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A_REVOLUCAO_IRANIANA

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A 
REVOLUÇÃO 
IRANIANA 
 
 
 
Osvaldo Coggiola 
 
Editora da Unesp 
2007
 1 
INDICE 
 
 
1. Uma Revolução Televisada, 2 
2. Da Pérsia Histórica ao Irã Moderno, 4 
3. A Dinastia Pahlevi e o Nacionalismo Iraniano, 11 
4. A Crise do Petróleo e os Antecedentes da Revolução, 18 
5. O Fim da Dinastia Pahlevi e a Revolução, 27 
6. Crise Internacional e Guerra Contra o Iraque, 43 
7. O Irã no Centro do “Eixo do Mal”, 54 
8. A Provocação Nuclear, 62 
9. Conclusão, 70 
Bibliografia, 73 
 
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1. UMA REVOLUÇÃO TELEVISADA 
Em finais de 1978, as telas das TVs do mundo inteiro mostravam um espetáculo 
surpreendente e inesperado. As ruas das principais cidades do Irã se enchiam de 
manifestantes que, lançando vivas ao imã Khomeini, reclamavam o fim do governo, uma 
monarquia encabeçada pelo Xá Mohammed Reza Pahlevi. A ação repressiva do exército e 
da polícia, fiéis ao regime, não conseguia deter a determinação dos manifestantes. Estes 
eram massacrados às dúzias e centenas, só para se tornarem mais numerosos no dia 
seguinte. O povo iraniano, literalmente, oferecia seu peito às balas, e até aos blindados, do 
poderoso exército imperial. Poucas vezes tinha-se visto semelhante determinação num 
movimento popular, em qualquer país ou época histórica. 
O caráter “islâmico” das manifestações surpreendia, menos, porém, do que o fato de que, 
pela primeira vez, uma revolução era transmitida ao vivo pela TV. E, paradoxalmente, se o 
mundo podia, de modo quase inédito, acompanhar a evolução e vicissitudes de um processo 
revolucionário “em tempo real”, essa revolução, inclusive comunicacional, não parecia 
inspirada em idéias contemporâneas, mas nos ensinamentos de um personagem religioso do 
século VII, o Profeta Maomé. Ao qualificarmos de “iraniana” uma revolução que o mundo 
acostumou-se, ideologicamente, a chamar de “islâmica” (apresentando-a assim como um 
evento basicamente reacionário), sublinhamos as suas múltiplas raízes históricas e políticas, 
que o obscurantismo “racionalista” pretende ocultar através de uma simplificação absoluta, 
posta, hoje, a serviço de uma cruzada mundial contra o “terrorismo islâmico”,1 último álibi 
político-ideológico do bom e velho imperialismo capitalista. 
Até então, o Irã pouco freqüentava os noticiários internacionais. Na década de 1960, pouco 
tinha chamado a atenção a constituição de um cartel de países produtores de petróleo, a 
OPEP, com um papel central do Irã, segundo exportador mundial do óleo. Já em 1973, por 
ocasião do primeiro “choque do petróleo”, a OPEP e o Irã faziam tremer a economia 
mundial. Mas na crise do “ouro negro”, o Irã fazia parte de um grupo mais amplo de países. 
Em 1979, o mundo apreendia o que não muitos tinham denunciado antes: que o glamuroso 
regime do Xá, cheio de belas fardas e decorações, apoiava-se numa repressão selvagem, na 
qual se distinguia, pela brutalidade das suas torturas, a polícia política (a Savak). 
Antes disso, a grande mídia apresentava o regime dos Pahlevi como um oásis de 
modernidade, em meio a um arquipélago de regimes árabes belicosos (os conduzidos pelo 
nacionalismo laico árabe), ou retrógrados (os conduzidos por monarquias feudais). Nas 
décadas precedentes, o regime iraniano freqüentava as colunas sociais e manchetes das 
revistas mundanas por ocasião das desventuras matrimoniais e sentimentais do Xá com a 
imperatriz Soraya, repudiada por sua incapacidade de dar herdeiros ao monarca. 
A sorte (má) da imperatriz comoveu o mundo – Soraya mudou-se para Europa ocidental, 
onde virou atriz de diretores cult do cinema italiano. O Xá casou-se em segundas núpcias 
com Farah Diba, que lhe deu herdeiros, num faraônico (ou persa) cenário de água-com-
açúcar, que queria passar a imagem de que o único problema iraniano era o das aventuras 
 
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 Justiça seja feita, o Islã, ao contrário do cristianismo, não é uma religião de credo. E nem há algo como uma 
autoridade religiosa centralizada - um papa ou um Vaticano - no Islã, para definir o que é e o que não é 
islâmico. Que existam pessoas que pensam falar pelos muçulmanos de todo o mundo não significa que 
tenham autoridade política ou religiosa sobre aquela que é inquestionavelmente a mais diversa e eclética 
comunidade religiosa existente. 
 3 
e/ou desventuras genitais de seus casais reais. Em finais da década de 70, o “mundo” 
descobria que o cenário de Cinecittà da corte do senhor do petróleo era um cenário de 
papelão, montado em cima de uma ditadura reacionária e repressiva. 
Quando especialistas da CIA escreveram um relatório, em setembro de 1978, sobre a saúde 
política do regime monarquista pró-ocidental no Irã, eles concluíram que, apesar do seu 
governo autocrático, o Xá presidia uma dinastia estável que duraria, pelo menos, mais uma 
década. Meros quatro meses depois, ele foi forçado a fugir de uma revolução popular que o 
derrotou. Sua polícia secreta, a já mencionada Savak, com seus 65 mil policiais, funcionava 
nos moldes do Mossad israelense. Embora tenha sido oficialmente criada como um grupo 
de contra-espionagem, suas principais táticas eram a tortura e a intimidação, fazendo que os 
opositores do regime se sentissem como prisioneiros em seu próprio país - e ainda com a 
conivência dos Estados Unidos e de Israel. 
A Savak tinha penetrado em todas as camadas da sociedade, emprestando e "refinando" as 
medidas perversas da Gestapo. Até o ditador chileno Pinochet mandou seus torturadores 
para treinar em Teerã. E o mundo descobria também que o Islã, considerado como uma 
velharia religiosa ultrapassada até no Oriente Médio, ressurgia como força política, 
abalando não só os regimes alinhados com a “modernidade” capitalista, mas também o 
“socialismo real”. A URSS, preocupada com a “revolução islâmica”, invadiu o vizinho 
Afeganistão, criando o teatro do que seria o “Vietnã soviético”. 
Em 1979 também, na longínqua América Central, outra antiga ditadura alinhada com os 
EUA também era derrubada por uma “revolução sandinista”, que recuperava para a história 
imediata outra figura histórica (a de Augusto César Sandino), para nada religiosa, mas que 
parecia tão velha e ultrapassada quanto a do profeta Maomé. Os EUA bloquearam 
Nicarágua, apoiando uma contra-revolução interna (que, paradoxalmente, foi depois 
financiada com fundos provenientes da venda clandestina de armas ao novo regime 
iraniano, no “escândalo Irã – contras”), e montando bases militares em países vizinhos 
(Honduras), para evitar o “contágio sandinista” em terras centro - americanas e caribenhas. 
O mundo mudava. Novos vulcões revolucionários surgiam. No Brasil, as greves no grande 
ABC marcavam o início do fim da ditadura militar. Surgiam o PT e a CUT. As alas 
“radicais” (revolucionárias) do movimento sindical e político brasileiro eram chamadas de 
“xiitas”, mostrando o alcance do exemplo que vinha do longínquo Oriente Médio. 
As revoluções no Irã e na Nicarágua davam continuidade à retirada dos EUA do Vietnã e 
do sudeste asiático, nos anos precedentes. Nos EUA e na Europa, os regimes de Ronald 
Reagan e de Margareth Thatcher, eleitos logo depois, viriam tentar impor uma reversão na 
tendência política mundial. Mas, se a revolução iraniana não era um raio em céu de 
brigadeiro, tampouco se esgotou na queda da monarquia – a partir daí, desfraldaria todas 
suas contradições, herdadas do processo histórico do país. 
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2. DA PÉRSIA HISTÓRICA AO IRÃ MODERNO 
O Irã é um dos países mais antigos do mundo, com mais de cinco milênios de história. Está 
situado em um enclave estratégico, na região do Oriente Médio ao sul-oeste da Ásia. Em 
1500 a.C, tribos indo - arianas chegaram à região procedentes do rio Volga e desde Ásia 
central.