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UNIVERSIDADE DE TAUBATÉ UNITAU Fernanda Oliveira Giovana Passarelli Isabelli Araújo Estudo de Caso Psicopatológico Filme: Um Amigo Especial Taubaté 27/10/2018 Introdução O autismo começa a ser reconhecido durante o segundo ano de vida da criança, contudo, é raro que quem está próximo se dê conta de imediato dessas dificuldades, os primeiros sinais estão ligados a atrasos precoces do desenvolvimento e perdas de habilidades sociais e linguísticas, tendo a sua prevalência 3 a 4 vezes mais elevadas em meninos. O transtorno do espectro autista não é um transtorno degenerativo, sendo assim, é comum que a aprendizagem continue ao longo da vida, seus sintomas são mais acentuados na primeira infância e início da vida escolar, tendo seus ganhos no desenvolvimento frequentes no final da vida escolar. O filme escolhido traz a história verídica de um menininho de 6 anos com o diagnóstico de autismo, que apresenta alguns atrasos em suas habilidades sociais principalmente, mas que com a ajuda de seus pais e um cão, que se torna um amigo muito especial para ele, tem uma melhora significativa em seu desenvolvimento social e emocional. Resenha Título Original: After Thomas Título no Brasil: Um Amigo Especial Ano de produção: 2006 Gênero: Drama Sinopse: Esse filme conta a história de uma família que tem um filho autista. Kyle Graham, um garotinho de seis anos que tem autismo e enfrenta dificuldades de relacionamento. Nicola, a mãe, é enfermeira e dá plantões noturnos de enfermagem. Rob, sue pai, trabalha num escritório, e então eles se revezam dia e noite em seus cuidados. Acompanham de perto o desenvolvimento do filho, que estuda numa escola especial na própria comunidade. Há uma certa frustração por ele não ter nenhuma evolução durante um determinado tempo e o pai surge com a ideia de interná-lo numa renomada clínica para crianças autistas, onde o médico responsável é um grande especialista no assunto. Eles o procuram para uma consulta e o médico alerta que nem sempre a internação é a melhor solução para a criança, que o melhor é a integração com as pessoas ao redor. Os pais de Kyle encontram dificuldades em se relacionar com ele (e entre si também, principalmente no que diz respeito ao que fazer com o filho). Há também os queridos avós que conseguem ser muito presentes na vida de Kyle, a avó Pat e o avô Jim. Sua vó consegue interagir com o neto, dando-lhe sempre muito carinho e atenção, com paciência e amor, brincando com ele no playground e seja onde for. Sua avó Pat parece encontrar maneiras de fazê-lo realizar algumas ações, é dela a ideia de usar um boneco Mickey para dizer ao neto que ele deve fazer alguma coisa, como comer, ou parar de fazer alguma coisa porque é hora de ir embora. Com essa estratégia, ela consegue que o menino a obedeça. Em casa, um recurso que os pais utilizam para acalmá-lo é colocar o DVD de “Thomas e seus Amigos”. Este desenho, ainda que tosco, mas encantador, conta as histórias de um trenzinho azul chamado Thomas e outros amigos vagões, locomotivas, helicóptero, etc. Certo dia a avó Pat dá a ideia de dar um cachorro para Kyle, então Nicola pensa no assunto e comenta com o marido, e os pais resolvem lhe dar um presente: um cão. Eles vão até a casa de uma senhora que cria cães e observam a reação de Kyle em relação aos três filhotes de Golden Retriever, fofos e brincalhões. Mas antes é necessário que façam um preparatório para a adoção do cachorro Thomas. Quando os pais voltam da casa onde nasceu o filhote, eles decidem preparar psicologicamente o filho para a convivência com um cão. O pai empreende uma conversa com Kyle, tentando retratar possíveis reações do animal. Rob inicia falando da expressão de sorriso do “rosto” do trem Thomas, brinquedo predileto de Kyle. Rob explica que um sorriso é sinal de felicidade e que, assim como as personagens, as pessoas, Rob prossegue fazendo uma expressão de raiva e explica que isso acontece quando as pessoas estão “bravas”. Kyle oferece o mesmo olhar sério, o pai chega então a falar que cachorros também se aborrecem e imita um rosnar de cachorro. Por fim, acabam escolhendo o cãozinho que mais se apega a Kyle, que recebe o nome de Thomas (nome escolhido por Kyle). A partir de então, Thomas passa a ser um canal de comunicação de Kyle com o mundo exterior. É “ele”, na voz do pai, que diz a Kyle o que ele deve fazer e como se comportar. Seu desenvolvimento nessa fase é espetacular e a ideia do internato é definitivamente abandonada. E de fato, desde o início da convivência com Thomas, Kyle começa a apresentar notáveis avanços, como brincar, realizar ações rotineiras (ir para a cama, comer, pedir para fazer xixi), conversar e até mesmo desenhar, embora todos os avanços estejam fortemente conectados com o cachorro, o que ainda deixa os pais um pouco de fora da vida do filho. No final, apesar de acontecimentos tristes que poderiam abalar de vez a vida de Kyle, ele é recompensado com a amizade e companhia de seu amigo Thomas, como a morte de sua avó ou quando o Thomas fica doente, porém após o tratamento, o cachorro Thomas se restabelece. Em um parque, o casal passeia com Kyle e Thomas. Ao se aproximar de um labirinto feito de cerca viva, o menino corre com o cachorro e desaparece da vista dos pais. Rob corre atrás deles enquanto Nicola os acompanha de longe. Quando todos se reúnem novamente, Kyle comenta que Thomas não está mais doente. Kyle também fala que ama a mãe dele. O casal se emociona, pois é a primeira vez que o menino expressa algum sentimento pelos pais. Nicola pede para o menino repetir e o abraça. Antes de mostrar o abraço, nesta sequência analisada, o filme foca no rosto de Nicola emocionada e, em seguida, no rosto de Rob olhando surpreso para ela. Somente então há a aproximação da mãe em direção ao filho, aparecem os rostos dos pais juntos e finalmente o abraço. Baseado numa história verídica, Kyle cresceu desenvolvendo-se com grandes resultados. Análise dos Sintomas No DSM-V há alguns critérios diagnósticos para que se afirme haver um Transtorno do Espectro Autista (299.00 F84.0) na criança, com base no que foi observado no decorrer do filme, foi possível observar quais desses critérios estão presentes no personagem de Kyle de 6 anos de idade, com o diagnóstico de autismo. O critério A diz respeito à déficits persistentes na comunicação social e na interação social em múltiplos contextos, conforme história prévia ou atual, seguido por aspectos, dos quais Kyle tem a manifestação de todos tanto no ambiente familiar escolar e outros que frequenta. O primeiro aspecto se refere a déficits na reciprocidade socioemocional, variado da abordagem social anormal e dificuldade de estabelecer uma conversa normal a compartilhamento reduzido de interesses, emoções e afetos, a dificuldade de responder a interações sócias. No filme podemos observar esses comportamentos nas cenas onde não responde quando a mãe quando chamado, não senta com os coleguinhas na sala de aula, não participa das conversas, não abraça ou beija sua mãe. O aspecto 2 do critério A diz respeito a déficits nos comportamentos comunicativos não verbais usados na interação social, como anormalidade no contato visual e linguagem corporal ou déficits na compreensão e uso de gestos, a ausência total de expressões faciais e comunicação não verbal. No filme, o que mais se percebe quanto a isso é a falta de expressões faciais, em nenhum momento sendo alterada em sua face. O aspecto 3 diz respeito a déficits para desenvolver, manter e compreender relacionamentos, variando de dificuldade de ajustar o comportamento para se adequar a contextos sociais diversos a compartilhar brincadeiras imaginativas ou em fazer amigos; isso mostrado no filme, na dificuldade de relacionamento com os próprios pais, ou no fato de se isolar na sala de aula e mesmo quando posto perto dos colegas, não participando da brincadeira. O critério B presente no DSM-V, diz respeito à padrões restritos e repetitivosde comportamento, interesses ou atividades, tendo manifestação em pelo menos 2 dos aspectos citados a seguir, na história previa ou atual. Kyle apresenta três dos aspectos necessário para se enquadrar nesse critério, sendo o aspecto 1 o de movimentos motores, uso de objetos ou fala estereotipada ou repetitiva, mostrado nas cenas onde se balança para frente e para trás, e nas cenas em que repete palavras escutadas sem parar, além de no começo do filme ter sempre por perto um boneco do Mickey. O outro aspecto que apresenta é o 2, onde há insistência nas mesmas coisas, adesão inflexível a rotinas ou padrões ritualizados de comportamento verbal ou não verbal, observado nas cenas onde ao andar na rua não gostar de mudar o rumo do seu caminhar, ou ao encontrar com os avós para ir a um batizado entende que é dia de parque e é necessário irem ao parque com ele, ou ao ver a fita do desenho do Thomas e seus amigos, colocar no videocassete e sentar para assistir, esquecendo de todo o resto, ou sempre que se machucar ou somente bater alguma parte de seu corpo, ser necessário o uso de um band-aid do Mickey Mouse. Há durante o filme a necessidade de prepararem a vinda do cachorro de forma gradual, utilizando primeiro de um bicho de pelúcia, antes de trazerem o animal para casa realmente. O terceiro aspecto, que diz respeito a interesses fixos e altamente restritos que são anormais em intensidade ou foco, se mostra nessa fascinação que tem pelo Thomas e seus amigos, além do desenho tendo trenzinhos em casa, e tendo que visitar o museu do trem constantemente, seu pai tendo que levá-lo até lá a noite para mostrar que estava fechado, para que Kyle parasse de gritar: “trem, trem, trem”, além de nomear o novo cachorro de Thomas também. Quanto ao segundo e terceiro aspecto, Jean E. Dumas (2018) acrescenta que: O comportamento das crianças com autismo é extremamente limitado. A maior parte das suas atividades e de seus interesses é restrita e apresenta um caráter rígido, repetitivo e sem um objetivo funcional aparente. (DUMAS, J.A., 2018,107.) Apresenta em seu quadro o critério C também, sendo esse, os sintomas estarem presentes precocemente no período de desenvolvimento, temos conhecimento disso pelo fato de a mãe no decorrer do filme informar que ninguém além dela no começo acreditava que o menino tinha algum problema, e pelo fato de no início do filme o Kyle já ter o diagnóstico de autismo dado por um profissional renomado na área que acompanhou seu caso. Quanto ao nível de gravidade para o transtorno do espectro autista, ao analisarmos os sintomas que aparecem no filme, o nível em que Kyle se encontra seria o nível 2, que exige um apoio substancial, tanto na comunicação social, já que há prejuízos sociais aparentes, limitação e resposta reduzia, quanto nos comportamentos repetitivos e restritos, tendo inflexibilidade, dificuldade de mudança e comportamentos repetitivos óbvios ao observador casual. Quadro esse que apresenta melhora após a inserção do cachorro Thomas em sua rotina, o que muda seu ambiente e permite a variação do quadro, ao longo do trabalho aprofundaremos neste aspecto. Ao observar o Kyle notamos que suas habilidades linguísticas formais, como vocabulário e gramatica, estão intactas, porém o uso da linguagem para a comunicação social reciproca está prejudicado devido ao transtorno do espectro autista, observamos isso no fato de ele poder sim formar frases inteiras e expressar seus pensamentos, fato que só ocorre após uma melhora no decorrer do filme, no início fazia uso de palavras únicas, sem expressar seus pensamentos de forma correta. Seus déficits na reciprocidade socioemocial estão bem evidentes, ao não iniciar interações sociais e compartilhar emoções, além da imitação reduzida ou ausente do comportamento de outros, essas características bem evidenciadas em crianças pequenas, isso observado no filme no fato de Kyle não responder quando seus pais demonstram afeto, fato que está muito presente no discurso da mãe que diz que nunca ter sido abraçada ou beijada pelo filho, que ele os veem apenas como “cuidadores e não como pais”, em querer ter um filho que a ame. Apesar de segundo Dumas (2018), estudos confirmarem que crianças com autismo diferenciam claramente entre seus pais e pessoas que não conhece tão bem, preferindo a companhia da mãe. Para Dumas (2018), a inadequação social que as crianças apresentam não diz quer dizer que elas sejam incapazes de manter relações sociais, mas só tem uma dificuldade muito grande em fazer isso, em compreender e gerir a informação necessária para isso. Frequentemente, podem introduzir detalhes que não tem nada a ver com a conversa, ignorando as regras de reciprocidade que permitem que cada um fale uma vez, isso no filme pode ser percebido na cena do batizado, onde todos, menos o pastor, estão quietos e Kyle começa a gritar um palavrão, tendo que ser retirado do ambiente por não entender que tem que parar de falar aquilo. O efeito da Terapia Assistida por Animais (TAA) em autistas Conclusão REFERÊNCIAS Diagnostic and Statistical Manual of Mental disorders - DSM-5. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. trad. Cláudia Dornelles. 4.ed. Porto Alegre: Artmed, 2002. DUMAS, J.E. Psicopatologia da Infância e da Adolescência-3. Artmed Editora, 2018, Cap. 3.