, ou do próprio “sistema mundial moderno”, de que fala Wallerstein. Por que se trataria de uma “crise terminal”, e não apenas de uma crise cíclica ou passageira? e além disto, mesmo que fosse “terminal”, qual seria a sua duração e o seu desfecho? e o que é mais importante, o que passaria no mundo, durante este período de transição e de espera do “juízo final”? Na verdade, o ponto fraco de todas estas previsões não está na sua análise da conjuntura internacional, está na teoria em que se apoiam suas projeções de longo prazo: a hipótese de que o “sistema mundial moderno” requer a exis- tência de “potencias hegemônicas” sucessivas, para manter a sua ordem política e o bom funcionamento da sua econo- mia internacional. Dentro desta teoria das “sucessões hege- mônicas”, o “líder” ou “hegemon” aparece na história como uma espécie de “resposta funcional” ao problema da “ingo- vernabilidade” de um sistema que é anárquico, porque é for- mado por estados nacionais soberanos. Por isto, em geral, esta teoria destaca as contribuições positivas do hegemon, para o bom funcionamento e para “governaça global” do sistema, sem dar maior atenção à dinâmica contraditória das relações existentes entre o “hegemon” e os demais estados que participam do sistema mundial. Por isto também, esta teoria funcional e evolucionista da “hegemonia”, não consegue dar conta do movimento con- tínuo de competição, luta e expansão dos estados e econo- mias nacionais que já conquistaram a condição de “grandes potências”, e fazem parte do “núcleo central” de todo o sis- tema, mas seguem competindo entre si, mesmo nos perío- dos que aparentam uma alta “tranquilidade hegemônica”. Daí sua dificuldade para compreender situações de conflito e de ruptura, e a pressa com que estas análises e previsões, anunciam “crises terminais”, a cada nova turbulência econô- mica, guerra, ou derrota do “hegemon”, sem considerar a possibilidade que estas crises e guerras possam fazer parte do processo de reprodução e expansão do poder e riqueza do próprio “hegemon”, que não foi eleito para ser represen- tante, nem para cuidar dos interesses gerais da humanidade. A crítica desta teoria da “hegemonia mundial”, e destas previsões baseadas na hipótese dos “ciclos hegemônicos”, está na origem do conceito e da pesquisa sobre o “poder 85 GEOGRAFIA global”: um modo de olhar e analisar o sistema político mundial e suas relações com a internacionalização capita- lista, que privilegia o conflito e as contradições do sistema mais do que suas relações funcionais. Da perspectiva do “poder global”, o sistema mundial é uma “máquina de acu- mulação de poder e riqueza”, e seu motor é a competição e a guerra, entre seus estados e economias nacionais. Dentro deste “sistema mundial”, não existem países satisfeitos, to- dos estão sempre se propondo aumentar seu poder e sua riqueza, e neste sentido, todos são expansivos, em particular, as “grandes potências” que já ocupam o topo da hierarquia do poder e da riqueza mundiais. Por isto, este sistema pode ser comparado com um “uni- verso” em expansão contínua, onde todas as potências que lutam pelo poder global, estão sempre criando, ao mesmo tempo, ordem e desordem, expansão e crise, paz e guerra. E como consequência, se pode afirmar com toda certeza que dentro deste universo, ou seja, dentro do “sistema mundial moderno”, nunca houve nem haverá “paz perpétua”, nem hegemonia estável. Pelo contrário, do nosso ponto de vista, o que ordena e “estabiliza” as relações hierárquicas internas do sistema mundial, paradoxalmente, é a existência de “ei- xos conflitivos crônicos”, junto com a permanente possibili- dade de uma nova guerra, entre as grandes potências. Por isto, do ponto de vista do “poder global”, desordem, crise e guerra não são, por si mesmos, um anuncio do “fim”, são uma parte necessária do movimento de expansão do sistema mundial. E deste mesmo ponto de vista, falar de uma “crise terminal”, com data marcada, de um poder hegemôni- co, ou do próprio “sistema mundial moderno” é um absurdo teórico e histórico. Até porque, no tempo de espera da “hora final”, o mais provável é que o sistema siga enfrentando e superando crises econômicas, como em toda a história da internacionalização capitalista, e situações de guerra, como em toda a história geopolítica das nações, inaugurada pela Paz de Westfália, em 1648. E, portanto, com relação a este tempo de espera, todas estas previsões “terminais”, são ab-solutamente inúteis. Nova Ordem Mundial Uma ordem mundial refere-se às hierarquias nas rela- ções de poder entre os países do mundo Uma ordem mundial diz respeito às configurações ge- rais das hierarquias de poder existentes entre os países do mundo. Dessa forma, as ordens mundiais modificam-se a cada oscilação em seu contexto histórico. Portanto, ao fa- lar de uma nova ordem mundial, estamos nos referindo ao atual contexto das relações políticas e econômicas interna- cionais de poder. Durante a Guerra Fria, existiam duas nações principais que dominavam e polarizavam as relações de poder no globo: Estados Unidos e União Soviética. Essa ordem mun- dial era notadamente marcada pelas corridas armamentista e espacial e pelas disputas geopolíticas no que se refere ao grau de influência de cada uma no plano internacional. Este era o mundo bipolar. A partir do final da década de 1980 e início dos anos 1990, mais especificamente após a queda do Muro de Ber- lim e do esfacelamento da União Soviética, o mundo pas- sou a conhecer apenas uma grande potência econômica e, principalmente, militar: os EUA. Analistas e cientistas polí- ticos passaram a nomear a então ordem mundial vigente como unipolar. Entretanto, tal nomeação não era consenso. Alguns analistas enxergavam que tal soberania pudesse não ser tão notável assim, até porque a ordem mundial deixava de ser medida pelo poderio bélico e espacial de uma nação e passava a ser medida pelo poderio político e econômico. Nesse contexto, nos últimos anos, o mundo assistiu às sucessivas crescentes econômicas da União Europeia e do Japão, apesar das crises que estas frentes de poder sofre- ram no final dos anos 2000. De outro lado, também vêm sendo notáveis os índices de crescimento econômico que colocaram a China como a segunda maior nação do mun- do em tamanho do PIB (Produto Interno Bruto). Por esse motivo, muitos cientistas políticos passaram a denominar a Nova Ordem Mundial como mundo multipolar. Mas é preciso lembrar que não há no mundo nenhuma nação que possua o poderio bélico e nuclear dos EUA. Esse país possui bombas e ogivas nucleares que, juntas, seriam capazes de destruir todo o planeta várias vezes. A Rússia, grande herdeira do império soviético, mesmo possuindo tecnologia nuclear e um elevado número de armamentos, vem perdendo espaço no campo bélico em virtude da falta de investimentos na manutenção de seu arsenal, em razão das dificuldades econômicas enfrentadas pelo país após a Guerra Fria. É por esse motivo que a maior parte dos especialis- tas em Geopolítica e Relações Internacionais, atualmente, nomeia a Nova Ordem Mundial como mundo unimultipo- lar. “Uni” no sentido militar, pois os Estados Unidos é lí- der incontestável. “Multi” em razão das diversas crescentes econômicas de novos polos de poder, sobretudo a União Europeia, o Japão e a China. 86 GEOGRAFIA A Divisão do Mundo entre Norte e Sul Durante a ordem geopolítica bipolar, o mundo era rotineiramente dividido entre leste e oeste. O Oeste era a represen- tação do Capitalismo liderado pelos EUA, enquanto o Leste demarcava o mundo Socialista representado pela URSS. Essa divisão não era necessariamente fiel aos critérios cartográficos, pois no Oeste havia nações socialistas (a exemplo de Cuba) e no leste havia nações capitalistas. Contudo, esse modelo ruiu. Atualmente, o mundo é dividido entre Norte e Sul, de modo que no Norte encontram-se as nações desenvolvidas e, ao sul, encontram-se as nações subdesenvolvidas ou emergentes. Tal divisão também segue os ditames da Nova Ordem Mundial, em considerar preferencialmente os critérios econômicos em detrimento do poderio bélico. Em vermelho, os países do sul subdesenvolvido e, em azul, os países do norte desenvolvido Observa-se que também nessa nova divisão do mundo não há uma total fidelidade aos critérios cartográficos, uma vez que alguns poucos países localizados ao sul pertencem ao “Norte” (como a Austrália) e alguns países do norte pertencem ao “Sul” (como a China). D) O ESPAÇO HUMANO: DEMOGRAFIA: TEORIAS DEMOGRÁFICAS, ESTRUTURA DA POPULAÇÃO, CRESCIMENTO DEMOGRÁFICO; TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA E MIGRAÇÕES; URBANIZAÇÃO: PROCESSO DE URBANIZAÇÃO, ESPAÇO URBANO E PROBLEMAS URBANOS; E OS PRINCIPAIS INDICADORES SOCIOECONÔMICOS. Teorias sobre o crescimento populacional Entenda a Teoria de Malthus, a Teoria Neomalthusiana e a Teoria Reformista, que analisam o comportamento das taxas da população mundial O crescimento populacional de uma determinada área ou local está relacionado a dois fatores fundamentais: ao cresci- mento vegetativo, que corresponde à diferença entre o número de nascidos e o número de óbitos registrados; e à taxa de imigração, que corresponde à diferença entre a entrada e a saída de pessoas da área estudada. Chineses cruzando a rua na cidade de Nanjing. A China é um dos países mais populosos do planeta. (Foto: Stougard/ Wikimedia Commons) 87 GEOGRAFIA Assim, com base nestes dois índices, o crescimento populacional de uma determinada área poderá ser posi- tivo ou negativo. O mundo, em 2003, contava com cerca de 6,3 bilhões de habitantes e, cabe ressaltar que de 1970 a 2003, o crescimento populacional decresceu de 2,1% para 1,2% ao ano. Essa diminuição tem como justificativa o novo papel desempenhado pela mulher na sociedade, como a sua entrada no mercado de trabalho e a possibi- lidade de prevenir a gravidez através do uso de métodos anticoncepcionais. Ao abordarmos o tema crescimento populacional, à primeira vista, pode parecer que esta é uma preocupação recente, porém, pesquisas indicam que desde a antiguida- de estudos foram empreendidos para compreender a di- nâmica populacional de determinadas áreas. No entanto, foi somente a partir do século XVIII, com o amadurecimen- to do capitalismo, que o crescimento populacional passou a ser visto como algo positivo. Isso porque, quanto maior o número de pessoas no planeta, maior o número de consumidores. Foi neste pe- ríodo que a primeira Teoria Geral sobre o crescimento po- pulacional foi publicada, de autoria do economista inglês Thomas Robert Malthus (1766-1834). Teoria de Malthus (Malthusiana) No ano de 1798, Malthus publicou o Ensaio sobre a População e nele apresentou sua teoria demográfica, ba- seada em dois argumentos principais: a) As guerras, epidemias e desastres naturais atuariam como controladores do crescimento populacional. Se caso eles não existissem, a população tenderia a duplicar a cada 25 anos. Seu crescimento obedeceria a uma progressão geométrica (2, 4, 8, 16, 32, 64...) ininterruptamente. b) Já a produção de alimentos cresceria em progres- são aritmética (2, 4, 6, 8, 10...) e sua produção seria limitada em função dos limites territoriais dos continentes. Desse modo, segundo esta teoria, a população cres- ceria mais rapidamente que a oferta de alimentos. Além disso, Malthus acreditava que as áreas cultivadas se es- gotariam, pois, toda a área cultivável estariam ocupadas por atividades agrícolas, no entanto, a população mundial continuaria a crescer. A consequência seria a falta de ali- mentos para abastecer às demandas do planeta. Por esta razão, em sua teoria, Malthus argumentou que a única maneira de remediar a iminente fome mundial seria as famílias apenas terem filhos somente se tivessem terras cultiváveis para poder alimentá-los. Vale dizer que Malthus além de economista, era também pastor da Igreja Anglicana, que era contrária aos métodos anticoncepcio- nais. Percebemos que essa teoria não se concretizou, pois Malthus não conseguiu prever os avanços tecnológicos em relação à produtividade agrícola, no entanto, na época de sua formulação, ela parecia bastante consistente. Além daquela, outra razão para o insucesso de sua teoria foi o fato de Malthus ter observado apenas o comportamentopopulacional de uma determinada região, predominante- mente rural, considerando-as válidas para todo o planeta. Teoria Neomalthusiana Após a 2a. Guerra Mundial, foi realizada a Conferência da Paz, que deu origem à Organização das Nações Unidas (ONU). A preocupação dos países envolvidos era de encon- trar soluções para os impasses, a fim de se evitar outro con- flito de proporções mundiais. Neste período foi formulada, pelos países desenvolvidos, a Teoria Neomalthusiana, cujo objetivo era tentar explicar o atraso dos países desenvolvi- dos e também a fome mundial. Segundo ela, quanto maior o número de habitantes de um país, menor a renda per capita e a disponibilidade de capital a ser investido em setores agrícolas e industriais. Assim, os países subdesenvolvidos, cujas taxas de natalida- de eram elevadas, acabavam tendo grandes gastos com a população jovem e adulta, inviabilizando a canalização de gastos em outros setores. Embora formulada quase dois séculos após a Teoria malthusiana, a Neomalthusiana chegava a mesma conclu- são, pois relacionava a expansão da miséria mundial ao crescimento populacional. Com base nesta teoria, progra- mas de controle da natalidade foram difundidos. Portanto, trata-se de uma teoria que justifica a pobreza dos países subdesenvolvidos com base em uma argumentação de- mográfica, deixando de mencionar as péssimas condições de vida destes países e o problema da má distribuição de renda neles. Teoria Reformista A Teoria Reformista foi criada pelos países subdesen- volvidos como resposta à Teoria Neomalthusiana, e chega a uma conclusão contrária às duas últimas mencionadas. Segundo a Teoria Reformista, o crescimento populacional só se tornará um empecilho se não houver investimentos sociais, principalmente em educação e saúde. Os defensores desta teoria citam como exemplo al- gumas famílias brasileiras, que depois de recebido inves- timento, ou seja, assistência médica, escolas, acesso à in- formação, passaram a ter menos filhos e obter uma melhor qualidade de vida. Dessa maneira, comprovaram que o crescimento populacional deve vir acompanhado de inves- timentos sociais e não apenas de programas de controle da natalidade, sendo, por isso, considerada a Teoria Demográ- fica mais realista. Estrutura da população 88 GEOGRAFIA Avalia-se a estrutura da população através da sua distribuição etária, condição socioeconômica e sua posição no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Em relação aos critérios de avaliação dos países, desde 1950 até o final da década de 1980, a classificação comum era aquela que enquadrava os países da seguinte forma: 1º Mundo: países capitalistas desenvolvidos; 2º Mundo: países socialistas de economia planificada; 3º Mundo: países subdesenvolvidos. Acontecimentos na geopolítica internacional, como a queda do Muro de Berlim, fim da Guerra Fria, ressurgimento da Europa como potência econômica e o fim da experiência socialista soviética, marcam uma nova disposição da ordem mun- dial, em que se menciona o mundo multipolar e a globalização da economia. A partir daí, tornou-se necessário um novo entendimento para classificar os países. A ONU passou a utilizar o IDH (Ín- dice de Desenvolvimento Humano), que tem por objetivo avaliar a qualidade de vida através de alguns critérios: Expectativa de vida; Renda per capita; Grau de instrução. O IDH avalia e aplica uma nota que varia de 0 a 1. Quanto mais próximo do 1, melhor o IDH de uma país, ou de uma região. Veremos mais informações sobre o IDH nos próximos tópicos. IDH no mundo Estrutura etária A estrutura etária de uma população costuma ser dividida em três faixas: Jovens, que são do nascimento até 19 anos; Adultos, dos 20 anos até 59 anos; Idosos, que vai dos 60 anos em diante. A estrutura etária de uma população não se divide apenas nas três faixas (jovens, adultos, idosos), pode-se também dividir a população através de um gráfico denominado pirâmide etária. Esse gráfico não informa apenas sobre a faixa etária, mas também sobre a proporção dos sexos em cada idade. 89 GEOGRAFIA Ilustração modelo de pirâmide etária Países subdesenvolvidos A pirâmide apresenta uma base larga em função da alta densidade de natalidade. O estreitamento é rápido em de- corrência da mortalidade. A altura da pirâmide e a largura da extremidade superior indica que poucas pessoas chegam à velhice (o que é explicado pelo baixo padrão de vida). O contorno nos mostra ainda que há predominância de jovens. A explosão demográfica é um fenômeno comum aos países cujas estruturas etárias podem ser representadas pela figura deste modelo. Exemplos: Indonésia, Etiópia, etc. Exemplo de pirâmide para países subdesenvolvidos Países de população envelhecida A base bem mais estreita, comparada com outras figuras, indica um crescimento reduzido ou negativo há muito tempo (países da evolução industrial antiga). A extremidade oposta a base indica a percentagem bastante alta de idosos (indicati- vo de excelente padrão de vida). Exemplos: europeus, japoneses, etc. 90 GEOGRAFIA Exemplo de pirâmide para países de população envelhecida Países em fase de envelhecimento Pode-se apresentar a estrutura etária dos países que realizaram industrialização após os europeus. Predominam os adultos, portanto, os ativos. Em alguns países, embora o aumento do padrão de vida não tenha sido significativo para a maioria da população, a classe média, por questões econômicas, tem optado por uma menor quantidade de filhos para tentar manter a qualidade de vida. Exemplo de pirâmide para países em fase de envelhecimento 91 GEOGRAFIA A pirâmide etária do Brasil tem sua base larga e vai estreitando-se até atingir o topo. Isso significa que o número de idosos é relativamente pequeno. O gráfico do Brasil demonstra que, mesmo com todo o crescimento, continuamos a ser um país jovem, pois no caso dos países mais desenvolvidos, a base da pirâmide costuma ser menos larga e o topo mais amplo. Pirâmide etária do Brasil – dados do censo IBGE 2010 PEA É a população que exerce atividade remunerada nas formas da lei. Nos países desenvolvidos, os ativos são predomi- nantemente a população adulta, enquanto nos subdesenvolvidos tanto os jovens quanto os idosos trabalham juntamente com os adultos. Exemplo de tabela PEA por países (dados de 2002) Economia informal De acordo com a OIT (Organização Internacional do Trabalho), economia informal consiste no conjunto de atividades organizadas em bases não capitalistas. Abrange o trabalho realizado por conta própria e as pequenas empresas nas quais não existem separação entre o capital do negócio e o patrimônio da família. Na grande maioria das vezes, os empregados não são protegidos pelas leis nem pelos direitos sociais. 92 GEOGRAFIA Exemplo de economia informal Crescimento Demográfico O crescimento demográfico mundial passou por di- versas alterações, tendo se intensificado após a Revolução Industrial. Dessa forma, nota-se que as taxas de crescimento, isto é, o padrão de aumento da população no mundo, não são constantes, sendo mais agudas em determinados períodos da história e menos intensas em outros momentos. Observe a tabela abaixo: Com a leitura das informações, percebemos que no primeiro ano da Era Cristã, as estimativas apontavam que a população mundial das civilizações não ultrapassaria os 250 milhões de habitantes. Assim, a população mundial le- vou mais de mil e seiscentos anos para dobrar de tamanho e pouco menos de duzentos anos para dobrar novamente. Em 1950, já éramos 2 bilhões e meio de habitantes e, trinta e sete anos depois, passamos para os 5 bilhões. Diante desses dados, como explicar essa alteração re- pentina no ritmo do crescimento mundial? A principal causa para a intensificação dos crescimen- tos demográficos, que se intensificarama partir do século XIX, foram as sucessivas revoluções industriais e as con- sequentes elevações nas taxas de urbanização em todo o mundo. Dessa forma, podemos dizer que houve uma “explosão demográfica” mundial, que ocorreu em determinados mo- mentos na história. Em razão desses repentinos crescimen- tos, certo alarmismo se estabeleceu e teorias populacionais entraram em confronto sobre a relação entre os recursos naturais e a população do mundo. Uma das representações mais correntes sobre os rápi- dos crescimentos populacionais que ocorreram em todo o mundo foi chamada de geração do “baby boom”, em que o número de filhos se intensificou após o final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Atualmente, com o aumento do desenvolvimento eco- nômico em algumas regiões do globo e através da adoção de medidas como o planejamento familiar e o controle de natalidade em alguns países (como no caso da China), o crescimento populacional mundial, em média, vem sendo menor nos últimos anos. Por esse motivo, muitos autores referem-se às explo- sões demográficas dos séculos XIX e XX como integrantes de diferentes transições demográficas que marcaram os diferentes períodos da história. O que se percebeu é que, com o passar do tempo e a promoção de avanços tecnoló- gicos, as taxas de mortalidade diminuíram repentinamente, enquanto as taxas de natalidade demoraram para acompa- nhar essa queda. As atuais projeções estimam que a população mun- dial esteja em 7 bilhões de habitantes. Apesar de ser uma grande quantidade de pessoas, observa-se que os avanços nos meios agrícola e tecnológico propiciaram um grau de desenvolvimento capaz de sustentar a população. O que se percebe atualmente é que o principal desafio não é produ- zir riquezas para o total de habitantes, mas sim propiciar a sua distribuição mais justa. Transição demográfica A transição demográfica é uma teoria que aborda as diferentes fases pelas quais passa o crescimento popula- cional nos diferentes lugares. A teoria da transição demográfica versa sobre o ritmo de crescimento da população A transição demográfica é uma premissa social elabo- rada pelo demógrafo estadunidense Frank Notestein, na primeira metade do século XX, para refutar, por meio de 93 GEOGRAFIA números e dados, a teoria populacional malthusiana, que afirmava que o crescimento demográfico ocorria em ritmo exponencial. Na concepção da transição demográfica, ve- rifica-se que, na verdade, existe uma tendência em que as populações de diferentes lugares crescem conforme ciclos que se intensificam e depois se reduzem sob as mais diver- sas razões. A teoria da transição demográfica afirma que não exis- te um processo único e constante de explosão demográfica ou crescimento populacional muito elevado. Quando esse fenômeno ocorre, postula-se que a tendência por parte dos diversos lugares é que haja uma posterior estabiliza- ção, sobretudo pelas sucessivas modificações nas taxas de natalidade e mortalidade. O principal efeito da transição demográfica, nesse sentido, seria o processo de envelheci- mento populacional. De acordo com os principais teóricos da teoria popula- cional em questão, a transição demográfica pode ser seg- mentada em quatro diferentes fases. 1ª fase – Pré-transição Primeira fase da transição demográfica, também cha- mada de pré-transição, ocorre quando há um certo equi- líbrio entre as taxas da natalidade e mortalidade, porém ambas com valores muito altos. Nesses casos, são socie- dades que contam com um baixo desenvolvimento eco- nômico e social, onde nascem muitas pessoas anualmente e, ao mesmo tempo, perdem-se muitas vidas em razão de epidemias, baixa expectativa de vida e precárias condições sanitárias. Um cenário como esse pôde ser visto na Europa na fase inicial de sua industrialização. 2ª fase – Aceleração ou explosão demográfica Na segunda fase ocorre aquilo que muitos denominam por explosão demográfica, o crescimento acentuado da população em um curto período de tempo. Mas a teoria da transição demográfica demonstra que esse processo não ocorre pelo aumento das taxas de natalidade, e sim pela diminuição brusca das taxas de mortalidade, em razão das melhorias sociais em termos de saúde, saneamento, acesso à água e outros fatores. Esse processo ocorreu na Europa ao longo do sécu- lo XIX, em boa parte dos países emergentes ao longo do século XX (inclusive no Brasil) e atualmente acontece nos países periféricos, com destaque para a Nigéria e outras nações em desenvolvimento. O continente europeu tam- bém acompanhou uma explosão demográfica acentuada no período pós-guerra, o que gerou a expressão “geração baby boom”. 3ª fase – Desaceleração demográfica À medida que as sociedades se desenvolvem, a ten- dência geral é haver uma redução nas taxas de natalidade, o que se explica pela difusão do planejamento familiar, a inclusão da mulher no mercado de trabalho, a intensiva ur- banização (no campo, as taxas de fecundidade são sempre maiores), entre outros fatores. Por esse motivo, há um gra- dativo processo de declínio do número de nascimentos, o que acontece em uma velocidade inferior à queda da mor- talidade. Esse processo passou a ser vivido no Brasil na segun- da metade do século XX, sobretudo a partir da década de 1970. Atualmente, as taxas de natalidade do Brasil são bai- xíssimas, quase sempre inferiores a 1% por ano. 4ª fase – Estabilização demográfica A estabilidade demográfica é atingida quando as ta- xas de natalidade e mortalidade finalmente se equilibram, mantendo patamares que, embora possam apresentar os- cilações conjunturais, mantêm-se em médias muito baixas. Nesse cenário, diz-se que há um total controle do cresci- mento demográfico. Observe o gráfico a seguir: Gráfico esquemático dos processos cíclicos da transição demográfica Diante desse panorama, nota-se que o crescimento populacional é contido, o que representa, de certa forma, uma vantagem. Por outro lado, quando isso acontece, há também o processo do envelhecimento populacional, pois a elevada expectativa de vida e a baixa natalidade geram um aumento médio da idade da população, o que pro- porciona a queda da população economicamente ativa e a possibilidade crescente de uma crise econômica e social. Em muitos países europeus, a realidade do envelhe- cimento populacional bate à porta, pois o número médio de filhos por casal é inferior a dois e o número de idosos é cada vez maior. Muitos países – como França e Alemanha – realizam diversas campanhas e até fornecem incentivos financeiros para os casais que desejam ter um segundo ou terceiro filho. O Brasil também se vê ameaçado por esse problema, de modo que deixamos de ser considerados como um “país jovem” para nos tornarmos um “país adul- to”. 94 GEOGRAFIA Migração Migração é o deslocamento de pessoas de uma de- terminada cidade, estado ou país (migração internacional) para outro local. Essa mudança pode ser definitiva ou tem- porária, voluntária ou forçada, individual ou em grandes fluxos. As pessoas migram pelos mais distintos motivos, des- de guerras, perseguição religiosa, conflitos étnicos, perse- guição política e ideológica ou simplesmente porque bus- cam condições melhores de vida em outra localidade. Essas condições podem estar relacionadas com trabalho, estudo, saúde, bem-estar, entre outros fatores, e são os maiores motivadores para as migrações na atualidade. Tipos de migração Migração pendular: é um fenômeno que não se trata propriamente de uma migração, pois é uma transferência momentânea, diária. É caracterizada pelo deslocamento diário de pessoas para estudar ou trabalhar em outra ci- dade, estado ou país. Ocorre comumente nas regiões me- tropolitanas. Transumância: nesse tipo de migração, um grupo de pessoas muda de cidade,estado ou país por um determi- nado período, geralmente alguns meses, e continua tendo como referência de moradia o local de origem. É o caso de trabalhadores rurais que vão todos os anos para outros estados trabalhar no corte de cana-de-açúcar, por exem- plo, e, encerrado o período de colheita, retornam para seus estados de origem. Êxodo rural: é o deslocamento de pessoas do campo para as cidades. Essa mudança é permanente e, geralmen- te, ocorre porque os habitantes do campo buscam na cida- de melhores condições de vida. Entretanto, essa migração pode ser involuntária, quando acontece, por exemplo, em decorrência da mecanização do trabalho no campo. Êxodo urbano: é mais raro de acontecer, mas é o opos- to do êxodo rural. Acontece quando pessoas que vivem na zona urbana (cidades) mudam para a zona rural (campo). Nomadismo: apesar de ser muito rara na atualidade, essa modalidade de migração é caracterizada pela ausên- cia de fixação permanente. As pessoas nômades mudam de lugar periodicamente e não estabelecem moradia fixa em nenhum lugar. Diáspora: é a rápida dispersão de um grupo populacio- nal de um território. Em geral, essa migração é involuntária ou forçada. Temos como exemplos mais expressivos a diás- pora africana (ocorrida por força da escravidão colonial) e a diáspora judaica (expulsão dos judeus da Palestina pelo Império Romano). As migrações, independentemente das classificações, possuem papel preponderante na organização do espaço, nas relações sociais e na construção da cultura. As pessoas, quando migram, carregam consigo todos os elementos que a constituíram, como sua história, memória e cultura. Ao chegar ao novo local de moradia, esses elementos inte- ragem com a cultura e história locais e daí surgem novos e ricos tipos de relações entre as pessoas e das pessoas com o espaço vivido. O PROCESSO DE URBANIZAÇÃO O processo de urbanização, principalmente nos países em desenvolvimento, é uma das mais agressivas formas de relacionamento entre o homem e o meio ambiente. As ci- dades antigas eram menores, mais harmônicas e, mesmo quando erguidas em locais ambientalmente inadequados, agrediam menos o meio ambiente. A partir da revolução industrial, o processo de cresci- mento das cidades se acelerou pelas duas razões já apon- tadas: a necessidade de mão-de-obra nas indústrias e a redução do número de trabalhadores no campo. A indus- trialização promoveu de modo simultâneo os dois eventos, um de atração pela cidade, outro de expulsão do campo. Antes da revolução industrial não havia nenhum país onde a população urbana predominasse. No começo deste sé- culo, apenas a Grã-Bretanha possuía a maior parte de sua população vivendo em cidades (Munford 1982). Pode-se afirmar que o Século XX é o século da urbanização, pois nele se acentuou o predomínio da cidade sobre o campo. Salvo regiões muito atrasadas, que permanecem com ca- racterísticas nitidamente rurais, o processo de urbanização prossegue em marcha acelerada. A ideia da fixação do homem no campo como forma de evitar o crescimento das cidades carece de realismo. As pessoas vão para o meio urbano em busca de oportuni- dades para melhorar a vida, de emprego, de escola, coisas que nem sempre são encontradas em pequenos povoados do interior. A cidade pode ser associada a uma unidade produtiva complexa, produzindo ampla variedade de bens e serviços, estando permanentemente em busca de econo- mias de escala, e sempre exercendo forte atração sobre os seres humanos. Do mesmo modo que muitas atividades econômicas superam as suas escalas econômicas de produção, as cida- des que crescem desmesuradamente acabam por exceder o denominado “tamanho ideal” e, a partir daí, passam a impor problemas econômicos de escala a grande parte dos estabelecimentos industriais ou comerciais ali instalados. Esses problemas econômicos se fazem refletir nos custos de produção, na saturação dos sistemas de abastecimento d’água, no elevado tempo de viagem imposto aos traba- lhadores, nos problemas de abastecimento causados por dificuldades no trânsito, nas restrições para resolver o pro- blema dos rejeitos, e assim por diante. No momento em que a cidade entra numa curva de perda das vantagens inicialmente oferecidas pelo proces- so industrial, o lógico seria iniciar a descentralização das atividades, buscando outras localidades mais vantajosas. Mas não é isso que ocorre. A cidade continua crescendo, assistindo inerte à degradação de seu meio ambiente e de sua qualidade de vida, como alguém que espera a morte 95 GEOGRAFIA sem qualquer reação. A descentralização só tem ocorrido muitos e muitos anos depois do completo inchamento e da considerável destruição do meio ambiente nos grandes centros urbanos. O processo de urbanização raramente é induzido por alguma política governamental de forma ordenada. Ele se processa de modo descontrolado, forçando as cidades a abrigarem um número de pessoas superior à sua capacida- de, o que dá origem a habitações subnormais, aos “sem-te- to”, à violência, à poluição e às periferias desassistidas que existem mesmo nas cidades mais ricas do mundo. Em O Nosso Futuro Comum (1988), além de reflexões interessantes, são sugeridas algumas estratégias para con- trolar o desenvolvimento urbano: I. Nada senão a coerção evitará o crescimento da ci- dade grande nos primeiros estágios de desenvolvimento; II. A chave de uma intervenção bem-sucedida é o fato de ser oportuna, de modo a só estimular a descentralização quando começarem a rarear as vantagens da concentração; III. Devem-se evitar políticas que aumentem a atração pela cidade grande, em especial os subsídios à energia e aos alimentos, a provisão por demais generosa de infraes- trutura urbana e outros serviços, e a excessiva concentra- ção de poder administrativo na capital; IV. A melhor maneira de estimular centros secundários é aproveitar as vantagens econômicas naturais de suas re- giões, especialmente em termos de processamento e mer- cadologia de recursos, com o fornecimento descentraliza- do de serviços públicos; V. Os métodos e estratégias de desenvolvimento rural e urbano devem ser complementares, e não contraditórios. O desenvolvimento dos centros secundários visa o benefí- cio econômico direto das áreas por eles servidas. Note-se que a primeira observação conflita com o direito de ir e vir predominante nos países democráticos. Mesmo naqueles lugares onde esse direito foi ou é limi- tado, ocorreu o surgimento de grandes metrópoles. Estra- tégias que impeçam o homem de realizar seus sonhos de buscar uma vida que ele pensa ser melhor do que a presen- te jamais serão alternativas para o crescimento das cidades. A criação de oportunidades em uma série de cidades de porte médio será provavelmente o melhor caminho. A re- dução dos incentivos à industrialização nas cidades maio- res poderá pouco a pouco reduzir o fascínio pelas metró- poles e redirecionar os fluxos migratórios para localidades mais aptas a recebê-los. Independentemente da época em que se inicie, o pro- cesso de industrialização sempre causa danos ao meio am- biente. Nos primórdios da cidade industrial, quem pensaria no depósito adequado dos resíduos, em evitar a poluição dos rios ou em estudar a localização das fábricas em fun- ção dos ventos dominantes? Quem se preocuparia com as condições de vida dos trabalhadores ou com a preservação da natureza? A revolução industrial provocou uma fantásti- ca deteriorização da qualidade de vida, expressa no apare- cimento dos cortiços, no aumento da mortalidade infantil e na redução da expectativa de vida. Um melhor tratamento da questão ambiental teve de esperar mais de cem anos após o início do processo. Londres, a grande metrópole, teve degradada de forma extraordinária sua qualidade de vida durante maisde um século. Somente quando o padrão de vida dos ingleses permitiu a alocação de elevadas somas em programas ambientais é que começou a recuperação do rio Tâmisa, a grande vítima da industrialização londrina. Isto se deu apenas a partir de 1960! Em meados do século XIX, a população de Londres ti- nha uma expectativa de vida de 36 anos, sendo que nas cidades de Liverpool e Manchester a expectativa era de apenas 26 anos (Munford 1982). As causas dessa reduzida expectativa de vida eram as precárias condições de traba- lho, de moradia e de ordem ambiental. O ar era fortemente contaminado pela fumaça das fábricas, onde as máquinas a vapor se moviam graças à queima de carvão. Os rios eram meros esgotos a céu aberto, a água consumida não sofria qualquer tratamento e o cólera era doença comum. A cidade industrial é voraz em termos de espaço. Em geral, expande-se engolindo as pequenas cidades ou po- voados vizinhos, criando imensas áreas conturbadas e formando as megacidades, que, mesmo nas sociedades pós-industriais, são associadas ao descontrole, à impossi- bilidade de planejamento, e administração. As demandas promovidas pelos imensos aglomerados urbanos fogem a qualquer capacidade de atendimento. A deteriorização dos seus serviços é quase uma decorrência natural de seu tamanho. A maior vítima é sempre o meio ambiente. A natureza é apenas algo que serve às necessi- dades urbanas. Assim, como um monstro incontrolável, a cidade vai ocupando e destruindo tudo ao seu redor, inde- pendentemente do que seja ou para que sirva. Uma das regiões mais ricas e poluídas da Europa, o Vale do Rio Ruhr, passou a contar com uma legislação im- pondo limites para a emissão de gases sulfurosos e ou- tros agentes nocivos desprendidos na queima do carvão, sua principal fonte energética da região, somente a partir de 1983. O programa previa uma redução de 70 a 80% na emissão de gases tóxicos em 10 anos a um custo de 30 bilhões de marcos alemães. O mesmo ocorreu em inúmeras cidades industriais da Europa e América do Norte. Primeiro veio a industrializa- ção, produzindo o enriquecimento do país; concomitante- mente, a degradação ambiental a um custo social elevado para futuras gerações. Finalmente, quando as questões bá- sicas da sociedade já estavam resolvidas, o meio ambiente foi lembrado e hoje é possível ver o convívio relativamente harmônico das fábricas com os rios, lagos, florestas e a pró- pria população. O processo de industrialização do leste europeu rea- lizou-se também às custas de imensos danos ambientais. Muitas cidades da região, cidades industrializadas em ple- na Europa, sequer possuem tratamento d’água para toda a população ou adequada destinação para o esgoto e o lixo. A inserção daqueles países numa economia moderna de- mandará a aplicação de imenso volume de recursos finan- ceiros no tratamento dos problemas ambientais, principal- mente no controle da poluição industrial e na recuperação de elementos da natureza destruídos por muitos anos de descaso. 96 GEOGRAFIA O principal financiador de projetos industriais no Brasil, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, alocou, desde 1986, ano em que criou um programa para fomentar projetos de proteção ambiental, até 1994, um bi- lhão de dólares em projetos de melhoria do meio ambiente e em atividades destinadas a aperfeiçoar os processos in- dustriais, objetivando a melhoria da relação da produção com o meio ambiente. As principais demandas vieram dos setores siderúrgico, petroquímico, de papel e celulose, e de refino de petróleo. O processo de industrialização iniciou-se com enorme atraso em uma parte do mundo, não tendo sequer come- çado em grande parte do planeta. Nos países da América Latina onde já ocorreu, o processo foi iniciado nos anos quarenta, amadurecendo na década de 60. O exemplo dos países europeus e norte-americanos de nada nos valeu. A industrialização se deu do mesmo modo: inchamento das cidades, degradação dos padrões de vida e ambientais, sa- crifício de rios e florestas. Um século de agressão à vida não foi suficiente para criar padrões de conduta diferentes para aqueles que tardiamente entraram na era industrial. Deve-se lembrar que sete das cidades mais populosas do planeta estão em países em desenvolvimento. Segundo projeção para o ano 2000, as cidades mais populosas do mundo serão as seguintes: Na América Latina, as taxas médias de crescimento po- pulacional, explosivas em décadas passadas, começaram a declinar, devendo situar-se, no ano 2000, no patamar atual dos países desenvolvidos: Nos países industrializados é bastante alto o percen- tual de pessoas que vivem nas cidades, tendo o processo migratório interno atingido um certo ponto de equilíbrio. A maioria dos países em desenvolvimento ainda está distante desse ponto, e os fluxos migratórios internos do campo para as cidades, das regiões mais pobres para as mais ricas prosseguem. Como um todo, o quadro latino-americano é favorável, e bem superior à média dos países em desenvolvimento da África e da Ásia. O problema é a profunda heterogeneida- de socioeconômica da região. Os bolsões de pobreza são frequentes e justamente neles ocorrem as maiores taxas de natalidade. As elevadas taxas de natalidade que ocorrem nas re- giões mais pobres dos países em desenvolvimento tor- nam-se um fantástico fator de realimentação da pobreza, uma vez que criam um ciclo vicioso difícil de romper. As políticas que poderiam interromper esse ciclo de pobreza ou não existem ou são mencionadas timidamente. Desin- teresse, tradição e costumes dificultam a disseminação de informações sobre o controle da natalidade. O resultado é facilmente constatado: a população de mais alta renda, com acesso às informações, apresenta taxa de crescimento reduzido, enquanto os segmentos mais pobres apresentam taxas de crescimento elevadas. A pobreza urbana tem aumentado. O Banco Mundial (Horizontes Urbanos, 1986) estima que exista no mundo um bilhão de pobres, pessoas com renda anual inferior a 370 dólares. Desse total, um terço vive nas cidades, o que representa 25% da população urbana mundial, e entre 30 e 60% da população urbana dos países em desenvolvimento. Aparentemente as grandes cidades não param de cres- cer, excetuando-se algumas cidades da Europa e algumas metrópoles norte-americanas onde o equilíbrio populacio- nal já está praticamente atingido. De 1970 até o ano 2000, a maior cidade europeia, Londres, deverá ter uma pequena redução de população, que oscila em torno de 11 milhões de habitantes. As cidades do México e São Paulo no mes- mo período triplicarão as suas populações. Entre as prin- cipais causas do crescimento dessas cidades, e de outras metrópoles de países em desenvolvimento, está a migra- ção do campo e das regiões mais pobres do país para os grandes centros urbanos, guiada pela crença de que esses centros seriam capazes de dar emprego, habitação, escola e serviços hospitalares, para a grande massa de cidadãos excluídos de qualquer benefício. Na maioria das vezes tra- ta-se apenas de uma ilusão, pois a cidade grande muito pouco tem a dar ao migrante com pouca qualificação para o trabalho urbano. Desfeito o sonho, ele passa a viver em condições degradantes, muitas vezes piores do que as do início de sua jornada em busca de melhores condições de vida. Como os países pouco desenvolvidos são carentes de infraestrutura para promover o processo de industrializa- ção, uma desejável descentralização de atividades, que acarretaria a criação de empregos em núcleos urbanos menores, acaba não ocorrendo. O inchamento das cidades maiores manifesta-se então como mais uma fatalidade im- posta pela pobreza. Já foi dito que um dos estímulos à degradação urbana residiu no fato de que, até pouquíssimo tempo, os orga- nismos defomento não impunham qualquer condicionali- dade ambiental à aprovação de projetos industriais. Se nos primórdios do processo isso era explicável, de modo algum poderia ser aceito nos dias de hoje, não só pelo maior co- nhecimento ecológico, mas também pelo conhecimento do custo imposto à sociedade por várias gerações. Nas décadas de 60 e 70, os países industrializados pas- saram a transferir indústrias poluidoras para regiões mais pobres, tendo mesmo havido competição entre essas re- giões para atrair fábricas ambientalmente inadequadas. Em contraste com as regiões mais desenvolvidas, ofereciam- se incentivos, como a redução de impostos e a doação de terrenos, além da total ausência de exigências ambientais. Indústrias de cimento e de fertilizantes, químicas e siderúr- gicas começaram a migrar para essas áreas que, sem ana- lisar os custos sociais e ambientais, davam boas-vindas à poluição. Esse processo prossegue do mesmo modo apenas em países que só recentemente entraram ou estão entran- do na era da produção industrial. Aí se verificam o mes- mo crescimento urbano acelerado, a mesma poluição, a mesma agressão ao meio ambiente ocorridos no passado. Esses fenômenos podem ser observados em países latino -americanos ou asiáticos que só há pouco tempo começa- ram a instalar suas fábricas. O recente desenvolvimento da China, por exemplo, tem alguns subprodutos ambientais indesejáveis. Mantendo o crescimento de seu Produto In- terno Bruto a taxas de 8,5% ao ano (inferior ao observado no início da década de 90), no ano 2025 a China poluirá 97 GEOGRAFIA a atmosfera com três vezes mais dióxido de carbono que os Estados Unidos poluem atualmente. Anualmente as in- dústrias chinesas produzem quase quatro trilhões de gases residuais tóxicos, que provocam chuvas ácidas nas florestas chinesas, russas e coreanas (Folha de São Paulo, 1994). Os erros cometidos por gerações passadas só têm uma utilidade prática: evitar a sua repetição. Mas na questão ambiental, eles serviram para muito pouco. Parece que cada país tem que cometer seus erros, para só depois do desastre adotar as providências que há muito deveriam es- tar surtindo efeito. Associe-se a isto o crescimento populacional, muito maior nos países recém-industrializados, e teremos um quadro urbano agressor, estabelecendo-se um convívio muito pouco equilibrado com o meio ambiente. No fundo, tal desequilíbrio é mais uma expressão do íntimo relacio- namento que existe entre a pobreza e o meio ambiente. A necessidade premente de criar empregos a qualquer preço faz com que cuidados elementares para proteger a saúde da população e os ecossistemas sejam negligenciados. A geração de empregos é algo tão importante para países pobres, que tudo é feito para atrair alguma unidade industrial, mesmo que o preço a pagar acabe sendo alto. A concessão de incentivos à industrialização é válida; o que é inaceitável é o descaso ambiental, tanto por parte do poder público quanto por parte dos empresários, que não que- rem arcar com os custos adicionais necessários à instalação de equipamentos antipoluição. A tendência é acabar com este tipo de procedimento, não apenas pelo despertar da consciência ecológica, mas também pela legislação ambiental e até mesmo pelo com- portamento do mercado, que tende a recusar produtos elaborados a partir de sacrifícios à natureza. O selo verde ostentado por alguns produtos já é uma primeira iniciativa para orientar os consumidores em relação à origem dos bens que lhe são oferecidos. A globalização dos merca- dos imporá regras mesmo àqueles países que insistem em ignorar a necessidade de uma relação harmônica entre a produção e o meio ambiente. Processos industriais primiti- vos, matérias-primas poluidoras e bens primários obtidos a partir da destruição de florestas tenderão a sofrer crescen- tes restrições por parte dos consumidores. O desenvolvimento tem sido encarado com frequên- cia apenas como o crescimento da renda per capita. Por isso, componentes essenciais de um processo abrangen- te de desenvolvimento têm sido negligenciados ao longo dos tempos. A saúde, o amparo aos velhos e à infância, a qualidade de vida urbana e, naturalmente, o meio ambien- te estão entre os habituais esquecimentos dos planos de desenvolvimento. Wilheimn (1990) tem postulado que o desenvolvimen- to só pode existir quando três aspectos fundamentais são observados: I. O crescimento da economia, a fim de gerar riquezas e oportunidades; II. A melhoria na distribuição da renda, diminuindo sua iniquidade; III. A melhoria da qualidade de vida, representada en- tre outros fatores por um meio ambiente preservado, con- servado, recuperado e melhorado. Nenhum desenvolvimento será integral sem a ocorrên- cia simultânea e equilibrada desses três elementos. Assu- mindo esse enfoque, mais abrangente que o habitual, as atenções com o meio ambiente fazem parte do processo de desenvolvimento. É claro que tratar efluentes industriais, instalar filtros em chaminés e eliminar de forma adequada os resíduos acarreta custos aos investimentos iniciais. Também é cla- ro que a ausência desses cuidados implicará outros custos que algum dia poderão tornar-se intoleráveis para a popu- lação, que passará a exigir a modernização das unidades industriais ou até seu eventual fechamento. O que aqui se diz sobre as indústrias vale também para as obras de infraestrutura. Usinas de geração de energia mal localizadas, transportes não planejados para interagir com o meio ambiente, programas habitacionais implanta- dos em encostas, manguesais ou áreas ribeirinhas só po- dem ter uma convivência tumultuada com a natureza. Os transportes, principalmente os urbanos, podem degradar inteiramente áreas densamente povoadas, afetando de modo negativo a qualidade de vida. O Rio de Janeiro, San- tiago e a cidade do México evidenciam este tipo de rela- cionamento inadequado entre um subsistema urbano (os transportes) e a população. É por demais íntima a relação transportes-meio am- biente urbano. Quando mal planejados, operados e fisca- lizados, os transportes podem provocar níveis de ruído, de acidentes ou de emissão de gases tóxicos totalmente in- compatíveis com condições razoáveis de existência. Além dos transportes, a questão do lixo urbano é pre- cariamente tratada nos países em desenvolvimento. Às ve- zes o tratamento se processa com nível de prioridade tão baixo que é como se as pessoas não produzissem restos em suas atividades cotidianas. As municipalidades quando muitos tratam de recolhê-lo e depositá-lo em locais distan- tes e longe dos olhos da parcela mais privilegiada da po- pulação. Trata-se mais de esconder o lixo que buscar uma solução adequada para ele. O completo equacionamento da questão envolve seu correto recolhimento, transporte, deposição, tratamento ou reciclagem. O recolhimento é dificultado nas áreas pe- riféricas das cidades pela inadequação do sistema viário. Ruas estreitas, não pavimentadas, frequentemente íngre- mes não permitem a entrada dos caminhões que fazem a coleta do lixo. A deposição é normalmente feita em qual- quer lugar distante, bastando haver espaço disponível. As boas técnicas de execução de aterros sanitários são em ge- ral esquecidas, sendo a contaminação do lençol freático a primeira consequência desse descuido. O tratamento, embora não seja caro, exige investimen- tos iniciais em usinas especializadas que nem sempre são disponíveis. Essas usinas podem ter parte de seu custo re- cuperado pela venda dos materiais que são reaproveitáveis e pela transformação da matéria orgânica existente no lixo em adubo. O não tratamento do lixo, além de promover o des- perdício de material reciclável, como metais, vidro, pano e papel, tem como contrapartida a criação de depósitos inadequados. O mais comum é acriação de uma situação 98 GEOGRAFIA em que pessoas pobres convivem da pior maneira possível com resíduos que podem até fornecer um precário sus- tento, mas que certamente trarão doenças, agravarão as condições de vida da população e contribuirão para con- taminar o meio ambiente. A reciclagem permite, ainda, au- mentar a vida útil dos aterros sanitários. Além do lixo doméstico comum, deve-se considerar os resíduos perigosos, que devem ter tratamento especial. O lixo hospitalar deve ser incinerado em usinas próprias a altas temperaturas. Os resíduos industriais perigosos, quando não é possível mudar a matéria-prima que os ori- gina nem reaproveitá-los no processo industrial, devem ser transportados e depositados ou tratados separadamente dos demais resíduos. O lixo radiativo é dos mais problemá- ticos. Sua ocorrência deve crescer, mas sua quantidade não é suficiente para que cada cidade tenha instalação para depositá-lo de maneira conveniente. Nesse caso o reco- lhimento e tratamento devem ser alvo de ações de nível nacional e não de governos locais. No que concerne ao risco de contaminar a população ou o meio ambiente, é provável que os materiais radioativos usados em equipa- mentos de emprego cotidiano cada vez mais frequentes, principalmente na medicina, sejam mais perigosos que o rejeito das grandes centrais nucleares. É conhecido o recente acidente ocorrido na cidade de Goiânia, no Brasil, quando uma cápsula de césio já impres- tável para uso em equipamento médico-hospitalar foi en- contrada e manuseada em um depósito de sucata por um grupo de pessoas que não tinham a menor ideia do risco que corriam. Além de provocar doença em dezenas de pes- soas, todo material que entrou em contato com o césio ficou contaminado, tendo que ser depois depositado em locais especialmente construídos na cidade para esse fim. O episódio mostrou como é perigoso para a população a falta de uma política adequada para o armazenamento do lixo radioativo. É crescente o emprego da energia nuclear, principal- mente na Europa. A energia produzida é limpa, não polui nem aquece a atmosfera, mas a deposição de seus resíduos é uma questão mal resolvida. A radioatividade permane- ce nos rejeitos nucleares por milhões de anos, deixando contaminado tudo que entrar em contato com a fonte de energia: as roupas dos funcionários, dutos de passagem do combustível, além do próprio resíduo resultante da fissão nuclear. Um reator nuclear gera 30 toneladas por ano de lixo radioativo. O total desse tipo de resíduo em todo mun- do esperado para o ano 2000 é de 450 mil toneladas. Todas as soluções disponíveis são insatisfatórias: ater- ros, colocação em recipientes que são jogados ao mar, reprocessamento. Além disso, há questões sem resposta como o que fazer com as próprias usinas após o término de sua vida útil (30 a 40 anos), ou como fechar as usinas pe- rigosas, que funcionam principalmente no leste europeu. O problema dos resíduos tóxicos é tão grave que os países ricos querem destiná-los aos países pobres, que, na falta de maiores fontes de renda, acabam por aceitar tal si- tuação. A falta de consciência ambiental ocorre em ambos os lados. Nos países pobres porque aceitam uma alterna- tiva que causará sérios problemas à sua população e à sua natureza. Nos países ricos, porque em vez de procurar uma saída tecnológica para resolver o problema em seu pró- prio território, optam por uma solução danosa sob todos os pontos de vista. A busca desse tipo de solução mostra quão longe está a humanidade de encarar o problema am- biental em sua globalidade e não apenas como algo limita- do por uma fronteira nacional. O melhor tratamento a ser dado à questão do lixo do- méstico é a reciclagem dos materiais que o compõem. A reciclagem pode ser feita em usinas de tratamento, a partir da coleta diária, sem prévia seleção. Nesse caso, nem todos os materiais são reaproveitados. Os restos de vidro, me- tais e plásticos acabam por se misturar com o composto orgânico resultante do tratamento, prejudicando seu nível de pureza. É desejável que a reciclagem se faça a partir da seleção prévia do lixo industrial ou doméstico, onde os metais, vidros e plásticos sejam recolhidos separadamente do restante dos dejetos. Nesse caso o aproveitamento dos materiais é melhor, sendo mais puro o adubo produzido nas usinas. Uma outra maneira é usar containers colocados em pontos predeterminados das cidades. Neles se deposita- riam certos materiais, como metais ou garrafas, que seriam recolhidos em dias preestabelecidos. Desse modo a reci- clagem do lixo doméstico torna-se mais simples, mais ba- rata e mais eficiente. Em áreas mais pobres e de difícil acesso aos caminhões, a população deve ser estimulada a trazer o lixo a pontos de recolhimento, em vez de colocá-lo em qualquer lugar, acarretando problemas não só de saúde, mas também de infraestrutura, como o entupimento de galerias pluviais e córregos. As municipalidades devem estabelecer em suas nor- mas critérios para o recolhimento do lixo, seja o domiciliar, seja o das pequenas empresas. Os grandes produtores de resíduos devem transportar, tratar ou depositar seu pró- prio lixo, observando a legislação local. Essa é uma forma de reduzir os custos dos serviços públicos de limpeza ur- bana e ampliar seus benefícios à comunidade. Além disso, essas medidas tendem a estimular algumas indústrias a es- tudar alternativas de produção que diminuam os seus sub- produtos indesejáveis. Tomemos o exemplo fornecido pela Mercedez-Benz brasileira (Gazeta Mercantil, 1994): procu- rando reduzir o lixo produzido em suas instalações, a em- presa trocou suas caldeiras a óleo diesel por equipamentos elétricos; substituiu o uso de solventes clorados utilizados para remover tintas por jatos de areia de alta pressão; apri- morou os processos de pintura; substituiu solventes por água, além de aumentar o percentual de insumos reciclá- veis em seus produtos finais. Como resultado, obteve uma redução do desperdício de certas matérias-primas, como a tinta, além de alcançar o objetivo maior: diminuir a produ- ção de resíduos. No caso dos resíduos industriais, deve-se verificar se os restos de uma indústria não poderão transformar-se em matéria-prima para outra. No Canadá, a Waste Ma- terials Exchange (Horizontes Urbanos, 1987) estimula um novo uso para os resíduos industriais, através da análise dos mesmos e da troca de informações que proporciona 99 GEOGRAFIA às empresas. As informações são confidenciais, pois algu- mas empresas temem que o seu lixo revele segredos in- dustriais. O primeiro boletim de informações foi publicado em 1978. Para 90% dos resíduos enumerados houve pe- didos adicionais de informações, que acabaram por gerar 510 intercâmbios entre indústrias. O boletim de divulgação apresenta 10 tipos de resíduos: produtos químicos orgâni- cos e solventes, óleo, graxas e ceras, ácidos, álcalis, outros produtos químicos inorgânicos, metais e esgotos com me- tais, plásticos, têxteis, couro e borracha, papel e celulose, e produtos diversos. Às vezes figuram também substâncias químicas de laboratório. Para que o lixo não acabe por ser o grande, talvez o maior problema de relacionamento entre as cidades e o meio ambiente, é importante que cada nível de governo trate a questão com prioridade. As cidades que são polos industriais são verdadeiras fábricas de poluentes atmosféricos. Em algumas é visível a poluição do ar, principalmente nos dias em que ocorrem inversões térmicas capazes de dificultar a dissipação dos gases emitidos pelos transportes e pelas indústrias. Desne- cessário falar acerca do efeito destes gases e das partículas sólidas emitidas pelas chaminés das fábricas e pelo escapa- mento dos veículos automotores sobre o meio ambiente e a saúde das pessoas.