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1 
Direito das Coisas12 
 
I – Introdução. Conceitos de direitos das coisas e de direitos reais. 
 
1. Diferenças – 
 
A utilização dos termos Direito das Coisas e Direitos Reais sempre gerou 
dúvidas entre os estudantes e aplicadores do Direito. Para a cabível diferenciação, 
pode-se dizer: 
a) Direito das Coisas – é o ramo do Direito Civil que tem como conteúdo relações 
jurídicas estabelecidas entre pessoas e coisas determinadas ou determináveis. Como 
coisas, pode-se entender tudo aquilo que não é humano, ou ainda os bens corpóreos, 
na linha da polêmica existente na doutrina. No âmbito do Direito das Coisas há uma 
relação de domínio exercida pela pessoa (sujeito ativo) sobre a coisa. Não há sujeito 
passivo determinado, sendo esse toda a coletividade. Segue-se a clássica 
conceituação de Clóvis Beviláqua citada, entre outros, por Carlos Roberto Gonçalves, 
para quem o Direito das Coisas representa um complexo de normas que regulamenta 
as relações dominiais existentes entre a pessoa humana e coisas apropriáveis. 
b) Direitos Reais – conjunto de categorias jurídicas relacionadas à propriedade, 
descritas inicialmente no art. 1.225 do CC. Os Direitos Reais formam o conteúdo 
principal do Direito das Coisas, mas não exclusivamente, eis que existem institutos que 
compõem a matéria e que não são Direitos Reais. 
 Os direitos reais giram em torno do conceito de propriedade, e, como tal, 
apresentam caracteres próprios que os distinguem dos direitos pessoais de cunho 
patrimonial. A partir da doutrina contemporânea de Maria Helena Diniz, podem ser 
apontadas as seguintes características dos direitos reais: 
- Oponibilidade erga omnes, ou seja, contra todos os membros da coletividade. 
- Existência de um direito de sequela, que segue a coisa. 
- Previsão de um direito de preferência a favor do titular de um direito real. 
- Possibilidade de abandono dos direitos reais, de renúncia a tais direitos. 
- Viabilidade de incorporação da coisa por meio da posse. 
- Previsão da usucapião como um dos meios de sua aquisição. 
 
1
 O material foi baseado na obra do doutrinador Flávio Tartuce. Manual de Direito Civil. Volume único. Editora 
Método. 
2
 O material constitui um roteiro para a aula. É proibida a reprodução e comercialização do mesmo. 
 2 
- Suposta obediência a um rol taxativo (numerus clausus) de institutos, previstos em lei, 
o que consagra o princípio da tipicidade dos direitos reais. 
- Regência pelo princípio da publicidade dos atos, o que se dá pela entrega da coisa ou 
tradição (no caso de bens móveis) e pelo registro (no caso de bens imóveis). 
No tocante à existência de um rol taxativo, ou numerus clausus, quanto aos 
direitos reais, também vem se insurgindo a civilística contemporânea. Para a análise da 
questão, é importante transcrever a atual redação do art. 1.225 do CC em vigor: 
 
“Art. 1.225. São direitos reais: 
I – a propriedade; 
II – a superfície; 
III – as servidões; 
IV – o usufruto; 
V – o uso; 
VI – a habitação; 
VII – o direito do promitente comprador do imóvel; 
VIII – o penhor; 
IX – a hipoteca; 
X – a anticrese; 
XI – a concessão de uso especial para fins de moradia; (Incluído pela Lei 
11.481/2007). 
XII – a concessão de direito real de uso (Incluído pela Lei 11.481/2007)”. 
 
O que propõem os civilistas da atual geração é uma quebra do princípio da 
taxatividade, desde que se trabalhe dentro dos limites da lei (tipicidade), que pode até 
criar novos direitos reais, além daqueles previstos no art. 1.225 do CC. Trata-se de 
uma importante revisão conceitual dos institutos de Direito das Coisas. 
Quanto ao time-sharing ou multipropriedade imobiliária, acórdão do Superior 
Tribunal de Justiça, do ano de 2016, reconheceu a possibilidade de ser tratado como 
direito real, o que não representaria ofensa à taxatividade dos direitos reais. Conforme 
a ementa do julgado: 
 
PROCESSUAL CIVIL E CIVIL. RECURSO ESPECIAL. EMBARGOS DE 
TERCEIRO. MULTIPROPRIEDADE IMOBILIÁRIA (TIME-SHARING). 
NATUREZA JURÍDICA DE DIREITO REAL. UNIDADES FIXAS DE TEMPO. 
USO EXCLUSIVO E PERPÉTUO DURANTE CERTO PERÍODO ANUAL. 
PARTE IDEAL DO MULTIPROPRIETÁRIO. PENHORA. INSUBSISTÊNCIA. 
RECURSO ESPECIAL CONHECIDO E PROVIDO. 1. O sistema time-sharing 
ou multipropriedade imobiliária, conforme ensina Gustavo Tepedino, é uma 
 3 
espécie de condomínio relativo a locais de lazer no qual se divide o 
aproveitamento econômico de bem imóvel (casa, chalé, apartamento) entre os 
cotitulares em unidades fixas de tempo, assegurando-se a cada um o uso 
exclusivo e perpétuo durante certo período do ano. 2. Extremamente 
acobertada por princípios que encerram os direitos reais, a 
multipropriedade imobiliária, nada obstante ter feição obrigacional aferida por 
muitos, detém forte liame com o instituto da propriedade, se não for sua 
própria expressão, como já vem proclamando a doutrina contemporânea, 
inclusive num contexto de não se reprimir a autonomia da vontade nem a 
liberdade contratual diante da preponderância da tipicidade dos direitos reais e 
do sistema de numerus clausus. 3. No contexto do Código Civil de 2002, não 
há óbice a se dotar o instituto da multipropriedade imobiliária de caráter real, 
especialmente sob a ótica da taxatividade e imutabilidade dos direitos reais 
inscritos no art. 1.225. 4. O vigente diploma, seguindo os ditames do estatuto 
civil anterior, não traz nenhuma vedação nem faz referência à inviabilidade de 
consagrar novos direitos reais. Além disso, com os atributos dos direitos reais 
se harmoniza o novel instituto, que, circunscrito a um vínculo jurídico de 
aproveitamento econômico e de imediata aderência ao imóvel, detém as 
faculdades de uso, gozo e disposição sobre fração ideal do bem, ainda que 
objeto de compartilhamento pelos multiproprietários de espaço e turnos fixos 
de tempo. 5. A multipropriedade imobiliária, mesmo não efetivamente 
codificada, possui natureza jurídica de direito real, harmonizando-se, portanto, 
com os institutos constantes do rol previsto no art. 1.225 do Código Civil; e o 
multiproprietário, no caso de penhora do imóvel objeto de 
compartilhamento espaço-temporal (time-sharing), tem, nos embargos de 
terceiro, o instrumento judicial protetivo de sua fração ideal do bem 
objeto de constrição. 6. É insubsistente a penhora sobre a integralidade do 
imóvel submetido ao regime de multipropriedade na hipótese em que a parte 
embargante é titular de fração ideal por conta de cessão de direitos em que 
figurou como cessionária. 7. Recurso especial conhecido e provido. (REsp 
1546165/SP, Rel. Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, Rel. p/ Acórdão 
Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, TERCEIRA TURMA, julgado em 
26/04/2016, DJe 06/09/2016) 
 
Flávio Tartuce entende que apesar de o acórdão ter reconhecido, ao final, que a 
multipropriedade imobiliária é direito real, essa conclusão se deve justamente ao fato 
de não ser o rol do art. 1.225 do CC taxativo ou numerus clausus, e não pelo caminho 
seguido pelos julgadores. 
 
 
 
 4 
2. Principais diferenças entre os direitos reais e os direitos pessoais patrimoniais 
 
Vejamos esse notório quadro comparativo, tratado em praticamente todos os 
livros relativos ao Direito das Coisas: 
 
Direitos Reais Direitos pessoais patrimoniais 
Relações jurídicas entre uma pessoa 
(sujeito ativo) e uma coisa. O 
sujeito passivo não é determinado, mas é 
toda a coletividade (sujeito 
passivo universal). 
Relações jurídicas entre uma pessoa 
(sujeito ativo – credor) e outra 
(sujeito passivo – devedor). 
Princípio da publicidade (tradição e 
registro). 
Princípio da autonomia privada(liberdade). 
Efeitos erga omnes. Os efeitos podem ser 
restringidos. 
Efeitos inter partes. Há uma tendência de 
ampliação dos efeitos. 
Rol taxativo (numerus clausus), segundo 
a visão clássica – art. 1.225 do 
CC. Essa visão vem sendo contestada 
pela doutrina contemporânea. 
Rol exemplificativo (numerus apertus) – 
art. 425 do CC – criação dos 
contratos atípicos. 
A coisa responde (direito de sequela). Os bens do devedor respondem (princípio 
da responsabilidade patrimonial). 
 
Caráter permanente. 
Instituto típico: propriedade. 
Caráter transitório, em regra, o que vem 
sendo mitigado pelos contratos 
relacionais ou cativos de longa duração. 
Instituto típico: contrato 
 
 
Também, ao colocar em dúvida esse tradicional quadro do Direito Civil, é 
importante salientar que existem conceitos híbridos ou intermediários, que se 
encontram em um ponto intermediário do quadro demonstrado: 
- Posse – trata-se de um direito de natureza especial, que não se enquadra como 
direito real ou pessoal, como se verá adiante. 
- Obrigações propter rem ou próprias da coisa – situam-se em uma zona intermediária 
entre os direitos reais e os direitos patrimoniais, sendo ainda denominadas obrigações 
híbridas ou ambulatórias, pois perseguem a coisa onde quer que ela esteja. Como 
exemplo, cite-se a obrigação do proprietário de um imóvel de pagar as despesas de 
condomínio. Isso pode ser retirado do art. 1.345 do CC, pelo qual o proprietário da 
unidade condominial em edifícios responde pelas dívidas anteriores que gravam a 
 5 
coisa. Esclareça-se que, com razão, o STJ tem entendido que dívidas de consumo 
como água, esgoto e energia elétrica não constituem obrigações propter rem, mas 
dívidas pessoais do usuário do serviço. Nessa linha, quanto às dívidas de água e 
esgoto, colaciona-se: “é firme o entendimento no STJ de que o dever de pagar pelo 
serviço prestado pela agravante – fornecimento de água – é destituído da natureza 
jurídica de obrigação propter rem, pois não se vincula à titularidade do bem, mas ao 
sujeito que manifesta vontade de receber os serviços (AgRg no AREsp 2.9879/RJ, Rel. 
Min. Herman Benjamin, DJe 22.05.2012)” (STJ, AgRg no AREsp 265.966/SP, Rel. Min. 
Napoleão Nunes Maia Filho, 1. a Turma, j. 21.03.2013, DJe 10.04.2013). Em 
complemento: “O entendimento firmado neste Superior Tribunal é no sentido de que o 
débito, tanto de água como de energia elétrica, é de natureza pessoal, não se 
caracterizando como obrigação de natureza propter rem” (STJ, AgRg no REsp 
1.258.866/SP, Rel. Min. Arnaldo Esteves Lima, 1.a Turma, j. 16.10.2012, DJe 
22.10.2012). 
- Abuso de direito no exercício de propriedade ou ato emulativo – retirado dos arts. 187 
e 1.228, § 2.º, do CC. Trata-se de um instituto híbrido uma vez que o exercício de um 
direito real repercute no direito das obrigações, gerando o dever de indenizar. 
 
3. Da posse (arts. 1.196 a 1.224 do CC) 
 
 Flávio Tartuce está filiado à corrente pela qual a posse é um direito de natureza 
especial, o que pode ser retirado da teoria tridimensional do Direito, de Miguel Reale. 
Isso porque a posse é o domínio fático que a pessoa exerce sobre a coisa. Ora, se o 
Direito é fato, valor e norma, logicamente a posse é um componente jurídico, ou seja, 
um direito. 
Vale dizer que há entendimento doutrinário pelo qual a posse constitui um direito 
real propriamente dito, como desdobramento natural da propriedade, caso de Maria 
Helena Diniz. 
Pois bem, duas grandes escolas ou correntes clássicas procuraram justificar a 
posse como categoria jurídica. Vejamos: 
 
1.a – Teoria subjetiva ou subjetivista – Seu principal idealizador foi Friedrich Carl von 
Savigny, entendendo a posse como o poder direto que a pessoa tem de dispor 
fisicamente de um bem com a intenção de tê-lo para si e de defendê-lo contra a 
intervenção ou agressão de quem quer que seja. A posse, para essa teoria, possui dois 
 6 
elementos: a) o corpus – elemento material ou objetivo da posse, constituído pelo 
poder físico ou de disponibilidade sobre a coisa; b) animus domini, elemento subjetivo, 
caracterizado pela intenção de ter a coisa para si, de exercer sobre ela o direito de 
propriedade. Diante do segundo elemento, para essa teoria, o locatário, o comodatário, 
o depositário, entre outros, não são possuidores, pois não há qualquer intenção de 
tornarem-se proprietários. Em regra, essa teoria não foi adotada pelo CC/2002 até 
porque as pessoas elencadas por último são consideradas possuidores. A teoria 
subjetiva da posse somente ganha relevância na usucapião, como se verá adiante. 
2.a – Teoria objetiva ou objetivista – Teve como principal expoente Rudolf von Ihering, 
sendo certo que para a constituição da posse basta que a pessoa disponha fisicamente 
da coisa, ou que tenha a mera possibilidade de exercer esse contato. Esta corrente 
dispensa a intenção de ser dono, tendo a posse apenas um elemento, o corpus, como 
elemento material e único fator visível e suscetível de comprovação. O corpus é 
formado pela atitude externa do possuidor em relação à coisa, agindo este com o 
intuito de explorá-la economicamente. Para esta teoria, dentro do conceito de corpus 
está uma intenção, não o animus de ser proprietário, mas de explorar a coisa com fins 
econômicos. 
 
Art. 1.196. Considera-se possuidor todo aquele que tem de fato o exercício, pleno ou 
não, de algum dos poderes inerentes à propriedade. 
 
Entre as duas teorias, é forçoso concluir que o CC/2002, a exemplo do seu 
antecessor, adotou parcialmente a teoria objetivista de Ihering, pelo que consta do seu 
art. 1.196. Em suma, basta o exercício de um dos atributos do domínio para que a 
pessoa seja considerada possuidora. Ilustrando, o locatário, o usufrutuário, o 
depositário e o comodatário são possuidores, podendo fazer uso das ações 
possessórias. Pela atual codificação privada, pode-se dizer que todo proprietário é 
possuidor, mas nem todo possuidor é proprietário. 
 
Art. 1.197. A posse direta, de pessoa que tem a coisa em seu poder, temporariamente, 
em virtude de direito pessoal, ou real, não anula a indireta, de quem aquela foi havida, 
podendo o possuidor direto defender a sua posse contra o indireto. 
 
 Percebe-se que pelo conceito objetivo adotado pelo comando legal a posse 
pode ser desdobrada em direta e indireta. Em suma, não há necessariamente domínio 
 7 
material na posse, podendo essa decorrer de mero exercício de direito. Como primeira 
ilustração, no caso de contrato de locação, as duas partes envolvidas são possuidoras. 
O locatário é possuidor direto, tendo a coisa consigo; o locador proprietário é possuidor 
indireto, pelos direitos que decorrem do domínio. 
Classificação quanto à relação pessoa-coisa ou quanto ao desdobramento da 
posse (art. 1.197 do CC): 
a) Posse direta ou imediata – aquela que é exercida por quem tem a coisa 
materialmente, havendo um poder físico imediato. Como possuidores diretos podem 
ser citados o locatário, o depositário, o comodatário e o usufrutuário. 
b) Posse indireta ou mediata – exercida por meio de outra pessoa, havendo exercício 
de direito, geralmente decorrente da propriedade. Exemplos: locador, depositante, 
comodante e nu-proprietário. 
Art. 1.198. Considera-se detentor aquele que, achando-se em relação de dependência 
para com outro, conserva a posse em nome deste e em cumprimento de ordens ou 
instruções suas. 
Parágrafo único. Aquele que começou a comportar-se do modo como prescreve este 
artigo, em relação ao bem e à outra pessoa, presume-se detentor, até que prove o 
contrário. 
 
Segundo Maria Helena Diniz, o detentor ou fâmulo de posse, denominado gestor 
da posse, detentor dependente ou servidorda posse, tem a coisa apenas em virtude de 
uma situação de dependência econômica ou de um vínculo de subordinação (ato de 
mera custódia). A lei ressalva não ser possuidor aquele que, achando-se em relação de 
dependência para com outro, conserva a posse em nome deste e em cumprimento de 
ordens e instruções suas. 
O detentor exerce sobre o bem não uma posse própria, mas uma posse em 
nome de outrem. Como não tem posse, não lhe assiste o direito de invocar, em nome 
próprio, as ações possessórias. Porém, é possível que o detentor defenda a posse 
alheia por meio da autotutela, tratada pelo art. 1.210, § 1.º, do CC, conforme reconhece 
o seguinte enunciado doutrinário, da V Jornada de Direito Civil: “O detentor (art. 1.198 
do Código Civil) pode, no interesse do possuidor, exercer a autodefesa do bem sob seu 
poder” (Enunciado n. 493). O art. 1.208, primeira parte, do CC acrescenta que não 
induzem posse os atos de mera permissão ou tolerância. 
 8 
Vejamos alguns exemplos jurisprudenciais de detenção, para deixar bem claro 
que ela não se confunde com a posse. 
Como primeiro exemplo, cite-se a hipótese de alguém que para o seu carro em 
um estacionamento, entregando-o a um manobrista. A empresa de estacionamento é 
possuidora, diante da existência de um contrato atípico, com elementos do depósito; já 
o manobrista é detentor, pois tem o veículo em nome da empresa, com quem tem 
relação de subordinação. 
Partindo para as concretizações jurisprudenciais, o STJ, em reiteradas vezes, 
tem entendido que a ocupação irregular de área pública não induz posse, mas ato de 
mera detenção (por todos: STJ, REsp 556.721/DF, 2.a Turma, Rel. Min. Eliana Calmon, 
data da decisão: 15.09.2005). 
Flávio Tartuce sempre entendeu que o caso não seria de detenção, mas de uma 
posse precária que, por ser injusta, não geraria a usucapião. Todavia, em havendo 
posse, o ocupante-invasor poderia propor ações possessórias contra terceiros. 
Em 2016, surgiu decisão do STJ nesse sentido, corrigindo aquele equívoco 
anterior. Conforme publicação constante do seu Informativo 579: 
 
DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. AJUIZAMENTO DE AÇÃO 
POSSESSÓRIA POR INVASOR DE TERRA PÚBLICA CONTRA OUTROS 
PARTICULARES. 
É cabível o ajuizamento de ações possessórias por parte de invasor de terra 
pública contra outros particulares. Inicialmente, salienta-se que não se 
desconhece a jurisprudência do STJ no sentido de que a ocupação de área 
pública sem autorização expressa e legítima do titular do domínio constitui 
mera detenção (REsp 998.409-DF, Terceira Turma, DJe 3/11/2009). Contudo, 
vislumbra-se que, na verdade, isso revela questão relacionada à posse. Nessa 
ordem de ideias, ressalta-se o previsto no art. 1.198 do CC, in verbis: 
"Considera-se detentor aquele que, achando-se em relação de dependência 
para com outro, conserva a posse em nome deste e em cumprimento de 
ordens ou instruções suas". Como se vê, para que se possa admitir a relação 
de dependência, a posse deve ser exercida em nome de outrem que ostente o 
jus possidendi ou o jus possessionis. Ora, aquele que invade terras públicas e 
nela constrói sua moradia jamais exercerá a posse em nome alheio, de modo 
que não há entre ele e o ente público uma relação de dependência ou de 
subordinação e, por isso, não há que se falar em mera detenção. De fato, o 
animus domini é evidente, a despeito de ele ser juridicamente infrutífero. 
Inclusive, o fato de as terras serem públicas e, dessa maneira, não serem 
passíveis de aquisição por usucapião, não altera esse quadro. Com 
frequência, o invasor sequer conhece essa característica do imóvel. Portanto, 
 9 
os interditos possessórios são adequados à discussão da melhor posse entre 
particulares, ainda que ela esteja relacionada a terras públicas. REsp 
1.484.304-DF, Rel. Min. Moura Ribeiro, julgado em 10/3/2016, DJe 15/3/2016. 
 
Consigne-se que é admitida juridicamente a conversão da detenção em posse. 
Nesse sentido, na IV Jornada de Direito Civil, aprovou-se o Enunciado doutrinário n. 
301, estabelecendo que “É possível a conversão da detenção em posse, desde que 
rompida a subordinação, na hipótese de exercício em nome próprio dos atos 
possessórios”. Exemplificando, se desaparecer o vínculo de dependência de um 
contrato de trabalho, sendo celebrado expressamente um contrato de locação entre ex-
patrão e ex-empregado, não haverá mais mera detenção, mas posse, desdobrada em 
direta e indireta. A partir de então, o novo locatário poderá desfrutar de todos os efeitos 
materiais e processuais decorrentes do novo instituto que surge. 
 
Art. 1.199. Se duas ou mais pessoas possuírem coisa indivisa, poderá cada uma 
exercer sobre ela atos possessórios, contanto que não excluam os dos outros 
compossuidores. 
 
Art. 1.200. É justa a posse que não for violenta, clandestina ou precária. 
 
Classificação quanto à presença de vícios objetivos (art. 1.200 do CC): 
a) Posse justa – é a que não apresenta os vícios da violência, da clandestinidade ou da 
precariedade, sendo uma posse limpa. 
b) Posse injusta – apresenta os referidos vícios, pois foi adquirida por meio de ato de 
violência, ato clandestino ou de precariedade, nos seguintes termos: 
- Posse violenta – é a obtida por meio de esbulho, for força física ou violência moral 
(vis). A doutrina tem o costume de associá-la ao crime de roubo. Exemplo: movimento 
popular invade violentamente, removendo e destruindo obstáculos, uma propriedade 
rural produtiva, que está sendo utilizada pelo proprietário, cumprindo a sua função 
social. 
- Posse clandestina – é a obtida às escondidas, de forma oculta, à surdina, na calada 
da noite (clam). É assemelhada ao crime de furto. Exemplo: movimento popular invade, 
à noite e sem violência, uma propriedade rural que está sendo utilizada pelo 
proprietário, cumprindo a sua função social. 
 10 
- Posse precária – é a obtida com abuso de confiança ou de direito (precario). Tem 
forma assemelhada ao crime de estelionato ou à apropriação indébita, sendo também 
denominada esbulho pacífico. Exemplo: locatário de um bem móvel que não devolve o 
veículo ao final do contrato. 
Art. 1.201. É de boa-fé a posse, se o possuidor ignora o vício, ou o obstáculo que 
impede a aquisição da coisa. 
Parágrafo único. O possuidor com justo título tem por si a presunção de boa-fé, salvo 
prova em contrário, ou quando a lei expressamente não admite esta presunção. 
Classificação quanto à à boa-fé subjetiva ou intencional (art. 1.201 do CC): 
a) Posse de boa-fé – presente quando o possuidor ignora os vícios ou os obstáculos 
que lhe impedem a aquisição da coisa ou quando tem um justo título que fundamente a 
sua posse. Orlando Gomes a divide em posse de boa-fé real quando “a convicção do 
possuidor se apoia em elementos objetivos tão evidentes que nenhuma dúvida pode 
ser suscitada quanto à legitimidade de sua aquisição” e posse de boa-fé presumida 
“quando o possuidor tem o justo título”. 
b) Posse de má-fé – situação em que alguém sabe do vício que acomete a coisa, mas 
mesmo assim pretende exercer o domínio fático sobre esta. Neste caso, o possuidor 
nunca possui um justo título. De qualquer modo, ainda que de má-fé, esse possuidor 
não perde o direito de ajuizar a ação possessória competente para proteger-se de um 
ataque de terceiro. 
 
Art. 1.202. A posse de boa-fé só perde este caráter no caso e desde o momento em 
que as circunstâncias façam presumir que o possuidor não ignora que possui 
indevidamente. 
 
Art. 1.203. Salvo prova em contrário, entende-se manter a posse o mesmo caráter com 
que foi adquirida. 
 
CAPÍTULO II 
Da Aquisição da Posse 
 11 
Art. 1.204. Adquire-se a posse desde o momentoem que se torna possível o exercício, 
em nome próprio, de qualquer dos poderes inerentes à propriedade. 
Há formas de aquisição originárias, em que há um contato direto entre a pessoa 
e a coisa; e formas de aquisição derivadas, em que há uma intermediação pessoal. 
Como forma originária, o exemplo típico se dá no ato de apreensão de bem móvel, 
quando a coisa não tem dono (res nullius) ou for abandonada (res derelictae). Como 
forma derivada, o caso mais importante envolve a tradição, que vem a ser a entrega da 
coisa, principal forma de aquisição da propriedade móvel. A partir das construções de 
Washington de Barros Monteiro, classifica-se a tradição da seguinte forma: 
a) Tradição real – dá-se pela entrega efetiva ou material da coisa, como ocorre na 
entrega do veículo pela concessionária em uma compra e venda. 
b) Tradição simbólica – há um ato representativo da transferência da coisa como, por 
exemplo, a entrega das chaves de um apartamento. É o que ocorre na traditio longa 
manu, em que a coisa a ser entregue é colocada à disposição da outra parte. 
Ilustrando, o CC/2002 passou a disciplinar, como cláusula especial da compra e venda, 
a venda sobre documentos, em que a entrega efetiva do bem móvel é substituída pela 
entrega de documento correspondente à propriedade (arts. 529 a 532 do CC). 
c) Tradição ficta – é aquela que se dá por presunção, como ocorre na traditio brevi 
manu, em que o possuidor possuía em nome alheio e agora passa a possuir em nome 
próprio (o exemplo típico é o do locatário que compra o imóvel, passando a ser o 
proprietário). Também há tradição ficta no constituto possessório ou cláusula constituti, 
em que o possuidor possuía em nome próprio e passa a possuir em nome alheio (o 
caso do proprietário que vende o imóvel e nele permanece como locatário). 
Art. 1.205. A posse pode ser adquirida: 
I - pela própria pessoa que a pretende ou por seu representante; 
II - por terceiro sem mandato, dependendo de ratificação. 
O dispositivo, quando confrontado com o art. 494 do CC/1916, seu 
correspondente, apresenta uma insuficiência, pela não menção ao constituto 
possessório. Para completar, na I Jornada de Direito Civil, aprovou-se o Enunciado n. 
77, prevendo que “A posse das coisas móveis e imóveis também pode ser transmitida 
pelo constituto possessório”. 
 12 
Em havendo a aquisição ou transmissão da posse pelo constituto possessório, 
não restam dúvidas de que o novo possuidor poderá defender-se por meio das ações 
possessórias, como entende o STJ (REsp 173.183/TO, Quarta Turma, Rel. Min. Ruy 
Rosado de Aguiar, j. 01.09.1998, DJ 19.10.1998, p. 110). 
 
Art. 1.206. A posse transmite-se aos herdeiros ou legatários do possuidor com os 
mesmos caracteres. 
 
Trata-se de expressão do princípio da continuidade do caráter da posse que, em 
regra, mantém os mesmos atributos da sua aquisição. 
 
Art. 1.207. O sucessor universal continua de direito a posse do seu antecessor; e ao 
sucessor singular é facultado unir sua posse à do antecessor, para os efeitos legais. 
 
A lei diferencia dois tipos de sucessão: a universal (nos casos de herança 
legítima) e a singular (nos casos de compra e venda, doação ou legado). 
No primeiro caso, a lei prevê a continuidade; no segundo, a união de posses 
(acessão). A sucessão de posses é imperativa; a união, facultativa, enquanto na 
singular é facultado unir sua posse à precedente. Sendo, nesta última hipótese, uma 
faculdade, o possuidor atual só usará se lhe convier, limitando-se à sua posse quando 
do se interesse”.Sintetizando, quanto à defesa possessória, tanto o sucessor universal 
quanto o singular poderão defendê-la, em continuidade ou acessão à posse anterior. 
 
Art. 1.208. Não induzem posse os atos de mera permissão ou tolerância assim como 
não autorizam a sua aquisição os atos violentos, ou clandestinos, senão depois de 
cessar a violência ou a clandestinidade. 
 
Obviamente, o princípio da continuidade do caráter da posse não é absoluto, 
podendo ser mitigado. Como salienta Maria Helena Diniz, há uma presunção relativa 
(iuris tantum) de que a posse mantém o seu caráter e não uma presunção absoluta ou 
iure et de iure. Repise-se que, pela conjugação desse dispositivo com o art. 924 do 
CPC, a posse adquirida com injustiça pode passar a ser justa, após um ano e um dia, 
desde que violenta ou clandestina, segundo a corrente majoritária. 
Esclareça-se que, pela redação do art. 1.208 da codificação, pode parecer que a 
posse injusta não constitui posse, mas detenção. Na opinio deste autor, não parece ser 
 13 
essa a melhor conclusão, pois a posse injusta é posse como se retira da sua própria 
nomenclatura, bem como do art. 1.200 do CC. 
 
Art. 1.209. A posse do imóvel faz presumir, até prova contrária, a das coisas móveis 
que nele estiverem. 
 
Em regra, havendo transmissão da posse de um imóvel (bem principal), também 
haverá a transmissão dos móveis que o guarnecem (bem acessório) – aplicação do 
princípio da gravitação jurídica, pelo qual o acessório segue o principal. 
CAPÍTULO III 
Dos Efeitos da Posse 
Art. 1.210. O possuidor tem direito a ser mantido na posse em caso de turbação, 
restituído no de esbulho, e segurado de violência iminente, se tiver justo receio de ser 
molestado. 
Como se pode perceber, no caso de ameaça, a ação de interdito proibitório visa 
à proteção do possuidor de perigo iminente. No caso de turbação, a ação de 
manutenção de posse visa a sua preservação. Por fim, no caso de esbulho, a ação de 
reintegração de posse almeja a sua devolução. 
Pois bem, três são as situações concretas que possibilitam a propositura de três 
ações correspondentes, apesar da falta de rigidez processual quanto às medidas 
judiciais cabíveis: 
 
- No caso de ameaça à posse (risco de atentado à posse) = caberá ação de interdito 
proibitório. 
- No caso de turbação (atentados fracionados à posse) = caberá ação de manutenção 
de posse. 
- No caso de esbulho (atentado consolidado à posse) = caberá ação de reintegração de 
posse. 
 
Do ponto de vista prático, esclareça-se que, no caso de invasão parcial de um 
terreno, a ação cabível não é a de manutenção de posse, mas a de reintegração, 
conforme o correto entendimento jurisprudencial (nesse sentido, ver: TJMG, Agravo 
1.0024.05.811922-3/001, Belo Horizonte, Décima Quinta Câmara Cível, Rel. Des. 
 14 
Guilherme Luciano Baeta Nunes, j. 20.07.2006, DJMG 05.09.2006; TJSP, Agravo de 
Instrumento 592.232-5/0, São Paulo, Décima Câmara de Direito Público, Rel. Teresa 
Ramos Marques, j. 06.11.2006, v.u., Voto 5.333). 
De qualquer forma, as diferenças práticas em relação às três ações pouco 
interessam, uma vez que o art. 920 do CPC consagra a fungibilidade total entre as três 
medidas, nos seguintes termos: “A propositura de uma ação possessória em vez de 
outra não obstará a que o juiz conheça do pedido e outorgue a proteção legal 
correspondente àquela, cujos requisitos estejam provados”. 
Pois bem, é preciso relacionar as ações possessórias à classificação da posse 
quanto ao tempo: 
 
- Se a ameaça, a turbação e o esbulho forem novos, ou seja, tiverem menos de um ano 
e um dia, caberá a ação de força nova: o respectivo interdito possessório seguirá o rito 
especial, cabendo liminar nessa ação. 
- Se a ameaça, a turbação e o esbulho forem velhos, com pelo menos um ano e um 
dia, caberá ação de força velha, que segue o rito ordinário, não cabendo a respectiva 
liminar. 
 
§ 1o O possuidor turbado, ou esbulhado, poderá manter-se ou restituir-se por sua 
própria força, contanto que o faça logo; os atos de defesa, ou de desforço, não podem 
ir além do indispensável à manutenção, ou restituição da posse. 
§ 2oNão obsta à manutenção ou reintegração na posse a alegação de propriedade, ou 
de outro direito sobre a coisa. 
A legítima defesa da posse e o desforço imediato constituem formas de 
autotutela, autodefesa ou de defesa direta, independentemente de ação judicial, 
cabíveis ao possuidor direto ou indireto contra as agressões de terceiro. Nos casos de 
ameaça e turbação, em que o atentado à posse não foi definitivo, cabe a legítima 
defesa. Havendo esbulho, a medida cabível é o desforço imediato, visando à retomada 
do bem esbulhado. Em todas as hipóteses, observe-se que esses institutos de 
autodefesa apresentam alguns requisitos, que devem ser respeitados, para que a 
atuação seja lícita: 
1.º – A defesa deve ser imediata, ou seja, incontinenti, conclusão a ser retirada da 
análise do caso concreto. A título de exemplo e obviamente, uma defesa praticada 
 15 
após um ano e um dia não é imediata, não cabendo a utilização dos institutos de 
proteção própria. Ainda ilustrando, se o possuidor deixa que o esbulhador construa 
uma cerca divisória, pelo menos aparentemente, não tomou as medidas imediatas que 
lhe cabiam. Sobre tal requisito do imediatismo, foi aprovado enunciado na V Jornada 
de Direito Civil, em 2011, propondo uma interpretação restritiva do preceito: “No 
desforço possessório, a expressão ‘contanto que o faça logo’ deve ser entendida 
restritivamente, apenas como a reação imediata ao fato do esbulho ou da turbação, 
cabendo ao possuidor recorrer à via jurisdicional nas demais hipóteses”. (Enunciado n. 
495 do CJF/STJ). 
2.º – O possuidor que toma as medidas de autotutela não pode ir além do 
indispensável para a recuperação de sua posse. Deve agir nos limites do exercício 
regular desse direito, servindo como parâmetro o art. 187 do CC, que prevê o abuso de 
direito como ato ilícito. Os parâmetros, portanto, são aqueles previstos no dispositivo 
da codificação: fim social, fim econômico, boa-fé objetiva e bons costumes. Devem ser 
evitados ao máximo os abusos cometidos, sob pena de sacrifício dos institutos, o que, 
aliás, ocorre nas violentas invasões de terra que são praticadas no Brasil e as violentas 
(mais ainda) reprimendas por parte dos proprietários e possuidores, o que tem tornado 
o meio rural brasileiro um verdadeiro campo de batalha, habitado por inúmeras milícias 
armadas. 
3.º – A lei está a autorizar que o possuidor que faz uso da autotutela utilize o apoio de 
empregados ou prepostos. Isso porque o art. 1.210, § 1.º, do CC faz menção à força 
própria, que inclui o auxílio de terceiros, com quem mantém vínculos. Sendo 
reconhecida essa possibilidade, é importante concluir que se o preposto, empregado 
ou serviçal, na defesa dessa posse e seguindo as ordens do possuidor, causar danos a 
outrem, responderá o comitente, empregador ou senhorio, nos termos dos arts. 932 e 
933 do CC. A responsabilidade do possuidor é objetiva (independentemente de culpa), 
desde que comprovada a culpa daquele por quem se é responsável – responsabilidade 
objetiva indireta ou por atos de outrem. 
 
Art. 1.211. Quando mais de uma pessoa se disser possuidora, manter-se-á 
provisoriamente a que tiver a coisa, se não estiver manifesto que a obteve de alguma 
das outras por modo vicioso. 
 
O dispositivo trata do possuidor aparente, que manterá a coisa enquanto se 
discute em sede de ação possessória ou petitória quem é o seu possuidor ou 
 16 
proprietário de direito. Porém, pelo próprio dispositivo, se for demonstrado que o 
possuidor aparente tem a coisa com um vício, seja objetivo ou subjetivo, poderá esta 
lhe ser retirada. 
 
Art. 1.212. O possuidor pode intentar a ação de esbulho, ou a de indenização, contra o 
terceiro, que recebeu a coisa esbulhada sabendo que o era. 
 
A norma civil abre a possibilidade de o possuidor que sofreu o atentado definitivo 
à posse ingressar com ação de reintegração de posse ou com ação de reparação de 
danos contra o terceiro que estiver com a coisa. 
 
Art. 1.213. O disposto nos artigos antecedentes não se aplica às servidões não 
aparentes, salvo quando os respectivos títulos provierem do possuidor do prédio 
serviente, ou daqueles de quem este o houve. 
Art. 1.214. O possuidor de boa-fé tem direito, enquanto ela durar, aos frutos 
percebidos. 
Parágrafo único. Os frutos pendentes ao tempo em que cessar a boa-fé devem ser 
restituídos, depois de deduzidas as despesas da produção e custeio; devem ser 
também restituídos os frutos colhidos com antecipação. 
Ilustrando, um locatário está em um imóvel urbano e, no fundo deste, há uma 
mangueira. Enquanto vigente o contrato, o locatário, possuidor de boa-fé amparado 
pelo justo título, terá direito às mangas colhidas, ou seja, percebidas. Se o contrato for 
extinto quando as mangas ainda estiverem verdes (frutos pendentes), não poderão ser 
colhidas, pois são do locador proprietário. Se colhidas ainda verdes, devem ser 
devolvidas ao último, sem prejuízo de eventuais perdas e danos que couberem por 
este mau colhimento. 
 
Art. 1.215. Os frutos naturais e industriais reputam-se colhidos e percebidos, logo que 
são separados; os civis reputam-se percebidos dia por dia. 
 
Ilustrando, a manga é tida como colhida quando separada da mangueira; os 
juros são percebidos nos exatos vencimentos dos rendimentos, como é comum em 
cadernetas de poupança. 
 17 
 
Art. 1.216. O possuidor de má-fé responde por todos os frutos colhidos e percebidos, 
bem como pelos que, por culpa sua, deixou de perceber, desde o momento em que se 
constituiu de má-fé; tem direito às despesas da produção e custeio. 
 
A ilustrar, se um invasor de um imóvel colhe as mangas da mangueira do 
terreno, deverá indenizá-las, mas será ressarcido pelas despesas realizadas com a 
colheita. Por outra via, se deixaram de ser colhidas e, em razão disso, vierem a 
apodrecer, o possuidor também será responsabilizado. 
Art. 1.217. O possuidor de boa-fé não responde pela perda ou deterioração da coisa, a 
que não der causa. 
Assim sendo, a responsabilidade do possuidor de boa-fé, quanto à coisa, 
depende da comprovação da culpa em sentido amplo (responsabilidade subjetiva). 
Art. 1.218. O possuidor de má-fé responde pela perda, ou deterioração da coisa, ainda 
que acidentais, salvo se provar que de igual modo se teriam dado, estando ela na 
posse do reivindicante. 
Por outro lado, a responsabilidade do possuidor de má-fé é objetiva, 
independentemente de culpa, a não ser que prove que a coisa se perderia mesmo se 
estivesse com o reivindicante. O dispositivo acaba prevendo a responsabilidade do 
possuidor de má-fé mesmo por caso fortuito (evento totalmente imprevisível) ou força 
maior (evento previsível, mas inevitável). 
Para ilustrar, na situação do comodatário (possuidor de boa-fé), este somente 
responderá pela perda da coisa havendo dolo ou culpa. Não pode responder, por 
exemplo, pelo assalto do veículo à mão armada, levando o criminoso o bem consigo. 
Já o criminoso que leva a coisa (possuidor de má fé) responde por ela, se for atingida 
por um objeto em local onde não estaria o proprietário ou possuidor. 
Art. 1.219. O possuidor de boa-fé tem direito à indenização das benfeitorias 
necessárias e úteis, bem como, quanto às voluptuárias, se não lhe forem pagas, a 
levantá-las, quando o puder sem detrimento da coisa, e poderá exercer o direito de 
retenção pelo valor das benfeitorias necessárias e úteis. 
 18 
Repise-se que, nos termos do art. 96 do CC, as benfeitorias podem ser 
necessárias (as essenciais, pois visam à conservação da coisa principal), úteis 
(aumentam ou facilitam o uso da coisa principal) e voluptuárias (de mero luxo ou 
deleite, pois facilitam a utilidade da coisa principal).Vejamos as três consequências da norma, de forma pontual: 
1ª O possuidor de boa-fé tem direito à indenização por benfeitorias necessárias e úteis. 
Ilustrando, vigente um comodato de um imóvel, o comodatário terá direito de 
indenização pela reforma do telhado (benfeitoria necessária) e pela grade da janela 
(benfeitoria útil). 
2ª O possuidor de boa-fé não indenizado tem direito à retenção dessas benfeitorias 
(necessárias e úteis), o ius retentionis, que persiste até que receba o que lhe é devido. 
3ª No tocante às benfeitorias voluptuárias, o possuidor de boa-fé tem direito ao seu 
levantamento, se não forem pagas, desde que isso não gere prejuízo à coisa (direito de 
tolher, ou ius tollendi). Exemplificando, vigente o empréstimo de um imóvel, se o 
comodatário introduziu um telhado na churrasqueira, que pode ser removido, não 
sendo essa benfeitoria paga, poderá levá-la embora, pois a retirada não desvaloriza o 
imóvel. O mesmo raciocínio não vale para uma piscina construída no imóvel, pois a sua 
retirada gerará um prejuízo ao principal. Somente as piscinas removíveis podem ser 
retiradas, como aquelas de plástico para brincadeira das crianças. 
 Cumpre destacar que, no tocante à locação de imóvel urbano, há regras 
específicas relativas às benfeitorias previstas nos arts. 35 e 36 da Lei 8.245/1991. De 
início, dispõe o art. 35 da Lei de Locação que, salvo expressa disposição contratual em 
contrário, as benfeitorias necessárias introduzidas pelo locatário, ainda que não 
autorizadas pelo locador, bem como as úteis, estas desde que autorizadas, são 
indenizáveis e permitem o direito de retenção. As benfeitorias voluptuárias não são 
indenizáveis, podendo ser levantadas pelo locatário, finda a locação, desde que a sua 
retirada não afete a estrutura e a substância do imóvel (art. 36 da Lei 8.245/1991). 
Percebe-se que a primeira regra quanto ao locatório é de ordem privada, pois tal 
disposição pode ser deliberada de modo diverso no contrato de locação, renunciando o 
locatário a tais benfeitorias, segundo previsão do próprio art. 35 da Lei 8.245/1991. No 
mesmo sentido, a Súmula 335 do STJ reconhece a possibilidade de renúncia a tais 
benfeitorias na locação. Porém, repise-se que se a renúncia às benfeitorias 
necessárias constar em contrato de adesão, a cláusula de renúncia será nula, o que é 
aplicação do art. 424 do CC, dispositivo pelo qual, nos contratos de adesão, serão 
nulas de pleno direito as cláusulas que implicam a renúncia antecipada do aderente a 
 19 
um direito resultante da natureza do negócio (Enunciado n. 433 do CJF/STJ, da V 
Jornada de Direito Civil, de 2011). 
Art. 1.220. Ao possuidor de má-fé serão ressarcidas somente as benfeitorias 
necessárias; não lhe assiste o direito de retenção pela importância destas, nem o de 
levantar as voluptuárias. 
O possuidor de má-fé não tem qualquer direito de retenção ou de levantamento. 
Com relação à indenização, assiste-lhe somente direito quanto às benfeitorias 
necessárias. 
Art. 1.221. As benfeitorias compensam-se com os danos, e só obrigam ao 
ressarcimento se ao tempo da evicção ainda existirem. 
 O comando possibilita, portanto, que as benfeitorias necessárias a que teria 
direito o possuidor de má-fé sejam compensadas com os danos sofridos pelo 
reivindicante, hipótese de compensação legal, pela reciprocidade de dívidas. 
Entretanto, se a benfeitoria não mais existia quando a coisa se perdeu, não há que se 
falar em compensação e muito menos em indenização. A norma está inspirada na 
vedação do enriquecimento sem causa. 
Art. 1.222. O reivindicante, obrigado a indenizar as benfeitorias ao possuidor de má-fé, 
tem o direito de optar entre o seu valor atual e o seu custo; ao possuidor de boa-fé 
indenizará pelo valor atual. 
A norma acaba dando tratamento diferenciado em relação aos possuidores de 
boa e má-fé, o que motivou críticas doutrinárias no passado, particularmente de Clóvis 
Beviláqua. De qualquer modo, o tratamento diferenciado deve ser observado e também 
tem a sua razão de ser. Ilustrando, o proprietário que ingressou com a ação de 
reintegração de posse contra o comodatário (possuidor de boa-fé) indenizará este pelo 
valor atual das benfeitorias necessárias e úteis. Se a ação possessória foi proposta 
contra o invasor do imóvel (possuidor de má-fé), o autor poderá optar entre pagar o 
valor atual ou o de custo, aquilo que lhe for mais interessante. 
CAPÍTULO IV 
Da Perda da Posse 
 20 
Art. 1.223. Perde-se a posse quando cessa, embora contra a vontade do possuidor, o 
poder sobre o bem, ao qual se refere o art. 1.196. 
Em suma, cessando os atributos relativos à propriedade, cessa a posse, que é 
perdida, extinta. O art. 520 do CC/1916, ao contrário, previa expressamente os casos 
de perda da posse, que nos servem como exemplos ilustrativos (rol numerus apertus): 
- Pelo abandono da coisa (derrelição), fazendo surgir a coisa abandonada (res 
derelictae). 
- Pela tradição, entrega da coisa, que pode ser real, simbólica ou ficta. 
- Pela perda ou destruição da coisa possuída. 
- Se a coisa for colocada fora do comércio, isto é, se for tratada como bem inalienável 
(inconsutibilidade jurídica – art. 86 do CC). 
- Pela posse de outrem, ainda que contra a vontade do possuidor, se este não foi 
mantido, ou reintegrado à posse, em tempo competente. 
- Pelo constituto possessório ou cláusula constituti, hipótese em que a pessoa possuía 
o bem em nome próprio e passa a possuir em nome alheio (forma de aquisição e perda 
da posse, ao mesmo tempo). 
Art. 1.224. Só se considera perdida a posse para quem não presenciou o esbulho, 
quando, tendo notícia dele, se abstém de retornar a coisa, ou, tentando recuperá-la, é 
violentamente repelido. 
A norma mantém relação com a boa-fé objetiva, particularmente com a perda de 
um direito ou de posição jurídica pelo seu não exercício no tempo (supressio). Isso 
porque o possuidor que não toma as medidas cabíveis ao ter conhecimento do esbulho 
não pode, após isso, insurgir-se contra o ato de terceiro. A lei acaba por presumir que a 
sua posse está perdida, admitindo-se, obviamente, prova em contrário. 
TÍTULO II 
Dos Direitos Reais 
CAPÍTULO ÚNICO 
Disposições Gerais 
Art. 1.225. São direitos reais: 
I - a propriedade; 
II - a superfície; 
III - as servidões; 
 21 
IV - o usufruto; 
V - o uso; 
VI - a habitação; 
VII - o direito do promitente comprador do imóvel; 
VIII - o penhor; 
IX - a hipoteca; 
X - a anticrese. 
XI - a concessão de uso especial para fins de moradia; (Incluído pela Lei nº 
11.481, de 2007) 
XII - a concessão de direito real de uso; e (Redação dada pela Lei nº 13.465, de 
2017) 
XIII - a laje. (Incluído pela Lei nº 13.465, de 2017) 
 
Art. 1.226. Os direitos reais sobre coisas móveis, quando constituídos, ou transmitidos 
por atos entre vivos, só se adquirem com a tradição. 
 
Art. 1.227. Os direitos reais sobre imóveis constituídos, ou transmitidos por atos entre 
vivos, só se adquirem com o registro no Cartório de Registro de Imóveis dos referidos 
títulos (arts. 1.245 a 1.247), salvo os casos expressos neste Código. 
 
Dos Direitos Reais de Garantia 
 
Encerrando o livro do Direito das Coisas, o CC/2002 trata dos direitos reais de 
garantia sobre coisa alheia. Não se pode esquecer que os direitos reais de garantia 
não se confundem com as garantias pessoais ou fidejussórias, eis que no primeiro 
caso um bem garante a dívida por vínculo real (art. 1.419 do CC); enquanto que no 
último a dívida é garantida por uma pessoa (exemplo: fiança). Como garantias que são, 
os institutos têm nítida natureza acessória, aplicando-se o princípio da gravitação 
jurídica (o acessório segue o principal).São direitos reais de garantia sobre coisa alheia o penhor, a hipoteca e a 
anticrese, que têm regras gerais entre os arts. 1.419 e 1.430 do CC. Seguem, após 
 22 
essa teoria geral dos direitos reais de garantia, as suas regras específicas e 
detalhadas. Como forma de garantia real, há ainda a alienação fiduciária em garantia, 
que constitui um direito real de garantia sobre coisa própria, com tratamento em leis 
esparsas (DL 911/1969 e Lei 9.514/1997). 
 
Art. 1.419. Nas dívidas garantidas por penhor, anticrese ou hipoteca, o bem dado em 
garantia fica sujeito, por vínculo real, ao cumprimento da obrigação. 
Art. 1.420. Só aquele que pode alienar poderá empenhar, hipotecar ou dar em 
anticrese; só os bens que se podem alienar poderão ser dados em penhor, anticrese 
ou hipoteca. 
§ 1o A propriedade superveniente torna eficaz, desde o registro, as garantias reais 
estabelecidas por quem não era dono. 
§ 2o A coisa comum a dois ou mais proprietários não pode ser dada em garantia real, 
na sua totalidade, sem o consentimento de todos; mas cada um pode individualmente 
dar em garantia real a parte que tiver. 
 
Quanto ao requisito subjetivo, pode-se dizer que somente quem é proprietário 
poderá oferecer o bem em garantia real. Não se pode esquecer que se o proprietário 
for casado, haverá necessidade de outorga conjugal (uxória ou marital) – em regra e 
salvo no regime da separação absoluta de bens –, para que o seu imóvel seja 
hipotecado ou oferecido em anticrese (art. 1.647, I, do CC). Isso, sob pena de 
anulabilidade do ato de constrição (art. 1.649). Além disso, exige-se a capacidade 
genérica para os atos de alienação. 
No que concerne ao requisito objetivo, o bem oferecido em penhor, hipoteca ou 
anticrese deve ser alienável, ou seja, deve estar presente a consuntibilidade jurídica, 
nos termos da segunda parte do art. 86 do CC. Por isso, se um bem inalienável é 
oferecido em garantia haverá nulidade desta, por impossibilidade do objeto ou fraude à 
lei imperativa (art. 166, II ou VI, do CC). Para ilustrar, não pode ser objeto de hipoteca o 
bem de família convencional, previsto entre os arts. 1.711 a 1.722 do CC, por ser 
inalienável. Por outra via, o bem de família legal (Lei 8.009/1990) pode ser hipotecado, 
por ser apenas impenhorável. 
Pois bem, a respeito das características básicas dos direitos reais de garantia 
sobre coisa alheia, pode-se montar mais um acróstico que indica os seus efeitos: 
- Sequela – Representada pela seguinte máxima: para onde o bem vai, o direito real de 
garantia o acompanha. Desse modo, se um bem garantido é vendido, o direito real de 
 23 
garantia permanece, servindo para exemplificar: “Compra de salas comerciais. 
Hipoteca. Direito à sequela. 1. Não se tratando de aquisição de casa própria pelo 
Sistema Financeiro da Habitação, que dispõe de legislação protetiva especial, não há 
como dispensar o direito do credor hipotecário à sequela, tal e qual estampado na 
legislação civil. 2. Recurso especial conhecido e provido” (STJ, REsp 651.323/GO, Rel. 
Min. Carlos Alberto Menezes Direito, 3.ª Turma, j. 07.06.2005, DJ 29.08.2005, p. 335). 
 
Art. 1.421. O pagamento de uma ou mais prestações da dívida não importa exoneração 
correspondente da garantia, ainda que esta compreenda vários bens, salvo disposição 
expressa no título ou na quitação. 
 
- Indivisibilidade – O pagamento de uma ou mais prestações da dívida não importa 
exoneração correspondente da garantia, ainda que esta compreenda vários bens, salvo 
disposição expressa no título ou na quitação (art. 1.421 do CC). Sendo assim, mesmo 
sendo paga parcialmente a dívida, o direito real permanece incólume, em regra, salvo 
previsão em contrário na sua instituição ou quando do pagamento. Além disso, 
conforme decisão do STJ, “não pode a penhora, em execução movida a um dos 
coproprietários, recair sobre parte dele. Sendo indivisível o bem, importa indivisibilidade 
da garantia real” (STJ, REsp 282.478/SP, Rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, 3.ª 
Turma, j. 18.04.2002, DJ 28.10.2002, p. 309). 
 
Art. 1.422. O credor hipotecário e o pignoratício têm o direito de excutir a coisa 
hipotecada ou empenhada, e preferir, no pagamento, a outros credores, observada, 
quanto à hipoteca, a prioridade no registro. 
Parágrafo único. Excetuam-se da regra estabelecida neste artigo as dívidas que, em 
virtude de outras leis, devam ser pagas precipuamente a quaisquer outros créditos. 
 
- Preferência – Conforme o art. 1.422 do CC o credor hipotecário e o pignoratício têm 
preferência no pagamento a outros credores, observada, quanto à hipoteca, a 
prioridade no registro. Nos termos do seu parágrafo único, excetuam-se dessa regra as 
dívidas que, em virtude de outras leis, devam ser pagas precipuamente a quaisquer 
outros créditos. Para ilustrar, nos termos do art. 83 da Lei de Falências (Lei 
11.101/2005), a classificação dos créditos na falência obedece à seguinte ordem: 1.º) 
os créditos derivados da legislação do trabalho, limitados a cento e cinquenta salários-
mínimos por credor, e os decorrentes de acidentes de trabalho; 2.º) créditos com 
 24 
garantia real até o limite do valor do bem gravado. Em suma, na falência, o crédito 
trabalhista prevalece na ordem sobre o crédito real de garantia. Além disso, editou o 
Superior Tribunal de Justiça recente súmula, prescrevendo que “Na execução de 
crédito relativo a cotas condominiais, este tem preferência sobre o hipotecário” (Súmula 
478 do STJ, de junho de 2012). Anote-se que tal pensamento já era adotado pela 
própria Corte Superior e por Tribunais Estaduais, estando amparado na ideia de função 
social da propriedade inerente à vida comunitária em condomínio. 
 
Art. 1.423. O credor anticrético tem direito a reter em seu poder o bem, enquanto a 
dívida não for paga; extingue-se esse direito decorridos quinze anos da data de sua 
constituição. 
 
- Excussão – O credor hipotecário e o pignoratício têm o direito de excutir a coisa 
hipotecada ou empenhada (art. 1.422 do CC). Desse modo, pode o referido credor 
ingressar com a ação de execução pignoratícia ou hipotecária para promover a 
alienação judicial da coisa garantida, visando a receber o seu crédito que tem garantia. 
Consigne-se que o credor anticrético não tem tal direito, podendo apenas reter em seu 
poder o bem, enquanto a dívida não for paga (art. 1.423 do CC). Esse direito do credor 
anticrético é extinto decorridos quinze anos da data de sua constituição (perempção da 
anticrese). Enuncia o art. 1.428 do CC que é nula a cláusula que autoriza o credor 
pignoratício, anticrético ou hipotecário a ficar com o objeto da garantia, se a dívida não 
for paga no vencimento. Ademais, após o vencimento, poderá o devedor dar a coisa 
em pagamento da dívida. O último comando consagra a nulidade absoluta do pacto 
comissório real, que vem a ser a cláusula que autoriza o credor de um direito real de 
garantia a ficar com o bem sem levá-lo a excussão. Destaque-se que para a 
jurisprudência superior a nulidade do pacto comissório prevalece sobre a nulidade da 
simulação: 
“Escritura de compra e venda. Coação. Empréstimo em dinheiro 
garantido por imóveis. Pacto comissório. Precedentes da Corte. 
(...). Antigo precedente da Corte assentou que existente pacto 
comissório, ‘disfarçado por simulação, não se pode deixar de 
proclamar a nulidade, não pelo vício da simulação, mas em 
virtude de aquela avença não ser tolerada pelo direito’ (REsp nº 
21.681/SP, Terceira Turma, Relator o Ministro Eduardo Ribeiro, 
DJ de 03/08/1992). 3. Recurso especial não conhecido” (STJ, 
 25 
REsp 784.273/GO, Rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, 3.ª 
Turma, j. 12.12.2006, DJ 26.02.2007,p. 586). 
 
Art. 1.424. Os contratos de penhor, anticrese ou hipoteca declararão, sob pena de não 
terem eficácia: 
I - o valor do crédito, sua estimação, ou valor máximo; 
II - o prazo fixado para pagamento; 
III - a taxa dos juros, se houver; 
IV - o bem dado em garantia com as suas especificações. 
Art. 1.425. A dívida considera-se vencida: 
I - se, deteriorando-se, ou depreciando-se o bem dado em segurança, desfalcar a 
garantia, e o devedor, intimado, não a reforçar ou substituir; 
II - se o devedor cair em insolvência ou falir; 
III - se as prestações não forem pontualmente pagas, toda vez que deste modo se 
achar estipulado o pagamento. Neste caso, o recebimento posterior da prestação 
atrasada importa renúncia do credor ao seu direito de execução imediata; 
IV - se perecer o bem dado em garantia, e não for substituído; 
V - se se desapropriar o bem dado em garantia, hipótese na qual se depositará a parte 
do preço que for necessária para o pagamento integral do credor. 
§ 1o Nos casos de perecimento da coisa dada em garantia, esta se sub-rogará na 
indenização do seguro, ou no ressarcimento do dano, em benefício do credor, a quem 
assistirá sobre ela preferência até seu completo reembolso. 
§ 2o Nos casos dos incisos IV e V, só se vencerá a hipoteca antes do prazo estipulado, 
se o perecimento, ou a desapropriação recair sobre o bem dado em garantia, e esta 
não abranger outras; subsistindo, no caso contrário, a dívida reduzida, com a 
respectiva garantia sobre os demais bens, não desapropriados ou destruídos. 
Art. 1.426. Nas hipóteses do artigo anterior, de vencimento antecipado da dívida, não 
se compreendem os juros correspondentes ao tempo ainda não decorrido. (ISSO POR 
RAZÔES ÓBVIAS, NÃO SE PODE ADMITIR O ENRIQUECIMENTO SEM CAUSA). 
Art. 1.427. Salvo cláusula expressa, o terceiro que presta garantia real por dívida alheia 
não fica obrigado a substituí-la, ou reforçá-la, quando, sem culpa sua, se perca, 
deteriore, ou desvalorize. 
 
Admite-se que terceiro preste garantia real por dívida alheia, como é o caso do 
pai que oferece um imóvel seu para garantir dívida de seu filho (art. 1.427 do CC). 
 26 
Conforme leciona Sílvio de Salvo Venosa, “Trata-se da figura do interveniente 
hipotecante ou empenhante, utilizado com certa frequência”. Em situações tais, salvo 
cláusula expressa, o terceiro interveniente não fica obrigado a substituí-la, ou reforçá-
la, quando, sem culpa sua, se perca, deteriore, ou desvalorize. 
 
Art. 1.428. É nula a cláusula que autoriza o credor pignoratício, anticrético ou 
hipotecário a ficar com o objeto da garantia, se a dívida não for paga no vencimento. 
Parágrafo único. Após o vencimento, poderá o devedor dar a coisa em pagamento da 
dívida. 
Art. 1.429. Os sucessores do devedor não podem remir parcialmente o penhor ou a 
hipoteca na proporção dos seus quinhões; qualquer deles, porém, pode fazê-lo no 
todo. 
Parágrafo único. O herdeiro ou sucessor que fizer a remição fica sub-rogado nos 
direitos do credor pelas quotas que houver satisfeito. 
Art. 1.430. Quando, excutido o penhor, ou executada a hipoteca, o produto não bastar 
para pagamento da dívida e despesas judiciais, continuará o devedor obrigado 
pessoalmente pelo restante. 
 
 
Do Penhor 
 
Como primeiro direito real de garantia sobre coisa alheia, o penhor é constituído 
sobre bens móveis (em regra), ocorrendo a transferência efetiva da posse do bem do 
devedor ao credor (também em regra). Diz-se duplamente em regra, pois, no penhor 
rural, industrial, mercantil e de veículos, as coisas empenhadas continuam em poder do 
devedor, que as deve guardar e conservar. Ademais, nem sempre o penhor recairá 
sobre coisa móvel, nos termos do que consta do art. 1.431 do CC. 
São partes do penhor: 
a) Devedor pignoratício – aquele que dá a coisa em garantia, tendo a dívida em seu 
desfavor. Pode ser o próprio devedor ou terceiro. 
b) Credor pignoratício – tem o crédito e o direito real de garantia a seu favor. 
 
Não se pode esquecer que a instituição do penhor será efetivada por 
instrumento, seja ele público ou particular. Sendo feito por instrumento particular deve 
ainda ser levado a registro, por qualquer dos contratantes, em regra, no Cartório de 
 27 
Títulos e Documentos (art. 1.432 do CC). O registro é elemento essencial para a 
constituição e eficácia real ou erga omnes do penhor. Não sendo preenchido tal 
requisito, o negócio jurídico assume feição contratual, com efeitos inter partes apenas. 
Como exemplo típico de penhor, cite-se a hipótese de alguém que quer um 
financiamento junto a Caixa Econômica Federal e que oferece joias em garantia real. 
Tais bens são entregues pelo devedor ao credor, até que a dívida seja efetivamente 
paga. Não se pode confundir o penhor (garantia real), em que os bens são 
empenhados, com a penhora (constrição judicial para garantia do processo), em que os 
bens são penhorados. 
 
CAPÍTULO II 
Do Penhor 
Seção I 
Da Constituição do Penhor 
Art. 1.431. Constitui-se o penhor pela transferência efetiva da posse que, em garantia 
do débito ao credor ou a quem o represente, faz o devedor, ou alguém por ele, de uma 
coisa móvel, suscetível de alienação. 
Parágrafo único. No penhor rural, industrial, mercantil e de veículos, as coisas 
empenhadas continuam em poder do devedor, que as deve guardar e conservar. 
Art. 1.432. O instrumento do penhor deverá ser levado a registro, por qualquer dos 
contratantes; o do penhor comum será registrado no Cartório de Títulos e Documentos. 
Seção II 
Dos Direitos do Credor Pignoratício 
Art. 1.433. O credor pignoratício tem direito: 
I - à posse da coisa empenhada; 
II - à retenção dela, até que o indenizem das despesas devidamente justificadas, que 
tiver feito, não sendo ocasionadas por culpa sua; 
III - ao ressarcimento do prejuízo que houver sofrido por vício da coisa empenhada; 
IV - a promover a execução judicial, ou a venda amigável, se lhe permitir 
expressamente o contrato, ou lhe autorizar o devedor mediante procuração; 
V - a apropriar-se dos frutos da coisa empenhada que se encontra em seu poder; 
VI - a promover a venda antecipada, mediante prévia autorização judicial, sempre que 
haja receio fundado de que a coisa empenhada se perca ou deteriore, devendo o preço 
ser depositado. O dono da coisa empenhada pode impedir a venda antecipada, 
substituindo-a, ou oferecendo outra garantia real idônea. 
 28 
Art. 1.434. O credor não pode ser constrangido a devolver a coisa empenhada, ou uma 
parte dela, antes de ser integralmente pago, podendo o juiz, a requerimento do 
proprietário, determinar que seja vendida apenas uma das coisas, ou parte da coisa 
empenhada, suficiente para o pagamento do credor. 
Seção III 
Das Obrigações do Credor Pignoratício 
Art. 1.435. O credor pignoratício é obrigado: 
I - à custódia da coisa, como depositário, e a ressarcir ao dono a perda ou deterioração 
de que for culpado, podendo ser compensada na dívida, até a concorrente quantia, a 
importância da responsabilidade; 
II - à defesa da posse da coisa empenhada e a dar ciência, ao dono dela, das 
circunstâncias que tornarem necessário o exercício de ação possessória; 
III - a imputar o valor dos frutos, de que se apropriar (art. 1.433, inciso V) nas despesas 
de guarda e conservação, nos juros e no capital da obrigação garantida, 
sucessivamente; 
IV - a restituí-la, com os respectivos frutos e acessões, uma vez paga a dívida; 
V - a entregar o que sobeje do preço, quando a dívida for paga, no caso do inciso IV do 
art. 1.433. 
Seção IV 
Da Extinção do Penhor 
Art. 1.436. Extingue-se o penhor: 
I - extinguindo-se a obrigação; 
II - perecendo a coisa;III - renunciando o credor; 
IV - confundindo-se na mesma pessoa as qualidades de credor e de dono da coisa; 
V - dando-se a adjudicação judicial, a remissão ou a venda da coisa empenhada, feita 
pelo credor ou por ele autorizada. 
§ 1o Presume-se a renúncia do credor quando consentir na venda particular do penhor 
sem reserva de preço, quando restituir a sua posse ao devedor, ou quando anuir à sua 
substituição por outra garantia. 
§ 2o Operando-se a confusão tão-somente quanto a parte da dívida pignoratícia, 
subsistirá inteiro o penhor quanto ao resto. 
Art. 1.437. Produz efeitos a extinção do penhor depois de averbado o cancelamento do 
registro, à vista da respectiva prova. 
 29 
Seção V 
Do Penhor Rural 
Subseção I 
Disposições Gerais 
Art. 1.438. Constitui-se o penhor rural mediante instrumento público ou particular, 
registrado no Cartório de Registro de Imóveis da circunscrição em que estiverem 
situadas as coisas empenhadas. 
Parágrafo único. Prometendo pagar em dinheiro a dívida, que garante com penhor 
rural, o devedor poderá emitir, em favor do credor, cédula rural pignoratícia, na forma 
determinada em lei especial. 
Art. 1.439. O penhor agrícola e o penhor pecuário não podem ser convencionados por 
prazos superiores aos das obrigações garantidas. (Redação dada pela Lei nº 
12.873, de 2013) 
§ 1o Embora vencidos os prazos, permanece a garantia, enquanto subsistirem os bens 
que a constituem. 
§ 2o A prorrogação deve ser averbada à margem do registro respectivo, mediante 
requerimento do credor e do devedor. 
Art. 1.440. Se o prédio estiver hipotecado, o penhor rural poderá constituir-se 
independentemente da anuência do credor hipotecário, mas não lhe prejudica o direito 
de preferência, nem restringe a extensão da hipoteca, ao ser executada. 
Art. 1.441. Tem o credor direito a verificar o estado das coisas empenhadas, 
inspecionando-as onde se acharem, por si ou por pessoa que credenciar. 
Subseção II 
Do Penhor Agrícola 
Art. 1.442. Podem ser objeto de penhor: 
I - máquinas e instrumentos de agricultura; 
II - colheitas pendentes, ou em via de formação; 
III - frutos acondicionados ou armazenados; 
IV - lenha cortada e carvão vegetal; 
V - animais do serviço ordinário de estabelecimento agrícola. 
Art. 1.443. O penhor agrícola que recai sobre colheita pendente, ou em via de 
formação, abrange a imediatamente seguinte, no caso de frustrar-se ou ser insuficiente 
a que se deu em garantia. 
Parágrafo único. Se o credor não financiar a nova safra, poderá o devedor constituir 
com outrem novo penhor, em quantia máxima equivalente à do primeiro; o segundo 
 30 
penhor terá preferência sobre o primeiro, abrangendo este apenas o excesso apurado 
na colheita seguinte. 
Subseção III 
Do Penhor Pecuário 
Art. 1.444. Podem ser objeto de penhor os animais que integram a atividade pastoril, 
agrícola ou de lacticínios. 
Art. 1.445. O devedor não poderá alienar os animais empenhados sem prévio 
consentimento, por escrito, do credor. 
Parágrafo único. Quando o devedor pretende alienar o gado empenhado ou, por 
negligência, ameace prejudicar o credor, poderá este requerer se depositem os animais 
sob a guarda de terceiro, ou exigir que se lhe pague a dívida de imediato. 
Art. 1.446. Os animais da mesma espécie, comprados para substituir os mortos, ficam 
sub-rogados no penhor. 
Parágrafo único. Presume-se a substituição prevista neste artigo, mas não terá eficácia 
contra terceiros, se não constar de menção adicional ao respectivo contrato, a qual 
deverá ser averbada. 
Seção VI 
Do Penhor Industrial e Mercantil 
Art. 1.447. Podem ser objeto de penhor máquinas, aparelhos, materiais, instrumentos, 
instalados e em funcionamento, com os acessórios ou sem eles; animais, utilizados na 
indústria; sal e bens destinados à exploração das salinas; produtos de suinocultura, 
animais destinados à industrialização de carnes e derivados; matérias-primas e 
produtos industrializados. 
Parágrafo único. Regula-se pelas disposições relativas aos armazéns gerais o penhor 
das mercadorias neles depositadas. 
Art. 1.448. Constitui-se o penhor industrial, ou o mercantil, mediante instrumento 
público ou particular, registrado no Cartório de Registro de Imóveis da circunscrição 
onde estiverem situadas as coisas empenhadas. 
Parágrafo único. Prometendo pagar em dinheiro a dívida, que garante com penhor 
industrial ou mercantil, o devedor poderá emitir, em favor do credor, cédula do 
respectivo crédito, na forma e para os fins que a lei especial determinar. 
Art. 1.449. O devedor não pode, sem o consentimento por escrito do credor, alterar as 
coisas empenhadas ou mudar-lhes a situação, nem delas dispor. O devedor que, 
anuindo o credor, alienar as coisas empenhadas, deverá repor outros bens da mesma 
natureza, que ficarão sub-rogados no penhor. 
 31 
Art. 1.450. Tem o credor direito a verificar o estado das coisas empenhadas, 
inspecionando-as onde se acharem, por si ou por pessoa que credenciar. 
Seção VII 
Do Penhor de Direitos e Títulos de Crédito 
Art. 1.451. Podem ser objeto de penhor direitos, suscetíveis de cessão, sobre coisas 
móveis. 
Art. 1.452. Constitui-se o penhor de direito mediante instrumento público ou particular, 
registrado no Registro de Títulos e Documentos. 
Parágrafo único. O titular de direito empenhado deverá entregar ao credor pignoratício 
os documentos comprobatórios desse direito, salvo se tiver interesse legítimo em 
conservá-los. 
Art. 1.453. O penhor de crédito não tem eficácia senão quando notificado ao devedor; 
por notificado tem-se o devedor que, em instrumento público ou particular, declarar-se 
ciente da existência do penhor. 
Art. 1.454. O credor pignoratício deve praticar os atos necessários à conservação e 
defesa do direito empenhado e cobrar os juros e mais prestações acessórias 
compreendidas na garantia. 
Art. 1.455. Deverá o credor pignoratício cobrar o crédito empenhado, assim que se 
torne exigível. Se este consistir numa prestação pecuniária, depositará a importância 
recebida, de acordo com o devedor pignoratício, ou onde o juiz determinar; se consistir 
na entrega da coisa, nesta se sub-rogará o penhor. 
Parágrafo único. Estando vencido o crédito pignoratício, tem o credor direito a reter, da 
quantia recebida, o que lhe é devido, restituindo o restante ao devedor; ou a excutir a 
coisa a ele entregue. 
Art. 1.456. Se o mesmo crédito for objeto de vários penhores, só ao credor pignoratício, 
cujo direito prefira aos demais, o devedor deve pagar; responde por perdas e danos 
aos demais credores o credor preferente que, notificado por qualquer um deles, não 
promover oportunamente a cobrança. 
Art. 1.457. O titular do crédito empenhado só pode receber o pagamento com a 
anuência, por escrito, do credor pignoratício, caso em que o penhor se extinguirá. 
Art. 1.458. O penhor, que recai sobre título de crédito, constitui-se mediante 
instrumento público ou particular ou endosso pignoratício, com a tradição do título ao 
credor, regendo-se pelas Disposições Gerais deste Título e, no que couber, pela 
presente Seção. 
Art. 1.459. Ao credor, em penhor de título de crédito, compete o direito de: 
 32 
I - conservar a posse do título e recuperá-la de quem quer que o detenha; 
II - usar dos meios judiciais convenientes para assegurar os seus direitos, e os do 
credor do título empenhado; 
III - fazer intimar ao devedor do título que não pague ao seu credor, enquanto durar o 
penhor; 
IV - receber a importância consubstanciada no título e os respectivos juros, se 
exigíveis, restituindo o título ao devedor, quando este solver a obrigação. 
Art. 1.460. O devedor do título empenhadoque receber a intimação prevista no inciso 
III do artigo antecedente, ou se der por ciente do penhor, não poderá pagar ao seu 
credor. Se o fizer, responderá solidariamente por este, por perdas e danos, perante o 
credor pignoratício. 
Parágrafo único. Se o credor der quitação ao devedor do título empenhado, deverá 
saldar imediatamente a dívida, em cuja garantia se constituiu o penhor. 
Seção VIII 
Do Penhor de Veículos 
Art. 1.461. Podem ser objeto de penhor os veículos empregados em qualquer espécie 
de transporte ou condução. 
Art. 1.462. Constitui-se o penhor, a que se refere o artigo antecedente, mediante 
instrumento público ou particular, registrado no Cartório de Títulos e Documentos do 
domicílio do devedor, e anotado no certificado de propriedade. 
Parágrafo único. Prometendo pagar em dinheiro a dívida garantida com o penhor, 
poderá o devedor emitir cédula de crédito, na forma e para os fins que a lei especial 
determinar. 
Art. 1.463. Não se fará o penhor de veículos sem que estejam previamente segurados 
contra furto, avaria, perecimento e danos causados a terceiros. 
Art. 1.464. Tem o credor direito a verificar o estado do veículo empenhado, 
inspecionando-o onde se achar, por si ou por pessoa que credenciar. 
Art. 1.465. A alienação, ou a mudança, do veículo empenhado sem prévia 
comunicação ao credor importa no vencimento antecipado do crédito pignoratício. 
Art. 1.466. O penhor de veículos só se pode convencionar pelo prazo máximo de dois 
anos, prorrogável até o limite de igual tempo, averbada a prorrogação à margem do 
registro respectivo. 
Seção IX 
Do Penhor Legal 
Art. 1.467. São credores pignoratícios, independentemente de convenção: 
 33 
I - os hospedeiros, ou fornecedores de pousada ou alimento, sobre as bagagens, 
móveis, jóias ou dinheiro que os seus consumidores ou fregueses tiverem consigo nas 
respectivas casas ou estabelecimentos, pelas despesas ou consumo que aí tiverem 
feito; 
II - o dono do prédio rústico ou urbano, sobre os bens móveis que o rendeiro ou 
inquilino tiver guarnecendo o mesmo prédio, pelos aluguéis ou rendas. 
Art. 1.468. A conta das dívidas enumeradas no inciso I do artigo antecedente será 
extraída conforme a tabela impressa, prévia e ostensivamente exposta na casa, dos 
preços de hospedagem, da pensão ou dos gêneros fornecidos, sob pena de nulidade 
do penhor. 
Art. 1.469. Em cada um dos casos do art. 1.467, o credor poderá tomar em garantia um 
ou mais objetos até o valor da dívida. 
Art. 1.470. Os credores, compreendidos no art. 1.467, podem fazer efetivo o penhor, 
antes de recorrerem à autoridade judiciária, sempre que haja perigo na demora, dando 
aos devedores comprovante dos bens de que se apossarem. 
Art. 1.471. Tomado o penhor, requererá o credor, ato contínuo, a sua homologação 
judicial. 
Art. 1.472. Pode o locatário impedir a constituição do penhor mediante caução idônea. 
 
Com o devido respeito ao pensamento em contrário, Flávio Tartuce entende que 
as modalidades de penhor legal apontadas não se coadunam com a atual realidade 
jurídica brasileira. O penhor legal do hospedeiro parece violar o Código de Defesa do 
Consumidor, por exigir do hóspede uma vantagem excessivamente onerosa, inclusive 
de lesão aos seus bens íntimos, constituindo uma cobrança vexatória, nos termos do 
art. 42 da Lei 8.078/1990. Já o penhor legal a favor do locador representa lesão à Lei 
8.009/1990, que considera como impenhoráveis os bens móveis essenciais que 
guarnecem a residência da família. Ora, se tais bens são absolutamente 
impenhoráveis, igualmente não podem ser objeto de garantia legal. Feitas tais 
pontuações, além do penhor legal a favor do hospedeiro e do locador, o art. 31 da Lei 
6.533/1978 consagra o penhor legal a favor do artista e do técnico de espetáculo sobre 
o equipamento e todo o material de propriedade do empregador, utilizado na realização 
do programa, espetáculo ou produção, pelo valor das obrigações não cumpridas pelo 
empregador. 
 
Da Hipoteca 
 34 
 
A hipoteca é o direito real de garantia sobre coisa alheia com maior repercussão 
prática, recaindo sobre bens imóveis (em regra) e não havendo a transmissão da posse 
da coisa entre as partes. São partes da hipoteca: 
 
a) Devedor hipotecante – aquele que dá a coisa em garantia, podendo ser o próprio 
devedor ou terceiro. 
b) Credor hipotecário – tem o benefício do crédito e do direito real. 
 
Por razões óbvias, a hipoteca deve ser registrada no Cartório de Registro de 
Imóveis do local do imóvel, ou no de cada um deles, se o título se referir a mais de um 
bem (art. 1.492 do CC e art. 167, I, n. 2, da Lei 6.015/1973). Como leciona Maria 
Helena Diniz, “só com o registro da hipoteca no Livro n. 2 ter-se-á a publicidade do ato 
e a fixação da data do nascimento do direito real, com eficácia erga omnes, 
estabelecendo o direito de sequela e a ordem de preferência. Daí a célebre frase de 
Lacerda de Almeida: ‘Hipoteca não registrada é hipoteca não existente’”. Consigne-se 
que há ainda a possibilidade de um registro especial, como se verá. 
Os registros e averbações seguirão a ordem em que forem requeridas (princípio 
da anterioridade ou prioridade registral), verificando-se ela pela da sua numeração 
sucessiva no protocolo de registro no Livro n. 1 (art. 1.493, caput, do CC). O número de 
ordem determina a prioridade, e esta a preferência entre as hipotecas (art. 1.493, 
parágrafo único, do CC). 
 
Art. 1.473. Podem ser objeto de hipoteca: 
I - os imóveis e os acessórios dos imóveis conjuntamente com eles; 
 
A hipoteca recai sobre o todo, o que é aplicação do princípio da gravitação 
jurídica. Nesse sentido, prescreve o art. 1.474 do CC que a hipoteca abrange todas as 
acessões (incorporações), melhoramentos ou construções do imóvel. Subsistem os 
ônus reais constituídos e registrados, anteriormente à hipoteca, sobre o mesmo imóvel. 
 
II - o domínio direto; 
 
 35 
O domínio direto, caso do antigo direito do senhorio na enfiteuse, instituto que foi 
parcialmente banido pelo art. 2.038 do CC/2002. Há interesse apenas quanto às 
enfiteuses anteriores, que continuam tendo validade e eficácia. 
 
III - o domínio útil; 
 
O domínio útil, como ocorre em relação ao direito do usufrutuário, que pode ser 
hipotecado. 
 
IV - as estradas de ferro; 
V - os recursos naturais a que se refere o art. 1.230, independentemente do solo onde 
se acham; 
VI - os navios; 
VII - as aeronaves. 
VIII - o direito de uso especial para fins de moradia; (Incluído pela Lei nº 11.481, 
de 2007) 
IX - o direito real de uso; (Incluído pela Lei nº 11.481, de 2007) 
 X - a propriedade superficiária. (Incluído pela Lei nº 11.481, de 2007) 
 
Continuando: 
 
§ 1º A hipoteca dos navios e das aeronaves reger-se-á pelo disposto em lei 
especial. (Renumerado do parágrafo único pela Lei nº 11.481, de 2007) 
§ 2º Os direitos de garantia instituídos nas hipóteses dos incisos IX e X do caput deste 
artigo ficam limitados à duração da concessão ou direito de superfície, caso tenham 
sido transferidos por período determinado. (Incluído pela Lei nº 11.481, de 2007) 
Art. 1.474. A hipoteca abrange todas as acessões, melhoramentos ou construções do 
imóvel. Subsistem os ônus reais constituídos e registrados, anteriormente à hipoteca, 
sobre o mesmo imóvel. 
Art. 1.475. É nula a cláusula que proíbe ao proprietário alienar imóvel hipotecado. 
Parágrafo único. Pode convencionar-se que vencerá o crédito hipotecário, se o imóvel 
for alienado. 
 
Preceito que tem relação direta com a própria função negocial da hipoteca é o 
art. 1.475 do CC, segundo o qual é nula a cláusula que proíbeao proprietário alienar 
 36 
imóvel hipotecado (cláusula de inalienabilidade). A hipótese é de nulidade textual, pois 
a norma prevê expressamente que a cláusula é nula (art. 166, VII, primeira parte, do 
CC). Conforme já pronunciou o STJ, “o art. 1.475 do diploma civil vigente considera 
nula a cláusula que veda a alienação do imóvel hipotecado, admitindo, entretanto, que 
a referida transmissão importe no vencimento antecipado da dívida. Dispensa-se, 
assim, a anuência do credor para alienação do imóvel hipotecado em enunciação 
explícita de um princípio fundamental dos direitos reais” (STJ, AgRg no REsp 
838.127/DF, Rel. Min. Luiz Fux, 1.ª Turma, j. 17.02.2009, DJe 30.03.2009). Não se 
olvide que sendo vendido ou doado o bem principal a hipoteca o acompanha, como 
decorrência lógica da sequela do direito real. Em complemento, conforme consta do 
julgado, é permitido que as partes convencionem que vencerá antecipadamente o 
crédito hipotecário, se o imóvel for alienado (art. 1.475, parágrafo único, do CC). 
 
Art. 1.476. O dono do imóvel hipotecado pode constituir outra hipoteca sobre ele, 
mediante novo título, em favor do mesmo ou de outro credor. 
Art. 1.477. Salvo o caso de insolvência do devedor, o credor da segunda hipoteca, 
embora vencida, não poderá executar o imóvel antes de vencida a primeira. 
Parágrafo único. Não se considera insolvente o devedor por faltar ao pagamento das 
obrigações garantidas por hipotecas posteriores à primeira. 
Art. 1.478. Se o devedor da obrigação garantida pela primeira hipoteca não se oferecer, 
no vencimento, para pagá-la, o credor da segunda pode promover-lhe a extinção, 
consignando a importância e citando o primeiro credor para recebê-la e o devedor para 
pagá-la; se este não pagar, o segundo credor, efetuando o pagamento, se sub-rogará 
nos direitos da hipoteca anterior, sem prejuízo dos que lhe competirem contra o 
devedor comum. 
Parágrafo único. Se o primeiro credor estiver promovendo a execução da hipoteca, o 
credor da segunda depositará a importância do débito e as despesas judiciais. 
Art. 1.479. O adquirente do imóvel hipotecado, desde que não se tenha obrigado 
pessoalmente a pagar as dívidas aos credores hipotecários, poderá exonerar-se da 
hipoteca, abandonando-lhes o imóvel. 
 
Em situações tais, o adquirente do imóvel notificará o vendedor e os credores 
hipotecários, deferindo-lhes, conjuntamente, a posse do imóvel, ou o depositará em 
juízo. Poderá o adquirente exercer a faculdade de abandonar o imóvel hipotecado, até 
 37 
as 24 horas subsequentes à citação, com o que se inicia o procedimento executivo (art. 
1.480, parágrafo único, do CC). 
 
Art. 1.480. O adquirente notificará o vendedor e os credores hipotecários, deferindo-
lhes, conjuntamente, a posse do imóvel, ou o depositará em juízo. 
Parágrafo único. Poderá o adquirente exercer a faculdade de abandonar o imóvel 
hipotecado, até as vinte e quatro horas subseqüentes à citação, com que se inicia o 
procedimento executivo. 
Art. 1.481. Dentro em trinta dias, contados do registro do título aquisitivo, tem o 
adquirente do imóvel hipotecado o direito de remi-lo, citando os credores hipotecários e 
propondo importância não inferior ao preço por que o adquiriu. 
§ 1o Se o credor impugnar o preço da aquisição ou a importância oferecida, realizar-se-
á licitação, efetuando-se a venda judicial a quem oferecer maior preço, assegurada 
preferência ao adquirente do imóvel. 
§ 2o Não impugnado pelo credor, o preço da aquisição ou o preço proposto pelo 
adquirente, haver-se-á por definitivamente fixado para a remissão do imóvel, que ficará 
livre de hipoteca, uma vez pago ou depositado o preço. 
§ 3o Se o adquirente deixar de remir o imóvel, sujeitando-o a execução, ficará obrigado 
a ressarcir os credores hipotecários da desvalorização que, por sua culpa, o mesmo 
vier a sofrer, além das despesas judiciais da execução. 
§ 4o Disporá de ação regressiva contra o vendedor o adquirente que ficar privado do 
imóvel em conseqüência de licitação ou penhora, o que pagar a hipoteca, o que, por 
causa de adjudicação ou licitação, desembolsar com o pagamento da hipoteca 
importância excedente à da compra e o que suportar custas e despesas judiciais. 
Art. 1.482. (Revogado pela Lei n º 13.105, de 2015) (Vigência) 
Art. 1.483. (Revogado pela Lei n º 13.105, de 2015) (Vigência) 
Art. 1.484. É lícito aos interessados fazer constar das escrituras o valor entre si 
ajustado dos imóveis hipotecados, o qual, devidamente atualizado, será a base para as 
arrematações, adjudicações e remições, dispensada a avaliação. 
Art. 1.485. Mediante simples averbação, requerida por ambas as partes, poderá 
prorrogar-se a hipoteca, até 30 (trinta) anos da data do contrato. Desde que perfaça 
esse prazo, só poderá subsistir o contrato de hipoteca reconstituindo-se por novo título 
e novo registro; e, nesse caso, lhe será mantida a precedência, que então lhe 
competir. (Redação dada pela Lei nº 10.931, de 2004) 
 
 38 
Aplicando o art. 1.485 do CC, para ilustrar, decisão recente: 
“Ação de execução por quantia certa contra devedor solvente. 
Penhora de bem com ônus hipotecário. Hipoteca datada de 
20.12.1976. Pedido de baixa da hipoteca, pelo decurso do prazo 
previsto no art. 1.485 do Código Civil. Possibilidade. Agravo 
provido” (TJSP, Agravo de Instrumento 990.10.221853-8, 
Acórdão 4634062, São Caetano do Sul, 12.ª Câmara de Direito 
Privado, Rel. Des. Jacob Valente, j. 04.08.2010, DJESP 
30.08.2010). 
 
 Da jurisprudência, é correta a conclusão pela qual, sendo a hipoteca fixada sem 
prazo determinado, deve ser aplicado o prazo do art. 1.485 do CC e o princípio da 
conservação dos negócios: 
 
“Direito civil. Hipoteca. Estipulação a prazo incerto. Validade. 
Relação continuativa. Ausência momentânea de crédito. 
Irrelevância. I – A hipoteca pode ser estipulada a termo incerto se 
constituída em garantia de dívida a prazo indeterminado. A 
ausência de previsão de prazo certo para sua vigência não a 
invalida, operando-se, pleno jure, a sua extinção, no caso de 
atingido o prazo legal máximo de 30 anos previsto nos arts. 817 
do Código Civil de 1916 e 1.485 do Código Civil de 2002, se 
antes não a convencionarem as partes. II – Tendo a hipoteca 
sido dada a fim de garantir todas as dívidas que vierem a ser 
originadas de relação continuativa havida entre as partes, a 
inexistência momentânea de crédito não é causa de sua 
extinção” (TJMG, Apelação Cível 1.0249.07.000953-8/0011, 
Eugenópolis, 13.ª Câmara Cível, Rel. Des. Adilson Lamunier, j. 
14.08.2008, DJEMG 15.09.2008). 
 
Art. 1.486. Podem o credor e o devedor, no ato constitutivo da hipoteca, autorizar a 
emissão da correspondente cédula hipotecária, na forma e para os fins previstos em lei 
especial. 
Art. 1.487. A hipoteca pode ser constituída para garantia de dívida futura ou 
condicionada, desde que determinado o valor máximo do crédito a ser garantido. 
 39 
§ 1o Nos casos deste artigo, a execução da hipoteca dependerá de prévia e expressa 
concordância do devedor quanto à verificação da condição, ou ao montante da dívida. 
§ 2o Havendo divergência entre o credor e o devedor, caberá àquele fazer prova de seu 
crédito. Reconhecido este, o devedor responderá, inclusive, por perdas e danos, em 
razão da superveniente desvalorização do imóvel. 
Art. 1.488. Se o imóvel, dado em garantia hipotecária, vier a ser loteado, ou se nele se 
constituir condomínio edilício, poderá o ônus ser dividido, gravando cada lote ou 
unidade autônoma, se o requererem ao juiz o credor, o devedor ou os donos, 
obedecida a proporção entre o valor de cada um delese o crédito. 
§ 1o O credor só poderá se opor ao pedido de desmembramento do ônus, provando 
que o mesmo importa em diminuição de sua garantia. 
§ 2o Salvo convenção em contrário, todas as despesas judiciais ou extrajudiciais 
necessárias ao desmembramento do ônus correm por conta de quem o requerer. 
§ 3o O desmembramento do ônus não exonera o devedor originário da 
responsabilidade a que se refere o art. 1.430, salvo anuência do credor. 
Seção II 
Da Hipoteca Legal 
Art. 1.489. A lei confere hipoteca: 
I - às pessoas de direito público interno (art. 41) sobre os imóveis pertencentes aos 
encarregados da cobrança, guarda ou administração dos respectivos fundos e rendas; 
II - aos filhos, sobre os imóveis do pai ou da mãe que passar a outras núpcias, antes de 
fazer o inventário do casal anterior; 
III - ao ofendido, ou aos seus herdeiros, sobre os imóveis do delinqüente, para 
satisfação do dano causado pelo delito e pagamento das despesas judiciais; 
IV - ao co-herdeiro, para garantia do seu quinhão ou torna da partilha, sobre o imóvel 
adjudicado ao herdeiro reponente; 
V - ao credor sobre o imóvel arrematado, para garantia do pagamento do restante do 
preço da arrematação. 
Art. 1.490. O credor da hipoteca legal, ou quem o represente, poderá, provando a 
insuficiência dos imóveis especializados, exigir do devedor que seja reforçado com 
outros. 
Art. 1.491. A hipoteca legal pode ser substituída por caução de títulos da dívida pública 
federal ou estadual, recebidos pelo valor de sua cotação mínima no ano corrente; ou 
por outra garantia, a critério do juiz, a requerimento do devedor. 
 40 
Seção III 
Do Registro da Hipoteca 
Art. 1.492. As hipotecas serão registradas no cartório do lugar do imóvel, ou no de cada 
um deles, se o título se referir a mais de um. 
Parágrafo único. Compete aos interessados, exibido o título, requerer o registro da 
hipoteca. 
Art. 1.493. Os registros e averbações seguirão a ordem em que forem requeridas, 
verificando-se ela pela da sua numeração sucessiva no protocolo. 
Parágrafo único. O número de ordem determina a prioridade, e esta a preferência entre 
as hipotecas. 
Art. 1.494. Não se registrarão no mesmo dia duas hipotecas, ou uma hipoteca e outro 
direito real, sobre o mesmo imóvel, em favor de pessoas diversas, salvo se as 
escrituras, do mesmo dia, indicarem a hora em que foram lavradas. 
Art. 1.495. Quando se apresentar ao oficial do registro título de hipoteca que mencione 
a constituição de anterior, não registrada, sobrestará ele na inscrição da nova, depois 
de a prenotar, até trinta dias, aguardando que o interessado inscreva a precedente; 
esgotado o prazo, sem que se requeira a inscrição desta, a hipoteca ulterior será 
registrada e obterá preferência. 
Art. 1.496. Se tiver dúvida sobre a legalidade do registro requerido, o oficial fará, ainda 
assim, a prenotação do pedido. Se a dúvida, dentro em noventa dias, for julgada 
improcedente, o registro efetuar-se-á com o mesmo número que teria na data da 
prenotação; no caso contrário, cancelada esta, receberá o registro o número 
correspondente à data em que se tornar a requerer. 
Art. 1.497. As hipotecas legais, de qualquer natureza, deverão ser registradas e 
especializadas. 
§ 1o O registro e a especialização das hipotecas legais incumbem a quem está 
obrigado a prestar a garantia, mas os interessados podem promover a inscrição delas, 
ou solicitar ao Ministério Público que o faça. 
§ 2o As pessoas, às quais incumbir o registro e a especialização das hipotecas legais, 
estão sujeitas a perdas e danos pela omissão. 
Art. 1.498. Vale o registro da hipoteca, enquanto a obrigação perdurar; mas a 
especialização, em completando vinte anos, deve ser renovada. 
Seção IV 
Da Extinção da Hipoteca 
Art. 1.499. A hipoteca extingue-se: 
 41 
I - pela extinção da obrigação principal; (POIS SE REPRISE QUE A HIPOTECA NÃO 
PODE EXISTIR SOZINHA, DIANTE DO SEU CARÁTER ACESSÓRIO). 
II - pelo perecimento da coisa; 
III - pela resolução da propriedade; 
IV - pela renúncia do credor; 
V - pela remição; 
VI - pela arrematação ou adjudicação. 
Art. 1.500. Extingue-se ainda a hipoteca com a averbação, no Registro de Imóveis, do 
cancelamento do registro, à vista da respectiva prova. 
Art. 1.501. Não extinguirá a hipoteca, devidamente registrada, a arrematação ou 
adjudicação, sem que tenham sido notificados judicialmente os respectivos credores 
hipotecários, que não forem de qualquer modo partes na execução. 
Seção V 
Da Hipoteca de Vias Férreas 
Art. 1.502. As hipotecas sobre as estradas de ferro serão registradas no Município da 
estação inicial da respectiva linha. 
Art. 1.503. Os credores hipotecários não podem embaraçar a exploração da linha, nem 
contrariar as modificações, que a administração deliberar, no leito da estrada, em suas 
dependências, ou no seu material. 
Art. 1.504. A hipoteca será circunscrita à linha ou às linhas especificadas na escritura e 
ao respectivo material de exploração, no estado em que ao tempo da execução 
estiverem; mas os credores hipotecários poderão opor-se à venda da estrada, à de 
suas linhas, de seus ramais ou de parte considerável do material de exploração; bem 
como à fusão com outra empresa, sempre que com isso a garantia do débito 
enfraquecer. 
Art. 1.505. Na execução das hipotecas será intimado o representante da União ou do 
Estado, para, dentro em quinze dias, remir a estrada de ferro hipotecada, pagando o 
preço da arrematação ou da adjudicação. 
 
Superada a abordagem dos efeitos concretos da hipoteca, vejamos a 
classificação exposta pela doutrina contemporânea, levando-se em conta a origem da 
hipoteca: 
- Hipoteca convencional – criada pela autonomia privada, ou por convenção das partes, 
conforme preceitos e regras até o presente momento estudadas. 
 42 
- Hipoteca Legal – decorre da norma jurídica, nas hipóteses do art. 1.489 do CC, a 
favor das seguintes pessoas: a) às pessoas de direito público interno (art. 41 do CC) 
sobre os imóveis pertencentes aos encarregados da cobrança, guarda ou 
administração dos respectivos fundos e rendas; b) aos filhos, sobre os imóveis do pai 
ou da mãe que passar a outras núpcias, antes de fazer o inventário do casal anterior 
(art. 1.523, II, do CC), hipótese de causa suspensiva do casamento; c) ao ofendido, ou 
aos seus herdeiros, sobre os imóveis do delinquente, para satisfação do dano causado 
pelo delito e pagamento das despesas judiciais; d) ao coerdeiro, para garantia do seu 
quinhão ou torna da partilha, sobre o imóvel adjudicado ao herdeiro reponente; e) ao 
credor sobre o imóvel arrematado, para garantia do pagamento do restante do preço da 
arrematação. O credor da hipoteca legal, ou quem o represente, poderá, provando a 
insuficiência dos imóveis especializados, exigir do devedor que seja reforçado com 
outros (art. 1.490 do CC). A hipoteca legal pode ser substituída por caução de títulos da 
dívida pública federal ou estadual, recebidos pelo valor de sua cotação mínima no ano 
corrente; ou por outra garantia, a critério do juiz, a requerimento do devedor (art. 
1.491). As hipotecas legais, de qualquer natureza, deverão ser registradas e 
especializadas (art. 1.497 do CC). O registro e a especialização das hipotecas legais 
incumbem a quem está obrigado a prestar a garantia, mas os interessados podem 
promover a inscrição delas, ou solicitar ao Ministério Público que o faça (art. 1.497, § 
1.º, do CC). As pessoas, às quais incumbir o registro e a especialização das hipotecas 
legais, estão sujeitas a perdas e danos pela omissão (art. 1.497, § 2.º, do CC). Não se 
pode esquecer que não há prazo máximo para a hipoteca legal, exigindo-se apenas 
que a especializaçãoseja renovada a cada 20 anos (art. 1.498 do CC). 
- Hipoteca cedular – Na linha do art. 1.486 do CC, podem o credor e o devedor, no ato 
constitutivo da hipoteca, autorizar a emissão da correspondente cédula hipotecária, na 
forma e para os fins previstos em lei especial. Conforme apontam Cristiano Chaves de 
Farias e Nelson Rosenvald, “Nas leis específicas, a constituição da hipoteca independe 
de contrato solene e específico, pois, na própria cédula, são inseridos o acordo de 
criação e reconhecimento da dívida pelo devedor emitente, e a constituição da 
hipoteca. Especializando-se os bens dados em garantia, com registro da cédula no 
ofício imobiliário. O credor da cédula dispõe de segurança, em razão do vínculo real 
que resulta do registro da cédula no cartório imobiliário”.Como exemplo retirado da 
legislação especial pode ser citada a cédula rural hipotecária, tratada pelo Decreto-lei 
167/1967. 
 43 
- Hipoteca judicial – Está tratada pelo art. 466 do CPC, segundo o qual “a sentença que 
condenar o réu no pagamento de uma prestação, consistente em dinheiro ou em coisa, 
valerá como título constitutivo de hipoteca judiciária, cuja inscrição será ordenada pelo 
juiz na forma prescrita na Lei de Registros Públicos”. Ainda nos termos do Estatuto 
Processual, a sentença condenatória produz a hipoteca judiciária: a) embora a 
condenação seja genérica; b) pendente arresto de bens do devedor; c) ainda quando o 
credor possa promover a execução provisória da sentença.

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