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Michael Lind

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como os americanos viviam. O conservadorismo 
estético da maioria dos americanos garantiu que as casas do pós-guerra fossem construídas 
em estilos que evocavam uma ou outra tradição histórica - estilo colonial, Tudor ou rancho, o 
último vagamente baseado na arquitetura de fazenda da Velha Califórnia. Mesmo que a 
maioria dos americanos tenha optado por não viver em cúpulas de metal futurísticas, como a 
Casa Dymaxion projetada pelo engenheiro R. Buckminster Fuller, por trás da fachada 
 
tradicional a nova casa americana tinha sistemas e dispositivos de utilidade que, décadas 
antes, só poderiam ser encontrados em ficção científica. 
Nada mudou mais a vida americano do que a comodidade do encanamento interno. No 
início do século XX, a água coletada para a maioria das casas vinha de poços ou córregos, 
com o risco do contágio de febre tifóide e cólera. Em 1970, 98% dos lares brancos e 92% dos 
lares negros possuíam água encanada, em comparação com apenas 24% em 1890 (a diferença 
entre lares negros e brancos em 1970 era resultado da pobreza rural negra). 
Os fornos autolimpante e de micro-ondas, a lava-louças, a máquina de lavar roupas e o 
secador eliminaram grande parte do trabalho pesado da vida cotidiana nos lares. Entre 1900 e 
1975, o tempo médio por semana gasto no preparo de refeições e limpeza doméstica caiu de 
44 horas para dez, enquanto as horas dedicadas à lavanderia caíram de sete para uma. 
Em 1900, a maioria das famílias tinha de abastecer fogões com madeira ou carvão e 
lamparinas eram alimentadas com querosene ou óleo de carvão. Em 1950, mais de 95% dos 
domicílios possuíam iluminação elétrica e rede de aquecimento central. Em 1987, 63% dos 
lares tinham ar-condicionado. 
Empregados domésticos tornaram-se tão raros e anacrônicos quanto vaudevillistas e 
vendedores ambulantes. Graças aos aparelhos que economizavam o trabalho, às leis de 
salário mínimo e à restrição da imigração em massa antes de sua retomada na década de 
1960, os empregados domésticos tornaram-se raros nos Estados Unidos. Em 1910, havia 20 
milhões de lares e dois milhões de empregados domésticos. Em 1970, apenas 1% de 46 
milhões de famílias tinham um empregado que morava em serviço. 
Os americanos do pós-guerra desfrutaram de mais espaço pessoal. Em 1970, menos de 
8% das residências tinham mais de uma pessoa por quarto, em comparação com mais da 
metade em 1900. E eles desfrutaram de mais tempo pessoal. De uma carga de trabalho 
semanal média, para trabalhadores não-agrícolas, de 60 horas, essa mesma carga semanal 
havia diminuído para 40 horas, graças ao aumento da produtividade e às leis trabalhistas do 
New Deal. Do nível global ao interior do lar, a segunda revolução industrial estava atingindo 
sua maturidade. Vivendo em uma nova estrutura construída sobre as bases da eletricidade e 
do petróleo, os americanos comuns experimentaram uma era de progresso e prosperidade sem 
precedentes. 
 
A NIRA VIRTUAL 
Os fundamentos institucionais e físicos da economia americana foram reconstruídos na 
era do New Deal, entre as décadas de 1930 e 1970. De acordo com as historiografias 
tradicionais do New Deal e da era pós-guerra, os arranjos associacionistas da NIRA foram 
esquecidos após a destruição do mesmo e da AAA pela Suprema Corte, em meados dos anos 
1930. Os liberais, dizem, reconciliaram-se com uma combinação de livre iniciativa e gestão 
de demanda keynesiana. 
Nada poderia estar mais longe da verdade, as políticas keynesianas de gerenciamento 
de demanda foram perseguidas de forma inconsistente sob os governos dos presidentes 
Truman, John F. Kennedy e Johnson, e quase nada sob o de Eisenhower. Tampouco a 
economia do pós-guerra foi baseada em livres mercados, como geralmente se define. Os 
principais setores da economia eram organizados em cartéis apoiados pelo governo ou 
dominados por algumas corporações oligopolistas. Os sindicatos estavam concentrados 
nesses mesmos setores. 
Após o desaparecimento do NIRA em 1935 e do AAA em 1936, o governo Roosevelt e 
o Congresso rapidamente criaram uma série de "mini-NIRAs" e "mini-AAAs" em diversos 
setores da economia americana. Como vimos no capítulo anterior, um cartel nos padrões da 
NIRA foi criado na indústria do petróleo pela Lei de Conservação do Carvão Betuminoso (a 
Lei Gaffey) de 1937, que criou uma comissão também nos padrões da NIRA para 
supervisionar as normas trabalhistas e os preços. A Lei de Ajuste Agrícola (AAA) foi julgado 
inconstitucional pela Suprema Corte em ​Estados Unidos contra Butler (1936), um ano após a 
derrubada da NIRA pela Corte. Mas os aspectos da AAA foram reencarnados com a 
colaboração da Lei de Conservação do Solo e Distribuição Doméstica de 1936, da Lei de 
Comercialização Agrícola de 1937 e da Lei de Ajustamento Agrícola de 1938. 
Com as exceções do carvão betuminoso, do petróleo e da agricultura, que eram 
altamente regulados e subsidiados, a maioria dos cartéis patrocinados pelo governo se 
concentrava em indústrias de infraestrutura essenciais, onde a volatilidade de preços e a 
concorrência ruinosa não podiam ser toleradas. Como vimos, a Lei da Empresa de Utilidade 
 
Pública de 1935 substituiu os consórcios privados de energia elétrica por empresas de 
utilidade pública por ela regulamentadas. A Lei da Aviação Civil de 1938 criou um cartel de 
preços e entradas, normas trabalhistas e comissão de supervisão, o Conselho de Aviação Civil 
(CAB). A Comissão de Comércio Interestadual (ICC) cartelizou a indústria de caminhões 
com a regulamentação de preços e entradas. Nas telecomunicações, a Comissão Federal de 
Comunicações (FCC), formada por sete membros, alocou instalações de rádio e licenças 
posteriores, regulamentaram as tarifas e supervisionaram o monopólio regulamentado da 
AT&T. Após a Segunda Guerra Mundial, 15% da economia dos EUA foi regulada por essas 
agências e outras, incluindo a Comissão de Títulos e Câmbio (bancos e finanças), a Comissão 
Federal de Energia (gás natural, hidrelétricas e energia nuclear); Departamento de Fazendas 
Agrícolas (agronegócio); e a Comissão Marítima Federal (embarque de mercadorias). Longe 
de ser uma embaraçosa aberração, a NIRA foi um modelo não reconhecido para a 
prosperidade na Era de Ouro entre a Segunda Guerra Mundial e a década de 1970. 
Ressuscitou nas leis de salários e horas do NLRA, nos preços e subsídios do setor agrícola, 
nas indústrias de infraestrutura com regulações de preço e entradas e nos oligopólios do setor 
industrial com negociação de fato tripartidas entre negócios, trabalho e o governo, criando, 
em conjunto, o que poderia ser chamado de "NIRA Virtual", que estruturou grande parte da 
economia americana após a Segunda Guerra Mundial, até ser parcialmente desmantelado 
entre as décadas de 1970 e 1990. 
A ERA DO OLIGOPÒLIO 
 
Em setores manufatureiros concentrados, como o de automóveis,