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Coesão e coerência A coesão e a coerência constituem dois fatores importantes da textualidade. UEMG – Unidade de Passos Profa. Dra. Raíssa Medici de Oliveira E-mail: raissa.oliveira@uemg.br Coesão “Num texto, certos elementos comparam-se aos fios que costuram entre si as partes de uma vestimenta. Cortados esses fios, o que sobra são simples pedaços de pano” (FIORIN; SAVIOLI, 2006, p. 367). A coesão textual diz respeito à ligação, à relação, à conexão entre as palavras, expressões ou frases do texto. Ela é manifestada por elementos formais, como se observa no período abaixo, que abre o romance Iracema, de José de Alencar: Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia na fronde da carnaúba. O termo onde faz a conexão entre verdes mares bravios de minha terra natal e canta a jandaia na fronte da carnaúba. Onde é um elemento coesivo, responsável pela coesão do enunciado. A coesão referencial A coesão referencial é aquela em que um elemento do texto faz referência a outro(s) elemento(s), retomando-o(s) ou antecipando-o(s). Veja o exemplo abaixo: João Paulo II esteve, ontem, em Varsóvia. Lá, ele disse que a igreja continua a favor do celibato. As palavras responsáveis por esse tipo de coesão são os pronomes, que podem ser pessoais (ele, ela, nós, o, a, lhe, etc.), possessivos (meu, teu, seu, etc.), demonstrativos (este, esse, aquele, etc.), os advérbios de lugar e também os artigos definidos. anáfora catáfora Outra alternativa para se fazer a coesão do exemplo citado no slide anterior seria por meio de uma elipse: João Paulo II esteve, ontem, em Varsóvia. Lá, disse que a igreja continua a favor do celibato. Observa-se que “João Paulo II” se acha retomado no segundo período por ausência: o sujeito do verbo (disse) está elíptico, de modo que, para descobrir quem disse, é preciso voltar ao período anterior. Ø Uma outra possibilidade seria utilizar palavras ou expressões sinônimas, selecionados do léxico da língua – coesão lexical: João Paulo II esteve, ontem, em Varsóvia. Na capital da Polônia, o papa disse que a igreja continua a favor do celibato. É importante destacar, a esse respeito, que a coesão lexical pode funcionar como marca da enunciação, seja num processo de apreciação positiva seja num processo de apreciação negativa: João Paulo II esteve, ontem, em Varsóvia. Lá, sua Santidade disse que a igreja continua a favor do celibato. João Paulo II esteve, ontem, em Varsóvia. Lá, o mais recente aliado do capitalismo ocidental disse que a igreja continua a favor do celibato. As palavras mais utilizadas nesse processo de coesão são os denominados sinônimos superordenados ou hiperônimos, isto é, palavras que mantêm com outras uma relação do tipo contém/está contido: mesa......................móvel faca........................talher termômetro...........instrumento computador...........equipamento Utilizando tais sinônimos, podemos trocar sequências de gosto duvidoso como: Acabamos de receber trinta termômetros clínicos. Os mesmos deverão ser encaminhados ao departamento de pediatria. Por sequências como: Acabamos de receber trinta termômetros clínicos. Esses instrumentos deverão ser encaminhados ao departamento de pediatria. Para analisar... André e Pedro são fanáticos torcedores de futebol. Apesar disso, são diferentes. Este não briga com quem torce para outro time; aquele o faz. O termo isso (em “apesar disso”) retoma o predicado _____________; este recupera a palavra ___________; aquele, o termo ____________; o faz, o predicado ______________. Ambiguidade: cuidado! Há um problema de coesão quando um elemento anafórico está empregado num contexto em que pode se referir a dois termos antecedentes distintos, provocando ambiguidade. O famoso jornalista desentendeu-se com o jornal por causa de sua campanha a favor do presidente. Do famoso jornalista? Ou do jornal? Para evitar a ambiguidade, redige-se a frase de outro modo: A campanha do famoso jornalista em favor do presidente levou-o ao desentendimento com o jornal. A campanha que fazia em favor do presidente levou o famoso jornalista a desentender-se com o jornal. A coesão sequencial A coesão sequencial diz respeito aos procedimentos linguísticos que fazem o texto progredir, avançar. Ela pode ser feita por meio de conectores ou operadores discursivos, que são palavras ou expressões responsáveis pela concatenação, pela criação de relações entre os segmentos do texto: então, portanto, já que, com efeito, porque, mas, assim, dessa forma, isto é. Cada um desses conectores, além de ligar as partes do texto, estabelece uma certa relação semântica (causa, finalidade, conclusão, contradição, condição, etc.), que possui uma dada função argumentativa no texto. Vejamos alguns dos principais tipos de operadores: 1) Os que marcam uma gradação numa série de argumentos orientada no sentido de uma determinada conclusão. Alguns indicam o argumento mais forte: até, mesmo, até mesmo, inclusive; outros introduzem um argumento, deixando subentendida a existência de uma escala com outros argumentos mais fortes: ao menos, pelo menos, no mínimo, no máximo, quando muito. Ela tem todas as qualidades necessárias para vencer na vida: é bonita, inteligente, charmosa e até rica. Ele é um político hábil. Chegará pelo menos a ser prefeito. Ele não é inteligente. Nunca será um cientista. No máximo será um bom técnico. 2) Os que marcam uma relação de conjunção argumentativa, isto é, que ligam argumentos em favor de uma mesma conclusão: e, também, ainda, nem, não só... mas também, tanto... como, além de, além disso, a par de. A curto prazo, o Brasil não estará entre os países mais desenvolvidos do mundo, pois seus indicadores sociais o situam entre os mais atrasados. Convém ainda lembrar que o fluxo de capitais em direção à América Latina praticamente cessou. 3) Os que indicam uma relação de disjunção argumentativa, isto é, que introduzem argumentos que levam a conclusões opostas, que têm orientação argumentativa diferente: ou, ou então, seja... seja, caso contrário. É preciso manter, a todo custo, o plano de estabilização econômica. Ou então será inevitável a volta da inflação. 4) Os que marcam uma relação de conclusão, isto é, que introduzem uma conclusão em relação a dois (ou mais) enunciados anteriores: portanto, logo, por conseguinte, pois (posposto ao verbo). O Palmeiras foi o melhor time do campeonato. Teria, pois, que ser o campeão. 5) Os que introduzem uma explicação ou justificativa ao que foi dito no enunciado anterior: porque, já que, que, pois. A alegria da posse do prefeito já acabou, porque os problemas já começaram. 6) Os que marcam uma relação de contrajunção, ou seja, contrapõem enunciados de orientação argumentativa contrária: conjunções adversativas (mas, porém, contudo, todavia, no entanto, entretanto), conjunções concessivas (embora, ainda que, mesmo que, apesar de que). A Sabesp está tratando a água da represa de Guarapiranga, mas o gosto da água das regiões Sul de Sudeste da cidade não melhorou. 7) Os que indicam uma generalização ou uma amplificação do que foi dito anteriormente: de fato, realmente, aliás, também, é verdade que. Pedro já chegou. Aliás, ele sempre chega antes da hora. 8) Os que especificam ou exemplificam o que foi dito anteriormente: por exemplo, como. Mesmo os estados tidos como mais desenvolvidos, como São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais, estão falidos. 9) Os que marcam uma relação de retificação, de correção: ou melhor, isto é, quer dizer, ou seja, em outras palavras. Este prefeito está contradizendo o programa apresentado na campanha eleitoral, isto é, não está cumprindo as promessas de campanha. 10) Os que servem para introduzir uma explicitação, uma confirmação ou umailustração do que foi dito antes: assim, desse modo, dessa maneira. Pedro sempre estuda uma ou duas horas por dia. Desse modo, acredita que conseguirá bons resultados nas provas. Além da coesão sequencial feita por meio de conectivos, há ainda aquela que se faz pela justaposição de sequências do texto, com ou sem o auxílio de sequenciadores (operadores de sequenciação). Estes podem ser de vários tipos, dentre os quais destacamos: 1) Os que marcam a sequência temporal: dois meses depois, uma semana antes, um pouco mais cedo. 2) Os que marcam a sequência espacial: à esquerda, à direita, atrás, na frente. 3) Os que servem para especificar a ordem dos assuntos no texto: primeiramente, em seguida, a seguir, finalmente. 4) Os que, na conversação, servem para introduzir um dado tema ou para mudar de assunto: a propósito, por falar nisso, voltando ao assunto, fazendo um parêntese. Praticando... 01) Analise os enunciados abaixo e identifique os problemas de coesão que apresentam. Em seguida, proponha uma forma de reescrita para cada um: O motorista do carro, um bancário de 32 anos, foi preso em flagrante por homicídio doloso e levado para a 89ª DP (Portal do Morumbi), onde o caso foi registrado. O motorista do carro se recusou a passar pelo teste do bafômetro, mas, segundo o tenente da PM, Luís Gomes, o motorista do carro apresentava sinais de embriaguez. Vi uma garotinha correndo em minha direção segurando uma espécie de embrulho. Quando se aproximou, a garotinha me deu um abraço e deixou o embrulho caído no chão. 02) O mau uso dos mecanismos de coesão pode produzir efeitos perturbadores para a compreensão do texto. É o que ocorre no caso que segue. Engulo o uísque e vou caminhando. Tenho um encontro com um empresário e um americano antropólogo que está com ele. Cinema, grana, outros papos. O burguês amigo meu fala muito “deles... deles... deles”. Todo o mal do Brasil é culpa deles. O mundo e o país estão sendo destruídos por eles. Até que o americano não aguenta mais de curiosidade e pergunta: “Who are they?” (Quem são eles?) Meu amigo para, travado. Quem serão eles? Aí descubro o óbvio triunfal. Eles são os outros. São as forças ocultas que desculpam nossa omissão. Grande categoria descobri: eles. Todos nós falamos da desgraça nacional como se fosse feita por outros, seres impalpáveis que são responsáveis por tudo. Eles podem ser o governo, o operariado, os americanos, os jornalistas, até os judeus talvez... Todos, menos nós. JABOR, Arnaldo. Os canibais estão na sala de jantar. 5. ed. São Paulo: Siciliano, 1993, p. 19. 02) a) Qual é o motivo de tamanha curiosidade do americano ao perguntar: “Quem são eles?” a) Sob o ponto de vista argumentativo, o uso do pronome eles/deles seguidas vezes produziu um efeito de sentido favorável ou desfavorável para o falante? Explique sua resposta. Respostas: a)Qual é o motivo de tamanha curiosidade do americano ao perguntar: “Quem são eles?” A curiosidade se deve ao fato de o amigo do narrador ter usado repetidamente um pronome (eles/deles) que não faz referência a nenhum termo explicitamente presente no interior do texto e que também não vem implícito no contexto externo. Daí o fato de o americano não conseguir identificar de quem estava falando seu interlocutor. b) Sob o ponto de vista argumentativo, o uso do pronome eles/deles seguidas vezes produziu um efeito de sentido favorável ou desfavorável para o falante? Explique sua resposta. O uso desse pronome produziu um péssimo resultado argumentativo, já que tudo o que se atribuía a essa palavra de sentido indefinível (eles) ficou esvaziado e sem credibilidade. Coerência Coerência significa “conexão, união estreita entre várias partes, relação entre ideias que se harmonizam, ausência de contradição. É a coerência que distingue um texto de um aglomerado de frases” (FIORIN; SAVIOLI, 2006, p. 392, grifos nossos) Enquanto a coesão dá conta da estruturação das unidades linguísticas presentes na superfície do texto, a coerência dá conta do processamento cognitivo do texto, isto é, da sua organização profunda. Vejamos alguns tipos de coerência: • Coerência narrativa: ocorre quando se respeitam as implicações lógicas existentes entre as partes da narrativa. Exemplo: Para que uma personagem realize uma ação (performance), é preciso que saiba e possa fazê-la (competência). Seria, pois, uma incoerência narrativa relatar uma ação realizada por um sujeito que não tinha competência para realizá-la. Havia um menino muito magro que vendia amendoins numa esquina de uma das avenidas de São Paulo. Ele era tão fraquinho, que mal podia carregar a cesta em que estavam os pacotinhos de amendoim. Um dia, na esquina em que ficava, um motorista, que vinha em alta velocidade, perdeu a direção. O carro capotou e ficou de rodas para o ar. O menino não pensou duas vezes. Correu para o carro e tirou de lá o motorista, que era um homem corpulento. Carregou-o até a calçada, parou um carro e levou o homem para o hospital. Assim salvou-lhe a vida. • Coerência argumentativa: diz respeito às relações de implicação e/ou de adequação entre certos pressupostos ou certos dados apresentados no texto e as conclusões que deles se tiram. Se os pressupostos ou os dados apresentados não permitem tirar as conclusões que foram tiradas, tem-se uma incoerência de nível argumentativo. Exemplos: Se o texto parte da premissa de que todos são iguais perante a lei, defender posteriormente o privilégio de algumas categorias profissionais não estarem obrigadas a pagar imposto de renda constitui uma incoerência. O argumentador pode até defender essas regalias, mas não pode partir da premissa de que todos são iguais perante a lei. Do mesmo modo, constitui uma incoerência argumentativa defender ponto de vista contrário a qualquer tipo de violência e ser favorável à pena de morte. • Coerência figurativa: diz respeito à articulação harmônica das figuras do texto, com base na relação semântica que mantêm entre si. É essa articulação que garantirá a manifestação de um dado tema. Exemplo: Suponhamos que se queira figurativizar o tema do requinte e da sofisticação. Pode-se citar, ao descrever uma festa dada em uma mansão, por exemplo, a lareira, a adega, os cristais, a porcelana, o cachorro de raça, as obras de arte expostas na sala de visitas e outras figuras do mesmo campo semântico. Seria uma incoerência figurativa incluir nesse conjunto de elementos a reprodução de uma música do grupo É o tchan. Essa ruptura apenas se justificaria se a intenção fosse provocar o riso ou então mostrar o paradoxo relacionado a um requinte que é apenas exterior. • Coerência temporal: concerne ao respeito às leis da sucessividade dos eventos ou à apresentação de compatibilidade entre os enunciados do texto, do ponto de vista da localização no tempo. Exemplo: Quando o professor entrou, ele já tinha posto o sapo na bolsa da colega e estava sentado tranquilamente no seu lugar. O mestre pegou-o em flagrante, quando estava pondo o sapo na bolsa da colega. • Coerência espacial: concerne à compatibilidade entre os enunciados do ponto de vista da localização no espaço. Exemplo: Embaixo do único lustre, colocado bem no meio do teto, um grupo de pessoas conversava animadamente. Quando ela entrou, todos pararam de falar e olharam para ela. Ela não se importou e foi também postar-se embaixo do lustre num dos cantos do salão. • Coerência no nível de linguagem: compatibilidade, do ponto de vista da variante linguística escolhida, no nível do léxico e das estruturas sintáticas utilizadas no texto. Exemplo: Magnífico Reitor da Universidade de São Paulo Tendo tomado conhecimento pelos periódicos da capital paulista de que o Prefeito da Cidade Universitária, onde está situada a Universidade que vossa Magnificência, com alto descortino, dirige, resolveuinterditar o acesso da população ao campus nos finais de semana, ouso vir à presença de vossa Magnificência para manifestar-lhe meu repúdio ao fato de uma instituição pública querer subtrair da população de uma cidade desumana um espaço de lazer. Francamente, achei a maior sujeira da USP, sacanagem, nada a ver. Em cada um desses níveis (narrativo, figurativo, temporal, etc.), há dois tipos de coerência: intratextual e extratextual. 1) Coerência intratextual: compatibilidade, adequação, não contradição entre os enunciados do texto, como ocorre, por exemplo, quando respondemos o que nos foi perguntado, quando não desdizemos o que acabamos de dizer, etc. 2) Coerência extratextual: adequação do texto a algo que lhe é exterior. Essa exterioridade pode ser: a) o conhecimento de mundo; b) os mecanismos gramaticais e semânticos da língua. Para analisar... Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço. Relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos, jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapos. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, telefone, agenda, copo com lápis, canetas, blocos de notas, espátula, pastas, caixas de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques [...]. (Trecho do conto Circuito fechado, de Ricardo Ramos) Questionamentos a serem levados em consideração quanto à (in)coerência dos textos: • Há continuidade nas ideias do texto: progressão? • A intenção do texto é facilmente recuperável? • A linguagem do texto é adequada ao auditório a que ele se destina? • O texto possui um início, um meio e um fim? • Há contradição? • As conclusões a que chega o texto são aceitáveis? SNOOKER Millôr Fernandes Certa vez eu jogava uma partida de sinuca e só havia a bola sete na mesa. De modo que mastiguei-a lentamente saboreando-lhe os bocados com prazer. Refiro-me à refeição que havia pedido ao garçom. Dei-lhe duas tacadas na cara. Estou me referindo à bola. Em seguida saí montado nela e a égua, de que estou falando agora, chegou calmamente à fazenda de minha mãe. Fui encontrá-la morta na mesa, meu irmão comia-lhe uma perna com prazer e ofereceu-me um pedaço: "Obrigado" disse eu, "já comi galinha no almoço". Logo em seguida chegou minha mulher e deu-me na cara. Um beijo, digo. Dei-lhe um abraço. Fazia calor. Daí a pouco minha camisa estava inteiramente molhada. Refiro-me à que estava na corda secando, quando começou a chover. Minha sogra apareceu para apanhar a camisa. Não tive remédio senão esmagá-la com o pé. Estou falando da barata que ia trepando na cadeira. Malaquias, meu primo, vivia com uma velha de oitenta anos. A velha era sua avó, esclareço. Malaquias tinha dezoito filhos, mas nunca se casou. Isto é, nunca se casou com uma mulher que durasse mais de um ano. Agora, sentado à nossa frente Malaquias fura o coração com uma faca. Depois corta as pernas e o sangue vermelho do porco enche a bacia. Nos bons tempos passeávamos juntos. Eu tinha um carro. Malaquias tinha uma namorada. Um dia rolou a ribanceira. Me refiro a Malaquias. Entrou pela pretoria adentro arrebentando a porta e parou resfolegante junto do juiz pálido de susto. Me refiro ao carro. E a Malaquias. (FERNANDES, Millôr. Trinta anos de mim mesmo. São Paulo: Abril Cultural, 1973) A Vaguidão Específica (Millôr Fernandes) "As mulheres têm uma maneira de falar que eu chamo de vago-específica." Richard Gehman - Maria, ponha isso lá fora em qualquer parte. - Junto com as outras? - Não ponha junto com as outras, não. Senão pode vir alguém e querer fazer coisa com elas. Ponha no lugar do outro dia. - Sim senhora. Olha, o homem está aí. - Aquele de quando choveu? - Não, o que a senhora foi lá e falou com ele no domingo. - Que é que você disse a ele? - Eu disse pra ele continuar. - Ele já começou? - Acho que já. Eu disse que podia principiar por onde quisesse. - É bom? - Mais ou menos. O outro parece mais capaz. - Você trouxe tudo pra cima? - Não senhora, só trouxe as coisas. O resto não trouxe porque a senhora recomendou para deixar até a véspera. - Mas traga, traga. Na ocasião nós descemos tudo de novo. É melhor, senão atravanca a entrada e ele reclama como na outra noite. - Está bem, vou ver como. [O Pif-Paf / O Cruzeiro / 1956] Praticando... 1) Abaixo temos fragmentos de textos que apresentam algum tipo de incoerência. Aponte-os e discuta a razão delas: O quarto espelha características de seu dono: um esportista, que adorava a vida ao ar livre e não tinha o menor gosto pelas atividades intelectuais. Por toda parte, havia sinais disso: raquetes de tênis, prancha de surf, equipamentos de alpinismo, skate, um tabuleiro de xadrez com as peças arrumadas sobre uma mesinha, as obras completas de Shakespeare. Praticando... Conheci Sheng no primeiro colegial e aí começou um namoro apaixonado que dura até hoje e talvez para sempre. Mas não gosto da sua família: repressora, preconceituosa, preocupada em manter as milenares tradições chinesas. O pior é que sou brasileira, detesto comida chinesa e não sei comer com pauzinhos. Em casa, só falam chinês e de chinês eu só sei o nome do Sheng. No dia do seu aniversário, já fazia dois anos de namoro, ele ganhou coragem e me convidou para jantar em sua casa. Eu não podia recusar e fui. Fiquei conhecendo os velhos, conversei com eles, ouvi muitas histórias da família e da China, comi tantas coisas diferentes que nem sei. Depois fomos ao cinema eu e o Sheng. 2) Que “incoerência textual” você identifica na propaganda abaixo? Por que o publicitário fez uso de tal recurso? Alguns fatores de coerência: • O contexto; • A situação de comunicação; • As regras do gênero a que o texto pertence; • O intertexto. Intertextualidade “[...] a intertextualidade ocorre quando, em um texto, está inserido outro texto (intertexto) anteriormente produzido, que faz parte da memória social de uma coletividade” (KOCH; ELIAS, 2018, p. 86). Canção do exílio Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. Em cismar, sozinho, à noite, Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Minha terra tem primores, Que tais não encontro eu cá; Em cismar - sozinho, à noite, Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Não permita Deus que eu morra, Sem que volte para lá; Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá; Sem qu'inda aviste as palmeiras, Onde canta o Sabiá. (Gonçalves Dias) Nova Canção do Exílio Um sabiá na palmeira, longe. Estas aves cantam um outro canto. O céu cintila sobre flores úmidas. Vozes na mata, e o maior amor. Só, na noite, seria feliz: um sabiá, na palmeira, longe. Onde é tudo belo e fantástico, só, na noite, seria feliz. (Um sabiá, na palmeira, longe.) Ainda um grito de vida e voltar para onde é tudo belo e fantástico: a palmeira, o sabiá, o longe. (Carlos Drummond de Andrade) Canção do Exílio Facilitada lá? ah! sabiá… papá… maná… sofá… sinhá… cá? bah! (José Paulo Paes) Canto de regresso à Pátria Minha terra tem palmares Onde gorjeia o mar Os passarinhos daqui Não cantam como os de lá Minha terra tem maisrosas E quase que mais amores Minha terra tem mais ouro Minha terra tem mais terra Ouro terra amor e rosas Eu quero tudo de lá Não permita Deus que eu morra Sem que volte para lá Não permita Deus que eu morra Sem que volte pra São Paulo Sem que eu veja a Rua 15 E o progresso de São Paulo (Oswald de Andrade) A intertextualidade pode ser explícita ou implícita: Explícita: Implícita: Referências ABREU, Antônio Suárez. Curso de Redação. 6. ed. São Paulo: Ática, 1997. FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. Lições de texto: leitura e redação. 5. ed. São Paulo: Ática, 2006. FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. Para entender o texto: leitura e redação. 17. ed. São Paulo: Ática, 2012. FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler em três artigos que se completam. 44. ed. São Paulo: Cortez, 2003. KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender: os sentidos do texto. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2018.