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UNIDADE 2 pOlíTICA E , CIDADANIA €Tic..f\ Q. c..i da ÓQ T\Á.,Q ; (~~:rf\Ã.JYI~o:, do. +lo'ôof:O-.-" ~GnQfY1tos (7Q o .P.JY\. c)..,7\ ::J ck ~ \o~tq . S(lv:o (;.Q.\lo (coof\cl-)- JV~~. (1.w . .9- o:.t~~d.Q - Q.o-.m-r-'6'Or.I, 1Q~~Q.U..sI '1003 i -/12 p. Maurício está vendo o final do Jornal Nacional com Sandra, sua namorada. Não foram para a escola hoje, e esperam para ver o último capítulo da novela das oito, que há muito tempo não começa nem às oito nem às oito e meia. Às !lOh30min, o jornal termina e eles ficam felizes, pois isso é difícil de acontecer. - Oba, já vai começar a novela! Mas a decepção é imediata: a TV anuncia: "Interrompemos nossa programação para transmitir o horário eleitoral gratuito, conforme determinação do Ministério da Justiça. (- Voltamos a seguir com a programação normal." -Ah, nãol Teremos que agüentar aqueles chatos de novo! Maurício e Sandra desligam-se da TV enquanto namoram no sofá, mas, de vez em quando, ainda vêem na tela aquelas mesmas caras de sempre, que certamente estarão fazendo, de novo, as mesmas promessas. Desligam a TV e voltam ao namoro. Novela mesmo, só mais tarde. 25 Participação: Palavra de ordem ; , Volta e meia, a sociedade chama seus membros para participar. Participar de uma missa, de um torneio esportivo, de uma campanha de aquisição de agasalhos etc. Participação, essa é a palavra de or- dem. Porém, será que já paramos para pensar nessa tal participação? Interessante reparar, antes de mais nada, que o ato de participar nunca é feito sozinho; não é um ato isolado de alguém que não tem companhia, mas algo que fazemos com os outros. O solidário, que está sempre disposto a participar, porta-se desta maneira: está em comunhão; vive ansioso pelo encontro; faz questão de trocar as suas experiências de vida com os outros. Sabe muito bem que viver é acima de tudo con-viver. O solidário é o companheiro; você já pensou sobre o significado dessa palavra? Ela vem do latim, cum-panere, e significa algo mais ou menos como" aqueles que comem juntos o pão da vida". Logo, o companheiro, o solidário, é aquele que divide sua vida com os outros, aquele para quem a vida não é apenas uma co-existência com os outros, mas uma verdadeira convivência, um viver com os outros. Mas há outros que são diferentes: um indivíduo que está sempre em seu canto, não compartilha seus desejos, suas emoções, seus pensamentos, enfim, sua vida com os outros. Pode-se dizer que tal indivíduo é um marginalizado, não por que foi discriminado, mas porque ele mesmo se isolou dos outros. Essa vivência à margem tem como resultado a conside- ração de que o ser humano pode e, às vezes, até deve se isolar dos demais. Mas como podemos fugir do encontro se, queiramos ou não, estamos sempre partilhando uns com os outros? O poeta inglês John Donne começou um poema com o verso: "Ho- mem algum é uma ilha." Somos seres sociais, "animais políticos" como já definiu Aristóteles há 2.500 anos atrás, o que nos leva a necessariamente tomar parte de grupos humanos, a viver nossa vida junto a muitas outras pessoas iguais a nós. É por isso que, por mais que queiramos escapar, fugir para uma ilha deserta, a sociedade está sempre atrás de nós. Até podemos nos isolar por alguns instantes, mas, ao irmos para a escola, para o traba- lho, para o clube, para a igreja '61.1para qualquer outro lugar, estaremos,.. encontrando pessoas, estaremos participando de grupos sociais. O ato de participar é uma condição humana da qual não podemos escapar. Quem pensa que escapa, está iludindo a si mesmo. 26 As relações humanas e ~poder I Convivendo com outros homens, os con- flitos de vontades e interesses são sempre inevitáveis. No momento do impasse, que é uma luta entre diferentes desejos, um indivíduo quer impor ao outro a sua vontade. Normalmente quem vence esse conflito é aquele mais bem aparelha- do: dependendo da circunstância, pode ser o mais forte, o mais inteligente, o mais jovem, o mais bonito ... A capacidade de transformar as vontades dos outros na sua vontade é aquilo que chamamos de poder. Numa primeira aproximação, o poder seria a capacidade de realizar qualquer ato ou ação; um aspecto importante é que ele pressupõe até mesmo a oposição, constittúndo, então, a capacidade de supe- rar essa oposição pela força, impondo-se a ela. De modo geral, o poder seria a potência para realizar determinado desejo ou vontade. O jogo de poder apresenta-se, assim, como um jogo de vontades, no qual a vontade de um - o mais forte, por alguma razão - acaba se impondo sobre a vontade de outro ou outros. A noção de poder implica também a capacidade de ter suas ordens obedecidas. Aquele que é investido de poder - um indivíduo ou uma instituição - tem a chance e os instrumentos para potencializar suas vontades, transformando-as em atos. Não podemos, entretanto, julgar que a ação do poderoso dá-se unica- mente no sentido de subjugar e neutralizar a(s) vontade(s) alheia(s). Embora em casos bastante especificos a ação hegemônica do poder só seja possível por meio da neutralização das demais vontades - é o caso do totalitarismo -, de modo geral, o poder age pelo convencimento e pela manipulação das vonta- des alheias. Assim, em vez de agir pela neutralização das vontades, o poder age muito mais por meio de sua transformação; tomar o conjunto das vontades diferentes e torná-las uma, a vontade do poderoso, com a qual os demais devem concordar. Nessa visão clássica do poder, ele é compreendido como uma coisa que se concentra em determinados espaços de um grupo social: o lugar do poder é o Palácio do Governo, é a Câmara dos Deputados, ou mesmo o próprio corpo do rei, que a todos governa. Se apenas um tem o poder, todos os outros indivíduos não têm poder algum: é uma sociedade servil. Mas de onde viria o poder desse indivíduo? Por que todos o obedecem? Um filósofo do século XVI chamado Etienne de la Boétie, num pequeno livro, o Discurso da senJidão voluntária, forneceu a pista para entender a chara- da: quando um indivíduo manda, seu poder vem não dele mesmo, mas dos outros que se submetem. De sua perspectiva, o que sustenta o tirano não é a sua própria autoridade, mas a entrega dos súditos, isto é, a dominação só é possível com o concurso direto dos próprios dominados. Segundo ele, em torno do tirano constrói-se uma rede de interesses. O tirano tem 6 assessores '27 \ diretos, cada um deles tem mais 60 empregados e assim por diante, de modo que toda a sociedade acaba envolvida nessa rede de interesses. Desse modo, o que garante o poder do tirano é uma rede de micropo- deres e interesses que se constrói a sua volta, o que, ao invés de enfraquecer esse poder central pela diluição, fortalece-o, sendo seu próprio sustentáculo e sua própria garantia. Mas, se os indivíduos se recusarem a servir, acaba o poder do tirano. Portanto, a sociedade servil depende do consentimento dos indivíduos; se eles resolverem não mais obedecer a um rei e solucionar seus próprios problemas políticos, eles podem construir novas formas de relação social. A política Ao decidir fazer algo, o ser humano deve levar em conta seus interesses. O interes- se é o objetivo que a decisão poderá alcan- çar. Por exemplo: quando alguém decide estudar, acredita que, com um nível mais alto de conhecimento, poderá conseguir uma ascensão, seja profissional, social ou interior. Esse mesmo alguém prefere o estudo ao analfabetismo. Estão implicados nesta ação o interesse em ascender e a decisão de se alfabe- tizar. Em filosofia, isso é o que chamamos de valor. Todo ato humano está fundamentado em determinados valores, em determinados interesses; para dizer de outra maneira, sempre que fazemos alguma coisa, temos em mente algum objetivo a ser alcançado com aquela ação. Até aqui, a discussão se fez em um nível particular. A discussão sobre a orientaçãodas ações humanas em caráter particular é chamada de ética; é ela quem pode nos ensinar a bem conduzir nossas vidas. Mas, quando alguém procura conduzir a um público maior seu interesse e sua decisão, a fim de que esse público se engaje, ele está exercendo aquilo que denominamos de política. Se a ética é a reflexão sobre a fundamentação dos atos humanos em sua particu- laridade - isto é, no que diz respeito à vida privada de cada indivíduo -, a política é a reflexão sobre os atos humanos que se cometem em sociedade, na vida pública. O engajamento do público se dará pelos interesses que estiverem em jogo. Portanto, política é a tomada de decisões que visem objetivar interesses que irão refletir na coletividade. Deve ficar claro para você que ética e política devem sempre andar juntas, pois, se vivemos em sociedade, é muito difícil distinguir se deterrnínadas ações que fazemos terão conseqüências apenas pri- vadas ou se estenderão para outras pessoas, na esfera pública. Apenas um exemplo: se alguém decide estudar para conseguir certa ascensão social, isso não diz respeito apenas a essa pessoa; para a coletividade, faz muita diferença tomar parte dela um indivíduo analfabeto ou um indivíduo bem formado. 28 I No momento em que se fala sobre política, logo vem à mente o governo. Faz-se a relação de que fazer política é governar. Se pensarmos assim, apenas poucas pessoas "fazem política". Mas será que, de fato, a política é apenas exercida na esfera do governo? Também se fala muito que vivemos sob a forma de governo chamada democracia. Abrimos um jornal ou uma revista e lá está essa palavra estam- pada. Na televisão e no rádio também se diz muito sobre ela. Mas que coisa é essa? O que é a democracia? Você já pensou a respeito? A democracia Vamos recuar um pouco no tempo e dar uma olhada na pólis grega, que foi a primeira experiência histórica de de- mocracia. Os gregos, que no início eram tribos de pastores nômades, aos poucos foram se fixando em determinadas regiões, quando começaram a dominar as técnicas da agricultura e da pecuária. Como os demais povos antigos, come- çaram a constituir as cidades que, na sua língua, chamaram de pólis. Mas as cidades antigas eram um tanto quanto diferentes das nossas, pois eram unidades políticas autônomas. O que significa isso? Ora, a cidade na qual você mora não tem autonomia política; ela pode criar algumas leis, mas está submetida a uma série de leis estaduais, sendo que os Estados brasi- leiros, por sua vez, estão submetidos a leis federais. Nos dias de hoje, os países são as unidades políticas autônomas. No tempo dos gregos antigos, era como se cada cidade fosse um verdadeiro país, pois ela criava suas próprias leis. Por exemplo: uma lei válida em Atenas poderia não existir em Esparta ou em Delfos. A convivência entre os indivíduos, o envolvimento com os negócios relativos à administração da cidade, da pólis é o que eles chamavam de política. Muitas formas os gregos criaram para administrar a cidade, dependendo de como as pessoas se envolviam com essas atividades. Quando apenas uma governava, chamavam de monarquia; quando era um grupo maior de pessoas que se envolvia com a administração, chamavam de aristocracia. Num certo período da história de Atenas, uma das principais cidades gregas, por volta do ano 500 a.c., um legislador chamado Clístenes resolveu fazer uma reforma radical, fazendo com que todos os cidadãos se envolvessem com as atividades de administração da cidade. Clístenes fez uma arrojada divisão do território de Atenas, sendo que a cada unidade regional básica ele chamou de demos. Dos 30 demos que compunham a cidade eram sorteados os indivíduos que participariam dos diversos conselhos administrativos, encarregados da criação das leis e de sua execução. A aprovação das leis era feita pela Assembléia, que se reunia uma vez por mês e da qual poderiam participar todos os cidadãos. O nome 29 . ' " .' " ., democracia significa, portanto, governo dos demos, e não exatamente go- verno do povo como normalmente se diz. Se as decisões eram tomadas nas Assembléias, os homens precisavam exercer seu poder de persuasão nos debates realizados em praças públicas. O resultado desses debates eram decisões que refletiam na vida de todos os habitantes da pólis. Para fazer valer seus interesses, um indivíduo precisava dominar com perfeição as artes da retórica e da oratória, para convencer os demais a votar naquilo que ele defendia. Nesse momento, quando os homens tentavam convencer uns aos outros sobre determinadas coisas, estavam em pé de igualdade. A igualdade que todos tinham de falar para a pólis na Assembléia. Entretanto, um último detalhe histórico é necessário: nesse período, a cidade de Atenas contava com uma população de aproximadamente 400 mil pessoas. Mas nem todas eram cidadãs: os 200 mil escravos não eram conside- rados nem como gente; os 100 mil estrangeiros e mais as 60 mil mulheres e crianças não tinham direitos políticos. Eram cidadãos apenas 40 mil indiví- duos livres do sexo masculino. E eram esses 10%da população que participa- vam da administração da cidade. Na Idade Moderna, quando as revoluções burguesas colocam fim ao regime feudal da Idade Média, a democracia volta à cena: é esse regime que será implantado como o melhor meio de governar, em oposição à monarquia que havia predominado até então. Mas agora já não existem escravos e a unidade política passou a ser o país (temos o Estado-nação e não mais a cidade-Estado), o que permite que mesmo as pessoas nascidas em outras cidades tenham direitos políticos. Como garantir então a parti- cipação de todos? A noção moderna de democracia como acesso de todos os indivíduos à administração da sociedade passa pela questão da repre- sentatividade. Clístenes criou em Atenas uma democracia direta ou partici- pativa (todos os cidadãos participavam diretamente da administração), ao passo que a modernidade colocou a idéia de uma democracia representativa, isto é, um sistema no qual os indivíduos elegem uma certa quantidade de pessoas que vão representar seus interesses nos assuntos de administração I da sociedade. A idéia é a seguinte: a ação democrática consiste em todos tomarem parte do processo decisório sobre aquilo que terá conseqüência na vida de toda a coletividade. Quem pode dízer o que é bom para todos? Aquele mesmo que irá provar - o próprio ser humano. Se não de forma direta, pelo menos por meio de seus representantes, desde que ele se mantenha ativo e vigilante, acompanhando o trabalho daqueles que elegeu. Mas a democracia representativa, se supostamente garante o acesso de todos aos mecanismos do poder, também possibilita o fenõmeno da margina- lização. 30 A marginalização política Vamos nos reportar novamente ao isola- mento. Os marginalizados políticos se re- tiram do processo decisório e se afastam dos demais. Abdicam do direito de falar sobre assuntos de interesse coletivo. É a instituição do silêncio político. Eles o fazem porque acreditam que assim poderão resolver melhor seus problemas particulares. Na época das eleições, desligam a TV na hora do horário eleitoral gratuito, ou a deixam ligada sem prestar atenção ao que os sujeitos dizem. No dia de votar, cumprem com seu dever votando em qualquer um, pois tanto faz: "São todos iguais, mesmo." Temos o abandono das questões públicas e a excessiva preocupação com as questões particulares. Cria-se um amontoado de indivíduos que buscam tão-somente voltar seus olhos para si mesmos. Nesse amontoado, ninguém se propõe a falar. O único conselho dado é não aconselhar. Esses indivíduos não se preocupam em votar em alguém que possa representar seus interesses e suas necessidades no governo. E parecem não perceber que, queiram ou não, vívem em meio a outros indivíduos, o que significa que sua vída depende dos outros e que aquilo que ele fizer também influenciará nas vidasalheias. O que significa isso? Relembrando que viver é acima de tudo con-viver, a esfera pública sempre vai existir. Se sempre existirá, alguém estará se ocupando dela. Quanto menos as pessoas participarem da política mais os interesses daqueles que se ocuparam da esfera pública irão prevalecer. As decisões a serem tomadas serão baseadas nesses interesses particulares, e não visando aos interesses coletivos. O silencioso político, queira ou não, perceba isso ou não, assume o que foi decidido pelos outros, sem nem mesmo colocar a público seu interesse. Portanto, assume a obediência e abdica da autodireção. Herda o status de governado e não o de governante. Quem prioriza em demasia suas questões particulares, priva-se da autodeterminação. Mas as engrenagens da máquina de governo democrática não param de funcionar apenas porque algumas pessoas - mesmo que sejam milhares ou milhões - não dão atenção a elas. Elas continuam a fabricar as leis e os mecanismos sociais por meio daqueles, mesmo que sejam poucos, que estão participando. Mas é claro que estará funcionando segundo as idéias e os interes- ses dos que participam e não daqueles que se omitem. A democracia representativa permite ao indivíduo se esconder atrás de si mesmo e não participar, porque assim ele se exime da responsabilidade pelas questões políticas. Émais fácil afirmar que a questão da inflação é um problema do governo, que são os "políticos" que precisam resolvê-la. Mas esses indivíduos se esquecem de que a inflação tem conseqüências sérias na sua vida particular, e que ele jamais poderá dar conta delas sozinho. As questões públicas são respon- sabilidade de todos nós e, mesmo que alguns indivíduos tenham sido eleitos para cuidar delas, não basta que eles ajam, é necessário que cada um de nós, como membro dessa sociedade, faça a sua parte - por menor que seja. 31 A ação cidadã Ao trazer à tona o fato da marginalização política, podemos perceber que ela se vol- ta contra o próprio ser humano. Quando os indivíduos se recusam a participar das decisões sociais, estão se recusando a deci- dir sobre suas próprias vidas. Estão aceitando que os problemas que dizem respeito a suas vidas sejam pensados e resolvidos por outras pessoas. Estamos, então, cara a cara com uma sociedade senJil. Atestado o problema, é imperativo que se encontre a solução. Essa solução é a participação dos cidadãos nas questões públicas. Entenda-se aqui cidadão como uma categoria de mobilização e não de localização. Para os gregos antigos, o político era aquele que participava dos negócios da pólis. Quando a cultura grega foi assumida e difundida pelos romanos, que fala- vam latim, a pólis virou a cive em sua língua. É da palavra latina cive que se origina a palavra cidade, no português, e é também dela que vem a palavra cidadão. Portanto, cidadania é sinônimo de política no sentido grego, assim como cidadão e político são a mesma coisa. O cidadão não espera que o outro lhe dê as condições necessárias para participar, pois essas condições brotam de si mesmo. É a autodeterminação. O cidadão sabe que é preciso buscar; é preciso conquistar. Éuma ação que não se acaba. O cidadão é sobretudo o participante. Para ter uma participação política efetiva, os cidadãos devem se organizar para a defesa de interesses comuns, adquirindo vez e voz. Estamos nos refelindo à passagem do servilismo para o exercicio da autêntica destinação da vida. Pela associação de todos os cidadãos, manter-se-á viva a noção de que o ser humano con-vive e far-se-á a defesa da democracia como a forma de governo que permite essa efetiva participação. E, com ela, os membros da sociedade não esperarão o chamamento, pois estarão participando por livre e espontânea vontade. ~ Texto complementar A COTOVIAEOS SAPOS (adaptação livre de uma fábula chinesa) Era uma vez uma sociedade de sapos que vivia no fundo de um poço escuro e profundo, do qual absolutamente nada se via do mundo exterior. Eram governados por um enorme Sapo-Chefe, um valentão que afirmava, sob pretextos um tanto dúbios, ser dono do poço e de tudo quanto nele saltava ou rastejava. O Sapo-Chefe jamais movia uma palha para se alimentar ou se manter, vivendo do trabalho de diversos sapos trabalhadores com os quais ele compartilhava o poço. Essas pobres criaturas passavam todas as horas de seus dias escuros e muitas de suas noites tenebrosas a se matar na umidade e no lodo para encontrar os vermes e os insetos que engordavam o Sapo-Chefe. 32 De vez em quando, uma cotovia excêntrica voava para dentro do poço (sabe Deus por quê!) e contava para os sapos as maravilhas que vira em suas viagens pelo imenso mundo lá fora. Falava do sol, da lua e das estrelas, das montanhas altaneiras, dos vales férteis e dos vastos mares, e ainda da delícia de explorar o espaço infinito. Sempre que a cotovia chegava de visita, o Sapo-Chefe recomendava aos sapos trabalhadores que escutassem atentamente tudo o que o pássaro tinha para contar. "Ela lhes está falando", explicava o Sapo-Chefe (que, de qualquer modo, era meio surdo e nunca sabia dire~o o que a cotovia estava dizendo; achava aquela ave esquisita e inteiramente malucal, "da terra feliz para onde vão todos os sapos bons...•• É possível que um dia os sapos trabalhadores se houvessem imbuído daquilo que o Sapo-Chefe lhes dizia. Com o tempo, porém, haviam se tornado céticos em relação aos contos da carochinha e chegado à conclusão de que aquela cotovia tinha um parafuso a menos. Além disso, haviam sido convencidos por alguns sapos livre-pen- sadores de que aquele pássaro estava sendo usado pelo Sapo-Chefe para consolá- los e distraí-los com histórias das maravilhas que existem no céu para os que morrem. "E isso é mentira!", coaxavam furiosamente os sapos trabalhadores. Entretanto, havia entre eles um Sapo-Filósofo que formulara uma idéia nova e interessante a respeito da cotovia. "O que a cotovia diz não é exatamente uma mentira", dizia ele. "Nem é loucura. Na verdade, ao falar dessa maneira esquisita, ela está se referindo ao lugar maravilhoso em que poderíamos transformar esse poço, se quiséssemos. Quando fala do sol e da lua, está se referindo às magníficas formas de iluminação modema que poderíamos adotar para afugentar as trevas em que vivemos. Quando canta os céus altos, refere-se à saudável ventilação de que devíamos gozar, ao invés dos ares úmidos e fétidos a que nos acostumamos. Quando louva a embriaguez que vive ao lançar-se pelos céus, refere-se à delícia dos sentidos liberados que todos nós conheceríamos se não fôssemos obrigados a desperdiçar nossas vidas nesta labuta opressiva. Eo que é mais importante: quando a cotovia enaltece o vôo altivo e livre entre as estrelas, refere-se à liberdade que todos teremos quando nos livrarmos da opressão do Sapo-Chefe. Vêem? Não devemos desdenhar do pássaro. Em lugar disso, ele deve ser apreciado e louvado por nos proporcionar uma inspiração que nos livra do desespero." Graças ao Sapo-Filósofo, os sapos trabalhadores passaram a olhar a cotovia com afeição. Na verdade, quando chegou afinal a revolução (pois as revoluções sempre acabam vindo), os sapos trabalhadores até mesmo pintaram a imagem da cotovia em seus estandartes e marcharam para as barricadas fazendo o máximo que podiam para, com o seu coaxar, imitar.lhe o belo canto. Derrubado o Sapo-Chefe, o poço escuro e úmido tornou-se magnificamente iluminado e ventilado, transformando.se num lugar muito melhor para viver. Além disso, os sapos experimentaram um novo e gratificante lazer, acompanhado de muitas delícias dos sentidos - justamente como o Sapo-Filósofo havia previsto. Entretanto, a cotovia continuou a visitar o poço, contando histórias do sol, da lua e das estrelas, de montanhas, vales e oceanos, e de esplêndidas aventuras que vivera nos céus. "Quem sabe - conjeturou o Sapo-Filósofo - se afinal de contas esse pássaro não seja mesmo louco? Já nãotemos necessidade alguma dessas canções ~nigmáticas. E, seja como for, é muito cansativo ter de escutar fantasias quando já perderam sua relevância social." Assim, um dia, os sapos conseguiram capturar a cotovia. Depois, empalharam-na e colocaram-na no recém-construído Museu Cívico (entrada gratuita ...) em lugar de honra. 33 'Q, Proposta de atividades I. No ambiente político que você vive mais de perto: • Como se dão as decisões políticas em sua escola? São democráticas e partici- pativas ou não? Como você vê isso? • Existe um grêmio em sua escola? Se existe, como ele se organiza? É uma democracia direta ou indireta? • Se não há um grêmio, que tal criar um? Peça ajuda a seus professores. 2. Na sociedade: • Entreviste pessoas que participem de movimentos sociais, partidos políticos, sindicatos, associações etc., e relacione seus depoimentos com o conceito de participação estudado nesta unidade . • Faça uma pesquisa de campo para saber o que as pessoas pensam sobre a politica. Confronte as respostas com o conceito grego de politica. 3. Analise e discuta a letra da música Umbigo, de Lenine e Bráulio Tavares, gravada por Lenine no CO Falange canibal, levando em conta as questões do isolamento político apresentadas nessa unidade. 'Q, Indicações de leitura r=====::::;-'N"'a;-;::co;;1le;;;ç:1iã;o I:P;;;ri;:;:m;;;e:;:iro;;;s~pP;a;;:s-;:so;;;s:-,';id;;"aI:E;tdi;t,to;;ra;;""iiB';;ra;;:sTIiili;;;en;;;s:;;e,-v;;;o;;:c:8ê ~ encontrará diversos títulos interessantes voltados para algu- .. 0.; . ~ mas temáticas trabalhadas nesta unidade. Indicamos alguns: • O que é poder, de Gérard Lebrun; • O que é política, de Wolfgang Leo Maar; • O que é democracia, de Denis L. Rosenfield; • O que é partidpação política, de Dalmo de A. Dallari; • Política para meu filho, de Fernando Savater, Editora Mar- tins Fontes. No livro Rousseau: O bom selvagem, de Luiz R.S. Fortes, publicado na coleção Prazer em Conhecer, da Editora FTD, você encontrará um bom estudo sobre o filósofo que mais influenciou o conceito moderno de democracia. 'Q, Sugestões de trabalho complementar MUSICAS: • Podres poderes, de Caetano Veloso (álbum Velôl • Estado violência, dos Titãs (álbum Cabeça dinossauro) • Perfeição, do Legião Urbana (álbum Odescobrimento do Brasin • Uns iguais aos outros, dos Titãs (álbum Domingo) • Minha tribosou eu, deZeca Baleiro(noCDPet ShopMundo Cão) FILMES: • Danton - Oprocesso da revolução. O revolucionário francês e sua ação na Assembléia Legislativa; ótima pedida para ilustrar e debater o conceito moderno de democracia. • O homem que virou suco. A sociedade brasileira e o processo de exclusão são retratados nesse filme . • A língua das mariposas. As relações políticas e sociais na Espanha durante a Guerra Civilvistas por um garoto que começa sua vida na escola, onde encontra um professor anarquista. • O que é isso. companheiro? Uma visão sobre a militância política no Brasil durante os anos 60, em oposição à ditadura militar. 34 00000001 00000002 00000003 00000004 00000005 00000006 00000007 00000008 00000009 00000010