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14
DEZEMBRO DE 2014 WWW.REVISTAPESQUISA.FAPESP.BR
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2
6
Água em abundância depende de 
florestas preservadas para formar chuvas e 
manter a qualidade dos aquíferos
Objeto de 
desejo
CORDILHEIRA 
AFRO-BRASILEIRA
Cadeia de montanhas 
formada há 610 
milhões de anos 
impulsionou a vida 
molecular
INOVAÇÃO ABERTA
Empresas recorrem 
a múltiplos 
parceiros para criar 
conhecimento
PELE ARTIFICIAL
Curativo para 
queimaduras graves é 
feito de óleo de copaíba 
e polímero
EXPEDIÇÃO 
Circum-navegação 
mostra que os EUA 
buscavam seu lugar no 
mundo no século XIX
ENTREVISTA
NESTOR GOULART 
REIS FILHO
A arquitetura e o 
urbanismo estudados 
como um só processo
SUPLEMENTO 
ESPECIAL 
USP 80 ANOS
PESQUISA FAPESP 226 | 3
Depósito de pólen
A imagem mostra a cesta de pólen (corbícula), parte da tíbia da 
perna traseira da abelha, usada para armazenar os grãos até a 
colmeia. Capturada em um microscópio confocal, a foto ganhou 
o segundo lugar na categoria Fluorescência no concurso Imagens 
Microscópicas em Ciências da Vida, promovido pelo Instituto de 
Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP). 
A autora é Márcia Sirlene Zardin Graeff, especialista em laboratório 
e doutoranda da Faculdade de Odontologia da USP de Bauru.
FOTOLAB
Imagem enviada por Malu Motta, do ICB-USP
Se você tiver uma imagem 
relacionada à sua pesquisa, envie 
para imagempesquisa@fapesp.br, 
com resolução de 300 dpi (15 cm 
de largura) ou com no mínimo 
5 MB. Seu trabalho poderá ser 
selecionado pela revista.
4 | DEZEMBRO DE 2014
ENTREVISTA
26 Nestor Goulart 
Reis Filho
Arquiteto fala de suas 
pesquisas sobre a mineração 
de ouro feita na cidade de 
São Paulo e nos municípios 
vizinhos 
POLÍTICA CIENTÍFICA 
E TECNOLÓGICA
38 Inovação aberta
Empresas brasileiras 
dividem riscos e custos 
com parceiros múltiplos 
em projetos de pesquisa e 
desenvolvimento
44 Colaboração
Pesquisadores discutem 
parcerias para desenvolver 
medicamentos contra 
doenças que atraem 
pouco interesse das 
indústrias farmacêuticas
CIÊNCIA
48 Geologia
Cadeia de montanhas formada 
há 610 milhões de anos teria 
impulsionado a evolução da vida 
complexa no planeta
54 Física
Brasileiros descobrem como 
medir variações de energia de 
núcleos atômicos
58 Ecologia
Experimento indica que maior 
número de espécies de anfíbios 
ajuda a deter a transmissão 
de uma doença fatal causada 
por fungos
60 Zoologia
Ácaro transmite vírus que causa 
doença em laranjeiras ao se 
alimentar do suco celular
62 Obituário
Adib Jatene foi responsável por 
marcos da medicina experimental 
e conquistas para a saúde pública
CAPA
18 A escassez 
de água que alarma 
o país tem relação 
íntima com as 
florestas
18
DEZ.226
CAPA 
FOTO LÉO RAMOS
54
PESQUISA FAPESP 226 | 5
TECNOLOGIA
64 Biotecnologia
Substituto cutâneo poderá 
ser usado como enxerto no 
tratamento de queimaduras 
e de lesões graves
68 Empreendedorismo
Empresa desenvolve sistema 
para identificação mais rápida 
de bactérias relacionadas a 
infecções hospitalares
70 Nanotecnologia
Nanotubos de carbono 
combinados com chumbo 
ou pesticidas potencializam 
efeitos tóxicos em peixes
74 Agricultura
Leguminosa usada como 
fertilizante pode aumentar 
em 35% a produtividade da 
cana-de-açúcar
HUMANIDADES
76 História
Primeira expedição científica 
de circum-navegação dos 
Estados Unidos mostra que a 
jovem nação buscava um 
lugar no mundo desde o início 
do século XIX
82 Filosofia
Pós-graduação forma um 
mestre por dia na área e 
incorpora temas como 
neurociência e mudanças 
climáticas
86 Antropologia
Tese premiada sugere que 
próteses para amputados 
e exoesqueletos
retomam o ideal do ciborgue
91 Obituário
Leandro Konder dedicou-se 
a estudar e divulgar a obra de 
Karl Marx
SEÇÕES
3 Fotolab
7 Carta da editora
8 Cartas
9 On-line
10 Dados e projetos 
As fontes dos recursos
11 Boas práticas 
› O que define um autor 
› Revisores falsificados
12 Estratégias
14 Tecnociência
92 Memória 
Os chamados padres 
matemáticos fizeram 
mapas detalhados 
sobre os sertões do Brasil
94 Arte 
Exposição apresenta coleção 
de objetos interativos que 
representam equações, teoremas 
e conceitos matemáticos
96 Ficção 
“Manteiga com margarina”, 
de Eurico C. de Oliveira
98 Carreiras 
Tese de Claudia Melo, diretora 
de tecnologia da ThoughtWorks, 
foi desenhada para gerar impacto 
na academia e na indústria
68
76
94
Para descobrir fatos 
ambientais surpreendentes 
sobre a comunicação 
impressa e o papel, visite
www.twosides.org.br
 
 
Você sabia que as empresas 
brasileiras produtoras de papel 
obtêm 100% da celulose a partir de 
fl orestas plantadas?* 
A área de fl orestas plantadas no 
Brasil equivale a 2.2 milhões de 
campos de futebol.**
Estimule seus fi lhos a lerem 
tranquilamente, pois o papel é 
feito de madeira natural e 
renovável. 
 mais imaginação 
 mais florestas planta
das 
*Folha Bracelpa Nº01, Maio / Junho 2009.
**Two Sides Brasil, 2014.
Two Sides é uma iniciativa que 
promove o uso responsável da 
comunicação impressa e do papel 
como uma escolha natural e 
reciclável para comunicações 
poderosas e sustentáveis.
anuncios_two sides_aner.indd 29 29/10/2014 09:25:10
PESQUISA FAPESP 226 | 7
CARTA DA EDITORA
A Pesquisa FAPESP de dezembro é, na verdade, uma dupla edição: temos a revista regular, com a capa dedicada a um tema hoje de extrema 
relevância em vários âmbitos, inclusive o da pesquisa 
científica, que é a escassez da água; e temos uma edi-
ção comemorativa dos 80 anos da USP, completados 
em 2014, na qual procuramos, espasmos de crises à 
parte, mirar de forma abrangente o que há de mais 
significativo na atual produção científica da maior 
universidade brasileira e estabelecer os fios que a 
vinculam aos primeiros anos da instituição e a seus 
desdobramentos no tempo. Ao todo, são 176 páginas 
– ou 184, se contarmos as capas – destinadas a uma 
calma degustação dos leitores, como convém per-
to da virada do ano, ao qual chegamos já um pouco 
exaustos e carentes de uma certa tranquilidade para 
repor as energias antes de enfrentar um novo ciclo. 
Vou me dar ao luxo, desta vez, de recomendar a 
revista em sua totalidade, em lugar de destacar al-
gumas reportagens e explicar o porquê desse trata-
mento preferencial para determinados textos, como 
de hábito. E a razão é simplesmente que preciso 
usar este espaço para contar a todos vocês que esta 
é a última “carta da editora” que escrevo neste es-
paço. Um pouco relutante, como, aliás, sempre nos 
encontramos quando vamos nos afastar de algum 
projeto ou produto ao qual dedicamos com alegria, 
por anos a fio, o melhor de nossas competências 
e habilidades, estou deixando a revista Pesquisa 
FAPESP, um dos meus diletos “filhos”, como eu, 
brincando, costumava afetivamente qualificá-la. Por 
necessidade íntima, por inquietação ou convicção 
intelectual, preciso agora dedicar tempo e energia 
a um novo projeto de jornalismo/divulgação cien-
tífica, voltado a um público jovem e muito amplo, 
cuja concepção tenho acalentado nos últimos cinco 
anos. Dará certo? Não sei, estou em pleno risco, mas 
me empenharei ao máximo para que sim, porque 
estou convencida de que, se bem-sucedido, ele po-
derá se tornar uma nova contribuição importante 
à difusão da ciência e à ampliação da cultura cien-
tífica na sociedade brasileira.
Foi nada menos que isso – uma contribuição fun-
damental ao jornalismo científico e à divulgação 
científica no país – que a PesquisaFAPESP se tor-
nou, bancada e compreendida com visão estratégi-
ca e notável sensibilidade por esta extraordinária 
instituição que se chama Fundação de Amparo à 
Pesquisa do Estado de São Paulo. Entre o pequeno 
boletim de quatro páginas e tiragem de mil exem-
plares lançado em agosto de 1995, tão simples que 
era possível fazê-lo sozinha em um par de dias, 
e esta publicação alentada e sofisticada que exi-
ge, de um lado, excelentes cientistas de todos os 
campos dispostos a contar seu trabalho e, de outro, 
uma equipe de brilhantes e dedicados profissionais 
para elaborá-la mês após mês, articulando revista 
impressa, site, vídeos e programa de rádio, há um 
belo percurso, uma longa viagem, através da qual o 
que se pode vislumbrar incessantemente é o vigor 
e a pujança de uma instituição. A FAPESP decidiu 
em determinado instante que valia a pena dar vi-
sibilidade em novos termos à produção científica 
de São Paulo e do Brasil. E assim o fez, delegando a 
profissionais a tarefa de buscar sempre os melhores 
termos e reservando a si mesma o papel de super-
visionar a qualidade desse produto que se tornaria 
parte importante de seu patrimônio intelectual. 
 Creio que os leitores não verão soberba nas pala-
vras que dedico à Pesquisa FAPESP, mas um orgulho 
justificado, em paralelo a um sentimento de gratidão 
à instituição que abriu espaço para a criação de uma 
revista relevante e à certeza de que esta publicação 
tem cérebro e musculatura para ir longe. Faltou 
aqui dizer somente muito obrigada aos leitores, 
aos pesquisadores/fontes/colaboradores, à minha 
equipe, ao comitê científico da revista, ao seu con-
selho editorial, aos funcionários da FAPESP, aos 
diretores e presidentes da Fundação nos últimos 
20 anos e aos membros de seu Conselho Superior. 
Otimista que sou, espero poder fazer um balanço 
tão positivo quanto este dentro de mais 20 anos 
em relação aos desafios que agora tenho à frente. 
Feliz 2015!
Águas, tempo e desafios
Mariluce Moura | DIRETORA DE REDAÇÃO
8 | DEZEMBRO DE 2014
tecnológicos de que precisamos. Mesmo 
quando iniciativas tramitam no Congres-
so Nacional para modificar esse cená-
rio, como o PL 5.687/2013, rapidamente 
são arquivadas sem maiores discussões. 
Seria interessante que a experiência da 
FAPESP fosse canalizada também para 
a outra ponta, o que reduziria sobrema-
neira entraves burocráticos.
Adilson Roberto Gonçalves
Pesquisador científico 
Campinas, SP
Correção
Os mapas da variação da temperatura em 
Campinas da reportagem “Para mudar 
os ares” (edição 224, página 80) apre-
sentavam imprecisões no delineamento 
das macrozonas (linhas pretas). Abaixo, 
publicamos a versão correta.
Cartas para esta revista devem ser enviadas para o e-mail cartas@fapesp.br ou para a rua Joaquim Antunes, 727, 
10º andar – CEP 05415-012, Pinheiros, São Paulo-SP. As cartas poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza. 
Escritórios de apoio
No que pese a importância da criação de 
escritórios de apoio a pesquisadores por 
iniciativa da FAPESP, muito bem retrata-
da na reportagem “Suporte sofisticado” 
(edição 225), falta uma ação mais efetiva 
sobre a regulação da pesquisa científica 
realizada em órgãos públicos. No Brasil, 
não se inova mais na universidade por-
que a legislação vê o pesquisador como 
provável criminoso. A lei de licitações, 
por exemplo, é a mesma, tanto faz se 
vai ser comprado um tubo de ensaio ou 
construída uma estrada. Aquilo que teve 
a intenção de proteger o gasto público 
tornou-se a maior barreira para os saltos 
CARTAS cartas@fapesp.br
CELSO LAFER
PRESIDENTE
EDUARDO MOACYR KRIEGER
VICE-PRESIDENTE
CONSELHO SUPERIOR
ALEJANDRO SZANTO DE TOLEDO, CELSO LAFER, 
EDUARDO MOACYR KRIEGER, FERNANDO FERREIRA 
COSTA, HORÁCIO LAFER PIVA, JOÃO GRANDINO RODAS, 
MARIA JOSÉ SOARES MENDES GIANNINI, MARILZA 
VIEIRA CUNHA RUDGE, JOSÉ DE SOUZA MARTINS, 
PEDRO LUIZ BARREIROS PASSOS, SUELY VILELA 
SAMPAIO, YOSHIAKI NAKANO
CONSELHO TÉCNICO-ADMINISTRATIVO
JOSÉ ARANA VARELA
DIRETOR PRESIDENTE
CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZ
DIRETOR CIENTÍFICO
JOAQUIM J. DE CAMARGO ENGLER
DIRETOR ADMINISTRATIVO
CONSELHO EDITORIAL
Carlos Henrique de Brito Cruz (Presidente), Caio Túlio Costa, 
Eugênio Bucci, Fernando Reinach, José Eduardo Krieger, 
Luiz Davidovich, Marcelo Knobel, Marcelo Leite, 
Maria Hermínia Tavares de Almeida, Marisa Lajolo, Maurício 
Tuffani, Mônica Teixeira
COMITÊ CIENTÍFICO
Luiz Henrique Lopes dos Santos (Presidente), 
Adolpho José Melfi, Carlos Eduardo Negrão, Douglas 
Eduardo Zampieri, Eduardo Cesar Leão Marques, 
Francisco Antônio Bezerra Coutinho, Joaquim J. de Camargo 
Engler, José Arana Varela, José Roberto de França Arruda, 
José Roberto Postali Parra, Lucio Angnes, Luis Augusto 
Barbosa Cortez, Marcelo Knobel, Marie-Anne Van Sluys, 
Mário José Abdalla Saad, Marta Teresa da Silva Arretche, 
Paula Montero, Roberto Marcondes Cesar Júnior, 
Sérgio Luiz Monteiro Salles Filho, Sérgio Robles Reis 
Queiroz, Wagner do Amaral Caradori, Walter Colli
COORDENADOR CIENTÍFICO
Luiz Henrique Lopes dos Santos
DIRETORA DE REDAÇÃO Mariluce Moura
EDITOR-CHEFE Neldson Marcolin
EDITORES Fabrício Marques (Política), Marcos de Oliveira 
(Tecnologia), Ricardo Zorzetto (Ciência); Carlos Fioravanti e 
Marcos Pivetta (Editores espe ciais); Bruno de Pierro e Dinorah 
Ereno (Editores-assistentes)
REVISÃO Daniel Bonomo, Margô Negro
ARTE Mayumi Okuyama (Editora), Ana Paula Campos (Editora 
de infografia), Maria Cecilia Felli e Alvaro Felippe Jr. (Assistente)
FOTÓGRAFOS Eduardo Cesar, Léo Ramos
MÍDIAS ELETRÔNICAS Fabrício Marques (Coordenador)
 
INTERNET Pesquisa FAPESP online
Maria Guimarães (Editora)
Rodrigo de Oliveira Andrade (Repórter) 
RÁDIO Pesquisa Brasil
Biancamaria Binazzi (Produtora)
COLABORADORES Alexandre Affonso, Ana Lima, Daniel 
Bueno, Evanildo da Silveira, Eurico C. de Oliveira, Fabio Otubo, 
Francisco Bicudo, Guilherme Kramer, Igor Zolnerkevic, Maurício 
Pierro, Mauro de Barros, Sandro Castelli, Sílvia Almstalden, 
Valter Rodrigues, Yuri Vasconcelos, Zé Vicente
É PROIBIDA A REPRODUÇÃO TOTAL OU PARCIAL 
DE TEXTOS E FOTOS SEM PRÉVIA AUTORIZAÇÃO
PARA FALAR COM A REDAÇÃO (11) 3087-4210
cartas@fapesp.br
PARA ANUNCIAR Midia Office - Júlio César Ferreira 
(11) 99222-4497 julinho@midiaoffice.com.br 
Classificados: (11) 3087-4212 publicidade@fapesp.br
PARA ASSINAR (11) 3087-4237 assinaturaspesquisa@fapesp.br
TIRAGEM 43.200 exemplares
IMPRESSÃO Plural Indústria Gráfica
DISTRIBUIÇÃO DINAP
GESTÃO ADMINISTRATIVA INSTITUTO UNIEMP
PESQUISA FAPESP Rua Joaquim Antunes, no 727, 
10o andar, CEP 05415-012, Pinheiros, São Paulo-SP
FAPESP Rua Pio XI, no 1.500, CEP 05468-901, 
Alto da Lapa, São Paulo-SP
 
SECRETARIA DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, 
CIÊNCIA E TECNOLOGIA 
GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO
FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE SÃO PAULO 
ISSN 1519-8774
Centro de Campinas mais quente
FONTE LANDSAT / ALESSANDRA SHIMOMURA-UNICAMP
MACROZONAS
1. Área de proteção ambiental 2. Área de controle ambiental 3. Área de urbanização controlada 
4. Área de urbanização prioritária 5. Área prioritária de requalificação 6. Área de vocação agrícola 
7. Área de influência aeroportuária 8. Área de urbanização específica 9. Área de integração noroeste
VARIAÇÃO DE TEMPERATURA
n 2,7 a 15,6°C n 15,6 a 17,4°C n 17,4 a 19,3°C n 19,3 a 21,1°C n 21,1 a 36,2°C
2001 2011
PESQUISA FAPESP 226 | 9
YOUTUBE.COM/USER/PESQUISAFAPESP
ON-LINE
W W W . R E V I S T A P E S Q U I S A . F A P E S P. B R
x Por que sistemas naturais 
organizados em redes 
interconectadas, como o cérebro 
humano, funcionam de modo robusto 
e estável se as teorias indicam que 
perturbações aleatórias seriam 
capazes de levar esses sistemas 
ao colapso? Em artigo publicado 
na Nature Physics, um grupode pesquisadores sugere 
que a estabilidade do cérebro 
é garantida, entre outras razões, 
porque os neurônios com mais 
conexões em sua própria rede 
se ligam aos neurônios com mais 
conexões em outras redes.
xMulheres detectam mais 
facilmente uma variada gama de 
cheiros do que os homens e são 
mais sensíveis a muitas moléculas 
de odor. A conclusão é de um grupo 
de pesquisadores das universidades 
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) 
e de São Paulo (USP). Num estudo 
publicado na PLoS One, eles 
apontam uma razão biológica para 
explicar esse desempenho feminino 
superior na percepção dos odores: 
as mulheres têm uma quantidade 
muito maior de células numa região 
cerebral associada à detecção dos 
cheiros, o bulbo olfatório. 
Exclusivo no site
Vídeo do mês
Pesquisador fala 
sobre o impacto 
das redes sociais 
em movimentos 
net-ativistas
Germana Barata_ O que mais me 
chamou a atenção é o fato de os 
novos padrões poderem se tornar 
indicadores até melhores que a 
mortalidade infantil para mostrar o 
bem-estar social de uma população. 
(Uma régua universal)
Vitória Rangel_ Esta edição está 
especial, daquelas de trazer a pipoca 
e ler com emoção. Tantas pesquisas 
boas se desenvolvendo e abrindo 
novos rumos nas mais diversas áreas 
da ciência. (Edição 225)
RKSS_ O pessoal da computação em 
redes já sabia usar hubs para montar 
redes complexas. A surpresa é ver o 
cérebro modelado como uma rede de 
computadores. (A estabilidade do 
cérebro)
Biblioteca Unifesp Campus BS_ Correr 
faz bem também aos pulmões! 
Receio que o que levava os asmáticos 
a se esquivarem de práticas esportivas 
parece estar baseado num engano. 
(Correr faz bem!)
Juliano Aarão_ A excelência na 
educação física deve fugir da 
“cultura do belo” e “do esgotamento”, 
pautando-se como uma ciência em 
prol da saúde corporal e mental de 
seus praticantes. (Correr faz bem!)
Nas redes
Assista ao vídeo:
Astrofísico 
explica por que 
buracos negros 
consomem menos 
energia do que 
se pensava
Redes interconectadas (colorido) 
podem funcionar de modo robusto, 
dependendo da forma como se ligam
Rádio
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10 | DEZEMBRO DE 2014
DADOS E PROJETOS
TEMÁTICOS
Uso de modernas técnicas de 
autópsia na investigação de doenças 
humanas (Modau)
Pesquisador responsável: 
Paulo Hilário Nascimento Saldiva
Instituição: Faculdade de 
Medicina/USP
Processo: 2013/21728-2
Vigência: 01/11/2014 a 31/10/2018
 Imunoterapia na asma 
experimental por agonistas de 
receptores toll-like, infecção 
ou tolerância
Pesquisador responsável: 
Momtchilo Russo
Instituição: ICB/USP
Processo: 2013/24694-1
Vigência: 01/11/2014 a 31/10/2018
Componentes da 
biodiversidade, e seus caracteres 
TEMÁTICOS E JOVEM PESQUISADOR RECENTES
Projetos contratados entre outubro e novembro de 2014
metabólicos, de ilhas do Brasil 
– uma abordagem integrada
Pesquisador responsável: 
Roberto Gomes de Souza Berlinck
Instituição: IQSC/USP
Processo: 2013/50228-8
Vigência: 01/11/2014 a 31/10/2019
Cluster randomised 
controlled trial for late 
life depression in 
socioeconomically deprived 
areas of São Paulo, Brasil 
(FAPESP-RCUK MRC)
Pesquisadora responsável: 
Marcia Scazufca
Instituição: Faculdade de 
Medicina/USP
Processo: 2013/50953-4
Vigência: 01/09/2014 a 
31/10/2015
Bases neurais do medo 
e agressão
Pesquisador responsável: 
Newton Sabino Canteras
Instituição: ICB/USP
Processo: 2014/05432-9
Vigência: 01/10/2014 a 
30/09/2018
Estruturas algébricas e 
suas representações
Pesquisador responsável: 
Vyacheslav Futorny 
Instituição: IME/USP
Processo: 2014/09310-5
Vigência: 01/10/2014 a 
30/09/2018
JOVEM PESQUISADOR
Gênero em territórios de fronteira 
e transfronteiriços na Amazônia 
brasileira
Pesquisador responsável: 
José Miguel Nieto Olivar
Instituição: Núcleo de Estudos 
de Gênero Pagu/Unicamp
Processo: 2013/26826-2
Vigência: 01/10/2014 a 
30/09/2017
Estudo da formação e 
dissociação de hidratos de gás
Pesquisadora responsável: 
Maria Dolores Robustillo Fuentes
Instituição: Escola Politécnica/USP
Processo: 2014/02140-7
Vigência: 01/11/2014 a 31/10/2018
Desenvolvimento de 
dispositivos supercapacitores 
a partir de grafenos, nanotubos 
de carbono e diamantes
Pesquisador responsável: Hudson 
Giovani Zanin
Instituição: Instituto de Pesquisa 
e Desenvolvimento/Univap
Processo: 2014/02163-7
Vigência: 01/11/2014 a 31/10/2018
Estudo da função das células 
dendríticas plasmocitoides e 
mieloides frente à infecção 
pelo fungo Paracoccidioides 
brasiliensis
Pesquisador responsável: Flavio 
Vieira Loures
Instituição: ICB/USP
Processo: 2014/04783-2
Vigência: 01/11/2014 a 31/10/2016
 Influência da bradicinina sobre 
a osteoclastogênese in vitro e 
sobre a reabsorção óssea 
induzida por LPS in vivo
Pesquisador responsável: 
Pedro Paulo Chaves de Souza
Instituição: Faculdade de 
Odontologia de Araraquara/
Unesp
Processo: 2014/05283-3
Vigência: 01/11/2014 a 31/10/2017
Matéria escura na Via Láctea: 
uma era de precisão
Pesquisador responsável: 
Fabio Iocco
Instituição: IFT/Unesp
Processo: 2014/11070-2
Vigência: 01/12/2014 a 
30/11/2018
As fontes dos recursos
Dispêndios em pesquisa e desenvolvimento no estado de São Paulo em 2013
Valor 
(R$ milhões)
Porcentagem 
do total
Porcentagem 
do PIB estadual
Total 24.895,8 100% 1,63%
Instituições de ensino superior 5.514,2 22% 0,36%
IES Federais 917,3 4% 0,06%
IES Estaduais 4.125,4 17% 0,27%
IES Privadas 471,6 2% 0,03%
Agências de fomento 2.753,1 11% 0,18%
CNPq 545,6 2% 0,04%
CAPES 675,1 3% 0,04%
FINEP 429,3 2% 0,03%
FAPESP 1.103,2 4% 0,07%
Institutos de pesquisa 1.853,5 7% 0,12%
IP Federais 1.229,1 5% 0,08%
IP Estaduais 624,4 3% 0,04%
Empresas 14.775,0 59% 0,96%
IES: Instituições de Ensino Superior (somente recursos destinados à P&D; exclui aposentadorias, hospitais, ensino e 
extensão); IP: Institutos de Pesquisa; Os valores em cada linha foram reportados pelas organizações, a pedido da 
FAPESP. Para a linha Empresas os valores são estimados pelo modelo desenvolvido nos Indicadores FAPESP 2010 
(ver http://www.fapesp.br/indicadores/2010/volume1/cap3-Parte-A.pdf). Fonte: Indicadores FAPESP de C,T&I em SP.
PESQUISA FAPESP 226 | 11
O que define um autor
Revisores falsificados
BOAS PRÁTICAS
Um documento destinado a 
editores de revistas científicas 
ofereceu uma série de orientações 
para evitar disputas e dilemas 
éticos envolvendo a atribuição 
de autoria de papers. Divulgado 
em setembro por um grupo de 
trabalho do fórum Committee on 
Publication Ethics (Cope), sediado 
em Londres, o texto sugere 
que cada revista defina claramente 
os parâmetros que considera 
necessários para um pesquisador 
assinar um artigo – e os exponha 
em seu website. Se as regras forem 
inspiradas nas de alguma 
instituição ou sociedade científica, 
isso também deve ser declarado.
Outra precaução importante 
é exigir que todos os autores 
assinem uma declaração 
de responsabilidade. A maioria 
das revistas já toma esse cuidado, 
mas o Cope definiu quatro 
requisitos para não esquecer: 
1) que todos os autores cumpram 
os requisitos exigidos pela revista; 
2) que todos se responsabilizem 
pela integridade da pesquisa; 
3) que não sejam omitidos nomes 
de outros indivíduos qualificados 
para serem autores do artigo; 
4) que seja declarada a contribuição 
de cada um dos autores para 
a concepção e elaboração do 
artigo. Aconselha-se, ainda, que as 
revistas enviem correspondência 
para todos os autores citados, 
para garantir que todos 
consentiram em assinar o paper. 
De modo geral, há consenso de 
que o autor é aquele que dá uma 
realcontribuição intelectual para 
o trabalho científico, participando 
de sua concepção, execução, 
análise e redação dos resultados, 
aprovando seu conteúdo final. 
No documento, o Cope ressalta 
que indivíduos cujas contribuições 
se encaixem em algum, mas 
não em todos os parâmetros de 
autoria, sejam citados nos 
agradecimentos, assim como 
aqueles que ajudaram a obter 
recursos e infraestrutura, mas 
não participaram da pesquisa.
O grupo de trabalho admite 
que não tem respostas para todas 
as controvérsias envolvendo 
a atribuição de autoria. Cita, 
por exemplo, as diretrizes do 
International Committee of 
Medical Journal Editors (ICMJE), 
segundo as quais um autor deve ser 
responsável por todos os aspectos 
do paper, a fim de garantir que as 
questões relacionadas à exatidão 
e à integridade de qualquer parte 
do trabalho foram resolvidas. 
Isso, diz o grupo de trabalho, 
pode ser problemático em estudos 
multidisciplinares, nos quais 
pesquisadores compreendem 
em profundidade apenas as suas 
contribuições parciais. Outra 
lacuna nas diretrizes do ICMJE 
está relacionada à exigência de que 
todos os autores aprovem a versão 
A plataforma de revistas científicas 
em acesso aberto BioMed Central, 
do Reino Unido, encontrou em 
seu sistema editorial cerca de 
50 manuscritos em que houve 
manipulação no processo de revisão. 
Segundo o blog Retraction Watch, 
a maioria dos artigos não foi 
publicada, pois foram detectados 
problemas numa verificação 
que antecede a publicação. Mas 
pelo menos cinco papers foram 
publicados. Eles estão sendo 
submetidos a novo processo de 
revisão e poderão ser cancelados. 
A fraude foi possível graças a uma 
falha numa das etapas do fluxo de 
trabalho da plataforma, que permite 
ao autor do paper sugerir nomes de 
revisores – pesquisadores 
qualificados incumbidos de opinar 
sobre o manuscrito –, propor 
mudanças e recomendar ou não a 
sua publicação. Aparentemente, 
foram indicados e aceitos 
pesquisadores fictícios, cujos nomes 
e afiliações eram semelhantes às de 
pessoas de verdade, e que, por meio 
de endereços de e-mail também 
falsificados, recomendaram a 
publicação dos artigos. Em 
declaração enviada ao Retraction 
Watch, a direção do BioMed 
Central afirmou que não encontrou 
uma ligação entre os autores dos 
artigos manipulados. “Acreditamos 
que uma terceira parte deve estar 
envolvida”, disse o comunicado.
final do que será publicado – um 
dos receios é que, em artigos com 
muitas assinaturas, algum autor 
faça exigências exageradas ou 
descabidas que se tornem um 
obstáculo para a divulgação do 
artigo. O documento do Cope está 
disponível no endereço http://
publicationethics.org/files/
Authorship_DiscussionDocument.pdf.
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12 | DEZEMBRO DE 2014
ESTRATÉGIAS
A FAPESP realizou 
entre os dias 17 e 21 
de novembro mais 
uma edição do 
simpósio internacional 
FAPESP Week. O 
evento foi sediado na 
Universidade da 
Califórnia, nos 
campi de Berkeley e 
de Davis, nos Estados 
Unidos, com apoio 
do Wilson Center. 
O objetivo é dar 
mais visibilidade no 
exterior para a ciência 
feita em São Paulo 
e estreitar contatos 
entre pesquisadores 
paulistas e da 
Califórnia para 
promover novas 
colaborações. 
A programação foi 
abrangente, com 
painéis sobre temas 
como eficiência 
energética, segurança 
Conversas produtivas na Universidade da Califórnia
alimentar, genômica, 
democracia e 
desigualdade social, 
nanotecnologia, 
oceanos, entre outros. 
Um dos painéis 
debateu os desafios 
e as oportunidades 
em colaborações 
científicas. “O papel 
das instituições em 
fazer as colaborações 
funcionarem 
está em oferecer 
aos pesquisadores 
os incentivos certos 
para que eles 
possam enxergar 
boas oportunidades 
e tenham os 
mecanismos para 
fazer parcerias. 
É desse modo que 
temos trabalhado 
com colaborações 
internacionais em 
pesquisa na FAPESP”, 
disse o diretor 
Pesquisadores 
de São Paulo 
e da Califórnia 
discutem 
parcerias na 
última FAPESP 
Week de 2014 
O novo presidente da 
Comissão Europeia, 
Jean-Claude Juncker, 
atraiu críticas da 
comunidade científica 
do continente ao 
propor que uma fatia 
do orçamento do novo 
programa de pesquisa 
e inovação, o Horizon 
2020, seja realocada 
para a criação de um 
fundo de investimento, 
voltado para a 
criação de empregos 
e a reativação da 
economia nos países 
da União Europeia. 
O Horizon 2020 teria 
€ 70 bilhões nos 
próximos seis anos 
para pesquisas 
em áreas como 
biotecnologia, saúde 
e transporte. Juncker 
quer separar 
€ 2,7 bilhões desse 
montante para compor 
um fundo de 
investimentos que 
contaria com recursos 
de outros programas e 
alcançaria € 21 bilhões. 
A ideia, segundo ele, 
é atrair também 
contrapartidas do 
setor privado e de 
governos nacionais, 
multiplicando os 
investimentos do novo 
fundo para € 315 
bilhões em três anos. A 
Liga de Universidades 
de Pesquisa da Europa 
publicou uma nota de 
protesto: “O programa 
Horizon 2020 não é 
limão. Parem de 
espremê-lo”.
Orçamento 
espremido
científico da FAPESP, 
Carlos Henrique 
de Brito Cruz. 
Ralph Hexter, reitor 
da Universidade 
da Califórnia, 
Davis, ressaltou a 
importância do 
evento. “Nós apoiamos 
qualquer esforço 
que permita o 
fortalecimento de 
nossas parcerias com 
a FAPESP, para 
garantir o melhor 
dos resultados”, diz. 
Uma das janelas de 
oportunidades 
para cooperação 
internacional 
discutida no evento 
foi o desenvolvimento 
de tecnologias para o 
controle de partículas 
e compostos de 
cerâmica. “Meu 
grupo de pesquisa 
em Berkeley investiga 
1
2
modelagem de 
processos de 
fabricação de novos 
materiais. Um 
exemplo é a aplicação 
de pequenas 
partículas em 
superfícies, uma 
técnica que está 
começando a se 
tornar popular em 
impressoras 3D”, 
diz o pesquisador 
Tarek Zohdi. Edgar 
Dutra Zanotto, 
da Universidade 
Federal de São 
Carlos, apresentou 
sua pesquisa com 
cerâmicas vítreas. 
“Esse material nos 
permite combinar 
várias propriedades. 
Podemos fazer um 
material bioativo que 
é muito mais duro 
e resistente que 
o vidro”, disse ele.
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Reforço 
indiano
O Instituto Nacional 
de Pesquisas Espaciais 
(Inpe) começou a 
receber, processar 
e distribuir sem 
custos imagens do 
satélite indiano 
de sensoriamento 
remoto Resourcesat-2. 
Construído pela 
Organização de 
Pesquisa Espacial da 
Índia (Isro, na sigla 
em inglês), o satélite 
entrou em órbita 
desde 2011 e conta 
com três câmeras. As 
imagens produzidas 
por uma delas estão 
sendo usadas para 
aprimorar o Deter, 
sistema de detecção 
de desmatamento 
criado pelo Inpe. 
Com imagens como 
as produzidas pelo 
sensor indiano, é 
possível enxergar 
desmatamentos a 6,25 
hectares, enquanto o 
sistema atual registra 
áreas de, no mínimo, 
25 hectares. A 
cooperação entre o 
Inpe e a Isro é fruto de 
um acordo assinado 
em julho em Brasília, 
durante a visita oficial 
do premiê indiano, 
Shri Narendra Modi, 
ao Brasil. Em 2008, os 
dois países já haviam 
celebrado acordo 
semelhante para a 
recepção dos dados 
do Resourcesat-1, 
antecessor do 
Resourcesat-2, que 
entrou em órbita em 
2003 e ainda está 
em operação. O 
catálogo do Inpe 
também disponibiliza 
imagens dos satélites 
sino-brasileiros 
CBERS e dos 
satélites do programa 
americano Landsat.
Insetos monitorados
A Agência Espacial 
Europeia (ESA, 
na sigla eminglês) 
divulgou um 
comunicado 
confirmando a 
viabilidade econômica 
e operacional do 
Vecmap, um programa 
lançado em fase 
experimental em 2009 
para mapear focos de 
insetos transmissores 
de doenças, 
utilizando satélites 
e equipamentos de 
telecomunicações. No 
total, 12 instituições 
em nove países 
europeus testaram 
o Vecmap para a 
produção de mapas 
que mostram a 
probabilidade de 
ocorrência de 
mosquitos vetores 
de doenças, como 
dengue, malária e 
chikungunya. 
Ameaça à pesquisa nas Ilhas Galápagos
A Fundação Charles Darwin, que há mais 
de 50 anos apoia pesquisas nas Ilhas 
Galápagos, no Equador, sofre com uma 
crise financeira. A instituição tem con-
seguido arrecadar junto a doadores 
internacionais e agências de fomento 
apenas a metade dos US$ 3 milhões de 
seu orçamento anual, o que inclui gastos 
com o aluguel de barcos de pesquisa, 
programas de educação ambiental e 
manutenção de coleções e acervos. O 
centro emprega 65 pessoas e trabalha 
com mais de 100 colaboradores inter-
nacionais. “Estamos há dois meses e 
meio com os salários atrasados e vários 
projetos deixaram de ser executados”, 
disse à revista Nature Swen Lorenz, di-
retor executivo da Fundação Charles 
Darwin. A crise tornou-se mais aguda a 
partir de julho, depois que uma impor-
tante fonte de recursos para manuten-
ção, a loja de souvenirs, teve de fechar 
as portas, pressionada por comerciantes 
locais que se queixavam da concorrên-
cia. Com isso, a fundação parou de ar-
recadar cerca de US$ 8 mil por semana. 
Em novembro, dirigentes da fundação 
reuniram-se em Quito para discutir so-
luções para esse impasse. Eles decidiram 
formar um grupo de trabalho, com o 
objetivo de assegurar o funcionamento 
da estação de pesquisa e tentar mobili-
zar doadores.
“Nos testes realizados 
até o momento, o 
sistema auxiliou 
os pesquisadores a 
escolherem com mais 
precisão os locais a 
serem analisados, 
economizando tempo 
e custos com o 
trabalho de campo”, 
diz a nota. O Vecmap 
constitui um conjunto 
de softwares e 
serviços, incluindo 
um aplicativo para 
smartphones, que 
ajuda o pesquisador 
em estudos de 
campo, fornecendo 
informações sobre a 
localização dos focos 
de mosquitos. O 
programa conta com 
a colaboração de 
agências públicas de 
saúde de vários países 
europeus, como 
Bélgica, Grã-Bretanha, 
Itália e Suíça. 
Tartarugas de 
Galápagos: 
combate à 
extinção é uma 
das bandeiras da 
Fundação 
Charles Darwin 
2
14 | DEZEMBRO DE 2014
Nascidos para brilhar
TECNOCIÊNCIA
Darwin on-line
1
maior. Ao acender a 
lanterna, o gasto de 
oxigênio foi apenas 37% 
maior do que quando o 
inseto estava em 
repouso (Physical Review 
Letters, no prelo). O 
baixo consumo de 
oxigênio, segundo os 
pesquisadores, decorre 
da forma como se 
estruturam as traquéolas 
nas células especializadas 
na emissão de luz 
(fotócitos). No vaga-lume 
as traquéolas são 
otimizadas para gerar o 
máximo de luz com o 
mínimo de oxigênio. 
“Nosso estudo gerou um 
importante subproduto: 
a evidência de que a 
lanterna dos vaga-lumes 
é otimizada para a 
emissão de luz”, 
escreveram os 
pesquisadores. “A taxa 
de difusão do oxigênio a 
partir das traquéolas é 
próxima à consumida na 
bioluminescência.”
Vaga-lume: 
acender a 
lanterna do 
abdômen gasta 
menos energia 
do que voarOs vaga-lumes gastam 
muito mais energia para 
voar do que para fazer 
brilhar a lanterna de seu 
abdômen. Pesquisadores 
de Taiwan e da Suíça 
usaram técnicas de 
microscopia de raios X e 
tomografia de alta 
resolução para mapear e 
visualizar em três 
dimensões o sistema de 
tubos microscópicos e 
suas ramificações 
(traquéolas) que formam 
o sistema respiratório 
desses insetos. Depois 
mediram o consumo de 
oxigênio, um indicador 
do gasto energético, 
cada vez que os 
vaga-lumes de duas 
espécies – Luciola 
terminalis e L. cerata 
– eram estimulados a 
acender a lanterna. O 
piscar dos vaga-lumes 
gasta menos energia do 
que atividades como 
voar, na qual o consumo 
de oxigênio é 140 vezes 
gratuitamente na 
internet, são 
considerados os mais 
importantes para a 
compreensão de como 
Darwin desenvolveu sua 
famosa teoria. Entre os 
manuscritos está a obra 
Pencil sketch, dos anos 
1840, na qual Darwin 
usa pela primeira vez 
o termo seleção natural. 
O naturalista inglês 
tentou formular a versão 
completa da teoria em 
Transmutation notebook 
B, mas foi em Notebook D 
e em Notebook E que 
ela começou a tomar 
forma em 1838 e 1839. 
Além das imagens, 
também estão 
disponíveis transcrições 
do texto e notas tanto 
no site da Biblioteca 
Digital de Cambridge 
quanto no do Darwin 
manuscripts project, 
mantido pelo Museu 
Americano de História 
Natural. Imagens de 
mais documentos 
estarão disponíveis em 
junho de 2015.
A Biblioteca Digital de 
Cambridge tornou 
disponível no fim de 
novembro cópias 
digitalizadas em alta 
resolução de 12 mil 
páginas escritas pelo 
naturalista inglês Charles 
Darwin, autor da teoria 
da evolução das espécies 
pela seleção natural. Os 
documentos permitem 
traçar o percurso feito 
por Darwin de suas 
primeiras reflexões 
teóricas, anotadas na 
viagem a bordo do navio 
HMS Beagle, até a 
publicação do livro Sobre 
a origem das espécies por 
meio da seleção natural 
em 1859. Ligada à 
Universidade de 
Cambridge, a biblioteca 
possui a coleção quase 
completada dos escritos 
de Darwin. Os 
documentos, que agora 
podem ser acessados 
Darwin: manuscritos 
mantidos pelo 
Museu Americano 
de História Natural
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Silicato de 
prata em 
filme de PVC 
combate 
bactérias e 
fungos 
Prata em sacos plásticos para guardar alimentos 
Filmes feitos de PVC transparente e com 
nanopartículas de silicato de prata incor-
poradas ao material é uma inovação com 
o objetivo de tornar mais seguro o acon-
dicionamento de alimentos em sacos de 
plástico, principalmente em refrigeradores, 
uma prática bem difundida tanto em re-
sidências como no comércio e na indústria. 
As nanopartículas de prata têm a função 
de eliminar bactérias e fungos protegen-
do assim os alimentos embalados. A tec-
nologia foi desenvolvida pela Nanox¸de 
São Carlos, no interior paulista, que licen-
ciou para outra empresa, a Alpes Indústria 
e Comércio de Plásticos, instalada na 
capital paulista, que já distribui o produto 
com o nome AlpFilm Protect. Segundo 
Luiz Gustavo Simões, diretor da Nanox, o 
produto cumpre as exigências da Agência 
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) 
e as legislações de agências internacionais. 
A Nanox é uma empresa formada por três 
Átomo isolado
Uma nova técnica para 
isolar átomos pode um 
dia ajudar os físicos a 
manipularem átomos 
individuais com a mesma 
facilidade com que 
isolam partículas de luz 
em laboratório. O físico 
Andrew Truscott e seus 
colegas da Universidade 
Nacional Australiana, 
em Canberra, Austrália, 
aprisionaram com 
campos magnéticos 
cerca de 10 mil átomos 
de hélio, resfriados até 
formarem um estado 
da matéria conhecido 
como condensado de 
Bose-Einstein, em que 
todos os átomos se 
comportam como se 
fossem um único átomo 
maior. Eles então usaram 
um campo elétrico para 
aumentar o número 
de colisões entre os 
átomos do condensado, 
o que fez com que os 
átomos começassem a 
escapar de sua armadilha 
sempre aos pares 
(Physical Review Letters, 
24 de setembro). Assim, 
se o número inicialde 
átomos de hélio na 
armadilha era ímpar, 
acabava restando 
um único átomo na 
armadilha, com uma 
temperatura de apenas 
890 trilionésimos 
de grau Celsius (°C) 
acima do zero absoluto 
(-273°C). Pelas leis da 
mecânica quântica, um 
átomo resfriado a essa 
temperatura se comporta 
mais como uma onda 
do que como uma 
partícula, o que torna 
os átomos isolados 
pela nova técnica 
perfeitos para testar 
fenômenos quânticos 
como o emaranhamento, 
já testado em pares 
de partículas de luz. 
ex-alunos de Química da Universidade 
Federal de São Carlos (UFSCar) e que fi-
zeram mestrado no Instituto de Química 
da Universidade Estadual Paulista (Unesp), 
em Araraquara. Para desenvolver a em-
presa e a tecnologia eles contaram com 
o apoio do Centro de Desenvolvimento 
de Materiais Funcionais (CDMF), coorde-
nado pelo professor Elson Longo, um dos 
Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão 
(Cepid) financiados pela FAPESP, inclusi-
ve para o desenvolvimento do AlpFilm. 
Fumo, álcool e microbiota 
O consumo rotineiro 
de álcool e tabaco por 
longos períodos pode 
alterar a microbiota da 
boca, o conjunto de 
quase 700 espécies de 
bactérias naturalmente 
encontradas nas 
mucosas da cavidade 
oral. Andrew Thomas, 
da equipe do biólogo 
Emmanuel Dias-Neto 
no A. C. Camargo Cancer 
Center, usou técnicas 
de biologia molecular 
para analisar a flora 
bacteriana de três 
grupos de pessoas: seis 
fumantes; sete fumantes 
que consumiam álcool; 
e nove pessoas que não 
fumavam e bebiam 
esporadicamente. A 
comparação mostrou que 
o consumo intensivo de 
tabaco – um maço por dia 
por ao menos 10 anos – 
reduziu a riqueza 
microbiana da boca, que 
inclui microrganismos 
protetores da mucosa. 
A principal mudança foi na 
abundância de exemplares 
de cada espécie, que era 
menor tanto em quem 
fumava quanto nos 
fumantes consumidores de 
álcool (BMC Microbiology, 
outubro de 2014). 
Suspeita-se que o 
desequilíbrio na 
microbiota oral esteja 
associado a um maior 
risco de desenvolver 
doenças que vão da 
periodontite a algumas 
formas de câncer. Os 
pesquisadores acreditam 
ser interessante estudar 
a microbiota de pessoas 
que começaram 
recentemente a fumar 
e a beber, para ver o 
quanto a microbiota 
saudável persiste, além de 
propor estratégias de 
recomposição.
4
16 | DEZEMBRO DE 2014
Barcos sob o Sol
As cores da América Latina
Que a população 
latino-americana é muito 
miscigenada não é 
novidade para ninguém 
que já tenha andado por 
aqui. A grande base 
indígena, maior em 
algumas regiões do que 
noutras, a colonização 
ibérica, a escravidão 
de africanos e as várias 
ondas de imigrantes 
de outros continentes, 
sobretudo da Europa, 
deram origem a uma 
população heterogênea. 
Pesquisadores de 
vários países, inclusive 
o grupo coordenado 
pela geneticista Maria 
Cátira Bortolini, da 
Universidade Federal 
do Rio Grande do Sul 
(UFRGS), resolveram 
investigar como a 
genética, a aparência 
física e a autopercepção 
caracterizam a 
população no Brasil, 
no Chile, na Colômbia, 
no México e no Peru 
(PLoS Genetics, 25 de 
setembro). Com dados 
de 7 mil voluntários, 
o grupo verificou que a 
ancestralidade, muito 
variável entre países e 
regiões devido a fatores 
históricos conhecidos, 
tem um forte efeito 
sobre a aparência 
e portanto sobre a 
autopercepção. 
Mas alguns fatores, 
principalmente a cor 
da pele, se sobressaem 
e afetam diretamente 
como a pessoa se define 
– mesmo quando a 
genética não confirma a 
ancestralidade aparente. 
“As pessoas podem se 
achar mais africanas 
do que são pela cor da 
pele”, explica Maria 
Cátira. “Alguém com 
pele escura sempre tem 
alguma ascendência 
africana, mas talvez 
menos do que parece.”
Em Búzios, 
competição com 
embarcações 
movidas a 
energia solar 
teve equipes 
de sete estados 
3
As equipes Vento Sul e 
Babitonga, ambas de 
Santa Catarina, foram as 
vencedoras da sexta 
edição do Desafio Solar 
Brasil, competição de 
barcos movidos a 
energia solar realizada 
em novembro em Búzios, 
no litoral fluminense. 
Formada por estudantes 
da Universidade Federal 
de Santa Catarina 
(UFSC) de Florianópolis, 
a Vento Sul ganhou na 
categoria Monocasco, 
enquanto a Babitonga, 
composta por alunos 
do campus da UFSC de 
Joinville, sagrou-se 
campeã entre os 
catamarãs. O Desafio 
Solar Brasil 2014 é uma 
versão nacional do 
Frisian Sollar Challenge, 
o principal evento 
europeu para 
embarcações solares, 
promovido a cada dois 
anos na Holanda. A 
competição aproxima 
tecnologias avançadas e 
a produção de energias 
renováveis ao dia a dia 
da população. Neste ano, 
a competição contou 
com a participação de 
350 universitários, 
agrupados em 23 equipes 
de sete estados (Bahia, 
Ceará, Pará, Paraná, 
Pernambuco, Rio de 
Janeiro e Santa Catarina). 
As embarcações que 
participaram do rali foram 
montadas pelos alunos 
dentro das instituições 
de ensino, com apoio de 
professores. Além do 
circuito de provas – 
oito, no total –, o evento 
também contou com 
workshops sobre 
telemetria, propulsão 
elétrica e geração de 
energia a partir 
de placas solares. 
Promovido pela 
Universidade Federal do 
Rio de Janeiro (UFRJ) e 
pela Ampla Energia e 
Serviços, que distribui 
energia elétrica para 66 
municípios fluminenses, 
o desafio fez parte do 
projeto Cidade Inteligente 
de Búzios (leia na ed. 202 
de Pesquisa FAPESP).
1
PESQUISA FAPESP 226 | 17
Gota de prata com interior cristalino
Uma descoberta inesperada pode ter 
desdobramentos tecnológicos no futuro, 
para o bem e para o mal. Pesquisadores 
chineses e norte-americanos descobriram 
que nanopartículas sólidas de prata po-
dem se deformar como gotas de um lí-
quido. Porém o interior dessas nanopar-
tículas continua cristalino e estável sem 
alterações quando elas são flexionadas 
como gotas. As camadas externas se 
movem, mas os átomos internos ficam 
alinhados como tijolos em uma parede. 
Os experimentos, publicados na revista 
Nature Materials de outubro, foram rea-
lizados com dispositivos com menos de 
10 nanômetros de diâmetro no Instituto 
de Tecnologia de Massachusetts (MIT). 
As nanopartículas são importantes na 
concepção de contatos metálicos e cir-
cuitos eletrônicos. Nesses usos, é impor-
tante ter uma forma estável, mas essa 
descoberta pode se tornar um obstáculo 
para o funcionamento de nanoligamentos 
em conexões elétricas. Em outras aplica-
ções futuras, esse fenômeno pode ser 
interessante em circuitos elétricos que 
precisem de maior resistência mecânica 
em tamanhos tão diminutos que aliem 
também a capacidade de se deformar. 
Estrutura de 
nanocelulose
Utilizar compósitos 
plásticos reforçados com 
nanopartículas de 
celulose em automóveis é 
a proposta de uma série 
de pesquisadores de 
materiais norte-americanos 
e australianos. 
Nanoceluloses são 
materiais ultrafortes e 
extraídos de árvores de 
reflorestamento. O que 
se quer é substituir 
estruturas metálicas 
pesadas dentro dos carros 
como as dos bancos. A 
vantagem é ter materiais 
mais leves e baratos que 
metais e fibras de carbono 
utilizados em vários 
pontos de veículos de 
luxo. Segundo o 
Departamento de Energia 
dos Estados Unidos 
(DOE), a redução em 10% 
do peso em um veículo 
melhora o gasto de 
combustível entre 6% e 
8%. Para desenvolver 
as nanoceluloses para 
o setor automotivo, 
as empresas Futuris 
Automotive e American 
Process firmaram uma 
parceria com o Instituto 
de Tecnologia da Georgia, 
Universidade de Atlanta 
Clark, Universidade de 
Tecnologia Swinburne e o 
Laboratório de Produtos 
Florestais do Departamento 
de Agricultura dos 
Estados Unidos.
Tanque cheio de hidrogênio
Um sedã que emite 
vapor-d’águano lugar 
de poluentes, pode ser 
reabastecido em três 
minutos e percorrer 
650 quilômetros com os 
tanques cheios de 
hidrogênio. Esse é o 
Mirai apresentado pela 
Toyota em novembro 
depois de mais de 10 anos 
do primeiro protótipo. 
A empresa começa a 
vender o veículo a partir 
deste mês de dezembro 
nas concessionárias do 
Japão. O Mirai é um 
automóvel que gera sua 
própria energia elétrica a 
partir do hidrogênio e 
também por um sistema 
que transforma em 
eletricidade a energia 
gerada na frenagem. 
O coração do veículo é 
a célula a combustível 
composta, entre outros 
materiais, por uma 
camada de polímero 
que extrai os elétrons das 
moléculas do gás e gera 
eletricidade com o 
oxigênio do ar. A célula 
fica sob o banco do 
motorista e gera no 
máximo 114 quilowatts. 
O motor elétrico 
responsável pela 
tração fica na frente do 
veículo. Dois tanques 
de hidrogênio estão 
acondicionados na parte 
traseira. São feitos de 
plástico reforçado e 
fibra de carbono. 
As vendas no Japão 
começam em cidades 
com postos de 
abastecimento como 
Tóquio e Osaka. 
O hidrogênio pode ser 
extraído da água por 
eletrólise utilizando-se 
energia renovável solar 
ou eólica e também 
do esgoto. Outra 
utilidade do veículo 
é a possibilidade de 
gerar energia elétrica 
para uma casa 
quando há interrupção 
convencional de energia. 
Nanopartículas 
sólidas 
podem se 
deformar 
como líquido
2
Mirai: carro 
movido a 
hidrogênio 
também serve 
como gerador 
em casa 
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18 | DEZEMBRO DE 2014
A escassez de água que alarma o país 
tem relação íntima com as florestas 
Dança 
da chuva
CAPA
Alterações no volume 
e periodicidade das 
precipitações e mau uso 
dos aquíferos estão entre 
os fatores que secam os 
canos de parte do Brasil 
TEXTO Maria Guimarães
FOTOS Léo Ramos
PESQUISA FAPESP 226 | 19
A 
Amazônia não é apenas a maior floresta tropical 
que restou no mundo. Esse sem-fim de verde 
entrecortado por rios serpenteantes de tama-
nhos e cores variados também não se limita a 
ser a morada de uma incrível diversidade de 
animais e plantas. A floresta amazônica é também um motor 
capaz de alterar o sentido dos ventos e uma bomba que suga 
água do ar sobre o oceano Atlântico e do solo e a faz circular 
pela América do Sul, causando em regiões distantes as chuvas 
pelas quais os paulistas hoje anseiam. Mas o funcionamento 
dessa bomba depende da manutenção da floresta, cuja porção 
brasileira, até 2013, perdeu 763 mil quilômetros quadrados 
(km2) de sua área original, o equivalente a três estados de 
São Paulo. Antonio Donato Nobre, pesquisador do Instituto 
Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), não aponta o dedo 
para culpados. O que importa para ele é reverter esse pro-
cesso e não apenas zerar o desmatamento, mas recuperar a 
floresta. No relatório O futuro climático da Amazônia, divul-
gado no fim de outubro, ele deixa claro que o único motivo 
para não se tomarem providências imediatas para reduzir 
o desmatamento é desconhecer o que a ciência sabe. Para 
ele, o caminho é conscientizar a população. “Agora é um 
bom momento porque as torneiras estão secando”, afirma.
No relatório, elaborado a partir da análise de cerca de 200 
trabalhos científicos, ele mostra que a cada dia a floresta da 
bacia amazônica transpira 20 bilhões de toneladas de água 
(20 trilhões de litros). É mais do que os 17 bilhões de tone-
ladas que o rio Amazonas despeja no Atlântico por dia. Esse 
rio vertical é que alimenta as nuvens e ajuda a alterar a rota 
dos ventos. Nobre explica que os mapas de ventos sobre o 
Atlântico mostram que, no hemisfério Sul e a baixas altitu-
des, o ar se move para noroeste na direção do equador. “Na 
Amazônia a floresta desvia essa ordem”, diz. “Em parte do 
ano, os ventos alísios carregados de umidade vêm do hemis-
fério Norte e convergem para oeste/sudoeste, adentrando a 
América do Sul.” 
Essa circulação viola um paradigma meteorológico que diz 
que os ventos deveriam soprar das regiões com superfícies 
mais frias para aquelas com superfícies mais quentes. “Na 
Amazônia, o ano todo eles vão do quente, o Atlântico equa-
torial, para o frio, a floresta”, explica. Uma parceria com os 
russos Anastasia Makarieva e Victor Gorshkov, do Instituto 
de Física Nuclear de Petersburgo, tem ajudado a explicar do 
ponto de vista físico os fenômenos meteorológicos da Ama-
zônia. Em artigo publicado em fevereiro de 2014 no Journal 
of Hydrometeorology, eles afirmam, com base em análises 
teóricas confirmadas por observações empíricas, que o des-
matamento altera os padrões de pressão e pode causar o de-
clínio dos ventos carregados de umidade que vêm do oceano 
para o continente. O grupo analisou os dados de 28 estações 
meteorológicas em duas áreas do Brasil e viu que os ventos 
que vêm da floresta amazônica carregam mais água e estão 
20 | DEZEMBRO DE 2014
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associados a maiores índices de chuvas do que 
ventos que partem de áreas sem floresta e che-
gam à mesma estação.
Isso acontece, segundo os pesquisadores, por 
causa da bomba biótica de umidade, uma teoria 
proposta pela dupla russa em 2007 para explicar 
a dinâmica de ventos impulsionada por florestas. 
Essa ideia completa a descrição feita pelo clima-
tologista José Antonio Marengo, à época pesquisa-
dor do Inpe, de como a Amazônia exporta chuvas 
para regiões mais meridionais da América do Sul. 
A teoria da bomba biótica aplica uma física não 
usual à meteorologia e postula que a condensação 
da água, favorecida pela transpiração da floresta, 
reduz a pressão atmosférica que suga do mar pa-
ra a terra as correntes de ar carregadas de água.
O s fundamentos da influência da conden-sação sobre os ventos foram apresentados em artigo publicado em 2013 por Anasta-
sia e Gorshkov, em parceria com Nobre e outros 
colaboradores, na Atmospheric Chemistry and 
Physics, uma das revistas mais importantes da 
área. Por meio de uma série de equações, eles 
mostram que o vapor de água lançado à atmosfera 
pela transpiração da floresta gera, ao condensar, 
um fluxo capaz de propelir os ventos a grandes 
distâncias. De acordo com Nobre, a nova física 
da condensação proposta por eles gerou, ainda 
durante a revisão do artigo, uma controvérsia 
com meteorologistas, que debateram o assunto 
furiosamente em blogs científicos com a inten-
ção de derrubar a principal equação do trabalho. 
Não conseguiram e o trabalho foi publicado. O 
pesquisador do Inpe explica a polêmica. “É uma 
física que atribui à condensação, um fenômeno 
básico e central do funcionamento atmosférico, 
um efeito oposto ao que se acreditava”, diz. “Será 
necessário reescrever os livros didáticos da área.” 
Para dar a dimensão da dificuldade de diálogo 
entre físicos teóricos e meteorologistas, Nobre 
lembra que a física desenvolve um entendimento 
dos fenômenos atmosféricos a partir de leis fun-
damentais da natureza, enquanto a meteorologia 
o faz, em grande parte, com base na observação 
de padrões do clima do passado, cuja estatística 
é absorvida em modelos matemáticos. Tais mo-
delos representam bem as flutuações climáticas 
observadas, mas apresentam falhas quando há 
alterações significativas no padrão. 
É o caso agora, quando um novo contexto – 
ocasionado por desmatamento, mudanças glo-
bais no clima ou outros fatores – gera fenômenos 
climáticos inesperados para certas regiões, como 
chuvas mais torrenciais e secas mais extensas. A 
teoria física acerta onde extrapolações do passado 
erram, por isso épreciso, segundo ele, construir 
novos modelos climatológicos que recoloquem 
a física no centro dos esforços da meteorologia.
O momento agora é crucial porque o clima 
amazônico vem mudando. Secas importantes 
nessa região marcaram os anos de 2005 e 2010. 
“Antes a Amazônia tinha a estação úmida e a mais 
úmida, agora há uma estação seca”, diz Nobre. Os 
danos dessas secas na floresta não foram aniqui-
ladores porque ela consegue se regenerar, mas o 
acúmulo dos danos aos poucos erode essa capa-
cidade. Um efeito importante que já se observa, 
previsto há 20 anos por modelos climáticos, é um 
prolongamento da estação seca, que tem prejudi-
cado a produção agrícola em porções do estado 
do Mato Grosso. A grande preocupação é que 
se chegue a um ponto de não retorno, em que a 
floresta já não consiga produzir chuva suficiente 
para suprir nem a si própria. Trabalhos de mo-
delagem que levam em conta clima e vegetação 
indicam que esse ponto será atingido quando 
40% da área original de floresta for perdida, um 
número que não é unânime. Segundo o relatório 
de Nobre, 20% da floresta já foi cortada e outros 
20%, alterados a ponto de terem perdido parte 
de suas propriedades.
Se a teoria da bomba biótica estiver correta, 
os efeitos desse ponto de não retorno devem ser 
mais graves do que a savanização proposta pelo 
climatologista Carlos Nobre, irmão mais velho 
de Antonio (ver Pesquisa FAPESP nº 167). “Se a 
floresta perder a capacidade de trazer a umida-
de do oceano, a chuva na região pode cessar por 
completo”, diz o Nobre caçula. Sem água para 
sustentar uma savana, o resultado poderia ser 
uma desertificação na Amazônia. Se isso ocorrer, 
o cenário que ele infere para o Sul e o Sudeste do 
país poderia ser semelhante ao de outras regiões 
na mesma latitude: tornar-se um deserto. 
Antonio Nobre não se arrisca a falar muito so-
bre São Paulo. “Meu relatório é sobre a Amazônia.” 
Mas ele acredita que a seca por aqui não indepen-
de do que acontece no Norte. Em sua opinião, foi 
possível devastar boa parte da mata atlântica sem 
sentir uma redução nas chuvas porque a Amazônia 
era capaz de suprir a falta de água na atmosfera 
local. Mas isso já não parece acontecer mais. Ele 
aproveita o ensejo para sugerir que não apenas a 
floresta amazônica, mas também a que acompa-
nhava a costa de quase todo o Brasil precisa ser 
recuperada imediatamente. Se não for por outro 
motivo, o esgotamento a que chegaram as represas 
que alimentam boa parte da população paulista 
deveria bastar como argumento.
A exportação de água desde a Amazônia para 
outras regiões do Brasil, sobretudo o Sudeste e 
o Sul, é uma realidade, por meio do fenômeno 
conhecido como rios voadores (ver Pesquisa FA-
PESP nº 158). Um indício dessa linha direta foram 
as intensas chuvas no sudoeste da Amazônia no 
início de 2014, praticamente o dobro do volume 
habitual, ao mesmo tempo que São Paulo passa-
RIOS VOADORES
A floresta amazônica está instalada sobre 
uma imensa quantidade de água, o 
aquífero Alter do Chão. Sua vegetação 
absorve umidade do subsolo e do oceano 
e a lança na forma de vapor na 
atmosfera, gerando correntes aéreas que 
exportam chuvas para longe 
Caminhos até a torneira
Fontes aéreas, superficiais e subterrâneas se somam 
para o abastecimento
NO CAMPO E NAS CIDADES
A presença de mata nativa é 
essencial à saúde dos mananciais. 
O plantio de culturas intensivas e 
de espécies florestais, como o 
eucalipto, pode reduzir 
a recarga dos aquíferos, 
que é maior em 
zonas urbanas
Aquífero cristalino
Água atmosférica
Abastecimento público
Recarga
Recarga
Recarga
Recarga
Irrigação
Fraturas com água
Aquífero Guarani
Aquífero Bauru
ANDES
EVAPORAÇÃO 
DO OCEANO
TRANSPIRAÇÃO 
E CONDENSAÇÃO
RECIRCULAÇÃO 
DO VAPOR D’ÁGUA
FORMAÇÃO DAS 
CABECEIRAS DOS 
RIOS DA AMAZÔNIA
RIOS VOADORES: 
CENTRO-OESTE, 
SUDESTE, SUL E 
PAÍSES VIZINHOS
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Aquífero 
Alter do Chão
Poços públicos e privados
Aquífero sedimentar
AQUÍFEROS DE SÃO PAULO
A sobreposição de fontes 
subterrâneas no estado é exemplo 
da complexidade do sistema, usado 
como fonte total ou parcial de água 
em 75% dos municípios 
VEGETAÇÃO 
NATIVA
ZONA RURAL
FONTE RICARDO HIRATA / IGC-USP
1
2
3
4
5
Aquíferos sedimentares
n Tubarão
n Guarani
n Bauru
Aquíferos cristalinos
n Pré-Cambriano
n Serra Geral
Aquiclude
n Passa Dois
22 | DEZEMBRO DE 2014
va pelo pior momento de uma seca histórica. “A 
chuva ficou presa em Rondônia, no Acre e na Bo-
lívia por causa de um bloqueio atmosférico, algo 
como uma bolha de ar que impedia a passagem da 
umidade. Isso criou uma estabilidade atmosférica, 
inibiu a formação de chuvas e elevou as tempe-
raturas”, conta Marengo, agora pesquisador do 
Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de 
Desastres Naturais (Cemaden). Ele é coautor de 
um artigo liderado por Jhan Carlo Espinoza, do 
Instituto Geofísico do Peru, que está em processo 
de publicação pela Environmental Research Let-
ters e é parte dos resultados do programa Green 
Ocean (GO) Amazon, que tem apoio da FAPESP.
Não é possível, porém, afirmar o quanto essa 
relação determina a estiagem paulista. “Ainda não 
se sabe calcular quanto das chuvas do Sudeste 
vem da Amazônia nem quanto chega aqui trazi-
do por frentes frias vindas do Sul, pela umidade 
carregada por brisas marinhas ou pela evaporação 
local”, diz. Para ele, o desmatamento pode ter um 
impacto no longo prazo, mas ainda é impossível 
dizer se ele está relacionado com a seca atual. “O 
Sudeste pode não virar um deserto”, pondera, 
“mas os extremos climáticos podem se tornar 
mais intensos”. Estudos usando modelos climá-
ticos criados pelo grupo de Marengo já previam 
uma redistribuição do total das chuvas, com um 
volume muito grande em poucos dias e estiagens 
mais prolongadas, algo que já tem sido observado 
no Sudeste e no Sul do país nos últimos 50 anos. 
Além desse efeito a distância, em escala nacio-
nal, a relação entre vegetação e recursos hídricos 
também se dá numa escala mais local, de acordo 
com o engenheiro agrônomo Walter de Paula 
Lima, professor da Escola Superior de Agricul-
tura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade 
de São Paulo (USP) e coordenador científico do 
Programa Cooperativo de Monitoramento Am-
biental em Microbacias (Promab) do Instituto 
de Pesquisas e Estudos Florestais. Em seus estu-
dos sobre o efeito das florestas (ou sua remoção) 
em microbacias hidrográficas, ele mostrou que 
a mata ciliar, que acompanha os cursos de água, 
ajuda a manter a boa saúde de pequenos rios. 
“O sistema Cantareira, que abastece São Paulo, 
é formado por milhares de microbacias”, conta. 
“As que estão mais degradadas não contribuem 
para o manancial.” Essa avaliação, porém, carece 
de dados experimentais concretos. Segundo Li-
ma, para se saber exatamente o efeito das matas 
ciliares nos mananciais seria necessário estudar 
Rios voadores: 
correntes de 
vapor-d’água que se 
formam sobre a floresta 
amazônica exportam 
chuvas para a região 
Sul do Brasil
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PESQUISA FAPESP 226 | 23
uma microbacia experimental em que se possa 
medir propriedades dos cursos d’água com e sem 
a proteção de floresta, sem que haja outros fatores 
envolvidos. Um quadro praticamente inatingível. 
Uma experiência prática que reforça a im-
portância de se preservar as matas ciliares para 
a manutenção dos recursos hídricos é relatada 
pelo biólogo Ricardo Ribeiro Rodrigues, da Esalq, 
especialista em recuperação de florestas nativas. 
Ele conta que há 24 anos a água desapareceu 
da microbacia de Iracemápolis, município no 
interior paulista. A prefeitura 
buscou ajudana Esalq, e o gru-
po de Rodrigues implementou 
um projeto de conservação de 
solo da microbacia e de recupe-
ração da mata ciliar que deveria 
estar ali. “Fui lá recentemente e 
levei um susto”, conta o pesqui-
sador. O nível da represa está um 
pouco mais baixo, mas tem água 
suficiente para continuar abas-
tecendo Iracemápolis, que teve 
sua população triplicada nesse 
período. “Toda a região está com 
problemas de falta de água, mas 
Iracemápolis não.”
As florestas afetam a saúde 
dos recursos hídricos por meio 
de sua influência nas chuvas, 
mas também tem importância 
a sua relação com as águas sub-
terrâneas. O engenheiro Edson 
Wendland, professor no Departamento de Hi-
dráulica e Saneamento da USP de São Carlos, es-
tuda justamente o que acontece com a recarga do 
aquífero Guarani quando o cerrado é substituído 
por culturas como pastagem, cana-de-açúcar, cí-
tricos ou eucalipto. O trabalho tem sido feito na 
bacia do Ribeirão da Onça, no município de Bro-
tas, interior paulista, estudada desde os anos 1980. 
Por meio de poços de monitoramento e esta-
ções climatológicas, a ideia é detalhar, antes que 
não sobre mais vegetação original de cerrado por 
ali, como se dá a recarga do aquífero Guarani sob 
diferentes regimes de uso do solo. “Não é possível 
gerenciar o que não se conhece”, diz Wendland 
sobre uma das fontes de água subterrânea mais 
importantes do Brasil. O aquífero é uma camada 
porosa de rochas na qual se infiltra a água das 
chuvas, depois liberada lentamente para os rios. 
Essa diferença de tempo entre o abastecimento e 
a descarga, consequência do trajeto lento da água 
pelo meio subterrâneo, é o que garante perenidade 
aos rios, que dependem dessa poupança hídrica.
O grupo de Wendland tem mostrado, por exem-
plo, que a disponibilidade de água diminui quando 
se substituem as pequenas árvores retorcidas do 
cerrado, adaptadas a viver sob estresse hídrico, por 
eucaliptos, que consomem bastante água e em pou-
cos anos atingem o tamanho de corte. Medições 
feitas entre 2004 e 2007 mostram que as taxas de 
recarga têm relação íntima com a intensidade da 
precipitação e o porte das culturas agrícolas nessa 
região onde o cerrado está praticamente extinto, 
de acordo com artigo aceito para publicação nos 
Anais da Academia Brasileira de Ciências.
Isso não significa, porém, que os eucaliptos 
sejam vilões incondicionais. O impacto de árvo-
res de grande porte depende, em parte, da pro-
fundidade do aquífero no ponto em que estão 
plantadas. Segundo Lima, os mais de 20 anos 
de monitoramento contínuo feito pelo Promab 
mostraram que a relação entre espécies flores-
tais e água não é constante. “Onde a disponibi-
lidade é crítica, um elemento novo pode secar 
as microbacias”, explica. “Mas onde o balanço 
hídrico e climático é bom, a diminuição de água 
nem é sentida.” Essas conclusões deixam claro 
que é necessário fazer um zoneamento de onde 
se pode plantar e onde a prática seria nociva, um 
planejamento que não existe no Brasil.
P ara Wendland, a importância de entender a relação entre o cerrado e os aquíferos é crucial porque as nascentes da maioria 
das grandes bacias hidrográficas do país estão 
no domínio desse bioma. Além da importância 
como recurso hídrico, algumas dessas bacias – 
do Paraná, do Tocantins, do Parnaíba e do São 
Francisco – são as principais fornecedoras de 
água para geração de energia elétrica no Brasil.
Em pouco mais de meio século, metade da área 
do cerrado foi desmatada e deu lugar a atividades 
agrícolas. Para avaliar o efeito dessa alteração 
no uso do solo sobre a disponibilidade hídrica, 
o doutorando Paulo Tarso de Oliveira, do grupo 
de São Carlos, fez um estudo usando dados de 
sensoriamento remoto em toda a área desse bio-
ma. Com os sensores, é possível avaliar não só a 
alteração da vegetação, mas também quantificar 
as precipitações, os índices de evapotranspiração 
pelas plantas e estimar a variação de armazena-
mento de água. Segundo artigo publicado em 
setembro de 2014 na Water Resources Research, 
os dados indicam uma redução do escoamento 
por causa de atividades agrícolas mais intensas. 
O desmatamento e o uso agrícola do solo têm 
importância, mas Wendland afirma que o maior 
problema para a recarga do aquífero hoje é a re-
dução nas chuvas. “O aquífero supre a falta de 
precipitação por dois ou três anos, depois já não 
consegue manter o escoamento de base nos rios”, 
diz. Nos últimos anos as precipitações da estação 
chuvosa foram abaixo da média, o que diz os resul-
tados observados. Explica também, segundo ele, 
fenômenos alarmantes como o esgotamento da 
principal nascente do rio São Francisco, que per-
1
As florestas 
afetam os 
recursos hídricos 
por meio de 
sua influência 
nas chuvas 
e na recarga 
das águas 
subterrâneas
24 | DEZEMBRO DE 2014
maneceu seca por cerca de três meses e só voltou 
a jorrar água no final de novembro. 
O desafio do gerenciamento das águas subter-
râneas, que representam 98% da água doce do 
planeta, tem outras particularidades em zonas 
urbanas, onde pode ser um recurso crucial. Se-
gundo o geólogo Ricardo Hirata, do Instituto de 
Geociências (IGc) da USP, 75% dos municípios 
paulistas são abastecidos, em parte ou comple-
tamente, por essas águas. Isso inclui cidades im-
portantes do estado, com destaque para Ribeirão 
Preto, onde elas servem a 100% dos mais de 600 
mil habitantes. Na escala nacional, outras cidades 
completamente abastecidas por águas subterrâ-
neas são Juazeiro do Norte, no Ceará, Santarém, 
no Pará, e Uberaba, em Minas Gerais, de acordo 
com o livro Águas subterrâneas urbanas no Brasil, 
em processo de publicação pelo IGc e pelo Cen-
tro de Pesquisa em Águas Subterrâneas (Cepas).
S urpreendente nas cidades é que a água per-dida pelo abastecimento público vai parar no aquífero. “A impermeabilização do solo 
diminui a penetração da água da chuva, mas as 
perdas compensam e superam essa redução e o 
saldo é uma recarga maior onde há cidades, em 
comparação com outras áreas”, explica Hirata. 
“Se analisarmos a água de um poço qualquer em 
São Paulo, metade será do aquífero e metade da 
Sabesp.” Ele estima que a capital paulista tenha 
quase 13 mil poços, todos particulares, muitos 
ilegais. “Existe uma legislação para gerenciamen-
to desse recurso, mas ela não é seguida”, conta. 
Um problema causado pelas cidades é a con-
taminação dos aquíferos por nitrato, devido a 
vazamentos no sistema de esgotos. Como a des-
contaminação é cara, os poços afetados acabam 
abandonados. Nas cidades em que são usados para 
abastecimento público, a solução é misturar água 
poluída à de poços limpos para que a qualidade 
total seja aceitável. “Em Natal não há mais água 
suficiente para mesclar”, alerta Hirata. O subter-
râneo é fonte de 70% da água na capital potiguar. 
Outro tipo de poluição importante vem da in-
dústria, como a causada pelos solventes orga-
noclorados. O geólogo Reginaldo Bertolo, tam-
bém do IGc e diretor do Cepas, estuda como es-
se poluente se comporta no aquífero abaixo de 
Jurubatuba, na zona Sul paulistana, uma região 
industrial desde os anos 1950. “É um contami-
nante de difícil comportamento no aquífero”, 
conta. Nessa rocha dura, onde a água corre em 
fraturas, o composto mais denso do que a água se 
aprofunda e só para quando chega a um estrato 
impermeável. “São produtos tóxicos e carcino-
gênicos.” A poluição impede o uso da água sub-
terrânea numa região onde a demanda é forte.
Em colaboração com pesquisadores da Univer-
sidade de Guelph, no Canadá, o grupo de Bertolo 
está mapeando esses poluentes para entender 
como ele se comporta e propor estratégias para 
eliminá-lo do aquífero. Para isso, o próximo passo 
é usar um sistema desenvolvido pelos canadenses 
para retirar amostras da rocha e instalar poços 
de monitoramento especiais. “O equipamentopermite coletar água de mais de 20 fraturas dife-
rentes numa mesma perfuração”, afirma. “Vamos 
fazer um modelo matemático para reproduzir o 
que acontece e fazer prognósticos.”
Bertolo alerta que é importante mapear melhor 
as águas subterrâneas e analisar sua qualidade, 
porque é um recurso que pode ser complementar 
nas cidades. “A água subterrânea é um recurso 
pouco conhecido.” A engenheira Monica Porto, 
da Escola Politécnica da USP, não acredita que 
seja possível expandir muito o uso dessas águas 
na Região Metropolitana de São Paulo. Em sua 
opinião, para ir além dos cerca de 10 metros cú-
bicos por segundo (m3/s) extraídos dos milhares 
PESQUISA FAPESP 226 | 25
No fim de 
novembro o sistema 
Cantareira tinha água 
no reservatório Paiva 
Castro (direita), 
enquanto a seca 
era evidente 
no Jacareí/Jaguari
de poços existentes, seriam necessários milhares 
de novas perfurações. “Mas esses 10 m3/s não 
podem faltar, precisamos cuidar deles.”
Monica, que já foi presidente e ainda integra 
o conselho consultivo da Associação Brasileira 
de Recursos Hídricos, pensa em maneiras de 
assegurar a segurança hídrica para a população. 
Faltar água está, de fato, entre as coisas mais gra-
ves que podem acontecer numa cidade. “Somos 
obrigados a trabalhar com uma probabilidade 
de falha muito baixa.” Segundo ela, em 2009 o 
governo paulista encomendou a uma empresa 
de consultoria um estudo sobre o que precisaria 
ser feito para garantir o suprimento de água. O 
estudo ficou pronto em outubro de 2013, já em 
meio à mais importante crise hídrica da histó-
ria do estado. Monica explica que é impossível 
considerar a Grande São Paulo de forma isolada, 
porque não há mais de onde tirar água sem dis-
putar com vizinhos. Por isso, o estudo abrange a 
megametrópole, que engloba mais de 130 municí-
pios e uma população de 30 milhões de pessoas. 
As obras necessárias à melhoria da seguran-
ça hídrica já começaram, com um sistema para 
recolher água do rio Juquiá, no Vale do Ribeira, 
que deve ficar pronto em 2018. Está em fase de 
licenciamento ambiental a construção das barra-
gens de Pedreira e Duas Pontes, que devem abas-
tecer a região de Campinas. “Manaus e Campinas 
são as únicas cidades do Brasil com mais de um 
milhão de pessoas que não têm reservatório de 
água”, conta Monica. Não faz falta a Manaus, às 
margens do rio Amazonas, mas faz a Campinas, 
que depende do sistema Cantareira. Ela, que em 
casa “faz das tripas coração” para economizar 
água, afirma que a crise atual é importante para 
conscientizar a população sobre a necessidade 
de se reduzir o consumo. Também ressalta a im-
portância do conjunto de medidas que precisará 
ser revisto em caráter emergencial. “Temos que 
aprender pela dor”, diz Monica, que costuma brin-
car que é melhor que não chova muito para não 
afastar a instrutiva crise. “Mas, se não chover muito 
em breve, vou parar de brincar: precisa chover.” n
Projetos
1. Entendimento das causas dos vieses que determinam o início 
da estação chuvosa na Amazônia nos modelos climáticos usando 
observações do GoAmazon e Chuva (13/50538-7); Pesquisador 
responsável José Antonio Marengo Orsini (Cemaden); Modalidade 
Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa – GoAmazon; Investimento 
R$ 57.960,00 (FAPESP).
2. Estabelecimento do modelo conceitual hidrogeológico e de trans-
porte e destino de compostos organoclorados no aquífero fraturado 
da região de Jurubatuba, São Paulo (13/10311-3); Pesquisador res-
ponsável Reginaldo Antonio Bertolo (IGc-USP); Modalidade Auxílio 
Regular a Projeto de Pesquisa; Investimento R$ 502.715,27 (FAPESP).
Artigos científicos
MAKARIEVA, A. M. et al. Why does air passage over forest yield 
more rain? Examining the coupling between rainfall, pressure and 
atmospheric moisture content. Journal of Hydrometeorology. v. 15, 
n. 1, p. 411-26. fev. 2014.
MAKARIEVA, A. M. et al. Where do winds come from? A new theory 
on how water vapor condensation influences atmospheric pressure 
and dynamics. Atmospheric Chemistry and Physics. v. 13, p. 1039-
56. 25 jan. 2013.
ESPINOZA, J. et al. The extreme 2014 flood in South-western Amazon 
basin: The role of tropical-subtropical South Atlantic SST gradient. 
Environmental Research Letters. no prelo.
WENDLAND, E. et al. Recharge contribution to the Guarani Aquifer 
System estimated from the water balance method in a representative 
watershed. Anais da Academia Brasileira de Ciências. no prelo.
OLIVEIRA, P. T. S. et al. Trends in water balance components across 
the Brazilian Cerrado. Water Resources Research. v. 50, n. 9, 
p. 7100-14. set. 2014. 
> Veja vídeos em nosso site: 
revistapesquisa.fapesp.br
26 | dezembro de 2014
Do prédio à cidade 
para interpretar 
a evolução urbana
entrevista
Mariluce Moura
A
plicados à obra densa do elegante arquiteto-sociólogo 
Nestor Goulart Reis Filho, os adjetivos singular e 
original não constituem favor algum. O respeitado 
professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo 
da Universidade de São Paulo (FAU-USP), que aos 83 anos segue 
encantando novas gerações de estudantes, produz em seu tra-
balho um diálogo de tal argúcia entre arquitetura e urbanismo 
que consegue retomá-los como um só e mesmo processo. Mais, 
ele cria para tanto novas trilhas teóricas que, de quebra, o 
levam a novas interpretações da evolução urbana, ancoradas 
em outros processos sociais mais amplos e profundos na qual 
pode vê-la como uma face ou revelação de tais processos. E, 
como se ainda fosse pouco, Nestor Goulart também lida com 
empreendimentos em campos aparentemente tão distantes da 
arquitetura e do urbanismo quanto o mapeamento exaustivo 
das áreas históricas de mineração de ouro no Sul do Brasil 
que, entre outros produtos, rendeu mapas, livro e belos álbuns.
A propósito, neste momento ele está empenhado em editar 
nada menos que 20 álbuns, que espera ver somados aos 30 
livros que publicou ao longo de sua trajetória. O primeiro, ele 
diz, “terminei há uns quatro anos e agora quero complemen-
tar. Trata da cartografia da dispersão e fizemos junto com o 
Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais]”. As áreas 
densas do Vale do Paraíba, da região de Campinas, de todas as 
Nestor Goulart Reis Filho
lé
o
 R
a
m
o
s
grandes regiões do estado de São Paulo foram cartografadas 
em cima dos levantamentos aéreos feitos pelo Inpe. “É um 
trabalho gigantesco e quero ver se completo agora.” O segun-
do tem fotografias aéreas de São Paulo, de 1940 a 1960, que 
ele comprou há muito tempo. “Veem-se o Jardim da Luz, o 
Anhangabaú, o aeroporto, o Ibirapuera, o Jóquei Clube e o rio 
Pinheiros com a represa lá na ponta, dá para ver tudo e a cidade 
crescendo. É fascinante! Esse está pronto”, conta. O terceiro 
álbum tem plantas da cidade de São Paulo que permitem a 
quem o examina “compreender visualmente a cidade de São 
Paulo, não precisa explicar nada”. Aliás, seu trabalho como 
professor, Goulart resume, “é sair para a rua e ensinar a ver”. 
Filho de Nestor Goulart Reis, um médico ligado aos meios 
intelectuais de Porto Alegre e que, já em São Paulo, dirigiu 
o serviço de tuberculose do estado, liderando inclusive a 
construção de hospitais para dar conta de sua tarefa, Nestor 
Goulart fez o ginásio e o colegial (atualmente parte do ensino 
fundamental e o médio) no Colégio São Luiz. O irmão Luiz 
Carlos Fernandes Reis, depois médico e professor da Medi-
cina da USP em Ribeirão Preto, era seu colega. A mãe Ruth 
Fernandes Reis, dona de casa, era pianista, ex-aluna do Mário 
de Andrade. Quando o pai foi nomeado diretor do Hospital 
de Tuberculose Vicentina Aranha, em São José dos Campos, 
Goulart relembra, tiveram que se mudar e venderam o pia-
PesQUisa FaPesP 226 | 27
iDaDe 83 anos
esPecialiDaDe 
arquitetura e urbanismo
ForMação 
Faculdade de 
arquitetura e Urbanismoda UsP (graduação), 
Faculdade de Filosofia, 
letras e Ciências 
Humanas da UsP 
(graduação), Faculdade 
de arquitetura e 
Urbanismo da UsP 
(doutorado)
institUição 
Faculdade de 
arquitetura e Urbanismo 
da UsP
ProDUção cientíFica 
42 artigos científicos, 
30 livros e 79 trabalhos 
técnicos
28 | dezembro de 2014
no. Ela parou de tocar. Adiante, quando 
os dois irmãos já estavam na faculdade, 
convenceram o pai a comprar um pia-
no para ela, “que voltou a tocar por pu-
ro prazer”. Foi ela, diz o arquiteto, que 
sempre pressionou os filhos para estudar 
com organização e método. 
A entrevista, da qual publicamos a se-
guir os principais trechos, tomou quase 
três horas de estimulante diálogo, há 
alguns meses, na sala do professor Nes-
tor Goulart na FAU e no restaurante da 
faculdade, com direito a interrupção da 
gravação, claro, para o almoço. 
Vamos começar por seu livro mais re-
cente, As minas de ouro e a formação 
das capitanias do sul. Como foi a expe-
riência de fazê-lo?
A Unesco propôs uma forma de pen-
sar o patrimônio cultural que envolve 
paisagem. Há um conceito de paisagem 
cultural que começou a ser discutido 
em decorrência da destruição de certos 
lugares e de formas de organização de 
produção: aldeias, terrenos e terraços 
começaram a ser destruídos no Sudeste 
Asiático e no Peru, e havia uma preocu-
pação de estender a produção cultural a 
partir dessa perspectiva.
Esta é uma preocupação deste século?
Não, vem dos anos 1990. A partir da Se-
gunda Guerra Mundial, o conceito de pa-
trimônio começou a se estender de obras 
isoladas para conjuntos urbanísticos, para 
cidades históricas, sempre ampliando e 
compreendendo o urbano. Para nós, es-
tudiosos da urbanização como processo 
social, isso é fundamental, porque an-
tes perdíamos as dimensões. Ainda que 
o Iphan [Instituto do Patrimônio Histó-
rico e Artístico Nacional] tenha tombado 
em 1937 ou 1938, época de sua fundação, 
algumas cidades históricas de Minas Ge-
rais, como Ouro Preto e outras clássicas, 
o tombamento era sumário, não havia co-
nhecimento sedimentado sobre isso no 
Brasil nem no mundo. Depois de 1950, 
com a remodelação das cidades europeias, 
começou a haver uma preocupação com 
partes inteiras de cidades consideradas 
patrimônio cultural. E no fim do século 
XX percebeu-se que eram importantes 
aldeias e cidades históricas que se esva-
ziaram com a urbanização da população 
europeia – e os europeus sempre tiverem 
o maior carinho por áreas que detêm as-
pectos importantes da história. Iniciou-se 
então a discussão do conceito de paisagem 
cultural, que o Iphan adota já na passagem 
do século e começa a aplicar em cidades 
pequenas, com paisagens bem caracterís-
ticas, criadas pelos imigrantes italianos, 
alemães e japoneses, respectivamente, no 
Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e 
no Vale do Ribeira (SP). A certa altura, 
Dalmo Vieira, catarinense que dirigia o 
Departamento do Patrimônio Material 
do Iphan e que em 1974 havia sido um 
entusiasmado aluno num curso nosso de 
restauro de patrimônio cultural, me per-
guntou se eu poderia estudar a formação 
dessas paisagens culturais de São Paulo e 
dos três estados da região Sul. O desafio 
era grande. Teríamos que trabalhar, por 
exemplo, a partir dos ciclos econômicos: 
o primeiro ciclo do açúcar no início da co-
lonização, em São Paulo, o ciclo do ouro, 
o segundo ciclo do açúcar, o do café etc. 
Ele perguntou que ciclo de ouro era esse.
E aí começou seu interesse pela mine-
ração em São Paulo.
Isso. Eu sabia que havia veios de minera-
ção no Jaraguá, na Cantareira, na região 
do Voturuna, de Santana do Parnaíba 
para baixo, no Vale do Ribeira, e alguma 
coisa no sul também, mas conhecia pou-
co sobre o assunto. Na verdade, essa era 
uma história completamente esquecida. 
O Iphan fez um contrato com uma em-
presa que por sua vez me contratou para 
fazer o trabalho. Em termos de dinheiro, 
não ganhei quase nada. De tudo que foi 
gasto, sobraram R$ 16 mil por dois anos 
de estudo. A rigor, isso não tinha o menor 
sentido, porque continuei trabalhando 
depois no projeto, mas o fato era que 
tínhamos auxiliares e pudemos custear 
as despesas sumárias. Começamos em 
2009 e editamos o material em 2012, 
foi rápido – são as técnicas de pesquisa 
amadurecidas em 60 anos de experiên-
cia que nos permitem isso. Eu tinha uma 
ideia das coisas, mas era preciso uma 
técnica de trabalho. Sabia que regiões 
precisavam ser estudadas, conhecia sua 
história, mas me surpreendi. A região 
de Paranaguá, na direção da serra e no 
planalto, e a região em torno de Curitiba 
eram áreas de mineração. E eu sabia que 
também em Santa Catarina tinha mine-
ração a partir da cidade de São Francis-
co do Sul. Comecei a procurar e achei.
Essa mineração era concomitante à ex-
ploração do ouro em Minas?
Não, era bem anterior. Em 1586 já ha-
via notícias disso. E antes mesmo, por 
informações que os jesuítas traziam – 
eles também tinham minas de ouro –, 
a Coroa portuguesa começou a mandar 
técnicos para fazer a exploração. O pri-
meiro levantamento foi feito por Brás 
Cubas junto com um técnico de Por-
tugal. Eles foram na direção de Minas, 
não acharam nada e na volta resolveram 
verificar se era verdade o que se dizia 
sobre a ocorrência de ouro no Jaraguá. 
Isso ganhou importância por volta de 
1590, 1595.
Ou seja, é anterior ao movimento das 
Entradas e Bandeiras. 
É anterior, mas coincide em parte. Em 
meu trabalho valorizei o fato de os indí-
genas conhecerem bem o ambiente. Não 
haveria Bandeiras sem eles à frente, com 
os portugueses, às vezes, carregados em 
redes. Conheciam a natureza, as pedras, 
e tinham nomes tupis para elas. Quando 
os portugueses explicavam o que que-
riam, os índios sabiam que havia o que 
procuravam no Jaraguá e na Cantareira, 
mais ao sul, e os levavam até lá. Em 1599, 
o governador dom Francisco de Souza 
chegou à Bahia e procurou Gabriel Soa-
res de Souza, cujo irmão tinha entrado 
no São Francisco e achado ouro, depois 
de subir o Paraguaçu. Ao tentar fazer o 
mesmo a pedido do governador, Gabriel 
morreu. Só os índios conheciam essa 
passagem do Paraguaçu ao São Francis-
co. A Coroa portuguesa estava então em 
mãos da Espanha e dom Francisco vie-
ra de Madri com uns contratos que lhe 
garantiam que se daria bem se achasse 
ouro. Não o conseguindo no Vale do São 
Francisco, veio para São Paulo. E aqui 
determinou que quem achasse o ouro 
tinha que declará-lo. 
E ninguém fazia isso.
Claro que não. Mas o problema é que a 
sonegação funcionou até a Guerra dos 
Emboabas. Já no século XVIII, em Mi-
nas Gerais, o objetivo da Coroa era en-
cher o lugar de mineradores e tirar todo 
o ouro da região o mais depressa possí-
vel. Os moradores de São Paulo não es-
tavam habituados a isso. Eles recebiam 
sesmarias, latifúndios e tinham seus ín-
dios armados para não deixar ninguém 
entrar em suas propriedades. Ao chega-
rem outros mineradores, foi uma guerra. 
Em 1604, exigida a declaração, o único 
PesQUisa FaPesP 226 | 29
a registrar seus achados foi um sujei-
to que diziam ser associado a Afonso 
Sardinha. Declarou na Câmara, e isso 
ficou registrado em ata, que nos 12 anos 
anteriores tinham tirado ouro na Canta-
reira, no Jaraguá, no Voturuna. Mas foi 
o único. Portanto, a partir daí é oficial 
a mineração no Brasil. Ao terminar seu 
mandato, dom Francisco voltou a Madri 
e convenceu a corte de que devia voltar 
como governador. Voltou em 1608, per-
manecendo no cargo até 1611. Em São 
Paulo, organizou militarmente a popu-
lação masculina e começaram as Ban-
deiras – aliás, bandeira era palavra que 
expressava uma companhia militar em 
Portugal. Primeiro, recrutou os portu-
gueses e seus descendentes, mamelucos 
ou não. E esses organizaram os índios, 
que eram tropa aliada, car-
regadores e mineradores defato. Segundo Sergio Buar-
que de Holanda e outros, os 
portugueses eram incapa-
zes de se alimentar nas ma-
tas. A história das Bandeiras 
precisa ser recontada. E aí 
tem que se observar que os 
chamados paulistas são uma 
categoria que compreende 
o povo de muitas vilas. Em 
1700, havia de Porto Segu-
ro para cima duas cidades 
e 18 vilas e, para baixo, duas 
cidades e 19 vilas. E todo o 
pessoal dessas vilas abaixo, 
taubateanos, curitibanos, 
iguapenses etc., era paulista. 
Seu livro mapeia os lugares 
de lavra no município de São 
Paulo até que ano?
Essa atividade se estendeu muito no 
tempo. Em 1930, 1940, havia mineração 
em Santo Amaro, onde tinham existido 
as minas do Morro do Ouro e Estrada 
do Ouro, e em Embu-Guaçu teve mine-
ração até recentemente. Houve minera-
ção mais intensa no sul até a descoberta 
das Minas Gerais, em dois ciclos muito 
claros: primeiro na Cantareira, Jaraguá, 
Voturuna e, depois, quando declaram a 
descoberta em Paranaguá. Mas mesmo 
declarando sonegava-se tudo que po-
dia, declaravam-se uns 5% dos achados.
E para onde ia esse ouro?
O povo dessa região não tinha mercado-
rias exportáveis para a Europa. Vendia 
para os engenhos carne salgada, doces, 
e muito trigo no século XVII. Quando os 
navios chegavam com os produtos euro-
peus, tinham que ser pagos de alguma 
forma e o eram em ouro, o que foi cons-
tatado por Alice Canabrava, professora 
da Faculdade de Economia, Adminis-
tração e Contabilidade [FEA-USP], que 
estudou o censo dos anos de 1766 e 1767, 
o primeiro feito na em São Paulo. Alice 
mostrou que no auge da exploração de 
ouro as pessoas mais ricas eram as do 
comércio, em segundo lugar, os mine-
radores e, em terceiro, os fazendeiros e 
pequenos comerciantes. O fato é que a 
Coroa portuguesa também ganhava de 
qualquer jeito, nos tributos sobre a mi-
neração e, principalmente, tributando 
o comércio.
Como o senhor descobriu onde estavam 
as minas? 
Uma das soluções que utilizei foi a da 
cartografia histórica, que está repleta de 
informações. Trabalhava-se inicialmen-
te com bateia, mas, depois, quando toda 
essa gente foi para Minas, levou o pro-
cesso de retirar o minério do fundo dos 
rios. Mineravam um trecho, largavam, 
iam para o seguinte. Eram muitos rios e 
não precisavam fazer buracos. Seria di-
fícil para os indígenas fazer escavações. 
Depois começaram a usar a mão de obra 
africana. Voltando a nossas técnicas de 
trabalho, fomos inventando. Houve um 
momento em que peguei um cartão-postal 
de Ouro Preto e joguei uma luz de LED 
na horizontal. O que parecia apenas um 
morro com capim, apareceu todo irregu-
lar, todo esburacado, incrível. A partir das 
referências, fomos ao Google Earth procu-
rar as configurações dessas áreas. Enfim, 
encontramos 190 lugares de mineração. 
Deixe-me retomar uma informação que 
ficou perdida: trabalhava-se aqui muito 
em direção a Santana do Parnaíba, quan-
do veio a notícia de ouro fácil em Parana-
guá, depois de 1640. Portugal se separara 
da Espanha, dom João IV tornara-se rei, 
precisava cunhar moedas para pagar o 
exército, indispensável para fazer guerra 
aos espanhóis. O pessoal de Paranaguá 
mandou então emissários a Lisboa para 
informar que tentariam achar ouro se ti-
vessem estímulos. O rei deu os estímulos: 
paulistas e taubateanos ou curitibanos não 
precisavam mais dividir as minas com os 
vizinhos. Aí eles passaram a 
declarar um pouco do ouro 
que achavam, com a seguran-
ça de que era deles, caso con-
trário, ficavam quietos. 
Vamos falar sobre um ou-
tro importante trabalho 
seu, mais antigo, Quadro 
da arquitetura no Brasil 
(Perspectiva, 1970). Nele, há 
uma preocupação em ligar 
a edificação ao lote e estas 
duas unidades à questão da 
escravidão. Depois, o senhor 
mostra como essas articu-
lações são refeitas na me-
dida da transformação so-
cioeconômica no país pós-
-escravidão. 
Logo que me formei, cons-
tatei que havia pouca base 
teórica entre os arquitetos. Então resolvi 
estudar ciências sociais, e fui aluno de 
Florestan Fernandes, Fernando Henri-
que Cardoso, Egon Schaden. Tenho du-
pla formação porque queria aperfeiçoar 
meu trabalho de pesquisa em história da 
arquitetura e do urbanismo. E uma se-
gunda característica de meu trabalho é 
que tomo o estudo da arquitetura e do 
urbanismo como um processo só. 
Assim, ao falar de edificação e lote, o 
senhor fazia, na prática, essa ligação.
Sim. No desenvolvimento de meu trabalho 
teórico muito cedo compreendi que a aná-
lise da cidade é estática e não dá conta da 
dinâmica da urbanização no século XX, do 
mesmo modo que os conceitos europeus 
a história das 
Bandeiras precisa 
ser recontada. 
“Paulistas” nomeava o 
povo de muitas vilas
30 | dezembro de 2014
de cidade que existiam quando fiz minha 
tese, em 1964 e 1965, não davam conta da 
situação brasileira. Se os aplicássemos ao 
pé da letra, não haveria cidades no Bra-
sil. Quando comecei a tese, achava que os 
estudos de urbanização como processo 
social estavam sendo feitos pelo mundo 
afora, mas não era assim e nessa linha co-
nheci somente o trabalho de meu colega 
Jorge Hardoy, da Argentina. Na época, eu 
pesquisava muitos autores americanos 
que estudavam urbanização, mas todos a 
abordavam num sentido demográfico. Só 
um dessa brilhante equipe dos anos 1950 
estudava urbanização ligada ao processo 
social, Eric Lampard. Ele não tinha, no en-
tanto, uma visão histórica clara. Quem nos 
dá essa visão histórica, ou melhor, arqueo-
lógica, é o australiano Gordon Childe, um 
dos maiores arqueólogos dos 
anos 1940 e 1950, de formação 
marxista, que em seu famoso 
artigo “A revolução urbana” 
estudou como a urbanização 
mudou a história da humani-
dade. Há pouco tempo com-
preendi a razão prática pela 
qual os europeus tiveram di-
ficuldade em entender a dis-
persão urbana, um fenômeno 
atual, ultramoderno, do qual 
só agora estão se dando conta. 
É que para eles a cidade era 
um fato assentado, historica-
mente definido. Ao passo que 
nós – brasileiros, norte-ame-
ricanos, hispano-americanos, 
australianos – abrimos a jane-
la e vemos a urbanização em 
processo.
Vemos a cidade se transformando to-
dos os dias.
Se construindo, se transformando coti-
dianamente e sendo transformada. Por-
que cada geração vem e elas não crescem 
homogeneamente. São transformadas 
permanentemente. Não há nada que seja 
estabelecido. Compreende-se, inclusive, 
por que Gordon Childe usava conceitos 
marxistas. A urbanização é uma forma 
de transformação permanente. Esse é o 
conceito que não havia no Brasil e que 
trabalhamos desde o início. Hoje existem 
jovens pesquisadores, de 25 a 40 anos, 
trabalhando na mesma linha, estudando 
a história da urbanização no Ceará, em 
Pernambuco, em Alagoas, no Vale do São 
Francisco. Porque isso só pode ser visto 
como conjunto. É preciso relacionar a 
parte com o todo e o todo com a parte. 
Isso nos dá uma visão muito mais viva 
e vibrante de nosso processo histórico. 
Eu estou tendo que rever tudo isso. Co-
meçamos a trabalhar com material em-
pírico, porque lemos o urbanismo atra-
vés da arquitetura, que são evidências 
materiais, são provas vivas do processo 
histórico. 
Na verdade, o senhor teve de criar uma 
trilha teórica.
Tive. Em Quadro da arquitetura no Bra-
sil, eu usava ainda um conceito de lote 
urbano, era a implantação da arquitetu-
ra urbana, uma expressão do Luís Saia, 
que foi muitos anos diretor do Iphan de 
São Paulo. A ideia é que a arquitetura 
rural ou urbana é implantada, tem re-
lação com o meio. Frank Loyd Wright, 
nos Estados Unidos, sempre dizia que 
a arquitetura tem que estar relacionada 
com o local onde está e com os outros 
objetos. Só que eles mudam, o processo 
é extremamente dinâmico, e isso nos dá 
um instrumento de pesquisa extraordi-
nário para rever a história.Em Quadros da arquitetura no Brasil me 
impressiona com que clareza o senhor 
demonstra as semelhanças, ao longo dos 
séculos XVI-XIX, das plantas das mora-
das dos ricos e dos mais pobres e liga isso 
à escassa capacidade técnica da mão de 
obra disponível, escrava. É interessante 
também seu relato sobre a mudança des-
sa matriz no século XIX. Esse foi o seu 
trabalho inicial de pesquisa?
Eu estava começando. Primeiro, publi-
quei artigos em O Estado de S.Paulo, em 
1962, 63 e 64, depois publiquei o livro. 
Antes, por alguns anos, tinha feito uma 
pesquisa sobre as casas do litoral norte 
de São Paulo, a pedido do diretor da FAU. 
Jânio Quadros [1955-59] era governador 
e queria preservar a arquitetura de Ilha-
bela, São Sebastião, Ubatuba etc. A FA-
PESP foi criada, em 1962, e aí consegui 
estagiários que levantaram tudo que era 
possível. Acampavam por lá, adoravam 
o trabalho. Ali eu já estava convivendo 
com essas questões da arquitetura ru-
ral e urbana e começando a perceber 
as continuidades e os contrastes, sem o 
que a coisa fica confusa. Não 
podemos partir de conceitos 
fechados. Quando estudamos 
a arquitetura e a urbaniza-
ção como processos, temos 
que tentar ver a presença da 
diversidade humana em ca-
da momento. É aí que vamos 
poder entender como, no 
esquema tradicional europeu 
que herdamos, o lote urbano, 
a forma de dividir a proprie-
dade, define a forma de fazer 
arquitetura. Por isso é que 
no século XVIII, quando há 
um pouco mais de recursos 
e aumento da população, os 
ricos vão construir e morar 
em chácaras fora da cidade. 
Os sobrados urbanos eram 
mais para trabalho. 
Para deixar mais claro para o leitor: 
naquela primeira ocupação do solo ur-
bano, o lote era inteiramente tomado 
pela construção.
Na frente e nos lados do lote, sim, porque 
ajudava a estabilizar a construção. Mas 
deixava-se o espaço do fundo, porque 
era preciso ter luz, local para criação 
de animais e ter a privada – não existia 
banheiro. Tinha uma fossa negra, um 
poço que era só para o esgoto da casa. E 
depois, em geral, tinha a parte de serviço, 
onde ficavam a cozinha e as escravas 
preparando a comida. 
A chácara cria então outra possibi-
lidade de ocupação do terreno, não? 
Passa-se a ter espaço dos lados, atrás 
Diferentemente 
da europa, aqui 
abrimos a janela e 
vemos a urbanização 
em processo
PesQUisa FaPesP 226 | 31
e na frente da construção e muito mais 
adiante se importa da Europa a noção 
de jardim urbano... 
Sim, no fim do século XIX, início do sé-
culo XX, começam duas mudanças. Pri-
meiro, entre os ricos, a chácara se torna 
palacete, tem início uma arquitetura for-
mal. Os nossos mestres do Iphan foca-
lizavam arquitetura colonial barroca e 
arquitetura moderna. Esses eram pontos 
de interesse, sobretudo com a liderança 
do Lúcio Costa. Nós, a partir da criação 
de um centrinho de estudos na FAU, em 
1948, saímos fotografando arquitetura, 
mas não parávamos na que foi feita no 
século XVIII, fotografávamos a do sé-
culo XIX e começo do século XX até o 
modernismo e tentávamos entender o 
que era isso. Não que quiséssemos co-
piar essa arquitetura, ela não 
era modelo para nós. Mas era 
uma lição. Não adotamos o 
método de termos duas ver-
dades arquitetônicas inter-
rompidas por um período 
de ignorância. Tratamos de 
estudar arquitetura ao longo 
de todo o processo histórico. 
E aí uma descoberta fun da-
mental de seu grupo foi como 
se dá essa transição.
Eu não sabia como resolver 
isso. Era um assistente, tinha 
que dar aula na rua para os 
alunos, ao lado da rua Mara-
nhão. Nas ruas Major Sertório, 
Marquês de Itu, havia ainda 
muitas casas, a partir da praça 
da República, do fim do sécu-
lo XIX e começo do XX. Co-
mo dar aula sobre isso? Eu ia para a rua 
e fotografava tudo, ia a Santos e ao Rio de 
Janeiro e saía fotografando tudo. Depois, 
pegava mesas grandes e punha as fotos 
uma ao lado das outras, porque a tendên-
cia dos arquitetos era estudar as fachadas 
e os elementos decorativos. Acontece que, 
em São Paulo, houve a imigração italiana, 
no fim do século XIX, e com ela vieram os 
estucadores que fabricavam os elementos 
de decoração em gesso em sua loja e pu-
nham na porta para vender. Lembro que 
em minha infância passávamos na rua 
Santo Amaro e minha mãe mostrava um 
monte de moldes que as pessoas compra-
vam e colocavam nas casas. Ou seja, aquilo 
não queria dizer nada como arquitetura. 
Perto da Brigadeiro Luís Antônio havia as 
casinhas dos italianos, aquilo era o Bixiga. 
Eu quebrava a cabeça, mas por aí não con-
seguia nada. Partia do neoclássico do Rio 
no Império muito bom, bem feito, Grand-
jean de Montigny e os discípulos dele, a 
reitoria na Praia Vermelha, o antigo hos-
pício, a Santa Casa, belíssimos edifícios. 
Apesar do preconceito contra aquela ar-
quitetura, havia projetos muito bem feitos. 
Aqui em São Paulo e em outros lugares, 
no fim do XIX, a arquitetura era tudo isso. 
Examinando as fotos, eu me perguntava: 
qual é a diferença? E então percebi que 
era a relação urbanística, a implantação 
da casa em relação ao espaço externo. E 
via a casa em que morou a minha avó. Seu 
sonho e o da minha bisavó, que viveu mui-
to tempo, era, dizia minha mãe, morar 
numa casa com varanda de ferro ao lado 
para, à tarde, sentarem ali cerzindo meias 
e fazendo crochê. Fui olhando como isso 
surgiu. No Bixiga, um espaço mais pobre, 
o espaço lateral era muito pequeno. Mas 
aí entram as questões técnicas. O modelo 
europeu que nos veio de casas encostadas 
umas às outras e frente na rua só desapa-
rece quando a tecnologia permite resolver 
os problemas, com a água principalmen-
te. Sem tecnologia nova não era possível 
resolver isso. Então se tem a questão do 
telhado, como cai a água, como se capta 
com as calhas, os condutores, as manilhas 
para tirar água e levar para fora. A cidade 
também passa a ter um sistema de águas 
pluviais e de esgoto e água para abaste-
cimento. Isso começou na Inglaterra, por 
volta de 1840, no auge das pestes que co-
meçavam com os pobres, mas atingiam 
os ricos. Isso tudo tem muito a ver com 
os conceitos sanitários do fim do século 
XIX e começo do XX e a noção, a partir 
de Pasteur, de que as doenças não eram 
transmitidas pelo ar e que precisávamos 
abrir e arejar as casas.
Mas aí, em seu trabalho...
Mas aí precisava construir uma teoria 
sobre essas questões e esses artigos em 
Quadros da arquitetura no Brasil mos-
tram isso no contexto da cidade. Aí vai 
se chegar ao extremo, ao esquema do 
edifício isolado no meio do jardim. Aqui-
lo não era aleatório, era uma última eta-
pa de um certo processo. Se você pegar 
minha tese de cátedra, verá uma etapa 
posterior de uma geração dos anos 1950, 
um grupo de jovens arquite-
tos que deviam organizar o 
10º Congresso Mundial de 
Arquitetura Moderna. Eles 
começam a reestruturar de 
outro modo o espaço urbano, 
ou seja, montam um outro 
tecido urbano em que inte-
ragem automóveis, ruas, pas-
sarelas elevadas ligando um 
prédio ao outro, coisa que 
hoje existe muito. Temos 
esses conjuntos complexos 
em São Paulo, em que no 
mesmo lote grande se tem a 
parte residencial, a parte de 
escritórios, a de serviços. Os 
empreendimentos hoje, às 
vezes, integram outras coi-
sas que antes não existiam.
Fora daquela visão que dizia 
que a função residencial está num lugar 
e a do trabalho está em outro.
Isso, e que isolava um edifício do outro. 
O que aconteceu em São Paulo? Quan-
do isolaram todos os edifícios, a partir 
de 1940, e três pegaram fogo, foi um 
desastre monumental. No Andraus, na 
avenida São João, e no Joelma, na ave-
nida 9 de Julho, as pessoas se atiravam, 
não tinham como sair do prédio. Nunca 
tinham pensado nisso porque diziam 
que o concreto não ia pegar fogo, mas 
os prédios incendiaram. Aí começaram 
a fazerpassarelas, volta-se ao conceito 
de ter ruas que ligam os prédios entre si 
num outro nível, que permita às pessoas 
escapar numa situação de emergência. 
Isso mostra uma evolução, os arquitetos 
a diferença no fim 
do século XiX foi a 
relação urbanística, 
a implantação da casa 
em relação ao terreno
32 | dezembro de 2014
Penha
Rio Jaguari
Rio Jaguari-Mirim
Ribeirão 
das Lavras
Morro do
Voturuna
Rio Juqueri
Morros dos
Macacos
Serra do
Bananal
Ribeirão
das Lavras
Rib. Tomé
Gonçalves
Ribeirão
Itaberaba
Morro do 
Colégio
 S. JOAO
DAS PALMEIRAS
Serra do
Itapeti
Morro do 
Itacolomi
Rio Tietê
Rio Grande
Santo Amaro
Osasco
Itaquera
Guaianazes
Parelheiros
Serra da 
Cantareira
cabreÚva
Jundiaí
atibaia
francisco 
morato
franco da 
rocha
caieiras
perus
caJamar
pirapora do 
bom Jesus
santana do 
parnaíba
barueri
são paulo
guarulhos
mairiporã
são bernardo 
do campo
são roque
cotia
itapecerica 
da serra
itanhaém
são vicente
PesQUisa FaPesP 226 | 33
Penha
Rio Jaguari
Rio Jaguari-Mirim
Ribeirão 
das Lavras
Morro do
Voturuna
Rio Juqueri
Morros dos
Macacos
Serra do
Bananal
Ribeirão
das Lavras
Rib. Tomé
Gonçalves
Ribeirão
Itaberaba
Morro do 
Colégio
 S. JOAO
DAS PALMEIRAS
Serra do
Itapeti
Morro do 
Itacolomi
Rio Tietê
Rio Grande
Santo Amaro
Osasco
Itaquera
Guaianazes
Parelheiros
Serra da 
Cantareira
Fonte as minas de ouro e a formação das capitanias do sul
• Áreas de antigas atividades de mineração de ouro•aldeiamentos indígenas, morros e ribeirões relacionados às áreas de mineração
itaquaquecetuba
poá
suzano Jundiapeba
mogi das 
cruzes
biritiba-mirim
taiaçupeba
sabaÚna
nazaré paulista
santa isabel
guararema
salesópolis
santos
ribeirão 
pires
34 | dezembro de 2014
o trabalho teórico 
é para explicar o que 
está se passando 
e ajudar a pensar 
o presente
pensando e repensando todas as relações 
de espaços.
Quando pensou no claro entre a arqui-
tetura colonial brasileira e a moderna 
para criar essas novas sendas teóricas, 
o senhor se valeu mais da sua formação 
de sociólogo ou de arquiteto?
Não sei separar as duas coisas. Beatriz 
Bueno, colega da FAU e parceira de pes-
quisa, dizia que nunca me viu frequentar 
arquivo histórico para ler documento, 
sempre me viu frequentar arquivos para 
pegar plantas de cidades, levantamentos 
feitos no passado para documentar a his-
tória e sair para a rua. É uma expressão 
que usei outro dia num depoimento a 
colegas mais jovens. Em fins de 1969, da 
janela do nosso departamento na FAU, 
eu olhava o espigão da rua 
Cerro Corá e só havia mato. 
Hoje essa área está toda edi-
ficada. Na outra margem do 
Pinheiros, a partir do Alto de 
Pinheiros, só via mato. Então 
eu vejo a cidade se mexendo 
da minha janela. E preciso 
explicar isso, o trabalho teó-
rico, mais que o histórico – 
que é o suporte do teórico –, 
é para explicar o que está se 
passando e ajudar a pensar o 
presente. As pessoas acham 
que estou voltado para o es-
tudo do passado, mas estou o 
tempo todo estudando o pas-
sado para construir a teoria 
e entender o futuro, não só 
o presente. O que devemos 
fazer? Para onde vamos? Eu 
lhe diria que todas as políti-
cas habitacionais do Brasil estão abso-
lutamente erradas.
O que elas desconhecem?
Não quero entrar nesse detalhe porque 
vamos nos perder. Mas, para lhe dar 
um exemplo, as pessoas pensam que, 
se arrumarem dinheiro para comprar 
terreno e casa para todos os favelados de 
São Paulo, o problema estará resolvido. 
Não estará, porque quando começar a 
circular a notícia todos os favelados, de 
todas as cidades brasileiras, virão para 
cá. O problema não é municipal, mas 
nacional. Pior: é continental. Há muito 
pouco tempo, começaram a chegar pa-
raguaios, bolivianos e peruanosJ á estão 
chegando os haitianos. Os europeus 
estão vivendo isso dolorosamente. O 
problema habitacional tem de ser vis-
to do ponto de vista social e não pode 
haver a ilusão de que vamos resolvê-lo 
diretamente, mas indiretamente com 
qualidade da educação, saúde públi-
ca, melhoria da condição, melhoria da 
renda. Aí as pessoas alcançam um outro 
status e começam a resolver sozinhas 
os seus problemas.
Em seu primeiro livro fica muito níti-
do o processo de formação da favela 
de 1940 a 1960, desenrolando-se a par 
da industrialização intensa a relação 
com o capital, as migrações internas 
etc. E antes já ficara claro o processo 
de construção das casas de operários 
nos anos 1920 e 1930.
Quando eu era estudante na FAU, havia 
quatro favelas importantes em São Pau-
lo. Na minha infância e juventude, havia 
casa de periferia, num processo penoso 
de autoconstrução, mas praticamente 
não havia favela, mais presente no Rio 
de Janeiro. Tinha Heliópolis e uma na 
Vila Mariana, que foi removida, era na 
área dos Klabin, e mais duas. Quando 
comecei minha carreira como professor, 
devia haver 4 ou 5 mil favelados em São 
Paulo. Era o início e sempre a ideia de 
que se fossem tomadas algumas medi-
das aquilo estava resolvido. E não era 
assim, o problema habitacional está li-
gado a todo o funcionamento da socie-
dade, precisa ser visto em outra escala. 
Claro que se a população for mobilizada 
para resolver o problema ele se torna 
mais simples.
Voltemos à arquitetura desprezada por 
outros estudiosos e que ajudou em suas 
construções teóricas. O que o senhor 
diria que são seus elementos centrais? 
Muda a implantação da arquitetura. Isso 
vale para o fim do século XIX, primeira 
metade do XX e até depois, porque nas 
áreas centrais os prédios ainda eram to-
dos geminados. Aqui em São Paulo, em 
1954 e 55, nosso professor e fundador, 
Luiz Inácio de Anhaia Melo, conseguiu 
que a Câmara de São Paulo aprovasse 
a lei dos recuos laterais e frontais dos 
prédios, que começaram a ser construí-
dos como as casas, isolados no meio do 
terreno. Isso deu outro aspecto a bairros 
como Higienópolis, nossos 
bairros mais densos têm es-
paços verdes. Se você desce 
a rua Haddock Lobo ou sobe 
a rua Bela Cintra, vê que os 
prédios mais antigos estão 
nas esquinas, porque, como 
não havia recuo, o empreen-
dedor só queria construir na 
esquina para poder abrir ja-
nela e aproveitar o máximo 
do terreno. Eram todos no 
limite. Não tinham garagem, 
ou quase não tinham, e as ja-
nelas davam para a rua.
Mas o senhor observa tam-
bém nessa fase uma absor-
ção de elementos decora-
tivos e construtivos com 
influência da imigração eu-
ropeia para o Brasil.
Sim, em 1920, 1930. Depois veio o con-
creto armado, entra em cena o moder-
nismo e de 1930 em diante essa coisa 
ganha força. Ganhamos autonomia de 
projeto, e os arquitetos começam a ga-
nhar importância na definição dos rumos 
da arquitetura brasileira. Antes disso, os 
calculistas, os construtores, eram euro-
peus, dependíamos muito deles. 
Como foi fazer ciências sociais na USP, 
em 1959, ao mesmo tempo que dava au-
la na FAU?
Eu comecei no diurno, mas o Anhaia 
Melo voltou a ser diretor na FAU e ele, 
um homem meio difícil, reclamava por-
que eu era o único professor em tempo 
integral. Ele ia dizer que, em vez de tra-
PesQUisa FaPesP 226 | 35
Montei os cursos 
que nunca tinham 
existido no Brasil, 
do contemporâneo 
e do urbano
balhar, eu estava estudando, então pedi 
transferência para o noturno. Fiz um ano 
e pouco de noturno. Ele se aposentou, 
entrou como diretor Lourival Gomes 
Machado, que tinha sido meu professor 
de história da arte na faculdade, e voltei 
para o diurno. Me formei com minha 
turma original. 
E sua família, como reagiu à sua deci-
são de cursar ciências sociais?
Primeiro, teve alguma resistência. Meu 
pai perguntoupor que eu iria exercer ou-
tra profissão se já tinha uma. Arlete Pa-
checo, afilhada de minha mãe, que tinha 
feito pedagogia na Faculdade de Filoso-
fia, me disse: “Você faz muito bem!”. Eu 
disse que estava inseguro e ela me apre-
sentou um professor novo da Faculdade 
de Filosofia, muito simpáti-
co, que ela dizia se chamar 
Fernando Henrique Cardoso. 
Ele sugeriu que eu assistisse 
a umas aulas. Fui e gostei, aí 
me preparei para o vestibu-
lar. Nessa época, morava na 
rua Itambé, vizinha da FAU. 
Bastava virar o quarteirão e 
estava na rua Maria Antô-
nia, onde era dado o curso 
de ciências sociais. Logo no 
começo entrei em uma au-
la de Antropologia Cultural, 
com Gioconda Mussolini, so-
bre a teoria científica da cul-
tura. Ouvi aquilo e pensei: “É 
isso”. Quando vi a sistemáti-
ca da teoria da Antropologia, 
percebi que precisava de algo 
assim, uma sistematização e 
uma abordagem. Quase optei 
pela Antropologia.
Quais eram as disciplinas que o senhor 
ensinava na FAU?
Eu era assistente do Eduardo Kneese de 
Melo, um homem maduro, na cátedra de 
Arquitetura no Brasil. Era a disciplina 
que nos aproximava do Iphan e que foi 
criada no Congresso Pan-americano de 
Arquitetos, em 1922, quando houve uma 
recomendação para o estudo da arqui-
tetura colonial em todos os países da 
América Latina e nos Estados Unidos. 
Formei-me em 15 de dezembro de 1956 
e em 4 de janeiro me chamaram para as-
sistente. Tinha 25 anos. Em 1961, 1962, 
sabíamos que o professor Anhaia Melo 
ia entrar na compulsória pelos 70 anos 
e, portanto, tinha que sair da condição 
de professor e diretor. Discutimos qual 
seria o futuro da FAU, porque estávamos 
sempre sendo dirigidos por engenheiros 
civis. Desejávamos autonomia e um dire-
tor da própria escola. Como fazer isso? 
Estudamos o estatuto e descobrimos 
que o catedrático que vinha nos dirigir 
não precisava ser da Escola Politécnica. 
Fomos conversar com Lourival Gomes 
Machado, nosso ex-professor, catedrá-
tico de Ciência Política da Faculdade de 
Filosofia, onde eu já estava estudando. 
Contei os problemas, falei que não havia 
departamentos, nem recrutamento de 
jovens, pesquisa, publicações etc. E ele 
aceitou ser candidato, com o apoio de 
muita gente desde o palácio do governo, 
como Hélio Bicudo, que era promotor 
público e chefe da Casa Civil. A univer-
sidade não era autônoma e o governador 
nomeava os diretores. Lourival foi no-
meado por Carvalho Pinto e aí começou 
a reforma da FAU. 
O que ela trouxe de significativo?
Um dos dados é que o curso de Histó-
ria da Arquitetura parava no início do 
Renascimento e Lourival cria a cátedra 
de Arquitetura Contemporânea, define 
que o catedrático poderia ser fulano ou 
beltrano, mas que eu seria o professor. 
Defendi que fosse incluída na disciplina a 
História da Urbanização, seguindo a no-
menclatura do curso do Rio de Janeiro, 
que nesse tempo era na Escola de Belas 
Artes. Na pós-graduação em urbanismo 
tinham uma disciplina que se chama-
va Evolução Urbana, que é o estudo da 
evolução numa cidade só. Pedi então que 
colocassem um hífen naquela que eu ia 
ensinar e a nova disciplina ficou: His-
tória da Arquitetura Contemporânea – 
Evolução Urbana. Aí montei os cursos 
que nunca tinham existido no Brasil, do 
contemporâneo e do urbano. 
O senhor era um pioneiro.
Não posso dizer isso, mas era um teimo-
so fazendo essas coisas.
Sofreu perseguição com o golpe de 1964?
Não, embora estivesse numa situação 
delicada. Meu irmão foi perseguido, um 
primo foi preso, tive problemas difíceis 
na família e todos sabiam de qual lado 
eu estava. Mas eu era só um 
professor. Consegui levar 
gente inovadora para traba-
lhar comigo e funcionou. Em 
1968 começamos a desdobrar 
a disciplina, porque houve a 
implantação do modelo ame-
ricano, com departamentos 
etc. A história da arquitetura 
contemporânea foi subdivi-
dida entre vários professores, 
evolução urbana também foi, 
passou a ser história da ur-
banização e do urbanismo. 
Aumentou o número de co-
legas trabalhando, gente que 
tinha passado anos fazendo 
seminários conosco.
Já tinham formação nessa 
linha.
Sim. Eu tinha trazido três ou 
quatro estudantes de ciências sociais pa-
ra trabalhar com pesquisa e eles antes já 
ajudavam a organizar os textos dos semi-
nários com os arquitetos. Sabiam, por-
tanto, como pensavam. Beatriz Bueno, 
que no primeiro ano do Departamento 
de História começou a trabalhar e a es-
tudar na FAU, fez todas as disciplinas 
do nosso departamento. Esse pessoal de 
ciências sociais trouxe uma contribuição 
muito importante à FAU.
Quais foram suas principais preocu-
pações quando dirigiu a FAU, de 1972 
a 1976?
A FAU tinha o mais baixo orçamento 
da USP, isso dá uma ideia de sua fragili-
dade política, daí lutei para conquistar 
36 | dezembro de 2014
lelé era o maior 
arquiteto brasileiro, 
um homem 
extraordinário, de 
grande simplicidade
recursos. A FAU tinha perdido muitos 
docentes, tínhamos poucos assistentes. 
Eram, digamos, 120 professores e fica-
mos com 70. Com a perseguição política 
iniciada em 1964, saiu muita gente, de 
desgosto ou por perseguição mesmo. 
Aí me empenhei para contratar gente 
nova, ex-alunos qualificados. Monta-
mos a pós-graduação, criamos cursos 
de especialização em pós-graduação, 
criamos núcleos de pesquisa. Vou dar 
um exemplo que deu certo: paisagismo. 
Pedi à professora Miranda Magnolli, que 
era colega de turma, que pensasse na hi-
pótese de criação de um grupo grande. 
Ela era professora de paisagismo sozi-
nha. Precisava trazer gente nova, chamar 
alunos, traduzir textos de inglês para o 
português, formar esse pessoal, montar 
um curso de especialização 
para depois montar a pós-
-graduação. Fizemos o curso 
de restauro, trouxemos gente 
de Portugal e da França pa-
ra dar a parte de construção 
civil. Começamos a consoli-
dar o processo da pesquisa 
na FAU e da pós-graduação. 
O senhor continuou fazendo 
suas pesquisas?
Não dava. Eu tinha outras 
atividades correlatas. No se-
gundo ano, Miguel Alves Pe-
reira, um colega que faleceu 
há pouco tempo, era diretor 
da Faculdade de Arquitetura 
da Universidade de Brasília e 
estava no Ministério da Edu-
cação. Tinham criado uma 
nova escola – eram 23 cursos 
de arquitetura no país, hoje são 300 – e 
estávamos preocupados com qualidade. 
Então ele chamou os 23 diretores e cria-
mos a Associação Brasileira de Escolas 
de Arquitetura e fui eleito presidente. 
Foi criada uma comissão de visitação e 
de inspeção nas escolas e conseguimos 
melhorar as condições dessas escolas 
no Brasil. A FAU assumiu uma posição 
de liderança, porque eu tinha criado o 
laboratório de artes gráficas, o LPG, de 
programação gráfica. Consegui impor-
tar uma impressora Heidelberg, além 
de trazer a primeira fotocompositora 
da IBM, fazíamos composição eletrô-
nica naquilo. Era o que havia de mais 
moderno e até hoje é o núcleo gráfico 
mais avançado da USP.
Quando começou sua relação com o 
Iphan?
Desde estudante, frequentava o Iphan 
de São Paulo e como Luís Saia não era 
professor da FAU e queria ser, ficou en-
ciumado, ficamos um tempo mal. Quan-
do foi fundado o Condephaat [Conselho 
de Defesa do Patrimônio Histórico, Ar-
queológico, Artístico e Turístico], não 
havia representante da FAU, mas sim do 
Departamento de História da FFLCH, o 
professor Eurípedes Simões de Paula. 
Ele era um homem ético e disse que eu 
era o único na USP que entendia dessa 
parte. Então fui representar a USP no 
Condephaat. Trabalhamos, o Saia e eu, 
muito cordialmente na montagem do no-
vo órgão. Depois de um certo tempo, pas-
sei a ser presidente do Condephaat, no 
tempo do Paulo Egydio como governador 
[1975-1979]. Saí da presidência e nunca 
mais voltei ao Condephaat. Saí da dire-
toria da FAU, aceitei a vice-presidência 
da Emurb [EmpresaMunicipal de Urba-
nização] e fui trabalhar com urbanismo 
na prática por cinco anos. Porque eu sou 
preocupado e o foco é o problema con-
temporâneo. A teoria é para isso. Sempre 
mantive o interesse, porque continuei 
escrevendo, publicando. 
Quais eram suas relações com os ar-
quitetos como Oscar Niemeyer e Lú-
cio Costa?
Não tinha contato. Certa vez fui visitar 
Lúcio Costa no Rio. Ele era um homem 
muito fechado, nasceu na França e foi 
educado lá e na Inglaterra. Ele sentava 
na pontinha da cadeira, muito durinho 
e formal, com a mão no joelho. No fim 
de 15 minutos, você achava que tinha de 
levantar e ir embora. Ele não era cordial, 
pelo menos com quem conhecia pouco. 
Mais adiante, uma colega baiana, Maria 
José Feitosa, muito mais informal, tocou 
a campainha do prédio em que ele mo-
rava, pediu licença e subiu, conversou 
com ele, ficou amiga. Ela me disse um 
dia que ele acompanhava muito meus 
trabalhos, que lia todos. Se eu soubesse, 
o teria visitado outras vezes. Niemeyer, 
eu vi duas vezes rapidamente. Nunca tive 
camaradagem. Eu não era do Partido Co-
munista, portanto não tinha convivência 
com o grupo dele.
E o João Filgueiras, o Lelé, 
que morreu em 2014?
Eu diria que ele era o maior 
arquiteto brasileiro, um 
homem extraordinário, de 
uma simplicidade de trato 
impressionante. Um indiví-
duo maravilhoso. Certa vez, 
ele veio dar um curso aqui e 
quis falar comigo. Fomos ao 
bar da FAU. Eu estava can-
sado e achei que os outros é 
que o tinham forçado para 
ele se encontrar comigo. E aí 
cismei: por que ele tinha vin-
do falar comigo? Acho que 
ele queria que eu escreves-
se um livro sobre sua obra. 
Quando pensei nisso, fiquei 
tristíssimo, porque eu gosta-
ria muito de ter escrito. Eu 
sou racionalista, discordo 
das bobagens de Corbusier, mas a mi-
nha formação é de organizar as coisas 
pela razão, o que envolve compreensão 
das emoções, das relações sociais na sua 
totalidade. Essa ideia de que racionali-
zação implica mecanização das relações 
humanas é uma bobagem. Mas, na arqui-
tetura, pela minha formação política, sou 
muito severo. Gosto muito dos moder-
nistas mexicanos e dos nossos primeiros 
modernistas que, em países pobres como 
os nossos, com economia de meios, pro-
curavam uma racionalização total dos 
recursos, procuravam pensar nas coisas 
para não fazer bobagens. Não queriam 
nada de exibição, de pomposidade, de su-
pérfluo. E, ao longo do desenvolvimento 
do movimento moderno, a arquitetura 
PesQUisa FaPesP 226 | 37
passou a ser o jogo de formas de gente 
que tinha o discurso de esquerda, mas 
na verdade era gente rica. Isso aconte-
ceu pelo mundo afora com frequência. A 
dimensão social que os alemães, italianos 
e ingleses propuseram no fim do século 
XIX perdeu-se no caminho, como muita 
coisa naquele tempo. 
O senhor está falando inclusive da Bau-
haus?
Bauhaus e de uma coisa que se chama 
Nova Objetividade, que era um movi-
mento muito radical de fazer uma ar-
quitetura muito austera. Os primeiros 
modernistas mexicanos, depois da revo-
lução, trabalhavam assim e diziam que 
não iam fazer estética, que isso era boba-
gem. Isso é um absurdo, porque um bom 
arquiteto, quando vai trabalhar com as 
coisas essenciais, elabora esteticamente. 
E a arquitetura deles era esteticamente 
maravilhosa. Um indivíduo chamado 
Juan O’Gorman era o líder disso. De-
pois, como ele era ligado ao Rivera, se 
ligou ao Trotsky e foi hostilizado pelos 
comunistas mexicanos, ficou meio mar-
ginalizado. Tive um colaborador, que 
foi meu assistente, o Rodrigo Lefèvre, 
amicíssimo do Sérgio Ferro e do Flavio 
Império, que era uma pessoa extraordi-
nária, eles fizeram uma arquitetura na 
época da ditadura com essa austeridade 
e simplicidade, que eu não gosto de cha-
mar de seca, porque dá a impressão de 
que não tinha qualidade estética, e tinha 
muita. Era limpa, nada de supérfluo. E 
Lina Bo Bardi fazia, sim, uma arquitetura 
moderna, mas com um bom gosto dana-
do. E Lelé fazia isso. É o que se chama de 
arquitetura construtiva. Ele projeta em 
cima da construção e a forma decorre da 
clareza, da ordem do projeto. 
De toda sua produção intelectual, qual 
é a linha de pesquisa que o senhor con-
sidera central e estruturante do seu 
trabalho?
A elaboração do trabalho teórico para 
fundamentar os estudos, tanto na An-
tiguidade quanto no presente. E o da 
Antiguidade serve para pensar o pre-
sente e a ação futura. Para mim, essa é a 
preocupação. Por isso quero falar sobre 
os projetos novos. Terminei agora um 
projeto com o CNPq [Conselho Nacional 
de Desenvolvimento Científico e Tecno-
lógico] de completar o levantamento da 
cartografia brasileira. Fiz o levantamento 
de toda a cartografia colonial. Acham que 
eu só me interesso pelo colonial, mas o 
projeto pegava o século XIX e o XX. Já 
levantei o XIX. Tenho um álbum sobre 
a cartografia e a iconografia das cidades 
brasileiras no século XIX, que vai ser a 
sequência daquele. Pego o começo do sé-
culo XX até 1930 mais ou menos. Nosso 
grupo levantou no Instituto Geológico 
toda essa cartografia feita pela Comissão 
Geográfica e Geológica no final do século 
XIX e fotografamos tudo. Vemos, com o 
crescimento do café, o crescimento do 
estado de São Paulo. Nessa época, Minas 
fez alguma coisa parecida, o Rio Gran-
de do Sul também, mas não muito mais. 
Em 1937, o IBGE [Instituto Brasileiro de 
Geografia e Estatística] mandou fazer um 
levantamento, encontramos poucos em 
vários estados e reproduzimos. No Rio 
levantamos tudo, sobretudo nas bibliote-
cas, no arquivo histórico do Exército, no 
Serviço Geográfico do Exército. Depois, 
em 1974 e 1975, os americanos sobrevoa-
ram o país e compuseram uma nova edi-
ção cartográfica do Brasil inteiro. Temos 
as plantas das cidades brasileiras mais 
ou menos do começo do século XX até 
o início dos anos 1970. E hoje trabalha-
mos com o Google Earth. Temos então a 
visão de que as cidades brasileiras eram 
muito pequenas no início do século XX, 
enquanto o Brasil era predominantemen-
te rural. Depois de 1950 e 1960 há um 
crescimento de determinadas cidades, 
numa escala aceleradíssima, e esse é um 
dos artigos que estou fazendo.
Isso traz o conceito de dispersão ur-
bana?
Não, isso não é um espraiamento. Pri-
meiro cresce a população, depois ela se 
concentra em determinadas cidades. Em 
1940, tínhamos 42 milhões de habitan-
tes, dos quais aproximadamente 13 mi-
lhões eram urbanos e 29 milhões rurais. 
A população rural foi crescendo até mais 
ou menos 1970 e chegou a 39 milhões. 
Hoje voltou para os 29 milhões. E tudo 
que o Brasil cresceu até os 201 milhões 
no ano passado é urbano. Esse urbano 
não se distribuiu de modo homogêneo. 
Nos anos 1950, 1960 e 1970 se forma-
ram nove regiões metropolitanas, além 
de Brasília. De lá para cá, a população 
se concentra em cidades como Ribei-
rão Preto ou Fortaleza, em porcentagem 
elevada. E nas cidades médias, de 200 
mil habitantes para cima, que o IBGE 
chama de aglomerações urbanas não 
metropolitanas até 1 milhão, também. E 
os polos isolados, como Manaus e Uber-
lândia, que não têm periferias de cidades 
ao redor, embora Uberlândia tenha 500 
mil habitantes. E elas são atendidas pelo 
mercado, comércio e serviços, os cursos 
de inglês são iguais, há redes de facul-
dades e indústria. Pelas minhas contas, 
63% da população brasileira mora nes-
sas áreas. Isso é o que eu estou querendo 
publicar agora.
Ou seja, há cerca de 60% da população 
brasileira em poucas localidades.
Mais de 60% da população está em 200 
locais do país. Como há cerca de 30 mi-
lhões na área rural, as cidades de até 20 
mil habitantes dão 10 milhões de habi-
tantes. Também publicarei um artigo 
sobre a crise de 2013, com as manifes-
tações nas ruas, nas cidades das aglome-
rações. Todo o problema político é que 
as instituiçõese o serviço urbano não 
funcionam nessas áreas. A população 
está extremamente insatisfeita porque 
essa estrutura foi montada para cidades 
de 5 mil ou 10 mil habitantes e, pior, por 
políticos que raciocinam para 5 mil ou 10 
mil habitantes, como se estivessem em 
1950. Nós urbanizamos 80 milhões de 
pessoas em 25, 30 anos no Brasil. Numa 
cidade como São Paulo, todos querem 
comprar as mesmas coisas e o preço so-
be. O industrial não vai comprar o ter-
reno nessa cidade. Vai vender o terreno 
na cidade, comprar dois alqueires fora, 
na beira da rodovia, e construir ali. Os 
operários vão junto e fazem vilas para 
morar. A classe média também. Nos anos 
1970, com a modernização do transpor-
te rodoviário, muita gente de São Paulo 
passou a trabalhar na capital e a morar 
em outras localidades próximas, como 
Vinhedo, Alphaville e Granja Viana. Essa 
era uma parte da urbanização dispersa. 
Não é à toa que um dos traços da crise 
de 2013 foi a mobilidade.
A mobilidade se modernizou tecnologi-
camente e as cabeças não estão prepara-
das. As pessoas continuam acreditando, 
principalmente os políticos, que com os 
métodos de 40 ou 50 anos atrás vão dar 
conta disso. É preciso um projeto polí-
tico. Me interessa a solução dos proble-
mas humanos. Se não tivermos políticas 
públicas bem definidas, não chegaremos 
a nada. n
38 z DEZEMBRO DE 2014
Empresas brasileiras dividem 
riscos e custos com parceiros 
múltiplos em projetos de 
pesquisa e desenvolvimento
de valor, compartilhando abertamente resultados 
de pesquisa com o propósito de reduzir o tempo 
de implementação dos projetos”, explica Niklas 
Berglin, diretor adjunto da área de negócios de 
biorrefinaria do Innventia. 
Iniciativas semelhantes ganharam impulso no 
Brasil e no mundo a partir da última década com 
a disseminação do conceito de inovação aberta. 
O termo apareceu pela primeira vez em 2003, no 
livro Open innovation, do americano Henry Ches-
brough, professor da Universidade da Califórnia, 
Berkeley, para definir uma prática que surgiu em 
meados dos anos 1990, com o estabelecimento 
de parcerias entre departamentos de pesquisa 
de empresas. Em comparação com o modelo tra-
dicional, no qual predomina o sigilo empresarial, 
a inovação aberta busca distribuir o processo de 
inovação numa rede externa de parceiros, onde 
há lugar para universidades, parceiros próximos 
ou de outros países, fornecedores e até mesmo 
concorrentes e clientes, cada qual ajudando de 
acordo com sua expertise. Em seus livros, Ches-
brough mostra que, até meados dos anos 1990, as 
D
iante do desafio de transformar resí-
duos florestais em novos compostos 
químicos, como etanol e polímeros, 
instituições de pesquisa do Brasil e da 
Suécia e empresas do setor de papel e celulose 
perceberam que as chances de sucesso seriam 
potencializadas caso compartilhassem expe-
riências e tecnologias numa ampla plataforma de 
pesquisa. Foi assim que, em junho de 2013, com-
panhias como AkzoNobel, Fibria, Novozymes e 
Sekab, em conjunto com universidades como a 
Estadual de Campinas (Unicamp), a Federal do 
Rio de Janeiro (UFRJ) e a Chalmers University, 
da Suécia, lançaram um programa que busca 
integrar a indústria de celulose com as biorre-
finarias, que são usinas capazes de transformar 
biomassa em diversos produtos químicos. 
Batizado de Polynol, o projeto é coordenado 
pelo instituto sueco Innventia, conhecido por 
liderar projetos articulando indústria, univer-
sidades e centros de pesquisa na Europa. “Há 
muitos parceiros da indústria e centros de pes-
quisa que trabalham em conjunto numa cadeia 
Bruno de Pierro
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Criação 
coletiva
POLÍTICA C&T INOVAÇÃO ABERTA y
PESQUISA FAPESP 226 z 39
O QUE É O termo inovação aberta foi 
criado em 2003 para explicar como as 
empresas podem buscar colaborações 
para aprimorar seu desenvolvimento, além 
de compartilhar as próprias inovações. 
O modelo de inovação aberta, portanto, 
considera como parte do processo 
inovador também o conhecimento das 
universidades, outras organizações 
parceiras e do mercado, além dos próprios 
consumidores e fornecedores. 
PARA QUE SERVE O modelo permite 
à empresa investir em inovação sem 
precisar começar um projeto do zero. 
A companhia pode absorver etapas, 
tecnologias e conhecimentos 
desenvolvidos por terceiros. Assim, é 
possível acelerar o processo de inovação, 
reduzir custos e dividir riscos com 
parceiros. A empresa também pode 
lucrar com o licenciamento de patentes.
EQUIPE 
Estabelec
e-se relaç
ão 
com espe
cialistas e
 
pesquisad
ores de fo
ra 
da organiz
ação
Inovação aberta Inovação fechada
P&D 
A empresa procura fontes 
externas de conhecimento, que podem ser instituições de pesquisa em universidades ou outras 
empresas. Isso agiliza o processo 
de inovação e divide custos
PIONEIRISMO É mais importante elaborar 
novos modelos de negócios 
do que chegar primeiro ao mercado
P&D 
A com
panhi
a busc
a 
desen
volver
 a pes
quisa 
intern
amen
te, po
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conta
 própr
ia
PIONEIRISMO
O objetivo é ser a 
primeira empresa a 
levar uma inovação 
ao mercado
PROPRIEDADE 
INTELECTUAL
A empresa entende que pode 
se beneficiar comercialmente se 
outras empresas usarem suas 
patentes; além disso, ela própria 
procura adquirir tecnologias 
de terceiros. 
EQUIPEA empresa quer ter as melhores pessoas da área trabalhando para ela
PROPR
IEDAD
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INTELE
CTUAL
A com
panhia
 privile
gia 
o sigilo
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as tecn
ologias
 que 
desenv
olve
FONTE OPEN INNOVATION - HENRY CHESBROUGH
A queda dos muros 
O que significa inovação 
aberta e quais suas diferenças 
com o modelo tradicional
40 z DEZEMBRO DE 2014
Inovação aberta em etapas
EM BUSCA DE UM DESAFIO
A empresa realiza consultas externas para 
identificar novas oportunidades de 
investimento em áreas de fronteira do 
conhecimento ou que apresentam novos 
desafios ao mercado. Com a ascensão de um 
novo mercado de aplicativos, a Telefônica, por 
exemplo, identificou oportunidades de investir 
em novos negócios nessa área. 
empresas buscavam fazer tudo por conta própria, 
como se pudessem inovar de forma autossuficien-
te (ver infográfico). Aos poucos, as companhias 
perceberam que poderiam aproveitar melhor as 
ideias vindas de fora, trazidas por universidades 
e outras empresas. “Elas viram que dessa forma 
poderiam reduzir custos e também ter mais tempo 
para se dedicar à sua especialidade, além de po-
der dividir riscos”, diz Bruno Rondani, fundador 
da Wenovate, associação dedicada a incentivar e 
promover projetos de inovação. Isso não significa 
que tudo seja compartilhado. As empresas abrem 
seus processos de inovação para captar e ofere-
cer novos conhecimentos, mas os fecham quando 
desejam se apropriar de algo. Algumas empresas, 
por exemplo, só licenciam tecnologias depois que 
seus produtos estão há um tempo no mercado. 
N
as últimas duas décadas, várias mul-
tinacionais, como IBM, Xerox, P&G e 
Philips, passaram a envolver clientes, 
fornecedores, pesquisadores e outras 
empresas em seus processos de inovação, tor-
nando-se referência para que outras companhias 
apostassem na inovação aberta. De acordo com 
um estudo publicado em 2012 pelo instituto 
norte-americano Forrester Research, 77% das 
maiores empresas do mundo adotam o modelo 
como principal estratégia de inovação. A pesqui-
sa, que ouviu dirigentes de mais de 220 empresas 
localizadas nos Estados Unidos, Alemanha e 
Reino Unido, mostra que a maioria (81%) das 
iniciativas de inovação aberta acontece na forma 
de redes de colaboração. 
No caso do projeto Polynol, o laboratório da 
multinacionalNovozymes, em Curitiba, foi es-
colhido para avaliar as possibilidades de extração 
de açúcares de diferentes tipos de biomassa, entre 
eles galhos e folhas, num processo conhecido como 
hidrólise enzimática. Já o centro de tecnologia da 
brasileira Fibria, em Jacareí (SP), está debruçado 
sobre a logística e os custos de produção das novas 
matérias-primas. “Dessa forma, podemos ter uma 
visão do todo e fazer análises mais completas dos 
problemas”, diz Paulo César Pavan, presidente do 
comitê do projeto no Brasil e gerente de proces-
so e produto do Centro de Tecnologia da Fibria. 
Segundo Rondani, uma tendência que aos pou-
cos ganha impulso é a interação entre grandes 
companhias e empresas nascentes de base tec-
nológica, também chamadas de startups. Um es-
tudo realizado em 2012 pela Flanders DC, uma 
fundação de apoio à inovação ligada ao governo 
da Bélgica, sugere que grandes companhias deve-
riam interagir mais com pequenas e médias em-
presas. Segundo a pesquisa, que analisou casos na 
Europa, as grandes companhias ainda preferem 
colaborar com universidades e outras empresas 
maiores, deixando de colaborar com as menores, 
que dependem desse tipo de iniciativa para so-
breviver no mercado. Rondani reconhece que a 
interação com empresas menores e startups ainda 
é uma faceta recente da inovação aberta, espe-
cialmente no Brasil. “Muitas empresas nascentes 
têm a competência necessária para ajudar gran-
des firmas a solucionar um problema”, diz ele. 
No Brasil, programas criados por grandes com-
panhias com o objetivo de absorver tecnologias e 
conhecimento gerados em outras empresas come-
çam a ganhar força. Um deles é o Wayra, programa 
de aceleração de startups da Telefônica. A iniciativa 
começou em 2012 e já selecionou mais de 30 em-
presas, que durante 10 meses se tornam sócias da 
Telefônica e dividem o mesmo espaço num prédio 
na cidade de São Paulo.  Lá, os donos das startups 
têm contato direto com executivos da empresa, 
que prestam consultoria nas áreas de negócios e 
marketing. Boa parte das startups escolhidas pela 
Telefônica atua no desenvolvimento de aplicativos 
e softwares, um mercado em ascensão no mundo. 
De acordo com Carlos Pessoa, diretor da Way-
ra, a Telefônica se beneficia de duas formas. “A 
longo prazo, investindo em startups com poten-
cial tecnológico inovador, a empresa pode ter 
um retorno econômico considerável”, diz ele. No 
curto prazo, a Telefônica pretende se aproximar 
PESQUISA FAPESP 226 z 41
PROSPECÇÃO DE SOLUÇÕES E OPORTUNIDADES 
Este processo envolve a colaboração de agentes internos e 
externos, como universidades, empresas parceiras ou fornecedores. 
O objetivo é buscar soluções concretas que possam resolver as 
demandas identificadas na primeira etapa. O Bradesco, por exemplo, 
lançou um programa de aceleração de startups, como forma de 
aproveitar talentos que estão fora dos limites da empresa para 
resolver problemas internos. 
ELABORAÇÃO DE 
PROGRAMAS OU PROJETOS
Nesta etapa, a empresa estabelece 
acordos comerciais em torno de um ou 
mais projetos, realizados em parceria 
com outras empresas, grupos de pesquisa 
ou universidades. A Embraer, por exemplo, 
cria uma rede de parceiros em torno do 
projeto de um jato, em que cada parte 
disponibiliza seus conhecimentos 
e técnicas para o desenvolvimento 
de um novo produto. 
EXPLORAÇÃO COMERCIAL
No modelo de inovação aberta, o produto final não é 
a única fonte de lucro da empresa. Um mesmo projeto 
pode resultar em uma tecnologia ou serviço com 
aplicação em diferentes mercados. A Petrobras, por 
exemplo, desenvolveu com a PUC-RJ uma técnica para 
inspecionar dutos. O conhecimento foi licenciado para 
um grupo de pesquisadores, que fundou outra 
companhia, a Pipe Way. 
de novos negócios e se diversificar no mercado 
com tecnologias e serviços que nunca fizeram 
parte do portfólio da empresa. “Além disso, as 
startups podem oferecer produtos e serviços pre-
ferencialmente para uso interno na Telefônica 
antes de atender a outros clientes”, diz Pessoa. 
Uma das empresas instaladas na Wayra é a Pro-
radis, criada em 2013 por pesquisadores da Uni-
versidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto. 
Especializada no desenvolvimento de softwares 
para diagnóstico médico, a empresa aprimorou, 
dentro do programa, uma ferramenta baseada na 
computação em nuvem, que organiza e armazena 
dados de exames clínicos na internet que podem 
ser acessados simultaneamente de diferentes lu-
gares. “Dentro da Wayra, tivemos contato com o 
cotidiano de uma grande empresa, o que nos co-
locou a par de novas ferramentas administrativas 
e de uma maior rede de clientes e investidores”, 
diz Haissan Molaib, um dos sócios da Proradis. 
Outra startup selecionada pela Wayra é a Bov-
Control, que desenvolve softwares para ajudar o 
produtor de gado a gerenciar informações sobre o 
gado. “A Telefônica facilita nosso relacionamento 
com possíveis parceiros ou clientes, promovendo 
um ambiente favorável para que possamos cres-
cer”, diz Danilo Tertuliano Leão, sócio-fundador 
da BovControl. 
O
utra companhia que resolveu atrair 
startups tecnológicas foi o Bradesco. 
O banco lançou este ano o InovaBra, 
um programa de interação entre a 
inovação fechada e a aberta voltado ao apoio de 
startups que apresentam soluções aplicáveis à área 
de serviços financeiros. O programa terá início 
em 2015. A diferença em relação à iniciativa da 
Telefônica é que a do Bradesco recorre à inovação 
aberta como forma de complementar a inovação 
feita internamente, como o desenvolvimento de 
novas tecnologias para melhorar a interação en-
tre o banco e seus clientes, enquanto a Telefônica 
investe em startups que não necessariamente 
atuam no setor de telecomunicações. “Estamos 
pensando no nosso horizonte estratégico para 
os próximos 10 anos”, diz Fernando Moraes de 
Freitas, gerente-executivo do departamento eco-
nômico do Bradesco e coordenador do InovaBra. 
Novas iniciativas desse tipo também vêm sendo 
criadas por empresas brasileiras que já têm fami-
liaridade com o conceito de inovação aberta. Uma 
delas é a Braskem, que desde quando foi criada, 
em 2002, adota o conceito em suas estratégias 
de inovação. Em junho, a empresa inaugurou 
um novo laboratório de biotecnologia em Cam-
pinas (SP), para pesquisas com novas matérias-
-primas renováveis. Também mantém centros de 
tecnologia em Triunfo (RS) e em Pittsburgh, nos 
Estados Unidos. Embora invista em laboratórios 
42 z DEZEMBRO DE 2014
internos, boa parte dos 270 projetos de inovação 
atualmente em curso na empresa é desenvolvida 
de forma aberta com universidades e outras em-
presas. “Investir numa equipe própria faz com 
que possamos estabelecer metas e estratégias 
mais seguras com nossos colaboradores”, expli-
ca Patrick Teyssonneyre, diretor do centro de 
tecnologia da Braskem em Triunfo. 
Algumas parcerias firmadas recen-
temente pela Braskem com startups 
estrangeiras mostram que um dos 
méritos da inovação aberta é facilitar 
a colaboração internacional. Uma de-
las foi estabelecida em setembro com 
a norte-americana Amyris e a france-
sa Michelin para o desenvolvimento 
de tecnologia voltada à produção de 
isopreno de fonte renovável, insumo 
químico utilizado pela indústria de 
pneus. As três empresas trabalha-
rão unidas para acelerar os estudos 
bioquímicos que utilizam açúcares 
oriundos da cana-de-açúcar e de in-
sumos de celulose. A Amyris vai com-
partilhar com a Braskem os direitos 
de comercialização da tecnologia do 
isopreno renovável a ser desenvol-
vido. Já a Michelin terá direito de 
preferência não exclusivo no acesso 
à tecnologia do isopreno verde. 
Essa necessidade de articular colaboradores 
em torno de um projeto não é mero capricho. 
Sem isso, muitos projetos ambiciosos dificil-
mentesairiam do papel. Um caso emblemático 
no mundo é a plataforma Watson, um sistema 
de computação cognitiva lançado pela IBM em 
2011. O computador, ainda em desenvolvimen-
to, interage na linguagem do usuário, com voz, e 
pode processar grandes quantidades de dados e 
adquirir conhecimento conforme é usado. Mas, 
para que isso ocorresse, foi preciso envolver de-
zenas de universidades e startups, que ajudaram 
a criar softwares capazes de fazer o computador 
aprender linguagens e vocabulários específicos. 
Num futuro breve, o sistema poderá servir co-
mo um gerente eletrônico de banco ao indicar os 
melhores investimentos de acordo com o perfil 
do cliente. Em hospitais, onde já é utilizado nos 
Estados Unidos, ele colabora no diagnóstico e tra-
tamento de câncer. “Não podemos subestimar a 
capacidade das outras empresas. Nossos parceiros 
e clientes são tão bons quanto nós”, diz o brasileiro 
Jean Paul Jacob, pesquisador emérito da IBM e 
professor na Universidade da Califórnia em Ber-
keley, Estados Unidos, onde vive há mais de 40 
anos. “Identificando o talento de um fornecedor, 
podemos resolver um problema mais rápido, sem 
precisar contratar esse profissional”, diz Jacob.
B
uscar em fornecedores possibilidades 
para se diferenciar no mercado é uma 
das motivações que levaram a Embraer 
a anunciar, em maio, uma iniciativa para 
consolidar a cultura de inovação aberta no setor 
aeroespacial brasileiro. Em conjunto com o Banco 
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social 
(BNDES), a Financiadora de Estudos e Projetos 
(Finep) e a Agência de Desenvolvimento Paulista 
(Desenvolve-SP), a empresa lançou um fundo de 
investimento com patrimônio inicial de R$ 131,3 
milhões, para apoiar projetos colaborativos envol-
vendo empresas e startups do setor e a Embraer. 
“Se a inovação for promissora, o fundo aporta 
recursos e apoia a empresa, sendo que a Embraer 
pode se tornar cliente, incorporando essas ino-
vações em seus produtos, serviços e negócios”, 
diz Peter Seiffert, responsável pelo setor de pla-
nejamento estratégico da Embraer. Para ele, o 
conhecimento gerado nas universidades precisa 
ser materializado em novos produtos e serviços. 
“As ideias precisam sair da academia e ir para o 
mercado, para que a Embraer, como cliente, pos-
sa incorporar tais inovações em seus negócios”, 
explica Seiffert. 
Um exemplo histórico de como a Embraer 
despertou para a inovação aberta é o desenvol-
vimento do jato ERJ-145, criado a partir da cola-
boração com outras quatro empresas. Nos anos 
1990, o projeto do avião havia emperrado por 
questões econômicas e só poderia ser concluí-
do com ajuda externa. Graças às colaborações, o 
jato foi lançado em 1995 e se tornou um sucesso 
comercial. A partir daí, outros modelos foram 
desenvolvidos colaborativamente, sendo que a 
concepção deles é feita somente pela Embraer. 
Mas nem sempre foi assim. Há alguns anos, as 
criações da Embraer eram protegidas preferen-
cialmente por segredo industrial – modalidade 
que atendia à necessidade de proteção no de-
“Com a 
inovação aberta, 
as empresas 
podem reduzir 
custos e dividir 
riscos com 
os parceiros”, diz 
Bruno Rondani
PESQUISA FAPESP 226 z 43
senvolvimento de um produto específico. Com 
o aumento da competição no setor, as pesquisas 
ficaram mais complexas, exigindo competên-
cias que muitas vezes não eram dominadas pela 
Embraer. A empresa, então, começou a articular 
redes de conhecimento, no âmbito da pesquisa 
pré-competitiva, ou seja, restrita à ciência bási-
ca. Nessa etapa, empresas do setor aeroespacial 
realizam pesquisa em conjunto, com o objetivo, 
por exemplo, de estudar novos materiais. À me-
dida que o projeto fica próximo de ter aplicação 
industrial, cada empresa desenvolve interna-
mente o seu produto ou tecnologia, que depois 
são protegidos por patentes.
Com isso a Embraer passou a registrar cada vez 
mais patentes em solução de produtos e processos 
de manufatura no Brasil e no exterior. Por meio 
do licenciamento de patentes, a empresa conse-
gue ampliar as possibilidades de faturamento. “O 
modelo de inovação aberta coloca a proprieda-
de intelectual como produto vendável”, explica 
Henry Suzuki, consultor na área de propriedade 
intelectual. Como exemplo, Suzuki cita o Instituto 
Fraunhofer, na Alemanha, criado para atender às EDU
A
R
D
O
 C
E
SA
R
 
necessidades tecnológicas de empresas na Euro-
pa. O conhecimento gerado a partir da parceria 
com uma empresa é licenciado para outras com-
panhias, para resolver problemas em comum. 
No Brasil, um dos exemplos que ilustram essa 
prática é a parceria entre a Petrobras e a Pipeway, 
empresa brasileira que fabrica e opera ferramen-
tas para inspeção de dutos de óleo e gás, com o 
objetivo de identificar amassamentos, corrosões 
e vazamentos. Em 1998, pesquisadores da Pon-
tifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro 
(PUC-Rio) e do Centro de Pesquisas e Desenvol-
vimento (Cenpes) da Petrobras desenvolveram 
uma nova ferramenta para o gerenciamento de 
dutos. Até então, o serviço era contratado de em-
presas estrangeiras, que cobravam caro por ele. 
Embora tivesse desenvolvido a tecnologia, a 
Petrobras não tinha condições de executar, ela 
própria, o serviço internamente. A empresa re-
solveu então licenciar a tecnologia que havia 
sido elaborada com a universidade para os pes-
quisadores, que em seguida criaram a Pipeway. 
“A empresa se tornou fornecedora da Petrobras, 
e além de prestar o serviço também aperfeiçoou 
novas soluções a partir do projeto inicial”, conta 
o engenheiro Ivan Janvrot, vice-presidente da 
Pipeway e pesquisador aposentado do Cenpes. 
Hoje, o conceito de inovação aberta está pre-
sente em vários projetos de pesquisa executados 
pela Pipeway. Um deles foi realizado recentemen-
te em parceria com a Universidade Tecnológica 
Federal do Paraná (UTFPR), com apoio da Finep, 
para o desenvolvimento de um equipamento que 
mapeia a trajetória do duto subterrâneo e integra 
as informações com o Google Earth.   
Até a década de 1970, a Petrobras realizou pes-
quisas em conjunto com empresas, especialmen-
te no desenvolvimento de tecnologias de refino. 
Com a descoberta de grandes reservas de pe-
tróleo na bacia de Campos em águas profundas, 
nos anos 1980, a companhia passou a intensificar 
cooperações com outras empresas. A razão disso 
foi a necessidade de desenvolver tecnologias para 
operar em águas profundas, já que a bacia tem 
profundidade de mais de mil metros, e na épo-
ca não havia oferta de tecnologias comprovadas 
para extrair petróleo nessas condições. “A estra-
tégia foi de não desenvolver tudo internamente, 
e sim estabelecer redes de parcerias nacionais e 
internacionais”, diz José Paulo Silveira, diretor 
associado da Macroplan, que presta consultoria 
em inovação aberta para empresas. Nos anos 1980, 
ele foi superintendente do Cenpes da Petrobras. 
No caso do programa de águas profundas da bacia 
de Campos, foram executados 109 projetos com 
61 parceiros nacionais e 42 estrangeiros, ao longo 
de seis anos. Foram investidos US$ 70 milhões 
em projetos. “Nessa escala, foi um esforço de 
inovação aberta pioneira no país”, diz Silveira. n
A Wayra da 
Telefônica reúne 
startups num 
mesmo prédio em 
São Paulo, com o 
objetivo de acelerar 
o desenvolvimento 
de novos produtos 
e serviços
44 z DEZEMBRO DE 2014
Pesquisadores discutem parcerias na busca 
de remédios contra doenças que atraem pouco 
interesse das indústrias farmacêuticas
COLABORAÇÃO y
Para sair do 
esquecimento 
P
esquisadores de vários países 
reuniram-se nos dias 13 e 14 de 
novembro, na sede da FAPESP, 
para discutir possibilidades de 
cooperação no desenvolvimento e oferta 
de novos tratamentos para as chama-
das doenças negligenciadas, aquelas 
que atraem escasso interesse das in-dústrias farmacêuticas por atingirem 
principalmente populações e países 
pobres, tais como a doença de Chagas, 
a leishmaniose visceral, a malária e a tri-
panossomíase humana africana (doen ça 
do sono). Organizado em conjunto com 
a Royal Society of Chemistry (RSC), do 
Reino Unido, e as organizações interna-
cionais Iniciativa Medicamentos para 
Doenças Negligenciadas (DNDi, na sigla 
em inglês) e Medicines for Malaria Ven-
ture (MMV), o encontro mostrou que o 
Brasil tem competências, especialmente 
nas áreas de química orgânica e biologia 
molecular, para ajudar a encontrar novos 
medicamentos – embora ainda sejam 
raros no país articulação entre grupos de 
pesquisa e estímulos para colaborações 
internacionais nessa área. “O evento nos 
ajudou a entender como o Brasil pode ser 
incluído em grandes estudos de doenças 
negligenciadas. Temos interesse em es-
treitar essa relação, porque o país tem 
uma comunidade forte na área de quími-
ca e muitas doenças tratadas na reunião 
são endêmicas aqui”, disse Alejandra 
Palermo, gerente de inovação da RSC. 
De acordo com dados da Organização 
Mundial da Saúde (OMS), as doenças ne-
gligenciadas atingem cerca de um bilhão 
de pessoas no mundo. Das 17 moléstias 
desse tipo listadas pela OMS, 14 estão pre-
sentes no Brasil. No ano passado, a RSC 
firmou um acordo com as duas entidades 
internacionais, ambas com sede na Suíça, 
com o objetivo de desenvolver novos fár-
macos. A entidade britânica tem oferecido 
acesso a uma rede de colaboração na área 
de química orgânica e a softwares que fa-
cilitam a troca de conhecimento. Segundo 
Alejandra, muitos trabalhos apresentados 
por pesquisadores brasileiros podem con-
tinuar sendo conduzidos com a orientação 
e parceria das duas organizações interna-
cionais, cuja missão é desenvolver fárma-
cos que sejam acessíveis aos mais pobres.
Uma iniciativa já em curso envolve o 
Laboratório de Química Orgânica Sintéti-
ca da Universidade Estadual de Campinas 
(Unicamp), com o qual a DNDi mantém 
um programa inédito na América Lati-
na intitulado Lead Optimization Latin 
America (Lola). “O objetivo é aprimorar 
e testar compostos químicos in vivo con-
tra Chagas e leishmaniose”, disse Luiz 
Carlos Dias, coordenador do laborató-
rio na Unicamp. Segundo ele, o trabalho 
em rede, promovido pela organização in-
ternacional, possibilita que uma mesma 
molécula possa ser testada sob diferentes 
aspectos em outros países, acelerando o 
processo rumo à produção de um medi-
camento. Na última década, a entidade 
global conseguiu disponibilizar dois no-
vos tratamentos para malária, um para 
doença do sono, um para leishmaniose 
visceral, uma combinação de drogas con-
tra leishmaniose visceral específica para 
a Ásia e um tratamento pediátrico com 
dose adaptada para doença de Chagas. EDU
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PESQUISA FAPESP 226 z 45
Crianças brincam no 
igarapé, em 
Rondônia, num final 
de tarde, período 
mais propício para 
sofrerem picadas do 
mosquito da malária
No momento, por exemplo, a tarefa 
de analisar e preparar um novo com-
posto para Chagas foi dividida entre o 
laboratório da Unicamp, o Centro de 
Biotecnologia Molecular Estrutural da 
USP, coordenado pelo professor Adria-
no Adricopulo, e o Instituto de Física 
da USP em São Carlos. O projeto ainda 
envolve empresas farmacêuticas, entre 
elas a Abbvie e a Pfizer, e institutos de 
pesquisa internacionais, como o Swiss 
Tropical Institute, na Suíça, e a Drug 
Discovery Unit da Universidade de Dun-
dee, na Austrália, entre outros. 
Em outra iniciativa inédita na Améri-
ca Latina, a equipe de Dias coopera com 
projetos do MMV num programa chama-
do Brazil Heterocycles, que já sintetizou 
duas moléculas promissoras para o tra-
tamento da malária. Este projeto conta 
com colaborações com centros interna-
cionais, entre eles o Imperial College 
London, a Monash University, da Aus-
trália, a Glaxo Smith Kline, na Espanha, 
a Astra Zeneca e a Syngene, na Índia. 
OBSTÁCULOS
“As etapas mais caras do desenvolvimen-
to de novos fármacos são a descoberta da 
molécula e os testes pré-clínicos e de to-
xicidade”, disse Glaucius Oliva, coorde-
nador do Centro de Pesquisa e Inovação 
em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar), 
um dos Centros de Pesquisa, Inovação e 
Difusão (Cepid) da FAPESP, envolvido 
em um dos projetos de síntese molecu-
lar coordenados pela equipe de Carlos 
Dias na Unicamp. “Com o apoio finan-
ceiro de grandes organizações globais 
exatamente nessa fase, a indústria far-
macêutica pode entrar posteriormente 
nas etapas de ensaios clínicos e produção 
em larga escala. Isso começa a despertar 
o interesse da indústria farmacêutica 
em relação às doenças negligenciadas”, 
disse Oliva, que também é presidente do 
Conselho Nacional de Desenvolvimento 
Científico e Tecnológico (CNPq). Para 
Oliva, a parceria entre DNDi, MMV e 
Unicamp deve servir de exemplo para 
outras iniciativas. 
46 z DEZEMBRO DE 2014
No entanto, ele destaca outros gar-
galos que a pesquisa brasileira preci-
sa superar para poder contribuir com 
mais vigor em estudos sobre doenças 
negligenciadas. Um deles é em relação 
à farmacocinética, que é o caminho que 
uma molécula percorre no organismo 
após sua administração. “O Brasil ainda 
tem poucas pessoas atuando em toxico-
logia e em química sintética e medicinal 
para a criação de novas moléculas”, dis-
se o bioquímico Walter Colli, professor 
da Universidade de São Paulo (USP) e 
coordenador adjunto da FAPESP em 
ciências da vida. 
Um grupo de pesquisadores USP, 
por exemplo, mostrou que por meio 
da síntese química de compostos na-
turais é possível melhorar a ação de 
medicamentos já existentes, enquanto 
novos fármacos não ficam prontos. Os 
pesquisadores conseguiram sintetizar 
uma molécula a partir das betalaínas, 
pigmentos encontrados em flores fluo-
rescentes e beterrabas. O composto tem 
a capacidade de atravessar membranas 
de células animais com facilidade e ser-
vir como sondas e marcadores fluores-
centes para biologia celular. “A molé-
cula fluorescente poderá ser funcional, 
atuando como um táxi, que só apagará 
sua luz quando deixar o medicamento 
no lugar certo e na hora certa”, expli-
cou Erick Bastos, pesquisador do Insti-
tuto de Química da USP e coordenador 
da pesquisa. 
A nova molécula ainda está em fase de 
testes. Como o desenvolvimento de um 
novo medicamento e as análises farma-
cológicas são caras, o grupo de Bastos 
acredita que o composto possa ser ini-
cialmente usado para melhorar a ação de 
medicamentos para malária disponíveis 
no mercado. “Comprovamos por testes 
in vitro que as betalaínas sintetizadas em 
laboratório podem ultrapassar as mem-
“Precisamos formar uma grande 
massa crítica na área de química 
sintética”, diz Vanderlan Bolzani 
branas do parasita da malária. Com essa 
técnica, a dose do medicamento usual 
pode ser reduzida. A eficiência do tra-
tamento melhora porque, rastreando 
o medicamento, poderemos encontrar 
novos caminhos para levar a droga até 
o parasita”, afirmou Bastos. 
Pesquisas desse tipo podem ter um 
papel importante para o processo de 
erradicação de algumas enfermidades. 
“Melhorando o que já existe, é possível, 
no curto prazo, aumentar a eficiência de 
um tratamento”, afirmou Carolina Batis-
ta, diretora médica da DNDi na América 
Latina. Um exemplo citado por ela é o 
tratamento da doença de Chagas, cujo 
medicamento mais utilizado é o benzo-
nidazol, criado nos anos 1970. 
Entre 2012 e 2013, a DNDi comandou 
um amplo estudo que comparou o ben-
zonidazol com a E1224, uma nova mo-
lécula que se mostrava promissora no 
combate à doença de Chagas. Embora 
tivesse apresentado bom desempenho 
nos testes in vitro, a E1224 foi pouco efi-
ciente em testes clínicos com pacien-
tes. Um braço do estudo, contudo, rea-
lizado combenzonidazol, comprovou 
a eficácia do tratamento em pacientes 
crônicos. Outro estudo publicado este 
ano, por instituições de pesquisa da Es-
panha, comprovou que o benzonidazol 
ainda é o composto mais eficiente para 
o tratamento de Chagas. “Ainda assim, 
o benzonidazol causa efeitos colaterais 
complicados, como alergias e dores de 
cabeça. Isso mostra que mesmo um me-
dicamento antigo e amplamente usado 
ainda precisa ser melhorado e pesqui-
sado”, disse Carolina. 
Um dos estudos que atualmente ava-
liam a ação do benzonidazol envolve o 
Instituto Dante Pazzanese, em São Pau-
1
1 O mosquito 
Anopheles gambiae, 
vetor da malária
2 Nas imagens 
tratadas digitalmente, 
composto extraído de 
flores fluorescentes 
atravessa membranas 
de dois eritrócitos, um 
deles infectado com 
plasmódio da malária
PESQUISA FAPESP 226 z 47
lo, a OMS e instituições do Canadá e da 
Argentina. Foram recrutados mais de 
3 mil pacientes de diferentes países e 
os primeiros resultados serão divulga-
dos em 2015. “Já conseguimos analisar a 
ação do medicamento em crianças com 
Chagas, o que nos permitiu concluir que 
poderíamos diminuir as doses de benzo-
nidazol para elas”, explicou Sergio Sosa-
-Estani, diretor do Instituto Nacional de 
Diagnóstico e Pesquisa em Doença de 
Chagas de Buenos Aires e membro da 
DNDi na Argentina.
EXPANSÃO DA PESQUISA
Os participantes do evento destacaram, 
porém, a necessidade de descobrir novas 
moléculas capazes de reforçar o comba-
te às doenças negligenciadas. Em 2012, 
a OMS lançou novas diretrizes para o 
controle e eliminação dessas doenças até 
2020. Segundo a organização, Chagas e 
leishmaniose impõem desafios enormes. 
No caso da doença de Chagas, há cerca 
de 7,6 milhões de pessoas infectadas no 
mundo atualmente. No entanto, quando 
são levados em conta os fatores de risco, 
entre eles condições precárias de habi-
tação em regiões mais carentes, há apro-
ximadamente 100 milhões de pessoas 
com perigo de contrair a doença apenas 
na América Latina, conforme dados da 
DNDi. Segundo o relatório da OMS, ape-
nas 4,3% do total de financiamento para 
pesquisas em doenças negligenciadas é 
direcionado para Chagas e leishmaniose. 
Para corrigir essa lacuna, o MMV e a 
DNDi assinaram um acordo em Londres 
com o objetivo de expandir as pesquisas 
na área. As instituições recebem doa-
ções de governos, empresas e fundações 
como a de Bill e Melinda Gates. Jere-
my Burrows, chefe do departamento de 
descoberta de drogas do MMV, explicou 
que o objetivo da entidade é elaborar 
novos compostos para tratar a malária, 
que atinge anualmente de 80 milhões a 
100 milhões de pessoas no mundo. “Já 
colaboramos com mais de 300 parcei-
ros e com a ajuda da ciência brasileira 
podemos fazer grandes contribuições 
no combate à malária”, disse Burrows. 
Já a DNDi é fruto de uma parceria 
entre instituições públicas de pesqui-
sa e parte da indústria farmacêutica. 
A entidade nasceu com recursos que a 
organização humanitária Médicos sem 
Fronteiras ganhou do prêmio Nobel da 
Paz em 1999 e, hoje, gerencia uma re-
de com 350 colaborações em 43 países. 
“Colocamos em contato universidades e 
indústria que, se trabalhassem sozinhas, 
não conseguiriam desenvolver novos 
produtos”, explicou Robert Don, dire-
tor de descobertas e desenvolvimento 
pré-clínico da DNDi. 
Para o químico britânico Simon 
Campbell, membro da RSC e consultor 
das duas entidades nos projetos em co-
laboração com a equipe na Unicamp, a 
comunidade científica brasileira é reco-
nhecida entre os que pesquisam doenças 
negligenciadas, além de contar com bons 
laboratórios e financiamento em nível 
adequado. Mas ele acredita que o país 
deve investir mais nas áreas de química 
sintética e medicinal, como forma de 
transformar o conhecimento da biologia 
em novos tratamentos. “Precisamos de 
tratamentos mais eficazes e com me-
nos efeitos colaterais. Uma maneira de 
acelerar esse processo é trabalhar em 
colaboração, e por isso contamos com 
o apoio dos cientistas brasileiros”, dis-
se Campbell.
Essa visão também é compartilhada 
por Vanderlan Bolzani, professora do 
Instituto de Química da Universidade 
Estadual Paulista (Unesp). “Precisamos 
formar uma grande massa crítica na 
área de química sintética, estimulando 
pesquisadores mais jovens a trabalhar 
com a preparação de moléculas que 
possam contribuir para a erradicação 
de doenças como malária e doença 
de Chagas”, afirmou ela. Na abertura 
do encontro, o diretor científico da 
FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, 
enfatizou que a realização do workshop 
é uma oportunidade para aproximar 
diretamente pesquisadores de São 
Paulo e de outros lugares do mundo, 
além de duas importantes fundações 
científicas, a FAPESP e a Royal Society 
of Chemistry. “As instituições envolvidas 
têm o interesse de dividir informações de 
pesquisa, de tal forma que os resultados 
sejam alcançados mais rapidamente”, 
disse Brito Cruz. n Bruno de Pierro
“Melhorando 
o que já existe, 
é possível 
aumentar a 
eficiência de 
um tratamento”, 
afirma Carolina 
Batista
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Um Himalaia primitivo: cadeia 
montanhosa com 2.500 
quilômetros de extensão teria se 
erguido entre o Brasil e a África há 
610 milhões de anos, quando vários 
dos continentes atuais ainda 
estavam agrupados no 
supercontinente Gondwana
CIÊNCIA GEOLOGIA y
PESQUISA FAPESP 226 z 49
Cadeia de 
montanhas formada 
há 610 milhões 
de anos teria 
impulsionado 
a evolução da vida 
complexa no planeta
Reinaldo José Lopes
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Cordilheira 
transcontinental
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ochas encontradas no Nordeste brasi-
leiro e em países africanos indicam que, 
há 610 milhões de anos, montanhas tão 
imponentes quanto o atual Himalaia 
brotaram no supercontinente conhecido como 
Gondwana. O surgimento dessa cordilheira an-
tiga, de quase 2.500 quilômetros de extensão, 
corresponde ao primeiro momento da história 
da Terra no qual uma cadeia montanhosa dessa 
magnitude teve condições de se formar, gerando 
repercussões que podem ter ido além da geologia. 
Os nutrientes vindos dessas supermontanhas 
teriam chegado aos oceanos e impulsionado a 
evolução dos primeiros seres vivos complexos, 
com organismos formados por muitas células.
50 z DEZEMBRO DE 2014
A existência remota desse “Himalaia afro-bra-
sileiro” foi descrita em um artigo publicado em 
outubro na revista Nature Communications, numa 
colaboração entre especialistas do Brasil, da Aus-
trália e da França. O primeiro autor do estudo é 
Carlos Ganade de Araújo, do Serviço Geológico do 
Brasil (SGB), no Rio de Janeiro. Araújo concluiu 
recentemente seu doutorado na Universidade 
de São Paulo (USP), sob orientação de Umberto 
Cordani, outro dos autores da pesquisa, depois de 
passar uma temporada no laboratório de Daniela 
Rubatto, na Universidade Nacional da Austrália, e 
de Renaud Caby, na Universidade de Montpellier 
II. Além de amostras brasileiras, os geólogos es-
tudaram rochas encontradas no Togo e no Mali, 
países da África Ocidental.
“A associação entre a formação de montanhas 
desse tipo e o surgimento da vida complexa é 
algo que vários trabalhos anteriores já vinham 
propondo”, conta Araújo. “A novidade do nosso 
trabalho é mostrar que o surgimento desse arco 
de montanhas foi sincrônico, dentro da margem 
de erro das técnicas usadas para medir esse ti-
ming, e queele coincide com o surgimento da 
fauna ediacarana [Ediacarano é o nome dado 
ao período geológico em que ocorre o primeiro 
grande florescimento da vida multicelular].”
A cadeia montanhosa teria surgido a partir da 
colisão de dois grandes blocos da crosta terres-
tre: de um lado, estava uma área incluindo blo-
cos rochosos que hoje formam parte da África 
Central, do Saara e da bacia do rio São Francis-
co; de outro, uma região na qual estavam unidos 
blocos da atual África Ocidental e da bacia do 
rio Amazonas. Araújo e Miguel Basei, também 
da USP, coletaram as amostras dessas rochas em 
Forquilha, município perto de Sobral, no sertão 
do Ceará; numa área de floresta tropical próxi-
ma à vila de Lato, no Togo; e em afloramentos 
rochosos em meio às areias do Saara, no Mali. 
Esses três locais se situam ao longo de uma fra-
tura geológica profunda – o chamado Lineamen-
to Transbrasiliano-Kandi, muito estudado pela 
equipe da USP e pelo grupo de Reinhardt Fuck e 
Márcio Pimentel, da Universidade de Brasília –, 
resultado do choque entre blocos rochosos que 
teriam gerado o Himalaia afro-brasileiro. 
CÁPSULAS DO TEMPO 
A datação relativamente precisa de minerais 
tão antigos só é possível graças à presença dos 
zircões, cristais ricos em elementos químicos 
radioativos, como o urânio. Cada exemplar de 
zircão, ao se formar, funciona como uma espécie 
de cápsula do tempo. Uma vez transformado em 
cristal sólido depois do resfriamento do mag-
ma, o material passa a abrigar uma determinada 
concentração de urânio, que, por meio da perda 
lenta e constante de partículas subatômicas típi-
Lá e cá: rochas do 
interior do Ceará 
(no alto) e do 
Mali (acima) 
guardam vestígios 
da antiga cordilheira 
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ca dos elementos radioativos, origina elementos 
químicos mais leves, como o tório e o chumbo, 
a uma taxa conhecida. “Depois de cristalizado, 
o mineral não troca mais átomos de urânio com 
o meio externo. É como se a estrutura cristalina 
fosse um sistema fechado”, explica Lêda Maria 
Fraga, que também trabalha no SGB e é autora 
de um estudo que identificou alguns dos zircões 
mais antigos do mundo (ver boxe na página 52).
Os pesquisadores medem, então, a concen-
tração das variedades (isótopos) do elemento 
químico chumbo derivadas do urânio e calcu-
lam quanto tempo antes se formou o zircão. 
Também foi possível determinar que as rochas 
brasileiras e africanas que abrigam os zircões 
se formaram em ambientes de altíssima pres-
são, a profundidades superiores a 90 quilôme-
tros. Conhecidas como eclogitos, essas rochas 
que nascem em situações de pressão ultra-alta 
derivam do encontro entre duas placas tectô-
nicas, os imensos blocos rochosos que formam 
a crosta terrestre. 
Na colisão entre as placas, a borda de uma delas 
se enfia embaixo da outra – é a chamada subduc-
ção. A parte que afunda é submetida a pressões 
altíssimas que alteram suas rochas. Mais tarde, 
algumas dessas rochas alteradas retornam à su-
perfície – ou são exumadas, como dizem os geó-
logos –, processo que pode gerar grandes cadeias 
de montanhas, como o Himalaia de hoje e sua 
contraparte do Ediacarano.
Segundo Araújo, esse é outro ponto importante 
do estudo: trazer as evidências mais antigas de 
um mecanismo de tectônica de placas como os 
que se conhecem hoje. “Embora existam indícios 
de que as placas tectônicas poderiam estar em 
52 z DEZEMBRO DE 2014
 
Formados por três elementos 
químicos (zircônio, oxigênio e silício), 
os zircões são minerais muito 
resistentes, capazes de sobreviver às 
transformações pelas quais as rochas 
que formam os continentes podem 
passar. O zircão antigo da Guiana, 
por exemplo, permaneceu intacto 
mesmo após a rocha que 
originalmente o abrigava ter se 
fundido há cerca de 2 bilhões de 
anos, quando a região do planeta 
onde hoje se encontra a Amazônia 
era dominada por vulcões – 
acredita-se que um desses vulcões 
tenha entrado em erupção e trazido 
das profundezas da Terra material 
fundido no qual flutuavam cristais 
de zircão mais antigos.
Até o momento amostras de 
zircão tão antigas foram encontradas 
sugerem que, mesmo em um passado 
tão remoto, já existiam mecanismos 
capazes de produzir continentes 
comparáveis aos atuais.
O vestígio mais recente de que 
continentes tão primitivos podem ter 
mesmo existido é um zircão de 4,2 
bilhões de anos extraído de rochas 
vulcânicas coletadas na Guiana em 
2011 por equipes do Serviço Geológico 
Brasileiro e da Comissão de Minas e 
Geologia da Guiana. “Encontrar 
vestígios de quando e como se formou 
a ‘primeira’ crosta continental ou algo 
parecido com ela é sempre uma grande 
descoberta”, explica a geóloga 
brasileira Lêda Maria Fraga, coautora 
de um artigo que relata o achado no 
periódico Brazilian Journal of Geology. 
“Até onde sei, esse zircão é o mineral 
mais antigo da América do Sul”, diz.
Outro estudo geológico baseado na 
análise de zircões encontrou na 
fronteira entre o Brasil e a Guiana 
vestígios de um fragmento do que pode 
ter sido o mais antigo continente do 
planeta. Esse continente teria existido 
por volta de 4,2 bilhões de anos atrás 
– quando o planeta tinha cerca de 300 
mil anos de vida – no chamado Éon 
Hadeano, o primeiro e mais turbulento 
período da história da Terra.
Até algumas décadas atrás se 
acreditava que naquele período cujo 
nome faz referência a Hades, o deus da 
mitologia grega ligado às profundezas 
da Terra e ao mundo dos mortos, a 
superfície terrestre fosse dominada por 
oceanos de rocha líquida e crateras 
formadas pelo impacto de corpos 
celestes. Mas registros geológicos 
encontrados na última década 
Pedaços do Hades
atividade de alguma maneira desde o Arqueano, 
há mais de 3 bilhões de anos, só no Ediacarano 
é que vemos sinais de uma subducção profunda 
o suficiente para fazer com que as placas conti-
nentais desçam muito e, consequentemente, de-
sencadeiem a formação de montanhas tão altas 
quanto as do Himalaia atual.”
Esse fenômeno geológico, possivelmente iné-
dito até então, pode ter tido consequências igual-
mente inéditas sobre a evolução da vida no pla-
neta, afirmam os pesquisadores.
Amostra de 
eclogito: rocha 
coletada na África 
contendo o mineral 
coesita (acima), 
formado sob 
pressão ultra-alta
VIDA MISTERIOSA 
Por volta da época em que se formou o Himalaia 
afro-brasileiro surgiram na Terra formas de vida 
ainda hoje envoltas em um ar de mistério. É a cha-
mada biota de Ediacara, formada por organismos 
multicelulares cujas relações de parentesco com 
os grupos de seres vivos que evoluíram mais tarde 
ainda não estão muito claras, embora haja quem 
identifique, entre os fósseis de seres que vive-
ram naquela época, os precursores dos cnidários 
(águas-vivas e corais) de hoje. 
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Testemunhas do 
passado remoto: 
cristais de zircão 
com 4,2 bilhões de 
anos, extraídos de 
rocha vulcânica 
coletada na Guiana
Projeto
Caracterização geocronológica e termocronológica das rochas de 
alto grau associadas à orogênese neoproterozoica nas adjacên-
cias do Lineamento Transbrasiliano-Kandi (NE Brasil – NW África) 
(nº 2012/00071-2); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pes-
quisador responsável Umberto Giuseppe Cordani (IGC-USP); Inves-
timento R$ 144.331,80 (FAPESP).Artigos científicos
GANADE DE ARAUJO, C. E. et al. Ediacaran 2,500-km-long synchonous 
deep continental subduction in the West Gondwana orogen. Nature 
Communications. 16 out. 2014.
NADEAU, S. et al. Guyana: the lost Hadean crust of South America? 
Brazilian Journal of Geology. V. 43, p. 601-6. dez. 2013.
em menos de uma dezena de locais 
no mundo. A mais velha de todas, com 
4,4 bilhões de anos, foi encontrada 
em Jack Hills, na Austrália. Minerais 
do Canadá, da China e dos Estados 
Unidos têm idades comparáveis 
ou um pouco inferiores às identificadas 
no sul da Guiana.
O zircão da Guiana, estudado por 
Lêda e por Serge Nadeau, primeiro 
autor do artigo do Brazilian Journal of 
Geology, foi datado levando em conta 
o decaimento radioativo do elemento 
químico urânio, a mesma técnica usada 
para determinar a idade dos zircões 
do Himalaia afro-brasileiro. Remontando 
a uma época tão distante, 
o surpreendente é que tenha sobrevivido 
às transformações por que a crosta 
continental passou desde então. 
“Demos uma sorte enorme”, diz Lêda.
Em geral, os membros da biota de Ediacara são 
criaturas de corpo mole, com aspecto discoidal ou 
semelhante a talos de algas. Também há marcas 
fossilizadas (icnofósseis) deixadas pela passagem 
do animal que parecem indicar a presença de seres 
vermiformes, arrastando-se pelo solo marinho. 
Outros dados fósseis indicam ainda que, por volta 
daquela época, já havia organismos com desen-
volvimento embrionário complexo, essencial para 
que seres multicelulares produzam tecidos espe-
cializados para diversas funções, como músculos 
ou gânglios. Essas formas macroscópicas de vida 
eram exclusivamente aquáticas. Microrganismos 
já haviam colonizado ambientes de terra firme, 
embora animais e plantas só começassem a deixar 
os mares a partir do Cambriano, há 540 milhões 
de anos, com o surgimento progressivo de adap-
tações para resistir à perda de água. 
O surgimento da cordilheira que se estendeu 
por parte do que hoje é a África e o Brasil pode 
ter impulsionado a evolução dessas criaturas por 
inundar os oceanos com alimento. Essas grandes 
montanhas teriam passado por um processo ero-
sivo sem precedentes, de maneira a carregar os 
nutrientes presentes nas rochas para o oceano. 
Esse “banquete” mineral teria levado à multipli-
cação de microrganismos marinhos que fazem 
fotossíntese e produzem oxigênio, aumentando 
a quantidade disponível desse gás nos mares e 
na atmosfera. Mais oxigenados, esses ambientes 
teriam sido muito mais propícios para sustentar 
o metabolismo de seres vivos complexos.
“A gente também pode comparar os efeitos 
do aparecimento das montanhas do Ediacarano 
com o que ocorreu após o surgimento dos Hima-
laias”, lembra Araújo. De fato, essa megacordi-
lheira ajudou a moldar o relevo e o clima na Ásia, 
controlando, por exemplo, as monções (chuvas 
anuais que caem sobre o subcontinente indiano) 
e impedindo que ventos frios do Ártico cheguem 
ao sul da Ásia. O curioso é que processos desse 
tipo parecem ter acontecido de novo algumas 
dezenas de milhões de anos mais tarde, durante 
a chamada Explosão Cambriana, um evento evo-
lutivo de grande escala iniciado há cerca de 540 
milhões de anos, ainda mais importante do que 
a gênese da biota de Ediacara. A Explosão Cam-
briana marca o aparecimento de quase todos os 
grandes grupos de animais conhecidos hoje no 
registro fóssil, incluindo tanto os primeiros artró-
podes (atualmente os animais mais numerosos e 
diversos do planeta, como insetos e crustáceos) 
quanto os primeiros cordados (grupo que inclui 
os vertebrados, como o ser humano).
De acordo com Araújo, supermontanhas que 
coincidem com a explosão de vida no período 
Cambriano surgiram na região leste de Gond-
wana, quando houve o desaparecimento de um 
oceano na região onde hoje está Moçambique. 
“A gente poderia enxergar esse evento a leste 
como uma continuação do processo que já vinha 
estimulando a evolução da vida complexa desde 
o Ediacarano”, afirma o pesquisador. n
3
54 z DEZEMBRO DE 2014
Brasileiros descobrem como medir 
variações de energia de núcleos atômicos
Máquinas 
 de spins
E
m um experimento considerado 
impossível até o ano passado, 
uma equipe coordenada pelo físi-
co Roberto Serra, da Universida-
de Federal do ABC (Ufabc), determinou 
quanta energia um núcleo atômico pode 
ganhar ou perder quando é atingido por 
um pulso de ondas de rádio. A maioria 
dos pesquisadores estava convencida de 
que o comportamento do núcleo seria 
imprevisível. Jamais se conheceriam 
as probabilidades de o núcleo absorver 
energia das ondas, tornando-se mais 
quente, ou de esfriar ao transmitir parte 
de sua energia para elas.
As novas experiências feitas no Centro 
Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), 
no Rio de Janeiro, demonstram que essa 
troca de energia obedece a leis da física 
nunca antes testadas no mundo subatô-
mico. Essas leis podem ajudar a entender 
melhor reações químicas como a fotos-
síntese das plantas e a determinar quanta 
energia os computadores quânticos usa-
rão para funcionar. “Esse é o primeiro 
experimento de uma nova área da física, 
a termodinâmica quântica”, diz Serra.
Computadores quânticos prometem 
usar as leis da mecânica quântica para 
superar exponencialmente o poder de 
cálculo dos computadores convencio-
nais. Mas quanta energia esse novo tipo 
de computação gastará na prática? Quan-
to calor essas máquinas produzirão ao 
funcionar? Vão precisar de refrigeração? 
Responder a essas questões é um dos 
objetivos da termodinâmica quântica.
Perguntas semelhantes pairavam no 
ar durante a Revolução Industrial, no 
século XIX. Qual o mínimo de carvão 
que os fornos precisariam consumir e a 
que temperatura as caldeiras deveriam 
chegar para que as máquinas a vapor 
alcançassem sua eficiência máxima? Os 
cientistas da época perceberam que tanto 
o calor quanto a capacidade das máqui-
nas de trabalharem são formas diferentes 
de uma mesma quantidade física, a ener-
gia, que nunca é criada a partir do nada 
nem destruída, apenas transformada. Ao 
investigar a conversão de uma forma de 
energia em outra, eles descobriram as 
leis da termodinâmica clássica.
De acordo com essas leis, a energia flui 
espontaneamente de um volume com 
temperatura quente para outro mais frio. 
E uma máquina, mesmo que ideal, só po-
de converter parte da energia disponível 
na forma de calor em energia capaz de 
realizar movimentos mecânicos, isto é, 
FÍSICA y
Igor Zolnerkevic
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realizar o que se conhece em física co-
mo trabalho. “A termodinâmica impõe 
limites a qualquer tecnologia”, diz Serra.
Os engenheiros vitorianos resolveram 
seus problemas, mas à custa de um pe-
queno truque. Seus cálculos só funciona-
vam quando se considerava que as má-
quinas estavam isoladas termicamente 
do resto do mundo, trocando pouco calor 
com o ambiente. Era preciso ainda que 
esses processos fossem lentos. Mas essas 
aproximações não servem na maioria das 
situações que ocorrem na natureza – em 
muitas reações químicas, por exemplo. 
Quando é impossível isolar termicamen-
te um objeto de seu ambiente por muito 
tempo, a temperatura aumenta e diminui 
de maneira aparentemente imprevisível, 
ao contrário do que ocorre nos sistemas 
isolados, onde tudo tende ao equilíbrio.
Foi apenas em 1997 que o físico-quími-
co Christopher Jarzynski descobriu uma 
expressão matemática capaz de calcu-
lar as variações de energia e de trabalho 
mecânico que acontecem fora do equi-
líbrio. “A equação de Jarzynski e outros 
teoremas de flutuação permitem que os 
químicos meçam em laboratório a varia-
ção de energia de uma molécula antes e 
depois de uma reação”, explica Serra.
PESQUISA FAPESP 226 z 55
56 z DEZEMBRO DE 2014
Rádio
nuclearno CBPF. Os dois grupos mantêm 
uma parceria que já rendeu várias des-
cobertas (ver Pesquisa FAPESP nº 193).
No centro do equipamento no labora-
tório do CBPF fica um pequeno tubo de 
ensaio contendo uma solução puríssima 
de clorofórmio diluído em água. Cada 
uma dos cerca de 1 trilhão de moléculas 
de clorofórmio da solução possui um áto-
mo de carbono-13. O núcleo desse tipo de 
carbono tem uma propriedade quântica 
chamada spin, que lembra um pouco a 
agulha de uma bússola magnética e po-
de ser representada por uma seta. Sob 
um forte campo magnético paralelo ao 
tubo, apontando de baixo para cima, as 
setas desses spins tendem a se alinhar 
com o campo, metade delas apontando 
para baixo e metade para cima. O cam-
po magnético também faz com que os 
spins apontando para baixo tenham mais 
energia que os spins voltados para cima.
Os físicos manipulam os spins por 
meio de campos eletromagnéticos, que 
oscilam com uma frequência de 125 me-
gahertz (o equipamento precisa ser iso-
lado para não captar as estações de rádio 
FM que transmitem nessa frequência). 
Essas manipulações são feitas por meio 
de pulsos de onda e não duram mais que 
A máquina quântica
Experimento extrai energia de moléculas de clorofórmio
Moléculas de 
clorofórmio 
diluídas em água
Antena
1º PULSO 2º PULSOEQUILÍBRIO EQUILÍBRIO
na forma de moléculas de açúcar. “O pro-
cesso é muito eficiente, quase não gera 
calor”, diz Serra. “Estudos sugerem que 
é um processo quântico.”
Serra, seus alunos e colegas na Ufabc 
tentavam havia algum tempo estudar a 
termodinâmica quântica em laboratório, 
junto com a equipe dos físicos Alexan-
dre Souza, Ruben Auccauise, Roberto 
Sarthour e Ivan Oliveira, que trabalham 
com a técnica de ressonância magnética 
O próprio Jarzynski, em colaboração 
com uma equipe da Califórnia, confir-
mou sua equação em 2005, observando 
o trabalho mecânico de uma molécula 
de RNA esticada e comprimida como 
uma mola. Serra nota entretanto que, 
apesar de microscópico, o movimento 
da molécula de RNA era grande o sufi-
ciente para poder ser calculado usando 
a famosa fórmula derivada das leis da 
mecânica de Newton: “Trabalho é igual 
força vezes deslocamento”.
As equações da termodinâmica, seja 
dentro ou fora do equilíbrio, foram de-
duzidas usando a mecânica de Newton. 
Mas as leis de Newton perdem sentido 
para vários processos que acontecem 
nas moléculas e para todos os que ocor-
rem no interior dos átomos por não ser 
possível medir forças e deslocamentos 
com precisão. Nessas escalas valem ou-
tras leis, as da mecânica quântica. Ser-
ra queria saber se equações como a de 
Jarzinsky ainda valeriam nesse mundo 
subatômico. Esse conhecimento ajuda-
ria a entender reações químicas como a 
fotossíntese. Na fotossíntese, moléculas 
nas células das folhas funcionam como 
máquinas quânticas que absorvem ener-
gia das partículas de luz e a armazenam 
Na presença de um campo magnético, o 
spin dos núcleos de carbono-13 do 
clorofórmio se comportam como uma 
bússola magnética, apontando para cima 
ou para baixo. Ondas de rádio controlam os 
spins até deixá-los em equilíbrio térmico
 PREPARAÇÃO FUNCIONAMENTO
Pulsos de ondas de rádio com 
menos de 1 microssegundo de 
duração e amplitude reduzida 
transferem energia para os 
núcleos de carbono, deixando 
os spins fora de equilíbrio
Outra sequência de pulsos, agora 
com amplitude maior, desestabiliza 
de novo os spins e absorve parte 
da energia dos núcleos de carbono. 
Os spins são manipulados 
e retornam ao estado inicial
25ºC
 
 
Na fotossíntese, 
moléculas 
no interior das 
células das 
folhas funcionam 
como máquinas 
quânticas
A B
+ energético
– energético
H
Cl
C-13
Cl
Cl
C-13
C-13
C-13
C-13
C-13
C-13
C-13
C-13C-13
C-13
PESQUISA FAPESP 226 z 57
vezes a energia era emitida ou absorvida 
pelos spins. “O erro acumulado nessas 
medidas era tão grande que no fim não 
conseguiam determinar nada”, explica.
MEDIÇÃO INTELIGENTE 
A solução chegou mais cedo para Serra, 
em fevereiro de 2013, quando o físico 
Mauro Paternostro, da Queen’s Univer-
sity, em Belfast, Irlanda, apresentou um 
seminário na Ufabc sobre propostas iné-
ditas de se observar o trabalho produzido 
por partículas de luz de maneira indireta. 
Logo Paternostro, atualmente professor 
visitante na Ufabc, e Laura Mazzola, sua 
colega em Belfast, começaram a discu-
tir com Serra, Auccauise e o estudante 
de doutorado na Ufabc Tiago Batalhão 
como adaptar essas técnicas para ob-
servar o trabalho dos spins de carbono 
indiretamente. Com John Good, da Uni-
versidade de Oxford, Inglaterra, a equi-
pe descobriu um modo esperto de usar 
os spins dos núcleos de hidrogênio das 
moléculas de clorofórmio para espiar o 
que acontece com os spins dos átomos 
de carbono enquanto realizam trabalho, 
sem interferir no processo.
A precisão do experimento foi sufi-
ciente para registrar variações de tem-
alguns microssegundos. O experimento 
acontece tão rapidamente que é como 
se, por alguns instantes, cada átomo de 
carbono no tubo de ensaio estivesse iso-
lado do resto do universo, submetido a 
uma temperatura muito próxima do zero 
absoluto (-273º Celsius). Os pesquisado-
res conseguem diminuir ou aumentar a 
diferença de energia entre os spins para 
baixo e para cima quando reduzem ou 
aumentam a amplitude de suas ondas 
de rádio. Quando essa mudança de am-
plitude é muito rápida, os spins saem 
de seu isolamento térmico e começam 
tanto a absorver energia das ondas de 
rádio – situação em que as ondas reali-
zam trabalho sobre os spins – quanto a 
transmitir parte de sua energia para as 
ondas, realizando trabalho sobre elas. 
“Isso é muito difícil de medir, pois os 
spins dos carbonos podem trocar ener-
gia de quatro maneiras diferentes, to-
das acontecendo ao mesmo tempo, de 
maneira probabilística”, explica Serra. 
“Conheci um grupo na Alemanha que 
tentou fazer esse mesmo experimento 
por cinco anos sem sucesso.”
O que impediu o sucesso do grupo ale-
mão, segundo Serra, foi o fato de os físi-
cos tentarem medir diretamente quantas 
peratura nos spins de carbono da ordem 
de bilionésimos de graus e verificar que 
a equação de Jarzinsky vale na escala 
subatômica. Outro resultado interes-
sante: os spins de carbono possuem uma 
tendência maior de extrair energia das 
ondas de rádio quando a amplitude do 
pulso de onda é reduzida. A tendência 
se inverte quando a amplitude de onda 
é aumentada: os spins tendem a transfe-
rir energia para as ondas – ou seja, fazer 
trabalho sobre as ondas.
“Podemos explorar essa diferença pa-
ra criar uma máquina térmica quântica”, 
diz Serra. A máquina funcionaria alter-
nando pulsos de amplitude reduzida e 
aumentada entre dois estados de equilí-
brio térmico, cada um com uma tempe-
ratura diferente (ver infográfico). A má-
quina funcionaria de maneira parecida 
com a de um motor a combustão, que 
realiza trabalho mecânico com parte da 
energia química transformada em calor 
com a explosão do combustível.
A máquina de spins teria pouca uti-
lidade: o trabalho produzido fornece-
ria uma energia ínfima para as ondas 
de rádio, apenas suficiente para mexer 
o spin de um núcleo atômico qualquer. 
Serra está mais interessado em medir 
quanta energia ela gasta e quanto calor 
ela dissipa durante seu funcionamento.
“A técnica aplicada nesse experimento 
tem grande potencial”, diz o físico Lucas 
Céleri, da Universidade Federal de Goiás, 
que planeja observar a termodinâmica de 
uma única partícula de luz em parceria 
com os físicos Paulo Souto Ribeiro e Ste-
phen Walborn, da Universidade Federal 
do Rio de Janeiro, no começo do ano que 
vem. “Avanços experimentais são muito 
raros na termodinâmica quântica, devi-
do à necessidade de controlaro sistema 
quântico e seu isolamento do ambiente.” n
Projeto
Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Informa-
ção Quântica (n. 2008/57856-6); Modalidade Proje-
to Temático; Pesquisador responsável Amir Caldeira 
(Unicamp); Investimento R$ 1.384.811,24 (FAPESP) e 
R$ 5.700.000,00 (CNPq).
Artigo científico
BATALHÃO, T. B. et al. Experimental reconstruction of 
work distribution and study of fluctuation relations in 
a closed quantum system. Physical Review Letters. 
v. 113 (14). 3 out. 2014.
IN
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FONTE ROBERTO SERRA / UFABC
A energia que os núcleos de carbono 
transferem para a onda de rádio é maior 
do que a que eles recebem dela, gerando 
um saldo positivo de energia. A energia 
extra pode ser usada para realizar trabalho
 RESULTADOC
 
O experimento 
registrou 
variações de 
bilionésimos 
de graus na 
temperatura 
nos spins 
de carbono
58 z DEZEMBRO DE 2014
Experimento indica que 
maior número de espécies de 
anfíbios ajuda a deter a 
transmissão de uma doença 
fatal causada por fungos
A 
intuição, os modelos mate-
máticos e as observações de 
campo sugeriam que a perda 
de vegetação nativa com to-
dos seus organismos poderia favorecer a 
transmissão de vírus, bactérias e outros 
agentes causadores de doenças. O pro-
blema é que também havia estudos cien-
tíficos argumentando o contrário. Agora, 
um experimento fortaleceu a primeira 
possibilidade – quanto maior o número 
de espécies, menor a transmissão de uma 
doença –, ao indicar que a transmissão de 
um fungo que tem causado a extinção de 
anfíbios em vários países foi 66% menor 
entre grupos de sapos com maior diver-
sidade de espécies em comparação com 
grupos com uma espécie única. 
“Apenas a diversidade, independente-
mente da composição de espécies, detém 
a transmissão de doenças”, concluiu o 
biólogo Carlos Guilherme Becker, pes-
quisador da Universidade Estadual Pau-
lista (Unesp) em Rio Claro e principal 
responsável pelo estudo. Desse modo, 
a riqueza biológica, medida por meio 
do número de espécies de plantas e de 
ECOLOGIA y
O efeito protetor 
 da biodiversidade
animais, teria um efeito protetor, por 
barrar a transmissão de agentes causa-
dores de doenças.
A partir desse raciocínio, pode-se as-
sociar a perda de vegetação nativa, com 
os organismos que a habitam, e o surgi-
mento de doenças transmitidas por ví-
rus como os responsáveis pela epidemia 
de Aids na década de 1990 e agora pelos 
surtos de Ebola – os vírus causadores 
dessas doenças foram encontrados ini-
cialmente em reservatórios naturais, os 
animais silvestres, que as populações 
mais pobres da África abatem para se ali-
mentar. “Nos países com maior número 
de casos de Ebola nesse momento”, diz 
Becker, “o desmatamento e a caça têm 
sido intensos nos últimos anos”.
No trabalho que levou a essas conclu-
sões, Becker usou cerca de 200 sapos de 
sete espécies com hábitos diferentes – 
duas espécies viviam na água, três em 
árvores e duas se reproduziam exclusi-
vamente em ambientes terrestres. Todos 
os animais foram trazidos, em outubro 
de 2012, com as devidas autorizações de 
órgãos ambientais, de áreas do Parque 
Carlos Fioravanti
Estadual da Serra do Mar em que são 
abundantes. Becker preparou 53 caixas 
plásticas cobrindo metade do fundo 
com terra e a outra metade com água. 
Em cada uma das caixas, colocou qua-
tro animais, em dois grupos diferentes: 
28 caixas continham animais da mesma 
espécie e 25, animais de espécies dife-
rentes, combinados aleatoriamente, sem 
repetição. 
Enquanto os animais se adaptavam 
ao novo espaço, Becker cultivou uma 
amostra do fungo Batrachochytrium den-
drobatidis – ou Bd –, responsável pelo 
extermínio de populações de anfíbios FOT
O
S 
C
.G
. B
EC
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ER
PESQUISA FAPESP 226 z 59
ao redor do mundo. Ele preparou 53 so-
luções, cada uma com cerca de 1 milhão 
de zoosporos, o estágio infeccioso do 
fungo, e, no sétimo dia após o início do 
experimento, despejou-as na água de ca-
da caixa, frequentemente visitada pelos 
animais. Depois de 18 dias, ele colheu 
amostras da secreção da pele dos ani-
mais, por meio de um cotonete, organi-
zou as 212 amostras e quantificou a carga 
de infecção do fungo com análises de la-
boratório na Universidade Cornell, nos 
Estados Unidos, onde fazia o doutorado.
QUANTO MAIS LONGE, MELHOR
As análises moleculares e estatísticas, 
detalhadas em um artigo publicado em 
novembro na Proceedings of the Royal 
Society of London B: Biological Scien-
ces, indicaram que a contaminação, na 
maioria das espécies, era menor quando 
os animais estão misturados com repre-
sentantes de outras epécies. Os animais 
de hábitos aquáticos apresentaram uma 
taxa mais alta de contaminação do que 
os terrestres, que evitaram a água, mas 
também se infectaram. Em média, os 
animais das caixas mistas, com animais 
de quatro espécies cada, apresentaram 
uma quantidade de fungo 66% menor 
na pele que os das caixas com animais 
de uma única espécie. 
“Espécies com hábitos diferentes se 
evitam e ocupam o espaço mais eficien-
temente, o que deve ter reduzido a trans-
missão do fungo”, observou Becker. Se-
gundo ele, às vezes a composição de es-
pécies tende a influenciar a transmissão 
do fungo. Em 14 caixas, havia represen-
tantes da Brachycephalus pitanga, uma 
espécie terrestre que os outros animais 
evitavam, talvez por causa de sua cor 
alaranjada e secreções tóxicas. Como 
resultado, seus companheiros iam mais 
para a água e se infectaram mais que ela 
com o fungo.
“A diversidade de espécies, por si, já 
é uma causa da redução da transmissão 
do fungo, independentemente da com-
posição de espécies”, concluiu Becker, 
desde outubro instalado no laboratório 
de Célio Haddad na Unesp de Rio Cla-
ro. Segundo ele, a conclusão poderia ser 
ampliada: “Quanto maior a diversidade 
de espécies vivendo em seus próprios 
espaços, menor o risco de transmissão 
de uma doença.” 
Seu argumento é que, em uma flores-
ta, animais como os sapos vivem relati-
vamente isolados em espaços distintos, 
árvores e outras plantas, próximos à água 
ou em tocas no solo firme. “Geralmente 
em ambientes com alto nível de desmata-
mento sobram algumas poucas espécies 
arborículas, outras poucas terrestres e 
outras poucas aquáticas, com alta den-
sidade populacional.” E o adensamento 
facilita a propagação de microrganismos 
causadores de doenças. 
A conclusão agora reforçada experi-
mentalmente é que preservar ambientes 
naturais deve ajudar a reduzir a transmis-
são de doenças infecciosas, como pes-
quisadores dos Estados Unidos haviam 
alertado em estudo publicado na Nature 
em 2010. De acordo com esse trabalho, 
a perda de biodiversidade pode mudar 
a abundância ou o comportamento do 
hospedeiro ou do vetor. De fato, o núme-
ro de casos da doença de Lyme, causada 
por bactérias e transmitida por um car-
rapato, tem aumentado nos Estados Uni-
dos, possivelmente em consequência da 
eliminação dos animais silvestres, como 
os pássaros, que serviam de reservató-
rios naturais do vírus, desse modo con-
tendo a transmissão, e do aumento das 
populações de roedores, transmissores 
das bactérias causadoras da doença. “Se 
mantivermos a biodiversidade”, conclui 
Becker, “o risco de problemas para os 
animais silvestres e para nós é menor”. n
Projeto
Especiação de anfíbios anuros em ambientes de altitude 
(nº 08/50928-1); Modalidade Projeto Temático; Pes-
quisador respondável Célio Fernando Baptista Haddad 
(Unesp); Investimento R$ 1.407.985,13 (FAPESP).
Artigos científicos
BECKER, C. G. et al. Partitioning the net effect of host di-
versity on an emerging amphibian pathogen. Proceedings 
of the Royal Society of London B: Biological Sciences 
v. 281,n. 1.795. 2014.
KEESING, F. et al. Impacts of biodiversity on the emer-
gence and transmission of infectious diseases. Nature 
v. 468, n. 7.324, p. 647-52. 2010.
Algumas das 
espécies de sapos 
usadas no 
experimento: 
diversidade evita 
contágio
Ácaro transmite vírus que causa doença em 
laranjeiras ao se alimentar do suco celular
C
om mais de 200 espécies co-
nhecidas, os ácaros do gênero 
Brevipalpus são quase invisíveis 
a olho nu. Medem 0,3 milímetro 
e, colocados sobre uma folha de papel, 
seriam menores que o ponto final desta 
frase. Em geral se adaptam bem a dife-
rentes condições ambientais e climáticas 
– podem resistir a invernos rigorosos, 
por exemplo –, mas preferem mesmo 
as regiões tropicais, com temperaturas 
mais amenas. Podem infestar mais de mil 
espécies de plantas e tornam-se praga 
quando se espalham em grande quan-
tidade em culturas de chá e de uva. Um 
dos efeitos mais danosos que produzem 
é disseminar vírus que causam doenças 
em orquídeas, maracujazeiros, cafeeiros 
e laranjeiras – alguns vírus inicialmente 
provocam manchas em folhas, frutos 
e ramos, mas podem matar a planta. 
Estima-se que nos últimos tempos os 
produtores de laranja do estado de São 
Paulo, o maior produtor mundial de su-
co desse fruto, tenham gastado US$ 80 
milhões por ano no combate ao Brevipal-
pus phoenicis, a espécie que espalha nos 
laranjais o vírus da leprose dos citros.
Na busca de formas mais eficazes de 
minimizar essas perdas, o agrônomo bra-
ZOOLOGIA y
Vampiro 
vegetariano 
sileiro Elliot Kitajima, da Universidade de 
São Paulo (USP), e o zoólogo alemão Gerd 
Alberti, da Universidade de Greifswald, 
decidiram investigar como os ácaros ad-
quirem esse vírus e depois o transmitem 
para as plantas. “Temos agora informa-
ções mais precisas sobre o passo a passo 
desse mecanismo de aquisição e transmis-
são, embora muitos detalhes ainda devam 
ser esclarecidos”, diz Kitajima, pesquisa-
dor do Departamento de Fitopatologia e 
Nematologia da Escola Superior de Agri-
cultura Luiz de Queiroz da USP (Esalq).
No caso da leprose dos citros, como 
um vampiro que se contamina ao su-
gar o sangue de uma pessoa infectada, 
o Brevipalpus se infecta com o vírus ao 
consumir o conteúdo das células – o 
suco celular – das folhas de uma laran-
jeira doente. O vírus viaja pelo sistema 
digestivo do ácaro sem se multiplicar 
e, depois, é passado adiante quando o 
Brevipalpus se alimenta em uma planta 
saudável, como mostram os resultados 
apresentados neste ano em uma série de 
artigos da revista Zoologica. “O trabalho 
apresenta ainda uma revisão da taxo-
nomia do Brevipalpus e avalia as perdas 
econômicas por ele provocadas”, com-
pleta Alberti. “Esse é provavelmente o 
Francisco Bicudo
estudo mais detalhado sobre as estrutu-
ras internas desses ácaros”, diz.
Kitajima estuda os vírus transmiti-
dos pelo Brevipalpus desde os anos 1970, 
quando ainda estava na Universidade de 
Brasília – ele chegou à Esalq em 1995. Em 
meados da década passada, porém, viu-se 
diante de um impasse. “Conseguíamos 
visualizar o vírus no interior do ácaro, 
mas não tínhamos conhecimentos ana-
tômicos suficientes para apontar com 
precisão em que parte do ácaro o vírus se 
encontrava”, conta. Em 2006, ele decidiu, 
então, procurar Alberti, uma das princi-
pais autoridades internacionais da área, 
que aceitou o desafio de investigar os 
detalhes internos de ácaros Brevipalpus. 
Foram sete anos de trabalho intenso e 
meticuloso. Os pesquisadores produziam 
fatias muito finas dos ácaros e depois as 
analisavam usando potentes microscópios 
eletrônicos. Também tiveram de fazer 
a reorganização tridimensional das es-
truturas anatômicas – “uma verdadeira 
tomografia”, diz Kitajima – para obter a 
localização precisa do vírus nos órgãos 
e tecidos. “É como se cortássemos uma 
mortadela e observássemos a distribui-
ção espacial dos pedaços de gordura, que 
corresponderiam aos vírus”, compara.
VIAGEM PELO CORPO 
Com essa estratégia, eles confirmaram 
que o Brevipalpus ingere o vírus quando 
usa o estilete – um prolongamento em 
forma de agulha do aparelho bucal, só 
agora descrito em detalhe nesses ácaros 
– para perfurar a folha da laranjeira. O 
vírus chega ao intestino altamente ra-
mificado (ceco) do ácaro junto com o 
alimento e se aloja entre membranas de 
células epiteliais ou glandulares vizinhas 
– e não no interior delas, como se suspei-
tava. Essa observação indica que o vírus 
da leprose dos citros apenas circula pelo 
corpo do ácaro, mas não se multiplica 
em seus tecidos. “Não se sabe ao certo 
como o vírus sai do ceco para o espaço 
entre as células e daí vai para o canal do 
estilete, por onde, com a saliva do ácaro, 
é injetado nas células das folhas sadias”, 
conta o pesquisador da Esalq.
60 z DEZEMBRO DE 2014
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los ácaros Brevipalpus, ampliar as inves-
tigações sobre a taxonomia e a evolução 
desses aracnídeos, além de analisar pos-
sibilidades de controle biológico (preda-
dores naturais). “Estamos conversando 
com produtores e compartilhando com 
eles nossas descobertas”, diz. “No caso 
da leprose dos citros, queremos encon-
trar as melhores estratégias para reduzir 
ao máximo o gasto com os laranjais.” n
Transportador de vírus
O vírus da leprose dos citros 
se aloja temporariamente, 
sem se reproduzir, 
no organismo do ácaro
O ácaro Brevipalpus 
phoenicis usa o estilete, 
um prolongamento em 
forma de agulha do seu 
aparelho bucal, para 
perfurar as células 
superficiais da folha da 
laranjeira e ingerir o 
conteúdo das células
Kitajima e Alberti contaram com o au-
xílio do grupo de João Spotti Lopes, ento-
mologista da Esalq, para entender melhor 
o processo de alimentação do ácaro. Laura 
Garita, aluna de mestrado de Kitajima, 
conseguiu colar às costas do ácaro um 
delgado fio de ouro que se conectava a um 
circuito elétrico acoplado à planta. Toda 
vez que o ácaro se alimentava, o circuito se 
fechava e a corrente elétrica era registrada 
em um computador. Assim, foi possível 
conhecer a duração das diferentes fases 
de alimentação – inserção do estilete, sa-
livação e sucção. O ácaro leva em média 
quatro horas para adquirir o vírus ao se 
alimentar em uma folha contaminada e 
cerca de duas horas para inocular o vírus 
no tecido sadio em outra refeição. Embora 
os vírus não se multipliquem no Brevipal-
pus, o ácaro é capaz de carregá-los por um 
longo período (10 dias), mesmo que não 
tenha acesso a novas fontes de vírus. Os 
pesquisadores observaram ainda que os 
vírus transmitidos pelo Brevipalpus pare-
cem produzir apenas lesões localizadas, 
provavelmente por não conseguir inocu-
lar o vírus no sistema vascular da planta. 
“Esses são dados fundamentais para 
complementar a epidemiologia, com-
preender como se dá a disseminação dos 
vírus na natureza e orientar iniciativas 
mais inteligentes e eficientes de con-
trole de pragas”, afirma Kitajima. Ele 
explica que, em geral, a ação dos vírus é 
restrita, e a dispersão, lenta. “Assim, nos 
pomares, bastaria concentrar o combate 
nas plantas contaminadas e em suas vi-
zinhas, sem necessidade de pulverizar 
inseticida em toda a plantação.”
Na coletânea de artigos, Kitajima pre-
parou um que traz uma revisão sobre a 
biologia do Brevipalpus e outro sobre as 
relações do ácaro com o vírus. Já Alberti 
se encarregou dos que tratam de detalhes 
anatômicos e do funcionamento dos sis-
temas digestivo e reprodutivo.
Kitajima planeja agora detectar e ca-
racterizar outros vírus transmitidos pe-
Ao se alimentar de plantas 
contaminadas, o ácaro adquire 
cópias do vírus (círculos no 
detalhe ao lado) presentes nas 
células da folha. Os vírus se 
alojam no sistema digestivo do 
ácaro poraté 10 dias, período 
em que podem ser transmitidos 
para plantas sadias
PESQUISA FAPESP 226 z 61
Projetos
1. Manejo da leprose dos citros (nº 08/52691-9); Mo-
dalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável 
Elliot Watanabe Kitajima (Esalq/USP); Investimento 
R$ 576.462,69 (FAPESP).
2. Caracterização de vírus transmitidos por ácaros Brevi-
palpus (Tenuipalpidae) e estudos sobre a relação vírus/
vetor/hospedeira (n. 00/11805-0); Modalidade Projeto 
Temático; Pesquisador responsável Elliot Watanabe Kita-
jima (Esalq/USP); Investimento R$ 362.063,71 (FAPESP). 
Coletânea de artigos científicos
ALBERTI, G. & KITAJIMA, E. W. (eds.). Anatomy and fine 
structure of Brevipalpus mites (Tenuipalpidae) – Econo-
mically Important Plant-Virus Vectors. Zoologica. v. 160. 
p. 1-192. mai 2014.
62 | DEZEMBRO DE 2014 
OBITUÁRIO y
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Adib Jatene foi responsável por marcos 
da medicina experimental e conquistas 
para a saúde pública
O maestro 
do bisturi
A 
biografia do cirurgião car-
diovascular Adib Jatene, que 
morreu de infarto, aos 85 anos, 
no dia 14 de novembro, reúne 
uma coleção de marcos da medicina 
experimental brasileira e de conquis-
tas no campo da saúde pública. Autor 
de mais de 700 trabalhos científicos, 
comandou ou fez com as próprias mãos 
cerca de 20 mil cirurgias cardíacas – e 
deixou várias contribuições no cam-
po da cirurgia de revascularização do 
miocárdio e da cirurgia de doenças 
congênitas do coração. Nos anos 1950, 
organizou um laboratório, no Hospital 
das Clínicas da Faculdade de Medicina 
da USP (FM-USP), precursor da atual 
Divisão de Bioengenharia do Instituto 
do Coração (InCor), no qual desenvolveu 
o primeiro aparelho coração-pulmão 
artificial do mundo. Em 1968 implantou 
a primeira ponte de safena no país. Em 
1985 criou uma técnica de correção de 
uma cardiopatia congênita em bebês, a 
transposição dos grandes vasos, que se 
tornou conhecida como Operação de 
Jatene. Também nos anos 1980, já como 
professor titular da FM-USP e diretor 
científico do InCor, foi um dos principais 
artífices da realização de transplantes 
de coração no país, retomando as expe-
riências feitas pelo professor Euryclides 
de Jesus Zerbini (1912-1993) no final dos 
anos 1960. 
A vida de homem público ganhou des-
taque em 1979, quando se tornou Secre-
tário da Saúde do Estado de São Paulo do 
governador Paulo Maluf. Jatene criou, 
na época, um plano metropolitano de 
saúde para garantir um patamar míni-
mo de atendimento à população de bai-
xa renda em todas as regiões da cidade. 
Boa parte dos hospitais construídos na 
periferia paulistana nos últimos anos 
resultou desse plano. E foi ministro da 
Saúde de dois presidentes. Permaneceu 
oito meses no cargo no governo Fernan-
do Collor. Em 1995, com Fernando Hen-
rique Cardoso, ganhou notoriedade pela 
batalha pela criação do imposto da saú-
de, que se transformaria na Contribuição 
Provisória sobre Movimentação Finan-
ceira (CPMF) – extinta em 2007. Não se 
cansava de repetir que a saúde necessita 
de recursos vinculados do orçamento 
mais do que outras áreas. “Quando vo-
cê constrói uma hidrelétrica, é preciso 
esperar ela ficar pronta para começar 
a ter receita. Mas quando você entrega 
um hospital público, gasta-se por ano 
com sua manutenção duas vezes o que 
foi destinado à obra. Por isso é preciso 
ter dinheiro vinculado”, disse em 2006, 
quando recebeu o Prêmio da Fundação 
Conrado Wessel, na categoria Medicina.
ARMARINHO
Adib Domingos Jatene nasceu em Xapu-
ri, no Acre. Perdeu o pai, um comercian-
te libanês, para a febre amarela, quando 
tinha apenas dois anos de idade. Passou 
a adolescência em Uberlândia, onde a 
mãe viúva foi viver, abrindo um arma-
rinho. Trocou Uberlândia por São Paulo 
para fazer o ensino médio e se formou, 
aos 23 anos de idade, pela Faculdade de 
Medicina da USP. Ali também fez sua 
pós-graduação, orientado por Zerbini, 
com quem começou a trabalhar em 1951. 
Em 1955 tornou-se professor de uma fa-
culdade de medicina em Uberaba, mas 
voltou a São Paulo dois anos mais tarde, 
como cirurgião do Hospital das Clínicas 
de São Paulo e do Instituto Dante Paz-
Fabrício Marques
PESQUISA FAPESP 226 | 63
zanese. Em 1983, sucedeu Zerbini na 
cadeira de professor titular de cirurgia 
cardiovascular da FM-USP e ajudou a 
desenvolver o InCor, que se tornou um 
paradigma internacional de atendimento 
e pesquisa, e inaugurou um modelo de 
gestão hospitalar no qual o atendimento 
a pacientes particulares e de convênios 
hospitalares ajuda a financiar os leitos 
destinados aos pacientes do Sistema Úni-
co de Saúde.
Aposentou-se na USP e no Incor em 
1999, e seguiu operando no Hospital 
do Coração (HCor), instituição priva-
da que também dirigia, embora já não 
fosse tão requisitado como antigamente 
– e achasse isso ótimo. “A vida inteira 
eu lutei para que houvesse equipes de 
excelência espalhadas por todo o Brasil 
e hoje isso é uma realidade. E muitas 
dessas equipes têm grandes cirurgiões 
que eu ajudei a formar”, afirmou, tam-
bém na entrevista de 2006. Manteve 
múltiplas atividades. Seguiu liderando o 
Programa da Saúde de Família, coorde-
nado pela Fundação Zerbini, responsá-
vel pela gestão do InCor, que construiu 
módulos de saúde nos bairros de Sapo-
Boa parte 
dos hospitais 
construídos 
na periferia 
paulistana nos 
últimos anos 
resultou de um 
plano lançado 
por Jatene 
nos anos 1980
pemba e Vila Nova Cachoeirinha. E, no 
Instituto de Cardiologia Dante Pazza-
nese, em São Paulo, continuou a se de-
dicar à bioengenharia, desenvolvendo 
próteses, equipamentos cirúrgicos e de 
diagnósticos para suporte a operações 
cardíacas, como um ventrículo cardía-
co implantável eletromecânico desti-
nado a pacientes na fila de espera por 
um transplante cardíaco. Encontrava 
tempo, ainda, para supervisionar suas 
fazendas de gado e, até recentemente, 
desempenhar as funções de presidente 
do Conselho Deliberativo do Museu de 
Arte de São Paulo (Masp), instituição da 
qual se tornou presidente de honra. Em 
2012, Jatene sofreu um primeiro infarto 
– ele próprio diagnosticou o problema e 
convocou um colega de confiança para 
implantar um stent. Mas seguiu traba-
lhando. No ano passado, presidiu uma 
comissão de especialistas que ajudou o 
governo federal na formulação de pro-
jeto para mudanças no ensino médico 
no país. Deixou a mulher, Aurice, com 
quem se casou em 1954, quatro filhos 
— os médicos Ieda, Marcelo e Fabio e 
a arquiteta Iara – e 10 netos. n
64 z DEZEMBRO DE 2014
Substituto cutâneo poderá ser usado 
como enxerto no tratamento de queimaduras 
e de lesões graves 
TECNOLOGIA BIOTECNOLOGIA y
Pele 
artificial
do 8º Encontro Nacional de Inovação em Fárma-
cos e Medicamentos promovido pelo Instituto 
de Pesquisa e Desenvolvimento em Fármacos 
e Medicamentos em conjunto com a Sociedade 
Brasileira Pró-Inovação Tecnológica.
“O tratamento de queimaduras e lesões cutâ-
neas extensas e graves é um desafio para a medi-
cina regenerativa. Existem algumas alternativas 
para a substituição da pele, mas nenhuma delas 
atende a 100% da demanda e das necessidades 
para uma boa cicatrização. Nosso objetivo é criar 
uma pele artificial que possa ser absorvível pelo 
organismo e solucionar problemas crônicos co-
mo úlceras, escaras profundas e queimaduras de 
terceiro grau”, diz Ana Luiza. “Queremos desen-
volver um substituto cutâneo 3D, que, além do 
papel reparador, tenha também função regene-
rativa, estética e facilite a cicatrização.” 
A nova pele artificial será produzida a partir de 
uma solução feita com polímero absorvível PLGA 
– sigla para poli (ácido láctico-co-glicólico) –, óleo-
-resina de copaíba e um solvente. Muito usado na 
fabricaçãode implantes, o PLGA é gradualmente 
degradado e absorvido pelo organismo do paciente. 
Depois de pronta, a solução de polímero é trans-
C
erca de um milhão de pessoas com quei-
maduras são registradas por ano no país. 
Desse total, 10% buscam atendimento 
hospitalar e 2.500 pacientes morrem. 
São os acidentes com fogo a segunda causa de 
morte na infância no Brasil e nos Estados Unidos. 
Por isso, a criação em laboratório de substitutos 
de pele para uso como enxerto tem sido um im-
portante foco de pesquisa nos últimos 30 anos. 
Em vários países cientistas tentam desenvolver 
uma espécie de pele artificial que possa ser apli-
cada com sucesso em pessoas com lesões graves. 
Aqui no Brasil, vale destacar o trabalho feito por 
uma equipe de pesquisadores da Universidade 
Estadual de Campinas (Unicamp), que provou em 
ensaios laboratoriais a eficácia de um substituto 
cutâneo tridimensional tendo na composição 
uma substância extraída de uma árvore nativa 
do país, a copaibeira (Copaifera langsdorffii).
Desenvolvido ao longo do doutorado da bióloga 
Ana Luiza Garcia Millás, do Departamento de 
Engenharia de Materiais e Bioprocessos da Fa-
culdade de Engenharia Química da Unicamp, 
com bolsa da FAPESP, o estudo ganhou em se-
tembro o primeiro lugar no prêmio de inovação 
Yuri Vasconcelos
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Tronco da 
copaibeira: 
matéria-prima 
para óleo-resina 
que facilita a 
regeneração 
de queimaduras
PESQUISA FAPESP 226 z 65
1 e 3 Equipamento para 
testar papel na Suzano 
2 Licor negro usado 
para extração de lignina
4 Químico Sérgio 
Saraiva faz pesquisas 
em laboratório de P&D 
da empresa
66 z DEZEMBRO DE 2014
formada em uma fibra por uma técnica conhecida 
como eletrofiação. A estrutura resultante desse 
processo, também chamado de scaffold, servirá de 
suporte ou de uma armação celular tridimensional, 
mimetizando a arquitetura da pele. Paralelamen-
te, fibroblastos, que são tipos de células da derme, 
a parte mais profunda da pele, são retirados por 
biopsia do paciente queimado. Essas células são 
cultivadas sobre a estrutura fibrosa que, após al-
guns dias, é implantada no paciente.
De acordo com Benedicto de Campos Vidal, 
professor emérito do Instituto de Biologia da 
Unicamp e especialista em colágeno, os resulta-
dos in vitro alcançados até o momento são bem 
promissores e permitiram chegar a uma impor-
tante constatação: as células estão aderindo, pro-
liferando, se diferenciando e, aparentemente, 
produzindo colágeno, proteína fundamental no 
processo de cicatrização. “Tudo indica que os 
fibroblastos [células da derme] estão resultando 
em uma matriz de colágeno. Isso é fundamental 
para o sucesso da pesquisa”, diz Vidal. A nova es-
trutura celular tem como função dar suporte para 
que a epiderme, a parte mais superficial da pele, 
possa proliferar. Além de trabalhar com células 
do próprio paciente, Ana Luiza pretende utilizar 
também fibroblastos provenientes de terceiros. 
“A vantagem de usar células retiradas de outras 
pessoas é a possibilidade de produzir em larga 
escala para um banco de pele. O ponto negativo 
é que aumentam as chances de rejeição.”
Um aspecto relevante da pesquisa é o emprego 
da técnica de eletrofiação, conhecida em inglês 
como electrospinning, que tem atraído interesse 
no campo da engenharia de tecidos pela facilidade 
em produzir fibras ultrafinas e com alta diferença 
entre superfície e volume sem a necessidade de 
uma instrumentação cara e complexa. A técnica, 
Alta 
voltagem
Seringa
Coletor
Enxerto sintético
Conheça as principais etapas do desenvolvimento do produto que poderá ser usado em implantes na pele
FONTE ANA LUIZA 
GARCIA MILLÁS / UNICAMP
1 2 3 4 5
SOLUÇÃO POLIMÉRICA
O primeiro passo 
é a preparação 
de uma solução 
formada por pellets 
do polímero 
biorreabsorvível poli 
(ácido láctico-co- 
-glicólico), conhecido 
simplesmente como 
PLGA, óleo-resina 
de copaíba e um 
solvente
ELETROFIAÇÃO
A solução polimérica 
é colocada em uma 
seringa e transformada 
em fio por meio da 
técnica de eletrofiação. 
O resultado é uma matriz 
fibrosa (ou scaffold), 
formada por filamentos. 
O scaffold fibroso 
polimérico é esterilizado 
com raios gama 
ou ultravioletas
CULTIVO CELULAR 
Numa estufa a 37 graus 
Celsius e que permite 
troca gasosa, células do 
paciente responsáveis 
pela síntese do colágeno, 
denominadas 
fibroblastos, são 
colocadas sobre 
o scaffold. Depois de 
se fixar no substrato, 
elas crescem, proliferam 
e se diferenciam
CRESCIMENTO
O tamanho do poro da 
matriz fibrosa permite 
que os fibroblastos 
migrem e proliferem 
dentro dela, ligando-se 
uns aos outros e 
crescendo 
em camadas que 
formam uma estrutura 
tridimensional. 
Esse processo leva 
de 20 a 30 dias
PLGA, óleo de 
copaíba e solvente
MATRIZ FIBROSA
20 A 30 DIAS ENXERTO
IMPLANTE
Finalmente, a pele 
artificial (ou substituto 
de pele) formada pelo 
conjunto scaffold 
polimérico e células 
dérmicas está pronta 
para ser implantada em 
pacientes com lesões 
cutâneas graves, como 
queimaduras de 
terceiro grau, úlceras 
e escaras
PESQUISA FAPESP 226 z 67
aplicável a uma grande variedade de polímeros 
naturais ou sintéticos, também se destaca por 
permitir o controle de diâmetro, porosidade e 
topografia dos filamentos. Ela também aumenta 
a eficiência no transporte de nutrientes entre a 
matriz de fibras e o ambiente externo. 
A incorporação no substi-
tuto cutâneo de uma substân-
cia natural pouco estudada e 
com comprovadas proprieda-
des terapêuticas é outra inova-
ção da pesquisa. Usado para 
fins medicinais desde o século 
XVI, o óleo-resina de copaíba 
atua como agente cicatrizante, 
analgésico, anti-inflamatório 
e antimicrobiano. “Esse é um 
aspecto inovador do trabalho, 
juntamente com o uso de um 
polímero para a produção da 
matriz a ser aplicada sobre a 
lesão”, afirma a dermatologis-
ta Beatriz Puzzi, coordenado-
ra do Laboratório de Cultura 
de Células de Pele da Facul-
dade de Ciências Médicas da 
Unicamp e coorientadora do 
doutorado de Ana Luiza. A in-
corporação do óleo de copaíba à matriz tem como 
objetivo funcionalizá-lo, facilitando a regeneração 
de queimaduras. A doutoranda da Unicamp expli-
ca que a substância retirada do tronco da árvore 
recebe o nome de óleo-resina por ser constituída 
por aproximadamente 45% de óleos essenciais 
voláteis e 55% de resina. 
IMPRESSORA DE PELE
Testes pré-clínicos, em animais, e clínicos, em hu-
manos, não foram realizados até o momento, mas 
o grupo já vislumbra a possibilidade de produzir 
o material em escala maior, usando impressoras 
3D digitais em combinação com a técnica de ele-
trofiação. A ideia de utilizar essas impressoras 
surgiu da necessidade de escalonar a produção 
do material e das exigências de manuseio da es-
trutura para o implante. “Iniciamos alguns testes 
que combinam as duas técnicas, impressão 3D e 
eletrofiação. Pode ser uma alternativa porque as 
matrizes são extremamente frágeis e difíceis de 
manusear”, diz Ana Luiza. “Os ensaios in vitro já 
mostraram que o material é biocompatível e tem 
grande potencial. Acredito que os testes clínicos 
possam ser iniciados dentro de dois anos e, se tu-
do der certo, em cinco anos poderá ser iniciada 
a comercialização.” 
A inovação surgida na Unicamp guarda seme-
lhanças com dois produtos norte-americanos das 
empresas Organogenesis, dona do Apligraft, e 
Forticell Bioscience, com o Orcel. Ambas utilizam 
colágeno bovino e fibroblastos humanos. A pes-
quisa de Ana Luiza é uma evolução de um estudo 
iniciado durante seu mestrado, em 2010, intitu-
lado “Instalação de tecnologia de electrospinningpara a produção e caracterização de nanofibras 
de celulose incorporadas com óleo natural”. Es-
se trabalho levou à elaboração 
de uma patente que defende o 
uso de fibras produzidas pela 
tecnologia de eletrofiação e 
incorporadas com óleos essen-
ciais não só para uso como pe-
le artificial ou curativos, mas 
também como filtros, tecidos 
e embalagens para alimentos 
e cosméticos. O desenvolvi-
mento do substituto cutâneo 
contou com a participação de 
uma equipe formada pelos en-
genheiros químicos Edison 
Bittencourt, professor da Fa-
culdade de Engenharia Quí-
mica da Unicamp e orientador 
do doutorado de Ana Luiza, 
e João Vinícios Silveira, além 
dos professores Maria Beatriz 
Puzzi e Benedicto Vidal, tam-
bém da Unicamp.
Parte do desenvolvimento da pele artificial foi 
realizada no exterior. Em 2012, Ana Luiza foi fi-
nanciada na pós-graduação pelo programa de bol-
sas mobilidade internacional do banco Santander, 
e fez um programa sanduíche, intercalando parte 
dos estudos na Inglaterra. “Fui orientada pelo 
cientista Bob Stevens, professor da Universidade 
Nottinghan Trent e pesquisador colaborador da 
The Electrospinning Company. Essa empresa usa 
a plataforma de electrospinning para desenvolver 
biomateriais fibrosos para a área de medicina 
regenerativa. No período que passei na empre-
sa, decidi qual polímero usar para o propósito 
que buscava, estabeleci todas as condições das 
soluções e do equipamento de eletrofiação para 
a produção dos scaffolds e realizei testes in vitro 
preliminares usando fibroblastos de pulmão.” 
Em 2013, Ana Luiza fez novo sanduíche, agora 
no âmbito do programa Ciências sem Fronteiras, 
na Universidade Cornell, nos Estados Unidos. n
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Projeto
Desenvolvimento de scaffolds bioativos incorporados com óleos 
vegetais para regeneração de tecido cutâneo a partir da tecnologia 
de eletrofiação (nº 2012/09110-0); Modalidade Bolsa no País – Re-
gular – Doutorado; Pesquisador responsável Edison Bittencourt 
(Unicamp); Bolsista Ana Luiza Garcia Millás (Unicamp); Investimento 
R$ 116.615,19 (FAPESP).
Artigo científico
Yusuf, M. et al. Platinum blue staining of cells grown in electrospun 
scaffolds. Biotechniques. v. 57, n. 3, p. 137-41. set. 2014. 
Os ensaios in 
vitro mostraram 
que o material 
é biocompatível. 
O próximo 
passo são os 
testes clínicos 
em humanos
68 z DEZEMBRO DE 2014
Empresa desenvolve sistema para identificação mais 
rápida de bactérias relacionadas a infecções hospitalares
N
o mundo, de acordo com da-
dos da Organização Mundial da 
Saúde (OMS), 14% dos pacien-
tes internados sofrem de infec-
ções hospitalares. Só no Brasil, segundo 
a Associação Nacional de Biossegurança 
(ANBio), 100 mil pessoas morrem todos 
os anos por contaminações contraídas em 
hospitais e clínicas onde foram buscar 
tratamento para outras doenças. Uma 
das dificuldades no controle das infec-
ções é a demora na identificação dos 
microrganismos dentro dos hospitais. 
Esse problema levou dois doutorandos 
de genética e biologia molecular da Uni-
versidade Federal do Rio Grande do Sul 
(UFRGS) a desenvolver uma tecnologia 
que analisa até 512 amostras e identifica, 
em cada uma delas, dezenas de milhares 
de espécies de microrganismos, num pra-
zo de três a cinco dias, em média – tempo 
semelhante ao gasto para detectar apenas 
uma bactéria pelo método tradicional. Os 
doutorandos, o farmacêutico Marcos de 
Oliveira Carvalho e o biólogo Luiz Felipe 
Valter de Oliveira, criaram a pequena em-
presa Neoprospecta, no Sapiens Parque, 
em Florianópolis, Santa Catarina.
A técnica antiga de identificação de 
bactérias, ainda a mais empregada, uti-
EMPREENDEDORISMO y
Multiplicação 
dos alvos
liza placas de Petri, nas quais as espé-
cies são cultivadas e identificadas uma 
a uma. O problema é que cada bactéria 
pode levar até uma semana para ser cul-
tivada. A tecnologia da Neoprospecta 
associa análises de DNA a um algoritmo 
– instruções matemáticas para um soft-
ware – que automatiza todo o processo. 
“É uma plataforma que envolve várias 
etapas, tecnologias e sistemas”, diz Car-
valho, diretor-presidente da empresa. O 
processo todo é feito em quatro etapas: 
coleta de material em vários pontos do 
hospital – ou outras instituições e em-
presas como clínicas, postos de saúde, 
fábricas de alimentos e estações de tra-
tamento de água –, sequenciamento do 
genoma, análise dos dados e apresenta-
ção dos resultados.
A coleta é feita em pontos possivelmen-
te contaminados, incluindo mãos, jalecos 
e instrumentos dos profissionais da insti-
tuição (médicos, enfermeiras, auxiliares), 
equipamentos de uso invasivo, quartos, 
corredores, bebedouros, portas, maça-
netas, leitos e até nos próprios pacien-
tes. “Para isso usamos, em cada amostra, 
instrumentos semelhantes a cotonetes, 
só que maiores, com até 15 centímetros, 
chamados swabs”, explica Carvalho. “Na 
Evanildo da Silveira
ponta, eles têm uma cápsula contendo um 
líquido chamado solução de lise e uma 
válvula de plástico, por onde essa solução 
entra em contato com o material recolhi-
do.” Essa solução é feita de uma mistura 
de água, detergente e cloreto de sódio, 
mais conhecido como sal de cozinha, e é 
usada para romper a membrana celular. 
“Com isso, já no próprio swab começa a 
quebra das células das bactérias, o que dá 
mais segurança no transporte do mate-
rial, e tem início o processo de purificação 
do DNA”, diz Carvalho. “São centenas de 
swabs usados na análise de um hospital. 
Depois da coleta, eles são colocados em 
caixas específicas, desenvolvidas por nós, 
que são levadas para nosso laboratório, 
onde o DNA dos microrganismos é puri-
ficado. Até esse ponto, o material genético 
de todas as espécies presentes nas amos-
tras coletadas está misturado.”
A fase seguinte é o sequenciamento. 
Mas, para isso, antes há uma preparação 
dessa “sopa” de DNA purificado de cente-
nas ou milhares de espécies de bactérias. 
“Essa técnica de preparação foi desenvol-
vida e aperfeiçoada pela nossa empresa 
e permite ampliar a multiplexagem das 
amostras sem perda de qualidade”, ex-
plica Carvalho. “Com ela, nós analisamos 
PESQUISA FAPESP 226 z 69
Laboratório da Neoprospecta: 
sequenciamento de 
microrganismos e identificação 
(abaixo) da espécie 
e da quantidade de 
bactérias relacionadas 
ao local da amostra
em paralelo múltiplas amostras, obtendo-
-se mais rapidez e menor custo.” De acor-
do com ele, o preço para o cultivo de uma 
bactéria é em torno de R$ 100,00. Cada 
swab custa cerca de R$ 150,00, mas pode 
identificar centenas ou até milhares de 
espécies, o que reduz a centavos o valor 
gasto na identificação de cada bactéria. 
Na análise dos dados do sequenciamen-
to – que chegam a dezenas de gigabytes 
–, o DNA, que ainda continua todo mis-
turado, é separado por espécie. Assim, 
vai ser possível identificar quais existem 
na amostra e a quantidade de bactérias. 
do banco de dados e muitos deles são des-
conhecidos até da ciência. Quando isso 
ocorre, as novas bactérias são etiqueta-
das e também passam a fazer parte dele. 
O trabalho de classificá-las poderá ser 
feito por outros pesquisadores da área 
de taxonomia, por exemplo. 
INVESTIMENTO ACELERADO
A última fase é a apresentação dos resul-
tados. “Para isso os dados são carregados 
em um sistema desenvolvido por nós para 
a análise de risco microbiológico e contro-
le de qualidade do ambiente hospitalar”, 
explica Carvalho. “Esse sistema apresenta 
uma visualização da carga microbiológica 
nas amostras coletadas.” Hoje, a Neopros-
pecta tem três hospitais como clientes, 
dois em São Paulo e um em Porto Alegre, 
cujos nomesele não pode revelar.
Pode não ser muito, mas é significati-
vo para uma pequena empresa com ape-
nas pouco mais de um ano de atuação. A 
história da Neoprospecta começou em 
2010, quando Carvalho e Valter de Oli-
veira venceram o Prêmio Santander de 
Empreendedorismo, pelo modelo de ne-
gócio da empresa. No ano seguinte eles 
ganharam o Prêmio Ibero-Americano de 
Inovação e Empreendedorismo, promo-
vido pela Secretaría General Iberoame-
ricana (Segib), sediada em Madri. Nessa 
época, a Neoprospecta andou devagar, 
porque os dois sócios estavam fazendo 
doutorado na UFRGS. No fim de 2012, 
eles saíram atrás de investidores. Em 
2013, a empresa recebeu aporte de R$ 
500 mil de um investidor-anjo e trans-
feriu-se de Porto Alegre para o Sapiens 
Parque, em Florianópolis, onde passou 
por um processo de aceleração e desen-
volvimento de tecnologia própria. Mais 
recentemente a Neoprospecta recebeu 
uma injeção de recursos de R$ 4 milhões 
do fundo Cventures Primus. “O dinheiro 
está sendo usado em infraestrutura, área 
comercial, pesquisa e desenvolvimento”, 
conta Carvalho. “Além disso, os recursos 
também foram empregados na constru-
ção de cinco laboratórios e na compra de 
equipamentos.” nFOT
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“Nessa fase, os dados são submetidos a 
outros algoritmos, que os individualizam 
por espécie e os catalogam”, explica Car-
valho. “Todo o processamento é feito em 
servidores da Neoprospecta, nos quais 
os dados são codificados e tratados sob 
regime de alta segurança.” 
Para identificar cada espécie de mi-
crorganismo, o algoritmo compara o DNA 
das bactérias sequenciadas na amostra 
com o de bilhões que formam um banco 
de dados da empresa. Apesar desse gran-
de número catalogado, até 50% dos que 
são identificados num hospital estão fora 
Nanotubos de carbono combinados com chumbo 
ou pesticidas potencializam efeitos tóxicos em peixes
Interações fatais
E
studos conduzidos em parceria 
por pesquisadores da Univer-
sidade Estadual de Campinas 
(Unicamp), Laboratório Nacional 
de Nanotecnologia (LNNano) e do Insti-
tuto de Pesca do Estado de São Paulo, em 
Cananeia, no litoral sul paulista, mos-
traram que quando nanotubos de carbo-
no entram em contato com substâncias 
tóxicas como chumbo e pesticidas em 
ambientes aquáticos há um aumento 
expressivo de toxicidade para peixes 
como tilápias-do-nilo (Oreochromis ni-
loticus), camarões-d’-água-doce e outras 
espécies. Os mais recentes resultados da 
pesquisa que avaliou a interação entre 
esses nanomateriais e carbofurano, um 
pesticida com alta toxicidade utilizado 
no Brasil em culturas agrícolas, foram 
publicados on-line na revista Ecotoxi-
cology and Environmental Safety em 
novembro e sairão na edição impressa 
em janeiro de 2015. “Quando foi feita a 
combinação com o nanotubo houve um 
aumento de cinco vezes na toxicidade 
do carbofurano para as tilápias”, diz o 
professor Oswaldo Alves, do Laboratório 
de Química do Estado Sólido (LQES) 
do Instituto de Química da Unicamp, 
coordenador da pesquisa. “Isso é um 
claro indicativo de que a nanoestrutura 
está potencializando o efeito tóxico do 
pesticida.” Em outro sentido, ele também 
funciona como um excelente concentra-
dor de pesticidas, metais e hormônios. 
Ou seja, o nanotubo é um material que 
tem propriedades potenciais para uso 
em filtros de sistemas de tratamento de 
água e sensores. “É preciso, no entan-
to, avaliar como será o descarte desses 
NANOTECNOLOGIA y
Dinorah Ereno
materiais e pensar nas implicações am-
bientais futuras”, ressalta Alves. 
Entre os testes feitos no Instituto de 
Pesca, conduzidos pelo professor Edison 
Barbieri em parceria com Diego Stéfani 
Teodoro Martinez, aluno de doutorado 
e pós-doutorado de Alves e atualmente 
pesquisador do LNNano, em Campinas, 
estão o consumo de oxigênio – uma das 
medidas utilizadas para avaliação do me-
tabolismo de organismos – e a capacida-
de de natação dos peixes. As descobertas 
indicam que as nanoestruturas de carbo-
no podem atuar como transportadores 
de pesticidas e afetar o comportamento 
dos peixes, além da sobrevivência deles.
Os testes mostraram que até a concen-
tração de 2 miligramas (mg) de nanotu-
bos por litro na água não houve diferen-
ça em relação ao controle no consumo 
70 z DEZEMBRO DE 2014
Tilápias em 
experimento 
realizado no Instituto 
de Pesca em 
Cananeia: à 
esquerda, imagem 
de microscopia de 
teste com nanotubos 
e chumbo mostra 
filamentos das 
brânquias 
deformados e 
inchados em 
comparação com o 
grupo-controle, à 
direita, em água sem 
substâncias tóxicas
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de oxigênio. Quando o carbofurano foi 
colocado sozinho na água, inicialmente 
houve um aumento no consumo de oxi-
gênio e logo em seguida uma diminuição, 
indicativo de que os peixes estavam co-
meçando a morrer. “Nos experimentos 
feitos com essa substância nas propor-
ções de 0,5, 1 e 2 mg, combinado com o 
nanotubo de carbono (1 mg) o consumo 
de oxigênio baixou rapidamente, apon-
tando uma nítida diferença em relação 
ao grupo de controle”, diz Barbieri, coor-
denador das pesquisas no Instituto de 
Pesca. Em relação à capacidade de nata-
ção, houve uma tendência de diminuição 
à medida que o pesticida e o nanotubo 
estavam na água. 
Iniciadas em 2010, as pesquisas ti-
nham como objetivo estudar a interação 
de nanomateriais com poluentes comuns 
como o chumbo, que em Cananeia, por 
exemplo, consiste em um sério proble-
ma ambiental. “Lá, os afloramentos de 
chumbo provenientes de galenas [mine-
rais compostos por sulfeto de chumbo] 
são naturais e ocorrem quando chove 
muito e há lixiviação do solo”, diz Bar-
bieri. O estudo teve início com a exposi-
ção de tilápias a nanotubos de carbono 
e chumbo em diferentes concentrações 
por períodos de até 96 horas. Os resul-
tados foram apresentados em novembro 
de 2012 por Martinez, em um congresso 
internacional sobre segurança de nano-
materiais chamado NanoSafe, realizado 
a cada dois anos em Grenoble, na França. 
Os nanotubos aumentam em até cinco 
vezes a toxicidade aguda do chumbo pa-
ra as tilápias. No experimento em que 
os peixes foram expostos apenas a essas 
nanoestruturas de carbono não houve 
nenhum sinal de toxicidade aguda até 
o limite de 2 mg por litro.
A primeira fase dos ensaios consistiu 
em fazer o experimento-controle apenas 
com água mineral. Depois foram feitos 
testes com o nanotubo e chumbo sepa-
radamente colocados em diferentes con-
centrações até o limite de 2 mg por litro e, 
por último, com os dois materiais juntos. 
“O consumo de oxigênio diminui em todas 
situações com a presença de ambos”, diz 
Barbieri. Um artigo científico com os re-
sultados da pesquisa saiu publicado no 
Journal of Physics: Conference Series, em 
março de 2013. “Na literatura científica 
mundial são poucos os estudos que tratam 
da interação entre poluentes ambientais 
e nanotubos de carbono, focalizando os 
impactos na fisiologia e comportamento 
PESQUISA FAPESP 226 z 71
72 z DEZEMBRO DE 2014
A Organização para a Cooperação e De-
senvolvimento Econômico (OCDE), por 
exemplo, ressalta que materiais nanoes-
truturados têm propriedades interessan-
tes, mas é preciso cuidado ao incorporá-
-los a outros, sobretudo envolvendo uso 
biológico. “A organização faz um alerta 
para que eles só sejam usados se houver 
dados de laboratório a respeito de sua 
toxicidade ou alguma avaliação ligada 
a possíveis efeitos no organismo”, diz 
Alves, cujo grupo recebe financiamento 
do Instituto Nacional de Ciência, Tecno-
logia e Inovação (INCT) em Materiais 
Complexos Funcionais (Inomat), que tem 
recursos da FAPESP e do Ministério da 
Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). 
As pesquisas agoraterão como foco a 
influência da matéria orgânica presente 
na água de rios e lagos sobre as nanoes-
truturas. “Queremos saber se na presen-
ça de matéria orgânica os pesticidas pa-
ram de interagir com os nanotubos”, diz 
Martinez. “A ideia do projeto é funcionar 
como uma plataforma para todos os po-
luentes ambientais clássicos e emergen-
tes, incluindo hormônios e antibióticos.” 
Dessa forma, será possível avaliar as inte-
rações de vários poluentes com amostras 
nanoestruturadas. “Os trabalhos feitos 
até agora apontam para nós que essas 
nanoestruturas não poderão ir nem para 
o rio nem para o mar.” É preciso, ainda, 
fazer estudos sobre o seu descarte no 
solo e os efeitos sobre plantas, porque já 
se sabe que os seus impactos ambientais 
são de longa duração. n 
de peixes”, diz Martinez. Ainda mais, fal-
tam dados conclusivos sobre os efeitos de 
longa duração desses nanomateriais des-
cartados no ambiente. Isso significa que 
as pesquisas não acompanharam o cres-
cimento do mercado dessas nanoestrutu-
ras com propriedades físicas e químicas 
diferenciadas, que têm crescido ano a ano. 
A interação entre chumbo e nanotu-bos de carbono e seus efeitos tó-xicos sobre brânquias de tilápias 
foi também objeto de estudo de alunos de 
mestrado orientados por Edison Barbieri, 
do Instituto de Pesca. Eles estudaram os 
efeitos dessa combinação sobre as brân-
quias, principal órgão responsável pelas 
trocas gasosas e pela excreção da amônia, 
mecanismo pelo qual são removidos do 
organismo de animais aquáticos resíduos 
tóxicos como amônia, ureia e sais, res-
ponsável por manter o equilíbrio do meio 
interno, isto é, a homeostase. “No expe-
rimento-controle é possível ver todos os 
filamentos das brânquias preservados, 
já com a adição de nanotubos de carbo-
no e chumbo, juntos ou separadamente, 
há deformação e inchaço nas células de 
revestimento das lamelas, responsáveis 
pelas trocas gasosas”, relata Barbieri. 
Os testes com carbofurano e nanotubos 
também tiveram resultados semelhantes. 
Antes dos experimentos terem início, 
foi feita a purificação e caracterização dos 
materiais, visando a um estrito controle da 
qualidade para garantir resultados conver-
gentes. “Parte da tese de Diego foi apren-
der a purificar nanotubos de carbono”, diz 
Alves. “Foram quatro anos em que ele se 
dedicou ao tema e hoje se beneficia disso 
porque tem um material de qualidade pa-
ra os ensaios biológicos e toxicológicos.” 
Alves explica que os ensaios biológicos 
precisam ser feitos com material com-
provadamente muito bem conhecido. “Os 
nanotubos feitos por uma empresa são di-
ferentes daqueles produzidos por outra.” 
Para que o material final tivesse a mesma 
qualidade, os pesquisadores encomenda-
ram nanotubos de uma empresa coreana, 
que antes de ser usado passa por um pro-
cesso refinado de purificação. “Para cada 
material que sai do LQES, fazemos uma 
ficha técnica, onde consta a identificação 
da amostra e dados de sua caracterização.”
A produção de nanotubos hoje é da 
ordem de 20 toneladas por ano, com 600 
diferentes tipos disponíveis no mercado 
para aplicações que englobam nanocom-
pósitos, concreto, tintas especiais, ener-
gia, eletrônica e até aplicações médicas e 
ambientais. Europa e Coreia do Sul en-
cabeçam a lista dos maiores produtores. 
“Embora ainda não existam empresas 
brasileiras produzindo em larga escala 
essas substâncias, precisamos ser proati-
vos, pensar no futuro e na regulação dessa 
tecnologia”, diz Alves. “É preciso cuidar 
do descarte e, para isso, tem que se co-
nhecer todo o ciclo de vida do material, 
o que demanda muita pesquisa.” Atual-
mente, todo o material importado à base 
de nanotubos de carbono entra no Brasil 
simplesmente como material de carbono, 
elemento químico que compõe desde o 
carvão ativo usado em filtros até medi-
camentos, já que não existe uma regula-
mentação específica para nanomateriais. 
Projeto
Instituto Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação em Ma-
teriais Complexos Funcionais (Inomat) (nº 2008/57867-8); 
Modalidade Auxílio Pesquisa – Projeto Temático; Pesquisa-
dor responsável Fernando Galembeck (Unicamp/LNNano); 
Investimento R$ 2.085.423,04 (FAPESP).
Artigos científicos
CAMPOS-GARCIA, J. et al. Ecotoxicological effects of 
carbofuran and oxidised multiwalled carbon nanotubes 
on the freshwater fish Nile tilapia: Nanotubes enhance 
pesticide ecotoxicity. Ecotoxicology and Environmental 
Safety. v. 111, p. 131-7. jan. 2015
MARTINEZ, D. S. T. et al. Carbon nanotubes enhanced the 
lead toxicity on the freshwater fish. Journal of Physics: 
Conference Series. v. 429, n. 012043 mar. 2013.
Imagem de microscópio 
de transmissão 
eletrônica mostra 
nanotubos produzidos 
no Instituto de Química 
da Unicamp
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PESQUISA FAPESP 226 z 73
 
O tema da regulação tem mobilizado 
pesquisadores e indústrias no mundo, 
interessados nas várias possibilidades 
de utilização de nanoestruturas. Nos dias 
5 e 6 de novembro, por exemplo, 
representantes brasileiros estiveram 
presentes em um grande evento na 
Holanda, capitaneado pela Comunidade 
Europeia, que teve como resultado a adesão 
do Brasil a um dos mais importantes clusters 
ligado à regulação internacional da 
nanotecnologia. Outro evento importante, 
no âmbito científico, foi a NanoSafe 2014, 
conferência internacional sobre a produção 
e o uso seguro de nanomateriais, 
realizada entre os dias 18 e 20 de novembro 
em Grenoble, na França. 
Na quarta edição do evento, realizado a 
cada dois anos desde 2008, participaram 
mais de 300 pesquisadores de 30 países, 
que apresentaram 160 comunicações orais 
e 86 pôsteres, além de 12 expositores, entre 
empresas e organizações. “Desde a sua 
primeira versão, o evento procura abordar 
vários temas ligados à segurança dos 
nanomateriais em diferentes sessões”, diz o 
professor Oswaldo Alves, da Universidade 
Estadual de Campinas (Unicamp), presente 
ao evento, onde mostrou os resultados 
do projeto que coordena sobre o aumento 
da toxicidade de nanotubos de carbono para 
peixes quando em contato com o chumbo. 
Entre os assuntos discutidos na 
NanoSafe 2014 estão novas aplicações 
de nanomateriais; nanotoxicologia, com 
estudos envolvendo trato respiratório, 
cérebro e pele como alvos; interações com 
o ambiente; liberação de nanomateriais; 
Regulamentação em pauta
produção industrial e prevenção; análise de 
ciclo de vida; regulação e padronização, e 
desenvolvimento responsável. O Brasil, 
representado por pesquisadores de 
instituições como Unicamp, Universidade de 
São Paulo (USP), Universidade Federal de 
São Paulo (Unifesp), Universidade Federal 
do ABC (UFABC), Universidade Federal de 
Minas Gerais (UFMG) e Universidade 
Federal de Juiz de Fora (UFJF), apresentou 
15 trabalhos. Uma das novidades mostradas 
por algumas empresas foram equipamentos 
portáteis que permitem monitorar a 
presença de nanopartículas em instalações 
industriais, construção e outros ambientes. 
A regulação e a padronização dos 
nanomateriais são fundamentais 
para o desenvolvimento comercial da 
nanotecnologia. “O tema foi colocado 
em pauta pela Comissão Europeia 
com base na Estratégia Europeia para as 
Nanotecnologias, que está apoiada no tripé 
segurança, integração e responsabilidade”, 
Representações 
gráficas de 
nanomateriais: 
nanotubos acima, 
grafeno e 
nanoestruturas 
funcionais, ao lado
Evento na França discute produção e uso seguro de nanomateriais
diz Alves. Um dos blocos de construção 
desse trinômio passa pela padronização. 
“O Parlamento europeu tem destacado 
a importância da padronização como uma 
maneira de acompanhar a introdução dos 
nanomateriais no mercado, avaliando 
que tal situação facilitará a implementação 
de uma regulação efetiva”, relata. 
Algunspaíses, como Bélgica, França e 
Dinamarca, têm implementado regulações 
sobre nanomateriais específicos. 
“Nos Estados Unidos, a Agência de 
Proteção Ambiental (EPA) publicou em 2008 
duas resoluções, dentro do escopo do Ato de 
Controle de Substâncias Tóxicas (TSCA), 
indicando claramente uma mudança de 
postura na questão da regulação da 
nanotecnologia no país”, diz Alves. A FDA, 
agência norte-americana de controle de 
alimentos e medicamentos, também se 
ocupa das aplicações da nanotecnologia 
na área da saúde e tem lançado consultas 
públicas desde 2011. Alves ressalta que, 
apesar de a questão da padronização 
da nanotecnologia estar no centro das 
discussões em Grenoble, essa é uma tarefa 
altamente complexa. “Sabemos que a própria 
natureza dos nanomateriais, caracterizada 
pela falta de homogeneidade, consiste 
em um obstáculo de altíssima dificuldade.” 
A superação dessas dificuldades, na sua 
avaliação, se dará com o desenvolvimento 
não só de novos métodos para a produção 
de materiais nanoestruturados, novos 
equipamentos, como também novos 
protocolos de análise e rastreabilidade. 
Com isso poderá ser possível chegar às 
validações necessárias à padronização. n
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74 z DEZEMBRO DE 2014
Leguminosa usada como 
fertilizante pode aumentar 
em 35% a produtividade 
da cana-de-açúcar
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ão é de hoje que produtores 
rurais do mundo todo usam o 
chamado adubo verde – bio-
massa de uma espécie vegetal 
que serve como fertilizante para outra 
planta –, mas são poucos os estudos cien-
tíficos que explicam como isso funciona 
e quantificam seus resultados. Foi justa-
mente a busca dessas respostas que fez 
o agrônomo Edmilson José Ambrosano, 
pesquisador da Agência Paulista de Tec-
nologia dos Agronegócios (Apta), da Se-
cretaria da Agricultura e Abastecimento 
de São Paulo, em dois projetos apoiados 
pela FAPESP. As pesquisas demonstra-
ram que o uso da crotalária-juncea ou 
simplesmente crotalária (Crotalaria jun-
cea), pode substituir totalmente o uso 
da adubação com nitrogênio químico 
nas lavouras de cana-de-açúcar, gerando 
um aumento de 35% na produtividade 
e ganho econômico de cerca de 150%.
Originária da Ásia, a crotalária cresce 
muito rápido e de forma vigorosa. É a es-
pécie que produz a maior quantidade de 
biomassa no menor tempo. Além disso, é 
uma planta fibrosa e, por isso, usada na 
fabricação de papéis especiais. 
AGRICULTURA y
Adubo 
natural
1 Plantação de 
crotalária: maior 
quantidade de 
biomassa em 
menor tempo
2 Experimento 
realizado no Cena, 
em Piracicaba, 
com aplicação de 
compostos com 
nitrogênio 15 sobre 
a crotalária
Uma das principais vantagens do uso 
como fertilizante vem do fato de ela ser 
uma leguminosa, família cujas espécies 
têm a capacidade de fixar ou incorpo-
rar o nitrogênio do ar em uma molécula 
orgânica. “Com raras exceções no reino 
vegetal, só as leguminosas conseguem fa-
zer essa fixação do ar atmosférico com a 
ajuda de bactérias encontradas nas suas 
raízes”, explica Ambrosano. “Além de 
fornecedora desse elemento, a crotalária 
também é utilizada como espécie recu-
peradora de solos degradados.”
A cana, por sua vez, é uma das maio-
res culturas agrícolas do país. Espécie de 
cultivo semiperene, ela fica no mesmo 
local por quatro a oito anos, sendo colhi-
da todo ano. Ao término desse tempo, o 
canavial é reformado com a destruição 
do velho e o plantio do novo. No Brasil, 
é renovado todos os anos 1,9 milhão de 
hectares. “São nessas áreas ou nas novas 
que se faz a semeadura do adubo verde 
para recuperação do solo e incorporação 
do nitrogênio”, diz Ambrosano. “Isso já 
vem sendo feito no Brasil desde 1934.”
1
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PESQUISA FAPESP 226 z 75
O objetivo do trabalho, que começou 
em 2003 e se estendeu até recentemente, 
era estudar o efeito da adubação verde 
na cana. “Nós já sabíamos que a crotalá-
ria era um bom fertilizante e funcionava 
bem como fornecedora de nitrogênio”, 
conta. “O que queríamos saber era quan-
to desse elemento vai da leguminosa pa-
ra a cana-de-açúcar. Aproveitamos para 
verificar a transferência do nitrogênio 
presente no sulfato de amônio, que é um 
adubo químico muito usado. Nossa ideia 
era comparar a eficiência dos dois tipos 
de fertilizante, o verde e o químico.”
TÉCNICA NUCLEAR
Para realizar o estudo, Ambrosano criou 
um experimento com a técnica chamada 
marcação isotópica do nitrogênio. Esse 
elemento é o mais abundante da atmosfera 
terrestre, com cerca de 78% do total dos 
gases que circundam o planeta – o oxigê-
nio responde por 21%. No ar, ele aparece 
na forma de N2, moléculas formadas por 
dois átomos, numa ligação covalente (que 
compartilha elétrons) tripla, altamente re-
sistente. Por isso, os animais e as plantas 
não conseguem metabolizar o nitrogênio. 
nar uma forma de marcar o que está pre-
sente na crotalária, para que pudéssemos 
verificar o quanto dele iria ser aproveitado 
pela cana”, explica Ambrosano. 
O estudo foi feito no Centro de Ener-
gia Nuclear na Agricultura (Cena), da 
Universidade de São Paulo (USP), tam-
bém em Piracicaba, que produziu um ni-
trogênio com 70% de 15N e 30% de 14N. O 
passo seguinte foi preparar dois terrenos, 
um de 2,80 metros (m) por 2 m e outro 
de 1,40 m por 1 m. Em ambos foi plantada 
crotalária. No primeiro, ela recebeu ureia 
rica em 15N, aspergida em suas folhas. 
No segundo, a plantação recebeu sulfato 
de amônio, também rico em 15N. Depois 
deixou-se a planta crescer até cerca de 
2 m, quando ela foi derrubada e a cana 
plantada nos mesmos terrenos, sendo 
cultivada por cinco anos e colhida três 
vezes. A recuperação do 15N foi medida 
nas duas primeiras colheitas.
Para fazer essa avaliação, o pesquisa-
dor pegava folhas da cana e levava para 
o laboratório, onde, por meio de um es-
pectrômetro de massa verificava a quan-
tidade de nitrogênio marcado, ou seja, 
do 15N da crotalária. “A passagem desses 
elementos da crotalária para a cana, nas 
primeiras duas safras consecutivas, foi 
de 19% e 21%, e do aplicado com sulfato 
de amônio foi de 46% a 49%”, conta Am-
brosano. “Concluímos que o nitrogênio 
da adubação supriu as necessidades da 
cana, equivalente ao uso de 70 quilos 
desse elemento por hectare.”
Apesar de o sulfato de amônio ter 
passado mais nitrogênio para a cana, o 
adubo verde tem outras vantagens que 
superam essa diferença. “Além de ser 
mais barata, a crotalária protege o so-
lo das chuvas fortes e o descompacta, 
melhorando a infiltração de água”, diz 
Ambrosano. n Evanildo da Silveira
Projetos
1. Dinâmica do nitrogênio em cana-de-açúcar após adu-
bação verde com Crotalaria juncea (nº 2006/59705-0); 
Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador 
Responsável Edmilson José Ambrosano (Apta); Investi-
mento R$ 36.860,00 (FAPESP).
2. Dinâmica do nitrogênio em cana-de-açúcar após adu-
bação verde com Crotalaria juncea (nº 1998/16446-6); 
Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador 
Responsável Edmilson José Ambrosano (Apta); Investi-
mento R$ 26.309,10 e US$ 701,02 (FAPESP).
Artigo científico
AMBROSANO, E. J. et al. 15N-labeled nitrogen from green 
manure and ammonium sulfate utilization by the sugarcane 
ratoon. Scientia Agricola. v. 68, n. 3, p. 361-8. jun. 2011. 
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A maneiranatural de aproveitamento 
do nitrogênio se dá por meio das legu-
minosas, com a ajuda de bactérias, espe-
cialmente as do gênero Rhizobium. Esses 
microrganismos se associam às plantas, 
numa simbiose, formando nódulos em 
suas raízes, de onde capturam o gás do 
ar – o solo é poroso – e o transformam 
em compostos nitrogenados como ami-
noácidos, que podem ser utilizados pelos 
vegetais em seu metabolismo. Uma ou-
tra maneira de transformar o nitrogênio 
da natureza num elemento aproveitável 
pelas plantas é o que as fábricas de ferti-
lizantes fazem. Só que o processo gasta 
muita energia e, por isso, ele é o adubo 
mais caro da agricultura. 
O nitrogênio existe na natureza na for-
ma de dois isótopos, o nitrogênio 14 (14N), 
que representa 99,634% do total na atmos-
fera, e o 15 (15N), correspondente a 0,366%. 
Isótopos são variantes de um mesmo ele-
mento químico, com as mesmas proprie-
dades, e que têm o mesmo número de pró-
tons, mas o de nêutrons é diferente. Assim, 
o 14N tem sete prótons e sete nêutrons e o 
15N tem um nêutron a mais, o que o torna 
mais pesado. “Por isso, tivemos de imagi-
Nas ondas da globalização
Primeira expedição científica de circum-navegação dos Estados Unidos mostra 
que a jovem nação buscava um lugar no mundo desde o início do século XIX
OCEANO 
PACÍFICO
OCEANO 
PACÍFICO
ANTÁRTIDA 
A expedição mapeou um trecho de 2.400 
quilômetros do litoral antártico e 
concluiu que ali havia terra firme. Um 
veleiro americano encontrou um barco 
francês nos arredores do continente
PACÍFICO
Um dos grandes legados da 
expedição foi ter produzido 280 
mapas de ilhas do Pacífico, 
região pouco conhecida até 
então, e 180 cartas náuticas
HUMANIDADES 
HISTÓRIA y
Marcos Pivetta
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FONTE EM TEMPOS DE PAZ: A VIAGEM CIENTÍFICA DE CIRCUM-NAVEGAÇÃO DA U.S. EXPLORING EXPEDITION (1838-1842)
E
xatamente 62 anos após terem rompi-
do os laços coloniais com a Inglaterra, 
os Estados Unidos deram uma clara de-
monstração de seu desejo de afirmação no 
plano internacional e de concorrer com 
os europeus na investigação do globo. Forjado no 
último quartel do século XVIII a partir da união de 
13 colônias separatistas da costa Leste da América 
do Norte, o jovem país patrocinou sua primeira ex-
pedição científica de circum-navegação em torno de 
todos os continentes. A bordo de seis veleiros, 346 
homens, entre os quais 40 oficiais, sete cientistas e 
dois artistas, realizaram ao longo de quatro anos, de 
1838 a 1842, um périplo em torno dos continentes 
da Terra. Da longa viagem não resultou nenhuma 
teoria da evolução, como ocorreria ao naturalista 
inglês Charles Darwin anos depois de ter parti-
cipado da volta ao mundo feita pelo navio HMS 
Beagle entre 1831 e 1836. Mas a empreitada serviu 
para lançar as bases de importantes intuições de 
pesquisa, formar quadros técnicos e sobretudo ma-
pear áreas de interesse para a expansão territorial, 
em especial na costa Oeste da América do Norte. 
“A expedição revela que uma cultura impe-
rial pode ser encontrada nos Estados Unidos 
desde os primórdios do Estado nacional”, diz a 
RIO DE JANEIRO 
A cidade foi a primeira parada 
da expedição em 1838. Foi 
descrita pelo capitão Wilkes 
como uma cidade marcada 
pelo convívio do atraso com 
a modernidade, com uma 
“mistura de classes”
TERRITÓRIO 
DOS EUA EM 1838
OCEANO 
ATLÂNTICO
OCEANO 
ÍNDICO
Na época da viagem de 
circum-navegação, entre 1838 
e 1842, as fronteiras dos 
Estados Unidos mal chegavam 
às Montanhas Rochosas, no 
Centro-Oeste da América do 
Norte, e não lhe garantiam saída 
alguma para o lado do Pacífico. 
Por isso, um dos objetivos 
da expedição foi mapear 
boa parte da costa Oeste, entre 
o Oregon e a Califórnia
COSTA OESTE DA AMÉRICA DO NORTE
Itinerário do veleiro Vincennes, 
principal navio da expedição
Itinerário das demais embarcações
Direção seguida
historiadora Mary Anne 
Junqueira, da Universida-
de de São Paulo (USP), que 
fez no fim de 2012 sua tese 
de livre-docência sobre a 
aventura marítima patroci-
nada pelo governo de Wa-
shington. Intitulado “Em 
tempos de paz – A viagem 
científica de circum-nave-
gação da U. S. Exploring 
Expedition (1838-1842)”, 
o trabalho, parcialmente 
financiado pela FAPESP, 
será publicado como li-
vro no próximo ano. Em-
bora pouco conhecida do 
grande público, inclusi-
ve do norte-americano, a 
empreitada da nascente 
nação foi uma das mais 
grandiosas expedições de 
circum-navegações de ca-
ráter técnico-científico le-
vadas a cabo na primeira 
metade do século XIX. A 
Inglaterra e a França, as 
duas potências de então, 
fizeram mais viagens desse 
tipo, mas geralmente des-
tinavam um ou dois navios 
para essas iniciativas. Nessa época, expedições 
marítimas globais também foram empreendidas 
pela Espanha, que tentava manter um olho vigi-
lante sobre suas colônias extramarinhas, e pela 
Rússia, esta, sim, uma nação em ascensão, igual-
mente em busca de prestígio e influência no plano 
internacional. “Os Estados Unidos procuravam 
seu lugar no mundo e a rivalidade com os euro-
peus não se dava apenas em terra, mas também 
em águas internacionais”, afirma Mary Anne.
Sob o comando de Charles Wilkes, um tem-peramental capitão de 42 anos que viajava na chalupa de guerra Vincennes, a jornada 
marítima dos norte-americanos iniciou-se no 
porto de Norfolk, no estado da Virgínia, em 18 de 
agosto de 1838. Os veleiros navegaram até as pro-
ximidades da Ilha da Madeira, não muito longe da 
África, e rumaram posteriormente para a porção 
meridional do continente americano. A primeira 
parada foi no Rio de Janeiro, sociedade, segundo 
o capitão, marcada pelo convívio do atraso com 
a modernidade, por uma “mistura de classes” e 
onde “a vegetação parece fixar a atenção sobre 
todas as outras coisas”. A expedição contornou 
a América do Sul e, além do Brasil, fez escalas na 
Argentina, Antártida, Chile e Peru. Em seguida, 
singrou pelo Pacífico Sul (Taiti, Samoa), ancorou 
78 z DEZEMBRO DE 2014
em Sydney, na Austrália, e visitou outro ponto da 
Antártida. Depois, subiu ao Pacífico Norte, ma-
peou detalhadamente a costa Oeste da América 
do Norte e voltou ao Pacífico em direção às Fili-
pinas e Cingapura. Por fim, entrou nas águas do 
Índico, dobrou o Cabo da Boa Esperança, na atual 
África do Sul, e voltou para o Atlântico. O retor-
no à pátria-mãe se deu em 10 de junho de 1842, 
quando as embarcações jogaram âncora em Nova 
York (ver a rota da expedição nas páginas 74 e 75). 
Em sua chegada, a configuração da expedição 
diferia consideravelmente da exibida no momen-
to da partida. Contabilizava apenas três barcos 
remanescentes: o Vincennes, principal veleiro à 
frente da jornada, e os brigues Porpoise e Oregon. 
Este último foi comprado durante a viagem para 
substituir o Relief, barco tido como lento, que fora 
enviado de volta para a América do Norte após a 
escala no Chile. Dois veleiros, o Peacock e o Sea 
Gull, naufragaram durante a viagem. Um terceiro, 
o Flying Fish, foi vendido em Cingapura por estar 
avariado e possivelmente incapaz de terminar a 
volta ao mundo. O número de tripulantes tam-
bém era menor do que quando a expedição havia 
deixado Norfolk, porém não foi determinado. Na 
bagagem, 40 toneladas de amostras de plantas, 
animais e peças recolhidos durante o périplo. Os 
espécimes coletados serviram como base para a 
formação do acervo inicial que deu origem, em 
1846, ao complexo de museus Smithsonian Ins-titution, na capital Washington.
A viagem percorreu cerca de 140 mil quilôme-
tros, algo como quase 40% da distância da Terra à 
Lua, e ficou registrada em um relatório composto 
de 23 volumes, que foram publicados ao longo de 
30 anos. Redigidos pelo próprio capitão Wilkes, 
que enfrentou uma corte marcial (por desmandos 
a bordo e acusações de assassinato de nativos) lo-
go após o fim da expedição, mas escapou de ser 
punido, os cinco primeiros tomos foram ao prelo 
em 1844. Eles compunham a narrativa da jornada 
marítima. Esse foi, aliás, o material de base pa-
ra o estudo da historiadora da USP, que passou 
duas temporadas nos Estados Unidos para con-
sultar os originais. “A pesquisa analisou também 
cartas pessoais, em particular as do comandante, 
documentos oficiais do governo dos EUA, auto-
biografias, outros relatos de viagem e os volumes 
científicos do relatório”, comenta Mary Anne. 
Redigidos pelos especialistas a bordo dos ve-leiros, os 18 volumes científicos abordavam distintos aspectos técnicos – etnografia, 
geologia, geografia, botânica, meteorologia, zoo-
logia, entre outros – levantados durante a volta 
ao mundo. O último tomo, sobre física e escrito 
pelo próprio comandante do Vincennes, só virou 
livro em 1874. A equipe científica da expedição 
era composta pelos naturalistas Charles Pickering 
e Titian Ramsay Peale, o etnógrafo e linguista 
Horatio Hale, o especialista em conchas Joseph 
Pitty Couthouy, o mineralogista James Dwight 
Dana, os botânicos William Rich e William Dunlop 
Brackenridge e os artistas Alfred T. Agate e Joseph 
Drayton, encarregados de produzir a iconografia 
associada à jornada e seus achados. 
A cargo da Marinha de Guerra, que em tempos 
de paz se dedicava a esse tipo de tarefa, a viagem 
exploratória tinha como objetivo oficial e decla-
rado refazer e corrigir antigas cartas náuticas 
e fazer novas sobre pontos do globo ainda não 
esquadrinhados. Ter bons mapas próprios de 
navegação era, sem dúvida, importante para os 
americanos garantirem a segurança de sua frota 
de navios comerciais e militares, que, assim, po-
deria desviar de obstáculos marítimos e escolher 
o porto mais seguro e adequado para ancorar. 
Um dos grandes legados da expedição foi ter 
produzido 280 mapas de ilhas do Pacífico, região 
pouco conhecida até então, e 180 cartas náuticas. 
Mas os interesses por trás da expedição eram 
bem mais amplos: construir um saber técnico-
-científico nacional, independentemente dos 
conhecimentos estratégicos dominados pelas 
potências europeias, assumir um papel geopo-
lítico no mundo e prospectar novos territórios 
que poderiam ser anexados aos seus domínios. 
“Empreitadas desse tipo sempre tinham objeti-
vos oficialmente não declarados”, afirma a histo-
riadora. “Eles dedicaram um tempo significativo 
mapeando a costa Noroeste da América do Norte, 
predominantemente da Califórnia e do Oregon.” 
Não por acaso essas regiões, a primeira perten-
cente ao México e a segunda em disputa com os DES
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Desenhos de espécies 
de morcegos, aves 
e répteis coletados 
na expedição: viagem 
rendeu 40 toneladas 
de amostras
Capitão Charles Wilkes: 
comandante da 
expedição tinha 42 anos, 
era temperamental e foi 
à corte marcial após o 
fim da viagem. Escreveu 
cinco volumes com a 
narrativa da 
circum-navegação
PESQUISA FAPESP 226 z 79
ingleses, foram anexadas aos Estados Unidos seis 
anos depois do fim da expedição. O que se cha-
mava de Oregon naquela época representava toda 
a costa Oeste do América do Norte entre a atual 
Califórnia e o Canadá, ou seja, englobava os con-
temporâneos estados do Oregon e de Washington. 
Cabe lembrar que, na época, as fronteiras do país 
mal chegavam às Montanhas Rochosas, no Centro-
-Oeste da América do Norte, e não lhe garantiam 
saída alguma para o lado do Pacífico.
Um episódio inusitado ocorreu quando um dos veleiros da expedição, o Porpoise, de-parou em janeiro de 1840 com as corvetas 
Astrolabe e Zélée da missão francesa chefiada pelo 
comandante Jules Dumont d’Urville perto da atual 
costa Leste da Antártida. O encontro serviu para 
acirrar ainda mais as rivalidades entre as potên-
cias situadas dos dois lados do Atlântico. Até hoje 
se discute quem descobriu que a Antártida não 
era apenas um iceberg gigante flutuante sobre o 
oceano (como é o Ártico), mas sim um continente, 
com terra firme, coberta por gelo e neve. Wilkes 
mapeou um trecho de 2.400 quilômetros do li-
toral antártico, região hoje denominada Terra 
de Wilkes, e reivindicou o feito para si. O mes-
mo fez D’Urville, cuja expedição foi a primeira 
a calcular a localização do polo Sul magnético, e 
esteve em terra firme na Antártida. O lugar em 
que os franceses estiveram foi batizado de Terre 
Adélie, referência a Adèle, mulher de d’Urville. 
Especialista em história dos Estados Unidos, 
formadora de uma nova geração de estudiosos e 
dedicada a esse tema, Mary Anne se surpreendeu 
com a escassez de literatura, acadêmica e mesmo 
popular, sobre a grande a viagem exploratória pa-
trocinada pela ex-colônia inglesa. “A expedição foi 
praticamente esquecida”, afirma a historiadora da 
USP. A memória curta sobre uma 
empreitada tão grandiosa não cos-
tuma ser um traço dos norte-ame-
ricanos, sempre prontos a louvar 
seus feitos. Na primeira metade 
do século XIX, as circum-nave-
gações eram, devido aos custos e 
riscos, comparáveis às viagens es-
paciais contemporâneas, segundo 
alguns estudiosos. “Num tempo 
em que uma viagem ao Pacífico 
era equivalente a uma viagem mo-
derna à Lua, uma jornada desse 
tipo era uma oportunidade única 
para os cientistas investigarem 
hábitats exóticos: florestas tro-
picais, vulcões, lagoas tropicais, 
icebergs e desertos”, escreve o 
historiador Nathaniel Philbrick, 
em seu livro Mar de glória – Via-
gem americana de descobrimento 
– Expedição exploratória dos Es-
tados Unidos, lançado em 2004. 
Destinado ao grande público, a 
obra de Philbrick é o trabalho de 
divulgação mais conhecido sobre 
a expedição. 
Diretamente beneficiado com os saberes adqui-
ridos e os espécimes coletados durante a viagem, 
o Smithsonian é uma exceção nesse contexto de 
silenciamento sobre a importância da grande expe-
dição de circum-navegação. Em 1985, por ocasião 
do aniversário de 75 anos do Museu de História 
Natural, que faz parte do complexo mantido pela 
institução sediada em Washington, foi publicado 
o livro Magnificent voyagers. The U. S. Exploring 
Expedition, 1838-1842, organizado por Herman 
Viola e Carolyn Margolis. 
Ilustração de homens 
medindo o tronco 
de árvores no Oregon: 
região na costa Oeste 
da América do Norte, 
então em disputa 
com os ingleses, 
foi mapeada pela 
expedição
80 z DEZEMBRO DE 2014
Em seu estudo, Mary Anne discute o con-texto das viagens da circum-navegação, tenta compreender os saberes que os norte-
-americanos queriam apreender com a expedi-
ção e destaca seus interesses em outros países 
das Américas. Ela também levanta hipóteses 
para explicar por que os americanos parecem 
pouco interessados em lembrar os feitos da ex-
pedição. Uma delas diz respeito à natureza do 
capitão Wilkes, militar polêmico, que foi a cor-
tes marciais. A historiadora, no entanto, tende 
a pensar que o fator mais decisivo foi de outra 
ordem. “Eventos como a guerra com o México 
entre 1846 e 1848 e, principalmente, a Guerra 
Civil, entre 1861 e 1865, demandaram esforços 
da Marinha de Guerra e energia dos norte-ame-
ricanos, relegando os feitos da expedição ao es-
quecimento”, diz Mary Anne. A guerra com o 
México, por exemplo, ampliou em um quarto o 
territóriodos Estados Unidos, que tocou o Pa-
cífico com a anexação da Califórnia. 
Nesse contexto, a expedição de Wilkes figura 
como uma afirmação dos Estados Unidos entre 
as décadas de 1830 e 1840, quando a jovem repú-
blica representativa era ainda um experimento 
e o Estado nacional carecia de consolidação. Em 
meio a outras iniciativas concorrentes, a circum-
-navegação liderada pelo veleiro Vincennes mos-
tra, segundo a historiadora, um mundo de trocas, 
intercâmbios e trabalhos científicos realizados 
em âmbito transnacional na primeira metade do 
século XIX. Tudo isso em um ritmo já acelerado, 
navegando a caminho da globalização. n
Projeto
Em tempos de paz – A viagem científica de circum-navegação da U. 
S. Exploring Expedition (1838-1842) (nº 2014/50527-8); Modalida-
de Auxílio Publicação Regular – Livro Brasil; Pesquisador responsá-
vel Mary Anne Junqueira (USP); Investimento R$ 6.000,00 (FAPESP).
Reprodução do veleiro 
Vincennes, o principal 
barco da expedição, 
e desenhos de seres 
marinhos coletados: 
viagem percorreu 
140 mil quilômetros
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Pós-graduação forma um mestre por dia 
na área e incorpora temas como 
neurociência e mudanças climáticas
E
ntre 27 e 31 de outubro, quase 
mil pesquisadores com doutorado 
subiram a serra da Mantiqueira e 
participaram do 16º Encontro da 
Associação Nacional de Pós-graduação 
em Filosofia (Anpof ), em Campos do 
Jordão, interior paulista. Cerca de 2.200 
apresentações foram feitas em sessões 
temáticas e em 54 grupos de trabalho 
durante a reunião, que ocorre a cada 
dois anos desde 1984. “O evento deste 
ano foi 15% maior do que o anterior”, 
diz Marcelo Carvalho, presidente da 
Anpof e coordenador de pós-graduação 
da Escola de Filosofia, Letras e Ciências 
Humanas da Universidade Federal de 
São Paulo (EFLCH-Unifesp). A maior 
participação de professores e doutores 
em filosofia no encontro reflete a expan-
são da pós-graduação na área. Em 2004, 
havia 14 programas de pós em filosofia. 
Hoje existem 41, que oferecem 40 cur-
sos de mestrado e 21 de doutorado, de 
acordo com dados da Coordenação de 
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível 
Superior (Capes). Atualmente cerca de 
720 docentes ministram aulas e orien-
tam alunos na pós. Entre 2010 e 2012, 
cerca de 1.100 dissertações de mestrado 
– em média, uma por dia – e 350 teses 
de doutorado em filosofia foram defen-
didas no país.
Não se trata apenas do crescimento 
de uma área de pesquisa cujo primeiro 
programa de pós-graduação, com mes-
trado e doutorado, foi criado em 1971 
na Universidade de São Paulo (USP) – o 
segundo curso de doutorado só surgiria 
em 1980, na Universidade Federal do 
Rio de Janeiro (UFRJ). “Nos últimos 10 
anos, a comunidade de filósofos mudou 
muito e a pós, antes concentrada em São 
Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio 
Grande do Sul, se espalhou por todo o 
Brasil”, afirma Carvalho. Atualmente, 
todas as regiões do país dispõem de ao 
menos um curso de pós-graduação em 
filosofia. Na região Norte, a última a ofe-
recer formação na área, a Universidade 
Federal do Pará (UFPA), iniciou suas ati-
vidades no mestrado a partir de agosto 
de 2011. Até o fim do ano, a Capes deve 
FILOSOFIA y
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Maior e 
diversificada
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Uma das conferências mais concorridas 
no encontro da Anpof foi, sem dúvida, a 
do filósofo Paulo Arantes, da USP, que 
tratou das manifestações populares de 
junho de 2013. Mas a apresentação so-
bre “Questões epistemológicas, lógicas 
e ontológicas na filosofia da mecânica 
quântica”, feita por Décio Krause, pro-
fessor de filosofia da Universidade Fede-
ral de Santa Catarina (UFSC), também 
atraiu um bom público. Era preciso ter 
um certo conhecimento de física para 
entender alguns detalhes da exposição, 
mas isso aparentemente não afugentou 
muitos dos presentes ao encontro.
Algumas vertentes atuais da pesqui-
sa em filosofia encontram resistência 
em setores da academia. “Sofro muitas 
críticas”, diz Sofia Stein, coordenadora 
do curso de graduação de filosofia da 
Universidade do Vale do Rio dos Sinos 
(Unisinos), em São Leopoldo, Rio Gran-
de do Sul. “Há quem diga que, por não 
trabalhar essencialmente com conceitos, 
mas sim com experimentos, não faço 
mais filosofia. É como se eu estivesse pe-
cando, trabalhando com métodos errados 
e propensa a dizer falsidades. O filósofo 
quer ser perfeito. Na área experimen-
dar um parecer, favorável ou não, para 
a criação de mais 10 cursos de mestrado 
ou doutorado em filosofia. “As propostas 
vêm de todas as partes do país, de Ro-
raima ao Rio Grande do Sul”, diz Vini-
cius Berlendis de Figueiredo, professor 
de filosofia da Universidade Federal do 
Paraná (UFPR) e vice-coordenador da 
área de Filosofia, Teologia e Ciências da 
Religião da Capes. 
ENSINO OBRIGATÓRIO
Um dos fatores que impulsionaram a área 
de filosofia foi uma alteração no artigo 36 
da Lei de Diretrizes e Bases da Educação 
(LDB). Em julho de 2008, a Presidência 
da República sancionou um projeto de 
lei que tornou obrigatório o ensino de 
sociologia e filosofia nas escolas de en-
sino médio, públicas ou particulares, de 
todo o país. A repercussão imediata da 
medida foi na graduação, de onde saem 
os bacharéis e licenciados em filosofia, 
potenciais interessados em dar aulas no 
ensino médio. “Mas, como a graduação e 
a pós estão integradas, uma coisa reflete 
na outra”, comenta Figueiredo. “Além 
disso, o crescimento da pós em filosofia 
também se beneficiou de um movimen-
to mais amplo, que estimula a expansão 
e descentralização da pós como um to-
do no país.” Em paralelo ao evento da 
Anpof em Campos do Jordão ocorreu a 
segunda edição do Encontro Nacional 
dos Professores de Filosofia do Ensino 
Médio, iniciativa que também contribui 
para aproximar a educação da pesquisa. 
O crescimento da pós expandiu o le-
que de opções de pesquisa e levou à in-
clusão de temas contemporâneos, ori-
ginados às vezes nas chamadas áreas 
duras das ciências, ao lado de vertentes 
e autores mais tradicionais da filosofia. 
Em 2004, havia 
14 programas de 
pós-graduação 
em filosofia. 
Atualmente, 
há mais de 40, 
de acordo com 
dados da Capes 
PESQUISA FAPESP 226 z 85
de Platão a Hannah Arendt, estiveram 
afinados com as ciências e profundamen-
te preocupados com os acontecimentos 
políticos de seu tempo”, diz a professora 
da PUC-Rio. “O grande acontecimento 
político de nosso tempo é a crise ecológi-
ca.” Para a pesquisadora, os mesmos con-
ceitos que ela utilizava em seus trabalhos 
sobre a metafísica moderna são funda-
mentais para desenvolver sua pesquisa 
atual. Essas ideias ganharam um novo 
sentido, que envolve a relação do homem 
com a natureza e outros entes. Mas Dé-
borah não vê exatamente nenhum corte 
radical entre seus trabalhos mais antigos 
de pesquisa filosófica e os novos. 
ANPOCS 
Exatamente no mesmo período em que 
os filósofos se reuniram em Campos do 
Jordão, a Associação Nacional de Pós-
-graduação e Pesquisa em Ciências So-
ciais (Anpocs) promoveu seu 38º encon-
tro anual. O evento ocorreu em Caxam-
bu, Minas Gerais, e reuniu cerca de 1.200 
pessoas, das quais 970 apresentaram ao 
menos um projeto de pesquisa. Desde 
2006, o número de pesquisadores que 
divulga um trabalho no encontro – que 
“Há quem diga 
que, por não 
trabalhar 
essencialmente 
com conceitos, 
mas sim com 
experimentos, não 
faço mais filosofia”, 
diz Sofia Stein 
tal, você erra.” Formada em filosofia háquase três décadas, Sofia está, há quatro 
anos, à frente do grupo de pesquisa So-
cial-Brains e do Laboratório de Filosofia 
Experimental e Estudos da Cognição da 
Unisinos, que une filósofos, psicólogos 
e neurocientistas. Nu-
ma definição simplis-
ta, Sofia, que sempre 
trabalhou com filoso-
fia da linguagem e se-
mântica, hoje chefia 
um grupo em filosofia 
da neurociência. Seu 
laboratório iniciou o 
desenho de experi-
mentos e em breve 
deve colocar em ati-
vidade um eletroen-
cefalograma para ana-
lisar a atividade ce-
rebral em adultos. “A 
investigação de even-
tos neurológicos po-
de ser complementar 
a estudos de semânti-
ca”, diz Sofia. 
A exemplo da co-
lega gaúcha Déborah 
Danowski, professo-
ra da Pontifícia Universidade Católica 
do Rio de Janeiro (PUC-Rio), também 
redirecionou o enfoque de sua carrei-
ra nos últimos cinco anos. Especialista 
em filosofia moderna e metafísica, ela 
acrescentou ao seu campo de atuação a 
temática ambiental, em especial a ques-
tão da crise causada pela iminência das 
mudanças climáticas. “Passei realmente 
a prestar atenção a essa questão quando 
me dei conta de que as mudanças que os 
cientistas do IPCC [Painel Intergoverna-
mental sobre Mudanças Climáticas, na 
sigla em inglês] e de outras organizações 
estavam prevendo para o futuro do cli-
ma terrestre iriam acontecer já nas pró-
ximas décadas”, afirma Déborah. “Isso 
significa que minha filha, por exemplo, 
vai ter uma grande parte da sua vida di-
retamente afetada pelo que estamos fa-
zendo agora como sociedade.” 
Segundo a filósofa, muitos acadêmicos 
ainda preferem questionar as pesquisas 
sobre o clima, na maior parte das vezes 
sem sequer ler o que os cientistas estão 
dizendo. “É como se eles se consideras-
sem imunes ao que está acontecendo à 
sua volta. Não se lembram, por exem-
plo, de que todos os grandes filósofos, 
reúne acadêmicos de mais de uma cen-
tena de centros de pós-graduação em an-
tropologia, ciência política, relações in-
ternacionais e sociologia – gira em torno 
de mil. Houve uma mudança de patamar 
em termos do número de participantes 
do evento em meados da década passa-
da. Nos anos 1990, a reunião da Anpoc 
atraía menos de 500 pesquisadores com 
trabalhos aceitos pelo evento. Essa bar-
reira, do meio milhar de pesquisadores 
com trabalhos aprovados, só foi rompi-
da em 2003. 
“Hoje os temas tratados no encontro 
são muito amplos”, diz o antropólogo 
Gustavo Lins Ribeiro, da Universidade 
de Brasília (UnB), que termina no final 
deste ano seu mandato de presidente 
da Anpocs. “Nos últimos 10 anos, as 
pesquisas na área de relações interna-
cionais cresceram bastante.” De acordo 
com dados da Capes, havia no país seis 
programas com mestrado e doutorado 
e 13 apenas com mestrado em 2004 na 
área de ciência política e relações in-
ternacionais. Em 2012, esses números 
passaram, respectivamente, para 17 e 
33, além da existência de seis mestrados 
profissionais. n Marcos Pivetta
86 z DEZEMBRO DE 2014
Campeonato de 
rúgbi em cadeira 
de rodas: fotografia 
aproximou 
pesquisador dos 
entrevistados
PESQUISA FAPESP 226 z 87
Tese premiada sugere que 
próteses para amputados e exoesqueletos 
retomam o ideal do ciborgue 
O homem-máquina
U
ma pesquisa de doutorado que con-
quistou o mais recente Prêmio Capes 
de Tese sugere que a ideia do ciborgue, 
híbrido de homem e máquina que seria 
capaz de extrapolar limites biológicos, foi apro-
priada pelo imaginário acerca das tecnologias 
que buscam reabilitar pessoas com membros 
amputados e vítimas de lesões na medula ós-
sea, com força para, no caso de alguns atletas 
paralímpicos, até mesmo apagar o estigma que 
costuma depreciar a identidade social dessas 
pessoas. Defendida na Faculdade de Filosofia, 
Letras e Ciências Humanas da Universidade de 
São Paulo por Joon Ho Kim, sob orientação da 
professora Sylvia Caiuby Novaes, a tese venceu 
o prêmio Capes na categoria Antropologia e Ar-
queologia. “Fiquei surpreso com a premiação, 
porque há incontáveis pesquisas de excelência em 
áreas mais tradicionais da antropologia, como, 
por exemplo, antropologia urbana e, especial-
mente, etnologia indígena”, diz Joon Ho Kim. 
O tema da tese é um desdobramento de sua 
dissertação de mestrado, defendida em 2005, na 
qual Joon abordou o imaginário das tecnologias 
cibernéticas na produção cinematográfica das 
últimas duas décadas, em filmes como Johnny 
Mnemonic (1995) e a trilogia Matrix (1999 a 2003), 
nos quais os personagens se conectam a redes de 
informática por meio de plugues espetados na 
cabeça, ou a série O exterminador do futuro. “Os 
ciborgues e o ciberespaço dos filmes são produ-
tos do que poderíamos chamar de cibercultura, 
uma resposta positiva da cultura na criação de 
uma nova ordem do real diante de contextos iné-
ditos, decorrentes da disseminação das tecnolo-
gias chamadas cibernéticas e da vulgarização de 
discursos científicos, que desafiam as categorias 
tradicionais de interpretação da realidade”, diz. A 
cibercultura deriva de conceitos que surgiram com 
Cybernetics, de Norbert Wiener, livro publicado 
em 1948 que propunha reunir num modelo teórico 
os sistemas de controle existentes em máquinas e 
organismos, e ganharam a ficção em obras como 
Cyborg, de Martin Caidin, que inspirou o seriado 
O homem de seis milhões de dólares (1974-1978). 
Nele, o protagonista é um astronauta cujo corpo 
destroçado foi reconstruído com componentes 
desenvolvidos pela indústria aeroespacial.
Quando desenhou o projeto do doutorado, 
Joon propôs-se a analisar duas categorias: os 
amputados e as pessoas que receberam órgãos 
transplantados. “Numa delas, trata-se de agregar 
ao corpo máquinas ou artefatos produzidos para 
substituir funções orgânicas. Já a outra envolve 
uma espécie de mistura de corpos, em que se 
usam órgãos de um corpo como peças de repo-
sição para outros corpos”, afirma. Logo perce-
beu que as categorias exigiam procedimentos de 
ANTROPOLOGIA y
Fabrício Marques
JO
O
N
 K
IM
88 z DEZEMBRO DE 2014
exoesqueleto, na contramão do que ocor-
re com muitas próteses para amputados, 
esconde a deficiência. O indivíduo con-
segue ficar de pé, mas há pouco ou ne-
nhum benefício fisiológico comprovado, 
ao contrário de outras terapias, como a 
marcha induzida com eletroestimulação 
funcional. A obsessão em encapsulá-los 
dentro de corpos robóticos, em detri-
mento de outras terapias, parece mais 
motivada pelo simbolismo da possibili-
dade de andar sobre as duas pernas do 
que por uma reabilitação efetiva”, diz. 
Nas entrevistas que realizou no tra-
balho de campo, o antropólogo consta-
tou que lesados medulares são bastante 
cautelosos em relação à promessa dos 
exoesqueletos. “A maioria acha que falta 
muito para que substituam a cadeira de 
rodas”, afirma. A exceção, em geral, são 
os pacientes que perderam os movimen-
tos há pouco tempo. “Esses estão dispos-
tos a qualquer coisa para voltar a andar.”
Para Joon, o apelo dos exoesqueletos, 
ao contrário do que acontece com as pró-
teses de amputados, resgata ideais encon-
trados na eugenia, a aplicação de métodos 
que sistematicamente reforçam determi-
nadas características socialmente valo-
rizadas e eliminam outras, socialmente 
rejeitadas. A eugenia foi apropriada pela 
política racial do nazismo, que pregava 
a morte ou a esterilização de indivíduos 
1 Marco Aurélio Borges, 
lançador de disco 
2 e 3 Campeonato 
Brasileiro de Rúgbi em 
Cadeira de Rodas
campo e tinham lógicas culturais muito 
distintas. “O estigma do amputado não é 
o mesmo que recai sobre o transplanta-
do”, observa. Resolveu, então, restringir 
o foco de sua pesquisa, para comparar 
dois grupos de pessoas com deficiência 
do sistema locomotor – os amputados 
e cadeirantes vítimas de lesão medular 
– e investigar as transformaçõesque as 
novas tecnologias impõem à identidade 
social dessas pessoas. “Originalmente, 
eram categorias semelhantes”, diz Joon. 
“Em comum, tinham a depreciação de 
sua identidade social oriunda da inca-
pacidade de manter a posição ereta do 
corpo e de andar com os dois pés, e se en-
caixavam na figura popular do ‘aleijado’.” 
ORGULHO
Isso mudou nos últimos anos. De um 
lado, muitos amputados livraram-se das 
limitações e de boa parte do estigma ao 
conquistarem próteses inovadoras e de 
alta resistência. E vários deles exibem 
as próteses com orgulho, em vez de es-
condê-las, como era comum no passado. 
“O surgimento de tecnologias protéticas 
que habilitam amputados a competirem 
em nível olímpico tem produzido rea-
ções que contrariam a regra geral se-
gundo a qual se evita expor aquilo que 
causa estigma”, afirma Joon. “E ganha 
cada vez mais projeção na mídia a ima-
gem de amputados estereotipados com a 
realização do sonho do ciborgue: o cor-
po orgânico potencializado com sua hi-
bridação com sistemas cibernéticos.” O 
melhor exemplo é o atleta sul-africano 
Oscar Pistorius, que nasceu com uma 
deficiência congênita chamada hemi-
melia fibular e amputou as duas pernas, 
mas obtinha alto desempenho correndo 
com próteses de fibra de carbono. Ele foi 
o primeiro atleta paralímpico a disputar 
uma olimpíada, a de Londres, em 2012, 
em igualdade de condições com atle-
tas não deficientes. Tentou disputar a 
Olimpíada de Beijing, em 2008, mas teve 
a participação vetada pela Associação 
Internacional de Federações de Atletis-
mo. O órgão considerou que as próteses 
garantiam a Pistorius vantagem sobre 
os atletas concorrentes. Ele recorreu e, 
quatro anos depois, conseguiu chegar 
às semifinais da prova dos 400 metros. 
A situação é bem diferente no caso 
das pessoas com lesões medulares. Elas 
seguem dependentes de cadeiras de ro-
das e a maioria das poucas tecnologias 
disponíveis não se mostrou capaz, ain-
da, de aliviar uma série de efeitos cola-
terais decorrentes da paralisia, como a 
falta de retorno venoso e a osteoporose. 
A tecnologia dos exoesqueletos robóti-
cos, ainda em desenvolvimento, encarna 
uma promessa de reabilitação similar à 
das próteses dos amputados, mas por 
enquanto se trata apenas de uma pro-
messa. Já há produtos com aprovação 
para uso clínico, inspirados em tecnolo-
gias da indústria bélica, mas com custos 
altíssimos. O neurocientista brasileiro 
Miguel Nicolelis exibiu um protótipo 
na festa de abertura da Copa do Mundo 
– um paraplégico chutou uma bola. “O 
1
2
1
PESQUISA FAPESP 226 z 89
superar limitações do corpo humano. De 
acordo com William Saad Hossne, fun-
dador da Sociedade Brasileira de Bioé-
tica, entre os conceitos mais discutidos 
atualmente destacam-se os propostos por 
Raymond Kurzweil, do Massachusetts 
Institute of Technology, para quem seria 
possível alcançar a imortalidade por meio 
de processos que revertem o envelheci-
mento ou por meio da transferência de 
conteúdo cerebral para um meio físico 
além do corpo, como um novo hardware. 
“Nesse contexto, o indivíduo deixaria de 
ser humano para se tornar pós-humano”, 
diz Hossne. No debate acerca desse ce-
nário, coabitam te-
mores envolvendo a 
ameaça de desumani-
zação e as promessas 
de transformar o ho-
mem num ser aper-
feiçoado. Para Hoss-
ne, a discussão levada 
a cabo pela bioética é 
complexa e não con-
segue articular uma 
receita a ser seguida, 
mas pode ser útil pa-
ra a questão das pró-
teses e dos exoesque-
letos robóticos. “É 
preciso contemplar 
riscos e benefícios e 
analisar qual é o ob-
jetivo que se busca. 
Não dá para afirmar 
que um exoesqueleto 
Para Joon, os 
exoesqueletos 
robóticos 
resgatam ideais 
encontrados na 
eugenia, agora 
na forma de 
um produto
considerados “anormais”. “A lógica dos 
exoesqueletos robóticos segue a mesma 
lógica dos testes genéticos e da seleção 
de embriões para escolha de certas ca-
racterísticas, em que a eugenia voltou 
como um produto de mercado”, diz. “O 
que é mais importante: garantir a aces-
sibilidade do cadeirante ou fazê-lo ficar 
de pé – mesmo sabendo que isso não re-
sulta em reabilitação de fato?”, indaga.
Joon compara a preeminência da mão 
direita, objeto de um estudo clássico da 
antropologia, com a obsessão por uma 
tecnologia capaz de fazer os lesados me-
dulares andarem novamente. A predis-
posição biológica dos 
seres humanos a usar 
a mão direita, ele diz, 
está na base das cul-
turas cujo sistema 
simbólico valorizam 
o lado direito em de-
trimento do esquerdo. 
“O significado de di-
reito e esquerdo trans-
pôs-se para conceitos 
como puro e impuro. 
Os canhotos são repri-
midos em várias cul-
turas e forçados a usar 
a mão direita”, afirma. 
Ele também cita víti-
mas de moléstias co-
mo a hipertricose la-
nuginosa congênita, 
que cobre o corpo de 
seu portador com pe-
los finos e felpudos e 
rendeu a um doente o apelido de “menino 
lobo”, ou a epidermodisplasia verrucifor-
me, tema de um documentário denomi-
nado Metade homem, metade árvore. “Há 
alguns atributos que são culturalmente 
associados a características humanas, 
como a pele lisa e com poucos pelos, cuja 
ausência é vista simbolicamente como 
algo subumano. A incapacidade de ficar 
de pé e andar ereto causa o mesmo tipo 
de desconforto, daí a obsessão social por 
colocar os cadeirantes de pé”, afirma.
A bioética, campo transdisciplinar 
que estuda a dimensão ética dos modos 
de tratar a vida no contexto da pesquisa 
científica e de suas aplicações, vem discu-
tindo a interação do corpo humano com a 
máquina num contexto mais abrangente, 
o do chamado pós-humanismo, que pro-
põe o uso da biotecnologia, da informáti-
ca, da robótica e da nanotecnologia para 
que coloca alguém de pé traz pouco be-
nefício. Quem tem de avaliar o benefício 
é quem vai usá-lo. O que é pouco para 
mim pode ser muito para ele.” 
Joon conheceu e entrevistou pacientes 
com lesões medulares no Ambulatório de 
Reabilitação Raquimedular do Hospital 
de Clínicas da Unicamp, coordenado pe-
lo bioengenheiro Alberto Cliquet Junior, 
que tem a carreira dedicada ao desenvol-
vimento de equipamentos para reabilita-
ção de lesados medulares, paraplégicos e 
tetraplégicos, assim como à aplicação de 
terapias com uso desses equipamentos. 
Também acompanhou quatro campeo-
natos brasileiros de rúgbi em cadeiras 
de rodas. “Escolhi esse esporte pelo fato 
de ser quase exclusivo de tetraplégicos”, 
diz Joon. O trabalho de campo envolveu 
a produção de material fotográfico com 
entrevistados. A maior parte das fotos, 
entre as quais as que ilustram esta repor-
tagem, foi financiada pela FAPESP na li-
nha “Fotografia, filme etnográfico e refle-
xão antropológica – prática e teoria” do 
projeto temático “A experiência do filme 
na antropologia” (processo 09/52880-9), 
coordenado pela professora Sylvia Caiuby 
Novaes, no Laboratório de Imagem e Som 
em Antropologia da USP. “O trabalho com 
a fotografia foi essencial para que eu ti-
vesse acesso a eles. A princípio, reagiram 
com desconfiança. Fui mostrando os re-
sultados para eles e consegui me aproxi-
mar de uma forma mais intensa do que 
se tivesse pedido uma entrevista e feito 
perguntas”, explica. n
FO
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S 
JO
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IM
3
90 | OUTUBRO DE 2013
O que a 
ciência brasileira 
produz você 
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W W W.RE VISTAPESQUISA .FAPESP.BR
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PESQUISA FAPESP 226 | 91
LÉ
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M
O
S
Leandro Konder dedicou-se a estudar 
e divulgar a obra de Karl Marx
tudos sobre Marx e Lukács e a escrever. 
No total, é autor de 21 obras e não só de 
filosofia – aventurou-se pela educação, 
história, sociologia e memorialística. Seu 
primeiro livro é de 1965, Marxismo e alie-
nação (Expressão Popular); o último foi 
Em torno de Marx (Boitempo Editoral), 
de 2010. Também escreveu dois roman-
ces, A morte de Rimbaud (Companhia das 
Letras) e Bartolomeu (Relume Dumará).
O passeio pelos vários gêneros agra-
dava ao filósofo, segundo seus amigos. 
“Ele amava a literatura, vivia pela litera-
tura e pela filosofia”, lembrou o também 
filósofo e ensaísta Sergio Paulo Rouanet 
ao jornal O Globo. “Era um marxista dos 
menos dogmáticos, conhecido por sua 
doçura, carisma e generosidade.” Para 
Marco Aurélio Nogueira, professor de 
teoria política e diretor do Instituto de 
Políticas Públicas e Relações Interna-
cionais da Universidade Estadual Pau-
lista (Unesp), Konder era também reco-
nhecido pela fineza intelectual e texto 
envolvente. “Konder nunca fez conces-
sões ao doutrinarismo e ao dogmatis-
mo tão comuns no universo marxista e 
no campo comunista, no qual militou a 
vida inteira”, escreveu em O Estado de 
S.Paulo. “Como professor, não se cansou 
de descer do pedestal e de construir pon-
tes entre o saber acumulado e a jovem 
intelectualidade, os homens de cultura, 
os militantes democráticos e socialistas.” 
O jornalista e escritor Zuenir Ventura 
afirmou a O Globo que Konder nunca 
hierarquizou as pessoas pela ideologia. 
“Ele colocava o afeto acima de todas as 
coisas”, disse.
A imagem passada pelos amigos foi 
a mesma que ele mostrou na já citada 
entrevista à Pesquisa FAPESP, quando 
falou de sua aversão à polêmica: “Ma-
chado de Assis dizia: ‘Sofro de tédio à 
controvérsia’. Gosto do diálogo, da di-
ferença, mas, quando esta se manifesta 
muito agressivamente, falta paciência”. n
O
s numerosos reveses sofridos 
pelo marxismo nas últimas 
décadas do século XX nunca 
desanimaram o professor de 
filosofia, ensaísta e escritor Leandro 
Konder. “A filosofia é um terreno de re-
sistência que se pergunta não para que 
serve uma determinada teoria, mas qual 
a sua verdade”, disse ele em entrevista à 
Pesquisa FAPESP em dezembro de 2002 
(edição 82). Um dos mais respeitados 
estudiosos da obra de Karl Marx no 
Brasil, Konder era formado em direito, 
doutorado em filosofia pela Universidade 
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pro-
fessor titular da Pontifícia Universidade 
Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). 
Morreu no dia 12 de novembro de 2014, 
aos 78 anos, no Rio, em consequência do 
mal de Parkinson. 
OBITUÁRIO y
Konder era natural de Petrópolis (RJ), 
filho de um médico sanitarista, ex-diri-
gente do Partido Comunista Brasileiro 
(PCB). Embora tenha se notabilizado 
como pensador marxista e divulgador 
das ideias do filósofo húngaro György 
Lukács (1885-1971), ele atuou também 
como advogado trabalhista nos anos 1950 
e 1960. Logo após o golpe militar de 1964, 
Konder defendeu sindicatos e trabalha-
dores. Sua proximidade com os movi-
mentos sociais o levou à prisão, onde foi 
torturado. Em 1972 exilou-se na Europa 
e morou na Alemanha – foi professor 
visitante na Universidade de Bonn – e 
França. Voltou seis anos depois. 
A partir dos anos 1980 trabalhou como 
professor no Instituto Metodista Ben-
nett, Universidade Federal Fluminense 
e PUC-Rio. Dedicou-se a difundir os es-
Konder: amor pela 
filosofia e literatura e 
aversão à polêmica
O filósofo cordial
92 | DEZEMBRO DE 2014 
Carlos Fioravanti
Os chamados padres 
matemáticos fizeram 
mapas detalhados sobre 
os sertões do Brasil 
MEMÓRIA
Os padres jesuítas tinham uma formação científica privilegiada, que contemplava principalmente a matemática e a 
astronomia. Em Roma, acompanhavam passo a 
passo as descobertas feitas com um novo aparelho, 
o telescópio, e dialogavam com Galileu. Como 
os especialistas nessas áreas eram escassos, os 
monarcas os requisitavam para tarefas inesperadas 
em territórios distantes. Em 1729, João V, rei de 
Portugal, contratou dois dos já chamados padres 
matemáticos, que eram também astrônomos e 
cartógrafos, o português Diogo Soares e o italiano 
Domingos Capassi, para “fazerem-se mapas 
das terras do dito Estado, não só pela marinha, 
mas também pelos sertões, com toda distinção, 
para melhor se assinalem e conheçam os distritos 
de cada bispado, governo, capitania, comarca e 
doação”, como determinava o alvará de nomeação 
dos dois como cartógrafos do rei. Como professor 
de matemática no Colégio de Santo Antão, em 
Lisboa, Soares já tinha escrito sobre o Brasil 
em seu Novo atlas lusitano ou teatro universal 
do mundo todo, de 1721: “É país fertilíssimo 
e saudável, tem o melhor ouro da América, 
muito tabaco, e açúcar”.
Mappa 
corographico 
da capitania 
do Rio de Janeiro, 
atribuído a 
Domingos Capassi 
Com os pés na terra
1
PESQUISA FAPESP 226 | 93
Soares e Capassi 
chegaram ao Rio de Janeiro 
em fevereiro de 1730, 
montaram um observatório 
astronômico no Colégio dos 
Jesuítas no morro do Castelo 
e começaram a fazer 
suas medições. “Não havia 
observações contínuas. 
O trabalho deles serviu 
basicamente para 
determinar a longitude do 
Rio com relação a Paris”, 
concluiu Jorge Pimentel 
Cintra, professor da USP 
que, com sua equipe, tem 
examinado as anotações e os 
mapas dos padres. Em 1732 
Soares e Capassi viajaram 
por Minas Gerais, recolhendo 
relatos de sertanistas sobre 
minas de ouro e diamantes, 
localizando-as em mapas 
que produziam, cobrindo 
desde o sul de Minas até a 
atual Região Metropolitana 
de Belo Horizonte. Depois, 
fizeram levantamentos das 
coordenadas geográficas 
dos principais portos da 
capitania do Rio Grande de 
São Pedro. Capassi morreu 
em 1736. Soares continuou 
sozinho e elaborou 
outros mapas e plantas de 
fortificações para a defesa 
da cidade do Rio de Janeiro 
até ele também morrer, 
em 1748, em Goiás. n 
possessões dos dois países 
na América e permitindo 
a Portugal tomar posse 
oficial de terras já ocupadas 
na Amazônia e nas regiões 
Centro-Oeste e Sul.
Um cartógrafo anônimo 
português tinha feito em 
1502 o primeiro mapa 
incluindo o Brasil, em 
1509 outros cartógrafos 
fizeram mapas melhores, 
mas os concorrentes 
europeus – alemães, 
italianos e franceses – 
também faziam seus mapas, 
de que dependiam as ações 
dos países para ocupar, 
manter, explorar ou 
defender seus territórios. 
No Mapa da maior parte 
da costa e sertão do Brazil, 
produzido por volta de 
1700, o padre Jaques 
Cocleo, jesuíta francês, 
professor de matemática e 
astronomia em Lisboa até 
1660, quando se mudou 
para o Brasil, já tinha 
descrito rios, montanhas, 
vilas, caminhos e áreas de 
mineração do interior 
do país, mas ele morreu 
por volta de 1710 e o 
trabalho parou. O rei de 
Portugal, porém, precisava 
de mais informações 
para continuar a explorar 
sua principal colônia.
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O trabalho de Soares e 
Capassi no Brasil, concluído 
em 1748, ganhou o nome 
de Novo atlasda América 
portuguesa, um conjunto 
de 31 mapas cobrindo toda 
a costa sul e sudeste até 
Cabo Frio, no litoral do 
Rio de Janeiro, e boa parte 
do interior, além de relatos 
e roteiros de sertanistas. 
Um dos mapas, a Carta 9ª 
da costa do Brazil desde a 
barra de Santos até à da 
Marambaya, elaborado por 
volta de 1737, “representa, 
pela primeira vez, a rede 
urbana, fluvial e viária do 
planalto paulista e suas 
articulações com o litoral”, 
comentou Beatriz Bueno, 
professora da Universidade 
de São Paulo (USP), em um 
artigo publicado na Anais 
do Museu Paulista. Os 
mapas ajudaram Portugal 
a defender seus territórios 
nas negociações com a 
Espanha, que resultaram no 
Tratado de Madri, de 1750, 
eliminando o Tratado de 
Tordesilhas, estabelecendo 
novos limites entre as 
Mapa da região do 
ribeirão do Carmo, 
rio das Velhas e 
rio Paraopeba, 
em Minas Gerais, 
atribuído a 
Diogo Soares 
Morro do Castelo, 
no Rio, com o 
Colégio dos Jesuítas 
à direita. Trecho da 
gravura de Victor 
Meirelles
2
3
94 | DEZEMBRO DE 2014
Exposição apresenta coleção de objetos interativos que representam 
equações, teoremas e conceitos matemáticos | Neldson Marcolin
Acima, Placas de 
Chladni com pó 
de serragem 
formando desenhos 
produzidos pela 
vibração
O grupo liderado por Colli e Deborah Raphael, 
também do IME, que envolve outros professores, 
além da colaboração de alunos de graduação e 
pós-graduação, começou a conceber, fazer pro-
tótipos e a reunir objetos em 2003 pensando em 
divulgar a disciplina de modo concreto e intera-
tivo. “A linguagem matemática é pesada e impe-
ditiva para a maioria das pessoas”, diz Deborah. 
“Nosso objetivo é apresentar as diferentes facetas 
da área de modo lúdico.” Uma das referências de 
partida foi a exposição francesa Maths 2000, do 
Museu Cidade da Ciência e da Indústria La Vil-
lette, em Paris. À medida que surgiam as ideias, 
Colli e Deborah encomendavam as peças para 
artesãos e empresas especializadas em prototi-
pagem. O apoio financeiro para o projeto partiu 
ARTE
Elegância na Matemateca
1
Quando elogiam determinado trabalho na sua área, os matemáticos gostam de usar palavras como “belo” e “elegante”. O em-
prego desses adjetivos pode parecer deslocado 
para alguém fora desse mundo em que quase 
tudo é abstração. “Essa é uma ideia equivoca-
da”, diz Eduardo Colli, professor do Instituto 
de Matemática e Estatística da Universidade de 
São Paulo (IME-USP). “Nós imaginamos a ma-
temática como algo colorido, bonito, plástico e 
não apenas como um emaranhado de números e 
contas.” A exposição interativa Matemateca es-
pelha esse sentimento. Trata-se de uma mostra 
de peças que procura encontrar uma linguagem 
de objetos estéticos que represente uma outra 
linguagem – a matemática.
PESQUISA FAPESP 226 | 95
Objetos de Superfícies 
regradas, linhas retas 
que formam estruturas 
com curvas. Abaixo, 
A roda d’água caótica
de vários órgãos da própria USP 
e do Conselho Nacional de De-
senvolvimento Científico e Tec-
nológico (CNPq). 
Onze anos depois foi possível 
reunir e apresentar as cerca de 
40 atrações, divididas em agru-
pamentos como Formas, Movi-
mento e Desafios do Pensamento. 
A exposição ocorreu no saguão 
da reitoria da USP, em São Paulo, 
até 12 de dezembro, e foi visitada 
por estudantes de todos os níveis.
Logo na entrada há A roda 
d’água caótica, um experimento 
composto de uma roda de acrílico 
em posição vertical com vários 
copos. À medida que a água cai 
dentro dos copos, a roda gira ora 
para um lado, ora para o outro de 
modo imprevisível. Foi a maneira 
encontrada para ilustrar o estudo 
do caos, que se insere na teoria de sistemas di-
nâmicos – Artur Ávila, o brasileiro que ganhou 
a Medalha Fields, trabalha nessa área. “A roda 
é interessante por ter sido feita por uma turma 
de graduação durante um curso multidisciplinar 
ministrado pela Deborah, por mim e pelo Artur 
Simões Rozetraten, professor da FAU [Faculdade 
de Arquitetura e Urbanismo]”, conta Colli. 
Uma das várias curiosidades expostas são as 
Placas de Chladni. São chapas metálicas de vários 
formatos com pó de serragem em cima que, ao 
serem “tocadas” por um arco de violino, emitem 
notas musicais. A vibração provocada pelo arco 
espalha o pó e desenha figuras geométricas em 
cima da placa. O experimento foi realizado há 
cerca de 200 anos pelo físico e músico alemão 
Ernst Chladni (1756-1827). “Esse ainda é um pro-
blema que não tem uma abordagem definitiva na 
literatura”, diz Deborah.
Outra estrutura curiosa conhecida há tempos 
foi chamada pelos curadores de Balancinho, por 
ser parecida com os balanços de parque de diver-
são. Nele, há uma bandeja com uma folha de papel 
sulfite. Deve-se colocar a peça em movimento e 
deixar que uma caneta fixada a um braço de ma-
deira toque o papel. Do movimento do balanço 
surgem desenhos surpreendentes, parecidos com 
os disponíveis no descanso de tela de computado-
res. Na internet é possível achar variações dessa 
estrutura, chamada de harmonógrafo. 
A parte da mostra dedicada às formas é a mais 
colorida e plástica. Os objetos de Topologia das 
superfícies ilustram o ponto de vista da topolo-
gia, em que duas superfícies são equivalentes se 
puderem ser transformadas uma na outra por 
meio de deformações sem rompimento. Uma 
peça em forma de xícara, por exemplo, pode ser 
deformada até virar um toro (formato de câmara 
de pneu). Já as Superfícies regradas referem-se a 
estruturas curvas compostas apenas de retas. Há 
várias peças usadas para exemplificar essas ideias 
matemáticas, algumas delas como representação 
de equações. O princípio da superfície regrada 
foi utilizado por Oscar Niemeyer ao projetar a 
catedral de Brasília.
Os curadores gostariam de ter um local fixo de 
exposição no IME, mas falta espaço. “Por enquan-
to, ocupar os corredores é a forma que encontra-
mos para conseguir isso”, diz Colli. Em parte do 
saguão da reitoria foi instalada outra mostra de 
matemática, a Pourquois les mathématiques?, da 
Maison des Mathématiques et l’Informatique 
de Lyon, da França, criada em 2000. nFOT
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96 | DEZEMBRO DE 2014
Alvarão tirou o durindana da algibeira, ali-sou as duas faces da palha de milho com carinho, dobrou–a ao meio e prendeu entre 
os dedos da mão esquerda. Com rara habilidade e 
seu canivete afiado picou um pedaço de fumo, bem 
fininho, desfiou as rodelas e enrolou um paiei-
ro caprichado. Deslizou pelo nariz antecipando 
prazeres, lambeu devidamente, e protegendo a 
chama com a concha da mão esquerda acendeu 
o cigarro. Uma bela tragada e o cheiro do Tietê 
recendeu por toda a varanda. Encheu um copi-
nho, jogou um pouco pro santo, deu uma golada 
e fez humm, satisfeito. Esticou as pernas, colocou 
as mãos por trás da cabeça e continuou o papo:
– Pois é cumpadi (tinha essa mania de se pre-
tender caipira), como tava dizendo, meu nono 
comia na pura banha de porco, temperava salada 
com banha derretida e pitava como uma chaminé. 
Morreu com saúde aos 89 anos. Naquele tempo 
gordura não dava infarto, pitar não dava câncer.
– Calma aí, você não pode generalizar...
– Qué isso? Não se usava fogão a gás e nem 
panela de alumínio, lenha e barro. Tô achando 
que essas doença moderna têm que ver com o gás 
– sempre vaza um pouco. Ou seria o alumínio?
Ao perceber minha cara de quem não concorda, 
emendou antes que eu pudesse falar:
– Uai, num foi ocê mermo que me disse que o 
alumínio é um metal pesado? Outro dia li na Se-
leções, tá provado, metal pesado faz um mal da-
nado. Vai engolindo alumínio, uma titica por dia, 
no fim endurece as veia. Não consigo convencer a 
patroa a voltar à moda antiga – tem jeito não. Mas 
parei de tomar cerveja em latinha. Agora só em 
garrafa de vidro, casco escuro.Deu uma risadi-
nha e completou – bão, se não tiver em garrafa...
Após ouvir tanta “ciência” argumentei que as 
coisas não eram tão simples, que Seleções não era 
a fonte mais confiável de informações científicas, 
e acrescentei:
– Tá provado cientificamente que o infarto do 
miocárdio está fortemente correlacionado com o 
nível de colesterol no sangue e que banha, ovos 
e manteiga são ricos em colesterol. Até os ca-
piaus sabem disso, e você comendo torresminho 
e omeletes todo dia!
Alvarão não era fácil e retrucou:
– Tá bom, t á bom, mas ocê, tão estudado, não 
sabia que quem inventou essa estória de coleste-
rol foram os produtores de óleo de soja?
– Pera aí, como assim?
– Escuita, o cultivo de soja acabou com o cer-
radão e, de tabela, com os tamanduá-bandera e 
o lobo guaraná, como fala meu neto. Com tanta 
lavoura o que fazê com as tonelada de soja? Bra-
sileiro gosta é de feijão. Mas soja dá óleo, né? Se 
brasileiro não come soja, tinha que aumentar o 
consumo de óleo, e ponha consumo nisso.
– Mas Alvarão...
– Deixa eu terminá, inventaram a tal margarina, 
um óleo engrossado. Diga aí, quem trocaria uma 
boa manteiga, daquelas bem amarelinhas, por 
esta banha vegetal? Ainda se tivesse uma crise 
de leite, vá lá. Tão jogando fora, preço de banana.
– Não é bem assim...
– Mais é! A gauchada produzindo soja no Goiás 
e Mato Grosso, tanta, preço caindo, transforma-
ram em margarina. E o povo? Comia essa bosta? 
Espalhar mais fácil nessa porcaria de pão de fôr-
ma não basta. Manteiga deve fazer mal pralguma 
coisa, olha a ideia. Imagine besteira dessas. O ho-
me vem comendo manteiga desde o tempo que 
os bicho falava! Pra vendê margarina tinha que 
convencê o povo que manteiga fazia mal; coisa 
braba, câncer, doença do coração, ou atacar essa 
tal de próstata, tão falada mas que ninguém sabe 
CONTO
Manteiga com margarina
Eurico C. de Oliveira
PESQUISA FAPESP 226 | 97
Eurico Cabral de Oliveira foi professor do Instituto de Biociências da 
USP. Especialista em algas, publicou cerca de 200 artigos científicos. 
Continua um estudioso apaixonado pela natureza.
pra que serve. Veja, se ocê pensá bem, é claro que 
manteiga faz mal, tudo faz, até açúcar. É o mesmo 
que dizê que muita água dá barriga-d’água, ou 
afoga – e riu gostoso de sua esperteza. –Velhacos, 
isso sim. Pagaram cientistas, entupiro uns ratinho 
de manteiga, desses que morrem facinho, pron-
to, noves fora tava provado que manteiga tem o 
tar do colesterol, o que, aliás, até eu sabia, li nas 
Seleções. Daí a mostrar que os infartado tinha as 
veia entupida foi tiro e queda.
– Mas Alvarão...
– Espera, usaro como exemplo até um cano de 
pia de cozinha entupido de gordura, mostraro 
que planta não tem colesterol, tá nas Seleções, 
soja é planta, os criadô de gado foram pro brejo.
 – Vá lá, seu raciocínio não deixa de ter uma 
certa lógica...
Alvarão franziu a testa, vaidoso, emendou:
– Claro que tem. Dizem que se ocê come muito 
torresmo, ovo, pele de galinha suas veia entope, 
cê estica as canelas. Tá bão. Agora as galinha e 
os porco come o quê? Milho, farelo de soja, tu-
do vegetal, zero de colesterol. E comé que estão 
cheias de colesterol? Isso não entendo. Explica 
essa sabichão!
– É, Alvarão, tá complicando, dá mais uma can-
gibrina aí, e vamos mudar de assunto. E a criação 
de galo de briga? Conseguiu tirar algum filho 
daquele galo puva marombeiro do Zé da Bica? 
Eita galo bom, sô!
– Afinou.
– Aquele galo?
– Não, ocê, que é todo estudado e num sabe 
de nada.
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CARREIRAS
PESQUISA FAPESP 226 | 98
CARREIRAS
A tese de doutorado da brasiliense 
Claudia de Oliveira Melo, de 34 anos, 
diretora de tecnologia da empresa 
norte-americana ThougthWorks 
(TW) no Brasil, foi o instrumento que 
lhe deu uma visão profunda sobre 
como acontece a transferência de 
conhecimento entre teoria e prática 
e vice-versa. “Consigo fazer pontes 
entre esses dois universos, o que me 
ajuda a orientar pessoas sobre como 
explorar informação e gerar 
conhecimento ou aliar resultados 
recentes de pesquisas científicas com 
o estado da prática na indústria”, diz 
Claudia, que também é pesquisadora 
associada ao Instituto de Matemática 
e Estatística da Universidade de São 
Paulo (IME-USP), onde fez o 
doutorado em ciência da computação. 
Sua pesquisa de doutorado, desenhada 
para gerar impacto na academia e na 
indústria, foi escolhida como uma das 
seis melhores teses em 2013 em 
concurso feito pela Sociedade 
Brasileira de Computação. “O meu 
problema de pesquisa surgiu durante 
uma reunião com o então chefe de TI 
do Banco Central, onde ele perguntou 
se métodos ágeis de desenvolvimento 
de software trariam maior 
produtividade para as organizações.” 
Há dois anos e meio, ela começou 
a trabalhar na TW, empresa de 
consultoria global e de criação de 
software. “Ao conciliar o fim do 
doutorado e o meu primeiro projeto 
na TW, consegui não apenas aplicar 
conhecimentos da minha pesquisa 
para o sucesso do projeto, como também 
refinar os resultados científicos da 
minha pesquisa por meio de validação 
prática.” Na USP, Claudia participa de 
um projeto de pesquisa chamado 
“Empreendedorismo em computação e 
o ecossistema de startups de software”, 
em que coorienta informalmente um 
aluno de doutorado. A pesquisa é feita 
em colaboração entre o IME-USP, 
a Israel Institute of Technology 
(Technion), a Universidade Federal 
de Pernambuco (UFPE) e o Instituto 
Tecnológico Vale. Na sua trajetória 
profissional, ela já passou por pequenas 
e grandes empresas e também teve sua 
própria startup em consultoria. Em 
2001, um ano após ter concluído a 
graduação em ciência da computação 
na Universidade Federal de Uberlândia 
(MG), Claudia trabalhava no Rio de 
Janeiro, mas sentiu necessidade de 
voltar a estudar para melhorar o 
desempenho no trabalho. Aos 21 anos, 
Claudia mudou para São Paulo e 
começou a fazer o mestrado no IME. 
E uma terceira carreira surgiu com a 
sua entrada na USP: começou a 
trabalhar como docente em 
computação em universidades como 
Senac (SP) e Católica de Brasília (DF), 
onde também foi coordenadora 
de uma pós-graduação. “Durante quase 
uma década da minha vida conciliei 
indústria, pesquisa e docência.” 
Em 2009, deixou dois empregos para 
voltar à USP como doutoranda. 
Claudia Melo: tempo dividido entre 
trabalho e projeto de pesquisa FO
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COMPUTAÇÃO 
Ponte entre teoria e prática
Tese de Claudia Melo, diretora de tecnologia da ThoughtWorks,
foi desenhada para gerar impacto na academia e na indústria
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