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1. Filosofia e Tecnologia Uma das primeiras perguntas que o estudante de um curso técnico pode fazer em sua primeira aula da disciplina de Filosofia, Ciência e Tecnologia trata-se de um questiona- mento sobre a necessidade de se estudar filosofia, em especial, algo que já julga saber a importância da tecnologia para o mundo atual e para as ciências. Dado a ausência dos es- tudos de filosofia e de sociologia durante anos no ensino médio e os preconceitos presen- tes no senso comum quanto às essas disciplinas é bastante válido o estudante questionar quais as contribuições que a filosofia teria para se compreender as ciências e as tecnologi- as. As reflexões filosóficas sobre a ciência e tecnologia nos permitem compreender me- lhor quais são os impactos e da tecnologia na sociedade atual, as relações entre ciência e tecnologia que se tornaram quase indissociáveis a partir da Modernidade, as diferenças en- tre a técnica moderna e técnica contemporânea, bem como as diferenças entre as críticas modernas da técnica e a crítica contemporânea. De fato, por meio dos estudos dessa dis- ciplina de filosofia, ciência e tecnologia se espera que o estudante compreenda a enorme importância da tecnociência não apenas na vida profissional, acadêmica e científica e soci- oeconômica da sociedade atual, mas também na vida sociocultural, existencial e cotidiana atualmente. A filosofia reflete sobre as tecnologias por considerar: Que a compreensão da tecnologia é fundamental para o reconhecimento e a auto com- preensão filosófica de nosso próprio tempo; mas também da própria natureza humana cuja uma das determinações essenciais seria precisamente sua capacidade criadora técnica (AZAMBUJA, 2010, p. 05.). Daí, a importância dos estudos de filosofia, ciência e tecnologia serem fundamen- tais para se pensar o sentido e significação da técnica e da tecnologia e sua relação com as ciências em uma instituição de ensino tecnológico e científico como os institutos federais. Os participantes de um curso técnico devem compreender e serem capazes de participar e se orientar em meio a uma ampla discussão filosófica acerca da natureza da técnica, do que á técnica, da diferença entre a técnica moderna e da complexidade de sua histórica re- lação com a ciência. Para contribuir com esta reflexão apresentamos a seguir uma coletânea de textos e artigos sobre o tema. Os textos foram livremente adaptados para a disciplina, por isso não se encontram iguais ao original. Pedimos a compreensão dos estudantes para se forem uti- lizar os textos a seguir em outros estudos que procurem os originais por meio das referên- cias e não essa adaptação para uso imediato e em sala de aula. Referência: AZAMBUJA, C. C. A NATUREZA DA TÉCNICA. Crítica do Caráter Instrumental do Conceito de Técnica. [Projeto de Pesquisa]. São Leopoldo, 2010. Disponível em https://sites.google.com/site/filosofiatecnologia/projeto-instrumental-resumo. Acesso em 20 de Outubro de 2013. Filosofia, Ciência e Tecnologia Curso Técnico Integrado em Informática - 4ºano |Professora: Euza Raquel 1 ESTUDANTE: TURMA: DATA: ___ / ___ / _____BIMESTRE:___ DISCIPLINA: Filosofia, Ciência e Tecnologia Professora: Euza Raquel ESTUDANTE: TURMA: DATA: ___ / ___ / _____BIMESTRE:___ DISCIPLINA: Filosofia, Ciência e Tecnologia Professora: Euza Raquel 1. Os Mitos e a Encontro humano com a técnica A mitologia de um lado e a ficção científica de outro nos oferecem recursos valiosos para explorar e compreender esta nova complexidade da existência humana. Os mitos gregos de Pro- meteu e Hefesto são as personagens arquetípicas que resgatamos para ilustrar esta dimensão pri- mordial que tem a técnica na vida humana. Aqui apenas esboçamos as principais características destes mitos como imagens que ilus- tram em nível subjetivo o encontro humano com a técnica, porque representam o sentido sim- bólico e a significação imaginária central de nossa época. Prometeu é o deus-titã sacrificado por Zeus, por ter ousado proteger o humanos, roubando dos deuses e dando a eles o fogo, símbolo de todas as artes e técnicas de que os seres humanos, por natureza, foram desprovidos. Prometeu representa a imagem arquetípica da prospecção, da previsão e, portanto, da ma- nipulação do tempo; ou seja, da inserção do homem em uma nova dimensão do tempo, projetiva e não mais cíclica, na qual estão contidos e limitados todos os seres da natureza. 2. Techne e Episteme Techne é o termo pelo qual Aristóteles define uma das cinco virtudes intelectuais do humano. Techne propriamente trata de um “reto saber fazer”, enquanto a Phronesis de um “saber agir”. Além destas, existem também a Sophia, a Episteme e o Nous. Um estudo um pouco mais deta- lhado destas virtudes intelectuais nos revela em que consiste essencialmente cada uma das cha- madas “disposições da alma” que têm relação com a verdade e como elas se relacionam entre si. (ARISTÓTELES, 1973, p. 33) Techne é a produção que envolve o reto raciocínio. Episteme é o conhecimento científico imutável e demonstrável. Phronesis é a sabedoria prática que envolve deliberação para agir com relação às coisas boas ou más. É uma virtude prática. Sophia, a sabedoria filosófica que é uma disposição da alma que envolve o nous, razão intuitiva ou inteligência, e a episteme, o conheci - mentocientífico. Nous, a inteligência, ou razão intuitiva que apreende os primeiros princípios do conhecimento científico. (ARISTÓTELES, 1973, p. 33) Segundo Aristóteles, a techne não está relacionada com a "capacidade raciocinada de agir", mas sim com a "capacidade raciocinada de produzir". Toda techne, arquitetura, por exem- plo, é uma "capacidade de produzir que envolve o reto raciocínio". A sua origem "está no que produz, e não no que é produzido". A techne "não se ocupa nem com as coisas que são ou que se geram por necessidade, nem com as que o fazem de acordo com a natureza (pois essas têm sua origem em si mesmas)". A techne "deve ser uma questão de produzir e não de agir." (ARIS- TÓTELES, 1973, p. 34) Techne, como virtude intelectual, é ofício, arte, habilidade, para produzir um artifício, algo outro, novo. Seria um pouco mais ou menos quando nos referimos, por exemplo, a um atleta de talento, dizendo que ele tem “técnica”, capacidade, criatividade. Portanto, o fazer técnico no sen- tido aristotélico não é em absoluto um mero fazer mecânico, destituído de virtude. Para Lecourt, na mesma perspectiva, a técnica, é “essa dimensão maior da existência hu- mana, sobre o imemorável valor humano que ela representa.” O “pensamento técnico” tem sua própria especificidade e testemunha “uma forma particular da engenhosidade humana.” (LE- COURT, 2003, p. 41). Então, originariamente, o conceito de técnica envolve uma habilidade in- telectual e uma sabedoria produtiva. Filosofia, Ciência e Tecnologia Curso Técnico Integrado em Informática - 4ºano |Professora: Euza Raquel 2 Pensar a Técnica. Que é a técnica? Em que consiste a natureza da técnica? – tais são as perguntas funda- mentais que nos orientam neste trabalho. A tradicional definição instrumental da técnica ainda que permita compreender um de seus aspectos essenciais, não é, contudo, suficiente para com- preender a complexidade do fenômeno técnico nem os efeitos da tecnologia no plano das ativi - dades e dos modos de ser e pensar humanos. Esta definição limitada e, principalmente, simplifi- cadora da técnica tem lugar de destaque na filosofia e nas instituições ainda hoje. Sendo assim, precisa de uma crítica que permita avançar em uma compreensão verdadeira da técnica, mais consistente e adequada para entender e encarar os grandes desafios de nossa época. Esta elaboração crítica será feita principalmente a partir de textos e obras capitais desen- volvidas acerca da questão da tecnologia pelos teóricos Simondon, Heidegger, McLuhan e Galim- berti. O trabalho procura desenvolveruma problematização do conceito de técnica: com Heideg- ger, do sentido da técnica como vontade de dominação humana, no modo do ordenamento cien- tífico e sistemático, sobre o conjunto de todas as coisas do mundo; com McLuhan, dos efeitos no âmbito da subjetividade e das práticas humanas; com Simondon, da irredutibilidade da técnica e da cultura, crítica da falsa oposição entre técnica e cultura; e com Galimberti, da transformação da técnica como meio para ser tornar um fim em si mesmo; pois não se trata mais da imagem do humano moldando o mundo através de uma relação de exterioridade, mas, ao contrário, todos os assuntos humanos que estão agora modelados e determinados pela técnica. O caráter instrumental da técnica é inseparável de uma filosofia antropocentrada – muitas vezes cheia de boas intenções, outras vezes nem tanto. Ao mesmo tempo a definição instrumen- tal tende a reduzir a técnica à sua estrita tecnicidade, ao seu caráter meramente objetual. A definição da técnica como instrumento, como meio, como simples valor de uso, para fins humanos, sem dúvida, é correta, mas apenas parcialmente verdadeira. Esta definição está pressuposta nas tomadas de decisões éticas e políticas estratégicas nas estruturas das atuais socie- dades tecnocientíficas. Entretanto, na medida em que é uma definição parcial e limitada, ela não nos alcança, não nos desvela a verdadeira situação na qual nos encontramos nem, portanto, é capaz de nos apon- tar a direção do caminho que precisamos percorrer como civilização. É preciso, deste modo, elaborar uma concepção de técnica para além de seu caráter ins- trumental e que nos ajude a compreender a sua verdadeira natureza. Como veremos sua comple- xidade é enorme e a filosofia atual está longe de esgotá-la. Em seu principal texto sobre a técnica, o filosofo alemão Martin Heidegger (1989-1976) des- loca a discussão da técnica do objeto técnico ele mesmo. Não é a técnica mesma enquanto objeto ou instrumento que é colocada em questão, mas a sua essência. A pergunta principal é, então, pelo sentido da técnica, em especial, pelo sentido da técnica moderna. A técnica para Heidegger pode ser compreendida apenas parcialmente como instrumento. Segundo esta perspectiva quanto mais tentamos fazer uso da técnica e das tecnologias, quanto mais tentamos, dominar a técnica‟, mais de fato estamos perdidos e dependentes e menos de fato estamos de posse da verdade da técnica. Somente a relação verdadeira nos permite uma rela- ção livre com a técnica. Ora, é importante compreender que Heidegger evidentemente não considera o destino humano como dado, como fatalidade, mas como algo a ser manipulável, determinável pelo pró- prio humano. Assim, o nosso destino compartilhado com a técnica não está dado, não está defi- nitivamente condicionado pela técnica moderna instrumental, extrativista. Obviamente ela repre- senta o perigo extremo, mas também nossa salvação. Filosofia, Ciência e Tecnologia Curso Técnico Integrado em Informática - 4ºano |Professora: Euza Raquel 3 No entanto, o mais importante da visão heideggeriana, talvez seja este desejo de um retor- no a um fazer técnico tal como aquele vivido pelos gregos. Daí que a salvação viria exatamente deste resgate primordial da Techne como arte, dentro do jogo estético. Isto talvez não tornasse a técnica necessariamente mais produtiva ou mais espetacular, mas tornaria ela elemento do jogo da vida, do gozo da vida. Não mais destrutiva, como a técnica da guerra, não mais extrativista, exploradora, como as diversas técnicas industriais da sociedade do consumo. Mas principalmente fruitiva. Uma técnica poética. Daí, a afirmação anterior acerca da técnica para Heidegger como vontade de dominação humana, no modo do ordenamento científico e sistemático, sobre o conjunto de todas as coisas do mun- do. Heidegger identificará a técnica moderna à vontade humana de domínio sobre a terra. “As ciências da natureza inanimada e animada, tanto quanto as ciências da história e das obras históri- cas, sempre se constróem inequivocamente como um modo e uma maneira de o homem moder- no dominar, sob forma e esclarecimento, a natureza, a história, o 'mundo' e a 'Terra', de forma a tornar planejáveis e utilizáveis esses campos esclarecidos, segundo cada precisão e com vistas a assegurar a vontade de ser senhor da totalidade do mundo, no modo do ordenamento. O funda- mento e o âmbito essencial da técnica moderna é essa vontade, que em toda intenção e apreen- são, em tudo o que se quer e alcança, sempre quer somente a si mesma, e a si mesma armada com a possibilidade de sempre crescente de poder-querera- si. A técnica é a organização e o ór- gão da vontade de vontade”. (HEIDEGGER, 1998, p. 205) A técnica como condição humana A tradição filosófica ensinou-nos duas lições fundamentais: o humano é um animal natu- ralmente político e principalmente dotado de linguagem e razão. Sua vida em comum na polis mediada pela linguagem é o que dá ao humano, na tradição iluminista, de Sócrates a Kant, seu distintivo próprio diante de todo o reino animal. Uma contracorrente moderna, seja anti-moderna ou pós-moderna, nos ensinou mais uma lição fundamental que, apesar de tudo, somos animais desejantes, seres cujos instintos e paixões estão no âmago de nossas existências. Entretanto, o homem talvez não seja nada sem a técnica. É assim que o pensador italiano Umberto Galimberti (n. 1942.) nos propõe a imagem an- tropológica segundo a qual o homem é um animal essencialmente técnico. É a técnica que permi- te ao homem ser homem. A técnica será a síntese das razões e das necessidades humanas. Será, por assim dizer, o órgão dos instintos de que originariamente o homem é carente. Galimberti fez um estudo monumental da tecnologia em nossa época em Psiche e techne – o homem na idade da técnica. Nesta obra, ele realiza uma análise profunda, pertinente, perspicaz, fundamental para se estudar o fenômeno da técnica e suas múltiplas e universais implicações e interdeterminações. Ele nos propõe a idéia de que “a técnica nasceu, não como expressão do “espírito” humano, mas como 'remédio' à sua insuficiência biológica”. (GALIMBERTI, 2006, p. 9) “Nesse sentido, é possível dizer que a técnica é a essência do homem, não só porque, em razão da sua insuficiente dotação instintiva, o homem, sem a técnica não teria sobrevivido, mas também porque, explorando essa plasticidade de adaptação que deriva da generalidade e não-rigi- dez dos seus instintos, pôde alcançar 'culturalmente', por meio de procedimentos técnicos de se- leção e estabilização, aquela seletividade estabilidade que o animal possui 'por natureza'.” (GA- LIMBERTI, 2006, p. 9) A técnica será o “pacto original entre homem e mundo” (GALIMBERTI, 2006, p. 10) que permitirá ao homem superar os obstáculos biológicos e naturais. De acordo com Galimberti: “De fato, a técnica não é o homem. Nascida como condição da existência humana e, portanto, como expressão da sua essência, hoje, pelas dimensões alcançadas e pela autonomia adquirida, a Filosofia, Ciência e Tecnologia Curso Técnico Integrado em Informática - 4ºano |Professora: Euza Raquel 4 técnica expressa a abstração e a combinação das idealizações e das ações humanas num nível de artificialidade tal que nenhum homem, nenhum grupo humano (…) é capaz de controlá-la em sua totalidade.” (GALIMBERTI, 2006, p. 17) Segue Galimberti: “...na idade da técnica, não há mais nem senhores nem servos, mas só as exigências dessa rígida racionalidade a que todos devem se subordinar.” O único verdadeiro sujeito é “o aparato técnico – em relação ao qual os indivíduos são simplesmente predicados”. (GALIMBERTI, 2006, p. 18) Finalmente, Galimberti propõe a pergunta fundamental: “o que o homem se torna dentro do horizonte da experimentação ilimitada e da manipulação infinita desvelada pela técnica? Para responder é necessário superar a certeza ingênua segundo a quala natureza humana é algo está- vel, que não se contamina e permanece intacto, não importando o que o homem faça.” (GA- LIMBERTI, 2006, p. 23). A grande transformação da técnica A grande transformação sofrida pela técnica é que ela deixa de ser simples meio nas mãos dos homens, se transformando em fim, na medida em que passou a condicionar todos fins que os seres humanos podem desejar. Na perspectiva de Galimberti, na medida em que vivemos em “...um mundo em que to- das as suas partes estão tecnicamente organizadas, a técnica não é mais objeto de uma escolha nossa, pois é o nosso ambiente, onde fins e meios, escopos e idealizações, condutas, ações e pai- xões, inclusive sonhos e desejos, estão tecnicamente articulados e precisam da técnica para se ex- pressar.” Neste sentido, para Galimberti, “vivemos a técnica irremediavelmente, sem possibilida- de de escolha. Esse é o nosso destino como ocidentais avançados.” (GALIMBERTI, 2006, p. 8) A técnica não sendo neutra, portanto, não pode ser considerada simples instrumento nas mãos dos homens. De acordo com o mesmo autor, “se aceitamos a tese de que a técnica é a es - sência do homem, então o primeiro critério de legibilidade que deve ser modificado na idade da técnica é aquele tradicional que vê o homem como sujeito e a técnica como instrumento à sua disposição. Isso podia ser verdadeiro no mundo antigo, onde a técnica era exercida dentro dos muros da cidade, era um encrave dentro da natureza, cuja lei inquestionável regulava por inteiro a vida do homem.” (GALIMBERTI, 2006, p.11) Hoje, entretanto, a terra não é mais o limite. “A cidade estendeu-se até os confins da Ter- ra, e a natureza reduziu-se a um encrave, a um retalho circundado pelos muros da cidade. Então a técnica, de instrumento nas mãos do homem para dominar a natureza, se torna o ambiente do homem, aquilo que o rodeia e o constitui...” (p. 11) A técnica atualmente se agigantou de tal modo que inverteu-se a relação que na antiguida- de ela tinha com a natureza. Segundo Galimberti, “...enquanto a instrumentação técnica disponí- vel era apenas suficiente para aqueles fins nos quais se expressava a satisfação das necessidades humanas, a técnica era um simples meio, cujo significado era inteiramente absorvido pelo fim; mas, quando a técnica aumenta quantitativamente a ponto de se tornar disponível para a realiza- ção de qualquer fim, então muda qualitativamente o cenário, porque não é mais o fim que condi- ciona a representação, a pesquisa, a aquisição dos meios técnicos, mas será a ampliada disponibi- lidade dos meios técnicos que desvela o leque dos fins que, por meio deles, podem ser alcança- dos. Assim, a técnica se transforma de meio em fim, não porque a técnica se proponha algo, mas porque todos os objetivos e fins que os homens se propõem não podem ser atingidos, a não ser pela mediação técnica.” (GALIMBERTI, 2006, p. 12). .Adaptação do Texto: AZAMBUJA, C. C. A natureza da técnica. Crítica do Caráter Ins- trumental do Conceito de Técnica. [Projeto de Pesquisa]. São Leopoldo, 2010. Filosofia, Ciência e Tecnologia Curso Técnico Integrado em Informática - 4ºano |Professora: Euza Raquel 5 FILOSOFIA, CIÊNCIA E TECNOLOGIA: A técnica A velha lenda do "aprendiz de feiticeiro" foi retomada por Walt Disney no filme Fantasia, clássico do desenho animado. Em um dos segmentos, o personagem princi- pal, representado por Mickey, é incumbido de lavar as dependências do castelo e, para facilitar o serviço, resolve aplicar as mágicas aprendidas com seu mestre feiticeiro. E bem sucedido ao ordenar que uma vassoura carregue vários baldes cheios d'água, o que lhe poupa enorme esforço. Mas, em seguida, constata que apenas sabia desenca- dear a mágica sem contudo conseguir interrompê-la no momento adequado. Na espe- rança de solucionar o impasse, corta a vassoura, mas na verdade aumenta o número delas em ação, logo transformadas em um batalhão de "serviçais" incansáveis. A inun- dação do castelo é evitada com o retomo providencial do mestre feiticeiro, cujas pala- vras mágicas interrompem o louco processo desencadeado. Essa fábula mostra que o mundo maravilhoso da técnica tem duas faces. Se por um lado é condição de humanização, por outro pode desenvolver formas perversas de adaptação humana. É o que veremos mais adiante. Homo sapiens, homo faber Quando nos referimos ao homo sapiens, enfatizamos a característica humana de conhecer a realidade, de ter consciência do mundo e de si mesmo. A denominação homo faber é usada quando nos referimos à capacidade de fabricar utensílios, com os quais o homem só torna capaz de transformar a natureza. Homo sapiens e homo faber são dois aspectos da mesma realidade humana. Pensar e agir são inseparáveis, isto é, o homem é um ser técnico porque tem consciência, e tem consciência porque é capaz de agir e transformar a realidade. Em decorrência, a maneira como os homens agem para adequar a natureza aos seus interesses de sobrevivência influi de modo decisivo na construção das representa- ções mentais por meio das quais explicam essa realidade. Da mesma forma, tais cons- truções mentais tornam possíveis as alterações necessárias para adaptar as técnicas à solução dos problemas que desafiam a inteligência humana. Por exemplo, quando Gu- tenberg inventa os tipos móveis no século XVI, a imprensa passa a desempenhar papel decisivo na difusão das ideias e na ampliação da consciência crítica, o que altera o co- nhecimento que o homem tem do mundo e de si mesmo. No século XX, o aperfeiçoa- mento técnico do telefone, telégrafo, fotografia, cinema, rádio, televisão, comunicação via satélite, certamente vem mudando a estrutura do pensamento, agora marcado pela cultura da imagem e do som e pela "planetarização" da consciência. As transformações da técnica Utensílio, máquina e autômato. Grosso modo, eis as três etapas fundamentais do desenvolvimento da técnica. No estádio inicial, o utensílio é um prolongamento do cor- po humano: o martelo aumenta a potência do braço e o arado funciona como a mão es- cavando o solo. Quando deixa de usar apenas a energia humana, a técnica passa ao es- tádio das máquinas pela utilização da energia mecânica, hidráulica, elétrica ou atômica. Por exemplo, o carvão queimando faz mover o tear, o vapor de água faz funcionar a lo- comotiva, a explosão da gasolina viabiliza o automóvel e a eletricidade põe em movi- mento a batedeira de bolo. A máquina é o instrumento que atua por si mesmo e por si mesmo produz o obje- to. (...) No artesanato o utensílio ou ferramenta é somente suplemento do homem. Nes- te, portanto, o homem com seus atos "naturais" continua sendo o ator principal. Na máquina, ao contrário, passa o instrumento para o primeiro piano e não é ele quem aju- da ao homem, mas o contrário: o homem é quem simplesmente ajuda e suplementa a Filosofia, Ciência e Tecnologia Curso Técnico Integrado em Informática - 4ºano |Professora: Euza Raquel 6 máquina. (...) O que um homem com suas atividades fixas de animal pode fazer, sa- bemo-lo de antemão: seu horizonte é limitado. Mas o que podem fazer as máquinas que o homem é capaz de inventar é, em princípio, ilimitado. (Ortega y Gasset.) Em estádio mais avançado, o autômato imita a iniciativa humana, porque não re- pete "mecanicamente" as funções preestabelecidas, uma vez que é capaz de autoregu- lação. A partir de certos programas, é possível grande flexibilidade nas "tomadas de de- cisões", o que aproxima as "máquinas pensantes" do trabalho intelectual humano, já que são capazes de provocar, regular e controlar os próprios movimentos. O radar corri- ge a rota do avião de acordo com as alterações do percurso, a célula fotoelétrica insta- lada na porta do elevador impede que ela se feche sobre o usuário: em ambos os casos os comandos são alterados automaticamente conforme "informações" externas. Técnica e ciência Um esforço imenso é despendido pelohomem no domínio da natureza. Na medi- da do possível, alguns reservam para si as funções leves e encarregam outros do traba- lho mais penoso. A predominância de escravos e servos no exercício das atividades ma- nuais sempre levou à desvalorização desse tipo de trabalho, enquanto apenas as ativi- dades intelectuais eram consideradas verdadeiramente dignas do homem. Os romanos, retomando a tradição da Grécia, chamavam de ócio (otium) não propriamente a ausência de ação, mas o ocupar-se com as ciências, as artes, o trato social, o governo, o lazer produtivo. Ao ócio opunham o negócio (o nec otium, ou seja, a negação do otium), enquanto atividade que tem por função satisfazer as necessidades elementares. Evidentemente é o ócio que constitui para eles o ser próprio do homem, e alcançá-lo era privilégio reservado a poucos. Tal maneira de pensar supõe a existência da divisão social com a manutenção do sistema escravista ou da servidão. Mesmo Aristóteles sabia disso, e diz, em sua Política, que haveria escravidão enquanto as lançadeiras não trabalhassem sozinhas. A partir do final da Idade Média surge uma nova concepção a respeito da importância da técnica. Antes desvalorizada, ela torna-se o instrumento adequado para transformar o homem em "mestre e senhor da natureza". Averiguando as circunstâncias sociais e econômicas que possibilitaram uma mu- dança tão decisiva para a história da humanidade, encontramos no surgimento da bur- guesia os elementos que tomaram necessária a nova maneira de pensar e agir. Os bur- gueses, ligados ao artesanato e comércio, valorizavam o trabalho e tinham espírito em- preendedor. Ora, o sucesso e enriquecimento desse novo segmento social passam a exigir cada vez mais o concurso da técnica para a ampliação dos negócios: construção de navios mais ágeis, utilização da bússola para a orientação nos mares em busca de novos portos, aperfeiçoamento dos relógios (tempo é dinheiro!). Um bom exemplo do efeito transformador da técnica é a pólvora. Conhecida há muito nas civilizações orien- tais, como a China, onde era utilizada na confecção de fogos de artifício, ao ser levada para a Europa, irá redimensionar as artes bélicas, ao ser usada em canhões para o ata- que aos até então quase inacessíveis castelos da nobreza. A valorização da técnica altera a concepção de ciência. Se antes o saber era con- templativo, ou seja, voltado para a compreensão desinteressada da realidade, o novo homem busca o saber ativo, o conhecimento capaz de atuar sobre o mundo, transfor- mando-o. Essa nova mentalidade permite o advento da ciência moderna. Galileu, ao tornar possível a Revolução Científica no século XVII, estabelece fecunda ali- ança entre o labor da mente e o trabalho das mãos, o que irá marcar a relação entre ciência e técnica: • A técnica torna a ciência cada vez mais precisa e objetiva. Por exemplo, o termôme- tro mede a temperatura melhor do que o faz a nossa pele. • A ciência é um conhecimento rigoroso capaz de provocar a evolução das técnicas; a tecnologia moderna nada mais é do que ciência aplicada. Por exemplo, os estudos de termologia dão condições para a construção de termômetros mais precisos. Filosofia, Ciência e Tecnologia Curso Técnico Integrado em Informática - 4ºano |Professora: Euza Raquel 7 São profundas as alterações provocadas pelo advento da tecnologia em todos os setores da vida humana. Pode-se dizer que, em nenhum lugar e em tempo algum da história da humanidade, ocorreram transformações tão fundamentais e com tal rapidez. Por maiores que sejam as diferenças entre as culturas do Antigo Oriente do terceiro mi- lênio a.C e a da Europa do século XV, nada se compara à transformação radical no modo de vida que se opera do século XVIII ao final do século XX: em apenas trezentos anos, a ciência e a tecnologia alteraram fundamentalmente a maneira de viver e de pensar do homem contemporâneo. Técnica e sociedade As transformações das técnicas alteram as relações sociais. Enquanto o mundo agrícola e artesanal é marcado pela tradição, e fixa o homem ao campo, o advento das fábricas no século XVII estimula o aperfeiçoamento das máquinas e acelera o cresci- mento das cidades. Estabelecem-se novas relações de produção com o aparecimento da classe proletária assalariada e dos capitalistas detentores dos meios de produção. O auge do desenvolvimento do sistema fabril se dá no século XIX, sobretudo na Inglaterra. O setor secundário (indústria) se sobrepõe em importância ao setor primário (agricultura), definindo as características dos países industrializados e, portanto, mo- dernos: urbanização, utilização de várias formas de energia, organização hierarquizada da empresa, técnico especializado versus operário semiqualificado. A partir de meados do século XX constata-se uma transformação talvez tão radi- cal como aquela ocorrida no início da era moderna. Na atual sociedade pós-industrial, a produção de bens materiais passa a exigir a ampliação dos serviços (setor terciário). Nessas circunstâncias, a tecnologia que conta é em última análise a informação; basta ver como o cotidiano de todos se acha marcado pelo consumo de serviços de saúde, educação, recreação, comunicação, publicidade, empresas de comércio e finanças. Isso não significa que o setor secundário (industrial) perdeu importância, mas que também ele sofre alterações decorrentes da informatização. Técnica e alienação Retomemos a história do aprendiz de feiticeiro, referida na abertura do texto. Pelo menos duas interpretações podem ser feitas dessa lenda. A técnica é um poder cu- jas conseqüências nem sempre aparecem muito claramente no início do processo, por isso convém não desprezar a sabedoria daqueles que desejam discutir sobre os fins a que ela se destina, Isso significa que o técnico não pode ser apenas técnico, mas deve ser capaz de refletir a respeito dos valores que envolvem a aplicação da técnica. Por exemplo, a industrialização não-planejada transforma o mito do progresso no pesadelo da poluição e do desequilíbrio ecológico. Outra interpretação possível da velha lenda é que o primeiro sonho do maquinis- mo foi a libertação do homem das tarefas mais árduas e repetitivas. No entanto, o que temos observado é a ampliação do "batalhão de operários" executando ordens mecani- camente sem que tenha havido significativa redução do tempo de trabalho ou melhoria da qualidade de vida. Já em pleno Século das Luzes (séc. XVIII), Rousseau contrariava as expectativas otimistas que a maioria depositava nas vantagens do desenvolvimento da técnica, de- nunciando o avanço da desigualdade entre os homens. Afinal, o que ainda hoje consta- tamos é que os frutos da tecnologia não têm sido distribuídos de forma igual entre os homens. Na segunda metade do século XVIII, operários da região de Lancashire, na Ingla- terra, fizeram diversos movimentos durante os quais era destruído o maquinário das instalações fabris. Os "quebradores de máquinas", na verdade, já percebiam, com afli- ção, as profundas modificações decorrentes da passagem da produção artesanal e do- méstica para a fabril. Filosofia, Ciência e Tecnologia Curso Técnico Integrado em Informática - 4ºano |Professora: Euza Raquel 8 É típico do trabalho artesanal o conhecimento de todas as fases da produção, mas a mecanização desenvolveu a tendência à divisão do trabalho. Essa fragmentação culmina no século XX com a produção em linha de montagem, quando o operário perde a visão global do que está sendo produzido. Com essa nova organização do trabalho, o operário perde o saber técnico, cabendo a ele apenas executar o que foi concebido e planejado em outro setor, acentuando-se assim a separação entre concepção e execu- ção do trabalho. Em decorrência disso surge a figura do técnico especialista, de saber qualificado, como engenheiros, administradores etc. No desenvolvimento do sistema capitalista, o operário confinadoà fábrica perde os instrumentos de trabalho, a posse do produto e, em conseqüência, perde a autono- mia. Deixa de ser o centro de si mesmo: não escolhe o salário, nem o horário, nem o rit- mo de trabalho. Com isso se dá uma grande inversão, em que o produto passa a valer mais que o próprio operário, uma vez que aquele determina as condições de trabalho deste e até as demissões e contratações. Trata-se de uma inversão porque aquilo que é inerte (a coisa, o produto) passa a "ter vida" e o que tem vida (o homem) se transforma em "coisa". Assim se configura o que chamamos trabalho alienado. Etimologicamente, a palavra alienação vem do latim alienare, alienus, que significa "que pertence a um outro". Alienar, portanto, é tomar alheio, é transferir para outrem o que é seu. Ora, se admitirmos que, pelo trabalho, ao mesmo tempo que o homem faz uma coisa também se faz a si mesmo, o trabalho alienado é condição de desumaniza- ção, pois os trabalhadores perdem o controle do produto e conseqüentemente de si mesmos, tornando-se incapazes de atuar no mundo de forma crítica. A tecnocracia O desenvolvimento acelerado da técnica cria o mito do progresso. Segundo essa crença, tudo tende para o aperfeiçoamento, mediante a atualização de potencialidades que se encontram em estado latente, embrionário. E, se tudo evolui para melhor, o de- senvolvimento da ciência e da tecnologia faria só acelerar esse processo. A partir de tal concepção, compreende-se como natural a necessidade do aumen- to crescente da produção (ideal de produtividade); para tanto é estimulada a competiti- vidade (a fim de que cada empresa seja melhor naquilo que produz), bem como a espe- cialização (segundo a qual cada vez mais as grandes decisões são deixadas a cargo de especialistas na área). Com o passar do tempo, as formas de controle de produção e divisão do trabalho se tornam mais rigorosas, desenvolvendo-se para tanto métodos científicos de "racio- nalização" do trabalho, que têm em vista os objetivos já referidos de produtividade, competitividade e especialização. O mundo da produção assim configurado leva fatalmente à tecnocracia, que sig- nifica o domínio dos técnicos e da técnica. Ou seja, na civilização tecnicista e cientificis- ta, a última palavra é sempre dada ao especialista, ao técnico competente. No entanto, vivemos hoje a crise desses valores. O ideal do progresso inexorável é desmistificado quando constatamos que o desenvolvimento da ciência e da técnica nem sempre vem acompanhado pelo progresso moral. É o que veremos a seguir. Razão louca e razão sábia Os tempos modernos surgiram marcados pelo ideal da racionalidade que culmi- nou no Iluminismo do século XVIII. Superando a concepção medieval, centrada na tradi- ção e na visão religiosa do mundo, a modernidade se toma laica (não-religiosa) e busca na razão a possibilidade da autonomia do homem. O desenvolvimento técnico e científi- co é a expressão do racionalismo dos tempos modernos. Mas, quando nos referimos à racionalidade da sociedade contemporânea, é bom indagar a respeito de que razão estamos falando. A razão que serve para o desenvolvi - mento da técnica é a razão instrumental, bem diferente da razão vital, por meio da qual o homem se torna capaz de compreender criticamente a situação em que vive. Ora, se nunca o homem teve tanto saber nem tanto poder em suas mãos, também é verdade Filosofia, Ciência e Tecnologia Curso Técnico Integrado em Informática - 4ºano |Professora: Euza Raquel 9 que o acréscimo de saber e de poder não tem sido acompanhado de sabedoria. O ho- mem contemporâneo sabe o que fazer e como fazer, mas perdeu de vista o para que fazer. O "especialista competente" pode ser o "aprendiz de feiticeiro" que não reflete suficientemente bem a respeito dos fins de sua ação. Fazemos essa triste constatação quando nos defrontamos com o desequilíbrio entre riqueza e miséria, a violência das guerras com seus armamentos sofisticados, os níveis insuportáveis de competição, o consumo desenfreado criando necessidades artificiais, as desordens morais da socieda- de centrada nos valores de posse. Além disso, uma das inúmeras contradições da sociedade pós-industrial é que o homem se acha saturado de informações inúmeras e complexas, mas tão rápidas e fragmentadas (como um videoclipe!), que nem sempre é capaz de reorganizá-las de forma crítica. A grande "maioria silenciosa" é despolitizada e mais preocupada com os problemas do seu cotidiano individual, com os problemas práticos de alcance imediato. Presenciamos no século XX um período de crise: a razão, que deveria servir para vincu- lar o homem ao real a fim de compreendê-lo, para escolher o que é melhor para sua vida, essa razão se acha "enlouquecida". O trabalho da filosofia consiste em recuperar a razão sábia, a razão vital, como instrumento para resgatar o sentido humano do mundo. (Fonte: ARANHA, M. L. A; MARTINS, M. H. P. Temas de Filosofia. São Paulo: Moderna, 1992.) Filosofia, Ciência e Tecnologia Curso Técnico Integrado em Informática - 4ºano |Professora: Euza Raquel 10