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GESTÃO E PLANEJAMENTO EM SERVIÇO SOCIAL Marco Aurélio Bernardes São Paulo Rede Internacional de Universidades Laureate 2015 Marco Aurélio Bernardes GESTÃO E PLANEJAMENTO EM SERVIÇO SOCIAL São Paulo Rede Internacional de Universidades Laureate 2015 Sumário Capítulo 1: O Planejamento Social -------------------------------------------------------------5 Introdução ---------------------------------------------------------------------------------------------- 5 1 Planejamento social: conceitos e finalidades ---------------------------------------------------- 6 2 Breve apresentação do contexto socioeconômico brasileiro ---------------------------------- 7 2.1 A conjuntura socioeconômica brasileira ------------------------------------------------------ 8 2.2 Considerações sobre Teoria econômica ------------------------------------------------------ 9 3 O mundo do trabalho como espaço de exclusão ---------------------------------------------12 4 O papel das organizações sociais ---------------------------------------------------------------13 5 Marco regulatório das organizações sociais ---------------------------------------------------14 5.1 Terceiro setor: espaço de construção de novidades no campo econômico e social ---15 Síntese -------------------------------------------------------------------------------------------------17 Referências Bibliográficas ---------------------------------------------------------------------------18 5 Capítulo 1O Planejamento Social Introdução Neste texto, você estudará o tema Planejamento social. É um assunto urgente, contemporâneo dos dias de hoje e dos que virão. Um satélite, uma antena parabólica, a internet e outros recursos tornam o mundo pequeno, e assim acompanhamos tudo o que acontece com a vida em suas várias dimensões. Organizações com boas ou más práticas, sejam elas governamentais, times de futebol, Organizações Não Governamentais (ONGs), Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs) e outras mais, tudo envolve Planejamento Social. O grau de utilização da ferramenta e de cumprimento do que foi planejado tem muita relação com o estágio de amadurecimento de uma sociedade. A compreensão desse tema requer uma breve discussão sobre o quadro econômico e social no Brasil, o marco regulatório de ONGs e OSCIPs, seu papel e a necessidade de que sejam reconhecidas pela consequência de seus planejamentos. Trata-se de uma ferramenta indispensável de gestão, que propicia o enfrentamento de conjunturas adversas, sejam de caráter econômico, social ou político. Não é exagero indicar que o planejamento favorece sobremaneira a profissionalização de qualquer organização. 6 Laureate- International Universities O Planejamento Social 1 Planejamento social: conceitos e finalidades O Planejamento social é integrador, pois contempla a participação possível dos envolvidos no planejamento, considerando saberes diversos e complementares. Uma das formas de abordar o Planejamento social consiste em considerá-lo um caminho para o encaminhamento de matérias ou questões comuns a grupos sociais a que ele se destina ao longo do tempo. O atingimento dos objetivos do planejamento dependerá de sua coerência, tendo em vista a qualidade das informações e variáveis consideradas. Assim, pode-se compreender o Planejamento social das seguintes maneiras: 1) como ferramenta que possibilita um processo lógico comprometido com a cidadania; 2) como processo lógico, cidadão e administrativo que, por meio de seu movimento, fortalece a participação popular nos níveis decisórios e operativos; 3) como instrumento que busca racionalizar e dar direção para redefinições futuras de organizações, políticas sociais, setores ou atividades, influenciando o nível técnico e político; e 4) como mediação entre a burocracia e as condições objetivas para efetivação de direitos (BATTINI, 2015, p. 7). Em relação à sua finalidade, pode-se indicar: 1) propiciar dinâmica e sentimento de pertença, promovendo controle social; 2) acompanhar e avaliar sistematicamente a política e o exercício profissional cotidiano, na perspectiva prático- crítica. Essa perspectiva situa o planejamento como uma atividade ou um processo onde os sujeitos que o formulam, executam e avaliam os resultados desse processo são um produto humano renovado, portanto, não mais definido como uma técnica pura, mas um instrumento que afirme uma verdadeira atividade prático-crítica, transformadora, impulsionadora de novas relações, processos e produtos. O planejamento, assim, torna-se importante mediação para desvelar um comportamento autenticamente humano, ontológico, de natureza prático-crítica. (BATTINI, 2015, p. 7). A respeito do planejamento no Brasil: 1. Foi utilizado pela primeira vez na década de 1950 no governo Juscelino Kubitschek; 2. Houve pressões fortes da classe média urbana, cada vez mais numerosa, que reclamava planejamento para resolver problemas econômicos e sociais; 3. O Plano de Metas (governo JK) foi um planejamento originalmente com 30 metas (não incluía Brasília, que depois foi incluída como a trigésima primeira meta) contemplando diversos setores: indústria, transportes, educação (igual a formar técnicos), energia elétrica, produção de petróleo etc. Vale observar que o plano produziu resultados que superaram o previsto num intervalo que se estende de 30 a 125% do previsto. NÓS QUEREMOS SABER! 7 Ao planejar, é preciso articular de forma consequente intenções e ações: Nesse modo de constituição do concreto edificam-se princípios, diretrizes e estratégias de ação, tecendo uma teia de relações ricas e vivas que movem a sociedade. Nessa linha, o planejamento compromete-se com os vínculos de diferentes naturezas constitutivos de uma certa totalidade social. O planejamento social é sempre vinculado a uma política que, por sua vez, é constituída das tensões entre forças sociais presentes numa dada realidade concreta. (BATTINI, 2015, p. 8). A seguir será apresentada uma contextualização a respeito da economia e da sociedade brasileira. 2 Breve apresentação do contexto socio- econômico brasileiro Interessantes os primeiros anos deste século. Neles estão presentes a contradição entre a solidariedade, compromisso pelo qual as pessoas se obrigam umas às outras e cada uma delas a todas, e o individualismo. São tempos em que se verificam a eclosão de inúmeras manifestações sociais e incontáveis situações de violência nas ruas, geradas, muitas vezes, pela falta de perspectiva e capacidade de realização, notadamente de jovens, de mulheres e homens com mais de 50 anos, chefes de família com capacidade de trabalho e sem muitas oportunidades no mercado formal de trabalho. O fato de o Brasil ser reconhecido como democracia leva à reflexão a respeito do significado dessa palavra para o brasileiro e gera curiosidade quanto à qualidade da democracia vivenciada nestas terras. O termo não se resume a exercer o direito de voto de tempos em tempos. É bem mais, é a liberdade de expressão, a participação na vida social e econômica sem privilégios de nenhuma espécie. Ela deve ser praticada, disseminada e estimulada para se fortalecer. A democracia brasileira mostra-se resistente a rupturas e a retrocessos em suas instituições, mas não é possível indicá-la como madura. Nesse tipo de democracia, os cidadãos mostram respeito e obediência às regras vigentes (the rule of law). Outro elemento fundamental da qualidade da democracia é o grau de envolvimento dos cidadãos na política. A democracia contemporânea requer uma cidadania ativa que se envolva na arena política via discussões, deliberações, referendos e plebiscitos, ou seja, por meio de mecanismos formais e informais, sem que isso comprometa as instituições convencionais de mediação política. Há um consenso de que sem o envolvimento popularno processo de construção democrática ela perde em legitimidade, mantendo simplesmente sua dimensão formal. (BAQUERO, 2008, n. p.). Jovens democracias com instituições frágeis vivem o desafio de consolidar uma cultura de convivência entre representantes de partidos políticos de situação e oposição, reconhecendo um no outro o direito à livre manifestação e ao posicionamento contrário a uma corrente de pensamento. A democracia deve ser examinada na sua dimensão social, na medida em que os elevados índices de pobreza e desigualdade social têm gerado, segundo pesquisas realizadas nos últimos anos (BAQUERO, 2000), o aumento da desconfiança dos cidadãos das instituições políticas e seus representantes, o que tem levado ao questionamento crescente de suas legitimidades. (BAQUERO, 2008, n. p.). 8 Laureate- International Universities O Planejamento Social Vê-se a ineficiência do setor público brasileiro, a quem alguns estudiosos indicam funcionar como um dispositivo analógico, frente às demandas da sociedade civil apresentadas em ritmo ou velocidade digital. O descompasso gera desconfiança e hipóteses, muitas comprovadas, tratando da descrença da população no contrato social vigente. Nessa perspectiva, caracterizar um sistema democrático de qualidade depende, em grande parte, da forma como um país tem encaminhado seu processo de transição para a democracia. A este respeito, Carothers (2002) argumenta que as novas democracias são regimes híbridos que se situam entre a democracia e o autoritarismo, materializados pela capacidade das elites em se apropriar progressivamente dos recursos estatais, mesmo com a existência de uma oposição e instituições democráticas. Deste modo, as elites se afastam da sociedade e se encapsulam no poder. (BAQUERO, 2008, n. p.). Democracia e desenvolvimento, incluindo o crescimento econômico, pressupõem qualidade participativa, diminuição da desigualdade econômica e social. A classe média tem assumido o ônus do pagamento da dívida social, por meio de uma carga tributária brutal que inviabiliza a mobilidade social via trabalho assalariado. De acordo com Neto e Coelho, a classe média não se beneficia da maioria dos programas de Lula, centrados nos pobres (NETO; COELHO, 2008). Na média, pagam impostos elevados para o governo e recebem, em troca, serviços insuficientes. O Estado tem se mostrado, portanto, ineficiente em proporcionar serviços sociais adequados, além de não conseguir erradicar as práticas de corrupção e de falta de ética na distribuição de recursos públicos. (BAQUERO, 2008, n. p.). Conforme Houaiss (2008, n. p.), [...] utopia, é um lugar ou estado ideal, de completa felicidade e harmonia entre os indivíduos. Também, qualquer descrição imaginativa de uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade. Para Thomas More, considerado um dos grandes humanistas da história (autor do livro A Utopia, publicado em 1516, mas atual e bastante acessível), “trata-se de um projeto humanista de transformação social e esse projeto é, em seu entender, perfeitamente viável para o século em que vive” (MORE, 2007, p. 11). É uma crítica sobre a vida na Europa no século XVI. NÓS QUEREMOS SABER! Jean Jacques Rousseau, filósofo, teórico político e escritor, publicou em 1762, a obra: “Do Contrato Social”. A obra foi considerada uma utopia, visto propor um estado ideal, onde impere o respeito ao desejo da maioria e o bem comum. 2.1 A conjuntura socioeconômica brasileira O sociólogo Francisco Maria Cavalcanti de Oliveira comparou a Economia Brasileira ao animal ornitorrinco. O sociólogo comparou o design e características do animal à economia brasileira, ou seja, ela apresenta traços de muita modernidade e outros que representam o atraso. (Bernardes, 2008,pg.88) O Brasil tem uma economia diversificada e complexa, quando comparada aos países da América 9 O que é burocracia? Conforme Houaiss (2008, n. p.), é o “sistema de execução da atividade pública, esp. da administração, por funcionários com cargos bem definidos, e que se pautam por um regulamento fixo, determinada rotina e hierarquia com linhas de autoridade e responsabilidade bem demarcadas, ou ainda, sistema encarado como estrutura ineficiente, inoperante, morosa na solução de questões e indiferente às necessidades das pessoas”. NÓS QUEREMOS SABER! Latina e com vasto campo para desenvolvimento, quando comparado aos grandes centros econômicos. Um sistema bancário vigoroso, composto por instituições públicas e privadas com produtos que contemplam a praticamente todos os públicos. Conta também com um importante parque industrial tradicional (têxtil, construção civil, móveis, plástico, vestuário, calçados e bebidas) e de tecnologia mais avançada (imagem e som, eletrodomésticos, informática e automóvel). O desafio posto é o de criar pontos de encaixe entre o desenvolvimento social e econômico e a geração de postos de trabalho. Como fazer isto? O planejamento social representa bem algumas alternativas de inclusão e diminuição das desigualdades. 2.2 Considerações sobre Teoria econômica Toda sociedade econômica, qualquer que seja sua forma de trabalho, enfrenta três problemas fundamentais e determinados pela Lei da escassez: o que e quanto produzir; como produzir; e para quem produzir. Essa tríade de problemas é comum a todas as sociedades econômicas, porém respondida de maneira diferente segundo a consciência crítica, a qualidade da democracia e a educação. Vale destacar que a honestidade e a integridade nas respostas que as sociedades oferecem para a solução de tais problemas, por meio de suas instituições privadas e governamentais, serão determinantes para a qualidade de vida e desenvolvimento do país. Os interesses sociais estão ligados aos poderes políticos. Muitas vezes, o capital se sente ameaçado, mas se resguarda no amparo jurídico da propriedade privada. Como indicado por Mascaro (2013), as eleições, de modo geral, por exemplo, podem até dar diretrizes imediatas ao governo, mas não alteram as amarras jurídicas gerais do Estado. A multiplicidade das burocracias faz com que influências, domínios e capturas dos órgãos estatais sejam também variados. Em sociedades capitalistas de grande competição, é possível vislumbrar órgãos de governo e administração atrelados mais diretamente aos setores competitivos a eles ligados. Bancos e especuladores têm influência próxima em bancos centrais, indústrias, em ministérios ligados à produção, classes agrárias, em ministérios de agricultura ou mesmo do meio ambiente, e até mesmo os trabalhadores, em algumas situações, ligam-se a ministérios como o do trabalho ou da assistência social. Assim, a forma como agentes econômicos disputam fatias do poder e da riqueza e participam da vida social é um elemento sobretudo político. 2.2.1 O exército industrial de reserva como perversidade na economia tradicional De acordo com Sandroni (2006, p. 324), “exército industrial de reserva” foi uma expressão empregada por Karl Marx para designar o conjunto de trabalhadores desempregados. A esse mesmo contingente humano ele deu o nome de “população relativa excedente”. Ao contrário de todos os economistas que o precederam, Marx analisou a existência do exército industrial de 10 Laureate- International Universities O Planejamento Social reserva como um fenômeno inerente à própria produção capitalista. Para ele, os capitalistas, a fim de vencerem os concorrentes, são obrigados a empregar continuamente novas máquinas com o intuito de baratear os custos de produção e aumentar a produtividade do trabalho. O emprego de novas máquinas e novos equipamentos leva à diminuição da parte relativa à mão de obra, o que provoca o chamado “desemprego tecnológico”. A contribuição deMarx aponta ainda que o capitalismo, mesmo em época de prosperidade, tem no desemprego um fator importante para diminuir a pressão sobre os salários. Respostas ruins representam anos e mais anos de atrasos tecnológicos e de exclusão da maioria da população a possibilidades de realização como seres humanos. Damos a esse processo o nome de Círculo Vicioso da Pobreza. É uma espiral decrescente, que envolve todos em um processo de degradação dos valores de formação, concorrência e convivência que deveriam compor a cesta de referenciais de toda a sociedade. Já as respostas positivas para os mesmos problemas oferecidas por instituições governamentais e privadas remetem ao Círculo Virtuoso da Economia, que busca contemplar a maioria em um processo qualitativo de acesso à educação, aos ganhos de produtividade e de mais e maior participação da população na riqueza do país. É interessante notar que, quanto mais desenvolvidas as economias, menores as distâncias entre os menores e os maiores salários. Para ficar mais claro: em países subdesenvolvidos, a diferença salarial é notavelmente alta. As grandes tecnologias foram e continuam a ser criadas, majoritariamente, por imensos grupos empresariais de países desenvolvidos. Esses grupos patenteiam suas descobertas e processos, obtendo o direito a receber como royalties vultosas quantias. Nas economias subdesenvolvidas, as empresas, notadamente as de pequeno porte, atuam em contexto de cultura de cópia, o que as mantém na situação de empresas que dificilmente inovam, por falta de recursos, e, assim, seguem em dinâmica de pobreza. Por fim, outra diferença entre círculo vicioso e círculo virtuoso é que, via de regra, economias imersas na dinâmica do círculo vicioso – países subdesenvolvidos podem, sim, viver curtos períodos de crescimento econômico que, na verdade, vêm a ser a expansão quantitativa da produção. Já economias de países ricos vivem o crescimento qualitativo, ou seja, aliado ao aumento da quantidade de bens e serviços produzida pelo país, ocorre a melhoria proporcional na qualidade de vida de sua população. Um país só pode ser considerado desenvolvido quando sua população dispõe de acesso fácil e de qualidade aos serviços básicos (Educação, Saúde, Transporte, Habitação, Saneamento básico, Energia elétrica e Água potável). O desenvolvimento econômico está associado ao grau de respeito ao ser humano. Ele contém o crescimento. O contrário não é verdadeiro. Quando falamos em desenvolvimento, associamos o termo à riqueza. Mas se é assim, por que a Holanda é mais desenvolvida que o Brasil, ou a Suíça em comparação à Colômbia? A disponibilidade de recursos naturais, por si só, não explica o desenvolvimento. Contudo, se avaliarmos a justiça distributiva, teremos a percepção correta de que Suíça e Holanda estão mais bem posicionadas no conceito de desenvolvimento, por não apresentarem tantas disparidades de renda e sociais entre a sua população. Essas comparações podem ser feitas de forma adequada, quando utilizamos um referencial que sistematiza e consolida informações agregadas. Isso é feito pelo recurso da contabilidade; no caso de um país, a contabilidade nacional. 11 Quando se trata de países, as ciências econômicas consideram alguns indicadores que servem de referência para tais comparações. Assim, por exemplo, o PIB (Produto Interno Bruto) é a medida indicativa do total de bens e serviços produzidos por um país. No entanto, quando se pensa em termos da riqueza da população, consideramos o valor do PIB dividido pelo total de habitantes do país. O resultado é o PIB per capita, que nos indica a renda média da população. Para contabilizar sua riqueza, as pessoas somam seus recursos (salários, lucros, dividendos, juros e aluguéis), e o resultado é o valor do patrimônio nominal. Descontada a inflação (processo de aumento generalizado de preços), temos o valor real do patrimônio. Valor nominal é o valor de um produto ou serviço ao preço corrente (em reais). Valor Real é o valor do mesmo produto ou serviço em reais, descontada a inflação. A lógica é a que segue no exemplo: em 1994, lançamento do Plano Real (plano econômico que estabilizou os preços de nossa economia), com R$ 100,00 (cem reais) comprávamos mais de cem frangos de um quilo cada. Em 2007, os mesmos cem reais compravam cerca de cinquenta quilos de frango. Do que estamos falando? Esse é um exemplo da perda de poder aquisitivo causada pela inflação. Quanto mais frágeis as instituições de uma cidade, estado ou país, mais sua população sofrerá com essa doença silenciosa que afeta a todos, porém que recai pesadamente nas famílias de menor renda. Frequentemente, as complexidades da vida colocam-nos frente a um quadro de novas necessidades. É quando precisamos decidir. As decisões e escolhas têm um custo para nossas vidas e para a vida daqueles que nos cercam. Como podem notar, Economia trata disso. Não é apenas o hoje, mas também o amanhã. Pensar em sustentabilidade remete às necessidades do homem. Do que realmente precisamos para viver bem? Em uma sociedade de consumo como a que vivemos, além de atender às necessidades básicas, muitas vezes impomo-nos a saciar as expectativas de terceiros em relação a nós. Será que damos conta disso? O imaginário moldado por peças publicitárias muito competentes impõe-nos o consumo pelo consumo, causando a febre de estarmos no centro do universo pela aparência, e não pelo que somos. É um risco individual e coletivo, quando passamos a acreditar que tudo o que não somos ou temos pode ser comprado. A economia do dinheiro dissolve os vínculos e relações que compõem as comunidades “tradicionais”, de modo que o dinheiro se torna a verdadeira comunidade. Entre os fatores constitutivos da globalização, em seu caráter perverso atual, encontram-se a forma como a informação é oferecida à humanidade e a emergência do dinheiro em estado puro como motor da vida econômica e social. São duas violências centrais, alicerces do sistema ideológico que justifica as ações hegemônicas e leva ao império das fabulações, a percepções fragmentadas e ao discurso único do mundo, base dos novos totalitarismos – isto é, globalitarismos – a que estamos assistindo. Cada vez mais, o espaço para o diverso diminui sobremaneira na sociedade, daí a tendência a planejamentos concebidos por poucos e voltados a atender muitos, o que necessita ser revisto. 2.2.2 Notícias da globalização e de seus efeitos A globalização sintetiza mudanças de padrão tecnológico-organizacional e colocou em evidência a palavra competitividade. O progresso nas áreas de eletrônica, informática e telecomunicações é notável. Isso trouxe para primeiro plano a questão da eficiência, e os grandes grupos passaram por um amplo processo de reestruturação e mudanças nos contratos com fornecedores e clientes. O mundo, imenso, tornou-se pequeno por conta da revolução tecnológica, que no âmbito dos 12 Laureate- International Universities O Planejamento Social negócios propicia oportunidades. Por falar em oportunidade, não podemos desconsiderar que novas tecnologias resultam em novos produtos e novas possibilidades de negócios. No entanto, a fatia das economias subdesenvolvidas nesse bolo é pequena. Isso em função dos altos investimentos em pesquisa e desenvolvimento e da diminuição do ciclo de vida dos produtos, cada vez mais curto. Além disso, uma das consequências mais perversas das mudanças tecnológicas é o desemprego nos países pobres. Não podemos escapar à evidência de que a civilização iniciada pela revolução industrial aponta de forma inexorável para grandes calamidades. Ela concentra riqueza em benefício de uma minoria cujo estilo de vida requer um dispêndio crescente de recursos não renováveis e que somente se mantém porque a maioria da humanidade se submete a diversas formas de penúria inclusivea fome. Uma minoria dispõe dos recursos não renováveis do planeta sem preocupar-se com as consequências para as gerações futuras do desperdício que ela hoje realiza. (FURTADO, 1998, p. 64). Por vezes olha-se para o desenvolvimento incompleto como uma combinação de fatores, que, mesmo contraditoriamente, minora a pressão sobre os recursos naturais. Sem renda as pessoas consomem menos. Mas como aponta Furtado (1998, p. 64), “[...] eleva o coeficiente de desperdício, ao difundir padrões de consumo sem correspondência com os baixos níveis de renda das populações”. Pensem nisto: fala-se muito em competitividade. Poucos refletem sobre seus efeitos em relação à nossa vida. Ela avilta e afrouxa a moral e os valores, pois coloca o outro como algo a ser superado a todo e qualquer custo, em todos os planos (famílias, empresas e dos governos – vide guerra fiscal no Brasil, envolvendo cidades e estados). 3 O mundo do trabalho como espaço de exclusão A produção capitalista começou a partir do momento em que se criaram condições de excesso de oferta de mão de obra por força do desemprego generalizado que predispunha um crescente número de seres humanos a vender sua força de trabalho a “qualquer preço” para subsistir. Conforme Huberman (1981, p. 173), “um homem só trabalha para outro quando é obrigado”. Essas condições fundamentaram a Inglaterra como local onde o capitalismo se evidenciou e reuniu condições de irradiar sua influência para outras nações europeias. As revoluções industriais dos séculos XVIII e XIX foram marcos nas transformações das relações de trabalho e nos avanços tecnológicos e, à medida que o processo de substituição de pessoas por máquinas automatizadas e a ênfase no aumento da produtividade aumentavam, reduzia-se o poder de compra da maior parte da população. Gerou-se, inicialmente de forma gradual, e posteriormente de forma aguda, um “desemprego estrutural sem precedentes” (KHURY, 2007, p. 9). O sistema capitalista tem, entre seus pressupostos, a redução de custos e o aumento da produtividade para tornar os produtos competitivos no mercado. Essa lógica foi historicamente atendida no decorrer do processo de desenvolvimento desse modo de produção e certamente beneficiou um grupo seleto de grandes corporações, que alcançaram produção sem precedentes, mercados transcontinentais e ganhos expressivamente elevados, por conta da melhora nos processos produtivos e ganhos de produtividade, graças, entre outros, aos avanços tecnológicos incorporados. Esses avanços tecnológicos propiciaram o surgimento de outra categoria de trabalhadores: os trabalhadores do conhecimento. Conforme Rifkin (2004, p. 175), os trabalhadores do conhecimento são um grupo distinto, unido pelo uso da tecnologia da informação de última geração para identificar, intermediar e solucionar 13 problemas. São criadores, manipuladores e abastecedores do fluxo de informação que constrói a economia global pós-industrial e pós-serviço. As inovações tecnológicas representam grande entrave para a mão de obra pouco qualificada, pois esse tipo de trabalhador, uma vez dispensado pelas empresas, via de regra não consegue refazer sua volta ao mercado formal, e, quando isso ocorre, o patamar salarial é inferior ao proporcionado pelo emprego anterior. O rompimento desse ciclo de empobrecimento se manifesta, nas camadas excluídas do ambiente econômico formal, de diversas formas, como descrito anteriormente. Atuando junto a essas pessoas, ONGs podem ressignificar o uso de novas tecnologias e sentidos a partir de ações fundamentadas na formação humana e de economia solidária. 4 O papel das organizações sociais Mais de duas décadas de estabilidade econômica produziram profundas mudanças no comportamento das organizações. Anteriormente, o foco das empresas era exclusivamente o lucro, mas hoje envolve preocupações muito amplas, tais como: acionistas, funcionários, fornecedores, consumidores, comunidade, governo e meio ambiente. A demanda da sociedade de uma forma ou de outra deve ser incorporada à sua atuação. Assim, a responsabilidade social trata diretamente da qualidade de gestão e da repercussão desta no entorno, clientes e parceiros internos e externos. Um processo que nunca se esgota... O primeiro passo é um diagnóstico interno realizado de forma integrada que possibilite indicar em quais pontos são necessárias e possíveis mudanças positivas nas políticas de relacionamento e nas práticas da empresa com o mercado. A partir daí, estabelecer um cronograma de ações a serem promovidas. É importante determinar que responsabilidade social não se confunde com filantropia, visto ser bem claro que o bem-estar social é enfatizado pelas empresas, sobretudo pelo aumento na lucratividade do empreendimento, fator de permanência delas no mercado. O livro A promessa do terceiro setor: um estudo sobre a construção do papel das organizações sem fins lucrativos e do seu campo de gestão, de Andres Pablo Falconer. Disponível em: <http://lasociedadcivil.org/docs/ciberteca/andres_falconer.pdf>. Acesso em: 15 abr. 2015. A obra traz conhecimentos sobre terceiro setor, economia solidária, desenvolvimento local e empreendedorismo. Propicia reflexão sobre os espaços para a atuação de organizações sem fins lucrativos e indica a importância de sistemas administrativos para a sustentabilidade dos empreendimentos. NÃO DEIXE DE LER... A responsabilidade social praticada pelas organizações assume as seguintes características: abrangência e inclusão, pois se preocupa com a transparência e a repercussão de seus atos; corresponsabilidade, ou seja, as empresas são responsáveis pela vida de seus funcionários, qualidade de seus fornecedores, e não apenas por seu produto final; e sustentabilidade e transparência em suas ações. Empresas responsáveis elaboram balanço contábil e social de seus atos periodicamente. Atuam com preocupações ambientais e trabalham procurando influenciar positivamente as parcerias pelo atingimento de propósitos elevados, sem perder de vista sua necessidade de lucratividade. 14 Laureate- International Universities O Planejamento Social 5 Marco regulatório das organizações sociais A Lei no 91 de 28 de agosto de 1935 determinou regras para o reconhecimento de uma entidade como de utilidade pública, desde que atendesse aos seguintes requisitos: • Tenham personalidade jurídica; • Estejam formalmente constituídas e em atividade e que sirvam desinteressadamente à coletividade; • Que os cargos de sua diretoria, conselhos fiscais, deliberativos ou consultivos não sejam remunerados. A leitura indica a simplicidade da legislação e a margem a malfeitos com recursos públicos, visto que, para ser reconhecida como tal, bastava apresentar relatório de serviços prestados à coletividade, sem a necessidade de relatório do que foi arrecadado. Na década de 1930, o Brasil passou por notáveis transformações econômicas e sociais. Pode-se citar a indústria de base de transformação, entre outros, o aumento do papel social assumido pelas ONGs. Tal fato especialmente exigiu uma redefinição da legislação das entidades de utilidade pública. ONGs receberam por quase sessenta anos benefícios fiscais, desonerações, isenções e acesso a financiamentos públicos. Assim, o que era uma distinção social transformou- se em condição diferenciada para o acesso a sinecuras (emprego ou cargo rendoso que exige pouco trabalho) e benesses do Estado com claro desvio de propósito de seu conceito inicial. Isso resultou em malfeitos com recursos públicos, entre os quais os empreendidos nos anos 1980 e 1990 pelo grupo de congressistas apelidados de “anões do orçamento” num esquema, desbaratado pela CPI – Comissão Parlamentar de Inquérito, nos anos de 1993 e 1994. A atuação do grupo de parlamentares tinha duas grandes frentes. Na primeira, parlamentares faziam emendasou alterações em leis, remetendo dinheiro para entidades filantrópicas ligadas a parentes e laranjas. Na segunda, os acertos eram feitos com grandes construtoras para a inclusão de verbas no orçamento para grandes obras, em troca de comissões. A restauração da credibilidade das organizações com atuação no terceiro setor passou por sua recaracterização como Organização Social (OS) e Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP). Assim, as organizações sociais são: [...] pessoas jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, cujas atividades sejam dirigidas ao ensino, à pesquisa científica, ao desenvolvimento tecnológico, à proteção e preservação do meio ambiente, à cultura e à saúde, atendidos aos requisitos previstos nesta Lei. (Lei no 9367/98). As Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público foram criadas a partir da Lei no 9790/99, regulamentada pelo Decreto 3100/99. Com isso, pode-se afirmar que as OSCIPs atuam em temas prioritariamente públicos, e as OS são uma privatização do público. Em síntese, as OS geralmente são criadas com apoio do Poder Público, com o específico propósito de absorver órgãos extintos. Já as OSCIPs são entidades criadas por iniciativa da sociedade, que se organiza, funda uma entidade e busca uma qualificação, que irá credenciar e estabelecer uma parceria com a administração pública na realização de atividades de cunho social (BARRETO, 2005). Enquanto isso não ocorre, temos então o espaço para a atuação de organizações não governamentais e filantrópicas. 15 5.1 Terceiro setor: espaço de construção de novidades no campo econômico e social A antropóloga Ruth Cardoso (2000) descreve o terceiro setor como um espaço de participação e experimentação de novos modos de pensar e agir sobre a realidade social. É o surgimento de uma esfera pública não estatal e de iniciativas privadas de sentimento público. Filantropia, conforme Houaiss (2008), significa amor profundo à humanidade, envolvendo a realização de ações com desprendimento. Falar em desprendimento e altruísmo no século XXI soa como desafio numa época em que o mercado tem no planejamento um pressuposto, e no cálculo de retorno de investimento uma necessidade. Quando se reflete sobre o terceiro setor, não se pensa no lucro em primeiro momento, mas sim na repercussão do seu trabalho em relação à evolução em indicadores sociais, ou no bem-estar das pessoas. Filantropia, no entanto, não é igual a desenvolvimento social, que é uma ação tradicionalmente atribuída ao primeiro setor, o governo. O segundo setor, composto dos atores de mercado (empresas do setor privado), caracteriza o conjunto de ações que acontecem no interior do terceiro setor – aquele que é público porém privado (IOSCHPE et al., 2000). O terceiro setor é um campo marcado pela diversidade de atores e formas de organização no apoio. Na década de 1980 foram as ONGs que, articulando recursos e experiências na base da sociedade, ganharam visibilidade enquanto novos espaços de participação cidadã. Percebe-se atualmente que o conceito de terceiro setor é bem mais abrangente. Inclui o amplo espectro das instituições filantrópicas dedicadas à prestação de serviços nas áreas de saúde, educação e bem- estar social. Contempla também as organizações voltadas para a defesa dos direitos de grupos específicos da população, como crianças, mulheres, negros, povos indígenas ou de proteção ao meio ambiente, promoção do esporte, cidadania, cultura e lazer. Compreende inúmeras experiências de trabalho voluntário, pelas quais cidadãos exprimem sua solidariedade através da doação de tempo, trabalho e talento para causas sociais. NÃO DEIXE DE VER... O filme O Garoto, de Charles Chaplin. Toda a obra do cineasta, produtor e ator Charles Chaplin é genial; existem poucas divergências em relação a isso. Minha sugestão é que você adquira um exemplar para assistir sempre que possível. Trata-se de um drama, tratando de uma mãe solteira que não tem condições de criar o filho. É um excelente filme para refletir sobre o papel de ONGs dedicadas ao trabalho desafiador com crianças e adolescentes e a questão da adoção. Os anos 1990 revelaram inúmeras ações de filantropia empresarial, pelas quais as organizações concretizam sua responsabilidade e compromisso com a melhoria da comunidade. Em países em desenvolvimento, o terceiro setor existe, está em processo de fortalecimento e tem papel insubstituível na mobilização de recursos humanos e materiais para o enfrentamento de desafios como o combate à pobreza, à desigualdade e à exclusão social. 16 Laureate- International Universities O Planejamento Social O artigo “A importância do planejamento estratégico em organizações do terceiro setor”, de Eliane Vignatti Avancini e Sandra Maria Almeida Cordeiro. Serviço Social em revista. Universidade Estadual de Londrina: Londrina, v. 7, n. 1, jul.-dez. 2004. 18 p. Disponível em: <http://www.uel.br/revistas/ssrevista/c_v7n1_sandra.htm>. Acesso em: 15 abr. 2015. As autoras analisam a importância do planejamento, enquanto ferramenta gerencial que “proporciona a sensibilidade para identificar, ao longo do tempo, ações necessárias ao enfrentamento de estrangulamentos e desafios institucionais que devem ser vencidos” (VIGNATTI; CORDEIRO, 2004, n. p.). Objetivo: Ampliar o conhecimento sobre planejamento estratégico. Registre os pontos principais do artigo lido, elaborando, assim, um material para estudos e consultas futuras. Principais pontos a serem observados: Como organizações do terceiro setor podem contribuir para o avanço do conhecimento gerencial e a renovação da gestão nas organizações contemporâneas. NÓS QUEREMOS SABER! 17 Neste Capítulo, você teve clareza de que, em tese, a atuação do governo deveria privilegiar o resultado e a universalidade das políticas e de que a sociedade civil atua por interesses específicos e muitas vezes a partir de formatos inovadores. São propostas diferentes, porém é possível inferir que possam agir juntas naquilo que cada uma faz melhor. O melhor possivelmente decorra da mobilização de potencial empreendedor, meios (mão de obra e conhecimento) e dinamismo existentes no terceiro setor, combinando-os com as iniciativas e recursos governamentais. Conforme Ruth Cardoso (2000), no Brasil, a legislação que se aplica ao setor não lucrativo é antiquada e inadequada. Ela não dá conta de fenômenos novos como a responsabilidade social do setor privado empresarial e as relações crescentes de parceria, em todos os níveis, entre órgãos públicos e organizações não governamentais. A legislação vigente, ao tratar de forma indiferenciada todo e qualquer tipo de associação civil, não estimula a atuação dos cidadãos e o investimento social da empresa. Tampouco coíbe eventuais abusos praticados em nome da filantropia e da assistência social. Daí a necessidade de novos modelos de gestão que, na dimensão do trato com a esfera pública, supere a visão patrimonialista e, na gestão de ONGs e OSCIPs, uma visão de gestão que contemple qualidade, agilidade e eficiência. SínteseSíntese 18 Laureate- International Universities O Planejamento Social BAQUERO, Marcelo. Democracia formal, cultura política informal e capital social no Brasil, Campinas, v. 14, n. 2, nov. 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104- 62762008000200005&script=sci_arttext>. Acesso em: 20 abr. 2015. BARRETO, Lucas H. Dantas. Terceiro setor: uma análise comparativa das organizações sociais da sociedade civil de interesse público. In: Fórum Marco Regulatório, 2005. 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ReferênciasBibliográficas 5 Marco regulatório das organizações sociais 5.1 Terceiro setor: espaço de construção de novidades no campo econômico e social 4 O papel das organizações sociais 3 O mundo do trabalho como espaço de exclusão 2 Breve apresentação do contexto socioeconômico brasileiro 2.1 A conjuntura socioeconômica brasileira 2.2 Considerações sobre Teoria econômica 1 Planejamento social: conceitos e finalidades Introdução Síntese